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IVIII III PARTE VI NESTE CAPíTulo JUNÇÕES CÉLULA-CÉLULA A MATRIZ EXTRACELULAR DOS ANIMAIS JUNÇÕES CÉLULA-MATRIZ A PAREDE CELULAR DAS PLANTAS Junções celulares e matriz extracelular CAPíTulo 19 AS CÉLULAS EM SEU CONTEXTO SOCIAL De todas as interações sociais que ocorrem entre as células de um organismo multicelu- lar, as mais fundamentais são aquelas que mantêm as células unidas. As células podem ser mantidas unidas por interações diretas ou presas dentro da matriz extracelular, uma rede complexa de proteínas e cadeias polissacarídicas secretadas pelas próprias células. De um modo ou de outro, as células devem estar aderidas para formar uma estrutura multicelular organizada capaz de suportar e responder a várias forças externas que ten- tam separá-las. O mecanismo de coesão controla a arquitetura do organismo, sua forma e o arran- jo dos diferentes tipos celulares. A formação e a destruição das ligações entre as células e a modelagem da matriz extracelular regulam o modo como as células se movem no organismo, orientando-as durante o crescimento, o desenvolvimento e o reparo. A ade- são às outras células e à matriz extracelular controla a orientação e o comportamento do citoesqueleto celular, permitindo que as células detectem e respondam às mudanças nas características mecânicas do seu ambiente. Assim, o aparato das junções celulares e a matriz extracelular são críticos para cada um dos aspectos da organização, função e dinâmica das estruturas multicelulares. Defeitos nesse aparato são responsáveis por uma grande variedade de doenças. As principais características das junções celulares e da matriz extracelular po- dem ser mais bem descritas considerando-se duas grandes categorias de tecidos que são encontrados nos animais (Figura 19-1). Os tecidos conectivos, como os ossos e tendões, são formados a partir de uma matriz extracelular produzida pelas células que se encontram esparsamente distribuídas na matriz. É a matriz que sofre a maior parte do estresse mecânico ao qual o tecido está sujeito, e não as células. Ligações di- retas entre as células são relativamente raras, mas as células apresentam importantes ligações à matriz. Essas junções célula-matriz conectam o citoesqueleto com a matriz, permitindo que as células se movam pela matriz e monitorem as alterações nas suas propriedades mecânicas. No tecido epitelial, como aquele que reveste o intestino ou a epiderme, as células são fortemente ligadas em camadas chamadas de epitélios. A matriz extracelular é me- nos marcante, consistindo, sobretudo, em uma fina camada denominada lâmina basal (ou membrana basal) subjacente. No epitélio, as células estão ligadas umas às outras diretamente, por junções célula-célula, onde os filamentos do citoesqueleto estão anco- rados, transmitindo o estresse pelo interior das células de um local de adesão a outro. 1036 PARTE V As células em seu contexto social O citoesqueleto das células epiteliais também está ligado à lâmina basal por meio das junções célula-matriz. A Figura 19-2 apresenta um diagrama detalhado das células epiteliais ilustrando os principais tipos de junções célula-célula e célula-matriz que veremos neste capítulo. O diagrama mostra o arranjo de junções típico de um epitélio colunar simples como o revestimento do intestino delgado dos vertebrados. Nesta figura, uma única camada de células altas apoia-se sobre uma lâmina basal, com a superfície mais elevada da célula, ou ápice, livre e exposta ao meio extracelular. Nos seus lados, ou superfícies laterais, as células formam as junções umas com as outras. Dois tipos de junções de ancoragem ligam os citoesqueletos das células adjacentes: as junções aderentes são locais de anco- ragem para os filamentos de actina. Os desmossomos são os locais de ancoragem para os filamentos intermediários. Dois tipos de junções de ancoragem adicionais ligam o ci- toesqueleto das células epiteliais à lâmina basal: as junções célula-matriz ligadas à actina que ancoram os filamentos de actina à matriz, e os hemidesmossomos que ancoram os filamentos intermediários à matriz. Figura 19-1 Duas principais maneiras pelas quais as células animais são unidas. No tecido conectivo, o principal componente que suporta o estresse é a matriz extracelular. No tecido epitelial, é o citoesqueleto das próprias células, ligado de uma célula à outra por junções de adesão. As adesões célula-matriz conec- tam o tecido epitelial ao tecido conectivo subjacente. Tecido epitelial Tecido conectivo Lâmina basal Fibras de colágeno 1 2 O estresse mecânico é transmitido de uma célula a outra pelos filamentos do citoesqueleto ancorados aos sítios de adesão célula-célula ou célula-matriz A matriz extracelular suporta diretamente o estresse mecânico de tensão e compressão A junção compacta sela os espaços entre as células epiteliais A junção aderente conecta os feixes de filamentos de actina de uma célula com os feixes da outra célula O desmossomo conecta os filamentos intermediários de uma célula com os da outra célula A junção do tipo fenda permite a passagem de pequenas moléculas solúveis em água de uma célula para a outra O hemidesmossomo ancora os filamentos intermediários da célula na matriz extracelular A junção célula-matriz ligada à actina ancora os filamentos de actina da célula na matriz extracelular Complexo juncional JUNÇÃO COMPACTA APICAL BASAL JUNÇÃO COMUNICANTE JUNÇÕES DE ANCORAGEM CÉLULA-CÉLULA JUNÇÕES DE ANCORAGEM CÉLULA-MATRIZ Figura 19-2 Resumo das várias junções celulares encontradas nas células epiteliais dos vertebrados, classificadas de acordo com sua função pri- mária. Na porção mais apical da célula, a posição das junções é a mesma em praticamente todo o epitélio de vertebrados. As junções compactas ocupam a posição mais apical, seguidas pelas junções aderentes (cinturão de adesão), e então por uma linha paralela especial de desmossomos. Juntas, tais estruturas são denominadas complexo juncional. As junções do tipo fenda e os desmossomos adicionais são menos organizados. Dois tipos de junções de ancoragem matriz- -célula prendem a superfície basal da célula à lâmina basal. A ilustração é baseada nas células epiteliais do intestino delgado. CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1037 Dois outros tipos de junções célula-célula estão ilustrados na Figura 19-2. As jun- ções compactas mantêm as células muito próximas perto do ápice, selando o espaço entre as células e, portanto, impedindo que moléculas vazem pelo epitélio. Próximo à porção basal das células, encontram-se as junções comunicantes, denominadas junções do tipo fenda, que criam passagens conectando citoplasmas adjacentes. Cada um dos quatro principais tipos de junções de ancoragem depende das pro- teínas de adesão transmembrana que atravessam a membrana plasmática, com uma extremidade ligando o citoesqueleto dentro da célula e a outra extremidade ligando as estruturas do lado de fora da célula (Figura 19-3). Essas proteínas transmembrana ligadas ao citoesqueleto são classificadas em duas superfamílias, correspondendo aos dois tipos básicos de ligação externa. As proteínas da superfamília das caderinas me- deiam a ligação célula-célula (Animação 19.1). As proteínas da família das integrinas medeiam a ligação da célula à matriz. Há especialização dentro de cada família: algu- mas caderinas ligam-se à actina e formam as junções aderentes, ao passo que outras se ligam aos filamentos intermediários e formam os desmossomos. Igualmente, algumas integrinas ligam-se à actina formando as junções célula-matriz ligadas à actina, en- quanto outras se ligam aos filamentos intermediários e formam os hemidesmossomos (Tabela 19-1). Existem algumas exceções a essas regras. Algumas integrinas, porexemplo, me- deiam ligações célula-célula em vez de célula-matriz. Além disso, há outros tipos de Figura 19-3 Proteínas de adesão transmembrana ligam o citoesqueleto a estruturas extracelulares. A ligação externa pode ser com outra célula (junções célula-célula, em geral mediadas pelas caderinas) ou com a matriz extracelular (junções célula-matriz, geralmente me- diadas pelas integrinas). A ligação interna ao citoesqueleto costuma ser indireta, via proteínas adaptadoras intracelulares, con- forme discutido mais adiante. Proteínas adaptadoras intracelulares Proteínas de adesão transmembrana CÉLULA 1 CÉLULA 2 Membranas plasmáticas Matriz extracelular Filamentos do citoesqueleto TABELA 19-1 Junções de ancoragem Junção Proteína de adesão transmembrana ligante extracelular ligação ao citoesqueleto intracelular Proteína adaptadora intracelular Célula-célula Junção aderente Caderinas clássicas Caderina clássica da célula vizinha Filamentos de actina a-catenina, b-catenina, placoglobina (g-catenina), catenina p120, vinculina Desmossomo Caderinas não clássicas (desmogleína, desmocolina) Desmogleína e desmocolina na célula vizinha Filamentos intermediários Placoglobina (g-catenina), placofilina, desmoplaquina Célula-matriz Junção célula-matriz ligada por actina Integrina Proteínas da matriz extracelular Filamentos de actina Talina, quindlina, vinculina, paxilina, cinase de adesão focal (FAK), várias outras Hemidesmossomo Integrina a6b4, colágeno tipo XVII Proteínas da matriz extracelular Filamentos intermediários Plectina, BP230 1038 PARTE V As células em seu contexto social moléculas de adesão celular que podem proporcionar ligações transitórias célula-célula mais frouxas do que as junções de ancoragem, mas suficientes para manter as células unidas em circunstâncias especiais. Começaremos o capítulo com uma discussão sobre as principais formas de jun- ções célula-célula e, então, passaremos para a matriz extracelular dos animais, a estru- tura e função das junções matriz-célula mediadas pelas integrinas e, por fim, a parede celular das plantas, uma forma especial de matriz extracelular. JUNÇÕES CÉLULA-CÉLULA As junções célula-célula possuem diversas formas e podem ser reguladas por vários mecanismos. O mais comum e bem compreendido envolve os dois tipos de junções de ancoragem célula-célula, que empregam as caderinas para ligar o citoesqueleto de uma célula com a sua vizinha. Sua função primária é resistir às forças externas que afastam as células. As células epiteliais da sua pele, por exemplo, devem permanecer fortemen- te unidas quando esticadas, beliscadas ou espetadas. As junções de ancoragem célula- -célula também devem ser dinâmicas e adaptáveis de modo que possam ser alteradas ou reorganizadas quando os tecidos são removidos ou regenerados, ou quando ocorrem mudanças nas forças que atuam sobre eles. Nesta seção, veremos principalmente as junções de ancoragem baseadas nas ca- derinas. Na sequência descreveremos rapidamente as junções compactas e as junções do tipo fenda e, por fim, veremos os mecanismos mais temporários de adesão célula- -célula empregados por algumas células na circulação sanguínea. As caderinas formam uma família distinta de moléculas de adesão As caderinas estão presentes em todos os animais multicelulares cujos genomas já foram analisados. Elas também estão presentes nos coanoflagelados, que podem viver como organismos unicelulares de vida livre ou como colônias multicelulares e que suposta- mente representam o grupo dos protistas dos quais todos os animais evoluíram. Outros eucariotos, incluindo fungos e plantas, não possuem caderinas, e elas também estão au- sentes nas arqueias e nas bactérias. Portanto, as caderinas parecem ser uma parte essen- cial do que é ser um animal. As caderinas receberam esse nome por sua dependência de íons Ca21: a remoção do Ca21 do meio extracelular causa a perda da adesão mediada pela caderina. As três primeiras caderinas descobertas receberam seu nome de acordo com o tecido no qual foram encontradas pela primeira vez: a caderina-E está presente em muitos tipos de cé- lulas epiteliais; a caderina-N está presente nos nervos, músculos e células do cristalino; e a caderina-P, nas células da placenta e epiderme. Todas também são encontradas em outros tecidos. Essas e outras caderinas clássicas possuem sequências relacionadas nos seus domínios intra e extracelulares. Há também um grande número de caderinas não clássicas com sequências mais distintas, sendo que mais de 50 são expressas somente no cérebro. As caderinas não clás- sicas incluem as proteínas com função de adesão conhecida, como as protocaderinas, encontradas no cérebro, e as desmocolinas e desmogleínas, que formam os desmosso- mos (ver Tabela 19-1). Outros membros da família estão envolvidos, principalmente, com a sinalização. Juntas, as caderinas clássicas e não clássicas formam a superfamília das caderinas (Figura 19-4), com mais de 180 membros em humanos. As caderinas medeiam a adesão homofílica As junções de ancoragem entre as células costumam ser simétricas: se a ligação é com a actina na célula de um lado da junção, também o será na célula do outro lado da junção. De fato, a ligação entre as caderinas é homofílica (entre iguais, Figura 19-5): as molécu- las de caderina de um subtipo específico de uma célula se ligam a moléculas de caderina do mesmo subtipo ou de um subtipo muito semelhante na célula adjacente. CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1039 O espaçamento entre as membranas celulares nas junções de ancoragem é preci- samente definido e depende da estrutura das moléculas de caderina que participam da junção. Todos os membros da superfamília, por definição, possuem uma porção extrace- lular formada por várias cópias do domínio de caderina extracelular (EC). A ligação ho- mofílica ocorre nas extremidades N-terminais das moléculas de caderina, nos domínios de caderina que se localizam mais distantes da membrana. Cada um desses domínios terminais forma uma protuberância e uma bolsa, e as moléculas de caderina protrun- dem da membrana celular oposta fazendo a ligação pela inserção da protuberância de um domínio na bolsa do outro domínio (Figura 19-6A). Cada domínio de caderina forma uma unidade mais ou menos rígida, ligada ao próximo domínio de caderina por uma dobradiça. Íons Ca21 se ligam aos sítios próximos a cada dobradiça, impedindo sua flexão, de modo que toda a série de domínios de cade- rina comporta-se como um bastão levemente curvo e rígido. Quando o Ca21 é removi- do, as dobradiças podem se flexionar, e a estrutura torna-se flexível (Figura 19-6B). Ao mesmo tempo, acredita-se que a conformação na porção N-terminal mude levemente, enfraquecendo a afinidade de ligação com a molécula de caderina da célula oposta. Diferentemente dos receptores para moléculas solúveis, os quais se ligam aos seus ligantes com alta afinidade, as caderinas (e a maioria das proteínas de adesão célula- -célula) ligam-se em geral a seus parceiros com afinidade relativamente baixa. Uma forte ligação resulta da formação de muitas dessas ligações fracas em paralelo. Quando liga- das a parceiros que se dispõem em um padrão de orientação oposto na outra célula, as moléculas de caderina costumam se agregar lado a lado com muitas outras moléculas de caderina da mesma célula (Figura 19-6C). A força dessa junção é maior do que de qual- quer ponte intermolecular isolada e, mesmo assim, mecanismos reguladores podem fa- cilmente desfazer a junção por meio da separação sequencial das moléculas, da mesma forma que duas peças de tecido podem ser fortemente unidas por um velcro e separadas uma da outra. Um “princípio similar ao velcro” também atua nas adesões célula-célula e célula-matrizformadas por outros tipos de proteínas de adesão transmembrana. Figura 19-4 A superfamília das caderi- nas. O diagrama apresenta a diversidade entre os membros da superfamília das caderinas. Todas essas proteínas possuem porções extracelulares contendo múlti- plas cópias do domínio extracelular das caderinas (ovais verdes). Nas caderinas clássicas de vertebrados, existem cinco desses domínios, e nas desmogleínas e desmocolinas existem 4 ou 5, mas algu- mas caderinas não clássicas possuem mais de 30. As porções intracelulares são mais variáveis, refletindo as interações com uma ampla variedade de ligantes intracelulares, incluindo as moléculas de sinalização e proteínas adaptadoras que conectam as caderinas com o citoesqueleto. Em alguns casos, como a caderina-T, o domínio transmembrana não está presente e a proteína se liga à membrana plasmática por uma âncora de glicosilfosfatidilinositol (GPI). Os motivos de cores diferentes em Fat, Flamingo e Ret representam domínios conservados também encontrados em ou- tras famílias de proteínas. Caderina clássica (caderina-E) Caderina Fat Flamingo Ret Desmocolina Caderina 23 Protocaderinas (Pcdh �) Caderina-T INTRACELULAR EXTRACELULAR LIGAÇÃO HOMOFÍLICA LIGAÇÃO HETEROFÍLICA Figura 19-5 Ligação homofílica versus heterofílica. As caderinas, em geral, fa- zem ligações homofílicas. Outras molécu- las de adesão se ligam heterofilicamente, como discutido mais adiante. 1040 PARTE V As células em seu contexto social A adesão célula-célula dependente de caderina coordena a organização dos tecidos em desenvolvimento As caderinas formam ligações homofílicas específicas, e isso explica por que há tantos membros diferentes na família. As caderinas não são como colas que tornam a superfície das células pegajosas; ao contrário, elas medeiam um reconhecimento altamente sele- tivo, permitindo que as células de tipos similares se mantenham unidas e segregadas de outros tipos celulares. A seletividade com que as células animais pareiam umas com as outras foi de- monstrada pela primeira vez muito antes da descoberta das caderinas, nos anos de 1950, em experimentos de dissociação de embriões de anfíbios em células individuais. Essas células foram então misturadas e puderam se reassociar. Extraordinariamente, as células dissociadas costumavam se reassociar em estruturas que se assemelhavam ao embrião original (Figura 19-7). Esses experimentos, junto com numerosos experimen- tos mais recentes, mostraram que o sistema de reconhecimento seletivo célula-célula N N C C Membrana plasmática da célula 1 Membrana plasmática da célula 2 38,5 nm Região flexível da dobradiça Domínios N-terminais de caderina Ca2+ Ca2+ Ca2+ > 1 mM Ca2+ < 0,05 mM Ca2+ Domínios de caderina (A) (B) (C) Membrana plasmática da célula 1 Membrana plasmática da célula 2 Regiões de dobradiça Figura 19-6 Estrutura e função da caderina. (A) A região extracelular das caderinas clás- sicas contém cinco cópias do domínio extracelular de caderina (ver Figura 19-4) separadas por regiões flexíveis de dobradiça. Os íons Ca21 (pontos vermelhos) se ligam nas vizinhanças de cada dobradiça, impedindo sua flexão. Como resultado, as regiões extracelulares formam uma estrutura curva e rígida, aqui representada. Para a adesão célula-célula, o domínio da caderina na porção N-terminal de uma molécula de caderina se liga no domínio N-terminal da molécula de caderina da outra célula. A estrutura foi determinada por difração de raios X da região extracelular da C-caderina cristalizada. (B) Na ausência de Ca21, o aumento da flexibilidade nas regiões da dobradiça deixa a molécula flexível sem orientação adequada para interagir com a caderina da outra célula, perdendo a adesão. (C) Em uma típica junção célula-célula, uma rede organizada de caderinas atua como um velcro para manter as células unidas. Acredita-se que as caderinas de uma mesma célula se unam lado a lado por intera- ções entre as regiões das cabeças N-terminais, resultando em uma organização linear como as caderinas verde e verde-claro na célula apresentada na parte inferior da figura. Acredita- -se que esses arranjos interajam de modo similar nas células adjacentes (moléculas de cade- rinas em azul na célula apresentada na parte superior da figura). A organização linear em uma célula é perpendicular à organização das caderinas na outra célula, como indicado pe- las setas vermelhas. Múltiplos arranjos perpendiculares em ambas as células interagem para formar uma rede coesa de proteínas caderina. (A, baseada em T.J. Boggon et al., Science 296:1308–1313, 2002; C, baseada em O.J. Harrison et al. Structure 19:244–256, 2011.) Figura 19-7 Segregação celular. As células de diferentes camadas de um embrião jovem de anfíbio irão se separar por tipos, de acordo com suas origens. No experimento clássico aqui mostrado, as células da mesoderme (verde), as células da placa neural (azul) e as células epidér- micas (vermelho) foram desagregadas e em seguida reagregadas em uma mistura aleatória. Elas se separam por tipos em um arranjo que lembra o de um embrião normal, com um “tubo neural” interno, uma epiderme externa e uma mesoderme no meio. (Modificada de P.L. Townes e J. Holtfreter, J. Exp. Zool. 128:53–120, 1955. Com permissão de Wiley-Liss.) CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1041 faz as células de um mesmo tecido diferenciado se unirem preferencialmente umas com as outras. As caderinas desempenham uma função crucial neste processo de segregação de células durante o desenvolvimento. O aparecimento e o desaparecimento das ca- derinas específicas correlacionam-se às etapas do desenvolvimento embrionário onde as células se reagrupam e mudam seus contatos criando novas estruturas de tecidos. No embrião dos vertebrados, por exemplo, alterações na expressão das caderinas são observadas durante a formação do tubo neural e seu desprendimento da ectoderme subjacente: as células do tubo neural perdem a caderina-E e adquirem outras cade- rinas, incluindo a caderina-N, ao passo que as células da ectoderme que o revestem continuam expressando a caderina-E (Figura 19-8A e B). Quando as células da crista neural migram para fora do tubo neural, essas caderinas ficam fracamente detectáveis, e outras caderinas (caderina 7) parecem ajudar a manter as células migratórias unidas como um grupo de células frouxamente associadas (Figura 19-8C). Por fim, quando as células se agregam para formar um gânglio, elas voltam a expressar a caderina-N. A superexpressão da caderina-N nas células da crista neural emergentes impede que as células deixem o tubo neural. Estudos com células em cultura apoiam a ideia de que as ligações homofílicas das caderinas controlam os processos de segregação de tecidos. Em uma linhagem de fibro- blastos denominados células L, não há expressão de caderinas e, portanto, as células não se unem umas às outras. Quando essas células são transfectadas com DNA que codifi- ca a caderina-E, as caderinas-E de uma célula se ligam às caderinas-E da outra célula, resultado em adesão célula-célula. Se as células L que expressam diferentes caderinas são misturadas, elas se separam e agregam indicando que diferentes caderinas ligam-se preferencialmente a caderinas de seu tipo (Figura 19-9A), simulando o que acontece quando as células derivadas de tecidos que expressam diferentes caderinas são mistu- radas. Uma segregação celular semelhante ocorre se as células L expressando diferentes quantidades da mesma caderina são misturadas (Figura 19-9B). Portanto, parece pro- vável que as diferenças quantitativas e qualitativas na expressão das caderinas atuam na organização dos tecidos. (A) (B) (C) 50 �m Ectoderme Tubo neural Células da cristaneural Células expressando a caderina-E Células expressando a caderina 6B Células expressando a caderina-N Células expressando a caderina 7 Figura 19-8 Mudança no padrão de expressão de caderinas durante a for- mação do sistema nervoso vertebrado. A figura mostra um corte transversal do embrião inicial de galinha quando o tubo neural se separa da ectoderme e então as células da crista neural se separam do tubo neural. (A, B) Micrografia de imunofluores- cência mostrando o desenvolvimento do tubo neural marcado com anticorpos con- tra (A) caderina-E (azul) e (B) caderina-N (amarelo). (C) Com a alteração do padrão de expressão gênica, os diferentes grupos de células se separam uns dos outros de acordo com as caderinas que expressam. (Micrografias cortesia de Miwako Nomura e Masatoshi Takeichi.) Célula expressando a caderina-N Célula expressando baixos níveis de E-caderina SEGREGAÇÃO SEGREGAÇÃO (A) (B) Célula expressando a caderina-E Célula expressando altos níveis de caderina-E Figura 19-9 Segregação celular dependen- te de caderina. As células em cultura podem se organizar de acordo com seu tipo e os níveis de caderinas que expressam. Isso pode ser visto pela marcação de diferentes populações de células com corantes de cores distintas. (A) Células expressando a caderina-N separadas de células expressando caderina-E. (B) Células expressando altos níveis de caderina-E sepa- radas de células expressando baixos níveis de caderina-E. Essas células que expressam altos níveis de caderina-E aderem mais fortemente e acabam localizando-se na porção interna. 1042 PARTE V As células em seu contexto social As transições epitélio-mesenquimais dependem do controle das caderinas A reunião das células em um epitélio é um processo reversível. Ao ativar a expressão das moléculas de adesão, as células mesenquimais dispersas não aderidas, como os fibro- blastos, podem se associar para formar um epitélio. Por outro lado, as células epiteliais podem mudar suas características, dissociar-se e migrar para fora do tecido epitelial ori- ginal como células individuais. Tais transições epitélio-mesenquimais desempenham um papel importante no desenvolvimento embrionário normal. A origem da crista neural é um exemplo. Essas transições dependem, em parte, das proteínas reguladoras de trans- crição denominadas Slug, Snail e Twist. O aumento da expressão da Twist, por exemplo, transforma as células epiteliais em mesenquimais, e sua inibição causa o efeito oposto. A Twist atua, em parte, inibindo as caderinas, incluindo a caderina-E que mantém as células epiteliais unidas. Transições epitélio-mesenquimais também ocorrem em eventos patológicos du- rante a vida adulta, no câncer. Em sua maioria, os cânceres se originam no epitélio, mas se tornam perigosamente propensos a se espalhar, isto é, tornar-se malignos, somente quando as células cancerosas escapam do epitélio de origem e invadem outros tecidos. Experimentos com células de câncer de mama malignas em cultura mostraram que o bloqueio da expressão da Twist pode transformá-las em não malignas. Por outro lado, a expressão forçada da Twist pode fazer as células epiteliais normais sofrerem a transição epitélio-mesenquimal e comportarem-se como células malignas. Mutações que rom- pem a produção ou a função da caderina-E são frequentemente encontradas em células cancerosas, supostamente ajudando a transformá-las em células malignas. As cateninas ligam as caderinas clássicas ao citoesqueleto de actina Os domínios extracelulares das caderinas medeiam as ligações homofílicas nas junções aderentes. Os domínios intracelulares das caderinas típicas, incluindo todas as caderinas clássicas e algumas não clássicas, interagem com os filamentos do citoesqueleto: a actina nas junções aderentes e os filamentos intermediários nos desmossomos (ver Tabela 19-1). Essas ligações ao citoesqueleto são essenciais para uma adesão célula-célula eficiente, uma vez que caderinas que não apresentam domínios citoplasmáticos não podem manter as células unidas de maneira estável. A ligação das caderinas ao citoesqueleto é indireta e depende de proteínas adap- tadoras que se reúnem na cauda citoplasmática da caderina. As caudas das caderinas se ligam a duas proteínas nas junções aderentes: b-catenina e a outra menos relacionada, catenina p120. Uma terceira proteína denominada a-catenina interage com a b-catenina e recruta várias proteínas que irão proporcionar uma ligação dinâmica aos filamentos de actina (Figura 19-10). Nos desmossomos, as caderinas se ligam aos filamentos interme- diários por meio de outras proteínas adaptadoras, incluindo uma proteína relacionada com a b-catenina denominada placoglobina, que veremos mais adiante. Na sua forma madura, as junções aderentes são enormes complexos de proteínas contendo centenas a milhares de moléculas de caderina, compactadas em uma densa rede regular ligadas ao lado extracelular por interações laterais entre os domínios das ca- derinas, como vimos antes (ver Figura 19-6C). Na porção citoplasmática, uma rede com- plexa de cateninas, reguladores de actina e feixes de actina contráteis unem os agrupa- mentos de caderina ligando-os ao citoesqueleto de actina. A montagem de uma estrutura com tal complexidade não é uma tarefa simples e envolve uma sequência complexa de eventos controlados pelas proteínas reguladoras de actina, como discutido no Capítulo 16. As características gerais do processo de montagem estão resumidas na Figura 19-11. As junções aderentes respondem às forças geradas pelo citoesqueleto de actina A maioria das junções aderentes é ligada por feixes contráteis de filamentos de actina e mio- sina II não muscular. Portanto, essas junções estão sujeitas a forças de tração produzidas pela actina ligada. Essas forças de tração são importantes para a formação e manutenção da Membrana plasmática Catenina p120 �-catenina �-catenina Filamentos de actina Vinculina CITOSOL Caderina Figura 19-10 A ligação das caderinas clás- sicas aos filamentos de actina. As caderinas são ligadas diretamente aos filamentos de actina por meio de um complexo de proteínas adaptadoras contendo catenina p120, b-cate- nina e a-catenina. Outras proteínas, incluindo a vinculina, associam-se com a a-catenina e auxiliam na ligação com a actina. A b-catenina desempenha uma segunda função, muito im- portante, na sinalização intracelular, como ve- remos no Capítulo 15 (ver Figura 15-60). Para simplificar, a caderina da junção na célula adja- cente não está representada neste diagrama. CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1043 junção. Por exemplo, o rompimento da atividade da miosina leva à dissociação de muitas junções aderentes. Além disso, as forças contráteis que atuam nas junções em uma célula são equilibradas pelas forças contráteis na junção da célula oposta, de modo que nenhuma célula empurra a outra e, portanto, não desfaz a distribuição uniforme das células no tecido. Os mecanismos responsáveis pela manutenção desse equilíbrio ainda não são bem compreendidos. As junções aderentes parecem detectar as forças que atuam nelas modificando o comportamento da actina e miosina equilibrando as forças nos dois lados da junção. Evidências para esses mecanismos foram obtidas em estudos com pares de cultura de células de mamíferos conectadas por junções aderentes. Se a atividade con- trátil em uma célula é aumentada experimentalmente, as junções aderentes que ligam as duas células aumentam em tamanho e a atividade contrátil da segunda célula aumenta para equilibrar a da primeira, resultando em um equilíbrio entre as forças da junção. Este e outros experimentos sugerem que as junções aderentes não são simplesmente locais passivos de ligação entre proteínas, mas são sensores dinâmicos da tensão queregula seu comportamento em resposta às alterações nas condições mecânicas. Essa capacida- de de transduzir um sinal mecânico em uma alteração do comportamento juncional é um exemplo de mecanotransdução. Mais adiante veremos que isso também é importan- te nas junções célula-matriz. Acredita-se que a mecanotransdução nas junções célula-célula dependa, pelo me- nos em parte, das proteínas nos complexos de caderina que alteram sua forma quando esticada pela tensão. A proteína a-catenina, por exemplo, é esticada de uma forma eno- velada para uma conformação estendida quando a atividade contrátil é aumentada na junção. O desenovelamento expõe um sítio de ligação escondido para outra proteína, a vinculina, que promove o recrutamento de mais actina para a junção (Figura 19-12). Por meio de mecanismos desse tipo é que as forças de tração nas junções as tornam mais fortes. Além disso, como descrito antes, a tração na junção em uma célula irá aumentar a força contrátil gerada na célula ligada. Em alguns tipos celulares, a contratilidade da actina reduz a adesão célula-célula, sobretudo se grandes forças estiverem envolvidas. Grandes forças contráteis baseadas na actina podem, em alguns tecidos, puxar as bordas das adesões célula-célula com for- ça suficiente para separá-las, principalmente se a contração estiver associada com me- canismos reguladores adicionais que enfraquecem a adesão. Tal mecanismo pode ser importante em determinadas formas de remodelagem dos tecidos durante o desenvolvi- mento, como descreveremos a seguir. A remodelagem dos tecidos depende da coordenação da contração mediada pela actina com a adesão célula-célula As junções aderentes são parte essencial da maquinaria para modelar a forma das estrutu- ras dos organismos multicelulares do corpo de um animal. Ao ligar indiretamente os fila- mentos de actina de uma célula com os de células vizinhas, as junções aderentes possibi- litam que as células dos tecidos usem seu citoesqueleto de actina de maneira coordenada. As junções aderentes ocorrem de várias formas. Em muitos tecidos não epiteliais, elas se apresentam na forma de pequenos pontos ou linhas que conectam os filamen- Figura 19-11 Formação de uma jun- ção aderente. (A) A formação inicia-se quando duas células epiteliais precursoras não aderidas exploram sua vizinhança com protrusões na membrana produzidas por concentrações localizadas de uma rede de actina. Quando as células fazem contato, pequenos agrupamentos de caderina e ca- teninas se organizam no local de contato e se associam com a actina, levando à ativa- ção da pequena GTPase Rac monomérica (não mostrada), um importante regulador da actina (ver Figura 16-85). (B) A Rac promove a formação de mais protrusões de actina nas vizinhanças, expandindo o tamanho da zona de contato e, por- tanto, promovendo mais recrutamento das caderinas e suas proteínas cateninas associadas. (C) Por fim, a Rac é inativada e substituída pela GTPase Rho (não mostra- da) relacionada, que altera a remodelagem da actina em feixes lineares de filamentos contráteis. A Rho também promove a reunião dos filamentos de miosina II que se associam com os feixes de actina para executar sua atividade contrátil. Essa ativi- dade contrátil produz tensão que estimula mais ainda o recrutamento de actina e ex- pansão da junção, em parte por meio do mecanismo ilustrado na Figura 19-12. Filamentos de actina Pequeno agrupamento de caderina e catenina Recrutamento de mais caderinas e cateninas Feixes contráteis de actina e miosina (A) (B) (C) Protrusões na membrana iniciam o contato célula-célula O recrutamento das actinas e caderinas expande a junção A remodelagem da actina e o recrutamento da miosina expandem as junções aderentes 1044 PARTE V As células em seu contexto social tos de actina cortical abaixo da membrana plasmática entre duas células vizinhas. No músculo cardíaco, elas ancoram os feixes de actina do aparelho contrátil e atuam em paralelo com os desmossomos para ligar as células contráteis de ponta a ponta. O mode- lo de junções aderentes ocorre no epitélio onde elas costumam formar um cinturão de adesão contínuo (ou zona aderente) logo abaixo da face apical do epitélio, circundando cada célula da camada (Figura 19-13). Em cada célula, um feixe contrátil de filamentos de actina e miosina II permanece adjacente ao cinturão de adesão, orientado paralela- mente à membrana plasmática e preso a ela pelas caderinas e suas proteínas adapta- doras intracelulares associadas. Os feixes de actina-miosina são ligados pelas caderinas Figura 19-12 Mecanotransdução em uma junção aderente. (A) As junções célula-célula são capazes de detectar um aumento na tensão e responder fortale- cendo as ligações da actina. Acredita-se que a detecção da tensão dependa em parte da a-catenina (ver Figura 19-10). (B) Quando os filamentos de actina são puxa- dos de dentro da célula pela miosina II não muscular, as forças resultantes desenove- lam um domínio na a-catenina, expondo um sítio de ligação, que estava escondido, da proteína adaptadora vinculina. Então, a vinculina promove um recrutamento adi- cional de actina, fortalecendo as ligações entre a junção e o citoesqueleto. Filamento de actina Vinculina CITOSOL Membrana plasmática �-catenina enovelada CITOSOL �-catenina estendida Célula aderida puxa a caderina Miosina II puxa a actina (B) COM TENSÃO(A) SEM TENSÃO Caderina Figura 19-13 Junções aderentes entre células epiteliais do intestino delgado. Essas células são especializadas na absor- ção de nutrientes. No seu ápice, voltado para o lúmen do intestino, elas possuem muitas microvilosidades (protrusões que aumentam a superfície da área de absor- ção). As junções aderentes tomam a forma de um cinturão de adesão, circulando cada uma das células. Sua característica mais óbvia é o feixe contrátil de actina, localizado na superfície citoplasmática da membrana plasmática juncional. Os feixes de filamentos de actina são presos por proteínas intracelulares às caderinas, que se ligam às caderinas nas células adjacen- tes. Dessa maneira, os feixes de filamentos de actina das células adjacentes são uni- dos. Esta ilustração não mostra muitas das junções célula-célula e célula-matriz das células epiteliais (ver Figura 19-2). Filamentos de actina nas microvilosidades LÚMEN Extensão das microvilosidades na superfície apical Cinturão de adesão Caderinas Junções compactas Feixes de filamentos de actina Membrana plasmática lateral de células epiteliais adjacentes Superfície basal CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1045 em uma extensa rede transcelular. A contração coordenada dessa rede proporciona as forças motoras para um processo fundamental na morfogênese animal, o enovelamento das camadas de células epiteliais em tubos, vesículas e outras estruturas relacionadas (Figura 19-14). A coordenação da adesão célula-célula e a contratilidade da actina estão rica- mente ilustradas pelos rearranjos celulares que ocorrem no início do desenvolvimento da Drosophila melanogaster, a mosca-das-frutas. Logo após a gastrulação, o epitélio externo do embrião é alongado por um processo denominado extensão da banda ger- minativa, no qual as células convergem para o interior do eixo dorsoventral e se esten- dem ao longo do eixo anteroposterior (Figura 19-15). A contração dependente de acti- na, ao longo dos limites de células específicas, é coordenada por uma perda de junções aderentes específicas para permitir que as células se insiram entre outras células (um processo denominado intercalação), resultando em um epitélio mais longo e estreito. Os mecanismos subjacentes à perda da adesão ao longo dos limites de células especí- ficas não estão bemdefinidos, mas dependem, em parte, do aumento da degradação da b-catenina, devido à sua fosforilação por uma proteína-cinase que está localizada especificamente nestes limites. Os desmossomos fornecem força mecânica ao epitélio Os desmossomos são estruturalmente similares às junções aderentes, mas contêm ca- derinas especializadas que se ligam aos filamentos intermediários em vez de se ligarem aos filamentos de actina. Sua principal função é proporcionar força mecânica. Os des- mossomos são importantes nos invertebrados, mas não são encontrados, por exemplo, na Drosophila. Eles estão presentes na maioria dos epitélios maduros de vertebrados e Figura 19-14 O enovelamento de uma lâmina epitelial para formar um tubo epitelial. Acredita-se que as contrações orientadas dos feixes de filamentos de actina e miosina ao longo dos cinturões de adesão provoquem o estreitamento do ápice das células epiteliais, ajudando a camada epitelial a formar o tubo. Um exemplo é a formação do tubo neural nos estágios iniciais do desenvolvimento dos vertebrados (ver Figura 19-8). Camada de células epiteliais Cinturão de adesão com filamentos de actina associados INVAGINAÇÃO DA CAMADA EPITELIAL CAUSADA POR UM ESTREITAMENTO ORGANIZADO DOS CINTURÕES DE ADESÃO EM REGIÕES ESPECÍFICAS DA CAMADA CELULAR O TUBO EPITELIAL DESPRENDE-SE DA CAMADA DE CÉLULAS Tubo epitelial Figura 19-15 Remodelagem das adesões célula-célula no epitélio em- brionário de Drosophila. À esquerda está representado um grupo de células do epitélio externo de um embrião de Drosophila. Durante a extensão da banda germinativa, as células convergem em direção umas das outras (centro) no eixo dorsoventral e então se estendem ao longo do eixo anteroposterior (direita). O resultado é a intercalação: células que estavam originalmente distantes ao longo do eixo dorsoventral (verde) são inseridas entre as células que as separavam (cinza). Esses rearranjos dependem da regulação espacial dos feixes contráteis de actina- -miosina, que estão localizados sobretudo nos limites verticais das células (vermelho, esquerda). A contração desses feixes é acompanhada pela remoção da E-caderina (não mostrada) no mesmo limite celular, resultando em um encolhimento e perda da adesão ao longo do eixo vertical (cen- tro). Então, novas adesões baseadas em caderinas (azul, direita) são formadas e se expandem ao longo dos limites horizon- tais, levando a uma extensão das células na orientação anteroposterior. Anterior Posterior Dorsal Ventral Actina-miosina Caderina 1046 PARTE V As células em seu contexto social são particularmente abundantes nos tecidos sujeitos a altos níveis de estresse mecânico, como o musculo cardíaco e a epiderme, o epitélio que forma a camada externa da pele. A Figura 19-16A apresenta a estrutura geral de um desmossomo, e a Figura 19-16B apresenta algumas de suas proteínas. Os desmossomos aparecem como pontos de con- tato em forma de botões que fixam as células (Figura 19-16C). Dentro da célula, os feixes de filamentos intermediários semelhantes a cordas que estão ancorados nos desmos- somos formam uma rede estrutural de grande força de tensão (Figura 19-16D), com li- gação aos feixes similares nas células adjacentes, criando uma rede que se estende por todo o tecido (Figura 19-17). Um tipo particular de filamento intermediário ligado aos desmossomos depende do tipo celular: por exemplo, eles são filamentos de queratina na maioria das células epiteliais, e filamentos de desmina nas células do musculo cardíaco. A importância dos desmossomos é demonstrada por algumas formas da doença de pele potencialmente fatal denominada pênfigo. Indivíduos afetados produzem an- ticorpos contra uma de suas próprias proteínas caderinas dos desmossomos. Esses an- ticorpos ligam-se e rompem os desmossomos que mantêm as células epiteliais (que- ratinócitos) unidas, resultando na formação de bolhas na pele com extravasamento de fluidos para o epitélio frouxo. As junções compactas formam uma barreira entre as células e um obstáculo entre os domínios de membrana plasmática As camadas de células epiteliais englobam e dividem o corpo do animal, revestindo toda a sua superfície e cavidades, criando compartimentos internos onde ocorrem os Filamentos intermediários Filamentos intermediários Membrana plasmática Placa densa de proteínas adaptadoras Proteínas caderinas não clássicas (A) (B) (C) (D) Desmoplaquina Placoglobina Placofilina Proteínas adaptadoras Desmogleína Desmocolina Proteínas caderinas não clássicas 0,5 �m 100 nm Membrana plasmática CITOSOL CITOSOL Figura 19-16 Desmossomos. (A) Componentes estruturais do desmossomo. Na superfície citoplasmática de cada membrana plasmática em interação há uma densa placa composta por uma mistura de proteínas adaptadoras in- tracelulares. Um feixe de filamentos de queratina é ligado à superfície de cada placa. As caderinas transmembrana não clássicas se ligam às placas e interagem por meio de seus domínios extracelulares para manter as membranas adjacentes unidas. (B) Alguns componentes moleculares dos desmossomos. A desmogleína e a desmocolina são caderinas não clássicas. Suas caudas citoplasmáticas se ligam à placoglobina (g-catenina) e à placofilina (uma proteína com relação distante com a catenina p120), que, por sua vez, se liga a desmoplaquina. A desmoplaquina se liga às laterais dos filamentos intermediários, prendendo os desmossomos a esses filamentos. (C) Micrografia eletrônica da junção desmossômica entre três células epiteliais da pele de um filhote de camundongo. (D) Parte do mesmo tecido em maior aumento, mostrando um único desmossomo, com os filamentos intermediários ligados a ele. (C e D, de W. He, P. Cowin and D.L. Stokes, Science 302:109–113, 2003. Com permissão de AAAS.) CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1047 processos especializados. As camadas epiteliais parecem ser uma invenção que remon- ta à origem da evolução animal, diversificando uma grande variedade de formas, mas conservando uma organização com base em um conjunto de mecanismos moleculares conservados. Essencialmente, todos os epitélios são ancorados a outros tecidos em um lado, a porção basal, e livres de qualquer ligação no lado oposto, a porção apical. A lâmina basal localiza-se na interface com o tecido subjacente, mediando a ligação, enquanto a super- fície apical do epitélio em geral é banhada por um líquido extracelular. Assim, todos os epitélios são estruturalmente polarizados, assim como suas células individuais: a porção basal da célula, aderida à lâmina basal abaixo, difere da porção apical, exposta ao meio. Desse modo, todos os epitélios possuem pelo menos uma função em comum: eles atuam como uma barreira de permeabilidade seletiva, separando os fluidos que per- meiam os tecidos na sua porção basal dos fluidos com diferente composição química na sua porção apical. Essa função de barreira requer que as células adjacentes sejam sela- das por junções compactas, de modo que as moléculas não possam passar livremente pela camada celular. O epitélio do intestino delgado fornece uma excelente ilustração da estrutura e função da junção compacta (ver Figura 19-2). Esse epitélio possui uma estrutura co- lunar simples, isto é, consiste em uma única camada de células altas (colunares). Elas são de diversos tipos diferenciados, mas em sua maioria são células absorventes, es- pecializadas na absorção de nutrientes da cavidade interna, ou lúmen, do intestino. As células absorventes devem transportar nutrientes selecionados através do epitélio do lúmen para o líquido extracelular no outro lado. De lá, esses nutrientes serão di- fundidos para os pequenos vasos sanguíneos que irão nutrir o organismo. Esse trans- porte transcelular depende de dois gruposde proteínas de transporte na membrana plasmática de células de absorção. Um grupo está restrito à superfície apical da célula epitelial (a superfície que fica voltada para o lúmen) e transporta ativamente moléculas selecionadas do intestino para a célula. O outro grupo está restrito à superfície baso- lateral (basal e lateral), permitindo que a mesma molécula deixe a célula por difusão passiva para o líquido extracelular no outro lado do epitélio. Para manter esse trans- porte direcional, os espaços entre as células epiteliais devem ser selados, de modo que as moléculas transportadas não possam difundir novamente para o lúmen do intestino através desses espaços (Figura 19-18). Além disso, as proteínas de transporte devem estar corretamente distribuídas na membrana plasmática. Os transportadores apicais devem ser levados até o ápice da célula e não podem migrar para a membrana baso- lateral, e os transportadores basolaterais devem ser levados e mantidos na membrana basolateral. As junções compactas, além de selar os espaços entre as células, também atuam como “cercas” que ajudam a impedir que as proteínas apicais e basolaterais se difundam para as regiões erradas. A função de barreira das junções compactas é facilmente demonstrada por meio de experimentos: uma proteína de baixo peso molecular marcada, adicionada em um lado do epitélio, não passará além da junção compacta (Figura 19-19). Porém, a selagem não é absoluta. Embora as junções compactas sejam impermeáveis a macromoléculas, sua permeabilidade a íons e outras pequenas moléculas varia em diferentes epitélios. As junções compactas no epitélio que reveste o intestino delgado, por exemplo, são 10 mil vezes mais permeáveis a íons inorgânicos, como o Na1, do que as junções compactas no epitélio que reveste a bexiga. O movimento de íons e outras moléculas entre as células epiteliais é denominado transporte paracelular, e as diferenças tecido-específicas nas taxas de transporte resultam, em geral, das diferenças nas proteínas que formam as jun- ções compactas. As junções compactas contêm feixes de proteínas de adesão transmembrana Quando as junções compactas são visualizadas por microscopia eletrônica de criofratu- ra, elas são vistas como uma rede ramificada de fitas selantes que circundam completa- mente a extremidade apical de cada célula na camada epitelial (Figura 19-20A e B). Na micrografia eletrônica convencional, as folhas externas das duas membranas plasmáti- Filamentos de queratina Desmossomo HemidesmossomoLâmina basal Figura 19-17 Desmossomos, hemidesmos- somos e rede de filamentos intermediá- rios. As redes de filamentos intermediários de queratina de células adjacentes – neste exem- plo, células epiteliais do intestino delgado – são indiretamente conectadas umas às outras pelos desmossomos e à lâmina basal pelos hemides- mossomos. 1048 PARTE V As células em seu contexto social cas estão fortemente unidas na região das fitas (Figura 19-20C). Cada fita é composta por um longo segmento de proteínas de adesão transmembrana homofílicas embebidas em cada uma das duas membranas plasmáticas que estão interagindo. Os domínios ex- tracelulares dessas proteínas ligam-se diretamente uns aos outros para bloquear o espa- ço intercelular (Figura 19-21). As principais proteínas transmembrana da junção compacta que forma essas fitas são as claudinas, essenciais na formação e na função da junção compacta. Por exemplo, um camundongo que não possui o gene da claudina-1 não forma junções compactas entre as células da camada epitelial da pele e, como resultado, as crias perdem água ra- pidamente por evaporação pela pele e morrem em poucos dias após o nascimento. Por outro lado, se células não epiteliais tais como os fibroblastos são artificialmente forçadas a expressar o gene da claudina, elas irão formar junções compactas umas com as outras. Junções compactas normais também contêm uma proteína transmembrana denomina- da ocludina, segunda em importância, a qual não é essencial para a montagem ou es- Figura 19-18 O papel das junções com- pactas no transporte transcelular. Para simplificar, somente as junções com- pactas estão representadas. As proteínas de transporte estão limitadas a regiões dis- tintas da membrana plasmática nas células epiteliais do intestino delgado. Essa segre- gação permite a transferência vetorial de nutrientes através da camada epitelial do lúmen intestinal para o sangue. No exem- plo apresentado, a glicose é ativamente transportada na célula por transportadores de glicose acionados por Na1 presentes na superfície apical e deixa a célula por meio dos transportadores de glicose passivos localizados na membrana basolateral. As junções compactas parecem confinar as proteínas de transporte aos domínios de membrana apropriados, atuando como barreiras à difusão dentro da bicamada lipídica da membrana plasmática; essas junções também bloqueiam o refluxo de glicose do lado basal do epitélio para o lúmen intestinal (ver Animação 11.2). LÚMEN DO INTESTINO Superfície apical Transportador de glicose dirigido por Na+ Junção compacta Membranas plasmáticas das células adjacentes Espaço intercelular Transportador de glicose passivo Célula 3 SANGUE Célula 2 Célula 1 LÍQUIDO EXTRACELULAR/TECIDO CONECTIVO Lâmina basal Superfície basolateral BAIXA BAIXA Glicose Glicose Glicose ALTA concentração de glicose Figura 19-19 As junções compactas permitem que o epitélio atue como barreira na difusão de solutos. (A) Representação esquemática mostrando como uma pequena molécula traçadora adicionada em um lado do epitélio é impe- dida de atravessar o epitélio pelas junções compactas que selam as células adjacen- tes. Para simplificar, as junções aderentes e outras junções celulares não estão repre- sentadas. (B) Eletromicrografias de células em um epitélio onde uma pequena molé- cula traçadora eletrodensa extracelular foi adicionada à região apical (esquerda) ou à região basolateral (direita). As junções compactas bloqueiam a passagem da mo- lécula traçadora em ambas as direções. (B, cortesia de Daniel Friend.) LÚMEN Molécula traçadora Junção compacta Junção compacta 0,5 �m 0,5 �m Célula 1 Célula 2 Célula 3 (A) (B) CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1049 trutura da junção compacta, mas é importante para limitar a permeabilidade juncional. Uma terceira proteína transmembrana, a tricelulina, é necessária para selar as membra- nas celulares e impedir o vazamento transepitelial nos locais de encontro de três células. A família de proteínas claudinas possui muitos membros (24 nos humanos), e es- tes são expressos em diferentes combinações em diferentes epitélios para proporcionar propriedades específicas de permeabilidade às camadas epiteliais. Acredita-se que elas formem poros paracelulares, canais seletivos que permitem que íons específicos cruzem a barreira das junções compactas de um espaço extracelular para outro. Uma claudina específica encontrada nas células epiteliais do rim, por exemplo, é necessária para dei- xar o Mg21 passar entre as células dos túbulos renais de modo que esse íon possa ser reabsorvido da urina para o sangue. Uma mutação no gene que codifica essa claudina resulta na perda excessiva de Mg21 na urina. As proteínas de suporte organizam os complexos de proteínas juncionais Como as moléculas de caderina das junções aderentes, as claudinas e ocludinas das junções compactas interagem umas com as outras nas suas regiões extracelulares para promover a montagem da junção. A organização das proteínas de adesão nas junções compactas depende de proteínas adicionais que se ligam na porção citoplasmática das proteínas de adesão, como nas junções aderentes. As proteínasorganizadoras funda- mentais das junções compactas são as proteínas da zona ocludente (ZO). As três princi- pais representantes da família ZO, ZO-1, ZO-2 e ZO-3, são grandes proteínas de suporte que fornecem o suporte estrutural onde a junção compacta é formada. Essas moléculas intracelulares consistem em cordas de domínios de ligação de proteínas, geralmente in- cluindo vários domínios PDZ, segmentos de cerca de 80 aminoácidos de comprimento (A) Membrana plasmática lateral Saliências das partículas transmembrana formando as fitas selantes (face P) Conexão focal Conexão focal Membrana plasmática 50 nm0,5 �m Lúmen intestinalMicrovilosidades (C)(B) Junção compacta Célula 1 Célula 2 Figura 19-20 Estrutura de uma junção compacta entre células epiteliais do intestino delgado. As junções são mostradas esquematicamente em (A), em uma microscopia eletrônica de uma criofratura em (B) e em uma microscopia eletrônica convencional em (C). Em (B), o plano da micrografia é paralelo ao plano da membrana, e as junções compactas parecem com uma banda, semelhante a um cinturão de fitas selantes anas- tomosadas que circundam cada célula da camada (ver Figura 19-21A). Em (C), a junção é vista como uma série de conexões focais entre a camada externa de duas membranas plasmáticas interagindo, cada conexão corres- pondendo a uma fita selante em secção transversal. (B e C, de N.B. Gilula, in Cell Communication [R.P. Cox, ed.], pp. 1–29. New York: Wiley, 1974.) 1050 PARTE V As células em seu contexto social que podem reconhecer e ligar as caudas C-terminais de proteínas parceiras específicas (Figura 19-22). Um domínio dessas proteínas de suporte pode se ligar à proteína clau- dina, enquanto outros podem se ligar à ocludina ou ao citoesqueleto de actina. Além disso, uma molécula de proteína de suporte pode se ligar a outra. Desse modo, a célula pode reunir um tapete de proteínas intracelulares que organizam e posicionam as fitas selantes das junções compactas. A rede de junções compactas das fitas selantes costuma localizar-se acima das jun- ções aderentes e dos desmossomos que mantêm as células unidas mecanicamente. Toda essa rede é denominada complexo juncional (ver Figura 19-2). As partes desse complexo juncional dependem umas das outras para a sua formação. Por exemplo, anticorpos an- ticaderina que bloqueiam a formação das junções aderentes também bloqueiam a for- mação das junções compactas. As junções do tipo fenda ligam as células de forma elétrica e metabólica As junções compactas bloqueiam a passagem pelos espaços entre as células epiteliais, impedindo que moléculas extracelulares passem de um lado do epitélio para o outro. Outro tipo de estrutura juncional possui uma função radicalmente diferente: ele faz pon- tes entre células adjacentes criando canais diretos do citoplasma de uma célula para o de outra. Esses canais são denominados junções do tipo fenda. Figura 19-21 Modelo de uma junção compacta. (A) As fitas selantes mantêm as membranas plasmáticas adjacentes uni- das. As fitas são compostas por proteínas transmembrana que fazem contato por meio do espaço intercelular, selando a membrana. (B) Composição molecular da fita selante. Os principais componentes extracelulares das junções compactas são membros de uma família de proteínas com quatro domínios transmembrana. Uma dessas proteínas, a claudina, é a mais importante para a montagem e estrutura das fitas selantes, enquanto a proteína ocludina desempenha uma função menos crítica na determinação da permeabilidade da junção. As duas terminações dessas proteínas estão na porção citoplasmática da membrana, onde interagem com gran- des proteínas de suporte que organizam as fitas selantes e conectam as junções compactas com o citoesqueleto de actina (não apresentado aqui, mas pode ser visto na Figura 19-22). Célula 1 Célula 2 (B) (A) C C N N Claudina Ocludina Proteínas da junção compacta Membranas plasmáticas em interação Espaço intercelular Fitas selantes das proteínas claudina e ocludina Célula 1 Célula 2 0,3 �m Figura 19-22 Proteínas de suporte nas junções compactas. As proteínas de suporte ZO-1, ZO-2 e ZO-3 estão concen- tradas abaixo da membrana plasmática nas junções compactas. Cada uma das proteínas possui múltiplos domínios de li- gação de proteína, incluindo três domínios PDZ, um domínio SH3 e um domínio GK, ligado como contas em um colar flexível. Esses domínios permitem que as proteínas interajam umas com as outras e com muitas outras parceiras como indicado na figura, formando uma rede entrelaçada de proteínas que organiza as fitas selantes das junções compactas ligando-as ao citoesqueleto de actina. As proteínas de suporte com estrutura similar auxiliam na organização dos complexos juncionais, in- cluindo aqueles das sinapses neurais. PDZ PDZ PDZ SH3 GK P PDZ PDZ PDZ SH3 GK P PDZ PDZ PDZ SH3 GKP N N N ZO-1 Claudina Domínios ZO-2 Domínios ZO-3 Domínios Ocludina Actina Proteínas ZO Proteínas sinalizadoras CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1051 As junções do tipo fenda estão presentes na maioria dos tecidos animais, incluin- do tecido conectivo, bem como epitélio e músculo cardíaco. Cada junção do tipo fenda aparece nas micrografias eletrônicas convencionais como uma mancha onde as mem- branas das duas células adjacentes estão separadas por um espaço uniforme de cerca de 2 a 4 nm (Figura 19-23). A fenda é formada por proteínas formadoras de canais de duas famílias distintas denominadas conexinas e inexinas. As conexinas são as proteínas pre- dominantes das junções do tipo fenda nos vertebrados, com 21 isoformas nos humanos. As inexinas são encontradas nas junções do tipo fenda nos invertebrados. As junções do tipo fenda possuem um poro de tamanho de cerca de 1,4 nm, que permite a troca de íons e outras pequenas moléculas solúveis em água, mas não de macromoléculas como as proteínas ou ácidos nucleicos (Figura 19-24). Uma corrente elétrica injetada em uma célula com o auxílio de um microeletrodo causa um distúr- bio elétrico na célula vizinha, devido ao fluxo de íons carregando a carga elétrica ao longo da junção do tipo fenda. Esse acoplamento elétrico por meio da junção do tipo fenda tem um propósito óbvio nos tecidos contendo células eletricamente excitáveis: os potenciais de ação podem se dispersar rapidamente de célula para célula, sem o atraso que ocorre nas sinapses químicas. Nos vertebrados, por exemplo, o acoplamen- to elétrico por meio das junções do tipo fenda sincroniza as contrações das células do músculo cardíaco e do músculo liso responsável pelos movimentos peristálticos do in- testino. As junções do tipo fenda também ocorrem em muitos tecidos que não contêm células eletricamente excitáveis. Em princípio, compartilhar pequenos metabólitos e íons confere mecanismos para coordenar as atividades das células individuais em de- terminados tecidos e homogeneizar flutuações ao acaso na concentração de pequenas moléculas em diferentes células. Um conéxon da junção do tipo fenda é constituído por seis subunidades de conexinas transmembrana As conexinas são proteínas com quatro porções transmembrana, sendo que seis su- bunidades se unem para formar um hemicanal, ou conéxon. Quando os conéxons na membrana plasmática de duas células em contato são alinhados, eles formam um canal aquoso contínuo que conecta os dois interiores celulares (Figura 19-25). As junções do tipo fenda consistem em muitos conéxons em paralelo que formam um tipo de peneira molecular. Além de fornecer um canal de comunicação entre as células, essa peneira também proporciona uma forma de adesão célula-célula que suplementa as adesões mediadas pela claudina e caderina antes discutidas.Figura 19-23 Junções do tipo fenda vistas ao microscópio eletrônico. Mi- crografia eletrônica de um corte fino (A) e de criofratura (B) de uma placa grande e pequena de junção tipo fenda entre fibro- blastos em cultura. Em (B), cada junção é visualizada como um aglomerado de par- tículas intramembrana homogêneas. Cada partícula intramembrana corresponde a um conéxon (ver Figura 19-25). (De N.B. Gilula, in Cell Communication [R.P. Cox, ed.], pp. 1–29. New York: Wiley, 1974.) PM 100 1.000 5.000 20.000 Figura 19-24 Determinação do tama- nho de um canal de junção do tipo fenda. Quando moléculas fluorescentes de vários tamanhos são injetadas em uma das duas células ligadas por uma junção do tipo fenda, apenas as moléculas com peso molecular (PM) menor do que 1.000 dáltons podem passar para a outra célula; as moléculas maiores não passam. Assim, as células ligadas compartilham pequenas moléculas (como íons inorgâni- cos, açúcares, aminoácidos, nucleotídeos, vitaminas e moléculas sinalizadoras de AMP cíclico e inositol trifosfato), mas não macromoléculas (proteínas, ácidos nuclei- cos e polissacarídeos). (A) 100 nm Membranas Grande junção do tipo fenda Pequena junção do tipo fenda (B) 100 nm 1052 PARTE V As células em seu contexto social As junções do tipo fenda de diferentes tecidos podem ter propriedades distintas porque são formadas por combinações diversas de conexinas, criando canais que dife- rem em permeabilidade e regulação. A maioria dos tipos celulares expressa mais de um tipo de conexina, e duas proteínas conexinas diferentes podem se unir em uma conexão heteromérica com suas próprias propriedades distintas. Além disso, células adjacentes que expressam diferentes conexinas podem formar canais intercelulares nos quais os dois hemicanais alinhados são distintos (ver Figura 19-25B). Assim como os canais iônicos convencionais (discutido no Capítulo 11), os canais das junções do tipo fenda individuais não permanecem abertos todo o tempo; em vez disso, eles abrem e fecham continuamente. Essas alterações são induzidas por vários estímulos, in- cluindo a diferença de voltagem entre as duas células conectadas, o potencial de membrana de cada célula e várias propriedades químicas do citoplasma, incluindo o pH e a concentra- ção de Ca21 livre. Alguns subtipos de junções do tipo fenda também podem ser regulados por sinais extracelulares como os neurotransmissores. Estamos apenas começando a en- tender as funções fisiológicas e as bases estruturais desses vários mecanismos de controle. Cada placa de junção do tipo fenda é uma estrutura dinâmica que pode pronta- mente formar-se, dissociar-se ou ser remodelada, podendo ser formada por agrupamen- tos de poucos ou até centenas de conéxons (ver Figura 19-23B). Estudos com conexinas marcadas com fluoróforos em células vivas mostraram que novos conéxons são constan- temente adicionados à periferia de uma placa juncional, enquanto os velhos conéxons são removidos do interior e destruídos (Figura 19-26). Esta renovação é rápida: as molé- culas de conexinas têm meia-vida de poucas horas. O mecanismo de remoção dos velhos conéxons do meio interior da placa não é conhecido, mas a via de liberação de novos conéxons para a periferia parece clara. Eles são inseridos na membrana plasmática por exocitose, como as outras proteínas integrais de membrana, e então se difundem no plano da membrana até chegaram à periferia de uma placa de conéxon e ficarem aprisionados. Como resultado, a membrana plasmática distante da junção do tipo fenda deve ter conéxons – hemicanais – que ainda não parea- ram com seus correspondentes na outra célula. Acredita-se que esses hemicanais ainda não pareados sejam mantidos em uma conformação muito próxima, impedindo que a célula perca suas pequenas moléculas pelo vazamento entre eles. Entretanto, também há evidências de que, em algumas circunstâncias, eles podem abrir e atuar como canais para a liberação de pequenas moléculas sinalizadoras. Figura 19-25 Junções do tipo fenda. (A) Ilustração das membranas plasmáticas de duas células adjacentes interagindo. Cada bicamada lipídica é apresentada como um par de folhas. Os agrupamentos de proteínas chamados de conéxons (ver- de), cada um formado por seis subunida- des de conexinas, penetram as bicamadas justapostas. Dois conéxons unem-se através do espaço intercelular, formando um canal aquoso contínuo que conecta as duas células. (B) A organização das co- nexinas em conéxons, e dos conéxons em canais intercelulares. Os conéxons podem ser heteroméricos ou homoméricos, e os canais intercelulares podem ser homotí- picos ou heterotípicos. (C) Estrutura em alta resolução de um canal de junção do tipo fenda homomérico, determinada por cristalografia de raios X da conexina 26 humana. Nesta posição, temos uma visão de cima para baixo na direção do poro formado pelas seis subunidades de cone- xinas. A estrutura ilustra as características gerais do canal e sugere um poro com cer- ca de 1,4 nm, como previsto por estudos sobre a permeabilidade da junção do tipo fenda realizados com moléculas de vários tamanhos (ver Figura 19-24). (Código PDB: 2ZW3.) Membranas plasmáticas em interação Canal de 1,5 nm de diâmetro Conéxons compostos por 6 unidades Espaço de 2-4 nm Dois conéxons alinhados formando um canal aberto entre as células adjacentes (A) (B) Conexinas Conéxons Homomérico Heteromérico Homotípico Heterotípico Canais intercelulares (C) 1,4 nm CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1053 Nas plantas, os plasmodesmos realizam muitas das funções das junções do tipo fenda Os tecidos de uma planta são organizados por princípios diferentes daqueles dos ani- mais. Isso ocorre porque as células das plantas estão aprisionadas dentro de uma parede celular rígida composta por uma matriz extracelular rica em celulose e outros polissaca- rídeos, como veremos mais tarde. A parede celular das células adjacentes é firmemente fixada às suas vizinhas, eliminando a necessidade de as junções de ancoragem mante- rem as células no lugar. No entanto, a necessidade de contato célula-célula permanece. Assim, as células vegetais possuem apenas uma classe de junções intercelulares, os plas- modesmos. Como as junções do tipo fenda, eles conectam diretamente o citoplasma de duas células adjacentes. Nas plantas, entretanto, a parede celular entre um típico par de células adjacentes tem pelo menos 0,1 mm de espessura, e assim uma estrutura muito diferente da junção do tipo fenda é necessária para mediar a comunicação através dela. Os plasmodesmos solucionam o problema. Com poucas exceções especializadas, cada célula viva em uma planta superior é conectada à sua vizinha por essas estruturas, as quais formam finos canais citoplasmáticos através da parede celular. Como mostrado na Figura 19-27A, a membrana plasmática de uma célula é contínua com a de sua vizinha em cada plasmo- desmo, e o citoplasma das duas células é conectado por um canal mais ou menos cilín- drico, com um diâmetro de 20 a 40 nm. No interior do canal da maioria dos plasmodesmos há uma estrutura cilíndrica mais estreita, o desmotúbulo, que é contínuo com o retículo endoplasmático (RE) liso de cada célula (Figura 19-27B-D). Entre a porção externa do desmotúbulo e a face interna do canal cilíndrico formado pela membrana plasmática, há um anel de citosol através do qual pequenas moléculas passam de uma célula a outra. Como cada parede celular é formada na fase de citocinese durante a divisão celular, os plasmodesmos também são criados nessa fase. Eles se formam ao redor do retículo endoplasmático liso que fica aprisionado na placa celular em desenvolvimento (dis- cutido no Capítulo 17). Eles também podem se inserir de novo em paredescelulares preexistentes, onde normalmente são encontrados como agrupamentos denomina- dos campos minados. Os plasmodesmos podem ser removidos quando não são mais necessários. Apesar da diferença radical em estrutura entre os plasmodesmos e as junções do tipo fenda, eles parecem atuar de maneira semelhante. Evidências obtidas em experi- mentos onde são injetadas moléculas marcadoras de diferentes tamanhos sugerem que os plasmodesmos permitem a passagem de moléculas com peso molecular abaixo de 800, o que é similar ao tamanho permitido pelas junções do tipo fenda. O transporte através dos plasmodesmos é regulado como nas junções do tipo fenda. Experimentos com injeção de corantes mostram que pode haver barreiras à passagem mesmo de mo- léculas de baixo peso molecular entre certas células ou um grupo de células conectadas por plasmodesmos aparentemente normais. O mecanismo que restringe a comunicação nesses casos não é conhecido. Figura 19-26 Renovação das conexinas na junção do tipo fenda. As células foram transfectadas com um gene de conexina levemente modificado, que codifica uma conexina com uma pequena cauda de aminoácido contendo quatro cisteínas em sua sequência Cys-Cys-X-X-Cys-Cys (onde X significa qualquer aminoácido). Essa cauda de tetracisteína pode realizar uma ligação forte a determinadas moléculas pequenas de corantes fluo- rescentes que podem ser adicionadas ao meio de cultura e entrar facilmente na célula por difusão através da membrana plasmática. No início deste experimento, foi adicionado um corante verde para marcar as moléculas de conexina nas células e, a seguir, as células foram lavadas e incubadas por 4 a 8 horas. Após este período, foi adicionado um corante vermelho, e as células foram novamente lavadas e fixadas. As moléculas de conexina presentes no início do experimento eram marcadas em verde (e não absorviam corante vermelho porque suas caudas de tetracisteína já estavam saturadas com o corante verde), enquanto as conexinas sintetizadas subse- quentemente, durante as 4 a 8 horas de incubação, eram marcadas em vermelho. As imagens de fluorescência mostram as junções do tipo fenda entre os pares de células tratadas dessa maneira. A porção central da junção do tipo fenda é verde, indicando que é formada por moléculas de conexinas antigas, enquanto a periferia é vermelha, indicando que é formada por moléculas de conexinas sintetizadas durante as últimas 4 ou 8 horas de incubação. Quanto maior o tempo de incubação, menor a mancha verde central das moléculas antigas e maior o anel vermelho das novas moléculas na periferia, recrutadas para substituir as antigas. (De G. Gaietta et al., Science 296:503–507, 2002. Com permissão de AAAS.) CORTE TRANSVERSAL VISTA SUPERIOR 4 h de incubação 8 h de incubação 8 h de incubação 1 �m 2 �m 1054 PARTE V As células em seu contexto social As selectinas medeiam as adesões transitórias célula-célula na corrente sanguínea Agora completamos nossa visão geral sobre as junções e adesões célula-célula descre- vendo rapidamente alguns dos mecanismos de adesão mais especializados usados em alguns tecidos. Além daqueles já discutidos, pelo menos três outras superfamílias de proteínas de adesão célula-célula são importantes: as integrinas, as selectinas e os mem- bros da superfamília das imunoglobulinas (Ig). Discutiremos com maiores detalhes as integrinas mais adiante: sua principal função ocorre na adesão célula-matriz, mas algu- mas delas medeiam a adesão célula-célula em circunstâncias especiais. A dependência de Ca21 fornece uma maneira simples de distinguir experimentalmente as três classes de proteínas de adesão. As selectinas, como as caderinas e as integrinas, precisam de Ca21 para suas funções de adesão, ao contrário dos membros da superfamília das Igs. As selectinas são proteínas de superfície celular que se ligam a carboidratos (lec- tinas) que medeiam uma variedade de interações de adesão transitórias célula-célula na circulação sanguínea. Sua principal função, pelo menos nos vertebrados, é a coor- denação do tráfego dos leucócitos entre os órgãos linfoides normais e qualquer tecido inflamado. Os leucócitos têm vida nômade, vagando entre a circulação sanguínea e os tecidos, o que requer um comportamento especial de adesão. As selectinas controlam a ligação dos leucócitos às células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos, permi- tindo que as células sanguíneas migrem da circulação para os tecidos. Cada selectina é uma proteína transmembrana com um domínio lectina altamente conservado que se liga a oligossacarídeos específicos em outra célula (Figura 19-28A). Há pelo menos três tipos de selectinas: a L-selectina nos leucócitos, a P-selectina nas pla- quetas e nas células endoteliais que tenham sido localmente ativadas por uma resposta inflamatória, e a E-selectina nas células endoteliais ativadas. Em um órgão linfoide, como Citoplasma Plasmodesmos Membrana plasmática revestindo o plasmodesmo, conectando as duas células adjacentes Retículo endoplasmático liso Desmotúbulo Citosol Paredes celulares de células vegetais adjacentes 100 nm (B)(A) (C) Membrana plasmática Retículo endoplasmático Desmotúbulo Parede celular 0,1 �m (D) Parede celular Membrana plasmática Desmotúbulo 25 nm Figura 19-27 Plasmodesmos. (A) Os canais citoplasmáticos dos plasmodesmos furam a parede da célula vegetal e conectam as células da planta. (B) Cada plasmodesmo é revestido com uma membrana plasmática comum às duas células ligadas. Normal- mente, o plasmodesmo também contém uma estrutura tubular fina, o desmotúbulo, derivado do retículo endoplasmático liso. (C) Eletromicrografia de uma secção longitudinal de um plasmo- desmo de samambaia. A membrana plasmática reveste os poros e é contínua entre as células. Pode-se observar a associação do retículo endoplasmático com os desmotúbulos centrais. (D) Plasmodesmo similar visto em secção transversal. (C e D, de R. Overall, J. Wolfe e B.E.S. Gunning, em Protoplasma 111, pp. 134–150. Heidelberg: Springer-Verlag, 1982.) CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1055 um linfonodo ou o baço, as células endoteliais expressam oligossacarídeos que são reco- nhecidos pelas L-selectinas dos linfócitos, tornando os linfócitos lentos e aprisionando- -os. As células endoteliais, no local da inflamação, alteram a expressão das selectinas que reconhecem os oligossacarídeos nos leucócitos e nas plaquetas, marcando as células para que elas atuem no local da emergência. Contudo, as selectinas não atuam sozinhas; elas colaboram com as integrinas, que intensificam a ligação das células sanguíneas ao endotélio. As adesões célula-célula mediadas pelas selectinas e integrinas são heterofíli- cas, isto é, a ligação é a uma molécula diferente. As selectinas ligam-se a oligossacarídeos específicos nas glicoproteínas e nos glicolipídeos, enquanto as integrinas se ligam a pro- teínas específicas da família Ig. As selectinas e as integrinas atuam em sequência permitindo que os leucócitos deixem a circulação e migrem para os tecidos (Figura 19-28B). As selectinas medeiam uma fraca adesão porque a ligação do domínio de lectina da selectina ao seu ligante carboidrato é de baixa afinidade. Isso permite que os leucócitos se associem de forma fraca e reversível ao endotélio, rolando na superfície dos vasos, impelidos pelo flu- xo sanguíneo. O rolamento continua até que a célula sanguínea ative suas integrinas. Como veremos adiante, essas moléculas transmembrana podem ser alteradas para uma conformação adesiva que permite que elas se encaixem com macromoléculas específicas externas à célula – neste caso, com as proteínas da superfície das células endoteliais. Uma vez ligados dessa forma, os leucócitos escapam da circulação san- guínea para os tecidos, esgueirando-se entreas células endoteliais adjacentes e dei- xando a circulação sanguínea. Membros da superfamília de imunoglobulinas fazem a mediação da adesão célula-célula independente de Ca21 As principais proteínas das células endoteliais reconhecidas pelas integrinas dos leu- cócitos são denominadas moléculas de adesão de células intercelulares (ICAMs, inter- cellular cell adhesion molecules) ou moléculas de adesão de células vasculares (VCAM, vascular cell adhesion molecule). Elas são membros de outra grande e antiga família de moléculas de superfície celular, a superfamília de imunoglobulinas (Igs). Essas proteí- nas contêm um ou mais domínios extracelulares semelhantes às Igs, característicos das moléculas de anticorpos. Elas possuem várias funções fora do sistema imune que não estão relacionadas às defesas imunes. Enquanto as ICAMs e as VCAMs das células endoteliais medeiam ligações hete- rofílicas às integrinas, muitos outros membros da superfamília de Igs parecem mediar ligações homofílicas. Um exemplo é a molécula de adesão de células neural (NCAM, neural cell adhesion molecule), a qual é expressa por uma variedade de tipos celula- res, incluindo a maioria das células nervosas, e pode assumir diversas formas, geradas pelo processamento alternativo de um transcrito de RNA produzido por um único gene Lâmina basal FRACA ADESÃO E ROLAMENTO (dependente de selectina) FORTE ADESÃO E EMIGRAÇÃO (dependente de integrina) Vaso sanguíneo Leucócito Célula endotelial Filamento de actina Proteína de ancoragem Domínio de lectina Domínio semelhante ao EGF P-selectina ESPAÇO EXTRACELULAR CITOSOL (A) (B) Tecido Figura 19-28 Estrutura e função das selectinas. (A) Estrutura da P-selectina. A selectina liga-se ao citoesqueleto de actina por meio de proteínas adaptadoras que ainda são pouco conhecidas. (B) Adesões célula-célula mediadas pelas selectinas e integrinas necessárias à migração dos leucócitos através dos vasos sanguíneos para os tecidos. Primeiramente, as selec- tinas das células endoteliais ligam-se aos oligossacarídeos dos leucócitos de modo que eles se tornam frouxamente aderidos e rolam sobre a parede do vaso. Então, o leucócito ativa uma integrina de superfície celular denominada LFA1, que se liga a uma proteína denominada ICAM1 (per- tencente à superfamília de Igs) presente na membrana da célula endotelial. Os leucó- citos se aderem à parede do vaso e se des- locam para fora do vaso por um processo que requer outro membro da superfamília de imunoglobulinas denominado PECAM1 (ou CD31), não apresentado (Animação 19.2). EGF, fator de crescimento epidérmi- co (do inglês: epidermal growth fator). 1056 PARTE V As células em seu contexto social (Figura 19-29). Algumas formas de NCAM possuem uma quantidade incomumente grande de ácido siálico (com as cadeias contendo centenas de unidades repetidas de ácido siálico). Devido à sua carga negativa, as longas cadeias de ácido polissiálico podem interferir na adesão celular (porque cargas iguais se repelem); portanto essas formas de NCAM servem para inibir a adesão, e não para causá-la. Uma célula de um determinado tipo em geral usa várias proteínas de adesão dis- tintas para interagir com outras células, assim como cada célula usa vários receptores diferentes para responder a muitas moléculas sinalizadoras extracelulares solúveis em seu ambiente. Embora as caderinas e os membros da superfamília de Igs costumem ser expressos nas mesmas células, as adesões mediadas pelas caderinas são muito mais fortes e responsáveis por manterem as células unidas, segregando grupos de células e mantendo a integridade dos tecidos. Moléculas como a NCAM parecem contribuir para a regulação fina dessas interações adesivas durante o desenvolvimento e a regeneração, atuando em vários fenômenos de adesão como os discutidos para as células sanguíneas e endoteliais. Camundongos mutantes que não possuem caderina-N morrem logo no início do desenvolvimento, e mutantes que não possuem NCAM se desenvolvem nor- malmente, mas apresentam algumas anormalidades no desenvolvimento de determina- dos tecidos específicos, incluindo partes do sistema nervoso. Resumo No epitélio, bem como em outros tipos de tecidos, as células estão diretamente ligadas umas às outras por meio de fortes adesões célula-célula, mediadas por proteínas trans- membrana denominadas caderinas, que estão ancoradas intracelularmente ao citoesque- leto. As caderinas em geral se ligam umas às outras homofilicamente: a cabeça de uma molécula de caderina se liga à cabeça de uma caderina similar na célula oposta. Essa seletividade permite que populações mistas de células de diferentes tipos selecionem-se de acordo com a caderina específica que expressam, auxiliando no controle do rearranjo ce- lular durante o desenvolvimento. As caderinas clássicas nas junções aderentes estão ligadas ao citoesqueleto de actina por meio de proteínas adaptadoras intracelulares denominadas cateninas. Estas formam um complexo de ancoragem na cauda intracelular da molécula de caderina e estão envol- vidas não somente na ancoragem física, mas também na detecção e resposta à tensão e outros sinais reguladores na junção. As junções compactas selam os espaços entre as células epiteliais, criando uma barreira contra a difusão das moléculas através da camada celular, ao mesmo tempo ajudando a separar as populações de proteínas nos domínios apicais e basolaterais da membrana plasmática das células epiteliais. As claudinas são as principais proteínas transmembrana que formam as junções compactas. As proteínas de suporte intracelular organizam as claudinas e outras proteínas juncionais em uma rede de proteínas complexa que está ligada ao citoesqueleto de actina. Figura 19-29 Dois membros da super- família de Igs de moléculas de adesão célula-célula. A NCAM é expressa em neurônios e outros tipos celulares e me- deia uma ligação homofílica. A ICAM é ex- pressa nas células endoteliais e em alguns outros tipos celulares, ligando-se heterofi- licamente a uma integrina dos leucócitos. A NCAM e a ICAM são glicoproteínas, mas as cadeias de carboidratos ligadas não estão apresentadas. Ligação dissulfeto N N N Domínios semelhantes a Ig Domínios da fibronectina tipo III C C C CITOSOL 10 nm NCAM ICAM CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1057 As células de muitos tecidos animais são ligadas por junções do tipo fenda que pos- suem a forma de placas de agregados de conéxons, as quais permitem que moléculas meno- res que 1.000 dáltons passem diretamente do interior de uma célula para a célula vizinha. As células conectadas pelas junções do tipo fenda compartilham muito de seus íons inorgâ- nicos e outras pequenas moléculas, estando, portanto, química e eletricamente conectadas. Três classes adicionais de proteínas de adesão transmembrana medeiam uma ade- são célula-célula passageira: as selectinas, os membros da superfamília de imunoglobuli- nas e as integrinas. As selectinas são expressas nos leucócitos, nas plaquetas e nas células endoteliais. Elas se ligam heterofilicamente aos grupos de carboidratos nas superfícies ce- lulares, ajudando a mediar as interações de adesão entre essas células. As proteínas da superfamília de Igs também atuam nessas interações, bem como em outros processos de adesão. Algumas delas se ligam de maneira homofílica, e outras, de forma heterofílica. Embora as integrinas atuem sobremaneira na adesão das células na matriz extracelular, elas também medeiam a adesão célula-célula ao se ligarem especificamente às proteínas da superfamília de Igs. A MATRIZ EXTRACELULAR DOS ANIMAIS Os tecidos não são feitos somente de células. Eles também contêm uma extraordinária rede complexa e intrincada de macromoléculas que constituem a matriz extracelular.Essa matriz é composta por muitas proteínas diferentes e polissacarídeos que são se- cretados localmente e reunidos em uma rede organizada e em estreita associação com a superfície das células que os produzem. As classes de macromoléculas que constituem a matriz extracelular nos diferentes tecidos animais são globalmente semelhantes, mas as variações nas quantidades relati- vas dessas diferentes classes de moléculas e no modo como elas estão organizadas dão origem a uma surpreendente diversidade de materiais. A matriz pode tornar-se calcifi- cada para formar estruturas rígidas como os ossos e os dentes, ou pode formar a matriz transparente da córnea, ou ainda adotar a forma de cordões que originam os tendões e sua grande força tensora. Ela forma a gelatina das águas-vivas. Cobrindo o corpo de um besouro ou uma lagosta, forma uma rígida carapaça. Além disso, a matriz extracelular é mais do que uma sustentação passiva que fornece um suporte físico. Ela desempenha um papel complexo e ativo na regulação do comportamento das células que tocam, ha- bitam e estendem-se por suas malhas, influenciando sua sobrevivência, desenvolvimen- to, migração, proliferação, forma e função. Nesta seção, descreveremos as principais características da matriz extracelular dos tecidos animais, com ênfase nos vertebrados. Iniciaremos com uma visão geral das prin- cipais classes de macromoléculas da matriz e depois veremos a estrutura e função da lâmina basal, a fina camada de matriz extracelular especializada que se encontra abaixo das células epiteliais. Nas seções seguintes, descreveremos os diversos tipos de junções célula-matriz por meio das quais as células se conectam com a matriz. A matriz extracelular é produzida e orientada pelas células As macromoléculas que constituem a matriz extracelular são produzidas localmente pelas células na matriz. Como discutiremos adiante, essas células também ajudam a organizar a matriz. A orientação do citoesqueleto no interior da célula pode controlar a orientação da matriz do lado de fora. Na maioria dos tecidos conectivos, as macromo- léculas da matriz são secretadas por células denominadas fibroblastos (Figura 19-30). Em certos tipos especializados de tecido conectivo, como osso e cartilagem, elas são se- cretadas por células da família dos fibroblastos que possuem nomes mais específicos: os condroblastos, por exemplo, formam a cartilagem, e os osteoblastos, o osso. A matriz extracelular é formada por três principais classes de moléculas: (1) os gli- cosaminoglicanos (GAGs), que são grandes polissacarídeos altamente carregados, em geral covalentemente ligados às proteínas formando os proteoglicanos; (2) as proteínas fibrosas, que são, principalmente, membros da família do colágeno; e (3) uma grande classe de glicoproteínas não colagenosas, que possuem os oligossacarídeos ligados a asparagina convencionais (descritos no Capítulo 12). Todas as três classes de macro- moléculas possuem muitos membros e apresentam várias formas e tamanhos (Figura 10 �m Figura 19-30 Fibroblastos no tecido conec- tivo. Esta micrografia eletrônica de varredura mostra o tecido da córnea de rato. A matriz extracelular circundando os fibroblastos é composta principalmente por fibrilas de colá- geno. As glicoproteínas, as hialuronanas e os proteoglicanos, que costumam formar o gel hidratado preenchendo os interstícios da rede fibrosa, foram removidos por tratamento ácido e enzimático. (Cortesia de T. Nishida.) 1058 PARTE V As células em seu contexto social 19-31). Acredita-se que os mamíferos possuam cerca de 300 proteínas de matriz, in- cluindo cerca de 36 proteoglicanos, 40 colágenos e mais de 200 glicoproteínas, as quais costumam conter múltiplos subdomínios e se autoassociam para formar multímeros. Acrescente-se a isso o grande número de proteínas e enzimas associadas à matriz que podem modificar o comportamento da matriz por meio da ligação cruzada, degrada- ção ou outros mecanismos, e podemos começar a imaginar que a matriz é um material quase infinitamente variável. Cada tecido contém sua própria mistura única dos com- ponentes da matriz, resultando em uma matriz extracelular que é especializada para as necessidades daquele tecido. As moléculas de proteoglicanos no tecido conectivo formam uma “substância bá- sica” semelhante a um gel, altamente hidratada, na qual o colágeno e as glicoproteínas estão embebidos. O gel de polissacarídeos resiste a forças de compressão na matriz ao mesmo tempo em que permite a rápida difusão dos nutrientes, metabólitos e hormônios entre o sangue e as células dos tecidos. As fibras colágenas fortalecem e ajudam a orga- nizar a matriz, e as fibras de elastina, semelhantes à borracha, fornecem a resistência. Por fim, as diversas glicoproteínas da matriz auxiliam na migração, estabelecimento e diferenciação celular nos locais adequados. As cadeias de glicosaminoglicanos (GAGs) ocupam grande parte do espaço e formam géis hidratados Os glicosaminoglicanos (GAGs) são cadeias polissacarídicas não ramificadas compos- tas de unidades dissacarídicas repetidas. Um dos dois açúcares no dissacarídeo repetido é sempre um amino açúcar (N-acetilglicosamina ou N-acetilgalactosamina), o qual, na maioria das vezes, é sulfatado. O segundo açúcar normalmente é um ácido urônico (gli- curônico ou idurônico). Grupos sulfato ou carboxila ocorrem na maioria dos açúcares, e por isso os GAGs são negativamente carregados (Figura 19-32). De fato, eles são as mo- léculas mais aniônicas produzidas pelas células animais. Quatros principais grupos de GAGs são distinguidos de acordo com seus açúcares, o tipo de ligação entre os açúcares e o número e localização dos grupos sulfato: (1) hialuronana, (2) sulfato de condroitina e sulfato de dermatana, (3) sulfato de heparana e (4) sulfato de queratana. As cadeias polissacarídicas são muito rígidas para se enovelarem em estruturas globulares compactas e são muito hidrofílicas. Assim, os GAGs tendem a adotar uma conformação altamente estendida, que ocupa um grande volume com relação à sua massa (Figura 19-33), e formam géis hidratados mesmo a concentrações muito baixas. O peso dos GAGs no tecido conectivo costuma ser inferior a 10% do peso das proteínas, mas as cadeias de GAGs preenchem grande parte do espaço extracelular. Suas altas den- sidades de cargas negativas atraem uma nuvem de cátions, sobretudo Na1, que são os- moticamente ativos, fazendo grande quantidade de água ser absorvida pela matriz. Isso cria uma pressão por inchaço, ou turgência, que permite que a matriz suporte forças de compressão (ao contrário das fibras colágenas, que resistem às forças de distensão). A matriz da cartilagem que forma as articulações dos joelhos, por exemplo, pode suportar pressões de centenas de atmosferas. Defeitos na produção de GAGs podem afetar muitos sistemas do organismo. Por exemplo, em uma doença genética humana rara, há uma grave deficiência na síntese do dissacarídeo sulfato de dermatana. O indivíduo afetado possui baixa estatura, aparên- cia prematuramente envelhecida e defeitos generalizados na pele, nas articulações, nos músculos e nos ossos. 100 nm Nidogênio Decorina Hialuronana Fibronectina Colágeno fibrilar Laminina Agrecana Colágeno tipo IV Perlecana Proteoglicanos e GAGs Proteínas fibrosas Glicoproteínas Figura 19-31 Comparação entre as formas e os tamanhos de algumas das principais macromoléculas da matriz extracelular. As proteínas são mostradas em verde, e os glicosa- minoglicanos (GAG), em vermelho. Figura 19-32 Sequência repetida de dissacarídeos da cadeia de glicosami- noglicanos (GAGs) do grupo sulfato de heparana. Essas cadeias podem ser com- postas por até 200 moléculas de unidades de dissacarídeos, mas em geral têm meta- de desse tamanho. Há uma alta densidade de cargas negativas ao longo da cadeia,resultante da presença dos grupos sulfato e carboxila. A molécula é representada aqui com o número máximo de grupos sulfato. In vivo, a proporção de grupos sulfatados e não sulfatados é variável. A heparina geralmente possui > 70% de sul- fatação, enquanto o sulfato de heparana possui < 50%. OH O COO OSO3 OSO3 NHSO3 O O CH2OSO3 O OH O COO OSO3 OSO3 NHSO3 O O CH2OSO3 Repetição dissacarídica N-acetilglicosamina Ácido glicurônico CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1059 A hialuronana atua como um preenchedor de espaços durante a morfogênese e o reparo A hialuronana (também chamada de ácido hialurônico ou hialuronato) é o mais sim- ples dos GAGs (Figura 19-34). Ela consiste em uma sequência repetida regular de até 25 mil unidades dissacarídicas não sulfatadas, encontrada em quantidades variáveis em todos os tecidos e fluidos adultos animais, sendo especialmente abundante no embrião no início do desenvolvimento. A hialuronana não é um GAG típico porque não contém açúcares sulfatados, todas as suas unidades dissacarídicas são idênticas, o tamanho de sua cadeia é enorme e em geral não está ligado covalentemente com qualquer proteína central. Além disso, enquanto outros GAGs são sintetizados dentro da célula e liberados por exocitose, a hialuronana é liberada diretamente da superfície celular por um com- plexo enzimático embebido na membrana plasmática. A hialuronana possui uma função de resistência a forças de compressão nos teci- dos e nas articulações. É também importante como preenchedor de espaço durante o desenvolvimento embrionário, quando pode ser usada para forçar a mudança da forma e da estrutura, pois pequenas quantidades se expandem com a água para ocupar um grande volume. A hialuronana sintetizada na porção basal do epitélio, por exemplo, fre- quentemente serve para criar um espaço livre de células para o qual as células irão mi- grar. Na formação do coração, por exemplo, a síntese de hialuronana auxilia na formação das válvulas e dos septos que separam as câmaras cardíacas. Um processo similar ocorre em vários outros órgãos. Quando a migração celular termina, o excesso de hialuronana em geral é degradado pela enzima hialuronidase. A hialuronana também é produzida em grandes quantidades durante a cicatrização, sendo um importante constituinte do fluido das articulações, onde atua como um lubrificante. Os proteoglicanos são compostos de cadeias de GAGs covalentemente ligadas a um núcleo proteico Com exceção da hialuronana, todos os GAGs são covalentemente ligados a uma proteína na forma de proteoglicanos, os quais são produzidos pela maioria das células animais. A cadeia polipeptídica, ou núcleo proteico, de um proteoglicano é produzida pelos ribos- somos ligados à membrana e liberados no lúmen do retículo endoplasmático. As cadeias polissacarídicas são principalmente reunidas nesse núcleo proteico no aparelho de Gol- gi. Um conector tetrassacarídico especial é unido a uma serina na cadeia lateral do núcleo proteico para atuar como um iniciador para o crescimento do polissacarídeo, e então um açúcar é adicionado de cada vez por glicosiltransferases específicas (Figura 19-35). Ain- da no aparelho de Golgi, muitos dos açúcares polimerizados são covalentemente modi- ficados por uma série de reações sequenciais coordenadas. As epimerizações alteram a configuração dos substituintes ao redor de átomos de carbono individuais na molécula de açúcar, e a sulfatação aumenta a carga negativa. Os proteoglicanos são facilmente distinguíveis das outras glicoproteínas pela natu- reza, quantidade e arranjo de suas cadeias laterais de açúcares. Por definição, pelo menos uma cadeia lateral de açúcar de um proteoglicano deve ser um GAG. Enquanto as glicopro- teínas costumam apresentar cadeias de oligossacarídeos relativamente curtas e ramificadas Proteína globular (PM 50.000) Glicogênio (PM ~400.000) Espectrina (PM 460.000) Colágeno (PM 290.000) Hialuronana (PM 8 x 106) 300 nm Figura 19-33 Dimensões relativas e volumes ocupados por várias macromo- léculas. Várias proteínas, um grânulo de glicogênio e uma molécula de hialuronana simples hidratada são mostrados. Figura 19-34 Sequência de dissacarí- deo repetida na hialuronana, um GAG relativamente simples. Esta molécula ubíqua nos vertebrados consiste em uma única cadeia longa de até 25 mil monô- meros de açúcar. Observe a ausência de grupos sulfato. O CH2OH NHCOCH3 OH OH HO O O O COO Repetição dissacarídica N-acetilglicosamina Ácido glicurônico O CH2OH NHCOCH3 OH OH HO O O COO 1060 PARTE V As células em seu contexto social que contribuem para uma pequena fração do seu peso, os proteoglicanos podem conter até 95% de seu peso em carboidratos, sendo a grande maioria na forma de longas cadeias GAGs não ramificadas, cada uma em geral com cerca de 80 açúcares de comprimento. Em princípio, os proteoglicanos possuem um potencial quase ilimitado de hetero- geneidade. Mesmo um único tipo de núcleo proteico pode variar bastante no número e nos tipos de cadeias de GAGs a ele ligadas. Além disso, o padrão de repetição dos dissa- carídeos em cada GAG pode ser modificado por um padrão complexo de grupos sulfato. Os núcleos proteicos também são diversos, embora muitos compartilhem alguns domí- nios característicos, como o domínio LINK envolvido na ligação dos GAGs. Os proteoglicanos podem ser enormes. O proteoglicano agrecana, por exemplo, o principal componente da cartilagem, possui uma massa de 3 × 106 dáltons com mais de cem cadeias de GAGs. Outros proteoglicanos são muito menores e possuem somente 1 a 10 cadeias de GAGs. Um exemplo é a decorina, a qual é secretada por fibroblastos e pos- sui apenas uma cadeia de GAGs (Figura 19-36). A decorina se liga às fibrilas de colágeno e regula a união e o diâmetro das fibrilas. Camundongos que não produzem decorinas possuem pele frágil com força tensora reduzida. Os GAGs e os proteoglicanos desses vá- rios tipos podem se associar para formar complexos poliméricos ainda maiores na ma- triz extracelular. Moléculas de agrecana, por exemplo, unem-se à hialuronana na matriz da cartilagem para formar agregados do tamanho de uma bactéria (Figura 19-37). Além da associação de um com o outro, os GAGs e os proteoglicanos se associam a proteí- nas fibrosas da matriz como o colágeno, criando compostos extremamente complexos (Figura 19-38). Nem todos os proteoglicanos são componentes secretados na matriz extracelular. Alguns são componentes integrais das membranas plasmáticas e possuem seu núcleo proteico inserido na bicamada lipídica ou ligado à bicamada lipídica ancorado pelo gli- cosilfosfatidilinositol (GPI). Entre os proteoglicanos de membrana plasmática mais bem caracterizados estão as sindecanas, as quais possuem um núcleo proteico que atravessa a membrana, cujo domínio intracelular supostamente interage com o citoesqueleto de actina e com moléculas sinalizadoras no córtex celular. As sindecanas estão localizadas na superfície de muitos tipos celulares, incluindo fibroblastos e células epiteliais. Nos fibroblastos, as sindecanas podem ser encontradas nas adesões focais, onde modulam a Figura 19-35 A conexão entre as cadeias de GAGs e o seu núcleo pro- teico em uma molécula de proteogli- cano. Um tetrassacarídeo específico de conexão é primeiramente unido a uma cadeia lateral de serina. O resto da cadeia de GAGs, que consiste sobretudo em uni- dades de dissacarídeos repetidas, é, então, sintetizado, com um açúcar sendo adicio- nado a cada vez. No sulfato de condroiti- na, o dissacarídeo é composto por ácido d-glicurônico e N-acetil-d-galactosamina; no sulfato de heparana, é ácido d-glicurô- nico ou ácido l-idurônico e N-acetil-d- -galactosamina; no sulfato de queratana é d-galactose e N-acetil-d-glicosamina.H H N C C O OCH2 n Conector tetrassacarídico GAG Núcleo proteico Serina Xilose Galactose Ácido glicurônicoGalactose Repetição dissacarídica DECORINA (PM ~40.000) AGRECANA (PM ~3 x 106) RIBONUCLEASE (PM ~15.000) Pequena cadeia lateral de oligossacarídeo ramificada Cadeia polipeptídica Núcleo proteico GAG 100 nm Figura 19-36 Exemplos de um pro- teoglicano grande (agrecana) e um pequeno (decorina), encontrados na matriz extracelular. Eles são comparados a uma molécula secretada de glicoproteína típica, a ribonuclease B pancreática. Todos estão desenhados em escala. Os núcleos proteicos de ambos os proteoglicanos, agrecana e decorina, contêm cadeias de oligossacarídeos, bem como as cadeias de GAGs, mas as primeiraas não são mostra- das. A agrecana consiste em cerca de cem cadeias de sulfato de condroitina e cerca de 30 cadeias de sulfato de queratana li- gadas a um núcleo proteico rico em serina de aproximadamente 3 mil aminoácidos. A decorina “decora” a superfície das fibrilas de colágeno (daí o nome). CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1061 função da integrina pela interação com a fibronectina na superfície celular e com o cito- esqueleto e proteínas sinalizadoras do interior da célula. Como discutiremos adiante, as sindecanas e outros proteoglicanos também interagem com peptídeos solúveis de fato- res de crescimento, influenciando seus efeitos no crescimento e na proliferação celular. Os colágenos são as principais proteínas da matriz extracelular A família dos colágenos é constituída pelas proteínas fibrosas encontradas em todos os animais multicelulares. Elas são secretadas pelas células do tecido conectivo e por uma variedade de outros tipos celulares. Como principal componente da pele e dos ossos, os colágenos são as proteínas mais abundantes nos mamíferos, constituindo 25% da massa proteica total desses animais. A principal característica de uma molécula de colágeno típica é a estrutura longa e rígida de sua fita tripla helicoidal, na qual três cadeias polipeptídicas de colágeno, de- nominadas cadeias a, são enroladas umas nas outras formando uma super-hélice seme- lhante a uma corda (Figura 19-39). Os colágenos são extremamente ricos em prolina e glicina, importantes na formação da hélice de três fitas. 1 �m Molécula de hialuronana Sulfato de queratana Sulfato de condroitina Proteína conectora Núcleo proteico (agrecana) (B) 1 �m Agregado de agrecana (A) 1 �m Molécula de hialuronana Sulfato de queratana Sulfato de condroitina Proteína conectora Núcleo proteico (agrecana) (B) 1 �m Agregado de agrecana (A) Figura 19-37 Agregado de agrecana da cartilagem de um feto bovino. (A) Micrografia eletrônica de um agregado de agrecana sombreado com platina. Várias moléculas de agrecana livres também são visualizadas. (B) Ilustração esquemática do agregado de agrecana gigante mostrado em (A). O agregado consiste em aproxi- madamente cem monômeros de agrecana (cada um como o mostrado na Figura 19-36) ligados não covalentemente pelo domínio N-terminal ao núcleo proteico de uma única cadeia de hialuronana. Uma proteína liga o núcleo proteico do proteoglicano com a cadeia de hialurona- na, estabilizando o agregado. As proteínas de conexão são membros da família das proteínas de ligação de hialuronana, algu- mas das quais são proteínas de superfície celular. A massa molecular deste complexo pode ser de 108 dáltons ou mais e ocupa um volume equivalente ao de uma bac- téria, que é cerca de 2 × 10212 cm3. (A, cortesia de Lawrence Rosenberg.) Figura 19-38 Proteoglicanos na matriz extracelular da cartilagem de rato. O tecido foi rapidamente congelado a 2196oC, fixado e corado ainda congelado (por um processo chamado de criossubs- tituição) para evitar o colapso das cadeias de GAGs. Nesta eletromicrografia, as moléculas de proteoglicanos são vistas for- mando uma rede de filamentos finos, na qual uma única fibrila de colágeno estria- do está embutida. As partes mais coradas (escuras) das moléculas de proteoglicanos são o núcleo proteico; os fios menos cora- dos são as cadeias de GAGs. (Reproduzida de E.B. Hunziker e R.K. Schenk, J. Cell Biol. 98:277–282, 1984. Com permissão de The Rockefeller University Press.) Fibrila do colágeno 0,5 �m 1062 PARTE V As células em seu contexto social O genoma humano contém 42 genes distintos que codificam diferentes cadeias a de colágeno. Diversas combinações desses genes são expressas em diferentes tecidos. Embora, a princípio, milhares de tipos de moléculas de colágeno de fita tripla possam se agrupar em várias combinações das 42 cadeias a, somente um número limitado de com- binações de hélices triplas é possível, e cerca de 40 tipos de moléculas de colágeno foram encontrados. O colágeno tipo I é o mais comum, sendo o principal encontrado na pele e nos ossos. Ele pertence à classe dos colágenos fibrilares, ou colágenos formadores de fibrilas, que, após serem secretados no espaço extracelular, reúnem-se em polímeros de ordem superior denominados fibrilas de colágeno, que são estruturas finas (10 a 300 nm de diâmetro) com centenas de micrômetros de comprimento nos tecidos maduros, onde são claramente visíveis por micrografia eletrônica (Figura 19-40, ver também Fi- gura 19-38). As fibrilas de colágeno costumam se agregar em feixes semelhantes a cabos, muito maiores, com vários micrômetros de diâmetro, os quais podem ser vistos ao mi- croscópio óptico como fibras colágenas. Os colágenos tipo IX e XII são denominados colágenos associados a fibrilas porque decoram a superfície das fibrilas de colágeno. Acredita-se que eles ligam essas fibrilas umas às outras e a outros componentes na matriz extracelular. O tipo IV é um colágeno formador de rede, constituindo a maior parte da lâmina basal, enquanto as moléculas do tipo VII formam dímeros que se reúnem em estruturas especializadas denominadas fibrilas de ancoragem. As fibrilas de ancoragem auxiliam a conexão da lâmina basal do epitélio de múltiplas camadas ao tecido conectivo subjacente e, portanto, são especial- mente abundantes na pele. Há também inúmeras proteínas “tipo colágeno” contendo curtos segmentos semelhantes ao colágeno. Estas incluem o colágeno tipo XVII, que possui um domínio transmembrana e é encontrado nos hemidesmossomos, e o tipo XVIII, no núcleo proteico do proteoglicano da lâmina basal. Muitas proteínas que contêm um padrão repetido de aminoácidos evoluíram de duplicações das sequências de DNA. Os colágenos fibrilares aparentemente surgiram dessa forma. Assim, os genes que codificam as cadeias a da maioria desses colágenos são muito grandes (até 44 quilobases de comprimento) e contêm cerca de 50 éxons. A maioria dos éxons possui 54 ou múltiplos de 54 nucleotídeos de comprimento, su- gerindo que esses colágenos surgiram por duplicações múltiplas de um gene primor- Figura 19-39 Estrutura de uma molécula típica de colágeno. (A) Modelo parcial de uma única ca- deia a de colágeno na qual cada aminoácido é representado por uma esfera. A cadeia contém cerca de mil aminoácidos e é organizada como uma hélice para a esquerda, contendo três aminoácidos por volta, sendo que o terceiro é sempre uma glicina. Portanto, uma cadeia a é composta por uma série de trincas da sequência Gly-X-Y, onde X e Y podem ser qualquer aminoácido (embora, em geral, o X seja uma pro- lina e o Y uma hidroxiprolina, uma forma de prolina que é quimicamente modificada durante a síntese do colágeno na célula). (B) Modelo parcial de uma molécula de colágeno em que as três cadeias a, cada uma representada por uma cor diferente, são enroladas umas nas outras, formando a hélice de fita tripla em forma de bastão. A glicina é o único aminoácidopequeno o suficiente para ocupar o interior da tripla hélice. Apenas um curto segmento da molécula está representado; o comprimento total da molécula é de 300 nm. (A partir do modelo de B.L. Trus.) y y y y y y y y y y x x x x x x x x x x 1,5 nm Glicina (A) (B) Figura 19-40 Fibroblasto circundado por fibrilas de colágeno no tecido conectivo embrionário da pele de ave. Nesta micrografia eletrônica, as fibrilas estão organizadas em feixes que correm aproximadamente em ângulo de 90o entre si. Assim, alguns feixes estão orientados longitudinalmente, enquanto outros são vistos em corte transversal. As fibrilas de colágeno são produzidas pelos fibroblastos. (De C. Ploetz, E.I. Zycband e D.E. Birk, J. Struct. Biol. 106:73–81, 1991. Com permissão de Elsevier.) 1 �m CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1063 dial contendo 54 nucleotídeos e codificando exatamente seis repetições Gly-X-Y (ver Figura 19-39). A Tabela 19-2 apresenta detalhes adicionais de alguns tipos de colágeno discuti- dos neste capítulo. Os colágenos secretados associados a fibrilas ajudam a organizá-las Ao contrário dos GAGs, que resistem às forças compressoras, as fibrilas de colágeno for- mam estruturas que resistem às forças tensoras. As fibrilas possuem vários diâmetros e estão organizadas de diferentes formas em diferentes tecidos. Na pele dos mamíferos, por exemplo, elas estão entrelaçadas, como no vime, para resistir às tensões em múlti- plas direções; o couro consiste desse material, adequadamente preservado. Nos tendões, as fibrilas de colágeno estão organizadas em feixes paralelos alinhados ao longo do eixo principal de tensão. No osso maduro e na córnea, elas estão arranjadas em camadas or- denadas como em madeira compensada, com as fibrilas de cada camada paralelas entre si e quase em ângulo reto com as fibrilas nas camadas dos dois lados. O mesmo arranjo ocorre na pele de girinos (Figura 19-41). As próprias células do tecido conectivo devem determinar o tamanho e o arranjo das fibrilas de colágeno. As células podem expressar um ou mais genes para diferentes tipos de moléculas de colágeno fibrilares. Mesmo as fibrilas compostas pela mesma mistura de colágenos possuem diferentes arranjos em diferentes tecidos. Como isso é conseguido? Parte da resposta é que as células podem regular a disposição das mo- léculas de colágeno após a secreção, conduzindo a formação das fibrilas de colágeno próximo à membrana plasmática. Além disso, as células podem influenciar essa orga- nização secretando, juntamente com os colágenos fibrilares, diferentes quantidades de TABELA 19-2 Alguns tipos de colágeno e suas propriedades Tipo Forma polimerizada Distribuição nos tecidos Fenótipo mutante Formador de fibrila (fibrilar) I Fibrila Ossos, pele, tendões, ligamentos, córnea, órgãos internos (constituem cerca de 90% do colágeno do corpo) Graves defeitos ósseos, fraturas (osteogenesis imperfecta) II Fibrila Cartilagem, disco intervertebral, notocorda, humor vítreo do olho Deficiência de cartilagem, nanismo (condrodisplasia) III Fibrila Pele, vasos sanguíneos, órgãos internos Fragilidade cutânea, perda das articulações, suscetibilidade a ruptura dos vasos sanguíneos (síndrome de Ehlers-Danlos) V Fibrila (com tipo I) O mesmo para o tipo I Pele frágil, articulações frouxas, vasos sanguíneos fáceis de romper XI Fibrila (com tipo II) O mesmo para o tipo II Miopia, cegueira Associado a fibrilas IX Associação lateral com fibrilas tipo II Cartilagem Osteoartrite Formador de rede IV Rede em forma de camada Lâmina basal Doença renal (glomerulonefrite), surdez VII Fibrilas ancoradouras Abaixo do epitélio escamoso estratificado Bolhas na pele Transmembrana XVII Não fibrilar Hemidesmossomos Bolhas na pele Núcleo proteico de proteoglicano XVIII Não fibrilar Lâmina basal Miopia, descolamento da retina, hidrocefalia Note que os tipos I, IV, V, IX e XI são compostos de dois ou três tipos de cadeias a (distintas, grupos que não se sobrepõem em cada caso), enquanto os tipos II, III, VII, XVII e XVIII são compostos de apenas um tipo de cadeia a. Figura 19-41 Fibrilas de colágeno da pele de um girino. Esta micrografia eletrônica mostra o arranjo contínuo e entrecruzado das fibrilas de colágeno: camadas sucessivas de fibrilas se posicionam, umas em relação às outras, em ângulos retos. Tal arranjo também é encontrado em ossos maduros e na córnea. (Cortesia de Jerome Gross.) 5 �m 1064 PARTE V As células em seu contexto social outras macromoléculas de matriz. Em particular, elas secretam a proteína fibrosa fibro- nectina, como veremos mais adiante, e essa secreção precede a formação das fibrilas de colágeno e ajuda na sua organização. Acredita-se que os colágenos associados a fibrilas, como os colágenos tipo IX e XII, sejam especialmente importantes na organização das fibrilas de colágeno. Eles dife- rem do colágeno fibrilar nos seguintes aspectos. Primeiro, sua estrutura de hélice de fita tripla é interrompida por um ou dois pequenos domínios não helicoidais que tornam a molécula mais flexível do que as moléculas de fibrilas de colágeno. Segundo, eles não se agregam uns aos outros para formar fibrilas no espaço extracelular. Ao contrário, eles se ligam à superfície das fibrilas formadas pelo colágeno fibrilar de forma periódica. Molé- culas do tipo IX ligam-se às fibrilas contendo colágeno tipo II nas cartilagens, na córnea e no humor vítreo (Figura 19-42), enquanto as moléculas do tipo XII ligam-se às fibrilas contendo colágeno tipo I nos tendões e em vários tecidos. Os colágenos associados às fibrilas parecem mediar as interações das fibrilas de colágeno umas com as outras e com outras macromoléculas da matriz. Dessa forma, eles atuam na determinação da organização das fibrilas na matriz. As células auxiliam na organização das fibrilas de colágeno que secretam, exercendo tensão na matriz As células interagem mecânica e quimicamente com a matriz extracelular, e estudos em cultura sugerem que a interação mecânica pode ter efeitos dramáticos na arquitetura do tecido conectivo. Assim, quando os fibroblastos são misturados com uma malha de fibri- las de colágeno orientadas ao acaso que forma um gel nas placas de cultura de células, os fibroblastos puxam essa malha, extraindo colágeno das vizinhanças e, desse modo, fazendo com que o gel se contraia a uma pequena fração do seu volume inicial. Por ativi- dades similares, um agrupamento de fibroblastos circunda a si mesmo com uma cápsula densa de fibras de colágeno orientadas ao seu redor. Se dois pequenos pedaços de tecido embrionário contendo fibroblastos são co- locados longe do gel de colágeno, o colágeno interveniente organiza-se em uma banda compacta de fibras alinhadas que conectam os dois explantes (Figura 19-43). Os fibro- blastos migram, subsequentemente, para fora dos explantes junto com as fibras de colá- geno alinhadas. Assim, os fibroblastos influenciam o alinhamento das fibras de coláge- no, as quais, por sua vez, afetam a distribuição dos fibroblastos. Os fibroblastos podem ter funções semelhantes na organização da matriz extrace- lular dentro do corpo. Primeiro, eles sintetizam as fibrilas de colágeno e as depositam na orientação correta. A seguir, trabalham na matriz que secretam, arrastando-se sobre ela e puxando para criar os tendões e os ligamentos e as duras e densas camadas de tecido conectivo que circundam e mantêm a maioria dos órgãos. (A) Molécula de colágeno tipo IX Fibrila de colágeno tipo II (B) (C) 100 nm Figura 19-42 Colágeno tipo IX. (A) Ilustração esquemática de moléculas de colá- geno tipo IX em padrão periódico, ligando-se à superfície de uma fibrila contendo colágeno tipo II. (B) Micrografia eletrônica com sombreamento rotatóriode uma fibrila contendo colágeno tipo II de cartilagem, revestida com moléculas de colágeno tipo IX. (C) Uma molécula individual de colágeno tipo IX. (B e C, de L. Vaughan et al., J. Cell Biol. 106:991–997, 1988. Com permissão de The Rockefeller University Press.) 1 mm Figura 19-43 Organização da forma da matriz extracelular pelas células. Esta micrografia mostra uma região entre dois pedaços de coração embrionário de ave (rico em fibroblastos, como as células do músculo cardíaco) cultivados sobre um gel de colágeno, durante quatro dias. Um cordão denso de fibras de colágeno alinhadas foi formado entre os explantes, supostamente como resultado dos “pu- xões” dos fibroblastos do explante no colágeno. (De D. Stopak e A.K. Harris, Dev. Biol. 90:383–398, 1982. Com permissão de Academic Press.) CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1065 A elastina confere elasticidade aos tecidos Muitos tecidos de vertebrados, como a pele, os vasos sanguíneos e os pulmões, necessitam de força elástica para exercerem sua função. Uma rede de fibras elásticas da matriz extra- celular desses tecidos lhes confere resistência para retorcer após um estiramento transitório (Figura 19-44). As fibras elásticas são, pelo menos, cinco vezes mais extensíveis do que uma tira de borracha com a mesma área transversal. As longas e inelásticas fibrilas de colágeno são entrelaçadas com as fibras elásticas para limitar a distensão e evitar que o tecido rasgue. O principal componente das fibras elásticas é a elastina, uma proteína altamente hidrofóbica (com cerca de 750 aminoácidos de comprimento), a qual, como o colágeno, é rica em prolina e glicina, mas, ao contrário do colágeno, não é glicosilada. A tropoelastina solúvel (o precursor biossintético da elastina) é secretada no espaço extracelular e reuni- da em fibras elásticas próximo à membrana plasmática, em geral em invaginações da su- perfície celular. Após a secreção, as moléculas da tropoelastina tornam-se altamente in- tercruzadas umas às outras, formando uma extensa rede de fibras e camadas de elastina. A proteína elastina é composta, principalmente, de dois tipos de pequenos seg- mentos que se alternam ao longo da cadeia polipeptídica: os segmentos hidrofóbicos, que são responsáveis pelas propriedades elásticas da molécula, e os segmentos de a-hélices ricas em lisina e alanina, os quais são ligados de maneira cruzada às moléculas adjacentes por ligações covalentes dos resíduos de lisina. Cada segmento é codificado por um éxon independente. Ainda há controvérsias a respeito da conformação das mo- léculas de elastina nas fibras elásticas, e de como a estrutura dessas fibras confere tais propriedades de elasticidade. Para alguns, a cadeia polipeptídica de elastina, como as cadeias de polímeros na borracha comum, adota uma conformação frouxa e aleatória, sendo esta estrutura de mola das moléculas componentes com ligação cruzada nas fi- bras elásticas da rede que permite que toda a rede se distenda e volte à forma original como uma borracha (Figura 19-45). A elastina é a proteína de matriz extracelular predominante nas artérias e com- preende 50% do peso seco da maior artéria, a aorta (ver Figura 19-44). Mutações no gene da elastina causam deficiência da proteína em camundongos e no homem, resultando em um estreitamento da aorta e de outras artérias como resultado da proliferação ex- cessiva das células do músculo liso na parede arterial. Aparentemente, a elasticidade da artéria normal é necessária para frear a proliferação dessas células. As fibras de elastina não são compostas somente de elastina. O núcleo de elastina é coberto por uma camada de microfibrilas, cada uma apresentando um diâmetro de cerca de 10 nm. Elas são produzidas, durante o desenvolvimento dos tecidos, antes da elastina e parecem formar um suporte no qual as moléculas de elastina secretadas são depositadas. Arranjos de microfibrilas são elásticos e em alguns locais persistem na au- sência de elastina: eles mantêm o cristalino dos olhos no lugar, por exemplo. As microfi- Figura 19-44 Fibras elásticas. Estas micrografias eletrônicas de varredura mos- tram uma parte de um segmento da aorta de cachorro em pequeno aumento (A), e uma vista em alta resolução da densa rede de fibras elásticas orientadas longitudinal- mente na camada externa do mesmo vaso sanguíneo (B). Todos os outros componen- tes foram removidos pela ação de enzimas e ácido fórmico. (De K.S. Haas et al., Anat. Rec. 230:86–96, 1991. Com permissão de Wiley-Liss.) (A) 1 mm (B) 100 �m 1066 PARTE V As células em seu contexto social brilas são compostas de uma série de glicoproteínas distintas, incluindo uma grande gli- coproteína, a fibrilina, a qual se liga à elastina e é essencial para a integridade das fibras elásticas. Uma mutação no gene da fibrilina resulta na síndrome de Marfan, uma doença humana relativamente comum. Nos indivíduos mais afetados, a aorta está sujeita a rup- turas; outro efeito comum é o deslocamento do cristalino e anormalidades no esqueleto e nas articulações. Os indivíduos afetados costumam ser altos e magros. Suspeita-se de que Abraham Lincoln apresentasse tal alteração. A fibronectina e outras glicoproteínas multidomínios auxiliam na organização da matriz Além dos proteoglicanos, colágenos e fibras elásticas, a matriz extracelular contém mui- tos tipos variados de glicoproteínas que em geral possuem múltiplos domínios, cada um com um sítio de ligação específico para outra macromolécula da matriz e para os recep- tores de superfície celular (Figura 19-46). Essas proteínas contribuem para a organização da matriz, auxiliando a ligação das células. Como os proteoglicanos, elas também guiam o movimento celular nos tecidos em desenvolvimento, servindo como trilhos, ao longo dos Figura 19-45 Distensão de uma rede de moléculas de elastina. As moléculas são unidas por ligações covalentes (vermelho), produzindo uma rede entrecruzada. No modelo mostrado, cada molécula de elastina da rede pode expandir-se e contrair-se aleatoriamente, como uma mola, de modo que toda a estrutura pode ser distendida e retornar à forma original, como uma fita elástica. Fibra elástica ESTICA RELAXA Ligação cruzada Molécula de elastina Figura 19-46 Complexo das glicoproteínas da matriz extracelular. Muitas glicoproteínas da matriz são grandes proteínas de suporte contendo múltiplas cópias de domínios es- pecíficos de interação com proteínas. Cada domínio é enovelado em discretas estruturas globulares, e muitos desses domínios estão distribuídos ao longo da proteína como contas em um colar. Este diagrama mostra quatro proteínas representativas entre as cerca de 200 glicoproteínas de matriz encontradas em ma- míferos. Cada proteína contém múltiplos do- mínios repetidos, com seus nomes descritos na legenda da figura. A fibronectina, por exemplo, contém numerosas cópias de três diferentes repetições de fibronectina (tipos I a III, descritos como FN1, FN2 e FN3). Duas repetições do tipo III próximas à extremidade C-terminal contêm sítios de ligação importantes para as integri- nas de superfície celular, ao passo que outras repetições FN estão envolvidas na ligação da fibrina, colágeno e heparina, como indicado no diagrama (ver Figura 19-47). Outras proteínas de matriz contêm sequências repetidas que se assemelham àquelas do fator de crescimento epidérmico (EGF), o principal regulador do crescimento e proliferação celular. Essas re- petições podem desempenhar uma função de sinalização similar nas proteínas da matriz. Outras proteínas contêm domínios, como as repetições da proteína de ligação do fator de crescimento semelhante à insulina (IGFBP), que se liga e regula a função de fatores de cresci- mento solúveis. Para acrescentar maior diver- sidade estrutural, muitas dessas proteínassão codificadas por transcritos de RNA que podem ser processados de diferentes maneiras, adi- cionando ou removendo éxons, como aqueles na fibronectina. Finalmente, as funções regula- doras e de sustentação de muitas proteínas de matriz são expandidas ainda mais por meio da reunião em formas multiméricas, como apesen- tado à direita da figura. A fibronectina forma dímeros ligados na porção C-terminal, ao passo que a tenascina e a trombospondina formam hexâmeros e trímeros ligados na porção N- -terminal, respectivamente. Outros domínios incluem quatro repetições de trombospondina (TSPN, TSP1, TSP3, TSP_C). VWC, von Wille- brand tipo C (do inglês, von Willebrand type C); FBG, semelhante ao fibrinogênio (do inglês, fibrinogen-like). (Adaptada de R.O. Hynes e A. Naba, Cold Spring Harb. Perspect. Biol. 4:a004903, 2012.) N C N C N C N C Fibronectina CYR61 Tenascina Trombospondina LEGENDA PARA OS DOMÍNIOS REPETIDOS FN1 FN2 FN3 EGF VWC Nó de cistina C-terminal FBG + Éxons com processamento alternativo TSPN TSP1 TSP3 TSP_C IGFBP Fibrina FibrinaColágeno Integrina Heparina CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1067 quais as células podem migrar, ou como repelentes, mantendo as células longe das áreas proibidas. Elas também podem se ligar e, portanto, influenciar a função dos peptídeos de fatores de crescimento e outras pequenas moléculas produzidas pelas células vizinhas. O membro mais bem conhecido desta classe de proteínas de matriz é a fibronec- tina, uma grande glicoproteína encontrada em todos os vertebrados e importante para muitas interações célula-matriz. Camundongos mutantes incapazes de produzir fibro- nectina morrem no início da embriogênese, pois suas células endoteliais não formam vasos sanguíneos adequados. Acredita-se que esse defeito resulte de anormalidades nas interações dessas células com a matriz extracelular circundante, a qual, normalmente, contém fibronectina. A fibronectina é um dímero composto de duas grandes subunidades unidas por pontes de dissulfeto nas suas extremidades C-terminais. Cada subunidade contém uma série de pequenos domínios repetidos, ou módulos, separados por pequenos segmentos de cadeias polipeptídicas flexíveis (Figura 19-47). Cada domínio é, normalmente, codi- ficado por um éxon separado, sugerindo que o gene da fibronectina, como os genes que codificam muitas proteínas da matriz, evoluiu pela duplicação de múltiplos éxons. No ge- noma humano, há apenas um gene de fibronectina, contendo cerca de 50 éxons de tama- nhos semelhantes, mas os transcritos podem ser processados de diferentes maneiras para produzir múltiplas isoformas de fibronectina (ver Figura 19-46). O principal domínio de repetição da fibronectina é denominado repetição de fibronectina tipo III, que contém cerca de 90 aminoácidos de tamanho e ocorre pelo menos 15 vezes em cada subunidade. Essa repetição está entre os mais comuns de todos os domínios proteicos de vertebrados. A fibronectina se liga a integrinas Uma forma de analisar uma molécula de proteína multifuncional complexa como fibro- nectina é sintetizar cada região da proteína e testar sua capacidade de se ligar a outras proteínas. Com esse e outros métodos, foi possível mostrar que uma região da fibro- nectina se liga ao colágeno, outra se liga a proteoglicanos, e outras se ligam a integri- nas específicas na superfície de vários tipos de células (ver Figura 19-47B). Peptídeos sintéticos correspondendo a diferentes segmentos do domínio de ligação da integrina foram usados para mostrar que a ligação depende de uma sequência específica de tri- peptídeos (Arg-Gly-Asp ou RGD) que é encontrada em uma das repetições do tipo III (ver Figura 19-47C). Mesmo peptídeos muito pequenos contendo essa sequência RGD podem competir com a fibronectina pelo sítio de ligação à célula e, portanto, inibir a ligação da célula com a fibronectina da matriz. Várias proteínas extracelulares, além da fibronectina, também possuem uma se- quência RGD que medeia a ligação à superfície celular. Muitas dessas proteínas são com- (A) 100 nm (B) (C) Ligação do colágeno Ligação da integrina Ligação da heparina Sequência sinérgica Sequência RGD Arg Gly Asp N N C C S S S S Figura 19-47 Estrutura do dímero de fibronectina. (A) Micrografia eletrônica de moléculas de dímeros de fibronectina sombreadas com platina; as setas verme- lhas marcam as uniões C-terminais. (B) As duas cadeias polipeptídicas são similares, mas geralmente não idênticas (codificadas pelo mesmo gene, mas com distintos pro- cessamentos dos mRNAs). Elas são ligadas por duas ligações dissulfeto próximas ao C-terminal. Cada cadeia possui cerca de 2.500 aminoácidos de comprimento e é enovelada em múltiplos domínios (ver Figura 19-46). Como indicado, alguns domínios são especializados para se liga- rem a uma determinada molécula. Para simplificar, nem todos os sítios de ligação conhecidos estão apresentados. (C) Es- trutura tridimensional da nona e décima repetição de fibronectina tipo III, como determinado por cristalografia de raios X. A Arg-Gly-Asp (RGD) e a sequência de “sinergia” representada em vermelho são importantes para a ligação das integri- nas na superfície celular. (A, de J. Engel et al., J. Mol. Biol. 150:97–120, 1981. Com permissão de Academic Press; C, de Daniel J. Leahy, Annu. Rev. Cell Dev. Biol. 13:363–393, 1997. Com permissão de Annual Reviews.) 1068 PARTE V As células em seu contexto social ponentes da matriz extracelular, enquanto outras estão envolvidas na coagulação san- guínea. Os peptídeos contendo a sequência RGD têm sido úteis no desenvolvimento de fármacos anticoagulantes. Algumas cobras usam uma estratégia semelhante para causar sangramento em suas vítimas: elas secretam, no veneno, proteínas anticoagulantes con- tendo RGD denominadas desintegrinas. Os receptores de superfície celular que ligam proteínas contendo RGD são mem- bros da família das integrinas, que descreveremos mais adiante em detalhes. Cada in- tegrina reconhece especificamente seu próprio grupo limitado de moléculas da matriz, indicando que a forte ligação requer outros elementos além da sequência RGD. Além disso, as sequências RGD não são os únicos motivos de sequência usados para a ligação das integrinas: muitas integrinas reconhecem e se ligam a outros motivos. A tensão exercida pelas células regula a reunião das fibrilas de fibronectina As fibronectinas podem existir na forma solúvel, circulando no sangue e em outros fluidos corporais, e na forma insolúvel, como fibrilas de fibronectina, onde os dímeros de fibronec- tina são ligados um ao outro de maneira cruzada por ligações dissulfeto adicionais e for- mam parte da matriz extracelular. Diferentemente das moléculas de colágeno fibrilares, as quais podem se autoassociar em fibrilas em tubos de ensaio, as moléculas de fibronectina reúnem-se em fibrilas somente na superfície de certas células. Isso ocorre porque proteínas adicionais são necessárias à formação das fibrilas, em especial as integrinas de ligação à fibronectina. As integrinas fornecem uma ligação da fibronectina de fora da célula com o citoesqueleto de actina do interior da célula. Essa ligação transmite tensão às moléculas de fibronectina, desde que elas também tenham se ligado a alguma estrutura, e distendem a molécula, expondo os sítios de ligação ocultos da molécula de fibronectina (Figura 19-48). Isso permite que elas se liguem diretamente uma à outra e recrutem moléculas de fibronec- tina adicionais para formar a fibrila (Figura 19-49). Essa dependência de tensão e interação com a superfície celular assegura que as fibrilas de fibronectina reúnam-se onde há necessi- dade mecânica delas, e não em locais inadequados como a corrente sanguínea. Muitas proteínas na matrizextracelular contêm múltiplas cópias de repetições de fibronectina tipo III (ver Figura 19-46), e é possível que a tensão exercida em uma dessas proteínas também exponha sítios de ligação ocultos e, portanto, influencie seu compor- tamento. A lâmina basal é uma forma de matriz extracelular especializada Até aqui, nesta seção, revisamos os princípios gerais sobre a estrutura e função das prin- cipais classes dos componentes da matriz extracelular. Agora descreveremos como esses componentes são reunidos em um tipo especializado de matriz extracelular denominada lâmina basal (também conhecida como membrana basal). Essa camada extremamente fina, embora flexível, de moléculas de matriz é o suporte de todo o epitélio. Embora te- nha pouco volume, ela apresenta uma função fundamental na arquitetura corporal. Assim como as caderinas, ela parece ser uma das características comuns que define todos os ani- mais multicelulares, e parece ter surgido bem cedo na evolução. Os principais componen- tes da lâmina basal estão entre as macromoléculas mais ancestrais da matriz extracelular. A lâmina basal possui de 40 a 120 nm de espessura. A camada da lâmina basal não se situa apenas abaixo das células epiteliais, mas também circunda as células mus- culares, adiposas e células de Schwann (que se enrolam ao redor do axônio das células Figura 19-48 Detecção da tensão pela fibronectina. Acredita-se que algumas repetições de fibronectina tipo III se de- senovelam quando a fibronectina é esti- cada. O desenovelamento expõe sítios de ligação ocultos que interagem com outras moléculas de fibronectina resultando na formação de filamentos de fibronectina como aqueles mostrados na Figura 19-49. (De V. Vogel e M. Sheetz, Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 7:265–275, 2006. Com permis- são de Macmillan Publishers Ltd.) Figura 19-49 Organização da fibronectina em fibrilas na superfície celular. Esta micro- grafia de fluorescência mostra a extremidade posterior de um fibroblasto de camundongo em migração. A fibronectina extracelular está corada em verde, e os filamentos de actina in- tracelulares estão corados em vermelho. Inicial- mente, a fibronectina está presente como um agregado de pequenos pontos próximos à ex- tremidade frontal da célula. Eles se acumulam nas adesões focais (sítios de ancoragem dos filamentos de actina, discutidos mais tarde) e organizam-se em fibrilas paralelas aos filamen- tos de actina. As moléculas de integrina atra- vessam a membrana celular, ligando a fibro- nectina de fora da célula com os filamentos de actina do interior da célula (ver Figura 19-55). Acredita-se que a tensão exercida por essa ligação nas moléculas de fibronectina estique a molécula, expondo seus sítios de ligação e promovendo a formação da fibrila. (Cortesia de Roumen Pankov e Kenneth Yamada.) CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1069 dos nervos periféricos para formar a mielina) individualmente. A lâmina basal separa essas células e o epitélio das camadas celulares do tecido conectivo subjacente. Em ou- tras localizações, como o glomérulo renal, a lâmina basal situa-se entre duas camadas celulares e atua como um filtro altamente seletivo (Figura 19-50). As lâminas basais, no entanto, possuem outras atividades além das funções estruturais e filtrantes. Elas são capazes de determinar a polaridade celular, influenciar o metabolismo celular, organizar as proteínas nas membranas plasmáticas adjacentes, promover a sobrevivência, a proli- feração ou a diferenciação celular, além de servirem como vias para a migração celular. Contudo, o papel mecânico é essencial. Na pele, por exemplo, a camada externa do epitélio – a epiderme – depende da força da lâmina basal para mantê-lo ligado ao te- cido conectivo subjacente, a derme. Em pessoas com defeito genético em determinadas proteínas da lâmina basal ou em um tipo especial de colágeno que ancora a lâmina basal ao tecido conectivo subjacente, a epiderme se descola da derme. Isso causa a formação de bolhas, uma doença denominada epidermólise bolhosa juncional, uma condição gra- ve e algumas vezes letal. A laminina e o colágeno tipo IV são os principais componentes da lâmina basal A lâmina basal é sintetizada pelas células de ambos os seus lados. As células epiteliais contribuem com uma série de componentes da lâmina basal, enquanto as células da camada de tecido conectivo subjacente (denominado estroma – do grego, “lençóis”) contribuem com outra série (Figura 19-51). Embora a composição precisa da lâmina basal madura varie de tecido para tecido, e até de região para região na mesma lâmina, a maior parte da lâmina basal madura contém as glicoproteínas laminina, colágeno tipo IV e nidogênio, junto com o proteoglicano perlecana. Outro componente comum da lâmina basal são as fibronectinas e o colágeno tipo XVIII (um membro atípico da família dos colágenos que forma a proteína central de um proteoglicano). Figura 19-50 Três modos de organiza- ção das lâminas basais. A lâmina basal (amarelo) circunda certas células (como células musculares), localiza-se abaixo do epitélio e está interposta entre duas camadas celulares (como nos glomérulos renais). Observe que nos glomérulos renais ambas as camadas celulares possuem fendas, de modo que a lâmina basal atua como um filtro e como um suporte, de- terminando quais moléculas passarão do sangue para a urina. A filtração também depende de outras estruturas com base em proteínas, denominadas fendas do diafragma, que se estendem pelas fendas intercelulares na camada epitelial. MÚSCULO Lâmina basal Membrana plasmática da célula muscular Tecido conectivo EPITÉLIO LÚMEN OU SUPERFÍCIE EXTERNA Tecido conectivo Lâmina basal GLOMÉRULO RENAL SANGUE Célula endotelial Célula epitelial URINA Lâmina basal Figura 19-51 Lâmina basal da córnea de um embrião de galinha. Nesta mi- crografia eletrônica de varredura, algumas das células epiteliais foram removidas para expor a superfície superior da lâmina basal. Uma rede de fibrilas de colágeno no tecido conectivo subjacente interage com a face inferior da lâmina. (Cortesia de Robert Trelstad.) Células epiteliais Lâmina basal Colágeno 10 �m 1070 PARTE V As células em seu contexto social A laminina é o organizador primário da estrutura de camadas, e logo no início do desenvolvimento a lâmina basal consiste principalmente em moléculas de laminina. As lamininas compreendem uma grande família de proteínas, cada uma composta de três longas cadeias polipeptídicas (a, b e g) unidas por pontes de dissulfeto e organizadas na forma de um ramalhete assimétrico, como um molho de três flores cujos galhos estão tor- cidos na base mas cujas cabeças permanecem separadas (Figura 19-52). Esses hetero- trímeros podem se autoassociar in vitro em uma rede, sobretudo por interações entre as cabeças, embora as interações com as células sejam necessárias para organizar a rede em camadas ordenadas. Como há várias isoformas de cada tipo de cadeia, e que podem asso- ciar-se em diferentes combinações, diferentes lamininas podem ser produzidas, criando lâminas basais com propriedades distintas. A cadeia de laminina g1 é um componente da maioria dos heterotrímeros de laminina, e camundongos que não produzem essa cadeia morrem durante a embriogênese, pois são incapazes de formar a lâmina basal. O colágeno tipo IV é o segundo componente essencial da lâmina basal madura e também existe em várias isoformas. Do mesmo modo que os colágenos fibrilares consti- tuem grande parte da proteína do tecido conectivo como ossos e tendões, a molécula de colágeno tipo IV consiste em três longas cadeias proteicas sintetizadas individualmente que se unem na forma de uma super-hélice como uma corda. Entretanto, elas se distin- guem dos colágenos fibrilares por interrupções em maisde 20 regiões na sua estrutura helicoidal de três fitas, permitindo múltiplos locais de flexão. As moléculas de colágeno tipo IV interagem com seus domínios terminais para se unirem extracelularmente em uma rede como um feltro que proporciona resistência à tração. A laminina e o colágeno tipo IV interagem com outros componentes da lâmi- na basal, como a glicoproteína nidogênio e o proteoglicano perlecana, formando uma rede altamente reticulada de proteínas e proteoglicanos (Figura 19-53). As molécu- las de laminina que produzem a camada inicial primeiro ligam-se umas às outras e a receptores de superfície das células que produzem a laminina. Os receptores de su- perfície celular são, principalmente, os membros da família das integrinas, mas outro importante tipo de receptor de laminina é o distroglicano, um proteoglicano com um núcleo proteico que atravessa a membrana celular, pendendo suas cadeias GAG no espaço extracelular. Elas prendem as moléculas de laminina por uma extremidade, deixando suas cabeças posicionadas para interagir de modo a formar uma rede bidi- mensional. Essa rede de laminina coordena a reunião de outros componentes da lâ- mina basal. (B) (A) 100 nm Auto-organização União Integrinas Integrinas Distroglicano Perlecana Nidogênio Domínio da super-hélice 20 nm Cadeia � Cadeia � Cadeia � H2N NH2 NH2 Figura 19-52 Estrutura da laminina. (A) O membro mais conhecido da família é a laminina-111, aqui representada com seus sítios de ligação para outras moléculas (retângulos amarelos). As lamininas são glicoproteínas com múltiplos domínios compostas por três polipeptídeos (a, b e g) ligados por pontes de dissulfeto em uma estrutura semelhante a uma cruz assimé- trica. Cada cadeia polipeptídica possui mais de 1.500 aminoácidos. São conhecidos cinco tipos de cadeias a, quatro tipos de cadeias b e três tipos de cadeias g, e várias combinações dessas unidades podem se unir para formar uma grande variedade de diferentes lamininas, as quais recebem sua denominação conforme o número de cada uma de suas três subunidades: a lamini- na-111, por exemplo, contém as subunidades a1, b1 e g1. Cada isoforma é distribuída em tecidos específicos: a laminina-332 é encontrada na pele, a laminina-211 no músculo e a laminina-411 nas células endoteliais dos vasos sanguíneos. Por meio de seus sítios de ligação para outras proteínas, as moléculas de laminina desempenham uma função fundamental na organização da lâmina basal, ancorando essas outras proteínas às células. (B) Micrografia eletrônica das moléculas de laminina sombreadas com platina. (B, de J. Engel et al., J. Mol. Biol. 150:97–120, 1981. Com permissão de Academic Press.) CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1071 As lâminas basais realizam diversas funções Nos glomérulos renais, uma lâmina basal mais espessa atua como um filtro molecular, impedindo a passagem de macromoléculas do sangue para a urina quando a urina é for- mada (ver Figura 19-50). O proteoglicano da lâmina basal é importante para essa função. Quando as suas cadeias de GAG são removidas por enzimas específicas, as propriedades filtrantes da lâmina basal são destruídas. O colágeno tipo IV também possui uma função, como na doença renal hereditária humana (síndrome de Alport) que resulta da mutação em um gene do colágeno tipo IV, causando um espessamento irregular e disfuncional do filtro glomerular. As mutações na laminina também impedem as funções dos filtros renais, mas de maneira distinta, interferindo com a diferenciação das células que fazem contato e que sustentam sua estrutura. A lâmina basal também pode atuar como uma barreira seletiva ao movimento das células. A lâmina basal abaixo do epitélio, por exemplo, impede que os fibroblastos, lo- calizados no tecido conectivo adjacente, façam contato com as células epiteliais. Entre- tanto, isso não impede que macrófagos, linfócitos ou processos nervosos passem através dela. A lâmina basal também é importante na regeneração do tecido após uma lesão. Quando os tecidos, como o muscular, o nervoso ou o epitelial, são danificados, a lâmina basal sobrevive e fornece a estrutura sobre a qual as células em regeneração poderão migrar. Dessa forma, a arquitetura original do tecido é facilmente reconstruída. Um exemplo extraordinário do papel da estrutura da lâmina basal na regeneração vem de estudos das junções neuromusculares, o local onde os terminais nervosos de um neurônio motor formam uma sinapse química com a célula muscular esquelética (discuti- do no Capítulo 11). Em vertebrados, a lâmina basal que circunda a célula muscular separa a membrana plasmática do nervo e do músculo nas sinapses, e a lâmina basal na região da Perlecana (A) (B) Colágeno tipo IV Laminina Nidogênio Membrana plasmática Nidogênio Perlecana Laminina Colágeno tipo IV Integrina Figura 19-53 Modelo da estrutura molecular da lâmina basal. (A) A lâmina basal é formada por interações específi- cas entre as proteínas colágeno tipo IV, laminina e nidogênio (B) e o proteoglicano perlecana. As setas em (B) conectam molé- culas que podem ligar-se diretamente uma à outra. Há várias isoformas de colágeno tipo IV e laminina, cada uma com distribui- ção distinta nos tecidos. Os receptores de laminina transmembrana (integrinas e dis- troglicano) na membrana plasmática orga- nizam a reunião da lâmina basal. Somente as integrinas são apresentadas. (Baseada em H. Colognato e P.D. Yurchenco, Dev. Dyn. 218:213–234, 2000. Com permissão de Wiley-Liss.) 1072 PARTE V As células em seu contexto social sinapse possui característica química distinta, com isoformas especiais de colágeno tipo IV, laminina e o proteoglicano denominado agrina. Após um dano no nervo ou músculo, a lâmina basal na sinapse desempenha uma função fundamental na reconstrução da sinapse na localização correta (Figura 19-54). Defeitos nos componentes da lâmina basal nas si- napses são responsáveis por algumas formas de distrofia muscular, em que os músculos se desenvolvem normalmente e, mais tarde na vida do indivíduo, começam a degenerar. As células devem ser capazes de degradar e produzir matriz A capacidade que as células têm de degradar e destruir a matriz extracelular é tão im- portante quanto a sua habilidade de produzi-la e ligar-se a ela. Uma rápida degradação da matriz é necessária em processos como o reparo de tecidos, e mesmo na matriz extra- celular aparentemente estática dos animais adultos há uma renovação contínua com a degradação e a síntese das macromoléculas da matriz. Isso permite, por exemplo, que os ossos se remodelem, de modo a se adaptarem às pressões exercidas sobre eles. Do ponto de vista das células individuais, a capacidade de passar através da matriz é crucial em duas situações: permite que elas se dividam enquanto embebidas na matriz e permite que passem por ela. As células do tecido conectivo geralmente precisam ser capazes de se esticar para se dividir. Se uma célula não possui as enzimas necessárias para degradar a matriz circundante, ela sofrerá uma forte inibição da divisão, bem como será impedida de migrar. A degradação localizada dos componentes da matriz também é necessária sempre que as células precisem escapar do confinamento pela lâmina basal. Isso é necessário durante o crescimento ramificado normal do epitélio para formar as estruturas como as glândulas, para permitir que o epitélio aumente e também quando os leucócitos migram através da lâmina basal dos vasos sanguíneos para os tecidos em resposta a uma infecção ou dano. A degradação da matriz é importante para as células cancerosas se espalharem pelo corpo e para que possam proliferar nos tecidos invadidos (discutido no Capítulo 20). Em geral, os componentes da matriz são degradados por enzimas proteolíticas (proteases) que atuam próximoàs células que as produzem. Muitas dessas proteases pertencem a uma de duas classes gerais. O maior grupo, com cerca de 50 membros nos vertebrados, é o das metaloproteases de matriz, que dependem da ligação do Ca21 ou Zn21 para sua atividade. O segundo grupo é o das serinas-protease, que possuem uma serina altamente reativa no seu sítio ativo. Juntas, as metaloproteases e serinas-protease cooperam para degradar as proteínas de matriz, como o colágeno, a laminina e a fibro- nectina. Algumas metaloproteases, como a colagenase, são altamente específicas, cli- Figura 19-54 Experimentos de rege- neração indicam o caráter especial da lâmina basal juncional na junção neuromuscular. Se o músculo de rã e seu nervo motor forem destruídos, a lâmina basal ao redor de cada célula muscular permanece intacta, sendo ainda reconhecível nos locais da antiga junção neuromuscular. Quando o nervo, mas não o músculo, regenera (acima à direita), a lâmina basal juncional direciona o nervo em regeneração para o local original da sinapse. Quando o músculo, mas não o nervo, regenera (abaixo à direita), a lâmina basal juncional provoca o acúmulo dos receptores de acetilcolina (azul) recém- -sintetizados no local da sinapse original. Esses experimentos mostram que a lâmina basal juncional controla a localização dos outros componentes da sinapse dos dois lados da lâmina. Algumas das moléculas responsáveis por esses efeitos já foram identificadas. Os axônios dos neurônios motores, por exemplo, depositam a agrina na lâmina basal juncional, onde ela ativa a reunião dos receptores de acetilcolina e outras proteínas na membrana plasmática juncional da célula muscular. Reciproca- mente, as células musculares depositam uma determinada isoforma de laminina na lâmina basal juncional, e esta molécula, provavelmente, interage com canais iôni- cos específicos na membrana pré-sináptica do neurônio. Célula muscular cortada para degenerar Nervo cortado MÚSCULO E NERVO DEGENERADOS FIBRA MUSCULAR REGENERADA FIBRA NERVOSA REGENERADA O nervo regenerado volta ao local da junção original Novos receptores de acetilcolina concentram-se no local da junção original Lâmina basal juncional Cobertura da lâmina basal residual Junção neuromuscular CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1073 vando proteínas particulares em poucos locais. Dessa forma, a integridade estrutural da matriz é preservada, mas a migração celular pode ser facilitada pela pouca quantidade de proteólise. Outras metaloproteases podem ser menos específicas, mas, como estão ancoradas na membrana plasmática, elas podem agir exatamente onde são necessárias. É esse tipo de metaloprotease de matriz que é crucial para a capacidade da célula de se dividir quando embebida em uma matriz. É evidente que as atividades das proteases que degradam a matriz devem ser pre- cisamente controladas, pois de outra forma os tecidos do corpo podem desabar. Portan- to, diversos mecanismos são empregados para assegurar que as proteases da matriz se- jam ativadas apenas no momento e local adequados. Em geral, a atividade das proteases é restrita à superfície celular por proteínas de ancoragem específicas, por ativadores as- sociados à membrana e pela produção de inibidores de proteases específicos nas regiões onde a atividade da protease não é necessária. As glicoproteínas e os proteoglicanos da matriz regulam as atividades das proteínas secretadas As propriedades físicas da matriz extracelular são importantes por sua função funda- mental como sustentação para a estrutura do tecido e como substrato para ancoragem e migração celular. A matriz também desempenha um impacto importante na sinalização celular. As células se comunicam umas com as outras por meio da secreção de moléculas sinalizadoras que se difundem no líquido extracelular influenciando outras células (dis- cutido no Capítulo 15). Na direção de seus alvos, as moléculas sinalizadoras encontram uma rede de malha firmemente entrelaçada da matriz extracelular que contém uma alta densidade de cargas negativas e domínios de interação de proteínas que podem interagir com as moléculas sinalizadoras, alterando sua função de várias formas. As cadeias de sulfato de heparana altamente carregadas de proteoglicanos, por exem- plo, interagem com numerosas moléculas sinalizadoras secretadas, incluindo fatores de crescimento de fibroblasto (FGFs, do inglês: fibroblast growth factors) e fator de crescimento do endotélio vascular (VEGF, do inglês: vascular endothelial growth factor), que, entre outros efeitos, estimulam a proliferação de vários tipos celulares. Acredita-se que os proteoglicanos produzam grande reservatórios localizados desses fatores por proporcionarem uma densa rede de sítios de ligação para os fatores de crescimento, limitando sua difusão e focalizando suas ações nas células vizinhas. Igualmente, os proteoglicanos podem auxiliar no aumento brusco de gradientes de fator de crescimento no embrião, o que pode ser importante na dis- tribuição dos padrões dos tecidos durante o desenvolvimento. A atividade do FGF também pode ser intensificada por proteoglicanos, que oligomerizam as moléculas de FGF, permi- tindo que elas façam a ligação cruzada e ativem seus receptores de superfície celular. A importância dos proteoglicanos como reguladores da distribuição e atividade das moléculas sinalizadoras é ilustrada por graves defeitos no desenvolvimento que podem ocorrer quando os proteoglicanos específicos são inativados por mutação. Por exemplo, na Drosophila, a função de diversas proteínas sinalizadoras é controlada por interações com os proteoglicanos associados à membrana Dally e semelhante à Dally. Acredita-se que esses membros da família dos glipicanos concentrem proteínas sinalizadoras em lo- cais específicos e atuem como correceptores que colaboram com proteínas receptoras de superfície celular convencionais. Como resultado, eles promovem a sinalização na loca- lização correta e impedem que se localizem em locais inadequados. No ovário de Droso- phila, por exemplo, a Dally é parcialmente responsável pela localização e função restritas da proteína sinalizadora denominada Dpp, que bloqueia a diferenciação das células- -tronco da linhagem germinativa. Quando o gene que codifica a Dally é mutado, a ativi- dade da Dpp é intensamente reduzida, causando o desenvolvimento anormal do oócito. Diversas proteínas da matriz também interagem com proteínas sinalizadoras. Por exemplo, o colágeno tipo IV da lâmina basal interage com a Dpp de Drosophila. A fibro- nectina contém repetições de fibronectina tipo III que interagem com o VEGF e outro domínio que interage com outro fator de crescimento denominado fator de crescimento de hepatócitos (HGF, do inglês: hepatocyte growth factor), promovendo a atividade des- ses fatores. Como discutido antes, muitas glicoproteínas de matriz contêm extensos ar- ranjos de domínios de ligação e, provavelmente, a organização desses domínios influen- cia a apresentação das proteínas sinalizadoras às suas células-alvo (ver Figura 19-46). 1074 PARTE V As células em seu contexto social Por fim, muitas glicoproteínas de matriz contêm domínios que se ligam direta- mente a receptores de superfície celular específicos, produzindo sinais que influenciam o comportamento das células, como descreveremos na próxima seção. Resumo As células estão embebidas em uma matriz extracelular complexa que não somente liga as células umas às outras, mas também influencia a sobrevivência, o desenvolvimento, a forma, a polaridade e o comportamento migratório. A matriz contém várias proteínas fi- brosas entrelaçadas em uma rede de cadeias de glicosaminoglicanos (GAGs). Os GAGs são cadeias polissacarídicas carregadas negativamente que (com exceção da hialuronana) são ligados covalentementeà proteína para formar moléculas de proteoglicanos. Os GAGs atraem a água e ocupam um grande volume do espaço extracelular. Os proteoglicanos também são encontrados na superfície das células, onde atuam como correceptores para auxiliar as células a responderem a proteínas-sinal secretadas. As proteínas formadoras de fibras conferem força e resistência à matriz. Os colágenos fibrilares (tipos I, II, III, V e XI) são moléculas helicoidais de três fitas semelhantes a cordas que se agregam em longas fibrilas no espaço extracelular, proporcionando resistência à tração. Elas também formam estruturas às quais as células podem se ancorar, frequentemente por meio de grandes gli- coproteínas multidomínios, como a laminina e a fibronectina, que se ligam às integrinas na superfície celular. As moléculas de elastina formam uma extensa rede entrelaçada de fibras e camadas que podem ser estendidas e retraídas, concedendo elasticidade à matriz. A lâmina basal é uma forma especializada de matriz extracelular que fornece apoio às células epiteliais ou envolve outros tipos celulares, como as células musculares. A lâmina basal está organizada em uma rede de moléculas de laminina, as quais são unidas por seus braços laterais e se ligam às integrinas e outros receptores na membrana plasmática basal das células epiteliais que a recobrem. As moléculas de colágeno tipo IV, junto com a proteína nidogênio e o grande proteoglicano sulfato de heparana perlecana, unem-se formando uma malha que é o componente essencial de qualquer lâmina basal madura. A lâmina basal proporciona o suporte mecânico para o epitélio; ela forma a interface e a ligação entre o epitélio e o tecido conectivo; atua como um filtro nos rins; age como barreira mantendo as células nos seus compartimentos adequados; influencia a polaridade e a diferenciação celular; e orienta a migração celular durante o desenvolvimento e a regeneração dos tecidos. JUNÇÕES CÉLULA-MATRIZ As células produzem, organizam e degradam a matriz extracelular. Por sua vez, a matriz exerce uma poderosa influência sobre as células. As influências são exercidas principal- mente pelas proteínas de adesão celular transmembrana que atuam como receptores de matriz. Essas proteínas prendem a matriz do exterior da célula ao citoesqueleto do inte- rior da célula, mas seu papel vai além dessa simples ligação mecânica passiva. Por meio deles, os componentes da matriz podem afetar qualquer aspecto do comportamento celular. Os receptores de matriz desempenham um papel fundamental nas células epite- liais, mediando a interação com a lâmina basal subjacente. Eles também são importan- tes nas células do tecido conectivo, mediando as interações entre as células com a matriz que as circunda. Vários tipos de moléculas podem atuar como receptores de matriz ou correcepto- res, incluindo os proteoglicanos transmembrana. No entanto, os principais receptores das células animais para a ligação da maioria das proteínas de matriz extracelulares são as integrinas. Como as caderinas e os componentes-chave da lâmina basal, as integrinas são parte do conjunto de ferramentas característico dos animais multicelulares, que é responsável por sua arquitetura fundamental. Os membros dessa grande família de mo- léculas de adesão transmembrana homólogas possuem uma capacidade surpreendente de transmitir sinais em ambas as direções através da membrana plasmática. A ligação do componente da matriz com a integrina pode enviar uma mensagem para o interior da célula, e as condições no interior da célula podem enviar sinais para fora para controlar a ligação da integrina com a matriz. A tensão aplicada a uma integrina pode permitir que ela se fixe mais fortemente à estrutura intracelular e extracelular, e a perda da tensão pode soltá-la, de modo que complexos de sinalização molecular se dissociam nos dois lados da CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1075 membrana. Desse modo, as integrinas podem servir não somente para transmitir sinais moleculares e mecânicos, mas também para transformar um tipo de sinal em outro. As integrinas são heterodímeros transmembrana que ligam a matriz extracelular ao citoesqueleto Há diversas integrinas, mas todas elas possuem um plano comum. Uma molécula de inte- grina é composta de duas subunidades de glicoproteínas transmembrana associadas não covalentemente, denominadas a e b. As duas subunidades atravessam a membrana celu- lar, com uma pequena cauda C-terminal intracelular e um grande domínio extracelular N-terminal (Figura 19-55). Os domínios extracelulares se ligam a motivos de sequências de aminoácidos específicos nas proteínas da matriz extracelular ou, em alguns casos, nas proteínas de superfície de outras células. O sítio de ligação mais bem compreendido para as integrinas é a sequência RGD mencionada antes (ver Figura 19-47), que é encontrada na fibronectina e em outras proteínas da matriz extracelular. Algumas integrinas se ligam à sequência Leu-Asp-Val (LDV) na fibronectina e em outras proteínas. Sequências de liga- ção da integrina adicionais, ainda pouco definidas, existem nas lamininas e nos colágenos. Os humanos têm 24 tipos de integrinas, formadas a partir dos produtos de oito genes de cadeia b e 18 genes de cadeia a distintos, dimerizados em diferentes combi- nações. Cada dímero de integrina possui propriedades e funções distintas. Além disso, como a mesma molécula de integrina em diferentes tipos celulares pode apresentar dis- tintas especificidades de ligação a ligantes, parece que fatores adicionais específicos de tipos celulares podem interagir com as integrinas para modular sua atividade de ligação. A ligação da integrina aos seus ligantes na matriz também é afetada pela concentração de Ca21 e Mg21 do meio extracelular, refletindo a presença de domínios de ligação de cá- tions divalentes nas subunidades a e b. Os tipos de cátions divalentes podem influenciar a afinidade e a especificidade da ligação de uma integrina a seus ligantes extracelulares. A porção intracelular de um dímero de integrina se liga a um complexo de várias proteínas diferentes, que juntas formam uma ligação ao citoesqueleto. Com exceção de uma entre as 24 variedades de integrinas humanas, sua ligação intracelular é nos fila- mentos de actina. Essas ligações dependem de proteínas que se reúnem nas curtas cau- das citoplasmáticas das subunidades de integrina (ver Figura 19-55). Em muitos casos, uma grande proteína adaptadora denominada talina é um dos componentes da ligação, mas diversas proteínas adicionais também estão envolvidas. Como as junções célula-cé- lula ligadas por actina formadas pelas caderinas, as junções célula-matriz ligadas pela actina formada pelas integrinas podem ser pequenas, imperceptíveis e transitórias, ou grandes, proeminentes e duradouras. Exemplos dessas últimas são as adesões focais, que Subunidade � da integrina ativa Subunidade � da integrina ativa Proteína da matriz extracelular Talina Vinculina Filamento de actina Quindlina CITOSOL Figura 19-55 Estrutura da subuni- dade de uma molécula de integrina ativa, ligando a matriz extracelular ao citoesqueleto de actina. As cabeças N-terminais das cadeias de integrina se ligam diretamente a uma proteína extra- celular como a fibronectina, e as caudas intracelulares C-terminais da subunidade b da integrina se ligam a proteínas adap- tadoras que interagem com os filamentos de actina. A proteína adaptadora mais bem conhecida é uma proteína gigante denominada talina, que contém uma fita de múltiplos domínios para a ligação da actina e outras proteínas como a vinculina, que ajuda a reforçar e regular a ligação aos filamentos de actina. Uma extremida- de da talina se liga a locais específicos na cauda citoplasmática da subunidade b da integrina; outras proteínas reguladoras, como a quindlina, ligam-sea outro local da cauda. 1076 PARTE V As células em seu contexto social se formam quando os fibroblastos possuem tempo suficiente para estabelecer ligações fortes à superfície rígida dos recipientes de cultura, e as junções miotendinosas, que li- gam as células musculares aos tendões. No epitélio, os sítios de ligação célula-matriz mais proeminentes são os hemides- mossomos, onde um tipo específico de integrina ancora a célula à laminina da lâmina basal. Aqui, exclusivamente, a ligação intracelular é aos filamentos intermediários de queratina, por meio da proteína adaptadora plectina e BP230 (Figura 19-56). Defeitos na integrina são responsáveis por muitas doenças genéticas Embora exista uma sobreposição na atividade de diferentes integrinas – por exemplo, pelo menos cinco se ligam à laminina –, é a diversidade de função das integrinas que é mais marcante. A Tabela 19-3 descreve algumas variedades de integrinas e os problemas resultantes quando as cadeias a ou b são defeituosas. A subunidade b1 forma dímeros com pelo menos 12 subunidades a distintas, sen- do encontrada em quase todas as células dos vertebrados: a a5b1 é um receptor de fibro- nectina, e a a6b1 é um receptor de laminina em muitos tipos celulares. Camundongos Figura 19-56 Hemidesmossomos. (A) As células epiteliais são presas à lâmina basal pelos hemidesmossomos, ligando os filamentos de queratina do interior da célula à laminina do lado de fora da célula. (B) Componentes moleculares de um he- midesmossomo. Uma integrina especiali- zada (integrina a6b4) atravessa a membra- na, ligando-se aos filamentos de queratina intracelulares por meio de proteínas adap- tadoras denominadas pectina e BP230 e à laminina extracelular. O complexo adesivo também contém, em paralelo com a inte- grina, um membro pouco comum da famí- lia do colágeno, conhecido como colágeno tipo XVII, o qual possui um domínio que atravessa a membrana, ligado à sua por- ção colagenosa extracelular. Defeitos em qualquer um desses componentes podem dar origem a uma doença que causa bo- lhas na pele. Uma dessas doenças é o pên- figo bolhoso, uma distúrbio autoimune no qual o sistema imune produz anticorpos contra o colágeno XVII ou a BP230. Célula epitelial Filamentos de queratina Hemidesmossomo Lâmina basal Queratina BP230 Plectina Integrina (�6�4) Laminina Colágeno tipo XVII Colágeno (A) (B) TABELA 19-3 Alguns tipos de integrinas Integrina ligante* Distribuição Fenótipo quando a subunidade a é mutada Fenótipo quando a subunidade b é mutada a5b1 Fibronectina Ubiqua Morte do embrião; defeitos nos vasos sanguíneos, somitos e crista neural Morte precoce do embrião (na implantação) a6b1 Laminina Ubiqua Graves bolhas na pele; defeitos em outros epitélios também Morte precoce do embrião (na implantação) a7b1 Laminina Músculo Distrofia muscular; defeitos nas junções miotendinosas Morte precoce do embrião (na implantação) aLb2 (LFA1) Contrarreceptores da superfamília de Igs (ICAM1) Leucócitos Redução no recrutamento dos leucócitos Deficiência na adesão dos leucócitos (LAD); resposta inflamatória reduzida; infecções recorrentes com risco de morte aIIbb3 Fibrinogênio Plaquetas Sangramento; não agregação das plaquetas (doença de Glanzmann) Sangramento; não agregação das plaquetas (doença de Glanzmann); osteoporose moderada a6b4 Laminina Hemidesmossomos do epitélio Graves bolhas na pele; defeitos em outros epitélios também Graves bolhas na pele; defeitos em outros epitélios também *Nem todos os ligantes estão listados. CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1077 mutantes que não podem produzir integrina b1 morrem no início do desenvolvimento embrionário. Camundongos que não produzem a subunidade a7 (a complementar da subunidade b1 muscular) sobrevivem, mas desenvolvem distrofia muscular (assim como os camundongos que não produzem o ligante laminina para a integrina a7b1. A subunidade b2 forma dímeros com pelo menos quatro tipos da subunidade a, sendo expressa exclusivamente na superfície dos leucócitos, onde desempenha uma função fundamental capacitando as células para o combate às infecções. As integrinas b2 medeiam principalmente interações célula-célula, em vez de célula-matriz, ligando- -se a ligantes específicos em outra célula, como uma célula endotelial. Os ligantes são membros da superfamília de Igs de moléculas de adesão célula-célula. Já descrevemos um exemplo antes neste capítulo: uma integrina dessa classe (aLb2, também conhecida como LFA1) dos leucócitos permite que eles se liguem firmemente a uma proteína da família das Igs, a ICAM1 das células endoteliais vasculares nos locais de infecção (ver Figura 19-28B). Pessoas com a doença genética chamada de deficiência da adesão de leu- cócitos são incapazes de sintetizar subunidades b2. Como consequência, seus leucócitos não possuem toda a família de receptores b2 e sofrem repetidas infecções bacterianas. As integrinas b3 são encontradas nas plaquetas sanguíneas (bem como em várias outras células), e elas ligam várias proteínas de matriz, incluindo o fator de coagulação fibrinogênio. As plaquetas interagem com o fibrinogênio para mediar a coagulação nor- mal, e pessoas com a doença de Glanzmann, que apresentam deficiência genética da integrina b3, sofrem de coagulopatia e sangram em excesso. As integrinas podem mudar de uma conformação ativa para uma conformação inativa Uma célula deslizando em um tecido – um fibroblasto ou um macrófago, por exemplo, ou uma célula epitelial migrando sobre a lâmina basal – precisa ser capaz de fazer e des- fazer ligações com a matriz, e fazer isso rapidamente no caso de ter que se movimentar ligeiro. Igualmente, um leucócito circulante precisa ser capaz de ativar e desativar sua tendência de se ligar às células endoteliais para sair do vaso sanguíneo nos locais de inflamação. Além disso, se uma força é aplicada no local necessário, a ligação e a que- bra das interações extracelulares em todos esses casos devem estar ligadas à reunião e à dissociação rápida das ligações ao citoesqueleto no interior das células. As moléculas de integrina que atravessam a membrana e medeiam as ligações não podem simplesmente ser objetos passivos e rígidos com porções aderentes nas suas duas extremidades. Elas devem ser capazes de alternar de um estado ativo, em que facilmente formam ligações, para um estado inativo, quando não são capazes de se ligar. Estudos estruturais, usando uma combinação de microscopia eletrônica e cristalo- grafia de raios X, sugerem que as integrinas existem em múltiplas conformações estrutu- rais que refletem os diferentes estados de atividade (Figura 19-57). No estado inativo, os segmentos externos dos dímeros de integrinas são enovelados em uma estrutura com- pacta que não pode se ligar às proteínas da matriz. Nesta forma, as caudas citoplasmáti- cas do dímero ficam enganchadas, impedindo sua interação com as proteínas de ligação Figura 19-57 As integrinas podem se encontrar em dois principais estados de atividade. Estrutura de uma molécula de integrina inativa (enovelada) e ativa (estendida), baseada nos dados de cristalo- grafia de raios X e outros métodos. � � INTEGRINA INATIVA INTEGRINA ATIVA Forte ligação ao ligante Forte ligação à proteína adaptadora 5 nm 1078 PARTE V As células em seu contexto social ao citoesqueleto. No estado ativo, as duas subunidades da integrina estão liberadas na membrana para expor o sítio de ligação intracelular para as proteínas adaptadoras ci- toplasmáticas, e os domínios externos desenovelam e se estendem, como duas pernas, para expor o sítio de alta afinidade de ligação da matriz nas extremidades das subuni- dades. Assim, a troca do estado inativo para o ativo depende deimportantes alterações conformacionais que expõem, simultaneamente, os sítios de ligação internos e externos nas extremidades das moléculas de integrinas. As ligações do citoesqueleto interno e da matriz externa ocorrem, portanto, acopladas. A troca entre o estado inativo e ativo é regulada por vários mecanismos que va- riam, dependendo das necessidades da célula. Em alguns casos, a ativação ocorre por um mecanismo de “fora para dentro”: a ligação de uma proteína de matriz externa, como a sequência RGD da fibronectina, pode direcionar algumas integrinas a mudar do estado inativo de baixa afinidade para o estado ativo de alta afinidade. Como resultado, os sítios de ligação da talina e de outras proteínas adaptadoras citoplasmáticas ficam expostos na cauda da cadeia b. A ligação dessas proteínas adaptadoras causa a ligação dos filamentos de actina à extremidade intracelular da molécula de integrina (ver Figura 19-55). Desse modo, quando a integrina segura seu ligante do lado de fora da célula, a célula reage prendendo a molécula de integrina ao citoesqueleto, de modo que uma foça pode ser aplicada naquele local de ligação celular. A cadeia de causa e efeito também pode atuar de modo reverso, de “dentro para fora”. Esse processo de ativação de “dentro para fora” geralmente depende de sinais regula- dores intracelulares que estimulam a capacidade da talina e de outras proteínas de intera- gir com a cadeia b da integrina. A talina compete com a cadeia a da integrina por seu sítio de ligação na cauda da cadeia b. Portanto, quando a talina se liga à cadeia b, ela bloqueia a ligação a-b, permitindo que as duas pernas da molécula de integrina se distanciem. A regulação da ativação da integrina de “dentro para fora” é particularmente bem compreendida nas plaquetas, onde uma proteína sinalizadora extracelular denominada trombina se liga a um receptor associado à proteína G (GPCR) na superfície celular e, portanto, ativa uma via de sinalização que leva à ativação da integrina (Figura 19-58). É provável que uma via de sinalização similar regule a ativação da integrina em vários outros tipos celulares. Talina ativa Vinculina Filamento de actina GTPGDP GTPGDP GTP RIAM RIAM RIAM Talina inativa Quindlina Trombina Receptor da trombina Integrina inativa Integrina ativa Rap1 CITOSOL Figura 19-58 Ativação das integrinas por sinalização intracelular. Os sinais recebidos de fora da célula podem atuar por meio de vários mecanismos intracelulares para estimular a ativação da integrina. Nas plaque- tas, como apresentado na figura, a proteína sinalizadora extracelular, a trombina, ativa um receptor acoplado à proteína G da superfície celular, iniciando uma via de sinalização que leva à ativação da Rap1, um membro da família da GTPase monomérica. A Rap1 ativada interage com a proteína RIAM, que, então, recruta a talina para a membrana plasmática. Junto com outra proteína denominada quindlina, a talina interage com a cadeia b da integrina para desencadear a ativação da integrina. Então, a talina interage com proteínas adaptadoras como a vinculina, resultando na formação de uma ligação com a actina (ver Figura 19-55). A regulação da talina depende, em parte, da interação entre seu domínio flexível C-terminal em forma de bastão e seu domínio N-terminal em forma de cabeça que contém o sítio de ligação da integrina. Acredita- -se que tal interação mantenha a talina em um estado inativo quando livre no citoplasma. Quando a talina é recrutada pela RIAM para a membrana plasmática, o domínio em forma de cabeça da talina interage com um fosfoinositídeo denominado PI(4,5)P2 (não está apresentado nesta figura, mas ver Figura 15-28), resultando na dissociação do domínio em bastão. A talina se desenovela e expõe seus sítios de ligação para a integrina e ou- tras proteínas. CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1079 As integrinas se agregam para formar adesões fortes As integrinas, assim como outras moléculas de adesão celular, diferem dos receptores de superfície celular para hormônios ou para outras moléculas sinalizadoras solúveis extracelulares porque costumam se ligar aos seus ligantes com baixa afinidade e estão presentes em concentrações 10 a 100 vezes maiores na superfície celular. O princípio do velcro, mencionado antes no contexto da adesão das caderinas (ver Figura 19-6C), tam- bém atua aqui. Após sua ativação, as integrinas agregam-se para criar uma densa placa na qual muitas moléculas de integrina estão ancoradas aos filamentos do citoesqueleto. A estrutura proteica resultante pode ser surpreendentemente grande e complexa, como observado nas adesões focais realizadas pelos fibroblastos nos frascos de cultura com a superfície revestida com fibronectina. A reunião dos complexos juncionais célula-matriz depende do recrutamento de deze- nas de diferentes proteínas de sinalização e sustentação. A talina é o principal componente de muitos complexos célula-matriz, mas várias outras proteínas também fazem importantes contribuições. Estas incluem a cinase ligada à integrina (ILK; do inglês, integrin-linked kina- se) e suas parceiras de ligação pinch e parvina, que, juntas, formam um complexo trimérico que atua como um ponto central organizador em muitas junções. As junções célula-matriz também empregam várias proteínas de ligação à actina, como as vinculinas, zixina, VASP e a-actinina, para promover a reunião e organização dos filamentos de actina. Outro compo- nente crítico de muitas junções célula-matriz é a cinase de adesão focal (FAK; do inglês, focal adhesion kinase), que interage com múltiplos componentes da junção e desempenha uma importante função na sinalização, como descreveremos a seguir. A ligação à matriz extracelular através das integrinas controla a proliferação e a sobrevivência celular Como outras proteínas de adesão celular transmembrana, as integrinas fazem mais do que somente ligação. Elas também ativam vias de sinalização intracelular, permitindo o controle de qualquer aspecto do comportamento celular de acordo com a natureza da matriz circundante e o estado de ligação da célula a essa matriz. Muitas células não irão crescer ou proliferar em culturas a não ser que estejam ligadas à matriz extracelular, pois os nutrientes e os fatores de crescimento solúveis do meio de cultura não são suficientes. Para alguns tipos celulares, incluindo as células epiteliais, endoteliais e musculares, até mesmo a sobrevivência celular depende de tal ligação. Quando essas células perdem o contato com a matriz extracelular, elas sofrem apoptose. Tal dependência de adesão a um substrato para o crescimento, a proliferação e a sobrevivência celular é conhecida como dependência de ancoragem, sendo mediada principalmente por integrinas e pelos sinais intracelulares por elas gerados. Mutações que rompem ou dominam essa forma de controle, permitindo que as células escapem da dependência de ancoragem, ocorrem em células cancerosas e desempenham um im- portante papel no comportamento invasivo. Nossa compreensão da dependência de ancoragem é decorrente de estudos de células em divisão em recipientes de cultura recobertos com matriz. Para as células de tecido conectivo que normalmente são circundadas pela matriz por todos os lados, isso é muito diferente de seu ambiente natural. Caminhar por um campo bidimensional é diferente de se esgueirar por uma mata tridimensional. Os tipos de contato realizados pelas células em um substrato rígido não são similares àqueles, menos conhecidos, que elas fazem com uma rede de fibras deformáveis da matriz extracelular, e há diferenças substanciais no comportamento celular nesses dois contextos. Apesar disso, é provável que os mesmos princípios básicos se apliquem. Tanto in vivo quanto in vitro, os sinais intracelulares produzidos nos locais de adesão célula-matrizsão cruciais à proliferação e à sobrevivência celular. As integrinas recrutam proteínas sinalizadoras intracelulares para os locais de adesão célula-matriz Os mecanismos pelos quais as integrinas sinalizam para o interior da célula são com- plexos, envolvendo várias vias, e integrinas e receptores de sinalização convencionais 1080 PARTE V As células em seu contexto social frequentemente influenciam um ao outro e atuam juntos para regular o comportamento celular, como já enfatizado. A via das cinases Ras/MAP (ver Figura 15-49), por exemplo, pode ser ativada tanto pelos receptores de sinalização convencionais quanto pelas in- tegrinas, mas as células costumam necessitar dos dois tipos de estímulo dessa via, ao mesmo tempo, para receber ativação suficiente para induzir a proliferação celular. As in- tegrinas e os receptores de sinalização convencionais também cooperam para promover a sobrevivência celular (como discutido nos Capítulos 15 e 18). Uma das maneiras mais bem estudadas da sinalização das integrinas depende de uma proteína tirosina-cinase denominada cinase de adesão focal (FAK; do inglês, focal adhesion kinase). Em estudos com culturas de células em placas plásticas, as adesões fo- cais são frequentemente locais proeminentes de fosforilação de tirosinas (Figura 19-59), e a FAK é uma das principais proteínas fosforiladas em resíduos de tirosina encontradas nesses locais. Quando as integrinas agregam nos contatos célula-matriz, a FAK é recru- tada para a subunidade b da integrina por proteínas adaptadoras intracelulares como a talina ou a paxilina (que se liga a um tipo de subunidade a da integrina). As moléculas FAK agregadas fazem a fosforilação umas das outras em tirosinas específicas, criando um sítio de encaixe para os membros da família Src de tirosinas-cinase citoplasmáticas. Essas cinases fosforilam as FAKs em tirosinas adicionais, criando sítios de encaixe para inúme- ras proteínas sinalizadoras intracelulares. Desse modo, a sinalização de fora para dentro das integrinas, por meio da FAK e das cinases da família Src, é transmitida para a célula do mesmo modo que o receptor tirosina-cinase gera sinais (como discutido no Capítulo 15). As adesões célula-matriz respondem a forças mecânicas Assim como as junções celulares que descrevemos antes, as junções célula-matriz po- dem detectar e responder às forças mecânicas que atuam sobre elas. Por exemplo, mui- tas das junções célula-matriz estão conectadas a uma rede de actina que tende a puxar as junções para dentro afastando-se da matriz. Quando as células estão ligadas a uma matriz rígida que resiste às forças de tração, a junção célula-matriz é capaz de detectar a tensão resultante e desencadear a resposta que irá recrutar integrinas adicionais e outras proteínas para aumentar a estabilidade da junção para suportar a tensão. A adesão das células à matriz relativamente macia produz menos tensão e, portanto, uma resposta menos robusta. Esses mecanismos permitem que as células detectem e respondam a diferenças na rigidez da matriz extracelular de diferentes tecidos. Já vimos que a mecanotransdução nas junções célula-célula baseada em caderi- nas provavelmente depende de proteínas juncionais que alteram sua estrutura quando a junção é estirada pela tensão (ver Figura 19-12). O mesmo é verdadeiro para as junções célula-matriz. As longas caudas do domínio C-terminal da talina, por exemplo, incluem um grande número de sítios de ligação para a proteína reguladora de actina, a vinculina. Muitos desses sítios estão escondidos dentro do domínio das dobras da proteína, mas Figura 19-59 Fosforilação das tirosinas nas adesões focais. Cultura de fibroblas- to em um substrato revestido com fibro- nectina e corada com anticorpo fluores- cente: os filamentos de actina são corados em verde, e as proteínas ativadas que con- têm fosfotirosina, em vermelho, conferin- do uma coloração laranja à sobreposição dos dois componentes. Os filamentos de actina terminam nas adesões focais, onde as células aderem ao substrato por meio das integrinas. As proteínas contendo fosfotirosinas também estão concentradas nesses locais, refletindo a ativação local da FAK e de outras proteínas-cinase. A sinalização gerada nesses locais de adesão ajuda a regular a divisão, o crescimento e a sobrevivência celular. (Cortesia de Keith Burridge.) 10 �m CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1081 são expostos quando esses domínios são desenovelados pelo alongamento da proteína (Figura 19-60). A extremidade N-terminal da talina se liga à integrina, e a extremidade C-terminal se liga à actina (ver Figura 19-55). Portanto, quando os filamentos de actina são puxados pelos motores de miosina dentro da célula, a tensão resultante estira o bas- tão da talina, expondo os sítios de ligação da vinculina. Então, as moléculas de vinculina recrutam e organizam filamentos de actina adicionais. Assim, a tensão aumenta a força da junção. Resumo As integrinas são os principais receptores de superfície celular usados pelas células animais para se ligarem à matriz extracelular. Elas atuam como ligantes transmembrana entre a ma- triz extracelular e o citoesqueleto. A maioria das integrinas conecta os filamentos de actina, enquanto aqueles dos hemidesmossomos ligam os filamentos intermediários. As moléculas de integrina são heterodímeros, e a ligação aos ligantes da matriz extracelular ou às proteínas ativadoras intracelulares, como a talina, causa uma dramática alteração conformacional do estado inativo para o estado ativo. Isso cria um acoplamento alostérico entre a ligação da matriz do lado de fora da célula e a ligação do citoesqueleto do lado de dentro da célula, permitindo que a integrina transmita sinais nas duas direções através da membrana plas- mática. Um agrupamento complexo de proteínas organiza-se ao redor das caudas intracelu- lares das integrinas ativadas, produzindo sinais intracelulares que podem influenciar quase todos os aspectos do comportamento celular, desde a proliferação e a sobrevivência, como no fenômeno da dependência de ancoragem, até a polaridade celular e a orientação para a migração. As junções célula-matriz baseadas nas integrinas também são capazes de me- canotransdução: elas podem detectar e responder a forças mecânicas que atuam na junção. A PAREDE CELULAR DAS PLANTAS A parede celular das plantas é uma matriz extracelular elaborada que circunda cada cé- lula da planta. Foi a parede celular espessa da cortiça, visível em um microscópio pri- mitivo, que permitiu que Robert Hooke, em 1663, distinguisse e denominasse as células pela primeira vez. As paredes das células vizinhas das plantas são cimentadas para for- Figura 19-60 A talina é o sensor da tensão nas junções célula-matriz. A tensão nas junções célula-matriz estimula o recrutamento local da vinculina e de outras proteínas reguladoras de actina, fortalecendo a ligação das junções ao cito- esqueleto. Os experimentos apresentados aqui testaram a hipótese de que a tensão é detectada pela proteína adaptadora tali- na que conecta a integrina aos filamentos de actina (ver Figura 19-55). (A) A longa e flexível região C-terminal da talina é dividi- da em uma série de domínios enovelados, alguns dos quais contêm sítios de ligação à vinculina (linhas verde-escuras) que supostamente estão escondidos e, por- tanto, inacessíveis. Um domínio próximo ao N-terminal, por exemplo, é composto por um grupo de 12 a-hélices contendo cinco sítios de ligação à vinculina. (B) Este experimento testou a hipótese de que a tensão estica os 12 domínios em hélices, expondo os sítios de ligação à vinculina. Um fragmento de talina contendo esse domínio foi ligado a um aparelho no qual o domínio pode ser esticado, como representado na figura. O fragmento foi marcado na sua extremidade N-terminal comuma marcação que se prende na superfície de uma lâmina de vidro em um microscópio. A extremidade C-terminal do fragmento foi ligada a uma pequena esfe- ra magnética, de modo que o fragmento de talina pudesse ser esticado usando um pequeno eletrodo magnético. A solução ao redor da proteína continha proteínas vinculinas marcadas com um fluoróforo. A proteína talina foi esticada, e o excesso da solução de vinculina foi lavado. O micros- cópio foi usado para determinar se alguma proteína vinculina fluorescente estava ligada à proteína talina. Na ausência de tensão (acima), a maioria das moléculas de talina não se ligou à vinculina. Quando a proteína foi esticada (abaixo), duas ou três moléculas de vinculinas estavam ligadas (somente uma é apresentada na figura para simplificar). (Adaptada de A. del Rio et al., Science 323:638–641, 2009.) TALINA Sítios de ligação à vinculina N (A) (B) N C C Domínio de ligação à integrina Hélices 1 a 12 da talina enoveladas Hélices 1 a 12 Domínio de ligação à actina Domínio de ligação à actina Marcação adere a porção N-terminal à lâmina de vidro Porção C-terminal ligada à esfera magnética Eletrodo magnético Hélice 12 Força Vinculina Quando a talina é esticada (desenovelada), a hélice 12 é exposta e pode se ligar à vinculina 1082 PARTE V As células em seu contexto social mar a planta intacta (Figura 19-61), costumam ser espessas e fortes, sendo mais impor- tantes e mais rígidas do que a matriz extracelular das células animais. Ao evoluírem as paredes relativamente rígidas, que podem ter até alguns micrômetros de espessura, as células primitivas das plantas perderam a capacidade de movimento e adotaram uma vida sedentária, apresentada por todas as plantas atuais. A composição da parede celular depende do tipo celular Todas as paredes celulares das plantas originam-se das células em divisão, à medida que ocorre a formação da placa celular durante a citocinese para criar uma nova separação da parede entre as duas células-filhas (discutido no Capítulo 17). As novas células são produzidas em regiões especiais denominadas meristemas, sendo pequenas quando comparadas com seu tamanho final. Para acomodar o subsequente crescimento celular, suas paredes, denominadas paredes celulares primárias, são finas e extensíveis, embo- ra rígidas. Uma vez que elas param de crescer, a parede celular não precisa mais ser ex- tensível: algumas vezes, a parede celular primária é mantida sem modificações, porém, mais comumente, uma parede celular secundária rígida é produzida pela deposição de novas camadas no interior das antigas. Essas novas camadas em geral apresentam uma composição que é significativamente diferente daquela da parede primária. O polímero adicional mais comum da parede secundária é a lignina, uma rede complexa de com- postos fenólicos encontrada na parede dos vasos do xilema e nas células fibrosas dos tecidos da madeira. Embora as paredes celulares das plantas superiores variem em composição e or- ganização, todas são formadas, como a matriz extracelular das células animais, por um princípio estrutural comum a todas as fibras compostas, incluindo a fibra de vidro e o concreto reforçado. Um componente fornece a força tensora e o outro, no qual o primei- ro se encontra embebido, fornece a resistência à compressão. O princípio é o mesmo em plantas e animais, mas a química é diferente. Ao contrário da matriz extracelular das células animais, que é rica em proteínas e outros polímeros contendo nitrogênio, a pare- Figura 19-61 Paredes das células vege- tais. (A) Micrografia eletrônica da ponta da raiz de um junco, mostrando o padrão organizado de células que resultam de uma sequência ordenada de divisões celu- lares em células com parede celular rígida. Neste tecido em crescimento, a parede celular ainda está relativamente fina, pa- recendo como estreitas linhas pretas entre as células da micrografia. (B) Corte de uma parede celular típica separando duas cé- lulas vegetais adjacentes. As duas bandas transversais escuras correspondem aos plasmodesmos distribuídos pela parede (ver Figura 19-27). (A, cortesia de C. Busby e B. Gunning, Eur. J. Cell Biol. 21:214– 223, 1980. Com permissão de Elsevier; B, cortesia de Jeremy Burgess.) (A) 10 �m (B) 200 nm CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1083 de celular das plantas é constituída quase inteiramente por polímeros que não contêm nitrogênio, incluindo a celulose e a lignina. Para um organismo sedentário que depende de CO2, H2O e luz solar, esses dois abundantes biopolímeros representam uma forma de baixo custo baseada em carbono de materiais estruturais, ajudando a conservar o nitrogênio escasso disponível no solo que em geral limita o crescimento da planta. As- sim, as árvores, por exemplo, fazem um grande investimento em celulose e lignina que compreende grande parte de sua biomassa. Na parede celular das plantas superiores, as fibras tensoras são formadas por um polissacarídeo de celulose, a macromolécula orgânica mais abundante da Terra, forte- mente ligada em uma rede de glicanos com ligação cruzada. Na parede celular primá- ria, a matriz na qual a rede de celulose é embebida é composta de pectina, uma rede de polissacarídeos altamente hidratada, rica em ácido galacturônico. As paredes celulares secundárias contêm componentes adicionais como a lignina, que é dura e ocupa os in- terstícios entre os outros componentes, tornando a parede rígida e permanente. Todas essas moléculas são mantidas juntas por uma combinação de ligações covalentes e não covalentes para formar uma estrutura altamente complexa, cuja composição, espessura e arquitetura dependem do tipo celular. A parede celular das plantas possui uma função de sustentação da estrutura da planta como um todo, uma função protetora como um cercado ao redor de cada célula e uma função de transporte, auxiliando a formar os canais para o movimento dos fluidos da planta. Quando as células vegetais se tornam especializadas, elas costumam adotar uma forma específica e produzem paredes celulares especialmente adaptadas. Uma planta pode ser reconhecida e classificada conforme os diferentes tipos de células. En- tretanto, concentrar-nos-emos aqui na parede celular primária e arquitetura molecular que fundamenta sua notável combinação de força, resistência e plasticidade observada nas partes em crescimento de uma planta. A força tensora da parede celular permite que as células vegetais desenvolvam pressão de turgescência O ambiente extracelular aquoso da célula vegetal consiste no fluido contido na parede celular que circunda a célula. Embora o fluido da parede celular da planta contenha mais solutos do que a água na parte externa do ambiente da planta (p. ex., o solo), ele ainda é hipotônico em comparação ao interior da célula. Esse desequilíbrio osmótico permite que a parede celular desenvolva uma grande pressão hidrostática, ou pressão de tur- gescência, empurrando a parede celular como a câmara empurra o pneu. A pressão de turgêscencia aumenta até o ponto em que a célula atinge o equilíbrio osmótico, com ne- nhum influxo de água apesar do desequilíbrio de sal. A pressão de turgêscencia gerada assim pode atingir 10 ou mais atmosferas, cerca de cinco vezes aquela de um pneu de automóvel comum. Essa pressão é vital às plantas porque é a principal força que dirige a expansão celular durante o crescimento e fornece grande parte da rigidez mecânica dos tecidos vivos das plantas. Compare a folha de uma planta desidratada, por exemplo, com a folha túrgida de uma planta bem hidratada. É a força mecânica da parede celular que permite que a célula vegetal mantenha essa pressão interna. A parede celular primária é constituída por microfibrilas de celulose entrelaçadas comuma rede de polissacarídeos pectínicos A celulose fornece a força tensora à parede celular primária. Cada molécula consiste em uma cadeia linear de pelo menos 500 resíduos de glicose covalentemente ligados uns aos outros para formar uma estrutura em forma de fita, a qual é estabilizada por ligações de hidrogênio intracadeias (Figura 19-62). Além disso, as ligações de hidro- gênio intermoleculares, entre as moléculas de celulose adjacentes, causam uma forte adesão entre as moléculas sobrepostas e dispostas paralelamente, formando feixes de cerca de 40 cadeias de celulose, todas com a mesma polaridade. Esses agregados cris- talinos altamente organizados, com muitos micrômetros de comprimento, são deno- minados microfibrilas de celulose e possuem uma resistência à tração comparável à do aço. Grupos de microfibrilas são arranjados em camadas, ou lamelas, com cada CH2OH O O O OH OH4 5 1 23 6 CH2OH O OH OH4 3 1 2 5 6 Microfibrila da celulose Molécula da celulose n Figura 19-62 Celulose. As moléculas de celu- lose são longas, não ramificadas e constituídas por unidades de glicose com ligações b1,4. Cada resíduo de glicose é invertido com relação a seu vizinho, e as repetições dissacarídicas resultantes ocorrem centenas de vezes em uma única molécula de celulose. Cerca de 16 molé- culas de celulose reúnem-se para formar uma forte microfibrila de celulose ligada por ligações de hidrogênio. 1084 PARTE V As células em seu contexto social microfibrila a 20 a 40 nm de distância de sua vizinha e conectada a ela por ligações cru- zadas das moléculas de glicano unidas por ligações de hidrogênio à superfície das mi- crofibrilas. A parede celular primária consiste em várias lamelas organizadas em uma rede conglomerada (Figura 19-63). Os glicanos de ligação cruzada são um grupo heterogêneo de polissacarídeos ramificados que se ligam fortemente à superfície de cada microfibrila de celulose, auxi- liando na ligação cruzada das microfibrilas em uma rede complexa. Há muitas classes de glicanos, mas todas possuem uma longa cadeia principal linear composta de um tipo de açúcar (glicose, xilose ou manose) de onde saem as pequenas cadeias laterais de outros açúcares. São as moléculas de açúcar na cadeia principal que formam as ligações de hi- drogênio com as microfibrilas de celulose. A cadeia principal e as cadeias laterais variam de acordo com a espécie da planta e o estágio de desenvolvimento. Junto com essa rede de microfibrilas de celulose e glicanos de ligação cruzada há outra rede de polissacarídeos com ligações cruzadas com base em pectinas (ver Figura 19-63). As pectinas são um grupo heterogêneo de polissacarídeos ramificados que con- têm muitas unidades de ácido galacturônico negativamente carregadas. Em função de sua carga negativa, as pectinas são altamente hidratadas e associadas a uma nuvem de cátions, de maneira semelhante aos glicosaminoglicanos das células animais devido ao grande espaço que ocupam (ver Figura 19-33). Quando o Ca21 é adicionado à solução de moléculas de pectina, várias ligações cruzadas ocorrem, dando origem a um gel semir- rígido (é a pectina que é adicionada ao suco de fruta para produzir geleias). Certas pec- tinas são particularmente abundantes na lamela média, uma região especializada que fixa as paredes celulares das células adjacentes (ver Figura 19-63), e as ligações cruzadas causadas pelo Ca21 parecem ajudar a manter unidos os componentes da parede celular. Embora as pontes covalentes também sejam responsáveis por manterem juntos os com- ponentes da parede celular, pouco se sabe sobre sua natureza. O controle da separação das células da lamela média está relacionado com o processo de amadurecimento do tomate e a queda das folhas no outono. Além das duas redes de polissacarídeos, presentes em todas as paredes celulares primárias das plantas, há proteínas que podem contribuir com cerca de 5% da massa seca da parede. Muitas dessas proteínas são enzimas responsáveis pela renovação e re- modelagem da parede, principalmente durante o crescimento. Outra classe de proteínas de parede contém grandes quantidades de hidroxiprolina, como no colágeno. Essas pro- teínas fortalecem a parede e são produzidas em quantidades aumentadas como resposta ao ataque por patógenos. Com base na sequência genômica de Arabidopsis, estimou-se que mais de 700 genes são necessários para sintetizar, reunir e remodelar a parede celu- lar da planta. Figura 19-63 Modelo em escala de uma porção da parede celular primá- ria, mostrando as duas redes principais de polissacarídeos. As camadas de microfibrilas de celulose (verde) em arranjo ortogonal são entrecruzadas por ligações de hidrogênio a uma rede de hemicelulose (vermelho). Essa rede é contínua com uma rede de polissacarídeos de pectina (azul). A rede de celulose e hemicelulose fornece força tensora, enquanto a rede de pectina resiste à compressão. A celulose, a hemicelulose e a pectina estão presentes em quantidades equivalentes na parede celular primária. A lamela média é rica em pectina e fixa as células adjacentes. Lamela média Parede celular primária Membrana plasmática 50 nm Pectina Microfibrila de celulose Glicano de ligação cruzada CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1085 A deposição orientada da parece celular controla o crescimento da planta Uma vez que a planta deixou o meristema onde foi gerada, ela pode crescer considera- velmente, em geral mais de mil vezes o seu volume. Essa expansão determina a forma final de cada célula e, como consequência, a forma final da planta. A expansão ocorre em resposta à pressão de turgescência, mas é o comportamento da parede celular que governa sua extensão e direção. A atividade complexa de remodelagem da parede e a deposição de novo material de parede celular são necessárias. Devido à sua estrutura cristalina, as microfibrilas de celulose são incapazes de esticar, e isso lhes confere um papel fundamental nesse processo. Assim, a elasticidade e a deformação da parede celular devem envolver o deslizamento das microfibrilas umas sobre as outras, a se- paração das microfibrilas, ou ambos. A orientação das microfibrilas nas camadas mais internas da parede regula a direção na qual a célula se expande. As células, portanto, antecipam sua morfologia futura pelo controle da orientação das microfibrilas que elas depositam na parede (Figura 19-64). Ao contrário da maioria das macromoléculas da matriz, que são produzidas no retículo endoplasmático e no Golgi e então secretadas, a celulose é secretada na super- fície da célula por um complexo de enzimas ligadas à membrana plasmática (celulose sintase), que usa como substrato o nucleotídeo de açúcar UDP-glicose fornecido pelo citoplasma. Cada complexo enzimático, ou roseta, possui simetria sextavada (ver Figu- ra 19-65) e contém os produtos proteicos de três genes separados de celulose sintase (CESA, do inglês cellulose synthase). Cada proteína CESA é essencial para a produção da microfibrila de celulose. Três genes CESA são necessários para a síntese da parede celu- lar primária e outros três genes para a síntese da parede celular secundária. À medida em que são sintetizadas, as cadeias nascentes de celulose reúnem-se em microfibrilas. Essas são dispostas na superfície extracelular da membrana plasmática, formando uma camada, ou lamela, na qual todas as microfibrilas apresentam mais ou menos o mesmo alinhamento (ver Figura 19-63). Cada nova lamela forma-se interna- mente à anterior, de modo que a parede consiste em camadas de lamelas concêntricas, sendo a mais velha localizada na porção mais externa. As microfibrilas depositadas mais recentemente em células que estão sendo alongadas costumam ser perpendiculares ao eixo do alongamento celular, embora a orientaçãodas microfibrilas das lamelas externas depositadas anteriormente possa ser diferente (ver Figura 19-64B e C). 200 nm (A) (B) (C) Pressão de turgescência Figura 19-64 As microfibrilas de celulose influenciam a direção do alongamento celular. (A) A orientação das microfibrilas de celulose na parede celular primária de uma célula de cenoura durante o alongamento é mostrada nesta micrografia eletrônica de uma réplica som- breada de uma parede celular rapidamen- te congelada e copiada. As microfibrilas de celulose estão em disposição paralela, orientadas perpendicularmente ao eixo de alongamento celular. As microfibrilas são interligadas e entrelaçadas por uma rede complexa de moléculas da matriz (compa- re com a Figura 19-63). (B, C) As células em (B) e (C) iniciaram com formas idênti- cas (representadas como cubos), mas com diferentes orientações das microfibrilas de celulose da parede celular. Apesar de a pressão de turgescência ser uniforme em todas as direções, o enfraquecimento da parede celular provoca o alongamento de cada célula perpendicularmente à orien- tação das microfibrilas, que possuem uma força tensora bastante forte. A expansão celular ocorre junto com a inserção de ma- terial para uma nova parede. A forma final de um órgão, como um broto, é determi- nada pela direção na qual suas células se expandem. (A, cortesia de Brian Wells e Keith Roberts.) 1086 PARTE V As células em seu contexto social Os microtúbulos orientam a deposição da parede celular Uma pista importante para o mecanismo que dita a orientação da microfibrila vem de observações dos microtúbulos nas células vegetais. Eles são arranjados no citoplasma cortical com a mesma orientação das microfibrilas de celulose que estão sempre sendo depositadas na parede celular. Esses microtúbulos corticais formam um arranjo corti- cal próximo à face citoplasmática da membrana plasmática, mantidos ali por proteínas ainda não caracterizadas. A orientação congruente do arranjo cortical dos microtúbu- los (localizados logo abaixo da membrana plasmática) e das microfibrilas de celulose (localizadas do lado de fora da membrana) é encontrada em muitos tipos e formas de células vegetais, estando presente durante a deposição das paredes primária e secun- dária, sugerindo uma relação causal. Tal sugestão pode ser testada tratando-se o tecido de uma planta com uma subs- tância despolimerizadora de microtúbulos de modo que desfaça todo o sistema de mi- crotúbulos corticais. Entretanto, as consequências para a deposição subsequente da celulose não são tão simples como esperado. O tratamento com a substância não tem efeito na produção de novas microfibrilas de celulose e, em alguns casos, a célula pode continuar a depositar novas microfibrilas na orientação preexistente. Qualquer mudan- ça no padrão de microfibrilas, que normalmente ocorrem entre lamelas sucessivas, é bloqueada. Parece que uma orientação preexistente das microfibrilas pode ser propa- gada mesmo na ausência dos microtúbulos, mas qualquer mudança na deposição das microfibrilas de celulose requer que os microtúbulos intactos estejam presentes para determinar a nova orientação. Essas observações são consistentes com o seguinte modelo. As rosetas que sinteti- zam celulose, embebidas na membrana plasmática, parecem produzir moléculas longas de celulose. Conforme a síntese de moléculas de celulose e seu autoagrupamento em microfibrilas se inicia, a extremidade distal de cada microfibrila forma ligações cruzadas indiretas com a camada prévia do material da parede, orientando a nova microfibrila em paralelo com as antigas, à medida que ela se torna integrada na textura da parede. Como a microfibrila é dura, a extremidade proximal da roseta precisa se mover durante sua pro- dução, à medida que deposita o novo material. A roseta se move no plano da membrana, no sentido definido pela forma na qual a extremidade mais distante do microfibrilas está ancorada na parede existente. Dessa forma, cada camada de microfibrilas tenderia a se projetar para fora da membrana, na mesma orientação da camada depositada previa- mente, com as rosetas seguindo a direção das microfibrilas orientadas preexistentes, fora da célula. Entretanto, os microtúbulos orientados dentro da célula podem forçar uma al- teração na direção em que as rosetas se movem: eles podem criar ligações na membrana plasmática que atuam como bancos de um canal para limitar o movimento das rosetas (Figura 19-65). Nessa visão, a síntese de celulose pode ocorrer independentemente dos microtúbulos, mas ela está limitada espacialmente quando os microtúbulos corticais es- tão presentes para definir os microdomínios da membrana dentro dos quais o complexo enzimático pode se movimentar. 100 nm 100 nm (B) (A) (C) Parede celular Microtúbulos 0,1 �m Microfibrilas de celulose sendo integradas na parede preexistente Membrana plasmática Proteína conectora Microtúbulo ligado à membrana plasmática Complexo de celulose sintase CITOSOL Figura 19-65 Modelo de como a orien- tação das microfibrilas de celulose recém-depositadas pode ser determi- nada pela orientação dos microtúbulos corticais. (A) Os grandes complexos de celulose sintase, ou rosetas, são proteínas integrais de membrana que sintetizam microfibrilas de celulose continuamente na face externa da membrana plasmática. As extremidades distais das microfibrilas rígidas integram-se à textura da parede, e seu alongamento na extremidade proximal empurra o complexo sintase ao longo do plano da membrana. Como a disposição cortical dos microtúbulos está conectada à membrana plasmática, de forma a res- tringir o complexo a canais definidos da membrana, a orientação dos microtúbu- los, quando presentes, determina o eixo ao longo do qual as novas microfibrilas são depositadas. (B, C) Duas eletromicro- grafias mostrando a associação compacta dos microtúbulos corticais à membrana plasmática. Uma delas mostra a secção transversal dos microtúbulos, e a outra, um microtúbulo em secção longitudinal. Ambas enfatizam os espaços constantes de cerca de 20 nm entre a membrana e o microtúbulo. As moléculas responsáveis pela conexão ainda não são conhecidas. (B e C, cortesia de Andrew Staehelin.) CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1087 Dessa forma, as células vegetais podem mudar a direção de expansão por mudan- ças súbitas na orientação do feixe de microtúbulos corticais. Como as células vegetais não podem se movimentar (limitadas por sua parede), a morfologia da planta multice- lular depende de um controle coordenado e altamente padronizado de orientação dos microtúbulos corticais durante o desenvolvimento. Não se sabe como tal orientação é controlada, embora já se tenha demonstrado que o microtúbulos podem se reorientar rapidamente em resposta a estímulos extracelulares, incluindo os reguladores do cresci- mento da planta como as auxinas e o etileno (discutido no Capítulo 15). Os microtúbulos não são, entretanto, os únicos elementos do citoesqueleto que influenciam a deposição da parede. Filamentos de actina cortical e focal também podem direcionar a deposição da nova parede em locais específicos na superfície celular, contri- buindo para a forma final elaborada de muitas células vegetais diferenciadas. Resumo As células vegetais são cercadas por uma matriz extracelular rígida na forma de parede celular, a qual é responsável por muitas das características típicas do estilo de vida vegetal. A parede celular é composta de uma rede de microfibrilas de celulose e glicanos de ligação cruzada, embebidos em uma matriz de polissacarídeos de pectina. Nas paredes celula- res secundárias, a lignina pode ser depositada, tornando-as impermeáveis à água, duras e fibrosas. Um arranjo cortical de microtúbulos pode determinara orientação da nova microfibrila de celulose recém-depositada, a qual, por sua vez, determina a direção da expansão celular e, portanto, a forma final da célula e da planta como um todo. o QuE NÃo SABEMoS • Quais são os mecanismos regula- dores que controlam o rearranjo das junções célula-célula no epité- lio no início do desenvolvimento? Qual é o papel das forças mecâni- cas e de tensão nesses rearranjos? • Como as proteínas de matriz ex- tracelular e os carboidratos in- fluenciam a localização e a ação das moléculas sinalizadoras extra- celulares ou de seus receptores de superfície celular? • Como as proteínas adaptadoras intracelulares coordenam a ativa- ção das proteínas integrinas e sua interação com os componentes do citoesqueleto e suas respostas às mudanças nas forças mecânicas que atuam nas junções célula- -matriz? • Considerando que as moléculas de matriz extracelular possuem a capacidade de apresentar arranjos ordenados de sinais para as célu- las, a exata relação espacial entre tais sinais poderia transmitir uma mensagem além daquela dos pró- prios sinais individuais? TESTE SEU CONHECIMENTO Quais afirmativas estão corretas? Justifique. 19-1 Devido aos numerosos processos intracelulares re- gulados pelas alterações nas concentrações de Ca21, parece provável que as adesões célula-célula dependentes de Ca21 também sejam reguladas por alterações nas concentrações de Ca21. 19-2 As junções compactas desempenham duas funções distintas: elas bloqueiam o espaço entre as células, restrin- gindo o fluxo paracelular, e cercam os domínios da membra- na plasmática, impedindo a mistura entre as proteínas de membrana da porção apical e basolateral. 19-3 A elasticidade da elastina deve-se ao seu alto con- teúdo de a-hélices, as quais atuam como molas moleculares. 19-4 As integrinas podem converter sinais mecânicos em sinais moleculares intracelulares. Discuta as questões a seguir. 19-5 Comente a seguinte citação de Warren Lewis (1922), um dos pioneiros da biologia celular. “Se os vários tipos de células perdessem sua capacidade adesiva uns com os ou- tros e com a matriz extracelular, nossos corpos se desinte- grariam e desmoronariam como um amontoado de células.” 19-6 As moléculas de adesão celular foram originalmente identificadas com o uso de anticorpo contra componentes de superfície celular para bloquear a agregação celular. Nes- te ensaio de bloqueio da adesão, os pesquisadores acharam necessário usar fragmentos de anticorpos, cada um com um único sítio de ligação (denominados fragmentos Fab), em vez de anticorpos IgG intactos, os quais possuem a forma de Y com dois sítios de ligação idênticos. Os fragmentos Fab foram produzidos pela digestão de anticorpos IgG com pa- paína, uma protease, para separar os dois sítios de ligação (Figura Q19-1). Por que você acha que foi necessário usar os fragmentos Fab para bloquear a agregação celular? Sítios para clivagem pela papaína PAPAÍNA Sítios de ligação do antígeno Anticorpo IgG Fragmentos Fab Figura Q19-1 Produção do fragmento Fab de anticorpos IgG pela digestão com papaína. 19-7 A bactéria responsável por intoxicações alimentares Clostridium perfringens produz uma toxina que se liga aos membros da família das claudinas, as quais são os princi- pais constituintes das junções compactas. Quando a porção C-terminal da toxina se liga a uma claudina, a N-terminal 1088 PARTE V As células em seu contexto social pode se inserir na membrana da célula adjacente, forman- do buracos que matam a célula. A porção da toxina que se liga à claudina mostrou ser um valioso reagente para a in- vestigação das propriedades das junções compactas. As cé- lulas MDCK são a escolha comum para estudos das junções compactas, pois podem formar uma camada epitelial intacta com grande resistência transepitelial. As células MDCK ex- pressam duas claudinas: a claudina-1, que não se liga à toxi- na, e a claudina-4, que se liga. Quando uma camada epitelial intacta de células MDCK é incubada com o fragmento C-terminal da toxina, a claudina-4 desaparece, tornando-se indetectável após 24 horas. Na ausência da claudina-4, as células permanecem saudáveis, e a camada epitelial permanece intacta. O núme- ro médio de filamentos nas junções compactas que ligam as células também diminui de cerca de 4 para cerca de 2 após 24 horas, e eles são menos ramificados. Um ensaio funcio- nal para integridade das junções compactas mostra que a resistência transepitelial é reduzida consideravelmente na presença da toxina, mas pode ser restaurada com lavagem da toxina (Figura Q19-2A). Curiosamente, a toxina produz esses efeitos somente quando é adicionada à porção baso- lateral da camada. Ela não tem efeito quando adicionada à superfície apical (Figura Q19-2B). A. Como os dois filamentos da junção compacta podem permanecer mesmo que toda a claudina-4 tenha desapare- cido? B. Por que você acha que a toxina age quando adicionada à porção basolateral da camada epitelial, mas não à porção apical? 168080 24 32 40 48 Horas (B) APICAL Lavagem 10.000 8.000 6.000 4.000 2.000 0 16 24 32 40 48 R es is tê n ci a el ét ri ca tr an se p it el ia l ( o h m s c m 2 ) Horas (A) BASOLATERAL Lavagem – Toxina + Toxina Figura Q19-2 Efeitos da toxina de Clostridium na função de barreira das células MDCK. (A) Adição da toxina na porção basolateral da camada epi- telial. (B) Adição da toxina na porção apical da camada epitelial. Para uma dada tensão, uma resistência mais elevada (ohms cm2) fornece menos cor- rente paracelular. 19-8 Não é uma tarefa fácil identificar funções particula- res para os componentes específicos da lâmina basal, pois a estrutura como um todo é um material composto com- plicado com propriedades mecânicas e de sinalização. O nidogênio, por exemplo, liga-se de forma cruzada a dois componentes centrais da lâmina basal, a laminina-g1 e o colágeno tipo IV. Considerando tal função, é surpreendente que camundongos nocautes homozigotos para o gene do nidogênio-1 sejam saudáveis sem fenótipo anormal. Igual- mente, camundongos nocautes homozigotos para o gene do nidogênio-2 também parecem completamente normais. Por outro lado, camundongos com uma mutação definida no gene da laminina-g1, que elimina somente o sítio de li- gação do nidogênio, morrem ao nascimento com defeitos graves na formação dos pulmões e dos rins. Acredita-se que a porção mutante da cadeia da laminina-g1 não tenha outra função a não ser se ligar ao nidogênio e não afeta a estrutura da laminina ou sua capacidade de se reunir na lâmina basal. Como você explica as observações genéticas resumidas na Tabela Q19-1? O que você espera do fenótipo de camundongos nocautes homozigotos para os dois genes do nidogênio? 19-9 Discuta a seguinte afirmativa: “A lâmina basal das fibras musculares atua como um quadro de avisos no qual células podem colocar suas mensagens que dirigem a dife- renciação e a função das células subjacentes.” 19-10 A afinidade das integrinas pelos componentes da matriz pode ser modulada por mudanças nos seus domínios citoplasmáticos: um processo conhecido como sinaliza- ção de dentro para fora. Você identificou regiões-chave nos domínios citoplasmáticos da integrina aIIbb3 que parecem ser necessárias à sinalização de dentro para fora (Figura Q19-3). A substituição de uma alanina por D723 na cadeia b ou R995 na cadeia a leva a altos níveis de ativação espon- tânea, sob condições nas quais o tipo normal está inativo. Seu orientador sugere que você converta o aspartato da ca- deia b para uma arginina (D723R) e a arginina da cadeia a para um aspartato (R995D). Você compara as três cadeias a (R995, R995A e R995D) contra todas astrês cadeias b (D723, D723A e D723R). Você observa que todos os pares possuem altos níveis de ativação espontânea, exceto D723 versus R995 (normal) e D723R versus R995D, os quais apresentam baixos níveis. Com base nesses resultados, como você acha que a integrina aIIbb3 mantém seu estado inativo? TABELA Q19-1 Fenótipos de camundongos com defeitos genéticos nos componentes da lâmina basal Proteína Defeito genético Fenótipo Nidogênio-1 Nocaute gênico (2/2) Nenhum Nidogênio-2 Nocaute gênico (2/2) Nenhum Laminina g-1 Deleção no sítio de ligação do nidogênio (1/2) Nenhum Laminina g-1 Deleção no sítio de ligação do nidogênio (2/2) Morte ao nascer 1/2 para hetorozigoto, 2/2 para homozigoto. WKLLITIHDRKEF WKVGFFKRNRP COOH COOH�IIb Citoplasma 723 995 3� Espaço extracelular Membrana plasmática Figura Q19-3 Representação esquemática da integrina aIIbb3. Os resíduos D723 e R995 estão indicados. (De P.E. Hughes et al., J. Biol. Chem. 271:6571–6574, 1996. Com permissão de American Society for Biochemis- try and Molecular Biology.) CAPíTulo 19 Junções celulares e matriz extracelular 1089 19-11 As cadeias polissacarídicas do glicosaminoglicano que são ligadas aos núcleos proteicos para formar os compo- nentes do proteoglicano do espaço extracelular são altamente carregadas negativamente. Como você supõe que essas ca- deias polissacarídicas negativamente carregadas ajudam a es- tabelecer um ambiente semelhante a um gel hidratado em tor- no da célula? Como as propriedades dessas moléculas iriam diferir se as cadeias de polissacarídeos não possuíssem cargas? 19-12 Em temperatura corporal, o l-aspartato racemiza em d-aspartato a uma taxa apreciável. A maioria das proteí- nas do organismo possui baixos níveis de d-aspartato, se é que ele pode ser detectado. Entretanto, a elastina possui ní- veis relativamente altos de d-aspartato. Além disso, a quan- tidade de d-aspartato aumenta na proporção direta com a idade da pessoa da qual a amostra foi colhida. Por que você acha que a maioria das proteínas tem pouco ou nenhum d- -aspartato, enquanto a elastina possui níveis de d-aspartato que aumentam progressivamente com a idade? 19-13 Seu chefe aparece para jantar! Tudo o que você tem é uma alface murcha. Você lembra vagamente que há um truque para rejuvenescer uma alface murcha, mas não lem- bra qual é. Você deve mergulhar a alface em água salgada, água da torneira ou água com açúcar, ou talvez apenas colo- cá-la sob uma luz clara e intensa e esperar que a fotossíntese a recupere? 19-14 Uma planta deve ser capaz de responder a altera- ções na quantidade de água de seu ambiente. Isso é feito pelo fluxo de moléculas de água através de canais de água denominados aquaporinas. A condutividade hidráulica de uma única aquaporina é de 4,4 × 10222 m3 por segundo por MPa (megapascal) de pressão. A que isso corresponde em termos de moléculas de água por segundo em pressão at- mosférica? (A pressão atmosférica é 0,1 MPa [1 bar] e a con- centração da água é 55,5 M.) REFERÊNCIAS Gerais Beckerle M ed. (2002) Cell Adhesion. Oxford: Oxford University Press. Hynes RO & Yamada KM (eds) (2011) Extracellular Matrix Biology (Cold Spring Harbor Perspectives in Biology). Cold Spring Harbor: Cold Spring Harbor Laboratory Press. Junções célula-célula Brasch J, Harrison OJ, Honig B & Shapiro L (2012) Thinking outside the cell: how cadherins drive adhesion. Trends Cell Biol. 22, 299–310. Gomez GA, McLachlan RW & Yap AS (2011) Productive tension: force- sensing and homeostasis of cell-cell junctions. Trends Cell Biol. 21, 499–505. Goodenough DA & Paul DL (2003) Beyond the gap: functions of unpaired connexon channels. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 4, 285–294. Gumbiner BM (2005) Regulation of cadherin-mediated adhesion in morphogenesis. Nat. Rev. Mol. Cell Biol. 6, 622–634. 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