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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE LETRAS
LÍNGUA PORTUGUESA III
PROFESSOR : ANDRÉ VALENTE
CURSO: SINTAXE DO PERÍODO COMPOSTO
OBS: APOSTILA SEM FINS LUCRATIVOS
2018
38 João Cabral: Uma Poética da Escrita
Notas
1 ECO, Umberto. Universidade e Mídia. In: A Universidade e os Meios de Comuni-
cação de Massa, 1991, p. 14.
1 FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses, 1966, p. 53.
7 BENJAMIN, Walter. Pequena História da Fotografia. In: Benjamin, Walter. Sociolo-
gia, 1985, p. 240.
4 GODZICH, Wlad. 77us Culture oj Uteracy, 1994, pp. 26-27.
1 DUBOIS, Claude-Ollbert. A Imaginação da Renascença, 1985, p. 69.
4 DERRIDA, Jacques. Vicriture et Ia diffirence, 1967, p. 317.
7 FOUCAULT, Michel. Les mots et les choses. Op. cit., p. 53.
• MERLEAU-PONTY, Maurice. Sinais, 1962. p. 131.
' ONO, Walter J. Oralità e Scrittura: Le Tecnologle delia Parola, 1986, p. 122.
1 0 DELEUZE, Oilles. Critique et clinique, 1993, p. 11.
" Idem, p. 15.
f f f^Aé ^ ^ j r n Estudo sobre a Correlação
(Em J . Oiticica e Outros Autores)
Os Processos de Composição do Período,
segundo a Nomenclatura Gramatical Brasileira
A Nomenclatura Gramatical Brasileira registrou apenas dois
processos de Composição do Período: a Coordenação e a Subordina-
ção. A Comissão, responsável e composta pelos autores Antenor
Nascentes, Cândido Jucá, Carlos Henrique da Rocha Lima, Celso
Ferreira da Cunha e Clóvis do Rego Monteiro, procedeu em conso-
nância com os princípios que nortearam a elaboração da Nomencla-
tura. Observe-se a consideração feita ao ministro Clóvis Salgado:
Revela salientar que a Comissão, ao considerar as mo-
dificações propostas, teve sempre Çm/nira a recomenda-
ção de V. Ex.° constante da Portâria Ministerial n.° 152
- "uma terminologia simples, adequada e uniforme" -
bem como atender ao tríplice aspecto fixado nas Normas
Preliminares de Trabalho:
a) a exatidão científica do termo;,
b) sua vulgarização internacional;
c) sua tradição na vida escolar brasileira.
i
40 Um Estudo sobre a Correlação
Até aquela época (1958), a maioria dos autores também só
aceitava os dois processos de Composição do Período. Dentre os que
discordavam de tal orientação, destacou-se o professor José Oiticica.
Em Manual de Análise, Oiticica salientava:
Sendo tidas, em geral, como casos especiais da subordi-
nação, cousa inadmissível, pouco se têm ocupado as
gramáticas e os Métodos com as correlações, dificultan-
do intensamente o estudo da análise...
Insisto, pois, na necessidade de considerar a correlação
processo de composição do período diferente da coorde-
nação e da subordinação (MA, grifos nossos).
Ainda no Manual de Análise, José Oiticica inclui a Justaposi-
ção entre os processos de Composição do Período. Mais adiante, em
Teoria da Correlação, ratifica sua posição. Se a necessidade de
sintetizar e uniformizar estava bastante presente na preparação da
Nomenclatura Gramatical Brasileira, seria por demais simplista a idéia
de que, em nome da síntese, fez-se a opção por somente dois proces-
sos sintáticos. A nosso ver, o que ocorreu foi uma verdadeira tomada
de posição por parte dos autores da Nomenclatura. Na realidade, eles
expressaram o pensamento da maioria dos nossos estudiosos, o que
talvez possa ser resumido nas palavras do professor Evanildo Bechara:
(...) coordenação e subordinação, como tipos de oração
(melhor diríamos aqui, orações independentes e depen-
dentes), não estão no mesmo plano da correlação e jus-
taposição. Os dois primeiros conceitos dizem respeito ao
valor sintático de independência ou dependência em que
se acham as orações dentro do contexto; correlação e
justaposição se referem ao modo de se ligarem entre si
essas mesmas orações (...) (LPAS, p. 127).
Note-se, ainda, que havia quem reconhecesse a existência de
quatro processos associativos de orações, mas, por uma questão didá-
André Crim Valente 41
tica, analisasse conforme a orientação da Nomenclatura Gramatical
Brasileira. É o caso do professor Delson Gonçalves Pere|ira, ao afir-
mar que os quatro processos podem reduzir-se aos três primeiros,
considerando o quarto como uma apresentação ocasional e "acidental-
mente" diferente da coordenação e da subordinação. Delson Gonçal-
ves conclui que, "na coordenação, há independência de orações; na
subordinação, dependência; na correlação, as orações são
interdependentes, e a justaposição cai na coordenação assindética ou
na subordinação sem o conectivo subordinativo" (AS, pp. 45-46).
Professor Rocha Lima, em Teoria da Análise Sintática, diz-nos
que, de acordo com o modo por que as orações se dispõem e se
relacionam, o período apresenta quatro estruturas típicas. São os "pro-
cessos sintáticos" de Coordenação, Subordinação, Correlação e Justa-
posição. E Rocha Lima conclui que:
Há, ainda, o período "misto", conseqüência da combina-
ção variada desses quatro processos fundamentais. Ele
deve, porém, ser considerado à parte, uma vez que não
constitui um tipo estrutural definido (TAS, p. 54).
Ao tratar dos processos sintáticos em sua extraordinária obra
Comunicação em Prosa Moderna, o professor Othon Moacyr Garcia
observa que, "num período composto, normalmente estruturado - isto
é, não constituído por frases de situação ou de contexto - as orações
se interligam mediante dois processos sintáticos universais: a coorde-
nação e a subordinação. A justaposição, apesar de legitimamente
abranger uma e outra, é ensinada no Brasil como variante da primeira,
e a correlação, como variante da segun,da^. Em consideração sobre a
Nomenclatura Gramatical Brásileira, Qíhon M. Garcia destaca que, ao
tratar da Composição do Período, a Nomenclatura ignorou a Justapo-
sição e a Correlação. Observa então':
É que, segundo orientação lingüística mais atualizada, a
justaposição, como processo sintático, consiste em enca-
dear frases sem explicitar por meio de partículas
42 Um Estudo sobra a Correlação
coordenativas ou subordinativas a relação de depen-
dência entre elas. Nesse sentido, dá-se-lhe também o
nome de "parataxe". A correlação é uma construção
sintática de duas partes relacionadas entre si, de tal
modo que a enunciação da primeira prepara a
enunciação da segunda (CPM, p. 14).
A Corre lação
Entre os processos de Composição do Período, a Nomenclatura
Gramatical Brasileira não inclui a Correlação, que é um processo
sintático com interdependência entre as Orações. Professor Joaquim
Mattoso Câmara Jr. definiu a correlação como "construção sintática
de duas partes relacionadas entre si, de tal sorte que a enunciação de
uma, dita prótase, prepara a enunciação de outra, dita apódose" (DFG,
p. 105). Segundo Mattoso Câmara, conforme o conectivo utilizado e
a noção de seqüência ou de sintagma, respectivamente teremos a
correlação, por coordenação ou subordinação. Exemplos:
É não só inteligente mas culto.
É tão culto que. inibe as pessoas.
No que respeita às construções com prótase e apódose, Othon
M. Garcia observa que elas "aparecem com mais freqüência no estilo
oratório assim como na argumentação de um modo geral. Não carac-
terizam, senão excepcionalmente, o estilo narrativo e o descritivo, a
menos que se considere como prótase a simples anteposição de adjun-
tos adverbiais à oração principal. Isto, sim, é comum" (CPM, p. 44).
E Rocha Lima entende a correlação como um processo sintático, de
características absolutamente próprias, onde "não há independência
das orações componentes do período, como na coordenação; nem
subdependência, como na subordinação. Existe, a vigor,
paradependência" (grifos nossos). Exemplo:
A rã inchou tanto, que estourou.
André Crim Valente 43
Em Novo Manual de Análise Sintática, o professor Gladstone
Chaves de Melo define a correlação como "um processo mais com-
plexo, em que há, de certomodo, interdependência. Dá-se neste pro-
cesso a intensificação de um dos membros da frase ou de toda a frase,
intesificação que pede um termo. Muitas vezes há como a retenção
para um salto, a que se segue o salto" (NMAS, p. 113). Exemplo:
...abraçou-me com tal ímpeto, que não pude evitá-lo.
(Machado de Assis)
Em Manual de Análise, José Oiticica, após ilustrar com exem-
plos a coordenação e a subordinação, utiliza o período "tal era o pai,
tal é hoje o filho", para caracterizar a correlação:
Nesse exemplo, as orações são independentes em sen-
tido, mas se acham presas uma à outra por uma com-
paração, com "paralelismo" na apresentação dos dois
conceitos. Esse paralelismo se revela pela anteposição
do mesmo termo "tal" a cada frase. Chama-se isso
"correlação", e as duas orações se dizem "correlatas".
"Tal", nesse exemplo, é o termo "correlativo" (MAS,
p. 224).
A Teoria da Correlação, de José Oiticica
A obra de José Oiticica está esgotada há anos. Neste capítulo,
aproveito para fazer uma síntese de sey trabalho e apresentá-lo aos
que não o conhecem. Cabe registrar quê ò livro contém "Introdução"
de João Luiz Ney, que, por .solicitação do próprio José Oiticica, pôs
em esquemas os 55 Exemplos do trabalho.
Para Oiticica, o essencial de sua doutrina reside nos seguintes
pontos: (TC, p. 15).
a) uma comparação de igualdade. 3
44 Um Estudo sobre a Correlação
b) uma adição introduzida em cada frase por termos indepen-
dentes ("não só... mas também"), dos quais mencionado o
primeiro, somos forçados a mencionar o segundo.
c) de uma relação de causa e efeito tal, que, mencionando um
termo intensivo da primeira, a segunda, iniciada por "que",
se toma obrigatória.
Julga indispensável fazer uma explanação mais demorada e com
maior discriminação. Tece, a seguir, considerações sobre a coordena-
ção e a subordinação. Propõe-se, então, a examinar o que sucede com
as correlações:
Incluí-las-emos na coordenação! Enquadrá-las-emos na
subordinação! Colocá-las-emos umas na coordenação,
outras na subordinação!
Com o objetivo de responder às perguntas formuladas, irá fazer,
"no vasto campo das correlatas, cuidadosa discriminação", inexistente,
até então, em qualquer gramática nacional ou estrangeira. José Oiticica
dividirá seu estudo em quatro Grupos que denominaremos:
1. °) correlatas aditivas.
2. °) correlatas comparativas de igualdade.
3. °) correlatas comparativas de superioridade ou inferioridade.
4. °) correlatas comparativas de intensidade.
No 1 * Grupo, Oiticica nos mostra a correlação entre duas orações
e entre dois termos de uma oração. Procura enfatizar as estruturas dis-
tintas quando empregamos a conjunção "e" ou os termos correlatos "não
somente... mas também". O primeiro termo correlato é denotativo ne-
gativo de restrição, e nos força a iniciar a segunda oração com o
denotativo de inclusão "mas também" (ou equivalente: "mas ainda",
"como ainda", "como também", "senão que", etc). Exemplo:
Não somente Robson correu, mas também ele nadou.
André Crim Valente 45
Oiticica ainda exemplifica com outros termos com a mesma
função (apostos, objetos diretos, adjuntos adverbiais), correlacionados
aditivamente. Lembra-nos que pode haver braquilogia, ou "encurta-
mento do período por latência de alguns elementos". Exemplo:
Surgiram questionamentos dos alunos, como dos funcionários.
No 2." Grupo, Oiticica apresenta diversos tipos de correlação
comparativa de igualdade:
a) referida à identidade:
Tais foram suas promessas, tais são hoje suas realizações.
b) referida à qualidade:
Tal fora o pai, tal é o filho.
Observações:
1 .*) A estrutura tem um modelo (o pai) e um modelado (o fi-
lho). Se o modelado vem antes, o modelo é introduzido por
"qual" ("O filho é tal qual o pai"). Pode ocorrer braquilogia
("O filho é qual o pai").
2.*) Oiticica classifica "tal" e "qual" como adjetivos qualifica-
tivos, sintéticos, indefinitos. Entende que são palavras
vicárias.
c) referida à intensidade:
Tanto tocava um, tanto dançatzap outro.
Observações:
1.*) A comparação de. igualdade valoriza a intensidade indefi-
nida entre atos diferentes. Encontramos o modelo (o que
toca) e o modelado (o que dança). Na 2.' oração, o modelo
exige "quanto" ("Tanto dançava um, quanto tocava o ou-
tro").
Um Estudo sobre a Correlação
2. *) A intensidade pode verificar-se com o mesmo fato ("Tanto
puxava um, tanto puxava o outro"), podendo aparecer "quan-
to" ou "como" na 2.* oração.
3. ' ) Quando a intensidade se refere a um nome, "tanto" e "quan-
to" viram adjetivos. Exemplo:
Tanta bondade tinha ela, quanta ruindade mostravam os
parentes.
d) referida a uma quantidade progressiva:
Tanto mais cantava o artista, tanto mais vibrava a platéia.
Observações:
1. *) Oiticica afirma que "a correlação quantitativa, já de si
intensiva, pode ser intensificada pelo advérbio 'mais' e
pelos adjetivos comparativos". Admite a correlação quan-
titativa progressiva com valor antitético ("Tanto mais
lavrava o incêncio, tanto menos cresciam os recursos
para dominá-lo") .
2. *) Entendo que as estruturas correlatas com valor progressivo
("quanto" ou "tanto", "mais", "menos", "maior", "menor",
"melhor", "pior") devem ficar entre as proporcionais. En-
contro apoio para a minha idéia em Adriano da Gama Kury
e Gladstone Chaves de Melo.
e) referida à combinação de qualidade com intensidade:
Tão bela foi a mãe, tão feia é a filha.
Observação:
É comum a correlação com a mesma qualidade ("Tão bela
foi a mãe, quanto o é a filha").
f) referida aos modos:
Assim ditava o mestre, assim escrevia o discípulo.
André Crlm Valente 4 7
Observações:
1. *) Na 1* oração, pode aparecer "assim como", ou "como". Na
2.*, "assim também".
2. *) Surge uma estrutura diferente com a posposição do modelo
("O discípulo escrevia tal qual o mestre ditava").
No 3.° Grupo, Oiticica exemplifica com correlatas comparativas
de superioridade e, no final, diz que os "Comentários" se aplicam à
comparativa de inferioridade, com substituição de "mais" por "me-
nos", e "maior" por "menor". Oiticica destaca a impossibilidade de
"se prender a segunda oração diretamente a algum verbo como ocorre
na subordinação das substantivas e adverbiais, ou a um substantivo
qual sucede com as adjetivas". Na correlação comparativa de superi-
oridade, são indispensáveis dois termos: o advérbio "mais" e a con-
junção "que" ("do que"). A segunda oração tem apoio no "mais".
Podem ocorrer diversas comparações:
a) de dois fatos atribuídos ao mesmo indivíduo:
Edu compõe mais que canta.
b) de dois fatos atribuídos a entidades diferentes:
Edu compõe mais facilmente do que Paulo Mendes faz poesia.
c) o intensivo "mais" pode anteceder um adjetivo qualificativo:
Jô é mais culto que Agildo
Observações: , .
1.*) Por ser facilmente subentendido,'costuma-se omitir o adje-
tivo. Exemplo:
Ele imagina que é mais do que Luís Inácio.
2.*) O "mais" pode juntar-se a substantivo. Exemplo:
Tem mais samba no encontro que na espera.
(Chico Buarque)
5
48 Um Estudo sobre a Correlação
José Oiticica considera um caso especial de correlação compa-
rativa de superioridade a que se verifica com os chamados adjetivos
comparativos sintéticos ("maior", "menor", "melhor" e "pior"). Com
eles, não se pode usar complemento terminativo (como ocorre com
"superior", "anterior", "exterior", etc). Os quatro supracitados são
seguidos de oração latente, uma vez que não se repete o adjetivo
implícito no comparativo. Exemplo:
A Terra é maior ("mais grande") do que a Lua ("é grande").
Para Oiticica, foi problemática, durante algum tempo, a origem
daquele "do" precedente à conjunção "que". Chegou a aventar a hipó-
tese de a expressão "do que" ser resultante de cruzamento ou conta-
minaçãodos dois processos de correlação: o por complemento (maior
"de todos"), e o oracional (maior "que todos"). Depois, passou a
aceitar a explicação de Delson Gonçalves Pereira:
(...) a expressão "do que" não se originou da contamina-
ção de duas formas de exprimir o 2.° termo da compara-
ção, mas do esquecimento das funções de "o" e "que", e
da falsa analogia de "do que" e "que" (conj. comp.), que
muito concorreu para identificá-las (...).
De nossa parte, fomos conferir no estudo exemplar de Augusto
Epiphanio da Silva Dias, Syntaxe Histórica da Língua Portuguesa,
onde o mestre nos elucida a questão:
(...) dizia-se, e diz-se, correctamente "vi mais do que
desejaria" por "vi mais que o (= "aquilo") que desejaria"
(cf. nos Lusíadas [U, DQ: ...notárãol muito menos d'aquillo
que querião). D'ahi por confusão, vem "do que" a tomar
o lugar da simples partícula comparativa "que" (...) (SHP,
p. 171).
André Crim Valente 49
No 4° Grupe (as consecutivas), José Oiticica ressalta a relação
de causa e efeito (conseqüência) nesse tipo de correlação, cujas carac-
terísticas básicas são:
1. ") A oração correlata consecutiva exprime uma conseqüência;
2. ") A conseqüência resulta de um fato enunciado enfaticamen-
te, isto é, com vigor acima do comum;
3. ') A consecutiva se prende sempre à oração causativa por um
termo intensivo (advérbio, adjetivo ou mero denotativo:
"tanto", "tal", "tão", explícitos ou implícitos);
4. ') O segundo termo correlativo é a conjunção correlativa "que".
Exemple:
Tanto eles me estimularam, que eu escrevi o livro.
O elemento de valor enfático pode modificar um adjetivo, um
substantivo ou um advérbio. Exemplos:
Cláudia estava tão sexy, que nos perturbou.
Alicia dançou com tanto charme, que todos ficaram extasiados.
Garrincha driblava tão bem, que desnorteava o marcador.
O Io termo correlativo pode ser "tal", com valor de "tão
grande", "tão intenso". Exemplo:
A dor de Gil foi tal, que ele cancelou o show.
Às vezes, "tal", como adjetivo, vem preso a um substan-
tivo. Exemplo:
Sua dor foi de tal ordem, que ele ficou arrasado.
t 7
i f. •
Oiticica faz uma observação bastante peculiar sobre "tal" nes-
ses exemplos, onde é quantitátivo e "tem sentido perfeitamente defi-
nido, com a equivalência assinalada. Porém, se realça qualidade, e isto
é muito relevante, tal só é definido 'pela consecutiva". Exemplo:
Seu procedimento foi tal, que...
50 Um Estudo sobre a Correlação
Oiticica ressalta que não sabe se "tal" significa "tão nobre", ou
se "tão indigno". Somente a conseqüência explicitará. Exemplos:
Seu procedimento foi tal, que o elogiaram publicamente.
Seu procedimento foi tal, que o expulsaram do clube.
Lembra-nos o mestre que esse "tal" na oração causativa, por
representar um só adjetivo não mencionado, claro ou definido pela
consecutiva, resume um adjetivo qualificativo não explícito, mas de-
finido ou definível e, mais, o intensivo ou ênfase. É um "adjetivo
qualificativo intensivado inexplícito".
Quanto às estruturas do tipo "Eles falavam de maneira tal, que
ninguém os entendia", Oiticica afirma que a correlação está bem cla-
ra. Pode haver inversão ("de tal maneira") ou omissão ("Eles falavam
de maneira que ninguém os entendia"). A correlação com "tal", ocul-
to, é caso comum de braquilogia, o que não foi bem entendido por
alguns gramáticos que inventaram locuções conjuntivas do tipo "de
maneira que", "de modo que", "de forma que", muito estranhas, se-
gundo Oiticica, visto que "começavam com a preposição 'de', cousa
impossível numa locução conjuntiva". Oiticica considera curiosíssimo
o período "Fiquei alegre, tais foram as notícias", porque a conseqü-
ência está na 1.* oração, e a causa na 2.* oração. Comenta então:
A inversão feita por ênfase, para valorizar o fato mais impor-
tante, minha alegria, alterou de todo a estrutura, deformou-a.
Sugere o mestre que desfaçamos a inversão e restabeleçamos a
estrutura normal. Exemplo:
As notícias foram tais, que fiquei alegre.
Encerra seu estudo, professor José Oiticica, com a abordagem
do período "As cousas chegaram a tal ponto, que desistimos". Afir-
ma-nos ser uma correlação muito usada pelos clássicos, com variante
para "a tal extremo que". Por influência do idioma francês, pode-se
usar a preposição no 2." elemento, e o verbo no infinitivo: Exemplo:
Trabalharam a ponto de não poderem ter-se em pé.
André Crim Valente 51
Observação:
Havendo braquilogia, a análise fica prejudicada caso não se
reintegre o 1.° termo correlativo. O exemplo anterior poderia ter a
seguinte forma:
Trabalharam de não se poderem ter em pé.
Estariam no mesmo caso as construções "gritavam de ensurde-
cer", "dancei de enjoar", e "correu de cair".
Outros Estudos
Além do estudo de José Oiticica, o melhor e mais fundamen-
tado trabalho, a correlação também foi tratada com destaque por
Gladstone Chaves de Melo (em Novo Manual de Análise Sintática),
e por Carlos Henrique da Rocha Lima (em Teoria da Análise Sintá-
tica).
Chaves de Melo nos diz que a correlação pode ser consecutiva,
comparativa, equiparativa e alternativa, com as seguintes caracterís-
ticas:
ã) Consecutiva: "O segundo termo exprime a conseqüência do
que foi expresso pelo primeiro". Exemplo:
Tão temerosa vinha [a nuvem] e carregada.
Que pôs nos corações um grande medo (Camões).
Chaves de Melo observa que, em alguns casos, principalmente
na linguagem falada, o elemento intensificador ("tão", "tanto", etc.)
não aparece. Ocorre uma intensificação Çonética na 1,' oração. Exem-
plo: * /
Chovia, que era um desespero.
b) Comparativa: "O segundo termo é simplesmente o segundo
elemento de um cotejo. Pçr ser o mesmo da 1 .* oração, é
comum a omissão do predicado na 2.*". Exemplo:
Tomás é tão sagaz quanto Paulo.
52 Um Estudo sobre a Correlação
c) Equiparativa: "O segundo termo é posto à altura do primeiro,
é colocado em pé de igualdade, não como na coordenação,
mas diversamente, com a abertura e a posterior satisfação de
uma expectativa". Usam-se as expressões "assim... assim
também", "não só... mas também/ senão também", "assim
como... assim", etc. Exemplos.
E assim como o espelho é todos os objetos representativa-
mente, assim este entendimento é todas as cousas intencio-
nalmente (Bemardes).
Não só de pão vive o homem, mas [vive] de toda palavra
que sai da boca de Deus (MAT, IV, p. 4).
Observação:
Em verdade, a correlação equiparativa de Gladstone C. de
Melo corresponde à correlação comparativa de igualdade e
à correlação aditiva, formuladas por José Oiticica.
O próprio Gladstone Chaves de Melo reconhece que "esta úl-
tima sistematização e denominação apresento-a aqui, ainda como
ensaio. A matéria é complexa e esquiva, pelo que antes peço suges-
tões do que as dou". Alertado pela professora Amália Beatriz Cruz
Costa, que não gostou da correlação equiparativa, Chaves de Melo
admite falar também numa correlação proporcional em frases como
"Quanto mais ele falava, tanto menos eu o entendia".
d) Alternativa: "Há uma escolha ou uma hipótese, seguida ime-
diatamente de rejeição e substituição, seqüência já anuncia-
da antes da primeira oração".
Gladstone Chaves de Melo julga ser descoberta sua a correlação
alternativa a partir da análise das orações coordenadas(?) alternativas
(sic), com base na seguinte questão:
André Crlm Valente 53
Poder-se-á dizer que em casos como "Ou você me
paga esta semana, ou te cobro judicialmente!" existe co-
ordenação! Serão independentes as orações deste
período! Ou serão interdependentes!
Sugere, então, a distinção de dois tipos de alternância sintática:
uma singela (com conectivo explícito só a partir do 2." termo), outra
mais complexa (com o conectivo a encabeçar já o 1." termo). Exem-
plos:
Desapareceu ou morreu, não se sabebem.
Quer você me acompanhe quer me deixe só, tomarei esse
caminho, que é o que considero certo.
Para Gladstone Chaves, de Melo, na alternância complexa a
construção passa a mostrar "cores nítidas de correlação, tanto é ver-
dade que, ao anunciar-se o i , " termo, já se faz sentir a interdependência,
característica distintiva de tal processo sintático". Conclui que se justifi-
ca o seu arrazoado pelo fato de José Oiticica, "o desbravador da
matéria e que sobre este processo sintático escreveu todo um livri-
nho", não ter falado em correlação alternativa.
Rocha Lima destaca três tipos de orações correlatas:
a) Aditiva: A adição se verifica pela presença de termos
correlatos ("não só... mas também/ mas ainda/ senão tam-
bém/ senão ainda/ senão que^assim... como/ que"). A men-
ção do primeiro terino nos leva obrigatoriamente ao segun-
do. Exemplo:
Não só o roubaram, mas também o feriram.
b) Consecutiva:. Percebe-se, pelos termos correlatos apresenta-
dos, uma abrangência no estudo de Rocha Lima. Ele não
discrimina, como José Oiticica, as idéias dff igualdade, qua-
54 Um Estudo sobre a Correlação
lidade, superioridade e quantidade progressiva. Vale dizer que
as orações por nós consideradas proporcionais ("quanto mais...
tanto mais/ mais", "quanto menos... tanto menos/ menos")
ficaram nas comparativas de Rocha Lima. Observem-se os
termos correlatos apontados por ele:
"tal... tal/ qual"
"tanto... tanto/ quanto/ como"
"tanto mais... tanto mais/ tanto menos"
"tanto maior... tanto maior"
"quanto mais... tanto mais/ tanto menos"
"quanto menos... tanto menos/ tanto mais;
"assim... assim"
"mais... que/ do que"
"menos... que/ do que"
"melhor... que/ do que"
"pior... que/ do que".
Exemplos:
Tal fora o pai, tal é hoje o filho.
O vinho é melhor que o licor.
Notas:
1.*) Utilizamo-nos, no presente trabalho, de outros autores que
abordaram a Correlação.
a) Delson Gonçalves Pereira também discorda da Nomen-
clatura Gramatical Brasileira, e aponta quatro processos
de Composição do Período, ainda que não detalhe a
Correlação, como o fizeram Gladstone Chaves de Melo
e Carlos Henrique da Rocha Lima.
b) Evanildo Bechara e Othon Moacyr Garcia, apesar de
aceitarem apenas os dois principais processos, dão con-
tribuições importantes sobre a Justaposição e a Corre-
lação.
André Crim Valenl» 55
c) Joaquim Mattoso Câmara Jr. contribui, de forma decisi-
va, na conceituação.
d) Adriano da Gama Kury nos pareceu bastante feliz na
tentativa de adaptar sua visão das orações correlatas à
Nomenclatura Gramatical Brasileira.
2.*) Entre os gramáticos conceituados, como Manuel Said Ali,
Celso Ferreira da Cunha e Celso Pedro Luft, apenas Luft dá
detalhes sobre os quatro processos sintáticos, e concorda
com a orientação oficial:
Os elaboradores da N.G.B. fizeram bem pronunciando-se
por essa bipartição clássica, não considerando processos
especiais a correlação e a justaposição (GR, p. 145).
3.*) Dentre quatro autores que trabalharam com Lingüfstica
Aplicada, não encontramos estudos sobre a Correlação.
Foram os seguintes: Mário Perini, Miriam Lemle, José
Rebouças Macambira e Nádia Vellinho Tondo.
4.*) Na obra de Carlos Vogt, O Intervalo Semântico, encontra-
mos um estudo exaustivo da Comparação. Não caberia aqui
esmiuçá-lo, face aos objetivos do nosso trabalho; todavia
gostaríamos de destacar a parte relativa à Correlação "tão...
quanto", igualdade informativa e diferença argumentativa,
segundo Vogt, que observa:
Os tratamentos que sentem dispensado à comparação,
dado o logicismo das categorias e conceitos que os
sustentam não conseguem distinguir aspectos importan-
tes do seu valor semântico e acabam por separar-se em
oposições estanques, quando é preciso assumi-las como
coexistentes, mas a níveis diferentes da análise lingüís-
tica (IS, p. 226).
oi
56 Um Estudo sobre a Correlação
5") José Carlos Azeredo apresenta a coordenação de forma di-
ferente das gramáticas ao incluir nela a correlação. Afirma o
autor que, quanto aos meios de expressão, a coordenação pode
ser "sindética (ou conectiva), correlativa ou assindética".
Azeredo apresenta a correlação coordenativa exprimindo
disjunção (ou ... ou; ora ... ora), união (não só ... mas
também; não apenas ... mas ainda), preferência/compen-
sação (senão ... ao menos; não ... mas).
Novos Es tudos
I) A Correlação em Português
Em seu estudo "A Correlação em Português", Clóvis Barleta de
Morais lembra que José Oiticica e Rocha Lima (que mais tarde mudou
de parecer) foram os principais defensores dos quatro processos de
composição do período, enquanto Mattoso Câmara Jr. e Evanildo
Bechara se declararam "francamente contrários à inovação".
Sugere que, em vez de se falar em processos, seria melhor dizer
que "o período composto pode ser formado por orações independentes
ou por principais e subordinadas". Considera que subordinação e
coordenação não são processos afins. O 2.° termo pode referir-se à
natureza de uma oração ou ao modo de ligação das orações. Oração
coordenada pode significar;
a) Oração independente.
b) Oração justaposta ou conexa.
Clóvis Barleta de Morais ressalta que "o conceito de subordi-
nação é de essência, e se refere à natureza da oração; o de coordena-
ção, no sentido de modo de ligação das orações, é acidental, e não
interfere na natureza das orações". A coordenação, por ser um proces-
so formal de ligação ou relacionamento de orações, não se opõe à
subordinação: "são fenômenos distintos que podem coexistir". Pode
haver orações subordinadas coordenadas entre si.
André Crim Valente 57
Quanto ao modo de ligação, existem orações justapostas (sem
conectivo), ou conexas (com conectivo). Para Clóvis Barleta, a cone-
xão pode ser:
a) Simples: "Com orações ligadas por conjunções ou relati-
vos". Exemplo:
Sustenta a família e ajuda os pobres.
b) Enfática: "Quando há, na primeira oração, um elemento que
avisa o ouvinte que a seguir vem uma segunda oração: nesta, aparece
outro elemento prevenidor da primeira. O fato é muito conhecido e tem
sido denominado correlação". Exemplo:
Não só sustenta a família mas também ajuda os pobres.
Por conexão enfática ou correlação coordenativa, podem ligar-se
entre si:
a) Termos da oração com a mesma função sintática (dois
predicativos etc) .
b) Orações de mesma natureza e valor (duas independentes,
duas subordinadas, duas principais).
Clóvis Barleta de Morais compara a correlação coordenativa
com a correlação subordinativa, e afirma que, nesta, "há também um
primeiro elemento que pede a presença de outro, logo a seguir ("tan-
to... que", "quanto mais... tanto mais"), mas não há ênfase na co-
nexão porque a construção é obrigatória e não pode ser substituída
por outra não correlativa, como acontece com a correlação coor-
denativa". • ..'
Após caracterizar a Correlação e reconhecer a importância
de um estudo diacrônico dessa matéria (acompanhar, por exem-
plo, a trajetória dos elementos correlativos do latim nas línguas
românicas), Clóvis Barleta apresenta sua dupla intenção "muito
mais modesta": aproveitamento de material recolhido em textos
portugueses e solicitação aos interessados no assunto de que lhe
58 Um Estudo sobre a Correlação
completem os dados ou de que realizem outros trabalhos. Seu
estudo é, em verdade, rico nas exemplificações e nos comentários
e merece maior divulgação; por isso aqui o retomo, sinteticamente,
com a intenção de atrair a atenção dos professores que pretendem
explorar a expressividade dos elementos correlativos. Clóvis Barleta
divide seu trabalho em três Partes:
1. *) Expressões correlativas aditivas.
2. *) Expressões correlativas alternativas.
3. *) Outras expressões correlativas.
A pesquisa contém, ao todo, quarenta e seis expressões correlativasassim distribuídas: 33 na 1* Parte; 6 na 2*; e 7 na 3".
Faço uma síntese da 1.* Parte com o intuito de despertar o
interesse dos que atuam em sala de aula e encontram o assunto
apresentado de forma limitada na maioria de nossas gramáticas. O
estudo de Clóvis Barleta foge dessa limitação e apresenta uma varie-
dade de construções.
As expressões correlativas aditivas são locuções conjuntivas
que apresentam:
a) o mesmo elemento repetido: "nem... nem".
b) um mesmo substantivo repetido ou não: "de um lado... de
outro (lado)".
c) os advérbios no 1termo e "como", "que", "quão", "quanto"
no 2o: "assim... como"; "tanto... quanto".
d) locuções equivalentes a "não só... mas também" (pode ser
tomada como o tipo do grupo).
Neste caso, o I o termo apresenta a variante "não somente" (e
muito raramente "não apenas"). Para o 2o termo, "mas também", o
autor apresenta as variantes (cito apenas três): "como também", "senão
até", "mas ainda".
André Crim Valente 59
Nos "Comentários", percebe-se uma preocupação com o valor
semântico das expressões correlativas. A expressão "já... já", por exem-
plo, pode ser aditiva ou alternativa. No 1.° caso, não é sinônima de
"assim... como", uma vez que esta pode ligar dois sujeitos. Além disso,
a i * expressão tem uma homônima alternativa, enquanto "assim...
como" só pode ser aditiva. Quem já pesquisou nas nossas gramáticas
pôde perceber que a expressão "já... já" só aparece como alternativa
e não vem exemplificada. Clóvis Barleta dá exemplos, e ainda os
comenta semanticamente. Merece, também, destaque a preocupação
com o valor discursivo das expressões correlativas. Observe-se a pas-
sagem a respeito das aditivas:
Essas locuções conjuntivas podem ligar elementos que
estão próximos um do outro (tanto Paulo como Pedro),
mas seu emprego é particularmente útil e eficiente nos
períodos excessivamente longos, diante dos quais o ou-
vinte ou o leitor se sentiriam perdidos já na metade do
caminho se não houvesse batizas ou demarcações no dis-
curso. O próprio emissor pode esquecer-se da forma exata
do primeiro elemento e usar na segunda parte outro ele-
mento ligeiramente diferente.
Os aspectos semântico e discursivo também estão presentes no
estudo seguinte, de Maria Aparecida Lino Pauliukonis:
II) As Estruturas Correlatas da Comparação
/ j
Maria Aparecida Lino^aborda táis estruturas em sua tese de
doutorado (1989), com uma,análise semântico-argumentativa do dis-
curso na comédia eufrosina. Em estudo mais recente (1996), no artigo
"Comparação e Argumentação: Duas Noções Complementares", a
autora retoma e desenvolve alguns pontos de sua tese. A autora parte
do pressuposto de que "os elementos lingüísticos não apenas transmi-
tem informações sobre a realidade, mas funcionam sobretudo como
60 Um Estudo sobre a Correlação
instrumentos de pressão persuasiva do sujeito emissor/ comunicante
sobre o receptor/ interpretante". Seu estudo tem como principal obje-
tivo a estrutura correlativa como "um eficiente recurso pragmático-
argumentativo num momento de interação lingüística". Em sua aborda-
gem, devem-se destacar os seguintes pontos:
1. °) A argumentação é o esforço desprendido pelo emissor para con-
duzir o raciocínio do ouvinte a uma determinada conclusão;
2. °) A linguagem é ato interativo entre dois seres do discurso;
3. °) As intenções argumentativo-persuasivas sobrepõem-se às
funções expositiva e informativa da linguagem;
4. °) A linguagem é um instrumento político de pressão, persua-
são e de troca entre os seres humanos.
Maria Aparecida Lino entende, então, que a estrutura correlata
comparativa deve ser analisada "sob o enfoque de uma "Teoria da
Enunciação", ou "Semântica do Discurso", que a vê como uma estra-
tégia ilocutória de conseqüências persuasivas sobre o receptor, condu-
zindo-o a um julgamento de valor sobre a realidade". A autora aborda
a "Comparação" combinada com quatro idéias: "Relatividade", "Ar-
gumentação", "Ideologia" e "Correlação". Ao tratar de Comparação e
Correlação, considera a Comparação correlativa como "o grande re-
curso argumentativo da linguagem, cuja estruturação permite
transformá-la em um forte operador argumentativo do discurso".
Reapresenta conceitos formulados em sua tese de doutorado. Nesta,
defenderá a idéia de que a 'Teoria da Correlação", de José Oiticica,
deveria ser reavaliada e analisada sob o enfoque de uma Semântica
Argumentativa do Discurso, que vai considerar a estrutura da Corre-
lação como "um processo discursivo peculiar, tradutor de uma inten-
ção argumentativa".
Em sua tese, ao abordar o estudo de José Oiticica, julga-o mais
abrangente do que imaginavam seus analistas. Estes, fechados nos limites
da sintaxe tradicional, não vislumbravam o que aquele preconizava: as
estruturas diversas da correlação veiculavam conteúdos semânticos no-
vos e de forma peculiar. Acrescenta Maria Aparecida: "É pelo modo de
André Crim Valente 61
construção da estrutura que se transmite o conteúdo pretendido." A au-
tora situa a obra de José Oiticica numa ampla teoria do discurso que,
fugindo aos âmbitos da sintaxe tradicional, procura determinar "a in-
tenção estilística do falante e sua concretização nos atos da fala".
Os opositores de Oiticica tentaram enquadrar o estudo deste na
formulação de sintaxe tradicional. Para eles, a Correlação não passava
de uma forma de ligar orações. Já os defensores da obra de José
Oiticica pressentiram que havia uma complexidade nas estruturas
correlativas, merecedora de um tratamento diferenciado dos dois pro-
cessos de Composição do Período.
Maria Aparecida Lino entende que entre os analistas tradicionais
merecem destaque os que reconheceram a importância das marcas da
subjetividade na linguagem. José Oiticica foi um deles ao vislumbrar o
fenômeno da Correlação e suas conseqüências na estruturação do texto.
Na época, por não contar com instrumentação teórica adequada, não
conseguiu explicá-la de forma plausível, ou seja, sua relevância diante
dos outros processos. A autora lamenta o fato de a Nomenclatura
Gramatical Brasileira não ter aceito a "Teoria da Correlação", não
obstante a obra de José Oiticica ter surgido seis anos antes, e ter sido
defendida por várics gramáticos. Por conta de tal decisão, "duas gera-
ções de alunos teriam passado pelas escolas sem entrarem em contato
com o termo, já que as gramáticas oficiais reduziram a ligação entre
as orações aos dois processos tradicionais: a coordenação e a subordi-
nação". De minha parte, concordo plenamente com Maria Aparecida
Lino, e tenho trabalhado o texto de José Oiticica com meus alunos do
Instituto de Letras a fim de proporcionar, à geração atual, o que foi
apreendido das anteriores.
J
Conclusão
Não obstante ter sido excluída da Nomenclatura Gramatical Brasi-
leira, a Correlação é um processo sintático que não pode ser ignorado por
todos que se preocupam com o idioma nacional: dos estudiosos do fato
da língua aos professores de Português. Qualquer abordágem dos proces-
62 Um Estudo sobre a Correlação
sos de Composição do Período não pode desprezar as reflexões de al-
guns de nossos autores, em particular José Oiticica, sobre a Correlação
e a Justaposição. Mesmo que a maioria dos nossos gramáticos tenha
seguido a tendência internacional de só aceitar a Coordenação e a Su-
bordinação (parataxe e hipotaxe são denominações conhecidas do In-
glês, Alemão, Francês, Italiano e Espanhol), os que se preocupam com
a Língua Portuguesa não devem deixar de lado os outros processos.
Sabe-se que a Nomenclatura Gramatical Brasileira foi fundamen-
tal para a simplificação da nossa terminologia, principalmente se levar-
mos em conta a realidade brasileira e a complexidade de um País com
dimensões continentais, e, ainda, o fato de o magistério brasileiro tra-
balhar em condiçõesbastante adversas. Cabe, no entanto, registrar que,
ao lado dos aspectos positivos, também se reconhece a existência de
algumas lacunas na Nomenclatura Gramatical Brasileira.
No que concerne ao estudo das Orações, encontram-se alguns
desses problemas: a ausência das modais e das locativas entre as
subordinadas adverbiais; da oração com valor de agente da passiva
entre as subordinadas substantivas; a não-referência a subordinadas
desenvolvidas sem o conectivo (conjunção integrante ou pronome
relativo) característico. Entendemos, então, que a síntese promovida
pela Nomenclatura Gramatical Brasileira não eliminou, totalmente, os
problemas sintáticos com que.se defrontam nossos especialistas, den-
tro ou fora da sala de aula.
Entendemos, também, que não se podem colocar, sem qualquer
distinção, no mesmo grupo das coordenadas sindéticas aditivas, as
orações grifadas nos seguintes períodos: 'Trabalha e estuda" e "Não
só domina o Latim, mas também conhece Grego". O mesmo raciocí-
nio se aplica aos demais casos de Correlação aqui abordados. Para
nós, é grave a omissão nas gramáticas e nas salas de aula a respeito
da Correlação e da Justaposição, e é imprescindível que autores e
mestres se posicionem sobre o assunto. Convém recordar que não há
obrigatoriedade de se adotar a Nomenclatura Gramatical Brasileira, já
que "foi apenas recomendada no art. 1." da Portaria n.° 36, de 28/1/
1959, do então ministro da Educação, Clóvis Salgado", segundo
Gladstone Chaves de Melo.
André Crim Valente 63
Dessa forma, cremos que se pode concordar com a orientação
da Nomenclatura Gramatical Brasileira, desde que se apontem mati-
zes de natureza semântica e/ou estilística existentes na Correlação
(principalmente), e na Justaposição. Também existe a liberdade de se
admitir a existência de quatro processos de Composição do Período.
Só é inaceitável ignorar completamente os processos excluídos da
Nomenclatura Gramatical Brasileira. De nossa parte, concordamos com
a proposta do professor Evanildo Bechara:
Quanto ao valor sintático, as orações podem ser inde-
pendentes e dependentes; quanto à ligação, exercem o
papel de conectivo as conjunções coordenativas, as con-
junções subordinativas, os pronomes relativos, as conjun-
ções e expressões correlativas, ao lado das orações que
não se ligam por palavras especiais, isto é, as justapos-
tas. Só quanto à ligação, teríamos orações coordenadas,
subordinadas, correlatas e justapostas (LPAS, p. 128).
De início, relutamos em aceitar o encaminhamento do professor
Evanildo Bechara. Se, posteriormente, concordamos com a sua visão,
isso não significa que nossa prática deixe de estar em consonância
com as premissas supracitadas. Sempre comentaremos todos os casos
de Correlação e Justaposição que se nos apresentarem. Desde que
tomamos conhecimento do trabalho de José Oiticica sobre a Correla-
ção, ficamos profundamente impressionados com a sua argumentação.
Desde nossa graduação até os dias de hoje, seu opúsculo sempre nos
estimulou a reflexões sobre a Composição do Período. Tivemos a
oportunidade de reavaliá-lo ei até compará-lo com outras obras. So-
mente vemos uma falha em seu estudo: a ausência das proporcionais
como "correlatas autônomas'*'. Ao término de nossa pesquisa, tivemos
a agradável sensação de estarmos contribuindo, através da releitura do
texto de José Oiticica e o cotejo com as considerações de outros
atores, para uma atualização do que se pensa acerca da "Teoria da
Correlação".
64 Um Estudo sobre a Correlação
Referências Bibliográficas
AZEREDO, José Carlos de. Iniciação à Sintaxe do Português. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1990.
BECHARA, Evanildo. Lições de Português pela Análise Sintática. Rio de Janeiro:
Grifo, 1976.
CÂMARA Jr., Joaquim Mattoso. Dicionário de Lingüística e Gramática. Petrópotis:
Vozes, 1978.
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ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1954.
FERREIRA, Delson Gonçalves. Análise Sintática. Belo Horizonte: Ed. Bernardo
Álvares, 1977.
GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em Prosa Moderna. Rio de Janeiro: Fun-
dação Getulio Vargas, 1977.
LIMA, Carlos Henrique da Rocha. Teoria da Análise Sintática. Rio de Janeiro: J.
Ozon Editores, 1953.
MELO, Gladstone Chaves de. Novo Manual de Análise Sintática. Rio de Janeiro:
Organização Simões, 1954.
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eJUngüistica. São Paulo: EdUSP, 1981.
OITICICA, José. Manual de Análise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1950.
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PAUUUKONIS, Maria Aparecida Lino. Comparação e Argumentação: Duas Noções
Complementares. In: Santos, Leonor Wemeck dos (Org.). Discurso, Coesão,
Argumentação. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1996.
. A Í Estruturas Correlatas da Comparação: Análise Semântico-
argumentativa do Discurso na Comédia Eufrosina. Rio de Janeiro: Faculdade de
Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1989 (Tese de Doutorado).
Leitura e Produção de Textos
no Ensino Tradicional
Em vez de falar sobre leitura e produção de textos, vou falar
sobre os motivos pelos quais não se praticam a leitura e a produção
de textos. Duas são as causas maiores: o ensino de Língua Portuguesa
que se vem praticando, a noção restrita do que seja um texto e a
maneira como é utilizado. O ensino de Língua Portuguesa experimen-
tou, nos últimos 40 anos, alguns caminhos que até agora não levaram
a um resultado satisfatório.
De acordo com Luiz Antônio Senna (1991), um aluno aprendia
Português com professor X. Mudando de cidade, professor, ou Estado,
a situação se complicava mais. Assim, no final da década de 50, a
Nomenclatura Gramatical Brasileira (N.G.B.) foi concebida e instituída
para dar um basta nesse estado de coisas. Se por um lado a N.G.B.
cumpriu seu papel de estabelecer uma terminologia para descrever a
língua - objetivo legítimo - por outro; causou uma nova distorção:
muitos professores entendem que ensjnar a língua é passar ao aluno
essa terminologia. Além disso, o professor geralmente não tem um
objetivo claro a respeito do seu papel como profissional, seu modo de
atuar e as ferramentas de sua profissão. As palavras do professor
Olmar Guterres da Silveira (1971) são bem oportunas, embora ditas há
mais de 25 anos: V
lhes outra ou outras (subordinadas) coni verbo claro. Veja-se o '
exemplo que nos oferece Orflia Meireles:
— Chuvas de viagens: tempestades na Mantiqueira, quando nem os ponteiros
dos pára-brisas dáo vencimento à água; quando apenas te avilta, recortada n a
noite, a paisagem súbita e iosfúrea mostrada petos relâmpagos, Catasitipat dei-
penhando sobre Veneza, misturando os céus e os canais numa água única, e trans-
formando o Palácio dos Dotes mim imenso barco mágico (...)
Chuvas antigas, nesta cidade nossa, de perpétuas enchentes: a de 1811, que,
com o desabamento de uma parte do m o n o do Castelo, soterrou várias pessoas (...)
Chuvas modernas, tem trovoada, mm igrejas em prece mas com as ruas igual- v
mente transformadas em rios, os barracos a escorregarem pelai morros (...)
("Chuva com lembranças", rn QuadmnteT, p. 59)
As subordinadas que se seguem As nominais são ma sua
maioria orações reduzidas de gerúndio; mas Cecília Meirelesmos
dá exemplos de outras: "quando os ponteiros... nem d ã o venci-
mento à água", "quando apenas se avista.. ." (a de 1811) "que. . .
soterrou várias pessoas", "os barracos a escorregarem...", -atem
das gerundiais "despenhando sobre Veneza" e "transformando o
Palácio dos Doges. . ."
1.4.0 Processos sintáticos
1.4.1 Coordenação e subordinação: encadeamento e hierarqui-
zação
Num período composto, normalmente estruturado — Isto A,
não constituído por frases de situação ou de contexto—,a s orações
se interligam mediante dois processos sintáticos universais: a coor-
denação e a subordinação. A justaposição, apesar de legitimamen-
te abranger uma e outra, é ensinada no Brasil como variante d a
primeira, e a correlação, como variante da segunda.11
Na coordenação (também dita parataxe), que é um paralelis-
mo de funções ou valores sintáticos idênticos, as orações se dizem
" A Nomenclatura gramatical brasileira, ao tratar da composição do período, ig-
norou tanto a justaposição quanto a correlação. £ que, segundo orientaçãoiingüis-
tira mais atualizada, a justaposição, c a n o processo sintático, consiste em encadear
frases sem explicitar por indo de partículas coordena tivas ou subordinatmu a
relação de dependência entre elas. Nesse sentido, dá-se-lhe também o nome de
parataxe. A correlação é uma construção sintática de duas partes relacionadas entre
si de tal modo que a enunciação da primeira prepara a enunciação da segunda (ver
1. Fr., 1.5.3). No Brasil, seguindo-se a orientação de José Oiticica (Cf. Toaria Ma
correiaçio, passim) t de outros autores, considera-se a correlação ora como um pro-
cesso autônomo ora como uma variante da subordinação.
16
da mesma'natureza (ou categoria) e função,11 devem ter a mesma
estrutura sintático-gramatical (estrutura interna) e se interligam
por meio de conectivos chamados conjunções coordenativas. £ , em
essência, um processo de encadeamento de idéias (ver, a seguir.
As conjunções coordenativas (algumas das quais ligam tam-
bém palavras ou grupos de palavras — sintagmas — e não apenas
orações) relacionam idéias ou pensamentos com um grau de
travamento sintático por assim dizer mais frouxo do que o das
subordinativas. E e nem ( = e não) são as mais típicas das con-
junções e também as mais vazias de sentido ou teor semântico, pois
sua função precipita" é juntar ou aproximar palavras ou orações
da mesma natureza e função. São conjunções de adição ou de
aproximação; dai, o nome de aditivas (ou aproximaiivas, deno-
minação adotada no Brasil até certa época).
" Esse é o conceito tradicional e ortodoxo, entretanto já sujeito a revisão (ver, a
seguir, 1.4.2),
" Em alguns contextos ou situações, a partícula e parece imantar-se do significado
dos membros da frase por ela interligados, insinuando asaim idéias de distinção,
discriminação, oposição ou contraste, inclusão, simultaneidadc, realce e, ocasio-
nalmente, outras Em "Há estudantes e estudantes...", e contagia'se da distin-
ção implícita (sugerida nâo ap»n« nelo mntptto em que se insira a frase mas tam-
bém pelas reticências ou pelo tom reticendoso da sua enundaçáo) entre ot atributos
de duas categorias de "estudantes": os verdadeiros, t.e., assíduos, estudiosos, e os
outros, que se dizem tais. Nesse caso, e indica adição com discriminação ou dis-
tinção e, mesmo, oposição. Em frases semelhantes, o segundo elemento ds coor-
denação (palavra ou sintagma) geralmente se reveste de certo matiz pejorativo: "há
mulheres e mulheres..." significa "hi mulheres boas, dedicadas, honestas, e
mulheres que não se distinguem por essas virtudes". Assim também em "há jovens
e jovens...", "há velhose velhos..:", sente-se,nítida, a distinção entre duas espécies
da mesma classe (de Jovens ou de ve/áos). Contaminada pelos pólos semânticos en-
tre os quais se situe, a conjunção e traduz freqüentemente a idéia de contradição,
oposição ou contraste, equivalente a mas ou porém, a e não obstante ou a mas.
apesar disso: "Ficou de vir e (-mas) não veio"; "Falou muito e ( - mas) não disse
nada que se aproveite"; "Era mais forte do que o adversário c ( - -e não obstante,
mas, apesar disso) foi derrotado". (£ comum pôr não obstante entre vírgulas.) En-
tre palavras antitéticas ou que expressem idéias mutuamente excludentes, e pode
exprimir stmultanetdade: "E um escritor clássico c (ao mesmo tempo) romântico."
Em outros casos, quando entre palavras de sentido relativo (como, por exemplo,
certos nomes de parentesco em linha colateral), sugere reciprocidade: "Pedro e
Paulo são primos" (entre si); "Esaú e Jacó eram gêmeos e rivais" (um do outro,
reciprocamente); "A c B são linhas paralelas" (entre si). Ocasionalmente, indica in-
clusão e realce, como no conhecido verso de Camões — "Os doze de Inglaterra e o
seu Magriço" (Lus.. 1, 12) — que se entende como "os doze de Inglaterra e ( - in-
clusive, principalmente) o seu Magriço". Se denotasse apenas adição, seriam tmt
os dose de Inglaterra, pois Magriço era um deles, o que mais se realçava pela
bravura e feitos. Em agrupamentos tais como Joaquim Nabuco e a abolição. Rui
Barbosa r a República. Castro Alves e o Romantismo, t eqüivale, em essência, á
locução prepositiva em face de. (Algumas dessas observações, devo-as a troca dc
idéias com o Prof, Rocha Lima,)
1.4.5.2).
17
A alternativa típica — ou — relaciona idéias que se excluem
ou se alternam, podendo repetir-se antes de cada um dos elementos
por ela encadeados: "Ou vaiou racha." As outras alternativas vêm
obrigatoriamente repetidas, em pares: ora... ora, quer... quer,
já... já, seja... seja. Às vezes o par quer... quer se interpola com
seja... seja, dando lugar a uma estrutura aparentemente híbrida
alternativa-concessiva. pois, nesse caso, seja é mesmo o verbo ser,
tanto assim que não "só concorda com o nome (sujeito ou predi-
cativo) que se lhe posponha como também pode ser substituído por
outro verbo: "Hão de pagar o prejuízo, quer sejam (culpados) quer
não sejam culpados." "Hão de pagar o prejuízo, quer lhes caiba (a
culpa) quer não lhes caiba a culpa." (Quanto ao valor concessivo
de quer... quer, ver, a seguir. 1 . 4 . 2 . )
As adversativas (mas, porém, contudo, todavia, no entanto,
entretanto) marcam oposição (às vezes com um matiz semântico de
restrição ou de ressalva). Por serem etimologicamente advérbios —.
traço já muito esmaecido em mas e porém, mas ainda vivo nas res-
tantes —, as adversativas, como também as explicativas e as con-
clusivas, são menos gramaticalizadas, quer dizer, menos despo-
jadas de teor semântico, do que e, nem e ou. Sua função de con-
junção é, aliás, fato relativamente recente na língua portuguesa,
fato d e nrnrrínçia posterior ao séc. XVIII, Ainda hoje, os dicio-
nários registram entretanto, (no) entanto e todavia como advér-
bios, embora lhes anotem igualmente a função de conjunções. No
Dicionário da língua portuguesa, de Antônio de Moraes Silva, quer na
1? ed. ( 1 7 8 9 ) quer na 6 ? (1858), até mesmo o porém aparece como
advérbio, com a ressalva, entretanto, de que "hoje usa-se como
conjunção restritiva", dando-a o Autor como sinônimo de contudo
e todavia (mas não averba contudo e registra todavia como advér-
bio).
Por isso, i.e., por serem essencial e etimologicamente advér-
bios, é que no entanto, entretanto, contudo e todavia vêm fre-
qüentemente precedidos pela conjunção e: "Vive hoje na maior
miséria e (,) no entanto (,) já possuiu uma das maiores fortunas
deste pais." A ser no entanto simples conjunção, simples utensílio
gramatical (conectivo), torna-se difícil a classificação da oração:
coordenada aditiva, em função do e, ou adversativa, em função do
no entanto? £ evidente que não poderá ser uma coisa e outra. A or-
todoxia gramatical aconselharia a supressão do e, em virtude de,
modernamente, se atribuir a no entanto valor de conjunção. Mas,
se se aceita o agrupamento, a oração será aditiva, e no entanto,
advérbio, caso em que costuma (ou deve) vir entre vírgulas. O que
se diz para no entanto serve para entretanto, todavia, não obstan-
te. Também mas aparece às vezes junto a contudo e todavia, dando
como resultado uma construção que os cânones gramaticais vigen-
18
tcs condenam por pleonástica. como o fazem com o exemplo clás-
sico (ainda comum em certa camada social) mas porém. É certo
que, quando, por descuido ou não, mas e contudo, mas e todavia (eaté mas e entretanto e mas e no entanto) ocorrem na mesma
oração, costumam vir distanciados pela intercalarão de outro(s)
termots) da oração, por sentir o emissor que se trata de partículas
mutuamente excludentes. sinônimas ou equivalentes que são.
As explicativas (pois. porque) relacionam orações de tal sorte
que a segunda encerra o motivo ou explicação (razão, justificativa)
do que se declara na primeira. Em virtude da afinidade semântica
entre motivo e causa, porque, explicativa, confunde-se com por-
que, subordinativa causai (ver, a propósito, 3. Par., 2.5). Quanto à
opção entre pois e porque, ver 1. Fr.. 1.6.3.3. letra c, in fine.
As conclusivas (logo. pois, portanto) entrosam orações de tal
modo que aquilo que se afirma na segunda é conseqüência ou con-
clusão (resultado, efeito) do que se declara na primeira: "Penso,
logo existo." "Ouviste a advertência; trata, portanto (ou pois), de
acautelar-te." "Cumpriste o dever; portanto, não há motivo para
que te censurem." As locuções adverbiais por conseqüência, por
conseguinte, por isso funcionam também como conjunções con-
clusivas: "Penso, logo (por conseqüência, por conseguinte, por is-
so) existo." (Ver í. Fr.. 1.6.4.)
As explicativas e conclusivas, mais até do que as adversativas,
estabelecem tão estreitas relações de mútua dependência entre as
orações por elas interligadas, que a estrutura sintática do período
assume características de verdadeira subordinação (ver, a seguir.
1.4.2).
Na subordinação (também chamada hipotaxe). não há para-
lelismo mas desigualdade de funções e de valores sintáticos. Ê um
processo de hierarquização, em que o enlace entre as orações é
muito mais estreito do que na coordenação. Nesta, as orações se
dizem sintática mas nem sempre semanticamente independentes;
naquela, as orações são sempre dependentes de outra, quer quanto
ao sentido q"uêr"quanto ao travamento sintático. Nenhuma oração
subordinada subsiste por si mesma, i.e.. sem o apoio da sua prin-
cipal (que também pode ser outra subordinada) ou da principal do
período, da qual. por sua vez. Iodas as demais dependem. Portan-
to, se nào podem subsistir por si mesmas, se pão são independen-
t e s , é porque fazem parte de outra, exercem função nessa outra.
Isto quer dizer que qualquer oração subordinada é, na realidade,
um fragmento de frase, mas fragmento diverso daquele que es-
tudamos nas frases de situação ou de contexto e em 1. Fr., 2.6. "Se
achassem água por ali perto" é uma oração, mas não uma frase,
pois nada nos diz de maneira completa e definida; é apenas uma
19
parte, um termo de outra ("beberiam muito"), na qual exerce a
função de adjunto adverbial de condição"-14
14 SIo várias as funções que as orações subordinadas exercem em outra (sujeito,
complemento, adjunto adnominal. adjunto advetbial). À guisa de revisáo, até certo
ponto necessária ao desenvolvimento deste capitulo, damos a seguir amostras dessas
funções, manipulando sempre que possível o mesmo agrupamento de Idéias. As três
famílias de orações subordinadas (A — substantivas, B — adjetivas, C — adver-
biais) podem ser desenvolvidas (exemplos de letra a), quando têm conectivo, ou
reduzidas, quando o verbo está numa das suas formas nominais: infmitrvo (exem-
plos de lebre * ) . genindio (exemplos de letra c) e participio (exemplo de letra d).
A — Substantivas (valor de substantivo):
1. Funçáo de sujeito:
a) £ preciso que digamos a verdade.
b) £ preciso dizermos a verdade.
2. Funçáo de objeto direto:
a) Peço-te que digas a verdade.
Náo sei se ele disse a verdade.
Quero saber quem diz a verdade.
b) Peço-te dizer a verdade.
3. Funçáo de objeto indireto:
a) Tudo depende de que digas a verdade.
b) Tudo depende de dizeres a verdade.
4. Funçáo de complemento nominal:
a) Tenho a certeza de que e/e dirá a verdade.
b) Ele dá a impressio de estar dizendo a verdade.
5. Funçáo de predlcativo:
a) O melhor é que digas a verdade.
b) O melhor ê dizeres a verdade. '
B — Adjetivas (valor de adjetivo):
Funçáo: adjunto adnominal
a) Há verdades que não se dizem.
b) Há muita gente a pastar fome.
o) Há muita gente passando fome.
d) Há verdades ditas de tal modo que parecem mentiras.
Ç — Adverbiais (valor de advérbio):
Funçáo: adjunto adverbial
2 0
1.4.2 Falsa coordenação: coordenação gramatical e subordinação
psicológica
Segundo a doutrina tradicional e ortodoxa — como já assi-
nalamos —. as orações coordenadas se dizem independentes.
1. Concessivas (ou de oposição, pois m t r c t m um contraste semelhante t o que, em
grau diverso, se expressa com 'a coordenada adversativa):
a) Embora diga a verdade, ninguém lhe d i crédito.
b) Apesar de dizer a verdade, ninguém lhe d i crédito.
c) Mesmo dizendo a verdade, ninguém lhe dá crédito.
2. Temporais (indicam tempo simultâneo, anterior ou posterior):
I — Fatos simultâneos:
a) Enquanto disser a verdade, todos o respeitarão.
b) Ao dizer a verdade, todos o respeitarão.
c) Dizendo a verdade, saberemos o que houve.
N. B.: O sentido das reduzidas de genindio depende muito do seu contexto: no caso
da letra c, "dizendo" tanto pode expressar causa quanto condição ("porque disse",
"como disse" ou "se disser").
II — Fato posterior a outro:
a) Depois que disse a verdade, arrependeu-se.
b) Depois de dizer a verdade, arrependeu-se.
c) Tendo dito a verdade, arrependeu-se.
III — Fato anterior a outro:
a) Antes que digas a verdade, pensa nas conseqüências.
b) Antes de dizeres a verdade, pensa nas conseqüências.
3. Causais:
a) Como disseste a verdade, nada te acontecerá.
Nada te acontecerá, porque disseste a verdade.
b) Por tens dito a verdade, nada te acontecerá.
c) Tendo dito a verdade (dizendo), nada tb, acontecerá.
d) Interrogado habilmente, ele confessou a verdade.
A. Finais (conseqüência desejada ou preconcebida):
a) Para que dissesse a verdade, foi preciso ameaçá-lo.
b) Para dizeres a verdade, t preciso ameaçar-te.
5. Condicionais (condição ou suposição):
a) Se não podes dizer a verdade, i preferível que te caies.
b) A não dizeres a verdade, i preferível que te cales.
c) Não dizendo a verdade, nada conseguirás. 21
e as subordinadas, dependentes. Modernamente, entretanto, a
questão tem sido encarada de modo diverso." Dependência se-
mântica mais do que sintática observa-se também na coordenação,
salvo, apenas, talvez, no que diz respeito às conjunções "e" , "ou" e
"nem". Que independência existe, por exemplo, nas orações "por-
tanto, não sairemos"? e "mas ninguém o encontrou"? Indepen-
dência significa autonomia, autonomia não apenas de função mas
também de sentido. Que autonomia de sentido há em qualquer
desses dois exemplos? Nenhuma, por certo. A comunicação de um
sentido completo só se fará com o auxílio de outro enunciado: "Es-
tá chovendo; portanto, não sairemos"; "Todos o procuraram, mas
ninguém o encontrou".
O par alternativo "quer. . . quer", incluído nas conjunções
coordenativas, tem legítimo valor subordinativo-concessivo quando
se lhe segue verbo no subjuntivo: "Irei, quer chova, quer faça sol"
corresponde a "irei, mesmo que chova, mesmo que faça sol". Até a
vírgula que se impõe antes do primeiro "quer" (mas é facultativa
antes do segundo) insinua a idéia de subordinação, uma subor-
dinação concessivo-condicional, como se pode sentir melhor no
6. Consecutivas (efeito ou conseqüência de fato expresso em oraçào precedente):
a) Disse tantas verdades, que muitos ficaram constrangidos.
N.B.: A respeito das reduzidas de infinitivo com valor consecutivo, ver 1.6.4.
7. Conformativas:
a) Disse a verdade, conforme lhe recomendaram.
8. Proporcionais:
a) A medida que cresce, menos verdades diz.
Quanto mais velho fica. menos verdades diz.
9. Comparativas:
a) Disse mais verdades do que mentiras.
Mente como ninguém. Mente tanto quanto você.
Obs • A nomenclaturagramatical brasileira n i o reconhece a existência de orações
modais. Mas como classificar "chorando" no seguinte período: "Saiu chorando. 7
Ou é modal ou tem valor de predicativo. equivalente a "saiu cAoraro (Cf. Satd Ali,
Gramática Histórica. 5? ed.. p. 3S4 e ss.)
" Cf. ANTOINE, Gérald. La coordinaúon en français, passim mas principalmente
v. l , p . 144es s .
22
seguinte exemplo, de nota aposta aos originais desta parte pelo
Prof. Rocha Lima.
Irei, quer queiras, quer n io queiras.
eqüivale a
Irei. se quiseres ou (e) mesmo que nio queiras.
Portanto, quando se diz que as orações coordenadas são da
mesma natureza, cumpre indagar: que natureza? lógica ou gra-
matical? As conjunções coordenativas que expressam motivo, con-
seqüência e conclusão (pois, porque, portanto) legitimamente não
ligam orações da mesma natureza, tanto é certo que a que vem por
qualquer delas encabeçada não goza de autonomia sintática. O
máximo que se poderá dizer é que essas orações de "pois", "por-
que" (dita explicativa) e "portanto" são limítrofes da subordi-
nação. Em suma: coordenação gramatical mas subordinação
psicológica.
Por isso, muitas vezes, um período só aparentemente é coor-
denado. Vejamos outros casos, examinando os três pares de frases
seguintes:
a) Não fui à festa do seu aniversário:, não me convidaram.
b) Não fui à festa do seu aniversário: passei-lhe um telegrama.
c) Não fui à festa do seu aniversário: não posso saber quem estava
lá.
São frases construídas segundo o processo particular da coor-
denação chamado justaposição (recordem-se as observações da
nota 8 , retro): orações não ligadas por conectivo, separadas na fala
por uma ligeira pausa com entoação variável, marcada na escrita
por vírgula, ponto-e-virgula ou, mais comumente, por dois-pontos.
Ê outro caso de coordenação ou justaposição gramatical, mas
de subordinação psicológica, tanto é certo que o segundo elemento
de cada par de frases não goza de autonomia de sentido. A relação
entre as duas orações de cada período é de dependência, nitida-
mente insinuada pelos dois-pontos na escrita, e na fala, por uma
entoação da voz que indica:
a) explicação ou causa: Não fui à festa do seu aniversário porque
(pois) não me convidaram.
b) oposição (ressalva, atenuação ou compensação): Não fui à festa
do seu aniversário, más (em compensação) passei-lhe um te-
legrama.
c) conclusão ou conseqüência: Não fui à festa do seu aniversário;
portanto (por conseqüência) não posso saber quem estava lá.
23
Situação idêntica — de falsa coordenação — é a que se ve-
rifica no raciocínio dedutivo (ver 4. Com. — 1.5.2 e 1.5.2.1), em
que as orações de "ora" e "logo", na segunda premissa e na con-
clusão, são absolutamente dependentes da primeira premissa:
Primeira premissa (maior): Todo homem é mortal;
Segunda premissa (menor): ora, Pedro é homem;
Conclusão : logo, Pedro é mortal.
1.4.3. Outros casos de falsa coordenação
Esse tipo de justaposição — também dito coordenação assin-
dética — é muito comum nas descrições sumárias:
O céu se der rama em estrelas, a noite é morna, o desejo sobe da terra em on-daa de calor.
(Jorge Amado. São Jorge dos Ilhéus, p. 118)
ou nas narrativas breves:
O grito da galvola terceira vez ressoa a seu ouvido: vai direito ao lugar donde
par t iu ; chega k borda de um tanque; seu olhar investiga a escuridão, e nãda vê do
que busca.
(J. de Alencar, Iracema. XII)
No primeiro exemplo, as orações estão separadas por vírgula,
inclusive as duas últimas, com o que o autor parece insinuar que
não arrolou todos os aspectos do quadro descrito, deixando a série
como que aberta, em virtude da omissão de um e entre as duas úl-
timas orações. No segundo, as unidades estão separadas por ponto-
e-vlrgula, salvo as duas últimas, que vêm ligadas pela conjunção
" e " , com a qual o autor parece "fechar" a série, como se tivesse
enumerado todos os detalhes dignos de menção.
Mas esse aspecto da justaposição'* não nos interessa neste tó-
pico. Voltemos à falsa coordenação. Em: "O dia estava muito
quente e eu fiquei logo exausto", só existe coordenação quanto à
forma, não quanto ao sentido, pois, na realidade, a partícula "e"
não está aproximando ou concatenando dois fatos independentes:
entre "estar muito quente" e "ficar logo exausto" existe uma
coesão intima, uma relação'de causa e efeito. A independência é
14 Há outros tipos dc justaposição, inclusive na subordinação, como nos ensina
Evanildo Bechara em suas excelentes Lições de português. Ê verdade que alguns
casos que o ilustre professor considera como de justaposição (o das substantivas in-
troduzidas por pronomes ou advérbios interrogativos indiretos, por exemplo),
parecem-nos discutíveis. £ a justaposição que. modernamente, se dá o nome de parataxe (que também designa a coordenação).
24
sintática, mas nâo semântica ou psicológica. O mesmo pensamen-
to poderia ser traduzido pelo processo da subordinação:
Como o dia estava (ou estivesse) muito quente, eu fiquei logo exausto.
Fiquei logo exausto porque o dia estava muito quente.
Pode-se ainda avivar a relação de causa e efeito na coorde-
nação, empregando-se, como é freqüente, uma partícula ade-
quada:
O dia estava muito quente; por isso (ou "e por isso") fiquei logo exausto.
No seguinte período também há coordenação aparente entre
as duas primeiras orações:
A turma terminou a prova e o professor disse que podíamos sair.
A idéia mais importante, a que constitui o núcleo da comu-
nicação, é "o professor disse que podíamos sair"; coordenada à
anterior, que encerra idéia de tempo, portanto, de circunstância,
de fato acessório, ela fica no mesmo nível quanto à ênfase. O
processo da subordinação permitiria que se sobressaísse:
Quando a turma terminou a prova, o professor disse que podíamos sair.
A idéia de oposição ou contraste tanto pode ser expressa por
uma coordenada adversativa (conjunção "mas" ou sua equivalen-
te) quanto por uma subordinada concessiva, dita também "de
oposição" (conjunção "embora" ou equivalente). Mas a opção pela
subordinada concessiva fará com que a oração de que ela dependa
ganhe maior realce (ver 1.5, "Organização do período"). Confron-
tem-se:
Coordenação
O Brasil é um país de
grandes riquezas, mas o pa-
drão de vida do seu povo é um
dos mais baixos do mundo.
Subordinação
Embora" o Brasil seja um
país de grandes riquezas, o
padrão de vida do seu povo é
um dos mais baixos do mundo.
A idéia mais relevante nas duas versões é o "padrão de vida do
seu povo é um dos mais baixos do mundo"; na coordenação, ela
praticamente se nivela à anterior; na subordinação, ao que nos
parece, sobressai (ver 3. Par., 4 .3) .
25
Muitas vezes, uma oração adjetiva aparece camuflada sob a
forma de coordenada. Confrontem-se:
Coordenação Subordinação
O São Francisco é o rio da
unidade nacional; ele banha
vários Estados do Brasil e
depois deságua no Atlântico.
O São Francisco, que é o
rio da unidade nacional, banha
vários Estados do Brasil e
depois deságua no Atlântico.
Na subordinação há possibilidade de mais duas ou três ver-
sões, assumindo forma de oração principal o enunciado digno de
maior realce:
a) ênfase em "rio da unidade nacional":
O São Francisco, que banha vários Estados e deságua no Atlântico, i o rio da
unidade nacional.
b} ênfase em "deságua no Atlântico":
O São Francisco, que banha vários Estados e é o rio da unidade nacional,
deságua no Atlântico.
ç) ênfase em "banha vários Estados":
O São Francisco, que i o rio da unidade nacional e deságua no Atlântico,
banha vários Estados.
A simples coordenação nem sempre permite essa gradação no
realce das idéias: em qualquer das três versões se sente, nitidamen-
te, que o pensamento contido nas orações adjetivas não merecia o
mesmorelevo do da principal. (Ver, a propósito, em 1.5.2 e 1.5.3,
o que se diz a respeito da escolha e da posição da oração principal.)
1.4.4 Coordenação e ênfase
Na coordenação, por ser ela, como já assinalamos, um pa-
ralelismo de funções e valores sintáticos idênticos, costumam ser
mais limitados do que na subordinação os recursos estruturais dis-
poníveis para dar a devida ênfase a determinada idéia no conjunto
do período. Niveladas as orações no seu valor (ressalvadas as ob-
servações feitas em 1.4.2), o realce que se queira atribuir ao teor de qualquer delas passa a depender, quase exclusivamente, da sua
26
posição no período, quando não, evidentemente, de outros meios
como a seleção vocabular e o apelo à linguagem figurada. Confron-
tem-se, à guisa de exemplo, as duas versões seguintes do mesmò
pensamento:
Coordenação
Eram três horas da
madrugada de domingo; a
cidade dormia tranqüilizada
pela vigilância tremenda do
Governo Provisório, e o Largo
do Paço foi teatro de uma cena
extraordinária, presenciada
por poucos (...)
Subordinação
Às três da madrugada de
domingo, enquanto a cidade
dormia tranqüilizada pela
vigilância tremenda do Gover-
no Provisório, foi o Largo do
Paço teatro de uma cena ex-
traordinária, presenciada por
poucos (...)
(de um artigo de Raul
Pompéia, apud Barreto e Laet,
Antol. nacional, 145)
No período composto por coordenação, a oração "eram três
horas da madrugada de domingo", por ser a inicial e culminante
do período, pode parecer que encerra a sua idéia nuclear; no en-
tanto, expressa-apenas uma circunstância de tempo, circunstância
relevante, sem dúvida (o episódio histórico — embarque de D.
Pedro II a caminho do exílio — se tivesse ocorrido às três horas da
tarde, talvez não se revestisse da mesma dramaticidade aos olhos
de Raul Pompéia), mas idéia secundária em relação às demais. A
mais importante, aquela da qual dependem as outras do período,
está na oração final ("e o Largo do Paço foi..."). Ora, essa desi-
gualdade de valores semânticos pode encontrar expressão mais
adequada numa estrutura em que se evidencie também uma de-
sigualdade de valores sintáticos, traço que distingue a subordinação da
coordenação. Na versão à direita, original do Autor, a circunstância de
tempo assume a forma de simples adjunto adverbial, termo aces-
sório da frase, de modo que o pensamento nuclear, o mais relevan-
te ("o Largo do Paço foi teatro...") ressalta do conjunto, justa-
mente por estar na oração principal.
Ê evidente que esse preceito — de que na oração principal
deve estar, ou convém que esteja, a idéia principal — nâo se impõe
com rigidez absoluta, em virtude da concorrência de outros fatores
e em face da existência de outros recursos para dar ênfase a deter-
minada idéia, como veremos em 1.5.1 e e m 3 . Par., 4.3.
27
« AULAS 3>€ fo#TO&(/£s'\
E S T U D O D A S O R A Ç Õ E S
I. O P E R f O D O
A t é a q u i e s t u d a m o s as f u n ç õ e s s intá t icas q u e p o d e m ocorrer n o
i n t e r i o r d e u m a oração. Nes te cap í tu lo , t r a t a r e m o s d a oração cons iderada
c o m o u n i d a d e , o b s e r v a n d o as d i fe rentes f u n ç õ e s p o r ela d e s e m p e n h a d a s
n o t e x t o e d e t e r m i n a n d o , a p a r t i r d i sso , a sua c lass i f icação. Para t a l , é
prec iso estabelecer o concei to d e período. Diga-se , antes d e t u d o , q u e s ó
há p e r í o d o se h o u v e r o r a ç ã o , v a l e d i z e r , as frases n ã o - o r a c i o n a i s n ã o
c o n s t i t u e m p e r í o d o . Observe-se a i n d a q u e o f i n a l de u m p e r í o d o é f o r -
m a l m e n t e a s s i n a l a d o p o r u m d o s seguintes s ina i s de p o n t u a ç ã o : p o n t o
f i n a l , p o n t o d e i n t e r r o g a ç ã o , p o n t o d e e x c l a m a ç ã o o u ret icências .
S i n t e t i z e m o s , p o i s , o conceito de período: o s e g u i m e n t o d o texto
e m q u e se e n c o n t r a p e l o m e n o s u m a oração , d e l i m i t a d o p o r u m p o n t o
f i n a l , d e i n t e r r o g a ç ã o , d e e x c l a m a ç ã o , o u re t icências .
Reconlteço o erro. 1 uma oração,
Quem disse isso? f um período
Reconlwço / que errei. ) duas orações, um período
A t e n ç ã o agora para o e x e m p l o s e g u i n t e , e m q u e o c o r r e m q u a t r o
d o s s ina i s d e p o n t u a ç ã o c i tados , m a s apenas d o i s p e r í o d o s , já q u e e m
d o i s m o m e n t o s existe a p o n t u a ç ã o , m a s n ã o e x i s t e m orações :
Ora... [Voei não sabe?) Bolas! [É claro / que irei.)
I o período 2o período
(uma oração) (duas orações)
O p e r í o d o se d i z simples q u a n d o cons t i tu ído p o r u m a s ó oração ; e
composto, se h o u v e r m a i s d e u m a .
II. O PERÍODO COMPOSTO
a) Por c o o r d e n a ç ã o : q u a n d o s ó existem orações coordenadas, o u
seja, orações q u e n ã o d e p e n d e m sintat icamente u m a s das outras .
1 2 3
Chegou cedo, / falou pouco / e saiu logo.
or. coord. or. coord. or. coord.
Estudo das orações
A T E N Ç Ã O : ao d i z e r q u e as o r a ç õ e s coordenadas não dependem
s in ta t í camente u m a s das o u t r a s , c h a m a m o s a a tenção para u m d o s aspec-
tos f u n d a m e n t a i s das re lações s in tá t i cas . A s pa lavras de u m a oração o u
as orações de u m p e r í o d o p o d e m m a n t e r entre s i d o i s t i p o s b á s i c o s de
re lação sintát ica: de dependência e de independência. Q u a n d o m a n t ê m
c o m o u t r o t e r m o u m a re lação de d e p e n d ê n c i a , o u s q a , q u a n d o subordi-
nadas a o u t r o t e r m o , p a l a v r a s o u o r a ç õ e s d e s e m p e n h a m funções sintáti-
cas. Q u a n d o s ó ex i s tem re lações d e i n d e p e n d ê n c i a , n ã o há f u n ç õ e s s intát i -
cas. Por isso, n ã o p o d e m o s , r e a l m e n t e , anal i sar s in ta t í camente p a l a v r a s
o u orações apenas i n d e p e n d e n t e s , c o m o p o r e x e m p l o :
a) livros e discos
b ) Chegou esaiu.
A p e n a s p o d e m o s constatar q u e s ã o pa lavras (a) e o r a ç õ e s (b)
coordenadas . E m s intaxe - ao contrár io da v i d a - os e lementos s ó exer-
c e m f u n ç ã o rea l q u a n d o s u b o r d i n a d o s ! Por isso as orações s u b o r d i n a d a s ,
d e p e n d e n t e s s i n t a t í c a m e n t e de o u t r a s , s ã o as ú n i c a s q u e p o d e m ser a n a l i -
sadas p o r seu v a l o r s intát ico in t r ínseco .
Ele confirmou a viagem.
obj. direto
Ele confirmou / que viajaria.
or. sub. obj. direta
b ) Por s u b o r d i n a ç ã o : q u a n d o e x i s t e m orações principais e subor-
dinadas. C o m o v e r e m o s a d i a n t e , a c h a m a d a oração principal n ã o p o s s u i
" p r i n c i p a l i d a d e " a l g u m a , até p o r q u e p o d e m ex is t i r n o r a ç õ e s p r i n c i p a i s .
O i m p o r t a n t e será reconhecer e classif icar as orações subordinadas, as ú n i -
cas q u e - r e p e t i m o s - s e c lass i f i cam a p a r t i r d e sua f u n ç ã o s intát ica .
substantivo
Período simples: Precisava de ajuda.
obj. indireto
Período composto por subordinação: precisava / de que o ajudasse.
í > - or. sub. subst.
obj. indireta
J
loc. adverbial
Período simples: Só sairei daqui de manhã.
adj. adv. de tempo
Período composto por subordinação: Sairei daqui / quando amanhecer.
ÓT. sub. adv. temporal
Aulas dc Português
c) Por coordenação e subordinação: quando existem orações co-
ordenadas, principais e subordinadas.
or. coord e principal
Ele chegou'/ e logo confirmou / que viajaria.
or. coordenada or. sub. subst. obj. direta
EXERCÍCIO .
Dividir (usando barrasje classificar os períodos.
a) Claro! Eu lhe disse... Não se faz isso.
b) Saímos cedo de casa. Nem assimconseguimos um bom lugar: o
teatro já estava praticamente lotado quando chegamos.
c) Estudaram muito, mas, devido ao reduzido número de vagas,
não conseguiram o emprego.
d) Que mulher? Aquela que vimos sair do cinema?
e) Que seria de nós, se não nos esforçássemos!?
IEL CLASSIFICAÇÃO DAS ORAÇÕES
Inicialmente, as orações de um período podem receber as seguintes
classificações: 1) absoluta; 2) principal; 3) coordenada; 4) subordinada.
Dissemos "inicialmente" porque as coordenadas e subordinadas
apresentam subdivisões. Vejamos os conceitos.
1. Absoluta: a única oração de um período simples.
Cheguei cedo.
Nunca brigaria com você.
2. Principal: qualquer oração que possua subordinada.
ATENÇÃO: a nosso juízo, a denominação "principal" é profunda-
mente infeliz, por várias razões:
•» a palavra "principal" traz consigo uma noção de hierarquia,
que leva à noção equivocada de que orações assim classificadas seriam
mais "importantes" que outras, ou encerrariam a "idéia básica" do texto;
•* a denominação também favorece o equívoco de se acreditar na
existência de apenas uma oração principal em cada período;
-* na verdade, em um período com dez orações, nove podem ser
principais, o que por si demonstra a impropriedade do termo;
-+ ao fazermos a análise sintática de um período, as únicas orações
denominadas pelo seu valor sintático são as subordinadas, cujo nome
corresponde à função que exercem no texto. De fato, só chamamos princi-
pal a uma oração quando não há algo importante a dizer dela. Ao con-
trário do que o nome sugere.
174
'Estudo das orações
Vamos, então, estabelecer um conceito objetivo para oração princi-
pal, exemplificando em seguida: principal é apenas qualquer oração que
possua subordinada(s). Em um período, pode haver várias principais, mas
só precisamos chamar assim a uma oração: a primeira que possuir e não for,
ela própria, subordinada a nenhuma outra.
or. principal
Ele afirmou / que você disse.
or. sub. subst. obj. direta
or. principal
Você disse / que todos sabiam.
or. sub. subst. obj. direta
or. principal
Todos sabiam / que eu viria.
or. sub. subst. obj. direta
or. principal
Eu viria / quando pudesse.
or. sub. adv. temporal
Imaginemos agora um período que reunisse todas as orações acima
em uma seqüência lógica:
1* 2* 3" 4" 5'
Ele afirmou / que você disse / que todos sabiam I que eu viria / quando
pudesse.
1") or. principal
2') or. sub. subst. obj. direta (principal da 3")
3*) or. sub. subst. obj. direta (principal da 4*)
4a) or. sub. subst. obj. direta (principal da 5a)
5a) or. sub. adv. temporal
As classificações entre parênteses da 2", 3* e 4* orações são
desnecessárias: tendo sido classificadas como subordinadas, por seu valor
sintático, é apenas secundário e circunstancial o fato de serem também
principais de outras orações. Já a primeira oração não possui função sintática
alguma.
Por tudo isso, seria ríielhor denominar tais orações de subordi-
nantes, ou seja, apenas aquelas que regem subordinadas.
3. Coordenada: diz-se que estão coordenadas entre si duas ou
mais orações que não dependam sintatícamente umas das outras. Note-
se que a independência aqui não é de sentido, mas de função sintática.
Quando dizemos, por exemplo:
175
Aulas de Português
Estudou muito, / entretanto não alcançou boa nota.
or. coordenada or. coordenada
existe, sem dúvida, uma relação de idéias entre as orações. A segunda,
inclusive, não existiria sem a primeira. Nenhuma das duas, porém, exerce fun-
ção para a outra. Compare-se com a relação entre principal e subordinada:
or. principal
Soube I que não alcançou boa nota.
or. sub. subst. obi. direta
Podemos ver que a oração subordinada exerce uma função sintática:
é o objeto direto do verbo saber, da principal.
Assim, podemos dizer de maneira concisa que orações coordenadas
são as que não exercem função umas para as outras; ao passo que subordina-
das são as que exercem uma função sintática para a sua principal.
• Coordenadas sindéticas e assindéticas. A relação entre as orações
coordenadas pode-se estabelecer através de um elemento de ligação (conec-
tivo ou síndeto), ou diretamente. No primeiro caso, diz-se que as orações
são coordenadas sindéticas, e, se não houver conectivo, assindéticas. ,
coord. assindética
Chegou rapidamente, /falou pouco Ie saiu logo.
coord. assindética coord. sind. aditiva
OBSERVAÇÕES
a) Em um período composto por coordenação, não há oração prin-
cipal, e a primeira oração será coordenada assindética. Note-se que a con-
junção no início do período não está coordenando uma oração à anterior,
mas um período a outro:
coord'. assindética
E ele chegou, / nada disse / e saiu.
coord. assindética coord sind. aditiva
Também no caso das coordenadas alternativas, a primeira será
assindética, ainda quando o conectivo apareça repetido.
Ou chegam cedo / ou não acharão lugar.
coord. assindética coord. sind. aditiva
Basta entender que coordenada sindética é a oração ligada por
conectivo a uma anterior.
b) A N.G.B. optou por denominar pela idéia que expressam ape-
nas as coordenadas sindéticas, o que pode levar ao equívoco de entender
176
Aulas de Português
Estudou muito, I entretanto não alcançou boa nota.
or. coordenada or. coordenada
existe, sem dúvida, uma relação de idéias entre as orações. A segunda,
inclusive, não existiria sem a primeira. Nenhuma das duas, porém, exerce fun-
ção para a outra. Compare-se com a relação entre principal e subordinada:
or. principal
Soube I que não alcançou boa nota.
or. sub. subst. obi. direta
Podemos ver que a oração subordinada exerce uma função sintática:
é o objeto direto do verbo saber, da principal.
Assim, podemos dizer de maneira concisa que orações coordenadas
são as que não exercem função umas para as outras; ao passo que subordina-
das são as que exercem uma função sintática para a sua principal.
• Coordenadas sindéticas e assindéticas. A relação entre as orações
coordenadas pode-se estabelecer através de u m elemento de ligação (conec-
tivo ou síndeto), ou diretamente. N o primeiro caso, diz-se que as orações
são coordenadas sindéticas, e, se não houver conectivo, assindéticas. ,
coord. assindética
Chegou rapidamente, /falou pouco Ie saiu logo.
coord. assindética coord. sind. aditiva
O B S E R V A Ç Õ E S
a) E m u m período composto por coordenação, não há oração prin-
cipal, e a primeira oração será coordenada assindética. Note-se que a con-
junção no início do período não está coordenando uma oração à anterior,
mas u m período a outro:
coord-, assindética
E ele chegou, / nada disse / e saiu.
coord. assindética coord sind. aditiva
Também no caso das coordenadas alternativas, a primeira será
assindética, ainda quando o conectivo apareça repetido.
O M chegam cedo / ou não acharão lugar.
coord. assindética coord. sind. aditiva
Basta entender que coordenada sindética é a oração ligada por
conectivo a uma anterior.
b) A N.G.B. optou por denominar pela idéia que expressam ape-
nas as coordenadas sindéticas, o que pode levar ao equívoco de entender
1 7 6
E s t u d o das o r a ç õ e s
os conectivos como determinantes absolutos na classificação das coorde-
nadas. Na verdade, a idéia expressa pelas coordenadas muitas vezes
independe do conectivo. Se dizemos:
coord. assindética
Não irei mais, / pois é muito tarde.
coord. sind. explicativa
chamamos a segunda oração de coordenada sindética explicativa pela idéia que
encerra, de explicar o fato anterior. A mesma idéia existe em:
coord. assindética
Não irei mais: / é muito tarde.
coord. assindética
A segunda oração deveria chamar-se coordenada assindética explicativa.
c) Exatamente por não ser determinante o conectivo, deve-seevi-
tar a simples memorização das conjunções. É freqüente, por exemplo, o
aluno pensar que a simples presença das conjunções mas, porém, contudo,
entretanto caracterizaria uma coordenada adversativa; ao passo que a
conjunção e iniciaria sempre uma coordenada aditiva. Não é assim. A
denominação aditiva vem de adição, soma, e a oração tem esse nome
quando apenas acrescenta tuna idéia à anterior; ao passo que adversativa
provém de adverso, contrário, razão por que a oração assim chamada
expressa idéia contrária ao que se esperava da anterior.
coord. assindética
Estuda I e também trabalha.
coord. sind. aditiva
coord. assindética
Estudou muito, / mas não tirou boa nota.
coordenada sind. aditiva
Vejamos, agora, exemplos em que as mesmas conjunções iniciam
orações diferentes:
coord. assindética t
Estudou muito / e não titou boa nota. '
coord. sind. adversativa
coord. assindética
Não só estuda, / mas também trabalha.
coord. sind. aditiva
• Coordenadas sindéticas.
4 Aditivas. As que acrescentam uma idéia aó fato anterior. São
177
c
1
Aulas dc Português
introduzidas pelas conjunções ou locuções coordenativas aditivas: e, nem, não
só ... mas também, tanto ... como.
or. coord. assindética
Olhou-me / e sorriu.
or. coord. sind. aditiva
or. coord. assindética
Não só estuda, / mas também trabalha.
or. coord. sindética aditiva
# Adversativas. Quando apresentam uma idéia contrária ao fato
anterior. Sáo introduzidas pelas conjunções ou locuções coordenativas adversati-
vas: mas, porém, todavia, contudo, entretanto, no entanto, e sim, e não etc.
or. coord. assindética
Acredito nele, / mas duvido da sua aprovação.
or. coord. sind. adversativa
or. coord. assindética
É rico, / e não paga suas dívidas.
or. coord. sind. adversativa
•» Explicativas. As que apresentam explicação para o fato ante-
rior. São introduzidas pelas conjunções coordenativas explicativas: pois (an-
teposta ao verbo), porque, que, porquanto etc.
or. coord. assindética
Chegue cedo, / pois a festa acabará logo.
or. coord. sind. explicativa
OBSERVAÇÃO: as conjunções explicativas quê e porquê apare-
cem normalmente depois de uma pausa forte, representada por u m verbo
no imperativo, ponto e vírgula ou oração optativa. Quando não é assim, trata-
se de conectivos de subordinação.
or. coord. assindética
4 Conclusivas. As que denotam conclusão ou conseqüência lógica
do fato anterior. São introduzidas pelas conjunções ou locuções coordenati-
vas conclusivas: logo, portanto, então, assim, por isso, por conseguinte,
pois (posposta ao verbo) etc.
or. coord. assindética
Não estudou a matéria; / será, portanto, reprovado.
or. coord. sind. conclusiva
Não faltes, / que a explicação será importante.
or. coord. sind. explicativa
178
Estudo d a s o r a ç õ e s
OBSERVAÇÃO: opõem-se semanticamente as coordenadas con-
clusivas e as explicativas. E m uma relação causa/efeito, as explicativas
expressam causa para u m efeito que está na coordenada anterior. Já as
conclusivas expressam efeito para uma causa anterior.
or. coord. assindética (= efeito)
Não irei mais, / pois é tarde.
or. coord. sind. explicativa (= causa)
or. coord. assindética (= causa)
É muito tarde; / portanto, não irei mais.
or. coord. sind. conclusiva (= efeito)
No estudo das subordinadas, trataremos das diferenças entre
estas orações e as adverbiais causais e consecutivas.
-» Alternativas. As que indicam alternância ou exclusão. São i n -
troduzidas pelas conjunções coordenativas alternativas: ou ... ou, ora ... ora,
quer... quer, já ...já etc.
or. coord. assindética
Ora brincava, / ora lia.
or. coord. sind. alternativa
or. coord. assindética
Ou saía I ou ficava preso.
or. coord. sind. alternativa
• Coordenação entre orações subordinadas. Podem estar coorde-
nadas entre si duas ou mais orações apenas independentes:
v v '- '
a) Chegou / e saiu logo.
ou duas ou mais orações subordinadas a uma mesma principal:
V 2- 3- / J
b) Vi I que ele chegou / esaiu logd. '
N o primeiro caso (período a), classificamos as orações apenas
como coordenadas:
V 2'
Chegou I e saiu logo.
coord. coord. sind. <
assind. aditiva
179
Aulas de Português
Já no caso seguinte, vamos classificar a 2* e a 3* orações inicialmente
como subordinadas, para depois mencionar que estão coordenadas entre si:
1* 2' 3*
or. sub. subst. obj. direta
Vi I que ele chegou / e saiu logo.
or. or. sub. subst. obj. direta e
principal coord. sind. aditiva à anterior
Portanto, ao identificarmos no interior do período uma oração
coordenada, devemos estabelecer com qual oração se dá a coordenação.
Pois a oração que formos analisar, se estiver coordenada a uma subordina-
da, será também subordinada, com a mesma função da outra. Vejamos
exemplos em que a terceira oração está coordenada:
1« 2' 3*
or. sub. subst. obj. direta
a) Prometeu / que viria / e não cumpriu.
or. principal or. coord. sind. adversativa
A q u i a 3* oração está coordenada à t\ que não é subordinada. Por
isso a classificamos apenas pela coordenação.
t. Y 3.
or. sub. subst. obj. direta
b) Prometeu / que viria I e ajudaria.
or. principal or. sub. subst. obj. direta e
coord. sind. aditiva à anterior
Já no período acima, as duas ultimas orações estão coordenadas
entre si , sendo ambas subordinadas à primeira. Por isso as classificamos
antes de tudo como subordinadas, e depois indicamos a coordenação.
Observe-se, nos exemplos acima, que os tempos e modos verbais já nos
indicam quais as orações coordenadas entre si.
EXERCÍCIO
Dividir as orações (usando barras) e classificar apenas as coordenadas.
a) A vida te abençoe, porque és merecedora da graça divina.
b) Perguntamos-lhe onde seria a festa.
c) Não fuma nem bebe.
d) Quem cala consente.
e) Entra depressa, que não tarda a chuva.
f) Ficou acordado vários dias, e não estava com sono.
1 8 0 .
E s t u d o das o r a ç õ e s
g) Não saímos porque chovia.
h) A festa fo i confirmada; devemos, portanto, transferir a viagem.
i) Não o critiquemos, porquanto já cumpriu com a sua parte no
trabalho.
j) Fui cedo para a cama; não consegui, contudo, dormir .
4. Subordinada: é aquela que depende sintatícamente de outra
oração. Diz-se que uma oração é dependente sintatícamente quando cor-
responde a uma função sintática (sujeito, objeto direto, adjunto adnominal,
adjunto adverbial etc).
Assim, a oração subordinada difere da oração coordenada em
virtude de a última não corresponder a qualquer função sintática. Po-
demos dizer, então, que sintatícamente as orações coordenadas são inde-
pendentes, ao passo que as subordinadas são dependentes.
Vejamos alguns exemplos de orações subordinadas:
Vi I que todos estavam calmos.
O aluno I que estuda / passa.
Saímos I quando a chuva acabou.
N o primeiro período, a oração que todos estavam calmos é subordi-
nada porque exerce a função de objeto direto; no segundo, a oração que
estuda é subordinada porque exerce a função de adjunto adnominal; no
terceiro, a oração quando a chuva acabou é subordinada porque exerce a
função de adjunto adverbial de tempo.
IV. SUBORDINADAS DESENVOLVIDAS E REDUZIDAS
Independente de sua classificação, as orações subordinadas
podem-se apresentar como desenvolvidas ou reduzidas. Tais conceitos se
referem ao modo verbal e à presença de conectivos, a saber:
•* Desenvolvidas: têm o verbo em uma das chamadas formas finitas
(indicativo, imperativo e subjuntivo) e se vinculam à principal através de
uma palavra de ligação, chamada genericamente conectivo.
conectivo/indicativo
Prometeu / que chegaria cedo. t
principal sub. subst. pbj. direta / /
conectivo/subjuntivo
O primeiro / que puder / dê notícias a todos.principal adj. restrit. principal
conectivo/subjuntivo
Quando houver tempo, / irei.
adv. temporal principal
181
Aulas de Português
conectivo / imperativo
Espero / que não vás com tanta sede ao pote.
princ. sub. subst. obj. direta
conectivo /indicativo
Quando termine a aula, / conversaremos.
sub. adv. temporal principal
4 Reduzidas: têm o verbo em uma das chamadas formas nominais
(infinitivo, gerúndio ou particípio passado) e não apresentam os elementos
conectivos das orações desenvolvidas: iniciam-se diretamente ou por uma
preposição.
infinitivo
Prometeu I chegar cedo.
infinitivo
O primeiro / a saber dele / dê notícias a todos.
preposição
infinitivo
Espero / não ires com tanta sede ao pote.
part. passado
Terminada a aula. / conversaremos.
gerúndio
Havendo tempo. / irei.
Podemos resumir assim as diferenças entre desenvolvidas e redu-
zidas:
r indicativo
Desenvolvidas: conectivo + i imperativo
L subjuntivo
{ inf in i t ivo gerúndio patidpio passado
OBSERVAÇÕES
•» As chamadas formas nominais (infinitivo, gerúndio e particípio
passado) dependem sintatícamente de uma forma verbal não-nominal.
Por isso, as orações reduzidas são, em princípio, subordinadas.
Entretanto, a riqueza da Língua fez que se estabelecessem cons-
truções outras, em que inf in i t ivo e gerúndio se empregam em lugar de
orações coordenadas. Temos, assim, algumas orações reduzidas com valor
182
E s t u d o das orações
de coordenadas aditivas, às quais a N . G. B. não faz qualquer menção:
a) De i n f i n i t i v o : quando precedido de sobre ou além de, expres-
sando acréscimo a outra idéia:
Ele, I além de ser inteligente. / é estudioso.
= Ele é estudioso / e também é inteligente.
Aquele político, / sobre ser corrupto. / era incompetente.
= Aquele político era incompetente / e também era corrupto.
b) De gerúndio: quando o gerúndio expressa fato posterior e
independente em relação ao da outra oração:
O cão comeu toda a carne, /enterrando em seguida os ossos.
= O cão comeu toda a carne /e enterrou os ossos.
* É importante fazer aqui u m esclarecimento sobre a denomina-
ção "conectivo" utilizada neste trabalho. Em sua acepção primeira, conec-
tivos são apenas as palavras cuja única finalidade é estabelecer conexão
entre elementos sintáticos (palavras ou orações), sem exercer qualquer
função sintática:
conectivo
•
• verbo de ligação:. Maria é inteligente.
sujeito predicaüvo
conectivo
• preposição: Precisa de emprego.
obj. indireto
conectivo
• conjunção: Comprei discos e livros.
obj. dir. composto
conectivo i /
Falou / e disse.
coord. assindética coord. sind. aditiva
conectivo
t •
Confirmou / que viajaria.
principal sub. subst. obj. direta "
183
A u l a s de P o r t u g u ê s
Entretanto, vamos considerar aqui conectivos de subordinação to-
das as palavras que iniciam orações subordinadas desenvolvidas. Além das
conjunções e locuções conjuntivas, incluem-se aí outras palavras que, ade-
mais de iniciarem subordinadas, exercem função sintática: pronomes inter-
rogativos e exclamativos, advérbios interrogativos e exclamativos, e pro-
nomes relativos.
Não sei de que falas.
pronome interrogativo •* conectivo
Veja quem cliegou.
pronome exclamativo 4 conectivo
Não sei onde procurar o livro.
advérbio interrogativo -* conectivo
OZ/tc como ela caminha.
advérbio exclamativo 4 conectivo
Conheço a pessoa de quem falas
pronome relativo 4 conectivo
ATENÇÃO: a N . G. B., contudo, não usa as denominações pronome
exclamativo e advérbio exclamativo - denomina tais palavras "pronomes
indefinidos" ou "advérbios interrogativos". Na verdade, os pronomes são
indefinidos tanto nas interrogações como nas exclamações, diretas ou indire-
tas. Parece-nos absurdo chamar "advérbio interrogativo"aquele que ocorre
em frase nitidamente exclamativa.
Assim como existe interrogação direta (marcada por pontuação)
e indireta (deduzível do contexto):
De que precisas? (interrogação direta)
Não sei de que precisas (interrogação indireta)
há também exclamações diretas e indiretas, segundo o mesmo critério:'
Que linda está, Denise! (exclamação direta)
Veja que linda está Denise. (exclamação indireta)
4 Em Latim havia quatro formas nominais, cada uma com sua
desinência modo-temporal própria:
Infinitivo 4 DMT re (Latim clássico); r (Latim vulgar)
• amare; amar
Gerúndio 4 DMT nd
m amando
184
Estudo das orações
Particípio presente •» DMT nt
m amante
Particípio passado •* DMT t (Latim clássico); d (Latim vulgar)
• amatus; amadus: em Português, amado
O particípio presente, no processo evolutivo de nosso idioma,
desaparece como forma verbal, tendo utilização nominal como adjetivo
ou substantivo.
As pessoas amantes da paz são raras.
adjetivo
Os amantes estavam em festa.
substantivo
O particípio passado parece caminhar para o mesmo destino. N o
Português atual, é empregado quase sempre como adjetivo ou como parte de
uma locução verbal.
Vi ontem a mulher amada.
adjetivo
Tinha chegado a hora.
aux. v. principal
loc. verbal
Raras vezes o particípio passado, sozinho, é empregado como
verbo; raras vezes, portanto, constitui oração reduzida. Para tanto, é
necessário ter depois dele u m substantivo ou equivalente que funcione
como seu sujeito e só possua essa função:
or. principal
Encerrada a sessão, / os deputados se dispersaram.
or. sub. adv. temporal
ou causai
Observe-se que o particípio não constitui oração reduzida quando
se refere a termo anterior:
/ pbj. direto
O presidente da Câmarâ considerèu a sessão encerrada.
adjetivo/pred. do objeto
ou quando se refere a termo posterior que possua outra função sintática
que não seja a de sujeito do particípio:
obj. direto
O presidente da Câmara considerou a sessão encerrada.
adjehvo/pred. do objeto
185 2A
A u l a s d e P o r t u g u ê s
Em resumo: oração reduzida de particípio passado só existe com
sujeito próprio e posposto ao verbo.
verbo sujeito
Entendido esse ponto. / sigamos adiante.
ar. sub. adv. temporal or. principal
(red. de part. passado)
-» Como já vimos, os conectivos de subordinação iniciam orações
desenvolvidas; ao passo que infinitivo, gerúndio e particípio são próprios
de orações reduzidas. Por essa razão, ao d i v i d i r os períodos, devemos estar
atentas para o seguinte fato: não pertencem à mesma oração u m conecti-
vo de subordinação e u m verbo no inf in i t ivo , gerúndio ou particípio.
Observemos.os seguintes períodos:
Afirmou que estudar tal matéria era indispensável.
Disse que, sendo possível, nos ajudaria.
Convém que, resolvidos tais problemas, passemos aos próximos.
Para d i v i d i r os períodos acima, devemos, antes de tudo, assinalar
verbos e conectivos.
Afirmou que estudar tal matéria era indispensável.
Disse que, sendo possível, nos ajudaria.
Convém que, resolvidos tais problemas, passemos aos próximos.
Sabendo que conectivos de subordinação não podem pertencer a
orações reduzidas, teremos as seguintes divisões:
V 2' 3' 2*
Afirmou / que / estudar tal matéria / era indispensável.
r 2* 3* 2*
Disse I que, / sendo possível, / nos ajudaria.
P 2' 3' 2*
Convém / que, / resolvidos tais problemas, / passemos aos próximos.
ATENÇÃO: a observação anterior se refere a infinitivo, gerúndio
e particípio. Ocorre que grande parte dos verbos da Língua possuem a
mesma forma no in f in i t ivo e no futuro do subjuntivo. Em caso de dúvida,
basta substituir o verbo em questão por a lgum outro cujo futuro do
subjuntivo seja diferente (fazer/fizer, poder/puder etc.)
r 2 . 3 . 2'
Disse / que I fazer isso / seria inconveniente.
infinitivo
(o conectivo não fica na mesma oração do infinitivo)186
E s t u d o das o r a ç õ e s
1* 2* V
A pessoa / que fizer isso / será inconveniente.
fui subjuntivo
(o conectivo fica na mesma oração do futuro do subjuntivo)
Considerem-se, ainda, os casos de emprego de uma forma verbal
por outra - procedimento freqüente em todas as Línguas latinas, chamado
enálage. No Português, o infinitivo se usa normalmente em lugar do futuro
do presente. Isso explica orações desenvolvidas cujo verbo está apenas em
aparência no infinitivo.
conectivo
Não sei I como fazer isso. (= como farei)
conectivo
Não imagino / que dizer a ela. (= que direi)
-* Nem sempre o infinitivo, gerúndio e particípio constituem oração
reduzida: muitas vezes são o verbo principal de uma locução verbal. Ocorre
locução verbal quando existe mais de uma forma para expressar apenas u m
processo verbal.
Trataremos das locuções verbais antes de falar especificamente sobre
a classificação das orações reduzidas. Tenhamos desde já uma clareza: as
orações reduzidas podem ser desenvolvidas; as locuções verbais, não.
Prometeu / ir.-* Prometeu / que iria.
Devo ir •* (impossível transformar o infinitivo em oração desenvolvida)
loc. verbal
EXERCÍCIO
Transformar as orações subordinadas desenvolvidas em reduzidas, con-
templando todas as possibilidades.
a) Ele foi o primeiro que se solidarizou conosco.
b) Porque criticava constantemente o dube, foi expulso pela d i -
retoria. ,
d) Creio que é desnecessário quê sé leia o programa.
e) Quando terminou o espetáculo, a atriz estava esgotada.
f) Queimou-se com a água quê fervia.
g) Não era pessoa que esquecesse os amigos.
h) Como desempenhou com efidênda a função, o rapaz mereceu
a promoção.
i) Ainda que estabelecesse a sodedade as regras da ética, nem
todos os políticos as observariam.
187
Aulas de P o r t u g u ê s
j) Lutou para que fizessem justiça.
1) Alegra-me a visão das mulheres que dançam quando a primave-
ra chega à minha cidade.
V. ESTUDO DAS SUBORDINADAS DESENVOLVIDAS.
Como vimos ao estudar as funções sintáticas, há uma relação
entre classes e funções: estas podem ser de natureza substantiva, adje-
tiva ou adverbial. Visto que as orações subordinadas são as que repre-
sentam funções sintát icas, idêntica será sua subdiv isão .
Estamos tratando das subordinadas desenvolvidas, e isso implica
falar de seus conectivos, da d iv isão dos per íodos e da classificação especi-
fica das subordinadas.
x
• Procedimentos prá t icos para a d iv i são das orações.
a) Divid i r u m período composto por subordinação em orações signi-
fica, antes de tudo, identificar os verbos. Feito isso, assinalamos os conecti-
vos: a divisão se fará antes deles ou da preposição que os preceder:
V 2* 3*
Espero I que já tenham a resposta / de que preciso.
princ. sub. subst. obj. direta sub. adj. restritiva
b) N e m sempre, po rém, o texto estará em ordem direta. Na verda-
de, em se tratando de texto literário, a preferência será pela ordem in-
versa. Devemos lembrar, então, que os verbos são núcleos sintáticos, em
tomo dos quais as funções se organizam. Às vezes não há conectivos entre
os verbos, mas podemos d iv id i r o pe r íodo observando se os termos
exercem função para o verbo anterior ou para o posterior:
conectivo
Quem fizer este trabalho / jamais se arrependerá.
obj. direto adv. tempo
conectivo
De que eles virão I eu tenho certeza.
sujeito sujeito
c) Cada conectivo de subord inação inicia uma subordinada, razão
por que dois conectivos diferentes n ã o podem pertencer à mesma oração.
Se houver no pe r íodo dois conectivos de subord inação seguidos, a d i -
visão se fará antes de cada u m deles, e a oração iniciada pelo primeiro
con t inuará onde houver verbo sem conectivo. Vejamos, passo a passo, a
d iv i são de u m per íodo , lembrando que a primeira providência é assinalar
verbos e conectivos:
188
Estudo das orações
conectivos
4 4
A verdade é que onde ele está ninguém sabe.
verbo verbo verbo
Percebemos a presença de dois conectivos seguidos (que e onde) e
dividiremos antes de cada u m deles:
l« 2' 3' 2'
A verdade é / que / onde ele está / ninguém sabe.
Outros exemplos:
|i 2 . 3. 2-
Afirmou / que / quem fiz isso I pagaria pelo crime.
, . 2' 3 - 2"
Sabemos / que I quando voltarem aqui / já será tarde.
• Subordinadas substantivas. São as que exercem qualquer das
funções substantivas (sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nomi-
nal, aposto, predicativo e agente da passiva).
Quando desenvolvidas, podem ser iniciadas pelas seguintes classes
de palavras:
a) conjunções integrantes: que e se;
b) pronomes interrogativos: que, quem, qual, quanto, quantos;
c) advé rb ios interrogativos: onde, como, quando, quanto.
Como já foi dito, a divisão se fará antes de u m desses conectivos
ou da preposição que o preceda:
Vimos I como eles agem.
Acreditamos / em quem está no comando.
Não sei Icom quantos amigos contamos.
ATENÇÀO: identificação das substantivas entre os demais tipos
de subordinadas. Vimos quais as classe^ de palavras que iniciam orações
substantivas. Ocorre que os mesmos vocábulos (que, quem, qual, quanto,
quando, onde, como) podem-se apresentar como outras classes gramaticais
e iniciar outros tipos de oração:
-» quando são pronomes relativos, iniciam orações subordinadas
adjetivas. Neste caso, o conectivo é substituível pela locução o qual e suasflexõesr.
Conheço a pessoa / de quem falas.
(= da qual)
189
Aulas de Português
Estive na rua I onde moras.
(= na qual)
•» quando são conjunções, iniciam orações adverbiais:
Irei I quando puder.
-* as palavras que e como podem ainda ser conjunções coordena-
tivas e iniciar orações coordenadas sindéticas, respectivamente explicati-
vas e aditivas:
Não vá; / que não é necessário.
coord. sind. explicativa
Não só estuda / como trabalha.
coord. sind. aditiva
Por tudo isso, acreditamos útil que o aluno disponha de u m procedi-
mento prático para identificar as subordinadas substantivas dentre as outras
subordinadas. Para chegar a ele, partimos de duas premissas:
a) os pronomes são classes de palavras que podem substituir os
substantivos;
b) as palavras isso e esse são pronomes demonstrativos e podem
representar respectivamente nomes de coisas e pessoas.
CONCLUSÃO: tudo quanto for de natureza substantiva, inclusive
as orações subordinadas, será substituível pelo pronome isso (ou esse, caso
represente pessoa).
or. sub. substantiva
Nunca soube / quando seria a prova.
Nunca soube isso.
or. sub. substantiva
Preciso I de que me ajudes.
Preciso disso.
or. sub. substantiva
Tinha medo / de que o roubassem.
Tinha medo disso.
or. sub. substantiva
Quem é aluno / não precisa de ingresso.
Esse não precisa de ingresso.
Para classificar a oração substantiva, basta analisar sintatícamente
o pronome isso (ou esse):
190
Estudo das orações
(isso = obj. direto)
Nunca soube / quando seria a prova.
or. sub. subst. obj. direta
(disso m obj. indireto)
Preciso I de que me ajudes.
or. sub. subst. obj. indireta
(disso — compl. nominal)
Tinha medo / de que o roubassem.
or. sub. subst. compl. nominal
(esse = sujeito)
Quem é aluno / não precisa de ingresso.
or. sub. subst. subjetiva
Estabelecidas as noções anteriores, podemos inclusive nos adian-
tar u m pouco e propor procedimentos práticos para identificar a natureza
de todas as subordinadas (substantivas, adjetivas e adverbiais).
Identificados os conectivos de subordinação e divididas as orações,
procederemos da seguinte forma:
a) se pudermos substituir a subordinada pelo pronome isso (ou
esse), ela será substantiva; analisamos o pronome e obtemos a classifi-
cação da oração;
b) quando não seja possível oprocedimento anterior, verificamos
se o conectivo é substituível por o qual (eflexões), caso em que a subordi-
nada será adjetiva;
c) se não pudermos fazer qualquer das substituições anteriores,
saberemos que a subordinada é adverbial.
Vejamos a aplicação prática de tais procedimentos em dez perío-
dos em que ocorrem conectivos de subordinação.
• Natureza das subordinadas.
• São substantivas - porque substituíveis por isso ou esse - as
subordinadas dos seguintes períodos:
(isso = obj. direto)
Não me disse / como fariam o trabalha. /
or. sub. subst. obj. direta
(disso m coínpl. nominal)
Tenho certeza / de que gostarás do livro.
or. sub. subst. compl. nominal
(isso = obj. direto)
Não sei I onde estão seus amigos.
or. sub. subst. obj. direta
191
Aulas de Português
Plisso • obj. indireto)
d) Necessitava I de que o ajudassem.
or. sub. subst obj. indireta
-* São adjetivas - porque podemos substituir o conectivo por o
qual (e flexões) - as subordinadas dos seguintes períodos:
(como = pelo qual)
Conheço bem o modo I como enriqueceram.
or. sub. adjetiva
(At que = do qual)
Trouxe-llu: o livro / de que precisas.
or. sub. adjetiva
(onde = na qual)
Não conheço a cidade / onde nasceslc.
or. sub. adjetiva
-» São-adverbiais - por não admitirem qualquer das substituições
anteriores - as subordinadas dos seguintes períodos:
Procedeu I como esperávamos.
or. sub. adverbial
Correu tanto I que ficou cansado.
or. sub. adverbial
Sempre morou / onde nasceu.
or. sub. adverbial
• Classificação das subordinadas substantivas. Tais orações cor-
respondem a uma função sintática substantiva (sujeito, objeto direto etc).
Os conectivos típicos das orações substantivas são as conjunções
integrantes: que e se. Estas conjunções não têm função sintática.
Para classificarmos uma oração substantiva, como já vimos, deve-
mos substituí-la por u m pronome demonstrativo (isso ou esse); anali-
sando, então, o pronome, teremos a função da oração.
OSBERVAÇÕES
a) As orações substantivas podem aparecer justapostas (sem conec-
tivo): Espero / sejas feliz.
b) Podem aparecer introduzidas por palavras que, ao contrário
das conjunções integrantes (que e se), têm função sintática. São as
seguintes: os pronomes interrogativos quem, qual, quê (numa interro-
gação direta); os advérbios (interrogativos ou não) onde, como, quando,
por quê, quanto; e os pronomes indefinidos quantos(as), quem.
192
Estudo das orações
Segundo a N.G.B., são seis as orações subordinadas substantivas.
•» Subjetiva. A que exerce a função de sujeito para o verbo da oração
principal.
or principal
Quem estuda / passa.
or. sub. subst. subjetiva
or. principal
É certo I que todos passarão.
or. sub. subst. subjetiva
or. principal
Foi dito I quando seria a prova.
or. sub. subst. subjetiva
•* Objetiva direta. A que exerce a função de objeto direto para o
verbo da oração principal.
or. principal
Conlicço I quem escreveu o livro.
or. sub. subst. obj. direta
4 Objetiva indireta. A que exerce a função de objeto indireto
para o verbo da oração principal.
or. principal
Daremos um prêmio / a quem obtiver melhor nota.
or. sub. subst. obj. indireta .
4 Predicativa. A que completa o sentido do verbo ser (na principal)
que já possua sujeito.
or. principal
A verdade é / que não estudaram.
or. sub. subst. predicativa
4 Completiva nominal . A que conjpleta o sentido de u m nome da
principal. V .»..
or. principal j
Estou certo / de que vocês serão aprovados.
or. sub. subst. compl. nominal
or. principal
De que vocês passarão com destaque / tenho certeza,
or. sub. subst. compl. nominal
193
Aulas de Português
•+ Apos i t iva . A que repete, com outras palavras, uma função
sintática já existente na principal .
or. principal obj. direto
Quero apenas uma coisa: / que não se esqueçam do livro.
or. sub. subst. apositiva
• Particularidades das subordinadas substantivas.
4 Subjetivas: podem ocorrer nas seguintes situações:
a) depois dos chamados verbos unipessoais, que só se conjugam na
3a pessoa e têm normalmente o sujeito (palavra ou oração) posposto. As
orações subjetivas aparecem com mais freqüência depois das seguintes
formas de tais verbos: basta, consta, urge, parece, convém etc:
Consta I que ele virá.
Basta I que penses um pouco.
b) iniciadas pelos pronomes quem ou quantos, representando a{s)
pessoa(s) de quem se faz uma declaração:
Quem vier / será bem recebido.
Quantos vierem / serão bem recebidos.
c) depois de verbos transitivos diretos acompanhados do prono-
me apassivador se:
Pede-se / que ajam com discrição.
Não se sabe / onde será a festa.
d) Depois de u m verbo ser em cuja oração só exista predicatívo.
É bom I que penses nisso.
predicatívo
Melhor seria / que chegasses cedo.
predicatívo
4 Objetivas diretas. Assim como os objetos diretos que represen-
tam pessoa ou coisa personificada, as orações objetivas diretas iniciadas por
quem ou quantos muitas vezes aparecem preposicionadas. Para não con-
fundi-las com objetivas indiretas, basta lembrar que a preposição não será
exigida pelo verbo da principal.
Admiro / a quem cumpre seu dever com alegria.
Admiro / a quantos cumprem seu dever com alegria.
4 Objetivas indiretas e completivas nominais . Ambas estarão
precedidas de preposição necessária, e a diferença entre elas reside em
que as primeiras têm por antecedente um verbo e as segundas, u m nome.
194
Estudo das orações
Necessito / de que estejas aqui cedo.
or. sub. subst. obj. indireta
Tenho necessidade I de que estejas aqui cedo.
or. sub. subst. compl. nominal
•» Predicativas. Embora o predicatívo possa ocorrer com qualquer
tipo de verbo, as orações predicativas completam apenas o verbo ser,
quando possuem tão-somente sujeito.
A verdade é I que não estou interessado.
sujeito or. sub. subst. predicativa
Ela não era / quem pensávamos.
sujeito or. sub. subst. predicativa
A oração que dependa do verbo parecer (unipessoal) não será
predicativa, senão subjetiva. Por analogia com o verbo parecer de ligação,
pode ocorrer que o sujeito da oração subordinada se escreva antes do
verbo parecer unipessoal:
v. ligação
Gabriela parece triste.
sujeito predicatívo
v. unipessoal
Parece I que ele virá.
or. sub. subst. subjetiva
V 2" 1"
Ele I parece / que virá.
\") or. principal
2*) or. sub. subst. subjetiva
4 Apositívas. A única das subordinadas substantivas separada de
sua principal por uma pausa, assinalá vel por vírgula, dois pontos ou travessão:
Preciso apenas de uma coisa, J de que me ensinem o caminho.
or. sub. subst. apositiva
4 Oração substantiva com valor de agente da passiva. Ao tratar das
funções substantivas, a N . G. B. menciona sete, dentre elas a de agente da
passiva. Ao nomear as orações substantivas, porém, deixa de mencionar
aquela que exerce tal função. Omissão, a nosso ver, injustificável. Com-
parem-se os exemplos:
substantivo
O imposto será pago pelo trabalhador.
ag. da passiva
195
Aulas de Português
O imposto será pago / por quem trabalha.
or. subst. com valor de ag. da passiva
•» Também não encontra abrigo na N.G.B. a classificação de u m
tipo de oração que corresponde a u m substantivo em função de adjunto
adnominal, ou seja, fazendo parte de uma locução adjetiva. Tais orações
se poderiam classificar como "substantivas em função de adjunto ad-
n o m i n a l " , ou como "adjetivas justapostas",
substantivo
O livro é a arma do estudante.
adj. adnominal
O livro ê a arma / de quem estuda.
EXERCÍCIO
1 . Dividir (usando barras) e classificar apenas as orações subordina-
das substantivas.
a) Consta que não será definit ivo que sedêem férias a quem fizer
aqueles pontos.
b) O melhor seria que isso fosse decidido por quem conhecesse o
assunto.
c) O advogado solicitou fosse anexada a prova.
d) Q u e m canta seus males espanta.
e) Indispensável é que quando se fará a prova seja avisado a
todos.
f) Disse Maria que onde estava seu f i lho era segredo.
g) Ele parece que nunca sabe como agir.
h) Entregar-se-á o prêmio a quem fizer com que o público se
emocione.
i) A m i m não me basta que quem fez isso seja indiciado.
j) De uma coisa tinha certeza, de que aquela pessoa não era quem
eu pensava.
2. Reduza, para infinitivo, as orações subordinadas substantivas do
exercício anterior.
m Subordinadas adjetivas.
a) As orações adjetivas se referem a u m antecedente (substantivo ou
equivalente) para restringir o seu sentido ou acrescentar-lhe uma explicação.
1 2 1
O homem / que acabou de chegar / é misterioso.
196
Estudo das orações
1 2 \
A mulher, / que luta por seus direitos. / engrandece o nosso século.
Quando desenvolvidas, são iniciadas por uma palavra que f u n -
cione como pronome relativo (sempre substituível por o qual e flexões).
Nõo acredito em pessoas / que não tenham sensibilidade.
(que = as quais)
Ele mora numa rua I onde não há iluminação.
(onde = na qual)
b) Classificação das orações adjetivas.
4 Restritivas: referem-se ao antecedente para especificar ou res-
tringir o seu sentido. Se retiradas do texto, o sentido da principal fica
alterado ou prejudicado.
O homem / que luta vence.
4 Explicativas: sempre precedidas de vírgula, apenas acrescen-
tam uma explicação ao antecedente, podendo ser retiradas do texto sem
alterar o sentido da principal.
O homem, / que é mortal. / não é infalível.
c) Os pronomes relativos (como, aliás, todos os pronomes) têm
sempre uma função sintática. Assim, além de conectivos da oração adje-
tiva, são u m termo dessa oração, sintatícamente analisavel.
Reconhece-se a função sintática de u m pronome relativo substi-
tuindo-o pelo antecedente e colocando a oração adjetiva na ordem direta.
predicatívo
Este é um resultado / de que tenho medo.
compl. nominal
(Tenho medo do resultado.)
compl. nominal
sujeito
Tudo I de quanto precisava / estava ali.
obj. indireto
(Precisava de tudo.)
obj. indireto'
obj. direto
Trouxe o livro / de que precisas
obj. indireto
(Precisas do livro.)
obj. indireto
197
d) Pode faltar a unidade quantificadora, garantida pelo contorno meló-
dico e pelo contexto:
É feio que mete medo.
Grupos oracionais: a coordenação - Já vimos que as orações coorde-
nadas são orações sintatícamente independentes entre si e que se podem com-
binar para formar grupos oracionais ou períodos compostos:
Mário lê muitos livros e aumenta sua cultura.
Mário lê muitos livros e aprende pouco.
É fácil observar que as duas orações do primeiro exemplo são sintatíca-
mente independentes, porque, ao analisar a primeira (Mário lê muitos livros),
verificamos que possui todos os termos sintáticos previstos na relação
predicativa, ao contrário da oração complexa, conforme vimos (<* 462):
Sujeito: Mário
Predicado: lê muitos livros
Objeto direto: muitos livros
Entretanto, é também fácil verificarmos que a segunda oração e aumenta
sua cultura manifesta o resultado, uma conseqüência do fato de Mário ler
muito. Esta interpretação, aliás correta, não interfere na relação sintática que
as duas orações mantêm entre si no grupo oracional. Esta interpretação adici-
onal não resulta da relação sintática existente nas duas orações, mas sim da
nossa experiência do mundo, porque sabemos que a leitura é uma das nossas
fontes de cultura. E muito menos a manifestação nasce do emprego da conjun-
ção e que, por ser mero conector das orações, tem por missão semântica ape-
nas adicionar um conteúdo de pensamento a outro. Por isso, é denominada
conjunção (= conector) aditiva.
Prova evidente do que estamos falando é o segundo exemplo:
Mário lê muitos livros e aprende pouco.
Do ponto de vista sintático, já vimos que aqui também estamos diante de
orações independentes e que podem figurar isoladamente:
Mário lê muitos livros. Ele aprende pouco.
É partindo desse nosso saber sobre as coisas do mundo e dos significados
dos lcxemas utilizados que interpretamos a 2. ' oração como o contrário do que
estávamos esperando pelo fato de Mário ler muitos livros.
Como no exemplo anterior, essa interpretação adicional não tira da 2.*
oração o caráter de coordenada aditiva nem permite que se classifique o e
diferentemente de uma conjunção aditiva. É o texto, com suas unidades léxicas,
e não a gramática, que manifesta o sentido adversativo que claramente expres-
sa a 2." oração em face do conteúdo que se enunciou na 1.*. São, assim, unida-
des textuais, o que vale dizer, são unidades que manifestam funções sintagmá-
477
ticas no nível do texto. Trata-se de exemplos de coordenação no nível da ora-
ção e de subordinação no nível do texto.
Cabe também assinalar que as orações conectadas por e não manifestam
nenhum sentido textual subsidiário, além da adição; a ordem das orações é,
em geral, livre, salvo quando o significado dos lexemas estabelece uma dispo-
sição natural dos conteúdos de pensamento designados. São, neste último caso,
questões relativas ao nosso saber elocutivo, e não ao saber idiomático, exclu-
sivamente (** 33):
Trabalhava de dia e estudava de noite.
Estudava de noite e trabalhava de dia.
Mas há ordem fixa em:
Ficou noivo em fevereiro e casou-se em junho.
Cursava a Faculdade de Direito e formou-se em advocacia.
Em sentido inverso, muitas orações subordinadas - especialmente as re-
duzidas, em vista da amplitude.semântica em que podem ser envolvidas pela
influência das unidades léxicas empregadas e do nosso saber e experiências
do mundo - podem admitir um sentido "aditivo", como nos seguintes casos:
a) as orações reduzidas de gerúndio, quando equivalente a uma oração
coordenada iniciada pela conjunção e:
Compreendeu bem a lição, fazendo depois corretamente os exercícios (= e
fez depois...)
b) as reduzidas de infinitivo precedida da preposição sobre e da locução
prepositiva além de:
"Além de que a fumarada do charuto, sobre ser purificante ou antipútrida, dava aos alvéolos solidez, e consistência aos dentes" [CBr.l, 108] (sobre ser m além de ser purificante... a fumarada do charuto dava...).
Apesar destas interpretações "aditivas", estas reduzidas, quanto à sua
estruturação gramatical, pertencem ao quadro das orações subordinadas.
Os tipos de orações coordenadas e seus conectores - As orações
coordenadas estão ligadas por conectores chamados conjunções coordenativas
(#* 320), que apenas marcam o tipo de relação semântica que o falante mani-
festa entre os conteúdos de pensamento designado em cada uma das orações
sintatícamente independentes, t
São três as relações semânticas marcadas pelas conjunções coordenativas
ou conectores:
1) Aditiva: adiciona ou entrelaça duas ou mais orações, sem nenhuma
idéia subsidiária.
As conjunções aditivas são e e nem (esta para os conteúdos negativos,
e pode vir na 2." oração ou em ambas).
478
Pedro estuda e Maria trabalha.
Pedro não estuda nem trabalha.
Nem Pedro estuda nem Maria trabalha.
2) Adversativa: contrapõe o conteúdo de uma oração ao de outra expres-
sa anteriormente:
João veio visitar o primo, mas não o encontrou.
As conjunções adversativas são mas, porém, senão (depois de con-
teúdo negativo).
Não safa senão com os primos.
3) Alternativa: contrapõe o conteúdo de uma oração ao de outra e mani-
festa exclusão de um deles, isto é, se um se realizar, o outro não se
cumprirá:
Estudas ou brincas.
Enlaces adverbiais cm grupos de orações - Certas unidades de nature-
za adverbial e quemanifestam valores de concessão, conclusão, continuação,
explicação, causa, que fazem referência anafórica ao que anteriormente se
expressou, podem aparecer como aparentes conectores de orações em grupos
oracionais: logo, pois, portanto, por conseguinte, entretanto, contudo, toda-
via, por isso, por isto, também, daí, então, pelo contrário, etc:
Será a primeira vez que copiará estes quadros, pois não há oito dias que
os comprei [JA.3, 257],
O amor, como eu sonho e espero, há de ser a minha vida inteira; portanto
parece-me que tenho o direito e até o dever de conhecê-lo antes (...)
[JA.3, 379).
O que a protegia na confusão não era tanto o rápido olhar, como um sétimo
sentido, que só ela possuía: uma espécie de previsão dos objetos que se
aproximavam.
Contudo, eu sofria muito vendo Emflia assim esquecida de mim e engolfada
nos prazeres (...) [JA.3, 380].
Partindo desses valores semânticos, a gramática tradicional estabeleceu,
entre os conectores coordenativos, as conjunções conclusivas e causais-
explicativas. Realmente, nestes casos se trata de unidades que manifestam
esses valores de dependência interna, semelhantes às orações subordinadas,
mas no nfvel do sentido do texto. São unidades transirásticas, já que ultrapas-
sam os limites de fronteira das orações.
OBSERVAÇÃO: A inexistência, a rigor, das conjunções conclusivas e causais -explicativas, orientação que também é seguida em gramáticas de outras línguas, já tinha sido defendida entre nós por Maximino Maciel (1865-1923) na última revisão de sua Gramática Descritiva, em que as considerava advérbios, dada a facilidade com que se deslocavam nas orações, aparecendo em várias posições, o que lhes tirava o caráter de conectores (<* 320).
479
Justaposição ou assindetismo - Ao lado da presença de transpositores
e conectores vistos até aqui, as orações podem encadear-se, como ocorre com
os termos sintáticos dentro da oração, sem que venham entrelaçadas por uni-
dades especiais; basta-lhes apenas a seqüência, em geral proferidas com con-
torno melódico descendente e com pausa demarcadora, assinalada quase sem-
pre na escrita por vírgulas, ponto e vírgula e ainda por dois pontos:
O moço que dizia Simíles costumava zombar de mim com barulho. Qual-
quer dito nem o excitava: mordia os beiços, avermelhava-se como um peru,
lacrimejava, enfim não se continha, caía num riso convulso, rolava sobre
o balcão, meio sufocado. [GrR.l, 197].
Este procedimento de enlace chama-se justaposição.
Sob o ponto de vista sintático e semântico, tais justaposições se aproxi-
mam, pela independência sintática e estreito relacionamento semântico, da
parataxe ou coordenação. Seu efeito para o discurso é variado, ora apontando
para um estilo cortado com grande dose impressionista, ora para um estilo que
focaliza quadros rápidos e movimentos ascendentes, especialmente se está
constituído por seqüência de verbos. Já a seqüência de substantivos manifesta
lentidão.
Aproximam-se as orações justapostas das coordenadas, e com elas às
vezes se alternam, por permitirem, no nível da camada superior do texto, um
sentido subsidiário de causa-explicaçâo, concessão, conseqüência, oposição,
tempo, levando-se em conta o conteúdo de pensamento nelas designado:
Uma vez por dia o grito severo me chamava à lição. Levantava-me, com
um baque por dentro, dirigia-me à sala, gelado. E emburrava: a língua
fugia dos dentes, engrolava ruídos confusos [GrR.l, 102].
Não me ajeitava a esse trabalho: a mão segurava mal a caneta, ia e vinha em
sacudidelas, a pena caprichosa fugia da linha, evitava as curvas, rasgava
o papel, andava à toa como uma barata doida, semeando borrões [GrR.l,
114].
A chamada " coordenação dlstributiva" - Podem-se incluir nas ora-
ções justapostas aquelas que a gramática tradicional arrola sob o rótulo de
coordenadas distributi vas, caracterizadas po,r virem enlaçadas pelas unidades
que manifestam uma reiteração ançfórica dofiçà de ora...ora, já., já, quer...quer,
um...outro, este...aquele, parte...parte, séja...seja, e que assumem valores
distributivos alternativos, e subsidiariamente concessivos, temporais, condi-
cionais.
Do ponto de vista constitucional, essas unidades são integradas por várias
classes de palavras: substantivo, prono.me> advérbio e verbo, e do ponto de
vista funcional não se incluem entre os conectores que congregam orações
coordenadas: 3*
318
d) distribuição:
Várias vezes por dia.
e) divisão, indicando a pessoa ou coisa que recebe o quinhão:
Distribuir pelos pobres, repartir pelos amigos, dividir por três a herança.
0 substituição, troca, valor igual, preço:
Comer gato por lebre.
"O barão dizia ontem, no seu camarote, que uma só italiana vale por cinco
brasileiras" [ M A . l , 183].
g) causa, motivo:
"O amor criou o Universo que pelo amor se perpetua" [MM].
"Muitos se abstêmpor acanhados do que outros fogem por virtuosos" [MM].
h) nos juramentos e petições designando a pessoa ou coisa invocada
para firmar o juramento e para interceder:
jurar pela sua honra, pedir pela saúde de alguém [ED.l , § 163, b].
i) em favor de, em prol de:
Morrer pela pátria, lutar pela liberdade.
j ) tempo, duração:
"Qual é aquele que, assentado, por noite de luar e serena sobre uma fraga
marinha, não sente irem-se-lhe os olhos...?" [AH.2, 159].
1) agente da passiva:
"As mulheres são melhor dirigidas pelo seu coração do que os homens pela
razão" [MM].
m) depois dos nomes que exprimem disposição ou manifestação de dis-
posição de ânimo para com alguma coisa:
"A paixão pelo jogo pressupõe ordinariamente pouco amor pelas letras"
[MM].
OBSERVAÇÃO: Não procede mais o ter-se como errônea a construção com por, nestes
casos, porque, no português contemporâneo, o uso de de se especializou no sentido de
genitivo objetivo. No português de outros tempos, amor de Deus era tanto o que
consagramos a ele (genitivo objetivo) ou o que ele tem, o que nos consagra (genitivo
subjetivo). Em lugar de amor pelas letras diz-se também corretamente amor às letras.
Quando nos casos de genitivo objetivo pode ocorrer ambigüidade com o emprego da
preposição de, costuma-se substituir esta preposição por contra (se o nome designa
sentimento hostil) ou para com (se o sentimento é benévolo): Guerra contra os inimi-
gos e respeito para com todos.
n) fim (em vez de para):
"Forcejavapor obter-lhe a benevolência, depois a confiança" [MA. 1,194].
319
o) introduzindo o predicatívo do objeto direto, denota qualidade, estado
ou conceito em que se tem uma pessoa ou coisa:
Ter alguém por sábio. Enviar alguém por embaixador. Tenho por certo que
ele virá.
OBSERVAÇÃO: Neste emprego pode ser substituída pela preposição como, apesar da
crítica injusta dos puristas.1
9 - CONJUNÇÃO
Conector e transpositor - A língua possui unidades que têm por missão
reunir orações num mesmo enunciado.
Estas unidades são tradicionalmente chamadas conjunções, que se repar-
tem em dois tipos: coordenadas e subordinadas.
As conjunções coordenadas reúnem orações que pertencem ao mesmo
nível sintático: dizem-se independentes umas das outras e, por isso mesmo,
podem aparecer em enunciados separados.
Pedro fez concurso para medicina e Maria se prepara para a mesma profissão.
Podíamos dizer desta maneira, em dois enunciados independentes:
Pedro fez concurso para medicina.
Maria se prepara para mesma profissão.
Daí ser a conjunção coordenativa um conector.
Como sua missão é reunir unidades independentes, pode t ambém
"conectar" duas unidades menores que a oração, desde que do mesmo valor
funcional dentro de mesmo enunciado. Assim:
Pedro e Maria (dois substantivos)
Ele e ela (dois pronomes)
Ele e Maria (um pronome e um substantivo)
rico e inteligente (dois adjetivos)
ontem e hoje (dois advérbios)
saiu e voltou (dois verbos)
com e sem dinheiro(duas preposições)/ /
1 f.,
Bem diferente é, entretanto, o papel da conjunção subordinada. No enun-
ciado: f
Soubemos que vai chover,
a missão da conjunção subordinada é assinalar que a oração que poderia ser
sozinha um enunciado: • >
Vai chover
1 Que o português procedeu como as demais línguas românicas prova o trabalho de V.
Vããnãmen, II est venu comme ambassadeur, il agit en soldai, Helsinquia, 1951.
320
se insere num enunciado complexo em que ela (vai chover) perde a caracterís-
tica de enunciado independente, de oração, para exercer, num nível inferior da
estruturação gramatical, a função de palavra, já que vai chover é agora objeto
direto do núcleo verbal soubemos.
Assim, a conjunção subordinativa é um transpositor de um enunciado
que passa a uma função de palavra, portanto de nível inferior dentro das cama-
das de estruturação gramatical. Diz-se, por isso, que que vai chover é uma
oração "degradada" ao nível da palavra, e isto se deveu ao fenômeno de hipotaxe
ou subordinação (<" 46).
A oração degradada ou subordinada passa a exercer uma das funções
sintáticas próprias do substantivo, do adjetivo e do advérbio, como veremos
mais adiante (<* 462).
Podemos aproximar o papel do transpositor que ao pronome relativo -
que é um transpositor de oração degradada ao nível do adjetivo - e das prepo-
sições que, como vimos, transpõem uma unidade a exercer papel de outra
unidade. Na oração NiHguém é de ferro, a preposição de transpõe o substantivo
ferro à função de predicatívo por ter de ferro passado a equivalente de adjetivo
[ A L . 1,229].
Conectores ou conjunções coordenativas - Os conectores ou conjun-
ções coordenativas são de três tipos, conforme o significado com que envol-
vem a relação das unidades que unem: aditivas, alternativas e adversativas.
Conjunções aditivas - A aditiva apenas indica que as unidades que une
(palavras, grupos de palavras e orações) estão marcadas por uma relação de
adição. Temos dois conectores aditivos: e (para a adição das unidades positi-
vas) e nem (para as unidades negativas). Vejam-se os exemplos extraídos do
Marquês de Maricá:
O velho teme o futuro e se abriga no passado.
Uma velhice alegre e vigorosa é de ordinário a recompensa da mocidade
virtuosa.
A pobreza e a preguiça andam sempre em companhia.
Não emprestes o vosso nem o alheio, não tereis cuidados nem receio.
Muitas vezes, graças ao significado dos Iexemas envolvidos na adição, o
grupo das orações coordenadas permite-nos extrair um conteúdo suplementar
de "causa", "conseqüência", "oposição", etc. Estes sentidos contextuais, im-
portantes na mensagem global, não interessam nem modificam a relação aditiva
das unidades envolvidas: Rico e inteligente e rico e desonesto, ambas se unem
por uma relação gramatical de adição, embora a oposição semântica existente
entre rico e desonesto apresente um sentido suplementar, como se estivesse
enunciado rico mas desonesto. O mesmo se dá se uma unidade for afirmativa
e outra negativa: rico e não honesto.
321
Em lugar de nem usa-se e não, se a primeira unidade for positiva e a
segunda negativa: rico e não honesto (compare com: ele não é rico nem ho-
nesto).
OBSERVAÇÕES:
1. *) Evite-se (embora não constitua erro) o emprego de e nem quando não houver
necessidade de ênfase:
"Nunca vira uma boneca e nem sequer o nome desse brinquedo" [ML.2,9).
"(...) mas o primo Nicolau está a dormir até tarde e nem à missa vai"
[CBr.15].
2. *) Algumas vezes e aparece depois de pausa, introduzindo grupos unitários e ora-
ções; são unidades enfáticas com função textual que extrapolam as relações internas
da oração e constituem unidades textuais de situação:
"Erepito: não é meu" [ M A . l , 314].
3. *) A expressão enfática da conjunção aditiva e pode ser expressa pela série não só...
mas também e equivalentes.
Não só o estudo mas também a sorte são decisivos na vida.
Conjunções alternativas - Como o nome indica, enlaçam as unidades
coordenadas matizando-as de um valor alternativo, quer para exprimir a in-
compatibilidade dos conceitos envolvidos, quer para exprimir a equivalência
deles. A conjunção alternativa por excelência é ou, sozinha ou duplicada jun-
to a cada unidade:
"Quando a cólera ou o amor nos visita, a razão se despede" [MM].
A enumeração distributiva que matiza a idéia de alternância leva a que se
empreguem neste significado advérbios como já, bem, ora (repetidos ou não)
ou formas verbais imobilizadas como quer... quer, seja... seja. Tais unidades
não são conectores e, por isso, as orações enlaçadas se devem considerar justa-
postas.
OBSERVAÇÃO: "Cumpre lembrar que o par seja... seja não está de todo gramaticalizado,
tanto que, em certas construções, aparece flexionado. Sempre discordam de tudo,
sejam as discordâncias ligeiras, sejam de peso. Sempre discordavam de tudo, fos-
sem as discordâncias ligeiras, fossem as de peso" [AK. l , 68],
.5' f. ••
Conjunções adversativas - Enlaçam unidades apontando uma oposição
entre elas. As adversativas por excelência são mas, porém e senão.
Ao contrário das aditivas e alternativas, que podem enlaçar duas ou mais
unidades, as adversativas se restringem a duas. Mas e porém acentuam a opo-
sição; senão marca a incompatibilidade:
"Acabou-se o tempo das ressurreições, mas continua o das insurreições"
[MM].
322
Unidades adverbiais que não são conjunções coordenativas - Levada
pelo aspecto de certa proximidade de equivalência semântica, a tradição gra-
matical tem incluído entre as conjunções coordenativas certos advérbios que
estabelecem relações inter-oracionais ou intertextuais. É o caso de pois, logo,
portanto, entretanto, contudo, todavia, não obstante. Assim, além das con-
junções coordenativas já assinaladas, teríamos as explicativas (pois, porquanto,
etc.) e conclusivas (pois [posposto], logo, portanto, então, assim, por conse-
guinte, etc) , sem contar contudo, entretanto, todavia que se alinham junto
com as adversativas. Não incluir tais palavras entre as conjunções coordenativas
já era lição antiga na gramaticografia de língua portuguesa; vemo-la em
Epifânio Dias [ E D . l ] e, entre brasileiros, em Maximino Maciel, nas últimas
versões de sua Gramática [ M M a . l ] , Perceberam que tais advérbios marcam
relações textuais e não desempenham o papel conector das conjunções
coordenativas1, apesar de alguns manterem com elas certas aproximações ou
mesmo identidades semânticas.
Que esses advérbios não são conjunções coordenativas e desempenham
funções diversas prova-o o fato de poderem se compatibilizar, em exemplos
como:
Não foram ao mesmo cinema e, portanto, não se poderiam encontrar.
Ele e, portanto, seu filho são responsáveis pela denúncia.
"Não queremos pensar na morte, e por isso nos ocupamos tanto da vida"
[MM].
Cabe ao e, como conjunção, reunir num mesmo grupo oracional as duas
orações independentes do enunciado, enquanto portanto, como advérbio, marca
uma relação semântica com o que já foi dito. Poder-se-ia eliminar a conjunção
e e, então, teríamos uma coordenação assindética, caso em que haveria uma
pausa para marcar a fronteira das duas orações (marcada por vírgula ou ponto
e vírgula):
Não foram ao mesmo cinema; portanto não se poderiam encontrar.
Poder-se-ia também eliminar o advérbio:
Não foram ao mesmo cinema e não se poderiam encontrar.
Não sendo próprio do advérbio exercer o papel de conector, ele poderia
aparecer até numa oração subordinada, para marcar essa relação semântica
entre os dois enunciados:
"Nunca perdemos de vista o nosso interesse, ainda mesmo quando nos
incuicamos desinteressados" [MM].
Outra diferença entre as conjunções coordenativas e os advérbios (a que
poderíamos chamar textuais ou discursivos) é que só as primeiras efetivam a
coordenação entre subordinadas equifuncionais, isto é, domesmo valor (subs-
1 "(...) sem todavia influírem na ordenação das orações" [ED.l , § 195, obs.].
323
tantiva, adjetiva ou adverbial) e com a mesma função sintática:
Espero que estudes e que sejas feliz.
Como advérbios, que guardam com o núcleo verbal uma relação, em
geral, mais frouxa, esses advérbios podem vir em princípio em qualquer posi-
ção dentro da oração em que se inserem:
Eles não chegaram nem todavia deram certeza da presença.
Eles não chegaram nem deram, todavia, certeza da presença.
Eles não chegaram nem deram certeza da presença, todavia.
Também os advérbios não participam da particularidade das conjunções
coordenativas de constituírem um bloco unitário de enunciados coordenados
por sua vez coordenado a outro anterior [ C A . l ] :
Luís é vegetariano, mas [não come abóbora nem bebe chá].
Remetemos dois convites ao Paulo, mas [ou ele se mudou ou está doente].
Transpositorcs ou conjunções subordinativas - Já dissemos que o
transpositor ou conjunção subordinativa transpõe oração degradada ou subor-
dinada ao nível de equivalência de um substantivo capaz de exercer na oração
complexa uma das funções sintáticas que têm por núcleo o substantivo.
Falamos em oração complexa e chegou o momento de diferençá-la em
relação ao grupo oracional. Oração complexa é aquela que tem um ou mais
dos seus termos sintáticos sob forma de uma oração subordinada.
Esperamos [que todos venham ao baile],
em que a oração transposta pelo que exerce uma das funções comuns ao subs-
tantivo: objeto direto do núcleo verbal esperamos.
Já no grupo oracional temos orações coordenadas, independentes, e que,
por isso mesmo, podem ser usadas separadamente umas das outras:
Chegamos tarde e não assistimos a todo o filme, mas vimos o mais interes-
sante dele.
Chegamos tarde. Não assistimos a todo o filme. Vimos o mais interessante
dele.
f ' f
As conjunções e e mas não mSdificam p valor sintático das orações reu-
nidas; apenas indicam o tipo de relação semântica: adição (é) e contraste
(mas). •* j
Além do que transpositor,de oração ao nível de substantivo, chamado
conjunção integrante, e do que pronome relativo, que transpõe oração ao ní-
vel de adjetivo, a língua portuguesa conta com poucos outros transpositores:
a) Se que transpõe oração originariamente inteirogativa total, isto é, des-
provida de unidade interrogativa, ao nível de substantivo, cõnhecida, por isso
mesmo, como conjunção integrante, a exemplo do que anterior:
Ela não sabe [se terá sido aprovada].
322 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAI E SINTAXE _ J - w -AT ^. . „ V „
P6 do fie LftZCoS 3£ A2e,
Os exemplos 'a' e 'e' contêm orações adjetivas explicativas, que, em-
bora não contribuam para a identificação dos referentes de minha avó e
de meu primo, são, contudo, discursivamente importantes como respaldo
para o conteúdo dos predicados que se seguem. Repare-se que podemos
exprimir os conteúdos desses exemplos com variantes em que a informação
da oração adjetiva assume a feição de justificativas:
• Lamentei a morte de minha avó, pois ela amava muito a vida.
• Meu primo pode nos servir de guia, pois conhece bem a cidade.
14.12.4 Repetição e supressão de pronomes relativos
Pronomes relativos com um antecedente comum podem desempenhar a
mesma função sintática ou funções sintáticas diferentes. Com a mesma
função sintática, é comum que o pronome relativo seja suprimido na segun-
da ocorrência. Com função sintática diferente, o normal é a repetição do
pronome, sobretudo se u m deles vem precedido de preposição:
• "...analisando a si próprio e aos homens, Conrad sentiu os
limites dessa inteireza a que aspirava e que se esfuma a cada
passo numa 'linha de sombra'." [CÂNDIDO, 1964: 62)
• "A novela é como um fio invisível do qual poucos se orgulham
mas que perpassa a sociedade e aponta um universo de segre-
dos íntimos compartilhados." [SCHWARCZ, 1998: 484]
No exemplo abaixo, o pronome relativo foi suprimido em sua segunda
ocorrênoln, apesar de exercer função sintática distinta do primeiro. Isto pa-
rece possível apenas quando nenhum dos pronomes é regido de preposição.
O primeiro que é objeto direto e o segundo - suprimido - é sujeito.
• "(Andrew) Jackson (...) ganhou sua popularidade (...) e aca-
bou um senhor rural, dono de escravos, como os aristocratas
que desprezava e (que) o desprezavam." [VERÍSSIMO, L. F.
O Globo, 9/8/2007|
14.13 ORAÇÕES ADVERUIAIS
Uma matriz proposictonal pode ocorrer no texto sob a forma de um sintagma
adverbial, tradicionalmente oonhecido como 'oração adverbial'. A respecti-
va transposição é efetuada por uma conjunção adverbial, uma espécie de
palavra gramatical que, colocada antes de uma oração, forma com ela uma
unidade apta a um posicionamento flexível em relação à oração base: O ca-
chorro avançou no carteiro IO cachorro estava solto. O cachorro avançou
no carteiro quando estava solto - Quando estava solto, o cachorro avan-
çou no carteiro - O cachorro, quando estava solto, avançou no carteiro.
/ D É C I M O QUARTO C A P Í T U L O : O P E R Í O D O COMPOSTO
1/
323
As orações adverbiais típicas estão sujeitas a esse deslocamento em
relação à oração principal. Por serem sintatícamente acessórias, tornam-se
relevantes no discurso pela informação que acrescentam ao texto, ou, nou-
tros termos, pela importância que assumem na organização coerente ou
lógica do raciocínio. É por isso que certas relações se expressam por meio
tanto de conjunções subordinativas adverbiais quanto de conjunções coor-
denativas (ver 14.10). Algumas conjunções estão exclusivamente a serviço
da construção do raciocínio lógico, tanto que são conectivos característicos
dos textos dissertativos de opinião; outras indicam basicamente relações
circunstanciais próprias do discurso narrativo, mas podem assumir cumu-
lativamente papéis relacionados à construção do discurso de opinião. Os
sentidos expressos pelas orações adverbiais podem ser agrupados em qua-
tro tipos gerais: (a) relação de causalidade, (b) relação de temporalidade,
(c) relação de contraste, (d) relação de modo/comparação.
14.13.1 Causalidade
Do ponto de vista estritamente lógico, dois fatos se articulam pela relação
de causalidade se a realização de um deles depende ou decorre da realiza-
ção do outro. Desse modo, a causalidade é uma macrorrelação que se espe-
cifica por meio de quatro valores: causa, condição, conseqüência e finali-
dade. Está claro que a um deles se atribuirá valor de causa ou condição, e
ao outro o de conseqüência ou finalidade, visto que causa e efeito não são
idéias opostas, mas complementares. A associação causai entre dois dados
de nosso conhecimento é, obviamente, u m ato de percepção e de compre-
ensão, que podemos codificar de formas variadas na linguagem.
Nesta exposição, estou particularmente interessado na codificação por
meio de conectivos. Um exemplo: Passando pela rua já tarde da noite,
posso perceber que a luz da sala de meu vizinho está acesa e concluir: ele
ainda está acordado. Temos aí uma relação de causalidade entre dois da-
dos: a luz acesa (causa) e a vigília de meu vizinho (efeito). Essa relação de
causalidade é uma construção do raciocínio que reflete uma compreensão
da situação: a luz acesa me leva a fazer unia ihferência. Posso, então, dizer,
ou simplesmente pensar: Ele ainda está acordado, pois (já que, porque)
a luz da sala está acesa; ou, riuma formulação variante: Se a luz da sala
está acesa, ele ainda está acordado. Do ponto de vista do discurso, causa
ou efeito não é, portanto, um valor Inerente a um fato na sua relação com
o outro, mas uma possibilidade de seritidô segundo a necessidade de com-
preensão - e de verbalização - do evento que se está, testemunhando. 0
emprego do conectivo tem a função de explicitar esse valor, balizando a
compreensão da respectiva oração.324 QUARTA PARTE - MORFOLOGIA F L E X I O N A I E SINTAXE
14.13.1.1 Causa
A causa é indicada correntemente pelas conjunções porque, pois, como e
já que. Porque introduz a oração causai que vem após a principal; como
introduz a oração causai que precede a principal; j á que introduz a oração
adverbial colocada antes ou depois da principal:
• Decidimos voltar da festa a pé porque não havia mais ônibus
de madrugada.
• Como não havia mais ônibus de madrugada, decidimos voltar
da festa a pé.
• Já que as estradas estão interditadas, o socorro às vítimas
será feito com helicópteros.
• O socorro às vítimas será feito com helicópteros, já que as
estradas estão interditadas.
• "As comparações internacionais de salários são perigosas, já
que os tipos de contratos de trabalho variam enormemente."
[Folha de S.Paulo, 7/6/1998, 3° caderno, p. 1]
• "Ele (o morto) não podia ser deixado só, pois solitário tornava-
se presa fácil de maus espíritos." [ALENCASTRO, 1997: 114].
Obs.: Entre as conjunções causais, apenas porque pode ser precedida
de um vocábulo focalizador (ver 13.2.4) ou de realce como só, até, mesmo,
justamente e tc :
• Decidimos voltar da festa a pé justamente porque não havia
mais ônibus de madrugada.
• O socorro às vítimas será feito com helicópteros, até (ou mes-
mo) porque as estradas estão interditadas.
Nos registros formais, tanto orais quanto, principalmente, escritos,
empregam-se os conectivos visto que, visto como, uma vez que, dado que,
na medida em que, porquanto:
• O socorro às vítimas era feito através de helicóptero, •cisto
que (ou visto como) as estradas estavam interditadas.
• O socorro às vítimas era feito através de helicóptero porquan-
to as estradas estavam interditadas.
• "As expectativas mais otimistas no meio empresarial voltam-
se agora para a próxima reunião do Comitê de Política Mone-
tária, dado que as elevadas taxas de juros inibem a retomada
das vendas." [Jornal do Brasil, 15/2/1998]
• "O tema da raça é ainda mais complexo na medida em que ine-
xistem no país regras fixas ou modelos de descendência biológi-
ca aceitos de forma consensual." [MELLO e SOUZA, 1997:182]
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO! O PERÍODO COMPOSTO 325
Obs.: Posicionada antes da principal, a oração causai exprime um fato
que o locutor presume já conhecido do interlocutor. Sendo assim, esse tipo
de causa é utilizado como uma evidência que não fica sujeita à sua contes-
tação. Nesta posição, a oração adverbial atua como u m ballzador de com-
preensão (cf. 14.19):
• "Uma vez que não se saneavam os problemas em sua origem,
a derrubada dos cortiços e a interdição dos domicílios (...)
provocaram tão somente novos deslocamentos e a formação
de novos antros de miséria." [SEVCENKO, 1998: 107]
• "Visto que a cidade tinha se transformado num lugar de inte-
resse público (...), muitas pessoas tiveram de mudar não só
do local de residência, mas também as formas de diversão de
raízes populares e grupais." [DEL PRIORE, 1997: 226]
• "Uma vez que a política é a linguagem do nosso tempo, o artista
tem de sair de sua solidão criadora." [RODRIGUES, 1993: 226]
• "Posto que os criminosos de colarinho branco não são puni-
dos pelos tribunais, passam a ser pelos leitores e telespectado-
res." [VENTURA, Zuenir. O Globo, 4/7/2007]
14.13.1.2 Condição
A diferença entre a causa propriamente dita e a condição baseia-se numa
distinção de atitudes do enunciador em relação à 'realidade' da informação
contida na oração adverbial: a atitude de certeza se expressa com os co-
nectivos causais (porque, como, visto que, dado que) e normalmente com
verbos no modo indicativo; a atitude de incerteza, de suspeita, de suposição
se expressa com os conectivos de condição (se, caso, desde que, contanto
que, a menos que)e com verbos em geral no modo subjuntivo; o modo indi -
cativo ocorre em uma subclasse de orações iniciadas por se.
Ao contrário do campo da certeza, que é objetivo, o oampo da hipó-
tese é subjetivo, amplo e difuso. Por isso, há para a expressão da hipótese
uma gradação de matizes de sentido que cqmpreendem:
a) dados já conhecidos oq pressupostós (ver 4.5.6.2.3.2.2), expres-
sos por meio do modo indicativo:
• Se você sabia o cáminho, por que não nos ensinou?
• Se a casa tem três quartos, dá para abrigar todos nós.
b) fatos possíveis/proyáveis, expressos no futuro do subjuntivo:
• Se você souber de alguma novidade, telefone-me.
c) fatos remotamente prováveis, expressos no pretérito imperfeito
do subjuntivo:
• Se eles chegassem agora, ainda conseguiriam pegar o ônibus.
326 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAI. E SINTAXE
• "A figura de Ariano está aí, como sintoma da riqueza brasilei-
ra. Vivêssemos em um país apaziguado, e não lhe daríamos
atenção." [CASTELLO, José. O Globo, 16/6/2007]
d) situações irreversíveis, expressas por meio do pretérito mais-que-
perfeito do subjuntivo:
• Se eles tivessem chegado cinco minutos antes, teriam pegado
o ônibus.
A conjunção condioional típica é se. Ela geralmente introduz um fato
(real ou hlpotétloo) ou uma premissa, a que se associa uma conseqüência
ou uma inferência. Pode-se, assim, distinguir duas espécies de construções
hipotéticas com se:
a) aquelas que expressam a típica relação entre uma causa e um
efeito hipotéticos e apresentam correlação obrigatória entre o
tempo da oração subordinada e o da principal (neste grupo, se é
substttufvel por caso); e
b) aquelas que apresentam liberdade na combinação dos tempos
verbais e cuja oração principal contém uma inferência do que se
declara na oração subordinada.
Os conectlvos desde que, contanto que, com a condição (de) que são
de uso formal e, embora não tenham a variedade de sentidos expressa por
se, possuem um valor condicional contundente e impositivo:
• Vocês podem usar o salão para o ensaio, desde que deixem
tudo arrumado novamente.
• O senador aceitará o cargo de ministro, contanto que dispo-
nha de dinheiro para novos investimentos.
Para expr imir condição com a mesma contundência destes exem-
plos, a conjunção se tem de vir reforçada por palavras que acentuem sua
exclusividade:
• Vocês só podem usar o salão para o ensaio, se deixarem tudo
arrumado novamente.
• O senador aceitará o cargo de ministro somente se dispuser
de dinheiro para novos investimentos.
O conteúdo da oração condicional nem sempre expressa a causa h i -
potética do conteúdo da oração principal; em um enunciado como Se você
mudar de idéia, aqui está meu telefone, a oração condicional projeta uma
situação que legitima a mensagem implícita no conteúdo da oração princi-
pal: telefone-me.
DÉCIMO QUARTO CAPITULO: O PERlOOO COMPOSTO 327
A condição expressa pelos conectivos a menos que, a não ser que e exce-
to se é imperiosa. O enunciador se serve da oração condicional para indicar a
única situação capaz de reverter o que vem expresso na oração principal:
• O senador não aceitará o cargo de ministro, a não ser que
disponha de dinheiro para novos investimentos.
• "...não há velhice que nos detenha, a não ser que tenhamos,
por vontade própria, deixado de usar o cérebro." [MEDEIROS,
Martha. O Globo, 27/4/2008]
• "A advogada disse que seu cliente não tem nada o que fazer do
ponto de vista jurídico, a menos que o laudo técnico o respon-
sabilize nominalmente pelo desabamento do prédio." [/ornai
do Brasil, 19/5/1998]
• "Com certeza até o diabo terá que reciclar sua retórica neste
fim de século, a menos que depois de velho tenha virado um
anarquista capaz de encantar o Terceiro Mundo." [SPÍNOLA,
Noênio. Jornal do Brasil, 25/5/1998]
A conjunção se pode ocorrer com todos os tempos dos modos indica-
tivo e subjuntivo, exceto o presente do subjuntivo; as demais conjunções
condicionais só ocorrem com as formas do presente e do pretérito imper-
feito do subjuntivo.Construções hipotéticas iniciadas por se servem ainda para exprimir
a relação entre dois conteúdos que se contrapõem mas não se anulam, fun-
cionando o segundo como atenuação ou compensação do primeiro:
• "Se são justas as reivindicações das empregadas, também é
verdade que as donas de casa não são empresas." [O Globo,
17/5/1998]
• "Se a existência de espaços e de uma sociabilidade privada já
era difícil de ocorrer na Europa dos séculos XVI e XVII, mais
complicado era vê-los surgir na precária colônia portuguesa
da América." [ALENCASTRC?, 1997: 224]
• "Se nas dietas dos-italianos"dò Norte predominava a polenta,
no Sul contava-se basicamente com o pão de farinha de ceva-
da ou de centeio acompanhado de verduras ou cebolas cruas."
[SEVCENKO, 1998: 228]
• "É saudável que o novo ministro assuma com propostas que,
se não resolvem o problema e até reabrem polêmicas antigas,
ao menos permitem que se inicie uma reflexão mais aprofun-
dada." [Folha de S.Paulo, 14/4/1998]
328 QUARTA PARTE - MOREQLOGIA FLEXIONAI E SINTAXE
Às vezes estas construções vêm reforçadas por pares eorrelativos do
tipo por um lado... por outro, como na seguinte variante de um exemplo já
aqui apresentado:
• Se, por um lado, são justas as reivindicações das emprega-
das, por outro também é verdade que as donas de casa não
são empresas.
Recorrendo ao modo indicativo, o enunciador assume o conteúdo da
oração condicional como um fato.
14.13.1.3 Conseqüência
Conseqüência e finalidade são duas espécies de efeito. A expressão gramati-
cal típica da conseqüência se concretiza na conjunção que, ordinariamente
antecedida de uma expressão de intensidade:
• Estava tão cansado, que dormiu de sapato e tudo.
O verbo desta forma padrão da construção consecutiva fica geralmen-
te no modo indicativo
• Aquela equipe era tão boa que merecia o título de campeã.
mas assume forma subjuntiva se o verbo da oração base vier negado:
• Aquela equipe não era tão boa que merecesse o título de
campeã.
A preposição para e a conjunção para que - que sempre rege verbo no
modo subjuntivo - também assinalam simples efeito quando é impossível
perceber no conteúdo da oração principal um fato intencional, como nos
seguintes exemplos:
• "Bastou a primeira briga no pátio da escola para descobrir-
mos que soco de verdade não era como soco em filme." [VE-
RÍSSIMO, L. F. O G/060, 29/5/2008]
• "Basta uma simples chuva para que do Borel desçam tonela-
das de lixo e areia" [Jornal do Brasil, 16/2/1998]
Por sua vez, em enunciados como
• Você já está bem grandinho para precisar de uma babá.
ou
• Eles se empenharam muito para se contentarem com uma
simples menção honrosa.
DÉCIMO QUARTO CAPITULO: O PERÍODO COMPOSTO 329
o efeito, indicado pela preposição para, é objeto de censura ou de estra-
nheza do enunciador, que, na realidade, faz um comentário, que pode ser
parafraseado como conclusão: 'por isso, não devia/devitun...'.
A oração principal expressa, de fato, um argumento - você está bem
grandinho - contrário ao efeito - precisar de uma babá. Estas orações que
expressam efeito contingente ou não proposital, quando subordinadas, se
chamam consecutivas.
14.13.1.4 Finalidade
Também empregadas na expressão do efeito, as orações finais são as úni-
cas que podem preceder a oração base, o que faz delas autênticas orações
adverbiais. Elas expressam um efeito visado, um propósito, e nisso diferem
das consecutivas típicas, que expressam um efeito contingente:
• Estão trabalhando em dobro para compensar os dias parados.
• Para compensar os dias parados, estão trabalhando em dobro.
Somente as orações finais admitem a 'localização' por meio de só, ser
que, apenas:
• Eles só estão trabalhando em dobro para compensar os dias
parados.
• É para compensar os dias parados que eles estão trabalhando
em dobro.
Quando em forma finita, o verbo da oração final ocorre no modo
subjuntivo:
• Fechou as janelas para que o pássaro não fugisse.
O meio ostensivo de expressão adverbial da finalidade na língua cor-
rente é a preposição para. O uso de conjunções finais (para que, afim de
que, de maneira que, de molde a que) é bem menos freqüente:
• Fechou as janelas para o pássaro não fugir.
i f-.
O uso de para seguido de construção infinitiva é a prática corrente,
sobretudo quando a oração final e a oração principal têm o mesmo sujeito:
• Os jogadores interromperam a partida para socorrer o colega.
Compare-se o exemplo acima com este outro, cujas orações têm su-
jeitos distintos: \
• Os jogadores interromperam a partida para que o colega fosse
socorrido.
330 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAI E SIWTAXE
A identidade de sujeitos não impede, porém, o emprego de para que
quando o núcleo verbal da oração subordinada contém uma locução verbal:
• Subiu na mesa para que pudesse ver os artistas no palco.
• Entraram rápido no carro afim de que não fossem linchados
pela multidão.
14.13.2 Temporalidade
A temporalidade define a posição, na linha do tempo, do fato expresso pela
oração base. Essa linha - ou continuum temporal - pode ser segmentada em
três etapas ou intervalos - anterior, concomitante ou posterior - aptos a serem
preenohldos pelo fato ou situação expressos na oração adverbial. Exemplifi-
quemos com o par de matrizes proposicionais [Manuela, roupas, costurar]a
e [filha, dormir/adormecer]^, em que a corresponde à oração base e p ocupa,
na forma de oração adverbial, um intervalo na linha do tempo. Podemos ter:
• Manuela costurava roupas enquanto a filha dormia (em que a
e p são concomitantes).
• Manuela costurava roupas depois que a filha adormecia (em
que a é posterior a P).
• Manuela costurava roupas antes que a filha adormecesse (em
que a é anterior a P).
É grande a variedade de conectivos adverbiais para a relação temporal,
o que permite especificações refinadas da temporalidade (assim que, desde
que, até que, logo que, apenas):
• Saltou da cama assim que o despertador tocou.
• "Dario vinha apressado, o guarda-chuva no braço esquerdo
e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar..."
[TREV1SAN, Dalton. In: SALES, 1969: 243]
• Vivem nesta casa modesta desde que se mudaram para cá.
• Todos devem permanecer sentados até que a cerimônia termine.
• Ele despachará as malas logo que obtenha a permissão.
• Ela interrompeu a viagem apenas soube da morte do avô.
Assim que, logo que e apenas se eqüivalem na especificação da tem-
poralidade; desde que e até que indicam, respectivamente, os limites inicial
e final de um perourso. As diferentes especificações expressas por enquan-
to, depois que, assim que, logo que e apenas se neutralizam no uso de
quando, que é, de longe, a conjunção temporal mais freqüente:
• Ele despachará as malas quando obtiver a permissão, (depois
que, logo que, assim que, apenas)
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULOI O PERÍODO COMPOSTO 331
• Manuela costurava as roupas quando a filha estava dormindo
(enquanto).
Sempre que não especifica a ocasião, mas, à semelhança do advérbio
sempre, denota a freqüência ou regularidade de uma ação:
• Ele se hospedava naquele hotel sempre que ia a São Paulo.
Também aqui podemos usar quando :
• Ele se hospedava naquele hotel quando ia a São Paulo.
Com agora que introduz-se geralmente um fato que serve de argumen-
to para uma conclusão:
• Agora que você aprendeu o endereço, esperamos sua visita (cf.
Você já aprendeu o endereço; portanto, esperamos sua visita)
• "Agora que todos dizem que o CD está com os dias contados,
eu, que ainda guardo meus LPs, conclamo a todos que resis-
tam." [PAIVA, Cláudio. O Globo, 15/7/2007)
Obs.l: Quando é a conjunção temporal padrão, apta a exprimir uma
variedade de valores que, quando necessário, são especificados por outras
conjunções:
• Quando(= sempre que) chovia, as aulas tinham que ser suspensas
• Só saímos do cinema quando (- depois que) o temporal passou
Obs. 2: Exprimindo concomitância de dois fatos ou idéias, quando é
passível de substituição por enquanto e ao passo que, que se empregam
com valor muito semelhante ao das proporcionais (ver 14.13.3). Nesta si-
tuação de simultaneidade, freqüentemente o que sobressai é o caráter con-
trastivo dos fatos e idéias (ver 14.13.4), de modo que a relação temporal se
torna secundária ou mesmo se esvazia.
• "Eu digo que muito veículo/pçrece estar conduzindo passa-
geiros apanhados ào acaso, quando na verdade estão levando
verdadeiras combinações de passageiros." [MACHADO, 1957:
211-212]
• "Enquanto a Espanha dobra a população com o ingresso de
turistas nas temporadas,("), o Brasil recebeu apenas 2,3 mi-
lhões de estrangeiros em todo o ano de 96." [Jornal do Brasil,
16/3/1998]
• "Meu pai era um sonhador, minha mãe uma realista. Enquan-
to ela mantinha os pés firmemente plantados na terra, ele se
332 QUARTA PARTE - MORFOLOGIA FLEXIONAL E SINTAXE
deixava erguer no balão iridescente de sua fantasia..." [VE-
RÍSSIMO, E. 1974: 33J
• "No hemisfério conhecido, Europa e África ocupam sempre
a metade inferior, ao passo que a Ásia se situa acima dos de-
mais continentes." [HOLLANDA, 1977]
14.13.3 Proporção
A proporção é, a rigor, uma especificação da temporalidade. Consiste no
desenrolar paralelo de dois fatos, entre os quais pode haver uma relação de
causa e efeito. As conjunções proporcionais mais comuns são à medida que
e à proporção que. Também são comuns as variantes à medida em que e
na medida em que :
• A medida que se aproxima o verão, a cidade recebe mais
turistas.
• Os moradores retornavam à cidade à proporção que os gafa-
nhotos eram exterminados.
• "A seca que castiga de forma inclemente o Nordeste é real
e tende a piorar à medida que os efeitos da perda da safra
se fizerem sentir nos próximos meses." [Jornal do Brasil,
9/5/1998]
• "À medida que D. Pedro se identifica com os anseios brasilei-
ros (...), no Rio Grande do Sul o sentimento a favor da inde-
pendência cresce." [PICCOLO, Helga. In: MOTA, 1972: 365]
• ccPouco a pouco, à medida em que vão sendo retiradas as res-
taurações anteriores (...), vão se revelando detalhes desco-
nhecidos." [Jornal do Brasil, 11/5/1998]
• "A autoridade moral que as mulheres exerciam dentro de casa
era o sustentáculo da sociedade e se fortalecia na medida em
que o lar passava a adquirir um conjunto de papéis de ordem so-
cial, política, religiosa e emocional." [DEL PRIORE, 1997: 454]
Obs.: Nos textos dissertativos, sobretudo com caráter argumentativo,
é comum que a noção de causa-efeito sobressaia em relação à de parale-
lismo; neste caso, a locução na medida em que passa a indicar a razão ou
justificativa do que se declara na oração principal:
• "A maior vinculação à política mercantilista afetou a sobre-
vivência das línguas gerais, na medida em que implicava um
aumento da participação de indivíduos de origem portugue-
sa e africana no conjunto da população." [ALENGASTRO,
1997: 338]
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO! O PERÍODO COMPOSTO 333
14.13.4 Contraste
Distinguiremos o contraste adversativo e o contraste conoessivo. Estabele-
ce-se o contraste adversativo - que assim chamo por tratar-se de variante
das estruturas adversativas (ver 14.10.3) - por melo da conjunção sem que
seguida de oração no modo subjuntivo ou da preposição sem seguida de
infinitivo, ambas de valor necessariamente negativo:
• Ele saiu da sala sem que dissesse uma única palavra, (cf. Ele
saiu da sala, mas não disse uma única palavra.)
• O policial prendeu os assaltantes sem que desse um só tiro.
• Ela viajou pelo interior do país sem que fosse necessário gas-
tar um centavo.
• "Mais de um terço do que se paga com o uso do telefone vai
para os cofres estaduais sem que o estado tenha, no entanto,
qualquer responsabilidade, interferência ou participação nes-
se tipo de serviço." [O Olobo, 29/3/1998]
• "Nessa época, o adensamento de populações nas grandes ci-
dades ocorreu sem que houvesse uma correspondência na ex-
pansão da infraestrutura citadina e na oferta de empregos e de
moradias." [SEVCENKO, 1998: 91]
Assim como o uso de para na expressão da finalidade (cf. 14.13.1.4),
também a preposição sem tem preferência sobre a locução sem que na lín-
gua corrente quando as duas proposições têm o mesmo sujeito:
• Ele saiu da sala sem dizer uma palavra.
• O policial prendeu os assaltantes sem dar um só tiro.
Na variante concessiva da expressão contrastiva, um certo fato ou
idéia é representado como um dado irrelevante para o conteúdo do restan-
te do enunciado:
• O lutador derrubou todos os seus adversários embora fosse
magrinho. / /
• Embora os bombeiros agissem com rapidez, o incêndio amea-
çava destruir toda a floresta.
• "Embora as aves da China não estejam mais proibidas, os
consumidores continuam optando por produtos importados
com medo da gripe do frango." [Jornal do Brasil, 10/2/1998]
No primeiro exemplo, o aspecto físico do lutadbr - que pelo senso
comum seria determinante de seu desempenho - perde tal importância
e é informado como conteúdo de uma oração concessiva; no segundo, a
334 QUARTA PARTE - MORfQLOCIA FLEXIONAI E SINTAXE
ação rápida dos bombeiros é retratada como um dado irrelevante para o
que se diz na segunda parte do enunciado; no terceiro exemplo, por fim, a
suspensão da proibição das aves nacionais é irrelevante para a opção dos
consumidores chineses.
A conjunção/locução prepositiva concessiva esvazia a força causai ou
argumentatlva do fato que ela anuncia, de modo que o conteúdo da oração
principal passa a representar o contrário do que se espera.
Ainda que, mesmo que, ainda se, mesmo se
A relação conoesslva é correntemente expressa pela locução prepositiva apesar
de e pela conjunção concessiva embora, que introduzem sempre uma informação
vista como fato real. A representação da concessão como hipótese ou irrealidade
costuma ser feita por meio de ainda que, mesmo que, mesmo se, ainda se:
• "...ele prefere ser lançado contra as pedras, ainda que se ar-
rebente todo." [BRAGA, 1963a: 52]
• "Desastres naturais como este costumam ser frutos de impre-
vidência acumulada, fica difícil fixar a culpa, mesmo que se
identifique o autor de uma fagulha específica." (VERÍSSIMO,
L. F. Jornal do Brasil, 28/3/1998]
• "Na Grécia antiga (...) poeta e adivinho têm em comum o dom
da vidência, mesmo que sejam emblematicamente cegos."
[W1SNIK, José Miguel. In: NOVAES, 1988: 284]
• "No Rio, em seis meses (um policial) já é considerado apto a en-
frentar bandidos, mesmo se não tiver disparado um único tiro
na academia, por falta de balas." [Jornal do Brasil, 26/5/1998]
Não é raro o emprego de ainda que introduzindo fato:
• "Ainda que boa parte da carreira tenha sido dedicada ao judô,
Hermanny conta que um dos fatos mais marcantes de sua car-
reira foi a participação na equipe de preparadores físicos da
seleção brasileira de futebol, de 1964 a 1966." [MARINHO,
Antônio. Revista O Globo, 15/7/2007]
É comum que a hipótese contida na oração concessiva se refira a um
obstáculo incapaz de impedir que se realize o que vem expresso na oração
principal:
• Conseguirei os ingressos para a decisão do campeonato, ain-
da que tenha de dormir na fila.
• A polícia tinha decidido entrar na fortaleza, mesmo se fosse
preciso dinamitar a porta de aço
OÉCIMO QUARTO CAPITULO! O PERlODO COMPOSTO 335
Por mais que, por muito que, por pouco que, por pior que etc.
Estas locuções trazem embutida uma expressão intensiva, que é o foco da
concessão. Elas são empregadas quando parte do conteúdo da oração con-
cessiva é passível de quantificação ou de gradação:
• "A culpa desta tragédianão é do seu governo, por mais que se
critique sua demora em dar-se conta dela." [VERÍSSIMO, L. F.
Jornal do Brasil, 28/3/1998]
• "Por maior que tenha sido a paixão inicial [....], a simples
assinatura do contrato já muda tudo." (GULLAR, Ferreira. In:
SANTOS, 2007: 280]
• Por pouco que tenha chovido nos últimos dias, já temos espe-
rança de não perder as sementes.
Qualquer que, onde quer que
Trata-se de um pronome indefinido e de um advérbio que eventualmente enca-
beçam orações adverbiais. O caráter concessivo dessas orações está em que elas
exprimem a ausência absoluta de restrições ao conteúdo da oração principal:
• Esse cachorro me acompanha aonde quer que eu vá.
• Qualquer que seja o resultado da partida, os torcedores'vão
comemorar.
Se bem que
Eqüivale a embora. Geralmente precedida de pausa, que na escrita é assina-
lada com vírgula, esta conjunção emprega-se para introduzir uma ressalva e
tem a peculiaridade de poder ocorrer com verbo tanto no modo subjuntivo
quanto no indicativo:
• "Vou ganhar uma bermuda e um par de sandálias, se bem que
minhas camisas de ir à Academia estão uma vergonha." [RI-
BEIRO, J. U. O Qlobo, 8/7/1999]
• "Comparar a vida a um filme não é dizer, como quer o clichê,
que a vida imita a arte, se bejn que exista um fundo de verda-
de nisso." [Jornal do Brasil', 14/4/1999]
• "As mulheres e homens da esquerda alemã, se bem que vives-
S§m até certo ponto o mesmo processo de negação do corpo,
resplandeciam naquele verão." [GABEIRA, 1981b: 113]
Não obstante, nada obstante, conquanto, posto que
Significam o mesmo que embora, mas são expressões conectivas praticamen-
te restritas a usos acadêmicos formais, como os discursos solenes e os textos
jurídicos. Os dois primeiros são advérbios conjuntivos. Os dois últimos são
336 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAL E SINTAXE
conjunções subordinativas adverbiais. Um detalhe, porém é notável: é cada
vez mais comum na variedade escrita contemporânea o emprego de posto
que com valor causai, haja vista o célebre verso do "Soneto de Fidelidade",
de Vinícius de Moraes: "Que não seja imortal, posto que [= já que] é cha-
ma"). A propósito, veja outro emprego de posto que causai em 14.13.1.1
14.13.5 Um par à parte: adição e preterição
Adição e preterição são os conteúdos adverbiais expressos pelas locuções pre-
positivas além de e em vez delem lugar de, respectivamente. Além de estabe-
lece a mesma relação expressa pela dupla não só...como/mas também:
• Além de xingar o adversário, desafiou-o para um duelo.
Com em vez de pretere-se ou descarta-se algo:
• Em vez de chutar em gol, preferiu passar a bola.
A natureza adverbial dessas construções é comprovada pela possibili-
dade de deslocamento:
• Desafiou o adversário para um duelo além de xingá-lo.
• Preferiu passar a bola em vez de chutar em gol.
• ' Em lugar de retirar os obstáculos, de instituir o facilitário, é
melhor ensinar as crianças a vencê-los e a serem recompensa-
das por isso." [VENTURA, Zuenir. O Globo, 23/5/2007]
• "Por que o burrinho teimava em ficar naquele sol queimando em
vez de ficar agasalhado na sombra?" [DOURADO, 1973: 53]
14.14 QUALIFICAÇÃO, QUANTIFICAÇÃO E ORAÇÕES MODAIS
Esta seção tem um lugar à parte em função das peculiaridades das respectivas
estruturas, como se verá. Uma 'ação' (caminhar), 'um processo' (brotar) ou um
'estado' (macio) são conceptualizações passíveis de quantificação (caminhava
pouco; brotou em excesso; assento muito macio), ou de qualificação (cami-
nhava elegantemente; brotava raramente; assento surpreendentemente
macio). A 'qualificação' de verbos é ordinariamente opcional, com raras exce-
ções, como o verbo passar (João passou bem após a cirurgia). Já a 'quantifi-
cação' é sempre acessória, seja junto a verbos, a adjetivos ou a substantivos.
A 'qualificação' apresenta uma subdivisão de sentidos: meio (Ia para
o trabalho de bicicleta), instrumento (Cortou o papel com um canivete),
medida (Comprou bananas a quilo), companhia (Sempre passeava com o
cachorrinlvo), freqüência (Saia raramente de casa), modo (O balão caía
lentamente). 'Quantificação' e 'qualificação' se imbricam por influência do
conteúdo, por si intensivo, de certos adjetivos (Era monstruosamente feio/
Falou energicamente com o filho).
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO! O PERÍODO COMPOSTO 337
A 'qualificação' e a 'quantificação' também podem ser construídas a partir
de matrizes proposicionais, dando origem a 'orações subordinadas' adverbiais
modEiis e comparativas: Conhecia as árvores da floresta como (conhecia) o
palma da própria mão. Neste exemplo temos uma qualificação comparativa
(cf. Conhecia as árvores da floresta muito bem/melhor do que seus com-
panheiros). A expressão verbal da qualificação pura, de base não comparati-
va, utiliza comumente gerúndios (Enriqueceu comercializando antigüida-
des) ou infinitivos precedidos da preposição sem (Saiu sem se despedir). Por
serem formas de expressão de polaridade negativa (ver 4.4), as construções
do tipo sem + infinitivo implicam sempre algum subentendido (no caso deste
exemplo, a idéia de que, em nossa cultura, as pessoas costumam despedir-se
quando se ausentam). Assim, a oração modal de Prendeu os assaltantes sem
que desse um só tiro extrai sua relevância informativa da idéia corrente de
que, nessas ocasiões, é habitual a polícia atirar. Estas informações pertencem
ao domínio dos 'implícitos e subentendidos' (ver 4.5.6.2.3.2.2), às vezes mais
decisivos para a construção dos sentidos do que as partes explícitas.
14.14.1 Comparação
As frases Paulo parecia um gato quando pulou o muro, Seu (= de Paulo)
modo de pular o muro lembra um gato, Paulo usou uma habilidade felina
para pular o muro e Paulo pulou o muro como um gato são todas compara-
tivas quanto à seleção vocabular, quanto à intenção e quanto ao sentido, mas
só na última a comparação é expressa por um recurso tipicamente gramatical:
a conjunção como. Temos nesse exemplo o que chamamos tradicionalmente
uma 'oração subordinada comparativa': como um gato (pula um muro).
Estes quatro exemplos seriam suficientes para demonstrar que o racio-
cínio comparativo se materializa numa grande variedade de formas. O ato de
comparar permeia boa parte das atividades de reconhecimento e compreen-
são de tudo o que está à nossa volta, porque em geral tentamos enquadrar o
novo e desconhecido em categorias já conhecidas. Tomemos o exemplo em
questão: fala-se aí do pulo de alguém. Não há novidade no fato de pessoas
pularem; a novidade está na agilidade, na çlesjreza com que o pulo foi reali-
zado por um ser humano. Essa novidade ê então concebida e expressa nos
termos de algo já assentado erp nosso conhecimento de mundo: a notória
agilidade/habilidade do gato. Aí está a essência do processo comparativo em
geral, bem como da criação de certas metáforas55 (ver 18.9 e 18.10).
Em sua realização mais explícita, o raciocínio comparativo opera com
quatro elementos: o termo comparado (a), o termo comparante (b), o objeto
da comparação (c) e o produto informado (d). Em nosso çxemplo, Paulo é 'a',
gato é 'b' e pular é 'c'. O que chamo 'produto informado' é, no caso, a igual-
5 5 Cf. LAKOFF e JOHNSON [2002].
338 QUARTA PARTE - MORTOLOCIA FLEXIONAI E SINTAXE
dade com que o objeto da comparação é percebido em 'a' e 'b'. Do ponto de
vista da interação, porém, o mais importante é o efeito de sentido, a informa-
ção que o próprio enunciador trata como prioritária: a agilidade/habilidade
do termo comparado. Esta informação pode estar explícita, mas comumente
é produzida por inferência, daí sua força argumentativa36 (ver 4.5.5.3).
Podemos distinguir quatro tipos de comparação expressos por meio de
conectivos: comparação modal, comparação intensiva, comparação assimi-
lativa e comparação conformativa.
14.14.1.1 Comparação modal
O instrumentosintático típico da comparação modal é a conjunção como:
Ela nadava como um peixe, Jogou hoje como em seus melhores dias, Cor-
tei as batatas como você pediu: em cubos. Um tipo especial de comparação
modal é a que se expressa mediante a conjunção composta como se, segui-
da-de verbo no pretérito (imperfeito ou mais-que-perfeito) do subjuntivo
(comparação hipotética). Com ela indica-se que o conteúdo da oração com-
parativa é tomado como coisa irreal ou hipotética:
• O santo falava aos pássaros como se estes o entendessem
• Passado o susto do acidente, o sapateiro voltou ao trabalho
como se nada tivesse acontecido.
• "Tudo se passa como se ele estivesse sendo impelido a atuar como
porta-voz dos milhões de brasileiros destituídos que assistem seu
programa." [Sérgio Miceli. Folha de S.Paulo, 13/4/1998]
• "Estamos acostumados a falar em 'cultura brasileira', assim,
no singular, como se existisse uma unidade prévia que agluti-
nasse todas as manifestações materiais e espirituais do povo
brasileiro." [BOSI, 1992: 308]
14.14.1.2 Comparação intensiva e comparação assimilativa
Normalmente utilizamos a construção sintática da comparação para quan-
tificar uma propriedade comum a dois ou mais objetos (comparação in-
tensiva). Neste caso, tanto se pode destacar a igualdade da quantificação
- expressa por meio de tanto/tão ... quanto - como a diferença - expressa
por melo de mais/menos ...do que. Por isso é que a comparação pode ser:
a) de igualdade (O cachorro é tão esperto quanto o gato, O leopar-
do corre tanto quanto o leão).
b) de superioridade (O cachorro é mais esperto do que o gato,
O leopardo corre mais do que o leão).
c) de inferioridade (O cachorro é menos esperto do que o gato,
O leão corre menos do que o leopardo).
" P a r a u m a abordagem a r gumenta t i va da comparação, ver VOOT |1977].
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO! O PERÍODO COMPOSTO 339
Pode acontecer, no entanto, que a comparação de igualdade não se re-
fira à quantificação da propriedade comum aos conteúdos comparados, mas
apenas à semelhança existente entre eles (comparação assimilativa):
• "Como costuma ocorrer com as celebridades genuinamente
inimitáveis, Zózimo Barroso do Amaral acabou copiado no
Brasil inteiro por colunistas sociais." [SÁ CORRÊA, Marcus.
Veja, 26/11/1997]
Esta forma de comparação é construída geralmente por meio da con-
junção como, precedida ou não do advérbio assim, e expressa uma relação
semântica e sintática muito próxima da coordenação aditiva (ver adiante):
• Fernando trabalhava no corte de cana, (assim I bem) como a
maioria dos jovens de sua idade
Algumas vezes, a comparação assimilativa é expressa por meio das
locuções da mesma forma que e tanto quanto:
• "Da mesma forma que se acabou com a escravidão por mo-
tivos econômicos, vamos ter de acabar com a ignorância
para sobreviver numa economia globalizada e cada vez mais
competitiva." [DIMENSTE1N, Gilberto. Folha de S.Paulo,
7/6/1998]
• "Pensar na censura como solução (para a permissividade do con-
sumo) é nocivo, tanto quanto achar que o mercado deve decidir
a questão." [VENTURA, Zuenir. Jornal do Brasil, 6/6/1998]
• "Hoje é comum encontrar nos terreiros de candomblé ima-
gens de santos com nomes de orixás, da mesma forma que o
atabaque e o berimbau se incorporaram às festividades cató-
licas." (Veja, 1/7/1998]
A presença das locuções da mesma forma que e assim como no início
do período pode ser reforçada pelos advérbios assim ou assim também na
oração principal:
• "Da mesma formq que o negro passou a ser visto como um
ser a-histórico, assim também passaram a ser vistas suas ma-
nifestações, seus padrões de organização, suas velhas tradi-
ções." [SEVGBNKO, 1998: 97]
A oração comparativa tende a ser uma construçãò elíptica, uma vez
que as partes do significado da frase que ela e a oração principal têm em
comum só vêm explícitas na principal: |
340 QUARTA PARTE - MORFOLOCIA FLEXIONAL E SINTAXE
• "A chama do pavio tanto depende do azeite que a alimenta
quanto do vento que pode apagá-la." (isto é: quanto depende)
(MACHADO, 1957: 83]
• "Nenhum outro acontecimento científico teve tanta repercus-
são no ano passado quanto a clonagem de Dolly." (isto é: quanto
a clonagem de Dolly teve repercussão) [VEJA, 11/2/1998]
• "Nem todos acreditam que o risco de falta de energia seja IâQ
baixo no próximo século quanto estima a Eletrobrás." [Jornal
do Brasil, 30/3/1998]
• Este mês o botijão de gás durou menos do que no mês passado
(isto é: do que durou no mês passado)
• "O afastamento do gramado deixou evidente que o problema
do jogador era mais crônico do que supunham os leigos." (isto
é: do que os leigos supunham que era crônico) [Jornal do Bra-
sil, 3/6/1998]
• "A indústria brasileira passa por uma ducha de renovação como
nunca se v iu. " (isto é: como nunca se viu a indústria brasilei-
ra passar por uma ducha de renovação) [VEJA, 11/2/1998]
Em muitos casos, a elipse produz uma construção análoga à de uma
estrutura coordenada:
• "Os jornais brasileiros começaram a mudar de formato na se-
mana passada, despertando mais discussões no meio jornalís-
tico do que críticas dos leitores." [SPINOLA, Noênio. Jornal do
Brasil, 11/7/1999]
Neste exemplo, a concatenação correlativa introduz dois objetos dire-
tos: discussões e críticas.
14.14.1.3 Comparação conformativa
O valor assimilativo da conjunção como é o que permite estabelecer uma
comparação entre dois fatos, indicando que o conteúdo da oração subor-
dinada é confirmado pelo conteúdo da oração principal. Com este valor, o
como, sempre substituível por conforme, introduz uma oração conformati-
va, que ordinariamente reporta um ato comunicativo:
• A equipe conquistou o título, como (ou conforme) prometeu
seu técnico.
• "O papel do marido de provedor da família, com o direito a
autorizar ou não o trabalho da mulher fora do lar, conforme
determinavam as leis vigentes no começo do século, levou a
dependência econômica da esposa a ser não apenas estimula-
da, mas sobretudo bem-vista." [SEVCENKO, 1998: 415]
DÉCIMO QUARTO CAPITULO: O PERÍODO COMPOSTO 341
Nos registros formais, especialmente na modalidade escrita, também
se empregam com este valor os conectivos segundo e, mais raramente,
consoante:
• "Heitor Vila Lobos, segundo nos informa a direção do es-
tabelecimento, costumava hospedar-se aqui." [RIBEIRO, J. U.
O Globo, 29/3/1998]
• Para curar-se de uma úlcera, minha tia se submeteu a uma
dieta rigorosa durante dez meses, consoante lhe prescrevera
o velho médico da família.
Por serem também preposições acidentais, conforme, consoante e se-
gundo ocorrem normalmente seguidos de substantivos que expressam atos
comunicativos ou que designam entidades envolvidas nesses processos (con-
forme a promessa, consoante o regulamento, segundo o entrevistado).
14.15 O INFINITIVO
O infinitivo ocorre em duas posições principais: em locuções verbais, arti-
culado a um verbo auxiliar responsável, entre outras coisas, pela indicação
do tempo da oração (Ela pode sair agora/Não pude chegar mais cedo),
e como base de um sintagma nominal, atuando com funções próprias do
substantivo (Ela desistiu de viajar/Navegar é preciso). Referido a seu su-
jeito sem a mediação de verbo auxiliar, o infinitivo pode sc flexionar em
número e pessoa segundo as regras de concordância verbal.
O sujeito do infinitivo pode:
a) estar claro:
• "Enquanto não houver regras rígidas para as alterações em
carros feitos aqui, o governo continuará culpado por serem 2 5
carros brasileiros piores e muito mais caros que seus simila-
res estrangeiros." [O Globo, 15/9/2007]
b) estar oculto, mas indicado na desinência verbal:
• "Inútil querermos destruir a ordem natural." [RAMOS, 1981b:
100] l
c) estar indeterminado:"
• "Percorrer essas fotografias é comomergulhar no registro vir-
tual da memória familiar." [SEVCENKO, 1998: 457]
d) estar suprimido (cancelado) mas recuperável:,
• "Escapamos da vida ao escapar (sujeito nós suprimido) para
fórmulas narrativas concisas, dentro das quais quase todo en-
tretenimento vem embalado." [Jornal do Brasil, 4/12/1999]
5 SINTAXE Í$ÚJÜHA g g e CA/<úye)
Coordenação de orações
Diferente é o processo de coordenação, em que duas orações,
ambas tomadas em sua totalidade, se relacionam entre si. Pode-
ríamos concluir que só por coordenação é que temos, na realidade,
uma relação entre orações, e que só é composto o período em que
há orações coordenadas.
Diz-se comumente que a coordenação relaciona orações in-
dependentes, e que o nexo entre elas é apenas lógico, com as va-
riantes semânticas das conjunções, Ê muito pobre tal asserção;
em primeiro lugar, porque abdica da sintaxe em favor da lógica;
em segundo lugar, porque relações lógicas a subordinação tam-
bém estabelece (causalidade, condicionalidade, conseqüência, tem-
poralidade). Sintaticamente, o que devemos ver é que na coor-
denação os functivos são duas orações; e, na subordinação, são
uma oração e um termo de oração.
Há mais coisas a dizer sobre a coordenação de orações —
mas esse é o começo de uma outra história. Por enquanto, bas-
ta-nos o que foi dito.
Subordinação de orações.
A oração subordinada não se articula com outra oração, con-
siderada esta em sua totalidade; ela contrai uma relação de depen-
dência com um termo de outra oração. A í está um momento
sui generis da estruturação sintática: a constituição de um par de
functivos em que um elemento de nível inferior (um termo de
oração) é o functivo central a que se articula, como marginal, um
elemento de nível superior (uma oração). Para que ocorra essa
aparente ruptura da hierarquia, a oração subordinada precisa pas-
sar por um processo que podemos chamar de miniaturização, que
lhe permite tornar-se um membro de outra oração. Preserva-se,
com essa operação, o princípio da homogeneidade dos functivos.
E m última instância, as duas orações são uma só, pois a subordi-
nada passa a ser apenas um termo de oração, embora conserve,
internamente, sua estrutura oracional. N ã o é por outro motivo
que Galichet1 7 propõe chamar tal período de complexo, reservando
a denominação de composto para aquele em que ocorre a coorde-
nação de orações.
Os instrumentos gramaticais que subordinam orações (pro-
nomes relativos e conjunções subordinativas) cumprem, portanto,
uma tarefa bastante complexa:
• miniaturizam a oração com que se articulam;
• operam a translação de segundo grau, impondo a essa oração
um comportamento de substantivo, adjetivo ou advérbio;
• como gramemas exofóricos, voltam-se para o exterior e inserem
sua oração em determinado ponto de outra.
1 7 GALICHET, Georges. Grammaire structurale du français maderne. Paris,
Hatier, 1971. p. 176 e 186-7.
Governados pelas palavras
W m a Flip (Festa Literária Internacional de Pa-
• C/ raty), tudo remete à palavra - a linguagem
verbal. Este ano não foi diferente. Escritores, leito-
res, organizadores, livreiros, editores, jornalistas,
vendedores de cachorro-quente e engolidores de
fogo, e até os visitantes para quem a festa é apenas
uma festa, todos estiveram lá por causa da palavra. 0
que é um alívio num mundo asfixiado por excesso de
imagem e ruído.
As mesas de debates, atração maior do evento,
são cerimônias da palavra. Nelas discutem-se idéias
e informações, mas, neste fim de semana, algumas
veicularam também emoção. 0 mesmo acontece nas
palestras paralelas, extra-Flip, às vezes mais pessoais
e calorosas do que as da programação oficial. Não faz
diferença - as palavras servem para produzir beleza
ou inquietação
Foram elas que governaram os encontros de rua
entre os escritores e seus fãs, a resultar nos autógra-
fos assinados em qualquer lugar, as livrarias duras de
gente; os "pés de livros", árvores de cujos galhos pen-
diam livros para crianças; os jovens que tomaram as
praças declamando prosa ou poesia; e a própria edu-
cação pela pedra que significa andar por Paraty - seu
calçamento nos ensina onde e como pisar.
Num daqueles dias, fui acordado pelo som in-
confundível de uma máquina de escrever nas proxi-
midades - tec tec tec, tec tec tec. E m Paraty, a idéia
de alguém datilografando àquela hora não parecia
absurda. T i n h a até um ritmo peculiar: cinco ou seis
tec-tecs e silêncio; outros tec-tecs e novo silêncio. 0
impressionante é que alguém ainda estivesse usando
uma máquina de escrever, objeto, como se sabe, ex-
tinto.
Espiei pela janela. Ninguém à vista, exceto dois
passarinhos, tipo rolinhas gigantes, num galho da
árvore no quintal. Perguntei a Carmen, caseira da
pousada, sobre o tal datilografo. Ela disse: "Não existe.
Quem faz esse tec-tec é a trocai, uma pomba da mata."
Ah, bom, estava explicado. E não me decepcionei. Ao
contrário. T i n h a de ser em Paraty, onde até os passari-
nhos parecem escrever.
UERJ - DL • LP fll
Prof. André Valente
Aluno(a): _ _
2* prova
1) Por que, hoje, ainda há (ou não há mais) necessidade de uma nomenclatura
gramatical uniforme no ensino de língua portuguesa nos níveis fundamental e
médio? (Cláudio Cezar Henriques, in "Nomenclatura Gramatical Brasileira: 50
anos depois")
2) A oragao grifada no período "A jovem saiu com quem lhe inspirava confiança"
pode apresentar duas leituras no plano sintático: uma não tem abrigo na NGB;
outra nela encontra apoio. Comente as duas possibilidades sintáticas:
a)
b)
CAPÍTULO CXXVI I .O B A R B E I R O , ín DOM CASMURRO,Machado de A s s i s Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a rabeca e não tocava inteiramente mal. Na ocasião em que ia passando, executava não sei que peça. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado), ele viu-me, e continuou a tocar. Não atendeu a um freguês, e logo a outro, que ali foram, a despeito da hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras à navalha. Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando para mim. Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja, voltado para ele. Ao fundo, levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma moça trigueira, vestido claro, flor no cabelo. Era a mulher dele; creio que me descobriu de dentro, e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido. Se me não engano, chegou a dizê-lo com os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses, grudava a face ao instrumento, passava a alma ao arco, e tocava, tocava... Divina arte! Ia-se formando Um grupo, deixei a porta da loja e vim andando para casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estréprto. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar ligado a um riiomento grave da minha vida, ou por esta máxima, que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos compêndios de escola. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca. Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquela noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser ouvido de um transeunte. Supõe agora que este, em vez de ir-se embora, como eu fui, ficava à porta a ouvi-lo e a namorar-lhe a mulher; então é que ele, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina arte!
— Meu senhor! - gemia o outro.
Cala a boca, besta! - replicava o vergalho.
moleque Prudêncio, o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-
se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
— Fez-te alguma cousa?
CAPITULO LXVHI / O VERGALHO 4
TAIS ERAM as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois
de ver e ajustara casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava '
outro na praça. O outro não se atrevia a fugir, gemia somente estas únicas palavras: <i
"Não, perdão meu senhor; meu senhor, perdão!" Mas o primeiro não fazia caso, e, a u
cada súplica, respondia com uma vergalhada nova. ^
— Toma, diabo! - dizia ele. - Toma mais perdão, bêbado! *
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Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu ^
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— É rim, nhonhô 4
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— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto 4
eu ia lá embaixo na cidade, e de deixou a quitanda para ir na venda beber. 4
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— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado. 4
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Sai do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui ^
caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido;
aliás, seria matéria para um bom capitulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos 4
alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só 4
exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio, achei-lhe um miolo <g
gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das —
pancadas recebidas - transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe Uth
freio na boca e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era 4
livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, 4
desagrilhoado da antiga condição, agora é que de se desbancava: comprou um escravo, ^
e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas
do maroto! '
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(Machado de Assis, in "Memórias póstumas de Brás Cubas") ^
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— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.