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1 Culturas e comunidades online Resumo Nossos mundos sociais estão se digitalizando, com talvez centenas de milhões de pessoas intera- gindo por meio das muitas comunidades online e suas ciberculturas associadas. Para manterem-se atuais, nossos métodos de pesquisa devem acompanhar essa realidade. Este livro fornece um con- junto de diretrizes metodológicas para a realização de netnografia, uma forma de pesquisa etno- gráfica adaptada para incluir a influência da internet nos mundos sociais contemporâneos. Palavras-chave: comunidade, cultura, cibercultura, etnografia, pesquisa na internet, netnografia, comunidade online, métodos de pesquisa INTRODUÇÃO Nossos mundos sociais estão se tornando di- gitais. Consequentemente, cientistas sociais ao redor do mundo estão constatando que pa- ra compreender a sociedade, é preciso seguir as atividades sociais e interações das pessoas na internet e por meio de outros meios de co- municação mediados pela tecnologia. Este li- vro é um guia para esta nova geração de pes- quisadores. Seu tema é a netno grafia – uma forma especializada de etnografia adaptada Francisco Realce 10 ROBERT V. KOZINETS às contingências específicas dos mundos so- ciais de hoje mediados por computadores. No campo da pesquisa de consumo e de marketing, as netnografias tornaram-se uma forma de pesquisa amplamente acei- ta, que têm sido usadas para lidar com uma ampla variedade de tópicos, desde questões aplicadas de publicidade online até investi- gações mais gerais de identidade, relações sociais, aprendizagem e criatividade. A net- nografia revelou e analisou as estratégias de autoapresentação que as pessoas usam pa- ra construir um “self digital” (Schau e Gilly, 2003). Um estudo netnográfico mostrou co- mo usuários de jogos eletrônicos respondem a exibições de produtos e propagandas de marcas (Nelson et al., 2004). Outro estu- do netnográfico ilustrou as estratégias usa- das por noivas para lidar com a ambivalên- cia intercultural (Nelson e Otnes, 2005). Estudos netnográficos também foram usa- dos para estudar a ética mundial e as per- cepções de compartilhamento direto de ar- quivos (Cohn e Vaccaro, 2006), investigar o ativismo dos consumidores (Kozinets e Han- delman, 1998) e mostrar como a criação e a aprendizagem do conhecimento ocorrem mediante um discurso reflexivo de “reexpe- rimentação virtual” entre os integrantes de comunidades eletrônicas inovadoras (He- metsberger e Reinhardt, 2006). Muitas netnografias, sobre uma am- pla variedade de tópicos, foram realizadas durante a última década por pesquisado- res ao redor do mundo. Considerando-se as mudanças em nosso mundo social, isso não deve surpreender. Em 1996, havia apro- ximadamente 250 mil websites oferecendo conteúdo publicado a um universo eletrôni- co de aproximadamente 45 milhões de usu- ários, localizados principalmente na Amé- rica do Norte e na Europa Ocidental. Em 2009, o número de usuários da internet ao redor do mundo ultrapassou 1,5 bilhão, o que corresponde a 22% da população mun- dial. Além disso, esses usuários não estão consumindo conteúdo publicado de forma passiva, como muitos estavam em 1996 – eles estavam se comunicando ativamente uns com os outros. Eles estavam procurando formar, expressar e aprofundar suas alian- ças e afiliações sociais. Dependendo de como definimos nos- sos termos, existem ao menos 100 milhões, e talvez até um bilhão de pessoas ao redor do mundo que participam de comunidades online como parte de sua experiência so- cial regular e contínua.1 Essas pessoas es- tão todas ao nosso redor: o agricultor em Iowa que pertence à cooperativa de produ- tores de soja e que publica ativamente nos murais do grupo entre reuniões; o estudan- te de sociologia na Turquia que usa regular- mente seu website de redes sociais e publica nas páginas de fãs de seus músicos predile- tos; o jovem com câncer que regularmente busca aconselhamento e apoio em sua re- de eletrônica de amigos; o respeitado exe- cutivo da indústria que veste couros virtuais e leva uma segunda vida secreta nos becos por trás dos mundos virtuais. A netnografia foi desenvolvida para nos ajudar a entender o mundo dessas pessoas. A netnografia foi desenvolvida na área da pesquisa de marketing e consumo, um campo interdisciplinar aplicado que está aberto ao rápido desenvolvimento e à ado- ção de novas técnicas. A pesquisa de marke- ting e consumo incorpora visões de diversos campos, tais como antropologia, sociologia e estudos culturais, aplicando seletivamen- te suas teorias e métodos básicos, analoga- mente como pesquisadores farmacêuticos poderiam aplicar química básica. Com algumas notáveis exceções, os antropólogos em geral, ao que parece, têm demonstrado lentidão e relutância em se- guir grupos sociais online (Beaulieu, 2004; Garcia et al., 2009; Hakken, 1999; Mil- ler e Slater, 2000). Contudo, uma vez que as tecnologias de informação e comunica- ção têm permeado tantas áreas da vida so- cial contemporânea de forma tão abrangen- te, atingimos um ponto em que é impossível recuar. Os cientistas sociais chegam cada vez mais à conclusão de que não podem mais compreen der adequadamente muitas das facetas mais importantes da vida social e cultural sem incorporar a internet e as co- municações mediadas por computador em Francisco Realce Francisco Realce NETNOGRAFIA 11 seus estudos. Existe uma distinção útil entre a vida social online e os mundos sociais da “vida real”? Cada vez mais, a resposta pa- rece ser não. As duas se mesclaram em um mundo: o mundo da vida real, como as pes- soas o vivem. É um mundo que inclui o uso da tecnologia para se comunicar, debater, socializar, expressar e compreender. Considere uma etnografia da vida de trabalho de um grupo profissional, tais co- mo médicos ou advogados. Será que pode- ríamos fornecer um retrato significativo sem referenciar e analisar o conteúdo de fóruns de discussão, de mensagens de correios ele- trônico e de texto e de websites corporativos? Poderíamos oferecer uma compreensão etno- gráfica do universo social de jovens e ado- lescentes sem mencionar e estudar a posse e as conversas por telefones celulares, troca de mensagens de texto (SMS) e websites de re- des sociais? Quando abordamos determina- dos tópicos como o mundo da música con- temporânea, da televisão, das comunidades de fãs de celebridades ou filmes, das comu- nidades de jogos eletrônicos, de artistas ou escritores amadores ou de criadores de soft- ware, nossos retratos culturais seriam extre- mamente limitados sem referência detalhada aos dados eletrônicos e comunicações media- das por computador que, cada vez mais, tor- nam esses coletivos sociais possíveis. Uma década atrás, Lyman e Wakeford (1999, p. 359) escreveram que “o estudo das tecnologias digitais e das redes eletrô- nicas é um dos campos de maior crescimen- to da pesquisa em ciências sociais”, uma afirmativa que é ainda mais apropriada na atua lidade do que era então. Não resta dú- vida de que os novos estudos sobre o uso da internet e outras tecnologias de informa- ção e comunicação (ou TIC) estão contri- buindo significativamente para a literatura de estudos culturais, sociologia, economia, direito, ciência da informação, áreas de ne- gócios e administração, estudos da comu- nicação, geo grafia humana, enfermagem e assistência médica e antropologia. Essas dis- ciplinas formaram seus entendimentos iso- ladamente do trabalho relacionado de estu- diosos atuantes em outros campos teóricos. A FINALIDADE DESTE LIVRO Este livro visa fornecer um conjunto de dire- trizes metodológicas, uma abordagem disci- plinada ao estudo culturalmente orientado daquela interação social mediada pela tec- nologia que ocorre por meio da internet e das tecnologiasde informação e comunica- ção (ou TIC) relacionadas. Os métodos que esses diversos campos têm usado para in- vestigar esses tópicos ainda são um pouco incertos e estão em fluxo. Este livro tenta- rá sistematizar esses métodos, recomendan- do uma abordagem sob um termo genérico. Portanto, este livro visa, especifica- mente, recompensar o leitor interessado em pesquisar comunidades e culturas online e outras formas de comportamento social ele- trônico. Esse leitor poderia ser um profes- sor, um pesquisador acadêmico, um aluno de graduação ou pós-graduação, um pesqui- sador de marketing ou outro tipo de pesqui- sador ou consultor profissional. Os tópicos deste volume variam conforme as varieda- des da experiência cultural online. A abor- dagem netnográfica é adaptada para ajudar o professor a estudar não apenas fóruns, ba- te-papos e grupos de notícias, como também blogs, comunidades audiovisuais, fotográfi- cas e de pod-casting, mundos virtuais, joga- dores em rede, comunidades móveis e web- sites de redes sociais. Os princípios básicos são descritos e ex- plicados neste livro com numerosos exem- plos. Como acontece com qualquer tipo de manual metodológico, quanto maior o envol- vimento com o texto e a utilização de exem- plos, maior será a experiência de aprendiza- gem. À medida que for lendo o livro, tente usar as descrições e exemplos para um pe- queno projeto netnográfico rudimentar pes- soal. Ao fazer netnografia, você vai desco- brir, é muito mais fácil iniciar do que fazer etnografia. À medida que tópicos de pes- quisa forem discutidos, concentre-se e for- me suas próprias perguntas. Quando discu- tirmos mecanismos de busca para localizar comunidades eletrônicas apropriadas, inicie sua busca por elas. Colete dados enquanto discutimos a coleta de dados. Analise seus Francisco Realce Francisco Realce 12 ROBERT V. KOZINETS dados enquanto discutimos a análise de da- dos. Leia as citações textuais e exemplos e envolva-se com eles – se você é curioso, use seu mecanismo de busca para ir mais fundo. Se você se envolver com o livro dessa for- ma, sairá com uma riqueza de conhecimen- to prático. O objetivo deste livro é permitir que o pesquisador aborde um projeto etno- gráfico, focado em qualquer tipo de comuni- dade e cultura online, plenamente informa- do sobre o que precisará ser feito. Quanto mais você aplicar o livro e seus exemplos, maiores lhe parecerão as possibilidades de alcançar esse objetivo. Depois de trabalhar em alguns deta- lhes históricos, algumas definições neces- sárias, alguma teoria potencialmente útil e alguma comparação e contraste metodoló- gico, o livro prossegue para uma descrição detalhada da abordagem da netnografia. Ele também inclui um glossário que os leito- res podem considerar útil. O glossário resu- me os termos e conceitos empregados no li- vro e no campo dos estudos de comunidades eletrônicas, assim como um eventual acrôni- mo inevitável. Este capítulo agora se apro- fundará sobre a necessidade de uma abor- dagem etnográfica separada denominada netnografia. POR QUE PRECISAMOS DE NETNOGRAFIA Um recente conjunto de postagens em meu blog debateu a necessidade de um termo es- pecífico para a etnografia conduzida online. O debate beneficiou-se dos insights de uma série de comentaristas, especialmente os de Jerry Lombardi, um antropólogo aplicado com considerável experiência de marketing. Embora inicialmente Jerry tenha questiona- do a necessidade de mais um neologismo, posteriormente ele escreveu sobre a utili- dade do termo netnografia em termos elo- quentes e fundamentados na história. Recordo que nossa querida e sagrada palavra etnografia é ela própria um NEOLO- GISMO criado no início do século XIX – o que poderia fazer dela uma palavra obsole- ta agora – para definir uma prática que não existia exatamente da forma ou com os ob- jetivos que os criadores do termo estavam tentando comunicar. Se estivéssemos ten- do essa discussão em 1835 na Royal Socie- ty, eu poderia estar questionando por que precisamos desse termo ultramoderno, “et- nografia”, quando, digamos, “filosofia mo- ral comparativa” ou “modos e costumes dos selvagens” ainda funcionam perfeitamen- te bem. (Vamos experimentá-los com nos- sos clientes de negócios!) Os universos da pesquisa e inovação intelectual estão criva- dos de neologismos que podem ter pareci- do estranhos ou errôneos logo que surgi- ram: cibernética, psicolinguística, software. Portanto, sim, novos mapeamentos da rea- lidade às vezes exigem novos nomes, e às vezes os nomes levam tempo para se esta- belecer. Podemos pensar em algumas conside- rações fundamentais quando refletimos so- bre a necessidade de uma nova designação especial. A primeira e mais importante é se estamos falando de algo que é de fato sig- nificativamente diferente. Os antropólogos, há mais de um século, esforçando-se pa- ra criar, legitimar e definir esse novo cam- po, precisavam do novo termo etnografia, ou “modos e costumes dos selvagens” teria servido a seus propósitos igualmente bem? Nesse caso em particular, precisamos inda- gar sobre a conduta da pesquisa cultural no mundo contemporâneo da internet e outras TIC: ela é realmente diferente? Este livro sugere que sim. O Capítulo 4 explica mais detalhadamente essas dife- renças, mas a afirmativa fundamental aqui é que as experiências sociais online são sig- nificativamente diferentes das experiências sociais face a face, e a experiência de estu- dá-las etnograficamente é significativamen- te diferente. Como os capítulos posteriores também vão explicar, existem ao menos três diferenças na abordagem etnográfica. Primeiro, o ingresso na cultura ou co- munidade online é diferente. Ele diverge do ingresso face a face em termos de acessibi- lidade, abordagem e extensão da potencial inclusão. “Participação” pode significar algo diferente pessoalmente e online. Assim co- mo o termo “observação”. Segundo, a cole- ta e análise de dados culturais apresentam Francisco Realce Francisco Realce TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NETNOGRAFIA 13 determinados desafios bem como oportuni- dades que são novas. A ideia de “inscrição” de “notas de campo” é radicalmente altera- da. As quantidades de dados podem ser di- ferentes. A capacidade de aplicar determi- nados instrumentos e técnicas analíticas muda quando os dados já estão em forma- to digital. O modo como os dados precisam ser tratados pode ser diferente. Finalmen- te, existem poucos ou nenhum procedimen- to ético para o trabalho de campo realizado pes soalmente que se traduzam facilmente para o meio online. As diretrizes abstratas do consentimento informado estão sujeitas a amplos graus de interpretação. Se pudermos concordar que estas dife- renças são significativas, também devemos concordar que pode ser útil fornecer à et- nografia uma designação diferente. Tal no- me certamente não precisa ser netnografia. O termo “etnografia” vem sendo aplicado a comunidades e cultura online há mais de uma década. Ao longo do tempo, diferen- tes pesquisadores utilizaram termos distin- tos para descrever o que estavam fazendo. Shelley Correll (1995) simplesmente cha- mou seu estudo de um quadro de mensa- gens eletrônicas de uma etnografia, talvez sinalizando que o método permanecia o mesmo quer você o usasse para estudar ha- bitantes das ilhas Trobriand ou lésbicas inte- ragindo por meio de um quadro de notícias online. Annette Markham (1998) e Nancy Baym (1999) também usaram o termo – embora Markham e Baym (2008) pareçam ter optado pelo termo mais geral: “pesquisa qualitativa”. A implicação, talvez, seja que a etnografia já seja conhecida como uma abordagem flexível e adaptável. Etnografia é etnografia, sendo qualificá-la como digi- tal, online, em rede,na internet ou na web, totalmente opcional. Em seu importante e influente livro, Christine Hine (2000) chamou seu estudo de uma comunidade online de etnografia vir- tual, cujo objetivo do termo virtual é sinali- zar um esforço que é necessariamente par- cial e inautêntico porque focaliza somente o aspecto online da experiência social e não to- da a experiência. Em anos recentes, vi mui- tos novos nomes serem dados ao método de etnografia online, incluindo webnografia, et- nografia digital e ciberantropologia. Outros neologismos podem e sem dúvida serão in- ventados. Entretanto, apesar das muitas de- nominações que os pesquisadores têm dado a seus métodos, existem poucas ou são quase inexistentes as diretrizes procedimentais es- pecíficas para guiar um pesquisador por meio dos passos necessários para realizar uma et- nografia de uma comunidade ou cultura on- line e apresentar seu trabalho. Embora al- guns procedimentos precisem ser decididos conforme as circunstâncias, e o detalhamen- to extremo em algumas questões esteja além de seu alcance, este livro visa especificamen- te preencher essa lacuna. Vindo de um campo em que netnogra- fia é o termo preferencial, eu identifico uma série de benefícios utilizarem um único no- me diferenciador para uma técnica. Tam- bém é importante observar que a pesqui- sa qualitativa é abençoada com uma gama sempre crescente de técnicas relacionadas entre si e, consequentemente, com a etno- grafia. Estas incluem, mas certamente não se limitam, a inovações como o mé todo do caso estendido, a análise de discurso, a et- nografia estrutural, a etnografia holística, a autoetnografia, a etnometodologia, a fe- nomenologia reflexiva e a pesquisa de ação participativa (ver Miles e Huberman, 1994; Tesch, 1990). Quando é provável que uma abordagem seja significativamente diferen- te das abordagens existentes, ela adquire um novo nome e torna-se, com efeito, uma disciplina, um campo ou uma escola por si mesma. Na minha opinião, a abordagem pragmática e aplicada à etnografia adotada por antropólogos corporativos é significa- tivamente diferente da abordagem dos an- tropólogos acadêmicos e, portanto, é digna de diretrizes próprias e talvez da criação de seu nome próprio distinto (ver Sunderland e Denny, 2007). Não precisamos criar esses nomes. Mas já estamos fazendo isso. Estudiosos que pro- duzem etnografias de culturas e comuni- dades online estão rapidamente inventan- do seus próprios nomes para seus métodos idiossincráticos. Contudo, ao lermos sobre, por exemplo, uma “redenografia”, uma “et- nografia de rede” ou “etnografia digital”, o que sabemos sobre sua abordagem prefe- Francisco Realce Próprio e particular de uma pessoa, grupo; característico. 14 ROBERT V. KOZINETS rencial ou suas normas de avaliação? O que sabemos sobre o modo como ela combina dados online com dados presenciais? Esses trabalhos devem ser julgados de maneira di- ferente ou da mesma maneira que outros que se autorrotulam como “etnografias on- line” ou “etnografias virtuais”? Quantos ter- mos diferentes são necessários? Na pesquisa de consumo e marketing, geralmente, tem-se adotado o uso do ter- mo único netnografia para referir-se à abor- dagem da etnografia aplicada ao estudo de culturas e comunidades online. A maioria desse tipo de trabalho escrita depois que o termo foi cunhado (em 1996), usa as dire- trizes e técnicas que foram publicadas sobre a abordagem netnográfica. Diferentes estu- diosos sugeriram adaptações, por exemplo, dos padrões éticos da netnografia. Alguns outros estudiosos optaram por usar essas adaptações e citaram o trabalho adaptativo. Outros não. De modo geral, o sistema tem funcio- nado muito bem. Esse bem-sucedido desen- volvimento de procedimentos e normas le- vou a uma situação em que os periódicos de primeira linha são todos receptivos a submissões netnográficas. Eles sabem para quais analistas enviá-las, quais citações pro- curar, como avaliá-las. Se o método é res- peitável, os analistas e editores podem se concentrar na utilidade e novidade dos re- sultados teóricos. Esse é o papel desem- penhado pelos padrões metodológicos na conduta científica normal. Padrões e proce- dimentos são fixados e, à medida que os ter- mos a seu respeito adquirem uso comum, esses padrões tornam a avaliação e a com- preensão mais claras. Os cientistas sociais constroem uma abordagem que, embora mantenha a flexibilidade e a adaptabilidade da etnografia, também guarda um sentido semelhante de tradição procedimental e de padrões de qualidade. Para o novo campo dos estudos de co- munidades e culturas online, dispor de um conjunto de padrões comuns proporciona- rá estabilidade, consistência e legitimidade. Em vez de confundir os interessados no as- sunto com uma arruinada Torre de Babel de uma dúzia ou mais de nomes diferentes pa- ra uma abordagem talvez semelhante, se- guir uma técnica, um conjunto de diretrizes – ou explicar como estamos divergindo dela, aperfeiçoando-a e de que forma isso contri- bui para nossa compreensão metodológica – garantirá a clareza necessária e unifor- midade. Se quiséssemos comparar diferen- tes estudos, saberíamos que, se eles usa- ram métodos estreitamente relacionados, seus resultados provavelmente são compa- ráveis. As diferenças entre eles não seriam atribuí veis a diferentes formas de aborda- gem. Também pode ser útil para um campo de estudos emergente possuir postura e lin- guagem unificadoras. Contar com termos, abordagens e bases bibliográficas comuns – da mesma forma como procurei aproveitar muitas disciplinas diferentes em minhas ci- tações neste livro – também pode encorajar o compartilhamento de conhecimento en- tre campos acadêmicos díspares. A consis- tência nessa área garantirá a clareza neces- sária, menor replicação imprudente, melhor construção de teorias e, por fim, maior re- conhecimento para todos os estudiosos que trabalham nela. DEFINIÇÃO DE TERMOS NECESSÁRIOS: COMUNIDADE E CULTURA ONLINE Os netnógrafos dão grande significado ao fa- to de que as pessoas voltam-se às redes de computador para participar de fontes de cultura e obter um senso de comunidade. Portanto, este livro precisa, necessariamen- te, abordar dois dos termos mais complexos e discutíveis na língua inglesa: cultura e co- munidade. Esta seção do capítulo introdutó- rio é dedicada a garantir que esses termos, e sua aplicação e uso na netnografia, sejam claramente definidos. Apesar da prevalência do termo comu- nidade para descrever o compartilhamento de diversos tipos de comunicações online, há considerável debate acadêmico em tor- no da adequação do termo. Nas primeiras fases de seu desenvolvimento, durante o pe- ríodo que às vezes tem-se chamado de “Web 1.0”, a experiência online com frequên cia era mais semelhante à da leitura de um livro NETNOGRAFIA 15 do que à de um compartilhamento de uma conversa. Originalmente, presumia-se que os integrantes de grupos online quase nunca se encontravam fisicamente. Nas formações originais em que as comunidades online se manifestavam, presumia-se invariavelmente que os participantes mantinham seu anoni- mato de maneira vigilante. Muitas das in- terações nas quais os integrantes participa- vam pareciam, ao menos superficialmente, ser fugazes e, frequentemente, de natureza informacional ou funcional. Contudo, a noção de que as reuniões online eram, de alguma forma, uma espé- cie de comunidade, esteve presente desde o princípio e tem persistido. Comunidade e cultura podem ser inerentes a muitos dos fó- runs e “locais” da internet. Um grupo de cor- reio eletrônico que publica por meio de lis- tas (listserv) pode levar cultura e ser uma comunidade, assim como um fórum, um blog ou microblog, um wiki (website cola-borativo), ou um dedicado a entusiastas de fotos e vídeos, e também podcasts e vlogs (blogs de vídeo). Os websites de redes so- ciais e mundos virtuais levam os complexos marcadores de muitas culturas e ambos ma- nifestam e forjam novas conexões e comu- nidades. Grupos de discussão e quadros de avisos, assim como salas de bate-papo, ain- da que sejam comunidades ao “velho esti- lo”, podem nunca sair totalmente de moda. Não só tornou-se socialmente aceitável que as pessoas busquem e se conectem por meio desse arsenal de conectividade mediada por computadores, como também esses “luga- res” e atividades relacionadas tornaram-se lugar-comum. Originalmente anunciado co- mo “aplicativo matador”, o correio eletrôni- co, revela-se, é apenas a ponta do iceberg comunalmente conectivo. O termo útil “comunidade virtual” foi desenvolvido por Howard Rheingold (1993, p. 5), que definiu as comunidades virtuais como “agregações sociais que emergem da rede quando um número suficiente de pes- soas empreende [...] discussões públicas por tempo suficiente, com suficiente sentimen- to humano, para formar redes de relacio- namentos pessoais no ciberespaço”. Como observa Rheingold, em comunidades eletrô- nicas, as pessoas trocam gracejos e discutem, envol- vem-se em discursos intelectuais, fa- zem comércio, trocam conhecimentos, compartilham apoio emocional, fazem planos, brainstorm, fofocam, brigam, apaixonam-se, encontram e perdem amigos, disputam jogos, flertam, criam um pouco de grande arte e um monte de conversa à toa. (1993, p. 3) Devemos, contudo, observar que Starr Roxanne Hiltz (1984) estudou o fenômeno e criou o termo “comunidade online”, qua- se uma década inteira antes, situando essas comunidades mais no reino do trabalho do que do lazer (para mais estudos pioneiros, ver Hiltz e Turoff, 1978). Complicando a descrição e definição, Komito (1998) desembrulhou meticulosa- mente as diversas noções complexas de co- munidade, vendo as comunidades virtuais como semelhantes a tipos de grupos de pes- soas da “sociedade coletora” (essa foi a épo- ca em que se viam as pessoas coletando in- formações, ver Komito, 1998, p. 104), além de guardarem semelhanças com comunida- des que compartilham normas de comporta- mento ou algumas práticas definidoras, que ativamente aplicam certas normas morais, que intencionalmente tentam fundar uma comunidade, ou que simplesmente coexis- tem em estreita proximidade uma com a ou- tra. Komito concluiu enfatizando a varieda- de e o dinamismo do construto: Uma comunidade não é fixa em for- ma ou função; ela é uma mistura de possíveis opções cujos significados e concretude estão sempre sendo nego- ciados pelos indivíduos, no contexto de limitações externas em mutação. Isso é verdadeiro quer os membros do grupo interajam eletronicamente, por comunicação face a face, ou de ambas as formas. (1998, p. 105) Enquanto compartilham a cibercul- tura orientada ao computador e as cultu- ras de consumo orientadas ao consumo, al- guns desses grupamentos demonstram mais do que a simples transmissão de informa- Renato Realce Renato Realce Renato Realce Francisco Realce Francisco Realce Ex: Orkut, facebook, twitter, websites, tumbler, entre outros. 16 ROBERT V. KOZINETS ções, mas, como Carey (1989, p. 18) enun- cia romanticamente, “a cerimônia secreta que une as pessoas na camaradagem e no compartilhamento”. Dadas essas definições e denominações, o termo comunidade pa- rece adequado se for usado em seu sentido mais fundamental para referir-se a um gru- po de pessoas que compartilham de intera- ção social, laços sociais e um formato, lo- calização ou “espaço” interacional comum, QUADRO 1.1 Definindo comunidade online: as palavras do pai fundador Podemos proveitosamente analisar a definição de Howard Rheingold (1993, p. 3) de comunidades virtuais como “agregações sociais que emergem da rede quando um número suficiente de pessoas empreende [...] discussões públicas por tempo suficiente, com suficiente sentimento humano, para formar redes de relacionamentos pessoais no ciberespaço”. Vários aspectos dessa definição podem ser desenvolvidos para melhor compreender a netnografia. ü Agregações sociais: O uso desse termo deixa claro que a netnografia não é uma abordagem individualis- ta que analisa a publicação pessoal de mensagens na internet, ou seu agregado. O tópico focal da net- nografia é coletivo. A netnografia analisa agrupamentos, reuniões ou coleções de pessoas. Seu nível de análise é, portanto, o que os sociólogos chamariam de nível meso: não o micro dos indivíduos, nem o macro de sistemas sociais inteiros, mas o grupo intermediário menor. ü Emergem da rede: Como implica o nome, a netnografia analisa as interações que resultam das conexões na internet ou por meio de comunicações mediadas por computador como uma fonte focal de dados. ü Discussões e comunicações: O elemento de comunicação é necessário à netnografia. Cada vez mais, con- tudo, estamos vendo comunidades compostas de pessoas que se comunicam usando informações de áu- dio (listas de execução do iTunes talvez, ou, com mais certeza, podcasts), informação visual (Flickr), ou informação audiovisual (YouTube). Comunicação é a troca de símbolos significativos, e todos os tipos de sistemas simbólicos humanos estão sendo digitalizados e compartilhados por meio das redes de in- formação. Cada um destes engloba dados úteis para a netnografia. ü Número suficiente de pessoas: Isso significa que algum número mínimo de pessoas deve estar envolvida para que um grupo online pareça uma comunidade. Podemos presumir que esse número situe-se em torno de 20 pessoas no mínimo. Também pode haver um número máximo para eficiência da comunicação, como proposto no número do antropólogo Robin Dunbar, com frequência tido entre 150 e 200 pessoas. Algu- mas comunidades online evidentemente são muito maiores do que isso. Contudo, muitas vezes encontra- mos comunidades maiores se dividindo para manterem o ambiente de proximidade de uma comunidade. ü Discussões públicas: Isso significa que a acessibilidade é importante para a formação de comunidades eletrô- nicas e para a conduta da netnografia. A maioria das discussões netnográficas não é fechada, mas aberta. ü Por tempo suficiente: A preocupação com a quantidade de tempo significa que a netnografia analisa as comunidades eletrônicas enquanto relacionamentos contínuos em andamento. Esses não são encon- tros isolados, mas contatos interativos continuados e repetidos. A sugestão é que existe um número mínimo de interações e exposição ao longo do tempo que é necessário para que um senso de comu- nidade se estabeleça. ü Suficiente sentimento humano: Essa preocupação refere-se à sensação subjetiva de contato autêntico com os outros membros das comunidades online. Ela incluiria questões emocionais como revelação, honestidade, apoio recíproco, confiança, expressões de afiliação, e expressões de intenção de serem sociáveis uns com os outros. ü Formar redes de relacionamentos pessoais: Essa característica sugere que existe um enredamento social entre os integrantes do grupo, bem como a criação de um senso do grupo como uma coleção distinta desses relacionamentos. Esses relacionamentos podem, e com frequência o fazem, estender-se para além do contexto online a fim de formar outros aspectos das vidas sociais das pessoas. Essa definição fundamental contém muitos elementos-chave que encontramos em nosso estudo das comunidades e culturas online, e delineia os padrões da participação comunal autêntica que este livro acompanhará atentamente enquanto explica a conduta da netnografia. Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce NETNOGRAFIA 17 ainda que, nessecaso, um “ciberespaço” vir- tual ou mediado pelo computador. Também podemos identificar no ter- mo comunidade a sugestão de algum senso de permanência ou contato repetido. Exis- te alguma interação social sustentada e, além disso, um senso de familiaridade en- tre os membros de uma comunidade. Is- so leva ao reconhecimento das identidades dos indivíduos e ao senso subjetivo de que “eu ‘pertenço’ a este grupo específico”. Nós provavelmente não diríamos que Susan era membro de uma comunidade online dedica- da à criação de peixes-dourados caso ela te- nha visitado aquele fórum apenas uma ou duas vezes, ou mesmo que ela tenha ficado à espreita uma meia dúzia de vezes ou algo assim durante o curso de alguns meses. En- tretanto, considere um fórum de triatlo em que Susan ocasionalmente postou comentá- rios, no qual ela tinha familiaridade com al- guns dos principais colaboradores, e no qual suas preferências e interesses eram conhe- cidos pelos outros membros daquele grupo. Aquele grupo provavelmente terá um senti- mento mais comunal em relação à Susan e provavelmente seria mais apropriado suge- rir que Susan era um membro daquela co- munidade eletrônica de triatlo. Sem dúvida, existe um continuum de participação na de- terminação do que pode e não pode ser con- siderado “afiliação à comunidade”. Seus li- mites às vezes são indistintos, mas devem ser compreendidos em termos de autoiden- tificação como um membro, contato repeti- do, familiaridade recíproca, conhecimento compartilhado de alguns rituais e costumes, algum senso de obrigação e participação. CULTURA E CIBERCULTURA ONLINE Então, o que é, exatamente, que está sen- do compartilhado entre os membros dessas comunidades online? Isso nos leva ao tema igualmente difícil e controverso da cultu- ra. Como escreveu Raymond Williams em Keywords: Cultura é uma das duas ou três pala- vras mais complicadas na língua in- glesa. Isso se deve em parte a seu in- tricado desenvolvimento histórico, em vários idiomas europeus, mas princi- palmente porque hoje ela passou a ser utilizada para conceitos importantes em diversas disciplinas intelectuais distintas [...] (1967, p. 87) Como sugere a erudição de Williams, para haver cultura, algo precisa ser criado, cultivado ou produzido; o conceito está en- trelaçado com implicações de civilização, socialização e aculturação. Com o tempo, a cultura tendeu a ser vista pelos antropólo- gos como mais material e prática, relacio- nada à continuidade de comportamentos e valores, e pelos acadêmicos dos estudos cul- turais como mais ligada a idiomas e siste- mas simbólicos, embora estas, atualmente, sejam distinções forçadas. O antropólogo Clyde Kluckhohn (1949) sugeriu diversos significados para o termo cultura, incluindo: o modo de vida total de um povo; um legado social; um modo de pensar, sentir e acreditar; um repositório de aprendizagem; um conjunto de orientações a problemas ou comportamentos aprendi- dos; mecanismos para a regulação dos com- portamentos das pessoas; técnicas para se adaptar ao ambiente externo; mapas com- portamentais; e outros. John Bodley (1994) usa a palavra para se referir a uma socieda- de em seu estilo de vida total ou para se re- ferir à cultura humana como um todo, ofe- recendo uma definição geralmente aceita de cultura como pensamento e ação huma- na socialmente padronizada. Ele também observa que existem diversas definições de cultura que podem se encaixar em catego- rias que são tópicas, históricas, comporta- mentais, normativas, funcionais, mentais, estruturais ou simbólicas. Em A interpretação das culturas (1973), o antropólogo Clifford Geertz sugeriu que a cultura pode ser melhor compreendida do ponto de vista da semiótica ou dos significa- dos de sinais e símbolos. Acreditando, com Max Weber, que o homem é um animal suspenso em re- des de significância que ele mesmo teceu, eu tomo a cultura como essas Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Nota Quais os elementos que estão sendo cultivados? Renato Nota Número de repetições e acessos. 18 ROBERT V. KOZINETS redes, e que, portanto, a análise dela não é a de uma ciência experimental em busca de uma lei, mas uma ciên- cia interpretativa em busca de signi- ficado. (1973, pp. 4-5) A cultura é uma questão pública, su- gere Geetz, porque “o significado o é” – os sistemas de significado mediante os quais vivemos são, por sua própria natureza, a propriedade coletiva de um grupo. Quando observamos o que os membros de uma ou- tra cultura estão fazendo ou dizendo e não podemos compreendê-los, o que estamos re- conhecendo é nossa própria “falta de fami- liaridade com o universo imaginativo dentro do qual os atos desses membros são sinais” e possuem significado (1973, pp. 12-13). O que, então, queremos dizer com o termo cibercultura? Embora possa ser peri- goso, ou ao menos artificial, fazer essas de- marcações prioritárias, o termo cibercultura adquire sua utilidade a partir da ideia de que existem algumas “construções e reconstru- ções culturais singulares nas quais as novas tecnologias se baseiam e em que elas, inver- samente, contribuem para moldar” (Escobar 1994, p. 211). As práticas e formações so- ciais complexas que constituem os compor- tamentos online originam-se, ao menos em parte, nas tradições, limitações e trajetórias distintas da cultura do computador. Como observou Laurel (1990, p. 93), todas as co- munidades online existem como “aldeias de atividade no seio das culturas mais amplas da computação”. Em toda sociedade huma- na, a tecnologia do computador e seu rela- cionado banco de práticas e tradições estão cada vez mais se fundindo com sistemas de significado novos e já existentes. Essa mescla pode produzir formações culturais surpreen- dentes e únicas; essas novas fusões culturais, especificamente, seriam a cibercultura. O antropólogo David Hakken (1999, p. 2) coloca essa questão da seguinte maneira: “os novos modos de processar informações baseados em computador parecem vir com uma nova formação social; ou, na lingua- gem antropológica tradicional, ciberespaço é um tipo distinto de cultura”. A definição de cibercultura pelo estudioso canadense da mídia, Pierre Lévy (2001, p.xvi), como “o conjunto de tecnologias (materiais e intelec- tuais), práticas, atitudes, modos de pensa- mento e valores que se desenvolveram junto com o crescimento do ciberespaço” é analo- gamente abrangente. Jakub Macek (2005) divide os diver- sos conceitos de cibercultura em quatro ca- tegorias: utópica, informacional, antropoló- gica e epistemológica. O termo cibercultura pode ser definido por meio de uma perspec- tiva futurista e tecnologicamente utópica, co- mo um código simbólico da nova sociedade da informação, como um conjunto de práti- cas de estilos de vida culturais relacionados ao surgimento da tecnologia de computação em rede, ou como um termo para refletir so- bre as mudanças sociais trazidas pelo acesso aos novos meios de comunicação, respecti- vamente. Essas diversas definições e demar- cações da cibercultura, variantes tecnolo- gicamente utópicas bem como tendências pós-modernas antiutópicas e festivas, estão estreitamente relacionadas a quatro ideolo- gias tecnológicas norte-americanas essen- ciais: os utópicos tecnológicos “Tectópicos”; os antiutópicos “Ludditas Verdes”; os prag- máticos da “Máquina de Trabalho”; e os festi- vos Tec-expressivos (ver Kozinets, 2008). O modo como o termo cibercultura se- rá usado neste livro – e ele raramente será usado – é como segue. Se aceitarmos como definição inicial que a cultura é aprendida e consiste em sistemas de significado, siste- mas simbólicos dos quais a linguagem é o principal, podemos indagar a respeito das características particulares carregadasem contextos tecnológicos específicos, tais co- mo em comunidades online ou por meio de comunicações mediadas por computa- dor. Existem sistemas simbólicos, rituais e normas, modos de se comportar, identida- des, papéis e línguas específicas que aju- dam determinadas formações sociais online a organizar e gerenciar a si mesmas? Esses sistemas linguísticos, normas, ações e iden- tidades são distintivos dos grupos online e das comunicações eletrônicas? Eles são en- sinados? Eles são comuns em alguns grupos e não em outros? Eles são comuns em al- guns meios e não em outros? Se em determinados contextos real- mente existem esses sistemas de significa- Renato Realce Renato Realce Renato Nota Reconhecer os termos utilizados pela comunidade em análise. Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Nota Características da Comunidade? NETNOGRAFIA 19 do que são exclusiva ou principalmente ma- nifestados e negociados online (pense em emoticons ou “carinhas” como ;-) ou :-(, em acrônimos como LOL ou OMG e em termos como friending e flaming*), parece sensato usar o termo cibercultura para referir-se a eles. Meu ponto de vista é que, de uma pers- pectiva comparativa, não existe muita coisa que seja peculiar a muito do que acontece no ambiente online. A cultura existe, e sem- pre existiu, em um estado de fluxo constan- te cujas transformações foram orientadas por nossas invenções, as quais nós simulta- neamente moldamos e guiamos. Se aceitar- mos que o Homo sapiens e o Homo habilis são, por sua própria natureza, fabricantes de ferramentas e inovadores, talvez não fa- ça mais sentido falarmos sobre cibercultura como distinta de outras formas de cultura humana assim como falamos sobre “cultura do alfabeto”, “cultura da roda”, ou “cultura da eletricidade”.2 Contudo, uma vez que a cultura es- tá indiscutivelmente assentada e alicerça- da na comunicação (Carey, 1989), os meios de comunicação eletrônica apresentam um determinado status ontológico para seus participantes. Essas comunicações atuam como meio de transação cultural – há tro- ca não apenas de informações, mas tam- bém de sistemas de significado. As comuni- dades formam ou manifestam culturas, ou seja, “crenças, valores e costumes aprendi- dos que servem para ordenar, guiar e diri- gir o comportamento de uma determinada sociedade ou grupo” (Arnould e Wallendorf, 1994, p. 485 f.2). Para evitar a essencializa- ção bem como a hiperbolização desenfrea- das que ocorrem em grande parte do dis- curso relacionado à internet, eu prefiro falar sobre determinadas culturas online em suas manifestações específicas. Assim, pode fa- zer sentido, dependendo de nosso foco de pesquisa, falar a respeito da cultura mundial virtual, da cultura da blogosfera, da cultu- ra dos telefones celulares, ou da cultura dos fãs de Bollywood. Tendo a preferir a especi- ficidade desses últimos termos à generalida- de do termo cibercultura, e reservaria o uso daquele termo para referências e discussões sobre as características compartilhadas dis- tintivas dessas formações sociais online ou mediadas por computador. Quer optemos por adotar uma termi- nologia da singularidade cibercultural, e como quer que decidamos chamar esses co- letivos sociais, ao menos uma coisa parece certa: com o acesso à internet continuan- do a crescer e o tempo online continuando a se expandir, veremos um prodigioso cres- cimento na quantidade, nos interesses e na influência dessas comunidades e suas cul- turas. A NATUREZA E OS NÚMEROS DAS COMUNIDADES E CULTURAS ONLINE As conexões e alinhamentos online estão ca- da vez mais afetando nosso comportamen- to social como cidadãos, como consumido- res, como amigos e família, e como seres sociais. Nesta seção, veremos alguns fatos importantes sobre as comunidades e cultu- ras online, a fim de demonstrar seu impacto no mundo social e, consequentemente, na conduta de pesquisa social contemporânea relevante. Como mencionado acima, ao me- nos 100 milhões de pessoas ao redor do pla- neta participam regularmente de comunida- des online. Na verdade, os websites tanto do Facebook quanto do MySpace possuem mais de 100 milhões de assinantes. É pro- vável que uma maioria significativa dos um bilhão e meio de usuários da internet “par- ticipe” de alguma forma em algum tipo de reunião e comunicação eletrônica, mesmo que essa participação seja a de mera leitura de mensagens, marcação, ou ocasional ofer- ta de mensagens curtas. Embora os estudos dessa nova e di- nâmica realidade sejam escassos, pesquisas apontam para a influência e a prevalência da experiência comunal online. Em um rela- * N. do T.: LOL = laughing out loud (Garga- lhando); OMG = Oh my God (Oh meu Deus!); friending = adicionar amigos em uma rede social; flaming = publicar mensagens delibe- radamente ofensivas e/ou com a intenção de provocar reações hostis dentro do contexto de uma discussão (geralmente na internet). Renato Realce 20 ROBERT V. KOZINETS tório de pesquisa em 2001, os levantamen- tos do Pew exploraram o mundo online e concluíram, já naquele estágio relativamen- te precoce, que ele constituía um universo social vibrante. Muitos usuários da inter- net usufruíam de contato sério e gratifican- te com as comunidades online (Pew Internet Report, 2001). Naquela mesma pesquisa, eles relataram que 84% de todos os usuá rios da internet relatavam algum tipo de contato ou atividade com uma comunidade online, tanto novas comunidades que descobriram, quanto grupos tradicionais mais antigos como associações profissionais ou comer- ciais. A pesquisa relatou que as pessoas es- tavam usando a internet para aumentarem seu envolvimento com grupos aos quais já pertenciam, para aprofundar seus vínculos a comunidades locais, assim como para en- contrar novas comunidades para aderir, par- ticipar e estimular ligações com “estranhos” e pessoas cujas bagagens raciais, étnicas, ge- racionais ou econômicas diferiam das suas. No levantamento de 2001, as pessoas mais interessadas na interação em comunidades eletrônicas faziam parte de grupos de opi- nião, grupos étnicos e, especialmente, gru- pos de estilos de vida. Já estava se tornando visível que as co- munidades eletrônicas estavam se tornando parte das experiências diárias das pessoas online. Além disso, os tipos de comunida- des online abrangiam uma ampla faixa de interesses sociais e culturais humanos, in- cluindo: associações comercias; grupos po- líticos e grupos de discussão política; grupos de hobby; grupos de fãs de esportes, música, programas de televisão e celebridades; gru- pos comunitários; grupos de estilos de vida; grupos de apoio médico; grupos de ques- tões pessoais ou psicológicas; organizações religiosas ou espirituais, ou grupos de opi- nião; sindicatos; e grupos étnicos ou cultu- rais. Examinando essa lista, é difícil pensar em muitas comunidades ou interesses que não fossem objeto de envolvimento online. Mais dados sobre a prevalência e as ca- racterísticas das comunidades online são for- necidos pelo Annenberg Digital Future Project na University of Southern California. Essa pes- quisa oferece um dos levantamentos recentes mais extensos, até hoje, da vida online nos Es- tados Unidos. Em seus resultados de pesquisa de 2008, eles constatam que, de todos os usu- ários de internet pesquisados, 15% conside- ram-se membros de uma comunidade online.3 Os resultados da pesquisa anunciaram que o número de pessoas que afirmam ser membro de uma comunidade quase tinha triplicado: de 6% em seu levantamento em 2005, para 15% em 2007. A média de longevidade da afi- liação era de três anos. Esses números conti- nuaram crescendo no decorrer dos anos, in- dicando que os membros de comunidades eletrônicas estavam permanecendoem suas comunidades. Semelhante ao relatório ante- rior do Pew, as comunidades eletrônicas mais comuns das quais as pessoas relatavam afi- liação eram aquelas relacionadas à categoria ambígua dos “hobbies”. Grandes porcentagens também relataram que sua comunidade onli- ne envolvia suas vidas sociais, suas vidas pro- fissionais, ou tinha orientação religiosa, espiri- tual, política ou de relacionamento. Estar em contato com uma comunida- de online é, cada vez mais, um componen- te comum das vidas sociais das pessoas. A maioria dos membros de comunidades onli- ne conecta-se com sua comunidade ao me- nos uma vez ao dia; 29% delas, várias vezes ao dia – lembrando novamente que a pes- quisa excluiu os websites de redes sociais desses números. Os números do projeto Annen berg harmonizam-se muito bem com o achado do Pew Internet Report (2001) de que 79% dos que foram pesquisados manti- veram contato regular com ao menos uma comunidade. Mas essas comunidades são importan- tes para as pessoas que delas participam? A resposta é um retumbante sim. Quase uma unanimidade, 98% dos membros de comu- nidades eletrônicas que responderam à Digi- tal Futures Survey disseram considerar suas comunidades importantes para si. Mais de um terço consideravam-nas “extremamente importantes”, ao passo que mais de um ter- ço consideravam-nas “muito importantes”. De modo semelhante, 92% dos membros de comunidades online disseram que suas co- munidades os beneficiavam. Neste livro, exploraremos a dicotomia popular entre interações e comunidades “online” e “face a face” ou “da vida real”. Renato Realce Renato Realce Francisco Realce NETNOGRAFIA 21 Crumlish (2004, p. 7) fala sobre o modo co- mo os grupos Usenet tradicionalmente pro- gramavam encontros (burgermunches) na vida real e de como o WELL, um serviço ele- trônico pioneiro, aprendeu o valor de festas em que as pessoas tinham a oportunidade de interagir pessoalmente. Sem uma ação corporificada, sem in- teração face a face e sem que as pes- soas se encontrem em tempo e lugar, a internet bem poderia ser um mundo de fantasia. Quando a interconexão da rede alcança os detalhes munda- nos da realidade comum e faz corpos reais partilharem o espaço, conver- sas reais ocorrerem usando lábios e línguas, escutadas por ouvidos e pro- cessadas pelo aparelho auditivo nos cérebros – aí é que a magia começa a acontecer. (2004, p.7) Uma vez conscientes da interconexão dos mundos sociais, torna-se menos sur- preendente que a maioria das pessoas que pertencem às comunidades online encon- trem outros membros da comunidade onli- ne face a face. Cinquenta e seis por cento dos membros dessas comunidades disse- ram, no estudo Annenberg, que se encon- traram com outros membros de sua comuni- dade eletrônica pessoalmente. Esse número está acima da cifra de 52% dos membros de comunidades online que se encontravam com outros membros em 2006. Mais uma vez, segundo o Digital Futu- re Report de 2008, existe uma aguçada re- lação entre participação em comunidades online e participação em causas sociais. Se- tenta e cinco por cento dos membros de co- munidades online disseram que usaram a Internet para participar em comunidades ligadas a causas sociais. Notáveis 94% dos membros de comunidades online disseram que a internet os ajudou a informarem-se melhor sobre causas sociais. Oitenta e sete por cento dos membros de comunidades on- line que participavam de causas sociais dis- seram que se envolveram em causas que eram novas para eles desde que começaram a participar em uma comunidade. Trinta e um por cento dos membros de comunidades online afirmaram que participavam mais em causas de ativismo social desde que inicia- ram sua participação como integrantes de suas comunidades. A questão mais reveladora no relató- rio do Digital Future Project pode ser aque- la em que membros de comunidades onli- ne expressaram a força de seus sentimentos em relação a elas. Uma maioria importan- te, 55%, disse que sentia a mesma força por suas comunidades eletrônicas que por suas comunidades da vida real, um aumento sig- nificativo em relação ao ano anterior. Con- sidere que comunidades da vida real in- cluiriam afiliações a grupos como famílias, religiões, bairros, estados-nação, ou grupos de trabalho ou profissionais. O fato de que reuniões online podem nivela-se com es- sas comunidades essenciais nos corações e mentes das pessoas diz muito sobre o signi- ficado de sua conexão. Esses relatórios sustentam a ideia de que o que está acontecendo em nossa so- ciedade não é simplesmente uma mudança quantitativa no modo como a internet é usa- da, mas uma mudança qualitativa. À medi- da que mais pessoas usam a internet, elas a usam como um dispositivo de comunicação altamente sofisticado que permite e fortale- ce a formação de comunidades. Para mui- tos, essas comunidades, como a própria in- ternet, têm sido consideradas indispensáveis. Elas estão se tornando “lugares” de pertenci- mento, informação e apoio emocional, sem os quais as pessoas não ficam. Bater papo e conferir com os membros de sua comunida- de online antes de uma compra, uma consul- ta médica, uma decisão acerca da criação dos filhos, um comício político ou um programa de televisão está se tornando algo instintivo. As comunidades eletrônicas não são virtuais. As pessoas que encontramos online não são virtuais. Elas são comunidades reais povoadas por pessoas reais, o que explica por que muitas acabam se encontrando em carne e osso. Os assuntos sobre os quais fa- lamos em comunidades eletrônicas são as- suntos importantes, por isso, muitas vezes, aprendemos e continuamos nos importan- do com as causas sociais e políticas sobre as quais ouvimos falar por meio de nossas co- Renato Realce Renato Realce 22 ROBERT V. KOZINETS munidades online. Comunidades online são comunidades; não há mais espaço para dis- cutir este tema. Elas nos ensinam sobre lin- guagens reais, significados reais, causas re- ais, culturas reais. “Esses grupos sociais têm uma existência ‘real’ para seus participan- tes, e assim têm efeitos importantes em mui- tos aspectos do comportamento” (Kozinets 1998, p. 366). PADRÕES MUNDIAIS No momento em que escrevo este livro, exis- te mais de um bilhão e meio de usuários da internet ao redor do mundo, o que repre- senta 22% da população mundial (ver Ta- bela 1.1 para uma divisão por região). In- versamente, isto significa que cerca de 78% da população mundial, ou seja, a imensa maioria, ainda não têm acesso à internet. As taxas de penetração em alguns países gi- gantescos ainda são desoladoramente pe- quenas, tais como a taxa da Índia em maio de 2007, de apenas três por cento. Ainda sa- bemos muito pouco sobre as diferenças qua- litativas no tipo de uso da internet entre pa- íses, muito menos do que sabemos sobre a diferença quantitativa, mais fácil de medir, nas taxas de penetração da internet. Os usuários asiáticos da internet são conhecidos por serem mais ativos e partici- pativos (Li e Bernoff, 2008). Na região do Pacífico Asiático, a Coreia do Sul tem não apenas a maior taxa de uso de internet, com mais de 65% de sua população, como tam- bém uma base de usuários muito avançada e sofisticada. O país conta com uma popu- lação online ativa que usa a internet signifi- cativamente mais do que outras populações asiáticas, acessando muito mais dos 100 mi- lhões de websites disponíveis aos usuários globais. Uma geração de sul-coreanos cres- ceu fazendo compras online e disputando jogos em rede, como o Lineage. Na América do Sul, a penetração e as taxas de uso da internet ficaram para trás TABELA 1.1 Uso global da internet* Uso da internet como Usuários porcen- Crescimentoda internet, Penetração tagem no uso População dados mais da internet do uso da internet, Região em 2008 recentes (% da mundial 2000–2008 do planeta (estimativa) (30.06.2008) população) total (%) África 955.206.348 51.065.630 5,3 3,5 1.031,2 Ásia 3.776.181.949 578.538.257 15,3 39,5 406,1 Europa 800.401.065 384.633.765 48,1 26,3 266,0 Oriente Médio 197.090.443 41.939.200 21,3 2,9 1.176,8 América do Norte 337.167.248 248.241.969 73,6 17,0 129,6 América Latina/Caribe 576.091.673 139.009.209 24,1 9,5 669,3 Oceania/Austrália/ 33.981.562 20.204.331 59,5 1,4 165,1 Nova Zelândia TOTAL MUNDIAL 6.676.120.288 1.463.632.361 21,9 100,0 305,5 Nota: *Informação de www.internetworldstats.com/; as informações sobre uso da internet são provenientes de dados publicados por Nielsen/NetRatings, International Telecommunications Union, NIC local e outras fontes. Francisco Realce NETNOGRAFIA 23 em relação a outros continentes. Entretanto, o Brasil tem mais de 50 milhões de usuários da internet, mais do que o dobro do México, país com o segundo maior número de usuá- rios. Os brasileiros também são usuários de redes sofisticados, com experiência na apli- cação de TIC. O Chile tem as taxas de pene- tração mais altas na região (45% da popula- ção, comparada com 2% em Cuba, ou 3% na Nicarágua). Os padrões chilenos de uso da internet parecem repetir os dos países euro- peus ocidentais em muitos aspectos. De modo semelhante, a Europa ociden- tal apresenta considerável variedade nos mo- dos como as comunidades online se mani- festam e articulam. Alemanha, Noruega e Áustria estão entre alguns dos maiores usu- ários da internet, além de apresentarem al- gumas das taxas de penetração mais altas, ao passo que países como Espanha, Itália e Gré- cia estão atrás em tais aspectos. Os países eu- ropeus ocidentais – em especial a Finlândia – e alguns países asiáticos, como o Japão, são excelentes lugares para investigar comunida- des eletrônicas acessadas por meio de dispo- sitivos móveis, como telefones celulares. Os norte-americanos e os japoneses são usuários avançados dos mundos virtuais. Em todos esses exemplos podemos ver como certos países, bem como certas re- giões dentro desses países e determinados grupos demográficos e culturais dentro des- sas regiões, poderiam funcionar como “pon- tos de referência” para estudarmos as práti- cas de comunidades online de ponta, de TIC e de uso da internet. Se quisermos estudar, por exemplo, o uso de comunidades online móveis, ou blogs de vídeo, pode fazer sen- tido visitar esses países e as pessoas destes que estejam, em alguns aspectos, demons- trando os usos mais avançados ou sofistica- dos da tecnologia. A ESTRUTURA DESTE LIVRO Netnografia: realizando pesquisa etnográfi- ca online é uma introdução metodológica à abordagem cultural da pesquisa online. O livro procura apresentar, explicar e ilustrar detalhadamente uma determinada aborda- gem da conduta de etnografia de comuni- dades e culturas virtuais. A netnografia dife- re de outra pesquisa qualitativa na internet porque ela oferece, sob a rubrica de um úni- co termo, um conjunto rigoroso de diretri- zes para a realização de etnografia mediada por computador e também, de maneira im- portante, sua integração com outras formas de pesquisa cultural. Uma vez que este livro trata de uma abordagem relativamente nova em uma área também relativamente nova, o apanhado geral oferecido no início pode ser útil. As- sim, os capítulos introdutórios deste livro fornecem uma visão geral do campo da pes- quisa cultural e comunal baseada na inter- net, contendo um número de resumos de etnografias notáveis de culturas e comuni- dades online em geral, e discutindo, orga- nizando e introduzindo alguma teoria pos- sivelmente útil. Esse apanhado geral cobre uma gama de diferentes tipos de pesquisa com a esperança de que se possa informar àqueles para quem esse campo seja novo, refrescar e talvez ampliar o conhecimen- to daqueles que já tem familiaridade com ele, e, possivelmente, despertar novas ideias para pesquisas emocionantes e inovadoras nessa área. Grande parte do material neste livro sin- tetiza métodos, teorias, abordagens e ideias existentes, procurando reuni-las de um mo- do útil tanto ao estudante interessado quan- to ao pesquisador ativo. O livro ajuda os pesquisadores a considerar as diversas op- ções de que eles dispõem para investigar os mundos culturais da internet. A essência deste livro é a descrição procedimental. Is- so também inclui uma quantidade conside- rável de debates e decisões metodológicas que precisam ser tomadas durante a execu- ção de etnografias de culturas ou comuni- dades online. Grande parte do seu conteú- do é, portanto, da natureza de uma análise ou de um apanhado geral de debates, preo- cupações, procedimentos e abordagens re- lacionadas. O que este livro visa acrescen- tar a nosso conhecimento existente é uma visão geral e coerente do material, um arca- bouço para a execução de pesquisa cultural na internet, discussões de questões e entra- ves para esse tipo de pesquisa, uma atua- Francisco Realce 24 ROBERT V. KOZINETS lização das abordagens anteriores para os atuais ambientes tecnológicos e, especial- mente, uma defesa em favor de determina- das decisões. Portanto, este livro foi estruturado da seguinte maneira: ele começa no Capítulo 1 com uma justificativa do tema. O que, exa- tamente, são comunidades e cultura online, e por que elas são um tema relevante para cientistas sociais? Por que deveríamos estu- dar esses fenômenos? Esse capítulo procu- rou responder a essas questões, explican- do, nesse processo, a importância do tema e definindo a terminologia acerca da cul- tura e comunidade online. Primeiramente, o capítulo demonstra a prevalência das co- munidades online e da cibercultura na vida diá ria das pessoas e afirma que os cientis- tas sociais precisam de boas ferramentas pa- ra estudar esses fenômenos e suas implica- ções. Em seguida, discute-se a utilidade de normas gerais e de um nome distinto para a netnografia, assim como a terminologia da comunidade e da cultura enquanto aplica- da à netnografia, e se oferece uma perspec- tiva mundial das culturas online e compor- tamentos em comunidades eletrônicas. O Capítulo 2 Compreendendo a cultura online, procura oferecer um apanhado geral da subsistente pesquisa em culturas e comu- nidades online, fornecendo uma pequena fatia de alguns dos estudos mais importan- tes e influentes dos campos da sociologia, antropologia, estudos culturais, pesquisa de consumo e outros. O que sabemos sobre cul- turas e comunidades eletrônicas? Esse capí- tulo analisa alguns dos estudos realizados para compreender e classificar tais cultu- ras e comunidades, descrever o conteúdo de suas comunicações e interações, e fazer um apanhado geral de seus processos culturais e rituais. Dado o foco metodológico deste li- vro, o capítulo com frequência não apenas enfatiza o que sabemos sobre os ricos uni- versos culturais que esta pesquisa revelou, como também prenuncia como esses enten- dimentos culturais foram alcançados. O Capítulo 3, Pesquisando online: mé- todos, fornece um apanhado mais específico das diversas metodologias que foram usa- das a fim de realizar pesquisa em comuni- dades eletrônicas. Entrando no terreno de como fazemos nossa pesquisa, ele analisa al- guns dos modos mais populares pelos quais a cultura e as comunidades online tem sido e podem ser estudadas: entrevistas (em gru- po ou individuais), levantamentos, análise de redes sociais, observação e etnografia. O capítulo compara diferentes metodologias online que usam dados qualitativos para pesquisar comunidades eletrônicas e ofere- ce algumas sugestões para sua coordenação com a netnografia. Ele tambémfornece al- gumas diretrizes para a adoção de metodo- logia, oferecendo determinações de condi- ções de pesquisa nas quais determinadas metodologias podem ser preferíveis a outras bem como um senso de quando elas podem ser combinadas e hibridizadas. Com questões introdutórias aborda- das, o Capítulo 4 segue com uma introdu- ção e explicação mais detalhada do método da netnografia. Ele faz um apanhado da his- tória e da natureza do método, define seus termos e oferece uma análise de como o mé- todo já foi utilizado e adaptado em deter- minados contextos por meio da citação de vários estudos de pesquisa que o usaram. A netnografia adapta procedimentos etnográ- ficos comuns da observação participante – tais como fazer uma entrada cultural, cole- tar dados, analisar e interpretar esses dados com cuidado, escrever um relatório de pes- quisa e executar pesquisa ética – até as con- tingências de comunidades online que se manifestam por meio de comunicações me- diadas por computador. Cada um desses ele- mentos é desenvolvido sequencialmente ao longo dos quatro capítulos seguintes. O Capítulo 5 inicia a exploração mais detalhada da abordagem netnográfica pelo exame do planejamento, do foco e da entra- da. O capítulo oferece diretrizes específicas para ensinar o pesquisador cultural online como planejar, focar e iniciar um estudo ne- tnográfico. Ele discute os passos que preci- sam ser seguidos antes de entrar no website de estudo e oferece diretrizes para uma en- trada estratégica no trabalho de campo on- line. Nele são discutidos os tipos de ques- tões e tópicos de pesquisa que são passíveis de estudo com o método. A decisão seguinte Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce NETNOGRAFIA 25 refere-se a onde e como coletar os dados. Da- do o amplo espectro de escolhas de formas comunais online, incluindo grupos de dis- cussão, quadros, blogs, listas, wikis, espaços de jogos, websites de redes sociais e mun- dos virtuais, onde os pesquisadores deve- riam despender seu tempo? Um processo de delineamento de pesquisa lógico é descrito. Além disso, alguns protocolos para empre- gar os recursos de mecanismos de busca ele- trônica são fornecidos, bem como sugestões sobre como se preparar para a coleta de da- dos formal de uma netnografia. O Capítulo 6, sobre a coleta de dados, discute e ilustra determinadas abordagens para a captura de dados comunitários e cul- turais online. Esse capítulo enfatiza a natu- reza cultural desses dados. Uma vez que a netnografia é uma pesquisa observacional participante, os dados netnográficos podem assumir três formas: a) dados coletados diretamente pelo pesqui- sador; b) dados gerados pela captura e registro de eventos e interações comunitários online; e c) dados que o pesquisador inscreve. Cada uma dessas modalidades será dis- cutida, oferecendo-se diretrizes específicas que permitam ao pesquisador coletar o tipo apropriado de dados netnográficos necessá- rio para determinados projetos de pesquisa. Isto é seguido por um capítulo sobre análise e interpretação de dados. Teoria fun- damentada e procedimentos de codificação indutivos são abordados, assim como os ti- pos de geração de teorias mais interpretati- vos e de “círculo hermenêutico” holísticos. Várias soluções de software serão aborda- das. Algumas estratégias específicas serão discutidas e ilustradas para ajudar os pes- quisadores a compreender as particularida- des da análise netnográfica de dados. A ética de pesquisa pode ser uma das mais importantes diferenças entre a etno- grafia tradicional e a netnografia. O Capítu- lo 8 aborda essa questão com algum porme- nor. Ele oferece posturas morais, jurídicas e éticas para respaldar diretrizes e procedi- mentos que podem ser usados para planejar e executar a pesquisa e também para sub- meter solicitações a organizações de super- visão, tais como os Institutional Review Bo- ards e os Human Subjects Research Ethics Committees. As questões éticas sobre netno- grafia giram em torno de questões contro- versas sobre se os fóruns eletrônicos devem ser considerados um local público ou priva- do, o que constitui consentimento informa- do, e que nível de exposição dos participan- tes de pesquisa é adequado. Essas questões e posturas serão discutidas sequencialmen- te, com recomendações de procedimentos de pesquisa específicos. O Capítulo 9 cobre algumas das ques- tões mais abrangentes de representação e avaliação da pesquisa netnográfica. Nele, são discutidas as opções representacionais diante do pesquisador. A natureza do meio online oferece aos pesquisadores mais op- ções do que nunca para atingir públicos am- plos e diversos, e esse capítulo segue a dis- cussão de representação com um elaborado conjunto de padrões avaliativos. O capítulo final é dedicado à discus- são das mudanças e avanços na abordagem netnográfica. Ele discute os últimos acon- tecimentos no ambiente da comunidade e cultura online, incluindo blogs, microblo- gs (“tweeting”), websites de redes sociais e mundos virtuais. Extrapolando as alterações do método descritas ao longo do livro, es- se capítulo também fornece algumas reco- mendações gerais para a adaptação da net- nografia às particularidades desses websites de interação e comunidade online. O livro conclui com uma consideração do potencial crescimento das comunidades online e das possibilidades para o contínuo crescimento e adaptação da netnografia por uma nova geração de estudiosos. RESUMO As comunidades online e outras culturas da internet e da TIC são uma parte cada vez mais importante de nosso mundo so- cial contemporâneo. Os pesquisadores po- dem se beneficiar adotando a abordagem Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce Renato Realce 26 ROBERT V. KOZINETS da netnografia, um tipo de pesquisa etno- gráfica adaptada às contingências especiais dos diversos tipos de interação social media- da por computador. O uso de um entendi- mento e de um conjunto comuns de normas para esses estudos conferirá estabilidade, consistência e legitimidade. Este primeiro capítulo definiu as comunidades e a cultu- ra online, e explicou por que eles são um te- ma importante para os cientistas sociais da atua lidade. Esse é um passo necessário an- tes de se explorar a atual teoria sobre estes tópicos no Capítulo 2, para depois explicar e demonstrar o método da netnografia que estuda essas comunidades e culturas no res- tante do livro. Leituras fundamentais Garcia, Angela Cora, Alecea I. Standlee, Jennifer Bechkoff, and Yan Cui (2009) ‘Ethnographic Ap- proaches to the Internet and Computer- Mediated Communication’, Journal of Contemporary Ethno- graphy, 38 (1), February: 52–84. Lévy, Pierre (2001) Cyberculture, translated by Robert Bononno. Minneapolis, MN: University of Minnesota Press. Pew Internet Report (2001) ‘Online Communities: Networks that Nurture Long-Distance Relationships and Local Ties’, Pew Internet & American Life Pro- ject, available online at: www.pewinternet.org/ report_display. asp?r=47/ Rheingold, Howard (1993) The Virtual Commu- nity: Homesteading on the Electronic Frontier, available online at: www.rheingold.com/vc/book/