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a previdencia social como direito fundamental

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A Previdência Social como Direito Fundamental 
 
 
Fábio Zambitte Ibrahim 
 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
O debate sobre a previdência social tem encontrado cada vez mais abertura no meio 
acadêmico. Antes restrito a tecnocratas, esse sistema de proteção social finalmente tem 
guarida na seara jurídica, decorrência natural de sua expressa previsão como direito social 
no art. 6º da Constituição de 1988, aliada ao reconhecimento de sua jusfundamentalidade. 
Tal avanço é perceptível pelo aumento da produção jurídica sobre a matéria nos últimos 
anos, pois o estudo do direito previdenciário era algo limitado a poucos especialistas e de 
escasso desenvolvimento. Um evidente reflexo desse passado inglório é o fato de essa 
disciplina, até os dias de hoje, ainda não se encontrar entre as matérias obrigatórias na 
maioria das faculdades de direito. 
O debate previdenciário, quando limitado a questões puramente econômicas, acaba 
deixando de lado um aspecto relevantíssimo da previdência social, que é sua função 
protetora, capaz de garantir a vida digna dos trabalhadores e seus dependentes. Ademais, a 
fixação de prestações previdenciárias, em razão das necessidades sociais, permite aos seus 
beneficiários uma efetiva atuação no regime democrático, sendo ainda mecanismo concreto 
para a garantia da liberdade real1. 
 
1 Como aponta Peces-Barba Martinez, el primer argumento pues para defender su inclusión en la categoría 
genérica de los derechos fundamentales, pasa por este reconocimiento de la conexión de los derechos 
económicos, sociales y culturales, con la generalización de los derechos políticos. Su objetivo era la 
igualdad a través de la satisfacción de necesidades básicas, sin las cuales muchas personas no podían 
alcanzar los niveles de humanidad necesarios para disfrutar de los derechos individuales, civiles y 
políticos, para participar en plenitud en la vida política y para disfrutar de sus beneficios. (Los derechos 
econômicos, sociales y culturales: su génesis y su concepto. Revista Derechos e Libertades, del Instituto 
Bartolomé de las Casas, p. 25). Também afirma o mesmo autor, em outra obra, que los derechos sociales 
no séran sólo un remedio para la satisfacción de necesidades básicas, serán también un instrumento 
imprescindible para convertir en real ese tenor generalizador, y para que todos puedan gozar de hecho de 
los derechos individuales y civiles y participar, en igualdad de condiciones, en los derechos políticos. 
(Derechos sociales y positivismo jurídico, p. 17). 
Tais questões, por mais óbvias que possam nos parecer hoje, eram frequentemente 
deixadas de lado, dadas as análises puramente econômicas do gasto previdenciário. É certo, 
como se verá, que as questões financeiras e atuariais são relevantes e devem ser 
consideradas, até por expressa previsão constitucional (art. 201, caput), mas o efetivo 
reconhecimento da eficácia normativa da Constituição impõe uma visão mais abrangente. 
De início, é mister uma digressão sobre a previdência social, expondo suas origens e 
principais características, permitindo, assim, a exclusão de pré-compreensões equivocadas 
sobre o tema. 
 
 
2. PREVIDÊNCIA SOCIAL: SURGIMENTO E EVOLUÇÃO 
 
Como usualmente reconhecido, o surgimento da proteção social foi propiciado pela 
sociedade industrial, na qual a classe trabalhadora era dizimada pelos acidentes do trabalho, 
a vulnerabilidade da mão de obra infantil, o alcoolismo, etc. Há uma insegurança 
econômica excepcional pelo fato de a renda desses trabalhadores ser exclusivamente obtida 
pelos seus salários. Ademais, a lei da oferta e da procura mostra-se, neste estágio, perversa, 
haja vista a enorme afluência de pessoas da área rural para as cidades2. 
A previdência social origina-se, então, das lutas por melhores condições de trabalho, as 
quais resultaram em diferentes sistemas protetivos, de acordo com as situações de cada país 
envolvido. Alguns limitaram a proteção ao necessário à sobrevivência, enquanto outros 
foram além, buscando implementar até a substituição plena da remuneração. Tais variações 
colocam em destaque as diferentes estruturas dos sistemas de proteção. Basicamente, todos 
buscavam uma previdência social como garantia, ao menos, do mínimo vital, de modo 
viável financeiramente3. 
Tal sistema de proteção social germina na concepção de socialismo de Estado4, de 
modo a provocar uma linha de resistência às concepções socialistas que cresciam no século 
 
2 Cf. DUPEYROUX, Jean-Jacques. Droit de la sécurité sociale, p. 16-17. Cf., também, BONAVIDES, Paulo. 
Do estado liberal ao estado social, p. 186. 
3 Cf. KORPI, Walter. Contentious institutions: an augmented rational-action analysis of the origins and path 
dependency of welfare state institutions in the western countries. Rationality and Society, p. 3. Disponível 
em http://www.sofi.su.se/4-2000.pdf. Acesso em: 11 maio 2005. 
4 Cf. DURANT, Paul. La política contemporánea de seguridad social, p. 105. 
XIX, mediante a cooperação entre empregados e empregadores. Nesse contexto surgiu, 
inicialmente, o modelo bismarkiano de previdência social, o qual adotara técnicas 
semelhantes aos seguros comerciais e atividades mutualistas, mas com melhoramentos5. 
A reforma de Bismark, na Alemanha, iniciou-se com o famoso projeto enviado ao 
Reichtag em 17 de novembro de 1881, criando uma nova concepção de Estado, o qual 
também passaria a deter a missão de promover positivamente o bem-estar, ainda que de 
modo limitado – inicialmente, os benefícios eram restritos aos trabalhadores da indústria 
que recebiam valores inferiores a determinado piso6. Longe de refletir uma preocupação 
governamental com os mais desprovidos, veio como freio ao crescimento das doutrinas 
socialistas. Sem embargo, aqui, efetivamente, o Estado passou a ter também obrigações 
positivas, exigindo cotizações forçadas dos trabalhadores da indústria e fixando o benefício 
previdenciário como direito subjetivo. No período entre guerras, em razão da diversidade 
de problemas sociais, novas ações foram criadas, como a ampliação das pessoas protegidas, 
maior financiamento e até mesmo maior participação do Estado. 
Posteriormente, surgiu o Social Security Act, em 1935 nos Estados Unidos, com 
abrangência mais ampla que os antigos sistemas de seguro social7, maior cobertura de 
pessoas e necessidades sociais. Logo após há o conhecido Plano Beveridge, na Inglaterra de 
 
5 Cf. NEVES, Ilídio das. Direito da segurança social, p. 150. Como também explica Paul Durant, em maiores 
detalhes, os sistemas de seguro social tiveram como precedente o alemão, criado a partir de 1883. A 
Alemanha iniciou a evolução por diversos motivos, tais como: a ampliação da população com grande 
concentração nos centros urbanos, derivativo da incipiente industrialização. Ademais, há precedentes 
históricos que facilitavam a criação do seguro social, pois a Prússia, desde 1810, já previa o ônus protetivo 
dos empregadores. Por fim, o rápido crescimento do proletariado, com cada vez mais representantes 
comunistas eleitos no Parlamento, produziu razoável inquietação em Bismark, que iniciou o processo de 
criação e expansão dos direitos sociais (La política contemporánea de seguridad social, p. 104). Conforme 
lembra Dupeyroux, o ambiente era favorável na Alemanha ao surgimento do seguro social, em razão de 
motivos econômicos (migração elevada para a área urbana), jurídicos (precedentes prussianos do seguro 
contra acidentes), ideológicos e políticos (Droit de la sécurité sociale, p. 23). 
6 Cf. DUPEYROUX, Jean-Jacques. Droit de la sécurité sociale, p. 23. 
7 No Brasil, as expressões “seguro social” e “previdência