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AT 1 PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR 2 32 S U M Á R IO 3 INTRODUÇÃO 5 UNIDADE 1 - História da Educação Física Escolar no Brasil 8 UNIDADE 2 - Educação Física Escolar 9 2.1 Definições, embasamento teórico e concepções 12 2.2 Seus objetivos 13 2.3 O que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais 14 2.4 Os conteúdos 18 2.5 A educação física em uma perspectiva transformadora 18 2.6 Enquanto promotora de saúde 21 UNIDADE 3 - Os campos de abordagem 22 3.2 No Ensino Fundamental 24 3.3 No Ensino Médio 26 3.4 Coordenação 26 3.4.1 Os tipos de coordenação 27 3.5 Destreza 27 3.6 Socialização 27 3.7 Raciocínio 28 UNIDADE 4 - A Escola, Materiais, Recursos, Orientações Didáticas 31 UNIDADE 5 - A formação do professor de Educação Física 32 5.1 Fatores que levam a um bom trabalho 32 5.1.1Concepção 32 5.1.2 Comportamento 33 5.1.3 Compromisso 33 5.1.4 Materiais 33 5.1.5 Espaços 37 REFERÊNCIAS 2 33 INTRODUÇÃO A finalidade desta apostila, sem dúvida, é compilar pontos referentes à educação física escolar, passando por sua história, pelos seus objetivos, seus fins, os proce- dimentos a serem adotados, a sua impor- tância para o desenvolvimento psicomo- tor do aluno, além de levar os professores à reflexões sobre sua prática educativa no campo da educação física escolar. Aqui desejo fazer um parêntese e justificar mi- nhas próximas linhas. Analisar! Refletir! Posicionar-se! Ques- tões muito importantes que parecem fu- gir um pouco ao objetivo inicial, mas, como podemos “ensinar” quando não sabemos o que é ensinar, para que ensinar, qual o fundamento da educação, quer seja ela geral ou específica como é o caso da Edu- cação Física Escolar. Por isso, o parêntese. Serão lançados alguns pontos nesta intro- dução que esperamos levá-los a pararem, refletirem, analisarem e posicionarem-se diante das necessidades do mundo atual. Qual o tipo de educação queremos? Com certeza autônoma, democrática, libertá- ria (relembrando Paulo Freire), na qual o conhecimento não seja mero repasse de conteúdos, em que as crianças, os adoles- centes e os professores sejam recebidos sem discriminação de cor, credo, condição social, financeira, enfim, uma educação real, efetiva, de qualidade. Como atingir essa “situação-condição” bonita? Cada um fazendo sua parte, evi- dentemente. Sabemos que muitas crian- ças que estão na escola, vêm de famílias desestruturadas ou ambientes não mui- to saudáveis. Sabemos que a escola, en- quanto pública, muitas vezes ainda deixa a desejar em vários aspectos (gestão, ma- teriais e recursos didáticos, espaço, den- tre outros). Entretanto, somos profissionais e de- vemos encarar a incumbência de educar (que nós escolhemos, não foi imposto) não como “mais um emprego”. Com certe- za, a missão do professor/educador não é reconhecida muitas vezes, mas é preciso superar essa dificuldade e ver que lá na frente seu trabalho terá reconhecimen- to, pois terá contribuído na formação dos jovens que farão parte da nossa socieda- de. Isso é muito importante. Queremos jovens saudáveis, críticos, autônomos, conscientes, justos, empreendedores ou o contrário? Se for muito difícil pensar na educa- ção enquanto missão, sejamos egoístas e pensemos no futuro que queremos para nós mesmos: tranquilo ou atormentado por jovens violentos, rebeldes, frustrados com a falta de compreensão e oportuni- dade no seu tempo escolar, quando eram apenas mais um na sala de aula? Voltemos a nossa apostila, direcionada para o Ensino Fundamental, ela foi dividi- da em cinco capítulos. Começamos fazen- do uma retrospectiva histórica, situando a educação física escolar no Brasil, justi- ficando que conhecer o começo de tudo é fundamental para o entendimento do ca- minhamento de todo um processo. No capítulo dois discorremos sobre a importância da educação física escolar, seus objetivos, o que dizem os Parâme- 4 54 tros Curriculares Nacionais, quais os con- teúdos e discutimos ainda a educação fí- sica numa perspectiva transformadora e promotora de saúde. No capítulo três são apresentados os campos de abordagem no Ensino Infantil, Fundamental e Médio. A importância da coordenação, destreza, socialização e ra- ciocínio. A escola, os materiais, recursos e orien- tações didáticas são os assuntos expostos no capítulo quatro, e por fim, no capítulo cinco, o tema é a formação do professor de Educação Física e os fatores (concepção, comportamento, compromisso, materiais e espaços) que levam a um bom trabalho. Ressaltamos que o assunto não se es- gota e deixamos várias referências ao tér- mino da apostila para complementação. Lacunas e falhas podem surgir, somos todos humanos, sujeitos a errar. Pedimos desculpas de antemão. Boa leitura a todos e que façam da educação física escolar um caminho pontuado por novos desafios e novas conquistas sempre! 4 55 UNIDADE 1 - História da Educação Física Escolar no Brasil Os primeiros pensamentos voltados para a educação física no Brasil, em ter- mos de escola, passavam por propósitos profiláticos, morais e culturais. Embora, Educação Física e Educação Física escolar pareçam ser a mesma coisa, não são sinônimos. Pouco se sabe quan- do, exatamente, a escola chamou a si a responsabilidade sobre uma educação física, ou se essa responsabilidade foi chamada e quando. Hoje, outros são os adjetivos colocados para a educação fí- sica. Por exemplo: educação física infan- til para a pré-escola; educação física de academia para praticantes de exercícios em academias; educação física adapta- da para deficientes físicos, para terceira idade e para gestantes. Principalmente nos dois últimos casos, a chamada edu- cação física escolar não prevê atividade. Aliás, na escola, as pessoas nessas condi- ções são dispensadas da educação física. Ela só vai aparecer, com novos nomes, em academias, em clínicas de fisioterapia ou congêneres. Já na primeira metade deste século, vamos encontrar autores, como Azeve- do e Miranda citados por Beltrami (2001) que defendiam a necessidade de ativida- des físicas para crianças, fora da escola. Elas deveriam ser realizadas em parques, em passeios públicos ou em outros locais adequados. Essas atividades tinham pro- pósitos os quais são ainda defendidos nas políticas e nos planos de atividades físicas e desportivas elaborados por or- ganismos educacionais nacional, estadu- al ou local. A partir dos anos 70, é possível verifi- car a intensa construção de Centros Es- portivos, Educacionais e Comunitários ou Quadras Poliesportivas públicas destina- das a atender, prioritariamente, o público infantil e juvenil. De acordo com Beltrami (2001), tam- bém não se pode esquecer que as práti- cas de exercícios físicos eram atividades obrigatórias para a formação de milícias e os objetivos daquelas visavam à prepa- ração para o “agon”. Por falta até mesmo de formação adequada, muitos dos pro- fessores, chamados no passado de “ins- trutores”, aplicavam para crianças, na es- cola, exercícios ginásticos praticados nos quartéis. A introdução da ideia de recreação como a atividade física para o antigo en- sino primário foi uma proposta de peso para a Educação Física escolar. A ideia de recreação, ora tinha sentido semelhante, ora distinto. Pensada enquanto atividade da Educação Física, apresentava caráter formativo quando dizia respeito à impor- tância da formação de valores físicos e morais da criança, ou caráter preventivo quando dizia respeito à ocupação “sadia” do tempo pela criança. Segundo Marinho (1957 apud BELTRAMI, 2001), a necessi- dade da Recreação se dava, naquele mo- mento, de forma imprescindível, porque as horas/permanência da criança na es- cola haviamdiminuído. Antes, a criança permanecia entre 6 e 8 horas na escola e, depois, passou a permanecer apenas 3 e, no máximo, 4 horas. Isso, para ele, criava um problema. 6 7 De acordo com Beltrami (2001), diferen- temente do que se possa pensar, os estu- dos sobre recreação destinados à escola primária na primeira metade deste sécu- lo, no Brasil, foram muito profundos. Nos anos 40 e 50, temos os estudos de Inezil Pena Marinho com as obras Os jogos: prin- cipais teorias, em 1956 e Educação Física: recreação-jogos, em 1957; Ethel Bauzer Medeiros cujas obras mais conhecidas são Manual de Recreação, publicada na Revis- ta brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 21, n. 54, em 1954 e Jogos para recreação na escola primária, em 1959; Nicanor Miranda com Técnica do jogo infantil organizado, separata da Revista do Arquivo Municipal, v. LXCVI, em 1940 e 200 jogos infantis, em 1947. Hoje, outros estudos são realizados, mas pouco se recupera dos realizados no passado, embora algumas ideias se te- nham tornado perenes. Já nos anos 70, segundo Pereira citado por Beltrami (2001), vingou uma política de expansão da prática do desporto, tor- nando-se um novo paradigma para toda a Educação Física. Nesse período, a Educa- ção Física tornou-se sinônimo de desporto. Tal prática privilegiou, tanto para a escola como para fora dela, o desporto como meio educativo “por excelência” porque a sua prática poderia inspirar o “espírito de dis- ciplina” e a “lealdade”. O Plano Nacional de Educação Física e Desportos-PNED, para o período de 1976 a 1979, faz as seguintes observações: A atividade física é hoje conside- rada como um meio educativo privi- legiado, porque abrange o ser na sua totalidade. O caráter de unidade da educação, por meio das atividades fí- sicas, é reconhecido universalmente. Ela objetiva o equilíbrio e a saúde do corpo, a aptidão física para a ação e o desenvolvimento dos valores morais. Sob a denominação comum de Edu- cação Física e desportiva o consen- so mundial reúne todas as atividades físicas dosadas e programadas, que, embora pareçam idênticas na sua base, têm finalidades e meios diferen- ciados e específicos. O meio específico da Educação Física é a atividade física sistemática, concebida para exerci- tar, treinar e aperfeiçoar. De acordo com a intenção principal que anima a atividade física, ela se desdobra em exercícios educativos propriamente ditos, os jogos e os desportos. Face à informalidade de que se reveste sua prática, os jogos e os desportos têm um poder maior de mobilização que os exercícios educativos, sendo reco- mendável, portanto, para melhor efi- cácia da Educação Física, a integração das formas (BRASIL, 1976, p. 59 apud BELTRAMI, 2001). Vê-se que o plano dos anos 70 de fato dá uma direção à prática desportiva, até porque um de seus objetivos é o de “aprimorar as re- presentações desportivas do país”. A partir dos anos 80, segundo Beltrami (2001), houve um novo impulso de estudos e de debates sobre a temática “Educação Físi- ca escolar”. Isso pode ser observado através das publicações de novos autores e da difu- são sobre o assunto em eventos científicos, em programas de disciplinas nas escolas de Educação Física e em bibliografias nos con- cursos públicos para ingresso no magistério do ensino fundamental e médio para a cadei- ra de Educação Física. 6 7 Voltando ao início do século XX, encon- tramos os valores higienistas preconizados pela Educação Física escolar e que permane- ceram até o Estado Novo. Com a mudança do quadro político, em 1930, o Brasil preparou- -se para entrar no mundo industrializado e ti- nha a preocupação de levantar a autoestima de seu povo e consolidar novos interesses políticos. Dentro desse contexto, o esporte é visto como uma das formas de passar para o mundo uma imagem de um país em ascen- são. A partir desse novo paradigma, o esporte passa a ter grande importância na Educação Física, e esse na escola passa a funcionar como forma de detectar talentos para as se- leções das diversas modalidades esportivas do país, assumindo um caráter de competiti- vidade. Com o início da Nova Republica e até os dias atuais, a Educação Física vem tendo contornos diferentes nas escolas, não só por questões de interesse políticos ou classes dominantes, mas também porque a partir de 1980, várias pesquisas vêm sendo feitas nessa área analisando a sua práxis metodo- lógica e seus valores sociocultural, político e educacional. Segundo Caparroz (2000): os anos 80 aparecem como o nasci- mento de concepções e práticas peda- gógicas libertadoras, transformadoras, na perspectiva de desenvolver uma Edu- cação Física voltada para o ser humano e não mais às necessidades do capital. As elaborações traziam em seu bojo uma nova proposta de Educação Física, to- talmente diferente de tudo o que havia sido pensado ou experimentado, visto que a Educação Física que se tinha, até então, só servia para a manutenção do status quo. (CAPARROZ, 2000) 8 98 UNIDADE 2 - Educação Física Escolar Encontramos no artigo 26, parágrafo 3º da Lei de Diretrizes e Bases da Edu- cação Nacional (Lei n.9394/96) que “A Educação Física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente cur- ricular da Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da popu- lação escolar, sendo facultativa também nos cursos noturnos”. Para Vago (1999) ela é: Criadora de uma raça forte e cheia de energia; Promotora da saúde e qualidade de vida; Aprendizagem de habilidades moto- ras, psicomotoras; Terapia e incentivadora de atletas; Forma de expressão de movimentos socioculturais criados. As qualificações acima deixam bem claro o seu importante papel na forma- ção do indivíduo, devendo ser iniciada sua prática ainda na pré-escola, levando as crianças a se acostumarem com mo- vimentos dinâmicos, incentivando ativi- dades das quais elas venham a conhecer seu corpo, criando atividades que traba- lhem as expressões corporais e, assim, ao chegarem ao terceiro e quarto ciclo do Ensino Fundamental (5ª a 8ª série), essas crianças já possuam certo domínio dos movimentos do seu corpo. Para Soares et al (1996): a educação física é uma prática pe- dagógica que busca desenvolver uma reflexão pedagógica sobre o acervo de formas de representação do mun- do que o homem tem produzido no de- correr da história, exteriorizados pela expressão corporal: jogos, danças, lutas, exercícios ginásticos, esporte, malabarismo, contorcionismo, mímica e outros, que podem ser identificados como formas de representação sim- bólica de realidades vividas pelo ho- mem, historicamente criadas e cultu- ralmente desenvolvidas. (SOARES et al, 1996) Além dos gestos físicos, uma boa aula de educação física leva a internaliza- ção de valores, concepções de mundo e formas de comportamento socialmente existentes, assim, ela se insere no âmbi- to da Educação e dessa forma extrapola a ideia de simples repasse de conhecimen- tos. O trabalho docente, contudo, não é neutro. Ele envolve, antes de mais nada, uma dimensão política importante e da qual os educadores não podem se esqui- var sob pena de favorecer a manutenção das relações de dominação presentes na sociedade. Gadotti (1988 apud Alves, 2008) ressalta o caráter político no edu- cativo ao defender que o pedagogo fa- zendo prática social, está exercendo seu papel específico dentro da sociedade, que é o de vincular o ato educativo e o ato político, a teoria e a prática da trans- formação. 8 99 De acordo com Alves (2008), a Educa- ção Física é uma prática educativa, car- rega de modo orgânico um sentido polí- tico, mas no contexto escolar, as práticas desenvolvidas vão além da mera ação individualizada dos sujeitosenvolvidos, pois, as referidas práticas delineiam um projeto em curso e esse guarda estreita relação com a perspectiva que a escola organiza globalmente seu trabalho pe- dagógico. 2.1 Definições, embasamen- to teórico e concepções De acordo com Borges (2001) “Educa- ção Física é um segmento da educação que utiliza as atividades físicas, orientadas por processos didáticos e pedagógicos, com a finalidade do desenvolvimento integral do homem, consciente de si mesmo e do mundo que o cerca.” Segundo as concepções, ela é vista dentro de abordagens igualmente diferenciadas, ou seja, desenvolvimentistas, construtivista- -interacionista, crítico-superadora, sistêmi- ca ou plural. Na abordagem construtivista-interacio- nista, que se opõem ao mecanicismo, res- peitando as experiências vividas pelos alu- nos e as diferenças individuais, resgatando a cultura da brincadeira e jogos propostos pelos alunos, objetiva ao aluno construir seu conhecimento a partir da interação com o meio, resolvendo problemas. A construção do conhecimento se dá a partir da interação do sujeito com o mundo. Existem algumas críticas à abordagem construtivista-interacionista, como por exemplo, que a educação física poderia per- der sua identidade própria ao servir de base para outras disciplinas e que os conteúdos podem não ter relação com a prática do mo- vimento em si. De acordo com Darido (2001, p. 9) dentro da perspectiva construtivista a intenção é a construção do conhecimento a partir da in- teração do sujeito com o mundo, e para cada criança a construção desse conhecimento exige elaboração, ou seja, uma ação sobre o mundo. Nesta concepção, a aquisição do co- nhecimento é um processo construído pelo indivíduo durante toda a sua vida, não es- tando pronto ao nascer nem sendo adquiri- do passivamente de acordo com as pressões do meio. Conhecer é sempre uma ação que implica em esquemas de assimilação e aco- modação, num processo de constante reor- ganização. Segundo o mesmo autor, citado anterior- mente, a principal vantagem dessa abor- dagem é a de que ela possibilita uma maior integração com uma proposta pedagógica ampla e integrada da Educação Física, nos primeiros anos de educação formal. Porém, desconsidera a questão da especificidade da Educação Física. Nesta visão o que pode ocorrer com certa frequência, é que conte- údos que não tem relação com a prática do movimento em si poderiam ser aceitos para atingir objetivos que não consideram a espe- cificidade do objeto que estaria em torno do eixo corpo/movimento. Quanto ao modelo Desenvolvimentista, que tem como objetivo oferecer ao aluno condições de desenvolver comportamento motor através da diversidade e complexida- de de movimentos, é dirigido para alunos na faixa de 4 a 14 anos. Acredita que a melhor capacidade de controle e movimento contri- bui no conhecimento próprio e aplicação do movimento. No Brasil, a obra de Tani é a mais representativa: “Educação Física Escolar: 10 11 fundamentos de uma abordagem desenvol- vimentista” (TANI et al, 2005). A proposta elaborada por eles é uma abordagem dentre várias possíveis, e busca nos processos de aprendizagem e desenvol- vimento uma fundamentação para a Educa- ção Física escolar. Segundo eles é uma ten- tativa de caracterizar a progressão normal do crescimento físico, do desenvolvimento fisiológico, motor, cognitivo e afetivo-social, na aprendizagem motora e, em função des- sas características, sugerir aspectos ou ele- mentos relevantes para a estruturação da Educação Física Escolar. Os autores dessa abordagem defendem a ideia de que o movimento é o principal meio e fim da Educação Física, propugnando a espe- cificidade do seu objeto. Em suma, uma aula de Educação Física deve privilegiar a apren- dizagem do movimento, embora possam ocorrer outras aprendizagens em decor- rência da prática das habilidades motoras. Aliás, habilidade motora é um dos conceitos mais importantes dentro dessa abordagem, pois é através dela que os seres humanos se adaptam aos problemas do cotidiano, resol- vendo problemas motores. Os conteúdos devem ser desenvolvidos segundo uma ordem de habilidades, da mais simples, que são as habilidades básicas, para as mais complexas, as habilidades específi- cas. As habilidades básicas podem ser clas- sificadas em habilidades locomotoras (andar, correr, saltar, saltitar), manipulativas (arre- messar, chutar, rebater, receber) e de esta- bilização (girar, flexionar, realizar posições invertidas). Sendo que os movimentos espe- cíficos são mais influenciados pela cultura e estão relacionados à prática dos esportes, do jogo, da dança e, também, das atividades industriais. Com relação às críticas que sofrem, temos as que não se referem ao contexto sociocul- tural e o desenvolvimento dos domínios afe- tivo, cognitivo e sociais são feitos ocasional- mente e não intencionalmente. De acordo com Dario (2001), existe uma abordagem considerada mais uma vertente, a qual defende a educação física escolar den- tro de uma matriz biológica, conhecida por Modelo da Saúde Renovada. Essa vertente é representada por Nahas (1997) e Guedes & Guedes (1996). É importante ressaltar que ao longo do século XX, foram muitos os autores que defenderam a Educação Física numa perspectiva biológica. No entanto, é a partir de meados da década de 90, que essa vertente se torna mais visível. Guedes & Guedes (1996) apud Darido (2001), por exemplo, ressaltam que uma das principais preocupações da comunida- de científica nas áreas da Educação Física e da saúde pública é levantar alternativas que possam auxiliar na tentativa de rever- ter a elevada incidência de distúrbios orgâ- nicos associados à falta de atividade física. Os autores, baseados em diferentes traba- lhos americanos, entendem que as práticas de atividade física vivenciadas na infância e adolescência se caracterizam como impor- tantes atributos no desenvolvimento de atitudes, habilidades e hábitos que podem auxiliar na adoção de um estilo de vida ativo fisicamente na idade adulta. E como propos- ta sugerem a redefinição do papel dos pro- gramas de Educação Física na escola, agora como meio de promoção da saúde, ou a indi- cação para um estilo de vida ativa proposta por Nahas (1997). De acordo com Darido (2001), ela é deno- minada de biológica renovada porque incor- pora princípios e cuidados já consagrados em 10 11 outras abordagens com enfoque mais socio- cultural. Nahas (1997), por exemplo, sugere que o objetivo da Educação Física na escola de ensino médio é ensinar os conceitos bá- sicos da relação entre atividade física, apti- dão física e saúde. O autor observa que esta perspectiva procura atender a todos os alu- nos, principalmente os que mais necessitam, sedentários, baixa aptidão física, obesos e portadores de deficiência. Os defensores dessa abordagem criticam os professores que apenas trabalham as modalidades esportivas tradicionais como voleibol, basquetebol, futebol, isto porque os alunos ficam impedidos de ter acesso às atividades esportivas alternativas que po- dem encontrar maior campo fora do ambien- te escolar e também consideram que as ati- vidades esportivas são menos interessantes para a promoção da saúde, devido a dificul- dade no alcance das adaptações fisiológicas e segundo porque não prediz sua prática ao longo de toda a vida. Segundo Darido (2001), para eles, a ado- ção de diversas estratégias de ensino con- templa não apenas os aspectos práticos, mas também, a abordagem de conceitos e princípios teóricos que proporcionam subsí- dios aos escolares, no sentido de tomarem decisões quanto à adoção de hábitos saudá- veis de atividade física ao longo de toda vida. A abordagem crítico-superadora levanta questões de poder,interesse, esforço e con- testação, uma vez que a educação deve ver- sar não somente sobre questões de como ensinar, mas também sobre como se adquiri esses conhecimentos, valorizando a ques- tão da contextualização dos fatos e do res- gate histórico. Para Darido (2001), essa percepção pos- sibilita a compreensão, por parte do aluno, de que a produção da humanidade expressa uma determinada fase e que houve mudan- ças ao longo do tempo. Essa reflexão pe- dagógica é compreendida como sendo um projeto político-pedagógico. Político porque encaminha propostas de intervenção em de- terminada direção e pedagógico no sentido de que possibilita uma reflexão sobre a ação dos homens na realidade, explicitando suas determinações. Segundo o mesmo autor, quanto à sele- ção de conteúdos para as aulas de Educação Física propõem que se considere a relevân- cia social dos conteúdos, sua contempora- neidade e sua adequação às características sócio-cognitivas dos alunos. Enquanto orga- nização do currículo, ressaltam que é preciso fazer com que o aluno confronte os conhe- cimentos do senso comum com o conheci- mento científico, para ampliar o seu acervo de conhecimento. Além disso, é sugerido que os conteúdos selecionados para as aulas de Educação Física devam propiciar a leitura da realidade do ponto de vista da classe tra- balhadora. Nessa visão, deve-se, também, evitar o ensino por etapas e adotar a simultaneidade na transmissão dos conteúdos, ou seja, os mesmos conteúdos devem ser trabalhados de maneira mais aprofundada ao longo das séries, sem a visão de pré-requisitos. Segundo Dario (2001), uma das principais obras já publicadas dentro da perspectiva crítico emancipatória no escopo da Educação Física é de autoria do Professor Elenor Kunz e intitulada “Transformação didático-pedagó- gica do esporte”, inspirada, especialmente, nos pressupostos da teoria crítica da escola de Frankfurt. Neste livro, o autor busca apre- sentar uma reflexão sobre as possibilidades de ensinar os esportes pela sua transforma- 12 13 ção didático-pedagógica, de tal modo que a Educação contribua para a reflexão crítica e emancipatória das crianças e jovens. Para o autor, o ensino na concepção crítico-eman- cipatória deve ser um ensino de libertação de falsas ilusões, de falsos interesses e de- sejos, criados e construídos nos alunos pela visão de mundo que apresentam a partir do conhecimento. O ensino escolar necessita, dessa forma, basear-se numa concepção crí- tica, pois é pelo questionamento crítico que chega a compreender a estrutura autoritária dos processos institucionalizados da socie- dade que formam as convicções, interesses e desejos. Kunz (1994 apud Darido, 2001) ao longo do seu trabalho tece algumas críticas à pro- posta crítico-superadora e apresenta algu- mas de suas limitações. A primeira delas diz respeito a deficiência das práticas efetiva- mente testadas na realidade concreta, que questionava, criticava e dava a entender que tudo estava errado na Educação Física e nos esportes, sem, no entanto, fornecer elementos para uma mudança ao nível de prática. Assim, o autor apresenta os resul- tados do desenvolvimento de uma proposta prática em algumas escolas, dentro de uma nova concepção de ensino para modalidades esportivas, baseada na perspectiva crítico- -emancipatória. O autor relata que a abordagem crítico-su- peradora, na questão metodológica para o ensino dos esportes, não apresenta elemen- tos que norteiam o ensino, considerando a dimensão do “conhecimento” que os alunos precisam adquirir para criticar o esporte e para compreendê-lo em relação a seus valo- res, normas sociais e culturais. Segundo Darido (2001), do ponto de vis- ta das orientações didáticas, o papel do pro- fessor na concepção crítico-emancipatória confronta, num primeiro momento, o aluno com a realidade do ensino, o que denominou de transcendência de limites. Concretamen- te, a forma de ensinar pela transparência de limites pressupõe três fases: na primeira, os alunos descobrem, pela própria experi- ência manipulativa, as formas e meios para uma participação bem sucedida em ativida- des de movimentos e jogos; devem também manifestar, pela linguagem ou representa- ção cênica, o que experimentaram e o que aprenderam numa forma de exposição; e por último, os alunos devem aprender a pergun- tar e questionar sobre suas aprendizagens e descobertas, com a finalidade de entender o significado cultural da aprendizagem. 2.2 Seus objetivos Segundo Batista (2003) o objetivo da educação física consiste em desenvolver no indivíduo, a coordenação de uma forma ge- ral, através de jogos recreativos, que levem a assimilação de tudo que acontece a sua vol- ta. Os objetivos englobam o aluno como um todo, por isso não basta apenas que ele de- senvolva habilidades motoras, ele também precisa aprender a desenvolver–se social- mente, sabendo utilizar regras de jogos co- letivamente e percebendo que o adversário não é seu inimigo. De acordo com Caparroz (1997), a Educa- ção Física escolar pode ser vista e entendida de duas maneiras, ou melhor, pode ser de- finida por duas teorias. Na primeira, a Edu- cação Física é vista somente como parte da matriz curricular escolar, ou seja, é uma disci- plina do ensino escolar. Na segunda, vai além da prática escolar e vê a Educação Física in- tegrada às práticas sociais, pois abrange não só a escola, mas também o lazer, as práticas 12 13 desportivas, terapêuticas entre outras. Essa segunda linha de raciocínio entende que mesmo sendo ministrada no ambiente escolar, sua proposta é transmitir além dos conteúdos necessários, a ludicidade, o pra- zer pelo movimento humano, pelo corpo físi- co e mental. Soares (1992) apresenta como Educação Física no meio escolar todas as formas de expressões corporais como jogo, esporte, dança, que são áreas do conhecimento que se entende por cultura corporal. Enfim, a educação física escolar visa a for- mação integral dos indivíduos, corpo, mente e espírito, que tem por finalidade o desen- volvimento pleno da personalidade, ou seja, ela vem integrar–se à educação intelectual e moral. 2.3 O que dizem os Parâme- tros Curriculares Nacionais O Ministério da Educação e do Desporto, através da Secretaria de Ensino Fundamen- tal, inspirado no modelo educacional espa- nhol, mobilizou a partir de 1994 um grupo de pesquisadores e professores no sentido de elaborar os Parâmetros Curriculares Nacio- nais (PCNs). Segundo Brasil (1998), em 1997, foram lançados os documentos referentes aos 1º e 2º ciclos (1ª a 4ª séries do Ensino Fundamen- tal) e no ano de 1998, os relativos aos 3º e 4º ciclos (5ª a 8ª séries), incluindo um documen- to específico para a área da Educação Física. Segundo Darido (2001), de acordo com o grupo que organizou os Parâmetros Cur- riculares Nacionais, estes documentos têm como função primordial subsidiar a elabo- ração ou a versão curricular dos estados e municípios, dialogando com as propostas e experiências já existentes, incentivando a discussão pedagógica interna às escolas e a elaboração de projetos educativos, assim como, servir de material de reflexão para a prática de professores. De acordo com o mesmo autor citado aci- ma, as propostas elencadas na área de Edu- cação Física para os terceiros e quartos ciclos apresentam alguns avanços e possibilidades importantes para a disciplina, embora, mui- tas dessas ideias já estivessem presentes no trabalho de alguns autores brasileiros (BET- TI, M.,1991; BETTI, M., 1994; 1995; COLETI- VO DE AUTORES, 1992, só para citar alguns), em discussões acadêmicas, bem como no trabalho de alguns professores da rede es- colar de ensino. Porém, Darido concorda que o texto auxiliou na organização desses co- nhecimentos,articulando-os nas suas várias dimensões. De acordo com Brasil (1998), o eixo norteador – a cidadania – nos leva a entender que a Educação Física na es- cola é responsável pela formação de alunos que sejam capazes de: Participar de atividades corporais ado- tando atitudes de respeito mútuo, dignidade e solidariedade; Conhecer, valorizar, respeitar e desfru- tar da pluralidade de manifestações da cul- tura corporal; Reconhecer-se como elemento inte- grante do ambiente, adotando hábitos sau- dáveis, relacionando-os com os efeitos so- bre a própria saúde e de melhoria da saúde coletiva; Conhecer a diversidade de padrões de saúde, beleza e desempenho que existem nos diferentes grupos sociais, compreen- dendo sua inserção dentro da cultura em 14 15 que são produzidos, analisando criticamente os padrões divulgados pela mídia; Reivindicar, organizar e interferir no es- paço de forma autônoma, bem como reivin- dicar locais adequados para promover ativi- dades corporais de lazer. Três aspectos da proposta para a Educa- ção Física representam aspectos relevantes a serem buscados dentro de um projeto de melhoria da qualidade das aulas, quais se- jam: princípio da inclusão, as dimensões dos conteúdos (atitudinais, conceituais e proce- dimentais) e os temas transversais. Para Darido (2001), essa proposta desta- ca uma Educação Física na escola dirigida a todos os alunos, sem discriminação, ressal- tando também a importância da articulação entre o aprender a fazer, a saber por quê está fazendo e como relacionar-se neste fazer, explicitando as dimensões dos conte- údos, e propõe um relacionamento das ati- vidades da Educação Física com os grandes problemas da sociedade brasileira, sem, no entanto, perder de vista o seu papel de inte- grar o cidadão na esfera da cultura corporal. Sem dúvida, tais aspectos se constituem em enormes desafios para os profissionais da área. 2.4 Os conteúdos Darido (2001) ao falar dos conteúdos, da sua dimensão e o papel no interior da escola, esclarece de imediato que o conceito de con- teúdo é mal utilizado e mal compreendido, tanto que é comum ouvir que tal disciplina tem muito conteúdo. Na realidade, os con- teúdos formam a base objetiva da instrução- -conhecimento sistematizado. Tanto para Coll et al (2000), Libâneo (1994) quanto para Zaballa (1998), citados por Darido (2001) os conteúdos de ensino são o conjunto de conhecimentos, habilida- des, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos na sua prática de vida. Desta forma, para Darido (2001), quando nos referimos a conteúdos, estamos englo- bando conceitos, ideias, fatos, processos, princípios, leis científicas, regras, habilidades cognoscitivas, modos de atividade, métodos de compreensão e aplicação, hábitos de es- tudos, de trabalho, de lazer e de convivência social, valores, convicções e atitudes. Em relação a sua dimensão na escola, Darido nos diz que ao longo de sua história, a Educação Física priorizou os conteúdos numa dimensão quase que exclusivamente procedimental, o saber fazer e não o saber sobre a cultura corporal ou como se deve ser. Embora, esta última categoria aparecesse na forma do currículo oculto. Para a Educação Física, não basta ensi- nar aos alunos a técnica dos movimentos, as habilidades básicas ou, mesmo, as capacida- des físicas. É preciso ir além e ensinar o con- texto em que se apresentam as habilidades ensinadas, integrando o aluno na esfera da sua cultura corporal. Mas, a Educação Física na escola também não pode se transformar num discurso sobre a cultura corporal e sim uma ação pedagógica com ela. O autor argu- menta que a linguagem deve auxiliar o aluno a compreender o seu sentir corporal, o seu relacionar-se com os outros e com as institui- ções sociais de práticas corporais. Assim, dentro de uma perspectiva de educação e também de Educação Física seria fundamental, considerar os procedimentos, os fatos e conceitos, as atitudes e os valores como conteúdos, todos no mesmo nível de 14 15 importância. Segundo Darido (2001, p.15), quanto à or- ganização dos conteúdos, essa se refere às relações e a forma de vincular os diferentes conteúdos de aprendizagem que formam as unidades didáticas. Na verdade, quanto mais relacionados entre si, maior a potencialidade de uso e compreensão. No quadro a seguir, Darido (2001) apre- senta os principais conteúdos sugeridos por cada uma das abordagens nas dimensões procedimentais, atitudinais e conceituais. 16 17 Na Educação Física, as tendências crí- tico-superadora e aquelas propostas pe- los Parâmetros Curriculares Nacionais se manifestaram, favoravelmente, na busca de interfaces dos conteúdos da Educa- ção Física com os grandes problemas da sociedade brasileira. Ainda sobre os critérios que nor- teiam a seleção de conteúdos por parte do professor temos, segundo Silva (1966), os seguintes: A possibilidade dos professores per- mitirem o crescimento pessoal dos alu- nos e, ao mesmo tempo, a consideração a respeito da sua relevância social, ou seja, a consideração a respeito de quanto um conteúdo é capaz de contribuir para a promoção de uma convivência social responsável, digna, justa, pautada pelo diálogo, solidariedade e respeito mútuo. Entende-se que, ao longo do ensino fundamental, os conteúdos podem ser organizados sequencialmente conside- rando que, nesse processo, os alunos ampliam a percepção de si mesmos e do meio circundante através da experiência motora individual, em pequenos e gran- des grupos e em relação a diversos espa- ços, ritmos e objetos. Nessa ampliação de percepção, é pos- sível selecionar conteúdos que sejam relativos ao contexto atual vivido pelos alunos e ampliar sua abrangência através da referência a outros contextos histó- ricos ou socioculturais. Por exemplo: ao trabalhar uma escalada sobre bancos in- clinados, os alunos podem executar sua movimentação individualmente, ou com- binando sua movimentação ao modelo e a um ritmo marcado por um companheiro, ou escalar ao mesmo tempo em que ma- nuseiam um bastão e, a partir desta ati- vidade, o professor pode dialogar com a classe comentando as alterações do es- paço urbano através do tempo que, pelo excesso de construções, eliminou os es- paços naturais onde as escaladas pode- riam ser realizadas a critério dos alunos. As características dos alunos no que tange à sua capacidade de compreensão de fatos, conceitos e princípios (aspecto cognitivo), sua capacidade de movimen- tar-se (aspecto motor), como também a capacidade de relacionar-se a outras pessoas (aspecto afetivo-social). No quadro abaixo, sintetizado por Sil- va (1996, p. 67), estão os conteúdos da área de Educação Física remetendo às outras áreas e conteúdos de maneira a percebermos a importância da seleção e troca entre ambos. 16 17 18 19 2.5 A educação física em uma perspectiva transfor- madora Segundo Mello (2006), a educação fí- sica, como parte de um sistema maior de Educação, está sujeita às influências de diferentes conotações que atuam nos seus diversos níveis e medidas que fazem fluir esse sistema de forma adequada po- dendo atingir a educação física escolar, mas, da mesma forma, ela está sujeita à problemas de diferentes dimensões. No que diz respeito à educação pública, encontramos eficiências e deficiências. Em relação às deficiências, temos bai- xo percentual orçamentário destinado à Educação, inoperância de certos setores administrativos; defasagens curriculares nos cursos de formação face ao contexto sociocultural onde os profissionais atu- arão; a baixa remuneração dos mesmos e suas implicaçõesno trabalho e, ainda, a incapacidade de atender adequada- mente à crescente demanda do número de crianças que atingem a idade escolar, gerando, evidentemente, superlotação em algumas classes. Essas são apenas algumas deficiências gerais, não entra- remos aqui nos pormenores, o que creio faz parte de uma outra análise, voltada para educação geral. Nosso interesse é ponderar sobre a educação física escolar. Por outro lado, não bastam recursos materiais ou físicos. Eles sozinhos não educam ninguém a não ser o próprio ego- ísmo. Por trás dos materiais, precisamos de profissionais capazes de utilizá-los, explorá-los e, principalmente, estar com- prometidos com sua práxis educativa. Eles precisam pensar e buscar o desen- volvimento global dos seus alunos. Numa perspectiva transformadora, os trabalhos da educação física escolar não devem ser isolados do contexto histórico e cultural, em suas implicações sociais, políticas e econômicas. Na atualidade, segundo Mello (2006), a educação física escolar pode ser caracterizada pela busca de: 1. Participação dos educandos; 2. Trabalho com as funções psicomo- toras e as qualidades físicas; 3. Respeito à individualidade da crian- ça; 4. Incentivo à pesquisa, observação, exercitando a reflexão e a expressão crí- tica; 5. Desestímulo à competição e o trei- namento em idade precoce; 6. Relacionar sempre a educação física com as demais disciplinas; 7. Estimular as atitudes favoráveis à prática permanente das atividades físi- cas; 8. Valorizar a cultura popular. 2.6 Enquanto promotora de saúde Segundo Guedes (2000), a Educação Física e a saúde sempre tiveram uma re- lação histórica, influenciada ora por ten- dência militar, ora por tendência médica ou desportiva. Quanto à promoção da saúde, a influência médica é a que mais aparece no contexto da Educação Física, pois se dá através da aptidão física, base- 18 19 ando-se principalmente nos benefícios orgânicos causados pelo exercício, vi- sando à saúde. Foi através do desenvol- vimento da Fisiologia e suas importantes descobertas, principalmente em relação aos benefícios dos exercícios físicos para a saúde, que a Educação Física se tornou alvo dos interesses da Medicina e das ins- tituições educacionais, devido a sua im- portância para a sociedade norte-ameri- cana. De acordo com Ferreira (2001), no iní- cio dos anos 80, surgiu nos países como a Grã-Bretanha, Canadá, Estados Unidos e Austrália um movimento chamado “Apti- dão Física Relacionada à Saúde – AFRS”, o qual tinha como proposta contribuir na formulação das Diretrizes Curriculares Nacionais destes países, definindo que o currículo nacional de educação física ob- jetivasse principalmente a aptidão física relacionada à saúde. A ideia era oferecer aos alunos conhecimentos dos benefí- cios da prática regular do exercício físi- co, além de como os mesmos benefícios podem ser alcançados e mantidos. Tal proposta tinha como intenção que a edu- cação física escolar, segundo Ferreira (2001, p. 44), criasse “nos alunos o pra- zer e o gosto pelo exercício e pelo des- porto de forma a levá-los a adotar um es- tilo de vida saudável e ativa”, como meio de garantir a saúde e a qualidade de vida das pessoas. Segundo Carvalho (2001) apud Mez- zaroba (2002), a promoção à saúde sob a perspectiva da Saúde Pública considera, além do individual, o coletivo. Quanto ao individual, prega que são as pessoas que devem buscar e selecionar as atividades que elas gostam, ou seja, que as mes- mas avaliem seus níveis de aptidão e, ao mesmo tempo, resolvam seus problemas de aptidão. Assim, espera-se que no de- correr da sua vida, o indivíduo seja capaz de adquirir uma autonomia quanto a ati- vidade física. Eis a grande crítica a esse modelo: supõe-se que todos os indiví- duos são iguais, e, assim, possam adotar os mesmos comportamentos, desconsi- derando-se toda a realidade socioeco- nômica, principalmente num país como o Brasil, com um sistema de saúde ainda muito precário. Não podemos também homogeneizar o físico, o biológico e o fi- siológico, pois se têm cargas hereditárias variadas, pessoas que vivem nos mais va- riados ambientes, que se alimentam de forma diferenciada (alguns bem, outros mal), que têm dificuldades em encontrar tempo para a prática de atividade física, de realidades econômicas e histórias de vida diferentes, enfim, condições de vida que determinam mudanças de natureza biológica. No Brasil, de acordo com Ferreira (2001), a proposta de Educação Física escolar que trabalha com a promoção da saúde serve dos mesmos métodos uti- lizados nos países de origem dessa pro- posta, ou seja, atribui-se à Educação Fí- sica um compromisso com a promoção à saúde, o qual deve ser de “educar” as pessoas a aderirem à prática regular de exercícios físicos e com isso, torná-las pessoas com estilo de vida ativo e hábi- tos de vida saudáveis. Isso também não significa, conforme as bases da propos- ta, que deva ser concretizada através da prática de desportos, nem que os mes- mos devam ser excluídos deste proces- so, apenas redimensioná-los na esfera da educação física escolar. Pode-se con- siderar com isso um avanço naquilo que é 20 2120 oferecido na Educação Física Escolar bra- sileira, a qual, ultimamente, utilizou-se dos esportes (basquete, handebol, vôlei e futebol) como conteúdo a ser dado aos alunos. Segundo Ferreira (2001), aqui no Bra- sil, o principal agente no binômio ativi- dade física e saúde também é a aptidão física, e conteúdos como o exercício, o desporto e a aptidão física aparecem como essenciais da Educação Física. Bus- ca-se, através desses conteúdos, que os alunos pratiquem alguma atividade físi- ca, adotem um estilo de vida saudável, e gradualmente, adquiram autonomia (mesmo que mínima) para “praticar essas atividades por conta própria” (FERREIRA, 2001, p.45). Para isso, acredita-se que transmis- são de informações quanto à fisiologia, biomecânica, nutrição e anatomia será fundamental para a compreensão des- te processo por parte dos alunos. Este excessivo poder que o indivíduo tem em alterar seu próprio estilo de vida acaba atribuindo a ele uma responsabilidade que na verdade seria do Estado, o qual deveria oferecer condições justas e dig- nas a seus cidadãos, para que esses sou- bessem o verdadeiro sentido do que é ser saudável ou ter “qualidade de vida”. En- tende-se por “verdadeiro sentido” con- dições de trabalho e de saúde básicas, renda, habitação, acesso à educação, ao lazer, alimentação adequada etc. De for- ma alguma se desconsidera o verdadeiro papel do indivíduo em ter uma vida sau- dável, apenas o que se observa é que ele é o único responsável por tais mudanças, “ignorando” todo o contexto socioeconô- mico de um país. Conforme dados do PNUD (1998) apud PALMA (2001, p.37) apud MEZZAROBA (2001), ao se utilizar de um modelo ame- ricano ou canadense como referência (“importar”), ignora-se que enquanto o Canadá aparece como o primeiro país em desenvolvimento humano e os Estados Unidos em quarto, o Brasil se apresenta no sexagésimo segundo lugar. Para Ferreira (2001), a grande tarefa da Educação Física Escolar, então, é unir os conhecimentos dos determinantes sociais, econômicos, políticos e ambien- tais (como a história, ecologia, política e sociologia) aos seus conteúdos (os da área biológica, como a anatomia, fisiolo- gia, nutrição e biomecânica), com o obje- tivo de tornar as pessoas autônomas não só para a prática de exercícios físicos no decorrer de suas vidas, mas também com conhecimento para discernir sobre a rea- lidade em que vivem. Além do mais, a Educação Física brasi- leira também busca uma melhor identifi- cação quanto àquilo que ela tem a ofere- cer aos seus alunos,enquanto disciplina escolar, sem perder de vista o contexto real do mundo. Na sua relação com a pro- moção da saúde, a educação física não deve desconsiderar a importância da atividade física (aptidão física), mas não deve fazer com que a prática de exercí- cios físicos seja apontada como a solução para os demais problemas de saúde. Ela também deve aproveitar esse momento histórico para rever seu papel perante a sociedade, sem esquecer de informar às pessoas que, segundo Mazzaroba (2001), a “melhoria da qualidade de vida depende também das condições básicas de saúde, habitação, renda, trabalho, alimentação, educação etc.” 20 2121 UNIDADE 3 - Os campos de abordagem 3.1 Na educação infantil De acordo com Quintão et al (2008), a aprendizagem e o desenvolvimento estão inter-relacionados desde que a criança passa a ter contato com o mundo. Na interação com o meio social e físico a criança passa a se desenvolver de forma mais abrangente e eficiente. Isso signifi- ca que a partir do envolvimento com seu meio social são desencadeados diversos processos internos de desenvolvimento que permitirão um novo patamar de de- senvolvimento. A criança, por meio da observação, imi- tação e experimentação das instruções recebidas de pessoas mais experientes, vivencia diversas experiências físicas e culturais, construindo, dessa forma, um conhecimento a respeito do mundo que a cerca. Segundo Quintão et al (2008), para que esses conceitos sejam desenvolvi- dos e incutidos no aprendiz, o meio am- biente tem que ser desafiador, exigente, para poder sempre estimular o intelecto e a ação motora desta pessoa. No entan- to, não basta apenas oferecer estímulos para que a criança se desenvolva normal- mente, a eficácia da estimulação depen- de também do contexto afetivo em que esse estímulo se insere, essa ação está diretamente ligada ao relacionamento entre o estimulador e a criança. Portanto, o papel da escola no âmbito educacional deve ser o de sistematizar esses estímu- los, envolvendo-os em um clima afetivo que serve para transmitir valores, atitu- des e conhecimentos que visam o desen- volvimento integral do ser humano. O principal instrumento da educação física é o movimento, por ser o denomi- nador comum de diversos campos sen- soriais, assim, o desenvolvimento do ser humano se dá a partir da integração entre a motricidade, a emoção e o pensamento. No caso específico da educação física, o profissional dessa área possui ferramen- tas valiosas para provocar estímulos que levem a esse desenvolvimento de forma bastante prazerosa: a brincadeira, o jogo e o esporte. De acordo com Rego (1995, p.81) apud Quintão et al (2008), a partir da brinca- deira e do jogo, a criança utiliza a imagi- nação que “é um modo de funcionamen- to psicológico especificamente humano, que não está presente nos animais nem na criança muito pequena”, pois a par- tir da utilização da imaginação, a criança deixa de levar em conta as característi- cas reais do objeto, se detendo no signi- ficado determinado pela brincadeira. Se- gundo o mesmo autor: Mesmo havendo uma significati- va distância entre o comportamento na vida real e o comportamento no brinquedo, a atuação no mundo ima- ginário e o estabelecimento de regras a serem seguidas criam uma zona de desenvolvimento proximal, na medida em que impulsionam conceitos e pro- cessos em desenvolvimento” (REGO, 1995, p. 83 apud QUINTÃO et al, 2008). Esse impulso dado aos “conceitos e processos em desenvolvimento” deve- 22 23 rá ser fornecido pela educação física ao propiciar jogos e brincadeiras que, inten- cionalmente, estimulem a imaginação e a criatividade. Além disso, o processo de desenvolvimento dos indivíduos tem relação direta com o seu ambiente so- ciocultural e eles não se desenvolveriam plenamente sem o suporte de outros in- divíduos da mesma espécie. Dessa forma, segundo Quintão et al (2008), percebe-se que a escola, e nes- te caso específico a educação física, tem um papel fundamental no aprendizado, e consequentemente no desenvolvimento dos indivíduos, desde que estabeleça si- tuações desafiadoras para seus alunos. A interferência de outras pessoas (professor e outros alunos) é fundamen- tal para o desenvolvimento do indivíduo. O papel do professor deve ser o de inter- ventor intencional, estimulando o aluno a progredir em seus conhecimentos e habilidades através de propostas desa- fiadoras que o leve a buscar soluções, por intermédio da sua própria vivência e das relações interpessoais. Isto não deve significar uma educação autoritária, mas sim, uma educação que possibilite ao alu- no, por meio de estratégias estabeleci- das pelo professor, construir o seu pró- prio conhecimento, com a reestruturação e reelaboração dos significados que são transmitidos ao indivíduo pelo seu meio sociocultural. Qualquer processo de ensino para ser eficiente deve levar em conta o nível de desenvolvimento real da criança e o seu nível de desenvolvimento potencial ade- quado a sua faixa etária, conhecimentos e habilidades que já possui. De acordo com Quintão et al (2008), o profissional de educação física ao traba- lhar na educação infantil deve conhecer os estágios do desenvolvimento des- sa fase para proporcionar os estímulos adequados a cada etapa. Agindo dessa forma, o desenvolvimento será mais har- mônico no campo motor, cognitivo e afe- tivo-social, trabalhando assim, o ser na sua forma integral. Para o mesmo autor, citado anterior- mente, pela importância que a infância representa na formação da personali- dade do indivíduo, a prática pedagógica deve levar a uma organização didática, modificando a visão de aulas de educa- ção física de embasamentos estritamen- te empíricos, para uma visão mais cientí- fica, evitando-se um choque entre teoria e prática o que poderá refletir negativa- mente na formação de nossos jovens. 3.2 No Ensino Fundamental Segundo Bezerra, Ferreira Filho e Feli- ciano (2006, p. 134), ao entrar na primei- ra série, normalmente aos seis anos de idade, a criança já tem desenvolvido sua noção de esquema corporal, reconhece as partes do corpo e relaciona-se bem com objetos. Nesta fase ela está apta a se envolver em uma intensa gama de ati- vidades, tem apreço pela reprodução e imitação de ações e está aberta a apren- dizagem escolar, porque seus interesses tornam-se mais sistemáticos. Para Bee (1996) citado por Bezerra, Ferreira Filho e Feliciano (2006), na pri- meira série, a criança entra num estágio de desenvolvimento cognitivo coeren- te, utiliza-se do raciocínio lógico sendo capaz de perceber o mundo que a cerca. 22 23 Nesta época, começa a ter a possibilida- de do pensamento abstrato, sua forma- ção de consciência contém fatos de co- nhecimentos, sujeitos e objetos, posse e elaboração das ideias. Gallahue (2003) citado por Bezerra, Ferreira Filho e Feliciano (2006) ressal- ta a habilidade crescente de expressar pensamentos e ideias. Seu autoconceito está se desenvolvendo rapidamente e necessita de experiências bem orienta- das e encorajamento positivo. A criança da segunda série, com idade aproximada de 8 anos, possui um grande desejo de crescer e manifesta interesse por sua anatomia interna, na parte moto- ra, a criança está apta a executar tarefas com ritmo mais acelerado, gosta de parti- cipar de atividades que exijam força, agi- lidade, velocidade e destreza. Na terceira série, por volta dos nove anos de idade a criança torna-se mais acessível e mais responsável sendo capaz de planejar e executar. De acordo com Meinel (1984) apud Be- zerra, Ferreira Filho e Feliciano (2006), o rápido aumento da habilidade de apren- dizagem motora é especialmente visto no terceiro ano escolar, uma vez que está ligadoa requisitos como o aumento de capacidade de concentração, capacidade de percepção global analítica e detalha- da e a capacidade de compreensão ver- bal e mental da realidade. Acrescenta-se a isso, seu progresso no desenvolvimen- to físico e sua experiência de movimen- tos, o desenvolvimento está equilibrado com o desenvolvimento intelectual, pois é uma fase de tanto querer fazer como aprender. É nesta fase que a criança atin- ge a maturidade do sistema motor, sendo capaz de analisar seus movimentos tanto antes como durante a ação e também são persistentes facilitando a aprendizagem de gestos específicos. De acordo com Bezerra, Ferreira Filho e Feliciano (2006, p. 134), aos dez anos a criança possui um grande poder de as- similação, gosta de memorizar, identifi- car, classificar, reconhecer e sente muito prazer nas atividades físicas, havendo um grande salto de evolução das estru- turas anatômicas e nervosas. Nesta fase, a criança possui um domínio psicomotor equivalente ao adulto, seu domínio mo- tor global é bem favorecido pela facilida- de de assimilação e disponibilidade mo- tora, favorecendo a prática de atividades mais complexas que envolvem desloca- mentos, precisão e equilíbrio. Segundo Silva (1996), nas séries ini- ciais do ensino fundamental, o professor deve privilegiar conteúdos que permitam aos alunos a experimentação das capa- cidades do próprio corpo, possibilitan- do-lhes o conhecimento da organização e funcionamento corporais e da sua re- lação com o espaço, o tempo, outros ob- jetos e outras pessoas. O conhecimento das atividades motoras como forma de promoção da saúde e auxiliar na busca de uma melhor qualidade de vida deve ser introduzido desde o início da escolarida- de, sendo ampliado, progressivamente; por exemplo, nas séries iniciais, o aluno é levado a constatar a existência de órgãos responsáveis pela circulação sanguínea e respiração, deve-se, até atingir o término do ensino fundamental, utilizar a infor- mação a respeito do número de batimen- tos por minuto do próprio coração como uma forma de controlar a intensidade de 24 25 seu exercício físico. Da mesma forma, nas séries iniciais, deve-se conhecer a existência de ali- mentos com características e funções diferentes (construtores, energéticos e reguladores) para, posteriormente, ser capaz de adequar uma dieta ao seu ritmo de atividade corporal diário. De acordo com Silva (1996, p. 68), não é preciso esperar o aluno chegar à puber- dade para que se introduzam as informa- ções e discussões a respeito das diferen- ças entre gêneros e a referência ao corpo sexuado (orientação sexual). Alunos das séries iniciais costumam preocupar-se com a forma pela qual foram gerados e vieram ao mundo e o conhecimento do corpo durante as aulas de Educação Físi- ca pode vir a gerar tal questionamento, ocasião em que o professor pode empre- ender um diálogo esclarecedor, mostran- do-lhes um corpo que dá e recebe afeto e que pode ser uma fonte de alegria e pra- zer. 3.3 No Ensino Médio De acordo com Correia (1996) a finali- dade da Educação Física no Ensino Médio aponta a formação para o exercício da Cidadania, pressupondo que a condição de cidadão é anterior a uma ocupação ou profissão. Essa condição nos leva a con- cordar com Correia quando ele diz que já no ensino médio o aluno deve ser orien- tado no sentido de uma formação crítica. Para tanto, ele precisa ter acesso a uma educação abrangente e diversificada, podendo assim, ter melhores condições para exercer os seus direitos e deveres, com níveis de autonomia cada vez mais amplos. O desenvolvimento dessa cidadania e autonomia através da Educação física dar-se-á pelo movimento, do qual, além de promover experiências motoras, tam- bém promove entendimentos e conhe- cimentos sobre as implicações do movi- mento humano, nos mais diversos níveis, do biológico ao sociocultural. O adolescente possui algumas carac- terísticas em seu processo de desenvol- vimento que apontam para a necessidade de uma disciplina como a Educação Física. No que diz respeito às transformações do ponto de vista físico, após o estirão da adolescência, o adolescente apresenta um crescimento acelerado principalmen- te em relação aos membros inferiores e superiores em comparação ao tronco, o que implica em uma necessidade de vi- venciar experiências motoras, no sentido de proporcionar a exploração e a reorga- nização deste “novo” corpo e dessas “no- vas” possibilidades de movimento. Já no domínio cognitivo, a sua capaci- dade de operar formalmente o pensa- mento permite ao jovem efetuar níveis cada vez mais amplos de abstrações, comparações, análises, o que justificaria a possibilidade de enfatizarmos no ensi- no de Educação Física as implicações do movimento nos domínios biológicos, psi- cológicos, antropológicos, socioculturais e outros. Além disso, nos sugere também, a necessidade do exercício da autonomia no processo de escolha de temas da cul- tura corporal a serem desenvolvidos no programa de Educação Física, uma vez que é desejável que esse jovem, ao fi- nal do Ensino Médio, tenha condições de selecionar e escolher as atividades que mais lhe interessam, e principalmente, 24 25 ter consciência das repercussões dessas no seu cotidiano. Esses argumentos suscitam a ideia de que uma proposta de Educação Física para o Ensino Médio deverá ser um pro- cesso que permita tanto as experiências múltiplas nas mais variadas atividades motoras, de maneira à favorecer esco- lhas mais apropriadas ao indivíduo na sua vida futura, bem como, compreender as possíveis repercussões no seu processo de desenvolvimento. Correia (1996, p. 44) diz que, frente a um adolescente que necessita de mo- vimento, que amplia a sua capacidade de analisar a realidade que está em sua volta, o trabalho no Ensino Médio deve, então, apresentar um caráter essencial- mente participativo, diversificado, equi- librado na relação entre propostas teóri- cas e práticas. Numa outra visão, de interdisciplina- ridade, Pereira (2008) nos mostra como podemos trabalhar a educação física re- lacionando-a a diversas outras áreas. Com a Física: No estudo do movimento uniforme (progressivo e retrógrado). Por concei- to temos que movimento progressivo é quando o móvel caminha em favor da orientação positiva da trajetória e seus espaços crescem. O retrógrado é quan- do o móvel caminha contra a orientação positiva da trajetória e seus espaços de- crescem. Pode-se fazer uma caminhada com os alunos estabelecendo o ponto de partida e de chegada, discutindo esses conceitos com eles. No cálculo da velocidade média que é a divisão da distância pelo tempo, faríamos uma corrida onde demarcaríamos uma pista e, com a ajuda de um cronômetro, mediríamos o tempo e teríamos o cálculo da velocidade média. A análise dos sistemas de alavanca pode ser ilustrada com os movimentos feitos pelo corpo para vencer uma resis- tência. Perguntas como: “por que para levantar um peso temos que flexionar os joelhos?” podem ser respondidas com a biomecânica. Com a Geografia: No estudo da influência do tempo para a prática de exercícios poderemos discu- tir conceitos trabalhados na geografia, como: umidade relativa do ar, condições do tempo para a prática de exercícios em diversas regiões do país e do mundo. Com a Biologia: No estudo do sistema energético ae- róbico e anaeróbico, faríamos teste onde analisaríamos as sensações e os efeitos desses sistemas no corpo humano. Questão-exemplo: Qual a importância dos carboidratos, proteínas e gorduras para a prática do exercício? Com a sociologia: Podemos fazer um estudo da compo- sição corporal dos alunos, refletindo so- bre a importância de se ter um equilíbrio entre a massagordurosa e a muscular no nosso corpo e faríamos uma análise das condições socioeconômicas de nossa po- pulação e seus reflexos na saúde e estru- tura do corpo dessas pessoas. Esses são apenas alguns exemplos de atividades que podem ser desenvolvidas 26 27 nas aulas de Educação Física, abordando te- mas ligados a outras disciplinas. Segundo Pereira (2008), são apenas os primeiros passos para uma reflexão maior sobre práticas metodológicas e o compro- misso com a necessidade emergente de novas propostas pedagógicas adequadas à realidade atual, buscando desenvolver o espírito investigativo no aluno de forma que, ao sair da escola, esteja apto a interagir no mundo, percebendo-o de forma crítica. Àqueles que se interessarem pela educação física no Ensino Médio suge- rimos aprofundamento baseados nos seguintes autores e trabalhos: Voltando um pouco ao ensino funda- mental, Batista (2003) nos apresenta quatro abordagens específicas: coorde- nação, destreza, socialização e raciocínio, todas as capacidades que são intrínsecas a cada pessoa e deverão ser trabalhadas e desenvolvidas, mas nunca de maneira específica, acontecendo durante jogos e brincadeiras, ou seja, sob a forma lúdica. São elas: 3.4 Coordenação A coordenação desenvolve as ativida- des de forma global, trabalhando todos os segmentos do corpo, simultânea ou separadamente, em todas as direções. 3.4.1 Os tipos de coorde- nação Segundo Almeida (2006, p. 17), embo- ra encontremos na Psicomotricidade, o campo que estuda o homem por meio de seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os objetos e con- sigo mesmo, assunto este que será tra- tado em uma apostila específica, acre- ditamos ser necessário pelo menos citar ou introduzir os tipos de coordenação trabalhados na educação física, uma vez que são os pontos mais observados pelo professor em sua atuação diária. A coordenação motora ampla ou global – é a condição que deve ser de- senvolvida principalmente no espaço infantil. Apura os movimentos dos mem- bros superiores e inferiores. A coordenação motora fina – são aqueles executados com as mãos e os COSTA, C.M. 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Ao desenvolver tal coordenação a criança também apresentará uma boa tonicidade muscular nos membros supe- riores e inferiores. A lateralidade – é a capacidade de a criança poder olhar e agir para todas as direções, com equilíbrio, com coordena- ção mínima corporal e com noções de es- paço. A percepção espacial – tanto na vida infantil quanto adulta se torna um gran- de desafio, pois o espaço requer pleno domínio do sujeito para a perfeita inte- gração do ser ao ambiente. Reconhecer e interferir no ambiente à sua volta, tal como portas, janelas, entradas e saídas, ruas, prédios, é um grande desafio da psicomotricidade e da educação física escolar. O nosso corpo possui características que são somente nossa, embora sejamos semelhantes. Prazer, dor, sensações são percepções pessoais, que embora acon- teçam com todos, em cada um terá uma intensidade. Assim, o desenvolvimento da percepção corporal é mais um dos ob- jetivos do professor que deve trabalhar o indivíduo para que perceba e reconheça questões relativas às estruturas do cor- po. 3.5 Destreza A destreza diz respeito ao desenvol- vimento de atividades nas quais os alu- nos tenham que transpor barreiras, ser arrojados, direcionando-os a não terem receio dos obstáculos; mostrar-lhes que na vida encontrarão várias dificuldades e terão que enfrentá-las sozinhos. 3.6 Socialização Para Batista (2003), significa condu- zi-los ao convívio em grupo, abranger o companheirismo em sua sociedade, de- senvolver as atividades de ajuda recípro- ca, mostrar para eles que todos necessi- tam de todos e, dentro desse conceito, mostrar que a sociedade é competitiva e que a partir do início de suas atividades escolares, eles já estarão fazendo parte dela, claro que de maneira mais passiva. 3.7 Raciocínio Escolher atividades que despertem o interesse em “pensar”, iniciar o progres- so da capacidade de tirar conclusões so- bre isso ou aquilo, ser crítico. Para tanto, é necessário realizar trabalhos nos quais o enfoque principal esteja no intelecto e não só no físico. 28 2928 UNIDADE 4 - A Escola, Materiais, Recur- sos, Orientações Didáticas As instituições ou organizações não são somente instrumentos de organi- zação, regulação e controle social, mas também, são um instrumento de regula- ção e de equilíbrio de personalidade. Uma vez que a escola é formalizada a partir de regras e normas estabele- cidas, que devem propiciar aos alunos oportunidade de questionar e introje- tar o existente, ela se torna uma destas instituições promotoras da socialização dos indivíduos. Para Coll, Pozo e Sara- bia (1997, p. 134) citados por Guimarães (2001): “[...] na escola, além das tarefas me- ramente educacionais, fazem-se ami- zades, aprende-se o funcionamento do poder, conhece-se o que significa a competência, pratica-se esporte, desenvolvem-se habilidades manuais; em resumo, aprende- se em viver em comunidade.” (COLL, POZO E SARABIA, 1997, p. 134 apud GUIMARÃES, 2001). Dessa forma, de acordo com Guima- rães (2001), a escola é um ambiente em que são reforçados valores correntes na sociedade convencional, mas pode e deve ser também ambiente de proble- matização de valores, já que na escola estão presentes, no seu dia-a-dia, vários conflitos entre valores. A reflexão sobre os conflitos e sobre valores na escola se faz com a presença da ética que serve para verificar a coerência entre práticas e princípios, e questionar, reformular ou fundamentar os valores e as normas, componentes de uma moral, sem ser em si mesma normativa. Assim, para o mesmo autor, citado an- teriormente, o objetivo da ética na escola é desenvolver a autonomia dos indivídu- os, propiciando a eles refletir sobre algo, assimilar e questionar este conjunto de regras e normas para permitir que te- nham consciência de uma série de com- portamentos adequados para crescer em sociedade. Valores e atitudes podem, se estiverem incluídos nos conteúdos de ensino, ser trabalhados em todas as disciplinas. Portanto, a educação física, como qualquer outra disciplina, tem res- ponsabilidade na concretização de todo esse processo. Precisamos perceber e entender que o responsável em desenvolver a cidada- nia na escola é principalmente o profes- sor, porque esse, dentro da instituição, tem mais contato com os alunos, dispõe de vários meios de reforços, estabelece um vínculo afetivo que serve de modelo e de referência para o aluno. Além dis- so, o professor tem os conteúdos espe- cíficos de cada disciplinacomo objeto da discussão ética e dispõe de espaço para abordá-la, ou seja, ele representa as nor- mas e expectativas que existem sobre os alunos na escola. Segundo Bracht (1992, p.74) apud Guimarães (2001, p. 19), “O educador na sua prática, quer queira quer não, é um veiculador de valores. É nesse sentido que reside a ligação da forma de ensino com seu conteúdo”. Parece estranho falar sobre ética, mas ela deve permear todo processo de ensi- no-aprendizagem e uma vez que a edu- 28 2929 cação física mantém um contato maior com os alunos torna-se uma questão que deve ser discutida, incorporada no dia-a- -dia da prática física na escola. De acordo com Silveira (2004), as aulas de Educação Física deveriam se caracte- rizar, além da prática de jogos, esportes, ginásticas, danças e lutas, pela preocu- pação do desenvolvimento corporal dos alunos. Não se esquecendo do desenvol- vimento psicológico de cada um, além de estimular as atividades normais que os alunos conhecem desde que entram na escola, ou veem os irmãos e amigos pra- ticarem, trabalhando a autoestima dos mesmos. Este autor apresenta alguns exemplos que podem ser utilizados, mas sem se restringir a eles. O professor deve pro- curar variar o máximo possível as ativi- dades, sempre buscando um equilíbrio entre o desenvolvimento das diversas habilidades corporais, correspondendo à faixa etária atendida. Alguns exemplos são citados abai- xo: Pular corda – desenvolve coorde- nação, agilidade, velocidade e resistên- cia; Saltos em corda elástica esticada – desenvolve resistência muscular (per- nas) e resistência cardiorespiratória; Vôlei – ajuda a desenvolver no aluno a noção de tempo e espaço; Jogos de Xadrez – trabalha a con- centração dos alunos. Segundo Silveira (2004), para traba- lhar essas atividades com as crianças, o professor deve respeitar a potencialida- de de cada aluno, pois nem sempre quem gosta de xadrez, gosta de voleibol ou vice-versa. É salutar propor atividades onde tenha a oportunidade de fazer o que gosta, mas que esteja dentro do pla- nejamento escolar. De acordo com os estudos de Ferraz (1996) para que o desenvolvimento das habilidades básicas de locomoção, mani- pulação e equilíbrio possam ser constru- ídos com base em um acervo motor com ampla variabilidade de movimentos, o professor deve organizar as tarefas de aprendizagem considerando-se os se- guintes aspectos constituintes do movi- mento: 1. Espaço: a) direção – frente, atrás, lado, subin- do, descendo; b) níveis – alto, médio, baixo; c) planos – sagital, frontal, horizon- tal; d) extensões – pequena, grande. 2. Tempo: a) lento, rápido, acelerando, desacele- rando. 3. Esforço: a) forte, fraco. 4. Objetos: a) corda, bola, arco, jornal, etc. 5. Capacidades físicas: a) resistência, força, flexibilidade, ve- locidade. 6. Núcleos do movimento: 30 3130 a) articulações do ombro, joelho, coto- velo, etc. 7. Relacionamentos: a) dupla, trios, grupos. Ferraz (1996) pondera que mesmo que o currículo seja elaborado cuidado- samente resultando em um excelen- te programa, terá pouca eficiência se o ambiente de aprendizagem não for de- vidamente organizado e se não forem tomados os cuidados especiais no pla- nejamento e implementação das ativida- des; cuidados estes relacionados com o local, equipamentos (que correspondem à estruturação do ambiente), instrução e comportamento do professor. Alguns cuidados básicos devem ser tomados pelo professor, quando utiliza de locais amplos, descobertos e variedade de materiais, tais como: Verificar a segurança das quadras/ espaços com relação a existência de bu- racos, garrafas, pregos, etc.; O espaço deve ter seus limites de- finidos com a visualização constante do professor; Os materiais devem possibilitar mo- dificações na sua estrutura e formato para que se acomode as variações dos di- ferentes níveis de desenvolvimento das crianças; A novidade do equipamento estimu- la o grau de interesse da criança, enquan- to a complexidade mantém o interesse em um nível elevado. Em relação às instruções e ao com- portamento do professor, também com o intuito de auxiliar na criação de uma atmosfera que maximize o potencial de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos, alguns aspectos devem ser con- siderados: O problema a ser resolvido deve ser compreendido completamente pela criança; Solicitar uma grande variedade de respostas e estimular reflexão no modo de execução da tarefa; Permitir identificação dos estímulos mais importantes; Garantir que todos os membros da classe estejam envolvidos com a aula e evitar longas filas; Estabelecer rotinas e regras claras, pois frequentemente o professor neces- sita mover grandes grupos e modificar as tarefas; Preocupar-se para que as atividades tenham grande ludicidade em suas ações e não superestimular a competição; Incentivar o auxílio de um aluno para o outro, mostrando a importância do tra- balho coletivo. Como bem diz Ferraz (1996) conhe- cendo-se o aluno em suas características de crescimento e desenvolvimento e o universo da cultura de movimento desde a infância, têm-se subsídios para selecio- nar a maneira de ensinar e, dessa forma, aproximar-se de estratégias mais ade- quadas de ensino. 30 3131 UNIDADE 5 - A formação do professor de Educação Física Segundo Neira (2003) e baseando-se na Lei nº 9.696/98, que regulamenta a profissão de Educação Física, é de compe- tência do profissional da área coordenar, planejar, programar, supervisionar, dina- mizar, dirigir, organizar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de auditoria, consultoria e assessoria, realizar trei- namentos especializados, participar em equipes multidisciplinares, além de elabo- rar informes técnicos, pedagógicos e cien- tíficos, todos nas áreas de atividade física e do esporte. Mas, Neira também pondera que somente após a determinação da real função da escola no processo de Educa- ção, é que poderá definir-se o papel espe- cífico desta instituição, que é, por meio da construção do conhecimento, a promoção e desenvolvimento das potencialidades. Somente através do conhecimento é que o aluno estará recebendo uma edu- cação efetiva e voltada para os preceitos da cidadania, para que esta condição seja atingida, o professor precisa, além do co- nhecimento para atuar, praticamente no ensino de determinado conteúdo, conhe- cimento teórico para embasar e justificar seu desenvolvimento. Isso quer dizer que ao selecionar um conteúdo, o professor deve cuidar para que este possua algum significado para o aluno, trazendo-lhe um importante suporte para sua ação efetiva como ser atuante e consciente. Voltando nossos olhos para o professor de educação física, sua base de formação precisa ser geral e consistente proporcio- nando-lhe percorrer quaisquer caminhos que surgirem, ao mesmo tempo em que precisa se especializar no campo que de- seja atuar para trabalhar com mais domí- nio. Conforme Galvão (2008), o papel do professor e seu perfil influenciam não só no ensino de habilidades, mas também na formação integral do aluno. Segundo a autora, o relacionamento entre profes- sor e aluno deve ser prazeroso, em clima agradável, com respeito entre ambos. Os laços afetivos devem existir, não como um professor bonzinho, e sim maduro. O pro- fessor deve ser motivador, criativo, deve despertar interesse, ser flexível. Além disso, deve adaptar seus conteúdos às necessidades do aluno, deixar claros seus objetivos, comunicar aos alunos o que espera deles, saber usar os materiais di- dáticos, ter um bom domínio sobre o seu conteúdo, incentivando a participação, utilizar-seda teoria e prática aproveitan- do seu tempo útil para atender o aluno. Segundo Almeida (1996), o Professor de Educação Física, deve ser um profissio- nal que se preocupa com a qualidade de vida dos alunos, com destaque para o as- pecto educacional/formativo, utilizando- -se para isso, atividades regulares, equili- bradas, adequadas, cuja intencionalidade visa o bem-estar, a saúde e o equilíbrio mental e social das crianças, no meio em que vive (contexto social); deve também, exercer a função de socializador da cultu- ra erudita, de forma que sua aula venha a transformar-se num ambiente de riqueza cultural onde se estabeleça um trampolim para a crítica. 32 33 O professor atua como ponto de orien- tação que os alunos devem observar, pois ele é o início e o fim do que se há para fa- zer. Ele representa não só a autoridade adulta e a necessidade de ordem e disci- plina, como também valores de conheci- mento. Assim, a atração exercida pela figura do professor e o estabelecimento de laços afetivos positivos criados facilitam a imi- tação de suas atitudes. Segundo Coll et al (1997, p.155) apud Guimarães (2001): [...] as pessoas que exercem um pro- cesso de influência social são conside- radas pessoas significativas para os que são influenciados e no contexto escolar os responsáveis diretos por tal processo são os professores, os cole- gas de sala e os demais alunos da es- cola. (COLL et al, 1997, p. 155 apud GUI- MARÃES, 20001). Para Guimarães (2001), o professor du- rante suas aulas deveria, portanto, ter a atitude de tomar a iniciativa para poder proporcionar situações que, dentro do seu planejamento prévio, aproveitaria as oportunidades de educar, formar ou de- senvolver valores e atitudes consideradas desejáveis. Segundo Coll et al (1997) apud Gui- marães (2001), o professor tem grande capacidade de persuasão sobre seus alu- nos e deveria usufruir disso para o desen- volvimento ou a formação de atitudes e valores. Na escola, cabe a ele o papel de intervir tanto em situações em que as crianças não quiserem participar quanto nas situações em que participam, no sen- tido de integrá-las ao grupo, discutindo, se necessário, a postura deste último. Dessa forma, aqueles alunos que ficam expostos à avaliação e comentários dos colegas podem se sentir mais fortalecidos e acolhidos. 5.1 Fatores que levam a um bom trabalho 5.1.1Concepção De acordo com Almeida (2006), todo e qualquer trabalho precisa primeiramente ser planejado. O professor de educação física pode sofrer sérios problemas, os quais decorrem da falta de planejamento, da má condução dos mesmos, da falta de direcionamento das práticas e da perda do seu foco. Os objetivos precisam ser claros, pois ao contrário, não havendo uma linha de pensamento a seguir, o que vai acontecer? Provavelmente, o professor pegará tudo que aparecer pela frente e acabará per- dendo a direção e os objetivos que deve- riam ter sido propostos. O resultado com certeza será caótico uma vez que ele não conseguirá avaliar o trabalho executado, se as ações que desencadeou valeram ou não. Com certeza o professor se sen- tirá desmotivado e desanimado por não perceber mudanças de comportamento e crescimento nos seus alunos. 5.1.2 Comportamento O comportamento de um professor que quer trabalhar com educação física, volta- da para o desenvolvimento psicomotor é, antes de tudo, de um observador, pois são nas atividades diárias que ele introduz as práticas com tais objetivos. 32 33 A motricidade caminha lado a lado com a afetividade e ao juntar esses aspec- tos forma-se uma concepção maior que o professor precisa atentar-se. Ele não pode desqualificar as relações vividas pelos alunos nos ambientes educativos, pelo contrário, precisa fazer com que cada ação, por mais simples que seja, possa ser percebida pelo aluno na sua complexida- de e na sua essência. Como diz Almeida (2006) o comporta- mento é o combustível que move as re- lações diárias de um professor que quer construir coletividade na multiplicidade dos seres com as diferenças de cada um. 5.1.3 Compromisso O professor precisa aproveitar total- mente o seu tempo de trabalho. Quando se racionaliza, planeja e operacionaliza, as ações se tornam mais claras fazendo com que o compromisso do professor se torne também mais limpo e mais consciente. 5.1.4 Materiais É óbvio que os materiais são sempre parte importante em uma prática docente e deveriam estar presentes o tempo todo, pois eles ampliam as ações do professor, possibilitam que o aluno possa intervir e se relacionar com objetos concretos, tor- nando o processo educativo mais próprio, mais próximo e mais pertinente. Entretanto, é preciso conciliar teoria e método, pois tendo a concepção e o mate- rial, com certeza as coisas irão funcionar, e muito bem. Mas, existem situações em que eles não co-existem, e nessas situa- ções, o professor pode tornar um espaço, ainda que pobre de recursos, em um rico ambiente educativo, humanizado e criati- vo. 5.1.5 Espaços Salas, cadeiras, mesas, armários, livros, quadros e todos os outros recursos físi- cos que podem existir em um espaço fa- zem parte da estrutura física de um local. Desse modo, os espaços podem ser ricos de recursos mas que precisam de vida, de ações acontecendo neles, senão, as re- lações não irão acontecer. Eles tem que emanar vida! Até mesmo um supermer- cado pode ser um espaço que promova ou aconteça a educação, dependente das re- lações e ações que ali se construam. De acordo com Almeida (2006), ao professor cabe estimular e desencadear ações tornando os espaços vivos e ricos. Esperamos que a mensagem tenha chegado aos corações e às mentes! Mo- tivar o aluno, preocupar-se com seu bem- -estar, planejar uma boa aula que tenha objetivos reais, integrar o aluno em todas as suas possibilidades (cultura corporal de movimento, transmissão de conheci- mentos sobre a saúde, conhecer as vá- rias modalidades de esportes, adaptar os conteúdos das aulas à individualidade de cada aluno e a cada fase do seu desenvol- vimento) enfim, possibilitar-lhe desenvol- ver suas potencialidades, não numa forma seletiva, mas incluindo a todos, faz parte da missão do professor de educação físi- ca. Mostrar aos alunos que uma aula de educação física tem sentido, que não é apenas hora de lazer e recreação, mas portadora de conhecimentos, de benefí- cios que são essenciais para que ele com- 34 35 preenda e “tome gosto”. Enfim, as aulas devem ser dinâmicas, estimulantes e interessantes. Os con- teúdos precisam ter uma complexidade crescente a cada série acompanhando o desenvolvimento motor e cognitivo do aluno. Inovar e diversificar são verbos que de- veriam permear a prática docente, para tanto, basta o professor ser responsável, ter seriedade e muita criatividade. O texto que segue abaixo, retirado na íntegra, sintetiza muito bem, tudo que fa- lamos acima. Aula ideal de Educação Física Certa vez um professor de Educação Física encontrou um menino muito es- perto e inteligente e perguntou como ele acreditava que deveria ser uma aula de Educação Física para que ele se sentisse realmente feliz. Esse menino pensou um pouco, pois era uma criança brilhante e disse que uma AULA IDEAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA deveria: 01. Ser num local apropriado, limpo, es- paçoso, preferencialmente que a nature- za estivesse por perto; 02. Ser atrativa, motivante, interes- sante, sociabilizadora, cativante, saudá- vel, organizada, com um ambiente harmô- nico; 03. Estar composta com muita dança, recreação, jogos, enfim que enfocasse a ludicidade; 04. Estar repleta de coisas que, muitas vezes, eu não tenho em casa e sinto muita falta: alegria, espírito crítico, oportunida-de de falar, afeto, educação, conforto, se- gurança, paz, diálogo, disciplina, respeito mútuo e paz; 05. Ter competição para que eu possa aprender perder e ganhar, possa desco- brir meus limites e testar minha força de vontade, que eu possa me descobrir mais; 06. Permitir aprender comigo mesmo, com o professor e meus colegas, que des- perte minha curiosidade e criatividade; 07. Ensinar, reforçar e zelar pelos prin- cípios da moral, da ética e dos bons costu- mes; 08. Não me deixar sentir discriminado e que eu tivesse no professor alguém que possa confiar, que fique contente com meus progressos, alguém amigo; 09. Valorizar o respeito a si e ao seme- lhante, o companheirismo e a amizade. 10. Não permitir que “pulasse” etapas do meu desenvolvimento (estimulação precoce); 11. Favorecer a descoberta minha mente e meu corpo (minhas capacidades) e dominá-los; 12. Permitir que eu adquira o gosto pela Atividade Física, pelo Exercício Físico e pelos Esportes; 13. Ser um lugar onde eu seja elogiado sempre que faça ou tente fazer as coisas certas; 14. Ser cheia de novidades, de desa- fios, de conhecimentos científicos e teóri- cos ligados a prática que estou realizando; 34 35 15. Ter ensinamentos úteis para minha vida; 16. Ser agradável, desafiadora, praze- rosa, divertida e que permita meu cresci- mento como Ser Humano; O pequeno e exigente menino ainda concluiu: “Eu acredito que a aula ideal ain- da está por vir, pois é na constante busca de uma aula que seja a melhor que você vai tornar todas elas ideais!”. Este mesmo Professor, estava num dia de sorte fora do comum e teve a oportu- nidade de poder encontrar um sábio ou grande mestre que lhe deu alguns conse- lhos de como poderia ser bem sucedido e feliz com a profissão que escolheu. Ele listou estes itens abaixo: 01. Não improvise, vá sempre prepa- rado em todas suas aulas, lembrando que aquela aula é um parte importante de uma “construção” maior. A aula deve ser uma novidade, uma surpresa para o aluno, não para o professor, planeje suas aulas; 02. Proporcione um ambiente propício para o aprendizado. Estimule a manuten- ção e prática dos exercícios físicos regula- res, na dosagem adequada, para a Saúde do Ser Humano. Informe sobre os benefí- cios dos Exercícios Físicos; 03. Seja audacioso, não tenha medo de inovar; 04. Crie uma atmosfera harmoniosa, tranquila para trabalhar, assim os alunos sentirão este ambiente acolhedor; 05. Tenha muito cuidado e responsabi- lidade no que diz e no que faz. Muitos alu- nos se espelham no professor. A palavra dita tem muito poder e pode transformar a vida de um indivíduo, fazendo-o tornar- -se um derrotado ou uma pessoa realiza- da. Seja sincero e honesto. Seja um mode- lo de cidadão e de Ser Humano; 06. Procure se exercitar, falar e fazer, mostrará que você é coerente, além de lhe fazer bem à saúde. Encontre tempo para investir em você; 07. Seja um pesquisador no seu campo profissional, para melhor entendimento da realidade. Atualize-se constantemen- te, veja as coisas corriqueiras sob outra ótica, isto evitará a rotina e a acomodação; 08. Tenha a convicção de que sua fun- ção profissional é promover o desenvol- vimento bio-psico-fisiológico e social do aluno; 09. Buscar contribuir para a formação de cidadãos modelos, educados, críticos, conscientes e com objetivo na vida. Acre- dite naquilo que faz; 10. Sempre termine uma aula dizendo: “fiz o melhor que pude”; 11. Seja organizado e disciplinado no horário; 12. Trabalhe com os olhos no amanhã, para que o que faz no presente, crie um futuro melhor para seus alunos; Este- ja sempre aberto a novos aprendizados. Possua uma ampla concepção de mundo para além da especificada da sua profis- são; 13. Crie objetivos para os grupos com os quais trabalha, coloque suas forças em prol de atingi-los; 14. Saiba ser crítico, há momentos para calar e momentos essenciais para expres- sar suas ideias; 36 3736 15. Faça da sua profissão uma forma de se auto-realizar. Dê o melhor de si, ensine “tudo” que sabe. Amor é a palavra-chave; 16. Respeite seu aluno assim como de- veria respeitar a si mesmo; 17. Tenha competência técnica (saber fazer) com compromisso político (a favor de quem está fazendo, qual a intenciona- lidade da ação); 18. Não seja um professor repassador de conteúdos, seja um educador compro- metido com a categoria e consciente da legislação que a rege; 19. Seja coerente com o que prega, consciente de que é um modelo. 20. Veja cada aula como uma oportu- nidade de mostrar suas qualidades, seus dons, e a força que ganhou de Deus. Não veja como uma obrigação. Seu trabalho foi algo que você escolheu, tem que propor- cionar-lhe prazer. Finalizando, o mestre, muito sábio, disse: comece a trabalhar com a tranqui- lidade de alguém que vai contribuir para a Educação e de alguém que aprende a todo momento, porque cada grupo, ou um simples indivíduo que você ministrar aulas fará você completar uma lista com reco- mendações muito maior que essas. Trabalho realizado pelos acadêmicos de Tênis de Campo no Curso de Educação Fí- sica das Faculdades Integradas Católicas de Palmas, com auxílio de alguns profes- sores e a coordenação do professor Alu- ísio – MAI/2004 Aluísio Menin Mendes. Palmas, 12 de maio de 2004. Disponível em: www.cdof.com.br/escola1.htm Acesso em: 20 mai.2008. 36 3737 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Geraldo Peçanha de. Teoria e prática em psicomotricidade: jogos, ati- vidades lúdicas, expressão corporal e brin- cadeiras infantis. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2006. 160p. ALMEIDA, Luiz Tadeu Paes de. Iniciação Desportiva na escola – a aprendizagem dos esportes coletivos. Revista Perspecti- vas em Educação Física Escolar. 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Cadernos Cedes, ano XIX, n.48, agosto /1999, p. 30-51. 38 39 INTRODUÇÃO UNIDADE 1 - História da Educação Física Escolar no Brasil UNIDADE 2 - Educação Física Escolar 2.1 Definições, embasamento teórico e concepções 2.2 Seus objetivos 2.3 O que dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais 2.4 Os conteúdos 2.5 A educação física em uma perspectiva transformadora 2.6 Enquanto promotora de saúde UNIDADE 3 - Os campos de abordagem 3.2 No Ensino Fundamental 3.3 No Ensino Médio 3.4 Coordenação 3.4.1 Os tipos de coordenação 3.5 Destreza 3.6 Socialização 3.7 Raciocínio UNIDADE 4 - A Escola, Materiais, Recursos, Orientações Didáticas UNIDADE 5 - A formação do professor de Educação Física 5.1 Fatores que levam a um bom trabalho 5.1.1Concepção 5.1.2 Comportamento 5.1.3 Compromisso 5.1.4 Materiais 5.1.5 Espaços REFERÊNCIAS