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O LIVRO DE OURO DAS PROFECIAS
TONY ALLAN
Tradução de ANA QUINTANA
2002
Traduzido: 2005
Ediouro
Sumário
Introdução 7
Capítulo 1
PORTA-VOZES DOS DEUSES 10
As origens da profecia. . . . . . . . . . . 12
Profetas do Antigo Testamento. . . . 15
A vinda do Messias. . . . . . . . . . . . . 18
O reino do Anti-Cristo . . . . . . . . . . . 22
O Apocalipse de São João. . . . . . . . 25
Uma divina loucura. . . . . . . . . . . . 32
O umbigo do mundo. . . . . . . . . . . 36
Visões da sibila. . . . . . . . . . . . . . . 42
Os mistérios de Pachacamac ........ 45
O apóstolo do Terceiro Tempo. . . . 48
As previsões sobre papas. . . . . . . . . 54
As vozes de Joana d'Arc ................. 58
A trilha de sangue até a paz celestial . . .62
Joseph Smith, o profeta dos últimos dias. . . . 65
Profetas indígenas norte-americanos. . . 68
Os segredos de Fátima. . . . . . . . . .75
Capítulo 2
Sonhos e premonições ............ 78
Os deuses da Mesopotâmia . . . . . . .80
Prevendo o futuro do faraó . . . . . . .83
Visões astecas do cataclismo. . . . . .86
Premonições de morte. . . . . . . . . . 89
Sonhos premonitórios ................... 94
O naufrágio do Titanic . . . . . . . . . 100
Um experimento com o tempo. . . 104
Capítulo 3
Métodos de Adivinhação......... . .110
As antigas raízes da astrologia. . . .112
O Livro das Mutações. . . . . . . . .118
Os Druidas . . . . . . . . . . . . . . . . . .123
O augúrio romano. . . . . . . . . . . .127
O tarô . . .133
A adivinhação na África. . . . . . . . 139
Calendários da Mesoamérica . . . . .142
A arte da cristalomancia ............... 147
Uma fartura de métodos. . . . . . . . 152
Capítulo 4
Videntes e Clarividentes ... . 156
O mago Merlim . . . . . . . . . . . . . .158
Bruxos e feiticeiras. . . . . . . . . . . .164
A maldição dos Templários ........ 170
Nostradamus e as Centúrias . . . . . . 174
A profecia de Jacques Cazotte ... .183
O sexto sentido nas Terras Altas da Escócia. .186
A mulher vestida de sol. . . . . . . . .189
O profeta adormecido. . . . . . . . .192
As profecias sobre Hitler . . . . . . . .196
Capítulo 5
Pensar o Futuro ...............202
Leonardo da Vinci, o visionário da Renascença. . .204
A utopia e seus similares. . . . . . . .207
Júlio Verne e a imaginação tecnológica ............. 213
O profeta da Era Moderna. . . . . .216
A previsão como ciência. . . . . . . .219
A ascensão da futurologia ..........225
Outras leituras. . . . . . . . . . . . . . .228
Índice. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .232
Crédito das fotos. . . . . . . . . . . . .240
Introdução
A princípio, profecia significava palavra divina. Os profetas bíblicos não eram profetas porque previam os acontecimentos, mas porque traziam uma mensagem de Deus. Da mesma forma, na tradição islâmica, Maomé foi profeta por falar em nome de Alá, não por prever fatos. O mesmo vale até em culturas que admitiam muitos deuses, pois nelas também os xamãs tinham poderes proféticos, já que diziam usar a voz dos espíritos.
Desde o começo, porém, o futuro se insinuava na idéia de profeta e, com o tempo, passou a ser seu componente mais importante, fazendo com que a palavra "profético" se tornasse sinônimo de "previsão". O motivo dessa mudança estava ligado à natureza do poder profético. O prestígio do vidente amparava-se em sua capacidade de alcançar fontes inacessíveis de conhecimento. A informação mais solicitada pelos consulentes era o que poderia acontecer à comunidade. Qualquer um que fosse capaz de dizer como seria o futuro merecia uma atenção privilegiada do público.
O fato de tratar do futuro garantiu a importância da profecia até hoje. De certa forma, todos nós somos profetas, já que temos sempre de prever, conscientes disso ou não, como serão os próximos dias, meses ou anos. Quem toma uma decisão no trabalho, faz um investimento financeiro, escolhe onde passar as férias, e até o apostador que joga num cavalo, deve ter no íntimo a sensação de que está nas malhas de uma temível e silenciosa besta chamada Futuro, que pode, num toque, desfazer os planos mais bem elaborados. Saber o que tal monstro esconde é a chave para o sucesso ou o fracasso em todos os nossos projetos de longo prazo. Nenhum outro conhecimento é tão importante ou tão difícil de ter.
Este livro procura explorar a profecia em todas as suas formas mais importantes. O primeiro capítulo trata dos profetas que diziam ser porta-vozes dos deuses. Mostra como, nos tempos clássicos, alguns desses porta-vozes já usavam seu conhecimento para prever o futuro. O oráculo de Delfos, na Grécia, foi o mais conhecido entre tantos outros, gregos e romanos, a que os consulentes recorriam para saber como deveria ser o futuro.
Um inesperado subtexto nesse capítulo é a tradição profética que olha não tanto para o futuro quanto para o passado. Essa tendência às vezes se expressa em previsões apocalípticas de desastres. Tal pessimismo é típico de pessoas ameaçadas por mudanças súbitas na cultura onde vivem, onde os bons tempos já vieram e já passaram. Em tais circunstâncias, o melhor que seus profetas podem oferecer é a promessa de um futuro em que os bons tempos voltarão.
Os demais capítulos tratam de outros caminhos para saber o futuro (é importante lembrar que alguns videntes afirmavam ter poder divino). Tal visão do futuro inclui sonhos, premonições - que as culturas do mundo inteiro tradicionalmente viam como eventuais toques de iluminação - e adivinhações, que buscam encerrar o dom da predição num sistema bem estruturado. Uma avaliação geral de videntes e clarividentes mostra pessoas que, embora afirmem falar em nome de Deus, atuam fora da Igreja ou, como Nostradamus, se preocupavam principalmente com temas leigos.
O último capítulo enfoca formas mais modernas de profecia que tentam se basear apenas na razão humana.
O ápice lógico dessa tendência é a atual voga de previsões científicas, que envolve quase todas as áreas das sociedades ocidentais. Mas a previsão racional tem seus limites embora ela seja excelente ao prever tendências, até agora foi bastante ineficaz quanto aos fatos inesperados, isto é, sem qualquer continuidade. Apesar dos esforços dos planejadores e pensadores, o inesperado continua acontecendo.
Existem relativamente poucos apanhados gerais da profecia e da previsão da forma como tentamos fazer neste livro. O excelente Livro da profecia, de Geoffrey Ashe, é uma grande e recente exceção. Dada a importância do assunto, a escassez de livros é surpreendente, mas isso é compensado em parte pelos muitos almanaques e trabalhos de astrologia que pretendem fornecer algum conhecimento do futuro. Não temos tal pretensão, embora nosso livro traga algumas previsões que ainda não foram cumpridas.
O Livro de Ouro das Profecias pretende mostrar que há um padrão no fenômeno da profecia - como o aumento e interesse por ela em épocas de crise, uma fascinação em tempos de grandes mudanças. O livro dá a entender que a profecia é uma necessidade psicológica do ser humano. As pessoas não conseguem pensar nas terríveis incertezas do futuro sem buscar uma profecia, e preferem admitir falsos profetas a não ter nenhum. Se o livro tem uma meta além de interessar e entreter, é a de fazer com que o passado sirva de guia para os bons profetas - e que consiga incutir um certo ceticismo no leitor sobre as grandes proezas que os profetas sempre prometeram.
Porta-Vozes dos Deuses
Se a profecia é uma fala inspirada, suas origens estão no estado de transe. A moderna psiquiatria tende a considerar o transe apenas como uma auto-hipnose, mas no passado ele era respeitado como um êxtase que permitia uma comunhão direta com os deuses. Nesse estado, a pessoa literalmente perdia o controle de si mesma e se tornava porta-voz de um deus ou espírito.
A mensagem que o profeta trazia podia ter várias formas. O mundo clássico herdou, talvez da Ásia, uma tradição de mulherespossuídas por espíritos. Os delírios incoerentes dessas mulheres eram “traduzidos” por intérpretes e foram a base dos grandes oráculos da Grécia e de Roma. Mas na Israel de inclinação teocrática, a profecia teve um papel bem diferente, servindo de instrumento para a correção moral. Surgiram várias pessoas que garantiram serem inspiradas pelo sagrado Jeová para denunciar os pecados dos desobedientes e prever desastres, caso a nação não mudasse seus rumos.
Finalmente, houve uma longa e cosmopolita série de homens e mulheres excepcionais, convictos de que sua missão era inspirada por um deus. De Joana d’Arc na França medieval, a Hong Xiuquang, , líder da rebelião de Taiping na China do século XIX, esses independentes tinham pouco em comum, exceto a confiança em si mesmos – e isso às vezes podia ser forte o bastante para mudar o mundo.
As Origens da Profecia
Se a profecia realmente começou como uma fala inspirada por deuses, sua origem deve estar no xamanismo, a crença animista num mundo habitado por espíritos, que foi a religião mais antiga e duradoura. As origens do xamanismo têm raízes profundas no passado de caçadores-coletores dos humanos e antecedem em vários milênios a palavra escrita. Embora o termo xamã no sentido de sacerdote venha da Sibéria (onde o fenômeno era muito difundido até recentemente), esses sacerdotes e seus rituais existem sob diferentes formas em todos os continentes. O xamanismo continua sendo praticado em várias partes do mundo. A profecia em seu sentido mais amplo fazia parte da arte do xamã, e prever o futuro era apenas uma pequena parte das obrigações do sacerdote ou, mais raramente, da sacerdotisa. Todos os xamãs diziam ter acesso a informações que os demais humanos não tinham. Esse conhecimento vinha dos espíritos que os xamãs encontravam em suas viagens, pois suas mentes viajavam quando a alma saía do corpo. As viagens espirituais dos xamãs às vezes os levavam aos domínios dos deuses ou a lugares distantes do mundo real. E traziam informações para o proveito da aldeia ou tribo.
A forma de chegar aos deuses era o estado de transe, e nas diversas partes do mundo os xamãs usavam vários meios para isso. A música e a dança costumavam ajudar, assim como determinadas substâncias alucinógenas. No México, as curandeiras ingeriam cogumelos alucinógenos, e os ianomâmis da floresta amazônica usavam vários pós, inclusive um feito da casca seca da bicuíba.
A Rainha-Profeta do Japão
Antigas lendas do Japão, no limiar entre mito e história, falam numa rainha chamada Himiko ou Pimiko. Foi a primeira governante japonesa conhecida e a lendária fundadora do grande santuário xintoísta de Ise. Himiko parece ter tido ligações especiais com a deusa do sol, Amaterasu: os caracteres de seu nome significam "filha do sol" e os relatos contam que ela guardava o espelho sagrado de Amaterasu. Himiko não se casou e vivia num palácio bem guardado, onde convivia com seus antepassados divinos, passando para um homem as mensagens que recebia dos espíritos. Registros chineses confirmam que houve uma rainha com esse nome no século I antes de Cristo, e que, ao morrer, ela teve o corpo colocado num enorme túmulo junto com mais de cem seguidores.
Os Transes dos Xamãs
Cada cultura interpreta a viagem do espírito do xamã conforme sua tradição. Entre os exemplos mais conhecidos está a história de Sedna, mãe do mar, contada pelos indígenas inuit habitantes do norte do Canadá. Os inuit dependiam da caça regular para supri-las durante o longo inverno ártico. Quando a caça escasseava, acreditavam que Sedna estava zangada, ofendida pelo desrespeito a algum tabu, e que se vingava escondendo os animais. Assim, um xamã tinha de fazer a longa e perigosa viagem espiritual à casa de Sedna no mar. Os inuit cantavam para ajudar o xamã no caminho, enquanto ele entrava em demorado transe, iniciando uma busca na qual poderia encontrar obstáculos terríveis. Chegando ao destino, tinha de apaziguar a mãe do mar e convencê-la a soltar as focas, morsas e outros seres marinhos de que os inuit precisavam. Se conseguia, a tribo podia esperar fartura de caça nos meses seguintes e o xamã receberia muitas homenagens pela importante missão que havia realizado.
Além de conseguir caça em tempo de escassez, os xamãs tinham várias outras funções nas culturas pelo mundo. A cura era uma das mais importantes, pois eles foram os médicos das sociedades primitivas, entrando em transe para aprender as causas e curas de doenças e males. Além disso, informavam o paradeiro de pessoas desaparecidas, traziam chuva em tempo de seca e ajudavam seus guerreiros a vencer na guerra. Eles também vagavam pelos tempos, viajando rumo ao futuro para saber o resultado de uma batalha ou as conseqüências de uma peste.
Lembranças de transe de xamãs fazem parte de todos os primeiros relatos de falas inspiradas por deuses. O fio que liga os profetas hebreus à pitonisa de Delfos, aos oráculos da Idade do Bronze na África ou ao antigo Peru é uma tradição compartilhada por pessoas excepcionais, capazes de entrar em êxtase e ter visões passageiras, em que o oculto ficava visível e o desconhecido era revelado.
Profetas do Antigo Testamento
Séculos afora, o conceito ocidental de profecia e profetas foi formado mais pela Bíblia do que por qualquer outra fonte. Do Antigo Testamento vem a imagem do illuminatus (iluminado) inspirado por Jeová para afastar a aflição de seu povo errante e prever desastres para todos os que não o seguissem. Mas a posição dos profetas nos antigos reinos de Israel e Judá era mais complexa do que isso faz supor.
Nabis e Reis
Os primeiros profetas citados no Antigo Testamento lembram, sob vários aspectos, a antiga tradição dos xamãs. Os profetas ou nabis, como eram conhecidos (nabi significa "com vocação"), eram pessoas inspiradas, formando uma classe separada dos sacerdotes judeus. Vestiam-se com peles de animais, tocavam instrumentos musicais e invocavam o espírito divino. Quando o incorporavam, eles faziam profecias, tinham visões e às vezes ficavam nus em êxtase.
Há uma expressiva descrição desses profetas no capítulo l0 do Primeiro Livro de Samuel, quando este diz a Saul: "Quando você chegar à cidade, vai encontrar vários profetas descendo da parte alta com harpa, tamborim, flauta e lira, fazendo profecias. Você vai então ficar possuído pelo espírito do Senhor e fazer profecias com os outros profetas e se transformar em outro homem". Assim fez Saul, para surpresa dos que estavam perto, que perguntaram: "Saul também é profeta?".
Embora fosse estranho que um futuro rei de Israel andasse em tais companhias, o interessante é que esse encontro possa ter ocorrido. A cena mostra que os profetas ainda eram considerados homens de Deus e não entravam em conflito com o poder. Na verdade, a relação deles com o poder leigo poderia até ser bem amena, como mostra a história contada no capítulo 22 do Livro de Reis. Antes de empreender um ataque militar, o rei Ahab consultou nada menos de quatrocentos profetas e todos garantiram que ele venceria. Só o profeta Miquéias discordou: conhecido como teimoso, insistiu em que Deus tinha dado línguas mentirosas a todos os outros para enganar Ahab, e os fatos mostraram que ele estava certo.
“E o Espírito de Deus ficou sobre Saul também e ele fez profecias até chegar a Maiot de Ramata e se despiu de suas roupas e fez profecias na frente de Samuel e ficou nu por todo aquele dia e noite”.
(Livro 1 de Samuel, 19: 23,24)
Uma Tradição Proibida
O Antigo Testamento deixa claro que, embora as demais tradições divinatórias fossem conhecidas na antiga Israel, eram totalmente proibidas. Referindo-se à astrologia dos caldeus, o capítulo 18 do Deuteronômio ordena: "Não haverá entre vocês ninguém que pratique a adivinhação, profecias ou augúrios, pois quem fizer tal coisa será uma abominação do Senhor". Mas a história da Bruxa de Endor, no capítulo 1, versículo 28 do Livro de Samuel, mostra que tais práticas continuaram, apesar de proibidas por lei. O texto conta que o rei Saul,em guerra contra os filisteus, descobriu que a vontade do Senhor tinha lhe escapado, pois não havia recebido nenhuma luz dos sonhos, de profetas ou dos Urim (objetos sagrados usados para adivinhar o futuro). Saul então se disfarçou e foi consultar uma bruxa, que evocou o espírito do falecido profeta Samuel para aconselhar o rei Saul. Embora o texto bíblico condene a necromancia (consulta aos mortos) como ilegal e ato de um homem desesperado, indica também que ela surtia efeito.
Profetas do Castigo
A partir do século VIII antes de Cristo, apareceu um novo tipo de profeta em Israel. Amós foi o primeiro entre os profetas literários que levantaram suas vozes menos para falar em êxtase do que para denunciar a luxúria, a imoralidade e, acima de tudo, a apostasia. De várias formas, os novos profetas foram mais moralistas do que videntes, empenhados em anunciar a punição aos pecados do povo e prevenir contra os desastres que ocorreriam se os israelitas não se emendassem. Acreditava-se que tais profetas viviam em comunhão direta com o Senhor e às vezes podiam usar seus conhecimentos para prever fatos. Assim, o profeta Jeremias previu tanto o domínio dos babilônios quanto a destruição da Babilônia que viria a seguir: "Toda esta terra virá a ser um medonho deserto e um espanto; todas estas gentes servirão ao rei da Babilônia durante setenta anos. E completos que forem os setenta anos, farei minha visita ao rei da Babilônia e àquela gente, diz o Senhor, para castigar a sua iniqüidade e a terra dos caldeus: e reduzi-la-ei a uma desolação eterna." (Livro de Jeremias, 25: 11-12).
O período entre a tomada de Jerusalém pelos babilônios, em 597 a.C. e a tomada da Babilônia pelos persas, em 538 a.C. é mais próximo de sessenta do que de setenta anos - mesmo assim, as palavras de Jeremias foram bem acertadas. Quanto à destruição da Babilônia, o que ainda sobra ao sul da atual cidade de Bagdá, no Iraque, indica como se mostrou correta a visão do profeta.
A Vinda do Messias
A mais conhecida profecia da Bíblia é a da vinda do Messias. A própria palavra Messias, que em hebraico significa "ungido", denota alguém com uma missão especial dada pelo Senhor. No Antigo Testamento, a palavra é na verdade usada para se referir a vários patriarcas, profetas e até ao rei Ciro, da Pérsia, que libertou os judeus do cativeiro babilônio.
Com o tempo, e à medida que piorava a situação política em Israel, o termo passou a ser mais específico. O Messias era para ser o futuro rei, da estirpe de Davi, enviado por Deus para livrar Israel da escravidão e entrar num novo apogeu.
No Antigo Testamento, o Messias não está associado ao Juízo Final - época de julgamento de vivos e mortos, no fim do mundo. Mas, nos últimos duzentos anos antes de Cristo, a crença assumiu um tom francamente escatológico (palavra que vem do grego eskhatos, significando "último"; tem também o sentido de crenças relativas ao final dos tempos). O estímulo para isso parece ter sido o trauma sofrido pelos judeus devotos no reinado de Antíoco, IV Epífano. Com a intenção de incentivar a helenização, Antíoco, que era da dinastia grega selêucida, proibiu todas as práticas religiosas judaicas, assim desencadeando a revolta dos macabeus no meio do século II antes de Cristo. Com a supressão daquilo em que acreditavam, os fiéis reagiram desejando um guerreiro-salvador que não só viesse a esmagar seus inimigos, mas também os ajudasse a fazer com que os bons herdassem o mundo.
A expressão mais completa da nova visão está no Livro de Daniel, supostamente escrita na época da revolta. Num sonho, o profeta Daniel viu quatro bestas simbólicas representando as forças estrangeiras que haviam dominado Israel, entre elas os persas e os babilônios. Ainda no sonho, a quarta força - a dinastia selêucida - era destruída por um enviado divino, o Filho do Homem, o qual, como representante do Senhor, veio instalar um reino terrestre que seria de todos os povos e nações.
Os macabeus conseguiram recuperar a liberdade religiosa dos judeus, mas nenhum Filho do Homem apareceu para criar uma dinastia nativa no trono. O grande sonho do Messias precisou ser adiado para as futuras gerações.
“E eis que vi um como o Filho do Homem, que vinha com as nuvens do céu e que chegou até o Ancião dos Dias e o apresentaram. E ele lhes deu o poder e a honra; todos os povos, todas as tribos e todas as línguas o servirão: seu poder é eterno e não lhe será tirado e seu reino é tal, que jamais passará.
(Profecia de Daniel sobre a vinda do Messias, Livro de Daniel, 7: 13-14).
O Nascimento do Prometido
As expectativas de intervenção divina voltaram depois que os romanos anexaram a Palestina, no ano 63 a.C. Os judeus voltavam a sofrer sob o jugo de soberanos estrangeiros, e mais uma vez parecia difícil acreditar na garantia divina de que eram o povo eleito. Foi em plena fase de escasso sentimento nacionalista que nasceu Jesus. Logo no início de sua missão, os apóstolos que o acompanhavam concluíram que Ele devia mesmo ser o Messias prometido e deram-lhe o título de Cristo, que em grego tem o mesmo significado do hebraico Messias ("ungido"), Mas os teólogos ainda discutem se Jesus não teria incentivado isso, embora o capítulo 16, versículo 13, do Evangelho de São Mateus não pareça dar margem a dúvidas. Nele, Jesus se identifica como o Filho do Homem citado na profecia de Daniel. Mais adiante, diz aos apóstolos, no versículo 28: "Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns não hão de conhecer a morte antes que vejam o Filho do Homem na glória do seu reino".
As palavras de Jesus pareciam indicar que o "fim dos tempos" estava próximo, e assim o entenderam os primeiros cristãos. Seus inimigos interpretaram da mesma forma a profecia, e a maior acusação feita contra Cristo depois de ter sido preso por ordem do sumo sacerdote judeu Caifás foi a de haver admitido ser o Messias. Pôncio Pilatos, O governador romano da Judéia que condenou Jesus à morte, perguntou ao acusado se ele era mesmo o prometido Rei dos Judeus.
Depois que Jesus morreu, por volta do ano 30 d.C. e por muitos anos ainda, alguns fiéis continuaram a esperar uma Segunda Vinda que acabaria com toda a opressão e a injustiça. Aos poucos, como tal não ocorria, os cristãos aprenderam a tomar as palavras de Jesus num sentido mais espiritual e viram a ampliação da Igreja como a primeira parte da missão dele, enquanto sua volta na glória ficava para um tempo indefinido.
Os judeus, que jamais acreditaram no que diziam os cristãos, continuaram a esperar um messias. Isso ajudou a alimentar a desastrosa revolta de 66 a 70 d.C. que levou à destruição do Templo de Jerusalém. Tais expectativas serviram também para incrementar a última revolta contra o governo romano, a de Simeão Bar Kokhba, de 132 a 135 d.C. O próprio Bar Kokhba, um duro comandante de guerrilha, foi saudado na época como o Messias prometido. Mas a rebelião foi brutalmente sufocada, Kokhba foi morto e as medidas de repressão romanas apressaram a diáspora judaica da Palestina. O sonho messiânico não acabou, mas ficou esquecido durante séculos.
O Reino do Anti-Cristo
Uma segunda profecia muito ligada à do Messias trata do seu contrário e arquiinimigo, o Anticristo. Embora plenamente expressada durante a era cristã, essa previsão também tinha raízes no Antigo Testamento. Existem até claras indicações de quem seria o Anticristo original - embora, no caso, o termo Anti-messias fosse mais adequado. Seria Antíoco, IV Epífano, o mesmo governante cujos atos ímpios foram os primeiros a estimular os judeus a desejar o aparecimento de um messias.
Da mesma forma que o profeta Daniel previu a chegada do Filho do Homem, também falou no demônio que o Messias viria substituir. Os detalhes eram precisos. Daniel viu quatro bestas - representando os poderes estrangeiros que tinham dominado Israel - e ligou o Anti-messias à quarta, simbolizando os gregos selêucidas que governaram Israel por causa de Alexandre, o Grande, no século II antes de Cristo. Daniel garantiu que o Anti-messiasviria depois de dez reis - Antíoco foi o décimo primeiro rei da dinastia selêucida. E o Anti-messias venceria três reis - Antíoco venceu dois faraós egípcios e um rei de Chipre. Mais uma vez, o demônio diria blasfêmias e "irritaria os santos do Mais Alto", além de "pensar em mudar os tempos e a lei", como fez Antíoco ao proibir os judeus de praticarem os rituais da lei mosaica. Mas Daniel previu que chegaria o dia em que o domínio do Anti-messias acabaria e a "grandeza dos reinos sob o céu" seria concedida aos santos - promessa em parte cumprida com a vitória da revolta macabéia, que libertou Jerusalém e restabeleceu os antigos rituais, apesar de não conseguir liberdade total para os judeus.
“E então aparecerá o iníquo, seguindo a obra de Satanás, em todo o poder e em sinais e prodígios e em toda a sedução de iniqüidade para aqueles que perecem porque não receberam o amor da verdade para serem salvos”.
(Segunda Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses, 2: 9-10)
A Segunda Vinda do Cristo
Os primeiros cristãos viram em Jesus a concretização da profecia do Filho do Homem e acataram também as características do Anticristo ligadas a ele. Numa epístola no Novo Testamento, o apóstolo João prevenia os seguidores da Igreja dos primeiros tempos de que "muitos anticristos" já tinham surgido, dando a entender que a hora final estava próxima. E definiu o Anticristo como "aquele que nega o Pai e o Filho". Sem mencionar a palavra, a segunda epístola de São Paulo aos tessalonicenses também alude a um Anticristo, embora pareça se referir a um inimigo bem mais específico. Chama-o de "homem sem lei", um suposto autor de maravilhas que teria de se mostrar antes que o Senhor viesse. São Paulo o descreve como "o que assentará no templo de Deus, proclamando ser o próprio Deus". É quase certo que o apóstolo se referisse aos imperadores romanos que à época vinham se auto-proclamando deuses.
No início da Idade Média, as tradições que falavam no governante ímpio e no enganoso autor de maravilhas se juntaram. Dois influentes livros de profecias - chamados de textos sibilinos, devido aos livros oraculares que os líderes romanos costumavam consultar (ver página 42) - descreviam claramente os fatos que levariam à Segunda Vinda do Cristo. Falavam num grande governante cristão, o Imperador dos Últimos Dias, que venceria os inimigos de Cristo. O pior desses inimigos seria Gog, da terra de Magog, um poderoso governante do norte que só seria derrotado após uma guerra titânica. Vitorioso, o imperador cristão iria a Jerusalém depositar sua coroa. Mas antes da nova vinda de Cristo, haveria uma curta e terrível fase na qual o Anticristo tomaria o poder, enganando muitos com supostos milagres e perseguindo os fiéis que não acreditassem em suas trapaças. O reinado do Anticristo seria uma derradeira provação para os justos, mas não duraria muito. Deus derrubaria o usurpador, e Cristo apareceria em toda a sua glória para iniciar seu reinado na Terra, que duraria mil anos, até o Juízo Final.
Durante a Idade Média, milhões de pessoas na Europa esperaram que isso acontecesse. Toda vez que aparecia um governante cristão forte, aumentavam as esperanças de que fosse o imperador prometido. E toda vez que os fiéis eram perseguidos, os crentes se consolavam com a idéia de que a Segunda Vinda do Cristo estava próxima. Até hoje, tal profecia persiste e continuam surgindo previsões do nascimento do Anticristo.
Influências Orientais?
Muitos viram influências persas na profecia do Anticristo. A lenda de Zoroastro fala num tempo de provação antes da última era, na qual Arimã, o maldito, atacará, causando terrível devastação. Mas o grande guerreiro Keresaspa será enviado do céu para destruir a maior arma de Arimã, o repugnante dragão Azi Dahaka, e virá então a era prometida de paz e harmonia eternas.
O Apocalipse de São João
Ninguém duvida que, pelo menos no mundo cristão, o mais importante livro de profecias da Bíblia é o último, o Apocalipse, palavra de origem grega que significa "revelação". Trata-se de texto relativamente pequeno, com apenas 23 capítulos, escrito num estilo visionário de grande força poética. Algumas imagens - os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, o Número da Besta, a Nova Jerusalém - fazem parte do imaginário de todos e são conhecidas até por quem nunca leu esse livro. Além disso, o Apocalipse é uma obra muito complexa que parece ter tido mais interpretações divergentes do que qualquer outro texto na literatura mundial.
O autor se auto-intitula "João" e por muito tempo duvidou-se que fosse o mesmo autor do quarto Evangelho, São João. A dúvida baseava-se em questões de estilo, mas a autoria foi confirmada por pelo menos uma testemunha confiável Irineu, que nasceu na Ásia Menor, no início do século II d.C. foi bispo de Lyon e, quando jovem, conheceu pessoas do círculo de São João. Ele também indicou a época em que o Apocalipse foi escrito: no governo do imperador romano Domiciano, no final do século I depois de Cristo.
Esperança Vinda do Choque
A data é significativa. O texto do Apocalipse é tardio pelos padrões da Bíblia e muito do que relata ocorreu na época de Cristo, no reinado dos primeiros imperadores romanos, Augusto e Tibério. Depois que Jesus foi crucificado, três fatos particularmente traumáticos atingiram a Igreja cristã primitiva.
O primeiro ocorreu durante o governo de Nero, que ficou no trono de 54 a 68 d.C. e foi um governante instável e provavelmente louco. Em 64 d.C. um terrível incêndio destruiu quase toda Roma, e o povo culpou o imperador pelo desastre. Havia rumores de que Nero, que tinha algum talento como músico, não só "tocou harpa enquanto Roma queimava, mas também ateara fogo à cidade pelo simples prazer de ver as chamas”. Tais rumores chegaram ao próprio Nero, que logo mandou procurar um culpado. Os cristãos eram então uma pequena mas crescente comunidade de crenças tidas como estranhas e que ofenderam o imperador ao se recusarem a adorá-lo como um deus - por isso, foram logo acusados de incêndio premeditado. Um número ignorado de cristãos foi preso e condenado a ter morte horrenda: alguns foram transformados em tochas humanas, outros foram crucificados, alguns foram cobertos com peles de animais e entregues para serem devorados por feras selvagens no Coliseu.
O segundo fato que deixou sua marca no Apocalipse foi o fracasso da revolta dos judeus e a conquista de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. A revolta, iniciada por fanáticos que esperavam um messias, foi contida com muita violência. O templo judeu foi destruído, os sacerdotes foram destituídos e os tributos que mantinham o templo foram encaminhados para o tesouro imperial, em Roma.
Como a maioria dos primeiros cristãos, o autor do Apocalipse ainda era um judeu. As calamidades que atingiram seu povo ainda eram recentes na época da redação, estavam vivas na memória de todos. Quando ouviram profecias falando de uma Nova Jerusalém, a Jerusalém antiga, então quase arrasada, deve ter ressurgido na imaginação deles.
Pior, o mesmo povo que liderou a opressão aos judeus tinha criado um império que incluía não só a Judéia, mas também quase todo o mundo então conhecido. Vespasiano, o comandante enviado para sufocar a revolta, foi proclamado imperador de Roma antes mesmo de completar sua missão. A repressão foi concluída por Tito, filho de Vespasiano, que mais tarde substituiu o pai no trono imperial.
Tito morreu em 81 d.C. e foi sucedido por seu irmão mais novo, Domiciano, imperador cruel e tirânico que exigia ser tratado como "Senhor e Deus". Seu governo deu início à primeira perseguição sistemática aos cristãos, e foi esse o terceiro fato marcante como pano de fundo do Apocalipse. No governo de Domiciano, eram freqüentes as execuções por traição, havia espiões por toda parte e o cristianismo foi banido. Os fiéis a quem São João dirigiu sua mensagem passaram a construir uma pequena mas inflamada minoria dissidente num estado totalitário. Grande parte da aparente obscuridade das palavras do Apocalipse sópode ser entendida quando vista sob esse fundo. Seus escritos foram proibidos e considerados ilegais, circulando clandestinamente. Muitas idéias que ele tentou transmitir só podiam ser insinuadas e não ditas abertamente.
“E enormes granizos, pesando toneladas, caíram do céu sobre os homens até eles amaldiçoarem Deus”.
(Descrição do Dia da Ira no Apocalipse, quando a fúria de Deus vai arrasar o mundo)
O Final dos Tempos
São João queria dar nada menos do que um panorama do futuro do mundo. Para isso, serviu-se de um estilo que seguia a tradição profética do Antigo Testamento. Inspirou-se, por exemplo, na visão de Ezequiel de uma batalha decisiva de "final dos tempos" entre Israel e o povo de Gog e Magog.
Além da besta de dez chifres, que representava Roma, São João também cita uma besta de dois chifres "que obriga a Terra e seus habitantes a adorar a primeira besta". Isso deveria ser um símbolo dos imperadores que obrigavam seus súditos a adorá-los como se fossem deuses. Quanto a essa segunda criatura, São João fala no "número da besta” e usou tal artifício para identificar o alvo que queria atingir. Escreveu: "Isso pede sabedoria. Deixa aquele que tem entendimento calcular o número da besta, pois ela tem um número de homem e tal número é 666". O apóstolo usou claramente um código numérico. Naquele tempo, ainda não eram usados números arábicos, mas romanos, que tinham letras representando números; a letra "C", por exemplo, correspondia ao número cem. Foram feitas muitas tentativas, através de combinações latinas e gregas, para descobrir quem seria a besta, todas equivocadas. Por segurança, São João voltou ao hebraico de sua origem, onde Neron Kaisar - termos gregos usados pelos hebreus para escrever "Imperador Nero" - correspondia exatamente ao número 666.
Até aí não existia nada de profético na besta romana engolindo os fiéis; São João estava apenas mostrando sua visão do mundo. Mas, no final do Apocalipse, ele passa do tempo presente para um distante futuro. A visão foi específica. Ele viu um grande conflito entre os exércitos das bestas e os do guerreiro celestial montado num cavalo branco à frente de 144 mil fiéis - imagens de Cristo e da Igreja. Após um terrível massacre, os justos vencem e Cristo e os mártires governam o mundo por mil anos. Ao final desse período, Satanás, que estava confinado num poço sem fundo, se solta e causa uma revolta, apoiado pelos exércitos de Gog e Magog, que cercam Jerusalém. Mas o céu lança chamas que os consomem e Satanás é jogado num lago de fogo. Chega o Juízo Final, no qual os justos que morreram são salvos e os demais são atirados às chamas. A profecia vai mais além e fala no surgimento de novos Céu e Terra e de uma Nova Jerusalém. Lá, os fiéis ressuscitados viverão para sempre, iluminados pela luz divina.
Por tratar do final dos tempos, grande parte das imagens do Apocalipse se restringe à fé e não a uma avaliação racional. Mas pelo menos quando trata do destino do império romano, a visão de São João é bem precisa. Pois a Igreja sobreviveu ao império, como ele previra, e Roma foi assolada pelas invasões bárbaras do século V depois de Cristo, também conforme ele profetizara.
A Profecia do Gog e Magog
Um detalhe do Apocalipse sobre o Juízo Final que chamou especial atenção é o ataque a Jerusalém pelo exército de Gog e Magog, cuja derrota assinalará a hora do Juízo Final. A passagem ecoa uma profecia parecida do Livro de Ezequiel, no Antigo Testamento, que diz "Gog, da terra do Magog", localizada como "nas partes mais ao norte", faz um ataque a Israel numa coalizão de poderes. Houve inúmeras tentativas de identificar o que seria Gog e, na década de 1950, ficou em voga dizer que era a União Soviética de Stalin. Mas a esperada invasão de Israel pelos soviéticos jamais ocorreu e, com o fim da União Soviética, esse medo acabou. Os leitores que fazem uma interpretação literal do texto argumentam que, segundo São João, o ataque só ocorrerá após o reinado de mil anos dos santos.
“E ele me transportou em espírito a um grande e alto monte e me mostrou a Santa Cidade de Jerusalém que descia do céu da presença de Deus, a qual tinha a claridade de Deus e um brilho semelhante a uma pedra preciosa como o jaspe, à maneira de cristal”.
(Visão de São João da descida da Nova Jerusalém, Apocalipse, 21: 10-11)
Uma Divina Loucura
As profecias perduraram durante toda a idade clássica da Grécia e de Roma. Na vida cotidiana, poucas decisões eram tomadas sem que se consultassem os adivinhos ou os oráculos, e na mitologia também o poder de clarividência era muito importante. Os mitos são quase sempre figuras trágicas que, em vez de abençoadas, eram amaldiçoadas com um dom terrível. A princesa troiana Cassandra, por exemplo, recebeu do deus Apolo o dom da premonição como prêmio por prometer passar a noite com ele. Como depois se recusou a fazer isso, foi condenada a saber tudo o que ia acontecer, mas sem que ninguém acreditasse nela. Da mesma forma, o vidente Tirésias recebeu de Zeus o dom de prever, como compensação por ter sido cegado por Hera, esposa do deus. Tirésias ofendera a deusa por ter asseverado, numa discussão sobre o sexo entre o homem e a mulher, que o prazer feminino era nove vezes mais intenso que o masculino.
Adivinhos e Visionários
Duas tradições de profecia coexistiram na época clássica, e Platão, em seu diálogo Fédon, classificou-as de profecias "sãs" e "loucas". A tradição "sã" tinha regras estabelecidas de observação e interpretação, com práticas diversas - como astrologia, tirar a sorte e observar o vôo dos pássaros ou o fígado de animais mortos (ver Capítulo 3). A profecia "louca" era a dos videntes de inspiração divina, cujas frases em êxtase costumavam ser incompreensíveis para os comuns mortais. Essa corrente, que parece ter chegado à Grécia vinda do Oriente, ligava diretamente o mundo clássico às antigas tradições xamanistas.
As velhas práticas deixaram muitas marcas na profecia grega. O deus mais associado ao tema era Apolo, cujo culto parece ter se espalhado na Grécia com os guerreiros dóricos. Nos tempos clássicos, acreditava-se que era o espírito de Apolo que possuía os videntes, homens e mulheres.
Mas Apolo foi de certa maneira um retardatário no panteão grego, e há prova de que seus princípios de vidência estavam ligados à deusa Gaia, nome grego da Terra. Essa origem pode explicar por que a profecia no mundo clássico costumava estar ligada a cavernas e lugares subterrâneos onde as misteriosas divindades do solo teriam sido adoradas.
Oráculos
Na Grécia, a profecia de inspiração divina foi materializada nos oráculos - lugares sagrados aonde os consulentes iam saber do futuro. Alguns oráculos eram bem antigos: além de Delfos, eram especialmente procurados os de Dodona, no norte, e o da ilha de Delos, no mar Egeu (suposto local de nascimento de Apolo). O oráculo de Dodona ficava num bosque de carvalhos consagrado a Zeus; seus sacerdotes, pela descrição de Homero, tinham pés sujos e dormiam no chão. Eles respondiam às perguntas dos visitantes examinando o farfalhar das folhas dos carvalhos. Mais tarde, outros métodos também foram usados, e as sacerdotisas buscavam inspiração no arrulhar dos pombos.
Há muitas indicações de que em outros oráculos eram usados alucinógenos para levar ao transe profético. Em Dídima, ao sul de Mileto, na atual Turquia, as profetisas aspiravam o vapor de poções ferventes. Em Colofão (hoje, leste da Turquia), elas tomavam uma bebida sagrada, talvez temperada com ervas medicinais como o heléboro ou o meimendro negro. Poções mais fortes também eram ingeridas em Argos, nordeste do Peloponeso, onde a sacerdotisa bebia o sangue de um cordeiro imolado. Já na Egéria, em Acaia, ingeriam o sangue de um touro, bebida considerada letal para as pessoas comuns.
Uma Experiência Próxima da Morte em Levadia
O oráculo do herói Trifônio, em Levadia, trinta quilômetros a leste de Delfos, foi certamente o mais estranho do mundo clássico. O viajante grego Pausânias contou sua visita noséculo II depois de Cristo. Antes da consulta, ele se banhou num rio sagrado e comeu a carne de carneiros imolados. Depois, foi levado para beber da água de duas fontes: Letes, para apagar o passado, e Memória, para preservar o futuro. Depois, desceu por uma escada num buraco de sete metros à margem do rio. Disseram-lhe então que enfiasse as pernas numa fenda, e ele foi jogado na escuridão, com um forte golpe na cabeça. Meio atordoado, ouviu de uma voz a mensagem que procurava. Perdeu os sentidos, e quando voltou a si, estava ao ar livre, onde teve de repetir as palavras do oráculo. Finalmente, voltou à hospedaria próxima para se recuperar.
“Uma loucura que é um dom especial do céu e fonte das maiores bênçãos que os homens podem receber”.
(O filósofo grego Sócrates descrevendo a profecia inspirada)
O Umbigo do Mundo
O maior oráculo clássico foi o de Delfos, no sopé do monte Parnaso, no centro da Grécia. Segundo o historiador Diodoro Sícolo, as cabras descobriram as propriedades sagradas do local quando sentiram o vapor que saía de uma fenda no chão. Os animais passaram a se comportar de forma estranha, dando saltos e balindo. Um pastor foi ver o que estava acontecendo, também ficou transtornado e começou a fazer profecias. Logo se juntou muita gente no lugar, e depois que várias pessoas caíram na fenda e morreram, concluiu-se que seria mais sensato haver uma só vidente atuando. Então, colocaram um tripé sobre a fenda.
A lenda se encarregou de explicar por que a fenda tinha propriedades sobrenaturais: dentro dela, estava a carcaça podre do dragão Pitão, enviado pela ciumenta deusa Hera para perseguir Latona, que teve filhos com Zeus, marido de Hera. O filho de Latona, o deus Apolo, foi a Delfos matar o dragão, por isso o oráculo foi dedicado a ele.
Alguns historiadores viram uma dimensão política no mito, já que o primeiro local de adoração em Delfos devia ser anterior ao culto de Apolo. Segundo tais historiadores, o local era consagrado a Gaia, deusa da Terra, cujo culto incluía a criação de serpentes sagradas. Dessa época, Delfos deve ter herdado o omphalos (umbigo), pedra sagrada que se acreditava indicar o centro da Terra.
“Saia daqui assassino da mãe! Sua presença me ultraja! Cuidado com o número 73!”
(Aviso da Pitonisa a Nero, em Delfos. Assassinado, Nero foi sucedido por Galba, de 73 anos.)
Profetisas de Apolo
As profetisas de Delfos ficaram conhecidas como pitonisas, em homenagem ao dragão morto Pitão. A princípio, havia apenas uma guardiã do lugar, uma virgem nobre. Mas, depois que uma jovem e bela pitonisa foi raptada por um visitante do oráculo, mudaram-se os critérios e apenas mulheres com mais de 50 anos de idade eram escolhidas. Mais tarde, elas tinham também de ser camponesas de boa índole. Algumas pitonisas eram casadas, mas não podiam manter relações sexuais enquanto estavam no oráculo. No auge da popularidade do oráculo, nos séculos V e VI antes de Cristo, três pitonisas se revezavam na função.
Nessa época, havia um complicado ritual para consultar o oráculo. No começo, as consultas eram só uma vez por ano, no aniversário de Apolo, mas depois passaram a ser no sétimo dia de cada mês, exceto nos três meses de inverno, quando o deus viajava para o norte. Os consulentes deviam levar oferendas e, com o tempo, passaram a pagar uma pequena taxa que correspondia a dois dias de salário. As cidades costumavam mandar enviados consultar o oráculo e pagavam sete vezes mais que uma pessoa. A medida que a clientela aumentou e incluiu reis e nações de todo o mundo clássico, Delfos enriqueceu e foram construídas galerias para guardar as obras de arte oferecidas ao oráculo.
Só os homens podiam consultar a pitonisa; as mulheres tinham de indicar um homem em seu lugar. O consulente primeiro ia até Delfos, cujo oráculo ficava no alto da montanha, cercado de grandes precipícios, sem dúvida para assustar muitos visitantes. Uma vez no templo, o recém chegado devia se purificar com água sagrada e pagar a consulta, recebendo então um bolo ritual. Acompanhado por um sacerdote e em geral por um representante de sua cidade - a maioria das grandes cidades gregas mantinha representantes em Delfos -, o visitante se aproximava do templo de Apolo, onde assistia ao sacrifício de uma cabra. Finalmente, podia entrar no adyton, ou local sagrado, onde ficava guardado o omphalos. Lá, atrás de um biombo, ficava a pitonisa.
A pitonisa também se preparava para cumprir seus deveres sagrados. Nos dias em que dava consulta, ela purificava o corpo jejuando e tomando banho na fonte Castaliana, próxima do templo. Depois, também assistia ao sacrifício da cabra no adyton, bebia da água de outra fonte sagrada, aspirava a fumaça de farinha e folhas de louro queimadas e recebia algumas folhas para mascar. Acredita-se que mascasse folhas de Laurus nobilis, hoje usadas como tempero na cozinha, mas é provável que fosse um louro tóxico, com efeito entorpecente. Por fim, a pitonisa sentava-se no tripé - supostamente em cima da mesma fenda, embora provas arqueológicas mostrem que o templo havia mudado de lugar - e entrava em transe.
“O belo Apolo não tem mais um teto sobre a cabeça, o louro profético ou uma fonte borbulhando. Sim, até a fonte murmurante secou”.
(A pitonisa descrevendo como estava o oráculo em 362 d.C. pouco antes de acabar.)
As Palavras da Pitonisa
A pitonisa costumava falar de forma grave e desconexa, sem muito sentido para o consulente. As palavras eram anotadas por sacerdotes que interpretavam o sentido e davam uma resposta por escrito - em geral, em versos. Uma cópia era entregue ao consulente e outra era gravada em pedra e guardada nos arquivos do templo. Com isso, os sacerdotes controlavam as declarações da profetisa e participavam do processo. Os sacerdotes eram em sua maioria eruditos (o historiador Plutarco foi um deles, no século I depois de Cristo) e se mantinham muito bem-informados. Havia até um serviço de pombos-correio que levavam imediatamente as notícias de Delfos para toda a Grécia. Informação cuidadosa aliada à inspiração profética para manter a fama do oráculo.
Esses dois elementos tiveram sem dúvida um papel na história de Creso, o lendário e rico governante da Lídia (onde hoje fica a Turquia), e suas ligações com o oráculo no século VI antes de Cristo. Creso temia o crescente poder da vizinha Pérsia, governada pelo jovem e dinâmico Ciro, e pensou em atacá-lo. Mas, com medo de agir sem saber as conseqüências, mandou seus enviados consultarem nada menos do que sete oráculos do mundo clássico. Para saber em qual deles acreditar, fez um teste: os videntes teriam de dizer o que o rei estaria fazendo numa determinada hora. Só a pitonisa deu a resposta correta: o rei Creso estava cozinhando carne de carneiro e tartaruga num caldeirão de bronze.
Convencido pela resposta, Creso quis saber a opinião da pitonisa sobre sua ação militar. A sacerdotisa revelou que, se os exércitos do rei atravessassem o Halis, rio que separava as duas nações (Lídia e Pérsia), um grande império seria destruído. Animado, Creso foi ao ataque, mas teve fragorosa derrota. Os persas conquistaram Sardis, capital da Lídia, e prenderam Creso. Os defensores da pitonisa argumentaram que ela foi bastante clara e que um grande império realmente caiu, só que o de Creso.
Essa ambivalência era fundamental nos videntes de Delfos. Plutarco defendia a imprecisão porque o oráculo costumava ser consultado por reis e tiranos, "irritar tais homens com duras verdades que contrariavam a vontade deles podia ser perigoso para os sacerdotes". Isso foi tragicamente confirmado quando Nero esteve no oráculo, em 67 d.C. e a pitonisa criticou-o por matar a mãe, Agripina. Nero vingou-se mandando cortar as mãos e os pés da sacerdotisa e depois queimá-los com ela.
Muros de Madeira de Salamina
Entre as mensagens políticas proferidas pelo oráculo de Delfos havia um aviso aos emissários vindos de Atenas em 480 a.C. época da invasão persa. Primeiro, a pitonisa mandou que os atenienses fugissemda cidade, pois ela seria destruída pelo enorme exército do rei Xerxes. Os emissários insistiram em fazer outra consulta, e ela foi mais direta, recomendando que ficassem seguros em muros de madeira e terminou dizendo que Salamina, a "ilha divina", destruiria as crianças, fosse na época do plantio ou da colheita. Os atenienses concluíram que a mensagem significava que eles deviam enfrentar os persas numa batalha naval no estreito entre Salamina, uma ilha no golfo Sarônico, e a cidade. Assim fizeram e tiveram uma vitória que ficou famosa. Depois, o exército de Xerxes foi destruído, e a Grécia nunca mais foi ameaçada pelos persas.
O Oráculo Silencia
Na época de Nero, o oráculo já experimentava uma longa decadência. Plutarco escreveu que Delfos quase não era mais consultado sobre assuntos políticos, tratava mais "dos problemas comuns das pessoas, cotidianos". Mesmo assim, continuou funcionando por mais duzentos anos e acabou em mau estado. O teto do templo desabou e a fonte Castaliana ficou seca, supostamente por ordem do futuro imperador Adriano. Quando a pitonisa disse a ele que chegaria ao trono, Adriano achou prudente não deixar que outros pretendentes ouvissem a mesma previsão.
A vitória do cristianismo como religião do império romano foi o golpe final - os cristãos não gostavam de oráculos pagãos. Depois de um século, o mais duradouro centro de profecias no mundo ocidental foi deixado de novo para as cabras, que foram as primeiras a freqüentá-lo.
Visões da Sibila
A lenda da sibila se espalhou pela Ásia Menor, talvez devido a influências do Oriente distante. No começo, tratava-se de uma mulher com esse nome, que viveu até idade bem avançada. Sibila fez previsões para Hécuba, rainha de Tróia, de a Cidade-Estado ser conquistada, mas séculos depois acreditava-se que ainda vivia na Eritréia, em frente à ilha de Quios. Com o tempo, ficou tão famosa que surgiram outras sibilas e a palavra tornou-se sinônimo de profetisa. Primeiro, o nome era dado a profetisas, mas, aos poucos, os oráculos quiseram aproveitar o prestígio delas e muitos passaram a ter uma sibila no local.
A mais conhecida sibila da Antigüidade viveu numa caverna em Cuméia e escrevia as respostas em folhas de palmeira que colocava no chão, diante de seu assento. Quando o consulente entrava no aposento, o vento do mar desarrumava as folhas e essa desordem simbolizava como sabemos pouco a respeito do futuro.
Um famoso trecho da Eneida, de Virgílio, descreve Enéas visitando a sibila na caverna. O relato detalha alguns métodos da consulta: animais sagrados eram imolados, depois a profetisa era possuída pelo deus Apolo. Em 1967, um engenheiro inglês chamado Roben Paget deu nova luz a essa visita de Enéas: descobriu uma série de cavernas subterrâneas em Baia, peno de Cuméia. Com 330 metros de profundidade, tinham um córrego artificial que os visitantes deviam atravessar num barquinho. Virgílio pode ter conhecido o local no século I antes de Cristo.
Os Livros Preciosos de Roma
Nos tempos romanos, a sibila de Cuméia era lembrada sobretudo por uma negociação supostamente realizada no reinado do sétimo e último rei de Roma, Tarquínio, o Soberbo, no século VI antes de Cristo. A profetisa teria oferecido ao rei nove livros do oráculo, mas o soberano achou o preço alto demais. Ela então destruiu três e ofereceu os restantes pelo mesmo preço. O rei recusou novamente, ela queimou mais três. Os conselheiros dele acabaram convencendo-o de que os livros eram muito valiosos, não podiam ser perdidos, e ele acabou pagando o preço total por apenas três livros.
Mais tarde, os livros sibilinos foram guardados numa arca de pedra no templo de Júpiter, na colina do Capitólio, e eram um dos bens mais preciosos de Roma. Os livros continuavam lá em 496 a.C. quando foram consultados num tempo de fome; depois, os habitantes buscavam conselho neles sempre que um desastre ameaçava a cidade ou era preciso tomar grandes decisões políticas. Em 83 a.e., foram destruídos num incêndio, mas houve tal protesto pela perda que o imperador mandou seus enviados aos oráculos do Mediterrâneo para conseguir outros que substituíssem os perdidos. A última consulta feita nesses livros foi em 363 d.C. e consta que ainda existiam quando, um século depois, Roma foi conquistada por invasores do norte.
“Sua cor mudou, seu rosto também, e seu espírito emitiu gemidos surdos. Seu cabelo ficou eriçado. Ela teve uma convulsão, seus braços e pernas estremeceram e ficaram pesados”.
(Descrição do transe profético da sibila pelo poeta Virgílio.)
Oráculo das Sibilas
A fama das sibilas como profetas chegou ao mundo judaico e cristão. Supostos textos escritos por elas prevendo a vida do Messias apareceram a partir do século I antes de Cristo e similares cristãos anunciando o próximo milênio. Os textos cristãos influenciaram muito a Idade Média e deram grande valor à sibila pela previsão do nascimento de Cristo. Ela foi saudada como proto-cristã por alguns patronos da Igreja e sua fama durou o bastante para estar entre as figuras sagradas da Capela Sistina, de Michelangelo.
Os Mistérios de Pachacamac
Um aspecto interessante da história da profecia é como os mesmos elementos aparecem em culturas e tradições diferentes. O oráculo de Pachacamac ficava no atual Peru e foi o mais respeitado centro de profecias das três Américas, embora tão distante do oráculo de Delfos. Mesmo assim, os dois tinham muitos pontos em comum.
Para começar, ambos eram locais sagrados cuja fama se espalhou por uma vasta região. Da mesma forma que as pessoas saíam de toda a Grécia para ir a Delfos, Pachacamac - próximo de onde hoje fica a capital Lima - atraía consulentes de todo o Peru e do sul do Equador. Os dois oráculos tiveram vida longa: Delfos funcionou pelo menos do século VIII antes de Cristo até o século IV da era Cristã, enquanto Pachacarnac já era visitado em meados do primeiro milênio depois de Cristo e recebeu consulentes até a década de 1530.
A Queixa de Atahualpa
Em 1532, o chefe inca Atahualpa foi feito prisioneiro dos espanhóis e recebeu a visita do sumo sacerdote do templo de Pachacamac. Os espanhóis ficaram surpresos ao ver que ele tratara o visitante com desprezo e, quando lhe perguntaram por que estava zangado, respondeu que o oráculo tinha errado em três previsões. Primeiro, dissera que seu pai seria curado de uma doença se fosse exposto ao sol, mas ele morreu. Segundo, o oráculo disse a Huascar, o rival de Atahualpa na guerra civil que dividira o país na época da chegada dos espanhóis, que ele seria vitorioso. Terceiro e pior de tudo, o oráculo dissera a Atahualpa que atacasse os soldados de Pizarro, pois conseguiria matar todos. O imperador estava tão irritado com os maus conselhos do oráculo que chegou a sugerir que os espanhóis prendessem o sacerdote para ver se Pachacamac conseguiria libertá-lo.
Há igualmente semelhanças nos rituais para chegar aos oráculos. Em ambos, os consulentes deviam se purificar antes de entrar no templo. E eram ainda mais rigorosos no Peru do que na Grécia: para entrar na praça inferior do templo, os consulentes tinham de jejuar vinte dias e, para ir até a parte mais alta, tinham de ficar quase sem comida por um ano. Havia outras semelhanças: em Pachacamac e em Delfos, os consulentes pagavam uma alta soma - no Peru, em espécie, como algodão em rama, tecidos, milho, peixe seco ou, para os mais abonados, ouro. Com isso, os dois oráculos ficaram muito ricos. Ambos exigiam o sacrifício de animais, como lhamas e porquinhos-da-índia em Pachacamac e cabras em Delfos.
Mas havia também importantes diferenças. Pachacamac era o santuário de um único deus, enquanto Delfos era dedicado a Apolo, que tinha vários outros templos na Grécia. Pachacamac era o oráculo central do deus criador que tinha esse nome, um dos mais venerados na América do Sul antes da invasão espanhola.
A disposição física dos dois oráculos também era bem diferente. Delfos vinha da terra: foi criado a partir de uma fenda no chão. Segundo a tradição sul-americana,Pachacamac alcançava o céu. O ponto mais importante do local, que ficava na nascente do rio Lurin, era um monte construído pelos indígenas, encimado por uma pirâmide de degraus a 150 metros de altura da planície costeira. O oráculo se situava no alto, num pequeno santuário onde a estátua de madeira do deus ficava escondida atrás de uma cortina, só podendo ser vista pelos sacerdotes.
Acima de tudo, não havia equivalente da pitonisa ou da profetisa de Delfos em Pachacamac, onde as respostas do deus eram transmitidas aos consulentes pelos sacerdotes do templo. Não restou nenhuma indicação de como eram dadas as respostas, mas a comunicação com o deus parece ter sido individual e secreta. Pachacamac não tinha o tom dramático dos delírios sagrados da pitonisa; em vez disso, seu sucesso contínuo se baseava no prestígio dos sacerdotes.
Um Oráculo Destruído
O fim dos dois oráculos foi bem diferente. Delfos foi desaparecendo aos poucos, enquanto Pachacamac acabou de repente. Comandados pelo irmão de Francisco Pizarro, Fernando, os invasores espanhóis entraram no templo em 1533, procurando ouro para pagar a si mesmos o resgate do inca Atahualpa. Afastando os sacerdotes que tentavam impedir a entrada, os espanhóis encontraram o santuário quase vazio, já que os guardiãs retiraram as peças mais valiosas quando foram avisados de que o inimigo estava a caminho. Os espanhóis gritaram que o oráculo era obra do demônio, perseguiram e torturaram alguns sacerdotes e expulsaram do templo os demais. O oráculo foi profanado, e o deus Pachacamac nunca mais se manifestou.
O Apóstolo do Terceiro Tempo
Hoje, o nome Joaquim de Fiore pouco significa para a maioria das pessoas, mas é difícil exagerar a importância dele. Para o professor Norman Cohn, autor de A conquista do milênio, Joaquim representou o "método de profecias mais influente da Europa até o aparecimento do marxismo, que previu a vitória do proletariado". Mas Joaquim não podia ser mais diferente de Karl Marx. Nascido por volta de 1135, foi monge cisterciense no sul da Itália. Durante 14 anos, exerceu o cargo de abade do convento, depois, retirou-se para a vida contemplativa até sua morte, em 1202. Mesmo assim, sua fama como intérprete da Bíblia e profeta do progresso histórico se espalhou ainda em vida. Foi consultado por vários papas, e, quando o rei Ricardo I da Inglaterra (Ricardo Coração de Leão) estava a caminho das Cruzadas, mandou que levassem Joaquim à Sicília, pois queria conhecê-lo.
As profecias de Joaquim não decorriam de visões, mas de profundos estudos bíblicos. Como muitos de seus contemporâneos, ele era fascinado pela numerologia e acreditava que os números citados na Bíblia - a Santíssima Trindade, os sete selos do Apocalipse, os 12 apóstolos de Cristo - tinham um alto significado. Após vários anos de pesquisa, recebeu (conforme seus escritos) pelo menos duas iluminações que fizeram com que subitamente entendesse fatos obscuros.
A Visão de Joaquim de Fiore
Joaquim criou nada menos que uma nova visão da história humana. Por tradição, a Igreja tinha pouco a declarar sobre o período entre a Primeira e a Segunda Vinda do Cristo - pelo menos, depois que se acabaram as esperanças de um iminente Apoca1ipse. O intervalo entre as duas datas era considerado principalmente uma fase de espera - a maioria dos padres gostava de considerá-lo um tempo de provação que era preciso suportar. Mas o estudo que Joaquim fez do Antigo e do Novo Testamento convenceu-o de que a Bíblia guardava uma história de progresso espiritual. E considerou o Tempo do Pai, no Antigo Testamento, como de lei, obediência, hierarquia, medo e servidão, que acaba sendo suplantado pelo Tempo do Filho, no Novo Testamento - de graça, fé e submissão filial. Sua idéia revolucionária era de que um Terceiro Tempo estava prestes a surgir em substituição ao Tempo do Filho - seria o Tempo do Espírito Santo, de amor, liberdade, contemplação, união e alegria.
Joaquim era uma espécie de poeta místico que fez uma descrição bastante lírica do futuro. Escreveu que, após a luz das estrelas do Antigo Testamento e o alvorecer do Novo, o Terceiro Tempo seria claro como o dia. Era como o verão que vem após o inverno e a primavera. E, sendo monge, considerava as ordens monásticas a sentinela avançada do tempo que estava por vir. Fazendo mais uma comparação, escreveu que o Antigo Testamento teve 12 patriarcas, o Novo, 12 apóstolos, e o Terceiro Tempo seria marcado por 12 monges. Entre estes, acreditava Joaquim, estava um grande mestre ou "novo líder" que faria com que os seres humanos passassem das preocupações terrenas às espirituais. O Terceiro Tempo seria o auge do plano de Deus - os pagãos seriam convertidos, o conhecimento divino seria revelado diretamente ao coração de todas as pessoas e o mundo iria finalmente encontrar a paz e o êxtase do mistério divino.
Estudos posteriores convenceram Joaquim de que o tempo prometido estava próximo. E de que esse advento e o movimento monástico tinham começado com São Benedito, o pioneiro da vida religiosa em comunidade que viveu no século VI. Joaquim viu nesse fato uma semelhança com as 42 gerações que, segundo o Evangelho de São Mateus, separaram Jesus do patriarca Abraão - concluindo, assim, que o Tempo do Espírito Santo viria após um período de tempo parecido. Pelos seus cálculos, chegaria entre os anos de 1200 e 1260. Previu também uma fase difícil antes, marcada pelo aparecimento de duas novas ordens monásticas. Uma delas seria puramente contemplativa, e a outra, divulgadora da mensagem de Cristo.
A revelação do novo tempo foi bem aceita pelos seus contemporâneos, sobretudo pelos que viviam em conventos. Uma condição para a chegada do Terceiro Tempo pareceu se cumprir alguns anos após a morte de Joaquim, com a fundação de duas ordens - a dos franciscanos, dedicados aos pobres e à imitação de Cristo, e a dos dominicanos pregadores. Joaquim teve muita influência sobre essas ordens, principalmente a franciscana, cuja ênfase em abrir mão dos bens materiais em favor dos bens espirituais combinava com a visão dele.
“Uma Ordem Religiosa de homens justos a quem será dado o dom de imitar perfeitamente a vida do Filho do Homem”.
(Previsão de Joaquim de Fiore de uma ordem religiosa que iria preparar o caminho para o Terceiro Tempo. Muitos viram a previsão se cumprir com a fundação logo depois da Ordem dos Franciscanos e dos Dominicanos.)
Acusações de Heresia
Joaquim de Fiore sempre cuidou para não criar controvérsia, e por toda vida teve o apoio do papa. Mas não demorou para seus seguidores tirarem conclusões políticas radicais a partir de suas opiniões. Embora Joaquim apoiasse fielmente o papado, alguns consideravam a Igreja - com suas enormes riquezas materiais - uma propaganda do velho mundo que estava passando. Os que professavam essa opinião começaram a produzir comentários sobre os escritos de Joaquim, e logo estavam circulando novos textos com o nome dele. O mais explosivo foi o "Evangelho Eterno”, que dizia substituir o Antigo e o Novo Testamento, ultrapassados com a chegada do Terceiro Tempo. Dizia também que a Igreja tinha acabado, já que os mensageiros da verdade eram agora monges mendicantes.
Tais opiniões foram logo condenadas por heresia, e no século seguinte, muitos seguidores foram perseguidos e até assassinados. Um número maior ainda de fiéis ficou confuso ao ver que o sonho de Joaquim de Fiore veio a ser ligado às expectativas apocalípticas de um Imperador dos Últimos Dias que surgiria numa época de ouro antes da Segunda Vinda do Cristo. Essas crenças passaram a ser ligadas a um novo personagem, o papa Angélico, que trabalharia em conjunto com o último imperador do Tempo do Espírito Santo.
“O Papa vai tomar posse do centro de Roma, onde poderá convocar com mais facilidade seus assessores”.
(Santa Brígida da Suécia prevendo um Enclave Papal em Roma, que alguns consideram uma visão da Cidade do Vaticano.)
As Idéias de Joaquim se Mantêm
Veio o ano de 1260 sem que surgisse o TerceiroTempo, mas isso não alterou mui to a popularidade de Joaquim de Fiore. A idéia de uma época de ouro na qual todos os erros e falhas do mundo acabariam era muito sedutora para ser descartada facilmente. Tal idéia continuou influenciando pessoas como o poeta Dante Alighieri, que incluiu Joaquim entre os profetas da Divina comédia.
As idéias dele influenciaram também místicos como Brígida da Suécia, que, aos 41 anos e com oito filhos, passou a viver em penitência e oração. Em 1350, seguiu para Roma, onde passou os últimos 23 anos de vida. Lá, teve visões do fim da Igreja, caso a instituição não se corrigisse. Ainda no século XIV; ela tentou preparar o caminho para a chegada do papa Angélico e recomendou que a sede do papado voltasse para Roma, deixando o exílio temporário em Avignon, na França. Da mesma forma, Catarina de Siena, futura santa padroeira da Itália, buscou redimir a Igreja com suas visões: ela viu a Igreja como noiva de Cristo, vestida de farrapos sujos; sua beleza, porém, um dia voltaria a brilhar, enfeitada com jóias e coroada de todas as virtudes.
Embora bastante desfiguradas, as idéias de Joaquim perduraram até os tempos modernos, atraindo gerações de reformistas sociais que viam a chegada de uma grande época de progresso humano para acabar com o retrocesso do passado. O mais estranho é que essas teses ressurgiram há poucas décadas, sob um verniz de astrologia com a propagação das doutrinas da Nova Era que prometem, no estilo de Joaquim, tempos de paz, união e amor. Por mais curioso que pareça, a Era de Aquário pode ter dado seus primeiros sinais há mais de oitocentos anos, no sul da Itália, nos devaneios bíblicos de um monge tímido e livresco.
A Sibila do Reno
Na Idade Média, o nome de Hildegarda de Bingen estava um pouco associado ao de Joaquim de Fiore na lista de profetas influentes. Abadessa e mística da região do Reno, Hildegarda teve visões desde criança e ganhou fama que se estendeu além do cristianismo - três papas, dois imperadores do Sacro Império Romano e muitos bispos e abades procuraram seus conselhos. Mas sua visão do futuro da Igreja era desanimadora. Ela previu que, se não houvesse uma reforma, o povo e os governantes abandonariam a Igreja, e sua lendária riqueza iria diminuir. Os países passariam a obedecer a líderes nacionais e não ao papa, e o Sacro Império Romano também se dividiria. A previsão de Hildegarda, feita no século XII, se realizou em grande parte na Reforma, 350 anos depois, o que é uma ironia para uma abadessa fiel à Igreja Católica.
As Previsões Sobre Papas
Entre as duradouras curiosidades da história das previsões estão as profecias de São Malaquias. Elas consistem em 111 frases curtas definindo cada papa a partir de Celestino II, que governou a Igreja de 1143 a 1144. São Malaquias, o suposto autor, foi um religioso e reformista que morreu em 1148. Ele levou para a Irlanda a ordem cisterciense fundada por São Bernardo de Claraval, de quem foi amigo e que escreveu sua biografia - sem, contudo, se referir às profecias. A primeira menção a elas ocorreu em 1595, quando estavam em voga as profecias sobre papas.
O longo período em que as profecias de São Malaquias ficaram esquecidas causou, como era de se esperar, suspeitas; e foi sugerido poucas décadas depois de reaparecerem que eram forjadas. Dizia-se que foram criadas na eleição papal de 1590 para favorecer um certo cardeal Simoncelli de Orvieto. Nas definições, esse pontífice tem o epíteto De antiquitate urbis, que em latim significa "da antiga cidade", e o sobrenome Orvieto em latim é "cidade antiga". Mas os defensores das profecias justificaram o longo sumiço delas dizendo que São Malaquias levara-as ao papa Inocêncio II na visita que fez a Roma em 1140, e elas simplesmente ficaram perdidas nos arquivos do Vaticano.
Divisas e Brasões de Armas
A controvérsia sobre a autenticidade do documento perdura até hoje. Algumas profecias mais antigas certamente são tão adequadas que parecem feitas depois do fato - do contrário, seriam incrivelmente premonitórias. Exemplo: o quinto papa na lista, Adriano IV (que governou de 1154 a 1159) tem como divisa De rure albo, que significa "do campo de Alba”. Ele era o inglês Nicolau Breakspear, proveniente de Saint Albans. Já a divisa do papa Alexandre IV (de 1254 a 1261) era Signium Ostiense: ele foi cardeal de Óstia antes de ser papa. O papa eremita Celestino V (1294) recebeu o lema Ex eremo celsus, "grande homem do deserto".
Os céticos acreditam que essas definições foram feitas após os fatos. O mais interessante, talvez, é que há previsões posteriores a 1590 - portanto, depois de São Malaquias ter morrido. Muitos críticos consideram que houve uma queda de qualidade após isso, mas, mesmo assim, há definições que se encaixam muito bem. O papado de Benedito XV (1914 a 1922) coincidiu com a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, basicamente ateísta. Benedito recebeu o lema Religio depopulata (Religião sem adeptos). Em 1978, João Paulo I foi eleito e governou por apenas 33 dias, os dois lados da lua cheia, daí De medietate lunae, que significa "ponto central da lua".
Outros papas podem ser ligados a suas divisas pelos brasões que usaram. Assim, o brasão de Clemente XIV (1769 a 1774) tinha um urso correndo, daí Ursus velox (Urso rápido). O brasão de Leão XIII (1878 a 1903) tinha um cometa, e sua divisa era Lumen in coelo (Luz no céu) e o de Paulo VI (1963 a 1978) era Fios floris (Flor das flores) e tinha como adorno uma flor-de-lis.
Claro que é fácil mostrar a adequação da lista de São Malaquias citando o que estava certo. Mas há definições que não combinam tanto, como: João Paulo II, o polonês que em 1978 foi o primeiro não-italiano no trono de São Pedro em 450 anos, tem o lema De labore solis (Do trabalho do sol), e busca-se uma relação no fato de ele ser da Cracóvia, onde nasceu Copérnico, primeiro a explicar a órbita solar da Terra - mas isso parece uma explicação forçada.
Curiosamente, a lista está prestes a terminar. Há apenas uma divisa de papa após João Paulo II: Gloria olivae (A glória da oliveira), e a lista termina com uma previsão fatal: no papado de um novo Pedro, a Igreja sofrerá uma derradeira perseguição, Roma será destruída e chegará o Juízo Final.
“A última perseguição à Santa Igreja Católica será no reinado de Pedro, o Romano, que apascentará suas ovelhas em meio a grandes aflições e, quando terminar, a Cidade das Sete Colinas estará muito destruída e o terrível Juiz julgará o povo”.
(Previsão de São Malaquias sobre o último Papa, que será eleito no século XXI).
As Vozes de Joana D’Arc
Poucas personagens da História são tão impressionantes quanto Joana d'Arc, conhecida como a Donzela de Orléans. Em 1429, quando a França escoava suas riquezas na Guerra dos Cem Anos com a Inglaterra, uma camponesa analfabeta, que tinha visões de anjos, conseguiu ser apresentada ao rei da França. Em poucos dias, ela o convenceu de que poderia levantar o ânimo dos exércitos enfraquecidos. Enviada a Orléans, que estava dominada pelos ingleses, Joana libertou a cidade e expulsou o exército inimigo em apenas nove dias. Prometeu então conduzir o rei através das terras dominadas pelo inimigo até a cidade de Reims, onde os soberanos franceses eram coroados na época. A ocupação inglesa tinha adiado a cerimônia por mais de seis anos. Logo depois, Joana foi presa pelos inimigos, acusada de heresia e bruxaria. Condenada por bispos franceses coniventes com os ingleses, foi queimada na fogueira em 1431, quando ainda não completara 20 anos. Mais tarde, as acusações foram revogadas e quase cinco séculos depois, em 1920, a Igreja declarou-a santa e padroeira da França.
O dom da profecia de Joana d'Arc assumiu a forma de vozes, que ela ouviu pela primeira vez aos 13 anos. Eram de São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida - os padroeiros da região no leste da França de onde ela vinha. As vozes lhe disseram que procurasse o rei e oferecesse seus préstimos, o que não era uma incumbência simples na França assoladapela guerra. O fato de ter convencido o comandante militar da região a enviá-la disfarçada de soldado, com um acompanhante e recomendada a Carlos VII já podia ser considerado um pequeno milagre.
Vários episódios na vida de Joana d'Arc mostram que ela era clarividente. Quando esteve pela primeira vez na presença do rei, ele se escondeu entre os cortesãos para testar os dons da jovem, mas Joana se encaminhou diretamente a ele, sem nunca tê-lo visto antes. Consta também que recebeu sua espada numa visão - as vozes recomendaram-lhe que dissesse às autoridades da Igreja na aldeia de Fierbois que procurassem embaixo do altar da igreja local. E lá encontraram uma espada enferrujada dentro de uma velha arca. Depois de polida, a espada tornou-se a arma com que Joana conduziu seus exércitos no combate. Consta também que Joana garantiu, dois dias antes da notícia chegar, que os franceses tinham sofrido uma derrota a trezentos quilômetros de onde ela estava.
No julgamento, pediram que Joana explicasse um fato que intrigava a muitos: por que não conseguiu prever e evitar a própria prisão? Joana respondeu que as vozes lhe disseram que seria presa antes do dia 24 de junho, o meio do verão europeu (atualmente, tal data cai no mês de maio), mas ela não quis contar. E continuou prevendo a vitória da França, insistindo em que os ingleses acabariam perdendo todas as terras no continente, o que realmente aconteceu. Pode-se dizer que, graças à ajuda de Joana d'Arc ao ânimo dos franceses, tudo o que previu foi cumprido por ela mesma.
“O Rei dos Céus me enviou com a mensagem de que o senhor será eleito e coroado na cidade de Reims. Acredita que fui enviada por Deus?”
(Frases de Joana d’Arc ao Rei Carlos VII da França no primeiro encontro que tiveram, em 1429).
A Donzela de Kent
A história da profetisa inglesa Elizabeth Banon, a Donzela de Kent, tem alguma semelhança com a de Joana d'Arc. Empregada doméstica, ela também ouviu vozes e teve visões. Sua primeira profecia foi em 1525, aos 19 anos, depois de uma doença. A notícia de suas visões chegou ao arcebispo de Canterbury, que enviou dois monges para examiná-la. m, Edward Bocking, não teve dúvidas de que a moça era inspirada pela Virgem Maria e levou-a para um convento de freiras em Canterbury. Mas os tempos eram difíceis - no resto da Europa, a Reforma protestante estava em andamento e na Inglaterra, o rei Henrique VIII tentava conseguir o divórcio que acabaria fazendo com que rompesse com a Igreja Católica. A Donzela era muito leal à Igreja, e suas profecias passaram a ter um tom político cada vez maior - chegou a prever que o rei morreria, se conseguisse o divórcio. A notícia chegou a Henrique VIII, que mandou prendê-la. Interrogada pelas autoridades da Igreja, ela concordou em retratar-se, mas, mesmo assim, o rei exigiu que fosse morta. Foi enforcada em 1534, em Tyburn, junto com o monge Bocking e quatro outras pessoas que a apoiavam.
A Trilha de Sangue Até A Paz Celestial
Como o Ocidente, a China tem uma tradição milenar de revolucionários que - em tempos de crise prometeram um paraíso na Terra. Nenhum teve efeito mais cataclísmico do que Hong Xiuquan, que tentou criar o Reino Celestial da Grande paz - em chinês, o Taiping Tianguo. O fato ocorreu em meados do século XIX, arrasou grande parte da China central e deixou cerca de vinte milhões de mortos.
Hong era de uma família pobre do sul do país, perto do porto de Cantão. Seus pais esperavam que ele passasse numa difícil prova para o serviço público, que na época era garantia de prosperidade. Mas Hong foi reprovado duas vezes e, após uma terceira tentativa, voltou para sua aldeia, teve um esgotamento nervoso e delirou por vários dias. A visão que teve ficou em sua lembrança durante anos.
Nela, Hong via-se na presença de um homem de barba, de túnica com o desenho de um dragão negro e chapéu alto, que lhe disseram ser seu pai. O pai reclamou que tinha criado os povos da Terra, mas o demônio os extraviou. Para trazê-los de volta, o pai entregou a Hong uma espada e um sinete dourado. Hong então começou a afastar os demônios, enquanto seu irmão mais velho levantava o sinete e cegava os demônios com sua luz. Vencido o inimigo, Hong foi recebido no céu, ouviu novas instruções do pai e foi mandado de volta à Terra para cumprir outra missão, parecida com a primeira. O sonho termina assim.
Hong curou-se do delírio e voltou a morar na aldeia, onde trabalhou como professor. Seis anos depois, leu por acaso um tratado moral escrito por um missionário cristão e intitulado Boas palavras para convencer o tempo. O texto mudou a vida de Hong, que imediatamente viu no cristianismo uma explicação para sua misteriosa visão. Percebeu então que o pai visto em sonho era o Deus cristão, e que o irmão mais velho que o ajudara a afastar os demônios era Cristo. E ele, Hong, era o filho caçula de Deus, encarregado de uma missão sagrada: não só implantar o cristianismo na China, como também desbaratar os demônios que controlavam o país.
Animado, Hong partiu para divulgar sua mensagem inflamada, que teve boa acolhida. A dinastia Qing, que governava a China na época, era muito malquista, pois atrasara e empobrecera o país. Para piorar as coisas, os chineses tinham sido recentemente derrotados pelos britânicos na primeira Guerra do Ópio, de 1839 a 1842, e os estrangeiros estavam obtendo lucrativas concessões nos maiores portos e cidades.
“Minhas mãos conquistam o poder mortal do Céu e da Terra para decapitar os maus, poupar os justos e amenizar as dores do povo”.
(Trecho de uma poesia de Hong Xiuquan escrita em transe).
Os Rebeldes de Taiping
Hong logo recebeu apoio, sobretudo dos pobres e dos estudantes insatisfeitos, além de camponeses e comerciantes assolados por impostos. Em 1851, ele e seus seguidores conquistaram a cidade sulista de Yongan, onde Hong se declarou Rei Celestial e anunciou que iria conquistar a China e exterminar todos os idólatras.
Em 1853, seus exércitos conquistaram a cidade de Nanquim, enquanto os rebeldes de Taiping já somavam cerca de meio milhão de homens. Parecia que Hong estava prestes a conseguir seu intento, sobretudo a partir de 1856, quando a dinastia Qing se envolveu numa segunda guerra do ópio com a Inglaterra.
Havia, porém, pouca caridade cristã nas regras de Hong, que proibiam a bebida, o cigarro e a prostituição. Ele mandou matar estupradores, adúlteros e fumantes de ópio. Aos poucos, surgiu uma insatisfação com o puritano Reino Celestial, e quando apareceram adversários de Hong dentro do próprio movimento, ele mandou matá-los. A expedição que enviara ao norte para conquistar Pequim foi derrotada. Mas, por ironia, o exército que mais ajudou a acabar com o Reino Celestial foi o cristão do Ocidente, pois os estrangeiros estavam preocupados com a ameaça que os rebeldes faziam às suas concessões comerciais. Uma tropa de mercenários europeus e imperiais sob o comando do eficiente oficial inglês general Charles Gordon conteve o conflito. Os rebeldes foram mandados de volta para a sua base em Nanquim.
Hong morreu em 1º. de junho de 1864, e a cidade sitiada foi conquistada seis semanas depois. Os rebeldes que sobreviveram foram em sua maioria assassinados por um governo vingativo. O Reino Celestial da Grande Paz terminou num mar de sangue.
Joseph Smith, O Profeta dos Últimos Dias
Há profecias que poderiam ter lugar em qualquer parte do mundo, mas a extraordinária história de Joseph Smith, fundador da seita dos mórmons, só poderia ter ocorrido num lugar e num momento: nos Estados Unidos do começo do século XIX. A vida toda, Smith sofreu reveses que na nobre Europa ou na Ásia teriam acabado com ele, mas nos Estados Unidos da época, bastou ele se mudar para outro canto.
Nascido em 1805, Smith foi criado no oeste do estado de Nova York, numa época turbulenta. A Guerra da Independência tinha terminado há pouco e a jovem nação que surgira ainda lutava para encontrar sua identidade. A região de origem de Smith era assolada por ondas de manifestações religiosas.Em 1847, Brigham Young; sucessor de Joseph Smith na direção da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, levou seus seguidores para um novo endereço em Utah, onde a obra de Smith finalmente se firmou. Salt Lake City, fundada pelos pioneiros mórmons, é hoje a capital mundial da seita.
“Havia um livro guardado, escrito em placas de ouro, e também duas pedras em tigelas de prata. Os videntes do passado tinham a posse e o uso de tais pedras”.
(Descrição que Joseph Smith fez do Livro dos Mórmons e dos Instrumentos Mágicos dados para traduzi-lo).
Em 1823, aos 17 anos, Smith contou que, quando rezava em seu quarto, apareceu-lhe um anjo chamado Moroni, dizendo que ele havia sido escolhido para restaurar a igreja de Deus no mundo. Quatro anos depois, numa colina próxima, o anjo entregou a Smith tabuletas douradas com sinais numa língua desconhecida que seriam caracteres de "egípcio reformado". Junto com as tabuletas, havia duas pedras chamadas Urim e Tumim, que, como por mágica, deram a Smith a capacidade de traduzir os caracteres.
O resultado dos esforços de Smith, lançado em 1830, foi o Livro dos Mórmons, que contava a história das tribos perdidas de Israel, as quais, segundo o livro, tinham imigrado para os Estados Unidos séculos antes de Cristo. Como profeta dessa nova revelação, Smith também recebeu o direito de ser sacerdote apostólico e teve permissão divina para criar e administrar uma igreja que divulgaria a mensagem.
Alto e bem-apessoado, Smith era igualmente um orador fluente e persuasivo, que logo recebeu apoio para as declarações que pareciam improváveis. A notícia de um profeta americano logo se espalhou e, um ano após inaugurar a primeira igreja em Fayette, estado de Nova York, ele montou uma base em Ohio e se mudou para lá. Mas desde o começo teve os seus adversários, e já em 1832 foi atacado por uma multidão irada que rasgou suas roupas, jogou breu no seu corpo e grudou-lhe penas.
Cinco anos depois, a comunidade de Ohio enfrentou problemas financeiros. A igreja se endividou com a compra de imóveis, e nem as contribuições dos fiéis conseguiram sanar as contas. Para resolver o problema, Smith criou um banco que faliu (um dos inúmeros bancos falidos na crise bancária de 1837). Ele foi julgado e multado, resolvendo então se mudar da cidade.
A essa altura, outra comunidade mórmon tinha surgido no estado do Missouri e sido perseguida pelos "gentios" (ou seja, aqueles que não eram da seita), que temiam ser dominados pelos mórmons. A chegada de Smith e de vários outros fiéis só exacerbou as tensões que levaram a confrontos diretos em 1838. Vendo que poderia haver mais briga e sangue, Smith preferiu mudar-se outra vez, já então para o estado do Illinois, onde se instalou na cidade de Nauvoo, na terceira tentativa de criar o Sião Americano, uma colônia celestial.
O duro tratamento que os mórmons receberam no Missouri - um massacre matou 17 fiéis - granjeou alguma simpatia para a causa e eles foram muito bem recebidos no novo endereço. Mas logo surgiram os mesmos medos e tensões, com a chegada de milhares de novos colonos à região. Os fatos culminaram em 1844, quando Smith se candidatou à presidência dos Estados Unidos e foi atacado por dissidentes em Nauvoo. A gráfica de seus jornais foi destruída, ele foi preso por ordem do governador de Illinois e interrogado com três companheiros. A cela onde ficaram foi atacada por cidadãos hostis e, na confusão, Joseph Smith (que também estava armado) foi morto junto com o irmão Hirum. Por ironia, a morte de Smith nas mãos de "gentios" ajudou muito, a longo prazo, a firmar a seita mórmon - como muitos profetas antes, ele se tornou um mártir da própria causa.
Visão da Terra Prometida
Influenciados por seu falecido líder Joseph Smith, os fiéis mórmons continuaram em busca da terra prometida, comandados por Brigham Young. Em julho de 1847, Young levou um pequeno grupo até o alto de uma montanha, de onde tiveram uma imponente vista do vale de Salt Lake. Young declarou que aquele era o local escolhido e que, em uma visão que teve em Nauvoo, Smith mostrou aquela mesma montanha e mandou que construísse lá a sociedade perfeita. O pico Ensign, como é conhecido, fica bem ao norte da moderna cidade.
Profetas Indígenas Norte-Americanos
Em junho de 1876, Touro Sentado, o chefe e visionário dos Índios sioux lakota, encaminhou-se para uma montanha perto do rio Powder, no centro de Montana, esperando ter uma revelação. Seu povo, a parte ocidental da nação sioux, estava enfrentando uma crise: o governo norte-americano tinha enviado tropas para obrigá-los a sair dos campos de caça para uma reserva no sul de Dakota. O chefe de 45 anos precisava de orientação para saber como reagir melhor. Foi para a montanha rezar.
Após a vigília, Touro Sentado concluiu que deveria fazer a Dança do Sol, o mais sagrado ritual dos sioux. Primeiro, ele deu cinqüenta cortes na pele, oferecendo o "lençol vermelho" do auto-sacrifício ao Espírito do Céu. Em seguida, dançou sem parar ao ar livre por mais de 24 horas até cair de cansaço. Em seu estupor, teve a revelação que buscava e viu soldados brancos caindo do céu no campo dos sioux "como gafanhotos".
Era o sinal que Touro Sentado esperava. Logo depois, os sioux e seus aliados cheyennes derrotaram a cavalaria do tenente-coronel George Armstrong Custer à margem do rio Litcle Bighorn e conseguiram uma vitória que ficou famosa. A visão do grande chefe tinha se confirmado.
A vitória de Touro Sentado foi um raro momento positivo na história geralmente lastimável dos índios norte-americanos contra a invasão dos colonos brancos. Uma característica dessa longa tragédia foi o aparecimento de vários líderes religiosos visionários que diziam ter uma mensagem especial que poderia, se determinadas condições fossem atendidas, conter a longa retirada de seus povos e trazer de volta uma época de ouro da caça e da colheita. De um modo geral, foram os brancos que deram a essas pessoas o título de "profetas", fazendo um paralelo óbvio com os adivinhos do Antigo Testamento. Mas a palavra também tinha outro sentido, pois todas as pessoas envolvidas tinham visões em transe, descendiam de xamãs siberianos e vieram da Ásia para a América do Norte numa data distante, atravessando o estreito de Bering.
“Você me manda arar a terra, mas devo então pegar uma faca e cortar o seio de minha mãe? Se fizer isso, quando eu morrer ela não vai me pôr no colo para descansar.
(Smohalla, o sonhador de Wanapum, explicando por que seu povo não devia ferir a Mãe Terra praticando a agricultura).
Profetas do Norte e do Sul
O primeiro indígena norte-americano a ser chamado de profeta foi Popé, um curandeiro da tribo pueblo que liderou uma revolta contra os espanhóis no local onde hoje fica o Novo México. O exemplo de Popé foi embrionário sob vários aspectos. Sua revolta foi apoiada por quase toda a nação pueblo e começou como reação à catequese dos missionários espanhóis que ameaçava crenças e costumes tradicionais. Popé acreditava estar seguindo instruções de espíritos ancestrais de seu povo - no caso, os sagrados kachinas, seres míticos que visitam a Terra a cada inverno. A intenção dele era voltar à posição que os nativos norte-americanos tinham no passado, o que conseguiu por algum tempo: em agosto de 1680, ele expulsou os colonos de Santa Fé. O final da história também foi, como sempre, lastimável: Popé foi deposto pelos próprios indígenas e a lei espanhola voltou a vigorar pouco depois que ele morreu, em 1692.
Bem mais ao norte, os índios delaware tiveram vários profetas na segunda metade do século XVIII, em reação ao número cada vez maior de colonos brancos em suas terras. Os mais conhecidos foram Neolin - que ajudou Pontiac, chefe dos índios ottawa, a atacar Detroit em 1763 - e Wangomend, da tribo munsee, que levou a mensagem de Neolin para os índios ohio.
Como Popé, os profetas da nação delaware tinham visões e queriam, em primeiro lugar, motivar o povo com suas mensagens - predizer o futuro era secundário. Avisão que tinham do futuro costumava ser de um tempo idílico, antes de os brancos chegarem à América do Norte. Por ironia, os profetas tomaram de empréstimo algumas idéias dos missionários cristãos - Wangomend sofreu influência da seita dos Irmãos Morávios.
O Sonho de Tenskwatawa
À medida que as colônias brancas foram sendo construídas na direção do oeste norte-americano, a mensagem dos delaware passou para os povos shawnee, que tiveram o importante profeta Tenskwatawa ("Porta Aberta”), irmão do grande líder político Tecumseh. Até os 37 anos, Tenskwatawa viveu à sombra do irmão como um curandeiro dissoluto que gostava de beber. Mas em 1805, numa época de epidemia, ele sonhou que estava morto, carregado por almas numa estrada. O caminho se bifurcava e ele seguiu pela estrada mais larga, que levava a uma casa chamada Eternidade. Era um lugar de castigo, e lá ouviu as almas atormentadas gritando "como o ronco de uma cachoeira”.
Embora Tenskwatawa não fosse cristão, qualquer missionário seria capaz de entender esse sonho. Os padres também poderiam ter passado a mensagem que ele tirou da visão, pois pregava um rígido código moral que proibia o álcool (que ele havia largado), a poligamia, a violência contra mulheres e crianças, o sexo e a desonestidade. O mais surpreendente é que ele convenceu seus seguidores a jogar fora o tradicional saquinho de talismãs, o bem mais sagrado dos indígenas, para mostrar que queriam começar nova vida.
A previsão de Tenskwatawa, entretanto, acompanhava a tradição de seu povo: chegaria a hora em que o Grande Espírito pairaria sobre o mundo, que ficaria no escuro por dois dias. Depois disso, os brancos iriam embora, enterrados ao lado dos indígenas que não quiseram mudar de vida. O Espírito então soltaria os animais de caça de onde foram escondidos e os índios virtuosos voltariam a possuir a terra. O tempo prometido chegaria dentro de poucos anos.
Durante quase sete anos, Tenskwatawa atraiu milhares de seguidores do meio-oeste para sua aldeia, que os brancos chamavam de Cidade do Profeta. Até acontecer uma desgraça. Em 1811, as tropas norte-americanas se aproximaram quando Tecumseh, o irmão de Tenskwatawa, não estava na aldeia, e este último incentivou os guerreiros a atacar, garantindo que nada lhes aconteceria. Segundo ele, a pólvora das armas dos soldados brancos se transformaria em areia.
O ataque ficou conhecido como a Batalha do rio Tippecanoe, e os parentes dos guerreiros mortos culparam Tenskwatawa pela derrota. Embora ele fosse solto, perdeu sua posição na tribo, e nunca mais a recuperou.
“Quando o Sol morreu, fui para o Céu e vi Deus e todas as pessoas que tinham morrido há muito tempo. Deus me disse que voltasse e dissesse ao meu povo que todos fossem bons, amassem uns aos outros, não lutassem, não roubassem nem mentissem”.
(Wovoka, o Profeta da Dança do Espírito, contando a visão que teve em 1º. de janeiro de 1889, num eclipse solar).
Dançando de Desespero
A situação dos índios norte-americanos continuou a piorar durante o século XIX, o que estimulava mais sonhos apocalípticos, agora tendo como centro danças místicas. Um desses movimentos surgiu na década de 1820, em estilo cristão, nas tribos Flathead ("cabeça chata") e Nezpercé ("nariz furado"). Trinta anos depois, o curandeiro Smohalla, da tribo wanapum, fez da dança washat o foco de resistência às tentativas do governo norte-americano de transformar os índios do noroeste em camponeses. Smohalla tinha tal raiva da agricultura que se recusava a cortar grama, dizendo que ela era o cabelo da Mãe Terra, ou a cavar a terra, que era a pele dela.
A Visão de Wodziwob
A Dança do Espírito dos nativos norte-americanos (ver no texto principal) remonta a 1869, quando um curandeiro da tribo paiute, chamado Wodziwob, teve um sonho. A ferrovia que ligava o país de leste a oeste tinha acabado de ser concluída e no sonho o indígena viu um trem chegando com muitos índios que tinham morrido pouco antes e ressuscitaram por milagre. Wodziwob achou que a ferrovia iria trazer uma grande mudança na vida dos índios. Enquanto isso, mandou que seu povo praticasse uma antiga dança que estava em desuso: feita em círculo, simbolizava o caminho que o sol percorria no céu. Por algum tempo, Wodziwob atraiu muitos seguidores, perdendo, no entanto, o prestígio quando sua previsão não se cumpriu.
As chamadas Danças do Profeta tiveram seu auge no movimento da Dança do Fantasma associado ao xamã Wovoka, da nação paiute. Em 1889, doente e acometido de delírios, o xamã teve uma visão do mundo destruído por uma grande enchente. No lugar, surgiria um novo mundo, onde ficariam os índios vivos e os mortos, cujos espíritos voariam com asas mágicas. Nesse novo mundo, todos seguiriam os antigos rituais.
A notícia da visão de Wovoka logo se espalhou, pois todas as nações indígenas estavam enfrentando dificuldades. A construção das estradas de ferro, em vez de devolver o espírito dos mortos, como esperava Wodziwob trouxe mais colonizadores brancos. Por isso, havia uma platéia ansiosa por ouvir a mensagem de Wovoka. Ele disse que seus seguidores poderiam colaborar para a chegada do tempo prometido tendo um comportamento rígido e voltando a praticar a dança circular que Wodziwob havia popularizado e que os brancos chamavam Dança do Espírito, já que tinha como finalidade ressuscitar os mortos.
O sonho de Wovoka prendeu por algum tempo a imaginação de um povo que estava quase desesperado. Do sul da Califórnia até os dois estados de Dakota (do Norte e do Sul), grupos indígenas dançavam arrastando lentamente os pés no sentido dos ponteiros do relógio, em volta de uma fogueira que representava o sol e entoando canções sagradas. Mas não aconteceu o que esperavam. Em 1890, um grupo de sioux que dançava perto do riacho de Wounded Knee, nas terras áridas de Dakota do Sul, foram mortos por soldados em pânico.
Após esse massacre, a Dança do Espírito foi deixando de ser praticada, como a Dança do Profeta, que veio antes. Os profetas indígenas norte-americanos levantaram suas vozes em reação a uma necessidade real e desesperada, mas, a longo prazo, as forças inimigas foram grandes demais para seus poderes visionários.
Os Segredos de Fátima
No dia 13 de maio de 1917, três crianças pastoreavam ovelhas perto da aldeia de Fátima, no centro de Portugal, quando aconteceu algo estranho. Viram uma luz brilhante sobre uma azinheira e, no centro da luz, a figura de uma mulher. Ela disse às crianças que não se assustassem, prometendo voltar um mês depois.
As crianças contaram a aparição aos pais, que não acreditaram. Mesmo assim, a notícia se espalhou e, no dia 13 de junho, cerca de cinqüenta pessoas acompanharam as crianças ao local. A mulher apareceu para as três de novo e prometeu voltar; os presentes não a viram, mas perceberam uma nuvem brilhante.
Em 13 de julho, já eram quinhentas pessoas aguardando, quando a mulher, que se identificou como Virgem Maria, fez uma revelação para as crianças que foi mantida em segredo por muitos anos. Ela disse também que faria mais três aparições e na última, em outubro, daria um sinal.
A notícia das visões continuou a se espalhar e, perto da aparição de agosto, as autoridades locais recolheram as três crianças para evitar distúrbios públicos. Ao serem liberadas, elas viram a Virgem outra vez, que repetiu a promessa para outubro.
No dia da aparição, como a notícia tinha chegado à imprensa de todo o país, mais de cinqüenta mil pessoas estavam no local, entre elas vários jornalistas incrédulos. O dia estava chuvoso, mas na hora marcada o céu clareou e a multidão viu o sol ficar prateado como se estivesse envolto em neblina. O sol fez o que um jornalista chamou de "uma dança macabra”, girando como um pião, depois pareceu se aproximar e se afastar. Ocorreram outros fenômenos visuais e os presentes viram uma luz que ficou azul-escura e depois amarela.
Aparentemente, a finalidade dessa demonstração, vista a até dez quilômetros do local, era dar crédito à revelação que a Virgem fez nodia 13 de julho. As crianças disseram apenas que ela pediu que construíssem uma capela em sua devoção e que as pessoas rezassem pela paz. Mais tarde, Lúcia dos Santos, a mais velha das três crianças, escreveu detalhes do que havia visto, pois os outros dois pastores vieram a morrer de gripe dois anos depois. Os relatos de Lúcia, escritos em 1936, 1942 e 1944, foram entregues em envelopes lacrados a autoridades da Igreja e guardavam os "segredos de Fátima".
“Quando virem uma luz desconhecida na noite, saibam que é o grande sinal dado por Deus de que Ele está prestes a castigar o mundo por seus crimes com guerras, fome e perseguições à Igreja e ao Santo Pai”.
(Profecia de Fátima prevendo a Segunda Guerra Mundial).
Três Revelações
Segundo Lúcia, a Virgem mostrou às crianças o inferno como um mar de chamas. Depois, avisou que a Primeira Grande Guerra terminaria em breve, mas, se as pessoas continuassem a ofender a Deus, haveria outra guerra no pontificado do próximo Papa, fato que seria marcado por uma estranha luz à noite. Para evitar mais desgraças, a Virgem pediu que a Rússia - que logo depois seria tomada pelos militantes bolcheviques ateus - fosse consagrada a ela e que se realizassem alguns rituais católicos. Se fizessem isso, previu, a Rússia se converteria ao catolicismo e haveria paz no mundo.
O papa seguinte foi Pio XI, que morreu em janeiro de 1939, pouco antes do início da Segunda Guerra. Lúcia entrou para um convento e morreu aos 95 anos, depois de explicar a pequena diferença de datas da previsão, dizendo que a guerra na verdade começou com a invasão da Áustria por Hitler, em 1938.
Seis semanas após tal fato, houve realmente uma luz estranha no céu, noticiada em todo o mundo. O New York Times deu como manchete “Aurora boreal assusta a Europa, pessoas correm de medo".
O Vaticano manteve segredo até o ano 2000 sobre a terceira parte da revelação. Tratava-se de mais uma visão: as três crianças tinham visto um homem de túnica branca, que reconheceram como o papa, conduzindo uma multidão de fiéis por uma colina íngreme. No alto, os peregrinos chegaram a uma cruz rústica e, quando se ajoelharam para rezar, foram mortos por soldados com flechas e revólveres.
Ao divulgar a profecia, o papa João Paulo II disse que ela havia se cumprido no atentado que sofrera, em 1981. O atentado, aparentemente instigado por serviços de segurança do leste europeu, foi em Roma, no dia 13 de maio, 64 anos depois da primeira aparição da Virgem. Ao se recuperar, o papa esteve em Fátima para agradecer e deixou uma das balas que o atingiram no grande santuário católico que hoje domina a cidade. Dois anos depois, ele consagrou a Rússia à Virgem Maria, como esta havia pedido. Os fiéis gostam de salientar que, menos de um ano depois, Mikhail Gorbachev assumiu o poder na União Soviética, dando início ao processo de desmantelamento do velho sistema soviético anti-religioso.
Sonhos e Premonições
Os sonhos sempre foram vistos como uma trilha para o conhecimento oculto. Em muitas culturas, eles eram canais para o mundo dos espíritos - seres poderosos podiam usar suas forças para propiciar ao sonhador uma premonição. Idéias semelhantes duraram até pouco tempo atrás, embora sem suas primitivas bases animísticas. Hoje, a interpretação dos sonhos tende a seguir Freud ao enfatizar a capacidade da mente adormecida de acessar o subconsciente. Dessa forma, os sonhos podem ir além do alcance da mente racional.
As revelações costumam ser puramente pessoais; milhares, se não milhões, de pessoas em todo o mundo dizem ter sonhado com a pessoa com quem vieram a se casar mais tarde ou "viram" em sonhos a morte de entes queridos. Mas existe também uma longa tradição de pressentimentos de fatos graves que causaram comoção pública. Desde o tempo do imperador Júlio César, na Roma Antiga, muitas pessoas garantem ter tido presságios do assassinato de líderes políticos. Outro tema que costuma aparecer nos sonhos são os grandes desastres aéreos ou ferroviários - e muitos livros foram escritos sobre supostas previsões do naufrágio do Titanic.
Os Deuses da Mesopotâmia
A história dos sonhos premonitórios começa na Mesopotâmia, região que fica entre os rios Tigre e Eufrates, onde hoje está o Iraque. Foi na Suméria, local de origem da civilização local, que surgiu a arte de escrever.
Como no Egito, o povo da Mesopotâmia adorava inúmeros deuses - de três a quatro mil. Algumas divindades mais importantes representavam forças da natureza, como Enlil, deus dos ventos e tempestades, e Enki, deus das águas. Outras eram associadas a lugares: Marduk, por exemplo, era o deus da Babilônia. Quando a Babilônia passou a dominar as demais cidades-Estado da região, Marduk se tornou o deus mais importante da Mesopotâmia.
Pedido Feito em Sonho
Um dos mais antigos textos sumérios tem 1.363 linhas em escrita cuneiforme em dois cilindros de trinta centímetros de altura cada. O texto conta como o governador da Cidade-Estado de Lagash quis restaurar os templos da cidade de Girsu conforme um pedido que recebera em sonho. Segundo o texto, Gudea governava Lagash em 2140 a.C., e estava dormindo quando Ningirsu, deus da cidade, apareceu e disse: "Você vai construir uma casa para mim; deixe que eu lhe mostre, deixe que mostre meus rituais conforme as sagradas estrelas." O deus chegou a desenhar o templo que ele queria e que está aninhado no colo de uma estátua do governador sentado, hoje no Museu do Louvre, em Paris.
Contato com Divindades
Os mesopotâmios tinham diversas formas de se comunicar com suas divindades. As cidades-Estado construíam zigurates, moradas para os deuses que pareciam montanhas feitas à mão. Nos altares que ficavam no alto dessas enormes construções, erigiam-se estátuas dos deuses, que eram vestidas e alimentadas, recebendo diariamente oferendas de comidas. Embora apenas os sacerdotes tivessem acesso a elas, os devotos podiam buscar a ajuda divina fazendo oferendas, e assim ser recompensados com saúde, vida longa e prosperidade.
Havia também formas mais diretas de descobrir a vontade das divindades. Os mesopotâmios respeitavam muito os presságios e foram os primeiros a ter várias formas de adivinhação, inclusive o exame do fígado de animais com marcas ou inchações. A adivinhação tinha até um status real - vinha do lendário governante sumério Ednmeduranki, que viveu antes da famosa enchente na região. Os adivinhos estudavam bem o futuro de cada rei e, se os prognósticos eram ruins, o soberano podia até abdicar por algum tempo, passando o trono a um substituto que, no final do período indicado, seria morto, levando o mau presságio junto com ele para o túmulo.
Nesse mundo povoado de deuses, quem conseguia interpretar os sonhos era mui to importante. A tarefa era considerada uma função que exigia conhecimento - havia livros de sonhos e uma classe especial de sacerdotes para interpretá-los.
Na literatura mesopotâmia, as premonições através de sono induzido tinham papel importante. Algumas das imagens mais significativas dos mitos da região têm um caráter onírico - como o vôo de Etana, rei-pastor montado numa águia em busca da erva do rejuvenescimento. Uma versão do mito do deus Dumuzi - condenado como a deusa grega Prosérpina a passar seis meses por ano no inferno conta que ele sonha com o próprio fim, caçado pelos demônios da morte, chamados gallas. Prevenido, Dumuzi usa de todo o seu engenho para fugir, mas não consegue. A moral da história é que a morte é para todos, por mais que se tente evitá-la.
O Épico de Gilgamesh
O grande clássico da Mesopotâmia é o épico de Gilgamesh, onde muitos fatos são previstos em sonhos. Gilgamesh governa a Cidade-Estado de Uruk e tem dois presságios de seu encontro com o selvagem Enkidu, que a princípio é seu rival e depois se torna um bom companheiro. O primeiro sinal surge quando Gilgamesh vê um raio caindo na terra e um machado de cobre - esses dois símbolos são interpretados pela mãe dele, a deusa Ninsun, como um homem muito forte dequem ele vai aprender a gostar. Mais tarde, os sonhos previnem Gilgamesh contra o monstro da floresta Huwawa, enquanto Enkidu prevê a doença que o matará e avisa seu companheiro: "O irmão, estão me levando para longe de você". A visão de Enkidu é um dos primeiros registros de morte anunciada e dá o tom fatalista que é um tema importante na cultura mesopotâmia. As palavras do texto resumem a condição humana: "Só os deuses vivem eternamente sob o divino sol, os homens têm os dias contados e tudo o que fazem se transformará apenas em vento".
Prevendo o Futuro do Faraó
Para os egípcios do tempo dos faraós, o mundo, invisível dos deuses e espíritos era tão real quanto aquele em que viviam. Cientes da própria vulnerabilidade em face de um destino incerto, eles procuraram várias formas de garantir que estavam agindo em sintonia com as forças invisíveis. Um meio de evitar risco desnecessário era consultar o calendário de dias favoráveis e desfavoráveis, que fez parte duradoura da vida egípcia. Outro meio era buscar presságios nos sonhos que indicavam vitórias ou problemas futuros.
Os sonhos eram considerados "revelações da verdade", conforme um texto do Império do Meio, Instruções do rei Amenhemat I. Há também provas de que os sonhos às vezes eram considerados lampejos de uma realidade superior - tanto que seu significado não se restringia apenas a quem sonhara.
Livros dos Sonhos
As pessoas sempre procuravam ajuda para interpretar os sonhos. Num lugar onde a grande maioria era analfabeta, os sacerdotes que entendiam a palavra escrita gozavam de alta reputação. Entre os textos que os sacerdotes lector (leitor) podiam consultar estavam os livros que explicavam o sentido de vários sonhos.
Um desses textos sobreviveu, embora incompleto, num manuscrito do século XII antes de Cristo.
Um Sonho Realizado
Em 1818, uma pedra de granito foi desenterrada do meio das patas da Grande Esfinge de Gizé. A inscrição nela conta que um dia, quando ainda príncipe, Tutamés IV foi caçar no deserto e dormiu à sombra da esfinge, que na época era coberta de areia até o queixo. Sonhou então que a esfinge previa que ele iria governar o Egito, embora tivesse irmãos mais velhos com pretensões ao trono. Em retribuição pela profecia, a esfinge pediu que sua estátua fosse restaurada, e assim Tutamés mandou operários retirarem a areia que cobria o corpo dela. Anos depois, o príncipe realmente ascendeu ao trono e colocou a pedra como dádiva de agradecimento. Tutamés governou no final do século XIV antes de Cristo.
Curiosamente, ele dá duas interpretações, conforme fosse o sonhador: uma, para devotos do benéfico deus Hórus, que eram considerados pessoas calmas e serenas; outra, para os seguidores do problemático e inclemente Seth.
Algumas interpretações se ajustam perfeitamente aos nossos dias: sonhar que se mergulha num rio, por exemplo, significava purificar-se de um mal. Outras são mais enigmáticas: se um homem sonhasse que estava tendo relações sexuais com uma mulher, era sinal de má sorte e até morte, enquanto ver uma ostra num sonho era garantia de injúria.
O Governante Hebreu
A história mais conhecida de interpretação de sonhos no Antigo Egito é a de José na Bíblia. Com a ajuda de Deus, ele explicou vários sonhos premonitórios do faraó, principalmente o de sete vacas gordas que emergiam do rio Nilo e eram engolidas por sete vacas magras.
O livro do Gênesis explica como um estrangeiro e servo chegou a ser consultado pelo faraó sobre assunto tão íntimo. José chegou ao faraó por recomendação do mordomo deste, que conheceu quando ambos estavam presos. Na prisão, José interpretou o sonho do mordomo de espremer uvas para o faraó como significando que ele estava prestes a sair da prisão.
Quando o faraó ouviu isso, resolveu testar a habilidade do hebreu. A interpretação do sonho real como indicando sete anos de fartura seguidos de sete anos de escassez impressionou tanto o faraó que ele recompensou José com um anel que tirou do próprio dedo e um colar de ouro, além de nomeá-lo governador de todo o Egito. Essa nomeação deu a José o encargo de evitar o desastre das sete vacas magras que havia previsto.
A história mostra a importância dada aos sonhos premonitórios, ao mesmo tempo que questiona a indicação de um estrangeiro para um cargo tão importante na corte egípcia. Por isso, os estudiosos localizaram o fato como tendo ocorrido no Segundo Período Intermediário. Nessa fase problemática, séculos XVII e XVI antes de Cristo, os faraós de raça semita tiveram poder sobre o Baixo Egito, onde José teria sido preso.
Visões Astecas do Cataclismo
Um dos relatos mais singulares na história da profecia é o da destruição do grande império asteca, no México. Em 1519, o império foi invadido pelo aventureiro espanhol Fernando Cortez e seu bando de conquistadores. Embora fossem apenas quinhentos homens - armados, é verdade, de espingardas e canhões, que os astecas não conheciam -, conseguiram chegar à capital asteca de Tenocticlán (onde hoje fica a Cidade do México) sem enfrentar qualquer resistência por parte dos exércitos imperiais. Lá, foram recebidos pelo imperador Montezuma II e hospedados em suntuosos cômodos perto do palácio imperial. Os espanhóis retribuíram a hospitalidade prendendo e acorrentando o anfitrião e conquistando, em seguida, todo o seu império.
“Ele então teve certeza de que, como seus profetas e videntes tinham dito, seu Estado, sua riqueza e prosperidade iriam acabar em poucos anos devido a certo povo que chegaria para destruir sua boa sorte”.
(Texto do cronista espanhol Bartolomé de Las Casas sobre o Imperador Asteca Montezuma II).
A Serpente Emplumada
Só mais tarde os espanhóis souberam o motivo da inesperada passividade de Montezuma. O mito asteca falava num deus benevolente, Quetzalcoatl, representado por uma serpente emplumada (mistura do pássaro quetzal, de belas plumas, com uma cascavel). Com o tempo, essa divindade se confundiu com um governante do império tolteca, anterior ao asteca. Esse governante era devoto do deus Quetzalcoacl e chegou a ser adorado como herói, tentando substituir os rituais de sangue dos deuses da região pelo culto mais ameno do deus dele. Mas seu reino fracassou e ele foi embora, navegan do para leste. A lenda misturou o devoto com o deus e disse que um dia ele voltaria na forma de um homem de barba. A previsão era de que chegaria no décimo segundo ano dos 52 que formavam o calendário dos povos mesoamericanos.
Assim, ao saber da chegada pelo mar de estrangeiros barbudos vindos do leste, era natural que a corte de Montezuma os visse como emissários de Quetzalcoacl. A possibilidade era maior pelo fato de a invasão dos espanhóis ter sido em 1519, décimo segundo ano do ciclo asteca. O imperador sem dúvida se convenceu de que era o deus chegando ao saber dos estranhos animais parecidos com gamos que os recém-desembarcados montavam - na época, o México não conhecia os cavalos -, além de suas armas de fogo, que devem ter dado a impressão de que os soldados tinham o poder de provocar raios e trovões.
Presságios de Destruição
Montezuma era inteligente e é pouco provável que ficasse muito tempo engana do sobre os estrangeiros. Mas a idéia de os espanhóis serem enviados de Quetzalcoatl era bastante adequada. Relatos sobre o comportamento de Montezuma à medida que os invasores se aproximavam da capital do império mostram que ele estava obcecado com presságios de destruição. Os cronistas da época registram muitos desses augúrios, alguns de quase dez anos antes da invasão espanhola. Nove anos antes, Tenoctitlán foi subitamente inundada pelo lago em cujas margens foi construída e muitas construções ruíram. Logo depois, um devastador incêndio atingiu um dos torreões do grande templo. E dois cometas foram vistos, além de raios terem atingido o templo de Xiutecutli, deus do fogo.
Pouco antes da invasão, Montezuma teve um sonho que pareceu um presságio de desastre. Viu um grande pássaro cinzento com um espelho negro na testa - que ele reconheceucomo o espelho divinatório do temido deus Tezcatlipoca. E o imperador se viu no espelho, olhando à noite para o céu e as estrelas. A noite então se transformou em dia, apareceram guerreiros com roupas estranhas e armas desconhecidas. Assustado, o imperador acordou, e mais tarde pediu aos que lhe eram próximos e que tiveram sonhos ruins que os contassem - e castigou-os por trazerem más notícias.
Quando os espanhóis finalmente chegam, o imperador percebe logo que não têm qualquer origem divina. Mas era tarde demais para fazer qualquer coisa contra eles. Para Montezuma, tolhido por presságios de um desastre iminente, estar prevenido significou estar desarmado.
Um Aviso de Além-Túmulo
Uma das lendas mais estranhas da conquista do México pelos espanhóis pode ser mais bem entendida como um sonho premonitório. Conta que Papantzin, uma das irmãs de Montezuma, apareceu para o imperador asteca quatro dias depois de morta e enterrada. No sonho, avisava o irmão de que navios com homens armados se aproximavam e eram uma séria ameaça ao império dele. Após a invasão, o relato chegou aos cronistas espanhóis, que garantiram sua veracidade, chegando a enviar ao Vaticano atestados manuscritos.
Premonições de Morte
Na noite de 11 de abril de 1865, Abraham Lincoln recebia convidados na Casa Branca. Apesar de Robert E. Lee ter se rendido no tribunal de Appomattox apenas dois dias antes e a Guerra Civil estar praticamente ganha, O presidente norte-americano estava triste. Os convidados passaram a falar de sonhos, e Lincoln comentou que eles eram muito citados nas Escrituras Sagradas, acrescentando: "Se acreditamos na Bíblia, temos de aceitar a idéia de que antigamente Deus e os anjos surgiam e se manifestavam nos sonhos". Contou então um sonho que tivera e que o incomodava há dias.
No sonho, Lincoln percorre os cômodos da Casa Branca, que estava tomada por um silêncio mortal, quebrado apenas pelo som de soluços. O presidente acabou entrando na Sala Leste, onde viu um caixão num estrado alto guardado por soldados e cercado de pessoas enlutadas. Perguntou a um guarda quem havia morrido e ouviu que o presidente tinha sido assassinado. Nessa altura, Lincoln ouviu um horrível lamento e acordou.
"Não consegui mais dormir e, embora fosse apenas um sonho, fiquei muito perturbado", disse ele aos convidados. Três dias depois, Lincoln foi atingido a tiros por John Wilkes Booth, quando assistia a uma peça no teatro Ford, em Washington, D.C. e morreu às 7h22 da manhã seguinte.
“Quem morreu na Casa Branca?”, Perguntei a um dos soldados da guarda e a resposta foi: “O Presidente foi assassinado”.
(Abraham Lincoln, três dias antes de seu assassinato, conforme registrado pelo Coronel Ward H. Lamon, ajudante-de-ordem da Casa Branca).
Prevendo a Própria Desgraça
Existem, claro, argumentos racionais que podem explicar fenômenos desse tipo por exemplo: Lincoln sabia que aqueles que apoiavam o Sul vencido tinham ódio dele e havia bons motivos para temer um assassinato. Mesmo assim, há histórias que não são fáceis de explicar. Uma delas ocorreu no século XVIII, com o plantador de fumo Robert Morris, cujo filho e homônimo ficou conhecido como "o banqueiro que financiou a revolução americana. Morris tentou cancelar a inspeção de um navio de guerra, depois de sonhar que fora morto pelo tiro de um dos canhões da embarcação. Acabou se convencendo a ir, mas só quando o capitão do navio prometeu que os canhões dariam as salvas depois que ele estivesse seguro em terra. O grupo de Morris inspecionou o navio e estava voltando para terra quando o capitão levantou o braço para afastar uma mosca. Um canhoneiro confundiu o gesto com a autorização para as salvas, Morris foi atingido por estilhaços e morreu como tinha previsto.
Um caso mais antigo ainda trata de um membro da ilustre família italiana Sforza, o qual sonhou em 1523 que morrera afogado. No dia seguinte, passando perto do castelo de Pescara, viu uma criança cair no rio e mergulhou para tentar salvá-la. Mas o peso da armadura que usava fez com que afundasse, e ele morreu.
Mensageiro da Morte
Outro caso conhecido de morte vista em sonho foi na Londres do século XVIII. No dia 24 de novembro de 1779, Thomas Lord Lyttelton, um nobre de 35 anos, teve o sono perturbado pouco depois da meia-noite pelo som parecido com o de um pássaro preso entre as cortinas do dossel da cama. Viu então uma mulher de branco apontando para ele, acusadora, e dizendo que morreria três dias depois.
A história logo circulou pelos cafés da cidade e à previsão da morte do jovem lorde se tornou o tema das conversas. Ele então se recolheu à sua casa no campo, perto de Epsom, em Surrey, para passar os três dias do prazo. Quando os ponteiros do relógio chegavam ao final do dia 27 de novembro, ele sentiu um alívio, pois estava se sentindo muito bem. Foi para o quarto às onze da noite, certo de que não tinha o que temer. Seu criado o ajudou a trocar de roupa e saiu do quarto, voltando minutos depois para encontrar o patrão passando mal. Antes que o relógio marcasse meia-noite, Lord Lyttelton tinha morrido. Teve um ataque cardíaco, e o aviso se confirmou.
O aviso de morte nem sempre chega por sonho. Outra pessoa famosa que previu o próprio fim foi o conhecido escritor norte-americano Mark Twain. Ele disse a um amigo que, como havia nascido num ano em que o cometa Halley passou perto da Terra, esperava morrer na próxima passagem. Assim foi. Twain morreu no dia seguinte à volta do cometa, 75 anos depois, em 20 de abril de 1910.
Além da Barreira das Espécies
Em 1904, aos 48 anos, o romancista inglês Henry Rider Haggard, autor de As Minas do Rei Salomão, contou que previu a morte de um animal - o cachorro da irmã. Sonhou que viu o animal deitado numa moita perto da água e que "ele transmitiu para minha mente que estava morrendo". Ao acordar, Haggard contou o sonho à esposa. O casal soube depois que o cachorro havia sumido e seu corpo acabou sendo encontrado na represa de um rio, perto da casa deles. Haggard concluiu que o cachorro conseguiu se comunicar com ele "ativando alguma parte capaz de receber seus impulsos por sonho".
O compositor Arnold Schoenberg era supersticioso com números, principalmente com o 13. Convenceu-se de que morreria aos 76 anos porque a sorna dos números é 13. No final de 1950, aos 76 anos, esperava com apreensão o décimo terceiro dia de cada mês. Em julho de 1951, quando o 13 caiu numa sexta-feira, ele resolveu não sair da cama, mas o cuidado não adiantou. Schoenberg morreu faltando exatos 13 minutos para a meia-noite e sua última palavra foi: "Harmonia!”
Previsão da Morte de Outra Pessoa
A previsão da própria morte pode se confirmar porque, claro, o estresse causado pelo medo pode acabar causando um ataque mortal. Por isso, prever a morte de outra pessoa é mais difícil de explicar, mas tais premonições aparecem em todas as culturas.
Um exemplo clássico desse tipo de previsão está na obra de Nathaniel Wanley, Maravilhas do Pequeno Mundo, um interessante livro publicado em 1788. Conta a história de um cavalheiro inglês que morava em Praga e acordou um dia com a certeza de que o pai tinha falecido na Inglaterra. Ficou tão assustado com o realismo do sonho que anotou a hora e os detalhes numa agenda, que guardou numa caixa com outros documentos e mandou para a Inglaterra.
Logo soube do falecimento do pai, e quatro anos depois voltou para seu país, onde reuniu as irmãs e alguns amigos da família para assistir à abertura da caixa. As pessoas puderam então confirmar que o dia em que anotou o sonho tinha sido o mesmo da morte do pai.
Segundo o autor do livro, o mesmo cavalheiro dizia ter previsto junto com o irmão a morte da mãe, anos antes de ocorrer. Quando eram estudantes, os dois sonharam na mesma noite que a mãe lastimava não poder comparecer à formatura do filho em Cambridge. A se acreditar na história, uma "premonição" pode ter vida independente e ser experimentada por mais de uma pessoa.
Visões que Salvam Vidas
Às vezes, apremonição pode salvar vidas. Há muitos relatos de pessoas que escaparam de morte por acidente graças a um sonho ou uma intuição. Nesse caso, há também exemplos curiosos, inclusive do poeta renascentista italiano Francisco Petrarca. Um amigo dele estava muito mal de saúde, e Petrarca sonhou com o doente avisando que receberia a visita de uma pessoa que poderia ajudar muito a salvá-lo. Pouco depois, o poeta acordou e ouviu alguém batendo à porta: era o médico do amigo avisando que o doente estava mal. Graças ao sonho, Petrarca pediu ao médico que não perdesse a esperança e voltasse à cabeceira do doente. Depois de algumas providências, o doente se recuperou.
Um caso ocorrido na Primeira Guerra Mundial sugere que acontecimentos maiores do que a morte de um indivíduo podem aparecer em sonhos. É a história de um cabo alemão de 28 anos, em serviço na região francesa de Somme, que não estava conseguindo dormir no abrigo que dividia com 12 companheiros. Sonhou que estava soterrado sob toneladas de terra e, ao acordar, achou que poderia ser um aviso, embora na hora houvesse uma trégua no freqüente bombardeio das artilharias às trincheiras. Aproveitando a trégua, o cabo saiu para respirar ar puro.
Assim que o fez, ouviu o silvo de uma granada. Virou-se e viu que ela caíra bem na trincheira. Quase todos os seus companheiros morreram na hora, e ele teria tido a mesma sorte se não tivesse saído de lá. Nesse caso, a própria história teria ganho outro rumo, pois o jovem cabo era Adolf Hitler.
Sonhos Premonitórios
A s mensagens rabiscadas em muros, os grafites, são um fenômeno muito antigo, por isso a frase "LEMBRE DE PEARL HARBOR" na calçada em frente à escola primária de Owensville, estado de Indiana, não causou estranheza. O estranho é a data em que foi escrita: 7 de dezembro de 1939, dois anos antes do ataque japonês à base naval norte-americana no Havaí.
A menos que alguém do local tivesse motivos particulares para homenagear a base naval, ou que o grafiteiro, depois do fato, houvesse cometido um anacronismo, a frase parece uma premonição. Se assim for, o exemplo não é único. Há registros de previsão de desastres até antes dos tempos clássicos. O fenômeno é bem similar às premonições de morte, mas ocorre numa escala maior, envolvendo guerras, crimes violentos e catástrofes da natureza, assim como o destino de pessoas.
Profeta da Destruição
Um exemplo antigo de previsão acertada foi citado pelo historiador judeu-romano Flávio Josefo sobre a Guerra Judaica. Ele fala num tal Jesus, filho de Ananias, que previu a tragédia de Jerusalém quatro anos antes da revolta de 66 d.C. que terminou com a destruição do templo por legionários romanos e na diáspora judaica. Jesus, filho de Ananias, foi preso e torturado, mas continuou prevendo desgraça para a cidade antes e depois da luta, e até a hora em que se daria o cerco de Jerusalém. Quando a tragédia que previra com tanta antecedência ocorreu, ele foi finalmente calado em meio à batalha ao ser atingido na cabeça por uma pedra.
Assassinato Previsto
Talvez por ocorrer de forma súbita e dramática, o assassinato de políticos parece ser tema de sonhos e premonições. A mais conhecida previsão nos últimos tempos foi a da morte do presidente John F. Kennedy em Dallas, em novembro de 1963. A previsão foi de Jeanne Dixon, clarividente que ganhou fama com suas colunas em jornais de todo o país e aparições na tevê. Na sua biografia autorizada, Jeanne afirma ter tido várias premonições da tragédia, a partir de 11 anos antes e até o próprio dia, quando contou a duas senhoras com as quais estava almoçando que um fato horrível estava prestes a ocorrer. Chegou a citar uma entrevista que dera à revista Parade em 1956, prevendo que um "presidente democrata, de olhos azuis, eleito em 1960" seria assassinado.
Na verdade, a entrevista, que não era tão precisa, dizia: "Quanto às eleições de 1960, a Sra. Dixon acha que serão dominadas pelo Partido Trabalhista, mas vencerá um candidato democrata que será assassinado ou vai morrer no posto, não necessariamente em seu primeiro mandato". Mesmo assim, a previsão é impressionante - só fica um pouco menos incrível se considerarmos a conhecida coincidência de presidentes mortos durante o mandato, eleitos em anos terminados em zero. Além de Kennedy (1960) e Lincoln (1860), Garfield (1880) e McKinley (1900) foram mortos, ao passo que Warren Harding (1920) e F. D. Roosevelt (1940) morreram no exercício do cargo. A coincidência finalmente acabou com Ronald Reagan (1980), que sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1981 e cumpriu dois mandatos na Casa Branca.
De certa forma, a previsão que fez John Williams, engenheiro de mineração de Redruth, na Cornualha, sudoeste da Inglaterra, é mais convincente. Na noite de 11 de maio de 1812, ele sonhou que estava no Parlamento de Westminster com um homem baixo, de paletó azul e colete branco. Apareceu então outro homem, de paletó marrom e botões amarelos, que apontou um revólver e atirou no primeiro. O atirador foi preso, e Williams ouviu dizer que o homem atingido era "ministro das Finanças". Ao acordar, contou tudo à esposa, dormiu de novo e teve o mesmo sonho. No dia seguinte, relatou o sonho a todas as pessoas com quem esteve.
No final do dia, Williams soube pelo filho que o carro postal tinha chegado de Londres com a notícia de um assassinato no Parlamento, na tarde anterior. A vítima era Spencer Perceval, primeiro-ministro e ministro das Finanças, assassinado por um corretor falido de Liverpool chamado John Bellingham. Embora não conhecesse nenhum dos dois, o sonho de Williams correspondia perfeitamente à descrição física e às roupas deles. Quando esteve depois em Londres, conseguiu também dizer o lugar onde ocorrera o assassinato sem que ninguém lhe mostrasse.
Sonhos Equivocados
Ao lado de previsões certas, há muitos exemplos de sonhos premonitórios totalmente errados. O historiador romano Valério Máximo lembra que Aníbal foi incentivado a levar as tropas de Cartago, sua cidade natal, para invadir a Itália, em 219 a.C. por um anjo que viu em sonhos. "Vá! Tudo será alcançado", dissera o anjo. Aníbal obedeceu, mas, apesar de uma campanha brilhante, não conseguiu vencer Roma. Acabou tomando veneno para evitar a humilhação da derrota e da prisão.
Da mesma forma, no século V antes de Cristo, o imperador persa Xerxes sonhou com alguém que o mandava invadir a Grécia, apesar da opinião contrária de seus generais. Segundo o historiador Heródoto, a aparição surgiu duas vezes para Xerxes e depois para seu conselheiro Artabano, com a mesma mensagem. Mas os exércitos do imperador tiveram uma desastrosa derrota na Batalha de Salamina e Platéia e foram expulsos da Grécia, acabando com o sonho persa de conquistar o país.
Premonições de Catástrofes
Os acidentes em terra, mar e ar são tão comuns em sonhos premonitórios quanto o assassinato de políticos. Há muitas provas de pessoas que se salvaram graças a um sexto sentido que as impediu de entrar num trem, navio ou avião que depois se acidentou. A acreditar na curiosa pesquisa feita por um matemático americano na década de 1960, tais previsões chegam a milhares. William Cox pesquisou o número de passageiros que viajaram em trens acidentados e o comparou com o de outros dias. Descobriu que o número era muito menor nos dias dos acidentes. Exemplo: um trem de Chicago e Illinois chamado de "georgiano" bateu em 15 de junho de 1952 com apenas nove passageiros, enquanto a média de passageiros nas quatro semanas anteriores foi de quase cinqüenta. Embora muitos fatores - como condições do tempo - possam ter influído, Cox acredita que os números mostram um fenômeno de "previsão de acidente" calcado em premonições inconscientes.
A idéia de previsões de desastres isolados, individuais, em geral a distância, é mais aceita. Um caso bastante conhecido é o de David Booth, 23 anos, de Cincinatti, que sonhou dez noites seguidas com um acidente da American Airlines. Certo de que se tratava de um sonho premonitório, entrou imediatamenteem contato com a empresa aérea e a Aviação Civil Federal para alertar contra o perigo iminente, sem poder detalhar a hora e o local do acidente. Este ocorreu três dias depois, em 25 de maio de 1979, no aeroporto O'Hare de Chicago. Um avião da American Airlines caiu ao decolar, matando 273 pessoas - o pior desastre da aviação norte-americana até então.
Houve muitas tentativas de criar centros de premonição que pudessem se beneficiar de avisos como o de David Booth, mas nenhum deu resultado devido à falta de informações precisas. Sem o dia e o local, nem as autoridades receptivas à idéia podem fazer alguma coisa, por mais que queiram.
Uma catástrofe muito pesquisada depois foi a que atingiu uma comunidade gaulesa de mineradores pouco após as 9 horas da manhã de 21 de outubro de 1966. Depois de dois dias de chuvas fortes, restos de carvão empilhados num monte de escória perto de Aberfan atingiram de repente a aldeia, soterrando uma escola primária, várias casas e uma fazenda. Ao todo, 28 adultos e 116 crianças morreram.
Após o fato, um psiquiatra londrino pediu para ser procurado por quem tivesse pressentido a tragédia. Ele recebeu 76 respostas e considerou que sessenta mereciam ser investigadas. Depois de ouvir detalhes e procurar testemunhas, deu crédito a 24 premonições pelo fato de terem sido comunicadas a outras pessoas antes. Quase todos os avisos foram em sonhos. Um idoso viu a palavra “Aberfan" brilhando; uma mulher de Kent viu uma escola atingida por uma avalanche de carvão; um espírita de Devon disse ter visto um menino apavorado ao lado de um homem de boné que fazia o resgate - e reconheceu ambos depois na tevê, na cobertura do resgate.
A história mais triste foi contada pela mãe de uma das crianças mortas. Duas semanas antes da tragédia, a filha de 9 anos teve um sonho e disse à mãe que não tinha medo de morrer porque sabia que estaria com seus amigos. Na véspera da tragédia, teve outro sonho - dessa vez, viu a escola coberta de preto. A menina morreu na escola naquela manhã junto com os amigos cujos nomes citara após o primeiro sonho.
“Não foi como num sonho. Foi como se eu estivesse vendo tudo na Tevê”.
(Declaração de David Booth, que previu o desastre do DC-10 da American Airlines, citado no livro Previsões, de Joe Fisher).
O Naufrágio do Titanic
Nenhum desastre isolado chamou mais atenção dos pesquisadores de fatos paranormais do que o naufrágio do Titanic na noite de 14-15 de abril de 1912.
O tamanho e o luxo do transatlântico, sua fama de que nada conseguiria afundá-lo e a tragédia do seu sumiço à noite, nas águas gélidas do Atlântico Norte, ajudaram a gravar seus últimos instantes na imaginação popular.
Muitos livros foram escritos sobre presságios de passageiros e outras pessoas que se recusaram a embarcar devido a um sexto sentido que anunciava um desastre iminente. Um comerciante norte-americano cancelou sua reserva na viagem fatal depois de receber uma carta e um telegrama da esposa em Nebraska, que sonhou com o navio afundando. Uma mulher, ao ver o Titanic se afastando do porto pelo canal Solent, disse de repente: "Este navio vai afundar antes de chegar aos Estados Unidos!", e pediu às pessoas próximas que fizessem alguma coisa.
O Escritor Profético
A mais intrigante previsão sobre o navio, porém, apareceu bem antes de ele ser construído ou da viagem inaugural. Saiu da pena de Morgan Robertson, um romancista e contista norte-americano pouco conhecido. Ele foi marinheiro quando jovem e mais tarde usou a experiência no mar como cenário de seus contos. Robertson não achava fácil escrever, ficava horas esperando uma inspiração e então escrevia sem parar. Como disse um de seus amigos, "ele achava que alguma alma, alguma entidade espiritual com talento literário e que não pôde assumir um corpo físico, dirigia o corpo e o cérebro dele". Por isso, gostava de chamar esse demônio da inspiração de "parceiro astral".
Em 1898, 14 anos antes do naufrágio, Robertson escreveu um romance que intitulou Frivolidade e que acabou sendo incrivelmente profético. Passava-se num luxuoso navio inglês que viajava pelo Atlântico Norte e era o maior já construído. Dizia-se que a embarcação era impossível de afundar e que fez sua viagem inaugural em abril, bateu num iceberg e afundou, causando a morte de centenas de pessoas. O número de mortos foi maior devido ao número insuficiente de salva-vidas. Em todos esses detalhes, Robertson previu o destino do Titanic, mas a coincidência mais impressionante foi o nome que deu ao navio da ficção: Titan.
Outros pormenores também são incrivelmente parecidos com o que aconteceu em 1912. O Titan tinha três hélices, 19 compartimentos à prova d'água e 24 botes salva-vidas - no Titanic, os números correspondentes eram três, 16 e vinte. O Titan tinha três mil pessoas a bordo e bateu no iceberg quando estava à velocidade de 25 nós náuticos; o Titanic levava 2.224 pessoas e viajava a 23 nós náuticos na hora do desastre. Os críticos observaram que, como homem do mar, Robertson devia ter um conhecimento razoável das características de um futuro transatlântico de luxo e de como ele deveria funcionar. Mas, quer seu livro seja incluído no rol das premonições ou de uma previsão racional, continua sendo um dos mais extraordinários exemplos de previsão precisa.
Um Aviso Desconsiderado
Mais de vinte anos antes de morrer no Titanic, o conhecido jornalista inglês espírita W. T. Stead escreveu um conto chamado "Naufrágio do navio postal no Atlântico, conforme relato de um sobrevivente". Narra a história de um enorme transatlântico que afunda após bater num navio. Devido aos poucos salva-vidas disponíveis a bordo, muitos passageiros morrem, e o contista escreveu: "Isso é exatamente o que pode e vai acontecer, se os transatlânticos viajarem com poucos salva-vidas". Infelizmente, ele estava certo - o Titanic só dispunha de salva-vidas para a metade de seus passageiros.
Um Experimento Com o Tempo
Em 1899, um engenheiro aeronáutico de 24 anos chamado John William Dunne teve o primeiro de uma série de sonhos que iriam mudar sua vida.
Aparentemente, o sonho não tinha nada de excepcional, era até simples: Dunne discutia com um garçom de hotel por causa da hora - os dois concordavam que eram quatro e meia, mas ele dizia que era da tarde, enquanto o outro, da madrugada. Dunne acordou, olhou no relógio de pulso e viu que havia parado na hora em que despertou, exatamente às 4h30.
Muita gente não pensaria mais no sonho, mas Dunne gostava de resolver problemas (alguns anos depois, ele desenharia a primeira aeronave militar britânica). Estava fascinado pelo fato de ter sabido a hora em seu sonho sem ter olhado o relógio. Parecia uma clarividência.
Premonições e Manchetes de Jornais
Em 1901, Dunne estava na Riviera italiana se recuperando de um ferimento que sofrera na Guerra dos Bôeres. Sonhou que estava numa pequena cidade do Sudão e viu três exploradores maltrapilhos, queimados de sol, vindos do sul. Perguntou de onde vinham e ouviu que era "direto da Cidade do Cabo". Na manhã seguinte, a manchete do jornal era "Chega a Cartum a expedição do Daily Telegraph da Cidade do Cabo ao Cairo". A reportagem contava da chegada de três homens à capital do Sudão numa viagem pela África.
O sonho seguinte foi bastante dramático. Dunne estava numa montanha com jatos de vapor saindo do chão e percebeu que era uma ilha com um vulcão prestes a entrar em erupção. Pensou logo em salvar os ilhéus e passou o resto do sonho tentando, desesperadamente, convencer as autoridades (que eram francesas) a tirar as pessoas de lá. Dunne dizia a todos que encontrava que, se nada fosse feito, quatro mil pessoas morreriam.
Poucos dias depois, o significado do sonho ficou claro em outra manchete de jornal: "Tragédia com vulcão na Martinica. Cidade arrasada. Avalanche de fogo. Calculam-se quarenta mil mortos". A erupção do vulcão Pelée na ilha francesa do Caribe foi a mais catastrófica do século XX em número de mortos. Um detalhe que Dunne viu depois foi que os quatro milmortos do sonho eram quarenta mil, ele errara por um zero. Mas só percebeu a diferença anos depois, ao pesquisar o acidente: na época, ele leu quatro mil e se convenceu de que sua previsão fora da leitura do jornal, não de testemunhar a tragédia.
Houve outros sonhos. Num deles, Dunne estava sobre uma tábua onde um hidrante jorrava água, cercado de pessoas e coberto de fumaça. E os jornais noticiaram um incêndio numa fábrica de borracha nos arredores de Paris. A fumaça foi tanta que vários funcionários morreram intoxicados até no balcão do prédio em que esperavam por resgate. Em mais dois sonhos, Dunne viu um cavalo desembestado no caminho por onde andava e um acidente de avião com um conhecido seu. Os dois fatos ocorreram no dia seguinte aos sonhos, embora com pequenas diferenças. No primeiro, o cavalo era menor e o lugar um pouco diferente; no segundo, o conhecido de Dunne morreu, enquanto no sonho ele sobrevivia.
O último sonho que contou era uma clássica premonição de acidente: um desastre de trem num lugar que reconheceu ser ao norte de Firth of Forth, na costa leste da Escócia, com vários vagões descarrilando ao lado de um dique com um campo gramado abaixo. Meio dormindo, Dunne teve certeza do significado do sonho e tentou imaginar a data, concluindo que era na primavera seguinte (o sonho foi no outono de 1913). No dia 14 de abril de 1914, o trem postal expresso que ligava Londres a Edimburgo, na Escócia, um dos mais famosos da época, descarrilou a cerca de vinte quilômetros ao norte de Forth Bridge e caiu num campo de golfe.
Viagem no Tempo
A conclusão óbvia dessa incrível seqüência de previsões era que Dunne tinha grandes dons psíquicos. Mas ele discordava. Nos modos e na educação, era um cavalheiro eduardiano - o escritor J. B. Priestley foi seu admirador e disse: "Na aparência e no comportamento, Dunne era uma mistura de velho funcionário eficiente com matemático e engenheiro". Para um homem assim, qualquer traço fora do convencional era indesejável. Ele escreveu: "Acho que ninguém gosta de pensar que é doido".
Por isso, Dunne inventou uma tese interessante. Dizia que todo mundo tem a capacidade de, através dos sonhos, ir para diante e para trás no tempo. E que os sonhos são feitos de impressões fragmentadas de fatos que estão no passado e no futuro, na mesma proporção. A maioria das pessoas, segundo ele, não tem consciência dessa capacidade porque não se preocupa em pensar no que sonhou. Se fizessem isso, perceberiam as coisas acontecerem horas ou dias depois dos sonhos.
Dunne expôs suas idéias no livro Um experimento com o tempo, publicado em 1927 e que chamou bastante atenção: o escritor Priestley saudou-o como "uma das obras mais fascinantes, a mais curiosa e talvez a mais importante da época". O livro inspirou as chamadas "peças sobre o tempo" de Priestley: O tempo e os Conways e Um inspetor chama.
Uma Família Salva
J. W. Dunne não foi o único a ter um sonho profético sobre a erupção do vulcão Pelée, em 1902. Ferdinand Clere, um ilhéu plantador de cana que morava em St. Pierre, perto do sopé do vulcão, sonhou que a montanha estava explodindo. Não fez nada, mas quando soube que uma usina de açúcar havia sido atingida por lavas do vulcão, Clere concluiu que ia acontecer algo pior. Juntou a família e os pertences e saiu da cidade enquanto os vizinhos riam, achando que ele exagerava. Três dias depois, a cidade foi coberta por uma segunda erupção mais forte e apenas uma pessoa se salvou.
Uma Antevisão da Força
Ao criar suas teorias, Dunne admitiu que algumas premonições excepcionais poderiam demorar a se cumprir. Num caso passado no século XVIII, o intervalo entre a premonição e o fato real foi de mais de seis anos. Ocorreu com um certo Sr. Cunningham, que teve dois sonhos bem nítidos. Num, um cavaleiro era detido por três homens e levado preso; no outro, o mesmo homem estava dependurado na forca. Cunningham acordou e mais tarde contou o sonho a um amigo com quem aguardava a chegada da poetisa inglesa Anna Seward. Logo em seguida, Anna chegou com um estranho que apresentou como sendo John André, soldado inglês, recém-nomeado para servir no Canadá. Cunningham reconheceu-o na hora como o cavaleiro que vira no sonho. André não parecia um candidato à forca, mas os fatos mostraram que o sonho foi profético. Servindo como major inglês na guerra da independência norte-americana, ele conspirou com Benedict Arnold para invadir a fortaleza de West Point. Foi preso, acusado de espionagem e enforcado, como no sonho.
Anotando os Sonhos
O efeito mais imediato do livro foi uma mania de anotar sonhos em diários. Dunne recomendava que se fizesse isso ao acordar, a fim de assim ter os detalhes para serem conferidos com a realidade. E criou regras rígidas. A melhor hora para ter sonhos premonitórios, dizia ele, era antes de fazer algo diferente da rotina, por isso, sugeria escolher as noites antes de viagens ou de algum fato especial. Ele insistia na importância de anotar assim que se despertasse e observava que um pequeno relato cheio de detalhes - sobretudo dos que fossem estranhos na vida real - era mais útil do que um grande relato sem pormenores. Insistia também em que se separassem as imagens do sonho da interpretação delas, já que no sonho a mente poderia entender mal o que se passava. Como exemplo, citou um fato real de fagulhas de um incêndio atingindo o seu rosto, que ele concluiu a partir de um sonho em que pessoas lhe jogavam pontas de cigarro acesas.
Dunne sugeria que se lesse o diário no final de cada dia ou no máximo de dois dias, para adequar pequenos detalhes do sonho aos fatos reais. O intervalo poderia ser "aumentado conforme a estranheza ou a peculiaridade do sonho". O sonho que ele teve do acidente ferroviário na Escócia ocorreu cerca de seis meses antes do fato real. Por fim, havia a sugestão de marcar os sonhos - ele costumava colocar uma cruz nos que mostraram algo que depois ocorreu. Os sonhos que faziam uma pequena revelação de algo - um detalhe importante, em vez do sonho inteiro tinham uma cruz dentro de um círculo.
Dunne testou esse método em sete voluntários, incluindo ele. Anotou um total de 88 sonhos, dos quais achava que 14 tinham semelhanças com o passado, sendo cinco boas e as demais médias, e vinte referências a fatos futuros, cinco boas, seis médias e nove neutras. Mas, como observou o escritor Geoffrey Ashe, as descobertas de Dunne tinham tendência a minar sua própria tese, pois 15 das vinte referências a fatos futuros foram anotadas apenas por dois dos sete voluntários, sendo Dunne um deles.
Assim, o trabalho de Dunne é importante como uma das poucas tentativas sérias de entender os sonhos premonitórios, embora pouca gente aceite a tese do "serialismo" - isto é, de considerar o tempo como uma seqüência infinita de camadas sobrepostas - na qual ele baseou suas experiências. No mínimo, Dunne é mais interessante pela presciência que sem dúvida tinha. Apesar de sua reticência cavalheiresca, é difícil não concluir que possuía dons raros.
Métodos de Adivinhação
Se a tradição xamanista de profecia remonta ao tempo do homem caçador-coletor, uma corrente paralela de adivinhação pode ser traçada começando, no mínimo, nas primeiras sociedades organizadas. Os sumérios, babilônios e egípcios tinham seus adivinhos profissionais. Enquanto os profetas confiavam numa voz interior para orientá-los, os adivinhos tinham métodos de previsão. Às vezes, tais métodos garantiam se basear na ciência: a astrologia clássica e os calendários astecas e maias, por exemplo, continham um incrível raciocínio matemático e, para a época, um avançado conhecimento do céu. Outros métodos, tais como o do augúrio romano ou os presságios procurados pelos druidas, pretendiam encontrar a vontade dos deuses nos efêmeros fenômenos da natureza. Na China, o I Ching usava tradições locais de sincronia e a idéia de que todos os fatos estão interligados. Mas o método mais puro de todos é a cristalomancia: olhando espelhos ou bolas de cristal, os adivinhostentaram ver o futuro na própria cabeça, sem se perturbar com nada senão em projetar suas intuições.
As Antigas Raízes da Astrologia
A astrologia era o método de previsão intelectualmente mais convincente. Propunha uma visão holística do universo, tendo a Terra no centro. Um espantoso mecanismo celeste mantinha as estrelas e os planetas em suas órbitas, circulando eternamente em torno do mundo humano, num caminho predestinado e fidedigno. Após muitos cálculos, o astrólogo conseguia o padrão matemático do todo e projetava não só o movimento das estrelas, mas também a forte influência que elas exerciam sobre o mundo terreno.
As origens da astrologia podem remontar à Babilônia, onde a observação do céu teve pela primeira vez o valor de uma ciência séria. Desde sempre, foi estabelecida uma ligação entre os fatos que ocorriam na Terra e o que havia no céu, daí os sacerdotes examinarem o espaço em busca de presságios.
Há mais de sete mil observações celestes, conhecidas como o Enuma Anu Enlil, em tabuletas de escrita cuneiforme desenterradas da biblioteca do rei assírio Assurbanipal, em Nínive. Elas mostram que sinais como auréolas lunares, eclipses e os primeiros planetas eram acompanhados e considerados como anunciando boa ou má sorte para o Estado e particularmente para a família real, que parece ter sido a principal patrocinadora dos adivinhos.
A fama dos observadores do céu babilônios se espalhou por todo o antigo Oriente Médio. Eles eram os "caldeus" citados no Antigo Testamento, cujo nome se tornou sinônimo de ler o futuro nas estrelas. E foram os primeiros a traçar a trajetória da órbita terrestre - o caminho aparente que o sol percorre num ano contra o fundo de estrelas fixas, conforme visto da Terra. Essa descoberta iria ser a base para a criação do mapa astral.
“A posição de Vênus indica que todas as direções são propícias; terá filhos e filhas. A posição de Mercúrio mostra que ele será corajoso e primeiro entre os seus, mais importante que os irmãos”.
(Inscrição numa tabuleta de barro com previsões para uma criança síria por volta de 200 a.C. considerado o mais antigo Mapa Astral).
Videntes do Zodíaco
A astrologia parece ter começado depois da conquista da Mesopotâmia por Alexandre, o Grande, no ano 330 a.C. e do encontro das culturas babilônia e grega. Surgiu um novo centro de aprendizado em Alexandria, cidade que Alexandre fundou na costa mediterrânea do Egito. Lá, seguindo um padrão duodecimal já estabelecido para os meses, os sábios gregos dividiram a órbita terrestre (ou eclíptica) em 12 partes eqüidistantes, cada uma cobrindo uma seção de trinta graus da órbita de 360 graus do sol. Cada seção era associada às estrelas visíveis nela à noite, pois a astronomia da época considerava a Terra o centro do universo, com o sol e a lua orbitando contra um fundo de estrelas fixas. As 12 constelações se tornaram conhecidas como signos do zodíaco.
As 12 "casas" em que a órbita terrestre foi dividida formaram a base da astrologia - o tabuleiro no qual o jogo do destino seria jogado. As peças desse jogo eram os planetas - que eram móveis e não fixos - e supunha-se que suas trajetórias exerciam uma enorme influência sobre pessoas e fatos. O mundo clássico só conhecia cinco planetas, e cada um recebeu determinadas características que os astrólogos diziam ser empíricas, obtidas após muito estudá-los. O planeta Marte era ligado à agressividade; Vênus, à beleza e ao amor; Júpiter, ao otimismo e à justiça; Saturno, à precaução e ao espírito prático; e Mercúrio, à velocidade e às mensagens. Da mesma forma, as constelações receberam uma misteriosa personalidade própria: Leão era grande e dominadora, Gêmeos, rápida e versátil, e assim por diante. A astrologia nasceu da combinação de planetas com constelações, mistura complexa e refinada através de artifícios quase infinitos de divisões e subdivisões.
Na época, a astrologia era quase uma ciência perfeita, ligando cada área da vida na Terra ao funcionamento do resto do universo, como se tudo fosse uma só máquina. Em sua forma extrema, a astrologia era totalmente determinista: o vidente que, estudando bem seus mapas celestes, pudesse avaliar todos os movimentos dos corpos celestes poderia - pelo menos em tese - saber como foi o passado e como seria o futuro. Na prática, a maioria dos astrólogos era menos radical e garantia que os planetas influenciavam a vida das pessoas, mas davam-lhes uma certa liberdade para agir a favor ou contra os desígnios do céu.
A nova ciência espalhou-se rapidamente para o Oriente, chegando à índia no século II depois de Cristo e seguindo com os missionários budistas para a China (onde se desenvolvia uma tradição separada, mas similar) e para o sudeste da Ásia. A astrologia também se enraizou no Irã e, mais tarde, nos países islâmicos e nas terras bizantinas da Europa oriental e do Oriente Próximo. Estranhamente, quase a única região do mundo onde a astrologia continuou praticamente desconhecida, nos séculos seguintes à queda do império romano, foi a Europa ocidental. O conhecimento da astrologia se perdeu com a língua grega, na qual era escrita a maioria de seus textos básicos. Só nos séculos XII e XIII, com os primeiros sinais da Renascença, a ciência foi redescoberta, graças sobretudo às traduções de tratados árabes por influência dos mouros na Espanha.
Daí em diante, surgiram astrólogos em todos os países da Europa. Eram sempre consultados pelos governantes e políticos, e a astrologia obteve prestígio nas universidades que se espalhavam pelo continente. Parecia ser não só uma ciência intelectualmente válida, mas muito importante.
“Tudo o que aconteceu no passado, tudo o que vai acontecer no futuro, é revelado ao astrólogo, pois ele sabe quais são, foram e serão as conseqüências dos movimentos celestes.”
Guido Bonatti, astrólogo italiano do século XIII, supondo onisciência para a Astrologia).
Declínio e Ressurgimento
Tudo isso mudou com a revolução científica dos séculos XVI e XVII. Quando a nova ciência da astronomia deixou de considerar a Terra como centro do universo, as velhas crenças astrológicas foram quase literalmente apagadas do céu. O declínio da fama dos astrólogos durou mais de um século, a partir das descobertas de Copérnico. Quando a verdade finalmente surgiu, o efeito foi devastador: a astrologia perdeu toda a credibilidade como ciência, pois o alicerce onde ela se firmava desmoronou.
Em primeiro lugar, a eclíptica, que parecia ser o caminho aparente que o sol percorria em volta da Terra, não existia - o único fato real era a percepção que os humanos tinham do caminho percorrido pelo sol durante o ano. Não era sequer constante, pois o fenômeno conhecido como precessão dos equinócios é causado pela oscilação do eixo da Terra à medida que ela gira no espaço. Essa alteração num ritmo perceptível fez com que o zodíaco avançasse uma casa inteira desde que o método foi elaborado. E as constelações não são padrões de luz marcados indelevelmente na esfera exterior do firmamento. Aos olhos do observador, elas são formadas por estrelas individuais, separadas por milhares de anos-luz e a diversas distâncias da Terra.
A astrologia nunca mais se refez do golpe desferido pelos avanços científicos de Copérnico, Galileu e Newton. A mudança que sofreu com a astronomia faz com que o ressurgimento de sua popularidade no século XX seja ainda mais surpreendente, pois o horóscopo hoje é uma atividade muito maior do que em qualquer época do passado, tendo encontrado um novo espaço nos meios de comunicação. Outro fato difícil de explicar com lógica é o indubitável sucesso que alguns astrólogos têm hoje, como no passado. Os céticos são obrigados a creditar esse sucesso a um certo talento profético, nato ou adquirido, sem influência das estrelas.
A crescente demanda por horóscopos e mapas astrais mostra que a astrologia preenche uma necessidade humana real. E, por incrível que pareça, a ciência tem uma nova área de previsão: o estudo da genética e da hereditariedade, que admite-sehoje ser responsável por dois terços da personalidade e dos talentos da pessoa. Não é muito arriscado dizer que o engenho humano um dia vai criar um novo horóscopo baseado nos tipos genéticos - e talvez recupere um pouco da credibilidade intelectual que a astrologia teve nos seus áureos tempos.
O Navio Desaparecido
Um grande sucesso da astrologia vem dos arquivos da exploração marítima européia. Em 1519, o navegante português Fernão de Magalhães partiu com cinco veleiros de bandeira espanhola numa viagem épica que veio a ser a primeira circunavegação do mundo. Ao chegar ao estreito meridional da América do Sul que hoje tem seu nome, parou para esperar o San Antonio, veleiro que tinha se separado dos outros quatro. Seis dias depois, ainda sem sinal do veleiro, Magalhães resolveu consultar o astrólogo da frota, Andreas de San Martin, que, por sua vez, consultou seus mapas celestes e informou que a tripulação tinha se amotinado, prendido o capitão e voltado para a Europa. Magalhães continuou viajando no rumo oeste e, embora tenha sido assassinado no caminho, um de seus veleiros finalmente chegou à Espanha após três anos no mar. Lá, a tripulação soube que o astrólogo estava certo: o San Antonio tinha voltado após um motim.
O Livro das Mutações
O I Ching (Livro das Mutações) é um dos textos divinatórios mais antigos do mundo, tanto que sua origem está muito envolta em lenda. Considera-se que os trigramas - as três linhas de previsão escolhidas jogando varetas ou moedas sobre uma superfície - foram descobertos pelo lendário imperador Fu Xi marcados no casco de uma tartaruga. Na verdade, Fu Xi é uma criatura mítica, um herói com corpo de serpente que teria ensinado aos chineses a arte de cozinhar e pescar, por isso seu nome significa apenas "de origem imemorial".
Outra figura heróica, situada na zona nebulosa entre lenda e a história, também teve suposta participação nos textos do I Ching. Trata-se de Wen Wang, importante personagem no governo de Zhou Xin, último Imperador da dinastia Shang (cerca de 1500 a 1045 a.C.) e um tirano que ainda é lembrado na China como exemplo de poder sádico. Wen foi preso a mando de Zhou por suspeita de traição e, também por ordem do Imperador, serviram a ele uma sopa preparada com pedaços de um dos filhos. Segundo a lenda, Wen usou seu tempo na prisão para juntar os oito trigramas do I Ching e formar 64 hexagramas, que são até hoje a base do oráculo. Outro filho de Wen (chamado Wu) derrubou Zhou Xin do trono e fundou uma nova dinastia, a Zhou ocidental (cerca de 1045 a 771 a.C.) Mais tarde, Wu acrescentou à obra do pai 384 comentários que desde então fazem parte do I Ching.
Já basta de lendas. A arqueologia deu pistas da verdadeira origem do I Ching ao descobrir mais de cem mil "ossos de oráculos". Isso mostra que a China tem uma tradição de adivinhação que remonta à Nova Idade da Pedra (7000 a 1500 a.C.). O método preferido dos primeiros adivinhos era aquecer no fogo ossos de animais principalmente dos quartos dianteiros - ou cascos de tartaruga e prever o futuro conforme as rachaduras aleatórias que se formavam. Esse método, conhecido como escapulomancia, pode ter vindo dos rituais de sacrifício em que os sacerdotes procuravam nos ossos das oferendas sinais de que haviam sido aceitas pelos deuses. Com o tempo, os adivinhos passaram a anotar o que "liam" e assim legaram um registro das maiores preocupações deles e de seus clientes em época muito remota, pois a maior parte dos ossos data de 1400 a 1100 a.C. Era a Idade do Bronze - em que, no distante Ocidente, os reis micênicos da Grécia travavam lutas pelo poder que acabariam levando ao cerco de Tróia.
Os ossos de oráculo mostram que muitas consultas tinham teor religioso, querendo saber a melhor época para fazer sacrifícios. Outras consultas eram sobre condições do tempo, de chuvas e ventos e como seriam as próximas colheitas. Outras ainda faziam perguntas relativas ao imperador e membros da dinastia dominante. Algumas consultas eram sobre previsões gerais de eventos futuros; outras faziam perguntas específicas sobre o resultado de caçadas, ataques militares ou propunham novos arranjos.
“Nos tempos antigos, os sábios fizeram o Livro das Mutações assim: Entraram em acordo com Tao e sua força e chegaram a um entendimento do destino pensando na ordem do mundo externo até o fim e explorando a lei da sua natureza até o fundo”.
(Do Shuo Kua, um dos comentários incluídos na Antigüidade no I Ching).
Consulta ao I Ching
A adivinhação pelo exame dos ossos feita na antiga China era, claro, um método dispendioso e visava a uma clientela nobre. O I Ching foi formulado na metade do primeiro milênio antes de Cristo e deve ter ganho adeptos com a ampliação da oferta de adivinhação para clientes que não podiam comprar um animal para ser imolado. Na consulta ao I Ching pelo método tradicional, os adivinhos precisavam apenas conhecer os hexagramas e ter um feixe de varetas de milefólio com as quais sorteavam os hexagramas e faziam a leitura interpretativa.
A consulta ao I Ching parece ter se alterado pouco com os séculos. O método das varetas, que consiste em jogar sobre uma mesa um feixe de Achillea millefolium (milefólio) em duas pilhas ao acaso, ainda é muito usado e exige certa habilidade manual do adivinho que incrementa o rito. Um método mais simples, também seguindo a mesma filosofia do oráculo, usa três moedas. Em ambos os casos, a finalidade é obter uma série de números representados nas linhas do hexagrama, sejam elas contínuas ou interrompidas. No método das moedas, por exemplo, cara vale dois e coroa vale três, assim cada jogada dá um total entre seis e nove. Seis jogadas resultam nas seis linhas do hexagrama, sempre formado de cima para baixo.
Além disso, as linhas contínuas ou interrompidas do hexagrama podem ser fracas ou fortes. As fortes - no método das moedas, quando se obtém uma linha seis ou nove, em vez da mais comum sete ou oito - têm importância especial e são consideradas "maduras", o que na filosofia chinesa dualista significa que estão em processo de mutação. Um segundo hexagrama pode então ser formado com as linhas "fortes" sendo substituídas por linhas interrompidas e vice-versa. O segundo hexagrama também é levado em conta na interpretação da leitura.
Interpretações Mutantes
Essa forma de adivinhação está profundamente calcada no pensamento chinês tradicional. O oráculo troca os conceitos ocidentais de causalidade pelo da sincronia, como disse o psicanalista suíço Carl Jung, autor do prefácio da tradução inglesa do I Ching. A sincronia supõe que tudo o que existe ou ocorre no universo em determinado momento está de certa forma relacionado com o resto. Esse ponto de vista com um elemento causal implícito teve certa popularidade no Ocidente nos últimos anos, graças à teoria do caos formulada em 1961 por Edward Lorenz, matemático e meteorologista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Lorenz cunhou a famosa metáfora do "efeito borboleta”, em que uma borboleta voando na floresta tropical brasileira pode desencadear uma série de fatos que acabem causando um furacão no Texas.
Com o tempo, os trigramas do I Ching foram codificados e reinterpretados na China conforme as mutantes preocupações filosóficas da época. O confucionismo e o taoísmo, os dois grandes métodos filosóficos do primeiro milênio antes de Cristo, deixaram sua marca nos comentários e interpretações que hoje fazem parte do oráculo. O livro tinha tal prestígio que figurava entre os Cinco Clássicos do cânone do ensino confuciano, e com isso foi mais consultado por alunos e eruditos do que qualquer outro texto divinatório.
A influência de Confúcio pode ser sentida no estilo das respostas do oráculo. São apresentadas não exatamente como previsões, mas como conselhos para o "homem superior", recomendando como agir para obter o resultado desejado. As frases refletem a preocupação de Confúcio em aconselhar a classe governante, de cuja sabedoria e avaliação justa ele acreditava que dependia obom funcionamento da sociedade. Graças à contribuição dele, o I Ching tem uma dimensão moral que falta a outros métodos divinatórios - procura orientar, além de fazer prognósticos. Na China, algumas interpretações do I Ching assumiram a importância de uma literatura erudita.
A influência taoísta é ainda mais marcante. Enquanto o pensamento confuciano sempre destaca a razão, a ordem e a ética, o taoísta - conforme definido por Lao Tse no Tao Te Ching - tem um enfoque mais místico, que realça a sintonia com o universo e o "seguir a corrente". A idéia de yin e yang - forças opostas e complementares de masculino e feminino, claro e escuro, ação e passividade permeando o funcionamento do universo - era fundamental no taoísmo e marcou de forma indelével o I Ching. O movimento eterno do yin e yang explica não só a dualidade das linhas contínuas e interrompidas nos trigramas, como também a transição de linhas fortes para seus inversos. O mundo do I Ching é de fluxo constante, num universo em que a transformação é a regra eterna, e a pessoa sensata deve se adaptar à mudança como um surfista habilidoso que sempre se equilibra sobre uma onda agitada.
Carl Jung e o I Ching
O grande psiquiatra suíço Carl Jung incentivou a publicação do I Ching no Ocidente e escreveu o prefácio da edição inglesa, em 1949. Nele, contou que consultara o oráculo para saber se o lançamento valeria a pena. O livro respondeu com o hexagrama do caldeirão, um vaso ritual com comida. Jung considerou o caldeirão simbolizando o I Ching, e a comida, o alimento espiritual que continha. Num aspecto, o oráculo foi muito preciso: a sentença associada ao hexagrama é "Muito boa sorte. Sucesso". O lançamento não só se tornou um duradouro sucesso de venda, como ainda fez a popularidade do livro nos Estados Unidos e na Europa.
Os Druidas
Nos tempos antes de Cristo, os druidas formavam a classe sacerdotal dos povos celtas da Europa ocidental. Pouco se sabe sobre eles, pois não deixaram registros de suas crenças. Embora seja possível tirar algumas conclusões a partir das lendas e das poesias celtas que restaram, grande parte da informação vem de observadores estrangeiros - em geral, inimigos. As maiores fontes são os historiadores romanos, principalmente Júlio César, que teve interesse pessoal pelos druidas no século I antes de Cristo. Ele relatou que os druidas gozavam de alto prestígio nas terras celtas, sendo tidos pelo povo como no mesmo nível dos chefes militares. Além de realizar sacrifícios e outras obrigações religiosas, eles eram mestres e magistrados. Traziam na memória um vasto cabedal de conhecimentos transmitidos oralmente e adquiridos em mais de vinte anos de aprendizado. Eram dispensados das obrigações militares e não pagavam impostos.
Os antigos acreditavam que Stonehenge, no sul da Inglaterra, foi um templo druida e há quem creia nisso até hoje. Mas os eruditos modernos observam que os druidas realizavam muitos rituais em bosques na floresta.
Outro fato bem estabelecido é que os druidas faziam adivinhações e profecias. O político e ensaísta Cícero, contemporâneo de César, relatou um diálogo com um druida que dizia prever o futuro, "às vezes por presságios, às vezes por hipótese". Há também relatos de líderes romanos consultando mulheres druidas. Diocleciano ouviu a previsão: "Será imperador depois de matar o javali", que se realizou após a morte do inimigo dele, o prefeito Aper, nome que em latim significa javali.
Não se sabe muito bem como os druidas praticavam a adivinhação. Em parte, era evidente, pela atenta observação da natureza. Dizia-se que os druidas experientes conseguiam prever o futuro a partir da forma das nuvens ou do vôo dos pássaros. Há referência a coelhos presos que eram soltos para os druidas estudarem o caminho que tomavam e então determinarem o resultado de uma batalha. Parece que faziam também um tipo de escapulomancia observando os ossos de animais imolados, e há relatos de videntes que abriam a carcaça de cães, gatos e porcos para provar o tutano dos ossos.
Animais sacrificados em rituais também aparecem numa espécie de oráculo por sonho que era usado nas terras celtas. Segundo Diodoro Sículo, historiador grego do século I antes de Cristo, o druida mastigava um pedaço de carne de porco ou cavalo e punha sobre uma pedra na porta da casa onde estava, aparentemente como oferenda aos deuses. Depois, ia dormir e, em sonho, um animal totêmico aparecia para responder a perguntas sobre o futuro. Há relatos parecidos de uma cerimônia chamada de "sono do touro", na qual o adivinho dormia num couro de touro curtido para ter sonhos proféticos. Outras fontes mencionam pessoas levadas para lugares escuros, onde ficavam completamente isoladas por horas ou até dias. Quando eram trazidas para fora, deviam prever coisas.
Uma estranha forma de adivinhação era a "meditação na ponta dos dedos", que começava com som de tambores e cânticos; depois, tocando a pessoa com os dedos, o adivinho sabia seu passado e seu futuro.
O Salmão do Conhecimento
Uma lenda irlandesa, talvez baseada em noções druidas de adivinhação, conta que o herói Finn mac Cumhaill teve aulas de poesia quando era criança. O mestre passava os dias à margem do rio Boyne tentando pescar um salmão mágico que tinha comido os frutos da Árvore do Conhecimento. Quem comesse o peixe teria o dom da premonição. O mestre conseguiu pescá-lo e mandou que seu discípulo o assasse, mas o menino queimou-se ao tocar no peixe e, para aliviar a dor, chupou o dedo. Tornou-se assim a primeira pessoa a provar da carne do salmão e a possuir o dom da sabedoria.
“Estás dormindo, ó Rei de Erin e Inglaterra? Consultei as nuvens e soube que vais conquistar a Inglaterra, a Bretanha e a Gália”.
(Adivinho Druida citado num antigo manuscrito irlandês).
O Augúrio Romano
O Estado romano chegou a criar uma burocracia da adivinhação. Atrás do augúrio romano, havia um panteão de deuses domésticos (Júpiter, Marte, Apolo e outros) que controlavam o lado material do mundo e, se quisessem, podiam usar a natureza para se comunicar por presságios. Os sinais podiam ser naturais como eclipses ou raios - ou causados artificialmente, como quando o áugure soltava galinhas sagradas para saber a vontade divina e observava como elas se alimentavam. Em ambos os casos, as pessoas prudentes e os governantes de estados bem administrados deviam ficar atentos a tais manifestações para saber se estavam agindo de acordo com a vontade dos deuses. O augúrio romano, em organização e metas, foi o mais prático tipo de adivinhação, não só desvendando o futuro, como informando se determinada ação estaria nas graças de um deus importante. Para saber do futuro, tanto os romanos quanto os gregos confiavam em sonhos e oráculos ou nas palavras dos videntes inspirados.
A Herança Etrusca
Os métodos usados pelos romanos para saber a vontade divina eram, em sua maioria, emprestados dos vizinhos do norte, os etruscos. Roma conquistou a Etrúria no século V antes de Cristo e depois aceitou seu povo como patrício. Os etruscos eram famosos pelo talento para a adivinhação, e apesar de alguns desacertos Cícero escreveu que "a nação etrusca ficou totalmente perturbada por adivinhações feitas nas vísceras de animais" -, os romanos gostaram de usar esse conhecimento.
A adivinhação etrusca era tratada por especialistas. Uma lenda explicava como eles receberam esse conhecimento: uma bela criança, Tages, saiu de um sulco no campo perto da cidade de Tarquínia, mas com o rosto de um velho enrugado. Assustado, o lavrador que descobrira o menino logo espalhou a notícia e uma grande multidão acudiu para ver aquele prodígio. Tages passou a explicar vários mistérios, inclusive os segredos da adivinhação, que foram cuidadosamente anotados pelos escribas etruscos. Missão cumprida, Tages sumiu tão de repente quanto tinha aparecido.
Os romanos não só ficaram com o conhecimento transmitido desde Tages, como também o formalizaram e colocaram a serviço do Estado como parte da inclinação que tinham paraa eficiência e o poder. Estabeleceram uma diferença entre auspícios (auspicia, em latim), mensagens a serem decifradas no mundo natural, e prodígios (prodigia), fenômenos incomuns indicando que um deus estava irado e, portanto, precisava ser acalmado.
Os auspícios tinham diversas formas, sendo as mais importantes: observar sinais no céu, como raios, e o comportamento dos pássaros. Tudo isso era da competência dos áugures, funcionários indicados para exercer sua função até o fim da vida. Os três ou quatro áugures existentes nos primeiros tempos da República passaram a 16 na época de Júlio César, no século I antes de Cristo. Usavam um cajado chamado lituus e chamavam atenção com suas togas de listras vermelhas, debruadas de púrpura. Eram altos funcionários públicos, cujo conselho deveria ser ouvido antes de se tomar qualquer grande decisão. E tinham muito poder, pois bastava dizerem que os presságios eram desfavoráveis para suspenderem por tempo indeterminado a realização de qualquer evento público importante, como eleições, entrega de oferendas e até declarações de guerra.
Os áugures exerciam sua função num local santificado, o templum ou santuário, que podiam demarcar apenas traçando um espaço em volta deles com o cajado. Desse lugar, estudavam o céu, além do vôo diurno e noturno dos pássaros, procurando raios e outros sinais. O método de adivinhação incluía dividir mentalmente o céu em quatro partes, depois em 16. Os etruscos, que criaram o método, associaram cada parte do céu a um determinado deus. O significado de um bando de pássaros ou de um raio seria diferente conforme a posição que ocupasse no céu. Em geral, os sinais no leste eram considerados favoráveis; no oeste, nefastos, enquanto os no norte tinham um sentido particularmente auspicioso.
“Era comum acontecer de, quando o Estado passava por dias ruins, Roma convocar os adivinhos etruscos, e as cerimônias eram revividas e fielmente observadas”.
(Discurso do Imperador Cláudio aos senadores em 47 d.C. sugerindo a criação de uma agremiação de áuspice).
A Arte dos Áuspice
Os presságios podiam ser de várias formas, de terremotos e erupções vulcânicas ao nascimento de aleijões, isto é, crianças monstruosamente deformadas, bezerros com duas cabeças etc. Tais fatos eram considerados muito sinistros, indicando que o relacionamento pacífico com os deuses estava ameaçado e, nos casos mais graves, o Senado era consultado para tomar providências. Geralmente, o assunto era entregue aos áuspices, chamados de "etruscos", já que muitos vinham dessa região. Depois que os adivinhos davam seu parecer, eram anunciados os rituais de expiação para acalmar os deuses - em geral, consistiam em orações e sacrifícios especiais.
Pelo menos até a época do império, os áuspices não eram funcionários públicos como os áugures. Mas eram muito considerados por todos e consultados tanto por particulares quanto por funcionários. Tinham por especialidade examinar as vísceras de animais imolados - em geral, carneiros ou bois -, buscando sinais que mostrassem a vontade do deus a que fora dedicado o sacrifício. Examinavam especialmente o fígado: sua forma, cor e, principalmente, o lóbulo, uma saliência em forma de pirâmide que os romanos chamavam de processus pyramidalis. Se o lóbulo fosse grande e bem formado, era sinal propício, mas uma fissura ou deformação era sinal de agouro.
O melhor exemplo de adivinhação romana foi feito por um áuspice: o aviso dado por Vestrício Espurrina a Júlio César, em 44 a.C. César tinha vencido pouco antes os exércitos de seu rival Pompeu numa guerra civil de três anos e governava Roma como um ditador, o que provocou a hostilidade de seus inimigos políticos. César deveria ter um encontro importante do Senado nos idos de março (dia 15 de março, conforme o calendário romano), mas houve diversos presságios: pássaros selvagens se abrigaram no Fórum, aparições foram vistas lutando no céu. Ao investigar tais prodígios, Vestrício examinou o fígado de um touro imolado e viu que estava disforme - segundo relatos, não tinha lóbulo. Assustado, ele avisou César para precaver-se contra a reunião fatal. Mas o imperador ignorou o aviso e foi assassinado ao entrar no Senado.
Apesar desses eventuais acertos, nem todos os romanos se impressionavam com o talento dos áuspices; no século II antes de Cristo, o orador Catão, o Velho, observou que não entendia como um áuspice podia olhar para a cara de outro e não achar graça. Havia também relatos de fraudes: um praticante chamado Soudino foi acusado de escrever a frase "Vitória do rei" espelhada na palma da mão; assim, depois de tocar no fígado de um animal, a frase iria aparecer escrita como por milagre.
A preocupação dos videntes com as partes mais sangrentas dos animais imolados pode parecer desagradável hoje, mas tinha uma longa tradição, anterior aos etruscos e remontando ao início da adivinhação na Babilônia. O pesquisador moderno Robert Temple conseguiu num abatedouro fígados de cordeiros como os adivinhos romanos usavam e relatou que 15 ou vinte minutos após serem retirados do animal, eles se mantinham perfeitamente brilhantes, mas depois escureciam. Temple supõe que esse brilho inicial pode ter levado os antigos adivinhos a considerar os fígados num sentido mais literal de espelhos refletindo a vontade de um deus.
Um Comandante Imprudente
Os exércitos romanos em campanha faziam previsões baseados na forma de comer das galinhas. As respostas às perguntas do adivinho dependiam de como as galinhas comiam numa área dividida em seções. Em 249 a.C. antes da batalha naval de Drepanum contra a frota cartaginesa, o almirante Cláudio Pulquério ficou tão irritado porque as galinhas não quiseram comer que jogou-as no mar, dizendo: "Se não querem comer, que bebam!". Os exércitos de Pulquério foram derrotados, e ele foi acusado de traição.
No dia 15 de março de 44 a.C. quando subia a escada do Senado romano, Júlio César encontrou Vestrício Espurrina, o áuspice que o alertara para não comparecer à sessão. César então teria dito, satisfeito: "Os idos de março chegaram!” e o adivinho respondeu, sombrio: "Chegaram, mas não se foram”. Minutos após, César foi morto por conspiradores que o aguardavam dentro do Senado. Consta que seu corpo teria recebido 23 golpes diferentes de facas. É esse o momento mostrado no quadro de Vincenzo Camuccini (1771-1844).
“Cuidado com os idos de março!”
(Aviso do Áuspice Vestrício Espurrina ao Imperador Júlio César, em 44 a.C.).
Um Mundo Cheio de Presságios
A previsão feita pelos romanos não era, de forma alguma, limitada aos ditames oficiais ou semi-oficiais de áugures e áuspices. Os cidadãos também se valiam de várias fontes alternativas de conselho, que iam dos oráculos e sonhos proféticos ao jogo de dados e outras formas de tirar a sorte. Os romanos viam presságios em fatos comezinhos, como tropeçar, espirrar ou derramar sal sem querer. Mas a contribuição especial de Roma para a história da adivinhação sem dúvida está em seu enfoque prático e no fato de a adivinhação ter como meta o bem maior do Estado. Nesse aspecto, como em tantos outros, o que ressalta é o talento romano para a organização eficiente.
O Tarô
O baralho do tarô é hoje talvez o método de adivinhação mais comum no Ocidente, só competindo em popularidade com o I Ching. O baralho tem 78 cartas, das quais 56 formam os chamados Arcanos Menores, com quatro naipes: Taças, Moedas, Espadas e Bastões. Cada naipe tem 14 cartas (uma a mais do que o baralho ocidental comum, de 52 cartas). A carta suplementar é também de um personagem da corte, o Cavaleiro, que fica entre a Rainha e o Valete. As 22 cartas restantes formam os Arcanos Maiores, todas ilustradas com figuras simbólicas: Sol, Justiça, Morte e outras. Vinte e uma cartas são numeradas de um (o Mágico) a 21 (o Mundo). A carta 22 é o Bobo, que tem função parecida com a do curinga no baralho ocidental comum.
Para ler a sorte no tarô, o tarólogo pode dispor as cartas na mesa de diversas formas, sendo que, em todas, a posição delasinflui no sentido. Um das formas mais comuns é a cruz celta, que usa dez cartas escolhidas ao acaso depois de embaralhadas pelo consulente. Este tira a primeira carta e coloca-a virada para baixo no centro da mesa, com outra por cima, na horizontal - essas duas cartas representam o tema central da consulta e as influências que podem ter. Quatro cartas são colocadas em volta dessas duas, começando pelo fim e seguindo a direção dos ponteiros de um relógio - estas, por sua vez, mostram o passado distante e o passado recente, o provável resultado e o futuro próximo. Finalmente, as quatro cartas que sobram são dispostas ao lado da cruz, começando perto do tarólogo e subindo. Na seqüência, elas falam na influência da situação sobre o consulente, de outras pessoas, de seus medos e esperanças, e finalmente do provável desfecho da situação. Assim, uma consulta ao tarô inclui uma análise profunda da situação que o consulente precisa avaliar sob vários aspectos, quase indiferente às cartas viradas.
“Quando uma pessoa está totalmente iniciada e tem conhecimento de todos os processos, sabe que guarda esses segredos sob pena de morte”.
(Eliphas Lévi sobre a carta do Enforcado, que representa a necessidade de silêncio dos verdadeiros seguidores do Tarô).
O Novo Jogo
Muita bobagem já foi escrita em relação à suposta Antigüidade das cartas, o que o estudioso inglês Michael Dummett tentou desmistificar. No livro O jogo do tarô, lançado em 1980, ele mostra que o baralho começou exatamente como um jogo de truques. O tarô foi inventado no século XV; na Itália, e por mais de trezentos anos não houve referência a ele (nem a qualquer outro baralho) como meio de adivinhação. Parece que, ao menos no Ocidente, a cartomancia (adivinhação pelas cartas) foi uma novidade do século XVIII, embora possa ter uma tradição mais antiga da qual não há registro. Em pouco tempo, a cartomancia recebeu os primeiros acréscimos esotéricos no baralho do tarô e supõe-se que tenha tirado seu simbolismo do Antigo Egito.
Na verdade, não há prova de qualquer ligação com tempos remotos. As cartas mais antigas que existem foram pintadas à mão para um duque de Milão, na década de 1440, e os primeiros baralhos chegaram à Europa, vindos do Oriente islâmico, cerca de sessenta anos antes. A mais antiga referência está numa carta escrita em 1377 por um monge alemão num convento suíço, e fala de um novo jogo que "chegou até nós este ano". As cartas mais antigas são idênticas às dos Arcanos Menores do tarô, tendo quatro naipes de 14 cartas cada.
O nome dos naipes veio diretamente do que era usado nos países islâmicos na época - moedas, taças, espadas e bastões de pólo que foram trocados por bastões, já que o jogo de pólo ainda não era conhecido no Ocidente. Corações, diamantes, clavas e espadas - os naipes do conhecido baralho de 52 cartas - foram criados mais tarde e usados só a partir dei 1480, aproximadamente. Esses novos naipes foram desenhados com a intenção principal de facilitar a impressão e só se popularizaram na Europa ocidental. Taças, moedas, espadas e bastões ainda são hoje os naipes conhecidos pela maioria dos jogadores de baralho no sul da Europa.
A novidade no tarô foi o acréscimo das 22 cartas dos Arcanos Maiores ao baralho existente na época. A finalidade era sugerida no nome latino original: triunfi (triunfos), que acabou se transformando no vocábulo inglês trumps (naipes). Elas eram numeradas de um a 21, sem qualquer simbolismo, mas apenas para indicar o valor de cada uma.
O tarô logo se popularizou e continua sendo jogado na Áustria e no centro da Europa até hoje. Estranhamente, a Inglaterra é um dos poucos lugares onde ele nunca foi adotado. Com o tempo, o jogo saiu de moda em Paris e, ao ser relançado na capital francesa, no final do século XVIII, tinha um toque exótico que trouxe interpretações misteriosas.
A Cartomancia fica na Moda
O tarô divinatório foi, em grande parte, inventado na Paris pré-revolucionária do final do século XVIII, quando os nobres entediados estavam sempre em busca de novas distrações. Havia uma tendência para o exótico, graças a um fascínio pelo oculto, e também porque o Antigo Egito estava em voga e suas maravilhas eram reveladas aos poucos. Assim, a nova fama esotérica do tarô satisfaria duas necessidades ao mesmo tempo.
Três homens tiveram papel importante no novo sentido das cartas. Um deles foi o vendedor de estampas Alliette, que escreveu livros com o pseudônimo de Etteilla - seu verdadeiro nome de trás para a frente. Um desses livros foi publicado em 1770 com o título Etteilla ou Como se distrair com as cartas, e sugeria uma forma de dispor as cartas para saber a sorte - um novo tipo de lazer.
O método original de Etteilla não tinha ligação com o tarô, que só foi relançado em Paris alguns anos depois. Quando isso ocorreu, chamou logo a atenção do escritor Antoine Court de Gebelin, que há muito fazia teses místicas sobre o Antigo Egito. Gebelin contou que um dia encontrou umas senhoras jogando tarô num salão e, ao ver as cartas, ele percebeu na hora que representavam antigos símbolos egípcios caídos no esquecimento - e que tinham sobrevivido aos séculos com o disfarce inofensivo de um jogo de salão. Hoje, é provável que a conclusão não tenha sido de Gebelin, mas de um homem com quem se correspondia e se assinava apenas Conde de M. e que pouco antes lhe enviara um ensaio chamando o tarô de Livro de Thoth, deus egípcio associado à magia. Depois que Gebelin publicou sua descoberta, o pseudônimo Etteilla voltou à cena com uma adaptação do livro à nova moda. Quando Etteilla morreu, em 1791, o mito das antigas origens do tarô já estava bem enraizado.
Nas décadas seguintes, a tese das origens egípcias do tarô foi sumindo, mas surgiram outras explicações igualmente exóticas. O ocultista francês Eliphas Lévi ligou o baralho ao antigo método místico judeu da Cabala e identificou as 22 cartas dos Arcanos Maiores com as 22 letras do alfabeto hebraico. A popularidade do tarô se espalhou da França para a Inglaterra, onde os membros do seita mística Ordem da Manhã Dourada identificaram nele um simbolismo cristão baseado na lenda do rei Artur e da procura do Santo Graal. Desde então, novas teorias e reinterpretações foram surgindo e hoje existem tarôs astecas, nórdicos e dos indígenas norte-americanos.
Em meio a tanta pesquisa histórica e ao esvaziamento de teses insustentáveis, é fácil esquecer como são misteriosas e evocativas as cartas dos Arcanos Maiores. Parte de sua estranheza pode ser atribuída à passagem do tempo. Ainda reconhecemos imediatamente a figura da Justiça como uma mulher com uma espada e uma balança. Outras ilustrações, como a da Papisa ou a da Torre fulminada, continuam inexplicáveis. O tarô ainda tem mistérios a revelar.
“O Livro da Revelação de Antigas Civilizações, o Livro mais antigo do mundo”.
(O Tarô Esotérico descrito pelo ocultista francês Papus no final do século XIX).
O Tarô Cigano
A informação de que durante séculos os ciganos usaram o tarô para adivinhação é uma lenda recente. Existe realmente uma antiga tradição cigana de ler a sorte, mas na linha das mãos (quiromancia). As primeiras referências a ciganas e o tarô são bem posteriores aos escritos de ocultistas dispostos a dar uma ligação oriental ao baralho. Hoje, há ciganas cartomantes, claro, mas começaram a fazer isso para corresponder à expectativa dos não-ciganos.
A Adivinhação na África
Nas vastidões africanas, quase todos os tipos de adivinhação são ou foram praticados. Uma fonte lista mais de sessenta métodos diferentes, e certamente não inclui todos. A antiga tradição xamanista de pessoas entrando em transe para consultar um espírito continua sendo usada sobretudo para saber a causa de doenças e identificar um ato de bruxaria. Há áugures que, como os antigos romanos, buscam presságios estudando as estrelas ou o vôo dos pássaros. Várias formas de adivinhação observam tigelas com água e tiram a sorte com métodos cuja complexidade compete com a do I Ching. Nopassado, havia até oráculos parecidos com o de Delfos. Um oráculo famoso é o de Aro Chuku, na Nigéria, fechado em 1900 pelos colonizadores ingleses, quando ficou provado que candidatos a sacerdote "sumiam", suposta mente consumidos por um deus irado - na verdade, eram vendidos como escravos no porto de Bonny, 130 quilômetros ao sul.
Os consulentes também têm perfil variado, indo de chefes tribais querendo saber a melhor ocasião para cumprir uma obrigação ritual ou iniciar a colheita, até pessoas que sofreram um revés, estão doentes ou apenas preocupadas com o futuro. Problemas como esterilidade, gado doente ou estar possuído por maus espíritos também podem ser levados aos adivinhos, cujo papel nas comunidades africanas tradicionais costuma ser parecido com o de médicos e psicanalistas no Ocidente.
Animais Usados Como Oráculos
Um método de grande popularidade na África é a adivinhação usando animais. O povo azande, que vive na fronteira do Sudão com a República Centro-Africana, usa ninhos de cupim como um oráculo simples. Para saber a resposta a uma pergunta, o adivinho azande deixa à noite um galho de cada lado do ninho. No dia seguinte, a resposta depende do galho que os cupins comeram. Se não tocaram em nenhum, é sinal de que os espíritos não quiseram responder.
Uma tradição mais complexa vem dos dogões, que vivem ao sul do rio Níger, em Mali. O animal consultado é a raposa da areia, um arisco predador noturno que ameaça as aldeias. Os adivinhos têm lugares certos, que riscam em quadrados e subdividem em pequenas partes, cada uma servindo para responder a uma pergunta. Depois disso, o adivinho invoca a raposa e o espírito que ela representa (pois considera-se que fala com o espírito) e então espalha amendoins como isca nas linhas dos quadrados.
Na manhã seguinte, o adivinho (quase sempre são homens) volta para ver o resultado. Se nenhuma raposa apareceu ou se uma chuva confundiu as marcações, a leitura não vale. Mas o adivinho em geral consegue ver as marcas das patas da raposa no chão e, no estilo de um áugure romano olhando marcas de pés de galinhas, encontra respostas para as perguntas de seus consulentes nas marcas que o animal deixou.
Invocando os Espíritos
No sul da África, existe uma antiga tradição de jogar ossos que remonta à cultura de origem do Zimbábue e talvez antes ainda. Um método bastante conhecido usa quatro ossos - ou quatro peças de marfim, chifre ou madeira -, os quais, quando jogados, dão um total de 16 respostas. Cada osso tem uma identidade: macho ou fêmea, velho ou jovem. Outros adivinhos usam um número bem maior de ossos dos artelhos (às vezes, mais de sessenta), cada qual com o seu significado. A leitura depende da forma como caem no chão e da posição em que ficam em relação aos outros ossos. Os adivinhos que usam conchas de cauril e dizem a sorte nos mercados da África ocidental usam um método parecido.
Talvez a mais bem conhecida tradição oracular africana seja o ifá da nação iorubá do oeste da Nigéria, Benim e Togo. Os sacerdotes ifá usam os frutos da palmeira, que jogam de uma mão para outra sobre um tabuleiro coberto com areia, no qual anotam quantos frutos sobraram na mão. No final, ficam oito marcas, da direita para a esquerda, em colunas paralelas. As marcas consistem em uma ou duas linhas, perfazendo 16 combinações possíveis. Cada combinação corresponde a um odu, espírito divinatório enviado no passado pelo deus Orumila para iluminar os humanos. Quando o odu é identificado, o adivinho e seu consulente discutem o tema da consulta conforme os atributos divinatórios do espírito. O cliente então usa a longa experiência do sacerdote em problemas parecidos e tem o consolo de saber que o espírito também quer uma solução.
“Céu, venha a nós. Faça desta casa o seu lar. Desça com todo o seu poder. Venha, pureza, venha!”.
(Invocação dos sacerdotes ifá da Nigéria aos espíritos oraculares).
Calendários da Mesoamérica
Séculos afora, povos de muitas culturas tiveram métodos para saber quais os bons e os maus dias. Mas em nenhum lugar do mundo esses métodos chegaram à complexidade e sofisticação dos indígenas do México e da América Central pré-colombiana.
Os povos mais conhecidos da região eram os astecas e os maias, mas todos tinham conceitos parecidos sobre a passagem do tempo. Para eles, o calendário era a melhor forma de entender e organizar o mundo e de prever os acontecimentos. Assim, o calendário era mais do que um registro do tempo, e cada dia estava sob influências divinas e astrológicas que determinavam se seria ou não propício e ajudavam a fixar as atividades que podiam ser feitas.
O Ano dos Mesoamericanos
Todos os povos mesoamericanos admitiam um ciclo anual de 365 dias que correspondia aproximadamente ao nosso ano solar. O ano era dividido em 18 meses de vinte dias, sobrando cinco dias no final de cada ano. Esses chamados "dias sem nome" eram considerados aziagos, porque não estavam sob a proteção de nenhum deus. Mas os mesoamericanos não tinham qualquer equivalente ao nosso ano bissexto e, assim, seus 365 dias aos poucos ficaram fora de sintonia com as estações. O calendário era usado para marcar eventos oficiais, porém sua imprecisão fazia com que as festas do plantio e da colheita, por exemplo, tivessem de ser mudadas para coincidir com o ano agrário.
O calendário mais usado na adivinhação era inteiramente separado, com 260 dias em sintonia com os 365 dias. Não existe uma base sazonal óbvia para esse segundo ciclo. A conexão mais provável parece ser o período de gestação da mulher, medido do primeiro ciclo menstrual falho até o nascimento - as parteiras devem ter usado uma conta de 260 dias para calcular a data do parto. Prova disso é que as crianças astecas em geral recebiam seu nome com base na data do nascimento por essa conta, e considerava-se já terem completado um ciclo quando nasciam.
O nome das crianças juntava um dos vinte nomes dos dias, como Vento, Gamo, Pedra ou Flor, com números de um a 13. Exemplo: uma pessoa podia ser chamada de Dois Gamo ou Doze Pedra. Os astecas associavam cada um dos vinte nomes a um determinado deus, da mesma forma que os 13 números tinham como padroeiros os 13 Senhores do Dia. Havia outras influências ainda - por exemplo: 13 criaturas aladas, de beija-flores a corujas, cada uma relacionada com um dos 13 patamares do céu asteca. Assim, o calendário de 260 dias era o almanaque do adivinho, com uma trama de influências tão complexa para cada dia, que só um especialista era capaz de entender. Por isso, todos os sacerdotes astecas recebiam noções de adivinhação.
Alguns dias tinham uma influência maior do que as 24 horas. O nome de uma pessoa podia afetar a sorte dela por toda a vida; assim, as crianças nascidas em dias não propícios costumavam receber outro nome mais tarde.
“O Calendário de 260 dias ensinava às nações indígenas os dias em que deviam semear, colher e arar a terra, plantar o milho, capinar, ceifar, armazenar, debulhar o milho, tirar as sementes e fiar”.
(Frei Diego Duran, cronista espanhol, sobre a função dos Calendários Mesoamericanos de marcar datas propícias para cada atividade).
O Ciclo Sagrado
Astecas e maias tinham um conhecimento sofisticado de matemática e dos padrões numéricos dos dois calendários. Concluíram que em 18.980 dias - 73 anos de 260 dias ou 52 anos de 365 dias - os dois calendários coincidiriam. Na cultura mesoamericana, esse período de 52 anos tinha grande importância e era chamado de "feixe de anos", devido ao hábito dos sacerdotes de separarem uma varinha de madeira descascada para marcar cada novo ano. Quando somavam 52 varinhas, tinha se completado a fase que historiadores modernos chamam de "ciclo do calendário" .
Para os astecas, o fim de um ciclo era uma fase perigosa, quando, por um breve período, o mundo perdia a proteção dos deuses e sentia muito medo. Segundo a cosmogonia asteca, o mundo foi criado e destruído quatro vezes até o quinto sol surgir na era atual - que também passaria e nenhum sol mais surgiria.A única certeza que tinham sobre o fim do mundo é que seria no final de um ciclo do calendário, embora não soubessem qual deles. Assim, a cada fim de ciclo, temiam desastre cósmico e tinham a persistente preocupação de que os deuses aproveitassem para finalmente destruir os seres humanos.
Para reduzir os riscos, realizavam um importante ritual chamado Cerimônia do Fogo Novo. No último dia do calendário de 52 anos, eles quebravam toda a louça de barro e apagavam todos os fogos. A vida cotidiana sofria uma parada e faziam jejum, abstinência e silêncio durante todo o dia. Ao escurecer, uma procissão de sacerdotes e dignitários ia de Tenochticlán, a capital asteca, até o cume de uma montanha próxima, chamada Ciclaltepec, ou colina da estrela. Lá, ficavam em tensa espera para ver se a constelação de Plêiades apareceria à meia-noite, sinal de que o mundo continuaria num novo ciclo. Depois que as estrelas apareciam, os sacerdotes faziam uma imolação humana - em geral, de um chefe inimigo prisioneiro de guerra - retirando o coração do peito da vítima com um facão. A seguir, faziam uma centelha no peito aberto do morto e nela acendiam tições com os quais davam sinais de boa nova para os ansiosos cidadãos que esperavam ao pé da colina. Uma onda de alívio e alegria se espalhava pela capital e pelo mundo asteca, pois os demônios da destruição estavam mais uma vez afastados e o povo poderia sobreviver por mais 52 anos.
Calendário dos Maias
Presos nesse círculo vicioso de medo e salvação, os astecas limitavam o ciclo do tempo a 52 anos. Os maias - que viveram alguns séculos antes deles, onde hoje é o sul do México e a Guatemala - aperfeiçoaram esse conceito inventando o enorme ciclo chamado de Contagem Longa. O calendário maia era ainda mais complexo de que o asteca, pois, além dos anos de 260 e 365 dias, os sacerdotes calcularam um calendário lunar que começava na primeira aparição de cada lua nova. Eles deixaram registros bastante precisos calculando que 149 luas correspondiam à passagem de 4.400 dias, dando a cada ciclo lunar a duração de 29,5302 dias. O número aceito hoje para um ciclo é de 29,5306 dias.
Os maias tinham um almanaque de influências para cada dia do ano, diferente em seus detalhes daquele dos povos do norte. Eles admitiam outros ciclos, dando particular atenção ao surgimento de Vênus, que identificavam com atividades militares - o caractere "guerra” era Vênus desenhada sobre o lugar que deveria ser atacado. Os maias costumavam marcar o ataque na hora do surgimento do planeta, também chamado de Estrela Vespertina.
O Fim da Contagem Longa dos Maias
Para calcular a passagem do tempo em períodos maiores, os maias criaram a Contagem Longa, que contava a partir de uma data fixa no passado distante, quando teria começado a era presente do mundo. Em termos ocidentais, a contagem começou no dia 11 de agosto de 3114 a.C. Não há registros que expliquem por que essa data foi escolhida, mas objetos de arte sugerem que marcava a recriação do mundo após ser destituído por uma grande inundação. A Contagem Longa era medida em tuns de 360 dias. Seguindo a matemática vigesimal dos maias - baseada no número vinte, em vez do sistema decimal, de dez -, os períodos mais longos eram contados em katuns (vinte tuns) e baktuns (vinte katuns ou quatrocentos tuns). Havia também períodos maiores de vinte e quatrocentos baktuns para eras de oito mil e 160 mil tuns, respectivamente.
Como todos os calendários mesoamericanos, o dos maias supunha um ciclo que terminava após 13 baktuns. Considerando os ajustes ao calendário ocidental e a diferença entre o ano de 360 e o de 365 dias, tal ciclo terminaria em 21 de dezembro de 2012, caso os maias tenham calculado certo.
A Arte da Cristalomancia
A previsão usando cristais é um dos mais antigos e mais conhecidos métodos de adivinhação, e trata da busca de conhecimento em superfícies lisas ou com reflexo. Em geral, bolas de cristal, mas também cristais e águas paradas. A história da cristalomancia remonta pelo menos à Grécia clássica, onde o escritor de viagens Pausânias descreveu várias fontes usadas então. Uma, em Tenarum, perto do sul do Peloponeso, supostamente revelava o que acontecia no porto local até que uma mulher lavou roupa ali e sujou a água. Na Bíblia, o Gênesis faz referência a José usando uma taça divinatória, e a tradição islâmica conta que o califa abássida Mansur tinha um espelho que revelava se um estrangeiro era amigo ou inimigo.
Na Mesoamérica, a cristalomancia parece ter tido um papel particularmente importante por sua associação com Tezcaclipoca, uma divindade terrível cujo nome significava "espelho embaçado". As estátuas do deus têm espelhos de pedra vulcânica escura, adornando a parte de trás da cabeça dele, e no lugar do pé que ele perdeu numa batalha contra o monstro terreno numa luta da criação. Sabe-se que os astecas usaram espelhos na adivinhação, assim como água em tigelas. Crenças parecidas certamente passaram para o Peru pelo istmo do Panamá, a julgar por uma famosa lenda inca. Tal lenda conta que o conquistador Pachacuti encontrou num riacho um cristal onde o deus criador Viracocha apareceu prometendo a ele um império.
Esses exemplos mostram a existência de várias formas de consulta aos cristais, algumas mais conhecidas. Hoje, a técnica está mais associada a bolas de cristal, mas nem sempre foi assim. E os espelhos têm uma longa fama - basta lembrar a rainha em Branca de Neve e os sete anões perguntando ao espelho: "Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?". Mas os gregos antigos não foram os únicos povos a usarem a água dos rios, lagos e riachos como espelho.
Outros materiais além do metal polido e da água também podem ser usados como as pedras brilhantes, na litomancia. Um dos métodos mais estranhos é a onicomancia, hoje certamente em desuso, que consistia no exame das unhas de um menino após untá-las com fuligem ao sol. Mais recentemente, os videntes usam uma série de objetos inesperados - como bolhas de sabão, o verso de relógios de pulso e a tela de uma tevê fora do ar.
A cristalomancia teve vários propósitos tempos afora, inclusive a profecia pela profecia. Um exemplo pode ser encontrado nas Memórias de Saint-Simon, em que uma menina conseguia prever vários fatos históricos olhando num copo d'água. Mas, desde sempre, outros povos usaram essa técnica com uma intenção definida: os solteiros, por exemplo, buscavam ver o rosto da cara-metade. Uma antiga tradição do folclore norte-americano no Dia das Bruxas dizia que se a moça descesse de costas uma escada olhando um espelho, veria o rosto do futuro marido.
Uma tradição de longa data é usar a cristalomancia para achar objetos perdidos ou roubados. A mais antiga referência a essa prática na Inglaterra é de 1467, quando William Byg, morador de Yorkshire, disse ganhar a vida usando uma bola de cristal para encontrar objetos perdidos. Os padres do lugar o consideraram herege e ele foi condenado a andar até York Minster com uma placa escrita "bruxo".
“Foi-me dada uma visão no Cristal e eu vi”.
(Anotação no diário de John Dee, em 25 de maio de 1581, indicando sua primeira experiência bem-sucedida com a Bola de Cristal).
O Adivinho de Elizabeth I
A cristalomancia também podia ser usada, com ou sem sucesso, para fins mais ambiciosos, como nos experimentos de John Dee, ocultista e erudito inglês do século XVI. Grande letrado, Dee era conhecido da rainha Elizabeth I, de quem chegou a fazer o mapa astral. Alguns especialistas acreditam que ele foi a inspiração de Shakespeare para o personagem Próspero, de A tempestade.
Depois de profundos estudos sobre o misticismo judaico, Dee chegou à conclusão de que havia uma série de seres angélicos entre o homem e Deus. Na década de 1580, se convenceu de que tais seres podiam ser contatados por um espelho de cristal. Na década seguinte, ele fez um diário de suas experiências, documentando uma das mais extraordinárias aventuras psíquicas do mundo.
Infelizmente, Dee não parecia ter muitacapacidade para invocar espíritos: "Você sabe que não posso ver ou adivinhar", escreveu, desesperado. Assim, foi obrigado a confiar em assistentes - o mais importante deles, um aventureiro esperto chamado Edward Kelley que, antes de conhecer Dee, teve as orelhas cortadas por falsificar dinheiro.
Kelley não só inventou espíritos, como também arrumou uma bola de cristal de forma bem teatral. Num entardecer de 1582, Dee viu na janela oeste de seu laboratório uma criança-anjo segurando um "objeto brilhante e lindo, do tamanho de um ovo". Era uma bola de cristal, que ele depois diria ter sido presente de Uriel, o anjo da luz.
Mas o assistente Kelley estava mais interessado em usar os conhecimentos de alquimia de Dee para fazer ouro do que para contatar espíritos. Por isso, convenceu o erudito de 56 anos a sair de casa em Mordake, nos arredores de Londres, e ir com a mulher e empregados à Polônia, onde um rico nobre prometera financiar suas pesquisas. Uma peregrinação de seis anos fez a dupla pedir ajuda não só na Polônia, mas em Praga, na corte do sacro imperador romano Rodolfo II e no castelo do vice-rei da Boêmia. Nessas andanças, Kelley continuou a invocar anjos e pesquisar alquimia, além de convencer Dee de que os espíritos sugeriam que os dois compartilhassem tudo, inclusive as esposas. Enquanto isso, a fama das atividades mágicas de Dee chegou à sua cidade natal e uma multidão irada saqueou a casa e queimou livros e objetos dele.
Dee acabou dando um basta e voltou à Inglaterra em 1589, falido e desanimado. Felizmente, sua antiga mecenas Elizabeth I teve pena dele e premiou seus longos serviços à Coroa com o cargo de reitor numa escola na emergente cidade nortista de Manchester.
Kelley não teve tanta sorte. Continuou na Europa oriental, onde foi acusado de fraude e bruxaria, acabando preso. Tentou a fuga, mas a escada feita de lençóis amarrados arrebentou e ele morreu no dia seguinte. Junto com ele, foi-se a dúvida sobre se teria realmente visto maravilhas na bola de cristal. A única certeza que resta é de que as experiências posteriores de Dee fracassaram e os anjos nunca mais se manifestaram.
Visões Nubladas
Hoje, a bola de cristal continua sendo o método mais popular da cristalomancia, embora varie de forma. Alguns videntes precisam de vários dias para limpar corpo e mente antes de uma consulta, enquanto outros dispensam esse preparo. A maioria exige que o espelho esteja bem limpo, pois qualquer mancha pode desviar a atenção. Uma limpeza muito usada é mergulhar a bola numa panela com uma medida de conhaque para cinco de água e levar ao fogo durante 15 minutos, depois secar a bola com uma camurça. Alguns videntes gostam de ficar num ambiente totalmente escuro ou contra um fundo escuro, como um veludo ou um armário meio fechado. Outros trabalham no claro, embora a maioria prefira a penumbra, com a bola na mesma distância que se usa para ler um jornal, por exemplo. No passado, muitos videntes eram auxiliados por meninos ou meninas (considerava-se que tinham uma boa visão psíquica) que informavam o que viam na bola de cristal enquanto o vidente interpretava. Hoje, a maioria faz tudo sozinha e a visão leva de cinco a 15 minutos para tomar forma.
O que o vidente enxerga também varia, mas o relato clássico é de uma nuvem opaca ou leitosa que surge aos poucos dentro da bola. As visões aparecem então, em geral banhadas numa luz sobrenatural, paradas ou em movimento, reduzidas à circunferência da bola ou em tamanho natural. Às vezes, não há uma forma definida; mesmo assim, o vidente pode avaliar conforme a aparência da nuvem: se for clara, denota boa sorte; se for escura, indica maus presságios.
Um Romance Revelado
Um curioso caso de adivinhação por bola de cristal ocorreu em 1915, com um certo Edmund Waller, que na época morava em Paris. Um amigo que ia empreender uma longa viagem à África pediu que ele fizesse a gentileza de ver se tudo estaria bem com sua esposa. Logo que o amigo viajou, a esposa foi para os Estados Unidos, e Wal1er não pensou mais nisso. Uma noite, sem conseguir dormir, resolveu se distrair com a bola de cristal que o pai tinha comprado pouco antes. Ficou surpreso ao ver a esposa do amigo com um homem que ele não conhecia, no hipódromo de Longchamps, nos arredores de Paris. Sabendo que no dia seguinte haveria uma corrida lá, cancelou um compromisso e foi ao hipódromo, onde viu o casal da bola de cristal. A esposa do amigo tinha voltado à França sem avisar.
Teve outras visões dos dois na bola de cristal e contou isso ao amigo quando ele voltou da África. Primeiro, o marido enganado não acreditou na história, mas quando Wal1er teve outra visão - do casal num conhecido restaurante parisiense -, o marido aceitou acompanhá-lo até lá. Encontraram a esposa jantando acompanhada e a cena acabou em divórcio.
Uma Fartura de Métodos
Pelos séculos, o engenho humano criou inúmeras formas de prever o futuro, a maioria baseada apenas na coincidência ou em fatos não relacionados. A quantidade de técnicas divinatórias chega às dezenas e, às vezes, às centenas.
Alguns métodos são conhecidos até hoje. Chineses e indianos conheciam a quiromancia (leitura das mãos) há milhares de anos e ela continua sendo usada, tendo ressurgido há cerca de um século. Isso ocorreu em parte graças às atividades do clarividente irlandês Cheiro, cujo verdadeiro nome era William Warner, nascido no condado de Wicklow. A oniromancia (interpretação dos sonhos) de José no Antigo Testamento (ver páginas 83 a 85) também continua sendo praticada, a julgar pela quantidade de livros de análise de sonhos nas livrarias. Muitos também já ouviram falar na aleuromancia, costume de colocar mensagens em bolos, mesmo que seja nos ingênuos biscoitos da sorte.
Outros itens da lista hoje parecem apenas esquisitos, como a cefalomancia que consistia em cozinhar a cabeça de um macaco e fazer previsões conforme as bolhas que subiam na água fervente. Já a gelomancia e a giromancia viam presságios, respectivamente, no riso histérico e nos passos de dançarinos - dois métodos há muito em desuso. Os escritores e roteiristas ainda praticam uma forma modificada de transataumancia, que é buscar sentido em trechos de conversas entreouvidas -, porém usam isso para escrever e não para fazer previsões. A frenologia tentava descobrir a personalidade e os dons de uma pessoa de acordo com a forma da cabeça e também saiu de moda.
Pêndulos e Folhas de Chá
Um antigo método que teve recentemente um novo impulso é a clidomancia, da palavra grega kleis, que significa chave. Originalmente, a técnica consistia em balançar uma chave na ponta de um fio, hoje substituída por vários pêndulos, sendo mais comum um cristal. Seja qual for o objeto dependurado, a finalidade é criar um pêndulo que possa ser usado quase como uma mesa de Ouija. Parado, o pêndulo parece assumir vida própria, e o lado que indica responde a vá rios tipos de dúvidas. Pode servir na rabdomancia (adivinhação por meio de varinha mágica) para localizar água ou metal no solo. Pode também indicar a direção onde se deve procurar objetos perdidos, ou ainda para responder "sim" ou "não": se o pêndulo rodar para a direita, a resposta é "sim"; para a esquerda, "não". Claro que qualquer tremor na mão pode mexer o pêndulo, portanto, o adivinho precisa ficar firme, senão, sem querer, responde à própria pergunta.
De todos os métodos tradicionais, a leitura das folhas de chá tem a vantagem de ser imediatamente acessível, além de ser muito antiga. Antes de competência das ciganas, hoje é usado como entretenimento, pois não é levado muito a sério pelos praticantes.
Basta uma xícara com as folhas do chá, podendo ser usada também uma xícara de café, recomendando-se grãos finos para formar uma borra mais consistente. Mistura-se bem o chá ou café na xícara, depois vira-se tudo num pires até o líquido escorrer bem. A adivinhação consiste em examinar as folhas ou a borra que ficaram na xícara, identificando formas. Uma das poucas regras diz que, ficando próximas dabeirada, mostra que o fato ocorre logo, e bolhas em forma de barco ou navio podem, por exemplo, indicar uma viagem no futuro.
Adivinhação por Meio de Livros
Um método consagrado pelo tempo é a bibliomancia; prever o futuro escolhendo ao acaso um trecho num livro. A Bíblia foi bastante usada, só ofuscada pelas obras do poeta romano Virgílio, cuja fama esotérica deve ter sua origem na viagem ao inferno contada em sua obra-prima, A Eneida. Os poemas de Virgílio eram consultados para a adivinhação já nos tempos clássicos e consta que o imperador Sétimo Severo, um governante duro, porém eficiente, leu por acaso os versos "Nunca se esqueça, ó romano, de governar o povo com muita força". Há também exemplos pós-clássicos de versos apropriados. Quando o rei Carlos I da Inglaterra foi convencido a consultar essa sortes Virgilianae (previsão de Virgílio) pouco antes da guerra civil na qual morreu, em 1649, encontrou uma passagem do quarto livro de A Eneida descrevendo uma guerra na qual um rei morreria.
Videntes e Clarividentes
Nostradamus é o arquiprofeta, o vidente leigo que o mundo todo conhece. Mesmo assim, continua sendo um mistério. A não ser por alguns indícios sobre invocação de espíritos, ele manteve em segredo seu método de trabalho. Não existe uma tradição de profecia à Nostradamus, porque ninguém sabe direito o que ele fez.
Assim, ele cabe muito bem entre os clarividentes deste capítulo, cujo único traço em comum é a individualidade. Vão desde o semilendário Mago Merlim – cuja fama lembra um vidente que realmente existiu no século VI – até Karl Ernst Krafft, cuja estranha história teve como pano de fundo o Terceiro Reich nazista. O elenco de personagens inclui pensadores sofisticados como o monge erudito Roger Bacon – que previu elevadores e aeroplanos seis séculos antes – e também simplórios como Robert Nixon, o bobo de Cheshire, que tinha poderes clarividentes totalmente espontâneos, e Edgar Cayce, o “profeta adormecido” dos Estados Unidos, que acreditava que o continente submerso de Atlântida voltaria à tona na década de 1960. São os grandes individualistas da profecia, e cada um deles foi considerado fantástico em seu tempo, sendo todos lembrados até hoje.
O Mago Merlim
Merlim continua lembrado hoje graças aos livros e filmes que contam a saga do rei Artur e sua Távola Redonda. Mas pouca gente sabe que Merlim foi um profeta - e que pode mesmo ter existido.
O famoso mago é citado pela primeira vez em torno do ano 1135, na Historia Regum Brittaniae (História dos reis britânicos), de Geoffrey de Monmouth, um dos mais populares e influentes livros da Idade Média. A obra pretendia contar a história da Inglaterra de 1170 a.C. até o século VIII depois de Cristo, mas acabou sendo produto da fértil imaginação do autor. Além de Merlim, a Historia falava também no rei Artur, cujo pai, Uther Pendragon, pede ajuda ao mago para conquistar a futura mãe de Artur.
Segundo a Historia, a Inglaterra foi inicialmente habitada por seguidores de Brutus, filho do herói troiano Enéias. O autor do livro criou uma estirpe de reis imaginários, inclusive Lear e Cimbelino, conhecidos hoje como personagens-título das duas peças de Shakespeare. Embora reconheça a invasão dos romanos na Inglaterra, o autor prefere mostrar os conquistadores como pouco mais do que obscuros chefes.
A parte mais interessante e influente do livro descreve o que ocorreu depois da saída dos romanos da Inglaterra. Segundo o autor, o trono da Inglaterra foi usurpado por um intruso traiçoeiro chamado Vortigern, que não só exilou os herdeiros de direito, como também convidou os saxões idólatras para o apoiarem como mercenários.
De acordo com o livro, os saxões gostaram da Inglaterra e acabaram apontando suas espadas também para Vortigern. Este se retirou para a montanha de Snowdonia, onde queria construir uma fortaleza inexpugnável. Mas não conseguia terminá-la, pois as paredes ruíam, e acabou se convencendo de que havia algo mágico nisso. Seus videntes disseram que a única maneira de quebrar o encanto era sacrificar uma criança que não tivesse pai. Vortigern procurou em toda parte até encontrar o pequeno Merlim, cuja mãe engravidara de um íncubo, deixando o menino sem pai.
Merlim tinha também dons proféticos e antes de ser sacrificado insistiu em desafiar os clarividentes de Vortigern para ver quem era melhor. Eles não conseguiram explicar por que as paredes do castelo continuavam ruindo, mas Merlim resolveu o mistério: a fortaleza estava sendo construída sobre um lago submerso onde viviam dois dragões inimigos. Vortigern procurou e encontrou os dragões - um vermelho, o outro branco, que na mesma hora começaram a brigar.
“Infeliz de ti, Normandia, pois o cérebro do leão será jogado em ti e ele será banido da terra natal com os membros esmigalhados”.
(Merlim prevendo a morte de Henrique I da Inglaterra na Normandia, em 1º. de dezembro de 1135, como registrado por Geoffrey de Monmouth na década de 1150).
A Espada Cravada na Pedra
Nos tempos modernos, a espada cravada na pedra talvez seja a previsão mais conhecida de Merlim. Pouco antes de morrer, o rei Uther Pendragon disse que seu substituto no trono da Inglaterra seria aquele que conseguisse retirar a espada cravada numa pedra. Na história, o discípulo e protegido de Merlim, Artur, consegue tal proeza, depois que muitos cavaleiros fracassam - e assim torna-se rei. Mas essa história não é citada por Geoffrey de Monmouth, pois foi publicada pela primeira vez cinqüenta anos depois, na obra de Robert de Boron, poeta borgonhês. Seu poema Merlim também deu outra duradoura contribuição à lenda do rei Artur: apresentou a Távola Redonda, na qual o rei e seus cavaleiros se reuniam sem se preocupar com hierarquias.
História Profética
Quando pediram detalhes de sua descoberta, Merlim fez um longo e profético discurso que ficou famoso na Idade Média como "As profecias de Merlim". O mago previu nada menos que a história da Inglaterra, usando termos alegóricos e se estendendo por mais de mil anos. A primeira parte é obscura, mas às vezes muito precisa - o que não é de estranhar, pois o autor do livro escreveu depois que os fatos aconteceram.
Quanto aos dragões, Merlim disse que o vermelho significava o povo celta (e até hoje um dragão é o símbolo nacional dos gauleses) e o branco, os saxões. Como os dragões, os dois povos estavam destinados a brigar. Primeiro, os saxões venceriam, depois, os celtas.
Mesmo quando a narrativa chegou à época em que vivia, o autor continuou fazendo profecias e fez Merlim prever os séculos seguintes. A maior parte dessas profecias é enigmática demais para ser interpretada. Anos depois, Shakespeare ironizou-as na peça Henrique IV, parte I, na qual o personagem Hotspur zomba "do sonhador Merlim e suas profecias".
A única "previsão" de Merlim que pode ser comprovada é a do ressurgimento dos celtas - na comparação com os dragões - quando "as ilhas voltarão a ser chamadas pelo nome de Brutus". O nome Bretanha, claro, passou a ser usado após a união das coroas inglesa e escocesa, em 1603. Mas nem por isso as palavras de Merlim podem ser consideradas proféticas, pois os que uniram os dois reinos conheciam a lenda quando escolheram para o país o nome de Bretanha. Mesmo assim, as frases enigmáticas do mago tiveram enorme influência nos séculos seguintes. Muitos leitores procuraram nelas explicação para fatos - como James I, primeiro rei da Inglaterra e da Escócia unidas, que afirmou, repetindo as palavras do livro: "Sendo rei de toda a ilha, seria rei da Bretanha, como o foram Brutus e Artur".
Merlim e Stonehenge
Na Historia, de Geoffrey de Monmouth, Merlim coloca a grande pedra circular de Stonehenge na planície de Salisbury, no sul da Inglaterra. O livro conta também que, após a queda de Vortigern, o novo governante da Bretanha, Aurélio, manda construir um memorial para alguns nobres que foram traiçoeiramente mortos por Hengisto, um saxão aliado de Vortigern. Mas, da mesma forma que na fortaleza de Vortigern, houve problemas naconstrução que só foram resolvidos após consultarem Merlim. Assim, foi erigido o monumento "conhecido na língua inglesa como Stonehenge", conforme Geoffrey.
O Louco da Fronteira
Como as profecias de Merlim foram muito atribuídas à imaginação de Geoffrey de Monmouth, a fama do mago ficou abalada. Mas há indícios de que o escritor se baseou em antigas lendas celtas e que pode ter existido um Merlim de verdade. O menino sem pai e os dragões lutando, por exemplo, constavam de uma história do século VIII do menino chamado Ambrósio, que teria feito previsões numa corte celta do século VI.
Geoffrey conta outra história numa obra mais curta, a Vita Merlini (Vida de Merlim), que escreveu uns dez anos depois da Historia. Essa biografia do mago, com 1.500 versos, fala de um personagem bem diferente do Merlim da corte do rei Artur. Trata de um rei profeta do século VI que viveu em Dyfed, no sul de Gales, e lutou ao lado do rei da Cúmbria contra um rei da Scocia (Escócia). Seus três irmãos morrem na batalha, ele enlouquece de dor e se retira para a floresta da Caledônia, na fronteira da Escócia, e às vezes aparece fazendo profecias que repetem as da Historia.
Este Merlim tem evidente semelhança com o bardo gaulês Myrddin, cujos escritos Geoffrey certamente conhecia. Os fragmentos da obra de Myrddin incluem poemas autobiográficos em que se descreve como marginal e louco, vivendo sozinho na floresta da Caledônia após uma batalha.
O profeta que enlouquece de tristeza também existe na literatura gaulesa, e personagens com nomes parecidos indicam que são os mesmos poemas de Myrddin. Mas em alguns fragmentos em prosa ele é chamado de Laloecen ou Lailoken, e o texto mais revelador conta a vida de Santo Kentigern, padroeiro da cidade escocesa de Glasgow, que encontra um louco nu no bosque. O homem revela que enlouqueceu depois de uma terrível batalha perto do rio Liddell, na fronteira inglesa com a escocesa. Passa então a acompanhar o santo e às vezes interrompe seus sermões com frases proféticas, e acaba se convertendo ao cristianismo. Ainda faz uma última previsão: morreria de três causas ao mesmo tempo. Por mais improvável que parecesse, foi o que aconteceu: o louco foi apedrejado por pastores, escorregou dentro do rio Tweed e ficou empalado numa estaca - morrendo apedrejado, empalado e afogado.
Longe do mago da lenda moderna, o verdadeiro Merlim pode ter sido um "louco do bosque", que andava nu e descabelado. Nikolai Tolstói lançou, em 1985, The Quest for Merlin [Em busca de Merlim], em que afirma ter encontrado o lugar onde o vidente viveu, nas encostas de Hart Fell, na fronteira da Escócia.
Como profeta que existiu, esse Merlim se encaixa na história sob um aspecto desditoso: sua clarividência parece ter lhe dado poucas alegrias e não impediu que tivesse o final infeliz que os profetas costumam ter.
Bruxos e Feiticeiras
O sucesso do livro de Geoffrey de Monmouth com as profecias de Merlim fez com que o gênero vigorasse da Idade Média até os séculos XVI e XVII. Principalmente na Inglaterra, onde, com o tempo, muitas previsões - e havia centenas - assumiram vida própria. Elas circulavam de boca em boca e costumavam ser atribuídas a fontes diferentes. No século XVII, editores espertos lançaram seleções, como As estranhas profecias de Merlim, do Venerável Beda, de Thomas Becket e outros, publicada em 1652. As previsões costumavam ser alegóricas, seguindo o modelo criado por Monmouth, e eram povoadas de leões brancos, dragões, águias e lobos, podendo cada leitor interpretá-las como quisesse.
Anos afora, dezenas de pessoas hoje desconhecidas - como Truswell, Otwell Binns e Old Harlock - foram consideradas autoras das previsões, mas alguns nomes ficaram. Um deles é Thomas de Ercildoune (hoje Earlston, perto de Melrose, na fronteira inglesa com a Escócia), mais conhecido como Thomas, o Versejador.
Ele realmente existiu: escreveu sir Tristram, um romance em versos no estilo do rei Artur, e suas profecias eram mais ligadas à história da Escócia. Uma das que ajudaram a espalhar sua fama foi sobre a morte do rei Alexandre III, em 1286. Sabendo da reputação de Thomas para prever, um nobre, lorde March, pediu-lhe que dissesse o que aconteceria no dia seguinte. Thomas então avisou que "antes do entardecer, cairá uma tempestade na Escócia como não se vê há anos". O dia amanheceu claro e limpo e lorde March estava zombando do profeta quando um mensageiro veio avisar que o rei tinha morrido num acidente. O soberano era idoso, seu reinado tinha sido uma época de ouro, e morreu quando seu cavalo se atirou num despenhadeiro. "Foi a tempestade que previ e assim vai ser na Escócia”, disse Thomas.
Com o tempo, a fama de Thomas de prever fatos sobrenaturais aumentou ainda mais. Uma conhecida balada de fronteira conta como ele encontrou a rainha das fadas ao caminhar pelas colinas de Eildon. Ela o levou a cavalo para o seu reino, e lá ficou Thomas, proibido de falar durante sete anos. Quando teve permissão de voltar para casa, recebeu o dom de dizer a verdade sobre o passado, o presente e o futuro - e ganhou fama de profeta. Mas ele foi sempre fiel à fada, que um dia mandou um gamo para as ruas de Earlston como sinal de que o profeta devia voltar para o reino das fadas. Na mesma hora, ele sumiu e nunca mais foi visto.
“Os Veleiros passarão a se mover sem o uso de remos ou remadores, de forma que navios de grande calado percorrerão mares e rios dirigidos por um só homem, navegando mais rápido do que se tivessem muitos tripulantes”.
(Roger Bacon, prevendo o navio a vapor, seiscentos anos antes de sua invenção).
“Vi coisas que não posso lhe contar e que ninguém jamais viu”.
(Robert Nixon, o profeta de Cheshire, ao sair de um transe).
O “Doutor Admirável”
Roger Bacon viveu na mesma época de Thomas de Ercildoune: ambos nasceram em torno de 1220 e viveram até a década de 1290. Em outros aspectos, entretanto, não poderiam ser mais diferentes. Bacon era um grande intelectual que estudou em Oxford e Paris e se interessou por várias áreas do conhecimento: não só matemática, astronomia e óptica, mas também alquimia e astrologia, que, à época, ainda eram temas legítimos de estudo.
Depois de dar aulas em Paris por alguns anos, Bacon voltou a Oxford em 1247 para se dedicar à pesquisa científica. Foi quando se interessou pelas profecias de Joaquim de Fiore e resolveu entrar para a ordem franciscana, fundada alguns anos antes por influência do próprio Joaquim. Não foi uma boa idéia. Bacon não se sentiu à vontade com as normas da ordem, e os monges por sua vez desconfiavam cada vez mais das especulações intelectuais dele. Acabou preso por introduzir "inovações suspeitas" no que ensinava e morreu insatisfeito e amargurado.
Ao contrário das visões de Thomas, o Versejador, as previsões de Roger Bacon eram bem mais racionais, embora bastante prudentes. Ele trabalhava com lentes ópticas e pólvora, e previu o uso de ambas no futuro - em telescópios, microscópios e nos canhões. Também cogitou a possibilidade de o homem voar e propôs um balão de ar quente que seria de folha de latão impulsionado por "fogo líquido". Previu ainda uma máquina de voar na qual o homem "sentado à vontade e pensando no que quisesse, poderá voar com asas artificiais". Imaginou máquinas que subiriam pelas paredes - os elevadores - e permitiriam que os homens "andassem no fundo do mar". Idéias tão novas além de seus estudos de alquimia e astrologia, deram a ele a fama duradoura de possuir poderes mágicos. Na época em que foi criada a popular comédia elisabetana Frei Bacon e frei Bungay, escrita por Robert Greene na década de 1590, Bacon era considerado um mago completo, além de inventor de uma cabeça de bronze que podia falar. Foi um final injusto para um intelectual que recebeu em vida o título de Doctor Mirabilis, Doutor Admirável.
O Bobo de Cheshire e Mãe Shipton
Dois profetas ingleses mais humildes, lembrados muito depois de mortos, são Robert Nixon e Úrsula Southiel, conhecida pelo sobrenome de casada, Mãe Shipton.Nixon era considerado o bobo da aldeia - feio, calado, preguiçoso, comilão. Nascido no condado de Cheshire em 1467, conseguiu trabalho no arado e chamou a atenção ao prever a morte do touro premiado do patrão. Seus dons proféticos chegaram aos ouvidos da importante família Cholmondsleys, que tentou em vão instruí-lo. Ele voltava para o arado e passava longos períodos sem fazer nada, quando parecia entrar em transe. Em suas visões, previu não só tempestades e inundações, mas também grandes fatos da história européia, como a Guerra Civil Inglesa e a Revolução Francesa.
Um dia, em 1485, Nixon chamou atenção por parar de arar e parecer lutar com inimigos invisíveis, enquanto gritava os nomes Ricardo e Henrique - e este acabava vencendo a luta. Dois dias depois, mensageiros anunciaram que a Batalha de Bosworth havia ocorrido na hora da luta de Nixon. Henrique VII tinha vencido Ricardo III, acabando assim com a Guerra das Rosas e dando início à dinastia Tudor no trono da Inglaterra.
Como ocorre tantas vezes na história da profecia, os talentos do profeta de Cheshire deram-lhe fama, mas poucas alegrias. Seu dom chegou ao rei Henrique, que o chamou à corte e mandou que um escriba o acompanhasse para anotar o que falasse. Mas a gula de Nixon o destruiu: ele continuou roubando comida, e um dia, quando o rei tinha saído para caçar, um cozinheiro irritado trancou o profeta no porão e esqueceu-o lá. O rei voltou duas semanas depois e perguntou pelo profeta, mas era tarde: havia morrido de fome e sede.
As profecias de Mãe Shipton foram escritas, e a caverna onde ela supostamente se manifestou ainda é atração para turistas. A mais conhecida trata do destino do ministro-chefe, cardeal Wolsey. Quando perdeu o prestígio com o rei e estava voltando para seu antigo cargo de arcebispo de Yorkshire, Mãe Shipton garantiu que ele não chegaria à cidade. A 12 quilômetros de lá, o ex-cardeal foi chamado de volta a Londres para responder à acusação de traição e morreu no caminho. Mas, como as previsões atribuídas a Mãe Shipton só foram publicadas 180 anos após sua morte, é impossível saber sua veracidade. A maioria parece ter sido escrita depois de decorrido o fato.
Morte Precoce
Como Roger Bacon, Michael Scot (cerca de 1175 a 1230) foi um brilhante intelectual que ganhou fama de mago. Além de traduzir Aristóteles, Scot estudou em vários países e foi professor do inteligente livre-pensador Frederico II, imperador do Sacro Império Romano. Scot também escreveu vários livros de astrologia, daí merecer um lugar entre os bruxos no Inferno de Dante. Mas dizem que seus talentos ocultistas não o impediram de morrer cedo. Tendo previsto que morreria devido a uma batida na cabeça, passou a usar sempre um capacete de ferro. Um dia, porém, foi à igreja com o imperador e precisou tirar o capacete em sinal de respeito. Durante a cerimônia, caiu um tijolo do teto e matou-o como ele mesmo previra.
A Maldição dos Templários
Uma das grandes ordens da cavalaria, a dos Cavaleiros Templários, foi criada com uma missão específica. Foi em 1119, vinte anos após a conquista de Jerusalém, durante a Primeira Cruzada. Peregrinos vindos de toda a Europa estavam ansiosos por visitar a Cidade Sagrada, embora a viagem fosse bastante perigosa. Os lugares santos eram fortalezas cristãs no território hostil, e muitos peregrinos não sobreviviam ao percurso de cinqüenta quilômetros desde o porto de Jafa. Um nobre francês chamado Hugues de Payens sugeriu fundar os Cavaleiros Templários para dar segurança à estrada até Jerusalém. Em 1128, um concílio da Igreja em Troyes, na França, aprovou a criação da ordem.
Desde o começo, os Templários pretendiam ser mais do que simples soldados, embora ganhassem logo a fama de belicosos. Viam sua missão como religiosa e queriam o status de monges militares. Como todos os monges, fizeram voto de pobreza, castidade e obediência, e conduziam-se segundo uma hierarquia rígida, chefiada pelo grão-mestre. Eles vinham de famílias nobres e tinham soldados e servos plebeus para servi-los.
No auge das Cruzadas, os Templários não só ganharam honras militares, como enriqueceram. Enormes doações entravam em seus cofres para ajudá-los a lutar pela fé. Em pouco tempo, estavam também cuidando de finanças, pois, como a época era de insegurança e inquietação geral, passaram a funcionar como banqueiros, guardando bens em segurança nas suas fortalezas.
Era inevitável que a crescente prosperidade dos Templários atraísse a cobiça de muitos. Ao mesmo tempo, a vida reclusa que levavam dava ensejo a intrigas - as pessoas passaram a imaginar estranhos ritos por trás dos altos muros dos castelos da ordem. Enquanto os Cavaleiros tiveram um papel importante na defesa da Terra Santa, essas críticas foram veladas. Mas, quando a última fortaleza cristã foi abandonada, em 1291, os Templários perderam o prestígio junto com sua função original.
De repente, os governantes europeus, que estavam ficando sem dinheiro para financiar as guerras sem fim dos Templários, começaram a dar ouvidos às histórias de abusos praticados por eles. Havia boatos de orgias homossexuais nas fortalezas só de homens e até rituais satânicos que os povos pagãos levaram para a Europa.
Em 1307, o rei francês Filipe, o Belo, resolveu acabar com a ordem templária. Apoderou-se de sua sede em Paris e mandou encarcerar todos eles. Depois, ordenou que o papa Clemente V, francês que obedecia às suas vontades, autorizasse processar os Cavaleiros. Com a permissão papal, Filipe fez com que os condenados fossem torturados da forma mais brutal: 36 presos morreram depois de passar pelo suplício da roda, ter os dedos esmigalhados, ser empalados e queimados em fogo lento. Muitos outros se dispuseram a confessar qualquer coisa - até acusações descabidas de terem praticado ultraje urinando na cruz ou adorado o demônio, beijando o ânus de um gato preto.
Jacques de Molay, último grão-mestre dos Cavaleiros Templários, que, ao ser executado, em 1314, lançou uma maldição, que depois se cumpriu, contra o rei Filipe, o Belo, e o papa Clemente V.
De posse dessas sombrias confissões, Filipe mandou queimar na fogueira 54 pessoas, e em 1312 extinguiu a ordem dos Templários. Oficialmente, seus bens foram transferidos para os Cavaleiros Hospitalários, uma organização parecida, embora grande parte da riqueza confiscada tenha acabado no tesouro real.
“E ele teria dito que, se mandassem, mataria o próprio Deus”.
(Cronista da época referindo-se à confissão de Jacques de Molay, feita sob tortura).
O Destino do Grão-Mestre
Jacques de Molay, o último grão-mestre dos Cavaleiros Templários, teve papel principal na tragédia. Como muitos de seus companheiros confessou sob tortura e o rei Filipe resolveu exibi-lo. Em março de 1314, Molay foi levado com um subordinado para a praça em frente à catedral de Notre-Dame, em Paris. O grão-mestre teria de admitir sua culpa em público, antes de ser levado para a prisão perpétua. Mas ele se recusou a cumprir a exigência, negou tudo o que lhe tinha sido arrancado à força e declarou-se inocente.
Irritado, o rei ordenou que Molay e seu subordinado fossem queimados vivos na mesma praça, no dia seguinte. À medida que as chamas aumentavam, Molay declarou outra vez sua inocência e rogou uma praga para seus algozes: o rei Filipe e o papa Clemente morreriam dentro de um ano.
Se fez mesmo essa maldição, ela logo se cumpriu. O papa (na época com 50 e poucos anos) morreu um mês depois, e o rei Filipe, de 46, morreu de enfarte em novembro no mesmo ano. Mas muitos na época preferiam acreditar que a ira de Deus os matou, como rogara o grão-mestre moribundo.
Nostradamus e as Centúrias
Nostradamus talvez seja o mais famoso profeta leigo de todos os tempos, porém sua vida tem tantas lendas que é difícil separar a verdade da ficção.
Mas o principal em sua biografia é mais ou menos aceito. Nasceu em 1503, em St.-Rémy-de-Provence, no sul da França, e morreu em 1566, no lugarejo de Salon, a uns trinta quilômetros daquela cidade.
Viajou muito pelaFrança e pela Itália, voltando sempre à terra natal, onde acabou se fixando. Também não há dúvidas de que ficou conhecido em vida por suas profecias, e nos seus últimos vinte anos atraiu discípulos a Salon, recebeu atenção da corte, ficou rico e honrado e teve certa fama internacional.
Batizado Michel de Nostredame (latinizado para Nostradamus), o futuro vidente era de família de origem judaica que se convertera ao catolicismo pouco antes de seu nascimento. O avô era comerciante de grãos e notário de provável erudição, pois deu ao jovem Nostradamus uma educação sólida não só nos clássicos e em matemática, mas também em astronomia.
Nostradamus estudou primeiro em Avignon e depois em Montpellier, cidade famosa por sua faculdade de medicina, na qual ele se diplomou em 1529. Nas duas décadas seguintes, ganhou a vida como médico viajante, reconhecido por seus métodos humanos e pouco convencionais: não fazia sangria nos doentes, embora fosse o tratamento usado na época para cura de muitos males, e preferia "estancar o sangue fazendo ligaduras, e não cauterizando. Sua carreira profissional teve como pano de fundo a peste, que era endêmica no sul da França e matou sua primeira esposa, descrita como "rica, muito bonita e admirável", e seus dois filhos pequenos.
“Tirei toda a preocupação da alma, da cabeça e do coração, e senti a tranqüilidade e a calma necessárias para predizer, sentado no tripé de bronze”.
(Carta de Nostradamus ao Rei Henrique II).
O Dom da Profecia
A acreditar nas histórias, Nostradamus foi construindo uma fama de vidente em suas viagens. Certa vez, na Itália, ele se ajoelhou na frente de um jovem padre na rua e chamou-o de Sua Santidade. Era Felice Peretti, um jovem tratador de porcos que veio a ser o papa Sixto V em 1585, 19 anos após a morte de Nostradamus. Outra história conta que Nostradamus estava num jantar, e o anfitrião, tentando zombar de sua capacidade, pediu-lhe que predissesse o futuro de dois porcos, um branco e outro preto. Ouviu então que eles comeriam o porco preto e um lobo devoraria o branco. O anfitrião mandou seu cozinheiro preparar o porco branco para o jantar e quando foi servido mostrou o erro ao convidado. Mas Nostradamus insistiu no que havia dito. O cozinheiro foi chamado e confessou que serviu o porco preto, pois preparava o outro quando um filhote de lobo que estava preso entrou na cozinha e o comeu.
Nostradamus começou a formar uma sólida reputação de profecias só depois de se instalar em Salon, em 1547. A partir de 1550, ele publicou almanaques anuais com previsões para o ano seguinte, e em 1555 lançou a primeira edição das Centúrias, obra pela qual é lembrado hoje. O título não se referia aos séculos seguintes, mas às profecias que reunira em grupos de cem, cada uma em quatro linhas de versos rimados. A primeira edição tinha três centúrias e uma parte da quarta, num total de 353 versos. Três anos depois, lançou a segunda edição, que chegou ao número 642, e a terceira, que saiu após sua morte, totalizando 942 versos. Por motivos ignorados, a sétima centúria ficou incompleta.
As Centúrias fizeram sucesso imediato, talvez porque a fama de Nostradamus já tivesse se espalhado. Um ano depois da primeira, o vidente foi chamado à corte para falar com o rei Henrique II e sua famosa mãe, Catarina de Médicis, que pediu ao profeta provençal que fizesse o mapa astral dos quatro filhos dela. Numa viagem pelas províncias em 1564, a rainha-mãe chegou a visitá-lo em Salon.
Receber atenção da realeza garantiu que a fama de Nostradamus ultrapassasse as fronteiras da França. Quando a rainha Elizabeth I subiu ao trono inglês, em 1559, apenas quatro anos após a primeira edição das Centúrias, a Inglaterra inteira estava admirando as "cegas, enigmáticas e diabólicas profecias daquele perscrutador dos céus, Nostradamus".
Os Métodos de Nostradamus
Os dois primeiros quartetos das Centúrias são diferentes de todos os demais. Neles, não há previsões, mas um retrato alegórico de seus métodos de trabalho. O primeiro quarteto diz, no original francês: "Étant assis de nuit secret étude / Seul reposé sur la selle aérienne; / Plambe exigué sortant de solitude / Fait prospérer qui n'est à croire vain". ("Sentado à noite fazendo estudo secreto, / descansando sozinho no banco de bronze, / uma fina chama iluminando a solidão / faz prosperar o que não se acredita em vão."). O segundo quarteto continua: "La verge en main mise au milieu des branches / De l'onde il mouille et les limbes et les pieds / Un peur et voix frémíssant par les manches: / Splendeur divine. Le divin près s'assied". ("O bastão na mão no meio dos galhos / Com água borrifa a barra da roupa e os pés./ Medo e uma voz, tremendo sob as túnicas./ Divino esplendor. O deus está perto.") Juntos, os dois quartetos mostram a invocação de um deus. Os estudiosos comparam o método com o empregado pelo neoplatônico Iâmblico, do século IV antes de Cristo, cujo livro De Mysteriis Egyptorum (Sobre os mistérios do Egito) foi relançado em Lyon em 1547.
O Recurso da Ambivalência
Há bons motivos para as profecias continuarem a exercer tanto fascínio quase quinhentos anos após a morte de Nostradamus. Poucos videntes deixaram obra tão sólida: 942 previsões de autoria razoavelmente garantida. O apelo delas não parece diminuir com a forma sedutoramente confusa em que se apresentam. Só algumas têm uma data específica, embora Nostradamus garantisse que, se quisesse, poderia datar todas. (Disse também que temia fazer isso, para não ser acusado de bruxaria.) A falta de datas faz com que as profecias tenham interpretações infinitas - e sempre que um fato importante acontece em algum lugar, há novecentos quartetos que podem ser encaixados nele.
A imprecisão está também na linguagem usada pelo autor. Suas máximas versificadas são pequenas obras-primas de ambivalência. Até a gramática e a pontuação são complicadas. A linguagem é alegórica e obscura, emprestando ou inventando palavras derivadas do grego, latim, hebraico e outras línguas, além do francês do autor. O resultado são previsões que em determinados aspectos parecem pistas para um complicado quebra-cabeça. Há quem tenha passado metade da vida examinando os quartetos em busca de anagramas e sentidos ocultos, mas até hoje ninguém deu uma interpretação satisfatória a eles.
“Ele aparecerá ferido, doente, mal-afamado, / Tiranizando a Mesopotâmia. / Todos os que têm espírito deformado / Na terra feia, negro no aspecto”.
(Profecia de Nostradamus às vezes interpretada como o papel de Saddam Hussein na Guerra do Golfo).
Reis e Tragédias
Apesar da ambivalência de grande parte da obra, vários versos fazem incrível referência a fatos que ocorreram muito tempo depois. O quarteto que deu fama a Nostradamus dizia: "O jovem leão vai dominar o velho / no campo de batalha de luta individual. / Ele vai perder os olhos numa gaiola dourada. / Dois ferimentos e terá morte cruel". Os contemporâneos do profeta não hesitaram em ligar os versos à tragédia ocorrida em 1559, quatro anos depois da publicação. O rei Henrique II participou de um torneio de justa para comemorar dois casamentos reais, e a lança de seu oponente, bem mais jovem, entrou por acidente no visor da armadura do rei - a "gaiola dourada" da profecia - atingindo-o entre os olhos. O rei morreu uma semana depois.
Outras profecias foram associadas com menos adequação a vários grandes fatos ocorridos mais tarde na Europa. ''A fortaleza perto do Tâmisa vai ruir / quando o rei estiver preso nela. I Ele será visto em mangas de camisa perto da ponte, / antes de morrer, depois trancado no forte", por exemplo, é considerada uma previsão da morte de Carlos I da Inglaterra, que foi enforcado em mangas de camisa. Mas nenhuma fortaleza desabou, e a ponte de Westminster, a mais próxima do local da execução, só foi construída anos depois, o que reduz o acerto da previsão.
Algumas profecias parecem mais adequadas, como o quarteto 38 da quinta centúria: "Aquele que subir ao trono pela morte do grande monarca I levará vidasensual e ilícita. I Despreocupado, concederá privilégios a qualquer um I até ser preciso aplicar a lei sálica”. O quarteto pode se referir a Luís XV, o neto do Rei Sol Luís XIV, cuja vida de prazeres e governo irresoluto abriram caminho para a Revolução Francesa. A lei sálica proibia as mulheres de serem rainhas e a referência parece ser ao excesso de influência das amantes do rei, principalmente de Madame de Pompadour.
Ascensão e Queda do Império Britânico
A última profecia das Centúrias é a mais marcante de todas, pois parece prever com enorme precisão o começo e o fim do Império Britânico. Diz: "O grande império será criado pela Inglaterra. / Todo-poderoso por mais de trezentos anos. / Grandes exércitos se movimentando por terra e mar. / Os portugueses não vão aprovar". Escrito num tempo em que a Inglaterra não possuía colônias, e os navegadores portugueses dominavam a exploração além-mar, este é um bom exemplo de previsão. O espaço de tempo também se encaixa, pois as primeiras colônias britânicas foram criadas no início do século XVII, e a maioria se tornou independente em meados do século XX.
O quarteto de Nostradamus "O sangue dos justos será derramado em Londres / Queimado pelo incêndio de 23 de 66. / A velha senhora vai tombar do alto / e muitos da mesma seita serão mortos" costuma ser interpretado como referência ao Grande Incêndio de Londres de 1666.
Muitos consideram a chegada da nave Apolo na lua, em 1969, como tema de "Ele vai tomar seu lugar no canto da lua / e chegará a uma terra estranha. / Frutas verdes serão motivo de muita calúnia e muitas críticas / mas, para um, grande elogio”.
Os defensores vêem nas duas linhas finais referência à controvérsia da época sobre a missão ter sido realizada prematuramente.
Nostradamus e Napoleão
Na primeira das dez centúrias, Nostradamus parece prever também o governo de Napoleão ao dizer: "Um imperador nascerá perto da Itália / e dará muito trabalho ao império. / Ao verem quem o apóia, as pessoas dirão / que ele foi mais açougueiro do que príncipe". Napoleão nasceu na ilha da Córsega, a menos de cem quilômetros da costa italiana. O desencanto com a atuação do imperador é bastante compreensível para quem avalia as simpatias revolucionárias de Napoleão sob uma visão do século XVI.
Há talvez outro indício do final da carreira de Napoleão no quarteto que diz: "O grande império logo se transformará / num lugar pequeno que começará a crescer. / Um lugarzinho num condado / onde ele depositará sua coroa”. Nesse trecho, a referência óbvia é ao exílio de Napoleão, primeiro na ilha de Elba e depois na de Santa Helena, no Atlântico. Elba se encaixa no segundo verso, pois Napoleão fugiu de lá para retomar o controle da França. Mas Santa Helena, possessão inglesa, caberia melhor no verso três, onde o vidente usou a palavra comté, que em francês significa condado inglês.
“A Súbita morte da primeira pessoa / trará mudança e outro no poder. / Mais cedo ou mais tarde chegou tão alto, sendo tão jovem / que por mar e terra todos o temiam”.
(Profecia de Nostradamus às vezes interpretada como o assassinato do Presidente Kennedy).
Atentado ao World Trade Center
Em relação a fatos mais recentes, Nostradamus é mais imaginoso e ambíguo do que nunca. Muita gente lembrou de suas Centúrias após o ataque terrorista ao World Trade Center de Nova York, em 11 de setembro de 2001. Versões adulteradas das profecias apareceram na internet horas depois do trágico ataque, a maioria juntando duas profecias para ficar mais pertinente.
Uma das profecias tem data, mas com 26 meses de erro. Diz: "No ano de 1999 e sete meses, / do céu virá um poderoso rei do terror / para reviver o grande rei de Angolmois. / Antes e depois, Marte reinará soberana”. O primeiro, o segundo e o último versos parecem adequados, se interpretarmos Osama bin Laden como sendo o "rei do terror" e Marte em seu clássico papel de deus da guerra.
Mas o terceiro verso é muito complicado. A referência óbvia é à cidade de Angoulême, na França, e estaria se referindo a Francisco I, que governava o país na época de Nostradamus. O rei foi duque de Angoulême antes de subir ao trono, mas não tem qualquer ligação com o ataque de 11 de setembro. Alguns interpretam "angolmois" como um anagrama de mongolês, numa tentativa de reviver um império oriental que lembrasse o de Gêngis Khan - o que seria mais adequado, embora mais forçado.
As outras profecias dizem: ''A 45 graus, o céu vai queimar. / O incêndio se aproxima da nova e grande cidade. / Num instante, grandes chamas se elevarão / e alguém vai querer testar os normandos". Nova York, a "nova e grande cidade", fica a 40 e 41 graus de latitude norte, e a importância do último verso depende de considerar "normandos" como habitantes da Normandia ou no sentido menos evidente de "homens do norte". Os dois versos do meio são típicos de Nostradamus: as palavras são muito sugestivas, mas é quase impossível dar a elas um sentido claro.
Profecia não Realizada sobre Nova York?
Outros versos de Nostradamus costumam ser considerados como referindo-se a Nova York. Dizem: "O jardim do mundo perto da nova cidade / no caminho das altas montanhas / será tomado e jogado na água / obrigado a beber água sulfurosa e venenosa”. Como sempre, o texto é ambíguo, mas as palavras sugerem algum desastre ambiental que ainda não ocorreu. Intérpretes mais imaginosos garantem que "altas montanhas" seria a forma como um vidente do século XVI descreveria os arranha-céus da cidade.
A Profecia de Jacques Cazotte
Os relatos divergem quanto à data, exata, mas, num final de tarde de 1787 ou 1788, um grupo da nata francesa compareceu a um jantar em Paris. Eram cerca de sessenta pessoas, entre elas vários intelectuais da capital, como o escritor Jacques Cazotte. Ao contrário dos demais convivas, Cazotte não aceitava o culto à razão do Iluminismo francês, preferia o neoplatonismo cristão. Além disso, tinha certa fama de prever fatos.
A conversa após o jantar versou sobre a Idade da Razão, que a maioria dos intelectuais achava que surgiria em breve. Cazotte entrou na conversa e garantiu que viria mesmo uma revolução em breve, mas bem diferente da vitória do racionalismo que eles esperavam. E insistiu em que tal revolução teria enormes efeitos sobre a vida de muitos dos presentes. Por exemplo: dentro de poucos meses, o escritor Sébastien-Roch Chamfort cortaria os pulsos, desesperado. Chrétien de Malesherbes, nobre indicado para ser editor de publicações, e Jean Sylvain Bailly, astrônomo, morreriam na guilhotina, como o poeta Jean-Antoine Roucher. Um teatrólogo e crítico também presente, Jean de la Harpe, perguntou o que aconteceria com ele, e Cazotte disse que se converteria ao cristianismo, o que o próprio achou pouco provável, pois era ateu convicto.
A duquesa de Gramont comentou que pelo menos as damas ali presentes iriam escapar de tais horrores, mas Cazotte informou que ela não seria poupada, como também não o seria o casal mais importante da região - clara referência à rainha Maria Antonieta e seu marido, Luís XVI. Perguntaram o que ocorreria a ele, e Cazotte contou o fato relatado pelo historiador judeu-romano Flávio Josefo: um homem previu a conquista de Jerusalém e morreu quando ela ocorreu.
As incríveis palavras de Cazotte deixaram os convidados muito espantados, a ponto de Jean de la Harpe anotar tudo. E, a crer pelo relato publicado com o nome dele, as previsões foram incrivelmente precisas. O destino dos convidados se cumpriu quase todo nos sete anos seguintes, quando os intelectuais que a princípio apoiaram a Revolução Francesa foram mortos durante o Terror. Até os detalhes estavam certos: Chamfort não conseguiu se suicidar cortando os pulsos, mas morreu por mau atendimento médico. Cazotte se envolveu numa trama malsucedida para libertar o rei e enfrentou seu destino na guilhotina com coragem. Quanto a Jean de la Harpe, converteu-se ao cristianismo na prisão e acabou morrendo num convento.
Parece indubitável que, em linhas gerais, a profeciade Cazotte foi como Jean de la Harpe anotou - anos depois, vários dos presentes ao jantar confirmaram a precisão. Parece claro também que Jean de la Harpe quis escrever logo depois de ouvir e antes que as previsões se realizassem. Foi encontrada uma carta de janeiro de 1789 na qual o remetente diz ter lido "as famosas profecias do Sr. Cazotte". Isso dá a entender que elas foram mostradas a um pequeno círculo de pessoas, pois o livro só foi publicado em 1806. Mas fica uma desconfiança de que a previsão possa ter sido melhorada. Mesmo assim, as palavras extraordinárias de Cazotte causaram um forte impacto aos que as ouviam - e mais ainda pelo que ocorreu depois.
A Profecia e a Revolução
Um dos quartetos de Nostradamus tem outra previsão sempre lembrada sobre a Revolução Francesa. Em francês, no original:
Le règne pris le Roi conjurera,
La dame prise à mort jurés de sort:
La vie à Reine fils on déniera,
Et Ia pellix au fort de la consort.
"O reino tira o rei que conspira. / A dama levada à morte escolhida por sorte. / Será negada a vida para o filho da rainha / e a amante na fortaleza da esposa”. Os que acham os versos proféticos apontam que, após sua queda, o rei Luís XVI foi acusado de conspiração e que os jurados que condenaram a mulher dele à morte foram escolhidos por sorteio, o que não era comum. Preso, o filho da rainha, o delfim, sumiu, supõe-se que tenha morrido. A última linha costuma ser interpretada como referência a Madame du Barry, amante do pai do rei, Luís XV, que também foi morta.
O Sexto Sentido nas Terras Altas da Escócia
Uma das mais fortes tradições proféticas .nas Terras Altas da Escócia a partir do século XVII é a de pessoas dotadas de sexto sentido. De acordo com uma autoridade da região no século XIX, a existência de uma ou mais pessoas com poderes de clarividência era "indiscutível em quase todas as comunidades rurais". O escritor Samuel Johnson investigou o fenômeno em sua viagem às ilhas ocidentais da Escócia, em 1773, e relatou que "os ilhéus de todas as classes e graus de instrução admitem tais fenômenos, menos os padres". O próprio Johnson acreditava nos relatos.
De todas as milhares de pessoas consideradas dotadas de clarividência, o mais conhecido é Coinneach Oddhar, o Vidente de Brahan. Nascido na ilha de Lewis, arquipélago das Hébridas, no começo do século XVII, ele passou quase toda a vida como colono perto do castelo de Brahan, a uns 15 quilômetros de Inverness. Reza a tradição que adquiriu seus poderes com uma pedra mágica que a mãe teria recebido de um espírito. Outras fontes dizem que ele achou a pedra quando cochilava numa linda colina.
Como a maioria dos moradores das Terras Altas que tinham o "dom", Oddhar não gostava muito dele, nem procurava explorá-lo. E suas visões pareciam surgir sem qualquer aviso.
A tradição das Terras Altas credita ao Vidente de Brahan dezenas de profecias. Infelizmente, como nenhuma foi escrita quando ele era vivo, é impossível garantir sua veracidade. A crer nas histórias, algumas foram muito precisas. Ele disse, por exemplo, que viu as colinas do condado de Ross todas riscadas - o que costuma ser interpretado como as estradas que vieram a cruzar a região em todas as direções. Uma vez, ao atravessar o futuro campo de batalha de Culloden, ele parou e disse que muitos perderiam a vida ali. Em 1746, os soldados remanescentes do exército das Terras Altas do príncipe Carlos foram massacrados ali pelos ingleses.
Como outros profetas, Oddhar teve um mau fim devido a seus dons. Foi condenado à morte por ofender a condessa de Seaforth com uma de suas exibições de clarividência. Antes de ser executado, porém, ele parece ter se vingado prevendo em detalhes a extinção da família Seaforth, o que ocorreu quase duzentos anos depois.
O Vidente de Brahan disse que "navios cheios de mastros vão navegar para leste e oeste por trás da colina Tomnahurich”, lugar perto de Inverness; e 150 anos após a morte dele, o Canal Caledônio passou pelo local.
Algumas previsões de Oddhar que ainda não se realizaram também parecem surpreendentes. Uma delas diz respeito nada menos que ao futuro das Terras Altas da Escócia: ele anunciou que as ovelhas iriam substituir os seres humanos em grande parte da região e depois também iriam desaparecer. As terras então passariam dos seus antigos donos para "comerciantes" e se tornariam um enorme parque de cervos, com o povo tendo, há muito, se mudado para ilhas desconhecidas. Esse tempo também teria um fim, os cervos e outros animais selvagens seriam exterminados por uma terrível chuva negra e o povo acabaria voltando.
Um Futuro Desastre Nuclear?
Grande parte dessa previsão já parece ter-se cumprido. Muitas famílias que habitavam as Terras Altas no século XVIII foram embora para dar espaço à criação de ovelhas, e muitas emigraram. Com o tempo, a criação deixou de ser uma atividade rentável e as extensas terras foram vendidas para a prática da caça ao cervo.
O final da profecia ainda não se realizou, mas outra previsão dá uma pista do que pode haver. Oddhar disse que, um dia, uma vaca de cor parda sairia das águas do estreito de Minch, entre as Hébridas e a Escócia, e que seus mugidos derrubariam as seis chaminés da Casa Gairloch, em Wester Ross. Há pouco tempo, submarinos nucleares estiveram no litoral escocês e algumas pessoas vêem nas palavras do vidente um futuro acidente nuclear.
“Haverá dias em que longas filas de carruagens sem cavalos vão percorrer o caminho entre Dingwall e Inverness e, mais maravilhoso ainda, entre Dingwall e a Ilha de Skye”.
(Profecia do Vidente de Brahan, que supostamente prevê as estradas de ferro nas Terras Altas da Escócia).
A Rocha que saiu do Lugar
Uma previsão que muitos atribuem ao Vidente de Brahan se realizou no final do século XVIII. Era sobre a rocha de Petty, de oito toneladas, perto da costa, a dez quilômetros de Inverness. Segundo a previsão, um dia ela sairia do lugar - na época, estava a cerca de 250 metros da costa - para uma distância parecida no mar. O fato ocorreu em 20 de fevereiro de 1799, numa noite de ventos fortes como um furacão. Ninguém viu a pedra se mover e o mistério continua até hoje.
A Mulher Vestida de Sol
O ano de 1792 foi difícil na Inglaterra: do outro lado do Canal, a Revolução Francesa não trouxe a esperada Idade da Razão, mas mergulhou nos desastres do Terror; todas as formas de vida pareciam ameaçadas e havia uma crescente sensação de que a guerra com a França não poderia ser evitada.
Naquele ano, na cidade inglesa de Exeter, uma empregada doméstica de 42 anos começou a ter visões. Filha solteira de um camponês pobre, Joanna Southcott tinha pouca instrução e levava uma vida comum. Mas seus pesadelos começaram a ficar inquietantes e cheios de sentido. "Uma noite, sonhei que homens desciam do céu a cavalo", escreveu. "Os cavalos e os homens estavam furiosos, fiquei tão assustada que acordei e achei que os franceses iam chegar.”
Nos anos seguintes, Joanna continuou a ter visões e ganhou fama local de vidente - dizem que previu más colheitas para os anos de 1799 e 1800, e que acertou também quanto ao afastamento do bispo de Exeter. Ela se considerava uma nova profeta bíblica, recebendo mensagens de uma luz-guia que chamava apenas de "o Espírito". Ao ler a Bíblia, achou que era a Mulher Vestida de Sol descrita no capítulo 12 do Apocalipse, a inimiga de Satanás cujo aparecimento anunciou guerra no céu.
Os Seguidores de Joanna
Em 1801, Joanna publicou por conta própria um folheto com suas profecias e começou a atrair seguidores em todos os cantos do país. Recebeu apoio de pessoas ricas que a levaram a Londres no ano seguinte e alugaram uma capela onde poderia divulgar sua mensagem. Os que compareciam à igreja recebiam um papel marcado garantindo que estavam entre os eleitos. Espalhou-se o boato de que os "marcados" - como ficaram conhecidos os possuidores do papel - iriam sobreviver, caso os exércitos de Napoleão invadissem a Inglaterra. E surgiu um mercado negro de venda do documento.
Os seguidoresde Joanna aumentaram durante as guerras napoleônicas, sobretudo entre os pobres, embora ela também atraísse os ricos e instruídos. Em pouco tempo, havia grupos espalhados pelo país, devorando os mais de sessenta livros e folhetos escritos por ela sob provável inspiração do "Espírito". Tais escritos anunciavam a chegada para breve de uma nova era: “Acreditamos que haverá um novo céu, corno disse o Espírito, e uma nova Terra, onde prevalecerá a retidão".
Em 1814, os exércitos de Napoleão estavam quase derrotados e Joanna começou a ter menos apoio. Foi então que deu seu golpe mais audacioso: aos 64 anos, ficou grávida - como a Mulher Vestida de Sol do Apocalipse. O filho se chamaria Shiloh e seria um novo messias, governando todas as nações com mão de ferro.
A notícia de uma gravidez imaculada chamou a atenção, e na data próxima ao nascimento juntou-se uma multidão em frente à casa onde estava Joanna. Ela mostrava todos os sinais de gestação, e 17 dos 21 médicos que a examinaram teriam confirmado a gravidez - mas nenhum filho apareceu. Joanna adoeceu e, dois meses depois do parto que não houve, morreu. A autópsia não mostrou qualquer doença, e talvez ela tivesse apenas perdido a fé em sua missão e, com isso, a vontade de viver.
Após sua morte, o interesse pelas previsões de Joanna foi desaparecendo rapidamente, embora muitos continuassem acreditando nela. Em meados do século XIX, ainda existiam alguns grupos de escoceses em atividade, e até o século XX muitos não queriam acreditar que ela tivesse morrido. Insistiam em que seu espírito se esvaecera para protegê-la, como a mulher do Apocalipse, capítulo 12, versículo 14, "para ser alimentada de tempos em tempos, fora da presença da serpente".
“Trata-se de algo novo na Humanidade. Uma mulher ser o maior profeta que já existiu”.
(Joanna Southcott sobre sua missão)
Uma Herança Frustrante
A principal herança que Joanna Southcott deixou foi uma caixa fechada, onde estariam profecias muito importantes para o futuro da Inglaterra e que só deveria ser aberta na presença de 24 bispos. Os bispos não quiseram aparecer e a caixa acabou entregue a Harry Price, o mais conhecido caçador de fantasmas da Inglaterra, para ser aberta no Westminster Hall, em Londres, em junho de 1927. A caixa continha apenas alguns folhetos sobre profecia, moedas e outras ninharias, e um romance intitulado As surpresas do amor, de John Cleland, autor também de Fanny Hill.
O Profeta Adormecido
Um vidente muito conhecido, mas cuja fama sofreu certo abalo recentemente, é Edgar Cayce. Conhecido como curandeiro até sua morte, em 1945, a fama de clarividente veio graças a uma biografia póstuma, O Profeta Adormecido, lançada em 1967. O titulo se justifica, porque Cayce costumava fazer previsões e dar conselhos médicos em estado de transe.
Cayce nasceu em 1877, numa fazenda perto de Hopkinsville, no Kentucky. Aos 7 ou 8 anos, estava numa clareira na floresta quando viu uma luz forte e ouviu uma voz perguntar, como num conto de fadas, quais os dons que gostaria de ter. Ele pediu o dom de curar os doentes e, a partir daí, supostamente, passou a ter essa capacidade.
Segundo todas as fontes, Cayce era um curandeiro dedicado e fazia muito bem às pessoas que tratava. Mas suas profecias hoje parecem menos marcantes. Quando vivo, ficou conhecido por prever a queda da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, e a Segunda Guerra Mundial - embora suas palavras fossem mais vagas do que parecem. Em 1929, seis meses antes da Sexta-feira Negra, Cayce disse a um corretor da Bolsa que vendesse suas ações, porque haveria um colapso financeiro - o que poderia ser uma previsão, mas muita gente sabia que as ações estavam supervalorizadas. Da mesma forma, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra, Cayce avisou a reservistas do exército que eles seriam convocados - o que não era tão inesperado, considerando-se a instabilidade política mundial na época.
A biografia O Profeta Adormecido, de Jess Stearn, preferiu concentrar-se numa série de previsões geofisicas feitas em transe, em meados da década de 1930. Os avisos de Cayce eram de que a Terra sofreria uma série de catástrofes geológicas entre 1958 e 1998. O eixo polar oscilaria e causaria tremores em escala gigantesca. A cidade de São Francisco seria destruída, a Califórnia seria engolida pelo mar, assim como grande parte do norte da Europa e o Japão. Nova York também poderia ser destruída, e Cayce se viu voltando à Terra em 2100, descendo sobre os destroços do que um dia foi a ilha de Manhattan.
Cayce tinha, obviamente, atração por deslizamentos de terra em grande escala. Alfred Wegener publicou em 1915 suas teses de tração continental, que tiveram grande cobertura da imprensa na década de 1920. Algumas dessas idéias parecem ter influenciado muito Cayce, dando sua visão não só do futuro do planeta como também do passado. Ele passou a ter certeza de que o continente submerso de Atlântida (que achava estar na costa oriental dos Estados Unidos) surgiria das águas perto das ilhas Bahamas, no final dos anos 1960. Garantiu também que o continente perdido teve uma civilização de grande avanço tecnológico por volta de 10.000 a.C. - registros dela seriam encontrados numa câmara secreta sob a pata esquerda da Esfinge de Gizé, no Egito, entre os anos de 1996 e 1998. Claro que nada disso aconteceu, nem, felizmente, a previsão da Terceira Guerra Mundial em 1999 e o fim da civilização.
Cayce pode ter tido um grande talento para entrar em transe quando quisesse, mas, considerando suas previsões, pode-se dizer que seu inconsciente não tinha uma boa conexão com o futuro.
“A Terra vai se abrir na parte ocidental dos Estados Unidos. O Japão quase inteiro vai ser inundado pelo mar. A parte de cima da Europa vai mudar num piscar de olhos. A Terra vai sumir no litoral leste dos Estados Unidos”.
(Previsões de janeiro de 1934, ainda não realizadas, feitas por Edgar Cayce em transe).
O Vidente de Poughkeepsie
Outro profeta norte-americano cuja fama sumiu com o tempo é Andrew Jackson Davis, "o vidente de Poughkeepsie", apelido que recebeu devido ao lugarejo onde morou, nos arredores da Nova York do século XIX. Como Edgar Cayce, Davis teve uma visão em criança e assim iniciou suas profecias, além de entrar em transe para diagnosticar e curar doenças.
Afirmava também ter o dom da previsão e algumas foram depois registradas em livros, principalmente em The Penetralia, publicado em 1856. Suas visões mostravam o início da era da máquina: carruagens sem cavalos, prédios pré-fabricados, ortografia fonética e um instrumento que imprimiria o pensamento das pessoas com a mesma rapidez com que um piano toca música - o que pode ser uma boa descrição dos computadores. Mas Davis também cometeu erros, pois dizia que seriam descobertas formas avançadas de vida em Marte, Júpiter e Saturno. Hoje, seus livros são pouco lidos.
As Profecias sobre Hitler
Tempos difíceis costumam ser propícios ao surgimento de profetas, e o regime nazista na Alemanha não foi exceção. Já antes de Adolf Hitler assumir o poder, a vida era bastante instável para os alemães: a derrota na Primeira Guerra Mundial e a catastrófica inflação de 1922 e 1923 deixaram o povo inquieto e sem saber o que esperar do futuro. Um sintoma dessa insegurança geral foi um aumento na popularidade da astrologia, que teve mais praticantes na Alemanha da década de 1920 do que em qualquer outra parte da Europa. Indivíduos como o teósofo Hugo Vollrath, que organizou congressos, lançou publicações e revistas, encontraram uma platéia ansiosa por suas promoções.
Outra beneficiada por esse interesse foi Elsbeth Ebertin, grafóloga e astróloga que fez um almanaque anual de previsões a partir de 1917. Em 1923, uma integrante do recém-criado Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores (o partido nazista) mandou para Ebertin dados do nascimento de Hitler querendo saber qual seria o destino dele. Sem citar o nome, Ebertin falou em Hitler no almanaque do ano, que saiu em julho. Escreveu ela: "Homem de ação,nascido em 20 de abril de 1889, corre risco pessoal por excesso de audácia e pode também causar uma crise grave. As estrelas em seu mapa mostram que esse homem deve ser levado muito a sério e está destinado a assumir o cargo de Führer em lutas futuras". Em novembro, Hitler ajudou a organizar o fracassado golpe de Munique que causou sua prisão. Quanto ao resto da previsão, a História é testemunha.
Consta que o mapa astral foi mostrado a Hitler, que o rejeitou, perguntando em seguida: "O que as mulheres e as estrelas têm a ver comigo?". Ao contrário do que se diz, ele jamais se interessou nem se impressionou com videntes de qualquer espécie, mas alguns membros do nazismo eram mais receptivos ao tema. Mais exatamente, Heinrich Himmler, chefe da polícia nazista, era fascinado por astrologia, como também Rudolf Hess, o braço direito de Hitler.
“Este homem é para ser levado muito a sério, está destinado a ser Führer em futuras batalhas”.
(Elsbeth Ebertin lendo o mapa astral de Hitler, em julho de 1923).
As “Previsões” de Hanussen
Alguns membros do partido estavam mais dispostos a usar as previsões em benefício próprio. Tanto os que acreditavam na astrologia quanto os oportunistas tiveram participação no caso Hanussen, um episódio sombrio que coincide com a chegada do Partido Nazista ao poder da Alemanha, no início de 1933. Erik Jan Hanussen era um hipnotizador de palco e vidente com certa reputação no país, além de ter uma revista semanal de astrologia e dar consultas particulares. Dizem até que gravava conversas para garantir o acerto de suas previsões.
Apesar de ser meio judeu, Hanussen tinha contato com os nazistas e consta que chegou a dar aulas a Hitler sobre como falar em público. Mas também tinha inimigos no movimento: a polícia secreta, ou Gestapo, sabia de sua origem judaica.
Quando Hanussen fez o mapa astral de Hitler, em janeiro de 1933, e previu que ele assumiria o poder na Alemanha no dia 30 daquele mês, muitos reclamaram que o astrólogo teve informações privilegiadas. O mesmo se repetiu no mês seguinte, quando ele revelou algo ainda mais surpreendente pelos jornais de 26 de fevereiro: "Vejo os comunistas cometendo crime de sangue.Vejo um incêndio que ilumina tudo". Na noite seguinte, a previsão se cumpriu de forma espetacular com o incêndio do Reichstag. Os nazistas realmente culparam os comunistas pela destruição do Parlamento em Berlim, embora não haja muitas dúvidas de que o incêndio foi ordenado pelos próprios nazistas para depois culparem os esquerdistas.
Como Hanussen conseguiu prever isso continua sendo mistério. Segundo alguns relatos, a profecia foi feita por um de seus colegas, a médium Marie Paudler, durante uma sessão. Outros desconfiam que Hanussem sabia do plano de sabotagem dos nazistas por seus contatos no partido. De qualquer modo, houve naturalmente membros do partido que ficaram irritados ao saber que o rádio havia anunciado o incêndio. Alguns dias depois, Hanussen se dirigia para uma apresentação de hipnotismo quando seu carro foi parado. Depois, seu corpo crivado de balas foi encontrado num bosque, nos arredores de Berlim.
A Astrologia e o Partido Nazista
Karl Ernst Krafft foi outro vidente que atuou durante o regime nazista. Suíço de origem alemã, Krafft era um jovem inteligente, embora esquisito, que tentou provar a validade científica da astrologia através de análise estatística. Sem conseguir apoio acadêmico para seus projetos, passou por vários empregos. Em 1938, mudou-se para a Alemanha e resolveu tentar a sorte com os nazistas.
Seguindo um contato feito por meio de seus estudos astrológicos, Krafft começou a colaborar com a polícia nazista. Poucos meses depois, no dia 2 de novembro de 1939, mandou um relatório para o escritório de Himmler informando que, conforme os astros, inimigos usando explosivos poderiam ameaçar a vida do Führer entre os dias 7 e l0 do mês. E Hitler escapou de uma tentativa de assassinato em 8 de novembro, quando uma bomba explodiu numa cervejaria de Munique depois que ele discursou para simpatizantes. Saiu de lá pouco antes da explosão, que matou sete pessoas e feriu 63.
Imediatamente, Krafft passou um telegrama comunicando o sucesso de sua previsão a Rudolf Hess, e este logo informou Hitler e seu chefe de propaganda, Joseph Goebbels. Krafft foi detido pela polícia secreta nazista por suspeita de participação no atentado, mas conseguiu convencê-los de sua inocência e recebeu o prêmio que desejava: foi contratado por Goebbels.
Previsão e Propaganda
O trabalho que Krafft teria de fazer não era exatamente o que ele esperava. Apaixonado seguidor da astrologia, pretendia fazer mapas astrais e avisar políticos e generais sobre ações a tomar. Mas Goebbels tinha outros planos. Sua esposa tinha-lhe mostrado um quarteto de Nostradamus que dizia: "Verá a nação britânica mudar sete vezes / Coberta de sangue por 290 anos / Nem um pouco livre devido ao apoio alemão / Áries (deus da guerra) teme seu pólo bastarna”. Os bastarnas habitaram a Polônia no período clássico e o verso foi interpretado como significando que depois de seis mudanças no governo ou na dinastia britânicos num período de 290 anos, haveria uma sétima mudança devido a algum fato envolvendo a Alemanha e a Polônia. Se a primeira mudança após a época de Nostradamus fosse considerada a execução de Carlos I e a criação da Comunidade Britânica de Nações (a Commonwealth) em 1649, então o período de 290 anos terminaria em 1939.
Goebbels estava menos interessado na profecia de Nostradamus do que em divulgar essa mensagem, e mandou Krafft criar quartetos falsos que ajudassem no esforço de guerra dos nazistas. A primeira ajuda de Krafft foram folhetos jogados na França durante a invasão alemã, em 1940. Eram para mostrar que a Alemanha conquistaria grande parte do país, mas deixaria o sudeste desocupado: o plano era encher as estradas de refugiados nessa direção e assim atrapalhar os deslocamentos das tropas francesas.
Enquanto Krafft trabalhava na propaganda, outra previsão baseada nos astros, divulgada sem o conhecimento dele, iria ter influência dramática em sua vida e na guerra. Era de autoria anônima, e consta que foi escrita em novembro de 1918, enfocando o futuro da nação alemã. Nenhuma cópia restou, porém, previa a ascensão da Alemanha até maio de 1941, a partir de quando o país entraria em declínio. Essa previsão era do conhecimento de Rudolf Hess, e aparentemente deixou-o muito preocupado, pois ele sabia que o exército alemão invadiria a Rússia no mês seguinte, abrindo a perturbadora perspectiva de manter uma guerra em duas frentes. O medo de Hess motivou sua famosa viagem à Inglaterra, em maio de 1941, para tentar a paz entre os dois países. A missão fracassou, e Hess passou os 46 anos seguintes na prisão, até sua morte, em 1987.
O fracasso de Hess prejudicou Krafft e seus colegas astrólogos. Hitler ordenou um aperto nos "ledores de sorte e outros enganadores", que ele culpava pelos atos de Hess. Krafft foi preso junto com outros praticantes da astrologia. Libertado em 1943, voltou à propaganda, mas suas previsões logo ficaram contra ele. No início da guerra, por exemplo, ele comparou os mapas astrais de Rommel e Montgomery, comandantes que combatiam por lados opostos no norte da África, e concluiu que Montgomery era sem dúvida o mais forte. Essa franqueza e as reclamações de Krafft a respeito do humilhante trabalho que era obrigado a fazer levaram-no novamente à prisão em 1944. Mantido em más condições, teve febre tifóide e morreu a caminho do campo de concentração de Buchenwald, em 1945. Pouco antes de morrer, fez sua última previsão: bombas inglesas cairiam sobre o Ministério da Propaganda, onde ele fora tão maltratado. Caíram mesmo.
Pensar o Futuro
O século XX viu a ciência tomar o lugar da religião como principal fonte de previsões. Essa tendência vinha se anunciando há bastante tempo – suas origens podem remontar à Renascença e ao trabalho de homens como Leonardo Da Vinci e sir Thomas More. Enquanto os profetas da Antigüidadebuscavam inspiração nos deuses, os videntes modernos tentam cada vez mais prever os acontecimentos usando apenas a razão. Por meio de um esforço controlado da imaginação, eles tentaram pensar o futuro – tanto como ele poderá ser e, no caso da Utopia, de Thomas More e seus sucessores, quanto como eles gostariam que fosse.
Nos últimos cinqüenta anos, a previsão se tornou até um grande negócio. Centenas de milhares de pessoas no mundo vivem de fazer previsões sobre todos os temas, da economia e demografia à possibilidade de terremotos ou de como estará o tempo amanhã. Em algumas áreas, os previsores fizeram grande progresso, enquanto em outros esses avanços são, no máximo, sugeridos. Com a chegada do terceiro milênio, o futuro continua em grande parte tão imprevisível quanto sempre foi.
Leonardo Da Vinci, o Visionário da Renascença
Nascido em 1452, na cidade italiana de Vinci, da qual tomaria o nome, Leonardo passou a ser considerado o modelo do homem renascentista.
Reverenciado hoje como o pintor que criou a Mona Lisa e outras obras-primas, ele foi acima de tudo um homem de insaciável curiosidade intelectual, com um desejo compulsivo de entender o funcionamento da natureza e das máquinas.
Entre os temas a que se dedicou em seus incríveis cinqüenta anos de carreira estão não só a arte e a estética, mas ainda a matemática, a astronomia, a botânica, a anatomia animal e humana - nesta, fez importantes estudos pioneiros.
A primeira vista, o pendor prático do gênio de Leonardo da Vinci parece o oposto de um espírito profético. Mas sua curiosidade era vasta o bastante para levá-lo além dos limites normais da invenção, num território que costuma ser ligado mais a visionários e videntes do que a cientistas e engenheiros. Seu dom profético se expressou no que ele chamava de "pré-imaginar", pensar como as coisas poderiam vir a ser. A incrível precisão de algumas previsões pode ser creditada ao seu domínio de princípios científicos e ao seu talento para aplicá-los de maneiras que o mundo só iria alcançar séculos depois.
As previsões de Leonardo da Vinci estão comprovadas em suas anotações, das quais restam cinco mil páginas. Numa mistura confusa de palavras e desenhos, ele projetou um invento após outro: uma cavadeira mecânica, uma máquina de polir espelhos, um laminador, um instrumento para medir a velocidade do vento. Tudo era anotado para o próprio esclarecimento dele, numa curiosa escrita especular, feita com a mão esquerda.
Prevendo o Avião
Entre os maiores interesses de Leonardo da Vinci estavam os princípios do vôo. Em suas anotações, ele copiou cuidadosamente as asas de pássaros e morcegos, além de dar instruções detalhadas para modelos artificiais usando madeira, tafetá e veludo. Num canto de página, desenhou um protótipo de pára-quedas e escreveu ao lado: "Se um homem tiver uma tenda de linho cujas aberturas sejam fechadas, poderá se jogar de grande altura sem se machucar". Essa previsão se realizaria mais de quinhentos anos depois, quando um pára-quedista inglês finalmente provou que o pára-quedas que o renascentista desenhou poderia funcionar.
Leonardo da Vinci também projetou máquinas de voar e mecanismos parecidos com helicópteros. Há indícios também de que seu interesse pelo tema foi além da simples curiosidade, pois ele demonstrou muita vontade de voar. Como sempre, as pistas estão nas anotações, em mensagens cifradas: "O grande pássaro fará seu primeiro vôo montado no grande cisne, aturdindo o universo, dominando com seu renome todos os escritos e dando glória eterna ao seu 10eal de nascimento". Ou ainda: "Da montanha com nome de grande pássaro, o famoso pássaro voará e encherá o mundo com sua grande fama”. Os dois versos fazem mais sentido quando se sabe que uma colina perto de Florença era chamada na época de Monte Ceceri, ou Monte Cisne. Mas se Leonardo da Vinci estava prevendo que seria o primeiro homem a voar, isso não se cumpriu - o gênio inquieto deixou de lado os estudos aeronáuticos e passou para outras descobertas.
Previsões Apocalípticas
Frustrado por não ter conseguido fazer tudo o que achava que era capaz e cada vez mais desencantado com a natureza destrutiva do homem, Leonardo da Vinci mostrou no fim da vida um tom profético mais tradicional. Como um profeta do Antigo Testamento, ele passou a imaginar desastres apocalípticos que poderiam destruir tudo. Em suas anotações, comparou a cena a um dilúvio parecido com o da Bíblia, descrevendo em detalhes o cataclismo: o desabamento de montanhas que faria subir o nível das águas e os destroços de "mesas, camas, barcos e outros objetos flutuantes improvisados" levando pessoas e animais apavorados pela terra inundada. A visão de Leonardo da Vinci do Apocalipse tinha as qualidades de toda a sua obra: era precisa em todos os detalhes, com uma grandeza épica em alcance e escala.
A Utopia e seus Similares
Uma das principais formas de especulação do futuro é a chamada ficção utópica, criando sociedades imaginárias, em lugares ou épocas distantes daquela em que o autor vive. Esse gênero literário ganhou o nome devido ao livro Utopia, de Thomas More, publicado em 1516 e que usou tanto a palavra grega outopos, que significa "em lugar algum", quanto eutopos, "um bom lugar". Ao escrever, More tinha conhecimento de livros utópicos de autores clássicos - e citou a República, de Platão.
Os escritores que criaram utopias - pois muitos seguiram a trilha de More - geralmente abordaram a sociedade existente e como ela poderia ser melhorada. Até o surgimento mais recente da ficção científica, os escritores não previam o que poderia existir no futuro. Mas especulando como melhorar a sociedade em que viviam, acabaram fornecendo idéias para o progresso social. Alguns se tornaram profetas por acaso, já que seus livros ajudaram a criar parte do mundo que descreveram.
Thomas More era jovem quando escreveu a Utopia. Advogado brilhante, amigo do grande humanista da Renascença Desidério Erasmo, ele estava no início da carreira que o levaria 13 anos depois ao mais alto posto do país: ministro da Justiça da Inglaterra. More também era um homem de princípios, cujas convicções acabaram entrando em conflito com as do rei Henrique VIII. Quando este resolveu romper com a Igreja Católica e criar uma igreja independente, More foi contra e por isso morreu decapitado por traição na Torre de Londres, em 1535.
A principal intenção dele ao escrever a Utopia era conservadora. Lastimava que tivesse acabado a Inglaterra antiga, simbolizada nas aldeias comunitárias medievais - substituídas por uma economia de mercado que permitia "ao rico comprar tudo". É surpreendente perceber que, se existiu algo de sua visão social no mundo moderno, foi a China do líder Mao Tsé-tung.
Precursor do Comunismo
A utopia de More é um país agrário, onde a propriedade é de todos, e a iniciativa privada não é permitida. Os indivíduos são avaliados pelos méritos, e não pela classe social. A sociedade é organizada em unidades agrícolas de pelo menos quarenta pessoas e se baseia na família, ao contrário da China de Mao. O dia de trabalho tem seis horas e há palestras matinais para os que querem se aperfeiçoar. As refeições são coletivas e acompanhadas de leituras edificantes. Há também um intercâmbio regular de operários das cidades para o campo e vice-versa, evitando que a população urbana perca sua ligação com a terra.
A riqueza e qualquer tipo de ostentação são condenados. Na Utopia, os penicos são feitos de ouro e prata para que os metais preciosos percam o valor, e as jóias são consideradas brinquedos de infantes. Quando um embaixador estrangeiro chega coberto de jóias, zombam dele por se comportar "como se ainda fosse criança”. As roupas têm estilo simples e são para cobrir o corpo, não para exibir. O jogo é proibido, e recomenda-se aos advogados que "usem palavras mais simples e digam logo a verdade". Os namorados são incentivados a se verem despidos antes do casamento para evitar incompatibilidades sexuais, mas as relações adúlteras são condenadase os culpados punidos com "a prisão mais atroz".
Em outros aspectos, a Utopia é bem anti-Mao. A religião norteia a vida, embora sua fé seja racional e não opressora - os padres são "de grande santidade, e por isso mesmo, poucos". Há muita ênfase na generosidade e na gentileza. A caça de animais é condenada como a "mais baixa, vil e abjeta forma de abate". Matar vacas para comer também é algo tão vil que é realizado por uma pequena classe de servos sem cidadania. Para os utópicos, a guerra é detestável e inglória, e quando há uma possibilidade de batalha, é melhor matar o líder inimigo do que milhares de soldados. Se for inevitável, os utópicos preferem usar mercenários - eles mesmos, porém, só lutam em último caso.
Num estilo moderno, More usa de artifícios para se distanciar da narrativa. Apresenta a história que conta no livro como tendo sido ouvida, numa viagem que fez aos Países Baixos, em 1515, de um marinheiro português que viajou com Américo Vespúcio (explorador que deu nome às três Américas). O autor usa o distanciamento para comentar com objetividade o que inventa - e mostra a utopia como uma interessante sociedade alternativa, atraente em alguns aspectos, impraticável em outros. O livro teve sucesso imediato e foi traduzido para quase todas as línguas européias (inclusive o inglês, pois o autor escreveu em latim), e teve uma série de imitações.
Gulliver e as Luas de Marte
Um dos grandes sucessos de previsão está no clássico de Jonathan Swift sobre mundos imaginários, Viagens de Gulliver, publicado em 1726. Ao contar os avanços científicos da ilha flutuante de Laputa, Swift conta que os astrônomos da ilha descobriram "duas estrelas menores ou satélites, que circulam em torno de Marte". Isso foi mais de 150 anos antes de as duas luas de Marte (Fobos e Deimos) serem descobertas em 1877 por Asaph Hall, do Observatório Naval norte-americano em Washington. O escritor mais tarde detalhou que as duas luas orbitavam o planeta a distâncias de respectivamente três e cinco vezes o diâmetro dele, e a duração das órbitas era de dez horas e de 21 horas e cinco minutos. As distâncias reais são de aproximadamente 1,5 a 3,5 vezes o diâmetro do planeta, e os períodos siderais, de oito a trinta horas.
A Casa se Salomão
Um dos livros mais interessantes inspirados em Thomas More foi Nova Atlântida, de Francis Bacon, escrito em 1626, mas que não foi concluído. Se Thomas More refletia o humanismo renascentista, Bacon mostrava o início da era da ciência. O cenário é uma ilha recém-descoberta, chamada Bensalém e situada em algum lugar do Pacífico. Grande parte do livro descreve uma só instituição, protótipo de uma academia científica, a Casa de Salomão, ou Colégio dos Trabalhos de Seis Dias, que tem papel central na administração do Estado. Bacon tinha bons motivos para esse destaque: sendo ambicioso, esperava convencer o rei James I (que gostava de ser chamado de "novo Salomão") a criar uma instituição assim na Inglaterra.
Os membros da academia fictícia fazem pesquisas em áreas tão variadas como física, química, astronomia, agricultura e medicina. Para garantir que seu trabalho tenha usos práticos, a Casa dispõe de três benfeitores com a função de "se dedicar a ela, avaliar os experimentos dos colegas e tirar deles usos práticos para a vida e o conhecimento". Essa preocupação com a aplicação da ciência resultou em avanços tecnológicos: os habitantes de Bensalém voam, fazem viagens submarinas e inventam uma espécie de microfone. Também dominam algumas áreas menos atraentes da ciência moderna, inclusive a vivissecção (operação em animais vivos para estudo de fenômenos fisiológicos) e experimentos genéticos interespécies.
A obra de Bacon foi bastante profética num aspecto importante: sua idéia principal foi concretizada com a fundação, em 1660, da Royal Society, em Londres. Como a Casa de Salomão, ela se dedicava a incentivar a cooperação científica interdisciplinar. Mas, como as idéias de Bacon estavam muito na cabeça das pessoas que lutaram para criar a sociedade, isso pode ser, em parte, uma previsão autocumprida.
“Nossa Associação tem por finalidade conhecer as causas e o movimento secreto das coisas e ampliar os limites do império humano em relação a tudo”.
(Francis Bacon define a meta da Academia de Ciência em seu livro Nova Atlântida, que foi em parte concretizada com a fundação da Royal Society, em Londres, 34 anos depois).
Previsão do Totalitarismo
Tommaso Campanella, contemporâneo de Bacon, também se interessava pelo potencial da ciência. Mas, com ele, isso representou um perigo: era monge dominicano, e seu entusiasmo por novas idéias entrou em conflito com a Igreja. Suas posições políticas radicais também causaram problema, e ele escreveu sua obra mais conhecida, A cidade do sol, nos 27 anos que passou nas prisões da Inquisição.
Talvez pelas tribulações que sofreu, é desapontador constatar que a cidade ideal de Campanella é um lugar muito sem graça. Construída numa colina em algum lugar do Oriente, a Cidade do Sol é governada com rigidez quase monástica pelo filósofo Metafísico, escolhido por sua erudição enciclopédica. Ele tem três assistentes cujos títulos são Poder, Sabedoria e Amor.
O trio controla de forma quase absoluta a vida dos cidadãos, que são obrigados a mudar de residência a cada seis meses para não criarem perigoso apego à propriedade particular. Todos se vestem de túnicas brancas e compridas que são lavadas todo mês e mudadas quatro vezes ao ano.
O sexo é rigorosamente controlado e "não tem por finalidade o prazer, mas o bem da república". Os magistrados decidem quem deve dormir com quem, baseados em princípios de eugenia. Por exemplo: gordos ficam com magras e vice-versa, para gerar crianças bem-proporcionadas. Os astrólogos e médicos determinam a hora adequada para o encontro - "depois da digestão e após terem rezado" -, e o feliz casal vai para um quarto decorado com "lindas estátuas de homens ilustres; assim, as mulheres, ao vê-los, podem pedir ao Senhor que lhes dê filhos bonitos".
Uma das idéias mais originais do autor foi enfeitar os muros da cidade com obras de arte instrutivas - desde fórmulas matemáticas a desenhos de animais e vegetais - explicadas em legendas. Otimista, Campanella achava que, ao verem essa onipresente publicidade pedagógica, as crianças completariam sua educação aos 10 anos de idade. Podiam então enfrentar a vida de trabalho incessante, pois, pelo menos para os homens, "o trabalho mais cansativo é o que mais vale a pena”.
Apesar de bem-intencionada, a Cidade do Sol é sem dúvida totalitária, e o destino das utopias foi perder muito de seu encanto à medida que o totalitarismo virou realidade. Com as sociedades cada vez mais organizadas e controladas, ficou cada vez menos interessante a idéia de governantes autoritários mandando em tudo na vida dos cidadãos, mesmo com as melhores intenções. No século XX, o processo se completou, e a utopia, em que tudo era para o melhor, cedeu à distopia, um lugar de sujeição e desespero. O caminho da ilha imaginária de Thomas More não levou à sociedade ideal, mas aos livros Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell.
Júlio Verne e a Imaginação Tecnológica
Nascido em 1828, Júlio Verne foi um dos escritores franceses do século XIX que mais vendeu livros. Seus romances, lançados à média de um por ano, deram-lhe fama e fortuna, permitindo que desfrutasse de luxos como, por exemplo, comprar o maior iate do mundo em sua época. Mas teve uma vida bastante reclusa: o grande inventor de viagens fantásticas quase não viajava e como pioneiro a imaginar viagens aéreas, só subiu uma vez num balão, em Amiens. Nessa cidade provinciana, ele viveu seus últimos 33 anos, até a morte, em 1905.
Verne preferia viajar pela imaginação. Embora não fosse cientista, era fascinado pelo potencial dos avanços científicos de seu tempo. Projetando os conhecimentos da época, conseguiu fazer grandes previsões de como seria o futuro. Com isso, ajudou a inspirar verdadeirospioneiros. Charles William Beebe, explorador marítimo norte-americano que, em 1934, desceu a 923 metros de profundidade numa batisfera, admirava o romance de Verne Vinte mil léguas submarinas, lançado em 1870. E o almirante Richard Byrd, que sobrevoou pela primeira vez o Pólo Norte, em 1926, disse: "Júlio Verne me guia”.
Previsões na Ficção
A lista de previsões de Júlio Verne é grande e algumas ainda não se realizaram. Em seu primeiro romance, Cinco semanas num balão, lançado em 1863, ele se inspirou no potencial da aviação. O tema do romance Veleiro das nuvens, de 1886, são as máquinas mais pesadas que o ar - o herói constrói uma, depois imagina outra que viajasse com a mesma facilidade por terra, mar e ar. O submarino Nautilus, de Vinte mil léguas submarinas, foi criado décadas antes de a tecnologia poder transformar em realidade uma embarcação assim - e um século antes dos primeiros submarinos nucleares.
Muitas criações de Júlio Verne previram inovações que se realizaram há pouco tempo. Num romance, os participantes de uma câmara municipal se comunicam de casa por um sistema que parece tanto o telex quanto o correio eletrônico. Ele previu elevadores e esteiras rolantes, e descreveu arranha-céus de trezentos metros de altura com ar-condicionado de "temperatura sempre igual". Imaginou também tramas resolvidas através de artifícios tecnológicos: no romance Os irmãos Kip (1902), um assassinato é explicado quando se amplia o detalhe de uma foto, como no filme Blow-up (Depois daquele beijo), de Michelangelo Antonioni, lançado 65 anos depois.
Mas os maiores sucessos dele foram seu terceiro romance, Da Terra à Lua (1865), e o seguinte, Em volta da lua, lançado cinco anos depois. Muitos escritores antes pensaram numa viagem à lua, mas a história de Júlio Verne chegou mais perto da realidade do vôo da nave Apolo, em 1969, do que qualquer de seus antecessores. Algumas coincidências são incríveis: Verne imaginou o lançamento do foguete em Tampa, na Flórida, a menos de duzentos quilômetros de Cabo Kennedy, local de lançamento da Apolo. Verne pensou em foguetes para colocar a aeronave na órbita lunar - isso quase quarenta anos antes de os irmãos Wright fazerem o primeiro vôo - e imaginou a aeronave caindo no oceano Pacífico em sua volta à Terra. O mais incrível é a duração da viagem: os heróis da ficção chegaram à lua em 97 horas e 13 minutos, enquanto os três astronautas da Apolo 11 levaram 97 horas e 39 minutos.
Apesar de todas as semelhanças, a imaginação de Júlio Verne era tolhida pelas limitações tecnológicas de seu tempo. Sua aeronave era um projétil, lançado pelo cano de uma arma com 275 metros de comprimento. Ainda mais estranho aos olhos de hoje é que seus astronautas viajavam de paletó e levavam dois cachorros como companhia.
No fim da vida, Verne ficou mais preocupado com o mau uso da tecnologia. Em romances como Ilha Propeller (1895) e A missão Barsac (lançamento póstumo), imaginou mundos totalitários onde a tecnologia não era usada para libertar as pessoas, mas para escravizá-las. Horrores como bombas de fragmentação, sondas por controle remoto e instrumentos de tortura elétricos encheram suas páginas - e, infelizmente, Júlio Verne conseguiu acertar tanto no pessimismo quanto acertava em seus sonhos idealistas de libertação pela tecnologia na sua juventude.
“Chegaremos à Lua, aos Planetas e às Estrelas com a mesma facilidade, velocidade e segurança com que hoje viajamos de Liverpool a Nova York”.
(Júlio Verne, prevendo as viagens espaciais no livro Da Terra à Lua, lançado em 1865).
Os Estados Unidos em 2889
Um dos trabalhos menos conhecidos de Júlio Verne foi escrito para uma revista americana em 1889, e imaginava como seria a vida nos Estados Unidos mil anos depois. O autor escreveu numa época em que a Europa ainda dominava o mundo, mas visualizou os Estados Unidos como uma nação superpoderosa - anexando todo o continente americano e também a Inglaterra, que seria uma colônia. Nesse país do futuro, os magnatas da comunicação tinham todo o poder, eram donos de impérios de "jornalismo telefônico", previsão do rádio. Verne imaginou também um invento similar às câmaras usadas na internet que ele chamou de "fonotelefoto", com o qual duas pessoas podiam conversar a grande distância, além de se verem numa tela. As previsões sobre meio ambiente, entretanto, eram ruins: Verne imaginou um país onde enormes cartazes de publicidade chegavam até o céu e os campos eram cheios de cabos elétricos, como uma gigantesca teia de aranha.
O Profeta da Era Moderna
De todos os profetas da tecnologia surgidos no início do mundo moderno, nenhum resistiu tão bem à prova do tempo quanto H. G. Wells. Claro que ele falhou em muita coisa e previu errado outras tantas, mas o retrato da vida moderna que fez há um século ainda é reconhecível hoje, e alguns detalhes de seus romances foram sinistramente prescientes.
O sucesso de Wells é ainda mais extraordinário se considerarmos seu passado. Nascido em 1866, numa família pobre, foi tirado da escola aos 14 anos para trabalhar num armarinho. Conseguiu depois uma bolsa para estudar em Londres, na Escola de Ciência, e, aos 20 e poucos anos, descobriu sua vocação de romancista popular e jornalista. Escreveu mais de cem livros e inúmeros artigos, que lhe deram considerável fama. A combinação de curiosidade tecnológica estimulada por seus estudos científicos e as preocupações sociológicas somadas à inclinação jornalística fizeram com que Wells imaginasse não só a era da máquina, mas suas conseqüências sociais.
O fruto dessas especulações apareceu no livro Antecipações, lançado em 1901. Na época, os primeiros carros circulavam nas ruas e Wells imaginou como seria uma futura era da máquina. Visualizou também empresas de transporte ligando cidades distantes e foi lírico ao pensar na liberdade que os automóveis particulares trariam, permitindo viajar para onde se quisesse. Previu pistas de alta velocidade e até viadutos, pois "onde houver cruzamento de duas vias, o trânsito será por pontes". Também avaliou bem os prováveis efeitos sociais dos automóveis e o aumento das viagens de longa distância. Observou: "Não é demais dizer que o londrino do ano 2000 terá como subúrbio quase todo o sul da Inglaterra, País de Gales e Nottingham, mais o leste de Exeter". E que os trabalhadores de Nova York do futuro poderiam ir e voltar do interior do estado, que se estenderia de Albany a Washington.
Socialmente, Wells previu ainda a expansão da classe média e da educação para atender às necessidades de uma população cada vez mais preparada e alfabetizada. As casas em que os novos cidadãos morariam não teriam empregados, mas a ciência trataria de reduzir as tarefas domésticas. Imaginou também uma espécie de ar condicionado "na casa do futuro, o ar entrará por canos nas paredes e aquecerá o ambiente, retirará a poeira e será expelido por um mecanismo simples". Em 1900, preparar a comida ainda era em fogão a lenha, com os cozinheiros mourejando sobre pratos quentes "com o rosto afogueado e os braços escurecidos pela fumaça”. Mas isso também iria mudar, escreveu Wells, "com uma pequena bancada aquecida por eletricidade e termômetros para controlar a temperatura, cozinhar vai ser uma tarefa agradável".
O livro Guerra dos mundos, de H. G. Wells, com os marcianos invadindo a Terra e atacando um navio de guerra. Publicado em 1898, o romance previu o desenvolvimento e uso de gases letais, armas a laser e robôs nas indústrias. A descrição de enormes armas disparando de veículos espaciais pode ter sido inspirada no livro de Júlio Verne, Da Terra à Lua.
“Hoje parece bastante óbvio para as pessoas do início do século XX, que a guerra estava se tornando algo impossível de acontecer. Mas elas certamente não viram isso – até que as bombas atômicas explodiram em suas mãos desajeitadas”.
(H.G.Wells prevendo artefatos atômicos e suas conseqüências no Romance O Mundo Libertado, de 1914, cinco anos antes de Ernest Rutherford dividir o átomo).
O Profeta PessimistaPorém, Wells não foi totalmente otimista sobre o futuro. Ele também previu com incrível clareza como seriam as armas de guerra, e escreveu sobre os "couraçados de terra" (tanques) e a invenção do rifle moderno "com telescópio, cujo foco usará material higroscópico, podendo até ser de longo alcance". No romance Guerra nos ares (lançado em 1908, apenas quatro anos depois do primeiro vôo dos irmãos Wright), Wells considera o bombardeamento de cidades como uma ameaça à civilização. Mais incrível ainda, em 1914, antes de o átomo ser dividido, ele previu a construção de bombas atômicas: imaginou um elemento radiativo chamado "carolinum” com o mesmo efeito que depois tiveram o urânio e o plutônio.
Apesar de sua visão e de seu enorme sucesso como romancista, Wells morreu infeliz e frustrado, em 1946. Durante toda a vida, ele buscou soluções para os problemas da humanidade - inclusive, a troca do nacionalismo pelo governo internacional, e defendeu, por exemplo, a Liga das Nações. Pensou também na educação como uma forma de evitar que as pessoas entrassem em guerra cegamente. Escreveu: ''A vida se transforma cada vez mais numa corrida entre a educação e a catástrofe". Apesar do discernimento que esperava do ser humano, Wells ainda viu o mundo ocidental mergulhar no fascismo, no nazismo e na terrível destruição que foi a Segunda Guerra Mundial. Num de seus últimos livros, A mente no final de suas forças, foi pessimista: "O final de tudo o que chamamos de vida está próximo e não pode ser evitado". Em sua desilusão final, o apóstolo do progresso acabou ecoando o velho grito dos profetas seculares do Juízo Final.
A Previsão como Ciência
Hoje, no início do terceiro milênio, o mercado da previsão está maior do que nunca. Nenhuma sociedade foi tão preocupada com o futuro quanto a nossa, tanto na esperança de um progresso incrível quanto no medo de um desastre ecológico ou nuclear.
As pessoas que querem saber o futuro tendem a percorrer dois caminhos separados: de um lado, continua a aumentar a procura por todo tipo de adivinho. A maior parte das cidades ocidentais conta com um pequeno exército de astrólogos, cartomantes e videntes, enquanto jornais e revistas de grande circulação no mundo inteiro têm as colunas de horóscopo entre suas atrações mais populares. Mas, ao lado dessa antiga tradição, que apresenta métodos seculares em novas embalagens, cresceu uma indústria de bilhões de dólares com bases mais científicas de previsão.
Os novos especialistas atuam em várias áreas. Há físicos que prevêem terremotos, erupções vulcânicas, meteoros ou a passagem de cometas. Demógrafos e estatísticos estudam a população futura e a idade com que as pessoas deverão adoecer e morrer. Batalhões de consultores de administração e estrategistas de mercado ganham a vida aconselhando empresas e corporações a adaptar seus métodos de trabalho a um mundo em mutação. Acima de tudo, uma indústria inteira cresceu em torno da previsão econômica - dos especialistas do Banco Mundial e da Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OCED), que procuram prever as tendências globais da criação da riqueza e distribuição, aos analistas de investimento que procuram adivinhar qual a próxima tendência do mercado de ações.
Uma ciência que já tem possibilidade de verdadeira previsão é a genética. Sua aplicação mais evidente é saber da predisposição de uma pessoa a sofrer determinada doença e assim evitar a transmissão por hereditariedade. Como exemplo do que se pode conseguir, o Comitê para Prevenção de Doenças Genéticas Judaicas nos Estados Unidos faz teste sangüíneo de escolares. Se duas pessoas pensam em se casar, o casamenteiro da comunidade pode telefonar para o comitê, dar os números dos testes (e não os nomes dos envolvidos, garantindo o anonimato deles) e saber se o casal tem mutações genéticas causadoras da fibrose cística ou da rara, porém letal, doença de Tay-Sachs. Se os dois têm, o comitê aconselha a não se casarem. O resultado disso já é impressionante: a fibrose cística está quase erradicada da comunidade judaica.
“Uma mente que, num determinado momento, tivesse total conhecimento de todas as forças da natureza e de todos os seres que formam a natureza seria capaz de aplicar a mesma fórmula aos movimentos dos corpos celestes e aos átomos. Para tal mente, não haveria incertezas; passado e futuro estariam imediatamente presentes”.
(O astrônomo e matemático francês do século XVIII Marquês de Laplace, com esperança de que o futuro pudesse ser cientificamente previsível).
Profetas da Natureza
Às vezes os cientistas penetram na seara dos antigos adivinhos - como, por exemplo, na previsão do tempo. A necessidade de prever uma seca ou inundação é quase tão antiga quanto a agricultura, e desde sempre procurou-se quem dizia saber do futuro. Quando as pessoas não confiavam na astrologia, como na antiga Babilônia, elas se voltavam para os fatos e tradições, que eram um guia mais preciso, baseado na observação da natureza. Por exemplo: certas plantas fecham as pétalas antes de a chuva cair e o gado se esconde na iminência de uma tempestade.
Com o surgimento da era da ciência, a mudança foi lenta. Houve um grande avanço prático com a invenção do termômetro pelo grande Galileu e, em 1644, do barômetro, por Evangelista Torricelli. O barômetro dava a temperatura pelo movimento do mercúrio num tubo de vidro. Mas o grande progresso teórico só veio quando se estabeleceu o conceito (surgido no final do século XVII) da atmosfera da Terra, onde se forma a temperatura.
Os cientistas acumularam cada vez mais informação sobre condições do tempo nos séculos XVIII e início do XIX, mas uma previsão meteorológica internacional eficiente teve de esperar o desenvolvimento do telégrafo elétrico, permitindo que as notícias sobre meteorologia fossem transmitidas mais rápido do que as próprias previsões eram feitas. A primeira rede eficiente de previsão internacional começou a operar em Paris, na década de 1860. A partir de então, a previsão foi se aperfeiçoando, principalmente no início do século XX, para atender ao avanço da aviação, que criou um novo e exigente mercado de informação de última hora.
Hoje, a previsão do tempo é um enorme negócio. Em 1995, a Organização Meteorológica Mundial calculou que o orçamento global dedicado a isso estava em torno de quatro bilhões de dólares, a metade só nos Estados Unidos. A meteorologia é um dos poucos campos em que a previsão é checada estatisticamente. Os números mostram que a previsão de curto espaço (de até dois dias) costuma ser confiável, pelo menos no geral. Mas a previsão de longo prazo ainda se baseia apenas na projeção das temperaturas anteriores, e por isso não é confiável.
Mesmo assim, a meteorologia é um dos sucessos da ciência da previsão. Os sismólogos, por exemplo, fizeram enormes avanços no conhecimento dos movimentos subterrâneos da Terra, mas ainda estão longe de prever terremotos com garantia absoluta.
Os astrônomos que estudam grandes corpos celestes trabalham com um grau bem maior de certeza. O aparecimento regular do cometa Halley foi observado pela primeira vez por Edmond Halley, já em 1704. Mas asteróides menores ainda podem pegar os observadores de surpresa. A Nasa está catalogando os asteróides com órbitas próximas da Terra, na esperança de listar noventa por cento dos corpos com mais de um quilômetro de diâmetro até o ano 2008.
O Medo do BUG do Milênio
O bug do milênio deu uma lição objetiva dos limites da ciência da previsão. Meses antes de terminar o ano 2000, os meios de comunicação do mundo inteiro avisaram que haveria um caos nos computadores, porque o sistema estava programado para reconhecer apenas anos terminados em dois dígitos. Portanto, confundiria 2000 com 1900 e pararia de funcionar. Enormes quantias foram gastas com o problema e só os Estados Unidos tinham um orçamento de sete bilhões e meio de dólares, mas, ao raiar do dia 1º. de janeiro de 2001, nenhuma das previsões ocorreu. O argumento de que a prevençãohavia resolvido o problema não convenceu, porque até países que tomaram poucas precauções, como a Rússia, nada sofreram. Isso mostrou que a histeria dos meios de comunicação transformou um problema técnico relativamente pequeno numa clássica, mas errada, profecia de desgraça do pré-milênio.
Ciências Humanas
Quando se trata de ciências humanas, o índice de erro na previsão aumenta em progressão geométrica. Até o cálculo de quantas pessoas estarão vivas numa determinada data é incerto - e essa informação é básica, dela depende tudo no mundo futuro, da quantidade de comida a quanto será pago nas aposentadorias. Nos últimos cinqüenta anos, os demógrafos acertaram no geral, pois as previsões do crescimento da população mundial se concretizaram. Também acertaram ao prever o aumento da expectativa de vida nos países desenvolvidos. Mas essas duas previsões foram feitas projetando uma tendência constante. Sempre que houve uma interrupção no padrão - como, por exemplo, no grande número de nascimentos nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial -, os cálculos demográficos não conseguiram perceber essa descontinuidade e cometeram erros.
Os demógrafos são grandes extrapoladores, mas não são profetas. Isso se aplica ainda mais aos economistas. A previsão econômica vem mostrando há tempos um crescimento - em 1996, havia cerca de 150 mil economistas só nos Estados Unidos, a maioria trabalhando em algum tipo de projeção. A cada ano, os governos e as empresas gastam grandes quantias para prever as tendências econômicas. Mas o resultado mostra que esse gasto prova mais a importância que se dá ao tema do que o acerto das respostas. Os economistas não conseguiram prever o início nem o fim de qualquer das grandes recessões econômicas de pós-guerra. Os especialistas em investimentos também não mostraram ter visão melhor. Com o tempo, constatou-se que nem os grandes administradores de capital conseguiram acompanhar o mercado que aumentou a popularidade dos trackers funds nos anos 1990.
O recado é bem simples. A ciência da previsão pode ser muito eficiente em detectar modelos ou tendências passadas ou presentes e projetá-las para o futuro. Mas é bastante incapaz de prever interrupções súbitas ou acidentes - exatamente aquelas mudanças desastrosas que sempre foram seara da profecia. O fato de "a previsão científica” ter assumido algo de profeta está mais relacionado com o atual prestígio da ciência do que com suas capacidades proféticas. Talvez seja irracional esperar outra coisa: pois nem a CIA, os militares norte-americanos e os especialistas em defesa do mundo conseguiram prever algo tão importante quanto o colapso da União Soviética e do bloco comunista do leste europeu no final da década de 1980. Isso mostra a limitação dos especialistas para prever o futuro.
A Ascensão da Futurologia
À medida que um número cada vez maior de pessoas buscou a ciência para saber do futuro, era talvez inevitável que a previsão passasse a ter uma ciência própria. A palavra "futurologia" foi cunhada na década de 1940 por um cientista político alemão, Ossip Flechtheim, baseado na obra de H. G. Wells e outros autores para avaliar tendências. Nos anos de pós-guerra, a nova disciplina logo se tornou um grande negócio, e multiplicaram-se os institutos de pesquisa e desenvolvimento e os simpósios sobre planos de ação.
A Rand Corporation, criada em 1948 com o apoio da Força Aérea norte-americana, foi o protótipo de organização que juntava grandes cérebros pensantes. Seu aluno mais conhecido foi Herman Kahn, pesquisador formado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, que a corporação contratou para trabalhar em temas ligados à estratégia militar. Os livros de Kahn, inclusive Pensar o impensável (1962), fizeram dele uma celebridade, e em 1961, ele criou sua própria empresa, o Instituto Hudson. Outros países logo seguiram o exemplo norte-americano, e hoje empresas desse tipo proliferam no mundo inteiro.
Surgiram outras instituições dedicadas a especular o futuro. A Sociedade do Mundo Futuro, fundada em 1966, com sede em Washington, D.C. hoje tem trinta mil sócios no mundo, e seu conselho inclui nomes conhecidos como Arthur C. Clarke, autor de 2001, uma odisséia no espaço; Alvin Toffler, de O choque do futuro e A terceira onda; e John Naisbitt, autor de Megatendências 2000.
A futurologia teve enorme impacto no público e na política nos últimos cinqüenta anos, mas uma avaliação de seus sucessos e fracassos está fora da alçada deste livro. O interessante na futurologia é que seu desenvolvimento foi inteiramente previsível.
Desde o começo dos tempos, a necessidade de prever o futuro foi mais intensa em períodos de mudança e instabilidade. Os grandes profetas bíblicos não surgiram na época da expansão de Israel, mas quando seu povo estava correndo risco, dividido entre os reinos de Israel e Judá, e ameaçado pelos exércitos da Babilônia e da Assíria. Os videntes indígenas norte-americanos tiveram seguidores numa época em que sua forma tradicional de vida estava ameaçada e uma onda de colonizadores brancos invadia o seu continente. Em termos mais pessoais, momentos traumáticos da história - como o naufrágio do Titanic, o assassinato de políticos importantes, o ataque terrorista a Nova York em 11 de setembro de 2001 - tendem a desencadear uma série de sonhos premonitórios e previsões. Parece que a ansiedade e a incerteza criam uma necessidade de informação que os profetas vêm a atender.
“O telefone pode ser adequado para nossos irmãos norte-americanos, mas não aqui na Inglaterra, pois temos muitos mensageiros para levar recados”.
(Conclusão de especialistas ingleses sobre o futuro da telefonia no final do século XIX. Citado no livro Os Vendedores de Previsões, de William A. Sherden).
Mudanças Turbulentas
O salto de mudanças tecnológicas e sociais ocorridas desde o final da Segunda Guerra Mundial não teve paralelo na história. Tomemos, por exemplo, o crescimento da população mundial - levou cem mil anos para o globo atingir um bilhão de habitantes, número ultrapassado no início do século XIX. Em 1950, chegamos a dois bilhões e meio, e hoje somos seis bilhões de habitantes, número que continua aumentando. Associado a esse fenômeno, está o aumento da expectativa de vida, que subiu gradualmente de 20 e poucos anos, idade que os caçadores-coletores da Idade da Pedra esperavam atingir, para 46,4 anos em 1950. Desde então, a taxa aumentou em progressão geométrica e atingiu uma média global de 63 anos em 2000, com os habitantes de países desenvolvidos podendo chegar aos 75 anos.
A velocidade crescente do desenvolvimento tecnológico também é perturbadora. A energia nuclear comercial, os computadores e transistores, a tecnologia espacial, os lêiseres e fibras ópticas invadiram o mundo desde a Segunda Guerra. O ritmo não dá sinal de diminuir com o crescimento da pesquisa genética, da nanotecnologia e da bioengenharia.
Num panorama que muda com a rapidez de uma paisagem vista da janela de um carro em velocidade, as pessoas naturalmente tendem a buscar indicações. Os futurólogos ajudam a dar uma direção por padrões perceptíveis dentro desse aparente caos. Assim, eles preenchem os dois papéis tradicionais da profecia: como os antigos áugures e adivinhos, prevêem o futuro e, ao mesmo tempo, herdam algo dos videntes, dizendo às pessoas como viver num mundo em constante evolução.
No passado, quando os indivíduos procuravam a religião para explicar o universo, a profecia teve um tom religioso. Agora que a Ciência assumiu o papel de prever, não é surpresa que as pessoas esperem que as previsões venham em tons científicos. Mas as esperanças podem ser muito frustradas. O futuro continua tão misterioso como sempre foi. Quando se trata de prever grandes e inesperadas mudanças, que chegam de repente, os momentos imprevisíveis de revelação têm tanta chance de estarem certos quanto o mais rápido e mais bem informado computador da Terra.