A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
292 pág.
o brasil e a seguranca no seu entorno estrategico america do sul e atlantico sul

Pré-visualização | Página 12 de 50

defesa) e a prática (as doutrinas militares, as relações entre civis e 
militares e a aquisição de armamentos). Além disso, os autores enfatizam que a 
cultura estratégica dos pequenos países é fortemente influenciada pelo sistema 
internacional e as alianças são fundamentais para a sobrevivência destas entidades; 
por isso, o caráter transnacional da cultura estratégica dos pequenos países é um 
ponto que merece muita atenção dos analistas. 
Também será agregada à definição de Neumann e Heikka uma questão con-
siderada por outros autores, como Booth e Macmillan (1999), fundamental para 
a compreensão da cultura estratégica de um país: a geografia, tanto humana como 
física, incluindo sua posição relativa no globo. Neste sentido, considera-se que a 
presença de uma grande potência, os Estados Unidos, no continente americano 
é um fator que influencia fortemente a cultura estratégica dos demais países do 
hemisfério ocidental. Para discutir esta questão geopolítica, será recuperada a 
tese de Mário Travassos (1935), para quem a instabilidade do “canto noroeste do 
subcontinente” sul-americano estaria diretamente relacionada à influência dos 
Estados Unidos. 
2 CONCEITUANDO DEFESA E SEGURANÇA
Antes de analisar alguns aspectos da cultura estratégica dos países em pauta, este 
capítulo fará algumas breves considerações teóricas a respeito dos conceitos de defesa 
e segurança, tendo em vista as implicações da ampliação da agenda de segurança no 
pós-Guerra Fria para a configuração das culturas estratégicas nacionais e regionais. 
2.1 O conceito tradicional de defesa e segurança
O termo segurança tem sido empregado como um estado ou sensação de ausência de 
ameaças que poderiam colocar em risco algo que nos pertence. Defesa, sob tal pers-
pectiva, refere-se ao conjunto de ações que garantirá aquela segurança (Saint-Pierre, 
2008, p. 59). De forma simplificada, a segurança de uma nação corresponderia à 
ausência de ameaças, geralmente externas (ataques estrangeiros), e a defesa seria o 
conjunto de esforços adotados pelo “poder nacional” visando neutralizar ameaças.
45
Entre a “Segurança Democrática” e a “Defesa Integral”: uma análise de duas doutrinas 
militares no canto noroeste do subcontinente sul-americano
O cenário resultante do final da Guerra Fria colocou em xeque o mo-
delo analítico tradicional baseado na ideia de segurança-sensação e defesa-ação. 
Em um contexto marcado pela indefinição e transnacionalização das ameaças, e 
pela dificuldade em se separar questões internas de externas, percebe-se, atualmente, 
uma tendência ao uso funcional dos termos defesa e segurança: a separação entre 
ameaças de caráter militar (questões de defesa) e de caráter policial (questões de 
segurança), conforme o esquema a seguir: 
QUADRO 1
Uso dos termos defesa e segurança
Termo Origem ou natureza Agentes Ambiente
Defesa Conflito ou guerra Forças militares Externo
Segurança Desordem ou delito Forças policiais Interno
Fonte: Medeiros Filho (2010, p. 44).
Os termos adotados no quadro 1 remetem às ideias de defesa nacional (que 
envolvem preponderantemente ações das Forças Armadas) e segurança pública (campo 
de ação das forças policiais). Assim, enquanto o termo defesa é empregado para se 
referir às atividades das Forças Armadas na garantia da independência, soberania e 
integridade territorial de um país, o termo segurança refere-se ao âmbito de atuação 
dos aparatos policiais no combate a ilícitos e crimes de toda ordem.
Tais definições apresentam, porém, algumas limitações. A linha que separa 
questões de segurança “interna” e “externa” torna-se cada vez mais imprecisa, e a 
distinção entre missões de caráter policial (combate ao crime) e militar (condução 
da guerra) torna-se cada vez mais complicada. Até que ponto é possível estabelecer 
a diferença entre ameaças de natureza militar e policial? O combate a grupos 
armados não estatais que protegem laboratórios de refino de cocaína no interior da 
Amazônia por soldados do Exército, por exemplo, constitui uma ação na esfera 
da defesa nacional ou da segurança pública? 
Neste sentido, pode-se entender defesa como “combate em guerra” e seguran-
ça como “combate ao crime”. A guerra seria, então, a violência promovida pelas 
unidades políticas entre si, enquanto o crime seria o produto de uma desordem 
social: “A violência só é guerra quando exercida em nome de uma unidade política. 
(...) a violência empregada pelo estado para executar criminosos e eliminar piratas 
não se qualifica como tal, porque tem por alvo indivíduos” (Bull, 2002, p. 211).
2.2 Por um conceito de segurança multidimensional
No final do século XX, um conjunto de “novas ameaças”, não necessariamente 
militares, com capacidade de cruzar fronteiras e potencial para colocar em risco 
a integridade política e social das sociedades, começa a ganhar destaque. Por seu 
46 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
caráter plurissetorial e transnacional, estas “novas ameaças” passaram a representar 
sérios desafios à segurança dos Estados. Em 1994, a Organização das Nações 
Unidas (ONU) apresentou uma proposta de mudança no conceito de segurança, 
transferindo o foco, tradicionalmente centrado nos Estados, para os indivíduos. 
De um conceito de caráter exclusivamente territorial, baseado em armamentos, 
procurou-se transitar para um conceito mais voltado para a segurança da população, 
baseado no desenvolvimento humano (PNUD, 1994, p. 28). 
Considerando a ideia de ampliação (broadening) e de aprofundamento 
(deepening) do conceito de segurança (Krause e Williams, 1996, p. 230), este 
trabalho sugere um esquema teórico que propõe a subdivisão da ampliação do 
conceito de segurança segundo dois eixos: vertical e horizontal. O eixo vertical diz 
respeito à ideia de segurança segundo níveis de análise: 
• nível individual (segurança humana – a referência é a pessoa); 
• nível estatal (segurança nacional – a referência é o Estado-Nação); e
• nível transnacional (segurança internacional – a referência transpõe fronteiras). 
O eixo horizontal segue a proposta de Barry Buzan (1991), segundo a qual 
a segurança, no pós-Guerra Fria, deixa de ser monopolizada pelo setor político-
-militar (visão tradicional e estreita centrada no Estado) e passa a abarcar outros 
setores como o ambiental, o societal, o econômico etc. 
FIGURA 1
Esquema de ampliação do conceito de segurança
 
 
 
 
 
Segurança internacional
Segurança societal
Segurança econômica
Segurança ambiental
Segurança energética
Segurança humana
Segurança nacional
Segurança militar
Segurança política
Elaboração dos autores.
47
Entre a “Segurança Democrática” e a “Defesa Integral”: uma análise de duas doutrinas 
militares no canto noroeste do subcontinente sul-americano
Este capítulo buscará, adiante, situar no gráfico a situação das políticas de 
defesa e de segurança dos países aqui estudados.
3 CULTURA ESTRATÉGICA: OS CASOS COLOMBIANO E VENEZUELANO
Serão apresentados a seguir alguns tópicos acerca das preocupações de defesa e 
segurança relativos ao canto noroeste do subcontinente, notadamente Colômbia 
e Venezuela, que influenciam a cultura estratégica destes países e por ela são 
influenciados.
3.1 Colômbia
O envolvimento da Colômbia em conflitos internos há mais de quatro décadas 
gerou uma particularidade em sua orientação estratégica que a torna diferente das 
demais na região: se, como as demais políticas de defesa sul-americanas, a política 
de defesa colombiana é defensiva no plano externo, em relação às suas ameaças 
internas, ela é ofensiva.
Especialmente a partir de 2001, com a ajuda financeira norte-americana para 
o combate ao narcotráfico (Plano Colômbia), iniciou-se uma reestruturação dos 
aparatos militares para o emprego em missões internas. Durante os anos de 2002 
a 2006, o governo colombiano pôs em prática

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.