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- REPENSANDO — 'AºDIDATICA- 29ª Edição Nitenla Delma Lopes Professora da Universidade Federal do Piaui (UFPI). Mestre em Educação pela Unicamp. Ilma Passos Alencastro Veiga (coord.) Pesquisadora sênior do CNPq, professora emérita da UnB e professora titular da Faculdade de Ciências da Educação do Uniceub. Maria Bernadete Santa Cecilia Caporallni Professora aposentada da Universidade Federal de São João del Rei (Fu nrei). Mestre em Educação pela PUC-RJ. Maria Eugênia de Lima e Morthe Castanho Professora da PUC-Campinas. Doutora em Educação pela Unicamp. Marla isabel da Cunha Docente do Programa de Pós-graduação em Educação da Unisinos. Professora aposen- tada da FaEIUFPeI. Olga Teixeira Damls É pedagoga, mestre e doutoranda em Educação. Atualmente é professora no curso de Pedagogia da Universidade Federal de Uberlandia (UFU). OswaldoAlonso Rays Professor no Centro Universitário Francis- cano de Santa Maria e na Universidade de Passo Fundo. Doutor em Educação. Pura Lúcia Oliver Martins Professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora em Educação pela USP e professora do programa de Pósgraduação em Educação da PUC-PR. Vani Moreira Kencki Professora doutora aposentada da U nicamp. Pesquisadora do CNPq. Foi professora da UnB, da Unicamp e da USP. Atualmente orienta teses e dissertações em Educação na USP e na Unicamp. Diretora geral da empresa Site Educacional Ltda. REPENSANDO A DIDÁTICA ILMA PASSOS ALENCASTRO VEIGA (COORD.) ANTONIA OSIMA LOPES MARIA BERNADETE SANTA CECÍLIA CAPORALINI MARIA EUGENIA DE LIMA E MONTES CASTANHO MARIA ISABEL DA CUNHA OLGA TEIXEIRA DAMIS OSWALDO ALONSO RAYS PURA LÚCIA OLIVER MARTINS VANI MOREIRA KENSKI REPENSANDO A DIDÁTICA P A P I R U S E D I T O R A Capa.- Francis Rodrigues Revisão: Fausto Barreira Fiiho, Josianede Fátima Pio Remeras SandraVieiraAlves 21ª ed. rev. e anal.: Coordenação: Beatriz Wcheslni Magrammo: DPG Editora Copidesque: Maria Lúcia A. Maier . Revisão-Isabel PetronilhaCosta Solange F. Penteado Taís Gasparetti Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIF) (can-iam Brasileira do Livro, SP, Brasil) Repensando & didática ! lima Passos Alencastro Veiga (coord.).- —21' ed. rev. e ama!. —Camplnas, SP : Papirus, 2004, Vários colaboradores- Bibliograiia. ISBN 85—308-0153-9 1. Ensino 2. Pedagogia !. na, lima Paasos Alencastro. 044930 CDD-371.3 4370 Índices para catálogo sistemático: 1. Didátioa: Edmaçâo 371 .s 2. Ensino: Planejamento da insiruçâo 371.3 3. iVIeisodologiado ensino 371.3- 4. Pedªgºga 370 Emanmmodecitaçõea agràiadestelMo estáamalzacchsegirdo vordo Q'tográfioodaLinguaPomJguesaadoiado no Brasilapartir demos, emoonformidade ao prescrito no Vocabdário Ortográiioo da, Língua Portuguesa (Voip) daAnademia Brasileira de Letras e suas oorreçõeseaditanenhos dhfuigadosstéadatadestapubiicaçâo. asª Edição 2011“ Proibida a reprodução total ou parcial da obra de acordo com a lei 9.610/98. Editora afiliada à Associação Brasileira dos Direitos Reprogràficos (ABDR). DIREITOS RESERVADOS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA: © MB. Oornaochia Livraria e Editora Ltda.. — Papirus Editora R.“ Dr. Gabriel Perteado, 253—CEP 13041-305—ViiaJoào Jorge Fone/fax: (19) 3272-4500 — Campinas — São Paulo — Brasil E—maii: editoraô paplrus.oom.br — www.papirus.oom.br SUMÁRIO APRESENTAÇÃO DA 21ª EDIÇÃO .......... ........ . ....................... 7 APRESENTAÇÃO 9 ]. DIDÁTICA E ENSINO: RELACOES E PRESSUPOSTOS ................... 13 Olga Rixeira Damis .2. DIDÁTICA: UMA RETROSPECTIVA HISTÓRICA 33 Ilma Passos Alencastro Veiga 3. PLANEIAMENTO DO ENSINO NUMA PERSPECTIVA CRÍTICA DE EDUCAÇÃO ..................................................................... 55. Antonia Osima Lopes 4. os OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO ......................................................... 65 Maria Eugênia de Lima. e Montes Castanho. 5. CONTEÚDOS ESCOLARES: A QUEM COMPETEM A SELEÇÃO E A ORGANIZAÇÃO? .................................................... , 75 Pura Lúcia Oliver Martins 6. METODOLOGIA DO ENSINO: CULTURA DO CAMINHO CONTEXTUALIZADO ...................................................... 93 Oswaldo Alonso Rays 7. NA DINAMICA INTERNA DA SALA DE AULA: O LIVRO DIDÁTICO ........................................................................... 109 Maria Bernadete Santa Cecília Caporalini 8. REPENSAN DO A AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM ................... 135 Vani Moreira Kenski 9. A RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO ................................................... 149 Maria Isabel da Cunha APRESENTAÇÃO DA ZlªEDIÇÃO O livro Repensando a didática foi escrito, coletivamente, em 1987 e editado em 1988. Nasceu tímido, sem pretensão de tornar—se um livro—texto para o ensino da didática nos cursos de formação de professores. Seu objetivo fundante era “contribuir para a ampliação e o aprofundamento das reflexões já realizadas e estimular a busca de uma proposta didática voltada para a efetivação da prática pedagógica crítica” (Apresentação da 1ª ed., p. 7). Os nove coautores, naquele momento, iniciavam seu rito de entrada no mundo editorial acadêmico. Profissionais com experiência de ensino, mestrandos e doutorandos em educação em diferentes universidades: Unicamp (6), UFMG (1), UFSM (1), PUC (l). Passaram-se 15 anos e o Repensando a didática ao longo desse período chega a 21ª edição,. o que é um indicativo de sua grande aceitação por parte de professores, pesquisadores e alunos de cursos de licenciatura. A presente edição comemorativa foi revista e atualizada por acreditarmos que os trabalhos aqui reunidos continuarão a contribuir para aperfeiçoar o entendimento da prática pedagógica de professores empenhados em enfrentar os desafios de uma educação mais democrática. Ilma Passos Alencastro Veiga Brasília, 2004 Repensando & didática 7 APRESENTAÇÃO O projeto, do qual este livro é a realização, foi pela primeira vez discutido em maio de 1987, em uma reunião descontraída com colegas, professores de didática, por ocasião da X Reunião Anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação, na cidade de Salvador. Inicialmente tinha em vista um objetivo audacioso: elaborar um livro didático de didática. Após algumas reflexões, resolvemos tornar menos ambiciosa nossa pretensão, conservando, no entanto, a proposição básica de repensar o papel da didática na formação de professores. Este livro torna público esse repensar em torno da didática, visando contribuir para a ampliação e o aprofundamento das reflexões já realizadas e estimular a busca de uma proposta didática voltada para a efetivação da prática pedagógica crítica. É uma sequência de textos diferentes que se Completam e se interligam. O assunto é controverso., sem dúvida, mas acreditamos que. seja de grande importância. Formamos uma equipe de nove professores de didática de universidades do Piauí, Brasília, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, todos com experiência em escolas de ensino fundamental e médio, de periferia urbana e da zona rural. Repensando & didática 9 O projeto para a elaboração do livro estabelecia uma estrutura básica e a forma de ação conjunta. A estrutura básica do livro foi constituída de três núcleos fundamentais: lº) pressupostos filosóficos e históricos da didática; 2º) O planejamento e os elementos do ensino; 39) a relação professor- aluno. O processo de elaboração do livro ocorreu em três momentos. Tendo em vista os objetivos do projeto, impuseram-se, num primeiro momento, a escolha dos temas pelos membros da equipe e a elaboração dos textos preliminares. 0 segundo momento consistiu na análise crítica dos textos preliminares por todos os componentes da equipe e no encaminhamento dos pareceres sobre os mesmos aos respectivos autores. Foram realizadas, ainda, quatro reuniões em Uberlândia e em Campinas, com alguns dos componentes da equipe, para discutiros trabalhos em andamento, reprogramar cronogramas e tomar decisões relativas à editoração do livro. Os contatos mais periódicos e indiretos entre os autores foram efetivados por meio de correspondência e telefonemas. A caminhada em direção aos objetivos não foi fácil, principalmente pela impossibilidade de encontros com todos os colaboradores envolvidos no processo de elaboração do livro. O terceiro momento se caracterizou pela reformulação dos textos a partir das apreciações feitas e pela produção do texto definitivo, que resultou na montagem do livro.. Considerando a estruturação básica, a abertura deste livro será feita com o texto “Didática e ensino: Relações e pressupoStos” de Olga Teixeira Damis. Como coordenadora do livro e responsável pelo “segundo tema —» “Didática: Uma retrospectiva histórica” —, procurei reconstruir a trajetória da didática na educação brasileira, destacando os aspectos socioeconômicos, políticos e educacionais, que servirão de pano de fundo para a caracterização das propostas pedagógicas presentes na educação, bem como os diferentes enfoques da didática na preparação docente. Antonia Osima Lopes discute o planejamento do ensino tendo como referência o modelo do planejamento participativo, forma característica de trabalho dos movimentos de educação popular. São apresentadas as etapas 1a Papirus Editora. do processo de planejamento, cuja descrição tem como fundamentos a totalidade da ação pedagógica e a articulação entre os conteúdos escolares e a realidade histórico-social. Maria Eugênia Lima e Montes Castanho estuda os objetivos educacionais, partindo dos tão disseminados objetivos comportamentais, para propor novas maneiras de pensar a questão. O desafio é a articulação das finalidades gerais com os objetivos do dia a dia. O texto procura mostrar que, para além da questão técnica, os objetivos devem ser vivos visando cotidianamente ao encontro humano dos seres envolvidos e seu desenvolvimento. Pura Lúcia Oliver Martins, incumbida do tema “Conteúdos escolares: A quem compete a seleção e a organização?”, considera que o professor deve compreender o processo de ensino em seus determinantes, para construí—lo a partir da lógica e dos interesses da maioria dos alunos. O texto apresenta a questão da seleção e da organização dos conteúdos na didática teórica, na didática prática e os determinantes da dicotomia teoria- prática que têm caracterizado a formação do professor. Analisa a questão nos dias atuais e delineia pistas para a construção de um novo processo. Oswaldo Alonso Rays opta por uma metodologia de ensino que atenda aos interesses imediatos e mediatos dos educandos, baseada na análise crítica do contexto social e nas características individuais e grupais daqueles que frequentam e daqueles que virão a frequentar nossas escolas, em razão de as especificações e o “produto final da educação” interessarem ao próprio educando e ao conjunto da sociedade. 0 “produto final da educação-” não interessa apenas aos processos produtivos capitalistas. 0 binômio eficiência- qualidade educacional necessita, pois, 'ser gerado em função do crescimento do educando, do desenvolvimento de suas potencialidades e de seus interesses, que precisam ser entendidos como parte dos interesses da coletividade. A eficácia-qualidade dos métodos de ensino deverá estar diretamente ligada à formação integral do educando e não às necessidades imediatistas da dimensão alienante da globalização. Maria Bernadete Santa Cecília Caporalini analisa, na dinâmica interna da sala de aula, a prática pedagógica de quatro professores de língua portuguesa em exercício numa escola estadual de ensino fundamental. Entre Repensando a didática 11 outras descobertas, constatou que, no ensino fundamental, o livro didático é o instrumento referencial básico de trabalho do professor no processo de transmissão e assimilação do conhecimento. No texto, tece considerações orientadas, sobretudo, para a utilização desse importante recurso de ensino-, com vistas a possibilitar ao professor assumir um papel mais ativo e menos dependente em sala de aula. Vani Moreira Kenski considera que 'o ato de avaliar está presente em todos os momentos da vida humana, dentro e fora de ambientes educacionais. A avaliação deve ser considerada como importante momento de reflexão e de tomada de decisões que precisa ser compartilhado por todos os envolvidos no processo de aprendizagem. Estão presentes na avaliação as articulações do processo avaliativo com o projeto pedagógico e seus indicadores, que, por mais abrangentes e complexos que sejam, não excluem a parcialidade e a subjetividade para julgar a aprendizagem do “outro”. Maria Isabel da Cunha aborda questões referentes ao relacionamento entre professores e alunos, numa dimensão sociocultural. Analisa depoimentos de estudantes quando qualificam () bom professor, no que se refere às dimensões afetiva e cognitiva que estão presentes no espaço das relações. Caracteriza a importância dessas dimensões e explicita suas formas de embricamento. Chama a atenção sobre a importância do processo de mediação que o docente faz entre o conhecimento sistematizado, a cultura e os estudantes. Esta coletânea de textos propicia ao leitor um vasto material para repensar a didática nos cursos de formação de professores. O trabalho está aberto para discussões e julgamos que, por meio da crítica, é possível caminhar na direção de uma proposta democrática de educação e, mais especificamente, de uma didática mais comprometida com a formação de professores. Ilma Passos- Alencastro Veiga 12 Papirus Editora. 1 DIDÁTICA E ENSINO: RELAÇÓES E PRESSUPOSTOS* Olga Teixeira Damis Nos cursos de formação do profissional da educação, o ato de ensinar desenvolvido pela escola é, muitas vezes, abordado do ponto de vista da alteração das relações que ocorrem entre os elementos que constituem a prática pedagógica: o professor, o aluno, os conhecimentos, os procedimentos, os recursos e as tecnologias utilizadas. Do ponto de vista dessa concepção, historicamente, na pesquisa e no ensino desenvolvidos em didática, cujo objeto de estudo é a arte de ensinar, a crítica ao modelo tradicional, centrado na diretividade do professor para transmitir o conhecimento ao aluno, constitui—se em elemento básico de referência para a transformação da prática escolar. Nesse caso, a didática é, predominantemente, compreendida e analisada do ponto de vista da concepção do ato de ensinar que evidencia a atuação do professor ou como transmissor direto de conhecimentos * Este texto tem Sua origem em minha tese de mestrado com o título “Didática e sociedade: O conteúdo iinplícito do ato de ensinar” (Unicamp, 1990). Repensando a didática 13 específicos que se constituem em objetos de ensino, ou como agente que conduz e estimula democraticamente a aprendizagem do aluno, ou no planejamento de atividades visando alcançar os objetivos pretendidos. Estimular e permitir a participação ativa dos alunos em experiências de aprendizagem que enfatizam a construção de conhecimentos, desenvolver projetos adequados aos interesses dos alunos, da comunidade escolar e da sociedade, utilizar novas tecnologias de comunicação e informação, organizar trabalhos interdisciplinares e coletivos, são algumas das dimensões enfatizadas pelo conteúdo da didática, visando à transformação da prática educativa desenvolvida pela escola. Mas pretende—se considerar, aqui, que a prática pedagógica desenvolvida pela escola não está desvinculada de uma prática social mais ampla. Se em sua prática, os professores agem sem compreender o significado social das decisões que definem as relações entre os elementos que a constituem, tomam- se meros executores de práticas pensadas e decididas por outros, vítimas de modismos e de linguagens sem significados teóricos para fundamentar sua ação. Não articulando o ensino ao significado da função social e educativada escola, a prática pedagógica, muitas vezes, é compreendida, por exemplo, como mera repetição de práticas experimentadas no papel de aluno, ou em simples respostas improvisadas a estímulos e desafios colocados de fora do processo de ensinar-aprender, como as atuais demandas de mercado de trabalho, o desenvolvimento de tecnologias e dos meios de comunicação etc. O profissional de ensino, antes de ser um técnico eficaz, e mais do que ser um fiel servidor de diretrizes das mais variadas tendências, num sistema submetido a controles técnicos que mascaram seu caráter ideológico, deve ser alguém responsável que fundamenta sua prática numa opção de valores e em idéias que lhe ajudam a esclarecer as situações, os projetos e os planos, bem como as previsíveis consequências de Sua prática. (Saeristán e Gómez 1998, p. 10) Mesmo considerando que o trabalho docente ocorre a partir de relações organizadas e desenvolvidas pelo professor visando à aprendizagem de um saber sistematizado pelo aluno, por meio de recursos e procedimentos pedagógicos, entende-se que ele se fundamenta, também, em outras relações. A instituição escolar, como prática social específica e por meio do trabalho 14 Papirus Editora. pedagógico, sistematiza relações “situadas entre as finalidades- específicas de educação formal e as finalidades sociais para a formação humana. Nesse caso, a didática, tendo como objeto de estudo a arte de ensinar, constitui- se, também, em área de conhecimento que trata das relações colocadas entre as Bnalidades do ensino e a prática social mais amplas. No Brasil, desde a década de 1980, a formação do professor foi marcada pela realização de encontros, estudos, debates e pesquisas no sentido de se construir o Rumo para uma nova didática, conforme a denominação da publicação de Candau, em 1988. Visando superar a tendência técnica predominante, esse movimento de reconstrução da didática teve sua origem na perspectiva de “multidimensionalidade do processo ensino- aprendizagem e coloca a articulação das três dimensões, técnica, humana e política no centro configurador de sua temática” (Candau 1984, p. 21). No interior desse movimento, em pesquisa realizada por Veiga (1987), foram identificados alguns períodos na trajetória histórica de constituição da didática. Cada período definido pela autora foi, aqui, entendido como expressão de dimensões deste objeto de estudo, sendo utilizada aperiodização anterior ao enfoque crítico dessa área de conhecimento. Para a autora, em um primeiro momento a didática foi abordada COmo um conjunto de regras, “visando assegurar aos futuros professores as orientações necessárias ao trabalho docente. A atividade docente é entendida como inteiramente autônoma face à política, dissociada das questões entre escola e Sociedade. Uma Didática que separa teoria e prática” (ibid. , p. 28). Em seguida, é acentuado o caráter técnico—prático do processo ensino-aprendizagem, e a teoria e a prática são justapostas e o ensino é compreendido como um processo de pesquisa, partindo—se do pressuposto de que os assuntos de que trata o ensino são problemas (ibid., p. 31). Em um terceiro momento considerou—se a predominância dos processos metodológicos em detrimento da própria aquisição do conhecimento, voltando-se para as variáveis do processo de ensino, dos aspectos metodológicos em detrimento da aquisição do conhecimento. É o enfoque renovador-tecnicista em que a didática está voltada para o processo de ensino sem considerar o contexto político-social (ibid, p. 33). E, por último, constituiu-se em elemento inovador do ato de ensinar: a organização racional do processo de ensino, o planejamento didático, os materiais instrucionais, os livros didáticos descartáveis (ibid, p. 35). Repensando a didática 15 Em pesquisa publicada por Oliveira (1993) sobre os estudos e as críticas produzidas no interior desse movimento nacional de reconstrução da didática, também foram identificadas novas dimensões de sua abordagem. O caráter científico, a construção teórico-metodológica, as relações com o contexto mais amplo, passando pela questão da neutralidade e dos reducionismos psicológicos, até chegar às propostas de superação das críticas, segundo a perspectiva de abordagem dialética de realidade, foram dimensões analisadas, nesta revisão. Ainda recentemente, em publicação sobre os “Vinte anos de Endipe”,l Oliveira (2000) analisou a produção científica nesse período e identificou, como predominante, a concepção de ensino como reflexão na ação e a formação do professor reflexivo. Essa concepção parece estar “conduzindo a produção teórica—prática para um trabalho de reflexão sobre a reflexão, na reflexão, com a reflexão, para a reflexão (...) no e sobre- o fazer docente-” (ibid, p. 173). Nesse. sentido, o presente estudo, levando em conta o caminho percorrido pelos estudos e debates desenvolvidos na reconstrução da didática, buscou identificar expressões do pensamento pedagógico que tiveram o ato de ensinar como objeto de estudo. A seleção dos pensadores teve como referência a concepção de ensino produzida para atender às finalidades colocadas para a escola no interior do processo de implantação e consolidação do modo capitalista “de produção. Dimensões de abordagem sobre o ato de ensinar em algumas manifestações do pensamento pedagógico Historicamente, é recente a instituição social da escola, seja como forma regular de transmissão de uma cultura organizada e cientilicamente produzida, seja como direito do cidadão e dever do Estado em oferecê-la 1. Os Encontros Nacionais-de Didática e Prática de Ensino (Endipe) realizados atualmente foram iniciados em 1982, primeiramente como Encontro de Didática, com a finalidade de desenvolver debates críticos sobre. oensino e a pesquisa em didática. Posteriormente foram incorporados os Encontros sobre Prática de Ensino que ocorriam paralelamente. 16 Papirus Editora. para todos. A prática de finalidades sociais colocadas para a escola e que conta com o trabalho docente para o desempenho da função pedagógica, em tempos, espaços e saberes determinados ocorreu, aproximadamente, há pouco mais de dois séculos. Na “sociedade antiga e medieval, a extensão de democratização da escola e a atuação de um profissional da educação não contavam com condições “sociais, políticas, econômicas e- científicas desenvolvidas para se constituírem em prioridade social. As relações de trabalho predominantes na Antiguidade e na Idade Média, estando fundamentadas na divisão em classes sociais estratificadas — trabalho escravo ou servil, homens livres ou nobres, respectivamente —, contribuíram para a constituição de uma sociedade onde predominavam o estático e o estável. A prática de educação existente, se compreendida como sistemática, constituiu-se em privilégio para desenvolver habilidades de organização racional do pensamento e de erudição. Ela cumpriu a função conservadora de educação do homem que lhe foi atribuída, transmitindo visões de mundo que atendiam às necessidades colocadas pelo estágio de desenvolvimento social, cultural, político, econômico, religioso e humano da época. E aliado ao incipiente desenvolvimento científlco e tecnológico, esse modelo de educação foi restrito a poucos, sendo, que a produção,, a veiculação e a expansão de novos conhecimentos e concepções ainda não se constituíam em necessidades do capital. Sócrates, Platão, Aristóteles, na Antiguidade, e Santo Tomás de Aquino, na Idade Média, compreendidos no interior do processo histórico de construção do pensamento pedagógico, representam algumas e as primeiras expressões filosófico-pedagógicas daqueles tempos. Para Platão, & educação “deve proporcionar ao corpo e à alma toda a perfeição e beleza de que são suscetíveis” (Luzuriaga 1977, p. 53); para Aristóteles, deve “moldar a matéria com a energia do sentido contido na noção de forma humana” (Sucholdoski 1978, p. 21); para Santo Tomás de Aquino,deve ser “uma atividade em virtude da qual os dons potenciais se tornam realidade atual” (ibid., p. 21). Baseados num modelo ideal de essência humana, ideia perfeita (Platão), uma forma que molda a matéria (Aristóteles), um ser que existe em potência (Santo Tomás de Aquino), esses pensadores, no interior dos respectivos tempos históricos em que viveram, desenvolveram e difundiram concepções de educação do homem que expressam relações Repensando a didática 17 que ligam o desenvolvimento humano a finalidades colocadas em um modelo ideal de humanidade — de formação do caráter, de moral, de hábitos, do domínio das paixões, da justiça, do deSenvolvimento religioso-intelectual, físico e artístico. Na Idade Média, especialmente diante do predomínio da visão cristã (Igreja Católica) de mundo, a educação enfatizou a formação do homem Como ser imperfeito em busca de perfeição. A finalidade dessa prática educativa visava retirar o ser humano da condição de pecador, conduzindo- o a um ideal de salvação da alma. Não sendo compreendida como uma individualidade, a liberdade humana era relativa aos dogmas da Igreja e todas as manifestações do pensamento deveriam ser submetidas à sua autoridade, como representante terrena da autoridade divina. A autoridade moral, filosóúca e religiosa do mestre, a disciplina e a verdade religiosa transmitidas tinham como referência uma visão de Deus que premiava os bons com o céu e castigav-a os maus com o inferno. Os princípios fundamentais desse modelo de educação podem ser encontrados, por exemplo, na obra de Santo Tomás de Aquino e na Ratio Studiorum dos jesuítas, embora esta última já influenciada pelo capitalismo emergente. No contexto de transição entre a sociedade feudal e a capitalista, Comênio (1592-1670) escreveu a Didáctica Magna (1657). Como pastor e bispo protestante, professor e reitor, ele criticou o dogmatismo da Igreja Católica e da sociedade que perseguiu o protestantismo. Para ele, a causa das guerras e das chagas da humanidade é a ignorância humana, e o remédio para a cura será encontrado na educação de todos os povos, No título da obra, fica explícita a concepção de didáctica como processo seguro e excelente para instruir, em todas as comunidades, toda a juventude de ambos os sexos, e propõe a reforma da escola, do ensino e da cristandade. Essa reforma, valendo-se da disciplina, do interesse. e do trabalho útil, deve alcançar mais progresso, mais ciência, mais paz, mais religião. A proa e a popa da nossa Didáctica será investigar e descobrir o método segundo o qual os professores ensinem menos e os estudantes aprendam mais: nas escolas haja menos barulho, menos enfado, menos trabalho inútil, e, ao contrário, haja mais recolhimento, mais atractivo e mais sólido progresso; na Cristandade, haja menos trevas, menos Confusão, 18 Papirus Editora. menos dissídios, e mais luz. mais ordem, mais paz,,mais tranquilidade-. (Comênio 1976, p. 44) Produzida no interior dos movimentos sociais e políticos que atingiram e transformaram o modelo feudal de sociedade, a Didáctica Magna, definida como Tratado da arte universal de ensinar tudo a todos, sem se desvincular da finalidade religiosa, pretendeu estruturar um método para reformar a escola e criticar as práticas educativas de seu tempo. Nessa obra foram sistematizadas as bases de uma Didáctica, significando “arte de ensinar” com tal “certeza, rapidamente e solidamente”, e por isso perfeita para indicar o caminho fácil e seguro para ser colocado em prática sem fadigas e sem caprichos, sem limitações e Sem ilusões, sem erros e sem faltas. Para Comênio, a escola é uma verdadeira “oficina de homens” e deve encaminhar os alunos para uma verdadeira instrução, para os bons costumes e para a piedade sincera. A arte de tudo ensinar e de tudo aprender deve ser apoiada nas letras, nas ciências, nas virtudes e na religião (ibid., p. 190). Comênio compara a arte de ensinar ao trabalho do jardineiro no cuidado das plantas — os que educam e instruem a juventude têm a obrigação de semear habilmente na alma dos jovens as sementes do que vão ensinar, e de regar cuidadosamente as plantazinhas de Deus (ibíd., pp. 205-206). O professor deve imitar a arte da natureza, como remédio contra os defeitos da própria natureza, Todas estas coisas devem ser demonstradas a priori, derivando-as da própria natureza das coisas (ibid., pp. 4445). São alguns princípios deste método: formar nos estudos, educar nos bons costumes e impregnar de piedade, com economia de tempo e de fadiga, com agrado e com solidez; tirar da própria natureza de todas coisas, o Seu fundamento,-, pondo em ação os mesmos processos utilizados por ela; demonstrar a verdade com exemplos paralelos às artes mecânicas (ibid., p. 43). Assim que a burguesia entrou em cena, novas condições para o desenvolvimento do capital constituíram-se em bandeira de luta para a institucionalização das relações sociais emergentes. Aquelas concepções de que “a verdadeira educação cumpre ligar o homem à sua verdadeira pátria, a pátria celeste, e destruir, ao mesmo tempo, tudo o que prende o homem à Sua existência terrestre”, desenvolvidas durante a Idade Média, foram superadas pela concepção “de “individualidade” e do “desenvolvimento Repensando a didática 19 humano-” (Sucholdoski 1978», pp. 20-25). As relações sociais de trabalho caminhavam, agora, para instituir uma sociedade voltada para a produtividade e o consumo e a escola não poderia continuar adotando uma pedagogia fundamentada nos pressupostos e na prática utilizada pela escolástica. Se, nas relações sociais de produção medieval, a educação escolar era privilégio e necessidade da Igreja, para atender às necessidades de desenvolvimento do capital, ela foi instituída como dever do Estado e direito do cidadão, visando adequa—lo e adapta-lo a uma sociedade em constante mudança. Para atender a essa nova finalidade de educação do homem, foi instituído um novo modelo de escola com a finalidade de instrumentalizar o homem para o trabalho produtivo dirigido à fmalidade de acumulação capitalista. É nesse contexto de mudanças para a implantação de um novo modelo de sociedade que se inicia o processo de construção do conhecimento que trata da abordagem científica da educação. Herbart (1776-1847), denominado de pai da moderna ciência da educação, iniciou o processo de sistematização da ciência pedagógica, até então tratada como atividade prática. Nesse momento, a conversão da prática educativa em ciência formal tem seu fundamento na atividade subjetiva do homem e suas bases teóricas encontram-se nos estudos de filosofia e psicologia: “A ética determina os fins da educação e a psicologia regula seus meios” (Herbart s./d., p. 9). A ação pedagógica, por meio da atividade subjetiva da criança, penetra no mais íntimo de formação do espírito de um ser que vem ao mundo desprovido de vontade e incapaz de decidir sobre suas ações. Partindo do papel do adulto na educação da criança, Herbart define a educação moral como forma de desenvolver na alma da criança uma inteligência e uma vontade adequadas. A moralidade reside na vontade determinada pela inteligência. Assim, a formação moral não deve ficar restrita ao aspecto exterior das ações do homem, mas desenvolver no espírito da criança uma vontade acomodada a uma inteligência. No homem adulto, o ideal é percebido e buscado pela escolha; assim, a educação deve voltar— se para o desenvolvimento da moral subjetiva da qual, por sua própria natureza, é dotado o espírito. A. educação. moral tem, pois, por fim fazer que as idéias de justiça e do bem, em todo seu rigor e pureza, cheguem a ser os objetos propriamente ditos da 20 Papirus Editora. vontade, e que se determine conforme a elas o valor intrínseco, real do caráter, a essência profunda da personalidade. (Ibiá, pp. 117-118) O desenvolvimento do caráter da criança é definido em três estágios: sensação e percepção; memória e imaginação;julgamento e conceitos universais. Sendo as ideias mais simples produzidas pelos povos mais antigos, a vida passada e mais simples que a presente, então, quanto mais imatura for a criança, o ensino deve utilizar as experiências passadas por serem mais simples e apelarem para o interesse de quem aprende. Para ele, como razão, espírito e atividade intrínseca, o homem é colocado diante das coisas por meio dos sentidos. Estando unida ao presente e ao passado das ciências, das artes e das letras, a instrução deve utilizar, o mais possível, as coisas existentes. Mas a experiência não é a única fonte de conhecimento, pois à medida que elementos primários são experimentados, os conhecimentos posteriores são adquiridos com base nos primeiros. Aprender também significa a reação do espírito para obter representações diante das coisas, por meio dos sentidos, pois as reações da alma (as percepções, os conceitos e as ideias) diante das coisas são representações formuladas, pelo homem, diante da experiência. Com essa compreensão, o ensino herbartiano colocará maior ênfase na literatura e na história, vis-ando apresentar à criança a vida dos grandes heróis, suas experiências 'e representações, para que possa perceber, compreender e formar julgamentos em situações de complexidade crescente. É papel do educador cuidar para tornar claras as representações que são trazidas à mente do educando. Deve desenvolvê—las desde o nível de sensações e percepções, passando pelo da imaginação e da memória, até chegar ao pensamento conceitual e ao julgamento. Torna-se fundamental para o educador: encaminhar a maior parte de suas reilexões para o que ensina, tomando—o acessível à criança e dirigindo suas esperanças para o que a humanidade pode realizar. Pela primeira vez é formulado um esquema de cinco passos formais a serem seguidos pelo professor na instrução: no primeiro passo, o professor recorda os conhecimentos já aprendidos; no segundo,, o novo conhecimento é apresentado ao aluno; no terceiro, compara-se o novo conhecimento ao velho, encaminhando para a assimilação; no quarto passo, chega-se a generalização; e no quinto, efetiva—se a aplicação em exercícios.. Repensando a didática 21 Após Herbart, entre o século X]X e a primeira metade do século XX, Dewey (1859-1952) propõe a renovação da. escola, alterando a abordagem das finalidades da prática educativa. Para ele, o progresso distanciou a capacidade original da criança dos ideais e dos costumes dos adultos. Deve-se, assim, criar uma escola nova com a fmaJidade de direcionar o crescimento infantil para melhor compreender o significado do que é aprendido e para desenvolver aptidões adequadas à vida da qual faz parte. O professor não deve voltar o ensino para a transmissão/assimilação do conhecimento, como propôs Herbart, mas torna-lo atraente, facilitar a aprendizagem e desenvolver aptidões, interesses e a criatividade do aluno, visando atender aos anseios da sociedade. As finalidades colocadas pela sociedade serão o fundamento para a escola nova. “A sociedade subsiste, tanto quanto a vida biológica, por um processo de transmissão (...) dos hábitos de proceder, pensar e sentir” (Dewey 1979, p. 3). É por meio desse processo de transmissão que o indivíduo se entrega a atividades que possuem determinados objetivos, despertam determinados impulsos e provocam determinadas consequências. Por isso é fundamental que se permita à criança o contato direto e contínuo com as coisas, pois somente pela transformação direta da qualidade da experiência do aluno é que a escola atingirá sua finalidade. Assim, educação “(...) é uma reconstrução ou reorganização da experiência que esclarece e aumenta o sentido desta e também nossa aptidão para dirigirmos o curso das experiências subsequentes” (ibid., p. 83). Dewey, pela via de alteração da relação professor-aluno,, criticou o modelo de ensino centrado no professor e na transmissão de conhecimento. Sua concepção de ensino está fundada no princípio de que a mente e a inteligência humanas evoluem com base em situações práticas e sociais de vida. A transmissão dos interesses, dos valores e das ideias predominantes sobre o pensar e o agir do homem na sociedade desenvolve, adapta e conduz o aluno segundo as necessidades de desenvolvimento e de progresso social. A causa de muitos erros na escola é o fato de a relação pedagógica não levar em conta os diferentes níveis de compreensão da matéria de estudo em que se encontram o professor e o aluno. De um lado, o professor, já familiarizado com a matéria de estudo, deve focalizar sua atenção na atitude mental e nas reações dos alunos, em suas necessidades e aptidões. De outro 22 Papirus Editora. lado, estando o aluno colocado em um nível inicial de compreensão, deve associar o conteúdo a ser aprendido a suas experiências diretas e práticas. Não estando diretamente relacionado à experiência da criança, o Conteúdo do ensino não é nem pode ser idêntico ao formulado, cristalizado e sistematizado nos livros. O ensino deve procurar adaptar a matéria de estudo às necessidades atuais da vida individual e social do aluno, partindo de seus interesses e experiências. É fundamental que o professor conheça bem o conteúdo do ensino, compreendendo seu significado para a presente vida social e fornecendo os pontos básicos dos conhecimentos já desenvolvidos. Ele será o criador de situações estimuladoras para provocar., em quem aprende, reações ou respostas que garantam a formação de atitudes intelectuais e sentimentais adequadas, por meio de matérias de estudos organizadas em centros de interesse diretos e. práticos e com significação na vida do aluno. Na visão crítica de Dewey, o ensino fundamentado na atividade do aluno é oposto às formas que situam o professor e o conteúdo de ensino como centros do processo educativo. E ensinar a pensar significa aumentar a eficiência da ação, utilizando-se de condições e meios para estimular, promover e colocar à prova o pensamento e a reflexão. Em primeiro lugar, deve haver uma verdadeira situação de experiência que garanta contínua 'e interessante atividade do aluno; em segundo lugar, como um estímulo ao ato de pensar, será necessário que um verdadeiro problema seja desenvolvido; em terceiro, o aluno deve possuir as informações e as observações necessárias para agir; em quarto lugar, desenvolver de modo bem ordenado as sugestões encontradas para a solução do problema; e, por último, que as soluções encontradas possam ser comprovadas, para que o aluno tenha a oportunidade de pôr em prova suas ideias, aplicando-as e descobrindo o significado e o valor das mesmas (ibid., pp. 179-180). Essa sequência é, também, sinteticarnente colocada em cinco passos, em oposição ao esquema formal herbartiano: 1) a atividade do aluno; 2) a definição de uma problemática de estudos; 3) a coleta de dados; 4) a elaboração de hipóteses; 5) a experimentação. Na medida em que a produção material da vida'humana passou a utilizar novas tecnologias no trabalho produtivo, também foram alteradas as operações cognitivas e motoras necessárias ao desempenho do trabalho Repensando a didática 23 humano, sendo crescentes as críticas sobre a função específica da escola na educação formal do aluno para a vida social. Nesse momento, tomou-Se enfoque central do ensino a abordagem do processo de organização de condições eficientes e eficazes, para desenvolver a individualidade e a atividade do aluno na aprendizagem de habilidades, atitudes e conhecimentos científicos. Assim, no século XX, Skinner contribuiu para introduzir no ensino e na pesquisa em didática mais uma dimensão do ato de ensinar: a organização do ambiente favorável para modelar o comportamento no aluno, tendo em vista adaptá-lo e ajustá-lo ao ambiente e à vida social. Para Skinner, a escola precisa desenvolver, com urgência, uma tecnologia do comportamento para resolver os problemas postos pelo progresso, uma vez que o efeitodo ambiente no comportamento foi desconhecido por muito tempo. Para ele, é possível perceber com facilidade que os organismos interferem no ambiente. Mas avaliar o resultado da 'ação dele nos organismos não se constitui em objeto de atenção por parte de quem ensina. Para isso, foi necessário que. a humanidade desenvolvesse nova concepção da relação entre o homem e o ambiente. Segundo ele, a partir do século XIX, aproximadamente, deixou— se de compreender o ambiente como apenas um cenário onde os diferentes seres vivos nascem, reproduzem-se e morrem, para compreender que ele “atua de modo imperceptível: não impele, nem puxa, mas seleciona” (Skinner 1972b, p. 17).. Para Skinner, a função do ambiente “é semelhante à seleção natural, embora numa escala de tempo bastante diferente; (...) torna-se claro agora a importância de considerar o que o ambiente produz no organismo, não somente antes como depois de sua resposta” (ibid, p. 18). O ambiente é o fundamento de formação e de manutenção de qualquer tipo de comportamento. E, por meio de 'sua manipulação, obtêm-se consequências específicas de condicionamento de comportamentos desejáveis. O processo de aprendizagem está hoje muito melhor compreendido. Muito do que se sabe advém do estudo do comportamento de organismos inferiores, mas os resultados se mantêm surpreendentemente bons para sujeitos humanos. (...) Arranj ando contingências apropriadas de reforço., formas específicas de comportamento podem ser estabelecidas e postas sob o controle de classes específicas de estímulo. O comportamento 2'4 Papirus Editora. resultante pode ser mantido com forças por longos períodos de tempo. Técnicas baseadas neste trabalho já estão sendo postas em prática na neurologia, na farmacologia, na dietética, na psicologia, na psiquiatria, "e em outros campos. (Skinner 1972a, pp. 30-31) Fundada na psicologia que explica o c0ndici0namento ºperante, essa abordagem do ato de ensinar enfatiza a recompensa e a punição como garantias de que o objetivo seja alcançado. O ensino é, então, compreendido como (...) um arranjo de contingências sob as quais os alunos aprendem. Aprendem sem serem ensinados no seu ambiente natural, mas os professores arranjam contingências especiais que aceleram a aprendizagem, facilitando o aparecimento do comportamento que, de outro modo, seria adquirido vagarosamente, ou assegurado o aparecimento do comportamento que poderia, de outro modo, não ocorrer nunca. (Ibict, p. 62) No arranjo sistemático do ambiente, a atividade do aluno para aprender será direcionada para se obterem as respostas desejadas. Para alcança-las, devem-'se observar alguns cuidados na programação “de estímulos adequados: (...) que comportamento deve ser estabelecido? Quais os reforçadnres que estão à disposição? Com que respostas é possível contar para iniciar um programa de aproximação sucessiva que levará à forma final do comportamento? Como podem ser esquematizados com mais eíiciência os reforços para manter o comportamento fortalecido? (Ibid., p. 18) Skinner propõe ainda que, para alcançar o controle do comportamento do aluno, deve—se manipular o reforço com considerável precisão e modelar a resposta desejada, segundo o controle de vários tipos de estímulos, por meio das máquinas de ensinar e da instrução programada desenvolvidas em laboratórios. Ambas estão fundadas na apresentação de uma situação (estímulo) que exige resposta imediata. A máquina de ensinar — “qualquer artefato que disponha de contingência de reforço” (ibid ., p. 63) — e a instrução programada constituem-se em meios de programar situações para mudar um comportamento frequente. Repensando a didática 25 No atual estágio de produção capitalista, a humanidade vivencia transformações fundamentais na vida humana e na organização da sociedade, requerendo nova abordagem da prática pedagógica desenvolvida pela escola Vive-se uma verdadeira explosão de ciência e de tecnologia que distancia, cada vez mais, a humanidade do mundo resultante, primeiro, do trabalho artesanal, e, depois, industrial. Em Sentido amplo, e do ponto de vista do progresso e da acumulação capitalista, o processo inicial de automatização do trabalho humano — e, posteriormente,, o processo de sua automação — impôs ao homem um novo ritmo de vida e uma nova leitura de mundo. O progresso é surpreendente e todas as áreas do saber científico estão sob o impacto de novas conquistas. O transplante de genes, & fabricação de tecidos e de órgãos inteiros, a alteração da carga hereditária etc. já estão sendo objeto de projetos de pesquisa científica. Os avanços no campo da engenharia genética e da biotecnologia permitem,. em curto espaço de tempo-, transformar as atuais abordagens da vida humana. No interior desse processo, a sociedade, o homem e o conhecimento científico são compreendidos/explicados/vivenciados por pressupostos que, em grande parte, ainda estão regidos pela racionalidade científica, pela aspiração de crescimento econômico ilimitado, pela crença no ines gotamento dos limites físicos e dos recursos naturais estratégicos, pelo poder efetivo do Estado soberano e pela aceitação de que existe um modelo correto para organizar e regular a vida social etc. É no contexto desse atual estágio de produção capitalista que, entre o Ena] do século XX e o início do século XXI, Perrenoud (1999) introduz nova dimensão para abordar o trabalho pedagógico desenvolvido pela escola: a formação de competências. Para o referido autor, o enfrentamento das múltiplas e diferentes ações humanas presentes no mundo atual requer que o homem coloque em ação e em sinergia vários recursos cognitivos. Um desses recursos é o conhecimento que se apresenta em vários níveis de elaboração — elementar, esparso, superficial, aprofundado, complexo, organizado em rede, especializado, oriundo da experiência pessoal, do senso comum, da pesquisa tecnológica e científica. A aquisição de conhecimentos e a finalidade da escola. No sentido comum da expressão, os conhecimentos adquiridos pelo homem são representações da realidade construídas e armazenadas com base nas experiências e na formação escolar. Contudo, o que aparece na 26 Papirus Editora. ação não são os conhecimentos-, mas as competências que utilizam, integram e mobilizam conhecimentos que o homem desenvolve e adquire. As competências consistem em colocar em relação os conhecimentos específicos e a representação do problema a resolver-, pondo em uso um raciocínio e uma intuição também específicos. Competências são “uma capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiada em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles” (Perrenoud 1999, pp. 7-8). Para o autor, ser professor significa focalizar o aluno, criando situações favoráveis para aumentar as probabilidades de aprendizagens e utilizar métodos ativos de ensino para desenvolver os conhecimentos, as habilidades e as atitudes pretendidas. Essa concepção de docência é concebida em dois sentidos: 1) nova relação do professor com o saber: “não se trata de expor de maneira erudita e metódica todo o conhecimento que se domina sobre determinado assunto, mas utilizar o conhecimento como recurso para identificar e resolver problemas, para preparar e para tomar decisões”; não se trata de transmitir conhecimentos seguindo uma ordem lógica para serem utilizados, após exercícios de compreensão e de memorização, mas de lidar “com a regulação do processo” de aprendizagem e com a construção de problemas de complexidade crescente (ibid., pp. 54- 55); 2) que o professor trabalhe regularmente com problemas. Ensinar praticando mais e mais não é suficiente, é preciso criar situações para o aluno confrontar—se com diliculdades específicas, bem dosadas, aprendendo a supera-las. Devem-se criar situações que exijam alcançar uma meta, resolver problemas, tomar decisões e regular a aprendizagem, colocando o aluno em confronto com problemas numerosos, complexose realistas, visando mobilizar diversos tipos de recursos cognitivos. Enfim, organizar o trabalho por meio de situações-problema que requerem a proposição de problemas realistas e que estejam incluídos em situações que lhes deem sentidos. Essa abordagem da relação entre as finalidades específicas do trabalho pedagógico e as finalidades sociais colocadas para a instituição escolar evidencia que o caminho percorrido pela elaboração de novas dimensões do ato de ensinar visou atender às novas demandas de condições de formação humana, colocadas pelo progresso e pelo desenvolvimento da humanidade. Nessa perspectiva, embora Comênio tenha tratado a didática como arte, Repensando a didática 2? cronologicamente, na medida em que 'a sociedade caminhou no “sentido do aprimoramento técnico e tecnológico de organização do trabalho produtivo, o modelo de educação formal adotado intensificou a abordagem nos elementos que constituem a relação pedagógica e priorizou as finalidades individuais em detrimento das finalidades sociais de formação humana. O conteúdo produzido sobre o ato de ensinar, sobre as concepções, as classificações e os conhecimentos sistematizados no interior do processo de desenvolvimento e de consolidação da sociedade capitalista e da visão cientíiica de mundo, contribuiu para convergir o campo de ensino e de pesquisa em didática para as relações que ocorrem entre os elementos que constituem a relação pedagógica, no interior da sala de aula, instrumentalizando o professor para a organização, o desenvolvimento e a avaliação do processo de ensinar/aprender. Nas variadas definições de Didática encontradas em livros, podem-se perceber, ao analisa—la, as diversas considerações tecidas a seu respeito. Assim, Didática e considerada arte, técnica, ciência, disciplina ou ainda metodologia. Observa-se contudo certa concordância entre os autores que sua temática central é guiar, dirigir ou instrumentalizar o processo ensino-aprendizagem em que estão envolvidos aluno e professor. (Alvite 1981, p. 21) Nessa perspeCtiv'a, o ensino da didática passou à história como um conjunto de regras destinadas» à ordenação prévia do ato de ensinar. Se se pensar na história da didática, concluir-se-á que negar o seu conteúdo instrumental, normativo e pretensamente neutro e, de certa forma, negar a própria disciplina. Desde o seu primeiro momento, & Didática organizou-se como um corpo dedoutrina, de prescrição. Lembre-se que Comênio definiu sua Didática Magna, que inaugurou a disciplina, como um artifício universal para ensinar tudo a todos. A partir daí, a Didática — em sua produção intelectual e em seu ensino — outra coisa não tem sido senão um conj unto de normas, recursos e procedimentos que devem (deveriam?) informar e orientar a atuação dos professores. (Soares 1986, p. 39) Mas compreende—se aqui que, além de se constituir em um conjunto de preceitos que orientam o professor na prática educativa, () ensino, como 28 Papirus Editora prática social específica, está inserido em processo social mais amplo. Esse processo, historicamente institucionalizado por meio de determinadas práticas especíúcas, concretiza relações sociais de produções material, intelectual e moral da vida humana em sua totalidade. Assim, as práticas desempenhadas pela escola, pela família, pelo Estado, pela indústria, pelos meios de comunicação, por exemplo, possuem finalidades e funções históricas e sociais específicas que contribuem para estabelecer, desenvolver e manter um modelo de sociedade e de desenvolvimento humano. As finalidades do trabalho desenvolvido pelas instituições de uma sociedade não possuem um significado restrito apenas a sua prática específica, mas estão articuladas, dinamicamente, a uma prática social mais ampla que as define e as regula. Concluindo... O trabalho pedagógico desenvolvido pela instituição escolar não possui um fim em si mesmo. Por meio do ato de ensinar, a escola concretiza finalidades educativas específicas no contexto da sociedade. Assim, a prática social específica de educação formal do homem, instituída pelo modo capitalista de produção, transmite sistematicamente conhecimentos e desenvolve habilidades intelectuais, motoras e. afetivas necessárias e adequadas a um processo social e individual de formação humana. Nessa perspectiva, o pensamento pedagógico, compreendido no interior do processo histórico que produziu conhecimentos sobre o ato de ensinar, expressa um processo mais amplo de abordagem de educação formal do homem, no contexto que organizou e legitimou a escola como instituição social. Assim, parte-se do pressuposto de que a abordagem crítica, a compreensão e a análise que identificam as relações colocadas entre a prática pedagógica desenvolvida pelo professor e a finalidade social da escola contribuem para tornar o professor consciente da função social e específica da docência, constituindo—se em meio de identificação do papel teórico- prático desempenhado pelo ato de ensinar. Tendo em vista essa compreensão, & didática, como área de conhecimento que- tem como objeto de estudo o ato de ensinar; será tratada Repensando a didática 29 em dupla dimensão. De um lado, constitui-se em um conteúdo técnico, relativo à forma de organizar, desenvolver e avaliar a transmissão, direta e indireta, do conteúdo objeto do ensino. De outro lado, o ato de ensinar vivencia dimensões colocadas como sua finalidade e também um conteúdo, aqui, denominado de pedagógico. Esse conteúdo é relativo às concepções de homem, de educação, de sociedade e de mundo vivenciadas pelos conhecimentos, valores e habilidades desenvolvidos como finalidades específicas pelo professor e compreendidos no interior de finalidades mais amplas para a escola como instituição social. Na medida em que o professor possui, como objeto específico de trabalho, a transmissão direta ou indireta2 de conhecimentos sistematizados historicamente, a prática escolar, como práticas social, política, moral e profissional de formação do homem, não pode ser analisada e entendida apenas no sentido das relações que ocorrem entre o papel diretivo do professor para ensinar, ou para planejar a ação educativa, ou para estimular a atividade do aluno, por exemplo. As finalidades individuais e sociais colocadas pela educação formal também transmitem concepções de mundo. Expressam valores, concepções científicas, habilidades intelectuais e motoras etc., que o aluno apreende, como ser social, político, moral e proãssional. Entende-se, assim, que o modelo de educação formal organizado e desenvolvido pela instituição escolar, com a finalidade específica de formação humana, visando atender ao atual estágio de desenvolvimento de trabalho produtivo, é historicamente produzido e desenvolve habilidades intelectuais e motoras adequadas3 ao desenvolvimento da sociedade. “2. Transmissão direta está sendo entendida eomoªa transmissão“ do conhecimento pelo professor; transmissão indireta, a transmissão do conhecimento por meio da atividade do aluno ou de outros meios e recursos utilizados no ensino. 3. É importante observar que não se pretende aqui considerar, apenas, a relação conservadora., linear e reprodutivista, entre a instituição escolar e a sociedade, compreendendo que o papel da escola consiste somente na adequação de suas finalidades específicas às demandas colocadas pela prática social mais ampla. Mas considera-se também que, contraditoriamente, a ação dirigida pelo homem possibilita espaço para a transformação. Esta é possível na medida em que o homem, como ser pensante, ao mesmo tempo sujeito e objeto, processo e produto do trabalho que produz a existência humana, é o agente social, corpo e intelecto, capaz “de analisar, compreender e contribuir para transformar a realidade por meio do trabalho social e intelectual que realiza. Pºr isso, as instituições sociais em seu conjunto,, como meios de organização do trabalho humano, na medida emque organizam e desenvolvem práticas que 30 Papirus Editora. A escola, por seus conteúdos, por suas formas e por seus sistemas de organização, introduz nos alunos/as, paulatina, mas progressivamente, as idéias, os conhecimentos, as concepções, as disposições e os modos de conduta que a sociedade adulta requer. Dessa forma, contribui decisivamente, para a interiorização das idéias, dos valores e das normas da comunidade, de maneira que, mediante esse processo de socialização prolongado, a sociedade industrial possa substituir os mecanismos de controle externº" da conduta por disposições mais ou menos aceitas de autocontrole. (Sacristãn 1999, p. 14) Dessa maneira, a transformação do modelo de ensino predominante neste momento histórico passa pela compreensão e pela abordagem das finalidades sociais e específicas da prática pedagógica, vivenciadas por meio das relações colocadas entre os elementos que a constituem — o professor, o aluno, os conhecimentos, os procedimentos e os recursos de ensino. A contextualização dessas finalidades, o significado social e humano das decisões do professor para abordar os conhecimentos e as relações que ocorrem no processo de ensinar e aprender, a superação da Visão do senso comum para explicar as opções pedagógicas do professor, são alguns exemplos de outras dimensões que se entrecruzam no interior da prática pedagógica a serem considerados em uma concepção de transformação do ato de ensinar. Nessa perspectiva, as teorias e as práticas pedagógicas produzidas historicamente pelo processo de sistematização do saber sobre a arte de ensinar também representam concepções de educação e de ensino que expressam as condições e as exigências sociais de educação formal, visando à formação do homem para exercer funções específicas no mundo do trabalho, em diferentes momentos do processo social de produção da vida humana. Tratar o ato de ensinar apenas como prática educativa desenvolvida pela escola, a fim de adequar 'seus modelos teóricos e práticos a crescentes demandas colocadas pelo progresso social, supõe desconsiderar a possibilidade. de transformação da visão de mundo predominante. contribuem para manter a sociedade, constituem“- se, também, em meios que contribuem para transformar a realidade. A relação social de produção feudal pôde ser superada pela relação capitalista, na medida em que o trabalho produtivo, desempenhado pelas instituições feudais, desenvolveu as condições materiais e intelectuais para que se produzissem novas necessidades, novas concepções, novos valores e novas finalidades sociais para a vida humana. Repensando a didática 31 Referências bibliográficas ALVITE, M.M.C. (1981). Didática e psicologia: Crítica ao psícologismo da educação. São Paulo: Loyola. CANDAU, V.M. e LELIS, IA. 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São destacados os aspectos socioeconômicos, políticos e educacionais que servem de pano de fundo para identificar as propostas pedagógicas presentes na educação, bem como os enfoques do papel da didática. Primórdios da didática: O período de 1549/1930 Os jesuítas foram os principais educadores de quase todo o período colonial, atuando no Brasil, de 1549 a 1759. * Texto apresentado ao Grupo Metodologia Didática, na X Reunião Anual da Anped, Salvador, maio de 1987. Revisado e ampliado em janeiro de 2003. Repensando adidática 33 No contexto de uma sociedade de economia agrário-exportadora- dependente, explorada pela metrópole, a educação não era considerada um valor social importante. A tarefa educativa estava voltada para a catequese e a instrução dos indígenas; entretanto, para a elite colonial, outro tipo de educação era oferecido. O plano de instrução era consubstanciado na Ratio Studiomm, cujo ideal era a formação do homem universal, humanista e cristão. A educação se preocupava com o ensino humanista de cultura geral, enciclopédico e alheio à realidade da vida de colônia. Esses eram os alicerces da pedagogia tradicional na vertente religiosa que, de acordo com Saviani (1984a, p. 12), é marcada por uma “visão essencialista de homem, isto é, o homem constituído por uma essência universal e imutável”. A essência humana é considerada criação divina e, assim, o homem deve empenhar-se para atingir a perfeição, “para fazer por merecer a dádiva da vida Sobrenatural” (ibid., p. 12). A ação pedagógica dos jesuítas foi marcada pelas formas dogmáticas de pensamento contra o pensamento crítico. Privilegiava o exercício da memória e o desenvolvimento do raciocínio; dedicava atenção ao preparo dos padres-mestres, dando ênfase à formação do caráter e à formação psicológica para conhecimento de si e do aluno. Dessa forma, não se poderia pensar em uma prática pedagógica e muito menos em uma didática que buscasse uma perspectiva transformadora na educação. Os pressupostos didáticos diluídos na Ratio Studio:-mn“ enfocavam instrumentos e regras metodológicas compreendendo o estudo privado, em que o mestre prescrevia o método de estudo, a matéria e o horário; as aulas, ministradas de forma expositiva; a repetição, visando repetir, decorar e expor em aula; o desafio, estimulando a competição; a disputa, outro recurso metodológico visto como uma defesa de tese.. Os exames eram orais e escritos, visando avaliar o aproveitamento do aluno. O enfoque sobre o papel da didática, ou melhor, da metodologia de ensino, como é denominada no código pedagógico dos jesuítas, está centrado em “seu caráter meramente formal, tendo por base o intelecto, o comecímento, e marcado pela visão essencialista de' homem. 34 Papirus Editora. A metodologia de ensino (didática) é entendida como um conjunto de regras e normas prescritivas que visam à orientação do ensino e do estudo. Como afirma Paiva (1981, p. 11), “um conjunto de normas metodológicas referentes à aula, seja na ordem das questões, no ritmo 'do desenvolvimento e seja,. ainda, no próprio processo de ensino”. Após os jesuítas, não ocorreram no país grandes movimentos pedagógicos,como são poucas as mudanças sofridas pela sociedade colonial e durante o Império e a República. A nova organização instituída por Pombal representou, pedagogicamente, um retrocesso. Professores leigos começaram a ser admitidos para as “aulas-régias” introduzidas pela reforma pombalina. Por volta de 1870, época de expansão cafeeira e da passagem de um modelo agrário—exportador para um urbano-comercial-exportador, o Brasil vive o seu período de iluminismo. Segundo Saviani (1984, p. 275), “tomam corpo movimentos cada vez mais independentes da influência religiosa”. No campo educacional, suprime-se o ensino religioso nas escolas públicas, passando o Estado a assumir a laicidade. É aprovada a reforma de Benjamin Constant (1890), sob a influência do positivismo. A escola busca disseminar uma visão burguesa de mundo e sociedade, a Em de garantir a consolidação da burguesia industrial como classe dominante. Os indicadores de penetração da pedagogia tradicional em sua vertente leiga são os pareceres de Rui Barbosa, de 1882, e a primam reforma republicana, de Benjamin Constant, em 1890. Essa vertente leiga da pedagogia tradicional mantém a visão essencialista de homem, não como criação divina, mas aliada à noção de natureza humana, essencialmente racional. Inspirou a criação da escola pública, laica, universal e gratuita (Saviani 1984b, p. 274). A essa teoria pedagógica corresponderiam as seguintes características: a ênfase no ensino humanístico de cultura geral, centrado no professor, que transmite a todos os alunos, indistintamente, a verdade universal (: enciclopédica; a relação pedagógica se desenvolve de forma hierarquizada e verticalista, onde o aluno e educado para seguir atentamente a exposição do professor; o método de ensino, calcado nos cinco passos formais de Herbart (preparação ou apresentação, comparação,, assimilação, generalização e aplicação). Repensando a didática 35 É assim que a didática, no bojo da pedagogia tradicional "leiga, está centrada no intelecto, na essência, atribuindo um caráter dogmático aos conteúdos; os métodos são princípios universais e lógicos; o professor se torna o centro do processo de aprendizagem, concebendo o aluno como um ser receptivo e passivo. A disciplina é a forma de garantir a atenção, o silêncio e a ordem. A didática é compreendida como um conjunto de regras que visam assegurar“ aos futuros professores as orientações necessárias ao trabalho docente. A atividade docente é entendida como inteiramente autônoma em face da política, dissociada das questões entre escola e sociedade. Uma didática que separa teoria e prática. A pedagogia tradicionalista leiga refletia-se nas disciplinas de natureza pedagógica do currículo das Escolas Normais desde o início de sua criação, em 1835. A inclusão da didática como disciplina em cursos de formação de professores para o então ensino secundário ocorreu quase um século depois, ou seja, em 1934. A didátzÍCa nas Cursos. de famção de professores a partir de.. 1930 O período de 1930/1945: A didática é “tradicional, cumpre renová—la Na década de 1930, a sociedade brasileira Sofre profundas transformações, motivadas basicamente pela modificação do modelo socioeconômico. A crise mundial da economia capitalista provoca no Brasil a crise cafeeira, instalando-se o modelo socioeconômico de substituição de importações. Paralelamente, desencadeia-se o movimento de reorganização “das forças econômicas e políticas, o que resultou em um conflito: a Revolução de 30, marco comumente empregado para indicar o início de uma nova fase na história da República do Brasil. 36 Papirus Editora. No âmbito educacional, durante o governo revolucionário de 1930, Vargas constitui o Ministério de Educação e Saúde Pública. Em 1932 é lançado o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, preconizando a reconstrução social da escola na sociedade urbana e industrial. Entre os anos de 1931 e 1932 efetivou-'se a Reforma Francisco Campos. Organiza-se o regime universitário para o ensino superior, bem ccmo a primeira universidade brasileira. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo foi o primeiro instituto de ensino superior que funcionou de acordo com o modelo Francisco Campos. A origem da didática como disciplina dos cursos de formação de professores em nível superior está vinculada à criação da referida faculdade, em 1934, sabendo-se que a qualificação do magistério era colocada como ponto central para a renovação do ensino. No início, a parte pedagógica existente nos cursos de formação de professores era realizada no instituto de educação, sendo aí incluída a disciplina “metodologia do ensino secundário”, equivalente à didática hoje nos cursos de licenciatura. Por força do art. 20 do decreto-lei nº 1.190/39, a didática foi instituída como curso e disciplina, com duração de um ano. A legislação educacional foi introduzindo alterações para, em 1941 , o curso de didática ser considerado um curso independente, realizado após o término do bacharelado (esquema três mais um). Em 1937, ao se consolidar no poder com auxílio de grupos militantes e apoiado pela classe burguesa, Vargas implantou o Estado Novo, ditatorial, que persistiria até 1945. Os debates educacionais foram paralisados e o “prestígio dos educadores passa a condicionar-se às respectivas posições políticas”, como ahrma Paiva (1973, p. 125). O período situado entre 1930 e 1945 é marcado pelo equilíbrio entre as influências das concepções humanista tradicional (representada pelos católicos) e humanista moderna (representada pelos pioneiros). Para Saviani (1983, p. 256), a concepção humanista moderna se baseia em uma “visão de homem centrada na existência, na vida, na ativida ”. Há predomínio do aspecto psicológico sobre o lógico. O escolanovismo propõe um novo tipo de homem, defende. os princípios democráticos, isto é, todos têm direito a Repensando a didática 37 assim se desenvolverem. No entanto, isso é feito em uma sociedade dividida em classes, onde são evidentes as diferenças entre o dominador e as classes subaltemas. Assim, as possibilidades de se concretizar esse ideal de homem se voltam para aqueles pertencentes à classe dominante. A característica mais marcante do escolanovismo é a valorização da criança, vista como ser dotado de poderes individuais, cuja liberdade, iniciativa, autonomia e interesses devem ser respeitados. O movimento escolanovista preconizava a solução de problemas educacionais em uma perspectiva interna da escola, sem considerar a realidade brasileira em seus aspectos político, econômico e social. O problema educacional passa a. ser uma questão escolar e técnica. A ênfase recai no ensinar bem, mesmo que a uma minoria. Dada a predominância da influência da pedagogia nova na legislação educacional e nos cursos de formação para o magistério, o professor absorveu seu ideário. Consequentemente, nesse momento, a didática também sofreu sua influência, passando a acentuar o caráter prático-técnico do processo ensino-aprendizagem, onde teoria e prática são, justapostas. O ensino é concebido como um processo de pesquisa, partindo “do pressuposto de que os assuntos de que o ensino trata são problemas. Para Candau (1982, p. 22), os métodos e as técnicas mais difundidos pela didática renovada são: “centros de interesse, estudo dirigido, unidades didáticas, métodos dos projetos, a técnica de fichas didáticas, o contrato de ensino etc. (...)”. A didática é entendida como um conjunto, de ideias e métodos, privilegiando a dimensão técnica do processo de ensino, fundamentada nos pressupostos psicológicos, psicopedagógicos e experimentais, cientificamente validados na experiência e constituídos em teoria,.ignorando o contexto sociopolítico-econômico. A didática, assim concebida, propiciou a formação. de um novo pertil de professor:. o tecnico. as Papirus Editora. O período de 1945/1960: O predomínio das novasideias ea didática Essa faSe corresponde a aceleração e a diversificação do processo de substituição de importações e à penetração do capital estrangeiro. O modelo político é baseado nos princípios da democracia liberal com crescente participação das massas. É o Estado populista — desenvolvimentalista — representando uma aliança entre empresariado e setores populares contra a oligarquia. No fim do período, começa a delinear-se uma polarização, deixando entrever dois caminhos para o desenvolvimento: o de tendência populista e o de tendência antipopulista. Nesse contexto, insere-'se & educação. A política educacional que caracteriza essa fase reflete muito bem a “ambivalência “dos grupos no poder”, como destaca Freitag (1979, p. 54). Em 1946, o decreto-lei nº 9.053 desobrigava o curso de didática e, já sob a vigência da Lei de Diretrizes e Bases, lei nº 4.024/61, o esquema de três mais um foi extinto pelo parecer nº 242/62, do Conselho Federal de Educação. A didática perdeu seus qualific-ativos geral e especial e introduziu- se a prática de ensino sob a forma de estágio supervisionado. Entre 1948 el961, desenvolvem-se lutas ideológicas em torno da' ºposição entre escola particular e defensores da escola pública. A disseminação das ideias novas ganha mais força com a ação do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep). As escolas católicas se inserem no movimento renovador, difundindo o método de Montessori e Lubienska, Outros indícios renovadores começam a ser disSeminados nessa década, entre os quais se destacam o Ginásio Orientado para o Trabalho (GOT), os Ginásios Pluricurriculares e os Ginásios Vocacionais. Paralelamente a essas iniciativas renovadoras que começaram a ser immantadas, um outro redirecionamento vinha sendo dado à escola renovada, fortemente marcada pela ênfase metodológica, que culminou com as reformas promovidas no sistema escolar brasileiro no período de 1968 a 1971. Por força do convênio celebrado entre o MEC/governo de Minas Gerais — Missão de» ºperaç㺠dos Estados Unidos (ponto IV), criou-se o Repensando a didática 39 Programa Americano-Brasileiro de Auxílio ao Ensino Elementar (Pabaee), voltado para o aperfeiçoamento de professores do curso normal. Nesses cursos, começaram a ser introduzidos os princípios de uma tecnologia educacional importada dos Estados Unidos. Dado seu caráter multiplicador-, o ideário renovador-tecnicista foi-se difundindo. É importante frisar que, nessa fase, o ensino de didática também se inspirava no liberalismo e no pragmatismo, acentuando a predominância dos processos metodológicos em detrimento da própria aquisição 'do conhecimento. A didática se voltava para as variáveis do processo de ensino sem considerar o contexto político-social. Acentua-se, dessa forma, o enfoque renovador-tecnicista da didática, na esteira do movimento escolanovista. O período pós-1964: Os descaminh' ' ' , “os da didática O quadro que se instalou no país com o movimento de 1964 alterou a ideologia política, a forma de governo e, consequentemente, a educação. 0 modelo político-econômico tinha como característica fundamental um projeto desenvolvimentista que buscava acelerar o crescimento socioeconômico do país. A educação desempenhava importante papel na preparação adequada de recursos humanos necessários à incrementação do crescimento econômico e tecnológico da sociedade, de acordo com a concepção economista de educação. 0 sistema educacional era marcado pela influência dos acordos MEC! Usaid, que serviram de sustentáculo às reformas do ensino superior e, posteriormente, do ensino de lª e 29 graus. Também por influência dos educadores americanos foi implantada, pelo parecer 252/69 e pela resolução nº 2/69 do Conselho Federal de Educação, a disciplina “currículos e programas” nos cursos de pedagogia, o que, de certa forma, provocou a superposição de conteúdos da nova disciplina com a didática. O período compreendido entre 1960 e 1968 foi marcado pela crise da pedagogia nova e a articulação da tendência tecnicista, assumida pelo grupo militar e tecnocrata. 40 Papirus Editora. O pressuposto que embasou essa pedagogia está na neutralidade científica, inspirada nos princípios de racionalidade, eficiência e produtividade. BuScou—se a objetivação do trabalho pedagógico da mesma maneira como ocorreu no trabalho fabril. Instalou-se na escola a divisão do trabalho com a justificativa de produtividade, propiciando a fragmentação do processo e, com isso, acentuando as distâncias entre quem planeja e quem executa. A pedagogia tecnicista está relacionada com a concepção analítica de Elosofla da educação, mas não como sua consequência. Saviani (1984a, p. 179) explica que a concepção analítica (...)- não tem por objeto a realidade. Refere-se, pois, a clareza e censistência dos enunciados relativos aos fenômenos eles mesmos. (...) A ela cabe fazer a assepsia da linguagem, depurá-la de suas inconsistências eambigiiidades. Não é sua tarefa produzir enunciados e muito menos práticas. A afinidade entre ambas encontra-se não no plano das consequências, mas no plano dos pressupostos de objetividade, racionalidade e neutralidade. O enfoque do papel da didática com base nos pressupostos da pedagogia tecnicista procura desenvolver uma alternativa não psicológica, situando-se no âmbito da tecnolo gia educacional, tendo como preocupações básicas a eficácia e a eficiência do processo de ensino. Essa didática tem como pano de fundo uma perspectiva realmente ingênua de neutralidade científica. Nesse enfoque, os conteúdos dos cursos de didática centram-se na organização racional do processo de ensino, isto é, no planejamento didático formal e na elaboração de materiais instrucionais, nos livros didáticos descartáveis. O processo é que define o que professores e alunos devem fazer, quando e como o farão. Na didática tecnicista, a desvinculação entre. teoria e prática é mais acentuada. O professor torna-se mero executor de objetivos instrucionais, de estratégias de ensino e de avaliação. Acentua-se o formalismo didático por meio dos planos elaborados segundo normas prefixadas. A didática é concebida como estratégia para o alcance dos produtos previstos para o processo ensino-aprendizagem. Repensando a didática 41 A partir de 1974, época em que tem início a abertura gradual do regime político autoritário instalado em 1964, surgiram estudos empenhados em fazer a crítica da educação dominante, evidenciando as funções reais da política educacional, acobertada pelo discurso político- pedagógico oficial. Tais estudos, agrupados e denominados por Saviani (1983, p. 19) de “teorias crítico-reprodutivistas”, apesar de considerarem a educação 'a partir“ de seus aspectos sociais, concluem que sua função primordial é a de reproduzir as condições sociais vigentes. Elas se empenham em fazer a denúncia do caráter reprodutor da escola. Há uma predominância dos aspectos políticos, enquanto as questões didático—pedagógicas são minimizadas. Em consequência, a didática passou também 'a fazer o discurso reprodutivista, ou seja, a apontar seu conteúdo ideológico., buscando sua desmistific-ação de certa forma relevante,, relegando, porém, a segundo plano, sua especificidade. Candau (1982, p. 28) aErma que: (...) junto com esta postura de denúncia e de explicitação do compromisso com o “status quo” do técnico aparentemente neutro, alguns autores chegaram à“ negação“ da própria dimensão da prática dOCente. Nessa ótica, & didática nos cursos de formação de professores passou a as'sumir o discurso sociológico, filosófico e histórico, secundarizando sua dimensão técnica, comprometendo, de certa forma, sua identidade, e acentuando uma postura pessimista e de descrédito no que se refere à sua cºntribuição quanto à prática pedagógica do futuro professor. Contudo, pode—se perceber que, se de um lado a teoria crítico- reprodutivista contribuiu para acentuar uma postura depessimismo, de outro, a atitude crítica passou a ser exigida pelos alunos, e os professores procuraram rever sua própria prática pedagógica a fim de tomá-la mais coerente com a realidade sociocultural. A didática é questionada e os movimentos em torno de “sua revisão apontam para a- busca- de novos rumos. 42 Papirus Editora. A década de 1980: A didática'no bojo da'pe'dagogia crítica Ao longo dos anos 80, a situação socioeconônúca do país dificulta a vida do povo brasileiro. Fatos como a elevação da inflação, do índice de desemprego, são ainda mais agravados com o aumento da dívida externa e Com a política recessionista orientada pelo Fundo Monetário, Internacional (FMI). Na primeira metade da década de 1980, inStala-se- & Nova República, iniciando—se, dessa forma, uma nova fase na vida do país. A ascensão do governo civil da Aliança Democrática assinala o fim da ditadura militar, porém, conserva inúmeros aspectos dela, mediante diferentes formas e meios (Falcão 1986, p. 27). A luta operária ganha força, passando a generalizar-se em outras categorias profissionais e, dentre elas, a dos professores. É nessa década que os professores se empenham na reconquista do direito e do dever de participarem da deúnição da política educacional e da luta pela recuperação da escola pública. A realização da I Conferência Brasileira de Educação foi um marco importante na história da educação brasileira. Constituiu um espaço para a discussão e a disseminação da concepção crítica de educação,. pois,. como afirma Savi-ani (1984a, p. 24), a preocupação com a perspectiva dialética ultrapassa, na Elosofia da educação, aquele empenho individual de sistematização e se torna objeto deum esforço coletivo. A concepção dialética ou crítica não foi dominante em nosso contexto educacional. Ela se organizou com maior nitidez a partir de 1979. Para a concepção dialética de filosofia da educação, não existe um homem a priori, pois ela não coloca como ponto de partida uma determinada visão de homem. Interessa-se pelo ser concreto. A tarefa da filosofia é explicitar os problemas educacionais e compreendê—los com base no contexto histórico em que estão inseridos (Saviani 1984a, p. 24). Repensando a didática 48 A educação não está centrada no professor ou no aluno, mas na questão central da formação do homem. A educação está voltada para o ser humano e sua realização na sociedade. Nesse sentido, Gadotti afirma que, no bojo de uma pedagogia crítica, “a educação se identihca com o processo de hominização. A educação é o que se pode fazer do homem de amanhã” (1983, p. 149). É uma pedagogia que 'se compromete com os interesses do homem das camadas economicamente desfavorecidas. A escola se organiza como espaço de negação de dominação 'e' não como mero instrumento para reproduzir a estrutura social vigente. Nesse sentido, agir no interior da escola é contribuir para transformar a própria sociedade. Ora, no meu entender, a didática tem uma importante contribuição a dar: clarificar o papel sociopolítico da educação, da escola e, mais especificamente, do ensino. Assim, o enfoque da didática, de acordo com os pressupostos de uma pedagogia crítica, é o de trabalhar no sentido de ir além dos métodos e das técnicas, procurando associar escola—sociedade, teoria-prática, conteúdo- forma, técnica-política, ensino-pesquisa, ensino-avaliação, professor-aluno. Ela deve contribuir para ampliar a visão do professor quanto às perspectivas didático-pedagógicas mais coerentes com nossa realidade educacional, ao analisar as contradições entre o que é realmente o cotidiano da sala de aula e o ideário pedagógico calcado nos princípios da teoria liberal, arraigado na prática dos professores. Na década de 1980, esboçam—se os primeiros estudos em busca de alternativas para a didática, com base nos pressupostos da pedagogia crítica. No âmbito dessa pedagogia, a didática auxilia no processo de politização do futuro professor, de modo que ele possa receber a ideologia que inspirou a natureza do conhecimento usado e a prática desenvolvida na escola. Nesse sentido, a didática crítica busca superar o intelectualismo formal do enfoque tradicional, evitar os efeitos do espontaneísmo escolanovista, combater a orientação desmobilizadora do tecnicismo e recuperar as tarefas especificamente pedagógicas, desprestígiadas pelo discurso reprodutivista. Procura, ainda, compreender e analisar a realidade social onde está inserida a escola. 44 Papirus Editora. É preciso uma didática que proponha mudanças no modo de pensar e agir do professor e que este tenha presente a necessidade de democratizar o ensino, concebido como um processo sistemático e intencional de transmissão e elaboração de conteúdos culturais e científicos. É evidente que a didática, por si, não é condição suficiente para a formação do professor crítico. Não resta dúvida de que a tomada de consciência e de que o desvelamento das contradições que permeiam a dinâmica da sala de aula são pontos de partida para a construção de uma didática crítica, contextualizada, e socialmente comprometida com a formação do professor. Dos anos 90 até os dias atuais 0 mundo contemporâneo é marcado pela hegemonia do projeto neoliberal, consolidando-se no contexto internacional e nacional, dominado pelo pensamento técnico-científico. Japiassu afirma que esse pensamento que “(...) leva os homens a exteriorizarem comportamentos desencantados face à política e adotarem atitudes céticas face aos valores parece não reservar um papel relevante ao, pensamento propriamente reflexivo” (1997, p. 7). Acentuam-se e ampliam-se as formas de exclusão social e cultural. Firma-se um período conhecido por diversas denominações — sociedade do conhecimento (Levy 1999); era da informação (Oliver 1999); sociedade em rede (Castells 2000). É nesse contexto que mudanças profundas ocorrem em todos os espaços sociais — na família, nas empresas, nas instituições educativas. As perplexidades giram em torno de três processos: “(...) globalização econômica e de modos de produzir, mundialização social e de. modos de viver e planetarização política e institucional, de modos de dominar” (Dreifuss 1996, p. 325). A globalização, as novas tecnologias da informação e da comunicação 'e os processos que desenvolvem estão provocando uma reorganização do trabalho, uma transformação na produção de bens e serviços, nas relações entre as nações e até mesmo na cultura local. O mundo globalizado traz novas regras econômicas de grande impacto social, e isso reflete também sobre a educação, particularmente no que se refere à organização do trabalho pedagógico, delegando uma série de atribuições às escolas, aos professores e alunos. Vieira esclarece que as medidas legais, no âmbito da globalização, produzem efeitos desastrosos sobre o trabalho pedagógico: Repensando a didática 45 Mudanças nas formas de organização do trabalho escolar — ciclo eclasses de aceleração — alternam radicalmente a rotina dos professores. Estes se vêem diante de um acúmulo de papéis, funções e responsabilidades impostas por um processo de reforma sobre o qual não foram consultados e que, ao que tudo indica, não sabem para onde caminhar. O impacto dessas medidas sobre o cotidiano da escola pode ser dramático. No afã de. promover a modernização a qualquer custo, as reformas em curso podem representar uma faca de dois gumes. (2002, p. 30) Essas medidas impõem novas demandas sobre. a educação e os sistemas educacionais, particularmente no que se refere ao trabalho pedagógico de modo geral, provocando a construção de novas categorias e práticas pedagógicas. Há necessidade de se rever também a prática avaliativa escolar para tornar realidade a organização do processo educativo, hoje submetido às diversas modalidades de avaliação externa coordenada por uma ação centralizada das políticas globalizadas Nesse mundo complexo em que vivemos, marcado pelo projeto neoliberale de profundas transformações, “toma-se inquestionável uma nova forma de organização do trabalho das instituições e nos processos de formação inicial e continuada de professores, bem como no posicionamento de todos os que trabalham na educação” (Veiga 2002, p. 67). Portanto, os anos 90 inauguram um novo período na educação brasileira com repercussões no campo da pedagogia e, consequentemente, da didática. Esse período, situado entre o início da década de 1990 até nossos dias, discute os enfoques do papel da didática de duas perspectivas: a primeira, com ênfase voltada para a formação do tecnólogo do ensino; o segundo enfoque procura favorecer e aprofundar a perspectiva crítica, voltada para a formação do professor como agente social. A didática no bojo da educação neoliberal; A primazia das competências e da avaliação de controle O ideário pedagógico difundido pela legislação educacional, pelas diretrizes e parâmetros curriculares e pelo sistema de avaliação de produto deixa transparecer um outro enfoque do papel da didática. Há um reducionismo 4a Papirus Editora. técnico da didática orientada pelos documentos legais que norteiam aformação de professores. Parece ser esse o sentido da afinação de Candau, quando diz que: “(...) O atual contexto em que vivemos, configurado pelo projeto neoliberal, favorece fortemente uma nova versão da perspectiva modernizadora e instrumental da educação e da didática” (1997, p. 77). A didática modernizadora explícita nos referenciais e nas diretrizes curriculares para a formação do professor (em nível médio e superior) está fundamentada em uma lógica de duas vertentes: uma, ligada à concepção da pedagogia por competências, e outra, ligada à avaliação de resultados. Um grande número de correntes e enfoques teóricos, oriundos das ciências Sociais e humanas, pesa sobre o conhecimento da área. Dessa forma, é possível destacar a presença dos seguintes enfoques teórico-metodológicos: o neobehaviorismo, o cognitivismo computacional baseado na teoria do processamento da informação, o construtivismo e- o socioconstrutivismo, o simbolismo—interacionista e, ainda, os estudos sobre o ensino eficaz e estratégico, sobre as competências dos professores, entre outros. Nessa concepção, a didática é desvinculada do contexto social mais amplo, possibilitando a formação do professor técnico, mero executor de atividades rotineiras, acríticas e burocráticas. Deixa de compreender o ensino, seu objeto de estudo, como prática social concreta para vincula-lo à capacidade de resolver problemas em uma dada situação, o que implica ação mensurável por meio da aferição de seus resultados imediatos. O processo de ensino é concebido numa perspectiva dicotômica; é ordenado, disciplinador e neotecnicista. A didática modemizadora se orienta pelo viés da unidimensionalidade e da conformidade. Tendo por base a racionalidade técnica, na didática modernizadora o conhecimento é hierarquizado e “se desdobra em três níveis baseados em um processo lógico de derivação entre eles: “de uma ciência básica ou disciplinar, deriva de uma ciência aplicada ou engenharia, da qual derivam conhecimentos procedimentais, em um conjunto de competências e atitudes que utilizam o conhecimento básico e aplicado que lhe. está subjacente” (Schein 1980, citado por Gómez 1995, pp. 96-97). Assim, os conhecimentos didáticos para a formação do professor abrangem toda uma gama de conteúdos, saberes tradicionalmente apontados para o trabalho em sala de aula.. As diretrizes curriculares estão fortemente Repensando a didática 47 ligadas à noção de competência e, como concepção nuclear, estão subordinadas a racionalidade técnica e econômica. Trata-se, portanto, de uma concepção pragmatista na qual a didática de cunho modernizador se restringe a um conjunto de informações técnicas para o exercício “da docência, distanciando-se de seu significado mais amplo. Desse enfoque, a didática analisa o processo do ensino tendo por base a aprendizagem por competências com prevalência dos métodos, dos instrumentos, das ferramentas, da medida. A aprendizagem por competências provoca a individualização dos processos cognitivos em detrimento dos aspectos sociais presentes nos processos de produção do conhecimento (Rope e Tanguy 1997). A didática centrada nas competências é restrita e prepara na realidade “o prático, o tecnólogo, isto é, aquele que faz mas não conhece os fundamentos do fazer, que se restringe ao miniuniverso escolar, esquecendo toda a relação com a realidade social mais ampla que, em última instância, influencia a escola e é por ela influenciada” (Veiga 2002, p. 72). No tocante à avaliação dentro das escolas, ela é, ainda, de cunho classificatório, autoritário, punitivo e excludente. Dessa ótica, a avaliação exerce a função de controle social por reforçar as divisões sociais inerentes à sociedade capitalista. A avaliação é vista como responsável pela marginalização dos indivíduos, ao excluí-los do sistema escolar, seja impedindo sua entrada, seja impedindo seu avanço. Nesse sentido, ela não permeia o projeto político—pedagógico da escola, pois está vinculada quase exclusivamente ao desempenho do aluno. A relação teoria e prática se reduz à mera justaposição, sem superar o estreito pragmatismo que supervaloriza o como fazer em detrimento da teoria. O processo de ensino é, ainda, visto como um passo linear e justaposto da teoria à prática. No balanço da polêmica,, ajiel da balança: Ampliando os horizontes da. didática crítica Identificando o pensamento dos pesquisadores e professores, observo que a preocupação com a natureza epistemológica e política da didática 48 Papirus Editora crítica chega aos anos 2000 acumulada em expressiva produção acadêmica na área. Ao longo da década de “1990, o debate adquiriu maior precisão em suas determinações; todavia, essas análises estão longe de apresentar uma homogeneidade de proporção e concepção; no entanto, pode-se observar uma ampliação do enfoque crítico com base no qual se articulam algumas das recentes elaborações. Entre elas, cumpre destacar os pressupostos comuns e as diferentes manifestações do trabalho de estudiosos nas construções quanto ao conteúdo da área e quanto à metodologia do ensino de didática. Existe atualmente um consenso de que a didática, como área de estudo, focaliza quatro pressupostos: ' a educação como prática social é um processo ConStrutivo e permanente de emancipação humana; º compromisso com a democratização da escola pública e, consequentemente, com o ensino de melhor qualidade voltado para os interesses das classes populares; " o professor, como agente social, que procura colocar em questão a lógica modernizadora, “(...) desvelar seus pressupostos antropológicos, político-sociais e ideológicos e o caráter “sedutorº que envolve os processos de modernização” (Candau 1997, p. 77); ' a metodologia de pesquisa como modo de apropriação ativa de conhecimento bem como o desenvolvimento de habilidades básicas de investigação (André 1997). Esse conjunto de pressupostos completa-se pela concepção de ensino como prática social concreta, constituindo-se como objeto de estudo da didática. Oliveira é bastante explícita em sua afirmação: A área da didática no Brasil, em suas tendências mais recentes, expressa uma mudança de perspectiva de um fazer tecnológico sobre o processo de ensino, com base nos processos de aprendizagem de um fazer ciennfco-recnológíco sobre 'o fenômeno de ensino, com base na visão didático-materialista desse fenômeno, enquanto uma prática social- pedagógica. (1997, p. 153) Repensando a didática 49 O que se quer ressaltar é que, se houve por parte dos pesquisadores e estudiosos a intenção de construir novas configurações que sugerem a reconfiguração da didática crítica, i5so é realizado na perspectiva de uma visão “contextualizada e multidimensional do processo pedagógico” (Candau 2000, p. 154). É importantedestacar que o processo de ensino é também considerado como um fenômeno complexo e multirreferencial. A noção de multirreferencialidade aponta para a ideia de trabalho conjunto entre professores e pesquisadores. A multirreferencialidade envolve o domínio de numerosos dados, em que a complexidade do objeto a ser testado, no caso o ensino, é considerada. Propõe—se uma leitura plural do objeto (prática e teoria), mediante diferentes pontos de vista, que implicam tanto visões especiais quanto linguagens apropriadas às descrições exigidas, considerando sistemas de referências distintos (Ardoino 1998, p. 24). Para ampliar o enfoque crítico do papel da didática, e importante caminhar numa direção multirreferencial que estabeleça intercâmbios cada vez mais soâsticados para apreender a complexidade do processo de ensino., num contexto também complexo como o da sociedade brasileira atual. Complexidade referente ao objeto, quanto à ruptura epistemológica necessária para considerar “a relação entre sujeito-observador e objeto observado, não na perspectiva de negação do observador, mas na perspectiva de reconhecimento da implicação deste com o objeto desvendado” (Barbosa 1998, p. 12). Pimenta, ao “analisar os trabalhos apresentados no GT Didática/99, considera a importância dessa visão: (...) O entendimento do ensino, objeto de estudo da didática, como fenômeno social, concreto, complexo e multirreferenczol e, consequentemente, a realização de pesquisas sobre professores e sobre os contextos escolares considerados em suas múltiplas (e novas) determinações, como a profiss ional idade docente (ser e estar na profiss ão), o cotidiano atravessado por múltiplas culturas e problemas sociais e da contemporaneidade (violência, afetividade), as questões sobre o imaginário, estão assumindo novas configurações, ou seja, para avanços teóricos no tratamento do (sempre) objeto de estudo da didática o ensino como prática social concreta. (1999, grifos nossos) 50 Papirus Editora. Com base na perspectiva anunciada, a produção do conhecimento na área da didática não se define apenas em torno dos temas clássicos que não podem ser negados, mas que necessitam ser reconfigurados e contextualizados. Cabe aqui retomar o caminho trilhado por Veiga ao enfatizar a didática como campo de estudo e disciplina pedagógica obrigatória dos cursos de formação de professores, de natureza teórico-prática “(...) voltada para a compreensão do processo de ensino e suas relações, quais sejam: educação- sociedade, finalidade —objetivos, teoria—prática, conteúdo-forma, ensino—pesquisa, ensino-aprendizagem, ensino-recursos didáticos, ensino-avaliação (1996, p. 7). É importante salientar também que a didática “(...) engloba um conjunto de conhecimentos que entrelaçam contribuições de diferentes esferas científicas (teoria da educação, teoria do conhecimento, psicologia, sociologia etc.), junto com requisitos de operacionalização” (Libâneo 1997, p. 117). Novos temas considerados mobilizadores, emergentes e abertos da reflexão didática devem ser acrescentados, tais como: a multirreferencialidade do processo de ensino, a interdisciplinaridade, o profissionalismo docente, as questões do cotidiano da sala de aula, o multiculturalismo e sua incidência na escola, as novas linguagens, o saber docente, as relações entre escola e cultura, entre outros. Está claro que a didática está assumindo novas configurações que apontam para o avanço teórico na problematização, na compreensão e na sistematização de conhecimentos de seu objeto de estudo: o ensino como prática social concreta. As novas configurações da didática a partir da investigação qualitativa modificam significativamente a tríplice ação pedagógica: professor (ensinar), aluno (aprender), conhecimento (produzir/investigar). Esse movimento de reconfiguração da didática tem sido possibilitado pelas sistematizações e explicações da prática pedagógica como práxis. Balanço final A título de encerramento, posso afirmar que, no decorrer do período analisado, encontrei tanto persistência de algumas questões fundamentais quanto indícios de mudanças. Com relação à persistência de algumas questões, destaco: Repensando a didática 51 a) a variedade de conceitos de didática, colocados ao longo dos seminários, das reuniões e dos estudos, evidencia que não há um conceito absoluto de didática que satisfaça a todos; b) não há consenso quanto ao objeto da didática. Para alguns, e o processo ensino-aprendizagem ou o ensino, para outros, a aula, a prática pedagógica, o trabalho docente, ensino com prática social concreta. No que diz respeito aos indícios de mudanças, aponto aqui as seguintes evidências-: a) ampliação dos debates 'em tomo da questão da didática, no sentido de buscar alternativas mais condizentes com a “realidade educacional brasileira; 13) envolvimento crescente de um maior número de interessados no debate mais amplo sobre a formação do professor e o papel nela desempenhado pela didática; e) perspectiva metodológica para o desenvolvimento da pesquisa em didática, apresentando novos rumos no sentido de empregar uma abordagem mais qualitativa, utilizando-se a etnografia, o estudo de caso, a pesquisação; d) preocupação maior com 'a própria formação dos. professores de didática.; e) precaução, por parte dos estudiosos, no sentido de não chegarem a conclusões deãnitivas; 1) tentativas de construção da didática baseada no cotidiano escolar; g) preocupação com novos temas mobilizadore's, emergentes e abertos à reflexão didática; h) compreensão do ensino como. processo complexo e multirreferencial, Enfim, é possível dizer que o momento da denúncia crítico- reprodutivista foi o ponto de partida para se tentar a superação da didática supostamente neutra e buscar uma didática mais condizente com o momento 52 Papirus Editora. atual da formação do professor que, futuramente, irá atuar-. nas escºlas de educação básica. 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Campinas: Papirus. 54 Papirus Editora. 3 PLANEIAMENTO no ENSINO NUMA PERSPECTIVA CRÍTICA DE EDUCAÇÃO Antonia Osima Lopes Na prática pedagógica atual o processo de planejamento do ensino tem sido objeto de constantes indagações quanto à sua validade como efetivo instrumento de melhoria qualitativa do trabalho do professor. As razões de tais indagações são múltiplas e se apresentam em níveis diferentes na prática docente. A vivência do cotidiano escolar nos tem evidenciado situações bastante questionáveis nesse sentido. Percebe-se, de início, que os objetivos educacionais propostos nos currículos dos cursos apresentam-se confusos e desvinculados da realidade social. Os conteúdos a serem trabalhados, por sua vez, são definidos de forma autoritária, pois os professores, via de regra, não participam dessa tarefa. Nessas condições, tendem a mostrar-se sem elos significativos com as experiências de vida dos alunos, seus interesses e necessidades. Percebe-se também que os recursos disponíveis para o desenvolvimento do trabalho didático tendem a ser considerados como Repensando adidática 55 simples instrumentos de ilustração das aulas, reduzindo-"se, dessa forma, a equipamentos e objetos muitas vezes até inadequados aos objetivos e conteúdos estudados. Com relação à metodologia utilizada pelo professor, observa-se que esta tem-se caracterizado pela predominância de atividades transmissoras de conhecimentos, com pouco ou nenhum espaço para a discussão e a análise crítica dos conteúdos. O aluno nessa situação tem-se mostrado mais passivo do que ativo e, por decorrência, seu pensamento criativo tem sido mais bloqueado do que estimulado. Por outro lado, a avaliação da aprendizagem tem sido resumida ao ritual das provas periódicas, por meio das quais é veriiicada a quantidade de conteúdos assimilada pelo aluno. Completando esse quadro de desacertos, observa-se ainda que a grande maioria dos professores, assumindo sua autoridade institucional, termina por direcionar os processos de ensino e aprendizagem de forma isolada dos condicionantes histórico-sociais presentes na experiência de vida dos alunos. No contexto acima descrito, o planejamento do ensino tem-se apresentado como desvinculado da realidade social, caracterizando-se mais como uma ação mecânica e burocrática do professor, pouco contribuindo para elevar“ a qualidade da ação pedagógica desenvolvida no âmbito escolar. No meio escolar, quando se faz referência a planejamento “do ensino, a ideia que passa é aquela que identifica o processo por meio do qual são definidos os objetivos, o conteúdo programático, os procedimentos de ensino, os recursos didáticos, a sistemática de avaliação da aprendizagem, bem como a bibliografia básica a ser consultada no decorrer de um curso ou de uma matéria de estudo. Com efeito, esse é o padrão de planejamento adotado pela grande maioria dos professores e que, em nome da eficiência do ensino disseminada pela concepção tecnicista de educação, passou a ser valorizado apenas em sua dimensão técnica Ao que parece, essa definição dos componentes do plano de ensino de uma maneira fragmentária e desarticulada do todo social é que tem gerado o entendimento de um planejamento incapaz de dinamizar e facilitar o trabalho docente. No entanto, o real sentido do planejamento do ensino no trabalho do professor é a organização da ação pedagógica intencional, 55 Papirus Editora. de forma responsável e comprometida com a formação dos alunos. Consideramos que o processo de planejamento em uma percepção crítica da educação extrapola a simples ação de elaborar um plano de ensino tecnicamente recomendável e passa a demonstrar o cuidado e o compromisso do professor em dar à sua matéria de ensino o direcionamento para o alcance das finalidades da educação, para a concretização do projeto pedagógico da escola e para o desenvolvimento de saberes fundamentais em seus alunos. Planejamento: Ação pedagógica essencial Com base nos desacertos observados na prátiCa pedagógica em nossas escolas, percebemos que o processo de planejamento do ensino precisa ser repensado. A visão negativa desse processo, demonstrada pela grande maioria dos professores, não pode ser considerada uma situação irreversível. Entendemos que um planejamento dirigido para uma ação pedagógica crítica e transformadora possibilitará ao professor maior segurança para lidar com a relação educativa que ocorre na sala de aula e na escola de modo geral. Nesse sentido, o “planejamento adequado”, bem como o seu resultado — “o bom plano de ensino” —, traduzir-se-ão pela ação pedagógica direcionada, a fim de integrarem-se dialeticamente ao concreto do educando, buscando transformei—lo. Em uma perspectiva crítica de educação, a instituição escolar mostra- se como o local apropriado de acesso ao saber sistematizado, historicamente acumulado. De acordo com Saviani (1984, p. 9), a escola existe “para propiciar a aquisição dos instrumentos que possibilitam o acesso ao saber elaborado (ciência), bem como o próprio acesso aos rudimentos desse saber”. Os conteúdos que constituem esse saber elaborado não poderão ser considerados de forma estática e acabada, pois são conhecimentos dinâmicos, articulados dialeticamente com a realidade histórico-social. Nesses termos, precisam ser conduzidos para que, ao mesmo tempo em que transmitam a cultura acumulada, contribuam para a produção de novos conhecimentos. Produzir conhecimentos nessa concepção significa um processo de reflexão permanente sobre- os conteúdos aprendidos, buscando analisá-los Repensando a didática 57 de diferentes pontos de vista. Significa, também, desenvolver uma atitude de curiosidade científica, de investigação atenta da realidade, não aceitando os conteúdos curriculares como conhecimentos perfeitos e acabados. Nessa concepção, a questão do planejamento do ensino não poderá ser compreendida de modo mecânico, desvinculada das relaçõesentre a escola e a realidade histórico-social. Em vista disso, os conteúdos a serem trabalhados pelo currículo escolar precisarão estar estreitamente relacionados com a experiência de vida dos alunos. Essa relação, inclusive, mostra-se como condição necessária para que, ao mesmo tempo em que ocorra a transmissão dos conhecimentos acumulados historicamente, proceda-se à Sua reelaboração com vistas à produção de novos conhecimentos. O resultado dessa relação dialética será a busca da aplicação dos conhecimentos apreendidos sobre a realidade, no sentido de transforma-la. Nessa perspectiva, podemos concordar que a tarefa de planejar o ensino passa a existir como uma ação pedagógica essencial ao processo ensino-aprendizagem, pois somente com um trabalho intencional e comprometido conseguiremos, com base em conteúdos curriculares preestabelecidos, ampliar os conhecimentos de nossos alunos e propiciar- lhes oportunidades de avançar em busca de novos conhecimentos. Planejamento do ensino: Um processo “integrador entre. escola e contexto social Consideramos que uma nova alternativa para um planejamento de ensino globalizante, que supere sua dimensão técnica, 'seria a ação resultante de um processo integrador entre escola e contexto social, efetivada de forma crítica e transformadora pelo próprio professor. Isso significa dizer que as atividades educativas seriam planejadas tendo como ponto de referência as problemáticas sociocultural, econômica e política do contexto onde a escola está inserida. O planejamento do ensino nessa perspectiva estaria voltado eminentemente para a transformação da prática pedagógica do professor no que se refere à organização do ensino. Na prática-, como 'se efetivaria essa forma de planejamento? 58 Papirus Editora. Nossa proposta tem como fundamento os princípios do planejamento participativo, forma de trabalho coletivo que se caracteriza, principalmente, pela integração dos diferentes setores da atividade humana, numa ação interdisciplinar com vista à solução de problemas comuns.1 O planejamento participativo implica uma convivência harmoniosa de pessoas que discutem, decidem, executam e avaliam atividades propostas coletivamente. Com essa convivência, o processo educativo passa a desenvolver efetivamente seu papel transformador, pois na medida em que discutem, as pessoas refletem, questionam e conscientizam—se de problemas coletivos, decidindo por engajarem-se na luta pela melhoria de suas condições de vida. No contexto escolar o planejamento participativo caracteriza-se pela busca da integração efetiva entre a escola e a realidade histórico-social, primando pelo inter-relacionamento entre a teoria e. a prática. A participação de professores, alunos, pessoal técnico-pedagógico e- administrativo, bem como dos pais dos alunos, seria o ponto de convergência das ações voltadas para a produção de novos conhecimentos a serem propiciados na escola, tendo como referencial a realidade histórico-social. Para efeito de análise desse processo integradºr, poderemos “sistematiza-lo em etapas inter-relacionadas. A primeira será aquela em que se procederá ao estudo real da escola em suas relações com o contexto social em que ela está inserida, O estudo referido deverá ser desenvolvido de forma global, analisando-se os condicionantes socioculturais, econômicos e políticos de diferentes níveis, presentes nas relações escola-sociedade. No bojo desse estudo será naturalmente configurado o universo sociocultural da clientela escolar, possibilitando a caracterização dos interesses e das necessidades dos educandos para os quais a ação pedagógica estará sendo planejada. Nesse sentido, pesquisar os alunos objetivando identificar o que eles já conhecem, suas aspirações e como vivem, é tarefa imprescindível l . O planejamento“ participativo é parte integrante “da metodologia da pesquisa participante, forma de trabalho característica dos movimentos de educação pºpular. Um aprofundamento desse tema poderá ser obtido pela bibliografia existente sobre pesquisa participante. Quanto ao planejamento participativo no âmbito daescola, & discussão de uma experiência nesse campo poderá ser apreciada na obra de Vianna (1986). Repensando a didática 59 nos primeiros contatos do professor com a sua classe, o que complementará as informações mais amplas já obtidas e fará a articulação entre a primeira e a segunda etapas do processo de planejamento do ensino. Segundo Snyders (1974), os alunos possuem experiências que não poderão ser ignoradas pela escola, que se referem às suas situações de vida e relações pessoais, bem como uma significativa multiplicidade de informações e conhecimentos que devem ser valorizados, mesmo que sejam apresentados de forma fragmentada e dispersa. Nesse sentido, a identificação dos temas ou questões que se mostram mais importantes para os educandos constitui fator relevante na definição do material extraído da realidade, o qual será estudado no decorrer do processo de ensino. 0 resultado desse primeiro momento do planejamento será um diagnóstico da realidade concreta do aluno, elaborado de “forma comprometida com seus interesses e necessidades. Concluído esse diagnóstico, a etapa seguinte será, com baSe nele, proceder à organização do trabalho didático a ser desenvolvido. A definição dos objetivos de ensino, a sistematização dos conteúdos a serem estudados, a seleção dos procedimentos didáticos e de avaliação da aprendizagem constituem as ações essenciais dessa segunda etapa do planejamento. Nessa segunda etapa é importante ter em vista que um processo de ensino transformador não poderá deixar-se conduzir por objetivos que explicitem apenas a aquisição de conhecimentos. Portanto, na definição dos objetivos é essencial que os diferentes níveis de aprendizagem a serem atingidos sejam contemplados: a aquisição, a reelaboração dos conhecimentos aprendidos e a produção de novos conhecimentos. É importante ressaltar ainda que, em um processo educativo que se propõe transformador, os objetivos de ensino deverão estar voltados predorninantemente para a reelaboração e a produção do conhecimento. Para tanto, deverão expressar ações, tais como a reflexão, a curiosidade, a investigação e a criatividade. Os conteúdos a serem estudados, por já estarem previamente estruturados no currículo escolar, deverão passar por uma análise crítica com vistas à identificação dos conhecimentos que se mostram essenciais e aqueles que podem ser considerados secundários naquela fase de aprendizado do educando. O critério básico para se efetivar essa distinção será a própria so Papirus Editora. realidade histórico-social, a partir da qual os conteúdos poderão ser selecionados a Em de agirem como instrumentos de compreensão da dinâmica dessa mesma realidade. A organização do chamado conteúdo programático será feita considerando os objetivos propostos em termos de aquisição-, reelaboração e produção de novos conhecimentos. Conforme já referido anteriormente, o saber sistematizado que Constitui o currículo escolar tem sido produzido fora da escola, no âmbito de equipes técnicas do sistema educacional. Tomando por base o currículo escolar, deverá ser feita uma seleção dos conteúdos a serem estudados, cujos procedimentos serão a problematização e a análise crítica. Nessa perspectiva, vale lembrar o que disse Paulo Freire (1987) quando destacºu que se professores e alunos exercitassem a produção de novos conhecimentos com base nos conteúdos impostos pelos currículos escolares, estariam de fato consolidando seu poder de contribuir para a transformação da sociedade. Daí a importância de ressaltar a relação intrínseca existente entre os objetivos propostos e os conteúdos a serem estudados. Em última instância, a organização dos conteúdos estará intimamente relacionada com o objetivo maior da educação escolar, que e propiciar a aquisição do saber sistematizado (ciência), tido como instrumentoessencial de libertação do homem e de Construção de sua cidadania (Saviani 1984). Tendo como ponto de referência os objetivos de ensino propostos e os conteúdos a serem estudados, passa-se à articulação dos procedimentos que deverão concretizã-los. Tais procedimentos deverão ser selecionados para atender os diferentes níveis de aprendizagem desejados, bem como a natureza da matéria de ensino. Considerando que a reelaboração e a produção de novos conhecimentos são os níveis desejáveis de aprendizagem, as referências para a seleção dos procedimentos de ensino são a reflexão, a curiosidade, a investigação e a criatividade. A tarefa do professor nesse momento será articular uma metodologia de ensino que se caracterize pela variedade de atividades e de recursos auxiliares estimuladores dos aspectos mencionados. Nessa tarefa de seleção dos procedimentos de ensino, a participação dos educandos também será bastante enriquecedora, pois descobrir suas expectativas, saber por que estão na escola, qual seu projeto de vida, são questões que levarão a um conhecimento da individualidade de cada aluno, ajudando na compreensão de sua linguagem, de suas Repensando a didática 61 dificuldades, o que propiciará um planejamento voltado para “as reais necessidades de aprendizagem do conjunto de alunos. Complementando o momento de organização da metodologia de ensino, a etapa seguinte será a sistematização do processo de avaliação da aprendizagem. Nessa concepção de planejamento, a avaliação não poderá ter o sentido de classificação dos resultados do ensino, em que se destaca apenas quem foi aprovado, e com quanto, ou quem foi reprovado. Em um processo educativo em que a metodologia de ensino privilegia a reflexão, a curiosidade, a investigação e a criatividade dos alunos, a avaliação terá a função de acompanhamento contínuo desse processo. Dessa forma, não haverá preocupação com a verificação da quantidade de conteúdos aprendidos-, mas com a qualidade da reelaboração e a produção de novos conhecimentos, demonstrada pelos alunos com base na matéria estudada. Concluindo essa discussão, faz—se necessário enfatizar que a caracterização de etapas no planejamento do ensino não deverá ser entendida como o desenvolvimento de partes distintas e estanques, pois não é possível compartimentar uma ação que, por sua própria natureza, é contínua, dinâmica e ,globalizante. Assim como a educação pretendida por meio dessa ação, o planejamento deverá ser integrador em toda a sua extensão. Com efeito, 'é essa abordagem integradora que proporcionará um ensino voltado para a formação de pessoas críticas, questionadoras e atuantes em sua cidadania. Entendemos que uma educação integradora, por meio da qual professores e alunos produzam novos conhecimentos baseados na articulação da escola com a sociedade, estará formando efetivamente um educando para exercer plenamente sua cidadania e assim poder" contribuir“ para a transformação da sociedade. Tal perspectiva, contudo, exige uma postura docente “que “seja comprometida tanto com o pedagógico quanto com o social. Exige, pois, um compromisso do professor com uma educação política e não ideológica .º Nesses termos, um planejamento do ensino nos moldes aqui discutidos só poderá ser efetivado no contexto de uma escola cujo projeto pedagógico tenha como um de seus objetivos o engajamento com a sociedade. É fundamental que nessa 2. O termo “idealó'gíco” aqui tem O sigmf mado de ”ªocultamento da realidade”; 62 Papirus Editora. escola convivam pessoas comprometidas com essa postura, .a fim de que um processo transformador posa, de fato, ser desencadeado. Um outro aspecto a ressaltar é que um planejamento participativo implica a eliminação da divisão do trabalho no âmbito da escola. Sendo o fundamento básico desse processo a integração entre a escola e o contexto social, e seu objetivo maior, a educação do indivíduo para 'o exercício da cidadania, a ação coletiva apresenta-se como atitude norteadora de todo o trabalho pedagógico. Assim, não será possível a convivência de um discurso de participação com uma prática de divisão e de competição, não havendo lugar para a defesa de grupos, como, por exemplo, de professores por série, ou por disciplina, ou por titulação; nem também a divisão entre diretor, supervisor, orientador; ou professores e funcionários; ou alunos e pais etc. Na concepção participativa está implícita a relação educador-educando em seu caráter de totalidade, em que todos que formam a comunidade escolar têm objetivos comuns a serem perseguidos, embora cada categoria tenha funções específicas a serem realizadas. 0 trabalho pedagógico, portanto,, deverá estar voltado para o engajamento permanente de todos os elementos envolvidos no processo educativo, cada um contribuindo dentro de suas potencialidades e limitações. A totalidade da ação pedagógica precisa ser preservada, estando respaldada na participação e não na divisão. Em síntese, na efetivação de um planejamento participativo no processo de ensino é importante ressaltar suas principais diretrizes: ' a ação de planejar implica a participação ativa de todos os elementos envolvidos no processo; ' deve-se priorizar a busca da unidade entre teoria e prática; º o planejamento deve partir da realidade-concreta — aluno., escola, contexto social; º deve estar voltado para atingir o Em mais amplo da educação. Concluindo... Em face do exposto, podemos concluir que 'a concepção de planejamento do ensino aqui esboçada mostra-se como uma alternativa Repensando a didática 63 interessante pelo simples fato de que, como a educação, a ação de planejar não pode ser encarada como uma atividade neutra, desvinculada da realidade histórico-social. O planejamento do ensino é um processo que envolve discussões de questões, muitas vezes esquecidas no dia a dia docente-, como as finalidades da educação, os princípios que fundamentam o projeto pedagógico da escola, seus objetivos e os compromissos dos professores com essas definições. Entendemos que a opção do professor por um ensino comprometido com a educação para a cidadania somente se concretizará se ele planejar seu trabalho de modo participativo e problematizador, possibilitando ao aluno reelaborar os conteúdos estudados, com vistas à produção de novos conhecimentos. Nessa perspectiva, o planejamento do ensino deve ser assumido pelo professor como uma ação pedagógica comprometida com a totalidade do processo educ-ativo, o qual, emergindo do social, a ele retorna, numa ação dialética. Referências bibliográficas FREIRE, Paulo 'e SHOR, Ira (1987). Medo e ousadia: O cotidiano doprofessar. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 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Se os encontros de educação em âmbito nacional, regional ou local primavam pela crítica à ordem tradicional, hoje tais encontros são valorizados se avançam na explicitação de caminhos alternativos, em direção a uma nova ordem escolar e. social. Repensando a didática 65 Dentro da questão universitária,e dentro dela a questão da formação de professores, quase que esgotou-se a crítica em todos os sentidos e direções do conteúdo das disciplinas pedagógicas que licenciam o aluno para dar aula Dentre essas disciplinas, a didática foi alvo de muitos bombardeios. Chegou- se mesmo a questionar sua identidade e a propor-lhe outro(s) objeto(s) de “estudo, tal era a disparidade do que os programas passaram a incluir. Entendo que o objeto da didática seja o ensino, aquele conjunto de ações (por mais pressupostos que comportem) que caracterizam o trabalho do professor. Trabalho que visa à aprendizagem mas que existe como fenômeno próprio. De tal maneira que podemos dizer que, se não houve aprendizagem, houve ensino, embora ineficiente, não significativo, inadequado etc. Assim sendo, um programa de “didática comporta os elementos de ensino (objetivos, conteúdo, técnicas, recursos, avaliação etc.), porém estudados mediante novo enfoque crítico, provocando e suscitando busca de soluções criativas para atingir os fins da educação. Fins ou objetivos da educação? Os objetivos da educação Evidentemente é preciso, antes de falar dos objetivos, falar dos fins ou “das finalidades da educação. Essa discussão é sempre preliminar, muitas vezes feita em outras disciplinas (geralmente quando há nas licenciaturas a disciplina fundamentos da educação ou filosofia da educação), ou nas primeiras unidades do próprio programa de didática. Nas discussões sobre o contexto macroestrutural envolvendo os aspectos sociopolítico-econôrrúcos fica bem enfatizado que as raízes dos problemas da educação são estruturais e, portanto, exteriores à própria educação e ao ensino (o que não significa que não há o que fazer dentro da escola). Depois de muita abertura e depoimentos pungentes de alunos desejosos de mudar a situação dramática de nossa educação, os jovens perguntam: Como vamos agir se são tão amplos e estruturais os problemas? É preciso mudar tudo! Como? 66 Papirus Editora. Quando enxergamos com clareza que os problemas da educação são sociais e que é a própria sociedade que deverá necessariamente mudar, e não apenas a educação, já estamos definindo finalidades para a educação: A democracia avança e voltar a questionar-se a estrutura das relações entre as classes sociais corresponde a questionar de novo todo o sistema de educação (...). É necessária uma “revisão impiedosa das fmalidades do ensino”. (Landsheere e Landsheere s.!d., p. 14) É importante analisar essa citação. Tradicionalmente, os livros de didática trataram da questão dos objetivos de modo absolutamente técnico e asséptico, desvinculado de qualquer problemática política. Ultimamente, autores como Viviane e Gilbert Landsheere, bastante ligados a estudos técnicos em educação, postulam a articulação entre os dois planos. Isso é importante porque geralmente se considera que os teóricos ficam de um lado e os tecnólogos de outro. A educação, como processo vivo e dinâmico, cresce na qualidade do serviço que presta, na medida em que vive no dia a dia a íntima e indissociável relação entre técnica e política. No Brasil, foi voz corrente durante um bom número de anos (anos coincidentes com dada conjuntura social autoritária) que os aspectos teóricos podem ser separados dos aspectos técnicos. Assim, uma vez definidas as finalidades gerais da educação, entraria o aspecto técnico e tudo caminharia de acordo com as metas definidas. A reflexão pedagógica já avançou o suficiente para perceber que tal posição corresponde a uma visão idealista do processo, levando a equívocos teóricos e práticos que podem comprometer todo o trabalho. Na verdade, o político e o técnico se entrelaçam solidariamente o tempo todo, quando o professor define seus objetivos, quando os reformula, quando os avalia, quando os reavalia etc. É preciso ter clareza das metas que queremos perseguir. Mas isso não significa definir, a priori, o caminho que será percorrido. O caminho se faz ao andar. Nossas utopias educacionais desempenham um papel muito grande durante todo o processo e aí vejo a necessidade de que se definam objetivos menores para as situações de ensino-aprendizagem que vão sendo planejadas. Repensando a didática 67 Os Ens sociopolíticos são definidos, no âmbito escolar-, quando da elaboração do currículo. Os objetivos, em cada disciplina. Assentadas as metas sociopolíticas,l resta a questão de como articula- las cºm o trabalho de sala de aula, no dia a dia. Um desaão. Trocando em miúdos os objetivos maiores Há muitos nomes para os objetivos. Fala-se em objetivos gerais, específicos, mediatos, Mediatos, a longo prazo, instrucionais etc. Creio que a nomenclatura não seja tão importante. Importante é apreender de fato o que significa um objetivo para a vida do aluno e do professor. Importa refletir quão significativos serão os objetivos que estão sendo planejados. Importa, sobretudo, articular aquelas ideias gerais que temos (nossa concepção. de educação) com as atividades que estamos pretendendo desenvolver. É preciso que o professor se pergunte como tornar importante e única cada atividade, cada tarefa, cada proposta para a vida de seu aluno. Como instalar de fato nos alunos aqueles ideais amplos e generosos “discutidos nas primeiras reuniões de planejamento. Creio que podemos dizer que há objetivos grandes, médios e pequenos (no sentido da amplitude e- do afunilamento). De cada objetivo grande, decorrem vários médios; de cada objetivo médio, vários pequenos. Destes, podem decorrer outros ainda menores. São os chamados objetivos comportamentais. Vejamos uma fiada completa de objetivos assim entendidos, para em seguida efetuarmos sua crítica. Finalidade: Desenvolver-se numa sociedade em programa constante. Objetivo (grande): Proteger o ambiente. Objetivo (médio): Conhecer os principais agentes dezpoluição. Objetivo (pequeno): Recolher no ambiente cinco provas concretas de poluição. 1. Para essa definição 'é preciso aclarar () problema do poder na escola.. Ver, por exemplo, Pedro 'Fontãn Jubero, La Escuela. y sus alternativas de. pode-:: 68 Papirus Editora Esse é um exemplo técnico. De modo geral, grande parte do que se trabalha em sala de aula e' irredutível a esse esquema. Pretender afunilar objetivos amplos em comportamentos previamente defmidos é um risco que pode significar compactuar com posturas cujas raízes históricas ignoramos. Pode “significar também o medo do novo, da “desorientação”. A ansiedade muitas vezes nos faz pretender ter tudo sob controle (como se fosse possível!). É preciso evitar a onisciência, que pode levar à instalação de um dogmatismo que é a própria negação da cultura. O que os objetivos comportamentais esconde-m É importante considerar que a educação é um processo dinâmico e complexo, envolvendo muitas variáveis não controláveis. Portanto, o que se pode prever em termos comportamentais é muito pouco e pobre em relação à riqueza do que ocorre no processo educativo. A esse respeito, convém ouvir Gusdorf (1987): (...) o ensino é sempre mais que o ensino. O ato pedagógico, em cada situação particular, ultrapassa os limites'dessa situação para pôr em'causa a existência pessoal no seu conjunto. De fato, a existência pessoal em seu conjunto está em causa em cada situação. E é isso que sente o educador quando diante de seu trabalho. As exigências burocráticas que são feitas para que redija dessa ou daquela maneira muitas vezes levam o educador a perder a confiança no seu modo de conduzir a ação educativa. Preocupação com verbos permitidos e proibidos, que se refiram ao desempenho do aluno e não do professor e outras formalidades desse-tipo são questiúnculas que-muitas vezes deslocam & tônica das grandes questões que se colocam cotidianamente. Os objetivos comportamentais foram tão disseminados e enaltecidos, em torno deles se criou uma tal mística, que rejeita—los era pior que ser a favor da exclusão social. Creio que amaior crítica que se pode fazer a eles está na sua origem (Parra 1978, p. 42). Suas raízes remontam aos Estados Unidos da década de 1910, quando começou a apologia da administração “científica” (mais Repensando a didática 69 conhecida como “taylorismo”). O movimento logo chegou 'à educação, e, com ele, a busca de eficiência na escola, à semelhança do que se fazia na fábrica. A visão da escola como empresa, primando pela eficiência, fabricando em série-, aceitando comportamentos esperados e repelindo comportamentos que fogem da previsão, passou a dominar em tal perspectiva.2 A preocupação exagerada com a dehnição de objetivos que possam ser previstos, observados, medidos, comparados, pode levar o professor a pensar que só esses objetivos podem ser ensinados. É preciso que o educador tenha Sempre presente para si que o conhecimento não é algo pronto e acabado, mas algo em constante movimento e transformação. Essa percepção irá orientar a maneira de trabalhar os conteúdos, não os apresentando fechados e acabados. Isso significa trabalhar com os conteúdos passando ao educando ao mesmo tempo a compreensão do estágio atual da ciência e as conquistas até aqui empreendidas, impulsionando-o a continuar esse esforço da espécie. Outros objetivos para o dia a dia As decisões que realmente importam no processo educativo não são tomadas apenas no início do trabalho. O professor define os contornos do que pretende desenvolver e será na sua prática, durante o desenrolar do processo, que irá clarificando para si e para os educandos, e com os educandos, as metas a ser alcançadas. Ele até pode planejar minuciosamente algumas noções e habilidades, definindo-as de modo objetivo. Mas não podemos trabalhar apenas com esse tipo de objetivo. A realidade, em toda sua explosão de singularidade, exige mais. Objetivos que levem o educando a expressar sua individualidade, sua unicidade, suas características próprias, impõem-se: podemos falarem objetivos cabanas,? 2. Ultimamente esse ideário aparece nos assim chamados “planejamentos estratégicos”. Denominados objetivos expressivos por Elliot Eisner, “Instructional and expres-sive educational objectives: their formulation and use in curriculum”. ln: Maria Aparecida R. de Lima Grande, Educação Escolar: finalidades e objetivas. Sº º 70 Papirus Editora Em primeiro lugar, um objetivo aberto descreve um encontro educacional. Um encontro que pode ser uma situação criada para permitir que aflorem as características individuais dos alunos, um problema que os alunos devem enfrentar ou ainda uma tarefa a executar. Essa descrição não estipula o que os alunos devem aprender no encontro planejado. É um objetivo que apenas enuncia uma condição. O desempenho não é previsível ou programável. Cada ser humano vai fazendo desabrochar suas características, estimulado por conflitos de seu meio. Em segundo lugar, o objetivo aberto oferece para o professor e para o aluno a oportunidade para explorar, aprofundar ou focalizar questões de interesse. É uma intenção que se corporifica no concreto e- que a partir dele se estrutura. Professores e alunos são envolvidos de maneira a aprofundar o estudo e a experiência na direção de seu interesse investigativo. Em terceiro lugar, o objetivo aberto põe ênfase no aperfeiçoamento e na modificação do conhecimento. Ás vezes, até mesmo na produção de um conhecimento totalmente novo. Se professores e alunos se lançam num trabalho em que estão genuinamente empenhados, o conhecimento será trabalhado de modo muito significativo. Na relação sujeito-objeto, o conhecimento é aperfeiçoado, modificado ou mesmo produzido. É preciso que a escola proporcione condições para que resultados não previstos possam ocorrer, é preciso incluir objetivos abertos em nossos planejamentos. Alguns exemplos de objetivos abertos: " Interpretar o significado “da música “Coraç㺠de estudante”, de Milton Nascimento. ' Debater as manchetes do dia. " Desenvolver uma forma tridimensional por meio do uso de barbante e plástico. ' Visitar o zoológico e discutir o que foi interessante lá. Evidentemente, a avaliação de tais objetivos não será padronizada, mas personalizada: trata-se de avaliar o produto, examinar qualidade 'e importância, mas não impor um padrão. Repensando a didática 71 Objetivos comportamentais e objetivos abertos situam-se nos dois extremos do controle de comportamento. Os primeiros, fechados, definem desempenho, condição e critério; os abertos propiciam um amplo rol de respostas dos alunos. É imprescindível referir ainda um outro tipo de objetivo que fique a meio caminho entre os primeiros e os segundos.. Esse terceiro tipo eu chamaria de objetivo provocativa, porque consiste em oferecer ao aluno um problema bem determinado mas com múltiplas possibilidades de solução. O indivíduo deve pôr em ação sua imaginação para resolver o problema. É um objetivo que especiiica a condição e o critério, mas não o desempenho. Um exemplo seria: ' Fazer um projeto de casa Com xª quartos, x. dependências, para um terreno de tal medida-. Fornecem-se as medidas e os requisitos mínimos a atender, mas há um número muito grande de alternativas possíveis para o projeto (estilo arquitetônico, área verde x área construída, dimensões, ênfase no luxo, na praticidade etc.). É um objetivo que define a função que o produto deve ter, mas a solução dele decorrente é livre. Em resumo, os três tipos de objetivos têm seu lugar na escola: os Comportamentais, como vimos, representam pouco e são pobres em relação a todo o processo de descoberta pessoal que a educação deve proporcionar. Contudo, devem ser incluídos, uma vez que dentro de qualquer perspectiva sempre haverá um conjunto de habilidades e informações a desenvolver de maneira pouco diversilicada. Os abertos levam o aluno a deúnir seu próprio problema e a propor sua própria solução; e os provocativos especificam o problema e a função que deve “ter a solução, mas deixam margem a muitas soluções. Esses três tipos de objetivos devem fazer parte do programa de todo professor. O importante é ter clareza do que se pretende e saber o que se está trabalhando em cada situação. Quando o professor se posiciona perante os objetivos, ele apresenta os seus limites, determina até onde vão seus conhecimentos sobre o assunto que pretende ensinar, sabedor do que se está trabalhando em cada situação. Daí em diante, o aluno pode desenvolver e ampliar, ou não, infinitamente o seu campo de conhecimentos sobre o assunto. 72 Papirus Editora Dessa maneira, o professor vai trabalhando com 'as contradições da realidade e corrigindo as rotas precárias definidas aprioristicamente. Precárias porque como o caminho vai se fazendo ao andar, será a cada passo que se enxergará um pouco além e se criarão soluções para as questões imprevisíveis que se colocarão. É a dialética do real. Níveis de objetivos, níveis de conteúdos É necessário que o educador faça a articulação entre objetivos e conteúdo, decidindo sobre os graus (ou níveis) de profundidade em que trabalhará cada unidade. Trata-se de pensar radicalmente essa relação objetivo—conteúdo, procurando descobrir como ajudar a crescer. Numa verdadeira relação pedagógica, o crescimento é mútuo: o professor cresce e o aluno também. É importante- atuar em diferentes níveis de complexidade, partindo do mais elementar, que é o conhecimento da terminologia, passando pelo conhecimento dos fatos e das regras e princípios, e atingindo as habilidades mentais cada vez mais complexas,, que desembocam na capacidade crítica e avaliativa. Existem muitas taxonomias para os vários domínios (cognitivo, afetivo, motor).4 O professor técnica e politicamente competente tirará proveito delas sem se curvar às prescrições miúdas, que funcionam muitas vezes como verdadeiras “camis-as-“de-força” à sua criatividade e à dos alunos. Conclusão (Sempre provisória parque- o real não se congela) “Em trabalhospráticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica”, diz Kundera (1985, p. 39), que acrescenta: “Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou 4. Um exaustivo levantamento de taxonomías (muitas delas desconhecida-s entre nós) está em Viviane e- Gilbert de Landsheere, Definir os Objetivos da educação. Uma taxonomia simplificada de bom uso está em Bloom, Hastings e Madaus, Evaluación d'el aprendizaje. Repensando a didática 73 acertou ao obedecer a um sentimento”. Claro que estamos diante de dois códigos: e da experiência próxima e o da totalidade da experiência existencial. Nem por isso o sentido da reflexão se invalida. Os objetivos em educação não dizem respeito apenas a um fragmento do real a testar-, mas a uma compreensão da realidade humana que transcende os limites provinciais. Daí que não há como limitar o que por si só é ilimitado. Se a educação é contínua construção e reconstrução do real, o movimento intelectual que ela comporta — e do qual importa — não pode ser senão uma dupla mão de desintegração das ordens intuídas e percebidas e de uma recomposição dessas mesmas ordens, tendo, por horizonte, uma aventura mental e, por ambição, a comunicação. Em síntese, Francastel adverte (1967, p. 32): “A conduta do espírito exige sempre o vaivém 'do todo a parte e da parte ao todo”. Referências bibliografia“ BLOOM, Benjamin et al. (1975). Evaluación del aprendizaje, vol. 1. Buenos Aires: Troquel. CASTANHO, Maria Eugênia L. e M. e CASTANHO, Sérgio (2001). “Revisitando os objetivos da educação”. In: VEIGA, Ilma P.A. (Org.). Didática: 0 ensino e suas relações. Campinas: Papirus. FRANCASTEL, Pierre et al. (1967). Sociologia. da arte, vol. 11. Rio de. Janeiro: Zahar. GRANDE, Maria Aparecida R. de Lima (1979). Educação escolar: Finalidades e objetivos. São Paulo: Saraiva. GUSDORF, Georges (1987). Professores para quê ? Para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes. JUBERO, Pedro Fontán (1978). La escuela ysus altemativas de poder. Barcelona: Ceac. KUNDERA, Milan (1985). A insustentável leveza do ser; 6ªe'd. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. LANDSHEERE, Viviane e LANDSl-IEERE, Gilbert, (s./d.). Definir os objetivos da educação. Lisboa: Moraes. PARRA, Nélio (1978). “A face oculta dºs objetivos compºrtamentais”. Revista Educação e Matemática, nº 1, pp. 42-45. 74 Papirus Editora 5 CONTEÚDOS ESCOLARES:AQUEM COMPETEMASEIEÇÃOEAORGANIZAÇÃO? Pura. Lúcia Oliver Mani-ns A questão da seleção e da organização dos conteúdos escolares, até meados da década de 1980, foi tratada do ponto de vista exclusivamente técnico nos cursos de formação de professores. à escola atribuía-se a função de transmissão do saber acumulado historicamente, cientificamente organizado, considerando aspectos lógicos e psicológicos tendo como pressuposto básico a formação teórica sólida como garantia de uma prática consequente. Subjacente a essa abordagem, tem-se a concepção da teoria como guia da ação prática, caracterizando a separação entre teoria e prática. A partir da segunda metade da década de 1980, essa questão passou a ser alvo de muitas discussões entre os educadores progressistas que, comprometidos com a maioria da clientela presente nas escolas, buscaram alterar a lógica subjacente à abordagem anterior, passando a orientar a seleção e a organização dos conteúdos escolares com base no pressuposto de que, para essa maioria, teoria e prática constituem uma unidade. Em outros termos, no fazer gera-se um saber.- Repénsando a didática 75 Ora, se na primeira abordagem a didática caracteriza-se como uma disciplina de caráter técnico-instrumental, pretensamente neutra, na segunda, ela passa a constituir a disciplina que, tomando como objeto de estudo o processo de ensino, visa compreendê-lo em suas múltiplas determinações para articulá-lo à lógica, aos interesses e às necessidades práticas da maioria da clientela presente nas escolas. Assim, este estudo apresenta alguns pontos para reflexão, baseados na prática docente desenvolvida na organização do trabalho da escola na década de 1980, no sentido de possibilitar ao educador em formação explicar e compreender os problemas presentes na escola onde irá atuar, para que, nesse processo de compreensão, possa propor formas de organização e de seleção de conteúdos mais voltadas para os interesses da grande maioria da população brasileira. Para tanto, procederei à descrição e à análise crítica do tratamento dado à questão da seleção e da organização dos conteúdos, nos dois momentos da formação do professor, quais sejam, na didática dos cursos de graduação[ e na didática desenvolvida pelos professores nas escolas de ensino fundamental.2 Tendo em vista o meu objetivo, o texto está organizado em três momentos fundamentais, intimamente relacionados: a abordagem na didática teórica; a abordagem na didática prática; os determinantes da dicotomia teoria/prática presentes na formação do educador. Ampliando a discussão, à guisa de conclusão, acrescentarei algumas reflexões sobre a abordagem da questão nos últimos anos. Abordagem na didática teóricaª' O professor .é quem seleciona, organiza e apresenta o conteúdo ao aluno, de acordo com um plano que atenda ;— . No corpo deste. trabalho será denominada didática teórica-. No c0rpo deste trabalho será denominada didática prática. Será aqui caracterizada a partir do tratamento mais frequentemente adotado nos programas da disciplina nos cursos de graduação na década de 1970, início dos anos 80, conforme pesquisas apresentadas no II Seminário “A didática em questão” e na dissertação de mestrado de Maria Rita Neto Sales Oliveira, “O conteúdo atual da didática: Um discurso da neutralidade” (UFMG 1980), as quais revelam uma abordagem predominantemente tecnicista. ”r ºlº 7a Papirus Editora aos. interesses e às necessidades de sua classe (...). O tratamento do conteúdo, no planejamento de ensino, exige, cada vez mais, originalidade, criatividade e imaginação por parte do professor: (Turra 1975, p. 117) De acordo com os autores que tratam da seleção e da organização de conteúdos — Gagné, Taba, Horn, Lafourcade — entre outros,4 esta é uma tarefa importante que o professor deve realizar ao organizar o seu plano de ensino. Segundo Turra et al. (1975), embora os autores assumam posições diferenciadas quanto ao modelo de educação, percebe—se um ponto comum que os une, qual seja, “a importância da seleção e da organização criteriosas, pelo professor, dos conteúdos a serem trabalhados com o grupo de alunos” (ibid, p. 104, grifos meus). Sabe-se que a questão dos conteúdºs esColares assume diferentes orientações conforme as várias teorias da educação construídas historicamente. Na teoria da Escola Tradicional, por exemplo, a ênfase recai na transmissão dos conteúdos, que devem ser rigorosamente lógicos, sistematizados e ordenados, expressando “verdades” que pairam sobre a sociedade e os indivíduos. O importante é aprender o conteúdo produzido e acumulado pela humanidade e apresentado como produto. J a na teoria da Escola Nova, a ênfase está na redescoberta do conhecimento a partir da atividade do aluno. Dá-se ênfase na maneira pela qual o aluno aprende os conteúdos, ou seja, no processo. N a teoria da Escola Tecnicista, a ênfase desloca—se para a obtenção de informações específicas e objetivas, cientificamente ordenadas, tendo em vista a produtividade. O importante é o bom desempenho do trabalho, em testes e exames. Nas teorias progressistas observam-se hoje várias tendências. Algumas defendem a transmissão competente do saber acumulado pela humanidade, mas chamam a atenção de que esse conteúdo deve ser analisado de forma crítica no intuito de tomá-lo “vivo” e “atual”. Outras procuram redefinir os conteúdos com base numdeterminado ponto de vista de classe, onde alguns conteúdos são mais “verdadeiros”. Outros, ainda, colocam, a questão 4 . Autores predominantes na bibliografia dos programas de didática na década de 1970 e início dos anos 80. Repensando a didática ?? no nível da sistematização coletiva do conhecimento baseada em problemas postos pela prática social.5 Vê-se, assim, que a amplitude, a complexidade e a importância da organização e da seleção dos conteúdos são indiscutíveis. No entanto, o que se presencia na literatura da área, bem como nos programas da disciplina didática,6 é a ausência de um tratamento mais orgânico da questão do Conteúdo, que especifique os pressupostos subjacentes às diferentes formas de seleção e de organização de conteúdos e suas implicações práticas. Aos professores em formação são apresentadas apenas as instâncias operacionais, de orientação predominantemente tecnicista,7 como se fossem a única forma de tratamento da questão. Desse ponto de vista, objetivando preparar o futuro professor para a tarefa de seleção e organização dos conteúdos escolares, a unidade de estudo conteúdo nos programas de didática enfatiza as fontes, os critérios de organização e seleção, bem como os modelos de organização. Em relação às fontes de conteúdo, os autores de orientação tradicional, escolanovista e tecnicista, concordam que os bens culturais são acumulados historicamente pela experiência do homem e sistematizados cientificamente — saber sistematizado. A esse respeito, Turra et al. (1975, p. 104) dizem que: O conteúdo é uma “parte integrante da matéria-prima; é oque está contido em um campo de conhecimento. Envolve informações, dados, fatos, conceitos, princípios e generalizações acumulados pela experiência do homem, em relação a um âmbito ou setor da vida humana (...). Os bens culturais, quando adaptados, elaborados e organizados pedagogicamente, compõem os conteúdos programáticos. Estes constituem a fonte de onde o professor seleciona o conjunto de informações que trabalhará com seus altmos, 5, Para um aprofundamento dessas diferentes abordagens progressistas, cºnsultar Martins (1997). Na década de 1970 e início dos anos 80. Aqui envolvendo as intluências das teºriascomportamentais, bem como da abordagem sistêmica do ensino, referendadas na lei 5592171, que regulamentou o ensino de l—º-e 29 graus até dezembro de 1996. rª ? “ 7a Papirus Editora. Outro ponto na organização do conteúdo constitui a estrutura de tais conteúdos. Nessa tarefa, tanto os autores como os professores de didática enfatizam a complexidade dessa atividade a ser desenvolvida pelo futuro professor. Segundo Turra et al. (1975, p. 102), “a seleção e organização de conteúdos não é tarefa rápida ou fácil. Exige muito conhecimento do assunto e do grupo de alunos, além do embasamento seguro em termos da estrutura da disciplina”. Para auxiliar o professor nessa difícil tarefa, recomenda-se levar em conta a estrutura lógica da matéria, as condições psicológicas para a aprendizagem, bem como as necessidades socioeconômicas e culturais. Chama-se a atenção para os critérios de validade, flexibilidade, significação, possibilidades de elaboração pessoal e utilidade do conteúdo, sem os quais o professor correrá o risco de não selecionar os conteúdos mais significativos para a aprendizagem de seus alunos. Uma vez selecionados criteriosamente os conteúdos, compete ao professor organiza-los sequencialmente. Segundo Gagné (1974, p. 156): “A importância de se esquematizar a sequência de aprendizagem reside no fato de que esse procedimento nos capacita a evitar erros que originam da omissão de etapas essenciais a um determinado campo do conhecimento”. Para a organização sequencial dos conteúdos, recomenda-se a observância de critérios, quais sejam: sequência lógica e coerente com a estrutura e o objetivo da disciplina; gradualidade na distribuição adequada em pequenas etapas, considerando a experiência anterior do aluno; continuidade que proporcione a articulação entre os conteúdos-; integração entre as diversas disciplinas do currículo. Nesse nível de abstração, é possível concordar ser fundamental levar em conta, nesse processo de seleção e organização dos conteúdos, 'as condições psicológicas e as necessidades socioeconômicas e culturais dos alunos, como também suas experiências anteriores. No entanto, faz—se necessário questionar: para esses autores, o que. significam condições psicológicas e. necessidades socioeconômicas? No que se refere a instrumentos para auxiliar o professor na sistematização e na organização do conteúdo, não existe uma norma única. Há diferentes modelos. Gagné (1974), por exemplo, propõe o modelo que Repensando a didática 79 consiste na representação hierárquica de fatos específicos a princípios. Segundo ele: “Comportamentos complexos requerem, como pré-requisitos, formas mais simples de aprendizagem (...). A função de ensinar deriva da descrição das condições necessárias para a ocorrência de aprendizagem. Estas condições, necessárias (...), devem ser construídas passo a passo, estágio por estágio” (UFRGS 1975, p. 228). Já Robert Horn (1969) sugere o mapeamento de infomações, que consiste em categorizar“ as informações necessárias para a aprendizagem de um determinado assunto e construir blocos de informações de acordo com os objetivos propostos. Ele considera importante oferecer ao aluno a aquisição do domínio do conteúdo numa progressão gradual. Por seu turno, Lafourcade (1974) apresenta o mapeamento do conteúdo, que consiste numa série de conceitos e de princípios relacionados de forma lógica e sistemática. O esquema que. ele sugere envolve a identificação dos conceitos básicos; dos conceitos conectados aos básicos; dos princípios e generalizações, das teorias e. dos fatos específicos. Ao desenvolver o estudo desses e de outros modelos de organização dos conteúdos, os autores e professores de didática ressaltam que selecionar e organizar conteúdos não se confunde com mera listagem dos mesmos, mas envolve a apresentação dos conteúdos inter-relacionados de forma orgânica e dinâmica. Nota—se uma preocupação de preparar o futuro professor para a importante tarefa de selecionar e organizar os conteúdos a serem trabalhados no seu processo de ensino, e que, segundo eles, lhe compete. A questão da imposição dos programas ao professor é— considerada coisa do passado. Turra et al. (1975, p. 101) afirmam que: O mestre de alguns anos atrás encontrava nos programas oficiais o rol completo de infomações a ser estudado por seus alunos (...). Era exigido que o professor o esgotasse, apesar da qualidade do rendimento do aluno (...). Esta forma de encarar o problema está progressivamente desaparecendo de nossas escolas. A meSma. autora-, referindo-se ao professor hoje, destaca: 80 Papirus Editora. O professor dispõe, nos dias que correm, de uma significativa margem de flexibilidade para montar o programa que irá desenvolver com seus alunos (...). O professor tem liberdade para selecionar os conteúdos que sejam os mais adequados a seu grupo. Da mesma liberdade pode se valer para organiza-los. (Ibiá, p. 102) Como se pode notar nessa sucinta descrição do enfoque teórico mais usual da questão dos conteúdos escolares nos cursos de didática, na década de 1970 e meados dos anos 80, salienta-se a importância da tarefa, a qual deve ser realizada pelo professor. Teoricamente, o professor determina, seleciona, organiza os conteúdos do seu ensino, segundo critérios e princípios específicos para esse fim. A definição do conteúdo, segundo a didática teórica, conStituiria, portanto, função do profeSsor, como profissional que detém o controle sobre o processo e o produto do seu trabalho. Abordagem na didátiCa' prátiCaª 0 programa imposto pela escola não pode ser alterado. A professora primária não tem direito de selecionar os conteúdos. (Professora do ensino fundamental ) Na didáticateórica fica evidente que a seleção e a organização de cometidos é tarefa fundamental a ser realizada pelo professor ao organizar o seu ensino. Os diversos autores ressaltam essa importância e elaboram instrumentos que visam auxiliar o professor nesse trabalho. Além disso, coloc am-no como responsável pela concepção, pela execução e pelo controle do processo de ensino. No entanto, na prática cotidiana dos professores, o que se constata vem se contrapor aos pressupostos da didática teórica, pois o professor-, 8 . Aquela vivenciada pelos professores nas escolas de ensino fundamental e médio e que se explica pelos determinantes do trabalho prático em sala de aula, dentro da organização escolar., em relação às exigências sociais. Esta não tem por compromisso Comprovar os elementos teóricos estudados em livros ou experimentados em laboratórios, mas tem em vista o aluno, seus interesses e suas necessidades práticas. Será aqui caracterizada pelos depoimentos de professores do ensino fundamental de Arapongas/PR (população—sujeitode pesquisa realizada em abril de 1984 pela autºra). Repensando a didática 81 na maioria das vezes, não participa da seleção e da organização dos conteúdos que irá trabalhar com seus alunos. Eles são previamente definidos no plano curricular da escola e/ou nos livros didáticos, por especialistas, sem a participação do professor—; sendo-lhe entregues em pequenas (grandes) doses bimestrais, como forma de tarefa a ser cumprida, como se. essa ação fosse desenraizada de um compromisso concreto. Quando se referem ao conteúdo programático que são orientados a desenvolver com seus alunos, os professores enfatizam a distância existente entre aquele e a realidade vivenciada por estes. Além disso, a quantidade de informações suplanta a qualidade. Priorizam-se aspectos irrelevantes em detrimento dos essenciais. A distribuição, a organização, a dosagem, segundo eles, são inadequadas. Os professores assim se expressam: O conteúdo ditado pela escola 'é falho muitas vezes porque se dá um conteúdo que na vida prática o aluno nunca vai precisar. Ao passo que muitas coisas que o aluno precisa são dadas superficialmente ou às vezes nem são dadas. Os conteúdos que são impostos têm muita coisa que não haveria necessidade. Isso atrapalha o desenvolvimento do que é realmente importante. O conteúdo é tão extensoe tão preso a minúcias que. se perdem as coisas mais importantes. Os depoimentos citados acima revelam que o professor considera o conteúdo programático defasado em relação às necessidades e aos interesses dos seus alunos. Diante da dificuldade que enfrenta para realizar a transmissão de um determinado conteúdo que ele próprio não vê possibilidade de trabalhar, o professor procura uma explicação distinguindo os essenciais dos desnecessários. Os conteúdos essenciais “são definidos por ele como o desenvolvimento das habilidades de leitura, de escrita, de interpretação de textos, bem como a resolução das operações fundamentais, nas séries iniciais. Isso, segundo eles, permitiria um avanço qualitativo nas séries finais, bem como evitaria dificuldades de aprendizagem cujas consequências são a evasão e a repetência em massa. Mesmo sem compreender em profundidade os determinantes dessa defasagem dos conteúdos, o professor, pela prática, considera que o cOnteúdo 82 Papirus Editora. programático só é importante a medida que auxilia o aluno na resolução dos problemas emergentes do seu cotidiano. Segundo ele, o conteúdo como fim em si mesmo não corresponde aos interesses e às neceSsidades práticas dos seus alunos. Quando os autores se referem às fontes de conteúdos como sendo todo o acervo cultural acumulado historicamente pela vivência do homem, falam de um homem aistórico, vivendo numa sociedade sem conflitos nem contradições. Não situam a sociedade de classes onde as relações que se estabelecem na luta de classes têm um papel determinante nesse processo histórico que dá origem ao saber sistematizado e veiculado pela escola. E não considerando esse aspecto, dissimulam as reais condições de sistematização desses conteúdos. Por não situar as determinações sociais dos conteúdos na realidade social e histórica vivida pelo homem no mundo, todas as teorias acerca desse assunto se tornam desçomprometidas com a prática cotidiana dos professores e comprometidas com um discurso teórico que busca guiar a prática. E assim, a seleção dos conteúdos a serem veiculados pela escola é definida em função dos interesses de uma minoria, o que vem se contrapor aos interesses da maioria da população, que vai sendo excluída da escola. Por seu turno, os professores, no seu dia a dia, em contato com alunos concretos, pertencentes a uma sociedade concreta, sentem, mas não compreendem, os determinantes da distância que existe entre os conteúdos preconizados pela escola e pelos didatas e os interesses e as necessidades práticas dos seus alunos. Sabe-se que o conteúdo só adquire significado se, Vinculado à realidade existencial dos alunos, está voltado para a resolução dos problemas colocados pela prática social, fornecendo instrumentais teórico-práticos que neguem dialeticamente essa mesma prática social. E os professores, mesmo não percebendo a profundidade da questão, rebelam-se. e reclamam dessa inadequação dos programas escolares para os seus alunos. Assim eles se expressam: Os conteúdos já vêm programados, inclusive divididos por bimestre. () professor deve cumpri-los. Muitas vezes o conteúdo não condiz com a realidade dos alunos, (Professora do ensino fundamental) Repensando a didática 83 O conteúdo é falho porque não é determinado pelo professor que conhece e tem consciência da realidade do aluno. (Professora do ensino fundamental) O conteúdo é fora da realidade e mal distribuído. (Professora do ensino fundamental) Outro aspecto importante se revela nos depoimentos acima. O professºr, na prática de sala de aula, percebe a realidade do aluno e reclama por ser excluído do processo de escolha dos conteúdos programáticos que irá desenvolver com seu trabalho. Ele percebe, pela prática, o que é importante e o que é desnecessário para os seus alunos. No entanto, é obrigado a cumprir o programa definido pela escola. Esse processo, porém, não ocorre linearmente, sem contradições ou conflitos. A imposição e o controle a que é submetido o professor geram o seu contrário. Isto é, mesmo recebendo o programa pronto e sendo submetidos a um rigoroso controle do seu cumprimento, os professores tentam “adequá- lo” a realidade e aos interesses dos alunos. Eles assim se expressam: Os conteúdos são propostos pela escola e adequados pelo professor de acordo com a realidade onde a escola está inserida. Então a escola mais central tem um tipo de clientela diferente dos da vila. (Professora do ensino fundamental) O conteúdo é baseado no plano geral da escola e na medida do possível é desenvolvido procurando-se adaptações conforme as turmas, o material e o local de trabalho. (Professora do ensino fundamental) Observa-se, nos depoimentos, que o professor refere-se a um aluno concreto, com interesses e necessidades de ordem prática, e embora não compreenda a raiz do problema, sente as diferenças de classe e tenta atender da melhor maneira possível aqueles alunos que manifestam resistências expressas em forma de dificuldade e de desinteresse para aprender. Assim,- também ele resiste às imposições da escola. Convém ressaltar que os professores percebem a defasagem entre o conteúdo programático determinado pela escola e os interesses e as necessidades práticas dos seus alunos como uma questão de falta de “adaptação”. Isso demonstra que a consciência gerada na prática diária só atinge um determinado nível de explicação, não chegando à compreensão profunda do problema, que não está só em currículos com conteúdos 84 Papirus Editora. distantes ou adaptados à realidade dos alunos, mas está, principalmente, nanatureza dos conteúdos que são definidos com base em critérios políticos encobertos sob critérios técnicos. É justamente pretendendo a “neutralidade” dos critérios técnicos para se adequar a tudo e a todos, que a maioria dos autores e dos professores de didática do período estudado exclui das suas teorias uma determinação fundamental. Ou seja, a questão de que o professor, na sociedade capitalista, não é um profissional liberal que detém o controle sobre o processo e o produto do seu trabalho, mas um profissional assalariado que está dentro de um contexto social e, mais especificamente, dentro de uma organização escolar que reflete a divisão social do trabalho e as contradições advindas dessa organização. Os dereminantes da dicotomia teoria/prática na famação do professor Para entender a escola, sua organização e o processo de ensino que nela Se desenvolve, não basta analisa-los em suas determinações internas, mas é preciso vê-los inseridos numa sociedade capitalista que se caracteriza pela apropriação diferencial dos meios de produção, onde duas classes fundamentais são antinômicas. De um lado, situa-se o proprietário dos meios de produção — o capitalista —, que detém também o controle da ciência e da tecnologia. De outro, encontra-se o trabalhador assalariado, proprietário apenas de sua força de trabalho. De um lado, o que detém os meios de produção e os que concebem o trabalho. De outro, os que não têm posse dos meios de produção, não têm acesso à ciência e à tecnologia e sua função é apenas executar as tarefas que lhes são atribuídas. Portanto, o modo de produção capitalista caracteriza-se pela separação entre trabalho manual e trabalho intelectual, cujo sentido último está em legitimar a desvalorização do trabalho, controlar o processo de produção, a técnica e a ciência; enfim, retirar do trabalhador a autonomia, o controle do procesSo, assegurando, assim, a exploração que está na raiz do processo de acumulação, fim último do capitalismo?- Fenômeno idêntico observa-se. hoje com o sistema escolar. 9. É importante registrar que nesse momento histórico (século XXI), assiste-se a um outro momento do capitalismo, em que a exploração desloca-se para .o“ intelectual. Agora Repensando a didática 85 Os processos de trabalhos são analógicos: o professor, um assalariado, perde algumas características de sua profissão, ou seja, perde o controle sobre a atividade do seu trabalho, bem como do seu produto. As decisões sobre o que, como, para que e para quem fazer, serão na maioria das vezes tomadas por um pequeno grupo dentro da organização hierárquica que se estabelece nesse modelo de sociedade. à maioria, fica reservada a função de executar tarefas parcelarizadas. Dessa forma, o professor, como profissional assalariado, quase sempre não participa do momento de concepção do processo de ensino. Ou seja, não lhe compete definir objetivos, selecionar e organizar os conteúdos que irá trabalhar com seus alunos, bem como avaliar os resultados. Ele apenas executa o que os outros pensaram. Assim, na prática cotidiana, dos três níveis de competência que lhe foram apresentados como seus no processo de ensino, quais sejam, planejamento, execução e avaliação, apenas o nível de execução lhe é reservado. A concepção do processo do seu trabalho, bem como o controle dos seus resultados, quase nunca lhe pertencem. Entre o profissional liberal, delineado pela didática teórica, e o assalariado do ensino, vivenciando a didática prática, há uma grande distância. Ou seja, dentro da organização escolar o professor tem de desempenhar determinados tipos de tarefas já previstas pela própria organização e que independem de sua vontade. Configura-se, assim, uma profunda antinomia entre & didática teórica e a didática prática. Para romper com essa organização escolar resgatando o controle sobre o processo e o produto do seu trabalho, é imprescindível que o futuro professor tenha a compreensão das raízes profundas dos problemas postos pela prática pedagógica das escolas onde irá atuar. Ou seja, que compreenda que a organização do trabalho na escola revela a posição distinta das classes nas relações sociais de produção (uns concebem e outros executam), constituindo-se num elemento determinante da prática que irá desenvolver. Isso implica alterar a concepção de educação comumente veiculada nas escolas. A organização do trabalho escolar caracteriza-se por um trata-se de captar a produção intelectual do trabalhador. A exploração já não se limita ao manual,, mas concentra—se na esfera inteleCtual. 86 Papirus Editora processo de ensino centrado, predominantemente, no eixo da transmissão- assimilação, levando o professor ao cumprimento de tarefas, à preocupação de “dar uma boa aula”. Isso decorre de uma concepção de educação que vê o processo de ensino como um processo de distribuição do conhecimento que é previamente definido, desvinculado dos problemas postos pela prática social. É a teoria como guia da ação prática. Para atender à lógica, aos interesses e às necessidades da maioria de nossos alunos, a concepção de educação não pode se limitar à questão da distribuição de conteúdos, logicamente estruturados pelo professor, nem à organização de temas segundo interesses individuais dos alunos, mas ela deve incluir a sistematização coletiva de conteúdos, a qual envolve a coletivização da prática social dos alunos que, problematizada, vai gerar as questões a serem estudadas durante o curso. Então, em vez de transmitir um conteúdo que seria definido a priori por grupos de especialistas, o conteúdo a ser trabalhado e definido a partir das necessidades colocadas pelas práticas sociais.“) Assim, não se trata apenas de transmitir conhecimentos — embora o inclua —, mas trata-se, sobretudo, de instrumentalizar teórica e praticamente as pessoas para darem conta de problemas práticos. Nessa concepção de educação, passa a ser fundamental para a didática a questão da organização dos conteúdos, numa perspectiva teórico-prática, na medida em que, nessa perspectiva de sistematização coletiva “do conhecimento, a forma define e dá sentido ao conteúdo. Ou seja, a forma de vivenciar, refletir e sistematizar coletivamente o conteúdo em função de um problema prático dá um novo significado ao conteúdo. Não se trata apenas de selecionar e organizar uma teoria para guiar a ação, mas trata-se, isto sim, de lançar mão do saber sistematizado (conteúdo), para explicar 10. NeSsa perspectiva, especialmente na década de. 1990, verifica-se um movimento no sentido de trabalhar a seleção dos conteúdos levando em conta a realidade onde se situa a escola. Propostas político-pedagógicas, tais como Escola Plural, da rede municipal de Belo Horizonte, Escola Candanga, no Distrito Federal, Escola Cidadã, no Paraná, entre outras, valorizam essa articulação dos conteúdos escolares com a realidade social dos alunos. Também nos programas de pós-graduação em educacão assistiu-se, nas décadas de 1980/1990, a uma produção fundamentada nessa nova concepção de educação, desenvolvendo experiências “em escolas de ensino fundamental 'e produzindo “cºnhecimentos nessa direção. A propósito, ver Martins (2003). Repensando a didática 87 problemas postos pela prática. Nessa perspectiva, não basta selecionar e organizar cientificamente o conteúdo escolar, ainda que crítico, mas é neceSsário vivenciar e trabalhar um novo processo de seleção e de organização de conteúdos,11 que são instrumentos de um 'fazer educativo politicamente definido.. E a história segue o seu curso... Das contradições na prática, caminhos possíveis Se no início da década de 1980 as relações sociais estabelecidas nas escolas e problematizadas pelos professores eram fortemente marcadas pela organização hierárquica, individualista e competitiva que destituía o professor do momento da concepção e do controle do seu trabalho, a partir da segunda metade dos anos 80, em decorrência dos crescentesmovimentos sociais que criam novas formas de luta, a necessidade de articular os conteúdos escolares com a realidade e os interesses práticos dos alunos, tendo em vista o desenvolvimento de uma formação crítica e comprometida com a realidade em que atuam, toma força. Com efeito, o problema da relação conteúdo-forma no ensino assume centralidade nos meios escolares entre seus agentes e, nos meios acadêmicos, entre os estudiosos da área. Nesse momento, as discussões acerca da seleção e da organização dos conteúdos escolares nos cursos de formação de professores passam a ser fortemente marcadas pelas correntes progressistas da educação que, em oposição ao modelo pedagógico predominante até então, centrado no campo da in'strumentalidade, fundamentam suas propostas de ensino no paradigma marxista. No paradigma marxista, porém, podemos identificar duas vertentes. Castoriadis (1982), por exemplo, distingue claramente duas concepções no pensamento marxista: materialismo histórico e luta de classes. Segundo ele, essas duas concepções são incompatíveis, pois, se uma é levada a sério, se esvazia o conteúdo da outra. A primeira entende que a consciência 11. Um exemplo prático desseprocesso encontra-se em Martins (2001, parte III). 88 Papirus Editora. revolucionária e introduzida de fora, pelos ideólogos socialistas. A “segunda considera que a transformação social se fará historicamente na e pela luta dos trabalhadores. Assim, há duas orientações diferentes para a questão da relação conteúdo-forma na perspectiva crítica do ensino. A primeira centra- se na concepção da teoria como guia da ação cuja prática não é determinante, mas determinada, e as mudanças se fazem no plano dos conceitos, das ideias. A proposta de uma pedagogia crítica nessa orientação considera suficiente alterar o conteúdo a ser ensinado. Já a segunda proposta, baseada na concepção da teoria como expressão de ações práticas, tem como elemento central a ação dos sujeitos. A proposta de uma pedagogia crítica nessa direção deixa de cingir—se à transmissão-assimilação de conteúdos, ainda que críticos, e se encaminha à sistematização coletiva de conhecimentos, em que o fazer (forma) passa a ser fundamental ccmo elemento educativo. Nos últimos anos, o “que 'se verifica na prática12 é que os professores, tanto dos cursos de formação docente quanto os professores que atuam nos ensinos fundamental e médio, detêm um referencial teórico mais crítico, expressam o desejo de alterar a prática numa perspectiva “progressista”, chegam mesmo a proclamar uma prática “transformadora”, sem, contudo,, alterar substancialmente as relações sociais no interior de suas práticas pedagógicas. Eles sentem, percebem, ficam insatisfeitos e continuam esbarrando na organização que impede, por mecanismos diversos, que eles disponham de espaço para uma reflexão mais aprofundada das dificuldades que continuam a ocorrer. 'ª A contradição entre o discurso mais progressista e a prática conservadora e uma problemática nova para os professores. Observa-se entre eles um consenso em torno da importância de se tomar a prática social dos alunos como ponto de partida e centro das reflexões no 12. Essas reflexões apoiam-se, em dados levantados em pesquisa-"ensino que me “colocam em cºntato direto e constante com os professores de todos os graus de ensino e suas práticas. 13. Observa-se que mesmo entre os professores que atuam nos projetos político—pedagógicos que procuraram alterar a organização do trabalho na escola, reservando ao professor espaços para estudos e planejamento no interior da própria escola, tais como Escola Plural (Belo Horizonte), Escola Candanga (Distrito Federal), entre outras, permanecem dificuldades para viabilizar reuniões para uma ação mais coletiva, como necessidade de destinar esses horários para substituir colegas que faltam ao trabalho, dupla jornada de trabalho em escolas diferentes, entre outras. Repensando a didática 89 tratamento da seleção e da organização dos conteúdos. No entanto, permanece a dificuldade de realização prática. Ao que parece, nos cursos de formação de professores prevalece o paradigma marxista no qual a consciência revolucionária e introduzida de fora, pelos ideólogos socialistas, centrando- se na concepção da teoria como guia da ação cuja prática não é determinante, mas determinada, e as mudanças se fazem no plano dos conceitos, das ideias. Daí o avanço significativo no discurso dos professores e a contradição desse discurso com a prática desenvolvida por eles. Nesse sentido, a prática nos mostra que a busca de uma estreita articulação da teoria com a prática inclui uma postura mais radical nos cursos de formação de professores, baseada na concepção da teoria como expressão de ações práticas, que tem como elemento central a ação dos sujeitos e orienta-se pela sistematização coletiva de conhecimentos, em que o fazer (forma) passa a 'ser fundamental como elemento educativo. Referência“ bibliográicas ARROYO, Miguel G. 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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL (1975). Faculdade de Educação. Laboratório do Ensino Superior. Planejamento e organização do ensino. Porto Alegre: Globo. Repensando a didática 91 6 METODOLOGIA DO ENSINO: CULTURA DO CAMINHO CONTEXTUALIZADO Oswaldo Alonso Rays Analisando criticamente a história da educação escolar, principalmente a partir da Revolução Industrial, verifica-se que a sistematização do processo de ensino-aprendizagem vem se ajustando, com maior ou menor grau de correspondência, à organização dos processos produtivos dominantes. Via de regra, essa correspondência resulta cada vez mais promissora, uma vez que vem insistindo, objetivamente, no estabelecimento da conexão entre as relações sociais de trabalho (em sua forma capitalista) e as relações sociais da educação. Isso nos permite compreender a necessidade de que as finalidades da educação não se distanciem da Enalidades das metodologias de trabalho utilizadas nos currículosescolares. Com isso, entende-se, também, que a opção por métodos de ensino e de aprendizagem, ao lado da seleção dos conteúdos curriculares, torna-se não apenas uma opção didática, mas, igualmente, uma opção política. 0 trabalho pedagógico, em suas diferentes variantes, necessita, atualmente-, ser submetido a uma profunda revisão. Revisão que não pode Repensando a didática 93 ser distanciada do contexto social e das modificações históricas que o geraram. A revisão da escolarização, no seu todo, é processo que enlaça passado, presente e futuro, a partir do entorno socioeducativo do momento em que a revisão ocorre. O paradigma da qualidade da educação escolar necessita, pois, ser pensado e proposto com base nesse entendimento de revisão, isto é, como processo em transformação. Todo processo de transformação, quando crítico, guia—se pela perspectiva histórica, e ocorre em meio ao próprio processo de transformação. Em outras palavras,, esse processo é, a um só tempo, autogerativo e contextual. O paradigma da qualidade da educação que deseja promover a pedagogia da inclusão não excludente e abolir a pedagogia da exclusão dos currículos escolares somente poderá ser materializado “se pensado- executado em função do pleno desenvolvimento do ser humano e não em função das estruturas dominantes. A qualidade educacional somente terá resultados significativos se o seu processo de implementação for organizado política e pedagogicamente para enfrentar, satisfatoriamente, as necessidades emergentes da população, com vistas a uma cidadania efetiva. Urna educação de qualidade não se distancia, assim, da promoção da qualidade de vida da totalidade da população. A escolarização para a cidadania, ao contrário da escolarização para a exclusão e para a submissão, requer uma metodologia de trabalho pedagógico que propicie ao educando o domínio de conhecimentos, competências e habilidades que contribuam para o desvelamento e para a solução das contradições sociais impostas pelo projeto econômico dominante aos trabalhadores assalariados.1 Esses conhecimentos, competências e habilidades serão eficazes se diluídos política e pedagogicamente na multiplicidade dos componentes curriculares materializados pela escola. Objetiva-se, pois, a construção coletiva de proposições que resultem em ações pedagógicas alternativas às imposições educacionais pautadas pelo interesse do capital. Não interessa a uma verdadeira educação de qualidade orientar-se por meio de padrões definidos exclusivamente pelos interesses da indústria capitalista. A finalidade da educação escolar não é preparar os 1. É necessário não nos esquecermos de que os trabalhadores assalariados continuam vendendo sua força de trabalho. pelo salário-proletário estabelecido pelo modelo capitalista. 94 Papirus Editora educandos exclusivamente para as competências individuais do mercado — como sempre desejaram (e desejam) as políticas liberais e neoliberais —., mas prepara—los para que façam frente às imposições daí derivadas. A opção por uma metodologia de ensino que atenda aos interesses imediatos e mediatos dos educandos só pode ser originada da análise crítica do contexto social e das características individuais e grupais daqueles que frequentam e que virão a frequentar nossas escolas, em razão de as especificações e de o “produto fmal da educação” interessarem ao próprio educando e à sociedade de modo geral. O “produto final da educação” não interessa apenas aos processos produtivos capitalistas. A eficiência e a qualidade educacionais necessitam, pois, ser gestadas em função do crescimento do educando, do desenvolvimento de suas potencialidades e de seus interesses, que precisam ser entendidos como parte dos interesses da coletividade. A eficácia e a qualidade dos métodos de ensino deverão estar diretamente ligadas à formação integral do educando e não às necessidades imediatistas da dimensão alienante da globalização. Uma educação de qualidade engloba, na organização de seu processo de desenvolvimento, o passado, o presente e o futuro das necessidades concretas do ser humano e da sociedade coletiva. Uma educação de qualidade não pode se preocupar com a preparação e a reprodução, em série, de trabalhadores (sejam eles burocratas, educadores, médicos, engenheiros, cientistas ou outros). As mudanças educacionais não podem ser exclusivamente influenciadas pela necessidade de mão de obra qualificada, principalmente quando essa qualificação vai privilegiar apenas o reino da mais—valia. Nas Sociedades contemporâneas, o ser humano, ao nascer, traz consigo o direito à educação escolar includente. Entretanto, nem sempre a educação escolar tem contribuído para a formação plena desse ser, com base em suas necessidades biopsicossociais. Esse fato é, atualmente, consenso entre as classes sociais. A educação é hoje patrimônio do conjunto dos seres humanos, sem distinção de classe. No entanto, não basta simplesmente que a educação seja patrimônio do conjunto dos seres humanos. É preciso que, além de abranger as diferentes classes sociais, a educação ocorra de forma processual e crítica e que seja contextualizada. Repensando a didática 95 Para tanto, a verdadeira educação escolar é intencional e necessita de sistematização real que envolva realidades socioeducacionais concretas. A materialização da sistematização da educação exige, portanto, a opção por uma metodologia de ensino que realize a mediação entre: teoria e prática, pensamento e ação, sujeito e objeto, esferas heterogêneas da vida (vida cotidiana) e esferas homogêneas da vida (vida não cotidiana); entre o saber que o educando domina e o saber que o educando não domina, e, enfim, entre as relações não conscientes com o mundo (mecânicas) e as relações conscientes com o mundo (críticas). A preferência política por uma metodologia de ensino cujas relações com o mundo socioeducacional sejam conscientes reflete a preocupação com o processo de superação da heterogeneidade da vida cotidiana, com a compreensão crítica das questões sociais e com a objetivação, também crítica, da prática social. 0 desenvolvimento crítico das ciências humanas vem contribuindo para que a metodologia de ensino se tome mais consistente do ponto de vista teórico-prático. Os avanços constatados ultimamente nos campos da reflexão filosófica, das pesquisas sociológicas e psicológicas e da própria pedagogia têm contribuído com elementos epistemológicos significativos para as transformações concretas que essa área de conhecimento vem implementando no Brasil, desde a segunda metade da década de 1970. Os resultados dessas reflexões e pesquisas levam-nos a refletir criticamente sobre o real significado que os procedimentos de ensino devem assumir no contexto da atividade pedagógica escolar. Cabe relembrar, ainda, que as transformações ocorridas nos métodos de ensino, ao longo de sua história, sempre estiveram ligadas às modificações sócio-históricas e políticas da “sociedade e, com efeito, não raras foram as vezes em que essas transformações ignoraram as conexões requeridas entre o método e os objetivos reais da educação; entre o método e- o conteúdo do ensino; entre o método e as capacidades de aprendizagem dos educandos. Em outras palavras, ignoraram-se as relações existentes entre o método e. a lógica dialética do processo de ensino—aprendizagem e suas decorrências político-pedagógicas para a prática docente. Não se buscaram, assim, respostas adequadas às necessidades do desenvolvimento socioeducativo e cultural (contextualizados), isolando-se a escola da sociedade. 96 Papirus Editora. A Em de contribuir com a superação dessa realidade, vou recolocar a seguir alguns questionamentos que venho fazendo, a partir da década de 1980, a respeito do método de ensino e, de forma ampla, Sugerir algumas proposições para a transformação do fazer didático, que não condiz mais com a realidade social e educacional que estamos atravessando.Tanto no discurso como na prática pedagógica, não é difícil encontrar momentos em que se tem distorcido o sentido etimológico do vocábulo método: do grego méthodos, de metá (pelo, através) e hodós (caminho). O método, como se observa, grosso modo, na prática pedagógica desenvolvida nas escolas, é condicionado pelas suas regras internas e dilicilmente consegue Superá-las perante as necessidades concretas do processo de escolarização. O momento didático e a realidade em que o processo de aprendizado está “se realizando são fatores determinantes para a busca do caminho, por meio do qual se materializam situações didáticas contextualizadas. O método de ensino, desse modo, é condicionado e condicionador dos ambientes de aprendizagem. Nesse sentido, o método de ensino deve ser entendido como caminho para a promoção de ações pedagógicas conscientes, organizadas criticamente, com a finalidade de tornar o trabalho docente e discente mais fácil e mais produtivo para o alcance das metas desejadas e necessárias para o desenvolvimento integral dos educandos. A atividade metódica, assim entendida, faz com que o ser humano “se relacione de forma dialética e, por conseguinte, histórica, com o mundo da natureza e com o mundo da cultura. O método traz, dentro de si, a ideia de uma direção com a finalidade de alcançar um propósito, não se tratando, porém, de uma direção qualquer, mas daquela que leva, de forma mais segura, à consecução de um propósito buscado. O método implica, pois, um processo ordenado dialeticamente e uma integração, também dialética, entre pensamento, ação e reação, para a consecução de tudo aquilo que foi planejado. A ideia de organização nele contida implica o planejamento e o replanejamento (em face do aparecimento da reação.) de procedimentos dialéticos coerentes e coesos para seu desenvolvimento integral. É com base nessa visão de método, aliada ao conceito de que todo processo de ensino pressupõe ordenação de princípios para o seu desenvolvimento, que surge a preocupação com o método de ensino no âmbito da educação. escolar. Necessita-se, então, do método de ensino, desde Repensando a didática 97 que seja um caminho construído para o alcance de metas educativas particulares, e coadjuvante na transmissão e na assimilação críticas do conhecimento elaborado — da ciência em Seu movimento de transformação — de forma igualmente coerente e coesa para o momento circunstancial. O método de ensino passa a ser, assim, um dos elementos possíveis para a estruturação dos caminhos a serem perconidos pela ação didática. Esses caminhos utilizarão, em suas trajetórias, diferentes procedimentos de ensino, objetivando motivar e orientar o educando para a assimilação crítica do saber proporcionado pelo processo de escolarização em suas relações com os meios natural, cultural e socioeconômico. As considerações acima se tornam relevantes para a implementação de métodos de ensino, uma vez que os diferentes pressupostos que embasam o fazer didático estão condicionados às diferentes interpretações do papel da educação na formação do homem em sua estrita correspondência com as necessidades básicas da sociedade. Nesse sentido, os métodos de ensino têm que considerar em seus determinantes não só a realidade vital da escola — representada principalmente pelas figuras do, educador e do educando —, mas, também, a realidade sociocultural em que está inserida. Por essas razões, a tarefa educativa é variável e à metodologia do ensino não é aconselhável seguir dogmaticamente a definição geral de método como um caminho linear para a consecução dos objetivos da situação didática, Com isso, no emprego concreto da metodologia nas atividades teórico-práticas do cotidiano escolar, o educador consciente vê- se obrigado & afastar a ideia de caracterização de método como um procedimento que se realiza por si mesmo e com força própria? É preciso reconhecer que nem todo problema pedagógico pode ser reduzido à problemática didático-metodoló gica da prática pedagógica. O entendimento dessa questão faz—se necessário, uma vez que a redefinição concreta da metodologia do ensino exige alterações nos diferentes elementos estruturais que a condicionam, assim como nos estereótipos que sustentam o trabalho “2. Todo método de ensino deve certesponder às necessidades de. situações de aprendizagem específicas. Neste sentido, Pistrak (1981, p. 30) observa o. seguinte: “Não podemos aplicar as mesmas regras a todas _as condições escolares: seria um comportamento central-io à própria essência da (...) escola”. 98 Papirus Editora. pedagógico. Isso torna premente o questionamento do “vício didático” onde a instrução escolarizada se expressa em unidades de ensino acabadas no tempo e no espaço. A responsabilidade desse questionamento, como sua consequente intervenção na prática pedagógica, cabe especificamente ao educador no momento em que se defronta, em seu cotidiano escolar, com situações didáticas que se circunscrevem apenas à transmissão pura e simples do conteúdo do ensino, sem qualquer conexão com o mundo social. Outra questão que requer um estudo crítico no campo da metodologia do ensino é a da multiplicidade arbitrária de fórmulas didático-metodoló gicas que, no lugar de aprimorar a ação didática, tem contribuído negativamente para a dissolução do trabalho pedagógico.3 Verifica—se esse paradoxo uma vez que o processo de abstração daí derivado tem degenerado a essência da metodologia do ensino em relação a seus valores educativos. Com isso, a ação didática autêntica distancia-se cada vez mais dos propósitos Substanciais que justificam a existência da educação escolar.4 No entanto, a questão primordial que hoje se coloca para a metodologia do ensino é ada superação do apriorismo e do dogmatismo 3. Para Suchodolski (1976, pp. 145-146), 0 trabalho pedagógico deve basear-se “(.. .) nos aspectos mais diversas do mundo social e cultural (...) seu ponto de partida é a esfera da civilização criada pelos homens, todos os aspectos da vida em que o indivíduo destaca a atividade multifacetada do homem. Baseando-se neste critério, fala-se hoje em dia cada vez mais acertadamente de educação através da ciência, educação através da arte, de educação au'avés do meio social e das instituições sociais, de educação através de empresas de trabalho etc. Estas definições não são a introdução de uma nova temiinologia, mas servem para esclarecer a reorientação essencial do trabalho pedagógico”. 4. Um dos propósitos que justificam a educação escolar tem sua síntese nas seguintes afirmações de Radice (1968, pp. 5, 6, 39 ): “(...) a escola é por sua natureza, e hoje mais do que nunca, um terreno de luta em prol do novo contra o velho. Estou convencido, também, de que as forças portadoras de progresso podem e devem hoje, com maior confiança do que no passado, e liquidando qualquer esquematismo, empenhar—se na escola, na cultura, na educação, como terrenos de. luta que lhes são excepcionalmente favoráveis. (...) a escola é uma instituição que, por sua íntima natureza, pertence ao futuro. (...) a escola de hoje é pensada no futuro. E vice- versa: o futuro não me parece possível de ser pensado sem escola. (...) a escola pode ser considerada uma instituição que caracteriza a espécie homo sapiens. Podemos muito naturalmente dizer, no entanto, que a condição para ter uma história éter uma escola: uma instituição cujo objetivo seja a transmissão da produção e da capacidade produtiva paulatinamente conquistadas e acumuladas. (...) não consigo ver uma “sociedade“ humana sem escolas”. Repensando a didática 99 metódico reinantes na prática pedagógica, cuja organização não é realizada a partir dos diferentes grupos sociais que hoje frequentam a escola brasileira. Para que essa questão seja superada, é preciso partir do princípio de que a todo método de ensino deve corresponder um correto método de aprendizagem. Assim, um dos desaiios didáticos do momentoatual é o da concepção de uma metodologia de ensino que minimize as discriminações sociais, geradas fora da escola, porém refletidas e expressadas na escola por aqueles que dela participam. Somente com a solução — política e didática — desses desafios e que o educador e o educando poderão transformar-se numa totalidade educativa, onde os destinos metodológicos do processo educativo são traçados a partir da inter-relação e da integração concretas do educador e do educando no ato educativo. A ação docente — quando concreta — parte de situações didáticas particulares e do exame dos principais fatores empíricos, científicos e sociais que as caracterizam. Esses fatores incluem evidentemente todas as pessoas que estão envolvidas direta e indiretamente no cotidiano da instituição onde ocorre a ação docente. A ação docente crítica preocupa-se, pois, com a diversidade de problemas e de indagações inerentes ao ato educativo. Assim, os parâmetros político-pedagógicos da ação docente são buscados na própria ação docente, isto é, no ponto de conexão de suas contradições, que levam a um determinado estilo de trabalho que permeia o processo de ensino- aprendizagem que aí ocorre. Toda situação didática, por mais simples que possa parecer, e, pois, complexa. Requer que se faça sua decomposição (política, sociocultural, econômica, cultural, psicológica e pedagógica ) com base nos elementos reais que a caracterizam. Daí & aflrmação de que todo método de ensino é intencional e não se constitui em um simples caminho atrelado a formas de agir determinadas a priori do ato educativo concreto. Dessa maneira, é também possível afirmar: um método de ensino torna-se concreto quando ele se converte em método de. aprendizagem. Essas características e performances é que dão vigor político— científlco ao método de ensino. Nelas estão explícitos os subsídios reais para a implementação de uma metodologia contextualizada. A metodologia contextualizada nasce e renasce da situação didática em desenvolvimento-, de uma situação didática específica que envolva (em termos de proximidade) 10.0 Papirus Editora a totalidade das contradições da problematicidade. do mundo educacional e do mundo social.5 Por outro lado, o método de ensino procura complementar sua ação na didática escolar, buscando subsídios nos conhecimentos úteis provindos da psicologia da aprendizagem (principalmente quando os resultados das pesquisas desse campo do conhecimento são provenientes da análise das relações dialéticas entre o processo de aprendizagem humano e o contexto sociocultural amplo)6 e, ao mesmo tempo, na estrutura lógica dos conteúdos programáticos das disciplinas curriculares. Nesse sentido, o método de ensino faz a mediação entre a estrutura da matéria de ensino, o contexto sociocultural e as reais condições de aprendizagem do educando. Além dessas categorias — lógica, psicológica e- sociocultural —,7 o método de ensino deve possuir também uma outra categoria fundamental que justifica, de modo geral, sua razão de ser, que é aquela representada pela sua função político-educativa. Esta, por sua vez, tem uma finalidade formativa, em função do processo vital de emancipação teórico-prática do educando, que a educação escolarizada crítica deve proporcionar a todos os aprendizes. 5. Para Kosik (1976, pp. 35-36 ), “(...) totalidade não signiiica todos os fatos. Totalidade significa: realidade como um todo estruturado, dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classes de fatos, conjunto de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido. Acumular todos os fatos não significa ainda conhecer a realidade e todos os fatos (reunidos em seu conjunto); não constituem, ainda, a totalidade. Os fatos são conhecimento da realidade se são compreendidos como fatos de um todo dialético — isto é, se são átomos imutáveis, indivisíveis e indemonstráveis, de cuja reunião a realidade saia constituída —, se são entendidos como partes estruturais do todo. O concreto, a totalidade, não são, por conseguinte, todos os fatos, 0 conjunto dos fatos, o agrupamento de todºs os aspectos, cci sas e relações, visto que a tal agrupamento falta ainda o essencial: a totalidade e a concreticidade. Sem a compreensão de que .a realidade é totalidade concreta — que se transforma em estrutura significativa para cada fato ou conjunto de fatos —, o conhecimento da realidade concreta não passa de coisa mística, ou coisa incognoscível em sí”. Estudos importantes sobreessaquestãopodem sei-emirados em Wgotsky, Luria e Imiev (1988). Sobre a ordenação lógica e psicológica dos conteúdos de ensino e a necessidade de se estabelecer um equilíbrio entre o lógico e o psicológico como fatores que influem no desenvolvimento da capacidade de aprender do educando, ver Kneller (1969, sobretudo o capítulo IV, pp. 59- 87). Para uma apreensão imediata dessa questão, vale a pena registrar aqui as palavras de Libâneo ( 199], p. 87): “Os conteúdos e as ações mentais que vão sendo fcnnados dependem da organização lógica e psicológica das matérias de ensino. A organização lógica se refere à sequência progressiva dos conceitos, ideais, habilidades, em nível crescente de complexidade. Organização psicológica se refere à adequação ao nível de desenvolvimento físico e mental “que, por sua vez, é condicionado pelas características socioculturais dos alunos”. rª p » Repensando-a'didátic—a 101 É por essas razões que o formalismo metodológico, o determinismo e o apriorismo da ação didática necessitam ser repensados nas diferentes realidades do processo de ensino e de aprendizagem: políticas, socioeconômicas, culturais, psicológicas, biológicas, lógicas e pedagógicas. Assim, a metodologia do ensino precisa, urgente e criticamente, evitar métodos que fazem da ação didática uma rotina pedagógica sem Sentido formativo. Para tanto, é imprescindível que o fazer didático seja guiado pela perspectiva histórica e pela dialética dos fatos e fenômenos socioeducativos.8 Os pressupostos epistemológicos de uma metodologia de ensino necessitam proporcionar aos sujeitos do ato educativo não só o conhecimento da estrutura teórico—prática dos procedimentos de ensino, mas ensejar, numa perspectiva substancial, a incorporação do polo instrucional no polo socioeducacional: ligar as possibilidades didáticas às possibilidades educativas e estas ao contexto sociocultural.9 Este, por sua vez, não deve Ser um mero pretexto para a estruturação da ação didática, mas o ponto essencial para a valoração da matéria de ensino em estudo na educação escolar. 0 que se pretende com o pressuposto acima é a proposição de métodos de ensino que proporcionem ao educando um modo significativo de assimilação crítica da ciência — representada na escola pela matéria de ensino — e o confronto desta com as necessidades socioculturais dos diferentes grupos sociais que frequentam a escola. lº & Argumentos esclarecedores sobre a ação didática guiada pela perspectiva histórico- dialética estão. em Saviani (1991). 9. Para tanto, faz-se necessário o estudo da realidade atual que o contexto sociocultural representa. Assim se expressa Pistrak (1981, p. 106): “Estuda-se a realidade atual pelo conhecimento dos fenômenos e dos objetos em suas relações recíprocas, estudando-se cada objeto e cada fenômeno de pontos de vista diferentes. 0 estudo deve mostrar as relações recíprocas existentes entre Os aspectos diferentes das coisas, esclarecendo-se & transformação de certos fenômenos em outros, ou seja, o estudo da realidade atual deve utilizar o método dialético”. Por sua vez, o emprego do método dialético não se faz mecanicamente; exige, antes de tudo, que o educador pense dialeticamente. Para Saviani (1989, p. 7): “Pensar dialeticamente implica pensar, num só ato mental, os elementos contraditórios que definem o fenômeno considerado. Vale dizer, para pensar dialeticamente não basta pensar a contradição; e preciso pensar por contradição”. 10. Para que a metodologiade ensino seja materializada pelos pressupostos epistemológicos indicados, faz—se necessário que o educador se preocupe, antes de qualquer coisa, com a educação do homem numa perspectiva pedagógica revolucionária. E o que podemos entender pºr uma pedagogia revolucionária? Para Saviani (1984, p. 68): “A pedagogia revolucionária 102 Papirus Editora Sendo o ensino um processo dialético, seu movimento-essência estará no ideário político—pedagógico que se operará em suas contradições internas e externas. A história nos mostra que o processo de ensino se condiciona por suas contradições objetivas e subjetivas. Esse condicionamento representa o vetor principal do processo de ensino e do processo de aprendizagem, o qual conduz à unidade da teoria e da prática pedagógica. A contradição e, sem dúvida, o elemento gerador que leva a ação didática a proporcionar a assimilação crítica e criativa de conhecimento e à elaboração de conhecimentos em situações didáticas específicas e às manifestações de fenômenos de natureza diversa. Entretanto, as contradições trabalhadas em situações didáticas específicas necessitam estar no nível da capacidade assimilatória dos educandos. Caso contrário, torna—se praticamente impossível a assimilação crítica e criativa da matéria de ensino, o mesmo acontecendo em relação à elaboração do conhecimento, que provavelmente deixará de acontecer.11 A elaboração do conhecimento é relevante para toda e qualquer situação didática, uma vez que está diretamente ligada à sua própria possibilidade dialética de promover mudanças na realidade que gerou a situação de contradição e sua subsequente superação, em face do aparecimento de novos fenômenos de natureza instrucional, educacional, política, social, cultural e econômica. O ensino, como fenômeno da realidade concreta, é um processo que se desenvolve dialeticamente. Para tanto, tema- se premente a correlação crítica entre a informação acabada (a cultura elaborada e sistematizada) e a elaboração do conhecimento. Nesse sentido, é preciso entender o processo de ensino e o processo de aprendizagem tal é uma pedagogia crítica. E por ser crítica, sabe—se condicionada (...) e entende “que a educação se relaciona dialeticamente com a sociedade. (...) a pedagogia revolucionária, longe de secundarizar os conhecimentos descuidando de sua transmissão, considera a difusão de conteúdos vivos e atualizados, uma das tarefas primordiais do processo educativo em geral e da escola em particular”. l l . Radioe (1968, pp. 15-16), ao mesmo tempo em que defende a ideia de que a reforma das estruturas escolares implica uma renovação dos conteúdos escolares, propõe, também, ser preciso passar da erudição ã sutileza crítica e da pura receptividade mental ã coragem intelectual. Esta, para Radice, (...) “significa não considerar absoluta conquista alguma, hipótese alguma, formulação alguma, por fecundas que elas tenham sido; significa o hábito de levar seriamente em conta aquilo 'que o “senso comum' da época vê. como absurdo (...)”. Repensando & “didática 1 03 como eles se apresentam na situação didática. Esta necessita ser trabalhada em sua totalidade e articulada coerentemente em todo o seu desenrolar. Portanto, é indispensável implementar um modo de trabalhar a realidade educativa concreta representada na situação didática totalizante. Uma maneira concreta de trabalhar a realidade representada pela situação didática totalizante, que engloba a totalidade da realidade socioeducativa, é fazer uso da metodologia da contradição. A opção pela metodologia da contradição é justificável, uma vez que não é possível prever teoricamente todos os casos e situações didáticas no desenrolar do processo educativo. Para que exista unidade entre escola e vida, entre instrução e educação, entre saber cotidiano e saber elaborado, é preciso que o educador e o educando tenham uma postura consciente e crítica dos contrastes sociais refletidos no processo de ensino-aprendizagem. Por essas razões,. a assimilação servil do conhecimento estreita os horizontes tanto do educador como do educando.12 Essa forma de assimilação, que é uma constante no processo educativo em geral, somente será descartada a partir do momento em que a metodologia empregada fizer uso da contradição para o desvelamento da realidade socioeducativa, gerando, assim, o conhecimento útil e, ao mesmo tempo, fazendo deste a origem da movimentação das contradições do ato de ensinar e do ato de aprender. As transformações do processo de instrução se viabilizarão tanto pelas transformações do conhecimento elaborado e veiculado na escola, como também pelas correlações e confrontações do conhecimento com o contexto social. A metodologia do ensino passa, assim, a se preocupar com a atividade teórico-prática da ação didática, com base em uma concepção histórico- dialética do mundo, para a compreensão e para a intervenção no processo educativo. Para tanto, a metodologia necessita penetrar mais e mais na concretude desse processo e compreender as causas e contradições que lhe são inerentes e suas propriedades determinantes. 12. A assimilação: servil docenheciment'o precisa ser substituída pela assimilação crítica do conhecimento, para que a aprendizagem escolar seja plenamente significativa. A assimilação crítica 'do conhecimento não ignora o patrimônio cultural acumulado pela humanidade e o supera criticamente por incorporação, temporalizando—o. 104 Papirus Editora É preciso, pois, superar a imagem falsa da metodologia do ensino que preconiza a unilateralidade do processo educativo e despreza a dialeticidade dos fatos educativos e sociais existentes na prática pedagógica. Trata-se, pois, de dialetizar a didática.13 A decorrência metodológica unilateral do processo educativo encontra sua justificativa no ideário pedagógico dos representantes do formalismo pedagógico e na teoria positivista do conhecimento, que isola radicalmente a teoria da prática. Toda metodologia decorrente dessa teoria do conhecimento faz com que a prática educativa se manifeste fora do âmbito da realidade concreta e imediata. Sua metodologia é, portanto, inconsequente, em razão de não proporcionar ao processo de ensino a ordenação necessária que permita passar da aparência à concretude do ato educativo. No lado ºposto. ao da metodologia unilateral e. "formalista, está a metodologia do ensino decorrente da teoria dialética do conhecimento, que não aceita a dualidade entre teoria e prática. A unidade da teoria e da prática é que dá à metodologia do ensino subsídios para a superação do processo de ensino que causa a ruptura da visão totalizante da prática pedagógica. Com isso, a metodologia pode trabalhar o conhecimento sistematizado e o conhecimento social em seu próprio desenrolar e de forma crítico- globalizada. As hipóteses apresentadas no decorrer deste ensaio objetivaram indicar, de modo conciso, algumas proposições no sentido de a metodologia de ensino evitar desenvolver o processo instrucional de forma falaciosa. Dessa forma, fez-se a crítica da ação didática que não proporciona ao educando e ao educador a oportunidade de penetrar na concretude dos fenômenos e dos objetos que compõem o fazer pedagógico, e neles interferir criticamente, buscando mudanças signiiicativas para as diferentes classes sociais que frequentam a eScola atual. 13. Savianí (1989, p. 8) entende que “(...) dialetizar & didática significa compreender num mesmo movimento o momento da formalização (próprio da definição dos procedimentos didáticos) e o momento da reflexão (que. envolve a consciência dos determinantes e a impregnação das fºrmas pelas finalidades do ato pedagógiCO ”. Repensando a'didática 1 05 Uma metodologia de ensino, na perspectiva aqui defendida, não se reduz a uma mera formulação de procedimentos técnicos de ensino, mas pauta-se por princípios teórico-metodológicos, entendidos como fontes geradoras de linhas de ação, e construídos/reconstruídosno processo da produção da ação. É no processo da ação que se produz a ação e que se avalia a qualidade da ação produzida. O pensar-fazer, mediado pelo acontecer concreto, não pode ser diferente do trabalho coletivo crítico, historicizado, situado. Não pode ser diferente do desejo incessante dos anseios, dos interesses e das expectativas da construção solidária e coletiva do projeto de ação — político e epistemológico-didático — das comunidades escolares. A consciência prática crítica, ou seja, a epistemologia da ação, 'é geradora das potencialidades da produção da existência de educadores e educandos concretos. Educandos e educadores concretos nada mais são que o resultado da autotransformação que ocorre na ação mediadora- transformadora e no confronto com as divergências. Assim, toda e qualquer metodologia de ensino possui uma intencionalidade política. Não existe, pois, uma metodologia de ensino despolitizada, como querem os positivistas, assim como toda ação pedagógica supõe uma atitude metodológica. Por essas razões, o paradigma metodológico implícito no corpo deste texto supõe uma epistemologia de ação correlacional entre o sujeito, o objeto de conhecimento e o entorno sociocultural, que busca promover a articulação crítica entre as seguintes dimensões que subsidiam simultaneamente o trabalho pedagógico: a)“ dimensão histórica (a mudança em “seu processo de transformação); b) dimensão política (opções por fins e compromissos com articulações para gestões de ações concretas); e) dimensão antropológica (o homem concreto existindo concreta— mente, produzindo e reproduzindo a existência humana, considerando as potencialidades e os limites da própria existência); d) dimensão epistemológica (preocupação com as correlações forma- conteúdo, teoria-prática, objetividade-subjetividade, saber derivado da ação cotidiana e conhecimento científico), e 106 Papirus Editora e) dimensão pedagógica (conteúdo e forma do processo de gestão do ensino e da aprendizagem em suas correlações potenciais, em relação à prática sociopedagógica; trabalho pedagógico construído socialmente no âmbito da especificidade da escola e em “sua conexão historicizada com a sociedade e o contexto cultural). Em síntese, essas hipóteses de ação pedagógica é que caracterizam uma metodologia de ensino contextualizada. A reflexão-fonnulação de uma metodologia de ensino contextualizada, interativa e dialógica, estará sempre centrada no processo em construção — que incorpora por superação momentos do ato pedagógico anteriormente elaborados — que se refaz a partir das transformações que ocorrem no cotidiano dos contextos sociocultural e pedagógico. A característica central de uma metodologia de ensino contextualizada está, pois, em sua capacidade permanente de fazer-se e refazer-se a partir de problemas e desafios postos por ações e reações que acontecem concomitantemente a cada momento histórico. Essa concepção de metodologia de ensino não se desenvolve independentemente do mundo dos atores que fazem o processo educacional nem independentemente do mundo social. Uma metodologia de ensino contextualizada utiliza-se, assim, de uma epistemologia contextual que causa e constrói transformações alternativas para além do desenvolvimento real dos educandos,, Referências bibliográficas KNELLER, G. (1969). La lógica y el lenguaje en la eduCación. Bacnos Aires: El Ateneo. KOSIK, K. (1976). Dialética do concreto. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. LIBÃNEO, LG. (1991). Didática. São Paulo: Cortez. PISTRAK, M.M. (1981). Fundamentos da escola do trabalho. São Paulo: Brasiliense. Repensando & “didática 1 07 RADICE, L. L. (1968). Educação e revolução. Rio de Janeiro: Paz e Ten'a. SAVIANI, D. (1984). Escola e democracia. 2ª ed . São Paulo: Cortez/Autores Associados. (1989). “Prefácio”. In: WACHOWICZ, L.A. O método dialético na didática. Campinas: Papirus. (1991). Pedagogia histórico-crítica: Primeiras aproximações. São Paulo: Cortez/Autores Associados. SUCHODOLSKI, B . (1976). Fundamentos da pedagogia socialista. 3ª e d . Barcelona: Laia. VYGOTSKY, LURIA e LEONTIEV (1988). Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone/Edusp. 108 Papirus Editora 7 N A DINÃMICA INTERNA DA SALA DE AULA: O LIVRO DIDÁTICO Maria Bernadete Santa Cecúia Caporalini No presente momento histórico, voltada para o mecanismo da ação- reflexão-ação e pensando no movimento busca-mudança ao elaborar o presente trabalho, optei por tomar como ponto de referência uma pesquisa em que a luz da pedagogia progressista de Georges Snyders, procurei analisar — na dinâmica interna da sala de aula — a prática pedagógica de quatro professores de língua portuguesa em exercício numa escola estadual de ensino fundamental 11 (Caporalini 1991). 0 estudo mostrou que se essa escola estava cumprindo sua função reprodutora, pela ação de alguns professores, ao preparar o aluno segundo os padrões dominantes, revela também uma faceta transformadora que se realizava pela ação recíproca de outros professores. Conforme reafirma Snyders (1981), a escola (...) é o terreno de luta entre a classe dominante e a classe explorada, ela é o terreno em que se defrontam as forças do progresso e as forças Repensando a didática 109 conservadoras. O que lá se passa reflete a exploração e a luta contra a exploração. A escola é simultaneamente reprodução das estruturas existentes, correia de transmissão da ideologia oficial, domesticação — mas também ameaça à ordem estabelecida e possibilidade de libertação. (p. 106) É justamente por esses dados que se justificam as inquietações relacionadas ao livro didático e que, repensando, explicitarei algumas considerações orientadas sobretudo para determinadas ideias., julgadas importantes para a didática. à guisa de introdução... Á medida que aprofundava minha reflexão sobre a prática dos professores observados, ia ficando claro para mim que o que importa, de fato, é o posicionamento do professor. à proporção que o professor vai se. posicionando, “as coisas” vão caminhando... Portanto, se se afirma, e eu constatei, que o instrumento referencial básico de trabalho do professor, no processo de transmissão-assimilação do conhecimento, no ensino fundamental, é o livro didático, é preciso ajudá— lo a se posicionar em relação a ele. É preciso prepara-lo, dar-lhe possíveis perspectivas de ação, guia-lo na transformação de sua prática pedagógica. É necessário que sejam repensados os conhecimentos transmitidos, assim como seu modo de transmissão. Sem essa sensibilização (o que não quer dizer ficar apenas nesse nível) tão importante e tão pouco posta em prática, o melhor livro didático poderá ser inadequado e o trabalho comprometido, pois ele apenas propõe caminhos, estimula buscas, sugere roteiros que, no entanto, podem despertar arnplas e fecundas possibilidades. Aliada ao aspecto do conhecimento veiculado-, e baseada nas observações feitas na pesquisa, a questão referente a “como o livro didático é trabalhado na sala de aula” merece relevante destaque. Temos assistido a afirmação de que uma das formas de impor valores da ideologia dominante é mostrar ao aluno uma falsa realidade. Primeiro é preciso saber diferenciar entre ser falso e ser parcial. 110 Papirus Editora Na verdade, a maior parte dos livros didáticos, e, em nosso caso, os de comunicação em língua portuguesa, via textos para leitura ou livros- texto, apresenta apenas uma face da realidade, não falsa mas, muitas vezes,, pouco representativa para a maioria dos alunos. Normalmente, esses textos escolares não consideram (ainda?) valores e' culturas das chamadas classes populares, não retratam (ainda?) a realidade dos alunos delas advindos justamente por, via de regra, de forma generalizada e acrítica, tomar a parte pelo todo, veiculando verdades e valores baseados numa cultura elitizada. Snyder-s (1978) tece a seguinte consideração: Parapersuadir o proletariado de que é livre, que o mundo capitalista é um mundo de liberdade em que as probabilidades são iguais para todos, é necessário não se dizer nada sobre os mecanismos de exploração e de antagonismo entre as classes, quer dizer, passo a passo, sobre o mundo presente (...) É precisamente para não falar no essencial que se desvia a atenção para “uma massa de conhecimentos inúteis, supérfluos, sem vida”. A escola não pode ser senão apática, desligada dos interesses dos alunos e disso mesmo irão acusar-se os professores; irá procurar-se salvação em novos métodos e, na melhor das hipóteses, em “remendos”. Na realidade, os conteúdos e que estão em causa e por motivos de classe: ocultar aos alunos o que é considerado perigoso: mas é precisamente o que poderia interessar-lhes (p. 362). Reconstmindo a prática docente de cada dia“ A transmissão de um conjunto de conhecimentos desvinculado “do cotidiano daqueles a quem se destina, de um saber pronto e acabado, sempre ocupou o primeiro plano das preocupações de uma escola voltada basicamente para a consolidação e a manutenção da dominação econômica e político-ideológica na sociedade capitalista. Foi o que pude observar na pesquisa realizada, quando alguns professores, passando informações fragmentadas, dificultavam ao aluno fazer sínteses, totalizar o conhecimento, compreender o mundo no qual vive e a situação de classes inseridas no processo socioeconômico global. Repensando & “didática 1 1 1 Por- exemplo, nas turmas desses professores-, os alunos anotavam páginas e páginas de conjugações verbais em todos os tempos e modos sem nenhuma explicação. Nem antes, nem durante, nem depois. Eles pareciam nem sequer suspeitar o significado de indicativo, subjuntivo ou mais-que- perfeito. Normalmente, a qualquer pergunta dos alunos, um desses professores tinha por“ hábito responder: “Não vamos entrar no mérito da questão porque não faz parte de nosso estudo”, ou “isto não pertence a este assunto”, ou ainda, “não vamos entrar no mérito da questão, não. Vocês vão estudar depois. Mais pra frente vocês vão estudar”. Em vez de levar os alunos a um conhecimento mais profundo da realidade e a um posicionamento crítico ante essa realidade, a aula de língua portuguesa desses professores, na maior parte das vezes, parecia servir apenas a propósitos de memorização de normas gramaticais. Eles pareciam esquecer que para a assimilação dos assuntos importa não só a quantidade como também a qualidade, que o relacionamento com a realidade vivencial do aluno é necessário, a fim de levá—lo a pensar criativamente, a resolver problemas, a manipular ideias, visando propiciar- lhe também liberdade para explorar e experimentar e conduzi-lo à reflexão e à ação. A apropriação do conhecimento, segundo Mello (1981), deve ser mais abrangente, quantitativa e qualitativamente, para que cada vez mais pessoas possam apropriar-se dele e emprega-lo na orientação e na elucidação de sua própria prática. O surgimento de uma concepção de mundo homogênea e articulada por parte dos alunos é, portanto, diíicultado por essa visão fragmentária. Por essas razões, a história e o conhecimento das classes dominadas apresentam-se descontínuos e compartimentalizados. Segundo Snyders (1981): Os alunos do povo pedem que a escola lhes fale deles mesmos, edo seu mundo e das suas lutas — o que implica uma conexão direta entre o movimento social e o que se passa na escola (...). Com isto, e dentro dos limites que lhe são atribuídos, a escola luta contra a segregação, torna-se menos seletiva. (pp. 3954396) 112 Papirus Editora Ressalta-se aí 'a importância do professor na prática diana de 'sala de aula. Cabe a ele a tarefa, tão necessária, de fazer com que o conteúdo do livro didático torne-se reflexo das diferentes partes da realidade, que e dinâmica e mutável. Vale salientar as palavras de Snyders (1974): (...) aquelas respostas a que o aluno aspira, não as conseguirá sozinho, por forças próprias. Diremos que tem necessidade da cultura e de um guia, através da ensurdecedora heterogeneidade da cultura. A experiência do aluno tem necessidade da cultura, para sair da aproximação, para se desembaraçar dos estereótipos, para conseguir a síntese dos inúmeros acontecimentos que entreviu e para se libertar da pressão difusa das ideologias dominantes. Essa experiência tem necessidade de ser guiada (...). (pp. 212—2 13) Isso, muitas vezes, significa reformular ou, pelo menos, enriquecer cada conteúdo. Isso, muitas vezes, quer dizer partir de realidades individualizadas para, desenvolvendo e facilitando a capacidade de percepção, apreender uma totalidade mais ampla e universal, pois somos nós, professores, os responsáveis pela consciência crítica de nossos alunos,, obtida, entre outras situações, pela vivência coletiva, pela pesquisa que 'o livro didático, da maneira cômoda como é adotado por esses professores observados, não permite. Nessas turmas, quanto à organização sequencial dos conteúdos, quase não havia flexibilidade. Normalmente os professores se reportavarn sempre ao último exercício do livro, proposto na aula anterior, e daí prosseguiam. Os aspectos fundamentais a serem observados para organizar sequencialmente os conteúdos programáticos ficavam pendentes das ordenações apontadas pelos exercícios do livro adotado. Indagado a respeito do plano de curso, que leva em consideração os conteúdos abordados, os objetivos a serem atingidos eas estratégias a serem empregadas em cada unidade, anexo ao livro didático, um dos professores revelou não ter conhecimento dele. “Sabe duma coisa”, disse-me ele, “nunca li isto aí”. Verijicava-se que o trabalho deles se limitava a reproduzir tópicos do programa de ensino. No entanto, desconheciam o porquê da escolha de Repensando & didática 1 13 um conteúdo e ainda "suas consequências no aprendizado de seus alunos. Isto e', seguiam o livro didático, mas não sabiam como tal forma tinha se originado nem tampouco a sua finalidade. Independentemente, pois, do seu conteúdo, o fato de tratar-se de um manual — o saber ao alcance da mão — fazia desses professores “repetidores” que não. se interrogam sobre aquilo que transmitem e, dos alunos, muitas vezes, executantes que não se interrogam sobre aquilo que executam. A esse respeito, diz Mello (apud Mello et al. 1983): A adaptação dos conteúdos, metodologias de ensino e avaliação a realidade da clientela escolar; a criação de recursos de ensino adequados às demandas específicas de cada unidade; a participação nas decisões mais amplas sobre planejamento, currículo e avaliação e muitas outras atividades que ainda cabem ao professor requerem preparo e senso crítico. (p. 71) [Sem estes, continua a autora,] as orientações que são implementadas [no caso pelos autores dos livros] correm o risco de serem aceitas mecanicamente. e sem crítica, formalizando e ritualizando a tarefa docente. (p. 71) Parecia haver uma preocupação acentuada desses professores em preparar os alunos para as provas. Não procuravam relacionar os assuntos às aprendizagens anteriores e à realidade vivenciada pelos alunos, o que fazia com que os conteúdos do livro didático, por vezes, parecessem abstratos e de difícil compreensão. Com frequência eles lançavam mão da referência à prova e/ou ao conceito como forma de “incentivo” ao estudo ou mesmo à atenção durante a aula. Repetiam mecanicamente os mesmos exercícios nas atividades em sala de aula, acabando, talvez, por levar o aluno a adquirir a capacidade de reproduzi-los nelmente quando pedido, “desde que” em idêntica situação. A. título ilustrativo, temos os exemplos: “Se eu der na prova um exercício assim, vocês acertarão? Vou repetir estas palavras, aí, viu!”, disse um dos professores, referindo-se a um exercício do livro, em que se pedia para ordenar algumas palavras por ordem alfabética. Por exemplo: carteira, entusiasmo, carta, envergonhar; envelope etc. 114 PapirusEditora Da mesma forma que ocorria nas aulas de gramática, também nas de textos o aluno não era requisitado a emitir suas opiniões, a pensar, a refletir, a se posicionar criticamente em face do que lhe era apresentado;, contrariando o que preconiza Snyders (1974) para uma pedagogia progressista e transformadora: Para progredir, será preciso “que o aluno enriqueça por forma considerável as observações que já possui (...) que as organize e. consiga relaciona-las num conjunto válido. Não se trata dum acrescento puro e simples àquilo que já se sabe: é uma atitude nova de síntese em que se colhe mais, em que as coisas dizem mais. Dela participam o pensamento e a ação. O pensamento porque se trata dum saber (...). A ação, porque sem abertura para os outros", sem colaboração com os outros, nada do que lhes diz respeito pode ser conhecido a sério. (p, 201) Merece ser aqui destacada a presença constante da interpretação única dos textos apresentados ou indicados por esses professores, para leitura em sala de aula, com base no livro adotado. Eles, ou melhor dizendo, o próprio livro didático parecia possuir a “varinha mágica” da interpretação, assim, o aluno não tinha oportunidade alguma de sugerir outras interpretações possíveis ao texto. Os professores eliminavam a etapa reflexiva da leitura ao fazer com que os alunos se encaixassem na interpretação fornecida no manual do professor, certa, pronta e acabada. O conflito, as divergências, as argumentações eram logo descartados durante essas aulas, que se transformavam em simples exercícios de reprodução, cópia e aceitação de “respostas” e “resultados” determinados. Havia uma recepção mecânica e nada significativa de respostas já deânidas, contrariando o que preconiza Snyders (1978, p. 348), “o aluno não será colocado perante conclusões já prontas e elaboradas”. A interpretação dos textos resumia-se ao superficial pinçar de informações ou expressões, sem, no entanto, descrever uma linha vertical rumo à análise, à síntese, a crítica, ou nada mais passava a ser que o marcar com x algumas alternativas construídas pelo autor do livro, ou pelo professor., ou ainda apenas tomar as soluções e passa-las a limpo. Repensando a'didática 1 15 É a escola incentivando o mutismo, o ajustamento, a acomodação e a submissão. Assim, a escola, via esses professores,, “prepara” o aluno para se “defender” na vida, para “enfrentar” o mundo, “transformar” 'seu meio ou sua própria vida. Invariavelmente esses professores, desprezando a apresentação do texto e sua discussão, justificada por um deles como “perda de tempo”, e algumas vezes até mesmo questões de vocabulário necessárias para entendê- los, da leitura partiam diretamente para os exercícios de compreensão, onde, normalmente, as questões mais subjetivas eram também abandonadas e por aí ficavam. O exercício do tipo extrair a ideia central do texto, presente em quase todas as unidades do livro, significava, para esses profes'sore's, repetir, extrair a ideia do autor do texto de maneira fechada, sem maiores questionamentos. Ao se esquecerem de que na leitura o diálogo do aluno é com o texto,, e que o professor, como o autor do livro, apenas mediador, é“ também leitor e sua leitura é “uma” das leituras possíveis, privilegiavam o autoritarismo, a rigidez e o conformismo. Portanto, ao não se questionarem sobre o conteúdo ou a interpretação do autor (ou se limitando a ela), favoreciam a permanência da consciência ingênua, do irracionalismo, da submissão ao texto — juiz entre os alunos. Assim, Eca reforçada a ideia de que o mais importante é a técnica de leitura em si, nada mais. “Os alunos não foram ajudados a atingir a coerência, a adquirir um método de compreensão, de decifração dos acontecimentos” (Snyders 1978, p. 296). O texto, como é apresentado, não ajuda a desenvolver, nos alunos, a' reflexão, a criatividade e a criticidade. Transforma—os em consumidores passivos de mensagens. Retira-lhes a possibilidade de serem sujeitos dos seus próprios atos. Há uma nítida dicotomização: de um lado, a leitura da palavra, de outro, a leitura do mundo (realidade) (Freire 1984). No entanto, sabe-se que o professor tem um papel mais importante que o de confirmar ou não, que o de dizer certo ou errado às perguntas ou respostas do aluno. Para Snyders (1978, p. 341), “professor é aquele que guia, que tem autoridade para guiar (...)”. Não se pode apenas revelar-, 116 Papirus Editora descobrir os significados pretendidos assinalados e indicados nos textos e permanecer nesse nível. É preciso reagir e levar os alunos a problematizarem, questionarem e apreciarem com criticidade. É necessário que o professor ouça e se faça ouvir. Que faça com que os alunos não só compreendam as ideias veiculadas pelos autores (via textos), mas que os leve também a se posicionarem diante delas, dando início ao confronto das ideias evidenciadas-. Conforme diz Snyders (1974): O professor é aquele que faz um esforço, por um lado para obter uma exploração menos incompleta, por outro para conseguir a clareza, a coerência, a síntese — e convida os alunos a realizar, "com ele e graças a ele, um esforço análogo. (p. 195) Parecem pertinentes aqui mais. algumas observações de Snyders (1974): ,(...) Nem aos alunos é vedado um acesso direto à verdade nem a verdade lhes é contrária. É por isso que precisam ser conduzidos, mas ao mesmo tempo podem e devem verificar na sua própria experiência a justeza do que lhes é inculcado —— e encontrar aí a base das discussões, das confrontações. Um vaivém, na continuidade, entre o vivido e o conhecimento proposto, entre a atitude prática espontânea e a atitude encarnada pelo mestre, (p. 205) Na prática. docente de cada dia: Uma. perspectiva transfonnadora Ao se tentar repensar o problema da escola de lº e 2ª graus em termos “de redefiniç ão de suas metas e objetivos, voltada para os interesses das classes trabalhadoras, deve-se repensar também o livro didático, os conteúdos e os métodos englobados no processo educativo, o que implica uma série de decisões, pois, a partir da dinâmica interna da sala de aula, do relacionamento professor-aluno, é possível também descobrir formas de influenciar a dinâmica externa para tentar modiíicá-la, e não apenas constatar sua existência, como visualizamos em algumas das turmas observadas. Convém lembrar “o” que diz Snyders (11978): Repensando & “didática 1 17 O que baseia uma pedagogia, o que constitui o critério entre as ped agogias, são os conteúdos que estas apresentam ou, mais exatamente, as atitudes a que se propõem levar os alunos: que tipo de homem esperam formar? Uma pedagogia progressista distingue-se de uma pedagogia conservadora, reacionária ou fascista, pelo que diz, pelo que explica sobre o racismo, as guerras, as desigualdades de êxito na classe e sobre as diferentes práticas que se ligam às diferentes interpretações. (p. 324) Contrapõe.—se à concepção tradicional a pedagogia progressista, que procura pensar uma educação comprometida com a realidade social. Nesse enfoque, a utilização do livro didático, a análise da transmissão do conhecimento pelo professor dizendo respeito não somente “ao como, mas, principalmente, ao que e ao quanto se ensina” devem partir, em primeiro lugar, do reconhecimento do contexto do qual e a partir do qual uma certa mensagem está sendo transmitida. Nesse sentido, afirma Snyders (198.1): 0 docente dispõe de uma margem de manobra, pode ou não concentrar a sua atenção nos bons e deixar os outros de lado, pode ou não valorizar mais certos tipos de sutilezas em que pressente perfeitamente que interes sarão, que favorecerão. Esta margem de manobra realmente utilizada, paralelamente com os limites que cedo a restringem, é uma das vias mais seguras de facultar aos docentes uma tomada de posição global. A instituição escolar não está povoada de fantasmas inconscientes, não é apenas a máscara dos mecanismos sociológicos, temtambém a sua vida própria. (p. 110) Como se dá a atuação do professor nesse processo? Percebendo criticamente a realidade e optando por uma pedagogia progressista, o professor vai buscando caminhos, formas de organizar e executar o trabalho pedagógico que respondam a uma nova concepção de educação,, que definam outros fins e que exijam novas metodologias. Nessa nova postura, o livro didático, a mensagem transmitida por meio da linguagem oral e escrita, tem outro sentido, partindo do aluno real, que vive numa sociedade real. Os fins últimos são a instrumentalização do aluno para a modificação da sociedade. Os meios surgem da investigação participante da realidade-, em 'que os alunos, por sua própria participação e 118 Papirus Editora pela intervenção do professor, passam de uma experiência inicialmente confusa, parcial e fragmentada (sincrética) a uma visão sintética mais clara, organizada e unificadora (Snyders 1974; Saviani 1982), buscando novos caminhos que respondam efetivamente aos seus interesses. Esse processo ocorre na medida em que professor e alunos, ao utilizarem o livro didático, sintonizam o conteúdo discutido com o contexto escolar e cultural mais amplo, porque também a classe, como grupo social, não corresponde à totalidade do social. Ela é apenas uma parte dessa totalidade e é influenciada por determinantes sociopolíticos, culturais e econômicos, contexto este que estabelece expectativas, cria necessidades, impõe normas e valores. Por exemplo, logo depois de apresentarem ou explicarem um conteúdo novo, dois dos professores observados procuravam mostrar a importância do assunto e sua utilidade e/ou faziam perguntas sobre o que os alunos já conheciam a respeito dele. Numa das aulas, em que o assunto era “pronome”, um dos professores deu alguns exemplos e explicações e depois acrescentou: Aprendendo a usar bem os pronomes vocês aperfeiçoarão e enriquecerão a linguagem de vocês. Como sempre estou enfatizando, o ensino da gramática visa ao aprimoramento da língua como instrumento de compreensão, expressão e reflexão. Vocês precisam tomar consciência disso. (Professor) Esses professores aplicavam as atividades do livro mas estavam sempre individualizando seu trabalho ao formular outros exercícios e esquemas que consideravam adequados para seus alunos. As atividades do livro são utilizadas como um roteiro HexíVel, que não pode ser seguido à risca, pois depende das oportunidades surgidas 'em sala, que podem modifica-lo radicalmente. (Professor) Se eles sentia-m que a aquisição de determinado fato da língua dependia do conhecimento de outros que não constavam da série e do livro didático adotado,. sempre procuravam dar uma explicação esclarecedora: Repensando a'didática 1 19 Fundamental, e não mistificar. Se a turma faltam habilidades de pontuação ou de estruturação adequada de período, de nada adianta o estudo teórico da língua, cujo objetivo seja apenas o de demonstrar erudição e conhecimento de nomenclaturas. Se o problema do aluno é caligralía ou divisão silábica, por exemplo, por mais primário que isso possa parecer, e daí, eu acho, que deve partir o trabalho de aprendizagem. (Professor) Utilizando estratégias variadas, esses professores procuravam trabalhar os mesmos assuntos de novas formas. Ao contrário das outras turmas, em que o conteúdo era fixado por meio de exercícios quase do mesmo tipo, com pouquíssima variação. Supõe-se que a “ocupação de um espaço e a manutenção de certo grau de autonomia do professor dependem de sua competência proússional para incorporar e selecionar criticamente as orientações que procuram ordenar sua prática pedagógica” (Mello et al. 1983, p. 71). “Partindo do princípio de que o aluno desta série já domina razoavelmente uma das modalidades da língua — a oral — e só gradativamente poderá dominar a língua falada culta (...)” (Professor), 0 estudo dos verbos foi feito de maneira assistemática no início, partindo-se de frases para depois então chegar a conjugação sistematizada dos verbos de uso mais frequente e diário. A sistematização foi se tornando mais intensa até atingir, ao término das observações, inúmeros verbos. Esse estudo foi feito sempre por meio de várias modalidades de exercícios, não se limitando aos do livro didático, a fim de, segundo o professor, “não tomar o assunto cansativo”. Havia em cada nova unidade exercícios de revisão sobre os verbos já vistos, levando o aluno à prática de “seu uso, de “uma forma mais dinâmica, harmonizando teoria e prática”. A formação do imperativo, por exemplo, foi explicada em uma aula mas o professor voltou várias vezes ao tema, com variantes de processos: Na maioria das vezes, é inútil esperar que, após uma simples explicação a respeito de determinado assunto, o aluno seja capaz de acertar os exercícios. Aprende-se muito através do uso de procedimentos e atividades variadas e, principalmente, da discussão dos erros. (Professor) 120 Papirus Editora De acordo com o depoimento desse professor: “Os conhecimentos a serem transmitidos, os assuntos, ficam sempre em aberto, posso abordá- los de várias maneiras, dependendo da turma (...). Não Bco preso ao livro didático. As turmas não são, geralmente, homogêneas. Não há mais a rigidez de programas estereotipados, imutáveis.” Dependendo da ocasião, esses professores apontavam fontes Complementares para os assuntos estudados, incentivavam o uso da biblioteca, mostrando-se, de certa maneira, abertos às intervenções dos alunos. Sempre procuravam descobrir elementos para que o estudo gramatical não ficasse isolado, para» que as atividades linguísticas estivessem sempre aplicadas ao texto. Essas atividades linguísticas aplicadas ao texto têm caráter eminentemente prático e funcional. Através dessa atividade, o aluno alia, une, entremeia o entendimento do texto com revisões gramaticais. (Professor) Meu objetivo, nesta etapa, é fazer com que o aluno perceba a razão pela qual lhe ensino tanto fatos gramaticais. É aqui que ele deve perceber que o fato de estudar análise sintática, por'exemplo, contribui para um melhor desempenho linguístico. (Professor) Acho que quase todos os assuntos de gramática abordados devem ter um retorno no texto a fim de mostrar ao aluno que o estudo do texto e 'o da gramática não são etapas dissociadas, mas algo que converge para um só ponto: uma linguagem mais rica,, mais aprimorada. (Professor) Detectando alguma dificuldade por parte dos alunos, esses professores a utilizavam como ponto de partida para dinamizar processos de raciocínio. Aproveitavam todas as situações, todas as oportunidades-, para revisar os conteúdos do livro didático, para dar novos exemplos e novas explicações. Enriqueciam a correção dos exercícios com perguntas e questionamentos. Exploravam muito as frases. Enfim, extrapolavam, quando possível, o assunto que estava sendo visto. Por exemplo, ao corrigir um exercício em que se pedi-a para preencher as lacunas com o pretérito imperfeito do indicativo, um dos professores aproveitou a frase: “O homem (bateu) à porta e a empregada não (ouviu)”, para explicar a diferença entre “bater na porta”, “à porta” 'e - Repensando & “didática 1 21 “a porta”; e a frase: “a aluna estudava todo o dia”, para classificar a palavra “todo” estabelecendo comparação entre “todo dia”, “o dia todo”, “todo molhado”. Constatei que uma das formas que adotavam para resolver o problema da dificuldade de certos exercícios que constavam do livro, considerando— se o nível de suas turmas, era aumentar o número dos exemplos, até se tornarem familiares aos alunos. Os professores assim se expressaram: Nem a gente pode parar de trabalhar preocupado com as “deficiências dos alunos nem pode também começar a caminhar depressa demais, sem procurar ajudá—los a sanar estas dificuldades que já trouxeram. Tenho procurado chegar num meio-termo. (Professor) Exercícios ideais são aqueles feitos para cada aluno, em funçãode seus problemas de linguagem particulares. Na impossibilidade disto, com um pouco de paciência a gente pode organizar exercícios adaptados especiâcamente às deficiências da classe, baseados nos desvios mais frequentes da maioria, captados através de provas e não ficar somente preso àqueles que vêm no livro adotado. (Professor) Era oque eles faziam elaborando exercícios e lançando-os à classe após retomar as atividades do livro didático e dºs alunos e as reelaborar. Por meio dos mais variados exercícios (completar, relacionar, corrigir etc.), o aluno podia aprender os fatos gramaticais e chegar a conclusões normativas, anulando o trabalho de pura repetição. Essa apresentação assistemática facilitava a verificação de carência de conhecimentos fundamentais do aluno e a complementação de noções básicas. Na correção dos exercícios, por exemplo, ao contrário dos outros professores, eles transcreviam todas as questões no quadro e, baseados em sua análise e correção, utilizavam-se dos “acertos” e dos “erros” para ensinar os alunos a encontrar os caminhos possíveis, a aprenderem melhor. Com essa sistemática, estimulavam um trabalho analítico, diminuindo as possibilidades de repetição puramente mecânica. Segundo esses mesmos professores: 122 Papi ru's Editora Por revisão/correção entendo um momento, dentro do processo da aprendizagem, em que os possíveis erros ou desvios possam Ser analisados; o objetivo é ir, aos poucos, eliminando os problemas apresentados. (Professor) Se o aluno sente que a correção de seus trabalhos o ajuda a eliminar problemas e a desenvolver seu raciocínio, muitas barreiras deixam de ser criadas, e sua disposição para o trabalho é sempre maior. Arevisão é uma reflexão sobre o processamento e os resultados de determinada atividade. É a reorientação do processo de aprendizagem. (Professor) Depois de um exercício do livro didático sobre estrutura da língua, com o título “Linguagem coloquial”, que os alunos deveriam fazer com base em exemplos fornecidos por um texto, um dos professores, a “seu critério, ampliou essa atividade, explorando outras variantes de expressões, de regiStros, que se multiplicaram. Partindo de situações típicas de mensagens orais cologuiais, e mesmo de gírias, ele pediu aos alunos que as “traduzissem” para a linguagem formal e vice-versa. Portanto, o professor utilizou o universo vocabular dos alunos, reproduziu a linguagem que, na situação “informal” de sala de aula, professor e alunos geralmente usam para, logo em seguida, comparando essas duas possíveis maneiras de falar a mesma coisa, mostrar a eles a necessidade de atingir os “níveis” mais cultos da linguagem, que, com o estudo, deveriam procurar alcançar. Snyders diz que: Há efetivamente um papel a desempenhar por uma escola progressista, uma luta a travar e que está, neste ponto especial, a serviço da luta de classes; separar por um esforço quotidiano, na linguagem escolar ena sua utilização, o que representa uma armadilha que manterá prisioneira a tomada de consciência. (1981, p. 358) Portanto, extrapolando os exercícios do livro didático e valorizando a própria linguagem dos alunos, o professor mostrou-lhes a diferença entre linguagem coloquial e linguagem formal, ajudou-os a perceber a existência de formas de se expressar diferentes, de acordo com a cultura a que pertencem, proporcionou-lhes condições de reconhecerem que existem construções mais elaboradas, mais formais, e outras mais despreocupadas Repensando a didática 123 ou livres, e de identificarem as situações em que cada uma é empregada. A esse respeito, diz Snyders (1981, p. 358): “A tarefa de uma escola progressista consistirá em constituir uma linguagem escolar que seja um passo em frente da linguagem dos alunos, que mantenha contato com a linguagem das crianças do povo,. mas permitindo-lhes um avanço em direção à linguagem elabora ”. Instado a falar a esse respeito, convém deStacar também o depoirnento de um dos professores: Para corrigir as falhas e as impropriedades da língua coloquial descuidada dos alunos, é preciso convencê—los da utilidade da língua coloquial cuidada, como meio para chegar a níveis de cultura que garantam a eles a evolução mental "e a integração social. Mas tudo isso, sem roubar-lhes a naturalidade de expressão e a espontaneidade na comunicação. Constatei que uma atenção toda especial era dada por ele ao uso das formas corretas, retomando e repassando os aspectos, em geral, mais vulneráveis de nossa língua. Chamava sempre a atenção dos alunos para a diferença de emprego de certos fatos gramaticais, estabelecendo uma diferença entre a forma popular e a culta. Certo dia, fazendo a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos a situações reais, o professor alertou os alunos para os problemas da comunicação de massa nesse sentido, para enfrentarem o desafio amplo que ela representa, pois, que de algum modo, está ameaçando a ação da escola e o trabalho dos professores. Vale salientar as palavras de Snyders (1981): A repressão está sempre presente numa sociedade dividida em classes — e também a linguagem serve a repressão. A outra base da ação progressista, o complemento dialético da primeira, é o valor da linguagem culta — e a escola é o local em que a linguagem popular se apura pela impregnação da linguagem culta. É para ultrapassar a sua linguagem que os alunos do povo se servirão dela (...). Ser progressista, aqui, é utilizar toda a margem de manobra que a escola deixar (não é exacto que esta margem seja, neste momento, insignificante, e de qualquer maneira nós lutaremos para a aumentar) a fim de assegurar o vaivém entre os dois polos. (p. 359) 124 Papi ru's Editora Utilizando-se dessa “margem de manobra”, após a leitura de um dos textos do livro didático, um desses professores observados na pesquisa encaminhou uma série de rupturas, em relação ao texto original. Nesse espaço, eclodiram as contradições entre a realidade textual e o contexto relacionado com a vivência dos alunos. Orientou os alunos para que percebessem o “desacordo” entre ideias por meio de variados exemplos em evidência no texto e dele retirados ou sugeridos pelos próprios alunos, preparando-os, assim, para identificar, num nível de maior abstração, o tema do texto: “não só a contradição em que inconia uma das personagens do texto, mas a contradição entre o que ªos homens” falam e o que fazem, entre o discurso e a prática”. Depois de vários “casos” apresentados e discutidos pelos alunos-, em que a “contradição entre o que se fala e o que se faz” era a tônica marcante, os alunos foram alertados pelo professor para o fato de que muitas pessoas, assim como a personagem principal do texto estudado, apenas repetem as ideias e as contradições correntes, daí a necessidade e a importância de procurarmos ser cada vez mais coerentes em nossas ideias e atitudes. Aproveitou o texto para desenvolver o espírito reflexivo e crítico dos alunos, a partir do conceito de “contradição”, e a habilidade de identificarem desacordos entre ideias, tão fundamentais na vida diária. Propiciou aos alunos oportunidade de perceberem as contradições que possam estar presentes em suas opiniões, colocando—lhes questões e oferecendo-lhes dados esclarecedores como foi ilustrado acima. Segundo Snyders (1981), é praticamente impossível discutir as Vivências e as carências do altmo sem situá—lo dentro das contradições presentes na sociedade onde vive. Essa vinculação é necessária, significativa e muito importante porque não podemos discutir esse processo no “espaço”, no vazio, isto é, Sem relacioná-lo ao corpo social, lugar onde os homens se-comunicam e procuram conviver e sobreviver. É esse processo que vai permitir ao aluno, ao usar o livro didático, compreender e transformar o signijicado potencial de mensagens expressas por meio das linguagens oral e escrita. Portanto, utilizando-se dos textos do livro didático, o professor, parecendo“incomodado” ante as contradições do real, possibilitou a Repensando & “didática 125 exploração de uma série de contradições em todos os níveis, preparando e alertando o aluno para se converter num desmistificador atento do discurso alheio, bem como do seu próprio discurso. É bom que se ressalte novamente que antes da abordagem de qualquer texto, esses professores preparavam a turma, “procuravam despertar o interesse da classe para o tema”, quer falando sobre o autor, quer discutindo a importância ou a atualidade do assunto ou, ainda, comparando-o com a experiência pessoal dos alunos. Sem antecipar“ o desfecho do texto, procuravam sempre incentivar os alunos para sua leitura, por meio da gravura ilustrativa que normalmente abria a unidade. Valiam—se sempre dela para estimular a curiosidade dos alunos e para situar o texto dentro da realidade cotidiana. Assim, as ilustrações e as charges eram analisadas e discutidas. Os professores aproveitavam-se delas, como conteúdo de aprendizagem, para realizar um trabalho de linguagem oral. A interpretação de cada gravura, pois, já se constituía numa etapa do estudo. Dessa maneira, eles elaboravam questões que levavam os alunos a compreender sua mensagem e a razão de ser incluída naquele determinado texto ou unidade. Enquanto para os outros professores os textos pareciam ser pretexto ou apenas contexto para o treino de leitura ou para exercícios de decodificação, esses professores propunham o desenvolvimento da habilidade de “ler” de forma analítica, interpretativa e crítica. É Snyders quem diz: “(...) não podemos mascarar o conteúdo: os exercícios de gramática têm como suporte um texto, e texto que signiiica qualquer coisa” (1974, p. 218). Os professores mostravam-se abertos a outras interpretações dos textos, que não a deles ou a do autor; preparavam os alunos a fim de que pudessem confrontar—se com os diferentes textos propostos para leitura e interpretação e, parecendo preocupados com a origem social da clientela da escola, propunham textos potencialmente signiiicativos para os alunos. Para proceder ao entendimento do texto, levavam os alunos primeiramente a fazer um estudo do vocabulário e das expressões que os conduzisse a uma melhor decodificação das ideias. Utilizando dicionários, que sempre pediam para buscar na biblioteca (0 que nunca ocorreu nas outras turmas), os alunos substituíam palavras, identificavam parônimos, 126 Papirus Editora faziam correspondência de colunas, no intuito de uma melhor assimilação dos novos vocábulos. A importância conferida & essa atividade transparece nos depoimentos abaixo: Pretendo que o manejo constante do dicionário leve o aluno a perceber a importância do contexto como elemento que condiciºna o emprego de determinadas palavras. (Professor) Julgo indispensável incentivar os altmos a consultarem o dicionário com frequência não só para facilidade do trabalho, mas. também para habitua- los à pesquisa. (Professor) Depois de entendidas as palavras e as expressões idiomáticas, passava- se à cºmpreensão das ideias, com exercícios bem variados (não só do livro), tais como: enumeração de fatos, questionários, preenchimento de lacunas, testes objetivos etc. A esse respeito, registrei o seguinte depoimento: É. importante enfatizar os objetivos desta etapa da aprendizagem: adquirir mais facilidade em determinar a ideia principal e os pormenores do texto dado; saber estabelecer a sequência dos fatos, aspectos ou reflexões do texto; tirar conclusões e interpretar a reação. das personagens. (Professor) Segundo esse- professor, essa atividade visa desenvolver o raciocínio e a criatividade dos alunos na solução de problemas que diariamente ocorrem, bem como treina—los na linguagem oral. Na “Compreensão” e importante que os alunos debatam as respostas. É o momento de se desenvolver o raciocínio e de apresentar os conhecimentos já obtidos. É o momento da comparação, da aplicação de uma ideia a outros setores da vida. É o momento em que a gente mais trabalha porque a nós compete manter a classe em atividade até que se esgotem as possibilidades da questão. Não se justifica a pressa nesse trabalho. (Professor) Diz Snyder's (1978), É ambição da nossa pedagogia que os alunos tenham acesso a conteúdos verdadeiros e que, ao mesmo tempo, os interessem e sejam sentidos Repensando a didática 127 como um auxílio no seu próprio esforço para viverem e para conhecerem. E então, o professor há de parecer-lhes também uma instância auxiliadora e não uma potência hostil. Para que os conteúdos proporcionem assim, ao aluno, elucidação, esclarecimento, explicação do que sente, a condição essencial «% situarem- se em continuidade com a própria experiência. (p. 3.12) Talvez com essa finalidade de que fala Snyders, trabalhando “esta situação”, nessas turmas as questões propostas não levavam a uma resposta dirigida, singular, mas apelavam para a experiência de cada um. Analisava— se cada questão (percebi que o número delas era ampliado em função da motivação e do interesse das turmas, era multiplicado de acordo com o momento) em seus diversos aspectos. Os professores pediam comprovação, fazendo perguntas do tipo: “como você pode justificar essa resposta?”, ou, por exemplo, “por que não podemos assinalar a opção h?”. Eles não se eontentavam com a simples obtenção de resposta certa. Aproveitavam a oportunidade que as questões ofereciam para debater, discutir, indagar sempre mais. Faziam sempre uma diferença entre responder com acerto e justificar a resposta. Nas questões subjetivas, principalmente, tinham o cuidado de só aceitar resposta cuja argumentação fosse lógica e coerente. Verifiquei que as respostas dadas no livro do professor constituíam apenas uma sugestão, pois os professores aceitavam de seus alunos respostas que revelavam seu posicionamento diante do texto, mesmo que. não correspondessem exatamente ao que constava no manual. Os alunos — treinando nas tarefas de análise e síntese — discutiam entre s i e com os professores, que emitiam apenas opiniões, e não ditames, às questões apresentadas e às que surgiam espontaneamente. Formulavam julgamentos e davam respostas procurando fundamenta-las, extrapolando do texto para a realidade vivenciada. A esse respeito, Snyders (1974) tece a seguinte consideração: Na verdade é com as suas experiências pessoais que o aluno constrói a síntese — experiências reais, conservadas e ao mesmo tempo ultrapassadas. Em vez de pontos de paragem, elas tornam-se as linhas organizadoras dum conjunto. (p. 202) 128 Papi ru's Editora Por meio dos textos-, esses professores propiciavam aos alunos oportunidade de se libertaram da pressão exercida pela publicidade e pelos meios de difusão, levando-os a descoberta de infomações acuradas e precisas sobre os fatos e os fenômenos, sobre a questão dos interesses defendidos pelos meios de comunicação, as contradições entre a realidade e o noticiado e os desdobramentos econômico e político de comentários e editoriais. Levavam os alunos a se conscientizarem de que o exercício/atividade sobre um material escrito não objetiva o simples guardar ou memorizar, mas o compreender e o criticar. Colocavam os alunos perante a relatividade dos fatos, ajudando-os a desvelar a ideologia subjacente às informações comumente veiculadas. Tentavam excluir o aspecto opressor da mensagem escrita (ou do uso que se “faz dela), ao colocá-la em termos de uma possibilidade, de uma alternativa, para reflexão e recriação. Esse tipo de atuação, essa abertura, esse. situar-se criticamente em relação ao aluno gerava muita expressão, ou seja, “a descoberta” do aluno que, libertando-se de certos preconceitos, se. posicionava e falava. Gostaria de concluir com Snyders (1974): Evidentemente que a experiência do aluno constitui o material base para a organização de tudo o mais; mas se quisermos tirar partido dela é preciso que “do exterior, de fora” alguma coisa seintroduza de autenticamente diferente, de verdadeiramente novo. Conhecimentos novos, (...) e ao mesmo tempo uma atitude nova que é vontade de abrir, de. alargar a experiência, relacionando-a com outras experiências e com a experiência de outros. (p. 199) Finalizando... Segundo Snyders (1981), o papel de mediação exercido pelo professor em termos de transmissão dos conteúdos exclui a não diretividade como maneira de orientação do trabalho pedagógico, porque o diálogo professor- aluno é desigual. O professor dispõe de uma formação para ensinar, possui conhecimentos estruturados e a ele, em confronto com as realidades sociais, cabe fazer a análise e a seleção dos conteúdos a serem transmitidos aos alunos. É o que sugere Snyders (1974): Repensando & “didática 129 Os professores e os alunos não estão em igualdade,- no mesmo plano, em relação ao saber e às atividades (...). O professor que renuncia a tomar direta e abertamente as iniciativas e a responsabilidade não se torna por isso mesmo um liberal, um democrata. Com efeito condena os alunos a permanecerem ao nível das mil e uma idéias confusas e atitudes informes, tais como são colhidas no ambiente (...). A participação do aluno constitui o eixo do ensino, mas não pode significar que a iniciativa lhe “pertença nem que a ele pertence descobrir os princípios do pensamento e da ação. (pp. 194-196) A transmissão do conhecimento que se realiza no interior da escola possui uma força que é sem dúvida diferente daquela que se realiza no interior da fann'lia. Há uma escolha do que merece ser transmitido e os critérios para essa escolha estão vinculados à transformação ou à conservação deuma certa ordem Social que promove uma certa cultura como única, como legítima. Se o livro didático e usado de forma mecânica e acrítica, sem uma análise do professor e dos alunos, como ocorreu em duas das turmas observadas na pesquisa; se o que há é a reprodução mecânica de informações com respostas (direcionadas) convergindo sempre com a do professor, preestabelecida pelo livro-texto; se a criatividade e a criticidade dos alunos são sempre bloqueadas, fortalecendo o pensamento convergente e o consenso, estabelecidos como verdades absolutas e imutáveis; se para muitos professores o livro é a “peça” que gera todos os outros componentes do processo de ensino: o conteúdo, o programa, os procedimentos, as atividades, enfim, a ação do professor e a ação dos alunos, então a referida questão da parcialidade se agrava. E, nesse sentido, é fundamental retomar a indagação de Mello (apud Mello et al. 1983, p. 71): “que tipo de formação pode levar o profesSor a assumir um papel mais ativo e menos dependente dentro da sala de aula?”, como também retomar a seguinte colocação de Saviani (1981), (_...) é preciso levar em conta que os conteúdos culturais são históricos e o seu caráter revolucionário está intimamente associado à sua historicidade. Assim, a transformação da igualdade formal em igualdade real está associada à transformação dos conteúdos formais, fixos e abstratos, em conteúdos reais, dinâmicos e concretos. (p. 59) 130 Papirus Editora Mas se ao contrário, como ocorreu muitas vezes, por exemplo, nas turmas dos outros professores já mencionados, forem feitas tentativas de fugir da repetição automática de exercícios e de trechos; se exercitaimos a elucidação do contexto com o auxílio do texto e não “somente por meio dele; se nos esforçamos em constatar e redescobrir os fatos e processos em vez de anunciá-los e- pedir que os alunos reproduzam as comunicações; sie procurarmos de forma participativa a interpretação do conteúdo; enfim, se tomarmos a ideia contida no texto de forma questionadora, crítica, comparativa com a realidade que o aluno conhece e significa, poderemos auxiliar a apreensão de outras facetas da realidade e, portanto, à percepção de outros valores, outras ideias e possibilidades. Portanto, para a “nova escola”, para que a- relação professor-aluno, na utilização do livro didático, na transmissão de conhecimentos, para que a interação homem/situação, homem/mundo — como saída possível para uma educação mais progressista e democrática — sejam mais dinâmicas e reais, é preciso antes de tudo unir uma postura bem firme a uma constante possibilidade de os alunos confrontarem o que lhes foi indicado com o que eles próprios sentem, pois: A educação é sempre uma escolha: escolha dos alunos que orientalnos em determinada direção, escolha dos conteúdos e dos valores que lhes são propostos (...). A abstenção é uma tomada de posição tão atuante sobre os alunos como a afirmação (...). Julgar verdadeiramente possível a abstenção é viver na ilusão duma escola separada do mundo, formando um pequeno universo fechado em si mesmo, em que ruídos exteriores não penetrariam. (Snyders 1974, p. 216) Para Snyders, o espontaneísmo educacional é a legitimação da ordem vigente. A omissão do professor torna-se, então — disfarçada sob a aparência do reSpeito humano —, uma ação conservadora e não uma atitude democrática-. Se a relação professor—aluno deve ser uma relação estimulante., no sentido de permitir e ajudar o crescimento do estudante como ser humano, é- imprescindível que o professor assuma sua posição como orientador de sua evolução. Afrma Snyders com propriedade: Repensando & “didática 131 Para se perceber a significação de uma pedagogia, e necessário remontar até seu elemento dominante: o saber ensinado. Que se diz e que se oculta aos alunos? Para que ações os conduzem as palavras, os silêncios, as atitudes explícitas e implícitas do mestre? Que ajuda se lhes dá, para ultrapassarem as mistificações interessadas nas quais tantas forças contribuem para os manter? (1978, p. 310) Ciente de que ess-a questão, parcela da questão pedagógica, passa pela formação e pela competência do professor, pela capacidade de análise, crítica e criatividade do aluno até a tomada de consciência e o comprometimento com ideologias, enfatizo como responsabilidade nossa, principalmente do professor que interage diretamente com o aluno, tornar o livro didático, o relacionamento interpessoal, o currículo, a metodologia, os recursos didáticos, a linguagem e quantos outros instrumentos forem relevantes no processo pedagógico de transmissão de conhecimentos, elementos estimuladores da capacidade criadora, abertos e não fechados, conclusivos, parcelas componentes de um conjunto que possa facilitar o alcance da meta educacional. Para isso, torna-se necessário, por meio do exercício da análise crítica, de uma busca do conhecimento em que o aluno se perceba como sujeito,, ccmbater o caráter essencialmente narrativo e informativo da dinâmica interna da sala de aula, fato esse muitas vezes observado, para alcançar um relacionamento professor—aluno voltado para um processo educacional que leve a uma postura de participação e responsabilidade em face dos problemas e impasses de nossa época e de nossa comunidade. Tentativas felizmente constatadas e aqui pinceladamente anunciadas na prática pedagógica de alguns professores. Portanto, cabe ao professor — num grande esforço de capacitar-se eficientemente, a fim de cumprir com competência seu papel técnico— político —, ao utilizar o livro didático dentro da sala de aula, não só o direito à palavra como o direito e o dever (é ele quem seleciona, quantifica e pode reelaborar as informações que recolhe) de organizar e executar o trabalho pedagógico na transmissão de conhecimentos, pois, ao dizer algo, ele faz algo e esse algo tem certas consequências que remetem a ordem soci-al mais ampla. 132 Papirus Editora Referências bibliográficas CAPORALINI, Maria Bernadete Santa Cecília (1991). A transmissão do conhecimento e o ensino noturno. Campinas: Papirus. (Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico) FREIRE, Paulo (1984). A imponência do ato de ler. São Paulo: Cortez. (Coleção Polêmicas do Nosso Tempo) MELLO, Guiomar N. de(1981). “Ensino de lº grau: Direção ou espontaneísmo?”. Cadernos de Pesquisa, nº 36, fev. São Paulo, pp. 81-91. 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É com base nele, retomando as ideias ali apresentadas e dialoando com elas, que quero trabalhar neste momento. Durante todo esse tempo muita coisa mudou, no mundo e na educação. Alterações estruturais que se refletiram em nossas formas de pensar e agir. O desafio de retomar o fio dessa história neste momento é emocionante. É como reatar um diálogo com o passado, lembrando o que pensava na época e como me vejo hoje diante desse mesmo grande desafio da função docente: avaliar a aprendizagem de nossos alunos. O ato de avaliar e' o cotidiano das pesSoas O ato de avaliar está presente em todos os momentos da vida humana. Todos os dias somos obrigados a tomar decisões baseadas em alguns poucos dados de que dispomos. Realizamos, mesmo sem perceber, julgamentos provisórios das situações que acontecem à nossa volta. A “fusão “de Repensando & “didática 135 pensamento e ação nos encaminha para alguma decisão: qual o melhor caminho a seguir, o que fazer, para onde ir ou sobre o que escolher. Vivemos fazendo escolhas, sem um conhecimento mais aprofundado da situação envolvida. Segundo Agnes Heller (1985, p. 44), “(...) em breves lapsos de tempo somos obrigados a realizar atividades tão heterogêneas que não poderíamos viver se nos empenhássemos em fazer com que nossa atividade dependesse de conceitos fundados cientificamente”. No entanto, esses velozes julgamentos provisórios, que orientam e definem nossos atos e nossas formas de viver“ o cotidiano, não são, em si, isentos e neutros. Eles nos ensinam. A repercussão da nova ação realizada, fruto de nossas ponderações, orienta nosso aprendizado. 0 resultado positivo ou negativo de nosso desempenho nos faz refletir sobre a ação realizada e nos encaminha com mais segurança para enfrentar novos desafios. A reflexão sobre a ação consolida nossas percepções e orienta nossas práticas. Ao fazer uma nova receita de bolo, ao escrever uma resenha sobre um novo livro, ao resolver um problema ou ao falar sobre um determinado assunto para um público desconhecido, a pessoa busca dentro de si os elos com momentos anteriores que se aproximam da situação presente para definir sua ação. Em todos os momentos, mesmo inconscientemente, a pessoa se coloca com suas experiências, seus conhecimentos, suas paixões, a maneira de ver o mundo e os valores com que avalia todas as coisas e todas as outras pessoas que, direta ou indiretamente, estão envolvidas em cada situação. Mesmo assim, cada situação é uma nova situação. Somos sempre renovados, a partir de cada experiência. Emitimos conceitos e “pré—conceitos”. Fazemos escolhas, definimos prioridades. Tomamos decisões para resolver situações pontuais e também as que vão orientar toda nossa vida. Dentro do possível, escolhemos, por exemplo, as proússões e o tipo de trabalho que vamos fazer. Escolhemos, selecionamos e avaliamos os amigos e as demais peSsoas. Estabelecemos critérios para definir o que é bom, valido, útil, necessário, o que vale ou não a pena. A hora de parar e a de continuar, com nossos estudos, trabalhos, relacionamentos. Viver é estar permanentemente em tempo de avaliação. Mas o que é essa avaliação a que me refiro? É um momento de reflexão e de tomada de decisões. A avaliação cotidiana exige permanente 136 Papirus Editora resposta. Articulação entre pensamento, ponderação e ação. A avaliação implica a existência de um processo anterior — do qual cada momento é resultante — e de um produto, um resultado que, dialeticamente, encaminha a pessoa para novos procedimentos. Essa tomada de decisão reflete muito mais do que a simples escolha pessoal, antes, reflete considerações estruturais e históricas da pessoa As'sumidas como verdades pontuais, essas “avaliações” se alteram ou não, de acordo com as reações manifestadas pelas condições do ambiente e do grupo social com o qual nos relacionamos. Ao fazer um juízo visando a qualquer tomada de decisão, colocamos em funcionamento o pensamento,, os sentidos, nossa capacidade intelectual, nossas habilidades, sentimentos, paixões, ideias e ideologias. NeSsas reflexões estão implícitas não só nossas idiossincrasias, mas também os condicionamentos sociais, políticos, econômicos, culturais e o contexto em que cada situação ocorre. A escolha da profissão, por exemplo. Ser professor. Não é uma escolha do acaso, mas envolve muitas reflexões e ponderações até a tomada de decisão. Com base na avaliação pessoal e social, escolhemos uma carreira entre tantas outras. Essa é uma decisão que vai se refletir não apenas na nossa própria vida, mas na de muitas outras pessoas: família, amigos, futuros alunos... Nessa realidade profissional, novos juízos acontecem. Que tipo de professor pretendemos ser? Se a opção for a de ser um bom professor, cada um de nós — você e eu — já tem articulado em seu pensamento o que vem a ser isso. Acredito que, neste caso, por exemplo, você vai se esforçar permanentemente para alcançar e manter aquele comportamento ideal de perfeição docente, que foi sendo construído intelectualmente (com base em todos os estudos e leituras que você já fez sobre o tema), socialmente (nas relações com professores que você considerou bons) e mediante todas as demais variáveis que vão orientar a construção dessa sua imagem de born profissional. No entanto, para ser avaliado como bom professor, não dependemos apenas de nossa vis-ão idealizada e de nossa autoavaliação. Muitas outras coisas vão estar em jogo. A avaliação do bom profissional depende de várias condições e de critérios específicos que transcendem o próprio julgamento Repensando & “didática 137 da pessoa envolvida. Nem sempre o julgamento que você faz de seu desempenho é semelhante às formas como seus colegas, chefes, alunos e familiares veem seu trabalho. Aspectos diferenciados, objetivos até divergentes, empatia ou oposições de propósitos orientam o olhar e o julgamento para identificar o que é bom ou não no desempenho do “outro”. O pior em todo esse processo é que não ficam claros, para quem é avaliado-, os critérios e as condições considerados por seus avaliadores para julgá-l'o como bom ou mau profissional. Certamente, se as evidências consideradas na avaliação fossem explicitadas para a pessoa avaliada, ela teria melhores condições de explicar, se defender ou mesmo compreender o que é considerado pelos outros como seus pontos fortes e fracos. Avaliar e ser avaliado como bom professor são julgamentos baseados em óticas, posições e opiniões diferentes, mas dizem de seu desempenho. O olhar dos que avaliam vai estar voltado para as manifestações apresentadas por sua ação. São avaliações que se refletem não apenas em sua forma de atuar profissionalmente, mas em toda sua vida e na vida de todos os que, de alguma forma, forem marcados por sua presença. Considerar-se e ser considerado como um bom professor aumenta sua autoestima, sua satisfação, e impulsiona sua vontade de ser cada dia melhor.O professor é o profissional que tem como uma de suas competências a obrigação de emitir juízos sobre o desempenho de muitos “outros”: os seus alunos. O seu julgamento sobre cada um de seus alunos reflete integralmente no desempenho de cada um. Ignorando isso, o professor realiza a “avaliação” sem se preocupar com a perspectiva e o esforço do aluno, mas considerando apenas a maneira como o aluno corresponde às suas expectativas, em relação ao desempenho dele. 0 que é certo ou não, o que o aluno sabe sobre determinado assunto, é avaliado com base na ótica, na opinião e no posicionamento do docente, nem sempre muito claros para quem está sendo avaliado. 0 que significa, por exemplo, o aluno tirar nota cinco (em dez) na prova construída pelo professor? Essa nota representa que o aluno não estudou? Ou não entendeu parte do que foi pedido na prova? Ou a prova privilegiou algum aspecto específico do conteúdo que o aluno não entendeu bem? 0 que representa a nota desse aluno no contexto geral da turma? E das demais turmas da mesma série? 138 Papirus Editora E, mais importante ainda, o que representa essa nota no processo geral de avaliação da aprendizagem de cada aluno? De todos os alunos? O que o professor vai fazer considerando essa nota, todas as notas, para garantir o ideal de aprendizagem desse aluno, de todos os seus alunos? 0 que representa esse momento pontual na vida desse professor e desse aluno? Que alterações de rumo serão necessárias para se chegar ao objetivo final da relação pedagógica estabelecida entre essas pessoas, ou seja, a garantia da melhor aprendiz-agem possível? No cotidiano do bom professor, a avaliação transcende a sala de aula e se instala como procedimento permanente de investigação. Avaliar o outro — o aluno, o aprendiz — é também avaliar-se e se abrir aos mesmos questionamentos feitos aos seus alunos. Envolve um exercício permanente e uma averiguação constante. As pessoas mudam e, para “ser sempre um bom professor, é preciso se adequar permanentemente às novas realidades, aos novos alunos, às novas exigências educacionais.. O ato de avaliar no cotidiano da sala de aula A'o assumirmos que o ato de avaliar se faz presente em todos os momentos da vida humana, estamos admitindo que ele também está presente em todos os momentos vividos em sala de aula. 0 dia a dia da sala de aula é um rico momento do cotidiano de cada uma das pessoas que ali se encontram. Na atualidade, a sala de aula é um dos raros espaços onde as pessoas se encontram fisicamente presentes para realizarem atividades em comum e se ajudarem mutuamente a aprender. A avaliação se transforma, assim, em dinâmica que orienta 'a prática. Como processo de investigação permanente, todas as atividades devem ser discutidas, planejadas, executadas e servir de impulso para novas realizações. O processo avaliativo percorre como no condutor e propulsor cada um desses momentos de interação professor- alunos e conteúdos a serem trabalhados pedagogicamente. Na interação proporcionada pelas atividades pedagógicas, alunos e professºres avaliam tudo e todos, permanentemente. São formulados juízos Repensando-a'didática 139 provisórios que orientam a tomada de decisões e a definição das tarefas e atividades a serem realizadas, como a participação em um projeto, a melhor utilização do ambiente da sala de aula ou os questionamentos sobre determinado assunto, que podem resultar em vários desdobramentos de projetos e de pesquisas individuais ou coletivas. Essas definições, julgamentos e reorientações de percurso fazem parte de um processo que vai resultar, de alguma forma, no objetivo principal da ação do docente: a aprendizagem do aluno. Portanto, é preciso ter consciência de que avaliar essa aprendizagem é“ uma ação que começa bem antes, no início da interação didática, e prossegue como energia circulante durante todo o processo de aprendizagem. Avaliar a aprendizagem-. Mas que aprendizagem? O aluno procura uma escola para aprender. Esse é o primeiro princípio para a necessidade de haver escolas e professores: garantir que os alunos aprendam o que é definido socialmente para a formação de bons profissionais e bons cidadãos. Socialmente, a escola legitima essa aprendizagem do aluno ao emitir certificados que dennem seus desempenhos. Portanto, a escola funciona articulando os anseios pessoais dos alunos com as expectativas da sociedade na formação de cidadãos intelectualmente competentes e socialmente participativos. Nesse sentido, as atividades feitas em grupos, a distribuição dos alunos em turmas e todas as ações coletivas realizadas no âmbito da escola visam mais do que simplesmente informar e fornecer competências intelectuais. Nesse contexto, aprender significa dominar os conheciinentos sobre determinados assuntos e saber utilizar esses conhecimentos para os mais diversos objetivos e nas mais variadas situações. Significa saber trabalhar individualmente e em grupos utilizando o conhecimento. como matéria- prima para novas realizações. Portanto, avaliar a aprendizagem significa mais do que conferir ou aferir o índice de respostas corretas dadas pelos alunos em relação a questões previamente definidas pelo professor-exanúnador. Avaliar a aprendizagem de cada aluno, de- todos os alunos, é refletir permanentemente sobre» as 140 Papi ru's Editora finalidades e os objetivos do que vem sendo trabalhado, experimentado e vivenciado, no cotidiano das aulas, e as formas como cada aluno, cada grupo de alunos e o professor ou os professores envolvidos vêm atuando e contribuindo para a superação dos desafios de aprendizagem de todos. O ato de avaliar e o projeto pedagógico da escola O processo de avaliação das aprendizagens dos alunos tem de refletir não apenas o exame dos conteúdos trabalhados em sala de aula, mas aspectos mais abrangentes, ligados à formação do cidadão. Em vez de corresponder somente ao desempenho do aluno em uma determinada disciplina, o processo de avaliação discente articula—se ao projeto pedagógico da escola e aos objetivos educacionais que 'se apresentam como missão da instituição de ensmo. Na atualidade, as instituições escolares de todos os níveis não se veem mais como sistemas isolados. A utilização das múltiplas formas de interação e comunicação, via tecnologias digitais de comunicação e informação, amplia as áreas de atuação das escolas colocando-as em um plano de intercâmbios e de cooperação internacional real, com instituições educacionais, culturais e outras que sejam de seu intereSse. Essas novas possibilidades educacionais trazem desafios para a definição do projeto pedagógico da escola, como, por exemplo, a necessidade de reformulação e atualização permanentes dos currículos, assim como a compatibilização dos conteúdos entre as instituições parceiras. Força a definição das esferas de influência e de articulações entre as diferentes instituições e a necessidade de autonomia para que cada estabelecimento de ensino possa tomar decisões e dem procedimentos para o desenvolvimento de seus projetos educacionais em parcerias com outros estabelecimentos, nacionais e estrangeiros-. Nesse complexo e veloz processo de articulação de valores, comportamentos, habilidades e conteúdos a serem trabalhados pedagogicamente pelos professores e alunos, torna-se de extrema responsabilidade deúnir os objetivos que iimci'onarã'o como guias para o processo avaliativo-. Repensando & “didática 141 O professor deve estar sempre se questionando "sobre os objetivos do trabalho que está realizando com seus alunos. Se esses objetivos correspondem não apenas às diretrizes dehnidas coletivamente no projeto pedagógico, mas, principalmente, às expectativas-, aos interesses e às necessidades educacionais dos alunos em um mundo, em permanente transformação. Uma educação entendida como um processo que busque o fortalecimento das pessoas, visando ao autoconhecimento, ao posicionamento crítico dianteda realidade social e à autonomia na busca do conhecimento. Que lhes garanta o fortalecimento de suas identidades — individual e grupal — e a luta pela transformação da sociedade para o oferecimento de maiores e melhores condições de vida e bem-estar para todos. Nas atividades cotidianas em sala da aula, o bom professor vai se preocupar em ir além da transmissão de sua visão particular sobre determinado conteúdo. Sua pre-ocupação Será a de eStimular o aluno a trabalhar com os conhecimentos disponíveis nos mais diferenciados meios, para superar desafios de forma crítica e criativa. O intenso uso das novas mídias digitais altera as relações interpessoais e com o conhecimento. Este, disponível nas grandes bases de dados informacionais, pode ser acessado a qualquer momento, por qualquer pessoa, independentemente de conhecimentos prévios para compreender o que está sendo informado. A informação acessada é matéria bruta que precisa ser trabalhada didaticamente nos ambientes educacionais. Nes s—a nova realidade, o professor não é mais o provedor das informações, mas o articulador e o organizador das atividades, para que os alunos possam aproveitar ao máximo as informações disponíveis e, nesses exercícios, irem além das informações, aprendendo, produzindo, construindo, criticando e avaliando as informações disponíveis, Em um mundo que muda rapidamente, o professor deve estar preparado para auxiliar seus alunos a lidarem com estas inovações, a analisarem situações complexas e inesperadas; a desenvolverem sua criatividade; a utilizarem outros tipos de ªºracionalidades”: a imaginação criadora, a sensibilidade tátil, visual e auditiva, entre outras. (Kenski 1998) 1'42 Papi ru's Editora Nesse novo contexto, o aluno terá participação dinâmica na realização das situações propostas para sua aprendizagem e de seus companheiros. No esforço para a realização de cada desafio, estarão em jogo seus conhecimentos anteriormente adquiridos, sua experiência, seus sentimentos, seus valores, suas habilidades, suas competências, sua inspiração criadora e tudo o mais que, de certa forma, todos devem usar ao elaborarem suas avaliações provisórias na vida cotidiana. No caso específico da situação de ensino, todas essas energias serão orientadas para a superação de desafios voltados para a aquisição e a produção de conhecimentos, valendo-se da imensa quantidade de informações disponíveis nas múltiplas mídias digitais e. nos espaços de informação da atualidade. Cabe aos professores, nesse contexto, maiores competências do que a simples transmissão do conteúdo a ser trabalhado nas situações de ensino. Ao contrário, seu papel, no ato de ensinar/aprender, é o de partilhar, com outros professores e estudantes, os recursos materiais e informacionais de que dispõem para que, juntos, possam estabelecer alguma ordem, ainda que efêmera, no meio de tantas informações disponíveis. Estabelecer uma cartografia de saberes, valores, pensamentos e atitudes a partir da qual possam instigar criticamente seus conhecimentos e os de seus alunos, indo além, em busca do novo. A avaliação da, aprendizagem em um projeto educativo As atividades desencadeadas no processo de aprendizagem não são estanques nem isoladas. Elas fazem parte de um processo contínuo e devem ser avaliadas progressivamente, durante todo o tempo. O processo de avaliação é parte integrante e substantiva do processo de ensino- aprendizagem. Ocorre em todos os momentos, durante a realização das atividades criativas, dinâmicas e questionadoras, que necessitam de reflexão, pesquisa e frequentes tomadas de decisões. Assim, a avaliação da aprendizagem requer novas po'sturas do professor, ativo, participante e atento aos questionamentos e comportamentos dos alunos. Um professor responsável pelo estabelecimento de um clima Repensando-a'didática 143 favorável à participação de todos, com liberdade para que os alunos possam apresentar suas dúvidas, manifestar suas inquietações e incompreensões, sugerir caminhos alternativos para a realização de atividades,, comprometendo-se com sua própria aprendizagem e com a de todos os demais participantes do processo. É nas relações cotidianas estabelecidas entre professores e alunos que vai se dar a aprendizagem. As informações obtidas nas mais diversificadas fontes — dentro e fora do ambiente de aprendizagem — precisam ser dispostas, apresentadas, discutidas e trabalhadas pelo grupo de alunos e professores para alcançarem novos objetivos de aprendizagem. Nessa relação dinâmica de levantamento de informações, de discussão, crítica, reelaboração e construção de novos conhecimentos, em que professor e alunos participam de todo o processo, não há sentido para uma forma de avaliação que não seja processual e da qual todos os envolvidos não participem ativamente. A interação entre todos propicia condições de auto e heteroavaliações, assim como a necessidade de permanente avaliação do próprio processo de ensino-aprendizagem. O professor deve procurar observar e verificar o desempenho e a aprendizagem dos alunos não apenas por meio de uma prova ou um teste apresentado ao final do curso ou de cada unidade. Não é também pela solicitação de pesquisas, resenhas ou monografias descontextualizadas do processo desencadeado pela disciplina que vai se aferir a aprendizagem dos alunos. As atividades individuais ou grupais, sejam elas testes, pesquisas, buscas, sínteses ou qualquer outro procedimento similar, só se apresentam com sua força, colaborando para a aprendizagem, quando, seus resultados são apresentados, debatidos, questionados e (re)trabalhados no coletivo formado pelo grupo de alunos e professor. Parceiros na dinâmica da sala de aula, ou em qualquer outro ambiente de aprendizagem, professores e alunos devem participar de todo o processo de ensino-aprendizagem e, consequentemente, de avaliação. Nesses processos se incluem não apenas as avaliações das aprendizagens dos alunos, mas as condições existentes para que elas possam ser estimuladas. Assim, são avaliadas as propostas teórico-metodológicas de ensino, o acesso e a 144 Papi ru's Editora adequação dos meios disponíveis para que 'as atividades possam “ser realizadas (sejam eles livros, filmes, computadores, Internet, como também as possibilidades de uso de laboratórios,, as visitas, entrevistas com especialistas etc.) de acordo com as especificidades do conteúdo e dos objetivos educacionais em questão. No caso específico de cursos 'de formação de professores e em todos os cursos de atualização de docentes — avaliadores de tantos outros alunos —, os objetivos vão além do conhecimento teórico sobre o assunto. Torna-se da maior importância que se multipliquem as ocasiões de os alunos se situarem de diferentes maneiras como avaliadores de si mesmos e dos outros. Nesses cursos o exercício da autoavaliação deve ser uma prática comum a todas as disciplinas. É na reflexão intensiva “sobre sua própria prática e seu desempenho e no estímulo para a explicitação e o confronto de suas avaliações com as dos demais alunos e professores (conhecendo, inclusive, os critérios de julgamento utilizados por todos), que o aluno- professor e/ou o futuro professor vão se apropriando da complexidade do julgamento avaliativo. O essencial não é que o aluno chegue a um consenso sobre seu. desempenho ou o desempenho dos demais participantes que ele também avaliou e que esse consenso seja definido por uma nota ou menção. O importante é que o aluno compreenda a multiplicidade de fatores que envolvem um processo decisório como a avaliação. Que esses resultados possam ser utilizados para reorientar o processo de ensino—aprendizagem, definindo o que pode ser melhorado, o que deve ser mantido ou o que precisa ser excluído. A possibilidade que o aluno tem de envolvimento com a própria avaliação de seu desempenho e dos demais colegas, do processo e de todas as demais condições estabelecidas para a aprendizagem,vai ser contribuição decisiva para sua formação como avaliador, ação inerente à 'sua função de professor. Nesse caminho, é importante que os estudantes participem da construção de uma proposta de avaliação (ou pelo menos tenham conhecimento dela) com o conjunto de evidências, por meio da qual serão observados seus desempenhos na disciplina. Essas evidências formam um conjunto revisável, temporário e diferenciado de critérios para a avaliação Repensando & didática 145 do desempenho dos alunos na realização das atividades propostas na disciplina. Tendo claro em que perspectiva está sendo observado e o que se espera de seu desempenho, o aluno terá (todos os alunos terão) melhores condições de mostrar seus conhecimentos e suas habilidades. Em princípio, o ponto de partida para a criação de uma proposta de avaliação deve ser tarefa do professor, que vai orienta-la de acordo com os objetivos gerais do projeto pedagógico e os objetivos específicos de sua disciplina nesse contexto. Não sendo uma proposta fechada, à medida que o processo for se desenvolvendo, ela pode ser alterada, com a colaboração dos alunos. Uma das preocupações na apresentação desses indicadores aos alunos é tornar claras para eles as formas perante as quais deverão ser avaliados em suas aprendizagens, reduzindo a ansiedade e as expectativas em relação aos “fantasmas da avaliação”. Essas formas de trabalhar com a avaliação não. excluem e nem impedem a conotação subjetiva que está presente também em todas as demais formas de avaliação, mesmo nas que são tradicionalmente chamadas de provas ou testes “objetivos”. Como procedimento, não vão levar a diferenças significativas se forem utilizadas unicamente com o intuito de atribuir notas para o desempenho dos alunos, pelo professor. Para que esse instrumento possa colaborar em um processo de avaliação preocupado em oferecer maiores e melhores condições e oportunidades de aprendizagem aos alunos, é preciso que ele seja pensado como uma contribuição, um desvelamento das regras e das formas individuais e subjetivas com que o professor normalmente avalia alunos que, em muitos casos, ele nem comece, esquecendo que eles também são pessoas. Como nos diz Chantal Cambronne (1987, pp. 39—40), “(...) avaliamos o aluno hoje com os controles, as notas, os Conselhos de Classe (...) e esquecemos os seus tempos mortos, os momentos de depressão, os bloqueios e os ºestalos', seu amadurecimento (...) esquecemos que, como nós, ele é uma pessoa, uma pessoa total, com suas inquietações e dores, seus entusiasmos e suas fugas, seus bons e maus dias. Nós julgamos, felicitamos, condenamos (...) e eu participo de tudo isso, como os companheiros. Mas isto não me agrada. E eu sofro. E isto me desgasta...” . 146 Papirus Editora A avaliação só encontra sentido no processo amplo da educação quando é pensada, planejada e executada tendo como objetivo auxiliar essas pessoas, sejam elas professores e/ou alunos, a aprender mais e melhor, a reorientar seus caminhos, suas formas de estudar e de lidar com os conhecimentos, esclarecendo e apresentando as fragilidades e potencialidades de cada um em relação a determinado tipo de conhecirnento. Como indícios, as muitas formas de avaliação precisam ser compreendidas, analisadas, explicitadas e delimitadas em sua visão parcial sobre o julgamento do desempenho e da aprendizagem do “outro”. A avaliação da aprendizagem precisa ser permanentemente avaliada. Referências bibliográficas CAMBRONNE, Chantal (1987). “Si jªé'tai's raísOnnable..,.”. Cahier-s PédagOgiqueS, nº 256. Paris, pp. 39-40. I-IELLER, Agnes (l985). 0 cotidiano e a história. Zª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 44. KEN SKI, Vani M. (1998). “A profissão do preofessor em um mundo em rede: Exigências de hoje, tendências e construção do amanhã. Professores, 0 futuro é hoje”. Revista TeCnologia Educacional, vol. 26, nº 143. Rio de Janeiro: ABT/ Senac. Repensando-a'didática 147 9 AREL—AÇÃO PROFESSOR-ALUNO Maria Isabel da Cunha (... ) é a risco que define a função docente: será que fiz nada para fazer dos meus alunos os homens que eu desejaria que eles fossem? Georges Snyders Ao pesquisar com os alunos dos níveis médio e superior sua percepção de bom professor, percebo que, entre as justificativas apresentadas, muitas aparecem dizendo respeito às relações professor-aluno. Compreendo que é difícil dicotomizar a imagem do bom professor. Na ideia dos alunos as coisas se entrelaçam e certamente possuem influências semelhantes e recíprocas. Com isso quero dizer que dificilmente um aluno apontaria um professor como bom ou melhor de um curso, sem que este tenha as condições básicas de conhecimento de sua matéria de ensino, ou habilidades para organizar suas aulas, além de manter relações positivas. Entretanto, quando os alunos verbalizam o porquê da escolha do professor-, eles enfatizam os aspectos afetivos. Repensando-a'didática 149 Entre as expressões usadas estão “é amigo”, “é compreensivo-”, “é gente como a gente”, “se preocupa conosco”, “é disponível mesmo fora da sala de aula”, “coloca-se na posição do aluno”, “é honesto nas observações”, “é justo” etc. Essas expressões caracterizam que a ideia de um bom professor presente hoje nos alunos de 2º e 3º graus passam, sem dúvida, pela capacidade que o professor tem de se moStrar próximo, do ponto de vista afetivo. Entretanto, é interessante observar que é quase impossível, 'a não ser para flIlS didáticos e de pesquisa, tentar depurar, distinguir, atitudes do professor que se referem especificamente a esse lado da relação professor-aluno. 0 comportamento do professor é um todo e depende, certamente, da cosmovisão que ele possui. Não sei até que ponto é importante ou possível classificar os professores. Até porque também eles, como fruto da contradição social, nem “sempre apresentam comportamentos lineares e totalmente coerentes com uma corrente filosófica. É inegável, porém, que a forma de ser e agir do homem revela um compromisso. E é essa forma de ser que demonstra mais uma vez a não neutralidade do ato pedagógico. Mas fica a questão: quais os limites da ideia da relação professor— aluno? O que concebemos quando tentamos exercitar essa conceituação? Restringe-se o mesmo conceito a aspectos afetivos, tais como os citados pelos alunos? Parece que não. As virtudes e os valores do professor que consegue estabelecer laços afetivos com seus alunos repetem—se e intrincam- se na forma como ele trata o conteúdo e nas habilidades de ensinos que desenvolve. Assim, novamente valho-me da palavra dos alunos para demonstrar minhas ideias. Dizem eles: (...) escolho este professor como o melhor pela fºrma com que nos faz pensar, colocando o conteúdo teórico não como verdade acabada, mas questionando-o (...); (...) o que me agrada no professor ;( é que ele está sempre pronto a responder às nossas dúvidas, ele até estimula a gente ater dúvidas (...); (...) o professor y é o melhor porque ele transmite para a gente o gosto que ele tem pela matemática. Ele nos mostra o prazer de aprender (...). Para mim está muito claro nesses depoimentos que a relação professor—aluno passa pelo trato do conteúdo de: ensino. A forma como o professor se relaciona com sua própria área de conhecimento é fundamental, 150 Papirus Editora assim como sua percepção de ciência e de produção de conhecimento.. E isso interfere na relação professor-aluno, é parte dessa relação. Outro aspecto que se entrelaça é a metodologia do professor. Um professor que acredita nas potencialidades do aluno, que está preocupado com sua aprendizagem e com seu nível de satisfação, exerce práticas de sala de aula de acordo com essa posição. E isso é também relação professor- aluno. Dizem os alunos que entre as características de seus melhores , , 6 6 professores estão “torna as aulas agradáveis e atraentes , estimula a participação do aluno”, “sabe se expressar de forma que todos entendam”,“induz à crítica, à curiosidade e à pesquisa”, “procura formas inovadoras , de desenvolver a aula”- , “faz o aluno participar do ensino” etc. Parece consequência natural que o profesSor que tem uma boa relação com os alunos preocupe-se com os métodos de aprendizagem e procure formas dialógicas de interação. É importante dizer que os alunos não apontam como melhores professores os “bonzinhos”. Ao contrário. O aluno valoriza o professor que é exigente, que cobra participação e tarefas. Ele percebe que isso é também uma forma de interesse, se articulado com a prática cotidiana da sala de aula. Entretanto, vale também chamar a atenção para um aspecto muito significativo: quando os alunos apontam o bom professor, só em situações raras referem-se ao posicionamento político do professor. Isso significa dizer que esta é uma dimensão que ainda não é suficientemente apreendida pelos alunos e que não faz parte fundamental da sua percepção do bom professor. É claro que sabemos que o comportamento do professor manifesta uma postura política. Mas ao que parece este não é um dado consciente para os alunos e talvez nem o seja para o professor. Analisando a mostra dos 20 professores escolhidos como melhores pelos alunos, a questão posicionamento político expresso não é uma constante. Em alguns casos acontece, mas em muitos outros não. Para os nossos alunos o bom professor é aquele que domina o conteúdo, apresenta formas adequadas de mostrar a matéria e tem bom relacionamento com o grupo. Entre os alunos universitários há, inclusive, ressalvas escritas como “apesar- de não ter posições políticas mais avançadas, escolho este professor porque (...)”. Isso demonstra que alguns alunos desejariam que às boas Repensando & “didática 151 qualidades citadas sobre o professor se somasse um posicionamento político claro, Mas esta ainda não jé uma ideia formada na expectativa dos alunos. Um último aspecto a considerar na fala dos alunos é o valor que eles dão ao prazer de aprender, algo que se poderia traduzir como um clima positivo na sala de aula. O senso de humor do professor, o “gosto de ensinar”, “o tornar a aula agradável e interessante”, são aspectos que eles apontam como fundamentais. A análise desses dados encaminha-me para algumas questões: por que é esta a expectativa dos alunos sobre o bom professor? Como pesa a definição de papéis para o professor e o aluno? Que ideologia está sustentando essas expectativas? Qual a intelferência do institucional nas expectativas dos alunos? Como o cotidiano da relação professor-aluno resulta numa prática pedagógica? A expectativa e a ideologia Não há dúvida de que existe entre os alunos e- os professores um jogo de expectativas relacionadas ao respectivo desempenho. A escola, como instituição social,. determina aos seus próprios integrantes os Comportamentos que deles se esperam. Por outro lado, mas também por ser uma instituição social, ela é determinada pelo conjunto de expectativas que a sociedade faz sobre ela. Esse fluxo é que reproduz a ideologia dominante. Segundo Chauí (1980, p. 92), aid'e'ologia resulta da prática social, nas'Ce da atividade social dos homens no momento em que estes representam para si mesmos esta atividade (...). No entanto, (.. .) as idéias dominantes em uma sociedade numa época determinada não são todas as idéias existentes na sociedade, mas são apenas as idéias da classe dominante dessa sociedade nessa época, ou seja, a maneira como ela representa para si mesma sua relação com a natureza, com os demais homens, com a sobrenatureza (deuses), com o Estado etc. 152 Papirus Editora Por certo, então, os papéis escolares estão definidos ideologicamente também na sociedade, identificados com a classe dominante, passando pelas formas de produção e distribuição do conhecimento. As condições de classe social dos alunos determinam um rol de expectativas sobre seu desempenho e de seus professores. E em muitos casos a escola serve apenas para ratificar essa expectativa, para convencer os jovens a aceitar situações como a de fracasso, ou seja, para a aceitação de sua situação na escala social. Analisar, pois, as relações que acontecem entre professores e alunos apenas usando como referência o campo psicológico ou afetivo e, no mínimo, um comportamento ingênuo. Elas acontecem no palco de uma sociedade e, portanto, são profundamente marcadas pelas contradições sociais. Os professores vivem num ambiente complexo onde participam de muit-as interações sociais por dia. Eles também são frutos da realidade cotidiana das escolas e, muitas vezes, são incapazes de fornecer uma visão crítica aos alunos porque eles mesmos não a têm, porque se veem conõontados no ajustamento de seu papel à realidade imediata da escola, perdendo a dimensão social mais ampla da sociedade. Além disso, sobre o professor e o aluno há todo o peso “das relações institucionais. Segundo Berger e Luckmann (19-83, p. 80), as instituições controlam a conduta humana estabelecendo padrões previamente definidos, que a canalizam em uma direção por oposição a muitas outras que seriam teoricamente possíveis (...). As instituições têm sempre uma história, da qual são produtos, e isso implica controle-. A instituição interfere na expectativa tanto dos professores quanto dos alunos. Na análise dos depoimentos dos alunos percebi que havia aspectos diferenciados, por exemplo, entre os alunos dos graus médio e superior. Apesar da visão geral do bom professor ser semelhante, percebi que entre os alunos do ensino médio há muitas expectativas de maior direcionamento do processo ensino-aprendizagem por parte dos professores. Seria possível dizer que os alunos do ensino médio requerem um professor mais diretivo. Porém, se analisarmos a escola média como Repensando & “didática 153 instituição, veremos que ela é toda mais diretiva (horários dos alunos e professores, definição de conteúdos, calendário escolar, movimentação dos alunos no espaço escolar etc.). 0 ambiente institucional passa essa ideia de ordem aos integrantes de “sua comunidade e esses valores passam a ser parte das expectativas dos alunos. Poderia, também, ser levada a hipótese de que o aluno do ensino médio ainda representa um extrato de classe social mais baixa, ou com idade inferior em relação ao estudante do ensino superior, e, portanto, mais habituado a obedecer e a receber as ordens institucionais com mais facilidade. Um professor que atua nos dois graus de ensino chegou a expressar: Na universidade mudo meu comportamento em algumas coisas. Lã sou mais independente e Os alunos são mais maduros. A escola de 2º grau tem ainda de preocup ar-se com a formação de certos hábitos que requerem mais rigidez (...). Esse exemplo é a tentativa de expressar o valor institucional na definição dos papéis. A história da instituição também parece importante nos valores que passa para os professores e alunos. Quando a análise dessas relações acontece no ambiente de uma escola técnica industrial, por exemplo, senti que não se poderia explicar o processo interativo sem entender a história e os valores da instituição. A influência do modelo empresarial encontrou plena ressonância nesse tipo de escola. A obediência, a hierarquia e a disciplina sempre foram valores privilegiados na organização escolar. Entretanto, há uma combinação de uma disciplina severa com um ambiente de cordialidade e participação reinante na escola. Há uma proposta de harmonia e consenso que se contrapõe à visão de trabalhar com o conflito. Para isso contribuiu muito a ideia de neutralidade da ciência e da tecnologia e a visão positivista liberal da formação da sociedade. Alunos e professores que convivem numa escola desse tipo recebem as influências institucionais e passam a exercer comportamentos de acordo com a expectativa formada. Modificar essa situação é possível, mas, sem dúvida, com muito mais esforço do que num ambiente onde o questionamentoé lugar-comum ou onde a expectativa não seja primordialmente o mercado de trabalho. 154 Papirus Editora Berger e Luckmann (1983, p. 104) dizem que toda conduta institucionalizada envolve um certo número de papéis. Assim, eles participam do caráter controlador da instituição. Dizem ainda que “em virtude dos papéis que desempenha, o indivíduo é introduzido em áreas específicas do conhecimento socialmente objetivado, não somente no sentido cognitivo, mas também no sentido do “conhecimientoº de normas, valores e mesmo ações”. Portanto, parece que ser professor e ser aluno extrapola a relação de ensinar e aprender os conteúdos de ensino. Mas envolve uma absorção de aprendizagens valorativas muito intensa. O importante é que haja consciência desse processo para que os protagonistas do processo pedagógico não sejam manipulados por ideias que nem sempre gostariam de servir. O professor e o aluno não podem ser engolidos pelo ritual escolar. Precisam ser sujeitos. conscientes, protagonistas desse ritual. O professor: Intervenientes no seu desempenha O professor nasceu numa época, num local, numa circunstância que interferem em seu modo de ser e agir. Suas experiências e sua história são fortes determinantes de seu comportamento. O conhecimento do professor 'é construído no seu próprio cotidiano, mas ele não é fruto só da vida na escola. Ele provém, também, de outros âmbitos, e, muitas vezes, exclui de sua prática elementos que pertencem ao domínio escolar. A participação profissional, ou em movimentos sociais, religiosos, sindicais, políticos e comunitários, pode ter mais influência no cotidiano do professor que a própria formação acadêmica. A prática e os saberes que podem ser observados no professor são o resultado da apropriação que ele fez da prática e dos saberes histórico- sociais. A apropriação é uma ação recíproca entre os sujeitos e os diversos âmbitos ou integrações sociais. Só que elas são diferentes nos sujeitos, isto e, eles se apropriam de diferentes coisas em função de seus interesses, seus valores, suas crenças etc. Isso é demonstrado pelo diferenciamento existente entre o comportamento dos professores que seguem propostas pedagógicas distintas, refletindo ou antecipando sua história. Repensando & “didática 155 A questão principal está em desvendar o que acontece com o professor que determina que ele assuma uma determinada postura pedagógica... Levanto a hipótese de que é pela produção do conhecimento que 0 Crescimento da consciência crítica é favorecido, e não pela tentativa de passar, unicamente, com a palavra, a crítica aos outros. Produzir conhecimentos significa colocar os sujeitos da aprendizagem numa perspectiva de indagação que leve ao estudo e à reflexão. Estes podem tornar possível, de forma coletiva, a construção do conhecimento sobre a própria realidade. Nessa perspectiva, a pesquisa passa a ter um sentido especial e uma função política. É preciso envolver o professor na tarefa de investigar e analisar o seu próprio mundo. Somente quando o professor se sentir sujeito da história, consciente de sua prática, capaz de estabelecer relações entre a sua e as demais condições sociais, é que poderá agir em direção à modificação das relações pedagógicas e- sociais. A compreensão da dimensão política da educação interferiu muito na forma de compreender o papel do professor e, por conseguinte, suas características, competências e compromissos. O professor passou a ser visto situado no seu tempo e se percebeu com nitidez que, como diz Goffman (1985, p. 29), o papel social é a formulação de direitos e deveres ligados a uma determinada situação social. Dessa forma, o papel do professor não pode ser deslocado do contexto onde se manifesta. E a concepção que temos de nosso papel é um fator“ muito importante, chegando até a ser percebido como uma segunda natureza, parte integral de nossa personalidade. Ele se forma como resultado da interação do indivíduo com os demais, com seu grupo social, com a sociedade a que pertence. Berger e Luckmann (1983) lembram, ainda, a importância da identidade, conceito já desenvolvido na linha psicológica. Só que alertam sobre o fato de que a identidade é também um produto social construído na relação dialética entre indivíduo e sociedade. O educador é um ser do mundo. Não pode ser pensado indepen- dentemente dessa perspectiva; “não é um indivíduo isolado, uma individualidade à parte que emite pareceres limitados numa relação unívoca com a escola e a sociedade” (Franco 1984, p. 12). É independente e expressa interação e influência contínuas com outros sujeitos, com a escola e a sociedade. 156 Papirus Editora Assim sendo, não se podem analisar as relações que o professor estabelece com o aluno senão a partir de situações concretas de sua história e de 'sua vida. As pesquisas têm mostrado que os professores afirmam que sua prática cotidiana tem mais importância em seu modo de ser do que a formação acadêmica que porventura tiveram. E, ainda, que seu Comportamento docente é inspirado em professores que marcaram sua própria trajetória educacional. Esses dados reforçam a necessidade de tratar os processos pedagógicos de forma contextualizada. Mostram que a relação professor-aluno é fundamental, capaz de deixar marcas no indivíduo por muito tempo. É preciso resgata-1a, compreende-1a e redimensiona-la. Conclusões Tentando fazer uma síntese das reflexões aqui propostas sobre a relação professor-aluno, seria possível apontar os tópicos abaixo: lº) É muito difícil definir os limites do conceito “relação professor- aluno”. Eles se intrincam na prática do processo pedagógico com o conteúdo de ensino e com a metodologia adotada. 2º) A aula é lugar de interação entre pessoas e, portanto, um momento único de troca de influências. A relação professor-aluno no sistema formal é parte da educação e insubstituível em sua natureza. 3º) O aluno espera ser reconhecido como pessoa e valoriZa no professor as qualidades que os ligam afetivamente. 4º) O compromisso político do professor não é, atualmente, um aspecto explícito em sua ação. Não faz parte da expectativa dos alunos e nem sempre é consciente no professor. Se não há prática pedagógica neutra, é preciso caminhar mais na direção do desvelamento dessa perspectiva. Sº) Do professor se espera um papel que lhe é próprio. Isso não signiiicra um desconhecimento ou um desprezo pelas condições do aluno, mas, sim, que ambos têm papéis deferentes, e que o professor tem muito mais poder para deúnir a relação entre os papéis. Repensando-a'didática 157 6º) Os comportamentos do professor e dos alunos fazem parte de uma expectativa baseada na ideologia definidora da sociedade. Nem sempre os valores se passam de forma clara e determinada; mas sempre de forma eficiente. 7ª) As condições de classe social dos alunos determinam um rol de expectativas sobre seu desempenho. E, em muitos casos, a escola serve apenas para ratificar essas expectativas, para convence-los a aceitar sua situação na sociedade. 8ª) O ambiente institucional interfere no desempenho e nas relações professor-aluno. Quando a escola valoriza o professor como proâssional e lhe permite melhorar seu desempenho, coloca em ação um mecanismo de ruptura do círculo vicioso que apresenta como intransponíveis as dificuldades inerentes a seu papel e às condições de ensino de modo geral. Assim, também, a história da instituição interfere nos valores das práticas que são incorporadas nas relações escolares. 9º) O professor é um ser contextualizado. Sua prática e seus saberes são o resultado da apropriação que ele fez da prática e dos saberes histórico-sociais. Não é possível fazer uma análise de seu “desempenho e das relações que ele desencadeia “sem perceber seu contexto mais amplo. 109) A relação professor-aluno é de capital importância no processo pedagógico. Ideias como as de honestidade, coragem, compromisso, responsabilidade e tantasoutras importantes na educação se passam no cotidiano da instituição escolar. E quanto mais o professor é próximo do aluno, mais iníluência ele tem sobre seu comportamento. Recuperar no professor a qualidade da relação com o aluno é fundamental. É provável que a produção do conhecimento com o professor, sobre sua própria condição e realidade, nos auxilie a esclarecer os rumos da definição de uma nova ordem pedagógica.. 158 Papirus Editora Referências bibliográficas- BALZAN , Newton (1984). “A pesquisa em didática: Validade e propostas”. In: CANDAU, Vera. A didática em questão. Petrópolis: Vozes. BERGER, Peter L. e LUCKMANN, Thomas (1983). A Consrrução social da realidade. Petrópolis: Vozes. BOHOSLAVSCKY, Rodolfo (1981). “A psicopatologia do vínculo professor-aluno: O professor como agente socializante”. In: PATI'O, Maria Helena. Introdução à psicologia escolar. São Paulo: TAQ. CHAUÍ, Marilena de Souza (1980). 0 que e ideologia. São Paulo: Brasiliense. CUNHA, Maria Isabel da (1987). “A didática e a produção de cºnhecimentos”, Tecnologia Educacional, ano XVI, nº 79, nov./dez. FRANCO, Maria Aparecida C. et al. (1984). 0 papel do professor e sua construção no cotidiano escolar. Rio de Janeiro: Universidade de Sta. Úrsula. (Mimeo.) GOFFMAN, Erwing (1985). A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes. GOMES, Cândido (1985). A educação em perspectiva sociológica. São Paulo: EPU. SNYDERS, Georges et al. (1984). Correntes atuais da pedagogia. Lisbºa: Livros Horizontes, p. 84. Repensando-a'didática 159 C O L A B O R E c o m Q U E M P R E C I S A D E v o c ê Nà O F AÇ A D E S UA VI DA UM A P AG IN A E M BR AN CO W N W Centro Infantil Boldrini: Na luta contra o câncer pediátrico A5 chamas de uma criança que tenha recebido o diagnóstico de câncer sobreviver no Brasil. haja. são de Sªmara 80%. Há pouco maia de 25 anna. esse indice era de 5% Essa melhora significa-tiva foi conquistada em nosso pais com o auxílio do trabalho do Centro Infantil de Investigações Hemtologicas Dr. Domingos Boldrini. localiaado- em Campinas. O Boldriní. hospital filantrópico que vive de doações e da participação da sociedade. acompanha o tratamento de mase cinco mil crianças. adolescentes e jovens adultos. com idades que variam de zero a 25 anos. inclusive vindos de outros paises da América Latina. Além do como médico e dos profissionais do hospital. são quase ano 1.naluntârios que atuam em diferentes setoreS. como administração. bazar, Cªpelania. central de doações.. costura & artesa nato. cozinha. hotelaria. internação. promoções e eventos. recreação. terapias de suporte triagem. tradição e transporte. NAD FAÇA DE EUA VIDA UMA PÃGI na EH BRANCO: Seja você também amigo da Boldrini e contribua com a cura do câncer infantiL É Mais infomações pelo sir: www.baldrini.org.hr ou pelo telefone (19) SE?-5000 bagagem:—.e. Iai-SM IH % CBN _nAe agf mil—n P A. P | I: U 5 F M ”“ª““ IHINM A campanha Não faça de sala vida um página em livramos Colabore com quem precisa de você foi idealizada pela Papirus e pela D&D Assessoria de [imunização com o objetivo de divulgar o trabalho de entidades envolvidas em ações sociais sérias e meritória. Assim. as últimas páginas dos livros da Papims. que Costumam serem branco. agora trazemtextosinfonnativos sobretais entidades A campanha conta com o apoio da Central Brasileira de Noticias (CBH) de (aminas. da RedeAnl'l-angueradetonunicaçàolllm eda CPFL Energia ºutros títulos da Papirus Diario de um educador: Temas e questões atuais Celso Antunes Didatica: O ensino e suas relações Ilma Passos Alencastro Veiga (org.) Dimensões do projeto político-pedagógico (As) Ilma Passos Alencastro Veiga Marilia Fonseca (orgs.) Educação que desejamos (A): Novos desafios e como chegar lá José Manuel Moran Escola: Espaço do projeto politico-pedagógico Ilma Passos Alencastro Veiga Lúcia Maria G. de Resende (orgs.) Formação de professores: Políticas e debates Ilma Passos Alencastro Veiga Ana Lúcia Amaral (orgs.) Lições de didática Ilma Passos Alencastro Veiga (org.) Papel da pesquisa na formação e na prática dos professores (O) Marli Eliza D.A. de André (org.) Professor e a pesquisa (0) Menga Li.idke (coord.) Saia de aula: Ensino e aprendizagem Maria Antonia Granville (org.) Solicite catálogo editora©papirus.com.br www.papims.com.br - REPENSANDO - -A-DIDATICA- A proposição básica deste livro é a de repensar o papel da Didática na formação de professores do ensino fundamental e do ensino médio. Os temas estão organizados em três eixos fundamentais: «/ pressupostos filosóficos e históricos da Didática; lo planejamento e os elementos do ensino; 1 a relação entre professor e aluno. Essa discussão visa contribuir para a ampliação e o aprofundamento das reflexões já realizadas e estimular a busca de uma proposta didática voltada para a efetivação da prática pedagógica critica. 29'Ed. ISBN 85-308-0153-9 8 5 3 0 801533 P A P I R U S E D I T O R A