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Fundação CECIERJ/ UFF
Graduação em Letras
Disciplina: Teoria da Literatura II 
Coordenadora: Profa. Diana Klinger
AD1- 1º semestre de 2019 
GABARITO
QUESTÃO ÚNICA:
Explique a ideia de catarse em Aristóteles e como Márcio Seligmann-Silva
pensa (reelabora) a catarse no cinema brasileiro contemporâneo, no artigo
"Violência e cinema: reflexões sobre o dispositivo trágico no cinema
brasileiro hoje" .
A teoria da catarse aristotélica consiste numa espécie de purificação das
emoções violentas, a partir do horror e da piedade suscitados no espetáculo da
tragédia grega. Nesse contexto, as cenas de sofrimento impingido ao
personagem castigado, mas não culpado, levariam o espectador a uma
experiência de identificação e de compaixão. Na tragédia grega, o espectador
se identificava com um personagem moralmente superior, e que sofria uma
desgraça injustamente. A identificação com ele era considerada uma “escola
de moral”.
Em seu artigo, Marcio Seligmann busca nos ensinamentos de Aristóteles sobre
a tragédia o que chama de “dispositivo trágico”, isto é, elementos da tragédia
(especialmente a catarse) mas fora do gênero tragédia. Assim analisa como
ocorre a catarse dentro da produção cinematográfica brasileira dos últimos
trinta anos. O autor retoma a concepção de que a catarse produz uma espécie
de seção terapêutica da coletividade, uma vez que, na sala de cinema, o
espectador pode aprender a lidar com os seus próprios traumas através das
cenas de horror presenciadas na tela.
Mas a catarse do dispositivo trágico não só produz compaixão e a “expurgação
dos sentimentos violentos” como também faz surgir o “traçamento das fronteiras
identitárias”, isto é, faz com que o público se identifique com certos
personagens nos filmes e não com outros, criando uma valorização de quais
seriam “os bons” ou os que, pelo menos, merecem piedade, e quais seriam os
carrascos.
Por exemplo, no caso do documentário Onibus 174, de José Padilha, a história
do rapaz que sequestrou o ônibus com seus passageiros é contada desde a
infância deste, mostrando o abandono que sofreu por parte da mãe, a vida nas
ruas, a sobrevivência à chacina da Candelária, os anos de internação em
instituições punitivas, etc. Dessa forma, o espectador enxerga “um outro lado”
do personagem, que o faz ver não apenas como um bandido mas também
como uma vítima da violência da sociedade. Assim, o documentário criou uma
narrativa oposta a que foi veiculada pela mídia, que apenas mostrou as cenas
do sequestro. A esta identificação com o “marginal" da sociedade, com aquele
que geralmente é tido como alguém que deve ser eliminado, Marcio Seligmann-
Silva denomina “contra-catarse”. Algo semelhante acontece no filme
“Carandiru”, de Hector Babenco, em que o massacre ocorrido naquela prisão é
narrada do ponto de vista dos presos, não dos policiais, criando uma
compaixão pela vida desses reclusos.
Marcio Seligmann-Silva chama também a atenção para um tipo de filme que,
diante de um quadro social de desigualdade, cumpre um papel simbólico-
político de reafirmar através de suas cenas de violência calcadas no jogo
compaixão-vingança um tipo de pensamento que acaba suscitando um
discurso de “criminalização da pobreza” e da necessidade de “execução dos
marginalizados”. Em nosso contexto em que impera o “descrédito geral nas leis e
em seus representantes”, a catarse advém do modelo dos filmes antigos de
Western, modificado e adaptado à realidade local, mas que prega fazer (sua)
justiça "com as próprias mãos”, isto é, usar a violência para extirpar o mal e
manter a integridade da sociedade. Nas palavras de Seligmann:
Este modelo utiliza do dispositivo trágico a idéia de uma justiça sistêmica, ou seja,
quem fez o mal tem que pagar. Trata-se do círculo da compaixão alimentando a
vingança. O sistema corretivo é baseado no modelo pré-institucional da justiça de
sangue: o olho por olho. (p. 13)
Por exemplo, a identificação positiva do grande público com um personagem
como o Capitão Nascimento, de Tropa de elite, respalda um tipo de discurso
muito comum na sociedade de que “bandido bom é bandido morto”. Assim, “a
violência de um policial extremamente competente, exemplar, e que se sacrifica, ele
mesmo, por este trabalho” (p. 10) é aceita como atitude valorosa e que precisa ser
seguida na vida real.

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