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o brasil e a seguranca no seu entorno estrategico america do sul e atlantico sul

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a Política de Defesa e Segurança 
Democrática. Entre os principais objetivos estratégicos desta política destacaram-se: 
a consolidação do controle territorial; o combate às atividades do narcotráfico; 
e a diminuição dos índices de criminalidade nos centros urbanos (Colombia, 
2007). Neste documento, a maior preocupação é o combate aos grupos armados 
ilegais, caracterizados pela simbiose entre as organizações guerrilheiras (também 
chamadas de terroristas) e os narcotraficantes. Esta ameaça tem-se denominado 
narcoguerrilha ou narcoterrorismo. No período entre 2006 e 2010, a política de 
defesa passou a ser denominada Política de Consolidação da Segurança Democrática. 
Em termos substanciais não houve alteração. O foco continuou sendo a “inse-
gurança” interna. As ameaças territoriais (convencionais) não apareciam entre as 
principais preocupações colombianas. 
Entretanto, o incidente envolvendo o ataque colombiano contra guerrilheiros 
das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) em território equatoriano, 
em março de 2008, e os discursos belicistas do governo venezuelano parecem ter 
alterado o quadro de percepções de ameaças na Colômbia. 
Em 2011, o governo do presidente Juan Manuel Santos apresentou uma nova 
política de defesa e segurança, intitulada Política Integral de Segurança e Defesa 
para a Prosperidade (PISDP), que define uma série de objetivos e estratégias para 
o enfrentamento das ameaças à segurança nacional e para a consolidação da paz. 
Segundo o documento, para o governo nacional, consolidar a paz significa “garantir 
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a prevalência do Estado de Direito, a segurança, a plena observância dos direitos 
humanos e o funcionamento eficaz da justiça em todo o território nacional” 
(Colombia, 2011, p. 11, tradução nossa). Em uma primeira análise, esta política 
representa uma continuação e atualização de políticas anteriores, tais como a Política 
de Segurança Democrática (2002-2006) e a Política de Consolidação da Segurança 
Democrática (2006-2010). Mas percebe-se neste novo documento uma preocupação 
maior com o ambiente internacional, que passa a ser considerado um dos quatro 
fatores de risco principais, além dos grupos armados à margem da lei (GAML), dos 
delitos contra cidadãos e dos desastres naturais. Estes quatro fatores de risco são 
apresentados obedecendo a uma sequência de ampliação da escala de abrangência 
dos atores envolvidos no enfrentamento destas ameaças. Assim, de acordo com 
o documento, o setor de defesa exerce papel de protagonismo no enfrentamento 
das ameaças que põem em risco a segurança e a consolidação da paz. Entretanto, à 
medida que as ameaças se aproximam dos cidadãos, são necessárias ações integradas 
envolvendo outras instituições do Estado e a comunidade (Colombia, 2011, 
p. 21). Esta ideia aparece representada na figura 2.
FIGURA 2
Ameaças e atores envolvidos
 
 
 
 
 Plano Estratégico
Setorial
 
 
 
Executivo 
Judiciário 
Legislativo 
Organização de Controle 
Outros 
 
Ministério Defesa Nacional 
Forças Armadas 
 
Governo (nacional e regional)
Ministério Interior e Justiça 
Ministério Relações Internacionais 
Ministério Fazenda 
Dep. Nac. Planejamento Delitos contra 
os cidadãos
Ameaças por 
catástrofes 
Ameaças de grupos 
armados à margem da lei 
Fonte: Colombia (2011, p. 22).
Adaptação dos autores.
Para neutralizar quaisquer ameaças provenientes desses quatro fatores de risco, 
a PISDP define seis objetivos estratégicos, conforme esquema a seguir:
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Entre a “Segurança Democrática” e a “Defesa Integral”: uma análise de duas doutrinas 
militares no canto noroeste do subcontinente sul-americano
FIGURA 3
Objetivos e estratégias setoriais da PISDP
Desarticular os
grupos fora da
lei-GAML 
Criar condições
de segurança
para a 
convivência
cidadã 
Ampliar a
capacidade
dissuasiva 
PISDP
Reduzir ao
mínimo a
produção
nacional de
drogas 
Fortalecer o
bem-estar do
setor de defesa
e segurança 
Contribuir para
o enfrentamento
de desastres
naturais e 
catástrofes 
Fonte: Colombia (2011, p. 32).
Adaptação dos autores.
Segundo o documento que estabelece a PISDP, o que se busca é um conjunto 
de estratégias equilibradas entre segurança interna e dissuasão externa, que, além 
de manter os esforços de segurança da última década, busque blindar a nação da 
feroz dinâmica do crime transnacional:
Nesse sentido, além da manutenção da capacidade dissuasiva de acordo com as 
necessidades nacionais, o governo trabalhará para o desenvolvimento de uma estra-
tégia de diplomacia para a segurança, com a qual se busca aumentar ao máximo a 
efetividade na luta contra o crime transnacional e diminuir ao mínimo a possibili-
dade de uma crise de segurança regional (Colombia, 2011, p. 26, tradução nossa).
Assim, de acordo com o documento que a estabelece, a PISDP visa: 
contribuir para a governabilidade democrática, a prosperidade coletiva e a erradicação 
da violência, mediante o exercício da segurança e da defesa, a aplicação adequada 
e focalizada da força e o desenvolvimento de capacidades mínimas dissuasivas 
(Colombia, 2011, p. 31, tradução nossa).
Considerando a natureza multidimensional da segurança internacional, a 
PISDP objetiva formular e implantar um sistema de defesa integrado, flexível e 
sustentável para a implementação de uma estratégia de capacidade dissuasiva que 
envolva ações como o incremento da cooperação, em nível tanto regional como 
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hemisférico, bem como a implementação de programas de cibersegurança e ciber-
defesa (Colombia, 2011. p. 36).
3.1.1 O modelo de força adotado
A recuperação do controle do Estado sobre grande parte do território nacional 
tem sido o foco principal da política de defesa implantada nos últimos anos na 
Colômbia. Para tal, priorizou-se o fortalecimento da chamada Força Pública (Forças 
Militares e Polícia Nacional).1 Com apoio financeiro e tecnológico dos Estados 
Unidos e com o aumento expressivo dos gastos com defesa – a porcentagem do 
produto interno bruto (PIB) gasto com defesa passou de 2%, no final dos anos 
1980, para 4% nos últimos anos –, a Colômbia aumentou consideravelmente o 
número de unidades militares e policiais. Só entre os anos de 2002 e 2006, este 
aumento chegou a 32%. Em número de militares, o Exército Colombiano já é 
comparável ao Exército Brasileiro, tradicionalmente o maior da região. Voltadas 
para missões de baixa intensidade (low intensity conflict), as unidades colombianas 
foram dotadas com meios de mobilidade e apoio tático, como helicópteros e 
plataformas de inteligência.
A criação da Fuerza de Despliegue Rápido2 (Fudra) tem sido apresentada 
pelo governo como o símbolo do início da modernização do Exército Colombiano. 
A Fudra constitui-se numa tropa especializada em luta antissubversiva, composta por 
brigadas móveis. Cada brigada dispõe de três batalhões contraguerrilhas (unidades 
leves sem subunidade de apoio e sem base administrativa – cerca de 350 militares) 
e uma companhia de apoio. Estas forças são dotadas de helicópteros Sikorsky 
UH-60 Blackhawk e Mil Mi-17. Com o lema: “qualquer missão, em qualquer 
lugar, a qualquer hora, da melhor maneira, prontos para vencer”, a Fudra tem por 
missão realizar operações ofensivas de combate contrainsurgente em qualquer parte 
do território colombiano.
Como se pode observar, o combate a ameaças internas, por meio de estruturas 
militares de baixa intensidade, tem dominado a agenda de defesa e segurança 
na Colômbia.
1. Coordenada pelo Ministério da Defesa, a Força Pública envolve os aparatos de defesa e segurança do governo 
colombiano (Forças Armadas e Polícia Nacional). A Polícia Nacional colombiana tem uma estrutura militarizada (uma 
espécie de gendarmaria)