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VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Didática: uma retrospectiva histórica. In: ______ (coord.). Repensando a Didática. 10. ed. Campinas: Papirus, 1995. p. 25-40. Capítulo II.
DIDÁTICA: UMA RETROSPECTIVA HISTÓRICA
“E história não é o relato do passado esquecido e rememorado no ato de conhecê-lo, mas é a recuperação do ato passado que, enquanto passado, funda e enlaça a presente no passado e o futuro no presente, não na sua forma perfilada, mas na sua forma criadora, geradora.” 
Neidson Rodrigues 
O objetivo deste capítulo é o de examinar os enfoques do papel da Didática nos cursos de formação de professores e sua inserção no contexto da história da educação brasileira. 
Para melhor compreensão desse papel, optei por uma retrospectiva histórica da Didática, de modo a visualizar o que considero pontos-chave para o presente estudo. 
O estudo abrange duas partes: na primeira será abordado o papel da Didática antes de sua inclusão nos cursos de formação de professores a nível superior, compreendendo o período que vai de 1549 até 1930; na segunda parte, procura-se reconstituir a trajetória da Didática a partir da década de 30 até os dias atuais. 
Nessa retrospectiva histórica, procurei destacar os aspectos sócio-econômicos, políticos e educacionais, que servirão de pano de fundo para identificar as propostas pedagógicas presentes na educação, bem como os enfoques do papel da Didática. 
O PERÍODO 1549/1930: PRIMÓRDIOS DA DIDÁTICA NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA 
Os jesuítas foram os principais educadores de quase todo o período colonial, atuando, aqui no Brasil, de 1549 a 1759. 
No contexto de uma sociedade de economia agrária-exportadora dependente, explorada pela Metrópole, sem diversidade nas relações de produção, a educação não era considerada um valor social importante. Servia de instrumento de dominação da Colônia pela aculturação dos povos nativos. A tarefa educativa estava voltada para a catequese e instrução dos indígenas, mas para a elite colonial um outro tipo de educação era oferecido. Assim, índios e negros foram catequizados e os descendentes dos colonizadores foram instruídos. 
O plano de instrução era consubstanciado na Ratio Studiorum, trazida da Europa para o Brasil, resultando em uma orientação universalista por ser adotada por todos os jesuítas, assim como pelo uso de programas e dos mesmos procedimentos metodológicos e elitistas — por se destinar aos filhos dos colonos. 
O ideal da Ratio Studiorum era a formação do homem universal, humanista e cristão. A educação se preocupava com o ensino humanista de cultura geral e enciclopédico; era alicerçada na Summa Theológica de São Tomás de Aquino. Esta obra corresponde a uma articulação entre a Filosofia de Aristóteles e a tradição cristã, base da Pedagogia Tradicional na vertente religiosa, caracterizada: 
“... por uma visão essencialista de homem, isto é, o homem concebido como constituído por uma essência universal e imutável. A educação cumpre moldar a existência particular e real de cada educando a essência universal e ideal que o define enquanto ser humano. Para a vertente religiosa, tendo sido o homem feito por Deus a sua imagem e semelhança, a essência humana é considerada, pois, criação divina. Em conseqüência o homem deve se empenhar em atingir a perfeição humana na vida natural para fazer por merecer a dádiva da vida sobrenatural” (Saviani, 1984, 12) 
De acordo com a orientação jesuítica, a ação pedagógica era marcada pelas formas dogmáticas do pensamento, contra o pensamento crítico. O ensino era completamente alheio a realidade de vida da Colônia. Privilegiavam o exercício da memória e o desenvolvimento do raciocínio. Os livros a serem comentados eram rigorosamente selecionados.
Dedicavam atenção especial ao preparo dos professores ou padres-mestres, dando ênfase a formação do caráter e a formação psicológica para conhecimento de si mesmo e do aluno. 
Com tais características, a educação jesuítica não contribuiu para modificações estruturais na vida social e econômica da Colônia, segundo Romanelli, “(...) símbolo de classe, esse tipo de educação livresca, acadêmica e aristocrática foi fator coadjuvante na construção das estruturas de poder na Colônia” (Romanelli, 1983, 36). Desta forma, não se pode pensar em uma prática pedagógica e, muito menos, em uma Didática que buscasse uma perspectiva transformadora na educação e no país. De certa maneira, a educação foi condicionada a uma Pedagogia de dominação, uma vez que os colégios e seminários jesuítas foram, desde o início, o pólo de irradiação da ideologia dos colonizadores. 
Os pressupostos didáticos diluídos na Ratio enfocavam instrumentos e regras metodológicas compreendendo o estudo privado, alma do processo de aprendizagem em que o mestre prescrevia o método de estudo, a matéria e o horário. As aulas eram ministradas de forma expositiva. Os alunos prestavam contas de suas lições oralmente, corrigiam os exercícios e repetiam o que já fora exposto pelo professor. No preparo das aulas, os mestres dedicavam especial atenção ao método ou as formas, compreendendo: verificação do estudo empreendido, correção, repetição, explicação ou preleção, interrogação, ditado. O conteúdo desenvolvido abrangia tanto a matéria da última aula quanto a da nova. O desafio que estimulava a competição era considerado instrumento didático da aula. A disputa, outro recurso metodológico, era visto como uma defesa de tese. 
Segundo Paiva (1981, 5), a avaliação do processo de aprendizagem enfatizava tanto a virtude do aluno quanto o seu grau de aproveitamento. Os exames eram orais e escritos. 
É assim que o enfoque sobre o papel da Didática, ou melhor, da Metodologia de Ensino como é denominada no código pedagógico dos jesuítas, está centrado no seu caráter meramente formal, tendo por base o intelecto, marcado pela visão essencialista de homem. 
A Metodologia de Ensino (Didática) é entendida como um conjunto de regras e normas prescritivas visando a orientação técnica do ensino e do estudo. Como afirma Paiva (1981, 11), “um conjunto de normas metodológicas referentes a aula, seja na ordem das questões, no ritmo do desenvolvimento e seja, ainda, no próprio processo de ensino”. 
Esta Metodologia difundida pelos jesuítas foi o alicerce de uma tradição didática, centrada no método e em regras de bem conduzir a aula e o estudo, supostamente neutros e desvinculados da nossa realidade. 
O plano da Ratio Studiorum dominou a educação no Brasil até a expulsão dos jesuítas por Pombal, em 1759. Após os jesuítas, não ocorreram no país grandes movimentos pedagógicos, como são poucas as mudanças sofridas pela sociedade colonial durante o Império e a República. 
Romanelli (1987, 36) enuncia as dificuldades decorrentes da expulsão dos jesuítas, destacando: de um lado, o desmantelamento de toda uma estrutura de ensino, a substituição de uma ação pedagógica com perfeita transição de um nível escolar para outro pela diversificação das disciplinas isoladas; por outro, professores leigos começaram a ser admitidos para as “aulas-régias” introduzidas pela reforma pombalina. 
Pombal tentou secularizar a educação no sentido de que ela fosse assumida pelo Estado, ocorrendo uma desorganização ao substituir o controlado e organizado sistema jesuíta. Pedagogicamente, esta nova organização representou um retrocesso. 
A economia continuava sendo agro-exportadora passando de monocultura açucareira para a cafeeira. A forca de trabalho escrava foi substituída parcialmente pela dos imigrantes, que já vinham qualificados para os tipos de trabalho.
É nesse contexto que circulam as idéias liberais que foram adotadas pelas camadas senhoriais rurais na busca da liberdade de comércio e não de alterações no modo de produção. 
Segundo Saviani (1984, 275), “tomam corpo movimentos de idéias cada vez mais independentes da influência religiosa”. 
No campo educacional, suprime-se o ensino religioso nas escolas públicas, passando o Estado a assumir a laicidade. Sob a influência

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