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UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS
CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO
ANTONIO EDUARDO MACEDO
COMENTÁRIO À ACÓRDÃO: Disco S/A vs Pão de Açúcar
Comentário de acórdão apresentado à disciplina de Contratos, do curso de Direito (Noturno) da Universidade Federal do Tocantins (UFT) - Campus Palmas, sob a orientação da professora Dr. Angela Haonat.
PALMAS
2019
COMENTÁRIO À ACÓRDÃO
Antonio Eduardo Macedo[1: Aluno do Curso de Graduação em Direito da Universidade federal do Tocantins (UFT).]
RESUMO
Acionistas da Distribuidora de Comestíveis “Disco” S/A e Supermercados Pão de Açúcar firmaram um documento no qual as partes chamaram de “contrato preliminar para compra e venda de ações”. Neste documento preliminar, a empresa Disco se dispôs a ceder 97% (noventa e sete por cento) de suas ações, inclusive, houve um depósito de Cr$ 10.000.000,00 (dez milhões de cruzeiros) por parte da sociedade empresaria Pão de Açúcar. No acordo estava previsto a efetivação do contrato definitivo em 30 dias. Entretanto, posteriormente, não houve consenso entre as partes para a conclusão da compra e venda das ações. O ponto central do caso diz respeito à determinação do caráter de minuta ou de contrato preliminar de documento assinado entre as partes quando negociavam a compra e venda de ações da sociedade Disco S/A. 
PALAVRAS-CHAVE: comentário à acórdão; compra e venda; contrato preliminar. 
INTRODUÇÃO
A problemática da transferência de ações da sociedade empresária Disco, titularizadas pelos seus sócios à sociedade empresária “Pão de Açúcar”, objeto da decisão do Supremo Tribunal Federal, no recurso extraordinário n. 88716- RJ, possui como questão fundamental a designação jurídica do produto, comprovado por instrumento escrito, de uma negociação entre os referidos agentes. Os titulares das ações da Disco – Antônio do Amaral, Virginia Pereira, Francisco Antônio Domingues Amaral - argumentam que o instrumento escrito e assinado por ambos os polos agentes tem natureza de memorando de entendimentos, enquanto a sociedade “Pão de Açúcar” trata o documento como um instrumento comprobatório de contrato preliminar. 
Dependendo de como o caso se enquadre juridicamente, os efeitos atribuíveis à impossibilidade de que as partes chegassem a um acordo seriam distintos. As interpretações divergentes levam os sócios da Disco, titulares das ações, a ajuizar ação de consignação para devolver o valor recebido como adiantamento (a ser convertido a pagamento inicial se aperfeiçoada a compra e venda de ações) e garantido por uma nota promissória sob posse do “Pão de Açúcar”, enquanto esta sociedade empresária, por sua vez, ajuíza pleito de adjudicação compulsória das ações a que se referiu a negociação. 
COMENTÁRIOS À ACÓRDÃO DO RECURSO EXTRAORDINARIO Nº 88716 – RJ DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL 
A princípio, a sociedade empresaria Disco S/A propôs uma ação consignatória, no intuído de reembolsar a quantia de Cr$ 10.000.000,00, representada por uma nota promissória, correspondente a um deposito que deveria converter-se em pagamento inicial uma vez “aperfeiçoado o negócio”. Em contrapartida, a em presa Pão de Açúcar, por dependência, propõe uma ação visando a adjudicação compulsória das ações objeto do “contrato preliminar de compra e venda”.
 Os Juízos da 6º câmara cível do TJRJ, por unanimidade, julgaram deserto os agravos retidos, sendo que isso aconteceu tanto no âmbito da ação de adjudicação, quanto no âmbito da ação consignatória.
A apelante, com a ação em que é autora, objetivava a condenação dos réus a entregar-lhes as ações objeto do contrato preliminar ou a transferência dos direitos a ela referentes. Por maioria, os juízos deram provimento a apelação, julgando procedente a ação ordinária e convertendo em pagamento, na forma pedida nos autos, o deposito de dez milhões de cruzeiros em mãos da primeira apelada e condenando o segundo e os terceiros apelados a, em 30 dias do trânsito em julgado, assinar contrato definitivo de compra e venda de ações objeto do contrato preliminar e a fazer, no mesmo prazo, transferência a apelante das ações, sob pena de 50 mil cruzeiros por dia de atraso.
Diante disso, foram interpostos tempestivamente embargos de declaração. Isso se seu pelo fato de que o acórdão que foi recorrido tratou o contrato objeto de litígio como perfeito e acabado, e não meramente de fundo de negociações preliminares (sem força vinculante). A embargante expôs que o acórdão foi omisso por não haver declarado expressamente a improcedência do pedido da ação de adjudicação compulsória formulado contra a sociedade ora embargante. Nesse sentido, o Tribunal concluiu que a primeira apelada não poderia ter os embargos atribuídos pela simples leitura da inicial de adjudicação compulsória. Por fim, no que diz respeito aos embargos infringentes, foram rejeitadas as preliminares de nulidade do acórdão, já que não houve, por parte deste, condenação “extra petitum”.
Ao se examinar o extenso acórdão, observa-se que alguns Magistrados têm, antes do exame das normas aplicáveis, a preocupação em determinar a natureza jurídica do documento elaborado pelas partes para, posteriormente, buscar dentro do ordenamento jurídico a previsão legal para o caso. Dito isto, deram a interpretação que entendem ser mais adequada à norma e complementam o clico com o fenômeno da subsunção.
A qualificação do negocio jurídico passou por dois momentos. A principio, verificou-se a qualidade jurídica do contrato de compra e venda de ações, se comercial ou civil, e, posteriormente, a verificação da contratualidade do documento. O Código Civil trata da formação do contrato no seu art. 1.126, estabelecendo que a compra e venda se tronará obrigatória e perfeita, “desde que as partes acordem no objeto e no preço”. O Código Comercial, por sua vez, no art. 191, refere-se ao acordo e a coisa, no preço e nas demais condições. Deve ser observado que esta discussão já pressupõe um conceito de contrato preliminar que deva conter todos os elementos do contrato definitivo. Assim, a interpretação dos artigos supra referidos, será determinante na decisão proferida.
A distinção entre contratos civis e mercantis está, na verdade, inserida dentro de um debate quanto à própria autonomia do Direito Comercial. Evidentemente, que este não é o momento oportuno para um aprofundamento a respeito do tema, valendo, simplesmente, o esforço em buscar-se subsídios que possam ser decisivos no exame do caso concreto. 
Dentro dessas ideias, constata-se que no acórdão são invocadas teorias acerca do ato de comércio desenvolvidas por Carvalho de Mendonça, com a citação da nota 360, do Tratado de Direito Comercial Brasileiro: “Existe uma série de atos que o comerciante pratica não no exercício normal de sua profissão, mas em virtude ou no interesse desse exercício”.
A leitura do documento firmado entre as partes permite concluir que se trata de um projeto de contrato ou minuta, isso se dá pelo fato de que são estabelecidos pontos acordados e pontos a serem determinados posteriormente. Um exemplo disso é o ato de deixar tratativas em aberto e utilizar o termo “opção”, visto que não traduziu a aceitação de ambas as partes, formando um vínculo bilateral. Antes, vinculação seria provisória e eventual unilateral – só para acionistas -, após, passou a ser vinculação provisória e eventual bilateral – opção também para pretendente. As partes, ao continuarem suas tratativas, tiveram que determinar pontos indetermináveis e preencher pontos em aberto. 
Diante do supramencionado, observa-se a inaplicabilidade do art. 639 do CPC/73. Nessa perspectiva, o contrato preliminar deve conter todos os elementos do contrato definitivo para obter sentença que produza os efeitos do contrato a ser firmado, em caso de promessa de contrato não cumprida. Enuncia o artigo:
Art. 639. Se aquele que se comprometeu a concluir um contrato não cumprir a obrigação, a outra parte, sendo isso possível e não excluído pelo título, poderá obter uma sentençaque produza o mesmo efeito do contrato a ser firmado. (CPC, 1973)
Nesse sentido, não fica a cargo do juiz estipular cláusulas e condições, bem como não cria o objeto ou o conteúdo do contrato, ele apenas declara vontade que incida sobre o já acordado e que não foi emitida pelo devedor, sobre ato jurídico já prometido. 
 
 CONCLUSÃO
No exame crítico do contrato elaborado entre as partes, a priori, a maneira mais adequada de se interpretar, dada por alguns juristas que emitiram parecer diante do caso, é a gramatical, ressaltando o fato de que diversas cláusulas estão dispostas no condicional, o que estaria a evidenciar a provisoriedade do documento, ao qual as partes não teriam firmado a vontade em si de se vincular. Nessa perspectiva, examinando o caso em comento, nota-se que as partes declaram o interesse de celebrar um contrato futuro e, além disso, verifica-se que são delineados, no documento, os pressupostos para que fosse determinado o preço ou, ao menos, parece ser este o objetivo das partes, não deixando a questão evidentemente clara.
Por fim, a decisão proferida pelo tribunal foi a mais correta possível, diante do previsto no Código de Processo Civil e Código Comercial vigentes a época. O Supremo Tribunal Federal conheceu do recurso e deu provimento a ele, julgando a recorrida carecedora de ação de adjudicação compulsória e julgou procedente a ação de consignação em pagamento em favor da recorrida.
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
AUGUSTO, Roberto. Fundamentos dos Contratos Empresariais e das Declarações Unilaterais da Vontade. Disponivel em: < https://lutofoli.wordpress.com/tag/pao-de-acucar-x-disco/>. Acesso em: 28 de jan, 2019.
MENDONÇA, José Xavier Carvalho de. Tratado de direito comercial brasileiro: volume I. Campinas: Russell, 2003. 
OITAVEN, Daniel. Um estudo sobre a decisão do STF no caso "Sócios da Disco x Pão de Açúcar": a caracterização de um contrato preliminar à luz do pensamento tipológico de Karl Larenz. Disponivel em: <http://www.conteudojuridico.com.br/artigo,um-estudo-sobre-a-decisao-do-stf-no-caso-socios-da-disco-x-pao-de-acucar-a-caracterizacao-de-um-contrato-preli,52299.html>. Acesso em: 28 de jan, 2019.
TARTUCE, Flavio. Manual de direito civil: volume único. 7. ed. rev., atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense, 2017.

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