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Brasília-DF. CiênCias Forenses: GenétiCa e antropoloGia Elaboração Lívia Marcela dos Santos Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 5 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 7 UNIDADE I ANTROPOLOGIA FORENSE ..................................................................................................................... 9 CAPÍTULO 1 PRINCÍPIOS DA IDENTIFICAÇÃO HUMANA ............................................................................... 10 CAPÍTULO 2 IDENTIFICAÇÃO E IDENTIDADE ................................................................................................ 15 CAPÍTULO 3 EXUMAÇÕES .......................................................................................................................... 22 CAPÍTULO 4 OSSADAS: DIAGNÓSTICO MÉDICO-LEGAL DA ESPÉCIE, SEXO, IDADE E ESTATURA EM OSSADAS E RESTOS HUMANOS .............................................................................................................. 26 CAPÍTULO 5 SINAIS DE VIOLÊNCIA ............................................................................................................. 36 CAPÍTULO 6 IDENTIFICAÇÃO EM DESASTRES E INCIDENTES COM GRANDE NÚMERO DE VÍTIMAS ................. 41 UNIDADE II GENÉTICA FORENSE ............................................................................................................................ 42 CAPÍTULO 1 NOÇÕES GERAIS DE GENÉTICA FORENSE ............................................................................... 42 CAPÍTULO 2 INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE, MATERNIDADE OU AMBOS .................................................. 56 CAPÍTULO 3 PROVAS MÉDICO-LEGAIS ....................................................................................................... 60 PARA (NÃO) FINALIZAR ..................................................................................................................... 67 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 69 4 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. 6 Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 Introdução No Brasil, no passado, a maior influência para a medicina legal foi francesa, porém, também houve influência da medicina alemã e italiana. Atualmente, a maior influência é da medicina legal de Portugal. Os principais nomes que podem ser citados são: José Antônio Lourenço Lesseps, José Eduardo Lima Pinto da Costa e Duarte Nuno Pessoa Vieira além de Francisco Corte Real. Já no Brasil, a estruturação da medicina legal foi principalmente realizada por Agostinho José de Souza Lima, da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Porém, outro médico brasileiro que contribuiu para a nacionalização da medicina legal foi Raymundo Nina Rodrigues, colaborando também para a pesquisa científica neste campo da medicina. Posterior a Raymundo, vem Oscar Frei de Carvalho, que instituiu a medicina legal como especialidade médica. As primeiras faculdades brasileiras a possuírem a disciplina de medicina legal estavam no Rio de Janeiro e na Bahia, em 1832. Esse ano também foi marcado pela inclusão da perícia médico-legal no Código de Processo Criminal para os exames de corpo delito. Alguns desses dispositivos ainda estão no Código de Processo Penal. Entretanto, apenas depois de alguns anos, em 1854, foi oficializada a medicina pericial, por meio do Decreto no 1.740, de 16 abril, sendo criada concomitante a Secretaria de Polícia da Corte a Assessoria Médico-legal. Nas faculdades de Direito, a matéria de medicina legal foi ensinada por Rui Barbosa, que aprovou na Câmara dos Deputados o Decreto que deu origem a Cátedra de medicina legal nas Faculdades de Direito de todo o território nacional, em 1891. Atualmente, essa prática médica é oficial e pública, oferecida pelos Institutos médicos legais de todo país, além de, também, ser obtido em postos médicos legais. Porém, ainda hoje as condições de trabalho não são as melhores. Assim, hoje, o direito busca uma aliança técnica com os peritos para esclarecer dúvidas jurídicas. Para que esse esclarecimento seja efetivo, é preciso que o perito seja capacitado para exercer a sua função. Isso também é importante para o juiz, reforçado pelo Código Penal, pelo Decreto-Lei no 1.004, de 21 de outubro de 1969, e com a reforma da Lei no 6.016, de 21 de dezembro de 1973, o juiz, além dos conhecimentospróprios de sua formação jurídica, necessita adicionar outros de natureza sócio-política e legispericial. 8 Virgílio Donnice (2002) se manifestou sobre o assunto da seguinte forma: A grande novidade, porém é a dos criminosos habituais ou por tendência, com a aplicação da pena indeterminada, e a reincidência, que não ocorrerá se, depois de uma sentença condenatória, cumprida ou extinta, de ocorrer período de tempo superior a cinco anos, sendo excluídos, para efeito da reincidência, os crimes puramente militares e políticos. Para a ampliação da pena o juiz terá, obrigatoriamente, de possuir uma especialização penal e criminológica. Pelo Código de 1940, o art. 42 continha diretrizes abstratas, ao contrário das que se encontram no novo, que determinam ao juiz, na sentença, expressamente referir os fundamentos das medidas da pena, apreciando a gravidade do crime praticado, a maior ou menor extensão do dano ou perigo do dano, os meios empregados, o modo de execução, os motivos determinantes, as circunstâncias de tempo e lugar, os antecedentes do réu e sua atitude de insensibilidade, indiferença ou arrependimento após o crime, levando-se em consideração, também, na fixação da pena de multa, a situação econômica do condenado. É um dispositivo que obrigará o juiz a ter, além da competência jurídico-penal e criminológica, uma sensibilidade apurada, fazendo-o participar de todo processo e, muito especialmente, do interrogatório do acusado, fase processual que terá grande importância. Objetivos » Promover o conhecimento da Antropologia e Genética Forense. » Analisar de forma crítica o papel do médico legal. » Compreender as limitações que existem neste tipo de perícia. 9 UNIDADE IANTROPOLOGIA FORENSE Atualmente, os meios de comunicação fazem da antropologia forense um quadro surreal, até mesmo nos Estados Unidos da América. Essa mistificação se dá pelos meios de comunicação que mostram casos resolvidos por meio de profissionais que são apoiados por tecnologias de forma espetacular. Vamos por meio da leitura desse material desmistificar esse conceito. “Apesar de todos os humanos adultos terem os mesmos 206 ossos, não existem dois esqueletos iguais”. (BERARDINELLI, 1942) Um exemplo dessas séries na televisão é Bone, que apresenta uma equipe composta com profissionais praticamente gênios, com conhecimentos em todas as áreas científicas. Realmente, muitas vezes são necessárias várias áreas de conhecimento para a resolução de um caso, porém não apenas um profissional vai conseguir sozinho resolver esse caso. É importante ter a consciência de que nem sempre a causa da morte e nem mesmo as circunstâncias em que ela ocorreu pode ser revelado pela análise de restos ósseos, pois, além de existir o tecido muscular, adiposo e dérmico, que o recobrem os ossos, poucas vezes apenas uma lesão traumática pode ser fatal. Assim, o papel do antropólogo é com base na lesão óssea caracterizar o tipo de ação ou o tipo de instrumento, além de seu grau de gravidade para os tecidos moles, órgão e vísceras. Então, o antropólogo forense pode classificar as lesões de acordo com o objeto e a ação. 10 CAPÍTULO 1 Princípios da identificação humana Noções gerais de antropologia forense A antropologia forense pode ser classificada como uma subespecialidade da antropologia biológica, caracterizada pelo estudo do esqueleto humano e correlacionando o esqueleto humano com as ciências forenses. Assim, um dos papéis dessa ciência é a identificação de cadáveres em avançado estado de decomposição, carbonizados ou gravemente mutilados, bem como restos esqueléticos, para que haja o esclarecimento da causa e das circunstâncias da morte dos indivíduos. Porém, casos de antropologia forense no sentido restrito são cadáveres com menos de 15 anos de decomposição, chamado de intervalo post mortem, mas ao laboratório do antropólogo forense não são apenas esse tipo de casos que chegam. Antropologia forense é ramo da medicina legal que tem como principal objeto a identidade e identificação do ser humano. Utiliza conhecimentos da antropologia geral, com clara importância na esfera penal.” (ABFA – American Board of Forensic Anthropology What is the Practice of Forensic Anthropology? AFBA, Inc.). A antropologia forense tem íntima relação com a medicina criminalista e também a medicina forense, assim, unidas são melhores para desvendar as circunstâncias da morte. Na história do Brasil, nos anos da ditadura, a medicina legal foi pouco desenvolvida pelo rígido controle desta época. As áreas mais prejudicadas foram Antropologia Forense e Identificação Humana, pois muitas vezes não havia interesse político em identificar os cadáveres ou esclarecer as causas da morte. Esse fato também refletiu na pesquisa e no ensino desta época sobre a Antropologia Forense. O objetivo primordial da Antropologia Forense é desvendar a causa da morte. Assim, uma das armas mais importantes que esse médico possui para cumprir sua missão são as marcas de violência em ossadas. Portanto, essas marcas ósseas podem possuir características, ante mortem, peri mortem ou pos mortem. A diferenciação entre esse tipo de lesão é obrigatória no exame do Antropólogo Forense, porém não é simples ou possível. Se não for possível reconhecer o cadáver pelos traços fisionômicos ou ainda pela vestimenta, o antropólogo forense deve entrar em cena. Ou seja, os cadáveres que requisitam a presença 11 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I do Antropólogo forense são cadáveres esqueletizados, mumificados ou em estado de preservação muito prejudicado (PINHEIRO; CUNHA, 2006). Assim, a experiência e o conhecimento do Antropólogo podem ajudar inestimavelmente a desvendar a causa ou as circunstâncias de morte. Princípios da identificação humana O princípio desse processo é a limpeza e preparação do cadáver. Essa etapa tem uma grande importância para a correta interpretação da ossada. Se esse processo não for realizado corretamente, pode confundir o examinador, com artefatos. Para identificar as ossadas, o primeiro passo é a sua preparação. Preparação de ossadas Um pré-requisito para a análise das ossadas é que ela esteja sem tecidos moles. Se o caso for de cadáveres em estado de composição avançado, impossibilitando o seu reconhecimento por digitais, porém não completamente esqueletizado, é importante que se faça a redução do cadáver anteriormente ao exame antropológico. Inicialmente, deve se retirar manualmente os tecidos moles e também com ajuda de instrumentos cortantes, seguindo o próximo passo, que seria a desarticulação dos segmentos corporais. Existe um cuidado aqui com a confusão de marcas acidentais com traumas peri-mortem. Após esse processo, as partes corporais são inseridas em uma máquina redutora de cadáveres em água, são mais ou menos 60 litros, a temperatura dessa água é em torno de 85oC para que haja maceração dos tecidos moles. Ainda, a cada 24 horas, essa água é escoada e para uma limpeza final, os ossos são lavados em água corrente e é utilizado tecido de algodão. Esse processo é repetido até que seja obtidos ossos sem resíduos de tecido mole. Com o fim da redução os ossos, são colocados em posição anatômica, em uma mesa apropriada. Para esse posicionamento é muito importante caracterizar a lateralidade dos ossos (direito e esquerdo), e também sua localização correta, com atenção especial para costelas e vértebras. Normalmente, segue-se um protocolo de caracterização de ossos, com os itens: » Quais ossos estão presentes, listando os mesmos um a um. 12 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE » Se existe fratura ou outro achado patológico, como exemplo, são má- formações ósseas ou consolidação de fraturas.» Além dos ossos, esse mesmo protocolo deve ser realizado para os arcos dentais, superior e inferior. » Existe ainda a descrição de qualquer outro item que esteja no cadáver como roupas, acessórios etc. » Para um registro desses itens, é importante o registro fotográfico. Também o inventário da dentição pode ser registrado por meio de fotos. Esses registros devem ser de arcada superior e inferior. Um conceito fundamental é que a análise antropológica não pode ser realizada sobre material ósseo que não seja de natureza humana, ou mesmo que seja de natureza humana, porém com um pos mortem maior que 15 anos, sendo neste caso chamado de âmbito arqueológico. Assim, é fundamental a resposta aos quesitos a seguir para iniciar uma correta análise: » Trata-se de material ósseo? » Se afirmativo, esse material ósseo é humano? » Se afirmativo, esse material tem menos de 15 anos? Essas perguntas são as inicias para uma correta abordagem em uma perícia de Antropologia Forense no material que chega aos serviços de Patologia Forense do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses. A perícia não poderá ser iniciada se uma dessas perguntas for respondidas negativamente. Assim, antes de dar início à perícia antropológica em sentido restrito, o antropólogo forense deverá avaliar a relevância médico-legal dos restos. Etapas da identificação São três etapas, desde o descobrimento do corpo até a sua análise propriamente dita. » 1a etapa – arqueologia forense: consiste na escavação minuciosa do local onde se encontra o corpo. » 2a etapa – antropologia social: consiste na coleta de informações ao redor da área do crime (entrevistas às pessoas da região, consulta em arquivos municipais, eclesiásticos e militares etc.). 13 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I » 3a etapa – investigação laboratorial: há uma aplicação de técnicas como a osteologia humana (área que se debruça sobre o estudo dos ossos que compõe o esqueleto), paleopatologia (ramo da ciência que se dedica ao estudo das doenças do passado) e tafonomia (estudo sistemático da evolução de fósseis). Pode ainda ser feita uma reconstrução facial do cadáver e superposição fotográfica. Tempo pos mortem É premissa que se posicione sobre o tempo pos mortem, tempo decorrido após a morte, para que o Antropólogo Forense esclareça a circunstância da morte. No entanto, essa estimativa de tempo pos mortem não é uma tarefa fácil, pois isso se deve a uma soma de fatores como agentes tafonómicos, que por vezes são desconhecidos pelo Antropólogo Forense. Normalmente existe uma ordem de ocorrência: esqueletização da cabeça, mumificação de membros e saponificação de abdome e tórax. Porém outros agentes ambientais Na verdade, a ordem de ocorrência vai depende da interação entre os diversos fatores e agentes tafonómicos que interagem entre si e com o cadáver. De acordo com a figura 1 podemos classificar o osso de acordo com sua idade pos mortem. Figura 1. 14 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE Ainda existem outros parâmetros que podem ser utilizados para estimarem a idade pos morte, como por exemplo, haver insetos e larvas de mosca no cadáver tem uma correlação com a idade pos mortem, pois as moscas sarcoprófagas completam seu ciclo de vida de 30 a 40 dias. Para que esse dado seja útil, o Antropólogo Forense deve saber cada espécie de inseto sarcoprófago e deus estágios de desenvolvimento. 15 CAPÍTULO 2 Identificação e identidade Identidade A identidade pode ser definida como caracteres físicos e mentais, natos ou que foram adquiridos, todavia permanentes, que torna o indivíduo um ser único. Legalmente, o art. 307, do Estatuto Penal vigente define a identidade como “O conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa”. Também definida por Afrânio Peixoto (2001) Identidade é o conjunto de sinais ou propriedades que caracterizam um individuo entre todos, ou entre muitos, e o revelam em determinada circunstância, e que estes sinais são específicos e individuais, originários ou adquiridos. Leonídio Ribeiro (2003) define com uma visão mais jurídica: A identidade é um fato e não uma convenção; torna-se, pois, necessário fixar meio inequívoco e único de prová-la, legalmente, para facilitar a prática de atos civis dos indivíduos, na vida jurídica, isto é, nas relações familiares, sucessórias, contratuais, políticas, no exercício de todos os direitos e obrigações pessoais que se baseiam na certeza da identidade. Assim, o Antropólogo Forense deve trabalhar para fazer a identidade objetiva, ou seja, determinar tecnicamente quem é a pessoa analisada, em busca de elementos que se fazem únicos a essa pessoa. Evita-se, portanto, a identidade subjetiva que está ligada a estrutura de sua personalidade. A definição de identificação é o processo que se utiliza para conseguir esclarecer a identidade de uma pessoa ou coisa. Lacassagne, um médico legal, em 1889, na França, foi desafiado a revelar a identidade de um cadáver em avançado estado de putrefação; então, após análise do cadáver, ele fez uma descrição perfeita para a época:disse: “O grande mérito foi do morto. O cadáver é a testemunha mais importante do crime.” Portanto, esse processo de identificação tem grande importância em vivos, (desaparecidos, troca de identidade), em mortos (mutilados, cadáveres não identificados, desastres com grande número de vítimas). 16 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE Alguns fundamentos técnicos e biológicos para a identificação » Unicidade ou individualidade: elementos apenas encontrados no indivíduo analisado. » Imutabilidade: são elementos que não mudam com o passar do tempo. » Perenidade: capacidade de as características permanecerem as mesma ao longo da vida e se manterem mesmo após a morte, como por exemplo o esqueleto. » Praticabilidade: um processo não complexo, incluindo a obtenção e o registro de dados. » Classificabilidade: é necessário guardar dados, com metodologia adequada para que o acesso à informação não seja dificultoso. A identificação do ser vivo, ou mesmo do cadáver, tem uma facilidade muito maior do que o do esqueleto, porque para o esqueleto é necessário uma investigação intensa de vários aspectos como espécie, raça, sexo estatura. Muita atenção deve ser dada aos dentes, não simplesmente o número de dentes, porém também a presença de restaurações ou próteses. Muito importante atentar para a diferença entre identificação e reconhecimento, o reconhecimento pode ser feito por um parente do cadáver ou esqueleto, diferente de identificação que se usa muitas técnicas para se chegar a identidade do cadáver. Em síntese, de acordo com Galvão, a identificação é um procedimento médico-legal cujo o fim é afirmar que aquele indivíduo é ele e não outro, com uso de meios antropológicos ou antropométricos. A identificação exige não apenas estudo de técnicas médico–legais, como também deve ser realizada exclusivamente por legistas. É papel do Antropólogo Forense verificar a existência de alterações patológicas, ou não, e assim classifica-la como ante mortem e/ou resultados de procedimentos médicos, que neste caso pode ajudar a identificar o individuo em análise. São exemplos de condições ante mortem que pode auxiliar na identificação: fraturas com reação osteogênica, material cirúrgico para fixação de fraturas, marca-passo cardíaco, redes de herniorrafia. Porém, para a correta identificação, é essencial a comparação do perfil biológico estimado pela perícia do Antropólogo no exame pos mortem com o indivíduo ante mortem. Esses dados são, por exemplo: prontuário, fotos e documentos ante mortem, 17 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I mesmo testemunho de parentes e conhecidos. Uma identificação é chamada de positivado cadáver quando os dados ante mortem coincidem com os dados pos mortem. A análise do material genético (DNA) é outra forma de se conseguir uma identificação positiva. É de responsabilidade de o Antropólogo Forense fazer a coleta desse material que pode se dar no próprio osso, em cabelos, unhas dentes ou outros. Como a Antropologia Forense, a genética forense também apresenta algumas limitações, sendo essas, por exemplo, contaminação desse material genético, degradação do material por agentes tafonómicos com raios ultravioletas ou ainda a falta de parentes para que seja realizada a comparação desse material. Para facilitar o entendimento, vamos fixar conceitos: » Identidade é o conjunto de caracteres físicos, funcionais ou psíquicos, normais ou patológicos, que individualizam determinada pessoa (ALVES, 1965). » Identificação é conjunto de procedimentos diversos para individualizar uma pessoa ou objeto. » Reconhecimento é a identificação empírica. » Identificação é o reconhecimento científico. » Identificação genérica compreende a determinação da espécie, da raça, do sexo, da idade, da estatura etc. » Identificação específica compreende a pesquisa de tudo aquilo que passa a individualizar o examinado: cicatrizes, tatuagens, sinais profissionais, mutilações etc. Após o Antropólogo verificar se de fato o material trata-se de osso, se esse osso é humano e se ele tem menos de 15 anos, inicia-se a segunda etapa. Nesta segunda etapa, tem se início o exame pericial de fato, constando de quatro parâmetros que delineia o perfil biológico: » sexo; » idade da morte; » estatura; » afinidades populacionais; Com esses parâmetros, consegue-se fazer uma identificação genérica, ou seja, reduzindo o suspeito para grupos, excluindo aqueles que são suspeitos; porém, não se enquadram no perfil biológico. 18 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE Após esse passo seguem a perícia por meio das características antropológicas respeitando a sequência: 1. Avaliação do sexo: › pela pelve; › pelo crânio. 2. Avaliação da ancestralidade: › pelo crânio, principalmente. 3. AVALIAÇÃO da idade: › adultos – clavículas, sínfise púbica, articulação sacro-ilíaca, quarta costela e coluna vertebral; › jovens – pelas cartilagens epifisárias dos ossos. 4. Avaliação da estatura: › medidas de ossos longos. 5. Avaliação de destreza manual: › depor meio da clavícula, do úmero e do rádio. 6. Análises odontológicas. Sexo O primeiro parâmetro biológico a ser analisado deverá ser o sexo, pois os outros parâmetros como idade à morte, estatura e as afinidades populacionais dependem do sexo. Para se fazer o diagnóstico pericial de tipo de sexo, é utilizado o conhecimento sobre as diferenças entre os sexos. Essas diferenças, utilizadas pelo Antropólogo, são principalmente anatômicas. Assim, cada região anatômica possui uma característica tipicamente feminina ou masculina. Essas conclusões, cujas características ósseas têm uma forma tipicamente feminina ou masculina, foram feita por meio da análise de frequências estatísticas. Essa análise é feita macroscopicamente, por meio das características morfológicas e métricas de ossos; assim, é importante a medida de ossos longos, a morfologia do crânio e da bacia. 19 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I Análise da bacia e sua classificação » Ginecoide: características femininas. No geral, existem menos proeminências e menos inserções musculares, tendo forma arredondada e o diâmetro transversal supera a altura da bacia. » Androide: características masculinas. No geral, possui mais proeminências, é mais robusta e possui mais ranhuras de inserções musculares possui formato de coração e o diâmetro vertical predomina sobre as horizontais. » Platipleloide: características intermediárias e é considerado raro. » Andropoide: características de mulheres negras. Segundo Caldwell e Moloy (1933), há quatro tipos de bacia, atente para o desenho: Figura 2. Fonte: Caldwell e Moloy (1933). Figura 3. Idade à morte Neste caso, avalia-se se o cadáver é adulto, adulto jovem ou criança, pois cada grupo tem suas peculiaridades na análise macroscópica. Assim, do nascimento até os catorze anos, é utilizado a erupção e mineralização dentária, entre os catorze e vinte anos, pode ser utilizada a junção epifisária dos ossos longos, além do encerramento da sincondrose esfeno-ocipital, por último. Ainda nesta faixa etária, tem se a união epifisária da extremidade esternal da clavícula que se funde completamente aos 30 anos. 20 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE Depois dos 30 anos, a idade do cadáver analisado se baseia principalmente na visão macroscópica dos processos degenerativos que se iniciam na sínfise púbica, da superfície auricular do ilíaco e da mineralização da cartilagem da 4a costela. Estatura Para ser realizada a estimativa da estatura, deve-se medir os ossos longos ou mesmo um conjunto de ossos longos. Assim, após essas medidas utiliza-se uma fórmula de regressão. Com a estimativa da estatura é possível classificar o indivíduo dentro de um grupo étnico, porém, no Brasil esses grupos raciais não são tão bem definidos pela miscigenação. Portanto, é complicado aplicar os dados de medições europeias na nossa população. Ainda se usam dados europeus, pois, não existem padrões brasileiros para estimar a estatura com medições de ossos secos do Brasil. A medição de ossos secos foi padronizada por Salientamos que Dwight (1894) e Stewart (1979), dando preferência para o método anatômico, e utilizaram cadáveres inteiros ou com a maior quantidade de ossos. Seguindo a linha de medição de ossos secos, vamos exemplificar com ossos secos da bacia e ossos longos. Técnica das medições Para obter as medições, utilizaram-se procedimentos diferentes, conforme se tratasse da pelve ou dos ossos longos (Figuras 4 e 5). Figura 4. Ponto de mensuração na superfície articular medial (sacro-ilíaca). Fonte: Passmore; Robson (1974). 21 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I Figura 5. Compasso de toque ou de pontas rombas. . Fonte: Passmore; Robson (1974). Afinidades populacionais Esse conceito de afinidades populacionais está baseado que grupos humanos que podem apresentar algumas características diferentes do ponto de vista anatômico e/ou morfológico. Categorizar o ser humano em relação a grupos diferentes com base na usa origem é muito útil para a exclusão de suspeitos. O principal osso que pode auxiliar nesta informação é o crânio. Com base no já exposto, pode-se concluir que esse tipo de classificação pode conter um erro, porque, se um indivíduo tem origem europeia, isso não significa que será loiro de olhos azuis. Para os Antropólogos, afinidade populacional é um termo operacional que remete o indivíduo ao seu ancestral. Esse método macroscópico pode ser amplificado por outros métodos biológicos como métodos genéticos, microscópico ou ainda bioquímico, que podem ajudar a revelar mais sobre a identidade do indivíduo analisado. 22 CAPÍTULO 3 Exumações É normalmente realizada em caráter especial, realizada normalmente por razões importantes, pois consiste no desenterramento de cadáver, por ordem legal, visando: » esclarecimento da “causa mortis “ e causa jurídica da morte; » identificação; » situação de grave contradição ou confirmação diagnóstica; » interesse sanitário; » traslado do corpo. Conceito A palavra exumação deriva do latim exumare, com significado de movimento para fora da terra, húmus, ar. Ou seja, exumar tem o significado de desterrar o cadáver, isso acontece para que se atenda a recursos da justiça para que se determine a causa da morte. Mesmo em estado avançado de decomposição, o cadáverexumado pode auxiliar na investigação jurídica/policial em uma perícia realizada. A perícia, nestes casos, deve ser realizada com muito cuidado e observações detalhadas, pois em estado avançado de decomposição os fatores biológicos podem ser confundidores. Por exemplo, os sinais traumáticos podem desaparecer e os sinais de decomposição podem simular sinais traumáticos. De acordo com Lacassagne (2002), o perito deve estar atento para sinais confundidores e não se deixar influenciar pela ansiedade e teorias precipitadas. Os cuidados iniciam na certificação sobre a data e a hora que será realizado o exame, isso pode ser visto na administração do cemitério. Para o próximo passo, é necessário a convocação de autoridade policial, além de familiares do morto e testemunhas que estavam presentes no enterro para a correta identificação da cova. A exumação deve ser toda narrada ao escrivão de polícia, com todos os detalhes para a correta identificação do morto, inclusive com documentação por fotografia. Seguindo o procedimento, após aberto o ataúde, certifica-se que o cadáver é realmente o mesmo que se propôs a perícia. É essencial a descrição da sepultura, das vestes do morto, do caixão, do aspecto geral do cadáver e também do seu estado de putrefação. 23 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I Legislação O processo de exumação é regido pelo Código de Processo Penal, conforme artigos descritos: Art. 163. Em caso de exumação para exame cadavérico, a autoridade policial providenciará para que em dia previamente marcados, se realize a diligência, da qual se lavrará auto circunstanciado. Parágrafo Único: O administrador do cemitério público ou particular indicará o lugar o lugar da sepultura, sob pena de desobediência. No caso de recusa ou de falta de quem indique a sepultura, ou de se encontrar o cadáver em lugar não destinado a exumações, a autoridade procederá às pesquisas necessárias, o que tudo constará o auto. Art. 164. Os cadáveres serão, sempre que possível, fotografados na posição em que forem encontrados. Art. 165. Para representa as lesões encontradas no cadáver, os peritos, quando possível, juntarão ao laudo do exame provas fotográficas, esquemas ou desenhos, devidamente rubricados. Art. 166. Havendo dúvida sobre a identidade do cadáver exumado, proceder-se-á ao reconhecimento pelo Instituo de Identificação e Estatística ou repartição congênere ou pela inquisição de testemunhas, lavrando-se auto de reconhecimento e de identidade, no qual se descreverá o cadáver, com todos os sinais e indicações. Parágrafo Único: Em qualquer caso, serão arrecadados e autenticados todos os objetos encontrados que possam ser úteis para a identificação do cadáver. Art. 160. Os peritos elaborarão o laudo pericial, onde descreverão minuciosamente o que examinarem, e responderão aos quesitos formulados. Art. 210. Violar ou profanar sepultura ou urna funerária: Pena – reclusão, de um a três anos e multa. Art. 211. Destruir, ou subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele: Pena - reclusão, de um a três anos e multa. Art. 212. Vilipendiar cadáver ou suas cinzas: Pena - reclusão, de um a três anos e multa. 24 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE Tipos de exumação Conforme a finalidade a que se propõe, a exumação divide-se em dois tipos, que são: a. Administrativas: › mudança de sepultura dentro de um mesmo cemitério; › remoção do esqueleto para o ossuário; › retirada do cadáver ou restos esqueletais para cremação; › translado dos restos humanos para outro cemitério ou para o estrangeiro; › troca de urna funerária; › recuperação de joias ou documentos. b. Judiciárias: › inumações clandestinas em locais não autorizados; › inumações em locais autorizados, sem certidão de óbito; › inumações cuja certidão de óbito não contemple de forma plena os dados exigidos na mesma; › dúvidas quanto a identidade do morto; › inumação em casos de morte violenta, sem necropsia prévia; › necropsia incompleta ou parcial; › erros, omissões ou contradições no exame necroscópico; › falsa necropsia ou simulação de necropsia, com descrição apenas das lesões externas; › omissões nos procedimentos técnicos detectados no laudo pericial; › diagnósticos incompletos, insuficientes ou errados, no laudo pericial; › declaração de óbito com diagnóstico impreciso, ocorrendo dúvidas quanto ao mecanismo da causa da morte; › diagnóstico baseado em alteração macroscópica sem lastro anátomo- patológico; › reconhecimento especial de determinada lesão; › recolhimento de determinado material tegumentar ou visceral; 25 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I › em síntese, procede-se a exumação com fins cíveis ou médicos-legais; › cumpridas as formalidades legais, a critério da autoridade sanitária, os despojos, que deverão se constituir apenas do esqueleto, podem ser removidos para fins de translado, cremação ou outra qualquer finalidade administrativa. Modelo de um auto de exumação e reconhecimento Aos vinte e sete dias do mês de abril de dois mil e quatorze, na cidade de Araraquara, na 1a Delegacia de Polícia, onde se encontrava o Ten. Cel. Antonio Aparecido Albuquerque, titular da especializada, e o escrivão Marques de Rosa, às 10h, presentes os peritos José Francisco de Almeida e Roberto dos Santos, médicos-legais do departamento de polícia Técnica de São Paulo, bem como o auxiliar de necropsia Amadeu Soares e o fotografo Pedro Braga também o Ten. Mario Veloso, delegado de polícia daquela cidade, determinou que o administrador do cemitério, Sr Manuel Vieira indicasse a sepultura de FLÁVIO GONÇALVES PEREIRA. Cumprindo a determinação, o administrador indicou a sepultura da ala esquerda, terceira fila, o que foi confirmado pelo Sr. Carlos Pereira, pai do morto, e pelos filhos do indigitado, Ruti e Bruno Gonçalves Pereira, e finalmente pela viúva Sra. Marcela Akao Pereira. Em consequência, mandou a autoridade que se procedesse à exumação do cadáver que encontrasse, a fim de ser examinado, o que efetivamente se fez; sendo removida a terra, até que ficasse descoberto um caixão de cor marrom, de madeira, sendo este colocado na superfície da terra, bem próximo a sepultura, o qual foi reconhecido pelas testemunhas. Aberto o caixão tem se o cadáver, um homem de estatura média em estado de composição avançado e coberto por uma mortalha preta. Não havia mais nada a ser tratado então se encerrou. Vai assinado pelos Peritos, escrivão e testemunhas. 26 CAPÍTULO 4 Ossadas: diagnóstico médico-legal da espécie, sexo, idade e estatura em ossadas e restos humanos Quando é realizada a identificação médico–legal? Espécie Quando se encontra vivo ou morto, com partes do corpo que ajudem na identificação. Osso Os ossos dos animais e humanos são diferentes, suas características ajudam a reconhecer a espécie que pertence àquela ossada. Microscopicamente, a diferença é encontrada nos canais de Harvers, tanto no tamanho quanto na sua estrutura. No ser humano são caracteristicamente em número menor e também mais largos, com um tamanho médio de 8 mm2. Já em animais, são arredondados, mais estreitos que nos humanos e também o tamanho pode chegar a 40 mm2. Figura 6. Sangue Para início, deve-se certificar que o material mandado para análise realmente trata-se de sangue. A regra básica para provar essa premissa é a caracterização de Cristais de Teichman. Essa técnica é descrita da seguinte forma: esse material deve ser colocado em uma lâmina; após isso, cobre-se com uma lamínula, colocando uma gota de ácido acético 27 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I glacial; em seguida, aquecer para evaporação lenta; deve-se repetir algumas vezes o mesmo procedimento. Após, leva se a lâminaao microscópio e observa-se a presença de cristais, que tem as seguintes características: cor achocolatados, forma rômbica, podem ser encontrados isolados ou em grupos, são alongados em forma de charuto ou roseta. Outra técnica utilizada é a técnica de Addler, cuja solução utilizada é a benzidina em álcool a 96o ou em ácido acético. Essa solução deve ser preparada no momento de utiliza-la. A instrução é para que dilua o material em água destilada e separar 2 mL em tubo de ensaio. Após adiciona-se água oxigenada a 10 ou 12 volumes e mais 1 mL da solução preparada anteriormente de benzidínico. Quando essa reação é positiva, o azul esverdeado passa para azul intenso imediatamente. Após a confirmação que o material estudado trata-se de sangue, estuda-se as características desse sangue como as formas das hemácias, se possuem ou não núcleos. Porém, a técnica mais segura para a caracterização sanguínea é a Uhlenhuth, que consiste em uma reação de soro de outros animais e sangue humano, com reação de anticorpo do soro com o antígeno que são as hemácias humanas. Raça No Brasil não existe uma raça definida. De acordo com Ottolenghi, são tipos étnicos fundamentais:: » Tipo caucásico: pele branca, cabelos lisos e loiros ou cacheados, íris azul ou castanha, contorno crânio-facial anterior ovoide-poligonal; perfil facial ortognata e ligeiramente prognata. » Tipo mongólico: pele amarela, cabelos lisos, face achatada de diante para trás, fronte larga e baixa. Espaço interorbital largo, maxilares pequenos e mentos salientes. » Tipo negroide: pele negra, cabelos em tufos e crespos, crânio pequeno, perfil facial prognata. Fronte alta e saliente, íris castanha, nariz pequeno largo e achatado, perfil côncavo e curto, narinas pequenas e afastadas. » Tipo indiano: não tem um tipo racial definido, estatura alta, pele amarelo trigueira, com tendência ao avermelhado. Cabelo preto, liso e grosso. Íris castanha. Crânio mesocéfalo. Supercílios espessos, orelhas pequenas, nariz saliente estreito e longo. Zigomas salientes e largos. » Tipo australoide: estatura alta, pele trigueira, nariz curto e largo, arcada zigomática larga e volumosa, prognatismo maxilar e alveolar. Cintura 28 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE escapular larga e pélvica estreita. Dentes fortes e mento retraído. Crânio dolicocéfalo. Caracterização racial Formas do crânio: sua visão deve ser de cima para baixo, de frente para trás e lateralmente. Na primeira visão, de cima para baixo, a classificação se refere a: » formas longas – dolicocrânios; » formas curtas – braquicrânios; » formas médias – mesocrânios. Na visão de frente para trás, a classificação é: » crânios altos e estreitos – esternoscrânios; » crânios baixos e largos – tapinocrânios; » crânios intermediários – metriocranios. Quando a visão é lateral: » crânios altos – hipsicrânios; » crânios baixos – platicrânios; » crânios intermediários – mediocrânios. Índice – Cefálico: obtido pela fórmula de Retzius: Fórmula de Retzius = Largura x 100 Comprimento do Crânio Assim, por meio da fórmula, podemos definir os seguintes tipos: » Dolicocéfalos: < ou = 75. » Mesaticéfalos: 75 a 80. » Braquicéfalos: > 80. Índice tíbio-femural: refere-se ao comprimento da tíbia dividido 100 x pelo comprimento do fêmur. Assim temos que nos brancos é inferior a 83, ao contrário dos negros que seria superior a 83. 29 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I Assim, conforme exposto acima, quando o cadáver está em estado de ossada e corretamente posicionado a mesa, sempre com atenção a lateralidade, pode se iniciar o diagnostico médico-legal. Índice rádio-umeral: refere-se ao comprimento do rádio dividido 100 x pelo comprimento do úmero. Nos negros, é superior a 80 e nos brancos inferior a 75. Ângulo facial: esse ângulo é para verificar o prognatismo, sendo um elemento fundamental para a distinção racial. Segundo Jacquart, o ângulo é dado por uma linha que passa no ponto mais saliente da fronte e pela linha nasal anterior e por outra linha que vai da espinha nasal anterior ao meio da linha médio auricular, conseguindo assim um ângulo de 76,5 graus para brancos e 72 para amarelos e de 70,3o para negros. Outro ângulo a ser medido é o ângulo de Curvier, definido como sendo uma linha que passa pela parte mais saliente da fronte até o ângulo dentário superior, e por outra que vai do ângulo dentário superior ao conduto auditivo externo. Além, também, do ângulo de Croquet definido como uma linha que vai da parte mais saliente da fronte até o ponto alveolar e outra linha que vai do ponto alveolar até o conduto auditivo externo. Ainda com relação à anatomia dentária, tem-se a diferença racial com relação as cúspide do primeiro molar inferior. Na raça branca, define-se a forma mamelonada; na raça negra, a forma é estrelada; e na raça amarela, a forma é intermediaria. Figura 7. Tipos de índices de acordo com a raça. Fonte: Adaptado de França (1995). Figura 8. Tipos de ângulos faciais de acordo com a raça. Fonte: Adaptado de França (1995). Sexo Hoje existem diversas classificações para o tipo de sexo. São pelo menos oito tipos de sexo, por exemplo, sexo cromossomal, sexo gonadal, sexo da genitália interna, sexo da genitália externa, além de outros. 30 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE » Sexo cromossomal: definido pela avaliação do cromossoma sexual e pelo corpúsculo fluorescente. Tendo a diferenciação em masculino XY além de corpúsculos fluorescentes e feminino XX sem corpúsculos fluorescentes. » Sexo gonadal: feminino com ovários e masculino com testículos. » Sexo cromatínico: determinados pelos corpúsculos de Barr, que se encontram no nucléolo das células do organismo feminino, assim se positivo é feminino. » Sexo da genitália interna: no masculino pelo desenvolvimento dos ductos de Wolff, e no feminino pelos ductos de Müller. » Sexo da genitália externa- masculino pela presença de pênis e escroto, no feminino pela presença de vagina. » Sexo jurídico: refere-se ao registro civil, ou quando autoridade legal manda que se registre o indivíduo em outro sexo, após exames médicos legais ou de acordo com condições doutrinarias e/ou morais. » Sexo de identificação ou psíquico: aquele cuja a pessoa tem identificação moral, também chamado de sexo moral. » Sexo médico legal: é o sexo constatado por meio de uma perícia médica. No esqueleto, a distinção entre os sexos se faz pelos ossos do crânio, da mandíbula do tórax e da pelve. O esqueleto do homem, normalmente, é maior e mais resistente que o da mulher. O crânio no sexo masculino costuma ter estrutura óssea mais pronunciada, processo mastoide mais pronunciado, fronte mais inclinada para trás, glabela mais pronunciada, arcos superciliares mais salientes. Já na mulher a fronte é mais vertical e a glabela é menos pronunciada. Figura 9. Caracterização masculina e feminina através do esqueleto. Fonte: Adaptado de França (1995). 31 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I Figura 10. Diferenciação entre os sexos por meio da anatomia da pelve. Fonte: Adaptado de França (1995). Figura 11. Diferenças entre os crânios masculino e feminino. Fonte: Adaptado por Silva (1995). Idade A determinação da idade na vida intrauterina é realizada pela estatura do feto ou do embrião. 32 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE Recordar o crescimento mensal é essencial para a correta avaliação. Do 1o ao 3o mês, a média de crescimento são 6 cm/mês, do 4º em diante são 5,5 cm/mês. São essenciais os elementos abaixo para caracterização correta da idade: » Aparência: diferenças grandes de idades é fácil distinguir; o mais difícil é caracterizar faixas etárias próximas. Quanto mais velho o indivíduo, mais difícil a avaliação, ou seja,a perícia dificilmente nos oferecerá precisão neste quesito. » Pele: principalmente na avaliação de rugas. Início do surgimento das rugas é entre 25 e 30 anos na lateral as pálpebras, após isso em região frontal e nasolabial. » Pelos: auxilia no seu surgimento, apontando a puberdade tanto em meninos como em meninas. » Dentição: quando existe a erupção dentária, apesar de dependente de fatores genéticos e ambientais, tem na grande maioria uma época específica. O dente mais inconstante é o terceiro molar. Figura 12. Tabela de Told. Fonte: Adaptado por França (1995). Com a tabela de Told, consegue-se estimar a idade fetal. Com a formação dentária também se consegue estimar a idade. Veja: 33 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I Figura 13. Fonte: Silva (1997). Estatura A estatura é um excelente elemento para ser utilizado para a identificação. Por meio de estudos, conhece que a estatura no vivo pela manha é relativamente maior que à tarde. A explicação para esse fenômeno é o peso corporal produzindo achatamento nos discos intervertebrais, regularizando esse fenômeno novamente à noite. A estatura do vivo, tanto em pé ou deitado, acaba sendo menor que a do cadáver. Isso se explica pela rigidez muscular pos mortem. 34 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE Assim, para determinar a estatura, deve se utilizar as tabelas em que se encontram o cumprimento dos ossos longos, tanto de membros superiores quanto de membros inferiores. Diferente do vivo, a estatura do cadáver é realizada por meio de uma régua especial, com hastes que vão do ponto mais alto da cabeça até a face inferior do calcanhar, realizada na posição vertical. Figura 14. Tábua Osteométrica de Broca. Fonte: Adaptado de França (1995). Figura 15. Tabela de Lacassagne e Martin. Fonte: Adaptado de França (1995). Figura 16. Tabela de Etienne-Rollet. 35 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I Fonte: Adaptado de França (1995). 36 CAPÍTULO 5 Sinais de violência A análise do Antropólogo Forense também faz parte não apenas da identificação do instrumento utilizado, mas também do tipo de ação que produziu determinada lesão. Assim, o tipo de traumatismo e sua distribuição são importantes. Portanto, o papel do Antropólogo Forense é correlacionar as lesões ósseas concluindo com esta análise um quadro que abrange as hipóteses de causa da morte. Porém, existe uma dificuldade óbvia neste contexto: por meio das lesões, afirmar que a causa ou as circunstâncias da morte foram com certeza desvendada. A reação do tecido ósseo a lesões costuma ser muito lento, mantendo, na maioria das vezes, sua plasticidade e elasticidade. Com isso, conclui-se que traumas diferentes podem ter a mesma resposta óssea, sendo o contrário também verdadeiro, traumas semelhantes podem ter respostas ósseas diferentes. Tem se que traumas mais complexos ou que gerem fraturas ajudam a informar melhor sobre as circunstâncias e causas da morte, pois apresentam um padrão de resposta característica. Mordidas e suas marcas Marcas de mordidas podem ser utilizadas em Tribunais e também na Justiça militar, podendo fornecer um grande auxilio para as investigações. As vítimas podem estar vivas ou mortas, podendo esses fatos ser utilizados como um indicador do agressor. Esse tipo de agressão está mais relacionada com crimes que envolvem sexo ou abuso de crianças. Assim, algumas diretrizes foram criadas, pelo Conselho Americano de Odontologia Legal, em 1984, para que a investigação desse tipo de marca seja mais eficaz. a. Descrição da marca de mordida: informações demográficas; localização da marca de mordida; forma; cor; tamanho; tipo de lesão. b. Coleta da evidência da vítima: fotografia; swab da saliva; moldagens; amostras teciduais. c. Coleta da evidência do suspeito: histórico do tratamento dental; fotografia; exame extra e intraoral; moldagens; amostra da mordida; modelos de estudo. d. Avaliação das evidências (American Board of Forensic Odontology, 1986). (SYRJANEN; SAINIO, 1990). 37 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I Figura 17. Tabela de marcas de mordida com características de horas e dias. Fonte: Adaptado de Allen, Neville, Damm, Bouquot (1998). A tripla distinção Associar uma lesão óssea ao momento da morte é um dos passos mais importantes na avaliação forense de um trauma. Pode ter implicações legais muito sérias, como em casos de homicídio (CUNHA et al., 2005). Assim, é importante fazer a prévia exclusão que a lesão verificada não ocorreu pos mortem ou mesmo antes da morte. Mais importante do que saber se o indivíduo estava vivo ou morto no momento da agressão, esta tripla distinção pode permitir associar o trauma à circunstância da morte, como um homicídio (SAUER, 1998). Lesões ante mortem Só quando está vivo o tecido ósseo consegue ter respostas esperadas a lesões ósseas. A reação pode ser de osteogênese ou de reabsorção ósseas; contudo, a presença de sinais 38 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE de formação de osso novo (osteogênese) prova que a lesão aconteceu durante a vida. Assim, uma lesão do tipo mecânica a resposta para ela é normalmente um tecido com reações para uma nova formação (CATTANEO; GRANDI, 2004). Para diferenciar durante a vida do indivíduo se a lesão é antiga ou nova, é necessário observar se na antiga têm-se todas as marcas de remodelação bem estruturadas, como é visto no calo ósseo. Já lesões que ocorreram muito próximoà morte, não tem tempo suficiente para formarem o calo ósseo. Porém, essa formação, ou recuperação do tecido ósseo, não depende apenas do tempo; depende também de outros fatores como as condições de saúde do indivíduo, a idade, o tipo de osso danificado. Se uma lesão óssea ocorre muito próximo à morte, os sinais de reposta osteogênica só será possível por análise de microscópio eletrônico. A grande importância dessa afirmação é se ocorreu ou não violação dos direitos humanos. Ainda temos que contemplar o indivíduo analisado biopsicossocialmente, pois existem lesões que são culturais. Por exemplo, deformidades de pés de chinesas. Também, como já foi citado, marcas cirúrgicas, que auxiliam na identificação do indivíduo. Lesões pos mortem Portanto, na falta de resposta óssea ao trauma, esse trauma deve ser encaixado em peri mortem ou pos mortem. Ainda podem ser do tipo: mutilações, desarticulações e desmembramento (BERRYMAN; SYMES 1998; SMITH et al., 2003). Essas lesões são melhores explicadas pela Tafonomia, que analisa o que ocorre com o osso, desde o momento em que ocorre a morte até o momento da análise. Um meio dessa análise é a mudança da coloração da superfície da fratura. Lesões Peri mortem Essa categoria de lesão costuma estar relacionada com as causas da morte. Assim, o maior interesse de análise do Antropólogo forense são essas lesões. Deve se considerar que, quando esse tipo de lesão ocorre, os ossos não perderam a sua elasticidade. Deste modo, tipicamente sabe-se que as lesões provocadas por objeto cortante vão ter um aspecto irregular e do tipo rasgado. Se a agressão no caso for por dobragem óssea, ou mesmo fratura, a tendência é serem mais oblíquas. Assim, são chamadas de reação de osso fresco ou “green boné” (MAPLES, 1986), lembrando que um osso seco perde a sua elasticidade e não se dobra. 39 ANTROPOLOGIA FORENSE │ UNIDADE I Ainda não podemos esquecer que a reação de tecido ósseo compacto e esponjoso são diferentes (BERRYMAN; SYMES, 1998). Assim deve-se ter diferentes interpretações para diferentes tipos de tecidos ósseos (CUNHA; PINHEIRO, 2007b, no prelo). Além do exposto, deve-se considerar o objeto utilizado para fazer a agressão. E tem-se ainda que a determinação do objeto utilizado é um dos propósitos a serem determinados. A mortepode ser natural, violenta ou indeterminada na autópsia. Se a classificação for por morte violenta, esta ainda pode ser dividida em: por intoxicação, por asfixia ou por traumatismo. Se for a causa traumática, o objeto pode ter uma classificação de contundente, inciso ou cortante ou perfurante e ainda pode ser um objeto que combine as características (PINHEIRO, 2006). São lesões peri mortais mais comuns: os de armas de fogo (perfurantes), contundentes e ainda incisos ou cortantes. Mesmo sendo as mais comuns na prática do Antropólogo Forense, é difícil a avaliação da correta variação e frequência dos três tipos de lesão pois vai depender de cada região analisada. Assim, cada tipo de objeto utilizado para provocar lesões vai ter uma resposta óssea diferente. Porém, uma regra básica na análise de cadáver é “diferentes causas podem produzir as mesmas lesões e que diferentes lesões podem ter sido causadas pela mesma arma e/ou mecanismo” (UBELAKER, 1991; RODRÍGUEZ‑MARTÍN, 2006). Um conhecimento um pouco melhor sobre o tecido ósseo vai nos ajudar a compreender as reações ósseas aos traumas. Osso é formado por uma parte inorgânica (cristais de hidroapatite) e orgânica (basicamente o colágeno). As partes orgânica e inorgânica do osso se entrelaçam, unidas por cálcio, cristais de hidroapatite que, neste caso, representam o material que dão as características de dureza e inflexibilidade. Já o colágeno possui características flexível e elástico e dúctil (WHITE; FOLKENS, 2000). Assim, esse tecido possui características impares (WHITE; FOLKENS, 2000), possuindo grande diferença de respostas traumáticas a traumas diferentes (SMITH et al., 2003). Tipicamente, acontece um trauma capaz de ultrapassar os cristais de hidroapatite, forma-se um T e tem-se a energia dissipada. A definição de fratura por Berryman e Symes. em 1998. é que ela acontece quando o peso é demasiadamente grande para que a racha se propague de um cristal para o outro na superfície. No pos mortem, a constituição óssea se altera, perdendo a parte aquosa e também a propriedade de elasticidade. Ou seja, perde-se a matéria orgânica, deixando de ter as propriedades a ela atribuída e, com isso, o osso se torna mais quebradiço. O osso seco, portanto, reage de uma forma diferente do osso vivo aos insultos e agressões. O tipo de estria que aparece em um osso seco ou fresco é diferente. A humidade que se tem no 40 UNIDADE I │ ANTROPOLOGIA FORENSE osso fresco traz um padrão de estrias transversais, tendo nele um padrão longitudinal (SAUER, 1998). Assim perante as dificuldades que o osso seco apresenta de ser informativo, o seu maior benefício é sobre a circunstância da morte e não a causa da morte. Então, pode-se, no caso, não determinar a causa da morte e esta passa a ser classificada como motivo desconhecido. O profissional de grande ajuda, neste caso, é o patologista forense. A função do antropólogo forense é de assistir o patologista no estabelecimento da causa e circunstância da morte (CUNHA; CATTANEO, 2006; PINHEIRO; CUNHA, 2006). 41 CAPÍTULO 6 Identificação em desastres e incidentes com grande número de vítimas Nos grandes desastres e catástrofes, os peritos têm que tentar responder com precisão às seguintes questões: 1. São restos humanos? 2. Quantos são os corpos? 3. Sexo, idade, cor (raça), estatura? 4. A quem pertence este corpo? 5. Qual a causa da morte? 6. Qual o tempo de morte? Grande número de vítimas de desastres aéreos tem sua identificação realizada pela perícia odontológica. Alguns autores como Wood, Blenkinsop, Johnston revelam que se os corpos a serem analisados estiverem em decomposição, ou até mesmo esqueletizados, o estudo da dentição humana tem maior probabilidade de conseguir verificar a identidade. Para que as vítimas de desastres sejam corretamente identificadas, deve-se aliar com uma equipe multidisciplinar. Essa equipe deve possuir o máximo de informação possível como registros anteriores à morte, exames pré-desastres, prontuários e marcas de tatuagem ou outra que permita identificar. 42 UNIDADE IIGENÉTICA FORENSE CAPÍTULO 1 Noções gerais de genética forense O primeiro caso no qual o DNA foi utilizado para identificar indivíduos ocorreu na Inglaterra, em 1985. Alec Jeffreys desenvolveu o método, coletou o sêmen de duas vítimas de estupro e através do exame DNA identificou um mesmo estuprador. Essa abordagem foi possível devido à evolução da genética em meados da década de 1980, começando com as bases da hereditariedade descritas por Mendel até as descobertas de Karl Landsteiner sobre os polimorfismos do sistema ABO. Mendel, por meio de experiências com a reprodução de ervilhas, mostrou a propagação de diferentes características hereditárias dos genitores para a prole, regidas pelas leis gerais de segregação e recombinação independentes. Landsteiner demonstrou que os sangues humanos poderiam ser classificados em grupos por meio de testes de aglutinação e identificação dos antígenos eritrocitários, conhecidos como sistema ABO. Quadro 1. Os grupos sanguíneos pelo sistema ABO. FENÓTIPO GENÓTIPO ANTÍGENO AGLUTININA A (IAIO) A anti-B (IAIA) A anti-B O (IOIO) nenhum Anti-A e anti-B B (IBIO) B anti-A (IBIB) B anti-A Esse sistema, associado ao conceito da herança mendeliana, possibilitou a sua utilização na determinação do parentesco. O sistema ABO, quando associado aos sistemas MN e Rh, permite excluir cerca de 70% dos casos acusados de paternidade. Essa probabilidade de identificação aumentou em torno de 90% com a descoberta do sistema HLA (histocompatility leucocite antigen), um grupo de genes codominantes que 43 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II expressam glicoproteínas na superfície das células, chamadas antígenos leucocitários. No entanto, esses sistemas ainda deixavam muitos casos inconclusivos. A descoberta do DNA e a ciência forense Com a descoberta da estrutura do DNA, em dupla hélice por Watson e Crick, em 1953, e os intensos avanços na biologia molecular na identificação humana, a análise direta do DNA tornou-se uma das mais importantes ferramentas para identificação dos indivíduos e das investigações criminais. O DNA revolucionou a ciência forense devido a sua alta variabilidade entre os indivíduos, de forma que é possível encontrar 6 milhões de diferenças entre duas pessoas escolhidas ao acaso. Ou seja, o DNA é único para cada indivíduo e permite a identificação por qualquer vestígio biológico com material genético. As principais vantagens da análise do DNA no processo de identificação são: » Alta estabilidade química em longos períodos; o DNA pode ser analisado em amostras antigas. » Pequena quantidade de células nucleadas de qualquer material biológico é suficiente para associar um suspeito ao crime. As fontes de análise podem ser sangue, cabelo, sêmen, saliva, urina ou qualquer outro fluido biológico. » Alto potencial discriminatório, quando comparado a outros exames sorológicos. » Alta sensibilidade na análise de poucas células. » Resistência aos fatores ambientais, como ácidos e detergentes. » Possível separar o DNA da célula espermática de outras células por lise diferencial de membranas. Para os exames sorológicos, a mistura do sêmen com outros fluidos resulta um problema na identificação nos casos de abuso sexual. O principal objetivo da análise do DNA na ciência forense é a exclusão de indivíduos falsamente associados ao material biológico e reduzir o número de suspeitos. No entanto, a análise do DNA como prova única não pode inocentar ou culpar uma pessoa pelo crime, mas sim estabelecer uma ligação entre essa pessoa e a cena do crime. A genética forense é a união de conhecimentos e técnicas da biologia molecular com o objetivode auxiliar a justiça. Sendo a ferramenta mais utilizada a análise do DNA para 44 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE identificação de indivíduos em testes de paternidade, casos criminais ou também na individualização de animais, plantas e microrganismos. Regiões hipervariáveis: estratégia na identificação humana Para realizar a identificação pelo DNA, são utilizadas regiões hiperváriaveis do DNA, já que são responsáveis por uma ampla variação entre os indivíduos pelo número de vezes que a sequência se repete e é variável de indivíduo a indivíduo. Essas regiões são denominadas polimorfismos de comprimento ou de sequência. Os polimorfismos de sequência são originados por uma ou mais substituições, adições ou deleções do DNA, e o mais frequente é o de substituição, chamado Single Nucleotide Polymorfism (SNP) e tem frequência maior que 1% na população. Estes marcadores têm a desvantagem de possuírem somente dois alelos, tornando maior a possibilidade de dois indivíduos compartilharem o mesmo genótipo. Uma maneira de contornar esta desvantagem seria o estudo de um número maior de marcadores. Os polimorfismos de comprimento são sequências de nucleotídeos que se repetem em determinado comprimento e podem ser de dois tipos: Os VNTRs e STRs. VNTRs (variable number of tandem repeats) são minissatélites com 15 a 35 pb de comprimento. Os locos VNTRs apresentam um número muito grande de alelos diferentes e, portanto, é pouco provável que indivíduos não aparentados tenham o mesmo genótipo. Os STRs (short tandem repeats) ou microssatélites são polimorfismos semelhantes aos VNTRs, mas diferem no comprimento, que variam de 2 a 7 nucleotídeos e possuem maior variabilidade de alelos do que os VNTRs. Dessa forma, quanto maior o número de loci analisados, maior a chance de acerto. As regiões mais polimórficas são as de maior interesse para a identificação e, por isso, os STRs são amplamente utilizados. Técnicas para análise do DNA Restriction Fragmente Length Polymorphism – RFLP O primeiro método desenvolvido para análise do DNA na medicina forense foi o RFLP (restriction fragmente length polymorphism). Esse método consiste na clivagem de 45 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II regiões polimórficas (VNTRs) por enzima de restrição e posterior análise dos fragmentos do DNA que diferem em tamanho entre os indivíduos. Essa técnica compreende as seguintes etapas: » Extração do DNA. » Digestão utilizando as enzimas de restrição. » Eletroforese, já que as diferenças nas sequências de DNA dos indivíduos resultam em fragmentos de tamanhos diferentes após a clivagem. » Detecção, que pode ser realizada por Shouthern Blot, na qual permite a identificação dos fragmentos de DNA, utilizando a própria sequência polimórfica como sonda. » Desnaturação e hibridização. Apenas os fragmentos que são complementares a sonda radioativa serão visualizados. » Autorradiografia. » Análise dos dados. No final do processo, é observado um padrão individual dos fragmentos de DNA, chamado Fingerprint de DNA (figura 18). Esse termo teve origem com o desenvolvimento da sonda multilocal (MLP). Essa sonda MLP avalia muitos loci ao mesmo tempo e produz inúmeras bandas. Posteriormente, surgiram as sondas unilocais (SLP) que estuda cada locus de minissatélites. As sondas SLP foram adotadas por apresentarem maior sensibilidade e facilidade na interpretação dos resultados. No entanto, a técnica é laboriosa e é necessário DNA íntegro e em grande quantidade. Figura 18. Exemplo da técnica RFLP utilizada para identificar o genótipo. Fonte: Adapatada <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/core/assets/probe/images/rflp_genotyping>. 46 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE PCR A reação em cadeia da polimerase (PCR) foi descrita por Kary Mullis, em 1985, e baseia- se na amplificação seletiva de uma molécula de DNA milhares de vezes em poucas horas. Esse método revolucionou a biologia molecular e foi uma potencial resposta para a escassez de material biológico encontrada na área forense (Tabela 2), já que permite a amplificação de amostras degradadas, antigas ou em pequena quantidade. Tabela 2. Quantidade aproximada de DNA em diferentes amostras biológicas, baseado nos estudos de Kobilinski (1992). Fonte Quantidade de DNA Sangue Raiz de cabelo Líquido amniótico Fígado Músculo Esperma Pele Célula diploide humana Sêmen 30 a 60 µg/mL 250ng/raiz de cabelo 65 ng/ml 15 µg/mg 3 µg/mg 3,3 pg/cel 15 µg/mg 5 a 6 pg 480 15 µg/mL Fonte: adaptada de Kobilinski (1992). A PCR é uma amplificação enzimática de uma região conhecida do DNA. Assim, na reação é necessário utilizar primers (oligonucleotídeos iniciadores) para iniciar a síntese de DNA na região de interesse. A reação ocorre na presença de DNA-polimerase termoestável e dos quatro desoxirribonucleosídeos trifosfatos (dATP, dCTP, dGTP e dTTP), na qual é iniciada a síntese de novas fitas de DNA complementares a fitas-molde. A cada ciclo da reação as fitas de DNA recém-sintetizadas irão atuar como molde para mais uma síntese de DNA. Esse processo é repetido múltiplas vezes, com a duplicação das moléculas de DNA a cada ciclo de replicação, resultando numa amplificação exponencial da sequência do DNA-alvo. Cada ciclo é composto pelas seguintes fases: 1. Desnaturação da sequência de DNA para que as duas fitas se separem (± 90ºC) 2. Pareamento (Annealing) dos primers (± 60ºC). 3. Extensão dos primers (± 72ºC). 47 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II Figura 19. A reação de PCR e suas etapas: desnaturação, anelamento e extensão. Fonte: adaptada de Sampaio, S.O et al., 2002. A principal limitação da técnica de PCR na medicina forense é a contaminação do DNA, já que o DNA contaminante pode dificultar a interpretação ou até levar a uma falsa conclusão. Para minimizar esse erro, devem-se utilizar controles negativos na reação. Atualmente, por meio da PCR, todos os polimorfismos descritos anteriormente são analisados. Os métodos utilizados são: AmpFLPs (Amplified Fragment Length Polymorphisms), STRs (repetições tandem curtas) e sequenciamento direto do DNA mitocondrial (mtDNA). 48 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE Os sistemas AMPFLPs são os loci VNTR, cujos alelos possuem tamanhos moleculares, aproximadamente, de 100 a 2000 pb. Esse sistema é baseado na amplificação das regiões polimórficas e posterior separação por tamanho dos fragmentos por eletroforese em gel de poliacrilamida. Esse método é muito mais rápido, comparado ao RFLP, pois elimina as etapas de Southern blot e de autorradiografia. Esse sistema pode ser utilizado nos testes de paternidade (figura 20). Figura 20. Análise de uma região VNTR para investigação da paternidade. Fonte: adaptada de Sampaio, S.O et al., 2002. A linha 1 contém o DNA da mãe, linha 2 do filho, linha 3 do suposto pai e linha 4 contém DNA do filho e suposto pai. Podemos excluir a paternidade do suposto pai, já que o filho não herdou nenhum alelo do suposto pai. A análise de STRs, por meio do PCR, utiliza iniciadores (primers) que amplificam estas regiões altamente variáveis do genoma humano, e resultam em uma impressão digital característica de DNA para cada indivíduo. Essa análise dos loci STR tem maior sensibilidade, pois apresenta menor tamanho dos produtos de amplificação e também melhor eficiência em amostras degradadas. Os fragmentos STRs são suscetíveis ao PCR multiplex, ou seja, à amplificação simultânea de vários loci numa única reação, aumentando o poder de discriminação e rapidez na análise. Após a validação pelo FBI – Federal Bureau Investigation, de 13 loci de STR para análise forense, surgiram os testes comerciais desenvolvidos com menor sensibilidade que os sistemas convencionais de SNTRs (não distinguem homensda mesma origem paternal). Os polimorfismos de nucleotídeo único Y-SNP são alvos interessantes nas investigações forenses pelos testes comerciais para estudo de STRs. 49 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II Também é possível analisar os STRs pelo sequenciamento automático, na qual diversos STRs são amplificados pelo PCR multiplex adquirido em kit comercial. O produto da reação dos STRs é observado por m eio de seus respectivos tamanhos ou pela marcação dos primers com diferentes fluoróforos, pela migração em gel de eletroforese de alta resolução, localizado dentro de um capilar. A análise de STRs utilizando laser é mais sensível em comparação a outras técnicas e pouco DNA é necessário para a genotipagem. É possível fazer a identificação do sexo do individuo pelas áreas polimórficas do cromossomo Y. Esses testes são utilizados em casos de disputa de paternidade de filhos do sexo masculino e em crimes sexuais que envolvam mistura de secreção vaginal com sêmen. Os testes Y-STR facilitam a discriminação do componente masculino. A ciência forense tem interesse no DNA mitocondrial devido a maior resistência à degradação que o nuclear. Dessa forma, pode ser uma opção em grandes desastres, quando há dificuldade na identificação dos corpos. O DNA mitocondrial, além de ser uma molécula menor, comparada ao nuclear, possui uma herança genética materna de 100%. Há duas técnicas utilizadas para analisar o DNA mitocondrial: o sequenciamento do DNA e o método dot blotting, ambas baseadas na região D-loop, onde é encontrada maior variação entre os indivíduos. A taxa de mutação nesta região é de cinco a dez vezes maiores em comparação com o DNA nuclear. No sequenciamento, as amostras biológicas são analisadas comparando o polimorfismo encontrado nas regiões D-loop com aqueles encontrados na linhagem materna, ou a partir de um banco de dados da população, quando se deseja, por exemplo, definir o grupo étnico do suspeito, uma vez que cada população de origem distinta possui um conjunto específico de SNPs. No método dot blotting, cada molécula de DNA amplificada é separada e fixada em uma membrana. Após uma sonda específica, é colocada na membrana e só irá ocorrer a hibridização caso a sequência de DNA seja complementar à sonda. Os resultados são visualizados usando autorradiografia. Essa análise de DNA mitocondrial é muito importante na genética forense, uma vez que tem papel fundamental nos casos relacionados ao desaparecimento de pessoas, pela possibilidade de se comparar o DNA mitocondrial da mãe, irmãos ou de outros parentes com relações maternas, com o DNA da pessoa desaparecida. 50 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE Pode ser utilizada em casos de materiais biológicos misturados, já que, se uma amostra biológica apresentar mais de um perfil de DNA mitocondrial, é indicativo da presença de uma mistura de materiais genéticos na evidência forense analisada. Entretanto, a tipagem de DNA mitocondrial só dará um resultado correto e definitivo se a variação do DNA do indivíduo em questão for concordante com a de seus parentes maternos, pois a taxa de mutação é muito alta e uma diferença de sequência não significa necessariamente que os indivíduos comparados não sejam relacionados. Diante dos métodos apresentados, o mais utilizado para identificação humana é a análise de STRs por PCR. Devido as seguintes vantagens: » menor taxa de mutação; » facilidade de discriminar alelos diferentes; » facilidade de montar bancos de dados da população local; » sem uso de radioatividade; » análise possível com pouco DNA, degradado ou intacto; » possível analisar DNA da mucosa oral; » permite a construção de escadas alélicas com todos os alelos possíveis; » fácil interpretação; » procedimento tecnicamente simples; » rapidez do resultado; » fácil padronização intra e interlaboratorial; » possível determinação simultânea do sexo dos indivíduos testados; » tamanhos pequenos e definidos dos fragmentos permitem múltiplas amplificações simultâneas (multiplex); » possibilidade de automatização. A otimização da metodologia dos STRs possibilitou a análise de amostras de DNA intensamente degradadas, como por exemplo, nos casos de catástrofes e amostras muito antigas. A modificação se baseia na análise de fragmentos menores e, portanto, produtos de amplificação de tamanho reduzido. Esse método modificado foi nomeado mini-STRs. 51 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II O mini-STR foi inicialmente desenvolvido pelo laboratório Bode (EUA) para a identificação das vítimas do World Trade Center. Essa análise pode ser realizada pelo sistema multiplex, possibilitando a análise de vários locus na mesma reação. Novas perspectivas na análise do DNA na ciência forense: metilação do DNA A ciência forense está em constante renovação e busca de novas metodologias que possibilitem a reconstrução de cenas do crime por meio da identificação de fluidos biológicos ou tecidos. Nesse sentido, a análise de regiões diferencialmente metiladas está sendo considerada como uma potencial metodologia. A metilação do DNA consiste em mudanças na expressão gênica, sem resultar em mudanças na sequência de bases. Essas mudanças podem ser reversíveis e herdáveis. Os mecanismos epigenéticos são: metilação do DNA, modificação em histonas e RNAs não codificantes. A metilação do DNA está relacionada com o silenciamento gênico em regiões promotoras. Estudos de Genome-wide têm mostrado que há um perfil de metilação tecido-específico e vários segmentos do cromossomo são chamados de regiões metiladas tecido-especificas (tDMRs), ou seja, há vários padrões de metilação de acordo com o tecido ou tipo celular. Assim, por diferentes perfis de metilação, é possível identificar tecidos, circunstâncias que levaram a morte, informações sobre como ou quando os fluidos biológicos estão na cena do crime, assim como fornecer estimativas da idade, sexo e características fenotípicas do suspeito. Nem sempre o DNA encontrado nas cenas do crime é de origem biológica. Ou seja, é importante considerar que essa amostra pode ser manipulada, já que o exame de DNA é uma prova importante nos tribunais. Assim, um estudo analisou as regiões tDMRs sabidamente metiladas e não metiladas de um DNA sintético comparado ao DNA humano. E observou que no DNA artificial todos os loci são não metilados, enquanto no DNA biológico há alguns locis metilados e outros não metilados. Esse estudo permite a ciência forense e a justiça aumentar a credibilidade da amostra de DNA localizada na cena do crime e evitar os casos de acusação incorreta. Diversos estudos tem mostrado diferentes perfis de metilação nas tDMRs em amostras de sangue, saliva, sêmen, fluido vaginal e sangue menstrual. Lee e colaboradores, pela análise de 5 regiões tDMRs, mostraram um padrão de metilação diferencial em todos esses tecidos analisados. 52 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE Wasserstrom e colaboradores desenvolveram um kit conhecido como identificador fonte de DNA (DSI-semen) do inglês DNA source identifier. Na qual o sangue, saliva, sêmen, fluido vaginal, sangue menstrual e urina amostras foram analisadas em 5 regiões tDMRs e identificados níveis de confiança acima de 0,9999. A determinação do sexo por análise de metilação foi introduzido na ciência forense por Naito e colaboradores, baseado na variação do padrão de metilação de uma região específica do cromossomo X, a DXZ4. Essa região apresenta hipermetilação no cromossomo X ativo e baixa metilação no X inativo. Essa metodologia é sensível e é necessária pouca quantidade de DNA para determinar o sexo. A relação entre metilação do DNA e sexo foi intensamente explorada usando a plataforma lllumina GoldenGate bead array. Nela, foram analisadas até1505 CpG sítios e 800 regiões foram analisadas de sangue periférico de 46 homens, 46 mulheres e 96 controles. Este estudo mostrou que, quem em todas as probes do cromossomo X, são mais metiladas em mulheres do que em homens. A possibilidade de predizer a idade de indivíduos envolvidos nos crimes ou de vítimas, por meio de fluidos biológicos e tecidos, é de enorme interesse na investigação forense. Utilizando a plataforma Illumina HumanMethylation27, um grupo de pesquisadores desenvolveu um modelo de regressão para calcular uma estimativa da idade da amostra biológica. As amostras de saliva foram coletadas de participantes entre as idades de 21 e 55. O estudo revelou que padrões de metilação em três promotores diminuíam com a idade e um promotor NPTX2 aumentava com a idade. Esse modelo pode prever a idade da amostra biológica com uma precisão de aproximadamente 5 anos. Além das aplicações citadas acima, a metilação do DNA pode ser utilizada para a distinção de gêmeos monozigóticos e como marcadores informativos de ancestralidade. Assim, é uma ferramenta que tem sido intensamente explorada e com enorme interesse na ciência forense. Banco de dados genético A criação dos bancos de dados de perfis genéticos tem aumentado às perspectivas da ciência forense e alterou o curso do sistema de justiça criminal, já que aumentam a possibilidade da identificação de indivíduos e a resolução de casos, nos quais não há suspeitos. Esses bancos de DNA armazenam perfis genéticos, das evidências encontradas, como do suspeito ou criminoso, assim, é possível solucionar e interligar um maior número de casos criminais e contribuir com a identificação de pessoas desaparecidas e restos mortais de vítimas. 53 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II O primeiro banco de dados de perfis de DNA de criminosos foi criado na Inglaterra em 1987, quando a polícia começou a analisar o perfil genético de todos os homens entre 16 e 34 anos para solucionar dois crimes de estupro cometidos pela mesma pessoa. Com a criação do banco, o primeiro suspeito foi inocentado e o verdadeiro criminoso foi condenado à prisão. No entanto, o banco mais importante, criado pelo FBI nos Estados Unidos, é o Sistema de Índice de DNA Combinado (CODIS). Esse banco iniciou como um projeto piloto em 1990 e ganhou impulso com o “DNA Identification Act”, de 1994, que deu ao FBI a autoridade de estabelecer um banco de dados em nível nacional com a finalidade de investigação criminal. Há dois arquivos diferentes de perfis genéticos com objetivos complementares. O “Índice Forense” (Forensic index) contém, atualmente, 96.473 perfis genéticos obtidos a partir de cenas de crimes; e o “Índice de Criminosos” (Offender Index) contém 2.072.513 perfis genéticos de criminosos condenados por crimes sexuais e outros crimes violentos. Até dezembro de 2004, o Codis havia permitido 19 mil identificações de suspeitos, demonstrando sua grande importância. Procedimentos técnicos para análise do DNA Há alguns procedimentos essências na análise de DNA, independente do tipo de amostra que será analisada. As etapas desses procedimentos são: » Isolamento do DNA da amostra desconhecida (amostra questionada) e amostra conhecida (amostra-referência). » Processamento do DNA. » Realização da técnica para obter a tipagem de regiões específicas do DNA. » Comparação e interpretação dos resultados dos testes. A metodologia que geralmente é empregada é a analise de STRs devido a baixa qualidade das amostras voltadas a identificação de pessoas e resolução de crimes. Essa metodologia envolve os seguintes passos: Coleta de materiais: crucial para prosseguir nas análises, uma vez que a quantidade e o tipo de vestígio biológico e o modo de preservação são pontos críticos para análise do DNA. Além disso, se o DNA não for apropriadamente documentado na coleta, sua origem pode ser questionada. Podem ser utilizadas as seguintes amostras: sangue, sêmen, saliva, pelos e cabelos, células da pele, urina, secreções nasais, marcas de 54 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE mordidas (para se extrair saliva), restos humanos. A amostra referência utilizada para tipagem do DNA é o sangue. Extração de DNA: o DNA deve estar livre de contaminantes, então, geralmente além da extração, emprega-se a purificação do DNA. O método de extração depende do tipo de amostras e da quantidade disponível. No entanto, os passos básicos da extração são: » Lise das membranas. » Remoção das proteínas e outras macromoléculas. » Precipitação do DNA. Quantificação do DNA: verificar se há contaminantes e determinação a concentração adequada para o método em questão. Para estimar a concentração, utiliza-se espectrometria de absorção no ultravioleta ou espectrometria de fluorescência. Amplificação por PCR: nessa haverá amplificação exponencial da região de interesse do DNA, como já explicado. Comparação dos perfis genéticos: para comparar se uma amostra encontrada no local do crime é a de um suspeito, deve-se levar em consideração se o perfil deste DNA é comum na população. Se for comum, o vestígio pode ter sido originado por outra pessoa que não o sujeito. No entanto, se for incomum, deverão ser analisados loci em quantidade suficiente que o indivíduo não possa ser excluído como fonte do DNA e também excluir toda a população mundial. Cálculos estatísticos, se necessários: realizados por probabilidade e relação de verossimilhança. Elaboração de laudo ou relatório: laudo pericial contém os esclarecimentos que permitem fornecer ao promotor de justiça e ao juiz, condições qualitativas e quantitativas, suficientes para definir a infração penal ou ter argumentos para provar a inexistência do delito ou a contravenção penal ao juiz e fornecer provas seguras para um determinado evento. Controle de qualidade Os laboratórios que realizam a genotipagem do DNA devem obedecer a alguns critérios e implementar normas de qualidade, com o objetivo de minimizar há existência de erros técnicos e maximizar a confiabilidade. 55 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II Há um programa de regulamentação da tipagem do DNA proposto pela NRC de 1992, a qual indica alguns componentes de qualidade, sintetizados aqui: 1. Cada analista deve ter competência (instrução, treinamento e experiência) para o desenvolvimento da técnica. 2. Os analistas devem ter a compreensão dos princípios, dos usos e das limitações dos testes realizados. 3. Os analistas devem submeter-se a testes periódicos de qualidade, e os equipamentos e procedimentos atender aos critérios específicos. 4. Reagentes e equipamentos devem ser monitorados. 5. Os procedimentos usados devem ter base científica. 6. Os controles devem ser usados e especificados. 7. Deve ocorrer a padronização de novos procedimentos antes da implementação. 8. Os procedimentos devem ser registrados claramente para manipular e preservar a integridade da prova. 9. Cada laboratório deve participar de um programa externo de testes de qualidade. 10. Registro do caso que apoiem as conclusões dos examinadores devem ser arquivados no laboratório e estar a disposição para inspeção do tribunal, após revisão da procedência de uma petição. 56 CAPÍTULO 2 Investigação de paternidade, maternidade ou ambos Os casos de investigação de filiação mais comuns são os testes de paternidade. Por isso esse teste será amplamente explorado nesse capítulo. No entanto, quando é necessária uma investigação de maternidade, a metodologia usada é idêntica aos testes de paternidade. O objetivo da investigação da paternidade é determinar se um suposto pai é ou não excluído da possibilidade de ser o pai biológico. Geralmente, os testes de paternidade são feitos por meio da análise do DNA encontrado nasamostras de sangue dos supostos pai e filho. Porém, outros materiais biológicos, como saliva ou fio de cabelo, podem ser utilizados. Dentre os métodos de identificação apresentados, o mais utilizado em testes de paternidade é a análise de locos genéticos de STRs. A exclusão da paternidade ocorre quando um marcador do DNA do filho não existir no perfil do DNA paterno. No entanto, a exclusão só pode ser confirmada quando mais de dois locus do alelo paterno do filho não é compartilhado pelo pai. Figura 21. A análise de uma região STR (vWA). O marcador alélico (primeira linha) permite analisar os alelos observados no suposto pai (segunda linha), no filho (terceira linha) e sua respectiva mãe (quarta linha). Fonte: Sampaio, S. O et al., 2002. 57 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II Se houver a identidade entre o alelo paterno no filho com um dos alelos do suposto pai, é necessário calcular o índice de paternidade (IP), o índice de paternidade cumulativo (IPC), a probabilidade de paternidade (PP) e a probabilidade de exclusão (PE). O IP é uma razão de verossimilhança, na qual a probabilidade do perfil mãe-filho-pai, considerando o pai verdadeiro, dividido pela probabilidade desta combinação se um homem ao acaso fosse o pai. Esse cálculo leva em consideração o equilíbrio de HW (Hard-Weinberg), assim a probabilidade de que um homem ao acaso transmita um alelo especiífico para criança em questão é igual a frequência da população. O IP de cada um dos loci dos sistemas múltiplos utilizados na avaliação deve ser calculados. O produto dos IPs é o IPC. O IPC mensura a força da prova do DNA, indicando se a hipótese de que o suposto pai seja o pai biológico da criança é mais próximo da hipótese de qualquer homem seja o pai. A PP indica qual é a credibilidade atribuída à hipótese do suposto pai ser o pai biológico da criança, baseada no Teorema de Bayes. Baseada nos perfis alélicos, encontrados para a mãe-criança e suposto pai e considerando a hipótese do homem testado ser o pai da criança. A PP pode ser calculada pela seguinte fórmula: PP= IPCx P/[IPC xP + (1-P)] P é a probabilidade considerada 0.5. A PE é a probabilidade de se excluir como pai biológico um homem qualquer da população. Quando o suposto pai é falecido, é possível utilizar a análise dos STRs do cromossomo y do filho dos homens aparentados para a exclusão da paternidade (Figura 22). Figura 22. Exclusão da paternidade pela análise do STR do cromossomo Y. João Fictício (autor) e um neto do seu suposto pai (José fictício). 58 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE Fonte: JOBIM, M.R et al., 2008. Outro exemplo da análise de STRs foi a comparação do haplótipo do DNA do cromossomo Y na identificação de Saddam Hussein por meio do DNA extraído dos corpos de seus filhos mortos em combate (figura 23). Figura 23. Identificação de Sadaam Hussein através de haplótipos do cromossomo Y. Fonte: BUBLER, J.M. (2005). Forensic DNA Typing. 2.ed. Também é possível a análise pelo cromossomo X, mas só é utilizada em casos de difícil resolução e os índices de probabilidade são baixos (menor que 99%). Temos um exemplo na tabela 3, na qual o suposto pai era falecido e foram avaliados 18 locos de DNA autossômicos na autora, sua mãe e duas filhas biológicas do falecido. Com essa análise, chegou-se a uma probabilidade de paternidade de 90%. Entre as irmãs, somente podemos encontrar 3 alelos do cromossomo X, um de origem paterna e 2 de origem materna. 59 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II Tabela 3. Investigação da paternidade pelo cromossomo X. Fonte: JOBIM, M.R et al. (2008). Em um exemplo de análise comparativa, no locos DXS7424, a autora herdou o alelo 16 da sua mãe e o 18 do seu pai biológico. As supostas irmãs herdaram o alelo 15 do seu pai e herdaram da mãe os alelos 16 e 17, Assim os 3 alelos possíveis de existir são15, 16 e 17. Mas a autora apresenta o alelo 18, o que é impossível de acontecer ou alguma mutação ocorreu. Investigação de paternidade em pessoas já falecidas Há dois métodos utilizados para a investigação de paternidade em pessoas já falecidas: » método indireto – quando é possível o acesso aos familiares próximos do indivíduo falecido. A probabilidade de acerto deste tipo de exame depende da natureza e do número de familiares estudados. Por meio deles, é possível fazer a reconstituição do genótipo do suposto pai falecido e, em seguida, são comparados com o DNA da criança e de sua mãe biológica. » Método direto – quando não há familiares do suposto pai falecido. Dessa forma, o DNA é extraído de amostras de tecidos obtidos para estudos patológicos após a morte (autópsia), ou ainda mesmo em vida (biópsias, peças cirúrgicas), ou, alternativamente, pela exumação do cadáver. 60 CAPÍTULO 3 Provas médico-legais De acordo com o professor Genival Veloso de França, as provas médico-legais se dividem em genéticas e não genéticas. As provas médico-legais não genéticas são divididas em: 1. Elementos relacionados com o ato gerador e suas consequências diretas: › dados biológicos sobre a gestação; › verificação da ausência ou da possibilidade de coabitação (virgindade, impotência); › verificação de impossibilidade de fecundação; inexistência de parto; › aplicação de métodos anticoncepcionais definitivos. 2. Elementos relativos à idade do filho: › para confronto com a época da coabitação; › para confronto com a data conhecida do parto. As provas genéticas baseiam-se na comparação entre as características herdadas do filho e os do suposto pai genitor. E podem ser pré-mendelianas ou mendelianas. As provas pré-mendelianas são: a prova da semelhança, caracteres adquiridos, impressões maternas e telegonia. As provas genéticas mendelianas são divididas em não sanguíneas e sanguíneas. Provas genéticas não sanguíneas Exame do pavilhão auricular – há indivíduos que apresentam o lóbulo da orelha livre e outras o têm preso. O caráter hereditário que determina o lóbulo livre é dominante, apresentando o genótipo LL ou Ll, já o lóbulo preso é recessivo, ou seja, ll. Assim, quando ambos os genitores têm lóbulos presos, todos os filhos nascem com lóbulos presos. Anomalias dos dedos – a braquidactilia é fator hereditário dominante, caracterizado por dedos curtos: BB. O fator normal é recessivo bb. Dessa forma, um indivíduo 61 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II braquidactílico, BB, em união com um indivíduo normal bb, todos os filhos serão braquidactílicos. Provas genéticas sanguíneas A cor dos olhos – a cor dos olhos também depende de fatores hereditários. O fator para os olhos castanhos é dominante sobre o fator para olhos azuis. Consequentemente, dois genitores de olhos castanhos podem ter filhos de olhos castanhos ou de olhos azuis. Porém, genitores de olhos azuis, nunca poderão ter filhos de olhos castanhos. Os cabelos – os cabelos remoinham, quase sempre, da esquerda para a direita, a coroa é dextrogira (dominante), mas em raros casos, gira para a esquerda (recessiva). Assim genitores levógiros (dd), não podem ter nenhum filho dextrogiro. A pele – a coloração da pele humana depende da ação cumulativa de diversos pares de fatores mendelianos (polimeria). É importante destacar a pouca confiabilidade presente nas provas não sanguíneas, por não afirmar com certeza absoluta o vínculo hereditário, mas apenas excluí-lo quando diante de certos e determinados resultados. O sistema ABO – como já foi descrito, foi um dos primeiros sistemas utilizados na identificação humana. No caso de um indivíduo que pertence ao grupo O, genótipo recessivo (ii), necessariamente, ele recebeu um alelo paterno e materno. Então ou os pais são recessivos ou são heterozigotos para o alelo O. Fatores Rh e rh – descoberto em 1940, a partir dosangue do gênero do macaco Rhesus. Analisando o sangue de muitos indivíduos da espécie humana, Landsteiner verificou que, ao misturar gotas de sangue dos indivíduos com o soro contendo anti-Rh, cerca de 85% dos indivíduos apresentavam aglutinação e 15% não apresentavam. Definiu-se, assim, o grupo sangüíneo Rh+ (apresentavam o antígeno Rh) e o grupo Rh- (não apresentavam o antígeno Rh). A prova do DNA no sistema legal Para que os métodos utilizados para tipagem do DNA e individualização tenham validade judicial, devem seguir procedimentos cientificamente aceitáveis. A duas questões nesse sentido são a validação cientifica do método para comparar as amostras e a definição do perfil genético como prova da identidade. 62 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE Para análise de VNTRs, STRs ou outros loci, há padrões necessários para ser válido cientificamente. Nos Estados Unidos, há 2 padrões para os testes serem admitidos como prova: teste de aceitação geral e padrão da metodologia consistente. No padrão da metodologia consistente, o proponente da prova científica deve demonstrar que a teoria e a metodologia são aceitas pela comunidade científica. A maior parte das contestações sobre a admissão dos resultados de DNA é relacionada a considerações sobre os protocolos e procedimentos utilizados não eram adequados para reduzir o risco de erro. Aspectos jurídicos da investigação de paternidade A utilização das informações do DNA no sistema legal brasileiro se tornou comum a partir de 1990, em litígios cíveis, e posteriormente como um dos meios de convicção probatória na investigação criminal. Antes do advento da Carta Magna em 1988, o Código Civil impedia o reconhecimento de filhos incestuosos e adulterinos, e limitava a prerrogativa de investigar a paternidade legítima aos filhos naturais. Esta posição foi alterada pelo art. 227, § 6o, da Constituição Federal, que proclamou a igualdade entre os filhos havidos ou não da relação de casamento. Com o propósito de proteção dos filhos, em dezembro de 1992, surge a lei no 8.560, que veio regular a investigação de paternidade dos filhos havidos fora do casamento e dá outras providências. Trata-se da Investigação de Paternidade ex-officio, que se dá em casos de reconhecimento por registro de nascimento de menor apenas pela mãe, no qual a iniciativa parte do juiz. Art. 2o da Lei 8.560/1992 – Em registro de nascimento de menor apenas com a maternidade estabelecida, o oficial remeterá ao juiz certidão integral do registro e o nome e o prenome, profissão, identidade e residência do suposto pai, a fim de ser averiguada oficiosamente a procedência da ação. § 1o - O juiz, sempre que possível, ouvirá a mãe sobre a paternidade alegada e mandará, em qualquer caso, notificar o suposto pai, independente de seu estado civil, para que se manifeste sobre a paternidade que lhe é atribuída. 63 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II § 2o - O juiz, quando entender necessário, determinará que a diligência seja realizada em segredo de justiça. §3o - No caso do suposto pai confirmar expressamente a paternidade, será lavrado termo de reconhecimento e remetida certidão ao oficial do registro civil, para a devida averbação. §4o - Se o suposto pai não atender no prazo de 30 dias, a notificação judicial, ou negar a alegada paternidade, o juiz remeterá os autos ao representante do Ministério Público para que intente, havendo elementos suficientes, a ação de investigação de paternidade. §5o - À iniciativa conferida ao Ministério Público não impede a quem tenha legítimo interesse de intentar investigação, visando a obter o pretendido reconhecimento da paternidade, Afora esta hipótese, a investigação de paternidade se processa através de ação ordinária promovida pelo filho (investigante) contra o suposto pai (investigado) ou seus herdeiros, podendo vir cumulada com ação de petição de herança. O Código Civil admite as seguintes hipóteses para que se permita a investigação de paternidade: Concubinato O concubinato é a união do homem e da mulher, de caráter mais ou menos prolongado, para o fim de satisfação sexual e assistência mútua, que implica em uma presumida fidelidade da mulher ao homem. Vê-se, de logo, a não exigência da Lei em relação a habitação, exigida no concubinato antigo. Atualmente o elemento fundamental para caracterizar o concubinato é a presumida fidelidade dos concubinos, sem deixar de considerar a notoriedade da relação e a continuidade das relações sexuais. Uma vez provado o concubinato, surge a presunção legal de paternidade do concubinário, a qual, embora vencível, reverte o ônus da prova, devendo-se o investigado provar que o investigante, concebido na vigência daquela relação, é filho de outro, que não dele. Na defesa, deve o contestante ou negar a existência de concubinato, ou demonstrar que o autor não foi gerado na sua vigência, ou aduzir a exceptio plurium concubentium (consiste em alegar que, à época da concepção, a mãe do investigante manteve relações sexuais com outro ou outros homens, que não o indigitado pai). 64 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE O rapto O rapto com fim libidinoso, tratado no art. 219 do CP, devendo-se comprovar o rapto e se o mesmo coincidir com a data da concepção. Relações sexuais Com base no inciso II, segunda parte do artigo 363 do CC, permite-se a investigação no caso de o investigante alegar relações sexuais entre sua mãe e o investigado. Mesmo sendo de difícil prova, as relações sexuais, seus indícios devem ser veementes. Nestes casos, a exceptio plurium concubentium é a defesa adequada para ilidir a ação. Existência de escrito daquele a quem se atribui a paternidade, reconhecendo-a expressamente Por meio de instrumento particular, o fato deverá ser declarado, podendo servir de base a uma investigação de paternidade. A expressão escrito, usada pelo legislador, visa abranger as declarações, notas particulares, cartas, testamentos nulos, anulados e revogados. Após o aprendizado dos diferentes métodos aplicados na investigação forense, segue um relato de caso intitulado “A importância da coleta de material peniano do suspeito em casos de crimes sexuais: um relato de caso” para evidenciar a importância da análise do DNA em investigações criminai. “A mãe de uma criança de 11 anos, sexo masculino, diagnosticado como autista, fez uma denúncia, pois desconfiava que seu filho havia sido vítima de violência sexual, tendo como autor um vizinho. A vítima e o suspeito foram conduzidos à Perícia Forense do Estado do Ceará, pelas autoridades judiciais. Foi procedido o exame médico legal e em seguida foram coletados swab oral e anal da vítima. A polícia também encaminhou o acusado para realizar coleta de material genético para investigação do caso, sendo coletados um swab oral e um swab peniano (glande e prepúcio). De acordo com os achados do exame médico não foram detectadas lesões compatíveis com coito anal ou sinais de violência na criança, portanto os achados laboratoriais (análise de DNA) passariam a ser a principal fonte de evidências do delito. 65 GENÉTICA FORENSE │ UNIDADE II Nesse breve relato de caso, podemos identificar que a análise de DNA é decisória para elucidação do caso, já que o exame médico legal foi inconclusivo perante a acusação. Assim, esse caso foi conduzido utilizando-se dois sistemas STRs comerciais, um com 23 loci gênicos e outro com 16 haplotípicos e, analisados por corrida eletroforética pelo ABI PRISM 3130 Genetic Analyzer da Applied Biosystems. Segue a tabela com o perfil dos locis analisados nesse artigo (Tabela 4). Quadro 4. Resultado da análise dos 18 locis gênicos analisados nas amostras de DNA. Fonte: adaptada de Sampaio,S.O et al., 2002. Como podemos observar no quadro 4, há presença da amostra de DNA da vítima e do acusado no swab peniano do acusado evidenciado pelas sondas D8S1179, D21S11, THO1, D13S317, DS16S539, D19S433,VWA, D18S51,FGA, Penta-E, D10S1248 e D12S391. No entanto, na amostra de Swab anal da vítima, há apenas material genético da vítima. O artigo utilizou as seguintes hipóteses para testar qual era o contribuinte da segunda amostra. H1 - As pessoas que contribuíram com material genético para produção da referida amostra questionada foram o acusado e a vítima; 66 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE H2 - As pessoas que contribuíram com material genético para produção da referida amostra questionada foram o suspeito e uma terceira pessoa desconhecida. Como abordamos nos temas anteriores, é necessário para a identificação do sujeito pela análise do DNA, um teste de hipótese com suporte estatístico. Para testar as hipóteses devem-se comparar os perfis genotípicos da vítima com o acusado e de uma pessoa qualquer e o acusado e efetuar os cálculos estatísticos de cada possibilidade, conforme o trecho do artigo: De acordo com os cálculos estatísticos, confrontadas as duas hipóteses acima mencionadas, utilizando-se o programa DNA MIXversão3.2, verificou-se que a possibilidade da vítima ter contribuído, junto com o acusado, para a produção da mistura de material genético presente na amostra extraída do swab peniano é 216,5 quintilhões de vezes maior que a possibilidade de uma terceira pessoa ter contribuído, junto com o acusado, para a produção desta mistura. Associado a essa análise também foi avaliado o perfil do cromossomo Y por STRs nas amostras de swabs anais coletados da vítima e do swab peniano do acusado. Na amostra da vítima foi encontrado apenas o próprio perfil haplotípico da vitima, enquanto na amostra do acusado foi observado dois perfis haplotípicos do mesmo sexo, e os alelos da vítima estavam presentes na maioria dos loci estudados. Assim, de acordo com o código penal brasileiro, o caso se configura como estupro diante das provas apresentadas pelo exame de DNA. 67 Para (não) finalizar Como a radiografia pode auxiliar na identificação humana A identificação, através do raio X, ou radiografia, faz um papel muito importante na identificação de cadáveres com estados de decomposição importante ou que são afetados por queimadas. Assim, não é possível o reconhecimento visual comum, métodos de reconhecimento por roupas, ou pele, aplicado a outros cadáveres. De acordo com Buchner [...] quando da compara cão de radiografias do crânio anteriores e posteriores à morte, as medidas do crânio, a avaliação detalhada dos seios da face e da área mastóide, podem servir como base para a identificação. Quando se utiliza o método de reconhecimento por radiografias, é um pré-requisito que se tenha as radiografias prévias para comparar. Isso é muito importante, pois é a partir dessas radiografias anteriores que vamos descobrir alguma semelhança como marcos anatômico. É assim que será possível uma prova de identidade. Um exemplo que pode surgir como prova de identidade é um material metálico utilizado como prótese, que tem uma durabilidade muito importante. Ainda outra prova de identidade é feita por radiografias de crânios comparadas, pois as medidas são conservadas, lembra Krogmam. Ainda, tanto a região mastoide como os seios da face, podem auxiliar na identificação. Buchner relembra que os pontos de identificação dos ossos são muito resistentes, tendo uma conservação importante. Ainda as vítimas de desastres e queimaduras podem ser identificadas por meio das radiografias dentarias, sendo uma fonte fidedigna de informação. Ultimamente e cada vez em maior número, as radiografias também estão sendo utilizadas em desastres para que haja uma identificação mais segura. Com base nisso, é importante o estudo radiológico do cadáver analisado e a busca por dados em prontuários médicos e odontológicos que auxiliem a caracterizar o indivíduo. 68 UNIDADE II │ GENÉTICA FORENSE Uma boa radiografia vale por mil palavras. Inversamente, registros ou radiografias precárias têm valor limitado. (DORION, 1990). E por fim, vejamos a tabela de França, 1995. Como a radiografia pode nos auxiliar até mesmo no que se tem menor acurácia, que seria a idade. Tabela 5. Fone: França (1995). 69 Referências ALMEIDA, Antônio Ferreira de; Costa Jr, J.P. de O. 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