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www.professores.uff.br/seleneherculano 
 
 
A VISÃO ECO-CAPITALISTA DO EMPRESARIADO VERDE, OU 
“CAPITALISMO RESPONSÁVEL”, EM DUAS RESENHAS 
Selene Herculano 
UFF-ICHF-GSO 
 
1. Resenha de “Canibais com garfo e faca – seria sinal de progresso se um 
canibal utilizasse garfo e faca para comer?” (Cannibals with forks). 
Autor: John Elkington. São Paulo: Makron Books, 2008) 
 
“OS CEOS1 de amanhã são verdes” 
John Elkington é um dos fundadores da consultoria SustainAbility (criada em 
1987 em Londres, agora com sedes também em Washington, SFrisco e Nova 
Delhi). É nome de referência sobre responsabilidade empresarial e 
desenvolvimento sustentável, tido como “a true green business guru,” em lista 
onde também constam Al Gore, Barack Obama, Anita Roddick (da Body Shop) 
e Muhammad Yunus (do Grameen Bank). É autor de vários outros livros, como 
“Green Consumer Guide” (Guia do consumidor verde); co-autor de “The Power 
of Unreasonable People: How Social Entrepreneurs Create Markets That 
Change the World” (o poder das pessoas não-razoáveis: como o empresariado 
social cria mercados que mudam o mundo) e do relatório “The Transparent 
Economy: Six Tigers Stalk the Global Recovery—and How to Tame Them” (A 
economia transparente: seis tigres espreitam a recuperação mundial – e como 
domá-los). A SustainAbility Consultoria se define como um centro de idéias e 
consultoria estratégica dedicada a inspirar lideranças empresariais e a motivá-
las em benefício de uma agenda de sustentabilidade. (think tank and strategy 
consultancy working to inspire transformative business leadership on the 
sustainability agenda). 
A sustentabilidade empresarial e o livro de Elkington aqui resenhado colocam o 
foco em três pilares que segundo ele sustentarão o sucesso empresarial 
doravante: lucratividade, qualidade ambiental e justiça social. (Ou, como um 
outro centro de idéias empresariais aponta, a filosofia dos “3 p”, ou “triple 
pundit2”: “people, planet, profit” (pessoas, planeta, lucro). Elkington faz coro com 
um outro livro, “The Green capitalists”, de Tom Burke, que em 1987 saudava o 
surgimento de uma nova era do capitalismo, pregando uma reestruturação dos 
mercados e exortando as corporações a deixarem de atuar como predadoras 
econômicas, sociais e ecológicas. Transparência, novas tecnologias, parcerias e 
 
1
 Chief executive officer 
2
 WWW.triplepundi.com. “Pundit” é uma palavra indiana que designa a figura de um sábio. 
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simbiose entre empresas seriam os meios de se efetivar este genuíno 
capitalismo sustentável. O livro de Elkington cita empresas problemáticas, que 
enfrentaram “fatalidades”, como a Monsanto, Shell, Synthesis (empresa de 
explosivos), Texaco, dentre outras, e empresas que “começaram a longa 
caminhada em direção à sustentabilidade” (como a Dow Chemical, ICI 
Polyurethanes, Golden Hope Plantations, Monsanto, Tropical Marine Centre, 
Procter&Gamble, Xerox, Unilever, etc., muitas delas, diga-se, presentes nas 
listas das grandes depredadoras). 
Elkington lista 39 passos para a empresa tornar-se sustentável e para escapar do 
“fator Bardot” (alusão à atriz francesa Brigitte Bardot que, embora tenha se 
tornado figura emblemática da França e ativista ambiental conhecida, teve seu 
nome vinculado a pensamentos e atitudes da extrema-direita francesa.) 
A SustainAbility e o empresariado verde seriam seguidores de precursores 
como George Goyder, do Reino Unido e seu livro “The responsible company”, 
e, nos Estados Unidos, pioneiros como Ralph Nader e organizações como o 
Council on Economic Priorites, anos anos 60. 
Figuras como Elkington postam-se em missões de convencimento de cabeças do 
mundo corporativo que passaram a década de 90 argumentando que 
desenvolvimento sustentável era um conceito traiçoeiro e um comunismo 
camuflado. Em sua cruzada pela sustentabilidade Elkington cita Stuart Hart, do 
Programa de Administração Ambiental da Universidade de Michigan. Para 
ambos, os “flagelos do século XX – terras assoladas, pesca predatória, florestas 
devastadas, poluição urbana, pobreza, doenças infecciosas, migração e as 
questões sociais, éticas e políticas” que geram só podem ser corrigidos pelas 
“corporações, as únicas organizações com recursos, tecnologia, alcance global e 
motivação para alcançar a sustentabilidade”. Se as empresas não o fizerem, seus 
negócios ficarão cada vez mais difíceis, tendo em vista o “empobrecimento dos 
clientes, a degradação do meio ambiente, a falência dos sistemas políticos e a 
dissolução de sociedades”. (2008: 75). 
O livro parte do conceito de capital natural, chamando a atenção para a 
necessidade de dividi-lo em duas formas: o capital natural crítico e o renovável 
ou substituível. Outra premissa é a “queda da nação-estado” (2008:105), pois o 
centro de gravidade desloca-se do mundo do governo para o mundo das 
empresas. Ser sustentável representa poder vir a ter lucro com a venda de 
bilhões de dólares em soluções para os problemas ambientais do mundo. Um 
planejamento de longuíssimo prazo ajuda a colocar a empresa em perspectiva: 
Elkington cita Masayoshi Son, da Softbank, que dizia planejar sua empresa 
levando em conta 300 anos (2008: 280), o que certamente vai de encontro à 
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realidade nossa de mudanças intensas de curto prazo, com vida curta de 
empresas, fusões, desmanches etc. 
Há 39 passos para a sustentabilidade, que significam uma mudança 
paradigmática. Destacamos: 
Antigo paradigma Novo paradigma 
Pilar financeiro Lucro + qualidade ambiental+ justiça 
social 
Capital físico e financeiro Econômico, humano, social, natural 
Ativos próprios, tangíveis Ativos emprestados, intangíveis 
Downsizing Inovação 
Governança exclusiva Governança inclusiva 
Acionistas (shareholders) Stakeholders (comunidade) 
Extração Restauração, reciclagem 
Tática Estratégia 
Bandidos do tempo Guardiões do tempo 
Desregulamentação Regulamentação 
Inimigos Complementadores 
Subversão Simbiose 
Lealdade incondicional Lealdade condicional 
Direitos Responsabilidades 
Responsabilidade na fábrica Supervisão do ciclo de vida 
Vendas Valor do cliente em todo o ciclo de vida 
Monoculturas Diversidade 
Crescimento Sustentabilidade 
Externalização de custos Internalização de custos 
Conformidade Vantagem competitiva 
Padrões de cada país Consistência global 
Crescimento de produção Consumo sustentável 
O “capitalismo stakeholder”, com governança inclusiva, compartilhando poder 
e responsabilidade com instituições políticas e empresariais, é visto como “a luz 
para o século XXI” (2008: 373). 
A obra “Factor Four- doubling wealth, halving resources use” (“dobrando a 
riqueza e diminuindo pela metade o uso de recursos”, dos institutos Wuppertal, 
da Alemanha, e Rocky Mountain, dos EUA) é mencionada em sua 
recomendação de uma perestroika econômica. 
A taxa Tobin (economista que ganhou o prêmio Nobel ao propor a taxação do 
comércio internacional) é recomendada e a necessidade de se promover uma 
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ética empresarial é apontada, não só como parte de uma pedagogia, mas como 
um elemento de atração para os jovens e para que a comunidade empresarial 
passe a ser vista como central para a sociedade (2008: 386) 
 
2. Resenha do livro “Capitalismo natural – criando a próxima revolução 
industrial. 
Paul Hawken, Amory Lovins e L. Hunter Lovins. 
São Paulo: Cultrix, 1999. 
 
Amory Lovins e L.Hunter Lovins foram co-autores do relatório acima 
mencionado, “Fator Quatro: como duplicar a riqueza e reduzir pelametade o 
uso dos recursos”, publicado inicialmente na Alemanha em 1995. Paul Hawken 
já havia então escrito A ecologia do comércio (The ecology of commerce), em 
1993. 
No livro O Capitalismo natural, seus autores fazem a crítica à proposta de 
ecoeficiência reduzida a aproveitamento melhor dos materiais e redução de 
impacto ambiental, sem repensar a estrutura e o sistema de retorno do 
comércio. 
A produção mais eficiente, dizem eles, pode ser a inimiga de uma economia 
durável, que requer a combinação de quatro princípios: 
1- o princípio da produtividade radical dos recursos naturais, 
desacelerando seu esgotamento, diminuindo a poluição e fornecendo 
bases de crescimento do emprego em atividades de reciclagem; 
2- o princípio do biomimetismo, redesenhando os sistemas industriais em 
linhas biológicas; 
3- o princípio da economia de serviços e de fluxos, em lugar de uma 
economia de bens e de aquisições (não se vende mais aparelhos de ar 
condicionado e sim serviços de ar puro, através de locação); 
4- o princípio de investimento em capital natural, reinvestindo em 
sustentação, restauração e expansão dos estoques de capital natural. 
 
 Esta economia durável incorpora quatro tipos de capital: 1- o capital humano 
(trabalho e inteligência, cultura e organização); 2- o capital financeiro (dinheiro, 
investimentos e instrumentos monetários); 3- o capital manufaturado (inclusive 
infraestrutura, máquinas, ferramentas e fábricas; 4- o capital natural (recursos, 
sistemas vivos e os serviços do ecossistema). Os autores acrescentam: “o 
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capitalismo, tal qual vem sendo praticado, é uma aberração lucrativa e 
insustentável do desenvolvimento humano (1999:4). 
Quanto vale a natureza? É possível reproduzi-la? 
No capítulo 8, sobre os ganhos de capital, os autores resumem a experiência do 
projeto Biosfera2, realizado nas cercanias de Oracle, Arizona, em 1991, orçado 
em 200 milhões de dólares. Nele oito cientistas se internaram em uma estrutura 
de 1,3 hectare, vedada e cercada de vidro, por dois anos: “lá havia uma 
diversidade de ecossistemas... os bionautas ficaram na companhia de insetos, 
polinizadores, peixes, répteis e mamíferos selecionados para conservar as 
funções dos ecossistemas. Toda a reciclagem do ar, da água e dos nutrientes 
ocorria dentro da estrutura... Na cúpula, a qualidade do ar declinou, insetos se 
extinguiram, vertebrados desapareceram... “Lição: “existem alguns recursos 
que nenhum dinheiro pode comprar” (1999:138). 
Em 1994 Gretchen Daily editou o livro Natural Services e o economista Robert 
Costanza e outros produziram o documento “The value of the world’s 
ecosystems services and natural capital (o valor dos serviços dos ecossistemas e 
do capital natural do mundo), chegando a um valor médio de 33 trilhões de 
dólares para 17 serviços da natureza, tais como: a produção de oxigênio, a 
conservação da biodiversidade; a purificação da água e do ar; o 
armazenamento, ciclo e distribuição de água potável; a regulagem da 
composição química da atmosfera; a manutenção dos habitats da vida silvestre; 
a decomposição orgânica dos dejetos; o seqüestro e a desintoxicação do lixo 
humano e industrial; o controle natural das pestes e das moléstias; a produção 
do acervo genético de alimentos, fibras, produtos farmacêuticos e materiais; a 
fixaçã da energia solar e conversão em matérias-prmas; a administração da 
erosão dos solos e controle da sedimentação; a prevenção de enchentes e 
regulagem de enxurradas; proteção contra a radiação cósmica nociva; 
regulagem da composição química dos oceanos; regulagem do clima; formação 
do solo e conservação de sua fertilidade; produção de pastagens, fertilizantes e 
víveres; armazenamento e reciclagem de nutrientes. 
Se a renda anual de 36 trilhões de dólares se referem aos serviços ambientais, o 
valor da natureza, concluíram os autores, estaria em torno de 500 trilhões de 
dólares (calculados para valores de 1994). 
Uma reforma tributária seria um mecanismo adequado para mitigar as pressões 
sobre os recursos naturais. Em lugar das políticas de subsídios à degradação 
ambiental, com preços artificialmente baixos para a irrigação e com a produção 
de carros subsidiada, os autores propõem afastar os impostos do trabalho e da 
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renda, canalizando-os para a poluição, o lixo, os combustíveis à base de carbono 
e a exploração de recursos. 
O princípio básico da economia ambiental neoclássica, vale dizer, do 
capitalismo natural, como vimos, é o de corrigir falhas do mercado e fazê-lo 
funcionar. Inovações institucionais são propostas para a criação de novos 
mercados. Hawken et alli criticam, entretanto, os “teólogos do mercado” que 
pregam a desregulamentação e rezam por teorias absurdas (1999:246), como a 
da concorrência perfeita, dos preços exatos, inexistência de monopólios e 
monopsônios (compradores únicos), taxas de juros compatíveis com riscos, etc. 
Ao contrário, no mundo real há subsídios, monopólios, falta transparência, etc. 
A regulamentação é necessária em um ecocapitalismo.

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