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* OS HERDEIROS DA MODERNIDADE * A FENOMENOLOGIA * Movimento filosófico inaugurado por Husserl e desenvolvido na França e na Alemanha. Uma das principais correntes do pensamento do séc. XX. O termo “fenomenologia” foi inicialmente utilizado pelo filósofo e matemático alemão do séc. XVIII Johann Lambert para caracterizar a “ciência das aparências” e empregado posteriormente por Hegel em sua “ciência da experiência da consciência”, sendo esta a tradição em que Husserl se inspira. * Husserl foi professor na Universidade de Freiburg (1916-28), na Alemanha, tendo influenciado fortemente toda a geração de pensadores que foram seus alunos, como Karl Jaspers e Martin Heidegger. A fenomenologia de Husserl pertence à tradição da filosofia da consciência e da subjetividade características da modernidade, embora desenvolvendo uma interpretação própria. Não pretende fundamentar ou legitimar o conhecimento científico, mas considera sua tarefa primordialmente como descritiva dos elementos mais básicos de nossa experiência. * O lema básico da fenomenologia é “de volta às coisas mesmas”, procurando com isso a superação da oposição entre realismo e idealismo, entre o sujeito e o objeto, a consciência e o mundo. Toda consciência é consciência de alguma coisa; a consciência se caracteriza exatamente pela intencionalidade, pela visada intencional que a dirige sempre a um objeto determinado. Trata-se da consideração do que aparece à mente a partir da experiência reflexiva da consciência. * Contudo, para Husserl, a fenomenologia não é uma psicologia descritiva, uma descrição do modo de operar da consciência, voltando-se para a análise das essências, entendidas como unidades ideais de significação, elementos constitutivos do sentido de nossa experiência. É possível chegar ao “dado” da consciência, isto é, ao fenômeno em si mesmo. A redução fenomenológica ou époche, que coloca o mundo “entre parênteses, nos revela a essência, o horizonte de potencialidade da coisa considerada, independente de sua existência real ou concreta. * O método fenomenológico de Husserl serviu de inspiração e ponto de partida para vários de seus seguidores, que procuraram desenvolver análises fenomenológicas do agir moral, da vida social, da experiência religiosa, da estética e de várias outras esferas da experiência humana, sendo particularmente influente nesse sentido, sobretudo entre as décadas de 50 e 70. * O EXISTENCIALISMO * O existencialismo de Jean-Paul Sartre (1905-80) foi uma das correntes mais importantes do pensamento francês do pós-guerra, sobretudo entre os anos 50 e 60, quando teve uma grande influência na filosofia, na literatura, no teatro e no cinema, despertando grande interesse e chegando a ter um vasto público. * Sartre foi inicialmente um discípulo da fenomenologia, e suas primeiras obras, como A imaginação (1936) e Esboços de uma teoria das emoções (1939), foram escritas com base nessa influência. É a partir de romances como a náusea (1938) e Os caminhos da liberdade (1944-49), de peças de teatro como As moscas (1943) e Entre quatro paredes (1945), bem como de obras teóricas como O ser e o nada (1943), que ainda traz como subtítulo “ensaio de ontologia fenomenológica”, e sobretudo O existencialismo é um humanismo (1946), que começa a desenvolver sua filosofia existencial. * Essa filosofia tem origem na própria análise fenomenológica da consciência intencional, na influência do pensamento de Heidegger, com o qual Sartre entrou em contato quando estudou na Alemanha no início dos anos 30, e na tradição filosófica, em autores como Sócrates e Kierkegaard, que valorizando uma reflexão a partir da experiência humana concreta, da discussão de questões morais e atribuindo à filosofia o dever de ter consequências práticas, visa nos ensinar algo sobre nossas próprias vidas. * Em O ser e o nada, Sartre caracteriza o homem como o ser que se define por uma consciência em que existir e refletir são o mesmo, que se define portanto por sua autoconsciência. O ideal dessa consciência é atingir a plena identidade consigo mesma. É nesse sentido que, em suas palavras, “o homem é o ser cuja existência precede a essência”. Entretanto, o homem é também um ser marcado pela morte e pela finitude e, por isso, ao buscar essa identidade absoluta, está condenado ao fracasso. * O existencialismo de Sartre é ateu, sustentando que, embora o homem creia que Deus o criou, é na verdade ele quem “cria” Deus. Resta ao homem assumir sua condição, sua liberdade, portanto, e, considerando-se sempre em situação, construir o sentido de sua existência, de uma existência autêntica. É desse processo que nasce a angústia, que é parte fundamental de sua existência, dessa busca de sentido, do homem como aquele que cria seus próprios valores. * O existencialismo tem assim uma dimensão ética fundamental, pela maneira como elabora a questão da liberdade e da autenticidade como elementos centrais da existência humana, do homem como ser autoconsciente que cria a si mesmo. “Nós somos o que fazemos do que fazem de nós” é um dos lemas centrais do pensamento de Sartre. * Com a Crítica da razão dialética (1960), Sartre começa a se afastar do existencialismo e de suas raízes fenomenológicas, adotando uma perspectiva marxista. Alguns dos especialistas em seu pensamento consideram que há uma transição do existencialismo para o marxismo, uma vez que a questão da inserção do homem na realidade social e da consciência alienada são temas comuns a ambas as perspectivas. * Já em seu Questões de método (1957), ele se perguntava sobre a possibilidade de um método que combinasse existencialismo e marxismo, permitindo uma análise complementar do indivíduo e da sociedade. Entretanto, a ruptura se torna mais clara a partir do momento em que o próprio Sartre afirma ser o marxismo “a filosofia inevitável de nosso tempo”. O filósofo adota então uma atitude ainda mais militante, participando de comícios políticos, defendendo a revolução cultural da China e o movimento estudantil de maio de 1968 em Paris. * O prestígio e a influência de Sartre começam a declinar já no início da década de 70, no momento em que o estruturalismo (a ciência da consciência ou da mente)e a discussão sobre a modernidade e o pós-moderno vão ocupando mais espaço e despertando maior interesse. Michel Foucault (1926-84) começa, nesse contexto, a substituir Sartre como um novo maître à penser (intelectual como figura pública cujo pensamento influencia tendências e atitudes e que se pronuncia sobre os acontecimentos políticos, sociais e culturais de seu tempo). * Sartre não foi o único a desenvolver esta corrente de pensamento. O existencialismo foi desenvolvido também em outras perspectivas por diversos pensadores contemporâneos. O ensaísta e escritor Albert Camus (1913-60), o alemão Karl Jaspers (1883-1969), o francês Gabriel Marcel (1889-1973) formula um existencialismo cristão, pensadores como Léon Chestov (1866-1938) e Martin Buber (1878-1965) também tratam da experiência religiosa em uma perspectiva existencial. * A FILOSOFIA ANALÍTICA E O POSITIVISMO LÓGICO * A filosofia analítica desenvolveu-se sobretudo em países de língua inglesa como a Inglaterra, os Estados Unidos e a Austrália, embora tenha também vertentes na Alemanha, Áustria e Polônia. Suas raízes se encontram na filosofia de Leibniz (1646-1716), nos desenvolvimentos da lógica matemática no séc. XIX e nas discussões acerca da fundamentação da matemática e das ciências naturais nesse período. * Surge ao final do séc. XIX em grande parte como uma reação ao subjetivismo, à filosofia da consciência, ao idealismo hegeliano e ao idealismo empirista, correntes em larga escala então dominantes. A filosofia analítica considera que o tratamento e a solução de problemas filosóficos devem se dar por meio da análise lógica da linguagem. Não se trata evidentemente da língua empírica,o português, o inglês, o francês etc., mas da linguagem como estrutura lógica subjacente a todas as formas de representação, linguísticas e mentais. * A questão fundamental é portanto, como um juízo, algo que afirmo ou nego sobre a realidade, pode ter significado e como podemos estabelecer critérios de verdade e falsidade desses juízos. O juízo passa a ser interpretado não como ato mental, mas tendo como conteúdo uma proposição dotada de forma lógica. O significado dos juízos é analisado assim a partir da relação entre a sua forma lógica e a realidade que representa. “Analisar”, nesse contexto, equivale a decompor o juízo em seus elementos constitutivos e examinar a sua forma lógica, a relação desses termos entre si. * É a estrutura do juízo que permite que este se relacione com a realidade, já que os fatos no real se estruturam de forma semelhante. A possibilidade de correspondência entre a linguagem e a realidade supõe assim um isomorfismo, uma forma ou estrutura comum entre a lógica e a ontologia, entre a proposição e o fato que a proposição são usadas como juízos – para afirmar ou negar algo sobre o real, e quando isto que afirmam ou negam corresponde ao que de fato ocorre – temos um juízo verdadeiro; quando não ocorre, um juízo falso. * A visão segundo a qual a lógica é o caminho para a fundamentação das teorias científicas, bem como para a afastamento do subjetivismo, é concepção compartilhada pela filosofia analítica e pelo positivismo lógico, ou empirismo lógico, do Círculo de Viena. O Círculo de Viena consistiu em um grupo de filósofos e cientistas que se reuniram regularmente em Viena desde o início do séc. XX, com o objetivo de desenvolver um projeto de fundamentação das teorias científicas em uma linguagem lógica, e de discutir questões filosóficas através de uma análise lógica rigorosa que levasse à solução, ou melhor, à dissolução dessas questões tal como formuladas trdicionalmente. * Seu propósito era fundamentar na lógica uma ciência empírico-formal da natureza e empregar métodos lógicos e rigor científico no tratamento de questões de ética, filosofia da psicologia e ciências sociais, sobretudo economia e sociologia. A física, enquanto ciência empírico-formal, forneceria o paradigma de cientificidade para todas as formulações teóricas que se pretendessem científicas, formulando em uma linguagem lógica, rigorosa e precisa verdades objetivas sobre a realidade. * Uma teoria deveria consistir assim em princípios estabelecidos pela lógica, de caráter analítico, ou seja, verdadeiros em função de sua própria forma lógica e de seu significado; e em hipóteses científicas, a serem verificadas através de um método empírico. * De certa forma, as teses básicas do positivismo lógico, sobretudo o princípio da verificação, levaram a uma espécie de contradição interna. O projeto de fundamentação da ciência em uma linguagem cujas proposições fundamentais tivessem sua verdade estabelecida diretamente por relação com a realidade revelou-se limitado. * O principal herdeiro do positivismo lógico, embora em uma perspectiva bastante crítica, foi Karl Popper (1902-94). Procurando escapar dos impasses gerados pela adoção do princípio de verificação e pela exigência do estabelecimento conclusivo da verdade das proposições fundamentais, Popper formulou, uma inversão desse princípio, através de seu princípio de falsificabilidade. * De acordo com o assim chamado racionalismo crítico de Popper, uma teoria científica é válida na medida em que suas proposições podem ser empiricamente falsificáveis através de experimentos, testes, observações etc., o que permite que se autocorrijam e se desenvolvam em direção a um ideal de verdade objetiva, no entanto jamais atingido de modo conclusivo, evitando o seu fechamento em posições dogmáticas. A ciência não deve, portanto, visar à formulação de teses irrefutáveis, já que não há critérios de verdade definitiva, mas sim adotar hipóteses falsificáveis. * A filosofia analítica da linguagem desenvolveu também uma outra vertente, sobretudo entre os anos 40 e 60, que fico conhecida como “filosofia da linguagem ordinária”. Sua inspiração mais remota parece ter sido a tradição empirista, principalmente de língua inglesa, que valoriza o senso comum e a análise da experiência concreta. * A ESCOLA DE FRANKFURT * A teoria crítica da Escola de Frankfurt teve como objetivo o desenvolvimento de uma teoria crítica da cultura e da sociedade retomando a filosofia de Marx, sobretudo sua análise da ideologia, e aproximando-a de suas raízes hegelianas. A Escola de Frankfurt preocupou-se sobretudo com o contexto social e cultural do surgimento das teorias, valores e visão de mundo da sociedade industrial avançada, procurando assim atualizar e desenvolver a teoria marxista enquanto teoria filosófica e sociológica. * A crítica frequente feita à interpretação frankfurtiana do marxismo é de que o aspecto revolucionário do pensamento de Marx acaba se enfraquecendo. A concepção da ciência natural e da técnica, visando o controle dos processos naturais, levaria ao desenvolvimento de um saber instrumental em que o controle e a dominação – não só de processos naturais, mas também sociais – são os objetivos fundamentais, voltando-se para resultados práticos. As ciências humanas e sociais teriam, ao contrário, um * propósito interpretativo visando à compreensão da sociedade e da cultura e tendo um interesse emancipatório, possibilitando a libertação do homem da dominação técnica e sua realização enquanto ser social. A chamada “segunda geração” da Escola de Frankfurt é representada principalmente pelo filósofo e sociólogo Habermas (1929-). * Habermas analisa o desenvolvimento da sociedade industrial, o capitalismo tardio e o estabelecimento de procedimentos de legitimação de relações éticas e sociais nesse contexto contemporâneo. Sua análise crítica da ideologia utiliza elementos das teorias da linguagem da filosofia analítica, para discutir os pressupostos e condições de possibilidades da ação comunicativa, das práticas dos agentes linguísticos e sociais nos diferentes contextos de uso da linguagem.