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A capacidade de as células eucarióticas adotarem diversas formas, organiza- rem os vários componentes em seu interior, interagirem mecanicamente com o ambiente e realizarem movimentos coordenados é dependente do citoesquele- to – uma intrincada rede de filamentos proteicos que se estende pelo citoplasma (Figura 17-1). Essa arquitetura de filamentos ajuda a sustentar o grande volume do citoplasma, uma função que tem especial importância em células de animais, que não possuem parede celular. Apesar de alguns componentes do citoesquele- to estarem presentes em bactérias, o citoesqueleto é mais evidente nas grandes e estruturalmente complexas células eucarióticas. Diferentemente de nosso esqueleto ósseo, no entanto, o citoesqueleto é uma estrutura altamente dinâmica que está sob contínua reorganização, conforme as células alteram suas formas, dividem-se e respondem ao ambiente. O cito- esqueleto não funciona apenas como os “ossos” de uma célula, mas também como seus “músculos”, sendo diretamente responsável por movimentos em larga escala, incluindo o deslizamento de células sobre uma superfície, a contração das células musculares e as alterações no formato celular que ocorrem ao longo do desenvolvimento de um embrião. Sem o citoesqueleto, as feridas nunca cica- trizariam, os músculos não contrairiam, e os espermatozoides jamais encontra- riam o óvulo. Como qualquer fábrica de um produto complexo, a célula eucariótica apre- senta um compartimento interno altamente organizado, em que organelas que realizam funções especializadas estão concentradas em diferentes áreas e são conectadas por sistemas de transporte (discutidos no Capítulo 15). O citoesquele- to controla o posicionamento das organelas e fornece a maquinaria de transpor- te entre elas. Ele também é responsável pela segregação dos cromossomos nas duas células-filhas durante a divisão celular e pela separação dessas duas novas células no final da divisão, como discutimos no Capítulo 18. O citoesqueleto é construído a partir de uma estrutura composta por três ti- pos de filamentos proteicos: filamentos intermediários, microtúbulos e filamentos de actina. Cada tipo de filamento apresenta propriedades mecânicas distintas e é formado por subunidades proteicas diferentes. Uma família de proteínas fibrosas forma os filamentos intermediários; subunidades de tubulina globular formam os microtúbulos; e subunidades de actina globular formam os filamentos de actina (Figura 17-2). Em cada caso, milhares de subunidades se organizam, agregando-se em finas redes de proteínas que, em alguns casos, se estendem por toda a célula. Neste capítulo, consideramos a estrutura e a função de cada uma dessas redes de filamentos proteicos. Iniciamos com os filamentos intermediários, que fornecem resistência mecânica às células. Consideramos, então, como os micro- túbulos organizam o citoplasma das células eucarióticas e formam os apêndices móveis semelhantes a pelos, que permitem que células como protozoários e es- 17 O citoesqueleto FILAMENTOS INTERMEDIÁRIOS MICROTÚBULOS FILAMENTOS DE ACTINA CONTRAÇÃO MUSCULAR Alberts_17.indd 565Alberts_17.indd 565 16/01/2017 11:16:2516/01/2017 11:16:25 566 Fundamentos da Biologia Celular permatozoides possam nadar. A seguir, consideramos como o citoesqueleto de actina sustenta a superfície celular e permite que os fibroblastos e outras células movimentem-se por deslizamento. Por fim, discutimos como o citoesqueleto de actina permite a contração muscular. FILAMENTOS INTERMEDIÁRIOS Os filamentos intermediários apresentam uma grande resistência à tensão, e sua função principal é permitir que as células resistam ao estresse mecânico ocasionado quando são distendidas. Esses filamentos são denominados “inter- mediários” porque, nas células musculares lisas, as células nas quais foram ori- ginalmente identificados, seu diâmetro (cerca de 10 nm) está entre o diâmetro dos filamentos delgados de actina e aquele dos espessos filamentos de miosina. Os filamentos intermediários são os mais resistentes e duráveis dos filamentos 10 μm MICROTÚBULOS 25 nm FILAMENTOS INTERMEDIÁRIOS 25 nm FILAMENTOS DE ACTINA 25 nm 25 μm 25 μm 25 μm Filamentos intermediários são fibras semelhantes a cabos com um diâmetro de aproximadamente 10 nm; eles são compostos por proteínas fibrosas de filamentos intermediários. Um determinado tipo de filamento intermediário forma uma trama denominada lâmina nuclear logo abaixo da membrana nuclear interna. Outros tipos se estendem ao longo do citoplasma, conferindo resistência mecânica às células e distribuindo os estresses mecânicos pelo tecido epitelial via conexões que se estendem pelo citoplasma unindo as junções célula-célula. Os filamentos intermediários são bastante flexíveis e apresentam grande resistência à tensão. Eles deformam-se sob tensão, mas não se rompem. (Micrografia cortesia de Roy Quinlan.) Microtúbulos são longos cilindros ocos formados pela proteína tubulina. Eles são longos e retos e em geral possuem uma das extremidades conectadas a um centro organizador denominado centrossomo. Apresentando um diâmetro externo de 25 nm, os microtúbulos são mais rígidos do que os filamentos de actina ou os filamentos intermediários, e se rompem quando submetidos a estiramento. (Micrografia cortesia de Richard Wade.) Filamentos de actina (também conhecidos como microfilamentos) são polímeros helicoidais da proteína actina. Eles se apresentam sob a forma de estruturas flexíveis, com diâmetro de aproximadamente 7 nm, e estão organizados em uma ampla variedade de feixes lineares, redes bidimensionais e géis tridimensionais. Apesar de os filamentos de actina estarem dispersos por toda a célula, eles se encontram em maior concentração no córtex, a camada do citoplasma localizada logo abaixo da membrana plasmática. (Micrografia cortesia de Roger Craig.) Figura 17-1 O citoesqueleto dá à célula sua forma e permite que ela or- ganize seus componentes internos e se mova. Uma célula animal em cultu- ra foi marcada para mostrar dois de seus principais sistemas citoesqueléticos, os microtúbulos (verde) e os filamentos de actina (vermelho). Onde os dois filamentos se sobrepõem há o aparecimento de coloração amarela. O DNA no núcleo está marcado em azul. (Cortesia de Albert Tousson.) Figura 17-2 Os três tipos de filamentos de proteínas que formam o citoesque- leto diferem com relação a composição, propriedades mecânicas e funções no in- terior da célula. Eles estão aqui represen- tados em células epiteliais, mas estão pre- sentes em quase todas as células animais. Alberts_17.indd 566Alberts_17.indd 566 16/01/2017 11:16:2616/01/2017 11:16:26 Capítulo 17 • O citoesqueleto 567 do citoesqueleto: quando as células são tratadas com soluções salinas concen- tradas e detergentes não iônicos, os filamentos intermediários permanecem in- tactos, ao passo que a maior parte restante do citoesqueleto é destruída. Os filamentos intermediários são encontrados no citoplasma da maioria das células animais. Eles formam caracteristicamente uma rede no citoplasma, en- volvendo o núcleo e se estendendo rumo à periferia da célula. Na periferia, eles costumam estar ancorados na membrana plasmática em junções célula-célula chamadas de desmossomos (discutidos no Capítulo 20), onde a membrana plas- mática está conectada à membrana de outra célula (Figura 17-3). Os filamentos intermediários também são encontrados no interior do núcleo de todas as células eucarióticas. Nesse compartimento eles formam uma rede denominada de lâmi- na nuclear, que está subjacente ao envelope nuclear e o fortalece. Nesta seção, consideramos como a estrutura e a associação dos filamentos intermediários os tornam particularmente adequados para reforçar as células, protegendo-as con- tra rupturase forças de estiramento. Os filamentos intermediários são resistentes e semelhantes a cordas Um filamento intermediário assemelha-se a uma corda, ou cabo, em que muitos fios longos são trançados para proporcionar resistência à tração (Animação 17.1). Os fios desse cabo são compostos de proteínas de filamentos intermediários, su- bunidades fibrosas contendo, cada uma, um domínio central em haste, alongado, com diferentes domínios não estruturados em cada uma das extremidades (Figura 17-4A). O domínio em haste consiste em uma região α-hélice estendida que per- mite que o pareamento de proteínas de filamentos intermediários forme dímeros estáveis por meio do enrolamento de um dímero sobre o outro, sob uma configu- ração supertorcida ou superenrolada (Figura 17-4B), como descrito no Capítulo 4. Dois desses dímeros supertorcidos, posicionados em sentidos opostos, associam- Feixes de filamentos intermediários Desmossomo conectando duas células (B) 5 μm 10 μm (A) Figura 17-3 Os filamentos intermediários formam uma rede resistente e durável no citoplasma da célula. (A) Micrografia de imunofluorescência de uma camada de células epiteliais em cultura, coradas para mostrar a rede de filamentos intermediários de queratina (verde) que envolve os núcleos e se estende ao longo do citoplasma das células. Os filamentos de cada célula estão indire- tamente conectados aos das células adjacentes pelos desmossomos, estabelecendo uma ligação mecânica contínua entre as células, por meio da camada epitelial. Uma segunda proteína (azul) foi corada para revelar a localização dos limites celulares. (B) Esquema a partir de micrografia eletrônica de uma secção de uma célula cutânea, mostrando os feixes de filamentos intermediários que atra- vessam o citoplasma e que estão inseridos nos desmossomos. (A, cortesia de Kathleen Green e Evangeline Amargo; B, de R.V. Krstic´, Ultrastructure of the Mammalian Cell: An Atlas. Berlin: Springer, 1979. Com permissão de Springer-Verlag.) Alberts_17.indd 567Alberts_17.indd 567 16/01/2017 11:16:2616/01/2017 11:16:26 568 Fundamentos da Biologia Celular -se para formar um tetrâmero alternado (Figura 17-4C). Esses dímeros e tetrâ- meros são as subunidades solúveis dos filamentos intermediários. Os tetrâmeros associam-se uns aos outros lado a lado (Figura 17-4D) e em seguida reúnem-se para gerar o filamento intermediário final, semelhante a um cabo (Figura 17-4E). Visto que os dois dímeros apontam em direções opostas, as duas extremidades do tetrâmero são iguais, o mesmo aplicando-se às duas extremidades dos filamen- tos intermediários associados; como vamos ver, tal característica diferencia esses filamentos dos microtúbulos e dos filamentos de actina, cuja polaridade estrutural é essencial para seu funcionamento. Todas as interações entre as proteínas dos filamentos intermediários dependem exclusivamente de ligações não covalentes; é a força combinada das interações laterais sobrepostas, ao longo do comprimento das proteínas, que dá aos filamentos intermediários sua grande resistência à tração. Os domínios centrais em haste das diferentes proteínas dos filamentos in- termediários são similares tanto em tamanho quanto em sequência de aminoá- cidos, de tal modo que, quando empacotados em conjunto, sempre formam fila- mentos de diâmetro e estrutura interna semelhantes. Já os domínios terminais variam bastante em tamanho e sequência de aminoácidos de um tipo de proteína do filamento intermediário para outro. Esses domínios não estruturados estão expostos na superfície do filamento, permitindo a interação com componentes específicos no citoplasma. 48 nm NH2 Região α-hélice do monômero COOH NH2 COOH COOHNH2 Dímero supertorcido NH2 NH2 NH2 NH2 COOH COOH Tetrâmero alternado de dois dímeros supertorcidos (A) (B) (C) (D) (E) COOH COOH0,1 μm Associação lateral de 8 tetrâmeros Adição de 8 tetrâmeros ao filamento crescente Figura 17-4 Filamentos intermediários são estruturas semelhantes a cabos formadas por longas fitas proteicas enrola- das. O monômero de um filamento intermediário consiste em um domínio central em haste α-helicoidal (A), com regiões não estruturadas em ambas as extremidades (não ilustradas). Pares de monômeros se associam para a formação de um dímero (B), e dois dímeros se alinham para formar um tetrâmero antiparalelo alternado (C). Os tetrâmeros podem se unir em um arranjo helicoidal contendo oito fitas de tetrâmeros (D), que por sua vez se associam, formando o filamento intermediário final seme- lhante a um cabo (E). Uma micrografia eletrônica de filamentos intermediários é mostrada na parte superior esquerda. (Micro- grafia cortesia de Roy Quinlan.) Alberts_17.indd 568Alberts_17.indd 568 16/01/2017 11:16:2616/01/2017 11:16:26 Capítulo 17 • O citoesqueleto 569 Os filamentos intermediários reforçam as células contra estresses mecânicos Os filamentos intermediários são particularmente proeminentes no citoplasma das células que são submetidas a estresses mecânicos. Eles estão presentes em grande número, por exemplo, ao longo do comprimento dos axônios das células nervosas, fornecendo um reforço interno essencial para essas extensões celula- res extremamente finas e longas. Eles também são encontrados em abundância em células musculares e em células epiteliais, como as células da pele. Em todas essas células, os filamentos intermediários distribuem o efeito de forças aplica- das localmente, evitando assim que as células e suas membranas rompam-se ou rasguem em resposta a uma tensão mecânica. Um princípio semelhante é utili- zado para o fortalecimento de materiais compostos, como o concreto armado ou a fibra de vidro, nos quais elementos lineares de sustentação de tensão, como fibras de carbono (na fibra de vidro), ou barras de aço (no concreto), são inseridos em uma matriz de preenchimento para dar resistência ao material. Os filamentos intermediários podem ser agrupados em quatro classes: (1) fi- lamentos de queratina em células epiteliais; (2) filamentos de vimentina e relacio- nados à vimentina em células do tecido conectivo, células musculares e células de sustentação do sistema nervoso (células da neuroglia); (3) neurofilamentos em neurônios; e (4) laminas nucleares, que fortalecem o envelope nuclear. Os três pri- meiros tipos de filamentos são encontrados no citoplasma, e o quarto tipo, no nú- cleo celular (Figura 17-5). Os filamentos de cada uma dessas classes são formados pela polimerização de suas respectivas subunidades de filamentos intermediários. A mais diversificada classe de filamentos intermediários são os filamentos de queratina. Cada tipo de epitélio no corpo de um vertebrado – seja na língua, na córnea ou no revestimento do intestino – possui sua própria e distinta mistura de proteínas queratinas. Queratinas especializadas também ocorrem nos pelos, nas penas e nas unhas. Em cada caso, os filamentos de queratina são formados por uma mistura de diferentes subunidades de queratina. Os filamentos de que- ratina em geral se encontram no interior das células epiteliais, avançando de um lado ao outro da célula, estando os filamentos em células epiteliais adjacentes indiretamente ligados por meio de desmossomos (ver Figura 17-3B). As extremi- dades dos filamentos de queratina estão ancoradas nos desmossomos, e os fila- mentos associam-se lateralmente com outros componentes celulares por meio dos domínios da cabeça globular e da cauda que se projetam de sua superfície. Essa fiação de alta resistência à tensão, formada pelos filamentos ao longo da camada epitelial, distribui o estresse que ocorre quando a pele é esticada. A im- portância dessa função é ilustrada por uma rara doença genética em humanos, denominada epidermólise bolhosa simples, na qual mutações em genes da que- ratina interferem na formaçãodos filamentos de queratina da epiderme. Como consequência, a pele fica extremamente vulnerável a lesões mecânicas, e mesmo uma pressão leve pode levar à ruptura de células e à formação de bolhas na pele. A doença pode ser reproduzida em camundongos transgênicos que expressam um gene mutante de queratina na pele (Figura 17-6). Filamentos de queratina Filamentos de vimentina e relacionados à vimentina Neurofilamentos Laminas nucleares FILAMENTOS INTERMEDIÁRIOS CITOPLASMÁTICOS NUCLEARES Em células epiteliais Em células de tecidos conectivos, musculares e gliais Em células nervosas Em todas as células animais Figura 17-5 Os filamentos intermediá- rios são divididos em quatro classes prin- cipais. Essas classes podem incluir vários subtipos. Os humanos, por exemplo, têm mais de 50 genes de queratina. Alberts_17.indd 569Alberts_17.indd 569 16/01/2017 11:16:2616/01/2017 11:16:26 570 Fundamentos da Biologia Celular Vários filamentos intermediários são adicionalmente estabilizados e refor- çados por proteínas acessórias, como a plectina, que interliga os filamentos em feixes e liga-os aos microtúbulos, aos filamentos de actina e a estruturas aderen- tes nos desmossomos (Figura 17-7). Mutações no gene da plectina levam a uma doença terrível em humanos que combina as características da epidermólise bo- lhosa simples (causada pela ruptura da queratina da pele), da distrofia muscular (causada pela disrupção dos filamentos intermediários nos músculos) e da neuro- degeneração (causada pela ruptura de neurofilamentos). Camundongos que não possuem um gene funcional de plectina morrem poucos dias após seu nascimen- to, apresentando a pele enrugada, com bolhas e alterações da musculatura esque- lética e cardíaca. Assim, apesar de a plectina não ser necessária para a formação inicial dos filamentos intermediários, sua ação de interligação é essencial para fornecer às células a resistência necessária para enfrentar o estresse mecânico. O envelope nuclear é sustentado por uma rede de filamentos intermediários Enquanto os filamentos intermediários citoplasmáticos formam estruturas seme- lhantes a cabos ou cordas, os filamentos intermediários que revestem e reforçam a superfície da membrana nuclear interna são organizados como uma rede bidi- mensional (Figura 17-8). Como mencionado antes, os filamentos intermediários que compõem essa forte lâmina nuclear são formados a partir de uma classe de proteínas de filamentos intermediários denominadas laminas (não confundir com laminina, que é uma proteína da matriz extracelular). A lâmina nuclear se dis- socia e se reagrupa a cada divisão celular, quando o envelope nuclear é dissociado durante a mitose e reorganizado em cada célula-filha (discutido no Capítulo 18). Os filamentos intermediários citoplasmáticos também são dissociados na mitose. A dissociação e a reorganização da lâmina nuclear são controladas pela fosforilação e desfosforilação das laminas. Quando as laminas são fosforiladas por proteínas-cinase (discutidas no Capítulo 4), as alterações conformacionais resultantes enfraquecem a ligação entre os tetrâmeros de laminas e causam a (B)(A) 40 μm 0,5 μm Figura 17-6 Uma forma mutante de que- ratina torna a pele mais propensa à for- mação de bolhas. Um gene mutante que codifica uma proteína de queratina trun- cada foi introduzido em um camundongo. A proteína defeituosa associa-se às quera- tinas normais e assim interrompe a rede de filamentos de queratina na pele. (A) Micro- grafia óptica de um corte transversal de pele normal, que é resistente a pressão me- cânica. (B) Um corte transversal da pele do camundongo mutante mostra a formação de uma bolha, resultante da ruptura de cé- lulas na camada basal da epiderme mutante (seta vermelha curta). (De P.A. Coulombe et al., J. Cell Biol. 115:1661–1674, 1991. Com permissão de The Rockefeller University Press.) Figura 17-7 A plectina auxilia a forma- ção de feixes de filamentos intermediá- rios e conecta esses filamentos a outras redes proteicas do citoesqueleto. Nesta micrografia eletrônica de varredura da rede proteica do citoesqueleto de fibroblastos em cultura, os filamentos de actina foram removidos, e a plectina, os filamentos intermediários e os microtúbulos foram corados artificialmente. Observe como a plectina (verde) liga um filamento interme- diário (azul) a três microtúbulos (vermelho). Os pontos amarelos são partículas de ouro ligadas a anticorpos que reconhecem a plectina. (De T.M. Svitkina and G.G. Borisy, J. Cell Biol. 135:991–1007, 1996. Com per- missão de The Rockefeller University Press.) QUESTÃO 17-1 Quais dos seguintes tipos de células você esperaria que contivessem a maior densidade de filamentos intermediários em seu citoplasma? Explique sua resposta. A. Amoeba proteus (uma ameba de vida livre) B. Célula epitelial da pele C. Célula da musculatura lisa no tra- to digestório D. Escherichia coli E. Célula nervosa da medula espinal F. Espermatozoide G. Célula vegetal Alberts_17.indd 570Alberts_17.indd 570 16/01/2017 11:16:2616/01/2017 11:16:26 Capítulo 17 • O citoesqueleto 571 dissociação dos filamentos. A defosforilação por proteínas-fosfatase que ocorre no final da mitose promove a reassociação das laminas (ver Figura 18-30). Defeitos em um tipo específico de lamina nuclear estão associados a certos tipos de progéria – doenças raras que levam os indivíduos afetados a apresentar envelhecimento prematuro. Crianças com progéria têm pele enrugada, perdem os dentes e cabelos e frequentemente desenvolvem doenças cardiovasculares gra- ves ainda na adolescência (Figura 17-9). Ainda não se sabe como a perda de uma lamina nuclear pode resultar em uma condição tão devastadora, mas acredita-se que a instabilidade nuclear resultante leve a defeitos na divisão celular, morte celular aumentada, uma capacidade diminuída para a reparação de tecidos, ou mesmo alguma combinação desses efeitos. MICROTÚBULOS Os microtúbulos desempenham um papel essencial na organização de todas as cé- lulas eucarióticas. Esses tubos proteicos longos, ocos e relativamente rígidos podem rapidamente sofrer dissociação em um determinado local e reassociação em outro. Em uma célula animal típica, os microtúbulos crescem a partir de uma pequena es- trutura posicionada próximo ao centro da célula, denominada centrossomo (Figura 17-10A e B). Ao se estenderem para a periferia celular, os microtúbulos criam um sistema de vias dentro da célula ao longo do qual vesículas, organelas e outros com- ponentes celulares podem ser transportados. Esses microtúbulos citoplasmáticos são a principal parte do citoesqueleto responsável pelo transporte e posicionamento de organelas delimitadas por membrana dentro da célula e pela organização do transporte intracelular de diversas macromoléculas citosólicas. Quando uma célula entra em mitose, os microtúbulos citoplasmáticos se dis- sociam e a seguir se reassociam sob a forma de uma intrincada estrutura deno- minada fuso mitótico. Como discutimos no Capítulo 18, o fuso mitótico fornece a maquinaria que irá segregar os cromossomos igualmente entre as duas células- -filhas momentos antes da divisão celular (Figura 17-10C). Os microtúbulos também podem gerar estruturas estáveis, como os cílios e os flagelos com seus batimentos ritmados (Figura 17-10D). Essas estruturas semelhantes a pelos se estendem a partir da superfície de diversos tipos de células eucarióticas, que as utilizam para loco- moção ou para impulsionar líquidos sobre a sua superfície. A região central de um cílio ou flagelo eucariótico consiste em um feixe estável de microtúbulos altamente organizado. (Os flagelos bacterianos possuem uma estrutura completamente dife- rente e permitem que as células se movimentem por um mecanismo muito distinto.)Nesta seção, consideramos primeiro a estrutura e a associação dos micro- túbulos. A seguir, discutimos o seu papel na organização do citoplasma – uma habilidade que depende de sua associação a proteínas acessórias, em especial a proteínas motoras, que impulsionam organelas ao longo dos caminhos feitos pelo (B) CITOSOL Lâmina nuclear Poro nuclear Cromatina Envelope nuclear NÚCLEO (A) 1 μm Figura 17-8 Filamentos intermediários sustentam e dão resistência ao envelope nuclear. (A) Corte transversal esquemático do envelope nuclear. Os filamentos intermediários da lâmina nuclear revestem a face interna do envelope nuclear e potencialmente fornecem sítios de ancoragem para os cromossomos. (B) Micrografia eletrônica de uma porção de lâmina nuclear de um ovo de rã. A lâmina forma um padrão quadriculado de filamentos intermediários compostos de laminas. (A lâmina nuclear em outros tipos celula- res nem sempre apresenta um padrão tão regular e organizado como o aqui ilustrado.) (B, cortesia de Ueli Aebi.) Figura 17-9 Defeitos em uma lamina nuclear podem causar uma classe rara de doenças de envelhecimento prematuro chamada progéria. As crianças com pro- géria começam a mostrar características de envelhecimento avançado entre 18 e 24 meses de idade. (Cortesia de Progeria Re- search Foundation.) Alberts_17.indd 571Alberts_17.indd 571 16/01/2017 11:16:2616/01/2017 11:16:26 572 Fundamentos da Biologia Celular citoesqueleto. Por fim, discutimos a estrutura e a função dos cílios e flagelos, nos quais os microtúbulos estão estavelmente associados a proteínas motoras, responsáveis pelo batimento desses apêndices móveis. Os microtúbulos são tubos ocos com extremidades estruturalmente distintas Os microtúbulos são formados a partir de subunidades – moléculas de tubulina, cada uma delas composta por um dímero de proteínas globulares semelhantes denominadas α-tubulina e β-tubulina, ligadas fortemente entre si por interações não covalentes. Os dímeros de tubulina, por sua vez, unem-se entre si também por meio de ligações não covalentes, para a formação da parede de um microtú- bulo cilíndrico oco. Essa estrutura semelhante a um cano é um cilindro composto por 13 protofilamentos paralelos, cada um deles composto por uma cadeia linear de dímeros de tubulina com α-tubulina e β-tubulina alternadas longitudinalmente (Figura 17-11). Cada protofilamento apresenta uma polaridade estrutural, com a α-tubulina exposta em uma extremidade, e a β-tubulina exposta na extremi- (B) CÉLULA QUE NÃO ESTÁ EM DIVISÃO (C) CÉLULA EM DIVISÃO (D) CÉLULA CILIADA Centrossomo Polos do fuso mitótico Corpo basal Cílio (A) Figura 17-10 Os microtúbulos geralmen- te crescem a partir de um centro orga- nizador. (A) Micrografia de fluorescência de um arranjo citoplasmático de microtú- bulos em um fibroblasto em cultura. Ao contrário dos filamentos intermediários, os microtúbulos (verde-escuro) crescem a partir de centros organizadores, como (B) um centrossomo, (C) os dois polos de um fuso mitótico, ou (D) o corpo basal de um cílio. Eles também podem crescer a partir de fragmentos de microtúbulos já existen- tes (não ilustrado). (A, cortesia de Michael Davidson e The Florida State University Research Foundation.) Heterodímero de tubulina (=subunidade do microtúbulo) Extremidade mais (+) Extremidade menos (-) Protofilamento Microtúbulo Lúmen (C)(A) 50 nm (E) (D)(B) 25 nm β α 25 nm Figura 17-11 Os microtúbulos são tubos ocos feitos de subunidades de tubulina globular. (A) Uma subunidade de tubulina (um dímero αβ) e um protofilamento estão representados esquematicamente, junto com suas posições na parede de um mi- crotúbulo. Observe que os dímeros de tubulina estão todos arranjados no protofila- mento sob a mesma orientação. (B e C) Diagramas esquemáticos de um microtúbulo ilustrando como os dímeros de tubulina se encontram empacotados e agrupados na parede do microtúbulo. Na parte superior, 13 moléculas de β-tubulina são ilustradas em corte transversal. Abaixo delas, uma vista lateral de uma pequena secção de um microtúbulo mostra como os dímeros estão alinhados na mesma orientação em todos os protofilamentos; isso faz os microtúbulos apresentarem uma polaridade estrutural definida, com extremidades designadas como mais (+) e menos (-). (D) Micrografia eletrônica de uma secção transversal de um microtúbulo com seu anel de 13 subu- nidades distintas, cada uma das quais correspondendo a um dímero de tubulina. (E) Micrografia eletrônica de um microtúbulo visualizado longitudinalmente. (D, cortesia de Richard Linck; E, cortesia de Richard Wade.) Alberts_17.indd 572Alberts_17.indd 572 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 Capítulo 17 • O citoesqueleto 573 dade oposta, e essa polaridade – a direcionalidade intrínseca da estrutura – é a mesma em todos os protofilamentos, o que resulta em uma polaridade estrutural geral no microtúbulo. Uma extremidade do microtúbulo, potencialmente a extre- midade β-tubulina, é denominada extremidade mais (+), e a outra, a extremida- de α-tubulina, é denominada extremidade menos (-). Em uma solução concentrada de tubulina pura em um tubo de ensaio, díme- ros de tubulina serão adicionados a ambas as extremidades de um microtúbulo em crescimento. No entanto, eles são adicionados mais rapidamente à extremi- dade mais (+) do que à extremidade menos (-), razão pela qual as extremidades foram originalmente assim denominadas – e não por serem carregadas eletri- camente. A polaridade do microtúbulo – o fato de sua estrutura ter uma direção definida, com duas extremidades química e funcionalmente distintas – é crucial tanto para a associação dos microtúbulos como para a sua função após terem sido associados. Se os microtúbulos não apresentassem polaridade, eles não po- deriam, por exemplo, realizar o transporte intracelular direcionado. O centrossomo é o principal centro organizador de microtúbulos em células animais No interior das células, os microtúbulos crescem a partir de centros organizadores especializados que controlam o posicionamento, o número e a orientação dos mi- crotúbulos. Em células animais, por exemplo, o centrossomo – que costuma estar nas proximidades do núcleo celular quando a célula não se encontra em mitose – organiza um arranjo de microtúbulos que se irradia em direção à periferia, pelo citoplasma (ver Figura 17-10B). O centrossomo consiste em um par de centríolos circundado por uma matriz proteica. A matriz do centrossomo inclui centenas de estruturas em forma de anel geradas a partir de um tipo especial de tubulina, cha- mado γ-tubulina, e cada complexo do anel de γ-tubulina atua como o ponto de par- tida, ou sítio de nucleação, para o crescimento de um microtúbulo (Figura 17-12A). Os dímeros αβ-tubulina são adicionados a cada complexo do anel de γ-tubulina em uma orientação específica, de tal maneira que a extremidade menos (-) de cada um dos microtúbulos está inserida no centrossomo e o crescimento ocorre apenas na extremidade mais (+), que se estende em direção ao citoplasma (Figura 17-12B e C). Os centríolos pareados no centro do centrossomo de uma célula animal são estruturas curiosas; cada centríolo, posicionado perpendicularmente ao seu par- ceiro, é feito de um arranjo cilíndrico de microtúbulos curtos. Apesar da loca- lização, os centríolos não desempenham qualquer papel na nucleação dos mi- crotúbulos a partir do centrossomo (o complexo do anel de γ-tubulina per se é suficiente), e sua função permanece um mistério, sobretudo considerando sua inexistência em células vegetais. No entanto, os centríolos atuam como os cen- tros organizadores dos microtúbulos em cílios e flagelos, onde são denominados corpos basais (ver Figura 17-10D), como discutimos adiante. + + + + + ++ + + + + + + + + + + + + + + + + + + Sítios de nucleação (complexos do anel de γ-tubulina) Par de centríolos (A) (B) (C) Microtúbulos crescem em suas extremidades mais (+), a partir de complexos do anel de γ-tubulina do centrossomo Matriz do centrossomo Complexos do anel de γ-tubulina (vermelho) Figura 17-12 A tubulina polimeriza a partir de sítios de nucleação de um centrossomo. (A) Desenho esquemático mostrando que o centrossomo de uma cé- lula animal consiste em uma matriz amorfa de várias proteínas, incluindo os anéis de γ-tubulina (vermelho) que promovem a nu- cleação do crescimento dos microtúbulos, envolvendo um par de centríolos orientado em ângulos retos entre si. Cada membro do par de centríolos é constituído por um arranjo cilíndrico de microtúbulos curtos. (B) Diagrama de um centrossomo com microtú- bulos associados. A extremidade menos (-) de cada um dos microtúbulos está inserida no centrossomo, tendo crescido a partir de um complexo do anel de γ-tubulina, enquanto a extremidade mais (+) de cada microtúbulo se estende para dentro do citoplasma. (C) Uma imagem reconstruída de um centrossomo de uma célula de C. elegans mostrando um denso conjunto de microtúbulos que emanam de complexos do anel de γ-tubulina. Um par de centríolos (azul) pode ser visto no centro desta estru- tura. (C, de E.T. O’Toole et al., J. Cell Biol. 163:451–456, 2003. Com permissão de The Rockefeller University Press.) Alberts_17.indd 573Alberts_17.indd 573 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 574 Fundamentos da Biologia Celular Por que os microtúbulos precisam de sítios de nucleação, como os forne- cidos pelos anéis de γ-tubulina no centrossomo? A resposta é que é muito mais difícil iniciar um novo microtúbulo a partir do zero, associando inicialmente um anel de dímeros de αβ-tubulina, do que adicionar dímeros a um complexo de anel de γ-tubulina preexistente. Embora dímeros puros de αβ-tubulina em uma concentração elevada sejam capazes de polimerizar espontaneamente em mi- crotúbulos in vitro, em uma célula viva, a concentração de αβ-tubulina livre é demasiadamente baixa para permitir a execução deste difícil passo de associa- ção do anel inicial de um novo microtúbulo. Ao fornecer centros organizadores em locais específicos, e mantendo uma baixa concentração de dímeros livres de αβ-tubulina, as células podem controlar o local de formação dos microtúbulos. Os microtúbulos em crescimento apresentam instabilidade dinâmica Após a nucleação de um microtúbulo, ele costuma crescer em direção ao exterior a partir do centro organizador durante vários minutos pela adição de dímeros αβ- tubulina à sua extremidade mais (+). Então, sem aviso prévio, o microtúbulo pode repentinamente sofrer uma transição que provoca seu rápido encolhimento pela perda de dímeros de tubulina de sua extremidade mais (+) livre (Animação 17.2). Ele pode encurtar parcialmente e, não menos abruptamente, recomeçar a crescer, ou pode desaparecer completamente, para ser substituído por um novo microtú- bulo que cresce a partir do mesmo complexo do anel de γ-tubulina (Figura 17-13). Este incrível comportamento de alternância entre polimerização e despoli- merização é conhecido como instabilidade dinâmica. Ele permite que os mi- crotúbulos sofram uma rápida remodelação e é essencial para a função dessas estruturas. Em uma célula normal, o centrossomo (ou outro centro organizador) está continuamente emitindo novos microtúbulos em diferentes direções, de for- ma exploratória, muitos dos quais se retrairão. Um microtúbulo em crescimento a partir de um centrossomo pode, no entanto, ser impedido de sofrer dissociação se sua extremidade mais (+) estiver estabilizada pela ligação a outra molécula ou estrutura celular que bloqueie a sua despolimerização. Se houver uma estabiliza- ção pela ligação a outra estrutura existente em uma região mais distante da célu- la, o microtúbulo estabelecerá uma ponte relativamente estável, conectando essa estrutura ao centrossomo (Figura 17-14). O centrossomo pode ser comparado a um pescador que lança sua linha: se a isca não é fisgada, o pescador rapidamen- te recolhe a linha e torna a lançá-la; contudo, se um peixe morder a isca, a linha permanecerá estendida, unindo o pescador e sua presa. A estratégia simples de exploração aleatória e de estabilização seletiva permite que o centrossomo e outros centros nucleadores estabeleçam um sistema altamente organizado de microtúbulos em regiões específicas da célula. A mesma estratégia é utilizada para posicionar as organelas umas em relação às outras. A instabilidade dinâmica é controlada por hidrólise de GTP A instabilidade dinâmica dos microtúbulos deriva da capacidade intrínseca dos dímeros de tubulina de hidrolisar GTP. Cada dímero de tubulina livre contém uma molécula de GTP firmemente ligada à β-tubulina, que hidrolisa o GTP em GDP (A) (B) (C) (D) Núcleo Centrossomo Proteína de capeamento de microtúbulo Microtúbulo em crescimento Microtúbulos estáveis Microtúbulos instáveis Figura 17-13 Cada microtúbulo cresce e encurta de forma independente dos microtúbulos adjacentes. O arranjo de mi- crotúbulos ancorado em um centrossomo está em constante alteração, conforme no- vos microtúbulos crescem (setas vermelhas) e microtúbulos antigos sofrem encurtamen- to (setas azuis). Figura 17-14 A estabilização seletiva de microtúbulos pode polarizar uma célula. Um microtúbulo recém-formado so- mente persistirá se suas duas extremidades estiverem protegidas contra a despolimeri- zação. Nas células, as extremidades menos (-) dos microtúbulos costumam estar prote- gidas pelos centros organizadores a partir dos quais esses microtúbulos crescem. As extremidades mais (+) estão inicialmente livres, mas podem ser estabilizadas por liga- ção a proteínas específicas. Aqui, por exem- plo, uma célula não polarizada é ilustrada em (A), com novos microtúbulos crescendo a partir de um centrossomo em diferentes direções antes de sofrerem encurtamento aleatoriamente. Se uma extremidade mais (+) encontrar uma proteína (proteína de capeamento) em uma região específica do córtex celular, ela será estabilizada (B). A es- tabilização seletiva em uma extremidade da célula irá polarizar a orientação do arranjo de microtúbulos (C) e, em última instância, irá converter a célula a uma forma forte- mente polarizada (D). Alberts_17.indd 574Alberts_17.indd 574 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 Capítulo 17 • O citoesqueleto 575 logo após a adição do dímero a um microtúbulo em crescimento. Esse GDP per- manece firmemente ligado à β-tubulina. Quando a polimerização está ocorrendo rapidamente, os dímeros da tubulina são adicionados à extremidade do micro- túbulo de maneira mais rápida do que a hidrólise do GTP a que estão ligados. Em consequência, a extremidade de um microtúbulo em rápido crescimento é composta inteiramente de dímeros de tubulina-GTP, que formam uma “capa de GTP”. Dímeros associados ao GTP ligam-se mais fortemente a seus vizinhos no microtúbulo do que dímeros ligados ao GDP, e eles formam feixes de um modo mais eficiente. Assim, o microtúbulo continuará a crescer (Figura 17-15A). Devido à aleatoriedade dos processos químicos, no entanto, ocasionalmente os dímeros de tubulina na extremidade livre do microtúbulo hidrolisarão seu GTP antes da adição dos dímeros seguintes, de tal forma que as extremidades livres dos protofilamentos estarão então compostas por tubulina-GDP. Esses dímeros com GDP associam-se mais fracamente, desequilibrando a balança a favor da despolimerização (Figura 17-15B). Considerando-se que o restante do microtú- bulo é composto por tubulina-GDP, uma vez iniciada a despolimerização, esta tenderá a ter continuidade. O microtúbulo começaráa encurtar rápida e conti- nuamente, podendo, inclusive, desaparecer. A tubulina-GDP que é liberada durante a despolimerização dos microtúbulos é incorporada ao conjunto de tubulinas não polimerizadas já presente no citosol. Em um fibroblasto típico, por exemplo, em um momento qualquer, aproximada- mente metade da tubulina celular se encontra nos microtúbulos, ao passo que a outra metade se encontra livre no citosol, formando o conjunto de dímeros da tubulina disponíveis para o crescimento de microtúbulos. Os dímeros de tubulina incorporados ao conjunto de moléculas do citosol rapidamente substituem o GDP ligado por GTP, tornando-se, desse modo, novamente passíveis de serem adicio- nados a outro microtúbulo que se encontre em fase de crescimento. A dinâmica dos microtúbulos pode ser modificada por fármacos Fármacos que impedem a polimerização ou a despolimerização dos dímeros de tubulina podem ter um grande e rápido efeito sobre a organização dos microtú- bulos e, como consequência, sobre o comportamento da célula. Considere o fuso mitótico, a maquinaria baseada em microtúbulos que orienta os cromossomos durante a mitose (ver Figura 17-10C). Se uma célula em mitose é exposta ao fár- maco colchicina, que se liga fortemente a dímeros de tubulina livre e impede a sua polimerização nos microtúbulos, o fuso mitótico desaparece rapidamente, e as células ficam bloqueadas no meio da mitose, incapazes de dividir os cromos- somos em dois grupos. Essa descoberta, e outras semelhantes, mostraram que o fuso mitótico é normalmente mantido por um balanço entre a adição e a perda de subunidades de tubulina: quando a adição de tubulina é bloqueada pela colchici- na, a perda de tubulina continua até que o fuso desapareça. O fármaco paclitaxel provoca o efeito oposto. Ele se liga fortemente aos mi- crotúbulos, impedindo que estes percam subunidades. Visto que novas subuni- dades ainda podem ser adicionadas, os microtúbulos podem crescer, mas não Dímero de tubulina com GTP ligado (tubulina-GTP) Dímeros de tubulina-GTP adicionados à extremidade em crescimento do microtúbulo A adição ocorre mais rapidamente do que a hidrólise de GTP pelos dímeros Protofilamentos contendo tubulina-GDP soltam-se da parede do microtúbulo A tubulina-GDP é liberada no citosol Capa de GTP MICROTÚBULO EM CRESCIMENTO(A) MICROTÚBULO ENCURTANDO(B) Tubulina-GDP Figura 17-15 A hidrólise de GTP controla a instabilidade dinâmica dos microtúbulos. (A) Dímeros de tubulina ligados a GTP (vermelho) se ligam mais fortemente uns aos outros do que dímeros de tubulina ligados a GDP (verde- -escuro). Portanto, as extremidades mais (+) dos microtúbulos, com rápido crescimento, e que contêm dímeros de tubulina com GTP ligado recém-adi- cionados, tendem a continuar crescendo. (B) De vez em quando, no entanto, sobretudo se o crescimento dos microtúbulos for lento, os dímeros nesta capa protetora de GTP hidrolisarão o GTP em GDP antes que novos dímeros ligados ao GTP tenham sido adicionados. A capa de GTP será, então, perdida. Visto que os dímeros ligados ao GDP ligam-se menos firmemente ao polímero, os protofilamentos “desfiam” na extremidade mais (+), e os dímeros são libera- dos, provocando o encurtamento do microtúbulo (Animação 17.3). QUESTÃO 17-2 Por que você acha que é muito mais fácil adicionar tubulina a microtúbu- los preexistentes do que dar início a um microtúbulo inteiramente novo a partir do zero? Explique como a γ-tubulina no centrossomo ajuda a superar essa dificuldade. Alberts_17.indd 575Alberts_17.indd 575 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 576 Fundamentos da Biologia Celular podem sofrer encurtamento. Entretanto, apesar dessa diferença no mecanismo de ação, o paclitaxel tem o mesmo efeito da colchicina, bloqueando a divisão das células em mitose. Tais experimentos mostram que, para o funcionamento do fuso mitótico, os microtúbulos devem ser capazes de fazer a associação e a dissociação de suas subunidades. Discutimos o comportamento do fuso em mais detalhes no Capítulo 18, ao estudarmos a mitose. A inativação ou a destruição do fuso mitótico leva à morte da célula em divisão. Como as células cancerosas se dividem de forma menos controlada do que as células normais do corpo, elas podem às vezes ser mortas preferencial- mente por fármacos antimitóticos estabilizadores ou desestabilizadores de mi- crotúbulos. Entre esses fármacos estão a colchicina, o paclitaxel, a vincristina e a vimblastina – todos utilizados no tratamento do câncer em humanos (Tabela 17-1). Como discutimos em breve, também existem fármacos estabilizadores ou desestabilizadores dos filamentos de actina. Os microtúbulos organizam o interior das células As células são capazes de modificar a instabilidade dinâmica de seus microtúbu- los para alcançar objetivos específicos. Quando uma célula entra em mitose, por exemplo, os microtúbulos se tornam inicialmente mais dinâmicos, intercalando crescimento e encurtamento com mais frequência do que normalmente o fariam os microtúbulos citoplasmáticos. Essa mudança permite que os microtúbulos se dissociem rapidamente e então se reassociem para a formação do fuso mitótico. Por outro lado, quando a célula se diferencia em um tipo celular especializado, a instabilidade dinâmica dos seus microtúbulos costuma ser suprimida por proteí- nas que se ligam a qualquer das extremidades, ou lateralmente aos microtúbu- los, estabilizando-os contra a dissociação. Os microtúbulos assim estabilizados mantêm a organização da célula diferenciada. A maioria das células animais diferenciadas apresenta polarização; ou seja, uma extremidade da célula é estrutural ou funcionalmente diferente da outra. As células nervosas, por exemplo, estendem um axônio a partir de uma extremidade da célula e dendritos a partir da outra (ver Figura 12-29). Células especializadas para secreção têm o seu aparelho de Golgi posicionado em direção ao local de secreção, e assim por diante. A polaridade da célula é um reflexo dos sistemas polarizados de microtúbulos em seu interior, que ajudam a posicionar as organe- las nas regiões onde elas são necessárias e a orientar as vias de trânsito vesicu- + +– – Corpo celular neuronal Microtúbulo Axônio Terminal do axônio Transporte inverso (em direção ao corpo celular) Transporte rumo ao terminal do axônio TABELA 17-1 Fármacos que afetam os microtúbulos Fármacos específicos para microtúbulos Ação Paclitaxel Liga-se aos microtúbulos e os estabiliza Colchicina, colcemida Liga-se a dímeros de tubulina e impede sua polimerização Vimblastina, vincristina Liga-se a dímeros de tubulina e impede sua polimerização Figura 17-16 Os microtúbulos orientam o transporte de organelas, vesículas e macromoléculas em ambos os sentidos ao longo de um axônio neuronal. Todos os microtúbulos de um axônio estão orien- tados na mesma direção, com suas extremi- dades mais (+) direcionadas para o terminal do axônio. Os microtúbulos orientados fun- cionam como uma via para o transporte di- recionado de materiais sintetizados no cor- po celular, porém necessários no terminal do axônio. No caso de um axônio que vai da medula espinal para, por exemplo, um músculo do ombro, a duração do percurso é de aproximadamente dois dias. Além des- se transporte para o exterior (círculos ver- melhos), que é promovido por um conjunto de proteínas motoras, existe um transporte no sentido inverso (círculos azuis), dirigido por outro conjunto de proteínas motoras. O transporte inverso carregará mitocôn- drias que apresentam desgastes e materiais ingeridos pelo terminal do axônio. Alberts_17.indd 576Alberts_17.indd 576 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 Capítulo 17 • O citoesqueleto 577 lar e macromolecular que existem entre os diferentes compartimentos da célu- la. Noneurônio, por exemplo, todos os microtúbulos no axônio apontam para a mesma direção, com as suas extremidades mais (+) rumo ao terminal do axônio; ao longo dessas rotas orientadas, a célula é capaz de transportar organelas, vesí- culas delimitadas por membrana e macromoléculas, seja a partir do corpo celular rumo ao terminal do axônio ou na direção oposta (Figura 17-16). Parte do tráfego ao longo dos axônios ocorre em velocidades que excedem 10 cm por dia (Figura 17-17), ou seja, ainda é necessária uma semana ou mais para que certos materiais alcancem a extremidade de um longo axônio em gran- des animais. No entanto, o movimento orientado por microtúbulos é incomen- suravelmente mais rápido e mais eficiente do que o movimento dependente da difusão livre. Uma molécula proteica se movimentando por difusão livre poderia levar anos para alcançar a extremidade de um longo axônio, isso considerando que ela completasse o percurso (ver Questão 17-12). Os microtúbulos nas células vivas não atuam isoladamente. O seu funcio- namento, assim como o de outros filamentos do citoesqueleto, depende de uma ampla variedade de proteínas acessórias, as quais se ligam a eles. Algumas des- sas proteínas associadas aos microtúbulos, por exemplo, estabilizam tais es- truturas contra a dissociação, ao passo que outras conectam os microtúbulos a outros componentes celulares, incluindo-se aqui outros filamentos do citoesque- leto (ver Figura 17-7). Outras ainda são proteínas motoras que transportam ativa- mente organelas, vesículas e outras macromoléculas ao longo dos microtúbulos. Proteínas motoras direcionam o transporte intracelular Se uma célula viva é observada sob microscopia óptica, seu citoplasma se apre- senta em constante movimento. As mitocôndrias e as pequenas vesículas e or- ganelas delimitadas por membranas movimentam-se em passos pequenos e ir- regulares – movendo-se por um curto período de tempo, parando e, em seguida, movendo-se novamente. Esse movimento saltatório é muito mais sustentado e direcional do que os pequenos e contínuos movimentos brownianos causados por alterações térmicas aleatórias. Os movimentos saltatórios podem ocorrer tanto nos microtúbulos como nos filamentos de actina. Em ambos os casos, os movimentos são direcionados por proteínas motoras, que usam a energia deri- vada de ciclos repetidos de hidrólise de ATP para viajar continuamente ao longo do microtúbulo ou dos filamentos de actina em um sentido determinado (ver Figura 4-46). Uma vez que as proteínas motoras também se ligam a outros com- ponentes celulares, elas podem transportar essa carga ao longo dos filamentos. Existem dezenas de proteínas motoras diferentes; elas diferem em relação ao tipo de filamento ao qual se ligam, à direção na qual se movimentam ao longo do filamento e à carga transportada. As proteínas motoras que se movem ao longo dos microtúbulos citoplasmá- ticos, como os de um axônio de uma célula nervosa, pertencem a duas famílias: as cinesinas em geral se movem rumo à extremidade mais (+) de um microtú- 5 μm Mitocôndria QUESTÃO 17-3 A instabilidade dinâmica faz os microtúbulos crescerem ou encur- tarem rapidamente. Considere um microtúbulo individual que está em sua fase de encurtamento. A. O que deve acontecer na extre- midade do microtúbulo para que ele pare de encurtar e dê início ao crescimento? B. Como uma alteração nas concen- trações de tubulina afetaria essa mudança? C. O que aconteceria se apenas o GDP estivesse presente na solu- ção, estando o GTP ausente? D. O que aconteceria se a solução contivesse um análogo de GTP que não pudesse ser hidrolisado? Figura 17-17 As organelas podem mover-se rápida e unidirecionalmente no axônio de uma célula nervosa. Nesta série de imagens de vídeo feitas a partir de uma região aplainada de um axônio neu- ronal de um invertebrado, numerosas vesí- culas delimitadas por membranas e mito- côndrias estão presentes, muitas das quais podem ser vistas em movimento. O círculo branco fornece uma referência fixa. Essas imagens foram realizadas em intervalos de 400 milissegundos. As duas vesículas no círculo estão se movendo para fora, com os microtúbulos, em direção ao terminal do axônio. (Cortesia de P. Forscher.) Alberts_17.indd 577Alberts_17.indd 577 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 578 Fundamentos da Biologia Celular bulo (rumo à periferia da célula na Figura 17-16); e as dineínas se movem em direção à extremidade menos (-) (rumo ao corpo celular na Figura 17-16). Tan- to as cinesinas como as dineínas são geralmente dímeros que têm duas cabe- ças globulares de ligação a ATP e uma cauda única (Figura 17-18A). As cabeças interagem com os microtúbulos de maneira estereoespecífica, de modo que a proteína motora se conecte a um microtúbulo em um único sentido. A cauda de uma proteína motora costuma ligar-se de modo estável a algum componente celular, como uma vesícula ou uma organela, e, assim, determina o tipo de carga que a proteína motora pode transportar (Figura 17-19). As cabeças globulares das cinesinas e dineínas são enzimas com atividade de hidrólise de ATP (ATPa- se). Essa reação fornece a energia para a condução de uma série controlada de alterações conformacionais na cabeça, que permitem que ela se mova ao longo do microtúbulo por ciclos de ligação, liberação e religação a essa estrutura (ver Figura 17-18B e Figura 4-46). Para uma discussão sobre a descoberta e o estudo das proteínas motoras, ver Como Sabemos, p. 580-581. Microtúbulos e proteínas motoras posicionam as organelas no citoplasma Os microtúbulos e as proteínas motoras desempenham um papel importante no posicionamento das organelas no interior de uma célula eucariótica. Na maioria das células animais, por exemplo, os túbulos do retículo endoplasmático (RE) praticamente atingem os limites da célula (Animação 17.4), enquanto o apare- lho de Golgi está localizado no interior da célula, perto do centrossomo (Figura 17-20A). O RE se estende a partir dos seus pontos de conexão com o envelope nuclear ao longo dos microtúbulos, que avançam do centrossomo, posicionado centralmente, até a membrana plasmática. Conforme uma célula cresce, cinesi- (A) Dineína CinesinaCabeça globular Cauda 10 nm Microtúbulo Extremidade menos (-) Extremidade mais (+) (B) Extremidade menos (-) Extremidade mais (+) CINESINAS DINEÍNAS Carga Microtúbulo Cauda Cabeça globular Cabeça globular Cauda Carga Figura 17-18 Tanto as cinesinas como as dineínas movem-se sobre os microtú- bulos usando suas cabeças globulares. (A) Cinesinas e dineínas citoplasmáticas são proteínas motoras de microtúbulos que geralmente se movem em sentidos opostos sobre esse suporte. Cada uma des- sas proteínas (aqui desenhadas em escala aproximada) é um dímero composto por duas subunidades idênticas. Cada dímero possui duas cabeças globulares em uma extremidade, que se ligam e hidrolisam ATP e interagem com os microtúbulos, e uma cauda única, na outra extremidade, a qual interage com a carga (não representada). (B) Diagrama esquemático de uma proteína motora genérica “caminhando” ao longo de um filamento; essas proteínas utilizam a energia da hidrólise do ATP para se mover unidirecionalmente ao longo do filamento, como ilustrado na Figura 4-46. (Ver também Figura 17-22B.) Figura 17-19 Diferentes proteínas moto- ras transportam diferentes tipos de car- gas ao longo dos microtúbulos. A maior parte das cinesinas se move em direção à extremidade mais (+) de um microtúbulo, ao passo que as dineínas se movem rumo à extremidade menos (-) (Animação 17.5). Ambos os tipos de proteínas motoras de microtúbulos ocorrem sob diferentes for- mas, que supostamente são responsáveis pelo transporte de diferentes tipos de cargas. A cauda de uma proteínamotora determina a carga que será transportada. Alberts_17.indd 578Alberts_17.indd 578 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 Capítulo 17 • O citoesqueleto 579 nas ligadas à face externa da membrana do RE (via proteínas receptoras) impul- sionam o RE para fora, ao longo dos microtúbulos, esticando-o como uma rede (Figura 17-20B). Dineínas citoplasmáticas ligadas às membranas do Golgi puxam o aparelho de Golgi sobre os microtúbulos na direção oposta, rumo ao núcleo (Figura 17-20C). Desse modo, são criadas e mantidas diferenças regionais – es- senciais para suas funções específicas – nestas membranas internas. Quando as células são tratadas com colchicina, um fármaco que provoca a dissociação dos microtúbulos, tanto o RE quanto o aparelho de Golgi têm a sua localização drasticamente alterada. O RE, que está conectado ao envelope nuclear, colapsa em torno do núcleo; o aparelho de Golgi, que não está ligado a qualquer outra organela, sofre fragmentação em pequenas vesículas que se dispersam por todo o citoplasma. Quando a colchicina é removida, as organelas retornam às suas posições originais, impulsionadas por proteínas motoras que se movem ao longo dos microtúbulos reorganizados. Os cílios e os flagelos contêm microtúbulos estáveis movimentados pela dineína Mencionamos antes que diversos microtúbulos celulares estão estabilizados por meio de sua associação a outras proteínas e, consequentemente, não apresen- tam instabilidade dinâmica. As células usam esses microtúbulos estáveis como suportes rígidos na construção de uma ampla variedade de estruturas polariza- das, incluindo cílios e flagelos móveis. Os cílios são estruturas semelhantes a pelos, com cerca de 0,25 μm de diâmetro, cobertos por membrana plasmática, que se estendem a partir da superfície de diversos tipos de células eucarióticas; cada cílio contém um núcleo de microtúbulos estáveis dispostos em um feixe, que crescem a partir de um corpo basal citoplasmático, que atua como um centro organizador (ver Figura 17-10D). (A) (B) 10 μm (C) Figura 17-20 Os microtúbulos ajudam a posicionar as organelas em uma célula eucariótica. (A) Diagrama esquemático de uma célula mostrando o arranjo típico de microtúbulos citoplasmáticos (verde-escuro), o retículo endoplasmático (azul) e o apare- lho de Golgi (amarelo). O núcleo está ilustrado em marrom, e o centrossomo, em verde-claro. (B) Uma porção de uma célula em cultura corada com anticorpos dirigidos contra o retículo endoplasmático (azul, painel superior) e contra os microtúbulos (verde, painel inferior). Proteínas motoras cinesinas impulsionam o retículo endoplasmático para fora ao longo dos microtúbulos. (C) Uma célula diferente em cultura, corada com anticorpos contra o aparelho de Golgi (amarelo, painel superior) e contra os microtúbulos (verde, painel inferior). Neste caso, dineínas citoplasmáticas empurram o aparelho de Golgi para o interior da célula, ao longo dos microtúbulos, rumo à sua posição perto do centrossomo, que não está visível mas se localiza, em relação ao núcleo, no mesmo lado do Golgi. (B, cortesia de Mark Terasaki, Lan Bo Chen e Keigi Fujiwara; C, cortesia de Viki Allan e Thomas Kreis.) Alberts_17.indd 579Alberts_17.indd 579 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 580 COMO SABEMOS PERSEGUINDO PROTEÍNAS MOTORAS ASSOCIADAS AO MICROTÚBULO O movimento das organelas ao longo do citoplasma de uma célula tem sido observado e medido e tem fornecido material para especulações desde a metade do século XIX. No entanto, apenas na metade da década de 1980 é que os biólogos foram capazes de identificar as moléculas que direcionam esse movi- mento de organelas e vesículas de uma região para outra den- tro da célula. Qual o motivo desse intervalo entre a observação e a com- preensão? O problema estava nas proteínas – ou, mais precisa- mente, na dificuldade de estudá-las isoladamente fora das cé- lulas. Para investigar a atividade de uma enzima, por exemplo, os bioquímicos em primeiro lugar purificam o polipeptídeo: eles rompem as células ou tecidos e separam a proteína de interesse dos demais componentes moleculares (ver Painéis 4-4 e 4-5, p. 166-167). Eles podem, em seguida, estudar a proteína em um tubo de ensaio (in vitro), controlando a sua exposição a subs- tratos, inibidores, ATP, e assim por diante. Infelizmente, essa abordagem não parece funcionar para estudos que envolvem a maquinaria de motilidade associada ao transporte intracelular. Não é possível romper uma célula e recuperar um sistema de transporte intacto completamente ativo, livre de materiais con- taminantes, que mantenha a capacidade de transportar mito- côndrias e vesículas de um lugar a outro. Esse problema foi resolvido por avanços técnicos em duas áreas distintas. No início, melhorias na microscopia permiti- ram aos biólogos compreender que um sistema de transpor- te operacional (com material extrínseco ainda ligado a ele) poderia ser obtido a partir do material espremido de um tipo adequado de célula viva. Simultaneamente, os bioquímicos perceberam que poderiam formar um sistema de transporte funcional começando do zero – usando filamentos do cito- esqueleto, motores e cargas purificados – fora da célula. Tais descobertas tiveram início com uma lula. Um citoplasma borbulhante Neurocientistas interessados nas propriedades elétricas das membranas de células nervosas estudaram amplamente o axônio gigante de lula (ver Como Sabemos, p. 406-407). Em razão do seu grande tamanho, os pesquisadores observaram que era possível espremer o citoplasma de um axônio como se fosse um tubo de pasta de dentes e então estudar como os íons se moviam para dentro e para fora pelos diversos canais da membrana plasmática vazia que se assemelhava a um tubo (ver Figura 12-33). Os fisiologistas simplesmente descartavam o citoplasma gelatinoso, tendo em vista sua aparência inerte (e, como consequência, sem interesse) quando examinado sob microscopia óptica padrão. Então surgiu a videomicroscopia. Este tipo de microsco- pia, desenvolvido por Shinya Inoué, Robert Allen e outros, per- mite detectar estruturas de tamanho inferior ao poder de reso- lução de microscópios ópticos padrão, que é apenas de cerca de 0,2 μm, ou 200 nm (ver Painel 1-1, p. 10-11). Imagens amos- trais são capturadas por uma câmera de vídeo e depois au- mentadas por processamento computadorizado para redução da interferência e realce do contraste. Quando os pesquisado- res, no início da década de 1980, aplicaram essa nova técnica a preparações de citoplasma de axônio de lula (axoplasma), eles observaram, pela primeira vez, o movimento de vesículas e outras organelas ao longo de filamentos do citoesqueleto. Sob a videomicroscopia, o axoplasma que sofreu extrusão parece borbulhar com minúsculas partículas – de vesículas de 30 a 50 nm de diâmetro a mitocôndrias com cerca de 5.000 nm de comprimento, movendo-se em todas as direções ao longo do citoesqueleto a velocidades de até 5 μm por segundo. Se o axoplasma for espalhado em uma espessura suficientemente fina, os filamentos individuais podem ser observados. O movimento permanece por horas, permitindo que os pesquisadores manipulem a preparação e estudem os efei- tos dessas manipulações. Ray Lasek e Scott Brady descobri- ram, por exemplo, que o movimento de organelas requer ATP. A substituição por análogos de ATP, como AMP-PNP, que se assemelham ao ATP, mas não podem ser hidrolisados (e, por- tanto, não fornecem energia), inibe a translocação. Tubos serpenteantes Foi necessário mais trabalho para a identificação dos compo- nentes individuais que controlam o sistema de transporte nos axônios de lula. Que tipo de filamentos daria suporte a este movimento? Quais são os motores moleculares que transpor- tam as vesículas e as organelas ao longo desses filamentos? A identificação dosfilamentos foi relativamente fácil: o uso de anticorpos contra a tubulina revelou que eles são microtú- bulos. E em relação às proteínas motoras? Com o objetivo de identificá-las, Ron Vale, Thomas Reese e Michael Sheetz de- senvolveram um sistema por meio do qual seria possível “pes- car” as proteínas que impulsionam o movimento de organelas. Sua estratégia era simples, mas elegante: colocar em um mesmo local microtúbulos e organelas e então procurar por moléculas que induzissem movimento. Eles usaram microtú- bulos purificados de encéfalo de lula, acrescentaram organe- las isoladas de axônios de lula e mostraram que poderia ser desencadeado o movimento das organelas pela adição de um extrato de axoplasma de lula. Nessa preparação, os pesqui- sadores puderam tanto observar as organelas transitando ao longo dos microtúbulos como assistir ao serpentear de micro- túbulos deslizando sobre a superfície de uma lamínula de vi- dro previamente revestida com um extrato de axoplasma (ver Questão 17-18). Seu desafio era isolar a proteína responsável pelo movimento nesse sistema reconstituído. Para isso, Vale e seus colegas aproveitaram o trabalho an- terior com o análogo de ATP, AMP-PNP. Embora esse análogo iniba o movimento de vesículas ao longo dos microtúbulos, ele ainda permite que as organelas se liguem aos filamentos dos microtúbulos. Assim, os pesquisadores incubaram o extrato de axoplasma com microtúbulos e organelas na presença de AMP-PNP; a seguir, purificaram os microtúbulos associados a Alberts_17.indd 580Alberts_17.indd 580 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 Capítulo 17 • O citoesqueleto 581 1 μm 0 1 2 Tempo (s) (A) (B) 1 2 3 1 μm 16 nm Extre- midade menos (-) Microtúbulo Extremidade mais (+) 1 2 3 4 5 Cauda da cinesina Cabeças da cinesina moléculas que talvez fossem as proteínas motoras esperadas. Em seguida, Vale e sua equipe adicionaram ATP para liberar as proteínas ligadas e encontraram um polipeptídeo de 110 quilo- dáltons que podia estimular o deslizamento de microtúbulos sobre uma lamínula de vidro (Figura 17-21). Eles denominaram essa molécula cinesina (do grego kinein, “mover”). Ensaios de motilidade in vitro similares foram funda- mentais para o estudo de outras proteínas motoras, como as miosinas, que se movem ao longo de filamentos de actina, como discutimos adiante. Estudos subsequentes mostraram que as cinesinas se movem ao longo dos microtúbulos a par- tir da extremidade menos (-) rumo à extremidade mais (+); eles também identificaram muitas outras proteínas motoras da família da cinesina. Luzes, câmera, ação Combinando esses ensaios com técnicas de microscopia cada vez mais refinadas, os pesquisadores podem, atualmente, mo- nitorar o movimento de proteínas motoras individuais ao lon- go de um microtúbulo isolado, mesmo em células vivas. A observação de moléculas de cinesina acopladas à pro- teína verde fluorescente (GFP) revelou que essa proteína motora move-se de forma processiva ao longo dos microtúbulos, isto é, cada molécula dá vários “passos” ao longo do filamento (100 ou mais) antes de desconectar-se. O comprimento de cada passo equivale a 8 nm, o que corresponde ao espaçamento dos díme- ros de tubulina individuais ao longo do microtúbulo. A com- binação dessas observações com ensaios de hidrólise de ATP permitiu aos investigadores confirmarem que uma molécula de ATP é hidrolisada a cada passo. A cinesina pode mover-se de modo processivo porque possui duas cabeças. Isso lhe permite caminhar rumo à extremidade mais (+) dos microtúbulos em um sistema “pé ante pé”, cada cabeça repetidamente ligando-se ao filamento e sendo liberada do filamento conforme ultrapas- sa a cabeça ligada à sua frente (Figura 17-22). Tais estudos ago- ra nos permitem seguir os passos dessas proteínas fascinantes e trabalhadoras – um passo molecular de cada vez. Figura 17-21 A cinesina provoca o deslizamento dos micro- túbulos in vitro. Em um ensaio de motilidade in vitro, cinesina purificada é misturada com microtúbulos na presença de ATP. Quando uma gota dessa mistura é colocada sobre uma lâmina de vidro e observada por videomicroscopia, microtúbulos indivi- duais podem ser vistos deslizando sobre a lâmina. Eles são movi- dos por moléculas de cinesina, que se ligam à lamínula de vidro pelas suas caudas. As imagens foram obtidas em intervalos de 1 segundo. Os microtúbulos artificialmente corados moveram-se a cerca de 1 a 2 μm/s. (Cortesia de Nick Carter e Rob Cross.) Figura 17-22 Uma molécula indi- vidual de cinesina que se move ao longo de um microtúbulo. (A) Três quadros, separados por intervalos de 1 segundo, mostram o movimento de uma molécula individual de cinesina- -GFP (vermelho) ao longo de um dos microtúbulos (verde); a cinesina mar- cada move-se a uma velocidade de 0,3 μm/s. (B) Uma série de modelos moleculares das duas cabeças de uma molécula de cinesina, mostrando como se acredita que elas caminhem progres- sivamente ao longo de um microtúbulo, em uma série de passos de 8 nm, com as cabeças ultrapassando uma à outra (Animação 17.6). (A e B, cortesia de Ron Vale.) Alberts_17.indd 581Alberts_17.indd 581 16/01/2017 11:16:2716/01/2017 11:16:27 582 Fundamentos da Biologia Celular Os cílios batem como chicotes, impulsionando líquidos sobre a superfície de uma célula ou impelindo células individuais por meio de um líquido. Alguns pro- tozoários, por exemplo, utilizam cílios para a coleta de partículas de alimento, e outros os utilizam para a locomoção. Nas células epiteliais que revestem o trato respiratório humano (Figura 17-23), um grande número de cílios motores (mais de um bilhão por centímetro quadrado) varre camadas de muco contendo partículas de poeira e células mortas em direção à garganta, para que esse muco seja engoli- do e, por fim, eliminado do corpo. Da mesma forma, cílios motores nas células da parede do oviduto criam uma corrente que ajuda a transportar os óvulos ao longo do oviduto. Cada cílio atua como um pequeno remo, batendo em um ciclo repetido que gera o movimento do líquido sobre a superfície celular (Figura 17-24). Os flagelos que impulsionam os espermatozoides e diversos tipos de proto- zoários são bastante semelhantes aos cílios no que diz respeito à sua estrutura interna, mas, em geral, são muito mais longos. Eles foram concebidos para mover toda a célula, em vez de movimentar líquidos sobre a superfície da célula. Os fla- gelos propagam ondas regulares ao longo de seu comprimento, impulsionando a célula à qual estão conectados (Figura 17-25). Os microtúbulos dos cílios e flagelos são ligeiramente diferentes daqueles encontrados no citoplasma; eles estão organizados em um padrão distinto e curioso, o qual foi uma das mais impressionantes revelações à época do surgi- mento da microscopia eletrônica. A secção transversal de um cílio mostra nove pares de microtúbulos organizados em anel, em torno de um único par de micro- túbulos isolados (Figura 17-26A). Este arranjo “9 + 2” é característico de pratica- mente todos os cílios e flagelos eucarióticos – de protozoários a humanos. O movimento de um cílio ou um flagelo é produzido pela flexão de sua região central, conforme os microtúbulos deslizam uns sobre os outros. Os microtúbulos estão associados a diversas proteínas acessórias (Figura 17-26B), que se projetam a intervalos regulares ao longo do comprimento do feixe de microtúbulos. Algu- mas dessas proteínas atuam como interligadoras para a manutenção da estrutura do feixe de microtúbulos, e outras geram a força que provoca a flexão do cílio. A mais importante das proteínas acessórias é a proteína motora dineína ci- liar, que gera o movimento de flexão na região central. Ela está intimamente re- lacionada à dineína citoplasmática e atua de modo muitosemelhante. A dineína ciliar está conectada por sua cauda a um microtúbulo, ao mesmo tempo em que suas duas cabeças interagem com um microtúbulo adjacente para gerar a força de deslizamento entre esses dois microtúbulos. Devido às múltiplas ligações que mantêm unidos os pares de microtúbulos adjacentes, a força de deslizamento entre microtúbulos adjacentes é convertida em um movimento de flexão no cílio (Figura 17-27). Em humanos, defeitos hereditários na dineína ciliar provocam a síndrome de Kartagener. Os homens com essa doença não são férteis em razão 5 μm Figura 17-23 Muitos cílios semelhantes a pelos projetam-se da superfície das células epiteliais que revestem o trato respiratório humano. Nesta micrografia eletrônica de varredura, tufos espessos de cílios podem ser vistos nestas células cilia- das, que estão intercaladas a células epite- liais não ciliadas com superfícies em forma de cúpula. (Reproduzida de R.G. Kessel e R.H. Karden, Tissues and Organs. San Fran- cisco: W.H. Freeman & Co., 1979.) Movimento de potência Figura 17-24 Um cílio bate efetuando ciclos repetitivos de movimentos que consistem em um movimento de potência seguido por um movimento de recupera- ção. No rápido movimento de potência, o cílio se encontra totalmente distendido, e o líquido é direcionado sobre a superfície da célula. No movimento de recuperação, mais lento, o cílio se recurva em uma posição que provoca o menor distúrbio possível no líquido adjacente. Cada ciclo requer em geral 0,1 a 0,2 segundos e gera uma força paralela à superfície da célula. Alberts_17.indd 582Alberts_17.indd 582 16/01/2017 11:16:2816/01/2017 11:16:28 Capítulo 17 • O citoesqueleto 583 da ausência de motilidade dos espermatozoides, e eles apresentam aumento na suscetibilidade a infecções brônquicas, pois os cílios que revestem seu trato res- piratório se encontram inativos e, portanto, incapazes de eliminar bactérias ou outros resíduos dos pulmões. Muitas células animais que não possuem cílios motores contêm um único cílio primário não móvel. Tal apêndice é muito mais curto do que um cílio motor e funciona como uma antena para a detecção de determinadas moléculas de sinalização extracelular. FILAMENTOS DE ACTINA Os filamentos de actina, os polímeros da proteína actina, estão presentes em todas as células eucarióticas e são essenciais para vários movimentos celulares, especialmente aqueles que envolvem a superfície da célula. Sem os filamentos de actina, por exemplo, uma célula animal não poderia migrar (ou deslizar) sobre uma superfície, englobar uma partícula grande por fagocitose ou dividir-se em duas. Assim como os microtúbulos, diversos filamentos de actina apresentam instabilidade, mas, associando-se a outras proteínas, eles também podem for- mar estruturas estáveis nas células, como os complexos contráteis nas células musculares. Os filamentos de actina interagem com uma grande quantidade de proteínas de ligação à actina, o que permite que desempenhem uma ampla gama de atividades nas células. Dependendo das proteínas associadas, os filamentos de actina podem formar estruturas rígidas e estáveis, como as microvilosidades nas células epiteliais que revestem o intestino (Figura 17-28A) ou os pequenos feixes contráteis que podem contrair e atuar como pequenos músculos na maio- ria das células animais (Figura 17-28B). Eles também podem formar estruturas temporárias, como as protrusões dinâmicas formadas na borda anterior de uma Figura 17-25 Os flagelos impulsionam uma célula ao longo de líquidos utilizando um movimento ondulatório repetitivo. O movimento de um úni- co flagelo em um espermatozoide de um invertebrado é visto em uma série de imagens captadas por iluminação estroboscópica com velocidade de 400 disparos por segundo. (Cortesia de Charles J. Brokaw.) (A) 100 nm Camada interna Microtúbulo central único Raio radial Braço externo de dineína Nexina Membrana plasmática Braço interno de dineína Microtúbulo A Par de microtúbulos externos (B) Microtúbulo B Figura 17-26 Os microtúbulos em um cílio ou flagelo estão organizados em um arranjo “9 + 2”. (A) Micrografia eletrônica de um flagelo da alga unicelular Chlamydomonas mostrado em secção transversal, ilustrando a organização 9 + 2 característica dos mi- crotúbulos. (B) Diagrama do corte transversal de um flagelo. Os nove microtúbulos externos (cada um deles uma estrutura pareada especial) apresentam duas colunas de moléculas de dineína. As cabeças de cada molécula de dineína aparecem nesta fotografia como braços que avançam em direção ao par de microtúbulos adjacente. Em cílios in vivo, essas cabeças de dineína fazem contato periodicamente com o par de microtúbulos adjacente e se movem ao longo dele, produzindo, assim, a força para o batimento ciliar. As diversas outras ligações e projeções ilustradas representam proteínas que servem para manter unido o feixe de microtúbulos e para converter a força de deslizamento produzida pelas dineínas em flexão, como ilustrado na Figura 17-27. (A, cortesia de Lewis Tilney.) Alberts_17.indd 583Alberts_17.indd 583 16/01/2017 11:16:2816/01/2017 11:16:28 584 Fundamentos da Biologia Celular célula que desliza (Figura 17-28C) ou o anel contrátil, que comprime o citoplasma separando-o em dois quando há divisão de uma célula animal (Figura 17-28D). Movimentos dependentes de actina em geral requerem a associação da actina a uma proteína motora denominada miosina. Nesta seção, consideramos como os arranjos de filamentos de actina em uma célula dependem dos diferentes tipos de proteínas de ligação à actina pre- sentes. Ainda que os filamentos de actina e microtúbulos sejam formados a partir de tipos não relacionados de subunidades proteicas, vamos ver que os princí- pios que ditam sua associação e dissociação, o controle da estrutura celular e o trabalho conjunto com proteínas motoras para a produção de movimento são incrivelmente semelhantes. Os filamentos de actina são finos e flexíveis Os filamentos de actina são visualizados sob microscopia eletrônica como fitas de cerca de 7 nm de diâmetro. Cada filamento é composto por uma cadeia es- piralada de monômeros idênticos de actina globular, todos “apontando” para a mesma direção em relação ao eixo da cadeia. Assim, do mesmo modo que um microtúbulo, um filamento de actina apresenta uma polaridade estrutural, com uma extremidade mais (+) e uma extremidade menos (-) (Figura 17-29). Os filamentos de actina são mais delgados e flexíveis e, em geral, mais curtos do que os microtúbulos. No entanto, existem muito mais filamentos individuais de actina do que microtúbulos em uma célula, de modo que o comprimento total dos filamentos de actina de uma célula é muitas vezes superior ao comprimento total dos microtúbulos. Diferentemente dos filamentos intermediários e dos microtúbu- los, os filamentos de actina raramente ocorrem de forma isolada nas células: eles costumam ser encontrados em feixes interligados e em redes – estruturas que apre- sentam uma resistência muito superior se comparadas a filamentos individuais. + + + + + + – – – – – – +ATP FLEXÃO Proteínas de ligação EM UM FLAGELO NORMAL: A DINEÍNA PROVOCA A FLEXÃO DOS MICROTÚBULOS (B)EM PARES ISOLADOS DE MICROTÚBULOS: A DINEÍNA PROVOCA O DESLIZAMENTO DOS MICROTÚBULOS (A) + + – – DESLIZA- MENTO (A) (B) (C) (D) Figura 17-27 O movimento da dineína provoca a flexão do flagelo. (A) Se os pares externos de microtúbulos e suas mo- léculas associadas de dineína são liberados dos outros componentes em um flagelo de um espermatozoide e a seguir são expostos ao ATP, ocorre o deslizamento linear de um par de microtúbulos sobre o outro, devido à ação repetida das dineínas a eles associa- das. (B) Em um flagelo intacto,no entanto, os pares de microtúbulos estão conectados uns aos outros por meio de ligações pro- teicas flexíveis, de tal modo que a ação do sistema provoca um movimento de flexão, em vez de deslizamento. QUESTÃO 17-4 Os braços de dineína em um cílio estão arranjados de tal modo que, quando ativados, suas cabeças im- pulsionam os pares vizinhos exter- nos para fora, em direção à extremi- dade do cílio. Considere uma secção transversal de um cílio (ver Figura 17-26). Por que não haveria forma- ção de movimento de flexão no cílio se todas as moléculas de dineína fossem ativadas simultaneamente? Que padrão de atividade de dineína pode ser responsável pela flexão de um cílio em uma direção? Figura 17-28 Os filamentos de actina permitem que as células animais ado- tem uma grande variedade de formas e desempenhem diferentes funções. Os filamentos de actina de quatro estrutu- ras diferentes são mostrados em vermelho: (A) microvilosidades; (B) feixes contráteis no citoplasma; (C) filopódios semelhantes a dedos que se projetam na borda anterior de uma célula em movimento; e (D) anel con- trátil durante a divisão celular. Alberts_17.indd 584Alberts_17.indd 584 16/01/2017 11:16:2816/01/2017 11:16:28 Capítulo 17 • O citoesqueleto 585 A actina e a tubulina polimerizam por mecanismos semelhantes Embora os filamentos de actina possam crescer pela adição de monômeros de actina em ambas as extremidades, assim como ocorre com os microtúbulos, a sua taxa de crescimento é mais rápida na extremidade mais (+) do que na extremidade menos (-). Um filamento de actina nu, da mesma forma que um microtúbulo sem suas proteínas associadas, é inerentemente instável e pode sofrer dissociação em ambas as extremidades. Em células vivas, monômeros de actina livre estão firmemente ligados a um nucleosídeo-trifosfato, neste caso o ATP. O monômero de actina hidrolisa o ATP ligado gerando ADP logo após ter sido incorporado ao filamento. Tal como acontece com a hidrólise de GTP em GDP no microtúbulo, a hidrólise de ATP em ADP em um filamento de actina reduz a força de ligação entre os monômeros, diminuindo assim a estabilidade do polímero. Desse modo, em ambos os casos, a hidrólise de nucleotídeos promove despolimerização, ajudando a célula a dissociar seus microtúbulos e filamentos de actina quando necessário. Se a concentração de monômeros livres de actina for muito elevada, um fi- lamento de actina vai crescer rapidamente, adicionando monômeros em ambas as extremidades. Em concentrações intermediárias de actina livre, no entanto, algo interessante acontece. Monômeros de actina são adicionados à extremida- de mais (+) a uma taxa mais rápida do que o ATP ligado pode ser hidrolisado, de modo que a extremidade mais (+) cresce. Já na extremidade menos (-), o ATP é hidrolisado mais rapidamente do que os monômeros podem ser adicionados; vis- to que a actina-ADP desestabiliza a estrutura, o filamento perde subunidades da sua extremidade menos (-) ao mesmo tempo em que adiciona subunidades à sua extremidade mais (+) (Figura 17-30). Pelo fato de monômeros individuais poderem ser acompanhados, movendo-se pelo filamento, da sua extremidade mais (+) até sua extremidade menos (-), esse comportamento é chamado treadmilling*. Tanto o treadmilling dos filamentos de actina como a instabilidade dinâmica dos microtúbulos baseiam-se na hidrólise de um nucleosídeo-trifosfato ligado para regular o comprimento do polímero. Todavia, o resultado costuma ser diferente. *N. de T. Em uma analogia ao contínuo movimento de uma roda d’água em um moinho. 25 nm Extremidade menos (-) Extremidade mais (+) (A) (B) (C) (D) 37 nm Extremidade mais (+) Extremidade menos (-) Filamento de actina Monômero de actina Figura 17-29 Os filamentos de actina são fibras proteicas finas e flexíveis. (A) A subunidade de cada um dos filamen- tos de actina é um monômero de actina. Uma fenda no monômero gera um sítio de ligação para ATP ou ADP. (B) Arranjo de monômeros de actina em um filamento. Cada filamento pode ser imaginado como uma hélice de fita dupla cuja volta com- pleta se repete a cada 37 nm. Múltiplas interações laterais entre as duas fitas evitam que elas se separem. (C) As subunidades idênticas de um filamento de actina em cores diferentes para enfatizar as interações íntimas entre cada molécula de actina e suas quatro vizinhas mais próximas. (D) Micrografia eletrônica de um filamento de actina em coloração negativa. (C, de K.C. Holmes et al., Nature 347:44–49, 1990. Com permissão de Macmillan Publishers Ltd; D, cortesia de Roger Craig.) Alberts_17.indd 585Alberts_17.indd 585 16/01/2017 11:16:2816/01/2017 11:16:28 586 Fundamentos da Biologia Celular O treadmilling envolve um ganho de monômeros na extremidade mais (+) de um fi- lamento de actina e a perda simultânea na extremidade menos (-): quando as taxas de adição e de perda são iguais, o filamento permanece do mesmo tamanho (Figura 17-31A). A instabilidade dinâmica, por outro lado, envolve uma rápida transição de crescimento para encurtamento (ou de encurtamento para crescimento) apenas na extremidade mais (+) do microtúbulo. Consequentemente, os microtúbulos tendem a sofrer mudanças mais drásticas no comprimento do que os filamentos de actina, ora crescendo rapidamente, ora sofrendo um rápido colapso (Figura 17-31B). Os filamentos de actina podem ser afetados experimentalmente por certas toxinas produzidas por fungos ou esponjas marinhas. Algumas, como a citocala- sina e a latrunculina, impedem a polimerização da actina; outras, como a faloidi- na, estabilizam os filamentos de actina, tornando mais difícil a despolimerização (Tabela 17-2). A adição dessas toxinas ao meio de lavagem de células ou tecidos, mesmo sob concentrações reduzidas, bloqueia instantaneamente movimentos celulares, como a locomoção celular. Portanto, do mesmo modo que os microtú- bulos, muitas das funções dos filamentos de actina dependem da capacidade de associação e dissociação do filamento, e a velocidade desses processos depende do equilíbrio dinâmico entre filamentos de actina, do conjunto de monômeros de actina e das várias proteínas de ligação à actina. Diversas proteínas se ligam à actina e modificam suas propriedades A actina corresponde a aproximadamente 5% da proteína total em uma célu- la animal típica; cerca de metade dessa actina está associada em filamentos, e a outra metade permanece sob a forma de monômeros de actina no citosol. Assim, distintamente da situação dos dímeros de tubulina, a concentração de monômeros de actina é alta – muito maior do que a concentração necessária para que monômeros de actina purificada polimerizem espontaneamente em um Actina com ADP ligado Actina com ATP ligado ATPADP Pi Extremidade menos (-) Extremidade menos (-) Extremidade mais (+) Extremidade mais (+) Filamento de actina Monômero de actina (A) TREADMILLING (B) INSTABILIDADE DINÂMICA RÁPIDO CRESCIMENTO PERDA DA CAPA DE GTP ENCURTAMENTO CATASTRÓFICO CAPA DE GTP RESTABELECIDA Capa de GTP Tubulina-GDP Tubulina-GTP 123 123 123 QUESTÃO 17-5 A formação de filamentos de actina no citosol é controlada por proteí- nas de ligação à actina. Algumas proteínas de ligação à actina aumen- tam significativamente a taxa de ini- ciação da formação de um filamento de actina. Proponha um mecanismo pelo qual isso possa ocorrer. Figura 17-30 A hidrólise de ATP di- minui a estabilidade do polímero de actina. Monômeros de actina no citosol carreiam ATP, o qual é hidrolisado em ADP logo após a sua inserção no filamento em crescimento. As moléculas de ADP ficam presas no filamento de actina, incapazes de serem trocadas por ATP, a menos que o monômero que as carreia seja dissociado do filamento.Figura 17-31 O treadmilling dos fi- lamentos de actina e a instabilidade dinâmica dos microtúbulos regulam o comprimento do polímero de diferentes maneiras. (A) O treadmilling ocorre quan- do ATP-actina é adicionada à extremidade mais (+) de um filamento de actina ao mes- mo tempo em que ADP-actina é perdida na extremidade menos (-). Quando as taxas de adição e perda são equivalentes, o compri- mento do filamento permanece constante – embora monômeros de actina individuais (três dos quais estão numerados) se movam ao longo do filamento da extremidade mais (+) para a extremidade menos (-). (B) Na instabilidade dinâmica, GTP-tubulina é adicionada à extremidade mais (+) de um microtúbulo em crescimento. Como discuti- do antes, quando a adição de GTP-tubulina é mais rápida do que a hidrólise de GTP, forma-se uma capa de GTP nessa extremi- dade; quando a taxa de adição diminui, a capa de GTP é perdida e o filamento sofre encurtamento catastrófico devido à perda de GDP-tubulina nessa extremidade. O mi- crotúbulo encurtará até que a capa de GTP seja reposta – ou até o desaparecimento do microtúbulo (ver Figura 17-15). Alberts_17.indd 586Alberts_17.indd 586 16/01/2017 11:16:2816/01/2017 11:16:28 Capítulo 17 • O citoesqueleto 587 tubo de ensaio. O que, então, evita a completa polimerização dos monômeros de actina em filamentos nas células? A resposta é que as células contêm pequenas proteínas, como a timosina e a profilina, que se ligam aos monômeros de actina do citosol, impedindo que estes sejam adicionados às extremidades dos filamen- tos de actina. Essas proteínas desempenham um papel central na regulação da polimerização da actina, mantendo uma reserva de monômeros de actina até o momento necessário. Quando são necessários filamentos de actina, outras proteínas de ligação à actina, como a formina e proteínas relacionadas à actina (ARPs), promovem a polimerização da actina. Existe uma ampla gama de proteínas de ligação à actina nas células. A maioria dessas proteínas se liga a filamentos organizados de actina, em vez de se ligar aos monômeros de actina, e regula o comportamento de filamentos in- tactos (Figura 17-32). Proteínas de enfeixamento de actina, por exemplo, mantêm os filamentos de actina unidos em feixes paralelos nas microvilosidades; outras proteínas interligam os filamentos de actina em uma rede semelhante a um gel no interior do córtex celular – a camada especializada do citoplasma rica em fila- Monômeros de actina Proteína de sequestro de monômeros Proteína de nucleação Filamentos de actina Proteína de enfeixamento (em filopódios) Proteína motora de miosina Proteína de ligação lateral Proteína de capeamento (bloqueio das extremidades mais [+]) Proteína de interligação (no córtex celular) Proteína de quebra TABELA 17-2 Fármacos que afetam os filamentos de actina Fármacos específicos para actina Faloidina Liga-se aos filamentos e os estabiliza Citocalasina Promove o capeamento das extremidades mais (+) do filamento, im- pedindo que ali ocorra polimerização Latrunculina Liga-se a monômeros de actina e impede sua polimerização Figura 17-32 Proteínas de ligação à acti- na controlam o comportamento dos fila- mentos de actina em células de vertebra- dos. A actina está ilustrada em vermelho, e as proteínas de ligação à actina, em verde. Alberts_17.indd 587Alberts_17.indd 587 16/01/2017 11:16:2816/01/2017 11:16:28 588 Fundamentos da Biologia Celular mentos de actina, subjacente à membrana plasmática. As proteínas de quebra dos filamentos de actina ( filament-severing proteins) fragmentam esses filamentos e, portanto, podem converter um gel de actina a um estado mais líquido. Os filamen- tos de actina podem também associar-se a proteínas motoras de miosina para formar feixes contráteis, como ocorre em células musculares. Além disso, muitas vezes eles formam caminhos ao longo dos quais as proteínas motoras de miosina transportam organelas, uma função especialmente evidente nas células vegetais. No restante deste capítulo, abordamos algumas estruturas características que os filamentos de actina podem formar e discutimos como diferentes tipos de proteínas de ligação à actina estão envolvidos em sua associação. Começamos com o córtex celular e seu papel na locomoção celular e concluímos com o apa- rato contrátil das células musculares. Um córtex rico em filamentos de actina está subjacente à membrana plasmática da maioria das células eucarióticas Apesar de a actina ser encontrada em todo o citoplasma de uma célula eucari- ótica, na maioria das células ela está concentrada em uma camada que existe exatamente abaixo da membrana plasmática. Nessa região, denominada córtex celular, filamentos de actina estão conectados por intermédio de proteínas de li- gação à actina, formando uma trama que sustenta e confere resistência mecânica à membrana plasmática. Nos eritrócitos humanos, uma rede simples e regular de proteínas fibrosas, incluindo filamentos de actina e espectrina, conecta-se à membrana plasmática, fornecendo o suporte necessário para que as células man- tenham sua forma discoide simples (ver Figura 11-29). O córtex celular de outras células animais, no entanto, é mais espesso e complexo, sendo capaz de propor- cionar um conjunto muito mais rico de formas celulares e movimentos à superfí- cie celular. Assim como o córtex no eritrócito, o córtex em outras células contém espectrina; entretanto, nele também existe uma rede muito mais densa de fila- mentos de actina. Tais filamentos interligam-se em uma rede tridimensional que controla a forma da célula e as propriedades mecânicas da membrana plasmática: os rearranjos dos filamentos de actina no córtex fornecem a base molecular tanto para mudanças da forma da célula quanto para a sua locomoção. A migração celular depende da actina cortical Muitas células eucarióticas movem-se rastejando (ou deslizando) sobre superfí- cies, em vez de utilizarem movimento natatório derivado do batimento de cílios ou flagelos. Amebas carnívoras deslizam continuamente em busca de alimento. A região frontal de um axônio em desenvolvimento migra em resposta a fatores de crescimento, seguindo uma trilha de sinais químicos, rumo à célula-alvo de sua sinapse. Os leucócitos (glóbulos brancos) conhecidos como neutrófilos mi- gram do sangue para tecidos infectados quando “farejam” pequenas moléculas oriundas de bactérias. Os neutrófilos, seguindo essas moléculas, são capazes de encontrar as bactérias para destruí-las. Para esses caçadores, tal ligação de moléculas quimiotáxicas aos receptores existentes na superfície celular induz alterações na organização dos filamentos de actina que ajudam a direcionar as células rumo às suas presas (ver Animação 17.7). Os mecanismos moleculares dessas e de outras formas de migração celular envolvem alterações coordenadas de diversas moléculas em diferentes regiões da célula, e nenhuma única organela locomotora facilmente identificável, como acontece no caso de flagelos, é responsável por essas alterações. Em termos ge- rais, no entanto, sabe-se que três processos inter-relacionados são essenciais: (1) a célula emite protrusões em sua região “frontal”, ou borda anterior; (2) essas protrusões aderem à superfície sobre a qual a célula se locomove; e (3) a porção remanescente da célula é impulsionada para frente pela tração sobre esses pon- tos de ancoragem (Figura 17-33). Alberts_17.indd 588Alberts_17.indd 588 16/01/2017 11:16:2816/01/2017 11:16:28 Capítulo 17 • O citoesqueleto 589 Todos esses processos envolvem a actina, mas de diferentes maneiras. O pri- meiro passo, a impulsão da superfície celular para frente, é promovido pela po- limerização da actina. A borda anterior de um fibroblasto em movimento, em uma cultura de células, estende constantementefinos lamelipódios laminares, os quais contêm uma densa rede de filamentos de actina, orientados de tal modo que a maioria dos filamentos apresenta suas extremidades mais (+) próximo à membrana plasmática. Diversas células também desenvolvem protrusões finas e rígidas denominadas filopódios, tanto na região da borda anterior quanto ao longo de toda sua superfície (Figura 17-34). Essas estruturas apresentam em tor- no de 0,1 μm de largura e 5 a 10 μm de comprimento, contendo um feixe frouxo de 10 a 20 filamentos de actina (ver Figura 17-28C), também orientados com suas extremidades mais (+) apontando para o exterior. A região da célula que está avançando (o cone de crescimento) de um axônio neuronal em desenvolvimento estende filopódios ainda mais longos, que alcançam até 50 μm, os quais a au- xiliam a sondar o ambiente e a encontrar o caminho correto que a levará à sua célula-alvo. Tanto os lamelipódios quanto os filopódios são estruturas móveis e exploratórias formadas e retraídas a grandes velocidades, movendo-se a aproxi- madamente 1 μm por segundo. Acredita-se que ambas as estruturas se originem pelo crescimento rápido e localizado de filamentos de actina, os quais se asso- ciam junto à membrana plasmática e se alongam pela adição de monômeros de Substrato Córtex sob tensão A POLIMERIZAÇÃO DE ACTINA NA EXTREMIDADE MAIS (+) EMPURRA O LAMELIPÓDIO Movimento de actina não polimerizada CONTRAÇÃO AVANÇO DA PROTRUSÃO Contatos focais (contêm integrinas) Proteínas motoras de miosina deslizam sobre os filamentos de actina Córtex de actina Lamelipódio ADESÃO (B) (A) 5 µm Filopódio LamelipódioLamelipódio Filopódio Figura 17-33 Forças geradas no cór- tex celular rico em filamentos de actina ajudam a impulsionar uma célula para frente. A polimerização de actina na borda anterior da célula impulsiona a membrana plasmática para frente (protrusão) e forma novas regiões de córtex de actina, ilustra- das aqui em vermelho. Novos pontos de ancoragem são estabelecidos entre a parte inferior da célula e a superfície (substra- to) sobre a qual a célula está deslizando (adesão). A seguir, uma contração na parte posterior da célula, mediada por proteínas motoras de miosina deslocando-se ao lon- go de filamentos de actina, puxa o corpo da célula para frente. Conforme a célula avança, novos pontos de ancoragem são estabelecidos na região anterior, sendo dissociados os pontos de ancoragem anti- gos, na região posterior. Esse mesmo ciclo é repetido várias vezes, fazendo a célula avançar passo a passo. Figura 17-34 Os filamentos de actina permitem a migração de uma célula animal. (A) Desenho esquemático de um fibroblasto em movimento ilustrando lamelipódios achatados e filopódios finos se projetando de sua superfície, principal- mente na região da borda anterior. (B) Mi- crografia eletrônica de varredura mostrando lamelipódios e filopódios da borda anterior de um fibroblasto humano migrando em uma cultura; a seta mostra a direção do mo- vimento celular. À medida que a célula se move, os lamelipódios que não conseguem se ancorar ao substrato são arrastados para trás por sobre a superfície superior da célu- la – um movimento designado como ondu- lação. (B, cortesia de Julian Heath.) Alberts_17.indd 589Alberts_17.indd 589 22/02/2017 17:05:2222/02/2017 17:05:22 590 Fundamentos da Biologia Celular actina em suas extremidades mais (+). Dessa maneira, os filamentos empurram a membrana para frente sem rasgá-la. A formação e o crescimento de filamentos de actina na borda anterior de uma célula são auxiliados por diferentes proteínas de ligação à actina. As proteínas re- lacionadas à actina – ou ARPs – mencionadas antes promovem a formação de uma rede de filamentos de actina ramificados em lamelipódios. As ARPs formam com- plexos que se ligam às laterais de filamentos de actina preexistentes e promovem a nucleação e a formação de novos filamentos, que crescem angularmente, produ- zindo ramificações laterais. Com o auxílio de proteínas de ligação à actina adicio- nais, essa rede apresentará uma contínua associação na borda anterior e dissocia- ção na região posterior, impulsionando o lamelipódio para frente (Figura 17-35). O outro tipo de protrusão celular, o filopódio, depende da formina, uma pro- teína de nucleação que se liga às extremidades mais (+) em crescimento dos fila- mentos de actina e promove a adição de novos monômeros para a formação de filamentos lineares, não ramificados. As forminas também são usadas em outros locais para associar filamentos não ramificados, como no anel contrátil, que se- para em duas as células animais em divisão. Quando os lamelipódios e os filopódios fazem contato com uma superfície favorável, eles aderem: proteínas transmembrânicas de suas membranas plas- máticas, conhecidas como integrinas (discutidas no Capítulo 20), aderem a mo- léculas da matriz extracelular ou que estejam presentes na superfície de uma célula adjacente sobre a qual a célula em movimento esteja rastejando. Enquanto isso, na face intracelular da membrana plasmática da célula rastejante, as inte- grinas capturam filamentos de actina no córtex, criando, portanto, uma ancora- gem robusta para a célula em movimento (ver Figuras 17-33 e 20-15C). Para usar este sistema de ancoragem para puxar o seu corpo para frente, a célula solicita a ajuda de proteínas motoras de miosina, conforme apresentado a seguir. QUESTÃO 17-6 Suponha que as moléculas de acti- na em uma célula de epiderme em cultura tenham sido aleatoriamente marcadas de tal modo que 1 em cada 10.000 moléculas carreia um marcador fluorescente. O que você esperaria ver se examinasse o lame- lipódio (borda anterior) dessa célula usando microscopia de fluorescên- cia? Assuma que seu microscópio apresenta sensibilidade suficiente para a detecção de até mesmo uma única molécula fluorescente. (A) (B) 0,5 μm Complexo ARP Proteína de capeamento Monômero de actina Limite da borda anterior da célula Filamento de actina recém-polimerizado Membrana plasmática Figura 17-35 Uma rede de filamentos de actina em polimerização impulsiona a borda anterior de um lamelipódio para frente. (A) Um queratinócito de alta motilidade derivado de pele de rã foi fixado, seco e corado com platina para exame em microscopia eletrônica. Os filamentos de actina formam uma densa rede contendo filamentos com extremidades mais (+) de rá- pido crescimento que terminam na borda anterior do lamelipódio (parte superior da figura). (B) Desenho ilustrando como a nu- cleação de novos filamentos de actina (vermelho) é mediada pelos complexos ARP (marrom) ligados lateralmente a filamentos de actina preexistentes. As estruturas ramificadas resultantes impulsionam a membrana plasmática para frente. As extremida- des mais (+) dos filamentos de actina são protegidas contra a despolimerização por proteínas de capeamento (azul), enquanto as extremidades menos (-) dos filamentos de actina mais próximas ao centro da célula sofrem dissociação continuada a partir da ação de proteínas despolimerizadoras (não ilustradas). Assim, a rede de actina, como um todo, apresenta um movimento contí- nuo para frente, mediado pela associação de filamentos na região anterior e pela dissociação na região posterior. Essa rede de actina está representada em uma escala diferente da rede ilustrada em (A). (A, cortesia de Tatyana Svitkina e Gary Borisy.) Alberts_17.indd 590Alberts_17.indd 590 16/01/2017 11:16:2816/01/2017 11:16:28 Capítulo 17 • O citoesqueleto 591 A actina se associa à miosina para a formação de estruturas contráteis Todas as proteínas motoras dependentes de actina pertencem à família da mio- sina. Elas se ligam ao ATP, hidrolisando-o, o que fornece energia para seu mo- vimento ao longo dos filamentos de actina em direção à extremidademais (+). A miosina, assim como a actina, foi inicialmente identificada em músculo es- quelético, e muitas das informações a respeito das interações que ocorrem en- tre essas duas proteínas provêm de estudos em células musculares. Existem vá- rios tipos diferentes de miosina nas células, sendo as subfamílias da miosina-I e da miosina-II as mais abundantes. A miosina-I está presente em todos os tipos de células, ao passo que a miosina-II é uma forma especializada utilizada pelas células musculares. Por apresentar estrutura e mecanismo de ação mais simples, a miosina-I é o foco de nossa discussão inicial. As moléculas de miosina-I possuem um domínio de cabeça e uma cauda (Figura 17-36A). O domínio da cabeça se liga a um filamento de actina e possui a atividade motora de hidrólise de ATP, que permite que ela se mova ao longo do filamento por ciclos repetitivos de ligação, dissociação e religação (Animação 17.8). A cauda varia entre os diferentes tipos de miosina-I e determina o tipo de carga que será transportado pela miosina. Por exemplo, a cauda pode ligar-se a um tipo particular de vesícula e propeli-la pela célula ao longo dos trilhos de filamentos de actina (Figura 17-36B), ou pode ligar-se à membrana plasmática e impulsioná-la modificando a sua forma (Figura 17-36C). Os sinais extracelulares podem alterar a organização dos filamentos de actina Vimos que a miosina e outras proteínas de ligação à actina podem regular o posicionamento, a organização e o comportamento dos filamentos de actina. No entanto, as atividades dessas proteínas são, por sua vez, controladas por sinais extracelulares, permitindo que a célula reorganize seu citoesqueleto de actina em resposta ao ambiente. As moléculas de sinalização extracelular que regulam o citoesqueleto de actina ativam uma ampla variedade de proteínas receptoras da superfície celu- lar, que por sua vez ativam diversas vias de sinalização intracelular. Essas vias muitas vezes convergem em um grupo de proteínas GTPase monoméricas inti- mamente relacionadas denominadas família proteica Rho. Como discutido no + + Membrana plasmática Miosina-I Vesícula Miosina-I (B) (C) (A) Miosina-I 70 nm Domínio da cabeça Cauda Membrana plasmática – – Figura 17-36 A miosina-I é a mais sim- ples das miosinas. (A) A miosina-I possui uma cabeça globular única que se liga a um filamento de actina, e uma cauda que se liga a outra molécula ou organela na célula. (B) Este arranjo permite que o domínio da cabeça mova uma vesícula em relação a um filamento de actina, que neste caso está an- corado à membrana plasmática. (C) A mio- sina-I também pode ligar-se a um filamento de actina no córtex celular, o que resulta, em última análise, na modificação da forma da membrana plasmática. Observe que o grupo da cabeça sempre se movimenta em direção à extremidade mais (+) do filamen- to de actina. Alberts_17.indd 591Alberts_17.indd 591 16/01/2017 11:16:2816/01/2017 11:16:28 592 Fundamentos da Biologia Celular Capítulo 16, as GTPases monoméricas comportam-se como interruptores mole- culares que controlam processos intracelulares pela alternância entre um estado ativo ligado a GTP e um estado inativo ligado a GDP (ver Figura 16-15B). No caso do citoesqueleto de actinas, a ativação de diferentes membros da família Rho afeta a organização dos filamentos de actina de diversas maneiras. Por exemplo, a ativação de um membro da família Rho desencadeia a polimerização da acti- na e o enfeixamento dos filamentos para formar filopódios; a ativação de outro membro promove a formação de lamelipódios e o ondulamento da membrana; e a ativação da própria Rho dirige a associação de filamentos de actina com a miosina-II e a agregação de integrinas da superfície celular, promovendo assim a locomoção da célula por deslizamento (Figura 17-37). Essas alterações estruturais complexas e drásticas ocorrem porque as proteínas de ligação ao GTP da família Rho, em conjunto a proteínas-cinase e proteínas acessórias que interagem com elas, atuam como uma rede de compu- tadores para controlar a organização e a dinâmica da actina. Essa rede recebe sinais externos de nutrientes, fatores de crescimento e de contatos com as célu- las adjacentes e com a matriz extracelular, junto com informações intracelulares a respeito do estado metabólico da célula e da necessidade ou não de divisão. A rede Rho, em seguida, processa essas entradas e ativa as vias de sinalização intracelular que moldam o citoesqueleto de actina, por exemplo, pela ativação das proteínas forminas que promovem a formação de filopódios ou pelo estímulo a complexos ARP na borda anterior da célula para gerar grandes lamelipódios. Um dos mais rápidos rearranjos de elementos do citoesqueleto ocorre quan- do uma fibra muscular contrai em resposta a um sinal derivado de um nervo motor, como discutimos a seguir. CONTRAÇÃO MUSCULAR A contração muscular é o mais familiar e mais bem compreendido dos movimen- tos das células animais. Em vertebrados, correr, caminhar, nadar ou voar são ati- vidades que dependem da capacidade da musculatura esquelética de contrair-se fortemente e movimentar os diversos ossos. Movimentos involuntários, como os (A) CÉLULAS NÃO ESTIMULADAS (C) ATIVAÇÃO POR Rac (B) ATIVAÇÃO POR Rho (D) ATIVAÇÃO POR Cdc42 20 μm QUESTÃO 17-7 Na borda anterior de uma célula em migração, as extremidades mais (+) dos filamentos de actina estão posicionadas próximo à membrana plasmática, e os monômeros de ac- tina são adicionados a essas extre- midades e empurram a membrana para fora, formando os lamelipódios ou os filopódios. O que você acha que mantém os filamentos nas extremidades opostas à de adição de monômeros e evita que eles se- jam empurrados para o interior da célula? Figura 17-37 A ativação de GTPases da família Rho pode ter um efeito drástico sobre a organização dos filamentos de actina em fibroblastos. Nestas microgra- fias, a actina foi corada com faloidina, uma molécula que se liga especificamente a filamentos de actina, anteriormente mar- cada com fluorescência (ver Tabela 17-2, p. 587). (A) Fibroblastos não estimulados possuem filamentos de actina predomi- nantemente no córtex. (B) A microinjeção de uma forma ativada de Rho promove a rápida associação de feixes de filamentos de actina longos e não ramificados; eles são contráteis, pois há miosina associada a es- ses feixes. (C) A microinjeção de uma forma ativada da proteína Rac, uma proteína de ligação a GTP semelhante a Rho, provoca a formação de um enorme lamelipódio que abrange toda a circunferência da célula. (D) A microinjeção de uma forma ativada de Cdc42, outro membro da família Rho, estimula a protrusão de diversos filopódios longos na periferia da célula. (De A. Hall, Science 279:509–514, 1998. Com permissão de AAAS.) Alberts_17.indd 592Alberts_17.indd 592 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29 Capítulo 17 • O citoesqueleto 593 batimentos cardíacos ou o peristaltismo do intestino, dependem da musculatura cardíaca e da musculatura lisa, respectivamente, as quais são formadas a partir de células musculares que diferem em relação à estrutura quando comparadas à musculatura esquelética, mas que também utilizam a actina e a miosina em mecanismos similares de contração. Apesar de as células musculares serem al- tamente especializadas, diversos movimentos celulares – da locomoção de célu- las como um todo até a movimentação de alguns componentes no interior das células – também dependem de interações entre a actina e a miosina. Grande parte de nosso conhecimento referente aos mecanismos do movimento celular é proveniente de estudos sobre a contração de células musculares. Nesta seção, discutimos como a actina e a miosina interagem para produzir essa contração.A contração muscular depende da interação entre filamentos de actina e miosina A miosina do músculo pertence à subfamília da miosina-II, na qual todos os membros são dímeros, com duas cabeças globulares ATPase em uma extremida- de e uma cauda única supertorcida na outra (Figura 17-38A). Grupos de molécu- las de miosina-II se ligam uns aos outros por meio das suas caudas supertorcidas formando um filamento de miosina bipolar a partir do qual emergem as cabe- ças (Figura 17-38B). O filamento de miosina é como uma flecha com duas pontas, onde os dois conjuntos de cabeças da miosina estão posicionados em sentidos opostos, a partir do centro da flecha. Um conjunto liga-se a filamentos de actina sob uma orientação e move os filamentos para um lado; o outro conjunto liga-se a outros filamentos de actina na orientação oposta e, como consequência, move os fila- mentos na direção oposta. Como resultado, um filamento de miosina desliza os conjuntos de filamentos de actina opostamente orientados uns sobre os outros (Figura 17-39). Podemos então compreender como os filamentos de actina e os filamentos de miosina, conjuntamente organizados em um feixe, fazem esse fei- xe ser capaz de gerar uma grande força de contração. Tal fenômeno é mais ni- tidamente observado na contração muscular, mas ele também ocorre nos feixes contráteis de filamentos de actina, que são bem menores, e nos filamentos de miosina II (ver Figura 17-28B) que se associam transitoriamente em células não musculares e no anel contrátil, fazendo uma célula se dividir em duas ao contrair- -se e puxar a membrana plasmática para o interior (ver Figura 17-28D). Filamento de miosina-II 1 μm (A) Cabeça Cauda Molécula de miosina-II 150 nm Porção lisa Cabeças de miosina(B) QUESTÃO 17-8 Se tanto os filamentos de actina quanto os filamentos de miosina do músculo são constituídos a partir de subunidades unidas entre elas por li- gações não covalentes fracas, como é possível que um ser humano seja capaz de erguer objetos pesados? Figura 17-38 Moléculas de miosina-II podem associar-se umas com as outras para a formação de filamentos de miosina. (A) Uma molécula de miosina-II contém duas cadeias pesadas idênticas, cada uma com uma cabeça globular e uma cauda estendida. (Além disso, ela contém duas cadeias leves ligadas a cada uma das ca- beças, mas estas não estão representadas aqui.) As caudas das duas cadeias pesadas produzem uma cauda única supertorcida. (B) As caudas supertorcidas das moléculas de miosina-II associam-se para formar um filamento de miosina bipolar, no qual as cabeças projetam-se da região central em sentidos opostos. A porção lisa na região central dos filamentos é composta unica- mente pelas caudas. Figura 17-39 Um pequeno filamento bi- polar de miosina-II pode deslizar dois fi- lamentos de actina de orientação oposta mútua. Este movimento de deslizamento medeia a contração dos filamentos de acti- na e miosina-II tanto em células musculares quanto em células não musculares. Como acontece com a miosina-I, as cabeças de miosina-II caminham em direção à extremi- dade mais (+) do filamento de actina com o qual interagem. + + Membrana plasmática Miosina-II – – Alberts_17.indd 593Alberts_17.indd 593 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29 594 Fundamentos da Biologia Celular Filamentos de actina deslizam sobre filamentos de miosina durante a contração muscular As fibras musculares esqueléticas são enormes células multinucleadas individuais formadas pela fusão de muitas pequenas células individuais. Os núcleos das cé- lulas que contribuíram para sua formação permanecem retidos na fibra muscular e se posicionam exatamente abaixo da membrana plasmática. A maior parte do citoplasma é composta de miofibrilas, os elementos contráteis da célula muscu- lar. Essas estruturas cilíndricas possuem um diâmetro de 1 a 2 μm e podem ser tão longas quanto a própria célula muscular (Figura 17-40A). Uma miofibrila consiste em uma cadeia de minúsculas unidades contrá- teis idênticas, ou sarcômeros. Cada sarcômero possui em torno de 2,5 μm de comprimento, e o padrão relativo à repetição de sarcômeros dá à miofibrila de vertebrados sua aparência listrada (Figura 17-40B). Os sarcômeros são arranjos altamente organizados de dois tipos de filamentos – filamentos de actina e fila- mentos de miosina compostos de uma forma músculo-específica de miosina-II. Os filamentos de miosina ( filamentos espessos) se posicionam na região central do sarcômero, ao passo que os filamentos de actina, mais finos ( filamentos del- gados), estendem-se para o interior a partir de cada uma das extremidades do sarcômero, onde estão ancorados pelas suas extremidades mais (+) a uma estru- tura denominada disco Z. As extremidades menos (-) dos filamentos de actina se sobrepõem às extremidades dos filamentos de miosina (Figura 17-41). (A) (B) Sarcômero Núcleo Miofibrila Sarcômero Miofibrila (A) (B) Filamento espesso (miosina-II) Filamento delgado (actina) Disco Z Disco Z Disco Z M io fi b ri la s Sarcômero ~2,2 μm Região de sobreposição Figura 17-40 Uma célula muscular esquelética está preenchida com miofibrilas. (A) Em um humano adulto, estas grandes células multinucleadas (também denominadas fibras musculares) possuem em geral 50 μm de diâmetro e podem apresentar um comprimen- to de vários centímetros. Elas contêm numerosas miofibrilas, nas quais os filamentos de actina e os filamentos de miosina-II estão dispostos em uma estrutura altamente organizada, dando a cada miofibrila – e a cada célula muscular esquelética – uma aparência estriada ou listrada; por essa razão, o músculo esquelético é tam- bém chamado de músculo estriado. (B) Micrografia eletrônica de baixa magnitude de uma secção longitudinal de uma célula de músculo esquelético de coelho, mostrando que cada miofibrila consiste em uma sequência repetitiva de sarcômeros, as unidades contráteis das miofibrilas. (B, cortesia de Roger Craig.) Figura 17-41 Os sarcômeros são as unidades contráteis do músculo. (A) Detalhe da micrografia eletrônica da Figura 17-40 mostrando duas miofi- brilas; o comprimento de um sarcômero e a região de sobreposição entre os filamentos de actina e miosina estão indicados. (B) Diagrama esquemático de um sarcômero isolado mostrando a origem das bandas claras e escuras vistas no microscópio. Discos Z em cada extremidade do sarcômero atuam como pontos de fixação para as extremidades mais (+) dos filamentos de actina. Os filamentos espessos localizados centralmente (verde) são compostos por muitas moléculas de miosina-II. A linha vertical fina, que ocorre de cima para baixo no centro do feixe de filamentos espessos em (A), corresponde às re- giões lisas dos filamentos de miosina, como pode ser visto na Figura 17-38B. (A, cortesia de Roger Craig.) Alberts_17.indd 594Alberts_17.indd 594 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29 Capítulo 17 • O citoesqueleto 595 A contração de uma célula muscular é causada por um encurtamento si- multâneo de todos os sarcômeros da célula, provocado pelo deslizamento dos filamentos de actina em relação aos filamentos de miosina, sem que haja alte- ração no comprimento de qualquer um dos tipos de filamentos (Figura 17-42). O movimento de deslizamento é gerado pelas cabeças da miosina que se proje- tam lateralmente a partir do filamento de miosina e interagem com os filamentos adjacentes de actina (ver Figura 17-39). Quando um músculo é estimulado para a contração, as cabeças de miosina começam uma caminhada ao longo do fila- mento de actina por meio de ciclos repetidos de ligação e liberação. Durante cada ciclo, uma cabeça de miosina liga e hidrolisa uma molécula de ATP. Isso provoca uma série de alterações conformacionais que movem a ponta da cabeça cercade 5 nm ao longo do filamento de actina em direção à extremidade mais (+). Esse movimento, repetido a cada ciclo de hidrólise de ATP, impulsiona a molécula de miosina unidirecionalmente sobre o filamento de actina (Figura 17-43). Assim, as cabeças de miosina tensionam o filamento de actina, fazendo-o deslizar ao longo do filamento de miosina. A ação conjunta de muitas cabeças de miosina tensionando os filamentos de actina e de miosina uns contra os outros leva à contração do sarcômero. Após a completa contração, todas as cabeças de mio- sina perdem contato com o filamento de actina, e o músculo sofre relaxamento. Cada filamento de miosina possui cerca de 300 cabeças de miosina. Cada cabeça de miosina pode ligar-se e desconectar-se da actina aproximadamente cinco vezes por segundo, permitindo que os filamentos de actina e de miosina sofram um deslizamento a uma velocidade de até 15 μm por segundo. Essa ve- locidade é suficiente para levar um sarcômero de um estado de total extensão (3 μm) a um estado de contração total (2 μm) em menos de um décimo de segun- do. Todos os sarcômeros de um músculo são acoplados juntos e são disparados de maneira simultânea pelo sistema de sinalização que descrevemos a seguir, de modo que o músculo como um todo se contrai quase instantaneamente. A contração muscular é induzida por um aumento súbito de Ca2+ citosólico A interação molecular geradora de força que ocorre entre os filamentos de actina e miosina só é desencadeada quando a musculatura esquelética recebe um sinal proveniente de um nervo motor. O neurotransmissor liberado pela terminação nervosa induz um potencial de ação (discutido no Capítulo 12) na membrana plasmática da célula muscular. Essa excitação elétrica se espalha em questão Filamento de miosina Filamento de actina Disco ZDisco Z Sarcômero CONTRAÇÃO RELAXAMENTO(A) (B) Figura 17-42 Os músculos se contraem por um mecanismo de deslizamento de filamentos. (A) Os filamentos de miosina e actina de um sarcômero se sobrepõem com a mesma polaridade relativa em ambos os lados de uma linha mediana. Lembre-se de que os filamentos de actina estão ancorados por suas extremidades mais (+) ao disco Z e os filamentos de mio- sina são bipolares. (B) Durante a contração, os filamentos de actina e miosina deslizam uns sobre os outros sem que eles próprios sofram encurtamento. O movimento de deslizamento é conduzido pela caminhada das cabeças de miosina rumo à extremida- de mais (+) dos filamentos de actina adja- centes (Animação 17.9). Alberts_17.indd 595Alberts_17.indd 595 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29 596 Fundamentos da Biologia Celular de milissegundos por uma série de tubos de membrana, denominados túbulos transversos (ou túbulos T), que se estendem para a região mais interna, a partir da membrana plasmática, em torno de cada miofibrila. A seguir, o sinal elétrico é enviado para o retículo sarcoplasmático – uma camada adjacente de vesículas achatadas e interconectadas que envolvem cada miofibrila como se fossem uma grande meia tipo arrastão (Figura 17-44). O retículo sarcoplasmático é uma região especializada do retículo endoplas- mático nas células musculares. Ele contém uma concentração extremamente alta de Ca2+, e, em resposta à excitação elétrica recebida, uma quantidade signifi- Extremidade mais (+) Extremidade menos (-) Extremidade mais (+) Extremidade menos (-) Filamento de actina Cabeça de miosina Filamento espesso de miosina HIDRÓLISE DE ATP MOVIMENTO DE POTÊNCIA CONECTADA No começo do ciclo apresentado nesta figura, uma cabeça de miosina sem ligação a ATP ou ADP está firmemente presa a um filamento de actina em uma configuração de rigor (assim denominada por ser responsável pelo rigor mortis, a rigidez cadavérica). Em um músculo em contração ativa, esse estado é de duração extremamente curta, sendo rapidamente terminado pela ligação de uma molécula de ATP à cabeça de miosina. LIBERADA Uma molécula de ATP se liga a uma grande fenda existente na “parte posterior” da cabeça da miosina (i.e., no lado mais distante do filamento de actina) e imediatamente provoca uma leve modificação na conformação dos domínios que compõem o sítio de ligação à actina, o que reduz a afinidade da cabeça pela actina e permite seu deslizamento sobre o filamento. (O espaço representado no desenho entre a cabeça e a actina enfatiza tal mudança, embora seja provável que, na realidade, a cabeça permaneça muito mais próxima à actina.) ENGATILHADA A fenda se fecha, como as valvas de uma concha, sobre a molécula de ATP, desencadeando uma grande mudança conformacional que, por sua vez, faz a cabeça se deslocar sobre o filamento de actina por uma distância de aproximadamente 5 nm. Ocorre hidrólise de ATP, mas o ADP e o fosfato inorgânico (Pi) produzidos permanecem firmemente ligados à cabeça de miosina. GERADORA DE FORÇA Uma ligação fraca da cabeça de miosina a um novo sítio do filamento de actina provoca a liberação do fosfato inorgânico produzido pela hidrólise de ATP, concomitante à forte ligação da cabeça com a actina. Essa liberação desencadeia o movimento de potência – a modificação conformacional geradora de força durante a qual a cabeça retorna à sua conformação original. Durante o movimento de potência, a cabeça perde o ADP ligado, retornando, portanto, ao ponto de início de um novo ciclo. CONECTADA Ao final de um ciclo, a cabeça de miosina está mais uma vez firmemente presa ao filamento de actina em uma configuração de rigor. Observe que a cabeça se deslocou para uma nova posição sobre o filamento de actina, que deslizou para a esquerda ao longo do filamento de miosina. ATP ATP ADP ADP ADP Pi Pi Figura 17-43 A cabeça de uma molécula de miosina-II caminha ao longo de um filamento de actina por meio de um ciclo de mudanças conformacionais dependentes de ATP. Dois monômeros de actina estão destacados para melhor visualização do movimento do filamento de actina. A Animação 17.10 mostra a actina e a miosina em ação. (Baseada em I. Rayment et al., Science 261:50–58, 1993.Com permissão de AAAS.) Alberts_17.indd 596Alberts_17.indd 596 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29 Capítulo 17 • O citoesqueleto 597 cativa desse Ca2+ é liberada no interior do citosol por um conjunto especializado de canais iônicos que se abrem na membrana do retículo sarcoplasmático em razão da alteração de voltagem na membrana plasmática e nos túbulos T (Figu- ra 17-45). Como discutido no Capítulo 16, o Ca2+ é amplamente utilizado como um pequeno sinal intracelular para transmitir uma mensagem proveniente do exterior para o interior das células. No músculo, o aumento na concentração de Ca2+ citosólico ativa um interruptor molecular constituído por proteínas aces- sórias especializadas intimamente associadas aos filamentos de actina (Figura 17-46A). Uma dessas proteínas é a tropomiosina, uma molécula rígida, em forma de haste, que se liga na fenda da hélice de actina, impedindo que as cabeças de miosina se associem ao filamento de actina. Outra, a troponina, é um complexo proteico que inclui uma proteína sensível ao Ca2+ que está associada à extremi- dade de uma molécula de tropomiosina. Quando a concentração de Ca2+ se eleva no citosol, o Ca2+ se liga à troponina, induzindo uma alteração conformacional no complexo da troponina. Essa alteração, por sua vez, causa uma leve modificação das posições das moléculas de tropomiosina, permitindo que as cabeças da mio- sina se liguem aos filamentos de actina, iniciando a contração (Figura 17-46B). Visto que o sinal proveniente da membrana plasmática é transmitido em milissegundos (via túbulos transversos e retículo sarcoplasmático) para cada um dos sarcômeros da célula, todas as miofibrilas dessa célula sofrerãocontração simultaneamente. O aumento de Ca2+ no citosol é transitório, porque, quando o sinal do nervo é interrompido, o Ca2+ é rapidamente bombeado de volta para 35 nm Ca2+ CONTRAÇÃO DA MIOFIBRILA Canal de liberação de Ca2+ Canal de Ca2+ controlado por voltagem Membrana do túbulo T inativa Membrana do retículo sarcoplasmático CITOSOL LÚMEN DO TÚBULO T (ESPAÇO EXTRACELULAR) LÚMEN DO RETÍCULO SARCOPLASMÁTICO Membrana do túbulo T ativada POTENCIAL DE AÇÃO QUESTÃO 17-9 Compare a estrutura de filamentos intermediários com a de filamentos de miosina-II das células musculares esqueléticas. Quais são suas princi- pais semelhanças? Quais são suas principais diferenças? Como essas diferenças estruturais se relacionam às suas funções? Figura 17-45 A contração do músculo esquelético é de- sencadeada pela liberação de Ca2+ do retículo sarcoplasmá- tico no citosol. Este diagrama esquemático ilustra como se acredita que um canal de libe- ração de Ca2+ na membrana do retículo sarcoplasmático seja aberto pela ativação de um canal de Ca2+ controlado por volta- gem presente na membrana do túbulo T. Figura 17-44 Os túbulos T e o retículo sarcoplasmático envolvem cada miofibri- la. (A) Representação dos dois sistemas de membrana que transmitem o sinal de contração da membrana plasmática da célula muscular para todas as miofibrilas da célula muscular. (B) Micrografia eletrônica mostrando uma secção transversal de dois túbulos T e dos compartimentos do retículo sarcoplasmático adjacente. (B, cortesia de Clara Franzini-Armstrong.) (B) 0,5 μm Membrana plasmática Miofibrila Túbulos transversos (T) formados a partir de invaginações da membrana plasmática Retículo sarcoplasmático (A) Alberts_17.indd 597Alberts_17.indd 597 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29 598 Fundamentos da Biologia Celular o retículo sarcoplasmático por bombas de Ca2+, abundantes na sua membrana (discutido no Capítulo 12). Assim que a concentração de Ca2+ retorna ao nível de repouso, as moléculas de troponina e de tropomiosina retornam às suas posições originais. Essa reconfiguração novamente bloqueia a ligação da miosina aos fila- mentos de actina, provocando, portanto, o fim da contração. Tipos distintos de células musculares desempenham funções diferentes É provável que a maquinaria contrátil altamente especializada das células mus- culares tenha evoluído a partir dos feixes contráteis de filamentos de actina e miosina, bem mais simples, encontrados em todas as células eucarióticas. A mio- sina-II de células não musculares também é ativada por um aumento do Ca2+ cito- sólico, mas o mecanismo de ativação é diferente daquele que atua na miosina-II músculo-específica. Um aumento de Ca2+ induz a fosforilação da miosina-II não muscular, o que altera a conformação da miosina, permitindo que ela interaja com a actina. Um mecanismo de ativação semelhante opera no músculo liso presente nas paredes do estômago, intestino, útero e artérias, e em outras estruturas que realizam contrações involuntárias lentas e continuadas. Esse modo de ativação da miosina é relativamente lento, pois é necessário certo tempo para que molécu- las de enzima se difundam para as cabeças da miosina e realizem a fosforilação e a subsequente desfosforilação. No entanto, tal mecanismo tem a vantagem de, ao contrário do mecanismo utilizado pelas células do músculo esquelético, poder ser ativado por uma ampla gama de sinais extracelulares. Assim, na musculatura lisa, por exemplo, uma contração pode ser desencadeada por adrenalina, serotonina, prostaglandinas e diversas outras moléculas de sinalização. Além das musculaturas esquelética e lisa, existem outras formas de muscula- tura, cada uma desempenhando uma função mecânica específica. A musculatura do coração – ou cardíaca –, por exemplo, controla a circulação do sangue. O co- ração se contrai de forma autônoma durante toda a vida do organismo – ou seja, cerca de 3 bilhões (3 × 109) de vezes em uma vida humana média. Mesmo anorma- lidades sutis na actina ou na miosina do músculo cardíaco podem levar a doenças graves. Por exemplo, mutações nos genes que codificam a miosina-II cardíaca ou outras proteínas do sarcômero causam miocardiopatia hipertrófica familiar, uma doença hereditária responsável pela morte súbita em atletas jovens. A contração das células musculares constitui uma função especializada dos componentes básicos do citoesqueleto eucariótico. No próximo capítulo, discu- timos os papéis cruciais do citoesqueleto naquele que talvez seja considerado o mais fundamental de todos os movimentos celulares: a segregação dos cromos- somos recém-duplicados e a formação das duas células-filhas durante o proces- so de divisão celular. QUESTÃO 17-10 A. Observe que na Figura 17-46 as moléculas de troponina estão re- gularmente espaçadas ao longo de um filamento de actina, sendo uma molécula de troponina en- contrada a cada sete moléculas de actina. Como as moléculas de troponina podem ser posiciona- das de forma tão regular? O que isso nos ensina sobre a ligação da troponina aos filamentos de actina? B. O que aconteceria se você mis- turasse filamentos de actina com (i) troponina isolada, (ii) tropo- miosina isolada ou (iii) troponina mais tropomiosina, e a seguir adicionasse miosina? Os efeitos observados seriam dependentes de Ca2+? 10 nm Actina Complexo da troponina I C T Tropomiosina Tropomiosina bloqueando o sítio de ligação à miosina Monômero de actina + Ca2+ _ Ca2+ Sítio de ligação à miosina exposto pelo movimento da tropomiosina mediado pelo Ca2+, dependente do complexo da troponina (A) (B) Figura 17-46 A contração do músculo esquelético é controlada pelos complexos da tropomiosina e da troponina. (A) Um filamento de actina, no músculo, ilustrando as posições dos complexos da tropomiosina e da troponina ao longo do filamento. Cada molécula de tropomiosina possui sete regiões uniformemente espaçadas de sequências similares de aminoá- cidos, cada uma das quais potencialmente capaz de se ligar a um monômero de actina no filamento. (B) Quando Ca2+ se liga a um complexo de troponina, o complexo move a tropomiosina, que na forma anterior bloqueava a interação da actina com as cabeças de miosina. Aqui, o filamento de actina de (A) é ilustrado em corte. Alberts_17.indd 598Alberts_17.indd 598 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29 Capítulo 17 • O citoesqueleto 599 CONCEITOS ESSENCIAIS • O citoplasma de uma célula eucariótica é sustentado e organizado pelo ci- toesqueleto composto por filamentos intermediários, microtúbulos e fila- mentos de actina. • Filamentos intermediários são polímeros estáveis, semelhantes a cordas, construídos a partir de subunidades proteicas fibrosas, que dão resistência mecânica às células. Alguns filamentos intermediários formam a lâmina nuclear que sustenta e fortalece o envelope nuclear; outros estão distribuí- dos por todo o citoplasma. • Os microtúbulos são tubos rígidos e ocos, formados por dímeros de tubuli- na globular. Eles são estruturas polarizadas que contêm uma extremidade menos (-) de crescimento mais lento e uma extremidade mais (+) de cresci- mento rápido. • Os microtúbulos crescem a partir de centros organizadores, como o cen- trossomo, no qual as extremidades menos (-) permanecem inseridas. • Vários microtúbulos exibem instabilidade dinâmica, alternando rapidamen- te entre crescimento e encurtamento. O encurtamento é promovido pela hidrólise do GTP que está fortemente ligado aos dímeros de tubulina, redu- zindo a afinidade dos dímeros com seus vizinhos, e promovendo, portanto, a dissociação dos microtúbulos. • Os microtúbulos podem ser estabilizados por proteínas localizadas que capturam as extremidades mais (+), contribuindoassim para posicionar os microtúbulos, vinculando-os a funções específicas. • As cinesinas e as dineínas são proteínas motoras associadas ao microtú- bulo que usam a energia da hidrólise de ATP para se movimentarem uni- direcionalmente ao longo dos microtúbulos. Elas transportam organelas específicas, vesículas e outros tipos de carga para localizações específicas na célula. • Os cílios e os flagelos de eucariotos contêm um feixe de microtúbulos está- veis. Seu batimento ritmado é causado pela flexão dos microtúbulos, sendo tal flexão dirigida pela proteína motora dineína ciliar. • Os filamentos de actina são polímeros helicoidais de monômeros de actina globular. Eles são mais flexíveis do que os microtúbulos e frequentemente são encontrados em feixes ou redes. • Como os microtúbulos, os filamentos de actina também são polarizados, com uma extremidade mais (+) de crescimento rápido e uma extremidade menos (-) de crescimento lento. A sua associação e dissociação é contro- lada pela hidrólise do ATP fortemente ligado a cada um dos monômeros de actina e por diversas proteínas de ligação à actina. • Os diversos arranjos e funções dos filamentos de actina nas células resul- tam da diversidade de proteínas de ligação à actina, as quais podem con- trolar a polimerização da actina, interligar os filamentos de actina em redes frouxas ou feixes rígidos, conectar os filamentos de actina a membranas, ou mover dois filamentos adjacentes um em relação ao outro. • Uma rede concentrada de filamentos de actina subjacente à membrana plasmática forma a principal parte do córtex celular, o qual é responsável pela definição da forma e do movimento da superfície da célula, incluindo os movimentos necessários para que uma célula deslize sobre uma super- fície. • As miosinas são proteínas motoras que utilizam a energia da hidrólise de ATP para se mover ao longo dos filamentos de actina. Em células não mus- culares, a miosina-I pode transportar organelas ou vesículas ao longo das trilhas de filamentos de actina, e a miosina-II pode fazer os filamentos de actina adjacentes deslizarem uns sobre os outros nos feixes contráteis. • Em células do músculo esquelético, arranjos repetidos e sobrepostos de filamentos de actina e miosina-II formam miofibrilas altamente ordenadas, que contraem quando esses filamentos deslizam uns sobre os outros. • A contração muscular é iniciada por um súbito aumento de Ca2+ citosólico, que sinaliza para as miofibrilas via proteínas de ligação ao Ca2+ associadas aos filamentos de actina. Alberts_17.indd 599Alberts_17.indd 599 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29 600 Fundamentos da Biologia Celular TERMOS-CHAVE centrossomo centríolo cinesina citoesqueleto cílio córtex celular dineína família proteica Rho filamento de actina filamento de miosina filamento de queratina filamento intermediário filopódio flagelo instabilidade dinâmica lamelipódio lâmina nuclear microtúbulo miofibrila miosina polaridade proteína associada ao microtúbulo proteína de ligação à actina proteína motora sarcômero tubulina TESTE SEU CONHECIMENTO QUESTÃO 17-11 Quais das seguintes afirmativas estão corretas? Explique sua resposta. A. As cinesinas movimentam membranas do retículo endo- plasmático ao longo dos microtúbulos de tal maneira que uma rede de túbulos do RE é estendida por toda a célula. B. Sem actina, as células podem formar um fuso mitótico funcional e separar seus cromossomos, mas não podem sofrer divisão. C. Lamelipódios e filopódios são “órgãos sensoriais” que uma célula estende com o objetivo de localizar pontos de ancoragem no substrato sobre o qual a célula está se movendo. D. O GTP é hidrolisado pela tubulina para provocar a flexão dos flagelos. E. As células que têm uma rede de filamentos intermediá- rios que não pode sofrer despolimerização irão morrer. F. As extremidades mais (+) dos microtúbulos crescem mais rapidamente, pois possuem uma capa de GTP maior. G. Os túbulos transversos em células musculares são uma extensão da membrana plasmática, com a qual eles apre- sentam continuidade, e, de modo semelhante, o retículo sarcoplasmático é uma extensão do retículo endoplas- mático. H. A ativação do movimento da miosina sobre os filamentos de actina é mediada pela fosforilação da troponina em algumas situações e pela ligação de Ca2+ à troponina em outras. QUESTÃO 17-12 O tempo médio necessário para uma molécula ou uma orga- nela se difundir a uma distância x em cm é dado pela fórmula t = x2/2D onde t equivale ao tempo em segundos, e D é uma constante denominada coeficiente de difusão para a molécula ou partí- cula. Usando a fórmula anterior, calcule o tempo necessário para que uma molécula pequena, uma proteína e uma vesícula de membrana se difundam de um lado para o extremo oposto de uma célula que apresenta 10 μm de diâmetro. Os coefi- cientes de difusão típicos, em unidades de cm2/s, são, para uma molécula pequena, 5 × 10–6; para uma molécula proteica, 5 × 10–7; e para uma vesícula, 5 × 10–8. Quanto tempo será necessário para que a vesícula de membrana consiga chegar à extremidade de um axônio de 10 cm de comprimento se mo- vendo por difusão livre? Quanto tempo será necessário caso ela seja transportada sobre microtúbulos a uma velocidade de 1 μm/segundo? QUESTÃO 17-13 Por que as células eucarióticas, e especialmente as células animais, possuem citoesqueletos tão grandes e complexos? Relacione as diferenças entre células animais e células bacte- rianas devidas ao citoesqueleto eucariótico. QUESTÃO 17-14 Examine a estrutura de um filamento intermediário apresen- tada na Figura 17-4. O filamento apresenta uma polaridade característica, ou seja, podemos distinguir uma extremidade da outra em função de alguma característica química ou outra qualquer? Justifique sua resposta. QUESTÃO 17-15 Não existem proteínas motoras conhecidas que se movam ao longo dos filamentos intermediários. Sugira uma explicação para isso. QUESTÃO 17-16 Quando uma célula entra em mitose, seu arranjo preexistente de microtúbulos citoplasmáticos deve ser rapidamente disso- ciado e substituído pelo fuso mitótico que se forma para se- parar os cromossomos entre as duas células-filhas. A enzima catanina, que recebeu seu nome em homenagem às espadas dos samurais japoneses, é ativada no início da mitose e frag- menta os microtúbulos em pequenos pedaços. Após terem sido gerados pela catanina, o que acontece aos fragmentos de microtúbulos? Justifique sua resposta. Alberts_17.indd 600Alberts_17.indd 600 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29 Capítulo 17 • O citoesqueleto 601 QUESTÃO 17-17 O fármaco paclitaxel, extraído da casca de uma conífera, apre- senta efeito oposto ao do fármaco colchicina, um alcaloide extraído do açafrão-do-prado. O paclitaxel se liga fortemente aos microtúbulos e os estabiliza; quando adicionado a células, ele faz grande parte da tubulina livre se associar formando microtúbulos. Já a colchicina impede a formação de micro- túbulos. O paclitaxel é tão prejudicial às células em divisão quanto a colchicina, e ambos são utilizados como fármacos anticancerígenos. Com base em seu conhecimento a respeito da dinâmica dos microtúbulos, como você explica que ambos os fármacos sejam tóxicos para as células em divisão apesar de exercerem ações opostas? QUESTÃO 17-18 Uma técnica bastante útil para o estudo de motores de micro- túbulos é conectá-los pelas suas caudas a lamínulas de vidro (o que pode ser realizado de forma bastante simples, pois as caudas apresentam grande avidez por uma superfície de vidro limpa) e, a seguir, permitir que os microtúbulos se assentem sobre elas. Os microtúbulos podem então ser observados sob microscopia óptica, conforme são propelidos sobre a superfí- cie da lamínula,movidos pelas cabeças das proteínas motoras. Considerando que as proteínas motoras se ligam sob orienta- ção aleatória à lamínula, como elas podem gerar o movimento coordenado de microtúbulos isolados, em vez de dar início a um cabo de guerra? Em que direção os microtúbulos migrarão sobre uma “cama” de moléculas de cinesina (i.e., os microtúbu- los se moverão primeiro para a extremidade mais [+] ou para a extremidade menos [-])? QUESTÃO 17-19 Na Figura Q17-19, pode ser observado um típico gráfico de tempo de polimerização e formação de microtúbulos a partir de tubulina purificada. A. Explique as diferentes partes da curva (indicadas como A, B e C). Desenhe um diagrama que ilustre o comporta- mento das moléculas de tubulina em cada uma das três fases. B. O que aconteceria com a curva da figura se fossem adi- cionados centrossomos à reação? Po rc en ta g em d e m o lé cu la s d e tu b u lin a n o s m ic ro tú b u lo s A B C Tempo a 37°C Figura Q17-19 QUESTÃO 17-20 As micrografias eletrônicas mostradas na Figura Q17- -20A foram obtidas de uma população de microtúbulos que estavam em rápido crescimento. A Figura Q17-20B foi ob- tida de microtúbulos que estavam sofrendo encurtamento “catastrófico”. Comente todas as diferenças existentes entre as imagens A e B e sugira explicações possíveis para as dife- renças observadas. (A) (B) (M ic ro g ra fi as c o rt es ia d e Ev a M an d el ko w .) Figura Q17-20 QUESTÃO 17-21 A locomoção de fibroblastos em cultura é impedida imedia- tamente pela adição de citocalasina, ao passo que a adição de colchicina faz os fibroblastos pararem de se movimentar de forma direcionada e começarem a estender lamelipódios de modo aparentemente aleatório. A injeção de fibroblas- tos com anticorpos antivimentina não resulta em efeitos discerníveis relativos à sua capacidade de migração. O que os dados lhe sugerem em relação ao envolvimento dos três filamentos citoesqueléticos diferentes na locomoção de fi- broblastos? QUESTÃO 17-22 Complete a afirmação a seguir de forma exata, explicando a razão de haver escolhido ou refutado cada um dos quatro complementos (mais de um pode estar correto). A função do cálcio na contração muscular é: A. Desligar as cabeças de miosina do filamento de actina. B. Transmitir o potencial de ação da membrana plasmática para a maquinaria contrátil. C. Ligar-se à troponina, fazendo-a mover a tropomiosina e, consequentemente, expor os filamentos de actina para as cabeças de miosina. D. Manter a estrutura do filamento de miosina. QUESTÃO 17-23 Qual das seguintes alterações ocorre na contração do múscu- lo esquelético? A. Os discos Z se distanciam. B. Há contração dos filamentos de actina. C. Há contração dos filamentos de miosina. D. Há encurtamento dos sarcômeros. Alberts_17.indd 601Alberts_17.indd 601 16/01/2017 11:16:2916/01/2017 11:16:29