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Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 1 Adriano Furtado Holanda (Organizador)2 Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 3 O CAMPO DAS PSICOTERAPIAS REFLEXÕES ATUAIS Adriano Furtado Holanda (Organizador)4 ISBN: 978-85-362- Brasil – Av. Munhoz da Rocha, 143 – Juvevê – Fone: (41) 4009-3900 Fax: (41) 3252-1311 – CEP: 80.030-475 – Curitiba – Paraná – Brasil Europa – Escritório: Av. da República, 47 – 9º Dtº – 1050-188 – Lisboa – Portugal Loja: Rua General Torres, 1.220 – Lojas 15 e 16 – Centro Comercial D’Ouro – 4400-096 – Vila Nova de Gaia/Porto – Portugal Editor: José Ernani de Carvalho Pacheco ??????, ?????????????????. ????? ?????????????????????./ ????????????????????? Curitiba: Juruá, 2012. ??? p. 1. ?????. 2. ?????. I. Título. CDD ???.??? CDU ??? Visite nossos sites na internet: www.juruapsicologia.com.br e www.editorialjurua.com e-mail: psicologia@jurua.com.br Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 5 Adriano Furtado Holanda Organizador O CAMPO DAS PSICOTERAPIAS REFLEXÕES ATUAIS Autores Adriano Furtado Holanda (Org.) Adelma Pimentel Bárbara de Souza Conte Fernando Luis González Rey Francisco Martins Marcelo M. Nicaretta Maria Adélia Minghelli Pieta Maurício da S. Neubern Thiago Gomes de Castro Valeska Zanello William Barbosa Gomes Curitiba Juruá Editora 2012 Adriano Furtado Holanda (Organizador)6 CONSELHO EDITORIAL ¾ Benno Becker Junior • Doutorado em Psicologia – Universidad de Barcelona, U.B., Espanha. • Mestrado em Pedagogia – PUCRS. • Especialização em Métodos e Técnicas de Ensino – PUCRS. • Graduação em Psicologia – PUCRS. • Gra- duação em Educação Física – UFRGS. ¾ Cristina Maria Carvalho Delou • Doutorado em Educação: História, Política, Socieda- de – PUCSP. • Mestrado em Educação – UERJ. • Es- pecialização em Educação – UERJ. • Graduação em Psicologia – PUCRJ. • Graduação em Licenciatura em Psicologia – PUCRJ. ¾ Djalma Lobo Jr. • Psicólogo e Parapsicólogo. • Coordena grupos psico- terapêuticos focados na autoestima e no autoco- nhecimento. • Desenvolveu projetos com pacientes portadores do vírus HIV, com parceria do Ministério da Saúde, e trabalha na área de prevenção de DST e AIDS. • Desenvolve trabalhos de Cuidando do Cui- dador para Psicólogos, Assistentes Sociais, Agentes de Saúde, Enfermeiros, Médicos e Professores. • Atua na área de Saúde Mental com o trabalho de desenvolvimento do psicoeducacional para pacien- tes com depressão e transtorno bipolar. • Colunista da revista FREEX, com a coluna comportamento e sexualidade. • Palestrante. • Atua em Curitiba, São Paulo, Campinas, Indaiatuba e Rio de Janeiro. ¾ Gabriel José Chittó Gauer • Graduado em Medicina (1984). • Especialização em Psiquiatria pela PUCRS (1988). • Doutorado em Me- dicina e Ciências da Saúde pela PUCRS (1995). • Pós-doutorado no Departamento de Psicologia da Universidade de Maryland (2001), na área de Cons- trução e Validade de Testes, Escalas e outras Medi- das Psicológicas e abordagem Cognitiva dos Trans- tornos de Ansiedade. • Professor titular da PUCRS. • Tem experiência na área de Avaliação e Interven- ção em Psicologia e Psiquiatria, Validação e Aplica- ção de Instrumentos e Psicologia da Saúde, atuando principalmente nos seguintes temas: violência, psi- copatia, ansiedade social, depressão, adesão ao tra- tamento e psiconeuroimunologia. ¾ Gilberto Gaertner • Mestrado em Engenharia de Produção – UFSC. • Es- pecialização em Formação em Psicologia Somática Biossíntese – Instituto Brasileiro de Biossíntese. • Especialização em Formação em Integração Estru- tural Método Rolf – Sociedade Brasileira de Integra- ção Estrutural. • Especialização em Formação em Bioenergia Raízes – Centro de Estudos do Homem. • Especialização em Psicologia Corporal – Orgone Psi- cologia Clínica. • Especialização em Orientação em Terapia Sexual – Clínica do Sistema Nervoso. • Es- pecialização em Capacitação em Técnicas Corporais – Clínica do Sistema Nervoso. • Graduação em Psi- cologia – PUCPR. ¾ Luiz Antonio Penteado de Carvalho • Médico Especialista em Ortopedia e Traumatologia. • Membro titular da Sociedade Brasileira de Ortope- dia e Traumatologia, SBOT. • Mestre pela UFPR. • Professor efetivo na Unicentro. ¾ Julimar Luiz Pereira • Mestrado em Educação Física – UFPR. • Especializa- ção em Treinamento Desportivo – UFPR. • Gradua- ção em Licenciatura em Educação Física – UFPR. • Professor da UFPR. ¾ Salvador Antonio Mireles Sandoval • Mestrado em Ciência Política – University of Texas at El Paso. • Mestrado e Doutorado em Ciência Po- lítica – The University of Michigan. • Atualmente é Professor titular da PUCSP, e Professor assistente Doutor-ms3 da Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação. • Pós-doutorado no Center for the Study of Social Change, New School for So- cial Research. • Pesquisador convidado no David Rockefeller Center for Latin American Studies, Har- vard University como J. P. Lemann Visiting Scholar. • Graduação em Latin American Studies – University of Texas at El Paso. • Foi sócio-fundador e Presiden- te da Associação Brasileira de Psicologia Política – ABPP. • Fundador da Revista Psicologia Política sendo um dos primeiros coeditores dessa revista. • Professor visitante, Concordia University, Montreal Canadá em 2008. ¾ Editora da Juruá Psicologia: Ana Carolina de Carvalho Pacheco Bittencourt Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 7 APRESENTAÇÃO “Psicoterapias, para além da técnica”. Este poderia ser outro tí- tulo para a proposta deste livro. Isto porque a intenção deste projeto, que ora apresentamos ao leitor, é exatamente debater questões que ficam aquém e além da técnica psicoterápica. Não se trata de simplesmente questionar o instrumental do psicoterapeuta ou de apontar como se deve trabalhar com esta ou aquela patologia, ou nesta ou naquela abordagem. Mas de questio- nar o lugar e o próprio fazer do psicoterapeuta. Qual o fazer do clínico? Qual o lugar da psicoterapia? Quais os diversos sentidos que podem coexistir no campo das psicoterapias? Todas estas são questões importantes, pois fundamentam não somente a prática que será posteriormente exercida por um profissional, como também sedi- menta leituras diversas para um fenômeno eminentemente contemporâneo, como é a psicoterapia. Além disso, num momento em que se discute o cuida- do ou a atenção integral à saúde (com promoção, proteção e recuperação da saúde); num momento em que se procura sedimentar novos olhares para a saúde mental; num momento em que se fala reiteradamente de parcerias e de mobilização em todos os contextos da sociedade, este debate ganha con- tornos ainda mais relevantes. O campo das psicoterapias aponta para um conjunto complexo de modos de compreensão e de atuação, para um campo onde coexistem ele- mentos das mais diversas áreas do saber e, na atualidade, para um repertó- rio que transcende profissões. Esta complexidade se expressa pelo próprio modo de constituição desse campo ao longo da história e mesmo em nosso país. Podemos associar a prática psicoterapêutica ao fazer médico, desde os tempos dos Antigos – não nos esqueçamos dos clássicos escritos de Adriano Furtado Holanda (Organizador)8 Fílon de Alexandria e sua famosa escolas dos “terapeutas” – e, mesmo que consideremos a gênese da clínica na contemporaneidade, a estaremos asso- ciando a diversos nomes da área médica. Ocorre que, paulatinamente esta prática foi sendo legada a outras profissões e, talvez possamos pensar assim – a título de uma “concessão” da própria medicina, como veremos nos textos que tocam questões históricas da psicoterapia neste livro – seja pela parti- cularização (ou “subjetivação” ou “interiorização”) do sofrimento ou mesmo pelo “deslocamento” desse sofrimento, de um corpo físico, concreto,objetivo e palpável, para um “outro lugar”, o “lugar” de um psíquico, de um subjeti- vo, ou do simplesmente humano, que as ciências da fisiologia, da patologia médica, da biologia ou da anatomia não davam conta de reconhecer. Ocorre que toda essa preocupação fora antes da ordem da Filoso- fia. Afinal, como não reconhecer como referido ao que se compreende mo- dernamente como psicoterapia, ou simplesmente como “terapêutica” a pro- posta do gnothi seauton socrático – o famoso dito do Oráculo de Delfos, o “conhece-te a ti mesmo” – ao que Foucault acrescenta com a expressão grega epiméleia heautoû, ou à “cura de si”, na concepção latina. Tudo isso tem seu ponto de encontro na proposta do médico-filósofo Fílon. Com isto já apontamos o leitor para uma das muitas teses contidas nos textos que compõem este livro: a de que a suposta dissociação – ou di- cotomia, separação, distanciamento, oposição – entre sujeito e objeto, entre subjetivo e objetivo, entre individual e social, é falsa, limitada e errônea, e não dá conta da necessidade de um olhar complexo para o fenômeno huma- no. E talvez tenha sido o reconhecimento – mesmo que irrefletido – desta questão, que fez com que o campo das psicoterapias tenha transcendido o da medicina. Mas esta transcendência não foi e ainda não é tranqüila, nem dis- pensa debates acalorados ou reações que passam ao largo do debate técnico ou científico, ou filosófico ou teórico. Muitas das vezes resume-se a compo- nentes ideológicos. Muitas das vezes, resume-se a questões de “mercado”. E é por tudo isto, pelo reconhecimento de que um debate acerca do campo das psicoterapias se faz necessário; que este debate não pode ficar ao largo da complexidade do tema; que o diálogo interdisciplinar e multi- profissional é igualmente fundamental; que este debate não pode ser prima- zia ou monopólio desta ou daquela área do saber ou profissão, que nos pro- pusemos a debater aqui e agora o tema das “psicoterapias”. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 9 Todos os temas foram aqui abordados por profissionais que tem em comum três características: a) o conhecimento prático e profissional, que lhes dá a competência no “fazer”, por suas formações, caminhos desen- volvidos na área – vale a pena ressaltar que aqui convivem perspectivas teóricas distintas – e experiência no campo a que se propõem estudar (em outras palavras, todos aqui são “psicoterapeutas”); b) a intenção de unir esta prática com a reflexão epistemológica e com a pesquisa empírica, assumindo a missão não apenas de pesquisadores mas de produtores de conhecimento, e; c) a preocupação com os rumos e com o “lugar” das psicoterapias no cenário contemporâneo. Este livro foi pensado e é dirigido a todos aqueles que se interes- sam, verdadeiramente, pelo campo das psicoterapias; e não faz diferencia- ção entre os iniciantes e os iniciados, entre os experientes e os curiosos, entre profissionais desta ou daquela área, por entendermos que nenhuma práxis subsiste sem um questionamento sobre suas bases, direções, entendi- mentos e relações. Esperamos que este livro sirva de reflexão e de base para novos trabalhos, e que o campo das psicoterapias se torne “figura” no cenário contemporâneo. Adriano Furtado Holanda Organizador Adriano Furtado Holanda (Organizador)10 Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 11 SUMÁRIO Ensaio sobre a cegueira de Édipo: sobre psicoterapia, política e conhecimento Maurício da S. Neubern............................................................................................ 13 Sentidos subjetivos, linguagem e sujeito: implicações epistemológicas de uma perspectiva pós-racionalista em psicoterapia Fernando Luis González Rey.................................................................................... 47 Reflexões sobre o campo das psicoterapias: do esquecimento aos desafios contemporâneos Adriano Holanda ...................................................................................................... 71 Desnaturalizando o fim social da psicologia clínica Marcelo M. Nicaretta ............................................................................................. 101 Psicoterapia e pesquisa: desafios para os próximos 10 anos no Brasil Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes...121 Psicoterapia: o percurso histórico nos desafios por uma formação sem regulamentação Bárbara de Souza Conte ......................................................................................... 143 Psicoterapias: valoração e avaliação Francisco Martins / Valeska Zanello...................................................................... 155 Psicoterapia e clínica ampliada: diferenciando horizontes interventivos Adelma Pimentel..................................................................................................... 165 Índice Alfabético ................................................................................................... 179 Adriano Furtado Holanda (Organizador)12 Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 13 ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA DE ÉDIPO: SOBRE PSICOTERAPIA, POLÍTICA E CONHECIMENTO Maurício da S. Neubern Sumário: Édipo Rei: cegueira & reinado. Édipo em Colono: da miséria à emancipação. Maturidade espiritual. Referências. No mito de Édipo, o herói se torna cego após descobrir as terríveis tragédias em que havia se enredado em sua vida. Elas o chocam de uma tal forma que, como modo de expiação ou talvez de punição, Édipo se fere nos olhos tornando-se cego, passando a vagar pelo mundo. Ele abandona a ri- queza, o poder e a opulência de seu reinado em Tebas e, na companhia de sua filha e de seu profundo sofrimento, perambula pelo mundo na desespe- rada e dolorosa tentativa de encontrar a si mesmo, tal como rezava a célebre assertiva do oráculo de Delphos. Esse mito, tantas vezes apreciado e discutido na formação dos psi- coterapeutas, inspira a prática de muitos para que seus clientes ou usuários assumam a dura e corajosa tarefa de se deparar com os próprios dramas mas- carados pelo inconsciente que os fazem sofrer sem que o percebam e que necessitam ser decifrados a fim de que algum nível de resolução se torne possível em suas vidas. No entanto, ele guarda em si uma contradição fatal tipicamente moderna1 (Santos, 2000), pois a psicoterapia, no geral, encontra 1 O termo modernidade é aqui tirado de Santos (2000) e implica o paradigma dominante da ciência que preconizava um conhecimento privilegiado da realidade. Afastam-se as aparências por meio do método científico para se chegar a leis universais, de modo a se obter explicação, predição e controle da natureza. Maurício da S. Neubern14 enormes dificuldades, quando não possui uma proverbial indisposição, para levar a cabo e de forma sincera a proposta do conhece-te a ti mesmo. Seja como propostas teórico-epistemológicas, seja como movimentos sociopolíti- cos, a psicoterapia ainda parece permanecer nas ilusões vividas por Édipo, sentada num trono que lhe conferisse poder sobre seu campo, mas num rei- nado de legitimidade suspeita, principalmente por ser marcado pela cegueira sistemática a respeito de sua história e das condições de nascimento de seus próprios saberes. Nessa perspectiva, o psicoterapeuta acaba por refletir, no exercício de seu métier, o drama de semelhante contradição. Assim, ao mesmo tempo em que lhe é exigido que esteja presente na relação terapêutica, atento ao que se passa consigo e seu cliente, ele deve pensar por meio de uma teoria que não é sua, posto que elaborada por um grande nome, geralmente em outro país e até em outra época. Desprovido de sua condição de sujeito, ele pode trabalhar ativamente para que seu cliente desenvolva alguma forma de autonomia, apesar de ele mesmo terque se conformar com um papel obedi- ente quanto a seu marco teórico e, principalmente, quanto aos olhos atentos de sua comunidade de pertencimento. Numa perspectiva mais ampla ele pode se filiar a grupos profissionais, integrar movimentos, participar de campanhas que defendam a legitimidade de seus métodos de maneira a dife- renciá-lo de tudo que seja místico ou alternativo, de tudo aquilo que possa ser alvo de desconfiança ou charlatanismo, em suma, de tudo o que se dis- tancie da promessa moderna de certeza (Stengers, 1995). É sob a bandeira da ciência que ele espera, explicitamente ou não, um reconhecimento social que lhe permita ocupar importantes espaços numa sociedade, como as universidades, a mídia, os serviços públicos de saúde, justiça e assistência social. Essa mesma cientificidade pode levá-lo a dispu- tas intermináveis com colegas de profissão que se tornam adversários por pertencerem a outras abordagens, sendo que esses embates variam de piadas, debates e disputa de adeptos a verdadeiras sabotagens na peleja por espaços institucionais. No entanto, toda essa devoção que assume, por vezes, um caráter fundamentalista, desemboca numa profunda ironia, pois que, na grande maioria das vezes, ele mesmo parece não saber explicar o que seja ciência e como sua práxis é legitimada por este saber. A tais indagações, ele tende a responder com uma expressão que mistura a surpresa e a vergonha e alguns discursos prontos proferidos por um outro, geralmente algum nome proeminente de sua comunidade psicoterápica. Consideramos, aqui, que um quadro com tais nuances apresenta diversos sintomas, mas é perpassado por uma viga mestra que parece acom- panhar a formação e a prática do psicoterapeuta em diferentes níveis: a força Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 15 institucional (Stengers, 2001). Ela alimenta e precede as práticas sociais do “fazer” psicoterapia, ao mesmo tempo em que parece contribuir para a ma- nutenção das relações de poder nas instituições que promovem a psicotera- pia, como as universidades, as clínicas, os conselhos profissionais e os cen- tros de formação. A força não se apresenta enquanto tal, pois sempre está travestida de alguma coisa aceitável que confirme a autoridade da certeza moderna que, no entanto, ela mesma não é capaz de sustentar. Logo, diante das indagações de algum aluno mais inquieto e questionador, é comum que surjam mecanismos de silenciamento e pacificação que apelam para alguma autoridade que, em última instância é questionável, mas que aparece ali como uma espécie de palavra final. “Isto é assim”, respondem ao incômodo aluno, “porque foi a ciência quem disse!” ou ainda “porque foi o Mestre quem afirmou!”. Em termos mais amplos, a ação dessa força de caráter autoritário abrange desde um processo de domesticação de adeptos e membros, que podem, inclusive, ser acompanhados por rigorosos mecanismos de policia- mento, a uma verticalização institucional em que as decisões de caráter polí- tico acabam tomadas por poucos, em processos que não valorizam o diálogo e a compreensão das distintas perspectivas envolvidas, incluindo-se aqui psicoterapeutas, outros profissionais, alunos e usuários. Em suma, enquanto impõe o silêncio, suas fragilidades ficam pretensamente escondidas e longe de ameaças o que leva tais instituições a viverem numa espécie de ilusão de aparências e poder como, em certa medida, vivia Édipo em seu reinado. Não é sem razões que a reflexão, o questionamento e a valorização do sujeito costumam encontrar muitas resistências no seio das instituições e práticas sociais de psicoterapia, sendo, por vezes, alvo de mecanismos de repressão e imposição de silêncio os mais diversos. Desse modo, o objetivo deste trabalho é o de ampliar a reflexão sobre o métier da psicoterapia, destacando as dificuldades implicadas quanto a voltar seus olhares para suas próprias condições de surgimento e manuten- ção, aqui caracterizadas como “cegueira”, e ressaltando ainda algumas pos- sibilidades de crescimento a partir das reflexões que antecedem e emergem de suas práticas. Tomando-se como analogia o mito de Édipo, no primeiro momento, semelhante a seu reinado em Tebas, serão discutidas dimensões epistemológicas, institucionais, sociais e históricas que influenciam direta- mente as ações e pensamentos em psicoterapia, mas nem sempre são consi- deradas. Daí a noção de cegueira. Enquanto no segundo momento, similar à sua trajetória em Colono, serão destacadas um conjunto de possibilidades de pensar e refletir a partir das relações com essas dimensões. Maurício da S. Neubern16 ÉDIPO REI: CEGUEIRA & REINADO Um reinado da antiguidade, tal como concebido no imaginário po- pular, conferia uma condição única entre os seres humanos: o rei era alguém favorecido pelos deuses, alguém que poderia ter a última palavra nas diver- sas questões referentes a guerras, riquezas, vida, morte, liberdade e destino de homens e mulheres que poderiam, por bem ou por mal, entregar até mes- mo seus corpos caso o soberano assim desejasse. Cargo almejado por mui- tos, a disputa pelo trono envolvia, com frequência, tramas e assassinatos, posto que muitos se candidatavam a assumi-lo a fim de exercerem o poder fascinante que lhe era próprio. O caso de Édipo é, de certa forma, particular, pois embora tivesse assassinado um homem numa disputa, ele desconhecia o fato de que o rival inesperado fosse seu pai e rei do país para onde se dirigia. Esse aconteci- mento mórbido marca a história do mito, pois é a partir dele que o destino de Édipo e dos demais envolvidos se desenrola logo que se rompe o véu da ignorância que o cobria e se torna conhecido de todos. Porém, enquanto isso não ocorre, Édipo realiza o feito de um grande herói ao salvar a cidade de Tebas da esfinge e é agraciado de tal forma que se casa com a rainha, Jocas- ta, que ele nem desconfiava ser sua própria mãe. Como todos esses dramas permaneceram em oculto, ele pôde, durante um bom tempo, exercer a condi- ção de rei despreocupadamente, tendo filhos com a rainha, e um poder sobe- rano sobre suas terras e súditos, que o reverenciavam por sua bravura, sabe- doria e heroísmo. A psicoterapia, por sua vez, acompanhando, quando possível, ciên- cias irmãs como a psicologia e a psiquiatria, também pode viver uma sensa- ção semelhante. Seu espaço começa a se delinear no final do século XIX, quando Tuke a define pela primeira vez, espalha-se pelo continente europeu por meio de divulgadores prestigiosos, tais como Bernheim e Barres, e acaba por ganhar notoriedade a partir da obra de Freud, seus sucessores e dissi- dentes (Carroy, 2000). Nesse ponto destacamos uma contradição um tanto curiosa presente nas propostas dessa rainha tão complexa. Se, por um lado, a psicoterapia ocupou um lugar muito importante, ao oferecer uma proposta emancipatória ao sujeito, uma proposta de reconhecimento e liberdade, muito ao gosto do individualismo ocidental, por outro, ela não deixou de exercer um papel colonizador e tirânico típico das ciências modernas (Neu- bern, 2004). Assim, enquanto ganhou popularidade e importantes espaços sociais, com uma eficácia capaz de aliviar o sofrimento das pessoas e auxi- liá-las a produzir novos sentidos para a vida, ela também reproduziu as es- truturas de poder comuns das práticas modernas, muitas vezes impondo suas Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 17 perspectivas às narrativas próprias dos sujeitos e isolando-os de suas inser- ções sociais, o que implicou em sofrimento para muitos daqueles que a bus- caram como forma de ajuda (Gergen & Kaye, 1998). Sua pretensão científi- ca, presente em diferentes formatos, moveu-a a uma cruzada de desqualifi- cações contra movimentos ditos alternativos e místicos em atitudes que variavam das estratégias de diferenciação às ameaças a quaisquer de seus súditos que ousassem se aproximar de tais saberes. Em meio a umuso ora rigoroso, ora acolhedor do próprio cetro, a psicoterapia ganhou seus espaços, fazendo do psicoterapeuta uma figura visível e desejada aos olhos das sociedades ocidentais. Além de podermos notar a busca frequente por seus serviços, sobretudo nos consultórios priva- dos, a psicoterapia tornou-se um lugar social almejado e disputado por al- gumas profissões que se articulam em diferentes níveis para dominá-la, ao mesmo tempo em que ainda se tornou um chamariz para profissionais saídos da academia que desembocam no mercado e se dizem satisfeitos com a pro- fissão (Bastos & Gondim, 2010). A figura do psicoterapeuta movimenta um mercado nada desprezí- vel em termos de livros, cursos, congressos e formações, como de planos de saúde e tratamentos cada vez mais especializados e também aparece hoje na mídia em novelas, cinemas e seriados geralmente ocupando uma posição importante e ligada ao bem, de onde costuma alimentar as ideias de uma cultura psi cada vez mais forte em tais sociedades. Não é sem razões que alguns governos, na atualidade, discutem amplamente sua regularização como profissão, definindo critérios sobre quem poderia exercê-la e em quais condições seu exercício seria adequado (Roudinesco, 2007). Tamanha é a importância social, econômica e política desse espaço que tais processos de regularização geralmente recebem intensa influência monopolista de podero- sos grupos econômicos, como os laboratórios farmacêuticos e instituições de psicoterapia, de modo a impedir um debate mais amplo e democrático entre os diferentes setores que se interessam e praticam a psicoterapia2. No entanto, à semelhança de um drama shakespeareano, o reinado da psicoterapia parece se fundar sobre muitos pontos obscuros e movediços, marcantes por suas contradições que poderiam ameaçar sua coerência, so- bretudo no que se refere a suas pretensões modernas de ciência (Neubern, 2 No caso do Brasil, há uma coincidência curiosa entre a proposta do Ato Médico, segundo a qual qualquer tratamento, incluída aí a psicoterapia, deveria ser prescrita por um médico, e a criação da Associação Brasileira de Psicoterapia (ABRAP). Esta associação, criada em conjunto com o próprio CFP (Conselho Federal de Psicologia), é fonte de polêmicas entre os psicólogos, pois além de in- cluir uma grande participação de psiquiatras em sua cúpula, é frequentemente acusada de terceirizar a psicoterapia para um outro órgão, tirando do próprio conselho profissional a discussão aprofunda- da de um campo tão central para a prática profissional de muitos psicólogos. Maurício da S. Neubern18 2009). Repetindo o ímpeto moderno de estudar e dissecar o mundo, sem refletir sobre as próprias origens, a psicoterapia parece se esquecer de sua própria história, como se esta viesse de um progresso cumulativo até o ponto em que, pela ação de algum gênio iluminado, tivesse atingido uma racionali- dade enfim científica. Mais que isso, criam-se mestres fundadores e marcos históricos específicos, deixando-se no esquecimento autores, acontecimentos e obras que foram de grande valor para as propostas que hoje vigoram nas práticas contemporâneas. É assim que, enquanto Mesmer é por vezes visto como um sujeito excêntrico, ou mesmo um charlatão, Puységur, Eisdale e Bertrand raramente aparecem nos livros de história, apesar da grande importância que tiveram para o movimento do magnetismo animal europeu e das significativas con- tribuições que propuseram para a prática psicoterápica. Tal cegueira siste- mática também se estendeu a determinados acontecimentos de grande im- pacto social e científico que acabaram por ser jogados ao esquecimento, tais como os julgamentos de Mesmer e dos magnetizadores pelas academias de ciência da França e a própria relação de Freud com a hipnose. Apenas re- centemente esses pontos têm sido revisitados e aprofundados de forma críti- ca por alguns autores (Carroy, 1991, Chertok & Stengers, 1989, Méheust, 1999, Neubern, 2009, & Stengers, 2001), cujos trabalhos lançam novas pers- pectivas de compreensão da história e das práticas institucionais da psicote- rapia. Tal esforço, porém, continua distante das universidades e dos grandes centros de formação de psicoterapeutas que, sobretudo no Brasil, ainda se mantêm ligados às versões dominantes da história de uma vitória pretensa- mente triunfante da razão. Logo, malgrado as propostas inovadoras de releitura histórica, os percursos em que os psicoterapeutas haurem sua formação encontram-se, em larga medida, impermeáveis a novas perspectivas de compreensão, o que contribui para que as reflexões sobre as origens da psicoterapia continuem distanciadas de autores e acontecimentos importantes. É assim que os livros de história situam os magnetizadores, ora como pessoas bem-intencionadas, mas mal fundamentadas, ora como charlatões que não possuiriam mais que um valor histórico para o nascimento das ciências psi, já que seus métodos não teriam resistido às exigências da avaliação científica. Entretanto, poucos se referem às graves inconsistências metodológicas, tal como ocorrido com a avaliação da proposta de Mesmer em 1784 (Chertok & Stengers, 1989), nem às estratégias de franca sabotagem com que se forjou a ilegitimidade dos mesmerismo francês na primeira metade do século XIX (Méheust, 1999). Tampouco se aprofundam numa reflexão sociológica e epistemológica que provavelmente incitou posturas tão contraditórias entre os cientistas da épo- ca, como a dimensão subversiva do mesmerismo, seus questionamentos Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 19 contra a acentuada estratificação social, seu acolhimento nas classes operá- rias, entre desempregados e imigrantes, a visibilidade social que conferia à mulher no espaço público e sua aliança a movimentos espiritualistas que desagradavam à Igreja (Neubern, 2009). Em suma, as versões contemporâ- neas de história da psicoterapia, às quais geralmente temos acesso no Brasil, parecem recalcar uma série de processos que trariam importantes reflexões para os psicoterapeutas atuais tanto de suas práticas quanto a respeito de suas instituições de pertencimento. Esse mesmo processo de cegueira com que nos deparamos na atualidade também teve suas raízes na obra de Freud que, movido pelo de- sejo intenso de fazer ciência nos moldes modernos, tudo fez para distanciar a psicanálise da hipnose, filha direta do mesmerismo (Stengers, 1999). É assim que ele as comparou respectivamente a uma cirurgia e a um procedimento cosmético, sendo que a primeira – a psicanálise – seria mais eficiente por abordar a causa subjacente dos conflitos, enquanto a segunda ficaria restrita a um tratamento superficial focado em sintomas (Freud, 1905/1996a). Essa precisão cirúrgica seria a causa do sucesso e da superioridade da psicanálise, que ofereceria curas mais convincentes e duradouras com relação à hipnose, prática superficial e ineficaz. Essa ideia perpassou a maior parte de sua obra, sendo colocada como uma espécie de bandeira no movimento psicanalítico nascente, até que, ao final de sua carreira, Freud (1937/1996b), numa postura corajosa, finalmente assumiu que os mesmos problemas encontrados na hipnose, como o retorno e a substituição dos sintomas e a inconsistência das curas, também poderia ser encontrado na psicanálise. Ele chegou mesmo a acrescentar que “ainda não se encontrou substituto algum para a sugestão” (pp. 245-246) e a lamentar que o esforço de Ferenczi em retomar a sugestão e resolver essas questões não tivesse dado frutos nesse sentido. É curioso observar como tais reflexões raramente são levantadas por psicanalistas e psicoterapeutas, e como a mensagem inicial e heroica de Freud, que trazia uma proposta “superior” de terapia unindo cura e ciência moderna, ainda parece se manter dominante para grande parte de seus seguidores e sim- patizantes. Esses exemplos ilustram como aforça, em suas ações institucio- nais, pode contribuir para a cegueira à qual nos referimos, pois, ao mesmo tempo em que ofusca e esconde importantes personagens e acontecimentos históricos, acusa os pensamentos rivais de não científicos, condenando-os a um exílio sem fim. A história passa a ser contada por aqueles que vencem a guerra e ocupam os espaços de produção desse conhecimento que passam a reproduzir essa mesma história e, curiosamente ou não, a dar continuidade aos mesmos mecanismos institucionais e políticos de exclusão quanto a perspectivas alternativas. É assim que o reinado se mantém, não por uma Maurício da S. Neubern20 postura democrática, mas pelo policiamento das ideias, pelo silêncio imposto e pela exclusão de qualquer ideia tida como subversiva. Logo, torna-se pos- sível conceber que o ímpeto reprodutivo de ideias e procedimentos técnicos com os quais o psicoterapeuta se forma e se mantém em sua prática seja muito mais valorizado do que a possibilidade de pensar e refletir por si mesmo. Não é, portanto, por acaso que a psicoterapia acabe repetindo um problema geral das próprias instituições científicas, nas quais o preconceito se torna, de um só golpe, tão pertinaz e sutil que pode barrar a capacidade de reflexão dos sujeitos pensantes, utilizando-se, para tanto, dos mais diversos mecanismos de policiamento, coação e punição (Morin, 1991, Meyer, 2010). O que comumente ocorre na formação do pensamento de muitos psicoterapeutas, sejam neófitos ou veteranos, é um processo devocional, quase religioso que deve assumir o status de condição para que uma psicote- rapia seja considerada confiável. Aqui, o mestre fundador, mesmo que nas- cido em outra época e cultura, torna-se uma espécie de divindade a quem se deve recorrer insistentemente para que o processo terapêutico possa receber a chancela de um determinado nome que caracteriza seu pertencimento, como “psicanalista”, “humanista”, “behaviorista”, “sistêmico”. Pensar pelas próprias ideias, sentir o próprio corpo, estar ali diante do outro na própria pele pode se constituir em algo perigoso, principalmente se o processo fugir do que é esperado pela teoria, ou seja, dos padrões para os quais ela possui sensibilidade, dos processos que ela pode fazer visíveis e reconhecidos aos olhos do psicoterapeuta. Pouco importa que o psicoterapeuta não saiba ex- plicar o que é ciência, que jamais tenha tomado conhecimento das questões epistemológicas que perpassam sua prática, que sua cultura acadêmica seja pobre, que suas leituras estejam distantes no passado e que muitas de suas perguntas sejam silenciadas: importa que ele evoque o mestre e peça que o mestre assuma seu assento, conduzindo a sessão para que ele, pobre mortal, não cometa qualquer pecado. A capacidade de criação, portanto, torna-se muito restrita, de maneira que ele pode se ver obrigado a criar e permanecer em silêncio, para não ser classificado como herético em sua comunidade, ou permanecer um adepto fiel, em paz com seus colegas e dono de um pensar empobrecido em sua rigidez e automatismo. O que, todavia, parece fugir a seu conhecimento é que o mestre não tem como ressuscitar, conduzir seu trabalho e tomar posse de seu espírito. O máximo que pode acontecer, o que consideramos salutar, é que os mestres se tornem vozes que possam soprar, vez por outra, no espírito do psicoterapeu- ta, mas que cabem a este as decisões que o processo exige diante de um cli- ente, pois é ele, o psicoterapeuta, quem está engajado neste processo em sua corporalidade e em sua subjetividade (Roustang, 2006). Caso não consiga, porém, adquirir semelhante consciência, seu conhecimento pode, facilmente, Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 21 adoecer e enrijecer sua prática de diferentes formas (Morin, 1990). Pode se tornar um conhecimento doutrinário, no qual não existe espaço para um diálogo com a realidade, para que a teoria seja questionada e venha a se re- formular a fim de atender exigências que não contemplou corretamente. Na doutrina, existe um ímpeto de confirmação de seus pressupostos indepen- dente do que ocorra no mundo empírico, de maneira que aquilo que a con- tradisser pode ser tido como inexistente ou algo indigno do conhecimento científico. É assim que o psicoterapeuta tende a enxergar suas categorias mestras em quaisquer fenômenos empíricos, sem atentar para as contradi- ções próprias destes, como se pudessem ser transportados linearmente para seu corpo de conceitos. O pensamento do psicoterapeuta também pode degenerar sob a forma de um afã tecnicista, onde existe um menosprezo pela reflexão e uma supervalorização da possível eficácia das técnicas. “O que importa”, dizem tais psicoterapeutas, “é que essa técnica funcione!”, sem perceber que a bus- ca pelo resultado o afasta da capacidade de pensar, de modo a desconectá-lo de uma compreensão ampla do processo, do contexto e da pessoa que está à sua frente. Além de uma degeneração da prática, essa patologia pode impli- car riscos para as pessoas, uma vez que o psicoterapeuta só se torna capaz de enxergar a técnica e não como as pessoas se constituem subjetivamente e se expressam diante dele. E, por fim, as práticas psicoterápicas também podem degenerar por meio das pop-teorizações, ou seja, teorias que se tornam ve- detes da moda, ocupam espaços de mídia ou encontros acadêmicos de forma superficial e simplista. As contradições, os conflitos, os obstáculos que fazem parte de qualquer investigação empírica se desfazem diante de conceitos e técnicas mágicas, sem jamais aprofundar o problema e discuti-lo em suas nuances e variações e sem implicar na responsabilidade e protagonismo que um proces- so terapêutico exige. Seus poderes não vêm apenas da eficácia que possuem, mas de todo um aparato de mercado alimentado por indústrias de imagens, fármacos, livros de autoajuda, workshops e cursos que são acessíveis ao bolso e, por se tornarem objetos de consumo, não envolvem um engajamento emocional profundo e responsável do sujeito a favor de si mesmo. Técnicas terapêuticas, como as constelações familiares e a PNL, e diagnósticas, como TDAH, transtorno bipolar e transtorno do pânico, comumente caem nas ar- madilhas típicas das pop-teorizações em nosso país. Face a quadro tão sombrio, Édipo parece vacilar. Ele goza de um belo reino, com riquezas e poderes, mas já começa a intuir que algo está erra- do, que seu poderio está ameaçado e que sua sorte pode mudar de uma hora para a outra, como se inimigos saídos das sombras o surpreendessem e o depu- Maurício da S. Neubern22 sessem. Mas, face a tal ameaça ele ainda conta, no reino da psicoterapia, com uma importante arma que pode ser um tiro certeiro nesses inimigos obscuros que tanto o ameaçam – a eficácia, de preferência, amparada pela ideia de cien- tificidade. Não importa que essa ideia seja frágil, que o psicoterapeuta nunca tenha participado de um curso de epistemologia, que a natureza do campo dessa disciplina seja bem distinta daquela do laboratório: importa apenas a segurança que essa ideia proporciona, mesmo que ilusória. Assim, as diferen- tes escolas de psicoterapia se apropriam do espírito moderno e põem-se a justi- ficar suas propostas em termos de uma verdadeira eficácia, amparada (assumi- damente ou não) pela cientificidade, e atuando de modo desqualificatório quanto às propostas rivais: enquanto umas sustentam que a eficácia deve implicar a resolução de conflitos subjacentes a sintomas, outras respondem que são os esquemas de reforço de comportamento ou padrão cognitivo que devem ser modificados; se umas atentam para a emancipação do indivíduo, outras rebatem que uma psicoterapia sem envolver o relacional não cumpre seu papel; se umas atestam uma arqueologia do passado histórico, outras afir- mam convictas que é o “aqui-e-agora” que realmente importa. Desse modo, numa batalha cruel e feroz apontam as fragilidades uns dos outros,destacam seus insucessos e imposturas e, numa busca incessante de espaço e adeptos, ressaltam os valores de suas próprias propostas, a inteireza de seus pressupostos filosóficos (estes, no geral, pouco pensados), os feitos heroi- cos de seus expoentes, a ideologia de vida de suas ideias, os sucessos terapêuti- cos e, de uma forma ou outra, a consistência – e consistência em termos de ciên- cia moderna – de suas abordagens com relação às outras. “Ufa”, Édipo suspira aliviado. Enquanto seus súditos se engalfinham numa luta sem precedentes entre si, aqueles problemas que intuía, realmente ameaçadores, permanecem escondi- dos e seu reinado, ao menos por enquanto, permanece dourado, risonho e salvo. Pouco importa o que esteja recalcado, como a proposta moderna de um conhe- cimento único da realidade (Stengers, 1995); pouco importa que as psicoterapias jamais tenham conseguido um fiel da balança (como o laboratório) capaz de manter essa unidade, como o fez a Física; pouco importa que existam mais de 500 abordagens (Roudinesco, 2007) e que, de um modo ou outro, todas possam efetivar curas. Importa apenas que o reinado esteja salvo, sem que seja necessá- rio se preocupar com o amanhã. É por isso que a ideia de eficácia também é muito útil para que o psicoterapeuta se concentre em suas técnicas e simplesmente ignore toda uma série de influências sociológicas, institucionais e políticas que precedem seu métier3. Seja por desinteresse, seja por ignorância, ele desconhece o fato 3 Não pretendemos afirmar com isso que a ideia de eficácia seja uma ilusão e não mereça estudos e pesquisas que busquem compreendê-la. Apenas ressaltamos que ela é perpassada por influências Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 23 de que, quando uma nova abordagem surge, em nome da eficácia, ela des- qualifica as rivais arvorando-se a uma condição superior, demonstrando, inclusive, por meio de pesquisas e estudos que seu trabalho é melhor e mais convincente quanto aos demais, como já alertava Wolberg (1967) há mais de 40 anos. No entanto, o psicoterapeuta também desconhece que essas pesqui- sas, comumente, são produzidas por pessoas e instituições que definem os critérios do que seja ou não eficaz, apesar de se esconderem sob a capa da pretensa neutralidade do pensamento moderno. Assim, em nome desse co- nhecimento privilegiado e confiável esconde-se toda uma dimensão política que perpassa os discursos de eficácia, as relações entre abordagens e certos grupos, como laboratórios, conselhos profissionais e universidades, que atuam intensamente sobre as práticas sociais ligadas à avaliação de eficácia. Nesse sentido, é possível identificarmos dois grandes grupos de psi- coterapias que se diferenciam em termos da definição dos critérios de eficácia. Por um lado, encontra-se a grande maioria das escolas de psicoterapia, que se organizam sob o nome de um mestre fundador, tal como se deu com a psica- nálise de Freud (Stengers, 1999). Apesar de não se sentir a vontade com a lógica dos laboratórios, seus procedimentos e lógicas, a psicanálise desenvol- veu uma perspectiva autorreferente de determinação de suas práticas e ideias, de modo a definir o que seria ou não eficaz, como o que seria uma análise bem conduzida, uma possível resolução de conflitos ou as possíveis condições para que um paciente recebesse ou não alta do tratamento. O que determinaria, portanto, o que seria ou não uma boa análise, malgrado as contradições e difi- culdades dessa questão, não seria dado pela prática em si, como uma espécie de revelação que o divã viesse a fornecer, mas pelos “núcleos de inteligibili- dade”4 (Gergen, 1996) estabelecidos pelas instituições, inspiradas inicialmente por Freud, mas que encontraram posteriormente outros mestres fundadores, como Winnicott, Klein e Lacan, sendo ainda amparadas e reforçadas por ins- tituições e práticas que veiculam e preservam suas ideias, como escritos, for- mações, supervisões e espaços nas universidades. Entretanto, por algumas das razões já aqui listadas, o analista, como o psicoterapeuta em relação a suas próprias teorias, em geral não pensa nas vicissitudes das instituições de psica- nálise, que esses critérios implicam em negociações no seio de processos rela- cionais complexos, uma vez que o que ele precisa é ter uma confiança e um sentir-se à vontade semelhante ao do físico em seu laboratório. E qual não é seu gozo e sua alegria ao perceber que os conceitos, definidos sob a teoria-mãe que adota, parecem se confirmar, revelando uma realidade oculta do psiquis- políticas e institucionais e que tais influências também a forjam na mente dos psicoterapeutas, como dos pesquisadores que definem os critérios do que é ou não eficaz. 4 Segundo Gergen (1996), “núcleos de inteligibilidade” referem-se a grupos que exercem certas práticas sociais geradoras de sentido. Maurício da S. Neubern24 mo de seus pacientes, oferecendo-lhe a possibilidade de explicação diante de um mundo que por vezes o apavora e confunde! E nesse jogo de sedução extática e erótica com uma teoria que tudo explica que ele se imbui de uma sensação de supremacia e se põe a hostilizar os colegas de outras teorias, que são convertidos em adversários por adotarem uma visão tão distorcida do que é o ser humano. Curiosamente ele não se dá conta de que o pretenso adversário também pensa o mesmo sobre ele. Já o outro grupo de terapias é muito bem ilustrado pelo que ocorre hoje com as terapias cognitivas. Estas possuem uma chancela assumida do pensamento moderno – via laboratório – sendo amparadas por poderosos núcleos de inteligibilidade que remetem a instituições de considerável pode- rio político e econômico no mundo acadêmico e social. Assim, o impactante posicionamento do MIT (Michigan Institute of Technology) em privilegiar a expressão “ciências cognitivas” em detrimento do termo “psicologia” é bas- tante revelador no esclarecimento de como as terapias cognitivas foram e são amparadas por tais núcleos, o que justifica em grande medida sua vertiginosa difusão em diferentes países. Nos esquemas abaixo, é possível notar como existe aqui uma poderosa retomada de aproximação com a classe médica em termos de práticas sociais e instituições nutridas por núcleos de inteligibili- dade muito ligados às ciências cognitivas e às neurociências. Fig. 1. Práticas sociais de inteligibilidade e significação das Terapias Cogni- tivas (TC). Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 25 No tocante às práticas sociais (fig. 1), as terapias cognitivas apre- sentam-se irmanadas com práticas muito comuns na atualidade, a começar pelo diagnóstico altamente influenciado pelo DSM e sua lógica de transtor- nos. Como os padrões cognitivos (Beck, 1997) apresentam grande afinidade com a sintomatologia destacada nos transtornos, a terapia cognitiva é veicu- lada como uma opção eficaz, principalmente quando aliada à prescrição de psicofármacos, prática cada vez mais comum no cotidiano, que é influencia- da pela mídia e por profissionais, e ocupa um lugar central em importância para o tratamento de transtornos mentais e seus sintomas. Não é raro, em tais práticas, que as contradições referentes a um processo psicoterápico, como a inconsistência de certas mudanças, passe desapercebida devido ao afã do psicoterapeuta em comprovar a eficácia de suas técnicas. Toda essa lógica, que tem na eficiência sua palavra de ordem, já possui uma entrada vigorosa nas universidades, principalmente com disciplinas de neurociências, filosofia da mente, psicofarmacologia e psicologia cognitiva, e nos cursos de forma- ção de terapeutas que proliferaram rapidamente nos últimos anos, o que compõe o importante eixo das práticas sociais de ensino e formação, princi- palmentede psiquiatras e psicólogos, mas que, vez por outra, tem atingido e influenciado outras profissões como educação, serviço social e enfermagem. Fig. 2. Instituições à sustentação das Terapias Cognitivas (TC). Maurício da S. Neubern26 Já a dimensão institucional (fig. 2) compõe-se de instituições e grupos profissionais que alimentam essas práticas e divulgam suas ideias pela sociedade, principalmente com o intuito de ganhar espaço e visibilida- de. As universidades e escolas de formação possuem um laço estreito entre si, uma vez que os interessados em psicoterapia comumente se integram a essas últimas sem ter ainda concluído o curso universitário, movidos em grande parte pela sua proposta de cientificidade e eficácia sustentada por disciplinas como as acima mencionadas, como também por congressos, gru- pos de pesquisa e workshops. No entanto, os centros de pesquisa, em parti- cular os laboratórios farmacêuticos, possuem um papel de grande relevância nessa divulgação, uma vez que financiam profissionais de saúde, congressos e eventos e parecem possuir também um apelo muito significativo junto à mídia e aos conselhos e associações profissionais. É curioso notar mesmo como essa conquista de espaço do cognitivo coincide com a proliferação de cursos de formação, com a polêmica discussão sobre o projeto de lei do “Ato Médico”, com a aproximação entre o Conselho Federal de Psicologia e a classe médica – como no caso da fundação da Associação Brasileira de Psicoterapia (ABRAP) –, e da mudança de linhas de publicação de certas editoras, tanto na produção do livro técnico, como dos livros de autoajuda. Numa perspectiva como essa, a postura de muitos médicos, ao reco- mendarem a terapia cognitiva e desqualificarem as demais, torna-se compreen- siva. Atuam aqui como porta-vozes de um Édipo que goza seu reinado de tran- quilidade aparente, uma vez que não precisam pensar no que antecede e ali- menta suas práticas (nem em suas implicações sociais), mas apenas nos critérios de eficiência, ponto este muito bem-vindo numa sociedade de consumo que privilegia a performance e a velocidade, em diferentes formas de produtividade ou excelência, e o individualismo, em detrimento dos vínculos sociais e afetivos (Bauman, 2004). Ele pode dormir sossegado à semelhança do homem europeu do século XIX que acreditava que a ciência a tudo responderia, mas com a dife- rença significativa de que, agora, para dormir, existem medicamentos mais avançados. No entanto, esse sono não possui nada de tranquilo. Ele é habitado por pesadelos que atormentam seu espírito, justamente porque sua noção de eficácia, algo capaz de resolver problemas, talvez não tenha sido a mais perti- nente para as demandas de seus clientes, que ele nem sempre soube reconhecer, por estar demasiado preso a suas próprias ideias. Sua proposta de resolução – pragmática e assertiva – seria uma forma de adaptação da pessoa ao mundo competitivo e de desempenho num mundo pós-industrial em detrimento de uma proposta emancipatória? Tornar a pessoa mais competente e resolutiva implicaria em torná-la mais realizada, com novos sentidos de vida? Esse ímpeto de competência promovida pela terapia a colocaria numa possibilidade de vinculação e consideração com as Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 27 outras pessoas ou numa postura mais competitiva e individualista com rela- ção às mesmas? Como ficaria, então, a apropriação do sujeito, a autonomia que caracteriza tantas terapias (Binswanger, 1935/2008), se o critério de eficácia, como os meios de atingi-la, vêm de fora, de um outro especializado no saber moderno, e não do próprio sujeito? E, no caso específico dos psi- cólogos, essa obsessão pela eficiência estaria em consonância com sua pro- posta de um olhar diferenciado sobre a pessoa, que tem justificado inclusive sua inserção nas propostas políticas importantes, como a humanização no SUS (Ceccim & Merhy, 2009), ou seria uma reprodução do tão criticado modelo médico? É assim que seu sono se perturba e o incomoda, mas talvez seja muito difícil poder acordar, uma vez que a tentação da supremacia o acomoda numa posição em que é melhor manter os olhos fechados. Semelhante discussão não consiste numa crítica particular à terapia cognitiva, enquanto proposta técnica e terapêutica, que consideramos ter evoluído muito nos últimos anos (Beck, 1997; Greenberg, Rice & Elliot, 1993) e que entendemos possuir, em termos clínicos, a mais alta relevância. A crítica aqui desenvolvida, que poderia ser perfeitamente aplicável ao behaviorismo nos anos 50 e 60 (Wolberg, 1967), incide não sobre o que a eficácia dessa terapia pode proporcionar, mas à cegueira que a noção de eficácia apregoada por seus protagonistas favorece, por tudo o que esconde em termos políticos e sociais. Refere-se muito mais à forma degenerada do uso de uma proposta, uma forma que, como tantas outras, associa o ideal de hegemonia à conquista de espaços institucionais, imaginários e econômicos e que se torna respaldada pela alienação do psicoterapeuta, que oscila entre a fascinação e a devoção pela noção de eficácia e sua distância do compromis- so com reflexão sobre a sua prática em sua sociedade, com a percepção das relações que existem entre aquilo que faz e o mundo em que ele, seus pares e clientes vivem. Trata-se, em suma, de sua recusa em tomar o rumo de Del- fos, onde poderia repensar suas origens, e simplesmente permanecer no con- forto ilusório e tentador do reino de Édipo que, no entanto, já intui suas pró- prias fragilidades e, cedo ou tarde, tomará consciência de que tudo o que construiu pode ruir5 a qualquer momento. 5 Tal como se deu com a hegemonia behaviorista nos EUA. Até os anos 70, o behaviorismo se cons- tituía como força hegemônica da psicologia norte-americana, dominando universidades e centros de pesquisa e colocando-se como uma terapia mais científica e eficaz que as outras. Tal supremacia ce- deu lugar, a partir de duros ataques (Gergen, 1996), à psicologia cognitiva que, hoje, tornou-se o pensamento dominante neste país. É curioso observar ainda como que grande número de behavio- ristas buscaram o que antes pareceria heresia em muitos grupos dessa escola: uma associação com o cognitivismo ascendente. Daí surgiram as “terapias cognitivo-comportamentais”, algo impensável para muitos nos anos áureos do behaviorismo. Maurício da S. Neubern28 ÉDIPO EM COLONO: DA MISÉRIA À EMANCIPAÇÃO Uma das questões que mais chamam à atenção no mito de Édipo é sua entrega para um processo expiatório, onde pôde encontrar suas misérias e, a partir delas, atingir uma verdadeira maturidade espiritual. Sua autopuni- ção com uma cegueira que concretizava no corpo a verdadeira cegueira que vivia como rei e seu exílio voluntário e errante em Colono parecem levá-lo a uma espécie de destilação do próprio sofrer, a um encontro terrível, mas aberto com sua própria história, a enxergar com os olhos da alma, de modo a conquistar uma verdadeira e iluminada sabedoria. Sem qualquer dúvida, trata-se de uma trajetória heroica, uma vez que tal empreitada demanda uma parcela rara de coragem e determinação, como de bom-senso e esperteza para lidar com obstáculos tão assustadores, num processo em que qualquer mortal pode sucumbir pela depressão e pelo esgotamento de seus recursos vitais. Daí porque consideramos o mito de Édipo não como um complexo universal e estruturante da psique, como rezam os psicanalistas, mas como uma história cuja exemplaridade pode tocar muitas pessoas, dentre elas os psicoterapeutas, de modo a servir significativamente em seus processos de crescimento e reconciliação consigo mesmo. Parece-nos, por outro lado, sintomático que poucos psicoterapeutas conheçam essa segunda parte do mito – a de Colono – pois a grande maioria estudou apenas a primeira, que termina com a trágica descoberta dos terrí- veis segredosque permeavam a história do herói e sua consequente expia- ção. Uma coincidência estranha paira sobre a relação entre os movimentos de psicoterapia e o mito de Édipo: ao mesmo tempo em que ele é contado pela metade, os movimentos de psicoterapia se sentem seduzidos pelas bele- zas de seu reinado, representadas em grande parte pelos ideais modernos de ciência, e cultivam a mesma cegueira quanto a suas origens históricas e suas condições socioculturais de nascimento e vida. Então, talvez seja o momento de indagarmos se as psicoterapias teriam condições, enquanto movimentos sociais e institucionais, de seguir o caminho de Édipo, deixando as comodi- dades de um reino ilusório para a vida árdua, mas autêntica, do caminho de Colono, que permitiu uma verdadeira mudança em sua trajetória. Desse modo, uma das primeiras feridas com que os psicoterapeutas podem se deparar é com a dimensão histórica de sua disciplina, amparada pelas disciplinas irmãs que a sustentam. Nem a psicoterapia, nem suas irmãs psi possuem uma história progressiva, cumulativa e linear que sai da obscuri- dade e da ignorância rumo à razão triunfante e iluminada pela ação sem má- culas de algum gênio do pensamento moderno. Da mesma forma, o estudo da história não consiste numa revelação de uma natureza do mundo social, por- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 29 que a história da ciência é um produto humano, contado por seus protagonistas num determinado período e contexto e que possui uma heterogeneidade de vozes e possibilidades de compreensão. Tal estudo deve incidir, portanto, não apenas sobre o que se disse, mas também sobre quem o disse, como foi dito e em quais condições tais afirmativas ganharam sentido nas comunidades. As- sim, torna-se possível conceber a contribuição de grandes ícones do pensa- mento moderno psi, como Wundt e Freud, a que se propuseram a estudar e sustentaram de pertinente para a psicoterapia e as possíveis razões que fizeram de suas propostas algo importante para tal disciplina. Mas, concebendo-se que este seria apenas um feixe de uma história altamente complexa, o mergulho histórico poderia ser ainda direcionado a outras raízes, como as do magnetis- mo animal (mesmerismo) e da hipnose, que antecederam as versões oficiais e, malgrado sua grande importância para o surgimento das ciências psi, foram marginalizadas e, em larga medida, excluídas em seus méritos histórico e ci- entífico (Méheuts, 1999; Neubern, 2009). Nessa perspectiva, a história perde o vício de possuir uma versão oficial, respaldada pelo pensar moderno mais estreito e exclusivista, para se tornar um conjunto de possibilidades, em que raízes e feixes distintos podem participar da integração de novas visões, concorrendo entre si de modo a oferecer uma perspectiva mais ampla para o psicoterapeuta. Mas, mais que isso, o psicoterapeuta encontra aqui a oportunidade de refletir, não apenas sobre a dimensão de realidade que estudaram, em termos de campos, objetos e métodos, como dos jogos institucionais que foram decisivos para a consa- gração de alguns heróis, fossem eles autores ou formas de pensar, e alguns vilões que foram condenados a um ostracismo que parece não vislumbrar fim. No primeiro caso, pode aprofundar o estudo sobre como os autores do século XIX, por exemplo, entendiam a psique, os fenômenos de cura, que métodos utilizavam para a abordagem de seus objetos de estudo e que ques- tões ocupavam o cenário da discussão nas comunidades científicas. Valeria mesmo a pena indagar porque, no caso dos magnetizadores dos séculos XVIII e XIX, os fenômenos magnéticos e mediúnicos, hoje pra- ticamente excluídos da academia, ocuparam tamanha importância em suas primeiras cogitações e no posterior nascimento da relação entre ciência e cura6 (Bergé, 1995; Ellenberger, 1971; Méheust, 1999). Já no segundo caso, deve focar suas atenções sobre as vicissitudes humanas e institucionais que marcaram a apreciação das comunidades científicas sobre momentos que foram decisivos, tirando-se o foco sobre uma questão puramente metodoló- 6 Vale destacar como os pesquisadores que buscam estudar tais tipos de fenômenos encontram ainda hoje uma considerável resistência no meio psi, mesmo no Brasil, onde tais fenômenos são ricos, co- muns e possuem especial importância na subjetividade do povo. Maurício da S. Neubern30 gica para o de uma compreensão dos jogos de poder e política envolvidos nos processos e tomadas de decisão. Logo, ao invés de se conceber o traba- lho de Mesmer como simples quimera ou charlatanismo, seria importante buscar uma compreensão sobre como as falhas metodológicas grotescas das comissões científicas no julgamento de suas ideias passaram desapercebidas das comissões científicas formadas por homens tão eminentes; por quais motivos se impôs uma lei de silêncio tão avassaladora, capaz de impedir a continuidade sobre o trabalho incompleto das comissões, de ignorar o pare- cer favorável de Laurent de Jussieu, grande naturalista dissidente das comis- sões, em continuar as pesquisas e mesmo de punir com exclusão os membros da Faculté de Médecine que se colocassem favoráveis ao mesmerismo e o utilizassem como instrumento médico (Bertrand, 1826/2004). A partir de semelhantes reflexões, o psicoterapeuta pode se indagar sobre a forma como sua instituição de pertencimento veicula a história de seu métier. Mais que isso, ele pode fugir às velhas explicações de efeito tiradas do baú do mestre fundador para perceber como as relações acontecem, como as negociações e produções de sentido ganham espaço no seio dessas instituições e até que ponto repetem os mesmos mecanismos que caracterizaram processos históricos tão ilustrativos como os dos magnetizadores na França ou da psica- nálise nos tempos de Freud. E sem que tenha que, com isso, mover-se num espírito de caça às bruxas e punição de vilões, refletir sobre as diversas possi- bilidades que permeiam o contar da história, tal como ocorre em muitas práti- cas clínicas contemporâneas (White, 2007). Assim, de uma postura cristaliza- da na passividade de um ensino dogmático, ele se coloca na posição de quem reflete e pensa, percebendo que uma história pode possuir versões distintas e conflitantes de acordo com os protagonistas que as narram. Há aqui uma observação importante, um paralelo que deve ser feito com relação à aventura de Édipo em Colono: sua trajetória heroica só se torna possível porque ele busca uma reconciliação com sua própria humani- dade. Não é a ação dos deuses ou a promessa mentirosa de um reino que lhe proporciona um movimento de superação tão impressionante, mas o reco- nhecimento de suas próprias misérias e fragilidades, que são colocadas em pauta, assumidas e trabalhadas para que ele se supere e ascenda a uma con- dição de iluminação. É desse modo que a práxis do psicoterapeuta, em suas dimensões reflexivas e clínicas, precisa incluir o sujeito como condição es- sencial, apesar de toda a fragilidade e desconfiança que essa categoria de- sempenha em termos modernos (Gonzalez Rey, 2007; Morin, 2001). Tal condição implica dois caminhos articulados de forma inevitável. Em primeiro lugar, uma vez que ele se encontra diante do cliente é importante que ele escute as vozes internas que vêm de si mesmo (seja de seu corpo, de Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 31 sua intuição, de suas leituras) porque é ele e não o mestre fundador quem está ali numa relação concreta com esse cliente, relação da qual o processo tera- pêutico depende por total (Morin, 1990; Neubern, 2004). Daí porque a teoria, ao invés de consistir numa entidade tirânica que escraviza seu pensamento, precisa se transformar num pano de fundo, num conjunto de referências que ganhe vida em seu espírito, que o auxilie no diálogo com o mundo empírico, mas que possa também ser questionado, aprimorado e até mesmodestruído. Ela não pode ser vista como um conjunto de respostas, mas como a possibili- dade de tratar um problema, de dialogar com a realidade do outro, de pensar a complexidade de seu mundo, de se transformar, em suma, num legítimo e precioso auxiliar para a pesquisa. Não pode, portanto, ser o ponto final onde se encaixam as expressões do sujeito, um túmulo onde termina a vida da refle- xão, mas um arcabouço articulado e flexível de conceitos que permita o nascer dessa reflexão. Daí porque é impossível pensar a teoria sem o sujeito7, por que ela, por si mesma, não é capaz de pensar e precisa dele para exercer qualquer uma das operações cognitivas que pode efetivar. Em segundo lugar, a condição de sujeito implica num resgate de sua própria subjetividade, da condição humana da relação e que permite, como diria Binswanger (1935/2008) ou Milton Erickson (Erickson & Rossi, 1980), o fundamento de um solo mãe e afetivo que nos liga e irmana como seres humanos. Tal condição se torna possível à medida que o psicoterapeuta passa a se escutar, a sentir seu próprio corpo, a perceber os apelos de sua intuição, a se interessar pelas emoções que sopram em seu íntimo e a se co- nectar com o manancial heterogêneo de sua trajetória de vida, com relacio- namentos e experiências diversas, e daí tirar as referências para se relacionar com aqueles que o interpelam. Essa abertura a si mesmo é o que permite que traga sua singularidade para a terapia, que ele mesmo entre em relação com o cliente não só como alguém portador de um saber técnico, mas, sobretudo, como uma pessoa que reconhece sua própria subjetividade e dela extrai a matéria-prima para que a terapia possa acontecer. Uma vez que ele se reco- nhece e se legitima, tanto pelo que estuda e desenvolve em termos cogniti- vos, como pelo que vive enquanto ser humano, sua relação com a teoria ten- de a ocupar um plano secundário, porque é a relação com a pessoa do clien- te, que está além de qualquer teoria, quem prevalece e permite que o proces- so aconteça. O psicoterapeuta, portanto, se torna ele mesmo responsável por suas ações no processo, sem o imperativo de transferir essa responsabilidade 7 É importante destacarmos que a condição de sujeito remete a uma conquista do psicoterapeuta, após um largo processo de crescimento e aprendizado. É necessário, a princípio, que ele aprenda a repro- duzir o que lhe é passado, compreendendo as nuances da tradição que recebe, para, em seu percurso, aprender a pensar e criar sobre essa herança. Do contrário, corremos o risco de instaurar um anar- quismo improdutivo. Maurício da S. Neubern32 a um mestre qualquer que, por mais brilhante que seja, nada pode fazer quanto àquele seu cliente em particular. Semelhante aventura implica num conjunto de mudanças nas co- munidades de psicoterapeutas em termos de uma maior horizontalidade das relações. Enquanto a teoria deixa o papel de um mausoléu que encerra, pre- tensiosamente, os restos do pensamento de seu criador, para se tornar um corpo orgânico, acessível à crítica e flexível ao diálogo com o mundo, as relações com o mestre fundador se modificam substancialmente. Ele pode continuar na posição de um daimon (Morin, 1991), um ser-ideia que se mantém vivo por ser constantemente evocado e alimentado pelas reflexões daqueles que são seduzidos e atraídos por suas ideias, um ser que mantém ideais e utopias que envolveram as pessoas e formaram comunidades. Mas, por outro lado, ele sai da posição de uma divindade porque o questionamento a seu pensar se torna possível e, mais que isso, necessário, pela comunidade de sujeitos que dialogam com sua obra. Esse questionamento se coaduna perfeitamente com a assertiva de Bachelard (1938/1996) segundo a qual no espírito científico é possível venerar o mestre criticando-o, colocando ques- tões a seu pensamento, em suma, dando-lhe possibilidade de evoluir por submetê-lo ao rigor e ao calor do debate. É assim que, mais do que sobre o que o mestre disse, a reflexão se volta sobre como disse e como pensou para poder tecer tais afirmações, como articulou ideias e abordou problemas concretos para concluir seus pensamentos, de que premissas partiu e como lidou com elas e ainda, com que vozes dialogava ao conceber sua teoria. Malgrado a ferocidade que tais processos podem envolver no seio das instituições, essa é uma forma de transportar o pensamento do mestre para o hoje, contextualizando-o no mun- do atual de maneira a colocá-lo sob a dolorosa prova de se transformar para poder evoluir, o que pode, inclusive colocá-lo sob o risco de aniquilação. É assim que, mesmo em instituições tidas por seu conservadorismo, como ocorre na psicanálise, alguns psicanalistas (Meyer, 2010; Nathan, 2006, 2007) têm trazido questionamentos incisivos sobre os pilares do universa- lismo, tais como do Édipo, do desenvolvimento infantil e da eficácia tera- pêutica, demonstrando a inconsistência de tais pressupostos, seja pela incoe- rência de suas afirmações, seja pelo avanço de disciplinas como a etologia e as neurociências. Semelhantes reflexões coincidem com algumas tendências tipicamente contemporâneas como as de considerar o sujeito em sua singula- ridade, sobretudo na produção de sentidos e significados, e numa relação estreita com o sociocultural, com sua corporalidade, como em termos de um questionamento incisivo sobre as noções modernas de teoria (Neubern, 2004; Roustang, 2006; White, 2007). Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 33 Nessa perspectiva, a comunidade se aproximaria de uma noção de pólis – um conjunto de cidadãos num jogo democrático de negociações, ou seja, um conjunto de sujeitos que pode se inserir num processo de debates e discussões a respeito de temas pertinentes para a práxis em torno do qual tal comunidade estaria engajada. Isto é, enquanto cidadão dessa pólis, ele possui a condição de voz, decisão e reflexão, patrimônios não mais restritos a mes- tres fundadores e escolhidos; a diversidade dos sujeitos, nesse sentido, pode contribuir para a construção de corpos teóricos mais heterogêneos de modo a se romper com a tendência monolítica das escolas modernas8. Todavia, con- cebemos que semelhante noção ainda pode parecer utópica, uma vez que a figura divina dos mestres fundadores se constitui como o pilar central de grande parte dos movimentos de psicoterapia, que talvez se colocassem em derrocada se aceitassem, em si mesmos, uma comunidade tão próxima ao sentido da pólis grega. No entanto, seguindo-se mudanças importantes que ocorreram na ciência e na discussão epistemológica do século XX, torna-se possível ao psicoterapeuta repensar a condição dessa viga mestra, particu- larmente no que se refere ao fracasso moderno de um conhecimento linear e direto da realidade, o que não o permite se situar em qualquer posição privi- legiada quanto a seus rivais (Gergen, 1996; Gonzalez Rey, 1997). Isto por- que em mais de cem anos de disciplina, sem contarmos os tumultuados anos anteriores da época mesmerista, a psicoterapia – como as ciências humanas e sociais – não conseguiu cumprir um ou talvez o principal requisito da ciência moderna (Neubern, 2004; Stengers, 1995): desenvolver uma abordagem que silenciasse as demais, que se impusesse, tal como o exige o espírito moder- no, como única e que contasse com dispositivos, como o laboratório das ciências duras, que fizesse cessar as polêmicas e os espíritos de partido. Com que triste realidade se deparou, então, o psicoterapeuta! Mais os anos se passaram, mais surgiram promessas de movimentos e mestres, arvorando-se a exclusividade moderna, mais o número de escolas proliferou, mais as batalhas continuaram e ninguém conseguiu concretizar essa tão al- mejada unidade na forma de uma hegemonia que desse ao psicoterapeuta o mesmo status que tem o físico. “E por que, então,” pergunta-se ele surpre- endido, “tantos embatescom os rivais, tantas querelas e disputas acirradas se o ideal de uma exclusividade científica permaneceu e permanece ainda hoje livre do espírito de domínio dos movimentos de psicoterapia?”. Sua surpresa se acentua ainda mais à medida que se dá conta de que chegou atra- sado nas discussões epistemológicas do século XX, onde a ciência passou a se constituir, não como um ato simplista de revelação de realidade, mas como um processo que envolve também uma série de construções e negocia- 8 Como ocorreu com os movimentos sistêmicos e narrativos entre os anos 90 e a virada do século. Maurício da S. Neubern34 ções de seus protagonistas, negociações que permitem que o empírico, em sua dimensão ontológica, ganhe visibilidade e sentido (Hacking, 1999). Assim, não faz mais sentido pensar, como o fazia o psicoterapeuta assombrado com a modernidade, que aquilo que o cliente lhe diz seja tido na conta de uma expressão linear da realidade (que só ele enxerga), uma ex- pressão de um objeto de estudo apenas por ele conhecido e que o setting psicoterápico seja uma espécie de laboratório, um espaço confiável em ter- mos de uma legitimidade capaz de tirar o véu da opinião para permitir uma autêntica revelação sobre a psique do sujeito. Mais ainda, parece não mais fazer sentido se entregar a tantas batalhas, fundadas numa paixão que não permite a compreensão epistemológica de que os princípios modernos já faliram na psicoterapia e não parecem dar sinais de ressurreição, apesar de continuarem a influenciar dissensões, a transformar colegas em rivais, a de- formar a formação do estudante e impedir o intercâmbio enriquecedor entre pensamentos distintos. No entanto, a lucidez que pode advir dessa dura realidade pode fa- zer a diferença em termos de uma nova forma de entendimento da psicotera- pia, uma forma que deixe de se restringir ao conteúdo do que se afirma, para refletir sobre o que antecede e precede as afirmações em diferentes pontos. Um primeiro ponto possível, já levantado por alguns autores (Erickson & Rossi, 1980; Gonzalez Rey, 2007; Hanns, 2004), refere-se à própria natureza do campo da psicoterapia, o que parece não se constituir como novidade à primeira vista, por ser um dos primeiros tópicos discutidos desde a época de Freud. No entanto, o que parece ser novo aqui é a busca de novas racionali- dades e metáforas da subjetividade humana, que não parece se sentir muito à vontade com as metáforas oriundas da matéria e da tecnologia trazida por grande número de escolas, como a máquina para os cognitivistas, o laborató- rio para os behavioristas e a mecânica dos fluidos para os psicanalistas (Go- olishian & Anderson, 1996). Assim, se as diferentes abordagens utilizam metáforas distintas e não parecem diferir muito em seus resultados, temos aqui um indicador significativo de que o campo da subjetividade é muito distinto do campo material onde se inspirou a ciência moderna e que, por isso, os conceitos precisam ser reinventados de modo a se estabelecer novas formas de diálogo com esse novo mundo empírico. Malgrado existam neces- sidades de um aprofundamento nesse sentido quanto à própria noção de ci- ência que se passa a buscar, existe aqui o retorno daquilo que ficou de fora na fundação da ciência moderna, particularmente ligado ao reino da subjeti- vidade, como o sujeito, a cultura e a geração de sentidos em seu mundo par- ticular e social, as emoções, a irregularidade e a singularidade (Neubern, 2004), como também a construção de noções muito mais voltadas para o Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 35 lado humano que para o da matéria (Santos, 2000): o jogo, violência, histó- ria, retórica, escolha, drama, dentre outros. É assim que, num tema complexo como a experiência religiosa, o psicoterapeuta deve fugir da tentação de colonizar o pensamento de seu clien- te, para buscar compreendê-lo nos sentidos que lhe são próprios, em termos subjetivos e socioculturais (Nathan, 2004; Neubern, 2010a): um espírito, com quem o paciente diz se comunicar, não pode ser tido na conta de uma alucina- ção, produto imaginário ou arquetípico. É importante que o psicoterapeuta o compreenda nas narrativas que o sujeito traz (o espírito e seu mundo espiritual) e se pergunte o que esse ser gera, que sentimentos desperta nele e nos outros de suas relações, que redes de interação e produção simbólica promove e que práticas sociais e ações exige para que se possa negociar com ele. Desse modo, embora o psicoterapeuta não precise renunciar à sua formação, em termos de clínica e psicopatologia9, é preciso que se recuse a uma tradução perversa que imponha narrativas totalmente estranhas ao mundo de seu cliente, que patolo- gize o sujeito, transformando-o em mero indivíduo, destituído de qualquer participação em seu rumo, de seu nicho de produções simbólicas e de seu per- tencimento a diferentes redes, com todo o seu potencial terapêutico e emocio- nal. Não se trata, em absoluto, de procurar entender e ser empático com suas crenças, como se o psicoterapeuta as visse de fora, descritas num manual mi- nucioso e preciso, onde fosse possível classificá-las ou talvez mensurá-las; ao contrário, trata-se de uma disposição para entrar em seu mundo, com as metá- foras que lhe são próprias, e conceber que os sentidos gerados a partir de sua experiência com os espíritos são constituintes de sua realidade, o que envolve pessoas, seres, sistemas culturais de significados, objetos, lugares, procedi- mentos, outros tipos de terapia (Nathan, 2004) e práticas sociais implicadas no drama das relações humanas (Turner, 1982). Um segundo ponto a ser destacado é a importância de um olhar complexo (Delourne & Marc, 2001; Morin, 2001; Neubern, 2004) para a realidade das pessoas, um olhar que possa contemplar e dialogar com as múltiplas interseções que perpassam a fabricação de suas subjetividades. O encontro na psicoterapia não se reduz ao campo de uma única disciplina, pois é perpassado por registros históricos, culturais, biológicos, sociais, fa- miliares, econômicos, religiosos que encontram eco na subjetividade dos protagonistas e reproduzem, de forma particular, todo o cosmos de uma so- ciedade (Nathan, 2004). Isso força, de certa forma, a um diálogo com outras 9 A ideia aqui é muito mais a de que os saberes respaldados pela ciência moderna sejam narrativas possíveis para o auxílio a uma demanda terapêutica e não os únicos. Assim, psiquiatria e psicopato- logia podem conviver com outras narrativas de compreensão do mundo cultural do sujeito, tal como descrito por Tobie Nathan (2006). Maurício da S. Neubern36 disciplinas, uma vez que o psicoterapeuta mais lúcido se dá conta de que por mais completa que sua teoria possa lhe parecer, ela ainda se mostra muito insuficiente e tacanha diante de um mundo com tantas zonas de sentido, interações e processos que talvez ele nem imaginasse existir. Funcionando como uma espécie de antídoto ao dogmatismo doutrinário, semelhante abertura à influência de novos saberes pode favorecer que o psicoterapeuta assuma seu métier como uma práxis de pesquisa, porque, desse modo, ele possui uma condição possível de dialogar com um conjunto numeroso de interações que atravessam as situações clínicas em que se engaja. É assim que, diante de uma cliente que demanda ajuda devido a intensas dores crôni- cas, ele não pode se permitir à tentação de se manter nos conceitos já acaba- dos, onde a explicação já está dada; o conhecimento sobre essa dor, ele ain- da não o possui, pois está por se construir. O psicoterapeuta não pode mesmo afirmar que já sabe algo, uma vez que esse saber origina-se de um processo de relação com a cliente que nem ainda começou. Essa dor pode dizer de questões de gênero, de relações conjugais, de missões familiares, de questões econômicas no seio de suasredes sociais, de sua inserção no trabalho, dos sistemas culturais de crenças etc., que levam a toda uma produção simbólica e de ações que não podem ser previstos por um único marco teórico nem sabidas previamente (Neubern, 2010b). É necessário, desse modo, que ele se permita o trabalho artesanal que é a pesquisa que, num processo clínico de relação com a cliente, possa articular registros tão distintos presentes naquilo que faz sentido e constitui suas realidades. Assim, ao invés de uma busca sem tréguas por invariantes univer- sais, o olhar para o outro se torna muito mais voltado para sistemas fugidios e flexíveis de relações da subjetividade de pessoas e grupos que demandam, em seus respectivos ethos, uma atitude cuidadosa de espera do psicotera- peuta para conceber as conexões entre dimensões tão complexas que se arti- culam de forma muito particular em cada caso10. A certeza de conceitos en- cerrados em si mesmos deve ceder lugar a uma abertura ao mundo complexo e polifônico do outro; a busca desenfreada por usar conceitos que se expli- cam por si em nome da certeza e confirmam sempre o que já se sabe, matan- do as chances da reflexão, sai para que entre em cena a busca pelo que ainda não foi pensado ou foi mal pensado; em suma, a obsessão pelo mesmo dá 10 Tal postura permite a perspectiva de evolução de um pensamento, tal como ocorre com a obra de Thomas Csordas (2002), antropólogo que parte da fenomenologia de Merleau-Ponty para eleger a corporeidade como eixo central de suas reflexões e pesquisas. Ao mesmo tempo em que essa corpo- reidade se torna um campo onde se integram diferentes dimensões que produzem significados, ela evolui do pensamento original por se articular com outras perspectivas, como Bourdieu (1972/2000), que inclui toda uma noção de aprendizados técnicos coletivos (habitus) que são ancorados no corpo do sujeito por meio das práticas sociais em que toma parte. Relação semelhante pode ser vista entre a obra de Vigotsky e a proposta de Gonzalez Rey (2007) quanto à noção de sentido subjetivo. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 37 lugar à aventura pelo novo, pela possibilidade de um saber onde perguntar pelo diferente é condição para que esse saber continue vivo. Em suma, o anseio por uma unidade última a ser descoberta, um conteúdo primeiro a ser decifrado, dá lugar a uma investigação de diferentes tipos de relação sobre processos cujas zonas de sentido são visitadas por saberes que habitam e transitam na grande arena da existência humana. No entanto, o olhar para a complexidade do cliente ficaria incom- pleto caso o psicoterapeuta não desenvolva uma reflexividade sobre seu pró- prio mundo, particularmente no que se refere a uma dimensão altamente imbuída de subjetividade e determinante no processo clínico que geralmente é pouco pensada em sua formação: a dimensão econômico-financeira. Ha- bituado a pensar apenas o setting clínico, ele frequentemente desconsidera o que antecede seu métier, sem se dar conta das poderosas influências que recebe de diferentes instâncias da sociedade no tocante a tal dimensão. Além de uma inserção política na própria produção de conhecimento, em seu papel de sujeito, é importante que o psicoterapeuta se disponha a refletir, em suas comunidades de pertencimento, sobre suas relações com o mercado, princí- pio de organização social que se constitui num determinante central na vida cotidiana das pessoas (Santos, 2000). Aqui entram não apenas questões mais diretamente relacionadas ao aspecto financeiro, como sua relação com o dinheiro, muitas vezes conflituosa por achar que comercializa o emocional das pessoas, como ainda os tipos de conexão que existem entre sua prática e o princípio de mercado. Tamanha é a importância dessa reflexão que, caso não seja levada a cabo, ele corre o sério risco de transformar sua prática numa indústria, onde seus valores são corrompidos e desvirtuados para atender às exigências de lucro e consumo. Logo, é importante que encontre espaços onde sua relação com o dinheiro seja pensada e repensada, de maneira que ele consiga ter consciência de como o dinheiro se configura como gerador de sentido em suas práticas. Como ele influencia no momento da alta, tendendo a prender ou liberar o sujeito; ele se configura como fator que auxilia o processo terapêutico ou como um obstáculo para que aconteça; a que tipos de sentimentos (“francis- canos”, ambiciosos, tranquilos, despojados) e projetos pessoais de vida ele se atrela; como se integra à construção de sua identidade profissional; como se liga a crenças como a obrigatoriedade da terapia para psicoterapeutas; como influencia na questão dos convênios de saúde e na relação entre quantidade de pessoas que procuram psicoterapia e qualidade do serviço prestado. É curioso notar como tema tão relevante costuma passar longe da trajetória do psicoterapeuta, seja em termos de sua atuação prática (Madanes, 1995), seja em termos de formação e inserção profissional (Neubern, 2005). Maurício da S. Neubern38 Não é sem razões que esse silêncio se vê acompanhado de uma grande difi- culdade de reflexão sobre as funções sociais de sua prática, em termos de contribuição numa sociedade onde o consumo é um determinante poderoso em muitas formas de produção de subjetividade das pessoas e suas relações. Torna-se difícil responder até que ponto o que ocorre num consultório é uma forma de reprodução da lógica social dominante ou um processo de emanci- pação, e se tais processos permitem o crescimento dos sujeitos implicados, terapeuta e cliente, principalmente em termos de cidadania. Mas, apesar das dificuldades, tais questões não devem fugir à pauta da reflexão, pois é fun- damental que o psicoterapeuta aprenda a se posicionar diante de um cenário constantemente atravessado pelo poderio do mercado, sob pena de se ver engolido por ele. Aqui entra uma questão que não é apenas profissional, nem só teó- rica ou ideológica, mas que adquire importância em termos de sentido diante de sua própria existência (Frankl, 1970/2009), pois consideramos ser neces- sário que aquilo que o psicoterapeuta faz de sua profissão não seja pensado somente em termos de carreira profissional, mas em termos de vida, ou seja, em como sua práxis foi e é situada em sua trajetória existencial. Mergulhan- do em sua própria subjetividade, ele deve se perguntar o que ficou de signi- ficativo a partir de seu contato para si e para os outros, sejam alunos, clien- tes, colegas e, se nesses contextos de relação, a moeda de troca se restringiu ao dinheiro, caracterizando uma parceria de consumo, ou se também foi cunhada em termos afetivos, de maneira a configurar outra qualidade de relação humana. Talvez essa seja uma das melhores formas de aprender a se posicionar diante do mercado de um modo saudável, que permita fugir de uma oposição cega como de uma entrega sem escrúpulos, de maneira a en- xergar suas possibilidades, uma vez que o psicoterapeuta pode passar a ter cada vez mais clareza do que realmente importa, do que faz sentido para ele e do que pode ou não abrir mão para que seu métier não se descaracterize ou seja corrompido. Nessa perspectiva, sua ação diante do cliente ganha uma dimensão qualitativa que vai além da técnica e lhe permite considerar melhor temas e discursos recorrentes das sociedades contemporâneas que são profundamente influenciados pelo princípio de mercado (Bauman, 2004). Comumente há demandas de psicoterapia que são atravessadas por tais discursos, mas que podem passar desapercebidas se a ânsia por eficiência se impuser à relação terapêutica, impedindo os espaços de reflexão sobre ele mesmo e o cliente em seus contextos de inserção social. Todavia, uma vez que o psicoterapeuta se torna sensível a tais possibilidades de influência e a relação com o cliente, um espaço de negociação, torna-se possível colocar o individualismoem pauta, de modo a se trabalhar mais a fundo a qualidade das trocas afetivas; o Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 39 indivíduo reativo que se deixa arrastar pelas marés de consumo e prazer fu- gaz, pode ser contrabalançado pelo sujeito que é capaz de pensar, interagir com o outro e ser responsável por suas ações; e a peça da máquina compe- tente e competitiva em que muitas pessoas se transformam pode ser levada não só à resolução de sintomas, mas também a uma revisão mais profunda sobre sentido de vida e das pessoas que nela ocupam algum espaço. E, se- guindo-se a mesma ótica, as tentações referentes à eficácia de técnicas e diagnósticos sem esforço e pensamento, aos modismos teóricos a serem con- sumidos, a enxurrada de livros e cursos com promessas ilusórias e a busca desenfreada por diplomas, títulos e espaços sociais e institucionais cedem lugar a um pensar mais lúcido, no qual o psicoterapeuta consegue pesar me- lhor suas prioridades e os papéis que desempenha na sociedade. Ele, sim- plesmente, percebe que, mesmo trabalhando de portas fechadas, não deixa de participar do mundo social, onde possui uma série de ações pelas quais é também responsável. Uma primeira leitura sobre esse texto pode trazer à tona uma con- cepção equivocada sobre o métier do psicoterapeuta, como se ele precisasse ser uma espécie de super-homem para poder lidar com seu cotidiano profis- sional. De fato, essa crítica não nos parece absurda num primeiro momento, uma vez que sua práxis é perpassada por toda uma ampla gama de registros simbólicos e discursos que exigem dele uma abertura para dialogar com a polifonia de vozes que chegam até ele que não podem ser simplesmente sin- tetizadas numa palavra mágica, como “complexidade”. No entanto, preferi- mos pensar que a proposta de uma prática mais consciente e reflexiva de sua própria condição é perfeitamente possível, não só pelo exemplo de grandes psicoterapeutas, como também pelas próprias características de um métier que se mistura e se caracteriza como uma relação humana. É nesse sentido que destacamos que, à semelhança do que ocorre na heroica saga de Édipo, o processo de reflexividade não deve se restringir ao psicoterapeuta e seus usos técnicos, mas envolver o outro, porque o processo psicoterápico implica protagonistas distintos e não pode, portanto, ficar restrito em sua reflexão à figura do psicoterapeuta: é necessário que existam espaços para que os outros grandes protagonistas – o cliente, as pessoas e instituições importantes de suas relações – possam entrar em cena e participar dessa reflexão11. Nesse sentido, o psicoterapeuta não necessita abrir mão de seus conhecimentos e de sua expertise, pois seus conhecimentos técnicos e teóri- cos são de grande importância para que a psicoterapia aconteça; contudo, 11 Tal como ocorre com as diferentes associações de usuários de psicoterapia e serviços de saúde em geral que desempenham importante papel nas sociedades europeias atuais, defendendo os interesses da população (Nathan, 2004). Maurício da S. Neubern40 boa parte das reflexões, em geral, ficam restritas a este campo, como se o cliente nada pudesse dizer para avaliar sua própria condição e suas vivências ao longo de um processo psicoterápico. Ele se reconhece naquilo que o psi- coterapeuta afirma sobre ele e seu processo? Sua forma de avaliar a psicote- rapia deveria ser a mesma do psicoterapeuta? O que, em sua visão e na das pessoas com quem convive, teria sido realmente importante nesse processo, nessa relação para as conquistas que obteve? Em suma, questionamentos como esses são de grande importância para que a noção de sujeito da qual tanto falam os psicoterapeutas (Gonzalez Rey, 2007; Neubern, 2010b) não fique restrita às afirmações e concepções do psicoterapeuta, mas assuma um papel ativo na avaliação do que e como a psicoterapia ocorreu. Consideramos que esse ponto seja crucial para uma compreensão mais abrangente e lúcida sobre a legitimação da psicoterapia, algo que inclui, mas também ultrapassa a discussão sobre eficácia terapêutica. Se, por um lado, a psicoterapia precisa ser pensada em termos pragmáticos, tal como rezam psicoterapeutas contemporâneos (Beck, 1997; Erickson & Rossi, 1980), ela precisa também, por outro, ser qualificada em termos da voz da- queles que são seu público alvo, aqueles a quem seus aparatos teóricos e técnicos se destinam e visam beneficiar (Andersen, 2002; Nathan, 2007). Aqui há um ponto de grande importância, pois é possível que a voz dos usuários e de suas redes talvez venham a se constituir no único ou num dos poucos pontos em comum que permitam uma avaliação qualitativa e profunda do que se deu num processo psicoterápico, de que repercussões ele trouxe para a vida dessas pessoas, o que elas consideraram errôneo e o que entenderam ter feito diferença para suas conquistas e mudanças. Embora a reflexão e a pesquisa sobre eficácia tenha avançado consideravelmente nos últimos anos, ela não pode hoje dispensar a dimen- são reflexiva em que o cliente toma parte como sujeito de maneira a legi- timar ou não um processo que diz respeito a fundo sobre sua própria subje- tividade, de maneira a compor novos núcleos de inteligibilidade capazes de pensar a psicoterapia, de coibir eventuais abusos, mas também engrandecê- -la como uma práxis de valorização e crescimento do ser humano. Em suma, ele também se torna alguém que ajuda o psicoterapeuta a compreen- der mais sobre suas trajetórias, formações, conhecimentos e, principal- mente, sobre si mesmo. MATURIDADE ESPIRITUAL Conta-nos Sófocles (citado em Naffah Neto, 1989) que em Colono, Édipo atinge uma condição de iluminação, voltando a enxergar e tornando-se Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 41 um sábio capaz de guiar e levar o esclarecimento às pessoas. Ao ser interpelado sobre os tumultos de seu passado, Édipo assim respondeu, concebendo-o como uma grande peça pregada pelos deuses: “Não cometi nada... nada fiz a não ser aceitar a oferta de Tebas por tê-la salvo... Sim, matei meu pai, mas em legítima defesa... sou inocente ante todas as leis. Fiz o que fiz sem saber” (p. 65). Semelhante ilustração é de grande importância para a reflexão aqui trazida, uma vez que contemplar o passado tortuoso e as fragilidades episte- mológicas das psicoterapias não deve implicar numa postura de culpa e re- criminação, mas na lucidez que dialoga com as inconsistências, assume-as e integra-as numa nova perspectiva de saber e de práxis. Passado o impacto inicial das amargas decepções e dores diante de tantas feridas, o psicotera- peuta tem a possibilidade de se posicionar e enxergar a história de seu métier sob um novo registro – um posicionamento mais coerente e lúcido em que tais vicissitudes ensinam e oferecem a oportunidade de uma nova forma de produzir conhecimento e atuar no cotidiano. Assim, ele desce do arrogante pedestal de um herói que se vê supe- rior a seus colegas e clientes por possuir um conhecimento mais verdadeiro, para a posição de alguém que, por compreender melhor as fragilidades histó- ricas de seu próprio saber, não se entrega a batalhas em busca de uma verda- de única e ilusória, mas se dispõe a assumir uma condição de sujeito nas arenas de negociação de sentido das comunidades onde se insere. Mesmo que não fique isento do equívoco, sua postura passa a não se restringir sobre o foco no objeto de estudo12, para integrar também a reflexividade de pro- cessos que antecedem e perpassam sua práxis. Ele pode pensar sua relação com a teoria, prevenindo-se contra a tirania de um mestre fundador mítico, como também incluir nessa ação reflexiva as dimensões socioculturais, eco- nômicas, ideológicas, relacionais e subjetivas. Assim, de um cordeiro dócil e obediente, que apenas obedece e repete o que os outros lhe disseram e teme encontrar seu própriocaminho, ele assume a posição de quem pensa e incute a heterogeneidade, o problema e a contradição no pensar psicoterápico – ingredientes fundamentais para vida e evolução de um corpo teórico. No entanto, a queda da máscara do herói incute uma nova possibili- dade do psicoterapeuta perante o outro – a de um olhar diferenciado que per- mita um acesso a dimensões de sua experiência, seja ela teórica ou subjetiva, com as quais o dogmatismo impede um contato produtivo. Uma vez que a 12 Devemos ressaltar que essa proposta não coincide com o radicalismo de abandonar a dimensão ontológica em nome de uma volta exclusiva às trocas sociais, tal como propõe o construcionismo social de Gergen (1996). Apenas considera que a dimensão ontológica é importante e não deve ser desvencilhada das reflexões sobre as trocas sociais e condições em que o conhecimento nasce e se mantém (Neubern, 2004). Maurício da S. Neubern42 pretensa superioridade é abandonada torna-se-lhe possível e necessária uma postura distinta com relação aos colegas psicoterapeutas, aqueles que sempre pensaram de outra forma e tantas vezes foram vistos como adversários. Como não há mais o caminho verdadeiro a ser buscado, onde aquele que o encontra zomba e lamenta os que se equivocam por tomarem outros rumos, a riqueza do aprendizado mútuo torna-se maior e mais concreta, de maneira que as fra- gilidades apontadas nos debates podem vir a se constituir como importantes fontes de reflexão e aprimoramento das ideias (Hanns, 2004). O próprio conflito, antes sinônimo de guerras e rupturas incontorná- veis, torna-se uma oportunidade bem-vinda de crescimento porque as críticas, ao invés de serem tidas como ataques pessoais ou heresias, passam a ser vistas como pontos a serem melhor pensados e desenvolvidos por seus protagonistas. De outra parte, a postura de diálogo, numa atitude sincera de buscar entender o que o outro afirma (Anderson, 1997), pode também facilitar uma aproximação ainda rara entre os psicoterapeutas de abordagens distintas, de maneira a promover uma compreensão mais completa e coerente do pensamento do outro, em que ela se fundamenta e como se organiza na práxis do psicoterapeuta (Delourne & Marc, 2001; Neubern, 2004). Uma vez que se compreende melhor de quais pressupos- tos partem em suas reflexões, quais zonas de sentido exploram, o que visam como mudança em psicoterapia, a que visão de homem se referem, a discussão assume o caráter do possível, daquilo que está por se fazer, não como a busca doutrinária do consenso que silencia as diferenças, mas como um campo no qual a diferença é um caminho para o crescimento. Uma reflexão conjunta dessa natu- reza pode trazer o próprio psicoterapeuta a se questionar em variados pressupos- tos de sua práxis, como também incutir uma nova ordem de ética entre seus con- cidadãos, uma ética na qual o adversário volta a ser um colega que pensa de outra maneira, mas com quem o diálogo se torna possível e, sobretudo, desejável e necessário. Afinal, os protagonistas desse campo precisam perceber que fazem parte de uma mesma pólis – a psicoterapia – que necessita sair da condição de barbárie, na qual a força é a única moeda de troca, para a de uma civilização que oferece outras estratégias de negociação entre seus membros, principalmente aquelas voltadas para a polifonia e a heterogeneidade no diálogo com o empírico. Por fim, consideramos que essa maturidade espiritual só se torna pos- sível caso o psicoterapeuta se volte para seu verdadeiro oráculo, numa recepti- vidade sincera quanto a suas indagações e metáforas a respeito de si, como ser humano, e de seu métier. Não se trata aqui da busca de Tirésias, o sábio de Delfos a quem Édipo agride e ameaça ao ter respostas tão surpreendentes; trata- -se de um oráculo, talvez o único possível, que possa falar profundamente a respeito de suas ações, de como lida com seus pensamentos e marcos teóricos, como também de sua ética: o próprio cliente. É necessário que este saia da po- sição de um objeto a quem se busca estudar, de uma realidade hostil a ser con- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 43 trolada, para se tornar, de fato, essa voz que, ao se manifestar, leva o terapeuta a uma reflexão engajada e profunda sobre si mesmo, sobre a pertinência do que afirma e pensa. Ele precisa ser reconhecido como um sujeito cujo protagonismo deve ser valorizado e concebido como condição para um conhecimento legíti- mo sobre aquilo que a psicoterapia afirma sobre as pessoas, seja em termos de epistemologia e pesquisa, seja nas diferentes formas de divulgação que seus discursos alcançam nas sociedades contemporâneas. Em suma, para que ele deixe a cegueira que tanto o atormenta e possa fazer algo pelas pessoas; para que, à semelhança de Édipo, encontre o seu daimon interior que sopra sabia- mente a seu espírito; para que se reconcilie com o saber que nasce da relação com o outro, ao invés de vir pronto de uma teoria, ele precisa se deixar condu- zir por aqueles a quem pretende, de alguma forma, conduzir. Talvez este seja o grande paradoxo de se tornar psicoterapeuta, a contradição contra a qual nada possamos fazer a não ser acatar, dobrando os próprios joelhos, a maldição à qual devamos apenas aprender a abençoar. REFERÊNCIAS Andersen, T. (2002). 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Do sentido ao sentido subjetivo e às configurações subjetivas. Subjetividade, sujeito e psicoterapia: transcendendo a racionalidade. Implicações epistemológicas da compreensão da psicoterapia centrada no desenvolvimento da subjetividade. Algumas reflexões finais. Referências. INTRODUÇÃO O racionalismo moderno foi tomando formas muito sutis de ex- pressão no curso de sua longa história no pensamento ocidental, manifestan- do-se até hoje de diferentes maneiras, seja na filosofia ou nas ciências sociais em geral. O próprio pensamento pós-estruturalista, que tanto o tem criticado, abriu novas formas de redução dos processos humanos às produções simbó- licas de caráter cultural, ignorando dessa maneira outros registros que, pela sua gênese, escapam ao simbólico e são inseparáveis das diferentes práticas humanas. Da mesma forma que o racionalismo fez com o conceito de razão, o pensamento pós-estruturalista considerou o discurso como o foco universal Fernando Luis González Rey48 para o estudo dos diferentes fenômenos humanos, sendo tanto a razão quanto o discurso produções humanas que não reconhecem o caráter gerador das emoções. O giro linguístico das ciências sociais a partir da emergência da linguística formal moderna, que teve no estruturalismo sua expressão filosó- fica mais acabada e influente nas ciências sociais, não só excluiu o sujeito dos processos sociais, como também – junto a ele – excluiu as emoções, que então passaram a ser representadas como um epifenômeno da linguagem ou foram sinalizadas por metáforas abrangentes com funções específicas no interior da estrutura do inconsciente, como fez Lacan com o conceito de gozo, por exemplo. Os processos sociais e psicológicos passaram a ser expli- cados por normas e padrões associados com o funcionamento de sistemas fechados (estruturas) que não são afetados pela ação dos sujeitos concretos. Esses sistemas, associados com a repetição de normas e pautas em diferentes áreas da ação humana, se reconhecem na definição de estrutura. A estrutura, mesmo que esteja para além da razão e da intencionalidade humana, expres- sa uma sequência e uma ordem típicas do funcionamento racional. O presente capítulo irá focar no caráter gerador das emoções hu- manas e as suas relações recursivas com os processos simbólicos, aprofun- dando o entendimento dessa questão e marcando um ponto de virada da re- presentação racionalista e do reducionismo do simbólico que dominam até hoje, de uma forma ou de outra, o campo das ciências sociais. No desenvol- vimento desse debate iremos fundamentar uma definição cultural-histórica da subjetividade e seu impacto sob a psicoterapia, discutindo as consequên- cias epistemológicas deste. A TENSÃO ENTRE DUAS ONTOLOGIAS PELO DOMÍNIO DA PSICOLOGIA ATUAL A queda do estruturalismo, momento que Guattari (1998) destaca como essencial para a retomada sobre novas bases do tema da subjetividade nas ciências humanas, na realidade, levou à substituição do conceito de es- trutura pelo de discurso, sendo este último compreendido como prática a partir da definição assumida por Foucault (2008) em seu livro Arqueologia do Saber. À promissora categoria de discurso aconteceu algo semelhante ao que ocorreu com o conceito de cultura, ou seja, ficou demasiadamente ampla, encontrando dificuldades na definição de seus limites e tornando-se moda mesmo antes de ser debatida e aparecer de forma consistente nos diferentes campos de pesquisa das ciências humanas. Entretanto, isso não diminui a Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 49 relevância desses dois conceitos na abertura de novas “zonas de sentido”1 no estudo dos fenômenos humanos. O conceito de cultura com ênfase nos aspectos simbólicos das dife- rentes práticas humanas, tal como conceituado a partir dos trabalhos de Ge- ertz, foi importante para a própria definição de “prática discursiva”, uma vez que as práticas discursivas estão culturalmente situadas. A cultura, compre- endida como a formação e desenvolvimento dos sistemas e recursos simbóli- cos geradores de práticas, instituições e identidades, permite compreender a produção desses fluxos simbólicos múltiplos que se integram na definição de práticas discursivas. Essas produções simbólicas transcendem a consciência individual, colocando-nos além da expectativa racionalista de predição e controle, porém terminam aderindo-se à ideia de que a pessoa está determi- nada de forma absoluta por produções supraindividuais discursivas, gerando assim um reducionismo relacionalde natureza sociocultural. O lugar atribuído à linguagem e ao discurso no pensamento pós- -moderno manteve a eliminação do sujeito defendida pelo estruturalismo, ignorando assim a capacidade geradora das emoções humanas. A emoção representa uma verdadeira subversão, tanto para o pensamento racionalista, como para o reducionismo que busca querer entender o homem só em ter- mos simbólico-culturais. A cultura, ao permitir explicar a multiplicidade infinita do humano a partir de produções simbólicas que se legitimam apenas dentro do espaço cultural em que aparecem, cria as condições para compre- ender a subjetividade humana como expressão dessa diversidade infinita de criação e sentido que o homem é capaz de gerar diante de contextos diferen- tes. Porém, essa definição do discurso como prática cultural, que marcou um giro essencial nas ciências sociais, ao deixar de fora o caráter ativo e gerador das emoções, enfatizou exclusivamente o elo cultura-linguagem-cognição em detrimento do desenvolvimento de uma nova noção de subjetividade. A relevância da cultura e das práticas simbólicas no estudo dos pro- cessos humanos representa um importante antecedente para estudar a subjetivi- dade fora dos preconceitos que estigmatizaram esse conceito como pertencente à metafísica moderna. A separação da ideia de subjetividade da representação de uma natureza humana universal, assim como seu deslocamento para produções simbólico-emocionais que se separam do sinal a partir da emergência do signo, 1 “Zona de sentido” é uma expressão usada por mim (González Rey, 1997) para definir o valor heu- rístico de um saber, o que para mim vem dado pela emergência de uma nova inteligibilidade num campo particular de práticas humanas. Essa inteligibilidade nunca fica aprisionada no sistema de categorias concretas de uma teoria particular através da qual foi gerada. As categorias de cultura e discurso, além das múltiplas definições que coexistem sobre elas, nos permitem significar produções simbólicas institucionalizadas que abrem novas alternativas na construção dos mais diversos fenô- menos humanos, entre eles da própria subjetividade. Fernando Luis González Rey50 marcou um novo ponto de partida para a construção de uma teoria da subjetivi- dade que define o psiquismo humano nas condições da cultura. A ideia de práticas discursivas acrescenta uma dimensão dos fenô- menos humanos essencial para a compreensão da subjetividade, ou seja, os fenômenos humanos são gerados em espaços discursivos socialmente cons- truídos. Entretanto, as emoções emergem nos sujeitos individuais que vivem nesses espaços, não como um epifenômeno dessas produções discursivas, mas como momentos de tensão e ruptura das pessoas com os diferentes espaços sociais em que acontecem suas práticas. Essas emoções são fontes de novos desdobramentos simbólicos que, no nível da fantasia e da criação individual, vão subverter a ordem discursiva hegemônica se articulando numa subjetivi- dade social que vai implicar a produção de novas alternativas subjetivas nas pessoas. Essas produções dos indivíduos são partes inseparáveis das produções discursivas que irão se desdobrar nos espaços sociais, as quais não são apenas simbólicas, implicando novas produções emocionais ao interior desses espaços sociais. Essas produções subjetivas pessoais, por sua vez, resultarão atravessa- das por novas produções da subjetividade social num relacionamento recursi- vo que não é susceptível a uma lógica de causa-efeito. A subjetividade é uma expressão histórica tanto das pessoas quanto dos espaços sociais em que acontecem as suas práticas e sistemas de rela- ções. Toda institucionalização é um processo gerador de subjetividades a nível social que leva à produção de múltiplas singularidades individuais que subvertem essa ordem dominante. A subjetividade individual mantém sua capacidade de contradição com a subjetividade social, pois a pessoa, como sujeito de posicionamento social diferenciado, é o resultado de uma história diferente daquela que se configurou como ordem social da instituição. Ou seja, o sujeito é produtor de formas de subjetivação no mesmo processo em que resulta produzido por uma subjetividade social que é inseparável desses processos de subjetivação singulares que, por sua vez, o colocam como pro- dutor, gerador do mesmo sistema em que ele vai se produzir e que transcen- de seus limites individuais. O sujeito é “produzido” através de suas próprias produções, apesar de que, com frequência, essas produções estão sujeitadas a tipos de produções discursivas que violentam as possibilidades de singulari- zação. É esse um dos mecanismos subjetivos do exercício do poder. O reconhecimento da subjetividade sempre implica na consideração da pessoa como sujeito produtor de opções e não apenas como o sujeito total- mente assujeitado que o estruturalismo legou ao pós-estruturalismo. As produ- ções discursivas se organizam em todos os níveis sociais, mas elas não definem de fora nem as pessoas, nem os espaços sociais em que elas atuam. Elas são partes inseparáveis das produções humanas que acontecem nesses espaços, po- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 51 rém elas ganham sentidos subjetivos diferentes a partir das configurações subje- tivas desses próprios espaços sociais, em tensão com as configurações subjetivas individuais que se desenvolvem na ação das pessoas dentro desses espaços. A crítica ao individualismo naturalizado e a-histórico que caracte- rizou algumas posições da psicologia moderna é comum aos autores que só reconhecem a legitimidade das práticas discursivas, afastando-os de todo conceito psicológico na análise dos processos humanos. Mas essa crítica não é exclusiva desses autores, ela é compartilhada por autores que procuram, no desenvolvimento da subjetividade, novas formas de representação do caráter ativo do homem a partir das formas complexas de sua organização psíquica sem, contudo, reduzir esses processos a uma organização mental individual; a subjetividade para esse autores é um aspecto importante da própria vida social e de seus diferentes processos (González Rey, 1993, 1995, 2002; Elliott, 1997; Castoriadis, 2006; Frosh & Baraitser, 2008). Em minha opinião, práticas discursivas e subjetividade ficaram como opostos devido às posições mais gerais que caracterizam o pós- -estruturalismo francês, sistema em que o conceito de discurso ganhou a relevância que tem hoje e que mantém a mesma aversão do estruturalismo aos aspectos psicológicos envolvidos na gênese de um sujeito ativo e gera- dor. Os conceitos de práticas discursivas e de subjetividade são comple- mentares. As práticas discursivas são um dispositivo gerador de ações indi- viduais que estão para além da consciência da pessoa, mas a subjetividade é o recurso pelo qual essas práticas discursivas aparecem como sentidos dife- renciados dos sujeitos individuais e da configuração subjetiva das tramas sociais em que eles se organizam na sua vida social. O caráter universal atribuído às práticas discursivas implicou em posicionamentos extremos em alguns autores que usam o termo, entre os quais se destaca o desconhecimento do caráter gerador do corpo como orga- nismo bio complexo2 que, através das emoções, gera verdadeiros circuitos de integração dos registros simbólicos, formando assim novos processos de autorregulação ou de desregulação dos diferentes sistemas vitais do orga- nismo humano. As emoções, associadas de forma inseparável ao funciona- mento do corpo na sua integridade e organização simbólica, criam infinitas formas de expressão e desdobramentos que afetam não só o corpo, mas os mais complexos sistemas simbólico-emocionais que definem a subjetividade humana nas práticas sociais, se constituindo assim elas mesmas como pro- 2 Uso a expressão organismobio complexo como forma de sintetizar os sistemas bioquímicos, elétri- cos, e neurodinâmicos que se organizam no corpo que, por sua vez, é um sistema aberto, sensível às influências externas e, em particular, através das emoções, aos registros simbólicos em que se orga- niza a vida social humana. Fernando Luis González Rey52 cesso subjetivo. Assim como o próprio corpo que, como sistema, se inclui nos processos de sentido subjetivo que o regulam (ou desregulam), as emo- ções que nele se geram se configuram na subjetividade humana, desdobran- do-se em processos que geram múltiplos circuitos “corpo-subjetividade” com efeitos simultâneos em ambos os sistemas. Esses circuitos representam momentos de um novo sistema funcional que integra ambos – corpo e subje- tividade –, sem que eles percam a sua autonomia relativa em relação a outras funções diferenciadas que eles desempenham. A ideia de prática discursiva facilita o desenvolvimento de uma vi- são não essencialista, nem individualista, nem intrapsíquica da subjetividade humana, mas não substitui a subjetividade, conceito que pressupõe a exis- tência do sujeito e reconhece a qualidade subjetiva, geradora e social das emoções. A fantasia e a imaginação, produções simbólicas fundamentais da subjetividade humana, não existem fora da produção de emoções. Porém, o desafio de encontrar conceitos que expliquem essa unidade simbólica emo- cional e a natureza desses processos torna-se central para a construção do tema da subjetividade numa perspectiva cultural-histórica. A fantasia e a imaginação não são simples processos simbólicos, nem cognitivos, nem propriamente emocionais, são processos geradores de sentidos subjetivos que não existem fora do sujeito que os produz. A CATEGORIA DE SENTIDO E SUA SEPARAÇÃO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DE SIGNIFICADO A categoria sentido toma grande relevância na linguística russa que, diferente da linguística formal e abstrata de Saussure, enfatiza a plurali- dade dos significados das palavras em contextos diferentes e a mobilidade desses significados no processo da fala, o que também vai ser central para a fundação da hermenêutica moderna. Essa mobilidade e versatilidade que os linguistas russos atribuem ao sentido fazem desse conceito uma categoria muito atrativa para a psicologia. Voloshinov (2009)3 escreve: “O sentido de uma palavra define-se plenamente pelo seu contexto. Na realidade existem tantos significados de uma palavra como contextos há do seu uso” (p. 127). A linguística russa enfatiza o sentido em sua relação com o con- texto, destacando esse caráter de movimento infinito que não o converte em entidade, se organizando em cadeias onde um sentido transforma-se num novo sentido de forma permanente. Esse avanço na definição dos sentidos 3 Este trabalho, publicado na Argentina em 2009 na versão traduzida ao espanhol por T. Bubnova, foi escrito originalmente pelo autor em 1929. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 53 implica em uma ênfase epistemológica na inteligibilidade em lugar da de- monstração, que foi uma categoria central da legitimidade do saber para o positivismo experimental. As cadeias de sentido são inapreensíveis pelo ato da demonstração, o que foi um princípio importante para o desenvolvimento da hermenêutica. Os avanços dos linguistas russos numa concepção her- menêutica centrada nos sentidos os levaram por um caminho diferente da- quele seguido pelo estruturalismo, no qual a ideia do sujeito da linguagem era essencial. Embora Voloshinov e Bakhtin sejam nomes favoritos de mui- tos dos autores pós-modernos – assim como também Vigotsky –, o certo é que, tanto num caso como em outro, esses autores aparecem estagnados em interpretações demasiadamente unilaterais que ignoram as diferenças que eles tiveram de seus intérpretes atuais. Em clara diferença com Saussure, Voloshinov (2009, p. 99) escreve: A língua não é uma função de sujeito falante, é o produto que o indivíduo registra passivamente; nunca supõe premeditação e a reflexão não partici- pa nela mais que como atividade de classificar (...). A fala é, pelo contrá- rio, um ato individual de vontade e inteligência, no qual é importante dis- tinguir: 1) as combinações pelas quais o sujeito falante usa o código da língua com vistas a expressar seu pensamento pessoal; 2) O mecanismo psicofísico que lhe permita exteriorizar essas combinações. A fala não aparece como uma estrutura organizada por pautas re- petitivas formais; em diferença à língua, o uso da fala nos remete ao sujeito da fala, sendo esta, nos termos usados por Voloshinov, um “ato individual de vontade e inteligência”, ou seja, uma produção de um sujeito ativo que usa o código da língua para expressar seu pensamento, mas que não está configu- rado subjetivamente segundo o código da língua e nem nas operações for- mais daquela. O pensamento, o caráter produtivo e gerador do sujeito não são negados e é precisamente esse reconhecimento um aspecto essencial para o destaque da subjetividade como via de inteligibilidade para definir esses processos que não se reduzem à língua e nem às suas operações e que são inseparáveis da ação social e individual, onde aparecem como uma nova produção e não como uma réplica de algum sistema externo à própria subje- tividade. Porém, assim como aconteceu com Vigotsky, Voloshinov e Bakhtin4 também desenvolveram suas obras em momentos muito convulsi- 4 Mesmo que por muito tempo se tenha considerado o nome de Voloshinov como pseudônimo usado por Bakhtin, T. Bubnova em seu prefácio a essa obra na edição em espanhol esclarece: “As obras do círculo de Bakhtin assinadas por Voloshinov, Medvedev e Kanaev, foram atribuídas a Bakhtin em 1970 pelo semiólogo V. Ivanov, e essa ideia se manteve até meados dos anos noventa do século pas- sado. Colocada em dúvida já por Morson e Emerson, essa ideia foi recolocada por pesquisadores in- Fernando Luis González Rey54 vos do período soviético, onde qualquer suspeita de idealismo era interpreta- da como oposição política ao Marxismo e poderia trazer sérias consequências para o implicado. Isso fez que as obras desenvolvidas nesse período fossem profundamente contraditórias, exibindo ideias contrárias em lapsos relati- vamente curtos de tempo. No mesmo livro de onde tomei a citação anterior de Voloshinov, na qual o autor destaca a necessidade de considerar ao su- jeito da fala, aparece uma ideia orientada em defesa da objetividade, viés positivista de toda a ciência materialista soviética da época: “A consciência individual é um fato ideológico e social. Até que esse postulado não se reco- nheça com todas as suas implicações, não poderá se construir uma psicologia objetiva, nem uma ciência objetiva das ideologias” (2009, p. 31). Nessa citação o autor ignora tanto o caráter subjetivo da consciên- cia, como o da ideologia, mesmo que antes tenha atribuído um lugar ao su- jeito da fala muito semelhante àquele atribuído por Vigotsky à pessoa no pensamento, caminhos que sinalizam uma capacidade criadora do sujeito vinda de processos autogeradores que só podem se identificar nessa comple- xa integração do simbólico e do emocional que se define no subjetivo. Mesmo que o sentido social de todo enunciado seja indiscutível, como afirmam Voloshinov e Bakhtin, o sentido subjetivo desse enunciado é desenvolvido pela pessoa que fala através de estratégias que implicam o seu pensamento e as suas emoções. Entretanto, a ausência de uma teoria da sub- jetividade na época não permitia o uso de categorias capazes de gerar inteli- gibilidade sobre processos diferentes daqueles que já apareciam nas repre- sentações dominantes nas ciências daquele tempo, como aqueles de vontade e inteligência usados por Voloshinov para dar conta do caráter ativo do su- jeito da fala. No meu trabalho tento significaresse nível subjetivo gerador de processos diferentes da produção humana, que não estão nem na linguagem nem na cognição, através dos conceitos de sentido subjetivo e configuração subjetiva. Nos conceitos, sejam científicos ou de qualquer outra natureza, seus significados não ficam congelados na palavra e se definem nos jogos que se estabelecem com outros conceitos. No caso da ciência esses jogos acontecem dentro do marco teórico a partir do qual esses novos conceitos ganham sua inteligibilidade para definir novos problemas de construção teórica e de pesquisa. Bakhtin (1994) já tinha destacado a relevância do emocional: “A verdadeira mente em ação é uma mente de emoção e volição, uma mente de gleses e norte-americanos, que aceitam que a medida de intervenção de Bakhtin nos textos denomi- nados ‘apócrifos’ (três livros e toda uma série de artigos) não pode ser definida com precisão, e que os autores titulares foram reais e não meros pseudônimos. O problema da autoria segue em aberto”. (Voloshinov, 2009, p. 6) Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 55 entonação, e essa entonação essencialmente penetra todos os momentos significativos do pensamento” (p. 36). Novamente aqui se destaca o sujeito da linguagem através da ideia de mente em ação e da presença das emoções nos “momentos significativos do pensamento”, conceito que coloco entre aspas não apenas para indicar a autoria de Bakhtin, mas para destacar uma afirmação sutil: os “momentos significativos do pensamento estão penetra- dos de uma entonação que integra as emoções e a volição”, integração que responde à ordem subjetiva dos processos psíquicos. Porém, trata-se de uma subjetividade em ação que se expressa num sujeito que, junto a seus atos, pensa e sente, produzindo diversos sentidos subjetivos que definem o caráter subjetivo da ação. Vigotsky faz um importante avanço ao considerar o sentido como categoria psicológica, definindo-o como: “(…) o agregado de todos os fato- res psicológicos que aparecem em nossa consciência como resultado da pa- lavra” (1987, p. 276). Nessa definição o sentido se separa do significado da palavra em contexto, passando a ser uma unidade psíquica da consciência organizada na processualidade da linguagem. A integração dos processos psíquicos que Vigotsky define através de sua colocação do sentido na consciência é congruente com a sua procura da unidade do cognitivo e do afetivo na definição do psiquismo humano. A sua ideia do sentido como unidade ancorada no sistema psíquico se explicita quando nos diz: “Finalmente, o sentido de uma palavra depende de nossa compreensão da palavra como um todo e da estrutura interna da personalida- de” (Vigotsky, 1987, p. 276). Apesar da ênfase na compreensão, o que foi frequente no curso de sua obra, especialmente quando ele avançou demais no caráter subjetivo de algumas de suas definições, o fato de destacar a es- trutura da personalidade traz à tona aspectos não cognitivos. Esse trânsito da compreensão do sentido, da relação palavra-contexto à relação palavra- -consciência, fez desse conceito uma categoria psicológica que, na sua obra, apenas conseguiu dar os seus primeiros passos, mas que mesmo assim ex- pressou um novo momento qualitativo em seu pensamento (González Rey, 2009a). O sentido definido sobre essas novas bases representou um conceito importante para a psicologia cultural-histórica, pois permitiu estabelecer uma relação inédita entre psique humana, palavra, contexto e cultura. Entretanto, Vigotsky não conseguiu avançar no uso dessa categoria introduzida por ele no momento final de sua obra; faltaram-lhe recursos teóricos e tempo para exprimir todo o seu potencial (González Rey, 2008, 2009a). Fernando Luis González Rey56 DO SENTIDO AO SENTIDO SUBJETIVO E ÀS CONFIGURAÇÕES SUBJETIVAS O valor heurístico da categoria sentido para a psicologia me levou a reformular esse conceito, visando avançar na elaboração de uma teoria cultural-histórica da subjetividade, tema que sempre aparece tratado de for- ma marginal, indireta e imprecisa no tratamento de outros assuntos. Essa reformulação levou-me à definição do sentido subjetivo como a unidade dos processos simbólicos e emocionais, na qual a emergência de um deles evoca o outro sem se converter necessariamente na sua causa, numa dinâmica que leva à formação de cadeias de sentidos subjetivos que se organizam como configurações subjetivas que, por sua vez, são formações psicológicas em constante movimento e que formam sistemas auto-organizados com capaci- dade geradora sobre as diferentes ações e processos psíquicos das pessoas (González Rey, 2002; Mitjans Martínez, 2004). Diferentemente da forma em que o sentido foi definido por Vigotsky, o sentido subjetivo não está fixado à palavra, sendo uma unidade simbólico- emocional que se caracteriza pela sua expressão dinâmica no curso das diferentes expressões humanas. Os sentidos subjetivos representam o momento subjetivo de toda expressão humana; a subjetividade se define pela natureza qualitativa de um tipo particular de fenômeno humano, seja ele social ou individual. É a sua especi- ficidade qualitativa em relação a outros tipos de fenômenos o que faz da subjeti- vidade uma nova definição ontológica para o estudo dos processos humanos. O conceito “sentido subjetivo” me permitiu compreender a ação hu- mana como produção da pessoa e não como uma resultante das múltiplas in- fluências externas que convergem e são significativas nessa produção. Eles não estão dados por conteúdos que se repetem a si mesmos no curso da ação huma- na. São únicos, existem no momento da ação e tem uma alta sensibilidade para se metamorfosear em sua relação com outros sentidos subjetivos nas configura- ções subjetivas em que eles aparecem. Eles sempre emergem no contexto como resultado da configuração subjetiva que emerge no curso da ação humana con- creta. Essas configurações subjetivas que aparecem no curso da ação humana se organizam como momentos da personalidade na ação, pois são inseparáveis das configurações subjetivas mais estáveis da personalidade que se desdobram de múltiplas formas nessa nova configuração subjetiva da ação. A complexidade desses processos me leva a pensar que essas configurações irão fundamentar uma nova representação da personalidade como momento permanente da ação5. 5 O conceito de personalidade conserva seu valor heurístico nesta abordagem como o sistema das configurações subjetivas associadas à organização subjetiva da própria pessoa. Nesse sistema apare- cem configurações subjetivas que definem sentidos subjetivos que sinalizam no presente a história Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 57 Essas configurações subjetivas da experiência se organizam no curso da própria experiência e não existem a priori, nem como determinante dela. O histórico e o social aparecem subjetivamente como dimensões de toda configuração subjetiva. O social se organiza nos sentidos subjetivos atuais que emergem nas experiências vividas pelo sujeito no tempo presente e que se organizam como um novo momento da rede de sentidos subjetivos, que por sua vez vai implicar em diferentes configurações subjetivas da per- sonalidade no curso dessa experiência. Não existe produção de sentidos subjetivos em ações ou eventos que não comprometem de uma forma ou de outra a personalidade do sujeito no processo de sua atuação. As configura- ções subjetivas da personalidade expressam sua estabilidade pela emergência de sentidos subjetivos que convergem através de manifestações diferentes da pessoa. É essa uma das razões pela qual os sentidos subjetivos só podem ser estudados desde uma perspectiva construtivo-interpretativa de pesquisa. A presença da personalidade nas configuraçõessubjetivas que se organizam na ação das pessoas deve ser descoberta pelo pesquisador através das suas hipóteses sobre sentidos subjetivos que convergem nas diferentes formas de expressão da pessoa. As construções do pensamento representam uma forma de expressão privilegiada no estudo dos sentidos subjetivos, pois elas aparecem numa linguagem portadora de significados que está além da consciência do próprio sujeito da fala, e por sua vez, toda produção de pen- samento implica um envolvimento emocional do sujeito, razão pela qual o pensamento torna-se uma importante via de produção de sentidos subjetivos; o pensar representa uma configuração subjetiva que nunca aparece de forma linear nas expressões concretas em que o pensamento se objetiva. É na experiência que a pessoa emerge como sujeito de decisões e opções pessoais que representam novas alternativas de produção subjetiva no campo da ação e do pensamento. Toda decisão humana implicada no curso de uma experiência significativa da pessoa é uma produção subjetiva, por- tanto, a pessoa não pode ser reduzida a um mero agente do contexto. Na condição de sujeito, a pessoa se posiciona de forma ativa no processo de suas experiências e esse posicionamento é, em si, um momento de produção de novos sentidos subjetivos que não são conscientemente percebidos por ela. As decisões e posições pessoais assumidas no curso de uma experiência são expressões das configurações subjetivas que se organizam no curso des- vivida pela pessoa, e são essas configurações as responsáveis pelos sentidos subjetivos das relações e experiências que, pelo seu impacto, formam a sua biografia. A personalidade é compreendida des- sa forma como o sistema dentro do qual vão se organizar as diferentes configurações subjetivas das múltiplas ações e experiências que se organizam no curso da vida cotidiana das pessoas, todas elas responsáveis pela produção de novos sentidos subjetivos que mantém a personalidade em constante tensão e desenvolvimento. Fernando Luis González Rey58 sa experiência. O sujeito é a antítese da vítima, pois ele nunca está à mercê das condições externas. Ele sempre está preparando as suas alternativas frente às suas condições de vida, mesmo que essas condições sejam as mais adversas que uma pessoa possa enfrentar. As relações sociais são vividas pelas pessoas, grupos e instituições numa complexa teia de configurações subjetivas. Um evento externo só ga- nha sentidos subjetivos dentro dessa teia subjetiva de configurações. Assim, por exemplo, os sentidos subjetivos que se articulam nas reflexões e emo- ções de um aluno, ou um professor, na sala de aula fazem que um dado com- portamento não seja apenas uma reação frente ao acontecimento vivido e sim o resultado de uma configuração subjetiva organizada no curso dessa experi- ência. O que está sendo vivido no momento integra uma multiplicidade de outras experiências concretas da vida da pessoa que emergem na realidade das emoções e processos simbólicos que se manifestam nesse momento pre- sente e que, aparentemente é o resultado do acontecimento vivido nesse ins- tante. A forma como a pessoa sente o seu lugar na família, as rivalidades e tensões no contexto da escola, sua presença nesse grupo específico de que faz parte, a avaliação do seu corpo pelos outros etc., são todos sentidos sub- jetivos que podem ou não fazer parte da configuração subjetiva de qualquer evento que aconteça com ela nesse contexto escolar. Os processos subjetivos de um evento expressam toda uma produção de sentidos subjetivos nas con- figurações subjetivas da pessoa dessa experiência. As configurações subjetivas são acessíveis ao saber humano só através de hipóteses capazes de produzir inteligibilidade sobre alguns desses processos; a configuração subjetiva na sua complexidade e dinâmica está sempre além das possibilidades do saber produzido. Os sentidos subjetivos têm uma dinâmica permanente, na qual se desdobram muito rapidamente em novos sentidos subjetivos no interior de uma configuração subjetiva comple- xa, o que implica numa necessidade de construções teóricas que se movi- mentem em hipóteses vivas e que acompanhem esse processo na pesquisa. De qualquer maneira, como afirmamos antes, a fonte mais estável para pro- duzir inteligibilidade sobre essas complexas configurações subjetivas são os sistemas de expressão significativos do sujeito, os quais sempre se organi- zam em configurações subjetivas de sua personalidade. Num nível metodológico, a definição dos sentidos subjetivos só pode ser captada pelas ideias do pesquisador acerca dos movimentos difusos e contraditórios das múltiplas expressões humanas. Essas ideias são as que permitem a emergência de indicadores nas metamorfoseadas formas de ex- pressão do sujeito que, através de sua integração, definirão um significado capaz de gerar inteligibilidade sobre os sentidos subjetivos envolvidos na Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 59 configuração subjetiva da questão estudada. Só nas construções do pesquisa- dor aparece essa possibilidade de inteligibilidade, toda vez que ela permite articulações entre experiências empíricas que fenomenicamente não tem relações entre si. A mobilidade dos sentidos subjetivos tem os seus limites na atuali- zação da história do sujeito, que emerge como momento inseparável da per- sonalidade nas configurações subjetivas de toda experiência humana. Os sentidos subjetivos e as configurações subjetivas em que estes se organizam são responsáveis por uma produção da experiência humana que é inseparável do mundo vivido pelo sujeito. Isso é o que faz com que todo ato criativo seja uma produção subjetiva que está além de qualquer subordinação ao presente concretizado nas formas de objetividade do “dado”. Toda criação humana é sempre uma “ficção idealizante”, como Merleau-Ponty (1991) definiu as produções da ciência. Neste ponto de emergência da posição epistemológica alternativa para o estudo da subjetividade que venho desenvolvendo a partir da Epistemologia Qualitativa, ganha uma particular relevância a seguinte reflexão de Merleau-Ponty: A filosofia é realmente, é sempre, ruptura com o objetivismo, retorno das contructa à vivência, do mundo a nós mesmos. Entretanto esse procedi- mento indispensável, e que a caracteriza, já não a transporta para a atmos- fera rarefeita da instrospecção ou para um campo numericamente distinto daquele da ciência, já não a coloca em rivalidade com o saber, desde que reconhecemos que o “interior” ao qual ela nos leva não é uma “vida pri- vada” e sim uma intersubjetividade que, pouco a pouco nos une à história inteira. (1991, p. 12) A subjetividade representa um momento nesse importante caminho que Merleau-Ponty sinaliza na citação anterior, mesmo que em minha opinião não é a intersubjetividade a que nos une à história inteira, mas as nossas próprias configurações subjetivas onde a história inteira aparece como pro- dução subjetiva que integra a intersubjetividade como mais um de seus mo- mentos. A intersubjetividade é apenas um dos processos da subjetividade social, a qual está longe de se esgotar nos espaços intersubjetivos das rela- ções humanas. Não há intersubjetividade autônoma; toda intersubjetividade é um momento particular de interseção produtiva da subjetividade individual e social através de sujeitos singulares concretos situados em contexto. A superação da lógica do objetivo concreto tem importantes impli- cações para todas as atividades humanas, entre elas a psicoterapia e as dife- rentes práticas da psicologia. As implicações destas colocações teórico- -epistemológicas para a psicoterapia as analisarei a seguir. Fernando Luis González Rey60 SUBJETIVIDADE, SUJEITO E PSICOTERAPIA: TRANSCENDENDO A RACIONALIDADE A definição de subjetividade apresentadaantes e em muitos dos meus trabalhos anteriores (González Rey, 1993, 1995, 1997, 2002, 2004, 2008) é inseparável da noção de sujeito como pessoa ativa, assumida, e não como a pessoa assujeitada. O sujeito não tem uma autonomia plena, mas é capaz de confrontações permanentes que lhe abrem a autonomia de ações alternativas àquelas esperadas pelas formas dominantes de organização social. Essas alternativas podem aparecer no comportamento ou num nível imaginário, apesar de todo comportamento relevante sempre ter um com- promisso com a imaginação e a fantasia, ferramentas essenciais da constru- ção humana. Diferentemente da muito difundida noção de agência, que re- conhece o momento ativo da pessoa apenas no contexto da experiência atual, a definição de sujeito reivindica a presença de complexas configurações subjetivas responsáveis pelos sentidos subjetivos envolvidos nos posiciona- mentos ativos desse sujeito. A subjetividade se afirma no histórico, não como teleologia, mas como forma diferenciada do atual. A pessoa se torna sujeito quando gera opções de subjetivação que entram em conflito, intencionalmente ou não, com os sistemas normativos hegemônicos do espaço social em que vive, gerando alternativas de sentido subjetivo que adquirem um caráter subversi- vo em relação à ordem hegemônica. Entre os sistemas sociais normativos e os sentidos subjetivos que aparecem no curso da ação existem múltiplas contradições que ficam além da capacidade de representação da pessoa. Isso explica por que as opções subjetivas frente a esses sistemas normativos es- capam das representações conscientes e intencionais das pessoas, mesmo que essas sejam ferramentas essenciais daquelas e fontes permanentes do seu desenvolvimento. A saúde mental não pode se definir pela ausência de conflitos, mas pela possibilidade de gerar novos sentidos subjetivos e configurações subje- tivas no decorrer dessas experiências de conflito. A experiência humana é conflituosa pelo seu caráter subjetivo. O conflito não aparece na dimensão objetiva da experiência, sendo sempre o resultado de sua configuração sub- jetiva e das experiências imaginárias decorrentes delas. Toda experiência humana pode vir a ser conflitiva, não pelo seu conteúdo em si, mas pela sua configuração subjetiva. É a configuração subjetiva da experiência, e não a experiência em si, a responsável pelas emoções e os desdobramentos simbó- licos que a pessoa vai gerar no processo de uma experiência qualquer. O sofrimento psíquico aparece pela incapacidade de produzir sentidos subjeti- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 61 vos que permitam o bem-estar, o qual é sempre uma produção subjetiva, pois não existe bem-estar objetivo. O processo no qual aparece o sofrimento é o resultado da fixação de emoções geradoras de dor, processo este associado a uma configuração subjetiva que impede a emergência de estados subjetivos diferentes a essas vivências dominantes. O transtorno mental emerge nesse devir quando o sofrimento impede a produção de novas configurações subjetivas nas dife- rentes ações e relações da pessoa. Os sentidos subjetivos daquilo que a pes- soa faz são monopolizados por uma configuração subjetiva frente à qual as pessoas vão perdendo seus recursos para produções alternativas. É essa a configuração subjetiva dos diferentes sintomas que irão aparecer caso a pes- soa não consiga gerar sentidos subjetivos capazes de se articular em novas configurações subjetivas. Um exemplo muito interessante sobre esse processo que descrevo veio de uma experiência que me aconteceu em sala de aula. A aluna B., de 21 anos, mesmo com uma excelente capacidade de crítica e reflexão, costu- mava chegar sempre atrasada em sala de aula. Num desses dias em que che- gou tarde lhe falei: “B., você tem uma impressionante capacidade para estar sempre no lugar errado no momento errado”. Quando a aluna ouviu isso ela começou a chorar muito profundamente. Mas mesmo nesse estado afetivo ela esclareceu para mim e para o grupo: “Desculpem, não é por causa do que o professor falou que reagi assim”. Essa aluna continuou comigo por vários semestres e nunca recusou os meus níveis de exigência. Conversando sobre aquela experiência, ela me falou: “Professor, aquela minha reação às suas palavras aconteceu por múltiplas razões. Eu sou filha de pais divorciados e com grande frequência me sinto no lugar errado e no momento errado nesse trânsito complexo entre várias famílias. Unido a isso, naquele preciso mo- mento eu estava me separando de um namorado italiano de quem tinha me apaixonado intensamente e, puxa, as suas palavras se carregaram de algo que eu estava sentindo muito profundamente, mas que nunca tinha expressado nessas palavras”. O relato dessa aluna representou um testemunho de grande valor heurístico para a minha ideia de configuração subjetiva que naquele preciso momento estava adquirindo novos significados nas minhas reflexões teóricas. Aquele mesmo episódio, fora daquela configuração subjetiva completamente conjuntural, teria evocado outra configuração subjetiva, ou então teria passado fora dos processos de subjetivação sem maiores consequências para a aluna. Essa experiência, que no caso de B. foi uma experiência de desenvolvimento, que lhe fez pensar e se re-posicionar frente ao vivido, poderia ter se convertido também no desenvolvimento de um transtorno psíquico se, em vez das alter- Fernando Luis González Rey62 nativas geradas por ela, como aquele sentimento que expressou no choro, a tivesse levado a se envergonhar, a se sentir discriminada, injustiçada, e frente a isso optasse por abandonar a aula e se afastar do grupo, abrindo assim um caminho imprevisível que poderia ter facilitado o transtorno e não o desenvol- vimento. Essa situação, mesmo sem ter nada de trágico na sua aparência, ape- sar de sua reação emocional intensa, foi, de fato, um momento decisivo na encruzilhada entre o transtorno e o desenvolvimento. Os transtornos psíquicos representam verdadeiros sistemas recursi- vos de sentido subjetivo que, no processo de seu desenvolvimento, passam a se organizar numa configuração subjetiva geradora de emoções e processos simbólicos, que ganham uma capacidade de retroalimentação recíproca que impede a emergência de novos estados subjetivos. Esse processo não é aces- sível ao racional associado às representações do sujeito, nem pode ser resol- vido pela compreensão das causas que o determinam, simplesmente porque não tem causas, e sim toda uma emaranhada rede simbólico-emocional em desenvolvimento que se alimenta de uma multiplicidade de elementos casuais se tornando uma configuração subjetiva hegemônica. A pessoa perde a sua capacidade de atuar como sujeito das novas experiências vividas quando não consegue desenvolver novas configurações subjetivas frente a elas, comprometendo assim sua capacidade de decisão, reflexão e negociação. Isso lhe impede alternativas de vida que a distanciem daqueles processos hegemônicos que marcam a gênese do transtorno psico- lógico. Tudo o que a pessoa produz gera sentidos subjetivos condizentes com a configuração subjetiva do transtorno. Esse estado de continuidade e reverberação de emoções geradoras de dor e mal-estar está na base dos sin- tomas que aparecem no curso desse processo, como depressão, ansiedade, agressividade etc. O simples conhecimento não ajuda na superação desse processo, porque ele mesmo é uma produção de sentido subjetivo que, longe de aparecer como uma alternativa, surge como momento de fortalecimento “racional” do estado pelo qual a pessoa passa. A racionalidade é uma alter- nativa de produção de subjetividade pela capacidade da pessoa em produzir e recriar suas construções imaginárias, o que representa uma possibilidade de produção de sentidos subjetivos, e não pela objetividade dessas construções. A definição do transtorno mental como resultado de um determi- nado tipo deconfiguração subjetiva que se alimenta dos processos atuais de vida do sujeito e que, paradoxalmente, ao se fortalecer elimina a capacidade deles para gerar alternativas diferentes frente a essa configuração subjetiva dominante, torna-se um importante desafio para pensar a psicoterapia numa perspectiva pós-racionalista, que não a transforme em um mero processo de novas e mais sofisticadas formas de cognição. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 63 O conceito de configuração subjetiva não conduz à posição do “não saber” do terapeuta, defendida por alguns dos representantes do construcionismo social (Anderson, 1999; Gergen, 2006; dentre outros), mas considera o saber do terapeuta como ferramenta para a formulação de hipóteses que permitam o desenvolvimento de um modelo teórico capaz de gerar inteligibilidade sobre a configuração subjetiva do transtorno. Essa inteligibilidade não tem como propósito a produção de um saber que per- mita à pessoa em tratamento tomar consciência da gênese do transtorno. Essa inteligibilidade sobre a configuração subjetiva do transtorno só tem como objetivo facilitar ações terapêuticas que permitam à pessoa que sofre expressões carregadas de sentido subjetivo em sua relação com o terapeuta e em suas reflexões e elaborações sobre si mesma. Sobre a base dessas hipóteses o terapeuta vai ensaiar um repertório de ações terapêuticas faci- litadoras de novos sentidos subjetivos que permitam produzir uma configu- ração subjetiva da relação terapêutica, capaz de gerar novos sentidos sub- jetivos no curso desse processo. As emoções e estados subjetivos decorrentes dos novos sentidos subjetivos que emergem no processo terapêutico serão responsáveis por des- dobramentos nas reflexões e ideias do sujeito, dentro do espaço da relação terapêutica e fora dele, que facilitarão a emergência dessa nova configuração subjetiva na relação terapêutica. Uma vez que isso aconteça, o “paciente” está no caminho da mudança terapêutica, da “cura”, segundo a metáfora médica empregada por Freud para descrever esse processo. Essa nova configuração subjetiva que emerge na relação terapêuti- ca é fonte de novas reflexões, emoções e produções da pessoa, processos esses que, de fato, definem a recuperação da capacidade do sujeito para pro- duzir alternativas de subjetivação frente a novas experiências de vida. Da pessoa fixada ao transtorno emerge o sujeito da relação terapêutica que é capaz de novas alternativas que transformam os sentidos dominantes associa- dos com a configuração subjetiva hegemônica do transtorno. As ações terapêuticas não estão orientadas a provocar um conhe- cimento do paciente, ou um insight, que lhe permita uma representação sobre a natureza do seu conflito, procedimento esse muito difundido nas psicotera- pias que eu considero racionalistas. A mudança, pelo contrário, acontece como resultado de novas produções de sentido subjetivo facilitadas por ações conversacionais e de outros tipos, como novas formas de uso do tem- po, ações comportamentais diversas, e outras ações que se instituam dentro do clima dialógico da psicoterapia, como por exemplo, os exercícios físicos, o uso do tempo livre, a leitura de um bom livro etc. Fernando Luis González Rey64 Há pessoas que assistem a uma série de conferências que cativam a sua atenção, lhes geram curiosidade, e a partir daí começam reflexões de grande valor terapêutico. Porém, todas essas opções ganham sentido subjeti- vo dentro do espaço da comunicação terapêutica. É nessa comunicação que essas ações se relacionam entre si e que, através dela, facilitam novas produ- ções de sentido subjetivo pelo sujeito (González Rey, 2009b). A provocação, a contradição, a vivência do novo, a ira, a tensão de um conflito, todas essas vivências podem representar o início de novos caminhos na eclosão da con- figuração subjetiva alternativa que emerge no processo terapêutico. As hi- póteses sobre as configurações subjetivas e suas implicações atuais nos sin- tomas e o mal-estar da pessoa têm um caráter auxiliar para a facilitação do processo terapêutico, mas não são a guia sobre a qual esse processo se es- trutura. A mudança terapêutica é estreitamente associada à emergência do sujeito. A pessoa com grande frequência se eclipsa pela hegemonia de certas práticas discursivas frente às quais não consegue abrir um espaço próprio de produção subjetiva. Esse processo, que socialmente pode ter diferentes leitu- ras, é condizente com configurações subjetivas geradoras de mal-estar e desconforto que chegam a ser hegemônicas na vida da pessoa. A pessoa que, de forma ativa, não produz espaços próprios em suas experiências de vida chega ao transtorno subjetivo, não como patologia no sentido que essa pala- vra tem sido usada na medicina, mas como organização subjetiva dominante geradora de sofrimento e paralisia. A mudança terapêutica responde plenamente ao que Bauman (2011) define em relação à moralidade. Ele nos diz: “A moral é – não pode nem precisa apresentar suas razões ou provar seus direitos. A pergunta ‘por que eu devo ser moral?’ é o fim da moralidade, não o princípio” (p. 66). A mudança terapêutica é, acontece pela autenticidade do que a pessoa é capaz de sentir e pelo fato de se erigir como sujeito ativo de um novo caminho. A mudança, como diz Bauman em relação à moral, “não precisa apresentar as suas razões”, nem o sujeito deve pensar que é o domínio de novas razões o que leva à mudança. Essa lógica pode se fixar na subjetividade do terapeuta, impedindo-lhe o advento da configuração subjetiva própria que deve apare- cer nesse processo. A psicoterapia tem sido repensada neste capítulo como um mo- mento congruente com uma nova representação da subjetividade; portanto, dentro da produção de teoria psicológica básica. Na medida em que compre- endamos o processo de construção de novas representações teóricas como novos momentos de uma teoria em movimento, com uma possibilidade de abrangência maior em sua capacidade de inteligibilidade, capaz de se afetar Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 65 de forma permanente com as pesquisas e práticas desenvolvidas a partir dela, iremos nos separar cada vez mais da dicotomia – errônea – entre o básico e o aplicado que teve sua gênese numa concepção positivista de ciência. Todos os aspectos discutidos acima fazem da psicoterapia um processo gerador de novos debates epistemológicos no interior da psicologia e, de forma simultâ- nea, uma via importante de produção de teoria. IMPLICAÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DA COMPREENSÃO DA PSICOTERAPIA CENTRADA NO DESENVOLVIMENTO DA SUBJETIVIDADE Um dos maiores problemas epistemológicos da psicologia tem sido a sua representação e uso da teoria. As teorias aparecem, por uma parte, como sistemas estáticos e fechados, sendo usadas como princípio e fim de todo saber. Essa compreensão da teoria se apoia no imaginário dominante, que as considera como verdades quando na realidade nenhuma teoria representa uma correspon- dência exata entre significado e realidade. As teorias são sistemas orientados a produzir inteligibilidade (González Rey, 2005b), entendendo por esse conceito a possibilidade de gerar significados sobre uma realidade que é passível de novas relações de significado que podem levar a “novas zonas de sentido” na constru- ção teórica de determinado tema. A inteligibilidade é a produção de significados que permitem organizar em termos teóricos processos de uma realidade que transcende em sua organização qualquer forma de saber. Fazer ciência é desenvolver sistemas de significado que se organizam no curso de uma pesquisa e são capazes de produzir novas inteligibilidades sobre a questão que está sendo pesquisada. A esses sistemas de significados hipotéticos e ideias em desenvolvimento no momento empírico de uma pesquisa chamei “mo- delo teórico” (González Rey, 2005). Um “modelo teórico” sempre está inseridonum campo teórico, numa matriz teórica, porém não é mimético em relação à teoria com que dialoga, mas uma via de extensão daquela capaz de gerar novos significados na pesquisa de uma questão concreta. As teorias macro são facilitado- ras de uma multiplicidade de modelos teóricos responsáveis pela extensão e con- frontação dessas teorias numa variedade de campos, muitos dos quais não repre- sentaram cenários relevantes para a emergência da teoria sobre a qual esses mo- delos se erigiram. Entretanto, esses novos modelos teóricos são capazes de inte- grar e viabilizar novos significados gerais para a teoria, que são os que vão se desenvolver a partir da convergência de diferentes modelos teóricos produzidos na pesquisa empírica; os modelos teóricos são uma via de fortalecimento, assim como de mudança das teorias. Os modelos teóricos são responsáveis pela necessá- ria produção teórica que deve estar associada a toda e qualquer pesquisa empírica. Fernando Luis González Rey66 O uso dogmático da teoria como uma representação adequada da realidade e pronta para ser aplicada tem caracterizado as pesquisas em psi- cologia e, frequentemente, mais do que uma investigação, essas pesquisas podem ser consideradas como aplicações das teorias a problemas concretos. Nessas aplicações perde-se a explicitação sobre os processos de inteligibili- dade que foram empregados no curso da pesquisa e que levaram às constru- ções defendidas pelos autores. Esse uso sem limites da especulação tem sido o resultado da pouca reflexão epistemológica, o que historicamente acompa- nhou o desenvolvimento dos sistemas teóricos da psicologia (Danziger, 1990; González Rey, 1997, 2005; Koch, 1995; Neubern, 2004). A teoria foi identificada na psicologia com os grandes sistemas teó- ricos universais usados a priori para significar os problemas mais diversos enfrentados na prática psicológica. Essa relação entre as teorias e a prática profissional, em diversas áreas, com frequência excluía a pesquisa, como aconteceu num longo período de tempo com as grandes teorias que apoia- vam a prática da psicoterapia. A definição da ciência pelo tipo de instru- mento usado na sua prática, nesse caso o experimento, na lógica instrumen- talista do positivismo, excluía a consideração de outras formas de prática, entre elas as desenvolvidas na psicoterapia, como formas legítimas de fazer ciência. Essa dicotomia levou à separação artificial entre o assim chamado “método clínico”, que não era mais do que uma variante de pesquisa qualita- tiva no exercício da clínica, e o “método experimental”, que por um longo tempo dividiu os campos da clínica e da ciência. A falta de desenvolvimento de uma reflexão epistemológica crítica e de criação na área de metodologia, levou a que o próprio Lacan, assim como outros psicanalistas franceses, como J. Dorr, defendessem a ideia de que a psi- canálise não era uma ciência, ao invés de problematizar justamente o contrário, ou seja, a noção de que a psicanálise levaria a uma nova forma de fazer ciência. Essa ignorância dos aspectos epistemológicos e metodológicos da produção do saber caracterizou a ausência de discussão sobre esses aspectos na clínica, omi- tindo as implicações dessa discussão para o desenvolvimento nesse campo do saber. Isso exacerbou o uso dogmático das teorias como doutrinas, tal como nos referimos antes. Só em tempos recentes é que as preocupações com a pesquisa e suas diferentes epistemologias ganharam força no campo psicanalítico (Frosh, 2003, 2007; Frosh S. & Saville-Young, 2008; entre outros). Na psicologia, o predomínio epistemológico positivista, que na reali- dade se caracterizou por um empirismo primitivo e dogmático que ignorou as próprias preocupações de Comte sobre a relação representação-realidade, con- duziu à identificação da pesquisa com a coleta de dados, processo do qual se excluiu completamente a produção de ideias (González Rey, 2005). Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 67 A psicoterapia representa um campo legítimo de prática profissio- nal e de produção de saber (González Rey, 1997), em virtude do qual se torna uma via importante para a produção de teoria em psicologia, num pro- cesso onde a psicoterapia precisa se manter em diálogo com outras áreas de trabalho da psicologia. Pelas condições excepcionais do sujeito que emerge no processo terapêutico, que seria a negação do “paciente” como “recipiente reativo”6 do procedimento médico produzido pelos artefatos e procedimentos ideológicos da instituição médica, a psicoterapia converte-se, com frequên- cia, numa via ímpar para o desenvolvimento de construções sobre a subjeti- vidade social em que o paciente está envolvido (González Rey, 2003, 2009). A legitimidade da psicoterapia como prática científica só pode ser aceita desde uma pesquisa que legitime o caráter construtivo-interpretativo e dialógico da produção do saber, sobre o qual se reafirma a significação do estudo de caso como procedimento científico. A psicoterapia é, pelo seu próprio caráter, um processo que de forma permanente nos obriga a construir e acompanhar hipóteses de casos diferentes, no curso das quais modelos teóricos originais emergem. O acompanhamento desse processo com inten- cionalidade teórica e metodológica representa uma pesquisa com a mesma legitimidade daquelas que, sob princípios semelhantes, são desenvolvidas em outros campos do saber. Não foi à toa que a psicoterapia representou o momento empírico de vários dos grandes sistemas teóricos da psicologia. O conceito de configuração subjetiva tem pela sua própria natureza um caráter hipotético. Não existem configurações subjetivas que possam ser definidas fora de um espaço de relação com o outro capaz de implicar sua pro- dução subjetiva. Os sentidos subjetivos só aparecem quando estamos envolvidos numa relação, tarefa ou expressão que sentimos como “nossa”, que envolve a nossa identidade, que defino por esse confuso e polivalente sentido do que eu sou, do que tem relação comigo, do que sinto e defendo desde determinado lu- gar, processos esses que se organizam em infinitas formas do sentir ou repre- sentar, ou sentir-representar, e que podemos definir como identidade. A subjetividade nunca está pronta num texto, incluso na definição ampla de texto que nos oferece Ricoeur (2008). Na subjetividade existe uma emocionalidade que atravessa caoticamente a fala e qualquer outra forma de expressão, e que não é possível conhecer só no corpo do tecido discursivo, como pretendeu Ricouer em suas interessantes propostas. Os indicadores, que organizam as hipóteses que permitem avançar sobre os sentidos subjetivos e as configurações subjetivas, e que só ganham inteligibilidade plena no modelo teórico do pesquisador, não são visíveis através de nenhuma das formas de 6 Devo esse termo a Veresov (2009), que o usa para criticar o conceito de agência na literatura socio- lógica e psicológica. Fernando Luis González Rey68 organização concreta da expressão da pessoa, mesmo que algumas delas pos- sam ser tomadas como indicadores no curso do processo construtivo. Ricoeur (2008) agudamente coloca: “(...) enquanto a linguagem não possui sujeito, no sentido em que a questão ‘quem fala?’ não é válida nesse nível, o discurso remete a seu locutor, mediante um conjunto comple- xo de indicadores tais como os pronomes pessoais” (p. 54). Essa aproxima- ção à ideia de indicadores, que uso como recurso interpretativo para definir as peças hipotéticas que ganham legitimidade no curso da pesquisa, foi tam- bém feita por Ricoeur; porém, enquanto ele enfatiza a emergência do indica- dor no corpo do texto, eu enfatizo essa emergência no corpo do modelo teó- rico em processo desenvolvido pelo pesquisador, o que se separa dos signos, frases e outras construções que caracterizam o texto na definição de Ricoeur. Porém, Ricoeur conserva umafidelidade ao texto que, em minha opinião, limita o processo fundador e gerador da construção teórica sobre sistemas de evidências empíricas que escapam ao texto. O debate teórico e epistemológico em torno da psicoterapia representa um dos espaços importantes do desenvolvimento da psicologia frente aos gran- des desafios que a superação da dicotomia dogma-empiria nos tem trazido. ALGUMAS REFLEXÕES FINAIS Os sentidos e as configurações subjetivas não são produções racionais, mas produções simbólico-emocionais que emergem no curso da experiência humana. Estas categorias não são sensíveis às representações conscientes da pessoa que faz que não mudem pelos processos intencionais de significação da pessoa. Os sentidos subjetivos são sensíveis aos efeitos indiretos e colaterais dos processos de significação; eles sempre estão presentes nas produções do pensa- mento. Todo pensamento se gera numa configuração subjetiva. A racionalidade humana tem sua base em configurações subjetivas que a convertem numa produção afetiva situada dentro de espaços simbóli- cos produzidos culturalmente. O simbólico não se reduz ao relacional e é informado constantemente por emoções sensíveis a outros registros, biológi- cos e sociais, por exemplo, que entram na dimensão subjetiva pela sua capa- cidade geradora de processos simbólicos, que por sua vez passam a afetar e ser afetados por essas emoções em níveis subjetivos. Essas unidades simbó- lico-emocionais em desenvolvimento, envolvidas em constantes desdobra- mentos, são os sentidos subjetivos. A psicoterapia é um processo dialógico que, como experiência vi- tal, só é efetiva quando nela se gera uma configuração subjetiva que envolve Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 69 novas cadeias de sentido subjetivo que implicam novas opções de subjetiva- ção associadas com novos focos de tensão e ruptura com a configuração subjetiva hegemônica, associada aos sintomas. Esse processo é responsável pela mudança na psicoterapia que não é outra coisa que a abertura de uma nova opção de desenvolvimento. Essa tensão atuante e criativa que acompa- nha a emergência da nova configuração subjetiva desenvolvida no processo terapêutico é a responsável pela mudança, e não as ações pontuais ou inter- pretações do terapeuta no curso desse processo. A produção de saber sobre os processos subjetivos envolvidos na mudança terapêutica, assim como sobre a configuração subjetiva envolvida na gênese do transtorno é, pela própria natureza desses processos, parcial e incompleta, sendo unicamente um objeto de inteligibilidades que vão se afirmar num nível teórico através de processos de pesquisa que integram múltiplas fontes, sendo a psicoterapia uma delas. No caso em que a psicote- rapia represente o momento empírico essencial de uma teoria, como já aconteceu com várias teorias diferentes, a multiplicidade de fontes sobre as quais irão se erigir a legitimidade desse saber virá de uma multiplicidade de casos integrados dentro de um mesmo modelo teórico em desenvolvimento. REFERÊNCIAS Anderson, H. 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(1987). Thinking and Speech. In R. Rieber & A. Carton (Eds.). The collected works of L. S. Vygotsky. New York: Plenum Press. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 71 REFLEXÕES SOBRE O CAMPO DAS PSICOTERAPIAS: DO ESQUECIMENTO AOS DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS Adriano Holanda Sumário: Introdução. Da (in)definição do campo psicoterápico. Da neces- sidade de uma abordagem crítica das psicoterapias no campo profissional. Psicoterapias: posições diversas. Sobre a cultura profissional e o ideário do social. À guisa de encaminhamentos: desafios para o debate contemporâneo. Referências. INTRODUÇÃO O processo de construção da Psicologia brasileira é longo e com- plexo, e o contexto da psicologia clínica e da psicoterapia sempre esteve presente nesse trajeto. Contemporaneamente, novos caminhos foram sendo construídos, com a ampliação significativa da categoria, com a aberturade novos campos e áreas de trabalho – algumas não necessariamente “novas” em termos de propostas, mas seguramente novas em termos de sedimentação e consolidação –, com a politização crescente tanto dos discursos da catego- ria quanto das proposições de inclusão da profissão, e – paradoxalmente – com certo esquecimento de sua história. Nesses primeiros caminhos, pouco a pouco o campo das psicotera- pias foi sendo ocupado pelos psicólogos. Inicialmente como consulentes, conselheiros, aconselhadores, e finalmente como terapeutas e psicoterapeu- tas. À medida que novas abordagens iam sendo criadas, quase que imedia- Adriano Holanda72 tamente os psicólogos brasileiros foram se apropriando avidamente delas. A história dessas apropriações e o processo de entrada dessas perspectivas psi- coterapêuticas no cenário brasileiro são bem pouco conhecidos ainda. E este cenário persiste na atualidade, apontando para uma categoria muito mais caracterizada por ser consumidora, do que produtora de reflexões no campo das psicoterapias. A categoria foi crescendo exponencialmente, os espaços foram sendo ocupados, o mercado foi se ampliando e campos diversos foram sendo incorpo- rados. A organização das ações em torno da categoria de psicólogos foi igual- mente se ampliando, mas algumas discussões ficaram estagnadas ou recolhidas a um contexto previamente definido. Em alguns casos, houve mesmo retroces- sos. O campo da clínica conheceu tanto avanços como recuos. A psicoterapia no Brasil, sempre esteve associada – direta ou indi- retamente – ao trabalho de psicólogos. Dentre as atividades do antigo Labo- ratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro, nos idos dos anos 1920, já se desenvolvia atividades de psicoterapia (Penna, 1992; Pereira & Pereira Neto, 2003). E, é importante lembrarmos que, na época em que se estruturava o projeto de regulamentação da profissão de psicólogo, a área clínica era uma das mais críticas, particularmente por sua associação à psicoterapia e à avaliação psicológica (Jonsson, 2011). Havia – no Decreto 20.931/32, que regulamentava a profissão do médico – um indi- cativo de primazia desta profissão com relação à psicoterapia, e um enten- dimento que a psicoterapia seria então privativa ao profissional médico. Isto motivou vetos a partes do que viria ser a Lei 4.119 (que regulamenta a pro- fissão de psicólogo), o que explica o fato de não haver ali a indicação – como atividades do psicólogo – para atuação em “psicoterapia”. Em seu lugar ficou designado o “uso de métodos e técnicas psicológicas” com o objetivo de “solução de problemas de ajustamento”1/2. Desde os primeiros projetos de formação profissional – mais espe- cificamente a partir da proposta curricular de Annita de Castilhos e Marcon- des Cabral (Bernardes, 2004) – temos a “clínica” como uma ênfase consti- 1 “(...) o que foi objeto de reação de parte da sociedade, como é possível observar pelo veto da Comissão de Ensino Superior do Conselho Nacional de Educação, à posição do ISOP e da ABP na época, de determinar como uma das atividades do psicólogo a atuação na área clínica. Este veto se deu por sua associação direta à prática da psicoterapia que, à época (e não muito distante de nossa realidade atual), era entendida como privativa do profissional médico, fazendo com que se substituísse – no texto final da Lei 4.119 – a palavra ‘psicoterapia’ por ‘solução de problemas de ajustamento’”. (Jonsson, 2011, p. 23) 2 O Decreto 20.931, de 11.01.1932, “Regula e fiscaliza o exercício da medicina, da odontologia, da medicina veterinária e das profissões de farmacêutico, parteira e enfermeira, no Brasil, e estabelece penas”. No seu art. 24, fica definido que os “serviços de psicoterapia” deveriam ficar sob a direção e responsabilidade dos médicos. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 73 tuída para a psicologia brasileira. Esta ênfase se mantém claramente definida até o estabelecimento das “Diretrizes Curriculares”, em 2004, que marcam não somente uma flexibilização da formação em psicologia, como também a diversificação de seu campo da atuação. Desta feita, o campo da clínica sempre acompanhou a profissiona- lização e o “fazer” do psicólogo, desde sua formação – seja através das téc- nicas de avaliação e do aconselhamento psicológico, seja no desenvolvi- mento explícito do campo das “teorias e técnicas psicoterápicas” – até sua inserção no mercado de trabalho, contribuindo sobremaneira para o estabele- cimento de sua representação na sociedade, bem como solidificando um “lugar” nesse contexto. Como se percebe, não se está falando de um campo “marginal”. O campo das psicoterapias é constitutivo do fazer psicológico. Lembremos ainda que, tradicionalmente, a Psicologia brasileira se desenvolveu em torno das chamadas “áreas clássicas” (Clínica, Escolar e Organizacional). Mesmo sendo central na determinação e constituição da própria profissão, foi um dos campos que menos conheceu ações concretas de debate, pesquisas e discussão no seio da categoria. Durante o ano de 2009 – após muitos anos de esquecimento da questão, bem como de certa ausência de empenho na organização dos profis- sionais psicoterapeutas, tanto da parte destes, quanto da parte dos gestores dos conselhos profissionais, além de uma crescente ideologização dos agru- pamentos da categoria – finalmente foi realizada uma primeira discussão formal, em âmbito nacional, sobre o tema. Embora a proposta tenha sido de realizar um debate que envolvesse a categoria como um todo, e em especial, os profissionais diretamente ligados à prática da psicoterapia, o que se ob- servou foi uma adesão muito limitada da categoria, acompanhada de uma discussão igualmente restrita, com discursos tangenciais e mesmo pouco motivados. Diante desta realidade – reconhecendo o imperativo de se discutir tanto o mérito quanto a questão em si, em tempos de “Ato Médico” – iremos tecer alguns comentários na direção de qualificar o debate em torno do cam- po das psicoterapias. Para tal, partiremos de algumas das “diretrizes” que sustentaram o debate do “Ano da Psicoterapia”, buscando problematizar alguns elementos. A proposta de discussão do “Ano da Psicoterapia” deveria contem- plar três eixos, com subtemas (Conselho Federal de Psicologia, 2009): Eixo I – A constituição das psicoterapias como campo interdisci- plinar. Adriano Holanda74 a) Psicoterapia como uma disciplina científica ou como um con- junto de métodos e técnicas que definem uma prática; b) Interdisciplinaridade, transversalidade e multiprofissionalida- de: o psicólogo neste contexto; c) Limitações das reivindicações da exclusividade por parte dos psicólogos; d) Psicoterapia como prática diversa (clínica ampliada). Eixo II – Parâmetros técnicos e éticos mínimos para a formação na graduação e na formação especializada e para o exercício da psi- coterapia pelos psicólogos: a) Parâmetros: referências e/ou regulação. Eixo III – Relações com os demais grupos profissionais: a) Estratégias políticas de construção de parcerias e enfrenta- mento dos conflitos; b) Relação do Sistema Conselhos com a ABRAP e outras entidades. Havia ainda um quarto eixo – cujo tema seria “Psicoterapia como ci- ência” – que foi excluído do debate oficial. Embora os documentos e o discurso oficial sejam de não comprometimento com posicionamentos ou direções espe- cíficas – o que apenas uma posição ingênua sustentaria –, tanto a escolha dos temas e dos debatedores, quanto os encaminhamentos dados politicamente e no contexto do debate apontam claramente para direções que merecem destaque. Alguns desses destaques serão objetos aqui, outros estarão limita- dos a apontamentos, dado que o tema central é o campo das psicoterapias e sua inserção tanto no contexto da profissão, quanto do seu lócus social. Nes- se texto, não estaremos efetivandouma diferenciação entre “clínica” e “psi- coterapia”, propositalmente, mesmo reconhecendo a necessidade de tal tare- fa, mas por considerarmos a limitação desse espaço para tal empreitada3. Principiaremos com uma reflexão sobre a definição do campo. DA (IN)DEFINIÇÃO DO CAMPO PSICOTERÁPICO O campo das psicoterapias carrega uma curiosa complexidade. Se por um lado se apresenta como similar – quando não representativa – do 3 Esta discussão é fundamental inclusive para que possamos compreender os caminhos que a profis- são vem tomando ao longo dos anos, como por exemplo, as diversas identificações da Psicologia com as ciências humanas, sociais ou da saúde. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 75 campo clínico em geral (a ponto de estar associada ao mesmo na própria linguagem4); por outro lado não carrega uma definição que permita uma distinção suficientemente clara de seu “fazer”, nem do ponto de vista téc- nico (referente às distinções intracampo, ou seja, entre as diversas modali- dades clínicas ou mesmo entre os seus diversos “modelos” ou “aborda- gens”), nem do ponto de vista operacional (no que se refere à sua inserção prática, ou seja, que remeta a “quem” se destina o fazer, enquanto profissi- onal, o que permite que não se distinga este fazer do psicólogo dos demais profissionais). Desta forma, podemos claramente nos referir a uma indefinição do campo das psicoterapias. Lançando mão de um dos livros clássicos sobre o tema – o texto de Lewis Wolberg (1988), The Practice of Psychotherapy – vemos que o autor apresenta 39 tipos diferentes de definições, além da sua própria proposição de entendimento. Outro fato interessante. Durante o período de vigência do chamado “currículo mínimo”, a formação em psicologia comportava, invariavelmente, uma ou mais disciplinas cujo tema versava sobre “teorias e técnicas psicote- rápicas” ou ainda uma disciplina de introdução à prática psicoterapêutica que discutia questões gerais sobre a psicoterapia e não somente a especificidade desta ou daquela abordagem. Ademais, ainda contemplava estágios práticos na mesma área. Mesmo isto sendo corrente, em praticamente todos os currículos brasileiros, ainda hoje a literatura é muito restrita, em nosso país, no que se refere a textos que tratam de questões gerais de psicoterapia. A rigor, de livros “gerais” sobre psicoterapia temos: o texto Teorias e Técnicas Psicote- rápicas, de Ribeiro (1986); A Psicoterapia pela Fala, de Richard Bucher (1989), e o texto de Cordioli (1993)5, Psicoterapias. Abordagens Atuais; mais recentemente, tivemos a edição de Intercâmbio das Psicoterapias (Paya, 2011). Todos os demais textos publicados no Brasil têm uma direção específica, sendo orientados para práticas igualmente específicas. Assim é que passaram a proliferar obras de “psicoterapia dinâmica”, “psicoterapia breve”, “manual de psicoterapia gestáltica”, “manual de técnicas comporta- mentais” etc. Isto já aponta para certo esquecimento da questão. 4 Para tal, basta acessarmos as pesquisas que mostram a inserção profissional ou mesmo a formação técnica do psicólogo. Nestas, a prática da psicoterapia invariavelmente vem considerada sob a alcu- nha genérica de “psicologia clínica”. Este panorama só começa a mudar quando se percebe que há distinções significativas entre diversos “fazeres” psi, que – por seu turno – vêm associados aos seus “lugares” de atuação ou aplicação (como são os casos da saúde, da educação, das organizações etc.). 5 Este passou por revisões e tem edição mais recente. Adriano Holanda76 Na literatura americana encontramos um volume muito maior de “manuais” ou proceedings gerais, o que mostra uma discussão muito mais ampla do que a que (não) temos no nosso país. Não podemos ainda esquecer que o counseling – que chegou no Brasil nos primórdios das formações em psicologia como “aconselhamento psicológico”, e que constituiu os primei- ros serviços clínicos do país – ainda é uma prática corrente em solo america- no, e conta igualmente com um volume substancial de obras gerais sobre o assunto; enquanto que no Brasil o tema foi segregado ao ostracismo, como algo antiquado e irrelevante. No que se refere ao ostracismo do “aconselha- mento” – um dos “recuos” que o campo clínico conheceu no Brasil –, este fato deve ser lamentado, pois não apenas o “aconselhamento psicológico” está na gênese das formações brasileiras, como boa parte dos fazeres “clíni- cos” contemporâneos poderiam ser considerados como modalidades de aconselhamento (Barros & Holanda, 2007), como o são intervenções clínicas tão distintas como o Plantão Psicológico, a Terapia Comunitária, e as escutas em contextos diversos como hospitais, escolas, clínicas especializadas, em Saúde Mental etc. A rigor, defendemos mesmo a ideia que o aconselhamento psicológico deveria ser reconstituído e encarado como uma “prática clínica contextualizada”, e que essas modalidades de escuta clínica seriam excelen- tes experiências de formação para o psicólogo em geral. Embora o campo da clínica seja um dos mais exercidos pela cate- goria, dos mais procurados pelos estudantes e um dos mais representativos da sua imagem social, não possuímos efetivamente um “campo” definido comum que possamos denominar de “psicoterapia”, mas um conjunto dis- perso de abordagens clínicas que se constituíram autonomamente – pelo menos assim se definem, em sua grande maioria –, destacadas (na maior parte das vezes) do terreno da pesquisa, além de um conjunto assistemático de ideias, organizadas de maneira endógena. DA NECESSIDADE DE UMA ABORDAGEM CRÍTICA DAS PSICOTERAPIAS NO CAMPO PROFISSIONAL A necessidade de um debate crítico com respeito às psicoterapias é imperiosa, tanto em seus aspectos gerais, quanto com respeito aos caminhos que estão sendo trilhados – ou não – na discussão da matéria. Retomemos o debate no seio da nossa categoria. A discussão sobre as psicoterapias e sobre a prática profissional do psicólogo no campo da clínica foi colocada em pauta desde o Congresso Nacional Constituinte da Psicologia – que veio a ser considerado o I Congresso Nacional da Psicolo- gia (CNP) –, em 1994 (realizado em Campos do Jordão, São Paulo). Já no Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 77 documento relativo ao II Congresso Nacional da Psicologia, realizado em 1996, em Belo Horizonte, o tema da psicoterapia – cuja discussão balizaria, à época, as ações dos conselhos com relação às chamadas “práticas alternati- vas” – aparece de forma “marginal”. Neste documento, temos um excelente indicativo de como algumas questões da profissão foram sendo deixadas ao largo, sempre colocadas no rol de “discussões” a serem realizadas e nunca efetivadas. No referido do- cumento, lemos que o II CNP ratifica teses do I CNP com relação ao tema da psicoterapia, de uma forma – no mínimo – curiosa. Neste documento lemos que não compete aos Conselhos da categoria a “validação” ou o “reconheci- mento de técnicas”, mesmo que – enquanto órgão fiscalizador da profissão – seja de sua competência “orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da pro- fissão” no país (como consta no art. 1º da Lei 5.766, de 1971, que cria o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Psicologia). E a psicoterapia é, sem sombra de dúvida, exercida por profissionais da psicologia. Diante deste quadro, que envolvia a questão se as chamadas “práti- cas alternativas” poderiam ou não ser exercidas por profissionais psicólogos, a ambiguidade se instaurou, afinal a quem caberia dar subsídios para esta normatização do campo clínico? A resposta seria, segundo o Documento do II CNP (Bernardes, 2004, pp. 6-7) a seguinte: Não é o Conselho, mas sim a comunidade científica que tem esta respon- sabilidade, embora o mesmo deva fornecer subsídios relativos ao exercí- cio profissionalpara que esta função se cumpra. Ele deve se instrumenta- lizar para saber o que já é validado e o que não é, ter regras claras para a relação com a comunidade, considerando: a) Técnicas já reconhecidas; b) Técnicas em processo de reconhecimento; c) Técnicas em fase de pesquisa. O Conselho deverá estimular e incentivar a comunidade científica para a discussão e pesquisa das diferentes práticas ditas alternativas. O que se destaca nesse documento – conforme acima assinalado – é que nunca se estabeleceu quantas e quais são as técnicas “reconhecidas”, em “processo de reconhecimento” ou mesmo em “fase de pesquisa”. A rigor, esta questão somente passa a entrar em pauta quando a dimensão econômica se torna “figura”. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos com relação ao seguro-saúde, está acontecendo na Europa de forma similar e, agora no Bra- sil, com o redimensionamento das políticas públicas em saúde. No nosso caso, um fato muito curioso foi a posição tomada pelo Conselho Federal de Psicologia, em 2004, de apoio formal à constituição da ABRAP (Associação Adriano Holanda78 Brasileira de Psicoterapia), uma entidade que nasceu com sólida base na medicina, em tempos de discussão sobre o “Ato Médico”, e que vem sendo sucessivamente apontada como a entidade responsável pelo debate sobre o tema, a ser “solidificada”, “fortalecida” e apoiada – política e financeira- mente – pelos conselhos de psicologia (Conselho Federal de Psicologia, 2007, 2010). Há que se destacar ainda que, de um lado, a “Academia” se apre- senta como o “lugar” da pesquisa, mas não de responsabilização técnica; e, de outro lado, os conselhos não podem reconhecer nenhuma técnica sem a devida pesquisa associada. Em outras palavras, temos – ao menos em nosso país – uma segregação curiosa, dado que as academias “formam” profissio- nais numa determinada “ciência” que os habilita a exercer uma “profissão” que virá a ser regulamentada pelo Estado e fiscalizada por outra entidade, os Conselhos profissionais. Mas a Universidade é autônoma no que faz – em tese, a “formação” de profissionais – que, depois de serem “formados”, pas- sam a ser responsabilidade de uma entidade que em nenhum momento interage diretamente com a primeira. Por isto não se sabe, em absoluto, qual a “qualidade” desse profissional, até que este se apresente formalmente em seu cotidiano de trabalho. Pelo lado profissional, o que temos é a manutenção dos encastela- mentos ideológicos, onde cada abordagem se autoconstitui e se autorregula – com suas regras teóricas, técnicas e de formação particulares – sem nenhum diálogo interacional (e, ainda pior, sem nenhuma consideração pela diversi- dade de pontos de vista, ou mesmo pelos posicionamentos de outros mode- los). Ou seja, permanecemos no lugar dos discursos que – à semelhança do discurso religioso – mantêm-se em torno de crenças assumidas e replicadas, na maioria das vezes de forma acrítica, construídas em torno dos escritos seminais de cada uma dessas abordagens, e em geral, relatadas por uma ou mais figuras que representam as “palavras do Pai” – parafraseando Moreno –, onde estas se tornam regras a serem seguidas explicitamente como verdades cujos significados existem em si, e não podem (qual dogmas) ser postas em discussão, sob pena de exclusão do questionador de sua comunidade. A his- tória das práticas psicológicas está repleta de dissidentes e dissidências, des- de os primeiros momentos da psicanálise freudiana até os modelos mais contemporâneos de clínica. Afinal, tal qual a diversidade das denominações religiosas, é mais fácil “criarmos” uma denominação “nova”, do que questio- narmos – de dentro – os fundamentos supostos, as mazelas e as incoerências dos discursos. Este é o “caráter confessional das psicoterapias”. Retomando a apropriação que os conselhos de categoria fizeram sobre esta questão, podemos lançar mão de dois outros documentos, relati- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 79 vos ao V CNP e ao VII CNP. O que estamos nos referindo como uma cres- cente ideologização da gestão da profissão pode ser exemplificado com o balanço feito das deliberações do V CNP (realizado em 2004), tomado como referência para o congresso seguinte (Conselho Federal de Psicologia, 2007). O caminho escolhido pelos gestores da profissão reafirma a tese da “constru- ção social da profissão”, do “protagonismo social” e da “transformação significativa no reconhecimento social da profissão” (pp. 1-2). Um bom retrato desse caminho pode ser apontado pela divisão dos temas debatidos do Congresso em “eixos” que direcionam e dirigem não apenas as contribui- ções, como apontam para aquelas searas que serão privilegiadas no debate. Os eixos do V CNP foram: a) Políticas Públicas; b) Inclusão Social e Direi- tos Humanos; c) Exercício Profissional/Formação e Exigências de Qualifica- ção; e d) Exercício Profissional/Campo e Espaço de Atuação. Uma das coisas que nos chama a atenção é exatamente a discrimi- nação entre políticas públicas (aqui incluiríamos o outro eixo que versa so- bre “inclusão social”) e o exercício profissional. De certa forma (e prova- velmente de maneira irrefletida, dado que este modelo vem se repetindo ao longo dos anos), esta discriminação reifica aquela segregação a que nos refe- rimos anteriormente. O tema “psicoterapia” encontra-se presente no eixo sobre “exercí- cio profissional/campo e espaço de atuação”, e gostaríamos de destacar aqueles encaminhamentos – apontados no documento – realizados pelo CFP: Fortalecimento da ABRAP (Associação Brasileira de Psicoterapia) por meio de apoio político e financeiro; Participação, com mesas de debate, no I Congresso da ABRAP (Associação Brasileira de Psicoterapia); Pro- posição e participação nos congressos da Psicologia com o debate sobre Psicoterapia; Formação do Grupo de Trabalho, em parceria com Conselho Regional de São Paulo, para debate sobre aspectos da Psicoterapia e exi- gências para a formação qualificada e o desempenho da atividade; Apoio para criação do lugar da Psicoterapia na BVS-PSI (Biblioteca Virtual); Apoio e participação na Articulação das Entidades de Psicanálise (Con- selho Federal de Psicologia, 2007, p. 68). Como se percebe – e uma análise discursiva, tanto das teses, quanto do relatório ajudariam nessa percepção – o tema fica “ao largo”, não se apresentando nenhum debate claramente objetivo, nem mesmo caminhos de direcionamentos. Pelo contrário; além do tema ficar relegado aos contex- tos propositivos e de “apoio”, as ações vão sendo delegadas a outras entida- des que, – num processo similar ao da “terceirização” que encontramos nos mais diversos serviços – ficam com a responsabilidade por desenvolver es- tratégias específicas em torno de questões centrais da profissão. Assim é que Adriano Holanda80 à ABEP é delegada a tarefa de regular os cursos de especialização, e a ABRAP herda a questão da psicoterapia. Observemos agora o Relatório Final do VII CNP, realizado em 2010, em Brasília, no qual o tema persiste – curiosamente em apenas uma tese – e com a mesma perspectiva, desde 1994. Isto reflete, dentre outras coisas, que o tema efetivamente foi sendo paulatinamente abandonado, es- quecido, em prol de outros (como a ideologização da atuação profissional ou a “socialização” de sua prática). Senão observemos o que diz esta solitária tese aprovada no VII CNP: [Tema da Tese] Psicoterapia: Qualificação e atuação ético-profissional Diretrizes. 1. Manutenção da discussão da Psicoterapia no Sistema Conselhos, a par- tir da articulação de parcerias com demais entidades. 2. Construção, pelo Sistema Conselhos, de parâmetros/formas de lidar com as questões referentes à regulação do exercício da prática psicoterá- pica pelos psicólogos. 3. Estímulo à criação de parâmetros éticos e práticos que respeitem as di- versas abordagens teóricas na atuação em psicoterapia. 4. Ampliação das discussões emrelação às práticas psicológicas com a categoria e com as Comissões de Orientação e Fiscalização (COF) e Co- missões de Orientação e Ética (COE) e divulgação do que é considerado prática conhecida, reconhecida, emergente e alternativa. 5. Continuidade da construção, pelo Sistema Conselhos, por meio da interlo- cução com a categoria e entidades afins, de referências para o exercício da prática psicoterápica pelos psicólogos, a partir dos debates resultantes do Ano Temático da Psicoterapia, reforçando os princípios éticos da Psicologia. 6. Continuidade da promoção, pelo Sistema Conselhos, em parceria com a ABEP, IES e outros interlocutores envolvidos na formação e no exercício da psicoterapia, do debate nacional sobre a psicoterapia, no sentido de discutir algumas diretrizes necessárias para a formação. Encaminhamentos: a. Promover novos encontros para discussão da psicoterapia, ampliar as discussões nos cursos sobre psicoterapia, fomentar a discussão para im- plementação da residência em Psicologia; promover discussões e produzir documentos e ações que norteiem o exercício da psicoterapia. b. Propor ao Crepop a construção de referências para prática de psicotera- pias na saúde pública. c. Incentivar o desenvolvimento de pesquisas e publicações científicas no campo das psicoterapias, em parceria com a ABRAP, IES e outras insti- tuições afins. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 81 d. Enfatizar, na atuação do Sistema Conselhos, para gestores e instituições da área da saúde, a importância de condições físicas e materiais que pos- sibilitem a adequação do atendimento psicoterápico e de seu sigilo, consi- derando os diversos contextos em que esses atendimentos devem ocorrer. e. Ampliar a discussão na Agência Nacional de Saúde (ANS) sobre a pres- tação de serviços de psicoterapia nos planos de saúde para garantir a auto- nomia técnica do psicólogo (Conselho Federal de Psicologia, 2010, p. 77). Vamos aos fatos. A proposta de “discussão” do tema Psicoterapia vem, desde 1994, sendo colocada “em pauta”, mas nunca efetivamente foi de- batida. Nunca houve, no âmbito dos Conselhos, qualquer incentivo a se formar uma comunidade de debates em torno da questão da psicoterapia; ou algo como uma “sociedade” ou entidade nacional que congregasse os psicoterapeutas. Pre- feriu-se manter as divisões e dissensões de cada abordagem – como se cada uma fosse uma “nação” autônoma – ao invés de se assumir que se estava tratando de “prática profissional” por parte dos psicólogos. Eventualmente se negligenciou o campo, por se pensar que se tratava de uma prática “privada”, burguesa, não possuindo assim um cunho “social”. O que é curioso é que a questão passa a tomar corpo quando a clínica é demandada nos serviços públicos de saúde – consequência absolutamente natural advinda do crescimento populacional, do crescimento exacerbado da própria categoria (que demandaria mais postos de trabalho), da abertura de iguais campos de serviço, da ampliação das políticas governamentais de saúde etc. – e a prática clínica – antes fundamentalmente “privada” – passa para o âmbito do público, quando cada vez mais psicólogos passam a ocupar lugares nos serviços de saúde. E qual a realidade que, então, se revela? Que a imensa maioria dos profissionais de Psicologia tem uma formação “clínica”, dentro de uma pers- pectiva tradicional de clínica “privada”. A mesma que ajudou a construir o cenário da profissão, bem como as inúmeras instituições formadoras, e que de um momento para outro não mais “servia” aos interesses do Estado ou dos gestores da profissão. O perfil do profissional psicólogo em 2001 apontava que 54,9% trabalhava em “clínica de consultório” (Conselho Federal de Psicologia, 2001). Esta dominância de campo de atuação sempre foi amplamente ocupa- da pelos “clínicos”, com clara ênfase para a prática da psicoterapia. Na pes- quisa mais atual sobre a profissão do psicólogo, “a área clínica indiscutivel- mente possui o maior peso, pois as inserções profissionais relacionadas às atividades clínicas representam 39,9% para 53,9% dos psicólogos que atuam nela de modo exclusivo ou não” (Gondim, Bastos & Peixoto, 2010, p. 181). Psicoterapia e formação profissional em Psicologia sempre caminha- ram lado a lado. Sendo um dos campos mais utilizados pelos psicólogos, te- Adriano Holanda82 mos um natural reflexo disto em sua formação, sendo igualmente uma das práticas mais apresentadas nos cursos de graduação. O mesmo, e de forma ainda mais contundente, se repete no contexto da pós-graduação ou da espe- cialização. Basta observarmos os cursos credenciados pela ABEP (Associação Brasileira de Ensino de Psicologia) – entidade criada em 1999, sob os auspícios do Conselho Federal de Psicologia – que recebeu a delegação de proceder a todos os trâmites para o credenciamento de cursos de Especialização em Psi- cologia no país. No início do ano de 2012, havia 126 cursos cadastrados, sen- do que 85 destes – portanto, mais de 67% do total – eram de “Psicologia Clí- nica”, invariavelmente associados a práticas psicoterapêuticas (isto sem levar em conta os demais cursos, como os de Psicologia Hospitalar, que têm cunho clínico, associados a abordagens como a psicanalítica, p. ex.). Estes dados são relevantes, pois – se retomarmos o documento do II CNP como pauta, no que tange às práticas “reconhecidas” – mostram que pode- ríamos claramente apontar modelos como a Psicanálise, as terapias Comporta- mental e Cognitiva, a Gestalt-Terapia, o Psicodrama, a Sistêmica, a Abordagem Centrada na Pessoa, a abordagem Junguiana e a Fenomenológico-Existencial, bem como a Bioenergética, seriam aquelas que, de certa forma, gozariam do reconhecimento da comunidade de profissionais, visto terem sua continuidade em diversos cursos de especialização. O que mostra ainda mais a importância da psicoterapia no contexto da formação em Psicologia. Portanto, negligenciar um campo que congrega grande parte da categoria deve sinalizar algo sobre a representação desta mesma categoria, e desta vez, da parte do sistema que gerencia a profissão. Isto nos remete às próprias discrepâncias da construção do campo psicológico, naquilo que A. G. Penna (1997) muito corretamente denomina “dispersão do pensamento psicológico e a impossibilidade de sua unifica- ção”, e que faz com que a Psicologia – para se tornar autônoma – tenha que pagar o preço da indefinição de seu objeto, praticamente fazendo coro a Auguste Comte, quando este defendia a ideia que a psicologia seria eterna- mente dependente de outra ciência. Isto não se mostra totalmente absurdo, pois basta observarmos alguns aspectos: (...) várias vezes é mais fácil, por exemplo, um psicólogo experimentalista que trabalha em laboratórios com animais, tais como o rato e o pombo, entender-se com um biólogo do que com um psicólogo social que estuda o homem em sociedade. Este, por sua vez, poderá ter diálogo mais fácil com antropólogos e lingüistas do que com muitos psicólogos que foram seus colegas na faculdade e que hoje se dedicam à clínica psicoterápica. (Figueiredo & Santi, 2000, pp. 15-16) Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 83 Imaginemos um debate sobre educação infantil, por exemplo, e ve- remos que não há nenhuma especificidade da parte do psicólogo que não seja possível encontrarmos no pedagogo, p. ex. O que constitui nosso “sa- ber” – de fato – não é autônomo em si, mas (senão dependente) é partícipe das demais ciências. E isto se reflete na nossa própria constituição enquanto profissão. A própria legislação que autoriza a profissão já nasceu caduca dessa especificidade, dando ao profissional a prerrogativa de ser autônomo apenas no uso de “métodos e técnicas psicológicas”, sem que estas possam ter seu lugar conferido fora da interseção com outras ciências. Em outras palavras, o “objeto” próprio da Psicologia foi, desde cedo, “subjetivado”. É nestecenário de dispersão que as psicoterapias se instalam. No mesmo espaço das indefinições e das interações (nem sempre reveladas). A psicoterapia precisa ser antes de tudo definida. E esta definição não é tarefa das mais fáceis, principalmente se lançarmos um olhar para a diversidade do campo. Mas a questão fundamental – continuadamente “atravessada” nessa discussão – é a construção que se faz dessa práxis. De alguns anos para cá essa discussão ganhou novos contornos, com a apresentação de ideias mais objetivadas e concretas relativas ao tema. Todavia, resta-nos ainda pensar – de modo pragmático – naquilo que cons- titui, em “essência”, o processo de psicoterapia. Se há (relativo) acordo entre os diversos modelos é que esta prática deve ser considerada uma prática transformadora, seja do sujeito (subjetivado), seja de seu contexto (do su- jeito intersubjetivo ou relacional, ou ainda, social). “Logo, também deve ser encarada como uma práxis fundamental no campo da ação social” (Rodri- gues, 2009, p. 51). Se efetivamente tomada nesta direção, então poderíamos pensar em superar a segregação suposta, além de repensarmos a distinção entre o campo do público e do privado. Esta constatação é de fundamental importância para que possamos avançar na direção de um debate realmente profissional, para além das pers- pectivas que tradicionalmente interpretam a psicoterapia como prática fun- damentalmente elitista, alienada e descontextualizada. Esta é uma primeira premissa a ser realçada aqui: a psicoterapia é uma prática clínica de cunho social, independentemente desta carregar ou não a alcunha. Em outras pala- vras, não consideramos que o “lugar” de um determinado “fazer” defina este “fazer” – não se faz psicologia “comunitária” apenas por se estar em comu- nidades, p. ex. Isto tem inegavelmente implicações epistemológicas, dada a necessi- dade de revisões e revisionismos das próprias práticas e teorias que alicerçam esses modelos diversos; e, dado ainda que a ciência carrega em seu bojo um caráter essencialmente dinâmico, a responsabilidade por esta transformação Adriano Holanda84 deve ser assumida pelos próprios profissionais que fazem uso de seus instru- mentais e recursos. E com isto chegamos à segunda premissa a ser defendida que é o resgate da indissociabilidade entre teoria, prática e produção de conhe- cimento, resgatando assim a própria história da construção do saber psicológico. PSICOTERAPIAS: POSIÇÕES DIVERSAS No ano de 2009 – instituído formalmente como o “Ano da Psicote- rapia” – houve uma tentativa pouco envolvente de se fazer um debate com a categoria em torno do tema. Com o intuito de fomentar ou estimular o deba- te, foram encomendados alguns textos – estes chamados singularmente de “textos geradores” – que se tornaram as únicas fontes de discussão para os encaminhamentos que deveriam ser tomados pelos conselhos. Estes textos revelam, dentre outras coisas, duas posições muito in- teressantes: em primeiro lugar, a diversidade de visões e opiniões6 com res- peito ao tema “psicoterapia”; e, em segundo lugar, o caminho ideológico que os gestores da profissão gostariam de imprimir ao tema (e que se repetem nos documentos aqui apontados). Num dos seus primeiros textos lemos que: (...) as psicoterapias não podem e não devem ser definidas enquanto ciên- cia. Não podem porque (...) elas não se enquadram no espaço epistêmico da racionalidade moderna. Não devem porque sua não cientificidade não é um defeito a ser corrigido no futuro, mas é o traço essencial de um saber cuja fecundidade reside justamente em resistir à pretensão de uma objeti- vidade e de uma operacionalidade universais. (Drawin, 2009, p. 29) As psicoterapias teriam, segundo o autor, um “caráter sapiencial”, que as aproximaria dos “antigos exercícios espirituais”. Nesta direção, as psicoterapias estariam relacionadas com práticas como as de “autoconheci- mento” (gnóthi seauton) e as do cuidado e formação de si (epimeléia heau- toû), como destaca Foucault. De fato, a “racionalidade” da psicoterapia – aqui posta entre aspas para não se identificar com a modalidade cientificista ou positivada de racio- nalidade moderna – esbarra em seu caráter fluido e dinâmico, mas – sobretu- do –, encontra-se com o seu verdadeiro dilema, qual seja, o de ter que ser considerada como uma modalidade tripartite, envolvendo “ciência” ou co- nhecimento (episteme), técnica e arte. Nesta direção, como tratarmos a 6 Poderíamos mesmo dizer de “representações”, pois muitas das opiniões veiculadas no documento eram de profissionais de fora do campo “clínico”. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 85 questão dos “critérios de validade” de uma prática psicoterápica?; critérios estes que estão no cerne de toda a discussão sobre a oferta desta prática nos diversos modelos de atenção a saúde7. É inegável que este é um grande problema no seio das práticas psi- coterápicas. Já assinalamos uma ênfase “confessional” comum à maioria das abordagens clínicas, quando estas se constroem em torno de teses e textos que nem sempre encontram respaldo empírico ou mesmo crítico da parte de seus promotores. Este seria o caráter “sapiencial” exposto por Drawin (2009). De fato, ao se falar em “validade” das psicoterapias, invariavelmente temos de reconhecer que há uma internalização da cientificidade em cada modelo proposto, ou seja, seus critérios de validação são dados intrinseca- mente e, portanto, unicamente observáveis de “dentro” de cada modelo (de maneira endógena). Ora, isto delimita um caráter autocentrado – onde so- mente se afirma aquilo que está previamente dado em seu escopo teórico- -técnico –; autofágico (que obriga a um contínuo processo de “renovação” inteiramente dependente do próprio contexto), e excludente – que impede um diálogo concreto entre os diversos modelos, e favorece o desenvolvimento de microideologias entre esses modelos. O que por ora defendemos é o res- gate do caráter de universalidade das práticas, o que não impede a manuten- ção de suas especificidades, nem a própria diversidade. E a que nos referimos quando falamos de “critério da universalida- de”? Façamos um breve resgate da questão da pesquisa em psicoterapia. Em primeiro lugar, quando se fala de avaliação de processos psicoterápicos, é comum se falar em “eficácia”, “efetividade” ou “eficiência”, ou mesmo se questionar ou traçar critérios de validade dos diversos processos. O que se coloca, a rigor, por detrás dessas noções são perguntas como: Psicoterapia funciona? Quais funcionam melhor? Há primazia de uma sobre a outra? Há psicoterapias mais ou menos eficientes? Quando se fala de eficácia está se falando de algo que causa determi- nado efeito e está se tratando de uma comparação entre dois agentes, ou seja, um em relação ao outro pode ser mais ou menos eficaz; já efetividade diz respeito ao que funciona. Também se faz comparação quando se fala em eficiência. As pesquisas em psicoterapia surgem em princípios do século XX, e desde cedo tomam dois caminhos: um conjunto chamado de pesquisas centradas nos resultados; e outro, relacionado às pesquisas sobre o proces- so. “A primeira centra-se numa perspectiva mais experimental, objetiva, que 7 Muito recentemente, em edição de 17 de fevereiro deste, o jornal Le Monde veiculou mais uma notícia envolvendo o uso da psicanálise no tratamento do autismo. Mais um capítulo no debate sobre a regula- mentação das psicoterapias na França, mas também sobre a questão da validade dessas práticas. Adriano Holanda86 enfatiza a importância da técnica (...) A segunda assenta numa perspectiva mais subjetiva, se quisermos, intersubjetiva” (Sousa, 2006, p. 373). Assinala ainda o autor que esta cisão espelha a tradicional polaridade entre “explica- ção” e “compreensão”, que acompanha a construçãodo saber psicológico desde seus primórdios – e nos ajuda a estabelecer critérios de consideração desta ciência como uma ciência humana ou não. Uma conclusão que podemos apreender dessas perspectivas – e que nos chega como uma das questões mais importantes a serem destacadas, debatidas e modificadas, especialmente no que tange à prática clínica em nosso país – é que há um abismo entre terapeutas e pesquisadores. Este é um tema que, sem dúvida, não é suficientemente clarificado em nosso contexto profissional, senão vejamos a discrepância que existe na formação em nosso país, constituindo-se cisões sem sentido na produção do conhecimento – e que estão diretamente envolvidas com a segregação que apontamos anteriormente. Para principiarmos, basta-nos constatar a discrepância existente entre os diversos modelos de instituições de ensino superior no país, com claro privilégio (e dominância) para aquelas que têm pouco ou nenhum comprometimento com a pesquisa ou a produção acadêmica. Estamos nos reportando ao Decreto 5.773/06 que subdivide as “instituições formadoras”, em Universidades, Centros Universitários e Faculdades Isoladas. É pressu- posto que boa parte da construção de conhecimento se dê a partir de um contexto formal de pesquisas, e o referido decreto veio (de certa forma) li- mitar o compromisso que as IES deveriam ter com a pesquisa na formação universitária. Enquanto as Universidades (na sua maioria, instituições públi- cas) seriam caracterizadas pela “indissociabilidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão”, a caracterização dos centros universitários e das facul- dades isoladas (na sua imensa maioria, instituições privadas) se centraria no “ensino” – ou seja, não na produção, mas na reprodução do conhecimento já instituído. Outra discrepância que podemos apontar é a existente, pelo menos em nosso meio, entre o ambiente acadêmico e o contexto profissional, sendo atribuído ao primeiro a responsabilidade de fazer pesquisa, produzir artigos, formar profissionais e construir conhecimento, e ao segundo é dada a “tare- fa” meramente pragmática, operacional e de ação profissional propriamente dita. Nesse particular, nos chama a atenção o fato de haver um entendimento comum8 de que na academia não se exerce a profissão, mas tão somente se é 8 Muito mais comum, sem dúvida, entre os docentes de universidades públicas, por conta da suposta “autonomia universitária”, do que entre os docentes de instituições privadas. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 87 “docente”, enquanto que na prática profissional não se faz pesquisa. Isto equivale a dizer que existem dois “mundos” completamente distintos entre si, embora envolvam o mesmo objeto, qual seja, determinada ciência ou profissão. O mais curioso disso tudo é que não se pode conceber um curso de formação de psicologia sem o exercício prático desta mesma psicologia. Por fim, uma terceira discrepância a ser destacada é o fato de que, na maior parte das vezes, a relação entre o profissional e o seu saber cons- truído se esgota quando de alguma formação específica (seja esta de gradua- ção ou de especialização), o que fragiliza tanto o contexto profissional quanto a própria construção acadêmica (haja vista a distância entre o que se produz no contexto acadêmico e o que se aplica no contexto operativo da sociedade e das políticas públicas). Com isto, observamos o hiato que existe entre a prática que é exer- cida no contexto profissional e a produção ou reflexão sobre o conhecimento que deveria embasar esta mesma prática. Retomando a questão das pesquisas em psicoterapia; essa preocupa- ção ganha notoriedade a partir de 1952, quando o psicólogo americano Hans Eysenck começa a questionar a eficácia da psicoterapia. No ano seguinte, Eysenck publica um livro intitulado Uses and Abuses in Psychology, onde am- plia esse debate para a psicologia como ciência em geral (Eysenck, 1953/1967). O que temos de fatos constatados até o momento em relação à psi- coterapia? Em primeiro lugar, que psicoterapia é benéfica e eficaz, ou seja, “funciona”; mas em relação a que? Em relação à fila de espera, ao placebo e ao não tratamento. Um segundo dado importante: 80% dos clientes apresen- tam mudança clinicamente significativa em relação ao não tratamento. Em outras palavras, falar ajuda, a relação ajuda (o que valida modelos relacio- nais os mais diversos, tais como o padre/pastor, o amigo, o Centro de Valo- rização da Vida, dentre outros). Uma terceira questão importante: quanta psicoterapia é necessária? Qual a quantidade? Em 50% dos casos há mudan- ça significativa após um conjunto de 21 sessões, em média, sendo necessário mais de 50 sessões para que 75% mudem (Sousa, 2006). O que temos aqui é que falar ao longo de um ano ou dois (ou mais), deve exercer algum efeito. Não podemos esquecer que temos ainda uma porcentagem elevada – 50% – que não apresentam melhora significativa nesse mesmo tempo. Uma quarta questão relevante é: há manutenção? O quanto esta mudan- ça se mantém? Segundo levantamento de Sousa (2006), temos o seguinte quadro: 1) 40% dos resultados positivos são atribuíveis a variáveis relacionadas ao paciente e a fatores extraterapêuticos (tais como motivação para mu- dança, capacidade cognitiva e interpessoal etc.); Adriano Holanda88 2) 30% são os chamados “fatores comuns”, ou seja, são aqueles aspectos da relação que independem da orientação teórica (tais como a qualidade da relação, a confiança, aceitação, compreensão etc.); 3) 15% são efeitos placebo (como esperança ou expectativa); e 4) 15% referem-se às técnicas específicas de cada abordagem. Mais recentemente temos observado um movimento, oriundo da Divisão 12 da American Psychological Association (APA), no sentido de realizar pesquisas orientadas para definir aqueles modelos de psicoterapia que apresentem dados com suporte estritamente empíricos (os empirically supported treatments). É esse movimento que visa discriminar e determinar modelos “aceitáveis” de psicoterapia para casos específicos, ou seja, tal perturbação X deve ter intervenção Y para se obter resultado Z. Pois é exa- tamente este modelo que impera no contexto dos seguros-saúde americanos e que paulatinamente vem sendo importado para o Brasil, com suporte de determinada parcela da comunidade psiquiátrica e psicológica. Houve reação a esses procedimentos – desde críticas e questiona- mentos à apropriação de estruturas metodológicas, até quanto aos critérios de definição de psicopatologias, mas o mais importante foi a constatação de que esse modelo exclui aspectos relevantes do processo, tais como a relação em si, as particularidades do paciente (e eventualmente seu contexto) e as ca- racterísticas do psicoterapeuta (Sousa, 2006). Muito já se sabe sobre as psicoterapias, mas ainda não se fala muito sobre elas. Senão vejamos algumas questões. Quanto há de literatura a respeito do “fracasso” em psicoterapias? Nada ou quase nada. Um excelente desafio seria buscar – no seio mesmo da literatura específica a cada aborda- gem psicoterápica – relatos de fracassos em atendimentos. Falamos sempre do sucesso, do que “funciona”, inclusive como estratégia de marketing; mas costumamos negar, escamotear, “esquecer” ou simplesmente não refletimos sobre o que não deu certo. Ora, se 50% dos casos obtêm sucesso, então os demais 50% podem ser encarados como “fracasso”. Outro dado relevante: Tassinari (2003) discute as pesquisas de Moshe Talmon que, ao examinar as desistências “precoces” ou o abandono de psicoterapia, num universo de cem mil consultas, “(...) constatou que a maioria dos clientes comparecia a uma única sessão. Em seguida entrevistou 200 de seus pacientes que só compareceram a uma única sessão e, para sua surpresa, 78% informaram que não retornaram, pois se sentiram atendidos naquilo que procuravam” (p. 2). Estes dadossão absolutamente compatíveis com outras novas apli- cações clínicas, como é o caso do Plantão Psicológico, p. ex. Portanto – e Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 89 isto a literatura clássica sobre “psicoterapia breve” já constatara –, não há uma consolidação temporal para a realização de uma psicoterapia. Ainda, Lambert & Shimokawa (2011) colocam que os terapeutas tendem a superestimar os resultados de suas psicoterapias, não levando em conta que os pacientes também pioram em situações de tratamento. Todos esses temas estão presentes cotidianamente no fazer do psi- coterapeuta, mesmo que este – irrefletidamente, e comprometido com a con- fessionalidade de sua abordagem – se exima de perceber. SOBRE A CULTURA PROFISSIONAL E O IDEÁRIO DO SOCIAL Uma questão crucial para a categoria é o que pode ser chamado de “cultura profissional do psicólogo” (Dimenstein, 2000). Isto ganha contornos de maior seriedade num momento em que se define a profissão de psicólogo como uma “profissão de saúde” – o que, de fato, ela é, embora não possa se limitar a esse campo. Meira & Nunes (2005) apontam para alguns “motivos” e motiva- ções relacionados à escolha pela profissão de psicólogo da parte de calouros. Dentre esses motivos, um dos que se mais se destaca é o fascínio que a pro- fissão (ou a ideia de psicologia) exerce sobre o senso comum, associando-a a um “penetrar” no outro. Chamaria isto de “síndrome voyeurista”. Desta as- sociação, surge um natural direcionamento para a psicoterapia, bem como uma associação da Psicologia (como profissão) à sua atuação na clínica, e esta ser definida como uma possibilidade de “ajudar” ao outro, de conhecer melhor o ser humano e de apresentar soluções (quase) mágicas para os pro- blemas (Meira & Nunes, 2005). Esta representação nos coloca diante dos arcabouços antropológicos da profissão, quando nos aproxima da posição do guru, do mestre, do sábio, do feiticeiro ou do xamã (Bucher, 1989), ou do “sapiencial”. Magalhães, Straliotto, Keller & Gomes (2001), em pesquisa com 146 alunos de primeiro ano de dois cursos do Rio Grande do Sul, encontra- ram o “desejo por ajudar” como uma das principais respostas. Igual hege- monia do contexto clínico esteve presente na referida pesquisa. Meira & Nunes (2005) salientam ainda a influência da Academia na escolha teórica e de área de atuação dos estudantes, especialmente para a clínica e apontam que a identificação do psicólogo como profissional liberal, elitista e indivi- dualista, já é encontrada na concepção do “ser psicólogo” dos estudantes. Borsezi, Bortolomasi, Liboni, Reis, Tamanaha & Guimarães (2008) ressal- tam a cristalização de uma imagem deturpada da profissão do psicólogo que Adriano Holanda90 o público leigo acaba por estabelecer, tendo sua origem já na formação do profissional. No que se refere especificamente à atuação na clínica, esta vem sendo usualmente definida como uma profissão liberal e autônoma. Uma das possibilidades de compreensão desse fenômeno pode estar associado a um modelo de “subjetividade”, com predominância de um ideário individualista (Dimenstein, 2000). Eventualmente esta representação está alicerçada na- quilo que Figueiredo & Santi (2000) definem como característica da Psico- logia como ciência: a crise de uma subjetividade privatizada, ou seja, talvez devamos mesmo reconhecer que, na gênese da própria ideia de uma “psico- logia”, esteja esta representação dita “individualista” ou “privatizada” que, de um modo ou de outro, sustenta grande parte das concepções inerentes aos modelos de psicoterapia. Dimenstein (2000) observa ainda, como consequências dessa cultu- ra, o “conflito entre as representações de saúde/doença entre usuários e pro- fissionais; [a] baixa eficácia das terapêuticas e [o] alto índice de abandono dos tratamentos; [além de] seleção e hierarquização da clientela” (p. 95). Neste sentido, repete-se – igualmente de modo irrefletido – aquilo que mui- tas pesquisas apontam como deficiências dos modelos psicoterapêuticos; além de se reificar o aspecto confessional das psicoterapias, do qual nasce boa parte dos conflitos entre as representações de saúde e doença entre pro- fissionais, usuários e – não podemos deixar de mencionar – gestores e res- ponsáveis pelas políticas públicas em saúde, que estão igualmente compro- metidos com boa parte das inconsistências que encontramos na atenção à comunidade9. Um outro dado deve ser acrescentado, consoante Meira & Nunes (2005), que apontam que os estudantes de psicologia consultam psicotera- peutas 25% a mais do que estudantes de outras graduações. Mais um dado que reforça a retroalimentação e a autofagia do campo. Esta suposta hegemonia de um “ideário individualista”, vivida a partir dos anos 60, tem muito a dever aos procedimentos clínicos, em especial ao que podemos denominar de “psicologismos” e à difusão da psicanálise na 9 Estamos nos referindo a dois contextos: em primeiro lugar, às sucessivas mudanças de políticas de saúde, tanto no que tange aos gestores, quanto aos modelos que se adotam (é muito comum, no nos- so país, ficarmos à mercê das “reflexões” daqueles que estão na posição de responsáveis pela orga- nização dos serviços, ou se preferirem, dos “mandatários” de determinado serviço que, invariavel- mente, no afã de realizações, seja por vaidade, seja por ignorância, costumam “reinventar a roda”. Basta-nos, a título de exemplo, resgatar as inúmeras mudanças de nomenclatura em serviços, pro- gramas ou estratégias; ou, ainda pior, as contínuas mudanças de equipe, pessoal ou coordenação nos mais variados contextos de atenção a saúde) e, num segundo momento – e diretamente relacionado ao primeiro – as dificuldades de capacitação dos profissionais. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 91 classe média brasileira. A ideologia do individualismo é aquela que promove a ideia de um indivíduo autônomo e independente, isolado de fatores exter- nos (sejam esses culturais, econômicos ou sociais). Esse ideário de “interio- ridade” acabou por recrudescer com a difusão das chamadas “psicologias profundas”. Um dos principais exemplos é o modelo do inconsciente psica- nalítico que vem questionar a supremacia da autonomia de um “eu”, de uma racionalidade consciente, vindo a colocar, no lugar deste “eu” consciente, um sujeito clivado, cindido e determinado de dentro para fora: (...) vem falar de um sujeito despossuído subjetivamente e dotado de uma interioridade psicológica singular, à qual está condenado e que o diferen- cia dos demais seres humanos. Em outras palavras, a psicanálise passa a trabalhar com uma nova concepção de indivíduo: o sujeito psicológico, cuja verdade é a do seu desejo inconsciente. Dessa maneira, um dos seus efeitos foi engendrar uma concepção de subjetividade individualizada e individualizante, particular, singular a cada sujeito, mediada exclusiva- mente pela história pessoal de cada indivíduo. (Dimenstein, 2000, p. 98) Durante as décadas de 60 e 70, no Brasil, é construída uma “cul- tura psicanalítica” (como afirma Figueira, 1985), que funciona como uma espécie de “visão de mundo”, que se expressa em três dimensões: numa lógica do aparente (que visa buscar por detrás dessas aparências a verda- de), num ethos ou código de emoções (voltadas para aquelas mais íntimas e pessoais) e num dialeto específico. A esta modelação, Penna (1997) ainda acrescenta o retrato caricatural a que se submeteu a psicanálise – através da clássica réplica “Freud explica” – que aponta para o determinismo absolu- tista do pensamento freudiano, e que qualifica como sendo uma concepção teórica voltada para o “esclarecimento” e para a “emancipação” (ou para uma “desalienação”). Isto seria possível pela “decifração do significado” que coloca a psicanálise inserida na velha tradição hermenêutica da místi- ca, da teologiae da filologia (Figueiredo, 1991), graças a seu determinismo funcional totalitário, que “(...) impõe uma decifração de sentido e uma identificação de intencionalidade, mesmo aonde os eventos parecem seguir uma causalidade mecânica ou ocorrer aleatoriamente” (Figueiredo, 1991, p. 97); exige-se, assim, uma intencionalidade inconsciente ou um sentido latente (encoberto). E a difusão desse modelo veio se dar num contexto de extrema modernização da sociedade brasileira. Além disso, esse ideário veio a repre- sentar importante estratégia de valor político durante as décadas de 60 e 70 do século passado. A ênfase na privatização e nuclearização da família, na responsabilidade individual de cada um dos seus membros, a ênfase nos projetos de ascen- Adriano Holanda92 são social, na descoberta de si mesmo, na busca da essência e na liberta- ção das repressões, foram algumas destas estratégias que culminou na promoção de uma psicologização do cotidiano e da vida social e num es- vaziamento político. (Dimenstein, 2000, p. 99) A proliferação desses modelos individualizados é, muitas das ve- zes, descontextualizada, universal e não relativizada, ou seja, não abarcando a complexidade e multifatorialidade dos processos de subjetivação. De fato esse modelo imperou – não sem sentido e sem história – e encontrou solo fértil na nascente profissão de psicólogo, o que leva alguns autores, como Yamamoto (1987), a concluir que a psicologia cresceu comprometida com o capital e o consumo, exercendo pouco papel questionador e transformador na sociedade, contribuindo para a perpetuação das condições de poder. Isto se observa, no contexto das graduações, através da adesão cega a modelos, teorias ou técnicas, desde cedo, sem reflexão ou crítica, sem sufi- ciência epistemológica, num interjogo mais próximo às estruturações de crenças do que de ciências. Como consequência disso, teríamos uma forma- ção que ausenta o profissional de seu compromisso social. Esta problemática vem sendo continuadamente perpetuada pelos próprios estruturantes desse interjogo, e pelos próprios pares, em especial nas determinações das disciplinas e dos conteúdos a serem trabalhados, in- clusive através dos processos discursivos que criam constantes cisões no seio da “ciência” psicológica, com a apropriação de discursos cindidos onde os formandos em “psicologia” são bombardeados com noções díspares e con- traditórias como definições de contextos: “psicanálise não é psicologia”; “a única ciência psicológica é o behaviorismo”; ou expressões anacrônicas como “psicologia humanista” ou “psicologia holística”. Isto reflete uma total falta de compromisso da profissão com a ciência enquanto uma unidade. Pode-se dizer, pois, que – salvo exceções – perpetua-se uma psi- cologia “ingênua” nas universidades, apartada da pesquisa empírica e de grande parte da construção do saber. E as psicoterapias não ficam isentas disto. Senão vejamos outro elemento constitutivo do caráter confessional das psicoterapias: trata-se das formas particulares de transmissão de seus sabe- res, próximos aos ritos iniciáticos – que incluem aqueles acima descritos com referência à psicanálise (lógica, ethos e dialeto), mas que não são exclu- sivos desta10 – mas igualmente a exigência presente em grande parte (senão 10 Importante assinalar que todas as propostas de psicoterapia carregam consigo uma lógica, um ethos e um dialeto próprios. A rigor, podemos facilmente observar que são estes elementos que constituem o solo confessional das abordagens e as qualificam exatamente como singularidades ao redor desse sistema. Isto é mais facilmente observável nas práticas discursivas e está disseminado em numerosos conceitos que não dialogam entre si – ou seja, somente possuem significado no esteio de cada mo- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 93 na totalidade) desses modelos que induzem a que os pleiteantes a participar da “comunidade” façam terapias dentro de seus próprios modelos, o que não apenas reforça seu caráter autofágico, como justifica o excessivo consumo interno – dentro da própria Psicologia – das práticas psicológicas11. O modelo clínico de atuação privada hegemônico entre os psicólogos – a psi- coterapia individual de base psicanalítica – é geralmente transposto para o setor público, tanto para postos, centros e ambulatórios de saúde, indepen- dentemente dos objetivos dos mesmos e da população neles atendidas, tendo algumas conseqüências importantes, entre as quais destaco: a. Conflito com as representações de Pessoa, saúde e doença, corpo, próprias aos usuários das instituições públicas de saúde; b. Baixa eficácia das terapêuticas e alto índice de abandono dos tratamentos; c. Seleção e hierarquização da clientela; d. Psi- cologização de problemas sociais. (Dimenstein, 2000, p. 107) Observa-se, assim, a predominância de discursos que privilegiam perspectivas que percebem o sujeito como um ser abstrato e a-histórico, de um lado; e, por outro, uma excessiva “psicologização” dos problemas sociais (Dimenstein, 2000). Nesta direção, a psicologia estaria comprometida com um ideário individualista e isto seria decorrente não somente de sua identi- dade e cultura profissional, bem como de suas limitações teóricas e técnicas, estas advindas de sua formação. Como decorrência, o profissional repetiria este modelo onde estivesse atuando. Na direção de uma posição crítica a este modelo tradicional, observa- mos um discurso opositor que propõe um profissional engajado e crítico, res- ponsável pela mudança social, ideologicamente alicerçado em premissas históri- co-sociais e que vem constituindo boa parte dos documentos oficiais do Conse- lho. Aliado a isto, vemos ainda a defesa de um “lugar” do psicólogo inserido nas políticas públicas e investido de atributos “necessários e suficientes” (parafrase- ando Rogers) para uma ação de “protagonismo”, bem como qualificando-o como o profissional “ideal” para a solução dos problemas sociais. Um exemplo desse discurso opositor encontra-se na defesa de uma “clínica ampliada” em contraposição a uma “clínica reduzida” (Oliveira, 2009). Outro exemplo: “A psicoterapia, como alguma outra prática, não é capaz de suprir todas as exigências dos problemas psicológicos/situações de delo, ao qual se remete cada “dialeto” particular – como nas noções de “tele” (Psicodrama), “conta- to” (Gestalt), “pulsão” (Psicanálise), apenas para citar alguns. Ou ainda, está presente naqueles con- ceitos que aparentam clareza, se difundem como verdades, mas não subsistem a qualquer tentativa de definição operacional, como os de “vínculo”, “setting” etc. 11 Este consumo excessivo inclui (como destaca Dimenstein, 2000), supervisões, grupos de estudos, psicoterapias etc. Fato este que, paradoxalmente, afasta a Psicologia da sociedade, dado esta subsis- tir dentro de sua própria “comunidade”, dificultando assim sua reverberação no coletivo. Este fato justifica os dados acima citados por Meira & Nunes (2005). Adriano Holanda94 sofrimento, em suas imbricações com as condições e desigualdades sociais, apresentados pela população brasileira, mas pode contribuir e é utilizada para esses fins” (Lima & Viana, 2009, p. 43). Tal colocação escamoteia um entendimento ideológico (e limitado) do campo clínico, além de reificar a polarização individual/social, que cos- tumeiramente contrapõe à ideia de psicoterapia – no polo “individual” – uma clínica “psicossocial”. O mesmo texto reitera esta posição quando sugere que a formação em Psicologia deveria superar “qualquer reducionismo em rela- ção à oferta de práticas psicológicas”, oferecendo um “maior leque de possi- bilidades de intervenção psicológicas e/ou psicossociais para além das psi- coterapias” (Lima & Viana,2009, p. 44). O que não se percebe por detrás desse conjunto de proposições e questionamentos, é o risco de se construir uma “nova” psicologia calcada sobre os restos mortais da “velha” psicologia, num processo de substituição de valores e saberes, como se isto fosse tão possível e plausível quanto a troca de aparelhos celulares de um modelo para outro, “mais” avançado. E como produto dessa troca, legamos à posteridade o lixo acumulado. Ao se falar de “cunho social” para a prática psicológica, não po- demos esquecer de dois elementos: o primeiro deles é o fato que a sociedade persiste em demandas específicas mesmo que se pense o contrário. Assim é que uma “clínica reduzida” não perde seu espaço simplesmente por que se deseja a construção de uma “clínica ampliada”. Em outras palavras, uma demanda por acolhimento ao meu sofrimento não desaparece por conta do reconhecimento das mazelas sociais; afinal todo sofrer só é sentido na “car- ne”. Com isto estamos delimitando a necessidade de manutenção de um conjunto de espaços já constituídos e construídos pela psicologia. O segundo elemento é que este processo de “socialização” não pode ser identificado com uma ou outra prática discursiva – ou ideologizada, como estatuto de uma “verdade” – nem ser prerrogativa de determinado campo epistêmico, seja este compreensivo ou interpretativo. Com isto, o que tão somente apon- tamos é para a necessidade da observação do campo clínico em seu caráter ético (caráter este, talvez, historicamente negligenciado, esquecido ou relati- vizado, mas seguramente não ausente), presente não apenas nas próprias práticas, mas igualmente em suas reflexões posteriores. Ademais, seria interessante analisar se realmente há mudança pa- radigmática que justifique a falência de um caminho historicamente cons- truído e sua substituição (ou pretensa substituição) de um “olhar” para outro. Sabemos, todavia, que mentalidades e paradigmas não mudam por decreto, e certamente é-nos relativamente fácil perceber que não houve mudanças ou diferenciações significativas que tenham sido experimentadas ao longo dos Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 95 anos e que justifiquem tal ato de substituição. Afinal, o que chamamos, hoje, de “intervenção psicossocial” ou de compromisso social já encontramos presente em pensadores “clássicos” da clínica “privatista” e burguesa como Adler, Moreno e Frankl, dentre outros. O que se observa é que não se discute o “campo” das psicoterapias, mas estas somente são questionadas de um suposto “lugar”, o lugar de um “social”, como se as práticas psicoterápicas fossem caracterizadas por sua limitação ao individual. Destaquemos um contraditório neste particular. Ao individual se contrapõe o grupal, e a este se associa o social. Ora, seria inte- ressante salientar que boa parte das intervenções grupais nascem do seio de práticas psicoterápicas clássicas (como as psicoterapias grupo-analíticas, ou o Grupo de Encontro proposto por Rogers), além do fato que a atenção a comunidades as mais diversas – seja em contexto de saúde mental ou na- quilo que se compreende como saúde comunitária – existem desde proposi- ções como as de Adler (que pode ser considerado um precursor da “psicolo- gia médica” ou da moderna “psicologia da saúde”), as de Moreno (com seu teatro da espontaneidade) ou de Frankl. Um conjunto significativo de psicoterapias refletem para além do individual, fazendo com que coexistam concepções grupais e sociais em seu bojo. Alguns exemplos podem ilustrar isto. A dinâmica de grupos nasce das reflexões de Kurt Lewin, a partir de seus trabalhos com interações sociais, por volta de 1938. Mas a gênese das grupoterapias remonta a 1905, com J. Pratt e seu trabalho com pacientes tuberculosos numa enfermaria de hospital. Seu trabalho obteve tanto sucesso que passou a ser modelo inclusive para outras organizações como os Alcoólicos Anônimos (Zimerman, 2000). Além disso, as práticas institucionais tem solo genético na psicanálise kleiniana. Sem esquecer os grupos operativos e as terapias sistêmicas. Todos esses são exemplos de que o campo das psicoterapias não ficou alheio ao social. Assim, a questão da psicoterapia não pode ser colocada como “me- nor” ou “abaixo” de supostas práticas psicossociais. Essa colocação nos revela, de imediato, a errônea concepção de que a prática psicoterápica seria um modelo deslocado do social; além de fomentar a ideia de que as chamadas “práticas psicossociais” – que, diga-se de passagem, carecem tanto de definição quanto o próprio campo psicoterápico – seriam a possibilidade dessa “resolução” de pro- blemas psicológicos ou de situações de sofrimento, como se o sofrimento fosse algo a ser extirpado ou eliminado da natureza humana. Parece-nos que ainda padecemos da própria definição de saúde da OMS12. 12 Referimo-nos, aqui, à ideia que “Saúde é o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade”, como constante nos documentos da OMS. Adriano Holanda96 À GUISA DE ENCAMINHAMENTOS: DESAFIOS PARA O DEBATE CONTEMPORÂNEO Tudo o que se está aqui marcado como “irreflexão” sobre o campo das psicoterapias não deve servir para invalidá-las, muito pelo contrário. Deve servir para marcar a necessidade da discussão, tanto no contexto das próprias práticas, quanto no seio da profissão. Um olhar para o cenário contemporâneo irá mostrar que as práti- cas discursivas atuais se mantêm muito próximas das antigas – afinal, as pessoas ainda “sofrem dos nervos” e psicólogo ainda é um profissional que lida com “coisas da cabeça”. A irreflexão sobre esta realidade apenas dis- tancia cada vez mais a ciência e a profissão de seu lugar e, com isto, ao invés de se ganhar espaços, estes vão sendo apropriados cada vez mais por outros profissionais. Pela incapacidade – ou esquecimento – da Psicologia em lidar com questões complexas e espinhosas, como a religião, p. ex., cada vez mais demandas que tocam esses espaços vão sendo acolhidas em seus locus pró- prios – as igrejas e seus responsáveis –, como se o sentimento religioso ou a vivência religiosa não fossem fenômenos humanos e, portanto, experiências psicológicas. Por se definir como uma disciplina “laica”, a Psicologia (e, consequentemente, a psicoterapia), ao invés de lidar com a demanda provin- da da religiosidade, a exclui do campo profissional, levando ao limbo não apenas um conjunto representativo de profissionais religiosos como excluin- do as demandas existenciais de um contingente inumerável de clientes, que sofrem de suas vivências religiosas. E como consequência, o campo há de ser ocupado por religiosos e leigos os mais diversos. Este é apenas um exemplo do que vem ocorrendo no macro campo das psicoterapias, e ajuda a explicar a apropriação destas, por parte de outros profissionais, que cada vez mais as praticam. Curiosamente, foi graças ao pri- vilégio dos médicos à dimensão corporal, objetiva, palpável, do humano, em detrimento da dimensão da mente, subjetiva e impalpável – relegada a segun- do plano – que os psicólogos puderam se apropriar da clínica. A história se repete, nos mesmos moldes, quando a psicologia elege campos ou demandas privilegiadas e relega outras, permitindo assim, que estas relegadas sejam acolhidas por outros olhares, de outros profissionais, eventualmente menos preconceituosos e mais abertos, como a psicologia já foi um dia. Todavia, não podemos ignorar o fato que a maioria dos ditos “psicote- rapeutas” sejam psicólogos, e assim, a questão da psicoterapia se torna – de maneira direta – questão da Psicologia. Desta feita, não podemos concordar que questão de tal envergadura seja debatida fora do seu campo ou delegada – “ter- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 97 ceirizada” – para outra entidade que não a devidamente estabelecida para zelar porsua categoria. Ainda na mesma direção, não podemos igualmente ignorar que a demanda da psicoterapia como prática “exclusiva” da Psicologia não mais se sustenta, seja pela dispersão do campo (inúmeros outros profissionais, da área da saúde ou não, já se apropriaram da psicoterapia), seja pelo fato que esta de- manda teria de ter sido colocada há muitas décadas atrás. Aos psicoterapeutas, é preciso refletir sobre o fato que, dado que as pesquisas apontam que as abordagens guardam mais proximidade do que diferenças em termos de efetividades, talvez fosse interessante tomar as di- versas consolidações teóricas como formalidades. Assim, com o acúmulo de conhecimentos adquiridos, podemos pensar as diversas práticas psicotera- pêuticas como instrumentalizações, ou seja, como aplicações ou apropria- ções do fenômeno psicológico num dado contexto, mas não mais como “teo- rias universais” que contêm em si próprias um modelo unitário que compor- taria uma “visão de mundo” e uma “visão de homem”. Com isto, teríamos uma concepção autônoma de sujeito que o tornaria um sujeito “único” em cada contexto distinto. Daí, naturalmente, migramos de uma concepção que privilegia a teoria e a técnica, para outra que releva o profissional. Nos últimos anos, quando questionado sobre possíveis indicações em psicoterapia, tenho sucessivamente dito que não se deve indicar psicote- rapias, mas psicoterapeutas, e que é fundamental que o aspirante a cliente se sinta relativamente bem no seu contato com o terapeuta. Afinal, se trocamos de médico, de dentista, de fisioterapeuta ou de advogado, por que não pode- mos trocar de psicoterapeuta? O que se delimita de tantas pesquisas em psicoterapia? Antes de mais nada, que por detrás de tantas polissemias, coexistem critérios concre- tos e factuais que não podem ser negados, e que constroem um “campo clí- nico” ou um campo “psicoterápico” – que podemos associar ao que os pes- quisadores chamam de “fatores inespecíficos” das psicoterapias, ou seja, aquilo que delimita o que há de comum entre as abordagens diversas –, o que nos leva ao imperativo da busca pelo discurso consonante13 ou interativo. Ainda para os psicoterapeutas, é preciso se rever a imagem arcaica de que pesquisa e prática profissional são duas coisas destacadas. Afinal, como podemos “vender” um produto – no nosso caso, um serviço – se não podemos avalizá-lo, defini-lo ou afirmá-lo a partir de nossos próprios meios de avaliação? É importante que os psicoterapeutas saibam o quão privilegia- dos eles são, pois estão mergulhados em seu próprio campo de pesquisa, e que o mesmo somente precisa ser formatado. 13 O que não significa o mesmo de discurso “uniformizante”, como encontramos no ecletismo ou na proposta de integração das psicoterapias. Adriano Holanda98 Uma questão que fica em suspenso é: teremos a coragem de enca- rar o debate sob qualquer circunstância, inclusive o peso da possibilidade da perda de um mercado? Outra questão é: estaremos dispostos a nos sujeitar ao Código de Defesa do Consumidor? Antes de tudo, trata-se de uma questão ética, de posição do profissional diante de um cliente, ao qual presta um serviço, e isso passa desde o preço, até as formas de pagamento. Para os gestores da profissão, cabe refletir quanto determinadas ideologias – políticas ou não – vêm influenciando no direcionamento do campo da ação profissional, e quanto que estas ideologias têm subvertido ordens e sugerido procedimentos em detrimento de outros. Afinal, a constru- ção de uma profissão não se constitui da noite para o dia, nem à revelia das próprias demandas de seu tempo e de sua sociedade. Todavia, avançar em determinada direção não implica em “matar” caminhos já estabelecidos. Ampliar campos de atuação não deveria vir acompanhado – necessariamente – da falência de outros. Com respeito à substituição de modelos – de uma vertente “priva- tista” para um modelo “psicossocial” – talvez seja necessária uma revisão dos modos de apropriação, para uma perspectiva de pluriaprendizagem ou de multirreflexividade (exatamente no caminho oposto ao da substituição), ou seja, na direção de um meta-apropriação ideológica e instrumental, indo além do designado e do supostamente dado em verdades construídas inter- namente, dirigido desta feita para uma ação verdadeiramente dialética. Psicoterapia e clínica social não se contrapõem. E o profissional autônomo não é necessariamente um privilegiado, ou serviçal do capital, por vender seus serviços ao melhor custo possível, é antes de tudo um escravo desse mercado, que cria tantas amarras que sem perceber o afasta da sua pró- pria realidade concreta, em prol de outra, construída em torno de seu trabalho. E este é outro aspecto a ser questionado, pois se se cria uma oposição entre um profissional que serve à elite e outro que serve ao “social”, corre-se o risco de colocar o papel do psicólogo no campo do assistencialismo. E isto é o que se replica em muitas das críticas ao campo das psicoterapias. Todas essas delimitações nada mais são que desafios a serem as- sumidos pela psicologia, em todos os seus contextos e por todos seus atores, na expectativa de uma construção menos dogmática e menos sectarista. E o grande desafio é assumir o debate e enfrentar as divergências, sem reduzir as diferenças ou condicionar a discussão a critérios excludentes. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 99 REFERÊNCIAS Barros, F. & Holanda, A. (2007). O aconselhamento psicológico e as possibilidades de uma (nova) clínica psicológica. Revista da Abordagem Gestáltica, 13(1), 75-95. Bernardes, J. S. (2004). Linha do Tempo. Documentos sobre formação em Psicologia. 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São Paulo: Edicon. Zimerman, D. E. (2000). Fundamentos Básicos das Grupoterapias. Porto Alegre: Artmed. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 101 DESNATURALIZANDO O FIM SOCIAL DA PSICOLOGIA CLÍNICA Marcelo M. Nicaretta Sumário: Uma psicologia sem fins sociais. A emergência do fim social como meta para a psicologia. Uma clínica dedicada ao social. O modelo clínico individual e os sistemas públicos de saúde. Considerações finais. Referências. Não raras vezes a psicologia e, em particular, a psicologia clínica, têm sido acusadas de serem elitistas, servindo aos interesses de classes sociais abas- tadas em detrimento dos mais necessitados (Pepitone, 1981; Sarason, 1981; Coimbra, 1995; Bock, 2003; Patto, 2003; Ferreira Neto, 2010; Zurba, 2011). Esse tipo de afirmação julga o fim social dos serviços psicológicos e da própria ciência como fins naturais e necessários para a psicologia científica. Nesse sen- tido, a “boa” psicologia clínica teria como função primordial servir à sociedade como um conjunto e não apenas àqueles indivíduos que podem pagar por estes serviços. A ideia de servir a população, assim colocada, aproxima à função da psicologia clínica a do serviço social, sendo que estas duas atividades possuem histórias e funções muito distintas. Esse posicionamento ignora a natureza do fazer clínico como parte da necessidade humana de remediar seu sofrimento. Esta crítica não está calcada em uma análise da atividade psicoterapêutica, seja da medicina ou da psicologia, ela representa o uso da dificuldade de populariza- ção das psicoterapias pelo mundo para justificar pressupostos político- -ideológicos contrários ao sistema capitalista. Esta forma de julgar o valor social das psicoterapias foi construída a partir do choque entre duas culturas que emergiram na psicologia estaduni- dense após a Segunda Grande Guerra. A primeira mudança se deu quando o Marcelo M. Nicaretta102 psicólogo clínico passou a exercer funções psicoterapêuticas tal como o mé- dico e a lidar diretamente com o tratamento de enfermidades mentais, o que antes praticamente não ocorria. Com isso, sua identidade se transformou radicalmente, ele abandonou o campo escolar e a pesquisa básica e se tornou um profissional liberal, deixou o jaleco de lado para comprar um divã. Neste período surgiu nos EUA um grande mercado de psicoterapias que tinha o psicólogo como seu principal motor (Nicaretta, 2004). Essa mudança foi propiciada por certas condições criadas pelo cenário produzido pela guerra, razão pela qual o papel do governo americano se tornou tão importante neste processo. A psicologia participou dos projetos governamentais desenvolvi- dos para a guerra antes, durante e depois do seu final. Foi utilizada para trei- nar, selecionar e tratar soldados assim como para manipular os brios dos inimigos (Hunter, 1946). Desde modo, é evidente que na mesma medida em que a psicologia cresceu pelo investimento governamental feito nela, seu caminho foi decisivamente alterado por ele. A tal ponto que alguns notórios cientistas ligados à pesquisa básica, tais como Skinner e Keller, direciona- ram o rumo de suas pesquisas para assuntos de interesse clínico, financiados pelo NIMH, o National Institute of Mental Health (Pickren & Schneider, 2005). Tornada a psicologia uma profissão de interesse clínico, a inter- venção governamental sobre ela continuou. Foi então que ocorreu a segunda mudança. No final dos anos 60, em plena guerra fria, uma nova psicologia social, de cunho marxista, começou a se delinear no âmago da APA. Assim como ocorrera com a psicologia clínica, esta nova psicologia teve forte in- fluência dos programas assistenciais criados após a guerra, neste caso, volta- dos para padronizar as diferenças culturais em território estadunidense (Nicaretta, 2010). Estes programas visavam integrar os diferentes grupos culturais ali perpetrados, e que se mostraram uma ameaça ao sistema capita- lista vigente. Um dos principais meios utilizados para se atingir este objetivo foi tornar as universidades dos brancos em centros de convivência e troca multi- cultural (Nicks, 1985). Enquanto os cursos de medicina permaneceram quase exclusivos para os brancos, os cursos de psicologia serviram largamente para este propósito, tanto no nível de graduação quanto de pós-graduação. Não tardou a psicologia estava repleta de grupos politizados que defendiam os interesses de segmentos “marginalizados”, tais como negros, latinos, homossexuais, índios entre outros. Estes grupos, que na sua maioria eram compostos por psicólogos associados à APA (American Psychological Association), faziam uso da tradição da psicologia científica para demonstrar um campo da normalidade cada vez mais plural, mais integrativo e menos psicopatológico. Essa perspectiva surgiu como parte do processo de consti- tuição de um novo campo de pesquisa social dentro da psicologia norte- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 103 americana, dedicado à defesa do interesse social como uma meta para a psi- cologia aplicada. Este compromisso surgiu oficialmente em 1943, quando a APA foi reorganizada, adotando o formato atual. Liderados por E. G. Bo- ring, 25 delegados de duasinstituições, APA (American Psychological Asso- ciation) e AAAP (American Association of Applied Psychology), reunidos em Nova York, decidiram modificar o estatuto da APA para incluir como finalidades desta instituição, além do objetivo fundador de promover a ciên- cia, a promoção da psicologia como uma profissão e como meio para pro- mover o bem-estar social (Goodwin, 2005). Como não poderia ser diferente, essa nova psicologia social esta- beleceu um conflito com a também recém-criada psicologia clínica. En- quanto os médicos e os psicólogos clínicos tentavam justificar que a anor- malidade possuía limites definíveis, evidenciáveis e tratáveis, a nova psico- logia social se esforçava para demonstrar que os limites científicos e as ações terapêuticas defendidas por estes profissionais serviam a interesses econômicos e políticos, da mesma forma como outrora a ciência também havia sido usada para segregar e subjugar negros, judeus, deficientes e outros (Sue, 1988). Este posicionamento ambíguo destruiu certa noção comum que ha- via na psicologia estadunidense, antes da guerra, acerca dos critérios para a produção de conhecimento que passaram a ser considerados rígidos em de- masia ou supérfluos. Nasceu desse embate uma forte contradição no âmago da psicologia americana. Deste modo, na mesma medida em que a psicologia científica era usada para demonstrar a efetividade do tratamento da homos- sexualidade, ela também justificava sua normalidade. De tal maneira que após curto período houve uma mudança muito significativa na forma como os psicólogos entendiam esta condição humana. Organizados em associa- ções, grupos de psicólogos apoiados pelo governo começaram a obter uma grande força política. Como consequência, em 1973, a homossexualidade deixou de ser considerada uma doença, sendo retirada sua referência da CID (Classificação Internacional das Doenças), mesmo havendo à época pesqui- sas que comprovavam a efetividade dos tratamentos para ela. Este aconteci- mento mudou o lugar da homossexualidade dentro do campo médico e abriu caminho para uma mudança no status desta condição humana perante a sociedade em geral. Embora jamais se tenha esclarecimento sobre a sua ori- gem ou motivação, a homossexualidade deixou de ser considerada uma pa- tologia de cunho biológico e se tornou um dos destinos possíveis da subjeti- vidade humana dita normal. Ser homossexual se tornou uma questão de es- colha, uma opção sexual e não uma doença. E, para isso, a ciência não fez diferença, o que determinou essa mudança não foi uma revelação científica Marcelo M. Nicaretta104 sobre o homem, mas a dispersão de um princípio ético que possuía uma nova psicologia humanista como seu respaldo, outro reflexo da guerra. Do mesmo modo, como parte da ideologia adotada por esta nova psicologia social, o liberalismo e a individualidade passaram a ser forte- mente combatidos como exemplos de uma tradição cultural equivocada de- dicada ao capital e aos seus detentores, as elites burguesas. A própria ciência e a sua finalidade, o conhecimento, também passaram a serem vistos como parte desta tradição, sendo considerado “bom” ou “verdadeiro” o conheci- mento destinado a servir a sociedade. Deste modo, o novo psicólogo social compreendia o trabalho do psicólogo de um modo muito diferente do seu antecessor, o psicólogo clínico. O primeiro deveria se comportar como uma mistura de ativista político e servidor social, enquanto o segundo acabara de se transformar em um profissional liberal (Nicaretta, 2010). Deste embate surgiu a crítica deflagrada às psicoterapias e a própria psicologia clínica como tratamentos de saúde elitizados. Na prática, essa crítica também não pode ser considerada uma in- verdade, pois é fato que as psicoterapias se popularizaram apenas em mo- mentos e em locais muito específicos (como nos EUA após a Segunda Gran- de Guerra). Contudo, este fato não se deu pelas razões políticas apresentadas pelos psicólogos sociais, mas pela falta de aceitação dos sistemas públicos de saúde acerca do valor do trabalho dos psicólogos clínicos. Toda profissão deixa de ser elitizada na medida em que o Estado passa a aceitá-la como uma necessidade primária para o povo, o que traz muitas mudanças para o campo de trabalho em questão (Nascimento Sobrinho, Nascimento & Carvalho, 2005). Esse processo ocorreu com a medicina no Brasil, com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) (Buss & Carvalho, 2009). No passado, a maioria dos médicos brasileiros trabalhava de modo autônomo, hoje, 90% da mão de obra médica disponível é assalariada e vinculada ao SUS. Por isso, apesar da crítica deflagrada pelos psicólogos sociais indi- car um fato histórico relevante, no que diz respeito à não popularização das psicoterapias pelo mundo afora, as razões usadas para justificá-lo são equi- vocadas. O valor da aplicação da psicologia a questões de cunho social é inegável, o que pode ser percebido na sua participação no cenário da guerra. Na medida em que a psicologia pode ser usada para melhorar a vida das pessoas ela deve ser utilizada com este propósito. Contudo, afirmar que a psicoterapia possui um valor como ferramenta de intervenção social não significa que ela tenha essa função naturalmente, como sua “verdadeira” ou “única” vocação. Mesmo assim, tem se tornado comum aceitar essa afirma- ção como uma crítica pertinente. Como posto no novo estatuto da APA, esta finalidade é apenas uma das finalidades da psicologia e não a única ou a Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 105 melhor delas. Olhando bem de perto, uma finalidade que só agora se tornou possível, pois, antes dela, havia 50 anos de trabalho sólido exclusivamente dedicado à ciência. Neste sentido, há que se pensar a destinação social da psicologia aplicada não como uma condição natural ou necessária, mas como uma nova preocupação para a psicologia científica, dentre muitas outras, ao longo da sua profícua história. Visto deste modo, a história assume um novo contorno, pois foi apenas no final dos anos 60 que o discurso de libertação do homossexual começou a se perpetuar nas revistas científicas da APA. Antes disso, até o final dos anos 50, o que se encontrava nestas revistas era a homossexualidade como objeto de tratamento (Ellis, 1956; Miller, Bradley & Gross, 1968; Haynes, 1970). Deste modo, há que se ter cuidado ao se compreender certas mudanças, pois o humanismo criado em torno da psico- logia tem razões, agentes e seus próprios interesses. A crítica ao elitismo da psicologia clínica trouxe repercussões muito negativas para o campo profissional dos psicólogos. Principalmente nos países onde a psicologia se consolidou apenas depois da Segunda Guerra Mundial. Enquanto nos EUA essa crítica era a expressão do embate entre duas culturas da própria psicologia, no Brasil ela afastou os psicólogos clíni- cos da psicologia científica, levando-os a se dedicarem quase exclusiva- mente às suas próprias corporações clínicas, institutos e associações. Isso dificultou imensamente a profissionalização da psicologia clínica no Brasil, sendo esta a principal causa da dificuldade de acesso das populações mais carentes aos serviços clínicos psicológicos neste país. Este texto tem por objetivo responder à crítica dos psicólogos sociais quanto ao compromisso social da psicologia clínica para demonstrar que o uso da psicologia para fins ideológicos põe em risco a sustentação do campo profissional dos psicólogos. Na medida em que o objetivo científico é posto a serviço de projetos políticos, a especificidade da psicologia clínica se fragmenta havendo uma ruptura das margens que a separam de campos cor- relatos, o que pode trazer sérias consequências para a psicologia como um todo. Ao perder sua especificidade, o campo profissional do psicólogo clíni- co perde valor de mercado e tende a ser marginalizado e absorvido por outros campos profissionais. Na atualidade, háuma reaproximação dos mé- dicos em direção às psicoterapias cognitivas e psicanalíticas assim como há uma aproximação entre os fisioterapeutas e as psicoterapias corporais. Sendo a psicologia clínica a base profissional de todo o grande campo da psicolo- gia, correspondendo, no Brasil, a 54,7% dos profissionais ativos (Bock, 2003), sua desvalorização acarreta dano a toda a psicologia, inclusive dentro das universidades. Com o desprestígio da área clínica, a procura por cursos universitários de psicologia também tende a diminuir. Outra séria conse- quência desta crise é a contestação em vários países pelo mundo da compe- Marcelo M. Nicaretta106 tência clínica dos psicólogos, seja quanto ao diagnóstico (como no Brasil), seja quanto à psicoterapia (como na França). Deste modo, responder a esta crítica pode não trazer a unidade que a psicologia precisaria ter para defen- der o seu campo de trabalho, que pode estar com os seus dias contados, mas pode ajudar os psicólogos a compreenderem melhor porque razões eles se tornaram seus próprios inimigos. UMA PSICOLOGIA SEM FINS SOCIAIS A psicologia não surgiu como um campo de aplicação de saberes, mas como prática de produção de saberes de acordo com um método específico, o método científico de base experimental. A psicologia profissional, que não deve ser confundida com as ideias psicológicas do século XIX, não se originou da psicologia europeia, mas deste esforço, em território estadunidense, de isolar e compreender cientificamente o psicológico como um campo próprio, separado da biologia, da filosofia e da medicina. Contudo, a criação da psicologia como uma profissão não foi uma simples consequência da descoberta do psicológico, sendo esta apenas uma das suas condições para sua emergência. Mas se a psicologia científica cumpriu tal função para o surgi- mento da psicologia como uma profissão ela não foi a única. Tal surgimento também está diretamente ligado à criação da APA – American Psychological Association. Fundada em 8 de julho de 1892 após um congresso na Univer- sidade de Clark, na cidade de Worcester, a APA serviu de base para a estru- turação do campo científico da psicologia moderna. Nesta ocasião, um grupo formado por médicos e pedagogos decidiu fundar uma associação para con- solidar o psicológico como um objeto de estudo específico. Sendo assim, além de fundarem um novo campo científico, estabeleceram as bases para a emergência de uma nova profissão, a psicologia. Foram os fundadores deste campo: “G. Stanley Hall (Clark University), George S. Fullerton (University of Pennsylvania), Joseph Jastrow (University of Wisconsin), William James (Harvard University), Geord T. Ladd (Yale University), James Cattell (Co- lumbia University), J. Mark Baldwin (University of Toronto)” (Fernberger, 1932). Após o primeiro congresso, que ocorreu no mesmo ano da sua funda- ção, a associação já contava com 31 membros dentre eles importantes perso- nagens da história da psicologia americana tais como John Dewey, H. Münsterberg, E. B. Titchener, entre outros. O crescimento da psicologia em território americano foi rápido na primeira metade do século XX, e nos anos 30 a APA já contava com 530 membros. Embora ainda não houvesse uma profissão independente chamada psicologia, em 1920, logo após a Primeira Grande Guerra, já havia em terri- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 107 tório americano um campo sólido de discursos em torno da psicologia com- posto pelas seguintes subáreas: psicologia geral, psicologia do anormal, psi- copatologia, psicologia aplicada, psicologia dos testes, psicologia estatística, psicologia industrial, psicologia clínica, psicologia educacional, psicologia social, psicologia animal, psicologia experimental, psicologia teórica (Boring, 1950). Cada um destes espaços possuía em comum a primazia pela ciên- cia. Neste sentido, a APA não foi apenas uma instituição corporativa de su- cesso. Composta por professores de grandes universidades estadunidenses, ela também foi uma importante promotora do desenvolvimento do campo científico da psicologia dentro e fora dos EUA. Já em 1894, sob sua tutela, surgiu a primeira revista científica sobre psicologia, o Psychological Bulle- tin, seguida em 1904 do Psychological Review; ambas abordavam assuntos variados relacionados à psicologia. Dado o crescimento do interesse pela psicologia, logo surgiram revistas especializadas, tais como: Journal of Cli- nical Psychology (1906), Journal of Abnormal Psychology (1906), Journal of Educational Psychology (1910), Journal of Experimental Psychology (1916), Journal of Applied Psychology (1917), Journal of Social Psychology (1930) e o Journal of Consulting and Clinical Psychology (1937). A maioria destas revistas continua ativa e producente. Por tudo isso, é possível dizer que antes da Segunda Grande Guerra, já existia em território estadunidense um campo de estudos independente chamado psicologia. O que não pode ser confundido com a história da sua profissionalização. Contudo, a preocupa- ção com o bem-estar social ainda não era parte deste campo. Esta afirmação torna-se concreta ao se observar que nas revistas da APA este tipo de preocupação é inexistente. No primeiro volume da revista dedicada ao “anormal”, o Journal of Abnormal Psychology, de 1906, os te- mas debatidos eram a hipnose (Bechterew, 1906), os estados patogênicos (Janet, 1906), a psicologia da súbita conversão religiosa (Morton, 1906) e a psicanálise de Freud (Putnam, 1906). Nada havia sobre o bem-estar social. Do mesmo modo, em 1910, os temas debatidos no Journal of Educational Psychology abordavam temas tais como: a contribuição da psicologia à edu- cação (Thorndike, 1910), a psicologia genética (Kirkpatrick, 1910), os méto- dos de ensino (Simpson, 1910), a aplicação do método experimental ao ensi- no da pedagogia (Bingham, 1910) e a relação entre a psicanálise e a educa- ção (Jones, 1910). Esse cenário não mudou nos anos seguintes e o tema do compromis- so social permanecia fora das intenções da psicologia. Em 1917, no primeiro volume da revista de psicologia aplicada americana, o Journal of Applied Psychology, os temas debatidos eram a higiene mental (Martin, 1917), a psi- Marcelo M. Nicaretta108 cologia vocacional (Fernberger, 1917), o papel da psicologia na guerra (Hall, 1917), a criança prodígio (Garrison, 1917), a engenharia humana (Fish, 1917), entre outros. Em 1930, a APA criou uma revista especializada em psicologia social, o Journal of Social Psychology. Nela surgem as primeiras discussões sobre temas ligados ao bem-estar social, tais como as diferenças raciais (Thouless, 1933) e adaptação de testes a negros (Graham, 1930) e índios (Garth, 1933). Porém, o enunciado destes estudos não trazia em destaque o fim social. Seu interesse estava voltado para compreensão da personalidade humana, visando descrever as suas variações e especificidades de um ponto de vista material e quantitativo. Por essa razão as pesquisas da época buscavam compreender as relações entre a personalidade e fatores como a ordem de nascimento (Wile & Noetzel, 1931) e o grupo sanguíneo (Furukawa, 1930). Do mesmo modo, também podem ser encontradas neste período as discussões sobre tipos de personalidade (Allport, 1930), métodos de estudo sobre a perso- nalidade (May, 1932) e padrões de comportamento sexual (Harvey, 1932). Nenhum artigo discute questões tais como normalidade da homossexualidade, valores da negritude e exclusão social de índios e chineses como ocorrerá no final dos anos 60 em algumas destas mesmas revistas. A ausência de discursos sobre a função social da psicologia é clara, antes desse período. Trata-se de outra psicologia social, que traz um enunciado diferente do que irá se formar mais adiante. O que não significa que o bem- -estar social não fosse parte das preocupações da sociedade estadunidense antes da psicologia se apresentar para a suadefesa. Muito pelo contrário, desde a guerra civil americana o Public Welfare era amplamente debatido por sociólogos, trabalhadores sociais (Social Workers), entidades do governo e da igreja. Esta questão era de tamanha importância que muito cedo os esta- dunidenses se organizaram para defendê-la. Já em 1870 surgiu a Associação Americana de Presos. Em 1871, foi fundada a Associação Americana de Saúde Pública e, em 1873, foi realizada a Primeira Conferência Nacional de Trabalhadores Sociais Americanos (Folks, 1922). Ao que tudo indica, nos Estados Unidos da América, o campo profissional do trabalho social se constituiu antes mesmo do campo profissional da psicologia como ciência. Diante deste cenário, o novo campo da psicologia social se apre- sentou como uma novidade, o social discutido referia-se à psicologia cientí- fica, e não à sociedade. Por esta razão, mesmo abordando temas em comum, tais como raça, delinquência e saúde mental, estes campos possuíam dife- rentes enunciados. Enquanto os psicólogos estudavam as diferenças entre a personalidade de brancos e negros (Thouless, 1933), os servidores sociais discutiam a quantidade de verbas destinadas aos programas educacionais para negros (Fisher, 1923), o direito ao voto feminino (Weil, 1922) e os pro- gramas governamentais sobre higiene mental (Anderson, 1923). A separação Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 109 era clara estando a psicologia comprometida com a ciência enquanto o servi- ço social se comprometia com o bem-estar social. Mas não é apenas neste ponto que estes campos eram divergentes. Um olhar mais abrangente demonstra um cenário social muito mais comple- xo do que o encontrado nos discursos da psicologia. Fora destes, eram deba- tidos temas como o divórcio (Mowrer, 1924), a relação entre trabalhadores rurais e urbanos (Branson, 1923), e o uso da religião como força social (Murray, 1924), entre outros. O enunciado é claramente a promoção do bem- -estar social e a busca de modos para promovê-lo. Estes discursos evidenci- am ainda a importância da institucionalização do serviço social como parte de políticas públicas e de leis específicas voltadas para a promoção do bem- -estar social. Nada disso fazia parte do campo da psicologia. Com tudo isso, o que fica claro é que embora o Public Welfare es- tivesse ativo na cultura estadunidense, ele não fazia parte do conjunto de discursos da psicologia científica, mesmo em se tratando das suas mais dife- rentes versões. Mas em um determinado momento isso se modifica e o bem- -estar social passa a ser parte do conjunto de metas da psicologia, passando a estar presente inclusive no estatuto da APA. É também nesse momento que surge a crítica ao individualismo dos psicoterapeutas. Uma crítica feita por psicólogos, direcionada à cultura clínica recentemente herdada, mas despro- vida de uma clara compreensão da relação entre a psicologia e a psicotera- pia, ou mesmo ignorando a transformação da psicologia em uma profissão. Deste modo, fica evidente que a meta social não apenas não fazia parte das finalidades da psicologia científica na sua origem, como ela também não representa o uso original do termo social para a própria psicologia. Pelo contrário, ela representa uma ruptura, ou dito de outro modo, uma crítica, em relação à meta científica que originou o campo da psicologia. A EMERGÊNCIA DO FIM SOCIAL COMO META PARA A PSICOLOGIA Como mostrado, o compromisso social não estava presente no enunciado que originou o campo da psicologia científica, mesmo no que se refere à própria psicologia social. Pelo contrário, o que a história mostrou foi que tal compromisso surgiu como parte de uma grande mudança estrutural da psicologia estadunidense e de suas premissas. É essa novidade que precisa ser compreendida. Pois ao se cobrar da psicologia clínica um caráter social, o enunciado em questão não é o do Social Welfare de 1870. No campo discur- sivo da psicologia social dos anos 60, o que se vê é o pensamento assistencial do pós-guerra americano. Nele, não se discute a questão da negritude do Marcelo M. Nicaretta110 ponto de vista da migração ou humilhação social. O que se pretende é uma Black Psychology (Willians, 2008). A mesma psicologia que antes da guerra demonstrava as diferenças entre as raças, ao seu final, voltou-se para a cons- trução de uma psicologia dos negros. Mas essa mudança quanto ao enuncia- do da psicologia não se deu de modo isolado. Ao seu lado também passaram a ser discutidas questões como a normalidade do homossexualismo (Davidson, 1976) e o uso do LSD como instrumento psicoterapêutico (Baker, 1964), entre muitas outras questões. Estas preocupações representam um momento histórico específico que ficou conhecido como “era dourada estadunidense” (Vidal, 2001), e estão intimamente relacionadas à Segunda Grande Guerra. Desse modo, o estabelecimento do compromisso social como uma meta para a psicologia deve ser compreendido como parte deste contexto, comum ao surgimento do novo psicólogo clínico e de outras mudanças ocorridas na psicologia esta- dunidense. Em todos os casos há que se destacar a influência do governo estadunidense no seu intuito de remediar a participação direta de 18 milhões de americanos no confronto. Neste período foram criadas várias instituições públicas de cunho social, tais como o NIMH (National Institute of Mental Health) e o VA (Veterans Administration). Elas surgiram com o mesmo intuito pelo qual foram criadas as primeiras instituições sociais em torno de 1870, após a guerra civil americana, e serviram de base para a articulação dos primeiros movimentos sociais dentro da psicologia. A ação governamental utilizou a psicologia de três modos distintos. No primeiro, dado o alto grau de formação acadêmica dos psicólogos, eles foram escolhidos para gerenciar os institutos sociais. Isso produziu uma ma- ciça transferência de psicólogos das funções educacionais e de pesquisa para funções administrativas. Antes da guerra a atividade de ensino representava a principal atividade de 21,3% dos psicólogos estadunidenses representando o maior segmento da categoria. Nesse mesmo período apenas 5,6% se dedi- cavam a funções administrativas. Terminada a guerra apenas 4% dos psicó- logos permaneceram exclusivamente ligados a funções educacionais en- quanto o número de psicólogos dedicados a funções administrativas saltou para 15,4%, o segundo maior segmento atrás apenas da função de diagnósti- co e aconselhamento (Nicaretta, 2010). No segundo instante, como já foi destacado, os psicólogos clínicos foram transformados em psicoterapeutas. Por último, a psicologia foi utiliza- da como parte de um amplo plano de inclusão social. Ela foi usada como porta de entrada no meio universitário para jovens de comunidades margina- lizadas que recebiam incentivos para se graduarem em psicologia e também para cursarem pós-graduação na área. O governo também utilizou a psicolo- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 111 gia como um instrumento de compreensão e afirmação da identidade destes grupos gerando não apenas conhecimento sobre eles, mas também servindo de base para a sua organização social. No final dos anos 60 surgiram nos EUA diversas associações de psicólogos voltadas para a defesa dos direitos de grupos sociais como os negros, os gays, as mulheres etc., semelhantes àquelas que haviam surgido no final do século XIX para defender os interes- ses dos presos e de outros cidadãos marginalizados. Embora os enunciados desses movimentos sejam muito distintos, a intenção social se assemelha. Enquanto em 1920 havia a discussão sobre o voto feminino, em 1970 havia a preocupação com a igualdade salarial entre homens e mulheres. Desse modo, parece que o empenho da psicologia no cenário do pós-guerra, criou um novo enunciado para ela, que não apenas a aproximou do discurso médico psicoterápico, mas também do discursoassistencial. Uma das consequências desta última aproximação foi o estabelecimento do compromisso social como uma meta natural para a psicologia. Os “bons psicólogos” emergiram principalmente como crítica ao mercado liberal das psicoterapias, sob a alegação de que os mais necessitados não podiam ter acesso aos serviços psicológicos e que a psicologia, assim, servia apenas aos interesses das elites. Desse modo, pode-se notar que o discurso acerca do compromisso social da psicologia não apenas emergiu associado ao mercado das psicoterapias, mas também como crítica a ele. O mercado das psicotera- pias e sua crítica social são partes do mesmo enunciado que serviu aos inte- resses das elites estadunidenses que produziram a guerra. Os psicólogos sociais e suas teorias não ajudaram a popularizar as psicoterapias, mas con- fundiram o público acerca do seu valor ajudando o governo estadunidense a justificar sua omissão em reparar o dano psicológico promovido pela guerra. UMA CLÍNICA DEDICADA AO SOCIAL Ao generalizar a suposição de que todo psicoterapeuta é burguês e individualista, os críticos dos profissionais liberais também cometem outro erro. Neste caso, eles omitem a história da relação entre os psicoterapeutas e o compromisso social. Ao que consta, muito antes de os psicólogos sociais americanos defenderem esta intenção como meta para a psicologia, alguns clínicos já agiam para aplacá-la. Consta que no congresso de Budapeste, em 1918, Freud destacou a necessidade da criação de clínicas destinadas àqueles que não podiam pagar. Dessa ideia surgiu a clínica psicanalítica de Viena, de natureza pública e destinada aos pobres, em maio de 1922. E essa intenção não parou por aí. Em 1929, Wilhelm Reich propôs uma aproximação entre as teorias de Marx e Freud. A novidade que ficou co- Marcelo M. Nicaretta112 nhecida como freudo-marxismo influenciou autores da escola de Frankfurt e também originou um novo campo de atuação social (Robinson, 1969). Em 1931, Reich disseminou pela Alemanha um movimento político-social que ficou conhecido como Sexpol (Reich, 1932). A função principal deste movi- mento era a “politização total da juventude acerca da questão sexual” (Dadoun, 1991). Neste período, foram criados diversos centros de atuação comunitária cuja finalidade era conscientizar os jovens sobre a importância da função sexual como um elemento para a construção de uma sociedade socialista. Seria possível citar outros terapeutas que claramente ficaram co- nhecidos pelo seu empenho em aproximar a psicoterapia dos pobres, tais como Alfred Adler e Pichón-Rivière. Todos estes exemplos demonstram que embora o compromisso social não fosse difundido como uma meta geral para a psicologia antes da Segunda Grande Guerra, em momentos específi- cos ele esteve presente como uma preocupação para os psicoterapeutas mé- dicos. O fato da psicoterapia não ter se popularizado ainda com Freud deve- -se a um conjunto de razões que não possuem relação com a condição políti- co-econômica dos psicoterapeutas. O papel do Estado em prover serviços de saúde para a população e o lugar da psicanálise dentro da medicina da época foram fatores muito mais relevantes para esta condição do que o interesse dos clínicos em ganhar dinheiro com o sofrimento alheio. Não obstante, é importante destacar que uma das grandes novida- des trazidas pelos psicólogos com a criação do mercado das psicoterapias foi exatamente a crítica ao modelo da clínica individual. É bem verdade que essa mudança não se deu como parte de uma consciência social, mas pela necessidade de adequação do atendimento a grandes populações devido ao advento da guerra. Neste sentido, a crítica dos psicólogos sociais chegou atrasada, porque debaixo do seu olhar inquisidor já havia se instalado um novo modelo de tratamento baseado no grupo social. Surgiram, nesse perío- do, diferentes tipos de terapias coletivas, tais como a terapia de casal, a tera- pia de família e diferentes tipos de terapias coletivas e todas elas tomavam o social como elemento determinante sobre o processo da terapia. Também nesse período surgiram os primeiros trabalhos de cunho assistencial como os Alcoólicos Anônimos (Room & Greenfield, 1993), que funcionavam como cooperativas sem fins lucrativos e eram acessíveis ao público em geral. Como mostrado, não apenas o compromisso social não pode ser compreendido como essência da psicologia científica, como não é possível afirmar que os psicoterapeutas sejam pessoas sem qualquer compromisso social. Ambas estas suposições são a base das críticas feitas pelos psicólogos sociais aos clínicos da psicologia. Contudo, diante desta afirmação permane- ce um fato: se os psicólogos clínicos possuem um compromisso com o social, porque as psicoterapias continuam inacessíveis aos mais pobres? Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 113 O MODELO CLÍNICO INDIVIDUAL E OS SISTEMAS PÚBLICOS DE SAÚDE A essência da crítica direcionada aos psicoterapeutas relaciona teo- ricamente a clínica individual à propriedade privada. Desta relação surge a culpa do psicoterapeuta por privatizar um determinado conhecimento em favor do próprio enriquecimento, sendo esta convicção a responsável pela falta de acesso da população mais carente aos serviços psicoterápicos. Con- tudo, embora a limitação do acesso à psicoterapia seja um fato, ela não se deu apenas em razão do alto custo destes tratamentos, pois os sistemas pú- blicos de saúde ofertam serviços muito mais caros, como cirurgias cardíacas e os tratamentos para o câncer. Culpar uns poucos terapeutas e o alto preço de suas consultas pela não popularização das psicoterapias pelo mundo significa ignorar o caminho da psicoterapia como uma profissão moderna. A condição liberal não é o ideal de uma profissão, mas a sua origem, o que não diferencia a psicoterapia das demais profissões. Em um país pobre uma profissão não se torna acessível pela iniciati- va dos profissionais, mas porque, ao reconhecer sua importância, o Estado assume a responsabilidade por prover estes serviços à população em geral. Caminho comum fazem todos os tipos de profissionais liberais. Uma das mu- danças mais significativas na saúde pública brasileira nos últimos anos, advin- da da criação do SUS, foi o assalariamento dos médicos brasileiros. Nos anos 80, mais de 70% dos médicos trabalhavam como profissionais liberais. Atual- mente, em alguns Estados, cerca de 90% dos médicos são assalariados. Isso significa que na medida em que o Estado percebe a importância de prover à população os serviços médicos, ele assume a função de popularizá-los, mesmo que ainda o faça de modo insuficiente como no Brasil. Nos EUA, como não existe um sistema público de saúde, os serviços médicos não são acessíveis à população em geral. Não se trata de discutir a importância da medicina ou da psicologia, mas as suas relações com o Estado. Mas é preciso ressaltar que esta colocação não pode ser generaliza- da, pois a relação entre ao campo público e o privado, o jogo de forças entre estes dois sistemas, varia enormemente entre diferentes países. O que revela um fato curioso. Nos EUA, onde não existe um compromisso do governo em oferecer gratuitamente serviços de saúde à população, houve uma grande popularização das psicoterapias, devido exatamente à influência do governo. Já no Brasil, onde há este compromisso, esse investimento nunca ocorreu e a psicoterapia, assim como a psicologia clínica, sempre se mantiveram à mar- gem do sistema público de saúde. Em 2009, dos 49.066 estabelecimentos públicos cadastrados pelo IBGE, apenas 4.405 ofereciam serviços de psico- logia, ou seja, menos de 10% do total (IBGE, 2010). Marcelo M. Nicaretta114 Paga caro quem pode pagar a quem merece, pois a responsabilida- de de distribuir gratuitamente serviços de saúde é do Estado. Fora deste contexto, o valor de uma consulta no mercado privado, seja de um massa- gistaou de um cardiologista, é definido pela qualidade do profissional e não pela sua ética. É o mercado que sustenta o preço de uma consulta e não a ideologia do profissional. Quanto melhores os resultados mais cara tende a ser a consulta, pois os serviços de saúde no mercado privado nada mais são do que mercadorias. Chama-se isso de lei de mercado. Neste sentido, culpar o valor da consulta pela falta de acesso aos serviços psicoterápicos é uma falácia. O profissional liberal não é um privilegiado, ao contrário, ele é uma espécie de escravo moderno, totalmente excluído das garantias que são co- muns aos demais cidadãos tais como 13º salário, férias remuneradas e sem sindicato para lhe defender. O psicoterapeuta é um subprofissional que cul- pam por ser egoísta simplesmente por que ele não dá aos necessitados a úni- ca coisa que possui para vender. Essa afirmação toma o lugar de outro ques- tionamento. Porque certos modelos de saúde universais, tais como o brasilei- ro, não oferecem ao seu público, em larga escala, a psicoterapia como um tratamento para as massas? Onde se vê o modelo liberal do psicoterapeuta dever-se-ia enxergar a omissão histórica dos governos e dos próprios repre- sentantes da psicologia para com a compreensão e uso da psicologia clínica para fins sociais. E este potencial é gigantesco. CONSIDERAÇÕES FINAIS No dia 01 de outubro de 1949, depois de uma longa guerra civil, Mao Tsé-Tung proclamou a república popular da China. Assumia o poder na China um governo preocupado com o social. Em 1960, em O Diário do Povo, Mao declarou que ser um dócil instrumento do partido constituía uma nobre qualidade, própria do proletariado (Blunden, 2008). Esta afirmação, típica do maoísmo, uma doutrina que se estabeleceu na China a partir de 1945, como essência do regime popular, tinha como pressuposto radical a primazia do social sobre o individual. De tal maneira que a única instituição social mantida na China maoísta foi a família nuclear (Blunden, 2008); todas as demais instituições foram banidas, o que inclui toda a cultura chinesa milenar. Tudo destruído em nome do bem comum. Pode haver compromisso social maior do que ajudar aqueles que sofrem? Há um compromisso social maior do que a dedicação de uma vida à vida de outrem? Quem atribui à psicoterapia um caráter burguês faz isso porque não a reconhece como um campo de trabalho, e, em segundo lugar, porque desconhece sua natureza clínica. A ética da psicoterapia não está na Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 115 sua aplicação política, mas na sua capacidade de cumprir a promessa de ali- viar o sofrimento humano. Essa é a responsabilidade principal do terapeuta. Por tudo isso, o que mais importa é que diante da crítica ao elitis- mo dos psicoterapeutas, a discussão sobre as razões da psicoterapia não ter se tornado um tratamento popular pelo mundo foram negligenciadas, preju- dicando a organização e amadurecimento da psicologia como um campo profissional. Um fato óbvio que demonstra a importância desta ponderação são os distintos cenários encontrados nos diferentes países, no que se refere ao modelo de saúde adotado. Nos EUA, a situação dos psicólogos clínicos é semelhante à dos médicos, ambos sejam acessíveis apenas àqueles que pagam o seguro saúde. A população, em geral, não tem acesso a nenhum tipo de assistência pública. O que não significa que certos terapeutas no mercado privado, assim como certos tratamentos ou medicamentos, não sejam caros e restritos apenas a quem pode pagar. Trata-se de uma condição de mercado. No Brasil, o modelo adotado só reconheceu a importância da psi- cologia e da sua clínica em áreas muito específicas, como a saúde mental e a dependência química, e mesmo assim de uma maneira incipiente. Mas há outras razões para que o Estado brasileiro tenha permanecido distante dos psicólogos clínicos. A principal delas foi o modo como o campo da psicolo- gia clínica se estruturou neste país, sem uma regulação clara e sem um do- mínio justificado por parte dos psicólogos como ocorreu nos EUA. Os psi- cólogos não se preocuparam em profissionalizar a psicoterapia como uma atividade da psicologia, de tal modo que na legislação vigente atualmente no Brasil os médicos ainda são os responsáveis legais pelo controle “das casas de psicoterapias”. Esta lei, o Decreto 20.931/32, promulgada em 1932, des- creve o campo das psicoterapias tal como ele se encontrava constituído nos EUA naquele período. Do mesmo modo, o cenário encontrado na lei que regulamentou a psicologia no Brasil, em 1962, também não faz qualquer referencia à natureza clínica da psicologia. No seu art. 13 a lei afirma que a atividade do psicólogo é definida como o uso de métodos e técnicas psicoló- gicas para: diagnóstico psicológico; orientação e seleção profissional; ori- entação psicopedagógica; e solução de problemas de ajustamento (Lei 4.119). Em nenhum momento utiliza-se os termos psicoterapia, clínica ou psicopatologia como referência para o trabalho do psicólogo. Desta feita, na lei que criou o campo da saúde brasileiro a psicoterapia permaneceu como parte do campo controlado pelos médicos, tal como ela se apresentava ainda nos anos 30, antes da Segunda Grande Guerra. Quando a lei do psicólogo foi definida no Brasil ela já estava ultrapassada, indicando uma psicologia que, embora estivesse em conformidade com a Lei de 1932, já não representava o campo da psicologia tal com ele se organizou posteriormente. Marcelo M. Nicaretta116 Com isto, embora a psicologia tenha sido reconhecida em lei, seu campo clínico permaneceu ignorado e sem definição, pois ao invés de redigi- rem perícias e pareceres tal como lhes garantia a nova lei, eles necessitavam redigir atestados e relatórios, que eram recusados pelos órgãos do governo e pelos próprios hospitais públicos que não os reconheciam como verdadeiros clínicos. Por isso, a função social da psicoterapia foi muito prejudicada, sendo o psicólogo clínico mantido sob a tutela do médico, sem uma identidade clara, sem uma função necessária, quase visto como um profissional supérfluo. Dado o fato de que depois da Segunda Grande Guerra os psicólogos assumiram o controle das psicoterapias, com a não popularização da psicologia clínica, as psicoterapias também não se popularizaram. A principal consequência deste fato foi a formação de um campo frágil que não foi capaz de resolver pro- blemas fundamentais como a ignorância da população quanto ao valor dos trata- mentos mentais e principalmente quanto ao lugar do psicólogo nesta função. No Brasil, se perpetuou a antiga confusão sobre quem é o psicoterapeuta e o que ele faz, e isso não apenas entre os leigos. Essa confusão demonstra a dificuldade dos psicólogos brasileiros de se apoderarem do seu próprio campo de trabalho. Em- bora eles sejam os únicos a receberem formação profissional durante a graduação para atuar como psicoterapeutas, eles aceitam a ideia da psicoterapia como uma atividade compartilhada, confundindo interprofissionalismo com multidisciplina- ridade. Os médicos exercem a psicoterapia porque lhes é de direito fazer qualquer coisa no campo da saúde, mas não por terem uma formação, seja na graduação ou mesmo na residência em psiquiatria, que os qualifiquem para atuarem como psicoterapeutas. Há uma grande confusão neste sentido, como se o atendimento clínico, para o qual o médico é treinado para realizar, fosse equivalente ao aten- dimento psicoterápico, cuja natureza é essencialmente psicológica e incipiente na formação do médico. Um profissional médico é tão preparado para conduzir uma psicoterapia quanto um nutricionista ou um enfermeiro, mas apenas ele pode compartilhar com o psicólogo o direito de exercer a psicoterapia. O que falta para a psicologia clínica brasileira não é maior compromisso social, mas consciência de que por trás do psicoterapeuta, o que existe é o psicólogo. Este é o ponto de união entre os clínicosda psicologia em países como EUA e Inglaterra. No Bra- sil, os psicólogos clínicos são apenas psicoterapeutas, psicanalistas, gestaltistas etc. e não conservam relações de estima com a psicologia. A crítica ideológica à psicologia, e, especialmente à sua vertente clíni- ca, não parece justa. Ao que tudo indica não há um modelo único que explique o modo como a psicologia se disseminou e que defina uma razão comum para a sua não popularização em boa parte do mundo. Contudo, indicar elementos da cultura capitalista tais como o individualismo e o preço da consulta como possí- veis razões para este fato, no que tange à pesquisa apresentada, merece ser des- cartado. Os cenários encontrados são muito complexos e envolvem não apenas Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 117 uma estrutura ideológica, mas situações históricas específicas. Deste modo, a crítica social feita pelos próprios psicólogos, parece ter procurado na estrutura da psicologia as razões para a organização de um campo maior, ligado a outras disciplinas como a medicina e a farmacologia, o que certamente não é adequado. Por esta razão, essa crítica não auxiliou na compreensão da psicologia clínica e, por conseguinte, na sua difusão pelo mundo, ao contrário, acabou servindo como uma barreira ao seu desenvolvimento. O que se produziu com isso foi desinformação, e quem perdeu com isso foi à própria sociedade. REFERÊNCIAS Allport, G. W. (1930). The Neurotic Personality and Traits of Self-Expression. Journal of Social Psychology, 1(4), 524-527. Anderson, V. V. (1923). The State Program for Mental Hygiene. Journal of Social Forces, 1(2), 92-100. Baker, E. F. (1964). The Use of Lysergic Acid Diethylamide (Lsd) in Psychotherapy. Cana- dian Medical Association Journal, 91(23), 1.200-1.202 Bechterew, W. V. (1906). What is Hypnosis? 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A literatura científica sobre psicoterapia e pesquisa data da primei- ra metade do século XX e através dos tempos indicou diversas ramificações sobre as prioridades investigativas para a compreensão da prática. Recente- mente a discussão tem se encaminhado para a clarificação dos qualificantes gerais que definem o impacto de práticas em resultados esperados (Peuker, Habigzang, Koller & Araújo, 2009). A investigação ainda ganha contornos complexos quando situada na disputa sobre o seu território entre disciplinas distintas ou sobre os acréscimos que uma disciplina pode oferecer à outra. No Brasil, enquanto os órgãos profissionais buscam a melhor solução sobre a regulamentação da psicoterapia, carecem as pesquisas, em contextos deli- mitados, sobre os reais benefícios gerados pelos tratamentos. Tendo em vista esse panorama, o presente capítulo busca elucidar a relação entre psicoterapia e pesquisa através de uma revisão de estudos, nacio- nais e internacionais, sobre resultados dos tratamentos. Para isso discorrerá brevemente sobre: 1) as diferenças entre pesquisas orientadas à eficácia e à efetividade terapêutica; 2) metanálise e pesquisa em psicoterapia; 3) conver- gências das diferentes abordagens terapêuticas; e 4) análise de publicações Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes122 brasileiras sobre o tema. Ao final, o argumento se encaminhará para os desafios impostos à pesquisa e a importância da definição de metas concretas para impulsionar a qualidade das reflexões na direção da regulamentação da prática. A psicoterapia é uma prática que tem se mostrado benéfica. Em uma pesquisa recente sobre o feedback de pacientes quanto aos benefícios gerados pela psicoterapia, evidenciou-se que cerca de 75% dos respondentes percebem mudanças significativas em suas vidas decorrentes do processo (Lambert & Shimokawa, 2011). As pesquisas têm ainda demonstrado que os efeitos são duradouros, conforme registros de follow-up de até cinco anos após o tratamento (Lambert & Archer, 2006). Devido a seus efeitos compro- vadamente positivos, a psicoterapia, antes restrita a alguns setores da socie- dade, tem sido ampliada para diversos setores da população. A crescente demanda tem suscitado discussões, na última década, na direção de sua re- gulamentação no Brasil. Nos Estados Unidos, na Alemanha e na França, por exemplo, a re- gulamentação da prática já vem ocorrendo, estabelecendo exigências que a psicoterapia deve cumprir para ser incluída nas universidades, nos sistemas previdenciários e seguro saúde (Müller, 2011; Reed & Eisman, 2006; Roudi- nesco, 2005). No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) vem se pro- nunciando enfaticamente acerca da regulamentação da prática desde 2000, tendo proclamado em 2009 o “Ano da Psicoterapia”. No país, procuram-se estabelecer parâmetros para que a prática realizada por psicólogos se torne acessível e abrangente (Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, 2008). Para que o projeto de regulamentação se torne realidade no Brasil o eixo das pesquisas científicas deve exercer papel central na orientação das discussões, assim como ocorreu em outros países. A seguir, vejamos como a literatura internacional vem se orientando na sistematização dos conheci- mentos sobre psicoterapia. MODELOS DE EFICÁCIA E EFETIVIDADE NA PESQUISA EM PSICOTERAPIA Segundo Aveline, Strauss e Stiles (2007), a pesquisa em psicotera- pia divide-se historicamente em quatro fases. A primeira fase (1927-1954) caracteriza-se pelo início da pesquisa científica sistematizada, definida por estudos baseados em registros de sessões. Na segunda fase (1955-1969) o interesse voltou-se à obtenção de rigor científico, através do desenvolvi- mento de métodos de mensuração em sessões de terapia e de estudos de efi- cácia em intervenções controladas. Na terceira fase (1970-1983), com o Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 123 aumento exponencial da pesquisa no campo, buscou-se a diferenciação e caracterização dos diferentes tipos de pesquisa, sendo criadas organizações científicas dedicadas ao tema. Tais organizações buscavam o aprimoramento conceitual e metodológico através do estudo comparativo de resultados, de análise de tarefas no processo psicoterápico, e de compilação de resultados de pesquisa através de metanálises. Na última fase (1984) o foco tem sido a reavaliação dos sofisticados métodos até aqui desenvolvidos quanto à sua real adequação avaliativa da atividade psicoterapêutica. Tradicionalmente as pesquisas se estabelecem em literaturas concor- rentes entre exames de eficácia e efetividade psicoterapêutica (Howard, Moras, Brill, Martinovich & Lutz, 1996). Estudos de eficácia consistem em ensaios clínicos randomizados, nos quais se dividem amostras clínicas em grupos expe- rimentais e controle. A hipótese desses estudos é a testagem da relação direta entre técnicas de tratamento e resultado esperado conforme determinada abor- dagem clínica. Tais pesquisas se definem pelo alto grau de controle das variá- veis operacionalizadas. Em geral, testa-se a intervenção em um grupo e oferece- se tratamento convencional ou placebo em outro. Via de regra, os tratamentos para o grupo experimental seguem protocolos ministrados por terapeutas treina- dos em técnicas específicas. Os estudos de efetividade, por sua vez, se utilizam de delineamentos quase experimentais para investigar o impacto do processo terapêutico na percepção dos resultados e mudanças do terapeuta e paciente. As pesquisas de efetividade psicoterápica são também chamadas de estudos natura- lísticos, uma vez que buscam investigar o mais próximo possível o que acontece nos consultórios (Ceitlin, Manfro, Jung & Cordioli, 2008). Enfatizam as variá- veis latentes do processo, em especial a percepção da aliança terapêutica e dos eventos considerados marcantes na psicoterapia. Ao longo das décadas passadas, as investigações de resultados fo- ram ampliadas de estudos de eficácia para estudos de efetividade, devido à limitação dos estudos de eficácia quanto à sua real representatividade do processo terapêutico (Jardim, 2008). As investigações de resultados passa- ram a avaliar também oprocesso de terapia, com o intuito de compreender amplamente por que as mudanças ocorriam em terapia e como isso acontecia ao longo do processo (Ceitlin et al., 2008). A ideia é que não basta saber se um tratamento é eficaz, mas entender o que faz com que um tratamento pro- duza mudanças. Em síntese, tem-se dois tipos de estudos – de resultados e de processos – que se superpõem em alguma medida, por estarem interligados. A pesquisa de processos é um complemento necessário para os ensaios clíni- cos randomizados e pesquisas de eficácia (Elliot, 2010). Conforme Jardim & Gomes (2009) há ainda uma terceira via para- lela de estudos, chamada de psicoterapia eclética e que busca combinar as Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes124 metodologias de eficácia e efetividade para o estudo pragmático dos resulta- dos de psicoterapia. A principal ênfase nessa literatura é a verificação empí- rica de resultados não circunscritos a teorias psicológicas concorrentes (Beutler, 1983). Nesse sentido, estima-se o levantamento de técnicas que sejam eficazes conforme as características do setting e independentes da abordagem teórica do terapeuta. As características do setting incluiriam, por exemplo, grau de comunicabilidade do paciente, tipo de diagnóstico (se hou- ver um), e recursos contextuais envolvidos na situação do paciente. Na investigação consolidada de resultados em terapia, Lambert & Archer (2006) afirmam que o relato dos pacientes ainda é uma das melhores formas de se avaliar os resultados do processo. Medidas providas pelos pró- prios pacientes, através de instrumentos de avaliação autoadministrados (self-report), permitem investigar diversos elementos do processo psicoterá- pico (Peuker et al., 2009). Goodheart (2006) considerou os pacientes uma fonte primária de informação sobre a terapia, recomendando especial aten- ção ao feedback destes quanto à atuação do terapeuta. De modo semelhante, em pesquisa brasileira, Gomes, Reck & Ganzo (1988) indicaram que os pacientes são importante fonte de informação sobre os efeitos das psicotera- pias. Os pesquisadores entrevistaram pacientes acerca da experiência de estar em psicoterapia, e evidenciaram que os fatores positivos percebidos foram: a) melhora nas relações sociais; b) maior estabilidade emocional; c) maior aceitação de si; e d) mudanças comportamentais percebidas por fami- liares, amigos e colegas de trabalho. Binder, Holgersen & Nielsen (2010) investigaram, através do método fenomenológico, como os pacientes caracterizavam os bons resultados obtidos em tratamento e obtiveram quatro temáticas essenciais: 1) estabelecer novas formas de se relacionar com os outros; 2) menos estresse sintomático/mudança nos padrões comportamentais que contribuíam para o sofrimento; 3) melhor autocompreensão e insight; e 4) autoaceitação e autovalorização. Esse estudo segue a linha de investigação do mais famoso estudo de efetividade acerca da percepção dos pacientes sobre a psicoterapia, que é o Survey Consumer Reports de Seligman (1995), no qual um grande número de indivíduos proveu autorre- lato (self-report) de satisfação com o tratamento. Outro modelo já clássico de investigação da psicoterapia são os estudos de caso, que se caracterizam por um acompanhamento sistemático em profundidade do paciente, e que possibilitam avaliar detalhadamente as mudanças e os efeitos de um tratamento. Ora definido como um sistema de investigação para a construção de teorias ou definição de conceitos, como por exemplo, na psicanálise, hoje se orienta por metodologia inferencial rigorosa e refinada junto ao relato das sessões (Ceitlin et al., 2008). A utili- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 125 zação de métodos quantitativos e qualitativos combinados tem determinado a direção dessas investigações. Na trajetória das investigações empíricas a utilização de instru- mentos padronizados vem contribuindo de forma ampla para a compreensão de que variáveis podem estar associadas ao sucesso de um tratamento (Peuker et al., 2009). O uso de instrumentos pode avaliar, por exemplo, a interação de variáveis associadas aos pacientes (tipo de transtorno, história de vida, rede de apoio, motivação, etc.), e sua relação com a competência, técnica, experiência clínica e estilo pessoal do terapeuta. Nesse caso, a rela- ção entre características da relação e os resultados do processo são a pauta para a pesquisa de covariância entre variáveis clínicas. Segundo Goodheart (2006), a forma mais simples de se investigar a efetividade de um tratamento é medir resultados. O terapeuta pode utilizar diferentes intervenções e combinações, de acordo com as necessidades do paciente, e saber se o processo está sendo efetivo se tiver uma boa forma de avaliá-lo. Medidas repetidas ao longo do tratamento permitem compreender melhor se as mudanças estão ocorrendo (Kazdin, 2006). O Outcome Ques- tionnaire (OQ-45) (Lambert et al., 1996) é um exemplo de instrumento cria- do para avaliar os resultados da psicoterapia na percepção do cliente. Conforme Carvalho & Rocha (2009), este é um dos instrumentos de autorrelato mais utilizados em pesquisa internacional para verificar mu- danças em terapia. O instrumento é de rápido preenchimento e cobre quatro domínios de funcionamento psíquico: a) sintomas psicológicos (e.g. depres- são e ansiedade); b) problemas interpessoais; c) funcionamento social (e.g. problemas no trabalho); e d) qualidade de vida (e.g. facetas de satisfação de vida). O OQ-45 tem sido muito utilizado em um campo relativamente novo de estudos, o da pesquisa orientada para o paciente (patient-oriented rese- arch), que consiste em uma contínua avaliação e monitoramento do início ao fim do tratamento e utilização dessa informação para mapear o progresso e tomar decisões (Kazdin, 2006). Em vez de medidas pré e pós-teste, nesta nova orientação, o terapeuta avalia o paciente a cada sessão, com um instru- mento breve, que mede o funcionamento em diversos domínios. Para Kazdin (2006), esta novidade reduz o hiato entre pesquisa e prática e pode auxiliar os terapeutas a se interessarem em uma avaliação sistemática do tratamento. METANÁLISES E PESQUISA EM PSICOTERAPIA Uma técnica bastante utilizada que permite a compreensão do re- sultado geral de estudos de psicoterapia é a metanálise. Na técnica sumari- Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes126 zam-se estudos individuais de eficácia e efetividade, através da aplicação de métodos e princípios da pesquisa empírica ao procedimento de revisão bibliográfica (Aveline et al., 2007). Este processo resulta em uma estatística que quantifica os efeitos cumulativos apresentados nos estudos revisados. No caso dos estudos de psicoterapia tal ferramenta mostra-se fundamental, uma vez que a quantidade de estudos na área é elevada, sendo importante entender as convergências e divergências dos múltiplos achados. Um exemplo de metanálise é o estudo sobre pesquisas em psicote- rapia na Alemanha, realizado por Petermann & Schüssler (2010). Os autores demonstraram uma distribuição simétrica entre a produção de pesquisas com ênfase no processo e pesquisas com ênfase nos resultados terapêuticos nos anos de 2008 e 2009. Pesquisas de processo frequentemente focam as variá- veis do paciente como preditoras de resultados, enquanto as pesquisas de resultado amparam seus achados de eficácia em pequenas amostras experi- mentais. Os autores do estudo concluem que os dois tipos de delineamento são ainda conduzidos separadamente naquele país, o que está contribuindo para um atraso do desenvolvimento da área, já que se entende que os tipos de investigação são complementares. O material documentado na literatura sobre a avaliação de terapia vem apontando para diferenças na percepção de terapeutas e pacientes sobre o processo psicoterápico. Cuijpers, Li, Hofmann& Andersson (2010) reali- zaram uma metanálise de 48 estudos com 2.462 pacientes com depressão e observaram uma discrepância entre a pontuação destes e dos terapeutas nos indicadores de melhora no tratamento. Os autores evidenciaram que instru- mentos de autorrelato dos pacientes sobre o impacto do tratamento na de- pressão resultam em tamanhos de efeito mais baixos quando comparados a medidas clínicas de sintomas aplicadas pelos terapeutas (por exemplo, o BDI). A hipótese dos pesquisadores para os resultados é de que os autorre- latos são mais conservadores na aferição de mudanças ou que as medidas clínicas são mais sensíveis à mudança produzida pelos tratamentos. Outra interpretação possível nesse caso seria a de que a experiência dos pacientes não coincide com as variáveis operacionalizadas nas escalas utilizadas para depressão. Mesmo assim, os autores sugerem a utilização dos dois tipos de acesso como formas de avaliação complementares em pesquisa clínica. O término unilateral e inesperado do tratamento por iniciativa dos pacientes, de acordo com metanálise de Murdock, Edwards & Murdock (2010), foi interpretado por terapeutas como associado a causas situacionais ou a fatores do cliente, como problemas financeiros ou patologias específi- cas, e não como falhas do tratamento. Lambert & Shimokawa (2011) afirma- ram que os terapeutas, em geral, não percebem quando os pacientes pioram Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 127 em tratamento (de 5-14% dos pacientes conforme metanálises). Ao contrá- rio, tendem sempre a superestimar os ganhos terapêuticos. Os pesquisadores propuseram então um protocolo de coleta contínua de feedbacks dos pacien- tes para avaliar se a ferramenta melhoraria a percepção preventiva dos psi- coterapeutas em relação à piora dos pacientes. Com o uso da ferramenta, observaram a redução pela metade do número de processos terapêuticos fracassados, provavelmente pelo termômetro da qualidade dos atendimentos criado pelos protocolos. A partir desses achados os pesquisadores recomen- daram a utilização de métodos formais de coleta de feedback de pacientes como parte da rotina diária de psicoterapeutas. Apesar da vasta difusão da literatura internacional sobre pesquisa em psicoterapia, como atestado por inúmeros periódicos dedicados exclusivamente ao tema, tais estudos nem sempre foram bem aceitos no campo. Sobre tal as- pecto Morrow-Bradley & Elliott (1986) já chamavam a atenção na década de 80 para as desconfianças de psicólogos quanto à pesquisa. Os autores evidenciaram que 73% dos psicólogos norte-americanos, filiados à divisão de psicoterapia da APA (APA 29), não utilizavam resultados de pesquisa para orientar sua prática. Esses psicólogos argumentavam que o maior conhecimento que adquiriam para balizar a condução dos tratamentos vinha da experiência com os pacientes. A maioria dos psicólogos entrevistados na pesquisa eram críticos de estudos que desconsideravam a complexidade da situação terapêutica, mas diziam-se abertos a investigações que valorizassem a descrição cuidadosa do tratamento e associ- assem os resultados com eventos significativos do processo. As metanálises de pesquisas em psicoterapia ainda recebem muitas críticas, como, por exemplo, no que se refere à generalização de achados e os problemas de viés nos procedimentos de compilação de achados clínicos (Lincoln, 2010). Além disso, são criticados os tipos de psicoterapia costu- meiramente analisados. As terapias estudadas duram em média de 12 a 16 semanas, tendo ou não sido criadas para serem breves (Parry, Roth & Kerr, 2007). Um dos questionamentos nesse caso recai sobre a adequação de se avaliar em curto prazo o impacto de terapias que foram concebidas para se- rem mais longas. Ou mesmo generalizar achados de uma intervenção com data de término estipulada desde seu início. Isso é especialmente delicado quando se consideram achados que indicam que 50% dos pacientes sentem- se melhor somente após 20 sessões e 75% após 50 atendimentos (Lambert & Archer, 2006). Apesar das limitações, as metanálises continuam sendo importantes em um campo com tamanha produção de pesquisas, desde que se considerem os erros de generalização e critérios de análise imperfeitos desenvolvidos. Para Witter (1999), pesquisas de compilação de resultados, sendo a metanálise uma dessas variações, devem representar de 5 a 8% do total de trabalhos em suas áreas de origem. Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes128 Para responder às críticas, os estudos de psicoterapia vêm amplian- do seu escopo de investigações e diálogos nos últimos dez anos. Buboltz, Deemer & Hoffman (2010) realizaram uma análise de conteúdo dos assuntos publicados na revista Journal of Counseling Psychology de 1999 a 2009 e encontraram que as áreas mais comuns de pesquisa foram multiculturalismo e/ou diversidade, avaliação de testes e medidas, personalidade, resultados de terapia e suporte interpessoal e/ou social. O editor da revista Psychotherapy entre os anos de 2004 e 2010, por sua vez, identificou seis principais tendên- cias na psicoterapia que emergiram continuamente durante seu encargo (Gel- so, 2011): 1) integração de técnicas e relação terapêutica; 2) foco na integra- ção teórica; 3) esforços de integração de pesquisa e prática; 4) revisões mais específicas acerca da integração; 5) integração do conhecimento biológico e das neurociências; e 6) integração da diversidade e considerações culturais na psicoterapia. CONVERGÊNCIAS ENTRE AS PSICOTERAPIAS Argumenta-se frequentemente que as terapias cognitivo-compor- tamentais, que tão bem se utilizam de estudos de eficácia, são mais eficazes para tratar determinadas patologias – como a depressão, por exemplo – com- paradas a outros modelos terapêuticos. Lynch, Laws & McKenna (2010) questionaram esta crença, a partir de uma metanálise, na qual observaram que a terapia cognitivo-comportamental não é mais efetiva em reduzir sin- tomas de esquizofrenia e transtorno bipolar, quando comparada a outras terapias, sendo apenas levemente superior no tratamento da depressão. Esses achados convergem, em alguma medida, com as evidências documentadas na literatura, desde o estudo de Rosenzweig, de 1936, que sugere que terapias mais tradicionais são equivalentes em termos de eficácia (Dodo Effect). Luborsky et al. (2002) encontraram resultados semelhantes sobre a equidade de eficácia terapêutica transteórica, ao examinar 17 metanálises de comparações de tratamentos uns com os outros, em contraste com as compa- rações usuais de tratamentos com controles. Devido a essa suposta equiva- lência entre as terapias, autores têm sugerido que os estudos se voltem, em vez de para a efetividade de uma técnica específica, para os fatores comuns das terapias, para conhecer melhor como estes operam (Wood & Joseph, 2010). De fato, existem fortes indícios da relação entre fatores comuns e melhora, e de que estes são superiores a fatores específicos para explicar a variação nos resultados dos tratamentos (Aveline et al., 2007). Alguns fato- res comuns entre tratamentos elencados por Lambert & Ogles (2004) foram: a) fatores de apoio como a catarse, a aliança terapêutica, o afeto, o respeito e Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 129 a empatia do terapeuta; b) fatores de aprendizagem como o insight, experi- ências emocionais corretivas ou a assimilação de experiências problemáti- cas; e c) fatores de ação como o domínio de si, o teste da realidade ou a re- gulação comportamental. Para Arkowitz (1995), dentre esses fatores co- muns, a relação terapêutica ocupa posição de destaque, o que foi corrobora- do pelas metanálises de Horvath & Symonds (1991) e de Martin, Garske & Davis (2000). Esses estudos mostraram que nas mais diversas terapias existe uma associação entre relação terapêutica e resultados. Uma forma de avaliar esse impacto, independenteda abordagem terapêutica, é confiar a avaliação e o julgamento do processo ao paciente e ao terapeuta. Um exemplo disso é o estudo em pequena escala de von Knor- ring-Giorgi (1998). A pesquisadora investigou detalhadamente as caracterís- ticas essenciais que compõem a experiência de clientes em momentos chave da psicoterapia. Através de entrevistas fenomenológicas, constatou-se que mesmo com a ampla variação de percepções sobre os eventos considerados marcantes é possível se chegar a um denominador comum entre os pacientes. Segundo von Knorring-Giorgi, a estrutura da experiência de um evento con- siderado marcante entre pacientes pode ser assim caracterizada: Um tipo de evento marcante em terapia acontece no contexto do processo terapêutico e ocorre em uma situação em que o cliente irá finalmente aceitar as emoções e percepções sobre si, assim como a dos outros e do mundo circundante, com certa familiaridade, mas com certa desvantagem à segurança do eu ao confrontá-lo de forma desafiadora. O evento mar- cante acontece dentro de uma relação terapêutica sentida como segura e de apoio e é uma consequência de um novo tipo de relação florescente dentro da vida do cliente. Os constituintes contextuais concomitantes ao longo de todo o processo terapêutico e necessários para os eventos mar- cantes ocorrerem são: motivação para a mudança, abertura, confiança e segurança, envolvimento emocional na situação. Os constituintes contex- tuais proximais ou imediatos necessários para a ocorrência dos eventos marcantes são: aumento de consciência, mudança de crenças, aumento da tensão, e desafio a crenças antigas. (p. 44) Em um contexto mais amplo, Cook, Biyanova, Elhai, Schnurr & Coyne (2010) realizaram uma online survey com 2.200 terapeutas norte- -americanos. Os resultados indicaram a psicoterapia individual como a mo- dalidade preferencial de tratamento. Além disso, a pesquisa evidenciou que há uma integração psicoterapêutica em andamento naquele país. Isto porque as técnicas de tratamento mais utilizadas pelos terapeutas, ainda que de abordagens teóricas distintas, referem-se à priorização do calor, aceitação, compreensão e empatia na relação terapêutica. O que comprova que a prefe- rência dos psicoterapeutas está em sintonia com as percepções dos clientes Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes130 sobre as características marcantes da relação necessárias à mudança. Em contraste, as técnicas menos mencionadas nos relatos dos terapeutas foram biofeedback, neurofeedback, terapias corporal e energética e hipnoterapia. Powell, Hunter, Beasley & Vernberg (2010), através de uma análi- se de prontuários de clientes e de dados de terapeutas acerca de sua forma- ção, observaram: a) uma associação positiva entre o sucesso no tratamento psicoterápico e o número de horas de contato direto com os pacientes; b) o número de experiências práticas extra-acadêmicas do terapeuta; e c) o núme- ro de dias de treinamento no programa de doutorado. Terapeutas com mais treino e experiência assistiram a um maior número de mais aulas relevantes, receberam maior número de supervisão de terapeutas experientes e utiliza- ram mais procedimentos de avaliação e intervenção terapêutica em um nú- mero mais diverso de clientes. Os autores informaram que estes profissionais estão mais cientes das práticas baseadas em evidências, dos fatores comuns às terapias e de temas éticos e multiculturais relevantes para o tratamento; sugeriram que programas de treinamento enfatizem a importância dos fatores comuns e da aliança terapêutica por estarem associados a resultados favorá- veis. Os autores concluíram que com o tempo, os terapeutas aprendem mais acerca de suas próprias forças e fraquezas e desenvolvem uma orientação terapêutica moldada por seu entendimento do campo e por seu estilo inter- pessoal. Um movimento muito importante que norteia os estudos em psi- coterapia atualmente é a prática baseada em evidências. Esta, segundo Norcross, Beutler & Levant (2006) tem um longo passado, que coincide com a história da clínica, mas só se tornou relevante na saúde mental da década de 90, originalmente na Grã-Bretanha e depois se difundindo nos EUA e outros países. Nessa época foi também criada pela American Psychological Association (APA) a Society of Clinical Psychology’s (Division 12) Task Force, com esforços para identificar tratamentos apoiados empiri- camente (Empirically Suported Treatments – ESTs) e tomá-los como base para programas de treinamento. Desde 1993, um comitê que deu continuida- de a essa divisão da APA construiu e elaborou uma lista de intervenções apoiadas empiricamente, manualizadas, com base em estudos randomizados, controlados e de rigor metodológico. Esta lista não tem caráter mandatório, mas serve como orientação para os profissionais. Para Norcross & Lambert (2006), apesar das muitas contribuições, o movimento baseado em evidências pode ser enganoso por três razões: 1) as declarações favoráveis a um tipo de tratamento, em detrimento de outros, têm sido exageradas, sendo advogadas intervenções para transtornos especí- ficos, sem se levar em conta a complexidade da psicoterapia, dos pacientes, Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 131 dos terapeutas e do lado humano da terapia; 2) negligencia a importância da relação terapêutica e das qualidades interpessoais que contribuem subs- tancialmente para os resultados terapêuticos; 3) ignora a complexidade do paciente e suas circunstâncias individuais, tratando-se estes a partir exclusi- vamente de seu diagnóstico. Fundamentados nestas colocações, os autores sugerem que a relação terapêutica seja enfatizada na psicoterapia baseada em evidências. Outros temas importantes ainda despontam na literatura interna- cional com grande destaque, como por exemplo, as contribuições diretas das neurociências para a psicoterapia e os desafios e promessas da psicoterapia pela internet. No entanto, a revisão se deterá por ora aos temas apresentados para contrastar a literatura internacional com a publicação nacional em psi- coterapia e pesquisa. PSICOTERAPIA E PESQUISA: REVISANDO OS PERIÓDICOS NACIONAIS Para uma análise mais específica do desenvolvimento do eixo pes- quisa-psicoterapia no Brasil realizou-se um levantamento junto a 31 periódi- cos nacionais de psicologia. Os periódicos selecionados constavam nos es- tratos A1/A2 e B1/B2, conforme classificação de periódicos (2008) do sis- tema Qualis da Capes. Utilizando o descritor “psicoterapia” como critério inicial de busca, chegou-se a 275 artigos, sem restrição para períodos especí- ficos de publicação. O montante de 275 artigos é acrescido de mais 100 arti- gos, quando considerados os periódicos Revista Brasileira de Psiquiatria, Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul e o Jornal Brasileiro de Psi- quiatria. Esses três periódicos foram adicionados às revistas de Psicologia por publicarem consistentemente textos sobre psicoterapia. Após leitura cuidadosa dos resumos, o número de 375 artigos foi reduzido a um corpo de 235 artigos, uma vez que muitos artigos selecionados na primeira filtragem faziam menção à palavra psicoterapia, mas não se caracterizavam como es- tudos sobre psicoterapia. Vale ressaltar que o presente levantamento de publicações é um es- forço preliminar e rudimentar para compreender a complexidade da produ- ção acadêmica nacional sobre psicoterapia. Todavia, esse esforço deve ser entendido como o início de um trabalho necessário de identificação de ca- racterísticas já consolidadas e direções para o futuro da pesquisa no campo. A análise do material concentrou-se na identificação do tipo de estudo realizado pelos artigos, a partir da descrição dos resumos. Buscou-se Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes132 caracterizar a identidade de propósito dos trabalhos, através de uma análisede conteúdo temática indutiva e quantitativa (DeCastro, Abs & Sarriera, 2011). Indutiva porque cria as categorias de tematização a partir do contato progressivo com o material e quantitativa porque se referencia em índices de contagem para definir o critério de estabilidade e representatividade de cada categoria. A lógica indutiva foi traduzida pela identificação de padrões de essencialidades metodológicas e de propósito dos estudos. Já a contagem permitia que o mesmo artigo fosse alocado em duas ou mais categorias dis- tintas. Na análise do material, o conjunto de 235 publicações permitiu criar inicialmente seis categorias de identificação essencial. Essas categorias versam sobre a natureza do propósito dos estudos. São elas: 1) Revisão de Literatura ou estudo teórico, 2) Proposição de técnicas, instrumentos ou avaliação, 3) Análise de casos clínicos, 4) Descrição de perfil de populações clínicas, 5) Relatos de experiência, e 6) Pesquisas de resultado em psicoterapia. Em uma segunda leitu- ra o tema “Análise de casos clínicos” mostrou-se redundante, pois 90% dos artigos aí identificados eram sobreposição dos artigos alocados na categoria “Proposição de técnicas, instrumentos ou avaliação”. Cada categoria pode ser assim descrita: A) Revisão de Literatura ou estudos teóricos (n=131) – são os artigos em que o propósito é a aprecia- ção teórica sobre algum conceito clínico ou realizar uma revisão teórica de estudos sobre uma prática ou teoria psicoterapêutica. Um bom exemplo da categoria é o artigo de apreciação teórica de Ribeiro (2007), no qual se dis- corre sobre o conceito de resistência na psicoterapia grupo-analítica e sua possível ponte para os conceitos gestálticos de figura e fundo e aqui e agora. Outro exemplo alocado na categoria é a revisão de literatura sobre modelos e técnicas da terapia cognitivo-comportamental para o tratamento da fobia social (D’El Rey & Pacini, 2006). Na categoria B, que versa sobre a proposição de técnicas, instru- mentos ou avaliação (n=53) encontram-se os artigos em que se apresentam técnicas de intervenção clínica, instrumentos de avaliação psicoterapêutica ou avaliação de práticas com populações distintas, em sua maioria casos clínicos. Como exemplo pode ser citado o estudo de casos múltiplos em psicoterapia baseada na mentalização com crianças que sofreram maus-tratos (Ramires & Godinho, 2011). No estudo, as pesquisadoras avaliaram o efeito da terapia psicanalítica no desenvolvimento da função reflexiva e da capaci- dade de mentalização das crianças que sofreram maus-tratos. No grupo de artigos C estão os trabalhos de descrição do perfil de populações clínicas (n=26), nos quais são realizados mapeamentos ou des- crição de populações clínicas, especialmente de clínicas-escola. São também Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 133 considerados nessa categoria os artigos que descrevem as representações sociais de populações específicas sobre a psicoterapia ou serviço de saúde mental. Um bom exemplo da categoria é o artigo de Campezatto & Nunes (2007) em que se realiza uma descrição do perfil de atendimento e da evolu- ção clínica dos casos atendidos em clínicas-escola da região metropolitana da cidade de Porto Alegre. Na categoria D estão os artigos de relatos de experiência (n=14), nos quais o foco é descrever livremente uma experiência, seja de intervenção clínica individual ou em grupo, sem propor ou avaliar um modelo de inter- venção em outras situações semelhantes. Exemplo de relato de experiência é o artigo de Bruns (2011) sobre os desafios da pesquisadora na supervisão de casos clínicos envolvendo o despreparo dos jovens terapeutas no atendi- mento da diversidade afetivo-sexual. A autora faz uma reflexão crítica, em forma de ensaio teórico combinado com relato de experiência, para discutir a chamada “clínica pós-moderna”. Na última categoria (E) estão listadas as pesquisas de resultado em psicoterapia (n=19), que consistem em estudos clínicos com diferentes deli- neamentos metodológicos e que analisam o impacto de modalidades psicote- rapêuticas sobre o resultado ou o processo terapêutico em si. Exemplo dessa categoria é o trabalho de Yoshida (2008) sobre o processo de mudança e o resultado de psicoterapias breves em pacientes de clínicas comunitárias bra- sileiras. O trabalho chama atenção exatamente pela utilização de um método de estimação exploratório, baseado em autorrelatos, para a avaliação de mu- danças clinicamente significativas derivadas da psicoterapia breve. A autora indica a exploração do método como satisfatória, mas frisa que a demanda por técnicas exploratórias ocorre pela inexistência no Brasil de medidas normativas mais precisas. Outro estudo representativo da categoria é a pes- quisa publicada em um periódico da psiquiatria sobre os fatores associados ao abandono precoce da psicoterapia de orientação psicanalítica (Hauck et al., 2007). Os autores se basearam em dados demográficos, diagnóstico psi- quiátrico, escala de qualidade de vida, e saúde global para determinar quais aspectos em interação estariam associados ou não ao abandono do trata- mento analítico em um grupo de 56 pacientes. Concluíram que a gravidade da psicopatologia, isoladamente, não teve associação com o abandono, mas que um menor nível de insight e defesas mais imaturas (especialmente narci- sistas) foram associadas a maiores taxas de abandono. Nessa matriz de categorias impressiona o número elevado de arti- gos na categoria A, apontando para uma tradição de estudos teóricos sobre psicoterapia no Brasil. Ainda que teóricos, os estudos não se limitam à revi- são pura de postulados de teorias clássicas de psicoterapia, mesmo sendo Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes134 esse traço prevalente entre esse grupo de pesquisas. Há alguns indícios de que a publicação nacional mais recente está se sintonizando com temas con- temporâneos e com novas técnicas difundidas na literatura internacional. Falta, contudo, uma extensão das discussões teóricas para a análise rigorosa do processo psicoterapêutico ou fomento prático das novas possibilidades, como atesta Santeiro (2008) em relação à escassez de estudos sistemáticos em clínicas-escola brasileiras. Uma demonstração da produtividade e emergência de novos temas da pesquisa em psicoterapia são os levantamentos conduzidos por Eneas (2007, 2008) junto ao periódico Journal of Consulting and Clinical Psycho- logy. A pesquisadora brasileira chama a atenção para a evolução dos temas de pesquisa no periódico como, por exemplo, investigação de mudanças psíquicas, busca por evidências científicas através do cruzamento de deline- amentos metodológicos, e necessidade de articulação entre pesquisa e prática clínica. É interessante notar aqui que, indiretamente, ao mesmo tempo em que se sinalizam as direções da pesquisa internacional constata-se o descom- passo do Brasil na produção desse tipo de investigações. A constatação da falta de trabalhos planejados em longo prazo e com base em produção sistemática na área está diretamente ligada com a categoria B do levantamento (Proposição de técnicas, instrumentos ou avaliações). Os arti- gos nesse estrato propõem a generalização de técnicas ou avaliação em popula- ções específicas, mas prioritariamente se baseiam em estudos de caso clínico único ou estudos de caso coletivo. Não se trata de criticar os estudos de caso, mas fazer uma reflexão sobre o porquê de as pesquisas recorrerem insistente- mente a esse método e não a outros disponíveis na literatura. Ainda nesse grupo encontram-se alguns trabalhos de validação de instrumentos para serem utiliza- dos em contexto de psicoterapia, mas que não são utilizados, pelo menos con- sistentemente, no conjunto de artigos nacionais aqui avaliados. Pesquisas que utilizam critérios rigorosos de avaliação do impacto de modalidades terapêuticas em grupos maiores(Categoria E) são ainda escassas e aparecem com maior frequência nos três periódicos de psiquiatria avaliados (n=13). Curiosamente ocorre uma distribuição parelha entre estudos de eficácia (6) e estudos de efetividade (7) entre as pesquisas de resultado na psiquiatria. Outro dado relevante a esse respeito é que as pesquisas com controle experi- mental pré-intervenção e pós-intervenção abrangem psicoterapias cognitivo- comportamentais (Habigzang et al., 2009) e psicanalíticas (Hauck et al., 2007). Realizadas as breves considerações fica-se com a impressão de que a literatura nacional tem buscado aproximar-se dos estudos internacionais, mas ainda de forma tímida. Nesse sentido, observam-se boas revisões de literatura que aprofundam o conhecimento teórico em determinadas intervenções, além de Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 135 uma preocupação em validar instrumentos que possam servir ao atendimento na clínica. Carecem, todavia, as análises sistemáticas para a avaliação da efetivida- de de práticas específicas em contextos delimitados. A forte impressão nesse quesito é que o caminho das investigações de resultados tem sido trilhado pela psiquiatria. Um caminho que não se caracteriza pelo discurso médico puro e que, por conseguinte, considera as teorias clássicas da psicologia. A respeito de um possível diálogo entre psiquiatria e psicologia, van Raan, Visser, van Leeuwen & van Wijk (2003) conduziram uma análise biblio- métrica do fator de impacto de pesquisas de psicoterapia a partir de um exame do periódico Psychotherapy Research. Os autores constataram que uma análise simples de frequência de citação dos artigos nos periódicos cria uma ilusão de homogeneidade e unidirecionalidade do campo de investigação da psicoterapia. Contudo, uma segunda análise mais ampla revelou o grande alcance das pesqui- sas publicadas no periódico examinado, indicando uma vasta rede de interação com outros campos em áreas científicas distintas. Por exemplo, um grande inter- câmbio de citação entre estudos de psicoterapia publicados tanto em jornais de psiquiatria quanto de psicologia. Tal achado leva à reflexão de que o consumo desse tipo de publicação se dá pelo incentivo do próprio meio quando este se encontra fortalecido e com uma agenda clara de pesquisa, independente dos grilhões profissionais. Essa demonstração de diálogo entre as áreas não parece ser acompanhada pela literatura brasileira, quando analisadas as referências para os modelos de condução de pesquisa. Embora preliminar, a revisão de publicações no campo oferece uma perspectiva das prevalências de investigação em psicoterapia. Um estu- do mais detido, sobre as nuances metodológicas dos artigos de pesquisa e sobre as características marcantes das investigações teóricas, se faz necessá- rio em uma futura análise do material levantado. Um exame das especifici- dades dos estudos de caso clínico também seria desejável, dada a grande quantidade de pesquisas utilizando o delineamento. CONSIDERAÇÕES FINAIS A principal ênfase desse texto foi evidenciar o contraste entre a produção científica das pesquisas em psicoterapia no Brasil e internacional- mente. Portanto, partiu da hipótese que a falta de publicações significativas na área contribui para a imaturidade de discussões contextualizadas sobre o tema, especialmente na agenda de regulamentação da psicoterapia no país. Como descrito ao longo do capítulo, a pesquisa no tema é tão vasta na lite- ratura internacional que sem a existência de metanálises não haveria como fazer uma compreensão global do desenvolvimento e nuances das pesquisas. Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes136 No Brasil, ainda que exista alguma tradição pontual em pesquisas em psico- terapia, é notável a descontinuidade e fragmentação temática das investiga- ções. Importante esclarecer com isso que não se deseja uma homogeneização das investigações sem um conhecimento prévio de sua pluralidade. Contudo, a crítica à fragmentação se dirige antes à falta de diálogo e continuidade das pesquisas do que propriamente à diversidade de seus focos de interesse. A análise preliminar do levantamento de publicações nacionais in- dicou uma supervalorização de textos teóricos e revisões de literatura, ao mesmo tempo em que demonstrou uma escassez de pesquisas empíricas sistematizadas sobre o processo ou resultados de psicoterapias. Um maior fomento da pesquisa se justificaria apenas por esta constatação, sem levar em consideração ainda qual seria o delineamento de pesquisa mais adequado para a condução das investigações no contexto brasileiro. A preocupação sobre a adequação dos modelos de condução de pesquisas seria uma conse- quência do incentivo inicial por se pesquisar psicoterapia. Este incentivo inicial parece representar o desafio de deixar de lado a identidade teórica para focalizar nos efeitos do tratamento em suas diversas ramificações. Por enquanto o que se observa é uma tendência a se seguir teorias, em um mo- vimento que se aproxima mais da autoridade e da tradição, do que da busca por informação. A psiquiatria brasileira tem encontrado um caminho interessante nesse sentido para impulsionar as pesquisas, alternando entre delineamentos mais experimentais e delineamentos quase experimentais em diferentes abordagens. Vale frisar, a última informação é importante, delineamentos experimentais e quase experimentais em pesquisas com embasamento teórico tanto psicanalítico quanto cognitivo-comportamental, por exemplo. Ou seja, uma clara sintonia com a literatura internacional sobre o desconforto de se dividir o campo confor- me abordagens teóricas. Este seria um bom modelo para o planejamento das pesquisas em psicoterapia na psicologia em longo prazo, qual seja o da ênfase nos delineamentos metodológicos. Além de um planejamento em longo prazo, seria importante também investir em pesquisas em grande escala, como alterna- tiva aos estudos de caso, prevalentes na literatura nacional. As boas linhas de pesquisa empírica, já desenvolvidas por psicólogos brasileiros com populações clínicas, devem ser impulsionadas para que ocorra um aumento da variedade e tamanho amostral investigado. Além disso, mais escalas ou instrumentos avaliativos específicos à psicoterapia devem ser valida- dos ou gerados para o contexto brasileiro. Esses aspectos devem se tornar área prioritária de investimento, tanto do Conselho Federal de Psicologia como das agências nacionais de fomento. O incômodo com a falta de discussões mais aprofundadas e com repercussões práticas para a regulamentação da psicoterapia Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 137 já é notada desde o início dos anos 2000, primeiramente com o Conselho Fede- ral de Psicologia, e depois por entidades como a ABRAP (Associação Brasileira de Psicoterapia), criada em 2004. No entanto, em ambos os casos vemos uma clara dissociação entre vontade e atuação, por meio de pesquisas, para a constru- ção de conhecimento sólido para a área. Avanços nas pesquisas e na inovação psicoterápica são ainda se- riamente prejudicadas: 1) por posições contrárias à pesquisa científica, como evidenciado por Jardim (2008); e 2) pela oposição à prática privada de psi- coterapia como em discursos do tipo “anti-elitização-psicológica” defendido em alguns fóruns de discussão do CFP. De um lado, a desconfiança dos psi- cólogos brasileiros quanto à pesquisa em psicoterapia coincide com a postu- ra dos psicólogos norte-americanos na década de 80 (Morrow-Bradley & Elliott, 1986). De outro, a alegação de que o modelo de clínica privada tradi- cional é elitizante parece negligenciar o fato de que a clínica deve ser poli- valente e que já vem sendo ampliada para diferentes contextos e classes so- ciais há alguns anos. As redefinições do setting clínico já são notadas há algum tempo como, por exemplo, nas modalidades de AconselhamentoTe- rapêutico e Acompanhamento Terapêutico, áreas em que a pesquisa nacional sistematizada é quase inexistente. Mesmo com a ampliação do espectro, o argumento contrário à psicoterapia é infeliz, pois confunde engajamento legal e político com conhecimento técnico em saúde. Em relação à desconfiança em relação à pesquisa científica, Kazdin (2006) informa que tradicionalmente o psicólogo clínico, diferentemente dos pesquisadores, volta-se para o processo, na base de que cada caso é um caso. Deste modo, acompanha-se a melhora do paciente em uma lógica diferente da pesquisa experimental, que inclui o pareamento com grupo de controle. O trabalho clínico consistiria, então, em estudos de caso, onde são narradas possíveis causas para o problema, como é concebido o caso, qual tem sido o progresso do paciente e como o tratamento é oferecido. Contudo, esses tera- peutas não costumam avaliar sistematicamente o serviço que oferecem. Em geral, baseiam-se em seus pontos de vista, experiências e impressões, cons- truindo uma narrativa composta de inferências e conexões entre possíveis etiologias, curso do tratamento e efeito de intervenções. Apesar destas características, grandes esforços têm sido conduzi- dos por parte dos pesquisadores para conscientizar os terapeutas da necessi- dade de realizarem avaliações sistemáticas (Kazdin, 2006). Tratamentos requerem monitoramento criterioso para subsidiar decisões e encaminha- mentos quando necessários. A discussão de casos clínicos, mesmo reconhe- cendo a riqueza de detalhes e a ilustração de conduta terapêutica, não é sufi- ciente para prover informações fundamentais ao processo, pois estão limita- Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes138 das à percepção do terapeuta. Esta limitação pode ser superada com a utili- zação de medidas sistemáticas, as quais proveem um corpo organizado de conhecimento que norteia intervenções futuras. O desenvolvimento de ins- trumentos de medida de fácil aplicação pelos clínicos tem sido o foco princi- pal da pesquisa orientada para o paciente, que busca diminuir a cisão entre clínica e pesquisa. Vejamos nos próximos anos se esta nova forma de pes- quisa terá algum impacto no Brasil. Após essa breve exposição, concluímos que no Brasil há um longo caminho a ser trilhado na produção de conhecimento empírico em psicotera- pia. Os estudos publicados no exterior podem nos servir de guia para uma agenda nacional de pesquisa, sendo conciliados interesses locais. Ao mesmo tempo, faz-se necessária uma maior compreensão de fatores culturais e con- textuais que influenciam a maneira como lidamos com o conhecimento ci- entífico no campo da psicoterapia. Se a escassez de estudos em psicoterapia no país lança-nos em um mar de incertezas, por outro lado, a urgência de que se regulamente a prática exige que saiamos de uma posição acomodada e tomemos uma atitude. Nem que seja a de questionar o valor dado à pesquisa nos moldes em que é concebida nesses últimos anos. REFERÊNCIAS Arkowitz, H. (1995). Integrative theories of therapy. In D. K. Freedheim (Ed.). 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No II Congresso Brasileiro de Psicologia: Ciência e Profissão, em 2006, parte das ideias que aqui serão ex- postas se abriram para uma discussão que ainda hoje se mantém. Psicoterapia com formação é a qualificação teórica, técnica e pessoal para a prática clínica, sem a tutela de regulamentos que tornem obrigatória esta busca. Os desafios estavam postos desde então: tornar visível para a categoria dos psicólogos uma discussão que era institucional e construir conhecimento para que o tema da regulamentação fosse problematizado e não instituído. A participação em debates, grupos de trabalho no Rio Grande do Sul e na plenária do Conselho Federal de Psicologia; nos Estados Gerais da Psicanálise1, com instituições formadoras, no “Ano da Psicoterapia” em 1 O “Estados Gerais da Psicanálise” foi um movimento que se formou na França em 2000, e que em 2003 se reuniu no Rio de Janeiro, e em 2005 em São Paulo, defendendo a posição quanto à “auto- Bárbara de Souza Conte144 2009, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, e no I Encontro de Psico- terapeutas promovido pelo Grupo de Trabalho – depois Comissão de Psico- terapia no CRP-07 em 2010 –, formamos subsídios teóricos e políticos para o que será apresentado a seguir. AS ORIGENS DA FORMAÇÃO: PSICANÁLISE/PSICOTERAPIA Freud (1905/1990a) reunido com seus colegas no Colégio de Mé- dicos de Viena fala dos fundamentos do procedimento terapêutico por ele denominado de “método analítico de psicoterapia”, que se distinguia do método catártico e da sugestão. Assegura frente aos colegas que sua terapia “(...) é a de mais penetrantes efeitos, a que permite avançar mais longe, aquela pela qual se consegue a modificação mais ampla do doente” (p. 249). Ao descrever um dos fundamentos da psicoterapia analítica, re- marca o descobrimento e a tradução do inconsciente que se realiza sob uma permanente resistência por parte do doente e que o tratamento seria uma pós- -educação para vencer as resistências interiores. Assim, a partir das palavras de Freud, podemos pensar que psicote- rapia e psicanálise, naquela época, eram entendidas como sinônimas, uma vez que se referiam a um método capaz de lidar com as resistências incons- cientes, fruto da sexualidade infantil. A análise da transferência se opunha à sugestão consciente, do então método catártico. Um século se passou e, hoje em dia, se faz necessário diferenciar a psicanálise (enquanto terapia analítica) da psicoterapia (dita de orientação analítica), uma vez que se armou uma confusão conceitual no campo do tratamento psíquico, que tem como resultado um abandono de recomenda- ções sobre o fazer psicoterápico e um descuido ético da posição do terapeuta, que nos leva a discutir quais os parâmetros para pensar as psicoterapias. Falamos do que é o fazer e de quem faz, tornando indissociável a reciproci- dade entre o terapeuta e o método que baliza o campo da prática. Apesar da necessária diferenciação entre a psicanálise e a psicoterapia, marcamos que os temas propostos para a discussão – a formação e a regulamentação – são pertinentes e atuais a ambos os campos. Sabemos que a psicoterapia, enquanto teoria que passa a sustentar um modo de fazer é uma prática anterior ao surgimento da psicanálise, e teve sua origem em 1872, pelo médico inglês Daniel Tuke (1827-1895) e foi po- nomia de sua disciplina em relação a todas as formas de psicoterapia hoje praticadas e sua indepen- dência em relação aos poderes públicos e a uma regulamentação pelo Estado, seja ela qual for”. (Major, 2003, p. 141) Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 145 pularizada por Hippolyte Bernheim (1840-1919), neurologista, como um método de tratamento das doenças ditas psíquicas, através da hipnose. Freud trabalhou a diferença de abordagem em relação a seus mes- tres e ensinou que um método de tratamento pressupõe uma teoria que o sustente, que os procedimentos estejam em consonância com essa teoria e afirmou a necessidade de treinamento para quem aplica o método, que supõe a supervisão. Esse conjunto é chamado de formação. O profissional assim habilitado2 se distingue do charlatão, uma vez que sua prática é ética. Entendemos que a diversidade das psicoterapias da mente surgidas ao longo deste tempo e o afrouxamento dos critérios relativos à formação, conforme marcamos acima, se inter-relacionam e produzem extravios e des- vios no campo da prática psicoterápica. Esta, por vezes, é exercida à margem de qualquer critério ético e técnico ou, se guarnece com normatizações. Roudinesco (2005) aponta que as escolas psicoterápicas agrupam- -se estruturalmente em três categorias e, historicamente, em três gerações sucessivas. A primeira – e mais antiga – é a das práticas oriundas da hipnose e da sugestão. A segunda, surgida a partir dos anos 30, provém das correntes dissidentes da psicanálise implantadas nas grandes clínicas norte-americanas voltadas para o tratamento das psicoses ou das patologias ditas “culturais”. A terceira teve origem nas demandas místicas, de higiene psíquica e corporais dos anos 60 – essa última incluindo correntes psicoterápicas como a Terapia Familiar, a Análise Transacional, a Gestalt-Terapia, o Psicodrama e, atualmente a Psicoterapia Cognitivo-Comportamental. Cada uma das inúmeras formas de psicoterapia se inscreve nestas linhas de origem e tem métodos específicos, a partir dos pressupostos que sustentam essa inscrição, a saber: a transferência, a sugestão ou a medicação. Porém, o descuido na formação frente a essa diversidade introduz o tema do charlatanismo, dito o outro da ciência e da razão, ou seja, “aquele que em- preende um tratamento sem possuir conhecimentos e capacidades requeri- das” (Roudinesco, 2005, p. 30). Esse parece ser o ponto da questão que hoje se apresenta, uma vez que a diversidade de práticas vai dispensando ou afrouxando o conhecimento das capacidades necessárias para seu exercício. Não por acaso, este ponto também foi objeto de discussão nos pri- mórdios da psicanálise, ou seja, de que forma seria feita a transmissão dos princípios técnicos e éticos e quem estaria apto para o exercício da psicanáli- 2 O Psicólogo está habilitado para a prática da psicoterapia através da Resolução do Conselho Federal de Psicologia 010, de 20.12.2000, que diz em seu artigo primeiro: “a psicoterapia é prática do psi- cólogo por se constituir, técnica e conceitualmente, um processo científico de compreensão, análise e intervenção (...) para o enfrentamento de conflitos e/ou transtornos psíquicos de indivíduos ou grupos”. Bárbara de Souza Conte146 se? A história do movimento psicanalítico ensina que inicialmente a um “Comitê Secreto” (Grosskurth, 1992) estava destinado pensar o futuro da psicanálise. Posteriormente, a função soberana do poder foi entregue por Freud à International Psychoanalysis Association (IPA), instituição criada em 1910, e considerada instância legítima de transmissão e controle de seus membros. No entanto, múltiplas cisões ocorreram desde lá até nossos dias, até não mais se sustentar uma legitimidade única. Inúmeras associações bus- cam transmitir e assegurar o adequado exercício da prática entre seus mem- bros, reassegurando um pressuposto freudiano que é da ciência moderna, o descentramento do sujeito, ou seja, o homem, em sua razão, não detém o domínio do conhecimento. O inconsciente existe e as pulsões sofrem seus embates com a cultura para serem transformadas e dominadas. Verificamos, desta forma, que o lugar de alteridade que a psicanálise perseguiu quanto à formação é também necessário para a formação das práticas psicoterápicas. Outro ponto não menos importante, além da legitimação da trans- missão através das sociedades formadoras, é o de quem está habilitado a exercer a prática terapêutica das doenças psíquicas. Freud (1926/1990b), no início do século passado, escreveu sobre a questão da análise leiga, uma vez que havia uma denúncia de exercício ilegal da profissão contra Theodor Reik. Freud o defendeu neste artigo, em um debate com um suposto interlo- cutor com o qual vai descrevendo o que entende por análise leiga. Refere-se a três significados: o leigo (não médico), o profano (não re- ligioso) e o amador (não competente). Verificamos assim que desses três possí- veis sentidos de leigo, como sinônimo de charlatão, Freud deu precisão ao termo “leigo”, descrevendo-o como aquele que: 1) não estava familiarizado com a ciência da vida sexual, com seu inconsciente, através da sua própria análise, e 2) com a delicadeza da técnica da psicanálise, através da arte da interpretação, do combate às resistências e do lidar com a transferência. “Qualquer um que tenha realizado tudo isso não é mais leigo no campo da psicanálise, (...) ninguém deve praticar a análise se não tiver adquirido o direito de fazê-lo através de uma for- mação específica. Se essa pessoa é ou não um médico, a mim me parece sem importância” (Freud,1926/1990b, p. 214). Desta forma, tornou claros os princí- pios que habilitavam o analista para seu ofício. Freud ensinou que a formação é o que capacita o analista em sua prá- tica, e que a transmissão da psicanálise se processa com rigor e independência, podendo seus analistas/membros ser de várias origens do campo do conheci- mento (médicos, psicólogos, educadores). Instituiu um debate sobre a questão da análise leiga e gerou um embate entre seus pares uma vez que havia posições como a de Ernst Jones (Kohon, 1994) de que “a Sociedade Britânica é, de modo praticamente unânime, da opinião de que, na maioria, os analistas deveriam ser Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 147 médicos, mas que uma proporção de analistas leigos deveria ser livremente ad- mitida, desde que certas condições sejam preenchidas” (p. 26). Interessante marcar a brecha onde a regulamentação se inscreve justamente na ambiguidade ou ambivalência frente à legitimidade do exercí- cio de uma prática. Verificamos que há um deslizamento da legitimidade da formação para a regulamentação do ofício. Freud buscou também não confundir a psicanálise com o judaísmo, chamando o ariano Jung para ser o primeiro presidente da IPA, e separando a psicanálise enquanto prática terapêutica e método de investigação da cren- ça religiosa. Outro ponto, que não por acaso é discutido hoje no âmbito da psicoterapia, é a confusão que muitas vezes ocorre entre o que é um método terapêutico e uma crença religiosa. Confusão que traz de volta o uso da su- gestão e não o de perlaboração como uma forma de adquirir conhecimento de si e mudança psíquica. A figura do terapeuta passa a ser entendida como a de um “guru”, sem o qual o sujeito não se reconhece e, portanto, perde o livre-arbítrio, tornando-se submetido a um “abuso transferencial/sugestivo”. Curioso é pensar que apesar de toda defesa de Freud pela autonomia no ofício da psicanálise, foi somente em fevereiro de 1978 que na França – cen- tro do conhecimento psicanalítico atual – o tribunal de Nanterre reconhece a independência da atividade psicanalítica pela especificidade de seu método e de seu objeto, portanto, não mais considerando como exercício ilegal da medicina aqueles profissionais não médicos que exerciam a psicanálise. E assim, observamos no decorrer do século XX a manutenção do embate entre os que se colocam em uma posição de defesa da transmissão inde- pendente e os que tentam regular quem deve exercer a prática psicanalítica e psicoterápica, desviando o foco do chamado tripé de uma formação – a análise pessoal, os seminários teóricos e a supervisão – para tentativas de regulamenta- ção, que adquirem outro viés corporativista, econômico, religioso ou estatal. PRELÚDIOS E DESENVOLVIMENTOS DA REGULAMENTAÇÃO Roudinesco (2005) aborda os interesses e a multiplicidade de variá- veis que permearam o tema da regulamentação da psicoterapia na França: o charlatanismo, o abuso sexual e a diversidade de teorias psicoterápicas. Mar- camos que pelo menos duas das variáveis são as mesmas do debate que se iniciou com a psicanálise, em 1910, o charlatanismo e a diversidade de teo- rias psicoterápicas – nova versão para o tema da formação e transmissão. Na terceira variável descrita pela autora, podemos pensar que o amor de transfe- rência e a sexualidade infantil tomaram o rumo perverso do abuso sexual. Bárbara de Souza Conte148 Em nosso tempo, enquanto a centralidade da proposta deveria ser o critério para a garantia de uma formação ética e qualificada, a regulamenta- ção se introduz. Percebemos as tentativas de regulamentação como um desli- zamento do campo da formação para atender às demandas de políticas do Estado. Em outra perspectiva, o deslizamento se opera nas próprias institui- ções ditas formadoras que se outorgam o poder de deter o conhecimento e se colocarem como hegemônicas, visando um ganho econômico, como temos presenciado nas seitas religiosas interessadas nas regulamentações. Como dar conta do binômio diversidade/qualificação da formação, levando em conta as inúmeras denúncias éticas que ocorrem em relação às práticas utilizadas? Além disso, como não questionar o interesse quanto à regulamentação das psicoterapias em função de demandas entre os órgãos representativos das categorias profissionais envolvidas e a demanda do Esta- do em seus diversos setores relativos à saúde? Aguiar (2005) nos relata o exemplo da trajetória da regulamenta- ção que ocorreu em 1994 quando a Associação Francesa de Normatização havia sido interpelada pela Federação Francesa de Psicoterapia no sentido de codificar as psicoterapias. Deste encontro foram tiradas duas conclusões: a necessidade de elaborar trabalhos referentes à profissão de psicoterapeuta e a informar o “consumidor” sobre o lugar da psicoterapia fora do campo médi- co. Em 1999, foi apresentada a chamada Lei Accoyer e em 2001, o projeto de Mme. Gilot, que propunha a profissão de psicoterapeuta para médicos e psicólogos. Após muitos debates, os franceses destacaram três propostas de re- gulamentação: a oficialização do título de psicoterapeuta, garantido por for- mação dispensada em instituições privadas credenciadas pelo Ministério da Saúde; a transferência da psicoterapia para o controle do poder médico; e a reivindicação de um Conselho Internacional das Profissões da Psique. A partir do relato deste artigo, podemos observar que em qualquer das propos- tas o risco é o de fechamento, encastelamento profissional e a consequente perda da liberdade do ofício de psicanalista, uma vez que o critério da transmissão pela formação fica deslizado para regulações por títulos e regu- lações por uma categoria profissional hegemônica ou conselho profissional. Em 12 de dezembro de 2003, a noção de título de psicoterapeuta é abandonada e a Lei Accoyer é aprovada. A lei dispunha que as diferentes categorias de psicoterapia fossem fixadas por decreto do Ministro da Saúde e exercidas por médicos e psicólogos com as qualificações requeridas e esta- belecidas pelo mesmo decreto. Alguns psicoterapeutas foram inscritos nas listas departamentais e outros foram dispensados. As instituições entregaram seus anuários a fim de que o Estado tivesse condições, no futuro, de respon- Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 149 der à angústia dos pacientes, vítimas ora de terapias mágicas, ora de iniciati- vas sectárias. Outro ponto importante desta discussão foi que as associações psi- canalíticas reivindicaram a autonomia e a especificidade da psicanálise, dei- xando de fora os psicanalistas das listas ou anuários. Efeito disto foi que a psicanálise deixa de ser uma psicoterapia e instala-se nova celeuma: quem é que estaria no direito de exercer a psicoterapia se a psicanálise não mais seria uma psicoterapia? Quem estaria em exercício ilegal da profissão? Assim se deu a regulamentação da psicoterapia na “vanguarda” francesa, que delegou os critérios de qualificação de psicoterapeutas ao Es- tado. Deste exemplo podemos retirar algumas considerações que nos dizem respeito neste debate. Ao longo das discussões verificamos que foram rejei- tadas propostas como a criação de um “conselho de psicoterapia” ou de tí- tulos de especialistas, pois se tornava certamente “missão impossível” a de- cisão de quem daria esta chancela ou referendo. Igualmente rejeitada a tutela da prática da psicoterapia a uma profissão – a de médico. Novamente não por casualidade, mas por um processo histórico, este tema é objeto de discussão no Brasil. No campo da Psicologia, várias instituições se organizam para garantir a formação do psicoterapeuta e sua relação necessária com a prática: as universidades que fornecem a formação básica; a Associação Brasileira de Ensino da Psicologia, na avaliação das instituições formadoras; as formações privadas ou acadêmicas que capacitam os profissionais psicoterapeutas de diferentesorientações e os Conselhos na fiscalização da prática. São instituições que têm suas especificidades e que buscam dialogar levando em conta o psicólogo em formação ou o psicotera- peuta em sua prática. Nem sempre este debate atinge a categoria dos psicó- logos e, além disso, novos atores passam a fazer parte desta cena, como ve- remos a seguir. O Projeto de Lei do Ato Médico, em sua “nova versão”, desvia o tema da qualificação para o exercício da psicoterapia, para o de competência no sentido corporativo, uma vez que foi aprovado com o mesmo vício de origem que deu início à manifestação de repúdio das outras categorias pro- fissionais. O PL 7.703, de 2006, do Senado Federal, que dispõe sobre o exercício da medicina (aprovado em outubro de 2009) apresenta os mesmos pontos do PLS 268/02 que foi exaustivamente discutido e negociado con- juntamente com quase todos os Conselhos3 envolvidos (menos o de Odon- tologia, que negociou à parte) até 2007, quando foi votado e rejeitado em seu 3 Farmácia, Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Nutricionistas, Serviço Social, Enfermagem, Educação Física. Bárbara de Souza Conte150 texto original. O projeto aprovado mantém os dois pontos de litígio: tornar privativo ao médico o diagnóstico psicológico das patologias mentais e a prescrição terapêutica – posição que entendo corporativista, uma vez que no corpo da lei que dispõe sobre o exercício da medicina, “define” sobre os que os demais profissionais estão aptos a realizar – e; no segundo ponto, torna privativo ao médico a direção e a chefia dos serviços médicos (artigo que deixa margem a ser entendido que em qualquer serviço de saúde, por se tra- tar de saúde e ter médicos na equipe, a chefia é do médico, o que desconside- ra o princípio de multiprofissionalidade e integralidade que é conquista do SUS e visa descentralização na equipe). Não é, no entanto, a regulamentação da profissão de médico o en- trave para a discussão. A chamada “lei do ato médico” nos faz questionar e estar atentos para hierarquias e verticalizações de funções, que desviam o tema da qualificação para o da competência. Observamos uma tentativa de apropriação do saber, corporativista, como reserva de mercado tanto das funções exercidas, como da própria forma de tratar a saúde que é também tema de debate em nossa categoria profissional. Observamos institucionalizações quando, ao lado da questão da com- petência para o exercício da psicoterapia, ocorre a discussão de sua utilização no sistema de saúde pública e nos seguros de saúde privados. Fatos que se eviden- ciam a partir da Reforma Psiquiátrica (datada de 1998) e da inclusão de psicólo- gos psicoterapeutas em planos de saúde pela Agência Nacional de Saúde Com- plementar (Lei 10.216/01). Quais as modificações técnicas possíveis para aten- der as especificidades destas demandas institucionais? Qual o lugar ético da prática da psicoterapia? É necessário desconstruir o que até agora foi alcançado na prática psicoterapêutica para que se reinscreva o saber da psicanálise e da psicoterapia na rede pública, por exemplo? Esse tema passa a ser objeto de discussão também do Conselho Federal de Psicologia que, juntamente com o Conselho Regional de São Paulo, solicita ao Sr. Luis Alberto Hanns e um grupo independente de espe- cialistas de diversas orientações – que podemos dizer não representativos da categoria – para que elaborassem um projeto nacional de diretrizes para a psicoterapia. Assim nasceu a Associação Brasileira de Psicoterapia – ABRAP sob os auspícios da CFP e da Associação Brasileira de Psiquiatria (a partir de seu Departamento de Psicoterapia), em maio de 2004. Em seu Es- tatuto de fundação, no artigo III, lemos em seu ponto 2 que a referida associa- ção visa: “(...) servir como um centro de recursos e informações sobre assuntos relativos à psicoterapia, notadamente fornecendo a pacientes, entidades go- vernamentais, universidades e centros de pesquisa e ao público em geral subsídios sobre o estudo da arte no campo da psicoterapia e suas aplicações”. Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 151 Tem início, também, a implantação dos títulos de especialistas, auferidos pelo Sistema Conselhos e dos credenciamentos das instituições formadoras, vistoriadas pela ABEP. Listas e regulamentações que passam a funcionar como reguladoras da qualificação profissional. Na tentativa de ordenar ou, melhor dizendo, controlar o campo das psicoterapias, evidenciamos um paradoxo: qualificamos a prática, através da transmissão institucional dos fundamentos que sustentam esta prática, ou reproduzimos formas de controle sobre os pares e as instituições que formam especialistas criando hierarquias de poder? Dito de outra forma, a preocupa- ção quando se fala em “regular o campo das psicoterapias” está na qualifica- ção da prática ou na produção de controle institucional? Defendemos a cria- ção de instâncias de participação e discussões entre pares como forma de que esse “espinhoso” tema da qualificação não fique silenciado por regulamenta- ções. O modelo proposto é semelhante ao utilizado para a transmissão e for- mação, ou seja, entre pares. No caminho inverso de instâncias de participação e discussão entre pares, verificamos como exemplo as empresas de medicamentos que, con- trolando o mercado e transformando manifestações psíquicas em doenças que necessitam de medicação, fazem da tristeza uma depressão “tratada” com fluoxetina; transformam a neurose de angústia em doença do pânico, que encontra em um ansiolítico sua solução; ou ainda, a falta de limite trans- formada em TDAH que se regula com ritalina, chamada a “droga da obediên- cia”. A expressão do sofrimento, acolhida e entendida na diversidade dos saberes profissionais, fica no domínio do especialista e da medicalização, gerando debates corporativistas a respeito de quem “entende das doenças e deve tomar conta delas”. O risco desta posição é ser esquecido o lugar do sujeito na construção de si mesmo, e deste sujeito no processo terapêutico. Desvia-se, então, a discussão da qualidade de formação para a da competência. Competência que ao invés de estar assegurada pelo saber passa a ser entendida então como uma ordem de coação: quem pode e quem não pode, atribuição que verificamos estar em um suposto domínio na ordem médica e na ordem jurídica. Assim, temos situações bizarras como a prescri- ção de tratamento psicoterápico ter que passar pelo médico, como acontece com alguns planos de saúde, onde o psicólogo, mesmo que habilitado, passa- ria a ser considerado um charlatão ao não obedecer tal prescrição. Portanto, remarcamos que a formação bate de frente com a regu- lamentação, tomada desse modo. Pode-se pensar que quanto mais controle é exercido com uma política de vigilância ou de segurança, mais estímulo há para o surgimento do charlatanismo. Bárbara de Souza Conte152 À GUISA DE CONCLUSÃO: PERSPECTIVAS FUTURAS Depois de examinarmos o que está ocorrendo no campo das psico- terapias e os desdobramentos da regulamentação, repensamos o que evoluiu neste debate. No VII Congresso Nacional de Psicologia (CNP), promovido pelo Sistema Conselhos e realizado em 2007, houve apenas uma tese sobre psicoterapia (num total de 150). Esta tinha como diretriz: 1) estabelecer, em parceria com outras entidades, um diálogo permanente com a categoria dos psicólogos, buscando favorecer condições e exigências mínimas para o exer- cício da psicoterapia por psicólogos, estimulando a qualificação na formação (graduação) e 2) promover uma discussão nacional sobre regulação, regula- mentação e organização do campo da psicoterapia. Instalou-se o debate sobre a quem competia gerir esta discussão na categoria dos psicólogos e que motivou o ano da Psicoterapia em 2009, com fóruns de discussão nas diversas regiões brasileiras. Passados três anos, no