Logo Passei Direto
Buscar

O Campo das Psicoterapias, Reflexões Atuais

Ferramentas de estudo

Passei Direto Aniversário

Quer receber 70% de desconto para assinar o PasseIA?

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 1
Adriano Furtado Holanda (Organizador)2
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 3
O CAMPO DAS PSICOTERAPIAS
REFLEXÕES ATUAIS
Adriano Furtado Holanda (Organizador)4
ISBN: 978-85-362-
Brasil – Av. Munhoz da Rocha, 143 – Juvevê – Fone: (41) 4009-3900
Fax: (41) 3252-1311 – CEP: 80.030-475 – Curitiba – Paraná – Brasil
Europa – Escritório: Av. da República, 47 – 9º Dtº – 1050-188 – Lisboa – Portugal
Loja: Rua General Torres, 1.220 – Lojas 15 e 16 – Centro Comercial
D’Ouro – 4400-096 – Vila Nova de Gaia/Porto – Portugal
Editor: José Ernani de Carvalho Pacheco
??????, ?????????????????.
????? ?????????????????????./ ?????????????????????
Curitiba: Juruá, 2012.
??? p.
 1. ?????. 2. ?????. I. Título.
CDD ???.???
CDU ???
Visite nossos sites na internet: www.juruapsicologia.com.br e www.editorialjurua.com
e-mail: psicologia@jurua.com.br
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 5
Adriano Furtado Holanda
Organizador
O CAMPO DAS PSICOTERAPIAS
REFLEXÕES ATUAIS
Autores
Adriano Furtado Holanda (Org.)
Adelma Pimentel
Bárbara de Souza Conte
Fernando Luis González Rey
Francisco Martins
Marcelo M. Nicaretta
Maria Adélia Minghelli Pieta
Maurício da S. Neubern
Thiago Gomes de Castro
Valeska Zanello
William Barbosa Gomes
Curitiba
Juruá Editora
2012
Adriano Furtado Holanda (Organizador)6
CONSELHO EDITORIAL
¾ Benno Becker Junior
• Doutorado em Psicologia – Universidad de Barcelona,
U.B., Espanha. • Mestrado em Pedagogia – PUCRS.
• Especialização em Métodos e Técnicas de Ensino
– PUCRS. • Graduação em Psicologia – PUCRS. • Gra-
duação em Educação Física – UFRGS.
¾ Cristina Maria Carvalho Delou
• Doutorado em Educação: História, Política, Socieda-
de – PUCSP. • Mestrado em Educação – UERJ. • Es-
pecialização em Educação – UERJ. • Graduação em
Psicologia – PUCRJ. • Graduação em Licenciatura
em Psicologia – PUCRJ.
¾ Djalma Lobo Jr.
• Psicólogo e Parapsicólogo. • Coordena grupos psico-
terapêuticos focados na autoestima e no autoco-
nhecimento. • Desenvolveu projetos com pacientes
portadores do vírus HIV, com parceria do Ministério
da Saúde, e trabalha na área de prevenção de DST e
AIDS. • Desenvolve trabalhos de Cuidando do Cui-
dador para Psicólogos, Assistentes Sociais, Agentes
de Saúde, Enfermeiros, Médicos e Professores.
• Atua na área de Saúde Mental com o trabalho de
desenvolvimento do psicoeducacional para pacien-
tes com depressão e transtorno bipolar. • Colunista
da revista FREEX, com a coluna comportamento e
sexualidade. • Palestrante. • Atua em Curitiba, São
Paulo, Campinas, Indaiatuba e Rio de Janeiro.
¾ Gabriel José Chittó Gauer
• Graduado em Medicina (1984). • Especialização em
Psiquiatria pela PUCRS (1988). • Doutorado em Me-
dicina e Ciências da Saúde pela PUCRS (1995). •
Pós-doutorado no Departamento de Psicologia da
Universidade de Maryland (2001), na área de Cons-
trução e Validade de Testes, Escalas e outras Medi-
das Psicológicas e abordagem Cognitiva dos Trans-
tornos de Ansiedade. • Professor titular da PUCRS.
• Tem experiência na área de Avaliação e Interven-
ção em Psicologia e Psiquiatria, Validação e Aplica-
ção de Instrumentos e Psicologia da Saúde, atuando
principalmente nos seguintes temas: violência, psi-
copatia, ansiedade social, depressão, adesão ao tra-
tamento e psiconeuroimunologia.
¾ Gilberto Gaertner
• Mestrado em Engenharia de Produção – UFSC. • Es-
pecialização em Formação em Psicologia Somática
Biossíntese – Instituto Brasileiro de Biossíntese. •
Especialização em Formação em Integração Estru-
tural Método Rolf – Sociedade Brasileira de Integra-
ção Estrutural. • Especialização em Formação em
Bioenergia Raízes – Centro de Estudos do Homem. •
Especialização em Psicologia Corporal – Orgone Psi-
cologia Clínica. • Especialização em Orientação em
Terapia Sexual – Clínica do Sistema Nervoso. • Es-
pecialização em Capacitação em Técnicas Corporais
– Clínica do Sistema Nervoso. • Graduação em Psi-
cologia – PUCPR.
¾ Luiz Antonio Penteado de Carvalho
• Médico Especialista em Ortopedia e Traumatologia.
• Membro titular da Sociedade Brasileira de Ortope-
dia e Traumatologia, SBOT. • Mestre pela UFPR.
• Professor efetivo na Unicentro.
¾ Julimar Luiz Pereira
• Mestrado em Educação Física – UFPR. • Especializa-
ção em Treinamento Desportivo – UFPR. • Gradua-
ção em Licenciatura em Educação Física – UFPR.
• Professor da UFPR.
¾ Salvador Antonio Mireles Sandoval
• Mestrado em Ciência Política – University of Texas
at El Paso. • Mestrado e Doutorado em Ciência Po-
lítica – The University of Michigan. • Atualmente é
Professor titular da PUCSP, e Professor assistente
Doutor-ms3 da Universidade Estadual de Campinas,
Faculdade de Educação. • Pós-doutorado no Center
for the Study of Social Change, New School for So-
cial Research. • Pesquisador convidado no David
Rockefeller Center for Latin American Studies, Har-
vard University como J. P. Lemann Visiting Scholar.
• Graduação em Latin American Studies – University
of Texas at El Paso. • Foi sócio-fundador e Presiden-
te da Associação Brasileira de Psicologia Política –
ABPP. • Fundador da Revista Psicologia Política
sendo um dos primeiros coeditores dessa revista. •
Professor visitante, Concordia University, Montreal
Canadá em 2008.
¾ Editora da Juruá Psicologia: Ana Carolina de Carvalho Pacheco Bittencourt
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 7
APRESENTAÇÃO
“Psicoterapias, para além da técnica”. Este poderia ser outro tí-
tulo para a proposta deste livro. Isto porque a intenção deste projeto, que
ora apresentamos ao leitor, é exatamente debater questões que ficam aquém
e além da técnica psicoterápica. Não se trata de simplesmente questionar o
instrumental do psicoterapeuta ou de apontar como se deve trabalhar com
esta ou aquela patologia, ou nesta ou naquela abordagem. Mas de questio-
nar o lugar e o próprio fazer do psicoterapeuta.
Qual o fazer do clínico? Qual o lugar da psicoterapia? Quais os
diversos sentidos que podem coexistir no campo das psicoterapias? Todas
estas são questões importantes, pois fundamentam não somente a prática
que será posteriormente exercida por um profissional, como também sedi-
menta leituras diversas para um fenômeno eminentemente contemporâneo,
como é a psicoterapia. Além disso, num momento em que se discute o cuida-
do ou a atenção integral à saúde (com promoção, proteção e recuperação
da saúde); num momento em que se procura sedimentar novos olhares para
a saúde mental; num momento em que se fala reiteradamente de parcerias e
de mobilização em todos os contextos da sociedade, este debate ganha con-
tornos ainda mais relevantes.
O campo das psicoterapias aponta para um conjunto complexo de
modos de compreensão e de atuação, para um campo onde coexistem ele-
mentos das mais diversas áreas do saber e, na atualidade, para um repertó-
rio que transcende profissões. Esta complexidade se expressa pelo próprio
modo de constituição desse campo ao longo da história e mesmo em nosso
país.
Podemos associar a prática psicoterapêutica ao fazer médico,
desde os tempos dos Antigos – não nos esqueçamos dos clássicos escritos de
Adriano Furtado Holanda (Organizador)8
Fílon de Alexandria e sua famosa escolas dos “terapeutas” – e, mesmo que
consideremos a gênese da clínica na contemporaneidade, a estaremos asso-
ciando a diversos nomes da área médica. Ocorre que, paulatinamente esta
prática foi sendo legada a outras profissões e, talvez possamos pensar assim –
a título de uma “concessão” da própria medicina, como veremos nos textos
que tocam questões históricas da psicoterapia neste livro – seja pela parti-
cularização (ou “subjetivação” ou “interiorização”) do sofrimento ou mesmo
pelo “deslocamento” desse sofrimento, de um corpo físico, concreto,objetivo
e palpável, para um “outro lugar”, o “lugar” de um psíquico, de um subjeti-
vo, ou do simplesmente humano, que as ciências da fisiologia, da patologia
médica, da biologia ou da anatomia não davam conta de reconhecer.
Ocorre que toda essa preocupação fora antes da ordem da Filoso-
fia. Afinal, como não reconhecer como referido ao que se compreende mo-
dernamente como psicoterapia, ou simplesmente como “terapêutica” a pro-
posta do gnothi seauton socrático – o famoso dito do Oráculo de Delfos, o
“conhece-te a ti mesmo” – ao que Foucault acrescenta com a expressão
grega epiméleia heautoû, ou à “cura de si”, na concepção latina. Tudo isso
tem seu ponto de encontro na proposta do médico-filósofo Fílon.
Com isto já apontamos o leitor para uma das muitas teses contidas
nos textos que compõem este livro: a de que a suposta dissociação – ou di-
cotomia, separação, distanciamento, oposição – entre sujeito e objeto, entre
subjetivo e objetivo, entre individual e social, é falsa, limitada e errônea, e
não dá conta da necessidade de um olhar complexo para o fenômeno huma-
no. E talvez tenha sido o reconhecimento – mesmo que irrefletido – desta
questão, que fez com que o campo das psicoterapias tenha transcendido o da
medicina.
Mas esta transcendência não foi e ainda não é tranqüila, nem dis-
pensa debates acalorados ou reações que passam ao largo do debate técnico
ou científico, ou filosófico ou teórico. Muitas das vezes resume-se a compo-
nentes ideológicos. Muitas das vezes, resume-se a questões de “mercado”.
E é por tudo isto, pelo reconhecimento de que um debate acerca do
campo das psicoterapias se faz necessário; que este debate não pode ficar
ao largo da complexidade do tema; que o diálogo interdisciplinar e multi-
profissional é igualmente fundamental; que este debate não pode ser prima-
zia ou monopólio desta ou daquela área do saber ou profissão, que nos pro-
pusemos a debater aqui e agora o tema das “psicoterapias”.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 9
Todos os temas foram aqui abordados por profissionais que tem
em comum três características: a) o conhecimento prático e profissional,
que lhes dá a competência no “fazer”, por suas formações, caminhos desen-
volvidos na área – vale a pena ressaltar que aqui convivem perspectivas
teóricas distintas – e experiência no campo a que se propõem estudar (em
outras palavras, todos aqui são “psicoterapeutas”); b) a intenção de unir
esta prática com a reflexão epistemológica e com a pesquisa empírica,
assumindo a missão não apenas de pesquisadores mas de produtores de
conhecimento, e; c) a preocupação com os rumos e com o “lugar” das
psicoterapias no cenário contemporâneo.
Este livro foi pensado e é dirigido a todos aqueles que se interes-
sam, verdadeiramente, pelo campo das psicoterapias; e não faz diferencia-
ção entre os iniciantes e os iniciados, entre os experientes e os curiosos,
entre profissionais desta ou daquela área, por entendermos que nenhuma
práxis subsiste sem um questionamento sobre suas bases, direções, entendi-
mentos e relações.
Esperamos que este livro sirva de reflexão e de base para novos
trabalhos, e que o campo das psicoterapias se torne “figura” no cenário
contemporâneo.
Adriano Furtado Holanda
Organizador
Adriano Furtado Holanda (Organizador)10
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 11
SUMÁRIO
Ensaio sobre a cegueira de Édipo: sobre psicoterapia, política e
conhecimento
Maurício da S. Neubern............................................................................................ 13
Sentidos subjetivos, linguagem e sujeito: implicações epistemológicas de
uma perspectiva pós-racionalista em psicoterapia
Fernando Luis González Rey.................................................................................... 47
Reflexões sobre o campo das psicoterapias: do esquecimento aos desafios
contemporâneos
Adriano Holanda ...................................................................................................... 71
Desnaturalizando o fim social da psicologia clínica
Marcelo M. Nicaretta ............................................................................................. 101
Psicoterapia e pesquisa: desafios para os próximos 10 anos no Brasil
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes...121
Psicoterapia: o percurso histórico nos desafios por uma formação sem
regulamentação
Bárbara de Souza Conte ......................................................................................... 143
Psicoterapias: valoração e avaliação
Francisco Martins / Valeska Zanello...................................................................... 155
Psicoterapia e clínica ampliada: diferenciando horizontes interventivos
Adelma Pimentel..................................................................................................... 165
Índice Alfabético ................................................................................................... 179
Adriano Furtado Holanda (Organizador)12
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 13
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA DE ÉDIPO:
SOBRE PSICOTERAPIA, POLÍTICA E
CONHECIMENTO
Maurício da S. Neubern
Sumário: Édipo Rei: cegueira & reinado. Édipo em Colono: da miséria
à emancipação. Maturidade espiritual. Referências.
No mito de Édipo, o herói se torna cego após descobrir as terríveis
tragédias em que havia se enredado em sua vida. Elas o chocam de uma tal
forma que, como modo de expiação ou talvez de punição, Édipo se fere nos
olhos tornando-se cego, passando a vagar pelo mundo. Ele abandona a ri-
queza, o poder e a opulência de seu reinado em Tebas e, na companhia de
sua filha e de seu profundo sofrimento, perambula pelo mundo na desespe-
rada e dolorosa tentativa de encontrar a si mesmo, tal como rezava a célebre
assertiva do oráculo de Delphos.
Esse mito, tantas vezes apreciado e discutido na formação dos psi-
coterapeutas, inspira a prática de muitos para que seus clientes ou usuários
assumam a dura e corajosa tarefa de se deparar com os próprios dramas mas-
carados pelo inconsciente que os fazem sofrer sem que o percebam e que
necessitam ser decifrados a fim de que algum nível de resolução se torne
possível em suas vidas. No entanto, ele guarda em si uma contradição fatal
tipicamente moderna1 (Santos, 2000), pois a psicoterapia, no geral, encontra
 
1 O termo modernidade é aqui tirado de Santos (2000) e implica o paradigma dominante da ciência
que preconizava um conhecimento privilegiado da realidade. Afastam-se as aparências por meio do
método científico para se chegar a leis universais, de modo a se obter explicação, predição e controle
da natureza.
Maurício da S. Neubern14
enormes dificuldades, quando não possui uma proverbial indisposição, para
levar a cabo e de forma sincera a proposta do conhece-te a ti mesmo. Seja
como propostas teórico-epistemológicas, seja como movimentos sociopolíti-
cos, a psicoterapia ainda parece permanecer nas ilusões vividas por Édipo,
sentada num trono que lhe conferisse poder sobre seu campo, mas num rei-
nado de legitimidade suspeita, principalmente por ser marcado pela cegueira
sistemática a respeito de sua história e das condições de nascimento de seus
próprios saberes.
Nessa perspectiva, o psicoterapeuta acaba por refletir, no exercício
de seu métier, o drama de semelhante contradição. Assim, ao mesmo tempo
em que lhe é exigido que esteja presente na relação terapêutica, atento ao
que se passa consigo e seu cliente, ele deve pensar por meio de uma teoria
que não é sua, posto que elaborada por um grande nome, geralmente em
outro país e até em outra época. Desprovido de sua condição de sujeito, ele
pode trabalhar ativamente para que seu cliente desenvolva alguma forma de
autonomia, apesar de ele mesmo terque se conformar com um papel obedi-
ente quanto a seu marco teórico e, principalmente, quanto aos olhos atentos
de sua comunidade de pertencimento. Numa perspectiva mais ampla ele
pode se filiar a grupos profissionais, integrar movimentos, participar de
campanhas que defendam a legitimidade de seus métodos de maneira a dife-
renciá-lo de tudo que seja místico ou alternativo, de tudo aquilo que possa
ser alvo de desconfiança ou charlatanismo, em suma, de tudo o que se dis-
tancie da promessa moderna de certeza (Stengers, 1995).
É sob a bandeira da ciência que ele espera, explicitamente ou não,
um reconhecimento social que lhe permita ocupar importantes espaços numa
sociedade, como as universidades, a mídia, os serviços públicos de saúde,
justiça e assistência social. Essa mesma cientificidade pode levá-lo a dispu-
tas intermináveis com colegas de profissão que se tornam adversários por
pertencerem a outras abordagens, sendo que esses embates variam de piadas,
debates e disputa de adeptos a verdadeiras sabotagens na peleja por espaços
institucionais. No entanto, toda essa devoção que assume, por vezes, um
caráter fundamentalista, desemboca numa profunda ironia, pois que, na
grande maioria das vezes, ele mesmo parece não saber explicar o que seja
ciência e como sua práxis é legitimada por este saber. A tais indagações, ele
tende a responder com uma expressão que mistura a surpresa e a vergonha e
alguns discursos prontos proferidos por um outro, geralmente algum nome
proeminente de sua comunidade psicoterápica.
Consideramos, aqui, que um quadro com tais nuances apresenta
diversos sintomas, mas é perpassado por uma viga mestra que parece acom-
panhar a formação e a prática do psicoterapeuta em diferentes níveis: a força
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 15
institucional (Stengers, 2001). Ela alimenta e precede as práticas sociais do
“fazer” psicoterapia, ao mesmo tempo em que parece contribuir para a ma-
nutenção das relações de poder nas instituições que promovem a psicotera-
pia, como as universidades, as clínicas, os conselhos profissionais e os cen-
tros de formação. A força não se apresenta enquanto tal, pois sempre está
travestida de alguma coisa aceitável que confirme a autoridade da certeza
moderna que, no entanto, ela mesma não é capaz de sustentar. Logo, diante
das indagações de algum aluno mais inquieto e questionador, é comum que
surjam mecanismos de silenciamento e pacificação que apelam para alguma
autoridade que, em última instância é questionável, mas que aparece ali
como uma espécie de palavra final. “Isto é assim”, respondem ao incômodo
aluno, “porque foi a ciência quem disse!” ou ainda “porque foi o Mestre
quem afirmou!”.
Em termos mais amplos, a ação dessa força de caráter autoritário
abrange desde um processo de domesticação de adeptos e membros, que
podem, inclusive, ser acompanhados por rigorosos mecanismos de policia-
mento, a uma verticalização institucional em que as decisões de caráter polí-
tico acabam tomadas por poucos, em processos que não valorizam o diálogo
e a compreensão das distintas perspectivas envolvidas, incluindo-se aqui
psicoterapeutas, outros profissionais, alunos e usuários. Em suma, enquanto
impõe o silêncio, suas fragilidades ficam pretensamente escondidas e longe
de ameaças o que leva tais instituições a viverem numa espécie de ilusão de
aparências e poder como, em certa medida, vivia Édipo em seu reinado. Não
é sem razões que a reflexão, o questionamento e a valorização do sujeito
costumam encontrar muitas resistências no seio das instituições e práticas
sociais de psicoterapia, sendo, por vezes, alvo de mecanismos de repressão e
imposição de silêncio os mais diversos.
Desse modo, o objetivo deste trabalho é o de ampliar a reflexão
sobre o métier da psicoterapia, destacando as dificuldades implicadas quanto
a voltar seus olhares para suas próprias condições de surgimento e manuten-
ção, aqui caracterizadas como “cegueira”, e ressaltando ainda algumas pos-
sibilidades de crescimento a partir das reflexões que antecedem e emergem
de suas práticas. Tomando-se como analogia o mito de Édipo, no primeiro
momento, semelhante a seu reinado em Tebas, serão discutidas dimensões
epistemológicas, institucionais, sociais e históricas que influenciam direta-
mente as ações e pensamentos em psicoterapia, mas nem sempre são consi-
deradas. Daí a noção de cegueira. Enquanto no segundo momento, similar à
sua trajetória em Colono, serão destacadas um conjunto de possibilidades de
pensar e refletir a partir das relações com essas dimensões.
Maurício da S. Neubern16
ÉDIPO REI: CEGUEIRA & REINADO
Um reinado da antiguidade, tal como concebido no imaginário po-
pular, conferia uma condição única entre os seres humanos: o rei era alguém
favorecido pelos deuses, alguém que poderia ter a última palavra nas diver-
sas questões referentes a guerras, riquezas, vida, morte, liberdade e destino
de homens e mulheres que poderiam, por bem ou por mal, entregar até mes-
mo seus corpos caso o soberano assim desejasse. Cargo almejado por mui-
tos, a disputa pelo trono envolvia, com frequência, tramas e assassinatos,
posto que muitos se candidatavam a assumi-lo a fim de exercerem o poder
fascinante que lhe era próprio.
O caso de Édipo é, de certa forma, particular, pois embora tivesse
assassinado um homem numa disputa, ele desconhecia o fato de que o rival
inesperado fosse seu pai e rei do país para onde se dirigia. Esse aconteci-
mento mórbido marca a história do mito, pois é a partir dele que o destino de
Édipo e dos demais envolvidos se desenrola logo que se rompe o véu da
ignorância que o cobria e se torna conhecido de todos. Porém, enquanto isso
não ocorre, Édipo realiza o feito de um grande herói ao salvar a cidade de
Tebas da esfinge e é agraciado de tal forma que se casa com a rainha, Jocas-
ta, que ele nem desconfiava ser sua própria mãe. Como todos esses dramas
permaneceram em oculto, ele pôde, durante um bom tempo, exercer a condi-
ção de rei despreocupadamente, tendo filhos com a rainha, e um poder sobe-
rano sobre suas terras e súditos, que o reverenciavam por sua bravura, sabe-
doria e heroísmo.
A psicoterapia, por sua vez, acompanhando, quando possível, ciên-
cias irmãs como a psicologia e a psiquiatria, também pode viver uma sensa-
ção semelhante. Seu espaço começa a se delinear no final do século XIX,
quando Tuke a define pela primeira vez, espalha-se pelo continente europeu
por meio de divulgadores prestigiosos, tais como Bernheim e Barres, e acaba
por ganhar notoriedade a partir da obra de Freud, seus sucessores e dissi-
dentes (Carroy, 2000). Nesse ponto destacamos uma contradição um tanto
curiosa presente nas propostas dessa rainha tão complexa. Se, por um lado, a
psicoterapia ocupou um lugar muito importante, ao oferecer uma proposta
emancipatória ao sujeito, uma proposta de reconhecimento e liberdade,
muito ao gosto do individualismo ocidental, por outro, ela não deixou de
exercer um papel colonizador e tirânico típico das ciências modernas (Neu-
bern, 2004). Assim, enquanto ganhou popularidade e importantes espaços
sociais, com uma eficácia capaz de aliviar o sofrimento das pessoas e auxi-
liá-las a produzir novos sentidos para a vida, ela também reproduziu as es-
truturas de poder comuns das práticas modernas, muitas vezes impondo suas
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 17
perspectivas às narrativas próprias dos sujeitos e isolando-os de suas inser-
ções sociais, o que implicou em sofrimento para muitos daqueles que a bus-
caram como forma de ajuda (Gergen & Kaye, 1998). Sua pretensão científi-
ca, presente em diferentes formatos, moveu-a a uma cruzada de desqualifi-
cações contra movimentos ditos alternativos e místicos em atitudes que
variavam das estratégias de diferenciação às ameaças a quaisquer de seus
súditos que ousassem se aproximar de tais saberes.
Em meio a umuso ora rigoroso, ora acolhedor do próprio cetro, a
psicoterapia ganhou seus espaços, fazendo do psicoterapeuta uma figura
visível e desejada aos olhos das sociedades ocidentais. Além de podermos
notar a busca frequente por seus serviços, sobretudo nos consultórios priva-
dos, a psicoterapia tornou-se um lugar social almejado e disputado por al-
gumas profissões que se articulam em diferentes níveis para dominá-la, ao
mesmo tempo em que ainda se tornou um chamariz para profissionais saídos
da academia que desembocam no mercado e se dizem satisfeitos com a pro-
fissão (Bastos & Gondim, 2010).
A figura do psicoterapeuta movimenta um mercado nada desprezí-
vel em termos de livros, cursos, congressos e formações, como de planos de
saúde e tratamentos cada vez mais especializados e também aparece hoje na
mídia em novelas, cinemas e seriados geralmente ocupando uma posição
importante e ligada ao bem, de onde costuma alimentar as ideias de uma
cultura psi cada vez mais forte em tais sociedades. Não é sem razões que
alguns governos, na atualidade, discutem amplamente sua regularização
como profissão, definindo critérios sobre quem poderia exercê-la e em quais
condições seu exercício seria adequado (Roudinesco, 2007). Tamanha é a
importância social, econômica e política desse espaço que tais processos de
regularização geralmente recebem intensa influência monopolista de podero-
sos grupos econômicos, como os laboratórios farmacêuticos e instituições de
psicoterapia, de modo a impedir um debate mais amplo e democrático entre
os diferentes setores que se interessam e praticam a psicoterapia2.
No entanto, à semelhança de um drama shakespeareano, o reinado
da psicoterapia parece se fundar sobre muitos pontos obscuros e movediços,
marcantes por suas contradições que poderiam ameaçar sua coerência, so-
bretudo no que se refere a suas pretensões modernas de ciência (Neubern,
 
2 No caso do Brasil, há uma coincidência curiosa entre a proposta do Ato Médico, segundo a qual
qualquer tratamento, incluída aí a psicoterapia, deveria ser prescrita por um médico, e a criação da
Associação Brasileira de Psicoterapia (ABRAP). Esta associação, criada em conjunto com o próprio
CFP (Conselho Federal de Psicologia), é fonte de polêmicas entre os psicólogos, pois além de in-
cluir uma grande participação de psiquiatras em sua cúpula, é frequentemente acusada de terceirizar
a psicoterapia para um outro órgão, tirando do próprio conselho profissional a discussão aprofunda-
da de um campo tão central para a prática profissional de muitos psicólogos.
Maurício da S. Neubern18
2009). Repetindo o ímpeto moderno de estudar e dissecar o mundo, sem
refletir sobre as próprias origens, a psicoterapia parece se esquecer de sua
própria história, como se esta viesse de um progresso cumulativo até o ponto
em que, pela ação de algum gênio iluminado, tivesse atingido uma racionali-
dade enfim científica. Mais que isso, criam-se mestres fundadores e marcos
históricos específicos, deixando-se no esquecimento autores, acontecimentos
e obras que foram de grande valor para as propostas que hoje vigoram nas
práticas contemporâneas.
É assim que, enquanto Mesmer é por vezes visto como um sujeito
excêntrico, ou mesmo um charlatão, Puységur, Eisdale e Bertrand raramente
aparecem nos livros de história, apesar da grande importância que tiveram
para o movimento do magnetismo animal europeu e das significativas con-
tribuições que propuseram para a prática psicoterápica. Tal cegueira siste-
mática também se estendeu a determinados acontecimentos de grande im-
pacto social e científico que acabaram por ser jogados ao esquecimento, tais
como os julgamentos de Mesmer e dos magnetizadores pelas academias de
ciência da França e a própria relação de Freud com a hipnose. Apenas re-
centemente esses pontos têm sido revisitados e aprofundados de forma críti-
ca por alguns autores (Carroy, 1991, Chertok & Stengers, 1989, Méheust,
1999, Neubern, 2009, & Stengers, 2001), cujos trabalhos lançam novas pers-
pectivas de compreensão da história e das práticas institucionais da psicote-
rapia. Tal esforço, porém, continua distante das universidades e dos grandes
centros de formação de psicoterapeutas que, sobretudo no Brasil, ainda se
mantêm ligados às versões dominantes da história de uma vitória pretensa-
mente triunfante da razão.
Logo, malgrado as propostas inovadoras de releitura histórica, os
percursos em que os psicoterapeutas haurem sua formação encontram-se, em
larga medida, impermeáveis a novas perspectivas de compreensão, o que
contribui para que as reflexões sobre as origens da psicoterapia continuem
distanciadas de autores e acontecimentos importantes. É assim que os livros
de história situam os magnetizadores, ora como pessoas bem-intencionadas,
mas mal fundamentadas, ora como charlatões que não possuiriam mais que
um valor histórico para o nascimento das ciências psi, já que seus métodos
não teriam resistido às exigências da avaliação científica. Entretanto, poucos
se referem às graves inconsistências metodológicas, tal como ocorrido com a
avaliação da proposta de Mesmer em 1784 (Chertok & Stengers, 1989), nem
às estratégias de franca sabotagem com que se forjou a ilegitimidade dos
mesmerismo francês na primeira metade do século XIX (Méheust, 1999).
Tampouco se aprofundam numa reflexão sociológica e epistemológica que
provavelmente incitou posturas tão contraditórias entre os cientistas da épo-
ca, como a dimensão subversiva do mesmerismo, seus questionamentos
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 19
contra a acentuada estratificação social, seu acolhimento nas classes operá-
rias, entre desempregados e imigrantes, a visibilidade social que conferia à
mulher no espaço público e sua aliança a movimentos espiritualistas que
desagradavam à Igreja (Neubern, 2009). Em suma, as versões contemporâ-
neas de história da psicoterapia, às quais geralmente temos acesso no Brasil,
parecem recalcar uma série de processos que trariam importantes reflexões
para os psicoterapeutas atuais tanto de suas práticas quanto a respeito de suas
instituições de pertencimento.
Esse mesmo processo de cegueira com que nos deparamos na
atualidade também teve suas raízes na obra de Freud que, movido pelo de-
sejo intenso de fazer ciência nos moldes modernos, tudo fez para distanciar a
psicanálise da hipnose, filha direta do mesmerismo (Stengers, 1999). É assim
que ele as comparou respectivamente a uma cirurgia e a um procedimento
cosmético, sendo que a primeira – a psicanálise – seria mais eficiente por
abordar a causa subjacente dos conflitos, enquanto a segunda ficaria restrita
a um tratamento superficial focado em sintomas (Freud, 1905/1996a). Essa
precisão cirúrgica seria a causa do sucesso e da superioridade da psicanálise,
que ofereceria curas mais convincentes e duradouras com relação à hipnose,
prática superficial e ineficaz. Essa ideia perpassou a maior parte de sua obra,
sendo colocada como uma espécie de bandeira no movimento psicanalítico
nascente, até que, ao final de sua carreira, Freud (1937/1996b), numa postura
corajosa, finalmente assumiu que os mesmos problemas encontrados na
hipnose, como o retorno e a substituição dos sintomas e a inconsistência
das curas, também poderia ser encontrado na psicanálise. Ele chegou mesmo
a acrescentar que “ainda não se encontrou substituto algum para a sugestão”
(pp. 245-246) e a lamentar que o esforço de Ferenczi em retomar a sugestão
e resolver essas questões não tivesse dado frutos nesse sentido. É curioso
observar como tais reflexões raramente são levantadas por psicanalistas e
psicoterapeutas, e como a mensagem inicial e heroica de Freud, que trazia
uma proposta “superior” de terapia unindo cura e ciência moderna, ainda
parece se manter dominante para grande parte de seus seguidores e sim-
patizantes.
Esses exemplos ilustram como aforça, em suas ações institucio-
nais, pode contribuir para a cegueira à qual nos referimos, pois, ao mesmo
tempo em que ofusca e esconde importantes personagens e acontecimentos
históricos, acusa os pensamentos rivais de não científicos, condenando-os a
um exílio sem fim. A história passa a ser contada por aqueles que vencem a
guerra e ocupam os espaços de produção desse conhecimento que passam a
reproduzir essa mesma história e, curiosamente ou não, a dar continuidade
aos mesmos mecanismos institucionais e políticos de exclusão quanto a
perspectivas alternativas. É assim que o reinado se mantém, não por uma
Maurício da S. Neubern20
postura democrática, mas pelo policiamento das ideias, pelo silêncio imposto
e pela exclusão de qualquer ideia tida como subversiva. Logo, torna-se pos-
sível conceber que o ímpeto reprodutivo de ideias e procedimentos técnicos
com os quais o psicoterapeuta se forma e se mantém em sua prática seja
muito mais valorizado do que a possibilidade de pensar e refletir por si
mesmo. Não é, portanto, por acaso que a psicoterapia acabe repetindo um
problema geral das próprias instituições científicas, nas quais o preconceito
se torna, de um só golpe, tão pertinaz e sutil que pode barrar a capacidade de
reflexão dos sujeitos pensantes, utilizando-se, para tanto, dos mais diversos
mecanismos de policiamento, coação e punição (Morin, 1991, Meyer, 2010).
O que comumente ocorre na formação do pensamento de muitos
psicoterapeutas, sejam neófitos ou veteranos, é um processo devocional,
quase religioso que deve assumir o status de condição para que uma psicote-
rapia seja considerada confiável. Aqui, o mestre fundador, mesmo que nas-
cido em outra época e cultura, torna-se uma espécie de divindade a quem se
deve recorrer insistentemente para que o processo terapêutico possa receber
a chancela de um determinado nome que caracteriza seu pertencimento,
como “psicanalista”, “humanista”, “behaviorista”, “sistêmico”. Pensar pelas
próprias ideias, sentir o próprio corpo, estar ali diante do outro na própria
pele pode se constituir em algo perigoso, principalmente se o processo fugir
do que é esperado pela teoria, ou seja, dos padrões para os quais ela possui
sensibilidade, dos processos que ela pode fazer visíveis e reconhecidos aos
olhos do psicoterapeuta. Pouco importa que o psicoterapeuta não saiba ex-
plicar o que é ciência, que jamais tenha tomado conhecimento das questões
epistemológicas que perpassam sua prática, que sua cultura acadêmica seja
pobre, que suas leituras estejam distantes no passado e que muitas de suas
perguntas sejam silenciadas: importa que ele evoque o mestre e peça que o
mestre assuma seu assento, conduzindo a sessão para que ele, pobre mortal,
não cometa qualquer pecado. A capacidade de criação, portanto, torna-se
muito restrita, de maneira que ele pode se ver obrigado a criar e permanecer
em silêncio, para não ser classificado como herético em sua comunidade, ou
permanecer um adepto fiel, em paz com seus colegas e dono de um pensar
empobrecido em sua rigidez e automatismo.
O que, todavia, parece fugir a seu conhecimento é que o mestre não
tem como ressuscitar, conduzir seu trabalho e tomar posse de seu espírito. O
máximo que pode acontecer, o que consideramos salutar, é que os mestres se
tornem vozes que possam soprar, vez por outra, no espírito do psicoterapeu-
ta, mas que cabem a este as decisões que o processo exige diante de um cli-
ente, pois é ele, o psicoterapeuta, quem está engajado neste processo em sua
corporalidade e em sua subjetividade (Roustang, 2006). Caso não consiga,
porém, adquirir semelhante consciência, seu conhecimento pode, facilmente,
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 21
adoecer e enrijecer sua prática de diferentes formas (Morin, 1990). Pode se
tornar um conhecimento doutrinário, no qual não existe espaço para um
diálogo com a realidade, para que a teoria seja questionada e venha a se re-
formular a fim de atender exigências que não contemplou corretamente. Na
doutrina, existe um ímpeto de confirmação de seus pressupostos indepen-
dente do que ocorra no mundo empírico, de maneira que aquilo que a con-
tradisser pode ser tido como inexistente ou algo indigno do conhecimento
científico. É assim que o psicoterapeuta tende a enxergar suas categorias
mestras em quaisquer fenômenos empíricos, sem atentar para as contradi-
ções próprias destes, como se pudessem ser transportados linearmente para
seu corpo de conceitos.
O pensamento do psicoterapeuta também pode degenerar sob a
forma de um afã tecnicista, onde existe um menosprezo pela reflexão e uma
supervalorização da possível eficácia das técnicas. “O que importa”, dizem
tais psicoterapeutas, “é que essa técnica funcione!”, sem perceber que a bus-
ca pelo resultado o afasta da capacidade de pensar, de modo a desconectá-lo
de uma compreensão ampla do processo, do contexto e da pessoa que está à
sua frente. Além de uma degeneração da prática, essa patologia pode impli-
car riscos para as pessoas, uma vez que o psicoterapeuta só se torna capaz de
enxergar a técnica e não como as pessoas se constituem subjetivamente e se
expressam diante dele. E, por fim, as práticas psicoterápicas também podem
degenerar por meio das pop-teorizações, ou seja, teorias que se tornam ve-
detes da moda, ocupam espaços de mídia ou encontros acadêmicos de forma
superficial e simplista.
As contradições, os conflitos, os obstáculos que fazem parte de
qualquer investigação empírica se desfazem diante de conceitos e técnicas
mágicas, sem jamais aprofundar o problema e discuti-lo em suas nuances e
variações e sem implicar na responsabilidade e protagonismo que um proces-
so terapêutico exige. Seus poderes não vêm apenas da eficácia que possuem,
mas de todo um aparato de mercado alimentado por indústrias de imagens,
fármacos, livros de autoajuda, workshops e cursos que são acessíveis ao
bolso e, por se tornarem objetos de consumo, não envolvem um engajamento
emocional profundo e responsável do sujeito a favor de si mesmo. Técnicas
terapêuticas, como as constelações familiares e a PNL, e diagnósticas, como
TDAH, transtorno bipolar e transtorno do pânico, comumente caem nas ar-
madilhas típicas das pop-teorizações em nosso país.
Face a quadro tão sombrio, Édipo parece vacilar. Ele goza de um
belo reino, com riquezas e poderes, mas já começa a intuir que algo está erra-
do, que seu poderio está ameaçado e que sua sorte pode mudar de uma hora
para a outra, como se inimigos saídos das sombras o surpreendessem e o depu-
Maurício da S. Neubern22
sessem. Mas, face a tal ameaça ele ainda conta, no reino da psicoterapia, com
uma importante arma que pode ser um tiro certeiro nesses inimigos obscuros
que tanto o ameaçam – a eficácia, de preferência, amparada pela ideia de cien-
tificidade. Não importa que essa ideia seja frágil, que o psicoterapeuta nunca
tenha participado de um curso de epistemologia, que a natureza do campo
dessa disciplina seja bem distinta daquela do laboratório: importa apenas a
segurança que essa ideia proporciona, mesmo que ilusória. Assim, as diferen-
tes escolas de psicoterapia se apropriam do espírito moderno e põem-se a justi-
ficar suas propostas em termos de uma verdadeira eficácia, amparada (assumi-
damente ou não) pela cientificidade, e atuando de modo desqualificatório
quanto às propostas rivais: enquanto umas sustentam que a eficácia deve
implicar a resolução de conflitos subjacentes a sintomas, outras respondem
que são os esquemas de reforço de comportamento ou padrão cognitivo que
devem ser modificados; se umas atentam para a emancipação do indivíduo,
outras rebatem que uma psicoterapia sem envolver o relacional não cumpre
seu papel; se umas atestam uma arqueologia do passado histórico, outras afir-
mam convictas que é o “aqui-e-agora” que realmente importa.
Desse modo, numa batalha cruel e feroz apontam as fragilidades uns
dos outros,destacam seus insucessos e imposturas e, numa busca incessante de
espaço e adeptos, ressaltam os valores de suas próprias propostas, a inteireza de
seus pressupostos filosóficos (estes, no geral, pouco pensados), os feitos heroi-
cos de seus expoentes, a ideologia de vida de suas ideias, os sucessos terapêuti-
cos e, de uma forma ou outra, a consistência – e consistência em termos de ciên-
cia moderna – de suas abordagens com relação às outras. “Ufa”, Édipo suspira
aliviado. Enquanto seus súditos se engalfinham numa luta sem precedentes entre
si, aqueles problemas que intuía, realmente ameaçadores, permanecem escondi-
dos e seu reinado, ao menos por enquanto, permanece dourado, risonho e salvo.
Pouco importa o que esteja recalcado, como a proposta moderna de um conhe-
cimento único da realidade (Stengers, 1995); pouco importa que as psicoterapias
jamais tenham conseguido um fiel da balança (como o laboratório) capaz de
manter essa unidade, como o fez a Física; pouco importa que existam mais de
500 abordagens (Roudinesco, 2007) e que, de um modo ou outro, todas possam
efetivar curas. Importa apenas que o reinado esteja salvo, sem que seja necessá-
rio se preocupar com o amanhã.
É por isso que a ideia de eficácia também é muito útil para que o
psicoterapeuta se concentre em suas técnicas e simplesmente ignore toda
uma série de influências sociológicas, institucionais e políticas que precedem
seu métier3. Seja por desinteresse, seja por ignorância, ele desconhece o fato
 
3 Não pretendemos afirmar com isso que a ideia de eficácia seja uma ilusão e não mereça estudos e
pesquisas que busquem compreendê-la. Apenas ressaltamos que ela é perpassada por influências
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 23
de que, quando uma nova abordagem surge, em nome da eficácia, ela des-
qualifica as rivais arvorando-se a uma condição superior, demonstrando,
inclusive, por meio de pesquisas e estudos que seu trabalho é melhor e mais
convincente quanto aos demais, como já alertava Wolberg (1967) há mais de
40 anos. No entanto, o psicoterapeuta também desconhece que essas pesqui-
sas, comumente, são produzidas por pessoas e instituições que definem os
critérios do que seja ou não eficaz, apesar de se esconderem sob a capa da
pretensa neutralidade do pensamento moderno. Assim, em nome desse co-
nhecimento privilegiado e confiável esconde-se toda uma dimensão política
que perpassa os discursos de eficácia, as relações entre abordagens e certos
grupos, como laboratórios, conselhos profissionais e universidades, que atuam
intensamente sobre as práticas sociais ligadas à avaliação de eficácia.
Nesse sentido, é possível identificarmos dois grandes grupos de psi-
coterapias que se diferenciam em termos da definição dos critérios de eficácia.
Por um lado, encontra-se a grande maioria das escolas de psicoterapia, que se
organizam sob o nome de um mestre fundador, tal como se deu com a psica-
nálise de Freud (Stengers, 1999). Apesar de não se sentir a vontade com a
lógica dos laboratórios, seus procedimentos e lógicas, a psicanálise desenvol-
veu uma perspectiva autorreferente de determinação de suas práticas e ideias,
de modo a definir o que seria ou não eficaz, como o que seria uma análise bem
conduzida, uma possível resolução de conflitos ou as possíveis condições para
que um paciente recebesse ou não alta do tratamento. O que determinaria,
portanto, o que seria ou não uma boa análise, malgrado as contradições e difi-
culdades dessa questão, não seria dado pela prática em si, como uma espécie
de revelação que o divã viesse a fornecer, mas pelos “núcleos de inteligibili-
dade”4 (Gergen, 1996) estabelecidos pelas instituições, inspiradas inicialmente
por Freud, mas que encontraram posteriormente outros mestres fundadores,
como Winnicott, Klein e Lacan, sendo ainda amparadas e reforçadas por ins-
tituições e práticas que veiculam e preservam suas ideias, como escritos, for-
mações, supervisões e espaços nas universidades. Entretanto, por algumas das
razões já aqui listadas, o analista, como o psicoterapeuta em relação a suas
próprias teorias, em geral não pensa nas vicissitudes das instituições de psica-
nálise, que esses critérios implicam em negociações no seio de processos rela-
cionais complexos, uma vez que o que ele precisa é ter uma confiança e um
sentir-se à vontade semelhante ao do físico em seu laboratório. E qual não é
seu gozo e sua alegria ao perceber que os conceitos, definidos sob a teoria-mãe
que adota, parecem se confirmar, revelando uma realidade oculta do psiquis-
 
políticas e institucionais e que tais influências também a forjam na mente dos psicoterapeutas, como
dos pesquisadores que definem os critérios do que é ou não eficaz.
4 Segundo Gergen (1996), “núcleos de inteligibilidade” referem-se a grupos que exercem certas
práticas sociais geradoras de sentido.
Maurício da S. Neubern24
mo de seus pacientes, oferecendo-lhe a possibilidade de explicação diante de
um mundo que por vezes o apavora e confunde! E nesse jogo de sedução
extática e erótica com uma teoria que tudo explica que ele se imbui de uma
sensação de supremacia e se põe a hostilizar os colegas de outras teorias, que
são convertidos em adversários por adotarem uma visão tão distorcida do que
é o ser humano. Curiosamente ele não se dá conta de que o pretenso adversário
também pensa o mesmo sobre ele.
Já o outro grupo de terapias é muito bem ilustrado pelo que ocorre
hoje com as terapias cognitivas. Estas possuem uma chancela assumida do
pensamento moderno – via laboratório – sendo amparadas por poderosos
núcleos de inteligibilidade que remetem a instituições de considerável pode-
rio político e econômico no mundo acadêmico e social. Assim, o impactante
posicionamento do MIT (Michigan Institute of Technology) em privilegiar a
expressão “ciências cognitivas” em detrimento do termo “psicologia” é bas-
tante revelador no esclarecimento de como as terapias cognitivas foram e são
amparadas por tais núcleos, o que justifica em grande medida sua vertiginosa
difusão em diferentes países. Nos esquemas abaixo, é possível notar como
existe aqui uma poderosa retomada de aproximação com a classe médica em
termos de práticas sociais e instituições nutridas por núcleos de inteligibili-
dade muito ligados às ciências cognitivas e às neurociências.
Fig. 1. Práticas sociais de inteligibilidade e significação das Terapias Cogni-
tivas (TC).
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 25
No tocante às práticas sociais (fig. 1), as terapias cognitivas apre-
sentam-se irmanadas com práticas muito comuns na atualidade, a começar
pelo diagnóstico altamente influenciado pelo DSM e sua lógica de transtor-
nos. Como os padrões cognitivos (Beck, 1997) apresentam grande afinidade
com a sintomatologia destacada nos transtornos, a terapia cognitiva é veicu-
lada como uma opção eficaz, principalmente quando aliada à prescrição de
psicofármacos, prática cada vez mais comum no cotidiano, que é influencia-
da pela mídia e por profissionais, e ocupa um lugar central em importância
para o tratamento de transtornos mentais e seus sintomas. Não é raro, em tais
práticas, que as contradições referentes a um processo psicoterápico, como a
inconsistência de certas mudanças, passe desapercebida devido ao afã do
psicoterapeuta em comprovar a eficácia de suas técnicas. Toda essa lógica,
que tem na eficiência sua palavra de ordem, já possui uma entrada vigorosa
nas universidades, principalmente com disciplinas de neurociências, filosofia
da mente, psicofarmacologia e psicologia cognitiva, e nos cursos de forma-
ção de terapeutas que proliferaram rapidamente nos últimos anos, o que
compõe o importante eixo das práticas sociais de ensino e formação, princi-
palmentede psiquiatras e psicólogos, mas que, vez por outra, tem atingido e
influenciado outras profissões como educação, serviço social e enfermagem.
Fig. 2. Instituições à sustentação das Terapias Cognitivas (TC).
Maurício da S. Neubern26
Já a dimensão institucional (fig. 2) compõe-se de instituições e
grupos profissionais que alimentam essas práticas e divulgam suas ideias
pela sociedade, principalmente com o intuito de ganhar espaço e visibilida-
de. As universidades e escolas de formação possuem um laço estreito entre
si, uma vez que os interessados em psicoterapia comumente se integram a
essas últimas sem ter ainda concluído o curso universitário, movidos em
grande parte pela sua proposta de cientificidade e eficácia sustentada por
disciplinas como as acima mencionadas, como também por congressos, gru-
pos de pesquisa e workshops. No entanto, os centros de pesquisa, em parti-
cular os laboratórios farmacêuticos, possuem um papel de grande relevância
nessa divulgação, uma vez que financiam profissionais de saúde, congressos
e eventos e parecem possuir também um apelo muito significativo junto à
mídia e aos conselhos e associações profissionais. É curioso notar mesmo
como essa conquista de espaço do cognitivo coincide com a proliferação de
cursos de formação, com a polêmica discussão sobre o projeto de lei do “Ato
Médico”, com a aproximação entre o Conselho Federal de Psicologia e a
classe médica – como no caso da fundação da Associação Brasileira de
Psicoterapia (ABRAP) –, e da mudança de linhas de publicação de certas
editoras, tanto na produção do livro técnico, como dos livros de autoajuda.
Numa perspectiva como essa, a postura de muitos médicos, ao reco-
mendarem a terapia cognitiva e desqualificarem as demais, torna-se compreen-
siva. Atuam aqui como porta-vozes de um Édipo que goza seu reinado de tran-
quilidade aparente, uma vez que não precisam pensar no que antecede e ali-
menta suas práticas (nem em suas implicações sociais), mas apenas nos critérios
de eficiência, ponto este muito bem-vindo numa sociedade de consumo que
privilegia a performance e a velocidade, em diferentes formas de produtividade
ou excelência, e o individualismo, em detrimento dos vínculos sociais e afetivos
(Bauman, 2004). Ele pode dormir sossegado à semelhança do homem europeu
do século XIX que acreditava que a ciência a tudo responderia, mas com a dife-
rença significativa de que, agora, para dormir, existem medicamentos mais
avançados. No entanto, esse sono não possui nada de tranquilo. Ele é habitado
por pesadelos que atormentam seu espírito, justamente porque sua noção de
eficácia, algo capaz de resolver problemas, talvez não tenha sido a mais perti-
nente para as demandas de seus clientes, que ele nem sempre soube reconhecer,
por estar demasiado preso a suas próprias ideias.
Sua proposta de resolução – pragmática e assertiva – seria uma
forma de adaptação da pessoa ao mundo competitivo e de desempenho num
mundo pós-industrial em detrimento de uma proposta emancipatória? Tornar
a pessoa mais competente e resolutiva implicaria em torná-la mais realizada,
com novos sentidos de vida? Esse ímpeto de competência promovida pela
terapia a colocaria numa possibilidade de vinculação e consideração com as
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 27
outras pessoas ou numa postura mais competitiva e individualista com rela-
ção às mesmas? Como ficaria, então, a apropriação do sujeito, a autonomia
que caracteriza tantas terapias (Binswanger, 1935/2008), se o critério de
eficácia, como os meios de atingi-la, vêm de fora, de um outro especializado
no saber moderno, e não do próprio sujeito? E, no caso específico dos psi-
cólogos, essa obsessão pela eficiência estaria em consonância com sua pro-
posta de um olhar diferenciado sobre a pessoa, que tem justificado inclusive
sua inserção nas propostas políticas importantes, como a humanização no
SUS (Ceccim & Merhy, 2009), ou seria uma reprodução do tão criticado
modelo médico? É assim que seu sono se perturba e o incomoda, mas talvez
seja muito difícil poder acordar, uma vez que a tentação da supremacia o
acomoda numa posição em que é melhor manter os olhos fechados.
Semelhante discussão não consiste numa crítica particular à terapia
cognitiva, enquanto proposta técnica e terapêutica, que consideramos ter
evoluído muito nos últimos anos (Beck, 1997; Greenberg, Rice & Elliot,
1993) e que entendemos possuir, em termos clínicos, a mais alta relevância.
A crítica aqui desenvolvida, que poderia ser perfeitamente aplicável ao
behaviorismo nos anos 50 e 60 (Wolberg, 1967), incide não sobre o que a
eficácia dessa terapia pode proporcionar, mas à cegueira que a noção de
eficácia apregoada por seus protagonistas favorece, por tudo o que esconde
em termos políticos e sociais. Refere-se muito mais à forma degenerada do
uso de uma proposta, uma forma que, como tantas outras, associa o ideal de
hegemonia à conquista de espaços institucionais, imaginários e econômicos
e que se torna respaldada pela alienação do psicoterapeuta, que oscila entre a
fascinação e a devoção pela noção de eficácia e sua distância do compromis-
so com reflexão sobre a sua prática em sua sociedade, com a percepção das
relações que existem entre aquilo que faz e o mundo em que ele, seus pares e
clientes vivem. Trata-se, em suma, de sua recusa em tomar o rumo de Del-
fos, onde poderia repensar suas origens, e simplesmente permanecer no con-
forto ilusório e tentador do reino de Édipo que, no entanto, já intui suas pró-
prias fragilidades e, cedo ou tarde, tomará consciência de que tudo o que
construiu pode ruir5 a qualquer momento.
 
5 Tal como se deu com a hegemonia behaviorista nos EUA. Até os anos 70, o behaviorismo se cons-
tituía como força hegemônica da psicologia norte-americana, dominando universidades e centros de
pesquisa e colocando-se como uma terapia mais científica e eficaz que as outras. Tal supremacia ce-
deu lugar, a partir de duros ataques (Gergen, 1996), à psicologia cognitiva que, hoje, tornou-se o
pensamento dominante neste país. É curioso observar ainda como que grande número de behavio-
ristas buscaram o que antes pareceria heresia em muitos grupos dessa escola: uma associação com o
cognitivismo ascendente. Daí surgiram as “terapias cognitivo-comportamentais”, algo impensável
para muitos nos anos áureos do behaviorismo.
Maurício da S. Neubern28
ÉDIPO EM COLONO: DA MISÉRIA À EMANCIPAÇÃO
Uma das questões que mais chamam à atenção no mito de Édipo é
sua entrega para um processo expiatório, onde pôde encontrar suas misérias
e, a partir delas, atingir uma verdadeira maturidade espiritual. Sua autopuni-
ção com uma cegueira que concretizava no corpo a verdadeira cegueira que
vivia como rei e seu exílio voluntário e errante em Colono parecem levá-lo a
uma espécie de destilação do próprio sofrer, a um encontro terrível, mas
aberto com sua própria história, a enxergar com os olhos da alma, de modo a
conquistar uma verdadeira e iluminada sabedoria. Sem qualquer dúvida,
trata-se de uma trajetória heroica, uma vez que tal empreitada demanda uma
parcela rara de coragem e determinação, como de bom-senso e esperteza
para lidar com obstáculos tão assustadores, num processo em que qualquer
mortal pode sucumbir pela depressão e pelo esgotamento de seus recursos
vitais. Daí porque consideramos o mito de Édipo não como um complexo
universal e estruturante da psique, como rezam os psicanalistas, mas como
uma história cuja exemplaridade pode tocar muitas pessoas, dentre elas os
psicoterapeutas, de modo a servir significativamente em seus processos de
crescimento e reconciliação consigo mesmo.
Parece-nos, por outro lado, sintomático que poucos psicoterapeutas
conheçam essa segunda parte do mito – a de Colono – pois a grande maioria
estudou apenas a primeira, que termina com a trágica descoberta dos terrí-
veis segredosque permeavam a história do herói e sua consequente expia-
ção. Uma coincidência estranha paira sobre a relação entre os movimentos
de psicoterapia e o mito de Édipo: ao mesmo tempo em que ele é contado
pela metade, os movimentos de psicoterapia se sentem seduzidos pelas bele-
zas de seu reinado, representadas em grande parte pelos ideais modernos de
ciência, e cultivam a mesma cegueira quanto a suas origens históricas e suas
condições socioculturais de nascimento e vida. Então, talvez seja o momento
de indagarmos se as psicoterapias teriam condições, enquanto movimentos
sociais e institucionais, de seguir o caminho de Édipo, deixando as comodi-
dades de um reino ilusório para a vida árdua, mas autêntica, do caminho de
Colono, que permitiu uma verdadeira mudança em sua trajetória.
Desse modo, uma das primeiras feridas com que os psicoterapeutas
podem se deparar é com a dimensão histórica de sua disciplina, amparada
pelas disciplinas irmãs que a sustentam. Nem a psicoterapia, nem suas irmãs
psi possuem uma história progressiva, cumulativa e linear que sai da obscuri-
dade e da ignorância rumo à razão triunfante e iluminada pela ação sem má-
culas de algum gênio do pensamento moderno. Da mesma forma, o estudo da
história não consiste numa revelação de uma natureza do mundo social, por-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 29
que a história da ciência é um produto humano, contado por seus protagonistas
num determinado período e contexto e que possui uma heterogeneidade de
vozes e possibilidades de compreensão. Tal estudo deve incidir, portanto, não
apenas sobre o que se disse, mas também sobre quem o disse, como foi dito e
em quais condições tais afirmativas ganharam sentido nas comunidades. As-
sim, torna-se possível conceber a contribuição de grandes ícones do pensa-
mento moderno psi, como Wundt e Freud, a que se propuseram a estudar e
sustentaram de pertinente para a psicoterapia e as possíveis razões que fizeram
de suas propostas algo importante para tal disciplina. Mas, concebendo-se que
este seria apenas um feixe de uma história altamente complexa, o mergulho
histórico poderia ser ainda direcionado a outras raízes, como as do magnetis-
mo animal (mesmerismo) e da hipnose, que antecederam as versões oficiais e,
malgrado sua grande importância para o surgimento das ciências psi, foram
marginalizadas e, em larga medida, excluídas em seus méritos histórico e ci-
entífico (Méheuts, 1999; Neubern, 2009).
Nessa perspectiva, a história perde o vício de possuir uma versão
oficial, respaldada pelo pensar moderno mais estreito e exclusivista, para se
tornar um conjunto de possibilidades, em que raízes e feixes distintos podem
participar da integração de novas visões, concorrendo entre si de modo a
oferecer uma perspectiva mais ampla para o psicoterapeuta. Mas, mais que
isso, o psicoterapeuta encontra aqui a oportunidade de refletir, não apenas
sobre a dimensão de realidade que estudaram, em termos de campos, objetos
e métodos, como dos jogos institucionais que foram decisivos para a consa-
gração de alguns heróis, fossem eles autores ou formas de pensar, e alguns
vilões que foram condenados a um ostracismo que parece não vislumbrar
fim. No primeiro caso, pode aprofundar o estudo sobre como os autores do
século XIX, por exemplo, entendiam a psique, os fenômenos de cura, que
métodos utilizavam para a abordagem de seus objetos de estudo e que ques-
tões ocupavam o cenário da discussão nas comunidades científicas.
Valeria mesmo a pena indagar porque, no caso dos magnetizadores
dos séculos XVIII e XIX, os fenômenos magnéticos e mediúnicos, hoje pra-
ticamente excluídos da academia, ocuparam tamanha importância em suas
primeiras cogitações e no posterior nascimento da relação entre ciência e
cura6 (Bergé, 1995; Ellenberger, 1971; Méheust, 1999). Já no segundo caso,
deve focar suas atenções sobre as vicissitudes humanas e institucionais que
marcaram a apreciação das comunidades científicas sobre momentos que
foram decisivos, tirando-se o foco sobre uma questão puramente metodoló-
 
6 Vale destacar como os pesquisadores que buscam estudar tais tipos de fenômenos encontram ainda
hoje uma considerável resistência no meio psi, mesmo no Brasil, onde tais fenômenos são ricos, co-
muns e possuem especial importância na subjetividade do povo.
Maurício da S. Neubern30
gica para o de uma compreensão dos jogos de poder e política envolvidos
nos processos e tomadas de decisão. Logo, ao invés de se conceber o traba-
lho de Mesmer como simples quimera ou charlatanismo, seria importante
buscar uma compreensão sobre como as falhas metodológicas grotescas das
comissões científicas no julgamento de suas ideias passaram desapercebidas
das comissões científicas formadas por homens tão eminentes; por quais
motivos se impôs uma lei de silêncio tão avassaladora, capaz de impedir a
continuidade sobre o trabalho incompleto das comissões, de ignorar o pare-
cer favorável de Laurent de Jussieu, grande naturalista dissidente das comis-
sões, em continuar as pesquisas e mesmo de punir com exclusão os membros
da Faculté de Médecine que se colocassem favoráveis ao mesmerismo e o
utilizassem como instrumento médico (Bertrand, 1826/2004).
A partir de semelhantes reflexões, o psicoterapeuta pode se indagar
sobre a forma como sua instituição de pertencimento veicula a história de seu
métier. Mais que isso, ele pode fugir às velhas explicações de efeito tiradas do
baú do mestre fundador para perceber como as relações acontecem, como as
negociações e produções de sentido ganham espaço no seio dessas instituições
e até que ponto repetem os mesmos mecanismos que caracterizaram processos
históricos tão ilustrativos como os dos magnetizadores na França ou da psica-
nálise nos tempos de Freud. E sem que tenha que, com isso, mover-se num
espírito de caça às bruxas e punição de vilões, refletir sobre as diversas possi-
bilidades que permeiam o contar da história, tal como ocorre em muitas práti-
cas clínicas contemporâneas (White, 2007). Assim, de uma postura cristaliza-
da na passividade de um ensino dogmático, ele se coloca na posição de quem
reflete e pensa, percebendo que uma história pode possuir versões distintas e
conflitantes de acordo com os protagonistas que as narram.
Há aqui uma observação importante, um paralelo que deve ser feito
com relação à aventura de Édipo em Colono: sua trajetória heroica só se
torna possível porque ele busca uma reconciliação com sua própria humani-
dade. Não é a ação dos deuses ou a promessa mentirosa de um reino que lhe
proporciona um movimento de superação tão impressionante, mas o reco-
nhecimento de suas próprias misérias e fragilidades, que são colocadas em
pauta, assumidas e trabalhadas para que ele se supere e ascenda a uma con-
dição de iluminação. É desse modo que a práxis do psicoterapeuta, em suas
dimensões reflexivas e clínicas, precisa incluir o sujeito como condição es-
sencial, apesar de toda a fragilidade e desconfiança que essa categoria de-
sempenha em termos modernos (Gonzalez Rey, 2007; Morin, 2001).
Tal condição implica dois caminhos articulados de forma inevitável.
Em primeiro lugar, uma vez que ele se encontra diante do cliente é importante
que ele escute as vozes internas que vêm de si mesmo (seja de seu corpo, de
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 31
sua intuição, de suas leituras) porque é ele e não o mestre fundador quem está
ali numa relação concreta com esse cliente, relação da qual o processo tera-
pêutico depende por total (Morin, 1990; Neubern, 2004). Daí porque a teoria,
ao invés de consistir numa entidade tirânica que escraviza seu pensamento,
precisa se transformar num pano de fundo, num conjunto de referências que
ganhe vida em seu espírito, que o auxilie no diálogo com o mundo empírico,
mas que possa também ser questionado, aprimorado e até mesmodestruído.
Ela não pode ser vista como um conjunto de respostas, mas como a possibili-
dade de tratar um problema, de dialogar com a realidade do outro, de pensar a
complexidade de seu mundo, de se transformar, em suma, num legítimo e
precioso auxiliar para a pesquisa. Não pode, portanto, ser o ponto final onde se
encaixam as expressões do sujeito, um túmulo onde termina a vida da refle-
xão, mas um arcabouço articulado e flexível de conceitos que permita o nascer
dessa reflexão. Daí porque é impossível pensar a teoria sem o sujeito7, por que
ela, por si mesma, não é capaz de pensar e precisa dele para exercer qualquer
uma das operações cognitivas que pode efetivar.
Em segundo lugar, a condição de sujeito implica num resgate de
sua própria subjetividade, da condição humana da relação e que permite,
como diria Binswanger (1935/2008) ou Milton Erickson (Erickson & Rossi,
1980), o fundamento de um solo mãe e afetivo que nos liga e irmana como
seres humanos. Tal condição se torna possível à medida que o psicoterapeuta
passa a se escutar, a sentir seu próprio corpo, a perceber os apelos de sua
intuição, a se interessar pelas emoções que sopram em seu íntimo e a se co-
nectar com o manancial heterogêneo de sua trajetória de vida, com relacio-
namentos e experiências diversas, e daí tirar as referências para se relacionar
com aqueles que o interpelam. Essa abertura a si mesmo é o que permite que
traga sua singularidade para a terapia, que ele mesmo entre em relação com
o cliente não só como alguém portador de um saber técnico, mas, sobretudo,
como uma pessoa que reconhece sua própria subjetividade e dela extrai a
matéria-prima para que a terapia possa acontecer. Uma vez que ele se reco-
nhece e se legitima, tanto pelo que estuda e desenvolve em termos cogniti-
vos, como pelo que vive enquanto ser humano, sua relação com a teoria ten-
de a ocupar um plano secundário, porque é a relação com a pessoa do clien-
te, que está além de qualquer teoria, quem prevalece e permite que o proces-
so aconteça. O psicoterapeuta, portanto, se torna ele mesmo responsável por
suas ações no processo, sem o imperativo de transferir essa responsabilidade
 
7 É importante destacarmos que a condição de sujeito remete a uma conquista do psicoterapeuta, após
um largo processo de crescimento e aprendizado. É necessário, a princípio, que ele aprenda a repro-
duzir o que lhe é passado, compreendendo as nuances da tradição que recebe, para, em seu percurso,
aprender a pensar e criar sobre essa herança. Do contrário, corremos o risco de instaurar um anar-
quismo improdutivo.
Maurício da S. Neubern32
a um mestre qualquer que, por mais brilhante que seja, nada pode fazer
quanto àquele seu cliente em particular.
Semelhante aventura implica num conjunto de mudanças nas co-
munidades de psicoterapeutas em termos de uma maior horizontalidade das
relações. Enquanto a teoria deixa o papel de um mausoléu que encerra, pre-
tensiosamente, os restos do pensamento de seu criador, para se tornar um
corpo orgânico, acessível à crítica e flexível ao diálogo com o mundo, as
relações com o mestre fundador se modificam substancialmente. Ele pode
continuar na posição de um daimon (Morin, 1991), um ser-ideia que se
mantém vivo por ser constantemente evocado e alimentado pelas reflexões
daqueles que são seduzidos e atraídos por suas ideias, um ser que mantém
ideais e utopias que envolveram as pessoas e formaram comunidades. Mas,
por outro lado, ele sai da posição de uma divindade porque o questionamento
a seu pensar se torna possível e, mais que isso, necessário, pela comunidade
de sujeitos que dialogam com sua obra. Esse questionamento se coaduna
perfeitamente com a assertiva de Bachelard (1938/1996) segundo a qual no
espírito científico é possível venerar o mestre criticando-o, colocando ques-
tões a seu pensamento, em suma, dando-lhe possibilidade de evoluir por
submetê-lo ao rigor e ao calor do debate.
É assim que, mais do que sobre o que o mestre disse, a reflexão se
volta sobre como disse e como pensou para poder tecer tais afirmações,
como articulou ideias e abordou problemas concretos para concluir seus
pensamentos, de que premissas partiu e como lidou com elas e ainda, com
que vozes dialogava ao conceber sua teoria. Malgrado a ferocidade que tais
processos podem envolver no seio das instituições, essa é uma forma de
transportar o pensamento do mestre para o hoje, contextualizando-o no mun-
do atual de maneira a colocá-lo sob a dolorosa prova de se transformar para
poder evoluir, o que pode, inclusive colocá-lo sob o risco de aniquilação. É
assim que, mesmo em instituições tidas por seu conservadorismo, como
ocorre na psicanálise, alguns psicanalistas (Meyer, 2010; Nathan, 2006,
2007) têm trazido questionamentos incisivos sobre os pilares do universa-
lismo, tais como do Édipo, do desenvolvimento infantil e da eficácia tera-
pêutica, demonstrando a inconsistência de tais pressupostos, seja pela incoe-
rência de suas afirmações, seja pelo avanço de disciplinas como a etologia e
as neurociências. Semelhantes reflexões coincidem com algumas tendências
tipicamente contemporâneas como as de considerar o sujeito em sua singula-
ridade, sobretudo na produção de sentidos e significados, e numa relação
estreita com o sociocultural, com sua corporalidade, como em termos de um
questionamento incisivo sobre as noções modernas de teoria (Neubern,
2004; Roustang, 2006; White, 2007).
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 33
Nessa perspectiva, a comunidade se aproximaria de uma noção de
pólis – um conjunto de cidadãos num jogo democrático de negociações, ou
seja, um conjunto de sujeitos que pode se inserir num processo de debates e
discussões a respeito de temas pertinentes para a práxis em torno do qual tal
comunidade estaria engajada. Isto é, enquanto cidadão dessa pólis, ele possui
a condição de voz, decisão e reflexão, patrimônios não mais restritos a mes-
tres fundadores e escolhidos; a diversidade dos sujeitos, nesse sentido, pode
contribuir para a construção de corpos teóricos mais heterogêneos de modo a
se romper com a tendência monolítica das escolas modernas8. Todavia, con-
cebemos que semelhante noção ainda pode parecer utópica, uma vez que a
figura divina dos mestres fundadores se constitui como o pilar central de
grande parte dos movimentos de psicoterapia, que talvez se colocassem em
derrocada se aceitassem, em si mesmos, uma comunidade tão próxima ao
sentido da pólis grega. No entanto, seguindo-se mudanças importantes que
ocorreram na ciência e na discussão epistemológica do século XX, torna-se
possível ao psicoterapeuta repensar a condição dessa viga mestra, particu-
larmente no que se refere ao fracasso moderno de um conhecimento linear e
direto da realidade, o que não o permite se situar em qualquer posição privi-
legiada quanto a seus rivais (Gergen, 1996; Gonzalez Rey, 1997). Isto por-
que em mais de cem anos de disciplina, sem contarmos os tumultuados anos
anteriores da época mesmerista, a psicoterapia – como as ciências humanas e
sociais – não conseguiu cumprir um ou talvez o principal requisito da ciência
moderna (Neubern, 2004; Stengers, 1995): desenvolver uma abordagem que
silenciasse as demais, que se impusesse, tal como o exige o espírito moder-
no, como única e que contasse com dispositivos, como o laboratório das
ciências duras, que fizesse cessar as polêmicas e os espíritos de partido.
Com que triste realidade se deparou, então, o psicoterapeuta! Mais
os anos se passaram, mais surgiram promessas de movimentos e mestres,
arvorando-se a exclusividade moderna, mais o número de escolas proliferou,
mais as batalhas continuaram e ninguém conseguiu concretizar essa tão al-
mejada unidade na forma de uma hegemonia que desse ao psicoterapeuta o
mesmo status que tem o físico. “E por que, então,” pergunta-se ele surpre-
endido, “tantos embatescom os rivais, tantas querelas e disputas acirradas
se o ideal de uma exclusividade científica permaneceu e permanece ainda
hoje livre do espírito de domínio dos movimentos de psicoterapia?”. Sua
surpresa se acentua ainda mais à medida que se dá conta de que chegou atra-
sado nas discussões epistemológicas do século XX, onde a ciência passou a
se constituir, não como um ato simplista de revelação de realidade, mas
como um processo que envolve também uma série de construções e negocia-
 
8 Como ocorreu com os movimentos sistêmicos e narrativos entre os anos 90 e a virada do século.
Maurício da S. Neubern34
ções de seus protagonistas, negociações que permitem que o empírico, em
sua dimensão ontológica, ganhe visibilidade e sentido (Hacking, 1999).
Assim, não faz mais sentido pensar, como o fazia o psicoterapeuta
assombrado com a modernidade, que aquilo que o cliente lhe diz seja tido na
conta de uma expressão linear da realidade (que só ele enxerga), uma ex-
pressão de um objeto de estudo apenas por ele conhecido e que o setting
psicoterápico seja uma espécie de laboratório, um espaço confiável em ter-
mos de uma legitimidade capaz de tirar o véu da opinião para permitir uma
autêntica revelação sobre a psique do sujeito. Mais ainda, parece não mais
fazer sentido se entregar a tantas batalhas, fundadas numa paixão que não
permite a compreensão epistemológica de que os princípios modernos já
faliram na psicoterapia e não parecem dar sinais de ressurreição, apesar de
continuarem a influenciar dissensões, a transformar colegas em rivais, a de-
formar a formação do estudante e impedir o intercâmbio enriquecedor entre
pensamentos distintos.
No entanto, a lucidez que pode advir dessa dura realidade pode fa-
zer a diferença em termos de uma nova forma de entendimento da psicotera-
pia, uma forma que deixe de se restringir ao conteúdo do que se afirma, para
refletir sobre o que antecede e precede as afirmações em diferentes pontos.
Um primeiro ponto possível, já levantado por alguns autores (Erickson &
Rossi, 1980; Gonzalez Rey, 2007; Hanns, 2004), refere-se à própria natureza
do campo da psicoterapia, o que parece não se constituir como novidade à
primeira vista, por ser um dos primeiros tópicos discutidos desde a época de
Freud. No entanto, o que parece ser novo aqui é a busca de novas racionali-
dades e metáforas da subjetividade humana, que não parece se sentir muito à
vontade com as metáforas oriundas da matéria e da tecnologia trazida por
grande número de escolas, como a máquina para os cognitivistas, o laborató-
rio para os behavioristas e a mecânica dos fluidos para os psicanalistas (Go-
olishian & Anderson, 1996). Assim, se as diferentes abordagens utilizam
metáforas distintas e não parecem diferir muito em seus resultados, temos
aqui um indicador significativo de que o campo da subjetividade é muito
distinto do campo material onde se inspirou a ciência moderna e que, por
isso, os conceitos precisam ser reinventados de modo a se estabelecer novas
formas de diálogo com esse novo mundo empírico. Malgrado existam neces-
sidades de um aprofundamento nesse sentido quanto à própria noção de ci-
ência que se passa a buscar, existe aqui o retorno daquilo que ficou de fora
na fundação da ciência moderna, particularmente ligado ao reino da subjeti-
vidade, como o sujeito, a cultura e a geração de sentidos em seu mundo par-
ticular e social, as emoções, a irregularidade e a singularidade (Neubern,
2004), como também a construção de noções muito mais voltadas para o
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 35
lado humano que para o da matéria (Santos, 2000): o jogo, violência, histó-
ria, retórica, escolha, drama, dentre outros.
É assim que, num tema complexo como a experiência religiosa, o
psicoterapeuta deve fugir da tentação de colonizar o pensamento de seu clien-
te, para buscar compreendê-lo nos sentidos que lhe são próprios, em termos
subjetivos e socioculturais (Nathan, 2004; Neubern, 2010a): um espírito, com
quem o paciente diz se comunicar, não pode ser tido na conta de uma alucina-
ção, produto imaginário ou arquetípico. É importante que o psicoterapeuta o
compreenda nas narrativas que o sujeito traz (o espírito e seu mundo espiritual)
e se pergunte o que esse ser gera, que sentimentos desperta nele e nos outros
de suas relações, que redes de interação e produção simbólica promove e que
práticas sociais e ações exige para que se possa negociar com ele. Desse modo,
embora o psicoterapeuta não precise renunciar à sua formação, em termos de
clínica e psicopatologia9, é preciso que se recuse a uma tradução perversa que
imponha narrativas totalmente estranhas ao mundo de seu cliente, que patolo-
gize o sujeito, transformando-o em mero indivíduo, destituído de qualquer
participação em seu rumo, de seu nicho de produções simbólicas e de seu per-
tencimento a diferentes redes, com todo o seu potencial terapêutico e emocio-
nal. Não se trata, em absoluto, de procurar entender e ser empático com suas
crenças, como se o psicoterapeuta as visse de fora, descritas num manual mi-
nucioso e preciso, onde fosse possível classificá-las ou talvez mensurá-las; ao
contrário, trata-se de uma disposição para entrar em seu mundo, com as metá-
foras que lhe são próprias, e conceber que os sentidos gerados a partir de sua
experiência com os espíritos são constituintes de sua realidade, o que envolve
pessoas, seres, sistemas culturais de significados, objetos, lugares, procedi-
mentos, outros tipos de terapia (Nathan, 2004) e práticas sociais implicadas no
drama das relações humanas (Turner, 1982).
Um segundo ponto a ser destacado é a importância de um olhar
complexo (Delourne & Marc, 2001; Morin, 2001; Neubern, 2004) para a
realidade das pessoas, um olhar que possa contemplar e dialogar com as
múltiplas interseções que perpassam a fabricação de suas subjetividades. O
encontro na psicoterapia não se reduz ao campo de uma única disciplina,
pois é perpassado por registros históricos, culturais, biológicos, sociais, fa-
miliares, econômicos, religiosos que encontram eco na subjetividade dos
protagonistas e reproduzem, de forma particular, todo o cosmos de uma so-
ciedade (Nathan, 2004). Isso força, de certa forma, a um diálogo com outras
 
9 A ideia aqui é muito mais a de que os saberes respaldados pela ciência moderna sejam narrativas
possíveis para o auxílio a uma demanda terapêutica e não os únicos. Assim, psiquiatria e psicopato-
logia podem conviver com outras narrativas de compreensão do mundo cultural do sujeito, tal como
descrito por Tobie Nathan (2006).
Maurício da S. Neubern36
disciplinas, uma vez que o psicoterapeuta mais lúcido se dá conta de que por
mais completa que sua teoria possa lhe parecer, ela ainda se mostra muito
insuficiente e tacanha diante de um mundo com tantas zonas de sentido,
interações e processos que talvez ele nem imaginasse existir. Funcionando
como uma espécie de antídoto ao dogmatismo doutrinário, semelhante
abertura à influência de novos saberes pode favorecer que o psicoterapeuta
assuma seu métier como uma práxis de pesquisa, porque, desse modo, ele
possui uma condição possível de dialogar com um conjunto numeroso de
interações que atravessam as situações clínicas em que se engaja. É assim
que, diante de uma cliente que demanda ajuda devido a intensas dores crôni-
cas, ele não pode se permitir à tentação de se manter nos conceitos já acaba-
dos, onde a explicação já está dada; o conhecimento sobre essa dor, ele ain-
da não o possui, pois está por se construir. O psicoterapeuta não pode mesmo
afirmar que já sabe algo, uma vez que esse saber origina-se de um processo
de relação com a cliente que nem ainda começou. Essa dor pode dizer de
questões de gênero, de relações conjugais, de missões familiares, de questões
econômicas no seio de suasredes sociais, de sua inserção no trabalho, dos
sistemas culturais de crenças etc., que levam a toda uma produção simbólica
e de ações que não podem ser previstos por um único marco teórico nem
sabidas previamente (Neubern, 2010b). É necessário, desse modo, que ele se
permita o trabalho artesanal que é a pesquisa que, num processo clínico de
relação com a cliente, possa articular registros tão distintos presentes naquilo
que faz sentido e constitui suas realidades.
Assim, ao invés de uma busca sem tréguas por invariantes univer-
sais, o olhar para o outro se torna muito mais voltado para sistemas fugidios
e flexíveis de relações da subjetividade de pessoas e grupos que demandam,
em seus respectivos ethos, uma atitude cuidadosa de espera do psicotera-
peuta para conceber as conexões entre dimensões tão complexas que se arti-
culam de forma muito particular em cada caso10. A certeza de conceitos en-
cerrados em si mesmos deve ceder lugar a uma abertura ao mundo complexo
e polifônico do outro; a busca desenfreada por usar conceitos que se expli-
cam por si em nome da certeza e confirmam sempre o que já se sabe, matan-
do as chances da reflexão, sai para que entre em cena a busca pelo que ainda
não foi pensado ou foi mal pensado; em suma, a obsessão pelo mesmo dá
 
10 Tal postura permite a perspectiva de evolução de um pensamento, tal como ocorre com a obra de
Thomas Csordas (2002), antropólogo que parte da fenomenologia de Merleau-Ponty para eleger a
corporeidade como eixo central de suas reflexões e pesquisas. Ao mesmo tempo em que essa corpo-
reidade se torna um campo onde se integram diferentes dimensões que produzem significados, ela
evolui do pensamento original por se articular com outras perspectivas, como Bourdieu (1972/2000),
que inclui toda uma noção de aprendizados técnicos coletivos (habitus) que são ancorados no corpo
do sujeito por meio das práticas sociais em que toma parte. Relação semelhante pode ser vista entre
a obra de Vigotsky e a proposta de Gonzalez Rey (2007) quanto à noção de sentido subjetivo.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 37
lugar à aventura pelo novo, pela possibilidade de um saber onde perguntar
pelo diferente é condição para que esse saber continue vivo. Em suma, o
anseio por uma unidade última a ser descoberta, um conteúdo primeiro a ser
decifrado, dá lugar a uma investigação de diferentes tipos de relação sobre
processos cujas zonas de sentido são visitadas por saberes que habitam e
transitam na grande arena da existência humana.
No entanto, o olhar para a complexidade do cliente ficaria incom-
pleto caso o psicoterapeuta não desenvolva uma reflexividade sobre seu pró-
prio mundo, particularmente no que se refere a uma dimensão altamente
imbuída de subjetividade e determinante no processo clínico que geralmente
é pouco pensada em sua formação: a dimensão econômico-financeira. Ha-
bituado a pensar apenas o setting clínico, ele frequentemente desconsidera o
que antecede seu métier, sem se dar conta das poderosas influências que
recebe de diferentes instâncias da sociedade no tocante a tal dimensão. Além
de uma inserção política na própria produção de conhecimento, em seu papel
de sujeito, é importante que o psicoterapeuta se disponha a refletir, em suas
comunidades de pertencimento, sobre suas relações com o mercado, princí-
pio de organização social que se constitui num determinante central na vida
cotidiana das pessoas (Santos, 2000).
Aqui entram não apenas questões mais diretamente relacionadas ao
aspecto financeiro, como sua relação com o dinheiro, muitas vezes conflituosa
por achar que comercializa o emocional das pessoas, como ainda os tipos de
conexão que existem entre sua prática e o princípio de mercado. Tamanha é
a importância dessa reflexão que, caso não seja levada a cabo, ele corre o
sério risco de transformar sua prática numa indústria, onde seus valores são
corrompidos e desvirtuados para atender às exigências de lucro e consumo.
Logo, é importante que encontre espaços onde sua relação com o dinheiro
seja pensada e repensada, de maneira que ele consiga ter consciência de
como o dinheiro se configura como gerador de sentido em suas práticas.
Como ele influencia no momento da alta, tendendo a prender ou liberar o
sujeito; ele se configura como fator que auxilia o processo terapêutico ou
como um obstáculo para que aconteça; a que tipos de sentimentos (“francis-
canos”, ambiciosos, tranquilos, despojados) e projetos pessoais de vida ele se
atrela; como se integra à construção de sua identidade profissional; como se
liga a crenças como a obrigatoriedade da terapia para psicoterapeutas; como
influencia na questão dos convênios de saúde e na relação entre quantidade
de pessoas que procuram psicoterapia e qualidade do serviço prestado.
É curioso notar como tema tão relevante costuma passar longe da
trajetória do psicoterapeuta, seja em termos de sua atuação prática (Madanes,
1995), seja em termos de formação e inserção profissional (Neubern, 2005).
Maurício da S. Neubern38
Não é sem razões que esse silêncio se vê acompanhado de uma grande difi-
culdade de reflexão sobre as funções sociais de sua prática, em termos de
contribuição numa sociedade onde o consumo é um determinante poderoso
em muitas formas de produção de subjetividade das pessoas e suas relações.
Torna-se difícil responder até que ponto o que ocorre num consultório é uma
forma de reprodução da lógica social dominante ou um processo de emanci-
pação, e se tais processos permitem o crescimento dos sujeitos implicados,
terapeuta e cliente, principalmente em termos de cidadania. Mas, apesar das
dificuldades, tais questões não devem fugir à pauta da reflexão, pois é fun-
damental que o psicoterapeuta aprenda a se posicionar diante de um cenário
constantemente atravessado pelo poderio do mercado, sob pena de se ver
engolido por ele.
Aqui entra uma questão que não é apenas profissional, nem só teó-
rica ou ideológica, mas que adquire importância em termos de sentido diante
de sua própria existência (Frankl, 1970/2009), pois consideramos ser neces-
sário que aquilo que o psicoterapeuta faz de sua profissão não seja pensado
somente em termos de carreira profissional, mas em termos de vida, ou seja,
em como sua práxis foi e é situada em sua trajetória existencial. Mergulhan-
do em sua própria subjetividade, ele deve se perguntar o que ficou de signi-
ficativo a partir de seu contato para si e para os outros, sejam alunos, clien-
tes, colegas e, se nesses contextos de relação, a moeda de troca se restringiu
ao dinheiro, caracterizando uma parceria de consumo, ou se também foi
cunhada em termos afetivos, de maneira a configurar outra qualidade de
relação humana. Talvez essa seja uma das melhores formas de aprender a se
posicionar diante do mercado de um modo saudável, que permita fugir de
uma oposição cega como de uma entrega sem escrúpulos, de maneira a en-
xergar suas possibilidades, uma vez que o psicoterapeuta pode passar a ter
cada vez mais clareza do que realmente importa, do que faz sentido para ele
e do que pode ou não abrir mão para que seu métier não se descaracterize ou
seja corrompido.
Nessa perspectiva, sua ação diante do cliente ganha uma dimensão
qualitativa que vai além da técnica e lhe permite considerar melhor temas e
discursos recorrentes das sociedades contemporâneas que são profundamente
influenciados pelo princípio de mercado (Bauman, 2004). Comumente há
demandas de psicoterapia que são atravessadas por tais discursos, mas que
podem passar desapercebidas se a ânsia por eficiência se impuser à relação
terapêutica, impedindo os espaços de reflexão sobre ele mesmo e o cliente
em seus contextos de inserção social. Todavia, uma vez que o psicoterapeuta
se torna sensível a tais possibilidades de influência e a relação com o cliente,
um espaço de negociação, torna-se possível colocar o individualismoem
pauta, de modo a se trabalhar mais a fundo a qualidade das trocas afetivas; o
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 39
indivíduo reativo que se deixa arrastar pelas marés de consumo e prazer fu-
gaz, pode ser contrabalançado pelo sujeito que é capaz de pensar, interagir
com o outro e ser responsável por suas ações; e a peça da máquina compe-
tente e competitiva em que muitas pessoas se transformam pode ser levada
não só à resolução de sintomas, mas também a uma revisão mais profunda
sobre sentido de vida e das pessoas que nela ocupam algum espaço. E, se-
guindo-se a mesma ótica, as tentações referentes à eficácia de técnicas e
diagnósticos sem esforço e pensamento, aos modismos teóricos a serem con-
sumidos, a enxurrada de livros e cursos com promessas ilusórias e a busca
desenfreada por diplomas, títulos e espaços sociais e institucionais cedem
lugar a um pensar mais lúcido, no qual o psicoterapeuta consegue pesar me-
lhor suas prioridades e os papéis que desempenha na sociedade. Ele, sim-
plesmente, percebe que, mesmo trabalhando de portas fechadas, não deixa de
participar do mundo social, onde possui uma série de ações pelas quais é
também responsável.
Uma primeira leitura sobre esse texto pode trazer à tona uma con-
cepção equivocada sobre o métier do psicoterapeuta, como se ele precisasse
ser uma espécie de super-homem para poder lidar com seu cotidiano profis-
sional. De fato, essa crítica não nos parece absurda num primeiro momento,
uma vez que sua práxis é perpassada por toda uma ampla gama de registros
simbólicos e discursos que exigem dele uma abertura para dialogar com a
polifonia de vozes que chegam até ele que não podem ser simplesmente sin-
tetizadas numa palavra mágica, como “complexidade”. No entanto, preferi-
mos pensar que a proposta de uma prática mais consciente e reflexiva de sua
própria condição é perfeitamente possível, não só pelo exemplo de grandes
psicoterapeutas, como também pelas próprias características de um métier
que se mistura e se caracteriza como uma relação humana. É nesse sentido
que destacamos que, à semelhança do que ocorre na heroica saga de Édipo, o
processo de reflexividade não deve se restringir ao psicoterapeuta e seus
usos técnicos, mas envolver o outro, porque o processo psicoterápico implica
protagonistas distintos e não pode, portanto, ficar restrito em sua reflexão à
figura do psicoterapeuta: é necessário que existam espaços para que os outros
grandes protagonistas – o cliente, as pessoas e instituições importantes de
suas relações – possam entrar em cena e participar dessa reflexão11.
Nesse sentido, o psicoterapeuta não necessita abrir mão de seus
conhecimentos e de sua expertise, pois seus conhecimentos técnicos e teóri-
cos são de grande importância para que a psicoterapia aconteça; contudo,
 
11 Tal como ocorre com as diferentes associações de usuários de psicoterapia e serviços de saúde em
geral que desempenham importante papel nas sociedades europeias atuais, defendendo os interesses
da população (Nathan, 2004).
Maurício da S. Neubern40
boa parte das reflexões, em geral, ficam restritas a este campo, como se o
cliente nada pudesse dizer para avaliar sua própria condição e suas vivências
ao longo de um processo psicoterápico. Ele se reconhece naquilo que o psi-
coterapeuta afirma sobre ele e seu processo? Sua forma de avaliar a psicote-
rapia deveria ser a mesma do psicoterapeuta? O que, em sua visão e na das
pessoas com quem convive, teria sido realmente importante nesse processo,
nessa relação para as conquistas que obteve? Em suma, questionamentos
como esses são de grande importância para que a noção de sujeito da qual
tanto falam os psicoterapeutas (Gonzalez Rey, 2007; Neubern, 2010b) não
fique restrita às afirmações e concepções do psicoterapeuta, mas assuma um
papel ativo na avaliação do que e como a psicoterapia ocorreu.
Consideramos que esse ponto seja crucial para uma compreensão
mais abrangente e lúcida sobre a legitimação da psicoterapia, algo que inclui,
mas também ultrapassa a discussão sobre eficácia terapêutica. Se, por um
lado, a psicoterapia precisa ser pensada em termos pragmáticos, tal como
rezam psicoterapeutas contemporâneos (Beck, 1997; Erickson & Rossi,
1980), ela precisa também, por outro, ser qualificada em termos da voz da-
queles que são seu público alvo, aqueles a quem seus aparatos teóricos e
técnicos se destinam e visam beneficiar (Andersen, 2002; Nathan, 2007).
Aqui há um ponto de grande importância, pois é possível que a voz dos usuários
e de suas redes talvez venham a se constituir no único ou num dos poucos
pontos em comum que permitam uma avaliação qualitativa e profunda do
que se deu num processo psicoterápico, de que repercussões ele trouxe para
a vida dessas pessoas, o que elas consideraram errôneo e o que entenderam
ter feito diferença para suas conquistas e mudanças.
Embora a reflexão e a pesquisa sobre eficácia tenha avançado
consideravelmente nos últimos anos, ela não pode hoje dispensar a dimen-
são reflexiva em que o cliente toma parte como sujeito de maneira a legi-
timar ou não um processo que diz respeito a fundo sobre sua própria subje-
tividade, de maneira a compor novos núcleos de inteligibilidade capazes de
pensar a psicoterapia, de coibir eventuais abusos, mas também engrandecê-
-la como uma práxis de valorização e crescimento do ser humano. Em
suma, ele também se torna alguém que ajuda o psicoterapeuta a compreen-
der mais sobre suas trajetórias, formações, conhecimentos e, principal-
mente, sobre si mesmo.
MATURIDADE ESPIRITUAL
Conta-nos Sófocles (citado em Naffah Neto, 1989) que em Colono,
Édipo atinge uma condição de iluminação, voltando a enxergar e tornando-se
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 41
um sábio capaz de guiar e levar o esclarecimento às pessoas. Ao ser interpelado
sobre os tumultos de seu passado, Édipo assim respondeu, concebendo-o como
uma grande peça pregada pelos deuses: “Não cometi nada... nada fiz a não ser
aceitar a oferta de Tebas por tê-la salvo... Sim, matei meu pai, mas em legítima
defesa... sou inocente ante todas as leis. Fiz o que fiz sem saber” (p. 65).
Semelhante ilustração é de grande importância para a reflexão aqui
trazida, uma vez que contemplar o passado tortuoso e as fragilidades episte-
mológicas das psicoterapias não deve implicar numa postura de culpa e re-
criminação, mas na lucidez que dialoga com as inconsistências, assume-as e
integra-as numa nova perspectiva de saber e de práxis. Passado o impacto
inicial das amargas decepções e dores diante de tantas feridas, o psicotera-
peuta tem a possibilidade de se posicionar e enxergar a história de seu métier
sob um novo registro – um posicionamento mais coerente e lúcido em que
tais vicissitudes ensinam e oferecem a oportunidade de uma nova forma de
produzir conhecimento e atuar no cotidiano.
Assim, ele desce do arrogante pedestal de um herói que se vê supe-
rior a seus colegas e clientes por possuir um conhecimento mais verdadeiro,
para a posição de alguém que, por compreender melhor as fragilidades histó-
ricas de seu próprio saber, não se entrega a batalhas em busca de uma verda-
de única e ilusória, mas se dispõe a assumir uma condição de sujeito nas
arenas de negociação de sentido das comunidades onde se insere. Mesmo
que não fique isento do equívoco, sua postura passa a não se restringir sobre
o foco no objeto de estudo12, para integrar também a reflexividade de pro-
cessos que antecedem e perpassam sua práxis. Ele pode pensar sua relação
com a teoria, prevenindo-se contra a tirania de um mestre fundador mítico,
como também incluir nessa ação reflexiva as dimensões socioculturais, eco-
nômicas, ideológicas, relacionais e subjetivas. Assim, de um cordeiro dócil e
obediente, que apenas obedece e repete o que os outros lhe disseram e teme
encontrar seu própriocaminho, ele assume a posição de quem pensa e incute
a heterogeneidade, o problema e a contradição no pensar psicoterápico –
ingredientes fundamentais para vida e evolução de um corpo teórico.
No entanto, a queda da máscara do herói incute uma nova possibili-
dade do psicoterapeuta perante o outro – a de um olhar diferenciado que per-
mita um acesso a dimensões de sua experiência, seja ela teórica ou subjetiva,
com as quais o dogmatismo impede um contato produtivo. Uma vez que a
 
12 Devemos ressaltar que essa proposta não coincide com o radicalismo de abandonar a dimensão
ontológica em nome de uma volta exclusiva às trocas sociais, tal como propõe o construcionismo
social de Gergen (1996). Apenas considera que a dimensão ontológica é importante e não deve ser
desvencilhada das reflexões sobre as trocas sociais e condições em que o conhecimento nasce e se
mantém (Neubern, 2004).
Maurício da S. Neubern42
pretensa superioridade é abandonada torna-se-lhe possível e necessária uma
postura distinta com relação aos colegas psicoterapeutas, aqueles que sempre
pensaram de outra forma e tantas vezes foram vistos como adversários. Como
não há mais o caminho verdadeiro a ser buscado, onde aquele que o encontra
zomba e lamenta os que se equivocam por tomarem outros rumos, a riqueza
do aprendizado mútuo torna-se maior e mais concreta, de maneira que as fra-
gilidades apontadas nos debates podem vir a se constituir como importantes
fontes de reflexão e aprimoramento das ideias (Hanns, 2004).
O próprio conflito, antes sinônimo de guerras e rupturas incontorná-
veis, torna-se uma oportunidade bem-vinda de crescimento porque as críticas, ao
invés de serem tidas como ataques pessoais ou heresias, passam a ser vistas como
pontos a serem melhor pensados e desenvolvidos por seus protagonistas. De
outra parte, a postura de diálogo, numa atitude sincera de buscar entender o que o
outro afirma (Anderson, 1997), pode também facilitar uma aproximação ainda
rara entre os psicoterapeutas de abordagens distintas, de maneira a promover uma
compreensão mais completa e coerente do pensamento do outro, em que ela se
fundamenta e como se organiza na práxis do psicoterapeuta (Delourne & Marc,
2001; Neubern, 2004). Uma vez que se compreende melhor de quais pressupos-
tos partem em suas reflexões, quais zonas de sentido exploram, o que visam
como mudança em psicoterapia, a que visão de homem se referem, a discussão
assume o caráter do possível, daquilo que está por se fazer, não como a busca
doutrinária do consenso que silencia as diferenças, mas como um campo no qual
a diferença é um caminho para o crescimento. Uma reflexão conjunta dessa natu-
reza pode trazer o próprio psicoterapeuta a se questionar em variados pressupos-
tos de sua práxis, como também incutir uma nova ordem de ética entre seus con-
cidadãos, uma ética na qual o adversário volta a ser um colega que pensa de outra
maneira, mas com quem o diálogo se torna possível e, sobretudo, desejável e
necessário. Afinal, os protagonistas desse campo precisam perceber que fazem
parte de uma mesma pólis – a psicoterapia – que necessita sair da condição de
barbárie, na qual a força é a única moeda de troca, para a de uma civilização que
oferece outras estratégias de negociação entre seus membros, principalmente
aquelas voltadas para a polifonia e a heterogeneidade no diálogo com o empírico.
Por fim, consideramos que essa maturidade espiritual só se torna pos-
sível caso o psicoterapeuta se volte para seu verdadeiro oráculo, numa recepti-
vidade sincera quanto a suas indagações e metáforas a respeito de si, como ser
humano, e de seu métier. Não se trata aqui da busca de Tirésias, o sábio de
Delfos a quem Édipo agride e ameaça ao ter respostas tão surpreendentes; trata-
-se de um oráculo, talvez o único possível, que possa falar profundamente a
respeito de suas ações, de como lida com seus pensamentos e marcos teóricos,
como também de sua ética: o próprio cliente. É necessário que este saia da po-
sição de um objeto a quem se busca estudar, de uma realidade hostil a ser con-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 43
trolada, para se tornar, de fato, essa voz que, ao se manifestar, leva o terapeuta a
uma reflexão engajada e profunda sobre si mesmo, sobre a pertinência do que
afirma e pensa. Ele precisa ser reconhecido como um sujeito cujo protagonismo
deve ser valorizado e concebido como condição para um conhecimento legíti-
mo sobre aquilo que a psicoterapia afirma sobre as pessoas, seja em termos de
epistemologia e pesquisa, seja nas diferentes formas de divulgação que seus
discursos alcançam nas sociedades contemporâneas. Em suma, para que ele
deixe a cegueira que tanto o atormenta e possa fazer algo pelas pessoas; para
que, à semelhança de Édipo, encontre o seu daimon interior que sopra sabia-
mente a seu espírito; para que se reconcilie com o saber que nasce da relação
com o outro, ao invés de vir pronto de uma teoria, ele precisa se deixar condu-
zir por aqueles a quem pretende, de alguma forma, conduzir. Talvez este seja o
grande paradoxo de se tornar psicoterapeuta, a contradição contra a qual nada
possamos fazer a não ser acatar, dobrando os próprios joelhos, a maldição à
qual devamos apenas aprender a abençoar.
REFERÊNCIAS
Andersen, T. (2002). Processos Reflexivos. Rio de Janeiro: Noos (Original publicado em 1995).
Anderson, H. (1997). Conversation, Language and Possibilities. New York: Basic Books.
Bachelard, G. (1996). A Formação do Espírito Científico. Rio de Janeiro: Bertrand/Brasil
(Original publicado em 1938).
Bastos, A. V. & Gondim, S. M. (2010). O Trabalho do Psicólogo no Brasil. Porto Alegre:
Artmed.
Bauman, Z. (2004). Amor Líquido. Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro:
Zahar (Original publicado em 2000).
Beck, J. (1997). Terapia Cognitiva. Teoria e Prática. Porto Alegre: Artmed (Original publi-
cado em 1995).
Bergé, C. (1995). L’Au-delá et les Lyonnais. Lyon: Lugd.
Bertrand, A. (2004). Du Magnétisme Animal en France. Paris: L’Harmmatan (Original publi-
cado em 1826).
Binswanger, L. (2008). De la psychothérapie. In L. Binswanger. Introduction à l’Analyse
Existentielle [pp. 119-147]. Paris: Minuit (Original publicado em 1935).
Bourdieu, P. (2000). Esquisse d’une Théorie de la Pratique. Paris: Seuil (Original publicado
em 1972).
Carroy, J. (1991). Hypnose, Suggestion et Psychologie. L’Invention du Sujet. Paris: P.U.F.
Carroy, J. (2000). L’invention du mot psychothérapie et ses enjeux. Psychologie Clinique, 9,
11-30.
Ceccim, R. & Merhy, E. (2009). Um agir micropolítico e pedagógico intenso: a humanização
em laços e perspectivas. Interface (Botucatu), 13(1), 531-542.
Chertok, L. & Stengers, I. (1989). Le Coeur et La Raison. L’Hypnose en Question, de Lavoi-
sier à Lacan. Paris: Payot.
Maurício da S. Neubern44
Csordas, T. (2002). Body/Meaning/Healing. New York: Palgrave/MacMillan.
Delourne, A. & Marc, E. (2001). Pour Une Psychothérapie Plurielle. Paris: Retz.
Ellenberger, H. (1971). The Discovery of the Unconscious. New York: Basic Books.
Erickson, M. & Rossi, E. (1980). The Collected Papers of Milton H. Erickson, MD. New
York: Irvington.
Frankl, V. (2009). Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes (Original publicado em 1970).
Freud, S. (1996a). Sobre a psicoterapia. Edição Standard das Obras Completas de Sigmund
Freud, Vol. VII [pp. 239-253]. Rio de Janeiro: Imago (Original publicado em 1905).
Freud, S. (1996b). Análise terminável e interminável. Edição Standard das Obras Completas
de Sigmund Freud, Vol. XXIII [pp. 231-275]. Rio de Janeiro: Imago (Original publicado em
1937).
Gergen, K. (1996). Realidad y Relaciones. Barcelona: Paidós.
Gergen, K. & Kaye, J. (1998). Além da narrativa na negociação do sentido terapêutico. In S.
McNamme & K. Gergen (Orgs.). A Terapia Como Construção Social [pp. 201-221]. Porto
Alegre: Artmed (Original publicadoem 1995).
Goolishian, H. & Anderson, H. (1996). Narrativa e self: alguns dilemas pós-modernos em
psicoterapia. In D. Fried-Schnitman (Org.). Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade [pp.
191-203]. Porto Alegre: Artmed (Original publicado em 1991).
Gonzalez Rey, F. (2007). Psicoterapia, Subjetividade e Pós-Modernidade. São Paulo:
Thomsom.
Greenberg, L.; Rice, L. & Elliot, R. (1993). Facilitando el Cambio Emocional. Barcelona:
Paidós.
Hacking, I. (1999). The Social Construction of What? Massachusets: Harvard University
Press.
Hanns, L. A. (2004). Entrevista: regulamentação em debate. Diálogos, 1 (1), 6-13.
Madanes, C. (1995). O Significado Secreto do Dinheiro. Campinas: Psy II (Original publica-
do em 1995).
Meyer, C. (2010) (Org.). Le Livre Noir de la Psychanalyse. Vivre, Penser et Aller Mieux Sans
Freud. Paris: Éditions des Arènes.
Méheust, B. (1999). Somnambulisme et Médiumnité. Paris: Seuil.
Morin, E. (1990). Science avec Conscience. Paris: Seuil.
Morin, E. (1991). La Méthode IV. Les Idées. Paris: Seuil.
Morin, E. (2001). La Méthode V. L’Identité Humaine. Paris: Seuil.
Naffah Neto, A. (1989). Paixões e Questões de um Terapeuta. São Paulo: Ágora.
Nathan, T. (2004). Du Commerce Avec les Diables. Paris: Seuil.
Nathan, T. (2006). La Guerre des Psys. Manifeste Pour Une Psychothérapie Démocratique.
Paris: Seuil.
Nathan, T. (2007). À Qui J’Appartiens? Écrits Sur la Psychothérapie, Sur la Guèrre et sur La
Paix. Paris: Seuil.
Neubern, M. (2004). Complexidade e Psicologia Clínica. Desafios Epistemológicos. Brasília:
Plano.
Neubern, M. (2005). A dimensão regulatória da psicologia clínica: O impacto da racionalida-
de dominante nas relações terapêuticas. Estudos de Psicologia, 10(1), 73-81.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 45
Neubern, M. (2009). Psicologia, Hipnose e Subjetividade. Revistando a História. Belo Hori-
zonte: Diamante.
Neubern, M. (2010a). Hipnose e subjetividade: utilização da experiência religiosa em psicote-
rapia. Estudos de Psicologia (Campinas), 27(2), 235-245.
Neubern, M. (2010b). Psicoterapia, dor e complexidade: Construindo o contexto terapêutico.
Psicologia: Teoria & Pesquisa, 26(3), 515-523.
Roudinesco, E. (2007) O Paciente, o Analista e o Estado. Rio de Janeiro: Zahar. (Original
publicado em 2004).
Roustang, F. (2006). Savoir Attendre Pour Que La Vie Change. Paris: Odile Jacob.
Santos, B. (2000). A Crítica da Razão Indolente. São Paulo: Cortez.
Stengers, I. (1995). L’Invention des Sciences Modernes. Paris: Flammarion.
Stengers, I. (1999). La Volonté de Faire Science. Paris: Seuil.
Stengers, I. (2001). Qu’est-ce que l’hypnose nous oblige à penser. Ethnopsy: Les Mondes
Contemporains de La Guérrison, 3, 13-68.
Turner, V. (1982). From Ritual to Theatre. The Human Seriousness of Play. New York: PAJ
Publications.
White, M. (2007). Maps of Narrative Practice. New York: Norton & Company.
Wolberg, L. (1967). The Technique of Psychotherapy. New York: Grune & Stratton.
Maurício da S. Neubern46
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 47
SENTIDOS SUBJETIVOS, LINGUAGEM E
SUJEITO: IMPLICAÇÕES
EPISTEMOLÓGICAS DE UMA PERSPECTIVA
PÓS-RACIONALISTA EM PSICOTERAPIA
Fernando Luis González Rey
Sumário: Introdução. A tensão entre duas ontologias pelo domínio da
psicologia atual. A categoria de sentido e sua separação do
processo de produção de significado. Do sentido ao sentido
subjetivo e às configurações subjetivas. Subjetividade, sujeito e
psicoterapia: transcendendo a racionalidade. Implicações
epistemológicas da compreensão da psicoterapia centrada no
desenvolvimento da subjetividade. Algumas reflexões finais.
Referências.
INTRODUÇÃO
O racionalismo moderno foi tomando formas muito sutis de ex-
pressão no curso de sua longa história no pensamento ocidental, manifestan-
do-se até hoje de diferentes maneiras, seja na filosofia ou nas ciências sociais
em geral. O próprio pensamento pós-estruturalista, que tanto o tem criticado,
abriu novas formas de redução dos processos humanos às produções simbó-
licas de caráter cultural, ignorando dessa maneira outros registros que, pela
sua gênese, escapam ao simbólico e são inseparáveis das diferentes práticas
humanas. Da mesma forma que o racionalismo fez com o conceito de razão,
o pensamento pós-estruturalista considerou o discurso como o foco universal
Fernando Luis González Rey48
para o estudo dos diferentes fenômenos humanos, sendo tanto a razão quanto
o discurso produções humanas que não reconhecem o caráter gerador das
emoções.
O giro linguístico das ciências sociais a partir da emergência da
linguística formal moderna, que teve no estruturalismo sua expressão filosó-
fica mais acabada e influente nas ciências sociais, não só excluiu o sujeito
dos processos sociais, como também – junto a ele – excluiu as emoções, que
então passaram a ser representadas como um epifenômeno da linguagem ou
foram sinalizadas por metáforas abrangentes com funções específicas no
interior da estrutura do inconsciente, como fez Lacan com o conceito de
gozo, por exemplo. Os processos sociais e psicológicos passaram a ser expli-
cados por normas e padrões associados com o funcionamento de sistemas
fechados (estruturas) que não são afetados pela ação dos sujeitos concretos.
Esses sistemas, associados com a repetição de normas e pautas em diferentes
áreas da ação humana, se reconhecem na definição de estrutura. A estrutura,
mesmo que esteja para além da razão e da intencionalidade humana, expres-
sa uma sequência e uma ordem típicas do funcionamento racional.
O presente capítulo irá focar no caráter gerador das emoções hu-
manas e as suas relações recursivas com os processos simbólicos, aprofun-
dando o entendimento dessa questão e marcando um ponto de virada da re-
presentação racionalista e do reducionismo do simbólico que dominam até
hoje, de uma forma ou de outra, o campo das ciências sociais. No desenvol-
vimento desse debate iremos fundamentar uma definição cultural-histórica
da subjetividade e seu impacto sob a psicoterapia, discutindo as consequên-
cias epistemológicas deste.
A TENSÃO ENTRE DUAS ONTOLOGIAS PELO DOMÍNIO DA
PSICOLOGIA ATUAL
A queda do estruturalismo, momento que Guattari (1998) destaca
como essencial para a retomada sobre novas bases do tema da subjetividade
nas ciências humanas, na realidade, levou à substituição do conceito de es-
trutura pelo de discurso, sendo este último compreendido como prática a
partir da definição assumida por Foucault (2008) em seu livro Arqueologia
do Saber. À promissora categoria de discurso aconteceu algo semelhante ao
que ocorreu com o conceito de cultura, ou seja, ficou demasiadamente ampla,
encontrando dificuldades na definição de seus limites e tornando-se moda
mesmo antes de ser debatida e aparecer de forma consistente nos diferentes
campos de pesquisa das ciências humanas. Entretanto, isso não diminui a
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 49
relevância desses dois conceitos na abertura de novas “zonas de sentido”1 no
estudo dos fenômenos humanos.
O conceito de cultura com ênfase nos aspectos simbólicos das dife-
rentes práticas humanas, tal como conceituado a partir dos trabalhos de Ge-
ertz, foi importante para a própria definição de “prática discursiva”, uma vez
que as práticas discursivas estão culturalmente situadas. A cultura, compre-
endida como a formação e desenvolvimento dos sistemas e recursos simbóli-
cos geradores de práticas, instituições e identidades, permite compreender a
produção desses fluxos simbólicos múltiplos que se integram na definição de
práticas discursivas. Essas produções simbólicas transcendem a consciência
individual, colocando-nos além da expectativa racionalista de predição e
controle, porém terminam aderindo-se à ideia de que a pessoa está determi-
nada de forma absoluta por produções supraindividuais discursivas, gerando
assim um reducionismo relacionalde natureza sociocultural.
O lugar atribuído à linguagem e ao discurso no pensamento pós-
-moderno manteve a eliminação do sujeito defendida pelo estruturalismo,
ignorando assim a capacidade geradora das emoções humanas. A emoção
representa uma verdadeira subversão, tanto para o pensamento racionalista,
como para o reducionismo que busca querer entender o homem só em ter-
mos simbólico-culturais. A cultura, ao permitir explicar a multiplicidade
infinita do humano a partir de produções simbólicas que se legitimam apenas
dentro do espaço cultural em que aparecem, cria as condições para compre-
ender a subjetividade humana como expressão dessa diversidade infinita de
criação e sentido que o homem é capaz de gerar diante de contextos diferen-
tes. Porém, essa definição do discurso como prática cultural, que marcou um
giro essencial nas ciências sociais, ao deixar de fora o caráter ativo e gerador
das emoções, enfatizou exclusivamente o elo cultura-linguagem-cognição
em detrimento do desenvolvimento de uma nova noção de subjetividade.
A relevância da cultura e das práticas simbólicas no estudo dos pro-
cessos humanos representa um importante antecedente para estudar a subjetivi-
dade fora dos preconceitos que estigmatizaram esse conceito como pertencente à
metafísica moderna. A separação da ideia de subjetividade da representação de
uma natureza humana universal, assim como seu deslocamento para produções
simbólico-emocionais que se separam do sinal a partir da emergência do signo,
 
1 “Zona de sentido” é uma expressão usada por mim (González Rey, 1997) para definir o valor heu-
rístico de um saber, o que para mim vem dado pela emergência de uma nova inteligibilidade num
campo particular de práticas humanas. Essa inteligibilidade nunca fica aprisionada no sistema de
categorias concretas de uma teoria particular através da qual foi gerada. As categorias de cultura e
discurso, além das múltiplas definições que coexistem sobre elas, nos permitem significar produções
simbólicas institucionalizadas que abrem novas alternativas na construção dos mais diversos fenô-
menos humanos, entre eles da própria subjetividade.
Fernando Luis González Rey50
marcou um novo ponto de partida para a construção de uma teoria da subjetivi-
dade que define o psiquismo humano nas condições da cultura.
A ideia de práticas discursivas acrescenta uma dimensão dos fenô-
menos humanos essencial para a compreensão da subjetividade, ou seja, os
fenômenos humanos são gerados em espaços discursivos socialmente cons-
truídos. Entretanto, as emoções emergem nos sujeitos individuais que vivem
nesses espaços, não como um epifenômeno dessas produções discursivas, mas
como momentos de tensão e ruptura das pessoas com os diferentes espaços
sociais em que acontecem suas práticas. Essas emoções são fontes de novos
desdobramentos simbólicos que, no nível da fantasia e da criação individual,
vão subverter a ordem discursiva hegemônica se articulando numa subjetivi-
dade social que vai implicar a produção de novas alternativas subjetivas nas
pessoas. Essas produções dos indivíduos são partes inseparáveis das produções
discursivas que irão se desdobrar nos espaços sociais, as quais não são apenas
simbólicas, implicando novas produções emocionais ao interior desses espaços
sociais. Essas produções subjetivas pessoais, por sua vez, resultarão atravessa-
das por novas produções da subjetividade social num relacionamento recursi-
vo que não é susceptível a uma lógica de causa-efeito.
A subjetividade é uma expressão histórica tanto das pessoas quanto
dos espaços sociais em que acontecem as suas práticas e sistemas de rela-
ções. Toda institucionalização é um processo gerador de subjetividades a
nível social que leva à produção de múltiplas singularidades individuais que
subvertem essa ordem dominante. A subjetividade individual mantém sua
capacidade de contradição com a subjetividade social, pois a pessoa, como
sujeito de posicionamento social diferenciado, é o resultado de uma história
diferente daquela que se configurou como ordem social da instituição. Ou
seja, o sujeito é produtor de formas de subjetivação no mesmo processo em
que resulta produzido por uma subjetividade social que é inseparável desses
processos de subjetivação singulares que, por sua vez, o colocam como pro-
dutor, gerador do mesmo sistema em que ele vai se produzir e que transcen-
de seus limites individuais. O sujeito é “produzido” através de suas próprias
produções, apesar de que, com frequência, essas produções estão sujeitadas a
tipos de produções discursivas que violentam as possibilidades de singulari-
zação. É esse um dos mecanismos subjetivos do exercício do poder.
O reconhecimento da subjetividade sempre implica na consideração
da pessoa como sujeito produtor de opções e não apenas como o sujeito total-
mente assujeitado que o estruturalismo legou ao pós-estruturalismo. As produ-
ções discursivas se organizam em todos os níveis sociais, mas elas não definem
de fora nem as pessoas, nem os espaços sociais em que elas atuam. Elas são
partes inseparáveis das produções humanas que acontecem nesses espaços, po-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 51
rém elas ganham sentidos subjetivos diferentes a partir das configurações subje-
tivas desses próprios espaços sociais, em tensão com as configurações subjetivas
individuais que se desenvolvem na ação das pessoas dentro desses espaços.
A crítica ao individualismo naturalizado e a-histórico que caracte-
rizou algumas posições da psicologia moderna é comum aos autores que só
reconhecem a legitimidade das práticas discursivas, afastando-os de todo
conceito psicológico na análise dos processos humanos. Mas essa crítica não
é exclusiva desses autores, ela é compartilhada por autores que procuram, no
desenvolvimento da subjetividade, novas formas de representação do caráter
ativo do homem a partir das formas complexas de sua organização psíquica
sem, contudo, reduzir esses processos a uma organização mental individual;
a subjetividade para esse autores é um aspecto importante da própria vida
social e de seus diferentes processos (González Rey, 1993, 1995, 2002; Elliott,
1997; Castoriadis, 2006; Frosh & Baraitser, 2008).
Em minha opinião, práticas discursivas e subjetividade ficaram
como opostos devido às posições mais gerais que caracterizam o pós-
-estruturalismo francês, sistema em que o conceito de discurso ganhou a
relevância que tem hoje e que mantém a mesma aversão do estruturalismo
aos aspectos psicológicos envolvidos na gênese de um sujeito ativo e gera-
dor. Os conceitos de práticas discursivas e de subjetividade são comple-
mentares. As práticas discursivas são um dispositivo gerador de ações indi-
viduais que estão para além da consciência da pessoa, mas a subjetividade é
o recurso pelo qual essas práticas discursivas aparecem como sentidos dife-
renciados dos sujeitos individuais e da configuração subjetiva das tramas
sociais em que eles se organizam na sua vida social.
O caráter universal atribuído às práticas discursivas implicou em
posicionamentos extremos em alguns autores que usam o termo, entre os
quais se destaca o desconhecimento do caráter gerador do corpo como orga-
nismo bio complexo2 que, através das emoções, gera verdadeiros circuitos de
integração dos registros simbólicos, formando assim novos processos de
autorregulação ou de desregulação dos diferentes sistemas vitais do orga-
nismo humano. As emoções, associadas de forma inseparável ao funciona-
mento do corpo na sua integridade e organização simbólica, criam infinitas
formas de expressão e desdobramentos que afetam não só o corpo, mas os
mais complexos sistemas simbólico-emocionais que definem a subjetividade
humana nas práticas sociais, se constituindo assim elas mesmas como pro-
 
2 Uso a expressão organismobio complexo como forma de sintetizar os sistemas bioquímicos, elétri-
cos, e neurodinâmicos que se organizam no corpo que, por sua vez, é um sistema aberto, sensível às
influências externas e, em particular, através das emoções, aos registros simbólicos em que se orga-
niza a vida social humana.
Fernando Luis González Rey52
cesso subjetivo. Assim como o próprio corpo que, como sistema, se inclui
nos processos de sentido subjetivo que o regulam (ou desregulam), as emo-
ções que nele se geram se configuram na subjetividade humana, desdobran-
do-se em processos que geram múltiplos circuitos “corpo-subjetividade”
com efeitos simultâneos em ambos os sistemas. Esses circuitos representam
momentos de um novo sistema funcional que integra ambos – corpo e subje-
tividade –, sem que eles percam a sua autonomia relativa em relação a outras
funções diferenciadas que eles desempenham.
A ideia de prática discursiva facilita o desenvolvimento de uma vi-
são não essencialista, nem individualista, nem intrapsíquica da subjetividade
humana, mas não substitui a subjetividade, conceito que pressupõe a exis-
tência do sujeito e reconhece a qualidade subjetiva, geradora e social das
emoções. A fantasia e a imaginação, produções simbólicas fundamentais da
subjetividade humana, não existem fora da produção de emoções. Porém, o
desafio de encontrar conceitos que expliquem essa unidade simbólica emo-
cional e a natureza desses processos torna-se central para a construção do
tema da subjetividade numa perspectiva cultural-histórica. A fantasia e a
imaginação não são simples processos simbólicos, nem cognitivos, nem
propriamente emocionais, são processos geradores de sentidos subjetivos
que não existem fora do sujeito que os produz.
A CATEGORIA DE SENTIDO E SUA SEPARAÇÃO DO PROCESSO
DE PRODUÇÃO DE SIGNIFICADO
A categoria sentido toma grande relevância na linguística russa
que, diferente da linguística formal e abstrata de Saussure, enfatiza a plurali-
dade dos significados das palavras em contextos diferentes e a mobilidade
desses significados no processo da fala, o que também vai ser central para a
fundação da hermenêutica moderna. Essa mobilidade e versatilidade que os
linguistas russos atribuem ao sentido fazem desse conceito uma categoria
muito atrativa para a psicologia. Voloshinov (2009)3 escreve: “O sentido de
uma palavra define-se plenamente pelo seu contexto. Na realidade existem
tantos significados de uma palavra como contextos há do seu uso” (p. 127).
A linguística russa enfatiza o sentido em sua relação com o con-
texto, destacando esse caráter de movimento infinito que não o converte em
entidade, se organizando em cadeias onde um sentido transforma-se num
novo sentido de forma permanente. Esse avanço na definição dos sentidos
 
3 Este trabalho, publicado na Argentina em 2009 na versão traduzida ao espanhol por T. Bubnova, foi
escrito originalmente pelo autor em 1929.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 53
implica em uma ênfase epistemológica na inteligibilidade em lugar da de-
monstração, que foi uma categoria central da legitimidade do saber para o
positivismo experimental. As cadeias de sentido são inapreensíveis pelo ato
da demonstração, o que foi um princípio importante para o desenvolvimento
da hermenêutica. Os avanços dos linguistas russos numa concepção her-
menêutica centrada nos sentidos os levaram por um caminho diferente da-
quele seguido pelo estruturalismo, no qual a ideia do sujeito da linguagem
era essencial. Embora Voloshinov e Bakhtin sejam nomes favoritos de mui-
tos dos autores pós-modernos – assim como também Vigotsky –, o certo é
que, tanto num caso como em outro, esses autores aparecem estagnados em
interpretações demasiadamente unilaterais que ignoram as diferenças que
eles tiveram de seus intérpretes atuais.
Em clara diferença com Saussure, Voloshinov (2009, p. 99) escreve:
A língua não é uma função de sujeito falante, é o produto que o indivíduo
registra passivamente; nunca supõe premeditação e a reflexão não partici-
pa nela mais que como atividade de classificar (...). A fala é, pelo contrá-
rio, um ato individual de vontade e inteligência, no qual é importante dis-
tinguir: 1) as combinações pelas quais o sujeito falante usa o código da
língua com vistas a expressar seu pensamento pessoal; 2) O mecanismo
psicofísico que lhe permita exteriorizar essas combinações.
A fala não aparece como uma estrutura organizada por pautas re-
petitivas formais; em diferença à língua, o uso da fala nos remete ao sujeito
da fala, sendo esta, nos termos usados por Voloshinov, um “ato individual de
vontade e inteligência”, ou seja, uma produção de um sujeito ativo que usa o
código da língua para expressar seu pensamento, mas que não está configu-
rado subjetivamente segundo o código da língua e nem nas operações for-
mais daquela. O pensamento, o caráter produtivo e gerador do sujeito não
são negados e é precisamente esse reconhecimento um aspecto essencial
para o destaque da subjetividade como via de inteligibilidade para definir
esses processos que não se reduzem à língua e nem às suas operações e que
são inseparáveis da ação social e individual, onde aparecem como uma nova
produção e não como uma réplica de algum sistema externo à própria subje-
tividade.
Porém, assim como aconteceu com Vigotsky, Voloshinov e
Bakhtin4 também desenvolveram suas obras em momentos muito convulsi-
 
4 Mesmo que por muito tempo se tenha considerado o nome de Voloshinov como pseudônimo usado
por Bakhtin, T. Bubnova em seu prefácio a essa obra na edição em espanhol esclarece: “As obras do
círculo de Bakhtin assinadas por Voloshinov, Medvedev e Kanaev, foram atribuídas a Bakhtin em
1970 pelo semiólogo V. Ivanov, e essa ideia se manteve até meados dos anos noventa do século pas-
sado. Colocada em dúvida já por Morson e Emerson, essa ideia foi recolocada por pesquisadores in-
Fernando Luis González Rey54
vos do período soviético, onde qualquer suspeita de idealismo era interpreta-
da como oposição política ao Marxismo e poderia trazer sérias consequências
para o implicado. Isso fez que as obras desenvolvidas nesse período fossem
profundamente contraditórias, exibindo ideias contrárias em lapsos relati-
vamente curtos de tempo. No mesmo livro de onde tomei a citação anterior
de Voloshinov, na qual o autor destaca a necessidade de considerar ao su-
jeito da fala, aparece uma ideia orientada em defesa da objetividade, viés
positivista de toda a ciência materialista soviética da época: “A consciência
individual é um fato ideológico e social. Até que esse postulado não se reco-
nheça com todas as suas implicações, não poderá se construir uma psicologia
objetiva, nem uma ciência objetiva das ideologias” (2009, p. 31).
Nessa citação o autor ignora tanto o caráter subjetivo da consciên-
cia, como o da ideologia, mesmo que antes tenha atribuído um lugar ao su-
jeito da fala muito semelhante àquele atribuído por Vigotsky à pessoa no
pensamento, caminhos que sinalizam uma capacidade criadora do sujeito
vinda de processos autogeradores que só podem se identificar nessa comple-
xa integração do simbólico e do emocional que se define no subjetivo.
Mesmo que o sentido social de todo enunciado seja indiscutível,
como afirmam Voloshinov e Bakhtin, o sentido subjetivo desse enunciado é
desenvolvido pela pessoa que fala através de estratégias que implicam o seu
pensamento e as suas emoções. Entretanto, a ausência de uma teoria da sub-
jetividade na época não permitia o uso de categorias capazes de gerar inteli-
gibilidade sobre processos diferentes daqueles que já apareciam nas repre-
sentações dominantes nas ciências daquele tempo, como aqueles de vontade
e inteligência usados por Voloshinov para dar conta do caráter ativo do su-
jeito da fala. No meu trabalho tento significaresse nível subjetivo gerador de
processos diferentes da produção humana, que não estão nem na linguagem
nem na cognição, através dos conceitos de sentido subjetivo e configuração
subjetiva. Nos conceitos, sejam científicos ou de qualquer outra natureza,
seus significados não ficam congelados na palavra e se definem nos jogos
que se estabelecem com outros conceitos. No caso da ciência esses jogos
acontecem dentro do marco teórico a partir do qual esses novos conceitos
ganham sua inteligibilidade para definir novos problemas de construção
teórica e de pesquisa.
Bakhtin (1994) já tinha destacado a relevância do emocional: “A
verdadeira mente em ação é uma mente de emoção e volição, uma mente de
 
gleses e norte-americanos, que aceitam que a medida de intervenção de Bakhtin nos textos denomi-
nados ‘apócrifos’ (três livros e toda uma série de artigos) não pode ser definida com precisão, e que
os autores titulares foram reais e não meros pseudônimos. O problema da autoria segue em aberto”.
(Voloshinov, 2009, p. 6)
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 55
entonação, e essa entonação essencialmente penetra todos os momentos
significativos do pensamento” (p. 36). Novamente aqui se destaca o sujeito
da linguagem através da ideia de mente em ação e da presença das emoções
nos “momentos significativos do pensamento”, conceito que coloco entre
aspas não apenas para indicar a autoria de Bakhtin, mas para destacar uma
afirmação sutil: os “momentos significativos do pensamento estão penetra-
dos de uma entonação que integra as emoções e a volição”, integração que
responde à ordem subjetiva dos processos psíquicos. Porém, trata-se de uma
subjetividade em ação que se expressa num sujeito que, junto a seus atos,
pensa e sente, produzindo diversos sentidos subjetivos que definem o caráter
subjetivo da ação.
Vigotsky faz um importante avanço ao considerar o sentido como
categoria psicológica, definindo-o como: “(…) o agregado de todos os fato-
res psicológicos que aparecem em nossa consciência como resultado da pa-
lavra” (1987, p. 276). Nessa definição o sentido se separa do significado da
palavra em contexto, passando a ser uma unidade psíquica da consciência
organizada na processualidade da linguagem.
A integração dos processos psíquicos que Vigotsky define através
de sua colocação do sentido na consciência é congruente com a sua procura
da unidade do cognitivo e do afetivo na definição do psiquismo humano. A
sua ideia do sentido como unidade ancorada no sistema psíquico se explicita
quando nos diz: “Finalmente, o sentido de uma palavra depende de nossa
compreensão da palavra como um todo e da estrutura interna da personalida-
de” (Vigotsky, 1987, p. 276). Apesar da ênfase na compreensão, o que foi
frequente no curso de sua obra, especialmente quando ele avançou demais
no caráter subjetivo de algumas de suas definições, o fato de destacar a es-
trutura da personalidade traz à tona aspectos não cognitivos. Esse trânsito da
compreensão do sentido, da relação palavra-contexto à relação palavra-
-consciência, fez desse conceito uma categoria psicológica que, na sua obra,
apenas conseguiu dar os seus primeiros passos, mas que mesmo assim ex-
pressou um novo momento qualitativo em seu pensamento (González Rey,
2009a). O sentido definido sobre essas novas bases representou um conceito
importante para a psicologia cultural-histórica, pois permitiu estabelecer uma
relação inédita entre psique humana, palavra, contexto e cultura. Entretanto,
Vigotsky não conseguiu avançar no uso dessa categoria introduzida por ele
no momento final de sua obra; faltaram-lhe recursos teóricos e tempo para
exprimir todo o seu potencial (González Rey, 2008, 2009a).
Fernando Luis González Rey56
DO SENTIDO AO SENTIDO SUBJETIVO E ÀS CONFIGURAÇÕES
SUBJETIVAS
O valor heurístico da categoria sentido para a psicologia me levou
a reformular esse conceito, visando avançar na elaboração de uma teoria
cultural-histórica da subjetividade, tema que sempre aparece tratado de for-
ma marginal, indireta e imprecisa no tratamento de outros assuntos. Essa
reformulação levou-me à definição do sentido subjetivo como a unidade dos
processos simbólicos e emocionais, na qual a emergência de um deles evoca
o outro sem se converter necessariamente na sua causa, numa dinâmica que
leva à formação de cadeias de sentidos subjetivos que se organizam como
configurações subjetivas que, por sua vez, são formações psicológicas em
constante movimento e que formam sistemas auto-organizados com capaci-
dade geradora sobre as diferentes ações e processos psíquicos das pessoas
(González Rey, 2002; Mitjans Martínez, 2004).
Diferentemente da forma em que o sentido foi definido por Vigotsky, o
sentido subjetivo não está fixado à palavra, sendo uma unidade simbólico-
emocional que se caracteriza pela sua expressão dinâmica no curso das diferentes
expressões humanas. Os sentidos subjetivos representam o momento subjetivo de
toda expressão humana; a subjetividade se define pela natureza qualitativa de um
tipo particular de fenômeno humano, seja ele social ou individual. É a sua especi-
ficidade qualitativa em relação a outros tipos de fenômenos o que faz da subjeti-
vidade uma nova definição ontológica para o estudo dos processos humanos.
O conceito “sentido subjetivo” me permitiu compreender a ação hu-
mana como produção da pessoa e não como uma resultante das múltiplas in-
fluências externas que convergem e são significativas nessa produção. Eles não
estão dados por conteúdos que se repetem a si mesmos no curso da ação huma-
na. São únicos, existem no momento da ação e tem uma alta sensibilidade para
se metamorfosear em sua relação com outros sentidos subjetivos nas configura-
ções subjetivas em que eles aparecem. Eles sempre emergem no contexto como
resultado da configuração subjetiva que emerge no curso da ação humana con-
creta. Essas configurações subjetivas que aparecem no curso da ação humana se
organizam como momentos da personalidade na ação, pois são inseparáveis das
configurações subjetivas mais estáveis da personalidade que se desdobram de
múltiplas formas nessa nova configuração subjetiva da ação. A complexidade
desses processos me leva a pensar que essas configurações irão fundamentar
uma nova representação da personalidade como momento permanente da ação5.
 
5 O conceito de personalidade conserva seu valor heurístico nesta abordagem como o sistema das
configurações subjetivas associadas à organização subjetiva da própria pessoa. Nesse sistema apare-
cem configurações subjetivas que definem sentidos subjetivos que sinalizam no presente a história
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 57
Essas configurações subjetivas da experiência se organizam no curso da própria
experiência e não existem a priori, nem como determinante dela.
O histórico e o social aparecem subjetivamente como dimensões de
toda configuração subjetiva. O social se organiza nos sentidos subjetivos
atuais que emergem nas experiências vividas pelo sujeito no tempo presente
e que se organizam como um novo momento da rede de sentidos subjetivos,
que por sua vez vai implicar em diferentes configurações subjetivas da per-
sonalidade no curso dessa experiência. Não existe produção de sentidos
subjetivos em ações ou eventos que não comprometem de uma forma ou de
outra a personalidade do sujeito no processo de sua atuação. As configura-
ções subjetivas da personalidade expressam sua estabilidade pela emergência
de sentidos subjetivos que convergem através de manifestações diferentes da
pessoa. É essa uma das razões pela qual os sentidos subjetivos só podem ser
estudados desde uma perspectiva construtivo-interpretativa de pesquisa.
A presença da personalidade nas configuraçõessubjetivas que se
organizam na ação das pessoas deve ser descoberta pelo pesquisador através
das suas hipóteses sobre sentidos subjetivos que convergem nas diferentes
formas de expressão da pessoa. As construções do pensamento representam
uma forma de expressão privilegiada no estudo dos sentidos subjetivos, pois
elas aparecem numa linguagem portadora de significados que está além da
consciência do próprio sujeito da fala, e por sua vez, toda produção de pen-
samento implica um envolvimento emocional do sujeito, razão pela qual o
pensamento torna-se uma importante via de produção de sentidos subjetivos;
o pensar representa uma configuração subjetiva que nunca aparece de forma
linear nas expressões concretas em que o pensamento se objetiva.
É na experiência que a pessoa emerge como sujeito de decisões e
opções pessoais que representam novas alternativas de produção subjetiva no
campo da ação e do pensamento. Toda decisão humana implicada no curso
de uma experiência significativa da pessoa é uma produção subjetiva, por-
tanto, a pessoa não pode ser reduzida a um mero agente do contexto. Na
condição de sujeito, a pessoa se posiciona de forma ativa no processo de
suas experiências e esse posicionamento é, em si, um momento de produção
de novos sentidos subjetivos que não são conscientemente percebidos por
ela. As decisões e posições pessoais assumidas no curso de uma experiência
são expressões das configurações subjetivas que se organizam no curso des-
 
vivida pela pessoa, e são essas configurações as responsáveis pelos sentidos subjetivos das relações
e experiências que, pelo seu impacto, formam a sua biografia. A personalidade é compreendida des-
sa forma como o sistema dentro do qual vão se organizar as diferentes configurações subjetivas das
múltiplas ações e experiências que se organizam no curso da vida cotidiana das pessoas, todas elas
responsáveis pela produção de novos sentidos subjetivos que mantém a personalidade em constante
tensão e desenvolvimento.
Fernando Luis González Rey58
sa experiência. O sujeito é a antítese da vítima, pois ele nunca está à mercê
das condições externas. Ele sempre está preparando as suas alternativas
frente às suas condições de vida, mesmo que essas condições sejam as mais
adversas que uma pessoa possa enfrentar.
As relações sociais são vividas pelas pessoas, grupos e instituições
numa complexa teia de configurações subjetivas. Um evento externo só ga-
nha sentidos subjetivos dentro dessa teia subjetiva de configurações. Assim,
por exemplo, os sentidos subjetivos que se articulam nas reflexões e emo-
ções de um aluno, ou um professor, na sala de aula fazem que um dado com-
portamento não seja apenas uma reação frente ao acontecimento vivido e sim
o resultado de uma configuração subjetiva organizada no curso dessa experi-
ência. O que está sendo vivido no momento integra uma multiplicidade de
outras experiências concretas da vida da pessoa que emergem na realidade
das emoções e processos simbólicos que se manifestam nesse momento pre-
sente e que, aparentemente é o resultado do acontecimento vivido nesse ins-
tante. A forma como a pessoa sente o seu lugar na família, as rivalidades e
tensões no contexto da escola, sua presença nesse grupo específico de que
faz parte, a avaliação do seu corpo pelos outros etc., são todos sentidos sub-
jetivos que podem ou não fazer parte da configuração subjetiva de qualquer
evento que aconteça com ela nesse contexto escolar. Os processos subjetivos
de um evento expressam toda uma produção de sentidos subjetivos nas con-
figurações subjetivas da pessoa dessa experiência.
As configurações subjetivas são acessíveis ao saber humano só
através de hipóteses capazes de produzir inteligibilidade sobre alguns desses
processos; a configuração subjetiva na sua complexidade e dinâmica está
sempre além das possibilidades do saber produzido. Os sentidos subjetivos
têm uma dinâmica permanente, na qual se desdobram muito rapidamente em
novos sentidos subjetivos no interior de uma configuração subjetiva comple-
xa, o que implica numa necessidade de construções teóricas que se movi-
mentem em hipóteses vivas e que acompanhem esse processo na pesquisa.
De qualquer maneira, como afirmamos antes, a fonte mais estável para pro-
duzir inteligibilidade sobre essas complexas configurações subjetivas são os
sistemas de expressão significativos do sujeito, os quais sempre se organi-
zam em configurações subjetivas de sua personalidade.
Num nível metodológico, a definição dos sentidos subjetivos só
pode ser captada pelas ideias do pesquisador acerca dos movimentos difusos
e contraditórios das múltiplas expressões humanas. Essas ideias são as que
permitem a emergência de indicadores nas metamorfoseadas formas de ex-
pressão do sujeito que, através de sua integração, definirão um significado
capaz de gerar inteligibilidade sobre os sentidos subjetivos envolvidos na
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 59
configuração subjetiva da questão estudada. Só nas construções do pesquisa-
dor aparece essa possibilidade de inteligibilidade, toda vez que ela permite
articulações entre experiências empíricas que fenomenicamente não tem
relações entre si.
A mobilidade dos sentidos subjetivos tem os seus limites na atuali-
zação da história do sujeito, que emerge como momento inseparável da per-
sonalidade nas configurações subjetivas de toda experiência humana. Os
sentidos subjetivos e as configurações subjetivas em que estes se organizam
são responsáveis por uma produção da experiência humana que é inseparável
do mundo vivido pelo sujeito. Isso é o que faz com que todo ato criativo seja
uma produção subjetiva que está além de qualquer subordinação ao presente
concretizado nas formas de objetividade do “dado”. Toda criação humana é
sempre uma “ficção idealizante”, como Merleau-Ponty (1991) definiu as
produções da ciência. Neste ponto de emergência da posição epistemológica
alternativa para o estudo da subjetividade que venho desenvolvendo a partir
da Epistemologia Qualitativa, ganha uma particular relevância a seguinte
reflexão de Merleau-Ponty:
A filosofia é realmente, é sempre, ruptura com o objetivismo, retorno das
contructa à vivência, do mundo a nós mesmos. Entretanto esse procedi-
mento indispensável, e que a caracteriza, já não a transporta para a atmos-
fera rarefeita da instrospecção ou para um campo numericamente distinto
daquele da ciência, já não a coloca em rivalidade com o saber, desde que
reconhecemos que o “interior” ao qual ela nos leva não é uma “vida pri-
vada” e sim uma intersubjetividade que, pouco a pouco nos une à história
inteira. (1991, p. 12)
A subjetividade representa um momento nesse importante caminho
que Merleau-Ponty sinaliza na citação anterior, mesmo que em minha opinião
não é a intersubjetividade a que nos une à história inteira, mas as nossas
próprias configurações subjetivas onde a história inteira aparece como pro-
dução subjetiva que integra a intersubjetividade como mais um de seus mo-
mentos. A intersubjetividade é apenas um dos processos da subjetividade
social, a qual está longe de se esgotar nos espaços intersubjetivos das rela-
ções humanas. Não há intersubjetividade autônoma; toda intersubjetividade é
um momento particular de interseção produtiva da subjetividade individual e
social através de sujeitos singulares concretos situados em contexto.
A superação da lógica do objetivo concreto tem importantes impli-
cações para todas as atividades humanas, entre elas a psicoterapia e as dife-
rentes práticas da psicologia. As implicações destas colocações teórico-
-epistemológicas para a psicoterapia as analisarei a seguir.
Fernando Luis González Rey60
SUBJETIVIDADE, SUJEITO E PSICOTERAPIA: TRANSCENDENDO
A RACIONALIDADE
A definição de subjetividade apresentadaantes e em muitos dos
meus trabalhos anteriores (González Rey, 1993, 1995, 1997, 2002, 2004,
2008) é inseparável da noção de sujeito como pessoa ativa, assumida, e não
como a pessoa assujeitada. O sujeito não tem uma autonomia plena, mas é
capaz de confrontações permanentes que lhe abrem a autonomia de ações
alternativas àquelas esperadas pelas formas dominantes de organização
social. Essas alternativas podem aparecer no comportamento ou num nível
imaginário, apesar de todo comportamento relevante sempre ter um com-
promisso com a imaginação e a fantasia, ferramentas essenciais da constru-
ção humana. Diferentemente da muito difundida noção de agência, que re-
conhece o momento ativo da pessoa apenas no contexto da experiência atual,
a definição de sujeito reivindica a presença de complexas configurações
subjetivas responsáveis pelos sentidos subjetivos envolvidos nos posiciona-
mentos ativos desse sujeito.
A subjetividade se afirma no histórico, não como teleologia, mas
como forma diferenciada do atual. A pessoa se torna sujeito quando gera
opções de subjetivação que entram em conflito, intencionalmente ou não,
com os sistemas normativos hegemônicos do espaço social em que vive,
gerando alternativas de sentido subjetivo que adquirem um caráter subversi-
vo em relação à ordem hegemônica. Entre os sistemas sociais normativos e
os sentidos subjetivos que aparecem no curso da ação existem múltiplas
contradições que ficam além da capacidade de representação da pessoa. Isso
explica por que as opções subjetivas frente a esses sistemas normativos es-
capam das representações conscientes e intencionais das pessoas, mesmo
que essas sejam ferramentas essenciais daquelas e fontes permanentes do seu
desenvolvimento.
A saúde mental não pode se definir pela ausência de conflitos, mas
pela possibilidade de gerar novos sentidos subjetivos e configurações subje-
tivas no decorrer dessas experiências de conflito. A experiência humana é
conflituosa pelo seu caráter subjetivo. O conflito não aparece na dimensão
objetiva da experiência, sendo sempre o resultado de sua configuração sub-
jetiva e das experiências imaginárias decorrentes delas. Toda experiência
humana pode vir a ser conflitiva, não pelo seu conteúdo em si, mas pela sua
configuração subjetiva. É a configuração subjetiva da experiência, e não a
experiência em si, a responsável pelas emoções e os desdobramentos simbó-
licos que a pessoa vai gerar no processo de uma experiência qualquer. O
sofrimento psíquico aparece pela incapacidade de produzir sentidos subjeti-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 61
vos que permitam o bem-estar, o qual é sempre uma produção subjetiva, pois
não existe bem-estar objetivo.
O processo no qual aparece o sofrimento é o resultado da fixação
de emoções geradoras de dor, processo este associado a uma configuração
subjetiva que impede a emergência de estados subjetivos diferentes a essas
vivências dominantes. O transtorno mental emerge nesse devir quando o
sofrimento impede a produção de novas configurações subjetivas nas dife-
rentes ações e relações da pessoa. Os sentidos subjetivos daquilo que a pes-
soa faz são monopolizados por uma configuração subjetiva frente à qual as
pessoas vão perdendo seus recursos para produções alternativas. É essa a
configuração subjetiva dos diferentes sintomas que irão aparecer caso a pes-
soa não consiga gerar sentidos subjetivos capazes de se articular em novas
configurações subjetivas.
Um exemplo muito interessante sobre esse processo que descrevo
veio de uma experiência que me aconteceu em sala de aula. A aluna B., de
21 anos, mesmo com uma excelente capacidade de crítica e reflexão, costu-
mava chegar sempre atrasada em sala de aula. Num desses dias em que che-
gou tarde lhe falei: “B., você tem uma impressionante capacidade para estar
sempre no lugar errado no momento errado”. Quando a aluna ouviu isso ela
começou a chorar muito profundamente. Mas mesmo nesse estado afetivo
ela esclareceu para mim e para o grupo: “Desculpem, não é por causa do que
o professor falou que reagi assim”. Essa aluna continuou comigo por vários
semestres e nunca recusou os meus níveis de exigência. Conversando sobre
aquela experiência, ela me falou: “Professor, aquela minha reação às suas
palavras aconteceu por múltiplas razões. Eu sou filha de pais divorciados e
com grande frequência me sinto no lugar errado e no momento errado nesse
trânsito complexo entre várias famílias. Unido a isso, naquele preciso mo-
mento eu estava me separando de um namorado italiano de quem tinha me
apaixonado intensamente e, puxa, as suas palavras se carregaram de algo que
eu estava sentindo muito profundamente, mas que nunca tinha expressado
nessas palavras”.
O relato dessa aluna representou um testemunho de grande valor
heurístico para a minha ideia de configuração subjetiva que naquele preciso
momento estava adquirindo novos significados nas minhas reflexões teóricas.
Aquele mesmo episódio, fora daquela configuração subjetiva completamente
conjuntural, teria evocado outra configuração subjetiva, ou então teria passado
fora dos processos de subjetivação sem maiores consequências para a aluna.
Essa experiência, que no caso de B. foi uma experiência de desenvolvimento,
que lhe fez pensar e se re-posicionar frente ao vivido, poderia ter se convertido
também no desenvolvimento de um transtorno psíquico se, em vez das alter-
Fernando Luis González Rey62
nativas geradas por ela, como aquele sentimento que expressou no choro, a
tivesse levado a se envergonhar, a se sentir discriminada, injustiçada, e frente a
isso optasse por abandonar a aula e se afastar do grupo, abrindo assim um
caminho imprevisível que poderia ter facilitado o transtorno e não o desenvol-
vimento. Essa situação, mesmo sem ter nada de trágico na sua aparência, ape-
sar de sua reação emocional intensa, foi, de fato, um momento decisivo na
encruzilhada entre o transtorno e o desenvolvimento.
Os transtornos psíquicos representam verdadeiros sistemas recursi-
vos de sentido subjetivo que, no processo de seu desenvolvimento, passam a
se organizar numa configuração subjetiva geradora de emoções e processos
simbólicos, que ganham uma capacidade de retroalimentação recíproca que
impede a emergência de novos estados subjetivos. Esse processo não é aces-
sível ao racional associado às representações do sujeito, nem pode ser resol-
vido pela compreensão das causas que o determinam, simplesmente porque
não tem causas, e sim toda uma emaranhada rede simbólico-emocional em
desenvolvimento que se alimenta de uma multiplicidade de elementos casuais
se tornando uma configuração subjetiva hegemônica.
A pessoa perde a sua capacidade de atuar como sujeito das novas
experiências vividas quando não consegue desenvolver novas configurações
subjetivas frente a elas, comprometendo assim sua capacidade de decisão,
reflexão e negociação. Isso lhe impede alternativas de vida que a distanciem
daqueles processos hegemônicos que marcam a gênese do transtorno psico-
lógico. Tudo o que a pessoa produz gera sentidos subjetivos condizentes
com a configuração subjetiva do transtorno. Esse estado de continuidade e
reverberação de emoções geradoras de dor e mal-estar está na base dos sin-
tomas que aparecem no curso desse processo, como depressão, ansiedade,
agressividade etc. O simples conhecimento não ajuda na superação desse
processo, porque ele mesmo é uma produção de sentido subjetivo que, longe
de aparecer como uma alternativa, surge como momento de fortalecimento
“racional” do estado pelo qual a pessoa passa. A racionalidade é uma alter-
nativa de produção de subjetividade pela capacidade da pessoa em produzir e
recriar suas construções imaginárias, o que representa uma possibilidade de
produção de sentidos subjetivos, e não pela objetividade dessas construções.
A definição do transtorno mental como resultado de um determi-
nado tipo deconfiguração subjetiva que se alimenta dos processos atuais de
vida do sujeito e que, paradoxalmente, ao se fortalecer elimina a capacidade
deles para gerar alternativas diferentes frente a essa configuração subjetiva
dominante, torna-se um importante desafio para pensar a psicoterapia numa
perspectiva pós-racionalista, que não a transforme em um mero processo de
novas e mais sofisticadas formas de cognição.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 63
O conceito de configuração subjetiva não conduz à posição do
“não saber” do terapeuta, defendida por alguns dos representantes do
construcionismo social (Anderson, 1999; Gergen, 2006; dentre outros),
mas considera o saber do terapeuta como ferramenta para a formulação de
hipóteses que permitam o desenvolvimento de um modelo teórico capaz de
gerar inteligibilidade sobre a configuração subjetiva do transtorno. Essa
inteligibilidade não tem como propósito a produção de um saber que per-
mita à pessoa em tratamento tomar consciência da gênese do transtorno.
Essa inteligibilidade sobre a configuração subjetiva do transtorno só tem
como objetivo facilitar ações terapêuticas que permitam à pessoa que sofre
expressões carregadas de sentido subjetivo em sua relação com o terapeuta
e em suas reflexões e elaborações sobre si mesma. Sobre a base dessas
hipóteses o terapeuta vai ensaiar um repertório de ações terapêuticas faci-
litadoras de novos sentidos subjetivos que permitam produzir uma configu-
ração subjetiva da relação terapêutica, capaz de gerar novos sentidos sub-
jetivos no curso desse processo.
As emoções e estados subjetivos decorrentes dos novos sentidos
subjetivos que emergem no processo terapêutico serão responsáveis por des-
dobramentos nas reflexões e ideias do sujeito, dentro do espaço da relação
terapêutica e fora dele, que facilitarão a emergência dessa nova configuração
subjetiva na relação terapêutica. Uma vez que isso aconteça, o “paciente”
está no caminho da mudança terapêutica, da “cura”, segundo a metáfora
médica empregada por Freud para descrever esse processo.
Essa nova configuração subjetiva que emerge na relação terapêuti-
ca é fonte de novas reflexões, emoções e produções da pessoa, processos
esses que, de fato, definem a recuperação da capacidade do sujeito para pro-
duzir alternativas de subjetivação frente a novas experiências de vida. Da
pessoa fixada ao transtorno emerge o sujeito da relação terapêutica que é
capaz de novas alternativas que transformam os sentidos dominantes associa-
dos com a configuração subjetiva hegemônica do transtorno.
As ações terapêuticas não estão orientadas a provocar um conhe-
cimento do paciente, ou um insight, que lhe permita uma representação sobre
a natureza do seu conflito, procedimento esse muito difundido nas psicotera-
pias que eu considero racionalistas. A mudança, pelo contrário, acontece
como resultado de novas produções de sentido subjetivo facilitadas por
ações conversacionais e de outros tipos, como novas formas de uso do tem-
po, ações comportamentais diversas, e outras ações que se instituam dentro
do clima dialógico da psicoterapia, como por exemplo, os exercícios físicos,
o uso do tempo livre, a leitura de um bom livro etc.
Fernando Luis González Rey64
Há pessoas que assistem a uma série de conferências que cativam a
sua atenção, lhes geram curiosidade, e a partir daí começam reflexões de
grande valor terapêutico. Porém, todas essas opções ganham sentido subjeti-
vo dentro do espaço da comunicação terapêutica. É nessa comunicação que
essas ações se relacionam entre si e que, através dela, facilitam novas produ-
ções de sentido subjetivo pelo sujeito (González Rey, 2009b). A provocação,
a contradição, a vivência do novo, a ira, a tensão de um conflito, todas essas
vivências podem representar o início de novos caminhos na eclosão da con-
figuração subjetiva alternativa que emerge no processo terapêutico. As hi-
póteses sobre as configurações subjetivas e suas implicações atuais nos sin-
tomas e o mal-estar da pessoa têm um caráter auxiliar para a facilitação do
processo terapêutico, mas não são a guia sobre a qual esse processo se es-
trutura.
A mudança terapêutica é estreitamente associada à emergência do
sujeito. A pessoa com grande frequência se eclipsa pela hegemonia de certas
práticas discursivas frente às quais não consegue abrir um espaço próprio de
produção subjetiva. Esse processo, que socialmente pode ter diferentes leitu-
ras, é condizente com configurações subjetivas geradoras de mal-estar e
desconforto que chegam a ser hegemônicas na vida da pessoa. A pessoa que,
de forma ativa, não produz espaços próprios em suas experiências de vida
chega ao transtorno subjetivo, não como patologia no sentido que essa pala-
vra tem sido usada na medicina, mas como organização subjetiva dominante
geradora de sofrimento e paralisia.
A mudança terapêutica responde plenamente ao que Bauman
(2011) define em relação à moralidade. Ele nos diz: “A moral é – não pode
nem precisa apresentar suas razões ou provar seus direitos. A pergunta ‘por
que eu devo ser moral?’ é o fim da moralidade, não o princípio” (p. 66). A
mudança terapêutica é, acontece pela autenticidade do que a pessoa é capaz
de sentir e pelo fato de se erigir como sujeito ativo de um novo caminho. A
mudança, como diz Bauman em relação à moral, “não precisa apresentar as
suas razões”, nem o sujeito deve pensar que é o domínio de novas razões o
que leva à mudança. Essa lógica pode se fixar na subjetividade do terapeuta,
impedindo-lhe o advento da configuração subjetiva própria que deve apare-
cer nesse processo.
A psicoterapia tem sido repensada neste capítulo como um mo-
mento congruente com uma nova representação da subjetividade; portanto,
dentro da produção de teoria psicológica básica. Na medida em que compre-
endamos o processo de construção de novas representações teóricas como
novos momentos de uma teoria em movimento, com uma possibilidade de
abrangência maior em sua capacidade de inteligibilidade, capaz de se afetar
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 65
de forma permanente com as pesquisas e práticas desenvolvidas a partir dela,
iremos nos separar cada vez mais da dicotomia – errônea – entre o básico e o
aplicado que teve sua gênese numa concepção positivista de ciência. Todos
os aspectos discutidos acima fazem da psicoterapia um processo gerador de
novos debates epistemológicos no interior da psicologia e, de forma simultâ-
nea, uma via importante de produção de teoria.
IMPLICAÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DA COMPREENSÃO DA
PSICOTERAPIA CENTRADA NO DESENVOLVIMENTO DA
SUBJETIVIDADE
Um dos maiores problemas epistemológicos da psicologia tem sido a
sua representação e uso da teoria. As teorias aparecem, por uma parte, como
sistemas estáticos e fechados, sendo usadas como princípio e fim de todo saber.
Essa compreensão da teoria se apoia no imaginário dominante, que as considera
como verdades quando na realidade nenhuma teoria representa uma correspon-
dência exata entre significado e realidade. As teorias são sistemas orientados a
produzir inteligibilidade (González Rey, 2005b), entendendo por esse conceito a
possibilidade de gerar significados sobre uma realidade que é passível de novas
relações de significado que podem levar a “novas zonas de sentido” na constru-
ção teórica de determinado tema. A inteligibilidade é a produção de significados
que permitem organizar em termos teóricos processos de uma realidade que
transcende em sua organização qualquer forma de saber.
Fazer ciência é desenvolver sistemas de significado que se organizam
no curso de uma pesquisa e são capazes de produzir novas inteligibilidades sobre a
questão que está sendo pesquisada. A esses sistemas de significados hipotéticos e
ideias em desenvolvimento no momento empírico de uma pesquisa chamei “mo-
delo teórico” (González Rey, 2005). Um “modelo teórico” sempre está inseridonum campo teórico, numa matriz teórica, porém não é mimético em relação à
teoria com que dialoga, mas uma via de extensão daquela capaz de gerar novos
significados na pesquisa de uma questão concreta. As teorias macro são facilitado-
ras de uma multiplicidade de modelos teóricos responsáveis pela extensão e con-
frontação dessas teorias numa variedade de campos, muitos dos quais não repre-
sentaram cenários relevantes para a emergência da teoria sobre a qual esses mo-
delos se erigiram. Entretanto, esses novos modelos teóricos são capazes de inte-
grar e viabilizar novos significados gerais para a teoria, que são os que vão se
desenvolver a partir da convergência de diferentes modelos teóricos produzidos na
pesquisa empírica; os modelos teóricos são uma via de fortalecimento, assim
como de mudança das teorias. Os modelos teóricos são responsáveis pela necessá-
ria produção teórica que deve estar associada a toda e qualquer pesquisa empírica.
Fernando Luis González Rey66
O uso dogmático da teoria como uma representação adequada da
realidade e pronta para ser aplicada tem caracterizado as pesquisas em psi-
cologia e, frequentemente, mais do que uma investigação, essas pesquisas
podem ser consideradas como aplicações das teorias a problemas concretos.
Nessas aplicações perde-se a explicitação sobre os processos de inteligibili-
dade que foram empregados no curso da pesquisa e que levaram às constru-
ções defendidas pelos autores. Esse uso sem limites da especulação tem sido
o resultado da pouca reflexão epistemológica, o que historicamente acompa-
nhou o desenvolvimento dos sistemas teóricos da psicologia (Danziger,
1990; González Rey, 1997, 2005; Koch, 1995; Neubern, 2004).
A teoria foi identificada na psicologia com os grandes sistemas teó-
ricos universais usados a priori para significar os problemas mais diversos
enfrentados na prática psicológica. Essa relação entre as teorias e a prática
profissional, em diversas áreas, com frequência excluía a pesquisa, como
aconteceu num longo período de tempo com as grandes teorias que apoia-
vam a prática da psicoterapia. A definição da ciência pelo tipo de instru-
mento usado na sua prática, nesse caso o experimento, na lógica instrumen-
talista do positivismo, excluía a consideração de outras formas de prática,
entre elas as desenvolvidas na psicoterapia, como formas legítimas de fazer
ciência. Essa dicotomia levou à separação artificial entre o assim chamado
“método clínico”, que não era mais do que uma variante de pesquisa qualita-
tiva no exercício da clínica, e o “método experimental”, que por um longo
tempo dividiu os campos da clínica e da ciência.
A falta de desenvolvimento de uma reflexão epistemológica crítica e
de criação na área de metodologia, levou a que o próprio Lacan, assim como
outros psicanalistas franceses, como J. Dorr, defendessem a ideia de que a psi-
canálise não era uma ciência, ao invés de problematizar justamente o contrário,
ou seja, a noção de que a psicanálise levaria a uma nova forma de fazer ciência.
Essa ignorância dos aspectos epistemológicos e metodológicos da produção do
saber caracterizou a ausência de discussão sobre esses aspectos na clínica, omi-
tindo as implicações dessa discussão para o desenvolvimento nesse campo do
saber. Isso exacerbou o uso dogmático das teorias como doutrinas, tal como nos
referimos antes. Só em tempos recentes é que as preocupações com a pesquisa e
suas diferentes epistemologias ganharam força no campo psicanalítico (Frosh,
2003, 2007; Frosh S. & Saville-Young, 2008; entre outros).
Na psicologia, o predomínio epistemológico positivista, que na reali-
dade se caracterizou por um empirismo primitivo e dogmático que ignorou as
próprias preocupações de Comte sobre a relação representação-realidade, con-
duziu à identificação da pesquisa com a coleta de dados, processo do qual se
excluiu completamente a produção de ideias (González Rey, 2005).
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 67
A psicoterapia representa um campo legítimo de prática profissio-
nal e de produção de saber (González Rey, 1997), em virtude do qual se
torna uma via importante para a produção de teoria em psicologia, num pro-
cesso onde a psicoterapia precisa se manter em diálogo com outras áreas de
trabalho da psicologia. Pelas condições excepcionais do sujeito que emerge
no processo terapêutico, que seria a negação do “paciente” como “recipiente
reativo”6 do procedimento médico produzido pelos artefatos e procedimentos
ideológicos da instituição médica, a psicoterapia converte-se, com frequên-
cia, numa via ímpar para o desenvolvimento de construções sobre a subjeti-
vidade social em que o paciente está envolvido (González Rey, 2003, 2009).
A legitimidade da psicoterapia como prática científica só pode ser
aceita desde uma pesquisa que legitime o caráter construtivo-interpretativo e
dialógico da produção do saber, sobre o qual se reafirma a significação do
estudo de caso como procedimento científico. A psicoterapia é, pelo seu
próprio caráter, um processo que de forma permanente nos obriga a construir
e acompanhar hipóteses de casos diferentes, no curso das quais modelos
teóricos originais emergem. O acompanhamento desse processo com inten-
cionalidade teórica e metodológica representa uma pesquisa com a mesma
legitimidade daquelas que, sob princípios semelhantes, são desenvolvidas
em outros campos do saber. Não foi à toa que a psicoterapia representou o
momento empírico de vários dos grandes sistemas teóricos da psicologia.
O conceito de configuração subjetiva tem pela sua própria natureza
um caráter hipotético. Não existem configurações subjetivas que possam ser
definidas fora de um espaço de relação com o outro capaz de implicar sua pro-
dução subjetiva. Os sentidos subjetivos só aparecem quando estamos envolvidos
numa relação, tarefa ou expressão que sentimos como “nossa”, que envolve a
nossa identidade, que defino por esse confuso e polivalente sentido do que eu
sou, do que tem relação comigo, do que sinto e defendo desde determinado lu-
gar, processos esses que se organizam em infinitas formas do sentir ou repre-
sentar, ou sentir-representar, e que podemos definir como identidade.
A subjetividade nunca está pronta num texto, incluso na definição
ampla de texto que nos oferece Ricoeur (2008). Na subjetividade existe uma
emocionalidade que atravessa caoticamente a fala e qualquer outra forma de
expressão, e que não é possível conhecer só no corpo do tecido discursivo,
como pretendeu Ricouer em suas interessantes propostas. Os indicadores, que
organizam as hipóteses que permitem avançar sobre os sentidos subjetivos e as
configurações subjetivas, e que só ganham inteligibilidade plena no modelo
teórico do pesquisador, não são visíveis através de nenhuma das formas de
 
6 Devo esse termo a Veresov (2009), que o usa para criticar o conceito de agência na literatura socio-
lógica e psicológica.
Fernando Luis González Rey68
organização concreta da expressão da pessoa, mesmo que algumas delas pos-
sam ser tomadas como indicadores no curso do processo construtivo.
Ricoeur (2008) agudamente coloca: “(...) enquanto a linguagem
não possui sujeito, no sentido em que a questão ‘quem fala?’ não é válida
nesse nível, o discurso remete a seu locutor, mediante um conjunto comple-
xo de indicadores tais como os pronomes pessoais” (p. 54). Essa aproxima-
ção à ideia de indicadores, que uso como recurso interpretativo para definir
as peças hipotéticas que ganham legitimidade no curso da pesquisa, foi tam-
bém feita por Ricoeur; porém, enquanto ele enfatiza a emergência do indica-
dor no corpo do texto, eu enfatizo essa emergência no corpo do modelo teó-
rico em processo desenvolvido pelo pesquisador, o que se separa dos signos,
frases e outras construções que caracterizam o texto na definição de Ricoeur.
Porém, Ricoeur conserva umafidelidade ao texto que, em minha opinião,
limita o processo fundador e gerador da construção teórica sobre sistemas de
evidências empíricas que escapam ao texto.
O debate teórico e epistemológico em torno da psicoterapia representa
um dos espaços importantes do desenvolvimento da psicologia frente aos gran-
des desafios que a superação da dicotomia dogma-empiria nos tem trazido.
ALGUMAS REFLEXÕES FINAIS
Os sentidos e as configurações subjetivas não são produções racionais,
mas produções simbólico-emocionais que emergem no curso da experiência
humana. Estas categorias não são sensíveis às representações conscientes da
pessoa que faz que não mudem pelos processos intencionais de significação da
pessoa. Os sentidos subjetivos são sensíveis aos efeitos indiretos e colaterais dos
processos de significação; eles sempre estão presentes nas produções do pensa-
mento. Todo pensamento se gera numa configuração subjetiva.
A racionalidade humana tem sua base em configurações subjetivas
que a convertem numa produção afetiva situada dentro de espaços simbóli-
cos produzidos culturalmente. O simbólico não se reduz ao relacional e é
informado constantemente por emoções sensíveis a outros registros, biológi-
cos e sociais, por exemplo, que entram na dimensão subjetiva pela sua capa-
cidade geradora de processos simbólicos, que por sua vez passam a afetar e
ser afetados por essas emoções em níveis subjetivos. Essas unidades simbó-
lico-emocionais em desenvolvimento, envolvidas em constantes desdobra-
mentos, são os sentidos subjetivos.
A psicoterapia é um processo dialógico que, como experiência vi-
tal, só é efetiva quando nela se gera uma configuração subjetiva que envolve
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 69
novas cadeias de sentido subjetivo que implicam novas opções de subjetiva-
ção associadas com novos focos de tensão e ruptura com a configuração
subjetiva hegemônica, associada aos sintomas. Esse processo é responsável
pela mudança na psicoterapia que não é outra coisa que a abertura de uma
nova opção de desenvolvimento. Essa tensão atuante e criativa que acompa-
nha a emergência da nova configuração subjetiva desenvolvida no processo
terapêutico é a responsável pela mudança, e não as ações pontuais ou inter-
pretações do terapeuta no curso desse processo.
A produção de saber sobre os processos subjetivos envolvidos na
mudança terapêutica, assim como sobre a configuração subjetiva envolvida
na gênese do transtorno é, pela própria natureza desses processos, parcial e
incompleta, sendo unicamente um objeto de inteligibilidades que vão se
afirmar num nível teórico através de processos de pesquisa que integram
múltiplas fontes, sendo a psicoterapia uma delas. No caso em que a psicote-
rapia represente o momento empírico essencial de uma teoria, como já
aconteceu com várias teorias diferentes, a multiplicidade de fontes sobre as
quais irão se erigir a legitimidade desse saber virá de uma multiplicidade de
casos integrados dentro de um mesmo modelo teórico em desenvolvimento.
REFERÊNCIAS
Anderson, H. (1999). Conversaciones, lenguaje y posibilidades. Un enfoque postmoderno de
la psicoterapia. Buenos Aires: Amorrortu.
Bakhtin, M. (1994). Raboty 1940 – nachala 1960 godov (Trabajos desde 1940 – hasta comi-
enzos de los años 60). Sobranie Sochinenii. (Obras Escogidas, t. 5.) Smycl. Moskva: Moscú.
Bauman, Z. (2011). Bauman sobre Bauman. Rio de Janeiro: Zahar.
Castoriadis, C. (2006). O Mundo Fragmentado. As Encruzilhadas do Labirinto 3. São Paulo:
Paz e Terra.
Danziger, K. (1990). Constructing the subject. Historical origins of psychological research.
New York: Cambridge University Press.
Elliot, A. (1997). Sujetos a nuestro propio y múltiple ser. Buenos Aires: Amorrortu.
Foucault, M. (2008). Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
Frosh, S. & Baraitser, L. (2008). Psychoanalysis and Psychosocial Studies. Psychoanalysis,
Culture & Society, 13, 346-365.
Frosh, S. & Saville-Young, L. (2008). Psychoanalytic approaches to qualitative psychologies.
In C. Willig & W. Stainton-Rogers. The Sage Handbook of qualitative research in psycholo-
gy. London: Sage.
Frosh, S. (2003). Psychosocial studies and Psychology: Is a Critical Approach Emerging?
Human Relations, 56, 1.547-1.567.
Frosh, S. (2007). Desintegrating Qualitative Research. Theory & Psychology, 17, 635-653.
Gergen, K. (2006). Construir la realidad. El futuro de la psicoterapia. Barcelona: Paidós.
Fernando Luis González Rey70
González Rey, F (1993). Problemas Epistemológicos de la Psicología. Colegio de Ciencias y
Humanidades Sur. México. D.F.: Universidade Nacional Autónoma de México.
González Rey, F. (1995). Personalidad, Comunicación y Desarrollo. Habana. Pueblo y Edu-
cación.
González Rey, F. (1997). Epistemología Cualitativa y Subjetividad. São Paulo: EDUC.
González Rey, F. (2002). Sujeto y subjetividad: una aproximación histórico-cultural. México
D.F: Thomson.
González Rey, F. (2004). Personalidade, Saúde e Modo de Vida. São Paulo: Thomson.
Gonzalez Rey, F. (2005a). O valor heurístico da Subjetividade na investigação psicológica. In
F. Gonzalez Rey (Ed.). Subjetividade, Complexidade e Pesquisa em Psicologia [pp. 27-52].
São Paulo: Thomson.
González Rey, F. (2005b). Pesquisa Qualitativa e Subjetividade. Os processos de construção
da informação. São Paulo: Thomson.
González Rey, F. (2008). Different periods in Vygotsky’s work: their implications for argu-
ments regarding his legacy. International Society for Cultural and Activity Research Con-
gress. San Diego: California.
González Rey, F. (2009a). Historical relevance of Vygotsky’s work: its significance for a new
approach to the problem of subjectivity in psychology. Outlines. Critical Practice Studies, 1, 59-73.
González Rey, F. (2009b). Psicoterapia, subjetividad y postmodernidad: una aproximación
desde Vygotsky hacia una perspectiva histórico-cultural. Buenos Aires: Noveduc.
Guattari, F. (1998). Caosmose. Rio de Janeiro: Editora 34.
Koch, S. (1995). The Nature and Limits of Psychological Knowledge: Lessons of a Century
of qua “Science”. In S. Koch & D. Leary (Eds). A Century of Psychology as Science [pp. 75-
99]. Washington: American Psychological Association.
Merleau-Ponty, M. (1991). Signos. São Paulo: Martins Fontes.
Mitjans Martínez, A. (2004). A Teoria da Subjetividade de González Rey: Uma expressão do
Paradigma da Complexidade em Psicologia. In F. González Rey (Org.). Subjetividade, Com-
plexidade e Pesquisa em Psicologia [pp. 1-25]. São Paulo: Thomson.
Neubern, M. (2004). Complexidade e psicologia clínica. Desafios epistemológicos. Brasília: Plano.
Ricoeur, P. (2008). Hermenêutica e ideologias. Petrópolis: Vozes.
Veresov, N. (2009). Forgotten Methodology. In A. Toomella & J. Valsiner (Eds). Methodolo-
gical Thinking in Psychology: 60 Years Gone Astray? [pp. 267-295]. Charlotte, NC: Informa-
tion Age Publishing.
Voloshinov, V. N. (2009). El Marxismo y la filosofía del lenguaje. Buenos Aires: Ediciones Godoy.
Vigotsky, L. S. (1987). Thinking and Speech. In R. Rieber & A. Carton (Eds.). The collected
works of L. S. Vygotsky. New York: Plenum Press.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 71
REFLEXÕES SOBRE O CAMPO DAS
PSICOTERAPIAS: DO ESQUECIMENTO AOS
DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS
Adriano Holanda
Sumário: Introdução. Da (in)definição do campo psicoterápico. Da neces-
sidade de uma abordagem crítica das psicoterapias no campo
profissional. Psicoterapias: posições diversas. Sobre a cultura
profissional e o ideário do social. À guisa de encaminhamentos:
desafios para o debate contemporâneo. Referências.
INTRODUÇÃO
O processo de construção da Psicologia brasileira é longo e com-
plexo, e o contexto da psicologia clínica e da psicoterapia sempre esteve
presente nesse trajeto. Contemporaneamente, novos caminhos foram sendo
construídos, com a ampliação significativa da categoria, com a aberturade
novos campos e áreas de trabalho – algumas não necessariamente “novas”
em termos de propostas, mas seguramente novas em termos de sedimentação
e consolidação –, com a politização crescente tanto dos discursos da catego-
ria quanto das proposições de inclusão da profissão, e – paradoxalmente –
com certo esquecimento de sua história.
Nesses primeiros caminhos, pouco a pouco o campo das psicotera-
pias foi sendo ocupado pelos psicólogos. Inicialmente como consulentes,
conselheiros, aconselhadores, e finalmente como terapeutas e psicoterapeu-
tas. À medida que novas abordagens iam sendo criadas, quase que imedia-
Adriano Holanda72
tamente os psicólogos brasileiros foram se apropriando avidamente delas. A
história dessas apropriações e o processo de entrada dessas perspectivas psi-
coterapêuticas no cenário brasileiro são bem pouco conhecidos ainda. E este
cenário persiste na atualidade, apontando para uma categoria muito mais
caracterizada por ser consumidora, do que produtora de reflexões no campo
das psicoterapias.
A categoria foi crescendo exponencialmente, os espaços foram sendo
ocupados, o mercado foi se ampliando e campos diversos foram sendo incorpo-
rados. A organização das ações em torno da categoria de psicólogos foi igual-
mente se ampliando, mas algumas discussões ficaram estagnadas ou recolhidas
a um contexto previamente definido. Em alguns casos, houve mesmo retroces-
sos. O campo da clínica conheceu tanto avanços como recuos.
A psicoterapia no Brasil, sempre esteve associada – direta ou indi-
retamente – ao trabalho de psicólogos. Dentre as atividades do antigo Labo-
ratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro, nos
idos dos anos 1920, já se desenvolvia atividades de psicoterapia (Penna,
1992; Pereira & Pereira Neto, 2003). E, é importante lembrarmos que, na
época em que se estruturava o projeto de regulamentação da profissão de
psicólogo, a área clínica era uma das mais críticas, particularmente por sua
associação à psicoterapia e à avaliação psicológica (Jonsson, 2011). Havia –
no Decreto 20.931/32, que regulamentava a profissão do médico – um indi-
cativo de primazia desta profissão com relação à psicoterapia, e um enten-
dimento que a psicoterapia seria então privativa ao profissional médico. Isto
motivou vetos a partes do que viria ser a Lei 4.119 (que regulamenta a pro-
fissão de psicólogo), o que explica o fato de não haver ali a indicação –
como atividades do psicólogo – para atuação em “psicoterapia”. Em seu
lugar ficou designado o “uso de métodos e técnicas psicológicas” com o
objetivo de “solução de problemas de ajustamento”1/2.
Desde os primeiros projetos de formação profissional – mais espe-
cificamente a partir da proposta curricular de Annita de Castilhos e Marcon-
des Cabral (Bernardes, 2004) – temos a “clínica” como uma ênfase consti-
 
1 “(...) o que foi objeto de reação de parte da sociedade, como é possível observar pelo veto da Comissão de
Ensino Superior do Conselho Nacional de Educação, à posição do ISOP e da ABP na época, de determinar
como uma das atividades do psicólogo a atuação na área clínica. Este veto se deu por sua associação direta
à prática da psicoterapia que, à época (e não muito distante de nossa realidade atual), era entendida como
privativa do profissional médico, fazendo com que se substituísse – no texto final da Lei 4.119 – a palavra
‘psicoterapia’ por ‘solução de problemas de ajustamento’”. (Jonsson, 2011, p. 23)
2 O Decreto 20.931, de 11.01.1932, “Regula e fiscaliza o exercício da medicina, da odontologia, da
medicina veterinária e das profissões de farmacêutico, parteira e enfermeira, no Brasil, e estabelece
penas”. No seu art. 24, fica definido que os “serviços de psicoterapia” deveriam ficar sob a direção e
responsabilidade dos médicos.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 73
tuída para a psicologia brasileira. Esta ênfase se mantém claramente definida
até o estabelecimento das “Diretrizes Curriculares”, em 2004, que marcam
não somente uma flexibilização da formação em psicologia, como também a
diversificação de seu campo da atuação.
Desta feita, o campo da clínica sempre acompanhou a profissiona-
lização e o “fazer” do psicólogo, desde sua formação – seja através das téc-
nicas de avaliação e do aconselhamento psicológico, seja no desenvolvi-
mento explícito do campo das “teorias e técnicas psicoterápicas” – até sua
inserção no mercado de trabalho, contribuindo sobremaneira para o estabele-
cimento de sua representação na sociedade, bem como solidificando um
“lugar” nesse contexto.
Como se percebe, não se está falando de um campo “marginal”. O
campo das psicoterapias é constitutivo do fazer psicológico. Lembremos
ainda que, tradicionalmente, a Psicologia brasileira se desenvolveu em torno
das chamadas “áreas clássicas” (Clínica, Escolar e Organizacional). Mesmo
sendo central na determinação e constituição da própria profissão, foi um
dos campos que menos conheceu ações concretas de debate, pesquisas e
discussão no seio da categoria.
Durante o ano de 2009 – após muitos anos de esquecimento da
questão, bem como de certa ausência de empenho na organização dos profis-
sionais psicoterapeutas, tanto da parte destes, quanto da parte dos gestores
dos conselhos profissionais, além de uma crescente ideologização dos agru-
pamentos da categoria – finalmente foi realizada uma primeira discussão
formal, em âmbito nacional, sobre o tema. Embora a proposta tenha sido de
realizar um debate que envolvesse a categoria como um todo, e em especial,
os profissionais diretamente ligados à prática da psicoterapia, o que se ob-
servou foi uma adesão muito limitada da categoria, acompanhada de uma
discussão igualmente restrita, com discursos tangenciais e mesmo pouco
motivados.
Diante desta realidade – reconhecendo o imperativo de se discutir
tanto o mérito quanto a questão em si, em tempos de “Ato Médico” – iremos
tecer alguns comentários na direção de qualificar o debate em torno do cam-
po das psicoterapias. Para tal, partiremos de algumas das “diretrizes” que
sustentaram o debate do “Ano da Psicoterapia”, buscando problematizar
alguns elementos.
A proposta de discussão do “Ano da Psicoterapia” deveria contem-
plar três eixos, com subtemas (Conselho Federal de Psicologia, 2009):
Eixo I – A constituição das psicoterapias como campo interdisci-
plinar.
Adriano Holanda74
a) Psicoterapia como uma disciplina científica ou como um con-
junto de métodos e técnicas que definem uma prática;
b) Interdisciplinaridade, transversalidade e multiprofissionalida-
de: o psicólogo neste contexto;
c) Limitações das reivindicações da exclusividade por parte dos
psicólogos;
d) Psicoterapia como prática diversa (clínica ampliada).
Eixo II – Parâmetros técnicos e éticos mínimos para a formação na
graduação e na formação especializada e para o exercício da psi-
coterapia pelos psicólogos:
a) Parâmetros: referências e/ou regulação.
Eixo III – Relações com os demais grupos profissionais:
a) Estratégias políticas de construção de parcerias e enfrenta-
mento dos conflitos;
b) Relação do Sistema Conselhos com a ABRAP e outras entidades.
Havia ainda um quarto eixo – cujo tema seria “Psicoterapia como ci-
ência” – que foi excluído do debate oficial. Embora os documentos e o discurso
oficial sejam de não comprometimento com posicionamentos ou direções espe-
cíficas – o que apenas uma posição ingênua sustentaria –, tanto a escolha dos
temas e dos debatedores, quanto os encaminhamentos dados politicamente e no
contexto do debate apontam claramente para direções que merecem destaque.
Alguns desses destaques serão objetos aqui, outros estarão limita-
dos a apontamentos, dado que o tema central é o campo das psicoterapias e
sua inserção tanto no contexto da profissão, quanto do seu lócus social. Nes-
se texto, não estaremos efetivandouma diferenciação entre “clínica” e “psi-
coterapia”, propositalmente, mesmo reconhecendo a necessidade de tal tare-
fa, mas por considerarmos a limitação desse espaço para tal empreitada3.
Principiaremos com uma reflexão sobre a definição do campo.
DA (IN)DEFINIÇÃO DO CAMPO PSICOTERÁPICO
O campo das psicoterapias carrega uma curiosa complexidade. Se
por um lado se apresenta como similar – quando não representativa – do
 
3 Esta discussão é fundamental inclusive para que possamos compreender os caminhos que a profis-
são vem tomando ao longo dos anos, como por exemplo, as diversas identificações da Psicologia
com as ciências humanas, sociais ou da saúde.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 75
campo clínico em geral (a ponto de estar associada ao mesmo na própria
linguagem4); por outro lado não carrega uma definição que permita uma
distinção suficientemente clara de seu “fazer”, nem do ponto de vista téc-
nico (referente às distinções intracampo, ou seja, entre as diversas modali-
dades clínicas ou mesmo entre os seus diversos “modelos” ou “aborda-
gens”), nem do ponto de vista operacional (no que se refere à sua inserção
prática, ou seja, que remeta a “quem” se destina o fazer, enquanto profissi-
onal, o que permite que não se distinga este fazer do psicólogo dos demais
profissionais).
Desta forma, podemos claramente nos referir a uma indefinição do
campo das psicoterapias. Lançando mão de um dos livros clássicos sobre o
tema – o texto de Lewis Wolberg (1988), The Practice of Psychotherapy –
vemos que o autor apresenta 39 tipos diferentes de definições, além da sua
própria proposição de entendimento.
Outro fato interessante. Durante o período de vigência do chamado
“currículo mínimo”, a formação em psicologia comportava, invariavelmente,
uma ou mais disciplinas cujo tema versava sobre “teorias e técnicas psicote-
rápicas” ou ainda uma disciplina de introdução à prática psicoterapêutica que
discutia questões gerais sobre a psicoterapia e não somente a especificidade
desta ou daquela abordagem. Ademais, ainda contemplava estágios práticos
na mesma área.
Mesmo isto sendo corrente, em praticamente todos os currículos
brasileiros, ainda hoje a literatura é muito restrita, em nosso país, no que se
refere a textos que tratam de questões gerais de psicoterapia. A rigor, de
livros “gerais” sobre psicoterapia temos: o texto Teorias e Técnicas Psicote-
rápicas, de Ribeiro (1986); A Psicoterapia pela Fala, de Richard Bucher
(1989), e o texto de Cordioli (1993)5, Psicoterapias. Abordagens Atuais;
mais recentemente, tivemos a edição de Intercâmbio das Psicoterapias
(Paya, 2011). Todos os demais textos publicados no Brasil têm uma direção
específica, sendo orientados para práticas igualmente específicas. Assim é
que passaram a proliferar obras de “psicoterapia dinâmica”, “psicoterapia
breve”, “manual de psicoterapia gestáltica”, “manual de técnicas comporta-
mentais” etc. Isto já aponta para certo esquecimento da questão.
 
4 Para tal, basta acessarmos as pesquisas que mostram a inserção profissional ou mesmo a formação
técnica do psicólogo. Nestas, a prática da psicoterapia invariavelmente vem considerada sob a alcu-
nha genérica de “psicologia clínica”. Este panorama só começa a mudar quando se percebe que há
distinções significativas entre diversos “fazeres” psi, que – por seu turno – vêm associados aos seus
“lugares” de atuação ou aplicação (como são os casos da saúde, da educação, das organizações etc.).
5 Este passou por revisões e tem edição mais recente.
Adriano Holanda76
Na literatura americana encontramos um volume muito maior de
“manuais” ou proceedings gerais, o que mostra uma discussão muito mais
ampla do que a que (não) temos no nosso país. Não podemos ainda esquecer
que o counseling – que chegou no Brasil nos primórdios das formações em
psicologia como “aconselhamento psicológico”, e que constituiu os primei-
ros serviços clínicos do país – ainda é uma prática corrente em solo america-
no, e conta igualmente com um volume substancial de obras gerais sobre o
assunto; enquanto que no Brasil o tema foi segregado ao ostracismo, como
algo antiquado e irrelevante. No que se refere ao ostracismo do “aconselha-
mento” – um dos “recuos” que o campo clínico conheceu no Brasil –, este
fato deve ser lamentado, pois não apenas o “aconselhamento psicológico”
está na gênese das formações brasileiras, como boa parte dos fazeres “clíni-
cos” contemporâneos poderiam ser considerados como modalidades de
aconselhamento (Barros & Holanda, 2007), como o são intervenções clínicas
tão distintas como o Plantão Psicológico, a Terapia Comunitária, e as escutas
em contextos diversos como hospitais, escolas, clínicas especializadas, em
Saúde Mental etc. A rigor, defendemos mesmo a ideia que o aconselhamento
psicológico deveria ser reconstituído e encarado como uma “prática clínica
contextualizada”, e que essas modalidades de escuta clínica seriam excelen-
tes experiências de formação para o psicólogo em geral.
Embora o campo da clínica seja um dos mais exercidos pela cate-
goria, dos mais procurados pelos estudantes e um dos mais representativos
da sua imagem social, não possuímos efetivamente um “campo” definido
comum que possamos denominar de “psicoterapia”, mas um conjunto dis-
perso de abordagens clínicas que se constituíram autonomamente – pelo
menos assim se definem, em sua grande maioria –, destacadas (na maior
parte das vezes) do terreno da pesquisa, além de um conjunto assistemático
de ideias, organizadas de maneira endógena.
DA NECESSIDADE DE UMA ABORDAGEM CRÍTICA DAS
PSICOTERAPIAS NO CAMPO PROFISSIONAL
A necessidade de um debate crítico com respeito às psicoterapias é
imperiosa, tanto em seus aspectos gerais, quanto com respeito aos caminhos
que estão sendo trilhados – ou não – na discussão da matéria.
Retomemos o debate no seio da nossa categoria. A discussão sobre
as psicoterapias e sobre a prática profissional do psicólogo no campo da
clínica foi colocada em pauta desde o Congresso Nacional Constituinte da
Psicologia – que veio a ser considerado o I Congresso Nacional da Psicolo-
gia (CNP) –, em 1994 (realizado em Campos do Jordão, São Paulo). Já no
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 77
documento relativo ao II Congresso Nacional da Psicologia, realizado em
1996, em Belo Horizonte, o tema da psicoterapia – cuja discussão balizaria,
à época, as ações dos conselhos com relação às chamadas “práticas alternati-
vas” – aparece de forma “marginal”.
Neste documento, temos um excelente indicativo de como algumas
questões da profissão foram sendo deixadas ao largo, sempre colocadas no
rol de “discussões” a serem realizadas e nunca efetivadas. No referido do-
cumento, lemos que o II CNP ratifica teses do I CNP com relação ao tema da
psicoterapia, de uma forma – no mínimo – curiosa. Neste documento lemos
que não compete aos Conselhos da categoria a “validação” ou o “reconheci-
mento de técnicas”, mesmo que – enquanto órgão fiscalizador da profissão –
seja de sua competência “orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da pro-
fissão” no país (como consta no art. 1º da Lei 5.766, de 1971, que cria o
Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Psicologia). E a psicoterapia
é, sem sombra de dúvida, exercida por profissionais da psicologia.
Diante deste quadro, que envolvia a questão se as chamadas “práti-
cas alternativas” poderiam ou não ser exercidas por profissionais psicólogos,
a ambiguidade se instaurou, afinal a quem caberia dar subsídios para esta
normatização do campo clínico? A resposta seria, segundo o Documento do
II CNP (Bernardes, 2004, pp. 6-7) a seguinte:
Não é o Conselho, mas sim a comunidade científica que tem esta respon-
sabilidade, embora o mesmo deva fornecer subsídios relativos ao exercí-
cio profissionalpara que esta função se cumpra. Ele deve se instrumenta-
lizar para saber o que já é validado e o que não é, ter regras claras para a
relação com a comunidade, considerando:
a) Técnicas já reconhecidas;
b) Técnicas em processo de reconhecimento;
c) Técnicas em fase de pesquisa.
O Conselho deverá estimular e incentivar a comunidade científica para a
discussão e pesquisa das diferentes práticas ditas alternativas.
O que se destaca nesse documento – conforme acima assinalado –
é que nunca se estabeleceu quantas e quais são as técnicas “reconhecidas”,
em “processo de reconhecimento” ou mesmo em “fase de pesquisa”. A rigor,
esta questão somente passa a entrar em pauta quando a dimensão econômica
se torna “figura”. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos com relação ao
seguro-saúde, está acontecendo na Europa de forma similar e, agora no Bra-
sil, com o redimensionamento das políticas públicas em saúde. No nosso
caso, um fato muito curioso foi a posição tomada pelo Conselho Federal de
Psicologia, em 2004, de apoio formal à constituição da ABRAP (Associação
Adriano Holanda78
Brasileira de Psicoterapia), uma entidade que nasceu com sólida base na
medicina, em tempos de discussão sobre o “Ato Médico”, e que vem sendo
sucessivamente apontada como a entidade responsável pelo debate sobre o
tema, a ser “solidificada”, “fortalecida” e apoiada – política e financeira-
mente – pelos conselhos de psicologia (Conselho Federal de Psicologia,
2007, 2010).
Há que se destacar ainda que, de um lado, a “Academia” se apre-
senta como o “lugar” da pesquisa, mas não de responsabilização técnica; e,
de outro lado, os conselhos não podem reconhecer nenhuma técnica sem a
devida pesquisa associada. Em outras palavras, temos – ao menos em nosso
país – uma segregação curiosa, dado que as academias “formam” profissio-
nais numa determinada “ciência” que os habilita a exercer uma “profissão”
que virá a ser regulamentada pelo Estado e fiscalizada por outra entidade, os
Conselhos profissionais. Mas a Universidade é autônoma no que faz – em
tese, a “formação” de profissionais – que, depois de serem “formados”, pas-
sam a ser responsabilidade de uma entidade que em nenhum momento
interage diretamente com a primeira. Por isto não se sabe, em absoluto, qual
a “qualidade” desse profissional, até que este se apresente formalmente em
seu cotidiano de trabalho.
Pelo lado profissional, o que temos é a manutenção dos encastela-
mentos ideológicos, onde cada abordagem se autoconstitui e se autorregula –
com suas regras teóricas, técnicas e de formação particulares – sem nenhum
diálogo interacional (e, ainda pior, sem nenhuma consideração pela diversi-
dade de pontos de vista, ou mesmo pelos posicionamentos de outros mode-
los). Ou seja, permanecemos no lugar dos discursos que – à semelhança do
discurso religioso – mantêm-se em torno de crenças assumidas e replicadas,
na maioria das vezes de forma acrítica, construídas em torno dos escritos
seminais de cada uma dessas abordagens, e em geral, relatadas por uma ou
mais figuras que representam as “palavras do Pai” – parafraseando Moreno –,
onde estas se tornam regras a serem seguidas explicitamente como verdades
cujos significados existem em si, e não podem (qual dogmas) ser postas em
discussão, sob pena de exclusão do questionador de sua comunidade. A his-
tória das práticas psicológicas está repleta de dissidentes e dissidências, des-
de os primeiros momentos da psicanálise freudiana até os modelos mais
contemporâneos de clínica. Afinal, tal qual a diversidade das denominações
religiosas, é mais fácil “criarmos” uma denominação “nova”, do que questio-
narmos – de dentro – os fundamentos supostos, as mazelas e as incoerências
dos discursos. Este é o “caráter confessional das psicoterapias”.
Retomando a apropriação que os conselhos de categoria fizeram
sobre esta questão, podemos lançar mão de dois outros documentos, relati-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 79
vos ao V CNP e ao VII CNP. O que estamos nos referindo como uma cres-
cente ideologização da gestão da profissão pode ser exemplificado com o
balanço feito das deliberações do V CNP (realizado em 2004), tomado como
referência para o congresso seguinte (Conselho Federal de Psicologia, 2007).
O caminho escolhido pelos gestores da profissão reafirma a tese da “constru-
ção social da profissão”, do “protagonismo social” e da “transformação
significativa no reconhecimento social da profissão” (pp. 1-2). Um bom
retrato desse caminho pode ser apontado pela divisão dos temas debatidos do
Congresso em “eixos” que direcionam e dirigem não apenas as contribui-
ções, como apontam para aquelas searas que serão privilegiadas no debate.
Os eixos do V CNP foram: a) Políticas Públicas; b) Inclusão Social e Direi-
tos Humanos; c) Exercício Profissional/Formação e Exigências de Qualifica-
ção; e d) Exercício Profissional/Campo e Espaço de Atuação.
Uma das coisas que nos chama a atenção é exatamente a discrimi-
nação entre políticas públicas (aqui incluiríamos o outro eixo que versa so-
bre “inclusão social”) e o exercício profissional. De certa forma (e prova-
velmente de maneira irrefletida, dado que este modelo vem se repetindo ao
longo dos anos), esta discriminação reifica aquela segregação a que nos refe-
rimos anteriormente.
O tema “psicoterapia” encontra-se presente no eixo sobre “exercí-
cio profissional/campo e espaço de atuação”, e gostaríamos de destacar
aqueles encaminhamentos – apontados no documento – realizados pelo CFP:
Fortalecimento da ABRAP (Associação Brasileira de Psicoterapia) por
meio de apoio político e financeiro; Participação, com mesas de debate,
no I Congresso da ABRAP (Associação Brasileira de Psicoterapia); Pro-
posição e participação nos congressos da Psicologia com o debate sobre
Psicoterapia; Formação do Grupo de Trabalho, em parceria com Conselho
Regional de São Paulo, para debate sobre aspectos da Psicoterapia e exi-
gências para a formação qualificada e o desempenho da atividade; Apoio
para criação do lugar da Psicoterapia na BVS-PSI (Biblioteca Virtual);
Apoio e participação na Articulação das Entidades de Psicanálise (Con-
selho Federal de Psicologia, 2007, p. 68).
Como se percebe – e uma análise discursiva, tanto das teses,
quanto do relatório ajudariam nessa percepção – o tema fica “ao largo”, não
se apresentando nenhum debate claramente objetivo, nem mesmo caminhos
de direcionamentos. Pelo contrário; além do tema ficar relegado aos contex-
tos propositivos e de “apoio”, as ações vão sendo delegadas a outras entida-
des que, – num processo similar ao da “terceirização” que encontramos nos
mais diversos serviços – ficam com a responsabilidade por desenvolver es-
tratégias específicas em torno de questões centrais da profissão. Assim é que
Adriano Holanda80
à ABEP é delegada a tarefa de regular os cursos de especialização, e a
ABRAP herda a questão da psicoterapia.
Observemos agora o Relatório Final do VII CNP, realizado em
2010, em Brasília, no qual o tema persiste – curiosamente em apenas uma
tese – e com a mesma perspectiva, desde 1994. Isto reflete, dentre outras
coisas, que o tema efetivamente foi sendo paulatinamente abandonado, es-
quecido, em prol de outros (como a ideologização da atuação profissional ou
a “socialização” de sua prática). Senão observemos o que diz esta solitária
tese aprovada no VII CNP:
[Tema da Tese] Psicoterapia: Qualificação e atuação ético-profissional
Diretrizes.
1. Manutenção da discussão da Psicoterapia no Sistema Conselhos, a par-
tir da articulação de parcerias com demais entidades.
2. Construção, pelo Sistema Conselhos, de parâmetros/formas de lidar
com as questões referentes à regulação do exercício da prática psicoterá-
pica pelos psicólogos.
3. Estímulo à criação de parâmetros éticos e práticos que respeitem as di-
versas abordagens teóricas na atuação em psicoterapia.
4. Ampliação das discussões emrelação às práticas psicológicas com a
categoria e com as Comissões de Orientação e Fiscalização (COF) e Co-
missões de Orientação e Ética (COE) e divulgação do que é considerado
prática conhecida, reconhecida, emergente e alternativa.
5. Continuidade da construção, pelo Sistema Conselhos, por meio da interlo-
cução com a categoria e entidades afins, de referências para o exercício da
prática psicoterápica pelos psicólogos, a partir dos debates resultantes do Ano
Temático da Psicoterapia, reforçando os princípios éticos da Psicologia.
6. Continuidade da promoção, pelo Sistema Conselhos, em parceria com a
ABEP, IES e outros interlocutores envolvidos na formação e no exercício
da psicoterapia, do debate nacional sobre a psicoterapia, no sentido de
discutir algumas diretrizes necessárias para a formação.
Encaminhamentos:
a. Promover novos encontros para discussão da psicoterapia, ampliar as
discussões nos cursos sobre psicoterapia, fomentar a discussão para im-
plementação da residência em Psicologia; promover discussões e produzir
documentos e ações que norteiem o exercício da psicoterapia.
b. Propor ao Crepop a construção de referências para prática de psicotera-
pias na saúde pública.
c. Incentivar o desenvolvimento de pesquisas e publicações científicas no
campo das psicoterapias, em parceria com a ABRAP, IES e outras insti-
tuições afins.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 81
d. Enfatizar, na atuação do Sistema Conselhos, para gestores e instituições
da área da saúde, a importância de condições físicas e materiais que pos-
sibilitem a adequação do atendimento psicoterápico e de seu sigilo, consi-
derando os diversos contextos em que esses atendimentos devem ocorrer.
e. Ampliar a discussão na Agência Nacional de Saúde (ANS) sobre a pres-
tação de serviços de psicoterapia nos planos de saúde para garantir a auto-
nomia técnica do psicólogo (Conselho Federal de Psicologia, 2010, p. 77).
Vamos aos fatos. A proposta de “discussão” do tema Psicoterapia
vem, desde 1994, sendo colocada “em pauta”, mas nunca efetivamente foi de-
batida. Nunca houve, no âmbito dos Conselhos, qualquer incentivo a se formar
uma comunidade de debates em torno da questão da psicoterapia; ou algo como
uma “sociedade” ou entidade nacional que congregasse os psicoterapeutas. Pre-
feriu-se manter as divisões e dissensões de cada abordagem – como se cada uma
fosse uma “nação” autônoma – ao invés de se assumir que se estava tratando de
“prática profissional” por parte dos psicólogos. Eventualmente se negligenciou o
campo, por se pensar que se tratava de uma prática “privada”, burguesa, não
possuindo assim um cunho “social”. O que é curioso é que a questão passa a
tomar corpo quando a clínica é demandada nos serviços públicos de saúde –
consequência absolutamente natural advinda do crescimento populacional, do
crescimento exacerbado da própria categoria (que demandaria mais postos de
trabalho), da abertura de iguais campos de serviço, da ampliação das políticas
governamentais de saúde etc. – e a prática clínica – antes fundamentalmente
“privada” – passa para o âmbito do público, quando cada vez mais psicólogos
passam a ocupar lugares nos serviços de saúde.
E qual a realidade que, então, se revela? Que a imensa maioria dos
profissionais de Psicologia tem uma formação “clínica”, dentro de uma pers-
pectiva tradicional de clínica “privada”. A mesma que ajudou a construir o
cenário da profissão, bem como as inúmeras instituições formadoras, e que
de um momento para outro não mais “servia” aos interesses do Estado ou
dos gestores da profissão.
O perfil do profissional psicólogo em 2001 apontava que 54,9%
trabalhava em “clínica de consultório” (Conselho Federal de Psicologia,
2001). Esta dominância de campo de atuação sempre foi amplamente ocupa-
da pelos “clínicos”, com clara ênfase para a prática da psicoterapia. Na pes-
quisa mais atual sobre a profissão do psicólogo, “a área clínica indiscutivel-
mente possui o maior peso, pois as inserções profissionais relacionadas às
atividades clínicas representam 39,9% para 53,9% dos psicólogos que atuam
nela de modo exclusivo ou não” (Gondim, Bastos & Peixoto, 2010, p. 181).
Psicoterapia e formação profissional em Psicologia sempre caminha-
ram lado a lado. Sendo um dos campos mais utilizados pelos psicólogos, te-
Adriano Holanda82
mos um natural reflexo disto em sua formação, sendo igualmente uma das
práticas mais apresentadas nos cursos de graduação. O mesmo, e de forma
ainda mais contundente, se repete no contexto da pós-graduação ou da espe-
cialização. Basta observarmos os cursos credenciados pela ABEP (Associação
Brasileira de Ensino de Psicologia) – entidade criada em 1999, sob os auspícios
do Conselho Federal de Psicologia – que recebeu a delegação de proceder a
todos os trâmites para o credenciamento de cursos de Especialização em Psi-
cologia no país. No início do ano de 2012, havia 126 cursos cadastrados, sen-
do que 85 destes – portanto, mais de 67% do total – eram de “Psicologia Clí-
nica”, invariavelmente associados a práticas psicoterapêuticas (isto sem levar
em conta os demais cursos, como os de Psicologia Hospitalar, que têm cunho
clínico, associados a abordagens como a psicanalítica, p. ex.).
Estes dados são relevantes, pois – se retomarmos o documento do II
CNP como pauta, no que tange às práticas “reconhecidas” – mostram que pode-
ríamos claramente apontar modelos como a Psicanálise, as terapias Comporta-
mental e Cognitiva, a Gestalt-Terapia, o Psicodrama, a Sistêmica, a Abordagem
Centrada na Pessoa, a abordagem Junguiana e a Fenomenológico-Existencial,
bem como a Bioenergética, seriam aquelas que, de certa forma, gozariam do
reconhecimento da comunidade de profissionais, visto terem sua continuidade
em diversos cursos de especialização. O que mostra ainda mais a importância da
psicoterapia no contexto da formação em Psicologia.
Portanto, negligenciar um campo que congrega grande parte da
categoria deve sinalizar algo sobre a representação desta mesma categoria, e
desta vez, da parte do sistema que gerencia a profissão.
Isto nos remete às próprias discrepâncias da construção do campo
psicológico, naquilo que A. G. Penna (1997) muito corretamente denomina
“dispersão do pensamento psicológico e a impossibilidade de sua unifica-
ção”, e que faz com que a Psicologia – para se tornar autônoma – tenha que
pagar o preço da indefinição de seu objeto, praticamente fazendo coro a
Auguste Comte, quando este defendia a ideia que a psicologia seria eterna-
mente dependente de outra ciência. Isto não se mostra totalmente absurdo,
pois basta observarmos alguns aspectos:
(...) várias vezes é mais fácil, por exemplo, um psicólogo experimentalista
que trabalha em laboratórios com animais, tais como o rato e o pombo,
entender-se com um biólogo do que com um psicólogo social que estuda
o homem em sociedade. Este, por sua vez, poderá ter diálogo mais fácil
com antropólogos e lingüistas do que com muitos psicólogos que foram
seus colegas na faculdade e que hoje se dedicam à clínica psicoterápica.
(Figueiredo & Santi, 2000, pp. 15-16)
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 83
Imaginemos um debate sobre educação infantil, por exemplo, e ve-
remos que não há nenhuma especificidade da parte do psicólogo que não
seja possível encontrarmos no pedagogo, p. ex. O que constitui nosso “sa-
ber” – de fato – não é autônomo em si, mas (senão dependente) é partícipe
das demais ciências. E isto se reflete na nossa própria constituição enquanto
profissão. A própria legislação que autoriza a profissão já nasceu caduca
dessa especificidade, dando ao profissional a prerrogativa de ser autônomo
apenas no uso de “métodos e técnicas psicológicas”, sem que estas possam
ter seu lugar conferido fora da interseção com outras ciências. Em outras
palavras, o “objeto” próprio da Psicologia foi, desde cedo, “subjetivado”.
É nestecenário de dispersão que as psicoterapias se instalam. No
mesmo espaço das indefinições e das interações (nem sempre reveladas). A
psicoterapia precisa ser antes de tudo definida. E esta definição não é tarefa
das mais fáceis, principalmente se lançarmos um olhar para a diversidade do
campo. Mas a questão fundamental – continuadamente “atravessada” nessa
discussão – é a construção que se faz dessa práxis.
De alguns anos para cá essa discussão ganhou novos contornos,
com a apresentação de ideias mais objetivadas e concretas relativas ao tema.
Todavia, resta-nos ainda pensar – de modo pragmático – naquilo que cons-
titui, em “essência”, o processo de psicoterapia. Se há (relativo) acordo entre
os diversos modelos é que esta prática deve ser considerada uma prática
transformadora, seja do sujeito (subjetivado), seja de seu contexto (do su-
jeito intersubjetivo ou relacional, ou ainda, social). “Logo, também deve ser
encarada como uma práxis fundamental no campo da ação social” (Rodri-
gues, 2009, p. 51). Se efetivamente tomada nesta direção, então poderíamos
pensar em superar a segregação suposta, além de repensarmos a distinção
entre o campo do público e do privado.
Esta constatação é de fundamental importância para que possamos
avançar na direção de um debate realmente profissional, para além das pers-
pectivas que tradicionalmente interpretam a psicoterapia como prática fun-
damentalmente elitista, alienada e descontextualizada. Esta é uma primeira
premissa a ser realçada aqui: a psicoterapia é uma prática clínica de cunho
social, independentemente desta carregar ou não a alcunha. Em outras pala-
vras, não consideramos que o “lugar” de um determinado “fazer” defina este
“fazer” – não se faz psicologia “comunitária” apenas por se estar em comu-
nidades, p. ex.
Isto tem inegavelmente implicações epistemológicas, dada a necessi-
dade de revisões e revisionismos das próprias práticas e teorias que alicerçam
esses modelos diversos; e, dado ainda que a ciência carrega em seu bojo um
caráter essencialmente dinâmico, a responsabilidade por esta transformação
Adriano Holanda84
deve ser assumida pelos próprios profissionais que fazem uso de seus instru-
mentais e recursos. E com isto chegamos à segunda premissa a ser defendida
que é o resgate da indissociabilidade entre teoria, prática e produção de conhe-
cimento, resgatando assim a própria história da construção do saber psicológico.
PSICOTERAPIAS: POSIÇÕES DIVERSAS
No ano de 2009 – instituído formalmente como o “Ano da Psicote-
rapia” – houve uma tentativa pouco envolvente de se fazer um debate com a
categoria em torno do tema. Com o intuito de fomentar ou estimular o deba-
te, foram encomendados alguns textos – estes chamados singularmente de
“textos geradores” – que se tornaram as únicas fontes de discussão para os
encaminhamentos que deveriam ser tomados pelos conselhos.
Estes textos revelam, dentre outras coisas, duas posições muito in-
teressantes: em primeiro lugar, a diversidade de visões e opiniões6 com res-
peito ao tema “psicoterapia”; e, em segundo lugar, o caminho ideológico que
os gestores da profissão gostariam de imprimir ao tema (e que se repetem
nos documentos aqui apontados).
Num dos seus primeiros textos lemos que:
(...) as psicoterapias não podem e não devem ser definidas enquanto ciên-
cia. Não podem porque (...) elas não se enquadram no espaço epistêmico
da racionalidade moderna. Não devem porque sua não cientificidade não
é um defeito a ser corrigido no futuro, mas é o traço essencial de um saber
cuja fecundidade reside justamente em resistir à pretensão de uma objeti-
vidade e de uma operacionalidade universais. (Drawin, 2009, p. 29)
As psicoterapias teriam, segundo o autor, um “caráter sapiencial”,
que as aproximaria dos “antigos exercícios espirituais”. Nesta direção, as
psicoterapias estariam relacionadas com práticas como as de “autoconheci-
mento” (gnóthi seauton) e as do cuidado e formação de si (epimeléia heau-
toû), como destaca Foucault.
De fato, a “racionalidade” da psicoterapia – aqui posta entre aspas
para não se identificar com a modalidade cientificista ou positivada de racio-
nalidade moderna – esbarra em seu caráter fluido e dinâmico, mas – sobretu-
do –, encontra-se com o seu verdadeiro dilema, qual seja, o de ter que ser
considerada como uma modalidade tripartite, envolvendo “ciência” ou co-
nhecimento (episteme), técnica e arte. Nesta direção, como tratarmos a
 
6 Poderíamos mesmo dizer de “representações”, pois muitas das opiniões veiculadas no documento
eram de profissionais de fora do campo “clínico”.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 85
questão dos “critérios de validade” de uma prática psicoterápica?; critérios
estes que estão no cerne de toda a discussão sobre a oferta desta prática nos
diversos modelos de atenção a saúde7.
É inegável que este é um grande problema no seio das práticas psi-
coterápicas. Já assinalamos uma ênfase “confessional” comum à maioria das
abordagens clínicas, quando estas se constroem em torno de teses e textos
que nem sempre encontram respaldo empírico ou mesmo crítico da parte de
seus promotores. Este seria o caráter “sapiencial” exposto por Drawin
(2009). De fato, ao se falar em “validade” das psicoterapias, invariavelmente
temos de reconhecer que há uma internalização da cientificidade em cada
modelo proposto, ou seja, seus critérios de validação são dados intrinseca-
mente e, portanto, unicamente observáveis de “dentro” de cada modelo (de
maneira endógena). Ora, isto delimita um caráter autocentrado – onde so-
mente se afirma aquilo que está previamente dado em seu escopo teórico-
-técnico –; autofágico (que obriga a um contínuo processo de “renovação”
inteiramente dependente do próprio contexto), e excludente – que impede um
diálogo concreto entre os diversos modelos, e favorece o desenvolvimento
de microideologias entre esses modelos. O que por ora defendemos é o res-
gate do caráter de universalidade das práticas, o que não impede a manuten-
ção de suas especificidades, nem a própria diversidade.
E a que nos referimos quando falamos de “critério da universalida-
de”? Façamos um breve resgate da questão da pesquisa em psicoterapia. Em
primeiro lugar, quando se fala de avaliação de processos psicoterápicos, é
comum se falar em “eficácia”, “efetividade” ou “eficiência”, ou mesmo se
questionar ou traçar critérios de validade dos diversos processos. O que se
coloca, a rigor, por detrás dessas noções são perguntas como: Psicoterapia
funciona? Quais funcionam melhor? Há primazia de uma sobre a outra? Há
psicoterapias mais ou menos eficientes?
Quando se fala de eficácia está se falando de algo que causa determi-
nado efeito e está se tratando de uma comparação entre dois agentes, ou seja, um
em relação ao outro pode ser mais ou menos eficaz; já efetividade diz respeito ao
que funciona. Também se faz comparação quando se fala em eficiência.
As pesquisas em psicoterapia surgem em princípios do século XX,
e desde cedo tomam dois caminhos: um conjunto chamado de pesquisas
centradas nos resultados; e outro, relacionado às pesquisas sobre o proces-
so. “A primeira centra-se numa perspectiva mais experimental, objetiva, que
 
7 Muito recentemente, em edição de 17 de fevereiro deste, o jornal Le Monde veiculou mais uma notícia
envolvendo o uso da psicanálise no tratamento do autismo. Mais um capítulo no debate sobre a regula-
mentação das psicoterapias na França, mas também sobre a questão da validade dessas práticas.
Adriano Holanda86
enfatiza a importância da técnica (...) A segunda assenta numa perspectiva
mais subjetiva, se quisermos, intersubjetiva” (Sousa, 2006, p. 373). Assinala
ainda o autor que esta cisão espelha a tradicional polaridade entre “explica-
ção” e “compreensão”, que acompanha a construçãodo saber psicológico
desde seus primórdios – e nos ajuda a estabelecer critérios de consideração
desta ciência como uma ciência humana ou não.
Uma conclusão que podemos apreender dessas perspectivas – e
que nos chega como uma das questões mais importantes a serem destacadas,
debatidas e modificadas, especialmente no que tange à prática clínica em
nosso país – é que há um abismo entre terapeutas e pesquisadores.
Este é um tema que, sem dúvida, não é suficientemente clarificado
em nosso contexto profissional, senão vejamos a discrepância que existe na
formação em nosso país, constituindo-se cisões sem sentido na produção do
conhecimento – e que estão diretamente envolvidas com a segregação que
apontamos anteriormente.
Para principiarmos, basta-nos constatar a discrepância existente
entre os diversos modelos de instituições de ensino superior no país, com
claro privilégio (e dominância) para aquelas que têm pouco ou nenhum
comprometimento com a pesquisa ou a produção acadêmica. Estamos nos
reportando ao Decreto 5.773/06 que subdivide as “instituições formadoras”,
em Universidades, Centros Universitários e Faculdades Isoladas. É pressu-
posto que boa parte da construção de conhecimento se dê a partir de um
contexto formal de pesquisas, e o referido decreto veio (de certa forma) li-
mitar o compromisso que as IES deveriam ter com a pesquisa na formação
universitária. Enquanto as Universidades (na sua maioria, instituições públi-
cas) seriam caracterizadas pela “indissociabilidade das atividades de ensino,
pesquisa e extensão”, a caracterização dos centros universitários e das facul-
dades isoladas (na sua imensa maioria, instituições privadas) se centraria no
“ensino” – ou seja, não na produção, mas na reprodução do conhecimento já
instituído.
Outra discrepância que podemos apontar é a existente, pelo menos
em nosso meio, entre o ambiente acadêmico e o contexto profissional, sendo
atribuído ao primeiro a responsabilidade de fazer pesquisa, produzir artigos,
formar profissionais e construir conhecimento, e ao segundo é dada a “tare-
fa” meramente pragmática, operacional e de ação profissional propriamente
dita. Nesse particular, nos chama a atenção o fato de haver um entendimento
comum8 de que na academia não se exerce a profissão, mas tão somente se é
 
8 Muito mais comum, sem dúvida, entre os docentes de universidades públicas, por conta da suposta
“autonomia universitária”, do que entre os docentes de instituições privadas.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 87
“docente”, enquanto que na prática profissional não se faz pesquisa. Isto
equivale a dizer que existem dois “mundos” completamente distintos entre
si, embora envolvam o mesmo objeto, qual seja, determinada ciência ou
profissão. O mais curioso disso tudo é que não se pode conceber um curso de
formação de psicologia sem o exercício prático desta mesma psicologia.
Por fim, uma terceira discrepância a ser destacada é o fato de que,
na maior parte das vezes, a relação entre o profissional e o seu saber cons-
truído se esgota quando de alguma formação específica (seja esta de gradua-
ção ou de especialização), o que fragiliza tanto o contexto profissional
quanto a própria construção acadêmica (haja vista a distância entre o que se
produz no contexto acadêmico e o que se aplica no contexto operativo da
sociedade e das políticas públicas).
Com isto, observamos o hiato que existe entre a prática que é exer-
cida no contexto profissional e a produção ou reflexão sobre o conhecimento
que deveria embasar esta mesma prática.
Retomando a questão das pesquisas em psicoterapia; essa preocupa-
ção ganha notoriedade a partir de 1952, quando o psicólogo americano Hans
Eysenck começa a questionar a eficácia da psicoterapia. No ano seguinte,
Eysenck publica um livro intitulado Uses and Abuses in Psychology, onde am-
plia esse debate para a psicologia como ciência em geral (Eysenck, 1953/1967).
O que temos de fatos constatados até o momento em relação à psi-
coterapia? Em primeiro lugar, que psicoterapia é benéfica e eficaz, ou seja,
“funciona”; mas em relação a que? Em relação à fila de espera, ao placebo e
ao não tratamento. Um segundo dado importante: 80% dos clientes apresen-
tam mudança clinicamente significativa em relação ao não tratamento. Em
outras palavras, falar ajuda, a relação ajuda (o que valida modelos relacio-
nais os mais diversos, tais como o padre/pastor, o amigo, o Centro de Valo-
rização da Vida, dentre outros). Uma terceira questão importante: quanta
psicoterapia é necessária? Qual a quantidade? Em 50% dos casos há mudan-
ça significativa após um conjunto de 21 sessões, em média, sendo necessário
mais de 50 sessões para que 75% mudem (Sousa, 2006). O que temos aqui é
que falar ao longo de um ano ou dois (ou mais), deve exercer algum efeito.
Não podemos esquecer que temos ainda uma porcentagem elevada – 50% –
que não apresentam melhora significativa nesse mesmo tempo.
Uma quarta questão relevante é: há manutenção? O quanto esta mudan-
ça se mantém? Segundo levantamento de Sousa (2006), temos o seguinte quadro:
1) 40% dos resultados positivos são atribuíveis a variáveis relacionadas
ao paciente e a fatores extraterapêuticos (tais como motivação para mu-
dança, capacidade cognitiva e interpessoal etc.);
Adriano Holanda88
2) 30% são os chamados “fatores comuns”, ou seja, são aqueles aspectos
da relação que independem da orientação teórica (tais como a qualidade
da relação, a confiança, aceitação, compreensão etc.);
3) 15% são efeitos placebo (como esperança ou expectativa); e
4) 15% referem-se às técnicas específicas de cada abordagem.
Mais recentemente temos observado um movimento, oriundo da
Divisão 12 da American Psychological Association (APA), no sentido de
realizar pesquisas orientadas para definir aqueles modelos de psicoterapia
que apresentem dados com suporte estritamente empíricos (os empirically
supported treatments). É esse movimento que visa discriminar e determinar
modelos “aceitáveis” de psicoterapia para casos específicos, ou seja, tal
perturbação X deve ter intervenção Y para se obter resultado Z. Pois é exa-
tamente este modelo que impera no contexto dos seguros-saúde americanos
e que paulatinamente vem sendo importado para o Brasil, com suporte de
determinada parcela da comunidade psiquiátrica e psicológica.
Houve reação a esses procedimentos – desde críticas e questiona-
mentos à apropriação de estruturas metodológicas, até quanto aos critérios de
definição de psicopatologias, mas o mais importante foi a constatação de que
esse modelo exclui aspectos relevantes do processo, tais como a relação em
si, as particularidades do paciente (e eventualmente seu contexto) e as ca-
racterísticas do psicoterapeuta (Sousa, 2006).
Muito já se sabe sobre as psicoterapias, mas ainda não se fala
muito sobre elas. Senão vejamos algumas questões. Quanto há de literatura a
respeito do “fracasso” em psicoterapias? Nada ou quase nada. Um excelente
desafio seria buscar – no seio mesmo da literatura específica a cada aborda-
gem psicoterápica – relatos de fracassos em atendimentos. Falamos sempre
do sucesso, do que “funciona”, inclusive como estratégia de marketing; mas
costumamos negar, escamotear, “esquecer” ou simplesmente não refletimos
sobre o que não deu certo. Ora, se 50% dos casos obtêm sucesso, então os
demais 50% podem ser encarados como “fracasso”.
Outro dado relevante: Tassinari (2003) discute as pesquisas de
Moshe Talmon que, ao examinar as desistências “precoces” ou o abandono
de psicoterapia, num universo de cem mil consultas, “(...) constatou que a
maioria dos clientes comparecia a uma única sessão. Em seguida entrevistou
200 de seus pacientes que só compareceram a uma única sessão e, para sua
surpresa, 78% informaram que não retornaram, pois se sentiram atendidos
naquilo que procuravam” (p. 2).
Estes dadossão absolutamente compatíveis com outras novas apli-
cações clínicas, como é o caso do Plantão Psicológico, p. ex. Portanto – e
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 89
isto a literatura clássica sobre “psicoterapia breve” já constatara –, não há
uma consolidação temporal para a realização de uma psicoterapia.
Ainda, Lambert & Shimokawa (2011) colocam que os terapeutas
tendem a superestimar os resultados de suas psicoterapias, não levando em
conta que os pacientes também pioram em situações de tratamento.
Todos esses temas estão presentes cotidianamente no fazer do psi-
coterapeuta, mesmo que este – irrefletidamente, e comprometido com a con-
fessionalidade de sua abordagem – se exima de perceber.
SOBRE A CULTURA PROFISSIONAL E O IDEÁRIO DO SOCIAL
Uma questão crucial para a categoria é o que pode ser chamado de
“cultura profissional do psicólogo” (Dimenstein, 2000). Isto ganha contornos
de maior seriedade num momento em que se define a profissão de psicólogo
como uma “profissão de saúde” – o que, de fato, ela é, embora não possa se
limitar a esse campo.
Meira & Nunes (2005) apontam para alguns “motivos” e motiva-
ções relacionados à escolha pela profissão de psicólogo da parte de calouros.
Dentre esses motivos, um dos que se mais se destaca é o fascínio que a pro-
fissão (ou a ideia de psicologia) exerce sobre o senso comum, associando-a a
um “penetrar” no outro. Chamaria isto de “síndrome voyeurista”. Desta as-
sociação, surge um natural direcionamento para a psicoterapia, bem como
uma associação da Psicologia (como profissão) à sua atuação na clínica, e
esta ser definida como uma possibilidade de “ajudar” ao outro, de conhecer
melhor o ser humano e de apresentar soluções (quase) mágicas para os pro-
blemas (Meira & Nunes, 2005). Esta representação nos coloca diante dos
arcabouços antropológicos da profissão, quando nos aproxima da posição do
guru, do mestre, do sábio, do feiticeiro ou do xamã (Bucher, 1989), ou do
“sapiencial”.
Magalhães, Straliotto, Keller & Gomes (2001), em pesquisa com
146 alunos de primeiro ano de dois cursos do Rio Grande do Sul, encontra-
ram o “desejo por ajudar” como uma das principais respostas. Igual hege-
monia do contexto clínico esteve presente na referida pesquisa. Meira &
Nunes (2005) salientam ainda a influência da Academia na escolha teórica e
de área de atuação dos estudantes, especialmente para a clínica e apontam
que a identificação do psicólogo como profissional liberal, elitista e indivi-
dualista, já é encontrada na concepção do “ser psicólogo” dos estudantes.
Borsezi, Bortolomasi, Liboni, Reis, Tamanaha & Guimarães (2008) ressal-
tam a cristalização de uma imagem deturpada da profissão do psicólogo que
Adriano Holanda90
o público leigo acaba por estabelecer, tendo sua origem já na formação do
profissional.
No que se refere especificamente à atuação na clínica, esta vem
sendo usualmente definida como uma profissão liberal e autônoma. Uma das
possibilidades de compreensão desse fenômeno pode estar associado a um
modelo de “subjetividade”, com predominância de um ideário individualista
(Dimenstein, 2000). Eventualmente esta representação está alicerçada na-
quilo que Figueiredo & Santi (2000) definem como característica da Psico-
logia como ciência: a crise de uma subjetividade privatizada, ou seja, talvez
devamos mesmo reconhecer que, na gênese da própria ideia de uma “psico-
logia”, esteja esta representação dita “individualista” ou “privatizada” que,
de um modo ou de outro, sustenta grande parte das concepções inerentes aos
modelos de psicoterapia.
Dimenstein (2000) observa ainda, como consequências dessa cultu-
ra, o “conflito entre as representações de saúde/doença entre usuários e pro-
fissionais; [a] baixa eficácia das terapêuticas e [o] alto índice de abandono
dos tratamentos; [além de] seleção e hierarquização da clientela” (p. 95).
Neste sentido, repete-se – igualmente de modo irrefletido – aquilo que mui-
tas pesquisas apontam como deficiências dos modelos psicoterapêuticos;
além de se reificar o aspecto confessional das psicoterapias, do qual nasce
boa parte dos conflitos entre as representações de saúde e doença entre pro-
fissionais, usuários e – não podemos deixar de mencionar – gestores e res-
ponsáveis pelas políticas públicas em saúde, que estão igualmente compro-
metidos com boa parte das inconsistências que encontramos na atenção à
comunidade9.
Um outro dado deve ser acrescentado, consoante Meira & Nunes
(2005), que apontam que os estudantes de psicologia consultam psicotera-
peutas 25% a mais do que estudantes de outras graduações. Mais um dado
que reforça a retroalimentação e a autofagia do campo.
Esta suposta hegemonia de um “ideário individualista”, vivida a
partir dos anos 60, tem muito a dever aos procedimentos clínicos, em especial
ao que podemos denominar de “psicologismos” e à difusão da psicanálise na
 
9 Estamos nos referindo a dois contextos: em primeiro lugar, às sucessivas mudanças de políticas de
saúde, tanto no que tange aos gestores, quanto aos modelos que se adotam (é muito comum, no nos-
so país, ficarmos à mercê das “reflexões” daqueles que estão na posição de responsáveis pela orga-
nização dos serviços, ou se preferirem, dos “mandatários” de determinado serviço que, invariavel-
mente, no afã de realizações, seja por vaidade, seja por ignorância, costumam “reinventar a roda”.
Basta-nos, a título de exemplo, resgatar as inúmeras mudanças de nomenclatura em serviços, pro-
gramas ou estratégias; ou, ainda pior, as contínuas mudanças de equipe, pessoal ou coordenação nos
mais variados contextos de atenção a saúde) e, num segundo momento – e diretamente relacionado
ao primeiro – as dificuldades de capacitação dos profissionais.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 91
classe média brasileira. A ideologia do individualismo é aquela que promove
a ideia de um indivíduo autônomo e independente, isolado de fatores exter-
nos (sejam esses culturais, econômicos ou sociais). Esse ideário de “interio-
ridade” acabou por recrudescer com a difusão das chamadas “psicologias
profundas”. Um dos principais exemplos é o modelo do inconsciente psica-
nalítico que vem questionar a supremacia da autonomia de um “eu”, de uma
racionalidade consciente, vindo a colocar, no lugar deste “eu” consciente,
um sujeito clivado, cindido e determinado de dentro para fora:
(...) vem falar de um sujeito despossuído subjetivamente e dotado de uma
interioridade psicológica singular, à qual está condenado e que o diferen-
cia dos demais seres humanos. Em outras palavras, a psicanálise passa a
trabalhar com uma nova concepção de indivíduo: o sujeito psicológico,
cuja verdade é a do seu desejo inconsciente. Dessa maneira, um dos seus
efeitos foi engendrar uma concepção de subjetividade individualizada e
individualizante, particular, singular a cada sujeito, mediada exclusiva-
mente pela história pessoal de cada indivíduo. (Dimenstein, 2000, p. 98)
Durante as décadas de 60 e 70, no Brasil, é construída uma “cul-
tura psicanalítica” (como afirma Figueira, 1985), que funciona como uma
espécie de “visão de mundo”, que se expressa em três dimensões: numa
lógica do aparente (que visa buscar por detrás dessas aparências a verda-
de), num ethos ou código de emoções (voltadas para aquelas mais íntimas e
pessoais) e num dialeto específico. A esta modelação, Penna (1997) ainda
acrescenta o retrato caricatural a que se submeteu a psicanálise – através da
clássica réplica “Freud explica” – que aponta para o determinismo absolu-
tista do pensamento freudiano, e que qualifica como sendo uma concepção
teórica voltada para o “esclarecimento” e para a “emancipação” (ou para
uma “desalienação”). Isto seria possível pela “decifração do significado”
que coloca a psicanálise inserida na velha tradição hermenêutica da místi-
ca, da teologiae da filologia (Figueiredo, 1991), graças a seu determinismo
funcional totalitário, que “(...) impõe uma decifração de sentido e uma
identificação de intencionalidade, mesmo aonde os eventos parecem seguir
uma causalidade mecânica ou ocorrer aleatoriamente” (Figueiredo, 1991,
p. 97); exige-se, assim, uma intencionalidade inconsciente ou um sentido
latente (encoberto).
E a difusão desse modelo veio se dar num contexto de extrema
modernização da sociedade brasileira. Além disso, esse ideário veio a repre-
sentar importante estratégia de valor político durante as décadas de 60 e 70
do século passado.
A ênfase na privatização e nuclearização da família, na responsabilidade
individual de cada um dos seus membros, a ênfase nos projetos de ascen-
Adriano Holanda92
são social, na descoberta de si mesmo, na busca da essência e na liberta-
ção das repressões, foram algumas destas estratégias que culminou na
promoção de uma psicologização do cotidiano e da vida social e num es-
vaziamento político. (Dimenstein, 2000, p. 99)
A proliferação desses modelos individualizados é, muitas das ve-
zes, descontextualizada, universal e não relativizada, ou seja, não abarcando
a complexidade e multifatorialidade dos processos de subjetivação. De fato
esse modelo imperou – não sem sentido e sem história – e encontrou solo
fértil na nascente profissão de psicólogo, o que leva alguns autores, como
Yamamoto (1987), a concluir que a psicologia cresceu comprometida com o
capital e o consumo, exercendo pouco papel questionador e transformador na
sociedade, contribuindo para a perpetuação das condições de poder.
Isto se observa, no contexto das graduações, através da adesão cega
a modelos, teorias ou técnicas, desde cedo, sem reflexão ou crítica, sem sufi-
ciência epistemológica, num interjogo mais próximo às estruturações de
crenças do que de ciências. Como consequência disso, teríamos uma forma-
ção que ausenta o profissional de seu compromisso social.
Esta problemática vem sendo continuadamente perpetuada pelos
próprios estruturantes desse interjogo, e pelos próprios pares, em especial
nas determinações das disciplinas e dos conteúdos a serem trabalhados, in-
clusive através dos processos discursivos que criam constantes cisões no seio
da “ciência” psicológica, com a apropriação de discursos cindidos onde os
formandos em “psicologia” são bombardeados com noções díspares e con-
traditórias como definições de contextos: “psicanálise não é psicologia”; “a
única ciência psicológica é o behaviorismo”; ou expressões anacrônicas
como “psicologia humanista” ou “psicologia holística”. Isto reflete uma total
falta de compromisso da profissão com a ciência enquanto uma unidade.
Pode-se dizer, pois, que – salvo exceções – perpetua-se uma psi-
cologia “ingênua” nas universidades, apartada da pesquisa empírica e de
grande parte da construção do saber. E as psicoterapias não ficam isentas
disto. Senão vejamos outro elemento constitutivo do caráter confessional das
psicoterapias: trata-se das formas particulares de transmissão de seus sabe-
res, próximos aos ritos iniciáticos – que incluem aqueles acima descritos
com referência à psicanálise (lógica, ethos e dialeto), mas que não são exclu-
sivos desta10 – mas igualmente a exigência presente em grande parte (senão
 
10 Importante assinalar que todas as propostas de psicoterapia carregam consigo uma lógica, um ethos
e um dialeto próprios. A rigor, podemos facilmente observar que são estes elementos que constituem
o solo confessional das abordagens e as qualificam exatamente como singularidades ao redor desse
sistema. Isto é mais facilmente observável nas práticas discursivas e está disseminado em numerosos
conceitos que não dialogam entre si – ou seja, somente possuem significado no esteio de cada mo-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 93
na totalidade) desses modelos que induzem a que os pleiteantes a participar
da “comunidade” façam terapias dentro de seus próprios modelos, o que não
apenas reforça seu caráter autofágico, como justifica o excessivo consumo
interno – dentro da própria Psicologia – das práticas psicológicas11.
O modelo clínico de atuação privada hegemônico entre os psicólogos – a psi-
coterapia individual de base psicanalítica – é geralmente transposto para o
setor público, tanto para postos, centros e ambulatórios de saúde, indepen-
dentemente dos objetivos dos mesmos e da população neles atendidas, tendo
algumas conseqüências importantes, entre as quais destaco: a. Conflito com
as representações de Pessoa, saúde e doença, corpo, próprias aos usuários das
instituições públicas de saúde; b. Baixa eficácia das terapêuticas e alto índice
de abandono dos tratamentos; c. Seleção e hierarquização da clientela; d. Psi-
cologização de problemas sociais. (Dimenstein, 2000, p. 107)
Observa-se, assim, a predominância de discursos que privilegiam
perspectivas que percebem o sujeito como um ser abstrato e a-histórico, de
um lado; e, por outro, uma excessiva “psicologização” dos problemas sociais
(Dimenstein, 2000). Nesta direção, a psicologia estaria comprometida com
um ideário individualista e isto seria decorrente não somente de sua identi-
dade e cultura profissional, bem como de suas limitações teóricas e técnicas,
estas advindas de sua formação. Como decorrência, o profissional repetiria
este modelo onde estivesse atuando.
Na direção de uma posição crítica a este modelo tradicional, observa-
mos um discurso opositor que propõe um profissional engajado e crítico, res-
ponsável pela mudança social, ideologicamente alicerçado em premissas históri-
co-sociais e que vem constituindo boa parte dos documentos oficiais do Conse-
lho. Aliado a isto, vemos ainda a defesa de um “lugar” do psicólogo inserido nas
políticas públicas e investido de atributos “necessários e suficientes” (parafrase-
ando Rogers) para uma ação de “protagonismo”, bem como qualificando-o
como o profissional “ideal” para a solução dos problemas sociais.
Um exemplo desse discurso opositor encontra-se na defesa de uma
“clínica ampliada” em contraposição a uma “clínica reduzida” (Oliveira,
2009). Outro exemplo: “A psicoterapia, como alguma outra prática, não é
capaz de suprir todas as exigências dos problemas psicológicos/situações de
 
delo, ao qual se remete cada “dialeto” particular – como nas noções de “tele” (Psicodrama), “conta-
to” (Gestalt), “pulsão” (Psicanálise), apenas para citar alguns. Ou ainda, está presente naqueles con-
ceitos que aparentam clareza, se difundem como verdades, mas não subsistem a qualquer tentativa
de definição operacional, como os de “vínculo”, “setting” etc.
11 Este consumo excessivo inclui (como destaca Dimenstein, 2000), supervisões, grupos de estudos,
psicoterapias etc. Fato este que, paradoxalmente, afasta a Psicologia da sociedade, dado esta subsis-
tir dentro de sua própria “comunidade”, dificultando assim sua reverberação no coletivo. Este fato
justifica os dados acima citados por Meira & Nunes (2005).
Adriano Holanda94
sofrimento, em suas imbricações com as condições e desigualdades sociais,
apresentados pela população brasileira, mas pode contribuir e é utilizada
para esses fins” (Lima & Viana, 2009, p. 43).
Tal colocação escamoteia um entendimento ideológico (e limitado)
do campo clínico, além de reificar a polarização individual/social, que cos-
tumeiramente contrapõe à ideia de psicoterapia – no polo “individual” – uma
clínica “psicossocial”. O mesmo texto reitera esta posição quando sugere que
a formação em Psicologia deveria superar “qualquer reducionismo em rela-
ção à oferta de práticas psicológicas”, oferecendo um “maior leque de possi-
bilidades de intervenção psicológicas e/ou psicossociais para além das psi-
coterapias” (Lima & Viana,2009, p. 44).
O que não se percebe por detrás desse conjunto de proposições e
questionamentos, é o risco de se construir uma “nova” psicologia calcada
sobre os restos mortais da “velha” psicologia, num processo de substituição
de valores e saberes, como se isto fosse tão possível e plausível quanto a
troca de aparelhos celulares de um modelo para outro, “mais” avançado. E
como produto dessa troca, legamos à posteridade o lixo acumulado.
Ao se falar de “cunho social” para a prática psicológica, não po-
demos esquecer de dois elementos: o primeiro deles é o fato que a sociedade
persiste em demandas específicas mesmo que se pense o contrário. Assim é
que uma “clínica reduzida” não perde seu espaço simplesmente por que se
deseja a construção de uma “clínica ampliada”. Em outras palavras, uma
demanda por acolhimento ao meu sofrimento não desaparece por conta do
reconhecimento das mazelas sociais; afinal todo sofrer só é sentido na “car-
ne”. Com isto estamos delimitando a necessidade de manutenção de um
conjunto de espaços já constituídos e construídos pela psicologia. O segundo
elemento é que este processo de “socialização” não pode ser identificado
com uma ou outra prática discursiva – ou ideologizada, como estatuto de
uma “verdade” – nem ser prerrogativa de determinado campo epistêmico,
seja este compreensivo ou interpretativo. Com isto, o que tão somente apon-
tamos é para a necessidade da observação do campo clínico em seu caráter
ético (caráter este, talvez, historicamente negligenciado, esquecido ou relati-
vizado, mas seguramente não ausente), presente não apenas nas próprias
práticas, mas igualmente em suas reflexões posteriores.
Ademais, seria interessante analisar se realmente há mudança pa-
radigmática que justifique a falência de um caminho historicamente cons-
truído e sua substituição (ou pretensa substituição) de um “olhar” para outro.
Sabemos, todavia, que mentalidades e paradigmas não mudam por decreto, e
certamente é-nos relativamente fácil perceber que não houve mudanças ou
diferenciações significativas que tenham sido experimentadas ao longo dos
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 95
anos e que justifiquem tal ato de substituição. Afinal, o que chamamos, hoje,
de “intervenção psicossocial” ou de compromisso social já encontramos
presente em pensadores “clássicos” da clínica “privatista” e burguesa como
Adler, Moreno e Frankl, dentre outros.
O que se observa é que não se discute o “campo” das psicoterapias,
mas estas somente são questionadas de um suposto “lugar”, o lugar de um
“social”, como se as práticas psicoterápicas fossem caracterizadas por sua
limitação ao individual. Destaquemos um contraditório neste particular. Ao
individual se contrapõe o grupal, e a este se associa o social. Ora, seria inte-
ressante salientar que boa parte das intervenções grupais nascem do seio de
práticas psicoterápicas clássicas (como as psicoterapias grupo-analíticas, ou
o Grupo de Encontro proposto por Rogers), além do fato que a atenção a
comunidades as mais diversas – seja em contexto de saúde mental ou na-
quilo que se compreende como saúde comunitária – existem desde proposi-
ções como as de Adler (que pode ser considerado um precursor da “psicolo-
gia médica” ou da moderna “psicologia da saúde”), as de Moreno (com seu
teatro da espontaneidade) ou de Frankl.
Um conjunto significativo de psicoterapias refletem para além do
individual, fazendo com que coexistam concepções grupais e sociais em seu
bojo. Alguns exemplos podem ilustrar isto. A dinâmica de grupos nasce das
reflexões de Kurt Lewin, a partir de seus trabalhos com interações sociais,
por volta de 1938. Mas a gênese das grupoterapias remonta a 1905, com J.
Pratt e seu trabalho com pacientes tuberculosos numa enfermaria de hospital.
Seu trabalho obteve tanto sucesso que passou a ser modelo inclusive para
outras organizações como os Alcoólicos Anônimos (Zimerman, 2000). Além
disso, as práticas institucionais tem solo genético na psicanálise kleiniana.
Sem esquecer os grupos operativos e as terapias sistêmicas. Todos esses são
exemplos de que o campo das psicoterapias não ficou alheio ao social.
Assim, a questão da psicoterapia não pode ser colocada como “me-
nor” ou “abaixo” de supostas práticas psicossociais. Essa colocação nos revela,
de imediato, a errônea concepção de que a prática psicoterápica seria um modelo
deslocado do social; além de fomentar a ideia de que as chamadas “práticas
psicossociais” – que, diga-se de passagem, carecem tanto de definição quanto o
próprio campo psicoterápico – seriam a possibilidade dessa “resolução” de pro-
blemas psicológicos ou de situações de sofrimento, como se o sofrimento fosse
algo a ser extirpado ou eliminado da natureza humana. Parece-nos que ainda
padecemos da própria definição de saúde da OMS12.
 
12 Referimo-nos, aqui, à ideia que “Saúde é o estado do mais completo bem-estar físico, mental e
social e não apenas a ausência de enfermidade”, como constante nos documentos da OMS.
Adriano Holanda96
À GUISA DE ENCAMINHAMENTOS: DESAFIOS PARA O DEBATE
CONTEMPORÂNEO
Tudo o que se está aqui marcado como “irreflexão” sobre o campo
das psicoterapias não deve servir para invalidá-las, muito pelo contrário.
Deve servir para marcar a necessidade da discussão, tanto no contexto das
próprias práticas, quanto no seio da profissão.
Um olhar para o cenário contemporâneo irá mostrar que as práti-
cas discursivas atuais se mantêm muito próximas das antigas – afinal, as
pessoas ainda “sofrem dos nervos” e psicólogo ainda é um profissional que
lida com “coisas da cabeça”. A irreflexão sobre esta realidade apenas dis-
tancia cada vez mais a ciência e a profissão de seu lugar e, com isto, ao
invés de se ganhar espaços, estes vão sendo apropriados cada vez mais por
outros profissionais.
Pela incapacidade – ou esquecimento – da Psicologia em lidar com
questões complexas e espinhosas, como a religião, p. ex., cada vez mais
demandas que tocam esses espaços vão sendo acolhidas em seus locus pró-
prios – as igrejas e seus responsáveis –, como se o sentimento religioso ou a
vivência religiosa não fossem fenômenos humanos e, portanto, experiências
psicológicas. Por se definir como uma disciplina “laica”, a Psicologia (e,
consequentemente, a psicoterapia), ao invés de lidar com a demanda provin-
da da religiosidade, a exclui do campo profissional, levando ao limbo não
apenas um conjunto representativo de profissionais religiosos como excluin-
do as demandas existenciais de um contingente inumerável de clientes, que
sofrem de suas vivências religiosas. E como consequência, o campo há de
ser ocupado por religiosos e leigos os mais diversos.
Este é apenas um exemplo do que vem ocorrendo no macro campo
das psicoterapias, e ajuda a explicar a apropriação destas, por parte de outros
profissionais, que cada vez mais as praticam. Curiosamente, foi graças ao pri-
vilégio dos médicos à dimensão corporal, objetiva, palpável, do humano, em
detrimento da dimensão da mente, subjetiva e impalpável – relegada a segun-
do plano – que os psicólogos puderam se apropriar da clínica. A história se
repete, nos mesmos moldes, quando a psicologia elege campos ou demandas
privilegiadas e relega outras, permitindo assim, que estas relegadas sejam
acolhidas por outros olhares, de outros profissionais, eventualmente menos
preconceituosos e mais abertos, como a psicologia já foi um dia.
Todavia, não podemos ignorar o fato que a maioria dos ditos “psicote-
rapeutas” sejam psicólogos, e assim, a questão da psicoterapia se torna – de
maneira direta – questão da Psicologia. Desta feita, não podemos concordar que
questão de tal envergadura seja debatida fora do seu campo ou delegada – “ter-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 97
ceirizada” – para outra entidade que não a devidamente estabelecida para zelar
porsua categoria. Ainda na mesma direção, não podemos igualmente ignorar
que a demanda da psicoterapia como prática “exclusiva” da Psicologia não mais
se sustenta, seja pela dispersão do campo (inúmeros outros profissionais, da área
da saúde ou não, já se apropriaram da psicoterapia), seja pelo fato que esta de-
manda teria de ter sido colocada há muitas décadas atrás.
Aos psicoterapeutas, é preciso refletir sobre o fato que, dado que as
pesquisas apontam que as abordagens guardam mais proximidade do que
diferenças em termos de efetividades, talvez fosse interessante tomar as di-
versas consolidações teóricas como formalidades. Assim, com o acúmulo de
conhecimentos adquiridos, podemos pensar as diversas práticas psicotera-
pêuticas como instrumentalizações, ou seja, como aplicações ou apropria-
ções do fenômeno psicológico num dado contexto, mas não mais como “teo-
rias universais” que contêm em si próprias um modelo unitário que compor-
taria uma “visão de mundo” e uma “visão de homem”. Com isto, teríamos
uma concepção autônoma de sujeito que o tornaria um sujeito “único” em
cada contexto distinto. Daí, naturalmente, migramos de uma concepção que
privilegia a teoria e a técnica, para outra que releva o profissional.
Nos últimos anos, quando questionado sobre possíveis indicações
em psicoterapia, tenho sucessivamente dito que não se deve indicar psicote-
rapias, mas psicoterapeutas, e que é fundamental que o aspirante a cliente se
sinta relativamente bem no seu contato com o terapeuta. Afinal, se trocamos
de médico, de dentista, de fisioterapeuta ou de advogado, por que não pode-
mos trocar de psicoterapeuta?
O que se delimita de tantas pesquisas em psicoterapia? Antes de
mais nada, que por detrás de tantas polissemias, coexistem critérios concre-
tos e factuais que não podem ser negados, e que constroem um “campo clí-
nico” ou um campo “psicoterápico” – que podemos associar ao que os pes-
quisadores chamam de “fatores inespecíficos” das psicoterapias, ou seja,
aquilo que delimita o que há de comum entre as abordagens diversas –, o que
nos leva ao imperativo da busca pelo discurso consonante13 ou interativo.
Ainda para os psicoterapeutas, é preciso se rever a imagem arcaica
de que pesquisa e prática profissional são duas coisas destacadas. Afinal,
como podemos “vender” um produto – no nosso caso, um serviço – se não
podemos avalizá-lo, defini-lo ou afirmá-lo a partir de nossos próprios meios
de avaliação? É importante que os psicoterapeutas saibam o quão privilegia-
dos eles são, pois estão mergulhados em seu próprio campo de pesquisa, e
que o mesmo somente precisa ser formatado.
 
13 O que não significa o mesmo de discurso “uniformizante”, como encontramos no ecletismo ou na
proposta de integração das psicoterapias.
Adriano Holanda98
Uma questão que fica em suspenso é: teremos a coragem de enca-
rar o debate sob qualquer circunstância, inclusive o peso da possibilidade da
perda de um mercado? Outra questão é: estaremos dispostos a nos sujeitar ao
Código de Defesa do Consumidor? Antes de tudo, trata-se de uma questão
ética, de posição do profissional diante de um cliente, ao qual presta um
serviço, e isso passa desde o preço, até as formas de pagamento.
Para os gestores da profissão, cabe refletir quanto determinadas
ideologias – políticas ou não – vêm influenciando no direcionamento do
campo da ação profissional, e quanto que estas ideologias têm subvertido
ordens e sugerido procedimentos em detrimento de outros. Afinal, a constru-
ção de uma profissão não se constitui da noite para o dia, nem à revelia das
próprias demandas de seu tempo e de sua sociedade. Todavia, avançar em
determinada direção não implica em “matar” caminhos já estabelecidos.
Ampliar campos de atuação não deveria vir acompanhado – necessariamente
– da falência de outros.
Com respeito à substituição de modelos – de uma vertente “priva-
tista” para um modelo “psicossocial” – talvez seja necessária uma revisão
dos modos de apropriação, para uma perspectiva de pluriaprendizagem ou de
multirreflexividade (exatamente no caminho oposto ao da substituição), ou
seja, na direção de um meta-apropriação ideológica e instrumental, indo
além do designado e do supostamente dado em verdades construídas inter-
namente, dirigido desta feita para uma ação verdadeiramente dialética.
Psicoterapia e clínica social não se contrapõem. E o profissional
autônomo não é necessariamente um privilegiado, ou serviçal do capital, por
vender seus serviços ao melhor custo possível, é antes de tudo um escravo
desse mercado, que cria tantas amarras que sem perceber o afasta da sua pró-
pria realidade concreta, em prol de outra, construída em torno de seu trabalho.
E este é outro aspecto a ser questionado, pois se se cria uma oposição entre um
profissional que serve à elite e outro que serve ao “social”, corre-se o risco de
colocar o papel do psicólogo no campo do assistencialismo. E isto é o que se
replica em muitas das críticas ao campo das psicoterapias.
Todas essas delimitações nada mais são que desafios a serem as-
sumidos pela psicologia, em todos os seus contextos e por todos seus atores,
na expectativa de uma construção menos dogmática e menos sectarista. E o
grande desafio é assumir o debate e enfrentar as divergências, sem reduzir as
diferenças ou condicionar a discussão a critérios excludentes.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 99
REFERÊNCIAS
Barros, F. & Holanda, A. (2007). O aconselhamento psicológico e as possibilidades de uma
(nova) clínica psicológica. Revista da Abordagem Gestáltica, 13(1), 75-95.
Bernardes, J. S. (2004). Linha do Tempo. Documentos sobre formação em Psicologia. Recu-
perado em 02 de outubro de 2010 de http://www.abepsi.org.br/web/LinhadoTempo.aspx.
Borsezi, C. S.; Bortolomasi, E.; Liboni, R. G.; Reis, M. F.; Tamanaha, H.Y. & Guimarães, J.
L. (2008). Representação social da psicologia e do psicólogo sob o olhar da comunidade de
Assis/SP – Brasil. Psicologia para América Latina [Online]. 14 [citado 13 Agosto 2009], p.0-
0. Recuperado em http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1870-
350X2008000300010&lng=pt&nrm=iso.
Bucher, R. E. (1989). Psicoterapia pela Fala. São Paulo: E.P.U.
Conselho Federal de Psicologia (2001). Pesquisa feita junto aos Associados do Conselho
Federal de Psicologia. Relatório Final. Brasília: Conselho Federal de Psicologia.
Conselho Federal de Psicologia (2007). VI Congresso Nacional da Psicologia. Balanço das
Deliberações do V CNP. Brasília: Conselho Federal de Psicologia.
Conselho Federal de Psicologia (2009). Ano da Psicoterapia. Textos Geradores. Brasília:
Conselho Federal de Psicologia.
Conselho Federal de Psicologia (2010). VII Congresso Nacional da Psicologia (Relatório
Final). Brasília: Conselho Federal de Psicologia.
Cordioli, A. V. (1993) (Org.). Psicoterapias. Abordagens Atuais. Porto Alegre: Artes Médicas.
Dimenstein, M. (2000). A cultura profissional do psicólogo e o ideário individualista: impli-
cações para a prática no campo da assistência pública à saúde. Estudos de Psicologia (Natal)
[Online], 5(1), 95-121.
Drawin, C. R. (2009). Psicoterapias: elementos para uma reflexão filosófica. In Conselho
Federal de Psicologia. Ano da Psicoterapia. Textos Geradores [pp. 17-37]. Brasília: Conselho
Federal de Psicologia.
Eysenck, H. J. (1967). Usos e Abusos da Psicologia. São Paulo: Ibrasa (Original publicado
em 1953).
Figueira, S. A. (1985). Introdução: Psicologismo, Psicanálise e Ciências Sociais na “cultura psica-
nalítica”. In S. A., Figueira (Org.). Cultura da Psicanálise [pp. 7-13]. São Paulo: Brasiliense.
Figueiredo, L. C. (1991). Matrizes do Pensamento Psicológico. Petrópolis: Vozes.
Figueiredo, L. C. & Santi, P. L. (2000). Psicologia. Uma Nova Introdução. São Paulo: Educ.
Gondim, S. M. G.; Bastos, A. V. B. & Peixoto, L. S. A. (2010). Áreas de Atuação, Atividadese Abordagens Teóricas do Psicólogo Brasileiro. In A. V. B. Bastos & S. M. G. Gondim
(Orgs). O Trabalho do Psicólogo no Brasil [pp. 174-199]. Porto Alegre: Artmed.
Jonsson, M. F. (2011). Formação em Psicologia no Brasil: um estudo exploratório com cur-
rículos de Psicologia na cidade de Curitiba. Dissertação de Mestrado em Psicologia. Curiti-
ba: Universidade Federal do Paraná.
Lambert, M. J. & Shimokawa, K. (2011). Collecting client feedback. Psychotherapy: Theory,
Research, Practice, Training, 48(1), 72-79.
Lima, M. & Viana, E. (2009). Formação em Psicologia e Psicoterapias: algumas considera-
ções para o debate. In Conselho Federal de Psicologia. Ano da Psicoterapia. Textos Gerado-
res [pp. 39-46]. Brasília: Conselho Federal de Psicologia.
Adriano Holanda100
Magalhães, M.; Straliotto, M.; Keller, M. & Gomes, W. B. (2001). Eu quero ajudar as pessoas: a
escolha vocacional da psicologia. Psicologia, Ciência e Profissão [Online], 21(2), 10-27.
Meira, C. H. M. G. & Nunes, M. L. T. (2005). Psicologia Clínica, Psicoterapia e o Estudante
de Psicologia. Paideia, 1(32), 339-343.
Oliveira, M. V. (2009). A Ação Clínica e os Espaços Institucionais das Políticas Públicas:
desafios éticos e técnicos. In Conselho Federal de Psicologia. Ano da Psicoterapia. Textos
Geradores [pp. 106-130]. Brasília: Conselho Federal de Psicologia.
Paya, R. (Org.) (2011). Intercâmbio das Psicoterapias. São Paulo: Roca.
Penna, A. G. (1992). História da Psicologia no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imago.
Penna, A. G. (1997). A Dispersão do Pensamento Psicológico e a Impossibilidade de sua
Unificação. In A. G. Penna. Repensando a Psicologia [pp. 57-92]. Rio de Janeiro: Imago.
Pereira, F. M. & Pereira Neto, A. (2003). O Psicólogo no Brasil: Notas sobre seu processo de
profissionalização. Psicologia em Estudo, 8(2), 19-27.
Ribeiro, J. P. (1986). Teorias e Técnicas Psicoterápicas. Petrópolis: Vozes.
Rodrigues, H. J. L. (2009). Por uma política de parcerias estratégicas interprofissionais para o
campo das psicoterapias no Brasil. In Conselho Federal de Psicologia. Ano da Psicoterapia.
Textos Geradores [pp. 49-54]. Brasília: Conselho Federal de Psicologia.
Sousa, D. (2006). Investigação em Psicoterapia: contexto, questões e controvérsias Possíveis
contributos da perspectiva fenomenológico existencial. Análise Psicológica [Online], 24(3),
373-382.
Tassinari, M. A. (2003). A Clínica da Urgência Psicológica. Contribuições da Abordagem
Centrada na Pessoa e da Teoria do Caos. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro. Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
Wolberg, L. (1988). The Technique of Psychotherapy. New York: Grune & Sttraton.
Yamamoto, O. H. (1987). A crise e as alternativas da Psicologia. São Paulo: Edicon.
Zimerman, D. E. (2000). Fundamentos Básicos das Grupoterapias. Porto Alegre: Artmed.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 101
DESNATURALIZANDO O FIM SOCIAL DA
PSICOLOGIA CLÍNICA
Marcelo M. Nicaretta
Sumário: Uma psicologia sem fins sociais. A emergência do fim social
como meta para a psicologia. Uma clínica dedicada ao social.
O modelo clínico individual e os sistemas públicos de saúde.
Considerações finais. Referências.
Não raras vezes a psicologia e, em particular, a psicologia clínica, têm
sido acusadas de serem elitistas, servindo aos interesses de classes sociais abas-
tadas em detrimento dos mais necessitados (Pepitone, 1981; Sarason, 1981;
Coimbra, 1995; Bock, 2003; Patto, 2003; Ferreira Neto, 2010; Zurba, 2011).
Esse tipo de afirmação julga o fim social dos serviços psicológicos e da própria
ciência como fins naturais e necessários para a psicologia científica. Nesse sen-
tido, a “boa” psicologia clínica teria como função primordial servir à sociedade
como um conjunto e não apenas àqueles indivíduos que podem pagar por estes
serviços. A ideia de servir a população, assim colocada, aproxima à função da
psicologia clínica a do serviço social, sendo que estas duas atividades possuem
histórias e funções muito distintas. Esse posicionamento ignora a natureza do
fazer clínico como parte da necessidade humana de remediar seu sofrimento.
Esta crítica não está calcada em uma análise da atividade psicoterapêutica, seja
da medicina ou da psicologia, ela representa o uso da dificuldade de populariza-
ção das psicoterapias pelo mundo para justificar pressupostos político-
-ideológicos contrários ao sistema capitalista.
Esta forma de julgar o valor social das psicoterapias foi construída
a partir do choque entre duas culturas que emergiram na psicologia estaduni-
dense após a Segunda Grande Guerra. A primeira mudança se deu quando o
Marcelo M. Nicaretta102
psicólogo clínico passou a exercer funções psicoterapêuticas tal como o mé-
dico e a lidar diretamente com o tratamento de enfermidades mentais, o que
antes praticamente não ocorria. Com isso, sua identidade se transformou
radicalmente, ele abandonou o campo escolar e a pesquisa básica e se tornou
um profissional liberal, deixou o jaleco de lado para comprar um divã. Neste
período surgiu nos EUA um grande mercado de psicoterapias que tinha o
psicólogo como seu principal motor (Nicaretta, 2004). Essa mudança foi
propiciada por certas condições criadas pelo cenário produzido pela guerra,
razão pela qual o papel do governo americano se tornou tão importante neste
processo. A psicologia participou dos projetos governamentais desenvolvi-
dos para a guerra antes, durante e depois do seu final. Foi utilizada para trei-
nar, selecionar e tratar soldados assim como para manipular os brios dos
inimigos (Hunter, 1946). Desde modo, é evidente que na mesma medida em
que a psicologia cresceu pelo investimento governamental feito nela, seu
caminho foi decisivamente alterado por ele. A tal ponto que alguns notórios
cientistas ligados à pesquisa básica, tais como Skinner e Keller, direciona-
ram o rumo de suas pesquisas para assuntos de interesse clínico, financiados
pelo NIMH, o National Institute of Mental Health (Pickren & Schneider,
2005).
Tornada a psicologia uma profissão de interesse clínico, a inter-
venção governamental sobre ela continuou. Foi então que ocorreu a segunda
mudança. No final dos anos 60, em plena guerra fria, uma nova psicologia
social, de cunho marxista, começou a se delinear no âmago da APA. Assim
como ocorrera com a psicologia clínica, esta nova psicologia teve forte in-
fluência dos programas assistenciais criados após a guerra, neste caso, volta-
dos para padronizar as diferenças culturais em território estadunidense
(Nicaretta, 2010). Estes programas visavam integrar os diferentes grupos
culturais ali perpetrados, e que se mostraram uma ameaça ao sistema capita-
lista vigente. Um dos principais meios utilizados para se atingir este objetivo
foi tornar as universidades dos brancos em centros de convivência e troca multi-
cultural (Nicks, 1985). Enquanto os cursos de medicina permaneceram quase
exclusivos para os brancos, os cursos de psicologia serviram largamente para
este propósito, tanto no nível de graduação quanto de pós-graduação.
Não tardou a psicologia estava repleta de grupos politizados que
defendiam os interesses de segmentos “marginalizados”, tais como negros,
latinos, homossexuais, índios entre outros. Estes grupos, que na sua maioria
eram compostos por psicólogos associados à APA (American Psychological
Association), faziam uso da tradição da psicologia científica para demonstrar
um campo da normalidade cada vez mais plural, mais integrativo e menos
psicopatológico. Essa perspectiva surgiu como parte do processo de consti-
tuição de um novo campo de pesquisa social dentro da psicologia norte-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 103
americana, dedicado à defesa do interesse social como uma meta para a psi-
cologia aplicada. Este compromisso surgiu oficialmente em 1943, quando a
APA foi reorganizada, adotando o formato atual. Liderados por E. G. Bo-
ring, 25 delegados de duasinstituições, APA (American Psychological Asso-
ciation) e AAAP (American Association of Applied Psychology), reunidos
em Nova York, decidiram modificar o estatuto da APA para incluir como
finalidades desta instituição, além do objetivo fundador de promover a ciên-
cia, a promoção da psicologia como uma profissão e como meio para pro-
mover o bem-estar social (Goodwin, 2005).
Como não poderia ser diferente, essa nova psicologia social esta-
beleceu um conflito com a também recém-criada psicologia clínica. En-
quanto os médicos e os psicólogos clínicos tentavam justificar que a anor-
malidade possuía limites definíveis, evidenciáveis e tratáveis, a nova psico-
logia social se esforçava para demonstrar que os limites científicos e as
ações terapêuticas defendidas por estes profissionais serviam a interesses
econômicos e políticos, da mesma forma como outrora a ciência também
havia sido usada para segregar e subjugar negros, judeus, deficientes e outros
(Sue, 1988).
Este posicionamento ambíguo destruiu certa noção comum que ha-
via na psicologia estadunidense, antes da guerra, acerca dos critérios para a
produção de conhecimento que passaram a ser considerados rígidos em de-
masia ou supérfluos. Nasceu desse embate uma forte contradição no âmago
da psicologia americana. Deste modo, na mesma medida em que a psicologia
científica era usada para demonstrar a efetividade do tratamento da homos-
sexualidade, ela também justificava sua normalidade. De tal maneira que
após curto período houve uma mudança muito significativa na forma como
os psicólogos entendiam esta condição humana. Organizados em associa-
ções, grupos de psicólogos apoiados pelo governo começaram a obter uma
grande força política. Como consequência, em 1973, a homossexualidade
deixou de ser considerada uma doença, sendo retirada sua referência da CID
(Classificação Internacional das Doenças), mesmo havendo à época pesqui-
sas que comprovavam a efetividade dos tratamentos para ela. Este aconteci-
mento mudou o lugar da homossexualidade dentro do campo médico e abriu
caminho para uma mudança no status desta condição humana perante a
sociedade em geral. Embora jamais se tenha esclarecimento sobre a sua ori-
gem ou motivação, a homossexualidade deixou de ser considerada uma pa-
tologia de cunho biológico e se tornou um dos destinos possíveis da subjeti-
vidade humana dita normal. Ser homossexual se tornou uma questão de es-
colha, uma opção sexual e não uma doença. E, para isso, a ciência não fez
diferença, o que determinou essa mudança não foi uma revelação científica
Marcelo M. Nicaretta104
sobre o homem, mas a dispersão de um princípio ético que possuía uma nova
psicologia humanista como seu respaldo, outro reflexo da guerra.
Do mesmo modo, como parte da ideologia adotada por esta nova
psicologia social, o liberalismo e a individualidade passaram a ser forte-
mente combatidos como exemplos de uma tradição cultural equivocada de-
dicada ao capital e aos seus detentores, as elites burguesas. A própria ciência
e a sua finalidade, o conhecimento, também passaram a serem vistos como
parte desta tradição, sendo considerado “bom” ou “verdadeiro” o conheci-
mento destinado a servir a sociedade. Deste modo, o novo psicólogo social
compreendia o trabalho do psicólogo de um modo muito diferente do seu
antecessor, o psicólogo clínico. O primeiro deveria se comportar como uma
mistura de ativista político e servidor social, enquanto o segundo acabara de
se transformar em um profissional liberal (Nicaretta, 2010). Deste embate
surgiu a crítica deflagrada às psicoterapias e a própria psicologia clínica
como tratamentos de saúde elitizados.
Na prática, essa crítica também não pode ser considerada uma in-
verdade, pois é fato que as psicoterapias se popularizaram apenas em mo-
mentos e em locais muito específicos (como nos EUA após a Segunda Gran-
de Guerra). Contudo, este fato não se deu pelas razões políticas apresentadas
pelos psicólogos sociais, mas pela falta de aceitação dos sistemas públicos
de saúde acerca do valor do trabalho dos psicólogos clínicos. Toda profissão
deixa de ser elitizada na medida em que o Estado passa a aceitá-la como uma
necessidade primária para o povo, o que traz muitas mudanças para o campo
de trabalho em questão (Nascimento Sobrinho, Nascimento & Carvalho,
2005). Esse processo ocorreu com a medicina no Brasil, com a criação do
Sistema Único de Saúde (SUS) (Buss & Carvalho, 2009). No passado, a
maioria dos médicos brasileiros trabalhava de modo autônomo, hoje, 90% da
mão de obra médica disponível é assalariada e vinculada ao SUS.
 Por isso, apesar da crítica deflagrada pelos psicólogos sociais indi-
car um fato histórico relevante, no que diz respeito à não popularização das
psicoterapias pelo mundo afora, as razões usadas para justificá-lo são equi-
vocadas. O valor da aplicação da psicologia a questões de cunho social é
inegável, o que pode ser percebido na sua participação no cenário da guerra.
Na medida em que a psicologia pode ser usada para melhorar a vida das
pessoas ela deve ser utilizada com este propósito. Contudo, afirmar que a
psicoterapia possui um valor como ferramenta de intervenção social não
significa que ela tenha essa função naturalmente, como sua “verdadeira” ou
“única” vocação. Mesmo assim, tem se tornado comum aceitar essa afirma-
ção como uma crítica pertinente. Como posto no novo estatuto da APA, esta
finalidade é apenas uma das finalidades da psicologia e não a única ou a
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 105
melhor delas. Olhando bem de perto, uma finalidade que só agora se tornou
possível, pois, antes dela, havia 50 anos de trabalho sólido exclusivamente
dedicado à ciência. Neste sentido, há que se pensar a destinação social da
psicologia aplicada não como uma condição natural ou necessária, mas como
uma nova preocupação para a psicologia científica, dentre muitas outras, ao
longo da sua profícua história. Visto deste modo, a história assume um novo
contorno, pois foi apenas no final dos anos 60 que o discurso de libertação
do homossexual começou a se perpetuar nas revistas científicas da APA.
Antes disso, até o final dos anos 50, o que se encontrava nestas revistas era a
homossexualidade como objeto de tratamento (Ellis, 1956; Miller, Bradley
& Gross, 1968; Haynes, 1970). Deste modo, há que se ter cuidado ao se
compreender certas mudanças, pois o humanismo criado em torno da psico-
logia tem razões, agentes e seus próprios interesses.
A crítica ao elitismo da psicologia clínica trouxe repercussões
muito negativas para o campo profissional dos psicólogos. Principalmente
nos países onde a psicologia se consolidou apenas depois da Segunda Guerra
Mundial. Enquanto nos EUA essa crítica era a expressão do embate entre
duas culturas da própria psicologia, no Brasil ela afastou os psicólogos clíni-
cos da psicologia científica, levando-os a se dedicarem quase exclusiva-
mente às suas próprias corporações clínicas, institutos e associações. Isso
dificultou imensamente a profissionalização da psicologia clínica no Brasil,
sendo esta a principal causa da dificuldade de acesso das populações mais
carentes aos serviços clínicos psicológicos neste país.
Este texto tem por objetivo responder à crítica dos psicólogos sociais
quanto ao compromisso social da psicologia clínica para demonstrar que o
uso da psicologia para fins ideológicos põe em risco a sustentação do campo
profissional dos psicólogos. Na medida em que o objetivo científico é posto
a serviço de projetos políticos, a especificidade da psicologia clínica se
fragmenta havendo uma ruptura das margens que a separam de campos cor-
relatos, o que pode trazer sérias consequências para a psicologia como um
todo. Ao perder sua especificidade, o campo profissional do psicólogo clíni-
co perde valor de mercado e tende a ser marginalizado e absorvido por
outros campos profissionais. Na atualidade, háuma reaproximação dos mé-
dicos em direção às psicoterapias cognitivas e psicanalíticas assim como há
uma aproximação entre os fisioterapeutas e as psicoterapias corporais. Sendo
a psicologia clínica a base profissional de todo o grande campo da psicolo-
gia, correspondendo, no Brasil, a 54,7% dos profissionais ativos (Bock,
2003), sua desvalorização acarreta dano a toda a psicologia, inclusive dentro
das universidades. Com o desprestígio da área clínica, a procura por cursos
universitários de psicologia também tende a diminuir. Outra séria conse-
quência desta crise é a contestação em vários países pelo mundo da compe-
Marcelo M. Nicaretta106
tência clínica dos psicólogos, seja quanto ao diagnóstico (como no Brasil),
seja quanto à psicoterapia (como na França). Deste modo, responder a esta
crítica pode não trazer a unidade que a psicologia precisaria ter para defen-
der o seu campo de trabalho, que pode estar com os seus dias contados, mas
pode ajudar os psicólogos a compreenderem melhor porque razões eles se
tornaram seus próprios inimigos.
UMA PSICOLOGIA SEM FINS SOCIAIS
A psicologia não surgiu como um campo de aplicação de saberes, mas
como prática de produção de saberes de acordo com um método específico, o
método científico de base experimental. A psicologia profissional, que não deve
ser confundida com as ideias psicológicas do século XIX, não se originou da
psicologia europeia, mas deste esforço, em território estadunidense, de isolar e
compreender cientificamente o psicológico como um campo próprio, separado
da biologia, da filosofia e da medicina. Contudo, a criação da psicologia como
uma profissão não foi uma simples consequência da descoberta do psicológico,
sendo esta apenas uma das suas condições para sua emergência.
Mas se a psicologia científica cumpriu tal função para o surgi-
mento da psicologia como uma profissão ela não foi a única. Tal surgimento
também está diretamente ligado à criação da APA – American Psychological
Association. Fundada em 8 de julho de 1892 após um congresso na Univer-
sidade de Clark, na cidade de Worcester, a APA serviu de base para a estru-
turação do campo científico da psicologia moderna. Nesta ocasião, um grupo
formado por médicos e pedagogos decidiu fundar uma associação para con-
solidar o psicológico como um objeto de estudo específico. Sendo assim,
além de fundarem um novo campo científico, estabeleceram as bases para a
emergência de uma nova profissão, a psicologia. Foram os fundadores deste
campo: “G. Stanley Hall (Clark University), George S. Fullerton (University
of Pennsylvania), Joseph Jastrow (University of Wisconsin), William James
(Harvard University), Geord T. Ladd (Yale University), James Cattell (Co-
lumbia University), J. Mark Baldwin (University of Toronto)” (Fernberger,
1932). Após o primeiro congresso, que ocorreu no mesmo ano da sua funda-
ção, a associação já contava com 31 membros dentre eles importantes perso-
nagens da história da psicologia americana tais como John Dewey, H.
Münsterberg, E. B. Titchener, entre outros. O crescimento da psicologia em
território americano foi rápido na primeira metade do século XX, e nos anos
30 a APA já contava com 530 membros.
Embora ainda não houvesse uma profissão independente chamada
psicologia, em 1920, logo após a Primeira Grande Guerra, já havia em terri-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 107
tório americano um campo sólido de discursos em torno da psicologia com-
posto pelas seguintes subáreas: psicologia geral, psicologia do anormal, psi-
copatologia, psicologia aplicada, psicologia dos testes, psicologia estatística,
psicologia industrial, psicologia clínica, psicologia educacional, psicologia
social, psicologia animal, psicologia experimental, psicologia teórica
(Boring, 1950).
Cada um destes espaços possuía em comum a primazia pela ciên-
cia. Neste sentido, a APA não foi apenas uma instituição corporativa de su-
cesso. Composta por professores de grandes universidades estadunidenses,
ela também foi uma importante promotora do desenvolvimento do campo
científico da psicologia dentro e fora dos EUA. Já em 1894, sob sua tutela,
surgiu a primeira revista científica sobre psicologia, o Psychological Bulle-
tin, seguida em 1904 do Psychological Review; ambas abordavam assuntos
variados relacionados à psicologia. Dado o crescimento do interesse pela
psicologia, logo surgiram revistas especializadas, tais como: Journal of Cli-
nical Psychology (1906), Journal of Abnormal Psychology (1906), Journal
of Educational Psychology (1910), Journal of Experimental Psychology
(1916), Journal of Applied Psychology (1917), Journal of Social Psychology
(1930) e o Journal of Consulting and Clinical Psychology (1937). A maioria
destas revistas continua ativa e producente. Por tudo isso, é possível dizer
que antes da Segunda Grande Guerra, já existia em território estadunidense
um campo de estudos independente chamado psicologia. O que não pode ser
confundido com a história da sua profissionalização. Contudo, a preocupa-
ção com o bem-estar social ainda não era parte deste campo.
Esta afirmação torna-se concreta ao se observar que nas revistas da
APA este tipo de preocupação é inexistente. No primeiro volume da revista
dedicada ao “anormal”, o Journal of Abnormal Psychology, de 1906, os te-
mas debatidos eram a hipnose (Bechterew, 1906), os estados patogênicos
(Janet, 1906), a psicologia da súbita conversão religiosa (Morton, 1906) e a
psicanálise de Freud (Putnam, 1906). Nada havia sobre o bem-estar social.
Do mesmo modo, em 1910, os temas debatidos no Journal of Educational
Psychology abordavam temas tais como: a contribuição da psicologia à edu-
cação (Thorndike, 1910), a psicologia genética (Kirkpatrick, 1910), os méto-
dos de ensino (Simpson, 1910), a aplicação do método experimental ao ensi-
no da pedagogia (Bingham, 1910) e a relação entre a psicanálise e a educa-
ção (Jones, 1910).
Esse cenário não mudou nos anos seguintes e o tema do compromis-
so social permanecia fora das intenções da psicologia. Em 1917, no primeiro
volume da revista de psicologia aplicada americana, o Journal of Applied
Psychology, os temas debatidos eram a higiene mental (Martin, 1917), a psi-
Marcelo M. Nicaretta108
cologia vocacional (Fernberger, 1917), o papel da psicologia na guerra (Hall,
1917), a criança prodígio (Garrison, 1917), a engenharia humana (Fish, 1917),
entre outros. Em 1930, a APA criou uma revista especializada em psicologia
social, o Journal of Social Psychology. Nela surgem as primeiras discussões
sobre temas ligados ao bem-estar social, tais como as diferenças raciais
(Thouless, 1933) e adaptação de testes a negros (Graham, 1930) e índios
(Garth, 1933). Porém, o enunciado destes estudos não trazia em destaque o
fim social. Seu interesse estava voltado para compreensão da personalidade
humana, visando descrever as suas variações e especificidades de um ponto de
vista material e quantitativo. Por essa razão as pesquisas da época buscavam
compreender as relações entre a personalidade e fatores como a ordem de
nascimento (Wile & Noetzel, 1931) e o grupo sanguíneo (Furukawa, 1930).
Do mesmo modo, também podem ser encontradas neste período as discussões
sobre tipos de personalidade (Allport, 1930), métodos de estudo sobre a perso-
nalidade (May, 1932) e padrões de comportamento sexual (Harvey, 1932).
Nenhum artigo discute questões tais como normalidade da homossexualidade,
valores da negritude e exclusão social de índios e chineses como ocorrerá no
final dos anos 60 em algumas destas mesmas revistas.
A ausência de discursos sobre a função social da psicologia é clara,
antes desse período. Trata-se de outra psicologia social, que traz um enunciado
diferente do que irá se formar mais adiante. O que não significa que o bem-
-estar social não fosse parte das preocupações da sociedade estadunidense
antes da psicologia se apresentar para a suadefesa. Muito pelo contrário,
desde a guerra civil americana o Public Welfare era amplamente debatido
por sociólogos, trabalhadores sociais (Social Workers), entidades do governo
e da igreja. Esta questão era de tamanha importância que muito cedo os esta-
dunidenses se organizaram para defendê-la. Já em 1870 surgiu a Associação
Americana de Presos. Em 1871, foi fundada a Associação Americana de
Saúde Pública e, em 1873, foi realizada a Primeira Conferência Nacional de
Trabalhadores Sociais Americanos (Folks, 1922). Ao que tudo indica, nos
Estados Unidos da América, o campo profissional do trabalho social se
constituiu antes mesmo do campo profissional da psicologia como ciência.
Diante deste cenário, o novo campo da psicologia social se apre-
sentou como uma novidade, o social discutido referia-se à psicologia cientí-
fica, e não à sociedade. Por esta razão, mesmo abordando temas em comum,
tais como raça, delinquência e saúde mental, estes campos possuíam dife-
rentes enunciados. Enquanto os psicólogos estudavam as diferenças entre a
personalidade de brancos e negros (Thouless, 1933), os servidores sociais
discutiam a quantidade de verbas destinadas aos programas educacionais
para negros (Fisher, 1923), o direito ao voto feminino (Weil, 1922) e os pro-
gramas governamentais sobre higiene mental (Anderson, 1923). A separação
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 109
era clara estando a psicologia comprometida com a ciência enquanto o servi-
ço social se comprometia com o bem-estar social.
Mas não é apenas neste ponto que estes campos eram divergentes.
Um olhar mais abrangente demonstra um cenário social muito mais comple-
xo do que o encontrado nos discursos da psicologia. Fora destes, eram deba-
tidos temas como o divórcio (Mowrer, 1924), a relação entre trabalhadores
rurais e urbanos (Branson, 1923), e o uso da religião como força social
(Murray, 1924), entre outros. O enunciado é claramente a promoção do bem-
-estar social e a busca de modos para promovê-lo. Estes discursos evidenci-
am ainda a importância da institucionalização do serviço social como parte
de políticas públicas e de leis específicas voltadas para a promoção do bem-
-estar social. Nada disso fazia parte do campo da psicologia.
Com tudo isso, o que fica claro é que embora o Public Welfare es-
tivesse ativo na cultura estadunidense, ele não fazia parte do conjunto de
discursos da psicologia científica, mesmo em se tratando das suas mais dife-
rentes versões. Mas em um determinado momento isso se modifica e o bem-
-estar social passa a ser parte do conjunto de metas da psicologia, passando a
estar presente inclusive no estatuto da APA. É também nesse momento que
surge a crítica ao individualismo dos psicoterapeutas. Uma crítica feita por
psicólogos, direcionada à cultura clínica recentemente herdada, mas despro-
vida de uma clara compreensão da relação entre a psicologia e a psicotera-
pia, ou mesmo ignorando a transformação da psicologia em uma profissão.
Deste modo, fica evidente que a meta social não apenas não fazia parte das
finalidades da psicologia científica na sua origem, como ela também não
representa o uso original do termo social para a própria psicologia. Pelo
contrário, ela representa uma ruptura, ou dito de outro modo, uma crítica, em
relação à meta científica que originou o campo da psicologia.
A EMERGÊNCIA DO FIM SOCIAL COMO META PARA A
PSICOLOGIA
Como mostrado, o compromisso social não estava presente no
enunciado que originou o campo da psicologia científica, mesmo no que se
refere à própria psicologia social. Pelo contrário, o que a história mostrou foi
que tal compromisso surgiu como parte de uma grande mudança estrutural
da psicologia estadunidense e de suas premissas. É essa novidade que precisa
ser compreendida. Pois ao se cobrar da psicologia clínica um caráter social, o
enunciado em questão não é o do Social Welfare de 1870. No campo discur-
sivo da psicologia social dos anos 60, o que se vê é o pensamento assistencial
do pós-guerra americano. Nele, não se discute a questão da negritude do
Marcelo M. Nicaretta110
ponto de vista da migração ou humilhação social. O que se pretende é uma
Black Psychology (Willians, 2008). A mesma psicologia que antes da guerra
demonstrava as diferenças entre as raças, ao seu final, voltou-se para a cons-
trução de uma psicologia dos negros. Mas essa mudança quanto ao enuncia-
do da psicologia não se deu de modo isolado. Ao seu lado também passaram
a ser discutidas questões como a normalidade do homossexualismo
(Davidson, 1976) e o uso do LSD como instrumento psicoterapêutico
(Baker, 1964), entre muitas outras questões.
Estas preocupações representam um momento histórico específico
que ficou conhecido como “era dourada estadunidense” (Vidal, 2001), e
estão intimamente relacionadas à Segunda Grande Guerra. Desse modo, o
estabelecimento do compromisso social como uma meta para a psicologia
deve ser compreendido como parte deste contexto, comum ao surgimento do
novo psicólogo clínico e de outras mudanças ocorridas na psicologia esta-
dunidense. Em todos os casos há que se destacar a influência do governo
estadunidense no seu intuito de remediar a participação direta de 18 milhões
de americanos no confronto. Neste período foram criadas várias instituições
públicas de cunho social, tais como o NIMH (National Institute of Mental
Health) e o VA (Veterans Administration). Elas surgiram com o mesmo
intuito pelo qual foram criadas as primeiras instituições sociais em torno de
1870, após a guerra civil americana, e serviram de base para a articulação
dos primeiros movimentos sociais dentro da psicologia.
A ação governamental utilizou a psicologia de três modos distintos.
No primeiro, dado o alto grau de formação acadêmica dos psicólogos, eles
foram escolhidos para gerenciar os institutos sociais. Isso produziu uma ma-
ciça transferência de psicólogos das funções educacionais e de pesquisa para
funções administrativas. Antes da guerra a atividade de ensino representava
a principal atividade de 21,3% dos psicólogos estadunidenses representando
o maior segmento da categoria. Nesse mesmo período apenas 5,6% se dedi-
cavam a funções administrativas. Terminada a guerra apenas 4% dos psicó-
logos permaneceram exclusivamente ligados a funções educacionais en-
quanto o número de psicólogos dedicados a funções administrativas saltou
para 15,4%, o segundo maior segmento atrás apenas da função de diagnósti-
co e aconselhamento (Nicaretta, 2010).
No segundo instante, como já foi destacado, os psicólogos clínicos
foram transformados em psicoterapeutas. Por último, a psicologia foi utiliza-
da como parte de um amplo plano de inclusão social. Ela foi usada como
porta de entrada no meio universitário para jovens de comunidades margina-
lizadas que recebiam incentivos para se graduarem em psicologia e também
para cursarem pós-graduação na área. O governo também utilizou a psicolo-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 111
gia como um instrumento de compreensão e afirmação da identidade destes
grupos gerando não apenas conhecimento sobre eles, mas também servindo
de base para a sua organização social. No final dos anos 60 surgiram nos
EUA diversas associações de psicólogos voltadas para a defesa dos direitos
de grupos sociais como os negros, os gays, as mulheres etc., semelhantes
àquelas que haviam surgido no final do século XIX para defender os interes-
ses dos presos e de outros cidadãos marginalizados. Embora os enunciados
desses movimentos sejam muito distintos, a intenção social se assemelha.
Enquanto em 1920 havia a discussão sobre o voto feminino, em 1970 havia a
preocupação com a igualdade salarial entre homens e mulheres.
Desse modo, parece que o empenho da psicologia no cenário do
pós-guerra, criou um novo enunciado para ela, que não apenas a aproximou
do discurso médico psicoterápico, mas também do discursoassistencial.
Uma das consequências desta última aproximação foi o estabelecimento do
compromisso social como uma meta natural para a psicologia. Os “bons
psicólogos” emergiram principalmente como crítica ao mercado liberal das
psicoterapias, sob a alegação de que os mais necessitados não podiam ter
acesso aos serviços psicológicos e que a psicologia, assim, servia apenas aos
interesses das elites. Desse modo, pode-se notar que o discurso acerca do
compromisso social da psicologia não apenas emergiu associado ao mercado
das psicoterapias, mas também como crítica a ele. O mercado das psicotera-
pias e sua crítica social são partes do mesmo enunciado que serviu aos inte-
resses das elites estadunidenses que produziram a guerra. Os psicólogos
sociais e suas teorias não ajudaram a popularizar as psicoterapias, mas con-
fundiram o público acerca do seu valor ajudando o governo estadunidense a
justificar sua omissão em reparar o dano psicológico promovido pela guerra.
UMA CLÍNICA DEDICADA AO SOCIAL
Ao generalizar a suposição de que todo psicoterapeuta é burguês e
individualista, os críticos dos profissionais liberais também cometem outro
erro. Neste caso, eles omitem a história da relação entre os psicoterapeutas e
o compromisso social. Ao que consta, muito antes de os psicólogos sociais
americanos defenderem esta intenção como meta para a psicologia, alguns
clínicos já agiam para aplacá-la. Consta que no congresso de Budapeste, em
1918, Freud destacou a necessidade da criação de clínicas destinadas àqueles
que não podiam pagar. Dessa ideia surgiu a clínica psicanalítica de Viena, de
natureza pública e destinada aos pobres, em maio de 1922.
E essa intenção não parou por aí. Em 1929, Wilhelm Reich propôs
uma aproximação entre as teorias de Marx e Freud. A novidade que ficou co-
Marcelo M. Nicaretta112
nhecida como freudo-marxismo influenciou autores da escola de Frankfurt e
também originou um novo campo de atuação social (Robinson, 1969). Em
1931, Reich disseminou pela Alemanha um movimento político-social que
ficou conhecido como Sexpol (Reich, 1932). A função principal deste movi-
mento era a “politização total da juventude acerca da questão sexual” (Dadoun,
1991). Neste período, foram criados diversos centros de atuação comunitária
cuja finalidade era conscientizar os jovens sobre a importância da função sexual
como um elemento para a construção de uma sociedade socialista.
Seria possível citar outros terapeutas que claramente ficaram co-
nhecidos pelo seu empenho em aproximar a psicoterapia dos pobres, tais
como Alfred Adler e Pichón-Rivière. Todos estes exemplos demonstram que
embora o compromisso social não fosse difundido como uma meta geral
para a psicologia antes da Segunda Grande Guerra, em momentos específi-
cos ele esteve presente como uma preocupação para os psicoterapeutas mé-
dicos. O fato da psicoterapia não ter se popularizado ainda com Freud deve-
-se a um conjunto de razões que não possuem relação com a condição políti-
co-econômica dos psicoterapeutas. O papel do Estado em prover serviços de
saúde para a população e o lugar da psicanálise dentro da medicina da época
foram fatores muito mais relevantes para esta condição do que o interesse
dos clínicos em ganhar dinheiro com o sofrimento alheio.
Não obstante, é importante destacar que uma das grandes novida-
des trazidas pelos psicólogos com a criação do mercado das psicoterapias foi
exatamente a crítica ao modelo da clínica individual. É bem verdade que
essa mudança não se deu como parte de uma consciência social, mas pela
necessidade de adequação do atendimento a grandes populações devido ao
advento da guerra. Neste sentido, a crítica dos psicólogos sociais chegou
atrasada, porque debaixo do seu olhar inquisidor já havia se instalado um
novo modelo de tratamento baseado no grupo social. Surgiram, nesse perío-
do, diferentes tipos de terapias coletivas, tais como a terapia de casal, a tera-
pia de família e diferentes tipos de terapias coletivas e todas elas tomavam o
social como elemento determinante sobre o processo da terapia. Também
nesse período surgiram os primeiros trabalhos de cunho assistencial como os
Alcoólicos Anônimos (Room & Greenfield, 1993), que funcionavam como
cooperativas sem fins lucrativos e eram acessíveis ao público em geral.
Como mostrado, não apenas o compromisso social não pode ser
compreendido como essência da psicologia científica, como não é possível
afirmar que os psicoterapeutas sejam pessoas sem qualquer compromisso
social. Ambas estas suposições são a base das críticas feitas pelos psicólogos
sociais aos clínicos da psicologia. Contudo, diante desta afirmação permane-
ce um fato: se os psicólogos clínicos possuem um compromisso com o social,
porque as psicoterapias continuam inacessíveis aos mais pobres?
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 113
O MODELO CLÍNICO INDIVIDUAL E OS SISTEMAS PÚBLICOS
DE SAÚDE
A essência da crítica direcionada aos psicoterapeutas relaciona teo-
ricamente a clínica individual à propriedade privada. Desta relação surge a
culpa do psicoterapeuta por privatizar um determinado conhecimento em
favor do próprio enriquecimento, sendo esta convicção a responsável pela
falta de acesso da população mais carente aos serviços psicoterápicos. Con-
tudo, embora a limitação do acesso à psicoterapia seja um fato, ela não se
deu apenas em razão do alto custo destes tratamentos, pois os sistemas pú-
blicos de saúde ofertam serviços muito mais caros, como cirurgias cardíacas
e os tratamentos para o câncer. Culpar uns poucos terapeutas e o alto preço
de suas consultas pela não popularização das psicoterapias pelo mundo
significa ignorar o caminho da psicoterapia como uma profissão moderna. A
condição liberal não é o ideal de uma profissão, mas a sua origem, o que não
diferencia a psicoterapia das demais profissões.
Em um país pobre uma profissão não se torna acessível pela iniciati-
va dos profissionais, mas porque, ao reconhecer sua importância, o Estado
assume a responsabilidade por prover estes serviços à população em geral.
Caminho comum fazem todos os tipos de profissionais liberais. Uma das mu-
danças mais significativas na saúde pública brasileira nos últimos anos, advin-
da da criação do SUS, foi o assalariamento dos médicos brasileiros. Nos anos
80, mais de 70% dos médicos trabalhavam como profissionais liberais. Atual-
mente, em alguns Estados, cerca de 90% dos médicos são assalariados. Isso
significa que na medida em que o Estado percebe a importância de prover à
população os serviços médicos, ele assume a função de popularizá-los, mesmo
que ainda o faça de modo insuficiente como no Brasil. Nos EUA, como não
existe um sistema público de saúde, os serviços médicos não são acessíveis à
população em geral. Não se trata de discutir a importância da medicina ou da
psicologia, mas as suas relações com o Estado.
Mas é preciso ressaltar que esta colocação não pode ser generaliza-
da, pois a relação entre ao campo público e o privado, o jogo de forças entre
estes dois sistemas, varia enormemente entre diferentes países. O que revela
um fato curioso. Nos EUA, onde não existe um compromisso do governo em
oferecer gratuitamente serviços de saúde à população, houve uma grande
popularização das psicoterapias, devido exatamente à influência do governo.
Já no Brasil, onde há este compromisso, esse investimento nunca ocorreu e a
psicoterapia, assim como a psicologia clínica, sempre se mantiveram à mar-
gem do sistema público de saúde. Em 2009, dos 49.066 estabelecimentos
públicos cadastrados pelo IBGE, apenas 4.405 ofereciam serviços de psico-
logia, ou seja, menos de 10% do total (IBGE, 2010).
Marcelo M. Nicaretta114
Paga caro quem pode pagar a quem merece, pois a responsabilida-
de de distribuir gratuitamente serviços de saúde é do Estado. Fora deste
contexto, o valor de uma consulta no mercado privado, seja de um massa-
gistaou de um cardiologista, é definido pela qualidade do profissional e não
pela sua ética. É o mercado que sustenta o preço de uma consulta e não a
ideologia do profissional. Quanto melhores os resultados mais cara tende a
ser a consulta, pois os serviços de saúde no mercado privado nada mais são
do que mercadorias. Chama-se isso de lei de mercado. Neste sentido, culpar
o valor da consulta pela falta de acesso aos serviços psicoterápicos é uma
falácia. O profissional liberal não é um privilegiado, ao contrário, ele é uma
espécie de escravo moderno, totalmente excluído das garantias que são co-
muns aos demais cidadãos tais como 13º salário, férias remuneradas e sem
sindicato para lhe defender. O psicoterapeuta é um subprofissional que cul-
pam por ser egoísta simplesmente por que ele não dá aos necessitados a úni-
ca coisa que possui para vender. Essa afirmação toma o lugar de outro ques-
tionamento. Porque certos modelos de saúde universais, tais como o brasilei-
ro, não oferecem ao seu público, em larga escala, a psicoterapia como um
tratamento para as massas? Onde se vê o modelo liberal do psicoterapeuta
dever-se-ia enxergar a omissão histórica dos governos e dos próprios repre-
sentantes da psicologia para com a compreensão e uso da psicologia clínica
para fins sociais. E este potencial é gigantesco.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No dia 01 de outubro de 1949, depois de uma longa guerra civil,
Mao Tsé-Tung proclamou a república popular da China. Assumia o poder na
China um governo preocupado com o social. Em 1960, em O Diário do
Povo, Mao declarou que ser um dócil instrumento do partido constituía uma
nobre qualidade, própria do proletariado (Blunden, 2008). Esta afirmação,
típica do maoísmo, uma doutrina que se estabeleceu na China a partir de
1945, como essência do regime popular, tinha como pressuposto radical a
primazia do social sobre o individual. De tal maneira que a única instituição
social mantida na China maoísta foi a família nuclear (Blunden, 2008); todas
as demais instituições foram banidas, o que inclui toda a cultura chinesa
milenar. Tudo destruído em nome do bem comum.
Pode haver compromisso social maior do que ajudar aqueles que
sofrem? Há um compromisso social maior do que a dedicação de uma vida à
vida de outrem? Quem atribui à psicoterapia um caráter burguês faz isso
porque não a reconhece como um campo de trabalho, e, em segundo lugar,
porque desconhece sua natureza clínica. A ética da psicoterapia não está na
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 115
sua aplicação política, mas na sua capacidade de cumprir a promessa de ali-
viar o sofrimento humano. Essa é a responsabilidade principal do terapeuta.
Por tudo isso, o que mais importa é que diante da crítica ao elitis-
mo dos psicoterapeutas, a discussão sobre as razões da psicoterapia não ter
se tornado um tratamento popular pelo mundo foram negligenciadas, preju-
dicando a organização e amadurecimento da psicologia como um campo
profissional. Um fato óbvio que demonstra a importância desta ponderação
são os distintos cenários encontrados nos diferentes países, no que se refere
ao modelo de saúde adotado.
Nos EUA, a situação dos psicólogos clínicos é semelhante à dos
médicos, ambos sejam acessíveis apenas àqueles que pagam o seguro saúde.
A população, em geral, não tem acesso a nenhum tipo de assistência pública.
O que não significa que certos terapeutas no mercado privado, assim como
certos tratamentos ou medicamentos, não sejam caros e restritos apenas a
quem pode pagar. Trata-se de uma condição de mercado.
No Brasil, o modelo adotado só reconheceu a importância da psi-
cologia e da sua clínica em áreas muito específicas, como a saúde mental e a
dependência química, e mesmo assim de uma maneira incipiente. Mas há
outras razões para que o Estado brasileiro tenha permanecido distante dos
psicólogos clínicos. A principal delas foi o modo como o campo da psicolo-
gia clínica se estruturou neste país, sem uma regulação clara e sem um do-
mínio justificado por parte dos psicólogos como ocorreu nos EUA. Os psi-
cólogos não se preocuparam em profissionalizar a psicoterapia como uma
atividade da psicologia, de tal modo que na legislação vigente atualmente no
Brasil os médicos ainda são os responsáveis legais pelo controle “das casas
de psicoterapias”. Esta lei, o Decreto 20.931/32, promulgada em 1932, des-
creve o campo das psicoterapias tal como ele se encontrava constituído nos
EUA naquele período. Do mesmo modo, o cenário encontrado na lei que
regulamentou a psicologia no Brasil, em 1962, também não faz qualquer
referencia à natureza clínica da psicologia. No seu art. 13 a lei afirma que a
atividade do psicólogo é definida como o uso de métodos e técnicas psicoló-
gicas para: diagnóstico psicológico; orientação e seleção profissional; ori-
entação psicopedagógica; e solução de problemas de ajustamento (Lei
4.119). Em nenhum momento utiliza-se os termos psicoterapia, clínica ou
psicopatologia como referência para o trabalho do psicólogo. Desta feita, na
lei que criou o campo da saúde brasileiro a psicoterapia permaneceu como
parte do campo controlado pelos médicos, tal como ela se apresentava ainda
nos anos 30, antes da Segunda Grande Guerra. Quando a lei do psicólogo foi
definida no Brasil ela já estava ultrapassada, indicando uma psicologia que,
embora estivesse em conformidade com a Lei de 1932, já não representava o
campo da psicologia tal com ele se organizou posteriormente.
Marcelo M. Nicaretta116
Com isto, embora a psicologia tenha sido reconhecida em lei, seu
campo clínico permaneceu ignorado e sem definição, pois ao invés de redigi-
rem perícias e pareceres tal como lhes garantia a nova lei, eles necessitavam
redigir atestados e relatórios, que eram recusados pelos órgãos do governo e
pelos próprios hospitais públicos que não os reconheciam como verdadeiros
clínicos. Por isso, a função social da psicoterapia foi muito prejudicada, sendo
o psicólogo clínico mantido sob a tutela do médico, sem uma identidade clara,
sem uma função necessária, quase visto como um profissional supérfluo.
Dado o fato de que depois da Segunda Grande Guerra os psicólogos
assumiram o controle das psicoterapias, com a não popularização da psicologia
clínica, as psicoterapias também não se popularizaram. A principal consequência
deste fato foi a formação de um campo frágil que não foi capaz de resolver pro-
blemas fundamentais como a ignorância da população quanto ao valor dos trata-
mentos mentais e principalmente quanto ao lugar do psicólogo nesta função. No
Brasil, se perpetuou a antiga confusão sobre quem é o psicoterapeuta e o que ele
faz, e isso não apenas entre os leigos. Essa confusão demonstra a dificuldade dos
psicólogos brasileiros de se apoderarem do seu próprio campo de trabalho. Em-
bora eles sejam os únicos a receberem formação profissional durante a graduação
para atuar como psicoterapeutas, eles aceitam a ideia da psicoterapia como uma
atividade compartilhada, confundindo interprofissionalismo com multidisciplina-
ridade. Os médicos exercem a psicoterapia porque lhes é de direito fazer qualquer
coisa no campo da saúde, mas não por terem uma formação, seja na graduação
ou mesmo na residência em psiquiatria, que os qualifiquem para atuarem como
psicoterapeutas. Há uma grande confusão neste sentido, como se o atendimento
clínico, para o qual o médico é treinado para realizar, fosse equivalente ao aten-
dimento psicoterápico, cuja natureza é essencialmente psicológica e incipiente na
formação do médico. Um profissional médico é tão preparado para conduzir uma
psicoterapia quanto um nutricionista ou um enfermeiro, mas apenas ele pode
compartilhar com o psicólogo o direito de exercer a psicoterapia. O que falta para
a psicologia clínica brasileira não é maior compromisso social, mas consciência
de que por trás do psicoterapeuta, o que existe é o psicólogo. Este é o ponto de
união entre os clínicosda psicologia em países como EUA e Inglaterra. No Bra-
sil, os psicólogos clínicos são apenas psicoterapeutas, psicanalistas, gestaltistas
etc. e não conservam relações de estima com a psicologia.
A crítica ideológica à psicologia, e, especialmente à sua vertente clíni-
ca, não parece justa. Ao que tudo indica não há um modelo único que explique o
modo como a psicologia se disseminou e que defina uma razão comum para a
sua não popularização em boa parte do mundo. Contudo, indicar elementos da
cultura capitalista tais como o individualismo e o preço da consulta como possí-
veis razões para este fato, no que tange à pesquisa apresentada, merece ser des-
cartado. Os cenários encontrados são muito complexos e envolvem não apenas
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 117
uma estrutura ideológica, mas situações históricas específicas. Deste modo, a
crítica social feita pelos próprios psicólogos, parece ter procurado na estrutura da
psicologia as razões para a organização de um campo maior, ligado a outras
disciplinas como a medicina e a farmacologia, o que certamente não é adequado.
Por esta razão, essa crítica não auxiliou na compreensão da psicologia clínica e,
por conseguinte, na sua difusão pelo mundo, ao contrário, acabou servindo
como uma barreira ao seu desenvolvimento. O que se produziu com isso foi
desinformação, e quem perdeu com isso foi à própria sociedade.
REFERÊNCIAS
Allport, G. W. (1930). The Neurotic Personality and Traits of Self-Expression. Journal of
Social Psychology, 1(4), 524-527.
Anderson, V. V. (1923). The State Program for Mental Hygiene. Journal of Social Forces,
1(2), 92-100.
Baker, E. F. (1964). The Use of Lysergic Acid Diethylamide (Lsd) in Psychotherapy. Cana-
dian Medical Association Journal, 91(23), 1.200-1.202
Bechterew, W. V. (1906). What is Hypnosis? Abnormal Psychology, 1(1), 18-25.
Bingham, W. V. D. (1910). The Use of Experiment in Teaching Educational Psychology.
Journal of Educational Psychology, 1(5), 287-292.
Blunden, C. E. E. M. (2008). China Ontem e Hoje. Barcelona: Folio.
Bock, A. M. B. (2003). Psicologia e sua ideologia: 40 anos de compromissos com as elites. In
A. M. B. Bock (Org.). Psicologia e o compromisso social. São Paulo: Cortez.
Boring, E. G. (1950). A History of Experimental Psychology. New Jersey: Prentice-Hall.
Branson, E.C. (1923). Social Occasions and Contacts in a Rural County. The Journal of Soci-
al Forces, 1(2), 162-163.
Buss, P. M. & Carvalho, A. I. (2009). Desenvolvimento da promoção de Saúde no Brasil nos
últimos 20 anos (1988-2008). Ciência & Saúde Coletiva, 14(6), 2.305-2.316.
Coimbra, C. (1995). Guardiães da Ordem. Rio de Janeiro: Oficina do Autor.
Dadoun, R. (1991). Cem Flores para Wilhelm Reich. São Paulo: Moraes.
Davidson, G. C. (1976). Homossexuality: The Ethical Challenge. Journal of Consulting and
Clinical Psychology, 44(2), 157-162.
Ellis, A. (1956). The effectiveness of psychotherapy with individuals who have severe homo-
sexual problems. Journal of Consulting Psychology, 20(3), 191-195.
Fisher, I. (1923). Multiplying Dollars for Negro Education. The Journal of Social Forces,
1(2), 149-153.
Fernberger, S. (1917). Vocational Psychology. Journal of Applied Psychology,1(1), 89-90.
Fernberger, S. (1932). The American Psychological Association a Historical Summary, 1892-
1930. Psychological Bulletin, 29(1), 1-89.
Ferreira Neto, J. L. (2010). Uma genealogia da formação do psicólogo brasileiro. Memoran-
dum, 18, 130-142.
Fish, E. H. (1917). Human Engineering. Journal of Applied Psychology, 1(2), 161-170.
Folks, H. (1922). The National Conference for 1923. The Journal of Social Forces, 1(1), 32-33.
Marcelo M. Nicaretta118
Furukawa, T. (1930). A Study of Temperament and Blood-Groups. Journal of Social
Psychology, 1(4), 494-509.
Garrison, C. G. (1917). The Psychology of a Prodigious Child. Journal of Applied Psycholo-
gy, 1(2), 101-110.
Garth, T. R. (1933). The Intelligence and Achievement of Mixed-Blood Indians. Journal of
Social Psychology, 4(1), 134-137.
Goodwin, C. J. (2005). História da Psicologia Moderna. São Paulo: Cultrix.
Graham, J. L. (1930). A quantitative Comparison of Certain mental Traits of Negro and White
College Students. Journal of Social Psychology, 1(2), 267-285.
H., F. E. (1917). Human Engineering. Journal of Applied Psychology, 1(2), 161-174.
Hall, G. S. (1917). Practical relations between psychology and the war. Journal of Applied
Psychology, 1(1), 9-16.
Harvey, O. L. (1932). The Scientific Study of Human Sexual Behavior. Journal of Social
Psychology, 3(2), 161-188.
Haynes, S. N. (1970). Learning Theory and the Treatment of Homossexuality. Psychothera-
py: Theory, Research and Practice, 7(2), 91-94.
Hunter, W. S. (1946). Psychology in the War. American Psychologist, 1(11), 479-492.
IBGE (2010). Estatísticas da Saúde. Assistência Médico-Sanitária. Rio de Janeiro: Ministério
da Saúde.
Janet, P. (1906). On the Pathogenesis of Some Impulsions. Abnormal Psychology, 1(1): 1-17.
Jones, E. (1910). Psycho-analysis and Education. Journal of Educational Psychology, 1(9),
497-520.
Kirkpatrick, E. A. (1910). The Point of View of Genetic Psychology. Journal of Educational
Psychology, 1(2), 76-82.
Martin, J. (1917). Mental Hygiene and the Importance of investigating it. Journal of Applied
Psychology, 1(1), 67-70.
May, M. A. (1932). Problems of Measuring Character and Personality. Journal of Social
Psychology, 3(2), 131-145.
Miller, M. P.; Bradley, J. B. & Gross, R. S. (1968). Review of Homossexuality Research
(1960-1966) and some Implications for Treatment. Psychotherapy: Theory, Research and
Practice, 5(1), 1-6.
Morton, P. (1906). The Psychology of sudden Religious Conversion. Abnormal Psychology,
1(1), 42-54.
Mowrer, E. R. (1924). The Variance Between Legal and Natural Causes for Divorce. The
Journal of Social Forces, 2(3), 388-392.
Murray, J. J. (1924). Religion as a Social Force. The Journal of Social Forces, 2(3), 400-403.
Nascimento Sobrinho, C. L.; Nascimento, M. A. & Carvalho, F. M. (2005). Transformações
no trabalho médico. Revista Brasileira de Educação Médica, 29(2), 129-135.
Nicaretta, M. M. (2004). O uso da expressão efetividade das psicoterapias e a construção do
mercado dos tratamentos psicoterápicos. Mestrado em Psicologia Clínica. Brasília: Universi-
dade de Brasília.
Nicaretta, M. M. (2010). A emergência da nova psicoterapia na era de ouro estadunidense:
Uma história inspirada nas arqueologias de Michel Foucault. Psicologia Clínica. Brasília:
Universidade de Brasília. Doutorado: 371.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 119
Nicaretta, M. M. (2010). A formação da identidade do psicólogo clínico estadunidense e suas
repercussões para a psicologia no Brasil. Boletim da Academia Paulista de Psicologia,
30(78), 450-461.
Nicks, T. L. (1985). Inequities in the Delivery and Financing of Mental Health Services for Ethnic
Minority Americans. Psychotheraphy: Theory, Research and Practice, 22(2s), 469-476.
Patto, M. H. S. (2003). O que a história pode dizer sobre a profissão do psicólogo: a relação
entre Psicologia-Educação. In A. M. B. Bock (Org.). Psicologia e o Compromisso Social. São
Paulo: Cortez.
Pepitone, A. (1981). Lessons From the History of Social Psychology. American Psychologist,
36(9), 972-985.
Pickren, W. E. & Schneider, S. F. (2005). Psychology and the National Institute of Mental
Health: A historical analysis of science, practice and policy. Washington: American Psycho-
logical Association.
Putnam, J. J. (1906). Recent Experiences in the Study and treatment of Hysteria at the Massa-
chusetts General Hospital; With Remarks on Freud's Method of treatment by “Psycho-
Analysis”. Abnormal Psychology, 1(1), 26-41.
Reich, W. (1932). O Combate Sexual da Juventude. Lisboa: Delfos.
Robinson, P. A. (1969). A Esquerda Freudiana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Room, R. & Greenfield, T. (1993). Alcoholics anonymous, other 12-stepmovements and
psychotherapy in the US population, 1990. Addiction, 88(4), 555-62.
Sarason, S. B. (1981). An asocial Psychology and a Misdirected Clinical Psychology. Ameri-
can Psychologist, 36(8), 827-836.
Simpson, B. R. (1910). Methods of Teaching. Journal of Educational Psychology, 1(4), 235-238.
Sue, S. (1988). Psychotherapeutic Services for Ethnic Minorities. American Psychologist,
43(4), 301-308.
Thorndike, E. (1910). The Contribution of Psychology to Education. Journal of Educational
Psychology, 1(1), 5-12.
Thouless, R. H. (1933). A racial Difference in Perception. Journal of Social Psychology, 4(3),
330-339.
Vidal, G. (2001). A Era Dourada. Rio de Janeiro: Rocco.
Weil, G. (1922). The Social program of the National League of Women Voters. Journal of
Social Forces, 1(1), 55.
Wile, I. S. & Noetzel, E. (1931). A study of birth order and behavior. Journal of Social
Psychology, 2(1), 52-71.
Williams, R. L. (2008). A 40 – Year History of the Association of Black Psychologists
(ABPsi). Journal of Black Psychology, 34(3), 249-260.
Zurba, M. C. (2011). A história do ingresso das práticas psicológicas na saúde pública brasi-
leira e algumas consequências epistemológicas. Memorandum, 20, 105-122.
Marcelo M. Nicaretta120
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 121
PSICOTERAPIA E PESQUISA: DESAFIOS
PARA OS PRÓXIMOS 10 ANOS NO BRASIL
Maria Adélia Minghelli Pieta
Thiago Gomes de Castro
William Barbosa Gomes
Sumário: Modelos de Eficácia e Efetividade na Pesquisa em Psicoterapia.
Metanálises e pesquisa em psicoterapia. Convergências entre as
psicoterapias. Psicoterapia e pesquisa: revisando os periódicos
nacionais. Considerações finais. Referências.
A literatura científica sobre psicoterapia e pesquisa data da primei-
ra metade do século XX e através dos tempos indicou diversas ramificações
sobre as prioridades investigativas para a compreensão da prática. Recente-
mente a discussão tem se encaminhado para a clarificação dos qualificantes
gerais que definem o impacto de práticas em resultados esperados (Peuker,
Habigzang, Koller & Araújo, 2009). A investigação ainda ganha contornos
complexos quando situada na disputa sobre o seu território entre disciplinas
distintas ou sobre os acréscimos que uma disciplina pode oferecer à outra.
No Brasil, enquanto os órgãos profissionais buscam a melhor solução sobre
a regulamentação da psicoterapia, carecem as pesquisas, em contextos deli-
mitados, sobre os reais benefícios gerados pelos tratamentos.
Tendo em vista esse panorama, o presente capítulo busca elucidar a
relação entre psicoterapia e pesquisa através de uma revisão de estudos, nacio-
nais e internacionais, sobre resultados dos tratamentos. Para isso discorrerá
brevemente sobre: 1) as diferenças entre pesquisas orientadas à eficácia e à
efetividade terapêutica; 2) metanálise e pesquisa em psicoterapia; 3) conver-
gências das diferentes abordagens terapêuticas; e 4) análise de publicações
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes122
brasileiras sobre o tema. Ao final, o argumento se encaminhará para os desafios
impostos à pesquisa e a importância da definição de metas concretas para
impulsionar a qualidade das reflexões na direção da regulamentação da prática.
A psicoterapia é uma prática que tem se mostrado benéfica. Em
uma pesquisa recente sobre o feedback de pacientes quanto aos benefícios
gerados pela psicoterapia, evidenciou-se que cerca de 75% dos respondentes
percebem mudanças significativas em suas vidas decorrentes do processo
(Lambert & Shimokawa, 2011). As pesquisas têm ainda demonstrado que os
efeitos são duradouros, conforme registros de follow-up de até cinco anos
após o tratamento (Lambert & Archer, 2006). Devido a seus efeitos compro-
vadamente positivos, a psicoterapia, antes restrita a alguns setores da socie-
dade, tem sido ampliada para diversos setores da população. A crescente
demanda tem suscitado discussões, na última década, na direção de sua re-
gulamentação no Brasil.
Nos Estados Unidos, na Alemanha e na França, por exemplo, a re-
gulamentação da prática já vem ocorrendo, estabelecendo exigências que a
psicoterapia deve cumprir para ser incluída nas universidades, nos sistemas
previdenciários e seguro saúde (Müller, 2011; Reed & Eisman, 2006; Roudi-
nesco, 2005). No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) vem se pro-
nunciando enfaticamente acerca da regulamentação da prática desde 2000,
tendo proclamado em 2009 o “Ano da Psicoterapia”. No país, procuram-se
estabelecer parâmetros para que a prática realizada por psicólogos se torne
acessível e abrangente (Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, 2008).
Para que o projeto de regulamentação se torne realidade no Brasil o
eixo das pesquisas científicas deve exercer papel central na orientação das
discussões, assim como ocorreu em outros países. A seguir, vejamos como a
literatura internacional vem se orientando na sistematização dos conheci-
mentos sobre psicoterapia.
MODELOS DE EFICÁCIA E EFETIVIDADE NA PESQUISA EM
PSICOTERAPIA
Segundo Aveline, Strauss e Stiles (2007), a pesquisa em psicotera-
pia divide-se historicamente em quatro fases. A primeira fase (1927-1954)
caracteriza-se pelo início da pesquisa científica sistematizada, definida por
estudos baseados em registros de sessões. Na segunda fase (1955-1969) o
interesse voltou-se à obtenção de rigor científico, através do desenvolvi-
mento de métodos de mensuração em sessões de terapia e de estudos de efi-
cácia em intervenções controladas. Na terceira fase (1970-1983), com o
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 123
aumento exponencial da pesquisa no campo, buscou-se a diferenciação e
caracterização dos diferentes tipos de pesquisa, sendo criadas organizações
científicas dedicadas ao tema. Tais organizações buscavam o aprimoramento
conceitual e metodológico através do estudo comparativo de resultados, de
análise de tarefas no processo psicoterápico, e de compilação de resultados
de pesquisa através de metanálises. Na última fase (1984) o foco tem sido a
reavaliação dos sofisticados métodos até aqui desenvolvidos quanto à sua
real adequação avaliativa da atividade psicoterapêutica.
Tradicionalmente as pesquisas se estabelecem em literaturas concor-
rentes entre exames de eficácia e efetividade psicoterapêutica (Howard, Moras,
Brill, Martinovich & Lutz, 1996). Estudos de eficácia consistem em ensaios
clínicos randomizados, nos quais se dividem amostras clínicas em grupos expe-
rimentais e controle. A hipótese desses estudos é a testagem da relação direta
entre técnicas de tratamento e resultado esperado conforme determinada abor-
dagem clínica. Tais pesquisas se definem pelo alto grau de controle das variá-
veis operacionalizadas. Em geral, testa-se a intervenção em um grupo e oferece-
se tratamento convencional ou placebo em outro. Via de regra, os tratamentos
para o grupo experimental seguem protocolos ministrados por terapeutas treina-
dos em técnicas específicas. Os estudos de efetividade, por sua vez, se utilizam
de delineamentos quase experimentais para investigar o impacto do processo
terapêutico na percepção dos resultados e mudanças do terapeuta e paciente. As
pesquisas de efetividade psicoterápica são também chamadas de estudos natura-
lísticos, uma vez que buscam investigar o mais próximo possível o que acontece
nos consultórios (Ceitlin, Manfro, Jung & Cordioli, 2008). Enfatizam as variá-
veis latentes do processo, em especial a percepção da aliança terapêutica e dos
eventos considerados marcantes na psicoterapia.
Ao longo das décadas passadas, as investigações de resultados fo-
ram ampliadas de estudos de eficácia para estudos de efetividade, devido à
limitação dos estudos de eficácia quanto à sua real representatividade do
processo terapêutico (Jardim, 2008). As investigações de resultados passa-
ram a avaliar também oprocesso de terapia, com o intuito de compreender
amplamente por que as mudanças ocorriam em terapia e como isso acontecia
ao longo do processo (Ceitlin et al., 2008). A ideia é que não basta saber se
um tratamento é eficaz, mas entender o que faz com que um tratamento pro-
duza mudanças. Em síntese, tem-se dois tipos de estudos – de resultados e de
processos – que se superpõem em alguma medida, por estarem interligados.
A pesquisa de processos é um complemento necessário para os ensaios clíni-
cos randomizados e pesquisas de eficácia (Elliot, 2010).
Conforme Jardim & Gomes (2009) há ainda uma terceira via para-
lela de estudos, chamada de psicoterapia eclética e que busca combinar as
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes124
metodologias de eficácia e efetividade para o estudo pragmático dos resulta-
dos de psicoterapia. A principal ênfase nessa literatura é a verificação empí-
rica de resultados não circunscritos a teorias psicológicas concorrentes
(Beutler, 1983). Nesse sentido, estima-se o levantamento de técnicas que
sejam eficazes conforme as características do setting e independentes da
abordagem teórica do terapeuta. As características do setting incluiriam, por
exemplo, grau de comunicabilidade do paciente, tipo de diagnóstico (se hou-
ver um), e recursos contextuais envolvidos na situação do paciente.
Na investigação consolidada de resultados em terapia, Lambert &
Archer (2006) afirmam que o relato dos pacientes ainda é uma das melhores
formas de se avaliar os resultados do processo. Medidas providas pelos pró-
prios pacientes, através de instrumentos de avaliação autoadministrados
(self-report), permitem investigar diversos elementos do processo psicoterá-
pico (Peuker et al., 2009). Goodheart (2006) considerou os pacientes uma
fonte primária de informação sobre a terapia, recomendando especial aten-
ção ao feedback destes quanto à atuação do terapeuta. De modo semelhante,
em pesquisa brasileira, Gomes, Reck & Ganzo (1988) indicaram que os
pacientes são importante fonte de informação sobre os efeitos das psicotera-
pias. Os pesquisadores entrevistaram pacientes acerca da experiência de
estar em psicoterapia, e evidenciaram que os fatores positivos percebidos
foram: a) melhora nas relações sociais; b) maior estabilidade emocional; c)
maior aceitação de si; e d) mudanças comportamentais percebidas por fami-
liares, amigos e colegas de trabalho.
Binder, Holgersen & Nielsen (2010) investigaram, através do método
fenomenológico, como os pacientes caracterizavam os bons resultados obtidos
em tratamento e obtiveram quatro temáticas essenciais: 1) estabelecer novas
formas de se relacionar com os outros; 2) menos estresse sintomático/mudança
nos padrões comportamentais que contribuíam para o sofrimento; 3) melhor
autocompreensão e insight; e 4) autoaceitação e autovalorização. Esse estudo
segue a linha de investigação do mais famoso estudo de efetividade acerca da
percepção dos pacientes sobre a psicoterapia, que é o Survey Consumer Reports
de Seligman (1995), no qual um grande número de indivíduos proveu autorre-
lato (self-report) de satisfação com o tratamento.
Outro modelo já clássico de investigação da psicoterapia são os
estudos de caso, que se caracterizam por um acompanhamento sistemático
em profundidade do paciente, e que possibilitam avaliar detalhadamente as
mudanças e os efeitos de um tratamento. Ora definido como um sistema de
investigação para a construção de teorias ou definição de conceitos, como
por exemplo, na psicanálise, hoje se orienta por metodologia inferencial
rigorosa e refinada junto ao relato das sessões (Ceitlin et al., 2008). A utili-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 125
zação de métodos quantitativos e qualitativos combinados tem determinado a
direção dessas investigações.
Na trajetória das investigações empíricas a utilização de instru-
mentos padronizados vem contribuindo de forma ampla para a compreensão
de que variáveis podem estar associadas ao sucesso de um tratamento
(Peuker et al., 2009). O uso de instrumentos pode avaliar, por exemplo, a
interação de variáveis associadas aos pacientes (tipo de transtorno, história
de vida, rede de apoio, motivação, etc.), e sua relação com a competência,
técnica, experiência clínica e estilo pessoal do terapeuta. Nesse caso, a rela-
ção entre características da relação e os resultados do processo são a pauta
para a pesquisa de covariância entre variáveis clínicas.
Segundo Goodheart (2006), a forma mais simples de se investigar
a efetividade de um tratamento é medir resultados. O terapeuta pode utilizar
diferentes intervenções e combinações, de acordo com as necessidades do
paciente, e saber se o processo está sendo efetivo se tiver uma boa forma de
avaliá-lo. Medidas repetidas ao longo do tratamento permitem compreender
melhor se as mudanças estão ocorrendo (Kazdin, 2006). O Outcome Ques-
tionnaire (OQ-45) (Lambert et al., 1996) é um exemplo de instrumento cria-
do para avaliar os resultados da psicoterapia na percepção do cliente.
Conforme Carvalho & Rocha (2009), este é um dos instrumentos
de autorrelato mais utilizados em pesquisa internacional para verificar mu-
danças em terapia. O instrumento é de rápido preenchimento e cobre quatro
domínios de funcionamento psíquico: a) sintomas psicológicos (e.g. depres-
são e ansiedade); b) problemas interpessoais; c) funcionamento social (e.g.
problemas no trabalho); e d) qualidade de vida (e.g. facetas de satisfação de
vida). O OQ-45 tem sido muito utilizado em um campo relativamente novo
de estudos, o da pesquisa orientada para o paciente (patient-oriented rese-
arch), que consiste em uma contínua avaliação e monitoramento do início ao
fim do tratamento e utilização dessa informação para mapear o progresso e
tomar decisões (Kazdin, 2006). Em vez de medidas pré e pós-teste, nesta
nova orientação, o terapeuta avalia o paciente a cada sessão, com um instru-
mento breve, que mede o funcionamento em diversos domínios. Para Kazdin
(2006), esta novidade reduz o hiato entre pesquisa e prática e pode auxiliar
os terapeutas a se interessarem em uma avaliação sistemática do tratamento.
METANÁLISES E PESQUISA EM PSICOTERAPIA
Uma técnica bastante utilizada que permite a compreensão do re-
sultado geral de estudos de psicoterapia é a metanálise. Na técnica sumari-
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes126
zam-se estudos individuais de eficácia e efetividade, através da aplicação de
métodos e princípios da pesquisa empírica ao procedimento de revisão
bibliográfica (Aveline et al., 2007). Este processo resulta em uma estatística
que quantifica os efeitos cumulativos apresentados nos estudos revisados.
No caso dos estudos de psicoterapia tal ferramenta mostra-se fundamental,
uma vez que a quantidade de estudos na área é elevada, sendo importante
entender as convergências e divergências dos múltiplos achados.
Um exemplo de metanálise é o estudo sobre pesquisas em psicote-
rapia na Alemanha, realizado por Petermann & Schüssler (2010). Os autores
demonstraram uma distribuição simétrica entre a produção de pesquisas com
ênfase no processo e pesquisas com ênfase nos resultados terapêuticos nos
anos de 2008 e 2009. Pesquisas de processo frequentemente focam as variá-
veis do paciente como preditoras de resultados, enquanto as pesquisas de
resultado amparam seus achados de eficácia em pequenas amostras experi-
mentais. Os autores do estudo concluem que os dois tipos de delineamento
são ainda conduzidos separadamente naquele país, o que está contribuindo
para um atraso do desenvolvimento da área, já que se entende que os tipos de
investigação são complementares.
O material documentado na literatura sobre a avaliação de terapia
vem apontando para diferenças na percepção de terapeutas e pacientes sobre
o processo psicoterápico. Cuijpers, Li, Hofmann& Andersson (2010) reali-
zaram uma metanálise de 48 estudos com 2.462 pacientes com depressão e
observaram uma discrepância entre a pontuação destes e dos terapeutas nos
indicadores de melhora no tratamento. Os autores evidenciaram que instru-
mentos de autorrelato dos pacientes sobre o impacto do tratamento na de-
pressão resultam em tamanhos de efeito mais baixos quando comparados a
medidas clínicas de sintomas aplicadas pelos terapeutas (por exemplo, o
BDI). A hipótese dos pesquisadores para os resultados é de que os autorre-
latos são mais conservadores na aferição de mudanças ou que as medidas
clínicas são mais sensíveis à mudança produzida pelos tratamentos. Outra
interpretação possível nesse caso seria a de que a experiência dos pacientes
não coincide com as variáveis operacionalizadas nas escalas utilizadas para
depressão. Mesmo assim, os autores sugerem a utilização dos dois tipos de
acesso como formas de avaliação complementares em pesquisa clínica.
O término unilateral e inesperado do tratamento por iniciativa dos
pacientes, de acordo com metanálise de Murdock, Edwards & Murdock
(2010), foi interpretado por terapeutas como associado a causas situacionais
ou a fatores do cliente, como problemas financeiros ou patologias específi-
cas, e não como falhas do tratamento. Lambert & Shimokawa (2011) afirma-
ram que os terapeutas, em geral, não percebem quando os pacientes pioram
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 127
em tratamento (de 5-14% dos pacientes conforme metanálises). Ao contrá-
rio, tendem sempre a superestimar os ganhos terapêuticos. Os pesquisadores
propuseram então um protocolo de coleta contínua de feedbacks dos pacien-
tes para avaliar se a ferramenta melhoraria a percepção preventiva dos psi-
coterapeutas em relação à piora dos pacientes. Com o uso da ferramenta,
observaram a redução pela metade do número de processos terapêuticos
fracassados, provavelmente pelo termômetro da qualidade dos atendimentos
criado pelos protocolos. A partir desses achados os pesquisadores recomen-
daram a utilização de métodos formais de coleta de feedback de pacientes
como parte da rotina diária de psicoterapeutas.
Apesar da vasta difusão da literatura internacional sobre pesquisa em
psicoterapia, como atestado por inúmeros periódicos dedicados exclusivamente
ao tema, tais estudos nem sempre foram bem aceitos no campo. Sobre tal as-
pecto Morrow-Bradley & Elliott (1986) já chamavam a atenção na década de 80
para as desconfianças de psicólogos quanto à pesquisa. Os autores evidenciaram
que 73% dos psicólogos norte-americanos, filiados à divisão de psicoterapia da
APA (APA 29), não utilizavam resultados de pesquisa para orientar sua prática.
Esses psicólogos argumentavam que o maior conhecimento que adquiriam para
balizar a condução dos tratamentos vinha da experiência com os pacientes. A
maioria dos psicólogos entrevistados na pesquisa eram críticos de estudos que
desconsideravam a complexidade da situação terapêutica, mas diziam-se abertos
a investigações que valorizassem a descrição cuidadosa do tratamento e associ-
assem os resultados com eventos significativos do processo.
As metanálises de pesquisas em psicoterapia ainda recebem muitas
críticas, como, por exemplo, no que se refere à generalização de achados e
os problemas de viés nos procedimentos de compilação de achados clínicos
(Lincoln, 2010). Além disso, são criticados os tipos de psicoterapia costu-
meiramente analisados. As terapias estudadas duram em média de 12 a 16
semanas, tendo ou não sido criadas para serem breves (Parry, Roth & Kerr,
2007). Um dos questionamentos nesse caso recai sobre a adequação de se
avaliar em curto prazo o impacto de terapias que foram concebidas para se-
rem mais longas. Ou mesmo generalizar achados de uma intervenção com
data de término estipulada desde seu início. Isso é especialmente delicado
quando se consideram achados que indicam que 50% dos pacientes sentem-
se melhor somente após 20 sessões e 75% após 50 atendimentos (Lambert &
Archer, 2006). Apesar das limitações, as metanálises continuam sendo
importantes em um campo com tamanha produção de pesquisas, desde que
se considerem os erros de generalização e critérios de análise imperfeitos
desenvolvidos. Para Witter (1999), pesquisas de compilação de resultados,
sendo a metanálise uma dessas variações, devem representar de 5 a 8% do
total de trabalhos em suas áreas de origem.
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes128
Para responder às críticas, os estudos de psicoterapia vêm amplian-
do seu escopo de investigações e diálogos nos últimos dez anos. Buboltz,
Deemer & Hoffman (2010) realizaram uma análise de conteúdo dos assuntos
publicados na revista Journal of Counseling Psychology de 1999 a 2009 e
encontraram que as áreas mais comuns de pesquisa foram multiculturalismo
e/ou diversidade, avaliação de testes e medidas, personalidade, resultados de
terapia e suporte interpessoal e/ou social. O editor da revista Psychotherapy
entre os anos de 2004 e 2010, por sua vez, identificou seis principais tendên-
cias na psicoterapia que emergiram continuamente durante seu encargo (Gel-
so, 2011): 1) integração de técnicas e relação terapêutica; 2) foco na integra-
ção teórica; 3) esforços de integração de pesquisa e prática; 4) revisões mais
específicas acerca da integração; 5) integração do conhecimento biológico e
das neurociências; e 6) integração da diversidade e considerações culturais
na psicoterapia.
CONVERGÊNCIAS ENTRE AS PSICOTERAPIAS
Argumenta-se frequentemente que as terapias cognitivo-compor-
tamentais, que tão bem se utilizam de estudos de eficácia, são mais eficazes
para tratar determinadas patologias – como a depressão, por exemplo – com-
paradas a outros modelos terapêuticos. Lynch, Laws & McKenna (2010)
questionaram esta crença, a partir de uma metanálise, na qual observaram
que a terapia cognitivo-comportamental não é mais efetiva em reduzir sin-
tomas de esquizofrenia e transtorno bipolar, quando comparada a outras
terapias, sendo apenas levemente superior no tratamento da depressão. Esses
achados convergem, em alguma medida, com as evidências documentadas
na literatura, desde o estudo de Rosenzweig, de 1936, que sugere que terapias
mais tradicionais são equivalentes em termos de eficácia (Dodo Effect).
Luborsky et al. (2002) encontraram resultados semelhantes sobre a
equidade de eficácia terapêutica transteórica, ao examinar 17 metanálises de
comparações de tratamentos uns com os outros, em contraste com as compa-
rações usuais de tratamentos com controles. Devido a essa suposta equiva-
lência entre as terapias, autores têm sugerido que os estudos se voltem, em
vez de para a efetividade de uma técnica específica, para os fatores comuns
das terapias, para conhecer melhor como estes operam (Wood & Joseph,
2010). De fato, existem fortes indícios da relação entre fatores comuns e
melhora, e de que estes são superiores a fatores específicos para explicar a
variação nos resultados dos tratamentos (Aveline et al., 2007). Alguns fato-
res comuns entre tratamentos elencados por Lambert & Ogles (2004) foram:
a) fatores de apoio como a catarse, a aliança terapêutica, o afeto, o respeito e
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 129
a empatia do terapeuta; b) fatores de aprendizagem como o insight, experi-
ências emocionais corretivas ou a assimilação de experiências problemáti-
cas; e c) fatores de ação como o domínio de si, o teste da realidade ou a re-
gulação comportamental. Para Arkowitz (1995), dentre esses fatores co-
muns, a relação terapêutica ocupa posição de destaque, o que foi corrobora-
do pelas metanálises de Horvath & Symonds (1991) e de Martin, Garske &
Davis (2000). Esses estudos mostraram que nas mais diversas terapias existe
uma associação entre relação terapêutica e resultados.
Uma forma de avaliar esse impacto, independenteda abordagem
terapêutica, é confiar a avaliação e o julgamento do processo ao paciente e
ao terapeuta. Um exemplo disso é o estudo em pequena escala de von Knor-
ring-Giorgi (1998). A pesquisadora investigou detalhadamente as caracterís-
ticas essenciais que compõem a experiência de clientes em momentos chave
da psicoterapia. Através de entrevistas fenomenológicas, constatou-se que
mesmo com a ampla variação de percepções sobre os eventos considerados
marcantes é possível se chegar a um denominador comum entre os pacientes.
Segundo von Knorring-Giorgi, a estrutura da experiência de um evento con-
siderado marcante entre pacientes pode ser assim caracterizada:
Um tipo de evento marcante em terapia acontece no contexto do processo
terapêutico e ocorre em uma situação em que o cliente irá finalmente
aceitar as emoções e percepções sobre si, assim como a dos outros e do
mundo circundante, com certa familiaridade, mas com certa desvantagem
à segurança do eu ao confrontá-lo de forma desafiadora. O evento mar-
cante acontece dentro de uma relação terapêutica sentida como segura e
de apoio e é uma consequência de um novo tipo de relação florescente
dentro da vida do cliente. Os constituintes contextuais concomitantes ao
longo de todo o processo terapêutico e necessários para os eventos mar-
cantes ocorrerem são: motivação para a mudança, abertura, confiança e
segurança, envolvimento emocional na situação. Os constituintes contex-
tuais proximais ou imediatos necessários para a ocorrência dos eventos
marcantes são: aumento de consciência, mudança de crenças, aumento da
tensão, e desafio a crenças antigas. (p. 44)
Em um contexto mais amplo, Cook, Biyanova, Elhai, Schnurr &
Coyne (2010) realizaram uma online survey com 2.200 terapeutas norte-
-americanos. Os resultados indicaram a psicoterapia individual como a mo-
dalidade preferencial de tratamento. Além disso, a pesquisa evidenciou que
há uma integração psicoterapêutica em andamento naquele país. Isto porque
as técnicas de tratamento mais utilizadas pelos terapeutas, ainda que de
abordagens teóricas distintas, referem-se à priorização do calor, aceitação,
compreensão e empatia na relação terapêutica. O que comprova que a prefe-
rência dos psicoterapeutas está em sintonia com as percepções dos clientes
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes130
sobre as características marcantes da relação necessárias à mudança. Em
contraste, as técnicas menos mencionadas nos relatos dos terapeutas foram
biofeedback, neurofeedback, terapias corporal e energética e hipnoterapia.
Powell, Hunter, Beasley & Vernberg (2010), através de uma análi-
se de prontuários de clientes e de dados de terapeutas acerca de sua forma-
ção, observaram: a) uma associação positiva entre o sucesso no tratamento
psicoterápico e o número de horas de contato direto com os pacientes; b) o
número de experiências práticas extra-acadêmicas do terapeuta; e c) o núme-
ro de dias de treinamento no programa de doutorado. Terapeutas com mais
treino e experiência assistiram a um maior número de mais aulas relevantes,
receberam maior número de supervisão de terapeutas experientes e utiliza-
ram mais procedimentos de avaliação e intervenção terapêutica em um nú-
mero mais diverso de clientes. Os autores informaram que estes profissionais
estão mais cientes das práticas baseadas em evidências, dos fatores comuns
às terapias e de temas éticos e multiculturais relevantes para o tratamento;
sugeriram que programas de treinamento enfatizem a importância dos fatores
comuns e da aliança terapêutica por estarem associados a resultados favorá-
veis. Os autores concluíram que com o tempo, os terapeutas aprendem mais
acerca de suas próprias forças e fraquezas e desenvolvem uma orientação
terapêutica moldada por seu entendimento do campo e por seu estilo inter-
pessoal.
Um movimento muito importante que norteia os estudos em psi-
coterapia atualmente é a prática baseada em evidências. Esta, segundo
Norcross, Beutler & Levant (2006) tem um longo passado, que coincide
com a história da clínica, mas só se tornou relevante na saúde mental da
década de 90, originalmente na Grã-Bretanha e depois se difundindo nos
EUA e outros países. Nessa época foi também criada pela American
Psychological Association (APA) a Society of Clinical Psychology’s (Division
12) Task Force, com esforços para identificar tratamentos apoiados empiri-
camente (Empirically Suported Treatments – ESTs) e tomá-los como base
para programas de treinamento. Desde 1993, um comitê que deu continuida-
de a essa divisão da APA construiu e elaborou uma lista de intervenções
apoiadas empiricamente, manualizadas, com base em estudos randomizados,
controlados e de rigor metodológico. Esta lista não tem caráter mandatório,
mas serve como orientação para os profissionais.
Para Norcross & Lambert (2006), apesar das muitas contribuições,
o movimento baseado em evidências pode ser enganoso por três razões: 1) as
declarações favoráveis a um tipo de tratamento, em detrimento de outros,
têm sido exageradas, sendo advogadas intervenções para transtornos especí-
ficos, sem se levar em conta a complexidade da psicoterapia, dos pacientes,
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 131
dos terapeutas e do lado humano da terapia; 2) negligencia a importância da
relação terapêutica e das qualidades interpessoais que contribuem subs-
tancialmente para os resultados terapêuticos; 3) ignora a complexidade do
paciente e suas circunstâncias individuais, tratando-se estes a partir exclusi-
vamente de seu diagnóstico. Fundamentados nestas colocações, os autores
sugerem que a relação terapêutica seja enfatizada na psicoterapia baseada em
evidências.
Outros temas importantes ainda despontam na literatura interna-
cional com grande destaque, como por exemplo, as contribuições diretas das
neurociências para a psicoterapia e os desafios e promessas da psicoterapia
pela internet. No entanto, a revisão se deterá por ora aos temas apresentados
para contrastar a literatura internacional com a publicação nacional em psi-
coterapia e pesquisa.
PSICOTERAPIA E PESQUISA: REVISANDO OS PERIÓDICOS
NACIONAIS
Para uma análise mais específica do desenvolvimento do eixo pes-
quisa-psicoterapia no Brasil realizou-se um levantamento junto a 31 periódi-
cos nacionais de psicologia. Os periódicos selecionados constavam nos es-
tratos A1/A2 e B1/B2, conforme classificação de periódicos (2008) do sis-
tema Qualis da Capes. Utilizando o descritor “psicoterapia” como critério
inicial de busca, chegou-se a 275 artigos, sem restrição para períodos especí-
ficos de publicação. O montante de 275 artigos é acrescido de mais 100 arti-
gos, quando considerados os periódicos Revista Brasileira de Psiquiatria,
Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul e o Jornal Brasileiro de Psi-
quiatria. Esses três periódicos foram adicionados às revistas de Psicologia
por publicarem consistentemente textos sobre psicoterapia. Após leitura
cuidadosa dos resumos, o número de 375 artigos foi reduzido a um corpo de
235 artigos, uma vez que muitos artigos selecionados na primeira filtragem
faziam menção à palavra psicoterapia, mas não se caracterizavam como es-
tudos sobre psicoterapia.
Vale ressaltar que o presente levantamento de publicações é um es-
forço preliminar e rudimentar para compreender a complexidade da produ-
ção acadêmica nacional sobre psicoterapia. Todavia, esse esforço deve ser
entendido como o início de um trabalho necessário de identificação de ca-
racterísticas já consolidadas e direções para o futuro da pesquisa no campo.
A análise do material concentrou-se na identificação do tipo de
estudo realizado pelos artigos, a partir da descrição dos resumos. Buscou-se
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes132
caracterizar a identidade de propósito dos trabalhos, através de uma análisede conteúdo temática indutiva e quantitativa (DeCastro, Abs & Sarriera,
2011). Indutiva porque cria as categorias de tematização a partir do contato
progressivo com o material e quantitativa porque se referencia em índices de
contagem para definir o critério de estabilidade e representatividade de cada
categoria. A lógica indutiva foi traduzida pela identificação de padrões de
essencialidades metodológicas e de propósito dos estudos. Já a contagem
permitia que o mesmo artigo fosse alocado em duas ou mais categorias dis-
tintas.
Na análise do material, o conjunto de 235 publicações permitiu criar
inicialmente seis categorias de identificação essencial. Essas categorias versam
sobre a natureza do propósito dos estudos. São elas: 1) Revisão de Literatura ou
estudo teórico, 2) Proposição de técnicas, instrumentos ou avaliação, 3) Análise
de casos clínicos, 4) Descrição de perfil de populações clínicas, 5) Relatos de
experiência, e 6) Pesquisas de resultado em psicoterapia. Em uma segunda leitu-
ra o tema “Análise de casos clínicos” mostrou-se redundante, pois 90% dos
artigos aí identificados eram sobreposição dos artigos alocados na categoria
“Proposição de técnicas, instrumentos ou avaliação”.
Cada categoria pode ser assim descrita: A) Revisão de Literatura
ou estudos teóricos (n=131) – são os artigos em que o propósito é a aprecia-
ção teórica sobre algum conceito clínico ou realizar uma revisão teórica de
estudos sobre uma prática ou teoria psicoterapêutica. Um bom exemplo da
categoria é o artigo de apreciação teórica de Ribeiro (2007), no qual se dis-
corre sobre o conceito de resistência na psicoterapia grupo-analítica e sua
possível ponte para os conceitos gestálticos de figura e fundo e aqui e agora.
Outro exemplo alocado na categoria é a revisão de literatura sobre modelos e
técnicas da terapia cognitivo-comportamental para o tratamento da fobia
social (D’El Rey & Pacini, 2006).
Na categoria B, que versa sobre a proposição de técnicas, instru-
mentos ou avaliação (n=53) encontram-se os artigos em que se apresentam
técnicas de intervenção clínica, instrumentos de avaliação psicoterapêutica
ou avaliação de práticas com populações distintas, em sua maioria casos
clínicos. Como exemplo pode ser citado o estudo de casos múltiplos em
psicoterapia baseada na mentalização com crianças que sofreram maus-tratos
(Ramires & Godinho, 2011). No estudo, as pesquisadoras avaliaram o efeito
da terapia psicanalítica no desenvolvimento da função reflexiva e da capaci-
dade de mentalização das crianças que sofreram maus-tratos.
No grupo de artigos C estão os trabalhos de descrição do perfil de
populações clínicas (n=26), nos quais são realizados mapeamentos ou des-
crição de populações clínicas, especialmente de clínicas-escola. São também
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 133
considerados nessa categoria os artigos que descrevem as representações
sociais de populações específicas sobre a psicoterapia ou serviço de saúde
mental. Um bom exemplo da categoria é o artigo de Campezatto & Nunes
(2007) em que se realiza uma descrição do perfil de atendimento e da evolu-
ção clínica dos casos atendidos em clínicas-escola da região metropolitana
da cidade de Porto Alegre.
Na categoria D estão os artigos de relatos de experiência (n=14),
nos quais o foco é descrever livremente uma experiência, seja de intervenção
clínica individual ou em grupo, sem propor ou avaliar um modelo de inter-
venção em outras situações semelhantes. Exemplo de relato de experiência é
o artigo de Bruns (2011) sobre os desafios da pesquisadora na supervisão de
casos clínicos envolvendo o despreparo dos jovens terapeutas no atendi-
mento da diversidade afetivo-sexual. A autora faz uma reflexão crítica, em
forma de ensaio teórico combinado com relato de experiência, para discutir a
chamada “clínica pós-moderna”.
Na última categoria (E) estão listadas as pesquisas de resultado em
psicoterapia (n=19), que consistem em estudos clínicos com diferentes deli-
neamentos metodológicos e que analisam o impacto de modalidades psicote-
rapêuticas sobre o resultado ou o processo terapêutico em si. Exemplo dessa
categoria é o trabalho de Yoshida (2008) sobre o processo de mudança e o
resultado de psicoterapias breves em pacientes de clínicas comunitárias bra-
sileiras. O trabalho chama atenção exatamente pela utilização de um método
de estimação exploratório, baseado em autorrelatos, para a avaliação de mu-
danças clinicamente significativas derivadas da psicoterapia breve. A autora
indica a exploração do método como satisfatória, mas frisa que a demanda
por técnicas exploratórias ocorre pela inexistência no Brasil de medidas
normativas mais precisas. Outro estudo representativo da categoria é a pes-
quisa publicada em um periódico da psiquiatria sobre os fatores associados
ao abandono precoce da psicoterapia de orientação psicanalítica (Hauck et
al., 2007). Os autores se basearam em dados demográficos, diagnóstico psi-
quiátrico, escala de qualidade de vida, e saúde global para determinar quais
aspectos em interação estariam associados ou não ao abandono do trata-
mento analítico em um grupo de 56 pacientes. Concluíram que a gravidade
da psicopatologia, isoladamente, não teve associação com o abandono, mas
que um menor nível de insight e defesas mais imaturas (especialmente narci-
sistas) foram associadas a maiores taxas de abandono.
Nessa matriz de categorias impressiona o número elevado de arti-
gos na categoria A, apontando para uma tradição de estudos teóricos sobre
psicoterapia no Brasil. Ainda que teóricos, os estudos não se limitam à revi-
são pura de postulados de teorias clássicas de psicoterapia, mesmo sendo
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes134
esse traço prevalente entre esse grupo de pesquisas. Há alguns indícios de
que a publicação nacional mais recente está se sintonizando com temas con-
temporâneos e com novas técnicas difundidas na literatura internacional.
Falta, contudo, uma extensão das discussões teóricas para a análise rigorosa
do processo psicoterapêutico ou fomento prático das novas possibilidades,
como atesta Santeiro (2008) em relação à escassez de estudos sistemáticos
em clínicas-escola brasileiras.
Uma demonstração da produtividade e emergência de novos temas
da pesquisa em psicoterapia são os levantamentos conduzidos por Eneas
(2007, 2008) junto ao periódico Journal of Consulting and Clinical Psycho-
logy. A pesquisadora brasileira chama a atenção para a evolução dos temas
de pesquisa no periódico como, por exemplo, investigação de mudanças
psíquicas, busca por evidências científicas através do cruzamento de deline-
amentos metodológicos, e necessidade de articulação entre pesquisa e prática
clínica. É interessante notar aqui que, indiretamente, ao mesmo tempo em
que se sinalizam as direções da pesquisa internacional constata-se o descom-
passo do Brasil na produção desse tipo de investigações.
A constatação da falta de trabalhos planejados em longo prazo e com
base em produção sistemática na área está diretamente ligada com a categoria B
do levantamento (Proposição de técnicas, instrumentos ou avaliações). Os arti-
gos nesse estrato propõem a generalização de técnicas ou avaliação em popula-
ções específicas, mas prioritariamente se baseiam em estudos de caso clínico
único ou estudos de caso coletivo. Não se trata de criticar os estudos de caso,
mas fazer uma reflexão sobre o porquê de as pesquisas recorrerem insistente-
mente a esse método e não a outros disponíveis na literatura. Ainda nesse grupo
encontram-se alguns trabalhos de validação de instrumentos para serem utiliza-
dos em contexto de psicoterapia, mas que não são utilizados, pelo menos con-
sistentemente, no conjunto de artigos nacionais aqui avaliados.
Pesquisas que utilizam critérios rigorosos de avaliação do impacto de
modalidades terapêuticas em grupos maiores(Categoria E) são ainda escassas e
aparecem com maior frequência nos três periódicos de psiquiatria avaliados
(n=13). Curiosamente ocorre uma distribuição parelha entre estudos de eficácia
(6) e estudos de efetividade (7) entre as pesquisas de resultado na psiquiatria.
Outro dado relevante a esse respeito é que as pesquisas com controle experi-
mental pré-intervenção e pós-intervenção abrangem psicoterapias cognitivo-
comportamentais (Habigzang et al., 2009) e psicanalíticas (Hauck et al., 2007).
Realizadas as breves considerações fica-se com a impressão de que a
literatura nacional tem buscado aproximar-se dos estudos internacionais, mas
ainda de forma tímida. Nesse sentido, observam-se boas revisões de literatura
que aprofundam o conhecimento teórico em determinadas intervenções, além de
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 135
uma preocupação em validar instrumentos que possam servir ao atendimento na
clínica. Carecem, todavia, as análises sistemáticas para a avaliação da efetivida-
de de práticas específicas em contextos delimitados. A forte impressão nesse
quesito é que o caminho das investigações de resultados tem sido trilhado pela
psiquiatria. Um caminho que não se caracteriza pelo discurso médico puro e
que, por conseguinte, considera as teorias clássicas da psicologia.
A respeito de um possível diálogo entre psiquiatria e psicologia, van
Raan, Visser, van Leeuwen & van Wijk (2003) conduziram uma análise biblio-
métrica do fator de impacto de pesquisas de psicoterapia a partir de um exame
do periódico Psychotherapy Research. Os autores constataram que uma análise
simples de frequência de citação dos artigos nos periódicos cria uma ilusão de
homogeneidade e unidirecionalidade do campo de investigação da psicoterapia.
Contudo, uma segunda análise mais ampla revelou o grande alcance das pesqui-
sas publicadas no periódico examinado, indicando uma vasta rede de interação
com outros campos em áreas científicas distintas. Por exemplo, um grande inter-
câmbio de citação entre estudos de psicoterapia publicados tanto em jornais de
psiquiatria quanto de psicologia. Tal achado leva à reflexão de que o consumo
desse tipo de publicação se dá pelo incentivo do próprio meio quando este se
encontra fortalecido e com uma agenda clara de pesquisa, independente dos
grilhões profissionais. Essa demonstração de diálogo entre as áreas não parece
ser acompanhada pela literatura brasileira, quando analisadas as referências para
os modelos de condução de pesquisa.
Embora preliminar, a revisão de publicações no campo oferece
uma perspectiva das prevalências de investigação em psicoterapia. Um estu-
do mais detido, sobre as nuances metodológicas dos artigos de pesquisa e
sobre as características marcantes das investigações teóricas, se faz necessá-
rio em uma futura análise do material levantado. Um exame das especifici-
dades dos estudos de caso clínico também seria desejável, dada a grande
quantidade de pesquisas utilizando o delineamento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A principal ênfase desse texto foi evidenciar o contraste entre a
produção científica das pesquisas em psicoterapia no Brasil e internacional-
mente. Portanto, partiu da hipótese que a falta de publicações significativas
na área contribui para a imaturidade de discussões contextualizadas sobre o
tema, especialmente na agenda de regulamentação da psicoterapia no país.
Como descrito ao longo do capítulo, a pesquisa no tema é tão vasta na lite-
ratura internacional que sem a existência de metanálises não haveria como
fazer uma compreensão global do desenvolvimento e nuances das pesquisas.
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes136
No Brasil, ainda que exista alguma tradição pontual em pesquisas em psico-
terapia, é notável a descontinuidade e fragmentação temática das investiga-
ções. Importante esclarecer com isso que não se deseja uma homogeneização
das investigações sem um conhecimento prévio de sua pluralidade. Contudo,
a crítica à fragmentação se dirige antes à falta de diálogo e continuidade das
pesquisas do que propriamente à diversidade de seus focos de interesse.
A análise preliminar do levantamento de publicações nacionais in-
dicou uma supervalorização de textos teóricos e revisões de literatura, ao
mesmo tempo em que demonstrou uma escassez de pesquisas empíricas
sistematizadas sobre o processo ou resultados de psicoterapias. Um maior
fomento da pesquisa se justificaria apenas por esta constatação, sem levar
em consideração ainda qual seria o delineamento de pesquisa mais adequado
para a condução das investigações no contexto brasileiro. A preocupação
sobre a adequação dos modelos de condução de pesquisas seria uma conse-
quência do incentivo inicial por se pesquisar psicoterapia. Este incentivo
inicial parece representar o desafio de deixar de lado a identidade teórica
para focalizar nos efeitos do tratamento em suas diversas ramificações. Por
enquanto o que se observa é uma tendência a se seguir teorias, em um mo-
vimento que se aproxima mais da autoridade e da tradição, do que da busca
por informação.
A psiquiatria brasileira tem encontrado um caminho interessante nesse
sentido para impulsionar as pesquisas, alternando entre delineamentos mais
experimentais e delineamentos quase experimentais em diferentes abordagens.
Vale frisar, a última informação é importante, delineamentos experimentais e
quase experimentais em pesquisas com embasamento teórico tanto psicanalítico
quanto cognitivo-comportamental, por exemplo. Ou seja, uma clara sintonia
com a literatura internacional sobre o desconforto de se dividir o campo confor-
me abordagens teóricas. Este seria um bom modelo para o planejamento das
pesquisas em psicoterapia na psicologia em longo prazo, qual seja o da ênfase
nos delineamentos metodológicos. Além de um planejamento em longo prazo,
seria importante também investir em pesquisas em grande escala, como alterna-
tiva aos estudos de caso, prevalentes na literatura nacional.
As boas linhas de pesquisa empírica, já desenvolvidas por psicólogos
brasileiros com populações clínicas, devem ser impulsionadas para que ocorra
um aumento da variedade e tamanho amostral investigado. Além disso, mais
escalas ou instrumentos avaliativos específicos à psicoterapia devem ser valida-
dos ou gerados para o contexto brasileiro. Esses aspectos devem se tornar área
prioritária de investimento, tanto do Conselho Federal de Psicologia como das
agências nacionais de fomento. O incômodo com a falta de discussões mais
aprofundadas e com repercussões práticas para a regulamentação da psicoterapia
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 137
já é notada desde o início dos anos 2000, primeiramente com o Conselho Fede-
ral de Psicologia, e depois por entidades como a ABRAP (Associação Brasileira
de Psicoterapia), criada em 2004. No entanto, em ambos os casos vemos uma
clara dissociação entre vontade e atuação, por meio de pesquisas, para a constru-
ção de conhecimento sólido para a área.
Avanços nas pesquisas e na inovação psicoterápica são ainda se-
riamente prejudicadas: 1) por posições contrárias à pesquisa científica, como
evidenciado por Jardim (2008); e 2) pela oposição à prática privada de psi-
coterapia como em discursos do tipo “anti-elitização-psicológica” defendido
em alguns fóruns de discussão do CFP. De um lado, a desconfiança dos psi-
cólogos brasileiros quanto à pesquisa em psicoterapia coincide com a postu-
ra dos psicólogos norte-americanos na década de 80 (Morrow-Bradley &
Elliott, 1986). De outro, a alegação de que o modelo de clínica privada tradi-
cional é elitizante parece negligenciar o fato de que a clínica deve ser poli-
valente e que já vem sendo ampliada para diferentes contextos e classes so-
ciais há alguns anos. As redefinições do setting clínico já são notadas há
algum tempo como, por exemplo, nas modalidades de AconselhamentoTe-
rapêutico e Acompanhamento Terapêutico, áreas em que a pesquisa nacional
sistematizada é quase inexistente. Mesmo com a ampliação do espectro, o
argumento contrário à psicoterapia é infeliz, pois confunde engajamento
legal e político com conhecimento técnico em saúde.
Em relação à desconfiança em relação à pesquisa científica, Kazdin
(2006) informa que tradicionalmente o psicólogo clínico, diferentemente dos
pesquisadores, volta-se para o processo, na base de que cada caso é um caso.
Deste modo, acompanha-se a melhora do paciente em uma lógica diferente
da pesquisa experimental, que inclui o pareamento com grupo de controle. O
trabalho clínico consistiria, então, em estudos de caso, onde são narradas
possíveis causas para o problema, como é concebido o caso, qual tem sido o
progresso do paciente e como o tratamento é oferecido. Contudo, esses tera-
peutas não costumam avaliar sistematicamente o serviço que oferecem. Em
geral, baseiam-se em seus pontos de vista, experiências e impressões, cons-
truindo uma narrativa composta de inferências e conexões entre possíveis
etiologias, curso do tratamento e efeito de intervenções.
Apesar destas características, grandes esforços têm sido conduzi-
dos por parte dos pesquisadores para conscientizar os terapeutas da necessi-
dade de realizarem avaliações sistemáticas (Kazdin, 2006). Tratamentos
requerem monitoramento criterioso para subsidiar decisões e encaminha-
mentos quando necessários. A discussão de casos clínicos, mesmo reconhe-
cendo a riqueza de detalhes e a ilustração de conduta terapêutica, não é sufi-
ciente para prover informações fundamentais ao processo, pois estão limita-
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes138
das à percepção do terapeuta. Esta limitação pode ser superada com a utili-
zação de medidas sistemáticas, as quais proveem um corpo organizado de
conhecimento que norteia intervenções futuras. O desenvolvimento de ins-
trumentos de medida de fácil aplicação pelos clínicos tem sido o foco princi-
pal da pesquisa orientada para o paciente, que busca diminuir a cisão entre
clínica e pesquisa. Vejamos nos próximos anos se esta nova forma de pes-
quisa terá algum impacto no Brasil.
Após essa breve exposição, concluímos que no Brasil há um longo
caminho a ser trilhado na produção de conhecimento empírico em psicotera-
pia. Os estudos publicados no exterior podem nos servir de guia para uma
agenda nacional de pesquisa, sendo conciliados interesses locais. Ao mesmo
tempo, faz-se necessária uma maior compreensão de fatores culturais e con-
textuais que influenciam a maneira como lidamos com o conhecimento ci-
entífico no campo da psicoterapia. Se a escassez de estudos em psicoterapia
no país lança-nos em um mar de incertezas, por outro lado, a urgência de que
se regulamente a prática exige que saiamos de uma posição acomodada e
tomemos uma atitude. Nem que seja a de questionar o valor dado à pesquisa
nos moldes em que é concebida nesses últimos anos.
REFERÊNCIAS
Arkowitz, H. (1995). Integrative theories of therapy. In D. K. Freedheim (Ed.). History of
psychotherapy: a century of change [pp. 261-303]. Washington DC: American Psychological
Association.
Aveline, M., Strauss, B., & Stiles, W. B. (2007). Pesquisa em psicoterapia. In G. O. Gabbard,
J. S. Beck, & J. Holmes (Eds.). Compêndio de psicoterapia de Oxford (M. F. Lopes & R. C.
Costa, Trad.) [pp. 606-626]. Porto Alegre: Artmed.
Beutler, L. E. (1983). Eclectic Psychotherapy: A systematic approach. New York: Pergamon Press.
Binder, P., Holgersen, H., & Nielsen, G. H. (2010). What is a “good outcome” in psychothe-
rapy? A qualitative exploration of former patients' point of view. Psychotherapy Research,
20(3), 285-294.
Bruns, M. A. T. (2011). Psicoterapeutas iniciantes: os desafios das diversidades afetivo-
-sexuais. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 63(1), 64-74.
Buboltz Jr., W., Deemer, E., & Hoffmann, R. (2010). Content Analysis of the Journal of
Counseling Psychology: Buboltz, Miller, and Williams (1999) 11 Years Later. Journal of
Counseling Psychology 57(3), 368-375.
Campezatto, P. M., & Nunes, M. L. T. (2007). Atendimento em clínicas-escola de psicologia
da região metropolitana de Porto Alegre. Estudos de Psicologia (Campinas), 24(3), 363-374.
Carvalho, L. F., & Rocha, G. M. A. (2009). Tradução e adaptação cultural do Outcome Ques-
tionnaire (OQ-45) para o Brasil. Psico USF, 14(3), 309-316.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 139
Ceitlin, L. H. F., Manfro, G. G., Jung, S. I., & Cordioli, A. V. (2008). Pesquisa em psicotera-
pia. In A. V. Cordioli (Ed.). Psicoterapias: abordagens atuais (2nd ed) [pp. 830-850]. Porto
Alegre: Artmed.
Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (2008). Sistematização do Seminário Nacional
“2009: Ano da Psicoterapia”. Recuperado em 01 de julho de 2011 de http://www.crpsp.org.
br/psicoterapia/sistematizacao_1.aspx.
Cook, J. M., Biyanova, T., Elhai, J., Schnurr, P. P., & Coyne, J. C. (2010). Brief report: What
do psychotherapists really do in practice? An Internet study of over 2.000 practitioners.
Psychotherapy Theory, Research, Practice, Training, 47(2), 260-267.
Cuijpers, P., Li, J., Hofmann, S. G., & Andersson, G. (2010). Self-reported versus clinician-
rated symptoms of depression as outcome measures in psychotherapy research on depression:
A meta-analysis. Clinical Psychology Review 30, 768-778.
D’El Rey, G. J. F., & Pacini, C. A. (2006). Terapia cognitivo-comportamental da fobia social:
modelos e técnicas. Psicologia em Estudo, 11(2), 269-275.
DeCastro, T. G., Abs, D., & Sarriera, J. C. (2011). Análise de conteúdo em pesquisas de
psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, 31(4), 814-825.
Eneas, M. L. E. (2007). Pesquisas em psicoterapia: seções especiais de periódico (1995 a
2005). Psicologia: Teoria e Pesquisa, 23(3), 333-340.
Eneas, M. L. E. (2008). Pesquisas em psicoterapia: seções especiais de periódico (1981 a
1994). Psicologia: Teoria e Pesquisa, 24(1), 111-116.
Elliott, R. (2010). Psychotherapy change process research: Realizing the promise. Psychothe-
rapy Research, 20(2), 123-135.
Gelso, C. J. (2011). Emerging and continuing trends in psychotherapy: Views from an editor's
eye. Psychotherapy: Theory, Reseach, Practice, Training, 48(2), 182-187.
Gomes, W. B., Reck, A., & Ganzo, C. (1988). A experiência retrospectiva de estar em psico-
terapia: um estudo empírico fenomenológico. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 4(3), 187-206.
Goodheart, C. D. (2006). Evidence, endeavor, and expertise in psychology practice. In D. Goo-
dheart, A. E. Kazdin, & R. J. Sternberg (Eds.). Evidence-based psychotherapy: where practice
and research meet. [pp. 37-61]. Washington, DC: American Psychological Association.
Habigzang, L. F., Stroeher, F. H., Hatzenberger, R., Cunha, R. C., Ramos, M. S. & Koller S.
H. (2009). Grupoterapia cognitivo-comportamental para crianças e adolescentes vítimas de
abuso sexual. Revista de Saúde Pública, 43(1), 70-78.
Hauck, S., Kruel, L., Sordi, A., Sbardellotto, G., Cervieri, A., Moschetti, L., Schestatsky, S.,
& Ceitlin, L. H. F. (2007). Fatores associados a abandono precoce do tratamento em psicote-
rapia de orientação analítica. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 29(3), 265-273.
Horvath, A. O., & Symonds, B. D. (1991). The relation between working alliance and
outcome in psychotherapy: a meta-analysis. Journal of Counseling Psychology, 38, 139-149.
Howard, K. I., Moras, K., Brill, P. L., Martinovich, Z., & Lutz, W. (1996). Evaluation of
Psychotherapy: efficacy, effectiveness, and patient progress. American Psychologist, 51(10),
1059-1064.
Jardim, A. (2008). Influências no desenvolvimento psicológico e da personalidade na relação
entre terapeutas e pacientes. Unpublished doctoral dissertation. Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, Brazil.
Jardim, A. P., & Gomes, W. B. (2009). Psicoterapia e personalidade: impacto da interaçãoentre terapeuta e paciente na avaliação de resultados. Gerais: Revista Interinstitucional de
Psicologia, 2(1), 2-11.
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes140
Kazdin, A. E. (2006). Assessment and evaluation in clinical practice. In D. Goodheart, A. E.
Kazdin, & R. J. Sternberg (Eds.). Evidence-based psychotherapy: where practice and rese-
arch meet. [pp. 153-177]. Washington: American Psychological Association.
Lambert, M. J., Burlingame, G. N., Umphress, V., Hansen, N. B., Vermeersh, D. A., Clouse,
G. C. & Yanchar, S. C. (1996). The reliability and validity of the Outcome Questionnaire.
Clinical Psychology and Psychotherapy, 3, 249-258.
Lambert, M. J., & Ogles, B. M. (2004). The efficacy and effectiveness of psychotherapy. In
M. J. Lambert (Ed.). Bergin and Garfield’s handbook of psychotherapy and behavior change
(5th ed) (pp. 139-193). New York: Wiley.
Lambert, M. J., & Archer, A. (2006). Research findings on the effects os psychotherapy and
their implications for practice. In D. Goodheart, A. E. Kazdin, & R. J. Sternberg (Eds.), Evi-
dence-based psychotherapy: where practice and research meet (pp. 111-130). Washington:
American Psychological Association.
Lambert, M. J., & Shimokawa, K. (2011). Collecting client feedback. Psychotherapy: Theory,
Research, Practice, Training, 48(1), 72-79.
Lincoln, T. M. (2010). A comment on Lynch et al. (2009). Psychological Medicine, 40(5), 877-880.
Lynch, D., Laws, K. R., & McKenna, P. J. (2010). Cognitive behavioural therapy for major
psychiatric disorder: does it really work? A meta-analytical review of well-controlled trials.
Psychological Medicine, 40, 9-24.
Luborsky, L., Rosenthal, R., Diquer, L., Andrusyna, T. P., Berman, J. S., Levitt, J. T., Selig-
man, D. A. & Krause, E. D. (2002). The Dodo bird veredict is alive and well – mostly. Clini-
cal Psychology, Science and Practice, 9(1), 2-12.
Martin, D. J., Garske, J. P., & Davis, M. K. (2000). Relation of the therapeutic alliance with
outcome and other variables: a meta-analytic review. Journal of Consulting and Clinical
Psychology, 68, 438-450.
Morrow-Bradley, C., & Elliott, R. (1986). Utilization of psychotherapy research by practicing
psychotherapists. American Psychologist, 41(2), 188-197.
Müller, J. M. (2011). Evaluation of a therapeutic concept diagram. European Journal of
Psychological Assessment, 27(1), 17-28.
Murdock, N., Edwards, C., Murdock, T. B. (2010). Therapists’ attributions for client premature termi-
nation: Are they self-serving? Psychotherapy Theory, Research, Practice, Training, 47(2), 221-234.
Norcross, J. C., Beutler, L. E., & Levant, R. (2006). Prologue. In C. Norcross, L. E. Beutler &
R. F. Levant (Eds.). Evidence-based practices in mental health [pp. 3-12]. Washington, DC:
American Psychological Association.
Norcross, J. C. & Lambert, M. J. (2006). The therapy relationship. In C. Norcross, L. E. Beu-
tler & R. F. Levant (Eds.). Evidence-based practices in mental health [pp. 208-218]. Washington,
DC: American Psychological Association.
Parry, G., Roth, A. D., & Kerr, I. (2007). Psicoterapia breve e de tempo limitado. In G. O.
Gabbard, J. S. Beck, & J. Holmes (Eds.). Compêndio de psicoterapia de Oxford (M. F. Lopes
& R. C. Costa Trans.) [pp. 679-699]. Porto Alegre: Artmed.
Petermann, F., & Schüssler, G. (2010). Psychotherapy research in the german-speaking com-
munity: a bibliometric analysis of three journals. Zeitschrift fur Psychosomatische Medizin
und Psychotherapie, 56(3), 297-313.
Peuker, A. C., Habigzang, L. F., Koller, S. H., & Araújo, L. B. (2009). Avaliação de processo
e resultados em psicoterapias: uma revisão. Psicologia em Estudo, 14(3), 439-445.
Powell, J. L., Hunter, H. L., Beasley, L. O., & Vernberg, E. M. (2010). Using fine-grained
indexes of therapists’ experience and training to predict treatment outcomes in a university-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 141
based training clinic for children and families. Training and Education in Professional
Psychology, 4(2), 138-144.
Ramires, V. R. R., & Godinho, L. R. (2011). Psicoterapia baseada na mentalização de crian-
ças que sofreram maus-tratos. Psicologia em Estudo, 16(1), 61-70.
Reed, G. M., & Eisman, E. (2006). Uses and misuses of evidence: Managed care, treatment
guidelines, and outcomes measurement in professional practice. In D. Goodheart, A. E.
Kazdin, & R. J. Sternberg (Eds.). Evidence-based psychotherapy: where practice and rese-
arch meet [pp. 13-25]. Washington: American Psychological Association.
Ribeiro, J. P. (2007). O conceito de resistência na psicoterapia grupo-analítica: repensando
um caminho. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 23 (N. especial), 65-71.
Rosenzweig, S. (1936). Some implicit common factors in diverse methods of psychotherapy.
American Journal of Orthopsychiatry, 6(3), 412-415.
Roudinesco, E. (2005). O paciente, o terapeuta e o Estado. (A. Telles, Trad.). Rio de Janeiro:
Jorge Zahar.
Santeiro, T. V. (2008). Psicoterapia breve psicodinâmica preventiva: pesquisa exploratória de
resultados e acompanhamento. Psicologia em Estudo, 13(4), 761-770.
Seligman, M. E. P. (1995). The effectiveness of psychotherapy: the Consumer Reports Study.
American Psychologist, 50(12), 965-974.
van Raan, A. F. J., Visser, M. S., van Leeuwen, T. N., & van Wijk, E. (2003). Bibliometric
analysis of Psychotherapy Research: performance assessment and position in the journal
landscape. Psychotherapy Research, 13(4), 511-528.
von Knorring-Giorgi, B. (1998). A phenomenological analysis of the experience of pivotal moments
in therapy as defined by clients. Ph.D. dissertation, Université du Québec à Montréal.
Witter, G. P. (1999). Apresentação. In G. P. Witter (Org.). Produção científica em psicologia
e educação. Campinas: Alínea.
Wood, A. M., & Joseph, S. (2010). An agenda for the next decade of psychotherapy research
and practice. Psychological Medicine, 40, 1.055-1.056.
Yoshida, E. M. P. (2008). Significância clínica de mudança em processo de psicoterapia
psicodinâmica breve. Paideia (Ribeirão Preto), 18(40), 305-316.
Maria Adélia Minghelli Pieta / Thiago Gomes de Castro / William Barbosa Gomes142
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 143
PSICOTERAPIA: O PERCURSO HISTÓRICO
NOS DESAFIOS POR UMA FORMAÇÃO SEM
REGULAMENTAÇÃO
Bárbara de Souza Conte
Sumário: Introdução. As origens da formação: psicanálise/psicoterapia.
Prelúdios e desenvolvimentos da regulamentação. À guisa de
conclusão: perspectivas futuras. Referências.
INTRODUÇÃO
O percurso histórico no desafio da psicoterapia com formação e sem
regulamentação inicia para mim em 2004, quando conselheira do Conselho
Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul. No II Congresso Brasileiro de
Psicologia: Ciência e Profissão, em 2006, parte das ideias que aqui serão ex-
postas se abriram para uma discussão que ainda hoje se mantém. Psicoterapia
com formação é a qualificação teórica, técnica e pessoal para a prática clínica,
sem a tutela de regulamentos que tornem obrigatória esta busca. Os desafios
estavam postos desde então: tornar visível para a categoria dos psicólogos uma
discussão que era institucional e construir conhecimento para que o tema da
regulamentação fosse problematizado e não instituído.
A participação em debates, grupos de trabalho no Rio Grande do
Sul e na plenária do Conselho Federal de Psicologia; nos Estados Gerais da
Psicanálise1, com instituições formadoras, no “Ano da Psicoterapia” em
 
1 O “Estados Gerais da Psicanálise” foi um movimento que se formou na França em 2000, e que em
2003 se reuniu no Rio de Janeiro, e em 2005 em São Paulo, defendendo a posição quanto à “auto-
Bárbara de Souza Conte144
2009, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, e no I Encontro de Psico-
terapeutas promovido pelo Grupo de Trabalho – depois Comissão de Psico-
terapia no CRP-07 em 2010 –, formamos subsídios teóricos e políticos para
o que será apresentado a seguir.
AS ORIGENS DA FORMAÇÃO: PSICANÁLISE/PSICOTERAPIA
Freud (1905/1990a) reunido com seus colegas no Colégio de Mé-
dicos de Viena fala dos fundamentos do procedimento terapêutico por ele
denominado de “método analítico de psicoterapia”, que se distinguia do
método catártico e da sugestão. Assegura frente aos colegas que sua terapia
“(...) é a de mais penetrantes efeitos, a que permite avançar mais longe,
aquela pela qual se consegue a modificação mais ampla do doente” (p. 249).
Ao descrever um dos fundamentos da psicoterapia analítica, re-
marca o descobrimento e a tradução do inconsciente que se realiza sob uma
permanente resistência por parte do doente e que o tratamento seria uma pós-
-educação para vencer as resistências interiores.
Assim, a partir das palavras de Freud, podemos pensar que psicote-
rapia e psicanálise, naquela época, eram entendidas como sinônimas, uma
vez que se referiam a um método capaz de lidar com as resistências incons-
cientes, fruto da sexualidade infantil. A análise da transferência se opunha à
sugestão consciente, do então método catártico.
Um século se passou e, hoje em dia, se faz necessário diferenciar a
psicanálise (enquanto terapia analítica) da psicoterapia (dita de orientação
analítica), uma vez que se armou uma confusão conceitual no campo do
tratamento psíquico, que tem como resultado um abandono de recomenda-
ções sobre o fazer psicoterápico e um descuido ético da posição do terapeuta,
que nos leva a discutir quais os parâmetros para pensar as psicoterapias.
Falamos do que é o fazer e de quem faz, tornando indissociável a reciproci-
dade entre o terapeuta e o método que baliza o campo da prática. Apesar da
necessária diferenciação entre a psicanálise e a psicoterapia, marcamos que
os temas propostos para a discussão – a formação e a regulamentação – são
pertinentes e atuais a ambos os campos.
Sabemos que a psicoterapia, enquanto teoria que passa a sustentar
um modo de fazer é uma prática anterior ao surgimento da psicanálise, e teve
sua origem em 1872, pelo médico inglês Daniel Tuke (1827-1895) e foi po-
 
nomia de sua disciplina em relação a todas as formas de psicoterapia hoje praticadas e sua indepen-
dência em relação aos poderes públicos e a uma regulamentação pelo Estado, seja ela qual for”.
(Major, 2003, p. 141)
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 145
pularizada por Hippolyte Bernheim (1840-1919), neurologista, como um
método de tratamento das doenças ditas psíquicas, através da hipnose.
Freud trabalhou a diferença de abordagem em relação a seus mes-
tres e ensinou que um método de tratamento pressupõe uma teoria que o
sustente, que os procedimentos estejam em consonância com essa teoria e
afirmou a necessidade de treinamento para quem aplica o método, que supõe
a supervisão. Esse conjunto é chamado de formação. O profissional assim
habilitado2 se distingue do charlatão, uma vez que sua prática é ética.
Entendemos que a diversidade das psicoterapias da mente surgidas
ao longo deste tempo e o afrouxamento dos critérios relativos à formação,
conforme marcamos acima, se inter-relacionam e produzem extravios e des-
vios no campo da prática psicoterápica. Esta, por vezes, é exercida à margem
de qualquer critério ético e técnico ou, se guarnece com normatizações.
Roudinesco (2005) aponta que as escolas psicoterápicas agrupam-
-se estruturalmente em três categorias e, historicamente, em três gerações
sucessivas. A primeira – e mais antiga – é a das práticas oriundas da hipnose
e da sugestão. A segunda, surgida a partir dos anos 30, provém das correntes
dissidentes da psicanálise implantadas nas grandes clínicas norte-americanas
voltadas para o tratamento das psicoses ou das patologias ditas “culturais”. A
terceira teve origem nas demandas místicas, de higiene psíquica e corporais
dos anos 60 – essa última incluindo correntes psicoterápicas como a Terapia
Familiar, a Análise Transacional, a Gestalt-Terapia, o Psicodrama e, atualmente
a Psicoterapia Cognitivo-Comportamental.
Cada uma das inúmeras formas de psicoterapia se inscreve nestas
linhas de origem e tem métodos específicos, a partir dos pressupostos que
sustentam essa inscrição, a saber: a transferência, a sugestão ou a medicação.
Porém, o descuido na formação frente a essa diversidade introduz o tema do
charlatanismo, dito o outro da ciência e da razão, ou seja, “aquele que em-
preende um tratamento sem possuir conhecimentos e capacidades requeri-
das” (Roudinesco, 2005, p. 30). Esse parece ser o ponto da questão que hoje
se apresenta, uma vez que a diversidade de práticas vai dispensando ou
afrouxando o conhecimento das capacidades necessárias para seu exercício.
Não por acaso, este ponto também foi objeto de discussão nos pri-
mórdios da psicanálise, ou seja, de que forma seria feita a transmissão dos
princípios técnicos e éticos e quem estaria apto para o exercício da psicanáli-
 
2 O Psicólogo está habilitado para a prática da psicoterapia através da Resolução do Conselho Federal
de Psicologia 010, de 20.12.2000, que diz em seu artigo primeiro: “a psicoterapia é prática do psi-
cólogo por se constituir, técnica e conceitualmente, um processo científico de compreensão, análise
e intervenção (...) para o enfrentamento de conflitos e/ou transtornos psíquicos de indivíduos ou
grupos”.
Bárbara de Souza Conte146
se? A história do movimento psicanalítico ensina que inicialmente a um
“Comitê Secreto” (Grosskurth, 1992) estava destinado pensar o futuro da
psicanálise. Posteriormente, a função soberana do poder foi entregue por
Freud à International Psychoanalysis Association (IPA), instituição criada
em 1910, e considerada instância legítima de transmissão e controle de seus
membros. No entanto, múltiplas cisões ocorreram desde lá até nossos dias,
até não mais se sustentar uma legitimidade única. Inúmeras associações bus-
cam transmitir e assegurar o adequado exercício da prática entre seus mem-
bros, reassegurando um pressuposto freudiano que é da ciência moderna, o
descentramento do sujeito, ou seja, o homem, em sua razão, não detém o
domínio do conhecimento. O inconsciente existe e as pulsões sofrem seus
embates com a cultura para serem transformadas e dominadas. Verificamos,
desta forma, que o lugar de alteridade que a psicanálise perseguiu quanto à
formação é também necessário para a formação das práticas psicoterápicas.
Outro ponto não menos importante, além da legitimação da trans-
missão através das sociedades formadoras, é o de quem está habilitado a
exercer a prática terapêutica das doenças psíquicas. Freud (1926/1990b), no
início do século passado, escreveu sobre a questão da análise leiga, uma vez
que havia uma denúncia de exercício ilegal da profissão contra Theodor
Reik. Freud o defendeu neste artigo, em um debate com um suposto interlo-
cutor com o qual vai descrevendo o que entende por análise leiga.
Refere-se a três significados: o leigo (não médico), o profano (não re-
ligioso) e o amador (não competente). Verificamos assim que desses três possí-
veis sentidos de leigo, como sinônimo de charlatão, Freud deu precisão ao termo
“leigo”, descrevendo-o como aquele que: 1) não estava familiarizado com a
ciência da vida sexual, com seu inconsciente, através da sua própria análise, e 2)
com a delicadeza da técnica da psicanálise, através da arte da interpretação, do
combate às resistências e do lidar com a transferência. “Qualquer um que tenha
realizado tudo isso não é mais leigo no campo da psicanálise, (...) ninguém deve
praticar a análise se não tiver adquirido o direito de fazê-lo através de uma for-
mação específica. Se essa pessoa é ou não um médico, a mim me parece sem
importância” (Freud,1926/1990b, p. 214). Desta forma, tornou claros os princí-
pios que habilitavam o analista para seu ofício.
Freud ensinou que a formação é o que capacita o analista em sua prá-
tica, e que a transmissão da psicanálise se processa com rigor e independência,
podendo seus analistas/membros ser de várias origens do campo do conheci-
mento (médicos, psicólogos, educadores). Instituiu um debate sobre a questão da
análise leiga e gerou um embate entre seus pares uma vez que havia posições
como a de Ernst Jones (Kohon, 1994) de que “a Sociedade Britânica é, de modo
praticamente unânime, da opinião de que, na maioria, os analistas deveriam ser
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 147
médicos, mas que uma proporção de analistas leigos deveria ser livremente ad-
mitida, desde que certas condições sejam preenchidas” (p. 26).
Interessante marcar a brecha onde a regulamentação se inscreve
justamente na ambiguidade ou ambivalência frente à legitimidade do exercí-
cio de uma prática. Verificamos que há um deslizamento da legitimidade da
formação para a regulamentação do ofício.
Freud buscou também não confundir a psicanálise com o judaísmo,
chamando o ariano Jung para ser o primeiro presidente da IPA, e separando
a psicanálise enquanto prática terapêutica e método de investigação da cren-
ça religiosa. Outro ponto, que não por acaso é discutido hoje no âmbito da
psicoterapia, é a confusão que muitas vezes ocorre entre o que é um método
terapêutico e uma crença religiosa. Confusão que traz de volta o uso da su-
gestão e não o de perlaboração como uma forma de adquirir conhecimento
de si e mudança psíquica. A figura do terapeuta passa a ser entendida como a
de um “guru”, sem o qual o sujeito não se reconhece e, portanto, perde o
livre-arbítrio, tornando-se submetido a um “abuso transferencial/sugestivo”.
Curioso é pensar que apesar de toda defesa de Freud pela autonomia
no ofício da psicanálise, foi somente em fevereiro de 1978 que na França – cen-
tro do conhecimento psicanalítico atual – o tribunal de Nanterre reconhece a
independência da atividade psicanalítica pela especificidade de seu método e de
seu objeto, portanto, não mais considerando como exercício ilegal da medicina
aqueles profissionais não médicos que exerciam a psicanálise.
E assim, observamos no decorrer do século XX a manutenção do
embate entre os que se colocam em uma posição de defesa da transmissão inde-
pendente e os que tentam regular quem deve exercer a prática psicanalítica e
psicoterápica, desviando o foco do chamado tripé de uma formação – a análise
pessoal, os seminários teóricos e a supervisão – para tentativas de regulamenta-
ção, que adquirem outro viés corporativista, econômico, religioso ou estatal.
PRELÚDIOS E DESENVOLVIMENTOS DA REGULAMENTAÇÃO
Roudinesco (2005) aborda os interesses e a multiplicidade de variá-
veis que permearam o tema da regulamentação da psicoterapia na França: o
charlatanismo, o abuso sexual e a diversidade de teorias psicoterápicas. Mar-
camos que pelo menos duas das variáveis são as mesmas do debate que se
iniciou com a psicanálise, em 1910, o charlatanismo e a diversidade de teo-
rias psicoterápicas – nova versão para o tema da formação e transmissão. Na
terceira variável descrita pela autora, podemos pensar que o amor de transfe-
rência e a sexualidade infantil tomaram o rumo perverso do abuso sexual.
Bárbara de Souza Conte148
Em nosso tempo, enquanto a centralidade da proposta deveria ser o
critério para a garantia de uma formação ética e qualificada, a regulamenta-
ção se introduz. Percebemos as tentativas de regulamentação como um desli-
zamento do campo da formação para atender às demandas de políticas do
Estado. Em outra perspectiva, o deslizamento se opera nas próprias institui-
ções ditas formadoras que se outorgam o poder de deter o conhecimento e se
colocarem como hegemônicas, visando um ganho econômico, como temos
presenciado nas seitas religiosas interessadas nas regulamentações.
Como dar conta do binômio diversidade/qualificação da formação,
levando em conta as inúmeras denúncias éticas que ocorrem em relação às
práticas utilizadas? Além disso, como não questionar o interesse quanto à
regulamentação das psicoterapias em função de demandas entre os órgãos
representativos das categorias profissionais envolvidas e a demanda do Esta-
do em seus diversos setores relativos à saúde?
Aguiar (2005) nos relata o exemplo da trajetória da regulamenta-
ção que ocorreu em 1994 quando a Associação Francesa de Normatização
havia sido interpelada pela Federação Francesa de Psicoterapia no sentido de
codificar as psicoterapias. Deste encontro foram tiradas duas conclusões: a
necessidade de elaborar trabalhos referentes à profissão de psicoterapeuta e a
informar o “consumidor” sobre o lugar da psicoterapia fora do campo médi-
co. Em 1999, foi apresentada a chamada Lei Accoyer e em 2001, o projeto
de Mme. Gilot, que propunha a profissão de psicoterapeuta para médicos e
psicólogos.
Após muitos debates, os franceses destacaram três propostas de re-
gulamentação: a oficialização do título de psicoterapeuta, garantido por for-
mação dispensada em instituições privadas credenciadas pelo Ministério da
Saúde; a transferência da psicoterapia para o controle do poder médico; e a
reivindicação de um Conselho Internacional das Profissões da Psique. A
partir do relato deste artigo, podemos observar que em qualquer das propos-
tas o risco é o de fechamento, encastelamento profissional e a consequente
perda da liberdade do ofício de psicanalista, uma vez que o critério da
transmissão pela formação fica deslizado para regulações por títulos e regu-
lações por uma categoria profissional hegemônica ou conselho profissional.
Em 12 de dezembro de 2003, a noção de título de psicoterapeuta é
abandonada e a Lei Accoyer é aprovada. A lei dispunha que as diferentes
categorias de psicoterapia fossem fixadas por decreto do Ministro da Saúde e
exercidas por médicos e psicólogos com as qualificações requeridas e esta-
belecidas pelo mesmo decreto. Alguns psicoterapeutas foram inscritos nas
listas departamentais e outros foram dispensados. As instituições entregaram
seus anuários a fim de que o Estado tivesse condições, no futuro, de respon-
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 149
der à angústia dos pacientes, vítimas ora de terapias mágicas, ora de iniciati-
vas sectárias.
Outro ponto importante desta discussão foi que as associações psi-
canalíticas reivindicaram a autonomia e a especificidade da psicanálise, dei-
xando de fora os psicanalistas das listas ou anuários. Efeito disto foi que a
psicanálise deixa de ser uma psicoterapia e instala-se nova celeuma: quem é
que estaria no direito de exercer a psicoterapia se a psicanálise não mais
seria uma psicoterapia? Quem estaria em exercício ilegal da profissão?
Assim se deu a regulamentação da psicoterapia na “vanguarda”
francesa, que delegou os critérios de qualificação de psicoterapeutas ao Es-
tado. Deste exemplo podemos retirar algumas considerações que nos dizem
respeito neste debate. Ao longo das discussões verificamos que foram rejei-
tadas propostas como a criação de um “conselho de psicoterapia” ou de tí-
tulos de especialistas, pois se tornava certamente “missão impossível” a de-
cisão de quem daria esta chancela ou referendo. Igualmente rejeitada a tutela
da prática da psicoterapia a uma profissão – a de médico.
Novamente não por casualidade, mas por um processo histórico,
este tema é objeto de discussão no Brasil. No campo da Psicologia, várias
instituições se organizam para garantir a formação do psicoterapeuta e sua
relação necessária com a prática: as universidades que fornecem a formação
básica; a Associação Brasileira de Ensino da Psicologia, na avaliação das
instituições formadoras; as formações privadas ou acadêmicas que capacitam
os profissionais psicoterapeutas de diferentesorientações e os Conselhos na
fiscalização da prática. São instituições que têm suas especificidades e que
buscam dialogar levando em conta o psicólogo em formação ou o psicotera-
peuta em sua prática. Nem sempre este debate atinge a categoria dos psicó-
logos e, além disso, novos atores passam a fazer parte desta cena, como ve-
remos a seguir.
O Projeto de Lei do Ato Médico, em sua “nova versão”, desvia o
tema da qualificação para o exercício da psicoterapia, para o de competência
no sentido corporativo, uma vez que foi aprovado com o mesmo vício de
origem que deu início à manifestação de repúdio das outras categorias pro-
fissionais. O PL 7.703, de 2006, do Senado Federal, que dispõe sobre o
exercício da medicina (aprovado em outubro de 2009) apresenta os mesmos
pontos do PLS 268/02 que foi exaustivamente discutido e negociado con-
juntamente com quase todos os Conselhos3 envolvidos (menos o de Odon-
tologia, que negociou à parte) até 2007, quando foi votado e rejeitado em seu
 
3 Farmácia, Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Nutricionistas, Serviço Social,
Enfermagem, Educação Física.
Bárbara de Souza Conte150
texto original. O projeto aprovado mantém os dois pontos de litígio: tornar
privativo ao médico o diagnóstico psicológico das patologias mentais e a
prescrição terapêutica – posição que entendo corporativista, uma vez que no
corpo da lei que dispõe sobre o exercício da medicina, “define” sobre os que
os demais profissionais estão aptos a realizar – e; no segundo ponto, torna
privativo ao médico a direção e a chefia dos serviços médicos (artigo que
deixa margem a ser entendido que em qualquer serviço de saúde, por se tra-
tar de saúde e ter médicos na equipe, a chefia é do médico, o que desconside-
ra o princípio de multiprofissionalidade e integralidade que é conquista do
SUS e visa descentralização na equipe).
Não é, no entanto, a regulamentação da profissão de médico o en-
trave para a discussão. A chamada “lei do ato médico” nos faz questionar e
estar atentos para hierarquias e verticalizações de funções, que desviam o
tema da qualificação para o da competência. Observamos uma tentativa de
apropriação do saber, corporativista, como reserva de mercado tanto das
funções exercidas, como da própria forma de tratar a saúde que é também
tema de debate em nossa categoria profissional.
Observamos institucionalizações quando, ao lado da questão da com-
petência para o exercício da psicoterapia, ocorre a discussão de sua utilização no
sistema de saúde pública e nos seguros de saúde privados. Fatos que se eviden-
ciam a partir da Reforma Psiquiátrica (datada de 1998) e da inclusão de psicólo-
gos psicoterapeutas em planos de saúde pela Agência Nacional de Saúde Com-
plementar (Lei 10.216/01). Quais as modificações técnicas possíveis para aten-
der as especificidades destas demandas institucionais? Qual o lugar ético da
prática da psicoterapia? É necessário desconstruir o que até agora foi alcançado
na prática psicoterapêutica para que se reinscreva o saber da psicanálise e da
psicoterapia na rede pública, por exemplo?
 Esse tema passa a ser objeto de discussão também do Conselho
Federal de Psicologia que, juntamente com o Conselho Regional de São
Paulo, solicita ao Sr. Luis Alberto Hanns e um grupo independente de espe-
cialistas de diversas orientações – que podemos dizer não representativos da
categoria – para que elaborassem um projeto nacional de diretrizes para a
psicoterapia. Assim nasceu a Associação Brasileira de Psicoterapia –
ABRAP sob os auspícios da CFP e da Associação Brasileira de Psiquiatria (a
partir de seu Departamento de Psicoterapia), em maio de 2004. Em seu Es-
tatuto de fundação, no artigo III, lemos em seu ponto 2 que a referida associa-
ção visa: “(...) servir como um centro de recursos e informações sobre assuntos
relativos à psicoterapia, notadamente fornecendo a pacientes, entidades go-
vernamentais, universidades e centros de pesquisa e ao público em geral
subsídios sobre o estudo da arte no campo da psicoterapia e suas aplicações”.
Psicoterapias, hoje: direções técnicas e epistemológicas 151
Tem início, também, a implantação dos títulos de especialistas,
auferidos pelo Sistema Conselhos e dos credenciamentos das instituições
formadoras, vistoriadas pela ABEP. Listas e regulamentações que passam a
funcionar como reguladoras da qualificação profissional.
Na tentativa de ordenar ou, melhor dizendo, controlar o campo das
psicoterapias, evidenciamos um paradoxo: qualificamos a prática, através da
transmissão institucional dos fundamentos que sustentam esta prática, ou
reproduzimos formas de controle sobre os pares e as instituições que formam
especialistas criando hierarquias de poder? Dito de outra forma, a preocupa-
ção quando se fala em “regular o campo das psicoterapias” está na qualifica-
ção da prática ou na produção de controle institucional? Defendemos a cria-
ção de instâncias de participação e discussões entre pares como forma de que
esse “espinhoso” tema da qualificação não fique silenciado por regulamenta-
ções. O modelo proposto é semelhante ao utilizado para a transmissão e for-
mação, ou seja, entre pares.
No caminho inverso de instâncias de participação e discussão entre
pares, verificamos como exemplo as empresas de medicamentos que, con-
trolando o mercado e transformando manifestações psíquicas em doenças
que necessitam de medicação, fazem da tristeza uma depressão “tratada”
com fluoxetina; transformam a neurose de angústia em doença do pânico,
que encontra em um ansiolítico sua solução; ou ainda, a falta de limite trans-
formada em TDAH que se regula com ritalina, chamada a “droga da obediên-
cia”. A expressão do sofrimento, acolhida e entendida na diversidade dos
saberes profissionais, fica no domínio do especialista e da medicalização,
gerando debates corporativistas a respeito de quem “entende das doenças e
deve tomar conta delas”. O risco desta posição é ser esquecido o lugar do
sujeito na construção de si mesmo, e deste sujeito no processo terapêutico.
Desvia-se, então, a discussão da qualidade de formação para a da
competência. Competência que ao invés de estar assegurada pelo saber passa
a ser entendida então como uma ordem de coação: quem pode e quem não
pode, atribuição que verificamos estar em um suposto domínio na ordem
médica e na ordem jurídica. Assim, temos situações bizarras como a prescri-
ção de tratamento psicoterápico ter que passar pelo médico, como acontece
com alguns planos de saúde, onde o psicólogo, mesmo que habilitado, passa-
ria a ser considerado um charlatão ao não obedecer tal prescrição.
Portanto, remarcamos que a formação bate de frente com a regu-
lamentação, tomada desse modo. Pode-se pensar que quanto mais controle é
exercido com uma política de vigilância ou de segurança, mais estímulo há
para o surgimento do charlatanismo.
Bárbara de Souza Conte152
À GUISA DE CONCLUSÃO: PERSPECTIVAS FUTURAS
Depois de examinarmos o que está ocorrendo no campo das psico-
terapias e os desdobramentos da regulamentação, repensamos o que evoluiu
neste debate. No VII Congresso Nacional de Psicologia (CNP), promovido
pelo Sistema Conselhos e realizado em 2007, houve apenas uma tese sobre
psicoterapia (num total de 150). Esta tinha como diretriz: 1) estabelecer, em
parceria com outras entidades, um diálogo permanente com a categoria dos
psicólogos, buscando favorecer condições e exigências mínimas para o exer-
cício da psicoterapia por psicólogos, estimulando a qualificação na formação
(graduação) e 2) promover uma discussão nacional sobre regulação, regula-
mentação e organização do campo da psicoterapia.
Instalou-se o debate sobre a quem competia gerir esta discussão na
categoria dos psicólogos e que motivou o ano da Psicoterapia em 2009, com
fóruns de discussão nas diversas regiões brasileiras. Passados três anos, no

Mais conteúdos dessa disciplina