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Fundação CECIERJ/ UFF 
Graduação em Letras 
 
Disciplina: Teoria da Literatura II 
Coordenadora: Profa. Diana Klinger 
AP2- 1º semestre de 2019 
GABARITO 
 
_______________________________________________________________ 
Q1 – Explique os principais conceitos do formalismo russo (literariedade, 
procedimento, estranhamento) e a contribuição dessa corrente teórica para o 
estudo do texto literário. 
 
 Os formalistas russos propõem a "criação de uma ciência autônoma e 
concreta a partir das qualidades intrínsecas do material literário", como 
esclarece Eikhenbaum, no artigo "A teoria do 'método formal” (1976, p. 5). Para 
tanto, diferencia-se, nesse trabalho, a língua poética – a qual conduz a um 
“valor autônomo das palavras” – da língua cotidiana, que visa ao “objetivo 
prático da comunicação”, no intuito de estudar os traços específicos da arte 
literária. Os conceitos formalistas de “procedimento”, “estranhamento” e 
“literariedade” atuam na análise do seu objeto de estudo a fim de “caracterizar 
a linguagem da obra literária” e alcançar sua particularidade, ou seja, a 
linguagem poética. A corrente defende a existência de um princípio objetivo 
dentro do texto literário que o constitui enquanto tal e o distingue dos outros 
tipos não literários. A esse princípio, dá-se o nome de “literariedade”, definida 
por Roman Jakobson como “aquilo que torna determinada obra uma obra 
literária”. Ao invés da literatura é a literariedade o principal estudo dessa 
ciência literária. Mas para dar a ver a especificidade de tal estudo, os 
formalistas se valem dos procedimentos formais presentes em cada obra. 
 Os procedimentos estão ligados aos recursos linguísticos, visuais, 
sonoros, etc, ou seja, ao material literário com o qual o artista trabalha a língua 
poética na sua composição. No entanto, eles são diversos em sua natureza, 
denominados procedimentos de composição e estilísticos gerais, e servem de 
muitas maneiras o texto literário. Os formalistas ainda estudam o procedimento 
da singularização e o procedimento da forma difícil que aumenta a dificuldade 
e a duração da percepção como os principais dentro do sistema geral, por 
caracterizarem a percepção em arte à medida que destroem o automatismo 
perceptivo. 
 E por meio dos procedimentos formais, a arte produz o estranhamento, 
princípio que acabou sendo definido como o procedimento geral da arte visto 
que toma a ideia de técnica ou de artifício e diz respeito a diferentes 
procedimentos particulares utilizados na construção poética, na feitura de cada 
obra. 
 O estranhamento é o efeito causado pela obra literária para nos distanciar 
do modo como apreendemos as coisas que nos cercam, já que o habitual traz 
a automatização dos objetos. Então, a percepção artística faz-nos 
experimentar a forma como visão e não como reconhecimento. O 
estranhamento seria outro princípio que consiste na sensação da forma, o que 
só seria possível a partir de “certos procedimentos artísticos destinados a nos 
fazer experimentá-la ”(Idem, p. 14). Como se vê, trata-se de conceitos 
interligados na constituição do método formal o qual estabelece a diferença 
 
 
entre língua poética e língua cotidiana, dentre outros estudos da forma 
artística. 
 Assim, o Formalismo Russo foi a primeira das correntes textualistas do 
início do século XX a dar ao texto literário uma posição de destaque em sua 
análise ao mesmo tempo em que recusou os elementos de fora dos limites da 
materialidade textual, quer dizer, o contexto social e tudo o que se caracteriza 
como extralinguístico. Essa abordagem caracteriza-se, sobretudo, por uma 
“recusa às premissas filosóficas, às interpretações psicológicas e estéticas”, 
entre outros aspectos externos (Idem, p. 8). Em vez disso, interessa ver a 
imanência do texto a fim de investigar as possibilidades de construção de 
linguagem que cada um propõe na sua particularidade. Nesse sentido, a 
corrente é marcada por uma análise do que é “contingente, imediato, 
palpável e analisável” de cada obra de arte literária. Sendo assim, versos, 
rimas, repetição de palavras, neologismos, enredo, o problema dos sons e 
sentidos, ritmos, criação de uma língua poética, dentre outros, fazem parte 
desse processo de organização. 
 Em resumo, a contribuição do formalismo russo para a teoria da literatura 
está fincada no estudo do texto literário em sua materialidade, isto é, prioriza-
se o texto como objeto exclusivo de estudo. Dessa forma, os formalistas 
inauguram uma análise textualista que rompe com o legado dos 
impressionismos do século XIX, além de toda uma tentativa de investigar o 
texto por meio de elementos externos a ele, como pela biografia do autor e por 
métodos historicistas e cientificistas vigentes na crítica desse período. 
 
 
 
Q2 - Explique os fundamentos da corrente sociológica da teoria e exemplifique 
com algum dos autores estudados. 
 
 Na corrente sociológica da teoria, a realidade social e histórica torna-se o 
ponto de partida para entender a literatura em suas relações com a sociedade. 
Preconiza-se, portanto, o contexto sócio-histórico e também cultural em que a 
obra foi produzida e recebida, pensando a literatura na correlação entre forma 
estética e forma social, além de buscar a interiorização desses aspectos 
históricos, sociais e culturais na estrutura das obras. 
 Nessa perspectiva de análise, os elementos imanentes ao texto são 
deixados de lado em favor de uma análise dos aspectos da sociedade 
buscados na literatura. O texto passa a ser tomado como “indicador, 
documento do que se passa na sociedade” (Costa Lima, 2002, p. 663). E 
nessa perspectiva, às vezes, o texto é utilizado como “ilustração” de certa força 
social. 
 Nessa abordagem sociológica, destaca-se o pensamento marxista que 
produziu influências diversas sobre pensadores que ampliaram o estudo da 
relação entre literatura, a arte de um modo geral, e a sociedade. Dentre eles, 
G. Lukács (estudos sobre o gênero narrativo e o Realismo – destaque para a 
obra Teoria do romance, de 1920), Walter Benjamin (“reflexão sobre a arte e a 
cultura na sociedade de seu tempo”; a obra de arte e a sua reprodutibilidade 
técnica); MiKhail Bakthin (estudos sobre a cultura popular; na literatura, criou a 
categoria do “romance polifônico”; relações dialógicas, entre outros); Max 
Horkheimer e Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt (estudos sobre a 
 
 
“Indústria cultural”, entre outros), para citar apenas alguns de seus 
representantes. 
 
 Ao exemplificar com um dos autores estudados, apresentamos algumas 
ideias que deveriam ser exploradas no desenvolvimento da questão: 
 Georg Lukács defende uma concepção estética marxista que não 
subestima o fator subjetivo da arte, pelo contrário, apoiando-se em grandes 
nomes da literatura mundial, “incorpora criticamente toda a herança cultural e 
assimila organicamente tudo o que é grande no passado”. Tal concepção adota 
a prática desses grandes escritores (Shakespeare, Tolstoi, Werther, Goethe, 
Scott, Balzac), cuja criação artística está alinhada a uma representação da 
realidade que prioriza a fidelidade ao real com consciência e clareza, ao 
mesmo tempo em que dialetiza essência e fenômeno no movimento que 
advém da própria realidade objetiva. Para isso, Marx e engels reconhecem a 
teoria do reflexo como um critério de grandeza literária própria dos grandes 
mestres e colocam-na no centro de sua teoria e prática da arte. 
 Desse modo, a tendência artística realista é aquela que corresponde à 
teoria da arte marxista, ao passo que qualquer tipo de naturalismo é combatido 
por apresentar uma reprodução fotográfica, portanto mecânica e antidialética, 
capaz de produzir meras cópias da realidade. O Realismo, segundo definição 
dopróprio Engels, designaria não só a fidelidade ao particular como também 
uma fiel reprodução dos caracteres típicos em circunstâncias típicas (p.30). 
Nessa perspectiva, aparece o tipo como um aspecto determinante desse 
realismo que faz emergir uma literatura refletida na vida em suas diversas 
“contradições sociais, morais e psicológicas”. O tipo, para Marx e Engels, 
agrega o concreto e a norma, o elemento humano eterno e o historicamente 
determinado, o momento individual e o momento universal social (p.30). Ou 
seja, essa categoria dá a ver, através da apresentação de caracteres e 
situações típicas dos personagens, todo um processo histórico e social de uma 
época. 
 Além disso, há nessa teoria uma rejeição, não menos firme, a correntes 
que preconizam a independência absoluta das formas artísticas, prescindindo, 
com isso, do real para se voltarem exclusivamente aos aspectos intrínsecos à 
obra literária. 
 Em síntese, a concepção marxista defende que “à arte cabe representar 
fielmente o real na sua totalidade”, distanciando-se da cópia fotográfica da vida 
cotidiana e do jogo das formas abstratas. Vale ressaltar ainda que o realismo 
valorizado não vincula o valor da obra literária à posição política do escritor, 
pelo contrário, “só se realiza a vitória do realismo quando artistas efetivamente 
grandes estabelecem uma relação profunda e séria, ainda que não 
conscientemente reconhecida, com uma corrente progressista da evolução 
humana (p.39). Por isso e, acima de tudo, importa para a concepção 
materialista da história salvaguardar a integridade do homem real como um 
princípio unificador entre o valor estético e o processo histórico, isto é, a forma 
literária e a forma social. Nele estão reunidos, indissoluvelmente, grandeza 
artística, realismo autêntico e humanismo. Nas palavras de Lukács, “o 
humanismo socialista torna possível à estética marxista a unificação do 
conhecimento histórico e do conhecimento artístico, a contínua convergência 
na direção de um ponto focal do juízo histórico e do juízo estético” (p. 41) 
 
 
 
 Walter Benjamin, ao analisar o processo de evolução da arte dentro das 
transformações técnicas da sociedade, dentre muitos outros aspectos, mostra 
que o processo de reprodução sempre esteve presente na arte (os discípulos 
copiavam as obras dos mestres), mas no momento em que os meios para fazê-
lo ultrapassam o fazer manual e começam a ser produzidos mecanicamente 
(com a xilogravura, a litografia e posteriormente com a fotografia), há uma 
mudança de percepção sobre a arte. Isso implica uma refuncionalização da 
arte, ou seja, ela deixa de servir a uma práxis religiosa e, portanto, de culto, e 
passa ter um “valor de exposição", dando amplo acesso a um público 
crescente. 
 Com a fotografia, a mão dá lugar ao olho pela primeira vez na história da 
arte em seu processo de reprodução da imagem. A reprodutibilidade técnica 
alcançada pela fotografia vai produzir uma existência serial de cópias perfeitas 
do original, mas sem autenticidade. Diferente da reprodução manual de uma 
pintura, por exemplo, que, mesmo aquela considerada réplica ou falsificação, 
ainda preserva a sua autoridade. 
 No entanto, essa nova perspectiva de reprodução vai repercutir na tradição 
com o declínio da aura do objeto artístico, isto é, o que Benjamin entende como 
o “aqui e agora” que lhe confere autenticidade, unicidade fazendo da obra uma 
peça única, produzida num momento histórico e num local específico. A aura 
estava relacionada com o que ligava a arte a um momento de culto, um culto 
mágico (Benjamin dá o exemplo das pinturas nas cavernas), depois um culto 
religioso, e mais adiante, um culto laico, na modernidade. No valor de 
exposição que se estabelece a partir daí, a obra ganha exponibilidade em 
escalas cada vez maiores, mas nem mesmo a reprodução mais perfeita de 
uma cópia garante o “aqui e agora” da obra de arte. 
 
 Erick Auerbach mostra na comparação entre as duas narrativas da 
tradição, a saber, os poemas de Homero, da Grécia Antiga, e “O sacrifício de 
Isaac”, do Velho Testamento, que ambas acabam refletindo a sociedade da 
qual fazem parte. No poema grego, há uma clara relação dos personagens 
homéricos com a aristocracia feudal e a inserção do cotidiano no sublime e no 
trágico. Diferente disso, os relatos bíblicos dão a ver que o sublime, o trágico e 
o problemático estão imbricados no espaço caseiro e cotidiano. Além disso, “o 
Velho Testamento, enquanto se ocupa do acontecer humano, domina todos os 
três âmbitos: lenda, relato histórico e teologia histórica exegética” (p. 18). 
Porém, as narrativas distanciam-se pelo percurso feito: temos, de um lado, a 
permanência no lendário dos poemas homéricos, e do outro, a proximidade 
dos relatos bíblicos cada vez mais do histórico, à medida que a narrativa 
avança. Esses dois estilos de narrar exerceram influência sobre a cultura 
europeia, uma vez que encarnam, segundo o autor, como tipos básicos e o 
ponto de partida para novos ensaios sobre a representação literária da 
realidade. 
 
 Antonio Candido considera que mímese é poiesis, isto é, que a 
representação vem junto com a criação e que esta realiza uma transfiguração 
da realidade. A literatura não seria um espelho da sociedade, como 
consideravam alguns críticos no século XIX. A relação entre o texto e seu 
contexto não é imediata. Nessa perspectiva, o escritor elabora, reconfigura e 
transforma a realidade circundante em sua atividade criadora. Com isso, 
Cândido propõe uma abordagem do texto literário que articule fatores 
 
 
extratextuais - isto é: contexto histórico-social, aspectos biográficos- e os 
internos ao texto: estrutura e aspectos do uso da linguagem. A proposta evita 
tanto tomar o texto como um documento de uma determinada sociedade em 
um determinado momento histórico quanto entendê-lo como um produto 
isolado do seu contexto. Além disso, Cândido defende que a literatura é 
influenciada pelo meio social mas também é uma ferramenta de transformação 
dessa realidade.

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