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Os Sábios 
do Talmud
Rabi Akiva
7
Pérolas do Rabi Akiva (3)
Mishná 3:19 do Pirkê Avót 
A Ética do Sinai, Irving M. Bunim
Editora Sêfer
O Rabi Akiva dizia:
Tudo está previsto (no alto), entretanto, 
nos foi dado o livre-arbítrio; o mundo é 
julgado com bondade, e tudo depende da 
maioria dos atos.
O Rabi Akiva prossegue com seus ensinamentos: Nada está 
escondido do Todo-Poderoso; Ele vê e sabe tudo. É onisciente. Não 
obstante, exceto em casos excepcionais, Ele não interfere nas deci-
sões do ser humano nem com o exercício de seu livre-arbítrio.
Contudo, pelo que a Torá nos relata, existem outras caracterís-
ticas importantes na relação do Todo-Poderoso com o mundo: há 
uma contabilidade rigorosa; as escalas de justiça absoluta atuam com 
precisão. Para cada ato existe recompensa ou punição, mas o Todo
-Poderoso leva em consideração o ser humano e toda a sua trajetória. 
Ele pesa e pondera, e profere um julgamento que é simultaneamente 
imparcial em relação ao ato individual em questão, ao registro acu-
mulado da totalidade das ações do ser humano e à complexa rede de 
relações nas quais a pessoa está envolvida.
Na realidade, o Rabi Akiva toca num dos problemas mais es-
pinhosos da teologia judaica: a onisciência ou conhecimento prévio 
do Todo-Poderoso versus livre-arbítrio do ser humano. Quando di-
zemos que Ele sabe tudo, queremos dizer não somente o passado e o 
presente, mas também o futuro – antes que ele ocorra. Para muitos, 
isto conflita com o livre-arbítrio humano. Se o Todo-Poderoso já sa-
bia ontem que eu iria pecar, então que outra escolha eu poderia ter? 
Minha ação não está então predestinada? Na nossa Mishná, o Rabi 
Akiva afirma que ambos os princípios ocorrem.
O judaísmo, diz ele, aceita tanto a onisciência Divina quanto 
o livre-arbítrio humano. Como diz o Documento Sagrado: “Eu co-
loquei diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; portan-
to, escolhe a vida.” 193 O Eterno já sabe qual será sua escolha e, no 
entanto, por mais paradoxal que isto possa parecer, você tem plena 
liberdade de opção.
Maimônides tenta solucionar o conflito assinalando que o pro-
blema ocorre porque, ao falar do “conhecimento” Divino, usamos 
nosso próprio conhecimento e experiência como modelo e base do 
que queremos dizer. Na realidade, contudo, o Seu “conhecimento” 
é idêntico à Sua essência, e assim está além da nossa compreensão, 
pois difere tanto qualitativa quanto quantitativamente do nosso. O 
Todo-Poderoso não somente sabe infinitamente mais do que nós; 
Seu modo de saber, Seu tipo de conhecimento, está em outra di-
mensão, inteiramente fora de nosso alcance e compreensão. Portan-
to, não temos o direito de assumir que exista algum conflito.193a
Alguns comentaristas procuraram elucidar e esclarecer a res-
posta de Maimônides destacando que só percebemos um conflito 
por causa do elemento tempo. Se o Todo-Poderoso conhece an-
tecipadamente o futuro, então poderia parecer que o mesmo está 
predeterminado. O conhecimento, por si só, não interfere com as 
ações. Nosso conhecimento acerca do passado certamente não in-
terfere com ele, assim como nosso conhecimento do presente não 
determina seus acontecimentos. O problema decorre de o Criador 
saber com antecedência, antes de mim, o que vou fazer. Mas tenha 
em mente que o Criador transcende a dimensão do tempo. Para o 
Eterno, quer nós consigamos compreender isto ou não, não existe 
passado, presente nem futuro. Tudo está diante d’Ele, num agora 
comprimido, instantâneo, por assim dizer. Portanto, o Todo-Po-
deroso sabe o futuro, não porque Ele determina certas forças que 
controlam e determinam a escolha, mas porque, para Ele, o evento 
futuro da escolha que a pessoa virá a fazer está acontecendo agora, 
por assim dizer. (Ao menos, esta é a forma como poderíamos expres-
sar uma ideia que se encontra além dos modos e fronteiras do nosso 
pensamento.)
O mundo é julgado com bondade
O judaísmo ensina que, no julgamento Divino, o bem é enfa-
tizado; a sua importância excede em muito a da maldade. Assim, os 
rigores da justiça são moderados pela misericórdia e benevolência. 
Por exemplo, depois que um convertido tiver aceito a fé judaica, não 
devemos lembrá-lo das eventuais más ações que possa ter cometido 
até a sua conversão.193b Não importa seu passado, julguemo-lo de 
acordo com a benevolência de sua vida presente. Quando Abrahão 
enviou Hagar e seu filho Ismael embora, porque sua conduta havia 
piorado, ambos ficaram vagando pelo deserto até que sua escassa 
provisão de água acabou. Por não suportar ouvir seu filho chorando 
de tanta sede, Hagar abandonou-o e se afastou o suficiente para não 
ouvi-lo. As Sagradas Escrituras dizem que: “Deus escutou a voz do 
menino; e chamou um anjo de Deus a Hagar, dos céus, e disse-lhe: 
“Que tens Hagar? Não temas; pois escutou Deus a voz do menino 
de onde ele está.”194 Foi mostrado um poço a Hagar e assim pode 
salvar a vida de seu filho.
Nossos sábios observaram que o Todo-Poderoso previu o ime-
recido futuro de Ismael; afinal, Ele mesmo o havia previsto: “E ele 
será um homem selvagem: sua mão estará contra todos, e a mão de 
todos contra ele.”195 Dado que o Todo-Poderoso tem um conheci-
mento infinito do futuro, Ele certamente tinha presente as fanáticas 
e passionais invasões islâmicas do passado e a ardente hostilidade dos 
árabes do presente. Em Sua benevolência, contudo, o Todo-Pode-
roso considerou a Ismael “onde está agora”, somente a condição do 
rapaz naquele momento. Sem importar-se com seu futuro, julgou-o 
de acordo com sua bondade naquele momento em que rogava e su-
plicava por sua vida. Naquele momento, ele era justo e honrado.196
E quando o passado ou o futuro de alguém prenunciar bon-
dade, isto fará o fiel da balança inclinar-se a seu favor. Jeremias de-
clara ao povo de Israel, em nome do Todo-Poderoso: “Recordo-Me 
do teu carinho (por Mim) na tua juventude... quando Me seguiste 
no deserto, para uma terra não semeada.” 197 Está bem, atualmente 
não sois dignos, mas relembro tuas bondades passadas. Pelo mesmo 
motivo, a Torá nos proibiu de atacar as nações de Moab e Amon198, 
pois, como explicam nossos sábios, Rute, a princesa de Moab199, es-
tava destinada a abraçar o judaísmo e, a seu tempo, a ser a bisavó do 
rei David, enquanto que de Amon viria Naamá, a esposa de Salomão 
e mãe de Jeroboão. 200
Este é provavelmente o motivo subjacente e oculto pelo qual 
a humanidade continua existindo apesar de tanta maldade em suas 
ações, que se manifesta dia após dia, ano após ano, século após sé-
culo. “O mundo é julgado com bondade”, pertença a mesma ao 
passado, presente ou futuro.
Também podemos entender esta frase como significando que 
“o mundo é julgado para o seu bem” ou “com um bom propósito”. 
Se o Todo-Poderoso precisa, às vezes, castigar ou corrigir alguma 
pessoa, o faz para o próprio benefício dela.
Havia um grande rabino chassídico cujo gabai (secretário) sem-
pre encontrava algum defeito nos discípulos do mestre. Reclamava 
que este havia deixado sua loja aberta até muito tarde na véspera do 
Shabat, que aquele outro era culpado de falatório, um terceiro não 
tomava o devido cuidado com a comida casher. O rabi não aguen-
tava mais as críticas constantes e deu-lhe uma reprimenda sonora, 
em termos bem claros. Um chassíd (adepto, seguidor) ouviu-o e per-
guntou perplexo: “Por que reclamas? Afinal, não encontras em nós 
culpas e defeitos, e nos criticas em teus sermões? Que mal faz se o 
gabai também nos criticar também?”
O rabi explicou que “a diferença entre nós é como aquela en-
tre o dono de uma casa e seu gato. Ambos desejam livrar a casa dos 
ratos. A diferença é que o dono fica feliz quando não há mais ratos, 
enquanto que o gato fica feliz quando os agarra. Do mesmo modo, 
eu fico feliz quando não há mais pecado. Meu gabai parece ficar feliz 
quando agarra ospecadores.”
O Todo-Poderoso julga o mundo para o bem. Está feliz quan-
do o pecado não existe.
E tudo depende da maioria dos atos.
Às vezes, é reconhecidamente muito difícil conciliar este 
princípio – “o mundo é julgado com bondade” – com os fatos 
concretos, tal como os percebemos e sentimos. Há muita agonia e 
dor no mundo, pobreza esmagadora e sofrimento que recaem sobre 
os inocentes e justos.
É preciso ter fé para crer que este princípio continua valendo 
para sempre e em qualquer lugar – fé de que, se conseguíssemos 
ver o quadro completo, as ramificações e consequências dos atos de 
cada pessoa no passado, presente e futuro, entenderíamos o bem 
envolvido em cada julgamento que deve ser emitido. Estaremos 
em condições de apreciar realmente que “o mundo é julgado com 
bondade” somente quando pudermos perceber “a grande quantidade 
de atos” envolvidos.
Quando foi ordenado a Moisés que libertasse seus irmãos do 
Egito, ele pediu para ser dispensado desta tarefa “porque sou lerdo 
de fala.” A Escritura continua: “O Eterno lhe disse: Quem coloca a 
boca no homem? Ou quem faz o mudo ou surdo, ou aquele que vê, 
ou o cego? Acaso não sou Eu, o Eterno?” 201 A Inteligência Suprema 
que criou o milagre contínuo da vida, a consciência e a articulação, 
não poderia ter evitado tais defeitos como a surdez e a cegueira? Se 
uma incapacidade física é um “ato de Deus”, não deduza que isto 
seja um defeito, que o Todo-Poderoso produziu algo imperfeito e 
defeituoso. Se, para os objetivos da vida de uma pessoa, para as ta-
refas que ela está destinada a fazer, as metas que está destinada a 
atingir, ele precisar de uma incapacidade física, ele a recebe. Se o 
Todo-Poderoso envia a Moisés, com defeitos de fala ao Egito, Ele 
quer, e precisa, de alguém com um defeito de fala – por razões que 
só Ele conhece. Em sua infinita sabedoria e poder, o Todo-Poderoso 
planejou o mundo do modo como ele é porque isto é o que melhor 
serve a Seu propósito e aos propósitos do Seu mundo. O mesmo é 
válido para cada indivíduo, conforme a “maioria dos atos” envolvida 
em cada caso. Se estivéssemos em posição de enxergar a “maioria dos 
atos”, perceberíamos Sua infinita benevolência.
Em nossos dias, este problema antigo foi intensificado pela 
horrível tragédia do nosso povo: a destruição de seis milhões de ho-
mens, mulheres e crianças pelo simples motivo de que eram judeus. 
A pergunta surge e causa indignação: Pode Deus existir se uma ca-
tástrofe assim pode ocorrer? Aqui, novamente, nenhuma resposta 
específica é possível. Só podemos responder com nossa fé que isto 
não foi em vão; isto também, de alguma maneira, ajuda a realizar 
o plano Divino.Pensadores judeus apontam para a natureza e seus 
fenômenos: eles nos instam a examinar os reinos animal e vegetal 
e o próprio ser humano, em busca das evidências esmagadoras da 
bondade do Criador, Sua infinita sabedoria e benevolência. E de fato 
há muito na natureza que sugere projeto e finalidade; encontramos 
nos organismos adaptações maravilhosas e poderes de recuperação e 
regeneração incríveis.
Por outro lado, outros pensadores tais como David Hume, Ar-
thur Schopenhauer, e recentemente, Clarence Darrow, concentra-
ram-se nos aspectos da natureza e da existência que parecem cruéis, 
traiçoeiros e irracionais. Para eles, a natureza parece rigorosa, dura 
e severa. Aparentemente, muito depende da atitude com que você 
começa a examinar o mundo natural à sua volta. Você irá encontrar 
aquilo pelo que procura. Tudo está lá, mas você é livre para escolher 
e decidir conforme suas convicções, atitudes e ações.
Esta nossa liberdade será limitada por nossos temperamentos e 
capacidades inerentes. Talvez você seja de uma teimosia inata. Você 
é quem decide se esta teimosia será usada para vinganças pessoais ou 
para permanecer leal ao seu judaísmo. Talvez você tenha sido dotado 
de uma imaginação fértil. Se você sonha com métodos diabólicos 
para exterminar pessoas ou com belas visões da humanidade unida, 
depende de si. Podemos nascer livres e desiguais em nossos tem-
peramentos e talentos, mas no final é a sua decisão e seus atos que 
moldarão seu caráter e seu destino.
É preciso destacar um argumento sobre a “maioria dos atos”: 
Maimônides escreve a respeito deste ensinamento que, se uma 
pessoa pretende doar $100.000 para caridade, é melhor doar $100 
mil vezes do que doar tudo de uma só vez, porque as ações tendem 
a criar disposições e rasgos permanentes no caráter. Se você realiza 
determinada ação apenas uma vez, ela não fica bem impressa na sua 
psique. Mas quando você a repete diversas vezes, você se torna uma 
pessoa caridosa.201a Tudo está, portanto, de acordo com a “maioria 
dos atos.”
Notas
193. Deuteronômio 30:19.
193a. Maimônides, Oito Capítulos, 8, no final; Guia dos Perplexos, 3, 20-21.
193b. T. B. Bavá Metsiá 94a; Midrash Sifra e Rashi com respeito a Levítico 
19:33.
194. Gênesis 21:17.
195. Gênesis 16:12.
196. T. J. Rosh Hashaná 1, 3; Midrash Rabá, Gênesis 53, 14, Êxodo 3, 2; Mi-
drash Tanchumá, Vaietsê 5; Midrash Tanchumá 5, 5.
197. Jeremias 2:2.
198. Deuteronômio 2:9, 19.
199. T. B. Nazir 23b; Midrash Rabá Rute, 2.
200. I Reis 14:21, 31; II Crônicas 12:13; T. B. Bavá Camá 38b.
201 Êxodo 4:10-11.
201a. Maimônides, Comentário sobre a Mishná, ad loc.

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