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o brasil e a seguranca no seu entorno estrategico america do sul e atlantico sul

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Problemas recentes envolvendo comércio internacional e uso de fontes 
energéticas têm levado a questionamentos a respeito da capacidade da sub-região 
de aprofundar seu processo de integração. Fazem parte do Cone Sul: Argentina, 
Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai.
3.1.3 Andes 
Envolve uma sub-região com fraca tradição integracionista, em boa medida motivada 
pela permanência de desconfianças, como aquelas reveladas, nos últimos anos, nos 
seguintes pares de países: Chile e Peru; Chile e Bolívia; Peru e Equador; Equador e 
Colômbia; Colômbia e Venezuela. Para Hurrell (1998), se a relação entre os países 
28 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
do Cone Sul dá sinais do surgimento de uma possível comunidade de segurança, 
o mesmo não pode ser dito em relação à porção andina. Compõem os Andes: 
Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. 
3.1.4 Brasil
A dimensão continental, a herança imperial e lusitana, a língua portuguesa, o 
alto grau de miscigenação cultural, além do relativo dinamismo industrial e da 
assimétrica produção interna, fazem do Brasil um país com características próprias 
no subcontinente. Contribui para isto, também, o papel de destaque que o país 
tem desempenhado na geopolítica sul-americana, em parte pela própria condição 
geográfica, a qual lhe confere importância estratégica para a integração regional, 
além do peso político que exerce nas decisões do continente, o que lhe permite 
agir com relativa liderança e capacidade de apresentar iniciativas cooperativas, 
como o CDS.
3.1.5 Guianas
Envolve países com pouca expressão no tema defesa e segurança regional. Alguns 
fatores contribuem para isto. Primeiro, o fato de estes países terem permanecido 
como colônias até a segunda metade do século XX, sendo que a Guiana Francesa 
permanece como território ultramarino francês. Segundo, a barreira natural que os 
separam dos demais países sul-americanos – a maioria das fronteiras guianenses se 
encontra em porções amazônicas. Terceiro, a forte barreira cultural, representada 
em primeiro lugar pelas diferentes línguas oficiais, que não encontram semelhanças 
com os demais países da região. Compõem esta porção regional a Guiana, o 
Suriname e a Guiana Francesa.
De uma forma geral, a irregularidade espacial do processo de integração 
regional na América do Sul aponta para níveis de estabilidade/instabilidade também 
espacialmente irregulares. Enquanto o Cone Sul apresenta considerável êxito, as 
porções Amazônia e Andes apresentam níveis de integração bem mais modestos. 
É exatamente nestas porções, onde o processo de integração é mais escasso, que 
se localizam áreas de potenciais conflitos territoriais, entre as quais se destacam 
as fronteiras entre Chile, Peru e Bolívia – a situação mediterrânea da Bolívia se 
constitui hoje na maior ameaça latente de conflito territorial no subcontinente –, 
as cercanias do lago Maracaibo (Colômbia-Venezuela) e a região de Essequibo 
(Venezuela-Guiana).
Apesar de, em todas as porções analisadas, coexistirem simultaneamente 
movimentos de integração e de fragmentação, pode-se, de forma geral, dividir 
a região segundo dois grandes arcos: o da estabilidade e o da instabilidade.3 
3. Originalmente, essa ideia aparece em Saint-Pierre ([s.d.]).
29Breve Panorama de Segurança na América do Sul
Enquanto o primeiro corresponde à faixa atlântica – Mercosul estendido –, 
o segundo se refere à porção onde persistem zonas potenciais de conflitos 
armados, notadamente Amazônia e Andes.
MAPA 2
Arcos da estabilidade e da instabilidade na América do Sul
Fonte: Medeiros Filho (2009).
De forma simplificada, os níveis de integração geopolítica na América do Sul 
parecem obedecer a uma linha de gradação crescente entre a vertente atlântica – 
maior nível de integração/estabilidade – e a vertente pacífica – integração compro-
metida e instabilidade regional. 
Pode-se, do ponto de vista das perspectivas teóricas utilizadas, situar a sub-
-região Cone Sul em um padrão intermediário de integração regional – regime de 
segurança –, a caminho de uma pretensa comunidade de segurança. As sub-regiões 
Amazônia, Andes e Guianas, por sua vez, enquadrar-se-iam em um modelo menos 
avançado, mantendo traços de uma formação conflitiva. 
30 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
3.2 A geografia política sul-americana: estruturas de defesa
3.2.1 Gastos militares na América do Sul
De acordo com dados do Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), 
a América do Sul continua sendo a região com os menores gastos com defesa no 
mundo, representando em torno de 4% do total mundial – em relação ao seu 
produto interno bruto (PIB), não são mais que 2%, em média. 
Apesar da ideia propalada por alguns setores sociais e políticos nos últimos 
anos de que estaria havendo uma corrida armamentista no subcontinente, observa-se 
nas duas últimas décadas uma tendência à redução dos gastos médios com 
defesa na região. Diversos fatores têm contribuído para esta tendência. Entre os de 
caráter sistêmico, três merecem destaque: i) fim da Guerra Fria; ii) fim de governos 
militares; e iii) forte contenção de gastos públicos provocada pela implementação 
das chamadas reformas neoliberais (Villa, 2008, p. 48-49). No caso específico 
do Cone Sul, a diminuição dos gastos com defesa sugere uma relação direta com 
o processo de transição democrática, no qual o controle civil sobre as estruturas 
militares envolvia não apenas a redução dos orçamentos militares, mas também o 
enxugamento de suas atribuições políticas (Sotomayor, 2004).
A tabela 1 apresenta a porcentagem média de gasto com defesa em relação 
ao PIB de cada país da região. 
TABELA 1
Gastos com defesa na região (1988-2008) 
(Em % do PIB)
País 1988 2008 Gasto médio 
Argentina 1,5 0,8 1,3
Bolívia 1,7 1,5 2,1
Brasil 2,1 1,5 1,7
Chile 5,0 3,5 3,7
Colômbia 2,4 3,7 3,1
Equador 2,0 2,8 2,1
Paraguai 1,3 0,8 1,2
Peru 0,2 1,1 1,4
Uruguai 2,6 1,3 2,0
Venezuela 1,8 1,4 1,6
Fonte: Stockholm International Peace Research Institute (Sipri). Disponível em: <http://milexdata.sipri.org/result.php4>. 
Elaboração do autor.
Os dados revelam que a variação de gastos com defesa entre os países da 
região tem se comportado de forma distinta entre as porções regionais. Enquanto 
31Breve Panorama de Segurança na América do Sul
Argentina, Chile e Uruguai apresentaram as maiores reduções, os países andinos, 
com destaque para Colômbia e Equador, registraram crescimentos expressivos, 
conforme se observa no gráfico 1.
GRÁFICO 1
Gastos com defesa na região (1988-2008) 
(Em % do PIB)
0
1
2
3
4
5
6
1988 1998 2008
Argentina Chile Colômbia Equador Uruguai 
Fonte: Sipri. 
Elaboração do autor.
Em comparação às médias mundiais, os gastos dos países da região são 
modestos. Apenas dois mantêm gastos superiores a 3% do seu PIB: Colômbia 
e Chile. O primeiro pode ser explicado pelo estado de guerra interna vivido 
nos últimos anos, o que tem levado as Forças Armadas colombianas a serem 
empregadas em conflitos de baixa intensidade (low intensity conflicts). O caso 
do Chile, em boa medida, é explicado pela permanência da Ley Reservada del 
Cobre, que estabelece que 10% do valor das exportações de cobre devem ser 
destinados às Forças Armadas. 
3.2.2 Papel das Forças Armadas na América do Sul
Com relação à missão das Forças Armadas, além do emprego tradicional contra 
ataques militares clássicos, os militares têm sido empregados: no enfrentamento 
a delitos transnacionais; em missões de paz da Organização das Nações Unidas 
(ONU); como instrumento de desenvolvimento nacional – missões subsidiárias; 
e no apoio à segurança pública – em caso de carência policial. 
32 O Brasil e a Segurança

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