Reflexões sobre o direito das obrigações
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Reflexões sobre o direito das obrigações


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Reflexões sobre o direito das obrigações 
Elementos, fontes e o Código Civil Brasileiro 
O direito das obrigações é dentro do Direito Civil um dos ramos onde a influência do Direito Romano é mais pronunciada, já indicada por Caio Mário da Silva Pereira.
A doutrina recorda inicialmente que o conceito romano de obligatio[1] presente na compilação do século VI, de nossa era, que afirma ser a obrigação \u201co vínculo jurídico ao qual nos submetemos coercitivamente, sujeitando-se a uma prestação, segundo o direito de nossa cidade\u201d. (Presume-se ser do jurisconsulto Florentino).
Percebe-se nessa definição que se ressalta a existência de um sujeito passivo, que deve realizar uma prestação, sob pena de ser compelido a isto. Em outra definição constante na compilação justinianéia e atribuída ao jurisconsulto Paulo, esclarece- um pouco mais em que consiste a prestação, considerada a essência da obrigação.
Afirma-se que a essência consiste em obrigar forçosamente a alguém a dar, fazer prestar alguma coisa ou até se abster. Recordando as fontes romanas, a doutrina salienta ser a obrigação um vínculo jurídico que une dois sujeitos, denominados credores e devedores, por força do qual este deve realizar-se em favor daquele uma prestação, consistente em um dar, fazer ou não fazer, sob pena de coerção judicial.
Pontes de Miranda[2] apontou que em sentido estrito obrigação é a relação jurídica entre duas ou mais pessoas, de que decorre a uma delas, ao debitor, ou algumas, pode ser exigida, pela outra (s), creditor, ou outra prestação.
Para Caio Mário, a obrigação é um vínculo jurídico em virtude do qual uma pessoa pode exigir em virtude do qual uma pessoa pode exigir de outra prestação economicamente apreciável.
Tal definição é bem próxima à fornecida por Orlando Gomes[3] onde frisa ser a prestação patrimonial de interesse da outra, que pode o credor exigi-la, se não for cumprida espontaneamente, mediante a agressão ao patrimônio do devedor.
Autores mais recentes como Carlos Roberto Gonçalves segundo o qual obrigação é o vínculo jurídico que confere ao credor (sujeito ativo) o direito de exigir do devedor (sujeito passivo) o cumprimento de determinada prestação. Corresponde a uma relação de natureza pessoal, de crédito e débito, de caráter transitório, cujo objeto consiste numa prestação economicamente aferível.
Numa perspectiva mais restrita a palavra obrigação significa o próprio dever de prestação imposto ao devedor. A expressão obrigação para referirmos à própria relação jurídica obrigacional vinculativa do credor e do devedor.
Nelson Rosenvald[4] bem sintetiza como deve ser encarada a obrigação atualmente: \u201cA obrigação deve ser vista como uma relação complexa, formada por um conjunto de direitos, obrigações e situações jurídicas, compreendendo uma série de deveres de prestação, direitos formativos e outras situações jurídicas\u201d. 
A obrigação é tida como um processo, uma série de atos relacionados entre si, que desde o início se encaminha a uma finalidade: a satisfação do interesse na prestação. Hodiernamente, não mais prevalece o status formal das partes, mas a finalidade à qual se dirige a relação dinâmica.
Indo além da perspectiva tradicional de subordinação do devedor ao credor existe o bem comum da relação obrigacional, voltado ao adimplemento da forma mais satisfativa ao credor e menos onerosa ao devedor.
O bem comum na relação obrigacional traduz a solidariedade mediante a cooperação dos indivíduos para a satisfação dos interesses patrimoniais recíprocos, sem comprometimento dos direitos da personalidade e da dignidade do credor e do devedor.
Quando Rosenvald se refere à obrigação como processo faz menção ao trabalho de Clóvis Veríssimo do Couto e Silva[5] que inspirado na doutrina germânica ensina que a obrigação deve ser vista como processo de colaboração contínua e efetiva entre as partes.
A obrigação vincularia assim sujeitos determinados (o que diferencia dos direitos reais, em que o sujeito passivo seria indeterminado \u2013 erga omnes). Por isso, é que se cogita que os direitos de crédito têm eficácia relativa, posto que se dirijam contra a pessoa adstrita à realização da prestação; ao passo que os direitos reais possuem eficácia absoluta, valem erga omnes, sendo eternos, daí justificar-se o droit de saissine que é próprio do direito das sucessões.
Sendo que a eventual coerção judicial só poderia ser exercida sobre o patrimônio do devedor, visto, portanto, como garantia comum ou geral dos seus credores.
Desta forma, afirma-se em consequência, um conceito dualista ou binário da obrigação, onde se vislumbram dois fatores, o primeiro chamado débito (Schuld), e o segundo sendo conhecido pelo nome de responsabilidade (haftung).
Tal concepção tem origem na doutrina de Brinz[6] que considera que a obrigação gera para o devedor o dever de prestar, que normalmente será adimplido, mas que, uma vez violado, permite a agressão ao seu patrimônio a fim de permitir ao credor a satisfação do seu crédito. 
Esta concepção dualista é esposada por quase todos doutrinadores. Para Washington de Barros Monteiro[7], entretanto, deve ser adotada uma outra posição, denominada pelo autor de eclética, uma vez que \u201cefetivamente a doutrina binária rebaixa o elemento espiritual, valorizando em demasia o patrimonial\u201d. Partindo que o adimplemento obrigacional é regra e o inadimplemento é a exceção.
A doutrina de Brinz afirmava que os dois fatores débito e responsabilidade embora normalmente estejam presentes na mesma obrigação, por exemplo, a existência do débito sem responsabilidade ou de responsabilidade sem débito.
No primeiro caso ocorre a chamada obrigação natural e, o segundo caso uma garantia real como o penhor, a hipoteca que é oferecida por terceiro, ou ainda, o caso da fiança em que a obligatio nasce antes do debitum.
A tradicional doutrina via o vínculo jurídico num estado de subordinação do devedor, que seria o único responsável pelo adimplemento da obrigação, garantindo-o com seu patrimônio.
A doutrina contemporânea mais recente tem enfatizado o aspecto dinâmico e não estático da obrigação, salientando existir uma verdadeira relação jurídica obrigacional que tem por conteúdo uma série de direitos e deveres de ambas as partes.
Aliás, foi Karl Larenz[8] que destacou a existência de deveres para ambas as partes da relação obrigacional, ressaltando que estes deveres excedem ao próprio e estrito dever de prestação cujo cumprimento constitui normalmente objeto da demanda.
A concepção atual da relação jurídica em razão da boa-fé é a ordem de cooperação em que se colocam as posições do devedor e do credor. Ao credor não caberá, a toda evidência, a efetivação da obrigação principal, porque isso significaria uma pensão precípua do devedor.
Assim são cabíveis certos deveres, como os de indicação e de impedir que a sua conduta venha dificultar a prestação do devedor. Esse derradeiro dever tem caráter bilateral.
Caso venha descumprir um desses deveres, não poderá exigir a pretensão para haver a obrigação principal. Dir-se-ia que sua pretensão precluiu.
Clóvis do Couto e Silva traz uma visão de obrigação como vínculo de cooperação entre as partes, jungidas a uma conduta segundo os ditames da boa-fé objetiva, ganha a cada dia novos adeptos em nossa doutrina e também em nossa jurisprudência.
Mas não se pretende ao valorizar a colaboração entre as partes na obrigação, não se pretende eliminar o fato que a relação obrigacional está destinada à satisfação do interesse do credor. Assim, se reafirma que a obrigação é mais uma relação de cooperação.
É indispensável lembrar que o interesse creditório seja digno de tutela e, portanto, deve obedecer aos valores e princípios constitucionais. Ratifica Pietro Perlingieri[9] o mesmo que enfatiza que os princípios fundamentais e, o mito da neutralidade que está destinado a romper-se. Aliás, a incidência constitucional se realiza de vários modos: não apesar na individuação dos conteúdos das cláusulas gerais, como a diligência, a boa-fé, a lealdade, o estado de necessidade e,