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10 CENTRO REGIONAL UNIVERSITÁRIO DE ESPÍRITO SANTO DO PINHAL – UNIPINHAL CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA TAIS TURATI PÍCOLI LEUCEMIA FELINA VIRAL – RELATO DE CASO ESPÍRITO SANTO DO PINHAL – SP 2018 1 CENTRO REGIONAL UNIVERSITÁRIO DE ESPÍRITO SANTO DO PINHAL – UNIPINHAL CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA TAIS TURATI PÍCOLI LEUCEMIA FELINA VIRAL – RELATO DE CASO Profª. M. Sc. Regina Raquel Peres de Abreu Orientadora Profª. M. Sc. Margarete Del Bianchi Supervisora da CEMS ESPÍRITO SANTO DO PINHAL – SP 2018 2 FOLHA DE APROVAÇÃO TAÍS TURATI PÍCOLI LEUCEMIA FELINA VIRAL – RELATO DE CASO Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado para a obtenção do título de Médica Veterinária junto ao curso de Medicina Veterinária. UNIPINHAL BANCA EXAMINADORA _____________________________________________________ Profª. M. Sc. Regina Raquel Peres de Abreu Orientadora _____________________________________________________ Membro _____________________________________________________ Membro _____________________________________________________ Profª. M. Sc. Margarete Del Bianchi Supervisora da CEMS Espírito Santo do Pinhal, _____ de ___________________ de 2018. 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a todos que de alguma forma me auxiliaram e me apoiaram para a realização deste trabalho. Aos meus pais, por tudo que fizeram e fazem por mim, pelo incentivo e encorajamento diário. Ao meu marido pela compreensão diante das ausências e pelo apoio. Às minhas lindas filhas, que são exemplos de ser humano e com as quais divido meu amor pelos animais. Aos professores que fizeram parte desta jornada, em especial à minha lindíssima orientadora, professora Regina, com a qual sei que posso contar sempre. Agradeço ainda a minha supervisora professora Margarete, a qual me auxiliou na realização deste trabalho. Aos amigos que ganhei durante o curso, à nossa “turma da parede”, que se reuniam, mesmo diante do visível cansaço, todas as noites para aprender e crescer juntos. À minha cunhada, Andréa, que me incentivou (praticamente obrigou...rsrs) a cursar medicina veterinária, e que esteve ao meu lado, como dupla pra todos os trabalhos e provas, nesses anos acadêmicos. Um ciclo se fecha, mas o melhor com certeza estão por vir. A satisfação e gratidão por poder auxiliar no conforto de um animal, priorizando seu bem-estar, não tem remuneração que supere. 4 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho às minhas filhas, que iluminam a minha vida e me incentivam diariamente. 5 EPÍGRAFE “Suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo”. Martin Luther King 6 RESUMO Título: LEUCEMIA FELINA VIRAL – RELATO DE CASO Autor: PÍCOLI, T. T. Orientadora: DE ABREU, R. R. P. Supervisora: DEL BIANCHI, M. A leucemia felina viral (FeLV) é uma doença que acomete felídeos, causada por um retrovírus, cujos sinais clínicos são mucosa pálida, dispneia, letargia, anorexia, emagrecimento progressivo, febre, gengivite/estomatite, uveíte, diarreia e abscessos que não cicatrizam, bem como massas abdominais palpáveis, organomegalia (baço fígado e rim). Podem ocorrer infecções secundárias e outras doenças causadas pela infecção progressiva do FeLV. O diagnóstico pode ser realizado através de imunofluorescência direta (IFA), ensaio imunoenzimático (ELISA) reação em cadeia de polimerase (PCR) e isolamento viral. Não há tratamento para o FeLV, no entanto, pode-se instituir terapias como imunoterapia para as enfermidades secundárias oportunistas instaladas em razão do FeLV. O prognóstico é de reservado a ruim. Este relato de caso trata-se de um felino, sem raça definida, não castrado, com 10 anos de idade, com hábito de ir a rua e brigar com outros animais. Durante o exame clínico, observou-se anorexia, disfagia e sialorreia com estrias de sangue. Verificou-se um tempo de preenchimento capilar de quatro segundos, aumento de linfonodos submandibulares, gengivite, úlceras em cavidade oral, baixo escore corporal, rarefação pilosa generalizada e alopecia focal em dorso. Apresentava gengivite-estomatite a um tempo, sempre ocorrendo recidivas. Solicitado hemograma confirmou-se anemia normocítica normocrômica, desvio a esquerda regenerativo e trombocitopenia, com hematócrito de 11%. Na realização do imunoensaio enzimático no soro para detecção de FIV e FeLV, esse confirmou-se positivo para FeLV. O animal, mesmo com um tratamento suporte para as alterações hematológicas apresentadas, teve uma piora no quadro clínico, optando-se pela eutanásia do animal. PALAVRAS – CHAVES: FeLV, infecção, gengivite-estomatite, ELISA. 7 LISTA DE ABREVIAÇÕES DNA - Ácido desoxirribonucleico ELISA - Enzyme-linked immunosorbent assay (Ensaio Imunoenzimático) FeLV – Vírus da Leucemia Felina FIV – Vírus da Imunodeficiência Felina IFA - Immunofluorescent antibody (Ensaio de Imunofluorescência de anticorpos) PCR - Polymerase chain reaction (Reação em cadeia da polimerase) PIF - Peritonite Infecciosa Felina RNA - Ácido ribonucleico 8 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 9 2. REVISÃO DE LITERATURA ................................................................................... 11 2.1. Etiopatogenia e dinâmica da infecção .............................................................................11 2.2. Epidemiologia ..................................................................................................................13 2.3. Sinais e síndromes clínicas ...............................................................................................14 2.4. Diagnóstico .......................................................................................................................17 2.5. Tratamento e prevenção ..................................................................................................19 3. RELATO DE CASO ................................................................................................... 22 4. DISCUSSÃO ............................................................................................................... 23 5. CONCLUSÃO ............................................................................................................. 24 9 1. INTRODUÇÃO O gato tornou-se o animal de estimação mais popular nos EUA, no Canadá e no norte da Europa, e sua popularidade continua a crescer (SLATER, 2003). O convívio com os gatos é capaz de diminuir a pressão arterial e o risco de depressão e solidão, bem como reduzir a probabilidade de um segundo infarto do miocárdio em seus tutores (MENDES-DE- ALMEIDA; PAIXAO; LABARTHE, 2005). No entanto, o crescimento da população mundial de felinos e sua concentração em pequenos grupos ou colônias estimularam o aumento e a persistência de infecções por agentes patogênicos (ALMEIDA et al, 2012). Várias coelhodoenças em felinos são diariamente defrontadas na prática clínica, enfermidades estas, em sua maioria, causadaspor agentes infecciosos como vírus, bactérias, fungos e protozoários (GREENE, 2015). Entre as doenças infecciosas, as retrovirais como a leucemia vírica felina, causada pelo vírus da leucemia felina (FeLV) e a imunodeficiência vírica felina, causada pelo vírus da imunodeficiência felina (FIV) representam uma importante causa de morbidade e mortalidade nos gatos domésticos (LINENBERGER; ABKOWITZ, 1995; AMSTUTZ, 2014). Na prática clínica felina é cada vez mais frequente encontrar gatos com diagnóstico positivo a estas doenças, no entanto, apenas são testados menos de um quarto dos animais (HARTMANN 2004b; LEVY et al, 2008). No tocante à FeLV, a descoberta do vírus foi determinante para o avanço da oncologia viral e os estudos acerca da sua infecção influenciam diretamente os trabalhos que conduzem ao desenvolvimento dos retrovírus humanos (GROTTI, 2007). O virús da leucemia felina consiste em um Gammaretrovirus (COELHO et al, 2011), pertence à família Retroviridae, (GREENE, 2015), é um retrovírus RNA fita simples, envelopado, que acomete felinos domésticos (GROTTI, 2007). A infecção pelo FeLV ocorre em todo o mundo sendo considerada responsável por uma alta taxa de mortalidade entre os felinos (HARTMANN, 2004b). A transmissão ocorre pelas vias vertical e horizontal, principalmente pela saliva (ALVES et al, 2015). O resultado da infecção pode ser de quatro tipos: abortiva, progressiva, regressiva e focal ou atípica (GREENE, 2015). O vírus ocasiona várias síndromes clínicas, destacando-se linfomas e leucemias, anemia e imunodepressão (HARTMANN, 2004b). O diagnóstico envolve a detecção de antígeno p27 (ensaio imunoenzimático e Ensaio de Imunofluorescência de anticorpos) e Ácido Ribonucleico (RNA) viral ou Ácido Desoxirribonucleico (DNA) proviral (reação em cadeia da polimerase - PCR) (GALDO NOVO et al, 2016). Não há tratamento efetivo, mas drogas antivirais e 10 imunomoduladoras já foram utilizadas, amenizar os sintomas causados pelas infecções O controle envolve teste e isolamento e vacinação (TORRES et al, 2010), além de medidas de higiene sendo certo que vírus não representa risco de saúde pública (CUNHA et al., 2014). O presente trabalho teve por objetivo relatar um caso de um animal da espécie felina, sem raça definida, com aproximadamente dez anos de idade acometido pela leucemia felina viral, discorrendo a respeito dos sinais clínicos, diagnóstico e tratamentos realizados. 11 2. REVISÃO DE LITERATURA 2.1. Etiopatogenia e dinâmica da infecção O processo de infecção por FeLV, inclui inoculação seguida de replicação do vírus nos tecidos linfoides, local e sistêmico, medula óssea e tecido poliglandular (NORSWORTHY, 2006). Após a inoculação, oronasal ou percutânea, o FeLV replica no tecido linfoide local e, em seguida, nos tecidos linfoides sistêmicos distribuídos pelo corpo, como linfonodos, baço e timo (SHERDING, 2013). Neste estágio inicial, o antígeno viral pode ser detectado no sangue (antigenemia) com o auxílio do exame de ensaio imunossorvente ligado á enzima (ELISA) (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). Neste estágio ou mesmo antes do antígeno atingir a corrente sanguínea, uma resposta imune efetiva pode findar a infecção (TURRAS, 2014). Caso a infecção progrida, ocorrerá acometimento da medula óssea, induzindo à liberação de leucócitos e plaquetas infectadas pelo vírus na circulação (viremia), os quais são detectados no corpo através do exame de pesquisa de anticorpos imunofluorescentes (NORSWORTHY, 2006). Desta forma, ter-se-á uma indicação de que o FeLV ultrapassou a resposta imune do hospedeiro, instalando-se uma provável infecção que persiste indefinidamente (SHERDING, 2013; GREENE, 2015). Simultaneamente ao desenvolvimento da viremia, o FeLV infecta células glandulares, como glândulas salivares, mamárias, lacrimais e do epitélio de mucosas (WILLET; HOSIE, 2013). Assim, é exatamente neste momento que ocorre a maior excreção do vírus através das secreções corporais, com alta de vírus especialmente na saliva e leite de fêmeas lactantes (ALVES et al, 2015; ALMEIDA et al, 2012). A partir daí, animais infectados com FeLV são fontes de contaminação para outros animais que vivem em estreito contato (SOUZA; TEIXEIRA, 2003; COHN, 2009; CHHETRI et al, 2013; AMSTUTZ, 2014). Uma ação coletiva de anticorpos humorais, linfócitos T citotóxicos e outros imunomediadores, complemento e interferon, compõem a imunidade do animal ao FeLV (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). No tocante aos anticorpos humorais, as respostas foram classificadas em antiviral, a qual é mediada pelo anticorpo neutralizante direcionado contra os antígenos do envoltório do vírus (SIRAGE et al, 2014; ALVES et al, 2015). Em sendo efetiva a resposta imune, ocorre uma infecção transitória. No entanto, caso o vírus supere essa resposta imune, instala-se uma infecção na medula óssea e viremia persistente (SHERDING, 2013; GREENE, 2015). 12 De outro modo, com relação à segunda classificação, tem-se a resposta antineoplásica, a qual é medida por anticorpos direcionados a antígenos associados ao FeLV, presentes na superfície de células neoplásicas induzidas pelo vírus (JARRETT; HOSIE, 2006). Ademais, o resultado da exposição ao Felv depende de vários fatores, inclusive do inóculo viral e via de contaminação, das condições ambientais e dos fatores intrínsecos ao hospedeiro, como idade, imunidade inata, condições de vacinação e estado de saúde (TEIXEIRA et al., 2007; BICHARD; SHERDING, 2013). Desta forma, os animais infectados podem ser considerados como não infectados, com infecção persistente, infecção transitória ou infecção latente (HARTMANN, 2004b; GROTTI, 2007; GREENE, 2015). No tocante a resistência do animal à infecção, vários felinos são expostos ao FeLV, no entanto, não contraem a infecção em razão de uma resistência inata ou em virtude da contaminação insuficiente (GREENE, 2015). A maior parte dos animais expostos desenvolve uma infecção transitória (regressiva), a qual é subsequentemente interrompida por uma eficaz resposta imune, resultando em completa recuperação clínica (CRAWFORD, 2017). Animais nestas condições desenredam-se do vírus rapidamente, dentro de 4 a 6 semanas após a exposição, no entanto, podem excretar o vírus em qualquer estágio, ainda que raramente, por meses ou anos como hospedeiros persistentes (BICHARD; SHERDING, 2013). Animais imunizados de forma adquirida (vacinação), por ocasião do contágio, resistem à infecção persistente, porém, apresentam infecção transitória de curta duração (CRAWFORD, 2017). Contudo, os animais com infecção transitória frequentemente desenvolvem infecção latente durante a recuperação (GROTTI, 2007; HARTMANN, 2004b). Já com relação à infecção latente, o provírus FeLV não-replicante permanece latente no genoma do DNA da medula óssea e células linfoides do animal sendo tal condição detectada somente por técnicas de cultura viral ou através de PCR, (reação em cadeia de polimerase), razão pela qual não se detecta de maneira evidente, animais que podem ter eliminado o vírus daquele com infecção latente (FIGUEIREDO; ARAÚJO JÚNIOR, 2011). O final da fase de latência, na maioria dos animais, finda após 6 a 9 meses, como parte da recuperação normal (GREENE, 2015). De outra forma, a fase de infecção persistente ou progressiva ocorre quando o vírus progride por todos os estágios (NORSWORTHY, 2006; MEINERZ et al, 2010). Tanto o vírus livre quanto o associado às células estão presentes no sangue e há disseminação para tecidos glandulares múltiplos e epiteliais, incluindo as glândulas salivares e mucosas da faringe e 13 laringe, potencializando a transmissão(HARTMANN, 2004b AMSTUTZ, 2014;). A viremia persistente ocorre em aproximadamente 30% dos gatos. Porém, filhotes infectados intra útero ou entre 6-14 semanas geralmente não são capazes de desenvolver resposta imune, passando para 80% dos animais com viremia persistente (SOUZA; TEIXEIRA, 2003; COSTA; NORSWORTHY, 2011). A infecção pelo FeLV pode resultar em morte rápida ou em uma doença breve após a viremia (quatro a oito semanas). Entretanto, em muitos gatos, o aparecimento de manifestações clínicas requer meses, e comumente anos, de replicação viral (RAVAZZOLLO; COSTA, 2007). 2.2. Epidemiologia A leucemia felina viral pode infectar tanto os gatos domésticos como outros felinos selvagens, tendo sido descrita a infecção no Felis silvestres (SCHMITT et al., 2003) sendo que, segundo Souza; Teixeira (2003) o maior determinante dos limites do hospedeiro é a especificidade do subgrupo. A corroborar com esse entendimento, o pesquisador Ubertini em 1972, observou a possibilidade do vírus do FeLV se replicar, in vitro, em células diversa das células da espécie dos felídeos. Experimentalmente, foram realizadas replicações in vitro do FeLV, subgrupo B, em linhas celulares derivadas de felinos, caninos, ruminantes, suínos, roedores, primatas e humanos (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). A doença está distribuída mundialmente e a prevalência varia de acordo com diversos fatores, como a distribuição geográfica, o acesso à rua, a densidade elevada de gatos e o status sanitário destes (ALVES et al, 2015). As taxas de infecção variam de cerca de 1% em gatos domésticos criados isoladamente, até índices superiores a 30% em animais mantidos em gatis (MEINERZ et al, 2010). Não se sabe a prevalência exata da leucemia viral felina, pois os exames para diagnóstico da mesma não são obrigatórios, além disso, não há uma central de dados para informação dos resultados, e os testes de triagem muitas vezes não são confirmados por outros testes (ALMEIDA et al., 2012). Existem testes comercialmente disponíveis para o diagnóstico da doença em questão, e apesar disso, menos de um quarto dos gatos já foram testados (LEVY et al., 2006). A principal forma de transmissão é por meio do contado com saliva e secreções nasais de gatos infectados, assim, bebedouros e comedouros servem como fonte de contaminação. Filhotes podem ser contaminados por meio dos cuidados da mãe, via transplacentária ou pelo leite (ARJONA et al., 2000, MEHL, 2001, CHHETRI et al., 2013). Também pode ocorrer 14 transmissão via urina, fezes, aerossóis e o meio ambiente, porém essas são fontes menos comuns de transmissão, visto que o vírus não sobrevive por muito tempo em tais meios (GREENE, 2015). Pode ser transmitido ainda de forma iatrogênica, por meio de seringas e agulhas contaminadas, bem como instrumentos cirúrgicos e transfusão sanguínea (ARJONA et al., 2000, MEHL, 2001). O FeLV é sensível ao meio ambiente e pode ser inativado por detergentes comuns, calor, álcool ou alvejante (MEHL, 2001, HARTMAN, 2004b, LEVY et al., 2008). Sem o uso de produtos químicos, o vírus sobrevive no ambiente por apenas uma semana (FIGUEIREDO; ARAÚJO JUNIOR, 2011; ALMEIDA et al., 2012). A literatura cientifica preconiza que o principal fator que determina se o animal exposto ao vírus da leucemia felina irá ou não desenvolver a doença consiste na idade em que o animal se encontrava ao ser infectado (CHHETRI et al., 2013; SHERDING, 2013), sendo que animais infectados até aos quatro ou cinco meses de vida têm uma maior probabilidade de desenvolver uma infecção progressiva, idade a partir da qual os animais começam a desenvolver resistência à infecção (MEINERZ et al, 2010; WILLET; HOSIE, 2013; ALVES et al, 2015). Os machos adultos também parecem ter uma maior predisposição para infecção por FeLV, uma vez que são os animais que mais facilmente se envolvem em lutas com outros gatos. (TEIXEIRA et al., 2007; ORTEGA-PACHECO et al., 2014) Apesar disso, há autores que defendem que não existe qualquer predisposição de gênero (GREENE, 2015). Para, além disso, casas com múltiplos gatos também estão predispostas à transmissão do FeLV, particularmente através do grooming (ALVES et al, 2015). 2.3. Sinais e síndromes clínicas As manifestações clínicas ocorridas em virtude da infecção pelo FeLV se demonstram variadas e inespecíficas, dependem do sistema envolvido e da presença de doenças secundárias (ALMEIDA et al, 2012; ALVES et al, 2015). Alguns sinais clínicos são relatados em literatura e de modo geral, os animais apresentam mucosa pálida, dispneia, letargia, anorexia, emagrecimento progressivo, febre, gengivite/estomatite, uveíte, diarreia e abscessos que não cicatrizam. Ao exame clínico pode se verificar massas abdominais palpáveis, organomegalia (baço, fígado e rim) (LINENBERGER; ABKOWITZ, 1995; HARTMANN, 2004b; WILLET; HOSIE, 2013) e evidências de derrame pleural (GROTTI, 2007). 15 As doenças mais comumente causadas pela infecção progressiva por FeLV são as neoplasias, os distúrbios hematopoiéticos (HARTMANN, 2015a), doenças imunomediadas (RAMSEY; TENNANT, 2010), imunodepressão (QUINN et al, 2011) e outras síndromes, as quais se incluem distúrbios reprodutivos (HARDYet al, 1980) e neuropatias (HARTMANN, 2015a) o prognóstico para esses casos é desfavorável, muito embora permaneçam saudáveis por muitos anos, antes de alguma doença associada a FeLV se manifestar (CARMICHAEL; BIENZLE; MCDONNELL, 2002). Embora o vírus tenha recebido o seu nome com base na neoplasia maligna contagiosa que inicialmente o tenha feito chamar a atenção, os gatos infectados chegam, em sua maioria, ao veterinário não devido a tumores, mas sim a anemia ou doenças causadas por imunossupressão (SOUZA; TEIXEIRA, 2003; SPARKES; PAPASOULIOTIS, 2012). Segundo Turras (2014), em estudo realizado com 1.128 gatos infectados pelo FeLV examinados em hospitais veterinários universitários na zona norte de Portugal, os achados mais frequentes (15%) consistiram em várias coinfecções, incluindo peritonite infeciosa felina (PIF), infecção pelo vírus da imonodeficiência felina (FIV), infecção das vias respiratórias superiores, micoplasmose hemotrópica e presença do complexo gengivite / estomatite, seguidos de anemia (11%), linfoma (6%), leucopenia ou trombocitopenia (5%) e leucemia ou doença mieloproliferativa (4%). Em estudo inaugural realizado por William Jarrett em 1964, foram visualizadas partículas de vírus brotando da membrana de linfoblastos malignos, de onde se deduziu que um tumor semelhante quando injetado experimentalmente em gatos saudáveis é capaz de transmitir neoplasias (SOUZA; TEIXEIRA, 2003; FILONI; DIAS, 2005). As neoplasias mais comumente relacionadas ao FeLV são os linfomas, os quais muitas vezes atingem fígado, intestino delgado ou linfonodo mesentérico; mediastinal; e o multicêntrico (BEATTY, 2014). O linfoma mediastinal cresce próximo ao timo e pode resultar em efusão pleural, podendo apresentar dispneia ou regurgitação como sinais clínicos (CÁPUA et al, 2005). O linfoma localizado no sistema digestório pode ter como sinais clínicos a diarreia e vômito, e também perda de peso e anorexia (RAVAZZOLO, COSTA, 2007; TRABULSI, ALTERTHUM, 2008). Aproximadamente metade dos gatos com linfoma multicêntrico possuem resultado positivo para FeLV, e qualquer órgão pode estar envolvido nesse tipo de tumor (HARTMANN 2004b; LEVY et al, 2008). Pode ocorrer linfoma renal (DALEK; CALAZANS; NARDI, 2009) ou glomerulonefrite (ANJOS et al, 2012), levando à 16 falência renal e sinais como polidipsia, perda de peso, poliúria e incontinência urinária (TRABULSI, ALTERTHUM, 2008; GREENE, 2015). As leucemias também podem ser causadaspelo FeLV, acarretando em síndromes da supressão da medula óssea, devido ao descontrole mitótico e consequente aumento do número de células, levando à competição por espaço (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). Felinos infectados pelo FeLV possuem maiores chances de desenvolver linfoma que gatos não infectados (ALVES et al., 2015). Embora o vírus cause o aparecimento de neoplasias de caráter importante no animal, observa-se que os gatos infectados chegam, em sua maioria, ao veterinário não devido a neoplasmas, mas sim a anemia ou doenças causadas por imunossupressão (SHERDING, 2013; GREENE, 2015). O sistema hematopoiético também pode ser suprimido levando à mielossupressão com consequente anemia, neutropenia (persistente, transitória ou cíclica) trombocitopenia com disfunção plaquetária e anemia (regenerativa ou arregenerativa) (BEATTY, 2014). No que se refere à anemia é uma consequência comum, podendo corresponder a 25% das mortes relacionadas ao FeLV (SPARKES; PAPASOULIOTIS, 2012). Segundo Hartmann (2015a), apenas de 10% a 20% das anemias associadas ao FeLV são regenerativas, tendo resposta favorável ao tratamento, causadas por hemólise imunomediada, infecções hemotrópicas oportunistas ou hemorragia associada a trombocitopenia (SHERDING, 2013). As anemias arregenerativas perfazem a maioria, sendo atribuída às doenças inflamatórias ou desordem primária da medula óssea (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). O tipo de anemia mais comumente observada é a normocítica normocrômica com reticulocitopenia de formas agregadas e puntiformes, tendo como sinais clínicos a letargia, fraqueza, taquipneia, mucosas pálidas, esplenomegalia e hemorragia de retina (COWELL et al, 2009). Pancitopenia pode ser encontrada dentre as alterações hematológicas, medula apresentando-se hipocelular ou com áreas de necrose (HARTMANN, 2015a). Trombocitopenias geralmente são secundárias ao efeito supressor do vírus sobre a medula (PAULA et al, 2014). A linfopenia e neutropenia ocorrem durante a primeira fase da infecção por FeLV em razão do efeito citopático de replicação do vírus nos linfócitos e percursores granulocíticos (COLLADO et al, 2012). Leucopenia severa pode ser observada em razão de enterite e destruição do epitélio das criptas intestinais, tendo como sinais clínicos diarreia hemorrágica, vômito, anorexia e perda de peso (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). 17 Segundo Chaves et al (2018) em estudo epidemiológico realizado com 155 gatos com doenças neurológicas atendidos em hospital veterinário em 13 anos, os principais distúrbios neurológicos associados ao FeLV observados incluíram vocalização anormal, paralisia dos nervos ciliares levando à dilatação pupilar persistente, ataxia, paresia dos membros pélvicos ou tetraparalisia (associada ou não ao desenvolvimento de linfoma no canal medular) mudanças comportamentais, hiperestesia durante a palpação da pele e do dorso e incontinência urinária. Ao exame microscópico é possível se observar uma degeneração da substância branca, com dilatação da bainha de mielina e tumefação dos axônios na medula espinhal e tronco encefálico (PAULA et al, 2014). No que se refere às doenças imunomediadas, a causa é atribuída a uma resposta imune hiperativa ou desregulada ao FeLV, sendo que dentre as mais usualmente encontradas têm-se a anemia hemolítica autoimune (FIGHERA, 2007), glomerulonefrite (ANJOS et al, 2012), uveíte com depósito de imunocomplexos na íris e no corpo ciliar (PONTES; VIANA; DUARTE, 2006) e poliartrite (VIDAL JÚNIOR et al, 2016). A causa é justificada pela perda de atividade das células supressoras T e a formação de complexos antígeno-anticorpo (GREENE, 2015). A imunossupressão é a forma mais comum de apresentação clínica nos animais infectados e é resultante de uma disfunção imunológica e depleção linfoide (TRABULSI; ALTERTHUM, 2008; SIRAGE; LEAL; TAVARES, 2014), podendo causar lesões na pele, abcessos, doenças respiratórias crônicas e mau aspecto do pelo, com rarefação pilosa generalizada, bem como o complexo gengivite-estomatite (GREENE, 2015), o qual é caracterizado por um processo inflamatório grave que pode se cronificar, com presença de ulcerações na mucosa oral ou na língua pelo contato com áreas de doença periodontal intensa, mucosa pálida, dispneia, letargia, anorexia e emagrecimento progressivo (LINENBERGER; ABKOWITZ, 1995; HARTMANN, 2004b; WILLET; HOSIE, 2013). 2.4. Diagnóstico O diagnóstico da infecção baseia-se no histórico clínico e na detecção da proteína do nucleocapsídeo do FeLV (p27) nos leucócitos, plasma, soro, saliva ou lágrima dos animais suspeitos, sendo que os dois últimos possuem menor sensibilidade e especificidade (CRAWFORD, 2017). 18 Historicamente, o diagnóstico da infecção pelo FeLV era realizado com antigenemia com detecção de antígeno extracelular por ensaio imunoenzimático (Enzyme Linkedimmunosorbent Assay-ELISA), com detecção de antígeno intracelular por imunofluorescência direta (ZUCKERMAN, 2006), e viremia por isolamento em cultivo celular (HARTMANN, 2015). Segundo o autor acima citado, os testes para detecção do FeLV são utilizados como auxiliares ao diagnóstico de doenças associadas ao vírus, bem como na avaliação de rotina dos gatos sadios, investigações de infecções subclínicas e para identificação e eliminação de infecções por FeLV em gatis e abrigos. Os animais podem ser submetidos ao teste em qualquer idade, sendo que testes de triagem detectam antígenos e não os anticorpos, de modo que nem os anticorpos maternos tampouco os adquiridos por vacinação ou exposição viral prévia interferem no exame (LEVY et al, 2006; CRAWFORD, 2017). Tais testes se baseiam na detecção do antígeno nuclear viral p27, sendo que os testes com resultados positivos deveriam ser confirmados em razão das sérias consequências dos resultados positivos, bem como diante da probabilidade de falsos- positivos (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). Os métodos de diagnósticos mais utilizados para a detecção do vírus são o teste de imunofluorescência indireta (IFA) em esfregaços sanguíneos, utilizando anticorpos específcos para as proteínas do capsídeo; e o ensaio imunoenzimático (ELISA). O teste de imunofluorescência direita (IFA) tem a capacidade de detectar antígenos estruturais como a p27 e a p55 que estão presentes nos leucócitos infectados, o que só é possível após a viremia (COUTO, 2015). O uso de anticorpos monoclonais em combinação com ensaios imunossorbentes ligados a enzimas (ELISA), conhecidos também como ensaios imunoenzimáticos, tem sido explorado devido ao rápido desenvolvimento de novos kits para testes de diagnóstico (PAULA et al, 2014). As vantagens dos métodos biotecnológicos são simplicidade, rapidez, sensibilidade e conveniência, bem como de extrema utilidade nos diagnósticos clínicos (LEVY et al, 2006; CRAWFORD, 2017). Os kits de testes ELISA foram desenvolvidos para a detecção de anticorpos séricos para os 27 antígenos proteicos grupo-específicos do FeLV, sendo que menos de um mililitro de soro ou sangue total é necessário e os resultados são determinados visualmente em curto tempo, com mínimo esforço (GREENE, 2015). As reações positivas (as quais podem ocorrer em 3%de todos os gatos) são indicativas de infecções, as quais podem ser transitórias, latentes 19 ou persistentes (GALDO NOVO et al, 2016). A positividade em uma única amostra deve ser isolada e testada novamente com um intervalo de um mês para se determinar o estado infeccioso (FIGUEIREDO; ARAÚJO JÚNIOR, 2011). Uma observação tem sido reportada, sugerindo que 10 a 30% dos gatos infectados pelo vírus da leucemia sejam negativos tanto para o teste ELISA quanto para o teste com anticorpos imunofluorescentes, podendoo teste negativo induzir a erro, caso o animal esteja na fase inicial ou recente em que não existem anticorpos circulantes para a sua detecção (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). Existem kits comerciais de testes imunocromatográfcos que fornecem o resultado em poucos minutos, porém estes testes sorológicos apresentam custo elevado. O isolamento viral é pouco utilizado por ser trabalhoso e demorado, embora possa atuar como teste confirmatório por meio da detecção de antígenos virais em células do sangue periférico (FIGUEIREDO, ARAÚJO JÚNIOR, 2011). Testes moleculares para detecção do DNA proviral nos animais infectados, como a reação em cadeia da polimerase (PCR), vêm sendo adaptados para o diagnóstico, mas ainda não estão padronizados (GROTTI, 2007). A PCR positiva para o FeLV indica presença do DNA proviral exógeno, porém não necessariamente pode ser utilizada como diagnóstico para a viremia. Entretanto, a reação em cadeia de polimerase detecta a presença do RNA viral e informa o desenvolvimento de viremia nos animais infectado (GROTTI, 2007; GREENE, 2015). A American Association of Feline Practitioners (AAFP) e o European Advisor Board on Cat Diseases (ABCD) recomendam que o diagnóstico de FeLV deva ser realizado com teste de triagem pela detecção de antígeno por ELISA, sendo todo resultado positivo confirmado com um segundo teste para detectar o antígeno p27 ou o DNA proviral por reação em cadeia da polimerase, após um período de um mês do teste de triagem. A reação em cadeia da polimerase é recomendada para diagnóstico precoce, uma vez que detecta DNA proviral na primeira semana após infecção (LEVY et al., 2008). 2.5. Tratamento e prevenção Como tratamento da doença, drogas antivirais têm sido propostas, como a zidovudina ou azidotimidina (AZT) que é uma inibidora da transcriptase reversa, seu uso tem sido muito estudado, porém a administração em felinos persistentemente virêmicos não tem eliminado a viremia (LEVY et al., 2006). 20 Pode ter melhora dos sinais clínicos em alguns casos utilizando-se a imunoterapia, com drogas como proteína A do Staphylococcus spp., Proprionibacterium acnes, acermannan, ou interferon-α humano (MEHL, 2001). Em gatos que desenvolveram neoplasias deve ser feito tratamento com combinações de drogas quimioterápicas, para ter uma melhor chance de remissão completa. É comum a combinação de doxorrubicina com vincristina, prednisona e ciclofosfamida (HARTMANN 2004; LEVY et al, 2008). Para aqueles com doenças oportunistas, seus agentes devem ser controlados usando tratamentos específicos. Quanto a tratamentos suportes, para casos em que há anemia arregenerativa, a vitamina B12, ácido fólico e eritropoetina normalmente não são bem sucedidas, mas pode responder a transfusões sanguíneas (MEHL, 2001). O tratamento do FeLV não resulta em cura, apenas em remissão, uma vez que o vírus permanece viável no organismo, desta forma há possibilidade de contágio e podem ocorrer remissões (TRABULSI, ALTERTHUM, 2008; GREENE, 2015). Os gatos infectados pelo FeLV devem ser mantidos no interior de suas residências, em ambiente limpos, tranquilos e bem ventilado (WISE et al., 2005). Recomenda-se dieta rica em nutrientes, balanceada e completa, reduzindo o impacto de infecções secundárias de origem bacteriana e parasitaria (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). A melhor forma de prevenção contra a infecção é diminuir a exposição dos animais, identificando e segregando os positivos, além de promover a limpeza dos ambientes com desinfetantes comuns. Para o controle de colônias (gatis) deve se remover todos os animais. Os contactantes devem ser sorologicamente testados e evitar introduzir animais novos até retestar todos os animais (CARTER, 2005). A vacinação também é preconizada com vacinas inativadas do vírus completo, de recombinação genética ou subunidades protéicas, derivadas de células infectadas pelo vírus da FeLV (CHANDLER, et al., 2006). A primo-vacinação é recomendado em animais com pelo menos oito semanas, e o reforço com intervalo de 3 a 4 semanas. A revacinação deve ser anual. O local indicado para a aplicação é a face lateral da porção distal do membro pélvico esquerdo (SOUZA; TEIXEIRA, 2003), ou na cauda (CHANDLER, et al., 2006), já que os adjuvantes da vacina podem induzir a formação de sarcomas (SOUZA; TEIXEIRA, 2003). A sobrevida de animais FeLV positivos assintomáticos é de dois a três anos (SOUZA; TEIXEIRA, 2003; GREENE, 2015). O prognóstico piora com a co-infecção de doenças relacionadas ao FeLV (SOUZA; TEIXEIRA, 2003; NORSWORTHY et al., 2004). Cerca de 21 80% dos gatos persistentemente virêmicos morrem por doenças associadas e 20 % por neoplasia (BEATTY, 2014). 22 3. RELATO DE CASO Foi encaminhado para atendimento na clínica veterinária São Bernardo, localizada no município de Espírito Santo do Pinhal/SP, um felino, sem raça definida, não castrado, com 10 anos de idade, com hábito de ir a rua e brigar com outros animais, com histórico de inapetência, anorexia, disfagia e sialorreia com estrias de sangue. Ao ser avaliado, foi observado um tempo de preenchimento capilar de quatro segundos, aumento de linfonodos submandibulares, gengivite, úlceras em cavidade oral, baixo escore corporal, rarefação pilosa generalizada e alopecia focal em dorso. A tutora informou que o animal havia recebido o diagnóstico de gengivite-estomatite a um tempo, que foi tratado com metronidazol e prednisolona, mas que sempre ocorriam recidivas. Diante do quadro, foi conduzido hemograma com contagem de plaquetas, exames bioquímicos, como ureia, creatinina, transaminase glutâmica pirúvica, fosfatase alcalina e imunoensaio enzimático no soro para detecção de FIV e FeLV. No primeiro hemograma (anexo I) foi evidenciado anemia normocítica normocrômica, desvio a esquerda regenerativo e trombocitopenia, com hematócrito de 11%. Diante disso, decidiu-se por uma transfusão sanguínea. Com relação aos exames bioquímicos, não se verificou alterações. O exame para FIV e FeLV foi encaminhado para o laboratório Hermes Pardini, apresentando resultado positivo para FeLV (anexo II). Dois dias após a transfusão, um novo hemograma foi realizado, apresentando hematócrito de 17% (anexo III). Transcorrido quatro dias, houve uma piora progressiva no quadro clínico e o animal retornou à clínica, ocasião em que foi solicitado novo hemograma, demonstrando um agravamento no eritrograma, com hematócrito de 6%. Frente a esta situação e pela impossibilidade de restabelecimento da saúde do animal, foi realizada, por opção da tutora, a eutanásia. 23 4. DISCUSSÃO Os sinais clínicos apresentados pelo animal no caso em questão, claramente corroboram com as citações de Linenberger; Abkowitz (1995); Hartmann, (2004b); Willet; Hosie (2013), presumindo se tratar de uma infecção por FeLV. No entanto, a eventual presença do FeLV acarretou o desenvolvimento de uma infecção secundária, a gengivite- estomatite, sendo este o diagnóstico determinado e tratado até o animal ser encaminhado para a clínica citada no relato. Com relação aos resultados apontados no exame hematológico, a anemia normocítica normocrômica, desvio a esquerda regenerativo e trombocitopenia, bem como o baixo nível de hematócrito, também são sinais da infecção por FeLV, a qual suprime o sistema hematopoiético, levando à mielossupressão (BEATTY, 2014). Confirmando o que a literatura afirma a respeito do diagnóstico efetivo para FeLV (LEVY et al, 2006; CRAWFORD, 2017), no caso em relato, o diagnóstico utilizado foi satisfatório, detectando através do ensaio imunoenzimático positivo, a presença de anticorpos. No tocanteao tratamento, o animal fazia uso de medicações específicas para gengivite-estomatite, no entanto, o FeLV presente em seu organismo impedia a terapêutica satisfatória da infecção oral, fazendo com que houvessem recidivas intermitentes, o que se justifica pela disfunção imunológica e depleção linfoide, como citado por Trabulsi; Alterthum (2008); Sirage; Leal; Tavares (2014), causada pelo FeLV, dificultando respostas imunes. Porém, em se verificando a presença de uma infecção norteada por recidivas, dado o histórico de livre acesso a rua e contato direto com outros animais por brigas, após vários tratamentos infrutíferos, o exame para FeLV, deveria ter sido realizado de pronto, o que, eventualmente poderia ter impedido o desfecho do caso em questão. 24 5. CONCLUSÃO A leucemia felina viral é uma enfermidade que acomete um grande número de animais, em razão de sua transmissibilidade facilitada pelo contato direto, do grande número de animais com livre acesso à rua, cujo comportamento os coloca em risco de infecção. No tocante aos sinais clínicos, tem-se que os mesmos são dependentes do sistema envolvido e da presença de doenças secundárias, portanto, em se verificando a existência de enfermidades não remissivas frente a reiterados tratamentos, a suspeita deve recair-se sobre a possível infecção pelo FeLV. Persistência e recidivas de quadros infecciosos causado por infecções advindas de supressões imunológicas, a realização de teste para FeLV deve ser conduta clínica primordial, haja vista o grande número de relatos encontrados em literatura consolidando a temática. Portanto, o presente estudo foi conclusivo para se verificar a relevância de se realizar o exame especifico para o FeLV, em se tratando de animal da espécie felina, com histórico de predisposição ao vírus, bem como diante da apresentação de sinais clínicos inerentes a infecções secundárias, comuns nos casos de FeLV. Pertinente ainda ressaltar, que a vacinação nos felinos deve ser realizada indiscriminadamente, como forma de prevenção da infecção. 25 6. REFERÊNCIAS ALMEIDA, N. R.; DANIELLI, M. G.; DA SILVA, L. H.; HAGIWARA, M. K.; MAZUR, C. Prevalence of feline leukemia virus infection in domestic cats in rio de janeiro. Journal of Feline Medicine and Surgery, v.14, n.8, 2012, 583-586. ALVES, M. C. R.; CONTI, L. M. C.; ANDRADE JÚNIOR, P. S. C.; DONATELE, D. M. Leucemia viral felina: revisão. Publicações em Medicina Veterinária e Zootecnia. v.9, n.2, 2015, p.86-100. AMSTUTZ, H. E. Manual MERK de Veterinária. 10. ed. Brasil:Roca, 2014. 3472p. ANJOS, T. M.; VEADO, J. C. C.; VALLE, P. 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ANEXOS ANEXO I: Hemograma completo, ureia, creatinina, transaminase glutâmica pirúvica, fosfatase alcalina de felino, macho, 10 anos em 12 de junho de 2018. 10 11 ANEXO II: FIV/FELV – Leucemia Viral Felina – Imunodeficiência de felino, macho, 10 anos em 14 de junho de 2018. 12 ANEXO III: Hemograma completo de felino, macho, 10 anos em 15 de junho de 2018. 13 ANEXO IV: Hemograma completo de felino, macho, 10 anos em 19 de junho de 2018.