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EAD
SOCIEDADE BRASILEIRA
Profª Lis Furlani Blanco
Reformulação Profª Patrícia Alves de Cerqueira 
 
 
SOCIEDADE BRASILEIRA 
 
 
 
 
 
Profª Lis Furlani Blanco 
Reformulação Profª Patrícia Alves de Cerqueira 
UNIDADE 01 - ESTRANHAMENTO E DESNATURALIZAÇÃO DA 
REALIDADE 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Promover uma primeira reflexão e sensibilização em relação ao 
pensamento sociológico, isto é, estimular o pensar sociológico de nossa realidade. 
Pensar a realidade de forma sociológica é fazer uma análise da sociedade 
de forma crítica, que questione o senso comum tão difundido em nossa sociedade. 
Mas o que seria então o senso comum? Como diferenciar o senso comum de um 
olhar sociológico e a partir desse novo olhar, compreender a nossa realidade? 
Ao vivermos em sociedade, costumamos olhar para o ambiente ao nosso 
redor e as pessoas que estão a nossa volta de forma natural, isto é, encarando as 
relações entre as pessoas, e entre estas e o ambiente, como algo que sempre foi 
assim e sempre será. Damos explicações aos fatos que acontecem em nossa 
sociedade que são baseadas em nossas pré-noções, fazendo juízos de valor de tudo 
o que acontece. Entretanto, para desenvolver uma análise sociológica da realidade, 
é preciso mudar esse olhar já acostumado que temos. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
O conjunto mais alargado de crenças que uma comunidade tem por 
verdadeiras e partilha durante certo período de tempo. O senso comum 
é um "saber" que resulta da experiência de vida individual e coletiva. Os 
hábitos e costumes, as tradições e rituais, os "ditos" e provérbios, as 
opiniões populares, etc., são habitualmente referidos como 
manifestações do senso comum. A sua aprendizagem é uma condição 
necessária para a socialização de cada membro da comunidade, 
funcionando como um mecanismo regulador do seu pensamento e da 
sua AÇÃO. Do ponto de vista da CIÊNCIA e da FILOSOFIA, os processos 
de justificação das crenças de senso comum afiguram-se muitíssimo 
superficiais e falíveis, e é freqüente tais crenças resistirem mal a um exame 
crítico mais minucioso, pelo que a sua ampla aceitação não é uma 
garantia de que sejam verdadeiras. (Dicionário Online de Filosofia – 
disponível em: http://www.defnarede.com/s.html) 
 Ao observarmos a definição do dicionário de filosofia sobre senso comum, 
percebemos que o senso comum apesar de ser condição necessária para a 
socialização dos membros de uma comunidade, é apresentado também como um 
conjunto de crenças, que não passam por um crivo científico, isto é, que não são 
questionadas e por isso podem não ser verdadeiras. 
 As ciências sociais, como o próprio nome já elucida, são consideradas 
ciências e por isso têm um método de análise que de certa forma comprova dentro 
de determinado campo de legitimidade, as análises realizadas. Nesse sentido, o 
conhecimento construído através das ciências sociais, é no mínimo, diferente do 
chamado senso comum. 
 Para compreendermos o que é a sociologia, o ofício do sociólogo, e a origem 
das ciências sociais, e conceber o homem como um ser social é necessário 
desenvolvermos uma sensibilidade que permita buscar uma explicação de como e 
por que os fenômenos sociais ocorrem, recusando sempre as explicações de que 
“sempre foram assim” ou “devem ser assim”. O recurso metodológico para isso é 
dado pelo princípio do estranhamento, ou seja, o olhar da Sociologia para o objeto 
de sua análise é um olhar distanciado. 
 Para além de um olhar de estranhamento, isto é, que compreenda a 
realidade, enxergando de forma crítica tudo aquilo que lhe parece natural, é 
necessário também desenvolver uma atitude de desnaturalização. A 
desnaturalização seria então, uma atitude metodológica de construção do 
conhecimento. Ao longo desta e das próximas unidades, veremos que a maneira 
como olhamos as coisas que nos cercam, que todo olhar humano é socialmente 
construído. Ele depende, portanto, de nossa educação, de nossos hábitos e 
costumes, do país em que moramos, da idade que temos, entre muitos outros 
fatores. 
 De acordo com Berger, diferentemente do senso comum, a ciência possui 
um caráter de universalidade. Isto quer dizer que não se baseia em opiniões que 
variam de pessoa em pessoas, mas sim buscam explicações mais generalistas que 
tenham validade para todos os fenômenos analisados. Segundo a autora, essa 
universalidade é indissociável da base objetiva que caracteriza a ciência: as 
explicações científicas são baseadas em rígidos parâmetros que visam deixar de 
lado a subjetividade. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Pensando nas ciências sociais, e na dificuldade que temos como atores em 
nossa sociedade de desenvolver um olhar distanciado e que busque um 
estranhamento e desnaturalização de nossa realidade, propomos uma análise do 
texto a seguir, visando compreender como nossas pré-noções determinam de 
forma clara a visão sobre nossa própria sociedade. 
 
“Ritos Corporais entre os Nacirema” – MINER, Horace. A. K. Romney e P. L. Vore 
(eds.): You and Others – readings in Introductory Antropology. Winthrop Publishers, 
Cambridge 1973, pp. 72-76 (Tradução: Selma Erlich). 
 
 O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de 
comportamento que os diferentes povos apresentam em situações semelhantes, 
que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. 
 De fato, embora nem todas as combinações de comportamento 
logicamente possíveis tenham sido descobertas em alguma parte do mundo, o 
antropólogo pode suspeitar que elas devam existir em alguma tribo ainda não 
descrita. Este aspecto foi expresso, com relação à organização clânica, por Murdock 
(1949-71). Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema 
apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como um 
exemplo dos extremos a que pode atingir o comportamento humano. 
 Foi o professor Linton, há vinte anos atrás (1936-326), o primeiro a chamar a 
atenção dos antropólogos para o ritual dos Nacirema, mas a cultura desse povo 
permanece insuficientemente compreendida ainda hoje. Trata-se de um grupo 
norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e 
Tarahumare do México e os Carib e Awarak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua 
origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos 
Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem a sua nação; ele é, por outro 
lado, conhecido por duas façanhas de força – ter atirado um colar de conchas usado 
pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po-To-Mac e ter derrubado uma 
cerejeira na qual residia o Espírito da Verdade. 
 A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente 
desenvolvida, que evoluiu em um rico habitat natural. Apesar do povo dedicar 
muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos destes 
trabalhos e uma considerável porção do dia são dispendidos em atividades rituais. 
O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde assomam como 
o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, 
por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a ele associada são singulares. 
 A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o 
corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a 
doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas 
características através do uso das poderosas influências do ritual do cerimonial. 
Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos 
mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas, e, de fato, a 
alusão à opulência de uma casa, muito frequentemente, é feita em termos do 
número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de 
madeira, toscamente pintadas, mas as câmaras de culto das mais ricas paredesde 
pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas aplicando placas de cerâmica as 
paredes de seu santuário. 
 Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles 
associados não são cerimônias familiares, são cerimônias privadas e secretas. Os 
ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente 
o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo 
estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e 
obter descrições dos rituais. 
 “Olhando de longe e de cima, de nossos altos postos de segurança na 
civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas 
sem seu poder e orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como 
o fez, suas dificuldades práticas, nem poderia o homem ter avançado aos estádios 
mais altos da civilização.” 
 
 Ao realizarmos a leitura do texto, em um primeiro momento por causa da 
linguagem utilizada e da forma como o autor trata o povo “Nacirema”, isto é, como 
um povo que vive em um lugar remoto e distante, tendemos a pensar que os 
“Nacirema” são uma comunidade “primitiva”, que tem sua sociedade organizada 
através de mitos e ritos. Entretanto, com um olhar analítico, longe do senso comum, 
percebemos que a sociedade estudada no texto, é muito parecida com a nossa 
própria sociedade. Os ritos e mitos descritos no texto são parte de nossas atividades 
cotidianas, mas quando citados da forma que o autor fez, não percebemos o 
quanto nossa sociedade também é baseada em crenças, como a ciência, a 
medicina, etc. 
Nesse sentido, o texto acima deve servir como instrumento de reflexão sobre 
a questão do senso comum, e de como desenvolver um olhar crítico e distanciado 
sobre a realidade para que possamos compreendê-la de forma profunda e 
complexa. 
 Para saber mais: o conceito primitivo é um conceito não mais utilizado na 
antropologia, por remeter a uma ideia de escalonamento civilizatório, ou seja, 
compreender as sociedades como que em um crescente de evolução, que tem um 
ponto máximo a alcançar que é o nosso modelo de sociedade ocidental. 
 
 
UNIDADE 02 - A VIDA EM SOCIEDADE: A CONDIÇÃO HUMANA 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Discutir um tema crucial para as Ciências Sociais: o homem como 
um ser social. Para isso tentaremos compreender a relação do homem com a 
sociedade, através da compreensão dos processos pelos quais o homem adquire 
sua identidade como ser humano, e assim, como ser social, conjuntamente com a 
forma através da qual o homem obtém os meios de sua sobrevivência, também a 
sua relação com o espaço (onde), a temporalidade (quando) e o modo como vive, 
atentando para tudo o que os homens produzem e que faz deles seres humanos e 
sociais 
 Tomando a teoria da Evolução de Darwin, podemos perceber que para a 
preservação das espécies animais como um todo, e seu aprimoramento ao longo 
do tempo é necessário o desenvolvimento dos hábitos de vida, convivência e 
sociabilidade. O ser humano, como espécie animal também necessita de uma vida 
em sociedade, e desenvolveu processos de convivência, reprodução, acasalamento 
e defesa. Para além de atividades que podem ser consideradas apenas “instinto” o 
homem também desenvolveu habilidades, técnicas, modos e comportamentos que 
dependem do aprendizado. É nesse ponto que gostaríamos de focar o estudo dessa 
unidade. Naquilo que diferencia e aproxima o homem dos outros animais. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
O homem como animal, mas ao mesmo tempo membro de uma espécie 
específica, pode ser compreendido como diferente dos animais por grande parte 
de seu comportamento não ser desenvolvido de maneira “natural”, isto é, sua 
relação com o mundo e com outros seres de sua espécie não depende da 
transmissão de genes. Ele é segundo Costa, um animal que necessita de 
aprendizado para adquirir a maior parte de suas formas de comportamento. 
Se pensarmos em um exemplo que todos devem conhecer, como o caso do 
Menino Mogli, que cresce na floresta sem nenhum semelhante humano, e mesmo 
assim desenvolve comportamentos compatíveis com os seres humanos 
socializados, podemos perceber que na verdade, este tipo de situação é muito 
improvável de acontecer, pois para se tornar humano, o homem aprende 
conjuntamente com outros membros de sua espécie, como viver. 
 
Assim, de acordo com Costa, 
Para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente 
dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo 
aprendizado, em que gerações mais velhas transmitem as mais novas 
suas experiências e conhecimentos. Essa característica da humanidade 
dependeu, entretanto, da nossa capacidade de criar sistemas de símbolos 
que constituem as linguagens, por meio das quais somos capazes de nos 
comunicar, transmitindo aos outros o legado de nossa experiência de 
vida, compartilhando sentidos que a ela atribuímos. (p.13) 
 
Dessa forma, pode-se dizer que o pensamento humano é único, pois 
diferentemente dos outros animais, somos capazes de transformar nossa 
experiência vivida, através da criação, e ao mesmo tempo, significarmos sobre essas 
experiências, para assim, transmita-la aos demais seres humanos. 
Segundo Karl Marx, 
pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha 
executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de 
um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior 
arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção 
antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho 
aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do 
trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele 
imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual 
constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de 
subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além 
do esforço dos órgãos que trabalham, é mister a vontade adequada que 
se manifesta através da atenção durante todo o curso do trabalho. (O 
capital, vol. I, cap. VII) 
 
É perceptível então, que através do pensamento, e este sendo colocado em 
prática, o homem é capaz, segundo Cristina Costa, de projetar, ordenar, prever e 
interpretar. Vivendo em grupo, o ser humano começou a travar com um mundo ao 
seu redor uma relação dotada de significado e sentido. O homem é, portanto, um 
ser social, que só existe enquanto tal, a estabelecer relações com outros membros 
de sua espécie, e ao mesmo tempo significar sobre essas relações, criando, 
aprendendo, desenvolvendo. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Pensar o Homem como ser social é um pressuposto básico das ciências 
humanas, que assim estudam as relações deste com seu meio e com outros 
membros de sua espécie. As relações entre os seres humanos, isto é, as relações 
sociais, constituem a base da sociedade. A forma pela qual essas relações ocorrem 
são fatos sociais e são eles que determinam o comportamento e a vida em 
sociedade. 
Desde o surgimento das ciências sociais, aparecia um interesse na 
compreensão do homem como ser social, e assim, nas diferenças entre os homens 
e os demais animais. Seria o homem capaz de voltar ao seu estado natural? É 
possível para um ser humano que viveu na natureza longe de seus pares, terem 
naturalmente as características que nós, seres socializados, desenvolvemos? 
Buscamos então, um caso muito conhecido na sociologia, do menino 
selvagem, que foi estudado por diversos cientistas sociais, desde a origem desta 
disciplina. O tal caso, gerou até alguns filmes, e livros, como o conhecido “O enigma 
de Kaspar Hauser” de Werner Herzog. 
Segue então, o texto de discute a questão do homem como ser social, 
através de um exemplo real, ocorrido na França durante o século XIX: 
O “menino selvagem de Aveyron" – Anthony Giddens 
 No dia9 de Janeiro de 1800 uma estranha criatura surgiu dos bosques 
próximos ao povoado de Saint-Serin, no sul da França. Apesar de andar em 
posição ereta se assemelhava mais a um animal do que a um ser humano, porém, 
imediatamente foi identificado como um menino de uns onze ou doze anos. 
Unicamente emitia estridentes e incompreensíveis grunhidos e parecia carecer do 
sentido de higiene pessoal, fazia suas necessidades onde e quando lhe apetecia. 
Foi conduzido para a polícia local e, mais tarde, para um orfanato próximo. A 
princípio escapava constantemente e era difícil voltar a capturá-lo. Negava-se a 
vestir-se e rasgava as roupas quando lhes punham. Nunca houve pais que o 
reclamassem. 
O menino foi submetido a um minucioso exame médico no qual não se 
encontrou nenhuma anormalidade importante. Quando foi colocado diante de 
um espelho parece que viu sua imagem sem reconhecer-se a si mesmo. Em uma 
ocasião tratou de alcançar através do espelho uma batata que havia visto refletida 
nele (de fato, a batata era segurada por alguém atrás de sua cabeça). Depois de 
várias tentativas, e sem voltar à cabeça, colheu a batata por cima de seu ombro. 
 Um sacerdote que observava ao menino diariamente descreveu esse 
incidente da seguinte forma: Todos estes pequenos detalhes, e muitos outros que 
poderiam aludir, demonstram que este menino não carece totalmente de 
inteligência, nem de capacidade de reflexão e raciocínio. Contudo, nos vemos 
obrigados a reconhecer que, em todos os aspectos que não tem a ver com as 
necessidades naturais ou a satisfação dos apetites, se percebe nele um 
comportamento puramente animal. Se possui sensações não desembocam em 
nenhuma ideia. Nem sequer pode comparar umas as outras. Poderia pensar-se 
que não existe conexão entre sua alma ou sua mente e seu corpo. 
 
Posteriormente, o menino foi enviado para Paris, onde se ocorreram 
tentativas sistemáticas de transformar-lhe “de besta em humano”. O esforço 
resultou só parcialmente satisfatório. Aprendeu a utilizar o quarto de banho, 
aceitou usar roupa e aprendeu a vestir-se sozinho. No entanto, não lhe 
interessavam nem as brincadeiras nem os jogos e nunca foi capaz de articular 
mais que um reduzido número de palavras. Até onde sabemos pelas detalhadas 
descrições de seu comportamento e suas reações, a questão não era a de que 
fosse retardado mental. Parece que ou não desejava dominar totalmente a fala 
humana ou que era incapaz de fazê-lo. Com o tempo fez escassos progressos e 
morreu em 1828, quando tinha por volta de quarenta anos. 
 http://vestibularsociologia.blogspot.com.br/2008/04/o-menino-selvagem-de-aveyron.html 
 
Victor aprendeu a andar, a comer, a vestir- se e a fazer objetos por 
intermédio do contato com outras pessoas. Mas não assimilou apenas as coisas 
práticas da vida. Ao estabelecer relações com outros seres humanos, aprendeu 
também a comportar-se, a expressar sentimentos e a agir da mesma forma que as 
pessoas com as quais passou a conviver. Em uma palavra, ele socializou-se. 
 Os estudos de como os seres humanos se relacionam na vida prática 
e afetiva, das formas pelas quais interagem uns com os outros, estabelecendo 
regras e valores, constitui tarefa de um grupo de disciplinas reunidas sob o nome 
de Ciências Sociais. 
 
Para ampliar seu conhecimento nas questões de vida em sociedade e 
condição humana acesse o link: 
http://crv.educacao.mg.gov.br/sistema_crv/index.aspx?ID_OBJETO=102904&tipo=
ob&cp=4E6127&cb=&n1=&n2=Roteiros%20de%20Atividades&n3=Ensino%20M%
C3%A9dio&n4=Sociologia&b=s 
 
 
UNIDADE 03 - AS BASES HISTÓRICAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS 
RENASCIMENTO / ILUMINISMO 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Elucidar o contexto histórico do surgimento das ciências sociais 
(Renascimento e Iluminismo), e compreender a relação da disciplina em si, com o 
desenvolvimento da ciência moderna. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 Se buscarmos os embriões das ciências sociais, seu ponto de partida se dá 
na Grécia (pré-história do pensamento social). Exemplos dessa embrionagem são 
os historiadores, poetas, filósofos, juristas e oradores que procuravam meios de dar 
ao homem possibilidades de conhecer os mecanismos da vida social, mas num 
estado ainda amorfo (sem forma) de ciência. 
O Renascimento é considerado um dos mais importantes momentos na 
história do Ocidente, por estabelecer uma ruptura com o mundo medieval e tudo 
que remetia a ele, e iniciar um processo que levaria ao mundo moderno urbano, 
burguês e comercial. A ideia de homem e indivíduo sofreu grandes transformações 
com o Renascimento e incentivou uma nova postura deste em relação à natureza 
e ao conhecimento. Com as bases lançadas pelo Renascimento foi possível o 
desenvolvimento de outro movimento que definiu de vez os parâmetros para a 
ciência moderna. O Iluminismo possibilitou o surgimento de uma sociedade 
inteligível, isto é, as características do homem e de seu individualismo e laicidade 
que foram estimulados no Renascimento, se dirigem para a ciência, e assim para a 
compreensão da sociedade, que de acordo com Castro, passa ser vista como uma 
realidade diferente e própria, sobre a qual interferem os homens como agentes. 
 É nesse contexto então, que surgem as ciências sociais, advindas das ciências 
naturais. Nesse sentido, esta unidade pretende percorrer o caminho do surgimento 
desta disciplina, para que o seu estudo contemporâneo seja compreendido. 
 A filosofia do Iluminismo preparou, segundo Costa, o terreno para o 
surgimento das ciências sociais no século XIX, lançando base para a sistematização 
do pensamento científico. 
Enquanto na Idade Média a Igreja Católica considerava pecaminosa a 
atividade lucrativa, no capitalismo, o lucro tornou-se a principal atividade. Neste 
contexto, liberto da tutela da Igreja católica, o homem se sente livre para pensar e 
criticar a realidade que vê e vivencia. 
Passam a questionar e dissecar a realidade social, emergindo assim, uma 
nova classe social: a burguesia comercial. Na 
esteira desses acontecimentos temos um conjunto de intelectuais que começam a 
tematizar esta situação e preparar o arcabouço para a interpretação desta nova 
realidade emergente, como Thomas Morus, autor da obra “A utopia” e Maquiavel, 
autor d’ O Príncipe, entre outros. 
 
Capa do Livro “A Utopia” obra do autor Thomas Morus. 
Fonte: http://opiniaoalexcontin.blogspot.com.br/2012/05/tomas-morus-politica-e-
atualidade.html 
 
Segundo Costa, 
A formulação do pensamento social em bases científicas dependeu do 
aparecimento de condições históricas exigindo a análise da vida social em 
sua especificidade e concretude. Dependeu também do amadurecimento 
do pensamento científico e do interesse pela vida material do homem. 
Resultou ainda do aprofundamento das análises filosóficas, 
especialmente as propostas pela Ilustração (Iluminismo) e estimuladas 
pelas Revoluções Burguesas. (p.64) 
 
 Desenvolvem-se a ciência e a tecnologia, exigindo da sociedade tomar 
medidas urgentes ao desenvolvimento científico: melhorar as condições de vida; 
ampliar a expectativa de sobrevivência humana a fim de engrossar as fileiras de 
consumidores e, principalmente, de mão-de-obra disponível; mudar os hábitos 
sociais e formar uma mentalidade receptiva às inovações técnicas. Vários aspectos 
da filosofia da Ilustração prepararam o surgimento das ciências sociais no século 
XIX. O primeiro deles foi à sistematização do pensamento científico. Os efeitos de 
novos inventos, como o para-raios e as vacinas, o desenvolvimento da mecânica, 
da química e da farmácia, eram amplamente verificáveis e pareciam coroar de êxitos 
as atividades científicas. A prática de elaboração dos projetos científicos para o 
desenvolvimento da indústria passa a ser aplicada à sociedade, pois sem um 
planejamento racional dos meios de transporte terrestres e marítimos, da 
distribuição e armazenamentodos produtos, da melhoria da infraestrutura, todo o 
esforço produtivo estaria perdido. 
A ciência se fundava, portanto, como um conjunto de ideias que diziam 
respeito à natureza dos fatos e aos métodos para compreendê-los. Por isso, as 
primeiras questões que os sociólogos do século XIX tentarão responder serão 
relativas à definição dos fatos sociais e ao método de investigação. Neste 
contexto, surgiram diferentes formas de avaliar as mudanças sociais que eram tão 
recorrentes na época, como o darwinismo social, o organicismo, o evolucionismo, 
todos baseados em princípios das ciências naturais para compreender o homem e 
suas relações. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Veja neste link: http://www.youtube.com/watch?v=rS8iKbcnMbw um 
documentário que aborda as principais ideias do Renascimento e o Iluminismo. 
 
 
UNIDADE 04 - AS BASES HISTÓRICAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS 
POSITIVISMO 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Compreender o contexto histórico do Positivismo e a relação da 
disciplina em si, relacionada à Sociologia. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
 Para Costa, as diferentes formas de ver a realidade, procurava diferenciar e 
identificar os princípios que governam a vida social do homem, mas foi, entretanto, 
o positivismo que conseguiu de forma pioneira, sistematizar o pensamento 
sociológico. 
Foi ele o primeiro a definir precisamente o objeto, estabelecer conceitos 
e uma metodologia de investigação e, além disso, a definir a 
especificidade do estudo científico da sociedade. Conseguiu distingui-lo 
de outras áreas do conhecimento, instituindo um espaço próprio à ciência 
da sociedade. Seu principal representante e sistematizador foi o pensador 
francês Auguste Comte. (p.72). 
 
Comte logrou assim o termo “Sociologia” e é por isso, considerado o pai das 
Ciências Sociais. O vocábulo sociologia foi empregado pela primeira vez por 
Auguste Comte em 1889. Ele aparece no volume IV do Curso de Filosofia Positiva 
com a seguinte redação: 
Acredito que devo arriscar, desde agora, esse termo novo, sociologia, 
exatamente equivalente à minha expressão, já introduzida, de física social, 
a fim de poder designar por um nome único esta parte complementar da 
filosofia natural que se relaciona com o estudo positivo do conjunto de 
leis fundamentais apropriadas aos fenômenos sociais. 
 
Entretanto, apesar do grande avanço para as ciências sociais como um todo, 
a maioria dos primeiros pensadores sociais do positivismo, estão intimamente 
ligados a uma reflexão que ainda é de natureza mais filosófica, sobra a história e a 
ação humana. 
 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Para compreender a origem das ciências sociais é importante buscar os 
pensadores que deram nome e desenvolver o arcabouço teórico necessário para 
que esse tipo de pensamento se tornasse uma ciência, com as características 
necessárias para tanto. Nesse sentido, leia o texto abaixo sobre o fundador da 
sociologia e analise o texto buscando pensar na relação entre a história de 
desenvolvimento da ciência como um todo e das ciências humanas especificamente 
com o pensamento de Auguste Comte. 
Positivismo (fr. positivisme) I. Sistema filosófico formulado por Augusto *Comte. 
tendo como núcleo sua teoria dos três estados, segundo a qual o espírito 
humano, ou seja, à sociedade, a cultura, passa por três etapas: a teológica, a 
metafísica e a positiva. As chamadas ciências positivas surgem apenas quando a 
humanidade atinge a terceira etapa, sua maioridade, rompendo com as 
anteriores. Para Comte, as ciências se ordenaram hierarquicamente da seguinte 
forma: matemática, astronomia, física, química, biologia, sociologia; cada uma 
tomando por base a anterior e atingindo um nível mais elevado de 
complexidade. A finalidade última do sistema é política: organizar a sociedade 
cientificamente com base nos princípios estabelecidos pelas ciências positivas. 
JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3.ed. ver. E ampl. Rio 
de Janeiro: J. Zahar, 1996 
 
 
Auguste Comte 
Auguste Comte: o fundador da sociologia ou física social 
Publicado em 26 de janeiro de 2011 
 
TAGS: Auguste Comte, Sociologia 
 
Ilustração: André Toma 
 
A maioria dos seres humanos, por ser dominada pela afetividade, poderia ter sua 
existência moldada conforme as exigências da doutrina social do “progresso dentro 
da ordem”. 
Lelita Oliveira Benoit 
Seduzido pela personalidade do nobre decadente Henri de Saint-Simon (1760-
1825), Auguste Comte aceitou ser, a partir de 1817, seu secretário particular por uma 
quantia mensal de 300 francos. Contudo, logo após o início da colaboração, 
começou a se desenhar o desentendimento entre o mestre e o discípulo. O jovem 
secretário tinha como tarefa transformar em textos o pensamento do mestre. No 
entanto, começou a desenvolver ideias próprias, entrecruzando-as com aquelas 
que deveria reproduzir. É dessa época a primeira e mais sintética fórmula positivista: 
“Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto”. 
As raízes contraditórias do positivismo 
Foi também nesses anos de juventude que Comte escreveu um texto, até hoje 
pouco conhecido, intitulado A Indústria (1817). Não era um texto qualquer. O jovem 
escritor Comte, em estilo límpido, desenhou o projeto esperado pelo mestre Saint-
Simon. Acreditava que somente aprofundadas reflexões políticas, seguidas da 
elaboração de um plano de “reorganização social”, poderiam erradicar a anarquia 
que, tendo começado em 1789, com a Revolução Francesa, permanecera até o início 
do século 19. A Indústria deveria se tornar a primeira pedra do edifício de uma nova 
e grande Enciclopédia destinada a guiar a reorganização social futura em bases não 
anarquistas. Em A Indústria, encontram-se reflexões que anunciam a doutrina 
socialista posterior (como o projeto do planejamento da economia), entrecruzadas 
a conceitos já propriamente do relativismo positivista. Esse projeto foi abandonado 
por Comte logo em 1819, mas iniciava-se ali a autêntica história da filosofia 
positivista. 
Ainda naqueles anos de juventude, Comte escreveu outro ensaio, bem mais célebre, 
no qual são desenvolvidos princípios positivistas. Intitulava–se Plano dos Trabalhos 
Científicos Necessários para Reorganizar a Sociedade (1822) ou, 
simplesmente, Opúsculo Fundamental. Desenha-se, nesse ensaio, um vasto plano 
para reorganizar a sociedade francesa mergulhada na crise e na anarquia 
posteriores à Revolução Francesa. Após aprofundadas reflexões sobre a 
natureza espiritual da crise europeia, Comte procura se fazer escutar pelos 
cientistas que, conforme pensava, constituíam a única autoridade respeitada na 
Europa decadente, sendo o único poder capaz de dirigir a reorganização social, 
para convencê-los a tomar em mãos o poder social ou, nas palavras de Comte, 
ensinar-lhes “a tratar a política de maneira positiva”. 
Elabora então Comte, pela primeira vez, o mais célebre de todos os seus conceitos, 
a teoria ou lei dos três estados. Segundo o positivismo, o espírito humano 
necessariamente se desenvolveu no decorrer de três fases ou estados: o teológico, 
o metafísico e o positivo. A expressão “o espírito humano” significa, bem 
restritamente, “conhecimento científico”. Assim sendo, ao se referir aos três estados 
do espírito humano, Comte nos remete, acima de tudo, a certas fases da história 
das ciências. A lei dos três estados, assim concebida, seria um conceito filosófico 
“compreensível para os cientistas”. De forma sintética, Comte expõe-lhes a história 
do espírito humano, como se segue: “Pela própria natureza do espírito humano, 
cada ramo de nossos conhecimentos está necessariamente obrigado, em sua 
marcha, a passar sucessivamente por três estados teóricos diferentes; o estado 
teológico ou fictício; o estado metafísico ou abstrato; enfim, o estado científico ou 
positivo”. 
O estado teológico permaneceu enquanto a humanidade, por meio de seussábios, 
fazia poucas observações realmente positivas, ou seja, fundadas em observações 
efetivas dos fenômenos naturais. Como então os fatos conhecidos eram poucos, 
somente era possível ligá-los por meio de “fatos inventados”. Desse modo, naquele 
estágio inicial das ciências, para explicar as leis que regem os fenômenos naturais, 
os sábios recorreriam a “agentes sobrenaturais”. Mas, de qualquer modo, ao menos 
provisoriamente, as explicações teológicas ajudaram a inteligência humana a sair 
do estado de torpor e debilidade, próprio da ignorância primitiva, e se aventurar 
em novas observações, em busca de novos conhecimentos. 
O segundo momento ou estado do desenvolvimento das ciências é chamado pelo 
positivismo de “metafísico” e teria um “caráter bastardo”. Aliás, a palavra “bastardo” 
parece bastante adequada para qualificar o estado metafísico: diz-se que é 
bastardo aquilo que é híbrido, que resulta, como nos conhecimentos metafísicos, 
de enunciações que entrecruzam ideias teológicas com ideias positivistas. Na 
história do espírito humano, o estado metafísico teria ocorrido quando a ciência 
fazia tentativas de ligar os fatos por meio de ideias que não são completamente 
sobrenaturais, mas que não são inteiramente naturais e que são causados por 
“entidades ou abstrações personificadas”. Por exemplo, para explicar os fenômenos 
observados no mundo físico, orgânico e bruto, os sábios metafísicos recorrem à 
natureza, ou seja, a uma espécie de entidade metafísica ou abstração personificada, 
relativa ao conjunto dos fatos físicos. Na verdade, escreve Comte, o espírito 
humano, quando no estágio metafísico, se bem que procurando limitar a absurda 
pretensão de tudo conhecer, restringindo-se aos fatos observáveis, ainda assim tem 
injustificáveis ambições de conhecer “pelas causas absolutas”. 
O que caracterizaria o último estado teórico – o estado positivo – seria que, em sua 
vigência, os sábios passam a admitir que há limites intransponíveis para a 
capacidade humana de conhecimento. Imbuídos de tal genuíno espírito positivo, 
explica-nos Comte, os sábios pretendem, no exercício da ciência, apenas conhecer 
o que está dado – os fatos e suas leis positivas –, sem se preocupar com a explicação 
pelas causas e os fins últimos. Desse modo, o conhecimento científico não poderia 
avançar além de limites claramente estabelecidos, ou seja, nada se poderia 
conhecer senão as leis de coordenação e sucessão dos fenômenos naturais, 
deduzidas dos fenômenos observáveis. 
Segundo Comte, o estado positivo seria o definitivo; tendo-o atingido, o espírito 
humano não alcançaria patamar mais elevado. Aliás, a história do desenvolvimento 
progressivo das ciências seria ela própria um fato positivo e observável na história 
interna de cada ciência. Teria sido com base nessas observações epistemológicas 
que o positivismo pôde estabelecer a própria lei dos três estados. 
Portanto, os estados do espírito humano reduzem-se a modos ou métodos de 
conhecimento, e a lei dos três estados da ciência foi pensada por Comte, antes de 
tudo, como uma categoria epistemológica, ou seja, relativa à filosofia das ciências. 
Como veremos a seguir, é sobre esse fundamento epistemológico que é pensada 
e construída a física social ou sociologia, nas páginas da obra mais importante de 
Comte, publicada em quatro volumes, o Curso de Filosofia Positiva (1830-1842). 
 
FONTE: http://cacsunc.wordpress.com/2011/09/10/auguste-comte-o-fundador-da-sociologia-ou-
fisica-social-2/ 
 
 
UNIDADE 05 - O OFÍCIO DO CIENTISTA SOCIAL 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Compreender o ofício do cientista social, isto é, entender o que estuda 
o profissional das ciências sociais e qual o seu impacto na sociedade. 
 As ciências sociais, como já foi dito anteriormente, surgiram em um contexto 
histórico específico o que originou certas características intrínsecas a essa disciplina, 
entretanto, ela também se transforma ao longo do tempo, e é no ofício do cientista 
social que estas mudanças acontecem. É objeto de estudo das ciências sociais, o 
ser humano e suas relações sociais, com outros seres humanos, bem como com o 
ambiente ao seu redor. Dessa forma, as ciências sociais desenvolvem certa 
metalinguagem, pois podem também estudar e analisar a própria ciência, visto que 
essa é fruto de uma relação, dos seres humanos com seu meio. 
 O objetivo das ciências sociais consiste, muito genericamente, em ampliar o 
conhecimento sobre o ser humano em suas interações sociais e estudar a ação 
social em suas diversas dimensões, e é através de um método de investigação 
científica que esse conhecimento é dado. 
 Assim, é de extrema relevância compreender a importância das ciências 
sociais para a compreensão da realidade, e para isso é necessário entendermos o 
que ela é, de onde se originou e qual a sua função na sociedade. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
As ciências sociais, como o próprio nome já diz, abrangem mais de uma 
disciplina em sua definição. A antropologia, ciência política e a sociologia fazem 
parte da definição de ciências sociais, bem como a economia também pode ser 
colocada neste grupo, e até mesmo a demografia e as relações internacionais. 
 Apesar de todas as disciplinas terem uma origem conjunta, é característica 
essencial à ciência, como um todo, a especificação dos conteúdos, e a 
especialização desses em áreas cada vez menores. 
 Assim, cada área das ciências sociais é vista de maneira separada, mas com 
uma ligação clara, quando estudada profundamente. Um cientista social, facilmente 
percebe a conexão e a nebulosidade dos limites entre cada disciplina. Entretanto, 
pode-se definir de maneiras diferentes cada área específica do conhecimento nas 
ciências sociais, tanto de acordo com o foco de estudo quanto ao método. 
 Talvez, por exemplo, para definirmos a antropologia em oposição às outras 
disciplinas, poderíamos dizer, que a antropologia como disciplina se confunde com 
seu método, pois está comprometida com ele, isto é, fazer antropologia é também 
pensar a antropologia. Apesar de ser comum a definição da antropologia como 
ciência que estuda as culturas, e as compara, isto é, buscando compreender as 
semelhanças e diferenças culturais entre os diferentes agrupamentos humanos, de 
maneira, micro, em contraposição com a sociologia, que seria o macro, pode-se 
dizer que o verdadeiro diferencial da antropologia está em seu método, a 
etnografia. Diferentemente das outras áreas específicas, a antropologia propõe 
uma mediação entre formas diferentes de ver o mundo, ao através da etnografia, 
buscar compreender ao outro e a si mesmo. 
 
 
A sociologia seria então, essa ciência mais macro, que estuda as ações sociais 
e as interações que ocorrem na sociedade; os grupos e os fatos sociais, a divisão 
da sociedade em classes e camadas, a mobilidade social, os processos de 
cooperação, competição e conflito na sociedade. 
A etnografia é o método de pesquisa da antropologia, no qual o antropólogo vai a campo 
estudar e conviver com o seu objeto de estudo, tendo sempre em vista que este objeto é também 
um sujeito na ação tanto do próprio antropólogo, como dele próprio e do mundo. 
 É objetivo da ciência política o estudo das formas de distribuição de poder 
na sociedade, assim como da formação e do desenvolvimento das diversas formas 
de governo. 
 Todavia é importantíssimo lembrar que todas essas ciências podem sim ter 
o mesmo objeto de estudo, entretanto a análise seria diferente por ter focos 
divergentes. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
O texto abaixo mostra claramente o ofício do cientista social. Através dessa 
entrevista com o sociólogo José de Souza Martins, pode-se perceber que tipo de 
análise um cientista social faz da realidade, e a distinção entre uma análise científica 
e crítica da realidade e o senso comum, ou até mesmo uma análise de jornalistas, 
psicólogos e outros especialistas.Brasil é país de linchamentos (Estadão) 
 
Abaixo reproduz-se a entrevista do sociólogo José de Souza Martins, concedida ao 
jornal O Estado de São Paulo e publicada em 17 de Fevereiro de 2008, acerca do 
tema Linchamento. 
Flávia Tavares 
 
No fim de semana passado, três homens suspeitos de roubo foram linchados na 
periferia de Salvador. No sábado, Emílio Oliveira Silva e Michael Santa Izabel, 
acusados de saquear residências da vizinhança, foram linchados por mais de 30 
pessoas. Emílio foi morto a pauladas. Domingo, a vítima foi um homem de 
identidade desconhecida. Ele também foi perseguido por mais de 30 moradores, 
que o acusavam de roubar uma TV. Morreu no local, a 200 metros de onde Emílio 
e Michael foram atacados. Na noite de segunda-feira, em Ribeirão Preto (SP), o 
estudante Caio Meneghetti Fleury Lombardi, que invadiu um posto de gasolina, 
atropelou o frentista Carlos Pereira Silva e tentou fugir, sofreu uma tentativa de 
linchamento. Por fim, na quinta-feira, um adolescente da Fundação Casa (ex-
Febem) foi linchado até a morte por outros internos, em Franco da Rocha (SP). 
Foram cinco casos noticiados em 6 dias. Não se trata de uma epidemia - em nosso 
contexto, é algo normal. José de Souza Martins, sociólogo e colaborador do Aliás, 
estuda linchamentos há quase 30 anos e documentou 2 mil casos. Ele faz uma 
estimativa surpreendente: no Brasil, possivelmente o país que mais lincha no 
mundo, há 3 ou 4 casos por semana. Geralmente, nas periferias das cidades, com 
São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro à frente. 
A análise minuciosa de como se dão essas atrocidades é dolorosa, mas reveladora. 
Mais de 500 mil brasileiros e brasileiras, incluindo crianças, participaram de 
linchamentos nos últimos 50 anos - e quase ninguém foi punido. A seqüência de 
agressões vai do apedrejamento à mutilação. Não é uma questão de pura maldade: 
é a população agindo, equivocadamente, onde a Justiça não atua. 
José de Souza Martins, de 69 anos, professor de sociologia da Faculdade de 
Filosofia da USP, está lançando dois livros - uma reedição ampliada de Sociabilidade 
do Homem Simples (Ed. Contexto) e o inédito A Aparição do Demônio na Fábrica 
(Ed. 34), ambos sobre a cultura operária. Na entrevista a seguir, ele discorre sobre 
o fenômeno do linchamento, tema que pretende, em breve, transformar em livro. 
 
O Brasil é o país que mais lincha no mundo? 
 
Possivelmente. Isso nos últimos 50 anos, período que minha pesquisa abrange. Não 
dá para ter certeza, porque linchamento é o tipo de crime inquantificável. Mesmo 
os americanos, quando tentaram numerar seus casos, tiveram fontes precárias. O 
linchamento é um crime altruísta, ou seja, um crime social com intenções sociais. O 
linchador age em nome da sociedade. É um homem de bem que sabe que está 
cometendo um delito e não quer visibilidade. Por outro lado, no Código Penal 
brasileiro não existe o crime de linchamento, somente o homicídio. Então, ele não 
aparece nas estatísticas. Os casos são diluídos. Estimo que aconteçam de 3 a 4 
linchamentos no País por semana, na média. São Paulo é a cidade que mais lincha. 
Depois, vêm Salvador e Rio de Janeiro. 
 
Que análise o senhor faz de um país habituado ao linchamento? 
 
As sociedades lincham quando a estrutura do Estado é débil. Há momentos 
históricos em que isso acontece. Na França, depois da 2ª Guerra Mundial, quando 
não havia uma ordem política, havia a tonsura (a raspagem dos cabelos) de 
mulheres que tiveram relações sexuais com nazistas. Era uma forma de estigmatizar, 
para que ela ficasse marcada. O linchamento original, nos Estados Unidos, tinha 
essa característica. 
 
O que configura um linchamento? 
 
É uma forma de punição coletiva contra alguém que desenvolveu uma forma de 
comportamento antissocial. O antissocial varia de momento para momento e de 
grupo para grupo. Na França, ter traído a pátria era um motivo para linchar. No 
caso da Itália, aconteceu o mesmo. No Brasil, é o fato de não termos justiça, pelo 
menos na percepção das pessoas comuns. Nesse caso do atropelamento de um 
frentista em Ribeirão Preto, por exemplo, o delegado decidiu inicialmente por crime 
culposo (depois mudou para doloso). As pessoas que tentaram linchar o rapaz 
acreditavam que não haveria justiça, já que a pena seria mais leve por conta da 
atenuante. 
 
Qual o perfil de quem é linchado? 
 
Em geral, é linchado o pobre, mas há várias exceções. Há uma pequena 
porcentagem superior de negros em relação a brancos. Se um branco e um negro, 
separadamente, cometem o mesmo crime, a probabilidade de o negro ser linchado 
é maior. 
 
Que criminoso é mais vulnerável? 
 
O linchado pode ser desde o ladrão de galinha até o estuprador de criança. Sem 
dúvida, os maiores fatores são os casos de homicídio. Se a vítima do assassino é 
uma criança ou um jovem, ou se houve violência sexual, os linchamentos são 
frequentes. Há muitas ocorrências por causa de roubo, especialmente se o ladrão 
é contumaz. Acredito que tenha sido o caso dos rapazes em Salvador. A própria 
população estabelece uma gradação da pena que vai impor ao linchado. Esta é a 
dimensão de racionalidade num ato irracional. 
 
Como funciona essa gradação? 
 
Um ladrão de galinha vai sair muito machucado - e pode acontecer de ele morrer. 
Mas o risco de ser queimado é mínimo. Com o estuprador é o contrário. Há também 
uma escala de durabilidade do ódio. Se um ladrão sobreviver durante 10 minutos 
de ataque, está salvo. Tem havido muitas tentativas de linchamento em acidentes 
de trânsito. Mas normalmente a polícia chega logo e evita o ataque. 
 
Mulheres são linchadas? 
 
É raríssimo. Nos 2 mil casos que estudei, há dois ou três em que uma mulher foi a 
vítima. Agora, há muitas mulheres linchadoras no Brasil. Mulheres e crianças. 
 
Quem são os linchadores no Brasil? 
 
Não há tanto uma divisão de ricos e pobres. De modo geral, os linchamentos são 
urbanos. Ocorrem em bairros de periferia. Porém, há linchamentos no interior do 
País, onde quem atua é a classe média. O caso mais emblemático é o de Matupá, 
no Mato Grosso. O linchamento foi filmado e passado pela televisão, no noticiário. 
Três sujeitos assaltaram o banco, a população conseguiu linchá-los e queimá-los 
vivos. Isso foi a classe média. E quando a classe média lincha, a crueldade tende a 
ser maior, porque ela tem prazer no sofrimento da vítima. O pobre é igualmente 
radical, porém é mais ritual na execução do linchamento. 
 
 
 
UNIDADE 06 - FORMAÇÃO SOCIAL DO BRASIL 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Desenvolver um panorama histórico da formação social do Brasil 
para compreender então, o contexto específico de sua formação e as 
consequências que se apresentam até a contemporaneidade. 
 Como é de conhecimento de todos, o Brasil assim como a maioria dos países 
da América Latina, foi colonizado após o seu “descobrimento”, e teve imposto o 
sistema colonial de exploração. Esta situação permitiu nesse sentido, um 
desenvolvimento específico do país, que não pode, em muitos aspectos, ser 
comparado com o de seu descobridor e nem com outros países do hemisfério 
norte, mas que teve sua história influenciada e transformada intrinsecamente por 
estes. 
 A formação social do país, isto é, a sua estrutura e estratificação social, sua 
formação política, ideológica, assim como o sistema capitalista que o define, 
organizam a vida em sociedade, e as relações que se dão neste sistema. É por isso, 
de extrema importância compreender como se deu a formação social do Brasil, 
para que seus problemas e questões atuais possam ser analisados a luz de um 
contexto histórico específico de desenvolvimento. Questões como a divisão social 
de classes, do trabalho, a organização dos trabalhadores, os movimentos sindicais 
e sociais, a ascensão das classes C e D, a vitória do PT por três governos 
consecutivos, todas essas questões contemporâneaspodem ser vistas como 
extremamente ligadas à formação social do Brasil desde 1500. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
 Pode-se dizer que o Brasil tem um traço distintivo em sua formação social. 
De acordo com Fernando Novais, a história do Brasil nos três primeiros séculos 
estava ligada a história da expansão comercial e colonial europeia na época 
moderna. Segundo o autor, o Brasil colônia tinha problemas e mecanismos da 
política imperial lusitana, sendo assim um prolongamento de sua metrópole. Como 
já foi dito anteriormente, o caráter de exploração mercantil marcou o tipo de vida 
econômica das colônias. A produção do Brasil colonial era ajustada às necessidades 
da procura europeia. Assim o sistema colonial determinou o modo de produção, 
que garantia uma ampla margem de lucro, devido aos regimes de trabalho escravo. 
Segundo Novais, a economia colonial permitiu um atraso tecnológico no 
país, de caráter predatório, com uma sociedade de castas que era necessária para 
manter a escravidão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A sociedade colonial no Brasil se prolongou até o século XIX. Com a vinda 
da família real portuguesa a sociedade brasileira sofreu uma grande mudança, pois 
passou a ser uma colônia com a presença da realeza. Assim, foi à chegada da família 
real um ponto importante no desenvolvimento de diversas áreas da sociedade 
brasileira. Foi nesse contexto que a educação passou a ser uma preocupação no 
país, deixando de estar tão associada ao ensino religioso conduzido pelos jesuítas. 
Foi também um período que se desenvolveu o comércio, pois a família real tinha 
necessidades de consumo diferentes dos moradores da colônia. Na segunda 
metade do século XIX ocorreram transformações importantes na história do Brasil. 
A abolição da escravatura se deu como uma necessidade do país, por causa do 
desenvolvimento da economia capitalista: o trabalho escravo era oneroso e havia a 
necessidade de desenvolvimento de um mercado interno, principalmente por 
pressão da Inglaterra que buscava um mercado consumidor para os produtos de 
seu país. É através da economia do trabalho assalariado que nasce o mercado 
interno. E é o café que propicia o início do desenvolvimento dos primeiros núcleos 
produtivos industriais, porém a indústria da época atendia as demandas 
subordinadas a acumulação agroexportadora. 
Nasce no fim do século XIX a indústria de bens de consumo assalariado, 
além do surgimento de uma nova camada da população brasileira ligada a 
atividades financeiras e os profissionais liberais. 
De 1889 a 1930 é momento denominado de 1ª República, o qual marca a 
transição do capitalismo comercial para o capitalismo industrial no Brasil. O estado 
oligárquico é a forma da primeira república, tentando manter a sua estabilidade, 
através do abafamento da oposição civilista, isto é, oriunda da classe média, e 
reprimindo também a contestação do movimento operário. A partir dos anos 20 
ocorre uma crise que abala a dominação da república oligárquica homogeneizada 
pelo café, tudo isso devido à crise de 29 conjuntamente com uma crise social 
(trabalhadores, classe média, tenentismo e coluna prestes) e a ruptura entre Minas 
Gerais e São Paulo nas eleições de 1930. Essa ruptura entre os dois estados veio de 
um quadro de descontentamentos, no qual São Paulo acreditava que Minas iria 
aceitar um lugar subalterno na política do país. Nasce então, uma aliança contra 
São Paulo, no qual Getúlio Vargas era candidato do Rio Grande de Sul, mas que 
perde para Julio Preste, por causa de corrupção. 
Em outubro de 1930 ocorre a denominada Revolução de 30, com uma 
reestruturação econômica institucional profunda e uma reorganização das 
burguesias. Nesse momento, a burguesia agrária não foi eliminada, mas houve uma 
recomposição orgânica das várias frações dominantes e o povo era a base. A 
burguesia industrial era, no entanto, débil e cabia ao Estado o papel de desenvolvê-
la. Neste contexto houve uma ampliação de espaço dos diversos setores agrários, 
da burguesia nascente e das camadas médias da sociedade brasileira. A classe 
trabalhadora passa a fazer parte do cenário econômico e político. Durante a época 
em que Getúlio estava no poder existia uma polarização clara entre esquerda e 
direita, e a classe operária tinha o papel decisivo na nova arquitetura do poder e no 
desenvolvimento do capitalismo industrial no Brasil. Em 1945 ocorre a primeira 
crise do getulismo, que não deixava de ser uma crise no Estado Novo, buscando o 
fim dos regimes fascistas e propostas de democratização. A partir de 1946, Dutra 
entra no poder, promulgando uma nova constituição que é mais democrática, 
porém liberal. 
A década de 50, com a eleição de Getúlio, marca uma retomada no 
movimento sindical, na qual as massas começaram a lutar para ir além dos espaços 
que lhes eram reservados, transcendendo o esquema nacional desenvolvimentista. 
De 1955 a 1960 podemos ver um discurso varguista sem o Vargas. Com Juscelino 
Kubitschek propõe-se um projeto político de país, isto é, um incentivo nacionalista, 
mantendo assim uma democracia burguesa institucionalmente consolidada, com 
apoio de várias camadas da população. 
Após 1961 ocorrem diversas situações, como a renuncia de Janio Quadros, a 
posse de João Goulart com um sistema parlamentarista, que levam ao Golpe Militar 
de 1964. 
A ditadura militar no país marcou profundamente a sociedade brasileira, 
tanto em aspectos propriamente sociais, como no campo da economia e da política. 
Foi um período de grande repressão, no qual os direitos básicos dos seres humanos 
eram negados. Foi também um período de crescimento econômico, que dependia 
exclusivamente do grande endividamento do país, tendo consequências até hoje 
em nossa economia. 
Entretanto, foi durante a ditadura militar que os movimentos sociais 
passaram a ter uma maior organização criando as demandas que foram 
posteriormente incorporadas na Constituição de 1988. No período pós-ditadura 
esses movimentos lutaram para trazer a democratização para o país e 
principalmente uma melhoria nos espaços políticos de representação e uma 
diminuição na desigualdade social, fruto do crescimento sem divisão de benefícios. 
Com a chegada do neoliberalismo no país, os movimentos sociais se viram 
em uma encruzilhada, pois tendo no neoliberalismo a premissa de um Estado 
reduzido, isto é, que só cumpre com algumas necessidades básicas do cidadão, os 
movimentos sociais, em grande parte, tentaram se institucionalizar para continuar 
na luta pelos direitos. 
Os anos 90 viram o ápice do neoliberalismo com Collor e a tentativa de uma 
recuperação com Fernando Henrique e posteriormente a chegada no poder de um 
dos filhos do movimento sindical brasileiro, Lula. Todas essas transformações são 
essenciais para a formação do que definimos hoje como sociedade brasileira, que 
tem sua especificidade em seu passado de colonização, mas que tem suas 
características transformadas ao longo de seu processo histórico de 
desenvolvimento. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
O link abaixo traz um texto que faz uma reflexão sobre os movimentos 
sociais na atualidade, sua participação e sua interação com o Estado e com a 
sociedade civil. 
http://socializandosociologia.blogspot.com.br/2010/06/movimentos-sociais-texto-
didatico-de.html 
 
 
 
UNIDADE 07 - FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Desenvolver um panorama histórico da formação econômica do 
Brasil para compreender então, o contexto específico de sua formação e as 
consequências que se apresentam até a contemporaneidade. 
 Assim como a formação social do país foi marcada de forma importantíssima 
pelo contexto da colonização e do imperialismo, a formação econômica do país 
teve todo o seu desenvolvimento marcado pelas consequências da forma de 
colonização aplicada por Portugal. 
 A chamada industrialização tardia, a qual defineaté hoje, as características 
de nossa política econômica, teve origem por causa da forma com que a 
colonização se deu no Brasil, e como foram administrados os recursos obtidos na 
época. 
 É de extrema relevância a compreensão do desenvolvimento da formação 
econômica de nosso país, para entendermos e analisarmos as dinâmicas e políticas 
econômicas da atualidade, que se dão desta forma, por causa das fortes influências 
de nosso passado de colonização. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
É conhecimento comum à importância da revolução industrial no 
desenvolvimento de todos os países do mundo, tanto aqueles que foram seus 
precursores como aquelas nações que tiveram um desenvolvimento tardio das 
forças de produção industrial. 
 No Brasil, a industrialização foi um agente definidor do desenvolvimento do 
país até o presente momento. De acordo com a CEPAL (Comissão Econômica para 
América Latina) para a industrialização ser considerada completa é necessário 
completar a pirâmide da industrialização: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Os países que tiveram a chamada Industrialização Original, isto é, a 
Inglaterra, que começou com a revolução, tinha em 1850, completado todo o 
desenvolvimento da pirâmide, posteriormente, países como EUA, Alemanha, Japão, 
e URSS, tiveram a industrialização que é considerada atrasada, e se deu por volta 
de 1900. Já o Brasil e outros países da América Latina, iniciaram a industrialização 
tardiamente, o Brasil, por exemplo, só iniciou seu processo de industrialização por 
volta de 1959, mais de um século depois da Inglaterra. 
Existem diversas teorias sobre o porquê da industrialização tardia no país, e 
a própria Cepal, desenvolveu uma periodização para a economia brasileira, que 
posteriormente foi alvo de várias críticas. 
Uma dessas críticas, feita por João M. Cardoso de Mello, que foi um membro 
da Cepal, porém teceu alguns pontos de discordância com esta, propõe uma nova 
periodização para a economia Brasileira. A Cepal propunha uma periodização na 
qual, o período colonial no Brasil era considerado primário-exportador (entre 1808 
e 1930) e que a partir de 1930 já poderíamos considerar a existência de um período 
de industrialização, mais especificamente, uma industrialização para a substituição 
da importação, este período era dividido então em 2 etapas, a da indústria leve, até 
Bens de 
Capital 
Bens de consumo 
duráveis 
 
Ind. de Insumos Básicos 
Ind. de Bens de Consumo não duráveis 
os anos 50 e da indústria de bens de consumo duráveis e bens de capital a partir 
de 1955. Ou seja, para a Cepal, a formação econômica e social brasileira deixa de 
ser predominantemente mercantil a partir de 1930, com o capital industrial. 
Para João Manoel, é a partir de 1888 (com a abolição da escravatura) que o 
Brasil passa a ter o modo capitalista de produção como estrutura dominante. A sua 
nova periodização divide a história econômica brasileira em três grandes períodos: 
até 1808, a economia era considerada colonial, e era vigente o sistema colônia-
metrópole, a partir de 1808 até 1888, a economia poderia ser denominada como 
mercantil-escravista, porém já com um caráter nacional, de 1888 em diante pode-
se dizer que o Brasil tinha uma economia exportadora capitalista retardatária.
 Essa crítica via a periodização da Cepal como uma visão que não levava em 
consideração os condicionamentos sociais e políticos do processo de 
desenvolvimento econômico brasileiro. 
 No Brasil, diferentemente da Inglaterra que teve o capital inicial para a 
industrialização proveniente de banco, foi o café que propiciou o acumulo de 
capital originário. Porém para um desenvolvimento completo da industrialização, é 
necessário um complexo de fatores, como trabalho assalariado, mercado interno e 
burguesia nacional. 
Com o café, houve o surgimento e consolidação do capital industrial e assim 
uma concentração de capital monetário, ele possibilitou a transformação de força 
de trabalho em mercadoria, e criou o mercado interno. No auge do café, o Brasil 
tinha capacidade de importar alimentos, meios de produção e capital. 
 Assim, em 1988 iniciou-se a industrialização brasileira, porém só se 
desenvolveu nesse período a indústria de bens de consumo, isto porque existia um 
monopólio das tecnologias necessárias à industrialização (bens de produção), assim 
como dos mercados industriais. 
De 1933 até 1935, ocorreu a segunda etapa da industrialização. O centro 
dinâmico da economia se desloca, segundo Celso Furtado, para dentro do país, e 
se desenvolve assim as indústrias de insumo de base, criando empregos e 
consolidando o mercado interno. Porém essa industrialização é restringida, ou seja, 
é insuficiente para implantar bens de produção, pois existe como já foi dito 
anteriormente, uma descontinuidade muito grande de tecnologias necessárias para 
o desenvolvimento deste tipo de indústria. A terceira etapa da industrialização 
brasileira se dá a partir de 1955, quando houve a implantação de blocos de 
investimento altamente complementar, gerando assim um grande salto 
tecnológico. Foi propiciada nesta época a implantação das forças produtivas 
capitalista, integrando assim a pirâmide da industrialização de forma vertical. É 
importante ressaltar, entretanto, que esse processo foi coordenado totalmente pelo 
Estado, através de incentivos, o que possibilitou a rapidez do processo, isto é, em 
seis anos a pirâmide estava completa, atraindo capital e fábricas internacionais. O 
decisivo papel do Estado se deu através do tripé: capital nacional, capital 
estrangeiro e a intervenção do estado através da articulação desses dois tipos de 
capital e do incentivo ao crédito. Nesse momento, as empresas de bens de capital 
são privadas, principalmente de origem estrangeiras (pois tinham a tecnologia 
necessária), e os insumos e infraestrutura era em sua maioria estatal. 
 Todo esse desenvolvimento só foi possível através do PLANO DE METAS, 
isto é, uma política econômica do Estado, que ampliava a participação direta do 
setor público. Esse plano tinha como objetivo principal desenvolver a 
industrialização no país, e deixava em segundo plano, questões relacionadas à 
inflação e dívida externa. Foi nesse período que se desenvolveram as usinas de 
grande porte, como as de energia, o setor de transporte (rodovias, ferrovias e o 
setor marítimo). Houve assim, nesse momento da história do país, um tratamento 
favorável a entrada de capital estrangeiro e um estímulo a inversões privadas 
prioritárias (reserva de marcado: lei do similar). A inflação teve um caráter 
subordinado, e o BNDES que surgia nessa época teve um papel muito importante 
nesse processo. 
Dessa forma, todos os instrumentos da política econômica foram orientados 
para a industrialização, principalmente a indústria pesada. Ocorreu assim, um 
aumento da inflação, e proporcionou um déficit na balança de pagamento. 
Também não se preocupava com a má distribuição de renda, juntamente com uma 
dinamização das expansões privadas e uma elevação dos gastos com o setor 
público. Em 1964, a instabilidade política trazida com o golpe militar era refletida 
na economia. O Brasil já tinha completado o processo de industrialização e não 
dependia do café, ocorrendo uma mudança nos padrões de consumo e 
sociabilidade. Entretanto, apesar de que com as reformas de base a industrialização 
ter sido completada, as instituições econômicas ainda eram baseadas no sistema 
agrário. A tradição centralizadora do Estado teve um caráter mais coercivo durante 
a ditadura militar, abrindo caminho para uma intervenção estatal crescente na 
economia. Todavia, o autoritarismo tecnocrático militar não seguiu uma direção 
coerente na economia, desenvolvendo uma política de exclusão que acentuou de 
maneira exorbitante a desigualdade no país. Houve uma crescente 
internacionalização do setor industrial moderno atado ao crédito bancário 
internacional,porém as vantagens imediatas desse grande endividamento não 
foram dividas pela população. Entre 1968 e 1963 ocorreu o que até hoje é 
denominado de ‘Milagre Econômico’, no qual através do cumprimento das metas 
do antigo plano de metas, ocorre uma abertura financeira da economia e um 
favorecimento interno da acumulação, todos apoiados no sistema de crédito. Nesse 
sentido, o emprego e o consumo aumentam, mas as custas de um endividamento 
absurdo, que tem consequências até hoje. 
No fim da ditadura, após o choque do petróleo e com a Moratória Mexicana, 
o Brasil teve que recorrer ao FMI, trazendo uma dependência financeira que trouxe 
um arrocho salarial e grandes crises, como por exemplo, na área da habitação. 
Até a contemporaneidade, vivemos as consequências da industrialização 
tardia, do crescimento econômico acelerado durante os governos militares, que 
trouxeram um grande endividamento, mas que os benefícios em curto prazo destes 
endividamentos não foram divididos para toda a população. Após a ditadura o 
Brasil teve que se organizar em todos os campos, tanto na parte econômica, quanto 
social e política, e por isso, o neoliberalismo, doutrina política já vigente em muitos 
países da Europa e América do Norte, demorou a chegar e trazer suas mudanças 
ao país. 
É com o governo de Collor que o neoliberalismo chega com toda a força no 
Brasil, trazendo grandes privatizações, e uma reforma estatal, que desaparece com 
a ideia de cidadania e direitos universais. Ocorre um ajuste em todas as áreas da 
economia para pagamento de juros e controle da dívida externa. 
Assim, fica clara a relação entre a nossa industrialização tardia e as 
consequências que esta trouxe para o desenvolvimento da economia atual. A 
formação econômica do Brasil tem uma especificidade, o passado colonial 
Brasileiro, mas não deixa de estar inserida no contexto do capitalismo mundial, e 
por isso suscetível as mudanças da economia das grandes potencias do mundo 
moderno. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
O link abaixo mostra um artigo que busca uma interação entre a formação 
econômica brasileira e o contexto atual da economia no país. Nesse sentido, leia o 
texto e reflita sobre o conteúdo dessa unidade. 
 
http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=421 
 
 
 
UNIDADE 08 - FORMAÇÃO CULTURAL DO BRASIL 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Compreender de que forma as dinâmicas de colonização, 
escravidão, imigração e regionalização colaboraram e a ainda colaboram para a 
chamada “formação cultural do país”, buscando entender temas como o de 
identidade, nacionalidade, mistura e etnia. 
 A colonização e a escravidão foram definidoras do desenvolvimento do país 
em todas as áreas de sua formação. Tanto a formação econômica, social, como a 
cultural foram marcadas profundamente por essa relação assimétrica de poder. É 
comum, talvez por causa da hegemonia e ideologização do pensamento, um 
discurso que vê no Brasil a mistura de grupos distintos que definiriam o chamado 
jeitinho brasileiro. Se vê nesse discurso também uma fatalização de nossas 
características, como se essas fossem intrínsecas de nossas origens, antes vistas 
como “raciais”. 
 Nesse sentido, é com o objetivo de questionar certas visões hegemônicas 
que essa unidade se apresenta a vocês. Pensar o Brasil de forma livre de 
estereótipos e senso comum, buscando entender a sua especificidade bem como o 
que se assemelha e em que se relaciona com os outros países, é uma necessidade 
assombrosa no contexto atual, de crescimento de grupos extremistas por todo o 
mundo, que evocam nacionalismo e identidade como sua bandeira, e que tem sua 
expressão no Brasil, tanto ligados ao preconceito regional, como racial. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Para pensar a formação cultura do Brasil, uma pergunta vem em nossa 
mente: O que é ser brasileiro? O que faz de todos nós cidadãos do Brasil? A ideia 
de ser parte de uma nação tem atrelada em si questões muito complexas. Conceitos 
como identidade, nacionalidade, território, entre outras permeiam a discussão 
sobre o que é ser brasileiro. 
 Quando os portugueses primeiros chegaram ao local que hoje é definido 
como Brasil, existiam aqui grupos nativos, que posteriormente, sem muita 
oportunidade de escolha foram definidos e enquadrados à nação brasileira. A 
questão da identidade nacional nos países colonizados sempre gera um debate 
polêmico. Pretende-se então, nesta presente unidade expor alguns debates 
pertinentes a esta temática, para que possamos desvencilhar nosso olhar cada vez 
mais, do senso comum. 
 Os primeiros estudiosos da cultura brasileira advinham da experiência 
colonial, no qual o espaço de produção do conhecimento estava ligado ao 
questionamento sobre a diversidade humana. 
 Os primeiros contatos entre os colonizadores e colonizados trazia a 
problemática relação entre nós e os outros, na qual os portugueses viam os 
indígenas como ‘outros’ extremamente diferentes e por causa da doutrina 
evolucionista vigente no pensamento da época, esses ‘outros’ tão diferentes eram 
vistos como animais, menos civilizados, sem alma. Os ameríndios, como um todo, 
são analisados de forma generalizada, sem perceber as nuances entre os diversos 
grupos. 
 
Dança dos Índios Tupinambás, em gravura do livro 
Duas Viagens ao Brasil de Hans Staden. 
O contexto da colonização, inserido na ideia de exploração, utiliza da ideia 
de desenvolvimento evolucionista da sociedade para justificar a exploração dos 
indígenas pelos portugueses. É com essa mesma justificativa que a escravidão é tão 
aceita e difundida em um momento posterior. 
 
 
 
É na interação entre portugueses, indígenas e negros que começa a surgir 
algo que é denominado de nacionalidade brasileira. Entretanto, essa “mistura” de 
raças (como eram consideradas as diferentes etnias e grupos étnicos) era vista de 
forma negativa, levando segundo o pensamento da época, à degenerescência da 
população brasileira. 
 Todavia, é simples perceber que a nacionalidade, ou até mesmo a 
identidade, são fenômenos construídos. Ninguém nasce com características 
naturais de um determinado grupo, pois como já vimos, o homem é um ser social, 
que se constrói em sua humanidade através de suas relações. 
Segundo o antropólogo Renato Ortiz, a história brasileira é apreendida em 
termos deterministas, clima e raça explicando a natureza indolente do brasileiro, as 
manifestações tíbias e inseguras da elite intelectual, o lirismo quente dos poetas da 
terra, o nervosismo e a sexualidade desenfreada do mulato (cultura brasileira e 
identidade nacional). 
Nesse sentido, é importante perceber que a teoria racialista foi determinante 
no pensamento sobre a formação do povo brasileiro, e por isso existem até hoje 
formas de se pensar que são baseadas na concepção de que o povo brasileiro é 
formado pela junção de três raças distintas (branco, negro e índio). Entretanto, é 
preciso desenvolver uma análise crítica que compreenda a sociedade brasileira 
como historicamente construída, fruto de um contexto específico, e que nem por 
isso tem características intrínsecas definidas de forma maniqueístas como boas ou 
ruins. 
 O Brasil como uma nação, foi construído e é construído nas relações que se 
dão entre pessoas, entre os membros desta comunidade imaginada (Benedict 
Anderson), e é nas relações que as identidades vão se formando. Não existe 
ninguém naturalmente brasileiro, espanhol, português ou africano. O 
“jeitinho brasileiro” é só mais uma maneira, fruto do senso comum, de determinar 
nossas atitudes de acordo com características ditas biológicas ou genéticas. É claro 
que diversos pensadores tiveram uma contribuição importantíssima na análise da 
formação social e cultural do país. Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Roberto da Matta, 
foram precursores de novas visões anticoloniais sobre o povo brasileiro, mas tem 
ainda alguns pontos dignos de crítica.Assim como os países europeus tiveram sua identidade construída ao longo 
do tempo, países colonizados como o Brasil, a América Latina em geral, e as nações 
do continente africano, estão construindo sua identidade e formando aquilo que 
consideramos como nação. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
A questão de miscigenação e da mistura das raças, pensando que essa 
mistura traria certas características naturais ao povo brasileiro, tem sido muito 
criticada na atualidade, principalmente por estar sempre relacionada a 
características negativas, tidas como intrínsecas a população brasileira por causa de 
sua herança colonial. O link abaixo traz um texto, que faz uma crítica a esse tipo de 
análise, e é de extrema relevância por analisar a cultura brasileira de forma não 
tendenciosa e superficial. 
 
http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/historia/0002.html 
 
 
 
UNIDADE 09 - VIDA CIDADÃ EM SOCIEDADE 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Compreender o desenvolvimento histórico do conceito de 
cidadania e de como esta se desenvolveu no Brasil. 
A ideia de cidadania é fruto de um momento histórico específico e se 
transforma conjuntamente com as mudanças que ocorrem na sociedade. Desde a 
Grécia antiga até atualmente o conceito de cidadania foi se reformulando e 
atendendo as características particulares da sociedade e do sistema no qual se 
insere. 
No Brasil, a cidadania demorou a ser vista como um conceito importante e 
abrangente e é somente com o fim da ditadura militar e com os movimentos sociais 
que esta ideia passou a significar algo para as populações mais desprivilegiadas. 
Nesse sentido, é de extrema relevância compreender o desenvolvimento 
histórico da cidadania em um contexto mais geral e no Brasil, para que assim 
possamos pensar no longo caminho percorrido para que ela se tornasse um 
conceito mais abrangente, e quais seriam então, os desafios para o futuro. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
O conceito de cidadania surge na Grécia e sua origem está ligada ao 
desenvolvimento das póleis gregas, entre os séculos VIII e VII a.C. Neste contexto, 
o cidadão era o indivíduo homem, acima de 21 anos, e rico. Isto é, não eram 
considerados cidadãos, todas as mulheres, crianças, escravos e forasteiros, 
excluindo da cidadania, ou seja, dos direitos e deveres, grande parte da população. 
Entretanto, é só com a Modernidade que a ideia de cidadania como, o 
exercício pleno dos direitos políticos, civis e sociais, uma liberdade completa que 
combina igualdade e participação numa sociedade ideal, talvez inatingível 
(Carvalho), se estabelece. 
No Brasil, durante o período colonial, pode-se dizer segundo José Murilo de 
Carvalho, que ocorreu a chamada negação da Cidadania. Apesar dos países na 
Europa estarem desenvolvendo cada vez mais a ideia de cidadania, no Brasil, com 
a sociedade colonial estruturada a partir da unidade produtiva do latifúndio e da 
mão-de-obra escrava (indígena e africana) eram excluídos a maior parte da 
população das condições dignas de vida, e a cidadania tornava-se, assim um 
privilégio de uma elite. 
Os nativos (índios) e africanos ficavam de fora de todas as dimensões da 
cidadania: perderam a liberdade, tiveram as culturas subjugadas, foram excluídos 
do novo modelo econômico, tiveram de trabalhar forçados para contribuir na 
acumulação do capital, não estudavam, eram vítimas de violências física e moral - 
não sendo considerados seres humanos com direitos. O preconceito marcou a 
história do Brasil desde o início. Em três séculos de colonização (1500-1822), os 
portugueses tinham construído um enorme país dotado de unidade territorial, 
linguística, cultural e religiosa. Mas tinham também deixado uma população 
analfabeta, uma sociedade escravocrata, uma economia monocultora e 
latifundiária, um Estado absolutista. “À época da independência, não havia cidadãos 
brasileiros, nem pátria", escreveu Carvalho. 
Essas características da sociedade colonial definiram toda a construção da 
cidadania no país. Demorou muito para que fosse possível que as mulheres, 
crianças, índios, negros e imigrantes, pudessem efetivamente desfrutar dos direitos 
e deveres de cidadão, pois mesmo podendo votar e participar de algumas decisões 
políticas, estes eram (e são ainda) uma população marginalizada. 
Segundo Luis da Silva, quando o Brasil se tornou país em 1822, a estrutura e 
os processos sociais, políticos e econômicos não mudaram. A mesma elite se 
manteve no comando dos destinos do Novo País, com a mesma lógica de 
exploração e exclusão. Tanto que a primeira Constituição brasileira (1824) restringia 
os direitos políticos ao definir quem podia ou não votar. O voto censitário excluía a 
maioria do direito ao voto e do direito de ser votado, pois exigia a comprovação 
de renda mínima e excluía as mulheres e analfabetos. A participação política da 
população durante o período imperial e republicano, portanto, foi insignificante.
 Apenas na Constituição de 1881 foi eliminada a exigência de comprovação 
de renda para votar e ser votado. Mas continuaram excluídos os analfabetos, 
escravos e mulheres. Porém, não havia justiça eleitoral e ética, sendo assim, 
aconteciam todas as formas de fraudes e manipulações nas eleições. 
O coronelismo, entendido como um sistema político da primeira república 
que consistia num compromisso entre coronéis, chefes políticos da área rural e o 
poder público, impedia a ampliação dos direitos políticos e civis. Os direitos sociais 
nunca tiveram na agenda desta época e a maior parte da população continuava 
iletrada e analfabeta politicamente. Outro grande obstáculo à cidadania brasileira 
foi à manutenção da unidade produtiva alicerçada na grande propriedade 
(latifúndio). A Lei de Terras (1850), por exemplo, impedia o acesso à terra que não 
fosse por meio de compra. Assim, preparavam o contexto para a libertação dos 
escravos, não permitindo que os mesmos ocupassem terras e se tornassem 
proprietários, como era comum antes. 
 Desta forma, a abolição dos escravos jogou um contingente humano imenso 
na completa exclusão social e econômica. Sem-terra, sem empregos e analfabeta, 
a maioria ficou na indigência, indo para as periferias urbanas que, mais tarde, 
tornar-se-iam as grandes favelas urbanas formadas por seus descendentes. O ano 
de 1930 foi um divisor de águas na história do País, com a aceleração das mudanças 
sociais e políticas que permitiram à dimensão social da cidadania dar sinais de 
gestação. A criação de uma legislação trabalhista e previdenciária transformou as 
relações entre capital e trabalho, e a legislação social começou a dar uma nova 
configuração à história dos trabalhadores brasileiros. Desta maneira, o 
estabelecimento de normas diminuiu consideravelmente a exploração dos 
trabalhadores urbanos e assalariados. 
Com o governo populista de Vargas os direitos sociais no Brasil tiveram um 
relevante desenvolvimento, principalmente no âmbito trabalhista. Os direitos 
políticos estavam sofrendo grandes transformações, e surgiram neste contexto 
muitos sindicatos e partidos políticos. De acordo com Carvalho, o voto passa a ser 
secreto e juízes profissionais tratam da legislação eleitoral, fiscalizando, alistando, 
apurando votos e reconhecendo os eleitos. A cidadania política dá nova 
performance ao contexto sociopolítico e a cidadania brasileira começa a dar sinais 
de amadurecimento. 
Entretanto, em 1937 com a ditadura Vargas, isto é, o Estado Novo, os direitos 
políticos ficam de certa forma, restritos e coloca-se fim à relativa liberdade política 
conquistada até então. 
Após a de Vargas veio uma experiência democrática, a primeira da História 
do Brasil. Voltaram a acontecer eleições e foi elaborada uma nova constituição. A 
Constituição de 1946 manteve, até 1964, as conquistas sociais do período anterior 
e garantiu os tradicionais direitos civis e políticos, permitindo, inclusive, a liberdadede imprensa e a organização política. 
Entretanto, existiam ainda algumas restrições a certas liberdades políticas, 
mas em 1964, todas essas liberdades foram cerceadas. A democracia e a cidadania 
sofreram um imenso golpe com a ditadura militar. Além de toda a liberdade política 
ser restringida, e os direitos civis também terem sofrido um grande golpe, os 
direitos sociais foram extremamente reduzidos. Durante a ditadura ocorreu uma 
grande acentuação na desigualdade social, pois as questões dos direitos sociais 
foram deixadas de lado em virtude da busca pelo crescimento econômico rápido.
 Era claro que nessa época não havia direito à cidadania no Brasil. Prisões 
foram feitas sem mandado judicial, presos eram mantidos sem comunicação, sem 
direito a defesa e além de tudo era torturado infringindo claramente os direitos 
humanos. Não havia liberdade de pensamento. 
Em 1985 a ditadura terminou e iniciou-se um processo de redemocratização. 
A sociedade civil organizada através de diversos tipos de movimentos sociais lutava 
pela cidadania e por todos os direitos que foram suprimidos durante a ditadura. A 
constituição de 1988 foi fruto direto da demanda dos movimentos sociais brasileiros 
até então. Entretanto, apesar desse avanço legislativo, a cidadania não acompanhou 
as mudanças políticas e civis. A redemocratização, por si só, não se mostrou 
garantia de nada. De1988 até o presente momento, muitos avanços foram feitos, 
mas basta olhar as notícias no jornal para começarmos a questionar que cidades é 
essa que vivemos. 
Muitas vezes a cidadania é confundida com apensas o cumprimento dos 
direitos políticos, isto é, do direito de voto. Mas isso basta? 
Com a redemocratização do país, veio à crise econômica, imensas dividas, 
além da falta de dinheiro para políticas públicas. A concentração de renda e riqueza 
continua crescendo e até hoje, esta ideia de cidadania ampliada, que não se limita 
ao direito do voto, é um desafio. 
Não se pode dizer que não houve avanços no período pós-ditadura, pois a 
constituição de 1988 trouxe importantes avanços sociais e trabalhistas. Todavia, 
devemos perceber que a cidadania brasileira nos últimos 20 anos merece um 
estudo mais aprofundado e um questionamento cotidiano. Devemos pensar quais 
são os limites da cidadania no momento em que vivemos e que cidadania 
reivindicamos como direito. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Até o presente momento, discutimos nesta unidade a história da cidadania. 
Com um enfoque mais atual, que questiona a ideia de cidadania que temos na 
atualidade e os limites de nossa participação como cidadãos, o link abaixo traz um 
artigo que é um interessante referencial para desenvolvermos uma análise da 
cidadania em nossa sociedade. 
 
https://www.diplomatique.org.br/print.php?tipo=ar&id=132 
UNIDADE 10 - EXPECTATIVAS PARA O FUTURO DA SOCIEDADE 
BRASILEIRA 
 
CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE 
 
Objetivos: Após a leitura e reflexão sobre os temas das unidades anteriores, 
esta unidade final tem como objetivo principal, a reflexão sobre o Brasil 
contemporâneo e os desafios para o futuro. Através da compreensão de como se 
faz uma análise sociológica da realidade, longe do senso comum, a presente 
unidade pretende apresentar temas atuais para possíveis reflexões. 
 O Brasil tem características na atualidade que só podem ser entendidas a luz 
de sua formação histórica tanto no âmbito cultural, quanto social, político e 
econômico. Essas esferas não estão, no entanto, dissociadas e se relacionam de 
maneira complexa e contraditória, formando o que chamamos de realidade 
brasileira atual. 
 O contexto de colonização definiu de forma clara o desenvolvimento de 
nosso país, e é buscando a compreensão do passado que se pode propor novas 
ações para o futuro. Como já foi dito anteriormente, não se pretende aqui formar 
cientistas sociais, mas sim trazer a vocês uma análise crítica do contexto atual do 
Brasil, e a origem dessa problemática. 
 
ESTUDANDO E REFLETINDO 
 
Após a introdução que realizamos sobre como se constrói o conhecimento 
nas ciências sociais, o que faz o cientista social, e como devemos olhar para a 
realidade com um olhar crítico, baseado no estranhamento e desnaturalização da 
realidade, propomos nesta ultima unidade, mais do que expor conceitos, fazer uma 
reflexão sobre a problemática brasileira atual através de análises de textos e 
reportagens sobre o que está acontecendo no Brasil nos dias de hoje. 
 A luz dos conhecimentos adquiridos sobre a formação do Brasil, tanto social 
quanto econômica e cultural, podemos dizer que nosso país se encontra 
atualmente em um momento muito propicio ao crescimento, mas que deve tomar 
cuidado para não crescer novamente, sem pensar no aspecto social do país. 
 A questão da cidadania, e dos movimentos sociais se mostra como uma 
forma de se pensar a realidade buscando novas possibilidades para a população 
marginalizada, que sempre esteve de fora dos ganhos do desenvolvimento. 
Se realizarmos uma análise da sociedade com um olhar distanciado do senso 
comum, perceberíamos claramente nos problemas tão comuns em nosso cotidiano, 
como desemprego, moradores de rua, fome, enchentes, que estes têm origem na 
formação do Brasil como uma nação. Não podemos desvencilhar esses problemas 
da questão da urbanização, da divisão de terras, da formação da sociedade 
brasileira dividida em classes, da industrialização tardia, do passado de colonização 
e exploração. 
 O que se propõe nessa disciplina é compreender que a realidade, para ser 
compreendida de forma crítica, tem que ser vista através de seu contexto histórico, 
e não descolada deste, e assim tem que ser pensada como uma construção social 
que se deu em um contexto específico e não está dada naturalmente. 
 
BUSCANDO CONHECIMENTO 
 
Utilizando os saberes adquiridos nas outras unidades desta disciplina, leia o 
texto abaixo sobre a questão da cidadania nos dias atuais e reflita sobre como 
podemos transformar nossa realidade cotidianamente com pequenas mudanças 
em nossa vida. 
 
Exercício da cidadania requer aprendizagem e prática 
Transformar princípios e valores em atitudes que beneficiam toda a sociedade é um 
exemplo de cidadania 
Agência USP 
 
Atitudes como não jogar lixo na rua, dar lugar ao idoso em meios de transporte 
coletivo e esperar que as pessoas saiam do metrô antes de entrar são questões 
corriqueiras na vida da população que se encaixam perfeitamente na concepção de 
cidadania pretendida pelo cientista jurídico Ovídio Jairo Rodrigues Mendes. "No 
entanto, pela correria diária, essas atitudes não são observadas e acabam por se 
tornar problemas sociais. E a cidadania requer aprendizagem e prática, sob pena 
de funcionar como mero rótulo", destaca. 
Mendes estudou o tema em sua dissertação de mestrado “Concepção da 
Cidadania", apresentada em 2010 na Faculdade de Direito (FD) da USP. De acordo 
com o cientista jurídico, simbolicamente, comportar-se como cidadão implica em 
quatro momentos: o surgimento do problema social (questões que afetam a 
comunidade), entendimento e análise lógica desta questão, procura racional de 
uma solução adequada para o caso, e a confirmação, para o cidadão, de que a 
solução encontrada satisfaz o problema social enfrentado. 
Para Mendes a questão da cidadania está, hoje, mais vinculada a uma relação de 
consumo do que a um processo de formação de personalidade. "Quando a pessoa 
vai fazer um documento no Poupatempo, ela pega um pedaço de papel e, com 
este ato, se considera um pouco mais cidadã. Mas cidadania não é isso: é viver em 
harmonia com o outro, transformar princípios e valores em atitudes que não 
beneficiam só interesses individuais, mas interesses coletivos. Por exemplo, eu varro 
a rua para evitar que o lixo se acumule e prejudique tanto a mim quanto aos meus 
vizinhos", explica. 
Segundo o pesquisador, a concepção de cidadania adquire seu formatode acordo 
com o problema a afligir a comunidade. O jurista argumenta que "talvez por isso 
seja tão difícil ser cidadão, principalmente em um país de tradição democrática 
recente como o Brasil e onde a educação formal não é valorada como elemento 
fundamental na diferenciação entre 'súdito' [aquele que simplesmente segue a 
vontade do governante] e 'cidadão' [capacidade para procurar e agir de maneira 
mais autônoma possível em prol de interesses próprios, limitado tão somente pelo 
ordenamento legal e pelo respeito ao bem comum]". 
A pesquisa de Mendes não teve a intenção de limitar-se à doutrina jurídicas (teorias 
de direito) e à jurisprudência (decisões dos tribunais). O foco foi direcionado para 
"buscar uma maneira de elaborar uma teoria que o público comum e não só 
cientistas jurídicos ou pessoas esclarecidas se identificassem para uma conceituação 
do que seja cidadania". 
Para realizar o estudo, o cientista jurídico considerou diferentes tipos de narrativa 
sobre a conceituação de cidadania nas teorias dos filósofos Aristóteles, Thomas 
Hobbes e Jean-Jacques Rousseau; passando a uma análise das transformações 
sofridas pela concepção do termo no pós-independência no Brasil Império, no 
Estado Novo e no processo de redemocratização do Brasil, considerando questões 
políticas e econômicas; para, ao final, levantar algumas hipóteses sobre a 
espetacularização da cidadania e a transformação dos cidadãos em plateias para 
projetos de poder de políticos profissionais, principalmente na fase brasileira atual. 
Segundo o pesquisador, o estudo não intenciona julgar as sociedades dos teóricos 
pesquisados e suas concepções de cidadania, mas sim apenas tê-las como modelo-
padrão para a formação de um conceito baseado em valores e princípios simples 
de vida em sociedade, como o respeito ao outro e o respeito à liberdade. 
Mendes assinala que a concepção de cidadania para não ser apenas formal, requer 
a capacidade de a pessoa dispor de objetivos racionalmente possíveis de como 
tornar concretos seus ideais. "Como toda regra, a formulação teórica de uma 
concepção de cidadania tem como primeiro passo a intuição para a identificação 
de regras sobre o assunto dentro da Constituição ou de leis inferiores, tornando a 
sua definição mais palpável ou palatável ao cidadão comum ", diz. 
 
Visão egocêntrica de mundo 
O pesquisador, no entanto, não se limita a questões individuais. "Muitas decisões 
governamentais não privilegiam a sociedade como um todo, mas o interesse de 
setores da população", conta. Ele cita o atual discurso de muitos meios de 
comunicação, sobre diversos acontecimentos cotidianos, como acidentes, 
enchentes, crimes. "Esse discurso vale-se de argumentações opinativas e não da 
lógica, e só acabam por inflamar a teia de queixas e reclamações vazias. Assim, os 
'cidadãos' reclamam da ausência do Estado porque precisam encontrar um 
culpado, pois pagam impostos e, por isso, devem ser servidos; enquanto que, do 
outro lado, o Estado se defende das reclamações, acusando os cidadãos de serem 
os provocadores para todas as desgraças cotidianas", destaca. 
"A culpa está ao mesmo tempo dos dois lados. Falta a consciência de cada um ou 
uma orientação que esclareça dentro do conceito de cidadania a diferença entre 
achismos e racionalidade. O achismo é o não viver, pois não há reflexão; a 
racionalidade é ter a capacidade de interagir, de buscar causas e soluções, que se 
proponham críticas e equilibradas quanto a interesses individuais e coletivos", 
conclui. 
Disponível: http://www.usp.br/agen/?p=46280 
 
 
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