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EAD SOCIEDADE BRASILEIRA Profª Lis Furlani Blanco Reformulação Profª Patrícia Alves de Cerqueira SOCIEDADE BRASILEIRA Profª Lis Furlani Blanco Reformulação Profª Patrícia Alves de Cerqueira UNIDADE 01 - ESTRANHAMENTO E DESNATURALIZAÇÃO DA REALIDADE CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Promover uma primeira reflexão e sensibilização em relação ao pensamento sociológico, isto é, estimular o pensar sociológico de nossa realidade. Pensar a realidade de forma sociológica é fazer uma análise da sociedade de forma crítica, que questione o senso comum tão difundido em nossa sociedade. Mas o que seria então o senso comum? Como diferenciar o senso comum de um olhar sociológico e a partir desse novo olhar, compreender a nossa realidade? Ao vivermos em sociedade, costumamos olhar para o ambiente ao nosso redor e as pessoas que estão a nossa volta de forma natural, isto é, encarando as relações entre as pessoas, e entre estas e o ambiente, como algo que sempre foi assim e sempre será. Damos explicações aos fatos que acontecem em nossa sociedade que são baseadas em nossas pré-noções, fazendo juízos de valor de tudo o que acontece. Entretanto, para desenvolver uma análise sociológica da realidade, é preciso mudar esse olhar já acostumado que temos. ESTUDANDO E REFLETINDO O conjunto mais alargado de crenças que uma comunidade tem por verdadeiras e partilha durante certo período de tempo. O senso comum é um "saber" que resulta da experiência de vida individual e coletiva. Os hábitos e costumes, as tradições e rituais, os "ditos" e provérbios, as opiniões populares, etc., são habitualmente referidos como manifestações do senso comum. A sua aprendizagem é uma condição necessária para a socialização de cada membro da comunidade, funcionando como um mecanismo regulador do seu pensamento e da sua AÇÃO. Do ponto de vista da CIÊNCIA e da FILOSOFIA, os processos de justificação das crenças de senso comum afiguram-se muitíssimo superficiais e falíveis, e é freqüente tais crenças resistirem mal a um exame crítico mais minucioso, pelo que a sua ampla aceitação não é uma garantia de que sejam verdadeiras. (Dicionário Online de Filosofia – disponível em: http://www.defnarede.com/s.html) Ao observarmos a definição do dicionário de filosofia sobre senso comum, percebemos que o senso comum apesar de ser condição necessária para a socialização dos membros de uma comunidade, é apresentado também como um conjunto de crenças, que não passam por um crivo científico, isto é, que não são questionadas e por isso podem não ser verdadeiras. As ciências sociais, como o próprio nome já elucida, são consideradas ciências e por isso têm um método de análise que de certa forma comprova dentro de determinado campo de legitimidade, as análises realizadas. Nesse sentido, o conhecimento construído através das ciências sociais, é no mínimo, diferente do chamado senso comum. Para compreendermos o que é a sociologia, o ofício do sociólogo, e a origem das ciências sociais, e conceber o homem como um ser social é necessário desenvolvermos uma sensibilidade que permita buscar uma explicação de como e por que os fenômenos sociais ocorrem, recusando sempre as explicações de que “sempre foram assim” ou “devem ser assim”. O recurso metodológico para isso é dado pelo princípio do estranhamento, ou seja, o olhar da Sociologia para o objeto de sua análise é um olhar distanciado. Para além de um olhar de estranhamento, isto é, que compreenda a realidade, enxergando de forma crítica tudo aquilo que lhe parece natural, é necessário também desenvolver uma atitude de desnaturalização. A desnaturalização seria então, uma atitude metodológica de construção do conhecimento. Ao longo desta e das próximas unidades, veremos que a maneira como olhamos as coisas que nos cercam, que todo olhar humano é socialmente construído. Ele depende, portanto, de nossa educação, de nossos hábitos e costumes, do país em que moramos, da idade que temos, entre muitos outros fatores. De acordo com Berger, diferentemente do senso comum, a ciência possui um caráter de universalidade. Isto quer dizer que não se baseia em opiniões que variam de pessoa em pessoas, mas sim buscam explicações mais generalistas que tenham validade para todos os fenômenos analisados. Segundo a autora, essa universalidade é indissociável da base objetiva que caracteriza a ciência: as explicações científicas são baseadas em rígidos parâmetros que visam deixar de lado a subjetividade. BUSCANDO CONHECIMENTO Pensando nas ciências sociais, e na dificuldade que temos como atores em nossa sociedade de desenvolver um olhar distanciado e que busque um estranhamento e desnaturalização de nossa realidade, propomos uma análise do texto a seguir, visando compreender como nossas pré-noções determinam de forma clara a visão sobre nossa própria sociedade. “Ritos Corporais entre os Nacirema” – MINER, Horace. A. K. Romney e P. L. Vore (eds.): You and Others – readings in Introductory Antropology. Winthrop Publishers, Cambridge 1973, pp. 72-76 (Tradução: Selma Erlich). O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que os diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. De fato, embora nem todas as combinações de comportamento logicamente possíveis tenham sido descobertas em alguma parte do mundo, o antropólogo pode suspeitar que elas devam existir em alguma tribo ainda não descrita. Este aspecto foi expresso, com relação à organização clânica, por Murdock (1949-71). Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como um exemplo dos extremos a que pode atingir o comportamento humano. Foi o professor Linton, há vinte anos atrás (1936-326), o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para o ritual dos Nacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje. Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e Tarahumare do México e os Carib e Awarak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem a sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força – ter atirado um colar de conchas usado pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po-To-Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residia o Espírito da Verdade. A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evoluiu em um rico habitat natural. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos destes trabalhos e uma considerável porção do dia são dispendidos em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde assomam como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a ele associada são singulares. A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas, e, de fato, a alusão à opulência de uma casa, muito frequentemente, é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmaras de culto das mais ricas paredesde pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas aplicando placas de cerâmica as paredes de seu santuário. Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, são cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais. “Olhando de longe e de cima, de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder e orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fez, suas dificuldades práticas, nem poderia o homem ter avançado aos estádios mais altos da civilização.” Ao realizarmos a leitura do texto, em um primeiro momento por causa da linguagem utilizada e da forma como o autor trata o povo “Nacirema”, isto é, como um povo que vive em um lugar remoto e distante, tendemos a pensar que os “Nacirema” são uma comunidade “primitiva”, que tem sua sociedade organizada através de mitos e ritos. Entretanto, com um olhar analítico, longe do senso comum, percebemos que a sociedade estudada no texto, é muito parecida com a nossa própria sociedade. Os ritos e mitos descritos no texto são parte de nossas atividades cotidianas, mas quando citados da forma que o autor fez, não percebemos o quanto nossa sociedade também é baseada em crenças, como a ciência, a medicina, etc. Nesse sentido, o texto acima deve servir como instrumento de reflexão sobre a questão do senso comum, e de como desenvolver um olhar crítico e distanciado sobre a realidade para que possamos compreendê-la de forma profunda e complexa. Para saber mais: o conceito primitivo é um conceito não mais utilizado na antropologia, por remeter a uma ideia de escalonamento civilizatório, ou seja, compreender as sociedades como que em um crescente de evolução, que tem um ponto máximo a alcançar que é o nosso modelo de sociedade ocidental. UNIDADE 02 - A VIDA EM SOCIEDADE: A CONDIÇÃO HUMANA CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Discutir um tema crucial para as Ciências Sociais: o homem como um ser social. Para isso tentaremos compreender a relação do homem com a sociedade, através da compreensão dos processos pelos quais o homem adquire sua identidade como ser humano, e assim, como ser social, conjuntamente com a forma através da qual o homem obtém os meios de sua sobrevivência, também a sua relação com o espaço (onde), a temporalidade (quando) e o modo como vive, atentando para tudo o que os homens produzem e que faz deles seres humanos e sociais Tomando a teoria da Evolução de Darwin, podemos perceber que para a preservação das espécies animais como um todo, e seu aprimoramento ao longo do tempo é necessário o desenvolvimento dos hábitos de vida, convivência e sociabilidade. O ser humano, como espécie animal também necessita de uma vida em sociedade, e desenvolveu processos de convivência, reprodução, acasalamento e defesa. Para além de atividades que podem ser consideradas apenas “instinto” o homem também desenvolveu habilidades, técnicas, modos e comportamentos que dependem do aprendizado. É nesse ponto que gostaríamos de focar o estudo dessa unidade. Naquilo que diferencia e aproxima o homem dos outros animais. ESTUDANDO E REFLETINDO O homem como animal, mas ao mesmo tempo membro de uma espécie específica, pode ser compreendido como diferente dos animais por grande parte de seu comportamento não ser desenvolvido de maneira “natural”, isto é, sua relação com o mundo e com outros seres de sua espécie não depende da transmissão de genes. Ele é segundo Costa, um animal que necessita de aprendizado para adquirir a maior parte de suas formas de comportamento. Se pensarmos em um exemplo que todos devem conhecer, como o caso do Menino Mogli, que cresce na floresta sem nenhum semelhante humano, e mesmo assim desenvolve comportamentos compatíveis com os seres humanos socializados, podemos perceber que na verdade, este tipo de situação é muito improvável de acontecer, pois para se tornar humano, o homem aprende conjuntamente com outros membros de sua espécie, como viver. Assim, de acordo com Costa, Para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo aprendizado, em que gerações mais velhas transmitem as mais novas suas experiências e conhecimentos. Essa característica da humanidade dependeu, entretanto, da nossa capacidade de criar sistemas de símbolos que constituem as linguagens, por meio das quais somos capazes de nos comunicar, transmitindo aos outros o legado de nossa experiência de vida, compartilhando sentidos que a ela atribuímos. (p.13) Dessa forma, pode-se dizer que o pensamento humano é único, pois diferentemente dos outros animais, somos capazes de transformar nossa experiência vivida, através da criação, e ao mesmo tempo, significarmos sobre essas experiências, para assim, transmita-la aos demais seres humanos. Segundo Karl Marx, pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além do esforço dos órgãos que trabalham, é mister a vontade adequada que se manifesta através da atenção durante todo o curso do trabalho. (O capital, vol. I, cap. VII) É perceptível então, que através do pensamento, e este sendo colocado em prática, o homem é capaz, segundo Cristina Costa, de projetar, ordenar, prever e interpretar. Vivendo em grupo, o ser humano começou a travar com um mundo ao seu redor uma relação dotada de significado e sentido. O homem é, portanto, um ser social, que só existe enquanto tal, a estabelecer relações com outros membros de sua espécie, e ao mesmo tempo significar sobre essas relações, criando, aprendendo, desenvolvendo. BUSCANDO CONHECIMENTO Pensar o Homem como ser social é um pressuposto básico das ciências humanas, que assim estudam as relações deste com seu meio e com outros membros de sua espécie. As relações entre os seres humanos, isto é, as relações sociais, constituem a base da sociedade. A forma pela qual essas relações ocorrem são fatos sociais e são eles que determinam o comportamento e a vida em sociedade. Desde o surgimento das ciências sociais, aparecia um interesse na compreensão do homem como ser social, e assim, nas diferenças entre os homens e os demais animais. Seria o homem capaz de voltar ao seu estado natural? É possível para um ser humano que viveu na natureza longe de seus pares, terem naturalmente as características que nós, seres socializados, desenvolvemos? Buscamos então, um caso muito conhecido na sociologia, do menino selvagem, que foi estudado por diversos cientistas sociais, desde a origem desta disciplina. O tal caso, gerou até alguns filmes, e livros, como o conhecido “O enigma de Kaspar Hauser” de Werner Herzog. Segue então, o texto de discute a questão do homem como ser social, através de um exemplo real, ocorrido na França durante o século XIX: O “menino selvagem de Aveyron" – Anthony Giddens No dia9 de Janeiro de 1800 uma estranha criatura surgiu dos bosques próximos ao povoado de Saint-Serin, no sul da França. Apesar de andar em posição ereta se assemelhava mais a um animal do que a um ser humano, porém, imediatamente foi identificado como um menino de uns onze ou doze anos. Unicamente emitia estridentes e incompreensíveis grunhidos e parecia carecer do sentido de higiene pessoal, fazia suas necessidades onde e quando lhe apetecia. Foi conduzido para a polícia local e, mais tarde, para um orfanato próximo. A princípio escapava constantemente e era difícil voltar a capturá-lo. Negava-se a vestir-se e rasgava as roupas quando lhes punham. Nunca houve pais que o reclamassem. O menino foi submetido a um minucioso exame médico no qual não se encontrou nenhuma anormalidade importante. Quando foi colocado diante de um espelho parece que viu sua imagem sem reconhecer-se a si mesmo. Em uma ocasião tratou de alcançar através do espelho uma batata que havia visto refletida nele (de fato, a batata era segurada por alguém atrás de sua cabeça). Depois de várias tentativas, e sem voltar à cabeça, colheu a batata por cima de seu ombro. Um sacerdote que observava ao menino diariamente descreveu esse incidente da seguinte forma: Todos estes pequenos detalhes, e muitos outros que poderiam aludir, demonstram que este menino não carece totalmente de inteligência, nem de capacidade de reflexão e raciocínio. Contudo, nos vemos obrigados a reconhecer que, em todos os aspectos que não tem a ver com as necessidades naturais ou a satisfação dos apetites, se percebe nele um comportamento puramente animal. Se possui sensações não desembocam em nenhuma ideia. Nem sequer pode comparar umas as outras. Poderia pensar-se que não existe conexão entre sua alma ou sua mente e seu corpo. Posteriormente, o menino foi enviado para Paris, onde se ocorreram tentativas sistemáticas de transformar-lhe “de besta em humano”. O esforço resultou só parcialmente satisfatório. Aprendeu a utilizar o quarto de banho, aceitou usar roupa e aprendeu a vestir-se sozinho. No entanto, não lhe interessavam nem as brincadeiras nem os jogos e nunca foi capaz de articular mais que um reduzido número de palavras. Até onde sabemos pelas detalhadas descrições de seu comportamento e suas reações, a questão não era a de que fosse retardado mental. Parece que ou não desejava dominar totalmente a fala humana ou que era incapaz de fazê-lo. Com o tempo fez escassos progressos e morreu em 1828, quando tinha por volta de quarenta anos. http://vestibularsociologia.blogspot.com.br/2008/04/o-menino-selvagem-de-aveyron.html Victor aprendeu a andar, a comer, a vestir- se e a fazer objetos por intermédio do contato com outras pessoas. Mas não assimilou apenas as coisas práticas da vida. Ao estabelecer relações com outros seres humanos, aprendeu também a comportar-se, a expressar sentimentos e a agir da mesma forma que as pessoas com as quais passou a conviver. Em uma palavra, ele socializou-se. Os estudos de como os seres humanos se relacionam na vida prática e afetiva, das formas pelas quais interagem uns com os outros, estabelecendo regras e valores, constitui tarefa de um grupo de disciplinas reunidas sob o nome de Ciências Sociais. Para ampliar seu conhecimento nas questões de vida em sociedade e condição humana acesse o link: http://crv.educacao.mg.gov.br/sistema_crv/index.aspx?ID_OBJETO=102904&tipo= ob&cp=4E6127&cb=&n1=&n2=Roteiros%20de%20Atividades&n3=Ensino%20M% C3%A9dio&n4=Sociologia&b=s UNIDADE 03 - AS BASES HISTÓRICAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS RENASCIMENTO / ILUMINISMO CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Elucidar o contexto histórico do surgimento das ciências sociais (Renascimento e Iluminismo), e compreender a relação da disciplina em si, com o desenvolvimento da ciência moderna. ESTUDANDO E REFLETINDO Se buscarmos os embriões das ciências sociais, seu ponto de partida se dá na Grécia (pré-história do pensamento social). Exemplos dessa embrionagem são os historiadores, poetas, filósofos, juristas e oradores que procuravam meios de dar ao homem possibilidades de conhecer os mecanismos da vida social, mas num estado ainda amorfo (sem forma) de ciência. O Renascimento é considerado um dos mais importantes momentos na história do Ocidente, por estabelecer uma ruptura com o mundo medieval e tudo que remetia a ele, e iniciar um processo que levaria ao mundo moderno urbano, burguês e comercial. A ideia de homem e indivíduo sofreu grandes transformações com o Renascimento e incentivou uma nova postura deste em relação à natureza e ao conhecimento. Com as bases lançadas pelo Renascimento foi possível o desenvolvimento de outro movimento que definiu de vez os parâmetros para a ciência moderna. O Iluminismo possibilitou o surgimento de uma sociedade inteligível, isto é, as características do homem e de seu individualismo e laicidade que foram estimulados no Renascimento, se dirigem para a ciência, e assim para a compreensão da sociedade, que de acordo com Castro, passa ser vista como uma realidade diferente e própria, sobre a qual interferem os homens como agentes. É nesse contexto então, que surgem as ciências sociais, advindas das ciências naturais. Nesse sentido, esta unidade pretende percorrer o caminho do surgimento desta disciplina, para que o seu estudo contemporâneo seja compreendido. A filosofia do Iluminismo preparou, segundo Costa, o terreno para o surgimento das ciências sociais no século XIX, lançando base para a sistematização do pensamento científico. Enquanto na Idade Média a Igreja Católica considerava pecaminosa a atividade lucrativa, no capitalismo, o lucro tornou-se a principal atividade. Neste contexto, liberto da tutela da Igreja católica, o homem se sente livre para pensar e criticar a realidade que vê e vivencia. Passam a questionar e dissecar a realidade social, emergindo assim, uma nova classe social: a burguesia comercial. Na esteira desses acontecimentos temos um conjunto de intelectuais que começam a tematizar esta situação e preparar o arcabouço para a interpretação desta nova realidade emergente, como Thomas Morus, autor da obra “A utopia” e Maquiavel, autor d’ O Príncipe, entre outros. Capa do Livro “A Utopia” obra do autor Thomas Morus. Fonte: http://opiniaoalexcontin.blogspot.com.br/2012/05/tomas-morus-politica-e- atualidade.html Segundo Costa, A formulação do pensamento social em bases científicas dependeu do aparecimento de condições históricas exigindo a análise da vida social em sua especificidade e concretude. Dependeu também do amadurecimento do pensamento científico e do interesse pela vida material do homem. Resultou ainda do aprofundamento das análises filosóficas, especialmente as propostas pela Ilustração (Iluminismo) e estimuladas pelas Revoluções Burguesas. (p.64) Desenvolvem-se a ciência e a tecnologia, exigindo da sociedade tomar medidas urgentes ao desenvolvimento científico: melhorar as condições de vida; ampliar a expectativa de sobrevivência humana a fim de engrossar as fileiras de consumidores e, principalmente, de mão-de-obra disponível; mudar os hábitos sociais e formar uma mentalidade receptiva às inovações técnicas. Vários aspectos da filosofia da Ilustração prepararam o surgimento das ciências sociais no século XIX. O primeiro deles foi à sistematização do pensamento científico. Os efeitos de novos inventos, como o para-raios e as vacinas, o desenvolvimento da mecânica, da química e da farmácia, eram amplamente verificáveis e pareciam coroar de êxitos as atividades científicas. A prática de elaboração dos projetos científicos para o desenvolvimento da indústria passa a ser aplicada à sociedade, pois sem um planejamento racional dos meios de transporte terrestres e marítimos, da distribuição e armazenamentodos produtos, da melhoria da infraestrutura, todo o esforço produtivo estaria perdido. A ciência se fundava, portanto, como um conjunto de ideias que diziam respeito à natureza dos fatos e aos métodos para compreendê-los. Por isso, as primeiras questões que os sociólogos do século XIX tentarão responder serão relativas à definição dos fatos sociais e ao método de investigação. Neste contexto, surgiram diferentes formas de avaliar as mudanças sociais que eram tão recorrentes na época, como o darwinismo social, o organicismo, o evolucionismo, todos baseados em princípios das ciências naturais para compreender o homem e suas relações. BUSCANDO CONHECIMENTO Veja neste link: http://www.youtube.com/watch?v=rS8iKbcnMbw um documentário que aborda as principais ideias do Renascimento e o Iluminismo. UNIDADE 04 - AS BASES HISTÓRICAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS POSITIVISMO CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Compreender o contexto histórico do Positivismo e a relação da disciplina em si, relacionada à Sociologia. ESTUDANDO E REFLETINDO Para Costa, as diferentes formas de ver a realidade, procurava diferenciar e identificar os princípios que governam a vida social do homem, mas foi, entretanto, o positivismo que conseguiu de forma pioneira, sistematizar o pensamento sociológico. Foi ele o primeiro a definir precisamente o objeto, estabelecer conceitos e uma metodologia de investigação e, além disso, a definir a especificidade do estudo científico da sociedade. Conseguiu distingui-lo de outras áreas do conhecimento, instituindo um espaço próprio à ciência da sociedade. Seu principal representante e sistematizador foi o pensador francês Auguste Comte. (p.72). Comte logrou assim o termo “Sociologia” e é por isso, considerado o pai das Ciências Sociais. O vocábulo sociologia foi empregado pela primeira vez por Auguste Comte em 1889. Ele aparece no volume IV do Curso de Filosofia Positiva com a seguinte redação: Acredito que devo arriscar, desde agora, esse termo novo, sociologia, exatamente equivalente à minha expressão, já introduzida, de física social, a fim de poder designar por um nome único esta parte complementar da filosofia natural que se relaciona com o estudo positivo do conjunto de leis fundamentais apropriadas aos fenômenos sociais. Entretanto, apesar do grande avanço para as ciências sociais como um todo, a maioria dos primeiros pensadores sociais do positivismo, estão intimamente ligados a uma reflexão que ainda é de natureza mais filosófica, sobra a história e a ação humana. BUSCANDO CONHECIMENTO Para compreender a origem das ciências sociais é importante buscar os pensadores que deram nome e desenvolver o arcabouço teórico necessário para que esse tipo de pensamento se tornasse uma ciência, com as características necessárias para tanto. Nesse sentido, leia o texto abaixo sobre o fundador da sociologia e analise o texto buscando pensar na relação entre a história de desenvolvimento da ciência como um todo e das ciências humanas especificamente com o pensamento de Auguste Comte. Positivismo (fr. positivisme) I. Sistema filosófico formulado por Augusto *Comte. tendo como núcleo sua teoria dos três estados, segundo a qual o espírito humano, ou seja, à sociedade, a cultura, passa por três etapas: a teológica, a metafísica e a positiva. As chamadas ciências positivas surgem apenas quando a humanidade atinge a terceira etapa, sua maioridade, rompendo com as anteriores. Para Comte, as ciências se ordenaram hierarquicamente da seguinte forma: matemática, astronomia, física, química, biologia, sociologia; cada uma tomando por base a anterior e atingindo um nível mais elevado de complexidade. A finalidade última do sistema é política: organizar a sociedade cientificamente com base nos princípios estabelecidos pelas ciências positivas. JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3.ed. ver. E ampl. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1996 Auguste Comte Auguste Comte: o fundador da sociologia ou física social Publicado em 26 de janeiro de 2011 TAGS: Auguste Comte, Sociologia Ilustração: André Toma A maioria dos seres humanos, por ser dominada pela afetividade, poderia ter sua existência moldada conforme as exigências da doutrina social do “progresso dentro da ordem”. Lelita Oliveira Benoit Seduzido pela personalidade do nobre decadente Henri de Saint-Simon (1760- 1825), Auguste Comte aceitou ser, a partir de 1817, seu secretário particular por uma quantia mensal de 300 francos. Contudo, logo após o início da colaboração, começou a se desenhar o desentendimento entre o mestre e o discípulo. O jovem secretário tinha como tarefa transformar em textos o pensamento do mestre. No entanto, começou a desenvolver ideias próprias, entrecruzando-as com aquelas que deveria reproduzir. É dessa época a primeira e mais sintética fórmula positivista: “Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto”. As raízes contraditórias do positivismo Foi também nesses anos de juventude que Comte escreveu um texto, até hoje pouco conhecido, intitulado A Indústria (1817). Não era um texto qualquer. O jovem escritor Comte, em estilo límpido, desenhou o projeto esperado pelo mestre Saint- Simon. Acreditava que somente aprofundadas reflexões políticas, seguidas da elaboração de um plano de “reorganização social”, poderiam erradicar a anarquia que, tendo começado em 1789, com a Revolução Francesa, permanecera até o início do século 19. A Indústria deveria se tornar a primeira pedra do edifício de uma nova e grande Enciclopédia destinada a guiar a reorganização social futura em bases não anarquistas. Em A Indústria, encontram-se reflexões que anunciam a doutrina socialista posterior (como o projeto do planejamento da economia), entrecruzadas a conceitos já propriamente do relativismo positivista. Esse projeto foi abandonado por Comte logo em 1819, mas iniciava-se ali a autêntica história da filosofia positivista. Ainda naqueles anos de juventude, Comte escreveu outro ensaio, bem mais célebre, no qual são desenvolvidos princípios positivistas. Intitulava–se Plano dos Trabalhos Científicos Necessários para Reorganizar a Sociedade (1822) ou, simplesmente, Opúsculo Fundamental. Desenha-se, nesse ensaio, um vasto plano para reorganizar a sociedade francesa mergulhada na crise e na anarquia posteriores à Revolução Francesa. Após aprofundadas reflexões sobre a natureza espiritual da crise europeia, Comte procura se fazer escutar pelos cientistas que, conforme pensava, constituíam a única autoridade respeitada na Europa decadente, sendo o único poder capaz de dirigir a reorganização social, para convencê-los a tomar em mãos o poder social ou, nas palavras de Comte, ensinar-lhes “a tratar a política de maneira positiva”. Elabora então Comte, pela primeira vez, o mais célebre de todos os seus conceitos, a teoria ou lei dos três estados. Segundo o positivismo, o espírito humano necessariamente se desenvolveu no decorrer de três fases ou estados: o teológico, o metafísico e o positivo. A expressão “o espírito humano” significa, bem restritamente, “conhecimento científico”. Assim sendo, ao se referir aos três estados do espírito humano, Comte nos remete, acima de tudo, a certas fases da história das ciências. A lei dos três estados, assim concebida, seria um conceito filosófico “compreensível para os cientistas”. De forma sintética, Comte expõe-lhes a história do espírito humano, como se segue: “Pela própria natureza do espírito humano, cada ramo de nossos conhecimentos está necessariamente obrigado, em sua marcha, a passar sucessivamente por três estados teóricos diferentes; o estado teológico ou fictício; o estado metafísico ou abstrato; enfim, o estado científico ou positivo”. O estado teológico permaneceu enquanto a humanidade, por meio de seussábios, fazia poucas observações realmente positivas, ou seja, fundadas em observações efetivas dos fenômenos naturais. Como então os fatos conhecidos eram poucos, somente era possível ligá-los por meio de “fatos inventados”. Desse modo, naquele estágio inicial das ciências, para explicar as leis que regem os fenômenos naturais, os sábios recorreriam a “agentes sobrenaturais”. Mas, de qualquer modo, ao menos provisoriamente, as explicações teológicas ajudaram a inteligência humana a sair do estado de torpor e debilidade, próprio da ignorância primitiva, e se aventurar em novas observações, em busca de novos conhecimentos. O segundo momento ou estado do desenvolvimento das ciências é chamado pelo positivismo de “metafísico” e teria um “caráter bastardo”. Aliás, a palavra “bastardo” parece bastante adequada para qualificar o estado metafísico: diz-se que é bastardo aquilo que é híbrido, que resulta, como nos conhecimentos metafísicos, de enunciações que entrecruzam ideias teológicas com ideias positivistas. Na história do espírito humano, o estado metafísico teria ocorrido quando a ciência fazia tentativas de ligar os fatos por meio de ideias que não são completamente sobrenaturais, mas que não são inteiramente naturais e que são causados por “entidades ou abstrações personificadas”. Por exemplo, para explicar os fenômenos observados no mundo físico, orgânico e bruto, os sábios metafísicos recorrem à natureza, ou seja, a uma espécie de entidade metafísica ou abstração personificada, relativa ao conjunto dos fatos físicos. Na verdade, escreve Comte, o espírito humano, quando no estágio metafísico, se bem que procurando limitar a absurda pretensão de tudo conhecer, restringindo-se aos fatos observáveis, ainda assim tem injustificáveis ambições de conhecer “pelas causas absolutas”. O que caracterizaria o último estado teórico – o estado positivo – seria que, em sua vigência, os sábios passam a admitir que há limites intransponíveis para a capacidade humana de conhecimento. Imbuídos de tal genuíno espírito positivo, explica-nos Comte, os sábios pretendem, no exercício da ciência, apenas conhecer o que está dado – os fatos e suas leis positivas –, sem se preocupar com a explicação pelas causas e os fins últimos. Desse modo, o conhecimento científico não poderia avançar além de limites claramente estabelecidos, ou seja, nada se poderia conhecer senão as leis de coordenação e sucessão dos fenômenos naturais, deduzidas dos fenômenos observáveis. Segundo Comte, o estado positivo seria o definitivo; tendo-o atingido, o espírito humano não alcançaria patamar mais elevado. Aliás, a história do desenvolvimento progressivo das ciências seria ela própria um fato positivo e observável na história interna de cada ciência. Teria sido com base nessas observações epistemológicas que o positivismo pôde estabelecer a própria lei dos três estados. Portanto, os estados do espírito humano reduzem-se a modos ou métodos de conhecimento, e a lei dos três estados da ciência foi pensada por Comte, antes de tudo, como uma categoria epistemológica, ou seja, relativa à filosofia das ciências. Como veremos a seguir, é sobre esse fundamento epistemológico que é pensada e construída a física social ou sociologia, nas páginas da obra mais importante de Comte, publicada em quatro volumes, o Curso de Filosofia Positiva (1830-1842). FONTE: http://cacsunc.wordpress.com/2011/09/10/auguste-comte-o-fundador-da-sociologia-ou- fisica-social-2/ UNIDADE 05 - O OFÍCIO DO CIENTISTA SOCIAL CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Compreender o ofício do cientista social, isto é, entender o que estuda o profissional das ciências sociais e qual o seu impacto na sociedade. As ciências sociais, como já foi dito anteriormente, surgiram em um contexto histórico específico o que originou certas características intrínsecas a essa disciplina, entretanto, ela também se transforma ao longo do tempo, e é no ofício do cientista social que estas mudanças acontecem. É objeto de estudo das ciências sociais, o ser humano e suas relações sociais, com outros seres humanos, bem como com o ambiente ao seu redor. Dessa forma, as ciências sociais desenvolvem certa metalinguagem, pois podem também estudar e analisar a própria ciência, visto que essa é fruto de uma relação, dos seres humanos com seu meio. O objetivo das ciências sociais consiste, muito genericamente, em ampliar o conhecimento sobre o ser humano em suas interações sociais e estudar a ação social em suas diversas dimensões, e é através de um método de investigação científica que esse conhecimento é dado. Assim, é de extrema relevância compreender a importância das ciências sociais para a compreensão da realidade, e para isso é necessário entendermos o que ela é, de onde se originou e qual a sua função na sociedade. ESTUDANDO E REFLETINDO As ciências sociais, como o próprio nome já diz, abrangem mais de uma disciplina em sua definição. A antropologia, ciência política e a sociologia fazem parte da definição de ciências sociais, bem como a economia também pode ser colocada neste grupo, e até mesmo a demografia e as relações internacionais. Apesar de todas as disciplinas terem uma origem conjunta, é característica essencial à ciência, como um todo, a especificação dos conteúdos, e a especialização desses em áreas cada vez menores. Assim, cada área das ciências sociais é vista de maneira separada, mas com uma ligação clara, quando estudada profundamente. Um cientista social, facilmente percebe a conexão e a nebulosidade dos limites entre cada disciplina. Entretanto, pode-se definir de maneiras diferentes cada área específica do conhecimento nas ciências sociais, tanto de acordo com o foco de estudo quanto ao método. Talvez, por exemplo, para definirmos a antropologia em oposição às outras disciplinas, poderíamos dizer, que a antropologia como disciplina se confunde com seu método, pois está comprometida com ele, isto é, fazer antropologia é também pensar a antropologia. Apesar de ser comum a definição da antropologia como ciência que estuda as culturas, e as compara, isto é, buscando compreender as semelhanças e diferenças culturais entre os diferentes agrupamentos humanos, de maneira, micro, em contraposição com a sociologia, que seria o macro, pode-se dizer que o verdadeiro diferencial da antropologia está em seu método, a etnografia. Diferentemente das outras áreas específicas, a antropologia propõe uma mediação entre formas diferentes de ver o mundo, ao através da etnografia, buscar compreender ao outro e a si mesmo. A sociologia seria então, essa ciência mais macro, que estuda as ações sociais e as interações que ocorrem na sociedade; os grupos e os fatos sociais, a divisão da sociedade em classes e camadas, a mobilidade social, os processos de cooperação, competição e conflito na sociedade. A etnografia é o método de pesquisa da antropologia, no qual o antropólogo vai a campo estudar e conviver com o seu objeto de estudo, tendo sempre em vista que este objeto é também um sujeito na ação tanto do próprio antropólogo, como dele próprio e do mundo. É objetivo da ciência política o estudo das formas de distribuição de poder na sociedade, assim como da formação e do desenvolvimento das diversas formas de governo. Todavia é importantíssimo lembrar que todas essas ciências podem sim ter o mesmo objeto de estudo, entretanto a análise seria diferente por ter focos divergentes. BUSCANDO CONHECIMENTO O texto abaixo mostra claramente o ofício do cientista social. Através dessa entrevista com o sociólogo José de Souza Martins, pode-se perceber que tipo de análise um cientista social faz da realidade, e a distinção entre uma análise científica e crítica da realidade e o senso comum, ou até mesmo uma análise de jornalistas, psicólogos e outros especialistas.Brasil é país de linchamentos (Estadão) Abaixo reproduz-se a entrevista do sociólogo José de Souza Martins, concedida ao jornal O Estado de São Paulo e publicada em 17 de Fevereiro de 2008, acerca do tema Linchamento. Flávia Tavares No fim de semana passado, três homens suspeitos de roubo foram linchados na periferia de Salvador. No sábado, Emílio Oliveira Silva e Michael Santa Izabel, acusados de saquear residências da vizinhança, foram linchados por mais de 30 pessoas. Emílio foi morto a pauladas. Domingo, a vítima foi um homem de identidade desconhecida. Ele também foi perseguido por mais de 30 moradores, que o acusavam de roubar uma TV. Morreu no local, a 200 metros de onde Emílio e Michael foram atacados. Na noite de segunda-feira, em Ribeirão Preto (SP), o estudante Caio Meneghetti Fleury Lombardi, que invadiu um posto de gasolina, atropelou o frentista Carlos Pereira Silva e tentou fugir, sofreu uma tentativa de linchamento. Por fim, na quinta-feira, um adolescente da Fundação Casa (ex- Febem) foi linchado até a morte por outros internos, em Franco da Rocha (SP). Foram cinco casos noticiados em 6 dias. Não se trata de uma epidemia - em nosso contexto, é algo normal. José de Souza Martins, sociólogo e colaborador do Aliás, estuda linchamentos há quase 30 anos e documentou 2 mil casos. Ele faz uma estimativa surpreendente: no Brasil, possivelmente o país que mais lincha no mundo, há 3 ou 4 casos por semana. Geralmente, nas periferias das cidades, com São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro à frente. A análise minuciosa de como se dão essas atrocidades é dolorosa, mas reveladora. Mais de 500 mil brasileiros e brasileiras, incluindo crianças, participaram de linchamentos nos últimos 50 anos - e quase ninguém foi punido. A seqüência de agressões vai do apedrejamento à mutilação. Não é uma questão de pura maldade: é a população agindo, equivocadamente, onde a Justiça não atua. José de Souza Martins, de 69 anos, professor de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, está lançando dois livros - uma reedição ampliada de Sociabilidade do Homem Simples (Ed. Contexto) e o inédito A Aparição do Demônio na Fábrica (Ed. 34), ambos sobre a cultura operária. Na entrevista a seguir, ele discorre sobre o fenômeno do linchamento, tema que pretende, em breve, transformar em livro. O Brasil é o país que mais lincha no mundo? Possivelmente. Isso nos últimos 50 anos, período que minha pesquisa abrange. Não dá para ter certeza, porque linchamento é o tipo de crime inquantificável. Mesmo os americanos, quando tentaram numerar seus casos, tiveram fontes precárias. O linchamento é um crime altruísta, ou seja, um crime social com intenções sociais. O linchador age em nome da sociedade. É um homem de bem que sabe que está cometendo um delito e não quer visibilidade. Por outro lado, no Código Penal brasileiro não existe o crime de linchamento, somente o homicídio. Então, ele não aparece nas estatísticas. Os casos são diluídos. Estimo que aconteçam de 3 a 4 linchamentos no País por semana, na média. São Paulo é a cidade que mais lincha. Depois, vêm Salvador e Rio de Janeiro. Que análise o senhor faz de um país habituado ao linchamento? As sociedades lincham quando a estrutura do Estado é débil. Há momentos históricos em que isso acontece. Na França, depois da 2ª Guerra Mundial, quando não havia uma ordem política, havia a tonsura (a raspagem dos cabelos) de mulheres que tiveram relações sexuais com nazistas. Era uma forma de estigmatizar, para que ela ficasse marcada. O linchamento original, nos Estados Unidos, tinha essa característica. O que configura um linchamento? É uma forma de punição coletiva contra alguém que desenvolveu uma forma de comportamento antissocial. O antissocial varia de momento para momento e de grupo para grupo. Na França, ter traído a pátria era um motivo para linchar. No caso da Itália, aconteceu o mesmo. No Brasil, é o fato de não termos justiça, pelo menos na percepção das pessoas comuns. Nesse caso do atropelamento de um frentista em Ribeirão Preto, por exemplo, o delegado decidiu inicialmente por crime culposo (depois mudou para doloso). As pessoas que tentaram linchar o rapaz acreditavam que não haveria justiça, já que a pena seria mais leve por conta da atenuante. Qual o perfil de quem é linchado? Em geral, é linchado o pobre, mas há várias exceções. Há uma pequena porcentagem superior de negros em relação a brancos. Se um branco e um negro, separadamente, cometem o mesmo crime, a probabilidade de o negro ser linchado é maior. Que criminoso é mais vulnerável? O linchado pode ser desde o ladrão de galinha até o estuprador de criança. Sem dúvida, os maiores fatores são os casos de homicídio. Se a vítima do assassino é uma criança ou um jovem, ou se houve violência sexual, os linchamentos são frequentes. Há muitas ocorrências por causa de roubo, especialmente se o ladrão é contumaz. Acredito que tenha sido o caso dos rapazes em Salvador. A própria população estabelece uma gradação da pena que vai impor ao linchado. Esta é a dimensão de racionalidade num ato irracional. Como funciona essa gradação? Um ladrão de galinha vai sair muito machucado - e pode acontecer de ele morrer. Mas o risco de ser queimado é mínimo. Com o estuprador é o contrário. Há também uma escala de durabilidade do ódio. Se um ladrão sobreviver durante 10 minutos de ataque, está salvo. Tem havido muitas tentativas de linchamento em acidentes de trânsito. Mas normalmente a polícia chega logo e evita o ataque. Mulheres são linchadas? É raríssimo. Nos 2 mil casos que estudei, há dois ou três em que uma mulher foi a vítima. Agora, há muitas mulheres linchadoras no Brasil. Mulheres e crianças. Quem são os linchadores no Brasil? Não há tanto uma divisão de ricos e pobres. De modo geral, os linchamentos são urbanos. Ocorrem em bairros de periferia. Porém, há linchamentos no interior do País, onde quem atua é a classe média. O caso mais emblemático é o de Matupá, no Mato Grosso. O linchamento foi filmado e passado pela televisão, no noticiário. Três sujeitos assaltaram o banco, a população conseguiu linchá-los e queimá-los vivos. Isso foi a classe média. E quando a classe média lincha, a crueldade tende a ser maior, porque ela tem prazer no sofrimento da vítima. O pobre é igualmente radical, porém é mais ritual na execução do linchamento. UNIDADE 06 - FORMAÇÃO SOCIAL DO BRASIL CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Desenvolver um panorama histórico da formação social do Brasil para compreender então, o contexto específico de sua formação e as consequências que se apresentam até a contemporaneidade. Como é de conhecimento de todos, o Brasil assim como a maioria dos países da América Latina, foi colonizado após o seu “descobrimento”, e teve imposto o sistema colonial de exploração. Esta situação permitiu nesse sentido, um desenvolvimento específico do país, que não pode, em muitos aspectos, ser comparado com o de seu descobridor e nem com outros países do hemisfério norte, mas que teve sua história influenciada e transformada intrinsecamente por estes. A formação social do país, isto é, a sua estrutura e estratificação social, sua formação política, ideológica, assim como o sistema capitalista que o define, organizam a vida em sociedade, e as relações que se dão neste sistema. É por isso, de extrema importância compreender como se deu a formação social do Brasil, para que seus problemas e questões atuais possam ser analisados a luz de um contexto histórico específico de desenvolvimento. Questões como a divisão social de classes, do trabalho, a organização dos trabalhadores, os movimentos sindicais e sociais, a ascensão das classes C e D, a vitória do PT por três governos consecutivos, todas essas questões contemporâneaspodem ser vistas como extremamente ligadas à formação social do Brasil desde 1500. ESTUDANDO E REFLETINDO Pode-se dizer que o Brasil tem um traço distintivo em sua formação social. De acordo com Fernando Novais, a história do Brasil nos três primeiros séculos estava ligada a história da expansão comercial e colonial europeia na época moderna. Segundo o autor, o Brasil colônia tinha problemas e mecanismos da política imperial lusitana, sendo assim um prolongamento de sua metrópole. Como já foi dito anteriormente, o caráter de exploração mercantil marcou o tipo de vida econômica das colônias. A produção do Brasil colonial era ajustada às necessidades da procura europeia. Assim o sistema colonial determinou o modo de produção, que garantia uma ampla margem de lucro, devido aos regimes de trabalho escravo. Segundo Novais, a economia colonial permitiu um atraso tecnológico no país, de caráter predatório, com uma sociedade de castas que era necessária para manter a escravidão. A sociedade colonial no Brasil se prolongou até o século XIX. Com a vinda da família real portuguesa a sociedade brasileira sofreu uma grande mudança, pois passou a ser uma colônia com a presença da realeza. Assim, foi à chegada da família real um ponto importante no desenvolvimento de diversas áreas da sociedade brasileira. Foi nesse contexto que a educação passou a ser uma preocupação no país, deixando de estar tão associada ao ensino religioso conduzido pelos jesuítas. Foi também um período que se desenvolveu o comércio, pois a família real tinha necessidades de consumo diferentes dos moradores da colônia. Na segunda metade do século XIX ocorreram transformações importantes na história do Brasil. A abolição da escravatura se deu como uma necessidade do país, por causa do desenvolvimento da economia capitalista: o trabalho escravo era oneroso e havia a necessidade de desenvolvimento de um mercado interno, principalmente por pressão da Inglaterra que buscava um mercado consumidor para os produtos de seu país. É através da economia do trabalho assalariado que nasce o mercado interno. E é o café que propicia o início do desenvolvimento dos primeiros núcleos produtivos industriais, porém a indústria da época atendia as demandas subordinadas a acumulação agroexportadora. Nasce no fim do século XIX a indústria de bens de consumo assalariado, além do surgimento de uma nova camada da população brasileira ligada a atividades financeiras e os profissionais liberais. De 1889 a 1930 é momento denominado de 1ª República, o qual marca a transição do capitalismo comercial para o capitalismo industrial no Brasil. O estado oligárquico é a forma da primeira república, tentando manter a sua estabilidade, através do abafamento da oposição civilista, isto é, oriunda da classe média, e reprimindo também a contestação do movimento operário. A partir dos anos 20 ocorre uma crise que abala a dominação da república oligárquica homogeneizada pelo café, tudo isso devido à crise de 29 conjuntamente com uma crise social (trabalhadores, classe média, tenentismo e coluna prestes) e a ruptura entre Minas Gerais e São Paulo nas eleições de 1930. Essa ruptura entre os dois estados veio de um quadro de descontentamentos, no qual São Paulo acreditava que Minas iria aceitar um lugar subalterno na política do país. Nasce então, uma aliança contra São Paulo, no qual Getúlio Vargas era candidato do Rio Grande de Sul, mas que perde para Julio Preste, por causa de corrupção. Em outubro de 1930 ocorre a denominada Revolução de 30, com uma reestruturação econômica institucional profunda e uma reorganização das burguesias. Nesse momento, a burguesia agrária não foi eliminada, mas houve uma recomposição orgânica das várias frações dominantes e o povo era a base. A burguesia industrial era, no entanto, débil e cabia ao Estado o papel de desenvolvê- la. Neste contexto houve uma ampliação de espaço dos diversos setores agrários, da burguesia nascente e das camadas médias da sociedade brasileira. A classe trabalhadora passa a fazer parte do cenário econômico e político. Durante a época em que Getúlio estava no poder existia uma polarização clara entre esquerda e direita, e a classe operária tinha o papel decisivo na nova arquitetura do poder e no desenvolvimento do capitalismo industrial no Brasil. Em 1945 ocorre a primeira crise do getulismo, que não deixava de ser uma crise no Estado Novo, buscando o fim dos regimes fascistas e propostas de democratização. A partir de 1946, Dutra entra no poder, promulgando uma nova constituição que é mais democrática, porém liberal. A década de 50, com a eleição de Getúlio, marca uma retomada no movimento sindical, na qual as massas começaram a lutar para ir além dos espaços que lhes eram reservados, transcendendo o esquema nacional desenvolvimentista. De 1955 a 1960 podemos ver um discurso varguista sem o Vargas. Com Juscelino Kubitschek propõe-se um projeto político de país, isto é, um incentivo nacionalista, mantendo assim uma democracia burguesa institucionalmente consolidada, com apoio de várias camadas da população. Após 1961 ocorrem diversas situações, como a renuncia de Janio Quadros, a posse de João Goulart com um sistema parlamentarista, que levam ao Golpe Militar de 1964. A ditadura militar no país marcou profundamente a sociedade brasileira, tanto em aspectos propriamente sociais, como no campo da economia e da política. Foi um período de grande repressão, no qual os direitos básicos dos seres humanos eram negados. Foi também um período de crescimento econômico, que dependia exclusivamente do grande endividamento do país, tendo consequências até hoje em nossa economia. Entretanto, foi durante a ditadura militar que os movimentos sociais passaram a ter uma maior organização criando as demandas que foram posteriormente incorporadas na Constituição de 1988. No período pós-ditadura esses movimentos lutaram para trazer a democratização para o país e principalmente uma melhoria nos espaços políticos de representação e uma diminuição na desigualdade social, fruto do crescimento sem divisão de benefícios. Com a chegada do neoliberalismo no país, os movimentos sociais se viram em uma encruzilhada, pois tendo no neoliberalismo a premissa de um Estado reduzido, isto é, que só cumpre com algumas necessidades básicas do cidadão, os movimentos sociais, em grande parte, tentaram se institucionalizar para continuar na luta pelos direitos. Os anos 90 viram o ápice do neoliberalismo com Collor e a tentativa de uma recuperação com Fernando Henrique e posteriormente a chegada no poder de um dos filhos do movimento sindical brasileiro, Lula. Todas essas transformações são essenciais para a formação do que definimos hoje como sociedade brasileira, que tem sua especificidade em seu passado de colonização, mas que tem suas características transformadas ao longo de seu processo histórico de desenvolvimento. BUSCANDO CONHECIMENTO O link abaixo traz um texto que faz uma reflexão sobre os movimentos sociais na atualidade, sua participação e sua interação com o Estado e com a sociedade civil. http://socializandosociologia.blogspot.com.br/2010/06/movimentos-sociais-texto- didatico-de.html UNIDADE 07 - FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Desenvolver um panorama histórico da formação econômica do Brasil para compreender então, o contexto específico de sua formação e as consequências que se apresentam até a contemporaneidade. Assim como a formação social do país foi marcada de forma importantíssima pelo contexto da colonização e do imperialismo, a formação econômica do país teve todo o seu desenvolvimento marcado pelas consequências da forma de colonização aplicada por Portugal. A chamada industrialização tardia, a qual defineaté hoje, as características de nossa política econômica, teve origem por causa da forma com que a colonização se deu no Brasil, e como foram administrados os recursos obtidos na época. É de extrema relevância a compreensão do desenvolvimento da formação econômica de nosso país, para entendermos e analisarmos as dinâmicas e políticas econômicas da atualidade, que se dão desta forma, por causa das fortes influências de nosso passado de colonização. ESTUDANDO E REFLETINDO É conhecimento comum à importância da revolução industrial no desenvolvimento de todos os países do mundo, tanto aqueles que foram seus precursores como aquelas nações que tiveram um desenvolvimento tardio das forças de produção industrial. No Brasil, a industrialização foi um agente definidor do desenvolvimento do país até o presente momento. De acordo com a CEPAL (Comissão Econômica para América Latina) para a industrialização ser considerada completa é necessário completar a pirâmide da industrialização: Os países que tiveram a chamada Industrialização Original, isto é, a Inglaterra, que começou com a revolução, tinha em 1850, completado todo o desenvolvimento da pirâmide, posteriormente, países como EUA, Alemanha, Japão, e URSS, tiveram a industrialização que é considerada atrasada, e se deu por volta de 1900. Já o Brasil e outros países da América Latina, iniciaram a industrialização tardiamente, o Brasil, por exemplo, só iniciou seu processo de industrialização por volta de 1959, mais de um século depois da Inglaterra. Existem diversas teorias sobre o porquê da industrialização tardia no país, e a própria Cepal, desenvolveu uma periodização para a economia brasileira, que posteriormente foi alvo de várias críticas. Uma dessas críticas, feita por João M. Cardoso de Mello, que foi um membro da Cepal, porém teceu alguns pontos de discordância com esta, propõe uma nova periodização para a economia Brasileira. A Cepal propunha uma periodização na qual, o período colonial no Brasil era considerado primário-exportador (entre 1808 e 1930) e que a partir de 1930 já poderíamos considerar a existência de um período de industrialização, mais especificamente, uma industrialização para a substituição da importação, este período era dividido então em 2 etapas, a da indústria leve, até Bens de Capital Bens de consumo duráveis Ind. de Insumos Básicos Ind. de Bens de Consumo não duráveis os anos 50 e da indústria de bens de consumo duráveis e bens de capital a partir de 1955. Ou seja, para a Cepal, a formação econômica e social brasileira deixa de ser predominantemente mercantil a partir de 1930, com o capital industrial. Para João Manoel, é a partir de 1888 (com a abolição da escravatura) que o Brasil passa a ter o modo capitalista de produção como estrutura dominante. A sua nova periodização divide a história econômica brasileira em três grandes períodos: até 1808, a economia era considerada colonial, e era vigente o sistema colônia- metrópole, a partir de 1808 até 1888, a economia poderia ser denominada como mercantil-escravista, porém já com um caráter nacional, de 1888 em diante pode- se dizer que o Brasil tinha uma economia exportadora capitalista retardatária. Essa crítica via a periodização da Cepal como uma visão que não levava em consideração os condicionamentos sociais e políticos do processo de desenvolvimento econômico brasileiro. No Brasil, diferentemente da Inglaterra que teve o capital inicial para a industrialização proveniente de banco, foi o café que propiciou o acumulo de capital originário. Porém para um desenvolvimento completo da industrialização, é necessário um complexo de fatores, como trabalho assalariado, mercado interno e burguesia nacional. Com o café, houve o surgimento e consolidação do capital industrial e assim uma concentração de capital monetário, ele possibilitou a transformação de força de trabalho em mercadoria, e criou o mercado interno. No auge do café, o Brasil tinha capacidade de importar alimentos, meios de produção e capital. Assim, em 1988 iniciou-se a industrialização brasileira, porém só se desenvolveu nesse período a indústria de bens de consumo, isto porque existia um monopólio das tecnologias necessárias à industrialização (bens de produção), assim como dos mercados industriais. De 1933 até 1935, ocorreu a segunda etapa da industrialização. O centro dinâmico da economia se desloca, segundo Celso Furtado, para dentro do país, e se desenvolve assim as indústrias de insumo de base, criando empregos e consolidando o mercado interno. Porém essa industrialização é restringida, ou seja, é insuficiente para implantar bens de produção, pois existe como já foi dito anteriormente, uma descontinuidade muito grande de tecnologias necessárias para o desenvolvimento deste tipo de indústria. A terceira etapa da industrialização brasileira se dá a partir de 1955, quando houve a implantação de blocos de investimento altamente complementar, gerando assim um grande salto tecnológico. Foi propiciada nesta época a implantação das forças produtivas capitalista, integrando assim a pirâmide da industrialização de forma vertical. É importante ressaltar, entretanto, que esse processo foi coordenado totalmente pelo Estado, através de incentivos, o que possibilitou a rapidez do processo, isto é, em seis anos a pirâmide estava completa, atraindo capital e fábricas internacionais. O decisivo papel do Estado se deu através do tripé: capital nacional, capital estrangeiro e a intervenção do estado através da articulação desses dois tipos de capital e do incentivo ao crédito. Nesse momento, as empresas de bens de capital são privadas, principalmente de origem estrangeiras (pois tinham a tecnologia necessária), e os insumos e infraestrutura era em sua maioria estatal. Todo esse desenvolvimento só foi possível através do PLANO DE METAS, isto é, uma política econômica do Estado, que ampliava a participação direta do setor público. Esse plano tinha como objetivo principal desenvolver a industrialização no país, e deixava em segundo plano, questões relacionadas à inflação e dívida externa. Foi nesse período que se desenvolveram as usinas de grande porte, como as de energia, o setor de transporte (rodovias, ferrovias e o setor marítimo). Houve assim, nesse momento da história do país, um tratamento favorável a entrada de capital estrangeiro e um estímulo a inversões privadas prioritárias (reserva de marcado: lei do similar). A inflação teve um caráter subordinado, e o BNDES que surgia nessa época teve um papel muito importante nesse processo. Dessa forma, todos os instrumentos da política econômica foram orientados para a industrialização, principalmente a indústria pesada. Ocorreu assim, um aumento da inflação, e proporcionou um déficit na balança de pagamento. Também não se preocupava com a má distribuição de renda, juntamente com uma dinamização das expansões privadas e uma elevação dos gastos com o setor público. Em 1964, a instabilidade política trazida com o golpe militar era refletida na economia. O Brasil já tinha completado o processo de industrialização e não dependia do café, ocorrendo uma mudança nos padrões de consumo e sociabilidade. Entretanto, apesar de que com as reformas de base a industrialização ter sido completada, as instituições econômicas ainda eram baseadas no sistema agrário. A tradição centralizadora do Estado teve um caráter mais coercivo durante a ditadura militar, abrindo caminho para uma intervenção estatal crescente na economia. Todavia, o autoritarismo tecnocrático militar não seguiu uma direção coerente na economia, desenvolvendo uma política de exclusão que acentuou de maneira exorbitante a desigualdade no país. Houve uma crescente internacionalização do setor industrial moderno atado ao crédito bancário internacional,porém as vantagens imediatas desse grande endividamento não foram dividas pela população. Entre 1968 e 1963 ocorreu o que até hoje é denominado de ‘Milagre Econômico’, no qual através do cumprimento das metas do antigo plano de metas, ocorre uma abertura financeira da economia e um favorecimento interno da acumulação, todos apoiados no sistema de crédito. Nesse sentido, o emprego e o consumo aumentam, mas as custas de um endividamento absurdo, que tem consequências até hoje. No fim da ditadura, após o choque do petróleo e com a Moratória Mexicana, o Brasil teve que recorrer ao FMI, trazendo uma dependência financeira que trouxe um arrocho salarial e grandes crises, como por exemplo, na área da habitação. Até a contemporaneidade, vivemos as consequências da industrialização tardia, do crescimento econômico acelerado durante os governos militares, que trouxeram um grande endividamento, mas que os benefícios em curto prazo destes endividamentos não foram divididos para toda a população. Após a ditadura o Brasil teve que se organizar em todos os campos, tanto na parte econômica, quanto social e política, e por isso, o neoliberalismo, doutrina política já vigente em muitos países da Europa e América do Norte, demorou a chegar e trazer suas mudanças ao país. É com o governo de Collor que o neoliberalismo chega com toda a força no Brasil, trazendo grandes privatizações, e uma reforma estatal, que desaparece com a ideia de cidadania e direitos universais. Ocorre um ajuste em todas as áreas da economia para pagamento de juros e controle da dívida externa. Assim, fica clara a relação entre a nossa industrialização tardia e as consequências que esta trouxe para o desenvolvimento da economia atual. A formação econômica do Brasil tem uma especificidade, o passado colonial Brasileiro, mas não deixa de estar inserida no contexto do capitalismo mundial, e por isso suscetível as mudanças da economia das grandes potencias do mundo moderno. BUSCANDO CONHECIMENTO O link abaixo mostra um artigo que busca uma interação entre a formação econômica brasileira e o contexto atual da economia no país. Nesse sentido, leia o texto e reflita sobre o conteúdo dessa unidade. http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=421 UNIDADE 08 - FORMAÇÃO CULTURAL DO BRASIL CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Compreender de que forma as dinâmicas de colonização, escravidão, imigração e regionalização colaboraram e a ainda colaboram para a chamada “formação cultural do país”, buscando entender temas como o de identidade, nacionalidade, mistura e etnia. A colonização e a escravidão foram definidoras do desenvolvimento do país em todas as áreas de sua formação. Tanto a formação econômica, social, como a cultural foram marcadas profundamente por essa relação assimétrica de poder. É comum, talvez por causa da hegemonia e ideologização do pensamento, um discurso que vê no Brasil a mistura de grupos distintos que definiriam o chamado jeitinho brasileiro. Se vê nesse discurso também uma fatalização de nossas características, como se essas fossem intrínsecas de nossas origens, antes vistas como “raciais”. Nesse sentido, é com o objetivo de questionar certas visões hegemônicas que essa unidade se apresenta a vocês. Pensar o Brasil de forma livre de estereótipos e senso comum, buscando entender a sua especificidade bem como o que se assemelha e em que se relaciona com os outros países, é uma necessidade assombrosa no contexto atual, de crescimento de grupos extremistas por todo o mundo, que evocam nacionalismo e identidade como sua bandeira, e que tem sua expressão no Brasil, tanto ligados ao preconceito regional, como racial. ESTUDANDO E REFLETINDO Para pensar a formação cultura do Brasil, uma pergunta vem em nossa mente: O que é ser brasileiro? O que faz de todos nós cidadãos do Brasil? A ideia de ser parte de uma nação tem atrelada em si questões muito complexas. Conceitos como identidade, nacionalidade, território, entre outras permeiam a discussão sobre o que é ser brasileiro. Quando os portugueses primeiros chegaram ao local que hoje é definido como Brasil, existiam aqui grupos nativos, que posteriormente, sem muita oportunidade de escolha foram definidos e enquadrados à nação brasileira. A questão da identidade nacional nos países colonizados sempre gera um debate polêmico. Pretende-se então, nesta presente unidade expor alguns debates pertinentes a esta temática, para que possamos desvencilhar nosso olhar cada vez mais, do senso comum. Os primeiros estudiosos da cultura brasileira advinham da experiência colonial, no qual o espaço de produção do conhecimento estava ligado ao questionamento sobre a diversidade humana. Os primeiros contatos entre os colonizadores e colonizados trazia a problemática relação entre nós e os outros, na qual os portugueses viam os indígenas como ‘outros’ extremamente diferentes e por causa da doutrina evolucionista vigente no pensamento da época, esses ‘outros’ tão diferentes eram vistos como animais, menos civilizados, sem alma. Os ameríndios, como um todo, são analisados de forma generalizada, sem perceber as nuances entre os diversos grupos. Dança dos Índios Tupinambás, em gravura do livro Duas Viagens ao Brasil de Hans Staden. O contexto da colonização, inserido na ideia de exploração, utiliza da ideia de desenvolvimento evolucionista da sociedade para justificar a exploração dos indígenas pelos portugueses. É com essa mesma justificativa que a escravidão é tão aceita e difundida em um momento posterior. É na interação entre portugueses, indígenas e negros que começa a surgir algo que é denominado de nacionalidade brasileira. Entretanto, essa “mistura” de raças (como eram consideradas as diferentes etnias e grupos étnicos) era vista de forma negativa, levando segundo o pensamento da época, à degenerescência da população brasileira. Todavia, é simples perceber que a nacionalidade, ou até mesmo a identidade, são fenômenos construídos. Ninguém nasce com características naturais de um determinado grupo, pois como já vimos, o homem é um ser social, que se constrói em sua humanidade através de suas relações. Segundo o antropólogo Renato Ortiz, a história brasileira é apreendida em termos deterministas, clima e raça explicando a natureza indolente do brasileiro, as manifestações tíbias e inseguras da elite intelectual, o lirismo quente dos poetas da terra, o nervosismo e a sexualidade desenfreada do mulato (cultura brasileira e identidade nacional). Nesse sentido, é importante perceber que a teoria racialista foi determinante no pensamento sobre a formação do povo brasileiro, e por isso existem até hoje formas de se pensar que são baseadas na concepção de que o povo brasileiro é formado pela junção de três raças distintas (branco, negro e índio). Entretanto, é preciso desenvolver uma análise crítica que compreenda a sociedade brasileira como historicamente construída, fruto de um contexto específico, e que nem por isso tem características intrínsecas definidas de forma maniqueístas como boas ou ruins. O Brasil como uma nação, foi construído e é construído nas relações que se dão entre pessoas, entre os membros desta comunidade imaginada (Benedict Anderson), e é nas relações que as identidades vão se formando. Não existe ninguém naturalmente brasileiro, espanhol, português ou africano. O “jeitinho brasileiro” é só mais uma maneira, fruto do senso comum, de determinar nossas atitudes de acordo com características ditas biológicas ou genéticas. É claro que diversos pensadores tiveram uma contribuição importantíssima na análise da formação social e cultural do país. Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Roberto da Matta, foram precursores de novas visões anticoloniais sobre o povo brasileiro, mas tem ainda alguns pontos dignos de crítica.Assim como os países europeus tiveram sua identidade construída ao longo do tempo, países colonizados como o Brasil, a América Latina em geral, e as nações do continente africano, estão construindo sua identidade e formando aquilo que consideramos como nação. BUSCANDO CONHECIMENTO A questão de miscigenação e da mistura das raças, pensando que essa mistura traria certas características naturais ao povo brasileiro, tem sido muito criticada na atualidade, principalmente por estar sempre relacionada a características negativas, tidas como intrínsecas a população brasileira por causa de sua herança colonial. O link abaixo traz um texto, que faz uma crítica a esse tipo de análise, e é de extrema relevância por analisar a cultura brasileira de forma não tendenciosa e superficial. http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/historia/0002.html UNIDADE 09 - VIDA CIDADÃ EM SOCIEDADE CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Compreender o desenvolvimento histórico do conceito de cidadania e de como esta se desenvolveu no Brasil. A ideia de cidadania é fruto de um momento histórico específico e se transforma conjuntamente com as mudanças que ocorrem na sociedade. Desde a Grécia antiga até atualmente o conceito de cidadania foi se reformulando e atendendo as características particulares da sociedade e do sistema no qual se insere. No Brasil, a cidadania demorou a ser vista como um conceito importante e abrangente e é somente com o fim da ditadura militar e com os movimentos sociais que esta ideia passou a significar algo para as populações mais desprivilegiadas. Nesse sentido, é de extrema relevância compreender o desenvolvimento histórico da cidadania em um contexto mais geral e no Brasil, para que assim possamos pensar no longo caminho percorrido para que ela se tornasse um conceito mais abrangente, e quais seriam então, os desafios para o futuro. ESTUDANDO E REFLETINDO O conceito de cidadania surge na Grécia e sua origem está ligada ao desenvolvimento das póleis gregas, entre os séculos VIII e VII a.C. Neste contexto, o cidadão era o indivíduo homem, acima de 21 anos, e rico. Isto é, não eram considerados cidadãos, todas as mulheres, crianças, escravos e forasteiros, excluindo da cidadania, ou seja, dos direitos e deveres, grande parte da população. Entretanto, é só com a Modernidade que a ideia de cidadania como, o exercício pleno dos direitos políticos, civis e sociais, uma liberdade completa que combina igualdade e participação numa sociedade ideal, talvez inatingível (Carvalho), se estabelece. No Brasil, durante o período colonial, pode-se dizer segundo José Murilo de Carvalho, que ocorreu a chamada negação da Cidadania. Apesar dos países na Europa estarem desenvolvendo cada vez mais a ideia de cidadania, no Brasil, com a sociedade colonial estruturada a partir da unidade produtiva do latifúndio e da mão-de-obra escrava (indígena e africana) eram excluídos a maior parte da população das condições dignas de vida, e a cidadania tornava-se, assim um privilégio de uma elite. Os nativos (índios) e africanos ficavam de fora de todas as dimensões da cidadania: perderam a liberdade, tiveram as culturas subjugadas, foram excluídos do novo modelo econômico, tiveram de trabalhar forçados para contribuir na acumulação do capital, não estudavam, eram vítimas de violências física e moral - não sendo considerados seres humanos com direitos. O preconceito marcou a história do Brasil desde o início. Em três séculos de colonização (1500-1822), os portugueses tinham construído um enorme país dotado de unidade territorial, linguística, cultural e religiosa. Mas tinham também deixado uma população analfabeta, uma sociedade escravocrata, uma economia monocultora e latifundiária, um Estado absolutista. “À época da independência, não havia cidadãos brasileiros, nem pátria", escreveu Carvalho. Essas características da sociedade colonial definiram toda a construção da cidadania no país. Demorou muito para que fosse possível que as mulheres, crianças, índios, negros e imigrantes, pudessem efetivamente desfrutar dos direitos e deveres de cidadão, pois mesmo podendo votar e participar de algumas decisões políticas, estes eram (e são ainda) uma população marginalizada. Segundo Luis da Silva, quando o Brasil se tornou país em 1822, a estrutura e os processos sociais, políticos e econômicos não mudaram. A mesma elite se manteve no comando dos destinos do Novo País, com a mesma lógica de exploração e exclusão. Tanto que a primeira Constituição brasileira (1824) restringia os direitos políticos ao definir quem podia ou não votar. O voto censitário excluía a maioria do direito ao voto e do direito de ser votado, pois exigia a comprovação de renda mínima e excluía as mulheres e analfabetos. A participação política da população durante o período imperial e republicano, portanto, foi insignificante. Apenas na Constituição de 1881 foi eliminada a exigência de comprovação de renda para votar e ser votado. Mas continuaram excluídos os analfabetos, escravos e mulheres. Porém, não havia justiça eleitoral e ética, sendo assim, aconteciam todas as formas de fraudes e manipulações nas eleições. O coronelismo, entendido como um sistema político da primeira república que consistia num compromisso entre coronéis, chefes políticos da área rural e o poder público, impedia a ampliação dos direitos políticos e civis. Os direitos sociais nunca tiveram na agenda desta época e a maior parte da população continuava iletrada e analfabeta politicamente. Outro grande obstáculo à cidadania brasileira foi à manutenção da unidade produtiva alicerçada na grande propriedade (latifúndio). A Lei de Terras (1850), por exemplo, impedia o acesso à terra que não fosse por meio de compra. Assim, preparavam o contexto para a libertação dos escravos, não permitindo que os mesmos ocupassem terras e se tornassem proprietários, como era comum antes. Desta forma, a abolição dos escravos jogou um contingente humano imenso na completa exclusão social e econômica. Sem-terra, sem empregos e analfabeta, a maioria ficou na indigência, indo para as periferias urbanas que, mais tarde, tornar-se-iam as grandes favelas urbanas formadas por seus descendentes. O ano de 1930 foi um divisor de águas na história do País, com a aceleração das mudanças sociais e políticas que permitiram à dimensão social da cidadania dar sinais de gestação. A criação de uma legislação trabalhista e previdenciária transformou as relações entre capital e trabalho, e a legislação social começou a dar uma nova configuração à história dos trabalhadores brasileiros. Desta maneira, o estabelecimento de normas diminuiu consideravelmente a exploração dos trabalhadores urbanos e assalariados. Com o governo populista de Vargas os direitos sociais no Brasil tiveram um relevante desenvolvimento, principalmente no âmbito trabalhista. Os direitos políticos estavam sofrendo grandes transformações, e surgiram neste contexto muitos sindicatos e partidos políticos. De acordo com Carvalho, o voto passa a ser secreto e juízes profissionais tratam da legislação eleitoral, fiscalizando, alistando, apurando votos e reconhecendo os eleitos. A cidadania política dá nova performance ao contexto sociopolítico e a cidadania brasileira começa a dar sinais de amadurecimento. Entretanto, em 1937 com a ditadura Vargas, isto é, o Estado Novo, os direitos políticos ficam de certa forma, restritos e coloca-se fim à relativa liberdade política conquistada até então. Após a de Vargas veio uma experiência democrática, a primeira da História do Brasil. Voltaram a acontecer eleições e foi elaborada uma nova constituição. A Constituição de 1946 manteve, até 1964, as conquistas sociais do período anterior e garantiu os tradicionais direitos civis e políticos, permitindo, inclusive, a liberdadede imprensa e a organização política. Entretanto, existiam ainda algumas restrições a certas liberdades políticas, mas em 1964, todas essas liberdades foram cerceadas. A democracia e a cidadania sofreram um imenso golpe com a ditadura militar. Além de toda a liberdade política ser restringida, e os direitos civis também terem sofrido um grande golpe, os direitos sociais foram extremamente reduzidos. Durante a ditadura ocorreu uma grande acentuação na desigualdade social, pois as questões dos direitos sociais foram deixadas de lado em virtude da busca pelo crescimento econômico rápido. Era claro que nessa época não havia direito à cidadania no Brasil. Prisões foram feitas sem mandado judicial, presos eram mantidos sem comunicação, sem direito a defesa e além de tudo era torturado infringindo claramente os direitos humanos. Não havia liberdade de pensamento. Em 1985 a ditadura terminou e iniciou-se um processo de redemocratização. A sociedade civil organizada através de diversos tipos de movimentos sociais lutava pela cidadania e por todos os direitos que foram suprimidos durante a ditadura. A constituição de 1988 foi fruto direto da demanda dos movimentos sociais brasileiros até então. Entretanto, apesar desse avanço legislativo, a cidadania não acompanhou as mudanças políticas e civis. A redemocratização, por si só, não se mostrou garantia de nada. De1988 até o presente momento, muitos avanços foram feitos, mas basta olhar as notícias no jornal para começarmos a questionar que cidades é essa que vivemos. Muitas vezes a cidadania é confundida com apensas o cumprimento dos direitos políticos, isto é, do direito de voto. Mas isso basta? Com a redemocratização do país, veio à crise econômica, imensas dividas, além da falta de dinheiro para políticas públicas. A concentração de renda e riqueza continua crescendo e até hoje, esta ideia de cidadania ampliada, que não se limita ao direito do voto, é um desafio. Não se pode dizer que não houve avanços no período pós-ditadura, pois a constituição de 1988 trouxe importantes avanços sociais e trabalhistas. Todavia, devemos perceber que a cidadania brasileira nos últimos 20 anos merece um estudo mais aprofundado e um questionamento cotidiano. Devemos pensar quais são os limites da cidadania no momento em que vivemos e que cidadania reivindicamos como direito. BUSCANDO CONHECIMENTO Até o presente momento, discutimos nesta unidade a história da cidadania. Com um enfoque mais atual, que questiona a ideia de cidadania que temos na atualidade e os limites de nossa participação como cidadãos, o link abaixo traz um artigo que é um interessante referencial para desenvolvermos uma análise da cidadania em nossa sociedade. https://www.diplomatique.org.br/print.php?tipo=ar&id=132 UNIDADE 10 - EXPECTATIVAS PARA O FUTURO DA SOCIEDADE BRASILEIRA CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE Objetivos: Após a leitura e reflexão sobre os temas das unidades anteriores, esta unidade final tem como objetivo principal, a reflexão sobre o Brasil contemporâneo e os desafios para o futuro. Através da compreensão de como se faz uma análise sociológica da realidade, longe do senso comum, a presente unidade pretende apresentar temas atuais para possíveis reflexões. O Brasil tem características na atualidade que só podem ser entendidas a luz de sua formação histórica tanto no âmbito cultural, quanto social, político e econômico. Essas esferas não estão, no entanto, dissociadas e se relacionam de maneira complexa e contraditória, formando o que chamamos de realidade brasileira atual. O contexto de colonização definiu de forma clara o desenvolvimento de nosso país, e é buscando a compreensão do passado que se pode propor novas ações para o futuro. Como já foi dito anteriormente, não se pretende aqui formar cientistas sociais, mas sim trazer a vocês uma análise crítica do contexto atual do Brasil, e a origem dessa problemática. ESTUDANDO E REFLETINDO Após a introdução que realizamos sobre como se constrói o conhecimento nas ciências sociais, o que faz o cientista social, e como devemos olhar para a realidade com um olhar crítico, baseado no estranhamento e desnaturalização da realidade, propomos nesta ultima unidade, mais do que expor conceitos, fazer uma reflexão sobre a problemática brasileira atual através de análises de textos e reportagens sobre o que está acontecendo no Brasil nos dias de hoje. A luz dos conhecimentos adquiridos sobre a formação do Brasil, tanto social quanto econômica e cultural, podemos dizer que nosso país se encontra atualmente em um momento muito propicio ao crescimento, mas que deve tomar cuidado para não crescer novamente, sem pensar no aspecto social do país. A questão da cidadania, e dos movimentos sociais se mostra como uma forma de se pensar a realidade buscando novas possibilidades para a população marginalizada, que sempre esteve de fora dos ganhos do desenvolvimento. Se realizarmos uma análise da sociedade com um olhar distanciado do senso comum, perceberíamos claramente nos problemas tão comuns em nosso cotidiano, como desemprego, moradores de rua, fome, enchentes, que estes têm origem na formação do Brasil como uma nação. Não podemos desvencilhar esses problemas da questão da urbanização, da divisão de terras, da formação da sociedade brasileira dividida em classes, da industrialização tardia, do passado de colonização e exploração. O que se propõe nessa disciplina é compreender que a realidade, para ser compreendida de forma crítica, tem que ser vista através de seu contexto histórico, e não descolada deste, e assim tem que ser pensada como uma construção social que se deu em um contexto específico e não está dada naturalmente. BUSCANDO CONHECIMENTO Utilizando os saberes adquiridos nas outras unidades desta disciplina, leia o texto abaixo sobre a questão da cidadania nos dias atuais e reflita sobre como podemos transformar nossa realidade cotidianamente com pequenas mudanças em nossa vida. Exercício da cidadania requer aprendizagem e prática Transformar princípios e valores em atitudes que beneficiam toda a sociedade é um exemplo de cidadania Agência USP Atitudes como não jogar lixo na rua, dar lugar ao idoso em meios de transporte coletivo e esperar que as pessoas saiam do metrô antes de entrar são questões corriqueiras na vida da população que se encaixam perfeitamente na concepção de cidadania pretendida pelo cientista jurídico Ovídio Jairo Rodrigues Mendes. "No entanto, pela correria diária, essas atitudes não são observadas e acabam por se tornar problemas sociais. E a cidadania requer aprendizagem e prática, sob pena de funcionar como mero rótulo", destaca. Mendes estudou o tema em sua dissertação de mestrado “Concepção da Cidadania", apresentada em 2010 na Faculdade de Direito (FD) da USP. De acordo com o cientista jurídico, simbolicamente, comportar-se como cidadão implica em quatro momentos: o surgimento do problema social (questões que afetam a comunidade), entendimento e análise lógica desta questão, procura racional de uma solução adequada para o caso, e a confirmação, para o cidadão, de que a solução encontrada satisfaz o problema social enfrentado. Para Mendes a questão da cidadania está, hoje, mais vinculada a uma relação de consumo do que a um processo de formação de personalidade. "Quando a pessoa vai fazer um documento no Poupatempo, ela pega um pedaço de papel e, com este ato, se considera um pouco mais cidadã. Mas cidadania não é isso: é viver em harmonia com o outro, transformar princípios e valores em atitudes que não beneficiam só interesses individuais, mas interesses coletivos. Por exemplo, eu varro a rua para evitar que o lixo se acumule e prejudique tanto a mim quanto aos meus vizinhos", explica. Segundo o pesquisador, a concepção de cidadania adquire seu formatode acordo com o problema a afligir a comunidade. O jurista argumenta que "talvez por isso seja tão difícil ser cidadão, principalmente em um país de tradição democrática recente como o Brasil e onde a educação formal não é valorada como elemento fundamental na diferenciação entre 'súdito' [aquele que simplesmente segue a vontade do governante] e 'cidadão' [capacidade para procurar e agir de maneira mais autônoma possível em prol de interesses próprios, limitado tão somente pelo ordenamento legal e pelo respeito ao bem comum]". A pesquisa de Mendes não teve a intenção de limitar-se à doutrina jurídicas (teorias de direito) e à jurisprudência (decisões dos tribunais). O foco foi direcionado para "buscar uma maneira de elaborar uma teoria que o público comum e não só cientistas jurídicos ou pessoas esclarecidas se identificassem para uma conceituação do que seja cidadania". Para realizar o estudo, o cientista jurídico considerou diferentes tipos de narrativa sobre a conceituação de cidadania nas teorias dos filósofos Aristóteles, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau; passando a uma análise das transformações sofridas pela concepção do termo no pós-independência no Brasil Império, no Estado Novo e no processo de redemocratização do Brasil, considerando questões políticas e econômicas; para, ao final, levantar algumas hipóteses sobre a espetacularização da cidadania e a transformação dos cidadãos em plateias para projetos de poder de políticos profissionais, principalmente na fase brasileira atual. Segundo o pesquisador, o estudo não intenciona julgar as sociedades dos teóricos pesquisados e suas concepções de cidadania, mas sim apenas tê-las como modelo- padrão para a formação de um conceito baseado em valores e princípios simples de vida em sociedade, como o respeito ao outro e o respeito à liberdade. Mendes assinala que a concepção de cidadania para não ser apenas formal, requer a capacidade de a pessoa dispor de objetivos racionalmente possíveis de como tornar concretos seus ideais. "Como toda regra, a formulação teórica de uma concepção de cidadania tem como primeiro passo a intuição para a identificação de regras sobre o assunto dentro da Constituição ou de leis inferiores, tornando a sua definição mais palpável ou palatável ao cidadão comum ", diz. Visão egocêntrica de mundo O pesquisador, no entanto, não se limita a questões individuais. "Muitas decisões governamentais não privilegiam a sociedade como um todo, mas o interesse de setores da população", conta. Ele cita o atual discurso de muitos meios de comunicação, sobre diversos acontecimentos cotidianos, como acidentes, enchentes, crimes. "Esse discurso vale-se de argumentações opinativas e não da lógica, e só acabam por inflamar a teia de queixas e reclamações vazias. Assim, os 'cidadãos' reclamam da ausência do Estado porque precisam encontrar um culpado, pois pagam impostos e, por isso, devem ser servidos; enquanto que, do outro lado, o Estado se defende das reclamações, acusando os cidadãos de serem os provocadores para todas as desgraças cotidianas", destaca. "A culpa está ao mesmo tempo dos dois lados. Falta a consciência de cada um ou uma orientação que esclareça dentro do conceito de cidadania a diferença entre achismos e racionalidade. O achismo é o não viver, pois não há reflexão; a racionalidade é ter a capacidade de interagir, de buscar causas e soluções, que se proponham críticas e equilibradas quanto a interesses individuais e coletivos", conclui. Disponível: http://www.usp.br/agen/?p=46280 Av. Ernani Lacerda de Oliveira, 100 Parque Santa Cândida CEP: 13603-112 Araras / SP (19) 3321-8000 ead@unar.edu.br www.unar.edu.br 0800-772-8030 POLO MATRIZ http://www.unar.edu.br http://www.unar.edu.br Página 1 Página 2