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o brasil e a seguranca no seu entorno estrategico america do sul e atlantico sul

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no seu Entorno Estratégico
Dos temas anteriores, as “novas ameaças” – especialmente a simbiose entre 
crime organizado e ações terroristas – são as que têm provocado mais impacto sobre 
as reestruturações doutrinárias e a destinação dos aparatos militares. A natureza 
transnacional destas ameaças complica a situação. Diante de tal realidade, resta aos 
governos nacionais uma difícil escolha: ou investem em estruturas clássicas de defesa, 
destinando seus militares à missão exclusiva de “defesa externa”, ou reestruturam seus 
aparatos militares, adaptando-os para o emprego em missões de natureza policial.
Diante das dificuldades orçamentárias e do caráter episódico – de difícil pre-
visão – das “novas ameaças”, torna-se impraticável pensar na criação de agências 
específicas para o tratamento desses ilícitos. Assim, os governos têm, de forma 
cada vez mais recorrente, envolvido os militares em missões de segurança pública. 
O envolvimento das Forças Armadas em missões internas, porém, é 
bastante controverso. Os argumentos contrários são diversos, variando desde o 
receio de “contaminação” do instrumento militar pelo crime organizado, passando 
pelo risco de ampliação da autonomia militar, até o perigo de se estar obedecendo 
a uma suposta cartilha norte-americana, que pregaria a transformação dos exércitos 
latino-americanos em gendarmarias na luta contra o narcoterrorismo.
A compreensão do quadro que caracteriza a geografia política sul-americana 
sugere uma análise do processo histórico que envolve as relações geopolíticas na 
região, assunto discutido na seção seguinte.
4 GEOPOLÍTICA SUL-AMERICANA: UM BREVE PERCURSO
Serão analisados nesta seção alguns aspectos geopolíticos que envolvem a relação 
entre os países sul-americanos e o processo de aproximação entre dois atores cen-
trais na região: Argentina e Brasil. De forma geral, o percurso pode ser dividido 
em quatro fases: i) contenção – década de 1970; ii) inflexão – início da década de 
1980; iii) cooperação – acentuada na década de 1990; e iv) mais institucionalização 
– década passada.
Pode-se dizer que, até a década de 1970, as relações entre Estados na América 
do Sul ocorriam sob o pano de fundo de uma geopolítica de contenção, caracterizada 
pela desconfiança mútua entre vizinhos – vistos como ameaças latentes e inimigos 
em potencial – e pela percepção de fronteiras enquanto instrumentos de separação 
(Medeiros Filho, 2005). Este clima de desconfiança mútua contribuiu para o 
“distanciamento” entre os países sul-americanos, representado pelo baixo volume 
de comércio intrarregional e, consequentemente, a escassa integração regional. 
A relação entre países-chave, como Brasil e Argentina, era dominada pela 
percepção de “vizinho-ameaça”. Podia-se ver, em todos os gestos do vizinho, 
intenções pouco amistosas ou confiáveis. Analisando-se textos de geopolítica 
33Breve Panorama de Segurança na América do Sul
produzidos no Brasil e na Argentina, percebe-se que eles eram marcados por posturas 
agressivas/defensivas de ambas as partes (Miyamoto, 1999, p. 4). Em Geopolítica 
do Brasil, por exemplo, o general Golbery do Couto e Silva defendia a tese de que 
o Brasil, em relação ao seu “perímetro continental”, e à fronteira com a Argentina, 
em particular, deveria adotar uma “geoestratégia de contenção, em grande parte 
preventiva” (Silva, 1981, p. 171). 
O período entre o fim da década de 1970 e o início dos anos 1980 registrou 
uma série de eventos que acabaram por constituir um ponto de inflexão nas relações 
geopolíticas sul-americanas. Alguns destes estão relacionados a iniciativas coopera-
tivas elaboradas pelo Brasil, ator central na região, na tentativa de desconstruir o 
imaginário oriundo da geopolítica de contenção (Villa, 2006). Entre estes eventos, 
podem ser citados: a criação do Tratado de Cooperação Amazônica, em 1978; 
a assinatura do acordo junto à Argentina e ao Paraguai pondo fim ao impasse que 
envolvia a questão de Itaipu-Corpus – marco histórico da parceria estratégica que 
dá início ao Mercosul; além do comportamento do Brasil durante a Guerra das 
Malvinas, no início dos anos 1980, fundamental para diluir o dilema de segurança 
argentino-brasileiro (Russell e Tokatlian, 2003). 
A parceria Brasil-Argentina se aprofunda com a assinatura da Declaração 
do Iguaçu, tratando de temas nucleares (entre outros), em 1985, e do Tratado de 
Assunção, criando o Mercosul, em 1991.
A partir do início dos anos 1990, já com a presença de governos civis eleitos 
diretamente em toda a região, as tratativas de cooperação regional ganham novos 
impulsos, alterando, em alguma medida, a percepção mútua entre os vizinhos. 
O argumento de que a democracia possa gerar a paz é controverso. O argumento 
inverso, porém, de que a paz – estabilidade geopolítica – possa ser um fator im-
portante para a manutenção da democracia na região parece plausível.4 Algumas 
medidas tomadas pelos governos democráticos têm contribuído para possibilitar 
um “clima de paz” na região, incluindo-se o “controle civil” do aparelho militar 
por meio dos ministérios de defesa e a publicação de livros brancos. 
Contudo, mesmo após o fim da Guerra Fria, não havia entre os países 
sul-americanos propostas de política de segurança para o subcontinente. Este 
“vácuo de iniciativas” contribuía para que persistisse na região a ideia de uma 
arquitetura hemisférica a partir de iniciativas norte-americanas (Villa, 2007, p. 22). 
Ao longo da década de 1990, as experiências de integração regional se restringiam 
quase que exclusivamente a aspectos econômicos, tendo como carro-chefe a 
ampliação do comércio regional. Isto não impedia que os temas de defesa e segurança 
4. No âmbito do Mercosul, merece destaque a chamada “cláusula democrática”, institucionalizada pelo Protocolo de 
Ushuaia sobre o Compromisso Democrático no Mercosul, em 1998, que considera a plena vigência das instituições 
democráticas condição essencial para o desenvolvimento dos processos de integração entre os Estados-membros do bloco.
34 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
fossem pensados e discutidos pelos militares da região; porém, os acordos assinados 
tinham caráter basicamente bilateral.
O início do século XXI, porém, registra uma série de acontecimentos que 
parecem indicar a direção de uma arquitetura político-estratégica e acabam 
por desaguar na proposta de institucionalização de um arranjo propriamente 
sul-americano, representado pelo CDS. Tal postura parece romper com uma longa 
tradição pan-americana, revestindo-se de um interessante ineditismo geopolítico 
na América do Sul. 
Nas subseções seguintes, serão apresentadas as principais discussões ocorridas 
a respeito de uma arquitetura exclusivamente regional para o tratamento de temas 
de defesa e segurança.
4.1 Agendas para a integração regional de defesa
Propostas de uma arquitetura de defesa em escala subcontinental – de caráter 
autóctone – começaram a aparecer a partir dos anos 1990, em um contexto marcado 
pelo fim da Guerra Fria e o início de um novo período unipolar. Elas têm origem, 
portanto, em um contraponto regional ao projeto de globalização liderado pelos 
Estados Unidos. Estas propostas, entretanto, obedeceram a interesses e preferências 
nem sempre consensuais. Para fins de análise, podem-se identificar três diferentes 
agendas de integração regional: i) a mercosulina; ii) a bolivariana; e iii) a brasileira.
4.1.1 Agenda mercosulina
Denomina-se aqui de agenda mercosulina as propostas de construção de um organismo 
sul-americano, sob uma perspectiva liberal, como parte da ampliação “natural” da 
integração regional a partir do Mercosul. A finalidade da integração regional sob 
esta perspectiva está geralmente relacionada à ampliação do grau de integração 
regional, atingindo a esfera política. Neste caso, o objetivo de uma arquitetura de 
defesa estaria

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