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JOSÉ MARIA ALVES 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DEUS, ALMA E MORTE 
NA 
HISTÓRIA DO PENSAMENTO 
OCIDENTAL 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
JOSÉ MARIA ALVES 
WWW.HOMEOESP .ORG 
 
 1
 
 
 
 
 
 
 
PREFÁCIO 
 
 
 
 Deus, alma e morte, são questões inquietantes, talvez mais do que 
inquietantes, angustiantes. Através dos tempos, múltiplas e contraditórias 
têm sido as respostas dos filósofos e teólogos. Deparamo-nos com um 
emaranhado de soluções, muitas vezes conturbadas, como consequência da 
estrutura da mente que as gerou. 
 Estes textos, não são uma História Temática da Filosofia, mas antes 
um acúmulo de apontamentos, e como tal devem ser lidos. Desfilam neles, 
cerca de 140 filósofos. Nem todos os que deveriam constar da obra nela 
figuram, e mesmo os que dela constam, talvez não tenham o seu 
pensamento devidamente exposto. 
 Estes textos constituem-se como uma provocação ao filosofar e 
instigação à reflexão dos que julgam aquele acto travestido de esoterismo. 
Por outro lado, são dedicados a S. Tomás de Aquino, não do modo que 
esperais que sejam, mas do modo como o devem ser. 
 
 
 
José Maria Alves 
 
OUTUBRO DE 2008 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 2
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
 
 
 
 
 3
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1 – FILOSOFIA 
 
 
 
A filosofia Ocidental teve o seu início na Grécia, no século VI a.C. 
Segundo uma tradição referida por Plutarco e por Cícero, teria sido 
Pitágoras o primeiro a utilizar as palavras filosofia e filósofo, num 
entendimento de que a expressão “sábio”, apenas aos deuses convém, 
devendo os mortais limitar-se por via das suas limitações, a uma aspiração 
à sabedoria. Pitágoras, distinguiu na vida três espécies de homens, 
exactamente como nos jogos olímpicos. A classe inferior é a dos que aí se 
deslocam com o intuito de comprar e vender; a seguinte, a dos 
competidores; e, acima de todos estes, os que simplesmente vêem. Estes 
são os filósofos, que actuam desinteressadamente, única e exclusivamente 
por amor à sabedoria. 
Mas, talvez mais do que com Pitágoras, foi Sócrates e na sequência 
deste, Platão, que definiram com algum rigor a palavra filosofia, entendida 
como amor da sabedoria, o que pressupõe o seu desejo, que é o desejo de 
conhecer, na medida do possível, tudo o que é passível de conhecimento. 
Este conhecimento subsiste na constatação da ignorância, que é uma 
qualidade da imperfeição do ser humano, o que impõe a pesquisa prévia da 
nossa natureza. Daí decorre a afirmação do imperativo délfico “Conhece-te 
a ti mesmo”. 
Os gregos esperavam da filosofia mais do que os filósofos modernos. 
Esperavam a modificação das suas vidas. O homem vive num estado 
intermédio entre a total ignorância e a posse plena da sabedoria. Platão vem 
 4
a determinar no Fédon, que o filósofo por meio da sua especulação, 
promove a purificação da alma e prepara-se convenientemente para a 
libertação final, que mais não é do que a morte. 
 
Não é ciência nem teologia. A ciência é uma circunstância do 
conhecimento que abarca um conjunto de aquisições de índole intelectual, 
que têm por finalidade propor uma explicação racional e objectiva da 
realidade, essencialmente com recurso à verificação experimental. Por seu 
turno, a teologia dogmática, revelada, restringe-se aos dogmas, à tradição e 
à revelação, estribando-se nos textos sagrados. Deparamo-nos ainda, com 
uma teologia natural, racional ou filosófica, que investiga o que a Deus 
respeita, ancorando-se na razão. Esta é a ciência de Deus, que tem por 
fundamento a razão e não a revelação – atente-se que foi durante o longo 
período qualificado na História da Filosofia como da Filosofia Cristã, que 
foi realizada a distinção entre teologia natural e teologia revelada. Ora, 
contrariamente à revelada, a teologia natural, é no nosso entender, a parte 
da metafísica que investiga a existência e a essência de Deus – o Ser 
Absoluto e Infinito –, objecto da filosofia primeira desde Aristóteles. 
Mas, se não é ciência nem teologia, qual o lugar que ocupa no 
mundo do conhecimento? 
As questões filosóficas mais inquietantes, não tiveram, não têm, e 
provavelmente nunca terão uma resposta satisfatória. Não pertencem ao 
domínio da ciência. Algumas são comuns à teologia, quer dogmática quer 
natural. No entanto, a primeira não se identifica minimamente com a 
filosofia, porquanto se atém à revelação, violentando a liberdade de 
pesquisa. A segunda, é em essência metafísica, como já deixámos 
assinalado, cujo estudo incide sobre um dos problemas fundamentais: 
Deus. Assim, consideramos que a filosofia toma assento num campo 
neutro, donde não vislumbramos a ciência com o seu conhecimento 
definido, e nos afastamos com celeridade da teologia com os seus 
dogmatismos obnubiladores. 
Num campo neutral, não há certezas, verdades. As questões 
filosóficas têm respostas múltiplas, condicionadas pelo homem que as 
postula, em função dos seus condicionamentos e da sua mundividência. 
Quando postulamos uma qualquer doutrina ou teoria – v.g. a realidade é 
Deus, todo o resto é ilusão; só a matéria existe nas suas múltiplas 
combinações; o conhecimento advém dos sentidos; ou advém dos sentidos 
e da razão; ou de ambos e da “intuição” – ponderando todos os 
argumentos disponíveis, e com a necessária abertura de espírito a fazemos 
nossa, estamos a filosofar. O mesmo não se poderá dizer dos que admitem 
uma qualquer realidade ou crença, por força da autoridade de outrem, da 
revelação manifestada em livros a que chamamos sagrados ou porque nos 
 5
queremos simplesmente adequar à multidão. As questões mais apetecidas 
são em regra as insolúveis ou praticamente incognoscíveis. 
A filosofia, sendo a ciência das perguntas sem resposta – pelo menos 
nos domínios que mais nos apoquentam –, terá alguma utilidade? 
Valerá então a pena, tanto e tão inglório esforço? 
A inexistência de respostas concludentes e apaziguadoras de uma 
curiosidade que a maior parte das vezes não é pacífica, mas antes ansiedade 
patológica, transportar-nos-á no sinuoso trilho da felicidade? Irá conceder-
nos tal benção, a almejada segurança, a sensação de permanência pela qual 
tanto ansiamos e nos desespera em infundada e infrutífera busca? 
Seja como for, a inutilidade da filosofia, o seu fracasso, só poderá 
relevar ao ser constatado pela análise crítica do próprio filosofar. Quando 
percepcionamos a incerteza a que nos conduz a razão, quando penetramos 
nas profundezas do nosso ser convictos de que qualquer esforço 
indagatório apenas pode causar maior confusão nos nossos limitados 
cérebros, nessa quietude, que já não sabe o que é a impermanência e o 
desejo absurdo de encarar a verdade face a face, talvez algo surja, que não 
é filosofia, teologia, ciência, mas antes harmonia e paz, uma paz que é 
negada aos inquietos e aos arquitectos de ilusões. 
 
A filosofia, à primeira vista, parece ter triunfado sobre os males do 
passado. Também julgamos que triunfará sobre os do futuro. Pena é, que 
nada consiga transformar no presente, e seja sinónimo de inutilidade 
prática. 
 
 
 
2 – A METAFÍSICA E OS SEUS PROBLEMAS 
 
 
 
A palavra metafísica, surge no século I a.C. com Andrónico de 
Rodes, que ao classificar os escritos de Aristóteles, designou com tal 
denominação os textos que se seguiam à Física. Em termos meramente 
literais, metafísica, é o que vem depois da física, o que está para além dela. 
A metafísica faz uso da razão e não da revelação religiosa como 
ocorre com a teologia revelada, para atingir respostas a questões cujo 
objecto são realidades imateriais, tais como Deus, a alma, a morte e seu 
significado. A metafísica começa onde todas as outras ciências terminam. 
 
Na perspectiva de algunspensadores, nomeadamente Kant, a 
incognoscibilidade de tais inquietações conduz fatalmente a uma ilusão 
transcendental – este é um dos seus sentidos críticos. Não obstante, mesmo 
 6
que o seu decesso já tenha sido anunciado um sem número de vezes, 
assistimos ao seu renascimento renovado. Efectivamente, com este filósofo 
da modernidade – tornado famoso entre outros, pela sua Crítica da Razão 
Pura –, a metafísica parece ultrapassada. Mas, se por um lado a parece 
derrotar pela Crítica, tem a convicção de que não se extinguirá, pelo 
menos, como uma disposição profunda da natureza humana. Neste sentido 
são esclarecedoras as palavras quase proféticas, com que termina a dita 
Crítica da Razão Pura: “podemos estar certos de que voltaremos sempre à 
metafísica como a uma amada com a qual por vezes discutimos; e isto, 
porque a razão, uma vez que se trata de fins essenciais, tem de trabalhar 
sem descanso ou na aquisição de um saber sólido ou na destruição dos bons 
conhecimentos já adquiridos.” 
 
Quer queiramos quer não, a busca da permanência é algo que está 
profundamente enraizado no homem, enquanto e desde que o é, sendo uma 
das motivações fundamentais que o conduziram à filosofia. Deus e a 
imortalidade são as duas pedras angulares do instinto de segurança do 
homem. 
No entanto, como refere James Jeans, antes de falarem, os filósofos 
devem pedir à ciência auxílio no que toca à eventual verificação de factos e 
hipóteses provisórias, só então, podendo a sua análise e discussão 
transcorrer legitimamente para o domínio da filosofia. 
É interessante realçar, que quer Descartes quer Leibniz, que podem 
legitimamente considerar-se como dois dos principais alicerces da ciência, 
foram eminentes metafísicos. 
 
Quando crianças e na adolescência nos começamos a questionar 
sobre questões insolúveis ou para as quais apenas recebemos respostas 
insatisfatórias, somos desde logo metafísicos: Onde está o avô que morreu, 
está no céu? Quem é Deus? Quem fez Deus? Porque é que eu nasci? 
Porque tenho de morrer? 
As questões metafísicas são questões sem resposta, mas mesmo 
assim, enquanto existirem homens estou certo de que não deixarão de ser 
formuladas. A sua inoperância é manifestamente suplantada pela angústia 
que decorre de uma inquietude essencial. 
 
O homem, na eminência da sua extinção, sofre – a menos que, 
considerando o absurdo da sua existência tenha optado pelo suicídio. Na 
constatação de que morre sozinho – Pascal –, busca ardentemente um 
alívio, que é antes do mais, uma esperança, caso não se resigne à fatalidade 
do decesso. 
 
 7
Deus é o resultado de um julgamento espontâneo da razão – S. 
Tomás –, uma ideia inata – Descartes –, uma pura intuição intelectual – 
Malebranche –, a ideia resultante do poder unificador da razão humana – 
Kant –, um fantasma da imaginação – Huxley – ou o fracasso de um sem 
número de seres pensantes atormentados por uma angústia existencial? 
O problema de Deus, da alma, do sentido da vida e da morte e suas 
implicações espirituais, não é susceptível de análise científica, não são 
factos empiricamente observáveis. A ciência reduz-se à explicação dos 
fenómenos, não às suas razões existenciais, aos porquês. 
Mesmo que possamos conhecer a sua existência, não o 
compreendemos, nem compreenderemos – desconhecemos a sua essência. 
 
A grande questão metafísica, segundo Leibniz, e na sequência deste, 
de Heidegger, é a de saber porque existe alguma coisa em vez de nada. É a 
grande questão da filosofia. 
Existindo, o homem é um “ser-para-a-sua-morte”. Atormenta-nos a 
ideia que desde o momento do nosso nascimento começamos 
imediatamente a morrer, e morremos sozinhos. Conseguimos imaginar o 
nosso próprio nada? Ou algo de carácter imperativo, nascido nos confins da 
nossa mente, vem assegurar-nos a existência de uma alma imortal que um 
Deus criador receberá no seu seio após o nosso decesso? 
Mas, se não conseguimos definir a vida, encontrar o seu sentido – se 
é que algum sentido tem –, como poderemos compreender a morte? Por 
outro lado, mesmo que ateste a minha existência, a minha essência e 
liberdade, estarei em condições de responder à questão: porque existe o ser 
em vez do não-ser, do nada? 
 
Aristóteles considera que “ou se deve filosofar ou não se deve: mas 
para decidir não filosofar é ainda e sempre necessário filosofar; assim, em 
qualquer caso é necessário filosofar”, mesmo com o risco da metafísica ser 
remetida para o vidrão de reciclagem do conhecimento: “Há metafísica 
bastante em não pensar em nada”. 
 
Onde finda a metafísica, inicia-se a teologia, com as suas revelações, 
mediações e dogmas. 
Se Pascal renunciou à filosofia em detrimento da religião, outros 
abandonaram-na em detrimento daquela, na esperança de que a razão 
solucionasse as suas mais profundas inquietações. 
As religiões respondem na prática a todas as questões metafísicas. 
Mas, se a razão é absolutamente falível pelas suas naturais limitações, que 
dizer da fé que não é uma afeição racionalizada, mas antes um sentimento? 
Não serão os pensamentos dos homens meras brincadeiras de 
crianças, como afirmou Heraclito? 
 8
 
 
 
3 - FILOSOFIA ANTIGA 
 
 
 
Quase todas as hipóteses e questões da filosofia moderna foram 
pensadas pelos gregos. 
 
Os PRÉ-SOCRÁTICOS são audazes e espontâneos. Com eles, o 
pensamento organiza-se e pressagia-se uma nova era na história da 
humanidade. Procuraram explicar o mundo utilizando um método que 
qualificaremos ainda que com alguma imprecisão científico, por oposição à 
explicação mítica da realidade. Daí a sua imensa importância no panorama 
do pensamento. 
Conhecemos os seus pensamentos, quer por fragmentos das suas 
obras – alguns recolhidos e transcritos por autores que lhes aditaram 
indevidamente interpretações meramente pessoais – quer 
fundamentalmente pelos escritos de filósofos posteriores, que vão de Platão 
– século IV a.C. – e Aristóteles, a Simplício – século VI d.C. –, realçando-
se para além dos citados, Teofrasto, Plutarco, Sexto Empírico, Clemente de 
Alexandria, Hipólito e Diógenes Laércio – historiador da filosofia grega, 
viveu no século III d.C., e escreveu “Vida, Doutrinas e Sentenças dos 
Filósofos Ilustres”. Atente-se, que da filosofia grega, apenas Platão, 
Aristóteles e Plotino têm as suas obras preservadas quase que 
integralmente. 
 
No período anterior a Sócrates, a palavra Deus não tem uma 
conotação religiosa idêntica à dos períodos subsequentes – deus como 
objecto de culto. Os filósofos pré-socráticos poderiam ter desenvolvido a 
teologia natural, até aos seus fins últimos, mas como ensina Étienne Gilson, 
não o fizeram porque não queriam perder os seus deuses. 
Nas tradições religiosas em que abundam muitos deuses, cada ente 
divinizado representa uma energia positiva ou negativa, criativa ou 
destrutiva. Os deuses gregos são dinâmicos, verdadeiras entidades viventes, 
tal como o homem. No entanto, não são atingidos pela morte – por isso, 
também eram denominados Imortais – e influenciam o destino dos mortais, 
dependendo estes da sua graça ou da sua desestima. Mas, com o 
nascimento da filosofia, o homem religioso que também é filósofo, haveria 
de considerar que a causa primeira, ou se quisermos “princípio”, é a 
explicação válida para a existência do todo, ou seja, do que existiu, do que 
existe e do que existirá no porvir. Como bem anota Hobbes – Da Natureza 
 9
Humana –, “O Ser que existe com o poder de produzir, se não fosse eterno, 
deveria ter sido produzido por algum Ser anterior a ele e este por um outro 
Ser que o tivesse precedido. É assim, que remontando de causas em causas, 
chegamos a um poder eterno, ou seja, anterior a tudo, que é o poder de 
todos os poderes e a causa de todas as causas. É isso que todos os homens 
concebem pelo nome de Deus, que encerra eternidade,incompreensibilidade, omnipotência”. 
Tales e os que se lhe seguiram eram filósofos e procuraram o 
primeiro princípio, independentemente da existência de múltiplos deuses, 
que também dominavam o panorama religioso ao tempo de Sócrates, Platão 
e Aristóteles. No Timeu, Platão concede à divindade um carácter politeísta, 
dela participando vários deuses, cada um com funções e domínios 
específicos – o demiurgo é apenas o seu superior hierárquico. 
E quer queiramos quer não, também o nosso mundo está repleto de 
deuses... 
Anote-se, apesar de tudo, que enquanto os filósofos gregos se 
debatiam com a questão dos seus deuses e do seu lugar no mundo, o povo 
judeu já havia encontrado a resposta às suas inquietações: o seu Deus e 
Senhor era único e apresentara-se a Moisés como Javé, “Eu sou o que sou”. 
 
Segundo Simplício, alguns filósofos, nomeadamente Anaximandro, 
Demócrito, Leucipo e no período tardio da filosofia grega, Epicuro, 
imaginaram mundos incontáveis que nasciam e morriam ad infinitum, 
alguns nascendo sempre e outros morrendo. 
 
Muito antes das descobertas científicas iniciadas com Galileu e 
Copérnico, já os gregos expunham hipóteses absolutamente verosímeis: 
Enópides, que viveu no tempo de Anaxágoras, descobriu a obliquidade da 
elíptica; Heraclides do Ponto, nascido em 388 a.C., descobriu que os 
planetas Vénus e Mercúrio giram em torno do Sol e que a Terra gira sobre 
o seu próprio eixo, com uma rotação completa a cada 24 horas; Aristarco 
de Samos, nascido em 310 a.C., afirmou que todos os planetas giram à 
volta do Sol, incluindo a Terra, que tem um movimento de rotação de 24 
horas; Arquimedes afirmou, por seu turno, que quer as estrelas fixas quer 
o Sol não se movem e que a Terra gira em volta deste. A hipótese de 
Aristarco apenas foi defendida na Antiguidade, por Seleuco, que floresceu 
por volta do ano 150 a.C, e tida por errónea até Copérnico – custa-nos a 
acreditar que este a desconhecia. 
 
SÓCRATES, foi mestre de Platão e nas palavras de Cícero trouxe a 
filosofia do céu para a terra. Filosofa sobre o homem e o mundo que com 
ele interage, tendo adoptado a divisa délfica “Conhece-te a ti mesmo”. 
Devemos o conhecimento dos seus ensinamentos a Platão. 
 10
 
É justo afirmar, que quer Platão quer o seu discípulo Aristóteles 
foram os filósofos mais influentes de todo o período filosófico até à idade 
moderna. Talvez Platão, tenha exercido uma maior influência do que o seu 
discípulo Aristóteles, já que a filosofia cristã até ao século XIII foi 
essencialmente platónica. 
 
PLATÃO pensa tudo o que é pensável. Segundo Karl Jaspers – 
Iniciação Filosófica –, “atingiu uma culminância tal, que parece, ninguém 
poder subir mais alto nos domínios do pensamento. É dele que dimanam 
até hoje os mais profundos impulsos para a filosofia”. O mesmo filósofo 
afirma “que o futuro pensador assinala-se pela maneira como compreende 
Platão”. 
Pode dizer-se que foi tão longe quanto possível. Não há nada que lhe 
seja indiferente. Quis que a pesquisa filosófica incidisse sobre “as figuras 
rectas ou circulares, as cores, o bem, o belo e o justo, todo o corpo artificial 
ou natural, o fogo, a água e todas as coisas do mesmo género, toda a 
espécie de seres vivos, a conduta da alma, as acções e as paixões de toda a 
espécie”. 
Para Platão, o Universo foi arquitectado por um demiurgo que teve 
como imagem ou padrão o Bem. 
 
ARISTÓTELES, discípulo de Platão, é indubitavelmente um dos 
fundadores da filosofia ocidental. Os seus ensinamentos tiveram uma fama 
imensa, quase “ditatorial” durante a Idade Média. 
Em Aristóteles o Bem é imutável e o Universo tem uma tendência 
irresistível à sua imitação. 
 
A ESCOLA PERIPATÉTICA nada trouxe de inovador aos 
ensinamentos do mestre Aristóteles. Destacam-se Teofrasto, que defendeu 
a teoria aristotélica da eternidade do mundo e Estratão, que não se socorre 
da divindade para explicar a criação do mundo. 
 
As três grandes escolas pós-aristotélicas, que dominaram o panorama 
filosófico da antiguidade, são: o ESTOICISMO, o EPICURISMO e o 
CEPTICISMO. Evidentemente, que as mencionadas escolas não podem 
estar de acordo quanto aos seus pressupostos teóricos, mas nos fins a 
atingir ao nível prático, denotam uma curiosa concordância: prosseguem 
todas elas a felicidade do homem, que se obtém essencialmente pelo fim da 
inquietude e ausência de desejos e paixões. 
 O estoicismo desbravou o caminho para o cristianismo. 
 
 11
A época clássica da filosofia grega, reconheceu na pesquisa o seu 
valor fundamental. A investigação filosófica alicerça-se na razão, e não na 
tradição e na revelação, como ocorre com a teologia. 
 
Com os filósofos tardios – contando-se entre eles os eclécticos – e o 
seu profundo interesse religioso, muito especialmente com os do 
denominado período romano – Séneca, Epicteto, Marco Aurélio –, quer a 
tradição quer a revelação tomam assento nas especulações, quase que 
pressagiando o aparecimento da filosofia cristã. 
 
A filosofia antiga, termina com a figura ímpar de Plotino. 
 
 
 
4 – FILOSOFIA CRISTÃ 
 
 
 
A história do pensamento ocidental, a partir dos finais da 
Antiguidade, é fortemente influenciada pelo cristianismo. A filosofia cristã 
teve a sua existência iniciada pelos Padres da Igreja – v.g. Orígenes –, 
passando por Santo Agostinho, S. Tomás e outros, até ao Renascimento. O 
primeiro período é dominado por Santo Agostinho e o segundo por São 
Tomás de Aquino, que tal como os seus sucessores adoptou a filosofia 
aristotélica. Curiosamente, diga-se, que entre Boécio – nascido em 480 – e 
Santo Anselmo – nascido em 1033 – decorreram mais de cinco séculos, e 
se algum filósofo se destacou, foi Escoto Erígena. 
O período compreendido entre 600 e 1000, ficou conhecido como 
Idade Obscura. No entanto, na China é a época da dinastia Tang, 
florescente e pródiga fundamentalmente no domínio da poesia. Também a 
civilização islâmica floresceu neste período. 
 
Com a filosofia cristã, estabeleceu-se o princípio de que a verdadeira 
vassalagem do homem é para com Deus, e não para com a autoridade do 
Estado. 
Se a filosofia grega é procura e liberdade, a filosofia cristã começa 
por se ater à revelação. Mas, não se cinge única e exclusivamente à 
“verdade” dogmática, antes procura compreender para a poder realizar, a 
mensagem de Jesus. 
Para atingir os seus objectivos, não deixou de recorrer à filosofia 
grega, em especial à do seu último período, profundamente imbuída de 
conceitos religiosos. O aproveitamento destas doutrinas, ocasionou não em 
poucas especulações, resultados contraditórios ou até absolutamente 
 12
incompatíveis com os dogmas e princípios fundamentais do cristianismo. O 
teólogo Dean Inge, afirma que não é possível separar o platonismo do 
cristianismo, sem que este seja dilacerado, e que São Tomás sofreu maior 
influência de Platão do que de Aristóteles – esta opinião no tocante à 
maior influência de Platão do que de Aristóteles em São Tomás não tem a 
anuência da maior parte dos historiadores da filosofia. Não olvidemos, 
que a influência de Plotino – último dos grandes filósofos da antiguidade e 
fundador do neoplatonismo – na teologia cristã, se dá por intermédio de 
Santo Agostinho. 
 
A pesquisa está limitada na maior parte dos filósofos aos 
ensinamentos e determinações da Igreja. E aqui, ou se sabe para crer ou se 
crê para saber. Vive-se na certeza da existência de Deus, da imortalidade da 
alma, da criação do mundo e da providência divina. 
Na filosofia cristã deparamo-nos com um conceito metafísico 
absorvente: o de Deus, o deus do monoteísmo judaico, que se transforma 
no Deus do monoteísmo cristão. 
 Os Evangelhos são os alicerces de toda a estrutura do pensamento 
desta época. Os judeus ainda aguardam o Messias, enquanto que os cristãos 
já o tiveramna pessoa de Jesus Cristo, que é o Logos da filosofia grega – 
veja-se o Evangelho de João, onde Jesus é identificado com o Logos 
platónico e estóico. 
 
Tenha-se em consideração que o Inferno não é uma crença de origem 
cristã, mas baseia-se em crenças ancestrais. 
 
 
 
A PATRÍSTICA é a filosofia dos Padres da Igreja, que termina em 
meados do século VIII – com João Damasceno e Beda o Venerável. 
Dedica-se essencialmente ao estudo das relações entre filosofia e teologia, 
ao conhecimento da existência de Deus e da sua essência, ao mistério da 
Trindade e á criação do mundo. 
 
A gnose resultou num ataque contra o cristianismo. Mais do que a fé, 
é conhecimento, pesquisa filosófica, condição essencial à salvação. 
Recebeu uma influência determinante das doutrinas dos filósofos gregos. 
É evidente que as teorias gnósticas afrontavam e colocavam em risco 
a harmonia doutrinal do cristianismo. Aí, surgem pensadores cristãos que 
polemizam contra a gnose, vendo-se obrigados a uma elaboração doutrinal 
mais refinada, do que a assumida pelos padres apologetas dos primórdios 
da Patrística. 
 
 13
O século VI sofreu a influência de três grandes homens: Justiniano – 
pelas leis –, S. Bento – pela organização das ordens monásticas – e 
Gregório Magno – pelo incremento do poder papal. 
 
O conhecimento da obra de Santo Agostinho dá-nos um acesso 
seguro à filosofia cristã do primeiro período e a toda a pesquisa que tenha a 
alma por objecto. Para o Santo, Deus é a substância única que tem uma 
existência própria, que existe por si só. Por outro lado, o mundo, tudo o que 
por exclusão não é Deus, e cuja existência deste depende. 
 
 
 
A ESCOLÁSTICA define a especulação filosófica e teológica que 
teve abrigo nas múltiplas escolas eclesiásticas e nas universidades da 
Europa a partir do século IX e até ao Renascimento. Durante este período 
procurou conciliar-se a razão com a fé, com o apoio da filosofia grega – em 
especial a de Aristóteles. 
 
Em São Tomás de Aquino, Deus é o “Ele que é” do monoteísmo 
judaico. É o Ser, uma das questões metafísicas mais obscuras e de difícil 
resposta. O Ser é o acto em função do qual a essência é. Retomando o 
conceito de causa última, sendo assim suprema, Deus é o ente em que 
existência e essência coexistem, o que o leva a afirmar que “todos os seres 
pensantes conhecem implicitamente Deus em toda e qualquer coisa que 
conhecem.” Segundo Étienne Gilson, São Tomás foi tão longe quanto 
possível em metafísica, opinião que não é partilhada por Bertrand Russel. 
 
Depois de S. Tomás, realcemos as figuras de Rogério Bacon – 
representante do experimentalismo científico do século XIII –, Duns Escoto 
e Occam – último grande filósofo da Escolástica –, sem que olvidemos o 
misticismo de Mestre Eckhart. 
 
 
 
5 – RENASCIMENTO 
 
 
 
Surgiu na Itália, na primeira metade do século XIV, um movimento 
denominado Renascimento. Este, é um verdadeiro regresso à cultura grega 
e latina, por oposição ao obscurantismo da Idade Média. 
 
 14
A filosofia grega era pesquisa, liberdade indagatória, busca da 
verdade. A filosofia da Idade Média, estribava-se fundamentalmente na 
verdade revelada, criando fortes amarras à liberdade investigatória 
essencial ao conhecimento filosófico, já por si limitado pelas imperfeições 
da razão. 
 
Com o Renascimento há uma nova concepção do mundo, que não a 
aristotélica. Naturalistas – v.g. Bruno –, platónicos – v.g. Nicolau de Cusa – 
e cientistas – v.g. Copérnico –, são disso um exemplo. Pode afirmar-se que 
o pensamento moderno tem os seus fundamentos ou, se se quiser, o seu 
início neste período. 
 
A inclusão neste ensaio, de Copérnico, Galileu e Kepler, justifica-se 
porquanto, com o primeiro foi definitivamente destruída a cosmologia 
aristotélica, com o segundo a ciência moderna atinge o amadurecimento 
necessário conducente às múltiplas investigações posteriores, e todos, 
foram atacados ou perseguidos, quer por católicos quer por luteranos. 
 
 
 
6 – FILOSOFIA MODERNA 
 
O período moderno é caracterizado pela perda da autoridade da 
Igreja e pelo estabelecimento definitivo da autoridade da ciência. Durante a 
Idade Média, praticamente todos os filósofos eram religiosos. No período 
moderno, os filósofos são leigos, excepcionando-se, em especial, 
Malebranche e Berkeley. Pode dizer-se, que a partir do século XIX, a Igreja 
andou apartada da filosofia. 
 
Inexiste coesão sistemática na filosofia moderna, contrariamente ao 
que aconteceu com a filosofia antiga e com a cristã. 
 
O deus dos filósofos é um conceito não religioso do divino. Pascal – 
Memorial – distingue aquele que não é objecto de fé, ao Deus de Abraão, 
de Isaac e de Jacob. O deus dos filósofos é a causa do que o segue, e é 
antes do mais, causa de si mesmo. 
 
Se Deus criou este mundo, podemos ou não assacar-lhe as múltiplas 
imperfeições dos seres, da responsabilidade do mal? 
A religião de Rosseau é natural: “Creio que o mundo é governado 
por uma vontade poderosa e sábia: vejo-o, ou melhor, sinto-o e isso 
importa-me saber. Mas este mundo será eterno ou criado? Haverá um 
 15
princípio único das coisas? Haverá dois ou vários? E qual é a sua natureza? 
Nada sei e que me importa!” 
 
Kant julga que Deus é indemonstrável. Não é pela razão que Deus 
pode ser atingido, sendo a sua existência um mero investimento moral. Ele 
é uma “pura crença da razão”. 
 
Com as conquistas operadas pela ciência no século XX, os filósofos 
começaram a isolar a fé na existência de Deus, da compreensão do mundo 
natural. Acreditar em Deus, é algo que decorre da interioridade de cada ser 
humano, algo de absolutamente prático. 
 
Não concordamos com Malraux quando afirma que “o século XXI 
será espiritual ou não existirá”, nem integralmente com a asserção de 
Freud, que a religião nada mais exige para se curar do que a “educação para 
a realidade”. 
Deus, a alma, a ressurreição, a reencarnação, são pontos de 
referência da inquietude humana que se compreendem em função de uma 
angústia essencial e do seu melhor aliado: o medo. 
 
Na perspectiva de Étienne Gilson, o problema metafísico de Deus é 
dominado pelo pensamento de Kant e Comte. Relevam ainda, 
sobremaneira, todos os que nos dois últimos séculos “mataram” Deus: 
Charles Darwin, Friedrich Nietzshe e Karl Marx. 
 
Procurámos resumir o pensamento de alguns dos mais importantes 
filósofos modernos, escolhendo como representante da pós-modernidade, 
Bertrand Russel. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 16
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
FILOSOFIA ANTIGA 
 
 
 17
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
HESÍODO 
Aristóteles afirmou que foi Hesíodo o primeiro a procurar um 
princípio das coisas. 
 
A Teogonia terá sido na Grécia o mais antigo escrito da cosmologia 
mítica. É uma obra de carácter mitológico, mas que é uma cosmogonia. 
Hesíodo narra a genealogia dos deuses personificadores de forças 
naturais e o modo como o mundo nasceu do caos – mundo que tem em si a 
ordem. 
É Zeus vitorioso, que garante a ordem e exerce o seu poder sobre 
todas as coisas e seres. 
 
Depois de Hesíodo, conhece-se a cosmologia de Ferecides de Siros – 
ver infra. 
 
“Antes de todas as coisas era o Caos, depois veio a Terra, sólido e 
eterno, 
assento de quanto existe. 
E Eros, o mais belo dos deuses mortais (...). 
Do Caos nasceram Érebo e a escura Noite e, da Noite, se geraram o 
Éter e a Luz do Dia.” 
 Teogonia 
 
 
 18
 
FERECIDES DE SIROS 
Séculos VII – VI a.C. 
 
Ferecides, nasceu por volta de 600 a.C., foi contemporâneo de 
Anaximandro e escreveu um livro onde se pode ler no seu início: 
“Zeus, Cronos e Ctónia são imortais. 
 Ctónia tomou o nome de terra 
Quando Zeus lhe enviou uma oferenda.” 
 
Zeus existiudesde sempre e juntamente com Cronos e Ctónia, é um 
dos principais deuses. 
Zeus, transformado em Eros, que representa o Amor, procede à 
construção do mundo. 
 
 
 
SETE SÁBIOS 
A designação de “Sete Sábios” é meramente simbólica. Apenas 
quatro aparecem em todas as enunciações: Tales, Pítaco, Bias e Sólon. 
Platão fez-lhes acrescer: Cleóbulo, Míson e Quílon. 
 
São-lhes atribuídas sentenças morais. 
 
Uma enumeração geralmente aceite: Cleóbulo de Lindos, Sólon de 
Atenas, Pítaco de Mitilene, Tales de Mileto, Bias de Pirene, Quílon de 
Lacedemónia, e Periandro de Corinto. 
 
 
 
BIAS DE PIRENE 
Um dos Sete Sábios. 
 
São-lhe atribuídas, entre outras, as seguintes sentenças: 
“A maior parte dos homens é desonesta; A maioria é perversa; Vê-te num 
espelho (que equivalerá ao “conhece-te a ti mesmo”); Quanto aos deuses, 
limita as tuas afirmações a dizer que são deuses.” 
 
 
 
 19
 
 
TALES DE MILETO 
VII – VI a.C. 
 
Terá sido Tales quem primeiro recebeu o epíteto de Sábio e quem é 
unanimemente tratado em todos os tratados e histórias da filosofia como o 
primeiro dos filósofos, por ter sido provavelmente o primeiro, a negar a 
tradição mítica e a iniciar o trilho do método científico. 
 
É possível que nada tenha escrito. 
 
O fundador da escola jónica deve ter nascido no ano 624 a.C. e 
falecido em 546 ou 545, e para além de filósofo foi astrónomo, físico e 
matemático. 
Ficou famoso por ter predito um eclipse, que terá ocorrido em 585 
a.C. 
Como refere Aristóteles, na Política (1259,a), era bastas vezes 
censurado pela sua pobreza, que parecia mostrar a inutilidade da filosofia. 
Daí, a famosa história dos aluguer dos lagares de azeite, quando previu 
uma boa colheita de azeitona, demonstrando que se o sábio não enriquece é 
por que o não pretende. 
 
Algumas sentenças morais que lhe são atribuídas por Demétrio de 
Falera: 
“ Evita os adornos exteriores e procura os interiores; Evita a compaixão 
alheia; Evita a desonestidade.” Há ainda quem lhe atribua a máxima, 
“Conhece-te a ti mesmo”, adoptada por Sócrates. 
 
Segundo Cícero, afirmou ser a água a origem de todas as coisas, 
sendo Deus a inteligência criadora, tomando a água por matéria prima. 
Assim, a água para Tales é o primeiro princípio de todas as coisas, talvez a 
substância viva e divina do universo. Unida à água estaria uma força 
vivificante, o que o terá levado a afirmar que “tudo está pleno de Deus”. 
“As aparências sensíveis levaram-no a tal conclusão, porque os seres 
vivos carecem de humidade para se manterem vivos, pois o que seca, 
morre, acontecendo por isso, serem húmidos todos os germes, os quais 
possuem uma seiva.” (Simplício) 
Terá também afirmado que a terra repousa sobre a água (Simplício) e 
o Cosmos é Uno, sendo Deus a inteligência universal e o líquido elementar 
penetrado pela energia divina, que assim o coloca em movimento (Aécio). 
 
 20
 
 
ANAXIMANDRO DE MILETO 
Séc. VI a.C. 
 
Anaximandro, da Escola Jónica, da família de Tales, foi seu 
discípulo e sucessor. Teria 64 anos em 546 a.C. Há quem refira que nasceu 
em 610 a.C., e que faleceu em 547. 
 
Na sequência das investigações físicas encetadas por Tales, 
descobriu o equinócio, o solstício e os quadrantes relativos às horas, 
introduzindo os princípios do relógio de sol. 
 
É o primeiro autor conhecido de escritos filosóficos da Grécia antiga. 
A sua obra, denominada Acerca da Natureza, é extraordinariamente 
interessante na audácia das teses cosmológicas. 
 
Para Anaximandro, a terra tem a forma cilíndrica e é um astro que se 
encontra no centro do nosso mundo – porquanto muitos outros nos 
circundam –, não sendo arrastada para qualquer dos seus lados em virtude 
de se encontrar equidistante. 
 
Tudo deriva de uma substância prima, infinita e eterna – apeiron – 
que contém em si todos os mundos. Essa substância prima, não pode ser 
qualquer um dos elementos conhecidos, porquanto se um o fosse, 
conquistaria e destruiria os restantes. Todas as coisas provêm do apeiron – 
o que não tem limites, o infinito – e todas retornam ao apeiron. Neste 
particular, lembra-nos Einstein, que afirmou a impossibilidade da matéria 
ser criada ou destruída. 
 
“A origem dos seres é o infinito, no qual tudo se gera e tudo se 
dissipa, de onde já ter havido um número inestimável de mundos gerados e 
corruptos pelo retorno à origem. Expôs as causas segundo as quais o 
princípio é o infinito, dizendo que a razão da origem não conhece nenhuma 
carência; mas não esclareceu se esse infinito é o ar, a água, a terra ou outro 
elemento.” (Aécio) 
O infinito é o princípio – ao que os seus predecessores denominavam 
substância única, chamou princípio – que tudo abarca. Os seus atributos 
concedem-lhe o estatuto de divindade: indestrutível e por conseguinte, 
imortal. Se infinito, é ilimitado e, este, é eterno. Ilimitado, indestrutível, 
eterno, é matéria, mas matéria em que os mais variados elementos estão 
ainda indiferenciados. Princípio infinito e indefinido. 
 
 21
Pelo processo de separação decorrente do movimento incessante da 
matéria infinita geram-se mundos finitos – não há nada que o infinito não 
comporte – que se sucedem ininterruptamente. Não podemos dizer que 
Anaximandro previu, não a criação dos mundos, mas antes a sua evolução. 
O próprio homem provém de espécies diversas da nossa. 
 
 
 
ANAXÍMENES DE MILETO 
Séc. VII – VI a.C. 
 
Anaxímenes, da Escola Jónica, nasceu por volta do ano 550 a.C. e 
faleceu em 480. Foi discípulo de Anaximandro, e considerou constituir o ar 
o primeiro princípio, sendo manifestamente superior aos corpos simples. 
O ar encontra-se em incessante movimento, sendo um princípio 
infinito – veja-se Anaximandro, que postulou as mesmas características 
para a substância primeira, sem que no entanto a identificasse com 
qualquer elemento específico. É uma força vivificante que produz a 
ordenação do mundo e do que o envolve. É o princípio de que tudo deriva. 
 
Contrariamente ao seu mestre Anaximandro, reconheceu ser o ar a 
única substância infinita. Este elemento, difere nas substâncias em virtude 
da dilatação e da condensação: quando subtil é fogo, quando condensado, 
vento, nuvem, água, terra e rocha (Simplício). 
 
O ar é divino. É do ar que tudo deriva: deuses, seres, coisas. 
Assim como a alma, que é ar, nos suporta, orienta e mantém, assim o 
sopro e o ar envolvem o cosmos (Fragmentos). 
 
O mundo respira – a respiração é a sua própria vida e alma –, e a 
nossa alma é constituída por ar. Há uma antiga tradição que julga que 
sendo a alma ar, poderia ser casualmente expulsa do corpo pelos espirros; 
daí a atitude supersticiosa de protecção, que leva a que as pessoas que estão 
junto daquele que espirra, a pronunciar mecanicamente um “Deus te 
abençoe” ou “santinho”, fazendo assim, com que a alma retorne ao corpo, 
caso tivesse sido efectivamente expelida. 
 
A terra é um disco cercado completamente por ar. 
 
Não deixa de ser interessante anotar, que na Antiguidade foi mais 
célebre que Anaximandro, tendo-se invertido os papéis a partir da Idade 
Moderna. 
 
 22
 
 
ANAXÁGORAS 
Séc. V a.C. 
 
Membro da Escola Jónica, foi discípulo de Anaxímenes. Nasceu em 
Clazomene por volta de 500 a.C. Viveu durante cerca de trinta anos em 
Atenas, onde terá fundado uma escola. Faleceu no ano de 428 a.C. Na 
escola que fundou em Atenas, participaram entre outros, Péricles e 
Eurípides. 
 
De Anaxágoras ficaram-nos umas duas dezenas de fragmentos, que 
incidem sobre questões físicas e metafísicas. 
 
Viveu para “contemplar o Sol, a Lua e o céu”. Não se desassossegou 
com negócios ou com a vida política. Um dia, acusaram-no de ser 
indiferente à sua pátria, ao que apontando para os céus, disse: “A minha 
pátria importa-me muitíssimo”. 
Aceitou o princípiode Parménides, no que toca à imutabilidade do 
Ser. 
 
Para Anaxágoras, Deus é a inteligência criadora do Universo 
(Aécio). Sendo Deus, ou estando o divino separado do mundo, sendo sua 
causa, alterou o pensamento dos filósofos que afirmaram a não criação do 
mundo, v.g., de Anaximandro. A existência de ordem no mundo é 
consequência dessa entidade omnisciente. 
 
A alma distingue o homem da matéria, e é a origem do movimento. 
Segundo ele, em cada coisa há uma porção de todas as outras, 
exceptuando-se a alma, que apenas algumas coisas contêm. A alma tem 
poder sobre tudo o que é vivo, é infinita, autoguiada, e nela não há qualquer 
mistura ou aglomeração de elementos das restantes coisas – as coisas por 
mais pequenas que sejam, contêm porções de todos os contrários, como 
por exemplo, o quente e o frio, o branco e o preto. 
 
Todas as coisas estavam juntas, sendo infinitas em número e em 
grandeza, na ilimitada pequenez, porquanto o infinitamente pequeno 
também existia, e enquanto estiveram juntas, nenhuma podia distinguir-se 
das outras, como consequência dessa pequenez. O Caos era ocupado pelo 
ar e pelo éter, ambos ilimitados, porque são eles que transcendem todas as 
coisas em número e em grandeza. 
 
 23
A terra formou-se de coisas separadas, como a água se separa das 
nuvens, a terra da água e, da terra, em virtude do arrefecimento, as pedras, 
ainda mais do que a água, precipitando-se para o exterior. 
 
Diz que os Helenos falam erroneamente quando dizem “nascer” e 
“morrer”, porque nada nasce, nada morre, apenas se verificando que as 
coisas se combinam ou se separam, ou melhor: todas as coisas tiveram um 
princípio por composição, e todas acabam por decomposição. 
 
 
 
ARQUELAU DE ATENAS 
Séc. V a.C. 
 
Arquelau pertenceu à Escola Jónica, foi discípulo de Anaxágoras e 
mestre de Sócrates – daí que o mencionemos. 
 
Considerou ser o ar infinito o primeiro princípio, condensado e 
rarefeito. 
 
 
 
HERACLITO DE ÉFESO 
Séculos VI – V a.C. 
 
Para Heraclito, cidadão de Éfeso, da Escola Jónica, que viveu cerca 
de 500 a.C. – terá nascido em 576 e falecido em 480 –, contemporâneo de 
Parménides, o fogo é a origem de todas as coisas e todas elas se convertem 
em fogo, a cujo destino não podem fugir. O fogo é um princípio dinâmico, 
criador, que existiu desde sempre e existirá no porvir. Do fogo nasce a 
chama, mas para que esta nasça, algo tem de morrer – verbi gratia, o 
combustível. “Os mortais são imortais e os imortais são mortais, uns 
vivendo a morte dos outros e morrendo a vida dos outros.” 
 
Escreveu a obra Da Natureza, de que nos restam pouco mais de cem 
fragmentos. 
 
A sua fama depende essencialmente da doutrina que afirma o fluxo 
de todas as coisas. A vida é uma sequência de factos dissemelhantes, um 
fluxo contínuo de criação e morte. O fogo é o elemento primitivo da 
matéria, que está submetida a perpétua mudança. 
 
 24
Para além da doutrina do fluxo perpétuo, teorizou ainda a harmonia 
de tensões opostas ou da combinação dos opostos. Assim, bem e mal são o 
mesmo e para Deus todas as coisas são belas, justas e boas, sendo o próprio 
homem que erroneamente julga umas justas e outras injustas. 
 
“Deus é dia e noite, Verão e Inverno, guerra e paz, saciedade e fome; 
mas toma formas várias como o fogo; quando misturado com aromas toma 
o nome de cada um deles.” 
 
Tinha um manifesto desprezo pela humanidade, tendo afirmado entre 
outros, que o burro prefere a palha ao ouro. 
 
Por oposição a “deuses”, Heraclito fala em Deus. O caminho que 
conduz à sabedoria é o de Deus, nunca o dos homens, já que estes são 
como crianças para Deus, tal como a criança é para o homem. 
O Universo é Uno e não foi criado por nenhuma divindade. Todas as 
coisas têm a sua origem no Uno – que é Deus. O Uno vem de todas as 
coisas e todas as coisas do Uno. 
 
 
Segundo Platão, sustenta que todas as coisas se encontram em 
processo, em perpétua mudança, que nenhuma permanece como parece e, 
comparando-as a um rio, ninguém pode descer duas vezes nas mesmas 
águas: “Não é possível descer duas vezes ao mesmo rio nem tocar duas 
vezes numa substância mortal no mesmo estado; pela velocidade do 
movimento, tudo se dissipa e se recompõe de novo, tudo vem e vai”. A 
morte da terra é a sua transformação em água, a da água é a sua mudança 
em ar e o ar transforma-se em fogo e o fogo em ar. 
A doutrina do fluxo perpétuo não aquieta o homem na busca de algo 
que seja permanente. Foi Parménides, que procurou resolver esta 
inquietude essencial, inerente à natureza humana. 
 
A alma é composta por fogo e água, o primeiro, obviamente um 
elemento nobre, enquanto que a água lhe é inferior. Daí que a alma seca, 
seja mais sábia e melhor. Interessante é a imagem do homem bêbado: “Um 
homem bêbado é conduzido por um rapazola imberbe, tropeça, não sabe 
onde põe os pés, por ter a alma húmida.” 
Heraclito defende que o conhecimento da alma nos é interdito: “Tu 
não encontrarás os confins da alma, caminhes o que caminhares, tão 
profunda é a sua razão”. 
 
Antecedendo Sócrates, considera que o ser humano deve examinar-
se a si mesmo e aos outros. 
 25
 
 
FRAGMENTOS 
 
O Sol tem um diâmetro correspondente ao tamanho do pé do homem. 
 
Noctâmbulos, magos, sacerdotes de Baco, sacerdotisas da pipa de vinho, 
negociantes de mistérios. 
 
Os mistérios praticados pelos homens são ímpios. 
 
Juntai o pleno ao nulo, a concórdia à discórdia, a harmonia à desarmonia, 
pois tudo é uno, e o uno é tudo. 
 
O que espera os homens após a morte não é, nem o que esperam, nem o 
que julgam. 
 
Este mundo, o mesmo para todos, não foi criado, nem pelos deuses, nem 
pelos homens; é, como sempre foi, e sempre será, um fogo permanente, 
com moderação se extinguindo e com moderação se iluminando. 
 
E eles dirigem preces a essas imagens, e é como se falassem para as 
paredes, não sabendo o que são os deuses e os heróis. 
 
Descemos e não descemos às águas do mesmo rio, somos e não somos. 
 
Todas as coisas se modificam pelo fogo e o fogo modifica-se por todas as 
coisas, assim como as mercadorias se trocam por oiro e o oiro por 
mercadorias. 
 
 
 
DIÓGENES DE APOLÓNIA 
Séc. V a.C. 
 
Diógenes de Apolónia, da Escola Jónica, foi discípulo de 
Anaxímenes e um fisiólogo de renome. 
 
Considera que o ar infinito é a origem de todos os seres e defende a 
tese da finitude do mundo. 
 
Segundo Diógenes Laércio, são estas as teorias de Diógenes de 
Apolónia: 
 26
- Existe um elemento, o ar, e um caos ignoto e insondável. 
Consoante a densidade, o ar gera os seres; 
- Nada nasce do nada e nada volta ao nada; 
- A terra é esférica e situa-se no centro do Universo. 
 
 
FRAGMENTOS 
 
“Penso que a substância primordial que contém a razão é o elemento 
chamado ar, que governa e ordena todas as coisas, sendo ainda o ar, na 
minha opinião, a própria divindade, por se encontrar em toda a parte.” 
 
 
 
PITÁGORAS DE SAMOS 
Séculos VI – V a.C. 
 
Pitágoras, discípulo de Ferecides de Siros, deverá ser englobado na 
Escola Itálica. Talvez tenha também sido discípulo de Anaximandro e 
viveu por volta de 532 a.C. É uma personagem enigmática, mítica, a quem 
foram atribuídos poderes miraculosos. Como S. Francisco, pregava aos 
animais, já que “todas as coisas vivas devem tratar-se como aparentadas”. 
Era considerado pelos seus discípulos como um semideus. 
 
Não sabemos se escreveu alguma obra. No entanto, há uma doutrina 
que lhe é unanimemente reconhecida: a imortalidade da alma e sua 
transmigração para outros seres. Dicaiarcos afirma que Pitágoras foi o 
primeiro a ensinar que “a alma é imortal e se transforma em outras espécies 
de seres vivos”. 
Os seus ensinamentos estarão reunidos num poema denominado Os 
Versos de Ouro, datado do século IV, ainda que de forma muito 
incompleta.A matemática enquanto demonstração dedutiva, inicia-se com 
Pitágoras. A vida é um jogo de números. 
Bertrand Russel considera-o um dos homens mais importantes de 
sempre. 
Foi fundador de uma religião onde se afirmava a transmigração das 
almas e a proibição de comer favas. Eis alguns preceitos da sua religião: 
- Não comer favas; 
- Não apanhar o que caiu; 
- Não tocar num galo branco; 
- Não partir pão; 
 27
- Não passar sobre uma tranca; 
- Não comer o coração; 
- Não passar em estradas. 
 
Algumas das doutrinas que lhe foram atribuídas tiveram uma 
divulgação quase universal: 
- a alma é imortal; 
- a alma transforma-se em outros seres; 
- os fenómenos naturais são cíclicos; 
- não existe nada de novo na terra; 
- tudo se parece. 
 
Segundo Pitágoras, “somos estrangeiros no mundo; o corpo é o 
túmulo da alma, mas não devemos fugir pelo suicídio; porque nós somos 
bens de Deus, nosso pastor, e sem sua ordem não temos o direito de nos 
evadirmos. Na vida há três espécies de homens, exactamente como nos 
jogos olímpicos. A classe inferior é a dos que vêm comprar e vender; a 
seguinte, a dos competidores; e, acima de todos, os que simplesmente 
vêem. A maior purificação é portanto a ciência desinteressada, e o homem 
que mais se lhe dedica, o verdadeiro filósofo, é quem mais se liberta da 
roda dos nascimentos”. 
 
Para os pitagóricos a matemática exprimia a verdade. O número 10 é 
o número autêntico. A sua energia depende do número 4: se partirmos do 
número 1 e somarmos os números até ao 4, obtemos o 10 – 1+2+3+4. 
Russel, crê ser a matemática a principal fonte da crença na verdade 
eterna e exacta e num mundo inteligível supra-sensível. Matemática e 
teologia, numa combinação profícua, tiveram o seu começo com Pitágoras 
e influenciaram as filosofias religiosas da Grécia, da Idade Média e da 
Moderna, até ao aparecimento de Kant. 
 
Algumas das regras de oiro estabelecidas por Pitágoras: 
- Presta culto aos deuses conforme o grau de divindade que lhes é 
atribuído; 
- Cumpre a tua palavra; 
- Honra pai e mãe e parentes de sangue; 
- Domina o desejo, o sono, as paixões e a ira; 
- Evita as acções pecaminosas, estejas só, estejas acompanhado; 
- Cultiva o respeito por ti próprio; 
- Exercita a prática da justiça; 
- Pensa antes de fazer seja o que for, evitando acções fúteis; 
- Procura ser saudável; 
- Examina a tua consciência diariamente; 
 28
- Cumpre tudo isto (...) e terás fugido à lei da morte! 
 
No que ao mundo respeita, os pitagóricos admitiam no seu centro, a 
mãe dos deuses, um fogo central donde derivaram todos os astros. 
 
 
 
EMPÉDOCLES DE AGRIGENTO 
Séc. V a.C. 
 
Empédocles, da Escola Itálica, foi condiscípulo de Parménides, 
apesar de mais novo, e dos pitagóricos. Nasceu em Agrigento e terá vivido 
por volta de 440 a.C. Há quem estabeleça a data da sua morte no ano de 
490 a.C. 
 
Foi político e intitulou-se “deus”. É um filósofo lendário, do qual se 
diz ter operado inúmeros milagres – v.g. a ressuscitação de uma mulher – e 
ser capaz de dominar os ventos. Morreu tentando demonstrar a sua própria 
divindade, precipitando-se na cratera do vulcão Etna. 
 
De Empédocles dispomos de cerca de 500 versos, das obras Da 
Natureza e As Purificações. 
No poema Da Natureza, conceptualiza como origem de todas as 
coisas, quatro raízes – quatro elementos. 
Nas Purificações, trata da transmigração das almas, o que é sempre 
um mal para o homem. 
 
No domínio cosmológico, afirmou a existência de quatro elementos: 
o fogo, o ar, a água e a terra. Estes são eternos, mas combinam-se uns com 
os outros, em proporções diferentes, formando-se assim, todas as 
substâncias conhecidas. 
Existem duas energias criadoras: o Amor e a Repulsa, uma que une e 
outra que cinde. 
O mundo nasce ou morre consoante o predomínio do Amor ou da 
Repulsa. Quando o Amor domina, há um perfeito equilíbrio. Mas, durante 
este período os elementos estão fundidos num todo, que mais não é do que 
um deus que se compraz na sua própria solidão. 
 
À sublimação chama Zeus, ao ar chama Hera, à terra chama Adónis, 
enquanto Néstia e a fonte viva significam o sémen e a água. 
 
A purificação dos homens, faz-se através da transmigração das 
almas. 
 29
 
Os elementos não existem em lugares determinados, nem constantes, 
uma vez que se encontram em perpétua e recíproca transmutação. 
 
 
FRAGMENTOS 
 
Dos elementos provém tudo o que foi, tudo o que é, e tudo o que será. 
 
Fui rapaz, depois rapariga, árvore e ave, peixe mudo do mar. 
 
Deus é incorpóreo, não tem cabeça humana, nem dorso de onde saiam, 
como dois ramos, os braços; não tem pés, nem joelhos flexíveis, nem 
membro viril, tufado de pelugem; é um espírito augusto, uma inefável 
energia, cujo veloz pensamento trespassa o Universo. 
 
 
 
XENÓFANES DE CÓLOFON 
Séculos VI – V a.C. 
 
Xenófanes foi o iniciador da Escola Eleática. Esta afirma, que as 
denominadas coisas não são mais do que uma coisa. 
 
Das suas Elegias pouco sabemos, apenas que defendeu o panteísmo e 
distinguiu a ciência da mera opinião. 
 
O mundo é incriado, eterno e incorruptível. (Aécio) 
Os homens nascem da terra e da água. Todas as coisas têm a sua 
origem na água. 
 
Acreditava num único Deus, que “sem esforço dirigia todas as coisas 
pela força do espírito”. 
O seu Deus é um deus total e é obviamente eterno e imutável, que 
dirige o mundo pela força incomensurável do seu espírito. Criticou 
veementemente Homero e Hesíodo: 
“Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses as causas do opróbrio e da 
desonra dos mortais; o roubo, o adultério e a traição. 
Os mortais julgam que os deuses são gerados como seres mortais, que se 
vestem, falam e possuem um corpo como o nosso. 
Se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos, poderiam com elas 
apanhar os objectos e produzir obras como fazem os homens; os cavalos 
pintariam figuras divinas semelhantes a equídeos, os bois pintá-las-iam 
 30
tauriformes, enfim, cada animal pintaria os deuses à sua própria imagem e 
semelhança. 
Os etíopes afirmam que os deuses são baixos e pretos; os trácios dizem que 
os deuses têm olhos azuis e cabelos ruivos. 
Há um só Deus, senhor soberano dos deuses e dos homens, que não se 
parece com os homens, nem pelo corpo, nem pela alma. Que vê o todo, 
pensa o todo, sabe o todo. Que tudo põe em movimento, por vontade do 
pensamento, sem esforço.” 
 
Contrariou a doutrina da metempsicose, chegando mesmo a 
ridicularizar Pitágoras. Este, passava numa rua enquanto um cão estava a 
ser maltratado. Xenófanes, dirigindo-se a quem maltratava o animal, de 
forma a que Pitágoras o ouvisse, disse: “Pára, não lhe batas, é a alma de um 
amigo! Reconheci-o pela voz.” 
 
Tinha um perfeito conhecimento das suas limitações, quer filosóficas 
quer teológicas: “Nenhum homem sabe nem saberá a verdade exacta acerca 
dos deuses e de todas as coisas de que falo. Mesmo que um homem 
pudesse dizer alguma coisa inteiramente verdadeira, não o saberia; só há 
conjecturas”. 
 
 
 
PARMÉNIDES DE ELEIA 
Séculos VI – V a.C. 
 
Terá nascido em Eleia no ano de 540 a.C. e falecido em 450. 
Parménides foi discípulo de Xenófanes e de Anaximandro. Pode 
considerar-se o fundador do eleatismo. Sócrates, ainda jovem, ter-se-á 
encontrado com Parménides, com quem adquiriu preciosos conhecimentos. 
 
Do poema Da Natureza, apenas temos acesso ao seu início, que é 
profundamente esotérico. 
 
Se Heraclito considerava o fluxo permanente das coisas, ou seja, que 
tudo muda, Parménides em resposta a tal doutrina, afirmava que nada muda 
e que a mudança é uma ilusão. 
A sua doutrina está condensada no poema Da Natureza, do qual 
subsistem 160 versos. 
 
Para Parménides, o Todo é finito, equidistante do centro. O mundo é 
Uno. 
 
 31
Os sentidos iludem-nos, como ilusórias são ascoisas sensíveis. O 
Uno, infinito, é o único ser verdadeiro – o Uno de Parménides não é o que 
podemos entender por Deus, já que é material, infinitamente extenso, 
sendo uma esfera indivisível porquanto em toda a parte presente. 
 
Deus é imutável, limitado, esférico. O Ser é completo e perfeito. 
Completo apenas o pode ser algo finito, já que o infinito é incompletude. E 
é esférico, que é o símbolo da perfeição. 
 
Quer Parménides quer Demócrito afirmaram que tudo se processa 
em função da necessidade, que consiste numa conjuntura de fatalidade, 
justiça e providência, criadora do mundo. 
O mundo é incriado, eterno e incorruptível. A eternidade é a pura 
negação do tempo, contrariamente à tese que defende a infinitude temporal. 
 
As duas vias indagatórias, segundo Parménides: 
- Uma afirma que o Ser é, e que o ser não pode deixar de ser, sendo esta 
a via da verdade; 
- A outra, que o Ser não é, que o Não-Ser é, nada se podendo aprender 
por esta via. 
Em suma, o Ser é! 
 
O Ser não pode em caso algum nascer. Se nascesse derivaria do não-
ser, o que é de todo impensável, porquanto o não-ser não é. Também não 
pode perecer, porque ao perecer teria de se dissolver no não-ser, que como 
já ficou dito não é. 
 
O que de Parménides foi mais marcante na complexa história da 
filosofia, não foi a impossibilidade de existir qualquer mudança, mas 
antes, a permanência da substância, atenta a sua indestrutibilidade. 
 
 
 
MELISSOS DE SAMOS 
Séc. V a.C. 
 
Melissos, da Escola Eleática, foi discípulo de Parménides. Temos a 
informação de que comandava a frota de Samos, que no ano de 422 a.C. 
derrotou os Atenienses. 
 
Postulou um universo ilimitado, um Cosmos infinito, imóvel, 
idêntico a si mesmo, com as qualidades do uno e do pleno. O Ser é infinito 
e eterno. Para além disso é incorpóreo. Se é, necessário é que seja uno; e se 
 32
é uno não pode ter corpo, porque se o tivesse seria constituído por partes, e 
o que é constituído por partes não pode ser considerado uno. 
 
Afirmava que o movimento não existe, sendo antes uma ilusão dos 
sentidos. 
 
No tocante aos deuses, teorizou ser desnecessária de todo uma 
explicação definitiva, atenta a sua incognoscibilidade. 
 
 
FRAGMENTOS 
 
O ser sempre foi e sempre será, porque se antes de ser tivesse sido, deveria 
não ter sido, e se não era, não poderia vir a ser. 
Se não começa, nem acaba, mas sempre foi e será, não tem, nem princípio, 
nem fim, pois uma coisa não é totalmente se assim não for. 
 
O que tem um princípio, ou um fim, não pode ser, nem eterno, nem 
infinito. 
 
O cosmos é eterno, infinito, uno e contínuo; não se pode aumentar nem 
diminuir, nem é internamente mutável, nem sofre, nem se desgosta. 
 
 
 
ZENÃO DE ELEIA 
Séc. V a.C. 
 
Zenão, da Escola Eleática, terá nascido por volta do ano 490 a.C. em 
Eleia. Faleceu cerca de 425. 
Foi influenciado por Parménides, de quem foi discípulo. 
 
São muito poucos os fragmentos de um Tratado escrito por Zenão. 
Assim, para a reconstituição do seu pensamento, teremos de contar com a 
preciosa colaboração de Aristóteles, muito em especial, no que respeita aos 
seus famosos paradoxos. 
 
As suas doutrinas assemelham-se às do seu mestre. Aceitava a 
simplicidade e imutabilidade da Realidade e considerava os sentidos fonte 
de ilusão ou erro. 
 
Ficou famoso pelos seus paradoxos – procurando contrariar a tese 
dos que atribuíam aos sentidos papel fundamental na aquisição do 
 33
conhecimento e que defendiam a pluralidade e a mudança –, sendo 
notáveis, o da seta, de Aquiles e da tartaruga e o do monte. 
Postulou quatro teses sobre o movimento, as quais constituem uma 
fonte de dificuldades para quem as intentar entender – ver Aristóteles, 
Física VI, 239-a. Por outro lado, argumentou contra a multiplicidade e a 
divisibilidade das coisas. Zenão nega a multiplicidade, o espaço e o tempo. 
O móvel não se move, nem no espaço onde se encontra, nem no 
espaço onde não se encontra. 
 
 
 
LEUCIPO DE ABDERA 
Séc. V a.C. 
 
Se considerarmos a existência de uma Escola Abderítica, então 
Leucipo foi o seu primeiro representante, seguido por Demócrito. Deve ter 
vivido por volta de 440 a.C. Há quem aponte o seu nascimento para o ano 
de 460 a.C. e o falecimento em 370. Julga-se que algumas das suas obras 
tenham sido atribuídas a Demócrito. 
Influenciou Epicuro e Lucrécio. 
 
Teofrasto atribuiu a Leucipo a obra Grande Cosmologia, da qual 
muito poucos fragmentos restam. 
 
Leucipo, terá sido discípulo de Zenão e foi o primeiro a sustentar que 
todas as coisas têm a sua origem nos átomos. 
Postulou que o universo é ilimitado, sendo uma parte plena, enquanto 
que a outra é vazia. O Ser é o pleno, enquanto o não-ser, o vazio. 
 
 
FRAGMENTOS 
 
Nada se cria em vão, tudo se cria por determinação de uma causa, ou em 
virtude de uma necessidade. 
 
 
 
DEMÓCRITO DE ABDERA 
Séc. V a.C. 
 
Nasceu em Abdera e foi contemporâneo de Sócrates. Discípulo de 
Leucipo, terá segundo a tradição viajado muito, estudando inclusivamente 
com os geómetras do Egipto. Não obstante tenha sido contemporâneo de 
 34
Sócrates, parece que não travou conhecimento com ele. Conheceu 
Anaxágoras. 
 
Terá escrito várias obras, mas apenas nos restam poucos fragmentos 
incidentes sobre a física e a ética, e alguns relativos à educação. 
 
Tudo é composto por átomos. Entre eles, existe o vazio. Estão na 
origem de todas as coisas. Existem em grandeza e quantidades 
inumeráveis, movimentando-se num turbilhão – não explica o seu primeiro 
movimento. Deles geram-se os compostos, o fogo, o ar, a água e a terra. 
Os átomos são divisíveis e a sua divisibilidade é eterna. No entanto, 
existem átomos que são incorruptíveis – os que constituem o fogo, o ar, a 
água e a terra. 
Contrariamente ao que muitos afirmam, para os atomistas nada 
parece acontecer por acaso. 
 
Os mundos são ilimitados, uns nascendo e outros morrendo. Apesar 
de incriados, são perecíveis. Pode acontecer que os mundos tenham sido 
criados, mas o Criador é incognoscível. 
 
O Ser não deriva do Não-ser, nem a este retorna. Nada pode surgir a 
partir do que não existe, nem extinguir-se no que não existe. 
 
A felicidade é um estado de repouso e de paz da alma, a qual não se 
deixa inquietar, quer por superstições quer por afectos. Onde faltar a justiça 
e a razão, haverá sempre medo da morte. 
 
A alma, composta de átomos, é mortal, extinguindo-se com o corpo. 
Demócrito pode assim ser tido como materialista. 
Pode ser considerado um cidadão do mundo quando diz: “A pátria da 
alma excelente é todo o mundo”. 
 
 
 
PROTÁGORAS DE ABDERA 
Séc. V a.C. 
 
Terá nascido em Abdera no ano de 485 a.C. e falecido em 410. Era 
familiar de Péricles. 
Protágoras, discípulo de Demócrito, viajou muito e foi um dos 
sofistas – os sofistas ensinavam a troco de dinheiro –, tal como Górgias e 
Pródico de Ceos. Os sofistas ensinavam aos jovens coisas úteis para a vida 
prática, mormente a arte de discursar em tribunal. 
 35
 
São muito poucos os fragmentos da obra de Protágoras. No entanto, 
para o conhecimento da sua especulação, poderemos sempre contar com o 
testemunho de Platão. 
 
Conta-se que Protágoras ensinou um jovem com a condição de ser 
pago caso este ganhasse o seu primeiro litígio. Ora, foi o próprio 
Protágoras que lhe moveu uma acção para poder ser ressarcido do montante 
estipulado para ensinar o dito discípulo... 
 
Terá sido o primeiro a sustentar que um orador pode efectuar dois 
discursos perfeitamente contraditórios sobre o mesmo tema, método que 
utilizou. 
 
O homem é a medida de todas as coisas, das que existem e das que 
estão na sua natureza, das que não existem e da explicação da sua 
inexistência. 
 
Escreveu um livro, com o título, Dos Deuses, dizendo nada poder 
afirmarrelativamente a tal questão. Nem afirmar nem negar a sua 
existência ou a sua forma, em virtude de muitos serem os impedimentos, 
entre eles se contando, quer a obscuridade do assunto quer a brevidade da 
vida humana. 
Esta sua indiferença para com os deuses, que deveriam ser olvidados, 
atenta a nossa incapacidade para atingir quer a sua existência quer a sua 
essência, fez com que fosse condenado à morte por impiedade, acabando 
por fugir de Atenas. 
 
 
 
GÓRGIAS 
Séc. V a.C. 
 
Nasceu em Leôncio no ano de 487 a.C. e faleceu em Larissa no ano 
de 380. Deslocando-se a Atenas como embaixador da sua cidade, fascinou 
os atenienses com a sua arte oratória, ao que abriu uma escola. Tornou-se 
assim o primeiro dos professores de eloquência, a quem Platão chamou 
sofistas. 
 
Escreveu uma obra denominada Da Natureza ou do Não-Ser, da qual 
existem duas versões, a do pseudo-Aristóteles e a de Sexto Empírico. 
 
Górgias recusa qualquer problemática ontológica. 
 36
 
Sofista, definiu três princípios célebres: 
- Nada existe; 
- Se algo existe é incognoscível; 
- Se for cognoscível, não poderá ser comunicado ou divulgado. 
 
 
 
PRÓDICO DE CEOS 
 
Viveu no tempo de Sócrates. 
 
Escreveu As Horas, obra que se encontra reproduzida em Os 
Memoráveis, de Xenofonte. Nela, Heracles expõe com concisão as suas 
dúvidas morais. Duas mulheres, personificando respectivamente o vício e a 
virtude, fazem a apologia destas. A virtude vence e convence Heracles. 
 
Foi rotulado de ateu, por julgar que os antigos criavam e veneravam 
os deuses em função da sua utilidade – o Sol, a Lua, os rios (v.g. Nilo) –, “e 
por isso, o pão era considerado Deméter, o vinho Dioniso, a água como 
Posídon, o fogo como Hefesto, e assim cada um dos bens segundo a sua 
utilidade”. 
 
Tal como Protágoras, foi condenado à morte, mas com a acusação de 
corromper os jovens. 
 
 
 
 
SÓCRATES 
 
 
 
Nasceu no ano de 470 a.C. Era filho de um artesão e de uma parteira. 
Poderá ter sido aluno de Pródico. 
 
É um marco decisivo na história da filosofia, não obstante 
desconheçamos se sabemos muito ou pouco acerca da sua vida. Tal como 
nos foi apresentado por Platão, exerceu uma grande influência sobre 
cínicos e estóicos. Se fosse possível resumir o que parece derivar dos seus 
ensinamentos, arriscar-nos-íamos a reduzi-los a dois: 
 37
- uma vida sem indagação ou constante investigação não merece 
ser vivida; e 
- o autoconhecimento é o alimento da sabedoria. 
 
Entende a investigação filosófica como pesquisa. Uma pesquisa que 
não se esgota, quer em nós quer nos outros. Cícero disse que Sócrates fez 
com que a filosofia descesse do céu à terra. 
 
Tinha uma personalidade extraordinariamente forte, o que fez com 
que Platão, seu discípulo, o comparasse à tremelga, que entorpece quem a 
toca. Conhecemos a sua vida, essencialmente pelos escritos de Platão, em 
especial: 
- Pela Apologia de Sócrates – que narra o processo e a sua 
condenação à morte. Sócrates foi acusado por Meleto, Ânito e 
Lícon de ser “culpado de investigar, em excesso, os fenómenos 
subterrâneos e celestes, de fazer prevalecer sobre a melhor causa 
a pior e de ensinar aos outros esta doutrina”. No entanto, o texto 
da acusação, tal como se encontra descrito por Diógenes Laércio, 
é o seguinte: “Esta acusação jurada é de Meleto, filho de Meleto, 
natural do demo piteu, contra Sócrates, filho de Sofronisco, 
natural do demo alopecense. Sócrates é culpado de não acreditar 
nos deuses em que acredita a cidade e de introduzir divindades 
novas; é ainda culpado de corromper a juventude. Pena pedida: a 
morte.” 
A obra apresenta-se dividida em três partes. Na primeira, Sócrates 
expõe a sua defesa, sem os ornatos retóricos utilizados pelos 
oradores da época – prescindiu inclusivamente dos serviços de um 
profissional afamado –, atendo-se antes à pureza das suas 
palavras e à verdade, exprimindo-se do modo como 
habitualmente o fazia. Na segunda, depois de ter sido considerado 
culpado, propõe a pena que julga justa ao seu caso, ou seja, 
alimentado como os benfeitores da cidade até ao fim dos seus 
dias, no Pritaneu. Tal facto deve ter sido apreciado pelos juízes 
como uma provocação, levando-os a proferirem uma sentença de 
condenação à morte. Na terceira e última parte, filosofa sobre a 
sua condenação e sobre a própria morte. 
- Pelo Críton – Sócrates condenado à morte, recusa-se à evasão, 
fundamentando tal atitude nos seus princípios, e no respeito dos 
seus ensinamentos filosóficos. 
- E pelo Fédon – Esta obra narra os últimos momentos da sua vida, 
que depois de se ter negado à evasão, mantendo-se fiel aos seus 
princípios, discursa com serenidade, indiferente ao trágico 
momento que se aproxima, acerca da imortalidade da alma. 
 38
 
Se bem atentarmos, quer o processo quer a morte de Sócrates, 
constituem um acontecimento que só tem possibilidade de ser 
comparado ao de Jesus – não sendo este o lugar próprio para 
valorar as duas personalidades tendo em conta a sua atitude 
perante a morte e aos princípios que enformaram as suas vidas. 
Neste particular, leia-se o pequeno ensaio de Bertrand Russell, 
“Porque Não Sou Cristão”, onde afirma que em termos de 
sabedoria, Cristo não está tão alto como outras figuras 
históricas, nomeadamente Sócrates e Buda. 
 
Para além destas obras, devemos mencionar a Carta VII, onde 
entre outros, Platão, enuncia os motivos que o empenharam na defesa 
de Sócrates, “o velho que amava”, e da sua injusta morte. 
 
Sócrates adoptou a divisa délfica “Conhece-te a ti mesmo”, mas não 
limitou a actividade filosófica a si próprio, antes a estendeu aos outros, e 
aos inevitáveis relacionamentos nas suas múltiplas vertentes, entre ambos. 
 
Considera que a filosofia é antes do mais uma missão divina. Não 
cremos, no entanto, que o Deus socrático seja o deus ou deuses dos gregos. 
Durante toda a sua vida diz ter ouvido uma voz orientadora. Seria a 
voz da sua consciência ou a do seu Deus? 
“Ao longo de toda a minha vida, a voz divina que me é familiar 
nunca deixou de fazer-se ouvir, mesmo a propósito de actos de 
menor importância, para me deter se eu estivesse para cometer 
alguma coisa de mal.” – Platão, Apologia de Sócrates. 
 
O que está para além da morte é uma incógnita, um mistério 
metafísico. Sócrates tinha a esperança da existência de algo para além dela, 
que segundo a tradição e as crenças estabelecidas, seria muito melhor para 
os bons do que para os maus. Se realmente a morte nos libertasse de tudo, 
que boa sorte seria para os maus, ao morrerem, verem-se desembaraçados 
quer do corpo quer do mal e da sua maldade, ao mesmo tempo que da alma 
– veja-se de Platão, o Fédon. 
“(...) recear a morte não é senão cuidar-se sábio quando se não é, 
pois será crer que se sabe o que não se sabe. Ninguém, 
efectivamente, sabe o que é a morte, nem se ela será justamente para 
o homem o maior dos bens, receando-a como se fosse coisa certa ser 
ela o maior dos males.” – Apologia de Sócrates, Platão. 
 
Dirigindo-se aos juizes que o absolveram no processo em que foi 
condenado à morte, Sócrates terá dito: 
 39
“De duas coisas, uma: ou aquele que morre fica reduzido a nada e 
não tem nenhuma consciência seja do que for, ou, de acordo com o 
que se diz, a morte é uma mudança, uma transmigração da alma 
deste lugar em que nos encontramos para um outro lugar. Se a morte 
é a extinção de todo o sentimento e se parece com um daqueles sonos 
em que nada vemos, mesmo em sonho, morrer é então um 
maravilhoso lucro (...) 
Por outro lado, se a morte for como uma passagem de aqui debaixo 
para um outro lugar e se for verdade, como se diz, que todos os 
mortos aí se encontrarão reunidos, poderemos, ó juizes, imaginar um 
maior bem?” – Apologia de Sócrates, Platão. 
 
Despedindo-se do tribunal que o condenou,disse: 
“Mas chegou a hora de nos irmos, eu para morrer, vós para 
viver. Quem de nós tem a melhor parte, ninguém sabe, excepto 
o deus.” 
 
O exame constante de si e dos outros justificou o sentido que sempre 
procurou dar à sua vida. Condenado à morte instou os juizes a aceitarem a 
morte com esperança, já que certo é o facto de que não há mal possível 
para o homem de bem, nem durante a sua curta vida nem depois de sua 
morte. Encarou a sua condenação com uma doçura quase inconcebível pelo 
comum dos mortais, reagindo-lhe como os cisnes lhe reagem, que sentindo 
aproximar-se a sua hora, cantam mais melodiosamente que nunca, pois 
sentem uma felicidade indescritível por irem encontrar-se com o deus que 
servem – Platão, Fédon. 
 
Manteve-se sempre fiel aos seus princípios, não anuindo na fuga que 
os amigos lhe propuseram. A aceitação da condenação, da pena de morte, é 
o testemunho, o exemplo de tudo o que vinha ensinando. 
Na perspectiva de se poder evadir, evitando a morte, disse dando voz 
às Leis: 
“Vamos, Sócrates, escuta-nos, a nós que te sustentámos, e não 
ponhas os teus filhos, a tua vida, nem seja o que for acima da justiça, 
a fim de que, chegado ao Hades, possas declarar tudo isso em tua 
defesa aos que governam nesse lugar. 
(...) 
Se partires hoje para o outro mundo, partirás condenado 
injustamente, não por nós, as leis, mas pelos homens. 
Se ao invés, te evadires depois de haveres tão vilmente respondido à 
justiça com a injustiça, ao mal com o mal, (...) então ficaremos iradas 
contigo o resto da tua vida. 
 40
E, no outro mundo, as nossas irmãs, as leis do Hades, não te irão 
receber favoravelmente (...). – Platão, Críton. 
 
Antes da execução, exortou os amigos a cuidarem de si mesmos. 
Seguidamente, pegou na taça de veneno com perfeita serenidade e, sem 
tremer ou vacilar, levou-a aos lábios esvaziando-a na totalidade, com uma 
facilidade e calma perfeitas. 
Um dos seus amigos, escondeu a cabeça e chorou, não a infelicidade 
de Sócrates, mas a sua, ao pensar no amigo que perdia. Este facto, confirma 
a asserção de que os mortos não choram, mas são os vivos que se choram a 
si mesmos. 
 
As suas últimas palavras foram: 
“Críton, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de o 
pagar!” – Platão, Fédon. 
Na época pagava-se um galo a Asclépio pela cura de uma 
doença, e Sócrates curara-se da doença da vida. 
 
Após longa argumentação, Sócrates, no diálogo Fédon, conclui pela 
imortalidade da alma e pela sua imperecibilidade. A alma impura tem o 
destino de errar sozinha, na maior solidão, enquanto que a pura tem os 
deuses por guias. A alma que é ornamentada com a temperança, a justiça, a 
coragem, a liberdade e a verdade, parte para o Hades, onde receberá como 
consequência a suprema recompensa. 
 
 
 
AS ESCOLAS SOCRÁTICAS 
 
Para além de Platão, quatro discípulos de Sócrates fundaram outras 
tantas escolas: Euclides, a Escola Megárica; Fédon, a Escola de Élida; 
Antístenes, a Escola Cínica; e Aristipo a Escola Cirenaica. 
Haverá ainda que referir também como discípulos de Sócrates, 
Xenofonte, Ésquines, Símias e Cebes. 
 
 
XENOFONTE 
Deve ter nascido no ano 440. A história da filosofia deve-lhe os 
“Ditos Memoráveis de Sócrates”. 
 
 41
No Banquete, obra em forma de diálogo, inspira-se em Platão. Num 
banquete em casa de Cálias, Sócrates e alguns amigos expõem as suas 
ideias, contrapondo o amor terreno ao celeste. 
 
Nos Memoráveis elabora a biografia de Sócrates. Aqui, Xenofonte, 
para além das suas próprias recordações acerca do velho Mestre, estriba-se 
de novo nas obras de Platão – v.g. Apologia, Fédon e Críton. 
 
Na Apologia de Sócrates, tal como Platão, relata o processo de 
condenação do velho Mestre.. 
 
Refira-se que o estilo e capacidade filosófica de Xenofonte, são uma 
mera sombra das faculdades platónicas. 
 
 
EUCLIDES 
Da Escola Megárica, afirmava que o Bem é apenas um e é a 
Unidade, que é sempre a mesma, seja qual for o nome que lhe quisermos 
atribuir – Deus, Razão, ou qualquer outro. 
 
Os megáricos foram exímios no desenvolvimento de argumentos 
paradoxais: 
- do sorites – tirando um grão de areia de um monte o monte não 
diminui (Eubúlides); 
- antinomia – se afirmas que mentiste ou estás a falar verdade e 
então mentiste ou falas falso e então estás a dizer a verdade. 
 
Interessante é a posição de Estílpon, que cultivava a impassibilidade, 
e declarava que o sábio não tem necessidade de amigos, bastando-se a si 
mesmo. Foi contrariado por Aníceris, da Escola Cirenaica, que julgava 
dever o homem basear a sua vida na amizade e no altruísmo. 
 
 
ANTÍSTENES DE ATENAS 
Discípulo de Górgias e de Sócrates, cerca de vinte anos mais velho 
do que Platão, foi o fundador da Escola Cínica. Cínicos, são os que vivem 
como “cães” e não em função de convenções, preceitos sociais ou 
conveniências, demonstrando-o de uma forma que Sócrates provavelmente 
não aprovaria. 
 
Era senhor de uma personalidade marcadamente forte. Terá sido a 
morte de Sócrates que o levou a desprezar os prazeres e luxos da vida, 
 42
pregando o regresso à natureza. Foi contrário a todas as convenções e 
poderes instituídos, tais como o Estado, a propriedade privada, a religião, o 
casamento. Condenou veementemente a escravatura. 
 
O sentido da vida é a capacidade que o homem tem para atingir a 
felicidade, que consegue por intermédio da virtude, libertando-se dos 
condicionamentos e das amarras da vida social. 
 
Afirmou que perante as leis, muitos são os deuses, mas segundo a 
natureza, só um existe, só há um Deus. 
 
 
DIÓGENES DE SINOPE 
Foi discípulo de Antístenes, mas foi mais famoso do que o seu 
mestre. A palavra cínico, deriva da sua intenção de viver como um cão. 
 
Do filósofo restam-nos fragmentos coligidos por Diógenes Laércio e 
Díon de Pruse. 
 
Levou o ensinamento de Antístenes às últimas consequências, 
rejeitando também todas as convenções. 
Conta-se que quando Alexandre o Grande o visitou, lhe terá 
perguntado se desejava algo, algum favor em especial, ao que respondeu: 
“desejo apenas que não me tires o Sol”. 
 
A vida dos cínicos era de simplicidade e desprezo pelos bens do 
mundo, prezando apenas os que lhes eram estrictamente necessários à 
sobrevivência. 
 
A doutrina cínica influenciou em muito o estoicismo. 
 
 
ARISTIPO 
Fundador da Escola Cirenaica, ensina que o fim a atingir pelo 
homem não é a felicidade, mas antes o prazer, que é vivido no instante 
presente, sendo irrelevantes, quer o passado quer o futuro, porquanto o 
primeiro já não existe e o segundo é uma incógnita, desconhecendo-se se 
existirá ou não. Vivendo o instante, atingiu a liberdade que lhe permitia 
asseverar que possuía sem ser possuído. 
 
 
 
 43
 
TEODORO O ATEU 
Também da Escola Cirenaica, julga que o fim a atingir pelo homem é 
a felicidade, que identifica com a sabedoria. Negou a existência de todos e 
quaisquer deuses. 
 
 
EGESIAS 
Da Escola Cirenaica, julga que a felicidade é algo praticamente 
inatingível, atento o padecimento que acompanha a vida. O sage, mais do 
que buscar a felicidade deve evitar os males. Um seu escrito denominado 
“O suicida”, fez com que lhe atribuíssem o cognome de “advogado da 
morte”. 
 
Na sua perspectiva, a vida que é um bem para o néscio, é indiferente 
ao sábio. 
 
 
 
PLATÃO 
 
 
 
Platão, jovem aristocrata de Atenas – foi familiar de Alcibíades e de 
Crítias – tinha como nome verdadeiro Arístocles. O cognome deverá ter-se 
ficado a dever à envergadura dos seus ombros ou então à sua largueza de 
vistas, à sua abertura de espírito – S. Tomás de Aquino, na sua época de 
estudante, também foi alcunhado de “boi mudo”, por via da sua estatura e 
do silêncio com que assistia às aulas. 
Nasceu no ano 428 a.C. e faleceu em 347. Comapenas vinte anos 
fez-se discípulo de Sócrates, até ao ano da sua condenação à morte (399). 
Teve sempre pelo mestre um enorme respeito e considerável admiração. 
 
Consta-se que antes de ter sido discípulo de Sócrates, seguiu as 
lições de Crátilo. 
 
A injusta condenação do mestre, e a sua marcante personalidade, 
modelaram as especulações platónicas – no sentido da pesquisa de uma 
comunidade organizada onde vigorasse a justiça. 
Logo após a morte de Sócrates, viajou pela bacia oriental do 
Mediterrâneo. De retorno a Atenas, depois de uma estadia em Siracusa, 
fundou no ano de 387, a Academia. 
 44
 
Obras: 
Hípias Menor – Neste diálogo, Platão procura demonstrar que o mal apenas 
pode ser cometido por ignorância. 
Alcibíades – Deste diálogo nasceram todos os grandes temas relacionados 
com a reflexão filosófica de Platão. 
Íon – O tema do diálogo é a poesia e a sua criação, que é um privilégio 
concedido pelos deuses ao homem. 
Eutifrôn – Trata de descobrir o que é a piedade. Piedoso é o que agrada aos 
deuses, ou é piedoso o que é do agrado dos deuses? 
Lisis – Diálogo sobre a amizade. 
Apología de Sócrates – Obra de referencia, respeita ao processo e à 
condenação de Sócrates. 
Críton – Trata da justiça. Sócrates recusa-se a evadir-se. É neste diálogo 
que surge a célebre “Prosopopeia das Leis”. 
Cármides – Diálogo sobre a verdadeira natureza da sabedoria. 
Laques – Da coragem. 
Protágoras – Um dos diálogos mais importantes do filósofo. Aborda as 
questões essenciais do seu pensamento. 
Górgias – É fundamentalmente uma crítica da retórica. 
Ménon – Diálogo sobre a virtude. 
Menexeno – Este diálogo denuncia a arte dos oradores e dos sofistas. 
O Banquete – Diálogo eloquente, que tem por motivo principal o amor. 
Crátilo – Ou da justiça dos nomes. 
Eutidemo – Caricatura os sofistas, tratando temas como a virtude, os meios 
de a ensinar e a natureza do saber. 
Fédon – Narra os últimos instantes da vida de Sócrates e é um diálogo 
sobre a alma. Constitui com o Críton e com a Apologia, uma trilogia 
essencial ao conhecimento da personalidade do Sócrates histórico. 
A República – Ou sobre a justiça. Uma utopia, que terá nascido da 
indignação consequente à condenação injusta do velho Mestre. Talvez a 
obra mais reconhecida do filósofo. 
Fedro – Trata do amor e da retórica. 
Teeteto – Tem como objecto o conhecimento. 
Parménides – O mais difícil dos diálogos platónicos. A Teoria das Ideias e 
a relação do Uno e do Múltiplo, ocupam-no em parte. 
O Sofista – Aqui, Platão elabora uma crítica exaustiva aos materialistas. 
O Político 
As Leis – Sobre a legislação. 
Carta VII – Expõe as viagens que realizou à Sicília entre 390 e 388 a.C. 
Expõe algumas das suas teses. 
Filebo – O Bem Soberano. Prazer ou Sabedoria? 
Crítias – Nesta obra é exposto o mito da Atlântida. 
 45
Hípias Maior – Do belo ou da beleza. O que é a beleza? 
Timeu – Aqui, Platão explora a sua física, a sua cosmologia – lembremo-
nos do demiurgo. 
 
A República é a mais antiga de todas as utopias. A sua trave mestra é 
a de que os governantes devem ser filósofos, e o seu objectivo o de nos 
fornecer um conceito de justiça. 
 
A causa do mundo é o demiurgo, o deus artífice criador do universo, 
que tem como função a difusão do bem. É incorpóreo, tem inteligência 
pura, alma e vida. 
Deus criou o mundo, que por tal motivo não pode ser eterno. Sendo 
bom, desejou que toda a criação fosse boa, tanto quanto possível. 
 
O mundo, entidade viva dotada de alma e de inteligência, não foi 
criado do nada, mas a partir da matéria preexistente, ou seja, de todos os 
elementos. Só há um mundo e não muitos, como pensavam alguns dos 
filósofos pré-socráticos. 
 
Platão sustentava a existência da Ideia suprema do Bem. Na filosofia 
platónica não será a Ideia de Bem a do próprio Deus? Na sua perspectiva, o 
Bem é o autor cósmico de todas as coisas belas e correctas, pai da luz e da 
verdade. Temos dúvidas, mas o filósofo parece elaborar uma aproximação 
entre a Ideia de Bem e a de Deus. 
 
Platão não é monoteísta, é politeísta e tradicionalista. O demiurgo 
ocupa o lugar mais elevado dos deuses, cada um com seus atributos e 
funções. Para além do Deus criador existem muitos outros deuses. 
 
O mundo só pode existir por força da acção da divindade. Se algo se 
move por efeito de uma outra coisa, não pode este ser o primeiro 
movimento. O primeiro movimento é o que se move a si mesmo. E o que se 
move a si mesmo é a alma, que também move tudo o que o mundo contém. 
Deus, à alma deu inteligência, e ao corpo deu uma alma. Esta, foi criada 
antes do corpo. 
 
A divindade preocupa-se com os homens – se não se preocupasse 
seria indolente e preguiçosa –, mas devemos afastar a superstição de que a 
podemos influenciar com ofertas: “esses põem a divindade a par dos cães 
que, amansados com presentes, deixam depredar os rebanhos, e abaixo dos 
homens comuns, que não atraiçoam a justiça aceitando presentes oferecidos 
com intenção delituosa”. 
 
 46
A morte é a separação da alma e do corpo – dualismo platónico. O 
corpo é visível, enquanto que a alma é invisível, assim, a alma é eterna. 
A alma é imortal, tendo nascido inúmeras vezes. É invisível e não é 
destrutível, sendo a reminiscência uma prova da sua imortalidade. 
 
Renascerão os vivos dos mortos, utilizando a expressão platónica? 
“As almas dos mortos existem forçosamente algures, de onde 
regressam à vida.” – Platão, Fédon. 
 
Se a alma se encontrar impura, contaminada pelos apetites do corpo, 
então, ficará prisioneira da natureza que corresponde à conduta que teve 
durante a vida, nomeadamente: os que se entregaram à gula e à violência, 
irão encarnar em corpos de asnos e de outras bestas similares, enquanto que 
os que optaram pela injustiça e pela rapina, encarnarão em corpos de lobos 
e milhafres. Apenas a alma pura do que se entregou à filosofia verdadeira, 
será recebido no seio da raça dos deuses. 
 
“Sendo certo que aprender é recordar, a alma tem necessariamente de 
existir em qualquer outra parte antes de ser aprisionada no corpo.”- 
Platão, Fédon. 
 
A psicologia em Platão é fundamentalmente espiritualista. A alma é 
eterna, tendo antes de estar unida ao corpo, contemplado em plenitude as 
Ideias. Como consequência da reminiscência reconhece essas Ideias 
quando encarna. 
“Desde o momento em que a visão de uma coisa te levou a pensar 
noutra, seja ela semelhante, seja dissemelhante, é absolutamente 
necessário tratar-se de uma reminiscência.” – Platão, Fédon. 
 
No Fédon, Sócrates examina se a alma depois de haver usado um 
grande número de corpos em múltiplas encarnações, não perecerá também 
ela ao deixar o último corpo, e se não é precisamente na destruição da alma 
que consiste a morte, já que o corpo está em constante decesso. Mas após 
longa pesquisa justifica a metempsicose. 
 
Não obstante um verdadeiro filósofo não tenha medo da morte, e 
contrariamente ao comum dos homens até a possa desejar como libertação, 
não a dará a si mesmo, por ser contra a lei – aqui entendida como lei 
natural. Assim, o homem é prisioneiro sem direito de fuga. 
 
No Eutifrôn, Platão pergunta-se quem é o santo: O que agrada aos 
deuses? Ou agrada aos deuses porque é santo? A santidade identifica-se 
com a virtude, que é a justiça no seu sentido mais amplo. 
 47
 
 
 
A ACADEMIA 
 
 
Platão elegeu para dirigir a sua escola, Espeusipo, seu sobrinho. A 
Antiga Academia teve uma existência de vários séculos, após a morte 
daquele. 
 
ESPEUSIPO 
Identificou a divindade à razão, concebendo-a como a alma que 
ordena o mundo. 
 
 
XENÓCRATES 
Influenciado pelas doutrinas pitagóricas, divinizou os elementos e 
afirmou a existência de inúmeros demónios, verdadeiros intermediários 
entre a divindade e os homens. Define a alma, como um número que se 
move por si– número que quererá dizer ordem. 
 
 
PÓLEMON 
Considerou que a vida do homem deve ser o mais possível conforme 
à natureza – influência da Escola Cínica. 
 
 
CRANTOR 
Afirma que a dor moral nos afasta dos instintos animais. 
 
 
HERACLIDES DO PONTO 
Nascido em 388 a.C., descobriu que os planetas Vénus e Mercúrio 
giram em torno do Sol e que a Terra gira sobre o seu próprio eixo, com 
uma rotação completa a cada 24 horas. 
 
A alma é constituída pelo éter, que é a matéria mais subtil entre as 
subtis. 
 
 
FILIPE DE OPUNTE 
 48
Para Filipe os corpos celestes são perfeitos no seu movimento. São 
vivos e foi a divindade que lhes concedeu uma alma. Assim, são também 
deuses, passíveis de adoração. 
 
 
 
ARISTÓTELES 
 
 
 
Nasceu em Estagira, em 384 a.C. Foi educado na corte macedónica, 
em virtude de seu pai, Nicómaco, ter sido médico de Amintas II, rei da 
Macedónia. 
 
Entrou para a escola de Platão com dezoito anos, tendo sido o seu 
melhor discípulo, aí permanecendo durante vinte, até à morte do mestre 
ocorrida em 347. Depois da morte de Platão, foi suspeito de ser partidário 
dos Macedónios, o que o obrigou a abandonar a cidade de Atenas. Foi 
preceptor de Alexandre a partir do ano 343 e voltou a Atenas em 335, tendo 
fundado o Liceu, escola que apresentava alguma rivalidade com a 
Academia. 
 
As obras a que temos acesso, foram escritas tendo em vista o ensino. 
 
Durante cerca de dois mil anos influenciou o pensamento ocidental, 
com uma autoridade quase indiscutida. 
 
Obras: 
Protréptico – É uma instigação aos estudos filosóficos. 
Ética a Eudemo – Trata do problema moral. 
História dos Animais – O primeiro estudo de cariz biológico, do filósofo. 
Poética – Trata da tragédia e da epopeia. A parte relativa à comédia, ter-se-
á perdido. 
Física – Estudo da realidade natural. 
Os Meteorológicos – Estudo dos fenómenos meteorológicos. 
Da Geração e da Corrupção – Poderá ser considerado um verdadeiro 
apêndice ao Tratado do Céu. 
Das Partes dos Animais 
Da Geração dos Animais 
Retórica – Obra composta por três livros. Os Livros I e II são dedicados à 
argumentação e o III à forma do discurso. 
Constituição de Atenas 
 49
Da Alma – Obra que se consagra ao estudo da alma, sua essência e 
faculdades. 
Ética a Nicómaco – Obra composta por dez livros, designa as concepções 
morais. 
A Metafísica – Reúne os conhecimentos de Aristóteles em sede de filosofia 
primeira, do estudo do Ser enquanto ser. 
Organon – Obra consagrada à lógica formal. É composta por outras seis: 
As Categorias, Da Interpretação, Os Primeiros Analíticos, As Refutações 
Sofísticas, Os Segundos Analíticos, e Os Tópicos. 
A Política – Estuda a forma e a possibilidade de moderar os costumes do 
Estado, por intermédio das instituições e da cultura. 
Tratado do Céu – É nesta obra, que em quatro livros é exposta a 
cosmologia aristotélica. 
 
Assemelha-se ao mestre, quando julga que nada há na natureza, seja 
ou não aparentemente insignificante, que não valha a pena ser investigada. 
 
Como já se disse, foi preceptor de Alexandre, entre os treze e os 
dezasseis anos deste, desconhecendo-se na realidade, qual a influência que 
exerceu sobre o jovem discípulo – as opiniões de historiadores são 
diversas, inexistindo consenso. 
 
Em 335 fundou a sua escola em Atenas e faleceu no ano de 322. 
 
Se Platão influenciou pela sua metafísica, Aristóteles fê-lo 
essencialmente pela lógica, sendo certo que como ensina Russel, “quem 
hoje quiser aprender lógica perderá o seu tempo a ler Aristóteles ou 
qualquer discípulo seu.” 
 
Tal como Platão, Aristóteles não é monoteísta, mas politeísta. Deus é 
um ser vivo, eterno, maximamente bom, dono da vida e da eternidade. É a 
Primeira Causa, a Primeira Forma ou Ideia. Autocontempla-se 
ininterruptamente e não tem qualquer interesse nos acontecimentos 
terrestres. 
Deus é identificado com o primeiro motor, o motor imóvel que tudo 
move sem que seja movido. 
 
Tal como Espinoza, julga que os homens devem amar Deus, mas a 
este não lhe é possível amar os homens. 
 
No que ao movimento respeita, Deus é o primeiro motor, o motor 
imóvel e transcendente que dirige o mundo. Ordena-o, mas não o cria. 
 50
Deus sendo uma forma pura e uma realidade pura, não pode mudar. Deus é 
forma sem matéria. 
 
Para Aristóteles, há três tipos de substâncias: 
- as sensíveis perecíveis – plantas e animais; 
- as sensíveis não perecíveis – os corpos celestes; 
- as não sensíveis nem perecíveis – a alma e Deus. 
 
Logo a seguir à divindade por excelência, seguem-se as divindades 
dos céus e dos astros celestes. Anote-se que para Aristóteles o éter era 
concebido como o que mais se aproximava da divindade e do qual eram 
constituídos os corpos celestes. Se o mundo sublunar era composto pelos 
quatro elementos – água, terra, ar e fogo –, o dos astros era-o pelo éter, 
não estando sujeito à mudança ou à extinção. Esta doutrina foi aceite até ao 
século XV, acabando por ser abandonada em grande parte por obra de 
Nicolau de Cusa. 
 
O seu principal argumento quanto a Deus, é o da primeira causa. O 
que produz o movimento tem de estar imóvel, tem de ser eterno. Deus, 
motor imóvel, ordenador do mundo no sentido da perfeição, é a causa 
primeira, mas não é o único motor, porquanto se limita a mover o primeiro 
céu. As restantes esferas são movidas por outras tantas divindades – ao 
tempo, os astrónomos identificavam um conjunto de esferas celestes 
susceptíveis de movimentar os astros num movimento circular. 
 
Sendo Deus o que de mais perfeito pode existir, pensa-se a si mesmo 
e é pensamento do próprio pensamento, o que o faz plenamente feliz – o 
pensamento é o que pode existir de mais doce, é o que de mais excelente 
existe. 
 
O argumento da existência de Deus, prende-se com a hierarquia da 
perfeição. Na existência de gradações no sentido da perfeição, terá de 
existir sempre algo absolutamente perfeito. Essa entidade, sumamente 
perfeita, só poderá ser Deus. 
Interessante é a adaptação que realizou do mito da caverna. Daí 
retirava uma prova inequívoca da existência da divindade. Caso tivessem 
existido homens a viver em casas sumptuosas, rodeados por tudo o que de 
mais belo o homem possa conceber, mas no subsolo, sem que alguma vez 
tivessem contemplado o mundo natural e apenas tivessem uma ideia, ainda 
que ténue de Deus, seriam imediatamente convencidos da sua existência, se 
pudessem contemplar, ainda que por breves minutos, a natureza e a sua 
perfeição. Para Platão, o mito da caverna demonstra-nos a ilusão que é 
gerada pelo mundo sensível, enquanto que para o seu discípulo, dignifica e 
 51
atesta a sua perfeição, bem como adianta um argumento a favor da 
existência de Deus. 
 
O mundo, para Aristóteles, existiu desde sempre, e nunca deixará de 
existir, alicerçando-se num Acto de Pensamento que tem por essência a 
eternidade e a completude, aqui entendida como auto-suficiência e 
subsistência total. 
O mundo é perfeito, finito e eterno. É finito, porque se fosse infinito 
seria incompleto. Para além das estrelas fixas não há espaço. Assim, 
estariam erradas as teses de Anaximandro e de outros filósofos quanto à 
existência de inumeráveis mundos e de todos aqueles que admitiram o 
vazio. 
 
A alma é objecto de estudo da sua Física, porquanto forma 
incorporada na matéria, vivificando-a. No entanto, não podemos dissociar 
tal estudo da metafísica. Tal como Platão admite que a alma ao encarnar 
esquece as percepções adquiridas ao longo da sua existência. Mas, 
regressando ao além, por efeito da morte, rememora o que aprendeu nesta 
vida. 
Com algum pessimismo, anota que a mais preciosa condição da alma 
é a sua existência independente do corpo, chegando a afirmar que: “Dado 
que para o homem é impossível participar da natureza do que é 
verdadeiramenteexcelente, seria melhor não ter nascido, e dado que 
nasceu, o melhor é morrer quanto antes”. 
 
 
 
A ESCOLA PERIPATÉTICA 
 
 
Por volta do ano 335, após treze anos de ausência, Aristóteles 
regressou a Atenas e fundou o Liceu, onde era praticada a vida em 
comunidade. Para além do edifício principal e dos jardins, existia o passeio 
ou peripato, donde a designação da escola. 
 
 
TEOFRASTO 
À morte de Aristóteles sucedeu-lhe na direcção da escola. 
 
Escreveu Os Caracteres, que representa um conjunto de trinta 
retratos morais, de uma forma algo cómica, apesar da argúcia do seu autor, 
nomeadamente, o vaidoso, o cínico, o idiota, o adulador. 
 52
Atente-se que esta obra influenciou La Bruyére (século XVIII). 
Escreveu também a obra Metafísica, que reuniu múltiplas questões 
colocadas por Platão e por Aristóteles. 
 
Defendeu a doutrina aristotélica da eternidade do mundo – doutrina 
que padecia de alguma contestação. 
 
 
ESTRATÃO 
Sofreu a influência de Demócrito, não recorrendo à divindade para 
explicar o aparecimento do mundo. 
 
 
 
ESTOICISMO 
 
 
Como já vimos na introdução, o período concernente à filosofia pós-
aristotélica ocupa-se fundamentalmente do problema moral. Sócrates, foi 
no nosso entender, o filósofo que mais influenciou os estóicos. A aceitação 
de uma sentença injusta que poderia ter sido por si evitada, a resignação 
que demonstrou no cárcere, a recusa em aproveitar uma fuga organizada, a 
tranquilidade no momento da execução, a sua indiferença ao luxo e aos 
prazeres mundanos consubstanciam uma atitude puramente estóica. 
 
O estoicismo teve um primeiro desenvolvimento grego e um segundo 
romano. A virtude é o caminho para a felicidade. O filósofo estóico deverá 
recolher-se na “fortaleza da alma” (Marco Aurélio). 
 
De todos os estóicos, só dos tardios – Séneca, Epicteto, Marco 
Aurélio (séculos I e II d.C.) – temos obras completas. 
 
O estóico obedece a Deus, acolhe com uma alma pura todo e 
qualquer acontecimento não se lamentando do destino. Aceita e reconhece 
o que os infortúnios trazem de bom – porquanto nada é só bom ou mau –, 
não se deixando inquietar pelas excitações produzidas pelo prazer e pela 
dor. 
Procuravam aceitar sem se revoltarem as inúmeras contrariedades e o 
sofrimento causados pela vida. 
 
 
 
 53
 
ZENÃO DE CITIUM 
Nascido por volta de 336 a.C., foi o fundador da escola, tendo sido 
discípulo do cínico Crates. Daí a aproximação da doutrina estóica à cínica. 
Supõe-se que tenha posto fim aos seus dias voluntariamente. 
 
Está representado com algumas dezenas de páginas, na obra 
Fragmentos dos Antigos Estóicos. 
 
Os estóicos buscam a felicidade por intermédio da virtude, mas não 
abandonam nem minimizam a ciência, antes a julgam necessária para a 
prossecução do fim a que aspiram. De qualquer modo, a virtude é o melhor 
e o mais excelente dos bens; é o conceito central da filosofia de Zenão. 
 
Consideram a existência de uma ordem que não é mutável, 
absolutamente necessária e perfeita, que tudo mantém, identificando-a com 
Deus – são panteístas –, que é um princípio activo – do qual derivam todas 
as coisas, ou melhor, causa de tudo o que existe –, o próprio cosmos. Deus 
é corpóreo e o espírito ígneo do mundo. 
Deus não está separado do mundo. Ele é a alma do mundo e cada ser 
humano contém em si uma parte do fogo divino. 
 
A alma é corpórea. Curiosamente, Deus também o é. Só quatro são 
as coisas incorpóreas: o significado, o vazio, o lugar e o tempo. É uma 
parte da Alma do mundo, que é Deus, sobrevivendo à morte por nela se 
refugiar. 
 
Os estóicos aceitavam face à noção de dever, que o homem deve 
abandonar esta vida, mesmo que esteja inundado de felicidade. Zenão 
morreu de morte voluntária no ano de 264. 
 
Contrariamente a Aristóteles, que justificava a escravatura, 
consideravam-na uma verdadeira crueldade. 
 
 
CLEANTES DE ASSOS 
Nascido em 330 a.C. e falecido em 232, terá sido no princípio da sua 
vida atleta e fez-se discípulo de Zenão. Consta-se que durante a noite era 
cavador de poços, de forma a poder seguir durante o dia os ensinamentos 
do mestre. Após a morte deste, passou a dirigir a escola estóica. 
 
 54
Afirmou que Aristarco de Samos devia ser condenado por 
impiedade. 
 
As almas sobrevivem até ao momento da conflagração universal, 
momento em que tudo é absorvido em Deus. 
 
 
CRISIPO 
Nasceu em 280 e faleceu em 207 a.C. Foi o terceiro mestre do 
estoicismo antigo. Terá sido discípulo da Academia antes de se tornar um 
dos mais firmes defensores do Pórtico. 
 
Julga, que apenas Zeus – o fogo supremo – é imortal. Todos os 
outros deuses – nomeadamente o Sol e a Lua – tiveram nascimento e estão 
sujeitos à inevitável morte. 
 
A felicidade do homem de bem é similar à felicidade de Deus. 
 
Só a alma do homem sábio, do virtuoso, sobrevive até à conflagração 
universal – posição parcialmente contrária à de Cleantes. 
 
 
 
O EPICURISMO 
 
 
A doutrina epicurista ficou definida com o seu fundador, 
contrariamente ao que aconteceu com o estoicismo, que sofreu 
desenvolvimentos até à morte de Marco Aurélio, em 180 d.C. 
 
 
EPICURO 
Fundador do estoicismo, nasceu em 341 ou 342 a.C., tendo passado a 
infância em Samos. Começou a estudar filosofia aos 14 anos. Em 311 
fundou em Mitilene a sua primeira escola, e em Atenas no ano de 207. 
Morreu em 270-1 a.C.. Foi muito provavelmente aluno de Xenófanes. 
 
A vida na sua escola era simples e a comida frugal, essencialmente 
pão, e a bebida água. Dizia que o corpo lhe tremia de prazer quando se 
sustentava de pão e água, e cuspir nos prazeres luxuosos, não por eles, mas 
pelos males deles resultantes. 
 
 55
Epicuro escreveu extensa obra. Apesar de não restar muito dos seus 
escritos, do que dispomos, ficamos com uma ideia algo precisa do seu 
pensamento. 
Diógenes Laércio transcreveu três cartas suas: 
- A Heródoto, sobre a Física; 
- A Pitoclo, sobre os meteoros; e 
- A Meneceu, sobre a moral. 
Para além destas, dispomos de quarenta máximas. Num manuscrito 
existente no Vaticano, foram descobertas cerca de oitenta outras máximas. 
Temos ainda acesso a alguns fragmentos da sua obra Sobre a Natureza. 
 
A sua filosofia destinava-se a dar tranquilidade ao homem, mas 
buscava mais a extinção do sofrimento, do que propriamente o prazer. 
Deve ter sido o problema do medo, que o levou à sua doutrina filosófica. 
As suas causas são a religião e a morte. 
 
A filosofia é o verdadeiro caminho para a felicidade, e esta, só é 
atingível quando o homem se conseguir libertar das paixões que o assolam 
e lhe dizimam o espírito. Julga e pratica a máxima de que “é não só mais 
belo, mas também mais agradável fazer o bem do que recebê-lo”. 
 
A doutrina epicurista teve reprovável aproveitamento por alguns dos 
seus intérpretes e seguidores, o que levou Séneca a acorrer em seu auxílio, 
dizendo que Epicuro nos forneceu preceitos veneráveis e justos, que 
quando devidamente observados, denotam severidade. A fama de ser uma 
escola de perdição é uma injustiça, um erro – o que não impediu a sua 
prejudicial reputação. 
 
Tudo é corpo, menos o vazio, que é incorpóreo – Epicuro adoptou 
quase que na íntegra a física de Demócrito. 
 
Admite a existência de deuses, que não são activos, pois com nada se 
preocupam, atenta a felicidade de que gozam, não se imiscuindo nos 
assuntos dos seres humanos, pelo que não devem ser temidos. 
 
A alma, que é material, composta de átomos dispersos pelo corpo, 
morre com este, já que os seus átomos se dispersam – a influência da 
doutrina atomista é clara nesta tese. 
 
A morte é inevitável, mas não forçosamente um mal. 
 
A filosofia de Epicuro, pode ser sintetizada num “remédio 
quádruplo”: 
 56
- Libertar a humanidade do medo dos deuses,já que pela sua 
natureza, absolutamente feliz, não se interessam nem se ocupam 
das coisas dos homens; 
Os deuses não são activos, porquanto: A divindade, ou quer 
suprimir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer 
nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode é impotente; e a 
divindade não o pode ser. Se pode e não quer, é invejosa, e a 
divindade não o pode ser. Se não quer e não pode, é invejosa e 
impotente, portanto não é divindade. Se quer e pode (que é a 
única coisa que lhe é conforme) donde vem a existência dos 
males e porque não os elimina? 
- Libertar os homens do medo da morte. Já que ela em nada 
consiste. Em bom rigor, quando existimos nós, não existe a morte, 
e quando ela existe, somos nós que não existimos. 
- Indicar ao homem o caminho que leva ao prazer, atenta a sua 
acessibilidade. 
Epicuro afirmou na obra “Sobre o Fim”: Em minha opinião não 
sei conceber que coisa é o bem se prescindo dos prazeres do 
gosto, dos prazeres do amor, dos prazeres do ouvido, dos que 
derivam das belas imagens percebidas pelos olhos e, em geral, 
todos os prazeres que os homens têm pelos sentidos. Não é 
verdade que só o gozo da mente é um bem; dado que também a 
mente se alegra com a esperança dos prazeres sensíveis em cujo 
desfrute a natureza humana pode livrar-se da dor. 
- A brevidade da dor. 
 
Lucrécio, nascido em 99 a.C., foi o maior discípulo de Epicuro, 
tendo poetizado a sua doutrina, sem a desvirtuar – De Natura Rerum. 
 
 
 
O CEPTICISMO 
 
 
Os cépticos procuram como muitos outros, alcançar a felicidade, mas 
através da ataraxia. Através da indagação refutam todas as doutrinas, 
demonstrando a sua falibilidade. É de todo impossível saber seja o que for. 
Só podemos conhecer através da percepção, mas esta é manifestamente 
suspeita, por ilusória, e em consequência, não confiável. 
O céptico opta por uma afirmação inicial que o não conduz à 
investigação: ele não sabe, ninguém sabe, e ninguém virá a saber em tempo 
algum. 
 
 57
 
PIRRO 
Nasceu em 365 a.C. Foi discípulo de Demócrito e combatente do 
exército de Alexandre. Terá conhecido os pensadores indianos quando 
acompanhou Alexandre na sua expedição. Faleceu em 275 a.C.. 
Foi o fundador do cepticismo. 
 
Afirma que não existem coisas boas ou más, belas ou feias, e o mais 
importante, verdadeiras ou falsas. Considerando que as coisas não são 
perfeitamente apreendidas pelo entendimento humano, melhor será que 
suspendamos o nosso juízo sobre a natureza das mesmas. A suspensão do 
juízo, conduz-nos pela indiferença, à ataraxia. 
 
É com Pirro que o cepticismo ganha o estatuto de “escola filosófica”. 
No entanto, não podemos considerar o cepticismo uma verdadeira escola, 
mas uma mera orientação teórico-prática, que foi o sustentáculo de várias 
escolas da antiguidade. 
 
Pirro influenciou Sexto Empírico, que nos deu a conhecer com 
alguma precisão os seus ensinamentos – Esboços Pirronianos. 
 
 
TÍMON 
Foi discípulo de Pirro e faleceu em 235 a.C.. 
 
A filosofia grega apenas admitia a lógica dedutiva, partindo de 
princípios evidentes. Se estes princípios não podem ser de forma alguma 
encontrados, então, nada pode ser demonstrado. 
 
 
ARQUESILAU 
Foi contemporâneo de Tímon, tendo nascido em 316 a.C. e falecido 
por volta de 240 a.C. 
 
Foi fundador da Nova Academia. Opôs-se a Zenão de Citium, o 
estóico, acusando-o de dogmatismo. 
 
Não expendia quaisquer doutrinas, mas refutava todas aquelas com 
as quais era confrontado. 
 
A sua influência fez com que a Academia permanecesse céptica por 
mais de dois séculos. 
 58
 
 
SEXTO EMPÍRICO 
Viveu no século II d.C. Foi influenciado por Platão e por Pirro de 
Élis. 
Viveu em Alexandria e em Atenas, tendo dirigido a escola céptica de 
180 a 210. Exerceu a medicina. 
 
Não escreveu nenhuma obra que possa ser considerada relevante no 
domínio do pensamento filosófico. Pelos seus escritos, Esboços 
Pirronianos, Contra os Dogmáticos, Contra os Professores, fez-nos 
conhecer praticamente tudo o que sabemos acerca do cepticismo grego e 
dos ensinamentos de Pirro. É assim, a fonte mais fidedigna do antigo 
cepticismo, por ser o único filósofo céptico do período antigo de quem 
temos obras. 
 
Diz-nos nos Esboços Pirronianos, obra que resume o pensamento 
céptico da antiguidade, que pelo cepticismo atingimos em primeiro lugar a 
suspensão do pensamento – pelo reconhecimento de que não vale a pena 
preocuparmo-nos com o que não pode ser conhecido –, e de seguida, a 
liberdade em relação às perturbações – a felicidade é a libertação da 
perturbação mental (ataraxia). 
 
Criticou veementemente o conceito estóico de divindade na obra 
Argumentos contra a Crença em Deus. 
 
 
 
FILÓSOFOS POSTERIORES 
 
 
SÉNECA 
 
Nasceu nos primeiros anos da era cristã – há quem refira que o seu 
nascimento se reporta ao ano 3 a.C.. Político, foi professor de Nero. Como 
estóico, desprezava a riqueza, mas foi conhecido por ser 
extraordinariamente rico, fortuna adquirida provavelmente por intermédio 
da prática da usura. Foi condenado por Nero à morte, tendo-lhe sido 
permitido suicidar-se, o que ocorreu em 65 d.C. Assim que a ordem lhe foi 
comunicada, interrompeu o seu trabalho, e pôs fim à vida sem lamento ou 
contestação, não porque quisesse morrer, mas por não temer a morte. Nos 
seus últimos momentos, exortou a família a não se lamentar da sua sorte, e 
 59
que lhes legava muito mais do que riquezas: o verdadeiro exemplo de uma 
vida virtuosa – julgamos no entanto, que a sua vida não teve uma integral 
correspondência com os preceitos que são a sua herança filosófica. 
A via da felicidade é a via da virtude. A sua pátria era o Universo, 
governado por deuses. 
 
Séneca é um estóico ecléctico absorvido por profunda religiosidade. 
As suas doutrinas aproximam-se das do cristianismo, o que levou alguns 
autores a preconizar um pretenso relacionamento com S. Paulo. Entre os 
cristãos, podemos mencionar S. Jerónimo, que procurou estabelecer tal 
relacionamento, atestando a sua cristandade – de todo duvidosa. 
 
Escreveu as seguintes obras: Da Vida Feliz, Da Vida Breve, e Cartas 
a Lucilius. 
Na Vida Feliz, afirma que a via da felicidade é a virtude. Insiste 
também no facto de nada haver de reprovável na riqueza do filósofo, desde 
que esta tenha sido obtida de forma lícita. 
Deus é o Senhor do Universo, estendendo-se para o exterior, mas 
regressando, no entanto, de todo o lado, interiormente a si próprio. É 
necessário seguir Deus, pois nascemos num reino em que a nossa liberdade 
depende da obediência que lhe dedicamos – há aqui uma aceitação 
expressa do destino dos mortais. 
Para que exista uma efectiva aproximação a Deus, não temos 
necessidade de olhar para fora de nós, basta-nos olhar para nós mesmos, 
recolhermo-nos no nosso interior. Pela introspecção alcançamos a verdade. 
O soberano bem é o acordo da alma consigo mesma. 
Tal como Platão, considera que o corpo é o túmulo da alma. O dia da 
morte do corpo, é o dia do nascimento da alma para a vida eterna. 
Nas Cartas a Lucílio, inserem-se todos os temas da ética estóica. 
Será provavelmente a obra mais importante do filósofo. 
Escreveu um Tratado dedicado a Lucílio, que oscila entre duas teses 
(Denis Huisman): 
- É na adversidade que o homem virtuoso encontra seguramente a ocasião 
de exercer a sua sabedoria; os males permitem, assim, ao sábio revelar a 
sua força de alma; e 
- As pretensas infelicidades de que o homem de bem é vítima, na realidade 
não são males; uma vez que não afectam a capacidade do homem de se 
governar pela vontade, de males só têm o nome. 
 
Elucidativa da teoria do Deus que inunda a nossa alma, é a seguinte 
passagem: “Não devemos erguer as mãos ao céu nem pedir ao guarda do 
templo que nos permita aproximar-nos das orelhas da estátuade Deus, 
 60
como se assim pudéssemos mais facilmente ser ouvidos; a divindade está 
próxima de ti, está contigo, está dentro de ti”. 
 
 
EPICTETO 
 
Nasceu por volta do ano 50 da era de Cristo, talvez no ano 60 e terá 
falecido pelo ano 100. De nacionalidade grega, foi escravo, alforriado por 
Nero, acabando por ser seu ministro. Ensinou em Roma até ao ano 90. As 
suas doutrinas assemelham-se às de Séneca, ou melhor, as de Séneca 
assemelham-se às suas, e os seus pensamentos são simples e plenos de 
sinceridade. 
 
Nada escreveu. 
As Conversas, terão sido lições orais do filósofo, que Flávio Arriano, 
seu discípulo, transcreveu. 
A obra que conhecemos como Manual, constitui um resumo dos seus 
ensinamentos, também provavelmente coligidos por Flavius Arrianus. É 
um conjunto de 53 máximas estreitamente ligadas à vida. Simplício (séc. 
VI) escreveu acerca desta obra: “é um punhal que é preciso ter sempre ao 
alcance e de que aqueles que querem viver bem se devem sempre servir.” 
 
Distingue as coisas que de nós dependem – actos e obras do nosso 
foro íntimo –, das que de nós não dependem – v.g., corpo, riqueza, 
celebridade. É sabedoria dominar as primeiras e não nos apoquentarmos 
com as segundas. A impassibilidade é meta a atingir pelo filósofo, mas não 
é tarefa isenta de espinhos. 
 
Deus é o nosso pai, e está no nosso interior, na nossa alma. Por tal 
motivo, por muito sós que estejamos, temos sempre Deus connosco, o que 
afasta toda e qualquer solidão. 
 
A maior devoção para com os deuses, é ter sobre eles juízos de 
clareza. Eles existem e tudo governam com sabedoria e justiça. Devemos 
obedecer-lhes aceitando tudo o que acontece, na convicção de tudo o que 
por eles foi feito o foi da melhor forma possível. 
 
Um homem sente-se seguro se for familiar do próprio Imperador. 
Não se sentirá em muito maior segurança, sendo parente de Deus? 
 
Se Deus é o pai, então a vida é um dom concedido por esse ser. 
 
 61
Na terra somos prisioneiros de um corpo terrestre. Todo o ente 
possuidor de uma alma, tende a desviar-se naturalmente do mal. O que 
avalia os seus desejos e aversões, torna-se piedoso. 
 
O que nos perturba não são realmente as coisas, mas os juízos que 
formulamos sobre elas. A morte não é temível, mas no juízo que dela 
fazemos, considerando-a temível, é que reside o seu aspecto terrível. O 
homem deve estar preparado para que a alma parta tranquila, como 
tranquilo e sereno é o que o liberta. 
 
 
MARCO AURÉLIO 
 
Nasceu em 121 d.C. e faleceu de peste nas margens do Danúbio, no 
ano 180. O imperador Antonino Pio era seu tio e padrasto, tendo-o 
adoptado. Praticou a “vida” estóica. 
 
A obra Pensamentos, foi certamente escrita para si próprio. Por tal 
motivo, também a encontramos com a denominação Pensamentos para 
Mim Próprio. É o resultado da consciência do Imperador, que se interessa 
quase que exclusivamente pela moral. Os seus pensamentos podem 
considerar-se um verdadeiro guia do estoicismo – e talvez de parte do 
pensamento ocidental. 
 
Marco Aurélio mais do que um imperador que se interessava pela 
filosofia, era um filósofo que exercia as funções de imperador. Considerou 
uma graça divina o facto de se ter apaixonado pela filosofia, mas não 
caindo na alçada dos ensinamentos de um qualquer sofista, nem perdendo o 
seu tempo a examinar autores ou a “embasbacar-se” com a física celeste. 
 
Conheceu as obras de Epicteto por intermédio de Rústico, que as 
possuía na sua biblioteca. 
 
Como Séneca e Epicteto, Marco julga que o filósofo se deve retirar 
para dentro de si, meditando interiormente. “Olha para dentro de ti: dentro 
de ti está a fonte do bem, sempre capaz de brotar, se souberes sempre 
escavar em ti próprio.” O homem deve buscar a divindade que nele habita, 
em vez de se distrair em vãs pesquisas e actividades. 
 
Acredita na existência de Deus pelos sinais do seu poder, o que o 
leva a venerá-lo. 
 
 62
A harmonia do universo nasce da obediência à vontade por Deus 
manifestada. Nas obras dos deuses, que são inteligência, resplandece uma 
providência e tudo o que acontece é por força da necessidade, contribuindo 
para o bem geral do universo. 
 
As coisas da carne, que nada mais é do que barro, sangue, veias, 
artérias, ossos e um fino reticulado de nervos, devem ser desprezadas como 
se estivéssemos para morrer neste preciso momento. 
 
A morte não é a perda nem do passado, nem do futuro – ninguém 
pode perder o que já não possui e o que não sabe se possuirá –, mas do 
presente. Quer o nascimento quer a morte são mistérios da natureza. 
Despedirmo-nos dos homens pela morte, desde que os deuses 
existam, nada tem de aterrador, e se não existirem, de que modo pode ao 
homem interessar um mundo sem providência? Mas, Marco julga que os 
deuses existem e que velam pelas coisas humanas. 
Se dissiparmos os fantasmas que ensombram a morte, ela é tão-
somente uma obra da natureza, e obras da natureza apenas são temidas 
pelas crianças. 
 
Ao corpo pertencem as sensações, à inteligência os princípios, e à 
alma os instintos. No entanto, a alma impregna-se de ideias. Consoante 
estas sejam, assim ela será. Deus vê as almas despojadas dos seus 
invólucros materiais. 
A alma liberta-se do corpo com a morte. Libertas do corpo sobem 
aos ares, para depois de algum tempo se fundirem na razão universal 
generatriz, permitindo que outras ocupem o seu lugar. 
Parece ter dúvidas quanto à imortalidade, quando se refere a que 
alma espera ou extinguir-se ou ser transferida para algures. 
 
 
NUMÉNIO DE APAMEIA 
Segunda metade do século I d.C. 
 
Viveu na Síria, sendo a sua doutrina influenciada, quer pelos 
pitagóricos quer por Platão. 
 
Interessante é realçar que julga derivar a filosofia grega da oriental. 
 
Reconhece três entes divinos: o Deus primeiro, é o princípio da 
realidade e rei do cosmos, sendo puro intelecto; o demiurgo, segundo Deus, 
age sobre a matéria e forma o mundo; o próprio mundo é o terceiro Deus. 
 
 63
Tal como os estóicos e Platão, declara que a encarnação da alma é 
sempre um mal, por se ver aprisionada e sujeita às múltiplas intempéries 
perniciosas da vida. 
 
 
PLUTARCO DE QUERONEIA 
 
Platónico, nasceu no ano 46 d.C. e terá falecido em 125. 
Efectuou os seus estudos em Atenas. Viajou bastante. 
 
As suas obras principais são: 
- Vidas Paralelas dos Homens Ilustres; e 
- Obras Morais. Esta, num âmbito demasiadamente vasto, incide 
sobre questões científicas, literárias, religiosas e políticas. 
Intentou defender o platonismo dos ataques desferidos, quer pelos 
estóicos quer pelos epicuristas. 
 
O mundo não deriva de uma só causa, ou seja, de Deus. A divindade 
apenas poderia criar o bem. Se existe o mal, é porque ao seu lado, existe 
um outro princípio que é o seu causador. 
 
Deus está acima do mundo – o puro bem não se confunde nem pode 
confundir com um mundo onde abunda o mal –, relacionando-se com ele 
por intermédio de outras divindades menores. 
 
 
FÍLON DE ALEXANDRIA 
 
Nasceu em Alexandria por volta do ano 30 a.C. Esteve em Roma no 
ano 40 d.C., como embaixador dos judeus de Alexandria. 
 
É um profundo conhecedor das Sagradas Escrituras, que muito 
venera, mas foi também muito influenciado pela filosofia grega. 
 
Na Alegoria das Leis, para além da exposição acerca da Lei, elabora 
uma teologia, com inspiração nos livros do Antigo Testamento, bem como 
uma cosmologia, inspirando-se esta no Génesis. 
A Imortalidade de Deus, é um comentário dos versículos do Génesis. 
 
A sua especulação filosófica estriba-se em três princípios: 
- A transcendência de Deus relativamente ao mundo – A perfeição 
de Deus é incompreensível. A sua natureza é incognoscível. 
 64
- O Logos é o intermediário entre o homem e Deus – O Logos ou 
Verbo de Deus, é a imagem quese pode conceber mais perfeita 
de Deus, e é o criador do mundo. 
- O objectivo do homem é a união com Deus – Para atingir Deus, 
o homem deve libertar-se do que o escraviza, ou seja, da 
sensibilidade e de tudo que o liga ao corpo, bem como da razão, 
aguardando que aquele faça descer sobre si a Sua graça. 
 
 
PLOTINO 
 
Podemos considerá-lo o último dos grandes filósofos da antiguidade. 
 
Fundador do neoplatonismo – última manifestação do platonismo no 
mundo antigo –, nasceu no Egipto em 203 ou 204 d.C. e faleceu em 270. 
Há autores que referem Ammonius Saccas como seu fundador, e não 
Plotino. Terá estudado o pensamento oriental. 
 
No ano de 244, abriu em Roma uma escola que teve um enorme 
êxito, tendo tido como auditor, entre outros, o imperador Galiano. 
 
A sua obra principal é As Enéadas, escrita em Roma e editada por 
Porfírio. Obra de referência da filosofia antiga. Nesta, é abordado o 
problema de Deus, sua natureza, da criação, do mundo físico e do homem. 
Influenciou quer pagãos quer cristãos. Santo Agostinho foi um dos 
grandes filósofos que a estudou meticulosamente e com base nela 
estruturou em parte o seu sistema. 
 
A metafísica de Plotino, também é uma trindade como no 
cristianismo, mas com valorações diferentes: primeiro o Uno, depois o 
Nous – que é identificado com o Espírito por uns e com o Intelecto por 
outros – e por fim a Alma. 
 
A transcendência de Deus é levada até aos seus limites. O nome que 
lhe deve ser atribuído é o de Uno, causa de todas as coisas, por demonstrar 
inequivocamente a diferença existente com tudo o que vem depois dele. 
O Uno exclui o múltiplo. Ele é o Bem. É o que É. Incognoscível, 
apenas isso, porque tudo transcende, ignorando mesmo a criação. 
 
Plotino é politeísta: “Não restringir a divindade a um único ser, fazê-
la ver multíplice como ela própria se manifesta, eis o que significa 
conhecer o poder da divindade, capaz, ainda que permanecendo aquele que 
 65
é, de criar uma multiplicidade de deuses que se ligam com ele, existem para 
ele, e vêm dele”. 
 
Deus não cria. Está imóvel no centro da criação. Do Uno emanam 
sucessivamente, com sensível e progressiva diminuição da perfeição, o 
Intelecto ou Espírito – a sua imagem mais próxima, a luz pela qual este se 
vê a si mesmo –, a Alma do mundo – que procede do Intelecto, elemento 
criador de onde provêm todas as coisas – e as almas singulares – que são 
parte da Alma do mundo. 
 
A alma tem o momento certo para ser incorporada no corpo e não 
tem a forma deste. Porque é essência, é eterna. Se pecou durante a sua 
existência, entrará num outro e sofrerá a punição adequada ao mal 
cometido. Irá esquecendo tudo o que se passou nas suas múltiplas vidas, até 
que pela purificação se reuna ao Nous, mas mantendo a sua identidade – 
Nous e alma serão em simultâneo, dois e um. 
 
É pelo retorno a si próprio, que o homem regressa a Deus. 
Libertando-se das exigências do corpo e purificando-se por intermédio da 
virtude, com o auxílio da música, do amor e da filosofia, a alma encontra o 
seu Amado. 
 
Na música não se deve bastar com os sons sensíveis, mas atingir pela 
melodia e pela harmonia a suprema beleza. Pelo amor, caminhando da 
contemplação da beleza corpórea, erguer-se-á até à da incorpórea, que é a 
imagem do Bem, ou seja, a de Deus. Da filosofia terá de tomar em 
consideração as suas limitações: no pensamento existe a dualidade 
pensador e objecto do pensamento, observador e observado, enquanto que 
na visão divina esta dualidade está excluída. Assim, não será certamente 
pela inteligência que Deus será alcançado. 
 
Plotino teve várias experiências místicas, em que se alheava do 
próprio corpo e entrava em comunhão com a ordem mais elevada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 66
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
FILOSOFIA CRISTÃ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 67
 
A PATRÍSTICA 
 
 
 
 
 
JUSTINO 
 
Nasceu em princípios do século II, na Palestina. Pode ser 
considerado o fundador da Patrística, e é um apologeta – Padre que 
defendia o cristianismo dos ataques desferidos. 
 
As velhas escolas filosóficas não o satisfazem. Os estóicos 
desconhecem Deus, os peripatéticos desejam com elevada intensidade os 
bens materiais, as coisas do mundo, os pitagóricos são meramente teóricos, 
e os platónicos excedem-se nas suas especulações. Considera que o 
cristianismo é a única filosofia absolutamente segura e útil, lugar onde se 
realiza a Verdade. 
 
A razão é o Verbo de Deus: “Nós aprendemos que Cristo é o 
primogénito de Deus, e que é a razão de que participa todo o género 
humano. E aqueles que viveram segundo a razão são cristãos, ainda que 
tenham sido considerados ateus como, entre os Gregos, Sócrates, Heraclito 
e outros; e entre os bárbaros, Abraão e Ananias e Azarias e Misael e Elias. 
De modo que também aqueles que antes nasceram e viveram 
irracionalmente eram maus e inimigos de Cristo e assassinos daqueles que 
vivem segundo a razão; mas aqueles que viveram e vivem conformes com 
a razão são cristãos impávidos e tranquilos”. 
 
Deus é eterno, e eterno é o que não teve princípio nem terá fim. É 
algo de inexplicável. Imediatamente a seguir, apresenta-se-nos o Logos, 
gerado antes da criação e por intermédio do qual aquele criou e ordenou 
tudo o que existe. Depois de Deus pai e do Logos, está o Espírito Profético, 
que produz no homem, quer a virtude quer os inúmeros dons proféticos. 
 
A alma humana é por vontade de Deus, imortal. Imortalidade de que 
o corpo acabará por participar quando da segunda parusia de Cristo, 
momento em que os corpos ressuscitarão – aos justos serão concedidos os 
bens celestes, enquanto que os iníquos serão condenados ao fogo eterno 
para todo o sempre. 
 
 68
 
 
 
TACIANO O ASSÍRIO 
 
Padre apologeta, foi discípulo de Justino. Tardiamente, renegou a 
Igreja e passou para os gnósticos. 
 
Para Taciano, necessitamos de distinguir o espírito da alma. O 
espírito é a imagem de Deus, essência pura, enquanto que a alma não é una, 
mas composta. Assim sendo, não é imortal, qualidade que obtém apenas 
pela união com o espírito. 
 
O homem retorna a Deus pelo espírito. 
 
 
 
ATENÁGORAS DE ATENAS 
 
Escreveu a apologia “Súplica a Favor dos Cristãos”, que dirigiu a 
Marco Aurélio. Nela, surge-nos a prova racional da unidade de Deus. A 
possibilidade de existir mais do que uma divindade incriada não permitiria 
a sua existência no mesmo espaço. Se os mundos forem muitos e 
incomunicáveis, então, cada um deles pode ter o seu deus, mas nenhum 
deles afectará os restantes, não sendo por conseguinte tomado em mundo 
estranho como divindade. 
 
O Logos foi gerado pelo Pai, sendo com ele coeterno. É a energia 
que deu origem a todas as coisas. O Espírito Santo é uma irradiação de 
Deus, do mesmo modo que um raio de sol. 
 
 
 
TEÓFILO DE ANTIOQUIA 
 
Padre apologeta, bispo de Antioquia, legou-nos três livros, “Ad 
Autolico”. 
 
Deus é eterno, imutável, o criador de tudo quanto existe, que gerou 
do nada. É através da criação que se torna perceptível o seu poder, criação 
essa, que o manifesta. 
 69
 
Da sua beleza, que é suprema, inefável, nada pode ser dito. Os olhos 
do corpo não a podem alcançar, só aos olhos da alma purificada é 
concedida tal visão. 
 
Foi por intermédio do Logos e da omnisciência, que tudo gerado. 
 
Utilizou a palavra Trindade para distinguir os entes divinos: Deus 
pai, o Logos e a Sabedoria. 
 
 
 
MINÚCIO FÉLIX 
 
Padre apologeta latino, viveu no tempo de Tertuliano. 
 
Os filósofos concordam em geral, com a unicidade de Deus. Daí 
concluiu, que “ou os cristãos são os filósofos de agora ou os filósofos de 
então eram cristãos”. 
 
É na criação do céu e da terra, que Deus se manifesta. Quando 
entramosnuma residência e vemos todas as coisas nos seus devidos 
lugares, com uma organização perfeita, imputamos essa harmonia ao seu 
dono e à sua personalidade e conhecimentos. Assim, quando constatamos a 
mesma ordem, quer no céu quer na terra, passamos a ter fé na existência de 
algo que rege o mundo e detenha o seu governo, como o proprietário 
governa a sua casa. Esse algo, é Deus. 
 
 
 
ARNÓBIO 
 
Padre apologeta latino, foi professor de retórica. É autor de uma 
apologia denominada “Adversus nationes”. 
 
É um filósofo pessimista, no que ao homem respeita, motivo pelo 
qual, foi bastas vezes comparado com Pascal – deveria ser Pascal 
comparado com Arnóbio, e não o contrário. 
 
O homem é um ser repugnante, com atitudes de grande baixeza 
moral, mesquinho, e a sua existência não tem qualquer utilidade para o 
mundo, que se manteria estável, caso não existisse. A história confirma o 
 70
carácter ignóbil do ser humano: sucedem-se em cascata, a violência 
generalizada, os delitos, o mal em todas as suas múltiplas facetas. Por 
conseguinte, Deus, criador de um mundo ordenado e perfeito, não poderia 
ter gerado tal criatura, essa coisa infeliz e miserável, que se dói de ser, 
detestando e chorando a sua triste condição, cujo objectivo ou sentido 
parece ser o da difusão do mal. Provavelmente, foi criado por um Deus 
inferior, seja no seu poder seja na sua dignidade – admite a existência de 
inúmeras divindades, mesmo as pagãs, mas todas as subordinadas ao Deus 
cristão. 
 
A alma não é divina – como os platónicos afirmaram – e a doutrina 
da reminiscência é ostensivamente afastada. A sensação é a base do 
conhecimento. A alma, que não é espírito nem corpo, mas uma substância 
intermédia e indeterminável, não é imortal. Apenas Deus, única ideia inata 
no ser humano, pode conferir-lhe tal atributo, desde que aquela, tenha pelo 
reconhecimento e pelo serviço, atingido o requerido grau de pureza. Os que 
não conseguirem purificar-se serão condenados ao fogo do inferno, até à 
sua total extinção. 
 
A morte da alma – incondicional, como reconhecem os Epicuristas –
, ou a sua imortalidade – também incondicional, como atesta Platão – é um 
erro absurdo. A alma terá o destino que deriva da sua acção, e da pureza 
que atingiu em vida. 
 
 
 
LÚCIO CÉLIO FIRMIANO LACTÂNCIO 
 
Padre apologeta latino, foi discípulo de Arnóbio. Julga que a verdade 
não é atingível pela filosofia, mas pela revelação. 
 
Quando olhamos para o céu, temos a noção imediata da existência de 
algo, ordenador e gerador de leis conducentes à perfeição. Mas, será um 
único Deus o regente ou pelo contrário, várias são as divindades? O corpo 
humano, composto por inúmeras partes, só tem uma regência: a da alma. O 
mundo, por analogia, só deve ter também, uma entidade ordenadora. 
 
O mundo não foi criado a partir de uma matéria preexistente. Deus 
na sua potência, cria a matéria. 
 
O Deus Pai e o Logos não estão divididos. São uma única substância 
e um único espírito. 
 71
 
O Filho foi criado antes do mundo, para aconselhar Deus no seu 
projecto e execução. 
 
Deus criou o mundo para o homem – que necessidade tem Deus, de 
algo que esteja fora de si? Mas, a criação do homem, teve um desígnio 
diferente: Deus gerou o homem para que reconhecesse o seu poder e 
perfeição. 
 
O homem é corpo e alma. Esta é subtil. A coesão dos dois, é um bem para 
o primeiro e um mal para a segunda – podemos deduzir desta afirmação, 
que nada é bom e só bom e mau e só mau? 
 
Aderem ao ser humano princípios contraditórios que lutam 
ininterruptamente. Quando os princípios da alma vencem, esta torna-se 
imortal e é admitida na Luz de Deus, se forem os do corpo, estará a alma 
sujeita à escuridão e à morte. 
 
 
 
CARPÓCRATES DE ALEXANDRIA 
 
Gnóstico, procurou demonstrar a superioridade e excelência de 
Cristo pela doutrina platónica da reminiscência. Ele é em muito superior à 
humanidade, em virtude da sua alma ter recordado na terra tudo o que 
havia percepcionado junto de Deus pai: este, concedeu-lhe o dom de poder 
regressar ao seu seio, quando a sua missão findasse. 
 
A alma, desde que purificada à imagem de Cristo, terá um destino 
semelhante ao deste: o regresso a Deus pai. 
 
 
 
VALENTINO 
 
Gnóstico, admitiu a figura do Primeiro Pai, um Deus não gerado, 
imutável e eterno. 
 
Os homens são repartidos em três classes: 
- os carnais, destinados à perdição; 
- os psíquicos, cuja salvação pode ser obtida, ainda que com muito 
esforço; e, 
 72
- os espirituais, cuja salvação depende apenas da gnose, ou seja, do 
conhecimento dos mistérios divinos. 
 
 
 
MANI 
 
Gnóstico, natural da Pérsia, terá nascido por volta do ano 216. 
 
Declarou-se a si mesmo, Paráclito, isto é, aquele que estaria 
destinado a conduzir o cristianismo à sua perfeição absoluta. 
 
Admite dois princípios: o das trevas e o do bem ou da luz, cujo 
combate no mundo é incessante. 
 
O homem só atingirá a perfeição da sua alma, caso se abstenha dos 
alimentos animais, das palavras impróprias, da propriedade, do trabalho, do 
casamento, e de qualquer relação carnal. 
 
Santo Agostinho foi seu adversário. 
 
 
 
IRINEU 
 
Polemizou contra a gnose. Nascido por volta de 140, talvez em 
Esmirna, faleceu pelo martírio. 
 
A única e verdadeira gnose, no seu entender, é a que foi 
legitimamente transmitida pelos apóstolos. 
 
Não conseguimos pensar ou compreender Deus. Ele é a razão, mas a 
sua razão em nada se assemelha à nossa. É luz, mas uma luz que nos é 
totalmente desconhecida. 
 
Está convicto de que a ignorância no que a Deus respeita, é muito 
superior às grandes especulações. A crença na sua existência e o amor que 
lhe dedicamos e que faz jorrar sobre nós, supera qualquer pesquisa, por 
mais subtil que seja ou pareça ser. 
 
Deus é conhecido pela fé, pela revelação, que pode também ocorrer 
através da sua obra que é o mundo. 
 73
 
Os gnósticos erram profundamente, quando: 
- consideram que o criador do mundo não é o próprio Deus, mas o 
Logos. É de todo estranho, que a divindade com todo o poder que 
lhe é imputado não consiga por si mesma executar o que projecta; 
- teorizam gradações entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Estes, 
têm a mesma essência. Tanto o Filho, quanto o Espírito Santo 
coexistem desde sempre com o Pai, e participam da sua 
excelência. 
 
O homem é o resultado do somatório da alma e do corpo, e pelo 
espírito torna-se perfeito, elevando-se até Deus pelo respeito dos seus 
mandamentos ou injunções. 
 
O mal tem a sua origem, não no corpo, mas na livre escolha do 
homem, quando desobedece a Deus. O bem consiste tão somente na 
obediência à vontade do Senhor. Pelo bem, a alma torna-se imortal e pelo 
mal é punida com a morte eterna. 
 
A ressurreição dos corpos ocorrerá depois da chegada do Anticristo, 
e as almas então incorporadas na sua própria carne poderão usufruir da 
visão beatífica de Deus. 
 
 
 
HIPÓLITO 
 
Discípulo de Irineu, polemizou contra os gnósticos. 
 
Face à indisciplina que reinava nos meios eclesiásticos, encabeçou 
um partido cismático, podendo ser considerado um dos primeiros 
antipapas. 
 
Deus Pai e Deus Filho, não são a mesma pessoa. O Filho existia no 
Pai, e quando a este lhe aprouve, separou-o de si. “O Pai manda, o Filho 
obedece e o Espírito Santo ilumina; o Pai está acima de tudo, o Filho está 
por tudo, o Espírito Santo está em tudo. Não podemos pensar num único 
Deus, se não acreditarmos no Pai, no Filho e no Espírito Santo.” 
 
Deus criou o homem para que possa agir em liberdade, em 
consonância com a lei que o deve conduzir pelo caminho da vida, lei essa, 
 74
que foi transmitida a Moisés e aos Profetas. Aí, o perfeito seguidor dos 
preceitos divinos, transforma-se em Deus. 
 
 
 
TERTULIANO 
 
Nasceu porvolta de 160 em Cartago. Filho de pagãos, converteu-se 
ao cristianismo e foi ordenado sacerdote. Passou para os montanistas e 
acabou por fundar uma seita – a dos tertulianistas. 
 
A Apologética é a primeira apologia escrita em latim, como reacção 
contra a perseguição de que os cristãos foram vítimas no ano de 197 pelos 
governadores das províncias romanas. 
 
Tertuliano condena a imoralidade romana, o seu politeísmo e vícios 
degradantes, acusando-os de serem os próprios causadores dos males que 
injustamente assacavam aos cristãos. 
 
Tertuliano é um crítico da filosofia. Desta, nascem as heresias e os 
erros. Platão é o pai de todas as heresias. A verdade religiosa funda-se na fé 
e na revelação. Desde que o homem atinja confiantemente a fé, nada mais 
tem a pesquisar, nem confirmar, sob pena de pelo exercício defeituoso da 
razão cair no maior dos erros e na heresia. 
 
Deus é corpóreo – só é incorpóreo o que não é –. O Filho e o 
Espírito Santo estão subordinados ao Pai. O que o Filho é, deve-o ao Pai. É 
o Filho que cria o mundo. 
 
A alma tem natureza espiritual, mas também é corpórea, com a 
mesma forma do homem que anima. É “uma substância simples, nascida do 
sopro de Deus, imortal, corpórea e dotada de uma figura, capaz por si 
mesma de sabedoria, rica em atitudes, partícipe de arbítrio, sujeita às 
circunstâncias, mutável de humor, racional, dona da sua capacidade, rica de 
virtudes, adivinhadora, multiplicando-se a partir de um único ramo”. Se se 
multiplica a partir de um único ramo, Tertuliano adopta o traducianismo, 
ou seja, a alma é transmitida de pai para filho, geração após geração. 
 
A morte é a separação da alma e do corpo. Na vida, o que a morte 
desintegra, está integrado. Cristo ressuscitou; tal facto garante a nossa 
própria ressurreição. A alma é obviamente imortal. 
 
 75
Estranhos, no mínimo, são os argumentos que fundamentam a fé. Crê 
que o Filho de Deus morreu, porque é inconcebível que tal ocorresse. 
Sepultado, ressuscitou dos mortos, o que é certo por ser impossível. Quanto 
mais absurdo for o argumento deduzido a favor da fé, mais certa será – 
Credo quia absurdum est. 
 
 
 
CLEMENTE DE ALEXANDRIA 
 
Nasceu por volta do ano 150, provavelmente em Atenas. 
 
Estrómatos é uma obra composta por oito livros, onde trata das 
doutrinas filosóficas da antiguidade e do cristianismo. Nas sua perspectiva, 
os cristãos não devem deixar de conhecer a filosofia grega, mas devem 
saber reconhecer, que esta foi influenciada pelas Sagradas Escrituras que 
lhe são anteriores. Muitas questões teológicas – v.g. a ascese, a 
continência, a fé – são abordadas no livro. 
No Pedagogo, desfere um ataque frontal ao gnosticismo e demonstra 
aos fiéis como se devem conduzir, de molde a curarem as suas almas das 
paixões e vícios. 
No Protréptico, exorta a humanidade à conversão ao cristianismo – 
no Pedagogo dirige-se aos cristãos confirmados –, demonstrando a 
falsidade dos mitos gregos aos quais contrapõe a verdadeira filosofia, que é 
a cristã. 
 
O que o homem pode atingir de mais elevado, é indubitavelmente o 
conhecimento. Mas, entre este e a fé, há uma união indissolúvel: não 
podem subsistir isoladamente. A filosofia é a intermediária entre a fé e o 
conhecimento. 
 
Deus é o incognoscível e o pensamento é impotente para o atingir. 
Temos uma maior facilidade em conhecer o que Ele não é do que aquilo 
que Ele é. 
É no Logos que tudo se move, e é o Logos o guia da conduta dos 
homens. 
O Espírito Santo, luz da verdade, está subordinado ao Logos. 
 
 
 
 
 
 76
 
ORÍGENES 
 
Terá nascido no ano 185 ou 186, em Alexandria, e morreu mártir 
com 69 anos de idade. Foi tal como Plotino, discípulo de Ammonius 
Saccas, que é considerado por muitos o verdadeiro fundador do 
neoplatonismo. 
No ano de 230 é ordenado, para no ano seguinte ser excomungado. 
Castrou-se voluntariamente, numa interpretação literal do texto 
evangélico, não obstante, a condenação da Igreja de tal interpretação. 
 
Mencionamos aqui duas obras: 
Contra Celso – Celso foi um filósofo (séc. II d.C.), que inspirado no 
platonismo, desferiu ferozes ataques contra o cristianismo, nomeadamente 
na obra Discurso Verdadeiro, influenciando muitos dos pensadores que se 
opuseram e criticaram a doutrina cristã. Orígenes procurou refutar todas as 
suas afirmações. 
Tratado dos Princípios – Esta obra debruça-se sobre as Sagradas 
Escrituras. Com ela, propôs-se refutar as heresias existentes à época, mas 
afirmando audaciosas teses, tal como a da preexistência da alma, acabou 
por ser ele mesmo acusado de heresia. 
 
As escrituras foram inspiradas por Deus, o que é demonstrável pelas 
profecias que antecederam a vinda de Jesus Cristo e pelos milagres. 
 
Para Orígenes, incorpóreo só Deus: Deus Pai, Filho e Espírito Santo. 
Deus não é corpo, tendo natureza espiritual. Não é o todo, porque o 
todo é composto de partes, nem obviamente uma parte, que é menor que o 
todo. É omnipotente, mas a sua omnipotência está limitada pela sua própria 
natureza: não pode cometer injustiças. Ele é o bem, a absoluta bondade – 
compare-se com o conceito platónico de bem. 
 
Deus tem necessidade de punir para “curar”, da mesma forma que 
um professor castiga para orientar no recto caminho os seus pupilos. Se 
Deus tivesse como único atributo a bondade, teríamos tendência a não a 
valorizar; se fosse tão-somente severo, os nossos pecados seriam motivo de 
desespero. 
 
Se a substância participa de Deus, Deus não participa dela e é-lhe 
manifestamente superior. Está assim, para além de todas as coisas. 
 
 77
O Logos é a imagem de Deus, coeterno com Ele, mas em posição 
subordinada. É a substância das substâncias. Recebeu a “vida” do Pai, de 
quem depende a sua eternidade. 
 
Se quer o Pai quer o Filho são Deus, já o Espírito Santo foi criado 
pelo Filho e não tem uma função específica, não obstante se constitua como 
uma força religiosa. 
 
Julga que há uma pluralidade de mundos, que se sucedem, até que 
em dado momento se extinguem. 
 
As estrelas são seres racionais, dotados de alma. Esta alma, tem 
existência anterior aos corpos, sendo-lhes concedida por Deus. 
 
Nos homens, as almas são incorporadas desde o nascimento. Nous e 
alma, têm conceitos aproximados aos de Plotino. Quando o Nous decai, 
transforma-se em alma. Por outro lado, pela virtude a alma torna-se Nous. 
 
O homem renascerá em vários mundos, purificando-se 
sucessivamente do pecado original. Aí, será restituído ao amor de Deus. 
 
Talvez tenha sido Orígenes o primeiro filósofo a empregar a palavra 
misticismo para traduzir o conhecimento directo de Deus. 
 
Não há ser que não possa obter a salvação, inclusivamente Satanás. 
Recusa a doutrina da ressurreição da carne. 
Foi condenado por via de quatro heresias: 
- a doutrina da preexistência das almas – vide Platão; 
- que Cristo já detinha antes da encarnação a natureza humana; 
- após a ressurreição, os corpos não serão mais materiais, mas 
integralmente etéreos; 
- todos podem atingir a salvação, inclusivamente o Diabo. 
 
 
 
METÓDIO 
 
Foi bispo de Filipo e morreu mártir por volta de 311. Polemizou 
contra Orígenes. 
 
Deus é a perfeição suprema, podendo ou não criar o mundo, segundo 
a sua vontade. 
 78
 
A alma humana não é preexistente ao corpo. 
 
O mal tem a sua causa no livre arbítrio do homem. 
 
 
 
ARIO 
 
Morreu em 336. 
 
Pai e Filho têm diferentes naturezas. O Logos não é eterno. Foi 
criado como tudo, do nada. Se o apelidamos nos livros sagrados de Filho de 
Deus, é no mesmo sentido de que todos os outros homens também o são. 
 
A sua doutrina foi condenada por grande maioria no Concílio de 
Niceia, realizado no ano de 325. 
 
 
 
ATANÁSIO 
 
Nasceu no ano de 295. Opôs-se à doutrina expendida por Ario e no 
Concíliode Niceia – primeiro concílio ecuménico – que ocorreu no ano de 
325, exerceu uma considerável influência na condenação do arianismo. 
 
Pai e Filho são idênticos. O Filho participa da divindade do Pai e em 
consequência de todos os seus poderes. 
 
O Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Um só Deus e três 
pessoas – doutrina aceite pelo Concílio de Niceia e defendida por outros 
filósofos cristãos, como Basílio o Grande, Gregório Nazianzeno e 
Gregório de Nisa. 
 
 
 
BASÍLIO O GRANDE 
 
Nasceu em 311. 
Considera que a fé tem precedência sobre a razão. 
 
 79
Tal como Atanásio afirma a existência de um só Deus em três 
pessoas. 
 
Conhecemos Deus pela criação. É-nos possível pelas suas obras 
conhecer seja o seu poder, seja a sua sabedoria e arte, mas de modo 
nenhum a sua natureza. Até o conhecimento do seu poder é limitado, 
porquanto pode não ter aplicado toda a sua capacidade na execução da sua 
obra. 
 
Conhecer a essência divina é conhecer a sua incompreensibilidade. 
Há um limite para a razão no conhecimento do transcendente, que o revela. 
 
 
 
GREGÓRIO NAZIANZENO 
 
Nasceu cerca de 330. Manteve contactos com Basílio O Grande. 
 
Por intermédio da razão atingimos o conhecimento da existência de 
Deus – atenta a perfeição do mundo –, mas não a sua essência. No entanto, 
temos a noção ainda que indefinida, que essa sua essência supera todas as 
outras. 
 
Deus é um oceano infinito e indeterminado de essências. 
 
A Trindade resulta numa única divindade unida em três. 
 
 
 
GREGÓRIO DE NISA 
 
Era irmão de Basílio o Grande. 
Defende tal como seu irmão a subordinação do conhecimento à fé. 
 
Qualquer essência, seja divina ou humana, é una e simples. Mas, a 
humana é participada por um número indeterminado de seres, enquanto que 
a divina é por três. 
 
O cristianismo ao afirmar a unicidade e a trindade de Deus, recorreu 
e conciliou o monoteísmo judaico – só há um Deus, porque se vários 
houvesse a sua perfeição não seria integral – com o paganismo – a 
multiplicidade de pessoas divinas. 
 80
 
Deus é uma essência não corpórea, imutável, inexprimível. 
 
O mundo foi criado por Deus, tal como o homem, este por acto de 
puro amor. O primeiro homem assemelhava-se aos anjos, estado que 
perdeu como consequência do pecado, tendo o Logos a função de o orientar 
no retorno ao estado original. 
 
A ressurreição não se assume como um facto material. 
 
 
 
 
SANTO AGOSTINHO 
 
 
 
Nasceu em 354, de pai pagão e mãe cristã. Convertido ao 
cristianismo por influência de sua mãe, foi baptizado em 387, ordenado 
sacerdote em 391, e consagrado bispo – de Hipona – em 395. Faleceu no 
ano de 430. 
 
Agostinho declarou – Solilóquios – : “Desejo conhecer Deus e a 
alma. E nada mais? Nada mais, absolutamente”. 
 
Mencionamos as seguintes obras: 
Contra os Filósofos da Academia – Esta obra é constituída por três livros. 
Espelha a discussão filosófica que manteve no Outono de 286 com seu 
filho Adeodato e três amigos deste. Trata de várias questões, 
nomeadamente, a vida bem-aventurada, consubstanciada na máxima de que 
só o sábio atinge a verdade, mas sempre com o auxílio de Deus. 
Do Livre Arbítrio – Aqui, discute-se a natureza do mal e afirma-se a 
capacidade do homem em optar por este ou pelo bem – o que implica a 
responsabilidade pelos seus actos, dado que Deus lho permite. 
O Mestre, é o diálogo entre Agostinho e o seu filho Adeodato, onde 
procura demonstrar, que dentro de cada um de nós, existe a palavra divina, 
nosso único Mestre. 
Da Trindade, afirma a realidade do mistério da Trindade, apesar de a razão 
o não conseguir atingir. Deus é aquele que ama, o que é amado, e o próprio 
amor, sendo apenas Um. 
Confissões – Esta é a obra mais conhecida do Santo. A primeira parte 
(Livros I a IX) é um relato da vida de Agostinho, até ao momento em que 
 81
se converteu ao catolicismo, facto que em muito se ficou a dever à 
influência de sua mãe. A segunda (até ao Livro XIII) tem uma natureza 
especulativa, filosófica. 
Muito resumidamente, diga-se que se ocupa da conversão de Agostinho e 
da busca incessante de Deus. 
A Cidade de Deus é uma obra extensa de filosofia e teologia. Nela, 
responde com fortes argumentos à acusação feita aos cristãos no ano de 
410, que os responsabilizava pelo abandono dos deuses da cidade e da 
derrota de Roma às mãos dos Godos. 
Estabelece a existência de duas cidades celestes: a de Deus – habitada 
pelos anjos – e a do mal – habitada por demónios. Para além destas, a 
cidade terrestre é caracterizada pelo desapego a Deus, pela morte e pelo 
pecado original. O homem pode realizar a sua escolha, que estará 
submetida ao Juízo Final, onde o bem será premiado com a felicidade 
eterna e o mal com a infelicidade, também eterna. 
 
O problema teológico em Agostinho, é o seu próprio problema 
enquanto homem, plasmado de forma brilhante no mais famoso dos seus 
escritos – As Confissões. 
Parece dominado pelo pecado, questão que o preocupa antes e depois 
da conversão – converteu-se ao cristianismo quando professava o 
maniqueísmo. É famosa a sua prece: “Deus me conceda a castidade, mas 
não agora.” 
 
O princípio fundamental da teologia de Agostinho pode expressar-se 
no aforismo: a verdade é Deus. Um Deus de verdade e de Amor. O 
conhecimento de Deus é atingível por intermédio de Jesus Cristo, e 
devemos apoiar-nos nas Escrituras Sagradas. 
 
Deus revela-se ao homem, que diligentemente o busca na 
profundidade do seu eu, da sua alma. Só assim poderá o Senhor ser 
encontrado. 
 
Com a morte poderemos retornar a Deus. Mas, para que tal ocorra, o 
homem velho ou carnal, deve renascer para o espiritual. 
 
Deus de tudo é fundamento, o criador de tudo o que existe. A 
mutabilidade do mundo sensível, não é o ser, e não o sendo teve de ser 
criado por um ente eterno. Este, para além de criar o mundo, criou o tempo 
– falar do tempo antes da criação é destituído de qualquer sentido – 
estando para além dele, já que a eternidade é um eterno presente, sem 
passado nem futuro. A criação a partir do nada, é ideia que os filósofos 
gregos desconhecem. Quer Platão quer Aristóteles preconizam a existência 
 82
de uma matéria primordial a que Deus dá forma; mais do que criador ele é 
o artífice da substância eterna e incriada. Santo Agostinho, cristão 
ortodoxo, não contradiz o Génesis e afirma a criação do mundo por Deus a 
partir do nada. 
 
O mal contradiz a bondade de Deus. Agostinho negou a sua 
realidade. O único mal que existe no mundo é o pecado, e este é 
consequência de uma vontade defeituosa que renuncia a Deus e se entrega 
ao que é reprovável. O mal é a ausência do bem e não uma força 
demoníaca. 
 
A alma é sobretudo a entidade e interioridade espiritual onde a 
verdade tem assento, por oposição ao exterior, errante. Surgiu do nada por 
efeito da vontade criadora de Deus e apesar de ser uma essência imortal, 
não perde o seu carácter individual. O misticismo é em Agostinho a 
iluminação da alma pela luz divina. 
Admitiu o traducianismo – doutrina segundo a qual a alma é 
transmitida de pai para filho através da fecundação –, já que o 
criacionismo é contrário à bondade de Deus, porquanto é inadmissível que 
este crie uma alma condenada à perdição – o traducianismo justificava a 
transmissão do pecado original. 
 
Erram todos os que como Porfírio negam que no Céu os santos 
estejam providos de corpo. Estes, serão possuidores de corpos espirituais e 
subtis, masculinos ou femininos. Realce-se, que todos os que faleceram 
durante a infância, irão renascer em corpos adultos. Em rigor, existem duas 
ressurreições. A da alma, como consequência da morte e o corpo, como 
consequência do Juízo Final. 
Após a ressurreição do corpo, os que não obtiveram a salvação 
arderão – sem se consumirem – eternamente no Inferno.As penas infernais, 
não podem de modo algum ser minimizadas, nem pela intercessão dos 
santos. A eterna condenação aguarda hereges e os católicos que caíram 
irreversivelmente no pecado. 
Os não baptizados, ainda que crianças, vão para o Inferno, onde 
sofrem os piores tormentos. 
 
O homem deverá escolher a vida segundo a carne – cidade terrena – 
ou segundo o espírito – cidade de Deus. 
 
 
 
 
 
 83
 
SINÉSIO DE CIRENA 
 
Nasceu por volta do ano 370 e faleceu em 413. 
 
É um neoplatónico que afirma ser Deus a unidade da unidade. 
 
Não admite nem a ressurreição da carne, nem o fim do mundo. 
 
 
 
NEMÉSIO 
 
Foi bispo de Emessa, na Fenícia. 
 
Pelo corpo o homem pertence ao mundo sensível; pelo espírito ao 
dos anjos. 
 
O primeiro homem foi criado por Deus com a capacidade de escolher 
entre a imortalidade e a impermanência. Com a transgressão das Suas leis, 
tornou-se mortal, mas pode tornar-se imortal, desde que retorne à 
divindade. 
 
A alma é incorpórea, está em todo o corpo, vivificando-o. Tem 
liberdade de escolha atenta a sua racionalidade, e não é gerada com o 
corpo, nem no corpo. 
 
 
 
ENEIAS 
 
Tornou-se célebre por via da sua obra “Teofrasto” – que trata da 
imortalidade da alma e da ressurreição do corpo. 
 
As almas são geradas por Deus no momento em que estas são unidas 
ao corpo – Deus cria-as quotidianamente. 
 
 
 
 
 
 84
 
ZACARIAS 
 
Bispo de Mitilene e irmão de Eneias, combateu a doutrina que 
afirmava a eternidade do mundo, estribando-se fundamentalmente em 
argumento de negação da sua necessidade. 
 
Se Deus criou o mundo por força da sua vontade, não é o mesmo, 
algo que deriva necessariamente da sua natureza divina. Por outro lado, se 
foi criado, é posterior ao Criador. 
 
 
 
MÁXIMO CONFESSOR 
 
Nasceu no ano de 580 em Constantinopla e faleceu em 622. 
 
Deus é a causa da criação e pode ser reconhecido nas coisas criadas. 
Mas, estas, revelam apenas alguns dos seus atributos e não o seu ser em si. 
 
Não temos acesso ao conhecimento de Deus com as nossas 
capacidades intelectivas. 
 
 
 
JOÃO DAMASCENO 
 
Considera a subordinação da filosofia à teologia. 
 
A essência de Deus é incompreensível. Apenas a sua existência pode 
ser demonstrada pela razão. 
 
A alma é imortal em virtude de ser uma substância espiritual. 
 
A criação é mudável – por vir do nada para o ser –, pressupondo um 
criador incriado e imutável. 
 
A harmonia do mundo pressupõe um ente que a mantenha. 
 
 
 
 85
 
BOÉCIO 
 
Nasceu em 480, em Roma. Faleceu em 524. 
Patrício, foi conselheiro de Teodorico. 
Podemos considerá-lo o último dos filósofos antigos e o primeiro dos 
medievais. 
 
Traduziu inúmeras obras dos filósofos antigos, directamente do 
grego – nomeadamente de Aristóteles – e escreveu tratados sobre lógica, 
matemática, música e astronomia. No entanto, a sua obra principal, Da 
Consolação da Filosofia, escrita na prisão, num período em que foi 
torturado – foi preso, submetido à tortura e executado por ordem de 
Teodoro, enquanto seu ministro, por suspeita de traição –, é a mais 
conhecida e afamada. Nela questiona a sua própria fé em Cristo, ao 
constatar a existência de um Deus que permite o sofrimento atroz dos que 
abraçam o bem, e em impensável contrapartida, a alegria e prosperidade 
dos iníquos. Debruça-se também sobre o livre-arbítrio e sobre o problema 
do mal. Nela, dialoga com a filosofia – que apresenta sob a forma de uma 
esplendorosa mulher – lamentando-se da sua sorte. No entanto, acaba por 
admitir que a felicidade é o bem soberano guiado pela razão, de nada 
valendo as honrarias e os bens materiais. O soberano bem reside no 
soberano Deus, que aparentemente concede benefícios aos maus, 
descurando e maltratando os virtuosos. 
 
Deus é para Boécio um ser pessoal. É o Ser em si. A substância 
divina é forma sem matéria. Deste modo, é unidade. É o bem supremo, que 
em si encerra todos os outros bens. É eterno – aqui entendido como fora do 
tempo – e o mundo sempiterno – apesar de não ter tido princípio nem ter 
fim, vive no seio do tempo. 
 
A felicidade consiste em Deus, origem de todas as coisas, já que 
nada é em todos os sentidos mais excelente do que ele. 
 
 86
 
 
 
 
 
 
A ESCOLÁSTICA 
 
A Escolástica é a filosofia cristã da Idade Média. Não é propriamente 
investigação no sentido da filosofia grega, fundamentando-se 
essencialmente na tradição religiosa. 
 
 
 
 
 
JOÃO ESCOTO ERÍGENA 
 
 
 
João Escoto surge-nos a meio do século IX, em época 
excepcionalmente obscura. Deve ter nascido por volta do ano 800 na 
Irlanda, donde provém o cognome de Erígena. Faleceu em 877. 
Neoplatónico, helenista, pelagiano e panteísta. 
 
Razão e revelação são ambas fontes de verdade, mas deve preferir-se 
a primeira à segunda. 
 
A sua investigação filosófica, estruturada numa vasta erudição, 
atenta a pobreza especulativa da época, tem como pressuposto o acordo 
entre a razão e a fé. Na sua perspectiva, o filósofo deve conformar-se com a 
razão que busca a verdade, sem que esteja oprimida por qualquer tradição 
vinculativa. Esta liberdade, que por associação de ideias nos faz remontar à 
filosofia grega, não implica necessariamente a negação ou afastamento da 
religião, já que esta, mais do que tradição e autoridade, é também 
investigação – daí a conexão entre filosofia e religião. 
 
Tal como em Santo Agostinho, a fé o local de aterragem, o ponto de 
chegada, não o de partida. 
 
Divide a natureza em quatro partes: 
 87
- a primeira cria e não é criada, cria e é incriada, é a primeira causa. 
É Deus, o alfa e o ómega, o princípio, o meio e o fim; 
- a segunda é criada, mas também cria. Cria e é criado. São as 
ideias subsistentes em Deus. O próprio Verbo divino, o Logos 
através do qual tudo foi criado; 
- a terceira é criada e não cria. É o mundo. O conjunto de todas as 
coisas distribuídas pela acção do Espírito Santo; 
- a quarta não cria, nem é criada, ou seja, Deus, aqui entendido 
como fim último da criação. Deus é singularmente visto, não 
como criador, mas fim e destino de tudo, de todas as coisas. Tudo 
o que emana de Deus procura retornar-lhe, o fim igualando assim 
o começo. 
É em Deus que as coisas sensíveis têm o seu princípio, mas também 
é nele que têm o seu fim. 
 
Deus é incognoscível, supera todo o entendimento. A nossa 
verdadeira sabedoria advém da ignorância que dele temos. Nenhum nome 
lhe é adequado, porque todos têm contrários, e em Deus não há contrários. 
Manifesta-se na criação – teofania. O mundo é Deus, mas Deus é muito 
mais do que o mundo, porquanto o criador está sempre para além do 
“objecto criado”. Está acima das coisas e em todas as coisas – panteísmo. É 
tudo em tudo, está no Cosmos por inteiro, nas suas várias partes, porque é o 
todo e a parte e não é nem o todo nem a parte. 
 
Segundo as Sagradas Escrituras o mundo foi criado, e segundo a 
razão é eterno, por ter a sua subsistência no Verbo divino. 
 
João, não é pessimista. O homem apesar de conter em si todas as 
criaturas, tem a compreensão do anjo e se não pecasse, seria perfeito tal 
como Deus o é. 
Tal como Orígenes, considera que o castigo não é eterno e o próprio 
demónio pode ser salvo. 
 
O homem é um conceito intelectual que foi eternamente criado na 
mente de Deus, tal como todos os outros entes e coisas restantes. Tem a 
liberdade de se ater aos preceitos divinos, pecando ou não, o que lhe trará o 
merecido prémio ou o eterno castigo. 
 
A morte é a dissolução dos quatro elementos, seguindo-se a 
ressurreição, que é uma nova reunião destes elementos, onde cada um de 
nós voltará a ser corpo, e a posterior transformação deste em espírito. Por 
fim, a “natureza” humana acabará por se movimentar em Deus, do mesmo 
modo queo ar se move na luz. 
 88
 
 
 
ANSELMO DE AOSTA 
 
 
 
Nasceu no ano de 1033, tendo sido elevado ao priorado em 1063. 
Faleceu quando procurava esclarecer a natureza e a origem da alma. 
 
Das suas obras, mencionamos: 
Monologion, que tem como objecto a essência divina. Contém as provas 
ontológicas da existência de Deus. Refere-se também à controversa questão 
da Trindade – Deus é uno na sua natureza e triplo na sua pessoa. 
Proslogion – Santo Anselmo investiga a possibilidade de existir um único 
argumento, que por si só seja suficiente para garantir a existência de Deus, 
e concebe-o então, como aquilo de que se não pode pensar algo maior, ou 
seja, aquilo que é maior do que o maior que se possa pensar – desta obra 
ressalta o que a partir de Kant é referido como argumento ontológico, e 
que foi retomado por S. Boaventura, Duns Escoto, Descartes e Leibniz e 
rejeitado por S. Tomás e Kant. 
Da Verdade – Diálogo em treze capítulos, trata da verdade, que é a rectidão 
da relação com Deus. 
Da Liberdade de Escolha – Diálogo em 14 capítulos, demonstra que a 
liberdade é um poder – a vontade que não tem o poder de pecar é mais 
livre do que aquela que o tem. 
 
É fundamentalmente conhecido pela prova ontológica da existência 
de Deus. Se Deus é o que de maior pode ser pensado, e se como tal esse 
objecto do pensamento não tem existência, outro como ele e que exista será 
maior. Assim o maior dos objectos do pensamento terá de existir, sob pena 
de ser possível a existência de um maior, ao que Deus existe. 
 
A sua investigação é essencialmente religiosa, já que se entrega nas 
mãos de Deus para compreender. É pela fé que pretende atingir o 
conhecimento supremo. Pede a Deus que o ensine a procurá-lo e implora-
lhe que se lhe mostre, já que o não pode procurar sem o seu ensino, nem 
encontrá-lo sem que se mostre. Crê para compreender. 
Não procura entender para crer, mas crê para entender e tem a firme 
convicção de que se não acreditar primeiro, nada poderá compreender – se 
não temos fé nada poderemos entender. Por outro lado, a fé é uma 
exigência cuja validade deve ser demonstrada e validada pela razão. 
 89
 
Deus é um ser, acerca do qual, nada de maior ou de mais perfeito 
pode ser pensado. Está em todo o lado, para além do espaço e do tempo, 
vivendo um presente perfeito. Deus não é justo, mas é a própria justiça. 
Criou o mundo do nada. 
 
A Trindade é incompreensível. Usa a seguinte imagem para 
desvendar no possível, o seu mistério: Há uma fonte donde brotam águas, 
um rio que delas nasce e por fim um lago que as acolhe. A este conjunto, a 
estas três realidades, damos o nome de um rio, de Nilo. Apesar de serem 
realidades distintas, não lhes damos nomes diferentes. Há uma verdadeira 
trindade na unidade e uma unidade na diversidade. 
 
No que toca à alma, Santo Anselmo segue Santo Agostinho. Ela é 
uma reprodução da Trindade, imortal, destinada a amar Deus. Tanto a justa 
quanto a injusta têm o atributo da imortalidade, mas os seus destinos são 
obviamente diversos, pois a primeira é premiada e a segunda eternamente 
punida. 
 
 
 
ABELARDO 
 
 
 
Nasceu em 1079, tendo falecido em 1142. Foi discípulo daquele que 
foi considerado por alguns investigadores o primeiro escolástico, de nome 
Roscelino – da sua doutrina muito pouco se sabe, já que dos seus escritos 
resta-nos apenas uma carta a Abelardo sobre a Trindade. 
 
O livro mais famoso do filósofo é o Sic et Non. Escreveu uma obra 
de lógica, denominada Dialéctica e um interessante Diálogo entre um 
Judeu, um Filósofo e um Cristão. Este diálogo confronta três homens, cuja 
crença é num Deus único, mas com diferentes argumentos. O Judeu apoia-
se no Antigo Testamento, o Filósofo no exercício da razão e o Cristão no 
Novo Testamento, que concilia fé e razão. Na sua perspectiva, Cristo, 
contém a verdade do judaísmo e a verdade filosófica, reconciliando-se 
assim, fé e razão. 
 
Contrariamente a Santo Anselmo privilegia a razão e a dúvida. Para 
além das Escrituras, infalíveis, tudo é falível, duvidoso. Por ter 
impulsionado a investigação racional, alguns autores referenciam-no como 
 90
o fundador do método escolástico. No entanto, quando a razão não tiver 
meios para atingir a verdade, o homem deve respeitar a autoridade, 
conquanto afirmação que pareça verdadeira a todos os homens ou aos mais 
doutos de entre eles. Mas, a fé, se cega, é algo instável e suspeito. Para crer 
é necessário compreender. 
 
Deus com todo o seu poder, apenas podia fazer o que fez e o mundo 
foi necessariamente crido. 
 
A alma é uma essência simples, que tem em si a imagem da 
Trindade, incorpórea, mas princípio de vida. 
 
 
 
GILBERTO DE LA PORRÉE 
 
Pertenceu à escola de Chartres. 
 
A fé é a percepção acompanhada de aprovação, da verdade de uma 
coisa. 
 
Se por um lado, em sede de teologia, a fé ocupa um lugar de 
destaque precedendo a razão, já em sede de filosofia deve por esta ser 
precedida. No entanto, julga que fé e razão devem estar unidas na 
investigação filosófica. Pela fé é conferida autoridade à razão e esta confere 
assentimento àquela. 
 
Deus é uma forma simples. 
 
Corpo e alma constituem a unidade do homem. Com a morte, cessa a 
existência do homem enquanto corpo, mas não a da alma. 
 
 
 
JOÃO DE SALISBÚRIA 
 
Da escola de Chartres, nasceu cerca de 1115 e faleceu em 1180, 
depois de ter sido nomeado em 1176 bispo de Chartres. 
 
A investigação filosófica está naturalmente limitada pelas múltiplas 
insuficiências do ser humano. Na imensa dificuldade em descortinar o que 
 91
é verdadeiro ou falso, devemos satisfazer-nos com a mera probabilidade, 
sendo o provável, o que com frequência acontece. 
Esta dificuldade cognitiva faz com que não se possa demonstrar nem 
a existência nem a inexistência de Deus, não obstante João atribua um valor 
relevante à doutrina da causa primeira. 
 
A alma é a vida do corpo e Deus a da alma. Se Deus abandonar a 
alma, esta perde a sua verdadeira vida. 
 
 
 
BERNARDO DE CLARAVAL 
 
Pertence à escola mística. Nasceu em 1091, perto de Dijon, foi abade 
do mosteiro de Claraval, morrendo em 1153. 
Monge cisterciense, é encarregado no ano de 1115, de fundar a Abadia de 
Claraval, a qual foi detentora de grande êxito. Fez com que a Ordem dos 
Templários fosse reconhecida no ano de 1128, tomou partido por Inocêncio 
II contra Anacleto, e conseguiu que as teses de Abelardo fossem 
condenadas. 
 
Para S. Bernardo, a razão tem um valor reduzido, tal como o próprio 
homem, que se deve reconhecer como nada. Este deve optar pela vida 
ascética e pela prática mística. 
O ser humano deseja conhecer, mas o conhecimento não é mais do 
que fútil curiosidade e as filosofias com as suas inglórias discussões, uma 
espécie de loquacidade repleta de vento. 
 
S. Bernardo quer conhecer Jesus e a sua crucificação. 
 
O último grau da contemplação mística é o da união da alma com 
Deus, quando este se digna descer sobre ela – êxtase –, o que ocorre 
quando o corpo é totalmente esquecido. 
 
 
 
HUGO DE S. VICTOR 
 
Pertence à escola mística. Nasceu na Saxónia em 1096. No ano de 
1115 foi para o convento de S. Victor, onde exerceu funções de docência. 
Faleceu em 1141. 
 92
Se S. Bernardo preferia o caminho do misticismo ao da investigação 
filosófica e considerava o conhecimento como torpe curiosidade, Hugo 
fundiu as duas vias e exaltou o conhecimento: nada há que não mereça ser 
conhecido, porquanto nada é supérfluo. 
 
Deus que está oculto no coração do homem pode ser conhecido pela 
razão – em si ou nas coisas exteriores – e pela revelação – pela iluminação 
interior e pela doutrina confirmada por milagres. 
A demonstração da existência de Deus, parte do próprio homem – 
que reconhece a sua imperfeição e a impossibilidade de ser o seu própriocriador – e da existência das coisas do mundo – tudo o que é impermanente 
deve ter um criador. 
 
Deus é causa sem ser efeito. Criou em primeiro lugar a matéria 
informe. A matéria é efeito sem ser causa. A criação não é um acto 
necessário, mas uma pura manifestação da sua bondade. Criou o homem 
para o servir e o mundo para servir o homem. 
 
Deus criou o mundo segundo si, porquanto não necessitou de 
qualquer auxílio exterior, e por causa de si, em virtude de não existir outra 
causa interveniente na criação. As coisas criadas têm existência eterna na 
mente divina. 
Poderia criar um mundo mais perfeito do que aquele que criou, já 
que só não pode realizar o impossível e não poder realizar o impossível, 
não é em caso algum um não poder. Não quis que o mundo fosse eterno. 
 
Deus não é o criador do mal, mas permite-o, de modo a que pela sua 
natural oposição ao bem, este seja exaltado. 
 
O caminho do misticismo tem três estádios: pensamento, meditação e 
contemplação. Por efeito desta última atinge-se a visão de Deus, sobe-se 
até Deus. 
 
 
 
RICARDO DE S. VICTOR 
 
Para além de S. Bernardo e de Hugo de S. Victor, Ricardo é outro 
dos grandes místicos desta época. 
Sucedeu a Hugo e faleceu no ano de 1173. 
 
O conhecimento do homem atém-se à experiência no conhecimento 
das coisas sensíveis, e à razão e à fé nas divinas. 
 93
 
No homem existem duas substâncias, a alma e o corpo, enquanto que 
em Deus deparamo-nos com uma única substância e três pessoas. 
 
A via mística tem o seu início no conhecimento da alma. Depois 
deste, pode o homem ascender a Deus, numa contemplação suprema. Aí, o 
homem deixa de ser homem, num verdadeiro êxtase de abandono de si 
mesmo, momento em que a razão “se cala”. Por esta via são ultrapassados 
os limites impostos ao homem pela sua própria natureza. 
 
 
 
PEDRO LOMBARDO 
 
Nasceu em Lumello, perto de Novara. Foi bispo de Paris (1140) e 
terá falecido em 1160. 
 
É célebre por via das suas Sentenças. Constituídas por quatro livros, 
foram durante a Idade Média – até à sua substituição pela Suma Teológica 
de S. Tomás de Aquino – obra obrigatória de estudo, que teve inúmeros 
comentários, alguns, de filósofos famosos – v.g. do próprio S. Tomás. 
Entre outros, trata da criação, do mistério da Trindade, dos 
sacramentos. 
 
O homem conhece Deus a partir da Sua criação. 
 
O que é impermanente tem de ter a sua causa no que é permanente. 
 
Deus é omnipotente, podendo assim ter criado um mundo melhor do 
que o criado. 
 
A alma é colocada directamente por Deus no ser humano. 
 
 
 
S. BOAVENTURA 
 
Da ordem franciscana, nasceu em 1221 e faleceu em 1274. Foi um 
místico. Foi influenciado por Santo Anselmo, tendo feito “renascer” o 
argumento ontológico demonstrativo da existência de Deus. 
 
 94
Num regresso a Santo Agostinho, não tem por Aristóteles a 
admiração de muitos outros filósofos desta época, que o consideravam o 
filósofo por excelência ou o detentor da verdade possível. 
 
Para S. Boaventura, a fé é superior à ciência. Pela fé atinge-se a 
verdade, enquanto que a ciência se limita a aniquilar a dúvida. 
 
A alma que se conhece a si mesma, conhece Deus, sem que haja 
auxílio ou intervenção dos sentidos. 
 
Deus é a origem de tudo, realizando a criação a partir do nada. 
O mundo foi criado e como tal não é eterno – não pode ser eterno o 
que é, depois de não ter sido. 
Se o mundo fosse eterno, as almas humanas seriam infinitas, o que 
repugna à razão. 
 
A alma, criação de Deus, entidade que anima o corpo – doutrina 
platónica –, é substância espiritual distinta deste, e como tal não está 
sujeita à corrupção e é imortal, tendo por fim último alcançar a beatitude no 
seio do Ser supremo. 
 
O êxtase é a união do homem com o seu criador, estado em que 
participa da sua essência. 
 
 
 
ALBERTO MAGNO 
 
Nasceu na Suábia em finais do século XII. Ingressou nos 
dominicanos e ensinou em vários conventos. Foi mestre de teologia em 
Paris, onde teve como aluno S. Tomás de Aquino. Faleceu em 15 de 
Novembro de 1280. 
 
Considera a obra de Aristóteles, a obra mais perfeita que a razão 
pode conceber. 
 
A sua Suma de Teologia foi obra que ficou inacabada. Nela, intentou 
conciliar o aristotelismo com as concepções de Santo Agostinho, buscando 
uma relação de equilíbrio entre a revelação e a razão, na investigação da 
alma. 
 
 95
Procedeu a uma rigorosa separação entre filosofia e teologia, já que 
muitos, na sua opinião, pensando seguir um caminho, seguiam 
inadvertidamente o outro. 
 
Deus revela-se aos filósofos através de uma iluminação com natureza 
geral – acessível a todos os homens –, e aos teólogos por uma iluminação 
superior, o que os faz intuir com precisão as coisas divinas. 
 
Deus é eterno, livre para criar, precedendo o mundo, que deste modo 
não é eterno. A eternidade é a medida de Deus, enquanto o tempo é medida 
do mundo, criado que foi a partir do nada. 
 
O homem, corpóreo – da mesma forma que corpóreas são todas as 
coisas sublunares –, difere dos outros seres pela existência da alma, 
entidade espiritual que não é atingida pela morte corporal. 
 
 
 
S. TOMÁS DE AQUINO 
 
 
 
Nasceu em Roccasecca em 1225. Ingressou na ordem dos 
dominicanos, tal como Alberto Magno, de quem foi aluno. Faleceu em 
1274. É indubitavelmente o maior dos filósofos escolásticos. 
 
S. Tomás foi desde sempre um filósofo que recebeu os maiores 
méritos e reconhecimentos da Igreja. Foi canonizado pelo papa João XXII 
no ano de 1323. Durante as sessões do Concílio de Trento, a sua fama de 
teólogo universal fez com que a Suma Teológica fosse colocada no altar, 
lado a lado com a Bíblia. S. Pio V proclamou-o em 1567 Doutor da Igreja, 
e as suas obras eram as aprovadas por praticamente todas as universidades 
teológicas – católicas. Em 1879, o papa Leão XIII, na encíclica Aeterni 
Patris, exaltou os méritos do teólogo, propondo-o como inspirador da 
teologia a ensinar em todas e quaisquer instituições do mundo católico, 
considerando-se o seu sistema como o único verdadeiro. Esta proposta foi 
recolhida pelo Código de Direito Canónico de 1918, e no Concílio 
Vaticano II, bem como no Código de 1983. Estranha atitude de 
consagração de uma obra, que o próprio autor desprezou – vide infra. 
 
 
 
 96
De S. Tomás mencionamos as seguintes obras: 
O Ser e a Essência – Tem como objectivo definir o que é o “Ser” e o que é 
a “Essência”. 
O “ser” cobre coisas ou mesmo palavras, que podem ou não ter realidade, 
enquanto que a “essência” aponta elementos reais, elementos que têm 
existência. 
Em Deus, que é forma pura, identificam-se essência e existência. 
Comentário Sobre As Sentenças De Pedro Lombardo – As Sentenças são 
uma obra de referência nas Universidades do século XIII. Os comentários 
de S. Tomás, são um dos muitos que foram produzidos, analisando os 
temas religiosos mais importantes, como a Criação, a Providência e a 
Trindade. 
Suma Contra Os Gentios – O seu tema principal é a essência de Deus e o 
conhecimento que o homem dela tem. 
S. Tomás, questiona-se quanto ao facto de um ser limitado, mortal, poder 
ter uma rigorosa concepção de um Ser imortal e perfeito. 
A existência de Deus é demonstrada pela razão, enquanto que os dogmas – 
v.g. Trindade – não podendo sê-lo, são aceites por um acto de fé. 
Comentários Sobre Aristóteles – Obra que procura explicitar com precisão 
a doutrina aristotélica. 
Há quem afirme que a sua abordagem à doutrina de Aristóteles é a mais 
perfeita possível. 
Suma Teológica – É talvez a obra mais importante do filósofo. 
A primeira parte trata de Deus, da sua essência, das provas possíveis da sua 
existência. Trata ainda dos mistérios da Trindade e da Criação. 
Na segunda, ocupa-se do movimento ascendente dos homens na busca de 
Deus. 
A terceira parte,dedicada a Cristo, ficou inacabada. Cristo é o Salvador, 
aquele que nos transporta até Deus Pai. 
A Unidade Do Intelecto – Refuta algumas interpretações do Tratado da 
Alma, de Aristóteles, afirmando a identidade do intelecto e da alma, que 
sobrevivem ao corpo. 
 
Se Santo Agostinho cristianizou as ideias de Platão, S. Tomás fê-lo 
com as de Aristóteles. 
São Tomás deu continuidade ao trabalho de Alberto Magno, e tal 
como este, considera que Aristóteles estendeu a sua especulação até aos 
limites da razão. Para além destes, principia o domínio da fé. A razão tem 
limitações que só a fé pode suprir, mas mesmo assim, esta é assistida por 
aquela, nomeadamente para demonstrar a existência de Deus. 
 
 97
A razão natural pode demonstrar a existência de Deus e a 
imortalidade da alma. Mas, está limitada quanto à demonstração da 
Trindade, da encarnação e do Juízo Final. 
O acto de fé é um pensar com anuência sobre coisas que se não 
vêem, ou seja, que não são objecto dos sentidos ou da experiência. 
 
Deus é a sua mesma essência, já que se assim não fosse, não seria um 
ente simples, mas composto – de essência e de existência. Assim, essência 
e existência são similares no Ser supremo. 
A natureza de Deus dá-se-nos a conhecer através do que não é. Tudo 
compreende de modo instantâneo e nele há prazer, alegria e amor. Deus 
conhece-se a si próprio e a todas as coisas através da sua essência. 
 
 
As provas da existência de Deus em S. Tomás: 
- 1ª - Prova cosmológica – O movimento é uma realidade. Para que 
este movimento exista é necessário que algo tenha produzido a 
sua existência, e assim sucessivamente, até que se atinja um 
primeiro movimento. Se tudo o que se move é movido por 
outrem, não pudemos continuar até ao infinito na busca do 
primeiro movimento, não havendo assim um primeiro motor, que 
não é movido seja por quem for. O primeiro motor terá de ser 
Deus; 
- 2ª - Prova causal – Cada coisa tem uma causa. Remontando de 
causa em causa, acabaremos por encontrar uma causa que seja a 
original. Em sede de causas eficientes não podemos continuar até 
ao infinito, já que desse modo inexistiria uma primeira causa. Não 
existindo uma primeira causa, não existirão causas intermédias e 
finais. A razão induz-nos a crer que existe uma causa primeira e 
que essa causa é Deus; 
- 3ª - Prova das coisas possíveis e das necessárias – Neste mundo 
constatamos que as coisas são mudáveis e dependem de outras na 
sua existência. As coisas possíveis existem como consequência 
das coisas necessárias. As necessárias têm a causa dessa 
necessidade em si mesmas ou em qualquer outra. Estas últimas, 
remetendo para outra, e assim sucessivamente, poderiam levar-
nos até ao infinito, o que também repugna à razão. Necessitamos 
de encontrar algo nessa cadeia, que seja necessário por si. Esse 
Ser necessário por si, é Deus; 
- 4ª - Prova dos graus – Há um grau evidente de perfeição nas 
coisas. Ora, a absolutamente perfeita só poderá ser Deus, donde 
todas as outras derivam; 
 98
- 5ª - Prova do ordenamento das coisas – Constatamos a existência 
de uma ordem no Universo. Essa ordem deve depender de uma 
Inteligência Suprema. As coisas privadas de inteligência têm uma 
finalidade, uma ordem, pressupondo um Ser inteligente que as 
governa. Esse ser é Deus. 
 
Para S. Tomás, os dogmas mais importantes do cristianismo – v.g. a 
criação, a Trindade, a encarnação, a ressurreição – são artigos de fé, 
indemonstráveis pela via filosófica. 
Só Deus tem a capacidade de realizar milagres. 
 
O homem é composto de substância corporal e de substância 
espiritual, sendo esta por via da sua subsistência, incorruptível. 
 
A alma, forma pura, é imortal; unida ao corpo, tem a sua forma e está 
presente em todas as suas partes. Nela persiste a individualidade. 
Não se transmite através da procriação, mas é criada para cada 
homem que nasce. Em S. Tomás surge-nos a mesma questão que perturbou 
Santo Agostinho – que S. Tomás deixou por resolver. Se quem peca é a 
alma e não sendo ela transmitida, mas criada, como poderei eu ter herdado 
o pecado original? 
 
Quando da ressurreição, as almas retomarão a matéria do corpo. 
 
O pecado é a deficiência da acção, a escolha deliberada do mal, a 
violação da lei divina. A infracção desta, acompanhada da ausência de fé, 
da esperança e da caridade – virtudes teologais – impedem a alma de 
atingir a beatitude eterna. 
Ninguém ascenderá ao Paraíso se não for baptizado. Atente-se que os 
sacramentos são válidos, mesmo que ministrados por quem incorra ou 
tenha incorrido no maior dos pecados. 
 
Tal como Bertrand Russel, não consigo acompanhar o argumento 
que afirma ser a oração útil, embora a Providência seja imutável. 
 
No dia 6 de Dezembro de 1273 – festa de São Nicolau de Bari –, três 
meses antes da sua morte, enquanto celebrava missa no convento de 
Nápoles, S. Tomás experimentou uma espécie de êxtase, após o qual 
abandonou a escrita da sua obra mais conhecida, a Suma Teológica, obra 
que estava a terminar. A partir daí, não escreveu mais uma única linha. 
Questionado pelos monges de tão estranha atitude, respondeu: “Já não 
posso mais, porque tudo o que escrevi me parece palha”. 
 
 99
Segundo Russel, S. Tomás antes de começar a filosofar já sabe a 
verdade, porquanto declarada nos dogmas de fé. Não concorda que possa 
ou deva ser considerado um dos mais excelentes filósofos como tem sido 
defendido por um grande número de investigadores. 
 
 
 
ROGÉRIO BACON 
 
 
 
A Bacon chamaram o “Doctor mirabilis”. Frade franciscano, teólogo, 
alquimista e místico, pode ser considerado um percursor da ciência 
moderna, não obstante tenha vivido no século XIII. Tinha a paixão das 
ciências. Julgou a lógica inútil e considerou ser a matemática a única fonte 
de certeza não revelada. 
 
A obra Opus Tertium dá continuidade à Opus Majus e à Opus Minus, 
incidindo sobre as ciências naturais e a ética. 
Será interessante anotar que Bacon preconiza a aplicação dos 
resultados obtidos pelo experimentalismo às Sagradas Escrituras. 
 
Julga que é pela experiência que o conhecimento pode atingir o 
possível. E esta, tanto pode incidir sobre as coisas externas, como ser de 
natureza interna. A primeira estrutura-se nos sentidos, enquanto que a 
segunda deriva da iluminação divina, derivando respectivamente de uma e 
de outra, a verdade natural e a sobrenatural. 
A sua investigação – tendo em vista a experiência externa – incidiu 
sobre a astronomia, a matemática, a história natural, a óptica e a gramática. 
A investigação interna corresponde à via do misticismo, que engloba 
sete graus: 
- o da iluminação científica; 
- o das virtudes; 
- o dos dons do Espírito Santo; 
- o das bem-aventuranças; 
- o dos sentidos espirituais; 
- o da paz de Deus; e 
- o do êxtase. 
 
 
 
 
 100
 
JOÃO DUNS ESCOTO 
 
 
 
Duns Escoto nasceu em 1266. Entrou para a ordem dos franciscanos 
no ano de 1281 e foi ordenado em 1291. Faleceu em 1308. 
Foi um filósofo que exerceu considerável influência nos séculos 
seguintes. 
 
Escreveu pouco, e as suas doutrinas estão expendidas 
fundamentalmente nos comentários que fez às sentenças de Pedro 
Lombardo. 
Opus Oxoniense é uma compilação das suas lições proferidas em Oxford, 
que contém o seu comentário à Sentenças de Pedro Lombardo. 
O Tratado do Primeiro Princípio, foi escrito por Escoto no final da sua 
vida, e contém a síntese da sua doutrina. 
Nele procura demonstrar a existência de Deus como primeiro princípio, 
enunciar as suas qualidades, e determinar a sua infinitude, para além de 
insistir na absoluta liberdade do Ser supremo. 
 
Contestou S. Tomás, sustentando que a teologia e a filosofia são 
disciplinas diversas, apenas necessitando aquela, dos instrumentos desta. 
 
A percepção dá-nos um conhecimento imediatoe directo dos 
indivíduos, sendo neste particular desnecessária a revelação divina. Cada 
indivíduo e coisa têm em si uma essência única, que faz com que sejam 
precisamente esse indivíduo ou coisa e não outra. 
 
O conhecimento pode ser obtido pela razão natural, e pede a Deus 
que lhe conceda tal dom. 
 
Fé e ciência são antagónicas: a visão que se segue ao crer não é uma 
visão especulativa, mas prática. 
 
Da fé fazem parte um conjunto de proposições que não nos é 
permitido demonstrar, nomeadamente a natureza e atributos de Deus, bem 
como a imortalidade da alma. Em bom rigor, sem a luz de Deus nada pode 
ser conhecido. 
 
Sustentava a doutrina do livre arbítrio. 
 101
Defendeu a doutrina da Imaculada Conceição, tornada dogma da 
Igreja Católica no ano de 1854, o que lhe valeu o cognome de “Doutor 
Mariano”. 
 
 
 
GUILHERME DE OCCAM 
 
 
 
Occam, também denominado “Doctor invencibilis”, nasceu cerca de 
1290 e faleceu em 1348, sendo o último dos grandes pensadores da 
escolástica. Como franciscano, combateu a opulência do papado de 
Avinhão. 
 
Na obra Brevilóquio sobre o Poder do Papa, faz uma clara distinção 
entre o poder temporal e o espiritual, contestando a doutrina segundo a qual 
o papa seria detentor de um poder absoluto, transmitido directamente por 
Cristo. 
Na Suma de Toda a Lógica, apresenta-nos a divisão entre o 
conhecimento racional e a fé. As verdades divinas deixam de ser objecto do 
conhecimento racional. 
Escreveu ainda um Comentário sobre as Sentenças de Pedro 
Lombardo. 
 
Nele, não há “casamento” possível entre a investigação filosófica e a 
verdade revelada. Sendo impossível investigar pela razão a verdade 
revelada, Occam anuncia o fim da escolástica. Isto não quer dizer, que 
tenha sido completamente destruída, feita tábua rasa, mas que se limitou 
apenas a influenciar com alguns dos seus conceitos os filósofos da 
modernidade, que nunca conseguiram libertar-se integralmente dos seus 
condicionamentos. 
Tal como para Bacon, a experiência é a base de todo o 
conhecimento. 
 
A fé não pode ser demonstrada, já que não temos qualquer 
conhecimento de Deus, assim como as provas da existência deste não têm 
qualquer valor – só se conhece a essência do que se conhece a existência (e 
não temos o conhecimento intuitivo de Deus), e como não se conhece a sua 
existência, está-nos vedado o conhecimento da sua essência. 
Não estando demonstrada a existência de deus, não estão 
demonstrados quer os seus atributos, quer a sua imutabilidade. 
 102
 
A Trindade é um paradoxo. Uma única essência e três pessoas, é algo 
inconcebível para a razão natural. 
 
Para Occam as Formas platónicas e os Universais aristotélicos, eram 
uma verdadeira aberração ou tolice, atenta a sua complexidade. 
 
Põe em causa a física aristotélica da diversidade da natureza dos 
corpos celestes e dos sublunares. Depois de Occam, foi Nicolau de Cusa 
quem questionou a validade da doutrina aristotélica. 
 
Deus pode realizar o que lhe aprouver. Daí, nada o impede de criar 
todos os mundos que bem entender, o que implica a possibilidade razoável 
de existência do infinito. Admite, pois, a pluralidade de mundos e do 
infinito. Considera provável a eternidade do mundo, mesmo tendo 
consciência de que esta implica a sua necessidade e exclui a criação. 
 
Não é apenas pela fé que os homens se podem salvar, mas também 
pelo exercício de uma recta razão. 
 
O pecado é a desconformidade da vontade e da acção do homem, 
relativamente às leis divinas. 
 
A vida eterna consiste na presença e no gozo de Deus. 
 
A Igreja é a livre comunidade de fiéis, e nem o papa nem o concílio 
têm a capacidade natural para estabelecer verdades de fé absolutamente 
indiscutíveis, podendo quer um quer o outro decair em heresia, que já não 
ocorrem no seio daquela comunidade. 
 
Grosso modo, o famoso argumento conhecido como “navalha de 
Occam”, é a doutrina segundo a qual, quando nos deparamos com um 
determinado problema, e após minuciosa e diligente investigação, será a 
sua mais simples explicação, a verdadeira. 
 
 
 
JOÃO DE MIRECOURT 
 
Para João, é Deus a causa directa do pecado. O homem peca 
voluntariamente com o Seu assentimento. 
 
 103
A alma pode salvar-se, mesmo que o ser humano não tenha 
enveredado por uma vida caritativa, e a tenha inclusivamente pautado por 
sentimentos negativos e pecaminosos, tal como o ódio. 
 
 
 
JOÃO BURIDAN 
 
Foi Reitor da Universidade de Paris. 
 
Afrontou a física aristotélica – v.g. movimento dos projécteis, teoria 
do impetus –, chegando a afirmar que o movimento dos astros poderia ser 
causa de um ímpeto provocado por Deus; esse movimento não cessaria ou 
diminuiria como consequência de forças opostas. 
 
A figura de Buridan está intimamente conexionada ao exemplo do 
burro, que colocado entre dois fardos de feno, não se decide, quer por um 
quer pelo outro, acabando por morrer de fome. 
 
 
 
NICOLAU DE ORESME 
 
Bispo de Lisieux, faleceu em 1382. 
 
Na obra Tratado do Céu e do Mundo expôs a sua doutrina 
cosmológica. Foi indubitavelmente um dos percursores de Nicolau 
Copérnico ao negar a existência do centro fixo do Universo. 
 
Julga que não se pode afirmar o movimento diurno dos céus em 
detrimento do da Terra, mas antes pelo contrário. 
 
 
 
MESTRE ECKHART 
 
 
 
Nascido em 1260 é o fundador da mística alemã – investigação da 
possibilidade de ascese do homem em direcção a Deus. 
 104
Dominicano, tentou justificar a fé em si mesma, por contraposição 
aos últimos escolásticos. 
 
O Livro da Consolação Divina é a obra principal e mais conhecida 
do Mestre, que instiga o homem no intuito de o libertar de todo o 
sofrimento e a voltar-se única e exclusivamente para Deus, lembrando-nos 
Santa Teresa de Ávila: 
 Nada te inquiete, 
 nada te assuste; 
 pois tudo passa, 
 Deus nunca muda. 
 A paciência alcança tudo. 
 Quem Deus possui 
 nada lhe falta. 
 Só Deus nos basta. 
 
Deus é o Ser, o inominável, que nasce no homem pela fé, tornando-
se este por tal via, seu filho. A visão de Deus é atingida quando nos vemos 
a nós próprios e a todas as coisas como nada, quando morremos para nós e 
para o mundo. Dessa “negação”, nasce Deus no ser humano. 
 
O mundo é eterno e foi criado por Deus, ao mesmo tempo que o 
Verbo. 
 
Existe uma identidade indiscritível entre o homem que atinge a 
santidade e Deus. 
 
As criaturas são um puro nada, porque não têm ser, já que este 
depende da presença do divino nelas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 105
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O RENASCIMENTO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 106
 
 
 
 
 
 
DANTE ALIGHIERI 
 
Dante anuncia o Renascimento, não obstante possamos configurar 
ainda a sua ligação à Idade Média. 
 
A Divina Comédia é indubitavelmente uma obra de referência. Obra 
dividida em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso. A primeira é a que 
maior celebridade atingiu. A Divina Comédia constitui-se quase como uma 
enciclopédia, sintetizando num estilo excelente os conhecimentos da época. 
 
Entende que a Igreja necessita de profunda remodelação, com o 
regresso à doutrinação de S. Domingos e de S. Francisco de Assis. 
 
 
 
PETRARCA 
 
Petrarca nasceu no ano de 1304 e faleceu em 1374, dando voz ao 
humanismo renascentista. 
 
A obra De Contemptu Mundi, é um diálogo entre Petrarca e Santo 
Agostinho. Para este, num verdadeiro processo de autoconhecimento, 
inexiste problema que não seja o seu próprio problema e além do mais, 
doutrina que não decorra de uma inquietação pessoal. O problema 
Agostinho, nesta perspectiva, é também o problema Petrarca. 
Também seu, é o processo autobiográfico de Agostinho – foi 
sobremaneira influenciado pelasConfissões. 
 
Afirma-se dividido pelas coisas do mundo e pelas da alma ou divinas. 
Desta inquietude nasceu algum pessimismo. 
 
 
 
 
 
 107
 
COLUCCIO SALUTATI 
 
Coluccio nasceu no ano de 1331 e faleceu em 1406. 
 
Caso o homem se dedique única e exclusivamente à contemplação de 
Deus, deixará de ser verdadeiramente um homem, mais se parecendo com 
um ser inanimado, porquanto viverá ausente de compaixão. A vida activa, é 
assim, melhor opção do que a contemplativa. 
 
A morte é uma mal natural, de nada valendo as consolações dos 
filósofos a tal respeito. E é um mal para quem morre, bem como para o 
círculo de familiares e amigos do falecido. 
Não há mal maior do que aquele que conduz à perda do ser. 
 
Se a alma sobreviver à morte, fica destruída a unidade do homem – 
corpo e alma –; tal facto, fazendo com que esta desapareça na sua 
integralidade, é um mal maior, agravado pela circunstância de impotência 
perante tal contingência. 
O único remédio para a inevitabilidade da morte é a fé, que nos é 
concedida por Deus, e nos auxilia a enfrentá-la com a serenidade possível. 
 
 
 
LEONARDO BRUNI 
 
Discípulo de Salutati, nasceu em 1374 e faleceu em 1444. 
 
Julga que os filósofos da antiguidade mais não ensinaram que os 
filósofos da cristandade. Chegou mesmo, a identificar a doutrinação de 
Paulo – apóstolo por vocação – com a de Platão. 
 
 
 
NICOLAU DE CUSA 
 
Nicolau Krebs nasceu em Cusa no ano de 1401. É uma das mais 
importantes personalidades filosóficas do século XIV, renovador do 
pensamento platónico na época do Renascimento. 
 108
Doutor da Universidade de Pádua em 1424, participa no Concílio de 
Basileia em 1431. Representou o papa no Oriente em 1437 e na Alemanha 
de 1438 a 1448. Cardeal, acabou por residir em Roma. 
 
A Douta Ignorância é o resultado de uma visão reveladora de cariz 
teológico, que Nicolau teve numa noite do mês de Novembro do ano de 
1437. 
Deus não tem atributo e escapa a tudo com que o queiramos 
relacionar. Assim, pela negação, resta-nos a ignorância consciente, que pela 
pacificação da mente permitirá a nossa ascensão e união mística à 
divindade. 
 
Reconhece a sua ignorância, chamando-lhe “douta ignorância”, única 
atitude possível perante Deus. 
 
Deus é o Ser, a perfeição das perfeições, algo cuja grandeza não 
poderá nunca ser ultrapassada. Deus é o infinito. O que é finito não pode 
aceder ao infinito. Quando sei que não conheço Deus, quando sei que não 
sei quem é Deus, estou em contacto com o fundamento do meu 
conhecimento. 
Deus é a essência do mundo e está nele, na sua unidade, mas não nas 
coisas. 
 
Será possível encontrar Deus? Nicolau responde: “Sê teu e serei teu”. 
O homem deve reconhecer a absoluta transcendência do divino, a sua 
infinitude, bem como a sua própria finitude e ignorância, aceitando quer 
uma quer a outra. 
 
Não entende, como Aristóteles, a perfeição da substância celeste e a 
imperfeição do mundo sublunar. Antes, tal como Occam, admite que 
nenhuma parte do mundo é absolutamente perfeita, já que esta perfeição 
apenas a Deus pertence. 
 
O mundo não tem centro, nem circunferência. Só Deus é tanto um 
quanto a outra, no sentido de que o Universo nele se recolhe. A Terra não é 
o centro do mundo e, como consequência de tal facto, movimenta-se de 
forma circular – apesar do seu movimento não ser perfeitamente circular. 
 
 
 
 
 
 
 109
 
LOURENÇO VALLA 
 
Nasceu na cidade de Roma no ano de 1407 e faleceu na mesma 
cidade em 1457. 
 
O homem deve encarar a religião com a liberdade possível, 
perseguindo Deus sem os obstáculos decorrentes das limitações impostas 
pelo comunitarismo excessivamente rígido e regulamentado da vida 
monacal. 
 
Coloca o prazer acima de tudo; ele é a finalidade da vida, e a virtude 
a escolha do que nos é agradável. Nesta sede, podemos orientar-nos pelos 
prazeres materiais ou divinos, por estes optando o cristão, mesmo com o 
risco dos terrenos o não assistirem. Aí, o verdadeiro cristão, não se deve 
insurgir contra Deus, com o falacioso argumento de que os justos são 
bastas vezes muito mais infelizes do que os iníquos, mas antes, em função 
da sua renúncia aos bens do mundo, aceitar com humildade e espírito de 
sacrifício a sua condição. 
 
 
 
FICINO 
 
Ficino nasceu no ano de 1433. Foi acometido por grave doença, 
buscando na filosofia o alívio dos seus males. No entanto, curou-se depois 
de ter feito uma promessa à Virgem Maria. A partir daí, a sua filosofia 
passou a estar ao serviço da religião. Assim, procurou exaustivamente 
conciliar e promover a união da filosofia com a religião. 
 
No ano de 1462 fundou em Florença uma academia onde se 
traduziam e comentavam os textos platónicos. Um dos seus mais 
prestigiados ouvintes é Lourenço de Médicis. Foi ordenado no ano de 1473. 
 
Mencionamos duas obras: 
Da Religião Cristã – Acredita numa religião natural, existindo um Deus 
universal, que é venerado por todos, seja qual for a sua crença. 
Teologia Platónica – Ficino julga que a filosofia verdadeira é a de Platão e 
não a de Aristóteles. Com ligeiras mudanças, os platónicos seriam cristãos. 
Afirma a imortalidade da alma, sem separar filosofia e religião. 
 
 110
Entende com Nicolau de Cusa, que o homem deve ser apenas aquilo 
que é. 
 
Na realidade, encontra cinco essências: 
- o corpo; 
- a qualidade; 
- a alma; 
- o anjo; e 
- Deus. 
 
Deus ama o mundo. O homem seria incapaz de amar Deus, se este o 
não amasse. 
 
A alma, indestrutível, imortal, como essência mediana ou desce de 
Deus para o corpo ou ascende deste para Deus. 
 
 
 
POMPONAZZI 
 
Fundador da Escola dos Alexandristas, nasceu em Mântua no ano de 
1462. 
 
Ficou célebre o seu Tratado da Imortalidade da Alma. É uma obra 
polémica discutida durante dois séculos, já que punha em causa a 
imortalidade da alma, senão, numa visão cristã, ou seja, segundo a fé, ou 
pelo menos segundo a razão. 
No seu entender, a alma humana não pode existir sem o corpo. A 
negação da sua imortalidade não conduz à abolição da vida moral – por 
inexistirem prémio ou castigo na outra vida, em função do mérito ou 
demérito das acções humanas –, porquanto quer a virtude quer o vício ou 
pecado têm o prémio ou castigo em si mesmos. Assim, não há virtude que 
não seja premiada, nem pecado que não sofra castigo. 
 
Tem consciência de que muito poucos são os homens que agem 
como consequência de uma pura exigência moral, sem que tenham em mira 
um prémio de conduta. Por esse motivo, os fundadores das religiões 
criaram as ilusórias figuras do Céu ou Paraíso e do Inferno. 
 
 
 
 
 111
 
PICO DELA MIRÂNDOLA 
 
João Pico pertencia à família dos condes de Mirândola, tendo 
nascido no ano de 1463. Estudou em diversas universidades italianas. Em 
1484 instala-se em Florença. Frequentou com Lourenço de Médicis a 
academia de Ficino. Na sequência da publicação das suas teses, em 1846, é 
perseguido pela Cúria. Foge para Paris onde acaba por ser preso no ano de 
1488. Ordenado terciário dominicano, em 1493, morre envenenado por um 
familiar no ano seguinte. 
 
É de realçar a obra Novecentas Conclusões, cuja doutrina foi na 
quase totalidade declarada herética. As conclusões foram essencialmente 
extraídas dos pensadores que o antecederam, nomeadamente, gregos, 
latinos e árabes. 
 
A sua especulação é dominada pelo interesse religioso. Considera 
que a teologia é a arma capaz de dar ao homem a paz santíssima, a paz 
celeste anunciada pelo cristianismo. 
 
Pelo regresso a si mesmo, o ser humano obtém a beatitude terrena, 
enquanto que regressando a Deus, obterá a felicidade, a vida eterna e a paz 
suprema. 
 
Condenou com veemência e com fortes argumentos a astrologia – 
atente-se que, ao mesmo tempo que Aristóteles, no mesmo lugar, nasceram 
muitos outroshomens, que não possuíam quer a sua capacidade quer a sua 
propensão para a investigação filosófica. 
 
 
 
ERASMO 
 
Erasmo nasceu em Roterdão no ano de 1466. Em 1492 foi ordenado 
padre. Senhor de um espírito extraordinariamente livre, não aceitou durante 
toda a sua vida quaisquer cargos, nem apoiou Lutero quando a Reforma foi 
desencadeada – mas também a não condenou. 
O Elogio da Loucura é a sua obra mais conhecida. Com ela, critica 
de modo algo divertido, as indulgências, a devoção exterior ou formal, sem 
correspondência real e interior. A Loucura, diz que Cristo prometeu a 
herança do Pai, não a frades, a rezas, à abstinência, mas aos que praticam a 
caridade e que desconhece os que se vangloriam das suas obras, 
 112
considerando-as tão meritórias que querem parecer mais santos do que ele 
mesmo. 
A verdadeira religiosidade é a fé e a caridade. As suas críticas e 
condenações atingem não só a Igreja quanto o próprio papa. Afirma que 
das cerimónias nascem as dissensões e da caridade a paz. 
 
Preconiza a renovação do cristianismo, mediante o regresso às suas 
fontes, à pureza do cristianismo primitivo. 
A sua doutrina é a da Reforma. No entanto, no que respeita ao livre 
arbítrio, não se conformou com a tese de Lutero – que afirmava estar a 
vontade humana intimamente dependente de Deus – publicando como 
resposta o De Libero Arbitrio. 
 
 
 
MAQUIAVEL 
 
Maquiavel nasceu em 1469 e faleceu em 1527. 
 
Autor do Príncipe e da Arte da Guerra, foi a primeira obra que mais 
o celebrizou. Escreveu ainda os Discursos sobre a Primeira Década de 
Tito Lívio. 
 
Preconiza em política o regresso às origens. O mesmo no que à 
religião respeita. Julga que religião cristã estaria votada ao seu completo 
desaparecimento caso não se tivesse operado o regresso às origens, quer 
pela doutrinação e exemplo de S. Francisco de Assis quer pela de S. 
Domingos – fundadores das ordens mendicantes –, que pela efectiva 
imitação de Cristo lhe imprimiram uma energia que se havia dissipado 
como nefasta consequência de maus costumes e vergonhosa opulência. 
 
 
 
NICOLAU COPÉRNICO 
 
Nasceu em 1473 e faleceu em 1543. Estudou nas Universidades de 
Cracóvia, Bolonha e Pádua, doutorando-se em direito canónico, em 
Ferrara. 
Por volta de 1510 exerceu as profissões de cónego, médico e 
astrónomo. 
 
 113
Escreveu: Reli todos os livros de filosofia que pude encontrar para 
saber se alguém, alguma vez, pensou na existência de movimentos das 
esferas do mundo diferentes do que pretendem aqueles que ensinam, nas 
escolas matemáticas. 
Encontrei (...) que Nicetas pensava que a terra era móvel, como também 
(...) Heraclides do Pontico e Ecfantes Pitagórico. 
Não nos esqueçamos no entanto, de Aristarco de Samos, que 
mencionámos na introdução, custando-nos a acreditar que Copérnico 
desconhecesse as suas teses. 
 
Até ao Renascimento, a doutrina e os ensinamentos da Igreja sobre o 
mundo natural baseavam-se na obra do filósofo grego Aristóteles, o que 
significava em astronomia considerar o cosmos como uma esfera fechada e 
delimitada, com a terra no centro. A pormenorização desta teoria, ficou a 
dever-se ao astrónomo egípcio Claudio Ptolomeu, que fez os possíveis e 
impossíveis para descrever os movimentos dos astros através de órbitas 
rigorosamente circulares, perspectiva que tinha sido bem aceite pela Igreja, 
porquanto coincidente com o conteúdo das Sagradas Escrituras. 
 
Em 1530, convencido da superioridade do sistema heliocêntrico, 
escreveu o “Comentariolus” – resumo das suas teorias – que circulou entre 
os seus amigos. 
Só dez anos mais tarde se decidiu a publicar a sua obra fundamental, 
De revolutionibus orbium celestium com prefácio de Osiander, que por sua 
conta e risco, face aos seus escrúpulos quanto à matéria bíblica avisou os 
leitores que o conteúdo da obra deveria ser interpretado como simples 
hipótese. 
Consta que um exemplar impresso da obra chegou às mãos de 
Copérnico poucas horas antes da sua morte, no ano de 1543. 
 
Demonstrou como todas as dificuldades que a cosmologia 
aristotélica encontrava na explicação do movimento aparente dos astros se 
resolviam facilmente admitindo que a terra gira em torno de si mesma, em 
vez de a considerar o centro imóvel dos movimentos celestes. 
Reconheceu os movimentos da terra: diurno em torno do próprio 
eixo, e o anual em torno do Sol 
 
 
 
 
 
 
 114
 
THOMAS MORE 
 
Nasceu na cidade de Londres em 1480 e foi condenado à morte por 
decapitação, tendo sido executado no ano de 1535. 
 
A sua obra Utopia, foi publicada em 1516 e é uma incitação à 
reforma da ordem social vigente em Inglaterra. Foram Platão e Tácito, 
respectivamente com A República e com A Germânia, quem mais 
influenciou More. 
 
O conhecimento obtido pela razão, deve ser completado pela 
religião, já que aquela é de todo insuficiente para conduzir o homem na 
direcção da felicidade. 
 
Há um Deus que criou o Universo, e que por todos é reconhecido, e 
venerado segundo as crenças de cada um. Para além do cristianismo, 
qualquer outra fé é admitida de bom grado, apenas sendo condenável a 
intolerância religiosa – cada homem pode crer no que bem entender, desde 
que não negue as doutrinas atinentes à imortalidade da alma e da 
providência divina. 
 
A alma é imortal e Deus destinou-a à eterna felicidade, como prémio 
do comportamento nesta vida – está também sujeita ao castigo. 
 
 
 
FRANCISCO GUICIARDINI 
 
Nasceu em 1482 e faleceu em 1540. 
 
Na sua perspectiva é despicienda a excessiva preocupação de 
teólogos e filósofos com as coisas sobrenaturais. Estas não se vêem, são 
indemonstráveis, e sobre elas apenas se escrevem disparates que outra 
utilidade não têm para além de servir o lúgubre intento de cultivar o 
engenho, nada adiantando no caminho da verdade. 
 
A sorte é a causa primordial dos acontecimentos e não a providência 
divina, que a existir, não nos é descortinável. 
 
 115
Os homens evitam pensar na morte, não obstante esta seja uma 
realidade que nos acompanha quotidianamente, de molde a que a vida não 
se transforme em algo insustentável. 
 
 
 
LUTERO 
 
Martinho Lutero nasceu no ano de 1483 e faleceu em 1546. É o mais 
acérrimo defensor da renovação ou reforma do cristianismo, mediante o 
regresso às suas fontes, à pureza do cristianismo primitivo. 
 
Baseando-se nos Evangelhos, põe em causa as tradições da Igreja. Só 
o retorno à palavra de Cristo é válido, e assevera tal como S. Paulo que o 
justo viverá pela sua fé. Viver pela fé, implica negar a justificação desta 
pela razão, “que é a mais encarniçada e pestífera inimiga de Deus”. 
 
Pela fé, o homem abandona-se integralmente à vontade divina, 
renunciando a toda a investigação. Compreende-se deste modo, que o único 
filósofo que não foi alvo dos seus violentos ataques tenha sido Guilherme 
de Occam – que a exclui da investigação filosófica por irracionalidade –, e 
que curiosamente denominou sofistas a todos, desde Aristóteles a S. Tomás 
de Aquino. 
 
Reduziu os sacramentos a três, por apenas terem estes sido 
instituídos por Cristo: baptismo, penitência e eucaristia. 
 
Com o De Servo Arbitrio, respondeu ao De Libero Arbitrio de 
Erasmo, defendendo o contra-senso de ser simultaneamente admitida a 
liberdade divina e a humana. Tudo o que acontece é porque Deus assim o 
quer, fruto da sua presciência e predeterminação. Quer o bem quer o mal, a 
salvação e a condenação, têm a sua origem em Deus. É pois, Deus, 
omnipotente e omnisciente que tudo ordena, tudo sendo produzido pela sua 
vontade, o que não deixa obviamente campo de acção ao livre arbítrio. 
 
 
 
 
 
 
 116
 
CALVINO 
 
João Calvino nasceu em 1509 e faleceu em 1564. 
 
Com a obra Instituição da Religião Cristã, prática e pedagógica, tem 
a firme intençãode preparar os fiéis. 
Entre outros, dedica-se ao estudo de Deus, do homem, do Decálogo, 
do Credo, Padre-Nosso, fé, e penitência. 
Considera que o livre arbítrio deve ser auxiliado pela graça divina. 
Cada um deve carregar a sua cruz, conformando-se com a vocação 
que Deus lhe transmitiu. 
 
Reformador, entende o retorno às fontes, como dirigido ao Antigo 
Testamento. Aliás, é de todo impossível compreender o Novo, em especial 
os Evangelhos, sem que se recorra ao Antigo Testamento. 
 
O homem nada é no confronto com Deus, que é omnipotência e 
insondabilidade. 
 
Deus decidiu desde sempre que homens haveria de destinar à 
salvação e os que destinaria à perdição, o que se fica a dever a um juízo 
imperscrutável e incompreensível, apesar de justo – predestinação – 
doutrina dos eleitos ou dos santos-vivos. 
 
 
 
JOÃO BODIN 
 
Bodin nasceu em 1530, tendo sido jurista em Paris. 
Defende que a monarquia é o melhor dos governos, já que o rei 
cultiva a piedade, a justiça e a fé, contrariamente ao tirano, que não 
conhece Deus, fé ou lei. 
 
Tal como Thomas More elogia a tolerância religiosa. 
 
 
 
 
 
 117
 
MONTAIGNE 
 
Montaigne nasceu no ano de 1533, em França, tendo falecido em 
1592. 
 
Do filósofo, mencionamos as seguintes obras: 
Apologia de Raymond Sebond – Esta obra faz transparecer a crise céptica 
que assola o filósofo, num mundo de novas descobertas que relegaram para 
o domínio das meras curiosidades as doutrinas dos pensadores consagrados 
como Aristóteles, Platão, Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino – v.g. o 
heliocentrismo de Nicolau Copérnico e as mais variadas experimentações 
científicas, e ainda as viagens que levaram à descoberta de novos mundos. 
Contesta as teses do teólogo Sebond – Teologia Natural –, que fundava a fé 
na razão e colocava o homem no primeiro plano da criação. A razão não 
tem para Montaigne um valor de absoluta superioridade, e o homem está 
bem perto dos restantes animais. 
Um tanto paradoxalmente – provavelmente como consequência do seu 
cepticismo –, faz a apologia do catolicismo e condena os protestantes, quer 
na sua teoria da livre investigação fundamentada na razão, quer 
responsabilizando-os pela desordem que grassava em França. 
Ensaios – Nesta obra, Montaigne é o próprio objecto do seu livro. Trata-se 
de um conjunto de reflexões diversificadas – v.g. religiosas, políticas, 
acerca da morte. 
É de realçar a sua meditação sobre a morte. Sendo inelutável nada podemos 
fazer contra ela. Se não a podemos aniquilar, podemos pelo menos 
aniquilar o medo que em nós gera. Saber morrer é a última fase, o canto do 
cisne de saber viver. Pela filosofia aprendemos a morrer. 
A sua filosofia expressa a tentativa de fazer com que o homem retorne a si 
mesmo – o que tem plena identificação com a renovação objectivada pelo 
Renascimento. Influenciou Descartes e seguramente Pascal. 
Está constantemente a observar-se e a observar o que o rodeia. Nos 
Ensaios, afirma a nível introdutório, ser ele o próprio assunto do seu livro. 
 
Não elaborou um sistema filosófico, mas toda a sua vida mais não foi 
do que um constante filosofar. 
 Inicialmente estóico, encaminhou-se para o cepticismo. 
 
Tem uma péssima ideia do homem: “nada pode imaginar-se de mais 
ridículo do que este ser mesquinho, que não sendo dono de si próprio se 
afirma ingloriamente senhor e dono do universo, sem que conheça a mais 
 118
ínfima parte deste. Como é que um ser tão miserável o poderia dirigir, 
quando nem sequer se conhece nem o conhece?” 
 
A morte é consequência directa da condição humana. Morremos não 
por que estejamos doentes ou por sofrermos um acidente, mas porque 
estamos vivos. 
Quem teme o sofrimento, já sofre por antecipação o que teme. 
Ensinar os homens a enfrentar a morte, será ensiná-los a viver, já que vida 
e morte andam de mãos dadas na nossa miserável existência. 
É por via da ideia da morte, que Montaigne diz gozar a vida duas 
vezes mais do que os outros. A sua iminência faz com que se empenhe 
numa vivência plena e profunda. 
 
 
 
PIERRE CHARRON 
 
Charron nasceu em Paris em 1541 e faleceu em 1603. Amigo de 
Montaigne, nele buscou a sua inspiração. 
 
Afirma três verdades substanciais: 
- Há um único Deus; 
- Há uma só religião verdadeira – a cristã; 
- A única Igreja válida e verdadeira é a Católica. 
 
A alma é corpórea, embora invisível e não sujeita à corrupção. 
 
Só Deus pode atingir a verdade, só ele é Verdade. O homem, atentas 
as suas naturais limitações nunca a atingirá, e caso a atingisse, nunca 
poderia asseverar tal qualidade, estando assim votado a viver num estado 
de dúvida permanente – cepticismo. 
 
 
 
ROBERTO BELARMINO 
 
O cardeal Roberto Belarmino nasceu em 1542 e faleceu em 1621. É 
a figura mais importante da denominada contra-reforma, que teve o seu 
início no Concílio de Trento – onde ficou estabelecido que as Escrituras, 
por si, são insuficientes para a salvação; que a sua interpretação é um 
 119
direito da Igreja e não do homem individual ou colectivamente 
considerado – e que preconiza o retorno às origens, ao período patrístico. 
 
Belarmino, consultor do Santo Ofício, tomou assento no processo 
que foi instaurado a Giordano Bruno – que terminou pela sua condenação 
à morte – e no primeiro que foi instaurado contra Galileu. 
 
Defendeu com eloquência as decisões do Concílio de Trento e a 
infalibilidade do papa, bem como a sua superioridade à própria Igreja e ao 
Concílio. Apesar da sua autoridade ser espiritual e não temporal, por via da 
sua natureza suprema, afirma que o Papa detém o poder máximo na terra, 
equivalendo à sua capacidade para coroar ou até destronar reis. 
 
A Igreja deveria regressar aos seus princípios mais perfeitos, e estes 
são os estabelecidos por S. Tomás. 
 
 
 
GIORDANO BRUNO 
 
Bruno, naturalista – como veremos, o seu naturalismo assemelha-se 
a uma religião dionisíaca do infinito –, nasceu no ano de 1548. Com 
apenas 15 anos entrou em Nápoles para o convento dominicano onde foi 
considerado um prodígio intelectual. A partir dos 18 anos, começou a pôr 
em dúvida a tradição eclesiástica. No ano de 1592 foi preso pela 
Inquisição, e convidado repetidamente para se retractar – defendia que a 
religião apenas era ou poderia ser guia útil para os que estavam 
incapacitados de se dedicarem à filosofia –, nunca o fez. Em 1593 foi 
condenado à morte, tendo sido queimado vivo. Nos derradeiros momentos, 
conta-se que desviou o seu olhar do crucifixo, quando este lhe foi exibido 
para eventual reconciliação. 
 
Obras: 
O Banquete das Cinzas – Influenciado por Nicolau Copérnico, Bruno 
insurge-se contra as teses aristotélicas e ptolomaicas. Defende a existência 
de um universo infinito e esférico, com o seu centro em toda a parte e a sua 
circunferência em parte alguma. Sendo infinito, admite a existência de 
inumeráveis mundos. 
Da Causa, do Princípio e da Unidade – Esta obra foi escrita na sequência 
da supramencionada, para afirmar que não tinha a intenção de pôr em causa 
a natureza divina, já que se o Universo é múltiplo, Deus é Uno. 
 120
O Infinito, o Universo e os Mundos – Com estes escritos, finaliza Bruno a 
sua cosmologia. O infinito está em toda a parte, é imóvel e pleno – e isto 
porque a sua ideia exclui qualquer lugar, qualquer movimento e qualquer 
vazio. 
O infinito é duplo, qualitativa e quantitativamente, já que não tem 
qualquer limite e a divindade não criou apenas um único mundo finito, mas 
antes uma pluralidade deles, apesar da sua semelhança material. 
 
Amava a vida. O convento era para si uma “prisão estreita e negra”. 
 
A religião enquanto conjunto de crenças, era algo de absolutamente 
ilógico e absurdo, um sistema complexo de superstições e contradições 
racionais. 
 
Bruno ataca o próprio cristianismo reformado, julgando-o aindapior 
do que o catolicismo, ao negar a liberdade do homem. 
 
À “santa burrice”, religiosidade implantada, aberrantemente 
discordante da razão, eivada de superstições e erros, opõe-se a dos doutos, 
que é a própria filosofia, forma de ascender a Deus, ser que não é 
cognoscível pelo intelecto. 
 
A qualidade fundamental do Universo, dirigido e governado por 
Deus, é a infinitude – um dos temas preferenciais da sua especulação. 
 
A investigação filosófica atinge o seu auge, quando o filósofo se 
identifica com a natureza – o que o diferencia do êxtase místico de Plotino. 
 
 
 
ALBERICO GENTILE 
 
Nasceu no ano de 1552, falecendo em 1611. Foi professor de direito 
em Oxford. 
 
A única guerra justa é a defensiva. 
As guerras religiosas são injustas, porquanto não é pela violência que 
podemos fazer com que outrem professe a nossa fé. 
 
 
 
 
 
 121
 
FRANCIS BACON 
 
Bacon nasceu em 1561 e faleceu em 1626. É o fundador do método 
indutivo moderno. Sistematizou de modo lógico o procedimento científico. 
 
O Novum Organum, é a obra pela qual o filósofo pretende renovar o 
método científico. 
 
A sua filosofia era prática. No seu entender a ciência está destinada a 
gerar o domínio do homem sobre o mundo natural. Preconizou um método 
indutivo gradativamente ordenado, e pode ser considerado o percursor da 
técnica. 
 
Julga que a religião deve estar apartada da filosofia, porquanto 
realidades distintas. Se a razão pode demonstrar a existência de Deus, 
existem temas teológicos que só são atingíveis pela revelação. Se o dogma 
parecer absurdo à investigação racional, maior será a vitória da fé. Neste 
sentido, defendeu a doutrina da dupla verdade – a derivada da razão e da 
revelação –, doutrina esta que foi condenada pela Igreja. 
 
Desprezou o silogismo e rejeitou a teoria de Copérnico. 
 
Considera a existência de três falsas filosofias: 
- a sofística, em que o melhor exemplo é o de Aristóteles; 
- a empírica, que é a filosofia dos alquimistas; e 
- a supersticiosa, que é a que inadvertidamente se mistura com a 
teologia, tal como aconteceu com Pitágoras e Platão – a este 
último chamou mesmo, trapaceiro urbano, poeta enfatuado e 
teólogo mentecapto. 
 
 
 
GALILEU 
 
Nasce em Pisa a 15 de Fevereiro de 1564. Estudou na Universidade 
desta cidade, onde veio a ensinar Matemática, disciplina que com a 
astronomia leccionou na Universidade de Pádua. 
 
No Diálogo dos Grandes Sistemas do Mundo, Galileu procede à 
exposição das duas teses astronómicas então em confronto. Por um lado o 
 122
geocentrismo ptolomaico e por outro o heliocentrismo desenvolvido por 
Nicolau Copérnico. 
 
Nos Discursos sobre as Duas Novas Ciências, trata da teoria da 
coesão da matéria e da ciência do movimento. 
Não podemos desprezar, bem pelo contrário, o Sidereus Nuncius, a 
que infra nos referiremos. 
 
Defendeu desde cedo a hipótese copernicana. 
 
Em bom rigor a investigação científica começa com Galileu. Já não 
lhe basta um raciocínio lógico. Experimenta e observa. 
Na mecânica estuda o pêndulo, o plano inclinado, a queda dos corpos 
e os movimentos acelerados. 
Demonstrou a falsidade da premissa aristotélica, segundo a qual os 
corpos caem com velocidade proporcional ao seu peso. 
Descobriu as leis da balística – previsão da trajectória dos corpos 
lançados através de campo gravitativo. 
Tudo leva a crer que o telescópio – luneta – foi uma invenção do 
holandês Hans Lippershey. No entanto, aperfeiçoando-o, apresenta-o em 
Veneza em 1609 – combinou uma lente convergente e outra divergente, de 
diferente distância focal –. 
No ano seguinte descobre os satélites de Júpiter, as fases de Vénus e 
observa as manchas solares. 
Apercebe-se que a esfera celeste tem muito mais estrelas do que as 
visíveis a olho nu. Deu-se assim conta que a Via Láctea é um conjunto 
imenso de estrelas. 
Observa montanhas na superfície da lua, cuja altura calcula por via 
das suas sombras. 
Observando as fases de Vénus, deduz que o planeta gira à volta do 
Sol. 
As manchas solares vêm demonstrar que o Sol gira sobre si próprio. 
Resumiu todas as suas descobertas num livro de 28 páginas, o 
Sidereus Nuncius. 
 
Em 1633 corre um processo contra si e é condenado em Roma, tendo 
sido obrigado a retractar-se e a rejeitar publicamente a teoria heliocêntrica: 
“Eu Galileu (...) com 70 anos de idade (...) tendo diante dos meus olhos os 
sacrossantos Evangelhos que toco com as mãos, juro que sempre acreditei, 
que creio agora e, com a ajuda de Deus, continuarei a crer em tudo o que 
defende, prega e ensina a Santíssima Igreja Católica e Apostólica (...). A 
falsa opinião de que o Sol esteja no centro do mundo e não se mova e que 
a terra não seja o centro do mundo e se mova (...) dela abjuro de coração 
 123
sincero e não fingida fé (...), maldigo e detesto tais erros e heresias (...), e 
se conhecer algum herege ou suspeito de heresia denunciá-lo-ei a este 
Santo Ofício ou ao inquisidor do lugar onde me encontre (...). Assino de 
meu punho e letra a presente cédula de abjuração, que recitei palavra por 
palavra em Roma, no Convento Della Minerva , no dia de hoje, 22 de 
Junho de 1633”. 
 
Morre a 8 de Janeiro de 1642. 
 
 
 
KEPLER 
 
Nasceu perto de Estugarda em 27 de Dezembro de 1571 e estudou na 
Universidade de Tubinga. 
Dedicou-se inicialmente ao estudo da geometria euclidiana e da 
teoria de Copérnico. 
 
Foi assistente de Tycho Brahe e sucedeu-lhe no cargo de astrónomo 
imperial. 
Das próprias observações deste, tirou a mais importante confirmação 
da doutrina de Copérnico pela descoberta das leis reguladoras do 
movimento dos planetas. 
As duas primeiras leis de Kepler foram publicadas na Astronomia 
nova de 1609. A terceira surge no escrito Harmonices Mundi de 1619. 
Em 1627 publicou as tabelas Rudolfinas, tabelas fundamentais dos 
planetas que começara a calcular 25 anos antes, quando ainda era assistente 
de Tycho Brahe. 
 
 
LEIS DE KEPLER 
 
PRIMEIRA (TAMBÉM CHAMADA LEI DAS ÓRBITAS) – Os planetas 
movem-se em torno do Sol descrevendo órbitas que são elipses, com o Sol 
situado num dos focos. 
 
SEGUNDA (LEI DAS ÁREAS) – Diz-nos que uma linha que se estenda 
do Sol a um planeta, orientada nesse sentido, varre áreas iguais em 
intervalos de tempo iguais – A linha referida chama-se raio vector. 
 
 124
TERCEIRA (LEI HARMÓNICA) – os quadrados dos períodos da 
revolução dos planetas em torno do Sol são directamente proporcionais aos 
cubos das suas distâncias médias ao Sol. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 125
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
FILOSOFIA MODERNA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 126
 
 
 
DESCARTES 
 
 
 
René Descartes nasceu em Haia em 1596. Trabalhava escassas horas 
e lia pouco. A sua obra terá sido realizada em curtos períodos, de elevada 
concentração. 
Foi um filósofo que realizou múltiplas viagens com a intenção de ler 
o grande livro do mundo. 
É interessante mencionar, que Santo Agostinho formulou um 
argumento similar ao cogito, mas sem que o tivesse desenvolvido – talvez 
não se tenha apercebido da sua real importância. 
 
Algumas obras: 
Discurso do Método para Bem conduzir a Razão e Procurar a Verdade nas 
Ciências – Texto publicado no ano de 1637, como introdução a um 
conjunto de ensaios científicos – A Dióptrica, Os Meteoros, A Geometria – 
e que a partir do século XIX começou a ser autonomamente publicado. 
Estabelece um método de quatro regras, por via da dúvida metódica – ver 
infra. 
O Discurso do Método, pela sua importância, é obra cuja leitura não deve 
ser de modo algum evitada. 
Meditações Metafísicas (a respeito da filosofia primeira nas quais a 
existência de Deus e a distinção real entre a alma e o corpo do homemsão 
demonstráveis) – Uma verdadeira obra prima, que deve ser lida, tal como 
se nos apresenta, já que o filósofo intentou apoiar-se apenas em si próprio – 
sem pretensamente recorrer a influências externas – para atingir a verdade. 
Divide-se em seis meditações: 
- A primeira trata da dúvida; 
- A segunda conduz o filósofo à certeza do que é, do que existe; 
- Pela terceira, demonstra a existência de Deus; 
- A quarta, demonstra como somos responsáveis pelos nossos 
erros; 
- A quinta, demonstra também a existência de Deus – argumento 
ontológico; e 
- A sexta trata da questão atinente aos objectos exteriores. 
Princípios da Filosofia – Nesta obra, Descartes intentou publicar a 
exposição sistemática da sua filosofia – nos domínios da Física e da 
Metafísica. 
 127
As Paixões da Alma (ou Tratado das Paixões) – Se nas Meditações, o 
filósofo elaborou doutrinalmente a distinção real entre o corpo e a alma, 
nas Paixões da Alma, meditou na sua união substancial. Para a sua integral 
compreensão, deverá ler-se também As cartas à Princesa Elisabeth, filha 
de Eduardo V, da Boémia, correspondência assídua que ocorreu entre os 
anos de 1643 e 1649 – a temática desta, gira em torno da união da alma 
com o corpo. 
Outras obras: 
A Dióptrica – Parte integrante com Os Meteoros e A Geometria, dos 
ensaios que anexou ao Discurso do Método. 
As já citadas Cartas à Princesa Elisabeth. 
Tratado do Homem – Aqui procura entender a partir do mecanicismo os 
fenómenos biológicos, muito especialmente os do corpo humano. 
Regras para a Direcção do Espírito – Exposição do método cartesiano, 
colocando a investigação na relação com a matemática. 
A Investigação da Verdade pela Luz Natural – Diálogo que não foi 
terminado. 
 
É com Descartes que se inicia com plenitude a idade moderna. Busca 
o conhecimento que brota de si mesmo e das inúmeras experiências que o 
mundo lhe proporciona. 
 
A investigação de Descartes é dominada pelo próprio homem 
Descartes, tal como Montaigne já havia feito. Há nele um verdadeiro 
procedimento autobiográfico. Não pretende doutrinar o seu método de 
direcção da razão, mas apenas demonstrar como o fez. O seu problema 
fundamental, prende-se com a recta razão, com a sabedoria de vida. Mas, 
quer queiramos quer não, na sociedade humana, existe o que podemos 
denominar de unidade da razão, e o seu método de individual passa a ser 
geral. A distinção entre o verdadeiro e o falso é igual em todos os homens, 
desde que o bom senso impere nas suas mentes. 
 
O seu método, considerou fecundamente o processo matemático, 
devendo ter um espectro universal e a sua aplicabilidade nos mais variados 
ramos do conhecimento. Definiu-o como o conjunto de normas, que 
impossibilitam confundir falso e verdadeiro, e são idóneas na condução do 
ser humano ao conhecimento possível – já que nem tudo é objecto de 
conhecimento. 
 
 
O Discurso do Método estabelece quatro regras absolutamente 
essenciais: 
 128
- A evidência – para aceitarmos alguma coisa por verdadeira, não podemos 
ter qualquer dúvida sobre a sua veracidade. À evidência opõe-se a 
conjectura, que é no essencial, dúvida, mesmo que temporária. A evidência 
é atingida por intermédio da intuição, aqui entendida como um conceito da 
mente, que no estado de pureza e de atenção, não é atingida por qualquer 
dúvida objecto do pensamento; 
- A análise – as questões devem ser observadas no maior número de 
partes possível, simplificando-as, para que a razão possa ter um 
entendimento mais perfeito; 
- A síntese – conduzir a investigação do mais simples para o mais 
complexo, é regra de ouro; 
- A enumeração – o investigador deve realizar enumerações exaustivas e 
revisões gerais, de molde a que tenha a convicção de nada ter omitido. 
 
Descartes duvida do conhecimento sensível – a dúvida é um conceito 
universal, neste particular –. Posso, em boa verdade, de tudo duvidar. De 
Deus, dos astros, do meu próprio corpo, mas não posso duvidar de que o 
meu pensamento – independentemente de ter sido ou não induzido em erro 
– é um nada, tal como um nada é a coisa que o pensa. Deste modo, a única 
proposição absolutamente verdadeira, é o “penso, logo existo”. Eu existo, 
significa apenas que eu sou uma “coisa” pensante – não posso, no entanto, 
afirmar que se trate de um corpo. 
 
Entende que a religião é um problema a debater com recurso à fé. A 
razão é inoperante neste domínio. Com isto, não se diga que quis “matar” 
Deus, como o fizeram alguns outros pensadores. Limitou-se a afastar do 
âmbito da filosofia uma problemática naturalmente incognoscível. 
 
Deus visto como infinito, eterno, criador, omnipotente e omnisciente, 
não pode ter sido idealizado por um ser que não comunga de tal perfeição. 
A causa de ideia de um Ser com tais atributos, só pode ser fruto de um Ser 
idêntico e não do homem Descartes, que considera que a simples presença 
na sua mente da ideia de Deus, demonstra cabalmente a sua existência. 
Dele, temos uma ideia inata, como Ser sumamente perfeito, um ser que 
existe por si, é uno, e é uma poderosa e infinita fonte de existência. Esta 
ideia, é tal como a marca do artífice realizada na sua obra. 
 
Diz-se que o conceito cartesiano de Deus, de religioso nada tem. 
Pascal acusa-o do seu Deus nada ter a ver com o Deus de Abraão, de Isaac 
e de Jacob, com o Deus do cristianismo. Mas, o Deus de Descartes não será 
o Deus cristão? Ter-se-á realmente o filósofo libertado dos seus 
condicionamentos, nomeadamente de uma esmerada educação religiosa e 
das doutrinas expendidas pelos filósofos cristãos que o precederam? 
 129
 
Entre homens e animais, a diferença reside de que naqueles 
constatamos a existência de uma alma racional. 
 
 
 
THOMAS HOBBES 
 
 
 
Hobbes nasceu em 1588 e faleceu em 1679, tendo como problema 
central da sua filosofia, o conceito de razão, faculdade que considera 
consequência da linguagem. Exclui a teologia do âmbito das ciências 
racionais. Foi um empirista, como Locke, Berkeley e Hume. 
 
Obras principais: 
Do Cidadão – Obra com a mesma lógica do que o Leviatã. É composta por 
três partes: Liberdade, Império e Religião. Nesta última, trata do Reino de 
Deus, e de tudo o que necessitamos para nele entrar. 
O homem, sujeito às forças naturais, é uma espécie de “condenado à 
morte”. 
Leviatã – É a obra que nos fornece o sistema filosófico de Hobbes. 
A primeira parte respeita ao Homem. a segunda à República, a terceira à 
Religião Cristã e a quarta ao Reino das Trevas. 
Na terceira parte demonstra a existência de uma República cristã, que 
excede a sociedade civil. No Reino das Trevas critica algumas das 
interpretações das Sagradas Escrituras, denunciando uma vâ filosofia e 
tradições enganosas. 
Do Homem – Segunda parte dos Elementos de Filosofia, dedica-se em 
especial ao estudo da alma humana – o estudo físico é demasiadamente 
sintético. 
Outras obras: 
Da Natureza Humana – Trata do estudo da natureza humana, das suas 
paixões, visando o estabelecimento das condições da sua sobrevivência na 
comunidade. 
Do Corpo, publicado em 1655. É a primeira secção dos Elementos de 
Filosofia, obra que dividiu a filosofia em natural, e política e ética. 
Os Elementos de Filosofia, são uma trilogia constituída pelos Do Corpo, 
Do Homem e Do Cidadão. 
 
 130
Admira o método matemático. A geometria é a ciência por 
excelência. Inspira-se mais em Galileu do que em Bacon. Foi erroneamente 
considerado suspeito de ateísmo. 
 
Numa atitude materialista, julga que passíveis de juízo são apenas os 
objectos, mas não nega a existência de Deus – embora este não seja ou se 
identifique com o mundo. De qualquer modo, só o corpóreo pode ser 
objecto da investigação filosófica e científica. 
 
Para Hobbes, o incorpóreo é uma ficção, e isto, sem excepção. 
Afirmar a incorporeidade de Deus, equivale à sua negação.O ditame da recta razão é o processo racional pelo qual Deus incute 
no homem a sua lei. Por ele, apenas podemos asseverar que Deus existe e 
que dirige o mundo. Não lhe podemos atribuir qualificações que não as 
negativas – v.g. infinitude, eternidade, incognoscibilidade –, e para além 
delas, entramos fatalmente nos domínios da fé. 
 
Hobbes não atinge a essência de Deus. Assim, na Da Natureza 
Humana queda-se pela sua existência e pela incognoscibilidade daquela. 
Tendo em vista que o Deus omnipotente é incompreensível, é-nos 
impossível conceber a sua imagem; em consequência, todos os seus 
atributos só anunciam a impossibilidade de conceber algo que respeite à 
sua natureza de que não temos outra concepção, senão que Deus existe. 
Reconhece que os efeitos anunciam um poder de os produzir antes que 
tenham sido produzidos e este poder supõe a existência anterior de algum 
Ser revestido deste poder. Ora, o Ser que existe com este poder de produzir, 
caso não fosse eterno, deveria ter sido produzido por algum Ser anterior a 
ele e este por um outro Ser que o tivesse precedido. Assim, remontando de 
causas em causas, aportamos a um poder eterno, ou seja anterior a tudo, 
que é o poder de todos os poderes e a causa de todas as causas. E é isso, 
que todos os homens concebem pelo nome de Deus, que encerra 
eternidade, incompreensibilidade e omnipotência. 
 
O bem é sinónimo de desejo e o mal de aversão. O bem máximo é a 
progressão na vida – sucessiva e infindável – para novos fins. Pecado é o 
que contraria a consciência. 
 
Julga que não há uma igreja universal, em virtude desta depender do 
poder político. O rei é ou deve ser o chefe da igreja. É de todo absurdo 
considerar a infalibilidade do papa. Critica a Igreja de Roma, por ter 
colocado o poder espiritual acima do temporal. 
 
 131
Refere-se à lei natural como fruto da razão e não como imperativo 
divino. Enunciou vinte leis, que são no seu entender a súmula da filosofia 
moral: 
- Buscar obter a paz enquanto se tem a esperança de a obter; 
quando esta não possa ser obtida, devemos servir-nos de todas as 
vantagens da guerra; 
- É necessário respeitar os pactos, ou seja, observar a palavra dada; 
- Proibição da ingratidão; 
- Devemos ser úteis aos outros; 
- Devemos ser misericordiosos; 
- As penas não devem ser aplicadas retroactivamente; 
- Condenação das injúrias; 
- Condenação da soberba; 
- Devemos ser moderados; 
- Devemos ser imparciais; 
- A que respeita às propriedades comuns; 
- A que trata das coisas a dividir à sorte; 
- A que trata da primogenitura e do direito do primeiro ocupante; 
- A que respeita à incolumidade dos mediadores; 
- A que respeita à instituição dos árbitros; 
- A que prescreve que ninguém deve ser juiz em causa própria; 
- A que proíbe os árbitros de aceitarem dádivas dos litigantes; 
- A que prescreve o recurso a testemunhas para prova dos factos; 
- A que proíbe firmar pactos com os árbitros; 
- A que condena tudo o que impede o uso da razão. 
 
 
 
 
MALEBRANCHE 
 
 
 
Nicolas Malebranche nasceu no ano de 1638 e foi padre da 
Congregação do Oratório – esta Congregação foi fundada pelo amigo de 
Descartes, cardeal Berulle, com o objectivo de divulgar a composição 
científica da doutrina da Igreja –. Faleceu no ano de 1715, contando-se 
que depois da visita de Berkeley que o terá irritado – nessa altura 
Malebranche encontrava-se bastante doente. 
Terá sido quase um místico. 
 
 
 132
Obras: 
Da Investigação da Verdade – Manifesta-se por uma filosofia religiosa, 
com uma marcante influência de Santo Agostinho, no que ao misticismo 
respeita. 
O método de Malebranche é influenciado por Descartes. Nele propõe uma 
nova teoria do conhecimento, um misticismo filosófico, que é uma visão 
em Deus, das verdades eternas. 
Conversas Cristãs nas quais se Justifica a Verdade da Religião e da Moral 
de Jesus Cristo – Obra onde expõe com clareza os princípios do seu 
sistema filosófico, visando justificar a verdade da religião e da moral cristã. 
É composta por dez “diálogos”. Neles, demonstra a existência de Deus, que 
a nossa vontade existe apenas para o amar, analisa a questão atinente à 
união da alma e do corpo, a Trindade, e termina afirmando a verdade da 
moral cristã. 
Tratado da Natureza e da Graça – Tratado que se debruça sobre as 
relações estabelecidas entre Cristo e a Criação, e a liberdade humana e a 
graça que Deus lhe outorga. 
Meditações Cristãs e Metafísicas – O filósofo, por intermédio da 
meditação, ascende ao Verbo divino, na sua interioridade. 
São vinte meditações cuja leitura não deve ser dispensada. 
Tratado da Moral – Obra onde expõe a sua moral, e onde insiste na 
importância do amor a Deus, que decorre do mandamento “Amai o Senhor, 
nosso Mestre”. 
Tratado do Amor a Deus – Escrito como resposta ao teólogo François 
Lamy. Malebranche defende que mais do que o abandono a Deus, num 
puro quietismo, o homem, preocupando-se com a sua salvação, deve 
exercitar, quer a oração quer a meditação. 
Conversas sobre a Metafísica e sobre a Religião – Podem considerar-se 
estas conversas como a exposição mais completa da sua filosofia, onde, 
diga-se em síntese, que pretende demonstrar a verdade da religião cristã. 
 
A razão é para o filósofo, infalível, imutável e incorruptível. No seu 
entender, não é apenas apanágio de homens, mas também de Deus, que a 
segue. 
 
A sua metafísica é a síntese da doutrina de Descartes e de Santo 
Agostinho. 
 
A fé é quem conduz a inteligência no árduo caminho a percorrer na 
direcção da felicidade. Mas, a inteligência é preferível à fé, porquanto esta 
há-de passar e aquela subsistirá para sempre; por outro lado, onde houver fé 
sem inteligência, não existirá certamente descoberta da verdade. 
 133
Em sede de teologia, os dogmas são as suas experiências, que postos 
em dúvida, apenas subsistem quando estão em conformidade com a razão. 
Os dogmas da fé e os princípios da razão devem estar de acordo, seja qual 
for o grau de oposição com que se apresentem ao espírito do homem. 
 
Deus é Aquele que é, o Ser em si mesmo. 
Deus tem em si a ideia de infinitude e é o modelo de mundos 
infinitos. Da infinitude e da perfeição resulta a sua existência. A proposição 
de que “há um Deus”, tem o mesmo valor, a mesma certeza, o mesmo 
espírito de verdade, do que o “penso, logo existo” de Descartes. 
 
É pela fé que acreditamos ser Deus o criador do mundo. E criou o 
mundo mais perfeito que poderia ter criado, contrariando deste modo, a 
opinião de S. Tomás de que Deus poderia ter criado um mundo mais 
perfeito. 
 
A alma na sua visão de Deus, encontra as causas de tudo o que 
existe. Ele tem em si a ideia de tudo o que criou. Por outro lado, está 
presente na alma, revelando caso assim o entenda, o que nele existe, sendo 
o guia da razão humana. 
 
 
 
PASCAL 
 
 
 
Blaise Pascal nasceu no ano de 1623. Com variadíssimos interesses 
no campo científico, terá manifestado uma profunda religiosidade, como o 
atesta um escrito datado de 23 de Novembro de 1654, que cosido à sua 
roupa, foi encontrado depois da sua morte. Aí, podia ler-se, nomeadamente: 
“Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob. Não dos filósofos e dos 
cientistas. Deus de Jesus Cristo.” 
 
Entre as suas obras, destacamos: 
As Provinciais – São dezoito cartas que contêm a intervenção do filósofo 
num debate teológico. 
Pensamentos – É uma obra de referência, de leitura obrigatória. São 
pensamentos fragmentários, tal como o homem e o mundo que habita. 
Outras obras: 
 134
Prefácio para o Tratado do Vazio, publicado em 1663. É essencialmente 
um manifesto a favor do método experimental, mais do que uma 
abordagem do problema do vazio. 
Da Arte de Persuadir – Obra que define um método seguro para persuadir 
os outros, das “verdades” que pretendemos impor. 
Conversa com Monsieur de Saci sobreEpicteto e Montaigne – Trata-se de 
um elogio aos dois filósofos, do estoicismo e do cepticismo, de cada um 
deles. 
Do Espírito Geométrico. 
 
 
Pascal foi muito influenciado por Montaigne na exigência do 
autoconhecimento. A análise do conhecimento do homem e da sua 
mundividência é o escopo da sua filosofia. 
 
A filosofia do século XVII lutou incessantemente pelo 
reconhecimento da razão como meio idóneo e eficaz para ascender ao 
conhecimento. Pascal, reconhece-lhe limitações no domínio da 
investigação científica e nega-lhe qualquer utilidade na esfera religiosa. 
Nesta última, deve o homem começar por se compreender a si mesmo, e tal 
conhecimento nunca lhe será dado pela razão, que neste particular é fraca e 
inútil atenta a incerteza que gera. À realidade humana acede-se pelo 
“coração”. Por isso afirma, que o coração tem razões que a razão 
desconhece. 
 
A contradição entre a razão e o coração – ou entre o conhecimento 
demonstrativo e a compreensão instintiva – é comparada à existente entre o 
espírito geométrico e o espírito de finura ou argúcia; o primeiro estrutura-se 
no raciocínio e o segundo na compreensão imediata. 
 
O homem encontra-se entre o infinitamente grande e o infinitamente 
pequeno, sem que logre conhecer quer um quer o outro. 
 
Grande é o homem que sabe reconhecer o seu estado de miséria, e 
perante tal facto, enceta dura caminhada pelas veredas da fé. 
 
O Deus dos cristãos, diz Pascal em resposta a Descartes, não é um 
Deus que é simplesmente o autor de verdades matemáticas ou da ordem 
dos elementos. É assim que os pagãos o encaram. Ele é o Deus de Abraão, 
o Deus de Isaac, o Deus de Jacob; o Deus dos cristãos é um Deus de amor e 
conforto, que enche a alma e o coração dos que possui. 
 
 135
A Deus não se ascende pela razão. Mas, o homem tem de decidir. E 
daí, nasce a célebre aposta de Pascal. Quem apostar na existência de Deus, 
se ganhar, é evidente que tudo ganha, mas caso perca, nada perde. Trata-se 
de um jogo em que se arrisca o finito para ganhar o infinito. 
 
O divertimento, nas suas múltiplas formas, faz com que o homem 
não pense na morte. Aliás, sentindo que nada contra ela pode, opta por não 
pensar, julgando que assim atinge a felicidade. 
 
 
 
ESPINOZA 
 
 
 
Baruch de Espinoza nasceu em 1632. Teve uma vida austera, de 
grande modéstia, o que lhe proporcionou a liberdade de espírito que tanto 
prezava. Segundo Russel, o mais nobre e amável dos grandes filósofos. 
Judeu, foi por eles excomungado, os cristãos odiaram-no ou aborreceram-
no, e não obstante a ideia de Deus esteja presente em toda a sua filosofia, 
foi acusado de ateísmo, e isto, porque o Deus de Espinoza é um deus 
panteísta, que aos ortodoxos não parecia ser deus nenhum. 
Da sua filosofia ressalta a necessidade de ser garantida ao homem, 
quer a liberdade política quer a religiosa. Faleceu em 1677. 
 
Algumas obras: 
Tratado Teológico-Político – Nesta obra, Espinoza defende a liberdade de 
pensamento, a tolerância e a democracia. Julga que a Bíblia deve ser 
submetida a uma leitura realizada à luz da razão e critica a teologia, quando 
esta exorbita dos seus limites naturais. 
Ética (Demonstrada Segundo a Ordem Geométrica) – Divide-se em cinco 
livros: I – De Deus; II – Da Natureza e da Origem da Alma; III – Da 
Origem e da Natureza das Afecções; IV – Da Servidão do Homem ou das 
Forças das Afecções; V – Do Poder do Entendimento ou da Liberdade do 
Homem. 
O Deus de Espinoza não é o cartesiano. Não é o Criador, mas a própria 
Natureza, o famoso Deus sive natura. 
Tratado Político – Neste, volta a analisar alguns temas do Tratado 
Teológico-Político. 
Pequeno Tratado Sobre Deus, o Homem e a sua Felicidade – Compilação 
de notas soltas, deve ser lido com prudência, pois não reflecte 
verdadeiramente o pensamento metafísico do filósofo. 
 136
 
Tal como Hobbes, interessou-se fundamentalmente pela política, 
moral e religião, defendendo que a Igreja deve estar subordinada ao poder 
temporal. 
 
Não professou qualquer religião e a sua filosofia chegou a ser 
identificada com o ateísmo, em virtude de considerar que Deus é o 
conjunto de tudo o que existe. Se foi ateu, foi um ateu religioso arrebatado 
pelo seu Deus filosófico, inteiramente infinito e que é causa de si próprio, 
porquanto a sua essência implica fatalmente a existência. Ele ama o seu 
Deus intelectualmente. 
 
Deus é a origem, o Ser gerador de todas as coisas e seres. A sua 
substância é a única realidade e o seu conhecimento o único conhecimento 
verdadeiro. Só há uma substância que é Deus ou a Natureza. O espírito 
humano tem conhecimento da eterna e infinita essência de Deus. E o 
conhecimento de Deus é o maior bem para o espírito e a sua mais elevada 
virtude. 
 
A vontade do homem é uma ilusão, tudo sendo vontade de Deus. 
 
A fé reconduz-se à obediência a Deus. Tanto o Antigo quanto o 
Novo Testamento mais não são do que disciplina de obediência. O único 
preceito que as Escrituras ensinam é o amor ao próximo, nisso consistindo 
o culto e a obediência a Deus. 
 
Entre a fé – vista como obediência – e a filosofia – razão –, não há 
qualquer afinidade, uma prosseguindo a obediência e a outra a verdade. 
 
Não há imortalidade pessoal – tal como apregoada pelo cristianismo 
–, mas antes uma imortalidade impessoal, que consiste numa progressiva 
união com Deus. 
 
O homem sábio, até onde lhe é permitido por via da sua limitativa 
finitude, deve esforçar-se por ver o mundo como Deus o vê, sob o aspecto 
primordial da eternidade. 
 
 
 
 137
 
 
 
 
LEIBNIZ 
 
 
Gotfried Leibniz nasceu em Leipzig no ano de 1646. Faleceu em 
1716. Defendeu uma tese de filosofia em 1663 e em 1666, uma de direito. 
 
Algumas obras: 
Confessio Philosophi – É uma profissão de fé do filósofo. Leibniz, 
interroga-se sobre a vontade divina, a existência do mal e do bem, do 
pecado. 
Discurso de Metafísica – Pretende explicar a Criação como acto de Deus. 
Da Origem Radical das Coisas – No Universo há ordem e Deus é o 
princípio de tudo, a razão da nossa existência. Na sua essência, existe uma 
pretensão de ser, que faz com que o mundo exista. 
Ensaios de Teodiceia sobre a Bondade de Deus, a Liberdade do Homem e 
a Origem do Mal – A Teodiceia – nova palavra do vocabulário filosófico – 
é a tentativa de isentar Deus dos muitos males do mundo. Deus é inocente 
(Platão) e criou o melhor dos mundos possíveis. 
Princípios da Natureza e da Graça Fundados na Razão – Síntese de toda a 
filosofia de Leibniz, nos domínios da metafísica, física e moral. 
Monadologia – É a obra mais importante da metafísica de Leibniz. De 
leitura obrigatória. 
Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano – Trata-se de uma crítica ao 
Ensaio sobre o Entendimento Humano, de Locke. 
Discute, nomeadamente, a doutrina da alma como “tábua rasa”, 
aproximando-se dos conceitos platónicos, obviamente negando a doutrina 
de Locke. O Livro I é dedicado às noções inatas, o II trata das ideias, o III 
das palavras – ou nomes das ideias – e o IV do conhecimento. 
Leibniz criticou com veemência o empirismo de Locke. Ao conceito de 
tabula rasa, respondia que “não existe nada no entendimento que precede 
os sentidos, a não ser o próprio entendimento”. 
 
Descartes admitiu três substâncias: Deus, espírito e matéria. 
Espinoza admitiu Deus e Leibniz um número infinito a que chamou 
mónadas. 
 
 138
O seu interesse fundamental objectivou-se na matemática e na física. 
Descobriu independentemente de Newton – este com dez anos de 
antecedência – o cálculo integral. 
 
Estabeleceu quatro argumentos para demonstrar a existência de 
Deus: o ontológico, o cosmológico, o das verdades eternas e o da harmonia 
preestabelecida. 
- Ontológico – Podemos conceber um Ser maximamente perfeito. 
De onde se segue que existe, porque a existência está entre onúmero das perfeições; 
- Cosmológico – Argumento da causa primeira. Se toda a coisa 
finita tem uma causa, não poderá manter-se uma sucessão infinita 
de causas. Haverá assim, uma causa sem causa, que é Deus. Em 
Leibniz, como tudo tem de ter uma razão suficiente, a do 
Universo será Deus; 
- Das verdades eternas – As proposições que respeitam à essência e 
não à existência, ou são sempre verdadeiras ou nunca o são. As 
que são sempre verdadeiras, são indubitavelmente verdades 
eternas; 
- Da harmonia preestabelecida – Pressupõe a aceitação das 
mónadas. Se os relógios marcam de forma igual o tempo sem 
intervenção causal, deverá existir uma causa que os regula do 
exterior. 
 
O Deus de Leibniz é um Ser absolutamente perfeito, de amor 
ilimitado. A sua essência contém a existência, pelo que “a possibilidade é 
suficiente para produzir realidade”. O procedimento de Deus não contraria 
os imperativos lógicos. 
 
O pensamento de Leibniz está enformado pela ordem, tecida de 
forma espontânea e livre – não necessária –, considerando que no mundo 
nada acontece de modo absolutamente irregular. Daqui decorre, que Deus, 
ao criar o mundo, podendo optar por uma forma ou por outra, sempre este 
estaria regulado por uma ordem de carácter geral. Não obstante, Deus, 
entre as várias ordens possíveis, fez a escolha mais perfeita – ou seja, a 
mais simples e mais rica de fenómenos. Assim, podendo criar uma 
infinidade de mundos, criou através de escolha incondicionalmente livre, o 
melhor. 
 
Deus é a causa livre do Universo. Daí a mais complexa das questões 
metafísicas: porque existe algo em vez de nada? 
 
 139
Deus, primeira razão das coisas, é um Ser necessário, perfeito, 
imbuído de amor infinito. Por via deste amor, criou como já se disse, o 
melhor mundo que poderia ter criado. 
 
Leibniz, distingue a vontade antecedente de Deus, da consequente, 
querendo a primeira o bem em si e a segunda o melhor. 
 
O pecado, ao fazer parte da vida, é permitido por Deus. Mas, não é 
por o permitir que é a sua causa ou o responsável pela sua existência. 
 
A alma é a mónada – vide Monadologia – que tem percepções 
distintas, acompanhadas de memória. 
 
 
 
LOCKE 
 
 
 
Locke nasceu em 1632 e faleceu em 1704. É considerado o apóstolo 
da revolução de 1688. 
 
Algumas obras: 
Carta sobre a Tolerância – O Estado deve ser laico e todas as religiões 
devem ser admitidas. O homem deve ser livre, quer na sociedade civil quer 
na religiosa. 
Ensaio sobre o Entendimento Humano – Obra dividida em quatro livros. O 
Livro I é uma crítica das ideias inatas, o II trata das ideias complexas que 
surgem a partir das simples, o III das funções da linguagem e o IV estuda 
os poderes do entendimento humano. 
 
Cristão, afirma por vezes que o testemunho da revelação é da certeza 
mais alta, para depois considerar que a revelação deve ser julgada pela 
razão. 
 
Defendeu a tolerância em todos os seus aspectos, nomeadamente a 
liberdade religiosa. É um crítico de Descartes. 
 
Empirista, influenciado por Hobbes, não atribui à razão os mesmos 
atributos daquele. Dá a primazia ao conhecimento intuitivo – que nos dá a 
resposta imediata ao facto do branco não ser negro e de que 4 é mais do 
que 2. Conhecemos a nossa própria existência por intermédio da intuição, 
 140
de Deus por meio da demonstração e das coisas sensíveis por meio da 
sensação. 
A realidade dos objectos é conhecida pela sensação. Não é a ideia 
que nos dá o conhecimento da coisa, mas antes esta, que produz a ideia em 
nós, já que não é forçoso que a existência de uma ideia no nosso espírito 
demonstre a existência do objecto dessa ideia – tal como a fotografia de um 
homem não demonstra que está vivo e pode ser objecto de percepção. 
Apesar do conhecimento das coisas exteriores não ser tão certo como 
o que temos de nós mesmos – conhecimento intuitivo –, não deixa de ser 
conhecimento. 
 
No que a Deus respeita, adopta com algumas correcções o argumento 
causal, considerando que do nada nada advém. Se algo existe, e existe, 
porque tenho um conhecimento intuitivo da minha existência, é como 
consequência de qualquer outra coisa. Na impossibilidade de ascendermos 
ao infinito, somos forçados a admitir que um ser eterno gerou todas as 
coisas cuja existência é indubitável. Ser eterno, que produziu pela sua 
inteligência o homem e todas as forças que agem na natureza, sendo 
obviamente mais inteligente do que toda a criação. Deus, é pois, eterno, 
omnipotente, inteligentíssimo. 
Apesar de tudo – dos limites reais e imperfeições da razão –, a fé, 
que se fundamenta na revelação, não a dispensa, mas é a razão que a 
contém nos seus devidos limites. A luz do espírito é a evidência que a razão 
atribuiu a uma determinada proposição, razão essa, que deve ser quer o 
nosso juiz, quer o nosso guia. 
 
Admite que a cultura é um bem, mas que é preferível ser-se virtuoso 
a erudito – muito estúpido será quem não estime mais um homem virtuoso 
do que um grande erudito. 
 
 
 
BERKELEY 
 
 
 
Jorge Berkeley, empirista, nasceu em 1685. Estuda no colégio de 
Kilkenny, e depois no Trinity College da cidade de Dublin, onde foi 
nomeado fellow em 1707. A partir desta altura – como atesta o seu diário –
, já está na posse das ideias mestras da sua filosofia. 
 
 
 141
Algumas obras: 
Tratado dos Princípios do Conhecimento Humano – É uma crítica à 
linguagem e às ideias abstractas produzidas pela filosofia. Não há realidade 
que independa do espírito que a percepciona. Berkeley é um imaterialista. 
Três Diálogos entre Hilas e Filonous – Berkeley procura nesta obra 
sintetizar toda a sua doutrina, sistematizando-a. Intenta demonstrar que 
renunciando à ilusão da matéria – ou seja, à existência de uma substância 
material que é independente da mente que a percepciona – não “destrói” o 
mundo e as suas inerentes qualidades. 
Alciphron ou o Pense-Menu – Aqui, desfere um ataque cerrado contra os 
filósofos materialistas e que negam a existência de Deus. 
 
Foi o primeiro filósofo que evidenciou o facto, ou melhor, a hipótese, 
de que os objectos imediatos dos nossos sentidos não têm existência 
independente do observador. Observando o mesmo objecto, Berkeley não 
nega a sua existência, mas vai reduzi-lo a uma ideia no espírito de Deus. Já 
Leibniz, afirma que é uma “colónia de almas” – por seu turno, a ciência 
define-o como um conjunto de cargas eléctricas violentamente agitadas, 
movimentando-se provavelmente a uma velocidade idêntica à da luz. 
 
Apesar de ter negado a matéria, admitiu a realidade do espírito 
infinito de Deus, que não é redutível a qualquer ideia. Os objectos só 
existem quando percepcionados. mas, não deixam de ter existência caso 
ninguém os percepcione, já que Deus percebe todas as coisas – “Se uma 
árvore cai na floresta e não há ninguém para ouvir, existirá o barulho?” 
Berkeley responderia: - Deus. 
 
A sua filosofia é um não materialismo, e como Locke afirma que as 
ideias para existirem têm de ser percepcionadas. Estas ideias são inactivas, 
sendo activo o espírito que as venha a possuir e são em nós produzidas por 
Deus. 
 
Deus tem o conhecimento de tudo aquilo que é objecto da nossa 
percepção. Não sendo a matéria real – o que torna útil a existência de Deus 
–, somos forçados a recorrer ao Ser supremo para podermos explicar a 
existência, quer das nossas ideias quer das coisas sensíveis. 
 
Na sua perspectiva, a alma é imortal. 
 
 
 
 
 142
 
HUME 
 
 
 
David Hume nasceu em Edimburgo, no ano de 1711. Faleceu em 
1776. 
Fracassou na carreira comercial Foi nomeado bibliotecário em 
Edimburgo, como consequência dos seus Ensaios Filosóficos. No ano de 
1763 foi nomeado secretário da embaixada de Inglaterra em paris, cidade 
onde se relacionou com Rousseau. 
 
Pode ser considerado o filósofoda natureza humana, que é na sua 
perspectiva a única ciência do homem. 
 
Algumas obras: 
Tratado da Natureza Humana – Obra composta por três livros: 
- Livro I – Teoria do entendimento; 
- Livro II – Das Paixões; e 
- Livro III – Da Moral. 
Ensaios Políticos 
Investigação sobre o Entendimento Humano – Nesta obra, Hume, investiga 
os poderes do entendimento humano. 
Investigação sobre os Princípios da Moral 
Dissertação sobre as Paixões 
Diálogos sobre a Religião Natural – Diálogo que tem como objecto o 
método mais seguro para ascender ao conhecimento da existência de Deus 
e das suas qualidades. 
Ensaios Estéticos 
 
Contrariamente a Locke e a Berkeley, reduziu na íntegra a realidade 
à multiplicidade das ideias actuais, nada admitindo para além delas – v.g. 
Deus. 
 
A religiosidade tem a sua origem nos factos da vida, nos próprios 
medos do homem. Reconhece na divindade a infinitude e a perfeição, 
conduzido não por uma investigação racional, mas porque quer ser aliviado 
dos males que o atormenta, tornando-a propícia ou benéfica. Ora, à medida 
que ansiedade e medo se manifestam com maior intensidade, inventam os 
homens novas formas de culto e louvor, que mais é uma verdadeira 
adulação. A divindade vai amontoando títulos e poderes no decorrer dos 
tempos, já que cada religião prossegue como objectivo sobrepujar as que a 
 143
precedem. Deste modo, os homens avançam até onde lhes é permitido, ou 
seja, até ao infinito. Se a reflexão filosófica se atém ao monoteísmo, não 
impede o recaimento no politeísmo, admitindo seres intermédios entre 
Deus e os homens, que se transformam em objectos primordiais de culto e 
que conduzem inevitavelmente à idolatria. 
 
O todo é para Hume, um enigma, um mistério absolutamente 
inexplicável. A dúvida, a incerteza e a suspensão do juízo, apresentam-se 
como os únicos resultados das múltiplas investigações em torno desta 
questão. 
 
 
 
VOLTAIRE 
 
 
 
François Marie Arouet, que adoptou o nome de Voltaire, nasceu em 
1694 e faleceu em 1778. 
Foi um dos mais célebres iluministas, cuja divisa era: “Tem coragem 
para te servires do teu intelecto”. 
 
Algumas obras: 
Cartas Filosóficas – Nas primeiras cartas, Voltaire critica o Catolicismo e 
os seus sacerdotes. 
Cândido – Será este o melhor dos mundos? – pergunta-se. Há uma crítica 
às instituições políticas e religiosas. 
Tratado sobre a Tolerância – Voltaire julga a intolerância absurda e 
horrível. 
 
É um humorista satírico, que não aceita e ironiza, quer a Escolástica 
quer a religião tradicional. Anticristão, considerava-se deísta – entende-se 
por deísmo toda a doutrina que admite a existência de um Deus, mas sem a 
referir a qualquer religião revelada. 
 
O homem se pensar unicamente em si, não está a pensar em nada, 
diz. E não pensa em nada, porquanto está inelutavelmente ligado ao 
mundo, por uma condição que coabita quer com o bem quer com o mal, 
realidades inexplicáveis à luz da razão. 
 
Acreditava que se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo. 
Porém, toda a natureza proclama e atesta a sua existência. 
 144
 
Deus é o autor da ordem no mundo físico. Limitou-se a colocar os 
homens e animais na superfície terrestre, devendo estes conduzir-se, 
segundo a sua natureza, da melhor forma possível. 
 
Relativamente ao terramoto de Lisboa ocorrido em 1755, escreveu 
um poema, no qual exprimia as suas dúvidas quanto à regência 
providencial do mundo, o que mereceu uma resposta algo dura de 
Rousseau. 
 
Não determina os atributos de Deus, e não afirma peremptoriamente 
que o Ser seja perfeito, não admitindo outrossim, que intervenha nos actos 
do homem. 
 
 
 
ROUSSEAU 
 
 
 
Jean-Jacques Rousseau, nascido em 1712 e falecido em 1778, é um 
iluminista que atribui à natureza humana, ao invés da razão, factores como 
o instinto e o sentimento. 
 
Algumas obras: 
Discurso sobre as Ciências e as Artes; Discurso sobre a Origem e os 
Fundamentos da Desigualdade entre os Homens; Carta a D´Alembert 
sobre os Espectáculos; 
Do Contrato Social – A obra mais conhecida do filósofo e que incide sobre 
a teoria das instituições; 
Emílio – Aqui é exposta a teoria do filósofo acerca da educação, 
completando a Nova Heloísa (teoria da família) e o Contrato Social; 
Cartas Escritas da Montanha – Nesta obra defende a religião natural; 
Ensaio sobre a Origem das Línguas; Escritos sobre o Abbé de Saint-Pierre 
Rousseau Juiz de Jean-Jacques, Diálogos – O filósofo pretende responder 
à questão : “Quem sou eu?” 
 
Por vezes, lembra Pascal na análise pessimista que faz do homem. 
Diz que o homem apesar de ter nascido livre, ainda assim, se encontra 
acorrentado por toda a parte. 
 
 145
Entende o progresso como um retorno às origens, ou seja, à natureza, 
já que o conhecimento, o luxo, a arte, em nada contribuíram para a 
felicidade e virtude da comunidade humana, o mesmo ocorrendo com o 
aparecimento da propriedade – que gerou o binómio ricos/pobres –, a 
instituição da magistratura – que determinou a existência de poderosos e de 
fracos – e do poder arbitrário – com a instituição de patrões e escravos. 
 
Para Rousseau, a existência de Deus é o primeiro dos dogmas da 
religião natural. Nasce da necessidade de admitir uma causa animadora da 
matéria, assim como, de decifrar a ordem existente no Universo. 
O segundo dogma é a espiritualidade, enquanto liberdade da alma, 
incorpórea e imortal. Para prova da imortalidade da alma, basta-lhe a 
constatação do triunfo dos maus e da opressão dos justos neste mundo – o 
que só pode entrar na ordem com a morte, com a consequente punição dos 
iníquos e retribuição dos justos, restabelecendo-se assim a desarmonia 
gerada em vida no Universo. 
 
Rousseau respondeu ao poema de Voltaire sobre o terramoto 
ocorrido em Lisboa no ano de 1755 – onde este punha em dúvida o 
governo providencial do mundo –, dizendo: “Voltaire, parecendo crer em 
Deus, nunca acreditou senão no Diabo, pois pretende que Deus é um ser 
maléfico que se compraz em fazer dano.” 
 
 
 
KANT 
 
 
 
Immanuel Kant nasceu em 1724 e faleceu no ano de 1804. Viveu em 
Konigsberg. 
 
Tem sido considerado o maior filósofo da modernidade, não obstante 
a existência de algumas vozes discordantes. 
 
Apesar de ter sido educado com a filosofia de Leibniz, acabou por 
ser influenciado por Rousseau e por Hume – este, que nas suas próprias 
palavras, o terá despertado do seu sono dogmático. 
 
Era liberal e sentia-se atraído pela democracia. 
 
 
 146
Obras principais: 
Crítica da Razão Pura – É a obra principal de Kant. Nela, o filósofo 
pretende reabilitar a razão – por intermédio de um “tribunal”, que é a 
crítica da própria razão pura – contra o cepticismo. 
Crítica da Razão Prática – Também uma das principais obras de Kant, que 
intenta descortinar o modo como a vontade pura pode ter interesse na lei 
moral. 
Nestes escritos, surgem-nos os postulados da razão prática, que entram em 
domínios vedados à razão teórica, v.g., a existência de Deus e a 
imortalidade da alma. 
Prolegómenos a toda a Metafísica Futura que possa apresentar-se como 
Ciência – Trata-se de uma exposição facilitada da filosofia de Kant, talvez 
para alargar o número de leitores – o que apesar do valor da obra, acabou 
por não atingir os objectivos pretendidos. 
Outras obras: 
História Geral da Natureza e Teoria do Céu; Considerações sobre o 
Optimismo; O Conceito de Grandeza Negativa; Observações sobre o 
Sentimento do Belo e do Sublime; Sonhos de um Visionário explicados 
pelos Sonhos da Metafísica; Dissertação de 1770; Ideia de uma História 
Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita; Fundamentação da 
Metafísica dos Costumes; Primeiros Princípios Metafísicos da Ciência da 
Natureza; O que Significa Orientar-se no Pensamento; Crítica da 
Faculdade de Julgar; A Religião nos Limites daSimples Razão; Projecto 
de Paz Perpétua; Antropologia do Ponto de Vista Pragmático; O Conflito 
das Faculdades; Lógica; Reflexões sobre a Educação. 
 
Escreveu inicialmente obras de carácter científico, nomeadamente a 
História Geral e Natural e Teoria dos Céus, editada em 1755. 
 
A obra filosófica mais conhecida e de enorme importância na história 
do pensamento, é a Crítica da Razão Pura, que pretende demonstrar, que 
embora não haja conhecimento que transcenda a experiência, é em parte a 
priori e não de modo indutivo derivado daquela. Definiu dois tipos de 
julgamento: o analítico e o sintético. No primeiro, a verdade pode ser 
determinada dentro de si mesma, tal como na afirmação de que “todas as 
casas pretas são pretas”. No segundo, a verdade está para além de si, como 
por exemplo, quando se afirma que a casa é preta. Refere ainda o 
conhecimento a priori e a posteriori. No primeiramente enunciado, a 
afirmação de que todas as casas pretas são pretas, não necessita da minha 
percepção para que seja confirmado, contrariamente à afirmação de que “a 
casa é preta” – neste caso preciso de ver a casa para determinar a sua cor. 
O conhecimento transcendental é um conhecimento a priori, que contém 
uma dada informação que reconhecemos de imediato como verdadeira. Já o 
 147
conhecimento empírico, é um conhecimento a posteriori, sendo necessário 
confirmar a sua veracidade. O mundo fenomenal é o mundo que 
experimentamos por intermédio dos nossos sentidos, enquanto que o 
mundo numénico – coisa-em-si – é a realidade que está para além do 
mundo fenomenal – Kant acreditava que temos uma noção intuitiva acerca 
da natureza do mundo numénico (metafísico). O nosso conhecimento não é 
assim obtido, apenas por intermédio dos nossos sentidos – empirismo – ou 
por intermédio da razão – racionalismo. 
 
 Para Kant, Deus não é objecto de conhecimento e a teologia não 
passa de conversa fútil. 
 Quando muito, Deus pode ser uma ideia pura da razão, não 
demonstrável, postulado e não cognição da ordem moral da razão prática. 
 
Na Crítica da Razão Pura, destrói com notável destreza as provas 
racionais da existência de Deus, que na sua perspectiva, são três: a 
ontológica, a cosmológica e a físico-teológica. 
Há no seu entender, outros fundamentos idóneos ao estabelecimento 
da crença, e esses são enunciados na Crítica da Razão Prática. 
 
Vejamos uma síntese dos seus argumentos atinentes aos mencionados 
argumentos racionais, conforme expendida por Bertrand Russell: 
- A ontológica define Deus como ens realissimum, o ser mais real, 
isto é, sujeito de todos os predicados que lhe pertencem 
absolutamente. Afirmam os que a julgam válida que sendo a 
existência um predicado, tal sujeito deve ser esse predicado, isto 
é, deve existir. Kant objecta que a existência não é um predicado. 
Cem talers imaginados, diz ele, têm os mesmos predicados de 
cem talers reais. 
- A prova cosmológica diz: Se alguma coisa existe, existe um ser 
absolutamente necessário; ora eu sei que existo, portanto um ser 
absolutamente necessário existe e deve ser o ens realissimum. 
Kant afirma que o último passo do argumento é novamente o 
ontológico já rejeitado. 
- A prova físico-teológica é o argumento do plano mas em traje 
metafísico. Afirma que o Universo revela uma ordem, 
demonstrativa de propósito. Kant trata com respeito este 
argumento, mas nota que quando muito demonstra um 
Arquitecto, não um Criador, e não dá portanto uma concepção 
adequada de Deus. Conclui que a única teologia possível da 
razão é a baseada em leis morais ou guiada por elas. 
 
 148
 Para Kant, Deus e imortalidade são verdadeiramente ideias da razão, 
sem que esta possa demonstrar a sua realidade. São ideias práticas 
directamente relacionadas à moral. 
 As propriedades metafísicas da alma – simplicidade, 
substancialidade, espiritualidade, imortalidade – não são objecto do 
conhecimento. 
 
 Considera que há Deus e uma vida para além da morte, porquanto 
deve existir uma felicidade que seja proporcional à virtude, felicidade esta, 
que só a providência pode assegurar. 
 
 
 
HEGEL 
 
 
 
Mais do que Fichte e Schelling – também filósofos do Idealismo 
Germânico –, foi Hegel quem desenvolveu a filosofia kanteana, não 
obstante discordasse de muitas das suas ideias. Teve como objectivo 
estabelecer uma escola filosófica capaz de explicar cabalmente a 
experiência no seu aspecto total, em função do passado, presente e futuro, 
ou seja, do tempo. 
Será interessante realçar, que Fichte julgou ser o seu próprio criador, 
assim como a existência do mundo é uma criação sua – penso, logo tudo 
existe. 
 
Nasceu no ano de 1770 e faleceu em 1831. 
Como já se disse, sofreu uma marcante influência de Kant, e 
influenciou os principais filósofos de língua inglesa. 
Ensinou filosofia em várias universidades, tendo terminado a sua 
vida em Berlim. 
 
É talvez, de todos os que reputamos como grandes filósofos, o mais 
difícil de compreender. A tentativa de compreensão da realidade por 
intermédio de escritos algo obscuros teve como consequência o facto de 
alguns filósofos afirmarem que o compreenderam sem que o tivessem 
compreendido, enquanto outros, afirmaram a impenetrabilidade parcial das 
suas doutrinas para além de as julgarem pouco convincentes. Eu, 
pessoalmente, julgo que não o compreendo, e desse facto desde já vos 
alerto. 
 149
Parece-me que a sua tese principal se prende com o facto de que 
qualquer parte do todo, é sempre uma fracção deste, cuja existência 
depende do relacionamento que mantém inelutavelmente com as outras 
partes. Daqui se depreende, que pelo conhecimento de uma parte em 
especial, se conhece o geral, o todo, em virtude de cada parte estar 
intimamente ligada a todas as outras partes, sempre com ligações 
sucessivas. Da reconstituição destes relacionamentos, o homem pode 
ascender à imagem do Universo na sua completude – o que ocorre tanto no 
mundo dos objectos materiais quanto no mundo dos pensamentos. 
No que toca ao mundo do pensamento, tomada uma ideia abstracta, 
verificamos de imediato as contradições a que conduz. Ora estas 
contradições modificam-se na ideia oposta – antítese. Daí, vamos buscar 
uma nova ideia, que seja mais perfeita, e que no fundo, só pode ser a 
síntese da tese – da ideia original – e da sua antítese, e assim 
sucessivamente, atingindo o processo dialéctico a Ideia Absoluta – que não 
tendo oposto, desobriga-nos de novos procedimentos – que representa a 
realidade absoluta. 
Ora, se viermos a atingir o Todo, tal como pensamos que Deus o 
atinja ou percepcione, verificaremos que “o espaço, o tempo, a matéria, o 
bem, o mal, desaparecerão, dando lugar a uma unidade espiritual, eterna, 
imutável e perfeita”. 
 
Obras principais: 
A Fenomenologia do Espírito – É a história da consciência, da alma 
transformada em consciência e da própria consciência nos seus momentos 
de desenvolvimento. 
Obra de grande importância no panorama do pensamento humano, mas de 
difícil leitura e compreensão. 
Princípios da Filosofia do Direito – Texto que teve a sua origem no ensino 
do filósofo, e que pretende unificar o Direito e a Moral, o objectivo e o 
subjectivo. 
No prefácio, Hegel diz-nos que a filosofia é o conhecimento daquilo que é 
e não daquilo que o mundo deve ser. 
Outras obras: 
A Ciência da Lógica; Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Epítome; 
Estética; Lições sobre a Filosofia da Religião; Lições sobre a História da 
Filosofia – 1833 a 1836; Lições sobre a História da Filosofia – 1837; 
Conferências sobre as Provas da Existência de Deus; Propedêutica 
Filosófica. 
 
Para Hegel, a realidade é o Espírito Absoluto – existe aqui um 
manifesto monismo, ou seja, a realidade é composta por um único 
elemento. Se o Absoluto, em termos físicos é a natureza – o mundo –,já na 
 150
sua forma espiritual, é a mente do ser humano. Apenas o todo é real, e o 
real é racional, bem como o racional é real. O todo é o Absoluto que evolui 
pela síntese, melhor, pelo conflito dos opostos – a tese ao encontrar o seu 
oposto, a antítese, atinge a síntese, encontrando esta por sua vez, a sua 
própria antítese, produzindo uma nova síntese, e assim sucessivamente. A 
capacidade intelectiva do homem, faz com que o Absoluto atinja o 
autoconhecimento – será que desta forma, o homem é partícipe no 
complexo processo da criação de Deus? 
 
Deu uma grande importância à lógica. O seu processo dialéctico 
celebrizou-o. A dialéctica é composta por tese, antítese e síntese. Sigamos 
o seguinte exemplo, citado por Russell: 
“O Absoluto é Ser puro”. Admitamos este “é” sem designar quaisquer 
qualidades. Mas, o puro ser sem qualidades é nada, o que leva à antítese, 
“O Absoluto é nada”. 
Da tese e da antítese passamos à síntese. A união de ser e não ser é 
evolver, e assim diremos, 
“O Absoluto é evolver”. 
Mas também não basta, porque tem de haver alguma coisa que evolva. 
Para chegar à verdade é necessário seguir todos os passos da dialéctica. 
O processo dialéctico tem três destinos essenciais: 
- a arte – por esta, é-nos demonstrada a beleza das formas materiais 
do Absoluto; 
- a filosofia – é por esta, estribados na razão, que reconhecemos o 
Absoluto; 
- a religião – aqui fica determinado que o cristianismo é a melhor 
das religiões – a encarnação representa uma expressão dos 
aspectos finitos e infinitos do Absoluto, atingindo-se deste modo a 
síntese. 
 
Em filosofia a verdade é o todo, nenhuma parte podendo ser verdadeira. 
A Ideia Absoluta, é pensamento puro que se pensa a si mesmo. 
 
 
 
SCHOPENHAUER 
 
 
 
Schopenhauer é um pessimista – ao contrário da quase totalidade 
dos filósofos –, que afirma ter sido influenciado por Kant, por Platão e 
 151
pelos Upanishades. Filósofo com aversão ao cristianismo, deu preferência 
às religiões orientais, fundamentalmente ao Hinduísmo e ao Budismo. 
Não tinha grande apreço por Hegel e procurou destruir os princípios 
da sua filosofia. Mas, tal como Hegel, pode ser considerado ateu, só que 
este, deve ser considerado um ateu optimista. 
Os dois pontos fulcrais da filosofia de Schopenhauer, são o 
pessimismo e a tese de que a vontade é manifestamente superior ao 
pensamento. 
 
Algumas obras: 
O Mundo como Vontade e Representação – O mundo tal como o 
percepcionamos é nossa representação, sem realidade em si mesmo. Mas, a 
vontade é o conhecimento a priori do corpo e o corpo o conhecimento a 
posteriori da vontade – o corpo é a objectividade da vontade. 
Aforismos sobre a sabedoria na Vida – Fazem parte da obra Parerga e 
Paralipomena. Obra repleta de excelentes meditações e análises brilhantes. 
Parerga e Paralipomena – que significa suplementos e omissões, é a 
reunião de vários ensaios. 
Foi por intermédio destes escritos que o filósofo atingiu a fama, e não 
como preconizara, pela sua obra de referência, O Mundo como Vontade e 
Representação. 
Da Quádrupla Raiz do Princípio da Razão Suficiente 
Ensaio sobre o Livre arbítrio 
O Fundamento da Moral 
 
Deu uma grande importância à sua obra O Mundo como Vontade e 
Representação, tanta, que chegou a afirmar que alguns dos parágrafos 
derivavam directamente do Espírito Santo. No entanto, não teve a mesma 
divulgação e a fama que tão ardentemente aspirava. 
 
Apesar de influenciado por Kant, identifica a coisa-em-si, com a 
vontade. A sua vontade é una e está para além do tempo; identifica-se com 
a do universo. O seu pensamento poderia conduzir a uma identificação 
desta vontade com Deus – aproximando-se da especulação de Espinoza 
relativa ao panteísmo, em que a virtude é o reflexo da conformidade da 
vontade humana com a vontade divina. Mas, o filósofo é pessimista e esta 
vontade cósmica é maléfica, perversa, causa do padecimento humano – a 
vontade na natureza manifesta-se pelo instinto de sobrevivência. Assim, 
quanto menos exercitarmos a moral, menos padeceremos. 
 
Considerava o Budismo a religião mais elevada – já o Islamismo 
afigurava-se-lhe odioso – e o Nirvana – a extinção no sentido específico 
que lhe atribui – o melhor de todos os mitos. O santo deve buscar a não-
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existência, mas não pelo suicídio. O homem deve dedicar-se ao ascetismo, 
mas não com o intuito de atingir Deus – o bem que busca, não é assim 
positivo, mas negativo. 
 
A vida é sofrimento; os desejos são fonte de dor. Quanto maior o 
conhecimento humano, mais se sofre. O próprio amor é uma ilusão, que 
reduzido à sua causa primeira, reflecte única e exclusivamente a vontade de 
sobreviver por intermédio da procriação. 
 
Define a estética como imersão integral na contemplação da beleza. 
 
Defende a existência de uma ética estruturada na compaixão e na 
abstenção do indivíduo, entendida como negação de si – esta negação 
prosseguiria a neutralização da detestável vontade. 
 
Embora pela morte se atinja o termo, continuamos a ocupar-nos com 
futilidades, como quem sopra até aos seus limites, uma bola de sabão, 
sabendo que a mesma acabará por rebentar. 
 
 
 
NIETZSCHE 
 
 
 
Nasceu em 1844 e faleceu em 1900. Afirmou ser sucessor de 
Schopenhauer, mas parece-nos, quer mais pessimista quer mais ateu. É um 
filósofo controverso, que não foi convenientemente entendido no decurso 
da história. Foi nomeadamente mal interpretado por Hitler e por Mussolini, 
mais por culpa da sua irmã, fascista e anti-semita, amiga de ambos, do que 
por culpa própria. 
Foi um pensador com características provocatórias, e que apesar de 
não pertencer a nenhuma escola filosófica específica, teve a eloquência 
necessária para influenciar muitos filósofos posteriores. 
 
Algumas obras: 
É essencialmente conhecido pela negação da “moral escrava”, uma moral 
tradicional estribada no Cristianismo – gerada por um povo de reconhecida 
fraqueza. 
O Super-Homem é o ser criativo e enérgico, que suplanta essa mísera 
“moral escrava” 
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A Origem da Tragédia; O Livro do Filósofo; Considerações Intempestivas; 
Humano, Demasiado Humano; Aurora; Assim falava Zaratustra; A Gaia 
Ciência; Para Além do Bem e do Mal; A Genealogia da Moral; O 
Crepúsculo dos Ídolos; A Vontade de Poder; O Nascimento da Filosofia na 
Época da Tragédia Grega; O Anti-Cristo; Ecce Homo. 
 
Tanto o Cristianismo quanto a civilização ocidental constituíram-se 
como objecto principal das suas críticas. 
 
Afirmou que “Deus está morto”, o que lhe causou inúmeros 
problemas. 
 
Teve uma vida simples. Nervoso, constantemente doente, 
enlouqueceu no ano de 1888. 
 
Foi um crítico do Romantismo e teve uma opinião negativa de Kant. 
 
Podemos considerá-lo um crítico ético da religião e dos sistemas 
filosóficos. 
 
Tem uma enorme aversão ao Novo Testamento, mas admira e exalta 
o Velho. 
 
Despreza as mulheres e exerce uma profunda crítica sobre o 
Cristianismo. As mulheres são gatas, aves ou vacas – “o homem deverá ser 
preparado para a guerra e a mulher para passatempo do guerreiro, tudo o 
mais é pura loucura.” 
O Cristianismo é uma moral de escravos, ensinando os homens a 
vergarem-se a uma suposta vontade de Deus, transformando os crentes em 
ovelhas. 
A ética cristã tem por finalidade controlar uma populaça cheia de 
medos e de superstições, sendo a “culpa” a sua arma mais poderosa. Não se 
limita a atacar a instituição em si, atacando também os sacerdotes, que são 
covardes a exercer os seus poderes sobre uma multidão ainda mais covarde. 
Em vez do santo, Nietzsche prefere o homem nobre que não se submete a 
qualquer poder. O Super-Homem de Nietzsche, era todo o ser humano 
capaz de se elevar acima do rebanho, rejeitando submissão e passividade, 
realizando-se neste mundo sem a esperança vã de um qualquer outro, 
ilusóriopor natureza – o reino dos céus. 
Existem no seu entender duas espécies de santos: os que o são por 
natureza e os que aparentam sê-lo por medo – são estes últimos os visados 
nos violentos ataques do filósofo. 
 
 154
Em Nietzsche há uma ausência de simpatia pelo próximo, ao 
contrário do que ocorre com o Cristianismo e com o Budismo. 
 
 
 
BERTRAND RUSSELL 
 
 
 
Russell nasceu em 1872 e faleceu em 1970. 
É um filósofo da pós-modernidade, cujos interesses principais são a 
lógica, a epistemologia e a metafísica, sem olvidar a matemática, ciência 
em que se licenciou no Trinity College, em Cambridge. Foi laureado com o 
prémio Nobel da literatura em 1950. 
 
Algumas obras: 
Principia Mathematica; O Método Científico em Filosofia; Introdução à 
Filosofia matemática; Ciência e Religião; Significado e Verdade; Os 
Problemas da Filosofia; O nosso Conhecimento do Mundo Exterior. 
 
Afirmou que três paixões simples mas intensas, governaram a sua 
vida: o desejo de amor, a busca do conhecimento e uma enorme e 
insustentável compaixão pelo sofrimento dos seres humanos. 
 
Ficou fundamentalmente conhecido, pela sua História da Filosofia 
Ocidental, e pelas teorias do atomismo lógico e das descrições. 
A primeira teoria, defende que a linguagem pode ser analisada em 
átomos fundamentais de significado, verdadeiros blocos de construção com 
os quais todas as afirmações são construídas. A partir desta análise, pode 
proceder-se a uma análise do mundo, de molde a que os átomos lógicos 
correspondam a átomos metafísicos – factos. 
A segunda, prende-se com a verdade das declarações. Se eu afirmar 
que o primeiro-ministro francês é louco, apenas terei de o constatar. Mas, 
se afirmar que o “primeiro-ministro da cidade de Seia é louco”, verifico 
que algo terá a propriedade de ser primeiro-ministro em Seia, e esse algo 
tem a propriedade de ser louco. Agora, resta-me correr mundo, buscando 
alguém que tenha em si as duas propriedades enunciadas. Se o encontrar a 
proposição será evidentemente verdadeira, se não o encontrar – como não 
encontrarei –, será obviamente falsa, mas sem que possamos afirmar que 
não tem qualquer significado. 
 
 155
O homem aceita as religiões, não por motivos racionais, mas 
meramente emocionais, fundamentados no temor. Medo do desconhecido e 
da insegurança. medo do mistério, da infelicidade e da morte. E o medo 
gera a crueldade, motivo pelo qual esta caminha de mãos dadas com a 
religião – até uma análise superficial da história o confirma. 
 
Bertrand Russell – Porque Não Sou Cristão – afirma que para se ser 
cristão é necessário que acreditemos em Deus, na sua imortalidade, e em 
Cristo. No caso deste último, devemos ter como base fundamental a crença 
de que podendo não ser de essência divina – rejeitando-se assim, a 
doutrina da Trindade –, será pelo menos, o melhor e mais sábio dos 
homens – pergunto se poderá haver cristianismo sem assentimento do 
dogma da ressurreição? 
Russell não crê em Deus e na sua imortalidade, como também não 
acredita que Cristo tenha sido o melhor dos homens, ainda que lhe 
reconheça um grau elevado de virtude moral. Referindo-se ao Cristo dos 
Evangelhos, e não ao Cristo histórico, de cuja existência tem dúvidas, 
começa por enaltecer alguns dos seus preceitos, para depois se referir às 
imperfeições dos seus ensinamentos e analisa os problemas morais, 
enunciando os que reputa defeituosos – e são bastantes, nomeadamente, a 
crença no Inferno, em especial para os que não apreciavam as suas 
palavras, a parábola da figueira e da vara de porcos. Num plano moral 
superior ao de Cristo, estabelece Buda e Sócrates. 
 
Buscou destruir alguns dos muitos argumentos aduzidos pela Igreja, 
na tentativa desta de afirmar racionalmente a existência de Deus. 
ARGUMENTO DA CAUSA PRIMEIRA – 
Se tudo o que existe no mundo tem uma causa, percorrendo a cadeia de 
causas, não poderemos ascender ao infinito, motivo pelo qual chegaremos 
fatalmente à Causa Primeira, ou seja, Deus. É um argumento sem validade. 
Se tudo tem uma causa, também Deus a deve possuir – Quem criou Deus? 
–, e se algo existe sem causa, tanto pode ser o mundo como Deus. Não há 
nenhuma razão que impeça que mundo tenha surgido sem qualquer causa, 
bem como para o facto de ser eterno. 
ARGUMENTO DA LEI NATURAL – 
As leis naturais constituem-se como uma descrição do modo como a 
realidade se comporta, e é de todo desnecessário sustentar que existe 
alguém ou algo que o imponha. E se o impõe, porque imporá estas e não 
outras, definidoras do melhor dos mundos, que não é este? 
ARGUMENTO DO PLANO OU TEOLÓGICO – 
Por este argumento afirma-se que tudo no mundo está disposto de modo a 
permitir a nossa existência, e caso fosse ainda que ligeiramente diferente, 
tal não ocorreria. Não haverá ninguém de boa-fé, que possa acreditar que 
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este mundo, que evolui há milhares de milhões de anos, com todas as suas 
imperfeições e defeitos, tenha sido a melhor produção possível de um Ser 
omnipotente e omnisciente. 
ARGUMENTO MORAL A FAVOR DA DIVINDADE – 
Existem três argumentos intelectuais a favor da existência de Deus, que 
foram contrariados por Kant, na Crítica da Razão Pura: o Argumento 
Ontológico, o Cosmológico e o Físico-Teológico – ver Kant. 
Mas, criou um novo argumento de carácter moral – ver Kant, Crítica da 
Razão Prática –, que numa das suas formulações afirma que não existiria o 
mal ou o bem se Deus não existisse. Será que a distinção entre estas duas 
realidades se deve a um desígnio divino? Se se deve a um desígnio divino, 
é concebível a criação do mal por um ser absoluta e eminentemente bom? 
ARGUMENTO QUANTO À REPARAÇÃO DA INJUSTIÇA – 
Considera-se por este argumento, que a existência de Deus é necessária 
para introduzir a justiça no mundo. Só que no nosso mundo reina a 
injustiça, pelo que necessitamos de um Deus, de um Paraíso e de um 
Inferno para que a justiça seja restabelecida. A existência de tantas 
injustiças no nosso planeta – inibo-me de enunciar factos notórios –, é um 
argumento contra a divindade e não a seu favor. 
 
Haverá vida depois da morte? “Os filósofos costumavam pensar que 
existiam substâncias definidas – a alma e o corpo – que permaneciam 
idênticas; que a alma uma vez criada, continuava a existir por todo o tempo 
futuro, enquanto que o corpo cessava temporariamente, com a morte, até à 
ressurreição da carne.” 
No entanto, no que toca ao espírito – sem que nos debrucemos aqui, 
por desnecessário, do corpo –, a continuidade mental de um indivíduo é de 
hábitos e de memória. Se sobreviver à morte, estes irão ter continuidade na 
nova existência, o que é de todo improvável por estarem ligados ao 
cérebro, que se decompõe com a morte, e nesta decomposição é de todo 
lógico que os seus processos também se decomponham. É assim, muito 
pouco provável que o espírito perdure para além da morte. 
Tal como no domínio da religião, não são argumentos racionais, mas 
também emoções, que instigam os homens a acreditar numa “vida” depois 
da morte, sendo a mais insistente de todas, o medo – já que todo aquele que 
esteja absolutamente certo da existência numa vida futura, não deverá 
temer a morte. 
 
O mundo é o resultado de um acidente, ou caso resulte de um 
propósito específico, deverá ter tido origem num demónio, diz de modo 
irónico. Julga o acidente a hipótese mais plausível e menos penosa. 
 
 
 157
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 
 158
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
 
 
Em filosofia, ou melhor, na vida, todo o problema 
independentemente da sua maior ou menor complexidade, deve ser 
abordado sem quaisquer condicionamentos, crenças ou ideologias. Quando 
nos libertamos das influências religiosas, filosóficas, das inúmeras 
impressões residuais da nossa mente, paraalém de nos vermos tal qual 
somos, temos a objectividade necessária para a sua resolução, avaliando os 
factos de modo imparcial, sem a contaminação de uma visão nocivamente 
interpretativa. A maioria dos filósofos, que negaram por via da razão a 
existência de um Deus particular, não conseguiram alhear-se dos seus 
condicionamentos da infância – v.g. Descartes e o próprio Kant. 
 
Como já vimos, os filósofos, por intermédio da especulação, podem 
“criar” ou “matar” deuses. São crianças cultas inventando conceitos de 
segurança para os seus medos e para os medos, inquietações e sensação de 
impermanência das sociedades a que pertencem. 
O intelecto é insignificante por ter a sua actividade limitada pelo 
espaço-tempo. Assim, todas as filosofias estão limitadas pelos ferozes 
condicionamentos daquele e as investigações surgem como consequência 
do seu engenho desenvolvido ao longo dos séculos. 
 
 159
Quando não “possuímos” – e em contrapartida não somos possuídos 
– sistemas filosóficos, religiões com os seus deuses e dogmas, superstições, 
pessoas e coisas, estamos preparados para ingressar sem esforço na Terra 
da Verdade. Esta Verdade não é estática e como tal não pode ser definida, 
enclausurada numa qualquer fórmula limitativa. Não permite o acumular de 
conhecimentos, tendo de ser percepcionada em cada instante, da mesma 
forma que o deve ser a beleza de um rosto, de um vale serpenteado por rio 
de águas cristalinas, das nuvens, de uma magnífica aurora. 
 
Conhecemos o que nos é exterior pela experiência. Mal ou bem, 
conhecemos o mundo e uma parte da nossa mente. 
Pergunto: pode o conhecido atingir o desconhecido? há alguma 
experiência que nos possa conduzir à “terra de ninguém”, à Verdade, ao 
incognoscível? 
Se a mente percebe a sua incapacidade para atingir Deus, cessa a 
busca, e com este abandono, pacifica-se, silencia, e talvez por intermédio 
do silêncio pacificador, possa intuitivamente aceder ao conhecimento 
instantâneo. 
 
Precisamos de aniquilar os mecanismos de defesa psicológica. A 
liberdade só poderá existir em toda a sua plenitude, quando o nosso cérebro 
estiver integralmente despojado de dependências obnubiladoras, tais como 
as religiões organizadas e os seus deuses, puras invenções de mentes 
atormentadas. Estas maleitas, fortemente arreigadas nos alicerces 
profundos do cérebro, não podem ser esconjuradas por filósofos, teólogos, 
gurus, e outros repugnantes vendilhões da felicidade. Apenas nós as 
podemos destruir por intermédio da observação compreensiva. Por outro 
lado, se a vontade e os múltiplos anseios, desejos e apegos desaparecem 
naturalmente, nasce no homem uma energia indescritível e incomensurável. 
 
A vida deve ser considerada como um todo, e não observada 
parcelarmente, já que é um fenómeno eivado de anarquia. Pela parte 
pretendemos atingir o Todo, partindo do conhecido almejamos o 
desconhecido. Quão tolos somos! 
Habituámo-nos a ver apenas o que nos rodeia, objectos e pessoas que 
nos circundam. No entanto, precisamos de penetrar no infinito – no que 
não tem começo nem fim –, estender a nossa visão para além de todos os 
limites que conhecemos, e isto, independentemente da inacessibilidade 
daquele ao pensamento. 
 
Uma vida sem autoconhecimento e sem a pura observação de tudo o 
que nos rodeia, é um desperdício, e como tal não merece ser vivida. 
 160
Porque é que transformamos as experiências dos outros em nossas? 
O que é que nos leva a sublimar ou ignorar as nossas próprias 
vivências? 
O espírito acomodatício não quer encarar os factos, em especial os 
que nos são desagradáveis ou que não respondem às nossas inquietações. 
Mas, a experiência de outrem, é uma experiência que não é própria, 
fazendo com que o ser humano que a perfilha, não seja mais do que um 
cidadão de 2ª, homem vestido de penas, tal papagaio. 
 
Olhamos o Universo na sua imensidão, a vastidão do espaço com 
uma aparente infinitude de astros e sentimos intensamente a nossa 
efemeridade. É indubitavelmente esse sentimento de impermanência, tão 
inquietante quanto angustiante, que nos levou a buscar algo, que esteja para 
além do nascimento e da morte e que possa connosco “negociar” a 
imortalidade. 
Dizer que o Universo não é o produto de um acidente, mas antes de 
uma Realidade absolutamente consciente, sábia e boa, é negar todo um 
conjunto de factos, e os factos são indesmentíveis – que se apresentam ao 
nossos sentidos. Já o estabelecimento de uma relação com essa Realidade 
transcendente, capaz de nos transfigurar, é pressuposto que apenas no mais 
íntimo da individualidade poderá obter resposta. Não há fórmulas mágicas, 
credos, procedimentos mortificantes, que a proporcionem e expliquem. 
 
O homem deseja o prazer; é algo de primário. Os desejos são 
múltiplos, pertencendo uns à cidade terrena outros à cidade de deus. Não 
obstante sejam muitas as distracções do homem, com os seus consequentes 
desejos, o maior e o mais inatingível é o de Deus, estando associado à 
aspiração da imortalidade. Se a essência do Todo for a infinitude e a 
eternidade, podemos estar certos que o pensamento nunca a atingirá, por 
via das suas naturais limitações. 
 
Tem de ser cada um de nós, por si, sem recurso a dogmas, crenças, 
sistemas filosóficos ou auxiliados pela teologia – seja a dogmática, seja a 
natural –, que deve descobrir se Deus tem uma verdadeira existência ou se 
é um fantasma elaborado por um pensamento tortuoso, a quem todas as 
ilusões são concedidas de molde a minimizar o sofrimento psicológico pela 
fuga da realidade, do que realmente é. 
Tem de ser cada um de nós, que deve descobrir se existe uma alma e 
o que é a morte, essa realidade fantástica que tanto nos atormenta e aniquila 
a beleza da vida. 
As Igrejas com a sua horda de sacerdotes ineptos não têm qualquer 
valor, para além de permitirem ao miserável homem comum uma frágil e 
ilusória segurança. 
 161
 
Não sabemos se Deus e a alma existem. Desconhecemos o que é a 
morte. Independentemente das inúmeras respostas de filósofos e teólogos 
alicerçadas na razão, na fé ou em ambas, nada conseguimos atingir ou o 
que atingimos está à partida condicionado pelas impressões residuais 
acumuladas na mente humana durante milénios e na nossa em especial, 
durante toda a nossa vida. São em regra, respostas programadas, quer ao 
nível consciente quer inconsciente. Não poderia ser de outra forma. O 
pensamento é um exímio prestidigitador, um ilusionista que se engana a si 
mesmo quando pretende transcender o espaço-tempo na inglória tentativa 
de compreender o que é permanente, e como tal, não pertence à natureza do 
impermanente. O pensamento só compreende – quando compreende – 
realidades limitadas, não as que excedem limites inultrapassáveis. Em boa 
verdade, toda a actividade do cérebro, padece das mesmas limitações deste: 
as do espaço e do tempo. Ora, o que é limitado, não tem acesso ao 
ilimitado, à eternidade e à infinitude. 
Podemos então, confiar no pensamento? Julgo que não! Por muito 
elaborado, lógico, coerente e profundo que seja o pensamento, isso não fará 
com que a superficialidade e a inconsistência reinem no seu seio. A 
Verdade é uma terra sem dono, terra de ninguém, trilho não delineado, 
inatingível por qualquer doutrina, sistema filosófico, especulação ou 
religião. A Verdade não jorra nos corações dos que a perseguem com 
incessante ansiedade, porque é contrária à ambição, a todas as ambições, 
mesmo à ambição que apenas se tem a si como objecto. 
 
A sabedoria é a constatação da nossa ignorância, da 
incognoscibilidade das questões metafísicas e da sua inevitável aceitação. 
Muitas das vezes, os que aparentam sabedoria são tão insensatos 
como crianças, jogando às escondidas ou “reinando”, 
Em bom rigor, a sabedoria entendida como conhecimento, tem muito 
pouco valor. Apenas quando reconhecemosa nossa ignorância, como o fez 
Sócrates, terá alguma valia. 
 
A minha metafísica, resume-se grosso modo, a um simples “não sei”. 
Não conheço expressão mais fácil e real. Se não sei e não procuro, talvez 
venha a conhecer, talvez encontre, melhor, talvez venha eu mesmo a ser 
encontrado. É esta a humildade que permite transcender o espaço-tempo. 
Deus não pode ser definido. Manter-se-á para todo o sempre como o 
que é incognoscível. E se por um mero acaso, eu tiver alguma experiência 
de aproximação à sua existência e essência, essa experiência será 
unicamente minha e praticamente incomunicável, e terá nascido da morte 
do pensamento. 
 
 162
 
 
DEUS 
 
 
 
Ao problema da existência de Deus, conceito que remonta aos 
primórdios da humanidade, referem-se os filósofos a uma entidade 
suprema, que se identifica com uma existência absoluta, que se satisfaz a si 
mesma subsistindo por si, que cria e é livre no acto da criação. Poderá este 
deus dos filósofos, ser também o deus de uma determinada religião? Em 
consonância com os nossos condicionamentos, que como tal pouco mais 
são do que pura ficção, poderemos responder afirmativa ou negativamente, 
mas sempre de modo dúbio e incerto. 
Filósofos, aspirantes a santos, místicos de práticas torturantes, 
afadigam-se na procura de um Deus que lhes escapa e que se lhes nega, não 
obstante se iludam com certezas e visões que têm a medida das suas 
expectativas. Não estão libertos do medo. Se o homem não estiver 
acorrentado pelo medo procurará Deus? 
O deus das religiões, dos teólogos, dos filósofos, dos livros 
“sagrados”, não é Deus, antes uma mera ilusão, ainda que agasalhadora e 
assombrosa. Se o conceito e a crença não existissem, estaríamos limitados à 
alegria e à tristeza, mas logo o inventaríamos para protecção dos nossos 
medos angustiantes. 
 
Na fé, pode existir uma verdadeira “cegueira filosófica”, uma fé sem 
qualquer alicerce, construída nas nuvens que são arrastadas por ventos que 
mudam constantemente de direcção. Esta, não é de todo razoável, mas 
antes acto irracional e cómodo. Apesar de tudo, no Concílio Vaticano I, foi 
frontalmente atacado o fideísmo, afirmando-se a plena capacidade da razão 
para demonstrar a existência de Deus, mais do que atestar por uma mera 
razoabilidade o acto de fé subjectivo. 
 
A criação dos nossos deuses em nada diminuiu o sofrimento do ser 
humano, excepcionados alguns espíritos raros – normalmente apelidados 
de místicos – que, como consequência de patologia mental ou de uma 
realidade que nos transcende – e para sempre transcenderá – se acercaram 
do Absoluto, comungando da sua essência ou deram assentimento à sua 
existência. 
 
Confiai em Deus, dizem-vos. Mas que confiança e amor podeis ter 
num Ser que permite atrocidades constantes, a miséria, a fome, a morte por 
carência dos mínimos cuidados de saúde, os cataclismos que engolem 
 163
tantos inocentes de modo indiscriminado, a guerra, afinal todo um conjunto 
de males e injustiças? Não teremos de concordar com Epicuro, quando 
afirma que “a divindade ou quer suprimir os males e não pode, ou pode e 
não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode é 
impotente; e a divindade não o pode ser. Se pode e não quer, é invejosa, e a 
divindade não o pode ser. Se não quer e não pode, é invejosa e impotente, 
portanto não é divindade. Se quer e pode (que é a única coisa que lhe é 
conforme) donde vem a existência dos males e porque não os elimina?” 
Como diz na sua simplicidade uma velhinha da minha aldeia, que 
Deus é esse, omnipotente e omnisciente, que permite que uma criança seja 
torturada, violentada e morta por um qualquer criminoso, assistindo 
impávido e sereno a um acontecimento a que qualquer um de nós obstaria 
se possível, mesmo com o risco da própria vida. Lembro-vos o 
“tratamento” a que os pedófilos são sujeitos pelos outros reclusos... e são 
apenas outros criminosos. 
 
Invocamos Deus e o seu santo nome para nossa protecção – como um 
antibiótico para uma infecção –, para que vejamos os nossos desejos 
realizados e os males afastados. E para além deste, há os santos, santos para 
todos os fins, e uma Virgem Maria que parece ser mais poderosa do que o 
próprio Ser supremo, tantas vezes relegado para um plano inferior. 
 
Diz-se que o mundo que perdeu o Deus cristão só pode assemelhar-
se ao mundo que ainda não o encontrou. Mas, se o Deus único nunca foi 
encontrado pelo mundo, que poderá este perder? 
Mesmo que se considere que o Absoluto é atingível pela experiência 
mística, dir-se-á que esta é pessoal e intransmissível, inexistindo palavras 
que a possam cabalmente explicar ou divulgar. 
 
Alguns filósofos tendem a crer na existência de Deus em virtude de 
não conceberem um Universo apoiado numa realidade pessoal. Poderá o 
cosmos ser fruto de lei, acaso ou vontade inconsciente? A tal questão 
respondem pela negativa. O Universo foi criado intencionalmente, com 
sabedoria e bondade, elevadas ao seu mais alto grau. Mas, tal afirmação 
não tem correspondência factual. 
 
O deus dos filósofos é o deus da razão, da geometria, dos que 
reduzem a vida ao raciocínio, sendo como afirma Kolakowski um deus dos 
fracassos. Um deus dos fracassos e dos fracassados não pode obviamente 
ser religioso. 
 
Não é o pensamento que ascende ao Absoluto, mas é o Absoluto que 
atinge a mente vazia. 
 164
Só um cérebro, que sem motivo foi esvaziado do seu conteúdo – 
daquilo que o condiciona –, e que nada busca, poderá ter acesso ao que é 
Eterno e Infinito. Este Ser, poderosa fonte de energia sem forma nem 
qualidade é inatingível na sua essência. O Absoluto – ou seja lá o que for – 
só surgirá por sua livre vontade, espontaneamente, nunca por via das nossas 
mesquinhas exigências, preces, invocações, ou na pior das hipóteses por 
práticas “religiosas” mortificantes. 
 
 
 
ALMA 
 
A alma, princípio de vida e princípio de inspiração moral, não pode 
ser investigada como problema religioso, independentemente dos 
problemas da imortalidade e de Deus. 
Filósofos e teólogos procuraram desde sempre isolar duas 
substâncias diversas, mas bem definidas, no homem. Por um lado, a alma, 
que a partir do momento da sua criação subsistiria por todo o tempo futuro, 
ou seja, eternamente, e o corpo, sujeito à corrupção – mas que no caso do 
cristianismo ressuscitaria como corpo glorioso. 
 
Se existir uma alma que sobreviva ao corpo, somos forçados a 
admitir, que essa alma impregnada das vivências, emoções, conhecimentos 
e memórias do seu portador, manifestar-se-á com todo o seu conteúdo 
numa nova “vida”. É a continuidade do “eu”, essa entidade tão sofrida e 
insignificante. Improvável, quase absurdo. As nossas memórias estão 
intimamente dependentes do cérebro, que está destinado com o corpo à 
extinção. 
 
Quando o nosso discurso tem como objecto a alma, em regra, 
estamos no domínio do pensamento. Pensamento que é a fonte do medo, de 
todos os medos, e em especial do mais poderoso, o medo da morte. É o 
pensamento que elabora doutrinas ou que se limita a afirmar com cega fé, 
em atitude de “santa burrice”, a existência da alma, uma alma que é 
permanente, que não está destinada à corrupção e que viverá com deleite os 
eternos prazeres dos céus. 
 
Temos uma premente necessidade de acreditar na “vida” depois da 
morte, porque temos medo e nos sentimos inseguros. Estamos 
demasiadamente preocupados com a continuidade. Não queremos deixar de 
ser quem somos, nem deixar de possuir o que possuímos. 
 
 165
Poderá a imortalidade ser a continuação do “eu”? Estranha vontade 
esta que nega a destruição do que é misérrimo, mesquinho e escabroso. O 
imortal não tem qualquer afinidade com o mortal. 
Que eu morra e renasça a cada instante. Só essa atitude é 
absolutamente religiosa e a santidade é a observação continuada de nós 
mesmose do que nos rodeia, o que faz cessar o tempo com a consequente 
imersão na eternidade. 
 
 
 
MORTE 
 
 
 
Numa primeira análise, a morte é um facto biológico, fisiológico, 
que atinge todos os seres vivos que detenham um corpo. A corrupção 
orgânica, equivale à destruição da existência, daquela existência particular, 
enquanto tal. Aqui, interessa-nos enquanto questão metafísica. 
A morte, surge-nos por vezes como uma consolação: todos 
morremos, ricos e pobres, poderosos e desvalidos, sacerdotes e ateus, 
médicos e enfermos. A morte igualiza-nos. Se todos nós não fomos ouvidos 
para nascer, também não o seremos para morrer. 
 
Platão, que na tradição socrática define a morte como a separação da 
alma espiritual do corpo, identifica no diálogo Fédon, a investigação 
filosófica com a purificação da alma e com a preparação para a morte – 
entendida esta, como a libertação final. Daí, nasceu na filosofia, e em 
filósofos de nomeada, o facto da morte se constituir como, senão, o 
problema mais importante da filosofia, pelo menos um dos mais 
importantes – Platão, Agostinho, Cícero, Schopenhauer, Kierkegaard, 
Heidegger, para só citar alguns. Schopenhauer, faz inclusivamente 
depender a filosofia da determinante experiência da morte, quando afirma 
que sem esta, inexistiria aquela. Schelling pergunta-se se a morte será 
apenas um nada, ou um nada que destrói o pensamento? 
 
Movimentamo-nos na área do conhecido e a morte termina com este 
e com o nosso corpo. 
A morte é inelutável. Podemos perseverar no seu olvido, submetê-la 
aos mais redundantes e ardilosos raciocínios, ou ainda acreditar piamente 
como crianças crescidas na reencarnação ou na ressurreição. Se por um 
lado nos reduz à incontestável condição de finitude corpórea, por outro, 
tem-nos dado a esperança de uma continuidade feliz, que é a imortalidade. 
Seja como for, a nossa acção, quer busquemos refúgio na igreja, quer num 
 166
qualquer livro – “sagrado” ou não –, ela acompanhar-nos-á por toda a 
nossa vida. E se nem sequer compreendemos a vida como poderemos 
compreender a morte? 
 
Não podemos discutir ou fazer acordos com a morte. Poderemos nós 
adiá-la, induzi-la à concessão de um prazo favorável que nos permita 
concluir os nossos mesquinhos projectos? Obviamente que não. A 
inevitabilidade não admite concessões. 
 
Vida e morte caminham de mãos dadas na floresta da existência. Só 
se vive quando se morre e morre-se para viver. É pela morte que nasce o 
inteiramente novo e são exterminadas as velharias imprestáveis 
armazenadas no cérebro. 
 
A vida eterna, será mais do que uma mera existência em cada 
momento do tempo futuro? Não será antes – como afirmam alguns teólogos 
– um estado que independe do tempo, onde não há antes, não há depois, e 
por tal motivo, inexiste qualquer possibilidade de mudança? 
 
Para o iluminado, vida e morte são a mesma face da mesma moeda. 
O que os filósofos julgam que espera os homens após a morte, não é 
o que julgam. A vida nasce da morte e a morte da vida. 
A idade deveria conceder-nos o dom da aceitação da morte, o que 
seria sinónimo de sabedoria. No entanto, concede-nos apenas um medo 
indestrutível, consequência da nossa ignorância e desprezo pela vida. 
Quando se morre, desconhece-se de quem é o ganho: se de quem 
parte, se de quem fica. 
 
O que está para além da morte é uma incógnita, um mistério 
metafísico. Sócrates tinha a esperança da existência de algo para além dela, 
que segundo a tradição e as crenças estabelecidas, seria muito melhor para 
os bons do que para os maus. Se realmente a morte nos libertasse de tudo, 
que boa sorte seria para os maus, ao morrerem, verem-se desembaraçados 
quer do corpo quer do mal e da sua maldade, ao mesmo tempo que da alma 
– veja-se de Platão, o Fédon. 
 
A morte, esse fenómeno extraordinário, para ser compreendida, tem 
de o ser com o amor, apenas o amor a pode penetrar. Quando morremos 
psicologicamente estamos a conviver com a morte e saberemos o que é 
morrer, quando isso acontecer no plano físico. 
Quando morremos para o conteúdo da memória, para o passado, para 
os nossos pensamentos, em suma, para o “eu”, somos introduzidos na 
criação e renovação, no mistério da morte, que afinal não é mistério 
 167
nenhum. A erradicação do pensamento, neste sentido, não é uma fuga à 
incapacidade de erradicarmos a ideia de morte. 
Se de instante a instante morremos para os acontecimentos quotidianos, 
para o ódio, ciúme e outros estados negativos, para o prazer, desejos 
apegos, para o sofrimento, para os problemas que nos afligem, para o que 
contemplamos, estaremos em contacto directo com a morte, essa realidade 
tão temida. 
Com a cessação do pensamento há purificação, alegria, inocência. A morte 
do velho traz o júbilo do inesperado. Para além da morte está o sempre 
novo. E para além da morte existe algo. Mas, sois vós que tendes de o 
descobrir; não eu por vós, nem concílios, igrejas, gurus ou quaisquer santos 
e videntes. 
 
 
 
CONCLUSÃO 
 
 
A teologia e a filosofia transformaram os homens em meros teóricos da 
vida – não se entenda aqui homem prático como aquele que afastou todo o 
“alimento” do espírito. 
 
As questões metafísicas fundamentais não são atingíveis pela razão. Por 
muito que nos repugne, a melhor das metafísicas é não ter metafísica 
nenhuma, reduzindo o pensamento à sua verdadeira insignificância e 
abandonando de modo definitivo todas as infantilidades que têm 
assoberbado a “criança” humana desde os primórdios daquilo que 
apelidamos de civilização. 
 
No dia 6 de Dezembro de 1273 – dia da festa de S. Nicolau de Bari – S. 
Tomás de Aquino encontrava-se no convento de Nápoles, onde celebrava 
missa. Aí, terá tido uma experiência mística, após a qual abandonou de 
imediato a finalização da Suma Teológica, nada mais escrevendo até à sua 
morte. 
Instado sobre o facto de não a terminar e de mais nada escrever, limitou-se 
a responder: “Já não posso mais, porque tudo o que escrevi me parece 
palha.” 
É este o maior ensinamento que julgo ter recebido do Santo, e daí a 
dedicatória destes “apontamentos” expressa no prefácio. 
Também eu sinto e afirmo com a certeza possível, que tudo o que aqui está 
escrito, mais não é do que palha. 
 
 168
 169
Não nos iludamos. Estamos sós. Temos de o compreender, não apenas 
superficialmente, mas na profundeza do nosso ser. Estamos sós nessa 
caminhada para algures ou para lado nenhum. 
 
 
 
 
 
 
 
JOSÉ MARIA ALVES 
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	Dante anuncia o Renascimento, não obstante possamos configurar ainda a sua ligação à Idade Média.
	Bruno, naturalista – como veremos, o seu naturalismo assemelha-se a uma religião dionisíaca do infinito –, nasceu no ano de 1548. Com apenas 15 anos entrou em Nápoles para o convento dominicano onde foi considerado um prodígio intelectual. A partir dos 18 anos, começou a pôr em dúvida a tradição eclesiástica. No ano de 1592 foi preso pela Inquisição, e convidado repetidamente para se retractar – defendia que a religião apenas era ou poderia ser guia útil para os que estavam incapacitados de se dedicarem à filosofia –, nunca o fez. Em 1593 foi condenado à morte, tendo sido queimadovivo. Nos derradeiros momentos, conta-se que desviou o seu olhar do crucifixo, quando este lhe foi exibido para eventual reconciliação.
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