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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 
INSTITUTO DE LETRAS 
LÍNGUA PORTUGUESA III 
PROFESSOR : ANDRÉ VALENTE 
CURSO: SINTAXE DO PERÍODO COMPOSTO 
OBS: APOSTILA SEM FINS LUCRATIVOS 
2018 
38 João Cabral: Uma Poética da Escrita 
Notas 
1 ECO, Umberto. Universidade e Mídia. In: A Universidade e os Meios de Comuni-
cação de Massa, 1991, p. 14. 
1 FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses, 1966, p. 53. 
7 BENJAMIN, Walter. Pequena História da Fotografia. In: Benjamin, Walter. Sociolo-
gia, 1985, p. 240. 
4 GODZICH, Wlad. 77us Culture oj Uteracy, 1994, pp. 26-27. 
1 DUBOIS, Claude-Ollbert. A Imaginação da Renascença, 1985, p. 69. 
4 DERRIDA, Jacques. Vicriture et Ia diffirence, 1967, p. 317. 
7 FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses. Op. cit., p. 53. 
• MERLEAU-PONTY, Maurice. Sinais, 1962. p. 131. 
' ONO, Walter J. Oralità e Scrittura: Le Tecnologle delia Parola, 1986, p. 122. 
1 0 DELEUZE, Oilles. Critique et clinique, 1993, p. 11. 
" Idem, p. 15. 
f f f^Aé ^ ^ j r n Estudo sobre a Correlação 
(Em J . Oiticica e Outros Autores) 
Os Processos de Composição do Período, 
segundo a Nomenclatura Gramatical Brasileira 
A Nomenclatura Gramatical Brasileira registrou apenas dois 
processos de Composição do Período: a Coordenação e a Subordina-
ção. A Comissão, responsável e composta pelos autores Antenor 
Nascentes, Cândido Jucá, Carlos Henrique da Rocha Lima, Celso 
Ferreira da Cunha e Clóvis do Rego Monteiro, procedeu em conso-
nância com os princípios que nortearam a elaboração da Nomencla-
tura. Observe-se a consideração feita ao ministro Clóvis Salgado: 
Revela salientar que a Comissão, ao considerar as mo-
dificações propostas, teve sempre Çm/nira a recomenda-
ção de V. Ex.° constante da Portâria Ministerial n.° 152 
- "uma terminologia simples, adequada e uniforme" -
bem como atender ao tríplice aspecto fixado nas Normas 
Preliminares de Trabalho: 
a) a exatidão científica do termo;, 
b) sua vulgarização internacional; 
c) sua tradição na vida escolar brasileira. 
i 
40 Um Estudo sobre a Correlação 
Até aquela época (1958), a maioria dos autores também só 
aceitava os dois processos de Composição do Período. Dentre os que 
discordavam de tal orientação, destacou-se o professor José Oiticica. 
Em Manual de Análise, Oiticica salientava: 
Sendo tidas, em geral, como casos especiais da subordi-
nação, cousa inadmissível, pouco se têm ocupado as 
gramáticas e os Métodos com as correlações, dificultan-
do intensamente o estudo da análise... 
Insisto, pois, na necessidade de considerar a correlação 
processo de composição do período diferente da coorde-
nação e da subordinação (MA, grifos nossos). 
Ainda no Manual de Análise, José Oiticica inclui a Justaposi-
ção entre os processos de Composição do Período. Mais adiante, em 
Teoria da Correlação, ratifica sua posição. Se a necessidade de 
sintetizar e uniformizar estava bastante presente na preparação da 
Nomenclatura Gramatical Brasileira, seria por demais simplista a idéia 
de que, em nome da síntese, fez-se a opção por somente dois proces-
sos sintáticos. A nosso ver, o que ocorreu foi uma verdadeira tomada 
de posição por parte dos autores da Nomenclatura. Na realidade, eles 
expressaram o pensamento da maioria dos nossos estudiosos, o que 
talvez possa ser resumido nas palavras do professor Evanildo Bechara: 
(...) coordenação e subordinação, como tipos de oração 
(melhor diríamos aqui, orações independentes e depen-
dentes), não estão no mesmo plano da correlação e jus-
taposição. Os dois primeiros conceitos dizem respeito ao 
valor sintático de independência ou dependência em que 
se acham as orações dentro do contexto; correlação e 
justaposição se referem ao modo de se ligarem entre si 
essas mesmas orações (...) (LPAS, p. 127). 
Note-se, ainda, que havia quem reconhecesse a existência de 
quatro processos associativos de orações, mas, por uma questão didá-
André Crim Valente 41 
tica, analisasse conforme a orientação da Nomenclatura Gramatical 
Brasileira. É o caso do professor Delson Gonçalves Pere|ira, ao afir-
mar que os quatro processos podem reduzir-se aos três primeiros, 
considerando o quarto como uma apresentação ocasional e "acidental-
mente" diferente da coordenação e da subordinação. Delson Gonçal-
ves conclui que, "na coordenação, há independência de orações; na 
subordinação, dependência; na correlação, as orações são 
interdependentes, e a justaposição cai na coordenação assindética ou 
na subordinação sem o conectivo subordinativo" (AS, pp. 45-46). 
Professor Rocha Lima, em Teoria da Análise Sintática, diz-nos 
que, de acordo com o modo por que as orações se dispõem e se 
relacionam, o período apresenta quatro estruturas típicas. São os "pro-
cessos sintáticos" de Coordenação, Subordinação, Correlação e Justa-
posição. E Rocha Lima conclui que: 
Há, ainda, o período "misto", conseqüência da combina-
ção variada desses quatro processos fundamentais. Ele 
deve, porém, ser considerado à parte, uma vez que não 
constitui um tipo estrutural definido (TAS, p. 54). 
Ao tratar dos processos sintáticos em sua extraordinária obra 
Comunicação em Prosa Moderna, o professor Othon Moacyr Garcia 
observa que, "num período composto, normalmente estruturado - isto 
é, não constituído por frases de situação ou de contexto - as orações 
se interligam mediante dois processos sintáticos universais: a coorde-
nação e a subordinação. A justaposição, apesar de legitimamente 
abranger uma e outra, é ensinada no Brasil como variante da primeira, 
e a correlação, como variante da segun,da^. Em consideração sobre a 
Nomenclatura Gramatical Brásileira, Qíhon M. Garcia destaca que, ao 
tratar da Composição do Período, a Nomenclatura ignorou a Justapo-
sição e a Correlação. Observa então': 
É que, segundo orientação lingüística mais atualizada, a 
justaposição, como processo sintático, consiste em enca-
dear frases sem explicitar por meio de partículas 
42 Um Estudo sobra a Correlação 
coordenativas ou subordinativas a relação de depen-
dência entre elas. Nesse sentido, dá-se-lhe também o 
nome de "parataxe". A correlação é uma construção 
sintática de duas partes relacionadas entre si, de tal 
modo que a enunciação da primeira prepara a 
enunciação da segunda (CPM, p. 14). 
A Corre lação 
Entre os processos de Composição do Período, a Nomenclatura 
Gramatical Brasileira não inclui a Correlação, que é um processo 
sintático com interdependência entre as Orações. Professor Joaquim 
Mattoso Câmara Jr. definiu a correlação como "construção sintática 
de duas partes relacionadas entre si, de tal sorte que a enunciação de 
uma, dita prótase, prepara a enunciação de outra, dita apódose" (DFG, 
p. 105). Segundo Mattoso Câmara, conforme o conectivo utilizado e 
a noção de seqüência ou de sintagma, respectivamente teremos a 
correlação, por coordenação ou subordinação. Exemplos: 
É não só inteligente mas culto. 
É tão culto que. inibe as pessoas. 
No que respeita às construções com prótase e apódose, Othon 
M. Garcia observa que elas "aparecem com mais freqüência no estilo 
oratório assim como na argumentação de um modo geral. Não carac-
terizam, senão excepcionalmente, o estilo narrativo e o descritivo, a 
menos que se considere como prótase a simples anteposição de adjun-
tos adverbiais à oração principal. Isto, sim, é comum" (CPM, p. 44). 
E Rocha Lima entende a correlação como um processo sintático, de 
características absolutamente próprias, onde "não há independência 
das orações componentes do período, como na coordenação; nem 
subdependência, como na subordinação. Existe, a vigor, 
paradependência" (grifos nossos). Exemplo: 
A rã inchou tanto, que estourou. 
André Crim Valente 43 
Em Novo Manual de Análise Sintática, o professor Gladstone 
Chaves de Melo define a correlação como "um processo mais com-
plexo, em que há, de certomodo, interdependência. Dá-se neste pro-
cesso a intensificação de um dos membros da frase ou de toda a frase, 
intesificação que pede um termo. Muitas vezes há como a retenção 
para um salto, a que se segue o salto" (NMAS, p. 113). Exemplo: 
...abraçou-me com tal ímpeto, que não pude evitá-lo. 
(Machado de Assis) 
Em Manual de Análise, José Oiticica, após ilustrar com exem-
plos a coordenação e a subordinação, utiliza o período "tal era o pai, 
tal é hoje o filho", para caracterizar a correlação: 
Nesse exemplo, as orações são independentes em sen-
tido, mas se acham presas uma à outra por uma com-
paração, com "paralelismo" na apresentação dos dois 
conceitos. Esse paralelismo se revela pela anteposição 
do mesmo termo "tal" a cada frase. Chama-se isso 
"correlação", e as duas orações se dizem "correlatas". 
"Tal", nesse exemplo, é o termo "correlativo" (MAS, 
p. 224). 
A Teoria da Correlação, de José Oiticica 
A obra de José Oiticica está esgotada há anos. Neste capítulo, 
aproveito para fazer uma síntese de sey trabalho e apresentá-lo aos 
que não o conhecem. Cabe registrar quê ò livro contém "Introdução" 
de João Luiz Ney, que, por .solicitação do próprio José Oiticica, pôs 
em esquemas os 55 Exemplos do trabalho. 
Para Oiticica, o essencial de sua doutrina reside nos seguintes 
pontos: (TC, p. 15). 
a) uma comparação de igualdade. 3 
44 Um Estudo sobre a Correlação 
b) uma adição introduzida em cada frase por termos indepen-
dentes ("não só... mas também"), dos quais mencionado o 
primeiro, somos forçados a mencionar o segundo. 
c) de uma relação de causa e efeito tal, que, mencionando um 
termo intensivo da primeira, a segunda, iniciada por "que", 
se toma obrigatória. 
Julga indispensável fazer uma explanação mais demorada e com 
maior discriminação. Tece, a seguir, considerações sobre a coordena-
ção e a subordinação. Propõe-se, então, a examinar o que sucede com 
as correlações: 
Incluí-las-emos na coordenação! Enquadrá-las-emos na 
subordinação! Colocá-las-emos umas na coordenação, 
outras na subordinação! 
Com o objetivo de responder às perguntas formuladas, irá fazer, 
"no vasto campo das correlatas, cuidadosa discriminação", inexistente, 
até então, em qualquer gramática nacional ou estrangeira. José Oiticica 
dividirá seu estudo em quatro Grupos que denominaremos: 
1. °) correlatas aditivas. 
2. °) correlatas comparativas de igualdade. 
3. °) correlatas comparativas de superioridade ou inferioridade. 
4. °) correlatas comparativas de intensidade. 
No 1 * Grupo, Oiticica nos mostra a correlação entre duas orações 
e entre dois termos de uma oração. Procura enfatizar as estruturas dis-
tintas quando empregamos a conjunção "e" ou os termos correlatos "não 
somente... mas também". O primeiro termo correlato é denotativo ne-
gativo de restrição, e nos força a iniciar a segunda oração com o 
denotativo de inclusão "mas também" (ou equivalente: "mas ainda", 
"como ainda", "como também", "senão que", etc). Exemplo: 
Não somente Robson correu, mas também ele nadou. 
André Crim Valente 45 
Oiticica ainda exemplifica com outros termos com a mesma 
função (apostos, objetos diretos, adjuntos adverbiais), correlacionados 
aditivamente. Lembra-nos que pode haver braquilogia, ou "encurta-
mento do período por latência de alguns elementos". Exemplo: 
Surgiram questionamentos dos alunos, como dos funcionários. 
No 2." Grupo, Oiticica apresenta diversos tipos de correlação 
comparativa de igualdade: 
a) referida à identidade: 
Tais foram suas promessas, tais são hoje suas realizações. 
b) referida à qualidade: 
Tal fora o pai, tal é o filho. 
Observações: 
1 .*) A estrutura tem um modelo (o pai) e um modelado (o fi-
lho). Se o modelado vem antes, o modelo é introduzido por 
"qual" ("O filho é tal qual o pai"). Pode ocorrer braquilogia 
("O filho é qual o pai"). 
2.*) Oiticica classifica "tal" e "qual" como adjetivos qualifica-
tivos, sintéticos, indefinitos. Entende que são palavras 
vicárias. 
c) referida à intensidade: 
Tanto tocava um, tanto dançatzap outro. 
Observações: 
1.*) A comparação de. igualdade valoriza a intensidade indefi-
nida entre atos diferentes. Encontramos o modelo (o que 
toca) e o modelado (o que dança). Na 2.' oração, o modelo 
exige "quanto" ("Tanto dançava um, quanto tocava o ou-
tro"). 
Um Estudo sobre a Correlação 
2. *) A intensidade pode verificar-se com o mesmo fato ("Tanto 
puxava um, tanto puxava o outro"), podendo aparecer "quan-
to" ou "como" na 2.* oração. 
3. ' ) Quando a intensidade se refere a um nome, "tanto" e "quan-
to" viram adjetivos. Exemplo: 
Tanta bondade tinha ela, quanta ruindade mostravam os 
parentes. 
d) referida a uma quantidade progressiva: 
Tanto mais cantava o artista, tanto mais vibrava a platéia. 
Observações: 
1. *) Oiticica afirma que "a correlação quantitativa, já de si 
intensiva, pode ser intensificada pelo advérbio 'mais' e 
pelos adjetivos comparativos". Admite a correlação quan-
titativa progressiva com valor antitético ("Tanto mais 
lavrava o incêncio, tanto menos cresciam os recursos 
para dominá-lo") . 
2. *) Entendo que as estruturas correlatas com valor progressivo 
("quanto" ou "tanto", "mais", "menos", "maior", "menor", 
"melhor", "pior") devem ficar entre as proporcionais. En-
contro apoio para a minha idéia em Adriano da Gama Kury 
e Gladstone Chaves de Melo. 
e) referida à combinação de qualidade com intensidade: 
Tão bela foi a mãe, tão feia é a filha. 
Observação: 
É comum a correlação com a mesma qualidade ("Tão bela 
foi a mãe, quanto o é a filha"). 
f) referida aos modos: 
Assim ditava o mestre, assim escrevia o discípulo. 
André Crlm Valente 4 7 
Observações: 
1. *) Na 1* oração, pode aparecer "assim como", ou "como". Na 
2.*, "assim também". 
2. *) Surge uma estrutura diferente com a posposição do modelo 
("O discípulo escrevia tal qual o mestre ditava"). 
No 3.° Grupo, Oiticica exemplifica com correlatas comparativas 
de superioridade e, no final, diz que os "Comentários" se aplicam à 
comparativa de inferioridade, com substituição de "mais" por "me-
nos", e "maior" por "menor". Oiticica destaca a impossibilidade de 
"se prender a segunda oração diretamente a algum verbo como ocorre 
na subordinação das substantivas e adverbiais, ou a um substantivo 
qual sucede com as adjetivas". Na correlação comparativa de superi-
oridade, são indispensáveis dois termos: o advérbio "mais" e a con-
junção "que" ("do que"). A segunda oração tem apoio no "mais". 
Podem ocorrer diversas comparações: 
a) de dois fatos atribuídos ao mesmo indivíduo: 
Edu compõe mais que canta. 
b) de dois fatos atribuídos a entidades diferentes: 
Edu compõe mais facilmente do que Paulo Mendes faz poesia. 
c) o intensivo "mais" pode anteceder um adjetivo qualificativo: 
Jô é mais culto que Agildo 
Observações: , . 
1.*) Por ser facilmente subentendido,'costuma-se omitir o adje-
tivo. Exemplo: 
Ele imagina que é mais do que Luís Inácio. 
2.*) O "mais" pode juntar-se a substantivo. Exemplo: 
Tem mais samba no encontro que na espera. 
(Chico Buarque) 
5 
48 Um Estudo sobre a Correlação 
José Oiticica considera um caso especial de correlação compa-
rativa de superioridade a que se verifica com os chamados adjetivos 
comparativos sintéticos ("maior", "menor", "melhor" e "pior"). Com 
eles, não se pode usar complemento terminativo (como ocorre com 
"superior", "anterior", "exterior", etc). Os quatro supracitados são 
seguidos de oração latente, uma vez que não se repete o adjetivo 
implícito no comparativo. Exemplo: 
A Terra é maior ("mais grande") do que a Lua ("é grande"). 
Para Oiticica, foi problemática, durante algum tempo, a origem 
daquele "do" precedente à conjunção "que". Chegou a aventar a hipó-
tese de a expressão "do que" ser resultante de cruzamento ou conta-
minaçãodos dois processos de correlação: o por complemento (maior 
"de todos"), e o oracional (maior "que todos"). Depois, passou a 
aceitar a explicação de Delson Gonçalves Pereira: 
(...) a expressão "do que" não se originou da contamina-
ção de duas formas de exprimir o 2.° termo da compara-
ção, mas do esquecimento das funções de "o" e "que", e 
da falsa analogia de "do que" e "que" (conj. comp.), que 
muito concorreu para identificá-las (...). 
De nossa parte, fomos conferir no estudo exemplar de Augusto 
Epiphanio da Silva Dias, Syntaxe Histórica da Língua Portuguesa, 
onde o mestre nos elucida a questão: 
(...) dizia-se, e diz-se, correctamente "vi mais do que 
desejaria" por "vi mais que o (= "aquilo") que desejaria" 
(cf. nos Lusíadas [U, DQ: ...notárãol muito menos d'aquillo 
que querião). D'ahi por confusão, vem "do que" a tomar 
o lugar da simples partícula comparativa "que" (...) (SHP, 
p. 171). 
André Crim Valente 49 
No 4° Grupe (as consecutivas), José Oiticica ressalta a relação 
de causa e efeito (conseqüência) nesse tipo de correlação, cujas carac-
terísticas básicas são: 
1. ") A oração correlata consecutiva exprime uma conseqüência; 
2. ") A conseqüência resulta de um fato enunciado enfaticamen-
te, isto é, com vigor acima do comum; 
3. ') A consecutiva se prende sempre à oração causativa por um 
termo intensivo (advérbio, adjetivo ou mero denotativo: 
"tanto", "tal", "tão", explícitos ou implícitos); 
4. ') O segundo termo correlativo é a conjunção correlativa "que". 
Exemple: 
Tanto eles me estimularam, que eu escrevi o livro. 
O elemento de valor enfático pode modificar um adjetivo, um 
substantivo ou um advérbio. Exemplos: 
Cláudia estava tão sexy, que nos perturbou. 
Alicia dançou com tanto charme, que todos ficaram extasiados. 
Garrincha driblava tão bem, que desnorteava o marcador. 
O Io termo correlativo pode ser "tal", com valor de "tão 
grande", "tão intenso". Exemplo: 
A dor de Gil foi tal, que ele cancelou o show. 
Às vezes, "tal", como adjetivo, vem preso a um substan-
tivo. Exemplo: 
Sua dor foi de tal ordem, que ele ficou arrasado. 
t 7 
i f. • 
Oiticica faz uma observação bastante peculiar sobre "tal" nes-
ses exemplos, onde é quantitátivo e "tem sentido perfeitamente defi-
nido, com a equivalência assinalada. Porém, se realça qualidade, e isto 
é muito relevante, tal só é definido 'pela consecutiva". Exemplo: 
Seu procedimento foi tal, que... 
50 Um Estudo sobre a Correlação 
Oiticica ressalta que não sabe se "tal" significa "tão nobre", ou 
se "tão indigno". Somente a conseqüência explicitará. Exemplos: 
Seu procedimento foi tal, que o elogiaram publicamente. 
Seu procedimento foi tal, que o expulsaram do clube. 
Lembra-nos o mestre que esse "tal" na oração causativa, por 
representar um só adjetivo não mencionado, claro ou definido pela 
consecutiva, resume um adjetivo qualificativo não explícito, mas de-
finido ou definível e, mais, o intensivo ou ênfase. É um "adjetivo 
qualificativo intensivado inexplícito". 
Quanto às estruturas do tipo "Eles falavam de maneira tal, que 
ninguém os entendia", Oiticica afirma que a correlação está bem cla-
ra. Pode haver inversão ("de tal maneira") ou omissão ("Eles falavam 
de maneira que ninguém os entendia"). A correlação com "tal", ocul-
to, é caso comum de braquilogia, o que não foi bem entendido por 
alguns gramáticos que inventaram locuções conjuntivas do tipo "de 
maneira que", "de modo que", "de forma que", muito estranhas, se-
gundo Oiticica, visto que "começavam com a preposição 'de', cousa 
impossível numa locução conjuntiva". Oiticica considera curiosíssimo 
o período "Fiquei alegre, tais foram as notícias", porque a conseqü-
ência está na 1.* oração, e a causa na 2.* oração. Comenta então: 
A inversão feita por ênfase, para valorizar o fato mais impor-
tante, minha alegria, alterou de todo a estrutura, deformou-a. 
Sugere o mestre que desfaçamos a inversão e restabeleçamos a 
estrutura normal. Exemplo: 
As notícias foram tais, que fiquei alegre. 
Encerra seu estudo, professor José Oiticica, com a abordagem 
do período "As cousas chegaram a tal ponto, que desistimos". Afir-
ma-nos ser uma correlação muito usada pelos clássicos, com variante 
para "a tal extremo que". Por influência do idioma francês, pode-se 
usar a preposição no 2." elemento, e o verbo no infinitivo: Exemplo: 
Trabalharam a ponto de não poderem ter-se em pé. 
André Crim Valente 51 
Observação: 
Havendo braquilogia, a análise fica prejudicada caso não se 
reintegre o 1.° termo correlativo. O exemplo anterior poderia ter a 
seguinte forma: 
Trabalharam de não se poderem ter em pé. 
Estariam no mesmo caso as construções "gritavam de ensurde-
cer", "dancei de enjoar", e "correu de cair". 
Outros Estudos 
Além do estudo de José Oiticica, o melhor e mais fundamen-
tado trabalho, a correlação também foi tratada com destaque por 
Gladstone Chaves de Melo (em Novo Manual de Análise Sintática), 
e por Carlos Henrique da Rocha Lima (em Teoria da Análise Sintá-
tica). 
Chaves de Melo nos diz que a correlação pode ser consecutiva, 
comparativa, equiparativa e alternativa, com as seguintes caracterís-
ticas: 
ã) Consecutiva: "O segundo termo exprime a conseqüência do 
que foi expresso pelo primeiro". Exemplo: 
Tão temerosa vinha [a nuvem] e carregada. 
Que pôs nos corações um grande medo (Camões). 
Chaves de Melo observa que, em alguns casos, principalmente 
na linguagem falada, o elemento intensificador ("tão", "tanto", etc.) 
não aparece. Ocorre uma intensificação Çonética na 1,' oração. Exem-
plo: * / 
Chovia, que era um desespero. 
b) Comparativa: "O segundo termo é simplesmente o segundo 
elemento de um cotejo. Pçr ser o mesmo da 1 .* oração, é 
comum a omissão do predicado na 2.*". Exemplo: 
Tomás é tão sagaz quanto Paulo. 
52 Um Estudo sobre a Correlação 
c) Equiparativa: "O segundo termo é posto à altura do primeiro, 
é colocado em pé de igualdade, não como na coordenação, 
mas diversamente, com a abertura e a posterior satisfação de 
uma expectativa". Usam-se as expressões "assim... assim 
também", "não só... mas também/ senão também", "assim 
como... assim", etc. Exemplos. 
E assim como o espelho é todos os objetos representativa-
mente, assim este entendimento é todas as cousas intencio-
nalmente (Bemardes). 
Não só de pão vive o homem, mas [vive] de toda palavra 
que sai da boca de Deus (MAT, IV, p. 4). 
Observação: 
Em verdade, a correlação equiparativa de Gladstone C. de 
Melo corresponde à correlação comparativa de igualdade e 
à correlação aditiva, formuladas por José Oiticica. 
O próprio Gladstone Chaves de Melo reconhece que "esta úl-
tima sistematização e denominação apresento-a aqui, ainda como 
ensaio. A matéria é complexa e esquiva, pelo que antes peço suges-
tões do que as dou". Alertado pela professora Amália Beatriz Cruz 
Costa, que não gostou da correlação equiparativa, Chaves de Melo 
admite falar também numa correlação proporcional em frases como 
"Quanto mais ele falava, tanto menos eu o entendia". 
d) Alternativa: "Há uma escolha ou uma hipótese, seguida ime-
diatamente de rejeição e substituição, seqüência já anuncia-
da antes da primeira oração". 
Gladstone Chaves de Melo julga ser descoberta sua a correlação 
alternativa a partir da análise das orações coordenadas(?) alternativas 
(sic), com base na seguinte questão: 
André Crlm Valente 53 
Poder-se-á dizer que em casos como "Ou você me 
paga esta semana, ou te cobro judicialmente!" existe co-
ordenação! Serão independentes as orações deste 
período! Ou serão interdependentes! 
Sugere, então, a distinção de dois tipos de alternância sintática: 
uma singela (com conectivo explícito só a partir do 2." termo), outra 
mais complexa (com o conectivo a encabeçar já o 1." termo). Exem-
plos: 
Desapareceu ou morreu, não se sabebem. 
Quer você me acompanhe quer me deixe só, tomarei esse 
caminho, que é o que considero certo. 
Para Gladstone Chaves, de Melo, na alternância complexa a 
construção passa a mostrar "cores nítidas de correlação, tanto é ver-
dade que, ao anunciar-se o i , " termo, já se faz sentir a interdependência, 
característica distintiva de tal processo sintático". Conclui que se justifi-
ca o seu arrazoado pelo fato de José Oiticica, "o desbravador da 
matéria e que sobre este processo sintático escreveu todo um livri-
nho", não ter falado em correlação alternativa. 
Rocha Lima destaca três tipos de orações correlatas: 
a) Aditiva: A adição se verifica pela presença de termos 
correlatos ("não só... mas também/ mas ainda/ senão tam-
bém/ senão ainda/ senão que^assim... como/ que"). A men-
ção do primeiro terino nos leva obrigatoriamente ao segun-
do. Exemplo: 
Não só o roubaram, mas também o feriram. 
b) Consecutiva:. Percebe-se, pelos termos correlatos apresenta-
dos, uma abrangência no estudo de Rocha Lima. Ele não 
discrimina, como José Oiticica, as idéias dff igualdade, qua-
54 Um Estudo sobre a Correlação 
lidade, superioridade e quantidade progressiva. Vale dizer que 
as orações por nós consideradas proporcionais ("quanto mais... 
tanto mais/ mais", "quanto menos... tanto menos/ menos") 
ficaram nas comparativas de Rocha Lima. Observem-se os 
termos correlatos apontados por ele: 
"tal... tal/ qual" 
"tanto... tanto/ quanto/ como" 
"tanto mais... tanto mais/ tanto menos" 
"tanto maior... tanto maior" 
"quanto mais... tanto mais/ tanto menos" 
"quanto menos... tanto menos/ tanto mais; 
"assim... assim" 
"mais... que/ do que" 
"menos... que/ do que" 
"melhor... que/ do que" 
"pior... que/ do que". 
Exemplos: 
Tal fora o pai, tal é hoje o filho. 
O vinho é melhor que o licor. 
Notas: 
1.*) Utilizamo-nos, no presente trabalho, de outros autores que 
abordaram a Correlação. 
a) Delson Gonçalves Pereira também discorda da Nomen-
clatura Gramatical Brasileira, e aponta quatro processos 
de Composição do Período, ainda que não detalhe a 
Correlação, como o fizeram Gladstone Chaves de Melo 
e Carlos Henrique da Rocha Lima. 
b) Evanildo Bechara e Othon Moacyr Garcia, apesar de 
aceitarem apenas os dois principais processos, dão con-
tribuições importantes sobre a Justaposição e a Corre-
lação. 
André Crim Valenl» 55 
c) Joaquim Mattoso Câmara Jr. contribui, de forma decisi-
va, na conceituação. 
d) Adriano da Gama Kury nos pareceu bastante feliz na 
tentativa de adaptar sua visão das orações correlatas à 
Nomenclatura Gramatical Brasileira. 
2.*) Entre os gramáticos conceituados, como Manuel Said Ali, 
Celso Ferreira da Cunha e Celso Pedro Luft, apenas Luft dá 
detalhes sobre os quatro processos sintáticos, e concorda 
com a orientação oficial: 
Os elaboradores da N.G.B. fizeram bem pronunciando-se 
por essa bipartição clássica, não considerando processos 
especiais a correlação e a justaposição (GR, p. 145). 
3.*) Dentre quatro autores que trabalharam com Lingüfstica 
Aplicada, não encontramos estudos sobre a Correlação. 
Foram os seguintes: Mário Perini, Miriam Lemle, José 
Rebouças Macambira e Nádia Vellinho Tondo. 
4.*) Na obra de Carlos Vogt, O Intervalo Semântico, encontra-
mos um estudo exaustivo da Comparação. Não caberia aqui 
esmiuçá-lo, face aos objetivos do nosso trabalho; todavia 
gostaríamos de destacar a parte relativa à Correlação "tão... 
quanto", igualdade informativa e diferença argumentativa, 
segundo Vogt, que observa: 
Os tratamentos que sentem dispensado à comparação, 
dado o logicismo das categorias e conceitos que os 
sustentam não conseguem distinguir aspectos importan-
tes do seu valor semântico e acabam por separar-se em 
oposições estanques, quando é preciso assumi-las como 
coexistentes, mas a níveis diferentes da análise lingüís-
tica (IS, p. 226). 
oi 
56 Um Estudo sobre a Correlação 
5") José Carlos Azeredo apresenta a coordenação de forma di-
ferente das gramáticas ao incluir nela a correlação. Afirma o 
autor que, quanto aos meios de expressão, a coordenação pode 
ser "sindética (ou conectiva), correlativa ou assindética". 
Azeredo apresenta a correlação coordenativa exprimindo 
disjunção (ou ... ou; ora ... ora), união (não só ... mas 
também; não apenas ... mas ainda), preferência/compen-
sação (senão ... ao menos; não ... mas). 
Novos Es tudos 
I) A Correlação em Português 
Em seu estudo "A Correlação em Português", Clóvis Barleta de 
Morais lembra que José Oiticica e Rocha Lima (que mais tarde mudou 
de parecer) foram os principais defensores dos quatro processos de 
composição do período, enquanto Mattoso Câmara Jr. e Evanildo 
Bechara se declararam "francamente contrários à inovação". 
Sugere que, em vez de se falar em processos, seria melhor dizer 
que "o período composto pode ser formado por orações independentes 
ou por principais e subordinadas". Considera que subordinação e 
coordenação não são processos afins. O 2.° termo pode referir-se à 
natureza de uma oração ou ao modo de ligação das orações. Oração 
coordenada pode significar; 
a) Oração independente. 
b) Oração justaposta ou conexa. 
Clóvis Barleta de Morais ressalta que "o conceito de subordi-
nação é de essência, e se refere à natureza da oração; o de coordena-
ção, no sentido de modo de ligação das orações, é acidental, e não 
interfere na natureza das orações". A coordenação, por ser um proces-
so formal de ligação ou relacionamento de orações, não se opõe à 
subordinação: "são fenômenos distintos que podem coexistir". Pode 
haver orações subordinadas coordenadas entre si. 
André Crim Valente 57 
Quanto ao modo de ligação, existem orações justapostas (sem 
conectivo), ou conexas (com conectivo). Para Clóvis Barleta, a cone-
xão pode ser: 
a) Simples: "Com orações ligadas por conjunções ou relati-
vos". Exemplo: 
Sustenta a família e ajuda os pobres. 
b) Enfática: "Quando há, na primeira oração, um elemento que 
avisa o ouvinte que a seguir vem uma segunda oração: nesta, aparece 
outro elemento prevenidor da primeira. O fato é muito conhecido e tem 
sido denominado correlação". Exemplo: 
Não só sustenta a família mas também ajuda os pobres. 
Por conexão enfática ou correlação coordenativa, podem ligar-se 
entre si: 
a) Termos da oração com a mesma função sintática (dois 
predicativos etc) . 
b) Orações de mesma natureza e valor (duas independentes, 
duas subordinadas, duas principais). 
Clóvis Barleta de Morais compara a correlação coordenativa 
com a correlação subordinativa, e afirma que, nesta, "há também um 
primeiro elemento que pede a presença de outro, logo a seguir ("tan-
to... que", "quanto mais... tanto mais"), mas não há ênfase na co-
nexão porque a construção é obrigatória e não pode ser substituída 
por outra não correlativa, como acontece com a correlação coor-
denativa". • ..' 
Após caracterizar a Correlação e reconhecer a importância 
de um estudo diacrônico dessa matéria (acompanhar, por exem-
plo, a trajetória dos elementos correlativos do latim nas línguas 
românicas), Clóvis Barleta apresenta sua dupla intenção "muito 
mais modesta": aproveitamento de material recolhido em textos 
portugueses e solicitação aos interessados no assunto de que lhe 
58 Um Estudo sobre a Correlação 
completem os dados ou de que realizem outros trabalhos. Seu 
estudo é, em verdade, rico nas exemplificações e nos comentários 
e merece maior divulgação; por isso aqui o retomo, sinteticamente, 
com a intenção de atrair a atenção dos professores que pretendem 
explorar a expressividade dos elementos correlativos. Clóvis Barleta 
divide seu trabalho em três Partes: 
1. *) Expressões correlativas aditivas. 
2. *) Expressões correlativas alternativas. 
3. *) Outras expressões correlativas. 
A pesquisa contém, ao todo, quarenta e seis expressões correlativasassim distribuídas: 33 na 1* Parte; 6 na 2*; e 7 na 3". 
Faço uma síntese da 1.* Parte com o intuito de despertar o 
interesse dos que atuam em sala de aula e encontram o assunto 
apresentado de forma limitada na maioria de nossas gramáticas. O 
estudo de Clóvis Barleta foge dessa limitação e apresenta uma varie-
dade de construções. 
As expressões correlativas aditivas são locuções conjuntivas 
que apresentam: 
a) o mesmo elemento repetido: "nem... nem". 
b) um mesmo substantivo repetido ou não: "de um lado... de 
outro (lado)". 
c) os advérbios no 1termo e "como", "que", "quão", "quanto" 
no 2o: "assim... como"; "tanto... quanto". 
d) locuções equivalentes a "não só... mas também" (pode ser 
tomada como o tipo do grupo). 
Neste caso, o I o termo apresenta a variante "não somente" (e 
muito raramente "não apenas"). Para o 2o termo, "mas também", o 
autor apresenta as variantes (cito apenas três): "como também", "senão 
até", "mas ainda". 
André Crim Valente 59 
Nos "Comentários", percebe-se uma preocupação com o valor 
semântico das expressões correlativas. A expressão "já... já", por exem-
plo, pode ser aditiva ou alternativa. No 1.° caso, não é sinônima de 
"assim... como", uma vez que esta pode ligar dois sujeitos. Além disso, 
a i * expressão tem uma homônima alternativa, enquanto "assim... 
como" só pode ser aditiva. Quem já pesquisou nas nossas gramáticas 
pôde perceber que a expressão "já... já" só aparece como alternativa 
e não vem exemplificada. Clóvis Barleta dá exemplos, e ainda os 
comenta semanticamente. Merece, também, destaque a preocupação 
com o valor discursivo das expressões correlativas. Observe-se a pas-
sagem a respeito das aditivas: 
Essas locuções conjuntivas podem ligar elementos que 
estão próximos um do outro (tanto Paulo como Pedro), 
mas seu emprego é particularmente útil e eficiente nos 
períodos excessivamente longos, diante dos quais o ou-
vinte ou o leitor se sentiriam perdidos já na metade do 
caminho se não houvesse batizas ou demarcações no dis-
curso. O próprio emissor pode esquecer-se da forma exata 
do primeiro elemento e usar na segunda parte outro ele-
mento ligeiramente diferente. 
Os aspectos semântico e discursivo também estão presentes no 
estudo seguinte, de Maria Aparecida Lino Pauliukonis: 
II) As Estruturas Correlatas da Comparação 
/ j 
Maria Aparecida Lino^aborda táis estruturas em sua tese de 
doutorado (1989), com uma,análise semântico-argumentativa do dis-
curso na comédia eufrosina. Em estudo mais recente (1996), no artigo 
"Comparação e Argumentação: Duas Noções Complementares", a 
autora retoma e desenvolve alguns pontos de sua tese. A autora parte 
do pressuposto de que "os elementos lingüísticos não apenas transmi-
tem informações sobre a realidade, mas funcionam sobretudo como 
60 Um Estudo sobre a Correlação 
instrumentos de pressão persuasiva do sujeito emissor/ comunicante 
sobre o receptor/ interpretante". Seu estudo tem como principal obje-
tivo a estrutura correlativa como "um eficiente recurso pragmático-
argumentativo num momento de interação lingüística". Em sua aborda-
gem, devem-se destacar os seguintes pontos: 
1. °) A argumentação é o esforço desprendido pelo emissor para con-
duzir o raciocínio do ouvinte a uma determinada conclusão; 
2. °) A linguagem é ato interativo entre dois seres do discurso; 
3. °) As intenções argumentativo-persuasivas sobrepõem-se às 
funções expositiva e informativa da linguagem; 
4. °) A linguagem é um instrumento político de pressão, persua-
são e de troca entre os seres humanos. 
Maria Aparecida Lino entende, então, que a estrutura correlata 
comparativa deve ser analisada "sob o enfoque de uma "Teoria da 
Enunciação", ou "Semântica do Discurso", que a vê como uma estra-
tégia ilocutória de conseqüências persuasivas sobre o receptor, condu-
zindo-o a um julgamento de valor sobre a realidade". A autora aborda 
a "Comparação" combinada com quatro idéias: "Relatividade", "Ar-
gumentação", "Ideologia" e "Correlação". Ao tratar de Comparação e 
Correlação, considera a Comparação correlativa como "o grande re-
curso argumentativo da linguagem, cuja estruturação permite 
transformá-la em um forte operador argumentativo do discurso". 
Reapresenta conceitos formulados em sua tese de doutorado. Nesta, 
defenderá a idéia de que a 'Teoria da Correlação", de José Oiticica, 
deveria ser reavaliada e analisada sob o enfoque de uma Semântica 
Argumentativa do Discurso, que vai considerar a estrutura da Corre-
lação como "um processo discursivo peculiar, tradutor de uma inten-
ção argumentativa". 
Em sua tese, ao abordar o estudo de José Oiticica, julga-o mais 
abrangente do que imaginavam seus analistas. Estes, fechados nos limites 
da sintaxe tradicional, não vislumbravam o que aquele preconizava: as 
estruturas diversas da correlação veiculavam conteúdos semânticos no-
vos e de forma peculiar. Acrescenta Maria Aparecida: "É pelo modo de 
André Crim Valente 61 
construção da estrutura que se transmite o conteúdo pretendido." A au-
tora situa a obra de José Oiticica numa ampla teoria do discurso que, 
fugindo aos âmbitos da sintaxe tradicional, procura determinar "a in-
tenção estilística do falante e sua concretização nos atos da fala". 
Os opositores de Oiticica tentaram enquadrar o estudo deste na 
formulação de sintaxe tradicional. Para eles, a Correlação não passava 
de uma forma de ligar orações. Já os defensores da obra de José 
Oiticica pressentiram que havia uma complexidade nas estruturas 
correlativas, merecedora de um tratamento diferenciado dos dois pro-
cessos de Composição do Período. 
Maria Aparecida Lino entende que entre os analistas tradicionais 
merecem destaque os que reconheceram a importância das marcas da 
subjetividade na linguagem. José Oiticica foi um deles ao vislumbrar o 
fenômeno da Correlação e suas conseqüências na estruturação do texto. 
Na época, por não contar com instrumentação teórica adequada, não 
conseguiu explicá-la de forma plausível, ou seja, sua relevância diante 
dos outros processos. A autora lamenta o fato de a Nomenclatura 
Gramatical Brasileira não ter aceito a "Teoria da Correlação", não 
obstante a obra de José Oiticica ter surgido seis anos antes, e ter sido 
defendida por várics gramáticos. Por conta de tal decisão, "duas gera-
ções de alunos teriam passado pelas escolas sem entrarem em contato 
com o termo, já que as gramáticas oficiais reduziram a ligação entre 
as orações aos dois processos tradicionais: a coordenação e a subordi-
nação". De minha parte, concordo plenamente com Maria Aparecida 
Lino, e tenho trabalhado o texto de José Oiticica com meus alunos do 
Instituto de Letras a fim de proporcionar, à geração atual, o que foi 
apreendido das anteriores. 
J 
Conclusão 
Não obstante ter sido excluída da Nomenclatura Gramatical Brasi-
leira, a Correlação é um processo sintático que não pode ser ignorado por 
todos que se preocupam com o idioma nacional: dos estudiosos do fato 
da língua aos professores de Português. Qualquer abordágem dos proces-
62 Um Estudo sobre a Correlação 
sos de Composição do Período não pode desprezar as reflexões de al-
guns de nossos autores, em particular José Oiticica, sobre a Correlação 
e a Justaposição. Mesmo que a maioria dos nossos gramáticos tenha 
seguido a tendência internacional de só aceitar a Coordenação e a Su-
bordinação (parataxe e hipotaxe são denominações conhecidas do In-
glês, Alemão, Francês, Italiano e Espanhol), os que se preocupam com 
a Língua Portuguesa não devem deixar de lado os outros processos. 
Sabe-se que a Nomenclatura Gramatical Brasileira foi fundamen-
tal para a simplificação da nossa terminologia, principalmente se levar-
mos em conta a realidade brasileira e a complexidade de um País com 
dimensões continentais, e, ainda, o fato de o magistério brasileiro tra-
balhar em condiçõesbastante adversas. Cabe, no entanto, registrar que, 
ao lado dos aspectos positivos, também se reconhece a existência de 
algumas lacunas na Nomenclatura Gramatical Brasileira. 
No que concerne ao estudo das Orações, encontram-se alguns 
desses problemas: a ausência das modais e das locativas entre as 
subordinadas adverbiais; da oração com valor de agente da passiva 
entre as subordinadas substantivas; a não-referência a subordinadas 
desenvolvidas sem o conectivo (conjunção integrante ou pronome 
relativo) característico. Entendemos, então, que a síntese promovida 
pela Nomenclatura Gramatical Brasileira não eliminou, totalmente, os 
problemas sintáticos com que.se defrontam nossos especialistas, den-
tro ou fora da sala de aula. 
Entendemos, também, que não se podem colocar, sem qualquer 
distinção, no mesmo grupo das coordenadas sindéticas aditivas, as 
orações grifadas nos seguintes períodos: 'Trabalha e estuda" e "Não 
só domina o Latim, mas também conhece Grego". O mesmo raciocí-
nio se aplica aos demais casos de Correlação aqui abordados. Para 
nós, é grave a omissão nas gramáticas e nas salas de aula a respeito 
da Correlação e da Justaposição, e é imprescindível que autores e 
mestres se posicionem sobre o assunto. Convém recordar que não há 
obrigatoriedade de se adotar a Nomenclatura Gramatical Brasileira, já 
que "foi apenas recomendada no art. 1." da Portaria n.° 36, de 28/1/ 
1959, do então ministro da Educação, Clóvis Salgado", segundo 
Gladstone Chaves de Melo. 
André Crim Valente 63 
Dessa forma, cremos que se pode concordar com a orientação 
da Nomenclatura Gramatical Brasileira, desde que se apontem mati-
zes de natureza semântica e/ou estilística existentes na Correlação 
(principalmente), e na Justaposição. Também existe a liberdade de se 
admitir a existência de quatro processos de Composição do Período. 
Só é inaceitável ignorar completamente os processos excluídos da 
Nomenclatura Gramatical Brasileira. De nossa parte, concordamos com 
a proposta do professor Evanildo Bechara: 
Quanto ao valor sintático, as orações podem ser inde-
pendentes e dependentes; quanto à ligação, exercem o 
papel de conectivo as conjunções coordenativas, as con-
junções subordinativas, os pronomes relativos, as conjun-
ções e expressões correlativas, ao lado das orações que 
não se ligam por palavras especiais, isto é, as justapos-
tas. Só quanto à ligação, teríamos orações coordenadas, 
subordinadas, correlatas e justapostas (LPAS, p. 128). 
De início, relutamos em aceitar o encaminhamento do professor 
Evanildo Bechara. Se, posteriormente, concordamos com a sua visão, 
isso não significa que nossa prática deixe de estar em consonância 
com as premissas supracitadas. Sempre comentaremos todos os casos 
de Correlação e Justaposição que se nos apresentarem. Desde que 
tomamos conhecimento do trabalho de José Oiticica sobre a Correla-
ção, ficamos profundamente impressionados com a sua argumentação. 
Desde nossa graduação até os dias de hoje, seu opúsculo sempre nos 
estimulou a reflexões sobre a Composição do Período. Tivemos a 
oportunidade de reavaliá-lo ei até compará-lo com outras obras. So-
mente vemos uma falha em seu estudo: a ausência das proporcionais 
como "correlatas autônomas'*'. Ao término de nossa pesquisa, tivemos 
a agradável sensação de estarmos contribuindo, através da releitura do 
texto de José Oiticica e o cotejo com as considerações de outros 
atores, para uma atualização do que se pensa acerca da "Teoria da 
Correlação". 
64 Um Estudo sobre a Correlação 
Referências Bibliográficas 
AZEREDO, José Carlos de. Iniciação à Sintaxe do Português. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar Editor, 1990. 
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ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1954. 
FERREIRA, Delson Gonçalves. Análise Sintática. Belo Horizonte: Ed. Bernardo 
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PAUUUKONIS, Maria Aparecida Lino. Comparação e Argumentação: Duas Noções 
Complementares. In: Santos, Leonor Wemeck dos (Org.). Discurso, Coesão, 
Argumentação. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1996. 
. A Í Estruturas Correlatas da Comparação: Análise Semântico-
argumentativa do Discurso na Comédia Eufrosina. Rio de Janeiro: Faculdade de 
Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1989 (Tese de Doutorado). 
Leitura e Produção de Textos 
no Ensino Tradicional 
Em vez de falar sobre leitura e produção de textos, vou falar 
sobre os motivos pelos quais não se praticam a leitura e a produção 
de textos. Duas são as causas maiores: o ensino de Língua Portuguesa 
que se vem praticando, a noção restrita do que seja um texto e a 
maneira como é utilizado. O ensino de Língua Portuguesa experimen-
tou, nos últimos 40 anos, alguns caminhos que até agora não levaram 
a um resultado satisfatório. 
De acordo com Luiz Antônio Senna (1991), um aluno aprendia 
Português com professor X. Mudando de cidade, professor, ou Estado, 
a situação se complicava mais. Assim, no final da década de 50, a 
Nomenclatura Gramatical Brasileira (N.G.B.) foi concebida e instituída 
para dar um basta nesse estado de coisas. Se por um lado a N.G.B. 
cumpriu seu papel de estabelecer uma terminologia para descrever a 
língua - objetivo legítimo - por outro; causou uma nova distorção: 
muitos professores entendem que ensjnar a língua é passar ao aluno 
essa terminologia. Além disso, o professor geralmente não tem um 
objetivo claro a respeito do seu papel como profissional, seu modo de 
atuar e as ferramentas de sua profissão. As palavras do professor 
Olmar Guterres da Silveira (1971) são bem oportunas, embora ditas há 
mais de 25 anos: V 
lhes outra ou outras (subordinadas) coni verbo claro. Veja-se o ' 
exemplo que nos oferece Orflia Meireles: 
— Chuvas de viagens: tempestades na Mantiqueira, quando nem os ponteiros 
dos pára-brisas dáo vencimento à água; quando apenas te avilta, recortada n a 
noite, a paisagem súbita e iosfúrea mostrada petos relâmpagos, Catasitipat dei-
penhando sobre Veneza, misturando os céus e os canais numa água única, e trans-
formando o Palácio dos Dotes mim imenso barco mágico (...) 
Chuvas antigas, nesta cidade nossa, de perpétuas enchentes: a de 1811, que, 
com o desabamento de uma parte do m o n o do Castelo, soterrou várias pessoas (...) 
Chuvas modernas, tem trovoada, mm igrejas em prece mas com as ruas igual- v 
mente transformadas em rios, os barracos a escorregarem pelai morros (...) 
("Chuva com lembranças", rn QuadmnteT, p. 59) 
As subordinadas que se seguem As nominais são ma sua 
maioria orações reduzidas de gerúndio; mas Cecília Meirelesmos 
dá exemplos de outras: "quando os ponteiros... nem d ã o venci-
mento à água", "quando apenas se avista.. ." (a de 1811) "que. . . 
soterrou várias pessoas", "os barracos a escorregarem...", -atem 
das gerundiais "despenhando sobre Veneza" e "transformando o 
Palácio dos Doges. . ." 
1.4.0 Processos sintáticos 
1.4.1 Coordenação e subordinação: encadeamento e hierarqui-
zação 
Num período composto, normalmente estruturado — Isto A, 
não constituído por frases de situação ou de contexto—,a s orações 
se interligam mediante dois processos sintáticos universais: a coor-
denação e a subordinação. A justaposição, apesar de legitimamen-
te abranger uma e outra, é ensinada no Brasil como variante d a 
primeira, e a correlação, como variante da segunda.11 
Na coordenação (também dita parataxe), que é um paralelis-
mo de funções ou valores sintáticos idênticos, as orações se dizem 
" A Nomenclatura gramatical brasileira, ao tratar da composição do período, ig-
norou tanto a justaposição quanto a correlação. £ que, segundo orientaçãoiingüis-
tira mais atualizada, a justaposição, c a n o processo sintático, consiste em encadear 
frases sem explicitar por indo de partículas coordena tivas ou subordinatmu a 
relação de dependência entre elas. Nesse sentido, dá-se-lhe também o nome de 
parataxe. A correlação é uma construção sintática de duas partes relacionadas entre 
si de tal modo que a enunciação da primeira prepara a enunciação da segunda (ver 
1. Fr., 1.5.3). No Brasil, seguindo-se a orientação de José Oiticica (Cf. Toaria Ma 
correiaçio, passim) t de outros autores, considera-se a correlação ora como um pro-
cesso autônomo ora como uma variante da subordinação. 
16 
da mesma'natureza (ou categoria) e função,11 devem ter a mesma 
estrutura sintático-gramatical (estrutura interna) e se interligam 
por meio de conectivos chamados conjunções coordenativas. £ , em 
essência, um processo de encadeamento de idéias (ver, a seguir. 
As conjunções coordenativas (algumas das quais ligam tam-
bém palavras ou grupos de palavras — sintagmas — e não apenas 
orações) relacionam idéias ou pensamentos com um grau de 
travamento sintático por assim dizer mais frouxo do que o das 
subordinativas. E e nem ( = e não) são as mais típicas das con-
junções e também as mais vazias de sentido ou teor semântico, pois 
sua função precipita" é juntar ou aproximar palavras ou orações 
da mesma natureza e função. São conjunções de adição ou de 
aproximação; dai, o nome de aditivas (ou aproximaiivas, deno-
minação adotada no Brasil até certa época). 
" Esse é o conceito tradicional e ortodoxo, entretanto já sujeito a revisão (ver, a 
seguir, 1.4.2), 
" Em alguns contextos ou situações, a partícula e parece imantar-se do significado 
dos membros da frase por ela interligados, insinuando asaim idéias de distinção, 
discriminação, oposição ou contraste, inclusão, simultaneidadc, realce e, ocasio-
nalmente, outras Em "Há estudantes e estudantes...", e contagia'se da distin-
ção implícita (sugerida nâo ap»n« nelo mntptto em que se insira a frase mas tam-
bém pelas reticências ou pelo tom reticendoso da sua enundaçáo) entre ot atributos 
de duas categorias de "estudantes": os verdadeiros, t.e., assíduos, estudiosos, e os 
outros, que se dizem tais. Nesse caso, e indica adição com discriminação ou dis-
tinção e, mesmo, oposição. Em frases semelhantes, o segundo elemento ds coor-
denação (palavra ou sintagma) geralmente se reveste de certo matiz pejorativo: "há 
mulheres e mulheres..." significa "hi mulheres boas, dedicadas, honestas, e 
mulheres que não se distinguem por essas virtudes". Assim também em "há jovens 
e jovens...", "há velhose velhos..:", sente-se,nítida, a distinção entre duas espécies 
da mesma classe (de Jovens ou de ve/áos). Contaminada pelos pólos semânticos en-
tre os quais se situe, a conjunção e traduz freqüentemente a idéia de contradição, 
oposição ou contraste, equivalente a mas ou porém, a e não obstante ou a mas. 
apesar disso: "Ficou de vir e (-mas) não veio"; "Falou muito e ( - mas) não disse 
nada que se aproveite"; "Era mais forte do que o adversário c ( - -e não obstante, 
mas, apesar disso) foi derrotado". (£ comum pôr não obstante entre vírgulas.) En-
tre palavras antitéticas ou que expressem idéias mutuamente excludentes, e pode 
exprimir stmultanetdade: "E um escritor clássico c (ao mesmo tempo) romântico." 
Em outros casos, quando entre palavras de sentido relativo (como, por exemplo, 
certos nomes de parentesco em linha colateral), sugere reciprocidade: "Pedro e 
Paulo são primos" (entre si); "Esaú e Jacó eram gêmeos e rivais" (um do outro, 
reciprocamente); "A c B são linhas paralelas" (entre si). Ocasionalmente, indica in-
clusão e realce, como no conhecido verso de Camões — "Os doze de Inglaterra e o 
seu Magriço" (Lus.. 1, 12) — que se entende como "os doze de Inglaterra e ( - in-
clusive, principalmente) o seu Magriço". Se denotasse apenas adição, seriam tmt 
os dose de Inglaterra, pois Magriço era um deles, o que mais se realçava pela 
bravura e feitos. Em agrupamentos tais como Joaquim Nabuco e a abolição. Rui 
Barbosa r a República. Castro Alves e o Romantismo, t eqüivale, em essência, á 
locução prepositiva em face de. (Algumas dessas observações, devo-as a troca dc 
idéias com o Prof, Rocha Lima,) 
1.4.5.2). 
17 
A alternativa típica — ou — relaciona idéias que se excluem 
ou se alternam, podendo repetir-se antes de cada um dos elementos 
por ela encadeados: "Ou vaiou racha." As outras alternativas vêm 
obrigatoriamente repetidas, em pares: ora... ora, quer... quer, 
já... já, seja... seja. Às vezes o par quer... quer se interpola com 
seja... seja, dando lugar a uma estrutura aparentemente híbrida 
alternativa-concessiva. pois, nesse caso, seja é mesmo o verbo ser, 
tanto assim que não "só concorda com o nome (sujeito ou predi-
cativo) que se lhe posponha como também pode ser substituído por 
outro verbo: "Hão de pagar o prejuízo, quer sejam (culpados) quer 
não sejam culpados." "Hão de pagar o prejuízo, quer lhes caiba (a 
culpa) quer não lhes caiba a culpa." (Quanto ao valor concessivo 
de quer... quer, ver, a seguir. 1 . 4 . 2 . ) 
As adversativas (mas, porém, contudo, todavia, no entanto, 
entretanto) marcam oposição (às vezes com um matiz semântico de 
restrição ou de ressalva). Por serem etimologicamente advérbios —. 
traço já muito esmaecido em mas e porém, mas ainda vivo nas res-
tantes —, as adversativas, como também as explicativas e as con-
clusivas, são menos gramaticalizadas, quer dizer, menos despo-
jadas de teor semântico, do que e, nem e ou. Sua função de con-
junção é, aliás, fato relativamente recente na língua portuguesa, 
fato d e nrnrrínçia posterior ao séc. XVIII, Ainda hoje, os dicio-
nários registram entretanto, (no) entanto e todavia como advér-
bios, embora lhes anotem igualmente a função de conjunções. No 
Dicionário da língua portuguesa, de Antônio de Moraes Silva, quer na 
1? ed. ( 1 7 8 9 ) quer na 6 ? (1858), até mesmo o porém aparece como 
advérbio, com a ressalva, entretanto, de que "hoje usa-se como 
conjunção restritiva", dando-a o Autor como sinônimo de contudo 
e todavia (mas não averba contudo e registra todavia como advér-
bio). 
Por isso, i.e., por serem essencial e etimologicamente advér-
bios, é que no entanto, entretanto, contudo e todavia vêm fre-
qüentemente precedidos pela conjunção e: "Vive hoje na maior 
miséria e (,) no entanto (,) já possuiu uma das maiores fortunas 
deste pais." A ser no entanto simples conjunção, simples utensílio 
gramatical (conectivo), torna-se difícil a classificação da oração: 
coordenada aditiva, em função do e, ou adversativa, em função do 
no entanto? £ evidente que não poderá ser uma coisa e outra. A or-
todoxia gramatical aconselharia a supressão do e, em virtude de, 
modernamente, se atribuir a no entanto valor de conjunção. Mas, 
se se aceita o agrupamento, a oração será aditiva, e no entanto, 
advérbio, caso em que costuma (ou deve) vir entre vírgulas. O que 
se diz para no entanto serve para entretanto, todavia, não obstan-
te. Também mas aparece às vezes junto a contudo e todavia, dando 
como resultado uma construção que os cânones gramaticais vigen-
18 
tcs condenam por pleonástica. como o fazem com o exemplo clás-
sico (ainda comum em certa camada social) mas porém. É certo 
que, quando, por descuido ou não, mas e contudo, mas e todavia (eaté mas e entretanto e mas e no entanto) ocorrem na mesma 
oração, costumam vir distanciados pela intercalarão de outro(s) 
termots) da oração, por sentir o emissor que se trata de partículas 
mutuamente excludentes. sinônimas ou equivalentes que são. 
As explicativas (pois. porque) relacionam orações de tal sorte 
que a segunda encerra o motivo ou explicação (razão, justificativa) 
do que se declara na primeira. Em virtude da afinidade semântica 
entre motivo e causa, porque, explicativa, confunde-se com por-
que, subordinativa causai (ver, a propósito, 3. Par., 2.5). Quanto à 
opção entre pois e porque, ver 1. Fr.. 1.6.3.3. letra c, in fine. 
As conclusivas (logo. pois, portanto) entrosam orações de tal 
modo que aquilo que se afirma na segunda é conseqüência ou con-
clusão (resultado, efeito) do que se declara na primeira: "Penso, 
logo existo." "Ouviste a advertência; trata, portanto (ou pois), de 
acautelar-te." "Cumpriste o dever; portanto, não há motivo para 
que te censurem." As locuções adverbiais por conseqüência, por 
conseguinte, por isso funcionam também como conjunções con-
clusivas: "Penso, logo (por conseqüência, por conseguinte, por is-
so) existo." (Ver í. Fr.. 1.6.4.) 
As explicativas e conclusivas, mais até do que as adversativas, 
estabelecem tão estreitas relações de mútua dependência entre as 
orações por elas interligadas, que a estrutura sintática do período 
assume características de verdadeira subordinação (ver, a seguir. 
1.4.2). 
Na subordinação (também chamada hipotaxe). não há para-
lelismo mas desigualdade de funções e de valores sintáticos. Ê um 
processo de hierarquização, em que o enlace entre as orações é 
muito mais estreito do que na coordenação. Nesta, as orações se 
dizem sintática mas nem sempre semanticamente independentes; 
naquela, as orações são sempre dependentes de outra, quer quanto 
ao sentido q"uêr"quanto ao travamento sintático. Nenhuma oração 
subordinada subsiste por si mesma, i.e.. sem o apoio da sua prin-
cipal (que também pode ser outra subordinada) ou da principal do 
período, da qual. por sua vez. Iodas as demais dependem. Portan-
to, se nào podem subsistir por si mesmas, se pão são independen-
t e s , é porque fazem parte de outra, exercem função nessa outra. 
Isto quer dizer que qualquer oração subordinada é, na realidade, 
um fragmento de frase, mas fragmento diverso daquele que es-
tudamos nas frases de situação ou de contexto e em 1. Fr., 2.6. "Se 
achassem água por ali perto" é uma oração, mas não uma frase, 
pois nada nos diz de maneira completa e definida; é apenas uma 
19 
parte, um termo de outra ("beberiam muito"), na qual exerce a 
função de adjunto adverbial de condição"-14 
14 SIo várias as funções que as orações subordinadas exercem em outra (sujeito, 
complemento, adjunto adnominal. adjunto advetbial). À guisa de revisáo, até certo 
ponto necessária ao desenvolvimento deste capitulo, damos a seguir amostras dessas 
funções, manipulando sempre que possível o mesmo agrupamento de Idéias. As três 
famílias de orações subordinadas (A — substantivas, B — adjetivas, C — adver-
biais) podem ser desenvolvidas (exemplos de letra a), quando têm conectivo, ou 
reduzidas, quando o verbo está numa das suas formas nominais: infmitrvo (exem-
plos de lebre * ) . genindio (exemplos de letra c) e participio (exemplo de letra d). 
A — Substantivas (valor de substantivo): 
1. Funçáo de sujeito: 
a) £ preciso que digamos a verdade. 
b) £ preciso dizermos a verdade. 
2. Funçáo de objeto direto: 
a) Peço-te que digas a verdade. 
Náo sei se ele disse a verdade. 
Quero saber quem diz a verdade. 
b) Peço-te dizer a verdade. 
3. Funçáo de objeto indireto: 
a) Tudo depende de que digas a verdade. 
b) Tudo depende de dizeres a verdade. 
4. Funçáo de complemento nominal: 
a) Tenho a certeza de que e/e dirá a verdade. 
b) Ele dá a impressio de estar dizendo a verdade. 
5. Funçáo de predlcativo: 
a) O melhor é que digas a verdade. 
b) O melhor ê dizeres a verdade. ' 
B — Adjetivas (valor de adjetivo): 
Funçáo: adjunto adnominal 
a) Há verdades que não se dizem. 
b) Há muita gente a pastar fome. 
o) Há muita gente passando fome. 
d) Há verdades ditas de tal modo que parecem mentiras. 
Ç — Adverbiais (valor de advérbio): 
Funçáo: adjunto adverbial 
2 0 
1.4.2 Falsa coordenação: coordenação gramatical e subordinação 
psicológica 
Segundo a doutrina tradicional e ortodoxa — como já assi-
nalamos —. as orações coordenadas se dizem independentes. 
1. Concessivas (ou de oposição, pois m t r c t m um contraste semelhante t o que, em 
grau diverso, se expressa com 'a coordenada adversativa): 
a) Embora diga a verdade, ninguém lhe d i crédito. 
b) Apesar de dizer a verdade, ninguém lhe d i crédito. 
c) Mesmo dizendo a verdade, ninguém lhe dá crédito. 
2. Temporais (indicam tempo simultâneo, anterior ou posterior): 
I — Fatos simultâneos: 
a) Enquanto disser a verdade, todos o respeitarão. 
b) Ao dizer a verdade, todos o respeitarão. 
c) Dizendo a verdade, saberemos o que houve. 
N. B.: O sentido das reduzidas de genindio depende muito do seu contexto: no caso 
da letra c, "dizendo" tanto pode expressar causa quanto condição ("porque disse", 
"como disse" ou "se disser"). 
II — Fato posterior a outro: 
a) Depois que disse a verdade, arrependeu-se. 
b) Depois de dizer a verdade, arrependeu-se. 
c) Tendo dito a verdade, arrependeu-se. 
III — Fato anterior a outro: 
a) Antes que digas a verdade, pensa nas conseqüências. 
b) Antes de dizeres a verdade, pensa nas conseqüências. 
3. Causais: 
a) Como disseste a verdade, nada te acontecerá. 
Nada te acontecerá, porque disseste a verdade. 
b) Por tens dito a verdade, nada te acontecerá. 
c) Tendo dito a verdade (dizendo), nada tb, acontecerá. 
d) Interrogado habilmente, ele confessou a verdade. 
A. Finais (conseqüência desejada ou preconcebida): 
a) Para que dissesse a verdade, foi preciso ameaçá-lo. 
b) Para dizeres a verdade, t preciso ameaçar-te. 
5. Condicionais (condição ou suposição): 
a) Se não podes dizer a verdade, i preferível que te caies. 
b) A não dizeres a verdade, i preferível que te cales. 
c) Não dizendo a verdade, nada conseguirás. 21 
e as subordinadas, dependentes. Modernamente, entretanto, a 
questão tem sido encarada de modo diverso." Dependência se-
mântica mais do que sintática observa-se também na coordenação, 
salvo, apenas, talvez, no que diz respeito às conjunções "e" , "ou" e 
"nem". Que independência existe, por exemplo, nas orações "por-
tanto, não sairemos"? e "mas ninguém o encontrou"? Indepen-
dência significa autonomia, autonomia não apenas de função mas 
também de sentido. Que autonomia de sentido há em qualquer 
desses dois exemplos? Nenhuma, por certo. A comunicação de um 
sentido completo só se fará com o auxílio de outro enunciado: "Es-
tá chovendo; portanto, não sairemos"; "Todos o procuraram, mas 
ninguém o encontrou". 
O par alternativo "quer. . . quer", incluído nas conjunções 
coordenativas, tem legítimo valor subordinativo-concessivo quando 
se lhe segue verbo no subjuntivo: "Irei, quer chova, quer faça sol" 
corresponde a "irei, mesmo que chova, mesmo que faça sol". Até a 
vírgula que se impõe antes do primeiro "quer" (mas é facultativa 
antes do segundo) insinua a idéia de subordinação, uma subor-
dinação concessivo-condicional, como se pode sentir melhor no 
6. Consecutivas (efeito ou conseqüência de fato expresso em oraçào precedente): 
a) Disse tantas verdades, que muitos ficaram constrangidos. 
N.B.: A respeito das reduzidas de infinitivo com valor consecutivo, ver 1.6.4. 
7. Conformativas: 
a) Disse a verdade, conforme lhe recomendaram. 
8. Proporcionais: 
a) A medida que cresce, menos verdades diz. 
Quanto mais velho fica. menos verdades diz. 
9. Comparativas: 
a) Disse mais verdades do que mentiras. 
Mente como ninguém. Mente tanto quanto você. 
Obs • A nomenclaturagramatical brasileira n i o reconhece a existência de orações 
modais. Mas como classificar "chorando" no seguinte período: "Saiu chorando. 7 
Ou é modal ou tem valor de predicativo. equivalente a "saiu cAoraro (Cf. Satd Ali, 
Gramática Histórica. 5? ed.. p. 3S4 e ss.) 
" Cf. ANTOINE, Gérald. La coordinaúon en français, passim mas principalmente 
v. l , p . 144es s . 
22 
seguinte exemplo, de nota aposta aos originais desta parte pelo 
Prof. Rocha Lima. 
Irei, quer queiras, quer n io queiras. 
eqüivale a 
Irei. se quiseres ou (e) mesmo que nio queiras. 
Portanto, quando se diz que as orações coordenadas são da 
mesma natureza, cumpre indagar: que natureza? lógica ou gra-
matical? As conjunções coordenativas que expressam motivo, con-
seqüência e conclusão (pois, porque, portanto) legitimamente não 
ligam orações da mesma natureza, tanto é certo que a que vem por 
qualquer delas encabeçada não goza de autonomia sintática. O 
máximo que se poderá dizer é que essas orações de "pois", "por-
que" (dita explicativa) e "portanto" são limítrofes da subordi-
nação. Em suma: coordenação gramatical mas subordinação 
psicológica. 
Por isso, muitas vezes, um período só aparentemente é coor-
denado. Vejamos outros casos, examinando os três pares de frases 
seguintes: 
a) Não fui à festa do seu aniversário:, não me convidaram. 
b) Não fui à festa do seu aniversário: passei-lhe um telegrama. 
c) Não fui à festa do seu aniversário: não posso saber quem estava 
lá. 
São frases construídas segundo o processo particular da coor-
denação chamado justaposição (recordem-se as observações da 
nota 8 , retro): orações não ligadas por conectivo, separadas na fala 
por uma ligeira pausa com entoação variável, marcada na escrita 
por vírgula, ponto-e-virgula ou, mais comumente, por dois-pontos. 
Ê outro caso de coordenação ou justaposição gramatical, mas 
de subordinação psicológica, tanto é certo que o segundo elemento 
de cada par de frases não goza de autonomia de sentido. A relação 
entre as duas orações de cada período é de dependência, nitida-
mente insinuada pelos dois-pontos na escrita, e na fala, por uma 
entoação da voz que indica: 
a) explicação ou causa: Não fui à festa do seu aniversário porque 
(pois) não me convidaram. 
b) oposição (ressalva, atenuação ou compensação): Não fui à festa 
do seu aniversário, más (em compensação) passei-lhe um te-
legrama. 
c) conclusão ou conseqüência: Não fui à festa do seu aniversário; 
portanto (por conseqüência) não posso saber quem estava lá. 
23 
Situação idêntica — de falsa coordenação — é a que se ve-
rifica no raciocínio dedutivo (ver 4. Com. — 1.5.2 e 1.5.2.1), em 
que as orações de "ora" e "logo", na segunda premissa e na con-
clusão, são absolutamente dependentes da primeira premissa: 
Primeira premissa (maior): Todo homem é mortal; 
Segunda premissa (menor): ora, Pedro é homem; 
Conclusão : logo, Pedro é mortal. 
1.4.3. Outros casos de falsa coordenação 
Esse tipo de justaposição — também dito coordenação assin-
dética — é muito comum nas descrições sumárias: 
O céu se der rama em estrelas, a noite é morna, o desejo sobe da terra em on-daa de calor. 
(Jorge Amado. São Jorge dos Ilhéus, p. 118) 
ou nas narrativas breves: 
O grito da galvola terceira vez ressoa a seu ouvido: vai direito ao lugar donde 
par t iu ; chega k borda de um tanque; seu olhar investiga a escuridão, e nãda vê do 
que busca. 
(J. de Alencar, Iracema. XII) 
No primeiro exemplo, as orações estão separadas por vírgula, 
inclusive as duas últimas, com o que o autor parece insinuar que 
não arrolou todos os aspectos do quadro descrito, deixando a série 
como que aberta, em virtude da omissão de um e entre as duas úl-
timas orações. No segundo, as unidades estão separadas por ponto-
e-vlrgula, salvo as duas últimas, que vêm ligadas pela conjunção 
" e " , com a qual o autor parece "fechar" a série, como se tivesse 
enumerado todos os detalhes dignos de menção. 
Mas esse aspecto da justaposição'* não nos interessa neste tó-
pico. Voltemos à falsa coordenação. Em: "O dia estava muito 
quente e eu fiquei logo exausto", só existe coordenação quanto à 
forma, não quanto ao sentido, pois, na realidade, a partícula "e" 
não está aproximando ou concatenando dois fatos independentes: 
entre "estar muito quente" e "ficar logo exausto" existe uma 
coesão intima, uma relação'de causa e efeito. A independência é 
14 Há outros tipos dc justaposição, inclusive na subordinação, como nos ensina 
Evanildo Bechara em suas excelentes Lições de português. Ê verdade que alguns 
casos que o ilustre professor considera como de justaposição (o das substantivas in-
troduzidas por pronomes ou advérbios interrogativos indiretos, por exemplo), 
parecem-nos discutíveis. £ a justaposição que. modernamente, se dá o nome de parataxe (que também designa a coordenação). 
24 
sintática, mas nâo semântica ou psicológica. O mesmo pensamen-
to poderia ser traduzido pelo processo da subordinação: 
Como o dia estava (ou estivesse) muito quente, eu fiquei logo exausto. 
Fiquei logo exausto porque o dia estava muito quente. 
Pode-se ainda avivar a relação de causa e efeito na coorde-
nação, empregando-se, como é freqüente, uma partícula ade-
quada: 
O dia estava muito quente; por isso (ou "e por isso") fiquei logo exausto. 
No seguinte período também há coordenação aparente entre 
as duas primeiras orações: 
A turma terminou a prova e o professor disse que podíamos sair. 
A idéia mais importante, a que constitui o núcleo da comu-
nicação, é "o professor disse que podíamos sair"; coordenada à 
anterior, que encerra idéia de tempo, portanto, de circunstância, 
de fato acessório, ela fica no mesmo nível quanto à ênfase. O 
processo da subordinação permitiria que se sobressaísse: 
Quando a turma terminou a prova, o professor disse que podíamos sair. 
A idéia de oposição ou contraste tanto pode ser expressa por 
uma coordenada adversativa (conjunção "mas" ou sua equivalen-
te) quanto por uma subordinada concessiva, dita também "de 
oposição" (conjunção "embora" ou equivalente). Mas a opção pela 
subordinada concessiva fará com que a oração de que ela dependa 
ganhe maior realce (ver 1.5, "Organização do período"). Confron-
tem-se: 
Coordenação 
O Brasil é um país de 
grandes riquezas, mas o pa-
drão de vida do seu povo é um 
dos mais baixos do mundo. 
Subordinação 
Embora" o Brasil seja um 
país de grandes riquezas, o 
padrão de vida do seu povo é 
um dos mais baixos do mundo. 
A idéia mais relevante nas duas versões é o "padrão de vida do 
seu povo é um dos mais baixos do mundo"; na coordenação, ela 
praticamente se nivela à anterior; na subordinação, ao que nos 
parece, sobressai (ver 3. Par., 4 .3) . 
25 
Muitas vezes, uma oração adjetiva aparece camuflada sob a 
forma de coordenada. Confrontem-se: 
Coordenação Subordinação 
O São Francisco é o rio da 
unidade nacional; ele banha 
vários Estados do Brasil e 
depois deságua no Atlântico. 
O São Francisco, que é o 
rio da unidade nacional, banha 
vários Estados do Brasil e 
depois deságua no Atlântico. 
Na subordinação há possibilidade de mais duas ou três ver-
sões, assumindo forma de oração principal o enunciado digno de 
maior realce: 
a) ênfase em "rio da unidade nacional": 
O São Francisco, que banha vários Estados e deságua no Atlântico, i o rio da 
unidade nacional. 
b} ênfase em "deságua no Atlântico": 
O São Francisco, que banha vários Estados e é o rio da unidade nacional, 
deságua no Atlântico. 
ç) ênfase em "banha vários Estados": 
O São Francisco, que i o rio da unidade nacional e deságua no Atlântico, 
banha vários Estados. 
A simples coordenação nem sempre permite essa gradação no 
realce das idéias: em qualquer das três versões se sente, nitidamen-
te, que o pensamento contido nas orações adjetivas não merecia o 
mesmorelevo do da principal. (Ver, a propósito, em 1.5.2 e 1.5.3, 
o que se diz a respeito da escolha e da posição da oração principal.) 
1.4.4 Coordenação e ênfase 
Na coordenação, por ser ela, como já assinalamos, um pa-
ralelismo de funções e valores sintáticos idênticos, costumam ser 
mais limitados do que na subordinação os recursos estruturais dis-
poníveis para dar a devida ênfase a determinada idéia no conjunto 
do período. Niveladas as orações no seu valor (ressalvadas as ob-
servações feitas em 1.4.2), o realce que se queira atribuir ao teor de qualquer delas passa a depender, quase exclusivamente, da sua 
26 
posição no período, quando não, evidentemente, de outros meios 
como a seleção vocabular e o apelo à linguagem figurada. Confron-
tem-se, à guisa de exemplo, as duas versões seguintes do mesmò 
pensamento: 
Coordenação 
Eram três horas da 
madrugada de domingo; a 
cidade dormia tranqüilizada 
pela vigilância tremenda do 
Governo Provisório, e o Largo 
do Paço foi teatro de uma cena 
extraordinária, presenciada 
por poucos (...) 
Subordinação 
Às três da madrugada de 
domingo, enquanto a cidade 
dormia tranqüilizada pela 
vigilância tremenda do Gover-
no Provisório, foi o Largo do 
Paço teatro de uma cena ex-
traordinária, presenciada por 
poucos (...) 
(de um artigo de Raul 
Pompéia, apud Barreto e Laet, 
Antol. nacional, 145) 
No período composto por coordenação, a oração "eram três 
horas da madrugada de domingo", por ser a inicial e culminante 
do período, pode parecer que encerra a sua idéia nuclear; no en-
tanto, expressa-apenas uma circunstância de tempo, circunstância 
relevante, sem dúvida (o episódio histórico — embarque de D. 
Pedro II a caminho do exílio — se tivesse ocorrido às três horas da 
tarde, talvez não se revestisse da mesma dramaticidade aos olhos 
de Raul Pompéia), mas idéia secundária em relação às demais. A 
mais importante, aquela da qual dependem as outras do período, 
está na oração final ("e o Largo do Paço foi..."). Ora, essa desi-
gualdade de valores semânticos pode encontrar expressão mais 
adequada numa estrutura em que se evidencie também uma de-
sigualdade de valores sintáticos, traço que distingue a subordinação da 
coordenação. Na versão à direita, original do Autor, a circunstância de 
tempo assume a forma de simples adjunto adverbial, termo aces-
sório da frase, de modo que o pensamento nuclear, o mais relevan-
te ("o Largo do Paço foi teatro...") ressalta do conjunto, justa-
mente por estar na oração principal. 
Ê evidente que esse preceito — de que na oração principal 
deve estar, ou convém que esteja, a idéia principal — nâo se impõe 
com rigidez absoluta, em virtude da concorrência de outros fatores 
e em face da existência de outros recursos para dar ênfase a deter-
minada idéia, como veremos em 1.5.1 e e m 3 . Par., 4.3. 
27 
« AULAS 3>€ fo#TO&(/£s'\ 
E S T U D O D A S O R A Ç Õ E S 
I. O P E R f O D O 
A t é a q u i e s t u d a m o s as f u n ç õ e s s intá t icas q u e p o d e m ocorrer n o 
i n t e r i o r d e u m a oração. Nes te cap í tu lo , t r a t a r e m o s d a oração cons iderada 
c o m o u n i d a d e , o b s e r v a n d o as d i fe rentes f u n ç õ e s p o r ela d e s e m p e n h a d a s 
n o t e x t o e d e t e r m i n a n d o , a p a r t i r d i sso , a sua c lass i f icação. Para t a l , é 
prec iso estabelecer o concei to d e período. Diga-se , antes d e t u d o , q u e s ó 
há p e r í o d o se h o u v e r o r a ç ã o , v a l e d i z e r , as frases n ã o - o r a c i o n a i s n ã o 
c o n s t i t u e m p e r í o d o . Observe-se a i n d a q u e o f i n a l de u m p e r í o d o é f o r -
m a l m e n t e a s s i n a l a d o p o r u m d o s seguintes s ina i s de p o n t u a ç ã o : p o n t o 
f i n a l , p o n t o d e i n t e r r o g a ç ã o , p o n t o d e e x c l a m a ç ã o o u ret icências . 
S i n t e t i z e m o s , p o i s , o conceito de período: o s e g u i m e n t o d o texto 
e m q u e se e n c o n t r a p e l o m e n o s u m a oração , d e l i m i t a d o p o r u m p o n t o 
f i n a l , d e i n t e r r o g a ç ã o , d e e x c l a m a ç ã o , o u re t icências . 
Reconlteço o erro. 1 uma oração, 
Quem disse isso? f um período 
Reconlwço / que errei. ) duas orações, um período 
A t e n ç ã o agora para o e x e m p l o s e g u i n t e , e m q u e o c o r r e m q u a t r o 
d o s s ina i s d e p o n t u a ç ã o c i tados , m a s apenas d o i s p e r í o d o s , já q u e e m 
d o i s m o m e n t o s existe a p o n t u a ç ã o , m a s n ã o e x i s t e m orações : 
Ora... [Voei não sabe?) Bolas! [É claro / que irei.) 
I o período 2o período 
(uma oração) (duas orações) 
O p e r í o d o se d i z simples q u a n d o cons t i tu ído p o r u m a s ó oração ; e 
composto, se h o u v e r m a i s d e u m a . 
II. O PERÍODO COMPOSTO 
a) Por c o o r d e n a ç ã o : q u a n d o s ó existem orações coordenadas, o u 
seja, orações q u e n ã o d e p e n d e m sintat icamente u m a s das outras . 
1 2 3 
Chegou cedo, / falou pouco / e saiu logo. 
or. coord. or. coord. or. coord. 
Estudo das orações 
A T E N Ç Ã O : ao d i z e r q u e as o r a ç õ e s coordenadas não dependem 
s in ta t í camente u m a s das o u t r a s , c h a m a m o s a a tenção para u m d o s aspec-
tos f u n d a m e n t a i s das re lações s in tá t i cas . A s pa lavras de u m a oração o u 
as orações de u m p e r í o d o p o d e m m a n t e r entre s i d o i s t i p o s b á s i c o s de 
re lação sintát ica: de dependência e de independência. Q u a n d o m a n t ê m 
c o m o u t r o t e r m o u m a re lação de d e p e n d ê n c i a , o u s q a , q u a n d o subordi-
nadas a o u t r o t e r m o , p a l a v r a s o u o r a ç õ e s d e s e m p e n h a m funções sintáti-
cas. Q u a n d o s ó ex i s tem re lações d e i n d e p e n d ê n c i a , n ã o há f u n ç õ e s s intát i -
cas. Por isso, n ã o p o d e m o s , r e a l m e n t e , anal i sar s in ta t í camente p a l a v r a s 
o u orações apenas i n d e p e n d e n t e s , c o m o p o r e x e m p l o : 
a) livros e discos 
b ) Chegou esaiu. 
A p e n a s p o d e m o s constatar q u e s ã o pa lavras (a) e o r a ç õ e s (b) 
coordenadas . E m s intaxe - ao contrár io da v i d a - os e lementos s ó exer-
c e m f u n ç ã o rea l q u a n d o s u b o r d i n a d o s ! Por isso as orações s u b o r d i n a d a s , 
d e p e n d e n t e s s i n t a t í c a m e n t e de o u t r a s , s ã o as ú n i c a s q u e p o d e m ser a n a l i -
sadas p o r seu v a l o r s intát ico in t r ínseco . 
Ele confirmou a viagem. 
obj. direto 
Ele confirmou / que viajaria. 
or. sub. obj. direta 
b ) Por s u b o r d i n a ç ã o : q u a n d o e x i s t e m orações principais e subor-
dinadas. C o m o v e r e m o s a d i a n t e , a c h a m a d a oração principal n ã o p o s s u i 
" p r i n c i p a l i d a d e " a l g u m a , até p o r q u e p o d e m ex is t i r n o r a ç õ e s p r i n c i p a i s . 
O i m p o r t a n t e será reconhecer e classif icar as orações subordinadas, as ú n i -
cas q u e - r e p e t i m o s - s e c lass i f i cam a p a r t i r d e sua f u n ç ã o s intát ica . 
substantivo 
Período simples: Precisava de ajuda. 
obj. indireto 
Período composto por subordinação: precisava / de que o ajudasse. 
í > - or. sub. subst. 
obj. indireta 
J 
loc. adverbial 
Período simples: Só sairei daqui de manhã. 
adj. adv. de tempo 
Período composto por subordinação: Sairei daqui / quando amanhecer. 
ÓT. sub. adv. temporal 
Aulas dc Português 
c) Por coordenação e subordinação: quando existem orações co-
ordenadas, principais e subordinadas. 
or. coord e principal 
Ele chegou'/ e logo confirmou / que viajaria. 
or. coordenada or. sub. subst. obj. direta 
EXERCÍCIO . 
Dividir (usando barrasje classificar os períodos. 
a) Claro! Eu lhe disse... Não se faz isso. 
b) Saímos cedo de casa. Nem assimconseguimos um bom lugar: o 
teatro já estava praticamente lotado quando chegamos. 
c) Estudaram muito, mas, devido ao reduzido número de vagas, 
não conseguiram o emprego. 
d) Que mulher? Aquela que vimos sair do cinema? 
e) Que seria de nós, se não nos esforçássemos!? 
IEL CLASSIFICAÇÃO DAS ORAÇÕES 
Inicialmente, as orações de um período podem receber as seguintes 
classificações: 1) absoluta; 2) principal; 3) coordenada; 4) subordinada. 
Dissemos "inicialmente" porque as coordenadas e subordinadas 
apresentam subdivisões. Vejamos os conceitos. 
1. Absoluta: a única oração de um período simples. 
Cheguei cedo. 
Nunca brigaria com você. 
2. Principal: qualquer oração que possua subordinada. 
ATENÇÃO: a nosso juízo, a denominação "principal" é profunda-
mente infeliz, por várias razões: 
•» a palavra "principal" traz consigo uma noção de hierarquia, 
que leva à noção equivocada de que orações assim classificadas seriam 
mais "importantes" que outras, ou encerrariam a "idéia básica" do texto; 
•* a denominação também favorece o equívoco de se acreditar na 
existência de apenas uma oração principal em cada período; 
-* na verdade, em um período com dez orações, nove podem ser 
principais, o que por si demonstra a impropriedade do termo; 
-+ ao fazermos a análise sintática de um período, as únicas orações 
denominadas pelo seu valor sintático são as subordinadas, cujo nome 
corresponde à função que exercem no texto. De fato, só chamamos princi-
pal a uma oração quando não há algo importante a dizer dela. Ao con-
trário do que o nome sugere. 
174 
'Estudo das orações 
Vamos, então, estabelecer um conceito objetivo para oração princi-
pal, exemplificando em seguida: principal é apenas qualquer oração que 
possua subordinada(s). Em um período, pode haver várias principais, mas 
só precisamos chamar assim a uma oração: a primeira que possuir e não for, 
ela própria, subordinada a nenhuma outra. 
or. principal 
Ele afirmou / que você disse. 
or. sub. subst. obj. direta 
or. principal 
Você disse / que todos sabiam. 
or. sub. subst. obj. direta 
or. principal 
Todos sabiam / que eu viria. 
or. sub. subst. obj. direta 
or. principal 
Eu viria / quando pudesse. 
or. sub. adv. temporal 
Imaginemos agora um período que reunisse todas as orações acima 
em uma seqüência lógica: 
1* 2* 3" 4" 5' 
Ele afirmou / que você disse / que todos sabiam I que eu viria / quando 
pudesse. 
1") or. principal 
2') or. sub. subst. obj. direta (principal da 3") 
3*) or. sub. subst. obj. direta (principal da 4*) 
4a) or. sub. subst. obj. direta (principal da 5a) 
5a) or. sub. adv. temporal 
As classificações entre parênteses da 2", 3* e 4* orações são 
desnecessárias: tendo sido classificadas como subordinadas, por seu valor 
sintático, é apenas secundário e circunstancial o fato de serem também 
principais de outras orações. Já a primeira oração não possui função sintática 
alguma. 
Por tudo isso, seria ríielhor denominar tais orações de subordi-
nantes, ou seja, apenas aquelas que regem subordinadas. 
3. Coordenada: diz-se que estão coordenadas entre si duas ou 
mais orações que não dependam sintatícamente umas das outras. Note-
se que a independência aqui não é de sentido, mas de função sintática. 
Quando dizemos, por exemplo: 
175 
Aulas de Português 
Estudou muito, / entretanto não alcançou boa nota. 
or. coordenada or. coordenada 
existe, sem dúvida, uma relação de idéias entre as orações. A segunda, 
inclusive, não existiria sem a primeira. Nenhuma das duas, porém, exerce fun-
ção para a outra. Compare-se com a relação entre principal e subordinada: 
or. principal 
Soube I que não alcançou boa nota. 
or. sub. subst. obi. direta 
Podemos ver que a oração subordinada exerce uma função sintática: 
é o objeto direto do verbo saber, da principal. 
Assim, podemos dizer de maneira concisa que orações coordenadas 
são as que não exercem função umas para as outras; ao passo que subordina-
das são as que exercem uma função sintática para a sua principal. 
• Coordenadas sindéticas e assindéticas. A relação entre as orações 
coordenadas pode-se estabelecer através de um elemento de ligação (conec-
tivo ou síndeto), ou diretamente. No primeiro caso, diz-se que as orações 
são coordenadas sindéticas, e, se não houver conectivo, assindéticas. , 
coord. assindética 
Chegou rapidamente, /falou pouco Ie saiu logo. 
coord. assindética coord. sind. aditiva 
OBSERVAÇÕES 
a) Em um período composto por coordenação, não há oração prin-
cipal, e a primeira oração será coordenada assindética. Note-se que a con-
junção no início do período não está coordenando uma oração à anterior, 
mas um período a outro: 
coord'. assindética 
E ele chegou, / nada disse / e saiu. 
coord. assindética coord sind. aditiva 
Também no caso das coordenadas alternativas, a primeira será 
assindética, ainda quando o conectivo apareça repetido. 
Ou chegam cedo / ou não acharão lugar. 
coord. assindética coord. sind. aditiva 
Basta entender que coordenada sindética é a oração ligada por 
conectivo a uma anterior. 
b) A N.G.B. optou por denominar pela idéia que expressam ape-
nas as coordenadas sindéticas, o que pode levar ao equívoco de entender 
176 
Aulas de Português 
Estudou muito, I entretanto não alcançou boa nota. 
or. coordenada or. coordenada 
existe, sem dúvida, uma relação de idéias entre as orações. A segunda, 
inclusive, não existiria sem a primeira. Nenhuma das duas, porém, exerce fun-
ção para a outra. Compare-se com a relação entre principal e subordinada: 
or. principal 
Soube I que não alcançou boa nota. 
or. sub. subst. obi. direta 
Podemos ver que a oração subordinada exerce uma função sintática: 
é o objeto direto do verbo saber, da principal. 
Assim, podemos dizer de maneira concisa que orações coordenadas 
são as que não exercem função umas para as outras; ao passo que subordina-
das são as que exercem uma função sintática para a sua principal. 
• Coordenadas sindéticas e assindéticas. A relação entre as orações 
coordenadas pode-se estabelecer através de u m elemento de ligação (conec-
tivo ou síndeto), ou diretamente. N o primeiro caso, diz-se que as orações 
são coordenadas sindéticas, e, se não houver conectivo, assindéticas. , 
coord. assindética 
Chegou rapidamente, /falou pouco Ie saiu logo. 
coord. assindética coord. sind. aditiva 
O B S E R V A Ç Õ E S 
a) E m u m período composto por coordenação, não há oração prin-
cipal, e a primeira oração será coordenada assindética. Note-se que a con-
junção no início do período não está coordenando uma oração à anterior, 
mas u m período a outro: 
coord-, assindética 
E ele chegou, / nada disse / e saiu. 
coord. assindética coord sind. aditiva 
Também no caso das coordenadas alternativas, a primeira será 
assindética, ainda quando o conectivo apareça repetido. 
O M chegam cedo / ou não acharão lugar. 
coord. assindética coord. sind. aditiva 
Basta entender que coordenada sindética é a oração ligada por 
conectivo a uma anterior. 
b) A N.G.B. optou por denominar pela idéia que expressam ape-
nas as coordenadas sindéticas, o que pode levar ao equívoco de entender 
1 7 6 
E s t u d o das o r a ç õ e s 
os conectivos como determinantes absolutos na classificação das coorde-
nadas. Na verdade, a idéia expressa pelas coordenadas muitas vezes 
independe do conectivo. Se dizemos: 
coord. assindética 
Não irei mais, / pois é muito tarde. 
coord. sind. explicativa 
chamamos a segunda oração de coordenada sindética explicativa pela idéia que 
encerra, de explicar o fato anterior. A mesma idéia existe em: 
coord. assindética 
Não irei mais: / é muito tarde. 
coord. assindética 
A segunda oração deveria chamar-se coordenada assindética explicativa. 
c) Exatamente por não ser determinante o conectivo, deve-seevi-
tar a simples memorização das conjunções. É freqüente, por exemplo, o 
aluno pensar que a simples presença das conjunções mas, porém, contudo, 
entretanto caracterizaria uma coordenada adversativa; ao passo que a 
conjunção e iniciaria sempre uma coordenada aditiva. Não é assim. A 
denominação aditiva vem de adição, soma, e a oração tem esse nome 
quando apenas acrescenta tuna idéia à anterior; ao passo que adversativa 
provém de adverso, contrário, razão por que a oração assim chamada 
expressa idéia contrária ao que se esperava da anterior. 
coord. assindética 
Estuda I e também trabalha. 
coord. sind. aditiva 
coord. assindética 
Estudou muito, / mas não tirou boa nota. 
coordenada sind. aditiva 
Vejamos, agora, exemplos em que as mesmas conjunções iniciam 
orações diferentes: 
coord. assindética t 
Estudou muito / e não titou boa nota. ' 
coord. sind. adversativa 
coord. assindética 
Não só estuda, / mas também trabalha. 
coord. sind. aditiva 
• Coordenadas sindéticas. 
4 Aditivas. As que acrescentam uma idéia aó fato anterior. São 
177 
c 
1 
Aulas dc Português 
introduzidas pelas conjunções ou locuções coordenativas aditivas: e, nem, não 
só ... mas também, tanto ... como. 
or. coord. assindética 
Olhou-me / e sorriu. 
or. coord. sind. aditiva 
or. coord. assindética 
Não só estuda, / mas também trabalha. 
or. coord. sindética aditiva 
# Adversativas. Quando apresentam uma idéia contrária ao fato 
anterior. Sáo introduzidas pelas conjunções ou locuções coordenativas adversati-
vas: mas, porém, todavia, contudo, entretanto, no entanto, e sim, e não etc. 
or. coord. assindética 
Acredito nele, / mas duvido da sua aprovação. 
or. coord. sind. adversativa 
or. coord. assindética 
É rico, / e não paga suas dívidas. 
or. coord. sind. adversativa 
•» Explicativas. As que apresentam explicação para o fato ante-
rior. São introduzidas pelas conjunções coordenativas explicativas: pois (an-
teposta ao verbo), porque, que, porquanto etc. 
or. coord. assindética 
Chegue cedo, / pois a festa acabará logo. 
or. coord. sind. explicativa 
OBSERVAÇÃO: as conjunções explicativas quê e porquê apare-
cem normalmente depois de uma pausa forte, representada por u m verbo 
no imperativo, ponto e vírgula ou oração optativa. Quando não é assim, trata-
se de conectivos de subordinação. 
or. coord. assindética 
4 Conclusivas. As que denotam conclusão ou conseqüência lógica 
do fato anterior. São introduzidas pelas conjunções ou locuções coordenati-
vas conclusivas: logo, portanto, então, assim, por isso, por conseguinte, 
pois (posposta ao verbo) etc. 
or. coord. assindética 
Não estudou a matéria; / será, portanto, reprovado. 
or. coord. sind. conclusiva 
Não faltes, / que a explicação será importante. 
or. coord. sind. explicativa 
178 
Estudo d a s o r a ç õ e s 
OBSERVAÇÃO: opõem-se semanticamente as coordenadas con-
clusivas e as explicativas. E m uma relação causa/efeito, as explicativas 
expressam causa para u m efeito que está na coordenada anterior. Já as 
conclusivas expressam efeito para uma causa anterior. 
or. coord. assindética (= efeito) 
Não irei mais, / pois é tarde. 
or. coord. sind. explicativa (= causa) 
or. coord. assindética (= causa) 
É muito tarde; / portanto, não irei mais. 
or. coord. sind. conclusiva (= efeito) 
No estudo das subordinadas, trataremos das diferenças entre 
estas orações e as adverbiais causais e consecutivas. 
-» Alternativas. As que indicam alternância ou exclusão. São i n -
troduzidas pelas conjunções coordenativas alternativas: ou ... ou, ora ... ora, 
quer... quer, já ...já etc. 
or. coord. assindética 
Ora brincava, / ora lia. 
or. coord. sind. alternativa 
or. coord. assindética 
Ou saía I ou ficava preso. 
or. coord. sind. alternativa 
• Coordenação entre orações subordinadas. Podem estar coorde-
nadas entre si duas ou mais orações apenas independentes: 
v v '- ' 
a) Chegou / e saiu logo. 
ou duas ou mais orações subordinadas a uma mesma principal: 
V 2- 3- / J 
b) Vi I que ele chegou / esaiu logd. ' 
N o primeiro caso (período a), classificamos as orações apenas 
como coordenadas: 
V 2' 
Chegou I e saiu logo. 
coord. coord. sind. < 
assind. aditiva 
179 
Aulas de Português 
Já no caso seguinte, vamos classificar a 2* e a 3* orações inicialmente 
como subordinadas, para depois mencionar que estão coordenadas entre si: 
1* 2' 3* 
or. sub. subst. obj. direta 
Vi I que ele chegou / e saiu logo. 
or. or. sub. subst. obj. direta e 
principal coord. sind. aditiva à anterior 
Portanto, ao identificarmos no interior do período uma oração 
coordenada, devemos estabelecer com qual oração se dá a coordenação. 
Pois a oração que formos analisar, se estiver coordenada a uma subordina-
da, será também subordinada, com a mesma função da outra. Vejamos 
exemplos em que a terceira oração está coordenada: 
1« 2' 3* 
or. sub. subst. obj. direta 
a) Prometeu / que viria / e não cumpriu. 
or. principal or. coord. sind. adversativa 
A q u i a 3* oração está coordenada à t\ que não é subordinada. Por 
isso a classificamos apenas pela coordenação. 
t. Y 3. 
or. sub. subst. obj. direta 
b) Prometeu / que viria I e ajudaria. 
or. principal or. sub. subst. obj. direta e 
coord. sind. aditiva à anterior 
Já no período acima, as duas ultimas orações estão coordenadas 
entre si , sendo ambas subordinadas à primeira. Por isso as classificamos 
antes de tudo como subordinadas, e depois indicamos a coordenação. 
Observe-se, nos exemplos acima, que os tempos e modos verbais já nos 
indicam quais as orações coordenadas entre si. 
EXERCÍCIO 
Dividir as orações (usando barras) e classificar apenas as coordenadas. 
a) A vida te abençoe, porque és merecedora da graça divina. 
b) Perguntamos-lhe onde seria a festa. 
c) Não fuma nem bebe. 
d) Quem cala consente. 
e) Entra depressa, que não tarda a chuva. 
f) Ficou acordado vários dias, e não estava com sono. 
1 8 0 . 
E s t u d o das o r a ç õ e s 
g) Não saímos porque chovia. 
h) A festa fo i confirmada; devemos, portanto, transferir a viagem. 
i) Não o critiquemos, porquanto já cumpriu com a sua parte no 
trabalho. 
j) Fui cedo para a cama; não consegui, contudo, dormir . 
4. Subordinada: é aquela que depende sintatícamente de outra 
oração. Diz-se que uma oração é dependente sintatícamente quando cor-
responde a uma função sintática (sujeito, objeto direto, adjunto adnominal, 
adjunto adverbial etc). 
Assim, a oração subordinada difere da oração coordenada em 
virtude de a última não corresponder a qualquer função sintática. Po-
demos dizer, então, que sintatícamente as orações coordenadas são inde-
pendentes, ao passo que as subordinadas são dependentes. 
Vejamos alguns exemplos de orações subordinadas: 
Vi I que todos estavam calmos. 
O aluno I que estuda / passa. 
Saímos I quando a chuva acabou. 
N o primeiro período, a oração que todos estavam calmos é subordi-
nada porque exerce a função de objeto direto; no segundo, a oração que 
estuda é subordinada porque exerce a função de adjunto adnominal; no 
terceiro, a oração quando a chuva acabou é subordinada porque exerce a 
função de adjunto adverbial de tempo. 
IV. SUBORDINADAS DESENVOLVIDAS E REDUZIDAS 
Independente de sua classificação, as orações subordinadas 
podem-se apresentar como desenvolvidas ou reduzidas. Tais conceitos se 
referem ao modo verbal e à presença de conectivos, a saber: 
•* Desenvolvidas: têm o verbo em uma das chamadas formas finitas 
(indicativo, imperativo e subjuntivo) e se vinculam à principal através de 
uma palavra de ligação, chamada genericamente conectivo. 
conectivo/indicativo 
Prometeu / que chegaria cedo. t 
principal sub. subst. pbj. direta / / 
conectivo/subjuntivo 
O primeiro / que puder / dê notícias a todos.principal adj. restrit. principal 
conectivo/subjuntivo 
Quando houver tempo, / irei. 
adv. temporal principal 
181 
Aulas de Português 
conectivo / imperativo 
Espero / que não vás com tanta sede ao pote. 
princ. sub. subst. obj. direta 
conectivo /indicativo 
Quando termine a aula, / conversaremos. 
sub. adv. temporal principal 
4 Reduzidas: têm o verbo em uma das chamadas formas nominais 
(infinitivo, gerúndio ou particípio passado) e não apresentam os elementos 
conectivos das orações desenvolvidas: iniciam-se diretamente ou por uma 
preposição. 
infinitivo 
Prometeu I chegar cedo. 
infinitivo 
O primeiro / a saber dele / dê notícias a todos. 
preposição 
infinitivo 
Espero / não ires com tanta sede ao pote. 
part. passado 
Terminada a aula. / conversaremos. 
gerúndio 
Havendo tempo. / irei. 
Podemos resumir assim as diferenças entre desenvolvidas e redu-
zidas: 
r indicativo 
Desenvolvidas: conectivo + i imperativo 
L subjuntivo 
{ inf in i t ivo gerúndio patidpio passado 
OBSERVAÇÕES 
•» As chamadas formas nominais (infinitivo, gerúndio e particípio 
passado) dependem sintatícamente de uma forma verbal não-nominal. 
Por isso, as orações reduzidas são, em princípio, subordinadas. 
Entretanto, a riqueza da Língua fez que se estabelecessem cons-
truções outras, em que inf in i t ivo e gerúndio se empregam em lugar de 
orações coordenadas. Temos, assim, algumas orações reduzidas com valor 
182 
E s t u d o das orações 
de coordenadas aditivas, às quais a N . G. B. não faz qualquer menção: 
a) De i n f i n i t i v o : quando precedido de sobre ou além de, expres-
sando acréscimo a outra idéia: 
Ele, I além de ser inteligente. / é estudioso. 
= Ele é estudioso / e também é inteligente. 
Aquele político, / sobre ser corrupto. / era incompetente. 
= Aquele político era incompetente / e também era corrupto. 
b) De gerúndio: quando o gerúndio expressa fato posterior e 
independente em relação ao da outra oração: 
O cão comeu toda a carne, /enterrando em seguida os ossos. 
= O cão comeu toda a carne /e enterrou os ossos. 
* É importante fazer aqui u m esclarecimento sobre a denomina-
ção "conectivo" utilizada neste trabalho. Em sua acepção primeira, conec-
tivos são apenas as palavras cuja única finalidade é estabelecer conexão 
entre elementos sintáticos (palavras ou orações), sem exercer qualquer 
função sintática: 
conectivo 
• 
• verbo de ligação:. Maria é inteligente. 
sujeito predicaüvo 
conectivo 
• preposição: Precisa de emprego. 
obj. indireto 
conectivo 
• conjunção: Comprei discos e livros. 
obj. dir. composto 
conectivo i / 
Falou / e disse. 
coord. assindética coord. sind. aditiva 
conectivo 
t • 
Confirmou / que viajaria. 
principal sub. subst. obj. direta " 
183 
A u l a s de P o r t u g u ê s 
Entretanto, vamos considerar aqui conectivos de subordinação to-
das as palavras que iniciam orações subordinadas desenvolvidas. Além das 
conjunções e locuções conjuntivas, incluem-se aí outras palavras que, ade-
mais de iniciarem subordinadas, exercem função sintática: pronomes inter-
rogativos e exclamativos, advérbios interrogativos e exclamativos, e pro-
nomes relativos. 
Não sei de que falas. 
pronome interrogativo •* conectivo 
Veja quem cliegou. 
pronome exclamativo 4 conectivo 
Não sei onde procurar o livro. 
advérbio interrogativo -* conectivo 
OZ/tc como ela caminha. 
advérbio exclamativo 4 conectivo 
Conheço a pessoa de quem falas 
pronome relativo 4 conectivo 
ATENÇÃO: a N . G. B., contudo, não usa as denominações pronome 
exclamativo e advérbio exclamativo - denomina tais palavras "pronomes 
indefinidos" ou "advérbios interrogativos". Na verdade, os pronomes são 
indefinidos tanto nas interrogações como nas exclamações, diretas ou indire-
tas. Parece-nos absurdo chamar "advérbio interrogativo"aquele que ocorre 
em frase nitidamente exclamativa. 
Assim como existe interrogação direta (marcada por pontuação) 
e indireta (deduzível do contexto): 
De que precisas? (interrogação direta) 
Não sei de que precisas (interrogação indireta) 
há também exclamações diretas e indiretas, segundo o mesmo critério:' 
Que linda está, Denise! (exclamação direta) 
Veja que linda está Denise. (exclamação indireta) 
4 Em Latim havia quatro formas nominais, cada uma com sua 
desinência modo-temporal própria: 
Infinitivo 4 DMT re (Latim clássico); r (Latim vulgar) 
• amare; amar 
Gerúndio 4 DMT nd 
m amando 
184 
Estudo das orações 
Particípio presente •» DMT nt 
m amante 
Particípio passado •* DMT t (Latim clássico); d (Latim vulgar) 
• amatus; amadus: em Português, amado 
O particípio presente, no processo evolutivo de nosso idioma, 
desaparece como forma verbal, tendo utilização nominal como adjetivo 
ou substantivo. 
As pessoas amantes da paz são raras. 
adjetivo 
Os amantes estavam em festa. 
substantivo 
O particípio passado parece caminhar para o mesmo destino. N o 
Português atual, é empregado quase sempre como adjetivo ou como parte de 
uma locução verbal. 
Vi ontem a mulher amada. 
adjetivo 
Tinha chegado a hora. 
aux. v. principal 
loc. verbal 
Raras vezes o particípio passado, sozinho, é empregado como 
verbo; raras vezes, portanto, constitui oração reduzida. Para tanto, é 
necessário ter depois dele u m substantivo ou equivalente que funcione 
como seu sujeito e só possua essa função: 
or. principal 
Encerrada a sessão, / os deputados se dispersaram. 
or. sub. adv. temporal 
ou causai 
Observe-se que o particípio não constitui oração reduzida quando 
se refere a termo anterior: 
/ pbj. direto 
O presidente da Câmarâ considerèu a sessão encerrada. 
adjetivo/pred. do objeto 
ou quando se refere a termo posterior que possua outra função sintática 
que não seja a de sujeito do particípio: 
obj. direto 
O presidente da Câmara considerou a sessão encerrada. 
adjehvo/pred. do objeto 
185 2A 
A u l a s d e P o r t u g u ê s 
Em resumo: oração reduzida de particípio passado só existe com 
sujeito próprio e posposto ao verbo. 
verbo sujeito 
Entendido esse ponto. / sigamos adiante. 
ar. sub. adv. temporal or. principal 
(red. de part. passado) 
-» Como já vimos, os conectivos de subordinação iniciam orações 
desenvolvidas; ao passo que infinitivo, gerúndio e particípio são próprios 
de orações reduzidas. Por essa razão, ao d i v i d i r os períodos, devemos estar 
atentas para o seguinte fato: não pertencem à mesma oração u m conecti-
vo de subordinação e u m verbo no inf in i t ivo , gerúndio ou particípio. 
Observemos.os seguintes períodos: 
Afirmou que estudar tal matéria era indispensável. 
Disse que, sendo possível, nos ajudaria. 
Convém que, resolvidos tais problemas, passemos aos próximos. 
Para d i v i d i r os períodos acima, devemos, antes de tudo, assinalar 
verbos e conectivos. 
Afirmou que estudar tal matéria era indispensável. 
Disse que, sendo possível, nos ajudaria. 
Convém que, resolvidos tais problemas, passemos aos próximos. 
Sabendo que conectivos de subordinação não podem pertencer a 
orações reduzidas, teremos as seguintes divisões: 
V 2' 3' 2* 
Afirmou / que / estudar tal matéria / era indispensável. 
r 2* 3* 2* 
Disse I que, / sendo possível, / nos ajudaria. 
P 2' 3' 2* 
Convém / que, / resolvidos tais problemas, / passemos aos próximos. 
ATENÇÃO: a observação anterior se refere a infinitivo, gerúndio 
e particípio. Ocorre que grande parte dos verbos da Língua possuem a 
mesma forma no in f in i t ivo e no futuro do subjuntivo. Em caso de dúvida, 
basta substituir o verbo em questão por a lgum outro cujo futuro do 
subjuntivo seja diferente (fazer/fizer, poder/puder etc.) 
r 2 . 3 . 2' 
Disse / que I fazer isso / seria inconveniente. 
infinitivo 
(o conectivo não fica na mesma oração do infinitivo)186 
E s t u d o das o r a ç õ e s 
1* 2* V 
A pessoa / que fizer isso / será inconveniente. 
fui subjuntivo 
(o conectivo fica na mesma oração do futuro do subjuntivo) 
Considerem-se, ainda, os casos de emprego de uma forma verbal 
por outra - procedimento freqüente em todas as Línguas latinas, chamado 
enálage. No Português, o infinitivo se usa normalmente em lugar do futuro 
do presente. Isso explica orações desenvolvidas cujo verbo está apenas em 
aparência no infinitivo. 
conectivo 
Não sei I como fazer isso. (= como farei) 
conectivo 
Não imagino / que dizer a ela. (= que direi) 
-* Nem sempre o infinitivo, gerúndio e particípio constituem oração 
reduzida: muitas vezes são o verbo principal de uma locução verbal. Ocorre 
locução verbal quando existe mais de uma forma para expressar apenas u m 
processo verbal. 
Trataremos das locuções verbais antes de falar especificamente sobre 
a classificação das orações reduzidas. Tenhamos desde já uma clareza: as 
orações reduzidas podem ser desenvolvidas; as locuções verbais, não. 
Prometeu / ir.-* Prometeu / que iria. 
Devo ir •* (impossível transformar o infinitivo em oração desenvolvida) 
loc. verbal 
EXERCÍCIO 
Transformar as orações subordinadas desenvolvidas em reduzidas, con-
templando todas as possibilidades. 
a) Ele foi o primeiro que se solidarizou conosco. 
b) Porque criticava constantemente o dube, foi expulso pela d i -
retoria. , 
d) Creio que é desnecessário quê sé leia o programa. 
e) Quando terminou o espetáculo, a atriz estava esgotada. 
f) Queimou-se com a água quê fervia. 
g) Não era pessoa que esquecesse os amigos. 
h) Como desempenhou com efidênda a função, o rapaz mereceu 
a promoção. 
i) Ainda que estabelecesse a sodedade as regras da ética, nem 
todos os políticos as observariam. 
187 
Aulas de P o r t u g u ê s 
j) Lutou para que fizessem justiça. 
1) Alegra-me a visão das mulheres que dançam quando a primave-
ra chega à minha cidade. 
V. ESTUDO DAS SUBORDINADAS DESENVOLVIDAS. 
Como vimos ao estudar as funções sintáticas, há uma relação 
entre classes e funções: estas podem ser de natureza substantiva, adje-
tiva ou adverbial. Visto que as orações subordinadas são as que repre-
sentam funções sintát icas, idêntica será sua subdiv isão . 
Estamos tratando das subordinadas desenvolvidas, e isso implica 
falar de seus conectivos, da d iv isão dos per íodos e da classificação especi-
fica das subordinadas. 
x 
• Procedimentos prá t icos para a d iv i são das orações. 
a) Divid i r u m período composto por subordinação em orações signi-
fica, antes de tudo, identificar os verbos. Feito isso, assinalamos os conecti-
vos: a divisão se fará antes deles ou da preposição que os preceder: 
V 2* 3* 
Espero I que já tenham a resposta / de que preciso. 
princ. sub. subst. obj. direta sub. adj. restritiva 
b) N e m sempre, po rém, o texto estará em ordem direta. Na verda-
de, em se tratando de texto literário, a preferência será pela ordem in-
versa. Devemos lembrar, então, que os verbos são núcleos sintáticos, em 
tomo dos quais as funções se organizam. Às vezes não há conectivos entre 
os verbos, mas podemos d iv id i r o pe r íodo observando se os termos 
exercem função para o verbo anterior ou para o posterior: 
conectivo 
Quem fizer este trabalho / jamais se arrependerá. 
obj. direto adv. tempo 
conectivo 
De que eles virão I eu tenho certeza. 
sujeito sujeito 
c) Cada conectivo de subord inação inicia uma subordinada, razão 
por que dois conectivos diferentes n ã o podem pertencer à mesma oração. 
Se houver no pe r íodo dois conectivos de subord inação seguidos, a d i -
visão se fará antes de cada u m deles, e a oração iniciada pelo primeiro 
con t inuará onde houver verbo sem conectivo. Vejamos, passo a passo, a 
d iv i são de u m per íodo , lembrando que a primeira providência é assinalar 
verbos e conectivos: 
188 
Estudo das orações 
conectivos 
4 4 
A verdade é que onde ele está ninguém sabe. 
verbo verbo verbo 
Percebemos a presença de dois conectivos seguidos (que e onde) e 
dividiremos antes de cada u m deles: 
l« 2' 3' 2' 
A verdade é / que / onde ele está / ninguém sabe. 
Outros exemplos: 
|i 2 . 3. 2-
Afirmou / que / quem fiz isso I pagaria pelo crime. 
, . 2' 3 - 2" 
Sabemos / que I quando voltarem aqui / já será tarde. 
• Subordinadas substantivas. São as que exercem qualquer das 
funções substantivas (sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nomi-
nal, aposto, predicativo e agente da passiva). 
Quando desenvolvidas, podem ser iniciadas pelas seguintes classes 
de palavras: 
a) conjunções integrantes: que e se; 
b) pronomes interrogativos: que, quem, qual, quanto, quantos; 
c) advé rb ios interrogativos: onde, como, quando, quanto. 
Como já foi dito, a divisão se fará antes de u m desses conectivos 
ou da preposição que o preceda: 
Vimos I como eles agem. 
Acreditamos / em quem está no comando. 
Não sei Icom quantos amigos contamos. 
ATENÇÀO: identificação das substantivas entre os demais tipos 
de subordinadas. Vimos quais as classe^ de palavras que iniciam orações 
substantivas. Ocorre que os mesmos vocábulos (que, quem, qual, quanto, 
quando, onde, como) podem-se apresentar como outras classes gramaticais 
e iniciar outros tipos de oração: 
-» quando são pronomes relativos, iniciam orações subordinadas 
adjetivas. Neste caso, o conectivo é substituível pela locução o qual e suasflexõesr. 
Conheço a pessoa / de quem falas. 
(= da qual) 
189 
Aulas de Português 
Estive na rua I onde moras. 
(= na qual) 
•» quando são conjunções, iniciam orações adverbiais: 
Irei I quando puder. 
-* as palavras que e como podem ainda ser conjunções coordena-
tivas e iniciar orações coordenadas sindéticas, respectivamente explicati-
vas e aditivas: 
Não vá; / que não é necessário. 
coord. sind. explicativa 
Não só estuda / como trabalha. 
coord. sind. aditiva 
Por tudo isso, acreditamos útil que o aluno disponha de u m procedi-
mento prático para identificar as subordinadas substantivas dentre as outras 
subordinadas. Para chegar a ele, partimos de duas premissas: 
a) os pronomes são classes de palavras que podem substituir os 
substantivos; 
b) as palavras isso e esse são pronomes demonstrativos e podem 
representar respectivamente nomes de coisas e pessoas. 
CONCLUSÃO: tudo quanto for de natureza substantiva, inclusive 
as orações subordinadas, será substituível pelo pronome isso (ou esse, caso 
represente pessoa). 
or. sub. substantiva 
Nunca soube / quando seria a prova. 
Nunca soube isso. 
or. sub. substantiva 
Preciso I de que me ajudes. 
Preciso disso. 
or. sub. substantiva 
Tinha medo / de que o roubassem. 
Tinha medo disso. 
or. sub. substantiva 
Quem é aluno / não precisa de ingresso. 
Esse não precisa de ingresso. 
Para classificar a oração substantiva, basta analisar sintatícamente 
o pronome isso (ou esse): 
190 
Estudo das orações 
(isso = obj. direto) 
Nunca soube / quando seria a prova. 
or. sub. subst. obj. direta 
(disso m obj. indireto) 
Preciso I de que me ajudes. 
or. sub. subst. obj. indireta 
(disso — compl. nominal) 
Tinha medo / de que o roubassem. 
or. sub. subst. compl. nominal 
(esse = sujeito) 
Quem é aluno / não precisa de ingresso. 
or. sub. subst. subjetiva 
Estabelecidas as noções anteriores, podemos inclusive nos adian-
tar u m pouco e propor procedimentos práticos para identificar a natureza 
de todas as subordinadas (substantivas, adjetivas e adverbiais). 
Identificados os conectivos de subordinação e divididas as orações, 
procederemos da seguinte forma: 
a) se pudermos substituir a subordinada pelo pronome isso (ou 
esse), ela será substantiva; analisamos o pronome e obtemos a classifi-
cação da oração; 
b) quando não seja possível oprocedimento anterior, verificamos 
se o conectivo é substituível por o qual (eflexões), caso em que a subordi-
nada será adjetiva; 
c) se não pudermos fazer qualquer das substituições anteriores, 
saberemos que a subordinada é adverbial. 
Vejamos a aplicação prática de tais procedimentos em dez perío-
dos em que ocorrem conectivos de subordinação. 
• Natureza das subordinadas. 
• São substantivas - porque substituíveis por isso ou esse - as 
subordinadas dos seguintes períodos: 
(isso = obj. direto) 
Não me disse / como fariam o trabalha. / 
or. sub. subst. obj. direta 
(disso m coínpl. nominal) 
Tenho certeza / de que gostarás do livro. 
or. sub. subst. compl. nominal 
(isso = obj. direto) 
Não sei I onde estão seus amigos. 
or. sub. subst. obj. direta 
191 
Aulas de Português 
Plisso • obj. indireto) 
d) Necessitava I de que o ajudassem. 
or. sub. subst obj. indireta 
-* São adjetivas - porque podemos substituir o conectivo por o 
qual (e flexões) - as subordinadas dos seguintes períodos: 
(como = pelo qual) 
Conheço bem o modo I como enriqueceram. 
or. sub. adjetiva 
(At que = do qual) 
Trouxe-llu: o livro / de que precisas. 
or. sub. adjetiva 
(onde = na qual) 
Não conheço a cidade / onde nasceslc. 
or. sub. adjetiva 
-» São-adverbiais - por não admitirem qualquer das substituições 
anteriores - as subordinadas dos seguintes períodos: 
Procedeu I como esperávamos. 
or. sub. adverbial 
Correu tanto I que ficou cansado. 
or. sub. adverbial 
Sempre morou / onde nasceu. 
or. sub. adverbial 
• Classificação das subordinadas substantivas. Tais orações cor-
respondem a uma função sintática substantiva (sujeito, objeto direto etc). 
Os conectivos típicos das orações substantivas são as conjunções 
integrantes: que e se. Estas conjunções não têm função sintática. 
Para classificarmos uma oração substantiva, como já vimos, deve-
mos substituí-la por u m pronome demonstrativo (isso ou esse); anali-
sando, então, o pronome, teremos a função da oração. 
OSBERVAÇÕES 
a) As orações substantivas podem aparecer justapostas (sem conec-
tivo): Espero / sejas feliz. 
b) Podem aparecer introduzidas por palavras que, ao contrário 
das conjunções integrantes (que e se), têm função sintática. São as 
seguintes: os pronomes interrogativos quem, qual, quê (numa interro-
gação direta); os advérbios (interrogativos ou não) onde, como, quando, 
por quê, quanto; e os pronomes indefinidos quantos(as), quem. 
192 
Estudo das orações 
Segundo a N.G.B., são seis as orações subordinadas substantivas. 
•» Subjetiva. A que exerce a função de sujeito para o verbo da oração 
principal. 
or principal 
Quem estuda / passa. 
or. sub. subst. subjetiva 
or. principal 
É certo I que todos passarão. 
or. sub. subst. subjetiva 
or. principal 
Foi dito I quando seria a prova. 
or. sub. subst. subjetiva 
•* Objetiva direta. A que exerce a função de objeto direto para o 
verbo da oração principal. 
or. principal 
Conlicço I quem escreveu o livro. 
or. sub. subst. obj. direta 
4 Objetiva indireta. A que exerce a função de objeto indireto 
para o verbo da oração principal. 
or. principal 
Daremos um prêmio / a quem obtiver melhor nota. 
or. sub. subst. obj. indireta . 
4 Predicativa. A que completa o sentido do verbo ser (na principal) 
que já possua sujeito. 
or. principal 
A verdade é / que não estudaram. 
or. sub. subst. predicativa 
4 Completiva nominal . A que conjpleta o sentido de u m nome da 
principal. V .».. 
or. principal j 
Estou certo / de que vocês serão aprovados. 
or. sub. subst. compl. nominal 
or. principal 
De que vocês passarão com destaque / tenho certeza, 
or. sub. subst. compl. nominal 
193 
Aulas de Português 
•+ Apos i t iva . A que repete, com outras palavras, uma função 
sintática já existente na principal . 
or. principal obj. direto 
Quero apenas uma coisa: / que não se esqueçam do livro. 
or. sub. subst. apositiva 
• Particularidades das subordinadas substantivas. 
4 Subjetivas: podem ocorrer nas seguintes situações: 
a) depois dos chamados verbos unipessoais, que só se conjugam na 
3a pessoa e têm normalmente o sujeito (palavra ou oração) posposto. As 
orações subjetivas aparecem com mais freqüência depois das seguintes 
formas de tais verbos: basta, consta, urge, parece, convém etc: 
Consta I que ele virá. 
Basta I que penses um pouco. 
b) iniciadas pelos pronomes quem ou quantos, representando a{s) 
pessoa(s) de quem se faz uma declaração: 
Quem vier / será bem recebido. 
Quantos vierem / serão bem recebidos. 
c) depois de verbos transitivos diretos acompanhados do prono-
me apassivador se: 
Pede-se / que ajam com discrição. 
Não se sabe / onde será a festa. 
d) Depois de u m verbo ser em cuja oração só exista predicatívo. 
É bom I que penses nisso. 
predicatívo 
Melhor seria / que chegasses cedo. 
predicatívo 
4 Objetivas diretas. Assim como os objetos diretos que represen-
tam pessoa ou coisa personificada, as orações objetivas diretas iniciadas por 
quem ou quantos muitas vezes aparecem preposicionadas. Para não con-
fundi-las com objetivas indiretas, basta lembrar que a preposição não será 
exigida pelo verbo da principal. 
Admiro / a quem cumpre seu dever com alegria. 
Admiro / a quantos cumprem seu dever com alegria. 
4 Objetivas indiretas e completivas nominais . Ambas estarão 
precedidas de preposição necessária, e a diferença entre elas reside em 
que as primeiras têm por antecedente um verbo e as segundas, u m nome. 
194 
Estudo das orações 
Necessito / de que estejas aqui cedo. 
or. sub. subst. obj. indireta 
Tenho necessidade I de que estejas aqui cedo. 
or. sub. subst. compl. nominal 
•» Predicativas. Embora o predicatívo possa ocorrer com qualquer 
tipo de verbo, as orações predicativas completam apenas o verbo ser, 
quando possuem tão-somente sujeito. 
A verdade é I que não estou interessado. 
sujeito or. sub. subst. predicativa 
Ela não era / quem pensávamos. 
sujeito or. sub. subst. predicativa 
A oração que dependa do verbo parecer (unipessoal) não será 
predicativa, senão subjetiva. Por analogia com o verbo parecer de ligação, 
pode ocorrer que o sujeito da oração subordinada se escreva antes do 
verbo parecer unipessoal: 
v. ligação 
Gabriela parece triste. 
sujeito predicatívo 
v. unipessoal 
Parece I que ele virá. 
or. sub. subst. subjetiva 
V 2" 1" 
Ele I parece / que virá. 
\") or. principal 
2*) or. sub. subst. subjetiva 
4 Apositívas. A única das subordinadas substantivas separada de 
sua principal por uma pausa, assinalá vel por vírgula, dois pontos ou travessão: 
Preciso apenas de uma coisa, J de que me ensinem o caminho. 
or. sub. subst. apositiva 
4 Oração substantiva com valor de agente da passiva. Ao tratar das 
funções substantivas, a N . G. B. menciona sete, dentre elas a de agente da 
passiva. Ao nomear as orações substantivas, porém, deixa de mencionar 
aquela que exerce tal função. Omissão, a nosso ver, injustificável. Com-
parem-se os exemplos: 
substantivo 
O imposto será pago pelo trabalhador. 
ag. da passiva 
195 
Aulas de Português 
O imposto será pago / por quem trabalha. 
or. subst. com valor de ag. da passiva 
•» Também não encontra abrigo na N.G.B. a classificação de u m 
tipo de oração que corresponde a u m substantivo em função de adjunto 
adnominal, ou seja, fazendo parte de uma locução adjetiva. Tais orações 
se poderiam classificar como "substantivas em função de adjunto ad-
n o m i n a l " , ou como "adjetivas justapostas", 
substantivo 
O livro é a arma do estudante. 
adj. adnominal 
O livro ê a arma / de quem estuda. 
EXERCÍCIO 
1 . Dividir (usando barras) e classificar apenas as orações subordina-
das substantivas. 
a) Consta que não será definit ivo que sedêem férias a quem fizer 
aqueles pontos. 
b) O melhor seria que isso fosse decidido por quem conhecesse o 
assunto. 
c) O advogado solicitou fosse anexada a prova. 
d) Q u e m canta seus males espanta. 
e) Indispensável é que quando se fará a prova seja avisado a 
todos. 
f) Disse Maria que onde estava seu f i lho era segredo. 
g) Ele parece que nunca sabe como agir. 
h) Entregar-se-á o prêmio a quem fizer com que o público se 
emocione. 
i) A m i m não me basta que quem fez isso seja indiciado. 
j) De uma coisa tinha certeza, de que aquela pessoa não era quem 
eu pensava. 
2. Reduza, para infinitivo, as orações subordinadas substantivas do 
exercício anterior. 
m Subordinadas adjetivas. 
a) As orações adjetivas se referem a u m antecedente (substantivo ou 
equivalente) para restringir o seu sentido ou acrescentar-lhe uma explicação. 
1 2 1 
O homem / que acabou de chegar / é misterioso. 
196 
Estudo das orações 
1 2 \ 
A mulher, / que luta por seus direitos. / engrandece o nosso século. 
Quando desenvolvidas, são iniciadas por uma palavra que f u n -
cione como pronome relativo (sempre substituível por o qual e flexões). 
Nõo acredito em pessoas / que não tenham sensibilidade. 
(que = as quais) 
Ele mora numa rua I onde não há iluminação. 
(onde = na qual) 
b) Classificação das orações adjetivas. 
4 Restritivas: referem-se ao antecedente para especificar ou res-
tringir o seu sentido. Se retiradas do texto, o sentido da principal fica 
alterado ou prejudicado. 
O homem / que luta vence. 
4 Explicativas: sempre precedidas de vírgula, apenas acrescen-
tam uma explicação ao antecedente, podendo ser retiradas do texto sem 
alterar o sentido da principal. 
O homem, / que é mortal. / não é infalível. 
c) Os pronomes relativos (como, aliás, todos os pronomes) têm 
sempre uma função sintática. Assim, além de conectivos da oração adje-
tiva, são u m termo dessa oração, sintatícamente analisavel. 
Reconhece-se a função sintática de u m pronome relativo substi-
tuindo-o pelo antecedente e colocando a oração adjetiva na ordem direta. 
predicatívo 
Este é um resultado / de que tenho medo. 
compl. nominal 
(Tenho medo do resultado.) 
compl. nominal 
sujeito 
Tudo I de quanto precisava / estava ali. 
obj. indireto 
(Precisava de tudo.) 
obj. indireto' 
obj. direto 
Trouxe o livro / de que precisas 
obj. indireto 
(Precisas do livro.) 
obj. indireto 
197 
d) Pode faltar a unidade quantificadora, garantida pelo contorno meló-
dico e pelo contexto: 
É feio que mete medo. 
Grupos oracionais: a coordenação - Já vimos que as orações coorde-
nadas são orações sintatícamente independentes entre si e que se podem com-
binar para formar grupos oracionais ou períodos compostos: 
Mário lê muitos livros e aumenta sua cultura. 
Mário lê muitos livros e aprende pouco. 
É fácil observar que as duas orações do primeiro exemplo são sintatíca-
mente independentes, porque, ao analisar a primeira (Mário lê muitos livros), 
verificamos que possui todos os termos sintáticos previstos na relação 
predicativa, ao contrário da oração complexa, conforme vimos (<* 462): 
Sujeito: Mário 
Predicado: lê muitos livros 
Objeto direto: muitos livros 
Entretanto, é também fácil verificarmos que a segunda oração e aumenta 
sua cultura manifesta o resultado, uma conseqüência do fato de Mário ler 
muito. Esta interpretação, aliás correta, não interfere na relação sintática que 
as duas orações mantêm entre si no grupo oracional. Esta interpretação adici-
onal não resulta da relação sintática existente nas duas orações, mas sim da 
nossa experiência do mundo, porque sabemos que a leitura é uma das nossas 
fontes de cultura. E muito menos a manifestação nasce do emprego da conjun-
ção e que, por ser mero conector das orações, tem por missão semântica ape-
nas adicionar um conteúdo de pensamento a outro. Por isso, é denominada 
conjunção (= conector) aditiva. 
Prova evidente do que estamos falando é o segundo exemplo: 
Mário lê muitos livros e aprende pouco. 
Do ponto de vista sintático, já vimos que aqui também estamos diante de 
orações independentes e que podem figurar isoladamente: 
Mário lê muitos livros. Ele aprende pouco. 
É partindo desse nosso saber sobre as coisas do mundo e dos significados 
dos lcxemas utilizados que interpretamos a 2. ' oração como o contrário do que 
estávamos esperando pelo fato de Mário ler muitos livros. 
Como no exemplo anterior, essa interpretação adicional não tira da 2.* 
oração o caráter de coordenada aditiva nem permite que se classifique o e 
diferentemente de uma conjunção aditiva. É o texto, com suas unidades léxicas, 
e não a gramática, que manifesta o sentido adversativo que claramente expres-
sa a 2." oração em face do conteúdo que se enunciou na 1.*. São, assim, unida-
des textuais, o que vale dizer, são unidades que manifestam funções sintagmá-
477 
ticas no nível do texto. Trata-se de exemplos de coordenação no nível da ora-
ção e de subordinação no nível do texto. 
Cabe também assinalar que as orações conectadas por e não manifestam 
nenhum sentido textual subsidiário, além da adição; a ordem das orações é, 
em geral, livre, salvo quando o significado dos lexemas estabelece uma dispo-
sição natural dos conteúdos de pensamento designados. São, neste último caso, 
questões relativas ao nosso saber elocutivo, e não ao saber idiomático, exclu-
sivamente (** 33): 
Trabalhava de dia e estudava de noite. 
Estudava de noite e trabalhava de dia. 
Mas há ordem fixa em: 
Ficou noivo em fevereiro e casou-se em junho. 
Cursava a Faculdade de Direito e formou-se em advocacia. 
Em sentido inverso, muitas orações subordinadas - especialmente as re-
duzidas, em vista da amplitude.semântica em que podem ser envolvidas pela 
influência das unidades léxicas empregadas e do nosso saber e experiências 
do mundo - podem admitir um sentido "aditivo", como nos seguintes casos: 
a) as orações reduzidas de gerúndio, quando equivalente a uma oração 
coordenada iniciada pela conjunção e: 
Compreendeu bem a lição, fazendo depois corretamente os exercícios (= e 
fez depois...) 
b) as reduzidas de infinitivo precedida da preposição sobre e da locução 
prepositiva além de: 
"Além de que a fumarada do charuto, sobre ser purificante ou antipútrida, dava aos alvéolos solidez, e consistência aos dentes" [CBr.l, 108] (sobre ser m além de ser purificante... a fumarada do charuto dava...). 
Apesar destas interpretações "aditivas", estas reduzidas, quanto à sua 
estruturação gramatical, pertencem ao quadro das orações subordinadas. 
Os tipos de orações coordenadas e seus conectores - As orações 
coordenadas estão ligadas por conectores chamados conjunções coordenativas 
(#* 320), que apenas marcam o tipo de relação semântica que o falante mani-
festa entre os conteúdos de pensamento designado em cada uma das orações 
sintatícamente independentes, t 
São três as relações semânticas marcadas pelas conjunções coordenativas 
ou conectores: 
1) Aditiva: adiciona ou entrelaça duas ou mais orações, sem nenhuma 
idéia subsidiária. 
As conjunções aditivas são e e nem (esta para os conteúdos negativos, 
e pode vir na 2." oração ou em ambas). 
478 
Pedro estuda e Maria trabalha. 
Pedro não estuda nem trabalha. 
Nem Pedro estuda nem Maria trabalha. 
2) Adversativa: contrapõe o conteúdo de uma oração ao de outra expres-
sa anteriormente: 
João veio visitar o primo, mas não o encontrou. 
As conjunções adversativas são mas, porém, senão (depois de con-
teúdo negativo). 
Não safa senão com os primos. 
3) Alternativa: contrapõe o conteúdo de uma oração ao de outra e mani-
festa exclusão de um deles, isto é, se um se realizar, o outro não se 
cumprirá: 
Estudas ou brincas. 
Enlaces adverbiais cm grupos de orações - Certas unidades de nature-
za adverbial e quemanifestam valores de concessão, conclusão, continuação, 
explicação, causa, que fazem referência anafórica ao que anteriormente se 
expressou, podem aparecer como aparentes conectores de orações em grupos 
oracionais: logo, pois, portanto, por conseguinte, entretanto, contudo, toda-
via, por isso, por isto, também, daí, então, pelo contrário, etc: 
Será a primeira vez que copiará estes quadros, pois não há oito dias que 
os comprei [JA.3, 257], 
O amor, como eu sonho e espero, há de ser a minha vida inteira; portanto 
parece-me que tenho o direito e até o dever de conhecê-lo antes (...) 
[JA.3, 379). 
O que a protegia na confusão não era tanto o rápido olhar, como um sétimo 
sentido, que só ela possuía: uma espécie de previsão dos objetos que se 
aproximavam. 
Contudo, eu sofria muito vendo Emflia assim esquecida de mim e engolfada 
nos prazeres (...) [JA.3, 380]. 
Partindo desses valores semânticos, a gramática tradicional estabeleceu, 
entre os conectores coordenativos, as conjunções conclusivas e causais-
explicativas. Realmente, nestes casos se trata de unidades que manifestam 
esses valores de dependência interna, semelhantes às orações subordinadas, 
mas no nfvel do sentido do texto. São unidades transirásticas, já que ultrapas-
sam os limites de fronteira das orações. 
OBSERVAÇÃO: A inexistência, a rigor, das conjunções conclusivas e causais -explicativas, orientação que também é seguida em gramáticas de outras línguas, já tinha sido defendida entre nós por Maximino Maciel (1865-1923) na última revisão de sua Gramática Descritiva, em que as considerava advérbios, dada a facilidade com que se deslocavam nas orações, aparecendo em várias posições, o que lhes tirava o caráter de conectores (<* 320). 
479 
Justaposição ou assindetismo - Ao lado da presença de transpositores 
e conectores vistos até aqui, as orações podem encadear-se, como ocorre com 
os termos sintáticos dentro da oração, sem que venham entrelaçadas por uni-
dades especiais; basta-lhes apenas a seqüência, em geral proferidas com con-
torno melódico descendente e com pausa demarcadora, assinalada quase sem-
pre na escrita por vírgulas, ponto e vírgula e ainda por dois pontos: 
O moço que dizia Simíles costumava zombar de mim com barulho. Qual-
quer dito nem o excitava: mordia os beiços, avermelhava-se como um peru, 
lacrimejava, enfim não se continha, caía num riso convulso, rolava sobre 
o balcão, meio sufocado. [GrR.l, 197]. 
Este procedimento de enlace chama-se justaposição. 
Sob o ponto de vista sintático e semântico, tais justaposições se aproxi-
mam, pela independência sintática e estreito relacionamento semântico, da 
parataxe ou coordenação. Seu efeito para o discurso é variado, ora apontando 
para um estilo cortado com grande dose impressionista, ora para um estilo que 
focaliza quadros rápidos e movimentos ascendentes, especialmente se está 
constituído por seqüência de verbos. Já a seqüência de substantivos manifesta 
lentidão. 
Aproximam-se as orações justapostas das coordenadas, e com elas às 
vezes se alternam, por permitirem, no nível da camada superior do texto, um 
sentido subsidiário de causa-explicaçâo, concessão, conseqüência, oposição, 
tempo, levando-se em conta o conteúdo de pensamento nelas designado: 
Uma vez por dia o grito severo me chamava à lição. Levantava-me, com 
um baque por dentro, dirigia-me à sala, gelado. E emburrava: a língua 
fugia dos dentes, engrolava ruídos confusos [GrR.l, 102]. 
Não me ajeitava a esse trabalho: a mão segurava mal a caneta, ia e vinha em 
sacudidelas, a pena caprichosa fugia da linha, evitava as curvas, rasgava 
o papel, andava à toa como uma barata doida, semeando borrões [GrR.l, 
114]. 
A chamada " coordenação dlstributiva" - Podem-se incluir nas ora-
ções justapostas aquelas que a gramática tradicional arrola sob o rótulo de 
coordenadas distributi vas, caracterizadas po,r virem enlaçadas pelas unidades 
que manifestam uma reiteração ançfórica dofiçà de ora...ora, já., já, quer...quer, 
um...outro, este...aquele, parte...parte, séja...seja, e que assumem valores 
distributivos alternativos, e subsidiariamente concessivos, temporais, condi-
cionais. 
Do ponto de vista constitucional, essas unidades são integradas por várias 
classes de palavras: substantivo, prono.me> advérbio e verbo, e do ponto de 
vista funcional não se incluem entre os conectores que congregam orações 
coordenadas: 3* 
318 
d) distribuição: 
Várias vezes por dia. 
e) divisão, indicando a pessoa ou coisa que recebe o quinhão: 
Distribuir pelos pobres, repartir pelos amigos, dividir por três a herança. 
0 substituição, troca, valor igual, preço: 
Comer gato por lebre. 
"O barão dizia ontem, no seu camarote, que uma só italiana vale por cinco 
brasileiras" [ M A . l , 183]. 
g) causa, motivo: 
"O amor criou o Universo que pelo amor se perpetua" [MM]. 
"Muitos se abstêmpor acanhados do que outros fogem por virtuosos" [MM]. 
h) nos juramentos e petições designando a pessoa ou coisa invocada 
para firmar o juramento e para interceder: 
jurar pela sua honra, pedir pela saúde de alguém [ED.l , § 163, b]. 
i) em favor de, em prol de: 
Morrer pela pátria, lutar pela liberdade. 
j ) tempo, duração: 
"Qual é aquele que, assentado, por noite de luar e serena sobre uma fraga 
marinha, não sente irem-se-lhe os olhos...?" [AH.2, 159]. 
1) agente da passiva: 
"As mulheres são melhor dirigidas pelo seu coração do que os homens pela 
razão" [MM]. 
m) depois dos nomes que exprimem disposição ou manifestação de dis-
posição de ânimo para com alguma coisa: 
"A paixão pelo jogo pressupõe ordinariamente pouco amor pelas letras" 
[MM]. 
OBSERVAÇÃO: Não procede mais o ter-se como errônea a construção com por, nestes 
casos, porque, no português contemporâneo, o uso de de se especializou no sentido de 
genitivo objetivo. No português de outros tempos, amor de Deus era tanto o que 
consagramos a ele (genitivo objetivo) ou o que ele tem, o que nos consagra (genitivo 
subjetivo). Em lugar de amor pelas letras diz-se também corretamente amor às letras. 
Quando nos casos de genitivo objetivo pode ocorrer ambigüidade com o emprego da 
preposição de, costuma-se substituir esta preposição por contra (se o nome designa 
sentimento hostil) ou para com (se o sentimento é benévolo): Guerra contra os inimi-
gos e respeito para com todos. 
n) fim (em vez de para): 
"Forcejavapor obter-lhe a benevolência, depois a confiança" [MA. 1,194]. 
319 
o) introduzindo o predicatívo do objeto direto, denota qualidade, estado 
ou conceito em que se tem uma pessoa ou coisa: 
Ter alguém por sábio. Enviar alguém por embaixador. Tenho por certo que 
ele virá. 
OBSERVAÇÃO: Neste emprego pode ser substituída pela preposição como, apesar da 
crítica injusta dos puristas.1 
9 - CONJUNÇÃO 
Conector e transpositor - A língua possui unidades que têm por missão 
reunir orações num mesmo enunciado. 
Estas unidades são tradicionalmente chamadas conjunções, que se repar-
tem em dois tipos: coordenadas e subordinadas. 
As conjunções coordenadas reúnem orações que pertencem ao mesmo 
nível sintático: dizem-se independentes umas das outras e, por isso mesmo, 
podem aparecer em enunciados separados. 
Pedro fez concurso para medicina e Maria se prepara para a mesma profissão. 
Podíamos dizer desta maneira, em dois enunciados independentes: 
Pedro fez concurso para medicina. 
Maria se prepara para mesma profissão. 
Daí ser a conjunção coordenativa um conector. 
Como sua missão é reunir unidades independentes, pode t ambém 
"conectar" duas unidades menores que a oração, desde que do mesmo valor 
funcional dentro de mesmo enunciado. Assim: 
Pedro e Maria (dois substantivos) 
Ele e ela (dois pronomes) 
Ele e Maria (um pronome e um substantivo) 
rico e inteligente (dois adjetivos) 
ontem e hoje (dois advérbios) 
saiu e voltou (dois verbos) 
com e sem dinheiro(duas preposições)/ / 
1 f., 
Bem diferente é, entretanto, o papel da conjunção subordinada. No enun-
ciado: f 
Soubemos que vai chover, 
a missão da conjunção subordinada é assinalar que a oração que poderia ser 
sozinha um enunciado: • > 
Vai chover 
1 Que o português procedeu como as demais línguas românicas prova o trabalho de V. 
Vããnãmen, II est venu comme ambassadeur, il agit en soldai, Helsinquia, 1951. 
320 
se insere num enunciado complexo em que ela (vai chover) perde a caracterís-
tica de enunciado independente, de oração, para exercer, num nível inferior da 
estruturação gramatical, a função de palavra, já que vai chover é agora objeto 
direto do núcleo verbal soubemos. 
Assim, a conjunção subordinativa é um transpositor de um enunciado 
que passa a uma função de palavra, portanto de nível inferior dentro das cama-
das de estruturação gramatical. Diz-se, por isso, que que vai chover é uma 
oração "degradada" ao nível da palavra, e isto se deveu ao fenômeno de hipotaxe 
ou subordinação (<" 46). 
A oração degradada ou subordinada passa a exercer uma das funções 
sintáticas próprias do substantivo, do adjetivo e do advérbio, como veremos 
mais adiante (<* 462). 
Podemos aproximar o papel do transpositor que ao pronome relativo -
que é um transpositor de oração degradada ao nível do adjetivo - e das prepo-
sições que, como vimos, transpõem uma unidade a exercer papel de outra 
unidade. Na oração NiHguém é de ferro, a preposição de transpõe o substantivo 
ferro à função de predicatívo por ter de ferro passado a equivalente de adjetivo 
[ A L . 1,229]. 
Conectores ou conjunções coordenativas - Os conectores ou conjun-
ções coordenativas são de três tipos, conforme o significado com que envol-
vem a relação das unidades que unem: aditivas, alternativas e adversativas. 
Conjunções aditivas - A aditiva apenas indica que as unidades que une 
(palavras, grupos de palavras e orações) estão marcadas por uma relação de 
adição. Temos dois conectores aditivos: e (para a adição das unidades positi-
vas) e nem (para as unidades negativas). Vejam-se os exemplos extraídos do 
Marquês de Maricá: 
O velho teme o futuro e se abriga no passado. 
Uma velhice alegre e vigorosa é de ordinário a recompensa da mocidade 
virtuosa. 
A pobreza e a preguiça andam sempre em companhia. 
Não emprestes o vosso nem o alheio, não tereis cuidados nem receio. 
Muitas vezes, graças ao significado dos Iexemas envolvidos na adição, o 
grupo das orações coordenadas permite-nos extrair um conteúdo suplementar 
de "causa", "conseqüência", "oposição", etc. Estes sentidos contextuais, im-
portantes na mensagem global, não interessam nem modificam a relação aditiva 
das unidades envolvidas: Rico e inteligente e rico e desonesto, ambas se unem 
por uma relação gramatical de adição, embora a oposição semântica existente 
entre rico e desonesto apresente um sentido suplementar, como se estivesse 
enunciado rico mas desonesto. O mesmo se dá se uma unidade for afirmativa 
e outra negativa: rico e não honesto. 
321 
Em lugar de nem usa-se e não, se a primeira unidade for positiva e a 
segunda negativa: rico e não honesto (compare com: ele não é rico nem ho-
nesto). 
OBSERVAÇÕES: 
1. *) Evite-se (embora não constitua erro) o emprego de e nem quando não houver 
necessidade de ênfase: 
"Nunca vira uma boneca e nem sequer o nome desse brinquedo" [ML.2,9). 
"(...) mas o primo Nicolau está a dormir até tarde e nem à missa vai" 
[CBr.15]. 
2. *) Algumas vezes e aparece depois de pausa, introduzindo grupos unitários e ora-
ções; são unidades enfáticas com função textual que extrapolam as relações internas 
da oração e constituem unidades textuais de situação: 
"Erepito: não é meu" [ M A . l , 314]. 
3. *) A expressão enfática da conjunção aditiva e pode ser expressa pela série não só... 
mas também e equivalentes. 
Não só o estudo mas também a sorte são decisivos na vida. 
Conjunções alternativas - Como o nome indica, enlaçam as unidades 
coordenadas matizando-as de um valor alternativo, quer para exprimir a in-
compatibilidade dos conceitos envolvidos, quer para exprimir a equivalência 
deles. A conjunção alternativa por excelência é ou, sozinha ou duplicada jun-
to a cada unidade: 
"Quando a cólera ou o amor nos visita, a razão se despede" [MM]. 
A enumeração distributiva que matiza a idéia de alternância leva a que se 
empreguem neste significado advérbios como já, bem, ora (repetidos ou não) 
ou formas verbais imobilizadas como quer... quer, seja... seja. Tais unidades 
não são conectores e, por isso, as orações enlaçadas se devem considerar justa-
postas. 
OBSERVAÇÃO: "Cumpre lembrar que o par seja... seja não está de todo gramaticalizado, 
tanto que, em certas construções, aparece flexionado. Sempre discordam de tudo, 
sejam as discordâncias ligeiras, sejam de peso. Sempre discordavam de tudo, fos-
sem as discordâncias ligeiras, fossem as de peso" [AK. l , 68], 
.5' f. •• 
Conjunções adversativas - Enlaçam unidades apontando uma oposição 
entre elas. As adversativas por excelência são mas, porém e senão. 
Ao contrário das aditivas e alternativas, que podem enlaçar duas ou mais 
unidades, as adversativas se restringem a duas. Mas e porém acentuam a opo-
sição; senão marca a incompatibilidade: 
"Acabou-se o tempo das ressurreições, mas continua o das insurreições" 
[MM]. 
322 
Unidades adverbiais que não são conjunções coordenativas - Levada 
pelo aspecto de certa proximidade de equivalência semântica, a tradição gra-
matical tem incluído entre as conjunções coordenativas certos advérbios que 
estabelecem relações inter-oracionais ou intertextuais. É o caso de pois, logo, 
portanto, entretanto, contudo, todavia, não obstante. Assim, além das con-
junções coordenativas já assinaladas, teríamos as explicativas (pois, porquanto, 
etc.) e conclusivas (pois [posposto], logo, portanto, então, assim, por conse-
guinte, etc) , sem contar contudo, entretanto, todavia que se alinham junto 
com as adversativas. Não incluir tais palavras entre as conjunções coordenativas 
já era lição antiga na gramaticografia de língua portuguesa; vemo-la em 
Epifânio Dias [ E D . l ] e, entre brasileiros, em Maximino Maciel, nas últimas 
versões de sua Gramática [ M M a . l ] , Perceberam que tais advérbios marcam 
relações textuais e não desempenham o papel conector das conjunções 
coordenativas1, apesar de alguns manterem com elas certas aproximações ou 
mesmo identidades semânticas. 
Que esses advérbios não são conjunções coordenativas e desempenham 
funções diversas prova-o o fato de poderem se compatibilizar, em exemplos 
como: 
Não foram ao mesmo cinema e, portanto, não se poderiam encontrar. 
Ele e, portanto, seu filho são responsáveis pela denúncia. 
"Não queremos pensar na morte, e por isso nos ocupamos tanto da vida" 
[MM]. 
Cabe ao e, como conjunção, reunir num mesmo grupo oracional as duas 
orações independentes do enunciado, enquanto portanto, como advérbio, marca 
uma relação semântica com o que já foi dito. Poder-se-ia eliminar a conjunção 
e e, então, teríamos uma coordenação assindética, caso em que haveria uma 
pausa para marcar a fronteira das duas orações (marcada por vírgula ou ponto 
e vírgula): 
Não foram ao mesmo cinema; portanto não se poderiam encontrar. 
Poder-se-ia também eliminar o advérbio: 
Não foram ao mesmo cinema e não se poderiam encontrar. 
Não sendo próprio do advérbio exercer o papel de conector, ele poderia 
aparecer até numa oração subordinada, para marcar essa relação semântica 
entre os dois enunciados: 
"Nunca perdemos de vista o nosso interesse, ainda mesmo quando nos 
incuicamos desinteressados" [MM]. 
Outra diferença entre as conjunções coordenativas e os advérbios (a que 
poderíamos chamar textuais ou discursivos) é que só as primeiras efetivam a 
coordenação entre subordinadas equifuncionais, isto é, domesmo valor (subs-
1 "(...) sem todavia influírem na ordenação das orações" [ED.l , § 195, obs.]. 
323 
tantiva, adjetiva ou adverbial) e com a mesma função sintática: 
Espero que estudes e que sejas feliz. 
Como advérbios, que guardam com o núcleo verbal uma relação, em 
geral, mais frouxa, esses advérbios podem vir em princípio em qualquer posi-
ção dentro da oração em que se inserem: 
Eles não chegaram nem todavia deram certeza da presença. 
Eles não chegaram nem deram, todavia, certeza da presença. 
Eles não chegaram nem deram certeza da presença, todavia. 
Também os advérbios não participam da particularidade das conjunções 
coordenativas de constituírem um bloco unitário de enunciados coordenados 
por sua vez coordenado a outro anterior [ C A . l ] : 
Luís é vegetariano, mas [não come abóbora nem bebe chá]. 
Remetemos dois convites ao Paulo, mas [ou ele se mudou ou está doente]. 
Transpositorcs ou conjunções subordinativas - Já dissemos que o 
transpositor ou conjunção subordinativa transpõe oração degradada ou subor-
dinada ao nível de equivalência de um substantivo capaz de exercer na oração 
complexa uma das funções sintáticas que têm por núcleo o substantivo. 
Falamos em oração complexa e chegou o momento de diferençá-la em 
relação ao grupo oracional. Oração complexa é aquela que tem um ou mais 
dos seus termos sintáticos sob forma de uma oração subordinada. 
Esperamos [que todos venham ao baile], 
em que a oração transposta pelo que exerce uma das funções comuns ao subs-
tantivo: objeto direto do núcleo verbal esperamos. 
Já no grupo oracional temos orações coordenadas, independentes, e que, 
por isso mesmo, podem ser usadas separadamente umas das outras: 
Chegamos tarde e não assistimos a todo o filme, mas vimos o mais interes-
sante dele. 
Chegamos tarde. Não assistimos a todo o filme. Vimos o mais interessante 
dele. 
f ' f 
As conjunções e e mas não mSdificam p valor sintático das orações reu-
nidas; apenas indicam o tipo de relação semântica: adição (é) e contraste 
(mas). •* j 
Além do que transpositor,de oração ao nível de substantivo, chamado 
conjunção integrante, e do que pronome relativo, que transpõe oração ao ní-
vel de adjetivo, a língua portuguesa conta com poucos outros transpositores: 
a) Se que transpõe oração originariamente inteirogativa total, isto é, des-
provida de unidade interrogativa, ao nível de substantivo, cõnhecida, por isso 
mesmo, como conjunção integrante, a exemplo do que anterior: 
Ela não sabe [se terá sido aprovada]. 
322 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAI E SINTAXE _ J - w -AT ^. . „ V „ 
P6 do fie LftZCoS 3£ A2e, 
Os exemplos 'a' e 'e' contêm orações adjetivas explicativas, que, em-
bora não contribuam para a identificação dos referentes de minha avó e 
de meu primo, são, contudo, discursivamente importantes como respaldo 
para o conteúdo dos predicados que se seguem. Repare-se que podemos 
exprimir os conteúdos desses exemplos com variantes em que a informação 
da oração adjetiva assume a feição de justificativas: 
• Lamentei a morte de minha avó, pois ela amava muito a vida. 
• Meu primo pode nos servir de guia, pois conhece bem a cidade. 
14.12.4 Repetição e supressão de pronomes relativos 
Pronomes relativos com um antecedente comum podem desempenhar a 
mesma função sintática ou funções sintáticas diferentes. Com a mesma 
função sintática, é comum que o pronome relativo seja suprimido na segun-
da ocorrência. Com função sintática diferente, o normal é a repetição do 
pronome, sobretudo se u m deles vem precedido de preposição: 
• "...analisando a si próprio e aos homens, Conrad sentiu os 
limites dessa inteireza a que aspirava e que se esfuma a cada 
passo numa 'linha de sombra'." [CÂNDIDO, 1964: 62) 
• "A novela é como um fio invisível do qual poucos se orgulham 
mas que perpassa a sociedade e aponta um universo de segre-
dos íntimos compartilhados." [SCHWARCZ, 1998: 484] 
No exemplo abaixo, o pronome relativo foi suprimido em sua segunda 
ocorrênoln, apesar de exercer função sintática distinta do primeiro. Isto pa-
rece possível apenas quando nenhum dos pronomes é regido de preposição. 
O primeiro que é objeto direto e o segundo - suprimido - é sujeito. 
• "(Andrew) Jackson (...) ganhou sua popularidade (...) e aca-
bou um senhor rural, dono de escravos, como os aristocratas 
que desprezava e (que) o desprezavam." [VERÍSSIMO, L. F. 
O Globo, 9/8/2007| 
14.13 ORAÇÕES ADVERUIAIS 
Uma matriz proposictonal pode ocorrer no texto sob a forma de um sintagma 
adverbial, tradicionalmente oonhecido como 'oração adverbial'. A respecti-
va transposição é efetuada por uma conjunção adverbial, uma espécie de 
palavra gramatical que, colocada antes de uma oração, forma com ela uma 
unidade apta a um posicionamento flexível em relação à oração base: O ca-
chorro avançou no carteiro IO cachorro estava solto. O cachorro avançou 
no carteiro quando estava solto - Quando estava solto, o cachorro avan-
çou no carteiro - O cachorro, quando estava solto, avançou no carteiro. 
/ D É C I M O QUARTO C A P Í T U L O : O P E R Í O D O COMPOSTO 
1/ 
323 
As orações adverbiais típicas estão sujeitas a esse deslocamento em 
relação à oração principal. Por serem sintatícamente acessórias, tornam-se 
relevantes no discurso pela informação que acrescentam ao texto, ou, nou-
tros termos, pela importância que assumem na organização coerente ou 
lógica do raciocínio. É por isso que certas relações se expressam por meio 
tanto de conjunções subordinativas adverbiais quanto de conjunções coor-
denativas (ver 14.10). Algumas conjunções estão exclusivamente a serviço 
da construção do raciocínio lógico, tanto que são conectivos característicos 
dos textos dissertativos de opinião; outras indicam basicamente relações 
circunstanciais próprias do discurso narrativo, mas podem assumir cumu-
lativamente papéis relacionados à construção do discurso de opinião. Os 
sentidos expressos pelas orações adverbiais podem ser agrupados em qua-
tro tipos gerais: (a) relação de causalidade, (b) relação de temporalidade, 
(c) relação de contraste, (d) relação de modo/comparação. 
14.13.1 Causalidade 
Do ponto de vista estritamente lógico, dois fatos se articulam pela relação 
de causalidade se a realização de um deles depende ou decorre da realiza-
ção do outro. Desse modo, a causalidade é uma macrorrelação que se espe-
cifica por meio de quatro valores: causa, condição, conseqüência e finali-
dade. Está claro que a um deles se atribuirá valor de causa ou condição, e 
ao outro o de conseqüência ou finalidade, visto que causa e efeito não são 
idéias opostas, mas complementares. A associação causai entre dois dados 
de nosso conhecimento é, obviamente, u m ato de percepção e de compre-
ensão, que podemos codificar de formas variadas na linguagem. 
Nesta exposição, estou particularmente interessado na codificação por 
meio de conectivos. Um exemplo: Passando pela rua já tarde da noite, 
posso perceber que a luz da sala de meu vizinho está acesa e concluir: ele 
ainda está acordado. Temos aí uma relação de causalidade entre dois da-
dos: a luz acesa (causa) e a vigília de meu vizinho (efeito). Essa relação de 
causalidade é uma construção do raciocínio que reflete uma compreensão 
da situação: a luz acesa me leva a fazer unia ihferência. Posso, então, dizer, 
ou simplesmente pensar: Ele ainda está acordado, pois (já que, porque) 
a luz da sala está acesa; ou, riuma formulação variante: Se a luz da sala 
está acesa, ele ainda está acordado. Do ponto de vista do discurso, causa 
ou efeito não é, portanto, um valor Inerente a um fato na sua relação com 
o outro, mas uma possibilidade de seritidô segundo a necessidade de com-
preensão - e de verbalização - do evento que se está, testemunhando. 0 
emprego do conectivo tem a função de explicitar esse valor, balizando a 
compreensão da respectiva oração.324 QUARTA PARTE - MORFOLOGIA F L E X I O N A I E SINTAXE 
14.13.1.1 Causa 
A causa é indicada correntemente pelas conjunções porque, pois, como e 
já que. Porque introduz a oração causai que vem após a principal; como 
introduz a oração causai que precede a principal; j á que introduz a oração 
adverbial colocada antes ou depois da principal: 
• Decidimos voltar da festa a pé porque não havia mais ônibus 
de madrugada. 
• Como não havia mais ônibus de madrugada, decidimos voltar 
da festa a pé. 
• Já que as estradas estão interditadas, o socorro às vítimas 
será feito com helicópteros. 
• O socorro às vítimas será feito com helicópteros, já que as 
estradas estão interditadas. 
• "As comparações internacionais de salários são perigosas, já 
que os tipos de contratos de trabalho variam enormemente." 
[Folha de S.Paulo, 7/6/1998, 3° caderno, p. 1] 
• "Ele (o morto) não podia ser deixado só, pois solitário tornava-
se presa fácil de maus espíritos." [ALENCASTRO, 1997: 114]. 
Obs.: Entre as conjunções causais, apenas porque pode ser precedida 
de um vocábulo focalizador (ver 13.2.4) ou de realce como só, até, mesmo, 
justamente e tc : 
• Decidimos voltar da festa a pé justamente porque não havia 
mais ônibus de madrugada. 
• O socorro às vítimas será feito com helicópteros, até (ou mes-
mo) porque as estradas estão interditadas. 
Nos registros formais, tanto orais quanto, principalmente, escritos, 
empregam-se os conectivos visto que, visto como, uma vez que, dado que, 
na medida em que, porquanto: 
• O socorro às vítimas era feito através de helicóptero, •cisto 
que (ou visto como) as estradas estavam interditadas. 
• O socorro às vítimas era feito através de helicóptero porquan-
to as estradas estavam interditadas. 
• "As expectativas mais otimistas no meio empresarial voltam-
se agora para a próxima reunião do Comitê de Política Mone-
tária, dado que as elevadas taxas de juros inibem a retomada 
das vendas." [Jornal do Brasil, 15/2/1998] 
• "O tema da raça é ainda mais complexo na medida em que ine-
xistem no país regras fixas ou modelos de descendência biológi-
ca aceitos de forma consensual." [MELLO e SOUZA, 1997:182] 
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO! O PERÍODO COMPOSTO 325 
Obs.: Posicionada antes da principal, a oração causai exprime um fato 
que o locutor presume já conhecido do interlocutor. Sendo assim, esse tipo 
de causa é utilizado como uma evidência que não fica sujeita à sua contes-
tação. Nesta posição, a oração adverbial atua como u m ballzador de com-
preensão (cf. 14.19): 
• "Uma vez que não se saneavam os problemas em sua origem, 
a derrubada dos cortiços e a interdição dos domicílios (...) 
provocaram tão somente novos deslocamentos e a formação 
de novos antros de miséria." [SEVCENKO, 1998: 107] 
• "Visto que a cidade tinha se transformado num lugar de inte-
resse público (...), muitas pessoas tiveram de mudar não só 
do local de residência, mas também as formas de diversão de 
raízes populares e grupais." [DEL PRIORE, 1997: 226] 
• "Uma vez que a política é a linguagem do nosso tempo, o artista 
tem de sair de sua solidão criadora." [RODRIGUES, 1993: 226] 
• "Posto que os criminosos de colarinho branco não são puni-
dos pelos tribunais, passam a ser pelos leitores e telespectado-
res." [VENTURA, Zuenir. O Globo, 4/7/2007] 
14.13.1.2 Condição 
A diferença entre a causa propriamente dita e a condição baseia-se numa 
distinção de atitudes do enunciador em relação à 'realidade' da informação 
contida na oração adverbial: a atitude de certeza se expressa com os co-
nectivos causais (porque, como, visto que, dado que) e normalmente com 
verbos no modo indicativo; a atitude de incerteza, de suspeita, de suposição 
se expressa com os conectivos de condição (se, caso, desde que, contanto 
que, a menos que)e com verbos em geral no modo subjuntivo; o modo indi -
cativo ocorre em uma subclasse de orações iniciadas por se. 
Ao contrário do campo da certeza, que é objetivo, o oampo da hipó-
tese é subjetivo, amplo e difuso. Por isso, há para a expressão da hipótese 
uma gradação de matizes de sentido que cqmpreendem: 
a) dados já conhecidos oq pressupostós (ver 4.5.6.2.3.2.2), expres-
sos por meio do modo indicativo: 
• Se você sabia o cáminho, por que não nos ensinou? 
• Se a casa tem três quartos, dá para abrigar todos nós. 
b) fatos possíveis/proyáveis, expressos no futuro do subjuntivo: 
• Se você souber de alguma novidade, telefone-me. 
c) fatos remotamente prováveis, expressos no pretérito imperfeito 
do subjuntivo: 
• Se eles chegassem agora, ainda conseguiriam pegar o ônibus. 
326 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAI. E SINTAXE 
• "A figura de Ariano está aí, como sintoma da riqueza brasilei-
ra. Vivêssemos em um país apaziguado, e não lhe daríamos 
atenção." [CASTELLO, José. O Globo, 16/6/2007] 
d) situações irreversíveis, expressas por meio do pretérito mais-que-
perfeito do subjuntivo: 
• Se eles tivessem chegado cinco minutos antes, teriam pegado 
o ônibus. 
A conjunção condioional típica é se. Ela geralmente introduz um fato 
(real ou hlpotétloo) ou uma premissa, a que se associa uma conseqüência 
ou uma inferência. Pode-se, assim, distinguir duas espécies de construções 
hipotéticas com se: 
a) aquelas que expressam a típica relação entre uma causa e um 
efeito hipotéticos e apresentam correlação obrigatória entre o 
tempo da oração subordinada e o da principal (neste grupo, se é 
substttufvel por caso); e 
b) aquelas que apresentam liberdade na combinação dos tempos 
verbais e cuja oração principal contém uma inferência do que se 
declara na oração subordinada. 
Os conectlvos desde que, contanto que, com a condição (de) que são 
de uso formal e, embora não tenham a variedade de sentidos expressa por 
se, possuem um valor condicional contundente e impositivo: 
• Vocês podem usar o salão para o ensaio, desde que deixem 
tudo arrumado novamente. 
• O senador aceitará o cargo de ministro, contanto que dispo-
nha de dinheiro para novos investimentos. 
Para expr imir condição com a mesma contundência destes exem-
plos, a conjunção se tem de vir reforçada por palavras que acentuem sua 
exclusividade: 
• Vocês só podem usar o salão para o ensaio, se deixarem tudo 
arrumado novamente. 
• O senador aceitará o cargo de ministro somente se dispuser 
de dinheiro para novos investimentos. 
O conteúdo da oração condicional nem sempre expressa a causa h i -
potética do conteúdo da oração principal; em um enunciado como Se você 
mudar de idéia, aqui está meu telefone, a oração condicional projeta uma 
situação que legitima a mensagem implícita no conteúdo da oração princi-
pal: telefone-me. 
DÉCIMO QUARTO CAPITULO: O PERlOOO COMPOSTO 327 
A condição expressa pelos conectivos a menos que, a não ser que e exce-
to se é imperiosa. O enunciador se serve da oração condicional para indicar a 
única situação capaz de reverter o que vem expresso na oração principal: 
• O senador não aceitará o cargo de ministro, a não ser que 
disponha de dinheiro para novos investimentos. 
• "...não há velhice que nos detenha, a não ser que tenhamos, 
por vontade própria, deixado de usar o cérebro." [MEDEIROS, 
Martha. O Globo, 27/4/2008] 
• "A advogada disse que seu cliente não tem nada o que fazer do 
ponto de vista jurídico, a menos que o laudo técnico o respon-
sabilize nominalmente pelo desabamento do prédio." [/ornai 
do Brasil, 19/5/1998] 
• "Com certeza até o diabo terá que reciclar sua retórica neste 
fim de século, a menos que depois de velho tenha virado um 
anarquista capaz de encantar o Terceiro Mundo." [SPÍNOLA, 
Noênio. Jornal do Brasil, 25/5/1998] 
A conjunção se pode ocorrer com todos os tempos dos modos indica-
tivo e subjuntivo, exceto o presente do subjuntivo; as demais conjunções 
condicionais só ocorrem com as formas do presente e do pretérito imper-
feito do subjuntivo.Construções hipotéticas iniciadas por se servem ainda para exprimir 
a relação entre dois conteúdos que se contrapõem mas não se anulam, fun-
cionando o segundo como atenuação ou compensação do primeiro: 
• "Se são justas as reivindicações das empregadas, também é 
verdade que as donas de casa não são empresas." [O Globo, 
17/5/1998] 
• "Se a existência de espaços e de uma sociabilidade privada já 
era difícil de ocorrer na Europa dos séculos XVI e XVII, mais 
complicado era vê-los surgir na precária colônia portuguesa 
da América." [ALENCASTRC?, 1997: 224] 
• "Se nas dietas dos-italianos"dò Norte predominava a polenta, 
no Sul contava-se basicamente com o pão de farinha de ceva-
da ou de centeio acompanhado de verduras ou cebolas cruas." 
[SEVCENKO, 1998: 228] 
• "É saudável que o novo ministro assuma com propostas que, 
se não resolvem o problema e até reabrem polêmicas antigas, 
ao menos permitem que se inicie uma reflexão mais aprofun-
dada." [Folha de S.Paulo, 14/4/1998] 
328 QUARTA PARTE - MOREQLOGIA FLEXIONAI E SINTAXE 
Às vezes estas construções vêm reforçadas por pares eorrelativos do 
tipo por um lado... por outro, como na seguinte variante de um exemplo já 
aqui apresentado: 
• Se, por um lado, são justas as reivindicações das emprega-
das, por outro também é verdade que as donas de casa não 
são empresas. 
Recorrendo ao modo indicativo, o enunciador assume o conteúdo da 
oração condicional como um fato. 
14.13.1.3 Conseqüência 
Conseqüência e finalidade são duas espécies de efeito. A expressão gramati-
cal típica da conseqüência se concretiza na conjunção que, ordinariamente 
antecedida de uma expressão de intensidade: 
• Estava tão cansado, que dormiu de sapato e tudo. 
O verbo desta forma padrão da construção consecutiva fica geralmen-
te no modo indicativo 
• Aquela equipe era tão boa que merecia o título de campeã. 
mas assume forma subjuntiva se o verbo da oração base vier negado: 
• Aquela equipe não era tão boa que merecesse o título de 
campeã. 
A preposição para e a conjunção para que - que sempre rege verbo no 
modo subjuntivo - também assinalam simples efeito quando é impossível 
perceber no conteúdo da oração principal um fato intencional, como nos 
seguintes exemplos: 
• "Bastou a primeira briga no pátio da escola para descobrir-
mos que soco de verdade não era como soco em filme." [VE-
RÍSSIMO, L. F. O G/060, 29/5/2008] 
• "Basta uma simples chuva para que do Borel desçam tonela-
das de lixo e areia" [Jornal do Brasil, 16/2/1998] 
Por sua vez, em enunciados como 
• Você já está bem grandinho para precisar de uma babá. 
ou 
• Eles se empenharam muito para se contentarem com uma 
simples menção honrosa. 
DÉCIMO QUARTO CAPITULO: O PERÍODO COMPOSTO 329 
o efeito, indicado pela preposição para, é objeto de censura ou de estra-
nheza do enunciador, que, na realidade, faz um comentário, que pode ser 
parafraseado como conclusão: 'por isso, não devia/devitun...'. 
A oração principal expressa, de fato, um argumento - você está bem 
grandinho - contrário ao efeito - precisar de uma babá. Estas orações que 
expressam efeito contingente ou não proposital, quando subordinadas, se 
chamam consecutivas. 
14.13.1.4 Finalidade 
Também empregadas na expressão do efeito, as orações finais são as úni-
cas que podem preceder a oração base, o que faz delas autênticas orações 
adverbiais. Elas expressam um efeito visado, um propósito, e nisso diferem 
das consecutivas típicas, que expressam um efeito contingente: 
• Estão trabalhando em dobro para compensar os dias parados. 
• Para compensar os dias parados, estão trabalhando em dobro. 
Somente as orações finais admitem a 'localização' por meio de só, ser 
que, apenas: 
• Eles só estão trabalhando em dobro para compensar os dias 
parados. 
• É para compensar os dias parados que eles estão trabalhando 
em dobro. 
Quando em forma finita, o verbo da oração final ocorre no modo 
subjuntivo: 
• Fechou as janelas para que o pássaro não fugisse. 
O meio ostensivo de expressão adverbial da finalidade na língua cor-
rente é a preposição para. O uso de conjunções finais (para que, afim de 
que, de maneira que, de molde a que) é bem menos freqüente: 
• Fechou as janelas para o pássaro não fugir. 
i f-. 
O uso de para seguido de construção infinitiva é a prática corrente, 
sobretudo quando a oração final e a oração principal têm o mesmo sujeito: 
• Os jogadores interromperam a partida para socorrer o colega. 
Compare-se o exemplo acima com este outro, cujas orações têm su-
jeitos distintos: \ 
• Os jogadores interromperam a partida para que o colega fosse 
socorrido. 
330 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAI E SIWTAXE 
A identidade de sujeitos não impede, porém, o emprego de para que 
quando o núcleo verbal da oração subordinada contém uma locução verbal: 
• Subiu na mesa para que pudesse ver os artistas no palco. 
• Entraram rápido no carro afim de que não fossem linchados 
pela multidão. 
14.13.2 Temporalidade 
A temporalidade define a posição, na linha do tempo, do fato expresso pela 
oração base. Essa linha - ou continuum temporal - pode ser segmentada em 
três etapas ou intervalos - anterior, concomitante ou posterior - aptos a serem 
preenohldos pelo fato ou situação expressos na oração adverbial. Exemplifi-
quemos com o par de matrizes proposicionais [Manuela, roupas, costurar]a 
e [filha, dormir/adormecer]^, em que a corresponde à oração base e p ocupa, 
na forma de oração adverbial, um intervalo na linha do tempo. Podemos ter: 
• Manuela costurava roupas enquanto a filha dormia (em que a 
e p são concomitantes). 
• Manuela costurava roupas depois que a filha adormecia (em 
que a é posterior a P). 
• Manuela costurava roupas antes que a filha adormecesse (em 
que a é anterior a P). 
É grande a variedade de conectivos adverbiais para a relação temporal, 
o que permite especificações refinadas da temporalidade (assim que, desde 
que, até que, logo que, apenas): 
• Saltou da cama assim que o despertador tocou. 
• "Dario vinha apressado, o guarda-chuva no braço esquerdo 
e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar..." 
[TREV1SAN, Dalton. In: SALES, 1969: 243] 
• Vivem nesta casa modesta desde que se mudaram para cá. 
• Todos devem permanecer sentados até que a cerimônia termine. 
• Ele despachará as malas logo que obtenha a permissão. 
• Ela interrompeu a viagem apenas soube da morte do avô. 
Assim que, logo que e apenas se eqüivalem na especificação da tem-
poralidade; desde que e até que indicam, respectivamente, os limites inicial 
e final de um perourso. As diferentes especificações expressas por enquan-
to, depois que, assim que, logo que e apenas se neutralizam no uso de 
quando, que é, de longe, a conjunção temporal mais freqüente: 
• Ele despachará as malas quando obtiver a permissão, (depois 
que, logo que, assim que, apenas) 
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULOI O PERÍODO COMPOSTO 331 
• Manuela costurava as roupas quando a filha estava dormindo 
(enquanto). 
Sempre que não especifica a ocasião, mas, à semelhança do advérbio 
sempre, denota a freqüência ou regularidade de uma ação: 
• Ele se hospedava naquele hotel sempre que ia a São Paulo. 
Também aqui podemos usar quando : 
• Ele se hospedava naquele hotel quando ia a São Paulo. 
Com agora que introduz-se geralmente um fato que serve de argumen-
to para uma conclusão: 
• Agora que você aprendeu o endereço, esperamos sua visita (cf. 
Você já aprendeu o endereço; portanto, esperamos sua visita) 
• "Agora que todos dizem que o CD está com os dias contados, 
eu, que ainda guardo meus LPs, conclamo a todos que resis-
tam." [PAIVA, Cláudio. O Globo, 15/7/2007) 
Obs.l: Quando é a conjunção temporal padrão, apta a exprimir uma 
variedade de valores que, quando necessário, são especificados por outras 
conjunções: 
• Quando(= sempre que) chovia, as aulas tinham que ser suspensas 
• Só saímos do cinema quando (- depois que) o temporal passou 
Obs. 2: Exprimindo concomitância de dois fatos ou idéias, quando é 
passível de substituição por enquanto e ao passo que, que se empregam 
com valor muito semelhante ao das proporcionais (ver 14.13.3). Nesta si-
tuação de simultaneidade, freqüentemente o que sobressai é o caráter con-
trastivo dos fatos e idéias (ver 14.13.4), de modo que a relação temporal se 
torna secundária ou mesmo se esvazia. 
• "Eu digo que muito veículo/pçrece estar conduzindo passa-
geiros apanhados ào acaso, quando na verdade estão levando 
verdadeiras combinações de passageiros." [MACHADO, 1957: 
211-212] 
• "Enquanto a Espanha dobra a população com o ingresso de 
turistas nas temporadas,("), o Brasil recebeu apenas 2,3 mi-
lhões de estrangeiros em todo o ano de 96." [Jornal do Brasil, 
16/3/1998] 
• "Meu pai era um sonhador, minha mãe uma realista. Enquan-
to ela mantinha os pés firmemente plantados na terra, ele se 
332 QUARTA PARTE - MORFOLOGIA FLEXIONAL E SINTAXE 
deixava erguer no balão iridescente de sua fantasia..." [VE-
RÍSSIMO, E. 1974: 33J 
• "No hemisfério conhecido, Europa e África ocupam sempre 
a metade inferior, ao passo que a Ásia se situa acima dos de-
mais continentes." [HOLLANDA, 1977] 
14.13.3 Proporção 
A proporção é, a rigor, uma especificação da temporalidade. Consiste no 
desenrolar paralelo de dois fatos, entre os quais pode haver uma relação de 
causa e efeito. As conjunções proporcionais mais comuns são à medida que 
e à proporção que. Também são comuns as variantes à medida em que e 
na medida em que : 
• A medida que se aproxima o verão, a cidade recebe mais 
turistas. 
• Os moradores retornavam à cidade à proporção que os gafa-
nhotos eram exterminados. 
• "A seca que castiga de forma inclemente o Nordeste é real 
e tende a piorar à medida que os efeitos da perda da safra 
se fizerem sentir nos próximos meses." [Jornal do Brasil, 
9/5/1998] 
• "À medida que D. Pedro se identifica com os anseios brasilei-
ros (...), no Rio Grande do Sul o sentimento a favor da inde-
pendência cresce." [PICCOLO, Helga. In: MOTA, 1972: 365] 
• ccPouco a pouco, à medida em que vão sendo retiradas as res-
taurações anteriores (...), vão se revelando detalhes desco-
nhecidos." [Jornal do Brasil, 11/5/1998] 
• "A autoridade moral que as mulheres exerciam dentro de casa 
era o sustentáculo da sociedade e se fortalecia na medida em 
que o lar passava a adquirir um conjunto de papéis de ordem so-
cial, política, religiosa e emocional." [DEL PRIORE, 1997: 454] 
Obs.: Nos textos dissertativos, sobretudo com caráter argumentativo, 
é comum que a noção de causa-efeito sobressaia em relação à de parale-
lismo; neste caso, a locução na medida em que passa a indicar a razão ou 
justificativa do que se declara na oração principal: 
• "A maior vinculação à política mercantilista afetou a sobre-
vivência das línguas gerais, na medida em que implicava um 
aumento da participação de indivíduos de origem portugue-
sa e africana no conjunto da população." [ALENGASTRO, 
1997: 338] 
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO! O PERÍODO COMPOSTO 333 
14.13.4 Contraste 
Distinguiremos o contraste adversativo e o contraste conoessivo. Estabele-
ce-se o contraste adversativo - que assim chamo por tratar-se de variante 
das estruturas adversativas (ver 14.10.3) - por melo da conjunção sem que 
seguida de oração no modo subjuntivo ou da preposição sem seguida de 
infinitivo, ambas de valor necessariamente negativo: 
• Ele saiu da sala sem que dissesse uma única palavra, (cf. Ele 
saiu da sala, mas não disse uma única palavra.) 
• O policial prendeu os assaltantes sem que desse um só tiro. 
• Ela viajou pelo interior do país sem que fosse necessário gas-
tar um centavo. 
• "Mais de um terço do que se paga com o uso do telefone vai 
para os cofres estaduais sem que o estado tenha, no entanto, 
qualquer responsabilidade, interferência ou participação nes-
se tipo de serviço." [O Olobo, 29/3/1998] 
• "Nessa época, o adensamento de populações nas grandes ci-
dades ocorreu sem que houvesse uma correspondência na ex-
pansão da infraestrutura citadina e na oferta de empregos e de 
moradias." [SEVCENKO, 1998: 91] 
Assim como o uso de para na expressão da finalidade (cf. 14.13.1.4), 
também a preposição sem tem preferência sobre a locução sem que na lín-
gua corrente quando as duas proposições têm o mesmo sujeito: 
• Ele saiu da sala sem dizer uma palavra. 
• O policial prendeu os assaltantes sem dar um só tiro. 
Na variante concessiva da expressão contrastiva, um certo fato ou 
idéia é representado como um dado irrelevante para o conteúdo do restan-
te do enunciado: 
• O lutador derrubou todos os seus adversários embora fosse 
magrinho. / / 
• Embora os bombeiros agissem com rapidez, o incêndio amea-
çava destruir toda a floresta. 
• "Embora as aves da China não estejam mais proibidas, os 
consumidores continuam optando por produtos importados 
com medo da gripe do frango." [Jornal do Brasil, 10/2/1998] 
No primeiro exemplo, o aspecto físico do lutadbr - que pelo senso 
comum seria determinante de seu desempenho - perde tal importância 
e é informado como conteúdo de uma oração concessiva; no segundo, a 
334 QUARTA PARTE - MORfQLOCIA FLEXIONAI E SINTAXE 
ação rápida dos bombeiros é retratada como um dado irrelevante para o 
que se diz na segunda parte do enunciado; no terceiro exemplo, por fim, a 
suspensão da proibição das aves nacionais é irrelevante para a opção dos 
consumidores chineses. 
A conjunção/locução prepositiva concessiva esvazia a força causai ou 
argumentatlva do fato que ela anuncia, de modo que o conteúdo da oração 
principal passa a representar o contrário do que se espera. 
Ainda que, mesmo que, ainda se, mesmo se 
A relação conoesslva é correntemente expressa pela locução prepositiva apesar 
de e pela conjunção concessiva embora, que introduzem sempre uma informação 
vista como fato real. A representação da concessão como hipótese ou irrealidade 
costuma ser feita por meio de ainda que, mesmo que, mesmo se, ainda se: 
• "...ele prefere ser lançado contra as pedras, ainda que se ar-
rebente todo." [BRAGA, 1963a: 52] 
• "Desastres naturais como este costumam ser frutos de impre-
vidência acumulada, fica difícil fixar a culpa, mesmo que se 
identifique o autor de uma fagulha específica." (VERÍSSIMO, 
L. F. Jornal do Brasil, 28/3/1998] 
• "Na Grécia antiga (...) poeta e adivinho têm em comum o dom 
da vidência, mesmo que sejam emblematicamente cegos." 
[W1SNIK, José Miguel. In: NOVAES, 1988: 284] 
• "No Rio, em seis meses (um policial) já é considerado apto a en-
frentar bandidos, mesmo se não tiver disparado um único tiro 
na academia, por falta de balas." [Jornal do Brasil, 26/5/1998] 
Não é raro o emprego de ainda que introduzindo fato: 
• "Ainda que boa parte da carreira tenha sido dedicada ao judô, 
Hermanny conta que um dos fatos mais marcantes de sua car-
reira foi a participação na equipe de preparadores físicos da 
seleção brasileira de futebol, de 1964 a 1966." [MARINHO, 
Antônio. Revista O Globo, 15/7/2007] 
É comum que a hipótese contida na oração concessiva se refira a um 
obstáculo incapaz de impedir que se realize o que vem expresso na oração 
principal: 
• Conseguirei os ingressos para a decisão do campeonato, ain-
da que tenha de dormir na fila. 
• A polícia tinha decidido entrar na fortaleza, mesmo se fosse 
preciso dinamitar a porta de aço 
OÉCIMO QUARTO CAPITULO! O PERlODO COMPOSTO 335 
Por mais que, por muito que, por pouco que, por pior que etc. 
Estas locuções trazem embutida uma expressão intensiva, que é o foco da 
concessão. Elas são empregadas quando parte do conteúdo da oração con-
cessiva é passível de quantificação ou de gradação: 
• "A culpa desta tragédianão é do seu governo, por mais que se 
critique sua demora em dar-se conta dela." [VERÍSSIMO, L. F. 
Jornal do Brasil, 28/3/1998] 
• "Por maior que tenha sido a paixão inicial [....], a simples 
assinatura do contrato já muda tudo." (GULLAR, Ferreira. In: 
SANTOS, 2007: 280] 
• Por pouco que tenha chovido nos últimos dias, já temos espe-
rança de não perder as sementes. 
Qualquer que, onde quer que 
Trata-se de um pronome indefinido e de um advérbio que eventualmente enca-
beçam orações adverbiais. O caráter concessivo dessas orações está em que elas 
exprimem a ausência absoluta de restrições ao conteúdo da oração principal: 
• Esse cachorro me acompanha aonde quer que eu vá. 
• Qualquer que seja o resultado da partida, os torcedores'vão 
comemorar. 
Se bem que 
Eqüivale a embora. Geralmente precedida de pausa, que na escrita é assina-
lada com vírgula, esta conjunção emprega-se para introduzir uma ressalva e 
tem a peculiaridade de poder ocorrer com verbo tanto no modo subjuntivo 
quanto no indicativo: 
• "Vou ganhar uma bermuda e um par de sandálias, se bem que 
minhas camisas de ir à Academia estão uma vergonha." [RI-
BEIRO, J. U. O Qlobo, 8/7/1999] 
• "Comparar a vida a um filme não é dizer, como quer o clichê, 
que a vida imita a arte, se bejn que exista um fundo de verda-
de nisso." [Jornal do Brasil', 14/4/1999] 
• "As mulheres e homens da esquerda alemã, se bem que vives-
S§m até certo ponto o mesmo processo de negação do corpo, 
resplandeciam naquele verão." [GABEIRA, 1981b: 113] 
Não obstante, nada obstante, conquanto, posto que 
Significam o mesmo que embora, mas são expressões conectivas praticamen-
te restritas a usos acadêmicos formais, como os discursos solenes e os textos 
jurídicos. Os dois primeiros são advérbios conjuntivos. Os dois últimos são 
336 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAL E SINTAXE 
conjunções subordinativas adverbiais. Um detalhe, porém é notável: é cada 
vez mais comum na variedade escrita contemporânea o emprego de posto 
que com valor causai, haja vista o célebre verso do "Soneto de Fidelidade", 
de Vinícius de Moraes: "Que não seja imortal, posto que [= já que] é cha-
ma"). A propósito, veja outro emprego de posto que causai em 14.13.1.1 
14.13.5 Um par à parte: adição e preterição 
Adição e preterição são os conteúdos adverbiais expressos pelas locuções pre-
positivas além de e em vez delem lugar de, respectivamente. Além de estabe-
lece a mesma relação expressa pela dupla não só...como/mas também: 
• Além de xingar o adversário, desafiou-o para um duelo. 
Com em vez de pretere-se ou descarta-se algo: 
• Em vez de chutar em gol, preferiu passar a bola. 
A natureza adverbial dessas construções é comprovada pela possibili-
dade de deslocamento: 
• Desafiou o adversário para um duelo além de xingá-lo. 
• Preferiu passar a bola em vez de chutar em gol. 
• ' Em lugar de retirar os obstáculos, de instituir o facilitário, é 
melhor ensinar as crianças a vencê-los e a serem recompensa-
das por isso." [VENTURA, Zuenir. O Globo, 23/5/2007] 
• "Por que o burrinho teimava em ficar naquele sol queimando em 
vez de ficar agasalhado na sombra?" [DOURADO, 1973: 53] 
14.14 QUALIFICAÇÃO, QUANTIFICAÇÃO E ORAÇÕES MODAIS 
Esta seção tem um lugar à parte em função das peculiaridades das respectivas 
estruturas, como se verá. Uma 'ação' (caminhar), 'um processo' (brotar) ou um 
'estado' (macio) são conceptualizações passíveis de quantificação (caminhava 
pouco; brotou em excesso; assento muito macio), ou de qualificação (cami-
nhava elegantemente; brotava raramente; assento surpreendentemente 
macio). A 'qualificação' de verbos é ordinariamente opcional, com raras exce-
ções, como o verbo passar (João passou bem após a cirurgia). Já a 'quantifi-
cação' é sempre acessória, seja junto a verbos, a adjetivos ou a substantivos. 
A 'qualificação' apresenta uma subdivisão de sentidos: meio (Ia para 
o trabalho de bicicleta), instrumento (Cortou o papel com um canivete), 
medida (Comprou bananas a quilo), companhia (Sempre passeava com o 
cachorrinlvo), freqüência (Saia raramente de casa), modo (O balão caía 
lentamente). 'Quantificação' e 'qualificação' se imbricam por influência do 
conteúdo, por si intensivo, de certos adjetivos (Era monstruosamente feio/ 
Falou energicamente com o filho). 
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO! O PERÍODO COMPOSTO 337 
A 'qualificação' e a 'quantificação' também podem ser construídas a partir 
de matrizes proposicionais, dando origem a 'orações subordinadas' adverbiais 
modEiis e comparativas: Conhecia as árvores da floresta como (conhecia) o 
palma da própria mão. Neste exemplo temos uma qualificação comparativa 
(cf. Conhecia as árvores da floresta muito bem/melhor do que seus com-
panheiros). A expressão verbal da qualificação pura, de base não comparati-
va, utiliza comumente gerúndios (Enriqueceu comercializando antigüida-
des) ou infinitivos precedidos da preposição sem (Saiu sem se despedir). Por 
serem formas de expressão de polaridade negativa (ver 4.4), as construções 
do tipo sem + infinitivo implicam sempre algum subentendido (no caso deste 
exemplo, a idéia de que, em nossa cultura, as pessoas costumam despedir-se 
quando se ausentam). Assim, a oração modal de Prendeu os assaltantes sem 
que desse um só tiro extrai sua relevância informativa da idéia corrente de 
que, nessas ocasiões, é habitual a polícia atirar. Estas informações pertencem 
ao domínio dos 'implícitos e subentendidos' (ver 4.5.6.2.3.2.2), às vezes mais 
decisivos para a construção dos sentidos do que as partes explícitas. 
14.14.1 Comparação 
As frases Paulo parecia um gato quando pulou o muro, Seu (= de Paulo) 
modo de pular o muro lembra um gato, Paulo usou uma habilidade felina 
para pular o muro e Paulo pulou o muro como um gato são todas compara-
tivas quanto à seleção vocabular, quanto à intenção e quanto ao sentido, mas 
só na última a comparação é expressa por um recurso tipicamente gramatical: 
a conjunção como. Temos nesse exemplo o que chamamos tradicionalmente 
uma 'oração subordinada comparativa': como um gato (pula um muro). 
Estes quatro exemplos seriam suficientes para demonstrar que o racio-
cínio comparativo se materializa numa grande variedade de formas. O ato de 
comparar permeia boa parte das atividades de reconhecimento e compreen-
são de tudo o que está à nossa volta, porque em geral tentamos enquadrar o 
novo e desconhecido em categorias já conhecidas. Tomemos o exemplo em 
questão: fala-se aí do pulo de alguém. Não há novidade no fato de pessoas 
pularem; a novidade está na agilidade, na çlesjreza com que o pulo foi reali-
zado por um ser humano. Essa novidade ê então concebida e expressa nos 
termos de algo já assentado erp nosso conhecimento de mundo: a notória 
agilidade/habilidade do gato. Aí está a essência do processo comparativo em 
geral, bem como da criação de certas metáforas55 (ver 18.9 e 18.10). 
Em sua realização mais explícita, o raciocínio comparativo opera com 
quatro elementos: o termo comparado (a), o termo comparante (b), o objeto 
da comparação (c) e o produto informado (d). Em nosso çxemplo, Paulo é 'a', 
gato é 'b' e pular é 'c'. O que chamo 'produto informado' é, no caso, a igual-
5 5 Cf. LAKOFF e JOHNSON [2002]. 
338 QUARTA PARTE - MORTOLOCIA FLEXIONAI E SINTAXE 
dade com que o objeto da comparação é percebido em 'a' e 'b'. Do ponto de 
vista da interação, porém, o mais importante é o efeito de sentido, a informa-
ção que o próprio enunciador trata como prioritária: a agilidade/habilidade 
do termo comparado. Esta informação pode estar explícita, mas comumente 
é produzida por inferência, daí sua força argumentativa36 (ver 4.5.5.3). 
Podemos distinguir quatro tipos de comparação expressos por meio de 
conectivos: comparação modal, comparação intensiva, comparação assimi-
lativa e comparação conformativa. 
14.14.1.1 Comparação modal 
O instrumentosintático típico da comparação modal é a conjunção como: 
Ela nadava como um peixe, Jogou hoje como em seus melhores dias, Cor-
tei as batatas como você pediu: em cubos. Um tipo especial de comparação 
modal é a que se expressa mediante a conjunção composta como se, segui-
da-de verbo no pretérito (imperfeito ou mais-que-perfeito) do subjuntivo 
(comparação hipotética). Com ela indica-se que o conteúdo da oração com-
parativa é tomado como coisa irreal ou hipotética: 
• O santo falava aos pássaros como se estes o entendessem 
• Passado o susto do acidente, o sapateiro voltou ao trabalho 
como se nada tivesse acontecido. 
• "Tudo se passa como se ele estivesse sendo impelido a atuar como 
porta-voz dos milhões de brasileiros destituídos que assistem seu 
programa." [Sérgio Miceli. Folha de S.Paulo, 13/4/1998] 
• "Estamos acostumados a falar em 'cultura brasileira', assim, 
no singular, como se existisse uma unidade prévia que agluti-
nasse todas as manifestações materiais e espirituais do povo 
brasileiro." [BOSI, 1992: 308] 
14.14.1.2 Comparação intensiva e comparação assimilativa 
Normalmente utilizamos a construção sintática da comparação para quan-
tificar uma propriedade comum a dois ou mais objetos (comparação in-
tensiva). Neste caso, tanto se pode destacar a igualdade da quantificação 
- expressa por meio de tanto/tão ... quanto - como a diferença - expressa 
por melo de mais/menos ...do que. Por isso é que a comparação pode ser: 
a) de igualdade (O cachorro é tão esperto quanto o gato, O leopar-
do corre tanto quanto o leão). 
b) de superioridade (O cachorro é mais esperto do que o gato, 
O leopardo corre mais do que o leão). 
c) de inferioridade (O cachorro é menos esperto do que o gato, 
O leão corre menos do que o leopardo). 
" P a r a u m a abordagem a r gumenta t i va da comparação, ver VOOT |1977]. 
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO! O PERÍODO COMPOSTO 339 
Pode acontecer, no entanto, que a comparação de igualdade não se re-
fira à quantificação da propriedade comum aos conteúdos comparados, mas 
apenas à semelhança existente entre eles (comparação assimilativa): 
• "Como costuma ocorrer com as celebridades genuinamente 
inimitáveis, Zózimo Barroso do Amaral acabou copiado no 
Brasil inteiro por colunistas sociais." [SÁ CORRÊA, Marcus. 
Veja, 26/11/1997] 
Esta forma de comparação é construída geralmente por meio da con-
junção como, precedida ou não do advérbio assim, e expressa uma relação 
semântica e sintática muito próxima da coordenação aditiva (ver adiante): 
• Fernando trabalhava no corte de cana, (assim I bem) como a 
maioria dos jovens de sua idade 
Algumas vezes, a comparação assimilativa é expressa por meio das 
locuções da mesma forma que e tanto quanto: 
• "Da mesma forma que se acabou com a escravidão por mo-
tivos econômicos, vamos ter de acabar com a ignorância 
para sobreviver numa economia globalizada e cada vez mais 
competitiva." [DIMENSTE1N, Gilberto. Folha de S.Paulo, 
7/6/1998] 
• "Pensar na censura como solução (para a permissividade do con-
sumo) é nocivo, tanto quanto achar que o mercado deve decidir 
a questão." [VENTURA, Zuenir. Jornal do Brasil, 6/6/1998] 
• "Hoje é comum encontrar nos terreiros de candomblé ima-
gens de santos com nomes de orixás, da mesma forma que o 
atabaque e o berimbau se incorporaram às festividades cató-
licas." (Veja, 1/7/1998] 
A presença das locuções da mesma forma que e assim como no início 
do período pode ser reforçada pelos advérbios assim ou assim também na 
oração principal: 
• "Da mesma formq que o negro passou a ser visto como um 
ser a-histórico, assim também passaram a ser vistas suas ma-
nifestações, seus padrões de organização, suas velhas tradi-
ções." [SEVGBNKO, 1998: 97] 
A oração comparativa tende a ser uma construçãò elíptica, uma vez 
que as partes do significado da frase que ela e a oração principal têm em 
comum só vêm explícitas na principal: | 
340 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAL E SINTAXE 
• "A chama do pavio tanto depende do azeite que a alimenta 
quanto do vento que pode apagá-la." (isto é: quanto depende) 
(MACHADO, 1957: 83] 
• "Nenhum outro acontecimento científico teve tanta repercus-
são no ano passado quanto a clonagem de Dolly." (isto é: quanto 
a clonagem de Dolly teve repercussão) [VEJA, 11/2/1998] 
• "Nem todos acreditam que o risco de falta de energia seja IâQ 
baixo no próximo século quanto estima a Eletrobrás." [Jornal 
do Brasil, 30/3/1998] 
• Este mês o botijão de gás durou menos do que no mês passado 
(isto é: do que durou no mês passado) 
• "O afastamento do gramado deixou evidente que o problema 
do jogador era mais crônico do que supunham os leigos." (isto 
é: do que os leigos supunham que era crônico) [Jornal do Bra-
sil, 3/6/1998] 
• "A indústria brasileira passa por uma ducha de renovação como 
nunca se v iu. " (isto é: como nunca se viu a indústria brasilei-
ra passar por uma ducha de renovação) [VEJA, 11/2/1998] 
Em muitos casos, a elipse produz uma construção análoga à de uma 
estrutura coordenada: 
• "Os jornais brasileiros começaram a mudar de formato na se-
mana passada, despertando mais discussões no meio jornalís-
tico do que críticas dos leitores." [SPINOLA, Noênio. Jornal do 
Brasil, 11/7/1999] 
Neste exemplo, a concatenação correlativa introduz dois objetos dire-
tos: discussões e críticas. 
14.14.1.3 Comparação conformativa 
O valor assimilativo da conjunção como é o que permite estabelecer uma 
comparação entre dois fatos, indicando que o conteúdo da oração subor-
dinada é confirmado pelo conteúdo da oração principal. Com este valor, o 
como, sempre substituível por conforme, introduz uma oração conformati-
va, que ordinariamente reporta um ato comunicativo: 
• A equipe conquistou o título, como (ou conforme) prometeu 
seu técnico. 
• "O papel do marido de provedor da família, com o direito a 
autorizar ou não o trabalho da mulher fora do lar, conforme 
determinavam as leis vigentes no começo do século, levou a 
dependência econômica da esposa a ser não apenas estimula-
da, mas sobretudo bem-vista." [SEVCENKO, 1998: 415] 
DÉCIMO QUARTO CAPITULO: O PERÍODO COMPOSTO 341 
Nos registros formais, especialmente na modalidade escrita, também 
se empregam com este valor os conectivos segundo e, mais raramente, 
consoante: 
• "Heitor Vila Lobos, segundo nos informa a direção do es-
tabelecimento, costumava hospedar-se aqui." [RIBEIRO, J. U. 
O Globo, 29/3/1998] 
• Para curar-se de uma úlcera, minha tia se submeteu a uma 
dieta rigorosa durante dez meses, consoante lhe prescrevera 
o velho médico da família. 
Por serem também preposições acidentais, conforme, consoante e se-
gundo ocorrem normalmente seguidos de substantivos que expressam atos 
comunicativos ou que designam entidades envolvidas nesses processos (con-
forme a promessa, consoante o regulamento, segundo o entrevistado). 
14.15 O INFINITIVO 
O infinitivo ocorre em duas posições principais: em locuções verbais, arti-
culado a um verbo auxiliar responsável, entre outras coisas, pela indicação 
do tempo da oração (Ela pode sair agora/Não pude chegar mais cedo), 
e como base de um sintagma nominal, atuando com funções próprias do 
substantivo (Ela desistiu de viajar/Navegar é preciso). Referido a seu su-
jeito sem a mediação de verbo auxiliar, o infinitivo pode sc flexionar em 
número e pessoa segundo as regras de concordância verbal. 
O sujeito do infinitivo pode: 
a) estar claro: 
• "Enquanto não houver regras rígidas para as alterações em 
carros feitos aqui, o governo continuará culpado por serem 2 5 
carros brasileiros piores e muito mais caros que seus simila-
res estrangeiros." [O Globo, 15/9/2007] 
b) estar oculto, mas indicado na desinência verbal: 
• "Inútil querermos destruir a ordem natural." [RAMOS, 1981b: 
100] l 
c) estar indeterminado:" 
• "Percorrer essas fotografias é comomergulhar no registro vir-
tual da memória familiar." [SEVCENKO, 1998: 457] 
d) estar suprimido (cancelado) mas recuperável:, 
• "Escapamos da vida ao escapar (sujeito nós suprimido) para 
fórmulas narrativas concisas, dentro das quais quase todo en-
tretenimento vem embalado." [Jornal do Brasil, 4/12/1999] 
5 SINTAXE Í$ÚJÜHA g g e CA/<úye) 
Coordenação de orações 
Diferente é o processo de coordenação, em que duas orações, 
ambas tomadas em sua totalidade, se relacionam entre si. Pode-
ríamos concluir que só por coordenação é que temos, na realidade, 
uma relação entre orações, e que só é composto o período em que 
há orações coordenadas. 
Diz-se comumente que a coordenação relaciona orações in-
dependentes, e que o nexo entre elas é apenas lógico, com as va-
riantes semânticas das conjunções, Ê muito pobre tal asserção; 
em primeiro lugar, porque abdica da sintaxe em favor da lógica; 
em segundo lugar, porque relações lógicas a subordinação tam-
bém estabelece (causalidade, condicionalidade, conseqüência, tem-
poralidade). Sintaticamente, o que devemos ver é que na coor-
denação os functivos são duas orações; e, na subordinação, são 
uma oração e um termo de oração. 
Há mais coisas a dizer sobre a coordenação de orações — 
mas esse é o começo de uma outra história. Por enquanto, bas-
ta-nos o que foi dito. 
Subordinação de orações. 
A oração subordinada não se articula com outra oração, con-
siderada esta em sua totalidade; ela contrai uma relação de depen-
dência com um termo de outra oração. A í está um momento 
sui generis da estruturação sintática: a constituição de um par de 
functivos em que um elemento de nível inferior (um termo de 
oração) é o functivo central a que se articula, como marginal, um 
elemento de nível superior (uma oração). Para que ocorra essa 
aparente ruptura da hierarquia, a oração subordinada precisa pas-
sar por um processo que podemos chamar de miniaturização, que 
lhe permite tornar-se um membro de outra oração. Preserva-se, 
com essa operação, o princípio da homogeneidade dos functivos. 
E m última instância, as duas orações são uma só, pois a subordi-
nada passa a ser apenas um termo de oração, embora conserve, 
internamente, sua estrutura oracional. N ã o é por outro motivo 
que Galichet1 7 propõe chamar tal período de complexo, reservando 
a denominação de composto para aquele em que ocorre a coorde-
nação de orações. 
Os instrumentos gramaticais que subordinam orações (pro-
nomes relativos e conjunções subordinativas) cumprem, portanto, 
uma tarefa bastante complexa: 
• miniaturizam a oração com que se articulam; 
• operam a translação de segundo grau, impondo a essa oração 
um comportamento de substantivo, adjetivo ou advérbio; 
• como gramemas exofóricos, voltam-se para o exterior e inserem 
sua oração em determinado ponto de outra. 
1 7 GALICHET, Georges. Grammaire structurale du français maderne. Paris, 
Hatier, 1971. p. 176 e 186-7. 
Governados pelas palavras 
W m a Flip (Festa Literária Internacional de Pa-
• C/ raty), tudo remete à palavra - a linguagem 
verbal. Este ano não foi diferente. Escritores, leito-
res, organizadores, livreiros, editores, jornalistas, 
vendedores de cachorro-quente e engolidores de 
fogo, e até os visitantes para quem a festa é apenas 
uma festa, todos estiveram lá por causa da palavra. 0 
que é um alívio num mundo asfixiado por excesso de 
imagem e ruído. 
As mesas de debates, atração maior do evento, 
são cerimônias da palavra. Nelas discutem-se idéias 
e informações, mas, neste fim de semana, algumas 
veicularam também emoção. 0 mesmo acontece nas 
palestras paralelas, extra-Flip, às vezes mais pessoais 
e calorosas do que as da programação oficial. Não faz 
diferença - as palavras servem para produzir beleza 
ou inquietação 
Foram elas que governaram os encontros de rua 
entre os escritores e seus fãs, a resultar nos autógra-
fos assinados em qualquer lugar, as livrarias duras de 
gente; os "pés de livros", árvores de cujos galhos pen-
diam livros para crianças; os jovens que tomaram as 
praças declamando prosa ou poesia; e a própria edu-
cação pela pedra que significa andar por Paraty - seu 
calçamento nos ensina onde e como pisar. 
Num daqueles dias, fui acordado pelo som in-
confundível de uma máquina de escrever nas proxi-
midades - tec tec tec, tec tec tec. E m Paraty, a idéia 
de alguém datilografando àquela hora não parecia 
absurda. T i n h a até um ritmo peculiar: cinco ou seis 
tec-tecs e silêncio; outros tec-tecs e novo silêncio. 0 
impressionante é que alguém ainda estivesse usando 
uma máquina de escrever, objeto, como se sabe, ex-
tinto. 
Espiei pela janela. Ninguém à vista, exceto dois 
passarinhos, tipo rolinhas gigantes, num galho da 
árvore no quintal. Perguntei a Carmen, caseira da 
pousada, sobre o tal datilografo. Ela disse: "Não existe. 
Quem faz esse tec-tec é a trocai, uma pomba da mata." 
Ah, bom, estava explicado. E não me decepcionei. Ao 
contrário. T i n h a de ser em Paraty, onde até os passari-
nhos parecem escrever. 
UERJ - DL • LP fll 
Prof. André Valente 
Aluno(a): _ _ 
2* prova 
1) Por que, hoje, ainda há (ou não há mais) necessidade de uma nomenclatura 
gramatical uniforme no ensino de língua portuguesa nos níveis fundamental e 
médio? (Cláudio Cezar Henriques, in "Nomenclatura Gramatical Brasileira: 50 
anos depois") 
2) A oragao grifada no período "A jovem saiu com quem lhe inspirava confiança" 
pode apresentar duas leituras no plano sintático: uma não tem abrigo na NGB; 
outra nela encontra apoio. Comente as duas possibilidades sintáticas: 
a) 
b) 
CAPÍTULO CXXVI I .O B A R B E I R O , ín DOM CASMURRO,Machado de A s s i s Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a rabeca e não tocava inteiramente mal. Na ocasião em que ia passando, executava não sei que peça. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado), ele viu-me, e continuou a tocar. Não atendeu a um freguês, e logo a outro, que ali foram, a despeito da hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras à navalha. Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando para mim. Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja, voltado para ele. Ao fundo, levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma moça trigueira, vestido claro, flor no cabelo. Era a mulher dele; creio que me descobriu de dentro, e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido. Se me não engano, chegou a dizê-lo com os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses, grudava a face ao instrumento, passava a alma ao arco, e tocava, tocava... Divina arte! Ia-se formando Um grupo, deixei a porta da loja e vim andando para casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estréprto. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar ligado a um riiomento grave da minha vida, ou por esta máxima, que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos compêndios de escola. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca. Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquela noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser ouvido de um transeunte. Supõe agora que este, em vez de ir-se embora, como eu fui, ficava à porta a ouvi-lo e a namorar-lhe a mulher; então é que ele, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina arte! 
— Meu senhor! - gemia o outro. 
Cala a boca, besta! - replicava o vergalho. 
moleque Prudêncio, o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-
se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele. 
— Fez-te alguma cousa? 
CAPITULO LXVHI / O VERGALHO 4 
TAIS ERAM as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois 
de ver e ajustara casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava ' 
outro na praça. O outro não se atrevia a fugir, gemia somente estas únicas palavras: <i 
"Não, perdão meu senhor; meu senhor, perdão!" Mas o primeiro não fazia caso, e, a u 
cada súplica, respondia com uma vergalhada nova. ^ 
— Toma, diabo! - dizia ele. - Toma mais perdão, bêbado! * 
• 
« 
m 
Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu ^ 
4 
4 
— É rim, nhonhô 4 
4 
— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto 4 
eu ia lá embaixo na cidade, e de deixou a quitanda para ir na venda beber. 4 
4 
4 
— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado. 4 
4 
Sai do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui ^ 
caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; 
aliás, seria matéria para um bom capitulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos 4 
alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só 4 
exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio, achei-lhe um miolo <g 
gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das — 
pancadas recebidas - transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe Uth 
freio na boca e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era 4 
livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, 4 
desagrilhoado da antiga condição, agora é que de se desbancava: comprou um escravo, ^ 
e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas 
do maroto! ' 
4 
(Machado de Assis, in "Memórias póstumas de Brás Cubas") ^ 
' 4 
4 
4 
4 
m 
— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

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