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CÓD: SL-120MA-23 7908433236627 SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO SEE-SP Professor de Ensino Fundamental e Médio - EDUCAÇÃO FÍSICA a solução para o seu concurso! Editora EDITAL DE ABERTURA DE INSCRIÇÕES Nº 01/2023 INTRODUÇÃO a solução para o seu concurso! Editora Como passar em um concurso público? Todos nós sabemos que é um grande desafio ser aprovado em concurso público, dessa maneira é muito importante o concurseiro estar focado e determinado em seus estudos e na sua preparação. É verdade que não existe uma fórmula mágica ou uma regra de como estudar para concursos públicos, é importante cada pessoa encontrar a melhor maneira para estar otimizando sua preparação. Algumas dicas podem sempre ajudar a elevar o nível dos estudos, criando uma motivação para estudar. Pensando nisso, a Solução preparou esta introdução com algumas dicas que irão fazer toda a diferença na sua preparação. Então mãos à obra! • Esteja focado em seu objetivo: É de extrema importância você estar focado em seu objetivo: a aprovação no concurso. Você vai ter que colocar em sua mente que sua prioridade é dedicar-se para a realização de seu sonho; • Não saia atirando para todos os lados: Procure dar atenção a um concurso de cada vez, a dificuldade é muito maior quando você tenta focar em vários certames, pois as matérias das diversas áreas são diferentes. Desta forma, é importante que você defina uma área e especializando-se nela. Se for possível realize todos os concursos que saírem que englobe a mesma área; • Defina um local, dias e horários para estudar: Uma maneira de organizar seus estudos é transformando isso em um hábito, determinado um local, os horários e dias específicos para estudar cada disciplina que irá compor o concurso. O local de estudo não pode ter uma distração com interrupções constantes, é preciso ter concentração total; • Organização: Como dissemos anteriormente, é preciso evitar qualquer distração, suas horas de estudos são inegociáveis. É praticamente impossível passar em um concurso público se você não for uma pessoa organizada, é importante ter uma planilha contendo sua rotina diária de atividades definindo o melhor horário de estudo; • Método de estudo: Um grande aliado para facilitar seus estudos, são os resumos. Isso irá te ajudar na hora da revisão sobre o assunto estudado. É fundamental que você inicie seus estudos antes mesmo de sair o edital, buscando editais de concursos anteriores. Busque refazer a provas dos concursos anteriores, isso irá te ajudar na preparação. • Invista nos materiais: É essencial que você tenha um bom material voltado para concursos públicos, completo e atualizado. Esses materiais devem trazer toda a teoria do edital de uma forma didática e esquematizada, contendo exercícios para praticar. Quanto mais exercícios você realizar, melhor será sua preparação para realizar a prova do certame; • Cuide de sua preparação: Não são só os estudos que são importantes na sua preparação, evite perder sono, isso te deixará com uma menor energia e um cérebro cansado. É preciso que você tenha uma boa noite de sono. Outro fator importante na sua preparação, é tirar ao menos 1 (um) dia na semana para descanso e lazer, renovando as energias e evitando o estresse. A motivação é a chave do sucesso na vida dos concurseiros. Compreendemos que nem sempre é fácil, e às vezes bate aquele desânimo com vários fatores ao nosso redor. Porém tenha garra ao focar na sua aprovação no concurso público dos seus sonhos. Como dissemos no começo, não existe uma fórmula mágica, um método infalível. O que realmente existe é a sua garra, sua dedicação e motivação para realizar o seu grande sonho de ser aprovado no concurso público. Acredite em você e no seu potencial. A Solução tem ajudado, há mais de 36 anos, quem quer vencer a batalha do concurso público. Vamos juntos! INTRODUÇÃO a solução para o seu concurso! Editora O concurso SEE-SP é uma oportunidade única para quem deseja ingressar no serviço público como servidor da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Por isso, é importante se preparar adequadamente para enfrentar essa prova desafiadora. A Editora Solução se orgulha de apresentar uma apostila exclusiva para Conhecimentos Específicos - Especialidade, a fim de auxiliar os estudantes a alcançar seus objetivos. Nosso material foi organizado de forma a introduzir o aluno no que é cobrado pelo edital e nas principais bibliografias indicadas para o concurso. Ressaltamos que a apostila é uma ferramenta introdutória e complementar aos estudos. Para obter um conhecimento completo, é fundamental que o estudante vá atrás de cada bibliografia e documento oficial indicado no edital. Nossa apostila visa auxiliar na compreensão dos principais pontos cobrados no edital, assim como fornecer uma base teórica sólida para a resolução de questões. Acreditamos que, com dedicação e empenho, nossos alunos terão sucesso nesse desafio. É importante lembrar que, além do conteúdo abordado na apostila, o edital do concurso SEE-SP também exige conhecimentos específicos em outras áreas. Por isso, é fundamental que o estudante busque informações complementares em outras fontes. Por fim, ressaltamos a importância do estudo sério e constante, bem como a dedicação ao aprendizado. Desejamos a todos um excelente preparo e sucesso no concurso SEE-SP. A Editora Solução está à disposição para auxiliar no que for preciso. ÍNDICE a solução para o seu concurso! Editora Conhecimentos 1. Dos princípios do Currículo de Educação Física e da Educação Básica ...................................................................................... 7 2. Da cultura corporal de movimento como objeto de estudo da Educação Física enquanto processos de legitimação das formas de expressão e de produções históricas, sociais e políticas de um determinado contexto. ...................................................... 13 3. Dos fundamentos teórico-metodológicos do Currículo de Educação Física, sobretudo os conceitos de cultura corporal de movimento, a fim de subsidiar a reflexão constante sobre a própria prática pedagógica ......................................................... 14 4. Das diferentes teorias e métodos de ensino e dos elementos que favorecem a ressignificação e a contextualização de conhe- cimentos sobre as brincadeiras e jogos, esportes, ginásticas, danças, corpo, movimento e saúde, lutas e práticas corporais de aventura para a Educação Básica .......................................................................................................................................... 15 5. Dos aspectos biológicos, neurocomportamentais, sociais e culturais viáveis em situações didáticas ...................................... 20 6. Dos objetivos específicos da Educação Física e suas interfaces com os demais componentes curriculares ............................. 22 7. Das práticas corporais sistematizadas às demandas da sociedade contemporânea ................................................................. 22 8. Do patrimônio cultural da comunidade, visando uma percepção mais qualificada da realidade com vistas ao planejamento do ensino ................................................................................................................................................................................... 23 9. Das diferentes classificações das brincadeiras e jogos, esportes, ginásticas, danças, corpo, movimento e saúde, lutas e prá- ticas corporais de aventura, suas inter-relações e com outros elementos culturais que se caracterizam como patrimônios da cultura corporal de movimento ................................................................................................................................................. 24 10. Dos métodos e procedimentos didáticos que permitam adequar as atividades de ensino (percursos, situações e etapas de aprendizagem) às características e necessidades dos estudantes .............................................................................................36 11. Dos modos de organização das diferentes manifestações rítmico-expressivas, presentes na sociedade, como fontes comuni- cativas e de práticas corporais ................................................................................................................................................... 44 12. Dos fundamentos antropológicos das diversas funções atribuídas às práticas corporais (lazer, educação, melhoria da aptidão física e trabalho), como benefícios que podem ser perseguidos ao longo da vida para melhorá-la qualitativamente ............. 44 13. Da realidade social em que trabalha para propor ações de intervenções, por meio da produção e ressignificação das mani- festações e expressões da cultura corporal de movimento ....................................................................................................... 45 14. Das formas de desenvolvimento, manutenção e avaliação das capacidades físicas como fatores condicionantes, tanto da participação e do engajamento nas práticas corporais quanto das potencialidades ou constrangimentos .............................. 46 15. Dos interesses mercadológicos e dos reflexos do discurso midiático na construção de padrões e estereótipos de beleza cor- poral e na espetacularização do esporte ................................................................................................................................... 76 16. Das compreensões da origem da cultura corporal de movimento e seus vínculos com a organização da vida coletiva e indivi- dual ............................................................................................................................................................................................ 77 17. Do planejamento e emprego de estratégias para resolver desafios e aumentar as possibilidades de aprendizagem das práti- cas corporais e dos processos de ampliação do acervo cultural nesse campO ......................................................................... 77 18. Das reflexões, críticas, sobre as relações entre a realização das práticas corporais e os processos de saúde/doença, inclusive no contexto das atividades laborais ........................................................................................................................................... 77 19. Da identificação à multiplicidade de padrões de desempenho, saúde, beleza e estética corporal, analisando, criticamente, os modelos disseminados na mídia e discussão de posturas consumistas e preconceituosas ...................................................... 78 20. Da identificação das formas de produção dos preconceitos, compreendendo seus efeitos e combatendo posicionamentos discriminatórios em relação às práticas corporais e aos seus participantes .............................................................................. 79 21. Da interpretação e recriação dos valores, dos sentidos e dos significados atribuídos às diferentes práticas corporais, bem como aos sujeitos que delas participam .................................................................................................................................... 80 22. Do reconhecimento das práticas corporais como elementos constitutivos da identidade cultural dos povos e grupos........... 80 23. Da fruição das práticas corporais de forma autônoma para potencializar o envolvimento em contextos de lazer, ampliar as redes de sociabilidade e a promoção da saúde ......................................................................................................................... 81 24. Do reconhecimento do acesso às práticas corporais como direito do cidadão, propondo e produzindo alternativas para sua realização no contexto comunitário........................................................................................................................................... 81 ÍNDICE a solução para o seu concurso! Editora 25. Das experimentações, desfrute, apreciação e criações de diferentes brincadeiras, jogos, danças, ginásticas, esportes, lutas e práticas corporais de aventura, valorizando o trabalho coletivo e o protagonismo .................................................................. 86 Bibliografia Livros e Artigos 1. DAOLIO, Jocimar. Da cultura do corpo. 13. ed. Campinas: Papirus, 2018 .................................................................................. 93 2. DARIDO, Suraya Cristina. Educação física na escola: ques-tões e reflexões. Rio de Janeiro: Guanabara, 2003 ......................... 93 3. SOUZA JÚNIOR, Osmar Moreira de. Para ensinar educação física: possibilidades de intervenção na escola. 7. ed. São Paulo: Papirus, 2007 ............................................................................................................................................................................. 94 4. FERNANDEZ-RIO, Javier; GIMENO, José Manuel Rodri-gues; CALLADO, Carlos Velázquez; RODRIGUEZ, Luis Santos. Atividades e jogos cooperativos. Petrópolis: Vozes, 2015 ........................................................................................................................... 94 5. GOELLNER, Silvana Vilodre. A produção cultural do corpo. In: LOURO, Guacira Lopes; NECKEL, Jane Felipe; GOELLNER, Silvana Vilodre. Corpo, gênero e sexualidade: um debate contem-porâneo na educação. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2013 ................... 94 6. KAMII, Constance; DEVRIES, Retha. Jogos em grupo na educação infantil: implicações da teoria de Jean Piaget. Porto Alegre: Artmed, 2009 ............................................................................................................................................................................. 95 7. KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira, 2011 .................................................................. 95 8. KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org.). Jogo, brinquedo, brin-cadeira e a educação. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2017 ................ 96 9. SARMENTO, Manuel; GOUVEA, Maria Cristina Soares de (org.). Estudos da infância: educação e práticas sociais. 2. ed. Petró- polis: Vozes, 2022....................................................................................................................................................................... 96 Publicações Institucionais 1. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC/CONSED/UNDIME, 2017. p. 61 - 62, 211 - 237 .................................................................................................................................................................................... 99 2. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares nacionais: educação física. Brasília: MEC/SEF,1998.. 101 3. SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Currículo paulista. São Paulo: SEDUC, 2019. p. 249-280 .................................. 103 4. SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Currículo paulista - etapa ensino médio - área de linguagens e suas tecnolo- gias ............................................................................................................................................................................................. 104 7 a solução para o seu concurso! Editora CONHECIMENTOS DOS PRINCÍPIOS DO CURRÍCULO DE EDUCAÇÃO FÍSICA E DA EDUCAÇÃO BÁSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA COMO COMPONENTE CURRICULAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL A LDB atual estabelece a Educação Física como componente curricular da educação básica, que engloba os ensinos fundamental e médio e também a educação infantil.1 Mas o que é currículo, proposta curricular? Segundo Tisuko Morchida Kishimoto (1996), a palavra currículo é derivada do termo latim currus, que significa carro, carruagem, lugar onde se corre, e seu uso metafórico em educação seria um caminho, uma direção que orientaria o percurso para atingir certas finalidades. Não esta- belecemos diferença conceitual entre proposta pedagógicae currí- culo, por compreendermos este último de forma ampla, dinâmica e flexível. Concordamos com Sônia Kramer1 (1996) quando diz que um currículo ou proposta pedagógica reúne tanto as bases teóricas quanto as diretrizes práticas nelas fundamentadas e os aspectos de natureza técnica que viabilizam sua concretização. O currículo é um caminho nascido de uma realidade que pergunta e é também busca de uma resposta. É um diálogo ‘situado’, pois toda proposta traz consigo o lugar de onde fala, a gama de valores que a consti- tui, as dificuldades que enfrenta, os problemas que precisam ser superados e a direção que a orienta. Sendo assim, não existe uma resposta pronta e acabada para um currículo; ele é um caminho a ser construído. Reconhecemos essa característica e consideramos também impossível definir o que ensinar sem a clareza do porquê, para quem, por quem, como e onde. Isso engloba uma série de hi- póteses e pontos de partida, um conjunto de princípios e ações. Quando falamos da educação infantil e da Educação Física nes- se contexto, estamos falando de um lugar específico, isto é, da es- cola. Falamos de escolas, cada uma delas com valores, concepções, dificuldades, problemas que lhes são próprios, considerando todo seu contexto sociocultural. Toda proposta curricular estará sempre associada à orientação política, ideológica e metodológica das pes- soas que participam da sua formulação, ou seja, nenhuma proposta jamais será neutra. Portanto, pensar uma proposta pedagógica para a Educação Física na educação infantil é pensar uma determinada instituição com características peculiares e que dialoga com con- cepções, propostas e ações pedagógicas influentes na disciplina e ao mesmo tempo influenciadas por ela. Assim, construímos prin- cípios e ações tendo em vista o desenvolvimento de uma proposta curricular que amplie as perspectivas da educação infantil e de seus valores educativos e sociais. 1 https://www.revistas.ufg.br/fef/article/view/44/2690 Atualmente, coexistem na área da Educação Física várias con- cepções, todas elas tendo em comum a tentativa de romper com o modelo mecanicista, tecnicista, fruto de uma etapa recente da disciplina que durou até o final da década de 1970. Em seu texto “Educação Física: conhecimento e especificida- de”, Valter Bracht (1997) se pergunta: qual seria o objeto da Educa- ção Física? O autor explicita três possibilidades: a) atividade física esportiva; b) movimento humano; c) cultura corporal de movimen- to. Bracht defende ao longo do texto a terceira colocação. Mas por quê? Segundo ele, a primeira propõe o desenvolvimento de apti- dões físicas, tendo como matriz as ciências biológicas, sem con- siderar a influência histórica e social. A Educação Física não pode se reduzir a esses saberes apenas ligados à aptidão física e ao seu desenvolvimento. A existência de uma espécie de monocultura do esporte toma conta de muitas escolas, limitando essa prática à simples reprodução de gestos técnicos que visam o desenvolvi- mento de habilidades. A segunda possibilidade passa a considerar o movimento humano como objeto graças à absorção do discurso da aprendizagem motora, do desenvolvimento motor e da psico- motricidade. Destaca-se, a partir dessa perspectiva, a importância do movimento para o desenvolvimento integral da criança, e esse é o papel atribuído à Educação Física. Esse discurso possui a defini- ção clássica de que a disciplina é a educação do e pelo movimento. Fala-se de repercussões do movimento sobre a cognição e a afetivi- dade, demonstrando a existência de um caráter compensatório: a Educação Física como possibilidade de ajudar no desenvolvimento de outras disciplinas na escola. Traz uma idéia de fragmentação do conhecimento e de dualidade humana (corpo e mente). Também desconsidera, conseqüentemente, os aspectos históricos e sociais. A partir da problematização desses dois primeiros objetos é que surge uma nova perspectiva para a Educação Física, que seria a cul- tura corporal de movimento. O primeiro livro a trazer essa idéia foi o Metodologia do ensino da Educação Física (Coletivo de Autores, 1992). Nessa perspectiva, o movimentar-se é entendido como uma forma de comunicação com o mundo, como uma forma de lingua- gem. Segundo Bracht, o que qualifica o movimento como humano é o sentido/significado do mover-se, e esse sentido/significado é mediado simbolicamente no plano da cultura. Portanto, considerar a cultura corporal de movimento como objeto da Educação Física é permitir à criança o acesso a saberes organizados historicamente e asseguradores da especificidade pedagógica da disciplina, levando em conta, fundamentalmente, os sentidos e os significados que os movimentos terão para os sujeitos. Assim, concordando com Jocimar Daolio (1995), acreditamos que a Educação Física deverá abarcar todas as formas da chamada cultura corporal – jogos e brincadeiras, esporte, dança, ginástica e lutas – e, ao mesmo tempo, abranger todos os alunos. Obviamente, seu objetivo não será a aptidão física dos alunos, nem a busca de um melhor rendimento esportivo. Os elementos da cultura corpo- ral serão tratados como conhecimentos a serem sistematizados e reconstruídos pelos alunos. CONHECIMENTOS 88 a solução para o seu concurso! Editora Particularmente sobre a presença da Educação Física na educa- ção infantil, algumas tendências têm sido criticadas e questionadas por desconsiderarem, no âmbito da especificidade de sua prática pedagógica, a criança como sujeito sócio-histórico (Grupo de Estu- dos Ampliados de Educação Física,1996). A psicomotricidade vem sendo censurada por apresentar ca- racterísticas que pressupõem uma homogeneização dos indivíduos, com padrões de movimentos genéricos e universais, desprezando as experiências sociais. O movimento é muitas vezes um recurso terapêutico ou instrumento para resolver os problemas afetivos/ cognitivos. O desenvolvimento e a aprendizagem motora também partem de um padrão ideal de criança para estabelecer fases do de- senvolvimento motor e consideram o ser humano como um grande processador de respostas. A recreação é uma outra tendência criti- cada por apresentar-se como uma ocupação do tempo e do espaço na escola. Não há o comprometimento com a sistematização e am- pliação do conhecimento; assim, o tempo escolar da Educação Físi- ca é considerado como compensatório (Grupo de Estudos..., 1996). Sendo a Educação Física uma área de conhecimento escolar, ela possui saberes que vêm sendo construídos historicamente e que conferem significado ao movimento. Consideramos que as prá- ticas da cultura corporal de movimento são, também na educação infantil, a especificidade pedagógica e a contribuição da Educação Física como área do conhecimento escolar. A dança, os jogos e as brincadeiras, os esportes, a ginástica, as lutas e a capoeira, como fenômenos da cultura corporal de movimento, são um conjunto de saberes da humanidade ao longo da história. A intencionalidade daqueles que os realizam é que atribui significado ao movimento. A Educação Física na educação infantil possibilita à criança a des- coberta, o conhecimento e a vivência desta forma de expressão e linguagem: o movimentar-se. Portanto, a disciplina contribui na formação humana integral e plena da criança por meio de seus con- teúdos específicos. Vale lembrar que pensar a infância como tempo de direitos significa reconhecer que a criança tem o direito às vivên- cias, às experiências e ao conhecimento em suas muitas dimensões. Como, então, ensinar esses conteúdos específicos da Educa- ção Física levando em consideração uma concepção de educação infantil que valoriza a totalidade, a formação plena das crianças? Falar em totalidade e ao mesmo tempo colocar a especificidade da contribuição dessa disciplina pode parecer um pouco contraditório. Não estaríamos tentando delimitar nossas responsabilidades nesse processo de formação e, consequentemente, “lavando as mãos” se por eventualidade osoutros saberes, conteúdos, conhecimen- tos não fossem especialmente experimentados e assimilados pelas crianças no processo? O que seria, então, construir uma concepção globalizante em que fosse possível experimentar e chegar ao co- nhecimento de forma ampla, valorizando suas muitas dimensões? A Pedagogia de Projetos tem sido uma proposta muito discu- tida justamente por tentar responder a essas perguntas em busca de uma concepção e uma prática que considerem o processo de ensino–aprendizagem como único, não fragmentado. Mas, qual é a avaliação que temos disso? Como os professores da educação in- fantil entendem a Pedagogia de Projetos? Como eles trabalham por projetos? A Educação Física é trabalhada também na perspectiva da Pedagogia de Projetos? Como isso acontece? Ao avaliar como a Escola Plural vem lidando com os projetos de trabalho, Amaral (2000) constatou que estes não foram bem en- tendidos e deram origem a alguns preconceitos quanto à proposta que se colocava. Esta, ao enfatizar a necessidade do trabalho cole- tivo, interdisciplinar e a captação da realidade em sua totalidade, não quis diminuir a importância dos conteúdos. No entanto, foi a interpretação que muitos professores fizeram da proposta. Quem se preocupava com os conteúdos era pejorativamente chamado de “conteudista”. A percepção dos pesquisadores é a de que existe uma crença internalizada segundo a qual a opção pelos conteúdos seria uma traição à proposta plural, o que configura-se como um entendimento equivocado da proposta de trabalho por projetos. Essa constatação parece ter sido feita apenas com professores do ensino fundamental. E na educação infantil, como os professores entendem a Pedagogia de Projetos? Eles trabalham por projetos? A autora afirma que nas séries iniciais do ensino fundamental é mais fácil de se concretizar a concepção globalizante proposta por Hernández (1998), já que o aprofundamento disciplinar não se faz necessário e a própria formação dos professores é polivalente, per- mitindo a compreensão de um trabalho mais global. Se partirmos dessa compreensão podemos supor, então, que na educação infan- til a proposta do trabalho por projetos seria mais facilmente concre- tizada. Será esta uma realidade? Também nessa avaliação dos projetos de trabalho na Escola Plural, observou-se uma distância entre o discurso e a prática efeti- va da Pedagogia de Projetos, já que alguns professores entrevista- dos afirmavam trabalhar com projetos, ao passo que nos registros oficiais das escolas e nos diários só eram encontrados temas e as- suntos em evidência: dengue, vacinação, violência, copa do mundo etc. Percebe-se um distanciamento da Pedagogia de Projetos e tam- bém um entendimento superficial do que seja ela. Hernández (1998, p. 28) já destacava o perigo de se transfor- mar o trabalho por projetos num “modismo”. Segundo ele isso ocorre quando os projetos de trabalho ficam reduzidos a uma fór- mula didática baseada em uma série de passos: levantamento do tema, perguntar o que os alunos sabem e o que querem saber, fazer o índice, trazer diferentes fontes de informação e copiar o referido aos pontos do índice. Estrutura Curricular Construída A estrutura curricular construída apresenta as concepções so- bre cada bloco de atividades, seus objetivos e as competências que os alunos podem/precisam desenvolver por meio da realização des- tas atividades.2 Salienta-se que, para o desenvolvimento dessas competências é necessário partir da compreensão de que os objetivos da propos- ta somente serão alcançados se a metodologia que fundamenta o trabalho pedagógico partir de “[...] uma relação direta com a expe- riência do aluno, confrontada com o saber e relacionada a prática vivida pelos alunos com os conteúdos propostos pelo professor, momento em que se dará a “ruptura” em relação à experiência pouco elaborada”3. A partir disso, objetiva-se possibilitar o aluno a desenvolver al- gumas capacidades durante o processo de ensino e aprendizagem, conforme aponta Kunz (1994, p.31): 2 http://www.efdeportes.com/efd158/conteudos-da-educacao-fisica-para-infantil. htm 3 LIBÂNEO, J. C. Democratização da escola pública – a pedagogia critico social dos conteúdos, 1994. CONHECIMENTOS 9 a solução para o seu concurso! Editora O aluno enquanto sujeito do processo de ensino deve ser ca- pacitado para sua participação na vida social, cultural e esportiva, o que significa não somente a aquisição de uma capacidade de ação funcional, mas a capacidade de conhecer, reconhecer e problema- tizar sentidos e significados nesta vida, através da reflexão crítica. Sendo assim, torna-se tarefa dos professores considerar e com- preender as particularidades da proposta curricular, buscando vin- cular estas, as características socioculturais do contexto no qual a instituição educacional está inserida, bem como, as necessidades, possibilidades e expectativas dos alunos de cada contexto. Para isso, coloca-se com necessidade imprescindível, um processo de re- flexão sobre as condições de atuação. Esse processo reflexivo, deve se dar mediante, [...] a imersão consciente do homem no mundo de sua expe- riência, um mundo carregado de conotações, valores, trocas simbó- licas, correspondências afetivas, interesses sociais e cenários políti- cos. A reflexão, diferentemente de outras formas de conhecimento, supõe uma análise e uma proposta totalizadora, que captura e orienta a ação (PÉREZ GÓMEZ, 1997, p. 37). Dentro dessas perspectivas, movimento para a criança pe- quena, enfatiza Mattos e Neira (2004) vai significar muito mais do que mexer partes do corpo ou deslocar-se no espaço. A criança se expressa e se comunica através dos gestos e das mímicas faciais e interage utilizando fortemente o apoio do corpo. A dimensão cor- poral integra-se fortemente ao conjunto da atividade da criança. Portanto, o ato motor faz-se presente em suas funções expressivas, instrumental ou de sustentação às posturas e aos gestos Ampliando ainda mais a tradicional divisão dos conteúdos em blocos, como: esportes, jogos, ginástica, lutas e dança, apresenta-se a seguir uma proposta de seleção e reorganização dos conteúdos, agrupando-os num primeiro momento em blocos de atividades como: Atividades corporais de movimento coletivas, Atividades corporais de movimento individuais, Atividades corporais de mo- vimento rítmicas, Atividades corporais de movimento folclóricas e Atividades corporais de movimento junto a natureza. As Diferentes Teorias Curriculares O tema currículo apresenta múltiplas definições, porque ele pode ser entendido com base em perspectivas ou teorias diferen- ciadas. Existem vários conceitos de currículo, que foram surgindo ao longo do tempo, mas nenhum, necessariamente, invalidou os anteriores. Eles convivem harmonicamente ou não no campo.4 Silva (1999) apresenta uma análise bastante clara que contribui para o entendimento do tema em questão, ao apresentar as dife- rentes teorias curriculares. Segundo o autor, pode dizer que exis- tem duas grandes vertentes de teorias curriculares: as teorias tradi- cionais de currículo e as teorias críticas e pós-críticas de currículo. As primeiras concebem o currículo como algo neutro, estritamente científico e objetivo. Já o segundo grupo percebe que nenhuma teoria é neutra, científica ou desinteressada. Ou seja, elas implicam relações de poder e demonstram a preocupação com as conexões entre saber, identidade e poder. As teorias tradicionais de currículo enfatizavam seu papel no processo de racionalização de resultados educacionais, cuidadosa e rigorosamente especificados e medidos. A fábrica serve de modelo institucional dessa concepção de currículo, fazendo com que o mes- 4 https://refisica.uea.emnuvens.com.br/refisica/article/view/17/pdf mo se torne um processo similar ao industrial e administrativo. Bo- bbitt (1918) e Tyler (1978) são os principais autores dessa vertente que compreende o currículo como o conjunto de matérias escolares exterioresaos alunos e professores (currículo como fato - currículo pré-ativo - currículo escrito). A segunda metade do século XX constitui-se num período em que se iniciou uma série de análises acerca do currículo e de suas propostas curriculares. Neste momento, vários autores realizam uma série de denúncias em relação ao papel da escola e do currí- culo na reprodução da estrutura social, além de demonstrar o in- teresse destes em construir uma escola e um currículo interligados aos interesses dos grupos oprimidos. Para tal, buscaram apoio em teorias sociais, desenvolvidas em especial na Europa para embasar suas reflexões e propostas. Assim, novos referenciais passaram a servir a diversos teóricos preocupados com questões curriculares, tais como: a teoria crítica da Escola de Frankfurt, o neomarxismo, as teorias da reprodução, a fenomenologia, a nova Sociologia da Educação Inglesa, a psicanáli- se, entre outras. Inicia-se com estas teorias um período de reconceitualização do campo. Novas tendências foram surgindo a partir dos anos se- tenta contrapondo-se ao que vinha sendo desenvolvido nos estu- dos curriculares até então, colaborando para a análise e compreen- são de outras questões. O currículo passa a ser entendido como o estudo do conhecimento escolar; uma área e/ou um campo de estudo; uma construção social. Estes novos referencias curriculares se referem às teorias críti- cas e pós-críticas, que apesar de suas diferenças, tem em comum a negação da perspectiva curricular até então dominante, seu caráter técnico, apolítico e pouco teórico. Neste sentido, a partir das teorias críticas, o currículo como um espaço de poder tem um papel decisivo na reprodução da estrutura de classes da sociedade capitalista. Constituiu-se, portanto, como um aparelho ideológico do Estado capitalista, transmitindo a ideo- logia dominante, em síntese o currículo passa a ser considerado um território político. Assim, Silva (2006) concebe a elaboração do currículo, como reflexo de uma ação política permeada por oposições e resistên- cias. Ao se considerar que a articulação entre o sujeito visado, os conhecimentos eleitos para concretização do projeto educativo e as atividades de ensino compõem a essência do currículo, questões como: “quem queremos formar?”, “como ensinamos?” e “o que ensinamos? ”constituem-se como eixos norteadores da proposta curricular. Portanto, o currículo é um conjunto de conteúdos cognitivos e simbólicos (saberes, competências, representações, tendências, va- lores) a serem transmitidos (de forma explícita ou implícita) através das práticas educativas. Ele constitui-se como um processo histori- camente condicionado com a capacidade de incidir sobre a socieda- de, configurando-se em um campo que interagem práticas e ideias reciprocamente. Currículos, como construções sociais que são, sofrem as in- fluências dos conhecimentos que ensinam e das culturas da socie- dade na qual estão inseridos. Em seus estudos, Silva (2006), rela- ta que a cultura e currículo são antes de tudo relações sociais e o currículo como relação social pode ser percebido por intermédio de suas marcas, advindas de disputas por predomínio cultural, das lutas entre, de um lado, saberes oficiais, dominantes e, de outro, saberes subordinados, desprezados. CONHECIMENTOS 1010 a solução para o seu concurso! Editora Com isso, o currículo se constitui por meio de relações sociais, que necessariamente são relações de poder e denominam quais são os conhecimentos considerados socialmente válidos. Por meio das relações sociais do currículo é que as diferentes classes sociais aprendem quais são seus respectivos papéis nas relações sociais mais amplas. Nessa perspectiva, o currículo transmite visões sociais particu- lares e interessadas, produzindo identidades individuais e sociais particulares. Portanto, ao se analisar os elementos constituintes do currículo deve-se levar em conta não apenas as condições de aces- so à educação, mas também as condições do acesso diferencial a diferentes tipos de conhecimento (SILVA, 1996). Por isso, como afirma Silva (2006), o currículo é um dos pon- tos centrais dos atuais projetos de reforma social e educacional, ele ocupa um espaço estratégico nessas reformas, pois é um dos espa- ços em que ocorrem lutas decisivas por hegemonia, por predomí- nio, e pelo domínio do processo de significação. Assim, é por meio do currículo, concebido como elemento discursivo da política edu- cacional, que os diferentes grupos sociais, em especial, os dominan- tes expressam sua visão de mundo, seu projeto social, sua verdade. A atual ordem curricular tem em um de seus pontos centrais a disciplinaridade, pois, apesar de todas as transformações ocorridas na natureza e extensão da produção do conhecimento, o currículo continua fundamentalmente centrado em disciplinas tradicionais. Neste sentido, a disciplinaridade não só é a tradução lógica e racio- nal de campos de conhecimento, mas também, a inscrição e recon- textualização desses campos num contexto em que processos de regulação moral e controle tornam-se centrais. Sendo assim, para Neira e Nunes (2009) ao se elaborar uma proposta curricular, torna-se necessário selecionar uma parcela do capital cultural disponível na sociedade para ser partilhado e socia- lizado com o público escolar. Os critérios de seleção dos conteúdos culturais que comporão o currículo são justapostos da maneira com que os grupos em vantagem nas relações sociais entendem como a mais apropriada, por fim o formato do currículo é resultante da tecnificação pedagógica de que tem sido objeto. As considerações traçadas até o momento demonstram a com- plexidade das questões referentes ao currículo e a estrutura curri- cular marcada pelos vários aspectos que o compõem, sejam eles, econômicos, sociais, políticos ou culturais. Sem a pretensão de fi- nalizar esta discussão, buscamos agora realizar uma análise mais específica da disciplina de Educação Física enquanto componente curricular. Estabelecendo Articulações entre o Currículo e a Educação Física Somente na segunda metade do século XIX a Educação Física foi incluída no sistema educacional brasileiro. Sua constituição foi fortemente influenciada pela instituição militar e, em seguida pela medicina. De acordo com Neira e Nunes (2009), desde o início, os con- teúdos de ensino selecionados com base em justificativas científi- cas, marcavam a distinção social. A concepção curricular dominante nesses primórdios baseava-se na perspectiva higienista. Na Educação Física higienista, segundo Corrêa e Moro (2004), a concepção de homem é de um ser biológico e a fundamentação da prática da Educação Física está embasada nos conhecimentos anátomo-fisiológicos do corpo, os quais vão influenciar a sua prática pedagógica mediante os métodos ginásticos. Simultaneamente ao objetivo higienista, a Educação Física cria significado eugênico. Através de hábitos saudáveis e aprimoramen- to das características físicas, objetivava a regeneração do povo e o desenvolvimento de sua raça, a brasileira (CORRÊA; MORO, 2004, p.96). Ainda segundo os autores, a influência dessa concepção foi hegemônica até os anos 50, quando a Educação Física Escolar co- meçou a sofrer influência do esporte. Nas primeiras décadas do século XX, a ascensão de novas teo- rias, teve repercussão também no discurso da Educação Física, que passou a ser vista e defendida como um meio de educação, seus métodos de ensino deveriam romper com a dualidade corpo/men- te promovendo a propagada educação integral. Uma nova prática visualizada por uma pedagogia ativa assumiu o espaço predominante no currículo, ou seja, o jogo, que entrou em cena redefinindo princípios, objetivos, livrando-se dos limites impostos pelo cientificismo biológico (NEIRA; NUNES, 2009). Sob forte influência do discurso educacional cognitivista, o método de educação psicomotora ou psicomotricidade foi larga- mente apropriado pelaEducação Física. E, o currículo mostrou-se mais preocupado com o desenvolvimento da criança, com o ato de aprender, com o desenvolvimento dos comportamentos cognitivos, afetivos e psicomotores, buscando novamente garantir a formação integral aos alunos. Já, a partir dos anos 80 inicia-se uma série de críticas em rela- ção aos currículos de até então na Educação Física, seja nos currí- culos esportivos, globalizantes ou desenvolvimentistas, sugerindo novos conteúdos e orientações didáticas para a disciplina. Por meio de uma atitude dialógica, este novo currículo proporcionaria aos alunos situações pedagógicas que lhes permitiriam analisar criti- camente os parâmetros sociais que configuravam e delineavam a existência sócio-histórica da brincadeira, esporte, dança, ginástica, luta e demais manifestações da cultura corporal. Novas teorias surgem, com o intuito de reorientar a prática da Educação Física Escolar e conferir um novo caráter curricular a mes- ma. Tais teorias podem ser classificadas em propositivas e não-pro- positivas. Conforme Corrêa e Moro (2004), as teorias pedagógicas não- -propositivas trabalham a questão da Educação Física Escolar sem, contudo, estabelecem princípios, parâmetros e/ou procedimentos metodológicos para o seu ensino. Tais pedagogias são caracteriza- das pelas abordagens fenomenológica, sociológica e cultural. Dentre as teorias pedagógicas não-propositivas destaca-se a abordagem cultural proposta por Daólio (1991), que se fundamenta na antropologia e evidencia a importância de se considerar a Edu- cação Física como um componente cultural. O enfoque biológico não é desconsiderado e pode ser utilizado nas aulas de Educação Física na medida em que seja vinculado ao surgimento da cultura, permeando a discussão em torno da evolução do homem (DARIDO, 2003). No quadro das pedagogias propositivas evidencia-se sua divi- são em sistematizadas e não-sistematizadas. As propositivas não- -sistematizadas propõem metodologias, observando princípios que buscam superar as práticas existentes na Educação Física, contudo, não sistematizam uma proposta curricular para os níveis escolares. Essas pedagogias são caracterizadas pelas abordagens: desenvolvi- mentista, construtivista-interacionista, concepção de aulas abertas a experiências, abordagem a partir da referência do lazer, crítico-e- mancipatória e abordagem plural. Apresenta-se a seguir as abor- dagens mais recorrentes nos estudos da área da Educação Física Escolar e suas principais características. CONHECIMENTOS 11 a solução para o seu concurso! Editora A abordagem desenvolvimentista tem como principais expoen- tes no Brasil, os trabalhos de Tani et al (1988), a obra mais represen- tativa deste modelo é a “Educação Física Escolar: fundamentos de uma abordagem desenvolvimentista (TANI ET AL., 1988). A aborda- gem Desenvolvimentista tem o intuito de estabelecer uma funda- mentação teórica para a Educação Física Escolar dirigida ás crianças, em sua maioria dos quatro aos quatorze anos de idade. Segundo Tani et al. (1988) o seu principal objetivo é buscar nos processos de crescimento, de desenvolvimento e de aprendizagem motora do ser humano esta fundamentação. É, portanto, uma ten- tativa de caracterizar a progressão normal no crescimento físico, do desenvolvimento fisiológico, motor, cognitivo e afetivo-social na aprendizagem motora, e em função dessas características, sugerir aspectos relevantes para as aulas de Educação Física. A proposta construtivista-interacionista tem como principal referência o professor João Batista Freire, com a obra “Educação de corpo inteiro”, publicado em 1989. A abordagem construtivista- -interacionista é uma opção metodológica em oposição à proposta mecanicista, e segue orientações teóricas de Piaget e Vygotsky, os quais segundo Freire (1989) consideram a atividade motora como um meio de adaptação, de transformação, de relacionamento com o mundo. A concepção aberta de ensino da Educação Física, tem nos tra- balhos de Hildebrandt e Langing (1986) seu principal aporte teórico, essa proposta entende que o ensino está orientado para idéias de objetivos prioritários, que também são caracterizados como obje- tivos de educação e de formação. Conforme o autor “o ensino da Educação Física deve capacitar os alunos a tratar de tal modo os conteúdos esportivos nas mais diversas condições dentro e fora da escola que estejam em condições de criar, no presente ou no futu- ro, sozinhos ou em conjunto, situações esportivas de modo crítico, determinadas autonomamente ou em conjunto”. A abordagem crítico-emancipatória tem como principal autor o professor Kunz (2001), segundo o autor, „‟a concepção crítico emancipatória, busca alcançar, como objetivos primordiais do ensi- no e através das atividades com o movimento humano, o desenvol- vimento de competências como a autonomia, a competência social e a competência objetiva‟‟. A abordagem plural é reconhecida nos trabalhos de Daolio (1996) o autor propõem uma Educação Física Plural, cuja condi- ção mínima e primeira é que as aulas atinjam todos os alunos, sem discriminação, ou seja, A Educação Física Plural deve abarcar todas as formas da chamada cultura corporal - jogos, esportes, danças, ginásticas e lutas - e, ao mesmo tempo, deve abranger todos os alu- nos. Já as teorias propositivas sistematizadas caracterizam-se pelas abordagens: aptidão física/saúde e crítico-superadora, as quais des- crevem propostas de programação curricular para os Ensinos Fun- damental e Médio. A abordagem aptidão física/saúde incorpora e renova para as aulas de Educação Física o enfoque no aspecto físico, no entanto, utilizado de uma forma mais consciente, em que o professor ensina ao aluno o porquê deste ou daquele exercício, qual sua importância para o seu desenvolvimento físico e para sua saúde (DARIDO, 2003). A abordagem crítico-superadora ficou conhecida principalmen- te através da obra Coletivo de Autores (1992), a proposta tem como ponto de partida a vivência histórica dos alunos expressada nos conteúdos da sua cultura. Nessa perspectiva o Esporte, enquanto tema da cultura corporal, é tratado pedagogicamente na Escola de forma crítico-superadora, evidenciando-se o sentido e o significado dos valores que inculca e as normas que regulamentam dentro de nosso contexto sócio-histórico. As várias teorias, já citadas, almejam novas formas de ensino da Educação Física Escolar e por isso contribuem significativamente para o desenvolvimento da Pedagogia da Educação Física, além de proporem novas concepções de currículo. Nesta direção, ressalta-se que na escola, a disciplina de Educa- ção Física sempre obteve um tratamento diferenciado das demais disciplinas do componente curricular, tal fenômeno pode ser obser- vado através do Decreto Federal n. 69.450/71, título IV, cap. I: Art. 5 - Os padrões de referência para orientação das normas regimentais da adequação curricular dos estabelecimentos, bem como para o alcance efetivo dos objetivos da Educação Física, des- portiva e recreativa são situados em: I - Quanto à sequência e distribuição semanal, três sessões no ensino, primário e no médio e duas sessões no ensino superior, evi- tando-se concentração de atividades em um só dia ou em dias con- secutivos. II - Quanto ao tempo disponível para cada sessão, 50 min. não incluindo o período destinado à preparação dos alunos para as ati- vidades. III - Quanto à composição das turmas, 50 alunos do mesmo sexo, preferencialmente selecionados por nível de aptidão física. A partir do Decreto é possível tecer algumas considerações, tais como: a separação das turmas por sexo e a não concentração de ati- vidades em um dia ou dias consecutivos deve-se à relevância a as- pectos de ordem fisiológica, a impossibilidade de se incluir as aulas de educação física nos horários normais dos turnos, sendo então, oferecida em outro turno, causando ônus aos alunos das camadas populares que frequentama escola pública em relação aos custos dos transportes, na medida em que têm que frequentar a escola em dois turnos nem sempre consecutivos. A Lei n. 10.793/2003 vem mais uma vez conferir um caráter menor à disciplina de Educação Física. Assim, a Lei rege que a Edu- cação Física, integrada à proposta pedagógica da escola, é compo- nente curricular obrigatório da educação básica, sendo sua prática facultativa ao aluno: I – que cumpra jornada de trabalho igual ou superior a seis horas; II – maior de trinta anos de idade; III – que estiver prestando serviço militar inicial ou que, em situação similar, estiver obrigado à prática da educação física; IV – amparado pelo Decreto-Lei n. 1.044, de 21 de outubro de 1969; V – (VETADO) VI – que tenha prole (BRASIL, 2003). Sendo assim, a concepção que se tem é de que os alunos traba- lhadores não precisam do conhecimento da Educação Física, leitura que, contraditoriamente, pode, ser interpretada como punição, na medida em que impede a ele o acesso a essa prática pedagógica ou área do conhecimento. Ressalta-se, por fim, a constatação do Cole- tivo de Autores (1992), de que a Educação Física pode ser conside- rada uma das áreas de conhecimento escolar com mais normativas curriculares. CONHECIMENTOS 1212 a solução para o seu concurso! Editora Uma diferenciação importante de ser trazida à discussão é feita por Libâneo, Oliveira; Toschi (2005) em relação aos tipos de currícu- lo, tais como: a) currículo real: realizado na prática; b) currículo for- mal: escrito, e; b) currículo oculto: atitudes, valores, normas. Para Silva (1999, p.78), o currículo oculto é constituído por todos aqueles aspectos do ambiente escolar que, sem fazer parte do currículo ofi- cial, explícito, contribuem, de forma implícita, para aprendizagens sociais relevantes. A aprendizagem do currículo oculto, segundo Silva (1999, p.78- 79), se dá de diferentes formas, estando incluídos assim: a) atitudes, comportamentos, valores e orientações que per- mitem que crianças e jovens se ajustem da forma mais conveniente às estruturas e às pautas de funcionamento, consideradas injustas e antidemocráticas e, portanto, indesejáveis, da sociedade capita- lista; b) atitudes e valores próprios de outras esferas sociais, como, por exemplo, aqueles ligados à nacionalidade; c) como ser homem ou mulher, como ser heterossexual ou homossexual, bem como a identificação com uma determinada raça ou etnia; d) rituais, regras, regulamento e normas; e) as atitudes e os valores prendidos, como o conformismo, a obediência e o individualismo. Ainda segundo o autor, uma das fontes do currículo oculto é constituída pelas relações sociais da escola: as relações entre pro- fessores e alunos, entre a administração e os alunos, entre alunos e alunos. Também cabe destacar que nos dias de hoje, muitos professo- res tem buscado fundamentação nos Parâmetros Curriculares Na- cionais (PCN) para a organização e desenvolvimento de sua prática docente. Os PCN foram elaborados por vários estudiosos da área da Educação Física e em 1997, foram lançados os documentos referen- tes aos conteúdos do 1º e 2º ciclos (1ª a 4ª séries do Ensino Funda- mental), hoje conhecidos como de 1º ao 6º ano. No ano seguinte, foram publicados os PCN para o 3º e 4º ciclos (5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental), hoje 6º ao 9º ano. E, por fim em 1999 foram divulgados os PCN do Ensino Médio. Os PCN propõem a organização do currículo em ciclos de aprendizagem, estipulando objetivos, conteúdos, metodologias e critérios de avaliação a todas as disciplinas curriculares. Apresen- tam ainda, os temas transversais, apontados como temas de urgên- cia para o país como um todo, sejam eles: ética, saúde, pluralidade cultural, meio ambiente, orientação sexual, trabalho e consumo. Alguns teóricos críticos que se dedicam ao currículo acreditam que este documento representa uma forma de controle e regulação da ação docente, definindo o quê e como ensinar. Os processos de regulação e controle do trabalho docente atingem fortemente os professores ao se produzir um conjunto de práticas (discursos) com a função de normatizar à docência, identi- ficando e “sugerindo” ações, atitudes e decisões consideradas legí- timas para serem tomadas no processo educativo. Esses processos reguladores representam também, uma forma de racionalizar o en- sino e os currículos. Aplle (1987) esclarece que a busca por uma pa- dronização curricular tem seus pressupostos firmados no Tayloris- mo industrial, então caracterizado, pela separação entre concepção e execução. A geração de técnicas, como a disseminação de testes e currículos empacotados, não surgiu por acaso - assim como a his- tória do Taylorismo – mas, devido aos sucessos parciais, fracassos e resistências que acompanharam formas de controle anteriormente estabelecidas. Modelo de Currículo Dados Pessoais Nome: Data de Nascimento: Idade: Naturalidade: Estado Civil: Endereço: Telefone: E-Mail: Objetivos Profissionais Áreas de Interesse: Atuar como (educadora física) levando saúde e qualidade de vida para jovens e adultos. Resumo profissional: Capacidade de trabalhar em equipe; Fa- cilidade em transmitir informações com clareza e objetividade ao público; Habilidade em gerir pessoas e coordenar projetos com bom humor e disposição. Conhecimento amplo em diversas áreas da Educação Física. Disponibilidade: a combinar Formação Acadêmica O Curso Ensino Superior Instituição: Cidade: Curso: Conclusão: Cref: Experiência Profissional Empresa: Cidade: Cargo: Funções Desempenhadas: OBS: Coloque todas as suas experiências Atuação em Escolas - Estágios Supervisionados Empresa: Cidade: Ramo de Atividade: Educação Física Escolar Cargo: Funções Desempenhadas: Professora de Educação Física para ensino fundamental com crianças/adolescentes e as atividades que fazia em sala de aula. OBS: Coloque todas as suas experiências Cursos e Conhecimentos Adicionais (vale dizer algum curso que você já fez). O que torna a Educação Física como matéria não-curricular O artigo 26 da LDB, traz o seguinte, em seu §3º: Art. 26. Os currículos da educação infantil, do ensino funda- mental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabeleci- CONHECIMENTOS 13 a solução para o seu concurso! Editora mento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas caracte- rísticas regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos. [ ] 3º A educação física, integrada à proposta pedagógica da esco- la, é componente curricular obrigatório da educação básica, sendo sua prática facultativa ao aluno I – que cumpra jornada de trabalho igual ou superior a seis ho- ras; II – maior de trinta anos de idade; III – que estiver prestando serviço militar inicial ou que, em si- tuação similar, estiver obrigado à prática da educação física; IV – amparado pelo Decreto-Lei no 1.044, de 21 de outubro de 1969; V – (VETADO) VI – que tenha prole. Aqui, deve-se atentar ao seguinte, a Educação Física consta como matéria em currículo, porém sua prática não é obrigatória se a pessoa estiver em um dos casos trazidos pelos incisos. DA CULTURA CORPORAL DE MOVIMENTO COMO OBJETO DE ESTUDO DA EDUCAÇÃO FÍSICA ENQUANTO PROCES- SOS DE LEGITIMAÇÃO DAS FORMAS DE EXPRESSÃO E DE PRODUÇÕES HISTÓRICAS, SOCIAIS E POLÍTICAS DE UM DETERMINADO CONTEXTO. Os significados do corpo na cultura e as implicações para a Educação Física Na área da educação física fala-se muito, atualmente, sobre o corpo. Juntamente com esse substantivo, imprime-se uma série de adjetivos. Podemos aqui citar alguns: esbelto, saudável, bonito, sensual, livre, flácido, feio, reprimido, firme, mole, natural, holís- tico, moderno, consciente, inteiro, repugnante, prazeroso, gordo, magro, etc. Os profissionais da educação física trabalham com o ser humano sobre e através do seu corpo e lidam,por extensão, com os adjetivos impressos no corpo. Por isso, torna-se importante a reflexão sobre o tema. Gostaríamos, inicialmente, de colocar algumas questões: Como definir um corpo esbelto? Como definir um corpo bonito, ou um corpo atraente, ou um corpo consciente? Como saber se o corpo já chegou ao estágio de liberdade tão sonhado? O que dizer, então, de um corpo feminino flácido, gordo, considerado deselegante nos dias de hoje, mas que era, há não muito tempo, considerado sen- sual e inspirava pintores renomados? O que dizer do conceito de saúde, associado antigamente a um corpo robusto, até mesmo gor- do, c atualmente relacionado a um corpo magro? (Como se magro fosse sempre sinônimo de saudável!) E o corpo já não tão jovem, sobre o qual são impostos uma série de “consertos” e “reparos” para parecer (não para ser) novo, tais como plásticas, cremes antir- rugas, dietas rejuvenescedoras, ginásticas, esportes? Quem define esses atributos a respeito do corpo? Quem determina os critérios para se classificar o corpo num ou noutro grupo? Para discutir com mais profundidade estas questões, estamos utilizando um referen- cial cultural. Não podemos imaginar um ser humano que não seja fruto da cultura e também não podemos imaginar um corpo natural. Por- tanto, qualquer adjetivo que se associe ao corpo é fruto de uma dinâmica cultural particular, e só faz sentido num grupo específi- co. O homem só chegou ao seu estágio aluai de desenvolvimento devido a um processo cultural de apropriação de comportamentos e atitudes que, inclusive, foram transformando o seu componente biológico. Não é possível desvincular o homem da cultura. O que o diferencia de outros animais, principalmente, é a sua capacidade de produzir cultura. Cultura essa que não é um ornamento, um algo a mais que se sobrepôs à natureza animal. A cultura foi a própria condição de sobrevivência da espécie. Portanto, pode-se dizer que a natureza do homem é ser um ser cul- tural. Infelizmente, no meio acadêmico e profissional da educação física, essa problemática ainda não é compreendida no âmbito de um conhecimento antropológico. A ênfase na formação profissional em educação física ainda se refere ao homem e ao seu corpo como entidades primordialmente biológicas. Temos ouvido comentários sobre o corpo que embutem uma noção que separa a natureza da cultura. Quando se defende a procura por um corpo natural, está se falando que é possível encontrar um corpo pré-cultural, ou que seja imune à cultura. Quando se fala do corpo livre, parece que se busca um corpo que não seja escravizado ou moldado pelas regras sociais. Ouvimos até certos excessos como “liberar o lado animal do corpo. Como se o corpo e o homem não fossem eminentemente cultu- rais. Como se se quisesse achar um corpo ainda não atingido pela cultura ou anterior a ela. O corpo é uma síntese da cultura, porque expressa elementos específicos da sociedade da qual faz parte. O homem, através do seu corpo, vai assimilando e se apropriando dos valores, normas e costumes sociais, num processo de incorporação (a palavra é significativa). Mais do que um aprendizado intelectual, o indivíduo adquire um conteúdo cultural, que se instala no seu cor- po, no conjunto de suas expressões. Cada gesto que fazemos, a for- ma como nos sentamos, a maneira como caminhamos, os costumes com o corpo da gestante (a mensagem hoje é que ela se movimen- te, ao contrário de poucos anos atrás), os cuidados com o bebé... tudo é específico de uma determinada cultura, que não é melhor nem pior que qualquer outra. A forma de chutar, os cuidados higiê- nicos com o corpo, os esportes que se praticam numa determinada época, num determinado local, são influenciados pela cultura. As brincadeiras, os tipos de ginástica, os cuidados estéticos com o corpo... enfim, tudo é influenciado pela cultura. Numa multi- dão, pode-se notar certos comportamentos corporais comuns, que caracterizam e padronizam um determinado povo. Aliás, como re- lata Rodrigues, pode-se reconhecer um brasileiro num outro país pela sua forma de andar e gesticular, sua postura, seus movimentos corporais. Duas seleções de voleibol, jogando com as mesmas re- gras e técnicas, e com sistemas táticos similares, possuem estilos diferentes, um jeito característico de praticar o voleibol ou o fute- bol, que reflete tradições culturais distintas. Ao se pensar o corpo, pode-se incorrer no erro de encará-lo como puramente biológico, um patrimônio universal, já que homens de nacionalidades diferen- tes apresentam semelhanças físicas. Entretanto, para além das se- melhanças ou diferenças físicas, existe um conjunto de significados que cada sociedade escreve nos corpos dos seus membros ao longo do tempo, significados estes que definem o que é corpo de manei- ras variadas. Estamos falando das técnicas corporais, que Marcel Mauss, um antropólogo francês, definiu, já na década de 30, como as maneiras de se comportar de cada sociedade. Mauss conside- rou os gestos e os movimentos corporais como técnicas próprias da cultura, passíveis de transmissão através das gerações e imbuí- CONHECIMENTOS 1414 a solução para o seu concurso! Editora das de significados específicos. Técnicas corporais culturais, porque toda técnica é um hábito tradicional, que passa de pai para filho, de geração para geração. Segundo ele, só é possível falar em técnica, por ser cultural. Kofes, reforçando esse ponto de vista, afirma que o corpo é expressão da cultura, portanto cada cultura vai se expressar através de diferentes corpos, porque se expressa diferentemente enquanto cultura. É nesse contexto que Damatta pôde afirmar que existem tantos corpos quanto há sociedades. O corpo humano não é um dado puramente biológico sobre o qual a cultura impinge especificidades. O corpo é fruto da interação natureza/cultura. Conceber o corpo como meramente biológico é pensá-lo - explícita ou implicitamente - como natural e, consequen- temente, entender a natureza do homem como anterior ou pré- -requisito da cultura. Santos critica os que propõem a volta a um suposto corpo natural não atingido pela cultura. Segundo ele, não se pode esquecer da natureza necessariamente social de uso do corpo, sendo possível somente pensar em novos usos do corpo, já que a cultura é passível de reinvenções e recriações. Rodrigues afir- ma que “(...) nenhuma prática se realiza sobre o corpo sem que te- nha, a suportá-la, um sentido genérico ou específico”. É justamente esse sentido específico que incide sobre toda e qualquer atividade corporal o que impede de pensar o corpo como um dado biológico. O que define corpo é o seu significado, o fato dele ser produto da cultura, ser construído diferentemente por cada sociedade, e não as suas semelhanças biológicas universais. Fica evidente, portanto, que o conjunto de posturas e movimentos corporais representam valores e princípios culturais. Consequentemente, atuar no corpo implica em atuar sobre a sociedade na qual este corpo está inserido. Todas as práticas insti- tucionais que envolvem o corpo humano - e a Educação Física faz parte delas - sejam elas educativas, recreativas, reabilitadoras ou expressivas, devem ser pensadas neste contexto, a fim de que não se conceba sua realização de forma reducionista, mas se considere o homem como sujeito da vida social. Entretanto, os profissionais de educação física, cotidianamen- te, utilizam o termo técnica não no sentido que o fez Mareei Mauss, de um ato cultural, mas como um conjunto de movimentos con- siderados sempre correios, precisos, melhores do que outros. Nas aulas, o aluno melhor é aquele que chega mais próximo da técni- ca considerada certa pelo professor. Falamos de um andar corre- to, de um correr adequado, de uma postura melhor, de um corpo perfeito, desconsiderando, muitas vezes, que os movimentos são também culturais. A especificidade de raça humana é se apresentar e se dispor através de grandes diferenças. Embora se apresentando diferentemente,os homens não perdem a condição de membros da espécie humana. Acreditamos já ser possível pensar no duplo sentido do termo Cultura Corporal. No primeiro, que rebatemos, se pressupõe uma única técnica sobre o corpo; a palavra cultura acaba sendo usada como sinônimo de treinamento, adestramento do corpo. É neste sentido que termos como culturismo e fisiocultu- rismo são utilizados, constituindo-se em mais um discurso sobre o corpo, apenas uma das técnicas sobre ele colocadas. Não a única, nem a melhor. O sentido de Cultura Corporal que utilizamos parte da defini- ção ampla de Cultura e diz respeito ao conjunto de movimentos e hábitos corporais de um grupo específico. E nessa concepção que se pode afirmar que não existe um discurso puro do corpo. O corpo não fala sobre o corpo, será apenas mais um discurso sobre o cor- po. Em uma dada época, num determinado contexto, um discurso prevalece sobre o outro. Em outros termos, não há corpo livre, mas discursos sobre corpo livre; não há corpo consciente, mas discur- sos sobre corpo consciente. Kofes discutiu de forma pertinente esta questão do discurso do corpo X discurso sobre o corpo, afirmando que é necessário manter as seguintes indagações quando se abor- da esse tema: “(...) o que a sociedade está afirmando dos corpos? que corpos? que individualidades? que sociedades?”. Na Educação Física brasileira, atualmente, começa a ser utilizado o termo Cultu- ra Corporal em sentidos próximos daquele por nós defendido. No livro Metodologia do Ensino de Educação Física encontramos a se- guinte referência: “(...) a materialidade corpórea foi historicamente construída e, portanto, existe uma cultura corporal, resultado de conhecimentos socialmente produzidos e historicamente acumula- dos pela humanidade (...)”. Pereira fala de uma cultura física como “(...) toda a parcela da cultura universal que envolve o exercício fí- sico, como a educação física, a ginástica, o treinamento desportivo, a recreação físico-ativa, a dança etc.”. Betti lembra que Feio já se referiu a uma cultura física como parte de uma cultura geral, que contempla as conquistas materiais e espirituais relacionadas com os interesses físico-culturais da sociedade. A pesquisa antropológica, embora incipiente na área, pode ser útil na medida em que se preocupar com os discursos sobre o corpo, ou, melhor dizendo, com as representações sociais que suportam as várias concepções de corpo, concepções essas que justificam e orientam determinadas práticas profissionais num grupo específico e numa dada época. Qual é a representação de corpo que os profes- sores de Educação Física possuem? Que conjunto de significados a respeito do corpo possuem os frequentadores de academias de gi- nástica? Qual é o universo simbólico a respeito do corpo que técni- cos esportivos possuem? Essas perguntas somente agora começam a ser formuladas, ainda não sendo possível respondê-las de forma mais profunda. A intenção destas reflexões foi somente a de aler- tar que os profissionais de educação física, por trabalharem com o homem através do seu corpo, estão trabalhando com a cultura impressa nesse corpo e expressa por ele. Portanto, mexer no corpo é mexer na sociedade da qual esse corpo faz parte. O profissional pode fazer isso de forma explícita, atento para as consequências do seu trabalho, ou de forma implícita e inconsequente. Parece-nos evidente tentarmos estar atentos e conscientes em relação ao pa- pel do corpo na cultura. Fonte DAÓLIO. J. Os significados do corpo na cultura e as implicações para a Educação Física. Movimento - Ano 2 - N. 2. DOS FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DO CUR- RÍCULO DE EDUCAÇÃO FÍSICA, SOBRETUDO OS CONCEI- TOS DE CULTURA CORPORAL DE MOVIMENTO, A FIM DE SUBSIDIAR A REFLEXÃO CONSTANTE SOBRE A PRÓPRIA PRÁTICA PEDAGÓGICA Prezado Candidato, o tema acima supracitado, já foi abordado em tópicos anteriores. CONHECIMENTOS 15 a solução para o seu concurso! Editora DAS DIFERENTES TEORIAS E MÉTODOS DE ENSINO E DOS ELEMENTOS QUE FAVORECEM A RESSIGNIFICAÇÃO E A CONTEXTUALIZAÇÃO DE CONHECIMENTOS SOBRE AS BRINCADEIRAS E JOGOS, ESPORTES, GINÁSTICAS, DAN- ÇAS, CORPO, MOVIMENTO E SAÚDE, LUTAS E PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA Neste capítulo serão abordados alguns aspectos específicos de um programa de Educação Física para o ensino fundamental e mé- dio que venham responder à inquietação do professor quanto ao conhecimento a ser tratado, à sua distribuição nas diferentes séries e aos procedimentos para ensiná-lo. Estruturar um programa de Educação Física ou de outra dis- ciplina e selecionar os seus conteúdos é um problema metodoló- gico básico, uma vez que, quando se aponta o conhecimento e os métodos para sua assimilação, se evidencia a natureza do pensa- mento teórico que se pretende desenvolver nos alunos. Podemos dizer que o programa é o pilar da disciplina e que seus elementos principais são: 1) o conhecimento de que trata a disciplina, sistematizado e distribuído, que geralmente se denomina de conteúdos de ensino; 2) o tempo pedagogicamente necessário para o processo de apropriação do conhecimento; e 3) os procedimentos didático-metodológicos para ensiná-lo. Dentro dos limites impostos pelo caráter deste livro, serão abordados, separadamente, cada um deles. 1. O Conhecimento de que Trata a Educação Física A Educação Física é uma disciplina que trata, pedagogicamen- te, na escola, do conhecimento de uma área denominada aqui de cultura corporal. Ela será configurada com temas ou formas de atividades, par- ticularmente corporais, como as nomeadas anteriormente: jogo, esporte, ginástica, dança ou outras, que constituirão seu conteúdo. O estudo desse conhecimento visa apreender a expressão corporal como linguagem. O homem se apropria da cultura corporal dispondo sua inten- cionalidade para o lúdico, o artístico, o agonístico, o estético ou outros, que são representações, idéias, conceitos produzidos pela consciência social e que chamaremos de “significações objetivas”. Em face delas, ele desenvolve um “sentido pessoal” que exprime sua subjetividade e relaciona as significações objetivas com a rea- lidade da sua própria vida, do seu mundo e das suas motivações. Segundo Leontiev (1981), as significações não são eleitas peio homem, elas penetram as relações com as pessoas que formam sua esfera de comunicações reais. Isso quer dizer que o aluno atribui um sentido próprio às atividades que o professor lhe propõe. Mas essas atividades têm uma significação dada socialmente, e nem sempre coincide com a expectativa do aluno. Por exemplo, o professor vê no basquete um evento, mais do que lúdico, de luta entre duas equipes, das quais uma será natural- mente a ganhadora. A equipe que ganha o faz porque é mais forte, mais hábil, tem mais garra, mais técnica etc. Por esse motivo, para o professor, driblar, correr, passar, fintar etc. devem ser executados sem erros. Isso justifica sua ênfase no treinamento dessas técnicas. Ele dá ao jogo um sentido quase de um trabalho a ser executado com perfeição em todas as suas partes para obter o sucesso ou prê- mio, que até pode ser um salário. Entretanto, para o aluno, o que ele deve fazer para jogar — como driblar, correr, passar e fintar — é apenas um meio para atin- gir algo para si mesmo, como por exemplo: prazer, auto estima etc. O seu sentido pessoal do jogo tem relação com a realidade de sua própria vida, com suas motivações. Por essas considerações podemos dizer que os temas da cultu- ra corporal, tratados na escola, expressam um sentido significado onde se interpenetram, dialeticamente, a intencionalidade/objeti- vos do homem e as intenções objetivos da sociedade. Tratar desse sentido/significado abrange a compreensão das relações de interdependência que jogo, esporte, ginástica e dan- ça, ou outros temas que venham a compor um programa de Edu- cação Física, têm com os grandes problemas sócio-políticos atuais como: ecologia, papéissexuais, saúde pública, relações sociais do trabalho, preconceitos sociais, raciais, da deficiência, da velhice, distribuição do solo urbano, distribuição da renda, dívida externa e outros. A reflexão sobre esses problemas é necessária se existe a pretensão de possibilitar ao aluno da escola pública entender a rea- lidade social interpretando-a e explicando-a a partir dos seus inte- resses de classe social. Isso quer dizer que/cabe à escola promover a apreensão da prática social. Portanto, os conteúdos devem ser buscados dentro dela. Tratar dos grandes problemas sócio-políticos atuais não signi- fica um ato de doutrinamento. Não é isso que estamos propondo. Defendemos para a escola uma proposta clara de conteúdos do ponto de vista da classe trabalhadora, conteúdo este que viabilize a leitura da realidade estabelecendo laços concretos com projetos políticos de mudanças sociais. A percepção do aluno deve ser orientada para um determinado conteúdo que lhe apresente a necessidade de solução de um pro- blema nele implícito. Vejamos um exemplo: “Organizar atividades de lazer em áreas verdes”. A atividade escolhida é o excursionismo acampamento, que oferece aos alunos possibilidades de praticar: caminhadas recrea- tivas, natação em rios, lagos ou mar, montanhismo e outros. To- das essas atividades fazem o aluno confrontar-se com a devastação ou preservação do meio ambiente e com a contradição de ser o homem — ao mesmo tempo — construtor e predador. Ao mesmo tempo que ele produz um bem social — por exemplo, energia pelo álcool —, provoca a morte dos rios e exclui da população a possibi- lidade de beber suas águas ou nadar nelas. Para realizar as atividades de acampamento, os alunos encon- trarão problemas como, por exemplo, fazer fogo sem provocar in- cêndios, preparar alimentos sem sujar o ambiente etc. Essas expe- riências devem proporcionar a ampliação de referências que levem o aluno a compreender e explicar a necessidade de a população participar da gestão do seu patrimônio ambiental, as relações da questão ecológica com a saúde dos trabalhadores, com o desenvol- vimento urbano, a opção tecnológica etc.1 O aprofundamento sobre a realidade através da problemati- zação de conteúdos desperta no aluno curiosidade e motivação, o que pode incentivar uma atitude científica. A escola, na perspectiva de uma pedagogia crítica superadora aqui defendida, deve fazer uma seleção dos conteúdos da Educa- ção Física. Essa seleção e organização de conteúdos exige coerência com o objetivo de promover a leitura da realidade. Para que isso CONHECIMENTOS 1616 a solução para o seu concurso! Editora ocorra, devemos analisar a origem do conteúdo e conhecer o que determinou a necessidade de seu ensino. Outro aspecto a conside- rar na seleção de conteúdos é a realidade material da escola, uma vez que a apropriação do conhecimento da Educação Física supõe a adequação de instrumentos teóricos e práticos, sendo que algumas habilidades corporais exigem, ainda, materiais específicos. Os conteúdos são conhecimentos necessários à apreensão do desenvolvimento sócio-histórico das próprias atividades corporais e à explicitação das suas significações objetivas. Sendo usual, para o professor, o uso do termo “conteúdo”, nes- te livro também será adotado, fazendo-se a ressalva que sempre significará “conhecimento”. Para efeito de um tratamento mais didático, serão analisados no tópico seguinte alguns conteúdos possíveis, já que ficará mais compreensível fazê-lo paralelamente aos critérios de organização deles no tempo escolar. Esses conteúdos surgem de grandes temas da cultura corporal e podem ser vistos quase como uma grande e abrangente classificação, suscetível de ser sistematizada em nível escolar, em todos os graus do ensino fundamental e médio. São eles, numa ordem arbitrária: Jogo; Esporte; Capoeira: Gi- nástica e Dança. Cada um deles deve ser estudado profundamente pelo(s) professores), desde a sua origem histórica ao seu valor edu- cativo para os propósitos e fins do currículo. Dizer ordem arbitrária significa que não há uma ordem rígida para organizar o programa, colocando primeiro o jogo, segundo a dança etc. O professor pode dar a ordem necessária aos interesses da turma ou também tratar deles simultaneamente. 2. O Tempo Pedagogicamente Necessário para o Processo de Assimilação do Conhecimento Uma nova compreensão da Educação Física implica considerar certos critérios pelos quais os conteúdos serão organizados, siste- matizados e distribuídos dentro de tempo pedagogicamente neces- sário para a sua assimilação. A título de exemplo, vejamos como um mesmo conteúdo pode ser tratado em todos os níveis escolares numa evolução espiralada. É necessário lembrar que a explicação sobre os ciclos foi dada no primeiro capítulo. Saltar representa a atividade historicamente formada e cultu- ralmente desenvolvida de ultrapassar obstáculos, seja em altura ou extensão/distância. No primeiro ciclo do ensino fundamental (organização da identificação dos dados da realidade), o aluno já a conhece e a executa a partir de uma imagem da ação tomada do seu cotidiano. Ele a executa com movimentos espontâneos que lhe são particulares. A ênfase pedagógica deve incidir na solução do problema: como desprender-se da ação da gravidade e cair sem machucar-se? Das respostas encontradas pelos alunos, surgirão as primeiras referências comuns à atividade “saltar”. No decorrer dos ciclos seguintes, o aluno ampliará seu domínio sobre formas de sal- tar. É interessante destacar que uma habilidade corporal envolve, simultaneamente, domínio de conhecimento, de hábitos mentais e habilidades técnicas. No quarto ciclo, o aluno sistematiza o conhecimento sobre os saltos e os conceitos que explicam o conteúdo e a estrutura de to- talidade do objeto “’salto”, desde as leis físicas e características da ação no nível cinésio/físiológico, até às explicações político-filosófi- cas da existência de modelos de salto. Pode ainda explicar o signifi- cado deles para si próprio, como sujeito do processo de aprendiza- gem e para a população em geral. Na organização do conhecimento, deve-se levar em conside- ração que as formas de expressão corporal dos alunos refletem os condicionantes impostos pelas relações de poder com as classes dominantes no âmbito de sua vida particular, de seu trabalho e de seu lazer. Agora será exemplificada uma das formas possíveis de dis- tribuição do conteúdo nos diversos ciclos do processo de ensino- -aprendizagem, com o tema jogos, esporte, ginástica e dança. Os exemplos aqui utilizados têm como referência o livro Contribuição ao debate do currículo em Educação Física: uma proposta para a Escola Pública, da Secretaria de Educação, Cultura e Esportes do Es- tado de Pernambuco. 2.1 Jogo O jogo (brincar e jogar são sinônimos em diversas línguas) é uma invenção do homem, um ato em que sua intencionalidade e curiosidade resultam num processo criativo para modificar, imagi- nariamente, a realidade e o presente. O jogo satisfaz necessidades das crianças, especialmente ne- cessidade de “ação”. Para entender o avanço da criança no seu desenvolvimento, o professor deve conhecer quais as motivações, tendências e incentivos que a colocam em ação. Não sendo o jogo aspecto dominante da consciência, ele deve ser entendido como “fator de desenvolvimento” por estimular a criança no exercício do pensamento, que pode desvincular-se das situações reais e levá-la a agir independentemente do que ela vê. Quando a criança joga, ela opera com o significado das suas ações, o que a faz desenvolver sua vontade e ao mesmo tempo tornar-se consciente das suas escolhas e decisões. Por isso, o jogo apresenta-se como elemento básico para a mudança das necessida- des e da consciência. A ênfase no propósito/objetivo do jogo acentua-se com o de- senvolvimento da criança. Sempre esse propósito objetivo é o que decide o jogo, justifica a atividade e determina aatitude afetiva da criança. Assim, por exemplo, a preocupação e tensão durante uma corrida, tanto por querer ganhar ou por se ver ultrapassada, pode levá-la à perda de grande parte do prazer do jogo. Observa-se o desenvolvimento da criança no caráter dos seus jogos, que evoluem desde aqueles onde as regras encontram-se ocultas numa situação imaginária (como, por exemplo, quando crianças jogam de papai e mamãe, elas agem de acordo com as re- gras de comportamento de um pai e de uma mãe), até os jogos onde as regras são cada vez mais claras e precisas, e a situação ima- ginária é oculta. Um jogo de duas equipes, por exemplo “queimada”, envolve a situação imaginária de uma guerra onde uma equipe “extermi- na” a outra com “tiros” de bola. O imaginário da “guerra” vai sen- do escondido pelas regras, cada vez mais complexas, às quais os jogadores devem prestar o máximo de atenção. Por esse motivo é conveniente promover junto aos alunos discussões sobre as situa- ções de violência que o jogo cria e as consequentes regras para seu controle. Dessa forma, os alunos poderão perceber, por exemplo, que um jogo como a “queimada” é discriminatório, uma vez que os mais fracos são eliminados (queimados) mais rapidamente, per- dendo a chance de jogar. Isso não significa não jogar “queimada”, senão mudar suas regras para impedir a sobrepujança da competi- ção sobre o lúdico. CONHECIMENTOS 17 a solução para o seu concurso! Editora Quanto mais rígidas são as regras dos jogos, maior é a exigên- cia de atenção da criança e de regulação da sua própria atividade, tomando o jogo tenso. Todavia, é fundamental o desenvolvimento das regras na escola, porque isso permite à criança a percepção da passagem do jogo para o trabalho. Num programa de jogos para as diversas séries, é importante que os conteúdos dos mesmos sejam selecionados, considerando a memória lúdica da comunidade em que o aluno vive e oferecendo- -lhe ainda o conhecimento dos jogos das diversas regiões brasileiras e de outros países. 2.2 Esporte O esporte, como prática social que institucionaliza temas lúdi- cos da cultura corporal, se projeta numa dimensão complexa de fe- nômeno que envolve códigos, sentidos e significados da sociedade que o cria e o pratica. Por isso, deve ser analisado nos seus variados aspectos, para determinar a forma em que deve ser abordado pe- dagogicamente no sentido de esporte escola e não como o esporte “na” escola. Sendo uma produção histórico-cultural, o esporte subordina-se aos códigos e significados que lhe imprime a sociedade capitalista e. por isso, não pode ser afastado das condições a ela inerentes, espe- cialmente no momento em que se lhe atribuem valores educativos para justificá-lo no currículo escolar. No entanto, as características com que se reveste — exigência de um máximo rendimento atléti- co, norma de comparação do rendimento que idealiza o princípio de sobrepujar, regulamentação rígida (aceita no nível da competi- ção máxima, as olimpíadas) e racionalização dos meios e técnicas — revelam que o processo educativo por ele provocado reproduz, inevitavelmente, as desigualdades sociais. Por essa razão, pode ser considerado uma forma de controle social, pela adaptação do prati- cante aos valores e normas dominantes defendidos para a “funcio- nalidade” e desenvolvimento da sociedade. Por outro lado, os pressupostos para o aprendizado do esporte, tais como o domínio dos elementos técnicotáticos e as precondi- ções fisiológicas para a sua prática, demonstram claramente que a finalidade a ele atribuída é somente a vitória na competição, colo- cando-o como fim em si mesmo. Se aceitamos o esporte como fenômeno social, tema da culto- ra corporal, precisamos questionar suas normas, suas condições de adaptação à realidade social e cultural da comunidade que o prati- ca, cria e recria. Na escola, é preciso resgatar os valores que privilegiam o cole- tivo sobre o individual, defendem o compromisso da solidariedade e respeito humano, a compreensão de que jogo se faz “a dois”, e de que é diferente jogar “com” o companheiro e jogar “contra” o adversário. Para o programa de esporte se apresenta a exigência de “des- mitificá-lo” através da oferta, na escola, do conhecimento que permita aos alunos criticá-lo dentro de um determinado contexto sócio-econômico-político cultural. Esse conhecimento deve promo- ver, também, a compreensão de que a prática esportiva deve ter o significado de valores e normas que assegurem o direito à prática do esporte. O programa deve abarcar desde os jogos que possuem regras implícitas até aqueles institucionalizados por regras específicas, sendo necessário que o seu ensino não se esgote nos gestos técni- cos. Colocar um limite para o ensino dos gestos técnicos, contudo, não significa retirá-los das aulas de Educação Física na escola, pois acredita-se que, para dizer que o aluno possui “conhecimento” de determinados jogos que foram esportivizados, não é suficiente que ele domine os seus, gestos técnicos. A seguir são oferecidas suges- tões para o tratamento “esportivo” de alguns temas da cultura cor- poral. 2.2.1 FUTEBOL O que deveria ser do conhecimento do aluno para podermos afirmai ser ele seu conhecedor? O estudo do futebol na escola pode ser feito mediante uma análise que abarque diferentes aspectos, tais como: - O futebol enquanto jogo com suas normas, regras, e exigên- cias físicas, técnicas e táticas; - O futebol enquanto espetáculo esportivo; - O futebol enquanto processo de trabalho que se diversifica e geri mercados específicos de atuação profissional; - O futebol enquanto jogo popularmente praticado; - O futebol enquanto fenômeno cultural/que inebria milhões e milhões de pessoas em todo o mundo e, em especial, no Brasil. Para isso, convém discutir sua história, lembrar de seu pagado “nobre” na Inglaterra do século XIX, bem como de sua chegada e incorporação no Brasil. Nesse quadro cabe evidenciar, por exemplo, a época em que o futebol se popularizou deixando de ser um diver- timento restrito à classe dominante, passando a ganhar os espaços das várzeas, dos morros, os espaços de festa e movimento do povo. Daí a necessidade, entre outras, de analisar com o aluno o fute- bol que faz com que, num país como o Brasil, as diferenças econô- micas, políticas, culturais e sociais, de repente, pareçam inexistir no momento de realização de um gol. Esse mesmo fenômeno cultural chamado, futebol constitui-se também num “mercado de trabalho”. Todavia, é um “mercado” que sequer chegou à sociedade do contrato e da venda livre da força de trabalho. Ao trabalhar essas questões, o professor vai auxiliando o aluno a perceber o que ocorre por trás do campo, ou seja, nos meandros da administração direção do futebol “show”, profissional. Perceber, também, o “jogo” que existe entre poder econômico e poder espor- tivo, assim como o uso da pessoa humana na busca do lucro. Nesse “jogo” há uma exacerbação do nível competitivo, onde os valores de natureza ética se perdem frente à busca da vitória a qualquer custo. Lucro, vitória a qualquer custo, tudo isso vai contribuindo para a alienação do “trabalhador da bola”, fazendo com que ele nem per- ceba que, na verdade, é um “escravo da bola”, uma vez que a “lei do passe” ainda orienta e determina as suas relações trabalhistas. 5 Portanto, a partir das diferentes óticas aqui brevemente trata- das, pode-se entender que o ensino do futebol na escola é mais do que “jogar futebol”, muito embora o “jogar futebol” seja elemento integrante das aulas de Educação Física. 6 2.2.2. ATLETISMO O atletismo inclui as práticas do correr, saltar e arremessar/ lançar. Essas práticas foram criadas pelo homem. O seu desenvolvi- mento e evolução são conseqüências da elaboração cultural. O significado dos seus fundamentos encontra-se na solução que deve ser dada ao problema de maximizar a velocidade (correr), desprender-se da ação da gravidade (saltar) e jogar distante(arre- messar/lançar). CONHECIMENTOS 1818 a solução para o seu concurso! Editora Cada fundamento se materializa em “provas” específicas que exprimem o propósito que lhe é atribuído. Corridas: - De resistência. - De velocidade — com e sem obstáculos. - De campo — cross-country. - De aclives-declives (de rua ou pedestrianismo). - De revezamento. Saltos: - No sentido horizontal: extensão e triplo. - No sentido vertical: altura e com vara. Arremessos: - Implemento: peso. Lançamentos: - Implementos: dardo, disco, martelo. A título de exemplo, vejamos como trabalhar em aulas os lan- çamentos. No programa de jogos para I Ciclo (1ª a 3ª séries) “Jogos que promovam o reconhecimento de si e das próprias possibilidades de ação”. Isso significa que nesse ciclo pode-se praticar jogos distante de si mesmo algum objeto como; bola, pedra, bastão de madeira etc. O significado do ”arremessar” pode ser abordado, ludicamente, na forma de dramatização de uma atividade dos índios primitivos que lançam dardos para caçar animais”. A “caça” pode estar repre- sentada por um grande círculo onde devem chegar os “dardos” (ca- bos de vassoura). O alvo deve ser amplo para não exigir portaria e sim a força para cobrir a distância-desafio. Numa 4ª serie, pode-se jogar o mesmo jogo, dessa vez em equipes, onde a distância do lançamento de cada membro é soma- da num só total. Somar as distâncias para saber qual equipe jogou mais longe privilegia o significado do coletivo. O passo seguinte pode ser a bus- ca da forma “técnica” que venha garantir a eficácia do lançamento, e, mais tarde, a prática da prova: “lançamento de dardo”, com o propósito claro da busca do rendimento esportivo. 2.2.3 VOLEIBOL Pode-se dizer que o propósito desse jogo é evitar que a bola caia no próprio campo de jogo, fazendo-a cair no campo do adver- sário por cima de uma rede. Significado dos seus fundamentos: a) Saque = a forma de iniciar a jogada ou “rally”. b) Recepção = ação de receber o saque do adversário. c) Levantamento = preparação para o ataque. d) Ataque = passar a bola para o campo contrário dificultando a defesa. e) Moqueio = interceptação do ataque do adversário. f) Defesa = evitar que a bola caia no próprio campo. Cada um desses fundamentos pode dar significado a jogos que podem ser jogados em qualquer série, respeitando o estágio de de- senvolvimento do aluno, pois é esse estágio que indica o tipo de organização e regras que podem ser colocadas. Existe um interessante acervo de jogos que contém elementos técnicos e táticos mais simplificados do que os dos jogos esportivos formais, por exemplo, o “minivoleibol”. Ele representa uma opção para a iniciação técnico-tática dos alunos, a qual foi explicada no programa de jogos e pode vir a acontecer no Ciclo de Iniciação ao Conhecimento Sistematizado, 4ª a 6ª série. Cumpre ressaltar que jogos ou atividades que apresentam es- truturas de situações semelhantes são aconselháveis para desen- volver habilidades comuns aos jogos esportivos. Isso não significa defender transferência de gestos, nem classificações de jogos “pré- -desportivos”. Entendemos que içada jogo representa um momento lúdico particular e independente. 2.2.4. BASQUETEBOL Jogo no qual disputa-se uma bola, para atingir um alvo, que é defendido pelo adversário, utilizando-se somente as mãos para manejá-la. Significado dos seus fundamentos: Atacar: - Passar = jogar a bola para o companheiro. - Driblar = progredir com a bola quicando-a. - Arremessar = jogar a bola em direção à cesta. Defender: - Dificultar os passes, os dribles e os arremessos do adversário. O basquetebol, como outros jogos de bola, apresenta fun- damentos que podem ser motivo de vários jogos. A habilidade de “passar” a bola constitui um interessante tema lúdico desde as pri- meiras séries do ensino fundamental. “Passar” uma bola implica várias dimensões do sentido que essa atividade pode vir a ter para o aluno. Por exemplo, passar a bola para o companheiro estabelece uma relação na qual mate- rializam-se variados sentimentos, como: vontade de dar ao outro uma coisa; dispor-se a receber de outro uma coisa; negar-se a dar; negar-se a receber; avaliar que é mais fácil passar para o outro do que receber do outro etc. É necessário que o professor promova a compreensão do que é “equipe”, bem como do papel “solidário” que cada um dos seus membros deve ter, estimulando-os para o co- letivo desde as primeiras séries. O significado do “passar” uma boa para outro pode ser motivo de jogos a partir da 1ª serie evoluindo para o momento em que o aluno se tome consciente da necessida- de da técnica e da tática para “passar” e “receber” uma bola com eficiência dentre de um jogo esportivo, como no basquetebol. Os exemplos ilustram formas possíveis de abordar o esporte numa perspectiva pedagógica; não se trata, porém, em momento algum, de levar a uma especialização precoce de posição ou função dentro de um jogo, ou o uso de sistemas táticos complexos que não se ajustem ao estágio de desenvolvimento dos alunos. 2.3. Capoeira A capoeira encerra em seus movimentos a luta de emancipa- ção do negro no Brasil escravocrata. Em seu conjunto de gestos, a capoeira expressa, de forma explícita, a “voz” do oprimido na sua relação com o opressor. Seus gestos, hoje esportivizados e codificados em muitas “es- colas” de capoeira, no passado significaram saudade da terra e da liberdade perdida: desejo velado de reconquista da liberdade que tinha como arma apenas o próprio corpo. Isso leva a entender a riqueza de movimento e de ritmou que a sustentam, e a necessidade de não separá-la de sua história, trans- formando-a simplesmente em mais uma “modalidade esportiva”. A Educação Física brasileira precisa, assim, resgatar a capoeira enquanto manifestação cultural, ou seja, trabalhar com a sua histo- ricidade, não desencarná-la do movimento cultural e político que a CONHECIMENTOS 19 a solução para o seu concurso! Editora gerou. Esse alerta vale nos meios da Educação Física, inclusive para o judô que foi, entre nós, totalmente despojado de seus significa- dos culturais, recebendo um tratamento exclusivamente técnico. 7 2.4 Ginástica A ginástica, desde suas origens como a “arte de exercitar o cor- po nu”, englobando atividades como corridas, saltos, lançamentos e lutas, tem evoluído para formas esportivas claramente influencia- das pelas diferentes culturas. No currículo escolar tradicional brasileiro, são encontradas manifestações da ginástica de várias linhas europeias, nas quais se incluem formas básicas do atletismo (caminhar, correr, saltar e ar- remessar), e formas básicas da ginástica (pular, empurrar, levantar, carregar, esticar). Incluem, também, exercícios em aparelhos (ba- lançar na barra fixa, equilibrar na trave olímpica), exercícios com aparelhos manuais (salto com aros, cordas) e formas de luta. Dessa concepção de ginástica, os jogos têm sido parte importante. En- quanto aos exercícios anteriormente citados têm-se atribuído ob- jetivos de desenvolvimento de algumas capacidades como força, agilidade, destreza, aos jogos tem cabido a representação das ex- periências lúdicas da própria comunidade. Até hoje, nos programas brasileiros, se evidencia a influência da calistenia e do esportivismo, ginástica artística ou olímpica, o que pode explicar o fato de a ginás- tica ser cada vez menos praticada nas escolas. A falta de instalações e aparelhos no estilo “olímpico” desesti- mula o professor a ensinar ginástica. Quando existem esses meios, sobressai a tendência à “esportivização” que fixa normas de mo- vimento e determina o “sexismo”8 das provas, por outro lado, a capacidade artística individual tida como “inata” acaba gerando a “elitização” da ginástica. O que legitimaria, então, a presença da ginástica nos progra- mas de Educação Física? Pode-se entender a ginástica como uma forma particular de exercitação onde, com ou sem usode aparelhos, abre-se a possibi- lidade de atividades que provocam valiosas experiências corporais, enriquecedoras da cultura corporal das crianças, em particular, e do homem, em geral. Sua prática é necessária na medida em que a tradição histórica do mundo ginástico é uma oferta de ações com significado cultu- ral para os praticantes, onde as novas formas de exercitação em confronto com as tradicionais possibilitam uma prática corporal que permite aos alunos darem sentido próprio às suas exercitações gi- násticas. Assim, a presença da ginástica no programa se faz legítima na medida em que permite ao aluno a interpretação subjetiva das ati- vidades ginásticas, através de um espaço amplo de liberdade para vivenciar as próprias ações corporais. No sentido da compreensão das relações sociais, a ginástica promove a prática das ações em grupo onde, nas exercitações como “balançar juntos” ou “saltar com os companheiros”, concretiza-se a “co-educação”, entendida como forma particular de elaborar/praticar formas de ação comuns para os dois sexos, criando um espaço aberto à colaboração entre eles para a crítica ao “sexismo” socialmente imposto. Constituem-se fundamentos da ginástica: “saltar”, “equilibrar”, “rolar/girar”, “trepar” e “’balançar/embalar”. Por serem ativi- dades que traduzem significados de ações historicamente desen- volvidas e culturalmente elaboradas, devem estar presentes em todos os ciclos em níveis crescentes de complexidade. Podemos explicar esses fundamentos numa forma simplificada que exprime o seu significado: - Saltar: Desprender-se da ação da gravidade, manter-se no ar e causem machucar-se. - Equilibrar: Permanecer ou deslocar-se numa superfície limita- da, vencendo a ação da gravidade. - Rolar/girar: Dar voltas sobre os eixos do próprio corpo. - Trepar: Subir em suspensão pelos braços, com ou sem ajuda das pernas, em superfícies verticais ou inclinadas. - Balançar/embalar: Impulsionar-se e dar ao corpo um movi- mento de “vaivém”. A elaboração de um programa de ginástica para as diferentes séries exige pensar na evolução que deve ter em sua abordagem, desde as formas espontâneas de solução dos problemas com técni- cas rústicas nas primeiras séries, até a execução técnica aprimorada nas últimas séries do ensino fundamental, bem como do ensino mé- dio, onde se atinge a forma esportiva, com e sem aparelhos formais. Tradicionalmente, “saltar” é abordado na ginástica escolar como a sequência de um movimento classificável em três fases: “impulsão-vôo-queda”, correspondendo a uma aprendizagem de formas fixas de movimento, que contempla até a parte do pé que deve apoiar-se primeiro na queda. A consequência para o aluno é ser submetido a exercitações de pequenos movimentos isolados de alguns segmentos do corpo. Por esse motivo, desenvolver um programa de ginástica que provoque no aluno atitudes de “curio- sidade”, “interesse”, “criatividade” e “criticidade” exige necessaria- mente uma nova abordagem, na qual “saltar” seja um desafio para “descobrir” uma solução ao problema de desprenda-nos mantém presos ao chão. A abordagem problematizadora, anteriormente exemplificada, assegura a globalidade das ações das crianças e a compreensão do sentido/significado da própria prática. 2.5 Dança Considera-se a dança uma expressão representativa de diver- sos aspectos da vida do homem. Pode ser considerada como lin- guagem social que permite a transmissão de sentimentos, emoções da afetividade vivida nas esferas da religiosidade, do trabalho, dos costumes, hábitos, da saúde, da guerra etc. As primeiras danças do homem foram as imitativas, onde os dançarinos simulavam os acontecimentos que desejavam que se tomassem realidade, pois acreditavam que forças desconhecidas estariam impedindo sua realização. Para o ensino da dança, há que se considerar que o seu aspecto expressivo se confronta, necessariamente, com a formalidade da técnica para sua execução, o que pode vir a esvaziar o aspecto ver- dadeiramente expressivo. Nesse sentido, deve-se entender que a dança como arte não é uma transposição da vida, senão sua repre- sentação estilizada e simbólica. Mas, como arte, deve encontrar os seus fundamentos na própria vida, concretizando-se numa expres- são dela e não numa produção acrobática. Na dança determinantes as possibilidades expressivas de cada aluno, o que exige habilidades corporais que, necessariamente, se obtêm com o treinamento/Em certo sentido, esse é o aspecto mais complexo do ensino da dança na escola: a decisão de ensinar gestos e movimentos técnicos, prejudicando a expressão espontânea, ou de imprimir no aluno um determinado pensamento/sentido/intuiti- vo da dança para favorecer o surgimento da expressão espontânea, abandonando a formação técnica necessária à expressão certa. CONHECIMENTOS 2020 a solução para o seu concurso! Editora Na visão apresentada neste livro, escolhe-se o desenvolvimen- to de uma disponibilidade corporal, no sentido da apreensão de variadas habilidades de execução/expressão de diferentes tipos de danças inicialmente sem ênfase nas técnicas formais, para permitir a expressão desejada sem deturpar o verdadeiro sentido nelas im- plícito. O desenvolvimento da técnica formal deve ocorrer paralelo ao desenvolvimento do pensamento abstrato, pois este permite a compreensão clara do significado da dança e da exigência expres- siva nela contida. Isso é válido se considerarmos que a técnica não pode separar-se das motivações psicológicas, ideológicas, sociais do executante, da simbologia que produz, da utilização que faz das suas possibilidades corporais e da consciência que tem dos “outros” a quem comunica. É necessário, todavia, considerar que algumas formas de dança utilizam símbolos próprios das culturas a que pertencem, o que as toma de difícil compreensão e interpretação. Portanto, é recomen- dável uma abordagem de totalidade na qual as diferentes disciplinas podem contribuir, a partir dos diferentes campos de conhecimento. Assim, assegura-se aos alunos a possibilidade de reconhecimento e compreensão do universo simbólico que ela representa. A capacidade da expressão corporal desenvolve-se num conti- nuum de experiências que se iniciam na interpretação espontânea ou livre, evoluindo para a interpretação de temas da dança formali- zada, onde conscientemente o corpo é o suporte da comunicação. & escola também pode oferecer outras formas de prática da expres- são corporal, paralelamente à dança, como, por exemplo, a mímica ou pantomima, contribuindo para o desenvolvimento da expressão comunicativa nos alunos. Faz-se necessário o resgate da cultura brasileira no mundo da dança através da tematização das origens culturais, sejam do índio, do branco ou do negro, como forma de despertar a identidade so- cial do aluno no projeto de construção da cidadania. Em relação ao desenvolvimento técnico, sugere-se a aborda- gem dos fundamentos: a) Ritmo = cadência, estruturas rítmicas. b) Espaço = formas, trajetos, volumes, direções, orientações. c) Energia = tensão, relaxamento, explosão. Em relação ao conteúdo expressivo, sugere-se os seguintes te- mas: a) As ações da vida diária. b) Os estados afetivos. c) As sensações corporais. d) Os seres e fenômenos do mundo animal, vegetal e mineral. e) O mundo do trabalho. f) O mundo da escola. g) Os problemas sócio-políticos atuais, sugeridos anteriormen- te (item: “O conhecimento de que trata a Educação Física”). Fonte SOARES, C. L. et al., Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Editora Cortez, 2013. Cap. 3. DOS ASPECTOS BIOLÓGICOS, NEUROCOMPORTAMENTAIS, SOCIAIS E CULTURAIS VIÁVEIS EM SITUAÇÕES DIDÁTICAS O conhecimento em Educação Física é necessário para a com- preensão e aplicação dos princípios e as práticas relacionadas à ati- vidade física, também ao movimento humano e ao bem-estar em geral. Isso abrange uma variedade de áreas: anatomia, fisiologia, biomecânica, psicologia do esporte, pedagogia,entre outras. ASPECTOS BIOLÓGICOS No aspecto biológico, a Educação Física é fundamental para a compreensão das bases fisiológicas e anatômicas relacionadas aos movimentos humanos, à atividade física e aos efeitos do exercício no organismo. Esse conhecimento nos permitirá compreender os sistemas e processos biológicos envolvidos na prática esportiva e no condicionamento físico. Nesse aspecto, uma das áreas centrais é a anatomia humana. Esse estudo da anatomia permite a compreensão da estrutura e or- ganização do corpo humano, incluindo os sistemas musculoesque- lético, cardiovascular, respiratório e nervoso. Através desse conhe- cimento, é possível identificar os principais músculos envolvidos em determinado movimento, entender as articulações e suas amplitu- des de movimento, e compreender a relação entre a estrutura ana- tômica e a função do corpo durante a prática esportiva. Um outro aspecto essencial é a fisiologia do exercício. A fisiolo- gia que estudará as funções e os processos biológicos que ocorrem no organismo durante o exercício físico. Isso inclui a compreensão dos sistemas energéticos utilizados pelo corpo, como o aeróbio e o anaeróbio, e como eles são ativados de acordo com a intensidade e a duração do exercício. Além disso, a fisiologia do exercício tam- bém abrange o estudo das respostas cardiovasculares, respiratórias e metabólicas ao esforço físico. Quanto compreendemos a fisiologia do exercício, somos capa- zes de aplicar esse conhecimento na prescrição e no desenvolvi- mento de programas de treinamento eficazes. Exemplo: conhecer os mecanismos de adaptação do corpo ao treinamento de resistên- cia nos permite estabelecer protocolos de treino que visam melho- rar a capacidade cardiovascular e o desenvolvimento muscular. Da mesma forma, entender os processos de recuperação e regenera- ção muscular contribui para a implementação de estratégias de re- cuperação adequadas. No aspecto biológico, também é importante considerar os prin- cípios do desenvolvimento humano. Isso envolve entender como as habilidades motoras são adquiridas e aprimoradas ao longo do tempo, desde a infância até a idade adulta. Compreender as etapas do desenvolvimento motor e as capacidades motoras em cada fase da vida auxilia na criação de programas de atividade física adequa- dos para diferentes faixas etárias. Além disso, o conhecimento em Educação Física no aspecto biológico também se estende ao estudo das lesões e da prevenção de lesões relacionadas à atividade física. Conhecer as principais le- CONHECIMENTOS 21 a solução para o seu concurso! Editora sões esportivas, os fatores de risco e as estratégias de prevenção é fundamental para garantir a segurança e a integridade dos pratican- tes de atividade física. Em suma, o conhecimento em Educação Física no aspecto biológico será essencial para compreensão das bases anatômicas e fisiológicas do movimento humano, bem como os efeitos do exer- cício no organismo. Esse conhecimento embasará a prescrição de programas de treinamento eficazes, a compreensão dos mecanis- mos de adaptação do corpo ao exercício. ASPECTOS NEUROCOMPORTAMENTAIS A Educação Física dentro dos aspectos neurocomportamentais é indispensável para entendermos as relações entre o sistema ner- voso, o comportamento humano e a prática de atividades físicas. Nessa área de estudo, buscamos a compreensão de como o cérebro e o sistema nervoso estão envolvidos no controle do movimento, nas emoções, na motivação e na aprendizagem relacionada à práti- ca esportiva e ao exercício físico. Nesse conhecimento, uma das áreas centrais é a neurociência, que investiga como o sistema nervoso funciona, também como os neurônios se comunicam e como as estruturas cerebrais desempe- nham um papel na regulação do movimento e do comportamento humano. A compreensão dos mecanismos neurais relacionados à coordenação motora, ao equilíbrio, à percepção sensorial e ao con- trole motor é essencial para a Educação Física. Nesse estudo dos aspectos neurocomportamentais também se engloba a psicologia do esporte e do exercício. É essa disciplina que explora como fatores psicológicos, como motivação, atenção, emo- ções e cognição, influenciam o desempenho esportivo e a adesão ao exercício físico. Compreender os processos mentais e emocio- nais dos praticantes de atividade física é essencial para desenvolver estratégias de treinamento, estabelecer metas apropriadas e pro- mover a participação ativa e prazerosa na prática esportiva. Além do mais, o conhecimento neurocomportamental também é relevante para a compreensão do estresse e da resposta ao es- tresse relacionados à prática das atividades físicas. O estresse pode ter impacto no desempenho atlético e na saúde em geral. Portanto, conhecer os mecanismos neurais e comportamentais envolvidos na resposta ao estresse permitirá o desenvolvimento de estratégias eficazes para lidar com ele e minimizar seus efeitos negativos. Um outro aspecto importante, dentro deste tema é o estudo da aprendizagem motora. Esse campo de estudo busca compreender como os indivíduos adquirem e aprimoram habilidades motoras ao longo do tempo. O conhecimento neurocomportamental nos aju- dará a entender como o cérebro processa e armazena informações relacionadas ao movimento, como a prática e a experiência podem influenciar a aprendizagem e como otimizar o processo de aquisi- ção de habilidades motoras. Assim, é relevante considerar a relação entre atividade física e saúde mental. Estudos mostram que a prática regular de exercícios físicos está associada a melhorias no bem-estar psicológico, redu- ção do estresse e prevenção de distúrbios mentais. Compreender- mos as bases neurocomportamentais desses benefícios permitirá promover a atividade física como um meio de melhorar a saúde mental e a qualidade de vida. Resumindo, o conhecimento em Educação Física nos aspectos neurocomportamentais abrange então, a compreensão das bases neurocientíficas do movimento e do comportamento humano, bem como a influência dos fatores psicológicos na prática esportiva e no exercício físico. Dentro dessa perspectiva nos permitimos o desen- volvimento de estratégias de treinamento. ASPECTOS SOCIAIS E CULTURAIS Esse conhecimento dentro da Educação Física é de suma im- portância para a compreensão de como a prática de atividades físi- cas se relacionará com a sociedade, a cultura e as relações interpes- soais. Essa perspectiva amplia o escopo da disciplina, caminhando além dos aspectos biomecânicos e fisiológicos, e considerando os aspectos sociais, culturais e históricos que permeiam a prática de atividades físicas. No aspecto social, é essencial a compreensão de como as ati- vidades físicas estão inseridas no contexto social e como elas re- fletem e influenciam as relações entre os indivíduos. Isso inclui também, o estudo das interações sociais, do trabalho em equipe, da cooperação e da competição. O conhecimento sobre dinâmicas grupais e a importância do esporte como ferramenta de inclusão social são fundamentais para o desenvolvimento de situações didá- ticas que promovam a participação ativa e a construção de vínculos sociais positivos. Esse conhecimento dos aspectos sociais envolverá também a análise das desigualdades e das questões de gênero, raça, classe social e inclusão nas práticas esportivas. É necessário compreender as barreiras sociais e culturais que podem limitar o acesso e a parti- cipação de certos grupos e buscar formas de superá-las, promoven- do a equidade e a igualdade de oportunidades. Que implicará na criação de situações didáticas que valorizem a diversidade, promo- vam o respeito e estimulem a participação de todos os indivíduos, independentemente de suas características e condições sociais. No aspecto cultural, busca compreender como as práticas cor- porais são construídas e significadas em diferentes culturas. Cada sociedade possui suas manifestações corporais específicas, como danças, jogos, lutas, esportes tradicionais,entre outras formas de expressão física. Ao conhecermos e valorizarmos essas práticas, será possível criar situações didáticas que estimulem o respeito à diversidade cultural e promovam a interculturalidade. Em suma, é importante considerar a história das práticas cor- porais e esportivas. Compreendermos como essas práticas se de- senvolveram ao longo do tempo e como foram influenciadas por fatores sociais, políticos e culturais será fundamental para contex- tualizar as aulas de Educação Física. Isso permitirá que os estudan- tes compreendam a origem e a evolução das atividades físicas, bem como suas influências nas identidades individuais e coletivas. Assim, dentro das situações didáticas, é fundamental propor- cionar experiências que permitam aos alunos refletirem critica- mente sobre os aspectos sociais e culturais das práticas corporais. CONHECIMENTOS 2222 a solução para o seu concurso! Editora Podendo ser realizado através de discussões, análises de casos, pesquisa e vivências práticas. Assim, as situações didáticas devem estimular a participação ativa dos estudantes, a troca de experiên- cias, a valorização das diferenças e a construção coletiva do conhe- cimento. Em resumo, devemos considerar esses aspectos nas situações didáticas permite promover a inclusão, a equidade e o respeito à di- versidade, estimulando o desenvolvimento integral dos estudantes e contribuindo para a formação de cidadãos conscientes e críticos. DOS OBJETIVOS ESPECÍFICOS DA EDUCAÇÃO FÍSICA E SUAS INTERFACES COM OS DEMAIS COMPONENTES CUR- RICULARES Os objetivos podem variar, de acordo com os diferentes níveis educacionais e das diretrizes curriculares de cada país ou região. No entanto, alguns objetivos comuns poderão ser identificados, como: -Desenvolvimento motor: Que irá promover o desenvolvimen- to das habilidades motoras básicas, como correr, saltar, lançar e manipular objetos, além de aprimorar habilidades esportivas espe- cíficas. -Promoção da saúde: Que irá estimular a adoção de um estilo de vida ativo e saudável, contribuindo para o desenvolvimento físi- co, mental e social dos estudantes. Isso inclui a compreensão dos benefícios do exercício físico, a promoção de hábitos alimentares saudáveis e a prevenção de doenças. -Educação para a cidadania: Que fomentará valores como res- peito, cooperação, responsabilidade, ética e inclusão social, por meio da prática esportiva e do convívio em grupo. A Educação Física pode ser um espaço para o desenvolvimento de habilidades sociais, capacidades de liderança e resolução de conflitos. -Conscientização corporal: Que irá promover a consciência e o conhecimento do próprio corpo, estimulando a percepção das sen- sações corporais, a compreensão da importância do corpo como meio de expressão e comunicação, e o desenvolvimento da autoes- tima e autoconfiança. -Formação cultural e estética: Que proporcionará o contato com diferentes manifestações culturais, históricas e artísticas re- lacionadas às práticas corporais, como danças folclóricas, esportes tradicionais, lutas e jogos populares. Isso contribui para a com- preensão da diversidade cultural e a valorização das expressões corporais como patrimônio cultural. Quanto às interfaces com os demais componentes curriculares, a Educação Física poderá estabelecer conexões mais significativas com diferentes disciplinas, tais como: -Ciências Biológicas: Que irá explorar os sistemas do corpo hu- mano, funcionamento dos músculos e ossos, fisiologia do exercício e princípios de treinamento físico. -Ciências Sociais: Que irá analisar as relações sociais, questões de gênero, inclusão e desigualdades, compreendendo o papel do esporte e das atividades físicas na sociedade. -História: Que irá estudar a evolução histórica das práticas cor- porais, esportes e jogos ao longo do tempo, compreendendo sua influência cultural e social. -Matemática: Que utilizará dados numéricos em análises esta- tísticas de resultados esportivos, cálculos de medidas corporais e avaliações físicas. -Artes: Que irá explorar as expressões corporais artísticas, como a dança e a ginástica, além da apreciação estética dos movimentos e da expressão corporal em diferentes manifestações artísticas. Assim, essas interfaces buscam integrar a Educação Física ao currículo escolar, estabelecendo as devidas conexões interdiscipli- nares e possibilitando assim, uma abordagem mais completa e con- textualizada do conhecimento. WWW DAS PRÁTICAS CORPORAIS SISTEMATIZADAS ÀS DEMAN- DAS DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA A atividade física é entendida como todo e qualquer movimen- to corporal que resulta num gasto energético acima dos níveis de repouso. Desta forma, a atividade física seja no trabalho, no lazer e nas demais atividades diárias é apontada como importante aliada quando se refere à manutenção corporal e prevenção de doenças crônicas degenerativas (GLANER, 2002). A BNCC5 divide as práticas corporais na Educação Física Escolar por “Unidades Temáticas” da seguinte forma: - Brincadeiras e jogos; - Esportes; - Ginásticas; - Danças; - Lutas; - Práticas Corporais de Aventura. Prática Corporais de Brincadeiras - Amarelinha, pular corda, elástico, bambolê, bolinha de gude, pião, pipas, lenço atrás, cor- re cutia, esconde-esconde, pega-pega, coelho sai da toca, duro ou mole, agacha-agacha, mãe da rua, carrinhos de rolimã, cabo de guerra, etc. Práticas Corporais de Esportes - possuem a seguinte classifica- ção segundo a BNCC da Educação Física. - Esportes de Marca: Conjunto de modalidades que se caracte- rizam por comparar os resultados registrados em segundos, metros ou quilos. - Esportes de Precisão: Conjunto de modalidades que se carac- terizam por arremessar/lançar um objeto, procurando acertar um alvo específico, estático ou em movimento, comparando-se o nú- mero de tentativas empreendidas. 5 Disponível em https://www.dicaseducacaofisica.info/praticas-corpo- rais/ Acesso 12.07.2022 CONHECIMENTOS 23 a solução para o seu concurso! Editora - Esportes Técnico combinatório: Reúne modalidades nas quais o resultado da ação motora comparado é a qualidade do movimen- to segundo padrões técnico-combinatórios. - Esportes de Rede ou quadra dividida ou parede de rebote: Reúne modalidades que se caracterizam por arremessar, lançar ou rebater a bola em direção a setores da quadra adversária nos quais o rival seja incapaz de devolvê-la da mesma forma ou que leve o adversário a cometer um erro dentro do período de tempo em que o objeto do jogo está em movimento. - Esportes de Campo e taco: Categoria que reúne as modalida- des que se caracterizam por rebater a bola lançada pelo adversário o mais longe possível, para tentar percorrer o maior número de ve- zes as bases ou a maior distância possível entre as bases, enquanto os defensores não recuperam o controle da bola, e, assim, somar. - Esportes de Invasão ou territorial: Conjunto de modalidades que se caracterizam por comparar a capacidade de uma equipe in- troduzir ou levar uma bola (ou outro objeto) a uma meta ou setor da quadra/ campo defendida pelos adversários. - Esportes de Combate: Reúne modalidades caracterizadas como disputas nas quais o oponente deve ser subjugado, com téc- nicas, táticas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço, por meio de combinações de ações de ataque e defesa. Ginásticas de Condicionamento Físico - Caracterizam pela exer- citação corporal orientada à melhoria do rendimento, à aquisição e à manutenção da condição física individual ou à modificação da composição corporal. Ginásticas de Conscientização Corporal - Reúnem práticas que empregam movimentos suaves e lentos, tal como a recorrência a posturas ou à conscientização de exercícios respiratórios, voltados para a obtenção de uma melhor percepção sobre o próprio corpo. Práticas Corporais de Danças - Danças brasileiras: samba, baião, valsa, quadrilha, afoxé, cati- ra, bumba meu boi, maracatu, xaxado, etc. - Dançasurbanas: rap, funk, break, pagode, danças de salão; - Danças eruditas: clássicas, modernas, contemporâneas, jazz; - Danças e coreografias associadas a manifestações musicais: blocos de afoxé, olodum, timbalada, trios elétricos, escolas de sam- ba; - Lengalengas, Brincadeiras de roda, cirandas, Escravos de jó; - Danças indígenas. Práticas Corporais de Lutas - Judô, Capoeira, Caratê, Jiu-jitsu, Boxe, Muay thai, MMA, Esgrima, Luta Olímpica, Sambo, Taekwon- do, Luta de Braço, Luta Marajoara, Lutas Indígenas, etc. Práticas Corporais de Aventura - Mountain-bike, Escalada, Par- kour, Skate, Rapel, Tirolesa, Slackline, corrida de Orientação, etc. DO PATRIMÔNIO CULTURAL DA COMUNIDADE, VISAN- DO UMA PERCEPÇÃO MAIS QUALIFICADA DA REALIDADE COM VISTAS AO PLANEJAMENTO DO ENSINO Esse patrimônio cultural da comunidade, refere-se ao conjunto de bens materiais e imateriais que representam a identidade, his- tória, tradições e expressões culturais de um determinado grupo ou localidade. Isso englobará: monumentos, edifícios, paisagens, festividades, práticas artísticas, manifestações folclóricas, costumes e conhecimentos tradicionais. A percepção e valorização do patrimônio cultural da comuni- dade é de fundamental importância para um discernimento mais qualificado da realidade, especialmente no contexto do planeja- mento do ensino. Ao reconhecermos e explorarmos o patrimônio cultural local, os educadores poderão proporcionar aos estudantes uma compreensão mais ampla e profunda do mundo que os cerca, além de promover uma conexão entre a aprendizagem escolar e a vida cotidiana. Será a partir da valorização do patrimônio cultural, que tere- mos a possibilidade de desenvolver um planejamento de ensino que esteja contextualizado e relacionado com a realidade dos alu- nos. Isso contribuirá para tornar o processo de aprendizagem mais significativo, engajador e estimulante, uma vez que os estudantes são incentivados a explorar e refletir sobre sua própria cultura, his- tória e tradições. Ao incorporarmos essa visão diferenciada do patrimônio cultu- ral da comunidade no planejamento do ensino, será possível pro- mover uma série de benefícios, como: -A valorização da identidade: Onde os estudantes poderão re- conhecer e valorizar sua própria identidade cultural, fortalecendo sua autoestima e senso de pertencimento. - A conexão com a realidade: Onde os conteúdos curriculares são relacionados com a realidade dos estudantes, tornando-se mais relevantes e facilitando a compreensão e aplicação dos conceitos aprendidos. - O respeito à diversidade: Onde a valorização do patrimônio cultural estimula o respeito e a valorização da diversidade presente na comunidade, promovendo uma cultura de tolerância e inclusão. - A preservação cultural: Que ao conhecerem e se envolverem com seu patrimônio cultural, os estudantes serão incentivados a preservar e transmitir esses conhecimentos e tradições às futuras gerações. - A integração entre escola e comunidade: Onde a valorização do patrimônio cultural permite estabelecer parcerias e promover a integração entre a escola e a comunidade, envolvendo familiares, artistas locais, historiadores e demais atores sociais. CONHECIMENTOS 2424 a solução para o seu concurso! Editora Para tanto, para que a percepção qualificada do patrimônio cultural seja efetiva, é importante que os educadores realizem pes- quisas, levantamentos e mapeamentos dos elementos culturais presentes na comunidade. Assim, a partir desse levantamento, é possível identificar as potencialidades e as oportunidades de inser- ção desses elementos no planejamento do ensino, garantindo uma educação mais contextualizada, significativa e enriquecedora para os estudantes. DAS DIFERENTES CLASSIFICAÇÕES DAS BRINCADEIRAS E JOGOS, ESPORTES, GINÁSTICAS, DANÇAS, CORPO, MOVI- MENTO E SAÚDE, LUTAS E PRÁTICAS CORPORAIS DE AVEN- TURA, SUAS INTER-RELAÇÕES E COM OUTROS ELEMENTOS CULTURAIS QUE SE CARACTERIZAM COMO PATRIMÔ- NIOS DA CULTURA CORPORAL DE MOVIMENTO A História dos Jogos Como qualquer história, de modo geral, a história dos jogos é uma construção humana e para alguns autores como Huizinga (1998) e Elkonin (1998), os jogos teriam surgido a partir da relação do homem com o trabalho.6 Elkonin (1998) conta que na história dos povos do extremo oriente, o brinquedo e a atividade das crianças eram como que fer- ramenta para o trabalho, modificações das atividades dos adultos que tinha uma relação direta com a futura atividade profissional daquele sujeito. A história mostra que a evolução dos jogos, brinquedos e brin- cadeiras acompanha a modificação da imagem da criança, da forma de ver a própria criança na sociedade. A forma como a criança era vista é a chave para perceber a his- tória do jogo e localizá-la em determinado período histórico, pois tais jogos se correlacionavam com a vida das crianças na sociedade. Sendo que, de qualquer forma, os jogos seguiram tendo um ob- jetivo determinado de acordo com o momento histórico de onde surgiam. Para Huizinga (1980) o elemento lúdico está na base do sur- gimento e desenvolvimento da civilização. Isso significa dizer que desde o surgimento da sociedade o homem brinca. Lembrando que os jogos também fazem parte de todas as culturas da humanidade. Huizinga (1980) esclarece que os jogos aconteciam antes da civi- lização humana, pois, já existiam entre os animais, pois, ele enten- de que o lúdico é toda atividade que dá prazer. Mas, não é essa a forma como estudaremos o jogo na Educação Física, porque o jogo também se constitui numa atividade cultural com função social. Ele detém certas características para ser considerado jogo: precisa ser livre, partir da vontade do jogar e não ser imposta ao jogador, trata- -se de uma fuga da realidade, é isolado e limitado tendo determina- do espaço e duração limitada. É um fenômeno cultural, pois pode ser conservado na memória de um povo e ser transmitido por ele às demais gerações, e é cultural dessa forma, criando ordem e sendo ordem, pois, também possuem regras que, mesmo sendo implíci- tas algumas vezes, precisam ser cumpridas e obedecidas, pois, caso contrário será o fim do jogo. 6 Disponível: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebus- ca/producoes_pde/2014/2014_uel_edfis_pdp_maria_do_carmo_tanajura_da_silva. pdf Concepção de Jogo O jogo sempre esteve presente nas aulas de Educação Física e na vida das pessoas. Sempre que se fala em jogo, no entanto, pen- sa-se logo em jogos desportivos especialmente nas competições, onde exige-se dos participantes que eles não errem, para poderem vencer o adversário. No entanto, seria muito importante que todos compreendes- sem que o jogo é muito mais que isso, é uma atividade que já é manifestada na criança e se concretiza na relação com os demais seres humanos e com a natureza. A palavra “jogo” pode evocar mais que um sentido. Kishimoto (1996) explica que ele pode ser visto com o mesmo significado com que são percebidos o brinquedo e a brincadeira. A língua portuguesa permite que estes três termos sejam vistos como sinônimos. Esta dificuldade em definir o termo jogo acontece em outros idiomas onde também jogar e brincar equivalem-se. Em todos os povos encontramos o Portanto, o termo jogo pertence a uma gran- de jogo, e sob formas extremamente semelhantes, mas as línguas desses família, com características comuns e povos diferem muitís- simos, em sua específicas, que o define como sendo jogos concep- ção do jogo, sem o de construção, de regras, simbólicos e outros conceber da maneira tão distinta e tão ampla como a maior parte das (KISHIMOTO, 1998) línguas europeias (HUIZINGA, 1980, p.34) Tipos de Jogos São vários os tipos de jogos conhecidos, no entanto, são suas características que os diferem; Kishimoto (2001) fala dos Jogos Edu- cativos, dos Jogos Tradicionais, dos Jogos de Faz de Conta e dos Jo- gos de Construção. Todos os jogos servem para aprender alguma coisa oupara for- necer conhecimento ao ser aprendido. Trata-se de um modo de resolver seus problemas da vida real, jogando. Todos os jogos pos- suem regras, e estes permitem que a criança se afirme como ser no mundo, pois, ao submeter-se às regras do jogo ela estará em treina- mento para às regras sociais que, assim como no jogo, podem ser transmitidas de geração a geração, ou seja, as regras apreendidas vão acompanhar o sujeito até sua vida adulta, onde ele irá vivenciar na prática tais concepções, com senso de responsabilidade, criativi- dade e autonomia. Estes são apenas alguns exemplos, mas, quando uma menina brinca de boneca ou um menino brinca de motorista de caminhão, eles estão reproduzindo as regras sociais de onde eles vêm, ou a cultura local onde estão inseridos. Seguem repetindo as normas sociais, enquanto brincam simplesmente, e não pensam que estão aprendendo a estar no mundo. O jogo é uma atividade que realizamos, na maioria das vezes, junto com outras pessoas. Para que possamos jogar temos que co- nhecer e respeitar as regras. Porém, diferente de outras coisas que fazemos, no jogo as regras podem ser modificadas pelos jogadores no momento em que jogam. A partir dessa prática de alterar as re- gras do jogo, podemos pensar em outras atividades que fazemos na sociedade, que também têm regras. CONHECIMENTOS 25 a solução para o seu concurso! Editora Diferentes enfoques sobre o Jogo As atividades lúdicas podem contribuir significativamente para o desenvolvimento intelectual, motor e afetivo-social da criança, fazendo-a ter vontade de aprender mais, pois além do jogo ser educativo, este proporciona momentos de alegria, prazer, fantasia e descontração Friedman (1996) nos faz está análise da seguinte forma: - Sociológico: a influência do contexto social no qual os diferen- tes grupos de crianças brincam; - Educacional: contribuição do jogo para o desenvolvimento e aprendizagem das crianças; - Psicológico: o jogo como meio para compreender melhor o funcionamento da psique, das emoções e da personalidade dos in- divíduos; - Antropológico: a maneira como o jogo se reflete, em cada so- ciedade, os costumes e a história das diferentes culturas; - Folclórico: analisando o jogo como expressão da cultura infan- til através das diversas gerações e de como é transmitido através dos tempos. O jogo é fundamental na formação do ser humano e possui uma grande importância como elemento educacional, pois segundo Friedman (1996), o jogo desenvolve algumas dimensões tais como: - O desenvolvimento da linguagem: a linguagem é uma forma de se comunicar e se expressar, um meio, portanto de interagir so- cialmente; - O desenvolvimento cognitivo: o jogo dá acesso a um maior número de informações; - O desenvolvimento afetivo: o jogo dá oportunidade da criança expressar seus afetos e emoções; - O desenvolvimento fisco-motor: a interação da criança com ações motoras, visuais, táteis e auditivas sobre os objetos do seu meio é essencial para o desenvolvimento integral; - O desenvolvimento moral: a construção das regras cria uma relação de respeito com o adulto e com outras crianças. Classificação dos Jogos Os jogos podem ser classificados em diferentes formas. No en- tanto, para o presente estudo, adotaremos somente as que enten- demos se coadunarem com os objetivos do mesmo. Teixeira (1997), classifica os jogos de três formas, de acordo com suas finalidades e maneiras de jogar: - Sensoriais – são aquelas que ajudam a desenvolver os sentidos. Ex: cabra-cega, pois neste jogo o sentido da audição é essencial; - Raciocínio – desenvolve o raciocínio, ex: xadrez, palavras cru- zadas entre outros; - Motoras - é aquelas que exigem a participação de todo o cor- po, mais dependem principalmente dos músculos, ex: pega-pega; Para Machado (1986, p. 85), os classificam-se das seguintes for- mas: - Grande jogo ou desporto - realizado com as equipes e com regras internacionais e longa duração; - Pequeno jogo de curta duração e de poucas regras - as regras dos jogos variam de um lugar para outro, segundo os costumes do local. São jogos motores ativos que convém a todas as crianças me- nores; - Jogos dirigidos – apresentam características educativas e são orientados pelo professor. São submetidos a regras e cumprimen- tos, havendo mais respeito aos direitos do companheiro, obedecen- do a uma sequência normal do seu processo do desenvolvimento e crescimento; - Jogo livre – são jogos escolhidos livremente pelo interesse do grupo; - Jogos individuais – os jogadores agem sem companheiros. Esta forma de jogo é própria das crianças pequenas entre dois a seis anos de idade; - Jogos coletivos – são aqueles em que a presença do compa- nheiro é de fundamental importância. Claparede e Groas (apud RIZZI; HAYDT, 1986) adotam como cri- tério classificatório a função, e dividem os jogos em duas grandes categorias, que comportam várias subdivisões: - Jogos de experimentação ou jogos de funções gerais. - Jogos sensoriais (assobio, gritos, etc.); - Jogos motores (bolas, corridas, outros); - Jogos afetivos (amor e sexo); - Jogos intelectuais (imaginação e curiosidade); - Exercício de vontade (sustentar uma posição difícil o máximo de tempo possível). - Jogos de funções especiais - Jogos de luta, perseguição, cortesia, imitação, jogos sociais e familiares; Jean Piaget (apud RIZZI; HAYDAT, 1986, p. 11), também se de- dicou à elaboração de uma classificação de jogos, tendo utilizado anteriormente, os seguintes procedimentos: - Observação e registro dos jogos praticados pelas crianças em casa, na escola e na rua, tentado relacionar o maior número dos jogos infantis; - A análise das classificações já existentes e aplicações dessas classificações conhecidas à relação de jogos coletados; - Tendo adotando como critério classificatório o grau de com- plexidade mental, Piaget verificou que existem basicamente três tipos de estruturas que caracterizam os jogos: o exercício, simbólico e de regras. A partir dessas premissas, ele distribuiu os jogos em três gran- des categorias, cada uma delas correspondendo a um tipo estrutura mental. 1- Jogo de exercício sensório motor; 2- Jogos simbólicos (de ficção ou imaginação e de imitação); 3- Jogos de regras. As três classes de jogos (exercício, simbólico e regras) correspondem às três fases do desenvolvimento mental ou cogni- tivo. Chateau (1987), afirma que há uma ordem de aparecimento dos jogos, como fez Piaget. Esses estágios incluem: jogos funcionais da primeira infância; jogos simbólicos que aparecem pouco antes dos três anos; jogo de proezas que cobrem principalmente os primeiros anos da escola primaria; jogos sociais que se organizam mais no fim da infância. CONHECIMENTOS 2626 a solução para o seu concurso! Editora O Jogo e a Reprodução Social Será que podemos mudar as regras de outras coisas da nossa vida, como as nossas relações no trabalho, na política, na saúde, na cultura de forma geral? A Educação Física, como fenômeno social, faz parte da totalida- de da sociedade, através da qual a história do homem se concretiza (MELLO, 2009). É nesta sociedade e nestas aulas que acontecem os jogos de competição, dentre os outros. Estes jogos são excelentes modelos da inserção das crianças ao mundo capitalista, onde os valores como a competitividade, e outros que servem à categoria dominante, são reproduzidos como se fossem os ideais. Os métodos de educação, fundamentam a classificação pedagó- gica dos jogos, bem como, suas funções, para depois condicionarem sua utilização, com a proposta de servirem para o desenvolvimento corporal, intelectual, afetivo e social (ARAÚJO, 2006). A Educação Física Escolar tem encaminhado suas atividades considerando a Cultura Corporal e, por meio de seus conteúdos, tem proposto as atividades com jogos, na tentativa de que seus alu- nos sejam capazes de reconhecer seu próprio corpo e a expressão dele, consciente e criticamente. No entanto, a sociedade atual reproduzas ações do sistema ca- pitalista, e neste sistema o corpo é visto como meio de produção, ou seja, serve ao trabalho sendo que, portanto, a prática corporal deve ser analisada além da técnica, ou seja, disciplinado para ser passivo e submisso, encorajado para ações corporais que sejam manifestadas pelo movimento. É neste contexto, que o jogo consti- tui-se numa forma de Educação para o corpo pra a expressão dele. Diante de todas as possiblidades que os jogos apresentam no momento de sua realização nas aulas de Educação Física, eles pre- cisam ser pensados para além de sua forma lúdica, para que sua prática sirva enquanto perspectiva de transformação do espaço so- cial, deixando de ser um treinamento vazio ou automatizado pelas regras. Nenhum deles deve servir apenas a sua prática utilitarista, mas, antes, é preciso que eles possam construir a Cultura Corporal. Cada aluno deve refletir a respeito de seu papel social e como o jogo que vivencia mostra aspectos da sociedade, de forma que seus códigos, táticas e regras sejam associados à vida cotidiana, onde acontecem as leis que regulam e as estratégias que nem sempre são justas para todo cidadão inserido naquele meio. Quando uma pessoa joga ela está diretamente implicada no julgamento de valores que deverá ser pensado no contexto social, observando a regra como exigência imposta pela obrigatoriedade das relações sociais, onde se reproduz o que a ideologia dominante deseja. A pessoa aprende a viver em sociedade e respeitar suas regras quando aprende a jogar. O jogo, principalmente o jogo esportivo, tem limitação de tempo, espaço e formas de agir. Quando se joga aprende que um ganha e o restante perde. Jogos onde acontece a eliminação de uma equipe ou de um jogador, ensinam a ver que pessoas serão eliminadas – do mercado, da competição por empre- go, do nível de escolaridade – ao logo do tempo e que isso é normal. A criança que pratica esportes, respeita as regras sociais en- quanto respeita as regras do jogo, ou seja, ela interpreta o mundo da forma como a sociedade capitalista se estrutura. Muito embora a Educação Física seja contribuindo para o processo de socialização dos cidadãos, embora forje um sujeito conformado e feliz. Transformação dos Jogos e Mudança Social Na tentativa de entender o papel do jogo e suas transforma- ções, deve-se considerar as modalidades de jogos apresentadas para poder conhecer suas regras e o que elas trabalham no cons- ciente coletivo enquanto são praticadas. É certo que os jogos foram se modificando, tanto quanto é certo que isso aconteceu devido ao que acontecia em cada momento histórico e que fazia com que a classe dominante exigisse tais alterações, especialmente das regras. Os jogos também podem refletir a vida diária e vão se construin- do imitando ou projetando comportamentos do mundo real, eles tendem a se modificar paralelamente. Um jogo de faz de contas de caça já existe há muito tempo, as crianças sempre brincaram de imitar o que o homem adulto faz, neste exemplo eles imitavam os caçadores e suas lanças, seus arcos e flechas, embora que nos faz de conta dos dias atuais as crianças poderiam imitar a caça utilizando-se de uma espingarda, haja vista que os modos de caçar modificaram. A dimensão lúdica dos jogos foi sendo apropriada pelo homem para o trabalho, explorando a ludicidade para impor-lhe valores, como por exemplo, para produção de brinquedos que personificam uma profissão, ou o trabalho de um homem adulto. Desde criança segue-se brincando de imitar os adultos. Esportes, Jogos, Lutas e Ginásticas7 Tentar definir critérios para delimitar cada uma destas práticas corporais é tarefa arriscada, pois as sutis interseções, semelhanças e diferenças entre uma e outra estão vinculadas ao contexto em que são exercidas. Existem inúmeras tentativas de circunscrever conceitualmente cada uma delas, a partir de diferentes pressupos- tos teóricos, mas até hoje não existe consenso. As delimitações utilizadas no presente documento têm o intuito de tornar viável ao professor e à escola operacionalizar e sistemati- zar os conteúdos de forma mais abrangente, diversificada e articu- lada possível. Assim, consideram-se esporte as práticas em que são adotadas regras de caráter oficial e competitivo, organizadas em federações regionais, nacionais e internacionais que regulamentam a atuação amadora e a profissional. Envolvem condições espaciais e de equi- pamentos sofisticados como campos, piscinas, bicicletas, pistas, ringues, ginásios, etc. A divulgação pela mídia favorece a sua apre- ciação por um diverso contingente de grupos sociais e culturais. Por exemplo, os Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo de Futebol ou de- terminadas lutas de boxe profissional são vistos e discutidos por um grande número de apreciadores e torcedores. Os jogos podem ter uma flexibilidade maior nas regulamenta- ções, que são adaptadas em função das condições de espaço e ma- terial disponíveis, do número de participantes, entre outros. São exercidos com um caráter competitivo, cooperativo ou re- creativo em situações festivas, comemorativas, de confraternização ou ainda no cotidiano, como simples passatempo e diversão. Assim, incluem-se entre os jogos as brincadeiras regionais, os jogos de salão, de mesa, de tabuleiro, de rua e as brincadeiras in- fantis de modo geral. As lutas são disputas em que o(s) oponente(s) deve(m) ser subjugado(s), mediante técnicas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na 7 http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro07.pdf CONHECIMENTOS 27 a solução para o seu concurso! Editora combinação de ações de ataque e defesa. Caracterizam-se por uma regulamentação específica, a fim de punir atitudes de violência e de deslealdade. Podem ser citados como exemplo de lutas desde as brincadeiras de cabo-de-guerra e braço-de-ferro até as práticas mais complexas da capoeira, do judô e do caratê. As ginásticas são técnicas de trabalho corporal que, de modo geral, assumem um caráter individualizado com finalidades diver- sas. Por exemplo, pode ser feita como preparação para outras mo- dalidades, como relaxamento, para manutenção ou recuperação da saúde ou ainda de forma recreativa, competitiva e de convívio social. Envolvem ou não a utilização de materiais e aparelhos, po- dendo ocorrer em espaços fechados, ao ar livre e na água. Cabe ressaltar que são um conteúdo que tem uma relação privilegiada com “Conhecimentos sobre o corpo”, pois, nas atividades ginásti- cas, esses conhecimentos se explicitam com bastante clareza. Atual- mente, existem várias técnicas de ginástica que trabalham o corpo de modo diferente das ginásticas tradicionais (de exercícios rígidos, mecânicos e repetitivos), visando a percepção do próprio corpo: ter consciência da respiração, perceber relaxamento e tensão dos mús- culos, sentir as articulações da coluna vertebral. Uma prática pode ser vivida ou classificada em função do contexto em que ocorre e das intenções de seus praticantes. Por exemplo, o futebol pode ser praticado como um esporte, de for- ma competitiva, considerando as regras oficiais que são estabele- cidas internacionalmente (que incluem as dimensões do campo, o número de participantes, o diâmetro e peso da bola, entre outros aspectos), com plateia, técnicos e árbitros. Pode ser considerado um jogo, quando ocorre na praia, ao final da tarde, com times com- postos na hora, sem árbitro, nem torcida, com fins puramente re- creativos. Pode ser vivido também como uma luta, quando os times são compostos por meninos de ruas vizinhas e rivais, ou numa final de campeonato, por exemplo, entre times cuja rivalidade é históri- ca. Em muitos casos, esses aspectos podem estar presentes simul- taneamente. Os esportes são sempre notícia nos meios de comunicação e dentro da escola; portanto, podem fazer parte do conteúdo, prin- cipalmente nos dois primeiros ciclos, se for abordado sob o enfo- que da apreciaçãoe da discussão de aspectos técnicos, táticos e estéticos. Nos ciclos posteriores, existem contextos mais específicos (como torneios e campeonatos) que possibilitam que os alunos vi- venciem uma situação mais caracterizada como esporte. Incluem-se neste bloco as informações históricas das origens e características dos esportes, jogos, lutas e ginásticas, valorização e apreciação dessas práticas. A gama de esportes, jogos, lutas e ginásticas existentes no Brasil é imensa. Cada região, cada cidade, cada escola tem uma realidade e uma conjuntura que possibilitam a prática de uma parcela dessa gama. A lista a seguir contempla uma parcela de possibilidades e pode ser ampliada ou reduzida: • jogos pré-desportivos: queimada, pique-bandeira, guerra das bolas, jogos pré-desportivos do futebol (gol-a-gol, controle, chute- -em-gol-rebatidadrible, bobinho, dois toques); • jogos populares: bocha, malha, taco, boliche; • brincadeiras: amarelinha, pular corda, elástico, bambolê, bo- linha de gude, pião, pipas, lenço-atrás, corre-cutia, esconde-escon- de, pega-pega, coelhosai-da-toca, duro-ou-mole, agacha-agacha, mãe-da-rua, carrinhos de rolimã, cabo-de-guerra, etc.; • atletismo: corridas de velocidade, de resistência, com obstá- culos, de revezamento; saltos em distância, em altura, triplo, com vara; arremessos de peso, de martelo, de dardo e de disco; • esportes coletivos: futebol de campo, futsal, basquete, vôlei, vôlei de praia, handebol, futevôlei, etc.; • esportes com bastões e raquetes: beisebol, tênis de mesa, tê- nis de campo, pingue-pongue; • esportes sobre rodas: hóquei, hóquei in-line, ciclismo; • lutas: judô, capoeira, caratê; • ginásticas: de manutenção de saúde (aeróbica e musculação); de preparação e aperfeiçoamento para a dança; de preparação e aperfeiçoamento para os esportes, jogos e lutas; olímpica e rítmica desportiva. Jogos Cooperativos8 De acordo com Castellani (2009), o jogo (brincar e jogar são si- nônimos em diversas línguas) é uma invenção do homem, um ato em que sua intencionalidade e curiosidade resultam num processo criativo para modificar, imaginariamente, a realidade e o presente. (Grifo do autor.) ORLICK (1989 apud BROTTO, 2001, p.85) categorizou os jogos cooperativos da seguinte forma: Jogos cooperativos sem perdedores- são jogos que podem ser considerados plenamente cooperativos, porque todos jogam juntos e todos ganham juntos. O jogo só é “vencido” se todos os partici- pantes vencerem. Jogos cooperativos de resultado coletivo- são jogos em que exis- te a divisão em duas ou mais equipes, onde uma joga contra a outra e dependem do esforço de participação coletiva de cada equipe, e o objetivo é alcançado com todos jogando juntos. Jogos cooperativos de inversão- são jogos que também envol- vem equipes, onde brincam com o nosso conceito tradicional de vencer e perder, porque fica difícil, após o término, reconhecer os vencedores e perdedores devido ao troca-troca de resultados ou de jogadores ou ambos que podem ocorrer das seguintes formas: a) rodízio de jogadores: os jogadores mudam de time após a execução de um lance ou jogada predeterminada; pode ser após um saque, um lateral, um tiro de meta ou outras opções; b) inversão de goleador: quando um jogador marcar um ponto ou gol, ele passará a jogar no time que sofreu o gol ou ponto; c) inversão de placar: quando um jogador marcar um ponto ou gol, este será doado para o time “adversário”; d) inversão total: é a combinação da inversão do goleador com a do placar. Isto é, quando um gol ou ponto for marcado, o jogador que marcou passa para o outro time, levando o ponto marcado. Porém, as inversões devem ser implantadas de forma gradativa, baseadas no que as crianças já conhecem e acrescentadas aos pou- cos novas regras. Jogos semico-operativos ou mistos- visam evitar que algum integrante da equipe fique sem jogar, incentivando os mais habili- dosos a colaborar com os demais companheiros. Todos jogam, e o tempo de jogo deve ser dividido igualmente para que todos partici- pem. (CORREIA, 2006, p.38). Os jogos cooperativos representam uma prática da vida em co- munidade. Por isso sua história teve início há milhares de anos, quando membros das comunidades tribais se uniram para celebrar a vida (ORLINK, 1982). 8 http://bdm.unb.br/bitstream/10483/4249/1/2012_MarciaGoncalvesVieira.pdf CONHECIMENTOS 2828 a solução para o seu concurso! Editora Assim, observa-se que os jogos cooperativos têm sua existên- cia relacionada a evolução humana, pois os povos, tem o hábito de se manifestar-se através de ritos cooperativos. Porém, atualmen- te, surgiram da reflexão sobre o quanto a cultura ocidental valoriza excessivamente o individualismo e a competição exacerbada e en- tende-se que a educação tem o poder de transformar a sociedade, tornando-a mais solidária, justa e ativa de forma que saiba escolher o que é melhor para o presente e o futuro dos cidadãos. Portanto de acordo com (KEMMER, 2000, p. 13) “A competição é realmente inerente ao homem, isto posto não queremos rene- gá-la e/ou retirá-la do convívio de nossos alunos, temos sim que repensar os conteúdos e estratégias nas aulas de Educação Física”. Piaget (1982, p. 173) evidenciou o papel do jogo no desenvol- vimento da inteligência da criança, onde este tem uma evolução que perpassa pela exercitação, no período sensório-motor; jogos simbólicos, com predominância na fase escolar e com forte caracte- rização da imitação, jogos com regras, pressupondo a existência de parceiros e um conjunto de obrigações, conferindo-lhe um caráter social favorecendo avanços do pensamento e a preparação, a análi- se e o estabelecimento de relações. Segundo Orlick (1989, p. 14), devemos trabalhar para mudar o sistema de valores, de modo que as pessoas controlem seus pró- prios comportamentos e comecem a se considerar membros coo- perativos da família humana. Talvez, se alguns dos adultos mais destruidores de hoje, tivessem sido, quando crianças, expostos ao afeto, à aceitação e aos valores humanos, o que tento promover com os jogos e esportes cooperativos, teriam crescido em uma ou- tra direção. Jogos Cooperativos nas Aulas de Educação Física9 Aliar atividades lúdicas ao processo de ensino e aprendizagem pode ser de grande valia, para o desenvolvimento do aluno, um exemplo de atividade que desperta e muito o interesse do aluno é o jogo, sobre o qual nos fala Kishimoto (1994, p.13): O jogo como promotor da aprendizagem e do desenvolvimen- to, passa a ser considerado nas práticas escolares como importante aliado para o ensino, já que colocar o aluno diante de situações lú- dicas como jogo pode ser uma boa estratégia para aproximá-lo dos conteúdos culturais a serem veiculados na escola. A Educação Física tem o poder de ser uma disciplina encantado- ra, dependendo da dedicação e responsabilidade do professor nas mediações das aulas. Segundo Barros (2001, p. 15): (...) A educação física é uma atividade dinâmica que contribui na formação ampla dos sujeitos, em seu aspecto social, bem como no desenvolvimento de seu lado individual, através de oportunidades lúdicas que proporcionam equilíbrio entre corpo, mente e espaço. Nas práticas esportivas, nos jogos recreativos ou nos jogos com disputas, os participantes aprendem a lidar com sentimentos de perda, frustração, ansiedade, paciência, respeito ao próximo, den- tre outros, além de ter que aprender a esperar sua vez. Segundo Morin (2004, p.20): A reforma do ensino deve levar à reforma do ensino”. Como o objetivo é propor uma mudança no pensamen- to, torna-se necessário não mais enfatizar explicação (objetivas) e compreensão (subjetiva), mas torna-las conceitos complementares na busca do entendimento dos fenômenos humanos. Assim, com- preender comporta um processo de identificação e de projeção de sujeito a sujeito, sobre a capacidade de experimentar os mesmos 9 https://teacherdai.wordpress.com/2012/09/10/o-jogo-de-regra-o-jogo-simbolico- -e-os-jogos-de-exercicio-sensorio-motor/sentimentos que o outro e entende-los. Afirma que a reforma de pensamento é de natureza paradigmática, pois se relaciona à apti- dão para organizar o pensamento, permitindo o pleno uso da inte- ligência, emergindo novas humanidades, que permitirão a regene- ração do humanismo e suscitarão a ética da união e solidariedade entre humanos, tendo consequências existenciais, éticas e cívicas. Jogos Simbólicos O jogo simbólico aparece predominantemente entre os 2 e 6 anos. A função desse tipo de atividade lúdica, de acordo com Pia- get, “consiste em satisfazer o eu por meio de uma transformação do real em função dos desejos”, ou seja, tem como função assimilar a realidade. (Piaget apud [RIZ 97]) A criança tende a reproduzir nesses jogos as relações predomi- nantes no seu meio ambiente e assimilar dessa maneira a realida- de e uma maneira de se auto expressar. Esses jogo-de-faz-de-conta possibilita à criança a realização de sonhos e fantasias, revela confli- tos, medos e angústias, aliviando tensões e frustrações. Entre os 7 e 11-12 anos, o simbolismo decai e começam a apare- cer com mais frequência desenhos, trabalhos manuais, construções com materiais didáticos, representações teatrais, etc. Nesse campo o computador pode se tornar uma ferramenta muito útil, quando bem utilizada. Piaget não considera este tipo de jogo como sendo um segundo estágio e sim como estando entre os jogos simbólicos e de regras. O próprio Piaget afirma: “… é evidente que os jogos de construção não definem uma fase entre outras, mas ocupam, no segundo e sobretudo no terceiro nível, uma posição situada a meio de caminho entre o jogo e o trabalho inteligente…”. (Piaget, apud [RIZ 97]) Jogos de Regras O jogo de regras, entretanto, começa a se manifestar por volta dos cinco anos, desenvolve-se principalmente na fase dos 7 aos 12 anos. Este tipo de jogo continua durante toda a vida do indivíduo (esportes, trabalho, jogos de xadrez, baralho, RPG, etc.). Os jogos de regras são classificados em jogos sensório-motor (exemplo futebol), e intelectuais (exemplo xadrez). O que caracteriza o jogo de regras é a existência de um conjunto de leis imposto pelo grupo, sendo que seu descumprimento é nor- malmente penalizado, e uma forte competição entre os indivíduos. O jogo de regra pressupõe a existência de parceiros e um conjunto de obrigações (as regras), o que lhe confere um caráter eminente- mente social. Este jogo aparece quando a criança abandona a fase egocên- trica possibilitando desenvolver os relacionamentos afetivo-sociais. O jogo simbólico aparece predominantemente entre os 2 e 6 anos. A função desse tipo de atividade lúdica, de acordo com Pia- get, “consiste em satisfazer o eu por meio de uma transformação do real em função dos desejos”, ou seja, tem como função assimilar a realidade. (Piaget apud [RIZ 97]) A criança tende a reproduzir nesses jogos as relações predomi- nantes no seu meio ambiente e assimilar dessa maneira a realida- de e uma maneira de se autoexpressar. Esses jogo-de-faz-de-conta possibilita à criança a realização de sonhos e fantasias, revela confli- tos, medos e angústias, aliviando tensões e frustrações. Entre os 7 e 11-12 anos, o simbolismo decai e começam a apa- recer com mais frequências desenhos, trabalhos manuais, constru- ções com materiais didáticos, representações teatrais, etc. Nesse CONHECIMENTOS 29 a solução para o seu concurso! Editora campo o computador pode se tornar uma ferramenta muito útil, quando bem utilizada. Piaget não considera este tipo de jogo como sendo um segundo estágio e sim como estando entre os jogos sim- bólicos e de regras. O próprio Piaget afirma: “… é evidente que os jogos de construção não definem uma fase entre outras, mas ocu- pam, no segundo e sobretudo no terceiro nível, uma posição situa- da a meio de caminho entre o jogo e o trabalho inteligente…”. Jogos de Construção Os jogos de construção legitimam a Educação Física escolar como sendo de importância capital nos processos de aquisição de competências leitora e escritora dentro das classes de alfabe- tização, utilizando-se, para tanto, os Jogos de Construção como o principal instrumento metodológico de ensino; estruturando tal iniciativa por meio das importantes contribuições da epistemologia genética de Piaget, considerando todo o seu legado teórico como um dos principais norteadores das práticas exercidas dentro dessa experiência no que tange à Cultura Corporal de Movimentos. Utilizar alternativas pedagógicas, onde a prática cognitiva, de forma concreta, não seja desvinculada da prática psicomotora, de- preendendo, por meio das ações bem sucedidas aplicadas durante a pesquisa, que esse tipo de intervenção metodológica, levando em conta todas as peculiaridades contextuais dos atores envolvidos, pode ser um dos caminhos para as possíveis situações de fracasso escolar vividas por escolas do Ciclo I do Ensino Fundamental. Metodologia Ao avaliar-se o momento de desestabilização das práticas exer- cidas na escola pública pesquisada, onde uma sequência contínua de fatos levou os sujeitos da comunidade escolar à busca de mu- danças fomentadas por uma criticidade coletiva crescente, de uma maneira espontânea o professor pesquisador foi solicitado como auxiliador. Tal fato, dentro da uma proposta de investigação qua- litativa, fez com que fossem identificados dois tipos de pesquisa-a- ção como eixos norteadores: a colaborativa e a crítica. Em virtude desse evento, denominou-se para a presente pesquisa a notação de pesquisa-ação crítico-colaborativa. Em Franco encontrou-se a fundamentação para a constatação supracitada: Quando a busca de transformação é solicitada pelo grupo de referência à equipe de pesquisadores, a pesquisa tem sido concei- tuada como pesquisa-ação colaborativa, em que a função do pes- quisador será a de fazer parte e cientificizar um processo de mu- dança anteriormente desencadeado pelos sujeitos do grupo (2005, p. 485). [...] se essa transformação é percebida como necessária a par- tir dos trabalhos iniciais do pesquisador com o grupo, decorrente de um processo que valoriza a construção cognitiva da experiência, sustentada por reflexão crítica coletiva, com vistas à emancipação dos sujeitos e das condições que o coletivo considera opressivas, essa pesquisa vai assumindo o caráter de criticidade e, então, tem se utilizado a conceituação de pesquisa-ação crítica (Ibidem). A autora também nos fala na pesquisa-ação como norteada por três dimensões: ontológica, epistemológica e metodológica (2005, p. 489). Observa-se na pesquisa aqui descrita a presença dessas mesmas dimensões quando se pensa, ontologicamente – produzir conhecimentos: para uma melhor compreensão dos condicionan- tes da práxis, para estabelecer mudanças em suas práticas profis- sionais, para fins coletivamente desejados e para reestruturação de processos formativos (Idem, p. 490); epistemologicamente – enca- minhando a pesquisa a uma perspectiva dialética, considerando-se como pontos fundamentais: priorização da dialética da realidade social, a práxis concebida como mediação na construção de conhe- cimento, a não restrição do conhecimento à descrição, a não sepa- ração do sujeito que conhece do objeto a ser conhecido, interpreta- ção dos dados se realizando somente em contextos e com um saber produzido transformador dos sujeitos e das circunstâncias (Ibidem); metodologicamente – tendo a práxis social como ponto de partida e chegada na construção/ressignificação do conhecimento, sendo realizada no ambiente natural da realidade pesquisada, permitindo a flexibilidade de procedimentos, caminhando com a provisorieda- de estabelecida ao desenrolar da pesquisa e contemplando a prá- tica permanente de espirais cíclicas: planejamento; ação; reflexão; pesquisa; ressignificação; replanejamento; ação e etc. Trabalhou-se com a análise da produção escrita e entrevistas na coleta de dados. No que tange a coleta de dados, o tipo de entrevista utilizado foi a “Semiestruturada”.Segundo Deval (2002), esse tipo de entrevista constitui-se de: Perguntas básicas comuns para todos os sujeitos, que vão sendo ampliadas e complementadas de acordo com as respostas dos su- jeitos para poder interpretar o melhor possível o que vão dizendo. As respostas orientam o curso do interrogatório, mas se retorna aos temas essenciais estabelecidos inicialmente... (p.147). Desenvolvimento da Pesquisa-ação crítico-colaborativa Citam-se em seguida os vários procedimentos utilizados duran- te a realização da pesquisa, suas características e efeitos provoca- dos dentro do processo de geração de competências leitora e escri- tora. Vale atentar-se para o importante detalhe de que todos esses procedimentos foram aplicados ao longo da pesquisa sob a forma de jogos de construção. São eles: História-roteiro Esse instrumento criado em conjunto pelo professor pesquisa- dor, professora regente e alunos, além de dar uma maior signifi- cância ao que se propunha enquanto texto escrito trouxe em seu conteúdo a descrição da trajetória que cotidianamente todas as crianças da classe pesquisada percorriam. Afixada na sala de aula após sua confecção, passou a servir de guia para as explorações fei- tas pelos alunos a cada palavra, sílaba ou letra gerada pelas ações de intervenção pedagógica. Na leitura e releitura constante dos alu- nos, ganhou novas interpretações partidas dos mesmos, inclusive possibilitando uma reescrita feita em conjunto por grupos de qua- tro ou cinco alunos. Roda Cantada Avalia-se que a oportunidade de construção conjunta desse instrumento metodológico abriu um caminho para que os alunos pudessem, pela primeira vez segundo o próprio depoimento deles e da professora regente substituta, experimentar a fusão de uma situação de aprendizagem de modo não formal, ou seja, por meio de um tipo de brincadeira muito usual nas comunidades as quais pertencem. Mesmo que a parte musicada tenha sido montada pelo professor pesquisador, os alunos intervieram diretamente na elabo- ração da coreografia da música e em parceria, à medida que, ao dis- cutirem a palavra geradora – padaria – identificando os elementos CONHECIMENTOS 3030 a solução para o seu concurso! Editora vinculados à mesma, compunham o conjunto da letra da música. O trabalho com a representação por meio de gestos, de cada parte da letra da roda cantada, fez com que uma evolução considerável no que compete à expressão corporal acontecesse. Outro aspecto im- portante que passou a ser engendrado a partir desse instrumento metodológico, foi a percepção de inserção social, em outras pala- vras, o despertar para historicidade, já que se sentiam proprietários de um brinquedo vindo não como elemento de uma tradição popu- lar somente, mas composto dentro de uma realidade de escolariza- ção da qual todos eles faziam parte. Lengalenga Recurso que desenvolveu nos alunos uma melhora na estrutu- ração das funções psicomotoras, onde se podem destacar os se- guintes aspectos: Coordenação motora, melhorando de uma maneira geral a in- teração previamente direcionada dos movimentos feitos individual- mente, em dupla ou coletivamente; Relação corpo tempo, ampliando as possibilidades de localiza- ção espaço-temporal, passando a ficar claro uma ocupação maior dos espaços oferecidos pelo local não só nos momentos específicos de atividade física, como também nos percursos rotineiros vividos diariamente na escola; Melhor interpretação da imagem e do conceito de corpo, ou seja, melhora do esquema corporal; Melhora na dissociação dos movimentos, ou seja, aumento da capacidade de individualizar os segmentos corporais; Melhora na exploração da lateralidade; Trabalho da motricidade fina (manual, digital, ocular e lingual); Aumento na percepção rítmica. Aumento das trocas afetivas e melhora das relações interpes- soais. Jogos da Memória Desde o início de sua construção, ao trabalharem o recorte das figuras encontradas nas revistas, até a execução propriamente dita, os jogos da memória compuseram um momento onde todos participavam individual e coletivamente das atividades. Propiciou inúmeras trocas cognitivas, afetivas e psicomotoras. As relações interpessoais também melhoraram com essa prática. Quando tra- balhavam em grupos a interação era constante em todas as etapas que compunham essa intervenção. Nas aulas onde foram utilizados esses jogos, o rodízio contínuo entre os componentes dos grupos, pensa-se ter sido de fulcral importância no que compete à elimi- nação dos subgrupos existentes na classe. Ao facultar encontros de atores mantidos a distância por conta das naturais diferenças de cada concentração humana, estabeleceu-se uma dinâmica nas relações que permeavam o cotidiano de sala de aula. Com essa pro- posta fora estabelecida uma lógica alternativa na classe pesquisada, esta considerando o ensejo de convivência e respeito à diversidade. Por meio desta atividade também foram estabelecidos os apren- dizados de fixação das letras, na medida em que se propunha que recortassem as figuras e depois as letras que formariam o nome da- quelas figuras recortadas. Extraiam-se as letras de revistas variadas que foram levadas à classe com esse objetivo pré-concebido. Apro- ximadamente na 3ª vez em que se realizou essa atividade, em rodí- zio dos elementos do grupo, cerca de 90 % dos alunos passaram a atuar de maneira independente na composição de correspondência entre números e figuras, evidenciando o progresso no que compete à apreensão da significação dos códigos alfabéticos. Colagens Alfabetizadoras Várias revistas eram levadas à classe para que os alunos, identi- ficando as letras, as recortassem e montassem as palavras geradas, os nomes de cada figura recortada e pequenos textos da roda can- tada, da lengalenga, além de pequenas produções textuais, livres e dirigidas, através de pequenos ditados. A cada trabalho realiza- do com essas colagens, muitos alfabetos móveis eram construídos pelos alunos a partir de referenciais familiares a todos eles, sejam estes as letras das rodas cantadas e lengalengas. Tema e Palavra Geradora A partir do trabalho com esses dois instrumentos os alunos puderam interagir na criação de seu vocabulário de leitura e es- crita. Numa relação dialógica, viveram um processo de construção de conhecimentos, onde a marca da historicidade era registrada a cada palavra gerada, fortalecendo a autoestima, as relações inter- pessoais e o estabelecimento de uma nova lógica entre o objeto do conhecimento e o sujeito, de tal modo que os conhecimentos propostos eram todos significativos pelo fato de terem sido gerados a partir de uma confrontação entre a realidade contextual e a ins- titucional – entenda-se tal realidade como o tratamento dado pela escola aos conhecimentos socialmente construídos e historicamen- te acumulados. Dominó das Rimas Sob a lógica de funcionamento do jogo de dominó comum, construiu-se o instrumento metodológico de ensino dominó das rimas. Com a evolução da turma pesquisada, trabalharam-se as vá- rias formas textuais, dentre elas os textos poéticos. Percebeu-se na formação de rimas um caminho para que se poder chegar à produ- ção poética. Todas as palavras geradas foram aproveitadas como ponto de partida para essa prática. Os alunos tinham por tarefa en- contrar seis palavras que rimassem com a palavra escolhida como palavra-chave para compor o dominó. O número de palavras esco- lhidas para cada dominó eram sete. As combinações entre palavras seguiam as combinações existentes no jogo de dominó tradicional. Trabalhou-se com as rimas de todos os temas e palavras geradas, o que resultou numa extensa variação de jogos de dominó das rimas. Todos foram construídos com papel cartolina durante as aulas. A partir dessa construção e execução dos jogos, trabalharam-se pe- quenas construções textuais onde, obrigatoriamente, engendra- vam-se rimas ao fim das frases. Eram utilizados temas livres além dos já trabalhados no decorrer da pesquisa, dando uma providen-cial variabilidade às construções linguísticas enriquecendo o univer- so vocabular de todos os atores envolvidos. Jogos Competitivos10 Huizinga (2000, p. 59) afirma: “quem diz competição, diz jogo”. Para o autor não há razão alguma para recusar a qualquer tipo de competição o caráter do jogo. Observando tal pressuposto expla- namos neste capítulo os jogos competitivos, suas características e a sua constituição em diferentes civilizações. Nosso olhar frente a competição está associado à ideia de disputa entre indivíduos, gru- pos, equipes, com a finalidade a superação de limites pessoais ou coletivos. Em consequência, a vitória, a derrota e também o empate são resultados óbvios dos jogos de competição. Contudo, acredita- mos que aceitar e respeitar o resultado final é substancial ao jogo. 10 https://www.unimep.br/phpg/bibdig/pdfs/docs/04042018_155233_simonecas- trodossantos_ok.pdf CONHECIMENTOS 31 a solução para o seu concurso! Editora Os jogos competitivos em diferentes tempos e civilizações Para que possamos compreender a constituição dos jogos com- petitivos é relevante o entendimento do jogo em diferentes épocas e grupos sociais. É o que abordaremos neste subitem. Os gregos separavam as palavras competição e jogo, no entanto Huizinga (2000) aponta que eles não conseguiam determinar tal se- paração quando as utilizavam de maneira habitual, pois: Sob todos os seus aspectos e em todas as ocasiões, a competi- ção tornara-se uma função cultural tão intensa que os gregos a con- sideravam perfeitamente “habitual”, como algo que existia natural- mente. Foi por este motivo que os gregos, possuindo duas palavras distintas para designar o jogo e a competição, não conseguiram identificar de maneira clara a presença, no segundo, do elemento lúdico essencial, daí resultando que a união conceptual e, portanto, linguística, entre ambas, nunca foi efetivamente realizada O autor explica que na Grécia as competições sagradas e profa- nas ocupavam um lugar importante na vida dos gregos, porém o seu povo não se apercebia do caráter lúdico que as constituíam. Dentro dessa perspectiva, o lúdico podia ser encontrado como elemento de atos sagrados, rituais e celebrações. Huizinga (2000) argumenta que, diferentes manifestações culturais como a música, a escultura, a lógica, dentre outras, eram nobres expressões de formas lúdicas. Neste sentido, a competição era associada à exibição da perfeição corporal, como manifestação estética. O sentido para tal perfeição se referia, também, ao gosto pelo elogio às qualidades considera- das à época, mas que podem ser observadas até a presente data. Um dos mais fortes incentivos para atingir a perfeição, tanto individual quanto social, e desde a vida infantil até aos aspectos mais elevados da civilização, é o desejo que cada um sente de ser elogiado e homenageado por suas qualidades. Elogiando o outro, cada um elogia a si próprio (HUIZINGA, 2000, p. 49). Nesses tipos de jogos se manifestava, e ainda se manifesta, a necessidade de se gabar por um determinado resultado. Um joga- dor terá muito mais prazer ao jogar sob a observação de plateia, pois poderá ostentar seus êxitos. Considerando assim, a ideia de jogo está estritamente relacionada a ganhar e, para isto, é necessá- rio que haja um adversário que permita comprovar a superioridade de um em relação a outro. Este tipo de jogo está ligado ao conceito de ganho, prêmio, e daí se derivam as palavras como preço, apreço e salário. Todavia, Huizinga (2000, p. 40) ampliou tal discussão dizendo: Não jogamos para ganhar um salário, trabalhamos. Finalmente, a palavra “ganhos” não tem etimologicamente nada a ver com estas palavras, embora semanticamente pertença tanto ao lúdico quanto ao econômico. O comerciante realiza seus ganhos, e o jogador tam- bém alcança seus ganhos (HUIZINGA, 2000, p. 40). Brougère (1998, p. 39), apontou uma diversidade de termos pre- sentes na civilização grega referentes aos jogos competitivos: athos que se referia à luta, combate, concurso, jogos tais como os píticos; agôn que significava assembleia (em particular para os jogos públi- cos), as instalações para esses jogos e, ainda jogos, concursos, lutas e jogos ginásticos; paidia que era derivado de criança, jogo infantil, infantilidade, diversão, mas também jogos ou concursos de luta. Na civilização grega dava-se grande importância aos concursos. Nesse contexto, a criação dos Jogos Olímpicos em 776 a.C. foi uma data significativa, pois tratava-se do concurso de Olímpia, o qual estava inserido em seu calendário religioso. Nele os participantes lutavam em estádios e se impunham como os atores no contexto de uma teologia de renovação cíclica que era relacionada à vegetação, ao universo, às comunidades e seus princípios. Para o autor A liturgia do concurso é espetáculo apenas de modo acessório. Está centrada na comemoração da morte de um herói. Essa come- moração regular dos grandes mortos permite renovar no além o excepcional poder vital e continuar a proteger a comunidade sobre a qual vivem (BROUGÈRE 1998, p. 40). O autor aponta que os jogos Pan-helênicos, surgem de roteiros cíclicos de sobrevivência para os mortos principescos de tempos heroicos. A essência desses jogos se baseava no revigoramento do herói, por exemplo, a corrida de pé reanimava as energias vitais por meio do abalo que impunha à terra. Portanto, os Jogos Olímpicos permitiam a reanimação da natureza, da fonte de vida e do poder real. Esses concursos foram “ao mesmo tempo, cerimoniais de ini- ciação dos jovens; a prova difícil qualifica quem dela sai vencedor” (BROUGÈRE, 1998, p. 40). Os concursos permitiam a seus atores mostrarem sua diversidade vital em um espaço competitivo. Assim, os confrontos eram socializados por regras precisas e controle. O autor também menciona que era nos jogos, concursos e festas que o indivíduo adquiria virtude e recebia a forma conveniente. Já Roma foi alimentada pelas mais variadas culturas que a ante- cederam, apesar de apresentar uma estrutura forte em relação às artes e administração, sua base política era pautada no ritualismo. O elemento lúdico na civilização romana estava presente na sua es- trutura ritualística. Para o autor, A sociedade romana não podia viver sem os jogos. Estes eram tão necessários para sua existência como o pão, pois eram jogos sagrados e o realizavam-se em honra a Apolo dois anos depois (e dois anos antes) dos Jogos Olímpicos e entre cada Jogos Nemeus e Ístmicos (RIBEIRO JÚNIOR, 2017) Para os romanos os jogos destinavam-se ao preparo físico, a fim de formar soldados, cidadãos obedientes e devotos; além de agregar cultura física, formação estética e espiritual decorrente das influências gregas. Se por um lado podemos ver a competição nos jogos na Grécia sob a esfera religiosa e do exibicionismo do corpo, pelo outro, nos jogos romanos encontraremos o sagrado e a de- monstração de “virtude” por meio de proezas de força e destreza (KISHIMOTO, 1994). Huizinga (2000), expõe a contradição existente no Estado roma- no, pois ao mesmo tempo que se apoderava dos direitos sagrados, apresentava uma estrutura social e econômica frágil. Para o autor, o Império Romano vivia sob a base do exibicionismo, da diversão e da fútil glória. Segundo ele Roma se utilizava dos triunfos como um ritual para recuperação do Estado, das tensões da guerra, para estabelecer o bem-estar. O elemento lúdico é claramente entendido na expressão “panem et circenses” (pão e circo), uma estratégia utilizada para entreter a população, sendo estes essenciais para a sociedade ro- mana, já que os jogos eram considerados sagrados. De acordo com Brougère (1998), especialistas dos povos etrus- cos mencionavam que os jogos atléticos eram efetuados por escra- vos para o deleite dos espectadores. Ainda, para este autor, os jogos distinguem-se em dois tipos: os de cena (ludi scaenici) e os de circo (ludi circenses). Os jogos de cena, retratavam um mundoimaginário e englobavam o teatro, a mímica, a dança e os concursos de poe- sia. Já os jogos de circo tratavam de duelos e eram compostos por corridas de biga, combates e encenações de animais, caças e jogos atléticos. CONHECIMENTOS 3232 a solução para o seu concurso! Editora Os combates de gladiadores (munera, deveres), demasiada- mente reais, só serão comparados ao jogo mais tarde, no século III da nossa era, por derivação tardia talvez, por esquecimento da distinção entre o combate real e a encenação (BROUGÈRE, 1998, p. 37). As corridas de bigas eram populares nos jogos romanos, utiliza- das como recurso de combate pelos gladiadores e desapareceram da guerra há muito tempo. O público ocupava posição central neste jogo, pois: Mais do que salvar a sua pele, o gladiador deve agradar o públi- co que solicita a morte do vencido, a menos que este tenha seduzi- do apesar de sua derrota. A morte não é inelutável. A decisão pela morte resulta de uma escolha do público e não da finalização do combate. Mais do que o realismo, a encenação exótica e a teatrali- zação acompanham o duelo (BROUGÈRE, 1998, p. 37). Corridas de bigas e combates entre gladiadores, além de ser um espetáculo, possuíam uma dimensão religiosa sendo oferecido aos deuses como um presente. Portanto, aqueles que financiam os jogos, ofereciam e proporcionavam alegria e relaxamento aos ho- mens e às divindades. Os jogos romanos eram um fenômeno periódico, possuindo uma grande diversidade, como por exemplo, os jogos seculares que aconteciam a cada 110 anos; os jogos anuais (jogos de Apolo); jo- gos a cada cinco anos, variados e numerosos; jogos circunstanciais (jogos fúnebres e triunfais). Esses jogos, frequentemente, eram uti- lizados com propósitos políticos e encenavam poder (BROUGÈRE, 1998). Podemos observar que tanto na civilização grega e romana en- contramos similaridades, mas também distanciamentos se conside- rarmos as características dos jogos competitivos. Isso também se dá com os jogos na China Antiga, pois nesse gru- po se destaca a influência de competições festivas, nas quais os clãs rurais celebravam as festas das estações, desenvolvidas por meio de competições destinadas a favorecer a fertilidade e o amadureci- mento das colheitas. Deste modo, as competições estavam relacio- nadas ao ritual, sendo indispensáveis para a harmoniosa sucessão de estações, o amadurecimento da colheita e a prosperidade para o próximo ano. De acordo com Huizinga (2000, p. 43): Com o surgimento dos chefes e de reinos regionais, no interior do imenso território da China, foi-se desenvolvendo, acima e para além dos simples dualismos originais, cada um dos quais corres- pondia a um único clã ou tribo, um sistema de numerosos grupos opostos, abrangendo uma série de clãs ou tribos reunidas, e conti- nuando a ter nas competições festivas e rituais a principal expres- são de sua vida cultural. O autor destaca o surgimento da hierarquia social a partir de competições primitivas. Em estudos antropológicos se observou que, em algumas comunidades, havia a separação em dois grupos que se utilizavam de totens como simbolismos, sendo que o rela- cionamento entre as duas metades das tribos era de rivalidade e competição. Inicia-se aí o dualismo sexual, explicado pela divisão das tribos em masculino e feminino, o que impunha a homens e mulheres se encontrarem, apenas, em rituais. Esta dualidade é en- contrada nos relatos da China antiga. Huizinga (2000), cita estudos de Marcel Granet, que explorou esses ritos, como a celebração dos clãs rurais, para fortalecer a fer- tilidade ou a festa de inverno na casa dos homens, nas quais não era permitida a presença de mulheres. Esses homens se dividiam em grupos, um representando o princípio yang – sol, calor e verão –, e o outro representando yin – lua, frio e inverno que competiam. Na civilização chinesa primitiva, quase todas as atividades se configuravam como uma competição ritual, tais como: atravessar um rio, escalar uma montanha, cortar árvores ou colher flores. As lendas chinesas se baseavam no herói derrotando seus adversários por intermédio de proezas espantosas e miraculosas demonstra- ções de força, provando a sua superioridade. Regra geral, o torneio acabava com a morte dos vencidos. “O mais importante aqui é que todas estas competições, mesmo quando são fantasiosamente des- critas como combates titânicos e mortais, pertencem em todos os seus aspectos ao domínio do jogo” (HUIZINGA, 2000, p. 43). Dentro da cultura chinesa, a competição pela honra assume uma forma invertida, se transformando numa competição de boas maneiras, assim derrotar o adversário podia ser visto como uma exibição de delicadeza para com os outros, mas com um profundo interesse pela própria honra. Neste sentido, (HUIZINGA, 2000, p. 51) afirma que a palavra, jang, significa “ceder o lugar a outrem” e, possivelmente, na China a competição de cortesia era mais formali- zada, mas podia ser encontrada em toda a parte do mundo. Segundo Huizinga (2000), a virtude de um homem é qualidade que o torna capaz de lutar e comandar e, nas civilizações primiti- vas, o ideal viril deveria ser reconhecido, quando não, conquistado pela força. A virtude, a honra, a nobreza se encontram no campo da competição, isto é, do jogo. Já o jogo na civilização Asteca era muito diferente dos gregos ou romanos, pois eram considerados como uma atividade séria, em sua essência estava relacionada à renovação cósmica. Para Brou- gère (1998), o termo jogo, na civilização asteca, origina-se do vocá- bulo tlachia que expressa o ver, o olhar. O Tlachtli, também conhecido como jogo de bola, é traduzido como jogo de pelota e é jogado como uma bola de borracha. De acordo com Brougère (1998), o jogo Tlachtli ocorre em um terreno em forma de T duplo, no qual dois campos se confrontam por am- bos os lados da linha mediana, onde dois anéis de pedras servem de goleira, para que os jogadores joguem a bola por esses orifícios. A sociedade Asteca rejeita a ideia de jogo como gasto inútil de energia, assim, existem leis contra a embriaguez e os jogos de azar. Portanto, o jogo tem como objetivo a regeneração da socie- dade e envolve rituais religiosos. Nesse jogo dar, receber e retribuir são fatores formadores de uma tríplice obrigação social. Essas três normas permitem, em todas as sociedades, o estabelecimento e a manutenção de relações sociais. Huizinga (2000) relata, também, a cerimônia potlatch, que é realizada pelos indígenas da América do Norte. É uma grande festa, na qual uma tribo faz pomposas doações às outras, tendo a outra a obrigação de promover uma nova festa ainda mais bonita, pois quem oferece a potlatch demonstra sua superioridade e, portanto, está relacionada à necessidade humana de lutar pela honra e pela glória. Outro jogo é o kula, praticado por grupos de ilhas a leste de Nova Guiné como um ritual que tem finalidade de trocas, entre as tribos, de objetos destituídos de valor econômico, como colares de conchas vermelhas e braceletes de conchas brancas. É considerado um exemplo de jogo nobre e puro, que traduz a imperecível ne- cessidade humana de viver em beleza. Existiam, também, entre os indígenas os torneios de jactância (vaidade, orgulho, arrogância), nos quais se competiam para expressar a riqueza, que gerava um grande desperdício de alimentos. CONHECIMENTOS 33 a solução para o seu concurso! Editora Na Idade Média, o jogo ainda mantinha contato com as ativi- dades religiosas, porém, de modo diferente da Antiguidade. De acordo com Brougère (1998), nesse período era possível encontrar a atividade lúdica vinculada à religião, por meio de ritos de carna- vais. As comemorações de carnaval, associavam-se ao fingimento, à simulação. Ainda, se mantinham jogos competitivos e de destreza. No entanto, a partir da separação das diferentes atividades sociais o jogo foi isolado, o que fez dele uma atividade fútil. Neste contex- to, o jogo vem se oporà seriedade, como atividade de relaxamen- to, praticados no tempo disponível. De acordo com Dumazedier (1976), o lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para di- vertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda, para obter informação ou desenvolver a formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desem- baraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais (DUMA- ZEDIER, 1976, p. 34). Para Marcellino (1987), o lazer não é mera atividade, mas a cultura vivenciada no tempo disponível de obrigações. Assim, nos apoiando nas ideias do autor, podemos dizer que a concepção de jogo foi mudando através dos tempos, gradativamente, ocupando o lugar de atividade não produtiva. “O renascimento e os períodos posteriores veem o jogo passar do sério ao frívolo, do público ao privado” (BROUGÈRE 1998, p. 45). A história dos jogos é, portanto, aquela de sua transferência do sério ao frívolo, não sendo o sério somente o lugar do trabalho, mas também o da sociabilidade considerada ainda mais importante que o trabalho. [...] (idem – grifo do autor). Segundo Brougère (1998), por volta do século XVII, o jogo é marcado pelo duplo signo da frivolidade e da aposta, portanto, o jogo de azar assume o primeiro plano, o que acaba por modificar a representação de jogos. Deste modo, este tipo de jogo tornou-se um vício temível, pois arruinava famílias. O verbete JOGAR da Encyclopédie de Diderot e d´Alembert nos faz entrar imediatamente no clima desse século no que concerne o jogo: JOGAR, (Gram.). Diz-se de todas as ocupações frívolas, com as quais nos divertimos, relaxamos, embora algumas vezes acarretam a perda da fortuna e da honra (BROUGÈRE, 1998, p. 45 – grifos do autor). O jogo era explorado como uma atividade social do universo próprio do adulto. Brougère (1998), cita trechos do verbete jogo da Encyclopédie de Diderot e d´Alembert no qual, diz que a concepção de jogo admite a necessidade de desafio e delimita dois tipos de jogos: os de destreza e os de azar. Os dois verbetes da Encyclopédie começam por uma definição do jogo interessante porque delimitam estreitamente a concep- ção de jogo em questão, trata-se de uma atividade que supõe um desafio. Não há jogo a não ser que um desafio seja proposto aos participantes, o que supõe um vencedor. Os jogos são divididos em jogos de azar e jogos de destreza, com uma categoria intermediária ou mista (jogos de azar mesclados de destreza). Por jogo de des- treza deve-se entender tanto jogo intelectual... quanto jogo físico. Esses jogos, assim como os de azar, são suscetíveis de um desafio... (BROUGÈRE, 1998, p. 47). Aponta ainda o autor que, muitas vezes, os jogadores colocam uma parcela significativa de seus bens à mercê das cartas e dos da- dos, sem ignorar as consequências nocivas. Para Kishimoto (1994), o interesse pelos jogos diminui com a chegada do Cristianismo. Assim, essa sociedade cristã, que impõe uma educação disciplinadora, não estabelece condições para a ex- pansão dos jogos, pois eram considerados delituosos, assemelhan- do-se a prostituição e embriaguez. No entanto, durante o Renas- cimento, no qual a ideia de corpo não exigia a mortificação, mas sim o seu desenvolvimento, o jogo passa deixar de ser objeto de reprovação e é inserido no cotidiano dos jovens. Nessa época se reabilitam os exercícios físicos banidos pela Ida- de Média. Exercícios de barra, corridas, jogos de bola semelhante ao futebol e o golfe são práticas que se generalizam. Aos jogos do corpo são acrescidos os do espírito (KISHIMOTO, 1994). Para Brougére (1998), ao caminharmos um pouco mais no tem- po, no século XIX, o jogo se reveste da mais extrema seriedade. Com efeito, um dos sentidos usuais de ludere (verbo relativo a nosso vocabulário) é “se exercer”. O adjetivo ludius designa o que é “exercício”, “treinamento”, em oposição ao que é luta em aplicação real, o que é retomando a expressão das crianças, “parar rir” em oposição a “de verdade” (BROUGÈRE, 1998, p. 36). De Rose Jr (2009) afirma que mesmo com registros de existência de atividades esportivas e jogos ao longo dos séculos, o esporte como é conhecido na atualidade é fruto das mudanças que acon- teceram na Europa com a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX, especialmente na Inglaterra. Em consequência disso, a nobre- za inglesa alternava as atividades esportivas entre campo e cidade, assim, alguns esportes como o críquete e o boxe foram regulamen- tados. A existência de mais tempo para o prazer, proporcionada por essa revolução, fez com que aumentasse a prática de atividades fí- sicas e proliferaram as entidades esportivas. Como consequência, surgiram novas modalidades e outras foram aperfeiçoadas, como rúgbi, remo, futebol, hóquei e tênis (DE ROSE JR, 2009, p. 104). Com a Revolução Industrial as modalidades esportivas passam, também, a serem praticadas por trabalhadores em seu tempo dis- ponível e livre de obrigações. O tempo disponível para a prática de jogos competitivos, foram sem dúvida, impulsionadores para a re- gulamentação de determinados esportes (MARCELLINO, 2007). O esporte se enquadra na categoria Agôn, por se tratar de um jogo competitivo, que apresenta como característica a necessidade de superação do outro por meio das melhores habilidades do prati- cante (CAILLOIS, 1990). Em concordância com essa ideia, Pereira (1988) afirma que o esporte é uma atividade específica de competição, na qual se va- loriza intensamente a prática de exercícios físicos com vistas à ob- tenção do resultado, para a superação de si ou dos adversários e, para tal, requer o aperfeiçoamento das capacidades e habilidades do sujeito (PEREIRA,1988 p. 212). Para Silva (1973, p. 14 apud SOARES, 2013, p. 17), “o esporte é determinado quando ocorrem três fatores: o jogo, o movimento e a agonística”. Já para Azevedo e Gomes Filho (2011), “os jogos podem ou não ser competitivos; mas espor- tes são sempre jogos competitivos organizados”. Com relação ao esporte, Huizinga (2000) destaca que: “a transição do divertimento ocasional para a existência dos clubes e da competição organizada, só aconteceram quando haviam grupos que jogavam uns contra os outros”. O principal jogo relatado por Huizinga (2000) é o de bola, no qual a seriedade começa a tomar corpo, a partir da existência de profissionais e amadores, este tipo de esporte entra em uma situa- ção que nem é jogo e nem é seriedade propriamente dita. Grande marco das transformações dos jogos, ocorreram na In- glaterra, visto que essas mudanças se deram de forma instituciona- lizada. Segundo Azevedo e Gomes Filho (2011), esportes são jogos CONHECIMENTOS 3434 a solução para o seu concurso! Editora institucionalizados. Portanto, praticar um esporte é praticar um jogo que requer de alto rendimento, segundo regras institucional- mente definidas e estrutura com normativas de organização. Para ambos os autores, a organização rígida é uma das características que fazem a passagem dos jogos para os esportes. De acordo com De Rose Jr (2009), foi no século XIX que o es- porte passou a ser praticado nas escolas públicas e nas universi- dades inglesas, substituindo os jogos antigos, pela intervenção do pedagogo Thomas Arnold. Assim, o esporte sobre a ótica educativa tornou-se parte do currículo das instituições de ensino. Correia (2006), aponta que Pierre Coubertin realizou os primei- ros Jogos Olímpicos da Era Moderna em 1896, com intuito de unir países, promover a paz, universalizar o espírito formativo nas esco- las inglesas e conservar o amadorismo. Porém, esses ideais foram corrompidos com a evolução e o sucesso dos jogos olímpicos, que se tornou o maior evento mundial, despertando interesse diversos: políticos, econômicos, de veículos de comunicação, dentre outros. Novas modalidades esportivas são criadas (basquetebol, volei- bol e handebol) ecom o “ressurgimento dos jogos olímpicos em 1896, o mundo passou a ter contato com grandes atletas e com as diferentes modalidades esportivas, evidenciando a competição entre os indivíduos e as nações participantes” (DE ROSE JR, 2009, p. 104-105). A partir da metade do século XX, o esporte começou a ter uma maior cobertura dos meios de comunicação mais especificamen- te rádios e jornais. Com o desenvolvimento de novas tecnologias (principalmente a televisão), os eventos esportivos passaram a ter visibilidade, e os grandes atletas tiveram a oportunidade de tornar suas qualidades e seus defeitos visíveis para um público cada vez maior (DE ROSE JR, 2009, p. 105). Com o foco voltado ao corpo, a competição se transforma na busca do “corpo perfeito e ideal”, tornando-se condição de “bem- -estar ou mal-estar” de uma pessoa. Em vista disso, Farias (2005), aponta que, através de uma lógica de mercado, as práticas esporti- vas foram transformadas em verdadeiros espetáculos. Para Camargo (2016) o esporte é uma prática social formada pelos jogos, pelo processo histórico dos jogos, pela história da hu- manidade e pela cultura. Porém, o sentido do esporte, e aqui nós incluímos o jogo, se modifica cada vez que a mídia traz a visão de esporte espetáculo para determinada prática esportiva. O esporte espetáculo impulsionou o mais alto nível de profissionalização, de especialização de treinamento, de equipamentos, de seleção de competição e também de corrupção (CORREIA, 2006). Segundo Betti (1997, p. 39), a transmissão televisiva propõe uma nova visão do evento esportivo: a repetição obsessiva dos lan- ces mais violentos ou espetaculares, o fanatismo da torcida, a eu- foria da vitória, dentre outros. Isso facilita muito a comercialização do esporte, pois permite a ênfase em tudo o que mais interessa aos investidores, e produz uma visão artificial do esporte, em combi- nação com uma linguagem “guerreira”, amplificando o falso drama que se vive no campo e nas quadras. Nesse sentido, cremos que a violência se tornou um produto a ser vendido pela televisão por prender a atenção do telespectador. Estudos de laboratório mostraram repetida e consistentemente que a violência na televisão pode tornar as crianças mais dispostas a ferir outras pessoas, mais agressivas em suas brincadeiras e mais propensas a escolherem a agressão como uma reação a situações de conflito (ORLICK, 1978, p. 62-63). Conforme aponta Orlick (1978), o problema de a violência ser evidenciada nos meios de comunicação e nos esportes é que esses modelos oferecidos serão imitados. O mesmo é discutido por Cai- llois (1990), quando afirma que o público vive a vida de seus ídolos, limitando-se a copiá-los em tudo que fazem como roupas, gestos, gostos e muitas vezes até mesmo a morte. Consideramos que os valores sociais e morais como ética, honra e respeito aos adversários, vão se distanciando das características dos esportes/jogos, por meio da violência e pela busca da vitória a qualquer preço. Os jogos competitivos e suas características Até o presente momento, conduzimos o jogo sob uma esfera histórica ligada ao combate e a guerra, das civilizações mais antigas. No entanto, convém lembrar que grande parte das civilizações fo- ram sendo transformadas e organizadas em formas mais evoluídas com isso o jogo também vai ganhando outros contornos. Conforme vimos, os jogos gregos e romanos faziam parte de sua cultura competir até a morte, se preciso fosse. Dentro da cultura desses povos, principalmente dos gregos, o impulso da competição constituía-se em formas de lutas, cujo o jogo de agôn, ou conheci- do também como agonístico era praticado até a agonia. Diante da civilização moderna e frente a novas teorias, a competição exacer- bada passou a ser objeto de estudos para pesquisadores. Portanto, a competição tem sido caracterizada por alguns estudiosos como um valor que gera atitudes individualistas, disseminador de contra valores, capaz de eliminar o prazer, alegria e divertimento. Acreditamos que a competição em si, não deve ser colocada como negativa ou positiva, isto é, a competição não é boa ou má, ela é o que fazemos dela. É claro que o pensamento sobre a vitória está ligado ao jogo e para vencer é indispensável que haja um par- ceiro ou um oponente. No entanto, pensamos a competição como forma de mostrar habilidades específicas. A competição é um valor atribuído ao jogo que pode ter maior ou menor importância para o jogador dependendo de seus interesses e personalidade (ANDRÉ; RUBIO, 2009, p. 294). A competição é tão antiga quanto a história da humanidade, po- dendo ser um fator motivante para obter conquistas pessoais e so- ciais, podendo estar presente tanto nos jogos quanto nos esportes. Recorrendo a história conceitual do esporte, é possível desco- brir que a exacerbação do agôn, ou detrimento ou atrofia do ludes, ou lúdico, enquanto perdurou a perspectiva única do rendimento, tornou-se mais competição do que jogo, perdendo parte do seu sig- nificado sociocultural inicial (TUBINO, 1992, p. 27). Já para Orlick (1978), o objetivo da competição está ligado à ri- validade, pois se busca impedir que o oponente seja recompensa- do, garantindo que ele não alcance seu objetivo. Isso pode ser observado quando uma pessoa está disposta a deixar que seu próprio desempenho seja prejudicado com o intuito de diminuir as recompensas de seu semelhante. Ela não se importa com a qualidade de seu desempenho desde que possa assegurar que seu companheiro não seja bom (ORLICK, 1978, p. 81). Por isso, na visão de alguns educadores, a competição é o as- pecto mais perverso do jogo por promover valores exacerbados de concorrência e individualismo em prejuízo de valores de igual- dade e solidariedade. Huizinga (2000) e Caillois (1990), concebem a essência da competição com valores sociais e morais, como por exemplo, a ética, a honra, o cavalheirismo e o respeito às regras e aos adversários. CONHECIMENTOS 35 a solução para o seu concurso! Editora Caillois (1990), classifica os jogos utilizando-se das denomina- ções competição, sorte e interpretação, distinguindo assim, os jo- gos em categorias: agôn, alea, mimicry e ilinx, conforme menciona- do no capítulo anterior. A categoria agôn reúne todos os jogos de competição, podendo estar presentes desde jogos atléticos a intelectuais. Tem como pres- suposto que seja assegurada a igualdade de oportunidades entre os competidores, garantindo os mesmos direitos, deveres e recursos para o confronto (CAILLOIS, 1990). O agôn configura-se como uma categoria importante dos jogos. Pois, trata-se de uma rivalidade baseada em qualidades como rapi- dez, resistência, vigor, memória, habilidade, engenho, etc., de tal forma que o vencedor apareça sendo o melhor em uma determina- da categoria de proezas (CAILLOIS, 1990). Assim, o interesse do jogador, é ser reconhecido em sua supe- rioridade em um determinado domínio. A prática do agôn, exige treinamento adequado, esforços, concentração e vontade de triun- far, portanto, a essência da competição requer do jogador não só capacidades físicas e intelectuais para ser um vencedor, mas princi- palmente valores sociais e morais. Huizinga (2000) menciona, que dentre a fronteira do jogo e do combate, o agôn obedece ao código do duelo, do torneio e alguns aspectos notáveis em guerra. No entanto, o objetivo não se fixa na destruição do adversário, mas sim o de demonstrar a sua superio- ridade. Pois, quando um duelo ultrapassa os limites das regras e códigos de honra, deixa de ser um jogo e torna-se barbárie. Nessa mesma perspectiva, o mesmo intercorre no jogo competitivo quan- do não há regras, igualdade, controle e respeito aos adversários. De certo modo, tais ideias estão presentes na classificação de De Rose Jr (2009, p. 106) que identifica quatro fatores que eviden- ciam o nível de competição: - Confronto: realizado entre dois ou mais indivíduos ou equipes, direta ou indiretamente,dependendo da modalidade esportiva. Algumas vezes, o confronto é pessoal, isto é, quando o indivíduo tenta superar suas próprias marcas ou aquelas estabelecidas por outros atletas. - Demonstração: oportunidade de demonstrar as capacidades e as habilidades desenvolvidas e apreendidas nos treinamentos e ao longo da vida esportiva, por meio das experiências competitivas. - Avaliação: pode ser quantitativa (quando se leva em conside- ração o produto do desempenho a partir das normas de referência numérica com base e critérios previamente definidos; [...] ou qua- litativa (quando se avalia o processo ou qualidade do movimento realizado, levando-se em consideração as situações inerentes a uma competição [...] - Comparação: acontece em função de um padrão próprio ou a partir de modelos externos. Esses quatro fatores podem alterar o padrão de comportamen- to do jogador, dependendo dos aspectos relacionados às suas ca- racterísticas pessoais como, por exemplo, o estágio de desenvolvi- mento, o estado físico, o nível técnico, as experiências acumuladas, a necessidade de autoafirmação, as expectativas e aos objetivos pessoais. Podendo também sofrer influências externas como a ex- pectativa de outras pessoas em relação ao seu desempenho, nível da competição, nível dos adversários, pressões variadas, dentre ou- tras. Concorrer, competir, disputar, etc., sempre esteve presente na humanidade, nos jogos de competição, o prazer está situado no vencer, as habilidades individuais ou coletivas, portanto, deter- minam quem ganha e quem perde. Nesse tipo de jogo podemos encontrar esforços, trabalho e seriedade o que leva o indivíduo a um comprometimento pessoal e coletivo. Acreditamos que os jo- gos competitivos precisam ser disseminados em espaços escolares e não escolares, pois através dele, poderá ser refletido suas regras, prazer, desprazer, possíveis conflitos, superação, respeito, perseve- rança, aprendizagem, etc., podendo atribuir novos significados e conceitos para seus participantes, pois A competição é base e pressuposto para a cooperação. Quem não sabe competir não sabe cooperar. Seja entre pessoas, seja en- tre instituições, cidades e países. Do que estamos carecidos é de uma sólida aprendizagem da competição susceptível de enraizar profundamente uma ética do jogo, do jogador e do competidor. Os jogos competitivos são alvo de críticas por vários autores, sendo os mais relevantes dessa pesquisa Orlick (1978) e Brotto (1999). As críticas aos jogos competitivos acentuam-se na ideia de uma competição exacerbada, com valores de exclusão, egoísmo e comportamentos agressivos. Assim, esses autores, inclinam-se po- sitivamente aos jogos cooperativos por acreditar que suas práticas são capazes de desenvolver habilidades humanas e transformar comportamentos competitivos em comportamentos cooperativos. Sendo assim, na sequência passaremos a explanar alguns aspectos relevantes sobre os jogos cooperativos. Jogos de Tabuleiro Ao propor a utilização de um jogo de tabuleiro no processo de ensino-aprendizagem de Física, o objetivo não é substituir as aulas convencionais, mas, propor uma metodologia alternativa dentro do leque no qual os professores têm à disposição.11 É importante salientar que a simples utilização do jogo não garante a aprendizagem dos conteúdos se não houver uma análi- se antecipada do professor, para que ele possa melhor utilizar essa prática. Esse tipo de preparação evita que os alunos entendam a atividade como um mero passatempo para “matar aula” ou como uma obrigação insípida Existem muitos tipos de jogos, dentre os mais conhecidos, estão os que se encaixam na categoria de tabuleiros, tais como: Dama, Trilha, Gamão, Xadrez, Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Detetive, Scotland Yard e War. Frequentemente pode-se imaginar que o desenvolvimento de jogos de tabuleiro é tarefa para pessoas especialmente qualificadas para tal fim, quando, na realidade não o é. Um professor apresenta plenas condições de desenvolver um jogo para aplicar em sala de aula, especificamente para um conteúdo abordado e para as suas necessidades. Assim, dominar os referenciais teóricos do conteúdo implícito no jogo, ser capaz de relacioná-los a situações concretas e atuais, pesquisar e avaliar recursos didáticos favoráveis às situa- ções de ensino-aprendizagem são requisitos básicos para o desen- volvimento de um bom jogo educativo. Conhecer outros jogos de tabuleiro fornece condições e ideias ulteriores para desenvolver seus próprios jogos. Nessa prática, ser criativo para criar ou adaptar regras e tabuleiros de jogos ou de situações diversas, pode impul- sionar o desenvolvimento do mesmo. Num contexto de jogo, a participação ativa do sujeito sobre o seu saber é valorizado por pelo menos dois motivos. Um deles deve-se ao fato de oferecer uma oportunidade para os estudantes estabelecerem uma relação positiva com a aquisição de conheci- mento, pois conhecer passa a ser percebido como real possibilida- 11 http://posgrad.fae.ufmg.br/posgrad/viienpec/pdfs/1033.pdf CONHECIMENTOS 3636 a solução para o seu concurso! Editora de. Alunos com dificuldades de aprendizagem vão gradativamente modificando a imagem negativa do ato de conhecer, tendo uma experiência em que aprender é uma atividade interessante e desa- fiadora. Por meio de atividades com jogos, os alunos vão adquirindo autoconfiança, são incentivados a questionar e corrigir suas ações, analisar e comparar pontos de vista, organizar e cuidar dos mate- riais utilizados. Outro motivo que justifica valorizar a participação do sujeito na construção do seu próprio saber é a possibilidade de desenvolver seu raciocínio. Os jogos são instrumentos para exer- citar e estimular um agir e pensar com lógica e critério, condições para jogar bem e ter um bom desempenho escolar. DOS MÉTODOS E PROCEDIMENTOS DIDÁTICOS QUE PER- MITAM ADEQUAR AS ATIVIDADES DE ENSINO (PERCUR- SOS, SITUAÇÕES E ETAPAS DE APRENDIZAGEM) ÀS CARAC- TERÍSTICAS E NECESSIDADES DOS ESTUDANTES Concepção de criança e de pedagogia da Educação Infantil De acordo com os Parâmetros Curriculares12, a criança é um su- jeito social e histórico que está inserido em uma sociedade na qual partilha de uma determinada cultura. É profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas também contribui com ele. A criança, assim, não é uma abstração, mas um ser produtor e produto da história e da cultura. Olhar a criança como ser que já nasce pronto, ou que nasce va- zio e carente dos elementos entendidos como necessários à vida adulta ou, ainda, a criança como sujeito conhecedor, cujo desen- volvimento se dá por sua própria iniciativa e capacidade de ação, foram, durante muito tempo, concepções amplamente aceitas na Educação Infantil até o surgimento das bases epistemológicas que fundamentam, atualmente, uma pedagogia para a infância. Os no- vos paradigmas englobam e transcendem a história, a antropologia, a sociologia e a própria psicologia resultando em uma perspectiva que define a criança como ser competente para interagir e produzir cultura no meio em que se encontra. Essa perspectiva é hoje um consenso entre estudiosos da Edu- cação Infantil. A interação a que se referem os autores citados não é uma interação genérica. Trata-se de interação social, um processo que se dá a partir e por meio de indivíduos com modos histórico e culturalmente determinados de agir, pensar e sentir, sendo inviável dissociar as dimensões cognitivas e afetivas dessas interações e os planos psíquico e fisiológico do desenvolvimento decorrente. Nessa perspectiva, a interação social torna-se o espaço de constituição e desenvolvimento da consciência do ser humano desde que nasce. Muitas vezes vista apenas como um ser que ainda não é adulto, ou é um adulto em miniatura, a criança é um ser humano único, completo e, ao mesmo tempo, em crescimento e em desenvolvi- mento. É um ser humano completo porque tem características ne- cessárias para ser consideradocomo tal: constituição física, formas de agir, pensar e sentir. É um ser em crescimento porque seu corpo está continuamente aumentando em peso e altura. É um ser em de- senvolvimento porque essas características estão em permanente transformação. As mudanças que vão acontecendo são qualitativas e quantitativas— o recém-nascido é diferente do bebê que engati- nha, que é diferente daquele que já anda, já fala, já tirou as fraldas. 12 http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Educinf/eduinfparqualvol1.pdf O crescimento e o desenvolvimento da criança pequena ocorrem tanto no plano físico quanto no psicológico, pois um depende do outro. Embora dependente do adulto para sobreviver, a criança é um ser capaz de interagir num meio natural, social e cultural des- de bebê. A partir de seu nascimento, o bebê reage ao entorno, ao mesmo tempo em que provoca reações naqueles que se encontram por perto, marcando a história daquela família. Os elementos de seu entorno que compõem o meio natural (o clima, por exemplo), social (os pais, por exemplo) e cultural (os valores, por exemplo) irão configurar formas de conduta e modificações recíprocas dos envolvidos. No que diz respeito às interações sociais, ressalta-se que a di- versidade de parceiros e experiências potencializa o desenvolvi- mento infantil. Crianças expostas a uma gama ampliada de possibilidades in- terativas têm seu universo pessoal de significados ampliado, desde que se encontrem em contextos coletivos de qualidade. Essa afir- mativa é considerada válida para todas as crianças, independente- mente de sua origem social, pertinência étnico-racial, credo político ou religioso, desde que nascem. Por sua vez, a visão da criança como ser que é também parte da natureza e do cosmo merece igualmente destaque, especialmente se considerarmos as ameaças de esgotamento de recursos em nos- so planeta e as alterações climáticas evidentes nos últimos anos. Conforme alerta Tiriba (2005), os seres humanos partilham a vida na Terra com inúmeras espécies animais, vegetais e minerais, sem as quais a vida no planeta não pode existir. Essas espécies, por sua vez, interagem permanentemente, estabelecendo-se um equilíbrio frágil e instável entre todos os seres que habitam o ar, a água dos rios, dos lagos e dos mares, os campos, as florestas e as cidades, em nosso sistema solar e em todo o universo. A intenção de aliar uma concepção de criança à qualidade dos serviços educacionais a ela oferecidos implica atribuir um papel es- pecífico à pedagogia desenvolvida nas instituições pelos profissio- nais de Educação Infantil. Captar necessidades que bebês eviden- ciam antes que consigam falar, observar suas reações e iniciativas, interpretar desejos e motivações são habilidades que profissionais de Educação Infantil precisam desenvolver, ao lado do estudo das diferentes áreas de conhecimento que incidem sobre essa faixa etá- ria, a fim de subsidiar de modo consistente as decisões sobre as atividades desenvolvidas, o formato de organização do espaço, do tempo, dos materiais e dos agrupamentos de crianças. Pesquisas realizadas desde a década de 1970 enfatizam que to- das as crianças podem aprender, mas não sob qualquer condição. Antes mesmo de se expressarem por meio da linguagem verbal, be- bês e crianças são capazes de interagir a partir de outras linguagens (corporal, gestual, musical, plástica, faz-de-conta, entre outras) desde que acompanhadas por parceiros mais experientes. Apoiar a organização em pequenos grupos, estimulando as trocas entre os parceiros; incentivar a brincadeira; dar- lhes tempo para desenvol- ver temas de trabalho a partir de propostas prévias; oferecer dife- rentes tipos de materiais em função dos objetivos que se tem em mente; organizar o tempo e o espaço de modo flexível são algumas formas de intervenção que contribuem para o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças. As iniciativas dos adultos favorecem a intenção comunicativa das crianças pequenas e o interesse de umas pelas outras, o que faz com que aprendam a perceber-se e a levar em conta os pontos de vista dos outros, permitindo a circulação das ideias, a complementação ou a resistência às iniciativas dos parcei- CONHECIMENTOS 37 a solução para o seu concurso! Editora ros. A oposição entre parceiros, por exemplo, incita a própria ar- gumentação, a objetivação do pensamento e o recuo reflexivo das crianças. Ao se levar em conta esses aspectos, não se pode perder de vis- ta a especificidade da pedagogia da Educação Infantil, como afirma Rocha: Enquanto a escola tem como sujeito o aluno, e como objeto fun- damental o ensino nas diferentes áreas através da aula; a creche e a pré-escola têm como objeto as relações educativas travadas num espaço de convívio coletivo que tem como sujeito a criança de 0 até 6 anos de idade. É importante destacar que essas relações educativas, às quais a autora se refere, na instituição de Educação Infantil são perpassadas pela função indissociável do cuidar/educar, tendo em vista os direitos e as necessidades próprios das crianças no que se refere à alimentação, à saúde, à higiene, à proteção e ao acesso ao conhecimento sistematizado. Este último aspecto torna-se especialmente relevante no caso das creches no Brasil, onde em muitas delas ainda predomina um modelo de atendimento voltado principalmente à alimentação, à higiene e ao controle das crianças, como demonstra a maioria dos diagnósticos e dos estudos de caso realizados em creches brasileiras. Essa afirmação evidencia a não-superação do caráter compen- satório da Educação Infantil denunciado por Kramer que ainda se manifesta nos dias atuais, como também a polarização assistência versus educação, apontada insistentemente por Kuhlmann Jr. Sa- bemos que não basta apenas transferir as creches para os sistemas de ensino, pois “na sua história, as instituições pré-escolares desti- naram uma educação de baixa qualidade para as crianças pobres, e isso é que precisa ser superado”. Assim, a ênfase na apropriação de significados pelas crianças, na ampliação progressiva de conhecimentos de modo contextuali- zado, com estratégias apropriadas às diferentes fases do desenvol- vimento infantil, parece bastante justificada. Da mesma forma que defendemos uma perspectiva educacio- nal que respeite a diversidade cultural e promova o enriquecimen- to permanente do universo de conhecimentos, atentamos para a necessidade de adoção de estratégias educacionais que permitam às crianças, desde bebês, usufruírem da natureza, observarem e sentirem o vento, brincarem com água e areia, atividades que se tornam especialmente relevantes se considerarmos que as crianças ficam em espaços internos às construções na maior parte do tempo em que se encontram nas instituições de Educação Infantil. Criando condições para que as crianças desfrutem da vida ao ar livre, apren- dam a conhecer o mundo da natureza em que vivemos, compreen- dam as repercussões das ações humanas nesse mundo e sejam in- centivadas em atitudes de preservação e respeito à biodiversidade, estaremos difundindo uma concepção de educação em que o ser humano é parte da natureza e não seu dono e senhor absoluto. Os aspectos anteriormente abordados devem ser considerados no processo de discussão e elaboração de diretrizes pedagógicas dos sistemas de ensino e das propostas pedagógicas das institui- ções de Educação Infantil. Vale ressaltar a relevância da participa- ção dos professores, dos demais profissionais da instituição e da comunidade nesse processo, não só para que os aspectos citados sejam efetiva- mente considerados no desenvolvimento da propos- ta como também para cumprir a legislação. Em síntese, para propor parâmetros de qualidade para a Educa- ção Infantil, é imprescindível levar em conta que as crianças desde que nascem são: - Cidadãos de direitos; - Indivíduos únicos, singulares; - Seres sociais e históricos; - Seres competentes, produtores de cultura; - Indivíduos humanos,parte da natureza animal, vegetal e mi- neral. Por sua vez, as crianças encontram-se em uma fase de vida em que dependem intensamente do adulto para sua sobrevivência. Precisam, portanto, ser cuidadas e educadas, o que implica, - Ser auxiliadas nas atividades que não puderem realizar sozi- nhas; - Ser atendidas em suas necessidades básicas físicas e psicoló- gicas; - Ter atenção especial por parte do adulto em momentos pecu- liares de sua vida. Além disso, para que sua sobrevivência esteja garantida e seu crescimento e desenvolvimento sejam favorecidos, para que o cui- dar/educar sejam efetivados, é necessário que sejam oferecidas às crianças dessa faixa etária condições de usufruírem plenamente suas possibilidades de apropriação e de produção de significados no mundo da natureza e da cultura. As crianças precisam ser apoia- das em suas iniciativas espontâneas e incentivadas a: - Brincar; - Movimentar-se em espaços amplos e ao ar livre; - Expressar sentimentos e pensamentos; - Desenvolver a imaginação, a curiosidade e a capacidade de expressão; - Ampliar permanentemente conhecimentos a respeito do mun- do da natureza e da cultura apoiadas por estratégias pedagógicas apropriadas; - Diversificar atividades, escolhas e companheiros de interação em creches, pré-escolas e centros de Educação Infantil. A criança, parte de uma sociedade, vivendo em nosso país, tem direito: - À dignidade e ao respeito; - Autonomia e participação; - À felicidade, ao prazer e à alegria; - À individualidade, ao tempo livre e ao convívio social; - À diferença e à semelhança; - À igualdade de oportunidades; - Ao conhecimento e à educação; - A profissionais com formação específica; - A espaços, tempos e materiais específicos Desenvolvimento da Criança e do Adolescente Quanto às crianças e os adolescentes verifica-se uma mudança de concepção e tratamento dispensados aos mesmos, tanto no as- pecto relacionado às relações de conduta (legal) como no aspecto sóciopsicológico (familiar e social). Em relação às regras de condutas, a trajetória histórica das Constituições Federais bem como da legislação na área menorista, demonstram esta evolução, cujo ápice, em nível nacional, pode ser traduzido pela Constituição Federal de 1988 e o pelo Estatuto da CONHECIMENTOS 3838 a solução para o seu concurso! Editora Criança e do Adolescente. O ECA dentro desta perspectiva repre- senta o instrumento legal para o desenvolvimento da criança e do adolescente. Trata-se de uma verdadeira constituição infanto-juve- nil, pois regulamenta os direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes, como direito à vida, à saúde, à educação, à convivên- cia familiar e comunitária, ao lazer e profissionalização. Comparando a atual legislação com as passadas que disciplina- vam a matéria, verifica-se que se rompeu com um passado marcado pela discriminação e violência, colocando a criança e o adolescente no lugar que merecem, ou seja, como prioridade absoluta, para o governo, para a família e para a sociedade em geral. Assim, o desenvolvimento da criança e do adolescente, dentro de uma perspectiva legal, implica em ações que venham contem- plar o que estabelece a lei, em especial, no que diz respeito à famí- lia, educação, esporte e ao lazer. No aspecto sóciopsicológico, a concepção de criança e de ado- lescente também sofreu evolução. Na antiguidade, a criança era ca- racterizada por uma ideia de ser inacabado e que os primeiros anos de existência fazia parte de um período insignificante de sua vida. Até o século XVIII, a criança foi tida como estranha e era des- prezada por seus próprios pais naturais que as tinham como estor- vo. A ordem era se livrar das crianças sem qualquer sentimento de culpa. Esta situação somente foi desaparecendo com o surgimento da família burguesa, quando então as crianças são incorporadas no grupo e se desenvolve o amor materno. No entanto, o aparecimen- to da família burguesa mudou em parte este cenário, pois se antes dela todas as crianças, ricas ou pobres estavam sujeitas ao aban- dono, com o seu surgimento, passam a ser exposto o diferente, o pobre e o marginalizado. A mudança em relação à concepção de criança foi gradativa e lenta. Somente nas “últimas duas décadas do século passado é que a infância passou a ser reconhecida como a fase do desenvolvimen- to pessoal onde se encontram as melhores qualidades humanas”, chegando a contemplar as crianças e os adolescentes como sujeitos de direitos. Esta evolução ocorreu diante das transformações veri- ficadas na organização familiar, que culminou com a família moder- na, é na evolução da própria sociedade. Hoje, diante do mundo globalizado e da atual concepção de criança e adolescente, torna a mesma o centro das atenções para ações que venham a proporcionar-lhes um “desenvolvimento físi- co, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade” (ECA. art. 3º). Revela-se importante para cumprir tal desiderato à família e a educação. Educação A evolução e mudança, típica da globalização, fez ampliar o re- conhecimento da educação como forma de promoção do desen- volvimento sustentável para a superação das desigualdades sociais. Por conseguinte, a escola passou a desempenhar um novo pa- pel, diferente daquele que realizava, não mais se limitando a ensi- nar a ler, a escrever e a fazer cálculos aritméticos, reconhecendo, ainda, sua importância na construção da cidadania infanto-juvenil. O professor também teve o seu papel redesenhado para atender a estas novas exigências, com novas atribuições, compatíveis (e em certas situações até incompatível) com este processo evolutivo. Diante deste movimento global, exige-se uma nova maneira de pensar a respeito do papel da escola e do professor. Em outros ter- mos: o que se espera da escola e do professor no mundo atual. Que iniciativas poderão tomar nesta perspectiva de desenvolvimento da criança e do adolescente para o futuro. Quanto à escola, diante desta evolução e do mundo globalizado, DI GIORGIO esclarece qual seria a orientação a ser seguida: “A esco- la deve avançar no sentido de ser legitimamente, institucionalmen- te e no imaginário social, uma entidade que cumpra socialmente uma função de dinamizadora cultural e social do seu entorno e é a partir do cumprimento dessa função mais ampla que ela pode- rá efetivamente atuar eficazmente no sentido de não mais instruir, mas educar crianças, jovens, adolescentes e também adultos”. Também aponta para esse sentido o Parecer nº CNE/CP 009, aprovado em 08 de maio de 2001, do Conselho Nacional de Educa- ção, que trata das Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de Professores de educação básica, em nível superior, que enseja este novo contexto: Reforça a concepção de escola voltada para a construção de uma cidadania consciente e ativa que ofereça aos alunos as bases culturais que lhes permitam identificar-se e posicionar-se frente às transformações em curso e incorporar-se na vida produtiva e sócio- -política. Novas tarefas passam a se colocar à escola, não porque seja a única instância responsável pela educação, mas, por ser a ins- tituição que desenvolve uma prática educativa planejada e sistemá- tica durante um período continuo e extenso de tempo na vida das pessoas. E, também, porque é reconhecida pela sociedade como a instituição de aprendizagem e de contato com o que a humanidade pôde produzir como conhecimento, tecnologia e cultura. O ECA também vai nessa direção quando traça os objetivos da educação previstos no artigo 53, que são: a) pleno desenvolvimento da criança e do adolescente; b) preparo para o exercício da cidadania; c) qualificação para o trabalho. Mas para atingir tal desiderato, revela DI GIORGIO a necessi- dade da ocorrência de diversos fatores, como: a escola deverá ser antes de tudo formativa; que o processo educativo deverá dar conta de problemas reais; a necessidade de uma maior proximidade das escolas com a Universidade; a escola teráque receber mais verbas e utilizar, de forma mais efetiva, as novas tecnologias; desenvolver a capacidade dos alunos de ensinar; as escolas deverão aumentar os espaços de comunicação (intercâmbios) e menor número de alunos por professor. Também deverá ter relevância a formação do professor que deve considerá-lo como um profissional reflexivo, que é chamado a desempenhar o papel de verdadeira liderança intelectual no senti- do mais amplo da expressão. É necessário que o professor deixe de se ver como professor de uma determinada disciplina, para se ver como um educador. Neste particular, constata-se que a globalização, atinge o pro- fessor, já que a tecnicidade (assim entendida como “atividade profissional, sobretudo, instrumental, dirigida para a solução de problemas mediante a aplicação rigorosa de teorias e técnicas cien- tificas”), própria da formação do professor na década de 70, não mais atende às exigências atuais de um mundo conectado. Isto porque esta globalização, que envolve mudanças de caráter social, política, econômica e legal, cria situações incertas e variáveis que não encontram respaldo no modelo tecnicista empregado. Em outros termos, o professor, como trabalhador inserido neste novo CONHECIMENTOS 39 a solução para o seu concurso! Editora contexto, está suportando os reflexos das mudanças paradigmáti- cas que estão refletindo em sua atuação profissional, com uma con- cepção diferenciada do modelo até então concebido. Ademais, com a democratização da educação, típica do mode- lo socioeconômico atual, com um sistema de ensino de massas, o significado atual das instituições escolares, exige um novo posicio- namento do professor. Pois, o ensino em massa, para “escolarizar cem por cento das crianças de um país implica pôr na escola cem por cento das crianças com dificuldades, cem por cento das crianças agressivas, cem por cento das crianças conflituosas, em suma, cem por cento de todos os problemas sociais pendentes que se conver- tem assim em problemas escolares”. O mundo globalizado apresenta, ao professor, uma nova reali- dade decorrente de seus avanços, como a informação compartilha- da e a cidadania global. O professor deve lidar com a informação, como parte de seu conhecimento, que não deve se limitar a ela e trabalhar em prol da construção de uma nova ordem cidadã. Estas mudanças sociais, políticas, econômicas e legais transfor- maram, profundamente, as relações estabelecidas com a escola, o professor, os alunos, os pais e a sociedade em geral. Interferiram no trabalho, na imagem social e no valor que a sociedade atribui a educação (escola) e ao professor. Diante desta nova ordem, da terceira revolução industrial, desta sociedade pós-moderna, ou em rede, à educação, muitas vezes é concebida como uma panaceia, onde está sendo creditada a reden- ção do mundo, a harmonia dos povos, a solução da pobreza, a eli- minação dos males que afligem a humanidade, transferindo-se, ao professor, este viés redentor, posto que um dos responsáveis pelo desenvolvimento do sistema educativo. Nesse sentido, “há uma retórica cada vez mais abundante sobre o papel fundamental que os professores são chamados a desem- penhar na construção da sociedade do futuro”. A importância da educação e dos professores nesses desafios é sempre lembrada, “ou porque lhes cabe formar os recursos humanos necessários ao desenvolvimento econômico, ou porque lhes compete formar as gerações do século XXI, ou porque devem preparar os jovens para a sociedade da informação e da globalização, ou por qualquer outra razão, os professores voltam a estar no centro das preocupações políticas e sociais”. Nesse sentido, vale lembrar que o professor não deve estar so- zinho. A família e a própria sociedade são corresponsáveis deste processo educativo para o completo desenvolvimento da criança e do adolescente, numa perspectiva de futuro melhor. Família A família, como corresponsável pela educação e pela efetivação dos direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes, também é chamada para assumir o seu relevante papel, numa perspectiva de um futuro melhor para os filhos. Mas a família também sofreu evolução decorrente desta nova ordem socioeconômica. Da família nuclear burguesa, calcada na monogamia e no traba- lho doméstico da mulher, seguiu-se para a família patriarcal, carac- terizada por uma hierarquia vertical, centrada no matrimônio. Hoje, experimenta-se um novo modelo familiar, ou seja, a fa- mília nuclear moderna, caracterizada pelo ingresso da mulher no mercado de trabalho; a igualdade de direitos entre os cônjuges com divisão de tarefas na vida comum; o casamento não se apresenta como fonte primária de procriação com liberdade na questão da filiação e as relações se firmam numa linearidade. A garantia da convivência familiar não é uma obrigação imposta somente à mu- lher e passa a ser compartilhada com o homem, quando da vida comum. Nesse sentido arremata BADINTER: “... de agora em diante, as mulheres obrigarão os homens a serem bons pais, a dividirem equitativamente não só os prazeres como também os encargos, as angustias e os sacrifícios da maternidade”. Ocorre que nem sempre a família acaba por desempenhar este papel, transferindo o encargo aos outros responsáveis, sociedade ou o Poder Público. Especificamente em relação à questão educa- cional, este problema é visível. As mudanças ocorridas na sociedade obrigaram a mãe, que geralmente desempenhava este papel educativo, a assumir outras atribuições como mão de obra indispensável para a garantia do sus- tento familiar. E como decorrência desta nova ordem “são cometi- das à escola maiores responsabilidades educativas, nomeadamente no que diz respeito a um conjunto de valores básicos que, tradicio- nalmente, eram transmitidos na esfera familiar” . Assim, se antes se ouvia dizer que a escola era nosso segun- do lar, hoje, muitas vezes ela representa o primeiro lar, onde são transmitidos conceitos básicos de educação, valores e princípios, anteriormente transmitidos pelos pais. O professor torna-se, mui- tas vezes, o referencial familiar de muitas crianças. Não porque ele queira, mas porque as famílias não estão mais desempenhando seus papéis. Pensar no futuro das crianças e dos adolescentes é pensar no papel da família na atualidade. Toda e qualquer iniciativa que venha a contemplá-la, dando-lhe assistência, apoio e orientação, traduz numa forma de se buscar o desenvolvimento adequado das crian- ças e dos adolescentes. Lazer O esporte e o lazer enquadram-se dentro desta perspectiva de um futuro melhor para criança e adolescente. A Constituição Fe- deral (art. 227) reconheceu expressamente esta situação, apontan- do como um direito fundamental da criança e do adolescente. E políticas públicas nesse sentido devem ser desenvolvidas para que se possa oferecer à população infanto-juvenil oportunidades de se desenvolverem neste aspecto. O mundo do futuro, leva muitos incautos a se preocuparem com a formação intelectual e moral das crianças e dos adolescen- tes, contemplando-os com uma gama infindável de atividades para o seu “completo desenvolvimento”. Cada vez mais são atribuídas à população infanto-juvenil atividades que a levariam a um lugar de destaque diante da competitividade. Se antes era necessário apreender uma língua estrangeira, hoje, são necessários duas. Hoje é indispensável os conhecimentos de informática, cursos comple- mentares, pós-graduação, etc. O mundo está nos levando a uma preocupação incessante com o futuro, que acabamos por ignorar o presente. E o presente deve contemplar, não somente as atividades intelectuais, mas também àquelas que levam ao desenvolvimento sadio e harmonioso da criança e do adolescente. Nesse sentido é que a legislação não ig- norou a questão do esporte e do lazer. Elas fazem parte do desen- volvimento infanto-juvenil e se apresentam como um antídoto das questões oriundas da globalização. O desenvolvimento de umacriança ou adolescente encontra na família e na educação (incluindo esporte e lazer) o seu elemento básico e fundante. Garantir as famílias apoio, orientação, forma- ção, promoção e sustentação, através de políticas sociais públicas e CONHECIMENTOS 4040 a solução para o seu concurso! Editora programas, apresenta-se indispensável, constituindo fator decisivo para a garantia dos direitos fundamentais da criança e do adoles- cente. Quanto à educação, uma mudança de concepção quanto ao papel da escola e uma adequada formação do professor vem contemplar este processo de desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Pois, não obstante a transformações ocorridas na sociedade, no campo social, econômico, cultural, ético e político, permane- ce o consenso em torno da família e da educação como espaços privilegiados para o desenvolvimento da criança e do adolescente. Trata-se da base necessária e insubstituível capaz de transformar crianças em cidadãos do mundo. Conceito de Adolescência13 Se buscarmos a definição de adolescência, vamos descobrir que a origem da palavra vem do Latim “Adolescentia”, que significa período da vida humana entre a infância e a fase adulta. Vamos encontrar ainda quem defina adolescência como uma fase natural da vida marcada pelas transformações biológicas e comportamen- tais. Alguns pesquisadores vão entender e descrever a adolescência como um processo de construção social e histórico como sugerido no artigo “Adolescência como uma construção social – Ana Bock”. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define adolescência como sendo o período da vida que começa aos 10 anos e termina aos 19 anos completos. Para a OMS, a adolescência é dividida em três fases: - Pré-adolescência – dos 10 aos 14 anos, - Adolescência – dos 15 aos 19 anos completos - Juventude – dos 15 aos 24 anos. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) consi- dera a adolescência, a faixa etária dos 12 até os 18 anos de idade completos, sendo referência, desde 1990, para criação de leis e pro- gramas que asseguram os direitos desta população. Como vimos, são muitas as definições que tentam explicar a adolescência. Algumas definições utilizam conceitos (embasados em estudos da psicologia, da educação, da filosofia, da medicina), outras definições utilizam recortes etários como é o caso da OMS. É importante saber que os conceitos existem e atendem a objetivos específicos de programas, pesquisas e políticas públicas. Entretan- to não podemos reduzir esse período do desenvolvimento humano aos conceitos que os caracterizam, exatamente porque estamos fa- lando de seres humanos, não é mesmo? O que sabemos atualmente, é que a adolescência é o resultado de uma construção social, significada historicamente, que hoje se caracteriza, por exemplo, pela ampliação da tutela dos(as) filhos(as) em suas famílias. Ou seja, observando o contexto social, econômico e cultural do momento que vivemos hoje, os/as adolescentes, em geral, precisam de um período maior de estudos e de capacitação profissional para entrada no mercado de trabalho, o que exige de- les e delas um tempo maior de dependência das famílias. Não po- demos negar também que este período é marcado pelas transfor- mações biológicas e comportamentais. E são essas mudanças que, muitas vezes, determinam a maneira como a sociedade olha para os(as) adolescentes e cria formas de agir com eles e elas, como por exemplo: a proibição do trabalho antes dos 16 anos, a tutela dos 13 http://www.adolescencia.org.br/site-pt-br/adolescencia pais até os 18 anos, todo adolescente é “aborrescente” e tantas ou- tras formas que acabam caracterizando, ou melhor, rotulando esse período da vida. Esta discussão, sobre a construção histórica do conceito de adolescência, é importante porque possibilita a mudança de olhar para a própria adolescência e para o/a adolescente É importan- te desconstruir a visão de adolescência como uma fase de crise e olhar criticamente para o perfil rotulado do adolescente visto como “aborrecente”, intolerante, irresponsável, rebelde etc. Características Psicológicas da Adolescência 1. No aspecto psicológico: 1.1. O adolescente nesta etapa vive no seu mundo interior. Para conhecer a própria personalidade, as suas ideias e ideais, compara- -se com o mundo dos outros. 1.2. Dá impressão de apatia devido à preocupação repousada e reflexiva pelos próprios estados anímicos. 1.3. Esta interiorização abarca também as esferas intelectuais, filosóficas e estéticas, enchendo a sua vida com estas teorias. 1.4. As características mais próprias deste período, são: a) Crescente consciência e conhecimento do “eu”. b) Nascimento da independência. c) Adaptação progressiva aos núcleos sociais da família, escola e comunidade em geral. 1.5. O espírito de independência cresce rapidamente, mas é imaturo ainda e manifesta-se com brusquidão e agressividade. 1.6. Independência e liberdade são a sua constante exigência. 1.7. Opõe-se, portanto, a que o tenham sujeito ou lhe pergun- tem sobre os seus assuntos, projetos, amigos com quem anda, ou a que se imiscuam na sua vida privada. 1.8. É capaz de albergar sentimentos de rancor, vingança e vio- lência, embora de modo esporádico e sejam pouco duradoiros. 1.9. Manifesta uma grande preocupação por pormenores e ges- tos que observa na pessoa a quem imita e idealiza. 1.10. Interessa-lhe e procura conhecer a própria personalidade, mas é mais observador em relação à dos outros, tanto dentro como fora do núcleo familiar. 1.11. Aos 16 anos, o adolescente é já um pré-adulto, possui uma mente mais segura, porque está melhor ordenada e controlada. 1.12. Manifesta uma maior confiança em si mesmo e uma auto- nomia mais arraigada. 1.13. Em geral, domina perfeitamente as próprias emoções, possuindo um maior equilíbrio. CONHECIMENTOS 41 a solução para o seu concurso! Editora 1.14. Valoriza mais os motivos pessoais dos outros, sejam co- legas ou adultos, e pensa mais neles, pois apercebe-se de que o segredo da sua própria felicidade se encontra relacionada com a vida dos outros. 1.15. Sente-se mais livre e independente do que aos 15 anos, por isso já não o preocupa tanto esta exigência. 2. Conduta social em relação com a vida escolar: 2.1. Aos 15 anos, em geral, manifestam uma atitude hostil para com a escola, vão contra as exigências e normas rígidas. 2.2. Revoltam-se às vezes contra a autoridade, em geral, não individualmente mas em grupo. 2.3. Entre os 15 e os 16 anos, começam-se a interessar nova- mente pelo estudo sempre que for interessante e vital para a sua experiência o conteúdo instrutivo, como por exemplo a Religião, as Ciências Sociais, etc. 2.4. Integram-se na comunidade escolar, participando nas ativi- dades que a escola oferece. 2.5. Às vezes a vida escolar converte-se em válvula de escape, em meio para afrouxar as ataduras familiares. 2.6. No âmbito escolar, põem-se de manifesto certas diferenças individuais, académicas e sociais, relacionadas com a capacidade de liderança, o talento e as atitudes intelectuais. 3. Atitudes das pessoas implicadas na sua educação 3.1. É necessária uma atitude de abertura e de conhecimento das fases desta idade, para evitar atitudes inadequadas para com os filhos, o endurecimento da autoridade e o não reconhecer ao ado- lescente qualquer tipo do direito. Isto, unido à conduta do próprio adolescente, provoca choques violentos. 3.2. Deve-se aceitar a emancipação progressiva dos filhos, e in- cluso favorecê-la, para os ajudar a serem livres e a manifestarem-se como tais. 3.3. A existência da crise tem a sua origem num problema afeti- vo, por isso temos de favorecer no adolescente a criação de víncu- los familiares, ambientais, … (amor a Deus, à Pátria …). 3.4. Devem sentir-se realizados numa atividade ou numa coisa, aspirando sempre a algo, isto é, devem ter um ideal, fé. Também é importante o relacionarem-se com a família, o grupo, etc.… 3.5. Convém saber que estas crises passam como tempo e que tudo volta a normalizar-se, o que não significa que se deixe de atuar e não se procure orientar positivamente o desenvolvimento dessas crises de modo a que não deixem conflitos na personalidade do jo- vem. 3.6. É muito inseguro, procura a orientação e o conselho de pes- soas alheias à sua vida familiar; assim, os educadores encontram um campo propício para uma ação de formação mais profunda. 3.7. Precisam de uma mão compreensiva para os ajudar no es- forço de esclarecer e definir os seus pensamentos e estados aními- cos, coisa que é difícil para ele e o faz cair em estados depressivos. 3.8. Às vezes convém tratá-lo com a mesma frieza ou indiferen- ça com que se comporta, para que repare na sua própria atitude. 3.9. As formas mais extremas de desafio exigem um guia habi- lidoso, bem como prudência nas medidas de controle mais estritas que se pretendam utilizar. 3.10. Temos de passar a ser “observadores participantes” na vida dos adolescentes. 3.11. Devemos ajudá-los a encontrar a forma de se expressarem nas diversas atividades, e procurar que o ensino seja estimulante e interessante, senão podem cair no desleixo e na apatia perante o estudo. 3.12. Recordando as tensões e inquietações da nossa própria adolescência, estaremos em condições de ajudar os jovens e de ser- mos mais compreensivos para com eles. 3.13. Devemos inculcar-lhes o respeito pelos pontos de vista alheios e o sentido da realidade. Estágio Operacional Formal Piagetiano14 Piaget afirmava que as mudanças na maneira como os adoles- centes pensam sobre si mesmos, sobre seus relacionamentos pes- soais e sobre a natureza da sua sociedade têm como fonte comum o desenvolvimento de uma nova estrutura lógica que ele chamava de operações formais. O pensamento operatório formal é o tipo de pensamento ne- cessário para qualquer pessoa que tenha de resolver problemas sistematicamente. O adolescente constrói teorias e reflete sobre seu pensamento, o pensamento formal, que constitui uma reflexão da inteligência sobre si mesma, um sistema operatório de segunda potência, que opera com proposições. Segundo Piaget uma das consequências de se adquirir pensa- mento operatório formal é a capacidade de construir provas lógicas em que a conclusão segue a necessidade lógica. Essa habilidade constitui o raciocínio dedutivo. O pensamento do adolescente se difere do pensamento da criança, ou seja, a criança consegue chegar a utilizar as operações concretas de classes, relações e números, mas não as utiliza num sistema fundido único e total que é caracterizado pela lógica do adolescente. O pensamento liberta-se da experiência direta e as es- truturas cognitivas da criança adquirem maturidade. Isso significa que a qualidade potencial do seu pensamento ou raciocínio atinge o máximo quando as operações formais encontram-se plenamente desenvolvidas. 14 https://psicologado.com.br/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/concep- coes-de-adolescencia-em-jean-piaget CONHECIMENTOS 4242 a solução para o seu concurso! Editora A criança não ultrapassa a lógica elementar de agrupamentos ou grupos numéricos aditivos ou multiplicativos, apresentando des- te modo, uma forma elementar de reversibilidade. O adolescente apresenta a lógica das proposições relacionando-a a estrutura de classes e das relações. O pensamento formal encontrado nos ado- lescentes é explicado pelo fato de se poderem estabelecer as coor- denações entre os objetos que também se originam de determina- das etapas da maturação deste sujeito. No entanto, esta constituição da estrutura, não apenas tem li- gação com o aparato maturacional do sujeito, mas também com o meio social no qual este está inserido. Para que o meio social atue sobre os indivíduos é necessário que estes estejam em condições de assimilar as contribuições desse meio, havendo a necessidade de uma maturação suficiente da capacidade cerebral deste indiví- duo. Estes fatores estão relacionados dinamicamente. Se o adolescente constrói teorias é porque de um lado, tornou- -se capaz de reflexão e, de outro, porque sua reflexão lhe permite fugir do concreto atual na direção do possível e do abstrato. A lógica não é algo “estranho” a vida do sujeito, é justamente a expressão das coordenações operatórias necessárias para atingir determinada ação. O pensamento do adolescente tem a necessidade de construir novas teorias sobre as concepções já dadas, no meio social, tentan- do chegar a uma concepção das coisas que lhe seja própria e que lhe traga mais sucesso que seus antecessores. São característicos do processo de pensamento, os patamares de desenvolvimento, que leva o nível mais elementar de egocentris- mo à descentração, subordinando o conhecimento sempre a uma constante revisão das perspectivas. O adolescente exercita ideias no campo do possível e formula hipóteses, tem o poder de construir à sua vontade reflexões e teo- rias. Com estas capacidades, o adolescente começa a definir concei- tos e valores. Neste sentido, caracteriza-se a adolescência por um egocentrismo cognitivo, pois o adolescente acredita que é capaz de resolver todos os problemas que aparecem, considerando as suas próprias concepções como as mais corretas (crença na onipotência da reflexão). A propriedade geral mais importante do pensamento operacio- nal formal, a partir da qual Piaget deriva todas as demais, refere-se à distinção entre o real e o possível. Ao contrário da criança que se encontra num período operacional concreto, o adolescente, ao começar a examinar um problema com que se defronta, tenta ima- ginar todas as relações possíveis que seriam válidas no caso dos dados em questão; a seguir, através de uma combinação de proce- dimentos de experimentação e de análise lógica, tentando verificar quais destas relações possíveis são realmente verdadeiras. Uma estratégia cognitiva que tenta determinar a realidade no contexto das possibilidades tem um caráter fundamentalmente hi- potético-dedutivo. O adolescente ingressa corajosamente no reino hipotético. O pensamento formal é um pensamento proposicional. As mais importantes entidades que o adolescente manipula, ao raciocinar deixaram de ser os dados rudimentares da realidade e passaram a ser afirmações que contem estes dados. O que é realmente al- cançado entre os 7 e 11 anos de idade, é a cognição organizada de objetos e acontecimentos concretos per se. O adolescente realiza estas operações, mas realiza também algo que as transcende, algo necessário que é precisamente o que faz com que seu pensamento seja formal e não mais concreto. Ele toma os resultados destas operações concretas, formula-os sob a forma de proposições e continua a operar com eles, ou seja, estabelece vários tipos de conexão lógica entre eles. Portanto, as operações formais, na realidade, são operações realizadas com os resultados de operações anteriores. A partir destas considerações pode-se estabelecer um paradig- ma inicial de como os adolescentes pensam. Inicialmente organi- zam os vários elementos dos dados brutos com as técnicas ope- racionais concretas dos anos intermediários da infância. A seguir estes elementos organizados são transformados em afirmações ou proposições que podem ser combinadas de várias maneiras. Atra- vés do método de análise combinatória, eles examinam isolada- mente todas as combinações diferentes destas proposições. Para Piaget o pensamento formal é uma orientação generaliza- da, explicita ou implícita, para solução de problemas: uma orienta- ção no sentido de organizar os dados, isolar e controlar variáveis, formular hipóteses e justificar e provar logicamente os fatos. As operações formais podem ser caracterizadas não só em ter- mos descritivo-verbais gerais, como também em termos das es- truturas lógico-matemáticas que são seus modelos abstratos. As operações interposicionais não são ações isoladas sem relações mútuas. Tal como os agrupamentos das operações intraposicionais dos anos intermediários da infância,elas formam um sistema in- tegrado, e o problema consiste em determinar a estrutura formal deste sistema. O conjunto de instrumentos conceituais que Piaget chama de esquemas operacionais formais encontra-se num nível intermediá- rio de generalidade. Grande parte da diferença existente entre o comportamento diário da criança e do adolescente pode ser expressa da seguinte maneira: o adolescente, como a criança vive no presente, mas ao contrário da criança também vive muito na dimensão ausente, isto é no futuro e o no reino do hipotético. Seu mundo conceitual está povoado de teorias informais sobre si mesmo e sobre a vida, cheio de planos para o seu futuro e o da sociedade, em resumo, cheio de ideias que transcendem a situação imediata, além das relações interpessoais atuais. O Pensamento e suas Operações O que surpreende no adolescente é o seu interesse por proble- mas inabituais, sem relação com as realidades vividas no dia a dia, ou por aqueles que antecipam, com uma ingenuidade desconcer- tante, as situações futuras do mundo, muitas vezes utópicas, com uma facilidade de elaborar teorias abstratas. Existem alguns que escrevem, que criam uma filosofia, uma política, uma estética ou outra coisa. Outros não escrevem, mas falam. Por volta de onze a doze anos efetua-se uma transformação fundamental no pensamento da criança, que marca o término das operações construídas durante a segunda infância; é a passagem do pensamento concreto para o “formal” (hipotético-dedutivo). Quais são na realidade, as condições de construção do pen- samento formal? Para criança, trata-se não somente de aplicar as operações aos objetos, ou melhor, de executar, em pensamento, ações possíveis sobre estes objetos, mas de refletir estas operações independentemente dos objetos e de substituí-las por simples pro- posições. O pensamento concreto é a representação de uma ação possí- vel, e o formal é a representação de uma representação de ações possíveis. CONHECIMENTOS 43 a solução para o seu concurso! Editora As operações formais fornecem ao pensamento um novo poder, que consiste em destacá-lo e libertá-lo do real, permitindo-lhe, as- sim, construir a seu modo as reflexões e teorias. Processo Adaptativo do Indivíduo As reflexões precedentes poderiam levar a crer que o desen- volvimento mental termina por volta de onze anos ou doze anos, e que a adolescência é simplesmente uma crise passageira, devida à puberdade, que separa a infância da idade adulta. A maturação do instinto sexual é marcada por desequilíbrios momentâneos, que dão um colorido afetivo muito característico a todo este último pe- ríodo da evolução psíquica. Embora o conteúdo exato das ideias do adolescente varie, tanto numa mesma cultura como em culturas diferentes, este fato não deveria obscurecer aquilo que, segundo Piaget, é o denominador comum importante: a criança se ocupa, sobretudo com o presen- te, com o aqui e a agora, o adolescente amplia seu âmbito concei- tual e inclui o hipotético, o futuro e o espacialmente remoto. Esta diferença tem um significado adaptativo. O adolescente começa a assumir papéis adultos; para ele o mundo de possibilidades futuras pessoalmente relevantes - escolha profissional, escolha do cônjuge, etc. - passa a ser o objeto de reflexão mais importante. De modo semelhante, o adulto que ele será em breve deverá relacionar-se in- telectualmente com coletividades sociais muito menos concretas e imediatas do que a família e o círculo de amigos: a cidade, o estado, os pais, o sindicato, a igreja, etc. Em geral, o adolescente pretende inserir-se na sociedade dos adultos por meio de projetos, de programas de vida, de sistemas muitas vezes teóricos, de planos de reformas políticas ou sociais. A verdadeira adaptação à sociedade vai-se fazer automati- camente quando o adolescente, reformador, transformar-se em realizador. A experiência reconcilia o pensamento formal com a realidade das coisas, o trabalho efetivo e constante, desde que empreendido em situação concreta e bem definida, cura todos os devaneios. Assim é o desenvolvimento mental, constata-se que a unidade profunda dos processos que da construção do universo prático, de- vido à inteligência senso-motora do lactente, chega à reconstrução do mundo pelo pensamento hipotético-dedutivo do adolescente, passando pelo conhecimento do universo concreto devido ao siste- ma de operações da segunda infância. Estas construções sucessivas consistem em descentralização do ponto de vista, imediato e egocêntrico, para situá-lo em coordena- ção mais ampla de relações e noções, de maneira que cada novo agrupamento terminal integre a atividade própria, adaptando-a a uma realidade mais global. A afetividade liberta-se pouco a pouco do eu para se submeter, graças à reciprocidade e a coordenação dos valores, às leis da cooperação; a afetividade que atribui valor às atividades e lhes regula a energia, mas ela atua em conjunto com a inteligência, que lhe fornece meios e esclarece fins. Qualidade de Vida na Adolescência 15A adolescência é uma etapa do desenvolvimento humano ca- racterizado por alterações físicas, psíquicas e sociais. Sendo uma das mais ricas e plenas das variantes e condicionantes etapas da vida pelas quais passa o ser humano antes de atingir a fase adulta. Durante essa fase ocorrem alterações dinâmicas, envolvendo tanto 15 ARAÚJO, T. R. O. Fatores que afetam a qualidade de vida na adolescência. o crescimento biológico como o emocional; e também é o ponto final das transformações físicas, sexuais, intelectuais, emocionais e sociais que preparam os adolescentes para a vida adulta16. Esse período é marcado com muita ansiedade, apreensão, agressividade e muitas dúvidas, sendo estes reflexos da incom- preensão sobre si próprio, seu corpo, do que dizem sobre ele e do que ele próprio sente17. Tal fase turbulenta por vezes é caracterizada por crises religio- sas, conflitos familiares, principalmente no que refere-se às ques- tões relacionadas à imposição de limites, agressividade, introspec- ção e dificuldades sexuais18. Gata19 afirma que a modernidade trouxe muitos benefícios e avanços para a sociedade, mas junto com eles, vieram uma série de pressões, vida acelerada, tensão constante, desafios, competi- ções e a violência. Não é de hoje que a adolescência é reconhecida por ser caótica, rebelde e inovadora, porém é necessário considerar que ao fazer parte de uma sociedade que estar em constante trans- formação, todos os seus integrantes, inclusive os adolescentes, so- frem com as consequências desse estado. É sabido que as mudanças drásticas que vêm ocorrendo em diversos setores, valores éticos, econômicos e políticos, e o crescente fenômeno da globalização, que alastra-se através do mundo todo, tem um papel determinante na evolução entre todos os indivíduos, inclusive nos adolescentes. Visto que nesta fase exis- te uma predisposição ao desenvolvimento de quadros patológicos, os fatores ambientais desfavoráveis podem ser responsáveis por desencadear alguns desses processos, manifestados por estados depressivos, fobias, comportamentos obsessivos - compulsivos, consumo de bebidas alcoólicas, violência, miséria e uso de drogas20. Histórico e Definições A primeira vez que o termo Qualidade de Vida (QV) foi utilizado ocorreu em 1964, quando o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, afirmou “os objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos, eles só podem ser medidos através da QV que proporcionam às pessoas”21. Entretanto, somente na década de 90 que se observou um grande avanço nas investigações científicas vi- sando um maior entendimento sobre a QV e sua relação com ques- tões biológicas, sociais e culturais22. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define QV como “a per- cepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objeti- vos, expectativas, padrões e preocupações”23. Na área da saúde são16 NÓBREGA, F. G. Distúrbios da Nutrição. 1 ed. Rio de Janeiro: Revinter, 1998. 17 KALINA, E; GRYNBERG, H. Aos Pais de Adolescência. Rio de Janeiro: Fran- cisco Alves. 1985. 18 CIULLA, L. Saúde Mental: Nas Etapas da Vida. Porto Alegre-RS: DPA & A. 4 ed. 1976. 19 GATA, A. O. O Estress no Brasil: Pesquisas Avançadas. 1ª Ed.Campinas- SP: Papirus. 2004. 20 ZAGURY, T. Limites sem trauma. Rio de Janeiro, Ed: Record, 2000. 21 FLECK, M. P. DE A. et al. Desenvolvimento da versão em português do instrumento de avaliação de qualidade de vida da OMS (WHOQOL-100). Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 21, n. 1, p. 19–28, 1999. 22 GORDIA, A. P. et al. Qualidade de vida: contexto histórico, definição, avaliação e fatores associados. Revista Brasileira de Qualidade de Vida, v. 3, n. 1, p. 40–52, 2011. 23 THE WHOQOL GROUP. The World Health Organization Quality of Life as- sessment (WHOQOL): position paper from the World Health Organization. Soc Sci Med, v. 41, n. 10, p. 1403–9., 199 CONHECIMENTOS 4444 a solução para o seu concurso! Editora identificadas duas terminologias utilizadas frequentemente na lite- ratura: qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS), que se refere aos aspectos da QV influenciados por doenças ou por intervenções de saúde e QV, como um conceito mais amplo24. O primeiro termo (QVRS) relaciona-se ao impacto da condição de saúde do indivíduo sobre a sua capacidade de viver plenamen- te25. Para Bolton26, QVRS é uma medida multidimensional baseada na satisfação em vários aspectos da vida que afetam a saúde ou são afetados por ela. Já o termo QV inclui uma variedade maior de condições que podem afetar a percepção, sentimentos e compor- tamentos do indivíduo, incluindo, porém não se limitando às condi- ções e intervenções de saúde 27 Fatores que Influenciam a Qualidade de Vida (QV) A QV não se restringe à satisfação com necessidades materiais, mas também está relacionada com inserção social, liberdade e bem-estar. Mudanças no estilo de vida, como a prática de exercícios físicos e dieta balanceada, além de serem fundamentais para a pro- moção da saúde, visam melhorar a QV dos indivíduos. A literatura demonstra que outros fatores também podem influenciar a QV dos adolescentes, como: a idade, o sexo, o estado nutricional, a satisfa- ção corporal, a presença de doenças e a renda. DOS MODOS DE ORGANIZAÇÃO DAS DIFERENTES MANI- FESTAÇÕES RÍTMICO-EXPRESSIVAS, PRESENTES NA SOCIE- DADE, COMO FONTES COMUNICATIVAS E DE PRÁTICAS CORPORAIS Esses modos de organização das diferentes manifestações rít- mico-expressivas presentes na sociedade são elementares como fontes comunicativas e práticas corporais. Essas manifestações en- volvem uma diversidade de expressões culturais, artísticas e cor- porais que são usadas como formas de comunicação, expressão e interação social, como: -Danças tradicionais: Que são manifestações rítmico-expressi- vas que possuem um significado cultural específico, transmitindo tradições, valores e histórias de determinada comunidade. Elas podem estar ligadas a festividades, rituais religiosos, celebrações populares ou representarem a identidade de um grupo étnico. A organização dessas danças varia de acordo com a cultura, podendo envolver coreografias, passos, gestos, figurinos e músicas tradicio- nais. 24 SEIDL, E. M. F.; ZANNON, C. M. L. DA C. Qualidade de vida e saúde: aspectos conceituais e metodológicos. Cadernos de Saúde Pública, v. 20, n. 2, p. 580– 588, 2004. 25 FLECK, M. P. DE A. et al. Desenvolvimento da versão em português do instrumento de avaliação de qualidade de vida da OMS (WHOQOL-100). Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 21, n. 1, p. 19–28, 1999. 26 BOLTON, K. et al. The effect of gender and age on the association between weight status and health-related quality of life in Australian adolescents. BMC public health, v. 14, p. 898, 2014. 27 BULLINGER, M. et al. Developing and evaluating cross-cultural instruments from minimum requirements to optimal models. Quality of Life Research, v. 2, n. 6, p. 451–459, 1993. -Danças urbanas: Que são um conjunto de estilos de dança originados nas comunidades urbanas, como o hip-hop, breaking, locking, popping e muitos outros. Essas manifestações são caracte- rizadas por movimentos e ritmos marcantes, que refletem a cultura e a identidade das comunidades urbanas. Os modos de organização das danças urbanas podem incluir improvisação, batalhas de dança, coreografias coletivas e competições. -Danças folclóricas: Que são expressões rítmicas tradicionais de um determinado povo ou região. Elas são transmitidas ao longo das gerações, preservando as tradições culturais e os costumes. Os modos de organização das danças folclóricas podem envolver mo- vimentos específicos, passos coreografados, uso de figurinos tradi- cionais e a participação de grupos organizados, como associações folclóricas ou comunidades locais. -Expressões corporais contemporâneas: Que surgiram nas úl- timas décadas, como a dança contemporânea, dança-teatro, dan- ça de rua contemporânea e outras formas de criação artística que exploram o movimento e a expressão corporal. Nesse contexto, os modos de organização podem envolver técnicas específicas, impro- visação, experimentação e a interação entre diferentes linguagens artísticas. -Práticas de percussão e ritmo: Que também são fontes comu- nicativas e práticas corporais presentes na sociedade. Os diferentes ritmos e instrumentos musicais são utilizados como formas de ex- pressão e interação social, seja em grupos de percussão, bandas, orquestras ou práticas informais. Os modos de organização envol- vem a aprendizagem dos ritmos, técnicas de percussão, coordena- ção motora, improvisação e a criação coletiva de padrões rítmicos. Assim, essas diferentes manifestações rítmico-expressivas são importantes fontes comunicativas, pois irão propciar a expressão de emoções, sentimentos, identidades e histórias de um determinado grupo ou comunidade. Além disso, elas são práticas corporais que contribuem para o desenvolvimento físico, motor, cognitivo e social DOS FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DAS DIVERSAS FUNÇÕES ATRIBUÍDAS ÀS PRÁTICAS CORPORAIS (LAZER, EDUCAÇÃO, MELHORIA DA APTIDÃO FÍSICA E TRABALHO), COMO BENEFÍCIOS QUE PODEM SER PERSEGUIDOS AO LONGO DA VIDA PARA MELHORÁ-LA QUALITATIVAMEN- TE Práticas corporais Englobam todas as atividades físicas que envolvem o movimen- to do corpo humano, sejam elas realizadas de forma individual ou coletiva, competitiva ou recreativa, em espaços abertos ou fecha- dos. Essas práticas podem incluir esportes, ginástica, danças, lutas, jogos, atividades ao ar livre, entre outras. Além de serem fontes de diversão e lazer, as práticas corporais são fundamentais para a manutenção da saúde física e mental. Elas ajudam a prevenir doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade e CONHECIMENTOS 45 a solução para o seu concurso! Editora outras condições relacionadas ao sedentarismo, além de contribuir para a melhoria da postura, da flexibilidade, da coordenação moto- ra e do equilíbrio. As práticas corporais também podem ser um importante meio de integração social, promovendo o convívio entre as pessoas e es- timulando o respeito às diferenças e o espírito de equipe. Elas po- dem ser praticadas em diferentes contextos e por pessoas de todas as idades, desde crianças até idosos. Fundamentos antropológicos Os fundamentos antropológicos das diversas funções atribuí- das às práticas corporais referem-se aos princípios e conceitos que fundamentam as atividades físicas em diferentes contextos, como lazer, educação, melhoria da aptidão física e trabalho. Esses funda- mentos estão relacionados aos benefícios que podem ser buscados ao longo da vida, visando melhorar qualitativamente a qualidade de vida das pessoas. No contexto do lazer, as práticas corporais são vistas como for- mas de entretenimento, relaxamento e busca de prazer. Elas per- mitem a expressão da criatividade, promovem a socializaçãoe con- tribuem para o bem-estar emocional. Nesse sentido, os benefícios perseguidos são o aumento da satisfação pessoal, a promoção do equilíbrio emocional e a melhoria da qualidade de vida no tempo livre. No âmbito da educação, as práticas corporais desempenham um papel fundamental no desenvolvimento integral dos indivídu- os. Elas contribuem para o desenvolvimento motor, cognitivo, afe- tivo e social das crianças e jovens. Os benefícios perseguidos são a promoção da saúde, o desenvolvimento de habilidades motoras, o estímulo à criatividade e a formação de valores como o respeito, a cooperação e a disciplina. No contexto da melhoria da aptidão física, as práticas corporais são utilizadas como estratégias para desenvolver e manter a saúde e o condicionamento físico. Elas visam melhorar a resistência car- diovascular, a força muscular, a flexibilidade e a composição cor- poral. Os benefícios perseguidos são a promoção da saúde física, a prevenção de doenças, o aumento da energia e a melhoria da autoestima. No contexto do trabalho, as práticas corporais podem estar rela- cionadas a atividades laborais que exigem esforço físico, como tra- balhos manuais, esportes profissionais, atividades de resgate e ou- tras. Nesse caso, os benefícios perseguidos são o desenvolvimento de habilidades específicas, a melhoria do desempenho profissional, a prevenção de lesões e o aumento da produtividade. Os fundamentos antropológicos das práticas corporais, em re- sumo, destacam a importância dessas atividades em diferentes con- textos da vida humana. Os benefícios perseguidos ao longo da vida incluem a promoção da saúde física e mental, o desenvolvimento de habilidades motoras e sociais, o aumento da qualidade de vida, a prevenção de doenças e lesões, além do aprimoramento profis- sional. DA REALIDADE SOCIAL EM QUE TRABALHA PARA PROPOR AÇÕES DE INTERVENÇÕES, POR MEIO DA PRODUÇÃO E RESSIGNIFICAÇÃO DAS MANIFESTAÇÕES E EXPRESSÕES DA CULTURA CORPORAL DE MOVIMENTO A realidade social em que se trabalha para propor ações de in- tervenção, por meio da produção e ressignificação das manifesta- ções e expressões da cultura corporal de movimento, refere-se ao contexto em que ocorrem as práticas corporais e as interações so- ciais relacionadas a essas práticas. É nessa realidade que são identi- ficadas as necessidades, demandas e características da comunidade ou grupo em questão, a fim de promover ações que visem à trans- formação, valorização e reconstrução das manifestações culturais relacionadas ao movimento corporal. A partir de uma perspectiva técnica, essa realidade social pode ser analisada considerando-se diferentes aspectos: - Contexto cultural: Compreender a cultura corporal de movi- mento em sua dimensão sociocultural, ou seja, as práticas corporais que fazem parte da identidade e do cotidiano da comunidade ou grupo em estudo. Isso inclui danças, jogos, esportes, lutas e outras manifestações corporais presentes na cultura local. - Identificação de necessidades e demandas: Por meio de levan- tamento de informações e estudos de campo, é possível identificar as necessidades e demandas dos indivíduos em relação à cultura corporal de movimento. Isso envolve entender quais são as expec- tativas, desejos, dificuldades e oportunidades existentes nesse con- texto. - Produção e ressignificação das manifestações: Com base nas informações coletadas, é possível propor ações de intervenção que envolvam a produção e ressignificação das manifestações culturais de movimento. Isso pode incluir a criação de novas práticas, a revi- talização de manifestações tradicionais, a valorização de expressões locais e a promoção de espaços de diálogo e troca de saberes. - Participação e engajamento social: É fundamental envolver ativamente a comunidade ou grupo nas ações de intervenção. Isso pode ser feito por meio de processos participativos, consultas pú- blicas, parcerias com instituições locais e o estímulo à participação ativa dos indivíduos na produção e ressignificação das manifesta- ções culturais de movimento. - Avaliação e monitoramento: Ao longo do processo de inter- venção, é necessário realizar avaliações e monitoramentos para ve- rificar os resultados alcançados, ajustar estratégias, identificar de- safios e oportunidades de melhoria. Isso permite uma abordagem mais efetiva e adaptada à realidade social em questão. Em suma, a análise técnica da realidade social em que se tra- balha para propor ações de intervenção na cultura corporal de movimento envolve a compreensão do contexto cultural, a identi- ficação de necessidades e demandas, a produção e ressignificação das manifestações, o engajamento social e a avaliação contínua. Essa abordagem busca promover a valorização, o fortalecimento e a transformação positiva das expressões corporais dentro de uma perspectiva socialmente significativa. CONHECIMENTOS 4646 a solução para o seu concurso! Editora DAS FORMAS DE DESENVOLVIMENTO, MANUTENÇÃO E AVALIAÇÃO DAS CAPACIDADES FÍSICAS COMO FATORES CONDICIONANTES, TANTO DA PARTICIPAÇÃO E DO ENGA- JAMENTO NAS PRÁTICAS CORPORAIS QUANTO DAS PO- TENCIALIDADES OU CONSTRANGIMENTOS Compreendendo o desenvolvimento motor, obra mundialmen- te reconhecida, apresenta um texto acessível com base descritiva e explicativa para os processos e produtos dinâmicos do desen- volvimento motor. Abrangendo todas as fases da vida a partir de uma perspectiva das restrições, o livro enfoca as fases do desen- volvimento motor, proporcionando uma sólida introdução aos as- pectos biológicos, afetivos, cognitivos e comportamentais de cada fase. Os autores trazem o que há de mais atual em termos de teoria e pesquisa, utilizando o Modelo de Ampulheta Triangulada como estrutura conceitual que auxilia o leitor no entendimento do desen- volvimento motor do bebê, da criança, do adolescente e do adulto. CAPÍTULO 1 Movimento é vida. Tudo o que fazemos no trabalho e no lazer envolve movimento. A nossa própria existência depende das bati- das de nosso coração, da inalação e exalação de nossos pulmões e de um conjunto de outros processos de movimentos voluntários, semiautomáticos e automáticos. Compreender como adquirimos o controle motor e a coordenação dos movimentos é fundamental para compreendermos como vivemos. Quando compreendemos o processo de desenvolvimento de um indivíduo típico, assimilamos orientações fundamentais importantes para a eficácia do ensino e da aprendizagem. Para indivíduos com deficiências de desenvolvimento, a com- preensão do desenvolvimento motor fornece uma base sólida de intervenção, terapia e medicação. O conhecimento dos processos do desenvolvimento está na essência do ensino, seja ele em sala de aula, no ginásio ou no campo esportivo. Sem noções sólidas sobre os aspectos do desenvolvimento do comportamento humano, po- demos apenas intuir técnicas educativas e procedimentos de inter- venção apropriados. As instruções com base no desenvolvimento envolvem experiências de aprendizado que são não apenas ade- quadas à idade, mas também apropriadas e divertidas em termos de desenvolvimento. O fornecimento de instruções é um aspecto importante do processo ensino-aprendizado. As instruções, entre- tanto, não explicam o aprendizado; o desenvolvimento, sim. CONCEITO 1.1 Até uma época relativamente recente, as pesquisas a respeito de aspectos do desenvolvimento do comportamento motor eram muito mais limitadas em abrangência e magnitude do que aque- las sobre o desenvolvimento cognitivo e afetivo. Historicamente, os psicólogos do desenvolvimento tendem a interessar-se apenas de modo superficial pelo desenvolvimento motor e, portanto, em geral o consideram apenas indicador visível do funcionamento cognitivo ou do estado socioemocional. O primeiro impulso para pesquisas sobre o desenvolvimento motor foi dado por ramos da psicologia; portanto, é natural que esse tema tenha sido observado com frequência do ponto de vista das potenciais influências de outras áreas do comportamentoe na qualidade de recursos convenientes e imediatamente observáveis para o estudo do comportamento e não como um fenômeno digno de investigações por si só. CONCEITO 1.2 No passado, o estudo do desenvolvimento motor foi ofuscado pelo interesse pelo desenvolvimento cognitivo e afetivo. O estudo do desenvolvimento motor perpassa os campos da fisiologia do exercício, biomecânica, aprendizado e controle motor, assim como os campos da psicologia do desenvolvimento e da psicologia social (Thomas e Thomas, 1989). A busca por conhecimentos progrediu a passos lentos, mas regulares, na década de 1960, e foi aumentando gradativamente, à medida que os cinesiólogos e os psicólogos do desenvolvimento mudavam o seu foco, passando da abordagem normativo-descritiva ao estudo dos processos de desenvolvimento subjacentes. Durante a década de 1980, o corpo crescente de pesquisas realizadas por uma nova geração de acadêmicos fez aumentar o interesse pelo es- tudo do desenvolvimento motor. Uma quantidade sem preceden- tes de pesquisas com base teórica foi conduzida desde os anos de 1980, e pesquisadores do desenvolvimento originários de diversas áreas associaram-se a acadêmicos do desenvolvimento motor. O estudo do desenvolvimento motor assumiu o seu lugar como área de investigação científica dentro dos limites da cinesiologia e da psicologia do desenvolvimento. Agora, no século XXI, os acadê- micos estão estudando os processos de desenvolvimento subjacen- tes e os seus muitos e variados produtos. Eles estão fazendo isso de modo coordenado para entender melhor o controle e a coor- denação do movimento a partir da perspectiva desenvolvimental. Os resultados de suas pesquisas têm sido aplicados em cenários práticos de ensino- -aprendizado por dedicados pais, professores, treinadores e fisioterapeutas. O termo cinesiólogo do desenvolvimento, usado inicialmente por Smoll (1982), popularizou-se e é utilizado hoje em dia para des- crever aqueles que estudam o desenvolvimento motor. Esses pro- fissionais do desenvolvimento reconhecem que as demandas físicas e mecânicas específicas da tarefa motora transacionam com a bio- logia do indivíduo e com as condições do ambiente de aprendiza- do. Nos modelos transacionais, como o descrito na Figura 1.1, está implícito que os fatores (restrições) próprios da tarefa, do indivíduo e do ambiente não apenas influenciam uns aos outros (interação), mas também podem ser modificados (transação) uns pelos outros. A informação contida aqui não é a última palavra em desen- volvimento motor, mas sim uma tentativa honesta de apresentar o conhecimento mais recente. Uma vez que as pesquisas e os estu- dos nessa área têm se expandido de forma rápida, é difícil abranger tudo o que está acontecendo nesse campo em evolução. A fim de ter valor prático para pais, professores, técnicos e fisioterapeutas, o estudo do desenvolvimento motor não pode focar apenas o sujeito habilidoso, em ambientes laboratoriais controlados. Ele tem de analisar e documentar também o que indivíduos de todas as idades são capazes de fazer em condições normais e intensificadas. Dedique algum tempo a reflexões sobre os conceitos importantes contidos nos quadros de texto ao longo de cada capí- tulo. Esses conceitos sintetizam o que sabemos atualmente, a partir de pesquisas sistemáticas e investigações acadêmicas. A melhor de- finição de pesquisa certamente é “a busca da verdade”. CONHECIMENTOS 47 a solução para o seu concurso! Editora As pesquisas servem para entendermos o desenvolvimento motor, como o próprio título deste livro já diz, e expandirmos a nos- sa base de conhecimentos, levando-nos a compreender no futuro o que ainda não sabemos hoje. Como autores deste livro, o nosso objetivo é ajudá-lo a aplicar na prática as informações aqui conti- das, para que você seja mais efetivo como pai, professor, treinador ou fisioterapeuta. ESTUDO DO PROCESSO DO DESENVOLVIMENTO AO LONGO DA VIDA O desenvolvimento é um processo contínuo que começa na concepção e cessa com a morte. Ele envolve todos os aspectos do comportamento humano e, em consequência, só pode ser separa- do em “domínios”, “estágios” ou “faixas etárias” de forma artificial. É importante ter em mente a noção do conceito de desenvolvimen- to “ao longo da vida”. Assim como é importante o estudo do atleta talentoso durante a adolescência e a idade adulta, também é im- portante o estudo do movimento do bebê, da criança e do idoso. Muito podemos ganhar ao estudarmos o desenvolvimento motor em todas as idades, considerando-o como um processo que ocorre ao longo da vida. CONCEITO 1.3 O desenvolvimento é um processo que começa na concepção e cessa apenas com a morte. A perspectiva que vê o desenvolvimento motor como um pro- cesso ao longo da vida não o considera dividido em domínios, es- tágios ou faixas etárias. Ao contrário disso, essa perspectiva sugere que alguns aspectos do desenvolvimento de uma pessoa podem ser conceituados de acordo com domínios, estágios ou faixas etárias, enquanto outros não podem. Além disso, o conceito de desenvol- vimento ao longo da vida abrange toda a mudança do desenvolvi- mento – as mudanças positivas geralmente associadas ao bebê, à criança e ao adolescente, assim como as mudanças que acontecem durante o processo regressivo de envelhecimento. O desenvolvimento motor é altamente específico. A noção antes aceita de uma capacidade motora geral foi refutada, para a alegria da maioria dos acadêmicos da área. Ter capacidade superior em uma área não garante capacidade similar em outras. O conceito antiquado de que a pessoa tem ou não tem capacidade em situa- ções de movimento foi substituído pelo conceito de que cada um tem potencialidades específicas dentro de cada uma das muitas áreas do desempenho. Vários fatores que envolvem capacidades de movimento e performance física interagem de modo complexo com o desenvolvimento cognitivo e afetivo. Cada um desses fatores, por sua vez, é afetado por uma am- pla variedade de demandas relacionadas à biologia, ao ambiente e à tarefa específica. O processo de desenvolvimento, e, de modo mais específico, o processo de desenvolvimento motor, deve nos fazer lembrar constantemente da individualidade do aprendiz. Cada indivíduo tem um cronograma singular para a aquisição das capaci- dades de movimento (i.e., ações do bebê baseadas na maturação) e das habilidades de movimento (i.e., ações da infância em diante baseadas na experiência). Embora o “relógio biológico” do indivíduo seja bem específi- co, quando se trata da sequência de aquisição das habilidades de movimento (maturação), a taxa e a extensão do desenvolvimento são determinadas individualmente (experiência) e sofrem drástica influência das demandas de performance das tarefas. Faixas etárias de desenvolvimento típicas são apenas isso: típicas, e nada mais. As faixas etárias representam apenas períodos de tempo aproximados, durante os quais são observados determinados comportamentos. O excesso de confiança nesses períodos nega os conceitos de con- tinuidade, especificidade e individualidade do processo do desen- volvimento. CONCEITO 1.4 O desenvolvimento está relacionado à idade, mas não depende dela. O estudo do desenvolvimento motor remonta apenas à parte inicial do século XX. As seções a seguir revisam brevemente a histó- ria e os métodos de estudo do desenvolvimento motor. História do desenvolvimento motor As primeiras tentativas sérias de estudar o desenvolvimen- to motor, a mais jovem das ciências do movimento, foram feitas a partir da ideia da maturação por Arnold Gesell (1928) e Myrtle McGraw (1935). Os maturacionistas defendiam que o desenvolvi- mento é função de processos biológicos inatos, que resultam em uma sequência universal de aquisição das habilidades de movimen- to pelo bebê. Os teóricos também afirmavam que, embora o ambiente pu- desse influenciar a taxa de desenvolvimento, os efeitos eram ape- nas temporários, devido à potenteinfluência da herança genética de cada um. Desde a época desses esforços pioneiros, os nomes de Gesell e McGraw tornaram-se uma lenda na pesquisa do desenvol- vimento motor. Muito do que sabemos sobre a sequência da aqui- sição de habilidades de movimento pelo bebê baseia-se no trabalho descritivo de Gesell e McGraw, assim como também de Mary Shir- ley (1931) e Nancy Bayley (1935). A onda de pesquisas que esses acadêmicos desencadearam foi motivada, em grande parte, por seu interesse pela relação entre os processos de maturação e aprendizado e o desenvolvimento cogni- CONHECIMENTOS 4848 a solução para o seu concurso! Editora tivo. Em seus estudos independentes, mas notavelmente similares, esses primeiros pesquisadores registraram as conhecidas sequên- cias do desenvolvimento motor do bebê. As observações naturalis- tas das crianças feitas por eles forneceram grande quantidade de informações sobre a progressão sequencial do desenvolvimento normal, a partir da aquisição de movimentos iniciais rudimentares até os padrões maduros de comportamento. Os estudos de Gesell e Thompson (1929, 1934) e de McGraw (1935, 1940) são clássicos do método de controle de gêmeos para o estudo do desenvolvimento. As suas hipóteses eram as seguintes: se para dois bebês com conjuntos de genes idênticos fossem dadas experiências diferentes, seria possível demonstrar a influência rela- tiva tanto da hereditariedade como do ambiente sobre o aprendi- zado de habilidades específicas, incorporadas no design do estudo. Os resultados de seus estudos mostraram que, embora a taxa de aquisição das habilidades de movimento selecionadas pelo gêmeo treinado tenha sido mais rápida do que a do não treinado, a se- quência não variou e a vantagem de um sobre o outro durou pouco. Essa pesquisa permitiu uma melhor compreensão das diferen- ças entre a taxa e a sequência do desenvolvimento. Em essência, a taxa do desenvolvimento motor pode ser influenciada por condi- ções ambientais persistentes, mas a sequência de desenvolvimento em termos de aquisição das capacidades do movimento rudimentar pelo bebê é altamente resistente a mudanças. O estudo de Monica Wild sobre o comportamento de arremessar (1938) foi a primeira investigação do desenvolvimento dos padrões de movimentos em crianças em idade escolar. Infelizmente, após esse estudo, excelen- te em sua profundidade e completude, houve pouco interesse na exploração dos vários aspectos do desenvolvimento motor até o final da Segunda Guerra Mundial. Depois da Segunda Guerra, sur- giu uma nova geração de pesquisadores do desenvolvimento mo- tor, liderados por Anna Espenschade, Ruth Glassow e G. Lawrence Rarick (como citado em Rarick, 1981), que focaram a descrição das potencialidades da performance motora em crianças. Os três eram formados em educação física e, assim, estavam interessados na compreensão dos resultados do desenvolvimento motor para a sua própria atividade. Além disso, o seu trabalho focava mais a aquisi- ção de habilidades motoras por jovens em idade escolar do que a performance motora em bebês. Embora a extensão das pesquisas durante esse período fosse limitada e seguisse a passos lentos, o trabalho desses três pioneiros fez muito para manter o desenvolvimento motor vivo como campo legítimo de investigação acadêmica. Clark e Whitall (1989) atribuí- ram a Espenschade, Glassow e Rarick o surgimento do desenvolvi- mento motor como um campo de estudo específico na área da edu- cação física. A partir de 1960, a base de conhecimentos do estudo do desenvolvimento motor tem crescido com regularidade. O trabalho de Lolas Halverson (1966) e de vários de seus es- tudantes de graduação na University of Wisconsin (Halverson e Roberton, 1966; Halverson, Roberton e Harper, 1973; Halverson e Williams, 1985) sobre a aquisição de padrões de movimento fun- damental maduros fez muito para reavivar o interesse pela inves- tigação de crianças, por causa de sua ênfase mais na identificação dos mecanismos subjacentes à aquisição da habilidade do que na habilidade final. Os padrões motores fundamentais (1983), de Ral- ph Wickstrom, e a pesquisa conduzida por Vern Seefeldt (1972) e seus associados (Branta, Haubenstricker e Seefeldt, 1984; Seefeldt e Haubenstricker, 1982) na Michigan State University, sobre a aqui- sição de habilidades motoras fundamentais, lançaram as bases para a empolgante pesquisa da década de 1980 em diante. Durante as décadas de 1980 e 1990, a ênfase do estudo do de- senvolvimento motor de novo mudou de forma drástica. Em vez de focar o produto do desenvolvimento, como nas abordagens norma- tivas/descritivas das três décadas precedentes, os pesquisadores passaram a enfatizar outra vez a compreensão dos processos sub- jacentes envolvidos no desenvolvimento motor. Embora a impor- tância fundamental da hereditariedade tivesse sido reconhecida, agora era dada uma importância complementar às condições do ambiente do aprendizado e às exigências específicas da tarefa ou ação motora. Os pesquisadores, guiados pelo trabalho seminal de Kugler, Kelso e Turvey (1980), formularam novas estruturas teóricas para controle e desenvolvimento do comportamento motor. A partir daí, os trabalhos de Esther Thelen e colaboradores (1986a, 1986b, 1987a, 1987b, 1991, 1994), Jane Clark e colabo- radores (1988, 1989) e outros levaram à formulação da teoria dos sistemas do desenvolvimento motor que orienta a maioria das pes- quisas conduzidas atualmente. Três princípios fundamentais nor- teiam o que ficou conhecido como teoria dos sistemas dinâmicos. Em primeiro lugar, o corpo é visto como composto de vários siste- mas (muscular, esquelético, neural, perceptivo, biomecânico) auto- -organizados e capazes de formar padrões de comportamento que surgem da interação entre as partes componentes. Em segundo lugar, esses sistemas e os seus vários subsistemas se auto- -organizam de modo complexo e cooperativo, com base nas exigências específicas da tarefa motora e em resposta a várias affordances e restrições. E, em terceiro, o desenvolvimento é visto como um processo descontínuo, em que novos padrões de movi- mento substituem os anteriores (Thelen e Ulrich, 1991). CONCEITO 1.5 Historicamente, o estudo do desenvolvimento motor passou por períodos que enfatizaram diferentes explicações para o proces- so do desenvolvimento. Em resumo, o período que vai desde a dé- cada de 1930 até a Segunda Guerra Mundial pode ser caracterizado como “maturacional”, enquanto os anos de 1946 até a década de 1970 seriam o “período normativo/descritivo” no estudo do desen- volvimento motor. A partir da década de 1980 até os dias de hoje, temos o “pe- ríodo orientado para o processo” (Clark e Whitall, 1989). O estudo do desenvolvimento motor começou orientado para os processos (i.e., o estudo dos processos biológicos subjacentes à maturação), depois passou a ser orientado para os produtos (i.e., a descrição dos mecanismos dos vários estágios da aquisição das habilidades de movimento e o desenvolvimento de critérios normativos para uma série de medidas da performance motora) e, em seguida, vol- tou a ser orientado para os processos (i.e., a explicação dos proces- sos que causam mudanças no comportamento motor ao longo do tempo). Pesquisas importantes têm sido realizadas agora em quase todo o mundo sobre o tópico criticamente essencial do desenvolvi- mento motor desde a fase do bebê até a idade adulta. Métodos de estudo do desenvolvimento O desenvolvimento motor é estudado de três formas, pelos métodos longitudinal, transversal e longitudi- nal misto. Uma vez que a investigação do desenvolvimento motor envolve o estudo das mudanças que ocorrem no comportamento motor ao longo do tempo, o método longitudinal é ideal, consistin- do no único verdadeiro meio de estudar o desenvolvimento. O método longitudinal de coleta de dados tenta explicar as mudanças de comportamento ao longo do tempo (i.e., o tempo do desenvolvimento) e envolve a demonstraçãográfica dos vários aspectos do comportamento motor de um indivíduo ao longo de CONHECIMENTOS 49 a solução para o seu concurso! Editora vários anos. A abordagem longitudinal permite a observação das mudanças em variáveis específicas ao longo dos anos; embora en- volva o gasto de muito tempo, trata o estudo do desenvolvimento motor como uma função mais do tempo de desenvolvimento do que da idade (i.e., do tempo real) do indivíduo. O método longitudinal envolve o estudo de um único grupo de indivíduos, todos da mesma idade, no decorrer de vários anos. O principal propósito desse estudo é medir as mudanças de com- portamento relacionadas com a idade. Em resumo, o método lon- gitudinal permite o estudo de mudanças em um único indivíduo ao longo do tempo. O Medford Boys Growth Study, conduzido por H. Harrison Clarke (1971) de 1956 a 1968, é um dos mais completos estudos longitudinais do crescimento já realizado. O estudo do de- senvolvimento motor, que teve início em 1966, com Vern Seefeldt na Michigan State University, e continuou ao longo de 30 anos, co- letou dados antropométricos extensivos, assim como milhares de rolos de filmes, em que crianças executavam habilidades motoras fundamentais selecionadas. A pesquisa de caminhada na esteira de Beverly e Dale Ulrich, na Indiana University (1995), reuniu dados extensivos sobre o início da caminhada de qualidade em bebês com síndrome de Down. Todos são excelentes exemplos de estudos longitudinais sobre o crescimento e o desenvolvimento motor. O método longitudinal de coleta de dados consome bastante tempo. Além disso, a taxa de desistência em geral é grande, pois os participantes mudam, adoe- cem ou ficam incapacitados. Portanto, é preciso testar um grande número de participantes para manter uma amostra representativa no final dos estudos com duração de 5 a 10 anos. Além disso, no estudo longitudinal, gradualmente podem surgir problemas na me- todologia e no design. Variações no nível de confiabilidade e objeti- vidade dos testadores ao longo do período do estudo podem causar problemas de interpretação dos dados. Potenciais efeitos advindos do aprendizado, em função das repetidas performances nos itens medidos, também têm se mostrado problemáticos. Essas dificuldades induziram muitos pesquisadores a optar pela abordagem transversal. O método transversal de estudo per- mite ao pesquisador coletar dados de diferentes grupos de pessoas e faixas etárias, em um mesmo momento no tempo. O principal propósito do estudo transversal é medir diferenças de comporta- mento relacionadas à idade. Esse método não permite medições de mudanças relacionadas à idade, por isso tem gerado controvérsias. O método transversal gera apenas diferenças médias em grupos em tempo real e não mudanças individuais ao longo do tempo de de- senvolvimento. A hipótese básica subjacente ao estudo transversal consiste em que a seleção aleatória dos participantes da pesquisa fornece uma amostra representativa da população de cada grupo etário testado. No entanto, é questionável se, na maioria dos ca- sos, essa hipótese pode ser confirmada. Na realidade, os estudos transversais, apesar de simples e diretos, são capazes de descrever apenas comportamentos típicos, nas idades específicas estudadas. Consequentemente, eles não são considerados pela maioria das autoridades no assunto como verdadeiros estudos do desenvol- vimento. O problema é que, historicamente, a maioria das pesqui- sas sobre desenvolvimento motor tem usado a abordagem trans- versal. Para superar o possível ponto fraco da técnica transversal, os psicólogos do desenvolvimento e os pesquisadores do desenvol- vimento motor com frequência combinam os designs de pesquisa transversal e longitudinal em suas investigações individuais. Esse método sequencial para estudo do desenvolvimento, ou método longitudinal misto, combina os melhores aspectos dos es- tudos transversal e longitudinal. Ele engloba todos os possíveis pon- tos de dados necessários à descrição e/ou explicação tanto das di- ferenças quanto da mudança ao longo do tempo, como as funções do desenvolvimento assim como as da idade. Os participantes da pesquisa são selecionados e estudados por corte transversal, mas também são acompanhados longitudinalmente por vários anos. Isso permite comparar os resultados dos dados transversais com os longitudinais e funciona como meio de validação ou refutação das mudanças relacionadas à idade em relação às verdadeiras mudan- ças do desenvolvimento. Também proporciona ao pesquisador a oportunidade de ana- lisar e fazer relatos com base em dados preliminares, logo no início da pesquisa, em vez de esperar por cinco anos ou mais. CONCEITO 1.6 Enquanto mudanças no comportamento motor relacionadas à idade podem ser estudadas por meio de designs de pesquisa trans- versais, a verdadeira mudança do desenvolvimento só pode ser es- tudada por meio dos designs longitudinal e longitudinal misto. Os métodos de estudo longitudinal, transversal e longitudinal misto podem ser aplicados a uma variedade de formatos de pesqui- sa. A investigação pode tomar a forma de um estudo experimental, que é o método mais potente, devido aos rígidos controles neces- sários, ou ser transversal, envolvendo a observação naturalista, pesquisas, entrevistas, relatos de história de casos ou, ainda, uma combinação dessas técnicas. A Tabela 1.1 fornece uma breve visão geral desses formatos de estudo do desenvolvimento. Como já observado, houve mudança no rumo do estudo do desenvolvimento motor, cujo foco passou do processo ao produto e agora voltou ao processo. Os primeiros cientistas enfatizaram a importância da pesquisa orientada para os processos, ou seja, para a forma e a função. H. M. Halverson (1931, 1937), Shirley (1931) e Wild (1938) focaram a aquisição sequencial dos padrões motores. As suas sugestões para o estudo dos proces- sos do desenvolvimento das habilidades motoras não receberam muita atenção até a década de 1980, quando o interesse por esse tipo de estudo renasceu; desde então, esse tem sido o foco da pes- quisa no campo do desenvolvimento motor. O uso de técnicas da cinematografia, eletrogoniometria e ele- tromiografia, junto com a análise computadorizada, tem ampliado os nossos conhecimentos a respeito do processo de movimento, seus mecanismos motores subjacentes e a influência resultante so- bre o produto do movimento. A pesquisa orientada para o produto, ou sobre as potencialidades de performance dos indivíduos, tem sido realizada há vários anos. Esse tipo de pesquisa preocupa-se com o resultado da performance do indivíduo. A distância percor- rida pela bola, a velocidade possível após o chute ou a extensão de um salto são exemplos de dados da performance motora. Força, resistência, potência, equilíbrio e flexibilidade, medidos em bate- rias de testes específicas, são exemplos de dados da aptidão física. CONHECIMENTOS 5050 a solução para o seu concurso! Editora CONCEITO 1.7 O desenvolvimento motor pode ser estudado com orientação para o processo ou para o produto. Tabela 1.1 Principais métodos de estudo do desenvolvimento motor Estudo longitudinal: os mesmos indivíduos são estudados ao longo de um período de 5 a 10 anos Es- tudo transversal: indivíduos diferentes, representando uma série de faixas etárias, são estudados em um mesmo momento temporal Estudo longitudinal misto: método sequencial de estudo do desenvolvimento que combina os elementos essenciais dos métodos longitudinal e transversal Método experimental: seleção e/ou atribuição aleatória de participantes a condições de tratamento Controle rígido das variáveis atuantes Cultural cruzado: pode ou não usar um design experimental. Comparação de vários fatores em culturas diferentes Observação na- turalista: observação não intrusiva do comportamento no ambiente natural Pesquisa por entrevista (survey): entrevistas individuais ou em grupo sobre uma série de tópicos selecionados para revelar atitudes,opiniões Relato de caso: relato sobre participantes específicos, forne- cendo uma série de informações detalhadas sobre a sua história DILEMA DO DESENVOLVIMENTO Velho frágil: brincadeira! Em outra edição deste livro, usamos o termo “velho frágil” para pessoas com 80 anos ou mais. Meu Deus! Que comoção isso causou até no escritório onde o autor-sênior trabalhava. Pois até uma de nossas secretárias, Lucille, uma mulher bem ativa nos seus 82 anos, estava revisando uma cópia do texto que acabara de ser publicado e exclamou, indignada: “Velho frágil com 80 anos ou mais, que história é essa? Só pode ser brincadeira. Não me chame de velha frágil! Eu trabalho oito horas por dia e ainda tenho bastante energia para cuidar das minhas coisas em casa e apro- veitar o meu tempo livre. Além disso, a maioria dos meus amigos e conhecidos da mesma idade ou mais velhos é mais ou menos como eu, e com certeza NENHUM deles é um velho frágil!” Embora outros livros e artigos publicados usassem esse termo com frequência naquela época para descrever pessoas com mais de 80 anos, para minha vergonha, eu não fui capaz de defender o termo “frágil” na conversa com Lucille. Eu tinha violado aquele conceito-chave, segundo o qual o desenvolvimento está relacionado com a idade, mas não depende dela, e acabei por ofender Lucille. Nós enfrentamentos um dilema, pois o uso da idade cronológica é o meio de classificação mais conveniente e universal. Entretanto, é também o menos válido para indicar em que estágio do desenvolvimento a pessoa está. Por causa disso, atualiza- mos a nossa terminologia referente a esse grupo de pessoas. Agora usamos o termo “velho mais velho” (oldest old). Um tanto insípido, talvez, mas certamente não é ofensivo. Obrigado, Lucille. CLASSIFICAÇÕES ETÁRIAS DO DESENVOLVIMENTO Os níveis de desenvolvimento podem ser classificados de vários modos. O método mais popular, porém, com frequência o menos preciso, é a classificação pela idade cronológica. A idade cronológica ou a idade do indivíduo em meses e/ou anos é de uso universal e representa uma constante. Quando sabemos a data de nascimento de alguém, podemos facilmente calcular a sua idade em anos, meses e dias. A Tabela 1.2 fornece uma classificação etária cronológica convencional desde a concepção até a idade adulta avançada. Embora sejam altamente específicas durante os primeiros anos, as idades cronológicas tornam- -se cada vez mais gerais no decorrer da vida. Ao revisar essa tabela, tenha em mente que, apesar de relacionado com a idade, o desenvolvimento não depende dela. A idade cronológica é somente uma estimativa bruta do nível de desenvolvimento do indivíduo, que pode ser determinado de modo mais preciso por outros meios. A idade biológica do indivíduo fornece um registro da sua taxa de progressão em direção à maturidade. É uma idade variável, que corres ponde apenas aproximadamente à idade cronológica e pode ser determinada pela medição das idades: (1) morfológica, (2) esquelética, (3) dentária e (4) sexual. CONHECIMENTOS 51 a solução para o seu concurso! Editora A idade morfológica é a comparação do tamanho da pessoa (altura e peso) com padrões normativos. O tamanho normativo foi determinado pela primeira vez por Wetzel (1948) e outros, por meio da elaboração exaustiva de gráfi- cos de alturas e pesos de milhares de indivíduos. A grade de Wet- zel foi usada durante muitos anos pela maioria dos pediatras como principal recurso para determinação da idade morfológica de seus pacientes. Embora não seja usada atualmente devido a mudanças seculares (i.e., mudanças entre as gerações) de peso e altura, a gra- de de Wetzel foi, em determinado momento, o método mais popu- lar para indicar a idade morfológica. Hoje em dia, os pediatras usam gráficos de crescimento físico desenvolvidos pelo National Center for Health Statistics (2000). Cópias desses gráficos são fornecidas no Capítulo 6 (do nasci- mento aos 24 meses) e no Capítulo 10 (dos 2 aos 20 anos) e podem ser encontradas também on-line no cdc.gov/nchs/. A idade esque- lética fornece um registro da idade biológica de desenvolvimento do esqueleto. Ela pode ser determinada com precisão por um raio X dos ossos carpais das mãos e do punho. A idade esquelética é usada como ferramenta de pesquisa la- boratorial e em casos de crescimento extremamente atrasado ou acelerado. Poucas vezes é usada como medida da idade biológica fora dos ambientes laboratorial e clínico, devido a custo, inconve- niência e efeitos cumulativos da radiação. A idade dentária é outro meio preciso, porém usado com pouca frequência, de determina- ção da idade biológica. A sequência do desenvolvimento dos dentes desde o surgimento da primeira cúspide até o fechamento da raiz fornece uma medição da idade de calcificação. A idade de erupção também pode ser determinada pela elaboração de gráficos da pro- gressiva emersão dos dentes. A idade sexual é o quarto método de determinação da idade biológica. A maturação sexual é determinada pela aquisição variável das características sexuais primárias e secundárias. A escala de maturi- dade de Tanner (Tanner, 1962) é um meio preciso de avaliação da maturidade sexual. Ela está descrita no Capítulo 15. Esse método é usado com pouca frequência, em função de constrangimentos so- ciais e culturais. Existem vários outros métodos de classificação da idade de um indivíduo. Eles incluem medições das idades: (1) emocional, (2) mental, (3) autoconceitual e (4) perceptiva. A idade emocional é dada pela medição da socialização e da capacidade de funcionamento dentro de determinado ambiente social/cultural. A idade mental é dada pela medição complexa do potencial mental do indivíduo em função tanto do aprendizado quanto da autopercepção. Com frequência, ela flutua ao longo da vida da pessoa. A idade autoconceitual é dada pela medição da avaliação pes- soal que o indivíduo faz do próprio valor ou capacidade. A idade perceptiva é uma avaliação da taxa e da extensão do desenvolvi- mento da percepção pessoal. CONCEITO 1.8 Embora a idade cronológica seja o meio de classificação de ida- de mais utilizado, em geral é o menos válido. Todas as medições da idade são variáveis. Elas estão relacionadas com a idade cronoló- gica, mas não dependem dela. Portanto, todos os que trabalham com bebês, crianças, adolescentes ou adultos não devem confiar demais na classificação cronológica da idade simplesmente por sua facilidade e conveniência. TERMINOLOGIA USADA NO DESENVOLVIMENTO MOTOR É sempre importante adquirir certo conhecimento profissional dos termos usados na área de estudo escolhida. Seja a sua área a medicina ou o direito, a educação especial ou a economia, há um jargão típico de cada campo, e o desenvolvimento motor não é ex- ceção. Uma série de termos que se tornaram usuais é apresentada nesta seção. Assim como acontece com os jargões na maioria das áreas de estudo, o consenso a respeito do significado de cada termo não é universal. Temos de nos esforçar em busca de maior consis- tência. Com esse conceito em mente, apresentamos as definições a seguir. CONCEITO 1.9 Os termos transmitem conceitos críticos essenciais para a com- preensão do desenvolvimento motor. CONHECIMENTOS 5252 a solução para o seu concurso! Editora Crescimento e desenvolvimento Os termos crescimento e desenvolvimento são usados com fre- quência como sinônimos, mas há uma diferença de ênfase. No seu sentido mais puro, o crescimento físico refere-se ao aumento do ta- manho do corpo do indivíduo ou de suas partes durante a matura- ção. Em outras palavras, crescimento físico é o aumento na estrutu- ra do corpo provocado pela multiplicação ou aumento das células. No entanto, o termo crescimento muitas vezes é usado para se referir à totalidade das mudanças físicas, e, assim, torna- -se mais inclusivo, assumindo o mesmo sentido de desenvolvimento. Nas re- ferências ao crescimento neste livro, adotaremos aquele primeiro significado. O desenvolvimento,em seu sentido mais puro, refe- re-se a mudanças no nível de funcionamento do indivíduo ao lon- go do tempo. Keogh e Sugden (1985) definiram desenvolvimento como “uma mudança adaptativa em busca da competência” (p. 6). Essa definição implica que, ao longo da vida, há necessidade de ajustes, compensações ou mudanças para se adquirir ou manter a competência. Por exemplo, o bebê que está aprendendo a andar precisa compensar as mudanças ocorridas na sua base de apoio e no seu centro de gravidade. Do mesmo modo, o adulto precisa compensar a diminuição e a regressão na competência de andar causadas por artrite e redução da flexibilidade articular. Será adota- da a definição de Keogh e Sugden ao longo deste texto, pois afirma, de modo claro e sucinto, que o desenvolvimento é um processo de mudança que dura a vida toda. Embora o desenvolvimento seja visto mais como o surgimento e a ampliação da capacidade de fun- cionar em um nível elevado, temos de reconhecer que o conceito de desenvolvimento é muito mais amplo e que ele é um processo cuja duração se estende pela vida inteira. O estudo do desenvolvimento trata do que acontece no orga- nismo humano durante sua jornada, desde a concepção, passando pela maturidade, até a morte, e também o modo como isso aconte- ce. O desenvolvimento é um processo contínuo, que abrange todas as dimensões inter-relacionadas de nossa existência, e é preciso tomar cuidado para não considerarmos essas dimensões como au- tônomas ou como limitadas aos anos de crescimento da infância. Os adultos estão tão envolvidos no processo de desenvolvi- mento quanto as criancinhas mais novas. Os elementos da matu- ração e da experiência entrelaçados desempenham papéis-chave no processo de desenvolvimento. Maturação refere-se a mudanças qualitativas, que permitem a progressão até níveis mais elevados de funcionamento. Quando vista a partir de uma perspectiva bioló- gica, a maturação é primordialmente inata; ou seja, é determinada geneticamente e resistente a influências externas ou ambientais. A maturação é caracterizada por uma ordem de progressão fixa, em que o ritmo pode variar, mas a sequência de surgimento das características, em geral, não varia. Por exemplo, a progressão e a idade aproximada em que um bebê começa a sentar, a ficar de pé e a caminhar são muito influenciadas pela maturação. A sequência de surgimento dessas capacidades de movimento geralmente é fixa e resistente a mudanças, sendo que apenas o ritmo do surgimento se altera em função de influências ambientais, como o aprendizado e a experiência. Experiência refere-se a fatores no ambiente que podem alterar o aparecimento de várias características do desenvolvimento ao lon- go do processo de aprendizado. As experiências da criança podem afetar o ritmo de surgimento de determinados padrões de compor- tamento. Os aspectos do desenvolvimento, tanto da maturação como da experiência, estão entrelaçados. Determinar a contribuição isolada de cada um desses processos é impossível. Na literatura, um caloroso debate sobre a importância relativa de cada um deles arrastou-se por bem mais de um século. Em resultado disso, o termo adaptação entrou na moda e com frequência é usado para se referir à complexa interação entre as forças existentes no indivíduo e no ambiente. Domínios do comportamento A classificação das respostas hu- manas nos domínios do comportamento foi popularizada primei- ro por Bloom e colaboradores (1956) e Krathwohl, Bloom e Masia (1964) em suas tentativas pioneiras de estabelecer uma taxonomia (i.e., um esquema de classificação) dos objetivos educacionais. Infeliz- mente, o modo como separaram o comportamento nos domínios psi- comotor (comportamento motor), cognitivo (comportamento intelec- tual) e afetivo (comportamento socioemocional) fez com que muitos tratassem cada domínio como entidades independentes do desenvol- vimento humano. Devemos ter sempre em vista a natureza inter-rela- cionada do desenvolvimento e dos três domínios do comportamento humano, embora tenhamos a tendência de separá-los por conveniên- cia em nossa discussão e estudo do desenvolvimento humano. O domínio psicomotor inclui os processos de mudança, estabi- lização e regressão na estrutura física e no funcionamento neuro- muscular. No domínio psicomotor, o movimento é resultado de pro- cessos mediados cognitivamente em centros superiores do cérebro (córtex cerebral), de atividades reflexas nos centros inferiores do cérebro ou de respostas automáticas no sistema nervoso central. O domínio psicomotor envolve todas as mudanças físicas e fi- siológicas ocorridas ao longo da vida e é o tópico da próxima seção. O domínio cognitivo, aplicado ao estudo do comportamento motor, envolve a relação funcional entre a mente e o corpo. A interação re- cíproca entre a mente e o corpo tem sido explorada por observado- res desde Sócrates e Platão até os teóricos do desenvolvimento do século XX. Jean Piaget, famoso por sua teoria do desenvolvimento cognitivo, é um exemplo de teórico que reconheceu o importante papel do movimento, em especial durantes os primeiros anos de vida. O trabalho de Piaget fez muito para disseminar as noções de que o desenvolvimento perceptivo- -motor e a prontidão conceitual acadêmica podem ser incrementados por meio do movimento. O domínio afetivo, relacionado ao estudo do movimento hu- mano, envolve sentimentos e emoções aplicadas ao próprio indiví- duo e aos outros por meio do movimento. A segurança nos movi- mentos, a competência percebida, o autoconceito e a socialização cultural são áreas de interesse dos estudantes do desenvolvimento motor. A segurança nos movimentos é a confiança do indivíduo na própria capacidade de satisfazer as demandas de várias tarefas de movimentos. A competência percebida é a percepção do potencial para o sucesso em todas as áreas, incluindo o movimento. O auto- conceito é a avaliação que a pessoa faz do seu próprio valor. Ele é influenciado por uma série de fatores, sendo o movimen- to um deles. A socialização cultural é o nível de interação social evi- denciado pelo indivíduo. O comportamento de jogo tem uma base de desenvolvimento que se manifesta na mudança das relações entre os pares e níveis mais sofisticados de funcionamento. A capa- cidade de brincar também é vista pelos biólogos como uma ativida- de vital para o desenvolvimento do cérebro (Fagen, 1992; Bergen e Coscia, 2000; Bergen, 2004). CONCEITO 1.10 O comportamento humano pode ser classificado em três domí- nios: psicomotor, cognitivo e afetivo. Essas definições dos domínios psicomotor, cognitivo e afetivo, em relação ao modo como eles in- fluenciam os processos do desenvolvimento e são influenciados por eles, permitem- -nos esclarecer uma série de termos do domínio CONHECIMENTOS 53 a solução para o seu concurso! Editora psicomotor que contém as palavras motor ou movimento (ver Tab. 1.3). O que se segue não é apenas um exercício de semântica. As pala- vras refletem conceitos e transmitem ideias. É importante analisar aquelas que possuem significados similares, pois diferenças, inclusive sutis, nas definições podem gerar confusão e falta de clareza. O domínio psicomotor No estudo do movimento humano, o termo motor, quando usado sozinho, refere-se a fatores biológicos e mecânicos subjacentes que influenciam o movimento. Entretanto, raramente esse termo é usado de modo isolado, geralmente ele é incluído como sufixo ou prefixo em palavras como psicomotor, perceptivo-motor, sensório-motor, aprendizado motor, controle motor, desenvolvimento motor, perfor- mance motora e capacidades motoras. Os termos psicomotor, perceptivo-motor e sensório- -motor ganharam popularidade no jargão de psicólogos e educadores. Os ci- nesiólogos, por sua vez, tendem a limitar o uso dos prefixos dessas palavras em discussões que focam aspectos específicos do processo motor. Em outras palavras, o termo motor é usado como prefixo para descrever áreas de estudo específicas. Aseguir, apresentamos uma breve descrição de vários desses termos, uma vez que são comumente usados. Aprendizado é um pro- cesso interno que resulta em mudanças consistentes no comportamento, vistas como uma prova da sua ocorrência. Aprender é resultado de experiência, educação e treinamento, interagindo com os processos biológicos. Delineia-se, em grande parte, pelo estado de desenvol- vimento do indivíduo e é uma função da prática. O aprendizado é um fenômeno em que a experiência é pré-requisito, enquanto o desenvolvimento é um processo que pode ocorrer de modo relativamente independente da experiência. O movimento é considerado essencial ao aprendizado – “o movimento é parte in- dispensável do aprendizado e do pensamento, assim como parte integrante do processo mental” (Blakemore, 2003, p. 22). Aprendizado motor, portanto, é o aspecto do aprendizado em que o movimento desempenha a principal parte. O aprendizado motor é uma mudança relativamente permanente no comportamento motor, resultando da prática ou da experiência passada. Habilidade motora é uma tarefa ou ação de movimento voluntária, aprendida, orientada para um objetivo, realizada por uma ou mais partes do corpo. É importante observar que a definição de habilidade, como usada aqui, é de uma ação aprendida, que tem um ob- jetivo específico e, em resultado disso, é de natureza voluntária e exige a movimentação de alguma parte ou partes da anatomia humana (i.e., corpo, membros e/ou cabeça). Os movimentos reflexos não se enquadram nessa definição e não são considerados habilidades motoras. O mesmo vale para os mo- vimentos de base genética (i.e., de maturação), como rastejar e engatinhar, e aqueles considerados como capacidades do movimento ru- dimentar do bebê. Comportamento motor é um termo genérico referente a mudanças no controle do aprendizado e do desenvolvimento motor e que abrange fatores de aprendizado e processos de maturação associados com a performance nos movimentos. A pesquisa na área do comportamento motor trata do estudo do aprendizado, controle e desenvolvimento motor. Controle motor é o aspecto do aprendizado e do desenvolvimento motor que lida com o estudo dos mecanismos neurais e físicos subjacentes ao movimento humano. A pesquisa nessa área observa processos subjacentes, envolvidos na performance de um ato de movimento consistente de um CONHECIMENTOS 5454 a solução para o seu concurso! Editora teste para outro. A maior parte da pesquisa atual sobre desenvolvi- mento motor, especialmente aquela realizada a partir da perspec- tiva dos sistemas dinâmicos, aborda o desenvolvimento a partir do ponto de vista dos mecanismos de controle. Desenvolvimento motor é a mudança contínua no comporta- mento motor ao longo do ciclo da vida. Ele é estudado como um “processo” e não como um “produto”. Como processo, o desen- volvimento motor envolve o estudo das demandas subjacentes biológicas, ambientais e de tarefa que influenciam mudanças no comportamento motor desde a infância até a velhice. Na qualidade de produto, o desenvolvimento motor pode ser considerado como uma mudança descritiva ou normativa ao longo do tempo sendo visto como mudanças no comportamento e na performance moto- ra relacionadas à idade. Performance motora é o ato de colocar em prática uma habilidade de movimento. Como tal, pode ser observada diretamente, e o seu resultado pode ser avaliado no aspecto quantitativo por meio de alguma for- ma de medição. Por exemplo, a velocidade com que você percorreu 50 m e a distância percorrida pela bola que você arremessou são medidas da sua performance motora na corrida e no arremesso, respectivamente. CONCEITO 1.11 Comportamento motor é um termo genérico que abrange áreas de estudo complementares, mas essencialmente diferentes, envolvendo aprendizado, controle e desenvolvimento motor. For- mas de movimento O termo movimento refere-se a mudanças ob- serváveis na posição de qualquer parte do corpo. O movimento é o ato culminante de processos motores subjacentes. A palavra movi- mento com frequência acompanha outras para ampliar ou esclare- cer o significado delas, mas, em geral, refere-se ao ato evidente de movimentar-se. A seguir, apresentamos uma breve descrição de alguns termos do movimento, como são comumente usados. Padrão de movimen- to são séries organizadas de movimentos relacionados. De forma mais específica, um padrão de movimento representa a performan- ce de um movimento isolado que, em ou de si mesmo, é restrito demais para ser classificado como um padrão de movimento funda- mental. Por exemplo, os padrões de mover o braço lateralmente ao corpo, mover o antebraço ou elevar ao máximo o braço, sozinhos, não constituem os movimentos fundamentais da batida ou do ar- remesso; eles representam somente séries de movimentos organi- zados. Padrão de movimento fundamental refere-se à performance observável de movimentos básicos de locomoção, de manipulação e de estabilização. Os padrões de movimento fundamentais envol- vem a combinação de padrões de movimento de dois ou mais seg- mentos corporais. Correr e saltar, bater e arremessar, virar e girar são exemplos, respectivamente, de padrões de movimentos fundamentais de lo- comoção, de manipulação e de estabilidade. Embora os termos pa- drões de movimento e habilidade de movimento com frequência sejam usados como sinônimos e habilidade de movimento seja o mesmo que habilidade motora, há uma diferença sutil de ênfase. Enquanto a habilidade “motora” enfatiza as contribuições relativas dos mecanismos subjacentes (neurais, musculares, biomecânicos, perceptivos), a habilidade “de movimento” enfatiza o que pode ser visto na observação a olho nu. Em outras palavras, o cientista que trabalha no laboratório tende a focar os aspectos “motores” da habilidade, enquanto o profissional do campo tende a focar os aspectos observáveis “do movimento” relativo à habilidade. Além disso, na habilidade de mo- vimento, enfatiza-se a precisão e limitam-se os movimentos irrele- vantes; em um padrão de movimento fundamental, enfatiza-se o movimento e limita-se a precisão, que não é vista necessariamente como um objetivo. Habilidade esportiva é o refinamento ou a combinação de padrões de movimentos fundamentais ou de habilidades de mo- vimento na execução de uma atividade relativa ao esporte. Os pa- drões de movimentos fundamentais de girar o corpo e bater podem ser desenvolvidos até um grau elevado de precisão e aplicados de forma horizontal para fazer a rebatida no beisebol ou de forma ver- tical, para jogar golfe ou executar o serviço do tênis. A performance de uma habilidade esportiva exige a realização de alterações cada vez mais precisas nos padrões básicos de movimento para alcançar níveis de habilidade mais elevados. CLASSIFICAÇÃO DAS HABILIDADES DE MOVIMENTOS Há uma série de esquemas para classificar as habilidades de movimentos. Tradicionalmente, a maioria tem sido unidimensional. Ou seja, eles tratam de apenas um aspecto da habilidade de movi- mento ao longo de um âmbito amplo. As taxonomias bidimensio- nais são um modo mais abrangente de classificar as habilidades de movimentos. Ambos os tipos são discutidos nas seções seguintes. CONCEITO 1.12 Embora haja uma série de esquemas uni e bidimensionais úteis para a classificação dos movimentos, nenhum deles captura com- pletamente a amplitude, a profundidade e o escopo do movimento humano. Esquemas unidimensionais Quatro modos de classificação das habilidades de movimento ao longo de uma única dimensão ganharam popularidade ao longo dos anos: (1) muscular, (2) temporal, (3) ambiental e (4) funcional. Cada um deles é explicado brevemente nos parágrafos seguin- tes e apresentados em forma de esquema na Tabela 1.4. Aspectos musculares do movimento Não há fronteiras claras entre os termos amplo e fino, mas os movimentos com frequência são classificados com um desses dois adjetivos. O movimento motor amplo envolve o movimento de músculos grandesdo corpo. A maioria das habilidades esportivas é classificada como movimentos motores amplos, com exceção, tal- vez, do tiro, da esgrima e de algumas outras. O movimento motor fino envolve movimentos limitados das partes do corpo na performance de movimentos precisos. Manipu- lação do bordado, caligrafia e datilografia em geral são considera- dos movimentos motores finos. Os fisioterapeutas e os professores de educação física preocupam- -se, essencialmente, com o aprendi- zado ou o reaprendizado de habilidades motoras amplas, enquanto o terapeuta ocupacional e os técnicos com frequência ocupam-se dos aspectos motores finos do movimento hábil. Aspectos temporais do movimento Com base nos aspectos temporais, o movimento pode ser clas- sificado também como discreto, serial ou contínuo. O movimento discreto tem um começo e um fim definidos. Saltar, arremessar, chutar e rebater uma bola são exemplos desse tipo de movimentos. CONHECIMENTOS 55 a solução para o seu concurso! Editora Os movimentos seriais envolvem a performance de um único movimento discreto várias vezes em rápida sucessão. Pular corda ritmica- mente, fazer dribles no basquetebol, voleios no futebol e rebatidas no voleibol são tarefas seriais típicas. Os movimentos contínuos são aqueles repetidos durante um tempo específico. Correr, nadar e pedalar são movimentos contínuos comuns. Aspectos ambientais do movimento Os padrões de movimento fundamentais e as habilidades de movimento com frequência são chamados de tarefas motoras abertas ou fechadas. A tarefa aberta é aquela realizada em um ambiente onde as condições estão constantemente em mudança. Essas condições mutáveis exigem que o indivíduo faça ajustes ou modificações no padrão do movimento para atender as demandas da situação. É necessária plasticidade ou flexibilidade de movimento para a performance de uma habilidade aberta. A maioria das atividades realizadas em dupla ou em grupo envolve habilidades abertas, que dependem do feedback externo e interno para uma execução bem-su- cedida. Por exemplo, quando está brincando de pique-esconde, em que é preciso correr e esquivar-se em várias direções, a criança nunca usa um mesmo padrão de movimento o tempo todo. Ela precisa adaptar-se às demandas da atividade por meio de uma série de movimentos similares, porém diferentes. A performance de uma tarefa de movimento aberta difere marcadamente da de uma tarefa de movimento fechada. A tarefa fechada é “uma habilidade motora desempenhada em um ambiente estável e previsível, em que o executante determina quando começar a ação” (Magill, 2010, p. 9). A habilidade de movimento ou o padrão de movimento fundamental fechado demanda rigidez na performance. Ele depende mais do feedback cinestésico do que do visual e auditivo para a realização da tarefa. Ao plantar bananeira, fazer um ar- remesso ao alvo ou dar um salto vertical, a criança está realizando uma tarefa de movimento fechada. Função pretendida do movimento As habilidades de movimento podem ser classificadas com base na intenção. Embora todas as tarefas de movimento envolvam algum elemento de equilíbrio, os movimentos que objetivam alcançar e/ou manter uma orientação corporal estável são chamados de tarefas de estabilidade. Sentar e levantar, equilibrar-se sobre uma barra estreita, girar e esquivar-se enquadram-se nessa categoria, assim como movimentos axiais, como inclinar-se ou alongar-se e girar ou fazer uma rotação. Movimentos que se destinam a transportar o corpo de um ponto a outro, como caminhar, correr ou dar um salto em altura ou saltar obs- táculos no atletismo, são tarefas de locomoção. CONHECIMENTOS 5656 a solução para o seu concurso! Editora Aquelas que envolvem transmitir força a um objeto ou receber força dele são tarefas de manipulação de objetos. Arremessar, apanhar, chutar uma bola de futebol, rebater no beisebol e driblar no basquetebol são atividades de manipulação comuns. O leitor deve tomar cuidado para não ser arbitrário na classificação do movimento nos esquemas uni ou bidimensionais. Nem sempre é possível ou desejável separar e classificar distintamente os movimentos. Nós somos seres humanos moventes e dinâmicos e respondemos constantemente a muitos fatores ambientais sutis e a demandas das tarefas de movimento. A classificação arbitrária do movimento deve servir apenas para focar a atenção no aspecto específico do movimento que está sendo considerado. Modelos bidimensionais Os modelos bidimensionais de classificação das habilidades de movimento, embora ainda descritivos, são, de certo modo, mais com- pletos para o reconhecimento da complexidade do movimento humano. Eles oferecem recursos mais sofisticados para visualizar o movi- mento do modo como ele ocorre e ao longo de um continuum, do simples ao complexo e do geral ao específico. O modelo bidimensional proposto por Gentile (2000) foca o processo do aprendizado da habilidade motora. O modelo proposto pelo autor-sênior deste livro, em sua primeira versão, em 1972 (Gallahue, Werner e Luedke, 1972), e expandido ao longo de sua carreira profissional foca os produtos do desenvolvimento motor. Ambos são discutidos de forma breve nos parágrafos a seguir e estão esquematizados nas Tabelas 1.5 e 1.6, res- pectivamente. O modelo bidimensional de Gentile (2000) Gentile (2000) foi além das abordagens unidimensionais de classificação das habilidades de movimento. O seu esquema bidimensional leva em conta: (1) o contexto ambiental em que a tarefa de movimento é realizada e (2) a fun- ção pretendida. Embora a intenção original dessa taxonomia fosse ajudar os fisioterapeutas em seus esforços de reabilitação, ela também fornece uma estrutura de trabalho para determinação de sessões práticas e rotinas de treinamento para todos os interessados em ensinar habilidades de movimento. A primeira dimensão lida com o contexto ambiental da tarefa de movimento a ser executada. De acordo com Gentile, o contexto ambiental refere-se à existência de condições reguladoras estacionárias ou móveis e com ou sem variabilidade entre tentativas. Quando as condições reguladoras durante a performance de uma habilidade são estacionárias, o contexto ambiental não muda. Nesse caso, pode não haver variabilidade entre as tentativas, como em uma tarefa completamente fechada, ao sentar-se em uma cadeira ou levantar-se dela; ou, então, pode haver variabilidade entre tentativas, como em uma tarefa de movimento moderadamente fechada, ao sentar-se em locais com alturas variadas ou levantar-se desses locais. Entretanto, quando as condições reguladoras do ambiente são móveis, também pode não haver variabilidade entre tentativas, como em uma habilidade de movimento moderadamente aberta, ao sentar- -se em uma bola de exercício grande; ou então haver variabilidade entre as tentativas, como em uma tarefa de movimento completamente aberto, ao sentar-se em uma bola de exercício grande e balançar- -se sem apoiar os pés no chão. A segunda dimensão do esquema bidimensional de Gentile para classificação das habilidades de movimen- to lida com a função pretendida da tarefa de movimento (ou seja, com a categoria do movimento). A orientação do corpo do indivíduo pode focar a estabilidade ou a locomoção (Gentile usa o termo “transporte do corpo”), que ocorre com ou sem a manipulação de objetos. Dedique alguns minutos ao estudo da Tabela 1.5 e dos exemplos fornecidos nela. Observe que os exemplos de movimento são dados em uma progressão de dificuldade pré-definida, da esquerda para a direita e de cima para baixo. Por exemplo, o quadrante superior esquerdo, o menos complexo, enfatiza a estabilidade corporal sem manipulação de objetos; nele há condições ambientais reguladoras estacionárias, sem variabilidade entre tentativas. Enquadram-se aqui as habilidades de movimento completamente fechado, como sentar-se ou levantar-se. Entretanto, as habilidades de movimento no quadrante inferior direito, as mais complexas, enfatizam o transporte do corpo (locomoção)com manipulação de algum objeto, em condições ambientais reguladoras móveis e com variabilidade entre as tentativas. Habilidades de movimento completamente aberto, como pular para pegar uma bola no beisebol ou no basquetebol ou fazer um passe em movimento no jogo de futebol, são encon- tradas nessa parte da taxonomia. CONHECIMENTOS 57 a solução para o seu concurso! Editora CONHECIMENTOS 5858 a solução para o seu concurso! Editora O esquema de duas dimensões de Gentile para classificação das habilidades soluciona muitos dos problemas encontrados nos esque- mas de uma dimensão. Identificando onde a tarefa de movimento desejada se encontra ao longo da linha de 16 categorias, o fisiotera- peuta ou o professor pode determinar o grau de excelência com que o aprendiz executa a tarefa, alterando o contexto ambiental. Assim, é possível escolher a progressão de aprendizado mais apropriada, com base no ponto onde o aprendiz realmente se encontra e não onde deveria se encontrar. ESQUEMAS MULTIDIMENSIONAIS Na realidade, quando aplicamos a mudança e o aprendizado desenvolvimentista ao mundo real, não usamos os esquemas unidimen- sionais nem mesmo os bidimensionais. Instrutores experientes usam, é claro, modos multidimensionais para lidar com o aprendiz. Além de considerar uma ampla variedade de importantes fatores cognitivos e afetivos, o instrutor (pais, professores, técnicos, fisioterapeutas) primeiro determina os principais objetivos do aprendizado das habilidades (o objetivo é ensinar habilidades para as tarefas cotidianas, para participação em atividades de lazer ou para envolvimento em algum esporte?). Para isso, é preciso determinar o seguinte: 1. Em que fase do desenvolvimento motor (reflexiva, rudimentar, fundamental ou especializada) está o aprendiz? 2. Qual é o nível de aprendizado da habilidade de movimento do aprendiz (inicial, intermediário ou avançado)? 3. Qual é o tipo da tarefa de movimento (habilidade ampla/fina, discreta/serial/contínua, de locomoção/manipulação/estabilidade; e em que condições, fechadas ou abertas, deve ser realizada)? 4. Quais são as exigências da performance da tarefa (o que é necessário em termos de força e resistência muscular, flexibilidade arti- cular, resistência aeróbia, velocidade, agilidade, potência e equilíbrio)? Tendo informações sobre esses quatro itens, o instrutor pode começar a fazer escolhas conscientes, determinando o que, quando, onde e, mais importante, como ensinar determinada habilidade ou combinação de habilidades de movimento. A Tabela 1.7 fornece um exemplo esquemático de rubrica de instrução de habilidade multidimensional. Fonte GALLAHUE, D. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. São Paulo: Phorte Editora, 2004. Cap. 1 Disponível em: http://srvd.grupoa.com.br/uploads/imagensExtra//legado/G/GALLAHUE_David_L/Compr_Desenvolv_Motor_7ed/Lib/Cap_01.pdf Introdução ao Movimento Movimento é a mudança de um corpo baseado em um ponto referencial. Portanto percebemos que este ponto referencial é impor- tante. Um corpo pode estar em movimento para um observador, e parado para outro observador. Por exemplo: Para um passageiro que está sentado dentro de um ônibus. Esse passageiro em relação ao ônibus está parado, já em relação ao planeta Terra está em movimento. Dentro da física temos a mecânica que é a área estática que trata os corpos sem movimento, temos a área da cinemática que descreve os movimentos e área da cinética que trata das suas causas. Causas do Movimento Para que um movimento ocorra, deve-se sair do seu estado inicial de Inércia, com a aplicação de uma força. Basta pensarmos eu um treino, é necessária uma força para que ocorra o movimento necessário. CONHECIMENTOS 59 a solução para o seu concurso! Editora • Força: é o agente da dinâmica, responsável por alterar o esta- do de repouso do movimento de um corpo. • Inércia: é a tendência de um corpo em se manter em seu estado inicial, onde só pode ser alterada por meio da aplicação de uma força. As forças podem ser classificadas como internas ou externas. As forças externas causam o deslocamento enquanto as internas são as musculares que atuam internamente no corpo. Dentro do contexto da educação física temos a biomecânica, que é uma disciplina que integra a parte biológica e a mecânica como o próprio nome diz. A biomecânica é importantíssima para os esportes de forma geral, tem trazido um grande melhoria na análise e técnica desportiva, desenvolvimento de equipamentos adequa- dos e parâmetros para análise e aplicação do movimento. Tipos de Movimentos Dentro do nosso estudo vamos resumir apenas em dois movi- mentos: linear e angular, apesar de existirem outros tipos de movi- mentos. • O Movimento é Linear quando o corpo pode se mover por completo de um lugar para o outro. Este movimento pode ser retilí- neo ou curvilíneo. – Movimento Linear Retilíneo: Movimento em Linha Reta. – Movimento Linear Curvilíneo: Movimento em Curva. • O Movimento é Angular quando o corpo gira em torno de um determinado centro. Pelas imagens acima verificamos que corpo pode executar am- bos os movimentos simultaneamente. Por exemplo: Temos movi- mento lineares (troca de posição) e temos movimentos angulares internos no corpo do atleta em relação a sua musculatura; temos também movimentos angulares ao redor de um determinado eixo e temos movimento angulares em torno do próprio centro de gra- vidade. O corpo humano executa movimentos angulares por isso con- segue executar a maioria dos movimentos pelas suas articulações. Conforme estudado, sabemos que a força é um fator que de- termina e modifica o movimento, um movimento pode ser modifi- cado também pelo atrito. Estes fatores são utilizados pelos atletas para aproveitarem oportunidades em seu desempenho. O ser-humano pode expressar-se através do movimento. A de- finição de corporeidade está relacionada com a comunicação do mundo exterior com o mundo interior. Desta forma existem vários movimentos, como por exemplo: correr, andar, pular que fazem este papel. As manifestações corporais estão presentes em diversos seg- mentos, mas dentro do nosso contexto estamos focando no movi- mento. Desde a pré-história esta noção de corporeidade é refletida através da caça e outras pelo instinto de sobrevivência. Na edu- cação física escolar as manifestações que expressam arte, jogos e atividades em geral demonstram a comunicação através de gestos, estímulos visuais, sensoriais etc. Basta pensarmos em uma partida de futebol, ou até mesmo em uma manifestação artística qualquer. A comunicação não verbal ocorre entre os participantes e com o público de forma geral. Den- tro deste contexto são usados códigos e convenções para expres- sar-se. Estes códigos e convenções são gestos usuais padronizados que o ser humano entende, ou até mesmo podem ser combinados pelos integrantes para a execução de uma tarefa específica. Ou seja: Códigos e convenções são gestos usuais padronizados ou combinados que o ser humano entende para executar uma ação. Linguagem do corpo Temos também uma linguagem interna para realizar os movi- mentos, desta forma ocorrem os impulsos nervosos que estabele- cem a comunicação do corpo. Dentro do contexto estudado temos a comunicação interna e a externa. Muitos estudiosos dentro desta linha criaram várias técni- cas e comprovaram sua eficácia. Vamos citar como exemplo o Método Pilates, criado por Joseph Pilates para ilustrar: • Concentração: Durante o exercício é priorizada a concentra- ção para conectar o corpo e a mente para estabelecer uma comuni- cação eficaz. Desta forma o movimento efetuado é preciso e atinge o objetivo final. O Método Pilates prioriza a qualidade não a quan- tidade, sendo este um de seus princípios. CONHECIMENTOS 6060 a solução para o seu concurso! Editora Outros itens que advém da concentração são: respiração, pre- cisão, força, coordenação, fluidez do movimento e relaxamento. Dentro deste conceito, Pilatesestabeleceu uma série de movi- mentos que abordam estes itens. Esses princípios são muito impor- tantes, mesmo para a execução de outros movimentos, pois eles deverão ser executados de forma precisa para atingir seu objetivo. Estudamos que a manifestação artística é uma forma de ex- pressão, desta forma consegue-se estabelecer uma comunicação com o público em geral. O objetivo então é que o público consiga visualizar aspectos intrínsecos de forma que atinja seu âmago. Muitas áreas utilizam isso para vender produtos, anúncios de forma geral e muitas vezes conseguem desviar e canalizar estes as- pectos para lados consumistas, criando muitas vezes manifestações visando estes objetivos. Geralmente nas apresentações artísticas o público se manifesta de inúmeras maneiras com movimentos do corpo. O corpo humano nas suas diversas atividades desde manifestações ao nível de lazer e em diversas manifestações artísticas utilizam movimentos e nos permite expressarmos e comunicarmos com o mundo. AS TRANSFORMAÇÕES DO MOVIMENTO As transformações do movimento humano estão relacionadas ao desenvolvimento psicomotor em harmonia com o aperfeiçoa- mento social e cognitivo. Desenvolvimento Humano e período evolutivos Muitos movimentos são voluntários que foram adquiridos con- forme a evolução na infância. Estes marcos iniciais deverão ser ob- servados desde o nascimento, para verificar a saúde neurológica. • Desenvolvimento motor: Refere-se ao controle sobre os dife- rentes músculos do organismo. Sistema Nervoso Central e sua relação com os tipos de movi- mento O sistema nervoso central é responsável por processar as in- formações. Dentro do nosso estudo sobre movimento o cerebelo coordena e mantém o equilíbrio e permite a execução de movimen- tos. Atividades motoras e psicomotoras As atividades psicomotoras são aquelas em que existe a in- teração entre o movimento muscular e o sistema nervoso. Como relatado, elas são importantíssimas em qualquer fase da vida. São exemplos: andar, correr, andar de bicicleta, etc. OS BENEFICIOS DO MOVIMENTO Mesmo antes do nascimento o corpo humano movimenta-se. É parte integrante do nosso ser, existem inúmeros benefícios que advém disso. Aqui citaremos alguns: Melhora nas articulações Uma atividade exercida de forma correta, sem exagero ou ex- cesso, tende a melhorar as articulações desenrijecendo as junções dos ossos. Garantia da qualidade do sono Existem algumas funções que o corpo realiza somente durante o sono, desta forma realizar movimentos como caminhada, dentre outros, melhora o organismo e metabolismo. Diminuição de dores Ao movimenta-se, o corpo libera algumas substancias analgési- cas que agem no organismo. CONHECIMENTOS 61 a solução para o seu concurso! Editora Integração social Por meio de atividades em grupo, o indivíduo integra-se ao meio se comunicando com os participantes através de movimentos. Melhora cardiovascular Todo tipo de exercício demanda energia cardiovascular, desta forma um benefício decorrente disso é a prevenção de doenças car- díacas. Os benefícios advindos dos movimentos do corpo humano são numerosos e atuam no comportamento cognitivo (mente), afetivo- -social (emoções e sentimentos) e motor em todas as fases da vida. PRÁTICAS CORPORAIS E AUTONOMIA A realização de aulas de Educação Física nas primeiras séries es- colares é uma maneira de constatar a importância de elaborar ativi- dades que vão ao encontro das necessidades motoras das crianças, a fim de estimulá-las, com conteúdos específicos à faixa etária, uma vez que é uma fase determinante para processos futuros, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2001) atuais apontam. No entanto, para um melhor aprendizado, as aulas devem ser lúdicas, prazerosas, com caráter exploratório e social, possibilitando o exercício corporal, o ritmo, lateralidade, noções de direção, es- paço-temporal, o esquema corporal entre outros. Assim, a criança se descobre dentro de suas possibilidades e limitações, e cabe ao professor motivá-la nesse contexto, intervindo quando necessário. Para tanto, a visão do professor deve considerar sempre o con- texto da vida das crianças, à complexidade dos fenômenos biológi- cos e sócio-culturais inerentes ao seu desenvolvimento, visto que esse cuidado do professor com o aluno torna-se crucial no desen- volvimento da criança, permitindo que ela tenha prazer pelas ati- vidades e, ao mesmo tempo, esteja estimulando suas capacidades motoras, cognitivas, afetivas e sociais. Nessa fase em que a criança começa a ser inserida na escola, as aulas de Educação Física precisam estar focadas no processo de conhecimento sobre o corpo, em que se trabalha diversos conteú- dos que servem de alicerce para atividades do cotidiano ou com- binadas e desportivas, como afirmam os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2001, p. 15), em relação à Educação Física: [...] possibilita aos alunos terem desde cedo, a oportunidade de desenvolver habilidades corporais e de participar de atividades culturais, como jogos, esportes, lutas, ginásticas e danças, com fina- lidades de lazer, expressão de sentimentos, afetos e emoções. A Educação Física além de contemplar atividades corporais, precisa estar associada à ludicidade, de modo que esteja assimilada ao ambiente infantil, próxima da realidade da criança, criando um vínculo entre o aprendizado e o brincar. A criança obtendo um aprendizado corporal adquire uma au- tonomia social e cidadã, tão importantes num mundo globalizado, para isso a educação não deve ser isolada. É preciso que a aprendi- zagem corporal esteja relacionada às vivências da criança. Desse modo, as aulas de Educação Física são a possibilidade da criança se perceber, programar e realizar ações que se tornam um estoque de aprendizagem básico para seu desenvolvimento corpo- ral e adaptação social, considerando-se o ambiente e as condições vivenciadas pela criança. Conhecimento sobre o corpo A criança se encontra numa fase em que integra progressiva- mente seu corpo, adquirindo consciência de seu ‘próprio corpo’, com possibilidades posteriores de representação mental e de trans- formação de si em relação a outra pessoa, isto é, a criança restringe seu ‘corpo próprio’ do mundo dos objetos por meio da atividade práxica realizada na pesquisa do ambiente. Assim, os déficits im- portantes desta função acarretam em transtornos e instabilidade psicomotora. (LE BOULCH, 1982). Para isso recorre-se aos Parâmetros Curriculares Nacionais, com o intuito de conceituar e verificar a abrangência deste bloco de conteúdos que diz respeito ao conhecimento sobre o corpo: [...] O corpo é compreendido como um organismo integrado e não como um amontoado de “partes” e “aparelhos”, como um corpo vivo, que interage com o meio físico e cultural, que sente dor, prazer, alegria, medo, etc. para se conhecer o corpo abordam-se os conhecimentos anatômicos, fisiológicos, biomecânicos e bioquí- micos que capacitam a análise crítica dos programas de atividade física e o estabelecimento de critérios para julgamento, escolha e realização que regulem as próprias atividades corporais saudáveis, seja no trabalho ou no lazer. [...]. (BRASIL, 2001, p. 46). Com base nisso, é que se recomendam as atividades que es- timulem os diferentes aspectos do conhecimento sobre o corpo como o esquema corporal, a lateralidade, a direção, a noção espa- ço-temporal, o equilíbrio, a coordenação, a tonicidade e o ritmo, como forma de contribuir psicomotoramente em desenvolvimen- tos posteriores. Segundo Cauduro (2002) o conhecimento sobre o corpo passa pela aquisição de habilidades que o corpo deve adquirir. São elas: esquema corporal, lateralidade, direção, equilíbrio, tonicidade, coordenação, ritmo e espaço-tempo que passam a ser descrito. Esquema corporal Rosa Neto (2002) conceitua esquema corporal como organiza- ção das sensações relativas a seu próprio corpo em associação com os dados do mundo exterior, sendo que essa organização éo pon- to de partida para as diversas possibilidades de ação. É a maneira como a criança se percebe, manipula objetos, joga, se desloca, além de sensações visuais, auditivas, de satisfação e dor, choro e alegria. “Para uma boa elaboração do esquema corporal, é necessá- rio que a criança receba o máximo possível de estimulações que a levem a perceber e sentir o corpo”. (CAUDURO, 2002, p. 83). Isso quer dizer que quanto mais oportunidades a criança vivenciar, mais habilidade terá de distinguir seu corpo e sentir diferenças, como também observar e manipular. Para tanto, Cauduro (2002) exemplificava atividades que esti- mulam a elaboração do esquema corporal como aquelas que iden- tificam as partes do corpo: nomear as diversas partes do corpo, identificar cavidades, distinguir partes duras de partes moles, leves de pesadas, grandes de pequenas, ásperas de lisas, sensíveis de me- nos sensíveis, músculos contraídos de relaxados, assim como fazer associações dessas partes com figuras geométricas. A importância do esquema corporal está na criança interiorizar estes segmentos, permitindo uma automatização motora, caso isso não aconteça a criança apresentará problemas em diversas áreas. [...] Na área motora, apresenta dificuldades como: coordena- ção deficiente, lentidão e má postura. Na área perceptiva, dificul- dades de estruturação espaço-temporal e na área social, problemas nas relações com outras pessoas, originados por perturbações afe- tivas. (CAUDURO, 2002, p. 83). Entretanto, um esquema corporal organizado fará com que a criança conheça e domine seu corpo, sentindo-se muito bem exa- tamente pelo fato de sua obediência frente às suas ações. “Uma criança que se sinta bem disposta em seu corpo é capaz de situar CONHECIMENTOS 6262 a solução para o seu concurso! Editora seus membros uns em relação aos outros, fará uma transposição de suas descobertas: progressivamente localizará os objetos, as pes- soas, os acontecimentos em relação a si, depois entre eles”. (CAU- DURO, 2002, p. 84). É necessária que esta habilidade seja bem desenvolvida por ter uma relação direta com as demais habilidades motoras, como a lateralidade. Lateralidade A lateralidade não é algo que possa ser aprendido, uma vez que é definida através do sistema nervoso central e sua predominância se estrutura na evolução da criança. A lateralização, como resultado da integração bilateral postural do corpo, é peculiar no ser humano e está implicitamente relacio- nada com a evolução e utilização dos instrumentos (motricidade instrumental – psicomotricidade), isto é, com integrações sensoriais complexas e com aquisições motoras unilaterais muito especializa- das, dinâmicas e de origem social. (CAUDURO, 2002, p. 62). O processo de lateralização compreende a identificação das partes do corpo em si próprio e no outro, inclusive noções de espa- ço-tempo, e pode ser percebido em atividades que se faz uso fre- quente de uma das mãos ou um dos pés/pernas, tendo o cuidado de considerar lateralizadas as crianças que não fazem mais a troca de mãos ou pés na execução das atividades, pois como afirma Ec- kert: Durante a lactância e ainda na infância, há uma considerável permuta do uso de uma das mãos e de ambas as mãos até a domi- nância unilateral ser eventualmente alcançada ou, como em alguns casos, a criança desenvolve um alto grau de ambidestreza que é usualmente conseguida por crianças que estão classificadas como dominantes unilateralmente. [...]. (1993, p. 124). Mattos e Neira (2008) enfatizavam que a questão genética e as experiências culturais exercem influência sobre a lateralização e que ao impor certa escolha à criança ter-se-á conseqüências terrí- veis para a mesma, como eles mesmos destacam: Presenciamos, em nossa vivência como alfabetizadores, crian- ças que iniciavam suas produções escritas pelo lado direito da folha e seguiam escrevendo no sentido direita-esquerda até o final, es- pelhando todas as letras. Estas crianças eram aquelas que faziam uso da mão direita somente por ocasião da escrita, nas outras ati- vidades, escolares ou não, utilizavam-se dos segmentos do lado es- querdo. Pensamos nas dificuldades enfrentadas por estas crianças, no sofrimento cotidiano de estarem obrigadas a trabalhar assim. (MATTOS NEIRA, 2008, p. 30). Já dizia Oliveira (1997), a predominância por uma determinada lateralidade decorre do aprendizado, seja por imposição, imitação ou questão afetiva, porém, deve-se relevar que pequenas ações como segurar o garfo ou o lápis com determinada mão não signifi- cam uma atitude à toa, é preciso respeitar tal escolha, evitando que a criança seja forçada a realizar ações com o lado que não domina. Para uma maior compreensão do quanto contrariar a escolha da criança ou lhe provocar a ambidestria acarreta-lhe em danos, Cauduro (2002) explica esse fato ao funcionamento do cérebro, exatamente porque é nele que se encontram diferentes funções correspondentes às suas partes. Assim, nele, situam-se unilateral- mente os comandos verbais, relacionados com a palavra falada, ouvida e escrita, no hemisfério esquerdo de indivíduos destros e no direito de canhotos, respondendo aos estímulos específicos de sua área. Desse modo, realizar um movimento com o lado não dominan- te, quando não lateralizada, faz com que este hemisfério assuma uma atribuição correspondente à outra parte do cérebro, acarre- tando em desordem no sistema nervoso, gastos de neurônios e queima de energia. O problema dessa desorganização talvez seja pouco visível num primeiro momento, mas poderá ser flagrante no futuro. Para inte- lectualizar o movimento que poderia ser espontâneo, gastamos um extra de energia. Este ato de ambidestria oportuniza a hipermetro- pia em grau bem elevado porque, ao se contrariar o caráter domi- nante, foram utilizados os neurônios da área cerebral responsável pela visão e a sobrecarga de atividades submeteu-os a um stress. Da mesma forma, o estrabismo e a gagueira, muitas vezes, explicam-se pela contrariedade de dominância. E no caso de um acidente cerebral (AVC) ou “ataque cardíaco”, o ambidestro corre o risco de não ter energia de reserva para passar pela emergência ou suportar bem uma recuperação. (CAUDURO, 2002, p.67). Cabe ao professor, entender esse processo de evolução da criança e respeitar seu amadurecimento neurológico. Direção A relação direita e esquerda é uma aquisição possível quando a função de interiorização é trabalhada suficientemente e quando a criança apresenta condições de apoiar-se nas suas próprias sensa- ções sinestésicas, pois se cogitada precocemente acarretará em in- segurança na criança que freará seu desenvolvimento, repercutindo inclusive nos aprendizados escolares. (LE BOULCH, 1982). Essa interiorização como mencionada anteriormente é a latera- lidade, exercendo grande importância quanto às noções de direção: esquerda e direita, isso porque como colocava Cauduro (2002), se a criança trabalha naturalmente com tal mão, memorizará facilmente se esta é esquerda ou direita, porém se não há uma definição de predominância, ela confundirá esses termos. Gallahue e Ozmun (2005, p. 316) aprofunda bem essa relação lateralidade e direção, através da seguinte definição para orienta- ção direcional: “Direcionalidade é a projeção da lateralidade. Ela dá dimensão a objetos no espaço. A direcionalidade exata depende da lateralidade adequadamente estabelecida. [...]”. Desse modo, faz-se necessário entender que direção é muito além de direita e esquerda, é para onde o corpo se desloca: para um lado, para outro, para frente, para trás, para cima, para baixo, em diagonal. (CAUDURO, 2002). Le Boulch (1982), entretanto, já de- finia, aprofundando mais as relações: [...] Logo que a criança é capaz de nomear as partes do corpo, será necessário que estabeleça as relações espaciais entre elas. O trabalho de percepção do espaço lhe permitirá estabelecer relações do tipo: ao lado, de cada lado, em cima, embaixo, mais em cima, maisembaixo, no meio, dentro, fora, servindo de suporte para si- tuar as diferentes partes do corpo. No que concerne à orientação do corpo, as noções de acima- -abaixo e para frente-para trás são adquiridas precocemente, por- que elas correspondem a características referenciadas visualmente. (LE BOULCH, 1982, p. 177). Um mau desenvolvimento do conceito de direção na criança provoca-lhe um fracasso no que diz respeito à leitura e à escrita, visto que ela terá dificuldades em discriminar letras do alfabeto e números, prejudicando seu processo de aprendizagem. CONHECIMENTOS 63 a solução para o seu concurso! Editora É normal a criança de 4-5 anos de idade confundir estes con- ceitos de direção, mas torna-se preocupante quando aos 6-7 anos ainda permanecer essa confusão. Confundem letras como b, d, p e q em que se diferenciam pela direção do ‘círculo’ e da ‘haste’; po- dem inverter palavras inteiras como ‘gato’ lendo ‘toga’ e até mesmo escrever e ver palavras de cabeça para baixo. (GALLAHUE; OZMUN, 2005). Estimular a direção é preciso para que as crianças possam se desenvolver motoramente e intelectualmente, assim como se faz essenciais as outras habilidades. Equilíbrio Para Gallahue e Ozmun: “Equilíbrio é a habilidade de um in- divíduo manter a postura de seu corpo inalterada, quando este é colocado em várias posições. [...] é básico para todo movimento e é influenciado por estímulos visuais, táteis, cinestésicos e vestibula- res. [...]”. (2005, p. 299). Segundo Cauduro (2002) e Gallahue e Ozmun (2005) há duas maneiras de classificar o equilíbrio, conforme a posição do corpo: o equilíbrio estático e o equilíbrio dinâmico. Assim Eckert (1993, p. 265) também definia como: A manutenção de uma posição particular do corpo com um mínimo de oscilação é referida como equilíbrio estático, enquan- to equilíbrio dinâmico é considerado ser a manutenção de postura durante o desempenho de uma habilidade motora que tenda a per- turbar a orientação do corpo. Exemplos comuns de avaliação de equilíbrio, segundo Gallahue e Ozmun (2005), para equilíbrio estático é o equilíbrio em um só pé, ficar em pé na trave de equilíbrio e desempenhar o equilíbrio com vara, já para o equilíbrio dinâmico verifica-se o caminhar sobre linhas. A capacidade de o homem manter-se em equilíbrio está ligada à sua postura ereta, à marcha bípede, à ação da gravidade e, inclu- sive, ao tono de manutenção, que fornece suporte para a realização das ações motoras. É preciso que esses fatores apresentem-se em harmonia para que o corpo não entre em desequilíbrio. Sob está mesma análise, Negrine (1987) explicava que o centro de gravidade refere-se ao ponto resultante das forças que a gravida- de exerce sobre as diferentes partes do corpo, estando pouco acima da metade da altura, em adultos, a partir do solo. Para o autor, esse ponto encontra-se mais alto nas crianças, reduzindo em muito sua estabilidade quanto menor é a criança. Em relação aos estímulos, o professor precisa contemplar essa habilidade a fim de que a criança se estruture bem e com harmonia corporal. Tonicidade Conforme Le Boulch (1982), a contração tônica constituía a base das atividades motoras e posturais, de modo que prepara o movimento, sustenta o gesto e mantém a estática e o equilíbrio. Assim, para a criança de idade pré-escolar, há a necessidade da pre- cisão da tonicidade por estar associada às diferentes coordenações. Além disso, a função tônica está relacionada com os aspectos emocionais e afetivos, devido ao tono muscular servir como base de sustentação e linguagem corporal. Aprofundando essa relação para um melhor entendimento, Rosa Neto afirmava: A atividade tônica refere-se às atitudes e às posturas, e a ati- vidade cinética está orientada para o mundo exterior. Essas duas orientações da atividade motriz (tônica e cinética), com a incessan- te reciprocidade das atitudes, da sensibilidade e da acomodação perceptiva e mental, correspondem aos aspectos fundamentais da função muscular, a qual deve assegurar a relação com o mundo ex- terior graças aos deslocamentos e aos movimentos do corpo (mobi- lidade) e assegurar a conservação do equilíbrio corporal, a infra-es- trutura de toda ação diferenciada (tono). (ROSA NETO, 2002, p.20). E ainda: A função tônica se apresenta em um plano fisiológico sob dois aspectos: o tono de repouso, que é o estado de tensão permanente do músculo que se conserva inclusive durante o sono; o tono de ati- tude, que é ordenado e harmonizado pelo jogo complexo dos refle- xos da atitude, sendo eles resultado das sensações proprioceptivas e da soma dos estímulos provenientes do mundo exterior. (ROSA NETO, 2002, p.20). Cauduro (2002) classificava a tonicidade em hipotônicos e hi- pertônicos. Hipotônicos são as crianças que apresentam excesso de flacidez, (elas desmoronam sobre as mesas ou cadeiras) e as hi- pertônicas são de rigidez extrema, caracterizam-se por rigidez no maxilar e nas articulações do corpo. A postura é excessivamente empertigada (duros). Um exemplo muito observado em crianças, é este descrito por Mattos e Neira: [...] Algumas crianças que contraem exaustivamente os mús- culos dos seus segmentos, quando a atividade, na verdade, solici- ta apenas uma leve contração (correr, escrever, pegar, empurrar), mostram pouco controle sobre suas ações, e o oposto também ocorre, quando executam movimentos que implicariam grandes contrações (atividades que requerem força ou paralisação), fazem uso de contrações insuficientes. Em tais casos, estas crianças de- monstram pouco conhecimento (experiência) sobre como relaxar. (2008, p. 26). Esta situação denota as paratonias, dificuldades em relaxar voluntariamente os músculos, que diminuem conforme a criança avança na idade. Outro problema relacionado à tonicidade e ao ato motor são as sincinesias, contrações parasitas próprias do membro que deveria permanecer passivo quando o membro ativo realiza uma tarefa. As sincinesias de reprodução, que produzem um mo- vimento de imitação, tendem a desaparecer conforme a criança cresce, já as sincinesias tônicas, que permitem o desenvolvimento do tônus em outros músculos que não intervém na atividade, ten- dem a não evoluir, mas continuam existindo em crianças maiores. (ARRIBAS, 2002). A criança precisa fazer uso adequado de suas tensões muscu- lares, evitando contrações desnecessárias e uso indevido de alguns músculos, porém o professor deve estar atento e ter conhecimento sobre as hipotonias e hipertonias. Coordenação Ao se falar de coordenação, muitas pessoas já rotulam as crianças como coordenadas ou sem coordenação. Mas vale com- preender que, conforme afirmava Cauduro (2001), todas as crian- ças normais apresentam coordenação, porém podem apresentar sequelas motoras ou falta de vivências quando queimam etapas ou não vivenciaram determinadas atividades, pois a coordenação é o equilíbrio entre o ritmo interno e o ritmo externo proposto nas atividades. A coordenação é determinada pelas contrações musculares e controlada pelo sistema nervoso, fazendo-se importante no movi- mento do corpo com desenvoltura, habilidade e equilíbrio e no do- mínio do gesto e do instrumento. (OLIVEIRA, 1997). CONHECIMENTOS 6464 a solução para o seu concurso! Editora A coordenação exige que seus movimentos sejam organizados e de forma ordenada e está relacionada às outras habilidades mo- toras. Além disso, a coordenação apresenta-se como global e fina conforme se faz uso dos músculos nos movimentos e que toda ação motora requer o uso da visão, isto é, para um movimento ter pre- cisão é necessário que ele seja visualizado ao passo que se projeta um objeto ou se faz contato com ele. Muitas vezes, por isso, a coor- denação é apresentada sob os termos olho-mão e olho-pé como forma de expressar essa dependência. Primeiramente, será abordada a coordenação global: A coordenação global diz respeito à atividade dos grandes músculos. Depende da capacidade de equilíbrio postural do indiví-duo. Este equilíbrio esta subordinado às sensações proprioceptivas cinestésicas e labirínticas. Através da movimentação e da experi- mentação, o individuo procura seu eixo corporal, vai se adaptando e buscando um equilíbrio cada vez melhor. Consequentemente, vai coordenando seus movimentos, vai se conscientizando de seu cor- po e das posturas. Quanto maior o equilíbrio, mais econômica será a atividade do sujeito e mais coordenada serão suas ações. (OLIVEI- RA, 1997, p. 41). Na verdade, a criança por sua própria natureza vivencia essa coordenação, pois nela compreende-se o andar, o correr, o saltar, o rolar, o pular, o arrastar-se, o sentar entre outros. Mas, mesmo assim, quando chega à escola, ainda encontram- -se crianças com dificuldades e cabe ao professor corrigir posturas inadequadas, sempre levando em conta as aquisições anteriores, bem como vale o cuidado que o professor deve ter para com o alu- no, como forma de auxiliá-lo e não prejudicá-lo ou deixá-lo retraído, tímido. Quanto à coordenação fina, novamente, utiliza-se as palavras de Oliveira: A coordenação fina diz respeito à habilidade e destreza manual e constitui um aspecto particular da coordenação global. Temos que ter condições de desenvolver formas diversas de pegar os diferen- tes objetos. Uma coordenação elaborada dos dedos da mão facilita a aquisição de novos conhecimentos. É através do ato de preensão que uma criança vai descobrindo pouco a pouco os objetos de seu meio ambiente. [...]. (1997, p. 42). Assim, movimentos manuais requerem muito o controle ocu- lar (coordenação óculo-manual ou viso motora), como é o caso da escrita. Para um bom entendimento, a coordenação viso motora diz respeito à habilidade de acompanhar um objeto em movimento, distinguindo formas e detalhes. Toda coordenação é necessária para que o movimento tenha sentido e seja organizado. É importante que o professor trabalhe adequadamente atividades e correções nesse sentido, evitando que as crianças apresentem sequelas motoras e as chamadas dis- praxias (distúrbios do desenvolvimento da coordenação motora). Ritmo Gallahue e Ozmun (2005) definiam ritmo como a repetição sin- cronizada de eventos de tal modo vinculados, que formam padrões reconhecíveis, sendo importante no desempenho coordenado de qualquer ato e no desenvolvimento de um mundo temporal está- vel. Assim, um movimento rítmico necessita da sucessão sincroni- zada de eventos no tempo. Cada ser humano apresenta um ritmo próprio, a partir do do- mínio do seu corpo e a educação através do ritmo visa possibilitar a expressão motriz da criança, de modo que ela se liberte corpo- ralmente. Muitas vezes, o ritmo é entendido como dança, obvia- mente faz parte deste contexto, mas pode ser observado também em outros aspectos, como bater palmas, quicar a bola ou bater o brinquedo contra o chão, pois como afirma Arribas (2002), o ritmo faz parte do ser humano como algo natural, estando na base de sua vida fisiológica, a respiração e o batimento do coração, e psíquica. Cauduro (2002) divide em ritmo próprio, biológico e ritmo externo social. O ritmo deve ser valorizado, segundo Arribas (2002) por fa- cilitar a relação entre as ordens do cérebro e sua execução pelos membros. Crianças que não puderam exercitar livremente esta motricidade espontânea apresentam gestos estreitos, angulosos e arrítmicos. (LE BOULCH, 1982). O que se deve evidenciar é que a educação rítmica depende da educação do ouvido e da capacidade de assimilação da criança, para que ela interiorize adequadamente e possa executar com pre- cisão aos estímulos diversos. Mediante o exercício rítmico, os jogos, as canções, será pos- sível conseguir a regularidade da pulsação, caminhando, batendo palmas, etc. Existirá também uma coordenação de movimentos (voz-mãos, voz-pés, mãos-pés, etc.) com ou sem deslocamento. Os refrões populares, as canções e os exercícios com movimento contribuirão para fazer sentir a unidade e a proporção das frases. (ARRIBAS, 2002, p. 169). Em relação às atividades folclóricas e tradicionais que passam de geração em geração, são importantes por possibilitarem um vas- to número de exercícios corporais que despertam a imaginação e a sensibilidade da criança. Porém, depende do professor aproveitar todos os aspectos corporais oferecidos por estes jogos populares, devendo partir de movimentos naturais e estimulando-os com sons. Além de ter grande valor, o folclore infantil, transmitido de geração em geração, mantém a tradição pitoresca, a simplicidade, a carga afetiva e contribui para a educação rítmica e a formação musical das crianças pequenas. Em particular, as crianças que tem dificuldades em coordenação global encontrarão um suporte pri- vilegiado para alcançar, com o movimento, uma certa harmonia e um certo bem-estar, fontes de prazer. Com efeito, o caráter coletivo destas danças, a participação da professora, o canto que acompa- nha, fazem com que cada criança possa participar ativamente, com alegria geral, e encontre, nesta atividade, uma segurança e uma situação favorável à expressão motora liberada. [...]. (LE BOULCH, 1982, p. 181). Assim, a dança folclórica, principalmente de roda, permite à criança desencadear muito mais que laços afetivos faz com que es- treite sua relação corporal com os demais, como ao se dar as mãos, estimulando as crianças mais tímidas e possibilitando uma organi- zação temporal. Espaço-tempo Muitos autores definem essa habilidade como organizações isoladas, ora é espacial e ora é temporal, mesmo que haja uma interdependência entre si, como explicavam Gallahue e Ozmun (2005). Para eles, a estrutura espacial é a base do desenvolvimento perceptivo motor e compreende o conhecimento de quanto espa- ço o corpo ocupa e a habilidade de projetar o corpo efetivamente CONHECIMENTOS 65 a solução para o seu concurso! Editora no espaço externo. E a orientação temporal é a aquisição de uma estrutura temporal adequada em crianças, sendo despertada e refi- nada ao mesmo tempo em que se desenvolve seu mundo espacial. Como há a necessidade de uma sobre a outra, Cauduro (2001), referia-se a esta habilidade como espaço-tempo, definindo-a a par- tir das noções de espaço relativas à dinâmica, à orientação e à es- trutura espacial com referência ao situar o presente em relação a um antes e um depois, lento e rápido. Para fins de melhor entendimento, será abordada esta habi- lidade a partir de definições isoladas que, de alguma forma, inte- ragirão entre si e trarão melhores esclarecimentos em termos de conceitos e necessidades de estimulá-la nas crianças, pois como Oliveira (1997, p. 85) colocava. “[...] Uma pessoa só se movimenta em um espaço e tempo determinado. Não se pode conceber um sem falar no outro”. Uma organização espacial adequada parte da necessidade que apresenta sobre o desenvolvimento. Mattos e Neira (2008) destaca- vam que ela possibilita à criança organizar-se diante do mundo que a cerca, organizar os objetos entre si, movimentá-los e colocá-los em determinado lugar. Contudo, Oliveira (1997, p. 74), ia mais além: A estruturação espacial é essencial para que vivamos em socie- dade. É através do espaço e das relações espaciais que nos situamos no meio em que vivemos, em que estabelecemos relações entre as coisas, em que fazemos observações, comparando-as, combinan- do-as, vendo as semelhanças e diferenças entre elas. Nesta com- paração entre os objetos constatamos as características comuns a eles (e as não comuns também). Através de um verdadeiro trabalho mental, selecionamos, comparamos os diferentes objetos, extraí- mos, agrupamos, classificamos seus fatores comuns e chegamos aos conceitos destes objetos e às categorizações. [...]. Quanto aos objetos, Le Boulch (1982, p. 199), afirmava que “[..] todo o objeto, desde o momento em que é nomeado, faz papel de organizador do espaço próximo circundante, permitindo construir o espaço que rodeia. [...]”. É assim que a criança explora seu espaço a partir dosobjetos: elas fixam o olhar para depois agarrá-lo. O que se observa é que a estruturação espacial não tem rela- ção somente com os objetos e os indivíduos que rodeiam cada ser. Uma boa organização espacial atua no controle emocional da criança e na sua vida relacional, favorecendo a segurança da criança e a perda do medo pelo desconhecido. Tem influência nas aprendi- zagens escolares, como a leitura, a escrita, grafismos, noções mate- máticas básicas entre outros. (ARRIBAS, 2002). Outros problemas relacionados à falta de organização espacial correspondem à confusão de noção de lugar e orientação, confusão dos significados dos símbolos representados pelas letras gráficas, não percebem posições, inclusive, não discriminam direção das letras, são desajeitadas, ‘bagunceiras’, não prevêem dimensão no papel e confundem o que é dezena, centena e milhar. (OLIVEIRA, 1997). Em relação à organização temporal, Arribas (2002) e mais re- centemente Mattos e Neira (2008) destacavam que o movimento ocorre ao longo do tempo, tem um inicio, meio e fim, um antes, um durante e um depois. A ação motora deve prever sua duração, o ritmo de execução e a distribuição dos componentes ao longo de um período de tempo. Ações cotidianas como atravessar uma rua ou pular corda des- taca a organização temporal, que tem grande vínculo com o ritmo. Os componentes do tempo apresentam-se em aspectos qua- litativos (ordem) e quantitativos (duração) e o ritmo é a base da experiência temporal. Na percepção de duração, compreende a capacidade de estabelecer limites, início e fim e ao uso da memó- ria, comparando experiências anteriores ou avaliação à referências externas. A percepção de ordem refere-se à sucessão de aconteci- mentos, seqüências, antes e depois. (ARRIBAS, 2002). Desse modo, para Gallahue e Ozmun (2005), a orientação tem- poral está intimamente vinculada à interação de vários sistemas musculares a muitas modalidades sensoriais. Quem não estabelece essa dimensão torna-se desajeitado ou estranho. Quando a criança não atinge um ponto máximo de sua estrutu- ração ela apresenta dificuldades na leitura e escrita, bem como na realização das suas ações. Segundo Oliveira (1997), a palavra falada exige que seja emiti- da de forma ordenada, obedecendo a um domínio do ritmo, uma sucessão de sons no tempo, uma memorização auditiva, uma dife- renciação de sons, um reconhecimento das freqüências e das dura- ções dos sons das palavras. Quanto às ações, Mattos e Neira (2008) destacavam que terão insucessos, como não perceber o afastamen- to dos colegas e modificar a trajetória da corrida, não identificar o momento adequado de saltar a corda em movimento ou acompa- nhar a estrutura rítmica. Esta habilidade faz-se importante porque todas as ações se dão em determinado tempo e influi diretamente no resultado desta ação. Faz-se necessário que as crianças explorem seu espaço, com- preendam as diferentes distâncias, direções e posicionamentos de objetos e demais indivíduos no espaço. O recreio escolar é ótimo nesse sentido, mas cabe ao professor estimular essa habilidade em referência a outros ambientes como a sala de aula, a quadra, a casa de cada um e outras vivências também.28 Aos aspectos sobre conhecimentos sobre o corpo estão rela- cionados os conhecimentos que subsidiam as práticas corporais expressas nos outros dois blocos, esporte, jogos, lutas e ginásticas, e atividades rítmicas e expressiva, dando recursos para o indiví- duo gerenciar sua atividade corporal de forma autônoma. O corpo é compreendido como um organismo integrado, como um corpo vivo, que interage com o meio físico e cultural, que sente dor, prazer, alegria, medo. Abordam-se os conhecimentos anatômicos, fisioló- gicos, biomecânicos e bioquímicos que capacitam a análise crítica do exercício físico, bem como a escolha e realização de atividades corporais saudáveis. Esses conhecimentos são tratados de maneira simplificada, abordando-se apenas os aspectos básicos, havendo um aprofundamento no ciclo final da escolaridade, sempre contex- tualizando os conteúdos nas atividades corporais desenvolvidas. Os conhecimentos de anatomia referem-se principalmente à estrutura muscular e óssea. Os conhecimentos de fisiologia são aqueles básicos para compreender as alterações que ocorrem du- rante as atividades físicas, (freqüência cardíaca, queima de calorias, perda de água e sais minerais) e aquelas que ocorrem em longo prazo (melhora da condição cardiorrespiratória, aumento da massa muscular, da força e da flexibilidade e diminuição de tecido adipo- so). A bioquímica aborda conteúdos que subsidiam a fisiologia: al- guns processos metabólicos de produção de energia, eliminação e reposição de nutrientes básicos. Também fazem parte deste bloco, a biomecânica, ou seja, conhecimentos sobre os hábitos posturais e atitudes corporais, analisando as posturas mais adequadas para fazer determinadas tarefas e para diferentes situações. 28 Fonte: www.efdeportes.com - Vanusa Kerscner/Maria Teresa Cauduro* CONHECIMENTOS 6666 a solução para o seu concurso! Editora O corpo como sede de sensações e emoções deverá ser con- templado como conteúdo, de modo a permitir a compreensão da dimensão emocional que se expressa nas práticas da cultura corpo- ral e a percepção do corpo sensível e emotivo por meio de vivências corporais, como jogos dramáticos, massagem. O conhecimento sobre o corpo tem seus aspectos históricos. Os autores Sanches Neto e Lorenzetto (2005) afirmam que o corpo tem um caráter polissêmico, com vários significados. Os conheci- mentos sobre o corpo passam por atribuições de sentidos ao longo do tempo. Encontramos uma dicotomia marcante na Educação Física, a separação entre corpo e alma, e entre corpo e mente. Na histó- ria encontramos maior valorização da alma, considerada modelo de perfeição, enquanto o corpo era inferior. A separação do corpo e mente fragmentou o ser humano, privilegiando a razão. O teo- centrismo de caráter religioso significava que Deus era o centro do universo, implicando o predomínio da alma, considerada imortal, sobre o corpo. Após confrontos destas idéias, surgiu o antropocen- trismo, com o ser humano no centro de tudo. Desde essa época surgiu um predomínio do pensamento objetivo e da racionalidade por meio das Ciências Positivas. As estruturas curriculares escolares foram influenciadas pelo positivismo, ocasionando uma fragmenta- ção entre teoria e prática. Assim a Educação Física deveria ocupar- -se do corpo, recebendo influências da Medicina e do Higienismo. Mais recentemente um tipo de “ecocentrismo”, em que o meio am- biente seria o centro de tudo, vem sendo proposto para estabelecer uma consciência ambiental. Esta teoria deixa lacunas que seriam superadas pelo “auto-ecocentrismo”, no qual ocorre a integração entre corpo, mente, alma e o meio ambiente (SANCHES NETO e LO- RENZETTO, 2005). A biomecânica ainda é encarada por muitos professores atuan- tes na educação básica e universidade como uma disciplina estuda- da por técnicos do desporto de alto rendimento ou por profissio- nais que tenham profundo conhecimento de física e matemática (CORRÊA e FREIRE 2004). Freire citado por Correa e Freire (2004), afirma que a Educa- ção Física escolar tem priorizado o conhecimento motor, as aulas enfocam o saber fazer determinadas habilidades motoras, típicas de modalidades esportivas. Este processo de aprendizado tem sido mecânico, levando o aluno a entender que no movimento o im- portante é executar, envolvendo apenas o corpo, estando ausentes cognição e afetividade. Freitas e Lobo da Costa (2000) propõe uma prática que leve à reflexão e ao entendimento acerca de conhecimentos envolvidos na realização de movimentos e da interação do corpo humano com o ambiente que o cerca. Não basta reproduzir o gesto motor, é necessário ensinar em- butindo conceitos biomecânicos, para que os alunos entendam a execução eficiente da habilidade motora, por exemplo. Com isso, a biomecânicaajuda a formar a visão crítica e consciente do mo- vimento. Assim os dois conteúdos saúde e biomecânica são de funda- mental importância para compreender a natureza do conhecimento sobre o corpo, uma vez que estes possam levar o aluno a ter ações críticas com relação aos movimentos, consequentemente propor- cionando uma vida mais saudável. Dispensar esta preocupação é afastar um importante canal de reflexão a ser incutida aos alunos, pois a arte de educar busca a in- tervenção salutar, de forma que toda oportunidade deve ser apro- veitada ao máximo.29 MAGILL, R. Aprendizagem motora: conceitos e aplicações. São Paulo: Blucher, 2002, CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO ÀS HABILIDADES MOTORAS Conceito 1.1 – As habilidades motoras podem ser classifica- das em categorias gerais. Aprendemos fazendo. A prática é tão importante no processo de aprendizagem que é explicitamente citada em sua definição. De acordo com Magill (1989), a aprendizagem refere-se a uma mudan- ça na capacidade do indivíduo executar uma tarefa, mudança esta que surge em função da prática e é inferida de uma melhoria relati- vamente permanente no desempenho. Assim, a prática é condição necessária embora não suficiente para que ocorra a aprendizagem. Mas o que muda com a prática no comportamento humano? Qual é a natureza das mudanças que ocorrem com a aprendizagem e como podemos explicá-las. Diferentes níveis de análise podem ser utilizados para responder à questão formulada e em cada um deles diferentes referenciais teóricos podem ser encontrados. Isto signi- fica que qualquer resposta sobre o que muda com a prática deve ser vista a partir do paradigma utilizado para descrever, explicar e prever o fenômeno da aprendizagem. É difícil não associar a Educação Física à formação do atleta: certamente será mais fácil dedicar-se a atividades esportivas se a criança adquirir habilidades motoras orientadas desde cedo. Mas isso também facilitará atividades cotidianas como dançar, dirigir, participar de jogos de lazer, trabalhar ou simplesmente fugir da chuva numa calçada cheia de buracos. O trabalho orientado em Educação Física busca a formação da pessoa «coordenada», como se diz popularmente. E o êxito é resultado de um processo contínuo e sistemático de aprendizagem, que deve ser estimulado desde o início da idade escolar. Desde quando nascemos, somos levados a nos mexer, e isso, normalmente não para, vai evoluindo, vai crescendo, melhorando sua capacidade e progredindo para uma performance, onde os movimentos são executados com uma maior precisão e um menor gaste de energia. Segundo FREIRE, J. B., a infância é um período muito intenso de atividades: as fantasias e os movimentos corporais ocupam quase todo o tempo da criança, por isso, a primeira infância (Para Piaget, o primeiro período de vida da criança, que vai do nascimento até o surgimento da linguagem, é chamado por ele do ponto de vista da inteligência, de SENSÓRIO MOTOR, nele, pode ser distinguidos três estágios: “o dos reflexos, o da organização das percepções e hábitos, e o da inteligência propriamente dita) é um período da vida onde se pode viver muito intensamente e, como em qualquer outra fase da vida, vale a pena viver como se cada dia fosse o último de todos. A criança, em sua primeira infância, é muito centrada nela mes- ma. Constrói sua realidade trabalhosamente, adquirindo noções es- paciais, temporais e do próprio corpo, diferenciando-se, assim, dos objetos ao seu redor. É plenamente admissível, portanto, que essa centralização nela mesma permaneça durante algum tempo. (Essa 29 Fonte: www.eefe.ufscar.br - Por Flaviane da Silva Mendes/Paula Hentschel Lobo da Costa CONHECIMENTOS 67 a solução para o seu concurso! Editora centralização, Piaget chama de egocentrismo). O que não se deseja é que essa auto centralização estenda-se por longo tempo, atraves- sando a segunda infância, a adolescência e a adulta. As habilidades motoras precisam sem desenvolvidas, sem dúvidas, mas deve estar claro quais serão as conseqüências disto do ponto de vista cognitivo, social e afetivo. Alem destes aspectos levantados rapidamente, é preciso entender que as habilidades motoras, desenvolvidas num contexto de jogos, de brinquedos, no universo da cultura infantil, de acordo com o conhecimento que a criança já possui, poderão se desenvolver sem a monotonia dos exercícios prescritos por alguns autores. Talvez não se tenha atenta- do para o fato de que jogos, como amarelinha, pega - pega, cantigas de roda, tem exercido, ao longo da história, importante papel no desenvolvimento da criança. Lamentável, é saber que não tenham sido incorporados aos conteúdos pedagógicos das aulas de Educa- ção Física, e pior, ministrado muitas vezes por “professores incapa- citado” para a área, talvez, mesmo tendo diploma. Aprender a trabalhar com estes brinquedos poderiam garantir um desenvolvimento das habilidades motoras sem precisar impor às crianças uma linguagem corporal que lhes é estranha. Assim, como a linguagem verbal falada pelo (a) professor (a) em sala de aula é, por vezes, incompreensível para os alunos, também a lin- guagem corporal pode sê-lo, se não referir, de início, a cultura que é própria do aluno. Não poderia deixar de destacar que, felizmente e infelizmen- te, nos dias de hoje, as crianças tem se desenvolvido intelectual- mente muito superior às das crianças de 10 anos a trás, isso, com certeza graças às oportunidades que lhes são oferecidas: compu- tadores (internet), televisão (antena parabólica e muito mais). No entanto, motoramente falando, graças aos grandes centros urbanos e a violência que corre solta, nossas crianças são “privadas de mo- vimentar-se”, presas em suas próprias casa, frente a computador, televisão e vídeo game, e isso, contribui maciçamente para o atro- fiamento da parte motora, tão importante para o desenvolvimento da criança. O movimento é a base do domínio motor. A aprendizagem dos movimentos e o desenvolvimento das habilidades motoras devem ser os principais objetivos de qualquer atividade física, mas espe- cialmente naquelas desenvolvidas pelas escolas. A atividade física está diretamente ligada a três fatores: crescimento e desenvolvi- mento, desenvolvimento motor e aprendizagem motora. Veja o esquema abaixo: Fique ligado! • Crescimento: aumento do total da massa e do tamanho do corpo. • Desenvolvimento: maturação e diferenciação dos tecidos e órgãos que são necessários para a formação e complementação do indivíduo, como por exemplo, o desenvolvimento do sistema neu- romuscular. • Desenvolvimento motor: capacidade de exercer controle so- bre o movimento. • Aprendizagem: mudança interna do indivíduo, deduzida de uma melhoria relativamente permanente em seu desempenho, como resultado da prática. Acrescentamos a palavra motora (movimento) à palavra apren- dizagem para indicar o tipo específico de aprendizagem que nos interessa. Assim nos diz o autor: “Definimos habilidades motoras como habilidades que exigem movimento voluntário do corpo e/ou dos membros para atingir suas metas. Há uma grande variedade de habilidades motoras, por exemplo, segurar uma xícara, andar, dançar, jogar bola e tocar piano. Freqüentemente nos referimos a essas habilidades como ações. Os movimentos são componentes das habilidades e das ações. Como há habilidades motoras diferen- tes, os pesquisadores desenvolveram sistemas de classificação para organizá-las. Estes sistemas identificam características comuns das habilidades e separam-nas em categorias diferentes, de acordo com suas características. Os sistemas de classificação são importantes para ajudar os professores e terapeutas a aplicar conceitos e prin- cípios da aprendizagem de habilidades motoras em programas de treinamento e reabilitação.” (MAGILL, R. A. Aprendizagem motora: conceitos e aplicações. São Paulo, Edgard Blucher, 5ª ed., 2000. p. 15) “Discutimos três esquemas de classificação que agrupam as habilidades motoras em categoriasbaseadas em uma característica comum. Um sistema se baseia nas dimensões da musculatura ne- cessária para desempenhar a habilidade e classifica as habilidades em grossas ou finas. O segundo se baseia na distinção entre os pon- tos inicial e final de uma habilidade e classifica as habilidades em discretas ou contínuas. O terceiro sistema de classificação se baseia na estabilidade do ambiente onde a habilidade é desempenhada. Se o ambiente for estável, o sistema classifica as habilidades como habilidades motoras fechadas. Se o ambiente for variável, o siste- ma de classifica as habilidades como habilidades motoras abertas.” (MAGILL, R. A. Aprendizagem motora: conceitos e aplicações. São Paulo, Edgard Blucher, 5ª ed., 2000. p.15) “O quarto sistema de classificação se baseia em duas carac- terísticas comuns das habilidades. Gentile desenvolveu uma taxo- nomia que apresenta dezesseis categorias de habilidades motoras criadas a partir das características de habilidades: contexto ambien- tal e função da ação. A taxonomia nos ajuda a aumentar os conhe- cimentos sobre as exigências fundamentais das diferentes habilida- des motoras impostas a uma pessoa no momento em que ela está desempenhado essas habilidades. A vantagem prática dessa taxo- nomia é que ela fornece um orientação eficiente para os terapeutas e professores utilizarem na avaliação da natureza das deficiências de desempenho de habilidades motoras e, então, selecionar siste- maticamente as atividades funcionalmente adequadas para ajudar as pessoas a superar suas deficiências.” (MAGILL, R. A. Aprendiza- gem motora: conceitos e aplicações. São Paulo, Edgard Blucher, 5ª ed., 2000. p.15) Conceito 1.2 – A medida do desempenho motor é critica para a compreensão da aprendizagem motora Considerando que a infância e a adolescência se constituem nos períodos críticos mais importantes com relação aos aspectos motores, seja quanto a fatores biológicos ou culturais, nos quais o organismo se encontra especialmente sensível à influência dos CONHECIMENTOS 6868 a solução para o seu concurso! Editora fatores ambientais, tanto de natureza positiva como negativa, o acompanhamento dos índices de desempenho motor, nesses pe- ríodos, deverá contribuir de forma decisiva na promoção da saúde dos jovens. Além do que, proficiência em termos de desempenho motor se caracteriza como importante atributo no repertório de conduta motora do jovem, tornando-se, portanto, essencial para sua efetiva participação em programas de exercícios físicos. “Um elemento essencial na compreensão da aprendizagem motora é a medida do desempenho motor. Todos os conceitos apre- sentados neste texto se baseiam em pesquisas sobre a observação e medidas do desempenho motor. A medida do desempenho motor é fundamental na avaliação de deficiências motoras, na avaliação do desempenho pelos alunos ou pacientes à medida que progridem nos exercícios práticos e nos programas terapêuticos. Neste Concei- to, focalizamos diferentes formas de medir o desempenho motor, juntamente com as formas com que essas medidas foram utilizadas na investigação da aprendizagem motora e nos procedimentos apli- cados. Consideramos duas categorias de medidas de desempenho motor. As medidas dos resultados do desempenho incluem medi- das de tempo, erro e intensidade de uma resposta. Discutimos o tempo de reação, o tempo de movimento e várias medidas de er- ros mais exaustivamente, por serem tradicionalmente incluídos na pesquisa de aprendizagem motora. A segunda categoria, medidas de produção do desempenho, inclui medidas cinemáticas, cinéticas, de EMG e de EEG, que descrevem as características dos membros, articulações, músculos e atividade cerebral durante o movimento. Finalmente, discutimos a controvérsia referente à avaliação das ca- racterísticas da coordenação de movimentos complexos que ainda persiste.” (MAGILL, R. A. Aprendizagem motora: conceitos e aplica- ções. São Paulo, Edgard Blucher, 5ª ed., 2000. p. 30) CAPÍTULO 2 – O CONTROLE DO MOVIMENTO COORDENADO Conceito 2.1 – As teorias que descrevem o controle do movi- mento coordenado diferem de acordo com os aspectos centrais e ambientais de um sistema de controle. Coordenação É a padronização dos movimentos do corpo e dos membros relativamente à padronização dos eventos e objetos do ambiente (execução de um chute). Graus de liberdade É o número de elementos ou componentes independentes do sistema (músculos e articulações). Problemas dos graus de liberdade Surge quando um sistema complexo precisa ser organizado para fornecer resultados específicos (uso de alavancas ou pedais em um exercício). Sistema de controle de circuito aberto e fechado Baseiam-se em modelos de controle, fornecendo uma descri- ção exata do processo de controle do movimento humano comple- xo. Diferenças entre os sistemas aberto e fechado são duas: O sistema de controle de circuito fechado envolve feedback (5 sentidos), por exemplo: termostato e controle de velocidade. No sistema de controle de circuito aberto os comandos contêm toda a informação necessária para que os efetores realizem o movi- mento planejado (semáforo, alarmes e gravadores). Programa motor Estrutura fundamentada na memória que controla o movimen- to coordenado. Programa motor generalizado Mecanismo que pode explicar as qualidades adaptativas e flexí- veis do comportamento de movimento humano coordenado. Aspectos invariantes São diferentes ações que têm características comuns, mas sin- gulares (memória). Parâmetros Características específicas do movimento. Timing relativo São componentes de habilidade, como a força relativa necessá- ria para desempenhar uma habilidade. Esquema É uma regra ou um conjunto de regras que fornece as bases para uma tomada de decisão (conceitos). Teoria de sistemas dinâmicos Visão multidisciplinar que envolve física, biologia, química e matemática (sistema físico ou biológico complexo). Estabilidade Estado comportamental estacionário de um sistema. Se um sistema ficar perturbado, ele imediatamente voltara a um estado estacionário (movimento rítmico dos dedos). Atraidores São estados estacionários surgidos de uma instabilidade que tendem a novos comportamentos estáveis (movimento aumentado dos ritmos dos dedos). Variáveis coletivas Variáveis específicas e abstratas que definem o comportamen- to global de um sistema (rigidez muscular). Parâmetros de controle Variam livremente, de acordo com as características específicas de uma situação, como tempo, velocidade e/ou força. Auto-organização Padrão específico estável de comportamento (movimentar os dedos das duas mãos). Estruturas coordenativas Envolve unidades de comportamentos a serem controladas (si- nergias de músculos e articulações). CONHECIMENTOS 69 a solução para o seu concurso! Editora “A coordenação envolve um padrão de movimento do corpo e dos membros que caracteriza o desempenho de uma habilidade. Para adquirir esse padrão, o sistema nervoso precisa resolver o pro- blema dos graus de liberdade, ou seja, a organização dos elementos de um sistema complexo em meios eficientes e reais para atingir uma determinada meta. A maioria das teorias atuais de controle do movimento coorde- nado engloba aspectos de sistemas de controle de circuito aberto e de circuito fechado. Os dois sistemas envolvem um centro de co- mando, comandos e executores. No entanto, o sistema de circuito fechado requer feedback durante a ação. As teorias sobre a produção e controle do movimento coor- denado pelo sistema nervoso, atribuem diferentes papéis ao fato- res centrais e ambientais. As teorias baseadas no programa motor afirmam que existe um mecanismo elementar de controle baseado na memória central. Essa abordagem, que predomina atualmente, propõe que esse mecanismo seja o programa motor generalizado, isto é, uma representação abstrata da ação armazenada na memó- ria e que pode ser recuperada quando for preciso reproduzir a ação. No programa estãoarmazenados aspectos invariantes da ação, tais como a ordem dos eventos, o tempo relativo e a força relativa. Quando for preciso produzir uma determinada ação, o programa deverá ser parametrizado com características tais como a duração total, a força total do movimento e a musculatura envolvidas na realização do movimento. Os pesquisadores que investigam os as- pectos invariantes do programa motor, bem como aqueles que de- fendem uma representação central da ação, forneceram evidências que favorecem essa hipótese do controle. A teoria de sistemas dinâmicos constitui uma abordagem al- ternativa ao controle baseado no programa motor. Essa abordagem privilegia a idéia de que há uma representação central da ação, propondo que fatores como as invariantes ambientais e a dinâmi- ca dos membros, poderiam ser os responsáveis por boa parte do controle atribuído ao programa motor. A abordagem dos sistemas dinâmicos está claramente relacionada à dinâmica não-linear; seus adeptos consideram que a ação coordenada segue regras e padrões encontrados na dinâmica não-linear. O conceito de estabilidade é um componente fundamental dessa abordagem. A estabilidade é um estado comportamental estacionário preferencial que atrai os comportamentos. As variáveis coletivas, como a fase relativa, de- finem a estabilidade funcionalmente. Os parâmetros de controle, como a velocidade ou a freqüência, influem na falta de estabilidade do comportamento. A ação coordenada auto-organiza as estruturas coordenativas de acordo com as características do comportamen- to dos membros e das restrições importas pelo ambiente. O apoio, de pesquisas a esta abordagem teórica vem das demonstrações de princípios dinâmicos que caracterizam a habilidade coordenada.” (MAGILL, R. A. Aprendizagem motora: conceitos e aplicações. São Paulo, Edgard Blucher, 5ª ed., 2000. p. 55) Conceito 2.2 – A propriocepção e a visão são elementos im- portantes nas teorias do controle motor. Propriocepção Envolve a identificação senso-receptora das características de movimento do corpo e dos membros. Deaferenciação Ausência de feedback proprioceptivo, especialmente aplicado nos animais através do corte de trajetos neurais aferentes envolvi- dos no movimento. A visão envolve: controle do movimento Predomina nos sistemas senso-perceptivos Controla o direcionamento manual (escrita, locomoção, saltos, rebatida de objeto em movimento, etc). Preensão É o ato de alcançar e agarrar um objeto, esteja ele parado ou em movimento. “A propriocepção e a visão são duas fontes importantes de feedback envolvidas no controle do movimento. Para investigar o papel desempenhado pelo feedback proprioceptivo no controle do movimento, os cientistas utilizaram várias técnicas experimentais para eliminá-lo. O método mais direto envolve a deaferenciação. Quando animais foram deaferenciados depois de terem aprendi- do uma habilidade, continuaram a desempenhar esta habilidade, embora com limitações distintas na capacidade de desempenho. Os humanos deaferenciados, devido a cirurgia para colocação de próteses de articulações ou a neuropatias ou que simularam a dea- ferenciação através de procedimentos de bloqueio de nervos, apre- sentaram características semelhantes. Os resultados dessas abor- dagens mostraram que o feedback proprioceptivo é importante no controle do grau de precisão nos movimentos dos membros e no timing do início dos comandos motores. A visão tende a ser dominante como fonte de informação sen- sorial no controle de movimentos voluntários. Essa tendência é bem ilustrada por situações em que a visão e o feedback proprio- ceptivo fornecem informações conflitantes, como na experiência da sala em movimento. Pesquisas sobre atividades de direcionamento manual mostraram que o sistema de controle motor requer um pe- ríodo de tempo para a correção de erros de aproximadamente 150 a 260 ms, para que o feedback visual altere um movimento. Exami- namos o papel que a visão desempenha no controle do movimento discutindo uma variedade de habilidades motoras e descrevendo como a informação visual é importante no desempenho de habili- dades como: direcionamento manual, preensão, escrita à mão, ha- bilidades locomotoras, saltos de altura, agarrar uma bola, e rebater uma bola de beisebol ou de tênis de mesa. Um dos papeis consis- tentes da visão nessas habilidades é de ajudar as pessoas a preparar os movimentos dos membros e do corpo, em relação às caracterís- ticas de posição inicial dos membros e do corpo e às características do ambiente do desempenho. Em habilidades que exigem movi- mentos precisos dos membros, a visão fornece informações para a corrigir os erros e garantir que o indivíduo execute o movimento com precisão.” (MAGILL, R. A. Aprendizagem motora: conceitos e aplicações. São Paulo, Edgard Blucher, 5ª ed., 2000. p. 73) Conceito 2.3 – As teorias do controle motor fornecem as ba- ses para compreendermos como controlar habilidades motoras complexas Compromisso entre velocidade e precisão Consiste no desempenho rápido e preciso de uma habilidade (Paul Fitts). CONHECIMENTOS 7070 a solução para o seu concurso! Editora Lei de Fitts Especifica a relação entre distância (velocidade) e tamanho/ largura do alvo (precisão), para que o tempo de movimento possa ser calculado. Índice de dificuldade (ID) Envolve a relação intrínseca entre o tamanho (precisão) do alvo e a distância (velocidade) percorrida. Quanto mais alto do ID, mais difícil será a tarefa. Equivalência motora É a adaptação às necessidades específicas impostas pelo con- texto, ajustando tamanho, força, direção e músculos a imposições de uma tarefa. Coordenação bimanual Implica em realizar com as duas mãos dos mesmos movimen- tos ao mesmo tempo (tocar piano). A coordenação unimanual envolve a maioria dos movimentos realizados no dia a dia. “Essa discussão destacou-se a controvérsia atual referente a como o sistema nervoso controla as habilidades coordenadas con- siderando diversos tipos de habilidades. Dentro de cada habilidade, a discussão focalizou-se em como as abordagens fundamentadas no programa motor e nos sistemas dinâmicos do controle, expli- cam as características específicas do desempenho. As habilidades de direcionamento manual, que envolvem um compromisso entre a velocidade e a precisão, seguem as previsões da Lei de Fitts, para qual foram propostas hipóteses baseadas nas duas abordagens das teorias de controle. Outras habilidades unimanuais consideraras fo- ram a preensão e a escrita à mão. Também discutimos habilidades bimanuais assimétricas, tarefas de batidas polirritmias, movimen- tos de alavancas bimanuais assimétricas, tarefas de batidas polir- ritmicas, como aquelas freqüentemente envolvidas em tocar piano, bateria ou em malabarismos. Para cada uma dessas habilidades envolvendo os dois braços, os teóricos propuseram modelos ba- seados tanto no programa motor quanto nos sistemas dinâmicos, para explicar como essas habilidades são controladas. As ações de levantar-se da posição sentado pata ficar em pé mostram a existên- cia de vínculos funcionais entre os membros e as articulações, que permitem à pessoa desempenhar uma ação desejada. Finalmente, consideramos o modo de andar. Em geral, o passo é controlado por um gerador de padrão central no nível espinal, mas a pessoa pode adaptar o passo pata atingir níveis mais altos de controle, quando for necessário produzir desvios específicos do ritmo do passo nor- mal.” (MAGILL, R. A. Aprendizagem motora: conceitos e aplicações. São Paulo, Edgard Blucher, 5ª ed., 2000. p. 88) CAPÍTULO 3 – PREPARAÇÃO DO CONTROLE MOTOR E ATEN- ÇÃO Conceito 3.1 – O desempenho do movimento coordenado vo- luntário exige a preparação do sistema de controle motor Até aqui temos trabalhado com a definição de programa motor como uma série de comandos motores organizados centralmente, que permitem que ações sejam feitas na completa ausência de fee- dback sensorial. Uma idéia adicional associada