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LIVRO I PORTUGUÊS PARA DESESPERADOS PROFESSORA CAROL MENDONÇA 
TEXTO I
Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal fica verde e eu continuo.
"Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão enganados.
Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem. Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma. O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e sujas.
Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos, engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras. (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos seria general.)
Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas pelas universidades.
Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de vestibular?
Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio. Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes maior que o número de empregos.
Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre" que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista, encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas, as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais rendosas.
Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004)
1. (ITA 2016) De acordo com o autor,
A ( ) a escolha certa do curso universitário é a garantia de sucesso profissional.
B ( ) é aconselhável que o universitário concilie o curso superior com uma formação alternativa.
C ( ) é imprescindível mais de uma formação universitária como garantia de futuro bem sucedido.
D ( ) é recomendável que as universidades ofereçam cursos para formação de trabalhadores manuais.
E ( ) o diploma universitário, aliado a cursos de curta duração, possibilita o amadurecimento do jovem.
2. (ITA 2016) O autor mostra-se
A ( ) contrário à realização dos vestibulares atuais.
B ( ) otimista quanto à realidade educacional brasileira.
C ( ) simpático às atividades informais não assalariadas.
D ( ) realista quanto à oferta limitada de emprego para os diplomados.
E ( ) contrário aos critérios de seleção de instituições privadas de ensino.
3. (ITA 2016) De acordo com o texto, uma expectativa da sociedade brasileira que ainda se mantém é
A ( ) a carreira sacerdotal como forma de ascensão social.
B ( ) a carreira militar como garantia de rápida progressão profissional.
C ( ) o casamento como garantia de segurança econômica para as mulheres.
D ( ) a aprovação em concurso público como garantia de sucesso profissional.
E ( ) o diploma universitário como garantia de emprego e reconhecimento social.
4. (ITA 2016) Assinale a opção que NÃO sustenta a tese do autor.
A ( ) Há profissionais diplomados sem emprego.
B ( ) Há diplomados descontentes com a carreira que escolheram.
C ( ) As melhores opções de carreira são as oferecidas pelas universidades.
D ( ) Existem ofícios mais rentáveis que algumas carreiras de nível superior.
E ( ) Há quem tenha trocado a profissão em que se diplomou por outro ofício.
5. (ITA 2016) Considere a frase seguinte no seu contexto: “Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais”. O sintagma sublinhado diz respeito à
A ( ) formação universitária. B ( ) escolha profissional.
C ( ) estabilidade financeira. D ( ) conquista de um emprego público.
E ( ) obtenção de status social.
6. (ITA 2016) Assinale a opção que apresenta características de coloquialidade.
A ( ) Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. (linha 1)
B ( ) O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo! (linha 8)
C ( ) Aí o sinal fica verde e eu continuo. (linhas 8 e 9)
D ( ) Acabaram de chegar ao último patamar. (linhas 13 e 14)
E ( ) O diploma era mais que garantia de emprego. (linha 24)
7. (ITA 2016) Assinale a opção em que o verbo ter apresenta valor semântico diferente das demais.
A ( ) As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos [...]. (linha 14)
B ( ) [...] as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. (linha 15)
C ( ) [...] como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham as mãos rudes e sujas. (linhas 25 e 26)
D ( ) Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. (linha 34)
E ( ) Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade,à posição de reitor [...] (linha 53)
Texto II
Com o declínio da velha lavoura e a quase concomitante ascensão dos centros urbanos, precipitada grandemente pela vinda, em 1808, da Corte Portuguesa e depois pela Independência, os senhorios rurais principiam a perder muito de sua posição privilegiada e singular. Outras ocupações reclamam agora igual eminência, ocupações nitidamente citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais.
É bem compreensível que semelhantes ocupações venham a caber, em primeiro lugar, à gente principal do país, toda ela constituída de lavradores e donos de engenhos. E que, transportada de súbito para as cidades, essa gente carregue consigo a mentalidade, os preconceitos e, tanto quanto possível, o teor de vida que tinham sido atributos específicos de sua primitiva condição.
Não parece absurdo relacionar a tal circunstância um traço constante de nossa vida social: a posição suprema que nela detêm, de ordinário, certas qualidades de imaginação e “inteligência”, em prejuízo das manifestações do espírito prático ou positivo. O prestígio universal do “talento”, com o timbre particular que recebe essa palavra nas regiões, sobretudo, onde deixou vinco mais forte a lavoura colonial e escravocrata, como o são eminentemente as do Nordeste do Brasil, provém sem dúvida do maior decoro que parece conferir a qualquer indivíduo o simples exercício da inteligência, em contraste com as atividades que requerem algum esforço físico.
O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Não significa forçosamente, neste caso, amor ao pensamento especulativo, – a verdade é que, embora presumindo o contrário, dedicamos, de modo geral, pouca estima às especulações intelectuais – mas amor à frase sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. E que para bem corresponder ao papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento de conhecimento e de ação.
Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais, como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza. Aliás, o exercício dessas qualidades que ocupam a inteligência sem ocupar os braços, tinha sido expressamente considerado, já em outras épocas, como pertinente aos homens nobres e livres, de onde, segundo parece, o nome de liberais dado a determinadas artes, em oposição às mecânicas que pertencem às classes servis.
(Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984, p. 50-51)
8. (ITA 2016) Assinale a opção que expressa o que há de comum nos Textos 1 e 2.
A ( ) Os equívocos nas escolhas profissionais dos jovens.
B ( ) A absorção de profissionais de trabalho intelectual pelo mercado.
C ( ) O crescimento dos centros urbanos e das profissões que lhes são típicas.
D ( ) A valorização do trabalho intelectual em detrimento do trabalho manual.
E ( ) A formação histórico-social da distinção entre o trabalho intelectual e manual.
9. (ITA 2016) No Texto 2, há predominância do tom
A ( ) saudosista. B ( ) crítico. C ( ) sarcástico. D ( ) cômico. E ( ) revoltado.
10. (ITA 2016) O emprego das aspas em “inteligência” (linha 10) e “talento” (linha 11) tem a função de
I. realçar ironicamente essas palavras.
II. retomar uma explicação dada anteriormente.
III. destacar que essas palavras não são peculiares ao estilo do autor.
Está(ão) correta(s) apenas:
A ( ) I. B ( ) I e II. C ( ) I e III. D ( ) II. E ( ) II e III.
11. (ITA 2016) O efeito de humor da tirinha abaixo se deve:
A ( ) à postura desobediente de Mafalda diante da mãe.
B ( ) à resposta autoritária da mãe de Mafalda à pergunta da filha.
C ( ) ao uso de palavras em negrito e cada vez maior do 2º ao 4º quadrinho.
D ( ) ao fato de aparecer apenas a fala da mãe de Mafalda e não sua imagem.
E ( ) aos sentidos atribuídos por Mafalda para as palavras “títulos” e “diplomamos”.
12. (ITA 2016) O poema é de Ivan Junqueira. 
Flor amarela
Atrás daquela montanha
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.
Porém, se atrás daquela
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.
(Em: Poemas reunidos. Rio de Janeiro:Record, 1999.)
O texto,
I. na 1ª estrofe, trata da infância por meio de metáforas construídas
com elementos naturais (“montanha” e “flor amarela”).
II. na 2ª estrofe, por meio da conjunção “porém”, rompe com a
representação metafórica presente na 1ª estrofe.
III. na sequência da 1ª para a 2ª estrofe, faz com que as metáforas
apontem mais para a interioridade do sujeito que para a
exterioridade da natureza.
Está(ão) correta(s) apenas
A ( ) I. B ( ) I e II. C ( ) I e III. D ( ) II. E ( ) II e III.
13. (ITA 2016) A adivinha é um gênero da oralidade popular que formula construções como: “O que é, o que é: tem escamasmas não é peixe, tem coroa mas não é rei? O abacaxi!. Ela consiste num jogo enigmático de perguntas que, por conter dualidades e oposições, leva o ouvinte a pensar. Considerando essa definição, leia o poema abaixo de Orides Fontela.
Adivinha
O que é impalpável
mas
pesa
o que é sem rosto
mas
fere
o que é invisível
mas
dói.
(Em: Teia. São Paulo: Geração Editorial, 1996.)
Considere as seguintes afirmações:
I. O poema mantém alguns traços formais da adivinha popular.
II. Como a adivinha popular, a do poema possui uma única resposta, que
é um elemento concreto.
III. A adivinha do poema é uma reinvenção da adivinha popular.
Está(ão) correta(s) apenas: 
A ( ) I. B ( ) I e II. C ( ) I e III. D ( ) II. E ( ) II e III.
TEXTO III - MULHER BOAZINHA (Martha Medeiros) 
 Qual o elogio que uma mulher adora receber? Bom, se você está com tempo, pode-se listar aqui uns setecentos: mulher adora que verbalizem seus atributos, sejam eles físicos ou morais. 
Diga que ela é uma mulher inteligente, e ela irá com a sua cara. Diga que ela tem um ótimo caráter e um corpo que é uma provocação, e ela decorará o seu número. Fale do seu olhar, da sua pele, do seu sorriso, da sua presença de espírito, da sua aura de mistério, de como ela tem classe: ela achará você muito observador e lhe dará uma cópia da chave de casa. 
Mas não pense que o jogo está ganho: manter o cargo vai depender da sua perspicácia para encontrar novas qualidades nessa mulher poderosa, absoluta. Diga que ela cozinha melhor que a sua mãe, que ela tem uma voz que faz você pensar obscenidades, que ela é um avião no mundo dos negócios. 
Fale sobre sua competência, seu senso de oportunidade, seu bom gosto musical. Agora quer ver o mundo cair? Diga que ela é muito boazinha. Descreva aí uma mulher boazinha. Voz fina, roupas pastel, calçados rente ao chão. Aceita encomendas de doces, contribui para a igreja, cuida dos sobrinhos nos finais de semana. Disponível, serena, previsível, nunca foi vista negando um favor. Nunca teve um chilique. Nunca colocou os pés num show de rock.
 É queridinha. Pequeninha. Educadinha. Enfim, uma mulher boazinha.
 Fomos boazinhas por séculos. Engolíamos tudo e fingíamos não ver nada, ceguinhas. Vivíamos no nosso mundinho, rodeadas de panelinhas e nenezinhos. A vida feminina era esse frege: bordados, paredes brancas, crucifixo em cima da cama, tudo certinho. Passamos um tempão assim, comportadinhas, enquanto íamos alimentando um desejo incontrolável de virar a mesa. Quietinhas, mas inquietas. Até que chegou o dia em que deixamos de ser as coitadinhas. Ninguém mais fala em namoradinhas do Brasil: somos atrizes, estrelas, profissionais. 
Adolescentes não são mais brotinhos: são garotas da geração teen. Ser chamada de patricinha é ofensa mortal.Pitchulinha é coisa de retardada. Quem gosta de diminutivos, definha. Ser boazinha não tem nada a ver com ser generosa. Ser boa é bom, ser boazinha é péssimo. As boazinhas não têm defeitos. Não têm atitude. Conformam-se com a coadjuvância. PH neutro. Ser chamada de boazinha, mesmo com a melhor das intenções, é o pior dos desaforos. Mulheres bacanas, complicadas, batalhadoras, persistentes, ciumentas, apressadas, é isso que somos hoje. Merecemos adjetivos velozes, produtivos, enigmáticos. As “inhas” não moram mais aqui. Foram para o espaço, sozinhas.
14 (AFA 2015) - O principal objetivo do texto é: 
a) mostrar como as mulheres, após séculos de submissão, conquistaram o respeito masculino. 
b) descrever um perfil feminino que não é mais desejável nos dias de hoje. 
c) analisar o processo de libertação das mulheres que hoje assumem o controle de suas vidas. 
d ) instruir a mulher a não mais se adequar a um ideal de submissão e passividade.
 15 (AFA 2015) - Há, no texto, o predomínio da variante coloquial da língua. O único trecho abaixo que NÃO corrobora com essa afirmativa é: 
a) “Nunca teve um chilique.” b) “Descreve aí uma mulher boazinha.” 
c) “Pitchulinha é coisa de retardada.” d) “Ser boa é bom, ser boazinha é péssimo.” 
16 (AFA 2015) - Segundo o locutor, a mulher 
a) de qualquer época, adora ser lembrada principalmente por seus atributos físicos.
 b) era conformada com a situação na qual vivia, surgindo assim, por exemplo, as patricinhas. 
c) sempre ansiou expressar suas convicções, preferências e temperamentos. 
d) é chamada de boazinha porque gosta de cultivar a imagem de serena, educada e santa. 
17 (AFA 2015) - Observe as inferências feitas a partir da leitura global do texto e assinale a alternativa que contém uma afirmação INCORRETA. 
a) “Diga que ela cozinha melhor que a sua mãe” (l.16) é um argumento forte de valorização de uma mulher, já que há uma crença de que os homens consideram suas mães sempre as melhores cozinheiras de suas vidas. 
b) Depois que o homem ganha uma mulher através dos elogios certos, nas horas certas e que se referem aos atributos mais valorizados por ela, a conquista está garantida e o relacionamento está destinado ao sucesso.
 c) As mulheres hoje querem receber os elogios que as tratem como bacanas, complicadas, batalhadoras, persistentes, ciumentas, apressadas, velozes, produtivas e enigmáticas. 
d) Ao dizer que “as ‘inhas’ não moram mais aqui” e que “foram para o espaço, sozinhas”, o locutor afirma que as mulheres boazinhas perderam seu lugar social e ainda por cima ficaram sozinhas.
18 (AFA 2015) - Analise as assertivas feitas em relação ao que se discute no texto e as inferências possíveis acerca dessa discussão. Julgue-as como adequadas ou inadequadas. Em seguida, assinale a alternativa que contém apenas assertivas adequadas.
 I. As mulheres gostam de receber elogios e, quando os recebem, aceitam-nos e ficam mais receptivas não se preocupando muito com a veracidade deles. 
II. A expressão “bom” (l.2) é própria da linguagem oral e se encontra nesse texto escrito com o objetivo de chamar o leitor para estar mais próximo do locutor. III. As expressões “e ela irá com a sua cara” (l.5 e 6), “ela é um avião no mundo dos negócios” (l.17 e 18) e “quer ver o mundo cair” (l.21) foram empregadas para tornar o texto acessível a todo tipo de leitor, inclusive aos menos escolarizados.
 IV. No trecho que vai das linhas 5 a 20, o texto se apresenta com características injuntivas, ou seja, instruem o leitor a agir de uma forma que, segundo o locutor, irá causar boa impressão nas mulheres. 
V. “Namoradinha do Brasil” era um título concedido a celebridades que se encaixavam no perfil de mulher “boazinha”, ou seja, aquela que “nunca teve um chilique” (l.29) que “nunca colocou os pés num show de rock” (l.30), que vivia “rodeada de panelinhas e nenezinhos” (l.38 e 39) e, principalmente, conservava-se solteira para manutenção do título.
 VI. As mulheres hoje em dia, para serem valorizadas, não podem e não devem aceitar elogios que as associem às tarefas domésticas e aos seus atributos que não sejam aqueles relacionados à sua competência e ao seu novo papel na sociedade moderna. 
a) I, IV e VI c) I, II e IV b) I, II, IV e V d) II, III e VI 
19 (AFA 2015) - Leia os fragmentos abaixo: 
Quietinhas, mas inquietas. (l.45) Ser boa é bom, ser boazinha é péssimo. (l.56)
 I. O grau superlativo absoluto sintético foi utilizado para estabelecer a diferença entre as mulheres boas e as boazinhas. 
II. O paradoxo foi utilizado no primeiro fragmento para ressaltar a complexidade do comportamento feminino por meio da coexistência de aspectos opostos. 
III. Ambos os fragmentos apresentam como recursos expressivos o jogo com palavras cognatas e o uso da adversidade. 
Estão corretas as alternativas: 
a) I, II e III. b) II e III apenas. c) I e III apenas. d) I e II apenas.
20 - Consideramos como elementos de coesão todas as palavras ou expressões que servem para estabelecer elos, para criar relações entre os segmentos do discurso. Nesse sentido, assinale a alternativa que apresenta uma análise INCORRETA.
 a) O vocábulo “enfim” (l.34) introduz uma conclusão do que foi apresentado anteriormente e poderia ser substituído por “não obstante” sem modificação semântica. 
b) O conectivo “mas” (l.13) provoca uma inversão no sentido da argumentação que vinha sendo desenvolvida até então. 
c) “Isso” (l.64) é um anafórico que abarca a totalidade do que é ser mulher hoje. 
d) O vocábulo “até” (l.46) indica limite temporal.
TEXTO IV 
 ELAS QUEREM O TOPO (Marcela Buscato) 
O sucesso de algumas mulheres pioneiras em áreas dominadas pelos homens mostra que elas podem chegar lá – e revela como isso anda difícil. O passeio preferido da brasiliense Neiriane Marcelli da Silva Costa, quando criança, era acompanhar seu pai, suboficial da Força Aérea Brasileira (FAB), nos desfiles militares. Ela gostava de observar os aviões no céu e sonhava em estar um dia no lugar dos pilotos. “Eu me desiludia ao pensar que nunca poderia realizar meu sonho, porque apenas homens pilotavam aviões militares”, diz Marcelli, hoje com 28 anos. 
Até o dia em que oficiais da FAB foram ao colégio dela para contar uma novidade: a partir daquele ano, 2002, as meninas também poderiam se inscrever no curso de oficiais aviadores. Marcelli se formou cinco anos depois na Academia da Força Aérea (AFA), integrou um esquadrão em Belém, no Pará, e hoje ensina os cadetes da AFA, em Pirassununga, interior de São Paulo.
 O ambiente, dominado por homens, nunca a intimidou. “Não pensei se faria alguma diferença ser mulher. Era o que queria fazer.” A tenente Marcelli faz parte de uma geração de mulheres criadas para pensar que o limite para elas é o mesmo que para os homens: o céu. Algumas alcançaram essa fronteira literalmente, como Marcelli. Outras, no sentido figurado. 
Nunca as mulheres chegaram tão longe: à Presidência da República ou da Petrobrás, a maior empresa do país. As conquistas, como sempre, dão origem a novas e ainda mais ambiciosas aspirações. As mulheres querem permanecer na liderança e avançar em muitas áreas. Elas conquistaram um território dominado pelos homens. Contaram com mudanças na sociedade (que permitiu mulheres oficiais aviadoras) e com alta dose de determinação pessoal. Suas histórias contêm lições para outras desbravadoras – e para os homens também. (...) 
(Época, número 823, 10 de março de 2014. Editora Globo; p.60 – adaptado)
21 (AFA 2015) - Assinale a alternativa que apresenta uma inferência correta. 
a) Na geração de Marcelli, não mais são encontradas mulheres passivas e conformadas que se satisfazem com a coadjuvância. 
b) A conquista de Marcelli foi possível devido somente à sua grande determinação pessoal e coragem de enfrentar desafios. 
c) As mulheres já alcançaram o topo ao ocupar os mais altos cargos como Presidência da República e da maior empresa brasileira.
 d) Não há limites para a ambição feminina que sealimenta dos exemplos e das conquistas de desbravadoras como Marcelli. 
22 (AFA 2015) - “Suas histórias contêm lições para outras desbravadoras – e para os homens também.” (l.32 e 33) Sobre o excerto é correto afirmar que 
a) “suas histórias” retoma o exemplo das conquistas feitas pela tenente Marcelli. 
b) “outras desbravadoras” refere-se a outras histórias que contêm lições de vida das mulheres vencedoras.
 c) “e para os homens também” significa que as histórias de mulheres pioneiras são exemplos para todos: mulheres e homens, inclusive. 
d) as histórias contêm lições tanto para as mulheres quanto para os homens que sejam desbravadores.
TEXTO V
FELICIDADE CLANDESTINA (Clarice Lispector) 
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. 
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. 
Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. 
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. 
No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. 
Mas, adivinhando-me mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. 
Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. 
Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. 
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler.
Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. 
A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
23 (EFOMM 2016) - As palavras da narradora ilustram o comportamento da menina má que, como bruxa dos contos de fadas, tripudia sobre a menina inocente. Assinale a opção em que NÃO se confirma essa afirmação. 
a ) Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. 
b ) O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. 
c ) Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho.
d ) (...) a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife.
e ) Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho.
24 (EFOMM 2016) - A narradora sutilmente fala da inveja, alavancando o desenvolvimento do tema. É o que se percebe na opção: 
a ) Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. 
b ) Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe as humilhações a que ela me submetia (...) 
c ) Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. 
d ) Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía ‘As reinações de Narizinho’, de Monteiro Lobato. 
e ) Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. 
25(EFOMM 2016) - Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante. 
Quantoà relação da menina com o livro, é INCORRETO afirmar que 
a ) o encontro com seu livro-amante passa a ser o próprio ato de leitura, que ganha dimensões mais sedutoras à medida que é adiada. 
b ) a felicidade clandestina da menina boa era mostrar à menina má que o livro passou a ser dela. 
c ) ela encara o livro como uma verdadeira personificação, dando-lhe um valor especial.
d ) a menina atribui ao livro sentimentos e intenções positivas.
e ) a felicidade clandestina da menina era “esquecer” que estava com ele para depois ter a “surpresa” de achá-lo.
26 (EFOMM 2016) - Assinale a passagem que demonstra estar a personagem à beira da exaustão. 
a ) Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda (...) 
b ) Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer (...) 
c ) E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. 
d ) Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe.
e ) Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. 
27 (EFOMM 2016) - Analise as afirmativas abaixo e assinale a opção INCORRETA. 
a ) Apesar de todos os defeitos, a menina má era agraciada com algo que a tornava privilegiada: era filha de pai dono de livraria. E isso a tornava superior a todas as suas amigas.
b ) A menina má era irônica, pois seu presente favorito para as amigas eram cartões postais da loja do pai. Ela dava a entender que só ela tinha acesso aos livros. 
c ) O livro representa um fator de domínio sobre a menina boa. Ele passa a ser usado como estratégia de poder e dominação pela menina má. 
d ) A introdução do conto apresenta as duas protagonistas da narrativa, salientando os aspectos negativos de uma, que serão bem mais evidentes que os da outra. 
e ) A narradora, por ser menos favorecida, quebrou os paradigmas da diferença social e conseguiu o livro em razão da sua insistência e de seu amor aos livros. Desse modo, ela conseguiu ter acesso ao objeto desejado. 
28 (EFOMM 2016) - Assinale a opção em que a expressão sublinhada estabelece uma circunstância que se DISTINGUE das demais. 
a ) Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria (...)
b ) Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde (...) 
c ) Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa (...) 
d ) Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo (...) 
e ) (...) pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã (...)
Textos para as questões 
I - O MENINO QUE TINHA MEDO DE POESIA
(Pedro Gabriel – Março de 2014)
_ Mãe, acho que tem um poema debaixo da minha cama!
Quando menino, a poesia me assustava. Parecia ter dentes afiados, pernas desajeitadas, mãos opressoras. E nem as mãos da professora mais dócil conseguiam me acalmar. Não compreendia uma palavra, uma metáfora, uma rima pobre, rica ou rara. Não entendia nada. Tentava adivinhar o que o poeta queria dizer com aquela frase entupida de imagens e sentidos subjetivos. Achava-me incapaz de pertencer àquilo. Não conseguia mergulhar naquele mundo.
Eu, sem saber nadar em versos, afogava-me na incompreensão de um soneto; ela – a tão sagrada poesia – não me afagava e me deixava morrer na praia, entre um alexandrino e um heptassílabo.
Toda vez que eu era obrigado a decorar poesia, sentia vontade de sumir, de virar um móvel e ficar imóvel até tudo se acabar. Por dentro, sentia azia, taquicardia, asma espontânea, tremelique e gagueira repentina. Por fora, fingia que estava tudo bem. Eu sempre escolhia o poema mais curto da lista que a escola sugeria. 
Naquele dia, sobrou Pneumotórax, de Manuel Bandeira, e eu queria ser aquele paciente para não precisar declamá-lo. Eu queria tossir, repetir sem parar: trinta e três… Trinta e três… Ter uma doença pequena, uma desculpa qualquer, um
atestado médico assinado pelo meu avô que me deixasse em casa – não a semana toda, mas só o tempo da aula.
Depois, para a prova de francês, não tive escolha: fui obrigado a decorar Le dormeur Du Val, de Rimbaud. Eu lembro que, antes de ficar em pé de frente para o meu professor, eu queria que alguém me desse dois tiros no peito. Queria ser esse soldado e dormir, tranquilo, na paz celestial daquele vale até que a turma toda esquecesse a minha existência. Ou que a guerra fosse declarada finda. Ou que eu fosse declamado culpado. A Primeira Guerra Mundial parecia
durar menos do que aqueles 15 minutos de exame. Minha boca está seca até hoje. Minhas mãos estão molhadas até agora. Só eu sei o que suei por você, querida Poesia.
Aos 17, a poesia ainda me apavorava. Podia ser o verso mais delicado do mundo, eu tinha medo. Podia ser o poeta mais simpático da face da Terra, eu desconfiava. Desconversava, lia outra coisa. Ou não lia nada. Talvez por não querer entendê-la. Talvez por achar não merecê-la. E assim ficava à mercê da minha rebeldia. Não queria aprender a contar sílabas, queria ser verso livre. Tolo! Até a liberdade exige teoria!
Se hoje eu pudesse falar com aquele menino, diria-lhe que a poesia não é nenhum decassílabo de sete cabeças. Que se ela o assusta é porque ela o deseja. Que se ele sente medo é porque ele precisa dela. Não há mais monstro debaixo da sua cama. O monstro agora está em você.
- Filho, acho que tem um poema por dentro de quem você ama…
Disponível em: <www.intrinseca.com.br/site/2014/.../o-menino-que-tinha-medo-de-poesia> .
(texto adaptado) Acesso em: 29 Abr 2014
2 - A MULHER QUE NÃO SENTE MEDO DE ABSOLUTAMENTE NADA
(Jeanna Bryner – Dezembro de 2010)
Você gostaria de não sentir medo? Pelo menos uma pessoa no mundo não tem medo de nada: uma mulher de 44 anos, que até ajudou pesquisadores a identificarem o local em que vive o fator medo no cérebro humano. Os pesquisadores tentaram inúmeras vezes assustar a mulher: casas mal-assombradas, onde monstros tentaram evocar uma reação de rejeição, aranhas e cobras, e uma série de filme de terror apenas entreteram a paciente.
A mulher tem uma doença rara chamada síndrome de Urbach-Wiethe que destruiu sua amígdala. A amígdala é uma estrutura em forma de amêndoa situada no fundo do cérebro. Nos últimos 50 anos, estudos mostraram que ela tem um papel central na geração de respostas de medo em diferentes animais. Agora, o estudo envolvendo essa paciente é o primeiro a confirmar que essa região do cérebro é responsável pelo medo nos seres humanos. A descoberta pode levar a tratamentos para transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Tratamentos de psicoterapia que seletivamente amorteçam a hiperatividade na amígdala podem curar pacientes com TEPT. 
Estudos anteriores com a mesma paciente revelaram que ela não conseguia reconhecer expressões faciais de medo, mas não se sabia se ela tinha a capacidade de sentir medo. Para descobrir, os pesquisadores deram vários questionários padronizados à paciente, que sondaram os diferentes aspectos do medo, desde o medo da morte até o medo de falar em público.
Além disso, durante três meses ela carregou um diário que informatizava sua emoção, e que, aleatoriamente, pedia-lhe para classificar o seu nível de medo ao longo do dia. O diário também indicava emoções que ela estava sentindo em uma lista de 50 itens. Sua pontuação média de medo foi de 0%, enquanto para outras emoções ela mostrou funcionamento normal. Em todos os cenários, ela não mostrou nenhum medo. Baseado no seu passado, os pesquisadores encontraram muitas razões para ela reagir com medo. Ela própria contou que não gosta de cobras, mas quando entrou em contato com duas, não sentiu medo. 
Além disso, já lhe apontaram facas e armas, ela foi fisicamente abordada por uma mulher duas vezes seu tamanho, quase morreu em um ato de violência doméstica, e em mais de uma ocasião foi explicitamente ameaçada de morte.
O que mais se sobressai é que, em muitas destas situações a vida da paciente estava em perigo, mas seu comportamento foi desprovido de qualquer senso de desespero ou urgência. E quando elafoi convidada a lembrar como se sentiu durante as situações, respondeu que não sentiu medo, mas que se sentia chateada e irritada com o que aconteceu.
Segundo os pesquisadores, sem medo, pode-se dizer que o sofrimento dela não tem a intensidade profunda e real suportada por outros sobreviventes de traumas. Essencialmente, devido aos danos na amígdala, a mulher está imune aos efeitos devastadores do transtorno de estresse pós-traumático. Mas há uma desvantagem: ela tem uma incapacidade de detectar e evitar situações ameaçadoras, o que provavelmente contribuiu para a frequência com que ela enfrentou riscos. Os pesquisadores dizem que esse tipo de paciente é muito raro, mas para entender melhor o fenômeno, seria ótimo estudar mais pessoas com a condição.
Disponível em<:http://hypescience.com> (texto adaptado de http://www.livescience.com). Acesso
em: 29 Abr 2014
3 - CONSOADA
(Manuel Bandeira)
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Disponível em: <http://www.poesiaspoemaseversos.com.br> Acesso em: 29 Abr 2014.
4 - AUTOSSABOTAGEM: O MEDO DE SER FELIZ
(Raphaela de Campos Mello – Outubro de 2012)
A cada passo dado você sente que a felicidade se afasta alguns metros? Talvez esteja, inconscientemente, queimando chances de se realizar. Repense as próprias atitudes para interromper esse ciclo destrutivo. Por medo dos riscos e das responsabilidades da vida, podemos acabar inconscientemente com as nossas realizações. Isso se chama autossabotagem. São atitudes forjadas por uma parte de nós que não nos vê como merecedoras do sucesso ou que subestima nossa capacidade de lidar com a vitória.Pode ser aquela espinha que apareceu no nariz no dia daquele encontro especial ou da gripe que a pegou na véspera daquela importante reunião.
"Muitos desses comportamentos destrutivos estão quase fora do domínio da consciência", afirma o psicólogo americano Stanley Rosner, coautor do livro O Ciclo da Auto-Sabotagem - Por Que Repetimos Atitudes que Destroem Nossos Relacionamentos e Nos Fazem Sofrer (ed. BestSeller).
"A autonomia, a independência e o sucesso são apavorantes para algumas pessoas porque indicam que elas não poderão mais argumentar que suas necessidades precisam ser protegidas", diz o autor. O filósofo e psicanalista paulista Arthur Meucci, coautor de A Vida Que Vale a Pena Ser Vivida (ed. Vozes) comenta sobre os ganhos secundários. "Há jovens que saem de casa para tentar a vida, enquanto outros permanecem na zona de conforto, porque continuam recebendo atenção dos pais e se eximem de enfrentar as dificuldades da fase adulta", afirma.
O problema é que, ao fazermos isso, não nos desenvolvemos plenamente. "Todo mundo busca a felicidade, a questão é ter coragem de viver, o que significa correr riscos e assumir responsabilidades", diz ele.
Disponível em: <http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/noticias/autossabotagem-o-medo-deser-
feliz.> (Texto adaptado). Acesso em 29 Abr 2014
5 - O QUASE
(Sarah Westphal Batista da Silva)
Ainda pior que a convicção do não, e a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu ainda está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver
no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos
na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom Dia” quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o
vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do
destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
Disp. em: <www.pensador.uol.com.br>. Acesso em: 29 Abr 2014.
29 (IME 2014) Leia atentamente as afirmativas relacionadas aos textos apresentados e, a seguir, marque a
alternativa correta:
I – Todos os textos apresentados mostram que o medo só nos leva ao insucesso;
II – No texto 1, o protagonista retrata um medo vivido em sua infância, fazendo alusão a elementos próprios desse medo;
III – No texto 2, a mulher não reage às situações desagradáveis a ela impostas, porque não é capaz de sentir medo;
IV – O texto 3 aborda um único medo: o medo da morte; e
V – Os textos 4 e 5 encorajam o leitor a sair de uma posição de conforto e a encarar riscos e responsabilidades em busca do sucesso.
a) Apenas as afirmativas I e III são verdadeiras. b) Apenas as afirmativas II e III são verdadeiras.
c) Apenas as afirmativas III e V são verdadeiras. d) Apenas as afirmativas II, IV e V são verdadeiras.
e) Todas as afirmativas são verdadeiras.
30 (IME 2014) Observe os fragmentos em destaque:
“_ Mãe, acho que tem um poema debaixo da minha cama!” (texto1; 1º parágrafo)
“_ Filho, acho que tem um poema por dentro de quem você ama…” (texto1; 7º parágrafo)
O jogo de ideias criado em forma de diálogo pode ser interpretado como:
a) a resposta da mãe aos questionamentos do seu filho, o protagonista, a cerca do medo da
poesia.
b) ideia subentendida sobre real mudança positiva na relação entre o protagonista e a poesia.
c) apenas uma forma estilística de introduzir e concluir o texto, sem grande significado.
d) constatação de que o medo de poema do protagonista se transformou em medo de amar.
e) evidência de que o medo de poesia do protagonista nunca existiu.
31 (IME 2014) Acerca da postura do autor diante da morte, no texto 3, pode-se afirmar que:
a) revela-se doente e já a espera da morte. b) admite que tem muito medo da morte.
c) se mostra conformado com a sua vinda, sem desejá-la. d) deseja alegremente a sua chegada.
e) demonstra ainda não estar pronto para a sua chegada.
32 (IME 2014) Ainda no texto 3, ao utilizar a expressão “a Indesejada das gentes”, o autor faz uso da figura
de linguagem conhecida como:
a) hipérbole. b) anacoluto. c) antítese. d) metonímia. e) eufemismo.
33 (IME 2014) Observe os fragmentos extraídos do último parágrafo do texto 4.
“ ... a questão é ter coragem de viver, ... ” / “ ... o que significa correr riscos e assumir
responsabilidades ..., ”
Pode-se dizer que o segundo fragmento, em relação à ideia expressa no primeiro, representa
uma:
a) explicação. b) finalidade. c) causa. d) consequência. e) exceção.
34 (IME 2014) No título do texto 5, a palavra “quase” aparece precedida do artigo “O”. Nesse contexto, o artigo
tem a função de:
a) particularizar um substantivo. b) atribuir intensidade à palavra “quase”.
c) mudar a classe sintática da palavra “quase” de adjunto adnominal para adjuntoadverbial.
d) mudar a classe gramatical da palavra “quase” de advérbio para substantivo.
e) mudar o campo semântico da palavra “quase”.
35 (IME 2014) Indique o par de vocábulos que se enquadra num mesmo campo semântico, de acordo com o
texto 5.
a) ondas / nublados (2º parágrafo; 2º parágrafo).
b) outono / morna (1º parágrafo; 2º parágrafo).
c) cinza / alma (2º parágrafo; 3º parágrafo).
d) não / talvez (1º parágrafo, linha 1; 1º parágrafo).
e) destino / você (3º parágrafo; 3º parágrafo).
36 (IME 2014). Os termos “Consoada” (texto 3, título) e “se eximem” (texto 4; 6º parágrafo) podem significar,
respectivamente:
a) pequena refeição tomada à noite / isentam-se. b) pequena refeição tomada à noite / aprimoram-se.
c) tipo de panela / desobrigam-se. d) tipo de panela / aperfeiçoam-se. e) tipo de panela / superam-se.
37 (IME 2014) “Podia ser o verso mais delicado do mundo, eu tinha medo.”(texto 1; 5º parágrafo) O
fragmento em destaque expressa ideia de:
a) Causa. b) Finalidade. c) Condição. d) Concessão. e) Consequência.

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