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Maria Clara Coelho Coutinho – Turma IX CARDIOPATIA CHAGÁSICA A doença de Chagas é uma doença que atualmente possui baixa incidência e alta prevalência. A fase aguda da doença tem duração de 1 a 2 meses e diz respeito às primeiras semanas que se seguem a após a infecção. Na grande maioria das vezes é assintomática e isso dificulta o diagnóstico. Se o paciente for sintomático e for possível fazer o diagnóstico, é possível tratar e ter cura. A sintomatologia é localizada já que está relacionada com o local de penetração do T. cruzi. São os chamados sinais de porta de entrada: chagoma de inoculação (pele hiperemiada) e sinal de Romanã (edema bipalpebral e unilateral). Geralmente é acompanhado de aumento dos linfonodos satélites, aqueles que estão próximo à área de inoculação. Além disso, o paciente pode ter sintomas inespecíficos. Dentre eles febre, fraqueza, prostração, hepatoesplenomegalia, aumento de linfonodos. Isso dificulta ainda mais o diagnóstico na fase aguda. Já a fase crônica possui duração prolongada (meses, anos ou décadas) e pode ser a forma indeterminada, ou a forma cardíaca (cardiopatia chagásica crônica) ou forma digestiva (megaesôfago e megacólon). Maria Clara Coelho Coutinho – Turma IX Na forma indeterminada o paciente é assintomático e não há nenhuma alteração em exames complementares (ECG e RX normais e exame sorológico positivo). Nesse caso, o comprometimento cardíaco é discreto, sem perda funcional aparente. Pode evoluir para outras formas, mas é raro. 1. Cardiopatia chagásica aguda No caso da cardiopatia chagásica aguda há uma alta parasitemia, ou seja, uma grande quantidade de parasitos no sangue. Além disso, tem-se um parasitismo celular, dentro do cardiomiócito estão os amastigotas. Isso é chamado de miocardite chagásica aguda. Com a ruptura dessas células, haverá a exposição desses parasitos ao sistema imune e focos de inflamação com hiperemia ativa (vasos dilatados) e edema (visualizado por meio da separação das miocélulas adjacentes). Nessa fase o infiltrado inflamatório é predominantemente granulomononuclear, ou seja, neutrófilos. Maria Clara Coelho Coutinho – Turma IX Além do acometimento do miocárdio há também o acometimento do epicárdio, que é a camada mais externa da parede do coração. A pessoa pode desenvolver epicardite com as mesmas características da miocardite (infiltrado de neutrófilos, edema, congestão), periganglionite e ganglionite. No pericárdio tem muitos gânglios nervosos, que serão acometidos pelo infiltrado inflamatório. Esse infiltrado pode estar ao redor dos gânglios envolvendo eles (periganglionite) ou dentro dos gânglios (ganglionite), que pode levar a destruição neuronal. Pode também acometer o endocárdio e gerar endocardite, porém é menos frequente e menos extensa. Presença de infiltrado inflamatório, edema, congestão e inflamação do sistema excito-condutor (NSA, NAV ou feixe de Hiss). A cardiopatia chagásica aguda pode ser fatal quando houver grave comprometimento cardíaco. Pode ser causa de morte súbita por conta de uma arritmia letal. 2. Cardiopatia chagásica crônica As manifestações clínicas são: Insuficiência cardíaca: cardiomegalia → ↑ das câmaras cardíacas → ICC Arritmia cardíaca: espectro amplo em relação a gravidade e ao tipo. Fenômenos tromboembólicos: trombos intracardíacos, tanto do lado direito do coração como do esquerdo. Morte súbita por fibrilação ventricular. Histologicamente, o músculo cardíaco possui duas membranas de revestimento: perimísio e endomísio. O perimísio é o tecido conjuntivo que envolve o fascículo muscular, que é o conjunto de miocélulas orientadas de forma regular. É o ponto de apoio para as células durante a contração. Já o endomísio é o tecido conjuntivo frouxo que envolve as miocélulas individualmente, dentro dos fascículos. A contração do coração depende tanto das células contrateis (miocélulas) como desse arcabouço de tecido conjuntivo (principalmente perimísio). Maria Clara Coelho Coutinho – Turma IX Assim como na aguda, pode acometer miocárdio, endocárdio ou epicárdio. Na miocardite o infiltrado inflamatório é predominantemente mononuclear (linfócitos e macrófagos), de extensão variada com consequente destruição de algumas miocélulas e substituição por tecido conjuntivo de fibrose. Essa neoformação conjuntiva ocorre, predominantemente, dentro dos fascículos entre as células adjacentes (fibrose do tipo endomisial). Assim, a fibrose pode interromper a orientação normal da fibra formando novos pontos de ancoragem para a célula cardíaca. Esses pontos sofrem desestruturação e gera comprometimento da transmissão nervosa, outro mecanismo de arritmias. Além disso, há o comprometimento da nutrição porque a fibrose endomisial comprime os capilares, que se perdem e compromete a irrigação. Há o espessamento dos capilares, com redução da luz (causa desconhecida). ↓ da massa contrátil + ↑ de tecido conjuntivo = insuficiência cardíaca (prejuízo tanto na diástole como na sístole). Na microscopia da miocardite é possível visualizar o infiltrado inflamatório crônico e, em um primeiro momento, observa-se o afastamento das células por perda da massa contrátil. Já num segundo momento é possível ver a fibrose endomisial por meio do afastamento das fibras. Na epicardite tem infiltrado inflamatório mononuclear, ganglionite ou periganglionite. Dependendo do tempo de evolução da doença por haver perda neuronal com limitação da capacidade de hipertrofia dos cardiomiócitos e prejuízo do sistema de condução (arritmias). Há baixo parasitismo e baixa parasitemia. As alterações macroscópicas são: cardiomegalia e alteração da forma do coração (globoso – a ponta do coração passa a ser formada pelos 2 ventrículos por conta da dilatação de VE e VD, sendo que normalmente é formada só de VE). Na epicardite pode ser vista a deposição de fibrina no epicárdio devido ao processo inflamatório. Essa deposição pode ser: Monoliforme ou em rosário (FOTO): acompanha o trajeto da coronária. Em placa. Maria Clara Coelho Coutinho – Turma IX Em faixa. Vilosa: na ponta do coração. Ao abrir o coração, visualiza-se a dilatação das quatro câmaras cardíacas. Pode ocorrer aumento ou não da espessura das paredes cardíacas, mas é mais frequente haver uma redução dessa espessura por conta da descompensação e da dilatação com adelgaçamento das fibras cardíacas. Maria Clara Coelho Coutinho – Turma IX Macroscopicamente pode-se detectar a lesão vorticilar ou do vórtex. Na ponta do coração, mais frequente em VE, há um adelgaçamento com dilatação dessa região por conta do fluxo de sangue que empurra essa ponta adelgaçada, formando uma região herniada do endocárdio em direção ao epicárdio. Nessa região, por conta do turbilhonamento sanguíneo, pode haver a formação de um aneurisma. Essa lesão é patognomonica da cardiopatia chagásica crônica, ou seja, é exclusiva dessa condição. É muito frequente a presença de trombos intramurais nas cavidades cardíacas. Por que esses trombos aparecem? Pacientes com IC → modificação da velocidade do fluxo sanguíneo. Arritmia → modificação da velocidade do fluxo sanguíneo. Endocardite → destruição da camada epitelial. Lesão vorticilar → turbilhonamento sanguíneo. 3. Patogênese da cardiopatia chagásica Múltiplos fatores patogenéticos que depende tanto de fatores inerentes ao parasito quanto de fatores relacionados ao hospedeiro. Maria Clara Coelho Coutinho – Turma IX INERENTES AO PARASITO RELACIONADOS AO HOSPEDEIROMoléculas de superfície Constituição genética Polimorfismo Gênero Tropismo Idade Constituição antigênica Resposta imunitária Constituição genética Estado nutricional Na fase aguda há a presença forte do parasito. Após a picada, o tripomastigota cai na corrente sanguínea e se transforma em amastigota. Isso gera comprometimento da integridade estrutural e funcional celular levando a ruptura da célula. Com essa ruptura, tem-se a exposição do antígeno do parasito e haverá uma reação inflamatória e hiperplasia dos linfonodos. Após a ruptura da célula, os parasitos são liberados para ir para outras regiões (inclusive o coração). Na fase crônica há uma queda importante da parasitemia e do parasitismo. Hoje em dia, acredita-se na teoria imunitária do processo inflamatório que diz que a doença comportaria como sendo autoimune. O parasito tem antígenos com semelhança estrutural a moléculas do organismo e, enquanto está muito presente nosso organismo, ele produz anticorpos contra essas estruturas. Assim, ao longo do tempo, esses Maria Clara Coelho Coutinho – Turma IX anticorpos destroem as estruturas semelhantes. Essa teoria, entretanto, não explica totalmente a complexidade da doença e não explica como cada indivíduo evolui com a doença. Diferentes cepas têm virulência variada e tropismo tecidual diferente. Sabe-se que isso também pode variar de acordo com a espécie. Por exemplo, determinada cepa pode ter tropismo por um órgão de uma espécie e por outro órgão em outra espécie.