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DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 1 OS: 0187/11/17-Gil DIDÁTICA PARA CONCURSOS MÓDULO COMPLETO Prof. Pedro Israel SEDUC-CE OS: 0187/11/17-Gil DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 2 OS: 0187/11/17-Gil CONCURSO: SEDUC – CE ÍNDICE: APRESENTAÇÃO.....................................................................................................................................02 1. HISTÓRIA DO PENSAMENTO PEDAGÓGICO BRASILEIRO.................................................................03 1.1. Teoria da educação..........................................................................................................................................22 1.2. As diferentes correntes do pensamento pedagógico brasileiro.....................................................................23 1.3. Projeto político pedagógico.............................................................................................................................30 2. A DIDÁTICA E O PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM................................................................31 2.1. Organização do processo didático: planejamento, estratégias e metodologias, avaliação...........................31 2.2. A sala de aula como espaço de aprendizagem e interação.............................................................................35 2.3. A didática como fundamento epistemológico do fazer docente....................................................................38 3. PRINCIPAIS TEORIAS DA APRENDIZAGEM........................................................................................40 3.1. Inatismo, comportamentalismo, behaviorismo, interacionismo, cognitivismo.............................................40 3.2. As bases empíricas, metodológicas e epistemológicas das diversas teorias de aprendizagem.....................42 3.3. Contribuições de Piaget, Vygotsky e Wallon para a psicologia e pedagogia..................................................46 3.4. Teoria das inteligências múltiplas de Gardner................................................................................................50 3.5. Psicologia do desenvolvimento: aspectos históricos e biopsicossociais........................................................51 3.6. Temas contemporâneos: bullying, o papel da escola, a escolha da profissão, transtornos alimentares na adolescência, família, escolhas sexuais..................................................................................................................52 4. EXERCÍCIOS........................................................................................................................................71 Fanpage: www.facebook.com/profpedroisrael Email: prof.pedroisrael@gmail.com APRESENTAÇÃO DO PROFESSOR É Mestre em Ética e Filosofia Política pelo Programa de Pós- Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Ceará. Possui Licenciatura Plena em Filosofia pela mesma Universi- dade, com ênfase e especialização em Filosofia da Educação. É bacharel em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará e Professor Universitário de uma importante Univer- sidade em Fortaleza. Atua como membro integrante da Coordenação do Comitê Estadual de Educação em Direitos Humanos do Estado do Ceará, estando este por sua vez vinculado a Coordenadoria Especial de Políticas Públicas dos Direitos Humanos, órgão subordinado ao Gabinete do Go- vernador do Estado do Ceará. _________________________________________________ APRESENTAÇÃO DA APOSTILA Esta apostila foi escrita/construída/elaborada com o intuito de fornecer um suporte bibliográfico básico aos alu- nos da disciplina de Didática, não tendo, no entanto, à pre- tensão de substituir os livros indicados, que são mais pro- fundos e mais ricos em detalhes. Nosso intuito, dessa maneira, será o de propiciar aos alunos/professores, que estão se preparando para o Con- curso da SEDUC-CE, notas de aula idênticas às que serão apresentadas durante o curso presencial/online. É evidente, no entanto, que, durante as aulas, sempre haverá, a bem da verdade, espaço para a implementação de temas e exercícios que não constam neste material, em decorrência da dinâmica e da fluidez que a própria disciplina assume em seu decurso. Prof. Pedro Israel prof.pedroisrael@gmail.com www.facebook.com/profpedroisrael DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 3 OS: 0187/11/17-Gil A ARTE DE EDUCAR Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: “Veja!” e, ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. Seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente… E ficando mais rico interior- mente ele pode sentir mais alegria – que é a razão pela qual vivemos. Já li muitos livros sobre Psicologia da Educação, Sociologia da Educação, Filosofia da Educação… Mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à Educação do Olhar. Ou à importância do olhar na educação, em qualquer um deles. A primeira tarefa da Educação é ensinar a ver… É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo… Os olhos tem de ser educa- dos para que nossa alegria aumente. A educação se divide em duas partes: Educação das Habilidades e Educação das Sensibilidades. Sem a Educação das Sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido. Os conhecimentos nos dão meios para viver. A sabedoria nos dá razões para viver. Quero ensinar às crianças. Elas ainda tem olhos encantados. Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal. Para as crianças tudo é espantoso: um ovo, uma minhoca, uma concha de caramujo, o voo dos urubus, os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu, um pião na terra. Coisas que os eruditos não veem. Na escola eu aprendi complicadas classificações botânicas, taxonomias, nomes latinos – mas esqueci. E nenhum professor jamais chamou a minha atenção para a beleza de uma árvore… Ou para o curioso das simetrias das folhas. Parece que naquele tempo as escolas estavam mais preocupadas em fazer com que os alunos decorassem palavras que com a realidade para a qual elas apontam. As palavras só tem sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem… O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Quando a gente abre os olhos, abrem-se as janelas do corpo e o mun- do aparece refletido dentro da gente. São as crianças que, sem falar, nos ensinam as razões para viver. Elas não têm saberes a transmitir. No entanto, elas sabem o essencial da vida. Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir e não se torna como criança, jamais será sábio. Rubem AlvesHISTÓRIA DO PENSAMENTO PEDAGÓGICO BRASILEIRO A história da educação formal no Brasil, apresenta- da pelas instituições escolares, se dá no período da coloni- zação do país pelos portugueses e consequentemente com a chegada da Companhia de Jesus (1534), uma grande ordem religiosa da Igreja Católica que chegou ao Brasil em 1549. Período Jesuítico (1549-1759) A Companhia de Jesus foi formada por padres que seguiam uma rígida disciplina militar, com a principal missão de combater os infiéis e a Reforma Protestante de Martinho Lutero. Nas palavras de Paiva e Puentes (2000, p. 2), ratifica- se esta informação: A criação da Companhia de Jesus (em 1539) foi fruto do amplo movimento que gerou profundas transformações na Igreja Católica nos inícios do século XVI, resultado, de um lado, dos contínuos esforços de rejuvenescimento e de reor- ganização a que historicamente esteve submetida; de outro, como consequência das imensas pressões exercidas pela Reforma Protestante, no bojo de mudanças políticas, eco- nômicas, sociais e culturais que atravessavam a Europa. Os padres jesuítas tinham sólida formação cultural e estavam dispostos a todo e qualquer sacrifício para defen- der os princípios cristãos. A Companhia nasceu para disse- minar informações católicas por todas as regiões do mundo, principalmente aquelas mais distantes. Surgiu por volta de 1534, na capela-cripta de Saint- Denis, na Igreja de Santa Maria, em Montmartre, no contex- to da Reforma Católica (ou Contrarreforma) por um grupo de estudantes da Universidade de Paris e liderada pelo cava- leiro espanhol Ignácio de Loyola, porém foi oficializada pelo papa somente em 1540. Sua atuação foi tão marcante que o consagrou como patriarca dos trabalhos jesuítas e ainda na atualidade é homenageado com seu nome nos centros edu- cacionais jesuítas, chamados Centros Loyola, com sede em alguns estados brasileiros, como Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 4 OS: 0187/11/17-Gil Em 1549, com o apoio do primeiro governador- geral, Tomé de Souza, a Companhia de Jesus chegou às terras brasileiras, especificamente à Bahia, com os primeiros padres jesuítas, os chamados verdadeiros soldados de Cris- to; entre eles destacavam-se os padres Manoel da Nóbrega, José de Anchieta e Antônio Vieira, subordinados a um regi- me de privações que os preparava para viver em locais dis- tantes e se adaptar às mais adversas condições. “Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu”, por Benedito Calixto (1927). Acervo do Museu do Ipiranga. Tinham como objetivo catequizar e converter os nativos habitantes do novo mundo à religião católica. Os nativos: Não tinham as letras ‘F, nem L, nem R’, não possuindo ‘Fé, nem Lei, nem Rei’, vivendo ‘desordenadamente’. Essa supo- sição de uma ausência linguística e de ‘ordem’ revela, um tanto avant la lettre, o ideal de colonização trazido pelas autoridades portuguesas: superar a ‘desordem’, fazendo obedecer a um Rei, difundindo uma Fé e fixando uma Lei (Gandova, apud Villalta, 2002, p. 332). Além disso, os padres jesuítas exerceram forte in- fluência na sociedade, principalmente burguesa. Eles intro- duziram, no período colonial, uma concepção de educação que contribuiu para o fortalecimento das estruturas de poder hierarquizadas e de privilégios para um pequeno grupo. Incutiram a ideia de exploração de uma classe sobre a outra e a escravidão como caminho normal e necessário para o desenvolvimento. A educação tinha o papel de ajudar a perpetuar as desigualdades entre as classes sociais. Logo que chegaram ao Brasil, os padres jesuítas lançaram as bases da catequização, com a criação das pri- meiras casas, as casas de bê-á-bá, dando início à educação colonial em seu sentido restrito, por meio da atuação com suas escolas de ler, escrever e contar e, posteriormente, em seus colégios na cidade de Salvador (Menardi, 2010, p. 159): Estas casas, ou residências ou ainda recolhimentos, recebi- am os meninos índios para serem catequizados e instruídos e se destinavam também a abrigar os padres aqui na colô- nia, bem como os órfãos vindos de Portugal e os da terra, a fim de lhes dar assistência e formação religiosa. […] A vinda de órfãos de Portugal contribuiu grandemente como um motivador a mais para a já necessária construção de casas (residências ou recolhimento) e representou um reforço na conversão dos índios, uma vez que os jesuítas utilizaram como estratégia de catequese e instrução os órfãos para atrair os meninos índios. Assim marca-se o processo de criação de escolas elementares, secundárias, seminários e missões espalhados pelo Brasil. Desse modo, trataram de organizar o sistema educativo, pois eles viam a educação como ferramenta de domínio religioso e difusão da cultura europeia nas terras indígenas. “Foram se infiltrando aos poucos nas aldeias, levando os fundamentos de uma educação religiosa dedica- da à propagação da fé e do trabalho educativo” (Azevedo, 1976, p. 10). Nesse contexto, instruíam-se os nativos, sobretudo os jovens e crianças, por entenderem que estes eram mais suscetíveis aos valores cristãos que seriam ensinados. A instrução era feita por meio do estudo da leitura, da apre- sentação e da interpretação da palavra divina, pois assim se poderia compreender melhor o mundo supostamente des- conhecido pelos nativos. Os jesuítas perceberam que não seria possível converter os índios à fé católica sem que sou- bessem ler e escrever. Desse modo, os nativos poderiam de fato ser inseridos ao mundo cristão (Azevedo, 1978). Para Aranha (1996), essa ação ajuda a haver um choque entre os valores pregados pela cultura nativa e os do colonizador. O sociólogo Gilberto Freire, na obra Casa-grande e senzala, diz que os primeiros missionários substituem as ‘cantigas lascivas’, entoadas pelos índios, por hinos à Virgem e cantos devotos. Não raro os padres ridicularizam a figura do pajé e os ensinamentos da tribo e condenam a poligamia, pregan- do a forma cristã de casamento, e dessa maneira começam a abalar o sistema comunal primitivo (Aranha, 1999, p. 101). Gilberto Freyre (Sociólogo e autor de Casa Grande e Senzala) Aqui se percebem algumas das ações missionárias com o intuito de destruir a cultura dos povos indígenas e empregar a vida do branco europeu cristão, moldando se- gundo a civilização ocidental cristã, mais especificadamente a cultura portuguesa. Entretanto, os jesuítas eram contra a exploração dos índios, pois quando estes eram escravizados DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 5 OS: 0187/11/17-Gil morriam de fome e doenças. Os castigos violentos sofridos pelos índios também eram um dos motivos que desagrada- vam aos jesuítas, que estavam tentando arrebanhar novos fiéis, pois a Igreja Católica estava perdendo fiéis para os protestantes. Para concretizar as questões que foram citadas até agora, os jesuítas, além de trazer consigo os principias cos- tumes religiosos e boas condutas de comportamento, trou- xeram também sua metodologia de ensino, sua proposta de trabalho pedagógico, que por sua vez era influenciada pelas orientações filosóficas das teorias de Aristóteles e São To- más de Aquino, principalmente no que se refere à ideia de universalização do ensino. Sua metodologia era embasada por um documentode código pedagógico, plano de estudo, conhecido como Ratio Studiorum. Os jesuítas empreenderam no Brasil uma significativa obra missionária e evangelizadora, especialmente fazendo uso de novas metodologias, das quais a educação escolar foi uma das mais poderosas e eficazes. Em matéria de educação escolar, os jesuítas souberam construir a sua hegemonia. Não apenas organizaram uma ampla ‘rede’ de escolas ele- mentares e colégios como o fizeram de modo muito organi- zado e contando com um projeto pedagógico uniforme e bem planejado, sendo o Ratio Studiorum a sua expressão máxima (Sangenis, 2004, p. 93). Assim, o Ratio preceitua a formação intelectual clássica estreitamente vinculada à formação moral embasa- da nas virtudes religiosas, nos bons costumes e hábitos saudáveis a sociedade, explicitando de forma detalhada as modalidades curriculares das instituições escolares; o acompanhamento do desenvolvimento da aprendizagem e a promoção dos alunos; condutas e posturas respeitosas des- de os que conduziam (professores) até os que aprendiam (alunos) (Toyshima; Costa, 2012). Esse método tem como objetivo principal expandir a fé cristã aos povos que habitavam a Europa e toda região do Novo Mundo. Trata-se de um manual que continha con- juntos de normas e/ou regras para ajudar e nortear as ativi- dades de cunho pedagógico dos professores e na organiza- ção e administração escolar dentro dos colégios da ordem jesuítica, com vista a permitir uma formação uniforme a todos que frequentassem: O manual contém 467 regras, cobrindo todas as atividades dos agentes envolvidos ao ensino. Iniciava pelas regras do provincial, depois do reitor, do prefeito de estudos, dos pro- fessores de modo geral, de cada matéria de ensino; incluía também as regras da prova escrita, a distribuição de prê- mios, do bedel, dos alunos e por fim as regras das diversas academias. Além das regras e das normas, o Ratio apresenta os níveis de ensino (Humanidades, Filosofia e Teologia) e as disciplinas que os alunos deveriam cumprir (Toyshima; Cos- ta, 2012, p. 3). Nota-se, pela citação que esse manual pedagógico contemplava todos os sujeitos que participavam efetiva- mente do processo educativo nas instituições escolares, que tinha ligação com a Companhia de Jesus. Buscava indicar a responsabilidade, o desempenho e a subordinação. Centra- va-se num currículo de educação literária e humanística. Além disso, o manual se preocupava com a organização não só das disciplinas curriculares que os alunos deveriam aprender, cumprir, mas também com a organização da pro- va escrita. A preocupação era tão constante que os jesuítas davam aos professores as devidas orientações e regras para sua elaboração. Portanto, o método pedagógico dos jesuítas im- plantado nas escolas brasileiras possibilitava sólida forma- ção clássica dos estudantes. Permitiu que os jesuítas inicias- sem aqui um modelo de formação ativa no constante exer- cício do pensar, tendo o professor como um dos responsá- veis pela formação daqueles que frequentavam os espaços escolares. Esse professor teria condições plenas de avaliar e reavaliar a construção e a reconstrução da aprendizagem apresentadas pelos alunos. Isso só seria feito mediante as diferentes metodologias, exercícios que contemplavam leituras, escritas, declamações, apresentações públicas, provas e exames. Destaque-se que para tanto não era re- querido apenas o exercício intelectual por meio do uso da memória, justamente porque o exercício de interpretações também era uma exigência no decorrer do estudo (Sange- nis, 2004). Mesmo com todas as estruturas, organização e re- gras pedagógicas e administrativas, a educação jesuítica não satisfazia o Marquês de Pombal, primeiro-ministro de Por- tugal de 1750 a 1777, porque as escolas da Companhia de Jesus atendiam aos interesses da fé, enquanto Pombal se preocupava em atender os interesses do Estado. Essa dis- cordância de objetivos fez com que os jesuítas fossem ex- pulsos das terras brasileiras em 1759. Dessa forma, retirou a Igreja Católica do domínio da educação em Portugal e man- dou fechar todas as escolas que estavam sob domínio dos padres jesuítas, e as bibliotecas dos conventos foram aban- donadas ou destruídas. Além disso, vários outros motivos fizeram com que os jesuítas fossem expulsos: eles não obedeciam e/ou não respeitavam o Tratado dos Limites entre Portugal e Espanha e havia divergências quanto a forma, posse e domínio com que os jesuítas tomavam e mantinham os indígenas brasilei- ros. A forma com era feito o tratamento aos nativos coloca- va em dúvida se mantinham as regras da coroa; “Pombal acusava a atuação dos jesuítas com os indígenas do Brasil”, pois “segundo ele, os homens brancos eram apresentados aos índios como maus, como mais interessados no ouro do que em qualquer coisa e, mais grave, prontos para atrocida- des” (Costa, 2011, p. 75). Para Pombal: O afastamento dos jesuítas dessa região significava tão somente assegurar o futuro da América Portuguesa pelo povoamento estratégico. O interesse de Estado acabou en- trando em choque com a política protecionista dos jesuítas para com os índios e melindrando as relações com Pombal, DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 6 OS: 0187/11/17-Gil tendo esse fato entrado para a história como “uma grande rivalidade entre as ideias iluministas de Pombal e a educa- ção de base religiosa jesuítica” (Seco; Amaral, 2006, p. 5). Com essa expulsão, a educação brasileira passou a vivenciar uma grande ruptura histórica, num processo já implantado e consolidado como modelo educacional. A educação passou a ser administrada pelo Estado; não mais atrelado à Igreja Católica, mas sim público e laico, tendo suas disciplinas submetidas ao poder real, autônomas, sem vinculação com sistemas específicos de ensino. O Estado começou a elaborar leis sobre o ensino, cobrar impostos e fazer estatísticas. A regra era destruir e/ou abolir a influên- cia da Companhia de Jesus. Isso ocorreu porque Marquês de Pombal tinha interesses econômicos como objetivo. Sua real pretensão era transformar Portugal numa metrópole capita- lista para competir com os demais países da Europa. Para isso ser concretizado, era preciso acabar com a escravidão dos índios, permitindo que casassem com portugueses; Pombal desejou também ter uma nobreza e uma burguesia mais intelectualizadas, para incentivar o desenvolvimento cultural, artístico e científico, com profissionais capacitados para poder assumir os cargos públicos (Seco; Amaral, 2006). Referências Bibliográficas AZEVEDO, Fernando de. A transmissão da cultura: a cultura brasileira. São Paulo, Melhoramentos, 1976. MENARDI, Ana Paula Seco. A educação na literatura de via- gem e na literatura jesuítica – séculos XVI e XVII. 2010. 289f. Tese (doutorado em Educação) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2010. PAIVA, José Maria de; PUENTES, Roberto Valdés. A proposta jesuítica de Educação – uma leitura das Constitui- ções. Comunicações, São Paulo, nov. 2000. Disponível em: http://www.unimep.br/jmpaiva/a-proposta-jesuitica- de-educacao.pdf. Acesso em 09 jul. 2016. SANGENIS, Luiz Fernando Conde. Franciscanos na Educação brasileira. In: STEPHANOU, Maria; BASTOS, Maria Helena Câmara. Histórias e Memórias da Educação no Brasil. vol. I – séculos XVI-XVIII. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 93-107. SECO, A. P.; AMARAL, T. C. I. do. Marquês de Pombal e a reforma educacional brasileira. 2006. Disponível em: http://histedbr.fae.unicamp.br/navegando/periodo_po mbalino_intro. Acesso em 08 jul. 2016.TOYSHIMA, Ana Maria da Silva; COSTA, Célio Juve- nal. O Ratio Studiorum e seus processos pedagógicos. São Paulo, maio 2012. Disponível em: http://www.ppe.uem.br/publicacoes/seminario_ppe_2 012/trabalhos/co_05/104.pdf. Acesso em 07 jul. 2016. VILLALTA, Luiz Carlos. O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura. In: História da Vida Privada No Brasil I:Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa. São Pau- lo: Companhia das Letras, 2002. p. 331-445. Período Pombalino (1759-1808) A política educacional de Marquês de Pombal, co- mo qualquer outra de suas reformas, era lógica, prática e centrada nas relações econômicas anglo-portuguesas. Marquês de Pombal A reforma educacional pombalina culminou com a expulsão dos jesuítas precisamente das colônias portugue- sas, tirando o comando da educação das mãos destes e passando para as mãos do Estado. Os objetivos que conduzi- ram a administração pombalina a tal reforma, foram assim, um imperativo da própria circunstância histórica. Extintos os colégios jesuítas, o governo não poderia deixar de suprir a enorme lacuna que se abria na vida educacional tanto por- tuguesa como de suas colônias. Para o Brasil, a expulsão dos jesuítas significou, en- tre outras coisas, a destruição do único sistema de ensino existente no país. Para Fernando de Azevedo, foi “a primeira grande e desastrosa reforma de ensino no Brasil”. Como bem colocou Niskier, A organicidade da educação jesuítica foi consagrada quando Pombal os expulsou levando o ensino brasileiro ao caos, através de suas famosas ‘aulas régias’, a despeito da exis- tência de escolas fundadas por outras ordens religiosas, como os Beneditinos, os franciscanos e os Carmelitas. (Niski- er, 2001, p. 34) DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 7 OS: 0187/11/17-Gil Enquanto na Metrópole buscava-se construir um sistema público de ensino, mais moderno e popular, na colônia, apesar das várias tentativas, através de sucessivos alvarás e cartas régias, as Reformas Pombalinas no campo da educa- ção, só logrou desarranjar a sólida estrutura educacional construída pelos jesuítas, confiscando-lhes os bens e fe- chando todos os seus colégios. É importante destacar que a reforma pombalina no Brasil não foi implementada no mesmo momento e da mesma forma que em Portugal. Foi de quase trinta anos o tempo de que o Estado português necessitou para assumir o controle pedagógico da educação a ser oferecida em terras brasileiras; da completa expulsão dos jesuítas e do desman- telamento sistemático de seu aparelho educacional, dos métodos aos materiais didáticos, até a nomeação de um Diretor Geral dos Estudos que deveria, em nome do Rei, nomear professores e fiscalizar sua ação na colônia. Através do Alvará Régio de 28 de junho de 1759, o Marquês de Pombal, suprimia as escolas jesuíticas de Portu- gal e de todas as colônias ao expulsar os jesuítas da colônia e, ao mesmo tempo, criava as aulas régias ou avulsas de Latim, Grego, Filosofia e Retórica, que deveriam suprir as disciplinas antes oferecidas nos extintos colégios jesuítas. Estas providências, entretanto, não foram suficien- tes para assegurar a continuidade e a expansão das escolas brasileiras, constantemente reclamadas pelas populações que até então se beneficiavam dos colégios jesuítas. Portu- gal logo percebeu que a educação no Brasil estava estagna- da e era preciso oferecer uma solução. Somente quando a Real Mesa Censória, criada em 1767 (inicialmente com atribuição para examinar livros e papéis já introduzidos e por introduzir em Portugal), alguns anos depois, passa a assumir a incumbência da administra- ção e direção dos estudos das escolas menores de Portugal e suas colônias, é que as reformas na instrução ganham meios de implementação. Com as novas incumbências e a partir das experiências administrativas da direção geral de estudos, nos anos anteriores, a Mesa Censória apontou para as necessidades tanto na metrópole quanto na colônia refe- rente ao campo educacional. Assim, os estudos menores ganharam amplitude e penetração com a instituição, em 1772, do chamado “subsídio literário” para manutenção dos ensinos primário e secundário. Como Carvalho (1978) bem explicitou: Com os recursos deste imposto, chamado subsídio literário, além do pagamento dos ordenados aos professores, para o qual ele foi instituído, poder-se-iam ainda obter as seguintes aplicações: 1) compra de livros para a constituição da biblio- teca pública, subordinada à Real Mesa Censória; 2) organi- zação de um museu de variedades; 3) construção de um gabinete de física experimental; 4) ampliação dos estabele- cimentos e incentivos aos professores, dentre ou- tras aplicações (Carvalho, 1978, p. 128). Dessa forma, foi implantado o novo sistema educa- cional que deveria substituir o sistema jesuítico. Aberto que estava à modernidade européia, incorporou partes do dis- cursos sobre a ação do Estado na educação e passou a em- pregá-lo para ocupar o vácuo que foi deixado com a saída dos jesuítas, pelo menos no que diz respeito ao controle e gestão administrativa do sistema escolar. O Novo Sistema Como vimos, foi através do Alvará Régio de 28 de junho de 1759 que o Marquês de Pombal, ao mesmo tempo expulsou os jesuítas de Portugal e de suas colônias, supri- mindo as escolas e colégios jesuítas de Portugal e de todas as colônias; criou as aulas régias ou avulsas de Latim, Grego, Filosofia e Retórica, que deveriam substituir os extintos colégios jesuítas e criou a figura do “Diretor Geral dos Estu- dos”, para nomear e fiscalizar a ação dos professores. As aulas régias eram autônomas e isoladas, com professor único e uma não se articulava com as outras. Des- tarte, o novo sistema não impediu, a continuação do ofere- cimento de estudos nos seminários e colégios das ordens religiosas que não a dos jesuítas (Oratorianos, Franciscanos e Carmelitas, principalmente). Em lugar de um sistema mais ou menos unificado, baseado na seriação dos estudos, o ensino passou a ser disperso e fragmentado, baseado em aulas isoladas que eram ministradas por professores leigos e mal preparados. Com a implantação do subsídio literário, imposto colonial para custear o ensino, houve um aumento no nú- mero de aulas régias, porém ainda muito precário devido à escassez de recursos, de docentes preparados e da falta de um currículo regular. Ademais, vemos uma continuidade na escolarização baseada na formação clássica, ornamental e europeizante dos jesuítas, isto porque a base da pedagogia jesuítica permaneceu a mesma, pois os padres missionários, além de terem cuidado da manutenção dos colégios desti- nados à formação dos seus sacerdotes, criaram seminários para um clero secular, constituído por “tios-padres” e “cape- lães de engenho”, ou os chamadas “padres-mestres” Estes, dando continuidade à sua ação pedagógica, mantiveram sua metodologia e seu programa de estudos, que deixava de fora, além das ciências naturais, as línguas e literaturas modernas, em oposição ao que acontecia na Metrópole, onde as principais inovações de Pombal no campo da educação como o ensino das línguas modernas, o estudo das ciências e a formação profissional já se faziam presentes. Por isso, se para Portugal as reformas no campo da educação, que levaram a laicização do ensino represen- tou um avanço, para o Brasil, tais reformas significaram um retrocesso na educação escolar com o desmantelamento completo da educação brasileira oferecida pelo antigo sis- tema de educação jesuítica, melhor estruturado do que as aulasrégias puderam oferecer. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 8 OS: 0187/11/17-Gil O Brasil não é contemplado com as novas propostas que objetivavam a modernização do ensino pela introdução da filosofia moderna e das ciências da natureza, com a finalida- de de acompanhar os progressos do século. Restam no Bra- sil, na educação, as aulas régias para a formação mínima dos que iriam ser educados na Europa. (Zotti, 2004, p. 32) Nas Instruções do Alvará Régio de 1759, transpare- ce claramente o objetivo que norteou a reforma na instru- ção. A preocupação básica era de formar o perfeito nobre, simplificando os estudos, abreviando o tempo do aprendi- zado de latim, facilitando os estudos para o ingresso nos cursos superiores, além de propiciar o aprimoramento da língua portuguesa, diversificar o conteúdo, incluir a natureza científica e torná-los mais práticos. Em substância, tal Alvará teve como significado central a tentativa de manter a continuidade de um trabalho pedagó- gico interrompido pela expulsão dos jesuítas. A educação jesuítica não mais convinha aos interes- ses comerciais emanados por Pombal, com seus conhecidos motivos e atos na tentativa de modernização de Portugal, que chegariam também as suas colônias. Assim sendo, as escolas da Companhia de Jesus que tinham por objetivo servir aos interesses da fé não atendiam aos anseios de Pombal em organizar a escola para servir aos interesses do Estado. É dentro desta ordem e em nome dela que o Alvará de 1759 pode ser visto como o primeiro esforço no sentido da secularização das escolas portuguesas e de suas colônias, entendendo que somente um ensino, dirigido e mantido pelo poder secular, poderia corresponder aos fins da ordem civil. A ingerência do Estado nas questões de educação começa a ganhar vulto a partir do deste período, concomi- tante com a ideia do desenvolvimento de sistemas nacionais de educação, ligados aos processos político-sociais de con- solidação dos Estados Nacionais europeus. Seguindo nesta direção, com uma ação intensiva, o Estado português assume definitivamente o controle da educação colonial. A criação da figura do “Diretor Geral dos Estudos” deixa bem clara, no mesmo “Alvará”, a intenção da Coroa de uniformizar a educação na Colônia e fiscalizar a ação dos professores — desde já por ela nomeados — do material didático por eles utilizado — também devidamente “recomendado” no mesmo documento — de modo a que não houvesse choque de interesses — isto é, que não hou- vesse nenhum outro poder, como era o dos jesuítas, a afrontar as determinações da Coroa. Cabe à Coroa a instala- ção de um novo sistema de ensino, e é exatamente essa a linha pela qual segue o Alvará Régio. As aulas régias instituídas por Pombal para substi- tuir o ensino religioso constituíram, dessa forma, a primeira experiência de ensino promovido pelo Estado na história brasileira. A educação a partir de então, passou a ser uma questão de Estado. Desnecessário frisar que este sistema de ensino cuidado pelo Estado servia a uns poucos, em sua imensa maioria, filhos das incipientes elites coloniais. Pedagogicamente, esta nova organização não re- presentou um avanço. Mesmo exigindo novos métodos e novos livros, no latim a orientação era apenas de servir como instrumento de auxílio à língua portuguesa, o grego era indispensável a teólogos, advogados, artistas e médicos, a retórica não deveria ter seu uso restrito a cátedra. A filo- sofia ficou para bem mais tarde, mas efetivamente nada de novo aconteceu devido principalmente, às dificuldades quanto à falta de recursos e pessoal preparado. As transformações no nível secundário não afeta- ram o fundamental, que permaneceu desvinculado da reali- dade, e buscando o modelo de exterior "civilizado". Quem tinha condições de cursar o ensino superior enfrentava os perigos das viagens, para frequentar a Universidade de Coimbra ou outros centros europeus. Como as "Reformas Pombalinas" visavam transformar Portugal numa metrópole como a Inglaterra, a elite masculina deveria buscar respaldo fora, para poder servir melhor na sua função de articuladora dos interesses da camada dominante. Considerações Finais Os 27 anos de governo de Pombal caracterizaram- se por uma tentativa de modernização da sociedade e de desenvolvimento da economia portuguesa. A peculiaridade de Portugal nessa época foi a coincidência do iluminismo com a luta do Estado português para voltar a ser a grande nação da época dos descobrimentos - por meio do fortale- cimento do Reino e seu soberano - adaptando-se às técnicas que acreditava terem sido utilizadas pelos seus rivais para ultrapassá-lo - ainda que para tanto devesse se apoiar nas novas ideias da Ilustração, que não poupavam críticas a sua ordem política e social já considerada velha - Pombal tinha essa missão. Foi um homem eclético, pragmático e obstinado, disposto a tirar de seu caminho tudo que lhe impedisse de alcançar seus objetivos. - em inúmeras oportunidades en- trou em conflito com membros da nobreza e do clero – como se percebe a controvérsia está no núcleo da ação pombalina, na combinação particular de métodos que ele utilizou. Eles refletem seu posicionamento entre oportuni- dade e necessidade. Embora a Metrópole portuguesa só abrisse pers- pectivas para a penetração de um Iluminismo contido, cien- tífico na aparência, já que permaneceria submetido à tradi- ção cultural da imitação, memorização e erudição literária, houve um avanço no ensino público português, que passou a formar uma burocracia administrativa mais moderna e eficiente. Além disso, os professores régios que aqui exerci- am a profissão de ensinar foram propulsionadores dos sen- timentos liberais e incentivadores das ideias filosóficas que tão significativamente se fizeram atuantes nos últimos trinta anos que antecederam a independência do país. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 9 OS: 0187/11/17-Gil É muito interessante perceber por quais vias o ilu- minismo implantou-se no Brasil. É justamente através da política imperial de racionalização e padronização da admi- nistração de Pombal que a educação passou para as mãos do Estado, mas essa educação que passou a ser pública, não se faz para os interesses dos cidadãos. Ela serviu aos inte- resses imediatos do Estado, que para garantir seu status absolutista precisa manter-se forte e centralizado nas mãos e sobre comando de uns poucos preparados para tais tare- fas. Assim, mesmo que aparentemente as ações de Pombal induzam ao entendimento de uma política despóti- ca de benefícios individuais - idéia que não é de toda inváli- da - é preciso acordar com a análise de Maxwell de que os lucros das reformas pombalinas foram individuais, privados. Mas os interesses foram públicos - no sentido de estatal - na medida em que naquele contexto, iluminismo, racionalidade e progresso têm um significado muito diferente aos quais se deve estar atento: iluminismo no contexto da colônia brasi- leira tratou-se, na verdade do engrandecimento do poder do Estado e não das liberdades individuais, Dessa forma, entender o projeto do iluminismo pombalino talvez seja a chave para ajudar a perceber a tradição reformista nas ten- tativas de construção de um sistema nacional de educação pública realmente voltado aos interesses públicos,que até hoje não se consolidou no Brasil. Referências Bibliográficas BAUSBAUM, Leônico. História sincera da República: das origens até 1889. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1957. BELLOTTO, Heloísa Liberalli. Arquivos Permanentes: trata- mento documental. 2 ed. ver. ampl.. Rio de Janeiro: Editora Da FGV, 2004. CARVALHO, Laerte Ramos de. As Reformas Pombalinas da Instrução Pública. São Paulo: Saraiva: Ed. Universidade de São Paulo, 1978. MAXWELL, Kenneth. Marquês de Pombal - Paradoxo do Iluminismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. NISKIER, Arnaldo. Educação Brasileira: 500 anos de Histó- ria. Rio de Janeiro: FUNARTE, 2001. RIBEIRO, Maria Luíza Santos. História da Educação Brasilei- ra: a organização escolar. 18 ed. ver. ampl.. Campinas: Au- tores Associados, 2000. XAVIER, Maria Elizabete Sampaio Prado. História da Educa- ção: a escola no Brasil. São Paulo: FTD, 1994. ZOTTI, Solange Aparecida. Sociedade, Educação e Currículo no Brasil: dos jesuítas aos anos de 1980. Campinas: Autores Associados, 2004. Período Joanino (1808-1821) Com a desorganização do sistema de ensino pela expulsão dos jesuítas, a educação colonial veio a tomar novos rumos com a vinda da família real portuguesa. Tão logo chegou ao Brasil, na sua passagem pela Bahia, o Prínci- pe Regente abriu os portos às nações amigas e criou o curso de Medicina e Cirurgia junto ao Real Hospital Militar. Se- guem-se os eventos: chegada em 22 de janeiro, abertura dos portos em 28 de janeiro e criação do curso médico em 18 de fevereiro de 1808. A ação realizadora atingiu os setores da economia, da política, da agricultura com destaque para o ensino. Cur- sos foram criados em área diversas que até então não exis- tiam. Com o curso médico, iniciou-se um período novo para o ensino superior público, pois até então só havia o ensino religioso. A propósito, Luiz Antônio Cunha (1986, p. 67) ao analisar o ensino superior no Império (1822 a 1889), obser- vou que em 1808 emergia o Estado Nacional e houve neces- sidade de se mudar o ensino superior que vinha do período colonial. Criaram-se “cursos e academias destinados a for- mar burocratas para o Estado e especialistas na produção de bens simbólicos, como subproduto, formar profissionais liberais.“ Cursos que preparavam os funcionário públicos com as Academias Militar e de Marinha e cursos de medici- na, cirurgia, matemática, agricultura e outros. Observa Cu- nha (p.76) que o núcleo do ensino superior nasceu com D. João VI e edificou-se o que se tem até os nossos dias: “O ensino superior atual nasceu, assim, junto com o Estado Nacional, gerado por ele e para cumprir, predominantemen- te, as funções próprias deste”. Introduziram-se modifica- ções, com D. João VI passamos à secularização com ensino público. Em Portugal, até a época de Pombal, e no Brasil, até a vinda da corte, o ensino era público e religioso. (CUNHA, 1986, p.79). Do ensino médico do tempo do regente D. João, depois com o ensino jurídico já no Brasil independente, originou-se o ensino superior por ordem de faculdades. Os principais tipos de ensino foram o médico, seguidos do mili- tar e profissional, das aulas e cursos isolados e das institui- ções culturais. Ensino médico na Bahia e no Rio de Janeiro Parte da esquadra que trazia o Príncipe Regente aportou em Salvador da Bahia em 22 de janeiro de 1808. Oliveira Lima (1945, p. 250) afirmou que: “A transladação da corte rasgou logo novos horizontes ao ensino. Fundou-se no Real Hospital Militar da Bahia uma aula de cirurgia e outra no Hospital Militar do Rio [...]” Deve-se ao pernambucano Dr. José Corrêa Picanço a iniciativa da criação do ensino médico, no Brasil. Depois dos estudos em Lisboa, foi para Paris completar a sua formação em medicina, regressando a Portugal foi nomeado professor de anatomia e cirurgia na Universidade de Coimbra. Alcançou o posto de primeiro DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 10 OS: 0187/11/17-Gil cirurgião da casa real e cirurgião-mor de todo o reino. É nessa dupla condição que acompanhou o Príncipe na via- gem ao Brasil e sugeriu a criação do curso de cirurgia na passagem pela Bahia. Essa é a origem do Aviso de 18 de fevereiro de 1808, que cria o curso de cirurgia e de medici- na: O Príncipe regente anuindo à proposta que lhe fez o doutor José Corrêa Picanço, cirurgião-mor e do seu Conselho, sobre a necessidade que havia de uma escola de cirurgia no Hospi- tal Real desta cidade (Bahia), para instrução dos que se destinam ao exercício desta arte, tem cometido ao sobredito cirurgião-mor a escolha dos professores, que não só ensinam a cirurgia propriamente, mas a anatomia, bem essencial dela, e a arte obstetrícia tão útil como necessária. O que participo a V. Exa. Por ordem do mesmo Senhor, para que assim o tenha entendido e contribua para tudo o que fez promover este importante estabelecimento Deus guarde a V. Exa. Até então só existiam uns poucos médicos nas prin- cipais cidades do litoral. Havia, sim, práticos, curandeiros, barbeiros e sangradores ignorantes de anatomia e patolo- gia. O boticário aviava receitas em velhos formulários de mais de século. Eram pouquíssimos os formados em medici- na, por exemplo, a Capitania de São Paulo, em 1808, conta- va somente com dois diplomados no exercício de médico. O curso foi instituído no Real Hospital Militar da Bahia e outro similar foi também criado em idêntico hospital na cidade do Rio de Janeiro, precisamente com instalação da corte. Considerou-se a necessidade de formação de mé- dicos militares em um tempo de guerra com Napoleão a bater-se em toda a Europa. Com a mesma motivação bélica foram criadas em seguida as academias militares. Para o funcionamento dos cursos foram baixadas as instruções pelo cirurgião-mor Dr. Picanço (MOACYR, 1936, p. 33-34) a começar pela escolha dos professores para o ensino não somente da cirurgia e anatomia como também da arte obstetrícia. O professor deveria anotar a matrícula dos seus participantes. A língua francesa era uma das condi- ções de frequência. As aulas teóricas e práticas seriam mi- nistradas no próprio Hospital Militar, em especial, em suas enfermarias. Determinavam-se o horário das preleções e os dias da semana para as arguições com frequência obrigató- ria. O compêndio de cirurgia a ser seguido era o de M. de la Fay, utilizado na Europa, tido como o mais completo. O curso de cirurgia tinha a duração de quatro anos. Com tais instruções os cursos cresceram e foram se completando com mais disciplinas. Para Anatomia foi nomeado o profes- sor Joaquim da Rocha Mazaren, que incluía ligações, portes e operações de cirurgias. Para o Hospital Real Militar do Rio de Janeiro, foi designado para ensinar Anatomia o cirurgião-mor de Angola Joaquim José Marques. Visualizando a formação de novos professores, escolheram-se três dos melhores estudantes de cirurgia para fazer seus estudos na cidade de Edimburgo, na Escócia, e depois passarem para a Londres, ficando sob a inspeção do embaixador português. O ensino recém criado passou a ser organizado se- gundo a direção do doutor Manoel Luiz Álvares de Azevedo, baiano de nascimento, cirurgião-mor do Exército e da Ar- mada, formado em Coimbra, diretor do ensino médico no Brasil. Em 1815, o curso da Bahia completou-se à semelhan- ça do existente na Corte. Para tanto agregou-se uma cadeira de Química regida pelo professor de Coimbra Sebastião Navarro de Andrade, juntando-se ao programa anterior que incluía Anatomia, Fisiologia, Farmacologia, Higiene, Patolo- gia, Terapêutica, Operaçõese Obstetrícia (OLIVEIRA LIMA, 1954, p.252). Uma terceira escola de medicina foi prometida ao Maranhão por carta régia de 1815, mas nunca chegou a ser estabelecida. Quanto ao currículo, os dois cursos de medicina passaram por uma organização conforme o plano do doutor Vicente Navarro de Andrade, estabelecendo as matérias do curso médico por ano de estudos: primeiro, Anatomia e Fisiologia; segundo, Patologia Geral, Terapêutica, Semiótica, Higiene; terceiro, explicação dos sistemas de História Natu- ral, Botânica Médica, Farmácia; quarto, Patologia Médica Especial; quinto, Clínica, Medicina Legal, História de Medici- na. Para complementar o curso médico, foram previstas operações cirúrgicas, arte obstetrícia e clínica interna, O plano do doutor Navarro de Andrade prescrevia uma socie- dade médico-cirúrgica, no Rio de Janeiro. Outro plano foi apresentado ao ministro Conde da Barca pelo general Fran- cisco Borja Garção Stokler, concebido por graus de ensino, mas não foi posto em prática. O curso de cirurgia mudou-se do Hospital Militar para o hospital da Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Motivação bélica dos cursos instituídos Na organização de 1815, reformou-se o curso mé- dico do Rio de Janeiro e da Bahia ficando complementadas as disciplinas, quando se estabeleceu a cadeira de Farmácia. O curso foi sucessivamente reformado até adquirir a forma de Academia Médico-Cirúrgica, nas duas referidas cidades. No Rio de Janeiro, começou pela cadeira de Anatomia, no Hospital Militar, em 2 de abril de 1808, mas foi somente em 5 de novembro que se criou a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica (NISKIER, 1989, p.83-84). O doutor José Lino Coutinho (SANTOS, 2005, p.154), herói da Independência e prestigiado médico do Imperador Dom Pedro I, idealizou a reforma do chamado Colégio Médico-Cirúrgico. As suas ideias foram levadas à Assembleia Geral e transformadas em lei no ano de 1832. Recebida a denominação de Faculdade de Medicina, tanto a da Bahia como a do Rio de Janeiro, a congregação teve mais autonomia. A Faculdade passou a contar com catorze cadei- ras e a duração do curso alcançou seis anos. Lino Coutinho foi nomeado o seu primeiro diretor, na Bahia. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 11 OS: 0187/11/17-Gil O curso criado pelo Príncipe Regente, em 1808, tornou-se faculdade, sofreu sucessivas reformas, no século XIX e no seguinte. Em 1946, a Faculdade de Medicina lide- rou o processo de criação da Universidade da Bahia (SAN- TOS, 2005, p.154). A criação do ensino superior público de Medicina, ainda na Bahia e no Rio de Janeiro, foi uma das primeiras iniciativas do Príncipe Regente na área da educação. Segui- ram-se a criação das Academias Militar e de Marinha, esco- las primárias, aulas e cursos profissionais isolados. Percebe- se, claramente, a motivação militar na criação de cursos de cirurgia e medicina em hospitais militares em um período marcado pelas guerras napoleônicas. O ensino militar e a Academia de Marinha Conforme a mesma necessidade bélica do contur- bado início do século XIX, pelas campanhas napoleônicas, especialmente pela guerra peninsular (MALAFAIA, 2007) objetivou-se dotar o Estado brasileiro de instituições indis- pensáveis ao ensino militar visando-se à segurança. Um segundo tipo de ensino vai receber atenção direta do Prín- cipe Regente é o militar. Conforme determinação do ministro Conde de Li- nhares, o cuidado com a integração territorial criou uma Academia de Marinha semelhante àquela fundada em Lis- boa. Em 1808, instalou-se a Academia de Marinha nas hos- pedarias do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, com todos os instrumentos, livros, máquinas, cartas e planos vindos da Academia de Lisboa. No ano seguinte, 1809, insta- lou-se o Observatório Astronômico para uso dos guardas- marinhas, informa Oliveira Lima (1945, p. 254). O currículo de estudos incluía conhecimentos de Matemática, Geome- tria e as disciplinas náuticas como: Desenho de Marinha e Rudimentos sobre Construção dos Navios, Navegação Teóri- ca e Prática, Instrumentos de Tática Naval. Em 1812, decla- ra-se obrigatório o exame de desenho para completar o curso na Academia de Marinha. Antes da vinda do Príncipe Regente, o Rio de Janei- ro dispunha apenas de uma aula de fortificação, no Arsenal de Guerra e uma aula para preparo dos soldados e oficiais de linha e milícias. Uma vez estabelecida a corte, D. João faz saber que: “tendo em consideração ao muito que interessa ao meu real serviço, ao bem do público, e à defesa e segu- rança de meus vastos domínios que se estabeleça no Brasil e na minha atual Corte e cidade do Rio de Janeiro, um Curso regular das ciências exatas e de observação, assim como de todas aquelas que são aplicações das mesmas aos estudos militares e práticos”. (MOACYR, 1936, p. 46) A Real Academia Militar do Rio de Janeiro Objetivou-se a formação de hábeis oficiais de arti- lharia, de engenharia, geógrafos e topógrafos com emprego administrativo nas minas, nos caminhos, portos, canais, pontes e calçadas, estabelecendo, dessa maneira, a Acade- mia Real Militar. O curso foi dividido por anos, com previsão dos manuais e dos seus respectivos autores acrescida da cadeira de Química e de Língua Inglesa. A Academia Militar foi instalada no Largo de São Francisco de Paula, no Rio de Janeiro, no local onde se construía a Catedral da Sé, com- plementa Primitivo Moacyr (1936). Os professores tinham os mesmos direitos e privi- légios dos lentes da Universidade de Coimbra. Pelo que informou Oliveira Lima (1945, p.255) o ensino das matemá- ticas era muito exigido. A organização curricular previa, no primeiro ano, Álgebra, Análise Geométrica, Trigonometria Retilínea e Desenho de Figura; no segundo, Álgebra, Cálculo Diferencial e Integral e Geometria Descritiva; no terceiro, Mecânica, Hidráulica e Desenho de Paisagem; no quarto, Trigonometria Esférica, Ótica, Astronomia, Geodésia e Físi- ca; no quinto, Tática, Fortificação de Campanha, Química, Filosofia, Química e Desenho Militar; no sexto, entravam Ataque e Defesa das Praças e Mineralogia; no sétimo, Arti- lharia, Zoologia, Desenhos e Máquinas de Guerra e outras matérias. Tudo isso e mais os exercícios práticos, línguas francesa e inglesa e esgrima. Em 1858, transformou-se em Escola Central e por fim, em 1874, em Escola Politécnica, tornando-se um dos núcleos de estudos de engenharia e de tecnologia do país no século XX. A Escola Politécnica foi integrada à Universi- dade do Brasil criada em 1920. Aspectos do Ensino Profissional Algumas iniciativas contemplaram o ensino profis- sional. Ainda na Bahia, por decreto de 23 de fevereiro de 1808, instituiu-se a cadeira de Ciência Econômica, a ser ministrada, no Rio de Janeiro, por José da Silva Lisboa, futu- ro Visconde de Cairu, seguidor do liberalismo clássico de Adam Smith e perito na disciplina econômica. Em 1810, D. Marcus de Noronha e Brito, 8º Conde dos Arcos, governador da Capitania da Bahia, abriu em Sal- vador a Aula de Comércio, onde se formariam os guarda- livros e criou cadeiras de instrução pública no interior (NU- NES. Apud MATTOS, 1962, p.46). Uma preocupação maior induziu a criação do Curso de Agricultura na Bahia, que era a segunda cidade em im- portância, exportadora de açúcar, fumo e outros produtos coloniais pelo seu movimentado porto. O objetivo era au- mentar a opulência e a prosperidade, utilizando-se a fertili- dade do solo. A agricultura quando bem entendida e prati- cada era considerada como a primeira fonte de abundância e de riqueza nacional. O Condedos Arcos estabeleceu o curso para instrução pública dos habitantes dessa capitania e que servisse de normas para as demais capitanias. O ato de criação do curso fez menção ao conhecimento que Do- mingos Borges de Barros havia adquirido na Universidade de Coimbra e nas suas longas viagens a ser nomeado para dire- tor do Jardim Botânico e professor de agricultura. O ato DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 12 OS: 0187/11/17-Gil mencionou o cultivo de plantas indígenas, de que se possa tirar proveito, como plantas exóticas ou plantas já testadas como a cochonilha, o linho, o cânhamo, as amoreiras e as especiarias da Ásia. Uma ligação muito estreita estabeleceu- se entre o Curso de Agricultura e o Jardim Botânico na Bahia (MOACYR, 1936, v.1, p.52-57). Na corte, instalou-se, igualmente, a cadeira de Bo- tânica e Agricultura. Uma aula de Desenho foi também cria- da na Bahia, ainda na gestão do oitavo Conde dos Arcos, D. Marcus de Noronha e Brito (COSTA, 1997). Aulas régias, música e ensino religioso Primitivo Moacyr (1936) relacionou várias outras atividades de instrução no Império, fornecendo subsídios para a história da educação. Considere-se o provimento de cadeiras necessárias ”a bem do serviço e muito conveniente ao aumento e prosperidade da literatura e educação nacio- nal, dar providências para o provimento dos professores, para as diversas cadeiras do ensino público que se acham estabelecidas” (1936, p.59). Prosseguiu o governo na criação das aulas régias, instituídas no tempo do Marquês de Pom- bal, com aumento dos pedidos de aulas de primeiras letras (CARDOSO, 2007, p.217). Provida a cadeira de Geometria, mediante reque- rimento de um certo João Batista, foi ouvida a Mesa do Desembargo do Paço. A cadeira abrangia Aritmética, Álge- bra e Trigonometria, considerando o ensino da Matemática o mais necessário a todas as classes de pessoas. Nas especi- ficações, as matérias são distribuídas por ano, prevendo-se o uso das tábuas de Price. Previu-se o uso da língua francesa e inglesa como aquelas que entre as línguas vivas têm mais utilidade e uso. Dessa maneira, para aumento da prosperi- dade da instrução pública, criou-se na Corte uma cadeira de língua francesa e outra da língua inglesa, em 1809. Para a Bahia foi uma Cadeira de Música, justificou- se conforme atestou o Conde dos Arcos, pela decadência a que chegou o seu ensino, tão cultivada pelos povos civiliza- dos em todas as idades e tão necessária ao decoro e esplen- dor com que se deve celebrar o culto divino. Mas a carta do rei foi dirigida ao Conde da Palma, novo governador e capi- tão geral da Capitania da Bahia, que substituiu o conde dos Arcos somente chegando em 30 de março de 1818 (MO- ACYR, 1936, p.62). Em 1817, criou-se a Cadeira de Química na Bahia: “que se ensinem os princípios práticos da química, e seus diferentes ramos e aplicados às artes e à farmácia” (MO- ACYR, 1932, p. 63). Regulada pelas instruções assinadas pelo Conde da Barca, sendo responsável pelo ensino o doutor Navarro de Andrade, nomeado lente, conservando as hon- ras dos mestres da Universidade de Coimbra e pensão que recebeu pelo cofre da mesma Universidade. As instruções diziam como deveriam ser ensinada a teoria química e o uso de compêndio de sua escolha a serem aplicadas à essa inte- ressante ciência às diferentes artes e ramos da indústria. Os alunos adquiririam a agilidade e perícia na prática das ope- rações químicas tudo quanto fossem relativo à farmácia, agricultura, tinturaria, manufatura do açúcar e extração não somente das substâncias salinas, mas também dos óleos, betumes, resinas e gomas. O ensino de Química se ligava ao da Farmácia. Era a Química obrigatória aos que se destina- vam à cirurgia, medicina e ao ofício de boticário. As instru- ções foram emitidas em 28 de janeiro de 1817 e assinadas pelo Conde da Barca. Compreendeu-se a criação de escolas para a Bahia pela sua importância política e econômica como capitania e depois como província e pela eficiência da administração do Conde dos Arcos, conforme demonstrou Antonietta d’Aguiar Nunes (1997, 2003, 2004), no seu estudo sobre a sua políti- ca educacional: vinte e cinco cadeiras de primeiras letras, onze de gramática latina, algumas criadas e outras existen- tes, aulas maiores e autorização para abrir o Seminário Ar- quiepiscopal. Em Recife, o bispo Azeredo Coutinho estruturou o ensino de Filosofia no seminário de estudos secundários e eclesiásticos. Um colégio de meninas foi estabelecido com legado do deão da Catedral. Quase um sistema de escolas primárias abriu-se em 1814 (OLIVEIRA LIMA, 1845, p.256- 257). Dando continuidade à criação de aulas, Desenho e História foram destinadas à Vila Rica, juntamente com Filo- sofia e Retórica em Paracatu, em Minas Gerais informa Primitivo Moacyr (1936, p.67). Educação e cultura A Real Academia de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura Civil originou-se da tão discutida, hoje, missão artística francesa, conforme entendimentos mantidos pelo Conde da Barca e a França, por intermédio do Marquês de Marialva, embaixador em Paris. Além de cursos e aulas, criou-se a Biblioteca Pública com os livros, instrumentos de Física e de Matemática que vieram de Lisboa, da biblioteca da Ajuda. Em 1811, o conde dos Arcos, por seu turno, instalou a Biblioteca Pública na Bahia. Criou-se um Museu para propagação das ciências naturais. Para tanto, foi adquirido o gabinete de história natural do barão Oheim, com uma bela coleção mineralógi- ca. O Museu ocupou a casa do José Rodrigues Pereira de Almeida, no Campo de Santana. Dele proveio o atual Museu Nacional. O Jardim Botânico foi instituído para as plantas exóticas e plantas do Brasil. A criação da Imprensa Régia possibilitou a impressão de livros didáticos, de moral, de filosofia aristotélica, obras poéticas e publicações de José Silva Lisboa, Observações comerciais e econômicas (1808), Memórias do Rio de Janeiro (1820), do monsenhor Pizardo (OLIVEIRA LIMA, 1945, p. 260). DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 13 OS: 0187/11/17-Gil A cidade do Rio de Janeiro, sede da Corte, recebeu a maior atenção com as academias militares, cadeiras de Botânica, Matemática e Música. O conjunto da obra educa- tiva foi formado por academias, cursos e aulas régias, a exemplo da aula de Economia. Além do apoio na Biblioteca Pública, Museu, Jardim Botânico Na síntese de Fernando de Azevedo (1964, p. 562) deixa claro as inovações: Sobre as ruínas do velho sistema colonial, limitou-se D. João VI a criar escolas especiais, montadas com o fim de satisfa- zer o mais depressa possível e com menos despesas a tal ou qual necessidade do meio a que se transportou a corte por- tuguesa. Era preciso, antes de mais nada, prover à defesa militar da Colônia e formar para isso oficiais e engenheiros, civis e militares: duas escolas vieram atender a essa necessi- dade fundamental, criando-se em 1808 a Academia de Ma- rinha e,em 1810, a Academia Real Militar, com oito anos de cursos. Eram necessários médicos e cirurgiões para o Exérci- to e a Marinha: criaram-se então, em 1808, na Bahia, o curso de cirurgia que se instalou no Hospital Militar e, no Rio de Janeiro, os cursos de anatomia e cirurgia a que acrescen- taram, em 1809, os de medicina, e que, ampliados em 1813, constituíram comos da Bahia, equiparados aos do Rio, as origens do ensino médico no Brasil. No final de suas considerações sobre a emancipa- ção intelectual promovida por D. João VI, Oliveira Lima (1945, p. 262) ponderou, criticamente, que: “Somente go- rou o projeto de uma Universidade – projeto acariciado pelo Rei, que chegou a convidar José Bonifácio para diretor, mas não igualmente favorecido por todos os seus ministros [...]”. Interpreta como uma pertinaz oposição que receava desa- parecer um dos fundamentos em que se assentava a superi- oridade da metrópole. Nesse mesmo sentido, foram os insistentes pedidos do Senado da Câmara de Salvador, a partir de 10 de outubro de 1809 com compromisso de ma- nutenção de contribuintes para fundo de auxílio à Universi- dade (SILVA, 1956, p. 125-126). Nenhuma das duas iniciati- vas obteve êxito. A Universidade só veria um século depois. Referências Bibliográficas AZEVEDO, Fernando de. A cultura brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. 4. ed. ver. e ampl. São Paulo: Melhoramentos, 1964. Obras completas v. 13. BOAVENTURA, Edivaldo M. Origem e formação do sistema estadual de educação superior da Bahia -1968-1991. Revista da Faeeba: Educação e Contemporaneidade. Salvador, v. 14, n. 24, p. 155-173, p. 155-173. jul./dez., 2005. ______. O Estado e a educação superior na Bahia. In: CON- GRESSO DAS ACADEMIAS IBERO-AMERICANAS DE HISTÓRIA, 10, 2006, Lisboa. CALMON, Pedro. O rei do Brasil: a vida de D. João VI. 2. ed. aum. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1943. Brasili- ana ______. 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Marcos de Noronha e Brito) na Bahia (1810-1818) e sua política edu- cacional (publicado no CD de Anais do VI Colóquio do Mu- seu Pedagógico da UESB em Vitória da Conquista, realizado de 27 a 29 de novembro de 2006) e encaminhado para pu- blicação na Revista da FACED/UFBA ______. A educação na Bahia durante os governos de D. Maria I e de D. João, seu filho (1777-1821), Aracaju, Revista do Mestrado em Educação da Universidade Federal de Sergipe, v. 7, p. 37-50, dez.2003. ______. A formação universitária na Bahia desde os tempos coloniais. Salvador, 2006. Inédito PEDREIRA, Jorge; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: o clemente. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2006. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 14 OS: 0187/11/17-Gil SILVA, Alberto. 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A Proclamação da Independência do Brasil, em 1822, não modificou o panorama da Educação Nacional. O que se observa no cenário nacional, desde então, é a tenta- tiva do Poder Público (federal, estadual e municipal) de transformar a realidade através da lei, o que, via de regra, não trouxe os resultados esperados em virtude da falta de suporte financeiro, que evidencia a falta de compromisso político dos governantes para resolver os problemas educa- cionais estruturais seculares: falta de professores qualifica- dos, salário indigno, precariedade das escolas, falta de ma- terial didático adequado, etc. Deve ser destacado, desse período, o início da legis- lação nacional: 1) O Decreto, de 1º de março de 1823. Que instituiu o Método Lancaster, conhecido como ensino mútuo, no qual os estudantes com maior aproveitamento (monitores ou decuriões) auxiliavam os demais, cada moni- tor/decurião orientava dez colegas 2) Constituição Brasileira Outorgada em 1824, no seu art. 179, inciso XXXII, garante “A Instrucção primaria e gratuita a todos os Cidadãos”. 3) A Lei da Instrução Pública, de 15 de outubro de 1827. Que estabelece, no seu art. 1º: “Em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos haverão as escolas de primeiras letras que forem necessárias.” O Ato Adicional de 1834, que instituiu a Regência Una, no seu art. 10, inciso II, descentralizou o ensino, man- tendo a competência da União para legislar sobre o ensino superior e atribuindo às províncias a responsabilidade pela escola primária e secundária. No ano seguinte, em 1835, é fundada a primeira Escola Normal do Brasil, em Niterói (RJ). Em 1837, na cidade do Rio de Janeiro, é fundado o Colégio Pedro II, que, sob as bênçãos da Coroa, deveria ser o padrão de escola secundária. Tal intenção, porém, não se materializou, uma vez que as suas condições de funciona- mento eram bem melhores que as dos colégios das provín- cias, que careciam, dentre outras coisas, de professores qualificados. Para diminuir tal deficiência, foram instaladas as escolas normais em Niterói (1835), Bahia (1836), Ceará (1845) e São Paulo (1846), o que não atendia a grande de- manda. Na República, o Colégio Pedro II continuou a ser referência educacional a nível secundário para ginásios estaduais e escolas privadas. A partir de 1840, a economia do Império, antes ba- seada na produçãoaçucareira do Nordeste, encontra no café um novo produto de exportação, estabelecendo uma nova sociedade, pois as cidades começaram a ocupar um papel de destaque na economia nacional, em substituição ao campo. A acumulação de capitais deu início à industriali- zação, exigindo uma mão de obra apta a lidar com as má- quinas, responsabilidade atribuída à educação. A resposta estatal ocorreu, embora que timidamente: a maior parte das medidas ficou circunscrita ao Município da Corte. A criação das escolas normais, apesar de algumas dificuldades – os cursos eram noturnos, o que implicava a realização de poucas aulas práticas, não havia garantia da profissionaliza- ção, além da má preparação dos professores – permitiu uma discreta melhoria da qualidade do ensino primário, ainda restrito às aulas de leitura, escrita e cálculo. A instrução secundária, cuja responsabilidade pela organização era das províncias, ainda era marcada pelas aulas régias, o que contribuía para que fosse vista apenas como um passaporte para o ensino superior, devendo pre- parar os estudantes aos exames de admissão. Quanto ao ensino superior, os cursos se restringiam aos: jurídicos, em Olinda e São Paulo; médicos, na Bahia e Rio de Janeiro; militares, no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Fortaleza; de minas, em Ouro Preto; de marinha e ensino artístico, no Rio de Janeiro; e de ensino religioso, em 6 seminários. Entre 1832 e 1850, vários relatórios foram escritos sobre a educação, tendo em comum os seguintes pontos: - quadro caótico da educação primária. - insuficiência do método lancasteriano. - preocupação com a qualidade dos prédios escolares. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 15 OS: 0187/11/17-Gil - necessidade de fiscalização das escolas. - quadro docente muitas vezes despreparado para desem- penhar a contento a sua função. A Reforma de Couto Ferraz, de 1854, revela a ten- tativa do Governo Federal de criar normas que orientassem a educação nacional, ampliadas com o Decreto de Leôncio de Carvalho, de 1878, o qual precisava da aprovação do Legislativo, motivo pelo qual Rui Barbosa (1849- 1923) elaborou dois pareceres, em 1882: 1) Sobre o ensino secundário e superior. 2) Sobre o ensino primário e instituições complementares. A partir da relação estabelecida entre desenvolvi- mento econômico, político e social de algumas nações, com o grau da instrução primária alcançado, o Parecer apontava a educação como o caminho a ser trilhado na extinção da ignorância que assolava a nossa pátria, propondo a criação de um Ministério da Instrução Pública. Uma novidade con- sistia na defesa da implantação, no Brasil, dos jardins de infância, inspirados nos kindergartens propostos por Friedrich Fröbel (1782-1852) na década de 1830, desti- nados às crianças de 3 a 7 anos. A 2ª metade do século XIX foi marcada pela implan- tação de estabelecimentos de nível secundário dedicados ao público feminino. Até então, somente uma pequena parcela da população feminina recebia aulas de primeiras letras, prendas domésticas e boas maneiras, sendo que um contin- gente ainda mais reduzido é que tinha acesso ao estudo de línguas modernas, ciências e disciplinas pedagógicas. Quanto mais o café gerava riqueza para os fazen- deiros paulistas, mais decaía a importância do açúcar na economia nacional. É interessante lembrar que essa aristocracia tradi- cional estava profundamente ligada à Monarquia, enquanto a emergente aristocracia não tinha vínculos tão profundos com tal regime, o que contribuiu para que paulatinamente essa desejasse maior participação nas decisões do Governo, o que levou à fundação do Partido Republicano, em 1870. É nesse contexto de mudança que as novas ideias ganham cada vez mais espaço, notadamente às relacionadas ao Positivismo, cujo maior expoente foi Augusto Comte (1798-1857). Refutando o pensamento católico conservador, os republicanos defendiam a posição de que a Ciência deveria guiar os passos da sociedade, imprimindo-lhe o progresso tão almejado em todos os recantos do País. Estima-se que, em 1867, apenas 10% da população tinha acesso à escola primária. O analfabetismo, em 1890, atingia a marca de 67,2%, revelando a falta de zelo do Poder Público nesse período pela Educação. (ARANHA, 2002, p. 154-155) Assistiu-se, portanto, desde o final do século XVIII e boa parte do século XIX até a Proclamação da República, a uma série de medidas isoladas – instituição das aulas régias, criação das escolas de primeiras letras e escolas normais, reformas educacionais... – as quais foram insuficientes para elaborar um sistema educacional nacional. Referências Bibliográficas ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2002. BARGUIL, Paulo Meireles. O Homem e a conquista dos espa- ços – o que os alunos e os professores fazem, sentem e aprendem na escola. Fortaleza: Gráfica e Editora LCR, 2006. BATISTA, Maria Aparecida Camargo. O primeiro “kindergar- ten” na província de São Paulo. 1996. Dissertação (Mestrado em Educação). USP, São Paulo. BENITO, Agustín Escolano. Tiempos y espacios para la escue- la – Ensayos históricos. Madrid: Biblioteca Nueva, 2000. FRAGO, Antonio Viñao. Do Espaço escolar e da escola como lugar: propostas e questões. In: FRAGO, Antonio Viñao; ESCOLANO, Agustín. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa. Tradução Alfredo Veiga-Neto. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. p. 59-139. Período Republicano (1889 - ...) Com a Proclamação da República, o Brasil adotou o federalismo e o poder, até então centralizado no imperador, foi dividido entre o presidente e os governos estaduais. O período foi marcado pelo desenvolvimento da indústria, pela reestruturação da força de trabalho - não mais escrava -, pelas greves operárias e pela Semana de Arte Moderna. No mundo, aconteceu a Revolução Russa, a Primeira Guerra Mundial e a queda da bolsa de Nova York. Essas transforma- ções tiveram ecos na Educação. A ideia do ensino como direito público se fortaleceu e surgiram modelos que se perpetuaram. República Velha No Brasil, com a Constituição de 1891, a União fi- cou responsável apenas pela Educação no Distrito Federal (então, o Rio de Janeiro). "Os estados mais ricos assumem diretamente a responsabilidade pela oferta de ensino e os mais pobres repassam-na para seus municípios, ainda mais pobres", comenta Romualdo Portela no livro Educação e Federalismo no Brasil: Combater as Desigualdades e Garan- tir a Diversidade. Diante da fragmentação organizativa e da falta de uma orientação nacional, surgiram diversas propostas de reforma. Elas eram calcadas em diferentes ideais que passa- ram a disputar espaço. Os embates principais foram entre o DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 16 OS: 0187/11/17-Gil positivismo e o escolanovismo, mas também estavam pre- sentes os ideais católicos e o anarquismo. Não pode ser uma escola de tempo parcial, nem uma escola somente de letras, nem uma escola de iniciação intelectual, mas uma escola sobretudo prática, de iniciação ao trabalho, de formação de hábitos de pensar, hábitos de fazer, hábitos de trabalhar e hábitos de conviver e participar em uma soci- edade democrática, cujo soberano é o próprio cidadão. (Aní- sio Teixeira) Diferentesconcepções de ensino As ideias positivistas ganharam força com a refor- ma de 1890, organizada por Benjamin Constant (1833- 1891). Adepto das teses do filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), ele foi nomeado chefe do Ministério da Instru- ção Pública, Correios e Telégrafos - primeiro órgão desse nível a se ocupar da Educação. Propôs mudanças nos ensi- nos primário (de 7 a 13 anos) e secundário (de 13 a 15 anos) do Distrito Federal, priorizando disciplinas científicas como Matemática e Física, em detrimentos das humanas - que eram o foco das escolas de primeiras letras, criadas no Im- pério. Benjamin Constant foi ministro da Instrução Pública, Correios e Telégrafos. Nos grupos escolares estudavam muitos alunos, divididos por série e idade A resistência da elite e da Igreja católica impediram que o projeto de Constant avançasse, mas ele abriu espaço para outras propostas. A que alcançou maior êxito foi a reforma paulista, implementada de 1892 a 1896. Ela tinha como base a criação dos grupos escolares. Como relata Dermeval Saviani no livro História das Ideias Pedagógicas no Brasil (489 págs., Ed. Autores Associados, tel. 19/3289-5930, 89 reais), esse modelo - que foi replicado na maioria dos estados - reunia em um mesmo espaço as antigas escolas de primeiras letras. O ensino passou a ser organizado em séries e os estudantes foram divididos por faixa etária. Tornou-se necessário formar mais professores. A intenção do governo paulista era abrir quatro novas Escolas Normais, mas só a da capital saiu do papel no início da Re- pública. Paralelamente, foi criada uma solução rápida, mas de qualidade inferior: as escolas complementares. Foi preciso, também, estruturar a administração da Educação e formular diretrizes e normas. "Isso gerou novas relações de poder dentro das escolas e, a partir de 1894, surge o cargo de diretor escolar", registra Jorge Uilson Clark, no artigo A Primeira República, as Escolas Graduadas e o Ideário do Iluminismo Republicano: 1889-1930. A direção era reservada aos homens. Já as vagas de professores da Educação primária eram amplamente preenchidas por mu- lheres. Rosa Fátima de Souza, da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), destaca que era um trabalho socialmente aceito e elas concordavam em ganhar salários baixos, pouco atraentes ao público masculi- no. Na base pedagógica da reforma paulista estavam princípios como a simplicidade, a progressividade, a memo- rização e a autoridade, fundamentada no poder do profes- sor e em prêmios e castigos aos estudantes. Rosa comple- menta que os docentes eram bastante pressionados pelo estado. "Notamos uma preocupação nos relatos de profes- sores da época em cumprir o programa. O aluno que repetia trazia um gasto extra que preocupava a escola", ela diz. A Educação, então, tinha um viés excludente, já que quem era reprovado (cerca de 50%) acabava deixando de estudar. "A exclusão também se dava em função da localização geográ- fica e do número de unidades escolares", explica Vera Lúcia Gaspar da Silva, da Universidade do Estado de Santa Catari- na (Udesc). Embora grande parte da população estivesse no campo, os grupos eram construídos nas cidades. Nas áreas rurais, havia apenas escolas isoladas, com uma sala e alunos de diferentes idades. Linha do tempo 1891 – É proclamada a Constituição e a Educação fica a cargo de estados e municípios. 1892 – A reforma paulista propõe os grupos escolares, com a divisão dos alunos em séries. 1914 – Começa a Primeira Guerra Mundial, que segue até 1918. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 17 OS: 0187/11/17-Gil 1920 – Ocorre a Reforma Sampaio Dória, em São Paulo, seguida por outras sete. 1930 – A revolução e um golpe de estado levam Vargas ao poder. Esforços para democratizar A ideia de uma Educação para todos só ganhou for- ça na década de 1920. Nesse período, se destacaram os pioneiros da Escola Nova - Anísio Teixeira (1900-1971), Fernando de Azevedo (1894-1974), Lourenço Filho (1897- 1970) e outros -, que defendiam a escola pública e laica, igualitária e sem privilégios. O estopim das mudanças foi a Reforma Sampaio Dória, em São Paulo, em 1920, que leva o nome do então diretor-geral da Instrução Pública do estado, Antonio de Sampaio Dória (1883-1964). Preocupado com o fato de metade da população de 7 a 12 anos estar fora da escola e com um baixo orçamento, ele propôs uma etapa inicial de dois anos (equivalente ao começo do Ensino Fundamental atual), gratuita e obrigatória. O projeto foi engavetado rapidamente, mas abriu espaço para ações estruturais em vários estados. Em um período de seis anos, educadores lideraram reformas no Ceará, no Paraná, no Rio Grande do Norte, na Bahia, em Minas Gerais, no Distrito Federal e em Pernambuco. Segun- do Saviani, elas alteraram a instrução pública em aspectos como a ampliação da rede de escolas e a reformulação cur- ricular. Paralelamente, a corrente anarquista conquistou espaço e passou a influenciar a Educação. Foram fundadas escolas operárias em quase todos os estados, geridas pela comunidade. Tendo como base a Pedagogia libertária e as ideias do espanhol Francisco Ferrer y Guardia (1859-1909), as instituições fugiam do dogmatismo e fundamentavam o currículo na ciência, como descreve Angela Maria Souza Martins, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janei- ro (Unirio), no artigo A Educação Libertária na Primeira Re- pública. Incomodada com a perda de espaço, a Igreja católi- ca também orquestrou uma reação, pressionou os governos para o restabelecimento do ensino religioso, publicou livros didáticos e artigos em revistas e jornais e continuou a atuar na formação de professores. Da mesma maneira, as elites tentavam reconquistar seu poder. De outro lado, os escola- novistas cresciam cada vez mais e se preparavam para a publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932, já no governo de Getúlio Vargas (1882-1945). Era Vargas Desde as primeiras décadas do século XX, os rumos da educação do país estiveram na pauta de discussão de vários setores organizados da sociedade. A fundação da Associação Brasileira de Educação, em 1924, com a função de promover debates em torno da questão educacional; a influência da Escola Nova e seus defensores, movimento que se empenhou em dar novos rumos à educação, questi- onando o tradicionalismo pedagógico, e os embates da Igreja no seu confronto com o estabelecimento de novos modelos para a educação tornam evidente a diversidade de interesses que abrangia a educação escolarizada. A criação do Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública em 1930; a Constituição de 1934 estabele- cendo a necessidade de um Plano Nacional de Educação, como também a gratuidade e obrigatoriedade do ensino elementar, e as Reformas Educacionais nos anos de 1930 e 40 demonstram que, nessas décadas, houve mudanças formais e substanciais na educação escolar do país. Essas questões não podem ser destacadas do pro- cesso de desenvolvimento do modelo industrial, como tam- bém da demanda por educação. A década de 1930 é reco- nhecida como o marco referencial da modernidade na histó- ria do Brasil, modernidade entendida como o processo de industrialização e urbanização, contemplada por inúmeros estudos que destacam esse período pelas mudanças que inaugurou e os movimentos políticos que protagonizou: a Revolução de outubro de 1930, a Revolução Constituciona- lista de 1932 e o Estado Novo, em 1937. As análises se valem de diferentesconceitos, abordagens e suportes teórico- metodológicos, para investigar os processos que culmina- ram nesses acontecimentos e sobre quais forças políticas e interesses predominaram nas alterações ocorridas no país, em um momento de definições sobre como encaminhar o desenvolvimento capitalista industrial. Em uma abordagem geral, a Revolução de 1930 foi fruto da crise econômica do setor agroexportador do café agravada com a quebra da bolsa de Nova York em 1929, e dos embates de segmentos sociais que não se consideravam referenciados no processo político da Primeira República, marcados por sucessivas eleições pactuadas entre os seto- res agrários. O golpe de Estado em 1937, que instalou o Estado Novo, foi justificado pela necessidade de se manter a ordem institucional contra os regionalismos, herança do período anterior; contra as divergências entre os grupos dominantes: setores agrários e burguesia industrial e contra as manifestações das forças de oposição, como por exem- plo, a Intentona Comunista em 1935. Esse período intensificou as mudanças nas relações entre Estado e sociedade, fortalecendo a centralização do poder e facilitando a criação de um Estado forte, que pre- dominou até meados dos anos de 1940. A recente modernização capitalista no Brasil, nos anos de 1930, trouxe a expansão de novas camadas sociais e abriu possibilidades de mobilidade social na estrutura de classes da sociedade brasileira, com a ampliação do merca- do de trabalho e do mercado consumidor. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 18 OS: 0187/11/17-Gil Nesse contexto de expansão das forças produtivas, a educação escolar foi considerada um instrumento funda- mental de inserção social, tanto por educadores, quanto para uma ampla parcela da população que almejava uma colocação nesse processo. Às aspirações republicanas sobre a educação como propulsora do progresso, soma-se a sua função de instrumento para a reconstrução nacional e a promoção social. Acompanham esse quadro, as discussões em torno dos modelos educacionais. Do ponto de vista do ideário, o liberalismo se consubstanciou na Primeira República no país e se fez presente nas políticas educacionais, tomando lugar, paulatinamente, da ideologia educacional católica. O discurso pedagógico liberal se expressou na escola nova, movimento de renovação escolar que se desenvolveu em vários países e chegou ao Brasil na década de 1920, fruto das mudanças inerentes ao processo de de- senvolvimento capitalista, com seus novos valores, necessi- tando, segundo seus defensores, de uma renovação da escola. Quanto aos métodos de ensino, a pedagogia tradi- cional predominou até o fim do século XIX, enfatizando a atuação do professor. Como ensinar é uma das diretrizes dessa concepção pedagógica. A pedagogia nova toma corpo a partir das primeiras décadas do século XX, mudando o foco e centralizando o processo de aprendizado no aluno. Como aprender é o seu eixo principal, fundamentando-se nos aspectos psicológicos do processo de aquisição de co- nhecimentos. Escola ativa ou escola da iniciativa foram termos usados, na época, para designar esse movimento de renova- ção educacional, o aprender a aprender, na definição atual. No dizer da Escola Nova, o processo de aquisição do conhe- cimento, diferentemente da escola tradicional, surge da ação da criança. Os anos de 1930 foram férteis em relação à nova educação. As propostas sobre educação do Manifesto dos Pioneiros, publicado em 1932, foram defendidas por educa- dores que ocuparam cargos na administração pública e que implementaram diretrizes educacionais, respaldados por essa visão de educação. Contrastando com a educação tradicional, as novas tendências pedagógicas visavam proporcionar espaços mais descontraídos, opondo-se como investigação livre, à educa- ção ensinada. Os novos métodos de ensino visavam à auto- educação e a aprendizagem surgia de um processo ativo. Sobre a Escola Ativa, Lourenço Filho, um de seus precursores no país, afirma: [...] aprende-se observando, pesquisando, perguntando, trabalhando, construíndo, pensando e resolvendo situações problemáticas apresentadas, quer em relação a um ambien- te de coisas, de objetos e ações práticas, quer em situações de sentido social e moral, reais ou simbólicos. (LOURENÇO FILHO, 1978, p. 151), Em São Paulo, segundo o autor, as escolas pioneiras na aplicação dos novos métodos de aprendizagem foram a Escola Experimental Rio Branco, a Escola Modelo, anexa à escola Normal da Praça da República, hoje Instituto Caetano de Campos e a Escola Americana, atual Instituto Mackenzie, primeiramente nos cursos primários. (LOURENÇO FILHO, 1978, p. 175-176). Na sua exposição sobre a Escola Nova, esse educa- dor relata uma experiência com alunos do curso primário na Escola Experimental Rio Branco, sobre a técnica dos proje- tos, como procedimento didático, desenvolvida por John Dewey, que prima pela participação do aluno, o que promo- ve sua motivação e a aprendizagem com objetivos defini- dos. Ainda sobre sua experiência na Escola Rio Branco, Lourenço Filho indica que o projeto implica ensino globali- zado [...] e o papel do mestre como conselheiro discreto, (que) encaminha, estimula, sugere. (LOURENÇO FILHO, 1978, p.199, 210). O processo de implantação da educação renova- da em São Paulo ocorreu, nos anos de 1930 e 40, nos cursos primários de escolas particulares, indicando que a criança das camadas médias da população foi o público, inicialmen- te, atingido por esse modelo de educação. Dados estatísticos nos indicam que o acesso à educação primária nos anos de 1930 e 40, mesmo com a ampliação na oferta de vagas nas escolas primárias e frente à demanda por educação nos centros urbanos, não atingiu a maioria da população infantil. (SPOSITO, 1984, p. 32-34). Saviani sobre a propagação da pedagogia da nova escola nos indica que, [...] a “Escola Nova” organizou-se basicamente na forma de escolas experimentais ou como núcleos raros, muito bem equipados e circunscritos a pequenos grupos de elite. No entanto, o ideário escolanovista, tendo sido amplamente difundido, penetrou nas cabeças dos educadores acabando por gerar consequências também nas amplas redes escola- res oficiais organizadas na forma tradicional. Cumpre assi- nalar que tais consequências foram mais negativas que positivas uma vez que, provocando o afrouxamento da dis- ciplina e a despreocupação com a transmissão de conheci- mentos, acabou por rebaixar o nível do ensino destinado às camadas populares as quais muito frequentemente têm na escola o único meio de acesso ao conhecimento. Em contra- partida, a “Escola Nova” aprimorou a qualidade do ensino destinado às elites. (SAVIANI, 1985, p. 14). A Era Vargas foi palco das primeiras investidas dos novos métodos de ensino, preconizando a centralidade na criança e na sua iniciativa no processo de aquisição do co- nhecimento. Mesmo que inicialmente restrito, porque atendendo a uma camada da população, esse ensino reno- vado se sedimentou, atingindo amplos setores educacionais, incitando uma discussão sobre os princípios norteadores de DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 19 OS: 0187/11/17-Gil seu método de ensino, que nem sempre atende as necessi- dades de parte da população escolar. Cenário educacionalpós era Vargas Com o fim da era Vargas onde o Brasil esteve sob o jugo de uma constituição outorgada, ocorre a formulação de uma nova constituinte promulgada em 1946. Essa foi a quin- ta constituição brasileira promovida conjuntamente com a restauração da democracia no país, logo após o Estado Novo ou a ditadura de Vargas. Houve a reconstituição partidária e consequente- mente a volta dos três poderes atuantes, o executivo, o legislativo e o judiciário. Essa constituição teve um cunho liberal e marcado pela abertura democrática no país. [...] a constituição de 1946 é, pois, um documento de inspi- ração ideológica liberal-democrática...;os princípios liberais da Carta de 1946, que asseguravam direitos e garantias individuais inalienáveis, estavam visivelmente impregnados do espírito democrático tão próprio das reivindicações soci- ais do século em que vivemos. (ROMANELLI, 1998, p.171) O Brasil faz assim uma composição com o liberalis- mo econômico, alinha se com países dessa área, e o país passa a receber capitais externos. O mundo desenvolvido era inspirado pela filosofia liberal do laissez-faire, isto é, a não interferência do Estado na economia, ou a menor inter- ferência possível do Estado na economia. O país caminhava para o desenvolvimento econômico com a expansão do parque industrial e a educação deveria caminhar na mesma direção do modelo de desenvolvimento que estava propos- to. Nesse cenário ocorre uma proposta para uma am- pla reformulação da educação nacional. O projeto foi pro- posto em 1948, mas só foi votado em 1961 (Lei 4.024). Essa paralisação foi por conta da reforma Capanema. Capanema era contrário à descentralização, propunha que o Estado era quem deveria ter a competência para gerenciar a educação, isso só foi modificado com Carlos Lacerda. Essa proposta de liberdade de ensino que foi apro- vado pela Lei 4024, que dava igualdade de direitos para ambas as escolas pública e privada, politicamente vai de encontro com os ideais da classe dominante. A reforma universitária vivida no início dos anos de 1960, não vinha só, juntamente com ela vinha reivindica- ções sociais como reforma agrária, econômica – social, co- mo a reforma tributária, além do medo de uma mudança político econômico no caminho do socialismo. É nessa época entre 1960 e 1970 é que o Brasil passa ter a maioria da po- pulação no meio urbano, sendo o setor industrial o que mais contratava trabalhadores nessa época, consequentemente ocorre também uma melhor distribuição de renda, pois o salário urbano era maior que o salário do meio rural. Nesse sentido tanto a democracia quanto o desen- volvimento econômico caminhavam juntos, o ensino tam- bém deveria seguir o processo de democratização, nos mol- des da sociedade vigente da época. O Retorno de Vargas Falar de educação no segundo gover- no Vargas (1951-1954) nos obriga voltar ao primeiro gover- no (1930-1945). Foi ali que se criou o Ministério da Educa- ção e Saúde (1930), que se construiu um sistema nacional público de ensino, e que foram feitas reformas que perdura- ram muitas décadas além da de 1940. A Reforma do Ensino Secundário de 1942, a Reforma Universitária, com a criação e padronização do sistema universitário público federal, a criação da Universidade do Brasil, a criação do Serviço Naci- onal da Indústria (Senai), em 1942, estão entre tais iniciati- vas. No caso do ensino primário, a política que talvez melhor exprima o tom daquele governo tenha sido a nacionalização do ensino, ou seja, o fechamento de escolas estrangeiras, a construção de unidades escolares e a imposição de um sis- tema nacional de ensino. A educação do primeiro governo Vargas ficou identificada com o ministro Gustavo Capane- ma, que esteve à frente do ministério da Educação por 11 anos, de 1934 a 1945. Ao contrário do primeiro, o segundo governo Var- gas não despertou nos analistas o mesmo fervor ao tratar da educação. Desapareceram os problemas? Teríamos avança- do o suficiente com tantas medidas estruturais promovidas no período anterior? Os dados do IBGE não nos confortam nessa direção. Pelos dados do Censo Demográfico de março de 1951, a população brasileira era então de 51.944.397 habi- tantes. A população em idade escolar, de 5 a 9 anos, era de 7.015.527. O número de matrículas no ensino primário tota- lizava 5.175.887. Mas o Censo mostra mais. O número total de matrículas em todos os graus de ensino somava 6.118.842. Este número considera todos os níveis, do primá- rio ao superior, para uma população em idade escolar (de 5 a 19 anos) de 18.826.409. A taxa de analfabetismo era da ordem de 52%. Educação continuava sendo, portanto, um grande problema no início da década de 1950, conhecida na história brasileira como a década do desenvolvimentismo. A aura desenvolvimentista expunha com mais nitidez a precarieda- de educacional dos brasileiros. O segundo governo Vargas, conhecido pelo impulso nacionalista ao desenvolvimento, ficou devendo muito, se o que estiver em pauta for educa- ção. E quase não se fala de educação nesse período. São tão silenciosas as fontes que, se quiséssemos, poderíamos re- sumir estas notas à criação de institutos e instituições de administração superior que, de fato, impulsionaram o proje- to institucional do país. A lista é imensa. E a orientação que inspirou a cria- ção de agências especializadas foi a formação e qualificação DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 20 OS: 0187/11/17-Gil técnica de funcionários de nível superior. Estava em jogo a preparação de uma elite capaz de atuar em uma conjuntura mobilizada pelo crescimento, pelo desenvolvimento tecno- lógico e pelo impulso à industrialização. Várias agências públicas e instituições de fomento foram criadas nos primei- ros meses de 1951: o Banco Nacional de Desenvolvimento (atual BNDES), o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e a Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), para citar apenas três. O capital humano, a racionalização da administração e o domínio do conhecimento técnico e científico eram condições indispen- sáveis para que o país visse seu empenho desenvolvimentis- ta produzir os frutos almejados. O CNPq e a Capes vêm, desde a década de 1950, desempenhando papel estratégico na expansão e consolidação da pós-graduação stricto sen- su(mestrado e doutorado) no Brasil. Atualmente, contamos com mais de 1.581 programas de pós-graduação, com a oferta de mais de 1549 cursos de mestrado e 862 de douto- rado. Ainda durante o segundo governo, outra medida provocou impacto sobre a política educacional do país. O ministério que cuidava simultaneamente da educação e da saúde foi desmembrado em 1953. Até a separação dos dois ministérios, Ernesto Simões Filho respondeu pelos assuntos da educação e saúde (31/1/1951 a 25/6/1953). A partir de então, Antônio Balbino assumiu o Ministério da Educação e Cultura e, interinamente, o Ministério da Saúde, até entre- gá-lo ao primeiro titular da pasta, Miguel Couto Filho, em dezembro de 1953. Edgar Santos foi o último ministro da Educação do segundo governo (6/7/1954 a 24/8/1954). Uma razão de ordem política pesou, certamente, para que a educação tenha ocupado lugar tão acanhado no segundo governo Vargas, contrariando a ênfase publica- mente admitida no primeiro. Durante o gover- no Dutra (1946-1951), os princípios democratizadores da educação presentes na Carta de 1946 inspiraram no então ministro da Educação, Clemente Mariani, o estudo e a pro- posta de um projeto geral para a educação nacional, que foi feito por umacomissão de educadores constituída para este fim. Em 1948 o projeto foi apresentado ao Congresso, onde ocupava uma cadeira o ex-ministro Capanema, eleito depu- tado federal pela primeira vez em 1945 na legenda Partido Social Democrático (PSD), um dos sustentáculos do governo. A presença de Capanema no Congresso inibia as discussões a respeito da reforma educativa que havia pro- movido durante sua gestão no ministério. As dificuldades se acentuaram no segundo governo Vargas, quando Capane- ma, que graças ao convívio muito próximo do poder durante todo o Estado Novo mantinha bom relacionamento com o presidente, foi indicado líder da maioria na Câmara. Sua condição de líder, mais do que estimuladora de avanços no processo de aperfeiçoamento da política educacional, foi um fator intimidador de iniciativas parlamentares. O minis- tro da Educação em 1953, Antônio Balbino, era uma lideran- ça ainda não consolidada no quadro político nacional e difi- cilmente contrariaria o ex-ministro. O resultado final de todas essas dificuldades foi que a Lei 4.024 – a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação – só foi votada em dezembro de 1961. Devem ser citadas as seguintes características da primeira LDB nacional: - Apenas o Ensino Primário era obrigatório. - O ingresso no ciclo Ginasial do Ensino Médio dependia de aprovação no Exame de Admissão (art. 36). - O Ensino Médio tinha os cursos secundário, técnico (agrí- cola, comercial e industrial), normal e outros. - Os Ensinos Médio e Superior tinham como limites mínimos de duração 180 dias. Os anos 60 foram marcados por uma profunda in- quietação social, merecendo destaque os movimentos de educação popular: os centros populares de cultura (CPC), os movimentos de cultura popular (MCP) e o Movimento de Educação de Base (MEB). A contribuição de Paulo Freire para esta eferves- cência cultural, com forte preocupação social e política, é intensa, não somente por ter formulado um método de alfabetização, num país com grande contingente de pessoas iletradas, mas devido à concepção de conhecimento, de Educação a ela vinculada. No entendimento de Paulo Freire, para compreen- der e atuar no mundo, o Homem precisa ler a palavra e ler a realidade. A sua proposta educacional se contrapõe à edu- cação bancária, a qual não vislumbra os estudantes como sujeitos, que interpretam e criam significado, mas, tão-só, gavetas para guardar informações que poderão ser úteis no futuro. O sucessor de Juscelino foi Jânio Quadros, que re- nunciou ao governo em 25 de agosto de 1961. Os ministros militares impediram a posse do vice de Jânio, João Goulart (Jango), a qual só se efetivou, após duas semanas, com a implantação do Parlamentarismo. Com a restauração do Presidencialismo, no início de 1963, Jango propôs realizar as mudanças que julgava necessárias para corrigir a economia nacional. O embate social a que se assistiu entre os que DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 21 OS: 0187/11/17-Gil eram a favor e contrários a essa proposta foi grande e cul- minou com o movimento militar de 1964. Da Ditadura Civil-Militar aos dias atuais As reformas empreendidas, nos anos 1960 e 1970, no cenário educacional, expressavam o momento nacional: desenvolvimento. O desafio do ensino, portanto, era formar o capital humano, o que demandava uma estreita relação entre Educação e mercado de trabalho. Essas duas décadas sofreram grande influência norte-americana, inclusive nos caminhos da Educação Nacional, explicitada pelos acordos MEC/USAID, e que fundamentaram a orientação das leis editadas posteriormente. O método de alfabetização formulado por Paulo Freire, conforme vimos, tinha uma forte conotação política. Em virtude disso, o Governo Militar para enfrentar o pro- blema do analfabetismo aprovou, mediante a Lei nº 5.379/67, o Plano de Alfabetização Funcional e Educação Continuada de Adolescentes e Adultos, cujo Órgão executor era o Movimento Brasileiro de Alfabetização - MOBRAL. Embora mantivesse a estrutura das palavras gera- doras, a metodologia adotada no MOBRAL não valorizava a problematização da realidade e utilizava a mesma apostila em todo o Brasil. Em 1985, o MOBRAL foi extinto e substituído pela Fundação EDUCAR, que durou até 1990, quando foi extinta sem a proposição de qualquer instituição. Em 1996, o go- verno federal apoiou a criação do Programa Alfabetização Solidária - PAS, com atuação inclusive em países que falam o Português. O governo militar também modificou a organização da Educação Nacional: I) a Lei nº 5.540/68 empreendeu reformas no ensino superi- or, tendo instituído o vestibular classificatório, o ciclo bási- co, os departamentos e a matrícula por disciplina II) a Lei nº 5.692/71 fixou diretrizes para o ensino de 1º e 2º graus. O quadro abaixo expressa a nova configuração da Educação Nacional após essas duas Leis: São características da Lei no 5.692/71: - Conforme o § 2º, do art. 19, cada sistema de ensino velaria sobre a educação das crianças de idade inferior a sete anos em escolas maternais, jardins de infância e instituições equivalentes. - Com a fusão do Ensino Primário com o ciclo Ginasial do Ensino Médio, desapareceu o Exame de Admissão. - A duração normal do Ensino de 2º grau era de 3 anos. Esse prazo era ultrapassado no caso de curso profissionalizante. - Os Ensinos de 1º e 2º Graus tinham como limites mínimos: uma carga horária anual de 720 horas e o ano letivo de 180 dias (ou seja, 4 horas por dia). Os anos 80 assistiram à consolidação da redemo- cratização, que foi coroada com a Constituição de 1988, que obriga o Poder Público à aplicação de um percentual mínimo para a Educação. Os anos 90 foram marcados pela discussão das ideias de Piaget e Vygotsky, que possibilitou uma refle- xão mais intensa sobre o cotidiano escolar, vislumbrando novos horizontes para vários temas importantes, com des- taque para o currículo, que ensejou que o MEC elaborasse os Parâmetros Curriculares Nacionais PCN. Ocorreu, ainda, a aprovação da nova LDB, a Lei nº 9.394/96 (que será analisada detalhadamente na próxima aula). A Lei no 9.394/96, posteriormente alterada pela Lei nº 11.274/06 e a Emenda Constitucional nº 59 organizou a Educação Escolar conforme o quadro anterior. Devem ser citadas as seguintes características: - Os níveis da Educação Escolar passam a ser dois: Básica e Superior (Art. 21). - A Educação Profissional, a Educação de Jovens e Adultos, a Educação Especial, a Educação Escolar Indígena e a Educa- ção a Distância são modalidades de ensino. - A Educação Básica tem como limites mínimos: uma carga horária anual de 800 horas e o ano letivo de 200 dias (Art. 24, inciso I). DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 22 OS: 0187/11/17-Gil 1.1 - Teorias da Educação Preliminarmente, cabe considerar que a expressão “teorias da educação” não tem um sentido unívoco. Aliás, o próprio título, ao colocar essa expressão no plural, já aponta essa questão. Na verdade, o significado das teorias da edu- cação deve ser aferido no âmbito da concepção em que se insere. E, como podemos detectar diferentes concepções de educação, inevitavelmente nos deparamos, também, com diferentes teorias da educação. Consideradas nassuas linhas gerais, as principais concepções de educação podem ser agrupadas em cinco grandes tendências: 1) a concepção humanista tradicional, desdobrada em duas vertentes, a religiosa e a leiga; 2) a concepção humanista moderna; 3) a concepção analítica, que cabe considerar paralelamente à concepção produtivista; 4) a concepção crítico-reprodutivista; 5) a concepção dialética ou histórico-crítica. Cada uma dessas concepções comporta, via de regra, três níveis distintos, mas articulados entre si. São eles: a) o nível correspondente à filosofia da educação; b) o nível da teoria da educação, também geralmente cha- mado de pedagogia; c) o nível da prática pedagógica. Assim, postulamos que uma concepção pedagógica se distingue de outra não necessariamente por conter esse nível e não aquele, mas, frequentemente, pela maneira como articula esses níveis e pelo peso maior ou menor que cada um deles adquire no interior da concepção. No caso da concepção tradicional o nível preponde- rante é, sem dúvida, o da filosofia da educação, a tal ponto que poderíamos mesmo dizer que a teoria da educação, a pedagogia, é subsumida, assimilada à filosofia da educação. Nesse contexto, o que chamamos de “pedagogia tradicional” é um conjunto de enunciados filosóficos referi- dos à educação, que tomam por base uma visão essencialis- ta do ser humano, cabendo à educação a tarefa de confor- mar cada indivíduo à essência ideal e universal que caracte- riza o homem. Em consequência, a prática pedagógica tradicional será o modo como o professor irá proceder na realização da referida tarefa em relação a seus alunos. Quando consideramos a concepção humanista moderna, cuja filosofia da educação não supõe o homem como uma essência universal, mas entende que os homens devem ser considerados na sua existência real, como indiví- duos vivos que se diferenciam entre si, notamos que a teo- ria da educação deverá dar conta das diferenças que carac- terizam os indivíduos, os quais devem ser considerados nas suas situações de vida e na interação com os outros indiví- duos. A teoria da educação ganha, então, autonomia em relação à filosofia da educação, devendo buscar apoio nas ciências, já que é através do método científico que nos é possível ter acesso aos elementos empíricos que caracteri- zam a vida dos educandos. Eis porque a pedagogia nova será uma teoria que buscará se revestir do atributo de cientifici- dade, seja apoiando-se nas ciências já constituídas, com destaque para a biologia, a psicologia e a sociologia, seja procurando tornar científica a própria pedagogia por meio das escolas e classes experimentais. Orientada pelos princípios da pedagogia nova, a prática pedagógica, tal como se patenteia no escolanovis- mo, irá, por exemplo, valorizar a atividade, as experiências, a vida, os interesses dos educandos. O caso da concepção analítica já apresenta outra peculiaridade. Dado que em tal corrente filosófica a função própria da filosofia é definida pela análise da linguagem, a filosofia da educação será entendida como análise da lin- guagem educacional. Como tal, ela não tem como objetivo analisar e explicar o próprio fenômeno educativo e, muito menos, orientar a prática pedagógica. Assim, dir-se-ia que, rigorosamente falando, a concepção analítica de educação se restringe ao nível da filosofia da educação, não contem- plando os outros dois níveis. No entanto, é possível perceber uma afinidade en- tre essa concepção e a teoria da educação (pedagogia) tec- nicista, já que têm em comum os mesmos pressupostos traduzidos na objetividade, neutralidade e positividade do conhecimento, traduzidos, do ponto de vista da educação, nos princípios da racionalidade, eficiência e produtividade. Isso nos coloca diante de uma tendência correlata que podemos denominar de “concepção produtivista de educação”. Vê-se, pois, que a pedagogia tecnicista não deri- va da concepção analítica como ocorre com a pedagogia tradicional e a pedagogia nova, das quais se pode dizer que decorrem respectivamente da concepção humanista tradi- cional e moderna de filosofia da educação. A relação, nesse caso, é indireta, pela via dos pressupostos, e não direta, pela via da consequência. Por sua vez a pedagogia tecnicista vai se pôr como uma teoria que busca explicar o fenômeno educativo a par- tir de sua descrição empírica, visando chegar a enunciados operacionais suscetíveis de orientar a prática educativa e dando origem, assim, à prática pedagógica tecnicista. Na verdade, ela se põe como um ramo científico, já que sua base teórica deriva do behaviorismo, uma das correntes que se empenharam em garantir à psicologia o atributo de cien- tificidade, diferenciando-se da psicologia anterior, chamada de psicologia filosófica ou racional. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 23 OS: 0187/11/17-Gil Filosoficamente, a matriz dessa corrente pedagógi- ca remete ao positivismo, na versão que se difundiu na segunda metade do século XX sob a forma do estrutural- funcionalismo. A filosofia da educação própria da concepção produtivista é, pois, de teor estrutural-funcionalista. No âmbito da concepção crítico-reprodutivista de- paramo-nos com outra peculiaridade. Aqui, de certo modo, contrariamente ao que ocorre na concepção humanista tradicional, é o nível da teoria da educação que subsume ou assimila a filosofia da educação. Isto porque, neste caso, a teoria da educação é tributária de uma teoria da sociedade concebida em grau máximo de generalidade, não se pondo, pois, a possibilidade de um nível que possa abarcá-la, como ocorre com a filosofia da educação nas outras concepções. De outro lado, na concepção crítico-reprodutivista não se põe, também, a questão da prática pedagógica. Com efeito, a ambição dessa concepção, como teoria científica, é explicar os mecanismos sociais que compelem a educação a exercer necessariamente a função de reprodução das rela- ções sociais dominantes, independentemente do tipo de prática pedagógica que venha a ser implementada. Finalmente, na concepção pedagógica dialética ou histórico-crítica, os três níveis se fazem presentes. O que a diferencia das demais concepções é o modo como se articu- lam esses níveis, os quais estabelecem entre si relações recíprocas, de modo que cada nível se comporta ao mesmo tempo como determinado e como determinante dos de- mais. Uma importante implicação desse modo de entender a educação é que a prática pedagógica, em lugar de apare- cer como um momento de aplicação da teoria da educação, é vista como ponto de partida e ponto de chegada cuja coerência e eficácia são garantidas pela mediação da filoso- fia e da teoria educacional. Pela descrição sumária das concepções, feita acima, pode-se perceber que, se toda pedagogia é teoria da educa- ção, nem toda teoria da educação é pedagogia. Na verdade o conceito de pedagogia reporta-se a uma teoria que se estrutura a partir e em função da prática educativa. A peda- gogia, como teoria da educação, busca equacionar, de al- guma maneira, o problema da relação educador-educando, de modo geral, ou, no caso específico da escola, a relação professor-aluno, orientando o processo de ensino e apren- dizagem. Assim, não se constituem como pedagogia aquelas teorias que analisam a educação pelo aspecto de sua rela- ção com a sociedade e não têm como objetivo formular diretrizes que orientem a atividade educativa, como é o caso das teorias que chamei de “crítico-reprodutivistas”. 1.2 - As Diferentes Correntes doPensamento Pedagógico Brasileiro Para Gonçalves e Clemente (2014), atualmente, a didática, como área de conhecimento da Pedagogia, consti- tui-se em um campo teórico-prático que ajuda o professor a compreender a complexidade do cotidiano docente e, prin- cipalmente, a refletir a respeito da sua prática, subsidiando a (re)construção desta. A maneira como se ensina, se organiza uma aula e se interage com os alunos e com o conhecimento, bem como a concepção que se tem ou se terá com relação ao significado social da profissão docente professor são objetos de reflexão da atual didática. Basicamente, hoje em dia, a didática tem como ob- jetivo a direção do processo de ensinar, tendo em vista finalidades sociopolíticas e pedagógicas e as condições e meios formativos. Assim, nos dias atuais, a didática reflete e busca alternativas para as dificuldades educacionais. Tendências pedagógicas liberais Segundo Luckesi (2005), a educação brasileira, pelo menos nos últimos 50 anos, tem se identificado fortemente com as tendências liberais. Esta influência não necessaria- mente é percebida por muitos professores. A pedagogia liberal tem como fundamento a preparação do indivíduo para a sociedade, porém, como uma visão restrita sobre as diferenças de classe. 1. Tendência Liberal Tradicional A tendência liberal tradicional parte do pressuposto de que o aluno deve ser preparado intelectual e moralmen- te para assumir seu papel na sociedade. Caracteriza-se por um ensino humanístico e cultural (LUCKESI, 2005; LIBÂNEO, 2006). Fundamenta-se em conhecimentos e valores acumu- lados ao longo do tempo, tratando-os como dogmas, utiliza- se de métodos universais onde o professor é o centro do processo de ensino-aprendizagem (VEIGA, 2008). Existe um domínio de aulas expositivas, onde o pro- fessor exerce autoridade na relação com o aluno. Como consequência, a aprendizagem é receptiva e mecânica. O aluno é considerado um ser passivo. Há ênfase na aplicação de exercícios ou na repetição de conceitos para memoriza- ção, isso com o objetivo de disciplinar a mente e formar hábitos. Na avaliação do discente as provas, exercícios e trabalhos são vistos como elemento central (LUCKESI, 2005; LIBÂNEO, 2006). 2. Tendência Liberal Renovada Progressivista Diferentemente da tendência liberal tradicional, aqui, procura-se valorizar as necessidades individuais dos alunos. A partir do reconhecimento dos interesses e experi- ências vivenciadas pelos alunos, os conteúdos em sala de aula são estabelecidos. São valorizados os processos men- tais e habilidades cognitivas, busca-se “aprender a apren- der” (LUCKESI, 2005). Métodos de solução de problemas, pesquisas ou experiências são práticas manifestadas nesta tendência. O DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 24 OS: 0187/11/17-Gil docente atua como auxiliar no desenvolvimento livre e es- pontâneo do aluno, motivando e estimulando a aprendiza- gem. A escola renovada progressivista propõe a auto- aprendizagem. Trabalhos em grupo são considerados impor- tantes e condição básica para o desenvolvimento mental. Entende-se o processo de avaliação como qualitativo (LIBÂ- NEO, 2006). 3. Tendência Liberal Renovada Não-Diretiva Esta vertente busca a formação de atitudes por parte dos alunos. Predomina aspectos psicológicos sobre os lógicos neste contexto. Assim, os conteúdos estão baseados na procura por conhecimento pelos próprios alunos. A educação está centralizada no aluno, sustentada por um relacionamento de respeito garantido pelo profes- sor em seu papel de facilitador. O discente é considerado um ser ativo, com liberdade e autonomia no processo de ensino. A escola renovada não-diretiva propõe a valorização da auto-educação, onde o aluno é o sujeito do conhecimen- to. A aprendizagem é vista como a modificação das percep- ções do aluno sobre a realidade. Perde o sentido o processo de avaliação, privilegiando-se a auto-avaliação (BARADEL, 2007; LUCKESI, 2005; LIBÂNEO, 2006). 4. Tendência Liberal Tecnicista É uma corrente pedagógica modeladora do com- portamento humano, subsidiada por métodos e técnicas específicas em sala de aula. Os conteúdos são formatados numa sequência lógica de ensinamento. O aluno é conside- rado responsivo perante a formação do programa educacio- nal. O movimento tecnicista está diretamente articulado com o sistema produtivo local, interessado na formação de indivíduos competentes para o mercado de trabalho. Parte do pressuposto de que aprender é modificar o desempenho (LIBÂNEO, 2006). Entende-se aqui, que os métodos em sala de aula são vistos como procedimentos e técnicas voltadas para a transmissão e recepção de informações. O professor, em uma relação estruturada, objetiva e eficiente, transmite informações para o aluno fixá-las. Emprega-se a tecnologia educacional, onde o docente busca atingir um comporta- mento adequado pelo controle do ensino. Atua como elo de ligação entre a ciência e o aluno. Pode-se dizer que é uma aprendizagem baseada na mudan- ça de nível de desempenho dos discentes (LUCKESI, 2005). Tendências Pedagógicas Progressivas O termo "progressista", emprestado de Snyders, é usado aqui para designar as tendências que, partindo de uma análise crítica das realidades sociais, sustentam implici- tamente as finalidades sociopolíticas da educação. Eviden- temente a pedagogia progressista, não tem como institucio- nalizar-se numa sociedade capitalista; daí ser ela um ins- trumento de luta dos professores ao lado de outras práticas sociais. A pedagogia progressista tem-se manifestado em três tendências: a libertadora, mais conhecida como peda- gogia de Paulo Freire, a libertária, que reúne os defensores da autogestão pedagógica; a crítico-social dos conteúdos que, diferentemente das anteriores, acentua a primazia dos conteúdos no seu confronto cor as realidades sociais. As versões libertadora e libertária têm em comum o anti-autoritarismo, a valorização da experiência vivida como base da relação educativa e a ideia de autogestão pedagógica. Em função disso, dão mais valor ao processo de aprendizagem grupal (participação em discussões, assem- bleias, votações) do que aos conteúdos de ensino. Como decorrência, a prática educativa somente faz sentido numa prática social junto ao povo, razão pela qual preferem as modalidades de educação popular “não-formal”. A tendência da pedagogia critico social de conteú- dos propõe uma síntese superadora das pedagogia tradicio- nal e renovada, valorizando a ação pedagógica enquanto inserida na prática social concreta. Entende a escola como mediação entre o individual e o social, exercendo aí a articu- lação entre a transmissão dos conteúdos e a assimilação ativa por parte de um aluno concreto (inserido num contex- to de relações sociais); dessa articulação resulta o saber criticamente re-elaborado. 1. Tendência progressista libertadora Papel da escola Não é próprio da pedagogia libertadora falar em ensino escolar, já que sua marca é a atuação "não-formal". Entretanto, professores e educadores engajados no ensino escolar vêm adotando pressupostos dessa pedagogia. As- sim, quando se fala na educação em geral, diz-se que ela é uma atividade onde professores e alunos, mediatizados pela realidade que apreendem e da qual extraem o conteúdo de aprendizagem, atingem um nível de consciência dessa mesma realidade, a fim de nela atuarem, num sentido de transformação social. Tanto a educação tradicional, deno- minada "bancária" - que visa apenas depositar informaçõessobre o aluno -, quanto a educação renovada - que preten- deria uma libertação psicológica individual - são domestica- doras, pois em nada contribuem para desvelar a realidade social de opressão. A educação libertadora, ao contrário, questiona concretamente a realidade das relações do ho- mem com a natureza e com os outros homens, visando a uma transformação - daí ser uma educação crítica. Conteúdos de ensino Denominados "temas geradores", são extraídos da problematização da prática de vida dos educandos. Os con- teúdos tradicionais são recusados porque cada pessoa, cada DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 25 OS: 0187/11/17-Gil grupo envolvidos na ação pedagógica dispõem em si pró- prios, ainda que de forma rudimentar, dos conteúdos neces- sários dos quais se parte. O importante não é a transmissão de conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma da relação com a experiência vivida. A transmissão de con- teúdos estruturados a partir de fora é considerada como "invasão cultural" ou "depósito de informação", porque não emerge do saber popular. Se forem necessários textos de leitura; estes deverão ser redigidos pelos próprios educan- dos com a orientação do educador. Em nenhum momento o inspirador e mentor da pedagogia libertadora, Paulo Freire, deixa de mencionar o caráter essencialmente político de sua pedagogia, o que, segundo suas próprias palavras, impede que ela seja posta em prática, em termos sistemáticos, nas instituições oficiais, antes da transformação da sociedade. Daí porque sua atuação se dê mais a nível da educação ex- tra-escolar. O que não tem impedido, por outro lado, que seus pressupostos sejam adotados e aplicados por numero- sos professores. Métodos de ensino "Para ser um ato de conhecimento o processo de alfabetização de adultos demanda, entre educadores e edu- candos, uma relação de autêntico diálogo; aquela em que os sujeitos do ato de conhecer se encontram mediatizados pelo objeto a ser conhecido” (...). “O dialogo engaja ativa- mente a ambos os sujeitos do ato de conhecer: educador- educando e educando-educador." Assim sendo, a forma de trabalho educativo é o "grupo de discussão”, a quem cabe autogerir a aprendiza- gem, definindo o conteúdo e a dinâmica das atividades. O professor é um animador que, por princípio, deve "descer" ao nível dos alunos, adaptando-se às suas características e ao desenvolvimento próprio de cada grupo. Deve caminhar "junto", intervir o mínimo indispensável, embora não se furte, quando necessário, a fornecer uma informação mais sistematizada. Os passos da aprendizagem Codificação-decodificação, e problematização da si- tuação - permitirão aos educandos um esforço decompre- ensão do "vivido", até chegar a um nível mais crítico de conhecimento da sua realidade, sempre através da troca de experiência em torno da prática social. Se nisso consiste o conteúdo do trabalho educativo, dispensam-se um progra- ma previamente estruturado, trabalhos escritos, aulas expo- sitivas, assim como qualquer tipo de verificação direta da aprendizagem, formas essas próprias da “educação bancá- ria", portanto, domesticadoras. Entretanto admite-se a avaliação da prática vivenciada entre educador-educandos no processo de grupo e, às vezes, a auto-avaliação feita em termos dos compromissos assumidos com a prática social. Relacionamento professor-aluno No diálogo, como método básico, a relação é hori- zontal; onde educador e educandos se posicionam como sujeitos do ato de conhecimento. O critério de bom relacio- namento é a total identificação com o povo, sem o que a relação pedagógica perde consistência. Elimina-se, por pressuposto, toda relação de auto- ridade, sob pena de esta inviabilizar o trabalho de conscien- tização, de "aproximação de consciências". Trata-se de uma "não-diretividade", mas não no sentido do professor que se ausenta (como em Rogers), mas que permanece vigilante para assegurar ao grupo um espaço humano para "dizer sua palavra", para se exprimir sem se neutralizar. Pressupostos de aprendizagem A própria designação de "educação problematiza- dora" como correlata de educação libertadora revela a força motivadora da aprendizagem. A motivação se dá a partir da codificação de uma situação-problema, da qual se torna distância para analisa-lá criticamente. "Esta análise envolve o exercício da abstração, através da qual procuramos alcan- çar, por meio de representações da realidade concreta, a razão de ser dos fatos." Aprende é um ato de conhecimento da realidade concreta, isto é da situação real vivida pelo educando, e só tem sentido se resulta de uma aproximação crítica dessa realidade. O que é aprendido não decorre de uma imposição ou memorização, mas do nível crítico de conhecimento, ao qual se chega pelo processo de compreensão, reflexão e crítica. O que o educando transfere, em termos de conhe- cimento, é o que foi incorporado como resposta às situa- ções de opressão - ou seja, seu engajamento na militância política. Manifestações na prática escolar A pedagogia libertadora tem como inspirador e di- vulgador Paulo Freire, que tem aplicado suas ideias pesso- almente em diversos países, primeiro no Chile, depois na África. Entre nós, tem exercido uma influência expressiva nos movimentos populares e sindicatos e, praticamente, se confunde com a maior parte das experiências do que se denomina "educação popular". Há diversos grupos desta natureza que vêm atuando não somente no nível da prática popular, mas também por meio de publicações, com relativa independência em relação às ideias originais da pedagogia libertadora. Embora as formulações teóricas de Paulo Freire se restrinjam à educação de adultos ou à educação popular, em geral, muitos professores vêm tentando colocá-las em prática em todos os graus de ensino formal. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 26 OS: 0187/11/17-Gil 2. Tendência progressista libertária Papel da escola A pedagogia libertária espera que a escola exerça uma transformação na personalidade dos alunos num senti- do libertário e autogestionário. A ideia básica é introduzir modificações institucionais, a partir dos níveis subalternos que, em seguida, vão "contaminando" todo o sistema. A escola instituirá, com base na participação grupal, mecanis- mos institucionais de mudança (assembleias, conselhos, eleições, reuniões, associações etc.), de tal forma que o aluno, uma vez atuando nas instituições "externas", leve para lá tudo o que aprendeu. Outra forma de atuação da pedagogia libertária, correlata à primeira, é – aproveitando a margem de liberdade do sistema - criar grupos de pessoas com princípios educativos autogestionários (associações, grupos informais, escolas autogestjonárias). Há, portanto, um sentido expressamente político, à medida que se afirma o indivíduo como produto do social e que o desenvolvimen- to individual somente se realiza no coletivo. A autogestão é, assim, o conteúdo e o método; resume tanto o objetivo pedagógico quanto o político. A pedagogia libertária, na sua modalidade mais conhecida entrenós, a "pedagogia institu- cional", pretende ser uma forma de resistência contra a burocracia como instrumento da ação; dominadora do Esta- do, que tudo controla (professores, programas, provas etc.),retirando a autonomia. Conteúdos de ensino As matérias são colocadas à disposição do aluno, mas não são exigidas. São um instrumento a mais, porque importante é o conhecimento que resulta das experiências vividas pelo grupo, especialmente a vivência de mecanismos de participação crítica. "Conhecimento" aqui não é a inves- tigação cognitiva do real, para extrair dele um sistema de representações mentais, mas a descoberta de respostas às ncessidades e às exigências da vida social. Assim, os conteú- dos propriamente ditos são os que resultam de necessida- des e interesses manifestos pelo grupo e que não são, ne- cessária nem indispensavelmente, as matérias de estudo. Método de ensino É na vivência grupal, na forma de autogestão, que os alunos buscarão encontrar as bases mais satisfatórias de sua própria “instituição”, graças à sua própria iniciativa e sem qualquer forma de poder. Trata-se de "colocar nas mãos dos alunos tudo o que for possível: o conjunto da vida, as atividades e a organização, do trabalho no interior da escola (menos a elaboração dos programas ea decisão dos exames que não dependem nem dos docentes, nem dos alunos)". Os alunos têm liberdade de trabalhar ou não, fi- cando o interesse pedagógico na dependência de suas ne- cessidades ou das do grupo. O progresso da autonomia, excluída qualquer dire- ção de fora do grupo, se dá num "crescendo": primeiramen- te a oportunidade de contatos aberturas, relações informais entre os alunos. Em seguida, o grupo começa a se organizar, de modo a que todos possam participar de discussões, coo- perativas, assembléias, isto é, diversas formas de participa- ção e expressão pela palavra; quem quiser fazer outra coisa, ou entra em acordo com o grupo, ou se retira. No terceiro momento, ogrupo se organiza de forma mais efetiva e, fi- nalmente, no quarto momento, parte para a execução do trabalho. Relação professor-aluno A pedagogia institucional visa "em primeiro lugar, transformar a relação professor-aluno no sentido da não- diretividade, isto é, considerar desde o início a ineficácia e a nocividade de todos os métodos à base de obrigações e ameaças". Embora professor e aluno sejam desiguais e dife- rentes, nada impede que o professor se ponha a serviço do aluno, sem impor suas concepções e idéias, sem transfor- mar o aluno em "objeto". O professor é um orientador e um catalisador, ele se mistura ao grupo para uma reflexão em comum. Se os alunos são livres frente ao professor, também este o é em relação aos alunos (ele pode, por exemplo, recusasse a responder uma pergunta, permanecendo em silêncio). Entretanto, essa liberdade de decisão tem um sentido bastante claro: se um aluno resolve não participar, o faz porque não se sente integrado, mas o grupo tem res- ponsabilidade sobre este fato e vai se colocar a questão; quando o professor se cala diante de uma pergunta, seu silêncio tem um significado educativo que pode, por exem- plo, ser uma ajuda para que o grupo assuma a resposta ou a situação criada. No mais, ao professor cabe a função de "conselheiro" e outras vezes, de instrutor-monitor à disposi- ção do grupo. Em nenhum momento esses papéis do pro- fessor se confundem com o de "modelo", pois a pedagogia libertária recusa qualquer forma de poder ou autoridade. Pressupostos de aprendizagem As formas burocráticas das instituições existentes, por seu traço de impessoalidade, comprometem o cresci- mento pessoal. A ênfase na aprendizagem informal, via grupo, e a negação de toda forma de repressão visam favo- recer o desenvolvimento de pessoas mais livres. A motiva- ção está, portanto, no interesse em crescer dentro da vivên- cia grupal, pois supõe-se que o grupo devolva a cada um de seus membros a satisfação de suas aspirações e necessida- des. Somente o vivido, o experimentado é incorporado e utilizável em situações novas. Assim, o critério de relevân- cia do saber sistematizado é seu possível uso prático. Por isso mesmo, não faz sentido qualquer tentativa de avaliação da aprendizagem, ao menos em termos de conteúdo. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 27 OS: 0187/11/17-Gil Outras tendências pedagógicas correlatas A pedagogia libertária abrange quase todas as ten- dências anti-autoritárias em educação, entre elas, a anar- quista, a psicanalista, a dos sociólogos, e também a dos professores progressistas. Embora Meill e Rogers não pos- sam ser considerados progressistas (conforme entendemos aqui), não deixam de influenciar alguns libertários. Entre os estrangeiros devemos citar Vasquez e Oury entre os mais recentes, Ferrer y Guardiã entre os mais antigos. Particularmente significativo é o trabalho de C. Freinet, que tem sido muito estudado entre nós, existindo inclusive algumas escolas aplicando seu método. Entre os estudiosos e divulgadores da tendência li- bertária pode-se citar Mauricio Tragtemberg, apesar da tônica de seus trabalhos não ser propriamente pedagógica, mas de crítica das instituições em favor de um projeto auto- gestionário. Em termos propriamente pedagógicos, inclusive com propostas efetivas de ação escolar, citamos Miguel Gonzales Arroyo. 3. Tendência progressista "crítico-social dos conteúdos" Papel da escola A difusão de conteúdos é a tarefa primordial. Não conteúdos abstratos, mas vivos, concretos e, portanto, in- dissociáveis das realidades sociais. A valorização da escola como instrumento de apropriação do saber é o melhor ser- viço que se presta aos interesses populares, já que a própria escola pode contribuir para eliminar a seletividade social e torná-la democrática. Se a escola é parte integrante do todo social, agir dentro dela é também agir no rumo da transfor- mação da sociedade. Se o que define uma pedagogia crítica é a consciência de seus condicionantes histórico-sociais, a função da pedagogia "dos conteúdos" é dar um passo à frente no papel transformador da escola, mas a partir das condições existentes. Assim, a condição para que a escola sirva aos inte- resses populares é garantir a todos um bom ensino, isto é, a apropriação dos conteúdos escolares básicos que tenham ressonância na vida" dos átimos. Entendida nesse sentido, a educação é "uma atividade mediadora no seio da prática social global", ou seja, uma das mediações pela qual o alu- no, pela intervenção do professor e por sua própria partici- pação ativa, passa de uma experiência inicialmente confusa e fragmentada (sincrética), a uma visão sintética, mais orga- nizada e unificada. Em síntese, a atuação da escola consiste na prepa- ração do aluno para o mundo adulto e suas contradições, fornecendo lhe um instrumental, por meio da aquisição de conteúdos e da socialização, para uma participação organi- zada e ativa na democratização da sociedade. Conteúdos de ensino São os conteúdos culturais universais que se consti- tuíram em domínios de conhecimento relativamente autô- nomos, incorporados pela humanidade, mas permanente- mente reavaliados face às realidades sociais. Embora se aceite que os conteúdos são realidades exteriores ao aluno, que devem ser assimilados e não simplesmente reinventa- dos, eles não são fechados e refratários às realidades soci- ais. Não basta que os conteúdos sejam apenas ensinados, ainda que bem ensinados; é preciso que se liguem, de forma indissociável, à sua significação humana e social. Essa maneira de conceber os conteúdos do saber não estabelece oposição entre cultura erudita e cultura popular, ou espontânea, mas uma relação de continuidade em que, progressivamente,se passa da experiência imediata e desorganizada ao conhecimento sistematizado. Não que a primeira apreensão da realidade seja errada, mas é necessá- ria à ascensão a uma forma de elaboração superior, conse- guida pelo próprio aluno, com a intervenção do professor. A postura da pedagogia "dos conteúdos" - Ao admi- tir um conhecimento relativamente autônomo - assume o saber como tendo um conteúdo relativamente objetivo, mas, ao mesmo tempo, introduz a possibilidade de uma reavaliação crítica frente a esse conteúdo. Como, sintetiza Snvders, ao mencionar o papel do professor, trata-se, de um lado, de obter o acesso do aluno aos conteúdos, ligando-os com a experiência concreta dele - a continuidade; mas, de outro, de proporcionar elementos de análise crítica que ajudem o aluno a ultrapassar a experi- ência, os estereótipos, as pressões difusas da ideologia do- minante - é a ruptura. Dessas considerações resulta claro que se pode ir do saber ao engajamento político, mas não o inverso, sob o risco de se afetar a própria especificidade do saber e até cair-se numa forma de pedagogia ideológica, que é o que se critica na pedagogia tradicional e na pedagogia nova. Métodos de ensino A questão dos métodos se subordina à dos conteú- dos: se o objetivo é privilegiar a aquisição do saber, e de um saber vinculado às realidades sociais, é preciso que os mé- todos favoreçam a correspondência dos conteúdos com os interesses dos alunos, e que estes possam reconhecer nos conteúdos o auxílio ao seu esforço de compreensão da rea- lidade (prática social). Assim, nem se trata dos métodos dogmáticos de transmissão do saber da pedagogia tradicional, nem da sua substituição pela descoberta, investigação ou livre expres- são das opiniões, como se o saber pudesse ser inventado pela criança, na concepção da pedagogia renovada. Os métodos de uma pedagogia crítico-social dos conteúdos não partem, então, de um saber artificial, deposi- DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 28 OS: 0187/11/17-Gil tado a partir de fora, nem do saber espontâneo, mas de uma relação direta com a experiência do aluno, confrontada com o saber e relaciona a prática vivida pelos alunos com os conteúdos propostos pelo professor, momento em que se dará a "ruptura" em relação à experiência pouco elaborada. Tal ruptura apenas é possível com a introdução explícita, pelo professor dos elementos novos de análise a serem aplicados criticamente à prática do aluno. Em outras pala- vras, uma aula começa pela constatação da prática real, havendo, em seguida, a consciência dessa prática no sentido de referi-la aos termos do conteúdo proposto, na forma de um confronto entre a experiência e a explicação do profes- sor. Vale dizer: vai-se da ação à compreensão e da compre- ensão à ação, até a síntese, o que não é outra coisa senão a unidade entre a teoria e a prática. Relação professor-aluno Se, como mostramos anteriormente, o conheci- mento resulta de trocas que se estabelecem na interação entre o meio (natural, social, cultural) e o sujeito, sendo o professor o mediador, então a relação pelica consiste no provimento das condições em que professores e alunos possam colaborar para fazer progredir essas trocas. O papel do adulto é insubstituível, mas acentua-se também a parti- cipação do aluno no processo. Ou seja, o aluno, com sua experiência imediata num contexto cultural, participa na busca da verdade, ao confrontá-la com os conteúdos e mo- delos expressos pelo professor. Mas esse esforço do profes- sor em orientar, em abrir perspectivas a partir dos conteú- dos, implica um envolvimento com o estilo de vida dos alu- nos, tendo consciência inclusive dos contrastes entre sua própria cultura e a do aluno. Não se contentará, entretanto, em satisfazer apenas as necessidades e carências; buscará despertar outras necessidades, acelerar e disciplinar os métodos de estudo, exigir o esforço do aluno, propor con- teúdos e modelos compatíveis com suas experiências vivi- das, para que o aluno se mobilize para uma participação ativa. Evidentemente o papel de mediação exercido em torno da análise dos conteúdos exclui a não-diretividade como forma de orientação do trabalho escolar, porque o diálogo adulto-aluno é desigual. O adulto tem mais experi- ência acerca das realidades sociais, dispõe de uma formação (ao menos deve dispor) para ensinar, possui conhecimentos e a ele cabe fazer a análise dos conteúdos em confronto com as realidades sociais. A não-diretividade abandona os alunos a seus próprios desejos, como se eles tivessem uma tendência espontânea a alcançar os objetivos da esperados da educação. Sabemos que as tendências espontâneas e naturais não são o tributárias das condições de vida e do meio. Não são suficientes o amor, a aceitação, para que os filhos dos trabalhadores adquiram o desejo de estudar mais, de progredir; é necessária a intervenção do professor para levar o aluna a acreditar nas suas possibilidades, a ir mais longe, a prolongar a experiência vivida. Pressupostos de aprendizagem Por um esforço próprio, o aluno; se reconhece nos conteúdos e modelos sociais apresentados pelo professor; assim, pode ampliar sua própria experiência. O conhecimen- to novo se apoia numa estrutura cognitiva já existente, ou o professor provê a estrutura de que o aluno ainda não dis- põe. O grau de envolvimento na aprendizagem depende tanto da prontidão e disposição do aluno, quanto do profes- sor e do contexto da sala de aula. Aprender, dentro da visão da pedagogia dos conteúdos, é desenvolver a capacidade de processar informações e lidar com os estímulos, do ambiente, organizando os dados dis- poníveis da experiência. Em consequência, admite-se o princípio da aprendizagem significativa que supõe, como passo inicial, verificar aquilo que o aluno já sabe. O profes- sor precisa saber (compreender) o que os alunos dizem ou fazem, o aluno precisa compreender o que o professor pro- cura dizer-lhes. A transferência da aprendizagem se má a partir do momento da síntese, isto é, quando o aluno supera sua visão parcial e confusa e adquire uma visão mais clara e unificadora. Resulta com clareza que o trabalho escolar precisa ser avaliado, não como julgamento definitivo e dogmático do professor, mas como uma comprovação para o aluno do seu progresso em direção a noções mais sistematizadas. Manifestações na prática escolar O esforço de elaboração de uma pedagogia "dos conteúdos" está em propor modelos de ensino voltados para a interação conteúdos-realidades sociais; portanto, visando avançar em termos de uma articulação do político e do pedagógico, aquele como extensão deste, ou seja, a educação "a serviço da transformação das relações de pro- dução". Ainda que a curto prazo se espere do professor maior conhecimento dos conteúdos de sua matéria e o domínio de formas de transmissão, a fim de garantir maior competência técnica, sua contribuição "será tanto mais seja eficaz quanto mais seja capaz de compreender os vínculos de sua prática com a prática social global", tendo em vista (...) "a democratização da sociedade brasileira, o atendi- mento aos interesses das camadas populares, a transforma- ção estrutural da sociedade brasileira". Dentro das linhas gerais expostas aqui, podemos ci- tar a experiência pioneira, mas mais remota, do educador e escritor russo, Makarenko. Entre os autores atuais citamos B. Charlot, Suchodolski, Manacorda e, de maneira especial, G. Skyders, além dos autores brasileiros que vêm desenvol- vendo investigações relevantes, destacando-seDermeval Saviani. Representam também as propostas aqui apresenta- das os inúmeros professores da rede escolar pública que se ocupam, competentemente, de uma pedagogia de conteú- dos articulada com a adoção de métodos que garantam a participação do aluno que, muitas vezes sem saber, avan- DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 29 OS: 0187/11/17-Gil çam na democratização efetiva do ensino para as camadas populares. 4. Em favor da pedagogia crítico-social dos conteúdos Haverá sempre objeções de que estas considera- ções levam a posturas antidemocráticas, ao autoritarismo, à centralização no papel do professor e à submissão do aluno. Mas o que será mais democrático: excluir toda forma de direção, deixar tudo à livre expressão, criar um clima amigável para alimentar boas relações, ou garantir aos alunos a aquisição de conteúdos, a análise de modelos soci- ais que vão lhes fornecer instrumentos para lutar por seus direitos? Não serão as relações democráticas no estilo não- diretivo uma forma sutil de adestramento, que levaria a reivindicações sem conteúdo? Representam as relações não-diretivas as reais condições do mundo social adulto? Seriam capazes de promover a efetiva libertação do homem da sua condição de dominado? Um ponto de vista realista da relação pedagógica não recusa a autoridade pedagógica expressa na sua função de ensinar. Mas não se deve confundir autoridade com autoritarismo. Este se manifesta no receio do professor em ver sua autoridade ameaçada; na falta de consideração para com o aluno ou na imposição do medo como forma de to- mar mais cômodo e menos estafante o ato de ensinar. Além do mais, são incongruentes as dicotomias, tão difundidas por muitos educadores, entre "professor-policial" e "professor-povo", entre métodos diretivos e não-diretivos, entre ensino centrado no professor e ensino centrado no estudante. Ao adotar tais dicotomias, amortece-se a presença do professor como mediador pelos conteúdos que explicita, como se eles fossem sempre imposições dogmáticas e que nada trouxessem de novo. Evidentemente que, ao se advogar a intervenção do professor, não se está concluindo pela negação da rela- ção professor-aluno. A relação pedagógica é uma relação com um grupo e o clima do grupo é essencial na pedagogia. Nesse sentido, são bem-vindas as considerações formuladas pela "dinâmica de grupo", que ensinam o professor a relaci- onar-se com a classe; a perceber os conflitos; a saber que está lidando com uma coletividade e não com indivíduos isolados, a adquirir-se a confiança dos alunos. Entretanto, mais do que restringir-se ao malfadado "trabalho em gru- po", ou cair na ilusão da igualdade professor-aluno, trata-se de encarar o grupo-classe como uma coletividade onde são trabalhados modelos de interação como a ajuda mútua, o respeito aos outros, os esforços coletivos, a autonomia nas decisões, a riqueza da vida em comum, e ir ampliando pro- gressivamente essa noção (de coletividade) para à escola, a cidade, sociedade toda. Por fim, situar o ensino centrado no professor e o ensino centrado no aluno em extremos opostos é quase negar pedagógica porque não há um aluno, ou grupo de alunos, aprendendo sozinho, nem um professor ensinando para ás paredes. Há um confronto do aluno entre sua cultu- ra e a herança cultural da humanidade, entre seu modo de viver e os modelos sociais desejáveis para um projeto novo de sociedade. E há um professor que intervém, não para se opor aos desejos e necessidades ou à liberdade e autonomia do aluno, mas para ajudá-lo a ultrapassar suas necessidades e criar outras, para ganhar autonomia, para ajudá-lo no seu esforço de distinguir a verdade do erro, para ajudado a compreender as realidades sociais e sua própria experiência 5. Tendências Pedagógicas pós-ldb 9.394/96 Após a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacio- nal de n.º 9.394/96, revalorizam-se as ideias de Piaget, Vygotsky e Wallon. Um dos pontos em comum entre esses psicólogos é o fato de serem interacionistas, porque conce- bem o conhecimento como resultado da ação que se passa entre o sujeito e um objeto. De acordo com ARANHA (1998), o conhecimento não está, então, no sujeito, como queriam os inatistas, nem no objeto, como diziam os empiristas, mas resulta da interação entre ambos. Para citar um exemplo no ensino da língua, segun- do essa perspectiva interacionista, a leitura como processo permite a possibilidade de negociação de sentidos em sala de aula. O processo de leitura, portanto, não é centrado no texto, ascendente, bottom-up, como queriam os empiristas, nem no receptor, descendente, top-down, segundo os ina- tistas, mas ascendente/descendente, ou seja, a partir de uma negociação de sentido entre enunciador e receptor. Assim, nessa abordagem interacionista, o receptor é retira- do da sua condição de mero objeto do sentido do texto, de alguém que estava ali para decifrá-lo, decodificá-lo, como ocorria, tradicionalmente, no ensino da leitura. As ideias desses psicólogos interacionistas vêm ao encontro da concepção que considera a linguagem como forma de atuação sobre o homem e o mundo e das moder- nas teorias sobre os estudos do texto, como a Linguística Textual, a Análise do Discurso, a Semântica Argumentativa e a Pragmática, entre outros. De acordo com esse quadro teórico de José Carlos Libâneo, deduz-se que as tendências pedagógicas liberais, ou seja, a tradicional, a renovada e a tecnicista, por se decla- rarem neutras, nunca assumiram compromisso com as transformações da sociedade, embora, na prática, procuras- sem legitimar a ordem econômica e social do sistema capi- talista. No ensino da língua, predominaram os métodos de base ora empirista, ora inatista, com ensino da gramática tradicional, ou sob algumas as influências teóricas do estru- turalismo e do gerativismo, a partir da Lei 5.692/71, da Re- forma do Ensino. Já as tendências pedagógicas progressistas, em oposição às liberais, têm em comum a análise crítica do sistema capitalista. De base empirista (Paulo Freire se pro- DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 30 OS: 0187/11/17-Gil clamava um deles) e marxista (com as ideias de Gramsci), essas tendências, no ensino da língua, valorizam o texto produzido pelo aluno, a partir do seu conhecimento de mundo, assim como a possibilidade de negociação de senti- do na leitura. A partir da LDB 9.394/96, principalmente com as di- fusão das ideias de Piaget, Vygotsky e Wallon, numa pers- pectiva sócio-histórica, essas teorias buscam uma aproxima- ção com modernas correntes do ensino da língua que consi- deram a linguagem como forma de atuação sobre o homem e o mundo, ou seja, como processo de interação verbal, que constitui a sua realidade fundamental. 1.3. Projeto Político Pedagógico Neste ponto trataremos sobre a importância, o conceito, o significado, bem como as dificuldades, os obstá- culos e os elementos facilitadores para elaboração do Proje- to Político Pedagógico. Assim como sua função e os princi- pais norteadores para sua elaboração. Conceito e Objetivos Vasconcellos (2005) esclarece que todo projeto su- põe rupturas com o presente e promessas para o futuro. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscar-se, atravessar um período de instabilidade e buscaruma nova estabilidade. Nesse processo podem-se distinguir dois momentos: a) O momento da concepção do projeto b) O momento da institucionalização e implantação do pro- jeto. Logo, podemos afirmar que a noção de projeto im- plica, sobretudo tempo. a) Tempo Político - define a oportunidade política de um determinado projeto. b) Tempo Institucional – Cada escola encontra-se num de- terminado tempo de sua história. O projeto que pode ser inovador para uma escola pode não ser para outra. c) Tempo Escolar – o calendário da escola, o período no qual o projeto é elaborado é também decisivo para o seu suces- so. d) Tempo para amadurecer as ideias – só os projetos buro- cráticos são impostos e, por isso, revelam-se ineficientes em médio prazo. Há um tempo para sedimentar as ideias. Um projeto precisa ser discutido e isso leva tempo. Assim sendo, os elementos facilitadores, segundo Vascon- cellos (2005) para o êxito de um projeto são, a saber: 1) Comunicação eficiente: necessita ter um enunciado fa- cilmente compreendido. 2) Adesão voluntária e consciente ao projeto: Momento em que todos devem estar envolvidos, em que a co- responsabilidade é um fator decisivo no êxito de um proje- to. 3) Suporte institucional e financeiro: significa vontade políti- ca, pleno conhecimento de todos, principalmente, dos diri- gentes e dos recursos financeiros claramente definidos. 4) Controle, acompanhamento e avaliação do projeto – A necessidade do projeto ser constantemente avaliado, a fim de perceber se seus objetivos estão sendo atingidos. 5) Credibilidade – Esse item significa que as ideias podem ser boas, mas quem a defende se não têm prestígio e com- provada competência, a legitimidade do projeto pode ficar limitada. 6) Referencial teórico – é imprescindível para facilitar a encontrar os principais conceitos e a estrutura do projeto. A falta desses elementos poderá torna-se um obs- táculo na elaboração e na implantação do Projeto Político Pedagógico para a escola. Logo, é fundamental que saiba- mos: a implantação de um Projeto Político Pedagógico en- frenta sempre a descrença dos que pensam que nada adian- ta projetar para se ter uma boa escola. Nesse sentido, enquanto não existir pressão dos “de baixo”, a vontade política e o pensamento da prática dos “de cima” não se modificará. Segundo Moretto (2006) o Projeto Político Pedagógico são princípios e metas que a escola deve constituir em um verdadeiro processo de cons- cientização e de formação cívica, portanto necessita ser um processo de recuperação pela importância e necessidade do planejamento da educação. Tudo isso exige, certamente, uma educação voltada para a cidadania e autonomia, por serem hoje categorias estratégicas de construção de uma sociedade melhor em torno das quais há frequentemente o consenso (FREIRE, 1998). O Projeto Político Pedagógico precisa ser feito ba- seado numa ética, visto como instrumento de transforma- ção, na medida em que expressa o compromisso do grupo em uma caminhada. Sendo assim, tanto o dirigente pode cobrar coerência do dirigido como o dirigido pode cobrar do dirigente, como dos companheiros entre si, em que as críti- cas carecem tornar parte do cotidiano para superar as con- tradições. Somente, assim, temos, então, como finalidades do Projeto Político Pedagógico: • Aglutinar pessoas em torno de uma causa comum; • Ser um canal de participação efetiva; • Dar um referencial de conjunto para a caminhada. • Ajudar a conquistar e consolidar a autonomia da escola; • Ser um instrumento da realidade; DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 31 OS: 0187/11/17-Gil • Colaborar na formação dos participantes. Qualidade de ensino pressupõe a consciência clara do projeto educacional ou projeto global da instituição e do projeto político pedagógico que a instituição oferece, e, por consequência, a relação harmoniosa entre os mesmos. Quando uma instituição busca definir e programar seu pro- jeto pedagógico, com uma identidade e diferenciação em relação às demais instituições, necessariamente passa aglu- tinar o Projeto Pedagógico Político da escola (MORETTO, 2005). Nestes termos, falar de projeto educacional é falar da política institucional, do todo, da globalidade com a qual os projetos guardam profunda articulação. O Projeto Político Pedagógico de uma escola é o conjunto de diretrizes e estra- tégias que expressam e orientam a prática pedagógica. Não pode ser confundido com currículo: vai além, pois é a pró- pria concepção da escola. Assim, um Projeto Político Peda- gógico não é a mera reorganização curricular, mas um repo- sicionamento institucional, diante da realidade e do desen- volvimento da área de conhecimento do curso e face às condições institucionais. Envolve, portanto, um processo de reflexão sobre a escola e a criação ou proposição de condi- ções efetivas de qualidade. Em termos gerais, o objetivo de um Projeto Político Pedagógico é possibilitar à reflexão crítica sobre a prática educativa da instituição, no sentido de reformular seus cursos com vistas à melhoria do ensino. Vasconcellos (2005) ressalta quem termos específi- cos, um Projeto Político Pedagógico tem como objetivo: a) Analisar, criticamente, o modelo do curso existente; b) Estruturar ou reestruturar o currículo pleno do curso; c) Caracterizar o perfil do aluno que se deseja formar e que seja capaz de atender às necessidades pessoais; d) Criar mecanismos de avaliação permanente, no sentido da correção das distorções e da melhoria da qualidade do ensino, a fim de que não erremos na hora de escolher a filosofia que irá nortear o processo pedagógico em nossas práticas. _______________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ _________________________________________________ A DIDÁTICA E O PROCESSO DE ENSINO APRENDIZAGEM A partir de uma perspectiva didática, ao longo da história da educação, é visível à percepção de que o proces- so de ensino-aprendizagem se compõe em práticas e teorias indissociáveis. Torna-se indiscutível o discurso sobre o rom- pimento da dualidade existente entre prática e teoria, a fim de estabelecer uma ressignificação de ambas, pois não po- dem ser fracionadas, enquanto parte do todo educacional 2.1. Organização do processo didático: planeja- mento, estratégias e metodologias, avaliação. Toda ação humana tem um propósito orientado e dirigido em prol daquilo que se quer alcançar. Assim é a ação docente que deve ser realizada em função dos objeti- vos educacionais. Objetivos educacionais orientam a toma- da de decisão no planejamento, porque são proposições que expressam com clareza e objetividade a aprendizagem que se espera do aluno. São os objetivos que norteiam a seleção e organização dos conteúdos, a escolha dos proce- dimentos metodológicos e definem o que avaliar. Os objetivossão finalidades que pretendemos al- cançar. Retratam os valores e os ideais educacionais, a aprendizagem dos conteúdos das ciências, as expectativas e necessidades de um grupo social. Para articularmos os valo- res gerais da educação (concepção de educação) com as aprendizagens dos conteúdos programáticos e as atividades que o professor pretende desenvolver na sua aula, devemos elaborar os objetivos gerais e os específicos. O objetivo geral expressa propósitos mais amplos acerca da função da educação, da escola, do ensino, consi- derando as exigências sociais, do desenvolvimento da per- sonalidade ou do desenvolvimento profissional dos alunos. Podemos pontuar os seguintes objetivos gerais que orien- tam a prática dos professores: • a educação escolar deve possibilitar a compreensão do mundo e os conteúdos de ensino; instrumentalizar cultu- ralmente os professores e os alunos para o exercício consci- ente da cidadania; • a escola deve garantir o acesso e a qualidade do ensino a todos, garantindo o desenvolvimento das capacidades físi- cas, mentais, emocionais dos professores e alunos; • a educação escolar deve formar a capacidade critica e criativa dos conteúdos das matérias de ensino. Sob a res- ponsabilidade do professor os alunos desenvolverão o raci- ocínio investigativo e de reflexão; • o percurso de escolarização visa atender à formação da qualidade de vida humana. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 32 OS: 0187/11/17-Gil Professores e alunos deverão desenvolver uma ati- tude ética frente ao trabalho, aos estudos, à natureza etc. O objetivo específico expressa as expectativas do professor sobre o que deseja obter dos alunos no processo de ensino. Ao iniciar o planejamento, o professor deve analisar e pre- ver quais resultados ele pretende obter, com relação à aprendizagem dos alunos. Esta aprendizagem pode ser da ordem dos conhecimentos, habilidades e hábitos, atitudes e convicções, envolvendo aspectos cognitivo, afetivo, social e motor. Os objetivos específicos devem estar vinculados aos objetivos gerais, e retratar a realidade concreta da escola, do ensino e dos alunos. Correspondem às aprendizagens de conteúdos, atitudes e comportamentos. Seleção e organização dos conteúdos escolares Os estudos da Didática contribuem com o profes- sor, oferecendo possibilidades de escolher o que ensinar, para que o aluno aprenda e descubra como aprendeu. Essa é uma habilidade que requer conhecimento e um compro- misso com a realidade do aluno. Neste sentido, o professor deve ter conhecimento do presente e perspectivas de futu- ro, tanto pessoal como dos alunos. Em hipótese alguma o professor pode se basear na ideia de que deve somente ensinar o que lhe ensinaram. É neste sentido, que o Curso de Graduação em Li- cenciatura: Pedagogia, Matemática, Geografia etc. é reco- nhecido como a formação inicial do professor. Para perma- necer planejando o ensino atualizado, contemporâneo e coerente com seus alunos, faz-se necessária a continuação dos estudos através da formação continuada. Quando expli- co sobre o que ensinar, faço referência aos conteúdos de ensino. A seleção dos conteúdos que farão parte do ensino é uma tomada de decisão carregada de intencionalidades. É da responsabilidade do professor escolher os conteúdos que desenvolverão aprendizagens nos alunos para que estes expliquem a realidade conscientemente. Deve-se ensinar o que é significativo sobre o mundo, a vida, a experiência existencial, as possibilidades de mudança, o trabalho, o passado, o presente e o futuro do homem (MARTINS, 1995.) Veja o que escreve o professor Libâneo sobre os conteúdos de ensino: Conteúdos de ensino são o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos na sua vida prática. Englobam, portanto: conceitos, ideias, fatos, processos, princípios, leis científicas, regras; habilida- des cognoscitivas, modos de atividade, métodos de compre- ensão e aplicação, hábitos de estudos, de trabalho e de convivência social; valores convicções, atitudes. São expres- sos nos programas oficiais, nos livros didáticos, nos planos de ensino e de aula, nas atitudes e convicções do professor, nos exercícios nos métodos e forma de organização do ensi- no. Podemos dizer que os conteúdos retratam a experiência social da humanidade no que se refere a conhecimentos e modos de ação, transformando-se em instrumentos pelos quais os alunos assimilam, compreendem e enfrentam as exigências teóricas e práticas da vida social. Constituem o objeto de mediação escolar no processo de ensino, no senti- do de que a assimilação e compreensão dos conhecimentos e modos de ação se convertem em ideias sobre as proprie- dades e relações fundamentais da natureza e da sociedade, formando convicções e critérios de orientação das opções dos alunos frente às atividades teóricas e práticas postas pela vida social (1991, p.128-129). Desta forma, os conteúdos de ensino junto com a metodologia são responsáveis pela produção e elaboração das aprendizagens e dos saberes na escola. Libâneo (1991) acrescenta que escolher os conteúdos de ensino não é tare- fa fácil; por isso, quanto mais planejado, ordenado e es- quematizado estiver mais os alunos entenderão a sua im- portância social; porém, a seleção e a organização dos con- teúdos não se confundem com uma mera listagem. Cabe ao professor selecionar e organizar o conteúdo devidamente planejado para atender às necessidades dos seus alunos. Conteúdos de ensino bem selecionados devem atender aos critérios de validade, flexibilidade, significação, possibilidade de elaboração pessoal; sem esses critérios, o professor corre o risco de escolher conteúdos sem relevân- cia para seus alunos. Atendendo aos critérios, o conteúdo terá validade quando apresenta o caráter científico do co- nhecimento, e faz parte de um conhecimento que reflete os conceitos, ideias e métodos de uma ciência. O conteúdo será significativo quando expressar de forma coerente os objetivos sociais e pedagógicos da educação, atendendo à formação cultural e científica do aluno; eles não são rígidos, são flexíveis. O conteúdo de ensino está a serviço da apren- dizagem dos alunos, e estes o utilizam para explicar a sua realidade. Todo conteúdo de ensino deve ser articulado com a experiência social do aluno. Para que haja a possibilidade de elaboração pessoal e o domínio efetivo do conteúdo, conhecimento, o ensino não pode se limitar à memorização e repetição de fórmulas e regras. Deve, fundamentalmente, possibilitar a compreensão teórica e prática através de co- nhecimentos e habilidades, obtidas na aula ou obtidas em situações concretas da vida cotidiana (LIBÂNEO, 1991). Podemos considerar três fontes que o professor deve utilizar para selecionar os conteúdos de ensino e orga- nizar suas aulas: a primeira é a programação oficial, na qual são fixados os conteúdos de cada matéria; a segunda são os próprios conhecimentos básicos das ciências transformados em matéria de ensino; a terceira são as exigências teóricas e práticas que emergem da experiência de vida dos alunos, tendo em vista o mundo do trabalho e a participação demo- crática na sociedade. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 –Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 33 OS: 0187/11/17-Gil A metodologia de ensino Entendemos por método, a articulação de uma teo- ria de compreensão e interpretação da realidade com uma prática específica. O processo de ensino-aprendizagem para se efeti- var como ação didática percorre um caminho estruturado pela dimensão técnica. Lembremos que, neste momento, a técnica não se insere na Pedagogia tecnicista explicitada. A técnica aqui tem o caráter crítico-social e criativo. Ela deve atender à realidade social do aluno e ser coerente com sua dimensão política, isto é, definição clara do para que e para quem a técnica esteja sendo aplicada. As técnicas, por sua vez, organizam-se em torno de procedimentos didáticos, que são passos, atividades, ações que o professor e os alunos desenvolverão durante a reali- zação da técnica. Podemos dizer que uma técnica de ensino é um conjunto de procedimentos sistematizados a partir das aprendizagens que serão desenvolvidas pelos alunos. A seguir, apresento, em forma de um esquema- síntese, quatro técnicas de ensino e, de cada uma explico: a descrição, as operações do pensamento que são trabalha- das, os procedimentos para a realização da atividade, como deve ser a avaliação e os equívocos que podem ser cometi- dos ao realizarmos a técnica. Este esquema síntese foi elaborado pela autora a partir do capítulo 3 do livro de Anastasiou (2003). 01. Aula expositiva dialogada Descrição: os professores levam os alunos a questionarem, interpretarem e discutirem o conteúdo a partir do reconhe- cimento e da identificação com a realidade e com conteúdos prévios. Deve propor a superação da passividade intelectual dos alunos. Operações do pensamento: obtenção e organização das informações; identificação; interpretação; decisão; compa- ração e resumo. Procedimentos na realização da atividade: o professor con- textualiza o conteúdo; com a exposição, mobiliza as estrutu- ras mentais do aluno; estabelece conexões entre o conteú- do e a realidade; suscita a participação, as críticas e as dúvi- das. Avaliação: participação quando pergunta, questiona e res- ponde. Ao participar, deve apresentar a compreensão e a análise dos conceitos do assunto; além da forma oral, pode- se avaliar pela forma escrita: resumo, entrega de questioná- rio, de perguntas e/ ou dúvidas, esquema etc. Equívocos nos procedimentos ao utilizar a técnica de ensino: • Superar o tradicionalismo, evitando o monólogo do pro- fessor. • Não pode ser mecanismo de improvisação do professor. A aula expositiva deve preceder de uma introdução, desenvol- vimento e conclusão, mesmo que sejam somente 50 minu- tos de aula. • É preciso ter cuidado com a mecanização, como a aula expositiva, em muitas escolas, é o único recurso de ensino que o professor dispõe ela acaba tornando repetitiva e me- cânica. 02. Estudo de texto Descrição: exploração de ideias a partir do estudo crítico de um texto, busca de informações e exploração em textos. Operações do pensamento: investigação, obtenção e organi- zação das informações; identificação; interpretação; análise; comparação e reelaboração. Procedimentos na realização da atividade: 1.Contexto do texto – data, tipo de texto, autor e dados. 2.Análise temática – tema, problema, tese, ideia central, linha de explicação, imagens, exercícios etc. 3.Análise interpretativa – extrapolação do texto, discussão de questões relacionadas ao texto. 4.Problematização – formulação de novas ideias/problemas a partir do texto. 5.Síntese – reelaboração, conclusão. Avaliação: • Produção oral – comentário ou exposição do aluno, apre- sentando a análise e a síntese do que foi explorado/ investi- gado no texto. • Produção escrita – interpretação dos conteúdos funda- mentais e elaboração de novos argumen- tos/problemas/ideias. Criação de um novo texto. Equívocos nos procedimentos ao utilizar a técnica de ensino: • O estudo do texto deve ser acompanhado de um compor- tamento crítico e dinâmico, evitando a leitura linear, estáti- ca e reprodutora. • Não pode encerrar a técnica na própria leitura. Deve ser precedido da escrita de uma redação ou de um novo texto (desenho, pintura, poesia, grafismo etc.). DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 34 OS: 0187/11/17-Gil 03. Discussão e Debate Descrição: organização de ensino tipo reunião, onde todos devem participar do debate de um tema ou problema de- terminado. Operações do pensamento: busca de suposições/hipóteses; organização e interpretação dos dados; análise; crítica e resumo. Procedimentos na realização da atividade: 1. O professor explica os objetivos da discussão. 2. Delimita o tempo e as funções dos participantes (coorde- nação, debatedores e grupo de síntese). Todas as funções podem ser exercidas por todos. 3. Ao final, relatos das sínteses/resumos. Avaliação: • Produção oral – a participação como debatedor e sinteti- zador. • Produção escrita – síntese / resumo / relatório. Equívocos nos procedimentos ao utilizar a técnica de ensino: • Uma discussão ou um debate se realiza a partir do que se sabe. Não podemos participar de um debate quando não conhecemos o conteúdo da discussão, deveremos ter cui- dado com o “achismo”. • É preciso que o objetivo do debate e da discussão seja o confronto de ideia e não a agitação dos grupos, não se pode usar a técnica de modo desordeiro em meio ao barulho e à gritaria. • O debate e a discussão devem vir precedidos de muita participação e respeitando um processo democrático. 04. Seminário (Conhecido como técnica de ensino socializa- do). Descrição: estudo em grupo menor sob a orientação do professor, onde diversos temas são investigados e proble- mas são resolvidos, os resultados são apresentados formal- mente ao grupo maior para o debate, a discussão e a crítica. Operações do pensamento: busca de suposições/hipóteses; organização e interpretação dos dados; análise; crítica e resumo. Procedimentos na realização da atividade: • Distribuição e escolha das temáticas que serão investiga- das. • Estudo aprofundado das temáticas ou problema sob dife- rentes perspectivas. • Construção dos relatórios para a Discussão e o Debate. • Delimitação do tempo e as funções dos participantes (co- ordenação, debatedores e grupo de síntese). Todas as fun- ções podem ser exercidas por todos. • Apresentação do seminário. • Construção do relatório escrito, que pode ser em forma de resumo, apresentando as principais ideias que foram discu- tidas, debatidas e criticadas. Avaliação: • Produção oral – a participação como debatedor e sinteti- zador. • Produção escrita – síntese / resumo / relatório. Equívocos nos procedimentos ao utilizar a técnica de ensino: • O seminário sempre é precedido de debate e discussão, não pode ser uma apresentação em forma de monólogo, em que o aluno discorre sobre um tema sem interrupções e sem questionamentos. • O grupo deve apresentar um estudo integrado, não pode ser uma apresentação dividida em partes fragmentadas e descontinuas. • A temática apresentada deve ser resultado de uma pro- funda investigação e das aprendizagens do grupo, não pode ser uma apresentação de generalizações, nem leituras de textos já publicados. A avaliação da aprendizagem A avaliação escolar é parte integrante do processo de ensino– aprendizagem, e não uma etapa ou momentoisolado. Faz parte da metodologia de ensino, está direta- mente imbricada com os objetivos, os conteúdos e os pro- cedimentos metodológicos expressos no planejamento e desenvolvidos no decorrer do ensino. Avaliar é um ato de decisão e julgamento que deve ser crítico e consciente, tanto do professor quando avalia, como do aluno quando realiza sua auto-avaliação. Assim como a metodologia, a escolha pelos instrumentos de avali- ação depende da concepção de ensino que o professor carrega no seu referencial. Hoffmann, (2005, p.111-113) apresenta-nos a avaliação a partir de duas concepções de educação: DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 35 OS: 0187/11/17-Gil Saber avaliar é uma competência essencial do pro- fessor, o que avaliai? Como avaliar? E por que avaliar? São questões que devem fazer parte dos momentos de elabora- ção dos instrumentos de avaliação. 2.2. A sala de aula como espaço de aprendizagem e interação A sala de aula é, por excelência, o espaço de forma- ção docente e discente. É na sala de aula que ocorre mais intensamente a interação professor-aluno. Esse lugar é o espaço onde o professor ensina e o aluno aprende e é, tam- bém, ao mesmo tempo, onde se constrói o profissional docente aprendendo em serviço. A sala de aula é o espaço em que ensinante e aprendente interagem mutuamente, pois ambos são sujeitos ativos no processo de ensino- aprendizagem. O professor, por sua formação profissional e expe- riência de vida, constitui-se no agente condutor das relações interativas e proponente do processo educativo. O papel de cada sujeito nesse processo, por sua vez, é determinado, em grande parte, pelo tipo de gestão escolar e pela proposta pedagógica adotada pela instituição. Assim, a estrutura e a organização escolar serão definidas em função dos papeis atribuídos aos professores e aos alunos. O organograma da escola espelha os relacionamentos interpessoais e as formas participativas. A estrutura organizativa da instituição escolar de- termina as potencialidades educativas. Isso pressuposto, e admitindo-se que a escola opte pela formação integral da pessoa, possibilitando a vivência de valores democráticos, a inclusão e a valorização da diversidade, a configuração do espaço sala de aula deverá expressar uma concepção peda- gógica que potencialize a formação interativa dos alunos, bem como a formação docente em serviço. A organização do espaço O deslocamento da centralidade do professor para o aluno como proposta pedagógica implica reconfiguração do espaço físico, especialmente a sala de aula. Para Gauthier et al. (2006), o planejamento do ambiente educativo, envol- vendo tempo, espaço físico e recursos materiais e humanos, contribui positivamente no processo de ensino- aprendizagem. Tal posição é corroborada por Zabala (2010), para quem o meio físico da escola influi no estado de ânimo, no interesse e na motivação dos estudantes, contribuindo para as aprendizagens. O clima e o ambiente devem favorecer a constru- ção do conhecimento e a integração dos sujeitos. O tipo de atividade a ser desenvolvidacom os estudantes deve direci- onar a organização do espaço da sala de aula. A distribuição das carteiras precisa estar ajustada a cada atividade. Sobre o papel do espaço escolar, Zabala afirma: Se a utilização do espaço tem sido o resultado de uma maneira de entender o ensino, tanto em relação à função social como à compreen- são dos processos de aprendizagem, certamente uma mu- dança nestes elementos levaria a uma reconsideração das características que deveriam ter de acordo com outras op- ções do ensino (2010, p. 130). A concepção “clássica” de ensino-aprendizagem fundamenta a organização e distribuição do espaço escolar em função de “ordem, controle e eficácia”, argumenta ele. A sala de aula tradicional, ainda predominante nas escolas brasileiras, é estruturada como “[...] um conjunto de cadei- ras e mesas colocadas em duas ou individualmente e ali- nhadas de frente para o quadro-negro e para a mesa do professor ou professora.” (Ibid., p. 131). Tal disposição pode contribuir para manter a disciplina, a ordem, por parte do professor. Ao mesmo tempo, esse cenário pode evidenciar um tipo de “ensino centrado nos conteúdos factuais e con- ceituais”, tendo o professor como “protagonista da educa- ção”. Portanto, a configuração de uma sala de aula dessa forma se explica quando os objetivos da ação docente sejam a transmissão de conteúdos e o controle da classe. A organização da sala de aula depende do(s) objeti- vo(s) estabelecido(s) para a situação de aprendizagem. É senso comum entre professores de que a disposição das carteiras em fileiras separadas é mais adequada quando o foco deve estar na exposição, na fala do professor. Será que a posição olhos na nuca(de outro) facilita mais do que olhos nos olhos (do professor)? Já a disposição em fileiras duplas e em quartetos ou sextetos favorece os trabalhos em grupos e as interações entre alunos. Mas será que somente por meio dessas formas há interação? Nos últimos anos tem tido boa aceitação, entre as instituições que tomam conhecimento da alternativa, a disposição em “U”. Esta forma de organização do espaço da sala de aula contempla as proposições das diferentes dispo- sições, desde que em situações de aprendizagem bem pla- nejadas e bem conduzidas pelo professor. A disposição em “U” tem possibilitado tanto ativi- dades em grupos (grandes e pequenos) como atividades individualizadas. Ao mesmo tempo, essa disposição facilita a circulação do professor e o contato direto com cada estu- dante sempre que necessário, além de proporcionar melhor gestão da classe em termos de acompanhamento do pro- cesso de ensino-aprendizagem e de organização disciplinar. Com base na prática educativa, pode-se afirmar que é o formato ideal para o modelo de ensino e avaliação por competência. Conforme Luckesi,“[...] competência define o que (conteúdos cognitivos, afetivos e motores) e como (me- todologia) se ensina e se aprende.” (2011, p. 410). Para acompanhar a aprendizagem de cada estudan- te, registrando as habilidades desenvolvidas e as competên- cias adquiridas, conforme o planejamento, o professor ne- cessita de uma organização espacial adequada da sala de aula, o que é favorecido pela disposição em “U”. Uma sala de aula assim organizada pode constituir-se num espaço de DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 36 OS: 0187/11/17-Gil verdadeira interação. Todavia, vale ressaltar que isso de- pende da ação pedagógica do professor, conforme também destacam Teixeira e Reis: [...] a ação pedagógica do profes- sor reflete-se na organização que faz do espaço da sala de aula. Se se pretender uma prática eficaz e se a eficiência for a meta, o espaço deverá ser adequado ao ambiente conso- ante os objetivos a atingir. Numa sala de aula, é o professor que controla os recursos, os processos e a didática (2012, p. 176). Aprende-se na interação com e nos espaços, fun- damentalmente na interação com o outro – outro sujeito. A interação dos sujeitos Interação supõe relações. Relações entre sujeitos. Sujeitos atuantes, que realizam ações entre e com. Estabe- lecer relações interpessoais professor-aluno implica afetivi- dade, respeito e admiração. Essa dimensão relacional pro- duz disciplina, ordeme boa convivência, o que contribui para o sucesso na gestão da classe. Compete ao professor gerir a classe, o que significa ser competente para gerir conflitos e administrar interações. Conforme Gauthier et al. (2006), o professor necessita ser capaz de planejar, organi- zar e manejar a classe. Para Zabala (2010), o professor deve “diagnosticar o contexto de trabalho, tomar decisões, atuar e avaliar a pertinência das atuações, a fim de reconduzi-las no sentido adequado.” (p.10). Em sala de aula, o professor tem autonomia para exercer autoridade. O significado de autonomia profissional docente depende da forma como se resolvem as relações entre prática pedagógica, suas finalidades e condições do contexto. Contreras entende a autonomia, no contexto da prática profissional do ensino, como um “processo de cons- trução permanente” em que se articulam vários elementos: aspectos pessoais com relacionais, propósitos de compreen- são e equilíbrio social com defesa profissional de valores educativos, e independência de juízo com participação soci- al. Para ele, “A autonomia se desenvolve num contexto de relações, não na solidão.” (1997, p. 152). Portanto, a auto- nomia se constrói no encontro. A compreensão disso é fundamental para que o professor possa tomar decisões (autônomas) em situação singular de juízo. Nesse sentido, Contreras traz: Na medida em que a autonomia implica reconhecer a diferença de perspectivas, posições, interesses e práticas, a responsabili- dade e o compromisso profissional se apoiam, como parte da competência profissional, no diálogo, a orientação ao entendimento, a negociação e a justificação pública das posições (Ibid., p. 171). A autonomia profissional implica diálogo, compre- ensão, negociação, intermediação, mediação e equilíbrio. Nessa perspectiva, o profissional docente deve manter uma distância crítica que lhe permita a reflexão sobre o contexto (a realidade) em que está inserido, sobre a tomada de deci- sões em situações de juízo e sobre a autonomia como cons- ciência de si mesmo. A auto-exploração é um processo de construção pessoal e relacional. O autoconhecimento re- quer descentralização, olhar-se sob pontos de vista de ou- tros. Para o pesquisador, “Entender a alguém é sempre um processo que implica a forma em que nos entendemos a nós mesmos.” (Id., p. 161). Em relação à interação dos sujeitos, especialmente em sala de aula, vale destacar o modelo da racionalidade crítica descrito por Pereira (2008). Esse modelo tem uma visão política clara sobre o papel do profissional na socieda- de, o qual atua politicamente consciente para a promoção da igualdade e da justiça social. Nesse modelo de racionali- dade, a educação é historicamente localizada (atua na cons- trução de um mundo desejado), é uma atividade social (com consequências sociais), intrinsecamente política e proble- mática. O professor aqui é um problematizador – questiona o conhecimento, o poder e as condições no campo educaci- onal. Os principais modelos de formação de professores, integrantes do modelo da racionalidade crítica, são: a) modelo sócioreconstrucionista (o processo de ensino- aprendizagem como meio para a promoção da humaniza- ção); b) modelo emancipatório ou transgressivo (a educação como expressão do ativismo político para a transformação da realidade); e c) modelo ecológico crítico (a pesquisa-ação como meio para a transformação social). Todos estes propõem interati- vidade e reflexividade, atributos essenciais na formação mútua dos sujeitos. Formação interativa dos sujeitos Formação implica criação, construção, constituição. Integração, por sua vez, tem a ver com incorporação, inclu- são, assimilação. Formação integradora dos sujeitos significa a construção mútua das pessoas que interagem de maneira cooperativa e reflexiva. Na sala de aula interagem professo- re alunos, construindo-se mutuamente no processo de ensi- no-aprendizagem. Ambos aprendem, todos se formam, se constituem. Todos incorporam conhecimentos, valores e experiências. São vidas em formação, constantemente, mutuamente, em interação. José Pacheco, referindo-se à figura do professor, traz: “O dicionário diz-nos ser aquele que ensina. Eu diria ser mais aquele que aprende... ensinan- do.” (2009, p. 93). O momento atual se caracteriza pela efervescência de discussões e/ou reflexões em torno do papel e das fun- ções da escola. Na expressão de Nóvoa (2005), a escola vive um transbordamento de tarefas em decorrência da acumu- lação de missões durante a modernidade escolar. Nesse contexto, ressalta-se o conceito de educação integral, que inclui discursos sobre cidadania. Para Nóvoa, “a contempo- DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 37 OS: 0187/11/17-Gil raneidade escolar se definirá por retraimento.” (2009, p. 62). A escola deve focar-se na sua verdadeira e prioritá- ria finalidade: “a transmissão e apropriação dos conheci- mentos e da cultura” e “a compreensão do encontro, da comunicação e da vida um conjunto.” (Ibid., p. 62). Este, portanto, seria o papel da escola para com os estudantes. E a formação dos professores? Maués e Souza (2013) investi- gam a relação entre expansão, formatos institucionais e as políticas de formação de professores. A educação, em escala internacional, está sendo apontada como saída para o desenvolvimento socioeconô- mico. As pesquisadoras analisam a questão da formação de professores, bem como o papel da educação e do profissio- nal docente na perspectiva do desenvolvimento do país. Todos os fóruns e falas sobre o tema apontam para a relevância desse papel no processo. Contudo, não há evi- dências sobre a concretização das proposições como política pública. No que se refere à formação de professores, as autoras destacam os princípios norteadores da política naci- onal. O Decreto nº 6.094/2007, que dispõe sobre a implan- tação do Plano de Metas “Todos pela Educação”, destaca como diretrizes essenciais a instituição de programa de formação inicial e continuada, a implantação do plano de carreira, cargos e salários, a valorização do mérito e a parti- cipação dos professores no planejamento administrativo- pedagógico da escola. A formação docente, especificamente, implica uma série de aspectos: escolha profissional, constituição identi- tária, trajetória de vida, saberes docentes e práticas educa- tivas. A escolha profissional remete para vivências desde a infância, destacando-se as influências familiares e escolares. Além desses fatores, pesa a vocação e a identificação. Contexto de socialização e tendência pessoal já são aspectos da constituição identitária do professor. Conforme Nóvoa (2013), a construção da identidade docente é um processo em que o professor “[...] se apropria do sentido da sua história pessoal e profissional.” (p.16). Compreender-se como pessoa na profissionalidade contribui para a produção de sentido no trabalho. Nessa perspectiva, Josso (2004) enfatiza a contribuição da aborda- gem biográfica, a qual possibilita autoconhecimento e to- mada de consciência sobre os processos de constituição e formação do ser professor e, em decorrência, produz ques- tionamentos, responsabilizações, conformações, assimila- ções e mudanças de ordem pessoal. Com relação à trajetó- ria de vida dos/as professores/as, Tardif (2012) postula que ela é tão importante no desenvolvimento do saber profissi- onal quanto as fontes e os lugares de aquisição. Trajetória pré-profissional e trajetória profissional integram a socialização como processo de formação do indivíduo. A trajetóriaprofissional entendida como carreira engloba fases de ruptura e de continuidade nas dimensões identitária e de socialização. Ao longo de sua história de vida, o professor interioriza vários elementos (como cren- ças, valores, conhecimentos, experiências e competências) que vão estruturar seu ser professor, pessoal e profissio- nalmente. Para o pesquisador, os saberes profissionais (fundamentos do saber-ensinar) são: a) existenciais – os aspectos que constituem o sujeito pro- fessor/a (intelectual, emocional, afetivo, pessoal, interpes- soal); b) sociais – adquiridos de fontes sociais diversas em tempos diferentes; e c) pragmáticos – saberes do trabalho. Refletindo sobre os saberes docentes, Gauthier et al. (2006) trazem importante contribuição, propondo um repertório de conhecimentos próprios ao ensino. Diferen- temente da noção de reservatório de conhecimentos espe- cíficos ao ensino, que abrange os saberes disciplinares, cur- riculares, profissionais, experienciais e da tradição pedagó- gica, repertório de conhecimentos próprios ao ensino en- globa apenas os saberes da ação pedagógica (saberes pro- duzidos pelos docentes no exercício de sua atividade). Esse repertório de conhecimentos é constituído de enunciados denotativos (declarativos), que expressam fatos, e de enunciados prescritivos (procedimentais), que indicam ações, operações. Tais enunciados tratam apenas de sabe- res práticos relacionados à gestão da matéria (conteúdos) e à gestão da classe. Zabala (2010) defende a abordagem construtivista como concepção metodológica. De acordo com essa concepção, a aprendizagem dos conteúdos se processa de maneira diferente em função da tipologia dos mesmos, objetivando a construção do co- nhecimento e a formação integral da pessoa numa perspec- tiva reflexiva. Tendo em vista o papel reservado ao profes- sor na formação de pessoas, é necessário repensar a própria formação docente. Para Fossatti, “Antes de formar o educa- dor ou o educando, se está formando a pessoa do educador ou do educando. Assim, o educador ou o educando sempre vêm associados com seu ser pessoa.” (2013, p. 179). O educador é compreendido como uma pessoa, um todo, e não como apenas um profissional. Nóvoa (2009) propõe passar a formação docente para dentro da profissão, buscando reforçar a dimensão pessoal e a presença pública dos professores. Alves e André (2013) enfatizam que o professor presta um serviço específico e único, utilizando saberes acadêmicos específicos e competências práticas específicas, produzindo conhecimento, decidindo num campo de incer- tezas e integrando um coletivo responsável pela atenção. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 38 OS: 0187/11/17-Gil 2.3 – A didática como fundamento epistemológi- co do fazer docente Considerada uma ciência que estuda os saberes ne- cessários á prática docente a Didática é um dos principais instrumentos para a formação do professor, pois é nela que se baseiam para adquirir os ensinamentos necessários para a prática. De acordo com Libâneo (1990, p. 26) “a didática trata da teoria geral do ensino”. Como disciplina é entendi- da como um estudo sistematizado, intencional, de investi- gação e de prática (LIBÂNEO, 1990). Ainda, nesta mesma linha de pensamento, Pimenta et al (2013, p.146), diz que: A didática, como área da pedagogia, estuda o fenômeno ensino. As recentes modificações nos sistemas escolares e, especialmente, na área de formação de professores configu- ram uma “explosão didática”. Sua ressignificação aponta para um balanço do ensino como prática social, das pesqui- sas e das transformações que têm provocado na prática social de ensinar. Masetto (1997, p. 13), infere que “a didática como reflexão é o estudo das teorias de ensino e aprendizagem aplicadas ao processo educativo que se realiza na escola, bem como dos resultados obtidos”. Portanto, estudar Didá- tica no Ensino Superior, não significa acumular informações sobre as práticas e técnicas do processo de ensino- aprendizagem, mas sim acrescentar em cada sujeito a capa- cidade crítica em questionar e fazer reflexão sobre as infor- mações adquiridas ao longo de todo processo de ensino- aprendizado. Veiga (2010, p. 58) diz que é preciso “tornar o ensino da Didática mais atraente e respaldado nos resulta- dos das investigações envolvendo alunos em processo de formação”. Para Rios (2001, p. 55) “tratar o fenômeno do ensino como uma totalidade concreta, buscar suas determi- nações, pensá-lo em conexão com outras práticas sociais é o que se espera fazer, do ponto de vista de uma concepção crítica do trabalho da didática”. Por muito tempo ensinar era nada mais do que ter conteúdos para transmitir para os alunos, e estes eram considerados seres sem luz, incapazes de construir conhe- cimentos próprios. Diz Martins, “historicamente, é muito comum ouvir nos meios educacionais, sobretudo entre alunos, afirmações como: “aquele professor não tem didáti- ca...”; “ele tem conhecimento, mas não sabe comunicar”; “o professor conhece o assunto da sua matéria, mas não sabe transmitir”. E acrescenta adiante “a didática é usualmente vista como sinônimo de métodos e técnicas de ensino e, mais que isso, que a escola é tida como a instituição que transmite conhecimentos” (2006, p. 75-76). Contudo, o modo de atuar educacionalmente, re- quer adequações ao mundo atual e suas transformações ágeis que não permitem a estagnação, o que cobra do pro- fessor uma posição dinâmica frente ao processo educacio- nal. Segundo Veiga (2004, p.13): Enfatizar o processo didático da perspectiva relacional signi- fica analisar suas características a partir de quatros dimen- sões: ensinar, aprender, pesquisar e avaliar. O processo didático, assim, desenvolve-se mediante a ação reciproca e interdisciplinar das dimensões fundamentais. Integram-se, são complementares. Pimenta et al (2013, p.150), também descreve a nova postura da didática diante da importância na formação profissional quando enfatiza que: [...] didática é, acima de tudo, a construção de conhecimen- tos que possibilitem a mediação entre o que é preciso ensi- nar e o que é necessário aprender; entre o saber estruturado nas disciplinas e o saber ensinável mediante as circunstân- cias e os momentos; entre as atuais formas de relação com o saber e as novas formas possíveis de reconstruí-las. A Didática integra diversas dimensões que buscam uma ligação entre os pares que correspondem ao chamado “triangulo didático”. Para Libâneo (2012, p. 1), “os elemen- tos integrantes do triângulo didático – o conteúdo, o profes- sor, o aluno, as condições de ensino-aprendizagem - articu- lam-se com aqueles socioculturais, linguísticos, éticos, esté- ticos, comunicacionais e midiáticos”. Veiga (1989, p. 22), sobre a importância da Didática no currículo do professor diz que “o papel fundamental da Didática no currículo de formação de professor é o de ser instrumento de uma práti- ca pedagógica reflexiva e crítica, contribuindo para a forma- ção da consciência crítica”. E, diante desta interação, perce- be-se que a construção de novos conhecimentos acontece de forma paralela à relação professor-aluno, visto que este traz para o cotidiano escolar sua experiência do contexto social em que vive e, com a ajuda mediadora do professor que deve conhecê-lo enquanto ser social considerando seus conhecimentos prévios, e ajudando-o, assim, a transformar essas vivências em conhecimentos relevantes dotados de significados. Articular teoria e prática, uma relação necessária.A formação do educador exige uma inter-relação entre a teoria e a prática, sendo que a teoria se ocupa da pesquisa unindo-se com os problemas reais que surgem na prática e, esta, por sua vez, se determina pela teoria. De acordo com Guimarães (2004, p. 31): O que deve mover a discussão dessa temática é o empenho na formação profissional, é a convicção de que a educação é processo imprescindível para que o homem sobreviva e se humanize e de que a escola é instituição ainda necessária neste processo, enfim, a relevância dessa temática está na compreensão da urgência, da complexidade e da utopia do projeto de escolarização obrigatória e da qualidade por uma sociedade efetivamente mais democrática. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 39 OS: 0187/11/17-Gil Os educadores enquanto seres sociais que trans- formam a realidade quando realizam sua prática, precisam estar conscientes da base teórica, a fim de se orientar por ela ao mesmo tempo em que a teoria se alimenta da práti- ca. Freire (1996, p. 43-44), aborda a importância da reflexão crítica, em que professor deve fazer da prática sobre a teo- ria e vice-versa. Por isso é que, na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a práti- ca, é pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima pratica. O próprio discurso teórico, necessário á reflexão crítica, tem de ser de tal con- creto que quase se confunda com a prática. No mesmo ponto de vista Solé e Coll (1996, p. 87), também indagam a importância da teoria sobre a prática quando dizem: Necessitamos de teorias que nos sirvam de referencial para contextualizar e priorizar metas e finalidades; pra planejar a atuação; para analisar seu desenvolvimento e modifica-lo paulatinamente, em função daquilo que ocorre e para tomar decisões sobre a adequação de tudo. Freire (1996, p. 24) afirma que, “a reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teo- ria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e a prática, ativismo”. E reforça a seguir que, “quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinaraprender participamos de uma experiência total, diretiva, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a bonite- za deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a seriedade” (FREIRE, 1996, p. 26). Um dos campos específicos da Didática aplica-se à constante articulação entre teoria e prática com outras áreas do conhecimento para assim dar suporte ao professor no desenvolvimento de suas habilida- des e competências diante da educação. Ao referir-se a tal assunto Libanêo (2012, p. 16) diz que: [...] a formação de professores precisa buscar uma unidade do processo formativo. A meu ver essa unidade implica em reconhecer que a formação inicial e continuada de professo- res precisa estabelecer relações teóricas e práticas mais sólidas entre a didática e a epistemologia das ciências, de modo a romper com a separação entre conhecimentos disci- plinares e conhecimentos pedagógico-didáticos. Nesta perspectiva percebe-se a importância da Di- dática visto que ela “se caracteriza como mediação entre as bases teórico-cientificas da educação escolar e a prática docente” (LIBÂNEO, 1990, p. 28). Perrenoud (2000, p. 14), aponta como procedimen- tos da atuação do professor 10 (dez) famílias de competên- cias que influenciam a formação contínua do educador: Eis as 10 famílias: 1. Organizar e dirigir situações de aprendizagem. 2. Administrar a progressão das aprendizagens. 3. Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação. 4. Envolver os alunos em suas aprendizagens e em seu tra- balho. 5. Trabalhar em equipe. 6. Participar da administração da escola. 7. Informar e envolver os pais. 8. Utilizar novas tecnologias. 9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão. 10. Administrar sua própria formação contínua. Contudo, muitos profissionais não vêm necessidade em se apropriar da teoria como base para suas ações, consi- deram a boa atuação como “vocação natural ou somente da experiência prática, descartando-se a teoria” (LIBÂNEO, 1990, p. 28). Entretanto, para Freire (1996, p. 51),uma verdadei- ra formação docente acontece somente através de um novo olhar sobre a curiosidade epistemológica, pois: Nenhuma formação docente verdadeira pode fazer-se alhe- ada, de um lado, do exercício da criticidade que implica a promoção da curiosidade ingênua a curiosidade epistemoló- gica, e de outro, sem o reconhecimento do valor das emo- ções, da sensibilidade, da afetividade, da intuição ou adivi- nhação. E, acrescenta a seguir,que “o importante, não resta dúvida, é não pararmos satisfeitos ao nível das intuições, mas submetê-las a análise metodicamente rigorosa de nos- sa curiosidade epistemológica” (FREIRE, 1996, 51). De acordo com Giroux (1988), as instituições de en- sino se omitem ao negar aos docentes seu verdadeiro papel, que é educá-los como intelectuais, pois ao ignorarem a criatividade e o discernimento do professor separa-se a teoria da prática. Do ponto de vista de Veiga (2010, p. 51) “a tarefa está em criar outras práticas, o desafio é construir de modo coletivo uma Didática que faça pensar sobre nossas práticas pedagógicas”. A autora também se utiliza da afirmação de que a prática pedagógica é também uma dimensão da prática social inserida num contexto social, e que nossa obrigação enquanto educadores é possibilitar condições para que ela se realize (VEIGA, 1989). Vemos assim que teoria e prática não se dissociam uma da outra, o que garante um pensamento crítico e uma ressignificação de atitude, já que para garantir satisfação na prática é preciso estar numa relação consciente e direta com a teoria e basear-se nela em ações educacionais futu- ras. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 40 OS: 0187/11/17-Gil PRINCIPAIS TEORIAS DA APRENDIZAGEM Neste capítulo serão apresentados alguns conceitos introdutórios das teorias de aprendizagem, que é um sub- conjunto da Ciência Cognitiva. Este estudo da evolução das teorias da psicologia da aprendizagem, chamada de ciência do comportamento humano, tem como objetivo principal mostrar a importância destas teorias na Ciência da Cogni- ção. Segundo Gardner (1996, p.20), "Atualmente, a maio- ria dos cientistas cognitivas é proveniente das fileiras de disciplinas específicas - em especial, da filosofia, da psicologia, da inteligência artificial, da linguística, da antropologia e da neurociência (Eu me referirei a essas dis- ciplinas conjuntamente como 'Ciências Cognitivas')". É importante compreender o modo como as pessoas aprendem e as condições necessárias para a aprendizagem, bem como identificar o papel de um professor, por exem- plo, nesse processo. Estas teorias são importantes porque possibilita a este mestre adquirir conhecimentos, atitudes e habilidades que lhe permitirão alcançar melhor os objetivos do ensino. Na aprendizagem escolar, existem os seguintes ele- mentos centrais, para que o desenvolvimento escolar ocorra com sucesso: o aluno, o professor e a situação de aprendi- zagem. As teorias de aprendizagem buscam reconhecer a di- nâmica envolvida nos atos de ensinar e aprender, partindodo reconhecimento da evolução cognitiva do homem, e tentam explicar a relação entre o conhecimento pré- existente e o novo conhecimento. A aprendizagem não seria apenas inteligência e construção de conhecimento, mas, basicamente, identificação pessoal e relação através da interação entre as pessoas. 3.1. Inatismo, comportamentalismo, behavioris- mo, interacionismo, cognitivismo Inatismo Valoriza a hereditariedade, aquilo que é inato ao ser humano. De acordo com esta corrente de pensamento, ao nascer já traríamos na herança genética as qualidades e capacidades básicas do ser humano. Segundo Fontana (1997, p. 12), Os fatores inatos são mais poderosos na determinação das aptidões individuais e do grau em que estas podem se de- senvolver do que a experiência, meio social e a educação. O papel do meio social, segundo esta perspectiva inatista, se restringe a impedir ou a permitir que estas aptidões se mani- festem. Alfred Binet foi um médico que investigou a psico- logia da criança e do deficiente; este interesse tornou-o um dos pioneiros no estudo da avaliação da inteligência, pois acreditava que a herança genética de cada um poderia in- terferir no seu desempenho (FONTANA, 1997). Binet concebia a inteligência como uma aptidão ge- ral que não dependia das informações adquiridas no decor- rer da vida, e conforme o autor citado, o que define a inteli- gência de um indivíduo não é a quantidade de conhecimen- tos que ele possui, mas sua capacidade de julgar, compre- ender e raciocinar. E estas capacidades não podem ser aprendidas, mas ao contrário, são biologicamente determi- nadas pela herança que recebemos de nossos pais. Embora se respeitasse a ideia das diferenças gene- ticamente herdadas, observava-se, contudo a semelhança no que se refere ao desenvolvimento humano. O médico, professor e Doutor em psicologia, Arnold Gesell, dedicou seu estudo à evolução da criança - do nascimento aos 16 anos - do desenvolvimento físico, motor e comportamental; priorizando seu foco de investigação sobre a maturação, que segundo Falcão (2002, p. 46 e 47), é o “processo de diferenciações estruturais e funcionais do organismo, levan- do a padrões específicos de desenvolvimento”. Considerando as premissas da Teoria Inatista, a evolução psicológica da criança também seria determinada biologicamente e, ao meio social apenas restava limitar ou facilitar tal evolução. Podemos observar que ambos os estu- diosos da Teoria Inatista tem formação médica e, conside- rando suas crenças pessoais e profissionais, tendem a valo- rizar os aspectos fisiológicos, estruturais do ser humano. Agora pensemos em nós: será que acataríamos al- guma derrota ou limitação pelo fato exclusivo de não ter- mos herdado geneticamente esta ou aquela característica? Será que é possível superar dificuldades, estudar, crescer mesmo com pais analfabetos? É verdadeiro o ditado popu- lar que “Filho de peixe, peixinho é?” Conclui-se, portanto, a prevalência do desenvolvi- mento sobre a aprendizagem nesta Teoria. A cada fase do desenvolvimento, o ser humano aprende novos conheci- mentos. É como se a aprendizagem estivesse dependente do desenvolvimento e esta é uma crítica à Teoria Inatista, no que se refere à Educação. Será que todos aprendem do mesmo jeito, em quantidade e qualidade, quando tem a mesma idade cronológica? Seria o processo de maturação determinante para a execução de tarefas e construção de novos conhecimentos? Na visão Inatista, a Educação é um processo de dentro para fora. Comportamentalismo A abordagem comportamentalista analisa o proces- so de aprendizagem, desconsiderando os aspectos internos que ocorrem na mente do agente social, centrando-se no comportamento observável. Essa abordagem teve como DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 41 OS: 0187/11/17-Gil grande precursor o norte-americano John B. Watson, sendo difundida e mais conhecida pelo termo Behaviorismo. A grande efervescência dessa teoria se deu pelo fa- to de ter caracterizado o comportamento como um objeto de análise que apresentava a consistência que a Psicologia científica exigia na época – caráter observável e mensurável – em função da predominância cientificista do Positivismo. Esta última sendo uma corrente de pensamento que triun- fou soberana no século XIX, e que tinha como princípio fundamental à utilização do método experimental, tanto para as Ciências da Natureza quanto para as Ciências Soci- ais. Desse modo, o Behaviorismo desenvolveu-se num contexto em que a Psicologia buscava sua identidade como ciência, enfatizando o comportamento em sua relação com o meio. Com isso, se estabeleceu como unidades básicas para uma análise descritiva nesta ciência os conceitos de “Estímulo” e “Resposta”. A partir da definição dessa base conceitual o ser humano passou a ser estudado como pro- duto das associações estabelecidas durante sua vida entre os estímulos do meio e as respostas que são manifestadas pelo comportamento. Apesar de Watson ter sido o grande precursor do Behaviorismo, B. F. Skinner foi um dos psicólo- gos behavioristas que teve seus estudos amplamente divul- gados, inclusive no Brasil, havendo um grau de aplicabilida- de muito forte na educação. Skinner, em suas pesquisas, tinha como ponto fun- damental o estudo das relações funcionais entre o estímulo e a resposta na modificação, permanência ou extinção de um comportamento. A base de sua teoria está no conceito de “condicionamento operante”. No entanto, para que este fosse compreendido, Skinner fez uma distinção entre dois tipos de comportamen- to: o “reflexo” e o “operante”. O comportamento reflexo é o tipo de resposta não voluntária do organismo a um estímulo do ambiente como, por exemplo, o arrepio da pele ao ser atingida por um ar frio. Nesse caso, ar frio seria um “estímulo incondicionado” que ocasiona o “comportamento reflexo”. Por outro lado, temos determinados estímulos do ambiente que atuam como reforçadores de um tipo de comportamento operante e estes são responsáveis pelas nossas ações; sendo assim, agimos e operamos sobre o mundo em função das respostas (consequências) que nos- sas ações criam. A preocupação dos estudos skinnerianos centra-se nesse tipo de condicionamento. Conforme Keller (apud MOREIRA, 1999, p. 33) O comportamento operante “inclui todos os movimentos de um organismo dos quais se possa dizer que, em algum mo- mento, têm um efeito sobre ou fazem algo ao mundo em redor. O comportamento opera sobre o mundo, por assim dizer, quer direta, quer indiretamente”. A partir desse viés, Skinner desenvolveu o conceito de reforço, relacionando ao comportamento. Podemos distinguir dois tipos de reforço – o “positivo” e o “negativo” – que têm em comum a manutenção de um determinado comportamento. A diferença está no fato do reforço positivo fortale- cer um comportamento que ocasiona um estímulo agradá- vel e, no caso do reforço negativo, um comportamento é instalado com o intuito de evitar um estímulo desagradável. Contrapondo-se ao reforço positivo e negativo, Skinner também trabalhou com um condicionamento operante que pudesse extinguir um tipo de 100 comportamento. Essa experiência foi desenvolvida a partir da “ausência” de um reforço, por ser este o mantenedor de uma determinada resposta. Todavia será nos conceitos de “generalização” e “discriminação” que a Teoria do Reforço de Skinner será compreendida como uma Teoria da Aprendizagem. Interacionismo É uma terceira corrente que leva em consideração fator orgânico eambiental, isto é, aspectos objetivos e sub- jetivos na determinação do desenvolvimento do sujeito. Os interacionistas acreditam numa complexa com- binação de influências que podem favorecer o processo de aprendizagem. O ser humano não é compreendido como ser passivo, mas, ao contrário, assume um papel ativo, utilizan- do-se dos objetos e de suas significações para conhecer, aprender e consecutivamente, se desenvolver. Nesta abor- dagem, aprendizagem e desenvolvimento se inter- relacionam, se misturam e se completam, proporcionando ao indivíduo a responsabilidade de sua aprendizagem. Se- gundo Davis (1990, p. 36): A concepção Interacionista de desenvolvimento apoia-se na ideia de interação entre organismo e meio e vê a aquisição de conhecimento como um processo construído pelo indiví- duo durante toda a sua vida, não estando pronto ao nascer nem sendo adquirido passivamente graças às pressões do meio. Os principais teóricos do Interacionismo são: Jean Piaget (1896 – 1980), para ele a criança é ativa e age espontaneamente no meio. Ela é estruturalmente diferente ao adulto, mas funcionalmente igual. Isso significa que suas estruturas mentais são próprias ao seu nível de desenvolvi- mento, que é marcado por estágios. É pelo contato com o mundo que seus conhecimentos são construídos. Dedicou- se à investigação e compreensão do desenvolvimento cogni- tivo e sua teoria ficou conhecida como construtivismo. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 42 OS: 0187/11/17-Gil Lev Seminovitch Vygotsky (1896 – 1934) valoriza a mesma ação / interação de Piaget, porém situada em um contexto sócio-histórico-cultural. É pela relação com os mais experi- entes e pela força da linguagem que o sujeito se apropria ativamente do conhecimento social e cultural do meio em que está inserido. As influências e mudanças são recíprocas ao sujeito e ao meio onde se encontra. Cognitivismo Quando falamos em educação cognitiva muitos a entendem erroneamente como uma forma mecânica de ensino; onde os alunos aprendem por repetição sistemática, memorizando datas e conceitos. Assim, a impressão é de que os recursos de nosso cérebro são usados apenas para reter informações necessárias para determinadas situações sem, no entanto, ter a compreensão dessas informações, refletir a respeito, relacioná-las a outras já conhecidas e utilizá-las em contextos diferenciados. Na verdade, a educação cognitiva é exatamente o contrário. Ela está ligada a construção do conhecimento, do pensamento crítico e reflexivo; assunto que vem sendo debatido há alguns anos, na tentativa de melhorar a quali- dade e eficiência do ensino/aprendizagem. Nesse sentido é inegável a contribuição de Jean Pi- aget, com a epistemologia genética, até para aqueles que consideram a Teoria Cognitiva insuficiente para explicar como o desenvolvimento e a aprendizagem aconte- cem. Para Fonseca (2007) “o ensino das competências cog- nitivas ou seu enriquecimento não deve continuar a ser ignorado pelo sistema de ensino”, o qual parte da argumen- tação de que essas competências não podem ser ensinadas ou não precisam ser ensinadas. Ora, pensar que nossas competências cognitivas já estão prontas ao nascermos, herdadas geneticamente, sem possibilidade de mudanças ou que surgirão a partir da ma- turação de forma natural, é no mínimo simplificar todo o processo de desenvolvimento e de aprendizagem. Atualmente, por meio de pesquisas no campo de Ciências Neurológicas, mais especificamente voltada para a compreensão das estruturas de nosso cérebro e sua relação com a aprendizagem, é possível afirmar que as funções cognitivas podem ser aprimoradas e treinadas, uma vez que, como dito anteriormente, não surgem automaticamente por maturação ou pelo desenvolvimento neuropsicológico. Desde cedo, a criança deve ser colocada diante de situações que propiciem o desenvolvimento de suas funções cognitivas primárias, como o desenvolvimento sensorial que levará ao desenvolvimento da percepção, atenção, memó- ria, raciocínio, fala, etc; para depois ocorrer o desenvolvi- mento das funções mais complexas como a aquisição da leitura e escrita, raciocínio lógico, dedutivo, antecipação e elaboração de estratégias, dentre outros. Mas como isso é possível? Nesta situação o professor deixa de ser alguém que transmite conhecimento e passa a ser um mediador e inves- tigador em ação. Em sala de aula ele observa seus alunos: como utili- zam os recursos cognitivos, como atendem e percebem os dados de um problema, como os processam, analisam, comparam e categorizam. Que estratégias criam para elaborar, planificar e antecipar as respostas, e como fazem uso de procedimentos de verificação para testarem as respostas ou soluções. A partir dessas observações o professor terá o perfil cognitivo de seus alunos, conhecendo suas habilidades mais desenvolvidas e as menos desenvolvidas. Assim, irá elaborar seu plano de aula baseado no desenvolvimento ou aprimoramento dessas habilidades, sempre incentivando a reflexão crítica, sem dar respostas prontas, mas guiando o aluno de forma que este as busque. Neste plano devem conter materiais e recursos di- versificados que atendam as necessidades dos alunos, po- dendo ser jogos, brincadeiras, pesquisas para reflexão do tema, atividades artísticas (pintura, música, dramaturgia), etc. Sair do tradicional, onde o professor fala e o aluno ape- nas escuta trás bons resultados. Em vez disso o aluno é ativo no processo de construção de seu conhecimento, produz, indaga, cria e modifica. É importante ressaltar que não se trata apenas de mais um método de ensino alternativo e de apoio pedagógi- co, como um reforço escolar; mas sim de um instrumento educacional que leva em consideração o conhecimento prévio do aluno e tem como pressuposto fundamental o respeito pelo seu ritmo e perfil cognitivo. Sabemos que existem disciplinas e conteúdos im- portantes para a formação do aluno. A intenção não é aca- bar com isso e deixar que aluno aprenda quando e o que bem entender. A questão é que esses conteúdos devem levar em consideração suas habilidades cognitivas, de forma que possam utilizá-las em situações fora do ambiente esco- lar. Só assim podemos dizer que de fato o aluno aprendeu. A aprendizagem deve ser significativa e ter um objetivo. Isso é educação cognitiva. 3.2. As bases empíricas, metodológicas e episte- mológicas das diversas teorias de aprendizagem O nascimento formal da Psicologia como disciplina foi relacionado com a fundação do primeiro laboratório de Psicologia por Wundt em 1879. Os estudos de Wundt dos processos mentais no la- boratório o tornaram conhecido como um dos precursores da Psicologia Cognitiva Experimental (Neufeld & Stein, 1999). DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 43 OS: 0187/11/17-Gil No entanto, o método de pesquisa que ele utiliza- va, a introspecção, foi alvo de muitas críticas, especialmente com a chegada de suas ideias aos EUA. A principal crítica sobre a introspecção era a impossibilidade de replicação e observação, duas características que pareciam ser essenciais para uma ciência psicológica. Assim, durante os primeiros 50 ou 60 anos do sécu- lo XX, os processos mentais foram deixados de lado pelos psicólogos americanos, e o Behaviorismo passoua ser a única ciência psicológica aceita, e o comportamento, seu objeto de estudo (Bjorklund, 1995). O Behaviorismo, por exemplo, nasce influenciado por dois movimentos de busca da ruptura com a filosofia: a psicologia objetiva e a psicologia comparativa. A primeira teve como pressupostos básicos a ob- servação e a experimentação, enquanto a segunda, forte- mente influenciada pelos postulados darwinianos, centra-se em explicações naturais para o comportamento humano baseando-se na seleção natural (Baum, 1999). Talvez o maior desafio desta secção seja o de pon- tuar o Behaviorismo como antecedente da Psicologia Expe- rimental Cognitiva, uma vez que o mesmo trata-se de um movimento amplo e que congrega, na verdade mais de uma raiz filosófica e teórica. Para tanto, será proferida a divisão entre o Behaviorismo Metodológico e o Behaviorismo Radi- cal, além dos chamados neobehavioristas, no intuito de pontuar suas aproximações e distanciamentos com a Psico- logia Cognitiva Experimental. Fortemente influenciado por Descartes, Augusto Comte (1983), pai do positivismo lógico, torna-se um pensa- dor fundamental para a compreensão do Behaviorismo Metodológico. Este pensador, considerando as ideias de Aristóte- les e Descartes, dentre outros, promoveu as ciências como responsáveis pelo progresso de uma sociedade, e isso deve- ria ocorrer de forma ordenada dentro da lógica científica. O Positivismo Lógico surgiu na metade do século XIX, tendo como principal paradigma a experiência empírica, a investigação e a comprovação dos fenômenos por meio da experiência. Para o Positivismo Lógico, as ciências teriam valor quando seus conjuntos teóricos (conceitos) estiverem fundamentados na física comprovada pela experiência. Sob este prisma, a verdade para os positivistas refere-se à inves- tigação do real, à comprovação. As questões metafísicas, indeterminadas e os valores morais ou da religião não de- vem ser elementos de investigação, pois fazem parte de outras áreas do conhecimento se encontram sob regras diferentes de comprovação. No pensamento positivista, o cientista deve preocupar-se com dados específicos do fe- nômeno, pois, os elementos componentes da verdade cien- tífica são partes da realidade e não o todo dela. A corrente positivista forma- -se a partir de propo- sições da lógica e estas tem que estar à disposição da com- provação empírica a qualquer instante (Bombassaro, 1995). O Behaviorismo Metodológico tem suas bases filosóficas no realismo que postula que as experiências têm origem no mundo real e que este não é afetado por características internas dos indivíduos (Baum, 1999). John B. Watson, fun- dador desta corrente behaviorista, acreditava que o com- portamento, por ser objetivo e observável, era o objeto perfeito para a ciência psicológica natural (Watson, 1913). Para ele, esta ciência do comportamento devia formular leis relativas às condições que estimulam o com- portamento, deixando de lado a consciência, a introspecção e a mente. Segundo esta abordagem, para explicarmos os eventos, faz-se necessário descobrir como as coisas real- mente são, ou seja, o universo só pode ser conhecido por meio da descoberta da verdade. Considerando o Behavio- rismo Radical de B. F. Skinner, cabe inicialmente pontuar que o mesmo é considerado a filosofia da ciência do com- portamento (Skinner, 1974/2002). Em “O mito da liberda- de”, Skinner retoma as ideias de William James para enfati- zar que o sentimento já é um comportamento e, por isso, estudar o ser humano envolveria apenas compreender o conjunto de comportamentos (públicos ou privados) e as atitudes manifestas (Skinner, 1972). As bases do Behavio- rismo Radical estão nos postulados do pragmatismo, para o qual, a investigação científica deve ser motivada pela possi- bilidade de entender os efeitos práticos e funcionais que norteiam a busca pela compreensão do objeto e, não, por uma busca pela verdade (Skinner, 1953/2003). A Psicologia Cognitiva Experimental tem em Skin- ner, muito provavelmente, seu mais ferrenho opositor e crítico. Não por uma oposição dirigida a ela em específico, mas pelo fato de Skinner posicionar-se contrário a toda e qualquer postura mentalista, como ele mesmo coloca “As explicações mentalistas acalmam a curiosidade e paralisam a pesquisa.” (Skinner, 1974/2002 p.17). No entanto, ainda na mesma obra, Skinner ressalta que o Behaviorismo Radical não nega a existência de sentimentos, sensações e ideias, nem mesmo a auto-observação e o autoconhecimento co- mo técnica de conhecimento. Porém, para o Behaviorismo Radical não há ne- nhuma evidência de que, pelo fato dos eventos ocorrerem “dentro da pele” eles deveriam ser de natureza distinta daqueles que ocorrem fora da mesma. Assim, eventos in- ternos e externos obedecem às mesmas leis, às leis do com- portamento, tornando assim dispensável uma intermedia- ção mental e mesmo termos mentalistas para explicá-los (Skinner, 1974/2002). Skinner propõem que alcançar a ver- dade não é mais o foco do behaviorismo, o acesso aos even- tos (internos e externos) será dado pelo relato, ou seja, pela descrição, e esta descrição é aprendida e reforçada pela inserção em uma comunidade verbal (Skinner, 1974/2002). Para acessar essa descrição Skinner destaca o ope- racionismo como método. Segundo ele (Skinner, 1961) o operacionismo pode ser definido como a prática de falar sobre as observações do comportamento de alguém, utili- DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 44 OS: 0187/11/17-Gil zando os procedimentos de manipulação e de cálculo envol- vidos nesta observação e os passos lógicos e matemáticos que se interpõem entre a observação e o relato da mesma. Para ser consistente, a ciência da psicologia não pode per- seguir a busca do lógico ao definir uma definição, pois seria como propor uma regra universal para o uso de um termo. Neste sentido, considerando o operacionismo, a ci- ência psicológica deve voltar-se para as contingências de reforçamento que explicam a relação funcional entre um termo, uma resposta verbal e um determinado estímulo. Esta é a base operacional para o uso de termos, que segun- do Skinner (Skinner, 1961), apesar de não ser baseada na lógica, ainda assim é ciência. São dos chamados neobehavi- oristas os primeiros estudos que sugeriam a necessidade de enfocar processos e estruturas internas. Segundo Costa (2002), os behavioristas mediacionais, representados princi- palmente por Tolman e Hull foram fortemente influenciados pelo Behaviorismo Metodológico e, embasados em filosofias neopositivistas mantiveram o método experimental e foram os primeiros a propor os estudos de variáveis mediacionais a partir deste método. Tolman (1932), por exemplo, foi um importante marco na história da Psicologia Cognitiva Expe- rimental, uma vez que por meio de seus experimentos com camundongos, ao propor a existência de uma caixa preta entre o estímulo e a resposta. É essa “caixa preta” que a Psicologia Cognitiva Ex- perimental vai se propor a estudar, como um retorno a proposta wundtiana de estudar a mente humana, porém agora alicerçada no método experimental utilizado pelo Behaviorismo. Durante a segunda guerra, é despertado o interesse pela psicologia aplicada, e as teorias de Tolman e seus seguidores foram aprimoradas na tentativa de com- preender a interação entre o ser humano e as máquinas. Devido aos avanços tecnológicos que estavam sen- do produzidos, principalmente no uso de instrumentos na área da aviação, surgiu a necessidade de aprimorar a habili- dade e o desempenho do ser humanoem atividades com- plexas como pilotar um avião. Donald Broadbent foi um dos psicólogos envolvidos no estudo dessas habilidades (Eysenck & Keane, 2007). Ele notou que os trabalhadores guiavam-se pelas informações recebidas das máquinas, mas nem todas elas eram utilizadas por eles. Ele mostrou que as pessoas aguardam o estímulo para poder opor-se a ele e desconsi- derá-lo (fato desconcertante para a então popular teoria behaviorista). Broabent observou que o processamento da informação nos seres humanos parecia similar ao das má- quinas, através de um sistema interligado de mecanismos. Ele considerou a percepção, a atenção e a memória como ingredientes interdependentes em um sistema cognitivo simples (Eysenck & Keane, 2007). Uma das questões de interesse dos psicólogos nes- te contexto era descobrir como os painéis dos simuladores de voo poderiam melhorar a performance humana; outra, como entender melhor o lado humano da performance humana. O fator chave desse entendimento estava na no- ção de informação e transmissão de informação da Psicolo- gia Cognitiva. São também dos primórdios da psicologia os estu- dos referentes aos processos perceptivos e atencionais que influenciaram o interesse de pesquisadores da moderna Psicologia Cognitiva Experimental. Estes estudos lançaram as bases da Psicologia da Gestalt (Schultz & Schultz, 1992). A Gestalt emerge como um movimento opositor ao estruturalismo wundtiano, ao postular que, no momento em que os dados sensoriais são combinados, percebemos um padrão e não os elementos distintos e desconexos (Köh- ler, 1959). Segundo o autor, os gestaltistas buscavam a ex- periência da forma mais “pura” possível, tal como é relatada pelo indivíduo. Fortemente influenciada pelo movimento fenomenológico na psicologia e na filosofia alemã, a teoria gestaltista buscou focar seus estudos em metodologias qualitativas em contraposição à introspecção e ao método experimental. Com o advento nazista na Alemanha, os re- presentantes da Gestalt foram impelidos para os Estados Unidos onde a teoria passou a se configurar em movimento de oposição ao Behaviorismo, principalmente na luta pelo retorno ao estudo da consciência como objeto primordial da Psicologia (Engelmann, 1978; Gomes, 2007). A continuidade desse debate ficou ao encargo da Psicologia Cognitiva Expe- rimental, que propõe o estudo dos processos cognitivos, ou seja, da consciência humana. Os princípios gestaltistas prepararam terreno para o advento da Psicologia Cognitiva Experimental, principal- mente nas áreas da psicologia do desenvolvimento e educa- ção (Engelmann, 1978). O objeto de estudo da Gestalt se confunde, em alguns casos, com o da Psicologia Cognitiva Experimental, especialmente pelos estudos na área da per- cepção, mas também pelas preocupações da Gestalt com a organização, a estruturação, e o papel do indivíduo e da percepção nos processos de aprendizagem e memorização. Apesar da possível relação entre os objetos de es- tudo das teorias Cognitiva e da Gestalt, seus enfoques per- manecem distintos, principalmente no que tange a utiliza- ção de diferentes métodos de investigação e as bases epis- temológicas que os mesmos pressupõem. Bases Filosóficas Fundamentos Filosóficos No que tange aos aspectos filosófi- cos da Psicologia Cognitiva Experimental, pouco tem sido relatado na literatura sobre este tópico. Revendo a história, percebe-se que a Psicologia começou como estudo científi- co do conhecimento e experiência humana (Ellis & Hunt, 1993). O interesse sobre a natureza da mente humana, o que é o conhecimento e como ele se dá, intrigou os filósofos por séculos. Um dos filósofos que seguramente influenciou a Psicologia foi René Descartes. Descartes (1940) buscou descobrir o “eu” e o classificou como uma categoria subjeti- va. O pensador realizou inúmeros experimentos com o cor- po humano a fim de descobrir se havia um elemento físico que ligasse o pensamento e o corpo. Descartes iniciou seu trabalho estabelecendo o ceticismo, conhecido como a DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 45 OS: 0187/11/17-Gil dúvida metodológica. Sua principal dúvida consistia na rela- ção pensamento e corpo, pois, postulava que o pensamento era capaz de desenvolver alterações biológicas no homem. Em sua obra, busca investigar o corpo e o cérebro com a técnica da dissecação. Partindo do racionalismo, o filósofo francês experimentou o conhecimento por meio da análise lógica. Este autor propiciou um conhecimento que a Psico- logia do século XX utilizou como instrumento para análise dos dados pela observação. Em oposição à visão lógica raci- onalista de Descartes, fortemente influenciada pelos pen- samentos de Platão, a ciência investigativa pelo experimen- to encontrou força no pensamento do inglês John Locke. Ao retomar a visão empirista de Aristóteles, os procedimentos de Locke fomentaram as ciências com o espírito da inquie- tude experimental, ou seja, a partir deste pensador as ciên- cias se propuseram a realizar experiências em laboratórios, que se tornou símbolo das ciências no século XX. Tal concei- to consistia em suspender todos os conhecimentos existen- tes acerca de um assunto e posteriormente investigar no âmbito empírico a verdade e validade dos mesmos, por meio da provocação do fenômeno e demonstração por meios físicos ou pelo menos lógicos. Tal influência fica evidenciada desde o nascimento da Psicologia. Cabe ressaltar ainda, que a Psicologia Cogniti- va Experimental foi decisivamente influenciada por movi- mentos que questionaram a visão tradicional de ciência, baseados nos pensamentos de Thomas Hobbes, Karl Popper e Thomas Kuhn. Influências do Pensamento de Hobbes Um princípio fundamental da Ciência Cognitiva pode ser encon- trado no pensamento do filósofo inglês Thomas Hobbes. Em sua principal obra, escrita em 1636, intitulada de “Leviatã” ou “Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil”, ele constrói a ideia de que a razão tem por finalidade calcular entre perdas e benefícios para mover as ações hu- manas (conforme citado por Hobbes, 1988). Epistemologia O sistema epistemológico da Ciência Cognitiva adaptou esse modelo em dois níveis complementares de cognição: a representação elementar e a representação da faculdade da representação (Harré, 2002), ou seja, a cogni- ção e a metacognição. Segundo Dupuy (1996), é na articula- ção destes princípios que a Ciência Cognitiva encontra lugar na realidade material. Ocorre uma transição efetiva de um conceito calculista de racionalidade para um conceito ope- racional lógico. A mente pode criar modelos com regras estabele- cidas pela lógica e com base nos cálculos. A soma destes elementos resulta na conhecida analogia computacional. A mente é simulada na máquina de modo que as faculdades humanas são sempre sucessíveis a um sistema de proces- samento de informações. Contudo, é preciso identificar com precisão a natureza da lógica nas Ciências Cognitivas. O modelo assume uma fórmula matemática com base na máquina de Turing, em que se determina um siste- ma de lógica formal: formalização de proposições com axi- omas e regras para inferir e deferir raciocínios e conclusões que só podem ser verdadeiros se forem demonstráveis e traduzidos em uma proposição aritmética. Nesse caso, a interpretação fica limitada à codificação do sistema linguís- tico de representação lógica (Harré, 2002). A metáfora da máquina de Hobbes (1988) para leitura da realidade foi aperfeiçoada com o surgimento da lógica inserida pela filo- sofia semântica da linguagem.A Ciência Cognitiva adotou esse modelo de formali- zação lógica, criando a metáfora de mente que opera como um computador, numa linguagem posta em três dimensões: matéria (neurofisiologia), forma (sintaxe), e semântica (sen- tido). A criação de modelos passa a ser possível por meio da comunicação da Ciência Cognitiva com a filosofia, onde a simulação é uma forma de modelizar. Segundo Harré (2002), o funcionamento da Ciência Cognitiva pelo viés da lógica configura a “primeira revolução cognitiva”. Essa “re- volução” em que o pensar é calcular de forma idêntica ao computador pode ser representada pelo modelo de Proces- samento da Informa- ção, ou pensamento cognitivo ortodo- xo (Dupuy, 1996). Ao contrário desse paradigma em que o processa- mento ocorre de forma serial, uma segunda corrente que alicerça a Ciência Cognitiva identifica as operações mentais de forma idêntica ao funcionamento de redes neurais inter- ligadas de maneira maciça e em paralelo. Segundo este movimento conexionista, responsável pelo que Harré (2002) chamou de “segunda revolução cognitiva”, pensar é calcu- lar. A partir desta discussão, percebe-se que a filosofia é o meio de comunicação entre os múltiplos programas que compõem a Ciência Cognitiva, embora não esteja evidencia- da nestes sistemas, porque cada um visa a um objeto. Por- tanto, parece ficar evidente que a Ciência Cognitiva e a pró- pria Psicologia Cognitiva encontram-se pautadas em um paradigma epistemológico híbrido. Influências do Pensa- mento de Popper Karl Popper (l963) ataca a visão tradicional de objetividade da observação científica ao enfatizar que a observação não é objetiva, já que é diretamente impulsio- nada por uma teoria. Segundo ele, a observação científica será sempre impelida por hipóteses e teorias, e o que é observado dependerá do que se quer ver. Para Popper, as teorias se baseiam em generaliza- ções a partir de ocorrências, sendo assim, não se justificam do ponto de vista lógico como verdades. As generalizações, no entanto, não representam o fim maior da ciência para Popper e, sim, a falsificação. A falsificação em Popper signi- fica que, em uma teoria, as verdades podem ser “verifica- das” ou “confirmadas” por um fluxo incessante de provas observacionais. O que o autor coloca é que sem o pressu- posto da falsificação a ciência perde seu objetivo, ou seja, DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 46 OS: 0187/11/17-Gil qualquer novo dado poderia corroborar uma teoria, sem a necessidade real de testagem. O pensamento de Popper traz como contribuição a visão de que a ciência não é uma metanarrativa. Ele ressalta que a condição metanarrativa deve ficar circunscrita às religiões, pois as mesmas carregam no âmago a verdade absoluta e o dogma. Em contrapartida, a boa ciência envol- ve tanto a confirmação quanto a falsificação. É esse elemen- to dinâmico e dialético que não permite a estagnação, ou seja, a morte da ciência. Mas como seriam essas teorias testáveis? Estariam realmente essas análises mais bem tes- tadas e frequentemente “verificadas”? Que acontecimento que se poderia conceber que, aos olhos humanos constatas- se a falsidade? A resposta de Popper seria a de que o cientista pre- cisa ter um método que consiste em procurar verificações sensíveis capazes de testar uma teoria tão severamente quanto for capaz, isto é, o método da crítica, o método de procurar casos que constituam falsificação. Tais pressupos- tos parecem evidenciar-se na Psicologia Cognitiva Experi- mental a partir da preocupação com o teste de seus mode- los, e a busca incessante por explicações convincentes. Estas características podem ser observadas por meio da crescente literatura em todas as áreas da Psicologia Cognitiva Experi- mental. Influências do Pensamento de Kuhn Assim como Popper, Kuhn (1970) questionou a visão tradicional de ciên- cia. Para ele, existem dois modos de ciência, uma nor- mal e outra revolucionária, e que a transição de um modo para outro é que instaura a crise intelectual numa disciplina. A ciência normal está dirigida para a articulação daqueles fenômenos e teorias já fornecidos por um paradigma, sem necessidade de trazer à tona novas espécies de fenômenos. Em seu livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”, es- crito em 1962, Kuhn sugere que os paradigmas são a orien- tação particular que uma determinada disciplina segue e é aceita de forma geral pela classe científica deste campo, e os fenômenos que não se ajustam aos limites do paradigma frequentemente são desconsiderados (Kuhn, 2007). Quando se acumula certo número de contradições, dúvidas e questionamentos ocorrem períodos de ciência revolucionária, em que o velho paradigma sede lugar em favor do novo. Esse movimento é cíclico e interminável. Segundo Bird (2004), a noção de Kuhn de ciência – e conse- quentemente de renovação da ciência normal – se contra- põe a uma idéia de ciência imatura, na qual os cientistas não estão constantemente a procura de inventar novas teorias, ao contrário, em grande parte das vezes, eles mostram-se intolerantes com àquelas inventadas por outros. Para Kuhn, a imaturidade da ciência é descrita como um período pré- paradigmático, uma vez que carece de consenso. Já o de- senvolvimento da ciência normal dependeria do desenvol- vimento de constantes questionamentos sobre o trabalho de cientistas concorrentes, sugerindo novas áreas de inves- tigação. Pode-se dizer, portanto, que a maturidade da ciên- cia normal está dirigida para a articulação daqueles fenô- menos e teorias já desenvolvidos (Bird, 2004). A explicação de Kuhn sobre paradigmas, no entanto é apenas parcial, uma vez que rejeita a principal noção de paradigma como padrões da sociedade e matrizes discipli- nares, sugerindo que seriam os modelos os principais meios de aquisição de conhecimento da sociedade (Andersen, Barker, & Chen, 1996). Ao longo de seu trabalho, a palavra paradigma passou a ser substituída pela noção de modelo. Segundo Andersen et al. (1996), a mudança de nomenclatu- ra está mais relacionada a uma questão de semelhança de conceitos do que pelas regras metodológicas, o que torna importante discernir os diferentes conceitos dentro do es- tudo do pensamento de Kuhn. 3.3. Contribuições de Piaget, Vygotsky e Wallon para a psicologia e pedagogia. A Educação, endossada pela Psicologia, passou a li- dar mais facilmente com questões como indisciplina, des- motivação e dificuldades de aprendizagem, uma vez que tais questões estariam diretamente ligadas a fatores médicos, localizados no indivíduo. A relação pedagógica, o papel da escola e as relações sociais estabelecidas dentro dela fica- vam, portanto, não passíveis de análise, já que as explica- ções sobre o “mal” comportamento e a “não-aprendizagem” encontravam-se na própria criança. Os rótulos livravam a escola de uma análise mais comprometida e a poupavam de ter que enfrentar questões nas quais o óbvio não é dado à priori e as explicações não se encontra nos consultórios médicos, mas sim numa revisão do cotidiano escolar. Atu- almente a Psicologia busca um diálogo com a Educação tentando fazer parte de seu cotidiano, para que possa en- tender seu funcionamento a partir de dentro. Contribuições da psicologia de Jean Piaget para a Edu- cação: teoria da epistemologia genética. Jean Piaget (1896-1980) nascido na cidade de Neu- châtel na Suíça, foi um especialista em psicologia evolutiva e dedicou-se aos estudos de epistemologia genética. Revolu- cionou a Educação, pois seus estudos derrubaram paradig- mas relacionados à aprendizagem.As ideias de Piaget conti- nuam sendo estudadas e aplicadas no mundo todo. Como ideia nuclear, o pesquisador defendeu uma metodologia inovadora na busca de formação de cidadãos criativos e críticos. Para ele, o professor deve orientar os estudantes no caminho da aprendizagem, de forma a favorecer a autono- mia no aprender. Nogueira e Leal esclarecem que a teoria de Jean Pi- aget foi baseada em duas áreas do conhecimento: por um lado o científico (epistemologia) e por outro a gênese (neste caso a genética). “[...] sua teoria possui como foco principal o sujeito epistêmico, o indivíduo no seu processo de cons- trução de conhecimento” (NOGUEIRA; LEAL, 2012, p. 59). DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 47 OS: 0187/11/17-Gil Conforme esclarece Vieira e Lino (2007), Jean Pi- aget, por meio de seus estudos na área da biologia concluiu que o desenvolvimento biológico é um processo de adapta- ção ao meio em que vive o indivíduo, que depende da sua maturação tanto quanto das condições desse meio. O cien- tista leva esta concepção para estudos sobre o desenvolvi- mento humano, especialmente o cognitivo. Especialmente orientada para descrever e identificar os modos ou as formas de conhecer e pensar que emergem ao longo da octogênese humana, a teoria de Piaget dirige-se também para aspectos do desenvolvimento moral, linguísti- co e afetivo, concebendo-os sempre em estreita ligação com o desenvolvimento cognitivo. (VIEIRA; LINO, 2007, p. 199) Quanto à questão do desenvolvimento moral, se- gundo as autoras, Piaget destaca o papel ativo da criança na construção do pensamento, assim como a importância da interação social para essa construção. Desses estudos, para os quais Piaget utilizou a concepção das regras, são desta- cadas duas fases de desenvolvimento moral: a heterônoma e a autônoma. As autoras continuam esclarecendo que, para Pi- aget, essa concepção das regras traz uma manifestação concreta do egocentrismo, que é característica do pensa- mento da criança pequena, o que equivale à sua incapaci- dade para fazer diferenciação de perspectivas. Desta forma, supõe que as regras são iguais para todos e que são criadas por aquele a quem entendem como autoridade, geralmente o adulto. “[...] a criança na fase de heteronomia moral con- cebe as regras sociais como entidades externas às pessoas e aos contextos, com caráter imutável e absoluto”, esclare- cem Vieira e Lino (2007, p. 201). Na autonomia moral a criança já é capaz de tomar decisões de forma mais independente da autoridade e pres- sões sociais, distinguindo as diferentes origens e naturezas das regras. Nesta fase emerge a capacidade de registrar o ponto de vista do outro e fazer uma reflexão a partir de considerações próprias ao relacionamento interpessoal na interação com outros indivíduos. Conforme Vieira e Lino (2007) a característica da autonomia também é a capacidade para cooperar. Porém, a cooperação pressupõe que os indivíduos envolvidos tenham consciência de si e saibam situá-lo em relação à perspectiva do outro. Sendo os elementos indispensáveis à cooperação “[...] a igualdade intelectual, a reciprocidade e o respeito mútuo” (p. 205), ela só pode se dar nas relações entre os pares. Assim, “[...] no plano da cognição social, a interação entre iguais constitui uma atividade estruturante do pensa- mento moral, na qual operam um conjunto de mecanismos. Um desses mecanismos é o conflito sociocognitivo” (VIEIRA; LINO, 2007, p. 205). Esclarecem as autoras que, para Piaget, esse conflito cria condições de desequilíbrio eficaz, em que a criança terá que responder a desafios que questionam o seu ponto de vista. O estado de desequilíbrio é favorável, pois para re- cuperar o equilíbrio o “indivíduo precisará mobilizar dois mecanismos da inteligência: a ASSIMILAÇÃO e a ACOMO- DAÇÃO” (NOGUEIRA; LEAL, 2012, p. 61). As autoras continuam esclarecendo que a interação entre a assimilação e a acomodação provoca a modificação ou criação de esquemas motores ou mentais, o que concor- rerá para que o indivíduo adquira maiores e melhores con- dições para interagir com o mundo e avançar em novos conhecimentos, em um processo contínuo. Todo esse pro- cesso resulta no que Piaget chamou de adaptação intelectu- al (NOGUEIRA; LEAL, 2012). Desta forma, segundo Nogueira e Leal (2012), para Piaget o desenvolvimento cognitivo é um processo de equi- librações sucessivas, estruturado em fases nas quais a crian- ça vai construindo estruturas cognitivas. Essas construções vão provocando transformações no comportamento da criança em relação ao meio físico e social. Cada uma das fases ou etapas de desenvolvimento “caracteriza-se por uma estrutura cognitiva particular que determina o tipo de aproximação intelectual que o sujeito realiza com o meio que o rodeia” (VIEIRA; LINO, 2007, p. 206). As autoras esclarecem que Piaget definiu quatro es- tágios ou estádios de desenvolvimento relacionando-os à idade da criança: o estádio sensório motor (de 0 a 2 anos) caracteriza-se por uma atividade cognitiva que se baseia essencialmente na experiência imediata através dos senti- dos. [...] a criança conhece o mundo que a rodeia através das ações que exerce sobre esse meio (VIEIRA; LINO, 2007, p. 207). Vieira e Lino (2007) salientam que quanto ao edu- cacional é importante que os programas voltados para a primeira infância possibilitem experiências sensoriais ricas para lhe permitir a construção de novas estruturas funda- mentais no processo de aquisição de conhecimentos que serão a base para as aquisições do próximo estágio. No estádio intuitivo ou pré-operatório (dos 2 aos 7 anos), o pensamento sofre uma transformação qualitativa em fun- ção das modificações gerais da ação. (PIAGET, 1973 apud VIEIRA; LINO; 2007, p. 207). Vieira e Lino, na mesma obra, esclarecem que, para Piaget, este é o estágio da inteligência intuitiva, em que surge a linguagem, o desenvolvimento da função simbólica, dos sentimentos espontâneos e da postura submissa ao adulto. Salientam as autoras (2007, p. 208) que “as estru- turas mentais no estádio pré-operatório são amplamente intuitivas, livres e altamente imaginativas”. A capacidade de representação consiste em uma interiorização crescente das ações. Conforme Piaget (1970) apud Vieira e Lino (2007, p. 208), “[...] os símbolos usados são individuais e específicos de cada criança. É um jogo de imitação e imaginação cuja DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 48 OS: 0187/11/17-Gil função consiste em satisfazer o eu por uma transformação do real em função dos desejos próprios”. No estágio pós-operatório há a ausência de rever- sibilidade, posto que o pensamento da criança é egocêntri- co, pensa sempre de um ponto de vista próprio, continua Vieira e Lino (2007). “O estádio das operações concretas (dos 7 aos 11 anos) caracteriza-se por uma capacidade lógica de compre- ender o mundo, por novas formas de organização e pelo surgimento de novas estruturas”, conforme Vieira e Lino (2007, p. 209). Vieira e Lino (2007) esclarecem que neste estágio desaparece quase por completo a linguagem egocêntrica e há início de uma linguagem socializada e mais elaborada. O raciocínio da criança está conectado a situações concretas e já se encontra a reversibilidade. “O estádio das operações formais (dos 11 aos 16 anos)marca a entrada na adolescência. [...] Neste estádio, o sujeito é capaz de utilizar um pensamento hipotético- dedutivo que lhe permite raciocinar sobre conceitos que implicam um elevado grau de abstração” (VIEIRA; LINO, 2007, p. 209). Conforme as autoras esclarecem, embora haja ca- racterísticas intrínsecas próprias de cada estágio, estes não existem em estado puro, mas contem elementos dos está- gios precedente e seguinte. Dessa forma, conclui as autoras que “a teoria de Piaget apresenta alguns conceitos funda- mentais para a pedagogia da infância” (VIEIRA; LINO, 2007, p. 210). Conforme defendem Vieira e Lino (2007), no que diz respeito à educação, portanto, é importante que as práticas e programas para a educação da infância propiciem experi- ências educativas com um olhar para as características do desenvolvimento das crianças, criando condições para a construção de estruturas cognitivas que as favoreçam na consolidação de conhecimentos do seu estágio de desenvol- vimento e, por conseguinte, no avanço para o estádio se- guinte. Contribuições da psicologia de Lev Vygotsky para a Educação Em Vygotsky, o homem possui natureza social, visto que nasce em um ambiente carregado de valores culturais. Nesse sentido, a convivência social é fundamental para transformar o homem de ser biológico em ser humano soci- al (VYGOTSKY, 1991). A criança nasce apenas com funções psicológicas elementares e, a partir do aprendizado da cul- tura, estas funções transformam-se em funções psicológicas superiores (VYGOTSKY, 1991). Essa evolução é mediatizada pelas pessoas que interagem com as crianças, e é essa in- termediação que dá ao conhecimento um significado social e histórico. A construção de conhecimentos e o desenvolvi- mento mental possuem características individuais e particu- lares, ou seja, os significados culturais historicamente pro- duzidos são internalizados pelo homem de forma individual, possuem um sentido pessoal. Segundo (Lane, 1997, p. 34) "a palavra, a língua, a cultura relaciona-se com a realidade, com a própria vida e com os motivos de cada indivíduo". Nesse processo de construção social e histórica do homem, a linguagem possui dupla importância na constru- ção do saber. É ela que intermédia a relação entre os ho- mens. (Oliveira, 1992, p. 27) "a linguagem simplifica e gene- raliza a experiência, ordenando os fatos do mundo real em conceitos cujo significado é compartilhado pelos homens que, enquanto coletividade, utilizam a mesma língua”. Como se sabe, para Vygotsky, existem três momen- tos importantes da aprendizagem da criança: a zona de desenvolvimento potencial, que é tudo que a criança ainda não domina mas que se espera que ela seja capaz de reali- zar; a zona de desenvolvimento real, que é tudo que a crian- ça já é capaz de realizar sozinha; a zona de desenvolvimento proximal, que é tudo que a criança somente realiza com o apoio de outras pessoas. É na zona de desenvolvimento proximal, segundo Oliveira (1993, p. 61) que a "interferência de outros indivíduos é mais transformadora. Isso porque os conhecimentos já consolidados não necessitam de interfe- rência externa". Isso significa que o ensino-aprendizagem deve ter como ponto de partida o desenvolvimento real da criança e, como ponto de chegada, os conhecimentos que estão laten- tes, mas ainda não desabrocharam. "a escola tem o papel de fazer a criança avançar em sua compreensão do mundo a partir de seu desenvolvimento já consolidado e tendo como etapas posteriores, ainda não alcançadas". (OLIVEIRA, 1993, p. 62) Nesse processo, o professor deve ser o estimulador da zona de desenvolvimento proximal, provocando avanços nos conhecimentos que ainda não aconteceram. A interfe- rência do professor não pressupõe, no entanto, uma peda- gogia diretiva, autoritária e, menos ainda, uma relação hie- rárquica entre professores e alunos (OLIVEIRA, 1993; VYGOTSKY, 1991; GOULAR, 1995). Para Vygotsky, o erro deve ser visto pelo professor como parte do processo ensino-aprendizagem, mas jamais deve ser ignorado. A correção é importante para que o alu- no perceba a necessidade de melhorar e de dedicar-se mais aos conhecimentos que ainda não domina. Nesse sentido, o trabalho em grupo, além de estimular a interação social, pode ser um bom momento para o amadurecimento de ideias e aprimoramento dos conhecimentos. Entretanto, o contato individualizado entre professor e aluno não pode ser dispensado, pois é o momento em que o professor pode detectar o desenvolvimento real e proximal dos alunos (OLIVEIRA, 1993, 1992). Outro aspecto fundamental para Vygotsky é o brin- quedo. Para ele, as brincadeiras de "faz-de-conta" criam zonas de desenvolvimento proximal, à medida que colocam DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 49 OS: 0187/11/17-Gil a criança em situações de repetição de valores e imitação de papéis e regras sociais. A escola deve criar situações de brincadeira, a fim de que a criança possa ter uma gama de possibilidades que estimulem seu desenvolvimento e a pró- pria interação social. Para Vygotsky, a aprendizagem da escrita inicia an- tes do período escolar, visto que seu desenvolvimento está intimamente ligado aos estímulos recebidos pela criança desde cedo. Portanto, a criança precisa ser levada a com- preender que o signo da escrita não possui significado em si mesmo, é apenas uma representação do mundo real (OLI- VEIRA, 1993; VYGOTSKY, 1991; GOULAR, 1995). É função de a escola fazer com que a criança compreenda o signo e o seu significado, por meio de ações que relacionem o mundo concreto e as suas representações (OLIVEIRA, 1993). A teoria de Vygotsky oferece uma nova racionali- dade, a partir da qual é possível entender-se o desenvolvi- mento interno da aprendizagem e do conhecimento. A con- clusão de que uma atividade que hoje a criança somente consegue fazer com o auxílio de outra pessoa, mas que pode vir a fazer sozinha amanhã recoloca a relação er- ro/acerto numa outra perspectiva: a de que o ato de errar não deve ser encarado como incapacidade, mas como indi- cador de que certos conhecimentos precisam ser estimula- dos. A importância da cultura, da linguagem e das rela- ções sociais na teoria de Vygotsky fornece a base para uma educação na qual o homem seja visto na sua totalidade: na multiplicidade de suas relações com outros, na sua especifi- cidade cultural; na sua dimensão histórica, ou seja, em pro- cesso de construção e reconstrução permanente. Em sua obra, Vygotsky defende a ideia de que não há um desenvolvimento pronto e previsto dentro dos sujei- tos, esses conhecimentos estão em um processo de cons- tantes transformações, por que a cada dia recebemos novas informações que devem ser processadas e reorganizadas no cognitivo de maneira satisfatória para somar ou modificar a visão de mundo adquirida. E é a partir dessa nova forma de compreender os sujeitos que certamente teremos a oportu- nidade de contribuir efetivamente com a educação. Contribuições da psicologia de Wallon para a Educação Para Wallon, o organismo é a condição primeira do pensamento, visto que toda função psíquica supõe um componente orgânico e que o objeto da ação mental vem do ambiente em que o sujeito está inserido. Dessa forma, o sujeito é determinado fisiológica e socialmente, ou seja, é resultado tanto das disposições internas quanto das situa- ções exteriores. Wallon procurou entender a pessoa completa, in- tegrada ao meio em que está imersa, com os seus aspectos afetivos, cognitivos e motores também integrados. Seus estudos sobre a origemda pessoa na sua totalidade, en- quanto ser biológico, afetivo, social e intelectual, ele os denominou de Psicogênese. Em seus estudos sobre o desenvolvimento humano, considera o sujeito como "geneticamente social". Para esse autor, o desenvolvimento inicia-se na relação do organismo do bebê recém-nascido com o meio humano. A partir das reações das pessoas aos seus reflexos e movimentos impulsivos, a criança passa a atuar no ambien- te humano, desenvolvendo aquilo que Wallon denomina motricidade expressiva, ou dimensão afetiva do movimento. É a ação motriz que regula o aparecimento e o de- senvolvimento das funções mentais, ou seja, o movimento espontâneo transforma-se em gesto que, ao ser realizado intencionalmente, reveste-se de significado. Antes do apa- recimento da fala, Wallon atribui grande importância à mo- tricidade: para ele, a imitação revela as origens do ato men- tal; o gesto precede a palavra - fatos esses que ele chama de característica cultural. A partir do momento em que o sujeito assimila os signos sociais (fala, escrita etc.) a comunicação motora pas- sa a ser substituída por outros meios, decorrendo daí a disciplina mental, ou seja, o controle do sujeito sobre suas próprias ações. No seu desenvolvimento, o sujeito vai supe- rando os sentimentos e ideias, vividos de forma genérica e confusa, para uma compreensão mais clara do mundo e dos fatos que se apresentam. A linguagem é indispensável ao progresso do pensamento: a linguagem exprime o pensa- mento e, ao mesmo tempo, estrutura o pensamento. Para Wallon, o desenvolvimento humano não é linear e contínuo, mas, sim, uma integração: as novas funções/aquisições somam-se a outras, adquiridas anteriormente. Para Wallon, a pessoa deve ser vista como parte in- tegrante do meio em que está inserida. O processo de socia- lização dá-se pelo contato com o outro e, também, pelo contato com a produção do outro (texto, pintura, música etc.). Por isso, afirma que a cultura geral aproxima os ho- mens, pois permite a identificação de uns com os outros. Para ele, o meio social e a cultura constituem as condições, as possibilidades e os limites do desenvolvimento do orga- nismo. Por isso, a criança precisa ser entendida em seu con- texto, e seu desenvolvimento como resultado de sua intera- ção com esse meio: o desenvolvimento é histórico, dialético, portanto, é também descontínuo. Em Wallon, a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto do conhecimento. O autor afirma que a emoção é a exterioriza- ção da afetividade: é um fato fisiológico que se expressa no humor e nos atos e, ao mesmo tempo, é um comportamen- to social na sua função de adaptação do ser humano ao seu meio. A emoção, antes da linguagem, é o meio utilizado pelo recém-nascido para estabelecer uma relação com o mundo externo. Os movimentos de expressão evoluem de fisiológicos a afetivos, em que a emoção cede terreno aos sentimentos e, depois, às atividades intelectuais. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 50 OS: 0187/11/17-Gil A emoção precede as condutas cognitivas; é um processo corporal que, quando intenso, prejudica a percep- ção do exterior. Portanto, para que se possam trabalhar as funções cognitivas, é necessário manter-se uma "baixa tem- peratura emocional." O desenvolvimento, então, deve con- duzir à predominância da razão, ou, na afirmação de Wal- lon, "a razão é o destino final do home. 3.4. Teoria das inteligências múltiplas de Gardner Tendo como principal idealizador Howard Gardner, a Teoria das Inteligências Múltiplas ampliou os estudos cognitivos da inteligência humana ao focar na capacidade de solucionar problemas ou elaborar produtos que são impor- tantes em um determinado ambiente ou comunidade cultu- ral (NORUZI; RAHIMI, 2010; GARDNER, 2001; TRAVASSOS, 2001). Apesar da teoria das Inteligências Múltiplas repre- sentar uma visão particular sobre a natureza da inteligência, sua contribuição para os processos de ensino-aprendizagem foram largamente utilizados, tornando-se uma abordagem viável para explorar estilos individualizantes de ensino e aprendizagem, assumindo três visões centrais: (1) Identificar formas particulares de aprendizagem; (2) Buscar estratégias para potencializar as habilidades e as inteligências dos indivíduos; (3) Ampliar o conceito de inteligências por meio da diversi- dade de estruturas cognitivas (ÖZDEMIR; GÜNEYSU; TEKKA- YA, 2006). Diferentemente da teoria Behaviorista, a proposta da Teoria das Inteligências Múltiplas sugere que a mente humana não é como uma lousa em branco que absorve passivamente todos os tipos de informações, ela (a mente) possui uma estrutura inicial e um conjunto de diversos sis- temas representacionais, que ao serem ativados, são capa- zes de construir ou potencializar novos conhecimentos (GARDNER, 2000). Gardner identificou nove tipos de inteligências, são elas: Verbal-Linguística; Lógico-Matemática; Musical; Visual- Espacial; Corporal-Cinestésica; Interpessoal; Intrapessoal; Naturalista e Existencial. O desenvolvimento de cada uma dessas inteligên- cias se baseia em aspectos biológicos e na interação do indivíduo com o meio (NORUZI; RAHIMI, 2010; ROSAS, 2009; ÖZDEMIR; GÜNEYSU; TEKKAYA, 2006). A construção de aprendizados tende a variar de in- divíduo para indivíduo, pois os diversos tipos de inteligên- cias assumem capacidades e desempenhos diferentes. Ex- plica-se assim, o surgimento de músicos, poetas, atletas, engenheiros, políticos, etc., cada um desenvolvendo habili- dades e competências distintas. Mas qual a importância dessa teoria para o ambiente organizacional? Segundo No- ruzi e Rahimi (2010) a Teoria das Inteligências Múltiplas é importante para mapear as habilidades individuais de cada funcionário, tornando-se possível identificar as potenciali- dades e as limitações de cada indivíduo na formação de grupos de trabalhos estratégicos, visando melhorar a eficá- cia organizacional. Complementando esses conceitos, Mattos (2005, p.40) assevera: Procurar desenvolver a inteligência em que cada pessoa em particular é mais apta é um ato importante para o crescimento do ser humano e de qualquer organiza- ção. A empresa em conjunto com seus líderes e seus co- laboradores, pode e deve procurar se conhecer bem, a fim de perceber qual suas melhores capacidades, podendo as- sim fazer com que cada um dê o melhor de si em sua área ou para que sejam remanejados em suas funções, ficando cada um no lugar que melhor pode se desenvolver. Desta forma, a Teoria das Inteligências Múltiplas contraria os pressupostos da Teoria Behaviorista metodoló- gica de que é possível prever e controlar processos de aprendizados, pois diferentes pessoas apresentam interes- ses e habilidades distintas e, consequentemente, aprendem de maneiras diversas. Os processos de aprendizagem não devem ser “padronizados”, mas sim customizados, de forma que o processo de aprendizagem atenda às particularidades de cada indivíduo, mapeando e maximizando suas compe- tências em favor da coletividade (GARDNER, 2000, 2001). Além de estímulos à ativação das estruturas cogni- tivas por meio da experimentação, a Teoria das Inteligências Múltiplas reconhece que a construção de conhecimentos se forma pelo favorecimento do aspecto cultural e contextual de cada ambiente de trabalho, migrando da perspectiva individual-cognitiva, proposta pelos modelos estruturais do conhecimento, para um caráter prático, em que a aprendi- DIDÁTICA PARA CONCURSOS | MóduloCompleto – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 51 OS: 0187/11/17-Gil zagem não se situa apenas na mente das pessoas, mas prin- cipalmente, nas relações sociais entre indivíduos engajados em processos culturais de experimentação-resposta, visan- do construir ou potencializar novos conhecimentos (SOUZA- SILVA; DAVEL, 2007; MATTOS, 2005; GARDNER, 2000). 3.5. Psicologia do desenvolvimento: aspectos históricos e biopsicossociais A Psicologia do Desenvolvimento como ramo da ci- ência psicológica constitui-se no estado sistemático da per- sonalidade humana, desde a formação do indivíduo, no ato da fecundação até o estágio terminal da vida, ou seja, a velhice. Como ciência comportamental, a psicologia do de- senvolvimento ocupa-se de todos os aspectos do desenvol- vimento e estuda homem como um todo, e não como seg- mentos isolados de dada realidade biopsicológica. De modo integrado, portanto, a psicologia do de- senvolvimento estuda os aspectos cognitivos, emocionais, sociais e morais da evolução da personalidade, bem como os fatores determinantes de todos esses aspectos do com- portamento do indivíduo. Como área de especialização no campo das ciências comportamentais, argumenta Charles Woorth (1972), a psicologia do desenvolvimento se encar- rega de salientar o fato de que o comportamento ocorre num contexto histórico, isto é, ela procura demonstrar a integração entre fatores passados e presentes, entre dispo- sições hereditárias incorporadas às estruturas e funções neurofisiológicas, as experiências de aprendizagem do orga- nismo e os estímulos atuais que condicionam e determinam seu comportamento. Processos básicos no Desenvolvimento Humano Muitos autores usam indiferentemente as palavras desenvolvimento e crescimento. Entre estes encontram-se Mouly (1979) e Sawrey e Telford (1971). Outros, porém, como Rosa, Nerval (1985) e Bee (1984-1986), preferem designar como crescimento as mudanças em tamanho, e como desenvolvimento as mudanças em complexidade, ou o plano geral das mudanças do organismo como um todo. Mussen (1979), associa a palavra desenvolvimento a mu- danças resultantes de influências ambientais ou de aprendi- zagem, e o crescimento às modificações que dependem da maturação. Diante dos estudos e leituras realizados, torna- se evidente e necessário o estabelecimento de uma diferen- ciação conceitual desses termos, vez que, constantemente encontramos os estudiosos dessa área referindo-se a um outro termo, de acordo com a situação focalizada. Desta forma, preferimos conceituar o crescimento como sendo o processo responsável pelas mudanças em tamanho e sujeito às modificações que dependem da matu- ração, e o desenvolvimento como as mudanças em comple- xidade ou o plano geral das mudanças do organismo como um todo, e que sofrem, além da influência do processo maturacional, a ação maciça das influências ambientais, ou da aprendizagem (experiência, treino). Através da represen- tação gráfica, que se segue, ilustramos o conceito de cres- cimento e desenvolvimento, evidenciando a interveniência dos fatores que o determinam: Hereditariedade, meio ou ambiente, maturação e aprendizagem (experiência, treino). Processo de Desenvolvimento Exemplificando o uso do conceito de crescimento e desenvolvimento: É evidente que a mão de uma criança é bem menor do que a mão de um adulto normal. Pelo pro- cesso normal do crescimento, a mão da criança atinge o tamanho normal da mão do adulto na medida em que ela cresce fisicamente. Dizemos, portanto, que, no caso, houve crescimento dessa parte do corpo. A mão de um adulto normal é diferente da mão de uma criancinha, não somente por causa do seu tamanho. Ela é diferente, sobretudo, por causa de sua maior capacidade de coordenação de movi- mentos e de uso. Neste caso, podemos fazer alusão ao pro- cesso de desenvolvimento, que se refere mais ao aspecto qualitativo (coordenação dos movimentos da mão, desem- penho), sem excluir, todavia, alguns aspectos quantitativos (aumento do tamanho da mão). Nota-se, entretanto, que essa distinção entre crescimento e desenvolvimento nem sempre pode ser rigorosamente mantida, porque em de- terminadas fases da vida os dois processos são, praticamen- te, inseparáveis. A questão da hereditariedade e do meio no desenvolvi- mento humano A controvérsia hereditariedade e meio como in- fluências geradoras e propulsoras do desenvolvimento hu- mano tem ocupado, através dos anos, lugar de relevância no contexto geral da psicologia do desenvolvimento. A princípio, o problema foi estudado mais do ponto de vista filosófico, salientando-se, de um lado, teorias nati- vistas, como a de Rousseau, que advogava a existência de ideias inatas, e, de outro lado, as teorias baseadas no empi- rismo de Locke, segundo o qual todo conhecimento da rea- lidade objetiva resulta da experiência, através dos órgãos sensoriais, dando, assim, mais ênfase aos fatores do meio. Particularmente, no contexto da psicologia do de- senvolvimento, o problema da hereditariedade e do meio tem aparecido em relação a vários tópicos. Por exemplo, no estudo dos processos perceptivos, os psicólogos da Gestalt advogaram que os fatores genéticos são mais importantes à percepção do que os fatores do meio. Por outro lado, cien- tistas como Hebb (1949) defendem a posição empirista, segundo a qual os fatores da aprendizagem são de essencial importância ao processo perceptivo. Na área de estudo da personalidade encontramos teorias constitucionais como as de Kretschmer e Sheldon que advogam a existência de fatores inatos determinantes DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 52 OS: 0187/11/17-Gil do comportamento do indivíduo, enquanto outros, como Bandura, em sua teoria da aprendizagem social, afirmam que os fatores de meio é que, de fato, modelam a persona- lidade humana. Na pesquisa sobre o desenvolvimento ver- bal, alguns psicólogos como Gesell e Thompson (1941) se preocupam mais com o processo da maturação como fato biológico, enquanto outros se preocupam, mais, com o processo de aprendizagem, como é o caso de Gagné (1977), Deese e Hulse (1967) e tantos outros. Com relação ao estu- do da inteligência, o problema é o mesmo: uns dão maior ênfase aos fatores genéticos, como é o caso de Jensen (1969), enquanto outros salientam mais os fatores do meio, como o faz Kagan (1969). Em 1958, surgiu uma proposta de solução à ques- tão, por Anne Anastasi, que publicou um artigo no Psycho- logical Review, sobre o problema da hereditariedade e meio na determinação do comportamento humano. O trabalho de Anastasi lançou considerável luz sobre o problema, tanto do ponto de vista teórico como nos seus aspectos metodo- lógicos. Isso não significa que o problema tenha sido resol- vido mas, pelo menos, ajudou os estudiosos a formularem a pergunta adequada pois, como se sabe, fazer a pergunta certa é fundamental a qualquer pesquisa científica relevan- te. Faremos, a seguir, uma breve exposição da solução pro- posta por Anne Anastasi (1958), contando com o auxílio de outras fontes de informação. A discussão do problema hereditariedade versus meio encontra-se, hoje, num estágio em que ordinariamen- te se admite que tanto os fatores hereditários como os fato- res do meio são importantes na determinação do compor- tamento do indivíduo. A herança genética representa o potencial hereditáriodo organismo que poderá ser desen- volvido dependendo do processo de interação com o meio, mas que determina os limites da ação deste. Anastasi afir- mou que mesmo reconhecendo que determinado traço de personalidade resulte da influência conjunta de fatores hereditários e mesológicos, uma diferença específica nesse traço entre indivíduos ou entre grupos pode resultar de um dos fatores apenas, seja o genético seja o ambiente. Determinar exatamente qual dos dois ocasiona tal diferença ainda é um problema na metodologia da pesquisa. Segundo Anastasi, a pergunta a ser feita, hoje, não mais deve ser qual o fator mais importante para o desenvolvi- mento, ou quanto pode ser atribuído à hereditariedade e quanto pode ser atribuído ao meio, mas como cada um desses fatores opera em cada circunstância. É, pois, portan- to, mais preocupada com a questão de como os fatores hereditários e ambientais interagem do que propriamente com o problema de qual deles é o mais importante, ou de quanto entra de cada um na composição do comportamen- to do indivíduo. Anastasi procurou demonstrar que os me- canismos de interação variam de acordo com as diferentes condições e, com respeito aos fatores hereditários, ela usa vários exemplos ilustrativos desse processo interativo. 3.6. Temas contemporâneos: bullying, o papel da escola, a escolha da profissão, transtornos ali- mentares na adolescência, família, escolhas se- xuais Bullyng Nos últimos tempos, uma nova forma de violência escolar vem ganhando espaço nos noticiários de jornais e revistas e causando preocupações aos pais, educadores e a sociedade em geral. Esse tipo de violência, conhecido como fenômeno bullying, não é um acontecimento novo dentro das escolas, ele apenas tomou forma e ganhou nome espe- cífico a partir dos anos 80, quando o estudioso norueguês Olweus (1993) definiu como bullying os atos agressivos, antissociais e repetitivos que ocorrem entre estudantes no contexto escolar. Apesar de o bullying ocorrer no contexto das insti- tuições escolares, ele não é só um problema da escola, mas de toda sociedade, visto ser um fenômeno que gera pro- blemas a longo prazo, causando graves danos ao psiquismo e interferindo negativamente no desenvolvimento cogniti- vo, emocional e socioeducacional dos envolvidos (Fante, 2008a). Desse modo, antes de fazer qualquer inferência so- bre a sua origem, colocando a culpa no aluno, na escola, na família ou na sociedade, é necessário compreendê-lo como resultante de problemas que estão inseridos em todos esses ambientes e nas relações que ocorrem entre eles, tendo, portanto, uma visão ecológica do fenômeno. Dessa forma, qualquer tipo de intervenção ao bullying deve levar em consideração as dimensões sociais, educacionais, familiares e individuais, partindo do pressuposto de que elas vão se diferenciar dependendo do contexto em que estão inseridas. A escola é um contexto que propicia desenvolvi- mento de habilidades, competências, formação e desenvol- vimento de conceitos, saberes e opiniões, por isso tem o papel fundamental de buscar alternativas para o enfrenta- mento e prevenção do bullying. Nessa perspectiva, aponta- se a importância da inserção do psicólogo esco- lar/educacional, objetivando realizar um trabalho de pre- venção e enfrentamento da violência no contexto em que ocorre. Fenômeno bullying Os estudos sobre bullying se iniciaram na década de 70 na Suécia e na Dinamarca, no entanto esse fenômeno sempre existiu no ambiente escolar, mas não era caracteri- zado como tal, por se acreditar que não se passava de brin- cadeiras inofensivas e normais entre os estudantes. Foi na década de 80 que os estudos sobre o tema tomaram pro- DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 53 OS: 0187/11/17-Gil porções maiores devido aos estudos feitos na Noruega por Dan Olweus (Chalita, 2007). Inicialmente não foi dada muita importância aos es- tudos de Olweus, porém, em 1983, três meninos noruegue- ses, na faixa etária entre 10 e 14 anos, cometeram suicídio e a provável causa foram os maus-tratos sofridos na escola. A partir desse acontecimento, Olweus deu continuidade aos seus estudos e organizou suas conclusões no livro Bullying at school: what we know and what we can do (Bullying na escola: o que sabemos e o que podemos fazer), ainda sem tradução para o português. Nesse livro, o autor apresenta o problema, dá sugestões para identificação das vítimas e dos agressores e traça estratégias de prevenção (Chalita, 2007). O tema chegou ao Brasil no fim dos anos 90 e início de 2000, e as pesquisas realizadas englobavam apenas a realidade dos locais onde eram realizadas. Mas, na década de 80, já se realizavam estudos sobre a depredação de pré- dios escolares e aos poucos os estudos atingiram as relações interpessoais agressivas (Antunes & Zuin, 2008). Entende-se por bullying um fenômeno que se refe- re a ações agressivas e gratuitas contra uma mesma vítima, que ocorrem num período prolongado de tempo e são mar- cadas pelo desequilíbrio de poder. Ele difere de outros tipos de agressões justamente pelo fato de ser um comportamen- to repetitivo, deliberado e intencional, não se referindo a divergências de ponto de vista ou de ideias contrárias que provocam desentendimentos e brigas (Fante, 2005, 2008a). Ressalta-se um ponto importante na caracterização desse fenômeno, a repetição. E acrescenta-se o fato de o mesmo ser de difícil identificação por acontecer longe de adultos e por não haver denúncias por parte das vítimas devido ao medo de retaliação. "A violência, tanto para quem comete quanto para quem é submetida a ela, é, na maioria das vezes, uma questão de violência repetida, tênue e difi- cilmente perceptível" (Derbabieux, 2002, p. 29). O que torna graves os atos de incivilidade, intimi- dações, assédio ou qualquer outro termo que se queira relacionar ao bullying é exatamente a sua continuidade, que causa às vítimas sensações de abandono e insegurança e aos agressores o sentimento de impunidade e poder (Fante, 2008a). Esses atos repetitivos e prejudiciais podem ocorrer de várias formas, por isso o bullying pode ser classificado como: direto e indireto. Além disso, nos últimos anos, com o avanço da tecnologia e da internet, outra modalidade co- meçou a surgir, o ciberbullying. O bullying é classificado como direto quando as ví- timas são atacadas diretamente. São considera- dos bullying direto os apelidos, agressões físicas, ameaças, roubos, ofensas verbais ou expressões e gestos que geram mal estar aos alvos. O bullying indireto são ações que levam exclusivamente ao isolamento social. Este envolve atitudes de indiferença, isolamento, difamação, exclusão (Lopes Neto, 2005). O ciberbullying se caracteriza pelo uso de e-mails, mensagens de celulares, fotos digitais e sites pessoais difa- matórios como recursos para a adoção de comportamentos repetidos e hostis, de um indivíduo ou grupo, que pretende causar danos a outros. Os agressores que utilizam o ciberbullying se motivam pelo anonimato, pois utilizam apenas apelidos ou se fazem passar por outras pessoas (Fante & Pedra, 2008). Outro fator que merece destaque nesse tipo de comportamento é a forma rápida como o bullying se espa- lha, extrapolando os muros da escola. A propagação das difamações é imediata e o efeito multiplicador do sofrimen- to das vítimas é imensurável (Fante, 2008b). Os envolvidos tanto no cyberbullying como no bullying direto ou indireto foram caracterizados pela Associação Brasileira de Proteção à Criança e ao Adolescen- te (ABRAPIA)como autores, alvos, espectadores e al- vos/autores. Essa nova forma de classificação tem o cuidado de não rotular os estudantes, evitando que sejam estigmati- zados pela sociedade. Os autores de bullying são aqueles que praticam as agressões contra os colegas, vitimizando os mais fracos e usando a agressividade para se impor e liderar algum grupo. Costumam humilhar os colegas para serem valorizados soci- almente. São geralmente muito habilidosos ao usar esse poder com colegas mais vulneráveis e que não conseguem fazer frente às agressões (Schäfer, 2005). Consideram-se alvos os alunos que estão expostos de forma repetida, e durante algum tempo, às ações negativas praticadas por um ou mais alunos no ambiente escolar (Antunes & Zuin, 2008). Eles podem sofrer silenciosamente as agressões, sendo os chamados alvos típicos ou podem agir de maneira impulsiva, provocando ou agredindo outros colegas, esses são deno- minados alvos provocadores ou agressores. Os alvos/autores são aqueles alunos que, além de sofrerem agressões, também apresentam um comporta- mento agressor e provocador. Os espectadores são aqueles que não participam de forma direta das agressões, mas sofrem as consequências das mesmas por presenciarem situações vividas por colegas na escola (Camargo, 2009). Identificar e diferenciar os envolvidos no fenôme- no bullying é uma tarefa difícil devido às peculiaridades que envolvem esse fenômeno. Dessa forma, é preciso estar sempre atento a qualquer mudança no comportamento das crianças e jovens, mesmo que pareça insignificante (Fante, 2005). Percepções sobre as causas do bullying: uma visão ecológi- ca do fenômeno Ainda há muito que ser discutido e avaliado a res- peito das causas do fenômeno bullying e das medidas de prevenção e enfrentamento. É comum citarem como causas características de um único ambiente ou dos próprios en- volvidos. Alguns estudiosos desse fenômeno chegam a afir- DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 54 OS: 0187/11/17-Gil mar que o autor de bullying, por exemplo, manifesta esse tipo de comportamento por ser infeliz, ter baixa autoestima e se sentir desvinculado ou impotente em outras áreas da sua vida (Beaudoin, 2007). Diante disso, formas prontas de enfrentamento do bullying são criadas e levadas às escolas como se todos os contextos onde esse fenômeno ocorre fossem iguais. Muitas vezes essas medidas de enfrentamento colocam o fenômeno como sendo de responsabilidade judicial. São criados projetos de leis, disque denúncias, e a polícia entra na escola como uma forma de intimidação. É preciso pensar o bullying escolar como um fenômeno social, portanto as formas de enfrentamento e prevenção devem estar em plena comunhão com o contexto onde ocorre, envolvendo medidas psicopedagógicas e preventivas que levem em consideração aspectos sociais, psicológicos e econômicos muito mais do que medidas caracterizadas por punições, ameaças e intimidações ou formas prontas de enfrenatmen- to. Por esse motivo é que se pretende pensar o fenô- meno da violência escolar, mais especificamente o bullying, a partir de uma visão ecológica. Isso significa se opor às abordagens mais individualistas que entendem esse pro- blema como derivado unicamente de problemas gerados dentro da instituição, seja nas formas de gestão autocrática ou metodologias e avaliações excludentes, na precariedade do ensino ou na falta de interação entre família e escola (Abramoway e cols., 2003, 2005). A ideia de meio ambiente numa visão ecológica não se limita a um ambiente único ou apenas ao contexto ime- diato em que o indivíduo está inserido, mas inclui as inter- conexões entre vários ambientes, bem como as influências que provêm de meios mais amplos. O indivíduo tem papel ativo e interativo nas mudanças que ocorrem no contexto em que está inserido. A interação entre a pessoa e os ambi- entes é, então, bidirecional, ou seja, da mesma forma que as estruturas ambientais influenciam no desenvolvimento e comportamento do indivíduo, este também pode provocar alterações no seu contexto (Bronfenbrenner, 1996). É necessário, então, analisar e compreender o ser humano nos diferentes contextos em que ele está inserido, inclusive suas características individuais. Da mesma forma, pode-se pensar no fenômeno bullying. Assim como as carac- terísticas de personalidade e de temperamento, os contex- tos sociais, familiares e escolares exercem influências no desenvolvimento de comportamentos agressivos entre crianças e jovens. Para prevenir e enfrentar o bullying ou qualquer outro tipo de violência que ocorre no contexto escolar, não se deve partir de receitas prontas e fechadas, pois cada escola possui uma realidade específica, onde são construí- das relações diferenciadas entre os seus membros. Sendo assim, o bullying também irá se apresentar de formas dife- rentes em cada contexto, não devendo, portanto, ser avali- ado de modo descontextualizado. Diante disso, a atuação do psicólogo esco- lar/educacional no enfrentamento do bullying deve estar ancorada em uma proposta de caráter preventivo que tenta compreender, analisar e intervir na realidade escolar, consi- derando a especificidade de cada instituição (Marinho- Araujo & Almeida, 2008). A intervenção da Psicologia Escolar/Educacional Apesar de a atuação do psicólogo esco- lar/educacional ter se iniciado com um cunho clínico, na identificação de alunos com distúrbios de aprendizagem, problemas de conduta e de personalidade, atualmente a atuação desse profissional vem tomando novas direções e está cada vez mais comprometida com o aspecto social (Del Prette & Del Prette, 1996). A atuação do psicólogo escolar/educacional exige a capacidade de analisar e apreender as múltiplas relações que caracterizam a instituição escolar e os agentes nela envolvidos, além de identificar as necessidades e possibili- dades de aperfeiçoamento dessas relações. Logo, o profissi- onal de Psicologia deve enfrentar o desafio de tomar como alvo de sua atuação a complexidade dos processos interati- vos que ocorrem na escola (Del Prette & Del Prette, 1996). Por ser a escola uma instituição que reflete a organização social, é imprescindível que se considerem os indivíduos que dela participam a partir de sua inserção no contexto mais amplo da organização. Um trabalho eficiente em Psicologia Escolar/Educacional deve partir da análise da instituição, levando em consideração o meio no qual se encontra, o tipo de demanda que atende e os diversos agentes envolvidos (Andaló, 1984). O psicólogo é o profissional apto para realizar um trabalho de prevenção e enfrentamento da violência esco- lar, ajudando a escola a construir espaços e relações mais saudáveis. Mas, para isso, é de fundamental importância que ele esteja inserido no ambiente da escola, participando do seu cotidiano para que possa ter uma atuação específica e mais voltada à realidade. Será no campo das relações estabelecidas dentro da instituição e desta com o ambiente no qual está inserida que o profissional de Psicologia terá condições de desenvol- ver novas alternativas para o seu trabalho. O psicólogo deve ocupar um lugar de escuta, possibilitando que se criem espaços de discussões e construção de conhecimento de forma que os problemas sejam discutidos e a busca por soluções seja compartilhada (Martins, 2003). Estando o psicólogo ligado à instituição, ele tem a possibilidade de atuar como agente de mudanças, capaz de promover reflexões a respeito do tema da violência, poden- do, assim, conscientizar os agentes institucionaissobre os seus papéis, garantindo a construção de relações mais sau- dáveis e evitando o surgimento de qualquer forma de vio- lência nas escolas. Nessa perspectiva, o profissional de Psi- cologia deve começar seu trabalho mapeando a instituição, DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 55 OS: 0187/11/17-Gil conhecendo como estão sendo estabelecidas as relações, os conflitos existentes e as contradições institucionais que podem propiciar a problemática estudada (Marinho-Araujo & Almeida, 2008). A realização do mapeamento permite a esse profis- sional conhecer a realidade da escola, suas características culturais, sociais e psicológicas, bem como as relações esta- belecidas entre os membros da instituição e entre esta, as famílias e a comunidade, possibilitando o conhecimento do panorama geral das relações interpessoais que acontecem dentro e ao redor da instituição (Marinho-Araujo & Almeida, 2008; Ortega & Del Rey, 2002). Conhecendo a realidade da instituição, o psicólogo escolar pode atuar de modo intenci- onal sobre os problemas instalados, bem como sobre o desenvolvimento de habilidades e competências de toda comunidade escolar, caracterizando uma atuação preventi- va e/ou interventiva (Marinho-Araujo & Almeida, 2008). Na problemática em questão, uma atuação institu- cional preventiva deve estar ancorada na promoção de reflexões, conscientizações de papéis e nas funções dos indivíduos, objetivando desenvolver competências e habili- dades para a superação de obstáculos e para o estabeleci- mento de relações sociais mais saudáveis (Marinho-Araujo & Almeida, 2008). Devem-se criar espaços de escuta psicológica, a fim de ressignificar as relações interpessoais na escola, consci- entizar e transformar práticas existentes que estejam impe- dindo a consolidação de um ambiente saudável e propício ao aprendizado e ao desenvolvimento dessas relações. As- sociado a isso, o psicólogo escolar/educacional deve asses- sorar o trabalho coletivo da escola, instrumentalizando a equipe através de estudos e capacitações, contribuindo na formação dos professores e colocando-os também como coparticipantes nesse trabalho (Marinho-Araujo & Almeida, 2008). A atuação junto ao corpo docente e discente, à di- reção e à equipe técnica contribuirá para que aprendam a resolver seus próprios conflitos do cotidiano de maneira consciente, reflexiva e dialogada, conscientizando a todos sobre a realidade vivida na escola e possibilitando uma me- lhoria no clima de convivência e no estabelecimento de relações mais saudáveis (Ortega & Del Rey, 2002). O psicólogo pode, ainda, promover espaços de dis- cussões e reflexões que possam abordar temas como: uso de estratégias para o desenvolvimento da comunicação, construção de um ambiente de confiança e respeito mútuo, verificação de ambiguidades e conflitos existentes nas rela- ções (Marinho-Araujo & Almeida, 2008). Outro tema que deve ser abordado nas escolas com a mediação do psicólogo é a construção de normas e regras institucionais. Nessa perspectiva, o psicólogo irá atingir diretamente as questões relacionadas ao fortalecimento de vínculos nas relações interpessoais, propiciando um espaço para a elaboração de normas e regras na escola. O psicólogo pode colaborar e participar desse pro- cesso de construção de regras no qual os alunos estão inclu- ídos, dando suporte aos professores e gestores e contribu- indo na elaboração de regras que não estejam somente relacionadas ao âmbito pedagógico, mas que estejam tam- bém voltadas para a organização e fortalecimento das rela- ções entre os alunos, entre os professores e os alunos e entre a escola e a família. Quando os alunos se tornam ati- vos nesse processo, a tendência é que eles comecem a as- sumir essas regras como suas e, consequentemente, passam a se esforçar para cumpri-las (Ortega & Del Rey, 2002). Além disso, ao perceber que os professores e os gestores estão valorizando suas opiniões, os alunos começam a estabelecer uma relação de respeito não só pelas regras, como também pelas pessoas que participaram desse processo de constru- ção. O cumprimento dessas poderá evitar problemas de indisciplina, de conflitos e do enfraquecimento de vínculos interpessoais. Ante o exposto, percebe-se que, muito mais do que medidas prontas e fora da realidade escolar, o en- frentamento e a prevenção do bullying passa por um traba- lho inicial de investigação e posteriormente por uma atua- ção intencional e comprometida com a realidade estudada, daí a importância do profissional de Psicologia nesse contex- to. O papel da Escola A escola tem uma função a cumprir socialmente e essa função só se realiza na ação individual dos profissionais que ali atuam. A escola, historicamente, é o lugar, por exce- lência, da mediação do conhecimento sistemático, científico elaborado ao longo dos tempos pelo conjunto de sujeitos sociais. A função da escola então é realizar a mediação en- tre o conhecimento prévio dos alunos e o conhecimento formal, sistematizado, possibilitando formas de acesso ao conhecimento científico. Logo a definição de objetivos, a seleção de conteúdos, a proposta metodológica e o proces- so avaliativo devem ser alicerçados na reflexão filosófica como já foi citado anteriormente. Dessa reflexão e seleção é que se configurará a prá- tica educativa mediada pela ação pedagógica do professor com os alunos, ou seja, é a ação que faz com que o currículo escolar se efetive. Assim a escola deve manter uma lógica, uma coerência entre os documentos que manifestam a ação refletida do conjunto de pessoas que ali atuam. Luckesi (1992, p.119), explica que o ato de planejar não pode relegar nenhum procedimento de análise, uma vez que esse ato deve ser ao mesmo tempo político, social, científico e técnico. [...] político-social, na medida em que está comprometido com as finalidades sociais e políticas; científico, na medida em que não se pode planejar sem um conhecimento da realidade; técnico, na medida em que o planejamento exige uma definição de meios eficientes para obter os resultados. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 56 OS: 0187/11/17-Gil Para se atingir o grau de reflexão necessária na to- talidade do processo educativo da escola, os sujeitos envol- vidos devem ter um nível de conhecimento que possibilite essa compreensão. As formações iniciais, a graduação, nem sempre exploram esse conhecimento subsidiando o acadê- mico para esse debate e vivência. Logo a escola deve pro- porcionar momentos de formação continuada almejando qualificar o trabalho ali desenvolvido. Assim o gestor escolar precisa oferecer condições para que haja estudos em grupo, promoção de palestras, aquisição de acervo bibliográficos e periódicos que auxiliem a coordenação pedagógica na organização da formação continuada. Esse é um dos papéis fundamentais da coorde- nação pedagógica na escola. Planejar o processo educativo é planejar o indefini- do, porque a educação não é um processo, cujos resultados podem ser totalmente pré-definidos, determinados ou pré- escolhidos, como se fossem produtos decorrentes de uma ação puramente mecânica e impensável. Devemos, pois, planejar a ação educativa para o homem, não lhe impondo diretrizes que o alheiam. Permi- tindo, com isso, que a educação ajude o homem a ser cria- dor de suahistória. (MENEGOLLA; SANT’ANNA, 2002, p. 23). O professor, a coordenação pedagógica e a gestão escolar para serem “criadores de história” precisam se res- paldar nos conhecimentos elaborados, conhecer a política educacional e as legislações nacionais e do sistema de ensi- no que a escola está inserida, dominar a estrutura organiza- cional da escola, qualificar a participação nos diferentes momentos de discussão sabendo argumentar, dialogar, trabalhar em grupo, dentre outros aspectos que fazem com que os sujeitos do processo de organização pedagógica e administrativa da escola exerçam autonomia e atribuam identidade ao grupo. A análise das condições para se efetivar o planeja- mento fundado na reflexão filosófica e capaz de promover uma educação crítica, nos leva a questionar: como o plane- jamento está organizado na escola? A organização do planejamento, geralmente, é feita na escola por ano/série de aprendizagem. A coordenação pedagógica estabelece o horário do planejamento de acor- do com a carga horária dos professores, como, por exemplo, reunir os professores da educação infantil, pré-escola, pro- fessores do 1º ano do ensino fundamental, do 2º ano e assim por diante. Há os momentos em que a coordenação pode reu- nir os professores em sequência, ou seja, os que atuam na pré-escola com os que atuam no 1º ano. Esse tipo de orga- nização garante a sequência dos conteúdos e a troca de informação sobre o rendimento dos alunos, a partir da aprendizagem, além de possibilitar a previsão e a prioridade das ações. O momento de planejamento dos professores é ga- rantido por lei e são dispostos no calendário escolar. O arti- go 67, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9394/96, expressa, Os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profis- sionais da educação, assegurando-lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério público: [...] V - período reservado a estudos, planejamento e avalia- ção, incluído na carga de trabalho; [...]. Há sistemas de ensino ou escolas que organizam a semana de planejamento em conjunto, geralmente no início de cada período letivo, início de cada semestre, por exem- plo. São momentos em que se realizam debates sobre a organização pedagógica e administrativa da escola. Ocasiões em que os profissionais que atuam na es- cola podem conhecer os documentos que norteiam o seu trabalho, como o projeto pedagógico, currículo escolar e o regimento escolar. A partir disso, os profissionais, nos dife- rentes segmentos que atuam, passam a ter condições de planejar atendendo as necessidades da escola. A Escolha da Profissão Sabemos que a adolescência é um período de mui- tas escolhas, e por isso, é comum ser também uma fase de grande stress. Esse período se torna conflituoso não só pela pressão de uma escolha profissional, mas também por ser acompanhado de mudanças psicofisiológicos inerentes á adolescência. Influências externas e o stress no processo de deci- são de profissão Inúmeras variáveis podem influencias e a gravar o estado de stress de um adolescente que se encon- tra na fase de escolhas, tais como influência familiar, amiza- des, escolares, midiáticas, a preocupação com o mercado de trabalho, com a dificuldade dos vestibulares, entre tantos outros fatores. O afunilamento de tantas variáveis irá definir nossa trajetória profissional, assumidos por interesses e habilida- des profissionais. Dentre as variáveis que interferem no processo de escolha de um jovem, a família é apontada em primeiro lugar (Santos, 2005) o que pode lhe ajudar a en- contrar suas aptidões ou atrapalhar, quando tenta escolher a profissão do mesmo. Ao mesmo tempo em que o jovem deposita nos pais e familiares confiança de solução deste conflito interno, os pais também podem possuir anseios e expectativas que acarretam em conflitos decisórios. Segundo Andrade (1997), muitas vezes o jovem não percebe as influências que sofre de seus familiares, pois por vezes, essa influência esta implícita em ideais familiares, valores e conceitos que internalizou. A interferência da família faz com que o jovem se sinta cobrado, e até mesmo obrigado a seguir um determinado caminho, porém, se este mesmo jovem esta sujeito ao excesso de liberdade, pode se DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 57 OS: 0187/11/17-Gil sentir abandonado e sem apoio para tomar a decisão de sua profissão. A escola em seu contexto institucional também po- de influenciar na construção do sujeito, e consequentemen- te em suas escolhas profissionais, já que o jovem passa grande parte de seu tempo neste ambiente. É papel da escola capacitar seus professores para trabalharem como facilitadores neste processo de escolha, sanando duvidas e auxiliando quanto as expectativas do adolescente. É fato de que a adolescência é uma fase suscetível ao stress, mas a forma como o jovem irá lidar com essa situação e com as influencias externas é que irão definir sua trajetória na esco- lha da profissão. Expectativas quanto à ideia de vocação É frequente ouvirmos jovens em fase de decisão profissional afirmar que devemos descobrir nossa "vocação" e segui-la, como um dom natural que nos é dado. Essa con- cepção de "vocação" exclui a ideia de que cada sujeito se constrói a partir de suas histórias e vivências, anulando de cada um a condição de sujeito ativo e cria a ilusão de que estamos destinados a alguma função ideal. Como colocam Emmanuele e Cappelletti: [...] a crença na existência tangível de uma vocação oferece resguardo ante a insegurança que gera a busca de um lugar e uma posição a ocupar no futuro, em um mundo suposta- mente adulto, cuja cultura regula a produção de bens medi- ante a aparência de uma eficiente distribuição do trabalho. (2001, p. 48) Quem escolhe uma profissão? Os profissionais que trabalham com orientação vo- cacional no Brasil centram-se no indivíduo que escolhe, e este trabalho se dá a partir do auxilio no processo de esco- lha de um jovem, conciliando seus desejos pessoais e ansei- os quanto a profissão/mercado de trabalho. O jovem que "escolhe" uma carreira advêm de regiões urbanas, de classe média e aspiram a uma profissão que tem formação superi- or, representando uma fração pequena da sociedade brasi- leira, pois sabemos de outros tantos jovens que não possu- em a mesma chance de escolha, diante de uma realidade onde muitas vezes não chegam ao menos a concluir o se- gundo grau, tendo de trabalhar naquilo que lhes for ofereci- do para ajudar suas famílias a sobreviver. Relação entre as diferentes gerações e a percepção de crescimento profissional Com relação às diferentes visões de carreiras, po- demos afirmar que cada geração tem seu perfil próprio, o que interfere diretamente nas escolhas profissionais. Pri- meiramente é preciso definir de que se trata o termo "gera- ção". Segundo (WESTERMAN; YAMAMURA, 2007) o termo refere-se a um conjunto de pessoas que nasceram em uma mesma época, e por este motivo vivenciou os mesmos eventos históricos e sociais que influenciaram a construção de seus valores e crenças. O que nos leva a considerar que pessoas de uma mesma geração possuem semelhantes expectativas e desejos. Iremos nos limitar aqui as gerações tidas como Ba- by boomers, X e Y. Sendo a primeira representada por sujei- tos nascidos entre 1946 e 1967, possuem valores mais tradi- cionais quando se trata do cumprimento de obrigações em relação à carreira, são mais leais quanto aos processos or- ganizacionais, e estão mais preocupadoscom a educação e criação dos filhos juntamente com seu casamento, além de buscarem ser cooperativos e participativos no trabalho. A geração X, caracterizada por quem nasceu entre os anos 1968 a 1979, são mais descrentes e desconfiadas em relação às empresas onde trabalham, por isso não são tão compromissados, valorizando muito mais a independên- cia, preferem trabalhar sozinhos e estão sempre buscando o empreendedorismo. Por fim, a geração Y trata de nascidos entre 1980 e 1991. São caracterizados por não lidarem bem com hierar- quias, procuram flexibilidade em suas carreiras e autono- mia. Possuem a vantagem de lidarem facilmente com as novas tecnologias e estar sempre compartilhando e rece- bendo novas informações. No entanto, desejam acordos claros e apoio das organizações de trabalho. São também considerados difíceis de serem geridos. Quanto a percepção sobre crescimento profissional, considerando as distintas preferências e visões de mundo das gerações Baby boo- mers, X e Y, respectivamente, podemos afirmar que o pri- meiro atribui maior valor as relações políticas nas organiza- ções de trabalho, e da mais importância à quem esta se relacionando neste âmbito. As gerações X e Y, por outro lado, por serem mais questionadoras, atribuem maior im- portância sobre a percepção do por que estão realizando determinadas atividades. Posto isso, podemos nos perguntar o que quer a geração Z? Nascidos após o ano de 1995, esta é a geração da tecnologia e informação. Caracterizada por serem filhos da geração X e Y, é um desafio aos pais, educadores e orien- tadores profissionais auxiliarem o jovem a organizar, seleci- onar, hierarquizar e dar sentido a toda esta informação, que recebem durante todo o tempo, para que ela se transforme em conhecimento. Já que vivem em um mundo globalizado, possuem uma visão ampla do seu trabalho. Uma vantagem surge a partir dai, pois tendem a enxergar as organizações trabalhis- tas como um todo, podendo identificar quais pontos preci- sam de melhorias. Os jovens dessa geração são conectados com o mundo digital, logo anseiam por um mercado de trabalho que condiz com isso. Esperam por um ambiente conectado, rápido, flexível, aberto ao dialogo e sem horários rígidos. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 58 OS: 0187/11/17-Gil Como se dá o processo de escolha Para a compreensão do processo de escolha é ne- cessário considerarmos a relevância da esfera motivacional. Vygotski (2001) é um dos autores que afirma que o pensa- mento é a revelação das necessidades e dos motivos do ser humano. Assim, não podemos separar o momento de esco- lha de um individuo sem levarmos em conta suas necessida- des. Segundo Aguiar (2006), o indivíduo, ao necessitar de algo, esta levando em conta todos os fatores históricos, sociais e políticos que presenciou, e mesmo sem saber, são estes fatores que irão definir seus desejos. Sendo assim, as necessidades jamais podem ser compreendidas como natu- rais e a-históricas, mas sendo um processo único e subjetivo para cada individuo. Evidencia-se a complexidade do pro- cesso do ser que deseja, pois é marcado por uma série de registros emocionais que irão criar experiências, servindo como base para as futuras decisões em momentos de ten- são ou não. A Partir do trabalho de acompanhamento de jovens e orientação vocacional, Aguiar verificou que por vezes tais jovens expressavam através de suas falas conteúdos revela- dores de necessidades de afeto, de atenção, de reconheci- mento, de conhecimento, etc. Explicitavam essas necessida- des mesmo sem perceber, em falas por vezes confusas. Sabemos que cada indivíduo vive de forma subjetiva, e as- simila os conteúdos ao seu redor de mesmo modo, mas são essas experiências e as estratégias de desenvolvidas para enfrenta-las que iniciam o processo de significação, elegen- do objetos, situações e atividades como aqueles que podem satisfazer suas necessidades e desejos, sendo neste momen- to que nascem os motivos de um individuo. Por tanto, ne- cessidades que eram históricas, subjetivas, fluídas, genéricas e sem conteúdo específico, configuram-se em motivos para a ação, impulsionam e orientam o sujeito para determina- das escolhas. Professores frente à orientação profissional Os professores do Ensino Médio muitas vezes sem saber, exercem fundamental papel na determinação da escolha profissional do jovem. Segundo Torres (2001, p.52) “O professor é mais que transmissor de conteúdos teóricos, pois ele passa aos seus alunos uma visão do que são e como são os cursos e profissões”. Por isso, é importante que o docente promova à seus alunos conhecimento sobre as possibilidades diante ao ensino superior, incentivando que conheçam instituições, entrem em contato com alunos e profissionais já formados nos cursos de interesse, pesqui- sem sobre as diversas áreas de atuação. Diante dos dados apontados por diversas pesqui- sas, a até mesmo através dos apresentados neste texto, é fato de que estudantes de ensino médio passam por um período de grande stress ao ter que escolher os caminhos que irão traçar a partir da conclusão do segundo grau. Mas sabe-se também que estes mesmo jovens não tem conhe- cimento sobre o acesso ao ensino superior, principalmente quando se tratam de alunos advindos de escolas públicas, se agravando ainda mais em locais de periferias onde a popu- lação sofre com a falta de acesso à informação. Podemos citar como exemplo a cidade de São Car- los, onde é ministrado o curso de Licenciatura em Ciências Exatas, pois muitos alunos da rede pública de ensino da cidade nunca sequer conheceram as dependências de uma universidade pública, apesar do município contar com duas das maiores universidades do país- USP e UFSCar. É preciso oferecer a esses jovens oportunidade para sanar o déficit de informações que os permeia, tanto sobre o que se diz quan- to aos vestibulares, carreiras, meios de acesso às universi- dades públicas e estimular a continuidade aos estudos após o término do colegial. Oferecendo-lhes informações quanto às centenas de cursos oferecidos nas diversas instituições do país de forma gratuita, mostrando a importância e o impacto cau- sado na sociedade a partir da educação. Quantos alunos não poderão se dar ao luxo de escolher uma profissão, frente ao desconhecimento dos programas de acesso e permanência estudantil dentro de nossas universidades? O professor tem a responsabilidade e o papel de promotor ao acesso à informação. É preciso plantar a se- mente do Ensino Superior em nossos jovens, e ainda mais, é preciso desmistificar o acesso às universidades públicas de nosso país. Transtornos Alimentares Quando um programa de televisão decide abordar o problema dos transtornos alimentares, a reação da audi- ência geralmente é de choque. Muitos consideram a anore- xia, a bulimia e outros transtornos alimentares coisas horrí- veis e incompreensíveis; são pessoas que se sentem impac- tadas pela imagem de corpos extremamente magros e se sensibilizam com os relatos tristes das jovens que comem quantidades enormes de alimentos para depois forçarem vômitos. Pode ser difícil para essas mesmas pessoas, no en- tanto, identificar e eliminar os comportamentos que estimu- lam e naturalizam hábitos alimentares problemáticos. Há muitas formas de se manifestar: seja por comentários cen- surando a quantidade de comida que uma amiga está co- mendo, avaliações não solicitadas sobre a aparência física de outras mulheres ou pela utilização de termos depreciati- vos contra pessoasgordas. Até mesmo dietas irresponsá- veis, cheias de privações alimentares, podem ser problemá- ticas quando são repassadas como recurso para o emagre- cimento. O fato é que nossa cultura ensina o tempo inteiro que não comer é a melhor saída para se obter um corpo DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 59 OS: 0187/11/17-Gil magro e supostamente perfeito; e mesmo que muita gente consiga resistir essa pressão, há uma espécie de punição para quem não possui o corpo enquadrado nos padrões. Além dos deboches, é difícil encontrar roupas que caibam e há problemas de acessibilidade: os direitos de sentar em uma cadeira ou mesmo utilizar um cinto de segurança, por exemplo, são comprometidos pela lógica de que as pessoas não deveriam ser gordas. Com tanta hostilidade, sobretudo nas cobranças para que mulheres se encaixem nos ideais de beleza, é fácil entender por que tantas jovens perdem suas vidas presas na anorexia e na bulimia. De acordo com uma tese desenvolvida pela nutrici- onista Greisse Viero da Silva Leal, doutora em Ciências, área de concentração Nutrição em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), os índices de jovens vivendo com comportamentos de risco para transtornos alimentares é bastante preocupante. Em sua pesquisa, realizada com 1.167 adolescentes de escolas técnicas do Centro Paula Souza, na cidade de São Paulo, 12,2% dos jovens entrevistados tinha algum comportamen- to de risco, a maioria do gênero feminino. Práticas não sau- dáveis, como pular refeições, usar medicamentos ou fumar mais com o objetivo de perder peso eram utilizadas por 31,9% desses jovens. Com índices tão altos, a triste realidade dos trans- tornos alimentares pode estar muito mais perto do que aparenta; para quem se imagina distante da anorexia e da bulimia, há grandes chances de que pelo menos alguma pessoa próxima, seja uma amiga ou uma pessoa da família, viva um drama com a comida. A jornalista Marília Veloso conta que viveu ao longo de 17 anos com a bulimia, fantasi- ando que as pessoas lhe teriam mais apreço se fosse magra. “Fui uma criança e uma adolescente gorda, com uma família igualmente gorda. Porém, sempre fui muito cobrada para me encaixar nos padrões e, consequentemente, ser magra. Meu pai era o mais insistente e seus motivos variavam de ser feia por estar gorda a ‘nunca arrumar namorado’. Jun- tando isso com o fato de eu ter sido uma criança bastante ansiosa, quanto mais eu desejava emagrecer, mais eu co- mia”, introduz. Veloso diz que o primeiro vômito forçado veio por ter se sentindo culpada após comer muito. Para ela, a sen- sação de alívio é o que mais lhe salta à mente. “Nos últimos anos, quase não precisava me esforçar para vomitar. Era só ter comido e ir ao banheiro. Ao longo do tempo, passei a reconhecer quais comidas eram mais fáceis e quais as mais difíceis de expelir. Nunca havia me dado conta de como isso regia meus hábitos alimentares até passar uma sessão intei- ra de terapia elencando esse ‘conhecimento'”, compartilha. Com tanta hostilidade, sobretudo nas cobranças para que mulheres se encaixem nos ideais de beleza, é fácil entender por que tantas jovens perdem suas vidas presas na anorexia e na bulimia (Reprodução Facebook) A estudante Janaína Barros também iniciou seus comportamentos bulímicos porque se sentia pressionada a emagrecer. “Eu era uma garotinha magra, mas fui engor- dando na adolescência após ser estuprada por um namora- do que não admitia que eu não quisesse fazer sexo. Termi- nei o relacionamento, mas sofri muito com tudo e encontrei na comida o meu consolo. Só que esse ex-namorado estava sempre comentando com amigos em comum que era um alívio eu ter terminado, porque tinha ficado gorda e feia”, relata. “Meus parentes também me cobravam muito, como se eu ter engordado fosse a pior coisa que eu tinha feito contra mim mesma. Como eu precisava comer, por motivos óbvios, eu vi na internet que podia induzir o vômito”, afir- ma. Depois de poucos meses, a estudante já tinha per- dido mais de vinte quilos, mas nada era o suficiente para que ela deixasse de se enxergar com o mesmo corpo que tinha antes de emagrecer. “Eu olho no espelho e vejo um corpo gordo. Estou melhor nos últimos meses, principal- mente porque comecei a falar sobre meu problema com outras mulheres, mas não sei se um dia eu vou conseguir ter uma relação normal com a comida”, lamenta Barros. Para as mulheres que não encontram suporte e não têm acesso a informações que confrontam os transtornos alimentares, é realmente muito difícil conseguir vencê-los. A mídia, o entretenimento e até mesmo os profissionais da área da saúde vendem o tempo inteiro o corpo magro como o que é melhor, mais saudável e mais bonito. Numa sociedade gordofóbica como a nossa, o desa- fio é mostrar a essas mulheres que não tem nada de correto em forçar a magreza e os padrões de beleza. Mesmo para aquelas que são feministas, como é o caso de Marília Veloso e Janaína Barros, o percurso não é DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 60 OS: 0187/11/17-Gil simples. Embora saibam que os transtornos alimentares estão profundamente relacionados aos conceitos machistas e gordofóbicas da nossa cultura, todo avanço ainda é enca- rado com cautela. “Acho que a bulimia vai andar comigo para o resto da vida. Embora faça um ano, incríveis 12 me- ses, que eu não vomito, não há uma refeição que eu faça sem pensar no que eu estou comendo e de que forma isso vai me afetar. E isso muitas vezes é negativo, mas pode ser positivo também. São cada vez mais raros os ataques desen- freados; já sei reconhecer que a comida, independentemen- te da quantidade, não vai tapar nenhum buraco emocional”, afirma Veloso. “Ás vezes, eu tenho uma compulsão e até vou à pa- daria para comprar doces, com a intenção de comer tudo de uma vez. Mas muitas vezes, quando chego em casa, eu con- sigo me controlar e mesmo que eu coma tudo, não vou induzir o vômito. Penso que estou destruindo meu corpo, não tornando ele perfeito. Perfeito é o corpo saudável e a anorexia, a bulimia, não são sinais de saúde. Ser magra não é definitivamente um sinal de saúde”, explica Barros. Para essas duas mulheres, a psicoterapia e o co- nhecimento que adquiriram a respeito do feminismo foram fatores muito importantes na luta contra os transtornos alimentares. A compreensão do que está por trás dos pa- drões de beleza, dos mecanismos misóginos e racistas que pregam o que é a beleza, assim como dos abusos de quem cobra o emagrecimento, foram passos importantes para que elas pudessem assumir controle sobre seus corpos – não de uma forma prejudicial e punitiva, mas com maior aceitação e equilíbrio. “Estudar e entender sobre feminismo, estar em contato com esse universo e com mulheres conscientes de seu papel, o que é genuíno, o que é imposto, tem sido a grande virada”, diz Veloso. “Recentemente engordei quatro quilos. Não posso dizer que o ganho de peso não me afetou negativamente, mas hoje em dia tem uma fagulhinha lá dentro que me faz acreditar que nenhum número na balan- ça pode me fazer mais ou menos feliz, mais ou menos feia, mais ou menos aceita, digna, correta, interessante, me- lhor…. Pode parecer pouco, mas tem ajudado a redefinir a posição de protagonismo que tenho em minha própriavida. Sinto-me mais forte e acolhida por essas mulheres que eu nem conheço!”, exclama. Para que mais jovens consigam dar meia volta e afastar o sofrimento dos transtornos alimentares, precisa- mos, coletivamente e enquanto sociedade, repensar nossos valores e aquilo que ainda consideramos aceitável de ser ensinado e disseminado como verdadeiro. Tão importante quanto o acompanhamento de profissionais capacitados para lidar com a anorexia e a bulimia é a reflexão crítica e politizada a respeito do que é imposto contra as mulheres. Sem que o machismo seja genuinamente discutido, sem que a mídia seja cobrada pelas mentiras que propaga a respeito do corpo feminino, continuaremos fazendo mais vítimas. Para explicar melhor a gravidade do problema, pesquisadores dinamarqueses e britânicos indicam que a taxa de mortalidade de pessoas com transtornos alimenta- res é extremamente elevada – e não apenas por complica- ções de saúde resultantes das privações alimentares ou pelos ferimentos causados pelos vômitos constantes. Muitas dessas pessoas morrem porque recorrem ao suicídio. Mais de 44 anos de estudos científicos foram analisados pelos pesquisadores, que resultaram no artigo “Mortality Rates in Patients With Anorexia Nervosa and Other Eating Disorders: A Meta-analysis of 36 Studies” (“Taxa de mortalidade em pacientes com anorexia nervosa e outros transtornos ali- mentares: uma meta-análise de 36 estudos”). O artigo em inglês pode ser lido na íntegra e gratuitamente no arquivo do JAMA Network. “Me sinto agredida e prejudicada pelo que vejo nas revistas, na moda e na televisão. Através deles, meus famili- ares e amigos aprenderam que ser magra é bonito e ser gorda é feio. Lendo e assistindo essas porcarias, eu acreditei por muito tempo que só teria felicidade, sucesso e valor se eu fosse toda encaixadinha nesses conceitos de beleza, de magreza e saúde. Eles me adoeceram”, diz Barros com in- dignação. “Muita gente está envolvida no sofrimento de meninas anoréxicas e bulímicas como eu. Só que nem todas conseguem melhorar como eu melhorei. Quem mais conse- guirá enxergar que possui responsabilidade nisso?”, provo- ca. Família O conceito de família, ao ser abordado, evoca obri- gatoriamente, os conceitos de papéis e funções, como se têm vindo a verificar. Em todas as famílias, independente- mente da sociedade, cada membro ocupa determinada posição ou tem determinado estatuto, como por exemplo, marido, mulher, filho ou irmão, sendo orientados por pa- péis. As famílias como agregações sociais, ao longo dos tempos, assumem ou renunciam funções de proteção e socialização dos seus membros, como resposta às necessi- dades da sociedade pertencente. Nesta perspectiva, as funções da família regem-se por dois objetivos, sendo um de nível interno, como a pro- teção psicossocial dos membros, e o outro de nível externo, como a acomodação a uma cultura e sua transmissão. A família deve então, responder às mudanças externas e in- ternas de modo a atender às novas circunstâncias sem, no entanto, perder a continuidade, proporcional. A família tem também, um papel essencial para com a criança, que é o da afetividade. A sua importância é primordial, pois, considera o alimento afetivo tão impres- cindível, como os nutrientes orgânicos. Sem o afeto de um adulto, o ser humano enquanto criança não desenvolve a sua capacidade de confiar e de se relacionar com o outro. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 61 OS: 0187/11/17-Gil As famílias de camadas populares, que são organi- zadas em rede (participação de outros parentes e de pesso- as da comunidade no convívio e em prol da sobrevivência) e que têm como foco o sistema de obrigações, diferenciam-se das de camadas médias, que se organizam em núcleos cen- trados no parentesco. Esse conhecimento é relativamente difundido. Diante disso, uma das questões que se impõe é a de compreender como essa organização da família em rede poderia ser oficialmente assumida pelas instituições – sem necessariamente passar pela legalização do vínculo ou da responsabilidade, como é geralmente exigido pelo sistema judiciário – com vistas a contribuir para o fortalecimento de certas estratégias de sobrevivência dessa população e da própria prevalência da convivência familiar e comunitária. Nessa perspectiva, podemos entender que pais, sobretudo mães, criam vínculos mais estáveis com algumas pessoas de sua rede de relações primárias, com as quais estabelecem trocas recíprocas, para favorecer tanto o cui- dado e a proteção de seus filhos quanto à possibilidade de inserção social, aspectos classicamente assumidos como funções básicas da família. Contudo, para se pensar a influência das redes de relações primárias no processo de inclusão social ou de reenraizamento social (GUEIROS, 2007, p.47), se faz neces- sário examinar as particularidades de cada família em ter- mos de tempo e espaço sociais, principalmente no que se refere à sua configuração e organização, ao seu percurso transgeracional e à sua localização territorial. Escola e Família: A participação dos pais no processo ensi- no-apredizagem No intuito de dar contribuições acerca da relação escola/família é pautada esta pesquisa o qual possibilitará uma análise mais profunda do tema proposto. A mesma deverá ser analisada do ponto de vista cultural, isso quer dizer que devemos observar as diversas visões de família existente em nosso contexto, tanto no que se refere aos valores, quanto à realidade socioeconômica. Optou-se por observar a influenciada família no processo ensino-aprendizagem. Assim, nesse estudo, pre- tende-se analisar a família perante a escola e a necessidade de uma integração, pois se supõe que a questão familiar pode ser um dos fatores que influenciam desenvolvimento escolar de um aluno. Deste modo a pesquisa assume um caráter analíti- co, tendo como base a pesquisa bibliográfica com base em autores consagrados, no intuito de dar somatória e veraci- dade ao trabalho apresentado, bem como é uma pesquisa de cunho teórico, qualitativo, a qual foi feita uma observa- ção em sala de aula a fim de dar contribuições a um dos temas abordados. Com esta pesquisa buscou-se compreender a rela- ção escola-família e as suas particularidades em prol de um bom relacionamento em benefício ao educando, pois os estudos comprovam que esta relação é benéfica a toda comunidade escolar. O 1º capítulo traz uma questão bastante discutida no que se diz respeito à verdadeira função da escola e a construção do ser social, bem como retrata o cotidiano da escola e qual a importância da família dentro deste contex- to, e uma observação de um cotidiano vivenciado em uma escola. Já o 2º capítulo retrata a família como 1º grupo so- cial a que a criança pertence, aqui é abordado à importância da família em todas as esferas de vida do ser humano, bem como a importância desta no meio escolar, as suas contri- buições para o desenvolvimento do educando e a integra- ção família- escola. Escola e família tem um papel a cumprir no desenvolvimento do educando, cabe a cada uma dessas esferas fazê-lo da melhor forma possível, não sobrecarre- gando uma ou outra com problemas de ordem que não lhe seja específica, deste modo é oportuno formar uma parceria para que juntas possam sanar os problemas com união, pois ambas devem ser agentes facilitadoras no processo ensino- aprendizagem ,este é o tema abordado no 3º capítulo. A escola e a família são instituições que como ad- vento da modernidade surgem destinado ao cuidado e edu- caçãode crianças e jovens. Enfocar neste contexto a ques- tão dos pais na mediação da aprendizagem de seus filhos é procurar trabalhá-los para este fim, fazendo-os com que percebam a importância da família junto à escola, fazendo- os perceber que a sua contribuição afetará de forma positi- va no desenvolvimento do seu filho. A educação familiar é um fator bastante importante na formação da personalida- de do indivíduo, ressaltando a importância de refletir o quanto a educação e os costumes transmitidos pela família, influenciam a conduta e o comportamento apresentado pelo indivíduo em qualquer local. Deste modo é oportuno fazer as atribuições pertinentes à família para que a mesma não tente transferir a sua responsabilidade para a escola. Escola e família devem andar juntas em prol do de- senvolvimento cognitivo, afetivo e pessoal do individuo, bem como agregando valores para uma boa convivência do mesmo na sociedade. Família e escola são referenciais decisivos para a constituição humana. É, portanto, possível, e altamente desejável, que caminhem juntas, sem com isso perder sua identidade e características próprias; sem que se desviem da direção e dos objetivos específicos, progredindo na consoli- dação dos objetivos comuns: a formação do "ser", do cida- dão ético e crítico, que se assuma como sujeito de sua pró- pria existência, e possa exercer sua cidadania e uma ação transformadora no mundo. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 62 OS: 0187/11/17-Gil A Escola E O Seu Papel Na Formação Do Ser Social A educação se faz presente em diferentes institui- ções, sendo a escola a instituição especifica do saber siste- matizado, cada sociedade se estrutura com objetivos especí- ficos na formação dos indivíduos; A escola contribui para a continuidade da educação iniciada no lar e a função dela, muito mais do quer repassar conteúdos, é fornecer aos alunos condições de adaptações a sociedade em que vive. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN'S) de 1996 apon- tam em diversas publicações mundiais, que o ensino formal deve desenvolver os estudantes de forma plena. A missão de cada escola, gestor, pais e professores é promover o pleno desenvolvimento do educando, na con- vivência humana, no trabalho, nas instituições e organiza- ções sociais a que ele pertença e na sociedade. Segundo a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) "pleno desenvolvimento'' significa cuidar não apenas da tarefa de ensinar, mas cuidar das várias esferas da vida do indivíduo para que este se desenvolva por completo. A educação neste contexto não pode servir unicamente para desenvolver inteligência e habilidade, mas deve contribuir para ampliar as perspectivas do homem e torná-lo útil a sociedade. Deste modo "a prática escolar, tem atrás de si con- dicionantes sociopolíticos que configuram diferentes con- cepções de homem e sociedade e, consequentemente dife- rentes pressupostos acerca do papel da escola "[...] (LIBÂ- NEO, 1996:19) A relação escola sociedade deve ser analisa- da de modo critico para que se evidenciem os mecanismos determinantes da prática educativa. Nesse contexto é necessário que se atente para po- líticas educacionais que dê de fato ao individuo equidade e condições de crescer junto à sociedade. A escola deve dar condições preparando o individuo na construção solida da sua identidade, inserindo valores e pressupostos que possa fazer com que o mesmo conviva em sociedade e na socie- dade com autonomia, solidariedade, capacidade de trans- formação e ética. Segundo Guiomar Namo de Melo (1987:22) "A es- colarização básica constitui instrumento indispensável á construção da sociedade democrática, porque tem como função a socialização daquela parcela do saber sistematiza- do que constitui o indispensável à formação e ao exercício da cidadania ''[...] Porém, a escola pública passa por vários problemas dentro de seu contexto, com isso uma educação interessada na transformação da sociedade fica longe dos objetivos mais urgentes no contexto atual. Ainda segundo Guiomar Namo de Melo (1987:22), "A escola é medicadora entre a condição concreta de vida da clientela que nela ingressa e a destinação social dessa clientela." Deste modo é oportuno salientar que a escola na sua práxis educativa deve dar os subsídios concretos para que a sua clientela seja capaz de trilhar o caminho de uma sociedade com objetivos que busquem o sucesso pessoal e profissional. O envolvimento das famílias na escola ajuda para uma educação de sucesso, desta forma aprende-se a aprender, mas, para aprender o individuo deverá ser esti- mulado por um meio favorável, sendo a família um meio de comportamento ao qual exteriorizam na sala de aula. No entanto educar apresenta em suas ações famili- ares e educativas, e dentro de teorias consideradas ideais, uma complexa tarefa a ser desempenhada. "Escola e família têm os mesmos objetivos: fazer as crianças se desenvolve- rem em todos os aspectos e ter sucesso na aprendizagem. As instituições que conseguiram transformar os pais ou responsáveis em parceiros diminuíram os índices de evasão e violência e melhoram o rendimento das turmas e forma significativa" (Gentile,2006,p.33). "Família e escola são pon- tos de apoio e sustentação ao ser humano; Quanto melhor for a parceria entre ambas, mais positivas e significativas serão os resultados na formação do indivíduo" (SANTOS 2009). A escola é um complemento da família, devendo haver uma junção positiva em prol do bom desempenho e desenvolvimento da criança, cada uma com o seu papel em função de um único objetivo, com isto cada instituição esco- la/família deve desempenhar o seu papel da melhor forma possível, em prol de melhorias concretas na educação do indivíduo. É importante citar Içami Tiba (1996, p.140) que diz: "O ambiente escolar deve ser de uma instituição que complemente o ambiente familiar do educando, os quais devem ser agradáveis e geradores de afetos. Os pais e a escola devem ter princípios muito próximos para o benefício do filho/aluno". No Parágrafo único do Capítulo IV do Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), diz que "é direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógi- co, bem como participar da definição das propostas educa- cionais", ou seja, trazer as famílias para o convívio escolar já está prescrito no Estatuto da Criança e do Adolescente o que esta faltando é concretizá-lo, é pôr a Lei em prática. A relação família X escola requer, então, dos professores uma tomada de consciência de que, as reuniões baseadas em temas teóricos para falar dos problemas dos educandos, sobre notas baixas, não proporciona um início de parceria. A escola deve buscar construir por meio de uma in- tervenção elaborada e consciente a criação de espaços de reflexão e experiências de vida numa comunidade educati- va, instituindo acima de tudo a aproximação entre as duas instituições (família-escola). Cabe, porém aos educadores serem os pioneiros na elaboração e uma conscientização em prol da união positiva entre escola e família, abordando temas que façam com que os pais mostrem o grau de parti- cipação na vida escolar de seu filho, bem como os fazendo perceber que a sua colaboração será de grande valia no processo de aprendizagem. Com tantos deveres a cumprir, muitas vezes sozinha, a escola se ver perdida, desnorteada, sem saber o que fazer para que seus alunos dentro e fora do espaço físico mostrem-se capazes de atuar de forma res- ponsável e coerente com uma determinada situação. O que DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo– Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 63 OS: 0187/11/17-Gil se percebe é que sozinha a escola tem falhado, por isso a importância urgente de parceria, da união entre essas duas instituições imprescindíveis na vida de qualquer ser huma- no. A Escola e o seu Cotidiano Investigar o cotidiano escolar é ter o conhecimento que a educação produz o saber de compreender e transfor- mar a realidade. O cotidiano se refere ao conjunto de ativi- dades que são desenvolvidas no dia-a-dia. Heller (1992, p.17) coloca que: A vida cotidiana é a vida do homem intei- ro, ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-se 'em funcionamento' todos os sen- tidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilida- des manipulativas, seus sentimentos, paixões, ideias, ideo- logias. É neste cotidiano vivido pelo homem que as relações sociais vão formando-se, vão sendo concebidas e outras vão sendo vivenciadas. A escola traz, no seu contexto cotidiano, diferentes aspectos a ser observado, o comportamento dos alunos, a interação professor/aluno/pais, o relacionamento entre si dos alunos e destes com o corpo que compõe a escola, refletir acerca deste cotidiano é procurar soluções para problemas enfrentados na escola. Passos (1996, p12) [...] acredita que estudar a esco- la através da análise do seu cotidiano é compreender a ação dos sujeitos que nela se inserem, entendendo a macro- social. É importante lançar um olhar sobre a escola para realidade específica de cada escola, suas articulações com a realidade compreender a lógica reprodutivista de seu funci- onamento priorizando os processos de construção da escola a partir das divisões e dicotomias assim como as relações professores/alunos, professores/pais, disciplina/indisciplina. Sendo assim é importante ressaltar que o cotidiano escolar é complexo, tendo em vista vários obstáculos encontrados neste âmbito. O conhecimento do cotidiano também tem favore- cido a compreensão das ações dos sujeitos no âmbito esco- lar. Sônia Penin, Agnes Heller, Berger e Luckmann aprofun- dam seus estudos na análise da vida cotidiana, mostrando a importância de compreendê-la para poder transformá-la. Segundo os mesmos, o cotidiano dá-se nas relações do vivi- do e não do concebido. É nas relações do vivido que se dá o saber, que se constitui o conhecimento. Berger e Luckmann (1991) enfatizam que a realidade da vida cotidiana é parti- lhada com outros. Este vivido se dá nas interações que se partilha no "aqui e agora" com os outros. O mundo da vida cotidiana é um mundo elaborado no pensamento e nas ações do homem, repleto de subjetividade. Os autores con- sideram que o mundo da vida cotidiana é um mundo carre- gado de sentido subjetivo, onde o pensamento e as ações lhe dão sentido. Segundo Penin (1995) para compreender as relações sociais que permeiam a escola é necessário conhe- cer o vivido na vida cotidiana da escola, procurando vislum- brar tanto as condições objetivas do vivido quanto as repre- sentações dos profissionais que ali vivem. É necessário co- nhecer o sentido das representações desses indivíduos (pensamentos, reflexões, discursos), das suas práticas soci- ais. É no cotidiano que as práticas vão ser vividas, e através delas é que vamos observar o papel e o sentido atribuído a cada uma. O cotidiano, apesar de programado, é também princípio de mudanças sociais. Assim sendo, Heller (1989) coloca que: A vida coti- diana é a vida do homem inteiro, ou seja, o homem partici- pa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua indivi- dualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-se 'em fun- cionamento' todos os sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimen- tos, paixões, idéias, ideologias. (p. 17). É nesse cotidiano vivido pelo homem que as relações sociais vão formando-se, vão sendo concebidas e outras vão sendo vivenciadas. A expressão "conhece-te a ti mesmo", de Sócrates, é conside- rada por ele o começo para que o homem elabore sua auto- crítica. A busca de uma análise crítica da vida cotidiana re- quer conhecer-se a si mesmo, para poder transformar o vivido na cotidianidade. Família 1º Grupo Social Ao longo da historiografia da humanidade são en- contrados diversos tipos de características de família, que estão relacionadas à formação sócio-político cultural e eco- nômica de uma determinada época, a definição de família não é clara, pois seu significado pode extrapolar as simples convenções. Família, no sentido mais amplo é o conjunto de pessoas que se unem pelo desejo de estarem juntas, de construírem algo e de se completarem, pois é onde têm seus primeiros contatos com o mundo externo, com a lin- guagem, com a aprendizagem e aprendem os primeiros valores e hábitos. Os membros familiares constituem-se as pessoas mais importantes da vida do indivíduo, justamente no período infantil em que estabelecem os fundamentos da personalidade que é o autoconhecimento. Antunes (1996: p, 23), ao discutir o quadro de funcionamento da personalida- de ressalta dois conjuntos principais de influências: O pri- meiro refere-se à presença ou ausência de uma figura de confiança capaz de fornecer o tipo de "base segura" neces- sária em cada fase do desenvolvimento. A segunda refere-se à capacidade do indivíduo para reconhecer a "base segura" que é a pessoa em que se confia também chamada por Antunes de figura de ligação. Tam- bém para Barajas (1990: p, 45) "A família é o primeiro e principal contexto de socialização do sujeito, com importan- tes funções educativas no mais amplo sentido deste termo, já que esta cumpre um papel centralizador de importantes fatores que influem no desenvolvimento social do sujeito". Assim acredita-se que é impossível pensar em qualquer forma de organização social quando a mesma é carente de estrutura familiar. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 64 OS: 0187/11/17-Gil A família é a ponte que liga o indivíduo à sociedade. É a base que estabelece o alicerce do ser humano, às condu- tas e valores. O grupo familiar é o núcleo e o ponto de par- tida da interiorização do conceito grupal, e as distorções no sistema "família" interferem nas demais atividades grupais das quais o indivíduo participa. Deste modo: "A família é normalmente o primeiro grupo social a que pertence o ser humano, e entre as instituições sociais é aquela pela qual se realizam contatos mais íntimos, já que grande parte da vida e os acontecimentos importantes em geral são vividos na família. Pelas funções que desempenha, ela é considerada instituição fundamental na sociedade" (HITO 2004: p, 23). É na família que o indivíduo começa a se preparar para a vida e aprende as primeiras noções de mundo. Co- meça a entender as diferenças entre as pessoas e a respeitá- las. Eis uma contribuição nesse sentido: "A família proporci- ona ao indivíduo sua primeira experiência de viver e traba- lhar com outras pessoas em uma comunidade. Mesmo den- tro da família, existem inúmeras diferenças individuais. O que agrada a uma pessoa pode incomodar a outra. Desen- volver o respeito mútuo e aprender a aceitar, até mesmo a apreciar, nossas diferenças leva um bocado de tempo e requer muita paciência. Ao aceitarmos essas diferenças, porém, e a render e funcionar como um grupo descobrimos o lado prazeroso de fazerparte de uma família (NOLTE e HARRIS, 2003: p, 87/88). Assim, as experiências e sentimen- tos brotados no decorrer do relacionamento cotidiano fami- liar, são de grande influência no comportamento do indiví- duo, podendo orientá-lo quando se tornar aluno e assim funcionar como base futura para a interação com compa- nheiros escolares. Contudo a família se revela não somente como fator indispensável na estabilidade emocional da criança como também na sua educação, com isso o sucesso da vida escolar dependerá da colaboração familiar ativa. O meio familiar exerce uma das mais importantes influências no desenvolvimento das capacidades cognitivas e na estruturação das características afectivas dos filhos. No entanto, a educação familiar não deve entoar só os efeitos do desenvolvimento dos filhos. A família deve ser conside- rada um ecossistema da educação. A família é a instituição mais privilegiada da educação, pois é no seu meio natural que o homem nasce e existe e onde se desperta como pes- soa. Exerce enorme influência quer na integração escolar quer no desenvolvimento dos filhos. De acordo com Kaloustian (1988, p. 22) a família é: [...] é o lugar indispensável para a garantia da sobrevivência e da proteção integral dos filhos e demais membros, inde- pendentemente do arranjo familiar ou da forma como veem se estruturando. É na família que propicia os aportes afeti- vos e, sobretudo materiais necessários ao desenvolvimento e bem-estar dos seus componentes. Ela desempenha um papel decisivo na educação formal e informal, é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e humanitários, e onde se aprofundam os laços de solidariedade. É também em seu interior que se constroem as marcas entre as gera- ções e são observados valores culturais. A família constitui a base da sociedade contemporânea, funcionando como uni- dade em que todo indivíduo deve estar inserido para forma- ção de seu caráter e construção do seu eu social. A família adquire importância na vida do indivíduo a partir de seu nascimento em virtude de seu dever de guarda, criação e educação da criança. Posteriormente tem-se uma fase de desenvolvimento, onde se prepara para a vida em sociedade estabelecendo relações de afetividade e trabalho. Conclui-se, portanto que a família tem sim uma função dentro da sociedade e esta é a de formar cidadãos conscientes e aptos para a convivência social, independente de que âmbito em que esteja inserido, se profissional, se na escola, se entre amigos. A Importância Da Família No Processo Ensino- Aprendiza- gem Nos dias atuais a família pouco tem contribuído pa- ra a aprendizagem dos seus filhos, e tão pouco dá importân- cia ao andamento dos estudos transmitidos na escola dei- xando muitas vezes de fazerem parte de um contexto muito importante na vida dos mesmos. A importância da partici- pação dos pais na vida escolar dos filhos tem apresentado um papel importante no desempenho escolar. O acompa- nhamento e a relação desenvolvida em família são indispen- sáveis para que o aluno se insira no ambiente escolar sem maiores problemas. Ensinar os filhos para serem vencedores, superar desafios com coragem e garra, não para serem melhores do que os outros, mas para que saibam usar da melhor maneira possível os seus próprios potenciais e habilidades, mesmo com todos os desafios. O papel dos pais na educação de seus filhos é fundamental para que os mesmos possam ter resultados positivos, bem como perceberem que são capa- zes de realizar suas tarefas, serem competentes e autôno- mos. Abordando os aspectos pedagógicos da família, Nogueira (1998) explica que a participação dos pais na vida escolar dos seus filhos, pode influenciar, de modo efectivo, o desenvolvimento escolar dos filhos. Não cabe somente a escola o papel de transmitir conhecimento, a criança apren- de de diferentes formas e os ensinamentos trazidos de casa são um tesouro que deve ser valorizado. Independentemen- te de como a família é constituída, esta é uma instituição fundamental da sociedade, pois é nela que se espera que ocorra o processo de socialização primária, onde ocorrerá a formação de valores [...] (Valadão Santos, 1997, p.22). Assim a família se revela não somente como fator indispensável na estabilidade emocional da criança como também na sua educação, com isso, o sucesso da tarefa escolar depende da colaboração familiar ativa, motivar os filhos para progredirem nos estudos deve ser primordial na convivência familiar, os pais precisam ter a consciência do seu papel no desenvolvimento escolar do seu filho. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 65 OS: 0187/11/17-Gil Para isto é fundamental que os pais sintam a escola como um ambiente seguro e acolhedor e, ao mesmo tempo, é necessário a participação e o acompanhamento por parte dos progenitores ou responsáveis na vida das crianças. O acompanhamento familiar pode evitar uma possível repro- vação e possibilitará o verdadeiro aprendizado do educan- do. Tiba (2002, p.181), afirma que "se os pais acompa- nharem o rendimento escolar do filho desde o começo do ano poderá identificar precocemente essas tendências e, com o apoio dos professores, reativar seu interesse por determinada disciplina em que vai mal". As crianças estão ingressando cada vez mais cedo nas escolas e passam uma grande parte do tempo no ambiente escolar. A iniciação escolar é um momento muito importante na vida da criança. É um momento de aprendizado e também as crianças am- pliam suas relações sociais. O ingresso na instituição de educação infantil pode alargar o universo das crianças, em vista da possibilidade de conviverem com outras crianças e com adultos de origens e hábitos culturais diversos, de aprender novas brincadeiras, de adquirir conhecimentos sobre realidades distantes. (RCNEI, 1998, vl.2,p.13) A família e a escola têm um papel fundamental pa- ra a formação da criança, sabemos que muito tem sido transferido da família para a escola, funções que eram das famílias: educação sexual, definição política, formação reli- giosa, caráter, dança, entre outros. Com isso a escola vai abandonando seu foco, e as famílias perdem a função. Além disso, a escola não deve ser só um lugar de aprendizagem, mas também um campo de ação no qual haverá continuida- de da vida afetiva. A cada uma, família e escola cabem cum- prir a parte que lhe compete, mesmo que possa haver al- gumas áreas de confluência e superposições, pois para a escola, seus alunos são transeuntes curriculares; para os pais seus filhos são para sempre. Tiba (2006, p.188). Apesar de a família ser aponta- da como uma das variáveis responsáveis pelo fracasso esco- lar do aluno (Carvalho, 200), a sua contribuição para o de- senvolvimento e aprendizagem humana é inegável. Neste contexto, os recursos psicológicos, sociais, econômicos e culturais dos pais são aspectos essenciais para a promoção do desenvolvimento humano. É cada vez mais importante sensibilizar os pais para participarem ativamente na vida escolar dos seus educandos. A escola faz parte do quotidia- no do aluno e os pais devem estar envolvidos em todo o processo de aprendizagem. Sendo assim, é importante res- saltar que, a escola tem como função estimular a construção do conhecimento nas áreas do saber, consideradas funda- mentais para o processo de formação de seus alunos. Essa é uma missão específica da escola, portanto, nenhuma família tem a obrigação de ministrar ou transmitir informações específicas ou científicas. Por outro lado, não cabe ao profissional da educa- ção assumir responsabilidadesinerentes à família do aluno. Porém, deve despertar tratamentos respeitosos, confiantes e afetuosos, como profissional e membro da sociedade que é, mas não como um membro da família. A família deve acolher a criança, oferecendo-lhe um ambiente estável e amoroso. Muitas, infelizmente, não conseguem manter um relacionamento harmonioso. Para algumas pessoas, é bas- tante difícil, seja por questões econômicas ou sociais. Ao observar este universo, as escolas podem criar um ambiente familiar diferente, "ajudando-as a caminhar para fora de um ambiente familiar adverso e criando uma rede de relações, fora das famílias de origem, que lhes possibilite uma vida digna, com relações humanas estáveis e amorosas" (SZY- MANSKI, 2003, pp.62-63). A participação da família no processo educacional tem sido intensamente explorada por estudiosos nas últi- mas décadas. Muitos desses estudos tinham por principal finalidade apontar os benefícios da integração família e escola e esclarecer como pode ocorrer a participação dos pais neste contexto. Pesquisas no campo da educação têm demonstrado os benefícios da integração família com a escola no acompanhamento dos filhos no processo de aprendizagem. Segundo esses estudos alguns pesquisadores mos- tram a importância do envolvimento parental para a realiza- ção escolar em que pais participam das atividades associa- das à vida escolar do filho, tais como: acompanhar tarefas e trabalhos escolares, ver caderno com as lições da escola, verificar se o filho fez as tarefas, estabelecer horário de estudo, informar- se sobre matérias e provas, entre outras. Apesar do conhecimento disponível sobre a impor- tância e as características do envolvimento parental para o melhor rendimento escolar, pouca aplicação deste pode ser observada na prática presente tanto em situações escolares quanto domésticas, em relação à promoção de aprendiza- gem. "Ao considerar a aprendizagem como profundamente social, afirma que quando os pais ajudam e orientam a cri- ança desde o início de sua vida, dão a ela uma atenção soci- al mediada, e assim desenvolvem um tipo de atenção volun- tária e mais independente, que ela utilizará na classificação e organização de seu ambiente." VIGOTSKY (1988 p. 97-101) Ao lado da família, a escola permanece sendo um espaço de formação embora bem delimitado as diferenças entre família e escola. Saber participar da vida dos filhos na medida certa, incentivando, elogiando, conduzindo-os para que administrem da melhor forma possível os estudos e a vida pessoal é uma forma de amor, carinho. É preciso criar estratégias de aproximação entre família-escola, para que juntas busquem a formação integral da criança, contribuin- do para o seu desenvolvimento social, cognitivo e também seu aprendizado escolar. Segundo Nogueira: A presença dos pais no recinto escolar e sua maior participação em determinadas ativida- des tornam-se mais comuns. Os contatos formais e infor- mais se multiplicam e se diversificam. No cotidiano, os ca- nais de comunicação parecem ampliar para além da tradici- onal participação nas associações de pais e mestres e da DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 66 OS: 0187/11/17-Gil presença em reuniões oficiais com professores. Hoje há palestras, cursos, jornadas e festas da família, a agenda escolar do aluno, os bilhetes, os contatos telefônicos, as conversas na entrada e na saída das aulas. (NOGUEIRA, 2006, p.11). Pais e mães podem participar de várias formas no ambiente escolar e na própria educação dos filhos, basta que a escola ofereça opções e dedique um tempo para que isso aconteça. Claro que essa não é uma tarefa fácil, uma vez que os professores estão envolvidos emocionalmente com seus alunos e famílias. Famílias e escola têm a respon- sabilidade de educar as crianças, para isso precisam estabe- lecer uma relação de parceria, aumentando as possibilida- des de compartilhar critérios educativos que possam mini- mizar as possíveis diferenças entre os dois ambientes, escola e família. Não há dúvidas que o ambiente escolar e a família compõem o meio social no qual o aluno está inserido. Eles dois mais o local em que localiza sua residência ou sua esco- la, bem como os laços sociais e econômicos compõem o meio social com forte interferência no aprendizado e na motivação para aprendê-lo. Buscar meios para que a família possa criar o hábito de participar da vida escolar dos seus filhos, percebendo o quanto a família é importante no pro- cesso Ensino Aprendizagem do aluno, através de ações pre- vistas no Projeto Político Pedagógico, propor alteração no Projeto Político Pedagógico com o intuito de melhorar o processo ensino aprendizagem, despertar as famílias, fazen- do com que possam perceber a importância da participação nas atividades escolares dos filhos, promoverem atividades que permitam o envolvimento das famílias, criarem mo- mentos de integração entre pais, alunos e comunidade es- colar, mostrando-lhes o quanto eles são importantes na vida escolar de seus filhos. Escola E Família: Juntas Em Prol Do Desenvolvimento Pleno Do Educando Tanto a família quanto a escola têm o objetivo de educar crianças e adolescentes, por, isso, parece evidente que ambas devam manter uma relação de proximidade e cooperação, porém, o que parece tão óbvio não ocorre de fato. A sintonia entre escola e família torna-se um elemento facilitador para que a vida escolar seja vivenciada com maior tranquilidade, deste modo, os pais podem transmitir segu- rança a seus filhos e, consequentemente, facilitar o proces- so de adaptação. O que se tem observado, por um lado, é que a escola reclama a ausência da família no acompanha- mento do desempenho escolar da criança, da falta de pulso dos pais para colocar limites aos filhos e da dificuldade que muitos deles encontram em transmitir valores éticos e mo- rais considerados importantes para a convivência em socie- dade. O que na verdade falta é uma maior integração e comunicação entre escola e a família para o preparo e o acompanhamento do que é passado para o aluno na sua vida escolar. Ao mesmo tempo em que se é aluno se é filho e vice-versa, o que faz com que família e escola estejam interligadas; entretanto, é importante que se perceba quais são as funções e as responsabilidades de uma e de outra, para que as duas não fiquem em um "jogo de empurra", onde o aluno acaba ficando no meio, quando na realidade, ele é o personagem de importância indiscutível para ambas, mas suas necessidades ainda continuam à espera de um olhar mais apurado. O que ocorre é que se torna difícil caracterizar os papeis dessas instituições. As funções da família e da escola encontram-se muito difusas numa sociedade tão complexa como a atual. Há uma confusão de papeis, sendo que tanto os pais quanto os professores sentem dificuldades em defi- nir suas funções. (Valadão; Santos, 1997, p. 47). É imprescindível que família e escola atuem juntas como agentes facilitadores do desenvolvimento pleno do educando, pois é através da educação que vão se constituir em agentes institucionais capazes de exercer seu papel para a mudança da estrutura social. Para termos bons resultados nessa integração, são necessários que a família conheça bem a missão da escola, a proposta pedagógica e tenha os mesmos princípios e critérios, bem como a mesma direção em relação aos objetivos que possam atingir. A sintonia entre escola e família torna-se um ele- mento facilitador para que a vida escolar seja vivenciada com maior tranquilidade, deste modo, os pais podem transmitirsegurança a seus filhos e, consequentemente, facilitar o processo de adaptação. A família, por sua vez, também é responsável pela aprendizagem da criança, já que os pais são os primeiros ensinantes e as "atitudes destes frente às emergências de autoria do aprendente, se repeti- das constantemente, irão determinar a modalidade de aprendizagem dos filhos" (FERNÁNDEZ, 2001). Quando se fala em "famílias possibilitadoras de aprendizagem" tem-se uma tendência a excluir as famílias de classes baixas já que estas não podem fornecer uma qualidade de vida satisfatória, uma alimentação adequada acesso a diversas formas de cultura (cinema, teatro, cursos, computador, etc). Entretanto é possível a existência de facilitadores de autoria de pensamento mesmo convivendo com carências econômicas. Em seu livro, "O saber em jogo", Alicia Fernández cita uma pesquisa com famílias de classe baixa facilitadoras da aprendizagem. O que caracteriza estas famílias é a cria- ção de um espaço favorável para que cada membro possa escolher e responsabilizar-se pelo escolhido, propiciando um espaço para a autoria de pensamento. O perguntar é possível e favorecido, há facilidade de aceitar as diferentes opiniões e ideias. Condições estas que não são comuns em famílias produtoras de problemas de aprendizagem. A esco- la e a família compartilham funções sociais, políticas e edu- cacionais na medida em que contribuem e influenciam na formação do indivíduo. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 67 OS: 0187/11/17-Gil Neste sentido escola e família emergem como duas instituições fundamentais para desencadear os processos formativos do ser humano, indispensáveis para uma conso- lidação do sucesso em todas as etapas da vida. A união famí- lia-escola gera benefício em relação não só ao processo ensino/ aprendizagem, mas também na troca de informa- ções acerca da criança, no desenvolvimento da criança na escola e em casa. Ou seja, essa inter-relação possibilita compreender atuação da criança tanto em casa como na escola, suas condutas e as relações que estabelece com os adultos no seio familiar. (ANDRADE, 2008). Assim tanto escola quanto família pode compreen- der e analisar os comportamentos apresentados tanto em casa como na escola, essa união será benéfica uma vez que os participes da jornada de vida da criança tira proveitos e conseguem diagnosticar problemas que podem surgir nos dois âmbitos escolar/familiar e com isso traçar soluções para que todos saiam ganhando. A Relação Familia-Escola No Decorrer Dos Tempos As sociedades que deram origem à constituição da família nuclear (composta de pais, mães e filhos) sofreram inúmeras transformações no decorrer do tempo. Ariés (1978, p. 273) aponta que no período da Idade Média não havia intimidade familiar, a vida no passado, até o século 17, era vivida em público, "[...] as pessoas viviam misturadas umas com as outras, senhores e criados, crianças e adultos, em casas permanentemente abertas às indiscrições dos visitantes [...]." O autor esclarece, ainda, que as crianças, aproxi- madamente, aos sete anos de idade, eram mergulhadas na sociedade e ingressavam na grande comunidade dos ho- mens, sua educação era garantida pela aprendizagem junto aos adultos e ministrada por uma outra família; "não havia lugar para a escola nessa transmissão através da aprendiza- gem direta de uma geração a outra" (p. 229), e o ensino era voltado para a experiência prática. De acordo com Ariés (1978, p. 225), com o passar do tempo "[...] a família transformou-se profundamente na medida em que modificou suas relações internas com as crianças" e começou a estabelecer um laço de intimidade com os filhos, a se preocupar com sua educação e a cultivar um sentimento de afeto para com eles. Conforme o autor, a partir da segunda metade do século 17, período em que marca o início da Idade Moderna, a aprendizagem tradicio- nal é substituída pela escola. Nas últimas décadas, na Idade Contemporânea, houve grandes alterações na separação de papéis entre o homem e a mulher, e a clássica divisão de tarefas pai/provedor e mãe/rainha do lar foi modificada. Montan- don afirma que até o início do século passado as autorida- des não estavam muito preocupadas com as opiniões das famílias, não existindo relações mais estreitas entre estas e a escola (1987, p.24). Mais até do que isso, para Cunha (2000) em sua análise a situação brasileira, existia um verdadeiro discurso contra as famílias. De acordo com o ideal dos princípios normativos da ciência médica do séc. XIX, a família era "ca- racterizada em permanente estado de mau funcionamento, era dada como incompetente, incapaz, sem qualidades para educar as crianças" (ibid, p.452). Estudos têm mostrado que nas primeiras décadas do século XX, havia um afastamento da família da escola, embora seja fundamental a participação das famílias na educação dos filhos, estas demonstravam, naquele momen- to, um profundo desinteresse e despreparo para lidar com o assunto. No entanto buscava-se projetar e desenvolver ações que visavam reaproximar a família da escola, essas ações mostram uma intenção colonizadora da escola em relação à família. Alguns pais se afastavam da escola por pensarem que não serão ouvidos, respeitados, ou mesmo, que a sua participação não fará diferença alguma. Por volta da década de 30 o discurso se modifica e considera-se necessária a aproximação da família. Contudo, esta aproximação deverá ser feita de forma que os profissi- onais instruam as famílias em como proceder com seus filhos. Montandon (1987) periodizou o discurso científico sobre a aproximação entre família e escola no decorrer das últimas décadas da seguinte forma: nos anos 60, preconiza- va-se um encorajamento dos pais aos aprendizados escola- res de seus filhos; já nos anos 70 falava-se vagamente em uma complementaridade recíproca entre a família e a esco- la, e nos anos 80 recomendava-se aos professores estabele- cerem uma forte colaboração com as famílias, a fim de compreenderem melhor o contexto onde estas estão inseri- das, estimulando o envolvimento dos pais na escola e nas atividades escolares de seus filhos. Essas mudanças no dis- curso fazem parte da busca em compreender o desempe- nho escolar a partir da observação da influência familiar sobre as trajetórias escolares das crianças. Na década de 90, temos a aprovação de leis nacio- nais e elaboração de diretrizes do ministério da Educação, cujos conteúdos evidenciam a importância da participação da família na escola e o significado de participação. Assim é oportuno afirmar que as famílias não po- dem ser consideradas como um bloco único na questão do envolvimento familiar com a escola. Tudo isso significa, por um lado, que as famílias estão desejosas de participar do processo escolar dos filhos, e que começam a enxergar essa participação como um direito democrático. Por outro lado, significa também que a contraparti- da do Estado vem se dando no sentido de incentivar essa participação e de criar mecanismos para que ela se concreti- ze. Ao que parece, a razão principal da intervenção es- tatal se associa a uma estratégia de promoção do sucesso escolar, uma vez que algumas pesquisas têm demonstrado a DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 68 OS: 0187/11/17-Gil influência positiva,sobre o desempenho acadêmico, do envolvimento parental na escolaridade dos filhos, o que contribuiria, a termo, para a redução das taxas de evasão e de repetência. Uma das principais causas diagnosticadas da fragilidade da interação das famílias com as escolas é que a maioria dos usuários do ensino público não tem a cultura de exigir educação de qualidade para seus filhos. Iniciar um movimento da escola em direção às fa- mílias está no escopo da responsabilidade legalmente atri- buída aos sistemas de ensino, mas o conhecimento gerado nesta aproximação e sua utilização no planejamento peda- gógico têm sido pouco enfatizados. Por isso, das várias fun- ções que a interação escola-família pode informar os pais, orientá-los para se envolverem na vida escolar dos filhos, fortalecer a participação em conselhos e outras instâncias de democratização da escola etc, privilegiamos o conheci- mento dos alunos no seu contexto como um primeiro passo necessário para o estabelecimento de uma relação que vai se desenvolvendo ao longo do tempo. Considerações Finais É de fato um grande desafio enfocar o tema escola e família, mas complexo ainda é tentar compreender o en- volvimento da família no processo ensino aprendizagem. É possível compreender, diante da proximidade da família e da escola que, as características e particularidades marcam a trajetória de cada família e consequentemente, do edu- cando a quem atendemos. Tais informações são dados pre- ciosos para que possamos avaliar o êxito de nossas ações enquanto educadores, identificar demandas e construir propostas educacionais compatíveis com a nossa realidade. A família é essencial para o desenvolvimento do in- divíduo, independente de sua formação. É no meio familiar que o indivíduo tem seus primeiros contatos com o mundo externo, com a linguagem, com a aprendizagem e aprende os primeiros valores e hábitos. Tal convivência é fundamen- tal para que a criança se insira no meio escolar sem proble- mas de relacionamento disciplinar, entre ele e os outros. A sociedade clama por uma parceria de sucesso entre famílias e escolas, pois acreditamos que só assim poderemos, real- mente, fazer uma educação de qualidade e que possa pro- mover o bem estar de todos. Só assim poder-se-á alcançar uma sociedade coerente em que seus agentes conheçam e cumpram seus papéis em todos os processos, sobretudo, no processo educacional, sem deixar de lado o familiar e social. As crianças que têm o acompanhamento familiar boa convi- vência, relacionamento, regras, limites, entre outros têm bom rendimento escolar, tanto quantitativa, quanto qualita- tivamente, não apresentando dificuldades quanto ás nor- mas e rotinas escolares. O acompanhamento familiar pode evitar uma possível reprovação e possibilitar o verdadeiro aprendizado do educando. Ressalta-se que se houvesse a parceria entre pais e escola, possivelmente, ocorreria o alcance de bons resulta- dos em relação ao aluno (filho). Muitas famílias delegam à escola toda a educação dos filhos, desde o ensino das disci- plinas específicas até a educação de valores, a formação do caráter, além da carência afetiva que muitas crianças trazem de casa, esperando que o professor supra essa necessidade. No entanto a escola não foi criada para exercer essa carga sozinha, os pais têm a obrigação de ensinar valores a seus filhos, bem como ajudá-lo nos seus estudos, o aluno quando chega à escola precisa ter a noção de algumas regras, de socialização. Assim, a escola, deve sempre envolver a família dos educandos em atividades escolares. Não para falar dos problemas que envolvem a famí- lia atualmente, mas para ouvi-los e tentar engajá-los em algum movimento realizado pela escola como: projetos, festas, desfiles escolares, palestras educativas, etc. Nessa perspectiva, a escola por sua maior aproxi- mação às famílias constitui-se em instituição social impor- tante na busca de mecanismos que favoreça um trabalho avançado em favor de uma atuação que mobilize os inte- grantes tanto da escola, quanto da família, em direção a uma maior capacidade de dar respostas aos desafios que impõe a essa sociedade. Como diz Paro (1997, p.30) "a escola deve utilizar todas as oportunidades de contato com os pais, para passar informações relevantes sobre seus objetivos, recursos, pro- blemas e também sobre as questões pedagógicas. Só assim, a família irá se sentir comprometida com a melhoria da qualidade escolar e com o desenvolvimento de seu filho como ser humano." Escolhas Sexuais Opção ou orientação sexual? Quando uma criança nasce, sua identidade sexual será reconhecida pelos caracteres sexuais primários. Se essa criança irá confirmar ou não sua identidade sexual, depen- derá da complementação de caracteres secundários que são os testículos nos meninos e ovário nas meninas e também de um processo mais complexo – o sexo psicológico – que se desenvolverá com o passar dos anos. Se no sentido fisiológico, as pessoas podem ter sua identidade sexual definida a partir da presença de órgãos sexuais característicos de cada gênero, o mesmo não ocorre com o sexo psicológico. Pensando nisso, a sexualidade se apresenta numa escala variante que vai desde um compor- tamento extremamente feminino numa mulher, passando por mulheres pouco femininas, mulheres masculinizadas até homossexuais femininas; da mesma forma podemos encon- trar homens pouco masculinos, homens feminilizados e homossexuais masculinos. O termo orientação sexual é considerado mais apropriado do que opção sexual ou preferência sexual. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 69 OS: 0187/11/17-Gil Mas por quê? Estudos recentes realizados dentro da sexualidade mostram que ainda na infância, a tendência sexual começa a se desenhar – motivo este o termo opção sexual é inade- quado, uma vez que a tendência sexual começa a se mani- festar mais ou menos aos sete anos de idade. Neste período a criança ainda não possui uma capacidade avaliativa e que possamos chamar de “escolha”. O que geralmente ocorre é que a criança nesta idade tenta reunir-se às crianças do sexo que irão se identificar psicologicamente e se este não esti- ver de acordo com a fisiologia, ela tende a ser discriminada pelas outras crianças. Um estudo sueco traz novos elementos para a dis- cussão a respeito da base biológica da orientação sexual. A neurologista Ivanka Savic em Estocolmo observou que em resposta a um hormônio masculino, o cérebro de mulheres heterossexuais e de homens homossexuais responde de forma similar e da mesma forma há semelhanças na ativa- ção de regiões cerebrais de homens heteros e mulheres homossexuais em resposta a um hormônio feminino. Mas afinal o que é orientação sexual? Ela indica o gênero (masculino e feminino) que uma pessoa se sente preferencialmente atraída física e/ou emo- cionalmente. Essa orientação pode ser: assexual, bissexual, heterossexual, homossexual ou pansexual. A orientação sexual não-heterossual foi removida da lista de doenças mentais nos Estados Unidos em 1973 e do CID (Classificação Internacional de Doenças) em 1993. A assexualidade é a orientação sexual caracteriza- da pela indiferença à prática sexual, isto é, a pessoa assexual não sente atração nem pelo sexo oposto e nem pelo mesmo sexo que o seu. A assexualidade pode ser classificada como uma disfunção e não uma orientação sexual. Existe um de- sacordo a respeito se a assexualidade é uma orientação sexual legítima. Algumas pessoas argumentam que seria um distúrbio de hipoatividade sexual ou distúrbioda aversão sexual. Outras causas sugeridas incluem abuso sexual pas- sado, repressão sexual, problemas hormonais e desenvolvi- mento tardio de atração. Muitas pessoas ditas assexuais negam tais diagnósticos e argumentam que como a assexua- lidade não traz angústia, não deveria ser classificada como um distúrbio. A bissexualidade se trata da atração física e emoci- onal por pessoas tanto do mesmo sexo como do sexo opos- to com níveis variantes de interesse por cada um, e à identi- dade correspondente a esta orientação sexual. Portanto, bissexual sente atração por ambos os sexos, servindo, por- tanto de um quase meio-termo entre o hetero e o homos- sexual. Uma equipe de psicólogos de Toronto e Chicago realizaram estudos que serve de apoio para aqueles que se declaram céticos sobre o fato da bissexualidade ser um tipo de orientação distinta e estável. Eles mediram diretamente os padrões de resposta a estímulos a imagens de homens e mulheres. Os homens que se diziam bissexuais mostraram- se muito mais sexualmente excitados diante de outros ho- mens. As pessoas que afirmam ser bissexuais são geralmen- te homossexuais, mas são ambivalentes sobre sua homos- sexualidade. Heterossexualidade refere-se à atração sexual e/ou romântica entre pessoas de sexos opostos, e é considerada a mais comum orientação sexual nos seres humanos. A heterossexualidade tem sido identificada como “a normal” ou “natural”, decorrendo diretamente da função biológica relacionada com o instinto reprodutor sendo tudo o resto “anormal” ou “anti-natura”. Homossexualidade é o atributo, a característica ou a qualidade daquele ser que é homossexual e define-se por atração física, emocional e estética entre seres do mesmo sexo com eventual inversão de papéis de gênero (homens e mulheres). Como surgiu o termo homossexual ? Foi criado em 1869 pelo escritor e jornalista Karl-Maria Kertbeny, deri- vando do grego homos que significa “semelhante”. Em 1870, um texto de Westphal chamado “As sensações sexuais contrárias” definiu a homossexualidade em termos psiquiá- tricos como um desvio sexual, uma inversão do masculino e do feminino. A partir de então, no ramo da sexologia, a homossexualidade foi descrita como uma das formas em- blemáticas da degeneração. Experiências em laboratórios com ratos fêmeas e com seres humanos que receberam testosterona (hormônio sexual masculino) ainda em fase uterina, resultou que desde a primeira fase da vida, mostravam comportamento mascu- linos como gostos, brincadeiras mais agressivas além de sentirem-se mais atraídas por fêmeas. Geneticistas defen- dem a tese de que a homossexualidade tem determinação genética. Glenn Wilson e Quazi Rahman, investigadores na área da psicologia, concluem que há diferenças biológicas entre pessoas homossexuais e heterossexuais, e que estas não podem ser ignoradas. Alegam também que alguns fetos do sexo masculi- no com pré-disposição genética para a homossexualidade são incapazes de absorver corretamente a testosterona no seu processo de desenvolvimento, de modo que os circuitos neurocerebrais responsáveis pela atração pelo sexo oposto, ou nunca se desenvolveram ou o fazem de forma deficiente. Quanto à homossexualidade feminina, esses investigadores avançam com a hipótese de haver uma proteína no útero responsável pela atração dos fetos femininos contra a expo- sição excessiva a hormônios masculinos que não atuam suficientemente cedo no processo de desenvolvimento. Psicólogos e psicanalistas estão contrários a argu- mentações apenas biogenéticas sobre as causas da homos- sexualidade e consideram a percepção desta orientação sexual como um traço “apenas” geneticamente determina- do incorreta, buscando antes explicações associadas ao meio e à educação dos indivíduos homossexuais. Psicólogos norte americanos desenvolveram pesquisas sobre a impor- tância da formação intrafamiliar no homossexual. DIDÁTICA PARA CONCURSOS | Módulo Completo – Prof. Pedro Israel CURSO PRIME ALDEOTA – Rua Maria Tomásia, 22 – Aldeota – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208. 2222 CURSO PRIME CENTRO – Av. do Imperador, 1068 – Centro – Fortaleza/CE – Fone: (85) 3208.2220 70 OS: 0187/11/17-Gil Pansexualidade é a orientação sexual, distinta da bissexualidade e caracterizada por atração estética, amor romântico e o desejo sexual por qualquer um, incluindo pessoas que não se encaixam na binária de gênero ma- cho/fêmea implicado pela atração bissexual. Algumas vezes é descrito como a capacidade de amar uma pessoa de forma romântica, independente do gênero. Alguns pansexuais chegam a afirmar que o gênero e sexo não têm importância para eles. Algumas pessoas trans e intersexuais se descre- vem como pansexuais, tendo uma percepção íntima que existem muitos níveis entre o masculino e o feminino. Con- tudo isso não deve ser visto como generalização, já que as pessoas trans podem se identificar como heteros, bissexuais ou homos baseado em sua identidade de gênero. Existem três termos: travesti, transexual e trans- gênero que as pesquisas e estudos realizados dentro da sexualidade ainda não têm uma classificação definitiva. Travesti era originalmente alguém que se vestia com roupas do sexo oposto para se apresentarem em even- tos de fundo artísticos. Mas, essa prática passou a designar o comportamento das drag queens e transformistas. Esse termo atualmente se refere às pessoas que apresentam sua identidade de gênero oposta ao sexo designado no nasci- mento, mas que não almeja se submeter à cirurgia de resig- nação sexual que nada mais é do que a mudança de sexo. As pessoas que se definem travestis podem se identificar como homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou assexuais. Transexual é uma pessoa que possui uma identida- de de gênero oposta ao sexo designado, mas o que difere do travesti é que o transexual tanto homem quanto mulher, fazem ou pretendem fazer uma transição do seu sexo desig- nado no nascimento com o sexo oposto. A explicação este- reotipada é de uma mulher presa em um corpo masculino ou vice versa. Transexualidade é um termo entre os comporta- mentos ou estados que abrigam o termo transgênero. En- tretanto muitas pessoas da comunidade transexual não se identificam como transgênero que se refere a pessoas cuja expressão de gênero não corresponde ao papel social atri- buído ao gênero designado para elas no nascimento. Mais recentemente o termo tem sido utilizado para definir pessoas que estão constantemente em trânsito entre um gênero e outro. O prefixo trans significa “além de”, “através de”. Não existe cientificamente nada que prove quais são as causas da transexualidade. Todavia, muitas teorias sugerem que as causas têm suas raízes na biologia e outros acreditam que as origens são predominantemente psicoló- gicas. Dentre as causas psicológicas temos mães super- protetoras e pais ausentes, pais que almejavam uma criança do sexo oposto e homossexualidade reprimida. Em termos de individualidade ou essência, qualquer ser humano possui o gênero masculino e o gênero feminino dentro de si. No campo da sexualidade, temos muito ainda que pesquisar e estudar e definir realmente o que está por trás desses desejos sexuais e principalmente da “variedade” de orientações sexuais. Mas até lá o importante é que, qualquer que seja a orientação sexual dessas pessoas, como qualquer outro ser humano, elas merecem compreensão e são muito mais que um rótulo e que podem e devem ter uma vida comum como todos nós. Transgênero e cisgênero Homem na pele de uma mulher/mulher na pele de um homem: o termo "transgênero" refere-se a uma pessoa que não se identifica com seu "gênero atribuído no nasci- mento", em seu estado civil. Esta pessoa pode, ou não, realizar um tratamento (hormonal, cirúrgico) para adequar seu