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A física cios anjos
Uma visão científica e 
filosófica dos seres celestiais
Matthew Fox e 
Rupert Sheldrake
Tradução
Carolina Cairts Coelfio
A fM m EDITORA
ALEPH
Aos anjos,
na esperança de que eles retornem 
para nos guiar no novo milênio
Anjo
1. a) um espírito guardião ou mensageiro divino; de uma ordem de seres 
espirituais superiores ao homem em poder e inteligência, são os servos 
e mensageiros da divindade; b) um dos espíritos caídos que se rebelaram 
contra Deus; c) um guardião ou espírito amigo; d) sentido figurado, uma 
pessoa que lembra um anjo, na aparência ou no modo de agir.
2. Qualquer mensageiro de Deus, como um profeta ou pregador; um pastor 
ou ministro da igreja; sentido poético, um mensageiro; sentido figurado, em 
anjo da morte.
3. Uma imagem comum com asas.
(The Shorter Oxford English Dictionaiy.
Oxford University Press, 1975)
Fóton
Um corpúsculo ou partícula elementar de luz.
(The Shorter Oxford English Dictionary. 
Oxford University Press, 1975)
Um quantum de radiação eletromagnética que tem massa de repouso zero e 
energia igual ao produto da freqüência da radiação e da constante de Planck. 
Em alguns casos, deve-se considerar o fóton uma partícula elementar.
(The Penguin Dictionary of Physics. 
Harmondsworth: Penguin Books, 1975)
Sumário
Prefácio............................................................................................................. 11
Introdução: O retorno dos anjos e a nova cosmologia.......................... 15
Dionísio, o Areopagita.................................................................................. 35
São Tomás de Aquino................................................................................... 77
Hildegarda de Bingen....................................................................... 133
Conclusão: Anjos no novo milênio........................................................... 181
Apêndice: Anjos na Bíblia......................................................... 185
Notas................................................................................................................. 201
índice remissivo............................................................................................. 205
Prefácio
Parece improvável que um cientista e um teólogo tenham se reunido para 
falar sobre os anjos. As duas disciplinas, ao fim da Era Moderna, parecem 
igualmente relutantes em relação a esse assunto.
De qualquer modo, apesar de os anjos terem sido ignorados pelo es­
tablishment científico e teológico, pesquisas recentes têm mostrado que mui­
tas pessoas ainda acreditam na existência deles. Nos Estados Unidos, por 
exemplo, mais de 2/3 da população acreditam em anjos, e 1/3 afirma já ter 
sentido uma presença angelical em sua vida. Metade acredita na existência 
de demônios.1 Os anjos persistem.
Estamos entrando em uma nova fase, tanto da ciência quanto da teolo­
gia, e, surpreendentemente, a questão dos anjos tem se tornado importante 
novamente. A nova cosmologia e a antiga angelologia levantam questões 
interessantes acerca da existência e do papel da consciência em níveis sobre­
humanos. Quando começamos a discutir o assunto, nós dois ficamos fasci­
nados com as semelhanças entre o que dizia Tomás de Aquino sobre os 
anjos, na Idade Média, e o que Albert Einstein disse a respeito dos fótons no 
século XX. Daí o título deste livro: A física dos anjos.
O renovado interesse nos anjos é bastante oportuno. Hoje, grande 
parte desse interesse deve-se a experiências de ajuda e assistência em mo-
12 A FÍSICA DOS ANJOS
mentos de necessidade. É de natureza intensamente pessoal, e individualis­
ta no espírito. A idéia ocidental tradicional a respeito dos anjos, no entanto, 
é muito mais profunda e rica do que poderia sugerir essa literatura moderna, 
e muito mais preocupada com a comunidade, com nosso desenvolvimento 
comum e nossas relações com as pessoas, com Deus e com o universo. Esses 
valores combinam com uma compreensão mais holística ou orgânica da 
natureza e da sociedade.
Além disso, a partir do momento em que vivemos em uma aldeia global 
cada vez mais restrita, é importante reconhecer as experiências que surgem 
em todas as culturas e religiões do mundo. Todas elas, inclusive a nossa, 
reconhecem a existência de espíritos em níveis sobre-humanos. Nós os cha­
mamos de anjos, mas essas entidades recebem outros nomes, dependendo 
da tradição. Este é um dos temas mais essenciais na experiência humana 
espiritual e religiosa. É difícil imaginar um crescimento profundo do ecume­
nismo entre culturas e religiões sem reconhecer os anjos entre nós, e os anjos 
em nossas próprias tradições.
Há também outras experiências a serem enfrentadas por todos os seres 
humanos em conjunto, como a crise ecológica, para a qual necessitamos de 
toda a sabedoria que tivermos. Os anjos são capazes de nos ajudar nesse 
trabalho e podem se mostrar aliados indispensáveis, verdadeiros anjos da 
guarda, instruindo-nos a salvaguardar a herança de um planeta que já foi 
são, mas que hoje corre perigo.
Por todos esses motivos, é importante voltarmo-nos para a nossa tradi­
ção espiritual e analisar o que ela tem a nos dizer sobre os anjos, para ligar 
essa sabedoria à atual cosmologia evolutiva. Precisamos fazer isso para pre­
parar o terreno para explorações mais aprofundadas no futuro - um futuro 
que, acreditamos, será marcado por um esforço muito maior no sentido de 
examinar a consciência deste planeta, e além dele.
Para ajudar nessa tarefa de redescoberta de nossa tradição espiritual, 
decidimos nos concentrar em três gigantes da tradição ocidental, cujo trata­
mento dado aos anjos é amplo, profundo e influente. São eles: Dionísio, o 
Areopagita, um monge sírio cujo clássico As hierarquias celestiais foi escrito 
no século VI; Hildegarda de Bingen, madre superiora alemã do século XII; e 
São Tomás de Aquino, teólogo-filósofo do século xill.
Prefácio 13
Diontsio, o Areopagita, fez uma síntese maravilhosa das correntes filo­
sóficas neoplatônicas do Oriente Médio, à luz de sua teologia e experiência 
cristãs. Hildegarda de Bingen, apesar de invocar a tradição da angelologia 
por meio da tradição monástica da igreja ocidental, jamais trabalhou fora de 
suas experiências visionárias com os reinos angelicais. Tomás de Aquino 
elaborou uma síntese do estudo dos anjos, incluindo as opiniões do filósofo 
muçulmano Averróis, os escritos de Dionísio, o Areopagita, a ciência e a fi­
losofa de Aristóteles e a tradição bíblica. Ele também levantou questões pro­
fundamente especulativas, audaciosas até mesmo para os dias de hoje, e 
müito interessantes diante da cosmologia que surge da ciência atual. Mais do 
que quaisquer outros grandes pensadores do Ocidente, foram esses três que, 
provavelmente, dedicaram maior esforço intelectual à angelologia.
Começamos aqui com um diálogo introdutório, no qual exploramos a 
história da compreensão dos anjos no Ocidente, e como eles são importantes 
para a tradição da igreja primitiva e da teologia medieval. Examinamos como 
a revolução científica mecanicista, no século XVII, não deixou espaço para os 
anjos em um cosmo mecânico, levando a uma diminuição do interesse sobre 
o assunto na ciência e na teologia. Também discutimos o recém-renovado 
interesse nos anjos e a atual importância dada a uma compreensão ecumê­
nica e a várias culturas dos reinos espirituais.
Voltamos, então, aos nossos três principais autores. Selecionamos os 
trechos mais importantes sobre anjos, sendo cada um deles seguido de uma 
discussão na qual tentamos entender seu significado hoje, tanto do ponto de 
vista teológico quanto científico.
Nessas discussões, preocupamo-nos menos com a teologia e com a ciên­
cia de ontem do que com a possível teologia e ciência de amanhã. Achamos 
esse método de diálogobastante esclarecedor, pois nos permite extrapolar 
qualquer compreensão que poderíamos alcançar individualmente, com nos­
sas perspectivas limitadas. Esperamos que aquilo que foi um processo cria­
tivo para nós ajude outras pessoas em suas investigações e reflexões.
Terminamos discutindo como a exploração dos anjos em um cosmo 
vivo poderia melhorar e enriquecer tanto a religião quanto a ciência neste 
novo milênio. Finalizamos com diversas perguntas.
14 A FÍSICA DOS ANJOS
Apresentamos, também, um apêndice com referências bíblicas aos an 
jos, para aqueles que desejam estudar, de maneira mais profunda e detalha 
da, os exemplos contidos nas Escrituras.
Introdução
O retomo áos anjos e a nova cosmologia
MATTHEW: Por que os anjos estão em voga? Nos últimos anos, eles têm 
sido abordados em muitas matérias de revistas e programas de TV; e existe 
uma avalanche de livros, incluindo diversos best-sellers, a respeito deles. É 
uma nova tendência? Os anjos são o mais novo objeto de consumo para al­
mas carentes? Seria uma viagem, a outro mundo, uma fuga para um reino 
celeste de luz, uma distração que nos impede de nos voltarmos a problemas 
sociais e políticos?
Ou pode ser que o retorno dos anjos inspire nossa imaginação moral? 
Podem eles nos dar a coragem necessária para lidarmos com esses assuntos 
de maneira mais eficiente e imaginativa, conforme caminhamos neste tercei­
ro milênio?
Recentemente, fiz uma pesquisa, perguntando às pessoas se elas já sen­
tiram a presença dos anjos. Sessenta a 80% dos participantes em minhas 
palestras afirmaram que sim. Talvez esse universo não represente a popula­
ção em. geral, mas pesquisas com norte-americanos “comuns”, que não se 
interessam muito pelos anjos, mostram que 1/3 dos entrevistados jã sentiu 
a presença deles pelo menos uma vez na vida. Isso sugere que nem sempre
16 A FÍSICA D OS ANJOS
é preciso acreditar nos anjos. Quando alguém vivência alguma coisa, não 
precisa mais acreditar nisso; não é uma questão de crença, mas de experiên­
cia. E, hoje, talvez estejamos sendo chamados a confiar em nossa experiência 
com essas criaturas.
Na cosmologia mecânica dos últimos séculos, não houve espaço para 
os anjos. Não houve espaço para os assuntos místicos. Na medida em que 
deixarmos essa época para trás, certamente os místicos voltarão, tal como os 
anjos estão voltando, porque uma cosmologia viva está retornando. São To­
más de Aquino, o teólogo do século xm, disse: “O universo não seria com­
pleto sem os anjos [...] O mundo corpóreo todo é governado por Deus por 
meio dos anjos.”1 O ensinamento antigo e tradicional sustenta que, quando 
vivemos no universo, e não apenas em uma máquina criada pelo homem, 
sobra espaço para os anjos.
Mas o que é um anjo? O que eles fazem?
Em primeiro lugar, os anjos são poderosos. Não se engane com os que­
rubins nus com os quais o período barroco povoou nossa imaginação. Quan­
do um anjo aparece nas Escrituras, invariavelmente as primeiras palavras são 
“Não temas”. Agora, seriam estas as primeiras palavras usadas se eles se 
apresentassem, como meros querubins despidos? É mais provável que disses­
sem: “Prenda minha fralda”. Os anjos, contudo, são imponentes. O poeta 
Rilke disse que todo anjo é assustador. Qual é o poder deles?
Os anjos são, essencialmente, seres compreensivos. Pensam muito. São 
especialistas em compreender - em suportar. Os pensamentos primordiais 
que sustentam todos os nossos outros pensamentos os anjos conhecem pela 
intuição, de acordo com Aquino e outros professores que ensinam sobre 
eles. Os anjos não precisam ir à escola para aprender sobre a essência das 
coisas. Eles não precisam de razão discursiva nem de experimentação para 
aprender. Aprendem tudo intuitiva e imediatamente.
São especialistas em intuição, e podem ajudar nossa intuição. Esse é um 
dos motivos pelos quais anjos e artistas são tão amigos. Quando olhamos 
para as maravilhosas imagens de anjos criadas pelos artistas, estamos lidan­
do não apenas com quadros, mas com um relacionamento entre esses dois 
seres. A intuição é a estrada pela qual os anjos vagam.
Introdução 17
Os anjos também são grandes amigos dos profetas, e precisamos de 
profetas hoje. Precisamos deles em todas as profissões, no desempenhar de 
nosso papel como cidadãos, em toda geração. Precisamos de jovens e de 
velhos profetas. “O que eles fazem?”, pergunta o rabino Heschel. “Eles in­
terferem”. Se vamos mudar o rumo da humanidade, precisamos de profetas, 
e, de acordo com São Tomás de Aquino, os anjos estão muito envolvidos nas 
profecias.
Além disso, os anjos têm vontades firmes, e Aquino diz: “À vontade 
deles é naturalmente carinhosa”. Os anjos não são intelectuais abstratos; são 
seres compreensivos e carinhosos, O amor invade a compreensão deles. Seu 
conhecimento é um conhecimento de coração. É sabedoria, não apenas 
conhecimento.
E assim vemos que, nos domínios da compreensão, da sabedoria, do 
amor, da compaixão e da profecia, os anjos muito têm a nos ensinar sobre 
espiritualidade. E a tarefa deles não é simples. Eles têm funções cósmicas 
importantes a realizar, relacionadas à sabedoria e ao conhecimento que car­
regam. Uma dessas tarefas é louvar. Sempre que existe glorificação, os anjos 
aparecem. De fato, acredito que a ausência deles é o que chamaria de crise 
de louvor da civilização ocidental. Ao aprendermos a glorificar novamente, 
os anjos retornarão.
Hildegarda de Bingen e Tomás de Aquino nos ensinam que o demônio 
não glorifica, e é isso que o toma diferente dos anjos - a recusa em louvar. 
Quanto de nossa cultura nos últimos séculos, de fato, tem sido uma recusa 
em glorificar? O que é a glória, senão o barulho da alegria, o som da reve­
rência? E, se somos privados de glória, é porque temos sido privados de 
reverência e alegria no mundo mecânico, um mundo parecido com uma 
jaula na qual estamos vivendo. A nova cosmologia nos desperta novamente 
para a reverência e para o assombro, suscitando, assim, a glória.
Estudar os anjos é irradiar a luz sobre nós mesmos, principalmente 
naqueles aspectos que têm sido desprezados em nossa civilização seculari- 
zada, em nossos sistemas educacionais secularizados e, mesmo, em nosso 
sistema de adoração secularizado. Por secularização, refiro-me a qualquer 
processo que extraia a reverência das coisas.
18 A FÍSICA DOS ANJOS
Os anjos são agentes e co-trabalhadores conosco, seres humanos. Às 
vezes, eles nos guardam e defendem; às vezes, nos inspiram e anunciam as 
boas novas - fazem com que nos mexamos. Às vezes, eles nos curam e, às 
vezes, nos guiam por reinos diferentes, dos quais recobramos os mistérios 
para este reino em particular. Aquino diz: “Fazemos os trabalhos que são de 
Deus, juntamente com os anjos sagrados.”2 Mais que isso, porém, Aquino 
nos avisa de que os anjos sempre anunciam o silêncio divino, o silêncio que 
precede nossa inspiração, nossas palavras, o silêncio trazido pela meditação 
e pela contemplação.
Os anjos tornam os seres humanos felizes. É raro encontrar infeliz al­
guém que já tenha visto um deles. Encontrar um anjo é voltar a ficar alegre. 
Como Aquino diz, a felicidade consiste em apreendermos algo melhor que 
nós mesmos. A reverência, o prodígio e o tipo de poder que os anjos repre­
sentam são assim. Eles nos chamam para sermos seres maiores.
Por fim, o pecado dos anjos das trevas tinha a ver com a arrogância e o 
mau uso do conhecimento e do poder. Isso não parece familiar ao analisarmos 
os dois últimos séculos da civilização ocidental? Algum conhecimento excep­
cional foi passado adiante durante esse período, assim como um incrível e 
salutar poder de decisão. Mas também houve um lado negro. A arrogância 
causou grande parte de nosso atual desespero ecológico. O mito de Fausto é 
um retrato do mau uso do conhecimento, do poder e da arrogância em nosso 
esforço de conhecero universo. Os anjos das trevas não representariam, en­
tão, o lado sombrio da civilização ocidental? Um lado que tem adotado a ar­
rogância e o mau uso do conhecimento como um modo de vida normal?
RUPERT: Eu gostaria de falar sobre o que você disse a respeito da proxi­
midade dos anjos com a cosmologia. A associação dos anjos com os Céus é 
o que me ocorreu em primeiro lugar. Eu cresci em Newark-on-Trent, uma 
cidade-mercado em Nottinghamshire, Inglaterra, onde existe uma enorme 
igreja medieval. No teto da igreja, assim como em muitas igrejas medievais, 
as colunas são sustentadas por anjos entalhados. E, na grande catedral góti­
ca de Lincoln, apenas 24 quilômetros distante de Newark, há um comparti­
mento chamado coral dos anjos, onde há anjos tocando instrumentos musi­
cais - o coral celestial. Para vê-los, é preciso olhar para cima. Então, desde a 
infância, essa é a imagem que faço dos anjos. Eles estão associados com as
Introdução 19
estrelas. E é sobre isso que gostaria de falar em primeiro lugar, sobre o as­
pecto cosmológico dos anjos e a associação deles com o Céu.
Na Idade Média, assim como em todas as épocas anteriores, de forma 
geral o homem acreditava que o Céu tinha vida, que o cosmo todo tinha 
vida. O Céu era habitado por inúmeros seres conscientes, associados com as 
estrelas, com os planetas e, talvez, com os espaços entre eles. Quando as 
pessoas pensavam em Deus no Céu, não pensavam como uma vaga metáfo­
ra ou um estado psicológico; pensavam no céu.
“Nosso Pai, que habita o Céu”. Hoje, creio, muitos cristãos entendem 
se tratar de uma frase metafórica, nada a ver com o céu de fato. O Céu foi 
entregue à ciência; o reino celestial é domínio da astronomia. E a astronomia 
nada tem a ver com Deus, corn os espíritos ou com os anjos; ela está envol­
vida com as galáxias, com a geometria do campo gravitacional, com a área 
de alcance da emissão de átomos de hidrogênio, com o ciclo de vida das 
estrelas, dos quasares, dos buracos negros, e assim por diante.
Mas não era assim que as pessoas costumavam pensar. Elas acreditavam 
que o Céu estava cheio de espíritos e de Deus. E, de fato, se pensarmos em 
Deus como onipresente, a divindade deve estar em todo o universo, do qual 
a Terra é uma ínfima parte.
Por meio da revolução científica do século XVII, o universo foi mecani­
zado e, ao mesmo tempo, o Céu secularizado, sendo ambos formados por 
matéria ordinária planando ao redor, em perfeita harmonia com as leis de 
Newton. Não havia espaço para as inteligências angélicas. Os anjos não têm 
espaço em um mundo mecanicista, exceto, talvez, como fenômenos psico­
lógicos, existentes apenas em nossas imaginações.
Mas esse ponto de vista mecanicista da ciência está sendo agora substi­
tuído. Descobertas científicas recentes estão nos levando em direção a uma 
nova visão do mundo vivo. Esse é o principal assunto do meu livro O renas­
cimento da natureza.
O velho universo mecânico era uma imensa máquina que foi perdendo 
potência aos poucos, morrendo em virtude do calor termodinâmico. Mas, 
desde os anos 1960, tem sido substituído por um cosmo evolucionário. O 
universo começou muito quente e pequeno na bola de fogo, menor que uma 
cabeça de alfinete, e tem se expandido desde então. Na medida em que cres-
20 A FÍSICA DOS ANJOS
ce, esfria. Mais estruturas, formas e padrões se desenvolvem em seu interior. 
No início, não havia átomos, estrelas, galáxias, elementos como ferro e car­
bono, planetas e vida biológica. Conforme o universo se expandiu, pela 
primeira vez essas coisas passaram a ocupar um lugar nele, e foram repetidas 
inúmeras vezes em muitos locais e épocas. Esse universo em crescimento e 
desenvolvimento não é como uma máquina. É mais um organismo em de­
senvolvimento.
Em vez de a natureza ser formada por átomos inertes, apenas partículas 
de matéria inertes durando para sempre, temos agora a impressão de que os 
átomos são estruturas complexas de atividade. A matéria, agora, é mais como 
um processo que uma coisa. Como o filósofo da ciência, Sir Karl Popper, já 
disse, “Por meio da física moderna, o materialismo se transcendeu”. A matéria 
deixou de ser o princípio explicativo fundamental, mas ela mesma é explica­
da em termos de princípios mais fundamentais, a saber, campos e energia.
Em vez de vivermos em um planeta inanimado, uma bola de pedra 
enevoada girando ao redor do sol conforme as leis do movimento de Newton, 
podemos pensar que vivemos na Mãe Terra. A hipótese de Gaia coloca em 
forma científica contemporânea a crença antiga de que vivemos em um 
mundo vivo.
Em vez de o universo ser rigidamente determinado, com tudo cami­
nhando inexoravelmente de acordo com a causalidade mecânica, temos um 
mundo ao qual a liberdade, a receptividade e a espontaneidade retornaram. 
O indeterminismo chegou por meio da teoria quântica nos anos 1920. Mais 
recentemente, a teoria do caos confirmou que o antigo ideal do determinis­
mo de Newton era uma ilusão. A ciência vem se libertando da idéia de que 
vivemos em um universo previsível e rigidamente determinado.
Em vez de interpretar a natureza como não criativa, nós agora a vemos 
como criativa. Charles Darwin e Alfred Russel Wallace conceberam uma 
formulação científica à idéia de que plantas e animais são criados pela mãe 
natureza, mas, por muito tempo, os físicos negaram que a evolução tivesse 
qualquer contribuição a dar ao cosmo como um todo. Eles continuaram 
acreditando que o universo era uma máquina não criativa até os anos 1960. 
Mas agora verificamos que a evolução criativa não está limitada ao mundo
Introdução Z1
da vida biológica; o desenvolvimento evolucionário do cosmo todo é um 
vasto processo criativo.
Ao contrário da idéia de que a natureza em sua totalidade seria logo 
compreendida em termos de física e matemática, a verdade é que entre 90% 
a 99% da matéria no cosmo é “matéria negra”, completamente desconhecida 
para nós. É como se a física tivesse descoberto o inconsciente cósmico. Não 
sabemos o que é essa matéria negra, nem o que ela faz, nem como influencia 
a maneira com que as coisas acontecem.
Além disso, a cosmologia evolucionária põe em dúvida a velha idéia de 
“leis eternas da natureza”. Se a natureza se desenvolve, por que as leis da 
natureza não se desenvolveriam? Como poderíamos saber se as “leis” que nos 
governam - a cristalização do açúcar, o clima, entre outras — existiam no 
momento do Big Bang? Em um universo evolucionário, faz mais sentido pen­
sar nas leis da natureza se desenvolvendo também, Acredito que faz ainda 
mais sentido ver as regularidades da natureza como hábitos. E os hábitos da 
natureza se desenvolvem. Em vez de o universo todo ser governado por uma 
mente matemática, pode depender de uma memória inerente. Essa é a base 
de minha hipótese de ressonância mórfica: memória na natureza.3
Hierarquia aninhada de unidades mórficas. O diagrama poderia representar, por exemplo, cé­
lulas em tecidos, em órgãos, em organismos; ou planetas no sistema solar, em galáxias, em 
aglomerados galácticos.
Por fim, em vez de tudo ser explicado em termos de fragmentos e par­
tículas, podemos pensar o universo holisticamente, ordenado em uma série
22 A FÍSICA DOS ANJOS
de níveis de organização, em uma hierarquia agrupada ou holarquia. Em 
cada nível, as coisas são integrais e parciais. Os átomos são unidades consti­
tuídas por partes subatômicas, sendo estas completas a um nível mais baixo. 
As moléculas são unidades constituídas de partes atômicas; os cristais são 
unidades constituídas de partes moleculares, tal como células dentro de te­
cidos, tecidos dentro de órgãos, órgãos dentro de organismos, organismos 
dentro de sociedades, sociedades dentro de ecossistemas, ecossistemas den­
tro de Gaia, Gaia no sistema solar, o sistema solar na galáxia, e assim por 
diante. Em todas as partes, níveis dentro de níveis de organização,cada sis­
tema sendo, ao mesmo tempo, um todo formado por partes e uma parte 
dentro de um todo maior.
Em cada nível, o todo é mais que a soma das partes. Sugiro que essa 
totalidade depende do que chamo campo mórfico, um campo organizado 
que é a base da estrutura do sistema. Os campos mórficos são estruturados 
por ressonância mórfica. Eles contêm memória. Na verdade, eles são os por­
tadores da memória inerente na natureza.
Em cada nível de organização, os campos mórficos animam os organis­
mos, conferindo-lhes seus hábitos e sua capacidade organizativa. Nesse sen­
tido, moléculas, estrelas e galáxias são vivas, não apenas micróbios, plantas 
e animais. E, se são vivas, são conscientes? Há mente ou inteligência a elas 
associadas?
Pensemos em níveis de organização como Gaia, ou o sistema solar, ou 
a galáxia. Se os campos que os organizam estão associados com o espírito, 
com a inteligência ou com uma consciência, então estamos falando sobre 
consciência sobre-humana. Se uma galáxia tem consciência, espírito ou 
mente, essa mente será inconcebivelmente maior em escopo do que a de 
qualquer mestre da Hardvard ou intelectual em Paris.
MATTHEW: Sim. Durante a era industrial newtoniana-cartesiana, os an­
jos foram banidos. Não havia espaço para anjos em uma máquina. Não havia 
sequer espaço para almas em uma máquina. E os anjos não foram apenas 
banidos, mas trivializados. Pense nas igrejas barrocas construídas no século 
XVII, o mesmo século da separação entre ciência e religião. A religião tomou 
para si a alma, que se tomou cada vez mais introvertida e fraca, e os cientis­
tas levaram o universo. Na arquitetura barroca, os anjos se tornaram bebe-
Introdução 23
zinhos graciosos e rechonchudos, que tínhamos vontade de beliscar. Preci­
samos hoje de uma libertação dos anjos.
Para os teólogos, durante trezentos anos foi embaraçoso mencionar os 
anjos. Mas eles são mencionados ao longo da Bíblia. Na verdade, existem 
legiões de anjos. Sempre que falamos sobre cosmologia, eles aparecem.
No século I, quando as Escrituras cristãs foram redigidas, a principal 
pergunta que circulava na bacia mediterrânica era: os anjos são nossos ami­
gos ou nossos inimigos? Todos acreditavam em anjos na Grécia e em Roma; 
eles faziam parte da cosmologia corrente. Mas a pergunta era: podemos con­
fiar nessas forças invisíveis do universo, que movem os planetas e os elemen­
tos? Até que ponto o universo é digno de confiança?
Isso é muito interessante porque, no século xx, perguntaram a Einstein: 
“Qual a pergunta mais importante na vida?” E ele respondeu: “O universo é 
um lugar amistoso ou não?” É a mesma pergunta. Eu digo a meus alunos que 
sempre que nos depararmos com os anjos ao lermos a Bíblia devemos pensar 
em Einstein, porque estamos lidando com a mesma questão. É a maior ques­
tão cosmológica. Podemos confiar no cosmo? O cosmo é afável?
Nos inúmeros cânticos ao Cristo Cósmico na Bíblia, existem alusões 
aos anjos (vejamos, por exemplo, Romanos 8,38-39; Efésios 1,20-21; Colos- 
senses 1,15-16; Hebreus 1,3-4). Os primeiros cristãos responderam à per­
gunta sobre a índole do cosmo no século i: Cristo tem poder sobre os anjos 
e.arcanjos, as potestades e os principados. O que eles dizem? Dizem que, 
independentemente do que essas forças invisíveis estejam fazendo com os 
elementos do universo, o sorriso de Deus, como representado pelo Cristo, é 
a garantia de que você pode relaxar, ficar calmo. O universo é um lugar 
amistoso. Existe um poder benigno sobre os anjos: o Cristo. A tradição do 
Cristo Cósmico se estabelece no contexto da angelologia porque está funda­
da em termos de cosmologia.
RUPERT: Apesar de o Céu ter sido secularizado e mecanizado, essas 
questões não desapareceram. Um vazio espiritual surgiu quando a imagina­
ção religiosa retirou-se do Céu; e como a imaginação científica é extrema­
mente pobre, a ficção científica apareceu para preencher essa lacuna. O Céu 
tem sido, então, habitado pelas fantasias dos escritores de ficção científica. 
Alguns deles são talentosos e usam o Céu como cenário para histórias de
24 A FÍSICA DOS ANJOS
interesse e valor. Mas a maioria é banal; não cumpre um bom papel em nos 
dar uma idéia da maravilha do universo. Naves espaciais viajando no tempo, 
o império do mal, as guerras estelares, os policiais espaciais e os alienígenas 
- essas não são boas representações das inteligências cósmicas. Mas a ücção 
cientifica é a principal influência sobre a maneira como a maioria das crian­
ças imagina o Céu. O vazio cosmológico causado pela expulsão e banaliza- 
ção dos anjos simplesmente tem sido preenchido por escritores de ficção 
científica e entusiastas da ufologia.
Que perda terrível! As convenções da ficção científica foram estabeleci­
das no contexto do universo mecânico, antes da revolução cosmológica nos 
anos 1960, e têm pouco a ver com o que foi descoberto desde então. Temos 
agora uma visão amplamente expandida dos Céus, com inúmeras galáxias, 
quasares, pulsares, buracos negros e 15 bilhões de anos de história cósmica. 
Acredito que uma das coisas que precisamos fazer é recuperar um sentido 
de vida do Céu, para que, quando olharmos para as estrelas, quando real­
mente olharmos para o céu, conscientizemo-nos dessa divina presença e das 
inteligências e da vida nele contidas.
MATTHEW: Sim, hoje estamos recuperando a idéia da terra viva, Gaia, e, 
para muitas tradições nativas, da Mãe Terra; mas é igualmente importante 
recuperar esse senso de vida do céu e unir os dois. jose Hobday, uma mulher 
de origem seneca que trabalha conosco, diz que, quando os povos nativos 
dançam, os joelhos são flexionados para entrar na terra, mas os ombros gi­
ram para alcançar a energia dó pai céu, e são as duas energias juntas que 
permitem o total complemento de energia.
Nós não apenas secularizamos o céu, mas lançamos nossos mísseis e lá 
deixamos nossos escombros. Estamos lã agora. Mas o universo é bem mais 
vasto, mais surpreendente e expansível do que jamais imaginamos. E não 
estamos falando apenas sobre espaço; estamos falando sobre tempo. Esta­
mos captando luz de bilhões de anos atrás. Quando nos referimos ao céu e 
à terra, estamos falando sobre a ressacralização do tempo e do espaço.
RUPERT: No passado, as pessoas acreditavam que o que acontecia na 
terra estava relacionado ao que acontecia no Céu. Essa tradição é vivamente 
preservada pela astrologia moderna. Mas, infelizmente, a astrologia do sécu­
lo XVII se separou da astronomia. A astrologia deu sentido aos movimentos
Introdução 25
do Céu e à sua relação com a Terra. Os planetas ainda têm. nomes de deuses 
e deusas, como Mercúrio, Vénus e Júpiter, que, no mundo cristão, eram 
vistos como anjos. Esses deuses, espíritos ou anjos planetários, com suas 
disposições e relações diferentes, afetaram a vida na terra.
Na índia, ainda acreditam que essa relação entre Céu e terra é de gran­
de importância. Quando as pessoas arranjam casamentos - e muitos casa­
mentos ainda são arranjados um astrólogo consulta os mapas da noiva e 
do noivo para ter certeza de que há compatibilidade. Se assim for, o astrólo­
go escolhe o horário em que eles devem se casar. Quando comecéi a viver na 
índia, ficava surpreso ao receber convites de casamento de amigos e colegas 
indianos anunciando, por exemplo, que a cerimônia de Radha e Krishnan 
aconteceria às 3h34, ou em algum outro horário incomum. E, apesar de os 
indianos se atrasarem para quase tudo, eles chegavam pontualmente para 
um evento tão importante. O “sim” aconteceria no exato momento em que 
a união das duas pessoas estivesse em harmonia com o Céu.
A astrologia eletiva, ou seja, aquela que indica data e horário certos para 
eventos importantes, ainda era praticada na Inglaterra até o século XVIII. E 
também na Casa Branca pelo Presidente Reagan e senhora!
A relação entre Céu e terra era muito importante na cosmologiaantiga. 
Mas, em virtude da separação entre astrologia e astronomia, os astrônomos 
passaram a não ver sentido no que está acontecendo nas estrelas; não vêem 
vida, inteligência ou consciência no Céu. Os astrólogos, por sua vez, vêem 
sentido, padrão e uma relação entre o que acontece no Céu e que acontece 
na terra; mas, infelizmente, nunca olham para o céu. Conheço poucos astró­
logos capazes de identificar as estrelas e os planetas. A astrologia é feita com 
base em livros, ou, atualmente, em programas de computação. Espero que 
alguém comece a dar cursos sobre astronomia para astrólogos. Acredito que 
é importante juntar essas duas tradições novamente.
Em muitas culturas tradicionais, os mitos falam sobre como as pessoas 
são inspiradas pelas estrelas ou como, efetivamente, se originam de algumas 
delas. Por exemplo, os dogons, na África Ocidental, têm uma forte relação 
com Sirius, a estrela mais brilhante. E, para mim, é completamente possível 
que, olhando para as estrelas e se conectando com a inteligência que nelas 
existe, formando uma conexão direta com esses astros e os espíritos, um
Z6 A TÍSICA DOS ANJOS
pouco de sua influência e inspiração possa ser transmitido para quem está 
conscientemente se abrindo para elas. Certamente, as pessoas já acreditavam 
nisso há tempos.
As implicações dessa tradição são surpreendentes. Quando olhamos 
para as estrelas, podemos considerar não apenas a possibilidade de que al­
gumas tenham à sua volta planetas habitados por seres vivos, algo que eu 
considero muito provável, mas podemos pensar também que as próprias 
estrelas podem ter um tipo de vida, de inteligência ou de espírito.
As estrelas estão organizadas em unidades maiores, as galáxias, sendo 
que cada uma destas tem bilhões de estrelas e núcleos galácticos em seu 
centro com propriedades desconhecidas. Existem bilhões de galáxias nos 
céus, e pode ser que exista uma inteligência governante para cada uma delas. 
E as galáxias geralmente se apresentam em grupos que, por sua vez, podem 
ter um espírito organizador.
Assim, podem existir hierarquias de inteligências organizadoras. Os 
agrupamentos galácticos incluem galáxias; as galáxias incluem sistemas so­
lares; e os sistemas solares incluem os planetas. E, em cada nível, há uma 
totalidade que é incluída dentro de um nível mais amplo de totalidade. En­
tão temos muitos níveis de organização, que podem ser associados com al­
gum tipo de inteligência ou mente.
No SETI - busca por inteligência extraterrestre [searchfor extraterrestriál 
intdligence}, programa que alguns cientistas adoram debater, as discussões 
geralmente se concentram na possibilidade de seres inteligentes de outros 
planetas transmitirem sinais por rádio matematicamente significativos, como 
a seqüência de números primos, e de que, a partir desses sinais, poderemos 
inferir a existência de seres inteligentes tentando se comunicar conosco.4 
Mas é possível que a comunicação com outras formas de inteligência seja 
muito mais direta. Pode não depender de transmissões por rádio. Pode não 
precisar de naves espaciais. Pode não depender de OVNls, O contato mental 
direto com essas inteligências celestiais pode ser possível por meio de um 
tipo de telepatia.
MATTHEW: Para mim, não restam dúvidas de que civilizações anteriores 
conheciam muito mais sobre comunicação a longa distância sem tecnologia
Introdução 27
do que a nossa. Isso também está na doutrina de alguns santos ocidentais, 
que eram médiuns.
RUPERT: E a tecnologia pode ser muito limitada na comunicação com 
inteligências em outras partes do universo. O programa SETI, criado pelo 
governo norte-americano, mostra claramente essa limitação. Acredita-se que 
os habitantes de um planeta distante transmitiriam sinais de rádio de tipo 
matematicamente significativo na esperança de encontrar espécies inteligen­
tes em algum outro lugar do espaço. Isto é o que o astrônomo Timòthy 
Ferris chamou de cenário solitário: “Espécies tecnicamente proficientes e 
solitárias procuram a mesma coisa. Objetivo: comunicação”.5
Mesmo que recebêssemos e reconhecêssemos tais mensagens de um 
planeta próximo, a comunicação seria muito lenta. A estrela mais próxima 
está cerca de 4,2 anos-luz de distância. Então, mesmo que respondêssemos 
imediatamente, demoraria 8,4 anos entre o envio da mensagem e o recebi­
mento da resposta. Nossa galáxia está a 100 mil anos-luz de distância, então 
demorariam 100 mil anos para que as mensagens de rádio fossem transmi­
tidas de um lado da galáxia a outro, e 200 mil anos até que uma resposta 
fosse recebida. Que civilização teria um tempo de vida e um sistema de re­
gistro adequados para se comunicar em períodos como esses? E quanto à 
comunicação com habitantes de planetas em outras galáxias, impossível! A 
galáxia mais próxima da nossa, Andrômeda, está a 1,8 milhão de anos-luz, 
o que significa que as respostas demorariam 3,6 milhões de anos para che­
gar. Para galáxias distantes mais de 1 bilhão de anos-luz, as respostas demo­
rariam dois bilhões de anos.
Se a transmissão de pensamentos pode acontecer mais rapidamente 
que a velocidade da luz, então a pergunta a respeito da comunicação inte- 
restelar e intergaláctica torna-se bem diferente, bem como quando alarga­
mos nosso pensamento sobre inteligências em outros lugares do cosmo. Em 
vez de voltarmos nossa atenção para a mente de organismos biológicos, 
como nós mesmos, vivendo em civilizações tecnológicas, podemos explorar 
a possibilidade de os planetas, as estrelas, as galáxias e os agrupamentos de 
galáxias terem também uma espécie de consciência. É aqui que o entendi­
mento tradicional e a experiência das inteligências cósmicas podem nos aju-
28 A FÍSICA DOS ANJOS
dar, principalmente a angelologia de Dionísio, o Areopagita, Hildegarda de 
Bingen e Tomás de Aquino.
Pensemos, por exemplo, na possibilidade de o Sol ser consciente. Essa 
idéia não é muito fora da realidade, principalmente se levarmos em conta as 
suposições materialistas estandardizadas da ciência ortodoxa. Os materialis­
tas acreditam que nossa atividade mental está associada a padrões eletromag­
néticos complexos. Esses padrões de atividade eletromagnética são geralmen­
te tomados como interface entre a consciência e a atividade física em nossos 
cérebros. Espera-se que, de alguma forma, a consciência surja desses pa­
drões. Mas os padrões eletromagnéticos complexos em nossos cérebros são 
nada em comparação à complexidade de padrões eletromagnéticos no Sol.
O Sol é uma bola de fogo de plasma acionada por reações de fusão 
nuclear. Um plasma é um gás ionizado, e é altamente sensível a influências 
elétricas e magnéticas. O Sol é o palco de padrões extremamente complexos 
e rítmicos de atividade eletromagnética, com um ciclo subjacente de 22 anos 
de duração, aproximadamente. A cada onze anos, a polaridade magnética do 
Sol se inverte: seu pólo magnético norte muda para o sul, ou vice-versa; 
depois de mais onze anos, os pólos retornam a suas posições originais. Essas 
trocas correspondem a ciclos de atividade solar, com. grande irradiação na 
superfície do Sol. Essa inversão de polaridade está relacionada aos ciclos 
harmônicos complexos de vibração, rodopiando padrões ressonantes de ati­
vidade eletromagnética.
Se as pessoas estão preparadas para admitir que nossa consciência está 
associada a esses padrões eletromagnéticos complexos, por que o Sol não 
poderia ter consciência? O Sol pode pensar. Sua atividade mental pode estar 
associada a eventos eletromagnéticos complexos e mensuráveis tanto em sua 
superfície quanto mais profundamente, em seu interior. Se existe uma rela­
ção entre nossa consciência e os padrões eletromagnéticos complexos e di­
nâmicos em nossos cérebros, não vejo motivo para negar a possibilidade 
dessa ligação em outros casos, especialmente o Sol.
E, se o Sol é consciente, por que as outras estrelastambém não o seriam? 
Todas as estrelas podem ter atividade mental, vida e inteligência associadas a 
elas. E era nisso exatamente que as pessoas acreditavam no passado - que as 
estrelas são as moradas das inteligências, e essas inteligências são anjos.
Introdução 29
MATTHEW: Fico surpreso ao ouvi-lo dizer isso. Você está se arriscando. 
Nunca o ouvi falar sobre o Sol e as estrelas dessa maneira antes. Mas idéias 
como essa teriam muitas implicações em termos de devoção. Por exemplo, 
precisamos estabelecer nossos ciclos de oração no contexto desse universo 
vasto, vivo, complexo e maravilhoso. Hoje, temos a eletrônica para fazer isso. 
Para tirar a adoração das mãos de pequenos livros e colocá-la novamente na 
cosmologia. Então os anjos estarão presentes na devoção mais uma vez.
O anjo que tem algo a ver com a incrível inteligência do Sol tem de 
estar lá. Em nossa adoração, devemos estar verdadeiramente alertas para o 
senso de admiração - e admiração incluir terror. O universo é nosso lar, e 
tudo sobre o que estamos falando é nosso lar. Esse é o templo de Deus; é o 
lar de Deus.
Os anjos geralmente são vistos como seres de luz refletindo a lumino­
sidade do ser divino. Sei que você ficou surpreso ao ler a afirmação de Tomás 
de Aquino de que os anjos se movem de um lugar a outro sem lapso de 
tempo. Você disse que isso o fazia lembrar o pensamento de Einstein sobre 
a luz. E quanto à idéia de ver os anjos como fótons, portadores de luz?
RUPERT: Quando Aquino discute a respeito de como os anjos mudam 
de lugar para lugar, esse pensamento tem um extraordinário paralelo com as 
teorias quântica e da relatividade. Os anjos são quantizados; ou você encon­
tra um anjo íntegro ou não encontra nenhum; eles se movem como unidades 
de ação. Você só pode detectar a presença deles por meio da ação; são quan- 
tum de ação. E, apesar de acreditarmos que o tempo continua enquanto eles 
se movem de um lugar para outro, do ponto de vista dos anjos esse movi­
mento é instantâneo, o tempo não passa. É justamente como a descrição de 
Einstein a respeito do movimento de um fóton de luz. Apesar de nós, como 
observadores externos, podermos medir a velocidade da luz, do ponto de 
vista da luz em si, o tempo não passa enquanto ele se move. Não fica mais 
velho. Temos luz há 15 bilhões de anos, aproximadamente, desde o Big 
Bang, na forma de radiação cósmica de fundo em microondas. Depois de 
todo esse tempo, ela ainda existe, e ainda é forte.
Assim, a física moderna guarda paralelos notáveis com as doutrinas 
tradicionais sobre anjos, e eu acredito que a correspondência exista porque 
os mesmos problemas estão sendo considerados. Como algo sem massa, sem
30 A FÍSICA DOS ANJOS
corpo, sem capacidade de ação se move? Os anjos, de acordo com Aquino, 
não têm massa, não têm corpo. E o mesmo acontece com os fótons: eles não 
têm massa, e você só pode detectá-los por meio de suas ações.
MATTHEW: Isso quer dizer que os fótons são imortais?
RUPERT: Sim, enquanto eles estiverem se movendo à velocidade da luz, 
de um lugar para outro. Mas, quando agem, são extintos por meio de sua 
ação, por isso, nesse sentido, eles chegam a um fim; passam sua energia 
enquanto agem. Isso, acredito eu, os torna diferentes dos anjos.
Apesar de existirem paralelos entre a física moderna e as idéias medie­
vais sobre os anjos, o aspecto da ciência moderna que mais suscita perguntas 
interessantes é a teoria da evolução. Na Idade Média, a natureza era tida 
como estática: o cosmo, a terra e as formas de vida existentes sobre ela não 
eram vistos como corpos em desenvolvimento.
Na biologia, a idéia de evolução foi inicialmente proposta, em termos 
científicos, em 1858, por Darwin e Wallace. Na física, a idéia da evolução 
cósmica tornou-se ortodoxa no final dos anos 1960, como consequência da 
teoria do Big Bang sobre a origem do universo. Agora, vemos tudo como 
evolucionário na natureza. Isso significa que existe uma criatividade contí­
nua em todos os seus domínios. Seria tudo isso uma questão fortuita, como 
os materialistas acreditam? Ou será que existem inteligências orientadoras 
trabalhando no processo evolucionário?
Até onde sei, uma das primeiras pessoas a explorar essa possibilidade 
foi Alfred Russel Wallace. Depois que ele e Darwin publicaram a teoria da 
evolução pela seleção natural, Darwin desenvolveu um materialismo som­
brio, que agora atravessa o pensamento neodarwinista, a doutrina ortodoxa 
da biologia acadêmica. Toda a evolução deve ter acontecido por acaso e por 
meio de leis da natureza inconscientes, sem qualquer sentido ou objetivo.
Em contrapartida, Wallace chegou à conclusão de que a evolução 
abrangia mais do que a seleção natural, e que era guiada por inteligências 
criativas que ele identificava com anjos. Sua idéia foi resumida no título de 
seu último livro, The world o f life: a manifestation o f Creative power, directive 
mind and ultimate purpose [O mundo da vida: uma manifestação do poder cria­
tivo, da mente diretiva e do propósito fin a l]6. Hoje, ouvimos muito a respeito 
de Darwin, mas pouco sobre Wallace. Fico fascinado em saber que esses
Introdução 31
conceitos tão diferentes de evolução foram expressos pelos dois fundadores 
da teoria evolucionária; eles mostram, que a evolução pode ser interpretada 
de maneiras bem distintas. Se o indivíduo for materialista, a criatividade 
evolucionária pode ser apenas uma questão de acaso. Mas, se ele acredita 
que há outras forças ou inteligências no universo, então existem outras fon­
tes possíveis de criatividade, quer ele as chame de anjos ou não.
Isso levanta um problema com o qual Aquino e outros pensadores me­
dievais não tinham de lidar, ou seja, o papel dos anjos na evolução. Por 
exemplo, à medida que novas galáxias aparecem, supõe-se que os anjos de­
signados para governar cada uma delas passem a existir junto com o surgi­
mento desses sistemas estelares, a menos que todos os anjos lá estejam espe­
rando para se manifestar no momento do Big Bang.
MATTHEW: E talvez os anjos sejam reciclados, como aqueles que pro­
tegiam os dinossauros; caso contrário, estariam sem trabalho há 60 milhões 
de anos.
RUPERT: Essas são questões inconcebíveis na Idade Média. Nossa cos­
mologia evolucionária tem muito mais espaço para os anjos.
MATTHEW: Sim. Eu tenho a forte sensação de que, à medida que a cos­
mologia viva voltar, os anjos voltarão, porque eles fazem parte de qualquer 
cosmologia sensata. Talvez os anjos tragam para nossa cultura um pouco da 
imaginação que estamos precisando.
Em meu livro A vinda do cristo cósmico7, criei o termo “ecumenismo 
profundo”. Para mim, ecumenismo profundo vai além do relacionamento 
formal entre as religiões do mundo em termos de doutrina e estudos teoló­
gicos; significa participar mais efetivamente em suas tradições místicas e 
realizar orações e rituais juntos.
Todas as tradições religiosas que conhecemos têm algo para dizer sobre 
anjos, espíritos outros que não seres humanos. Buck Ghosthorse, um pro­
fessor espiritual lakota, certa vez me disse: “O que vocês, cristãos, chamam 
de anjos, nós, índios, chamamos de espíritos”. Este é um consenso a partir 
do qual todas as tradições religiosas podem caminhar juntas atualmente, 
em ecumenismo profundo. Os anjos não são rotulados budistas, muçulma­
nos, hindus, luteranos, anglicanos e católicos romanos; eles estão acima 
das denominações.
3 2 A FÍSICA DOS ANJOS
Claramente, os anjos serão parte do movimento de ecumenismo pro­
fundo. Estamos vivendo em um momento histórico em que nós, enquanto 
espécie, temos de perguntar: o que temos em comum? Os limites entre cul­
turas e religiões estão se desfazendo. Isso toma importante travarmos uma 
séria discussão a respeito de nossa tradição de anjos no Ocidente, não por 
jingoísmo, mas para conhecermos nossa própria tradição bem o suficiente 
para que, quando encontrarmosanjos e espíritos de outras tradições, não 
nos sintamos ameaçados por eles. Para que possamos, em vez disso, procu­
rar elos em comum, as verdades comuns entre as tradições.
As tradições xamanistas do mundo são especialmente importantes em 
nossa busca por sabedoria hoje. Os povos indígenas viveram, e sobreviveram 
por milhares de anos em meio a adversidades tamanhas, como animais sel­
vagens e condições climáticas extremas; eles tiveram de descobrir maneiras 
de criar uma comunidade, de curar, de educar e de aprender. Há aqui uma 
tremenda sabedoria que foi quase perdida, mas não completamente, e tem 
tudo a ver com espíritos e anjos. Quando oro com índios norte-americanos, 
sinto vestígios disso tudo, indícios que preenchem um vazio em minha pró­
pria experiência religiosa. Nossos ancestrais celtas também tiveram uma te­
ologia bem desenvolvida a respeito de anjos e espíritos guardiões.
RUPHRT: Sim. A consciência dos espíritos não-humanos é fundamental 
para a experiência religiosa de quase toda tradição, talvez desde o momento 
em que nos tomamos humanos. Esse pode ser o ponto fundamental da ex­
periência religiosa. A consciência dos espíritos vem antes da idéia de um 
único Deus. É significativo que, nas tradições cristã, judaica e islâmica, as­
sim como na hindu e na budista, haja a presença constante de uma varieda­
de de espíritos. Mesmo na mais monoteísta das fés, o islamismo, não encon­
tramos uma negação aos anjos. Essa antiga propensão da experiência 
religiosa não é negada, mas amplificada pela recente evolução das religiões.
MATTHEW: Mas temos um momento na história da humanidade em que 
esses espíritos foram excomungados, e isto aconteceu nos últimos séculos, 
na Era Moderna. Isso mostra que uma incrível ruptura e uma perversão 
ocorreram na consciência humana ao longo dos últimos séculos, enquanto 
ensaiávamos o divórcio de nossa relação com anjos e espíritos. Acredito que 
isso ajude a explicar o preço que pagamos em termos de desastre ecológico,
Introdução 33
guerra e ganância. Talvez a secularização definitiva de nossas relações esteja 
em banir os anjos para a esfera do ridículo ou do sentimentalismo.
r u p e r t : Ou reduzi-los a meras manifestações de nossa psique. Hoje, 
muitas pessoas diriam: “Tudo bem, as pessoas têm experiências com anjos. 
Mas são apenas produtos de sua imaginação. Os anjos não existem por aí; 
eles são subjetivos, habitam a mente das pessoas”.
Não é difícil para as pessoas aceitarem a existência subjetiva dos anjos. 
O grande desafio é reconhecer a existência objetiva de inteligências não-hu­
manas, e é esse o desafio que enfrentamos agora.
MATTHEW: Também acho que deveríamos estender o ecumenismo pro­
fundo para a ciência em si. Quais as implicações para a ciência atual em re- 
descobrir a rica, profunda e ampla compreensão dos anjos que herdamos 
das tradições ocidentais, como as representadas por Dionísio, Hildegarda e 
Aquino?
RUPERT: Isso é muito importante, porque o que a ciência agora nos re­
vela está muito além do que qualquer tradição do passado já foi capaz de 
vislumbrar. Eles não tinham telescópios ou radio telescópios, nem o senso de 
vastidão do universo revelado pela ciência, nem o conhecimento de uma 
variedade de corpos celestes ou da história da evolução cósmica. À medida 
que abandonamos o antigo universo mecanizado e adotamos um sentido 
mais orgânico de natureza em desenvolvimento, precisamos perguntar que 
tipo de consciência existe no universo além da nossa.
DionísiOj o A r top agita
D ionísio vlvCU no século VI, provavelmente na Síria. Durante mui­
tos séculos, foi erroneamente identificado com Dionísio, o Areopagita, con­
vertido por São Paulo em Atenas (Atos dos Apóstolos 17,34). Ele costuma 
ser chamado, mais corretamente, de Dionísio, o Pseudo-Areopagita, ou, 
simplesmente, Pseudo-Dinis. Essa confusão deu a seus textos grande auto­
ridade até o século XVI, e sua influência na teologia ortodoxa e ocidental tem 
sido enorme.
Profundamente influenciado pelo filósofo neoplatônico Proclo (411- 
485), Dionísio combina neoplatonismo e cristianismo em seus quatro princi­
pais livros: As hierarquias celestiais, Hierarquia eclesiástica, Nomes divinos e Te­
ologia mística. Em As hierarquias celestiais, discute extensamente as nove 
ordens dos anjos como mediadores de Deus para a humanidade, e é desse 
livro, que tem sido tão influente na angelologia cristã, que a maioria das pas­
sagens que se seguem é retirada. Ele jã foi chamado “monofisista moderado” 
em sua teologia, sendo o monofisismo a doutrina herege que nega o lado 
humano do Cristo na Encarnação. Mas, em 649, o Concílio Laterano recorreu 
a seus trabalhos para combater os pensadores monofisistas mais extremos, e 
esta invocação de suas obras por um concílio da igreja ajudou a abrilhantar a 
autoridade doutrinal de seus ensinamentos. Porquanto explica detalhada e
36 A FÍSICA D 05 ANJOS
largamente as nove ordens a que São Paulo faz apenas leve referência, sua 
angelologia acabou influenciando enormemente a teologia cristã.
A muítipíicicfacíe cios anjos
A tradição escriturística relativa aos anjos atribui a eles os nú­
meros de milhares e milhares e dez mil vezes dez mil, multipli­
cando e repetindo os números mais elevados que nós conhece­
mos, revelando claramente que as Ordens dos Seres Celestiais 
são incontáveis; muitos são os abençoados Acolhedores das In­
teligências Supramundanas, ultrapassando totalmente o frágil e 
limitado alcance de nossas medidas.1
MATTHEW: Dionísio fala sobre os anjos no contexto da vastidão do cos­
mo e diz que os números são incontáveis. Séculos mais tarde, Mestre Eckhart 
afirmaria que o número de anjos ultrapassa os grãos de areia da Terra. Então 
estamos falando de uma enorme variedade, um grande desafio à nossa ima­
ginação. Vã além dos números que você conhece - continue adicionando 
zeros para ter uma idéia dos números angelicais.
RUPERT: Já que grandes números são geralmente chamados astronômi­
cos, isso nos faz lembrar a óbvia relação com as estrelas. Reconhecemos o 
cosmo repleto de inúmeras galáxias, com cada uma contendo bilhões de 
estrelas. Quando olhamos para o céu à noite, vemos apenas as estrelas de 
nossa galáxia, sendo a Via Láctea a principal parte dela. Se os anjos estão 
conectados às estrelas, então teríamos, literalmente, um número astronômi­
co de anjos.
MATTHEW: N úm eros astronôm icos e seres astronôm icos.
RUPERT: Sim. E, se também pensamos nos anjos como entidades conec­
tadas a todos os tipos de seres na natureza, então temos de considerar as 
milhares de espécies biológicas na Terra, e provavelmente bilhões de outros 
planetas ao redor de outras estrelas e galáxias. Logo, esses planetas mesmos 
são organismos, assim como o nosso, Gaia. O grande número de formas de
Dionísio, o Areo-pagita 37
organização na natureza confunde nossa imaginação, tal como Dionísio afir­
ma a respeito do número de anjos.
MATTHEW: Parece apropriado, nesse contexto, voltarmo-nos para um 
dos assuntos favoritos de Dionísio, a hierarquia. Na verdade, ele parece ter 
inventado essa palavra em seu livro As hierarquias celestiais.
Hierarquias, campos e íuz
Em minha opinião, hierarquia é uma ordem sagrada, um saber 
e uma ação que, tanto quanto possível, participa da semelhança 
divina e se ergue para as iluminações emanadas por Deus; cor­
relativamente, inclina-se à imitação de Deus.
Agora, a beleza de Deus, ser unificador, bondoso e fonte de 
toda a perfeição, está totalmente isenta da dessemelhança, e der­
rama sua própria luz sobre cada um conforme seu merecimento; 
e os mistérios mais divinos os aperfeiçoa de acordo com a con­
figuração imutável daqueles que estão sendo harmoniosamente 
aperfeiçoados.
O objetivo da hierarquia é a maior assimilação possível e a 
união com Deus, e tomá-lo como guia em toda a sabedoria sa­
grada para se tornar como ele,até quanto for permitido, con­
templando atentamente sua beleza divina. Isso também molda e 
aperfeiçoa seus integrantes em relação à imagem sagrada de 
Deus, como espelhos claros e imaculados que recebem os raios 
da divindade suprema, que é a fonte de luz; e sendo misticamen- 
te tomados pelo dom da luz, esta irradia sucessiva e abundante­
mente, de acordo com a lei divina, sobre aqueles que estão abai­
xo na escala hierárquica. Pois não é lícito para aqueles que 
comunicam ou participam nos mistérios sagrados ultrapassar os 
limites de suas leis sagradas; nem devem se desviar deles se pro­
curarem contemplar, na medida do que for permitido, esse es­
plendor divino, e ser transformados na semelhança daquelas 
inteligências divinas.
38 A FÍSICA DOS ANTJOS
Portanto, aquele que fala de hierarquia sugere certa ordem sa­
grada à semelhança da beleza divina primordial, que ministra o 
sagrado mistério de sua própria luz na ordem e na sabedoria 
hierárquicas, estando em conformidade com seus princípios.
Cada um daqueles para quem está designado um lugar na 
ordem divina encontra sua perfeição em ser elevado, de acordo 
com sua capacidade, em direção à semelhança divina; e o que é 
ainda mais divino, ele se torna, como dizem as Escrituras, um 
cooperador de Deus, e espelha daí em diante, o quanto possível, 
a atividade divina revelada nele mesmo. Para a constituição sa­
grada da hierarquia, determina-se que alguns sejam purificados, 
outros purifiquem; alguns sejam iluminados, outros iluminem; 
alguns sejam aperfeiçoados, outros pratiquem a perfeição; as­
sim, a imitação divina servirá a cada um .2
RUPERT: O que Dionísio diz aqui está relacionado ao conceito neopla- 
tônico das emanações do Único, a fonte da qual as coisas fluem. A idéia de 
uma cadeia de ser foi muito importante no mundo antigo e continuou sendo 
um tema comum na literatura até os tempos modernos. Existe uma fonte de 
ser, e, assim, cada categoria de ser abaixo dela torna-se mais e mais tênue 
quanto maior a distância descida até a matéria. Esta parece ser a base do 
pensamento neoplatônico de Dionísio. Você concorda?
MATTHEW: Sim, e acho que é difícil lidar com isso hoje em dia. A idéia 
de que tudo emana de uma fonte é boa; é certamente esta a imagem que tenho 
da história da criação - tudo começando com uma fagulha minúscula da bola 
de fogo. Mas a idéia de que os seres têm de estar distantes da matéria para se 
tornarem espirituais é, em minha opinião, um dos grandes enganos cometi­
dos pelo pensamento helenístico, e se arrisca a todo tipo de dualismo.
Também acredito que exista uma outra implicação em seu modo de se 
expressar, por exemplo, em sua máxima do “ser elevado”. A idéia de irradiar 
de cima para baixo parece menosprezar o que está embaixo, seja a terra em 
que pisamos ou os chakras mais baixos de nossa natureza. Existem proble­
mas inerentes ao neoplatonismo com os quais não me sinto à vontade. A
DionísiOj o Areopagita 39
união da energia na matéria e do espírito na matéria em nosso século conse­
guiu desfazer os enganos baseados no dualismo matéria contra espírito.
Mas a maneira com que Dionísio descreve a hierarquia é interessante 
- uma ordem sagrada, um saber e uma ação participando na semelhança 
divina e, é claro, replicando em direção a uma imitação de Deus. Esse tipo 
de compreensão é útil.
E é interessante que sua próxima definição de hierarquia envolva a 
beleza de Deus. O dom primordial a que ele se refere como fluindo da fonte 
é a beleza e a luz. Para ele, a beleza é luz. Eu acho isso maravilhoso. Acredi­
to que o resgate da beleza como sendo outro nome para o divino é muito 
importante hoje. Está por trás da paixão por ecojustiça, por exemplo. A 
beleza é uma das grandes fontes de energia que temos como indivíduos, e 
nossa experiência de beleza é o que partilhamos como espécie.
RUPERT: Mas não há um problema com a imagem de Deus como fonte 
de luz? Isso implica dizer que o homem tem a fonte mais brilhante em cima, 
e, na medida em que se afasta, vai-se mesclando com a escuridão, e então a 
escuridão se torna outra forma neoplatônica de concepção da matéria.
MATTHEW: Exatamente.
RUPERT: A escuridão, nessa perspectiva, não é parte do divino; é um 
princípio negativo. Mas, se tomarmos a escuridão e a luz como princípios 
polares contidos no divino, então teremos uma visão diferente. Teremos 
tanto uma visão inferior/para cima como uma visão superior/para baixo. 
Entendemos que a intermistura de luz e matéria, o fluxo descente de uma 
fonte brilhante, não é totalmente negativo, nem uma dissolução de qualquer 
princípio divino primário.
MATTHEW: Passei por essa experiência quando fiquei acordado um a 
noite in teira na floresta e p erceb i que a n oite não é apenas a au sência de sol; 
ela tem sua p rópria energia. A escuridão se estabelece, e tem energia e poder 
próp rios. E isso está perdido na visão neoplatônica das coisas, que despreza 
a matéria, despreza a escuridão e despreza o “abaixo”.
Mestre Eckhart diz: “Em cima é abaixo e abaixo é em cima”, e isso é 
muito mais contemporâneo. Para Buckminster Fuller, qualquer pessoa 
que use as expressões em cima e abaixo está 400 anos atrasada, pois em
40 A FÍSICA DOS ANJOS
um u n iv erso en cu rv ad o as co isas e n tra m e saem , m as n ão vão para cim a 
e para b a ixo .
Por isso, acredito que a idéia alpinista da escada de Jacó, o arquétipo 
absoluto da escalada, pode ser uma fuga da matéria - mater, mãe, matéria, a 
Terra. Isso faz parte da visão hierárquica do mundo que o neoplatonismo dá 
como certa, e não podemos nos sentir à vontade com. isso hoje.
Há também implicações políticas profundas. Por exemplo, esse texto 
contém uma afirmação, uma nota de rodapé, bastante perturbadora. É uma 
citação de Proclo, que foi um dos mais influentes filósofos neoplatônicos. “A 
peculiaridade da pureza é manter as naturezas mais excelentes isentas, tal 
como estão subordinadas”.
Essa definição de pureza diz para mantermos as mãos limpas em rela­
ção àqueles que estão abaixo de nós. Ela certamente estimularia eventuais 
tentações em considerar uma consciência em castas. Isso endossa a mentali­
dade intocável e, novamente, é o que distingue essa filosofia neoplatônica de 
Proclo, Plotino e Dionísio da tradição bíblica que honra as coisas mais sim­
ples da vida como sendo puras por direito próprio, bem-vindas no círculo 
de seres em que vivemos. Os aborígenes pensam em termos de círculo de 
seres, não de escada. Então, surge a pergunta: podemos mudar esse arquéti­
po da cadeia do ser para passarmos a compreendê-lo mais como um círculo 
ou uma espiral, e não como uma escada?
rupert: Acredito que sim. Mas também acho que existe valor nas ima­
gens “em cima/abaixo”. Quando olhamos para cima, vemos o céu. Olhar 
para os Céus é muito importante. Acredito que a maioria de nós, no mundo 
moderno, não olha para cima tanto quanto deveria. Nosso olhar é fixo na 
terra e nas coisas da Terra. Quase tudo o que compramos e vendemos vem 
da terra, assim como o dinheiro com que as compramos e vendemos. O Céu, 
o ambiente celestial, a potencialidade sem limites do espaço, a grande varie­
dade de seres celestiais, simplesmente não faz parte do nosso olhar.
MATTHEW: Efetivam ente, estam os o lhando para cim a ou para fora? Por 
exem p lo , se form os para u m lugar alto o su ficien te, digam os sobre um a 
m on tan h a ou desde u m avião ou satélite, sabem os que estam os olhando 
para fora, e é ju stam en te quando o universo se torna vasto. E m outras pala­
vras, só o lham os para fora dessa m aneira lim itada porque nossos o lhos não
DionísiOj o Areopagita 41
estão no topo da cabeça. É uma restrição anatômica termos de erguer a ca­
beça para vermos as estrelas. Mas nem sempre é assim. Quando há horizon­
tes - gosto dessa palavra, horizontes olhamos para fora, além da terra.E 
estou pensando agora sobre aquilo que chamam de grande céu, em Monta- 
na, onde realmente sentimos o horizonte lá fora, onde podemos ver o céu 
apenas olhando para a frente. E me lembro uma vez, em Dakota do Sul, 
saindo de uma tenda do suor*, e a Via Láctea estava totalmente em chamas: 
era possível ver todas as estrelas, mas elas passavam como um arco-íris des­
de a Terra, em um espaço curvo, voltando para a Terra de novo.
. Mas, como você diz, nas cidades as pessoas são forçadas a olhar para 
cima mais vezes, porque destruímos o horizonte. De qualquer forma, não 
deixo de concordar com sua idéia principal, porque é a vastidão do cosmo 
que estamos perdendo por causa da maneira como olhamos o mundo.
RUPERT: Concordo que olhar para fora é uma boa maneira de colocar a 
questão. E a melhor forma de olhar para as estrelas é deitando-se no chão. 
Assim, podemos olhar sem ter de virar o pescoço, e podemos realmente 
apreciar o céu. Imagino que os primeiros observadores das estrelas eram 
pessoas como os pastores, que dormiam a céu aberto.
Olhar para fora no horizonte também é uma perspectiva importante. A 
maioria dos megãlitos no mundo antigo, como o Stonehenge, foram obser­
vatórios para mirar o nascer e o pôr dos corpos celestiais no horizonte. Essas 
pedras dividiam o horizonte em arcos e regiões.
A idéia de hierarquia é importante em outro aspecto. Em qualquer vi­
são de mundo holística - por exemplo, a filosofia orgânica da natureza de 
Whitehead, ou a visão de mundo holística como ela tem se desenvolvido 
hoje dentro da ciência e da filosofia - a idéia essencial é que a cada nível de 
organização o todo é mais do que a soma das partes. A natureza é composta 
por uma série de níveis diferentes, e isso geralmente é chamado hierarquia. 
E é ainda mais apropriadamente denominado hierarquia aninhada, porque 
existem níveis dentro de níveis (veja a p. 21). Por exemplo, dentro de um 
cristal, considerado como um todo, existem moléculas. E cada uma das mo-
* No original, sweat lodge, uma espécie de sauna ritual sagrada utilizada em cerimônia xa- 
mânica de purificação, comum a diversas tradições indígenas das Américas, [n . do e .)
42 A FÍSICA DOS ANJOS
léculas dentro do cristal é ela mesma um todo formado por átomos, e cada 
átomo é um organismo próprio com núcleo e elétrons em órbita ao redor 
dele. Então, cada núcleo é um todo de si mesmo composto de nêutrons, 
prótons e forças que os mantém juntos, e assim por diante.
Vemos esses niveis múltiplos de organização em todos os lugares. Nos­
sos próprios corpos, por exemplo, são totalidades, contêm órgãos, tecidos, 
células, organelas e moléculas. E nós, como organismos individuais, somos 
parte de sistemas maiores; somos parte de sociedades, e as sociedades são 
como um organismo em um nível mais alto. E estão dentro de ecossistemas. 
E então há o planeta, Gaia, e o sistema solar, que é um tipo de organismo, e 
a galáxia, e então os grupos de galáxias.
Quando analisamos a natureza dessa forma, em todos os níveis encon­
tramos uma totalidade que é maior que a soma das partes, e essa totalidade 
inclui em si as partes. Não há como um planeta não pertencer a um sistema 
solar; precisa fazer parte dessa totalidade maior. Até onde sabemos, não há 
sistemas solares separados de galáxias. É mais ou menos como a cidade de 
São Francisco pertencer aos Estados Unidos: os Estados Unidos são maiores 
do que São Francisco; mas os Estados Unidos, por sua vez, são apenas uma 
parte do continente americano.
Estamos familiarizados com esse padrão de organização em todos os 
sentidos - geograficamente, na maneira como a natureza é constituída, e 
mesmo na maneira como nossa linguagem é organizada, com fonemas em 
sílabas, silabas em palavras, palavras em frases, frases em parágrafos. Tudo 
isso são hierarquias aninhadas.
Outro termo para hierarquias aninhadas foi sugerido por Arthur Koes- 
tler: holarquia. Ele preferiu a palavra holarquia porque fugia da conotação de 
regra sacerdotal.
As hierarquias aninhadas ou holarquias da natureza nos ajudam a en­
tender as idéias de Dionísio. Podemos entender as hierarquias angelicais 
nesse sentido exclusivo. Por exemplo, alguns anjos conseguiam se corres­
ponder com os anjos das galáxias; outros, com os anjos do sistema solar e 
outros, ainda, com os anjos dos planetas. É realmente assim que as hierar­
quias celestiais eram frequentemente descritas, em uma série de esferas 
concêntricas.
Dionísio, o Areop agita 43
MATTHEW: Também penso se tratar de um relacionamento de três di­
mensões. Se o indivíduo tomar as hierarquias em duas dimensões, a partir 
de uma escada, ficará preso àquela concepção dominante e dominadora. 
Mas, se ele concebê-las como esferas dentro de esferas, elas não estarão 
estáveis umas sobre as outras, apresentando uma ou outra disposição; elas 
terão seu próprio espaço e configuração.
Um ponto que gostaria de enfatizar na explicação de Dionísio a respei­
to da hierarquia é seu comentário sobre cada ser, “conforme sua capacida­
de”, participar da ordem e da semelhança divinas e “se tomar, de acordo com 
as Escrituras, um cooperador de Deus, demonstrando assim sua ação divi­
na”. Ele diz que a hierarquia é uma ordem santa, um saber e uma ação. A 
ação flui dessa participação na beleza, e ser um cooperador de Deus é, como 
ele diz, uma imitação divina. Acho que isso dá uma dimensão dinâmica para 
seu senso de hierarquia.
Gosto muito do termo “holarquia”. A palavra hierarquia carrega tanto 
peso - talvez muito mais do que Dionísio pretendeu - que é preciso buscar 
outras designações. Opressão política, dentre outras coisas, está nela incluí­
da. Na verdade, acredito que a melhor parte da palavra hierarquia é “hier”. 
Em inglês, quando a maioria das pessoas escuta a palavra hierarquia, a asso­
cia a alto; àqueles que estão no topo, explorando os que estão embaixo. Mas 
certamente não é isso; híeros é um termo grego e significa sagrado. É porque 
perdemos o senso do sagrado no Céu e na Terra que estamos envolvidos 
nesse problema.
RUPERT: Gosto de holarquia porque, na verdade, hier não quer dizer 
apenas sagrado, mas santo; e “santo”, em inglês [holy] , tem a mesma raiz que 
“todo” [whole]. Assim como em grego, holos remete a uma totalidade.
MATTHEW: Outra frase forte que ele usa aqui é “[Beleza divina] molda e 
aperfeiçoa seus integrantes em relação à imagem sagrada de Deus, como 
espelhos claros e imaculados que recebem os raios da divindade suprema, 
que é a fonte de luz”.
Hildegarda de Bingen diz que toda criatura é cintilante, um espelho 
resplandecente de divindade. Esta é a tradição, uma tradição maravilhosa. 
Deus olha para nós como em um espelho e vê a Si próprio. Somos espelhos 
divinos. E é claro que os espelhos precisam de luz. Um espelho no escuro não
4 4 A FÍ5ÍCA D 05 ANJ05
funciona como espelho. Os espelhos são carentes; eles têm que receber. Esse 
tema dos espelhos ao qual ele se refere é muito comum na tradição mística; 
na verdade, o termo “misticismo especulativo” tem a ver com misticismo do 
espelho. A palavra latina para espelho é speculum. Dionísio está dizendo que 
as coisas são espelhos de divindade. Não tem a ver com especulação e com 
transformar o misticismo em um ato filosófico de racionalização. Tem a ver 
com encontrar a imagem do espelho nas coisas. Tudo espelha Deus.
Os anjos, então, têm um poder especial de espelhamento. Talvez sejam 
como os sofisticados espelhos no telescópio Hubble. Houve um rápido 
avanço na arte humana de produzir espelhos, e isso tem sido muito impor­
tante para iluminar nossos telescópios e compreender mais o universo. E o 
espelho é uma invenção tecnológica maravilhosa. Gostaria de saber quem 
criou o primeiro espelho. Imagino como as pessoas ficaram chocadas ao 
olhar para ele.
RUPERT: Eu pensei que os prim eiros esp elhos tivessem sido as lagoas, 
como no mito de N arciso.MATTHEW: Espelhos naturais. Talvez o primeiro espelho contivesse uma 
pequena quantidade de água ao redor. Isso é bom.
RUPERT: Continuando com. a idéia de hierarquia, algo importante a res­
peito da organização das holarquias naturais é que elas podem ser pensadas 
como níveis de organização por campos. Chamo esses campos de mórficos, 
os campos que determinam a forma e a organização do sistema. Podemos 
pensar em uma galáxia como tendo seu campo; em um sistema solar como 
tendo seu campo; e em um planeta como tendo seu campo. Os níveis de 
organização inclusiva também são níveis de campos inclusivos. Mesmo sem 
minha teoria a respeito dos campos mórficos, ainda temos a idéia de um 
campo gravitacional galáctico, do campo gravitacional solar que abrange 
todo o sistema solar e faz os planetas girarem ao redor do Sol, e do campo 
gravitacional da Terra mantendo-nos a todos na Terra e fazendo a Lua mo­
ver-se na sua órbita. Também existem os campos magnéticos da galáxia, do 
Sol e da Terra, e seus campos elétricos relacionados. Mesmo se apoiássemos 
as concepções limitadas sobre campos até então disponibilizadas pela ciên­
cia, perceberíamos a existência de hierarquias aninhadas de campos, ou uma 
holarquia de campos.
Dionísio, o Areof agita 45
O mesmo acontece com os campos eletromagnéticos no interior de um 
cristal: dentro do campo do cristal estão os campos moleculares; dentro 
destes, os campos atômicos, os campos dos elétrons e o núcleo atômico. 
Esses não são apenas campos eletromagnéticos, mas campos de matéria 
quântica.
A concepção moderna de campos tem substituído, de várias maneiras, 
a concepção tradicional das almas como entidades organizadoras invisíveis. 
Até o século XVII, mesmo a eletricidade e o magnetismo eram descritos em 
termos de almas, estendendo-se invisivelmente além do corpo magnética ou 
eletricamente carregado e capaz de atuar a distância.
Os campos são uma forma contemporânea de pensar a respeito dos 
princípios organizadores invisíveis da natureza. Historicamente, esses prin­
cípios organizadores invisíveis eram vistos como almas. A alma do universo, 
o anima mundi, tem sido substituída pelo campo gravitacional. A alma mag­
nética tem sido trocada pelo campo magnético, e a alma elétrica, pelo campo 
elétrico. As almas vegetativas de plantas e animais, as almas organizadoras 
do crescimento do embrião e do corpo têm sido trocadas na moderna bio­
logia desenvolvimentista pelos campos morfogenéticos. A alma animal pode 
ser substituída pelos campos do instinto e do comportamento, e nossa ativi­
dade mental pode ser entendida em termos de campos mentais.
MATTHEW: Deixando de lado a idéia de que a alma está no corpo, vamos 
simplesmente dizer que o corpo está na alma. A que distância, quão próximos 
do horizonte nossos campos de alma podem vagar? Em outras palavras, nos­
sos pensamentos, nossas esperanças, nossos sonhos, nossas paixões, nosso 
conhecimento? De alguma maneira, tudo sobre o que estamos falando está 
encapsulado em nosso campo de alma. Só podemos falar sobre o que sabemos 
ou sobre o que imaginamos que sabemos, e assim nossos campos, ou seja, 
nossas almas, estão crescendo de varias maneiras, conforme alcançamos os 
perímetros do universo. Então, podemos dizer que há um despertar do cam­
po humano. Estamos renunciando à pequenez da alma circunscrita à glându­
la pineal ou ao córtex cerebral que a Era Moderna dispensou a ela enquanto 
dinâmica “encapsuladora”, a consciência de tudo que podemos saber.
RUPERT: Eu con cord o . Acredito que nosso conhecimento não se disten­
de de nosso cérebro para incluir aquilo que percebemos, aquilo que experi-
46 A FÍSICA DOS ANJOS
m entam os e aquilo sabem os. N ossos cam p os m entais são m uito m ais vastos 
que nosso cérebro e, con form e nossas co n cep çõ es se am pliam e se esten ­
dem , con form e nosso senso do cosm o se alarga, nossos cam pos se to m am 
cósm icos p o r extensão.
Na m edida em qu e co n ceb em os os an jos com o holarqu icam ente orga­
nizados, talvez possam os vê-los com o associados a cam pos de an jos. O s 
p róprios an jos poderiam ser pensados com o um a m anifestação singular da 
atividade desses cam pos, assim com o os fótons são u m m eio particu lar de se 
pensar a atividade, a energia, carregada nos cam pos eletrom agnéticos,
Então , os seres angélicos, assim com o os seres qu ânticos, podem ter um 
aspecto duplo, u m aspecto repartido qu e tenha relação co m a região de ati­
vidade na qual eles atuam , e m anifestações com o qu an ta de atividade.
MATTHEW: D e algum a form a estam os falando sobre fóton e cam po se 
u nin d o na luz. Luz angelical.
RUPERT: E o papel tradicional deles é o de in tercon ectores, de m ensa­
geiros. O próp rio nom e an jo deriva desse significado de “m ensageiro”. E n ­
tão, são coisas que se con ectam ; e conectar-se é o que os cam pos fazem.
MATTHEW: E , co m o m ensageiros, é op ortu no que este jam retornando 
em nosso tem po, já que estam os redescobrind o o co n ceito de universo re­
con h ecid o com o interconectiv idade.
Q u and o o u niverso passou a ser co n ceb id o com o desconectad o ou iso­
lado, os an jos tiveram de sair de férias. U m a vez que sua p rin cip al tarefa é 
con ectar e in terconectar, não havia m u ito o que eles pu dessem fazer dentro 
da engrenagem do m u ndo.
E u gosto da idéia de an jo com o conector. Reza a tradição que alguns se 
co n ectam em term os de co n h ecim en to e orientação, alguns em term os de 
cura, alguns em term os de defesa e alguns em term os de insp iração. Então 
faz sen tid o , no m om en to em que estam os redescobrind o a in tercon ectiv id a­
de, que esses an jo s, que p arecem co n ectar u m pólo da relação a outro, ve­
n h am a en co n trar u m a grande oferta de em pregos. D everíam os pendu rar 
u m aviso: PRECISA-SE DE ANJOS. Existe m u ito trabalho para os an jos em u m 
período de in terconectiv id ad e.
RUPERT: E é claro que a in terconectiv id ad e dentro de u m cam po não é 
u m processo u nilateral. Se eu tiver u m grande ím ã co m u m cam po m agné-
Dionísio, o Areopacjita 47
tico forte e colocar um ímã menor próximo dele, o campo do ímã maior 
tanto influenciará quanto será influenciado pelo campo do ímã menor. Se eu 
mover o ímã menor, ele afetará o campo todo.
MATTHEW: Agora temos uma boa analogia para a hierarquia ou holar- 
quia salutar. Existe uma influência mútua, em que o grande ímã não está 
apenas dizendo ao pequeno o que fazer, mas há intercâmbio.
RUPERT: A gravidade, mesmo de acordo com Newton, age sob esse prin­
cípio. Toda matéria atrai qualquer outra matéria no universo. Acreditamos 
que exista uma conexão mútua, e não apenas uma influência unilateral. 
Seguindo Einstein, agora entendemos essa interconectividade mútua como 
diretamente mediada por campos gravitacionais, todos contidos dentro do 
campo gravitacional do universo, o campo universal.
Na medida em que, como seres diretamente mediados por mensageiros 
ou conexões invisíveis - ou anjos - , pensamos sobre quaisquer coisas que 
nos afetem; então, algo do que nos está sucedendo e do que está acontecen­
do ao mundo será transportado através do campo angélico para níveis mais 
inclusivos de organização, para campos mais inclusivos de consciência.
MATTHEW: A imagem, dos campos é muito mais profícua para mim do 
que a imagem básica que temos de uma escada. Um campo é tridimensional.
RUPERT: Os anjos atuam em campos de atividade, coordenando e co­
nectando. Os corpos materiais são mutuamente exclusivos - não é possível 
ter duas bolas de bilhar no mesmo lugar ao mesmo tempo mas os campos 
podem se interpenetrar. Por exemplo, a sala onde estamos está preenchida 
pelo campo gravitacional da Terra, e por isso não estamos flutuando. Inter­
penetrandoo campo gravitacional está o campo eletromagnético, através do 
qual podemos nos ver um ao outro, e que também está repleto de ondas de 
rádio, transmissões de TV, raios cósmicos, raios ultravioletas e infraverme­
lhos, todos os tipos de radiações invisíveis, Estas também não interferem 
uma na outra. Só haverá interferência mútua se as ondas de rádio estiverem 
na mesma frequência. Mas todos os programas de rádio e TV no mundo 
podem coexistir, interpenetrando o mesmo espaço sem eliminar ou negar 
um ao outro. Mesmo que tomemos apenas os campos que a ciência ortodo­
xa reconhece atualmente - campos de matéria quântica, campos eletromag­
néticos e campos gravitacionais - todos eles se interpenetram. E, assim, a
48 A FÍSICA DOS ANJOS
idéia de assemelhar anjos e campos nos permite entender como essas enti­
dades também podem se interpenetrar.
MATTHEW: O que eu gosto na palavra campo é o fato de ser um termo 
usado no dia-a-dia. A palavra campo remete a uma sensação de espaço. Pa­
rece um convite à brincadeira: podemos brincar no campo. Além disso, seres 
vivos crescem nos campos. Um campo é generativo; é um local de vida e 
atividade. Também diz respeito a ter os pés no chão. É matéria, é terra, é a 
vida borbulhando de cima a baixo. É uma deferência aos chakras inferiores. 
Acredito que os campos são uma metáfora maravilhosamente rica para tra­
zer os anjos para a terra, e ainda são tridimensionais. Então, quero exaltar a 
palavra campo em sua conotação não científica. Ela também nos exprime a 
idéia de algo cotidiano e de boas-vindas.
Também podemos redescobrir o significado da palavra receptivo. De 
certo modo, um campo é um espelho. Ele atrai a luz e a converte em vida, 
por meio da fotossíntese, e em alimento. Coisas maravilhosas vêm dos cam­
pos. Obviamente, todos os alimentos vêm dos campos. Pastagens, pomares, 
locais de brincadeira e jogos com bola. Gaia é um estádio. Ela convida as 
pessoas a brincar.
Ontem, aqui em Londres, estava observando jogadores de futebol chu­
tando a bola no Regent's Park, e me ocorreu que Gaia não é apenas terra - 
Gaia é essa criatura de duas pernas com a bola de borracha, jogando sobre 
a terra. Mas, para praticar esse jogo, é preciso ter campos. E o que são os 
relacionamentos, o que é um casamento senão um esforço para criar um 
campo? O que é um lar senão um campo? Crianças, trazer novos seres ao 
mundo e levar aqueles que morrem, e tudo o que se passa nesse ínterim. Isto 
é viver a vida nos campos, os campos da interconectividade.
RUPERT: Quando Faraday usou a palavra campo pela primeira vez na 
ciência, estava usando uma palavra comum que já continha em si todas essas 
implicações. O principal significado é campo agrícola, e isso dá origem ao 
sentido geral de campo como região de atividade, como “campo de batalha”, 
“campo de interesse” e “campo de visão”. Um campo é um lugar onde faze­
mos alguma coisa. Para abrir campos, em geral os primeiros agricultores ti­
veram de derrubar árvores para então plantarem nos espaços livres. Se parar­
mos de cultivar os campos, se abandonarmos a atividade agrícola, os campos
Dionísio, o Areopagita 49
voltarão a ser florestas, tanto como na Nova Inglaterra. Então, teremos um 
outro tipo de campo, o campo natural e auto-organizador da floresta.
Participação e revdaçao
Portanto, todas as coisas compartilham daquela providência 
que jorra da fonte divinizada superessencial nelas contida; 
para eles [seres celestiais] não seria assim, a menos que tives­
sem surgido por meio de sua participação no princípio essen­
cial de todas as coisas.
Todá as coisas inanimadas participam Dele por meio de sua 
existência; pois o “ser” de todas as coisas é a divindade acima 
do Ser propriamente dito, da vida verdadeira. As coisas vivas 
participam de Seu poder de dar a vida acima de toda vida; as 
coisas racionais participam de Sua perfeita e preeminente sabe­
doria acima de toda razão e intelecto.
Fica claro, por conseguinte, que essas naturezas que estão ao 
redor do Ente Supremo participaram Dele de várias maneiras. 
Assim, as categorias sagradas dos seres celestiais estão presentes 
e participam do princípio divino em um grau que ultrapassa 
todas aquelas coisas que simplesmente existem, as criaturas vi­
vas irracionais e os seres humanos racionais. Por modelarem 
eles mesmos de modo compreensível a imitação de Deus, por 
assemelharem-se de forma sobremundana à divindade suprema, 
e por desejarem compor a aparência intelectual Dele, [os seres 
celestiaisl naturalmente têm uma profusa comunhão com Ele; 
e, com a atividade incessante que eles eternamente elevam ao 
máximo, até quanto for permitido, por meio do ardor de seu 
inabalável amor divino, recebem a radiância básica de modo 
puro e não-material, adaptando-se a isso no decurso de uma 
vida completamente intelectual.
Assim, consequentemente, são eles que participam em pri­
meiro lugar e das mais variadas formas na Divindade, e revelam
50 A FÍSICA DOS ANJOS
primeiramente, e de várias maneiras, os mistérios divinos. As­
sim, eles, acima de tudo, são preeminentemente merecedores do 
nome anjo porque primeiro recebem a luz divina, e por meio 
deles são transmitidas a nós as revelações que estão acima de 
nós [...]
Agora, se alguém disser que Deus tem se mostrado sem inter­
mediário a certos homens santos, deixa-o saber, sem dúvida, a 
partir das Escrituras Sagradas, posto que homem algum jamais 
viu, nem verá, o Ser oculto de Deus; mas Deus tem se mostrado, 
de acordo com as revelações que Lhe convêm, a seus servos fiéis 
em visões sagradas apropriadas à índole do vidente.
A teologia divina, na plenitude de sua sabedoria, acertada- 
mente emprega o nome teofania para a contemplação de Deus e 
mostra a semelhança divina, idealizada em si mesma como uma 
semelhança na forma daquele que não tem forma, através da 
edificação daqueles que contemplam o Divino; tanto quanto 
através Dele uma luz divina é emitida sobre os videntes, e eles 
são iniciados em uma participação das coisas divinas.
De acordo com essas visões divinas, nossos veneráveis ante­
passados foram instruídos pela mediação das forças celestiais. 
Não está dito nas Escrituras que a lei sagrada foi dada a Moisés 
pelo próprio Deus para nos ensinar que nela se espelha a lei 
divina e sagrada? Além disso, a teologia sabiamente ensina que 
ela nos foi comunicada pelos anjos, como se a autoridade da lei 
divina decretasse que os segundos deveriam ser guiados até a 
majestade divina pelos primeiros [...] Dentro de cada hierarquia 
existem categorias e poderes principais, intermediários e finais, 
e os mais altos são instrutores e guias dos mais baixos no cami­
nho para a aproximação, iluminação e união divinas.
Entendo que os anjos também foram primeiramente inicia­
dos nos mistérios divinos de Jesus em seu amor pelo homem, e 
por meio deles o dom desse conhecimento nos foi outorgado: 
pois o divino Gabriel anunciou a Zacarias, o alto sacerdote, que 
um filho seu nasceria pela graça divina, quando ele não mais
Dionísio, o Ar eo-p agita 51
tinha esperança de tê-lo, e que seria um profeta daquele Jesus 
que manifestaria a união das naturezas humanas e divinas por 
meio dos preceitos da boa lei para a salvação do mundo; e reve­
lou a Maria como dela nasceria o mistério divino da inefável 
Encarnação de Deus.
Outro anjo ensinou a José que a divina promessa feita a seu 
antepassado Davi seria perfeitamente cumprida. Outro levou 
aos pastores as boas novas, bem como àqueles purificados pelo 
desprendimento silencioso de outros tantos, e com ele uma 
multidão de anjos emitiu nosso hino de adoração frequente­
mente cantado a todos os habitantes da Terra.3
MATTHEW: A participação é um dos conceitos importantes no trabalho 
de Dionísio, e eu acho que ainda é uma palavra importante; na verdade, ela 
certamente faz parte do pensamento do novo paradigma, indodos relacio­
namentos sujeito-objeto aos relacionamentos participativos. Todos partici­
pamos do poder da fonte. Todas as coisas, mesmo as inanimadas, participam 
em seu ser. As coisas vivas participam do poder de dar a vida. As coisas ra­
cionais participam da sabedoria. É interessante que Dionísio diga sabedoria, 
e não conhecimento. A sabedoria inclui o coração, por isso é um tipo de 
conhecimento muito inclusivo.
As naturezas que estão ao redor de Deus participam mais integralmen­
te porque “têm uma comunhão mais profusa”, com Deus. É uma boa frase, 
comunhão profusa. Essa é a fonte dos anjos, sua comunhão profusa. Eles 
recebem sua primeira radiância de maneira pura. Eles são receptíveis à luz e 
à radiância. A palavra radiância também é um termo importante que carrega 
em si as tradições místicas. A palavra doxa, nas Escrituras, quer dizer glória 
ou radiância. E o shekinah, a tradição judaica da face feminina de Deus, é 
uma presença radiante de Deus. Tem a ver com a presença. Então, a pergun­
ta a ser feita não é se Deus existe, mas onde está a presença? Onde está a 
radiância? Mostre-me a radiância.
De acordo com Dionísio, os anjos foram os primeiros a receber a luz 
divina, foram os primeiros a sentir a radiância. E eles, por sua vez, nos trans-
52 A FÍSICA DOS ANJOS
mitem as revelações. Então, é interessante que esse autor relacione revelação 
à participação e à recepção de luz.
Ele continua falando sobre as pessoas que experimentam visões sagra­
das e teofanias. Teofania é uma palavra maravilhosa para a contemplação 
do divino. Finalmente, ele a aplica às Escrituras e à história de Jesus. Os 
anjos desencadearam o mistério divino de Jesus. Há inúmeros exemplos de 
anjos na história de Jesus: o anjo que anunciou o nascimento de João Ba­
tista; o anjo que anunciou o nascimento de Jesus; o anjo que disse a José o 
que deveria fazer; os anjos que aparecerem aos pastores antes dõ nascimen­
to de Jesus; e assim por diante. A participação, proveniente do estado e 
comunhão profusa, se torna revelação do Ente Supremo. A presença de 
anjos nesses acontecimentos na vida de Jesus são indicadores do cumpri­
mento do Cristo Cósmico em Jesus, pois, onde há anjos, lã também estão 
as forças cósmicas.
RUPERT: Eu também gosto do termo “participação”. Ele carrega um sen­
tido de vida imanente a todas as coisas, às criaturas inanimadas, vivas e ra­
cionais. Implica não apenas um movimento do divino para nós, mas tam­
bém que somos parte da vida do ser divino.
Uma coisa que sempre surge nessas velhas discussões sobre os anjos e 
que não está clara para mim é a idéia de que “eles recebem a radiância bási­
ca de maneira pura e não-material, adaptando-se a isso no decurso de uma 
vida completamente intelectual”. Dionísio escrevia dentro da tradição neo- 
platônica, e o significado de “còmpletamente intelectual” era, para ele, muito 
diferente do nosso. Talvez você possa esclarecer isso, porque é óbvio que ele 
não se refere a alguém voltado apenas para a própria inteligência. A palavra 
intelectual tinha um sentido mais amplo do que aquele que geralmente em­
pregamos hoje, não é verdade?
MATTHEW: Sim. Acredito que a expressão que mais se aproxima desse 
sentido hoje seria “uma consciência plena”. Theoria, em grego, de fato signi­
ficava o que entendemos por “meditação”. Então é uma palavra que traz em 
si o coração e a inteligência em contemplação. Mas também tenho proble­
mas com isso, principalmente no contexto em que ele fala sobre uma “ma­
neira pura e não-material”. Novamente nos voltamos para a suposição neo- 
platônica de que o homem precisa ser imaterial para ser puro, e ser um
Dionisio, o Arcopagita 53
intelectual para ser puro e radiante. E acredito ser esta uma das fontes de 
muitas de nossas dificuldades dualísticas no Ocidente.
Não considero isso totalmente reparável. Acredito que essa concepção 
seja resultante de uma cultura que está pouco à vontade com a matéria e cuja 
filosofia, como um todo, a apoiou. A matéria é o degrau mais baixo da cadeia 
do ser, e é apenas tolerada.
RUPERT: Essa compreensão neoplatônica da matéria envolvia uma nega­
ção dos princípios espirituais e conferia à escuridão um sentido negativo. 
Então, por meio da revolução cientifica e do materialismo, a matéria assu­
miu um sentido diferente. Ela era a real substância das coisas. Para o mate­
rialista, a matéria era a base de tudo e foi concebida como sólida e perma­
nente. Mas seu sentido mudou de novo à luz da física moderna. A matéria é 
feita de raias de energia dentro de campos e é, consequentemente, uma es­
trutura da atividade. Os campos em si são, na verdade, imateriais. O campo 
eletromagnético e o campo gravitacional não são feitos de matéria; em vez 
disso, como,disse Einstein, a matéria é feita de campos. Matéria são raias de 
energia dentro de campos, é mais um processo do que uma coisa.
MATTHEW: É como se tivéssemos ido de uma extremidade do pêndulo 
à outra. Primeiro, a matéria é o problema, e, depois, o espírito é o problema. 
Mas, como você diz, estamos nos aproximando de um ponto de equilíbrio. 
Acredito que a palavra energia ajuda muito. Aquino define espírito em um 
ponto como o elã, o impulso que está em tudo. Então, o espírito é tanto 
parte da matéria quanto da não-matéria.
Essa é outra razão pela qual acho que o termo “campo” é tão salutar em 
nossos dias. Ele nos permite considerar diferentes expressões de energia, às 
vezes como matéria, às vezes como puro relacionamento. A matéria não é 
algo em si; ela exprime relações e é um tanto imaterial.
RUPERT: Certo. Chega a ser imaterial até no sentido literal. Um átomo é 
mais do que 99,9% de espaço vazio - ou, mais exatamente, é cheio de cam­
pos. Elétrons, prótons e nêutrons são padrões vibratórios dentro desses cam­
pos, mas, na medida em que são vistos como partículas, ocupam apenas 
uma minúscula parte do espaço.
54 A FÍSICA DOS ANJOS
“Revelação” é, sem dúvida, um termo estéril da maneira como é usado 
pelos teólogos; gosto da idéia de Dionísio de vê-la como um aspecto da par­
ticipação na sabedoria e na atividade divinas.
MATTHEW: Exatamente. Mais uma vez, tem a ver com relacionamento, 
participar da vida e da sabedoria. A imagem que eu tenho é a de üm peixe 
na água. A água está no peixe e o peixe está na água. A imagem da partici­
pação na divindade, na fonte, é verdadeiramente uma afronta ao teísmo. É 
panenteísta. É a idéia de que tudo está, de alguma forma, banhado no divi­
no, e de que o divino está abluindo completamente todas as coisas.
Mais uma vez, não diz respeito a deixar a terra ou subir uma escada para 
encontrar o divino; tem a ver com despertar para a teofania, para a contem­
plação do divino ao nosso redor e dentro de nós. O termo “participação” 
transmite esse tipo de relacionamento dinâmico e ativo com a divindade.
RUPERT: Outra implicação dessa passagem é a de que os anjos primeiro 
participam daquilo que está por vir e depois ajudam a fazê-lo acontecer. Por 
exemplo, Dionísio diz: “Entendo que os anjos também foram primeiramen­
te iniciados nos mistérios divinos de Jesus em seu amor pelo homem, e por 
meio deles o dom desse conhecimento nos foi outorgado”. Há uma concep­
ção segundo a qual os anjos são um poder criativo; eles são parte da agência 
criativa através da qual o desenvolvimento, o desdobramento ou a evolução 
dos eventos acontece.
MATTHEW: Etimologicamente, a palavra revelação significa levantar o 
véu, remover a cortina, desvelar. É como um espetáculo teatral: as cortinas 
são levantadas e toda gente está ansiosa para saber mais sobre o show do qual 
está prestes a participar. Como você disse, a palavra revelação tem sido ame­
nizada, sua energia tem sido sugada, e passou a aludir a um legado do dog­
ma. Mas, na verdade, diz respeito a levantar os véus da ilusão, da desilusão 
e da projeção,para permitir que a realidade, a beleza e a graça sobressaiam.
A união entre participação e revelação traz de volta um pouco daquele 
caráter dinâmico. Tudo o que é verdadeiramente revelador é empolgante. 
Desperta.
Dionísio, o Areopogita
Os diferentes tipos de anjos
Os nove coros de anjos, de acordo com a classificaçao de Dionísio:
PRIMEIRA ORDEM 
Serafins 
Querubins 
Tronos
SEGUNDA ORDEM 
Dominações 
Virtudes 
Potestades
TERCEIRA ORDEM 
Principados
Arcanjos
Anjos
isento diurno para o 0çr
Empíreo
As esferas celestiais associadas às ordens angelicais na classificação de Dionísio.
A primeira ordem
Os estudiosos hebreus nos dizem que o nome sagrado serafins 
quer dizer “aqueles que acendem ou aquecem”, e que queru­
bins denota abundância de conhecimento ou uma torrente de
56 A FÍSICA DOS ANJOS
sabedoria. É justo, portanto, que essa primeira hierarquia ce­
lestial seja administrada pelas naturezas mais transcendentais, 
já que ocupa o lugar de maior exaltação entre todas as outras, 
estando imediatamente presente com Deus; e, por causa de sua 
proximidade, para essa ordem são mostradas as primeiras re­
velações e perfeições de Deus antes das demais. Por esse moti­
vo são chamados “os incandescentes”, “caudais de sabedoria”, 
“tronos”, para ilustrar sua natureza divina.
O nome serafins claramente indica sua eterna e incessante 
rotação em torno dos princípios divinos, seu calor e vivacida­
de, a exuberância de sua atividade intensa, perpétua e incansá­
vel, e sua assimilação elevatória e energética daqueles que se 
econtram embaixo, incendiando-os e inflamando-os com o 
próprio calor, e purificando-os completamente com uma cha­
ma ardente e que a tudo consome; e pelo poder categórico, 
inextinguível, imutável, radiante e iluminador, dissipam e des­
troem as sombras da escuridão.
O nome querubins denota seu poder, seu conhecimento e 
sua contemplação em Deus, sua receptividade do mais elevado 
dom de luz, sua contemplação da beleza de Deus em sua pri­
meira manifestação, e mostra que eles estão repletos de parti­
cipação na sabedoria divina e a servem generosamente, desde 
sua própria fonte de sabedoria, àqueles que se encontram abai­
xo deles.
O nome dos tronos mais gloriosos e exaltados revela que 
cada um deles está isento e livre de qualquer base ou coisa 
terrena, e que sua escalada supraterrestre sobreleva os pontos 
mais íngremes. Pois estes não pertencem ao mais baixo, mas 
reinam no poder mais pleno, inflexível e perfeitamente estabe­
lecidos no mais alto, recebem a imanência divina acima de 
toda paixão e matéria e manifestam Deus, estando solicitamen­
te abertos às participações divinas [...]4
Portanto, a primeira ordem dos anjos sagrados detém, aci­
ma de todas as outras, a característica do fogo, a profusa parti­
Diorttsío, o Areo-p agita 57
cipação da sabedoria divina e a posse do mais alto conheci­
mento das iluminações divinas; e a características dos tronos, 
os quais simbolizam a abertura para o acolhimento de Deus.5
A seguncfa ordan
Creio que o nome dado às dominações sagradas refere-se a certa 
elevação sem barreiras quanto ao que está acima, a uma liberda­
de em relação a tudo o que há na terra e a toda inclinação inte­
rior à servidão da discórdia, uma superioridade livre da tirania 
cruel, uma libertação do servilismo degradante e de tudo o que 
é vulgar: pois são impassíveis a qualquer contradição. São au­
tênticas dignitárias, sempre aspirando à dignidade e à fonte da 
dignidade, e providencialmente moldam a si mesmas e àqueles 
que estão abaixo delas, tanto quanto possível, à semelhança da 
verdadeira dignidade. Elas não se voltam para as sombras fúteis, 
mas se entregam totalmente à verdadeira autoridade, sempre em 
harmonia com a fonte de dignidade típica de Deus.
O nome das virtudes sagradas significa certa virilidade podero­
sa e inabalável jorrando em todas as suas energias análogas às de 
Deus; não ser fraco e frágil para a recepção das Iluminações divi­
nas a elas transmitidas; estrutura ascendente na plenitude de po­
der para uma assimilação com Deus; nunca se desprender da vida 
divina por causa de sua própria fragilidade, mas ascender firme­
mente à virtude quintessencial que é a fonte da virtude: moldar-se 
o máximo possível em virtude; voltar-se perfeitamente para a fon­
te da virtude e afluir providencialmente na direção daqueles que 
estão abaixo delas, enchendo-os copiosamente de virtude.
O nome das potestades sagradas, co-igual às dominações e 
às virtudes divinas, significa uma ordem bem organizada e ir­
restrita nas recepções divinas, e a regulação do poder intelec­
tual e supramundano que nunca rebaixa sua autoridade por 
força tirânica, mas é irresistivelmente impelido para a frente na
58 A FÍSICA DOS ANJOS
devida ordem para o Divino. Guiam caridosamente, tanto 
quanto possível, aqueles que estão abaixo delas para o poder 
supremo que é a fonte da potestade, que se manifesta depois à 
maneira dos anjos nos níveis bem ordenados de seu próprio 
poder peremptório.6
A terceira ordem
O nome dos principados celestiais se refere à sua magnificência 
e peremptoriedade, parecidas com as de Deus, em uma ordem 
que é santa e a mais adequada aos poderes principescos; ao fato 
de serem totalmente voltados para o Príncipe dos Príncipes, de 
guiarem os outros em modelos principescos e de serem forma­
dos, tanto quanto possível, à semelhança da fonte do principa­
do, revelando sua ordem quintessencial pela boa ordem dos po­
deres principescos.
O coro dos arcanjos sagrados está alocado na mesma tríplice 
ordem que os principados celestiais; pois, como já foi dito, 
existe uma hierarquia e uma ordem que os incluem e aos anjos. 
Mas, como cada hierarquia tem categorias principais, interme­
diárias e finais, a santa ordem dos arcanjos, por causa de sua 
posição intermediária, participa nos dois extremos, juntando- 
se aos principados mais sagrados e aos santos anjos [...]
Pois os anjos, como dissemos, ocupam e completam o coro 
mais baixo de todas as hierarquias das inteligências celestiais, 
uma vez que são os últimos dos seres celestiais dotados de na­
tureza angélica. E eles, de fato, são chamados por nós mais 
apropriadamente de anjos porque o seu coro está em contato 
mais direto com as coisas mundanas e manifestas.
Miguel é chamado Senhor do povo de Judá, e outros anjos 
sâo designados para outros povos [...] Há um governante de 
todos, e a ele os anjos que servem cada nação orientam seus 
seguidores [...] O faraó teve uma revelação através de visões
Dionísio, oAreopagita 53
pelo anjo que assistia aos egípcios, e o príncipe da Babilônia 
viveu a mesma experiência por seu próprio anjo, o poder vigi­
lante e supra-reinante da Providência. E, para essas nações, os 
servos do Deus verdadeiro foram apontados como líderes, ten­
do sido a interpretação das visões angélicas relevada por Deus 
por intermédio dos anjos aos homens santos próximos dos an­
jos, como Daniel e José [...]
Há uma Providência quintessencialmente estabelecida aci­
ma de todos os poderes visíveis e invisíveis, e todos os anjos 
que governam as diferentes nações elevam para essa Providên­
cia, seja por seu próprio princípio, até onde seu poder pode 
alcançar, aqueles que os seguem de boa vontade.7
MATTHEW: Vimos anteriormente que Dionísio contou um número as­
tronômico de anjos, mas também se empenhou em classificã-los, categorizá- 
los, colocá-los em grupos. Dionisio não foi o único a fazer isso. Santo Am- 
brósio tinha uma lista de nove tipos de anjos; São Jerônimo, sete; São 
Gregório, o Grande, nove; Santo Isidoro de Sevilha, nove. Moisés Maimôni- 
des, na Idade Média, tinha dez; São João Damasceno, nove; Dante tinha 
nove. São Tomás de Aquino seguia a classificação de Dionísio.
Parece que esses esforços para categorizar os anjos são, na verdade, es­forços para nomear as nove esferas do universo. Os sete planetas e seus do­
mínios, concebidos como esferas, além das esferas da Terra e estrelas fixas.
Isso é importante porque mostra psique e cosmo juntos. Mostra como 
a sabedoria antiga era cosmológica. Não era antropocêntrica e não via a alma 
como entidade interior ao corpo. Acredito que, descrevendo essas nove es­
feras, também podemos imaginá-las relacionadas ao microcosmo da pessoa 
humana, aos chakras. Assim, temos o macroscosmo das esferas celestiais e o 
microcosmo das esferas humanas. Os anjos são conectores, administradores, 
mensageiros que tocam e conectam o microcosmo, o ser humano, e nos in­
tegra com as esferas das forças cósmicas.
Dionísio faz afirmações bastante ecumênicas sobre os anjos designados 
a outras nações, como a de que eles guiaram o faraó e o príncipe da Babilô­
nia, bem como as figuras bíblicas de Daniel e José. Ele convoca para um tipo
60 a f ís ic a d o s a n jo s
de ecumenismo angélico quando diz que só existe uma providência, e que 
todos os anjos servem a ela.
RUPERT: Gosto da idéia de o microcosmo e o macrocosmo estarem rela­
cionados, de a ordenação de nossas psiques e de nossos corpos estar relacio­
nada com a ordenação dos Céus. A correspondência entre microcosmo e 
macrocosmo nos ajuda a impedir que consintamos na idéia de que os pode­
res celestiais não têm relação conosco, ou a evitar que caiamos na armadilha 
do reducionismo psicológico, considerando todas essas coisas meras proje­
ções de arquétipos de dentro da psique humana.
Hm sua um tanto confusa classificação dos anjos, Dionísio parece não 
saber exatamente o que dizer sobre dominações, virtudes e potestades. Ele 
parece buscar aspectos distintivos. O fato, mesmo, de outras pessoas terem 
diferentes classificações mostra que não havia uma concordância exata a esse 
respeito. Mas eles precisavam de hierarquias por causa da cosmologia antiga, 
com sua série de esferas, uma dentro da outra. Eles precisavam ligar os anjos 
à ordem hierárquica dos Céus tal como a compreendiam.
Nós já não pensamos mais em. termos de esferas concêntricas ao redor 
da Terra. Pensamos em diferentes órbitas planetárias ao redor do Sol, com o 
Sol na galáxia e nossa galáxia dentro de um aglomerado de galáxias. Temos 
agora uma noção mais rica e poderosa da hierarquia celestial.
Talvez a hierarquia intermediária dos anjos — dominações, virtudes e 
potestades - possa ser entendida como uma escala correspondente a essa 
ordenação dos Céus, associadá a aglomerados galácticos, galáxias e sistemas 
solares. Talvez os seres da primeira hierarquia - serafins, querubins e tronos 
- sejam princípios situados além e dentro de todos os níveis da ordenação, 
em todo o cosmo.
A última hierarquia - principados, arcanjos e anjos - parece estar mais 
preocupada com a ordenação das coisas na terra. Seria interessante que cada 
nação fosse observada como tendo seu anjo, não apenas o anjo das pessoas, 
mas o do lugar. O anjo do Egito não era apenas o anjo dos egípcios; era o anjo 
da terra do Egito. Isso se ajusta à idéia, encontrada em todo mundo antigo, 
de divindades tutoras, as protetoras de cada ação e de cada terra. Os romanos 
as reconheciam em todo o seu império: por exemplo, o espírito guardião da 
Bretanha era Britannía, até recentemente retratado nas moedas inglesas.
Vionísio, o Areopacfita 61
Os anjos que protegem as regiões da Terra correspondem, presumida- 
mente, aos principados; mas, de modo confuso, eles parecem se sobrepor aos 
arcanjos nessa função. Miguel é o protetor de Israel e deveria ser um principa­
do em vez de um arcanjo, de acordo com a classificação de Dionísio. E ainda 
temos os anjos que são associados às pessoas, como os anjos da guarda.
Dionísio nos apresenta um amplo esquadrinhamento dos níveis de or­
ganização. Mas é difícil compreender sua classificação. O fato de existirem 
tantas taxinomias angélicas mostra que havia confusão a respeito dos deta­
lhes. Mas eles concordavam que havia muitos níveis de ordem dentro do 
cosmo e na Terra.
MATTHEW: Eles eram desprovidos de detalhes. Como você apontou, os 
exemplos de Dionísio ficam cada vez mais escassos ao longo de seu curso. Mas, 
como você disse, talvez nossa atual cosmologia, muito mais rica, nos dê mais 
oportunidades de completar os detalhes sobre os campos de organização.
Espíritos do lugar, espíritos da terra - acredito que este é um ponto 
importante; os anjos não estão preocupados apenas com as pessoas, mas 
com a terra propriamente dita, e com todos os seres que vivem e que jã vi­
veram sobre essa terra, incluindo os espíritos ancestrais e os animais.
Gosto da palavra correspondência; ela se encontra entre o microscosmo 
e o macrocosmos, entre o geral e o local. Uma ordenação angelical como a 
proposta por Dionísio nos permite pensar mais em termos de correspondên­
cia e menos em termos de uma existência circunscrita ao interior de uma 
caixa ou algo assim. Ela abre a mente, abre os relacionamentos.
RUPERT: E correspondências não são meras reminiscências fantásticas 
de uma forma de pensar pré-científica. Nós as temos na ciência moderna. 
Por meio dos insights da teoria do caos e, especialmente, por meio da geo­
metria fractal, vemos que certos padrões se repetem em diferentes níveis. Em 
fractais auto-similares, os padrões ocorrem em todas as escalas, por maiores 
ou menores que sejam. No fluxo de fluidos, existem os mesmos tipos de pa­
drões vorticosos de uma xícara de chã mexido, de redemoinhos, de tornados 
e do sistema atmosférico global. Vemos esses padrões espirais também nas 
galáxias. Podemos ver padrões similares em todos os níveis da natureza.
Da mesma maneira, as órbitas dos planetas ao redor do Sol em nível 
astronômico são refletidas nos átomos, com o núcleo como o sol e os elé-
62 A FÍSICA DOS ANJOS
trons orbitando como os planetas. Os pólos magnéticos existem em todas as 
escalas, do nível atômico às agulhas de bússolas e à polaridade magnética da 
Terra e do Sol. A ciência tem revelado muitas formas de correspondências 
microscópicas e macroscópicas. De um ponto de vista holístico, podemos 
ver correspondências na maneira como as coisas são organizadas nos dife­
rentes níveis holárquicos da natureza.
MATTHEW: Existe algo muito interessante aqui. Se voltarmos à definição 
de hierarquia de Dionísio e substituirmos essa palavra por padrão, leremos: “O 
padrão é, na minha opinião, uma ordem sagrada, um saber e uma ação [...]”
Eu me pergunto se padrão não seria uma denominação mais apropriada 
e contemporânea para hierarquia. Falamos sobre uma holarquia, sobre ní­
veis aninhados da totalidade, e totalidade envolve padrão. O padrão, de al­
guma forma, diz mais respeito a um campo específico, enquanto a holarquia 
é a síntese de tudo. Pegue um ovo em desenvolvimento: existem padrões de 
formação em andamenrnto dentro dele. E, como você disse, padrões corres­
pondentes são encontrados no microcosmo e no macroscosmo, em padrões 
vorticosos de uma xícara de chá e em tempestades no Sol.
Por que estamos em uma busca por padrões? Talvez seja isso que a 
mente faz. Ou ela cria padrões ou os descobre. Por qualquer razão, a mente 
procura padrões. É interessante a afirmação de Erich Jantsch de que “Deus 
é a mente do universo”, e que a mente evolui. Seria o mesmo que dizer que 
Deus é o padrão do universo, a mente por trás do padrão? Nossa busca por 
comunhão com o divino é uma busca por comunhão com o padrão das 
coisas. Por isso, há uma grande alegria e um grande êxtase em encontrar 
padrões. Quer os encontremos por meio da ciência, quer por meio da con­
templação, os padrões nos encantam. O que é uma peça musical, o que é 
uma dança? Toda arte não é, de alguma forma, um padrão? Talvez toda a 
criatividade seja uma expressão de um padrão. O próprio caos, como esta­
mos aprendendo, se diferencia da ordem apenas porque temum padrão 
mais sutil,
RUPERT: O padrão claramente tem a ver com forma e ordem, e isso é algo 
que os campos dão à natureza. Os campos dão forma, ordem e padrão às coi­
sas. Podemos dizer que o aspecto padronizado do divino, refletido na nature­
za, corresponde ao princípio do Logos na Santíssima Trindade. Essa ação pa­
Dionísioj o Areopagíta 63
dronizada é como Dionísio entende a maneira com que os querubins se dão a 
conhecer: tem a ver com conhecimento, sabedoria e ordem. Os serafins têm 
que ver com. luz e candência, com energia. São, assim, os transmissores do 
aspecto dinâmico da Santíssima Trindade, do Espírito Santo, correspondendo 
ao vento, à respiração, à vida, à luz, ao movimento e à inspiração.
Na ciência moderna, temos campos, quê fornecem padrões; e energia, 
que provê realidade, movimento e ação. Dionísio vê os querubins como a face 
dos padrões e da sabedoria, e os serafins como a face do ardor e da incandes­
cência dos princípios fundamentais subjacentes ao mundo manifestado.
MATTHEW: É interessante que os serafins venham em primeiro lugar, o 
Eros, o fogo, a energia. Isso corresponde ao primeiro chakra. E também ve­
rificamos isso na primeira história do Gênesis: o princípio da ordenação se 
realiza depois de já haver energia fluindo, desordem. À luz do que você está 
falando, é interessante analisar novamente como ele descreve os serafins em 
termos de “sua eterna e incessante rotação [...] calor e vivacidade, a exube­
rância de sua atividade intensa, perpétua e incansável [...] inflamando [...] 
poder inextinguível, imutável, radiante e iluminador, dissipam e destroem 
as sombras da escuridão.”
Esta é uma descrição incrível da energia, não é? Mas é interessante que 
a sabedoria na tradição judaica não seja identificada apenas com o Logos; na 
verdade, é bem diferente dele. É Eros. Como diz o Livro da Sabedoria: “Isso 
é sabedoria, amar a vida”. Não apenas conhecê-la, mas amá-la.
A sabedoria concilia Logos e Eros, o padrão e a energia. Por si mesmo, 
Logos pode se tornar conhecimento, mas, juntos, creio que possam produzir 
sabedoria.
Há, portanto, uma fonte de luz para tudo o que é iluminado, ou 
seja, Deus, que por sua natureza é verdadeira e corretamente a 
essência da luz, e a causa de ser e da visão. Mas está disposto 
que, na imitação de Deus, cada uma das categorias mais altas de 
seres é a fonte contínua para aquela que a segue; desde que os
64 A FÍSICA DOS ANJOS
raios divinos sejam passados através dela às outras. Por essa ra­
zão, os seres de todas as categorias angélicas consideram, natu­
ralmente, a ordem mais alta das inteligências celestiais como a 
fonte, depois de Deus, de todo o conhecimento sagrado e imita­
ção de Deus, porque, por meio delas, a luz do Deus supremo é 
concedida a todos e a nós. A partir dessa explicação, em imitação 
de Deus, eles atribuem todos os trabalhos sagrados a Deus como 
a causa suprema, mas às primeiras inteligências divinas como os 
primeiros reguladores e transmissores das energias divinas.
As ordens inferiores de seres celestiais também participam 
desses poderes ardentes, sábios e receptivos a Deus, mas em 
um nível mais baixo; e, voltando-se àqueles mais abaixo deles, 
tidos como merecedores da imitação primária de Deus, os ele­
va, tanto quanto possível, à semelhança de Deus [,..]8
Devemos perguntar, na primeira explicação das formas, por 
que a Palavra de Deus prefere o símbolo sagrado do fogo a qua­
se todos os outros. Pois você verá que ele é usado não apenas 
sob a figura de rodas de fogo, mas de criaturas de fogo, e de 
homens que cintilam como relâmpagos que empilham brasas 
vivas, e de irresistíveis rios de chamas. A Palavra também diz 
que os tronos são de fogo, e mostra, por meio do nome deles, 
que os próprios serafins mais exaltados estão ardendo em bra­
sas, designando-lhes qualidades e forças do fogo; e, por isso, de 
cima a baixo, dá maior preferência ao símbolo do fogo.
Assim, acredito que essa imagem do fogo mostra a perfeita 
conformidade de Deus com as inteligências celestiais, pois os 
profetas sagrados freqüentemente relacionam aquilo que é quin- 
tessencial e informe ao fogo, o qual (se posso dizer isso legiti­
mamente) guarda muitas semelhanças em relação às coisas visí­
veis para a realidade divina. O fogo sensato está, de alguma 
forma, em tudo, e permeia todas as coisas sem se misturar com 
elas, é livre de todas as coisas e, apesar de completamente bri­
lhante, continua essencialmente escondido e desconhecido 
quando não está em contato com qualquer substância na qual
Dionísioj o Areopagita
possa manifestar sua própria energia. É irresistível e invisível, 
tendo absoluto controle sobre todas as coisas, trazendo sob seu 
próprio poder todas as coisas nas quais subsiste. Tem um poder 
transformador e se doa, até certo ponto, a tudo o que está pró­
ximo dele. Aviva todas as coisas com seu calor revigorante e as 
ilumina com sua clareza resplandecente. É insuperável e puro, 
possui poder partitivo, mas é constante, edificante, penetrante, 
alto, não-limitado por qualquer torpeza servil, sempre em mo­
vimento, auto-estimulado, movimentando outras coisas. Com­
preende, mas é incompreensível, robusto, propagando misterio­
samente a si mesmo e mostrando sua majestade de acordo com 
a natureza da substância que o recebe, poderoso, pujante, invi­
sivelmente presente em todas as coisas. Quando não se pensa 
nele, parece não existir, mas, de repente, acende sua luz da ma­
neira que mais convém à sua natureza antagônica, como se pro­
curasse se mostrar, lançando-se irrefreavelmente para cima, sem 
diminuir seu desprendimento bendito.
Assim, podem ser encontradas muitas propriedades do fogo 
que simbolizem as atividades divinas por meio de imagens sen­
síveis. Sabendo disso, aqueles que conhecem as coisas de Deus 
têm retratado os seres celestiais sob a figura do fogo, procla­
mando assim sua semelhança com o Divino e a imitação dele, 
na medida de seu poder.9
Devemos agora considerar as representações dos seres celes­
tiais em relação a rios, rodas e carruagens. Os rios de chamas 
denotam aqueles canais divinos que os enchem com corrente­
zas superabundantes e eternamente fluentes e nutrem sua re­
vigorante proliferação.
As carruagens simbolizam a confraternidade daqueles da 
mesma ordem; as rodas aladas, movendo-se sempre adiante, 
nunca voltando atrás nem se desviando, denotam o poder de 
sua energia progressiva sobre um caminho justo e direto, no 
qual todas as suas revoluções intelectuais são supramundana- 
mente guiadas por esse curso reto e constante.10
66 A FÍSICA DOS ANJOS
RUPERT: Essas são lindas passagens sobre a natureza primeira da luz e 
do fogo e sobre a importância da luz e do fogo como imagens divinas na 
Bíblia e na tradição. A mesma imagem surge sob diferentes formas. Na tra­
dição hindu, Shiva como criador e destruidor é retratado como Nataraja 
dançando em um círculo de fogo. A imagem do fogo como elemento unifi­
cador, transformador e também destruidor é primária, encontrada em todas 
as partes do mundo. Todos nós dependemos do Sol, que é fogo, e todas as 
culturas humanas dependem da domesticação do fogo. O uso do fogo é 
único para os seres humanos. O fogo tem desempenhado um papei central 
em nos fazer humanos, e fornece uma poderosa fonte de imagens para todas 
as pessoas em todas as partes.
Esse papel central do fogo é expresso de forma extraordinariamente 
clara e bonita nessas passagens. Os serafins, os flamejantes, vêm primeiro. 
E, na história da criação do Gênesis, o primeiro ato criativo de Deus é dizer 
“Faça-se a luz", e a separação entre luz e escuridão foi feita.
As imagens da luz e do fogo primordiais, para Dionísio, são análogas às 
de muitas culturas e, na verdade, às da própria ciência moderna. Quando as 
pessoas tentam descrever esse principal evento criativo, elas costumam usar 
o nome BigBang, uma explosão original do mais intenso calor concebível, ou 
usam frases como "a bola de fogo primordial”. A cosmogonia moderna come­
ça com esse calor ou fogo inconcebível, a partir do qual tudo passa a existir.
Na passagem sobre rios, rodas e carruagens, Dionísio fala sobre “rodas 
aladas, sempre se movendo adiante". Essa imagem nos dã uma combinação 
de movimento linear e movimento cíclico. Matematicamente, essa combina­
ção de movimento para diante e ciclos é representada em equações de ondas. 
A física de ondas, na qual quase toda a física moderna está fundamentada, é 
baseada na matemática da rotação - da roda. A onda senoidal é obtida quan­
do estiramos um modelo algébrico de rotação da roda.
MATTHEW: Os chakras são representados por rodas em rotação, e, no 
Ocidente e no Oriente, os chakras correspondem às esferas celestes. O pri­
meiro chakra é o chakra de fogo, que, como você salientou, é oscilante e 
vibratório. Mas ele também é a semente de Kundalini, o fogo que acende 
uma chama em todos os outros pontos de chakras.
Dionísio, o Artofagita 67
É significativa a maneira como as outras tradições celebram o fogo, e 
está claro que o fogo é muito importante para a visão de mundo de Dionísio. 
Ele fala sobre a recepção da “fonte de luz”, “o raio da divindade suprema” 
pelo o qual estamos misticamente tomados. Freqüentemente ele identifica a 
experiência da beleza com a experiência da luz.
Acredito que parte de sua preferência por essa imagem do fogo e da luz 
possa ter vindo do tempo em que ele viveu no deserto. Ele foi um monge do 
deserto sírio, por isso deve ter aprendido a conviver com o fogo e a luz dia­
riamente.
Ele fala da radiância divina, de recebermos a luz e da essência da divin­
dade como luz. Existe uma fonte de luz para tudo o que é iluminado. É 
óbvio que a palavra iluminação,isoladamente, não se restringe ao Ocidente 
ou ao Oriente Médio, mas também corresponde a uma idéia budista, o avan­
ço na direção da luz.
Ele diz que participamos do raio divino. Isso novamente me remete à 
tradição hebraica do shekinah, que é radiância: o fogo divino, a presença do 
fogo, Moisés experienciando Deus por meio da sarça ardente, e o fogo que 
acompanhou o povo de Israel na travessia do deserto. Dionísio diz que, nas 
Escrituras, “a Palavra de Deus prefere o símbolo do fogo sagrado acima de 
quase todos os outros [...] essa imagem do fogo demonstra a perfeita confor­
midade de Deus com as inteligências celestiais”.
Ele realmente relaciona ao fogo as ondas e os fótons quando diz que o 
fogo está “de alguma forma em tudo, e permeia todas as coisas sem se mis­
turar com elas”. É interessante que o fogo não se revele; é “livre de todas as 
coisas e, apesar de completamente brilhante, continua essencialmente es­
condido e desconhecido [...] irresistível e invisível”. Ele aquece, renova, ilu­
mina, transforma e compreende. “Parece não existir, mas, de repente, acende 
sua luz”. Penso em um fogo que parece se apagar e, colocado um pouco de 
papel sobre ele, volta à vida novamente. É por isso que ele diz que as pessoas 
sábias “têm retratado os seres celestiais sob a figura do fogo” - porque o fogo 
é uma das metáforas mais ricas para a própria divindade.
Poderíamos falar sobre o fogo em cada um dos chakras, pois existe um 
elemento fogo em todos eles: o fogo sexual no segundo chakra; o fogo zan­
gado, a paixão da ira, no terceiro chakra; o fogo do calor no coração que
68 A FÍSICA DOS ANJOS
Onda senoida! e sua relação matemática com o movimento circular. O ponto p se move ao 
redor do círculo a uma velocidade constante, representada pela velocidade angular w. O movi­
mento para cima e para baixo de A, traçado com a máxima rapidez, é chamado onda senoidal 
porque a equação que descreve esse movimento envolve o seno do ângulo w.
enternece — “o primeiro amor verdadeiro é comovente”, como Aquino diz; o 
fogo da garganta, a voz profética que fala abertamente; o fogo da intuição, 
da iluminação e da criatividade no terceiro olho. E o fogo do chakra supe­
rior, o chakra coronário, que se liga a todos os outros fogos no universo, 
incluindo os fogos angelicais, os seres celestiais.
RUPERT: Enquanto Dionísio fala sobre o fogo escondido em todas as 
coisas, a ciência fala sobre energia. Existe calor em todas as coisas, e é apenas 
no zero absoluto, no limite teórico, que essa energia vibratória termal cessa. 
Mas, mesmo assim, ainda existe a energia escondida que mantém unidos os 
elos químicos, e a energia que é combinada na matéria atômica e subatômi­
ca, que é ligada na matéria pelos campos.
Como disse o físico quântico David Bohm: "A matéria é luz congelada”. 
A energia da luz pode ficar presa na forma material, na natureza vibratória 
dos átomos e das partículas subatômicas. E a matéria pode emanar luz no­
vamente. No papel que se queima, por exemplo, a energia liberada veio 
originalmente do Sol, ficou presa nas folhas das árvores por meio da fotos- 
síntese e permaneceu escondida na madeira.
Os p rin cíp ios da term odinâm ica, anunciad os no século XIX, rep resen­
tam um notável insight u n iü can te da ciência. Eles m ostram que todas as
Dionísio, o Areopagita 69
formas de energia podem ser transformadas em outras, e que na essência de 
tudo está a energia. A forma mais visível e explícita de energia é o fogo, mas 
a energia está escondida em todas as coisas. A fonte primordial de toda essa 
energia, de acordo com a cosmologia moderna, é a bola de fogo original por 
meio da qual o universo nasceu.
MATTHEW: É interessante que um dos maiores pecados do espírito seja 
a inércia. O que é a inércia? Falta de energia, falta de fogo. E Hildegarda de 
Bingen diz: “Por que você vive sem paixão? Por que vive sem fogo?”. Em 
outras palavras, onde está o fogo?
Pentecostes, uma superação do espírito, remete novamente à imagem 
do fogo. O fogo que enternece, o fogo que inspira, o fogo que transforma. 
Como você diz, o fogo é um evento cotidiano porque a fotossíntese é literal­
mente o processo de converter luz em alimento. Por isso comemos fogo 
quando nos alimentamos.
Eu me lembro de quando meu cachorro morreu. Só de aproximar mi­
nha mão de seu corpo, soube que não era ele, porque o calor o havia deixa­
do. Vida e calor andam juntos.
Certa vez, orei em uma kiva com um índio hopi, e conversamos sobre 
orar com serpentes venenosas. Perguntei a ele: “Quando você captura uma 
cobra e começa a orar com ela, ela não hca nervosa? Ele disse: “Sim, mas eu 
canto para ela. A cobra é muito sensível ao frio e ao calor, sendo um réptil, 
e ela apreende o calor da canção e se acalma rapidamente”. A idéia de que 
música e zelo podem produzir calor é outra fonte geradora de fogo e de 
energia. Talvez seja potencialmente tão poderosa quanto a fotossíntese. Mas 
ainda não descobrimos como liberar nosso calor.
E Hildegarda diz: “Nenhum calor está perdido no universo”.
Anjos como deuses
Você descobrirá, além disso, que a Palavra de Deus não apenas 
chama de deuses esses seres celestiais acima de nós, mas tam­
bém confere esse mesmo nome aos homens santos que vivem 
entre nós, e àqueles homens que, no mais alto grau, amam a
70 A FÍSICA DOS ANJOS
Deus; ainda que o Deus primeiro e não-manifestado transcenda 
quintessencialmente todas as coisas, está entronizado acima de 
tudo, e por isso nenhum dos seres ou coisas que existem pode 
verdadeiramente afirmar ser totalmente como ele, exceto se 
aqueles seres intelectuais e racionais que estão totalmente vol­
tados para a união com Ele, dentro dos limites de seu poder, e 
que, elevando-se perpetuamente a si próprios com todos os seus 
poderes, na medida do possível, à radiância divina, na imitação 
de Deus (se for lícito assim dizer), sejam considerados merece­
dores desse mesmo nome divino.11
RUPERT: A idéia dos seres celestiais como deuses permite que os anjos 
no cristianismo, no islamismoe no judaísmo sejam relacionados aos devas 
do hinduísmo, conhecidos como “os reluzentes”, e aos deuses de muitas 
outras religiões. Dionísio reconheceu explicitamente os deuses protetores do 
Egito e da Babilônia como angélicos (p. 58-59).
Os deuses das religiões politeístas são assimilados no monoteísmo 
como seres tratados como anjos. Se os muitos deuses são reconhecidos como 
submetidos a um Deus supremo, podem ser aceitos como intermediários 
divinos e como forças divinas. A diferença entre monoteísmo e politeísmo, 
à primeira vista tão rígida, é abrandada e modificada pelo reconhecimento 
dos anjos.
MATTHEW: Isso é muito interessante. Certamente mostra uma profunda 
atitude ecumênica por parte de Dionísio, e um verdadeiro assombro se a 
aceitação dos seres celestiais como deuses pudesse ser também aplicada aos 
seres celestiais como deusas, uma abertura às divindades femininas, além 
das masculinas.
Em Coríntios (ICor 8,5), há uma declaração um tanto incomum e ines­
perada de São Paulo, que confirma o que você disse: “É verdade que existem 
aqueles que são chamados deuses, tanto no Céu como na terra, e, neste 
sentido, há muitos deuses e muitos senhores. Contudo, para nós existe um 
só Deus: o Pai. Dele tudo procede, e para ele é que existimos. E há um só 
Senhor, Jesus Cristo, por quem tudo existe e por meio do qual também nós 
existimos”.
UionísiOj o Areof agita 71
Essa passagem é muito semelhante àquelas do Cristo Cósmico em todo 
o Novo Testamento, acerca de Cristo ter poder sobre os anjos, arcanjos, tro­
nos e dominações. São Paulo cria um imenso espaço para forças e poderes 
invisíveis, mas também determina não haver necessidade de ficarmos in­
quietos em relação a esses poderes, porque o Cristo, representando Deus, o 
criador, tem poder sobre todos eles. Parte da boa notícia é que o cosmo no 
qual estamos imersos é essencialmente um lugar amistoso, porque Deus, o 
criador, e o Cristo dão a última palavra sobre o que esses deuses ou anjos 
devem se ocupar em fazer.
É impressionante que Dionísio diga nessa passagem que existem seres 
tentando imitar Deus, os quais julgam ser merecedores do mesmo nome 
divino. Ele também usa o termo “divinização”. O que o Ocidente chama de 
nossa santificação o Oriente chama de nossa divinização: tem a ver com a 
natureza de Cristo, a natureza de Deus, em todos nós. É uma pena os teólo­
gos ocidentais raramente usarem o termo ou, mesmo, o conceito. Mestre 
Eckhart, porém, é uma exceção a essa regra.
Anjos na natureza
A plenitude do infinito poder de Deus preenche todas as coisas 
em medida rítmica harmoniosa [...] Dele advêm os poderes das 
ordens angélicas, semelhantes aos de Deus; a partir dele, os an­
jos exercem sua condição imutável e todas as suas perpétuas 
atividades intelectuais e imortais; sua própria estabilidade e in­
terminável aspiração para o bem eles recebem daquele poder 
infinitamente bom que lhes concede seu poder, seu ser, sua 
aspiração perpétua do Ser, e o poder de aspirar àquele poder 
incessante.
É desse poder contínuo que os homens, os animais, as plan­
tas e a natureza toda do universo são preenchidos; ele dispõe 
as naturezas unificadas para a harmonia e a comunhão mútuas, 
e concede a cada criatura individual o poder de ser conforme 
sua própria razão ou forma particular, diferente dos outros, e
72 A FÍSICA D05 ANJ05
não misturada com eles. E guia com propriedade as leis do 
universo e as atividades a elas relacionadas; e conserva as vidas 
imortais dos anjos invioladas; e mantém as substâncias celes­
tes, brilhantes e estreladas inalteradas em suas próprias ordens; 
e brinda com a eternidade a força que se manifesta e que dis­
tingue os ciclos do tempo em seu princípio e que os une em 
seu termo; e torna os poderes do fogo inextinguíveis e o fluxo 
da água inexaurível. Estabelece um limite para o ar fluido, fixa 
a Terra sobre o vácuo e mantém seu esforço imperecível e vivi­
ficante. Preserva a harmonia mútua dos elementos que, embo­
ra misturados, são inconfundíveis, além de inseparáveis, e cria 
rapidamente o elo que une alma e corpo. Acelera as forças de 
crescimento e nutrição nas plantas, sustenta os poderes essen­
ciais do todo, protege a estabilidade do universo da dissolução 
e concede, inclusive, a própria dedicação ao conferir tal capa­
cidade àqueles que estão sendo divinizados. Em suma, não 
existe uma única coisa em todo o universo que escape do abra­
ço onipotente e da proteção do poder divino. Pois aquilo que 
não tem poder algum não tem existência, nem qualidades, nem 
qualquer lugar no universo.12
O nome “ventos”, dado aos anjos, denota suas rápidas ações 
e sua quase imediata interpenetrabilidade a tudo; e um poder 
de transmissão por todos os reinos, alcançando de cima a bai­
xo, das profundezas às alturas; e o poder que eleva as segundas 
naturezas para uma altura acima da delas, e conduz a primeira 
a uma elevação participativa e providencial da mais baixa.
Mas, talvez, devamos dizer que o nome ventos, aplicado ao 
espírito etéreo, significa a semelhança divina nos seres celes­
tiais. Pois essa figura é uma imagem e uma forma autênticas de 
energia divina, correspondentes às forças geradoras e dinâmi­
cas da Natureza; um avanço rápido e irresistível; o mistério 
desconhecido e invisível para nós; a origem dos princípios e 
dos fins, pois ele diz: “Não sabes de onde eles vêm nem para 
onde eles vão”. As Escrituras também os descrevem como uma
Dionísio, o Arcopagita 73
nuvem, mostrando com isso que essas inteligências sagradas 
são preenchidas de modo supramundano com a luz oculta, re­
cebendo essa primeira revelação sem glorificação excessiva, e 
transmitindo-a com brilho abundante para as ordens mais bai­
xas como uma iluminação proporcional e secundária; e mostran­
do, além disso, que eles possuem poderes criadores, vitalizan- 
tes, crescentes e perfeitos em virtude de seus jorros inteligíveis, 
como aguaceiros agitando o útero receptivo da terra com chu­
vas fertilizantes para labores de vitalização [...]13
Vamos passar para o desdobramento sagrado do simbolismo 
que descreve as inteligências celestiais em semelhança às 
bestas. A forma de um leão deve ser vista como representando 
seu poder de soberania, sua força e sua irredutibilidade, e o 
esforço intenso e ascendente com todos os seus poderes na 
direção daquela unidade divina mais escondida, inefável e mis­
teriosa [...]
A figura do boi significa força, vigor e a abertura do sulco 
intelectual à recepção das chuvas fertilizantes; e os chifres sig­
nificam a proteção e o poder inconquistável. A forma da águia 
significa realeza, alta elevação, rapidez de voo e avidez por to­
mar o alimento que renova sua força, sua discrição, sua facili­
dade de movimento e sua habilidade, com forte intensidade de 
visão que tem o poder de fitar sem impedimentos, diretamente 
e sem covardia, acima do esplendor total e brilhante da res- 
plandescência do Sol divino.
O simbolismo dos cavalos representa a obediência e a afabi­
lidade. Os cavalos brancos reluzentes denotam a verdade clara e 
aquilo que é perfeitamente assimilado para a luz divina; os ne­
gros, aquilo que é oculto e secreto; os rubros, poder e energia; o 
malhados em branco e o preto, aquele poder que atravessa tudo 
e une os extremos, ligando providencialmente e com poder per­
feito o mais alto ao mais baixo e o mais baixo ao mais alto.
Se não tivéssemos de pensar na duração de nosso discurso, 
poderíamos melhor descrever as relações simbólicas das já
74 A FÍSICA DOS ANJOS
mencionadas características particulares dos animais e todas as 
suas formas corporais com os poderes das inteligências celes­
tiais conforme similitudes dessemelhantes: por exemplo, sua 
fúria irada representa um poder intelectual de resistência do 
qual a raiva é o reflexo final e mais tênue; seu desejo simboliza 
o amor divino. Em suma, podemosencontrar em todas as ten­
dências irracionais e em muitos aspectos das criaturas irracio­
nais, figuras de conceitos não-materiais e poderes singulares 
dos seres celestes.14
MATTHEW: Nessa passagem, notamos uma redenção da palavra "poder”. 
As ordens angélicas recebem seus poderes similares aos de Deus, incluindo 
sua aspiração à bondade, de um poder infinitamente bom. Dionísio celebra 
o poder das criaturas celestiais em aspirar àquele poder incessante.
Mas esse poder não se limita aos anjos. É o mesmo poder que flui nos 
homens, nos animais, nas plantas e na “natureza toda do universo”. Todas as 
coisas estão tomadas por esse poder contínuo. É interessante que todos os 
seres, incluindo os anjos, participem dessa mesma energia ou poder. Desse 
ponto de vista, não somos diferentes dos anjos. Dionísio apresenta a imagem 
do poder como um abraço maternal - aquele que transmite grande seguran­
ça. “Não existe uma única coisa em todo o universo que escape do abraço 
onipotente e da proteção do poder divino”.
O universo está repleto de poder. Todo vento" é um poder, vindo de 
todas as direções. Todos os seres dividem os poderes angélicos, e os anjos 
penetram em tudo. Gosto da frase “alcançando de cima a baixo, das profun­
dezas às alturas”. E os anjos possuem poderes de criação e de vitalização. 
Dionísio vê poderes em todos os lugares da natureza nos quais os anjos 
atuam, inclusive nas características dos animais, como fúria e raiva. Isto é 
interessante porque, em outro lugar, ele insiste na intelectualização desses 
espíritos não-materiais. Aqui ele parece estar atribuindo raiva, resistência e 
desejo - em outras palavras, paixões - aos anjos.
Parece que, para Dionísio, a natureza e os anjos se unem no nível do 
poder. Talvez tenhamos outros nomes para isso, como energia ou força. Mas 
ele tem um grande senso cósmico da onipresença do poder divino expresso
Dionísio, o Areop agita 75
ele próprio por meio dos anjos e de todas as outras criaturas. O poder divi­
no atua em todos esses campos. É um poder único, mas age sob diferentes 
formas, incluindo as espécies angélicas.
RUPERT: Sim. E ele parece inferir que cada tipo de organização na natu­
reza, incluindo a luz, o fogo, o vento e a vida dos animais, é cingida pela 
consciência; não uma consciência divina indistinta ou transcendente, mas 
uma consciência diferenciada, apropriada para cada tipo de organização.
A natureza está organizada em campos, e esses campos são os reinos da 
atividade que une e ordena a energia ou o poder. Se o poder divino flui por 
e para todas as coisas, se é a energia de tudo, e se é canalizado por meio dos 
anjos, então os campos que possibilitam a esse poder assumir suas formas 
diferenciadas estão associados à consciência e à inteligência. Os anjos são a 
consciência dos campos operando em todos os níveis da natureza, como no 
fluxo dos ventos e nos poderes dos seres vivos, como os animais. Os poderes 
criadores da natureza estão associados à inteligência.
Dionísio nos oferce uma imagem da natureza viva permeada pela inte­
ligência diferenciada, pela consciência, participando no ser divino.
MATTHEW: Você diria que isso é animismo?
RUPERT: Mais que animismo. O animismo diz que a natureza está viva 
e que todos os seres vivos são permeados por almas. Mas as almas não pre­
cisam ser necessariamente conscientes. A alma de uma planta, e mesmo a 
psique vegetativa que organiza o crescimento de um embrião humano, não 
são necessariamente conscientes. A maioria das atividades da alma e da psi­
que é inconsciente ou corriqueira. Até mesmo em nosso caso, a maior parte 
de nossa psique não age conscientemente.
O que Dionísio está dizendo vai além do animismo. Ele não diz sim­
plesmente que toda a natureza está viva e que há almas animadas por toda a 
natureza. Se pensarmos em termos de campos em vez de almas, as suas 
idéias demonstram não apenas que todas as coisas têm poder ou energia 
organizados em campos, mas que participam da consciência e da inteligên­
cia por meio dos anjos e, certamente, por meio dos anjos participam da 
natureza divina. A energia e o poder deles também são participações na na­
tureza divina, mediados pelas hierarquias angélicas não como uma comuni­
cação inconsciente de força, mas sempre guiados pela inteligência.
76 A FÍSICA DOS ANJOS
Acredito que essa visão seja particularmente relevante no contexto mo­
derno, até mais do que na época de Dionísio, quando a natureza era tida 
como fixa - as espécies de animais não mudavam; não havia evolução na 
natureza.
Agora, vemos tudo em um contexto evolucionário. As inteligências as­
sociadas com todos os níveis de organização poderiam ser vistas como de­
sempenhando um papel criativo ou orientador no processo evolucionário.
MATTHEW: Eu diria que isso requer mais inteligência para dar continui­
dade à criação como um processo do que para simplesmente fazê-la aconte­
cer de uma só vez.
RUPERT: Então essas idéias sobre in teligências angélicas assum em um a 
nova e extraordinária relevância à luz da cosm ologia evolucionária.
MATTHEW: Isso lembra o que Erich Jantsch disse: “Deus é a mente do 
universo, que expande e cria sistemas auto-organizadores ou campos”. Isso 
ressalta a imanência da mente e do propósito divinos e, consequentemente, 
do amor, dentro de muitos, muitos campos no quais vivemos, agimos e 
conservamos nossa existência.
São Tomás de Aquino
1
São Tomás de A quino ( 1 2 2 5 - 1 2 7 4 ) é reconhecido como um
gênio intelectual cujo poder de síntese teológica se equiparava à sua profun­
deza de alma e de sentimentos. Aos 5 anos de idade, foi enviado por sua 
família para viver na abadia beneditina de Monte Cassino, na esperança de 
que futuramente viesse a se tornar abade. Ele decepcionou os parentes ao 
ingressar na Universidade de Nápoles ainda adolescente e demonstrar inte­
resse em se ordenar dominicano. Por fim, esse sonho se concretizou e, após 
estudar com Alberto, o Grande, em Colônia, tomou-se mestre em Teologia, 
na Universidade de Paris.
O volume e a qualidade de seus escritos são enormes, contidos em 26 
volumes enciclopédicos que registram sua tentativa de reinterpretar o cris­
tianismo à luz da nova cosmologia de sua era, aquela apreendida de Aristó­
teles, o filósofo grego do século V a.C. Isso causou polêmica tanto entre os 
fundamentalistas da Igreja, de inspiração agostiniana, como entre os aristo- 
télicos progressistas, que buscavam uma versão ateísta de Aristóteles. Assim, 
a vida de São Tomás de Aquino foi caracterizada por imensa luta e contro­
vérsia, e culminou com o último ano de sua vida passado em silêncio. A 
única coisa que disse foi: “Tudo o que escrevi é palha”.
78 A FÍSICA DOS ANJOS
São Tomás de Aquino sintetiza séculos do pensamento tradicional so­
bre os anjos, ao mesmo tempo em que contribuiu com novas linhas de 
questões e insights para o tópico da angelologia. Sua influência na história da 
teologia tem sido enorme, e um dos epítetos com o qual tem sido designado 
é o de Doctor Angeïicus, ou Doutor Angélico.
Anjos e o cosmo
O mundo corpóreo é inteiramente governado por Deus por meio 
dos anjos.1 Os anjos são parte do universo no sentido de não 
constituírem um universo por si mesmos, mas por se combina­
rem com a criação física para formar um mundo único, total.
Isso, de qualquer modo, parece uma inferência provável da rela­
ção de criatura para criatura. Porque o bem total do universo 
consiste do inter-relacionamento das coisas, e nenhuma parte é 
completa e perfeita separada do todo.2
RUPERT: São Tomás de Aquino oferece uma visão de universo regido 
pela inteligência e pela consciência; uma imagem muito diferente daquela 
retratada pela ciência mecânica, de um mundo inconsciente e inanimado.
MATTHEW: E ele enfatiza a onipresença dos anjos - os anjos estão em 
todas as partes, onde quer que haja governo providenciala ser exercido. Isso 
quer dizer que os anjos podem agir em situações corriqueiras e de caráter 
individual, como na tradição dos anjos da guarda, ou na escala das nações, 
dos continentes, dos planetas, dos sistemas solar e galáctico.
RUPERT: Nesse contexto, nossa compreensão moderna do cosmo como 
um sistema evolucionário implicaria assumir que todo o processo evolucio­
nário é governado pelos anjos. Isso iria muito além da idéia em voga na 
época de Aquino, de que, no princípio, Deus criou tudo com os anjos e que, 
a partir de então, os anjos governaram o que passou a existir. Agora, adota­
mos a idéia de um processo criativo construído ao longo da história do 
universo, e que continua até hoje.
São Tomás cfe Aquino 79
Temos também um senso de vastidão do cosmo muito mais abrangente, 
com bilhões de galáxias e trilhões de estrelas. Por isso, a afirmação “O bem 
total do universo consiste do inter-relacionamento das coisas, e nenhuma 
parte é completa e perfeita separada do todo” confere nova dimensão, em 
um contexto moderno, à esfera de ação, à atividade e ao poder dos anjos, 
ampliando-os imensamente.
MATTHEW: E dá nova relevância a essa maravilhosa afirmação sobre a 
interconectividade e o inter-relacionamento por todo o universo, a de que os 
anjos não estão sozinhos, organizando coisas ou envoltos em glória, mas que 
pertencem a uma comunidade maior. Existe um mundo único, total, um 
cosmo, uma comunidade da qual eles fazem parte.
Essa cosmologia ajuda a explicar por que os anjos eram ridicularizados 
na era das máquinas, quando o princípio do inter-relacionamento não era 
admitido. Agora, graças à idéia de um universo fundado no inter-relaciona­
mento de todas as coisas, existe um verdadeiro lugar para os anjos. E a 
consciência entre os anjos inclui não apenas desvelo e conhecimento, mas 
também o amor. Se os anjos estão por toda parte, então a vontade e a pre­
sença amorosa também estão.
Alegria e totalidade
Uma coisa pode ser útil [...] como uma parte em um todo; e é 
dessa maneira que os serviços prestados pelos anjos abençoados 
são úteis a eles; são uma parte de sua própria alegria, pois com­
partilhar com outros a própria plenitude é a verdadeira natureza 
do ser pleno.3
MATTHEW: Os anjos não são apenas abelhinhas ocupadas desempe­
nhando alguma tarefa no universo. Eles estão envolvidos nesse maravilhoso 
processo criativo de desvelamento do universo, desde a bola de fogo até a 
existência de um trilhão de galáxias em expansão. Então é possível imaginar 
como sua inteligência e criatividade são desafiadas no cumprimento desse
80 A FÍSICA DOS ANJOS
glorioso trabalho de ser instrumentos da providência para ajudar e socorrer 
na elucidação do universo em sua imensa complexidade e simplicidade.
E os anjos se regozijam por isso. Nós também nos alegramos em ex­
pressar ordem dentro do caos, fazendo com que a beleza e a glória das coisas 
realmente se expressem. Compartilhar a própria alegria é uma das maiores 
felicidades de viver.
RUPERT: O processo criativo na natureza é sempre de criação de novas 
formas', novos padrões que carregam uma totalidade inerente. O processo 
criativo implica saltos para novos níveis de síntese; ele não gera uma meia- 
galáxia, um meio-sol ou uma meia-idéia. Aqui existe uma conexão entre 
totalidade e plenitude, que é fonte da alegria.
MATTHEW: E é exatamente isso que Aquino exprime nessa passagem; 
ele fala sobre ser parte do todo. E, como parte do todo, o serviço prestado 
pelos anjos é útil para eles e os alegra. Cosmologia e comunhão caminham 
juntas. Trabalhamos para fazer parte de um todo.
Os anjos fazem parte do grande trabalho de desvelamento do universo. 
Sob esta perspectiva, podem levar os seres humanos a uma importante per­
gunta: somos parte do grande trabalho? Estamos conectados ao todo?
Os anjos e os Céus
O lugar dos anjos na escala do ser espiritual corresponde àquele 
dos corpos celestes no mundo corpóreo; assim Dionísio os cha­
ma de mentes celestes.4 Isaías fala sobre um exército de maravi­
lhas celestiais como os Céus, as estrelas e os anjos.5
RUPERT: Aqui, Aquino deixa explícita a conexão dos anjos com os Céus, 
a natureza celeste dos anjos. Nos últimos anos, boa parte da literatura e das 
discussões a respeito dos anjos tem abordado os anjos da guarda, que nos 
ajudam e nos guiam. Mas esses guardiões dos seres humanos são uma pe­
quena parte da inteligência criativa no cosmo, se levarmos em conta o papel 
dos anjos nas galáxias, nas estrelas e no processo inteiro de evolução cós-
Sao Tomás de Aquino 81
mica. Se folhearmos os livros mais recentes a respeito dos anjos auxiliadores, 
poderemos facilmente esquecer que estamos lidando com ordens de seres de 
vasto campo de ação e importância cosmológica.
MATTHEW: Sim , faz parte da arrogância hum ana pensar que o ú nico 
trabalho dos an jo s é sentar em nossos om bros ou guiar nossos filhos.
As pessoas que pensam a religião de modo dualista geralmente consi­
deram o Céu um outro lugar para onde se vai após a morte. Mas o que está 
sendo integrado aqui é o mistério e a vastidão do próprio universo; os anjos 
têm um papel de governança neste vasto templo onde vivemos, o templo do 
espírito, que é o universo propriamente dito.
RUPERT: A própria ciência moderna está baseada na idéia de que o uni­
verso é governado por princípios invisíveis, as leis da natureza. Estas leis são 
essencialmente intelectuais porque as equações matemáticas são coisas que 
existem no pensamento. Elas não são coisas físicas que encontramos no 
mundo. Não podemos olhar por um microscópio de elétrons e ver a equação 
de Schrõdinger entre as moléculas, ou olhar por um telescópio e ver as equa­
ções de Einstein escritas no céu. São princípios governantes invisíveis. No 
entanto, são concebidos sob um senso extremamente limitado e não criati­
vo, como equações matemáticas abstratas, e não como pensamento vivo com 
poder criativo. Presume-se que a criatividade faça parte do processo evolu­
cionário por conta do acaso.
MATTHEW: Essas leis são essencialmente incorpóreas, n ão são?
RUPERT: Completamente. A idéia de que o universo é governado por 
uma inteligência incorpórea é a visão moderna padrão; acontece que temos 
desenvolvido uma versão extremamente árida, limitada e estreita dela.
MATTHEW: Sem amor e sem alegria.
RUPERT: Sim. Na medida em que as pessoas acreditam que as equações 
matemáticas são a verdade mais pura, isso torna-se uma forma de idolatria. 
Tratam modelos matemáticos artificiais como a realidade suprema.
Em um universo em desenvolvimento, parece-me que a idéia de inteli­
gências criativas através do cosmo faz muito mais sentido do que uma cole­
ção de equações matemáticas abstratas espaço e tempo afora, onde a criati­
vidade propriamente dita é apenas uma questão de acaso.
SZ A FÍSICA DOS ANJOS
Intuição angélica
É por isso que os anjos são chamados de seres intelectuais, seres 
que compreendem, pois, mesmo em nosso caso, dizemos que 
vemos intelectualmente as coisas que compreendemos de forma 
imediata, damos o nome de compreensão à nossa capacidade 
habitual latente de intuir os primeiros princípios [...] Se nossas 
almas humanas fossem dotadas da abundância angélica de luz 
intelectual, assim que intuíssemos os primeiros princípios en­
tenderíamos todas as suas consequências; saberíamos intuitiva­
mente tudo o que o raciocínio pode deles deduzir [...]6 Nós, 
humanos, temos uma luz intelectual diminuta em nossas almas, 
mas essa luz manifesta-se em sua máxima potência em um anjo, 
que, como disse Dionísio, é um espelho puro e brilhante.7
MATTHEW: Aquino está dizendo que os anjos são especialistas em intui­
ção; eles vêem as coisas diretamente, com uma compreensão pura que o fi­
lósofo identifica com a luz. Esta pode ser uma das razões pelas quais os anjos 
são tão associados à luz; é a luz do conhecimentoe da verdade. Usamos a 
frase “Acender a luz” — estamos no escuro e, então, uma luz se acende. 
Aquino está dizendo que, para os anjos, com efeito, a luz está sempre acesa; 
eles sempre percebem as conexões básicas entre as coisas facilmente.
Em outra ocasião, Aquino enfatiza que, enquanto o conhecimento hu­
mano surge tanto do raciocínio discursivo como da intuição, os anjos são 
modelos de intuição. Eles devem ser amigos próximos dos artistas e de todos 
aqueles que estão em sintonia com sua intuição.
RUPERT: É certamente verdade que, quando falamos sobre compreensão, 
dificilmente conseguimos evitar o uso da metáfora da luz. E isto é mais que 
uma metáfora: vemos as coisas com um tipo de luz interior. O “olho” de nos­
sas mentes funciona porque nossas mentes são, de certo modo, luminosas.
O problema é que nem todas as nossas intuições ou saltos criativos 
estão, corretos. Por exemplo, uma hipótese cientifica é uma suposição ou 
uma intuição a respeito de como as coisas são. Mas temos de testá-la expe-
rimentahnente para verificar se está certa ou errada. Também é possível 
haver teorias brilhantes que acabam se mostrando enganosas. De acordo 
com o conhecimento de Aquino sobre os anjos, se eles têm teorias brilhan­
tes, elas sempre se revelam corretas; na verdade, são menos teorias do que 
msigfrís diretos para o íntimo da forma como as coisas são.
São Tomás de Aquino 83
Luz cíivina
Deus não é desconhecido por causa da obscuridade, mas por 
conta da abundância de luminosidade, pois a visão de Deus está 
ao lado de sua essência, acima da natureza de qualquer intelecto 
criativo, não apenas humano, mas também angélico.8 A irra- 
diância de Deus é supersubstancial, ou seja, a própria verdade 
divina supera todas as fronteiras e os fins de qualquer conhe­
cimento.9
MATTHEW: Aquino frequentemente enfatiza como os anjos diferem dos 
seres humanos e detêm maior abundância de luz intelectual, mas, apesar 
disso, ele se empenha em demonstrar como os anjos não são perfeitamente 
semelhantes a Deus em seus poderes. Eles também têm limites, pois são 
criaturas. Em que pesem todos os seus imensos poderes de intuição, não 
vêem Deus face a face, por assim dizer; não experimentam a essência do 
divino. Seria bastante parecido com fitarmos o sol diretamente; tornaria nos­
sa visão obscura e danificá-la-ia.
RUPERT: Essa passagem me faz lembrar o Livro tíbetano dos mortos, no 
qual está escrito que, tão logo morremos, deparamo-nos com uma luz 
nossa. Somente aqueles que estão preparados por meio da prática espiri­
tual para encarar essa luz estão habilitados para nela penetrar, e assim são 
libertados.
A maioria das pessoas desencarnadas não a suporta e desvia o olhar; fica 
aterrorizada. Em seguida, essas almas ficam expostas a uma série de luzes 
menos intensas, para as quais também evitam olhar. Gradualmente se voltam 
para um plano existencial, no qual começam tendo fantasias sexuais, tomam-
84 A FÍSICA DOS ANJOS
se voyeurs incorpóreos orbitando em torno de casais em cópula, até serem 
capturadas por um ventre e nascerem novamente em um corpo humano.
MATIHEW: Como você disse, a maneira de entrar nesse reino de beleza, 
luz e terror que o acompanha é a prática espiritual. Isso é o que os místicos 
querem dizer com via negativa, o processo de esvaziamento, a remoção e a 
poda por meio das quais aprendemos a nos soltar e a nos entregar à luz, a 
uma força de amor maior que nós. Sem esse processo de esvaziamento, sem 
esse kenosis, só podemos sobreviver em um mundo tal como o que estamos. 
Neste sentido, escolhemos nosso futuro conforme permitimos a nós mesmos 
que sejamos “aparados” nesta vida.
Mais uma vez voltamos à dialética da luz e da escuridão. Na escuridão, 
nós nos preparamos para a entrada de mais luz. Existem muitas maneiras de 
resistir à escuridão, como os vícios, a negação ou, apenas, o viver uma vida 
superficial. Se nos recusamos a penetrar aquele processo de esvaziamento, 
aquela região obscurecida da alma, então não estamos no caminho para 
despertar a capacidade empenhada em nós para receber uma experiência de 
luz mais completa.
A morte é tanto uma experiência obscura como uma experiência de luz. 
É escuridão porque desconhecida e envolvida em medo e mistério. Mas aque­
les que, de alguma forma, têm adquirido conhecimento sobre o que acontece 
após a morte elevam-se com imagens de luz. Parece que a morte também car­
rega muita claridade e pode muito bem ser um retomo à fonte de toda luz.
Na primeira história da criação, no Gênesis, o primeiro ente criado é a 
luz. A luz está muito próxima do divino, da divindade; estava na mente de 
Deus, a primeira coisa a ser feita. E a atual história da criação começa com 
uma bola de fogo.
R.UPERT: Nos primeiros estágios do Big Bang, na bola de fogo primor­
dial, luz e escuridão não são realmente diferenciadas. O fogo primordial 
transcendeu a luz e a escuridão tal. como as conhecemos. Mas, na medida em 
que o universo se expandiu e resfriou, ocorreu o chamado desacoplamento 
da matéria e da radiação, a separação entre matéria e luz. Em outras palavras, 
na história da criação contemporânea, como no livro do Gênesis, a diferen­
ciação entre luz e escuridão é precedida por um estado que transcende am­
bas, um tipo de fogo que vai além da luz ou da escuridão.
São Tomás de Aquino 85
A natureza da compreensão
O universo estaria incompleto sem as criaturas intelectuais; e, 
visto que a compreensão não pode ser um ato do corpo ou das 
energias corpóreas - o corpo como ser circunscrito ao aqui e ao 
agora —, resulta que um universo completo deve conter alguma 
criatura incorpórea I...] Portanto, as substâncias incorpóreas es­
tão a meio caminho entre Deus e as criaturas corpóreas, e o 
ponto eqüidistante entre extremos parece extremo com respeito 
a ambos; assim o morno, comparado ao quente, parece frio. Por­
tanto, os anjos poderiam ser considerados materiais e corpóreos 
quando comparados a Deus, sem que isso signifique que são 
intrinsecamente assim.10
RUPERT: Essa discussão m e faz lem brar da idéia de D avid B oh m a res­
peito da ordem im plicada. O m u ndo fenomenal, o mundo no qual vivemos, 
é a ordem explicada, a ordem revelada. Atrás ou além dele está a ordem 
implicada, uma ordem abrangente da qual surge o mundo em que vivemos. 
Mas Bohm não discute apenas uma ordem implicada; ele apresenta uma 
série de níveis de ordens que são mais e mais abrangentes. São níveis de 
subentendimento dentro de uma ordem implicada.
Olhando de dentro para fora, do interior da ordem implicada para a 
explicada, o próximo nível parece um corpo porque se encontra no lado cor­
póreo das coisas. Olhando de fora para dentro, o nível mais implicado se as­
semelha à compreensão, à significação ou ao sentido. É mais como uma idéia. 
Bohm chama esse duplo aspecto das coisas de “soma-significância”.
MATTHEW: Acho a idéia de David Bohm empolgante porque coloca nos­
sos processos mentais em um contexto que extrapola a mera epistemologia 
humana. Ele fala sobre os relacionamentos cósmicos aos quais nos subme­
temos como pensadores, como seres que entendem, como seres intelectuais. 
Na medida em que aumenta nosso entendimento, há um desvelamento gra­
dual do implicado para o explicado. Neste sentido, estamos contribuindo 
como espécie para a autoconsciência do universo.
86 A FÍSICA DOS ANJOS
InteCcctos e corpos
A atividade de compreender é totalmente não-material [...]u 
O ato de entender não é uma ação do corpo ou de uma energia 
corporal. Portanto, estar ligado a um corpo não faz parte da es­
sência do ser intelectual [...] nem todos os intelectos estão uni­
dos a corpos; alguns existem separados deles, e a esses chama­
mos anjos.12
MATTHEW: Isso quer dizer que nós, seres humanos, não estamos sós 
como espécie na companhia desses outros seres que, como nós, procuram 
compreensão e têmintuições genuínas sobre a verdade das coisas. De acordo 
com Aquino, refreamos esse processo porque todo o nosso conhecimento 
advém do senso de experiência e do raciocínio discursivo. Mas temos em 
comum com os anjos a experiência da verdade em si mesma.
Também temos a responsabilidade de criar, de originar uma compre­
ensão mais explícita do mundo. Esta é uma paixão dentro de nós. É por isso 
que gostamos da verdade. Sentimos que faz parte do processo criativo do 
universo descobrir alguns de seus hábitos fundamentais e suas sutis inter- 
conexões.
RUPERT: Essa trajetória pelo conhecimento incorpóreo tem sido extre­
mamente profícua em toda a história do desenvolvimento da ciência. Des­
cartes falava sobre o intelecto científico como um tipo de mente separada do 
corpo, surgindo além das informações imediatistas das sensações e capaz de 
compreender as leis supremas da natureza.
MATTHEW: Eu e outras pessoas frequentemente criticamos Descartes 
por ter sido o pai do dualismo no Ocidente, separando espírito e matéria. E, 
mesmo aqui, em nossa conversa sobre o conhecimento angélico, estamos 
admitindo que parte da visão de mundo cartesiana é algo sobre o qual pre­
cisamos atentar, ou seja, devemos perceber que a natureza de nosso espírito 
é capaz de ir além, do particular para o universal.
Mas sempre temos de voltar para o particular porque é aí que a mora­
lidade se manifesta ou não. Descartes, tão especializado em nosso lado an­
gélico, abstrato, realmente ignora o lado corpóreo e, portanto, o coração e
Sao Tomás át Aquino 87
os chakras inferiores, incluindo a afronta moral. A filosofia de Descartes se 
faz útil para nós na medida em. que somos parecidos com os anjos, mas é 
muito perigoso construir uma civilização com base em uma filosofia alicer­
çada sobre aquilo que temos em comum com os seres angélicos, inteligentes. 
Agora, estamos pagando o preço. Por causa de nossa fuga em relação à na­
tureza, ao corpo terrestre e aos nossos próprios corpos, vivemos uma crise 
ecológica em grande parte originada da ignorância que permeia nosso rela­
cionamento com o corpóreo.
RUPERT: Sim. Descartes defendia os anjos. Acreditava ser inspirado por 
um deles. Colocava o intelecto humano, os anjos e Deus no reino espiritual 
e, nesta perspectiva, seguiu fielmente a tradição medieval. Enquanto Aquino 
reconhecia uma tripla divisão entre corpo, alma e espírito, Descartes adotou 
um dualismo ao eliminar o termo do meio, a alma. Assim, restavam apenas 
os corpos, concebidos como máquinas inanimadas, e o espírito.
MATTHEW: Ao fazer isso, ele estava seguindo seu mentor, Santo Agosti­
nho, que definia o espírito como “tudo o que não é matéria”.
CacCa anjo sua própria espécie
É impossível haver mais de um anjo em uma mesma espécie [.. .1 
o valor de uma espécie se sobrepõe ao valor de um indivíduo.
Por isso, a multiplicação das espécies angélicas é bem mais va­
liosa do que seria qualquer número de indivíduos de uma mes­
ma espécie.13
MATTHEW: Aquino, seguindo Aristóteles, se refere à matéria como sen­
do o princípio da individuação, ou da individualidade. Uma águia, por 
exemplo, compartilha sua forma e suas qualidades gerais com todos os 
membros de sua espécie, mas seu corpo material lhe confere uma existência 
individual situada no tempo e no espaço. Dado que Aquino ensinou que os 
anjos não contêm matéria, só poderia haver um único anjo na mesma espé­
cie. Assim, Aquino celebra cada anjo como uma espécie ímpar, uma espécie 
única em si mesma.
88 A FÍSICA DOS ANJOS
RUPHRT: Isso quer dizer que cada um dos inumeráveis anjos é diferente 
do outro; não apenas como um melro difere de outro melro, mas como um 
melro difere de uma gaivota.
Os anjos podem assumir corpos?
Alguns tem sustentado que os anjos nunca assumem corpos e 
que todas as aparições angélicas a respeito das quais lemos nas 
Escrituras eram visões proféticas, ou seja, frutos da imaginação.
Mas isso contradiz o senso das Escrituras, pois o que é visto 
apenas na imaginação de alguém é uma experiência essen­
cialmente íntima, não é algo que outros possam ver ao mesmo 
tempo. Mas as Escrituras falam que os anjos aparecem a todas 
as pessoas que estiverem presentes em determinado lugar; os 
anjos vistos por Abraão, por exemplo, também foram vistos por 
seus criados, por Ló e pelos habitantes de Sodoma; e o anjo vis­
to por Tobias foi visto também por todos os que estavam presen­
tes. É óbvio que tais visões foram corpóreas, ou seja, de coisas 
que existiam fora da visão subjetiva. Assim, como os anjos não 
são corpos propriamente ditos, nem a natureza deles envolve a 
união com o corpo, devemos concluir que, eventualmente, eles 
assumem corpos. Portanto, os anjos não precisam tomar corpos 
por si mesmos, mas por nossa causa.14
MATTHEW: Aquino insiste que os anjos, quanto à sua própria natureza, 
não são corpóreos. Entretanto, acredita que os anjos assumem corpos, ou 
algo semelhante a um corpo, em seu trabalho, na governança do universo e, 
principalmente, na relação com as pessoas.
RUPERT: Acho interessante que, nessa passagem, Aquino trate de algo 
que consideramos uma visão moderna: se as pessoas afirmam ver anjos, isso 
é tido como coisas de sua própria imaginação; os anjos não existem por aí, 
de verdade.
São Tomás (k Aquino 89
MATTHEW: Sim, ele insiste que as experiências com anjos não são exclu­
sivamente pessoais, que nossa imaginação não é estritamente subjetiva. Ele 
diz que os encontros com anjos são experiências reais que podem ser inter- 
subjetivas; que atraem a imaginação das pessoas, e isso atravessa o dualismo 
subjetivo versus o objeto.
Quanto à afirmação “é óbvio que tais visões foram corpóreas, ou seja, 
de coisas que existiam fora da visão subjetiva”, penso ser essa uma boa defi­
nição do corpóreo: as coisas corpóreas existem fora da visão subjetiva. A.fi­
losofia moderna parece ser incapaz de se livrar de seus conceitos e reconhe­
cer que as coisas existem, quer as conheçamos ou não.
Gosto de sua declaração, extremamente direta: “os anjos não precisam 
tomar corpos por si mesmos, mas por nossa causa”. É o poder da generosi­
dade angélica que toma forma para nos ajudar, nos assistir, para se comuni­
car conosco e para ser reconhecido por nós. Ele parece dizer que qualquer 
ser que venha a nos ajudar de algum modo precisa estar encarnado.
Na verdade, logo depois dessa passagem Aquino continua aludindo ao 
Cristo que assume um corpo humano. A encarnação parece ser um meio 
necessário pelo qual os seres humanos aprendem qualquer coisa, incluindo, 
até mesmo, o divino.
RUPERT: Essa pressuposição dos corpos é importante em dois contextos: 
um é a aparência dos anjos da guarda. Muitos livros recentes sobre encontros 
com anjos da guarda envolvem a aparição desses seres sob a forma humana 
para ajudar as pessoas; o outro é a imagem dos anjos. Se os anjos não têm 
formas corpóreas, não podemos retratá-los. E existem inúmeras representa­
ções de anjos.
Os anjos, é claro, são frequentemente retratados com asas. Por sua na­
tureza, de acordo com Aquino, não precisam de corpos, tampouco de asas, 
para se locomover. Ele diz que os anjos só assumem aparência corpórea por 
nossa causa, e que, presume-se, são representados com asas para ilustrar a 
habilidade que têm de se locomover de um lugar para outro.
MATTHEW: Não me lembro de qualquer ocorrência nos escritos de 
Aquino sobre anjos em que ele sequer mencione as asas. Mas a imagem das 
asas tem um poder arquétipo, e sugere não apenas movimento como voo. 
Isso é essencial para a experiência mística. As asas também trazem a lem­
90 A FÍSICA DOS ANJOS
brança de uma águia e de outros pássaros notáveis como seres de espírito. 
Elas ensejam uma idéia sobre coisas que existem nas alturas, e que também 
têm a liberdade de lã permanecer para voar. É uma condição a qual ansia­
mos; voar faz parte de nossa naturezamística. Os artistas projetaram essa 
imagem nas representações que fizeram dos anjos.
Revelação e profecia: o trabalho áos anjos
O espírito opera graças nas pessoas por meio dos anjos.15 As 
iluminações e as revelações divinas são transmitidas por Deus 
aos seres humanos por meio dos anjos. Agora, o conhecimento 
profético é outorgado pela iluminação e pela revelação divinas. 
Portanto, é evidente que é transmitido pelos anjos.16
A profecia é uma perfeição do intelecto, por meio da qual 
um anjo também pode formar uma idéia.17 A revelação pro­
fética, que é comunicada pelo ministério dos anjos, é chamada 
de revelação divina.18 A profecia manifesta-se entre anjos e 
pessoas.19
MATTHEW: Essa é uma concepção muito importante de Aquino sobre os 
anjos. A imagem que me ocorre quando ele discorre acerca dos anjos trans­
mitindo iluminações e revelações divinas é aquela das abelhas carregando 
pólen de flor em flor. Daí vem a idéia de que os anjos carregam revelações 
proféticas de profeta em profeta. Em outras palavras, idéias novas. Isso real­
mente se encaixa em sua compreensão a respeito do conhecimento angélico; 
os anjos são especialistas em intuição. E também são profetas.'Eles têm in­
tuição moral.
Aquino diz que os anjos carregam mensagens e sementes de intuição 
de pessoa em pessoa. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, em uma 
época como a nossa, em que a consciência profética se faz tão necessária, 
haja um consenso crescente entre diferentes tipos de pessoas, desde cientis­
tas a teólogos, poetas, ambientalistas, e assim por diante. Quando falamos 
sobre um consenso cada vez maior ou sobre o surgimento de uma nova
São Tomás de. Aquino 91
visão de mundo, talvez os anjos realmente tenham uma participação nisso. 
Afinal, de onde vêm nossos sonhos e nossas intuições?
“Revelação profética” é um termo muito forte. “Iluminação divina” e 
revelação profética, O fato de serem transmitidas pelo ministério dos anjos 
confere a estes uma tarefa extraordinária em uma época de descontinuidade 
social, intelectual e ecológica. É esse o tempo em que vivemos. O renasci- 
mento da civilização e a esperança por uma renascença dependem tanto dos 
anjos quanto da boa vontade e do comprometimento dos seres humanos.
O rabino Heschel diz que o profeta interfere, mas Aquino afirma que a 
interferência não é apenas emocional ou retórica, mas intelectual. Assim 
como a luta por justiça é algo intelectual. Não se pode ter luta por justiça sem 
vida intelectual porque diz respeito a ponderar as possibilidades - uma ima­
gem que nos é familiar no arquétipo da mulher vendada com. a balança.
RUPERT: Creio que as idéias de Aquino sobre revelação e iluminação por 
meio dos anjos também sejam importantes para restaurar em nós um senso 
de inspiração. Toda arte proeminente e, com efeito, toda criatividade reco­
nhecidamente superior estão fundadas na idéia de inspiração, apreendida 
desde um ser consciente ou de uma inteligência mais elevada que a nossa. E 
isso é expresso no conceito clássico do gênio, o espírito que guia ou orienta 
uma pessoa.
Os poetas clássicos deram início a essa tradição com uma invocação às 
suas musas, pedindo a elas que os guiassem e os inspirassem. A tendência 
continuou na poesia inglesa, como em The Faerie Queene, de Edmund Spen- 
cer, e Paraíso perdido, de John Milton. E hoje, se você for a um concerto de 
música clássica no sul. da índia, ele será iniciado com uma invocação a Sa- 
rasvat, a deusa da sabedoria e da música.
A idéia de que a informação é oriunda de fontes superiores experimen­
tou recentemente uma revivicação popular, e é bastante comum em nossos 
dias. Vivemos uma cacofonia de canalização [channeling] . Em qualquer livra­
ria voltada para publicações sobre a Nova Era, há inúmeros livros sobre in­
formação canalizada. Ainda que adore a idéia da inspiração angélica, devo 
admitir um certo preconceito contra toda essa canalização.
MATTHEW: É aqui, nessa passagem, que o trato de Aquino é tão revigo­
rante. Ele insiste na dimensão intelectual, no conceito de que a dimensão
92 A FÍSICA DOS ANJOS
profética é uma dimensão de justiça. Estas são as duas dimensões que acre­
dito estarem sempre faltando na canalização da Nova Era. Por exemplo, 
muitos desses canalizadores estão ocupados ganhando dinheiro com seus 
anjos; e para onde isso vai? A quem serve? E qual é o teor intelectual disso?
É algo semelhante ao excesso de cérebro direito. Uma abordagem sobre 
os anjos que não inclua uma tradição como a que Aquino representa, com 
suas dimensões de vida intelectual e profética, envereda-se por uma relação 
movediça com o mundo angélico. O verdadeiro interesse dos anjos é ajudar 
a humanidade e servir. Mas a canalização pode acabar servindo simplesmen­
te às necessidades financeiras, de ego ou de fama das pessoas. Tampouco me 
sinto à vontade com as versões sobre anjos que não demonstram que o ter­
mo dessa relação é a compaixão pela condição humana e pela situação ter­
rena. É por isso que o fato de Aquino mostrar-se tão explícito sobre o papel 
profético dos anjos é uma notícia tão revigorante.
Sitèncio cfivino
Os anjos são os arautos do silêncio divino. Pois está claro que, 
em uma concepção de coração ou de intelecto desprovida de 
voz, está implícita a idéia de que são preenchidos pelo silêncio.
Mas é por meio de uma voz perceptível que o silêncio do cora­
ção é proclamado [...] os anjos sempre são os anunciadores do 
silêncio divino. Mas, depois que algo é anunciado a alguém, é 
necessário que o anúncio seja entendido. Por conseguinte, e 
porque podemos entender pelo intelecto as coisas que são anun­
ciadas a nós por meio dos anjos, eles mesmos, pelo esplendor 
de sua luz, ajudam nosso intelecto a entender os segredos de 
Deus.20
MATTHEW: É muito bonita a tarefa que Aquino identifica como sendo a 
que os anjos executam: a de serem anunciadores do silêncio divino. E eles 
não só anunciam como também nos ajudam a entender os anúncios. Os 
anjos tocam nosso intelecto através do brilho intenso de sua luz própria.
Sao Tomás de Acfuino 93
Acho que perdemos o respeito pelo silêncio. Nosso mundo está repleto 
de Muzak*, de televisão e de todas essas intromissões ao silêncio da nature­
za. O silêncio está se tornando cada vez mais raro. No entanto, as tradições 
espirituais sempre ensinaram que o silêncio é uma das maneiras pelas quais 
o coração se abre e o divino conversa conosco. Um retiro espiritual é um 
exemplo, e muitos tipos de meditação, desde a zen budista à monástica, 
envolvem a prática de reunir-se em silêncio.
Acredito que essa notícia de que os anjos são portadores do silêncio faça 
parte de nossa recuperação da cosmologia sagrada. Eu me lembro de Rusty 
Schweickart, o astronauta, comentando que foi o silêncio cósmico do espaço 
afora que o tornou um místico, após ter sido treinado durante anos como 
piloto de jato de caça. As pessoas que descem às profundezas do mar ou pra­
ticam mergulho já me contaram sobre o impressionante silêncio que há lã 
embaixo. O silêncio é claramente um dos caminhos para se atingir o coração, 
o mistério divino. É uma missão muito especial e misteriosa aquela que Aqui- 
no aponta aqui, nesta simples frase: t!Os anjos são os arautos do silêncio”.
RUPERT: Isso quer dizer que uma maneira de entrar em contato com os 
anjos é por meio do silêncio? Equivaleria a sugerir que sempre que adentramos 
um espaço silencioso por meio da meditação, na medida em que esse silêncio 
for divino, o anúncio da presença divina será feito por meio de um anjo.
MATTHEW: Isso mesmo, os anjos estão presentes. O silêncio é como um 
vácuo que suga os anjos para seu interior. Eles não resistem ao silêncio sa­
grado. Mas nem sempre nos aproximamos do silêncio por meio da medita­
ção, embora seja o caminho mais óbvio. Minha vivência diz que, sempre que 
ocorre uma experiência de reverência, ocorretambém uma experiência de 
silêncio. Por exemplo, em um procedimento ritual, que pode não ser um 
ritual silencioso, quando se faz uma boa oração esta sempre acaba desper­
tando o silêncio. E, se isso é verdade, também o é que uma boa oração apro­
xima os anjos; ela torna os anjos presentes.
RUPERT: Mas é uma declaração muito paradoxal a de que os anjos são 
anunciadores do silêncio divino, porque anunciar geralmente envolve som.
* Sinônimo para música desimportante, insossa, produzida em série. Conhecida como 
“música de elevador”, o gênero remete à música ambiente produzida desde a década de 1950 
pela empresa Muzak ínc. [n . do E.]
94 A FÍSICA DOS ANJOS
MATTHEW: Sim. Aquino faz uma afirmação que realmente nos intriga. 
Acredito até que ele esteja sendo deliberadamente paradoxal para anunciar 
o silêncio divino.
RUPERT: “Pois está claro que, em uma concepção de coração ou de in­
telecto desprovidos de voz, está implícita a idéia de que são preenchidos 
pelo silêncio.”
MATTHEW: Creio que isso se refira à natureza dos anjos, ao fato de eles 
não terem voz. Isso toma os anjos especialmente aptos ao silêncio. Lembre- 
se, eles aprendem por meio da intuição, e, se pararmos para pensar sobre 
isso, não poderíamos dizer que a intuição é algo não verbal em vários aspec­
tos? Neste sentido, é uma ligação mais direta com o coração e com a mente.
RUPERT: Isso quer dizer, então, que o tipo de com u n icação que eles 
estabelecem con osco se parece m ais co m a telepatia do que com a audição 
norm al?
MATTHEW: Sim, acho que ele deduz isso, ou então que eles habitam 
nossas intuições e nossos sonhos. Quando sonhamos, estamos em silêncio, 
e eu acredito que os anjos sejam atraídos por isso.
RUPERT: “Mas é por meio de u m a voz perceptível que o silêncio do co­
ração é proclamado”. Ele diz que, para proclamar o que se encontra no si­
lêncio do coração, temos de usar nossas vozes?
MATTHEW: Sim, proclamamos e louvamos. E é essencialmente para isso 
que temos vozes, para proclamarmos o mistério e o que aprendemos no si­
lêncio de nossos corações.
RUPERT: Ainda não entendi como isso se encaixa na visão tradicional 
dos coros de anjos que cantam “Santo, Santo, Santo”.
MATTHEW: Esse é um comentário pertinente. O que faz os artistas se 
expressarem é a profundidade do silêncio que eles experimentaram anterior- 
mente. Em outras palavras, eles têm algo a dizer que alcança a profundidade 
do mistério. Eles não fazem apenas barulho; sua fala emerge de um silêncio 
verdadeiro. Todas as orações brotam do silêncio profundo, e isso inclui, de 
alguma forma, a oração angélica.
É no silêncio que recolhemos nossa verdade e o vazio se instala. É a via 
negativa que precede a via criativa. O vazio permite que os espíritos aden­
trem; e outra denominação para “espíritos” é “anjos”.
São Tomas de Aquino 95
A poetisa M. C. Richards pergunta: “No começo a Palavra já existia, mas 
o que precedeu a Palavra?” Sua resposta é o silêncio. A palavra genuína 
emerge do silêncio.
Trabalhando com anjos
Fazemos os trabalhos de Deus junto com os anjos sagrados.21
. MATTHEW: Para mim, essa afirmação atesta que somos colaboradores de 
Deus, e de que tal condição também significa que somos colaboradores dos 
anjos; para realizar nosso trabalho piedoso, contamos com esses ajudantes 
invisíveis. Essa é a boa notícia. Acredito que precisamos de toda a ajuda que 
conseguirmos reunir para o trabalho espiritual que hoje temos de executar. 
Hã quem viva experiências em sonhos, intuições e insights, e mesmo expe­
riências de defesa e cura, que são mais prontamente explicadas pela presen­
ça angélica do que por qualquer outra causa.
RUPERT: Mas, nos últimos duzentos ou trezentos anos, muitas pessoas, 
incluindo os cristãos, não têm levado os anjos muito a sério. Eles têm sido 
vistos como relíquias do passado, como seres míticos alados. Apesar disso, 
se os anjos existem, se em qualquer sentido eles são reais, então eles sempre 
estiveram aqui e sempre ajudaram as pessoas. Ou, no caso dos anjos maus, 
as prejudicaram.
Na sua opinião, em que medida cooperar com os anjos implica um 
reconhecimento consciente deles ou, mesmo, sua invocação? Se eles sempre 
ajudaram., mesmo que as pessoas não estivessem cientes de sua presença, 
significa que eles podem trabalhar de forma bastante discreta e de um modo 
que parece não exigir retribuição, nem “por favor” nem “obrigado”. Eles 
ajudam de qualquer maneira.
Mas o quanto mais eles poderiam nos ajudar se passássemos a reconhe­
cer a sua presença? E como deveríamos reconhecer essa presença e pedir sua 
ajuda?
MATTHEW: É uma ótima pergunta, e prática. Aquino sempre nos lembra 
de que somos seres conscientes. Os anjos não interferem em nossas escolhas
96 A FÍSICA DOS ANJOS
ou em nossos mistérios, nos segredos de nossos corações. Portanto, me pare­
ce ser muito importante que roguemos a eles; do contrário, seu trabalho fica 
relegado a assuntos externos. O verdadeiro trabalho que temos de fazer envol­
ve imaginação, criatividade, intuição, dar novas formas a tudo, desde a polí­
tica à educação. Se quisermos a ajuda dos anjos, temos de convidá-los a entrar 
em nossos corações e mentes, seja no plano individual, seja no coletivo.
É possível que, durante a Era Moderna, quando definitivamente bani­
mos os anjos de nossas mentes, corações, pensamentos e intuições, eles te­
nham se afastado. Talvez estejam ocupados com outro planeta, onde são mais 
bem-vindos. Parte da maravilha de se revigorar o louvor será despertar a 
consciência de que os anjos estão presentes novamente. Eles têm de ser in­
vocados. E o que você disse é muito importante: precisamos agradecer-lhes.
RUPERT: Isso daria um sentido mais familiar à festa de São Miguel e dos 
Arcanjos no dia 29 de setembro, o dia no calendário litúrgico em que são 
mais plenamente reconhecidos, mesmo que muitos daqueles que os cele­
bram não saibam muito bem o que estão fazendo. Mas essa data ainda per­
siste e é importante no calendário da igreja. Uma maneira de reconhecer a 
existência e a importância dos anjos é tornar essa festa tradicional um even­
to mais consciente.
Na tradição judaica, existem rituais e orações para os anjos, e talvez 
existam em profusão na tradição cristã. Você acha que, se estudássemos com 
mais atenção os textos da Idade Média, quando os anjos eram vistos com 
mais seriedade e eram frequentemente retratados em igrejas e catedrais, en­
contraríamos orações e práticas relacionadas aos anjos que pudessem servir 
como ponto de partida para nós hoje?
MATTHEW: Com certeza. Na liturgia ocidental, a abertura da missa in­
clui diversas orações nas quais os anjos são invocados de modo explícito. O 
“Santo, Santo, Santo” é um cântico angélico, cantado nos livros proféticos da 
Bíblia hebraica. Assim, desde que oremos em um contexto cosmológico, os 
anjos estão realmente presentes em toda celebração eucarística. Mas, como 
você disse, temos estado alheios a isso e, durante os últimos séculos, isso 
talvez não tenha tido muito significado. Na verdade, talvez estejamos des­
confortáveis em relação a isso.
Sao Tomás de Aquino 37
Na Idade Média, foram articuladas inumeráveis especulações e expe­
riências com os anjos. Claramente, as pessoas acreditavam na existência de 
espíritos com os quais tinham, de lidar, fossem eles aliados, trapaceiros ou 
inimigos. Essa não é apenas uma realidade cristã; é certamente uma realida­
de dos povos nativos da América e, até onde sabemos, de todos os povos. 
Faz parte de um profundo ecumenismo de nossa época. Retomar a idéia de 
rezar com os anjos, de ter bons anjos que nos ajudem e de confrontar os 
anjos maus faz parte da era de peregrinação que estamos construindo juntos, 
como espécie, no interior de nossas fontes e tradições espirituais mais pro­
fundas. O ecumenismo profundo exige um despertar para as forças dos es­
píritose dos anjos. E os anjos nos despertarão.
Como os anjos estão íocaíizados?
Um anjo se encontra em um lugar por um contato de poder. Se 
alguém quiser chamar esse contato de ação (operatio), pois ã 
ação é o efeito genuíno do poder, pode dizer que um anjo está 
agindo em determinado lugar - desde que “ação” seja entendida 
como verbo que inclui não apenas movimento ativo (motio), 
mas qualquer tipo de conjunção (unitio) por meio da qual um 
anjo traz seu poder em conexão com o corpo, seja governando- 
o, contendo-o ou de alguma outra maneira.22 Não acontece de 
um anjo ser contido por um lugar, pois a aplicação do poder de 
uma substância espiritual a um corpo é, com efeito, a tomada do 
corpo por essa substância, e não o contrário. Assim, a alma hu­
mana está no corpo como o contendo, e não contida por ele. Da 
mesma forma, um anjo está em determinado espaço corpóreo 
não contido por ele, mas contendo-o.23
MATTHEW: Obviamente, é difícil falar sobre a presença de anjos em 
determinado lugar uma vez que eles, por definição, não têm corpo. Estar em 
um lugar parece ser uma qualidade de algo corpóreo. Fico impressionado 
com a maneira como Aquino identifica a presença dos anjos, relacionando-a
98 A FÍSICA DOS ANJOS
diretamente com suas ações. Um anjo está em um lugar na medida em que 
age sobre nele. Essa ação inclui não apenas movimento, mas também união 
ou conexão, talvez relacionamento.
A idéia de que os anjos não estão contidos por um lugar, mas que, na 
verdade, o contêm, é um pouco misteriosa. Torna a presença dos anjos dife­
rente do que estamos acostumados a ver com frequência.
RUPERT: Creio que a analogia mais próxima é, mais uma vez, dada pelos 
campos. Por exemplo, não diríamos que o campo gravitacional universal é 
contido pelo universo; diríamos que o universo é contido pelo campo. Da 
mesma forma, o campo eletromagnético, por meio da qual a luz viaja, con­
tém aquilo sobre o que está atuando. O campo eletromagnético que nos 
cerca agora, por meio do qual podemos ver as coisas e ser vistos, nos con­
tém; ele age sobre nós e nós agimos sobre ele.
Isso nos leva mais uma vez à questão dos anjos e dos fótons. Um fóton 
é um quantum de ação. Os fótons são localizados por meio de sua ação, as­
sim. como Aquino diz que os anjos são localizados. Há uma semelhança 
adicional no fato de o fóton não ser material, no sentido estrito da palavra. 
O fóton não tem massa. Em. outras palavras, não é realmente um corpo; ele 
é incorpóreo.
Penso que a ciência nos fornece importantes metáforas ou paralelos à 
idéia de que os anjos, mesmo imateriais e incorpóreos, são capazes de conter 
corpos e de estar presentes por meio de sua ação. Na verdade, é esse o sen­
tido da teoria quântica.
MATTHEW: Podemos chamar um campo de lugar?
RUPERT: Não, não podemos. Podemos dizer que um campo contém um 
lugar sobre o qual age. E os campos têm uma localização determinada; mas, 
se você fala sobre um campo que contém um elétron, por exemplo, dã a 
entender que o campo do elétron está disperso com uma probabilidade de­
crescente sobre uma distância infinita. Os campos não têm limites rígidos. 
Um campo magnético ao redor de um imã não tem margens nítidas; ele se 
espalha com força decrescente, indefinidamente. O campo gravitacional da 
Terra mantém a Lua em sua órbita e influencia o Sol e os planetas. Também 
tem influência sobre as estrelas e galáxias distantes, mas tão pequena que 
chega a ser insignificante.
Sáo Tomás de. A quino 99
m a t t h e w : Acho incrível que existam essas analogias entre o pensamen­
to de Aquino, a imaginação e o pensamento científico atual, É fascinante que 
a mente de Aquino, quando pensando sobre os anjos, adentre os tipos de 
relacionamento com os quais a ciência de hoje ainda está às voltas. Anjos e 
fótons aí estão.
Os anjos atuam em um íugar por vez
Quando relacionamos qualquer coisa a um poder único, nós a 
unificamos. Assim, quando relacionado ao poder universal de 
Deus, o universo inteiro é um uno; e, de forma semelhante, 
qualquer parte do universo, quando relacionada ao poder de um 
anjo, é una. Uma vez que um anjo está presente em um lugar na 
medida em que seu poder é aplicado a esse lugar, ele nunca se 
encontra em toda parte ao mesmo tempo, mas apenas em um 
lugar em um dado momento [...] Não é necessário que o lugar 
onde um anjo esteja seja espacialmente indivisível; pode ser di­
visível ou indivisível, maior ou menor, de acordo com as esco­
lhas do anjo, feitas de modo voluntário, para aplicar seu poder 
com maior ou menor intensidade. E o corpo todo, qualquer que 
seja, será como um lugar para ele.24
RUPERT: Aqui, a analogia com os campos surge com clareza ainda maior. 
Um campo é uma totalidade. Não é possível ter um pouco de campo mag­
nético, por exemplo. Se você cortar um imã em pequenos pedaços, cada 
qual será um imã completo com um campo magnético completo. Se você 
reunir os pedacinhos para formar um imã, todos os campos se juntam para 
formar um campo único.
É da natureza dos campos unificar as coisas sobre as quais eles atuam, 
relacionando-as como um todo. Por exemplo, o campo gravitacional do sis­
tema solar relaciona o Sol e os planetas entre si, conferindo unidade ao sis­
tema. Na biologia, os campos morfogenéticos que modelam o corpo têm a 
mesma qualidade. O campo morfogenético que forma um embrião de girafa
100 A FÍSICA D0 5 ANJOS
reúne sob sua influência todos os órgãos em desenvolvimento, conforme 
cresce esse organismo; ele coordena seu crescimento para que possam se 
desenvolver e trabalhar juntos para formar uma girafa. O campo relaciona 
as partes como uma unidade, como um organismo vivo.
A visão de Aquino se encaixa bem com as modernas teorias dos cam­
pos, mas vai além. Essas teorias lembram o conceito medieval de alma como 
princípio organizador e abrangente de um corpo vivo. Aquino explica essa 
idéia e traça um paralelo entre a natureza abrangedora da alma e a maneira 
com que os anjos estão presentes nos lugares. Mas a ação dos anjos vai além 
da ação das almas ou dos campos; não é uma parte inconsciente e corriquei­
ra do curso da natureza - envolve consciência e escolha.
MATTHEW: Isso é algo que Aquino enfatiza quando diz que um anjo, 
voluntariamente, opta por aplicar seu poder em um corpo mais ou menos 
estendido. Existe uma escolha por parte do anjo, uma disposição e uma 
opção por ser criativo neste ou naquele lugar, conectado a estes ou àqueles 
corpos. Logo, uma opção de amor.
Amor angélico
A vontade dos anjos é amorosa por natureza.25 Os anjos não
podem ajudar a amar, por força da natureza.26
MATTHEW: Acho importante o fato de não estarmos lidando apenas com 
seres inteligentes, mas também com seres amorosos. Os poderes angélicos 
não são neutros. Einstein disse que a pergunta mais importante que pode­
mos fazer na vida é: “O universo é amistoso ou não?” Aquino afirma que os 
anjos, esses seres angélicos que governam o universo, são amorosos.
Não temos a propensão de analisar os campos como necessariamente 
amorosos. Eles cumprem seu papel no universo, que é sustentar e tornar as 
coisas possíveis. Mas aqui temos seres que também são protetores, amorosos 
e cuidadosos; temos a confirmação de que a interconectividade no universo 
não é apenas impessoal, mas depende de seres compassivos que amam e 
cuidam.
r u p e r t : Acho isso importante. O campo gravitacional unifica todo o 
universo. Assim como o amor, ele é unificador por natureza, mas geralmen­
te pensamos na atração gravitacional como um processo completamente in­
consciente. Introduzir o elemento da consciência vai muito além do concei­
to de campo da ciência contemporânea.
MATTHEW: E temos metáforas que relacionam gravidade e amor, como 
“cair de amor”. Se “desantropocentralizarmos” nosso idioma, poderemos per­
ceber como somos amados por forças cósmicas como os anjos. E, às vezes,isso pode nos manter quando o amor humano nos desapontar.
São Tomás dz Aquino 101
Vários anjos podem estar simultaneamente 
no mesmo tngar?
Duas almas não existem no mesmo corpo e, pela mesma razão, 
dois anjos não existem num mesmo lugar. Dois anjos não po­
dem estar simultaneamente no mesmo lugar porque é impossí­
vel que algo dependa total e imediatamente de duas causas [...] 
Assim, enquanto seu poder for aplicado em um lugar definido, 
contendo-o completamente, podemos concluir que apenas um 
anjo pode estar nesse lugar em um determinado momento.27
MATTHEW: É abordando essa questão que Aquino mais se aproxima da 
tão repetida caricatura da angelologia escolástica, a qual temos traçado e 
sobre a qual comentado que seus teóricos despenderam anos discutindo a 
respeito de quantos anjos poderiam dançar na cabeça de um alfinete. 
RUPERT: Como surgiu essa caricatura?
MATTHEW: Nunca, ao longo de minha vasta experiência com literatura 
e teologia medievais, vi essa questão ser levantada, muito menos discutida. 
Acredito que os historiadores racionalistas e os filósofos dos últimos séculos 
achavam necessário reprimir a Idade Média. Na verdade, muitas pessoas são 
levadas a crer que a Idade Média foi uma época totalmente sombria, mas é 
difícil acreditar nisso quando se visita a Catedral de Chartres ou as várias 
outras grandes catedrais daquela época. Obviamente, os homens do me­
102 A FÍSICA DOS ANJOS
dievo entendiam muito de engenharia, sem falar em vitrais e cosmologia, e 
sabiam relacionar a religião ao cosmo e ao espírito.
RUPERT: Aquino está dizendo neste trecho que, assim como não é pos­
sível ter duas almas contendo um mesmo corpo, não é possível ter dois anjos 
trabalhando no mesmo sistema. É da natureza da alma ser o princípio uni­
ficador do corpo, e, por isso, haver duas almas operando no mesmo corpo 
seria negar a qualidade unificadora, a menos que elas se alternassem.
MATTHEW: Como o dr. Jekyll e o sr. Hyde?
RUPERT: Sim. Mesmo nos casos mais extremos de múltiplas personali­
dades, mesmo às dezenas, elas se sucedem, mas não agem ao mesmo tempo. 
Tal como em uma televisão: você pode assistir a vários canais, um após ou­
tro, mas não pode assistir a todos ao mesmo tempo.
Essa analogia apoia a suposição de Aquino de que não pode haver dois 
anjos agindo no mesmo lugar simultaneamente. Mas, por outro lado, se 
usarmos a metáfora dos campos para os anjos, notaremos que pode haver 
dois campos operando ao mesmo tempo. Por exemplo, o campo eletromag­
nético age sobre mim; posso ver e ser visto. Ao mesmo tempo, o campo 
gravitacional age sobre o meu corpo e, por meio dele, me segura ao meu 
assento para que eu não flutue no ar. Quando um anjo da guarda age sobre 
uma pessoa, esta pessoa também se encontra no planeta Terra, e um anjo da 
Terra abrange e atua sobre todo o ambiente dentro do qual essa pessoa e seu 
anjo da guarda estão agindo. Assim, o sistema de Aquino permitiria que dois 
anjos trabalhassem no mesmo lugar simultaneamente se fossem entidades 
de tamanhos e abrangências diferentes.
Como os anjos se movem
Um anjo entra em contato com um determinado lugar pura e 
simplesmente por meio de seu poder. Portanto, sua movimenta­
ção de lugar em lugar pode não ser mais que uma sucessão de 
distintos contatos de poder; e digo sucessão porque, como vi­
mos, um anjo não pode estar em mais de um lugar ao mesmo 
tempo. E esses contatos não precisam ser necessariamente con-
São Tomás de. Aquino 103
tínuos [...] O movimento angélico também pode ser contínuo; 
mas pode, de outra forma, se estabelecer como uma transferên­
cia instantânea de poder de um lugar como um todo para outro 
lugar como um todo; e, nesse caso, o movimento do anjo será 
descontínuo.28 Já vimos que o movimento local de um anjo pode 
ser contínuo ou descontínuo. Quando contínuo, implica neces­
sariamente a passagem por um local intermediário.29 Se o movi­
mento de um anjo for descontínuo, ele não atravessará todos os 
lugares intermediários entre o seu ponto inicial e o final. Esse 
tipo de movimento - do extremo de um determinado espaço a 
outro, imediatamente — é possível para um anjo, mas não para 
um corpo; pois um corpo é medido e contido pelo lugar e, as­
sim, deve obedecer às leis do lugar em seus movimentos. O mes­
mo não acontece com um anjo: longe de estar subordinado ao 
lugar e contido por ele, sua substância o domina e o contém.
Um anjo pode se aplicar a um determinado lugar como bem 
entender, passando por outros lugares ou não.30
RUPERT: Suponho que uma maneira pela qual um anjo poderia se mo­
ver continuamente é agindo sobre algo que esteja em movimento. Por exem­
plo, se a pessoa sobre a qual o anjo da guarda irá agir está se deslocando, o 
movimento do anjo será contínuo, tal como o movimento da pessoa é con­
tínuo; e a ação se estenderá de um lugar a outro, e atravessará os lugares que 
se encontram entre os dois extremos.
Mais interessante é a idéia de movimento descontínuo, na qual um anjo 
salta do lugar no qual estava agindo para outro sem precisar atravessar os 
outros lugares que os separam.
Na teoria quântica, entre uma ação e outra, uma entidade como um 
fóton ou um elétron existe como uma “função de onda”, e essa função se 
espalha pelo espaço como uma distribuição de probabilidade. Não é possível 
dizer exatamente onde ela está. Ela só é localizada quando age. A totalidade 
da onda de probabilidade dispersa incide em um determinado ponto. A esse 
fenômeno dã-se o nome de “colapso da função de onda”.
104 A FÍSICA DOS ANJOS
Um dos paradoxos da teoria quântica diz que, se fótons passarem, in­
dividualmente, um por vez, por um aparelho com duas fendas, teremos 
padrões de interferência em um filme fotográfico como se os fótons viajas­
sem como ondas através das duas aberturas, ainda que apenas uma partícu­
la as atravessasse por vez. Essas ondas, então, entram em colapso enquanto 
o fóton age sobre um determinado ponto prateado no filme fotográfico.
É interessante notar que, na teoria quântica, a função da onda é repre­
sentada matematicamente por uma fórmula multidimensional; não atua em 
um espaço tridimensional comum. Quando transita entre os dois pontos 
onde age, a onda se encontra em uma espécie de espaço imaginário que 
existe como realidade matemática, mas não como realidade física.
As entidades quânticas, como os fótons, são descontínuas em sua ação. 
Quando um fóton deixa o sol, provoca ali uma quantidade de ação; quando 
atinge algum ponto da Terra e o ilumina, produz outra ação. Mas, entre esses 
dois extremos, o fóton só pode ser representado por uma função de onda 
dispersa pelo espaço. Assim que essa partícula age, é possível localizá-la, mas 
isso não significa que estava previamente situada naquele lugar; mostra apenas 
que, por meio dessa ação, ela entra em colapso ou se condensa ali. Sua ten­
dência para agir em um lugar ou outro pode ser prevista apenas em termos de 
probabilidade. O fóton carrega certa dose de indeterminismo ou liberdade.
Por isso, os assuntos com os quais Aquino lida aqui em relação ao mo­
vimento dos anjos são similares às idéias estudadas pela teoria quântica acer­
ca do movimento dos fótons e de outras partículas quânticas.
MATTHEW: Isso o surpreende tanto quanto a m im ? Digo, estou analisan­
do desde o ponto de vista da história da teologia, e acho simplesmente in­
crível que o pensamento de Aquino, no século xill, abordasse as mesmas 
questões que ocupam hoje os físicos quânticos: continuidade, descontinui- 
dade, ação localizada e aquilo que acontece entre tudo isso. Você ficou sur­
preso ao se deparar com essas preocupações em um pensador medieval?
RUPERT: Fiquei admirado. Parte dõ meu interesse nas idéias de Aquino 
sobre os anjos foi despertada ao notar esses paralelos que, em minha opi­
nião, surgem porque nosso autor está lidando com a mesma questão: como 
algo não-materiale indivisível se move e age sobre corpos localizados em 
lugares específicos?
São Tomás cie Aquino 105
MATTHEW: Podemos propor m u itas respostas para essa pergunta.
É interessante observar que tanto a ação dos fótons quanto a ação dos 
anjos envolve um elemento de liberdade, mas, no caso dos anjos, Aquino 
enfatiza a importância da escolha consciente: “Um anjo pode se aplicar a um 
determinado lugar como bem. entender”.
O movimento cfe um anjo é instantâneo?
Um anjo pode se mover em um tempo descontínuo. Ele pode 
estar agora, aqui e ali, sem intervalo de tempo entre as ações.31 
Quando um anjo se move, o começo e o fim do seu deslocamen­
to não acontecem em dois instantes entre os quais haja qualquer 
intervalo de tempo; tampouco o começo do seu movimento 
ocupa o mesmo espaço de tempo que o instante do seu término; 
mas o começo acontece em um instante e o fim em outro. Entre 
eles não existe tempo, em absoluto. Digamos, então, que o mo­
vimento de um anjo se dá no tempo, mas não da maneira que os 
movimentos corpóreos se dão.32
MATTHEW: Se não me engano, Rupert, essa foi a primeira idéia que o 
entusiasmou a respeito de anjos e fótons, a de que o tempo não passa quan­
do os anjos se deslocam. E isso também está muito próximo do que pensa­
mos sobre os fótons, não é mesmo?
RUPERT: Sim. Um fóton pode estar em u m lugar em determinado ins­
tante, como quando a luz parte do Sol; e pode estar em outro lugar em outro 
instante, como quando a luz do Sol atinge algum ponto na Terra e ilumina-o. 
Transcorre cerca de oito minutos, em medida convencional de tempo, entre 
esses dois instantes. Assim, podemos associar uma velocidade à luz,
Mas, de acordo com a teoria da relatividade - e este foi um dos princi­
pais pontos iniciais para Einstein —, na perspectiva do fóton, o tempo não 
passa. Existe uma conexão instantânea entre a luz que deixa o Sol e a luz que 
atinge algum ponto na Terra, e o fóton não envelhece.
106 A FÍSICA DOS ANJOS
Acreditamos que, assim, a chamada radiação cósmica de fundo em mi­
croondas seja um resíduo de luz do Big Bang, e de fato é uma das principais 
linhas de evidências da ocorrência dessa explosão primordial cerca de 15 
bilhões de anos atrás. Esses fótons são tão antigos quanto qualquer coisa 
pode ser, mas não se desgastaram, pois são intrinsecamente eternos, Poderí­
amos usar as palavras de Aquino para descrever o movimento de um fóton: 
“O começo acontece em um instante e o-fim em outro. Entre eles não existe 
tempo, em absoluto. Digamos, então, que o movimento [de um fóton] se dá 
no tempo, mas não da maneira que os movimentos corpóreos se dão”.
Uma importante característica da teoria da relatividade é que nenhum 
corpo pode se mover â velocidade da luz, pois, na medida em que os corpos 
se aproximam desse limite, a massa deles aumenta. Na velocidade da luz 
propriamente dita, a massa deles seria infinita. Por isso, apenas a luz pode 
se mover à velocidade da luz, e pode fazer isso porque os fótons são despro­
vidos de massa.
MATTHEW: Essa idéia de que os fótons não envelhecem é muito interes­
sante. Aquino disse que os anjos não envelhecem. Isso pode oferecer uma 
justificativa limitada para a imagem, especialmente popular no período bar­
roco, dos anjos com feições de bebês. Não existe aí o problema do senex 
negativo nem de um anjo exausto; este é um problema humano, porque 
somos conectados à massa e ao corpo.
Outra maneira de colocar essa questão é dizer que os anjos vivem no 
presente eterno. Se não hã passagem de tempo para eles quando se movem, 
não são acometidos pelas investidas do passado e do futuro; eles sempre 
existem no agora. Isso os torna místicos por excelência, pois o místico em 
nós também vive no presente.
RUPERT: E os fótons existem em um eterno agora. É interessante lem ­
brar que os anjos são frequentemente descritos como seres de luz; a conexão 
entre luz e anjos tem sido estabelecida há tempos. Não é mera coincidência 
encontrarmos, hoje, paralelos notáveis entre os anjos e a natureza da luz.
MATTHEW: Falamos sobre o fóton como partícula e como onda. Talvez 
haja aqui uma dica a respeito dos anjos: a de que, às vezes, sua atuação é 
mais parecida com uma onda, e às vezes, sua presença é mais parecida com 
uma partícula.
São Tomás de Aquino 107
RUPERT: O aspecto de onda do fóton tem a ver com a natureza não lo­
calizada e seus movimentos. O aspecto de partícula tem a ver com sua ação 
localizada. Enquanto agem em lugares determinados, os anjos são como 
partículas; na medida em que são incorpóreos e móveis, se parecem com 
ondas, vibrações em campos.
Imaginação
O intelecto em nós é agente e potencial, por causa de sua relação 
com a imaginação ou com os fantasmas. As formas imaginárias 
estão para o intelecto potencial como as cores estão para o sen­
tido da visão; e estão para o intelecto agente como as cores estão 
para a luz. Ora, não há imaginação nos anjos e, portanto, nenhu­
ma razão para dividir seu intelecto dessa maneira.33
m a t t h e w : Aquino se ocupa aqui do assunto da imaginação humana. 
Ele utiliza a distinção medieval entre intelecto potencial e intelecto agente 
ou ativo. O intelecto potencial envolve uma percepção de idéias e conceitos; 
o intelecto ativo processa as impressões senso riais inteligíveis que recebemos 
do mundo material. Juntos, eles traduzem o que entendemos por criativida­
de ou imaginação.
Ele questiona se os anjos também têm imaginação, e conclui que não. 
Nossa imaginação nos liga ao conhecimento sensorial, e os anjos não pos­
suem essa habilidade. Para Aquino, a imaginação está entre o conhecimento 
sensorial e o conhecimento espiritual. Aquelas pessoas dotadas de rica ima­
ginação - podemos chamá-las de tipos criativos ou artistas - são um elo 
entre o espiritual e o corriqueiro para o restante de nós.
Aquino achava que o modo especificamente humano de compreender 
incluía o intelecto potencial e o intelecto agente, uma combinação que liga 
a inteligência à bestialidade. E isso é claramente verdade. Os animais so­
nham.. Meu cachorro poderia acordar com um pesadelo, eventualmente. Os 
animais também possuem uma espécie de imaginação, pelo menos uma re­
presentação sobre suas experiências vividas e suas experiências possíveis.
108 A FÍSICA DOS ANJOS
Uma das razões pelas quais Aquino nega que os anjos tenham imagina­
ção é a concepção de eles viverem inteiramente no agora. A imaginação está 
intimamente relacionada à memória, ao passado e ao futuro. Aqui reside sua 
força, mas também sua fragilidade. As pessoas só podem viver a imaginação 
em uma cultura semelhante à nossa, mesmo que seja vivendo a imaginação 
de outras pessoas, como os publicitários. A imaginação pode ser uma distra­
ção para a vida vivida no aqui e no agora - mas não tem de ser necessaria­
mente assim.
O dom da arte sadia está no fato de ela captar o poder da imaginação e 
nos trazer de volta ao agora, à profundidade e à verdade daquilo que real­
mente importa.
Quando Aquino diz que os anjos não têm imaginação, ele na verdade 
exalta essa dádiva única que temos como seres humanos. Ao mesmo tempo 
em que somos espirituais como os anjos, também somos sensitivos como os 
animais, e a imaginação é uma ponte que pode nos servir ao longo de nossa 
trajetória. Podemos percorrê-la com valores espirituais, inteligência e ener­
gia, ou podemos permitir que ela nos leve simplesmente aos nossos instintos 
básicos e a não nos mover além disso.
A imaginação nos diferencia dos anjos; comprova que temos algo que 
eles não têm. Outra maneira de colocar esta questão é perguntando: os anjos 
são artistas? Talvez essa seja uma das razões pelas quais eles tradicionalmen­
te comparecem à adoração. Talvez venham ouvir Mozart por não disporem 
de Mozarts entre eles. Talvez 'acorram à Catedral de Chartres porque ne­
nhum deles jamais construiu uma obra de tal magnitude.Essa é a tarefa 
humana. A adoração e o ritual são dádivas da imaginação humana para ele­
var a energia da sociedade a um grau que atraia a atenção dos anjos, fazendo 
com que eles fiquem tão interessados quanto nós. Esse é o tipo de dádiva 
que oferecemos aos anjos, a dádiva da nossa arte, da nossa imaginação.
Os anjos sabem i t coisas particulares?
Os anjos nos protegem individualmente, de acordo com as pa­
lavras do salmo: “Pois Ele ordenou a seus anjos que guardem
Sao Tomás de Aquino 109
você em seus caminhos” (Sl 91,11). [...] Se os anjos não tives­
sem qualquer conhecimento a respeito das coisas individuais, 
não poderiam exercer o governo providencial sobre os eventos 
deste mundo, uma vez que acontecimentos implicam ações in­
dividuais [...] administração, governo e causar movimento têm 
a ver com particularidades existentes no aqui e no agora [...] Tal 
como o homem conhece os gêneros de todas as coisas por meio 
de suas faculdades, diferindo-as umas das outras - por meio de 
seu intelecto, conhece o universal e as coisas desprovidas de 
matéria; e, por meio de sua sensação, o específico e o corpóreo 
um anjo também conhece ambos os tipos de coisas por meio 
de um poder intelectual único. Pois assim é a ordem do univer­
so: quanto mais elevado for um ser, mais unificado e, ao mesmo 
tempo, mais abrangente, é seu poder [...] sendo então a nature­
za angélica superior à nossa, não faz sentido negar que aquilo 
que um homem pode saber por meio de uma de suas várias fa­
culdades um anjo pode saber por meio de sua faculdade cogni­
tiva única e intelectual.34
MATTHEW: Essa passagem parece relevante para nossa discussão sobre o 
papel dos anjos em um universo evolucionário. Aquino parece afirmar que, 
se podemos conhecer o desdobramento histórico dos acontecimentos, a par­
tir de senso evolucionário de tempo, certamente os anjos também podem 
sabê-lo, ainda que de maneira diferente. Em primeiro lugar, saberiam-no 
intuitivamente, porque é assim que tudo conhecem. Saberiam-no porque faz 
parte da realidade, e, de alguma forma, os anjos tudo conhecem da realidade, 
mesmo que não pelo sentido de conhecimento, mas de algum outro modo.
Enquanto nossa espécie concebeu a teoria da natureza evolucionária do 
universo há um tempo relativamente recente, presumimos que os anjos sem­
pre souberam de coisas que os escolásticos medievais e os pais da igreja 
nunca conheceram a respeito do tamanho, da idade e da natureza evolucio­
nária e criativa do universo. Podemos até dizer que os anjos devem ter fica­
do frustrados por todos esses séculos, esperando que os seres humanos to­
110 A FÍSICA DOS ANJOS
massem consciência de quão criativo é o universo, e como ele o tem sido 
desde o princípio.
RUPERT: Eu concordo. Acho que essa discussão de Aquino é muito im­
portante. Para desempenhar suas funções de espíritos gerenciadores e anjos 
da guarda, essas criaturas precisam saber o que realmente se passa no mun­
do. E elas não têm como sabê-lo por meio de mero pressentimento, uma vez 
que, pelo menos no caso dos anjos da guarda, eles lidam com seres de von­
tade própria.
Aqui Aquino seriamente considera as formas pelas quais os anjos inte­
ragem com o que poderia acontecer e com o que, de fato, está acontecendo. 
Ele tem de elaborar seu pensamento observando o fato de eles saberem de 
tudo diretamente, sem a necessidade do sentido de conhecimento, uma vez 
que eles não têm sentidos.
Se eu tivesse de tentar criar uma teoria sobre como os anjos poderiam 
conhecer a realidade de uma maneira direta, sem a mediação dos sentidos 
físicos, começaria com a possibilidade de que eles, de alguma forma, intera­
gem com os campos organizacionais das coisas. A atividade mental de uma 
pessoa, o desenvolvimento de uma planta, a formação de um floco de neve, 
toda a atividade de Gaia - tudo isso está organizado por campos, assim como 
os átomos e as galáxias. Talvez o anjo pudesse interagir diretamente com 
esses campos. Se os campos pudessem agir sobre o anjo, e se o anjo viven- 
ciasse diretamente sua natureza e seu estado presente, teria um conheci­
mento direto daquilo que está acontecendo dentro e ao redor do organismo 
com o qual estivesse interagindo.
Aquino acredita que isso poderia acontecer por meio de “uma faculda­
de cognitiva única e intelectual”. Ele também comenta a idéia de que, quanto 
mais elevado for um ser, mais unificado e, ao mesmo tempo, mais abran­
gente, será seu poder. Um anjo preocupado com nosso planeta teria uma 
esfera Gaia de ação e um conhecimento unificado do que está acontecendo 
na Terra. Preocupado com. a galáxia, teria um conhecimento do campo ga­
láctico como um todo e de todas as atividades nele contidas. O anjo da 
guarda de uma pessoa teria um conhecimento unificado e amplo desse ser 
humano por meio de uma cognição direta dos campos escondidos sob os 
pensamentos, as ações, as intenções e os relacionamentos dessa pessoa.
5 ao Tomás de Aquino 111
Os anjos não apenas sabem, eles agem. Os campos de um organismo 
agem de acordo com a orientação de seu anjo-guia, e essa ação é a base para 
o conhecimento direto do anjo no ser e na transformação mais profunda do 
organismo. Inversamente, o anjo pode agir de acordo com o organismo por 
meio de seus campos organizacionais, interferindo e conferindo novos pa­
drões à sua atividade.
Dessa maneira, podemos pensar nos campos como a interface por meio 
da qual os organismos e seus anjos orientadores interagem. Tal interação é 
essencial se as inteligências angélicas participarem de forma criativa e orien­
tadora no processo evolucionário.
MATTHEW: Como você apontou, quando tratamos de anjos da guarda, 
lidamos com anjos que trabalham com pessoas de livre-arbítrio. Em outra 
passagem, Aquino diz que os anjos não conhecem os segredos dos corações 
humanos - somente Deus os conhece.35 Assim, eles não interferem em nos­
sas escolhas, e não poderiam fazê-lo mesmo que quisessem, pois essa é uma 
esfera de conhecimento à qual só Deus tem acesso.
Acho isso importante. Os espíritos não nos ditam ordens, não nos veem 
como meras criaturas do destino. Eles têm de manter a distância de nossa 
consciência e de nossa criatividade, por exemplo. Podem ajudar, mas não 
podem nos privar de nosso poder de escolha.
Mas o que também me vem à mente é a questão do acaso, especialmen­
te do ponto de vista evolucionário. Admitindo que os anjos não têm contro­
le sobre os seres de livre-arbítrio, podemos também perguntar; o que os 
anjos sabem a respeito das ocorrências do acaso no universo, sobre os acon­
tecimentos aparentemente aleatórios que, de fato, acabam mudando a or­
dem das coisas?
Os anjos conhecem o futuro?
O futuro pode ser conhecido de duas maneiras. Primeiro, em 
suas causas; e assim as coisas futuras, que vêm necessariamente 
de suas causas, podem ser conhecidas com certeza, por exem­
plo, o sol nascerá amanhã. Outras coisas que vêm de suas causas
112 A FÍSICA DOS ANJOS
não são, na maioria dos casos, previsíveis com certeza, mas com 
certa medida de probabilidade, tal como o médico que prognos­
tica a respeito da saúde futura de um paciente. E esse tipo de 
pressentimento em relação ao futuro é encontrado nos anjos, e 
em um grau mais elevado do que nos homens, porque eles co­
nhecem as causas das coisas de modo mais extenso e mais per­
feito do que nós; assim como um médico pode explicar o curso 
de uma doença mais seguramente ao analisar suas causas com 
mais clareza. Mas só em ocasiões relativamente raras - eventos 
casuais e fortuitos os acontecimentos que surgem de suas cau­
sas não podem ser conhecidos antecipadamente [...] o futuro, 
em si mesmo, não pode ser conhecido por nenhuma mente cria­
da [...] A mente angélica tem seu próprio tempo, que surge de 
uma sucessão de concepções ocorridas na inteligência; daí Agos­
tinho dizer: “Deus move a criatura espiritual atravésdo tempo”.
E, por essa sucessão na mente angélica, nem tudo o que aconte­
ce no curso total do tempo pode lhe ser simultaneamente pre­
sente [...] As coisas que existem no presente têm uma natureza 
pela qual se assemelham às idéias existentes na mente de um 
anjo, assim que, por meio destas idéias, as coisas podem ser por 
ele conhecidas. Mas as coisas que estão para acontecer ainda 
não possuem essa natureza pela qual se assemelham às idéias 
existentes na mente de um anjo; portanto, não podem ser co­
nhecidas por ele.36
MATTHEW: Isso limita o conhecimento dos anjos a respeito dos proces­
sos evolucionários. Toma relativos seu conhecimento e seu poder.
RUPERT: E a idéia de que existe o tempo nas mentes angélicas também 
nos ajuda a ver como os anjos podem estar envolvidos na evolução. Se eles 
tivessem mentes eternas e platônicas, de maneira alguma poderiam estar 
envolvidos em um cosmo em desenvolvimento; mas, se souberem o que está 
acontecendo no mundo por meio da interação com as coisas que se encon­
tram sob sua esfera de influência, e se têm uma sucessão de compreensões, 
essa é a base para o desenvolvimento ou para evolução em suas mentes an­
São Tomás de Aquino 113
gélicas. E, por meio dessa consciência em desenvolvimento, desempenham 
um papel criativo no processo evolucionário.
MATTHEW: É uma idéia estimulante. Até mesmo os anjos evoluem. Em­
bora sejam seres espirituais, suas mentes se desenvolvem. Aquino diz: “as 
coisas que estão para acontecer ainda não possuem essa natureza pela qual 
se assemelham às idéias existentes na mente de um anjo; portanto, não po­
dem ser conhecidas por ele.”. Efetivamente, ele está dizendo que os anjos 
aprendem.
Os anjos foram criados antes do 
universo físico?
Os anjos foram criados antes do universo físico? Nesse ponto, 
os textos dos Pais da Igreja apresentam duas opiniões. Mas o 
parecer mais provável é que os anjos e as criaturas corpóreas 
tenham sido criados simultaneamente [...] parece improvável 
que Deus, cujos “trabalhos são perfeitos”, como lemos no Deu- 
teronômio, criasse os anjos por si próprios antes do resto da 
criação. Entretanto, o contrário não deveria ser considerado um 
erro. Os Pais Gregos sustentavam que os anjos foram criados 
antes do universo corpóreo [...] Se os anjos foram criados antes 
do universo dos corpos, então, no texto do Gênesis que diz “No 
princípio, Deus criou o céu e a terra”, as palavras “No princípio” 
deveriam ser interpretadas como “No Filho” ou “No princípio 
dos tempos”, mas não como “No princípio, antes que qualquer 
coisa existisse”, a menos que se referisse exclusivamente às coi­
sas corpóreas.37
RUPERT: Parece que Aquino acreditava que os anjos foram criados com 
o universo físico, porque toda a criação estava unida e se inter-relacionava 
(veja o texto na p. 78). Os anjos têm um papel a desempenhar em relação às 
coisas corpóreas, e não por si mesmos; portanto, eles não foram uma criação
114 A FÍSICA DOS ANJOS
isolada, anterior ao universo físico. Isso faz sentido para mim. As inteligên­
cias ou espíritos auxiliadores que organizam as coisas corpóreas surgiram 
com elas. Em um universo evolucionário, isso significaria que, conforme 
surgem coisas novas, com elas passam a existir os anjos que as guiam: novos 
anjos nasceriam à medida que galáxias aparecessem, conforme novas estre­
las, novas espécies de plantas e de animais e novas sociedades, humanas 
passassem a existir.
Temos, hoje, uma visão mais ampla da criação do que tinha Aquino, ou 
certamente do que tinha qualquer pessoa até a revolução cosmológica dos 
anos 1960. Isso nos daria uma visão muito mais abrangente da criação dos 
anjos. Novos anjos surgiriam conforme as coisas às quais eles se relacionam 
fossem, criadas, em um processo que se estende ao longo de mais de 15 bi­
lhões de anos de evolução cósmica, e que continua até hoje.
A visão dos Pais Gregos é como a visão convencional na ciência, ou seja, 
ambas são platônicas. As leis da natureza são vistas como verdades matemá­
ticas eternas existentes além do espaço e do tempo. Já existiam no instante 
do Big Bang. Não passaram a existir com a evolução do universo, mas pre­
cederam-no; elas existiam desde o princípio. Acho que a idéia de Aquino de 
que os anjos passam a existir junto com os organismos aos quais estão asso­
ciados faz mais sentido. Da mesma forma, acredito que faz mais sentido 
pensar nas “leis da natureza” como hábitos em desenvolvimento do que 
como verdades eternas independentes do universo físico, como se estives­
sem em uma mente matemática transcendente.
MATTHEW: Se víssemos o universo como algo minúsculo em seu prin­
cipio, quantos anjos existiriam? Ah, não! Voltamos àquela questão de quan­
tos anjos poderiam dançar na cabeça de um alfinete.
Conforme o universo se expande em tamanho, isso significa que há 
mais trabalho para os anjos? Mais espaços, mais seres e mais sistemas com­
plexos que eles poderiam ajudar a governar?
Se a resposta for sim, pode jogar por terra grande parte da teoria de 
Aquino. Ele acreditava que os anjos eram criados e, depois, se decidiam pelo 
bem ou pelo mal, e pouca coisa mudou no reino angélico desde então, em 
termos da qualidade do trabalho que eles executam.
São Tomos áe Aquino 115
Talvez a nova pré-história seja tão singular que não combine com a 
idéia de que todos os anjos tenham sido criados de uma vez. Essa idéia, 
podemos dizer, também é um vestígio de um universo neoplatônico. Como 
você estava dizendo, conforme surgem novas galáxias e há mais trabalho a 
fazer, isso significa que novos anjos nascem ou são criados também?
RUPERT: Deve ser assim. A idéia atual de universo sustenta que, confor­
me ele se expande, resfria, e na medida em que ele resfria, novas formas de 
organização e de ordenação surgem dentro dele. No contexto da cosmologia 
evolucionária, novos anjos apareceriam o tempo todo. Isso significaria que 
a atividade criativa continuada de Deus incluiria a criação de novos anjos.
MATTHEW: E por que não?
RUPERT: H á tam bém a questão a respeito do que acon tece com os an jos 
qu and o eles estão ociosos. O s an jos que governavam os dinossauros n ão têm 
m u ito qu e fazer u ltim am ente.
MATTHEW: Obviamente eles se reciclam, ou são treinados para governar 
os seres humanos.
RUPERT: Ou talvez a evolução esteja ocorrendo em outros planetas do 
universo e eles sejam simplesmente realocados. Os anjos dos dinossauros 
podem ir instantaneamente para planetas onde os dinossauros estão come­
çando a existir, podendo lã executar um trabalho muito útil.
MATTHEW: Existem dinossauros em outros planetas? Pensei que as es­
pécies fossem um acontecimento único no universo, O que deu origem aos 
dinossauros foi uma sucessão muito singular de eventos ocorridos neste 
planeta. Seria muito difícil repeti-los.
RUPERT: Não se houver ressonância mórfica. Os trilhões de estrelas e 
trilhões de planetas podem se dividir em espécies. As estrelas já estão classi­
ficadas em diversas categorias distintas. Pode haver espécies de sistemas 
solares em toda parte do universo, e os planetas dentro deles também podem 
se dividir em espécies. Pode haver dezenas, centenas ou, mesmo, milhões de 
planetas divididos em espécies Marte, Júpiter ou espécie Terra. Se forem 
suficientemente parecidos, haveria ressonância mórfica entre eles. O proces­
so evolucionário na Terra ressonaria com os processos evolucionários em 
outros planetas da espécie Gaia.
116 A FÍSICA DOS ANJOS
A ascensão dos anjos para um estacío 
de graça e gíória
Temos de entender que a beatitude completa e perfeita pertence 
por natureza somente a Deus, para quem existir e ser feliz são a 
mesma e única coisa. Em todas as criaturas, natureza é uma 
coisa e alegria perfeita é outra - sendo esta alegria o fim último 
ao qual almeja a natureza.38 É da essência da beatitude ser acla­
madaou confirmada na bondade. Por beatitude nos referimos à 
máxima perfeição de uma natureza dotada de razão e intelecto: 
por isso é naturalmente desejada. Todas as coisas têm um desejo 
natural pela máxima perfeição [...] A beatitude suprema está 
além de todas as capacidades naturais, e isso nenhum anjo pos­
suiu desde o primeiro momento da existência, pois ela não está 
inclusa na natureza, mas é um objetivo dela. Portanto, os anjos 
não poderiam tê-la possuído desde o início.39 Os anjos precisam 
da graça para se voltarem a Deus, enquanto ele for o objeto cau­
sador da beatitude [...] os anjos nutrem um amor natural por 
Deus como fonte de sua existência natural; mas estamos falando 
agora a respeito de uma busca por Deus como fonte da bem- 
aventurança que consiste em ver sua essência revelada.40 A graça 
está a meio caminho entre a natureza e a glória.41
MATTHEW: Para mim, a afirmação “É da essência da beatitude ser acla­
mada ou confirmada na bondade” é especialmente rica porque bondade é 
outra palavra para bênção. Então, Aquino está dizendo aqui que a beatitude 
tem a ver com ser demonstrada na bênção, tanto na consciência da bênção 
como na consciência de ser abençoado e de ser um instrumento de bênção. 
É assim que a bem-aventurança acontece no mundo.
Dizer que todas as coisas trazem um desejo natural por sua máxima 
compleição e perfeição, que é a beatitude, é algo típico de Aquino. O desejo 
é a razão de todas as coisas, e todas as coisas procuram essencialmente sua 
própria bondade e a bondade do todo, a bondade maior. O bem por trás de
São Tomás de. Aquino 117
toda bondade é a divindade. E é claro que Aquino inclui os anjos nessa cos­
mologia de bênção e bondade.
Ele vai além quando fala sobre a graça, que, acrescentada a esse desejo 
natural por Deus, é capaz de ajudar na revelação da essência divina. A graça 
está firmada na natureza, até mesmo na natureza angélica, que, por si só, não 
é capaz de experimentar a essência da divindade revelada.
Acredito que o seu entendimento é o de que as criaturas, de qualquer 
categoria, não são completamente felizes. Existe uma distinção entre a exis­
tência delas e a felicidade perfeita. Natureza é uma coisa e alegria perfeita é 
outra, sendo essa alegria o fim último almejado. Todas as criaturas desejam 
aumentar sua alegria; ser, existir e viver são processos de propagação de sua 
experiência de alegria.
Acredito ser uma surpresa ler isso. A maioria das pessoas provavelmen­
te não pensa em Deus como sendo totalmente feliz. Mas o texto mostra a 
divindade de outra forma: a divindade é a mais alegre. Em outra passagem, 
Aquino diz: “Deus é o mais feliz e, por esse motivo, é supremamente cons­
ciente”.42 Ele une consciência e alegria. E, é claro, Aquino está falando aqui 
a respeito da imensa alegria dos anjos.
RUPERT: A co n cep ção h ind u da su prem a co n sc iê n c ia d ivina é d escrita 
co m o satchidananda - ser-co n h ecim en to -a leg ria , in d iv isivelm en te com­
b inad os.
Não está claro para mim como Aquino entende exatamente a alegria, 
mas você provavelmente já pensou sobre isso, pois escreveu um livro, Sheer 
joy , com base nos escritos dele. Seria a alegria algo que só pode acontecer 
por meio da participação em algo maior que si mesmo? Se assim for, um anjo 
ou qualquer criatura teria de ir além de si mesmo para dela participar.
MATTHEW: Sim. Acredito que Aquino colocaria a questão dessa forma. 
Definitivamente, a alegria nunca é uma experiência particular, mas parte de 
uma experiência comunitária. Ele diz, inclusive, que “A alegria pura é de 
Deus e exige companhia”.43 Até a alegria divina busca companhia com a qual 
possa dividir a alegria, busca o senso de comunhão. Aquino também aborda 
o tema trinitãrio, segundo o qual existe alegria comunitária e de grupo no 
íntimo da divindade. Em seguida, estende essa idéia à criação em si. A co­
118 A FÍSICA DOS ANJOS
munhão da criação é o receptáculo da alegria divina e, provavelmente, é uma 
fonte dela também.
RUPERT: Isso torna mais claro o porquê de Aquino achar que os anjos, 
criados em um. estado além de qualquer coisa que possamos imaginar, pre­
cisam ir além da própria natureza para alcançar a alegria, e que precisam de 
graça para isso.
Os anjos foram criados na graça?
E m b o ra a graça se e n co n tre en tre a n atu reza e a g lória n a ord em 
o n to ló g ica , na o rd em do tem p o n ão seria ap rop riad o a u m a cr ia ­
tu ra receb er, s im u lta n ea m e n te , g ló ria e su a n atu reza . E n q u an to 
a g lória , a ju d ad a p e la g raça, está re lac io n ad a às ativ id ad es n a tu ­
rais co m o seu resu ltad o , a g raça em si n ão está re lac io n ad a a elas 
co m o resu ltad o . N ão resu lta delas, m as, ao co n trá r io , em certa 
m ed id a, as ativ idades n a tu ra is resu ltam da graça, co n ta n to qu e 
se ja m b o as. E esse é o fu n d am en to p ara p en sarm o s q u e a graça 
fo i dada aos a n jo s ju n to co m a n atu reza desde o p r in c íp io .44
MATTHEW: Para mim essa declaração fala sobre o que eu chamaria de 
graça original, de bênção original. Os anjos seriam mais abençoados do que 
outras criaturas. Eles receberiam natureza e graça ao mesmo tempo.
RUPERT: Parece que ele está dizendo que o intervalo entre as atividades 
naturais e a glória tem de ser preenchido pela graça. A graça tem de ser 
transmitida a partir da glória, e conectar-se com as atividades naturais. As 
atividades naturais sozinhas não podem alcançar a glória; a glória tem de 
atingir as atividades naturais, e esse processo envolve a graça.
MATTHEW: Sim. E hã outros trechos nos textos de Aquino em que ele 
fala sobre como a graça e a natureza vêm de Deus. A graça é uma dádiva 
inteiramente gratuita de Deus, mas também a natureza. Ele é muito cuida­
doso para não criar um dualismo entre natureza e graça, como se a natureza 
fosse inferior e a graça tivesse de ser dela separada. Ele está se afastando da
São Tomás de. Aquino 119
separação entre natureza e graça elaborada por Santo Agostinho, mas não 
tem a intenção de ser muito explícito a esse respeito. Mestre Eckhart, que 
surgiu na geração seguinte e se baseou em Aquino, foi suficientemente cora­
joso e sincero para dizer: “Natureza é graça”.
Cacfa anjo alcançou a beatitude imediatamente
após um ato de merecimento?
Cada anjo alcançou a beatitude imediatamente depois de merecê- 
la com seu primeiro ato de caridade [..d É característico da natu­
reza angélica, e para ela apropriado, atingir sua plenitude natural 
por meio de um ato simples, e não por um processo gradual [...]
É coerente com a natureza do anjo que avance imediatamente 
para a plenitude da existência a ele apropriada.45
MATTHEW: Essa é claramente uma área na qual os anjos diferem dos 
seres humanos. O anjo teve apenas uma escolha. Como Aquino diz, a esco­
lha foi a da caridade. Aqueles anjos que conhecemos como anjos bons fize­
ram essa escolha, e a partir desse momento sua natureza foi preenchida por 
graça e bem-aventurança, por isso eles viveram em plenitude ao longo de 
toda a sua existência. Isso ajuda a explicar por que eles são repletos de luz e 
radiância, doxa e glória, e por que o encontro com essas criaturas traz felici­
dade aos seres humanos.
RUPERT: Em. outro momento, Aquino fala sobre uma sucessão de esta­
dos em um anjo (veja a p. 105). Aqui, parece que o primeiro passo dado por 
eles é um ato de caridade que, por meio da graça, os liga à fonte da beatitu­
de ou da felicidade. Daí em diante, permanecem nesse estado, mas ainda 
conseguem transformar esse conhecimento conforme os acontecimentos as­
sim o exigirem, e podem passar por uma série de estados mentais a tempo. 
Presume-se que todos seriam iluminados pela beatitude após fazer essa pri­
meira escolha, e que, portanto, transmitiriam essa bem-aventurança.120 A FÍSICA DOS ANJOS
É apenas por meio do orguCho e da inveja que os 
anjos podem pecar?
Como pode haver pecado em desejar satisfações espirituais? De 
uma maneira, apenas: não observando o limite imposto por uma 
vontade maior que a sua própria. E é esse o pecado do orgulho.
Por isso, o primeiro pecado em um anjo só pode ter sido o do 
orgulho - não se submeter àquele que lhe é superior quando a 
submissão a ele é devida. Como consequência, porém, os anjos 
também poderiam pecar pela inveja, pois o mesmo motivo que 
desperta em ti o desejo por algo, o fará detestar o oposto daqui­
lo que desejas. A inveja é exatamente isso, uma pessoa se ressen­
tir do bem-estar da outra, como se isso fosse um obstáculo ao 
seu próprio bem-estar. E assim aconteceu com o anjo do mal: ele 
enxergava o bem-estar do outro como um impedimento ao que 
ele desejava, e isso justamente porque ele desejava uma proemi­
nência sem par, que não mais seria assim se outro também pas­
sasse a ser proeminente. Assim, depois do pecado do orgulho, 
ele também caiu no mal da inveja, detestando o bem-estar da 
humanidade; e detestando também a majestade de Deus, na me­
dida em que Deus faz uso do homem para aumentar sua própria 
glória, contra a vontade do demônio.46
RUPERT: Aqui, vemos o pecado do orgulho como sendo o único origi­
nalmente acessível a um anjo, com a inveja vindo em seguida. Não seria isso 
que Aquino chama de pecados do espírito? Outros pecados, como a luxúria 
e a gula, dependem da existência de corpos, por isso até mesmo os demônios 
seriam imunes a eles.
MATTHEW: Minha opinião é a de que Aquino inclui entre os pecados do 
espírito a inveja e o orgulho, mas também a avareza, a preguiça, a desespe­
rança e o medo. A menção à inveja aqui é especialmente interessante. O 
orgulho e a inveja fomentam um ao outro. Ou o orgulho agrava a inveja ou
Sáo Tomás de. Aquino 121
a inveja torna pior o orgulho. Assim como a interconectividade de coisas no 
universo, existe uma interconectividade de pecados espirituais.
RUPERT: Esse é um tema desenvolvido por John Milton em seu grande 
poema Paraíso perdido. Ele nos oferece uma maravilhosa imagem da queda 
de Satã por meio do orgulho, e mostra como os outros anjos caídos se espe­
cializam em outros vícios - avareza, por exemplo, no caso de M.ammon. O 
tema que Aquino discute aqui é detalhadamente destrinçado por Milton, da 
maneira mais fascinante.
MATTHEW: Creio que, em nossa época, a palavra orgulho seja um pro­
blema porque, no que diz respeito às pessoas politicamente oprimidas, é 
sempre conveniente dizer que seu pecado é o orgulho quando estão tentan­
do se libertar ou alcançar uma certa medida de igualdade ou justiça. Esse 
abuso da palavra orgulho por parte dos poderes institucionais constituídos 
tem envenenado o termo. Acredito que uma melhor tradução, hoje, seria 
“arrogância”. O orgulho em si é uma virtude enquanto entendido como 
auto-estima. Aquino repete várias vezes ser importante que exista amor-pró­
prio, e que não amar a si mesmo também é um pecado; ele fala, ainda, sobre 
o amor próprio dos anjos. Em nosso idioma, a palavra orgulho perdeu seu 
verdadeiro sentido como um pecado do espírito. A palavra arrogância faz 
muito mais sentido.
RUPERT: Eu concordo.
MATTHEW: Visto que a inveja ainda está viva e bem. Não acho que exis­
ta um lado bom para a palavra inveja como acontece com a palavra orgulho.
O demônio desejava ser como D eus?
O demônio desejava se parecer com Deus, no sentido de colocar 
sua felicidade suprema como um objetivo a ser obtido somente 
pela força de sua própria natureza, rejeitando a beatitude sobre­
natural que depende da graça divina. Ou se, talvez, buscando 
como seu fim último essa semelhança com Deus, que é uma 
dádiva da graça, ele desejasse obtê-la por meio de seu próprio 
poder natural, e não com a ajuda divina em conformidade com
122 A FÍSICA DOS ANJOS
a vontade de Deus. Isso estaria de acordo com a visão de Ansel­
mo, de que o demônio desejava aquilo que ele finalmente teria 
alcançado quando tivesse refreado seu desejo.47
MATTHEW: Aquino não está criticando o demônio ou quem. quer que 
seja por desejar ser como Deus. Na verdade, ele diz que isso não é pecado. 
Mas o desejo do demônio de ser como Deus era o de uma divindade “faça- 
você-mesmo1’, um desejo de consegui-lo apenas pela força de sua natureza, 
e não com ajuda divina. O pecado era fazê-lo sozinho, sem querer ser um 
colaborador de Deus, mesmo no desenvolvimento de sua própria natureza. 
Era um caso de confiança excessiva em seus próprios poderes para se chegar 
a um bom termo, mas um desfecho final que não estava a seu alcance. Hou­
ve uma falha na cooperação, uma falha na conexão com o divino.
RTJPERT: Suponho que existam muitos paralelos no domínio humano. 
Um deles é a crença moderna de que a humanidade está acima de qualquer 
necessidade de conhecer Deus ou a graça, e que pode agora assumir o con­
trole de seu destino e do destino dos planetas. Essa tem sido a visão do 
humanismo secular, a base da ideologia do progresso por meio da ciência 
e da tecnologia. Estamos vendo agora a face mais perversa do “progresso”, 
e a fé no humanismo secular está desaparecendo rapidamente. É muito 
difícil agora acreditar que a razão humana por si só, junto com a ciência e 
a tecnologia, pode resolver todos os problemas com os quais nos confron­
tamos e trazer um futuro melhor e mais iluminado. A evidência parece 
indicar o contrário.
A mais cabal personificação da crença de que podemos confiar apenas 
em nossos esforços foi o comunismo, cuja ideologia era baseada no controle 
racional de tudo, incluindo a sociedade humana, a economia e a natureza. 
O materialismo em sua forma capitalista implica uma fé parecida, só que, em 
vez de tudo ser controlado pelo planejamento humano, a crença é de que o 
mercado cuidará de tudo. A fé não é dirigida a Deus, mas ao mercado, a 
Mammon.
MATTHEW: Tendo atingido a maioridade na Era Moderna, os dois siste­
mas compartilham a crença no mecanicismo: de alguma forma, se assumís­
semos a mecânica capitalista como correta ou o sistema comunista como
Sdo Tomás de, Aquino 123
adequado, a máquina se autolubrificaria e engrenaria de forma bem-sucedi­
da e vantajosa para todos. Claramente isso não aconteceu.
Sob alguns aspectos, a idéia do mecanicismo como um todo se aproxi­
ma daquilo que Aquino denominou pecado do demônio. Se tomarmos as 
frases “somente a força de sua própria natureza [...] seu próprio poder natu­
ral” e substituirmos por “somente a força da máquina [...] o poder da própria 
máquina”, isso traduziria a essência das idéias de mercado e de burocracia 
comunista.
RUPERT: De qualquer modo, o demônio pelo menos reconhecia a exis­
tência e a realidade de Deus, enquanto, no secularismo moderno, a plena 
existência de Deus e da graça é negada ou ignorada.
MATTHEW: Eu diria que, para Karl Marx, muito de sua aspiração teve a 
ver com a exigência bíblica por justiça, e justiça é um dos nomes divinos. 
Ele se esforçou para fazer justiça em um momento muito injusto da história, 
o florescimento da sociedade industrial, com uma excessiva concentração de 
poder nas mãos de uns poucos proprietários de fábricas e perseguição de 
trabalhadores. Ele atacava violentamente essa injustiça, que é uma reação 
profética, bíblica e espiritual. Mas, certamente, a prática de suas teorias no 
século XX, tal como no estado soviético, não combinava absolutamente com 
as normas bíblicas de justiça. O fundamentalismo atual ligado ao grande 
capitalismo é igualmente assustador.
Quando os anjos caíram peta primeira vez?
Em todos os anjos, o primeiro ato de auto-reflexão foi bom. Na 
sequência, porém, alguns continuaram recorrendo à Palavra 
com louvor, enquanto outros permaneceram ensimesmados, 
enfatuados pelo orgulho. Assim, o primeiro ato foicomum a 
todos; foi no segundo que os anjos se separaram. Em um primei­
ro momento, todos eram bons; em um segundo instante, eles se 
dividiram entre o bem e o mal.48
124 A FÍSICA DOS ANJOS
MATTHEW: É interessante, nessa passagem, como Aquino opõe louvor e 
orgulho: os anjos bons se voltaram para o louvor, e os maus foram tomados 
pelo orgulho, permanecendo ensimesmados. O louvor é o ato de não retra­
ção em si mesmo; é sair. Chamo de louvor o barulho feito pela alegria. O 
louvor está relacionado com a alegria e carrega a pessoa para fora de si, 
transportando-a até mesmo para além de seu próprio sofrimento.
Isso me faz lembrar da pergunta de Mestre Eckhart: “Quem é uma pes­
soa boa? É aquela que louva boas pessoas”. Essa é mais uma razão que faz 
da inveja parte do pecado do demônio, pois a inveja também é uma recusa 
ao louvor. É a preocupação de alguém com o próprio desejo por louvor, 
pretendendo ser louvado à custa do direito alheio ao louvor.
RUPERT: Na sua opinião, leitor, qual o papel dos anjos caídos no mundo 
não-humano? Essa é uma boa pergunta. Existe o mal na natureza não-hu- 
mana? O cosmo todo é bom, exceto pelos anjos caídos e pelas pessoas peca­
doras? A atenção de Satã e dos anjos caídos está totalmente voltada para a 
espécie humana ou eles também têm outras esferas de ação?
Por exemplo, poderíamos esperar encontrar demônios por trás de algu­
mas das coisas horríveis que vemos no reino da biologia? Pense nas vespas 
que depositam seus ovos dentro de lagartas vivas e nas larvas que, quando 
eclodem, consomem a lagarta por dentro. O parasitismo e a doença repre­
sentam princípios diabólicos?
O câncer, por exemplo, representa uma ultrapassagem dos limites im­
postos pela ordem superior do organismo. Parte do corpo se torna autônoma 
e cresce de modo incontrolãvel, à custa do bem. do todo. Seria essa uma 
expressão do princípio satânico?
Estariam os anjos caídos livremente no universo inventando doenças 
cada vez mais nefastas e formas cruéis de parasitismo? Ou será que encara­
mos tudo isso como eventos moralmente neutros, ou mesmo bons a seu 
próprio modo, com os espíritos malignos entrando em cena apenas no do­
mínio humano?
MATTHEW: E há a questão da existência de outros seres, talvez em outras 
galáxias. Se eles têm consciência, deveriam ter escolha e, se têm escolha, não 
estariam sujeitos aos pecados da arrogância e da inveja?
São Tomás dt A quino 125
RUPERT: Tudo indica termos de concluir que isso é provável. Na hierar­
quia ou holarquia da natureza, tudo existe dentro de um nível superior de 
ordem, com limites à sua autonomia. A tendência de quebrar esses limites 
deve ser uma “doença ocupacionai” desse tipo de universo. Portanto, deve­
ríamos esperar que os mesmos tipos de problemas surgissem em outros seres 
conscientes, sejam eles humanos ou não.
MATTHEW: Me ocorreram, agora, duas afirmações: uma de Thomas 
Merton, de que “todas as criaturas que não têm duas pernas são santas”; e 
outra do rabino Zalman Schachter, de que “existe mais bem do que mal no 
mundo, mas nem tanto”. Aquino e Schachter se mantêm fiéis à tradição bí­
blica de que há mais graça e bondade do que pecado, mas isso não quer 
dizer que o pecado não seja real e poderoso.
RUPERT: De acordo com Aquino, os anjos provavelmente foram criados 
com o universo físico (p, 113), e o segundo momento de sua vida envolveu 
a escolha entre o bem e o mal. No contexto da cosmologia moderna, a queda 
dos anjos teria ocorrido muito rapidamente, em seguida ao Big Bang. Os 
primeiros anjos teriam caído nos primeiros 1030 segundos do universo, ou 
logo depois.
O que têm feito os anjos caídos desde então? Estariam os demônios 
atrapalhando a formação de galáxias, estrelas e planetas desde o princípio?
MATTHEW: Sendo os demônios tomados pela inveja, sentir-se-iam ex­
tremamente invejosos dos anjos responsáveis pela governança desses siste­
mas vastos, belos e radiantes. Imagine que, se eles fossem absolutamente 
arrojados, preparar-se-iam para atrapalhar, por inveja, o potencial sucesso 
dos anjos em fazer deste universo um lugar esplêndido.
RUPERT: Se admitirmos a idéia de que novos anjos são continuamente 
criados conforme surgem novas galáxias, estrelas, planetas e espécies, con­
sequentemente, em seu segundo instante, se lhes apresentaria a opção de 
escolher entre o bem e o mal, de acordo com Aquino. Isso significaria, por 
exemplo, que, se o anjo de uma determinada estrela optasse pelo mal, essa 
estrela ficaria sob a influência do mal. Na astrologia tradicional, existe a 
crença de que certas estrelas têm, de fato, aspecto maligno, como Algol, a 
“estrela do demônio” na constelação de Perseu.
1Z6 A FÍSICA DOS ANJOS
MATTHEW: Tudo faz parte da cosmologia. A Carta aos Efésios diz que 
nossa luta é “contra os principados e as autoridades, contra os dominadores 
deste mundo de trevas, contra os espíritos do mal, que habitam as regiões 
celestes” (Efésios 6,12). Os seres humanos não estão lutando apenas contra 
sua própria inclinação para o mal, mas contra a inclinação das forças demo­
níacas para o mal nos Céus.
RUPERT: isso é muito surpreendente. Crescemos acostumados a pensar 
nas estrelas, nos planetas e no céu como corpos nem bons nem maus, mas 
destituídos de sentido, apenas seguindo leis matemáticas impessoais.
Satanás era o maior de todos os anjos 
antes de cair?
Em Ezequiel, Satanás é descrito como um querubim [...] Queru­
bim quer dizer “pleno de conhecimento”; serafim, “aquele que 
arde em chamas” ou que “incendeia”. O primeiro nome denota, 
então, conhecimento, que é compatível com pecado mortal; o 
segundo, ardor da caridade, que não é compatível com pecado 
mortal. Esta é uma razão para chamar o primeiro anjo pecador 
de querubim, e não de serafim.49 Na Bíblia, os nomes de duas 
ordens angélicas, Serafins e Tronos, não são designados a demô­
nios, pois dizem respeito a coisas incompatíveis com o pecado 
mortal: o ardor da caridade e a presença de Deus. Mas os demô­
nios são chamados de Querubins, Potestades e Principados, uma 
vez que esses termos denotam conhecimento e poder, que se 
manifestam na esfera do iníquo, assim como na do bem.50 Se 
considerarmos o pecado sob o aspecto do motivo, fica claro que, 
quanto mais notáveis fossem os anjos, maior a probabilidade de 
eles caírem; como vimos, o pecado diabólico era o orgulho, e a 
motivação do orgulho é a proeminência na natureza.51 Como já 
dissemos, quando o anjo busca um objetivo, seja ele bom ou 
mau, ele se move com tudo o que existe dentro de si; nada nele
5 ao Tomás de Aquino 127
o deterá. Por conseguinte, o anjo mais importante, tendo mais 
poder natural que os anjos inferiores, mergulhou no pecado com 
igual intensidade. E isso bastou para torná-lo o pior.52
m a t t h e w : Estou impressionado com essa afirmação a respeito do de­
mônio, de ele ser um querubim, com “conhecimento e poder, que se mani­
festam na esfera do iníquo, assim como na do bem”. Na Era Moderna, tem 
havido uma explosão de conhecimento e poder por parte da humanidade, 
como na terrível tecnologia militar das armas nucleares e químicas. Penso 
que poder declarar o conhecimento e o poder como esferas latentes para a 
energia demoníaca é muito importante.
r u p e r t : Isso nos remete à história de Fausto. Sob vários aspectos, o 
mito faustiano é o mito da ciência. Fausto vende sua alma ao diabo em troca 
de conhecimento e poder ilimitados.
Desde o início, o empreendimento científico foi dedicado ao conheci­
mento e ao poder. Mesmo antes da revolução mecanicista no século xvn, Sir 
Francis Bacori profetizava sobre como a humanidade e a Terra seriam trans­
formadas por um sacerdócio científico devotado ao conhecimento e ao po­
der. A imagem de Fausto vendendo a alma ao diabo em troca de poder e 
conhecimento expõe um. padrão do arquétipo que fundamenta todo o em­
preendimento mecanicista.É claro que, como disse Aquino, o conhecimento e o poder podem ser 
usados para o bem. Mas, se forem somente empregados para servir a fins 
humanos, sem qualquer senso de poder e graça de Deus, acabarão envolven­
do o pecado diabólico da arrogância.
MATTHEW: E o mito tem estabelecido que o conhecimento científico é 
moralmente neutro. Quando os cientistas vendem seu poder a estabeleci­
mentos militares, governos e empresas químicas, não é preciso ser doutor 
em ética para suspeitar que esse conhecimento não é moralmente neutro. 
Como qualquer outro poder, o saber exige disciplina espiritual. Precisa estar 
relacionado à justiça, à compaixão e à interdependência. Precisamos criar 
limites para esse tremendo poder de conhecimento que a ciência humana é 
capaz de gerar.
128 A FÍSICA DOS ANJOS
Outra passagem que me deixou muito sensibilizado foi a seguinte afir­
mação: "quando o anjo busca um objetivo, seja ele bom ou mau, ele se move 
com tudo o que existe dentro de si; nada nele o deterá”. Achei esse trecho 
comovente, muito apaixonado. Nada em um anjo o deterá. Se o anjo e uma 
espécie em si mesmo, ele não tem mãe e pai, avós ou filhos que digam: “Ei, 
anjo, você está passando dos limites”. É verdadeiramente um poder em si 
mesmo, mergulhando de cabeça em tudo o que há por dentro, com total 
intensidade. Achei esse parágrafo realmente interessante.
Cultivamos essa noção de que os anjos são seres etéreos que voam por 
aí, fazem coisas bonitas e se reanimam com belas músicas. Mas aqui temos 
uma afirmação de Aquino sobre a intensidade, a força e a entrega a uma ta­
refa, sem abandoná-la. Isso tem um lado positivo. De acordo com Aquino, é 
assim que os anjos bons agem também. Então, se os anjos estiverem com­
prometidos com o bom funcionamento do universo, do sistema solar e des­
te planeta em particular, parece que seria bom tê-los ao nosso lado — genui­
namente intensos e compromissados.
RUPERT: Também fiquei surpreso com a idéia de Satanás ser um queru­
bim. Parece bizarro, pois imaginamos os querubins como menininhos de 
bumbuns rosados aglomerados sobre os retábulos barrocos. Aquino nos 
lembra de que os querubins são os maiores, mais poderosos e mais assusta­
dores de todos os anjos, nada parecidos com os meninos alados. Ele nos 
afasta dessas imagens extremamente enganosas.
MATTHEW: Exatamente. Também gosto dessa explicação a respeito de 
os serafins equivalerem àqueles seres em chamas, àqueles que incendeiam, 
identificando isso com o ardor da caridade. Eles estão protegidos do fogo 
por sua real natureza, enquanto os querubins são mais ambíguos. O conhe­
cimento e o poder podem levar ao pecado mortal; a caridade, jamais.
Como os anjos maus ajutíam
Por sua natureza, os anjos estão entre Deus e o homem. Isto 
porque, no plano da providência divina, o bem dos seres inferio­
res é alcançado por meio dos seres superiores. E o bem do ho­
São Tomás de Aquino 129
mem é alcançado de duas maneiras: em primeiro lugar, direta­
mente, à medida que somos atraídos para o bem e afastados do 
mal, sendo os anjos bons os agentes adequados nesse processo; 
e também indiretamente, como quando somos chamados ao 
exercício da virtude, tendo de enfrentar ataques e superar obs­
táculos. E é razoável pensar que essa contribuição ao nosso 
bem-estar deva ser oferecida pelos anjos maus, para que, depois 
de pecar, não cessem de ter alguma utilidade no universo.53
MATTHEW: Aquino está cooptando os anjos maus - o que quer que fa­
çam, tornam as coisas melhores. Esta não é uma afirmação meramente abs­
trata ou teórica, pois, naquele momento de sua vida, quando estava escre­
vendo a Suma teológica, ele enfrentava grande oposição, sendo atacado, por 
um lado, pelos aristotélicos seculares, os ateístas, se preferir; e, por outro, 
pelos fundamentalistas, que eram muito eloquentes. Percebo se tratar de 
uma declaração pessoal dele. Ser atacado e superar a adversidade é um. exer­
cício para a virtude, e a virtude, para Aquino, é a base da moralidade. Seu 
conceito de moralidade não está baseado em mandamentos, mas em virtu­
des, que significam um desenvolvimento positivo do poder, o poder sadio. 
Os anjos bons nos apoiam e os anjos maus nos são úteis, pois nos ajudam a 
consolidar nossos “músculos” virtuosos.
RUPERT: E isso remete à antiga idéia de que cada pessoa tem um anjo 
bom e um anjo mau. Vemos isso, por exemplo, na peça Doutor Fausto, de 
Christopher Marlowe. Enquanto Fausto está decidindo se deve ou não ven­
der sua alma ao diabo, de um lado do palco encontra-se o anjo bom, e do 
outro, o anjo mau, ambos oferecendo seus conselhos. O anjo mau triunfa. 
Essa maneira de representar o drama do bem e do mal personaliza-o. Não 
nos é destinado apenas um anjo bom, mas também um anjo mau, e ambos 
influenciam a formação de nossas decisões morais.
MATTHEW: Isso levanta a questão do mistério e da sabedoria. Para con- 
trabalancearmos os anjos maus do conhecimento, do poder e da arrogância 
incessantes, precisamos hoje dos anjos da sabedoria. A sabedoria nunca é 
antiintelectual, jamais sufoca o conhecimento, mas o coloca em seu contexto
130 A FLSICA D0 5 ANJ05
mais amplo de amor e justiça, de serviço e coração; e de sabedoria divina, 
uma conexão com a divindade.
A perda do mistério na Era Moderna faz parte do lado sombrio do co­
nhecimento que vaga desprevenido, procurando seu lugar de poder, e não a 
sabedoria. Temos consignado o reducionismo no mistério. Muitas pessoas 
pensam apenas nas leis científicas que ainda não foram descobertas quando 
ouvem a palavra mistério; veem o mistério como mera lacuna em nosso co­
nhecimento. Mas não é esse o seu significado. Mistério é aquela dimensão 
da realidade com a qual nos deparamos, mas não modificamos.
Em minha opinião, tudo o que se conecta ao divino é misterioso. Aqui- 
no tem uma frase ótima: “Jamais chegaremos a conhecer sequer a essência de 
uma única mosca”. A mosca guarda sua essência. Ele também alude a essa 
idéia em seu estudo sobre os anjos, quando diz que um anjo não pode conhe­
cer nosso mistério. Mantemos nosso segredo, o segredo de nossa essência,
E, se isso é verdade para uma mosca, para nós ou para um anjo, imagi­
ne quão verdadeiro não é para todos os seres em conjunto, para a coletivi­
dade inteira do cosmo e, mais ainda, para a fonte de todas as coisas, o mis­
tério divino.
Parte de nosso ser que se desliga da força de Deus na busca por conhe­
cimento, poder e arrogância está se desligando do mistério. Há uma grande 
tristeza nisso. Viver a vida apenas para resolver problemas pode levar ao 
distanciamento daquilo que viver a vida realmente significa. A vida tem 
muito mais a ver com viver no mistério do que com dominá-lo ou apenas 
resolver problemas.
E, entre os mistérios, encontram-se os anjos, ainda mesmo depois de 
tudo isso.
RUPERT: Eles estão mais misteriosos que nunca. Na Idade Média, as 
pessoas acreditavam ter alcançado uma angelologia relativamente resolvida. 
Elas conheciam as hierarquias e como as diferentes ordens angélicas se en­
caixavam em sua cosmologia. Adaptavam muito bem sua compreensão dos 
anjos à cosmologia geocêntrica dominante na época.
Desde então, temos observado muitos séculos ao longo dos quais os 
anjos têm sido vistos por inúmeros intelectuais como imagens figurativas ou 
simbólicas, na melhor das hipóteses. Muitas pessoas não acreditam, em anjos,
São Tomás de Aquino 131
sejam eles bons ou maus. Mas, se os anjos caídos existirem de fato, devem 
estar se divertindo muito. Acredito que os anjos maus podem agir de modo 
muito efetivo quando ninguém sequer suspeita de que eles estão presentes.
Temos agora uma cosmologia completamente diferente, muito mais 
vasta e criativa do que tínhamos na Idade Média. Os anjos desse cosmo são 
certamente muito misteriosos. Mal começamos a entender como seus pode- 
res conscientes podem estar relacionados com a evoluçãoda natureza, com 
o desenvolvimento da humanidade ou com a expansão da consciência hu­
mana. Sabemos quase nada a respeito das inteligências sobre-humanas que 
influenciam nossas vidas, para o bem e para o mal.
HÜdegarda de Bingen
HÜdegarda de Bingen (1098-1179) foi uma pessoa extraordi­
nariamente talentosa cuja vida se estendeu por quase todo o século xn, um 
dos mais criativos do Ocidente. Esse período foi marcado pela construção 
da Catedral de Chartres, pela criação da universidade e pela introdução de 
uma nova cosmologia que chegou por meio das traduções islâmicas das 
obras de Aristóteles. HÜdegarda foi abadessa beneditina na região da Renâ- 
nia, Alemanha, onde ficou famosa por seus escritos (redigiu dez livros sobre 
temas que variaram da saúde holística a plantas, árvores, rochas e peixes, 
além de teologia, cosmologia e ciência), por seu poder de cura, por suas 
pinturas e sua música (compôs, entre outros trabalhos, a primeira ópera do 
Ocidente, e o canto gregoriano por ela composto é uma obra ímpar). Tam­
bém era poetisa e letrista de suas composições musicais. Além de mística, 
HÜdegarda era uma profetisa, conclamando os líderes da igreja à reforma e 
à renovação, seja por meio de suas cartas, seja por meio de sua prédica, a 
qual se incumbia de pronunciar nas maiores catedrais e nos mosteiros mais 
importantes de sua época.
Os anjos desempenharam um importante papel na experiência pessoal 
de HÜdegarda, assim como em sua cosmologia e teologia. De seus escritos,
134 A FÍSICA DOS ANJOS
foram selecionados aqui os trechos sobre anjos que julgamos os de maior 
interesse e os mais representativos de sua angelologia.
O fogo original, a partir do qual os anjos ardem e vivem, é Deus 
em si mesmo. Esse fogo é toda a glória da qual o mistério dos 
mistérios aparece.1 Os anjos rodeiam Deus em seu fogo incan­
descente, pois eles são luz viva. Eles não têm asas como os pás­
saros, mas ainda assim são as chamas que pairam sobre o poder 
de Deus.2 Deus é a fonte viva original que emitiu as ondas. 
Quando Ele disse as palavras “deixe ser”, passaram a existir os 
seres iluminados.3 A natureza angélica é um abrasamento can­
dente. Os anjos ardem de Deus, que é a raiz do fogo. De parte a 
parte eles não podem ser expelidos ou extinguidos por ninguém.
No amor de Deus, esse fogo arde perenemente.4
RUPERT: Hildegarda vê o fogo como a fonte dos anjos, o fogo de Deus. 
No contexto da cosmogonia moderna, com sua bola de fogo primordial, essa 
é uma imagem maravilhosa.
MATTHEW: Ela sugere que, assim como a luz foi a primeira criação divi­
na, conforme descrito no primeiro capítulo do Gênesis, esses seres de luz, 
iluminados, foram gerados no mesmo momento. Como nós fazemos hoje, 
ela estabelece uma conexão entre os anjos e a sua cosmogonia; e, uma vez 
que a sua cosmogonia está calcada total e estritamente na Bíblia, ela relacio­
na a primeira criação com a chegada dos anjos. Sua linguagem é extrema­
mente vívida. Os anjos não passam a existir simplesmente; eles ardem e vi­
vem, segundo ela. Deus é o fogo original. Glória, a doxa, é uma palavra para 
designar a radiância divina.
Os anjos realmente não têm asas como os pássaros, mas são como cha­
mas pairando sobre o poder de Deus. Essa imagem de Hildegarda muda 
definitivamente a imagem que temos de um anjo.
Deus como
Hãdegarda de Bingen 135
Luz e espefftamento
[Deus diz:] “Tenho criado espelhos para ver minha própria face, 
para observar todos os infinitos prodígios por mim originados. 
Tenho preparado para mim mesmo esses seres-espelho para que 
participem dos cantos de louvor. Por meio de minha palavra, 
que estava e está em mim, deixo uma luz poderosa brotando 
desses inumeráveis anfitriões, os anjos.”5
E Deus criou a luz, iluminação invisível que adere aos cor­
pos celestes vivos e voadores: os an jos.6
Ó anjos, cuja existência jorra de Sua fisionomia. Só vocês 
vislumbram o poder mais recôndito da criação no qual respira o 
coração do pai. Vocês o contemplam como em um semblante.7
[Os anjos são] uma luz da qual as esferas da vida depen­
deriam.8
RUPERT: Hildegarda vai além de dizer que os anjos são reflexos ou espe­
lhos; a luz flui abudantemente por meio deles, e as esferas de luz dependem 
deles. Eles são agora mediadores e também espelhos. De certo modo, são 
espelhos de mão dupla. São refletidos para Deus. Deus vê a Si Mesmo no 
espelho dos anjos. Ao mesmo tempo eles são mediadores, transmitem a luz 
de Deus aos domínios da vida.
MATTHEW: Quando Hildegarda diz: “Deus criou a luz, iluminação invi­
sível”, mostra que esta não é como a luz do sol, pois o sol ainda não existia. 
Também em nossa cosmogonia, o Sol, nem de perto, é tão antigo quanto o 
universo. Geralmente pensamos na luz como aquela oferecida pelo sol, mas 
não é essa a idéia que Hildegarda tem da origem da luz, nem é essa a con­
cepção contemporânea. Talvez tenhamos de imaginar um tipo diferente de 
experiência em relação à luz, que não aquela do sol, o que é impossível.
RUPERT: Talvez não seja impossível. Por meio da física, conhecemos 
muitas formas de radiação invisível. A luz visível é uma pequena porção do 
espectro eletromagnético. Os radioastrônomos detectam ondas de rádio vin­
das de galáxias distantes. E a radiação cósmica de fundo em microondas pelo
136 A FÍSICA DOS ANJOS
universo todo é a luz fóssil proveniente do Big Bang, de acordo com a cos­
mologia moderna.
A maior parte do espectro eletromagnético é invisível a nossos olhos 
devido à limitação de nossa visão. O que é visível tem mais a ver com a na­
tureza dos olhos do que com a natureza da radiação em si. Todas as formas 
de radiação eletromagnética envolvem os fótons.
Se os anjos são transmissores de luz, visível e invisível, a luz que deles 
flui inclui a ultravioleta e a infravermelha, os raios cósmicos, as microondas 
e os raios-X. Eles estão envolvidos no vasto complexo de radiação que inter- 
conecta todo o cosmo criativo e que também une a humanidade à Terra por 
meio de tecnologias eletromagnéticas, como o rádio e a televisão.
Louvor cósmico
Assim como o raio de sol introduz o Sol, os anjos anunciam 
Deus por meio de seu louvor, e, assim como o Sol não pode 
existir sem sua luz, Deus não é nada sem o louvor dos anjos.9 
O cosmo todo entoou o cântico dos anjos.10 
Com harmonias maravilhosas, os anjos anunciam em cantos 
elevados a glorificação de Deus. Com júbilo indescritível, os espíri­
tos abençoados por meio do poder de Deus exaltam as maravilhas 
que ele faz. O cântico de alegria e bênção ressoa pelos Céus.11
A linguagem dos anjos é, simplesmente, puro louvor [...] E 
assim o fogo tem suas chamas e é louvor diante de Deus. E o 
vento move as chamas para louvar Deus. E na voz vive a palavra, 
e isso também é um louvor a Deus. E uma voz será ouvida. E 
isso também é puro louvor a Deus. Portanto, o mundo inteiro é 
um louvor a Deus.12
MATTHEW: É interessante como Hildegarda julga necessário que o lou­
vor exista no universo e, certamente, na divindade. O louvor é uma reação 
à beleza, à graça, à alegria. Ela diz que o louvor se encontra no coração de 
Deus. Assim como a luz está para o Sol, o louvor está para Deus.
Hiidegarda de Bingeti 13 7
RUPERT: A linguagem dos anjos é puro louvor. O fogo também é louvor, 
as chamas tremulantes são louvores. A fala e a audição são louvores. Todas 
essas imagens de louvor são imagens de movimento: o fogo se move, o vento 
se move, as línguas se movem, a respiração se move, a audição se move. Nes­
se louvor há um movimento contrário na direção de Deus, talvez um espe- 
lhamento. A energia sai de Deus por meio dos anjos, e esse movimento de 
volta ao Criador, na forma de louvor, é vibrante, dinâmico e significativo.
MATTHEW: Esses textos também demonstram o contexto cosmológico 
no qual Hiidegarda atua e no qual os anjos operam. Ela diz que “o mundo 
inteiro é um louvora Deus”, e que “o cosmo todo entoou o cântico dos an­
jos”. Canto e louvor estão surgindo por todo o universo.
Isso nada tem a ver com vozes individuais; diz respeito a uma vibração 
cósmica, a uma canção cósmica, a ondas cósmicas e ao louvor. Assim como 
nossos olhos assimilam limitadas porções de luz, presumimos que nossos 
ouvidos só captem uma parcela limitada do canto. E do fogo, e do vento. A 
palavra secreta escondida nas coisas oferece um louvor universal e constan­
te a Deus.
RUPERT: Todo esse louvor é compreendido em termos de vibração. O 
som é vibrante, as chamas que cintilam são vibrantes. Agora, analisamos 
cientificamente toda a natureza como vibrante. Tudo é rítmico, oscilatório, 
mesmo na essência do átomo.
Mas em que sentido a atividade vibrante no universo poderia louvar 
Deus? E se Deus ouvir o louvor de uma natureza vibrante ou sonora, como 
ele vai ouvi-lo? Ele não ouve com os ouvidos, mas talvez nossos ouvidos 
possam fornecer uma analogia. Como funciona a audição? Funciona por 
ressonância. O tímpano vibra. Ele ressoa com qualquer som que o indivíduo 
ouvir. Para ouvir o som, temos de ter um modo ressonante de responder.
Isso sugere que o sensório divino, por meio do qual esse louvor é expe­
rimentado, deva ser essencialmente ressonante na natureza. Caso contrário, 
o louvor nas vozes, no som e na vibração não seria ouvido e visto por Deus. 
E qualquer reação deve envolver ressonância.
MATTHEW: E o que queremos dizer com ressonância, exatamente? Uma 
passagem para receber vibração?
138 A FÍSICA DOS ANJOS
RUPERT: Não é apenas uma questão de receber vibração, mas também 
de reagir a ela. A imagem clássica é a da ressonância agradável proveniente 
de cordas esticadas. Gosto de ouvir a aprazível ressonância dos pianos. Se 
você levantar a tampa, pressionar o pedal de sustentação e entoar OOO no 
piano, ele vai devolver o OOO para você. Se você entoar AAA em u m piano 
na mesma nota de antes, o piano devolverá o AAA. Esses sons de vogal se 
diferenciam em seu padrão de tons harmônicos, e as diferentes cordas res­
pondendo a essas nuanças ressonam para devolver o som de vogal. É como 
a imagem do espelho transportada para o domínio do som.
Assim como nossos olhos apenas reagem a um espectro limitado de luz, 
nossos ouvidos respondem apenas a uma escala limitada de frequências, e o 
mesmo ocorre com os microfones. Mas, se o universo inteiro estiver glorifi­
cando a Deus, e se Deus pode ouvir esse louvor, ele deve reagir a essa mani­
festação, o que implica uma capacidade de ressonar em todas as freqüências 
e em todos os lugares.
MATTHEW: Uma palavra é aquilo que vibra, e também aquilo que reve­
la. Toda criatura está sendo ouvida por Deus e, como você diz, Deus está 
vibrando com cada criatura. Existe um senso de comunicação e de equidade 
entre a audição divina e o louvor. Isso sustenta o que diz Hildegarda: “Na 
voz vive a palavra”. A palavra será ouvida. Na Era Moderna, obtivemos êxito 
ao “antropocentralizar” a palavra “palavra”. Na verdade, a “palavra” é bem 
mais importante e primordial, e rever seu conceito como vibração nos ajuda 
a “desantropocentralizar” a divindade.
RUPERT: O louvor precisa ser consciente? Os átomos vibram e o sensório 
divino pode ressoar com a vibração deles, mas seria isso em si uma forma de 
louvor? Uma vez que os anjos são seres conscientes, presumimos que seu 
louvor esteja em um nível diferente daquele rendido pelo restante da criação.
MATTHEW: Mas é o que Hildegarda está dizendo, que o fogo louva e que 
o vento louva. Ela não diz que eles apenas emanam som ou vibração.
RUPERT: Como você compreende isso?
MATTHEW: Os elementos, ao fazerem o que têm de fazer aqui, por serem 
fiéis a si mesmos, estão louvando porque certamente chegaram a construir 
algo digno de louvor, qual seja, a beleza, a ordem e o propósito implícito do 
universo. Talvez exista louvor consciente e inconsciente.
Hiidegarda de Bingen 139
RUPERT: Mas o louvor im p lica um a p ercep ção co n scien te daquilo que 
está sendo louvado. O louvor à beleza im p lica u m entend im ento da feiúra; 
louvar a luz implica u m conhecer a escuridão, e assim p o r diante. A m eu ver, 
o lou vor tem de ter esse elemento de consciência e escolha.
MATTHEW: O dado fundamental aqui é a palavra escolha. Saber que 
existem seres que podem escolher entre louvar e não louvar. E talvez seja 
essa a diferença entre aquilo que chamamos os elementos que louvam, os 
anjos e os seres humanos que louvam. O fogo e o vento talvez louvem in­
conscientemente, não lhes é permitida a escolha de não louvar. Os seres 
humanos, por sua vez, são capazes de escolher outras coisas que não o lou­
vor para apreciar a graça e a beleza que os cerca, como o cinismo, a auto- 
piedade e a postura de manter-se excessivamente absorvidos consigo.
Boas ações
E assim como Deus é louvado pelos anjos, e suas criações são 
reconhecidas por meio do louvor, pois os anjos fazem soar sua 
louvação com cítaras, harmonia e todas as vozes de júbilo - por­
que esta é sua verdadeira função - , Deus também é louvado pela 
humanidade. Pois os seres humanos cumprem dois propósitos: 
cantam o louvor a Deus e praticam boas ações. Assim Deus é 
reconhecido por meio de seu louvor, e por meio das boas ações 
cada pessoa consegue ver as maravilhas de Deus em si própria.
Então os homens são angélicos por meio de seu louvor 
(laus), e humanos por meio de suas boas ações (opus). Mas, 
como um todo, eles são a obra plena de Deus (plenum opus 
Dei), pois pelo louvor e pelas ações todas as obras de Deus são 
realizadas para a perfeição por meio desses seres humanos.13
MATTHEW: Hiidegarda está dizendo que a via positiva, que é o louvor, 
corresponde à metade de nossa tarefa, a qual dividimos com os anjos. A 
outra metade é a ação. Hiidegarda elabora uma imagem muito equilibrada
140 A FÍSICA DOS ANJOS
da humanidade. Estamos aqui para louvar e trabalhar, e o melhor trabalho 
deriva do nosso louvor - a ação decorrente da inação.
RUPERT: Mas não está clara para mim a distinção entre louvor e traba­
lho. Os anjos não louvam somente; também têm trabalho a fazer: por exem­
plo, eles são mensageiros. Quando Hildegarda diz que a característica da 
humanidade é uma vocação para boas ações, isso significa que a escolha 
entre bem e mal se coloca o tempo todo para os seres humanos? Para os 
anjos, essa escolha só ocorria no princípio, de acordo a visão tradicional. 
Alguns anjos caíram, mas os que não o fizeram nunca perdem sua conexão 
com Deus. Tudo o que fazem é a serviço de Deus, não apenas louvando-o, 
mas também convivendo em harmonia entre si. A metáfora musical e, par­
ticularmente, o uso da palavra harmonia, significam que os anjos não apenas 
estão ligados a Deus, mas que estão ligados uns aos outros. A harmonia de­
pende da inter-relação.
MATTHEW: Exatamente. Essa é a diferença que Hildegarda vê entre os 
anjos e os seres humanos. Os anjos fazem uma escolha definitiva pelo lou­
vor, mas os seres humanos têm de fazê-la diariamente. E o louvor é maior 
que o trabalho, porque é na esfera do louvor que os anjos trabalham. Mas a 
criatura humana tem de escolher trabalhar. Isso traz implicações para a na­
tureza da criatividade. Os seres humanos são criativos; os anjos, não. Estes 
fizeram uma única escolha, e só. Nossa criatividade reside na escolha que 
temos de fazer todos os dias. Temos de lutar para unir nosso trabalho e nos­
sas escolhas com uma consciência de louvor.
Uma maneira de perceber a diferença entre louvor e trabalho é pensar 
em termos de via positiva (que é louvor) e via transjormativa (que põe o lou­
vor para funcionar por meio de nossa criatividade).
Os anjos se movem tão rapicfament 
o pensamento
Os anjos não têm asas como os pássaros, mas voam muito mais 
rapidamente, na mesma velocidade em que viajam os pensa­
mentos humanos.14
Hildegarda deBingen 141
RUPERT: Estamos acostumados com a imagem de anjos com asas, e esta 
é uma representação muito antiga, encontrada em muitas tradições. Existem 
espíritos alados no xamanismo; no Egito, na Babilônia e na Suméria; no 
hinduísmo, no budismo e em tradições no mundo todo. Essa concepção está 
provavelmente relacionada à velocidade e à liberdade de movimento dos 
pássaros, à sensação de voar que experimentamos em nossos sonhos e à 
experiência xamânica de voar em transe.
Mas aqui Hildegarda está dizendo que isso é apenas uma imagem; é 
uma indicação do fato de que os anjos podem se mover muito rapidamente. 
O vôo é a forma mais livre e veloz de movimento. Por isso, as asas dos anjos 
retratadas em tantos quadros são, na verdade, uma imagem da capacidade 
de execução de movimentos livres e rápidos. Hildegarda vai além dessa ima­
gem comum: os anjos se movem tão rapidamente quanto o pensamento. 
Mesmo hoje, esta ainda é a melhor metáfora. Não conhecemos a velocidade 
com que os pensamentos viajam. Se eu telefonar para alguém na Austrália, 
posso transmitir um pensamento a essa pessoa com a velocidade da luz. Mas 
talvez os pensamentos sejam ainda mais rápidos que isso. Se olhar para uma 
estrela distante, sinto uma sensação de que meus pensamentos se enstendem 
para tocá-la, movendo-se por distâncias literalmente astronômicas com a 
maior velocidade.
MATIHEW: Ao ouvi-lo falar dessa forma, o sentimento que me toca é o 
de esperança. Existem seres no universo que podem alcançar as coisas mui­
to rapidamente. E estamos entre eles. Podemos, como você diz, falar e ima­
ginar coisas quase com a mesma velocidade da luz.
Isso alenta nossa esperança de podermos mudar o pensamento para 
melhor, e não só para o pior, a uma velocidade que cure nossos corpos e 
mentes em tempo para louvarmos a vida e o planeta, em vez de destruí-los.
RUPERT: No reino humano, saber se o pensamento consegue ou não se 
mover à velocidade da luz não é uma questão importante. Você precisaria de 
instrumentos de medição com a sensibilidade de microssegundos para con­
seguir detectar se um pensamento transmitido telepaticamente pode alcan­
çar a Austrália antes de uma chamada telefônica. Mas esta se torna uma 
questão interessante em relação aos anjos no cosmo. Nossa galáxia, por
142 A FÍSICA DOS ANJOS
exemplo, está a 100 mil anos-luz, aproximadamente. Então, um pensamen­
to angélico, se movido à velocidade da luz, levaria 100 mil anos para atra­
vessar a galáxia de um extremo ao outro.
MATTHEW: Bem, isso é muito importante. O tamanho expandido do 
universo, penso eu, aumenta o número de legiões de anjos trabalhando. Sei 
que, na Suíça, vive uma mulher que sente a presença dos anjos, e ela diz que 
eles demoram de quatro a cinco dias para chegar lá.
RUPERT: V êm de onde?
MATTHEW: De onde quer que estejam. Ela os escuta quando estão che­
gando, eles vêm cantando e ensinam a ela esses cânticos, os quais transcreve, 
mesmo não tendo formação musical. Mas ela os ouve se aproximando e eles 
demoram de quatro a cinco dias para chegar.
r u p e r t : Se viajassem à velocidade da luz, estariam, bem mais limitados. 
A estrela mais próxima do sistema solar está a quatro anos-luz de distância, 
e muitas das estrelas que vemos no céu estão distantes centenas de anos-luz. 
Comunicar-se à velocidade da luz com espíritos ligados a essas estrelas exi­
giria um tempo muito mais longo do que o tempo de uma vida de um ser 
humano, e, para as estrelas mais distantes, demandaria mais tempo que toda 
a história da civilização. Então, se existe qualquer forma de comunicação 
entre nós e as estrelas e galáxias distantes, ela deve ser mais rápida do que a 
velocidade da luz.
MATTHEW: Então existem muitos anjos por aí que nunca iremos encon­
trar nesta vida.
RUPERT: Depende da velocidade do pensamento angélico, que Hilde- 
garda deixa em aberto. E a pergunta, hoje, continua igualmente sem respos­
ta. Não podemos dizer que houve avanços importantes na compreensão do 
movimento angélico ou da velocidade do pensamento desde a época de 
Hildegarda.
MATTHEW: Mas houve avanço em termos de tamanho do universo, e 
por isso a questão tem sido ampliada.
r u per t : Sim, ela se torna uma questão mais urgente, mais relevante.
HiCdegarda de Bingen 143
Ordem hierárquica
Pois Deus, o todo-poderoso, dispõe os anfitriões celestes em di­
versas ordens, conforme a vontade divina. Algumas dessas or­
dens são designadas para a execução de serviços especiais, mas 
cada uma delas é designada para ser uma ordem-espelho das 
insígnias da outra. Em cada um desses reflexos encontram-se 
mistérios escondidos que cada ordem angélica não pode ver, 
conhecer, perceber ou realizar completamente. Por essa razão, 
esperam em expectativa, se elevam de louvor em louvor e assim 
se renovam continuamente, e seu louvor nunca se esgotará.15
RUPERT: A ordem hierárquica dos anjos é um conceito sobre o qual to­
dos aqueles que já escreveram sobre anjos parecem concordar, ainda que 
divirjam nos detalhes. Assim como Dionísio e Aquino, Hildegarda reconhe­
ce as nove ordens, organizadas em círculos concêntricos. Elas se encontram 
dispostas em uma hierarquia aninhada ou holarquia.
MATTHEW: O que vemos aqui é uma sinopse da palavra hierarquia nos 
textos de Hildegarda. Ela também disse que “Deus é uma roda”. A hierarquia 
aninhada é essencial porque a interdependência é essencial; as várias ordens 
precisam umas das outras, assim como as partes precisam do todo e o todo 
precisa das partes em qualquer estrutura. Isso é bom porque traz os anjos 
para uma esfera natural. Não os transforma em uma regra dentro de si mes­
mos; em vez disso, parecem seguir os mesmos padrões de interconectivida- 
de entre o todo e as partes seguidos pelo restante da natureza.
RUPERT: Teria de ser assim, necessariamente. Não h á uma maneira pela 
qual os anjos possam agir como consciências governantes independente­
mente da ordem na qual as coisas que eles governam estão organizadas.
MATTHEW: E gosto da frase de Hildegarda a respeito dos mistérios es­
condidos em cada um desses relacionamentos.
RUPERT: Tais mistérios estão em todos os níveis da ordem holárquica. 
Por exemplo, existem coisas que uma célula do fígado nunca entenderá so­
144 A FÍSICA DOS ANJOS
bre o fígado todo; e existem coisas que o fígado não consegue compreender 
a respeito do organismo todo, como você ou eu.
MATTHEW: N ão é verdadeiro supor, tam bém , que o organism o indivi- 
duai nunca poderá com p reend er tudo a respeito de um a célula?
RUPERT: Sim. Nossa compreensão está relacionada com o nível no qual 
trabalhamos. Podemos estudar a organização de uma célula por meio da 
biologia ou da bioquímica celular, mas penetrar uma célula ou discriminar a 
consciência de uma célula está além de nossa compreensão porque ela fun­
ciona de uma maneira completamente diferente. Obviamente, ela não vai 
falar inglês, não vai se preocupar com os impostos e esse tipo de coisas. Uma 
célula tem outras preocupações. Não são as mesmas nossas. Entre todos os 
níveis existe um relacionamento, mas também uma incompreensão mútua.
Um importante aspecto da holarquia dos anjos é a ciência de que há 
muitos níveis de consciência além do humano. Isso é negado por.materialis­
tas e humanistas seculares, que compreendem o conjunto da natureza como 
um mecanismo cego e inconsciente. Da sopa primordial a vida surgiu, e na 
plenitude do tempo os mamíferos apareceram, e então a consciência e a ra­
zão humanas apareceram. Essa é a única forma de consciência em toda a 
natureza. Não existe mente divina nem anjos, embora talvez haja huma- 
nóides em outros planetas portadores de uma ciência como a nossa. Mas a 
idéia de níveis ou de ordens de consciência diferentes não está presente na 
visão secular moderna. Que empobrecimento!
MATTHEW: E muito arrogante e antropocêntrico. E ainda afirmamos quea revolução copernicana nos afastou de um mundo centrado no humano 
para uma perspectiva objetiva do universo, mas de diversas maneiras o que 
aconteceu desde então o tornou mais monótono, menos misterioso, menos 
imaginativo e mais centrado no ser humano que qualquer outra coisa em 
que nossos ancestrais acreditavam antes de Copérnico.
RUPERT: E é realmente chamado “humanismo”, colocando os seres hu­
manos no centro.
MATTHEW: Agora que vemos que o universo é tão vasto, não seria qua­
se tolice pensar que essa parte minúscula da humanidade seja o único pon­
to de consciência e razão no universo? Não chega a ser quase um absurdo?
HiCdegarda de Bingen 145
RUPERT: Sim. E, mesmo assim., isso geralmente é retratado como um 
entendimento erudito. De varias maneiras o Iluminismo restringiu a cons­
ciência focando-se na razão humana, em nossa capacidade muito limitada 
de compreensão.
MATTHEW: Talvez os humanistas tenham querido dizer que, de fato, 
somos os únicos a adquirir conhecimento por meio de livros. E talvez esti­
vessem certos. Se os anjos e os espíritos conseguem viajar à velocidade do 
pensamento, então talvez estejam bem mais inteirados do. reino das idéias e 
não precisem de tantos meios quanto nós para chegar lá.
RUPERT: Exatamente. Eles não precisam da Internet.
Escuridão
[Deus disse:] “Eu, que estou nos lares de todos os cantos do 
mundo, revelei meu trabalho no Leste, no Sul e no Oeste. Mas a 
quarta porção, no Norte, deixei vazia; nem o Sol nem a Lua bri­
lham lá. Por isso, nesse lugar, distante das estruturas mundanas, 
está o inferno, que não tem teto nem chão. É ali onde reinam as 
trevas, mas essas trevas estão, simultaneamente, a serviço de 
todas as luzes de minha reputação. Como a luz poderia ser re­
conhecida senão pela escuridão? E como alguém conheceria a 
escuridão senão por meio do esplendor radiante de meus servos 
de luz? Se não fosse assim, então meu poder não seria perfeito; 
pois nem todos os meus feitos maravilhosos poderiam ser des­
critos”.16
RUPERT: Sob diversos pontos de vista, essa é uma passagem fascinante. 
Primeiro, afirma que a criação da luz necessariamente envolve a criação da 
escuridão, a separação entre luz e escuridão. E é essa a natureza da luz como 
a entendemos. A luz envolve uma polaridade de luz e de escuridão. O movi­
mento de onda da luz leva a caminhos alternados de luz e escuridão quando 
dois feixes de luz interferem um no outro. A luz é formada por ondas. Um
146 A FÍSICA DOS ANJOS
lado é luz; o outro, escuridão. E, como Hildegarda diz, a escuridão é neces­
sária para que a luz seja reconhecida. Toda percepção depende do contraste.
Quando ela diz que o espaço vazio estava no Norte, está usando nossa 
experiência como base de sua metáfora. No hemisfério norte, o Sol, a Lua e 
os planetas não brilham no setentrião. Existem estrelas ali, é claro; como a 
Estrela Polar, mas essa é uma metáfora local baseada em nossa experiência, 
e não em um princípio absoluto. Na Austrália, por exemplo, uma das carac­
terísticas mais desconcertantes é a maneira como o sol do meio-dia se hxa 
no norte. O sol nunca brilha ao sul.
O sentido mais profundo dessa metáfora é que, quando olhamos para 
o céu à noite, além e ao redor de todos os corpos celestes está o negrume. A 
escuridão é parte substantiva do universo como o conhecemos.
MATTHEW: É revelador o fato de ela situar a discussão a respeito da es­
curidão no contexto cosmológico dos quatro pontos cardeais. Entre os ín­
dios americanos, o norte geralmente representa o estado selvagem; quando 
alguém reza para os espíritos do norte, roga por força no coração para su­
portar as longas noites, os ventos bravios e a escuridão. Quando alguém 
dirije suas orações para o sul, está rezando para o espírito da bondade e da 
doçura, porque é de lá que vem o sol.
O quadro que Hildegarda tece do inferno não é aquele do fogo, mas o 
da gelidez. Como diria Dante um século depois, as profundezas do inferno 
são gelo, e não fogo. A máxima profundidade é gelo.
Ela não tem medo de olhar para o norte, de procurar no escuro o que 
ele tem para nos ensinar. E fica claro que o Criador fez os quatro pontos, 
incluindo a escuridão. Mas a escuridão, segundo ela, está a serviço de todas 
as luzes. Portento, a escuridão serve à luz, e a luz serve à escuridão.
Na tradição teológica, essa é uma celebração da divindade apofática, 
Deus na escuridão. Isso distingue Hildegarda de muitos pensadores new age 
que, ao que me parece, quase sempre evitam essa dimensão do norte, a di­
mensão da sombra e da escuridão. Eles costumam ver o mundo de modo 
dualista, dizendo que a escuridão não é digna de nós, ou que ela é maligna, 
ou simplesmente que só a luz existe. Na verdade, a escuridão também é um 
de nossos professores. Os místicos se referem a esse mergulho na escuridão 
como a via negativa.
Hildegarda dt Bingtn 147
Hildegarda dignifica o papel importante e positivo desempenhado pela 
escuridão, fala sobre a escuridão do útero e a escuridão anterior ao nasci­
mento, sobre a gestação em tempos de obscuridade, de dúvida e de espera. 
Ainda que escuro, o útero é um lugar de fecundidade positiva.
RUPERT: O fato de ela chamar de inferno a escuridão mostra que, a 
princípio, o inferno não é maligno ou mim; é simplesmente o reino obscuro. 
As primeiras concepções de inferno remetiam ao submundo, não é mesmo? 
Era um lugar escuro, mas não necessariamente mim.
m a t t h e w : Essa é uma idéia bem judaica. O Sheol, assim como Hades, 
é mais um lugar de incognosdbilidade do que de punição. Mas Hildegarda 
diz que ele não tem teto nem chão. isso quer dizer que ele é infinito?
RUPERT: Presume-se que corresponda à escuridão, à vastidão do espaço. 
MATTHEW: E também à vastidão da região escura da alma, onde você 
sente que não há chão quando mergulha na dor, no sofrimento e no pesar 
verdadeiros. O pesar não tem. chão nem teto. Ele toca o infinito, como se 
nunca fosse acabar.
No primeiro anjo, Deus traçou tudo o que de belo havia nas 
obras de sua onipotência. Deus o adornou como um céu e como 
um mundo todo: com todas as estrelas, com a beleza da vegeta­
ção e com todos os tipos de pedras preciosas. E ele o chamou 
Lúcifer, o portador da luz, porque carregava a luz que dele ema­
nava, que por si mesma é eterna.17
Lúcifer, mesmo tendo percebido que tinha apenas de servir a 
Deus com sua bela ornamentação, afastou-se do amor divino e 
partiu rumo à escuridão, onde começou a falar consigo: “Quão 
majestoso seria se pudesse agir segundo minha vontade e reali­
zar coisas semelhantes às quais tenho visto apenas Deus fazer?”. 
Seus asseclas concordaram e vociferaram: “Sim, queremos en- 
tronar nosso mestre no Norte contra o maior de todos”.18
148 A FÍSICA DOS ANJOS
O orgulho germinou nesse primeiro anjo quando ele se deu 
conta da própria radiância, e em sua presunção não mais en­
tendeu a fonte de sua luz. E, então, disse a si mesmo: “Quero 
ser o mestre, e não admito que exista alguém acima de mim”.
Em vez disso, aconteceu de sua majestade se esvair e ser apre­
endida: assim ele se tornou o príncipe do inferno”.19
MATTHEW: Lúcifer é o primeiro ser criado e parido em sua própria be­
leza e luz desmedidas. Mas, como um ser de consciência, teve de tomar uma 
decisão. A decisão de louvar ou não louvar. Como disse Hildegarda, sua 
arrogância germinou de sua própria radiância e de seu orgulho. Deixou de 
compreender a fonte de luz e beleza que era.
Hildegarda descreve a escolha de Lúcifer, o seu pecado, como uma re­
cusa ao louvor e como uma recusa a olhar para a fonte de sua beleza. É por 
isso que prefiro a palavra arrogância à palavra orgulho. Acho que o ser huma­
no precisa de orgulho; o orgulho é a capacidade de enxergar beleza em si 
mesmo. Arrogância é uma recusa a ver a origem e a causa da beleza. Penso 
que arrogância é banir de si próprio a fonte do ser e da existênciana luz e 
na beleza. Isso é absurdo, principalmente em um universo evolucionário, 
porque somos todos produtos do que veio antes.
Vejo o pecado de Lúcifer, como descrito por Hildegarda, muito mais 
como algo que antecipa a perversidade humana atualmente. Muito da nossa 
relutância em nos relacionarmos pacífica, alegre e justamente com. outros 
homens e com outros seres está em nossa recusa a enxergar a fonte comum 
que compartilhamos.
Colocar o pecado aos pés de uma recusa a observar as origens de al­
guém é enfatizar a importância capital da história da criação. É daí que vem 
nossa moralidade. Foi a recusa de Lúcifer a olhar para a sua própria história 
da criação que transformou seu orgulho saudável em arrogância pecamino­
sa. Acredito haver aqui uma lição para todos nós. Precisamos de uma histó­
ria das origens, de um respeito e uma glorificação à fonte para que também 
não transformemos nosso orgulho saudável em arrogância pecaminosa.
RUPERT: Qualquer parte depende do todo. Tudo depende de uma fonte 
e de um ambiente mais vastos. E qualquer ser criado depende de seu rela-
HiCdegarda de Bingen 149
cíonamento com a fonte e com os demais elementos da criação para a sua 
existência.
Essa falta de preocupação com o todo, com o ambiente do qual depen­
demos, também está na raiz de nossos problemas ecológicos. É absoluta 
arrogância acreditar que podemos possuir e utilizar o que esta terra oferece 
sem levarmos em consideração a fonte e o contexto de vida mais amplo 
dentro do qual existimos.
A queda de Lúcifer acontece bem no começo da criação, muito antes 
do nascimento do restante do universo. Desde o princípio, há essa separa­
ção. Talvez isso esteja na natureza das coisas. Assim como a formação da 
luz implica a formação da escuridão, a formação da consciência com livre- 
arbítrio deve implicar o exercício desse livre-arbítrio na negação de sua 
fonte. Apenas quando essa opção é feita é que a polaridade da escolha se 
materializa.
A origem da consciência, da consciência criada por Deus, está na cons­
ciência de Lúcifer, o primeiro e o mais esplêndido de todos os anjos. O 
exercício desse livre-arbítrio para reclamar autonomia e a recusa em reco­
nhecer a fonte estão na origem da consciência. Essa pode ser a principal 
polaridade na consciência: louvar ou negar a fonte.
Os primeiros atos da criação, de acordo com o primeiro capítulo do 
Gênesis, estabeleceram as polaridades fundamentais: antes de mais nada, a 
polaridade da escuridão e da luz. Segundo Hildegarda, assim como em Dio- 
nísio e Aquino, com a luz é criada a consciência dos anjos. Imediatamente 
depois disso, Lúcifer fez sua opção, e a polaridade foi estabelecida no interior 
da consciência criada, a polaridade manifesta em arrogância e louvor. A po­
laridade entre luminosidade e escuridão moral foi o segundo ato na criação.
MATTHEW: Isso é muito parecido com a história de Adão e Eva e o sím­
bolo da árvore do bem e do mal. Com a primeira manifestação da consciên­
cia humana deu-se a escolha, e os primeiros seres humanos, assim como 
Lúcifer, decidiram ignorar a fonte. Mas, diferentemente de Lúcifer, não foi 
uma única decisão, porque os seres humanos têm muitas, muitas opções. 
Aprendemos por tentativa e erro.
Sim, acredito que tal como a luz, a primeira coisa criada, contém dentro 
de si ondas de escuridão, também nosso desejo pelo bem e nossa própria
150 A FÍSICA DOS ANJOS
bondade, nossa própria graça divina, trazem dentro de si a disposição inata 
para a escuridão moral. H essa polaridade parece inevitável, assim como em 
um universo com luz, a escuridão lhe é intrínseca.
RUPERT: Hildegarda diz que Lúcifer “afastou-se do amor divino e partiu 
rumo à escuridão, onde começou a falar consigo”. Esse movimento em direção 
à escuridão possibilitou uma diferenciação em sua própria consciência, um 
diálogo interior. E o diálogo interior incentiva o orgulho e a inveja.
A escuridão jã existe. O movimento de Lúcifer rumo à escuridão é o 
primeiro passo. Logo depois, tem início o diálogo interior,
MATTHEW: E Hildegarda diz que ele começou declarando: “Quero ser o 
mestre, e não admito que exista alguém acima de mim”. Em termos da cos­
mologia sobre a qual estávamos falando anteriormente, ele se distanciou 
daquilo que você chama de aninhamento hierárquico, a relação de interde­
pendência entre Deus e o restante da criação. Mais uma vez, esse é um pro­
blema bastante atual. Descartes prometeu que nós seríamos mestres da na­
tureza. Nossa “Queda” tem acontecido em termos de nossa deliberada 
ignorância com respeito aos papéis de interdependência que exercemos com 
o restante da criação. Thomas Berry chama nosso diálogo conosco de autis­
mo do século XX, nosso isolamento deliberadamente escolhido, nossa infle­
xível independência, nosso relacionamento mestre/escravo com o restante 
da natureza e, mesmo, um bloqueio de nossos sentimentos, de nossos cor­
pos e mentes, em vez da abertura para as maravilhas do inter-relacionamen- 
to para o cosmo e para os fulgores de seus muitos seres. Tudo isso parece ser 
uma repetição do solipsismo e do autismo de Lúcifer.
“Toda criação de Deus irradia” ™ então, ele grita de modo inve­
joso - “e nada disso será meu!”20
RUPERT: Hildegarda imagina os pensamentos de Lúcifer enquanto ele 
olha para trás, desde a escuridão, para o interior do restante da criação. 
Agora que está afastado, a inveja entra em cena. Aqui temos uma seqüência
Hiídegarda de Bingen 151
real na qual o pecado mortal se desenvolve. A arrogância vem em primeiro 
lugar e é rapidamente seguida pela inveja.
MATTHEW: A arrogância é uma atitude concernente a si mesmo, e a in­
veja é uma reação aos outros. Ambas estão intimamente relacionadas na 
medida em que, quando uma pessoa não se vê num contexto de interdepen­
dência com a comunidade mais ampla, quer confiscar o que os outros têm. 
Não hã o “dar e receber” que acontece naturalmente em uma comunidade 
onde prevalece o amor recíproco.
Assemelha-se ao que disse Jesus: “Ame o seu próximo como a si mes­
mo”. Lúcifer está efetivamente dizendo: “Odeie e inveje o seu próximo como 
detesta a si mesmo”, que é exatamente o que a arrogância quer dizer - um 
desamor, um amor distorcido.
Não hã noção de criatividade aqui. Lúcifer não está dizendo "talvez eu 
possa dividir a beleza das outras criaturas com elas”, ou “talvez juntos possamos 
criar uma nova realidade onde haja o suficiente para todos nós”. Ele não tem 
saída. A criatividade não é uma opção para os anjos como é para nós. Um anjo, 
sob esse ponto de vista, não é um ser realmente evolucionário. Só tem uma 
opção a fazer. Todos os outros seres, pelo menos como espécies, se não como 
indivíduos, estão no processo natural de adaptação, criação e mudança.
O abismo
Porque Lúcifer e seus sequazes orgulhosamente desdenharam 
de reconhecer a Deus, a radiância resplandecente com a qual o 
poder divino o tinha adornado morreu dentro dele. Ele mesmo 
destruiu sua beleza, o reconhecimento do que poderia tê-lo fei­
to bom. E avidamente ele se arrojou na direção do mal, que o 
lançou em seu próprio abismo. Dessa maneira, sua majestade 
eterna foi extinta e ele caiu em perpétua corrupção. As estrelas 
que sobraram também se tornaram negras, como carvões con­
sumidos. Com seus sedutores, elas foram despojadas da sublime 
radiância. Foram extintas na perdição sombria, privadas de toda 
luz de beatitude, como carvões que carecem da ígnea centelha.
152 A FÍSICA DOS ANJOS
E imediatamente um turbilhão as levou embora, e foram 
caçadas do Sul ao Norte, atrás dele que se sentava ao trono. 
Despencaram no abismo e nunca mais serão vistas.
A noiva do vento da impiedade turbilhonou os anjos do mal 
porque eles quiseram se elevar acima de Deus e derrubá-lo por 
meio de seu orgulho. Ela os soprou para a amargura da corrup­
ção negra. Ela os levou do Sul e o bem os puxou de volta aopassado. Para Deus, que sobre tudo governa, eles não existem 
mais.21
RUPERT: Essa é uma passagem impressionante a respeito de como os 
anjos caídos rodopiaram na escuridão. Fiquei intrigado com a maneira como 
as outras estrelas, os anjos que seguiram Satanás, se tomaram negras. Sua 
luz simplesmente se apagou. Não podem emitir luz alguma, e adentraram 
no abismo da escuridão.
Flildegarda nos convida a procurar paralelos cosmológicos ao falar so­
bre estrelas, e duas formas de escuridão parecem relevantes. Uma é a escu­
ridão do espaço propriamente dito, que é muito frio, escuro e sem radiância. 
Ficar perdido no espaço interestelar deve ser um destino terrível. Pouca 
coisa acontece, É um lugar funesto para se estar.
O segundo tipo de escuridão é a dos buracos negros, que são vestígios 
de estrelas que se colapsaram entre si. Sua atração gravitadonal é tão forte 
que nada pode sair delas, nem mesmo a luz consegue escapar. Os buracos 
negros nos oferecem uma metáfora moderna para esse estado de ser de uma 
entidade tão voltada para si mesma, tão atraída por sua própria gravidade, 
tão fortemente autocentrada que nada pode sair. Tudo o que ela consegue 
fazer é sugar outras coisas para dentro de si. Um buraco negro é como uma 
calha no universo, pela qual as coisas entram, mas nada sai. Até onde sabe­
mos, uma vez que as coisas entram ali, deixam de existir. Isso dã uma visão 
muito mais ilustrativa da perdição, da perda total, do que as imagens anti­
quadas e comumente aceitas do inferno. Quem gostaria de ser arremessado 
no abismo de um buraco negro?
MATTHEW: Certo. Não existe possibilidade de a criatividade se manifes­
tar e de uma nova vida aparecer, e é por isso que os anjos caídos não existem
Hildegarda de Bingen 153
mais para Deus, porque Ele está onde há vida. Toda luz de béatitude foi 
apagada. Não hã qualquer centelha de fogo, como diz Hildegarda.
Ela está combinando cosmologia com. moralidade. O vento arrancou os 
anjos caídos do sul e do bem e os puxou para trás, de volta ao passado. Isso 
é linguagem apocalíptica; os acontecimentos cosmológicos têm implicações 
morais e psicológicas. Ela une psique e cosmo.
Como você diz, a atual cosmologia dos buracos negros, assim como a 
cosmologia dos lugares escuros e frios de Hildegarda, nos oferece metáforas 
poderosas para nomear não apenas estados morais, mas também experiên­
cias psíquicas. Podemos nos afundar nos buracos negros da esterilidade, do 
desespero, da depressão, da solidão, da alienação.
Sob esse ponto de vista, o inferno não é algo que acontece somente após 
a morte. Somos puxados para a ele ao longo de nossa jornada psíquica, em 
nossas vidas espirituais. Isso corresponde a uma cosmologia que reconhece 
a existência de espaços que nem mesmo Deus pode tocar. Estamos falando 
em três níveis aqui: cosmologia, moralidade e psicologia, a jornada da alma 
na via negativa.
Os seres humanos substituem os anjos caícfos
Nesse momento, Deus criou outra forma de vida. Ele despejou 
essa vida nos corpos e a elevou. Eis que surgem os seres huma­
nos. Agora Deus concede a eles o lugar e a honra dos anjos 
perdidos para que os homens completem o louvor que os anjos 
se negaram a prestar. Alguns com essa feição humana são carac­
terizados pela devoção ao mundo em seus trabalhos corporais, 
mas em sua sensibilidade espiritual, constantemente servem a 
Deus. Apesar de seus deveres mundanos, eles nunca se esque­
cem do serviço espiritual a Deus. E esses rostos estão voltados 
para o Oriente. É ali que está a origem da transformação sagrada 
e a fonte da profunda emoção.22
Sobre o cume da beatitude, a humanidade deveria soar o 
cântico de louvor junto com os espíritos celestes. Esses espíri­
154 A FÍ5XCA D 05 ANJOS
tos sempre glorificam a Deus com sua devoção ardente. Quan­
do a humanidade se une, deveria realizar aquilo que os anjos 
caídos destruíram com sua arrogância. O humano é, conse­
quentemente, o legítimo “décimo” (décimo coro) que comple­
ta tudo isso por meio do poder divino.23
[Deus disse:] “Concedi o esplendor que o primeiro anjo 
prestou aos seres humanos - a Adão e sua raça”.24
MATTHEW: Poderia parecer que a compreensão de Hildegarda a respei­
to da humanidade é a do esplendor. Essa palavra, esplendor, é uma palavra 
que inclui doxa, glória, radiância, luz - imagens que Hildegarda tem usado 
para transmitir a beleza e a glória dos anjos.
Hildegarda está dizendo, na verdade, que Deus tomou o esplendor que 
Lúcifer e seus seguidores deixaram para trás quando se lançaram na escuri­
dão e o entregou à humanidade, o que é um sinal de nossa profunda beleza, 
mas também de nossa responsabilidade, implicando a idéia de que devemos 
fazer um trabalho melhor do que o deles. É interessante e surpreendente 
notar que - jamais vi isso nos textos de outros escritores - ela nos adiciona 
como o décimo coro. Nove coros de anjos existem, e então nós, seres huma­
nos, constituímos um décimo coro. Em vários lugares, Hildegarda se refere 
ao dez como o número de ouro. Então, ela certamente tem uma compreen­
são grandiosa do poder, da graça e da beleza do ser humano. Ela diz que 
recebemos “o lugar e a honra dos anjos perdidos”.
Ela fala sobre voltar-se para o Oriente, “a origem da transformação sa­
grada”. O Oriente representa o nascer do sol, a criatividade do novo dia. 
Mais uma vez, psicologia e cosmologia estão ligadas. Como muitos povos 
indígenas, Hildegarda não separa a psique humana do cosmo. Nesses dois 
planos, a extensão de um se compara à extensão do outro. Um está dentro 
do outro. Em vez de uma psicologia da consciência introspectiva, ela apre­
senta uma psicologia do micro e do macrocosmo.
Quando ela diz que assumimos o esplendor, o poder e a luz dos anjos 
maus que caíram na Terra, isso implica admitir que podemos fazer o que eles 
fizeram. Ou que podemos tomar decisões diferentes. Ela está enfatizando 
nossa responsabilidade moral.
HiCdegarda de Bingen 155
Comunhão humana com os anjos
Deus inspirou nos seres humanos um espírito de vida: e então 
os homens vivos se tornaram carne e sangue. Em seguida, Deus 
ofereceu aos seres humanos a sociedade dos anjos com seu lou­
vor e seus serviços.25
Deus criou o homem com corpo e alma. No interior do cor­
po, Deus incluiu toda a natureza física e, dentro da alma, in­
cluiu uma imagem do espírito angélico.26
MATTHEW: Hildegarda celebra a criação do ser humano como um even­
to que não apenas inclui um relacionamento entre todas as coisas vivas de 
carne e osso na Terra, mas que também toma parte da comunidade dos an­
jos. Além disso, ela diz que Deus traçou todas as criaturas nos seres huma­
nos; em outras palavras, o ser humano é um microcosmo do macrocosmo, 
e somos interdependentes de todas as outras criaturas. Precisamos delas. E 
ainda, de acordo com Hildegarda, não estamos ligados apenas às criaturas 
visíveis, mas também às invisíveis, aos espíritos angélicos. Ela acredita que 
nossa alma é uma imagem desse espírito angélico.
Tudo isso certamente ressalta a compreensão de Hildegarda a respeito 
do poder, da radiância e da responsabilidade únicos do ser humano.
RUPERT: Toda a criação, de acordo com a visão tradicional, é mediada e 
governada pelos anjos. Mas a idéia de que compartilhamos a sociedade dos 
anjos implica conexões e interações conscientes com eles.
É claro que Hildegarda estava pensando em termos de história bíblica 
da criação. Mas, se analisarmos isso no contexto da evolução, observaremos 
que uma das mais importantes e misteriosas etapas no processo evolucioná­
rio é o surgimento da consciência humana. Não fazemos idéia de como nem 
de quando aconteceu. Tampouco sabemos o que é, apesar de toda a neuro- 
fisiologia que tem sido pesquisada nas últimas décadas.
A partir de um registro fóssil vemos uma série de esqueletos e crânios 
humanos ou quase-humanos de um ou dois milhões de anos.Chegamos a 
encontrar alguns ainda mais antigos. Mas essas criaturas falavam? Não sa­
156 A FÍSICA DOS ANJOS
bemos. Algumas pessoas acreditam que a linguagem só surgiu cerca de 50 
mil anos atrás. Outras acham que é ainda mais antiga. O que nossos ances- 
trais mais remotos faziam, o que pensavam, o que queriam? Não temos a 
menor idéia.
Mas alguma coisa obviamente aconteceu, um salto criativo. E esse salto 
é compreendido nas sociedades tradicionais como a comunhão dos seres 
humanos com os espíritos. Todas as sociedades caçadoras e coletoras tradi­
cionais acreditam que as pessoas, especialmente os xamãs, podem se comu­
nicar com os ancestrais, com os espíritos animais e com uma variedade de 
outras entidades espirituais, algumas das quais são espíritos voadores. En­
contramos essas tradições em todos os lugares do mundo.
Teria o salto criativo na consciência humana acontecido quando havia, 
de fato, um contato consciente entre seres humanos e espíritos não-huma­
nos? Talvez tenha realmente havido um encontro dos seres humanos com o 
reino dos anjos. Talvez esta sociedade com os anjos seja exatamente o que 
levou à evolução da consciência humana como a conhecemos.
Toda tradição tem mitos da criação nos quais a origem de várias ativi­
dades humanas - o uso do fogo, de ferramentas, a música, a dança, a lingua­
gem, a cultura - são iniciadas por deuses, heróis ou seres espirituais. Todos 
os mitos abordam uma explosão do poder criativo a partir de outra dimen­
são, de um reino de espíritos. Algumas pessoas hoje interpretam esses mitos 
sob uma perspectiva extraordinariamente literal, em termos de seres extra­
terrestres vindos para nos guiar,' sejam eles OVNIS ou outra coisa do gênero. 
Mas o papel dos seres sobre-humanos é tão universal nos mitos que me pa­
rece realmente ter havido, na evolução da consciência humana, uma série de 
saltos criativos que envolveram contatos com inteligências angélicas.
Meu amigo Terence McKenna se interessa muito pelo papel do psico- 
delismo no xamanismo. Ele acredita que, em muitas experiências psicodéli- 
cas, ocorre um encontro com espíritos, com mentes não-humanas, e uma 
das coisas que eles fazem é transmitir informações. Em seu livro O alimento 
dos deuses, ele argumenta que a abertura da consciência por meio da expe­
riência psicodélica - e, uma vez nessa dimensão, o contato estabelecido com 
outras entidades conscientes - é uma chave para entender as origens e a 
evolução da consciência humana.
HiCdegarda de Bingen 157
Nem todos concordam integralmente com ele quanto à ênfase dada às dro­
gas psicodélicas, mas não há dúvida de que são usadas em muitas culturas. Mas 
os estados visionários também podem emergir de diversas outras maneiras.
Acho que essa passagem do texto de Hildegarda tem algo muito impor­
tante para nos dizer hoje. Em minha concepção, essa conexão entre seres 
humanos e anjos é uma hipótese tão boa quanto outra qualquer, e melhor 
do que a maioria delas.
MATTHEW: A palavra sociedade à qual você se referiu também implica 
algum tipo de igualdade. Nos ensinamentos de Hildegarda a respeito de 
seres humanos e de anjos, há um tipo de comunicação e de equidade com­
partilhadas. Se, como você diz, isso aconteceu no passado por meio de saltos 
da consciência, da linguagem, dá cultura e da arte, por que não poderia 
acontecer agora também? Uma sociedade que abrigue todos esses espíritos 
é mais necessária agora do que nunca.
Quanto às experiências psicodélicas, proporia apenas que, como você 
ressalta, existem muitos outros meios que nos levem a estados visionários. 
Práticas como, jejum, cânticos, meditação e a tenda do suor (ver p. 41), além 
de dança e adoração (ao menos a adoração deveria levar a estados visioná­
rios) - tudo isso deveria ser acessível a todas as pessoas.
RUPERT: Outra implicação dos ensinamentos de Hildegarda é de que os 
seres humanos são únicos entre as criaturas na Terra por causa de sua comu­
nhão consciente com os anjos. Portanto, eles têm um papel especial a de­
sempenhar como intermediários entre o reino do espírito e os reinos bioló­
gico e terrestre.
Os anjos ficam maravilhados conosco
Todos os anjos ficam maravilhados com os seres humanos, os 
quais, por meio de suas ações sagradas, parecem vestidos com 
um traje incrivelmente belo.27
Pois o anjo sem o trabalho da carne é simplesmente louvor; 
mas os seres humanos, com suas ações físicas, são uma glorifi­
cação: portanto, os anjos louvam o trabalho humano.28
158 A FÍSICA DOS ANJOS
MATTHEW: Acho que essas frases estão entre as mais extraordinárias de 
toda a angelologia de Hildegarda. Quando a maioria das pessoas pensa nos 
anjos - se é que pensa neles —, sente-se maravilhada e se julga inferior a eles.
Mas aqui Hildegarda está dizendo que os anjos se maravilham conosco. 
Quanta dignidade e orgulho sadio são dispensados à nossa espécie! E por 
que eles ficam maravilhados conosco? Por causa de nossas ações sagradas. 
Os anjos escolhem apenas uma vez. Mas nós, com nossa criatividade cons­
tante, tão completamente inteirados dos hábitos evolucionários do universo, 
ainda estamos frequentemente nos descobrindo, deliberada e consciente­
mente, por opção. Note que Hildegarda afirma que nossas ações, nossas 
escolhas, deixam os anjos impressionados. Isso é maravilhoso.
E, então, ela diz que o anjo é simplesmente louvor, mas que o ser hu­
mano é uma glorificação. Essa é mais uma razão pela qual os anjos louvam 
os trabalhos da humanidade. Mais uma vez ela está enobrecendo a matéria, 
está dignificando a carne. De certo modo, ela está dizendo que a vida dos 
anjos, em comparação com a nossa, é bem mais tediosa. É simplesmente 
louvor, previsível, enquanto a nossa está sempre trazendo coisas novas ao 
mundo, até mesmo louvor aos anjos.
Somos uma espécie incomum. Frequentemente vemos o lado sombrio 
de nosso ser. Somos uma ponte entre o mundo material e o espiritual, e isso 
nos desanima. Falhamos gravemente nos dois mundos! Mas aqui Hildegar­
da enaltece essa experiência única da parte de Deus, de sermos corpo e 
espirito. Ela está dizendo que somos maravilhosos, fascinantes, que somos 
dignos do louvor dos anjos. Creio que isso exije profunda meditação, pois 
nos ajudaria a resgatar nossa dignidade, e, quando fizermos isso, começa­
remos a agir melhor.
Os anjos Couvam as èoas ações da humanidade
Os anjos elevam as vozes a Deus em louvor às boas ações da hu­
manidade. Louvam sem cessar o contínuo crescimento das boas 
ações da espécie humana. Sobem ao altar de ouro que se encontra
Hifdecjarda de Bingen 159
perante o semblante de Deus. E doravante entoam um novo cân­
tico para honrar esses trabalhos.29
MATTHEW: Acredito que, no entender de Hildegarda, a humanidade 
representa uma nova canção para o universo, uma nova canção para esses 
seres vibrantes e musicais que são os anjos. Nós os inspiramos a entoar um 
novo cântico simplesmente para nos receber, para honrar nossos trabalhos.
RUPERT: Isso significa que, cantando essa nova canção, modificamos a 
consciência celestial. A consciência de Deus e o universo todo são mudados 
pela evolução humana. Nós geralmente pensamos a evolução humana como 
um evento totalmente providencial aqui na Terra. Os seres humanos podem 
ir à Lua, foguetes podem, chegar a Marte, a Vénus e a outros planetas, mas não 
ultrapassamos nosso sistema solar. Não hã nada que já tenhamos feito que vá 
fisicamente além, exceto, talvez, ondas de rádio muito fracas. A influência das 
ações humanas no contexto da cosmologia moderna é muito limitada.
Mas Hildegarda oferece uma perspectiva muito diferente. “Todos os anjos 
ficam maravilhados com os seres humanos” (veja a p. 157). Sua canção nova, 
inspirada nas ações humanas, é cantada para Deus. Isso implica um efeito 
cósmico na humanidade. A forma como agem os humanos na Terra faz dife­
rença para os espíritos conscientesde todo o universo, e este é certamente um 
pensamento muito importante.
MATTHEW: Um pensamento muito otimista e esperançoso, e que reflete 
orgulho. Um pensamento expansivo. Como diz Aquino: “Quando sua mente 
se expande, a alegria chega”. E com ela vem a capacitação. Muito do desabono 
experimentado por nossa cultura nos últimos séculos pode ser lavado, purifica­
do, limpo por uma notícia como essa. Se os seres humanos soubessem que 
seres bons, belos e poderosos velavam por nós, talvez levantassem a cabeça e se 
percebessem mais bonitos. Seríamos inspirados a fazer jus à nossa dignidade.
A linguagem dos anjos
O Deus onipresente falou a Adão na língua dos anjos, pois Adão 
conhecia bem sua linguagem e poderia entendê-la. Por meio da
160 A fíSÍCA DOS ANJOS
razão que Deus dera a ele e pelo espírito dos profetas talentosos, 
Adão obteve o conhecimento de todas as línguas que mais tarde 
seriam inventadas pelos homens.30
RUPERT: Esse trecho diz que a comunicação entre Deus e Adão era re­
alizada por meio da linguagem angélica. Adão, antes de pecar, estava em 
total comunhão com o reino dos anjos, uma comunhão interrompida pela 
Queda.
O primeiro ser humano não apenas se conectou com os espíritos angé­
licos e compreendeu sua forma de comunicação, mas desempenhou um 
papel fundamental na origem da linguagem humana. Adão falava o protóti­
po de todos os idiomas humanos, a linguagem primordial que se desenvol­
veu para depois formar todas as outras. De acordo com o Gênesis, Adão foi 
convidado por Deus para nomear todas as criaturas vivas, e foi o que ele fez. 
O primeiro idioma humano surgiu integralmente da consciência da lingua­
gem dos anjos, e também em total consciência de como ela pressupôs todos 
os idiomas humanos subseqüentes.
Do ponto de vista científico, não se sabe como a linguagem surgiu e se 
desenvolveu. É um dos grandes mistérios. Não há como desencavar fósseis 
de linguagem. É possível recuperar objetos sólidos e resistentes, como ossos 
e pontas de flechas de sílex. Não sabemos nada a respeito dos sons que as 
pessoas emitiam quando a primeira linguagem surgiu. Tampouco sabemos 
se as linguagens humanas surgiram de um único evento criativo ou se foram 
várias e independentes as origens dos idiomas.
Alguns lingüistas, como Noam Chomsky, acreditam que todas as lín­
guas humanas participam de um arquétipo gramatical comum, uma gramá­
tica universal. Existe uma base comum para a linguagem humana, e isso 
implicaria aceitar uma origem comum para todas as línguas.
Hildegarda levanta todas essas questões nesse breve comentário, ques­
tões que ainda são importantes para nós até hoje.
m a t t h e w : Quando ouço você falar sobre a nomeação dos animais, tal 
como é reportada na história bíblica da criação, penso nas recentes desco­
bertas de cavernas ao sul da França. Povos de 25 mil anos atrás estavam 
dando nomes, em pinturas, a cavalos, antílopes, leões. Nomear é algo que
Hüdegarda de Bingen 161
tem a ver com classificação, ou com pesquisar famílias. E essa habilidade de 
perceber e nomear grupos afins parece ser um poder especial de nossa espé­
cie. É claro que o distorcemos quando nos tornamos excessivamente etno- 
cêntricos. Mas é um avanço espiritual, pelo que me parece, ser capaz de 
dignificar a diversidade e similaridade das coisas.
Quando falamos a respeito de linguagem, me parece que o assunto 
deveria incluir pintura, escultura e produção de imagens. Esse tema remete 
ao que Jung denominou inconsciência e arquétipos coletivos, símbolos e 
metáforas comuns que vão e voltam. O que pode ajudar a explicar por que, 
nas tradições espirituais, tantas metáforas são iguais em essência. As metáfo­
ras de luz, fogo e escuridão parecem implicar uma linguagem e uma expe­
riência comuns, uma experiência profunda compartilhada.
Linguagem Humana
Os anjps, que são espíritos, não podem falar com uma lingua­
gem compreensível. A linguagem é, portanto, um desígnio es­
pecífico para a humanidade.31
MATTHEW: Acho que Hildegarda faz uma distinção entre a comunicação 
expressa por um espírito puro e vibrante e nossa experiência de linguagem 
aqui na Terra. Ela louva nossa capacidade de nos comunicarmos por meio 
de uma linguagem compreensível, o que ela chama de desígnio específico 
para a humanidade. Mais uma vez, ela ressalta as implicações de nosso espí­
rito e de nossa matéria. Na linguagem, nós unimos o poder dessas duas di­
mensões. Quaisquer animais terrestres conseguem se expressár e se comu­
nicar, mas ela nos dá a entender que essa é uma riqueza ligada à capacidade 
humana, e uma responsabilidade sagrada para honrar a palavra e torná-la 
verdadeiramente sincera e compreensível.
Ela está nos apartando dos anjos. Os anjos podem ter nos alertado, 
aberto nossas mentes para o nível de consciência que inclui a linguagem, 
mas apenas o ser humano poderia levá-la adiante. Os anjos são espíritos, e 
sua linguagem é, consequentemente, bem mais universal que a nossa.
162 A FÍSICA DOS ANJOS
RUPERT: Pode ser mais universal que a nossa no sentido de que eles 
cantam. Mas pode ser menos preocupada com a comunicação do que a nos­
sa. A linguagem compreensível é a base da cultura humana, e a cultura hu­
mana é evolucionária. É provável, que os anjos não estejam tão interessados 
por cultura como nós, mas estão principalmente ocupados com o louvor e 
com a harmonia. Essa é mais uma razão para os anjos se sentirem maravi­
lhados com o que fazem os seres humanos.
Porque Deus determinara aos anjos que dessem assistência aos 
seres humanos no campo da proteção, também os tomou parte 
da comunidade humana.32
Do Deus todo-poderoso provêm poderes múltiplos, intensos, 
majestosa e divinamente iluminados. Esses poderes afluem para 
ajudar e amparar aqueles que verdadeiramente temem Deus e 
aqueles que amam com lealdade em sua pobreza de espírito, e para 
envolver essas pessoas com o brilho suave de seu trabalho.33
RUPERT: Hildegarda tem falado sobre os anjos louvando Deus e sobre os 
seres humanos participando na comunidade do louvor com os anjos. Agora, 
ela fala sobre o papel protetor dos anjos: defender as pessoas e amparã-las. 
Mas ela lembra que esse apoio é condicional. Eles ajudam aqueles que te­
mem Deus e que são receptivos ao espírito divino. Mas os anjos não parecem 
capazes ou muito dispostos a proteger as pessoas que não estão abertas para 
o amor de Deus.
MATTHEW: Sim. Isso traz de volta a questão do relacionamento entre o 
ser humano e os espíritos - é dando que se recebe, e os seres humanos não 
estão aqui apenas para receber. Talvez seja por isso que Hildegarda diz que, 
ao nos proteger, Deus se torna parte da comunidade humana; e a comuni­
dade inclui a dimensão da igualdade, o dar e o receber no relacionamento. 
Também ajuda a explicar por que algumas pessoas parecem levar vidas que 
não são tocadas pelos anjos.
Hildegarda de Bingen 163
RUPERT: Podem ser tocadas por anjos maus. Hã uma longa tradição ju ­
daica, cristã e islâmica que diz que cada um de nós tem dois anjos: um bom 
e um mau. Os anjos da guarda têm suas sombras. Aquelas pessoas que não 
estão intimamente abertas para o espírito de Deus e para a ajuda do anjo da 
guarda estão sujeitas à influência do anjo mau. Em vez de se tornarem imunes 
à influência angélica, caem na esfera de ação do tipo negativo de influência.
MATTHEW: Em aliança com potestades e principados caídos. Mas cau­
sa espanto notar que, embora haja nas doutrinas judaica e muçulmana a 
referência ao fato de termos um anjo da guarda de um lado, e um anjo de­
moníaco de outro, até onde eu saiba, isso não seja mencionado nos textos 
de Hildegarda.
Os anjos ajudam aquetcs que chamam por Deus
Se um ser humano apenas sussurra o nome de seu pai, Deus,
Este o chama de volta ao comportamento adequado, e a prote­
ção dos anjos se apressa em estar ao lado do ser humano para 
que ele nãoseja mais prejudicado por seu inimigo.34
MATTHEW: Hildegarda parece dizer que, se nós simplesmente chamar­
mos por Deus, os anjos correrão para nos proteger. Mas, se os anjos têm de 
se apressar para tanto, isso quer dizer que eles não estão exatamente senta­
dos sobre nossos ombros. Mas talvez seja uma questão de minuto. É nossa 
oração e nosso chamamento por Deus que atraem, em um primeiro momen­
to, os anjos para nossa esfera de interesses, e, deste modo, eles desempe­
nham seu papel de guardiões, de protetores.
RUPERT: É interessante notar que aqui Hildegarda fala de anjos no plu­
ral, em vez de se referir apenas a um anjo da guarda individual, o que ela 
não menciona diretamente.
Não está claro para mim o tipo de proteção que esses anjos proporcio­
nam. Quando ela diz “para que ele não seja mais prejudicado por seu inimi­
go”, quer dizer inimigo no sentido dos anjos maus, do perigo moral ou se
164 A FÍSICA DOS ANJOS
refere ao dano causado por um inimigo físico? Por exemplo, se a pessoas se 
envolvem em uma luta, os anjos se apressarão a protegê-las de um inimigo 
humano?
MATTHEW: Ela diz, “Este [Deus] o chama de volta [o ser humano] ao 
comportamento adequado”. Isso significa que ela se refere especialmente à 
investida dos inimigos morais.
Consciência
A boa consciência de uma pessoa denota os poderes angélicos 
de luta que louvam e servem a Deus. Mas a má consciência des­
vela o poder do Criador, pois ela ataca Deus, e isso expulsou os 
primeiros habitantes do Paraíso. Essa é a condição geral do po­
der decisório comum a todos os seres humanos. Aqueles que 
decidem as coisas e agem com boa consciência expressam a bon­
dade divina, mas aqueles que agem segundo a mã consciência 
acabam provando do poder de Deus.35
RUPERT: A distinção aqui está entre a boa e a mã consciência, e a má 
consciência encontra-se, presumidamente, sob a influência dos anjos caídos. 
A consciência não é simplesmente um aspecto da consciência individual, 
mas está aberta aos poderes angélicos, ao bem e ao mal, que a influenciam. 
Nossa consciência é um campo de batalha, parte do campo de batalha mais 
amplo onde combatem os anjos bons e os anjos maus.
MATTHEW: Sim. Vejo que Hildegarda concentra sua atenção no processo 
de tomada de decisão, que também tem tudo a ver com a nossa criatividade. 
Podemos usar nossa criatividade em comum acordo com os anjos bons ou 
com os espíritos demoníacos.
Aquino compreende a consciência como sendo essencialmente as deci­
sões que tomamos, relacionadas à dimensão da razão. Durante a Era Moder­
na, a ênfase dada ao individualismo significou que, para muitas pessoas, a 
consciência se tornou um tipo de fantasma no sistema, sussurrando em nos­
so ouvido o que é certo. Em outras palavras, a consciência estava localizada
Hiídegarda de Bingen 165
exclusivamente no reino do subjetivo. Mas hoje, nós, como espécie, estamos 
enfrentando muitas questões de consciência: hábitos alimentares; nosso re­
lacionamento com as gerações futuras e com a superfície terrestre, as flores­
tas, as águas; o relacionamento entre os povos do hemisfério norte e do he­
misfério sul, entre ricos e pobres. Isso pode ser qualquer coisa, exceto algo 
individual ou subjetivo. Tem a ver com a sobrevivência da comunidade, da 
sociedade e da Terra tal como nós as conhecemos. Nossa compreensão da 
consciência tem de reivindicar essa dimensão da tomada de decisão em tor­
no do bem comum. E a sociedade, na visão de Hildegarda, inclui os poderes 
angélicos. Nossas decisões não são apenas privadas ou pessoais, mas têm a 
ver com a luta cósmica entre o bem e o mal.
RUPERT: A discussão de Hildegarda sobre os anjos da guarda diz respei­
to, principalmente, à dimensão moral, e não parece ter muita relação com 
todas essas histórias contemporâneas de anjos que ajudam as pessoas em 
emergências, manifestando-se frequentemente em corpos humanos, ofere­
cendo ajuda em momentos de perigo.
MATTHEW: Eu concordo. Muitas pessoas de nossa época parecem viver 
uma experiência de autoproteçâo com os anjos. Hildegarda está mais inte­
ressada na esfera moral da proteção. Poderia isso refletir certo narcisismo 
por parte de nossa cultura, em que pensamos ser a morte ou o ferimento 
físico a pior coisa que pode nos acontecer? A tradição diz que a pior coisa é 
a morte moral e a corrupção espiritual. Hildegarda está nos desafiando a 
pensar mais em termos de sociedade, de sua necessidade por suporte moral, 
por coragem e sabedoria. Essas são as questões reais da sobrevivência com 
as quais os anjos se ocupam mais apaixonadamente, mais do que a mera 
sobrevivência do indivíduo.
RUPERT: Talvez as manifestações angélicas relatadas em tantos livros 
recentes, ainda que, em muitos casos, digam respeito à sobrevivência física, 
possam representar uma maneira pela qual os anjos também estão ajudando 
moralmente. Essas ações de ajuda física podem - e eu acho que, em muitos 
casos, o fazem - despertar as pessoas para a existência de outra dimensão, 
uma dimensão oculta da vida.
Hildegarda não viveu em uma sociedade laica dominada por filosofias 
ateístas e seculares. Ela viveu em uma época da imensa fé, quando se cons­
166 A FÍSICA DOS ANJOS
truíam notáveis catedrais góticas por toda a Europa. O poder invisível de 
Deus, dos anjos e dos santos realmente fazia parte de um consenso. Nem 
todos estavam abertos para o reino espiritual, mas sua existência não era 
questionada.
Hoje, a efetiva existência de uma dimensão espiritual é colocada em 
dúvida. Talvez em nossa época os anjos possam ajudar por meio de mani­
festações físicas, práticas, a fim de nos despertar para a realidade das inteli­
gências sobre-humanas.
Os seres humanos não conseguem enxergar os 
anjos em sua verdadeira forma
Os três anjos que apareceram a Abraão enquanto ele estava sen­
tado na entrada de sua tenda mostraram-se sob a forma humana, 
pois os seres humanos não podem, de forma alguma, ver os an­
jos em sua verdadeira forma. Por causa de suas formas modifi­
cáveis, os seres humanos são incapazes de enxergar um espírito 
inalterável.36
MATTHEW: Hildegarda coloca a questão de forma contundente: “os se­
res humanos não podem, de forma alguma, ver os anjos em sua verdadeira 
forma”. Todos os quadros maravilhosos de anjos que conhecemos, como os 
que retratam a Anunciação ou a Natividade, fazem com que nos pergunte­
mos sobre a forma assumida por esses anjos.
As experiências que tenho vivido rezando com povos indígenas são de 
espíritos que se aproximam como luz, como vento ou como som, Hildegar­
da não está dizendo que os anjos têm necessariamente de se apresentar sob 
a forma humana; eles apenas não se manifestam em sua forma totalmente 
verdadeira. Não os vivenciamos assim. Acho que é uma questão de deixar a 
mente aberta.
RUPERI: Há paralelos na literatura sobre OVNís. Existem reiterados rela­
tórios sobre OVNís e visitantes alienígenas, que tendem a ser encarados como
HÜdegarda de Bingen 167
fenômenos pertencentes ao imaginário da ficção científica. É possívei que 
alguns deles sejam manifestações angélicas de um tipo ou de outro. Pode ser 
que os anjos sintam que, manifestando-se como OVNls, venham a se comu­
nicar melhor com algumas pessoas do que de qualquer outra maneira. Mas 
a versão oficial no interior da ciência, do establishment político e da igreja é 
a de rejeitar ou invalidar esses relatos. Devo admitir que compartilho desse 
preconceito contra OVNls e alienígenas.
MATTHEW: Nos Estados Unidos, atualmente, hã mais jovens que acredi­
tam na existência de OVNls do que jovens que confiam no sistema de seguri­
dade social e acreditam que este estará intacto quando atingirem a idade da 
aposentadoria. Talvez os anjos tenham se dirigido para o céu em naves es­
paciais, como você diz, para chamar mais atenção. Assim como o Green- 
peace adotou botes de borracha para conseguir notoriedade.No mundo 
contemporâneo, é difícil atrair a atenção das pessoas se você for um anjo.
Como você, me sinto um tanto desconfortável. E acho que muitas res­
postas poderiam ser encontradas se nossas instalações militares fossem me­
nos sigilosas., Recentemente, conheci um camarada que me chamou de lado 
e descreveu detalhadamente uma teoria sua a respeito de como os militares 
mantiveram, contato com extraterrestres anos atrás, de como vêm recebendo 
dicas a respeito da construção de espaçonaves e de como têm se reunido 
com eles, abrigando-os nas montanhas de Utah ou coisa parecida. Fiquei 
muito surpreso, pois o rapaz não me parecia particularmente excêntrico até 
começar a falar sobre isso.
RUPERT: Não restam dúvidas de que as idéias tradicionais a respeito de 
anjos bons e maus brigarem entre si e de uma guerra apocalíptica no Céu 
são abraçadas pela ficção científica. Guerra nas Estrelas, por exemplo.
Esses são arquétipos profundos. No mundo moderno, eles se encon­
tram representados principalmente no campo da ficção científica, e quando 
as pessoas experimentam o contato com o diferente, essas experiências aca­
bam sendo geralmente travestidas de ficção científica. E acho que isso é 
parte do fenômeno OVNI. Não havia ficção científica na Idade Média, mas 
sim uma angelologia muito bem desenvolvida.
Mesmo com o declínio da crença geral em anjos e com a secularização 
do cosmo, esses arquétipos ainda são amplamente reconhecidos, embora
168 A FÍSICA DOS ANJOS
reinterpretados sob a perspectiva da ficção científica: voando em espaçona- 
ves em vez do uso de asas.
MATTHEW: Mecanizados.
RUPERT: Sim, têm sido mecanizados. Nossa imagem do cosmo foi me­
canizada, assim como os anjos. E, em vez de eles se moverem à velocidade 
do pensamento, como disse Hildegarda, agora a ficção científica assume 
novas convenções, como a distorção do tempo, que permite aos anjos faze­
rem a mesma coisa do mesmo jeito.
MATTHEW: Dizendo de modo mais positivo, talvez isso seja também 
uma tentativa de desenvolver a imaginação. Agora que nosso universo re­
pentinamente deu grandes saltos em termos de tamanho, mistério, comple­
xidade e história, estamos buscando uma linguagem, uma forma de arte, 
imagens por meio das quais entendamos nossas relações no e com o univer­
so. Uma coisa a ser dita sobre as histórias de o v n is é que elas tratam de 
relacionamentos, mesmo que seja enquanto sequestro. Ainda que fosse so­
bre o Pentágono desvendando os segredos dos marcianos, tratar-se-ia de um 
relacionamento.
Você estava falando sobre arquétipos. Acredito que o arquétipo primor­
dial é o de como estamos relacionados ao restante do universo. É benévolo? 
Quais são essas forças invisíveis? É sobre isso que a discussão a respeito dos 
anjos se refere.
Nossa imaginação está sendo desafiada. Nossos artistas, nossos conta­
dores de histórias estão sendo desafiados a nos ajudar a nomear a natureza 
da comunidade à qual realmente pertencemos. E talvez os OVNis sejam o 
primeiro esforço.
RUPERT: Ou talvez seja uma medida tapa-buraco até conseguirmos res­
tabelecer um sentido para essas dimensões mais amplas que a antiga tradi­
ção dos anjos, dos espíritos encontrados em todas as culturais, pode nos dar. 
Enquanto recuperamos um novo sentido de vida na natureza, talvez possa­
mos ir além dessas metáforas cruamente mecânicas para um reino muito 
mais amplo da imaginação.
MATTHEW: O OVNI pode se mostrar como a última máquina inventada 
pela Era Moderna. O próximo passo é, como você diz, os anjos; a reconexão 
de nossa imaginação à tradição espiritual.
HÜdegarda. de Bingeri 169
Como os anjos assumem formas humanas
De acordo com sua natureza, os anjos são invisíveis, mas assu­
mem seus corpos na atmosfera e aparecem visíveis sob forma 
humana àqueles a quem são enviados como mensageiros. Tam­
bém adotam outros hábitos humanos. Não falam aos homens 
em línguas angélicas, mas com palavras que podem ser compre­
endidas. Comem como os seres humanos, mas seu alimento 
evapora como o orvalho que cai continuamente sobre a relva e 
é instantaneamente enxuto sob o brilho do sol. Os espíritos do 
mal também podem adotar a forma de qualquer criatura para 
seduzir os seres humanos.37
r u p e r t : Aqui Hildegarda fala sobre o poder de metamorfismo dos an­
jos, os quais podem se manifestar sob a forma mais apropriada para qual­
quer ocasião. Se preciso for, podem se comunicar com o idioma dos homens; 
e podem até parecer seres humanos, chegando ao ponto de se alimentarem, 
o que geralmente é tido como critério de distinção entre o espírito e o ser 
corpóreo propriamente dito. A corporificação deles pode ter uma presença 
curiosamente real e literal. Hildegarda considera até mesmo a fisiologia da 
digestão angélica. Gosto da maneira como ela lida com a questão do que 
acontece ao alimento quando o anjo o ingere. Simplesmente evapora como 
o orvalho!
Ela também diz que os espíritos malignos podem adotar a forma de 
qualquer criatura para seduzir os seres humanos. Anjos e demônios são ca­
pazes de assumir qualquer forma para se comunicar ou se relacionar com os 
homens. Mas visto que essas formas são apenas manifestações, elas são, pre- 
sumidamente, na maioria dos casos, efêmeras.
MATTHEW: Apesar disso, espero que ela não tenha aberto a caixa de Pan­
dora da caça às bruxas, dos pogroms, e assim por diante. Espíritos se apode­
rando dos corpos de pessoas, de gatos, de familiares e coisas do gênero. Isso, 
para mim, seria uma consequência muito assustadora de tal afirmação..
RUPERT: Hildegarda não está falando de possessão, mas de manifesta­
ção. Ela diz que eles podem assumir a forma de qualquer criatura; não está
170 A FÍSICA DOS ANJOS
lidando aqui com a questão da possessão demoníaca, mas trata, especifica­
mente, de anjos e demônios assumindo a forma humana e outras formas, e 
até mesmo de eles aparecerem para uma refeição. Mas concordo com você 
que há margem mais que suficiente para a paranóia em tudo isso.
MATTHEW: Agora sabemos por que o universo mecânico dom inou a cena.
RUPERT: É u m lugar b em m ais lim po e óbvio.
MATTHEW: E bem mais chato.
RUPERT: Um universo mecânico purgado dos espíritos malignos deve 
ter representado um grande alívio no século xvií, um contraste ao cenário de 
caça às bruxas que dominou toda a Europa, e que se estendeu também à 
Nova Inglaterra. Mas isso também envolveu o esvaziamento do universo das 
ordens angélicas.
MATTHEW: E ra u m lugar estéril, m uito parecido com o u m hospital co n ­
tem porâneo. E era necessário por causa do qu e eu ch am o de excesso de 
cérebro direito.
RUPERT: Sim. Um universo esterilizado contra os espíritos.
Acho que o outro lado de qualquer fé espiritual é o reconhecimento do 
demoníaco. Todo caminho religioso ou espiritual que reconhece a existência 
de bons espíritos admite também, e ao mesmo tempo, a existência de espí­
ritos maus.
Portanto, se vivemos um. renascimento da espiritualidade, também te­
remos um ressurgimento da crença no poder dos espíritos maus. Acredito 
que essa é uma consequência inevitável da fé espiritual e de uma visão es­
piritual do mundo. Essa é uma das razões pelas quais os humanistas e ra- 
donalistas seculares são tão contrários a qualquer forma de religião. Se 
permitimos a volta dos anjos bons, temos de admitir também o retorno dos 
anjos maus e, junto com eles, feitiços e superstição, o pesadelo da bruxaria 
que a visão de mundo mecanicista e racionalista supunha ter banido para 
sempre.
Esses textos de Hildegarda, assim como os de Dionísio e de Aquino, 
além da própria Bíblia, deixam claro que os anjos caídos são parte do negó­
cio. Não é possível termos anjos bons sem anjos maus. Não se oferece aqui 
uma visão new age acalentadora da situação, com bons anjos permanente­
mente tomados por vibrações suaves e gentis - tal como a própria música
Hiide.ga.rdade B ingen 171
new age ~ em um universo do qual todas as forças malignas têm sido como­
damente expelidas.
MATTHEW: Então, não podemos simplesmente inserir o anjo bom em 
um mundo estéril, mecanizado e higienizado; é preciso trazer os anjos som­
brios de volta também.
RUPERT: É isso o qu e essa tradição nos diz.
MATTHEW: Creio ser apropriado designar os espíritos malignos de nos­
sa época com nossas próprias palavras, como racismo, sexismo,'colonialis­
mo, antropocentrismo, injustiça, e assim por diante. Esses são os “Belzebus” 
de nossa civilização.
Jesus e os anjos
Quando o filho de Deus nasceu de sua Mãe na Terra, ele se mos­
trou no Céu, no Pai, para que os anjos estremecessem e exultas­
sem entoando doces canções de louvor. A isso os tímpanos e 
cítaras celestiais, e todos os tipos de sons musicais, retumbaram 
em beleza e harmonia indescritíveis; pois a humanidade que 
dormia imersa em corrupção foi despertada em alegria. Mas o 
Pai apresentou o filho ressuscitado, com as chagas expostas, aos 
coros celestes: “Este é meu filho amado!”. Com isso, uma imen­
sa alegria foi despertada nos anjos, uma alegria que ultrapassa 
toda a compreensão humana, pois a partir de então o passado 
sobrio, no qual Deus não era reconhecido, foi vencido em com­
bate. A razão humana, antes reprimida por influência do demô­
nio, foi reerguida para o reconhecimento de Deus. Por meio da 
bênção suprema, o caminho da verdade é revelado aos homens, 
e eles são conduzidos de volta da morte à vida.38
MATTHEW: Aqui, nossa autora celebra o relacionamento renovado entre 
a humanidade, Deus e os anjos. Isso é a Encarnação. Para Hildegarda, a 
vinda de Deus na pessoa de Jesus tem profundas implicações para a angelo- 
logia. Esse evento desperta os anjos. Ela diz que eles “estremeceram e exul­
172 A FÍSICA DOS ANJOS
taram entoando doces canções de louvor”. Ela descreve os anjos ribomban­
do tímpanos e cítaras e se tornando novamente bastante musicais acerca da 
alegria que essa possibilidade traz ao seu trabalho.
RUPERT: O que você acha que ela quer dizer com “ele se mostrou no 
Céu, no Pai”?
MATTHEW: É , provavelmente, uma referência à nova maneira com que 
o Logos passa a ser refletido no Pai, agora que o filho nasceu de uma mãe na 
Terra. É uma nova dimensão para a paternidade de Deus. É o Cristo Cósmi­
co abarcando todo o universo.
RUPERT: Isso implica uma mudança no interior da Santíssima Trindade, 
bem como uma mudança dentro das ordens angélicas. Indica, portanto, uma 
evolução não apenas nos reinos angélicos, mas também na natureza divina.
MATTHEW: Certamente. Eckhart é bastante explícito em relação a isso: 
“Deus se transforma à medida que as criaturas expressam a Deus”.39 E de que 
outra forma poderia ser? A divindade será afetada conforme a evolução se 
desenvolve, à medida que a natureza se desdobra, incluindo a natureza hu­
mana, que agora encerra o Logos.
No fundo, o cerne da crença da Trindade cristã é uma afirmação da 
vulnerabilidade de Deus. E essa é uma concepção bem judaica. Havia uma 
noção helenística de que Deus é a força motriz não-movível, o ponto estável 
no céu (o que jã não é tão judaico). O rabino Heschel fala sobre a divindade 
como uma natureza realmente dependente da evolução humana, das ações 
humanas de justiça e compaixão.
Temos de afastar nossas doutrinas da cosmologia estática a qual elas 
acabaram se aferrando. Em tal condição, elas facilmente perdem a energia, 
tornam-se enferrujadas. No contexto de uma nova cosmologia, todas essas 
doutrinas adquirem vida e imensa energia. Nossos melhores místicos, como 
Eckhart e Hildegarda, tinham profunda intuição disso, da divindade se reve­
lando conforme o universo se desdobra. E, certamente, a história de Cristo 
faz parte desse processo.
RUPERT: Então isso tam bém corrobora com os com entários de Hildegar­
da a respeito de os an jos se sentirem m aravilhados com as ações hum anas (p. 
1 5 7 -1 5 8 ) . O s an jos estão reagindo e respondendo ao que acontece na Terra. 
T êm de fazer isso se, de fato, estiverem interagindo com o curso dos aconte­
Hildegarda de Bingen 173
cimentos no cosmo e com o desenvolvimento da humanidade. Mas, como 
você diz, Hildegarda está indo além ao apontar uma mudança real na nature­
za divina. Ela se esquiva da idéia grega da ausência de mudança e das formas 
platônicas fora do espaço e do tempo, totalmente imutáveis e impassíveis.
MA1THEW: E parte da excitação e da admiração dos anjos vem de obser­
var o desenrolar da história de Jesus. Dentro da tradição, os anjos estão pre­
sentes em todos os momentos críticos da vida de Jesus: na Anunciação, sua 
concepção; em seu nascimento; em sua experiência de batismo; em sua ida ao 
deserto, onde foi socorrido pelos anjos enquanto lutava com os demônios e 
era tentando por Satanás no jardim do Getsêmani; na Ressurreição e na As­
censão. Não é como se os anjos fossem apenas espectadores; eles são verda­
deiros participantes na história do desvelamento do Cristo Cósmico em Jesus. 
As forças cósmicas, ou qualquer outro nome que queiramos dar, participam 
da história de vida de qualquer ser, com certeza de qualquer ser humano.
Deus tornou-se um ser humano, não um anjo
Oh! Quão grande é a alegria por Deus ter-se feito humano. Entre
os anjos, Deus existe como divindade, mas entre os homens,
Deus existe como um humano!40
MATTHEW: Aqui, Hildegarda mostra-se exultante em perceber que, no 
relacionamento com a divindade, os seres humanos têm mais participação 
do que os anjos. Deus continua sendo Deus entre os anjos, pois não se fez 
anjo, mas Deus se tornou um ser humano. Isso leva Hildegarda a se regozijar 
na alegria de ser humana. Ela vê a Encarnação como uma tremenda afirma­
ção de apreço pela espécie humana.
RUPERT: Em algumas ilustrações, Cristo é mostrado como o rei dos an­
jos. Essa era uma visão comum?
MATTHEW: Sem dúvida. Em todos os hinos do Cristo Cósmico, desde a 
igreja primitiva, Cristo é apresentado como tendo poder sobre os anjos. Isso 
é para mostrar que não hã nada a temer por parte das forças invisíveis do 
universo; elas estão sendo empregadas por Cristo para propósitos benignos,
174 A FÍSICA DOS ANJOS
RUPERT: Presume-se que a idéia da Abençoada Virgem Maria como Rai­
nha dos Anjos seja um desenvolvimento posterior do mesmo tema. Ou seria 
uma espécie de atavismo a um arquétipo muito mais antigo da deusa como 
Rainha do Céu, como a vertente maternal do espaço e do cosmo?
MATTHEW: Acho que são todas as coisas juntas. Maria, Rainha dos An­
jos, é novamente uma tremenda afirmação da beleza da humanidade: um de 
nós, juntamente com o Cristo, está supervisionando o desempenho dos an­
jos no Céu, e esse é o principio feminino, a deusa. De fato, Hildegarda des­
creve Maria como a regente de sinfonias das esferas celestiais no Paraíso - ela 
orienta a música igualmente entre seres humanos e anjos.
Os anjos estão presentes nas mortes humanas
[Quando se trata da morte] anjos bons e maus estão presentes, 
testemunhas de todos os feitos realizados pela pessoa com e em 
seu corpo. Eles esperam o final para conduzir a pessoa consigo 
após a dissolução.41
MATTHEW: Existe uma antiga tradição de que os anjos estão presentes no 
momento da morte. Atualmente, o interesse nessa tradição tem sido renovado 
por pessoas que relatam suas experiências de quase-morte. Os anjos não estão 
apenas presentes naquilo que chamamos de vida humana. Eles estavam presen­
tes antes de nossa existência, e aguardam suas próximas manifestações. O com­
promisso é o de esperar o fim para levar a pessoa com eles para outro reino. 
RUPERT: “Dissolução” quer dizer dissolução do corpo?
MATTHEW: Acredito que sim.
RUPERT: A idéia de seres alados como almas-guias ou psicopompos é 
muito antiga. Os egípcios tinham uma noção parecida, e hã desenhos de al­
mas-guias aladas sobre múmias. Os gregos também alimentavama idéia de 
almas-guias levando a alma pelas esferas celestiais. O mesmo conceito é ex­
pressado nos cemitérios vitorianos, com estátuas de anjos sobre os túmulos.
Apesar de muito ouvirmos atualmente, nos relatos de quase-morte, a 
respeito de seres de luz no momento da morte, o mesmo não acontece em
Hildegarda de Bingen 175
relação à presença dos anjos maus. Presumimos que os anjos maus não es­
tejam lã simplesmente para observar os anjos bons levarem as almas para 
cima. Eles devem ter algum papel a desempenhar. Qual?
MATTHEW: Desconho que nosso ingresso na morte não é diferente de 
nossa entrada em outros momentos criativos de nossas vidas. Os anjos bons 
e os anjos maus estão presentes em nossas tomadas de decisão e, mesmo na 
morte, existem escolhas a serem, feitas. Por exemplo, a opção pela desespe­
rança, pelo amargor, pela recriminação e pelo arrependimento. Acredito que 
tudo isso poderia ser simbolizado pela presença dos anjos maus nos tentan­
do, enquanto os anjos bons nos incentivariam a reagir com o que, esperamos, 
fosse um padrão de nossas vidas: generosidade, conhança e entrega, qualida­
des que caracterizam não apenas uma morte santa, mas uma vida sagrada. 
Vejo isso como uma afirmação de que a morte é um ato criativo da parte do 
ser humano; de certa maneira, é um ato moral. Temos de decidir como abor­
dá-la. Portanto, tanto os anjos bons quanto os maus estão presentes.
RUPERT: Estou curioso para saber o que acontece àqueles que são leva­
dos pelos anjos maus. Como você imagina isso?
MATTHEW: É melhor você consultar Dante sobre essa questão. Mas isso 
também leva a outro ensinamento de Hildegarda, a respeito do Juízo Final. 
Tenho a impressão de que ela escreve sobre nossas decisões criativas nesta 
vida: todo ato criativo é um julgamento final, porque não hã como repará-lo. 
É uma escolha única. Hildegarda incorpora o dualismo entre esta vida e a 
próxima, e entre o Céu, o inferno e a terra. Ela nos diz, com efeito, que nossas 
escolhas podem acarretar tanto o inferno como o Céu na terra.
Anjos na Eucaristia
Quando o padre, vestido com os paramentos sagrados, pisou o 
altar para a celebração dos mistérios divinos, um claro esplen­
dor de luz repentinamente desceu dos Céus. Os anjos baixaram 
gradualmente, e uma luz transbordou em torno do altar. O am­
biente assim permaneceu até a conclusão da oferta sagrada, 
quando o padre se retirou. Após a leitura do Evangelho da paz,
176 A FÍSICA DOS ANJOS
e depois que as ofertas foram colocadas sobre o altar para a con­
sagração, o padre entoou o louvor do Deus onipotente: “Santo, 
santo, santo, Senhor Deus dos Exércitos!”, e deu início ao mis­
tério impronunciãvel. Nesse momento, os Céus se abriram. Um 
lampejo ardente de claridade indescritível pousou sobre as ofer­
tas e as atravessou com sua majestade, assim como o sol penetra 
com sua luz quando incide sobre um objeto [...] os anjos des­
ceram e a luz inundou o altar [ ... ] os espíritos celestiais reveren­
ciam o serviço sagrado.42
MATTHEW: Nessa passagem, contida em seu primeiro livro, Srivías, Hil- 
degarda descreve uma experiência espiritual vivida por ela durante a missa. 
Desta feita, ela está invocando uma antiga tradição, de que parte do trabalho 
dos anjos é estar presente para a adoração. Isso está profundamente arraiga­
do à tradição judaica. E, de fato, essa passagem na liturgia ocidental, invo­
cada por Hildegarda, tem origem judaica e diz respeito aos anjos: “Santo, 
santo, santo, Senhor Deus do universo, os Céus e a Terra proclamam a vossa 
glória, hosana nas alturas”.
No ponto alto da liturgia ocidental, está essa invocação dos anjos. Hil­
degarda não apresenta isso como teologia ou teoria, mas fala sobre sua pró­
pria experiência. Foi uma experiência muito poderosa para ela, e é uma 
experiência pela qual as pessoas anseiam hoje. Se o louvor é uma parte im­
portante do trabalho dos anjos, também é uma parte importante da vida 
espiritual da humanidade. Como diz o rabino Heschel: “O louvor precede a 
fé”. Precisamos desse passo adiante que leva a fé, para além da inteligência, 
para o interior da experiência. E qual melhor lugar do que aquele onde a 
comunidade se reúne para louvar e invocar todos os seres do universo, in­
cluindo os anjos?
Os povos nativos ensinam que o centro do universo é o centro de um 
círculo de oração. Esse também é um ensinamento judaico: o templo era o 
centro do universo. Hoje, estamos redefinindo o centro do universo não 
como um único lugar, mas como muitos lugares de intensa energia. Precisa­
mos descobrir de que forma a adoração assume uma posição central para o 
universo. Hildegarda também ensina isso. Ela diz que o altar é o centro do
Hiidegarda de B ingeri 177
universo, e que os anjos aí estariam, uma vez que gostam de ficar onde se 
manifesta a ação divina.
A adoração sadia abre os canais da comunicação entre o anjo e o ser 
humano na presença do louvor e do respeito a Deus. Temos de recriar formas 
de adoração que permitam novamente o acesso aos anjos, e que tornem pos­
sível aos seres humanos abrir o coração para que, então, o louvor aconteça. 
Precisamos ir além da origem de todos os chakras para que todas as energias 
do universo possam estar presentes, microcosmo com macrocosmo.
RUPERT: Concordo. É muito interessante que ela fale aqui não sob um 
ponto de vista teórico, mas experimental. Eu me interessaria muito por uma 
pesquisa empírica com pessoas que frequentam serviços religiosos para des­
cobrir em quais ocasiões elas se emocionam, profundamente. Jã vivi momen­
tos em cerimônias religiosas nos quais senti intensamente a presença divina 
ou angélica. Imagino que muitas pessoas tenham tido essa experiência, mas 
em nossos dias elas se envergonham em falar sobre o assunto, assim como 
se envergonham em falar sobre experiências místicas em geral.
MATTHEW: Claro. Nossas experiências místicas têm sido relegadas ao 
reino “subjetivo” por nossa mentalidade moderna. Uma espécie de noção de 
propriedade privada prevalece nesse caso, envolvendo essas vivências em 
segredo, tal como são guardadas nossas contas bancárias.
Hildegarda parece ter tido experiências como essa, com anjos descendo 
e luzes inundando o altar, sem apelar para uma fonte externa. O fato de 
muitas pessoas estarem, hoje procurando fontes externas, como drogas psi- 
codélicas, não deixa de ser uma confirmação de como as formas de adoração 
não estão cumprindo sua função. Se a religião existe para renovar a si mes­
ma, para realizar seu principal trabalho, que é despertar a mente e o coração 
para nosso lugar no universo e a comunhão com outros seres, precisamos de 
formas de adoração que tornem essas experiências possíveis.
Faça amizade com os anjos bons
Digo eu, Cristo, a vocês, filhos dos homens: façam amizade com 
os anjos bons e com os seres humanos na justiça e na verdade.
178 A FÍSICA DOS ANJOS
Em razão dessa justiça e dessa verdade, os anjos apreciarão suas
boas ações, e um dia os levarão à morada eterna.43
MATTHEW: Hildegarda frequentemente faz-se ouvir na primeira pessoa 
de Deus ou do Cristo, e fala como se estivesse tomada pela voz deles. Estas 
são ocorrências particularmente importantes e profundas para ela: nessa 
passagem, trata-se de Cristo nos dizendo para fazer amizades com os anjos 
bons. Esta é uma boa maneira de concluir nossa investigação a respeito dos 
ensinamentos de Hildegarda sobre os anjos, sendo a palavra final a de que 
nos fazemos amigos dos anjos quando nos aproximamos da justiça e da 
verdade em nossas vidas.
A visão de mundo moderna ou mecanicista não era amistosa em relação 
aos místicos ou aos anjos. Hildegarda, porém, fruto de uma visão de mundo 
pré-moderna, nos chama a prestar mais atenção a esses relacionamentos em 
nossa Era Pós-Moderna, e assinala que é essa experiência espiritual de ver­
dade e justiça que nos leva à comunhão com os anjos e,consequentemente, 
à amizade com eles. A dimensão de justiça corresponde, é claro, ao ensina­
mento de Aquino sobre o relacionamento entre anjos e profetas.
RUPERT: Mas você acha que existem maneiras práticas de fazer amizade 
com os anjos? Por exemplo, em diversas cerimônias judaicas, há invocações 
aos arcanjos Miguel, Uriel, Rafael e Gabriel como os guardiões dos quatro 
pontos cardeais. E os cristãos, na tradição católica, têm uma oportunidade 
particular de travar amizade com eles na festa de São Miguel e de Todos os 
Anjos, em 29 de setembro. Você acha que há mais coisas que possamos fazer 
especificamente para invocar os anjos, além de estarmos mais abertos a Deus 
e ao espírito de verdade e justiça?
MATTHEW: Sim, existem rituais e invocações que já estão presentes nas 
tradições da igreja, e alguns que têm de ser ressuscitados. E precisamos de 
novos rituais para invocar os anjos; acredito que essas práticas sagradas sur­
girão à medida que permitirmos que nossas mentes vagueiem mais livre­
mente no interior do cosmo vivo. A tecnologia poderia desempenhar um 
papel decisivo, ajudando-nos a visualizar os anjos - tomemos como exem­
plo as maravilhosas fotografias que agora dispomos das estrelas nascendo e 
das galáxias espiralando. Mas acho que não devemos subestimar o caminho
Hiídegarda de Bingen 179
de luta por justiça e verdade. Isso tem a ver com trabalho interno, o que 
certamente diz respeito à verdade. Hiídegarda nos mostra que, onde hã esse 
trabalho interno, a comunicação com os anjos efetivamente está aberta.
O mesmo é verdadeiro para a luta por justiça. Lembremos que os anjos 
visitam com frequência as pessoas encarceradas. São Pedro foi libertado da 
prisão por um anjo. Por vezes, penso que Gandhi, Martin Luther King e 
outras grandes almas que passaram algum tempo aprisionadas encontraram 
apoio angélico em sua reclusão.
Daí a luta por justiça não ser uma abstração. É uma maneira de apren­
der e de abrir o coração. Conheço uma freira católica, por exemplo, uma 
mulher muito nobre e santa, que me contou sua maior experiência mística: 
ser removida em um camburão pela polícia quando protestava em bases 
militares e instalações nucleares - foi quando ela sentiu mais intensamente 
a presença dos espíritos e dos anjos.
Por isso, a luta por justiça é uma forma de abrir nossos corações e de 
permitir que os anjos entrem rapidamente. Essa luta, que certamente se dá 
em tomo dg questões ecológicas, vai se tornar mais intensa em nossa vida, 
e precisamos enxergar esses combates como rituais. E os anjos comparecem 
a rituais sadios e autênticos.
RUPERT: Essa é uma possibilidade instigante, a luta por justiça e a luta 
por um novo relacionamento com o meio ambiente acontecendo em aliança 
com os anjos e com a ajuda deles. Confere uma dimensão maior. É um pen­
samento fortalecedor, pois, caso contrário, seria apenas um. punhado de 
gente brigando contra uma enorme rede de interesses e poderes políticos e 
econômicos. Precisamos de toda a ajuda que pudermos obter.
MATTHEW: E, seguramente, os anjos da guarda das crianças devem estar 
tremendamente interessados na crise ecológica. O futuro das crianças de­
pende de um. planeta sadio.
Conclusão
Anjos no Novo Miíènio
O que eStã acontecendo h-Oje não é mero ressurgimento do inte­
resse nos anjos. A nova cosmologia levanta novas questões e aumenta muito 
o raio de ação angélica no universo. Atualmente, temos grande necessidade 
de entender o papel da consciência além dos domínios humanos. Esses de­
safios exigem um revisionismo da angelologia, uma nova fase em nossa com­
preensão dos reinos angélicos e em nosso relacionamento com eles.
Precisamos avaliar o que podemos aprender com nossa própria tradi­
ção sobre os anjos. O que Dionísio, o Areopagita, São Tomás de Aquino e 
Hildegarda de Bingen têm a nos ensinar sobre essas criaturas? Aqui estão 
algumas das lições aprendidas em nossos diálogos.
■ Os anjos são muito numerosos; existem em números astronômicos. 
Há muitos outros tipos de consciência no cosmo além da consciên­
cia humana.
■ Os anjos estão presentes desde a origem do universo.
18Z A FÍSICA DOS ANJOS
88 Existem em uma ordem hierárquica de níveis aninhados dentro de 
níveis.
li São inteligências governantes da natureza.
■ Têm uma relação especial com a luz, com o fogo, com as chamas e 
com os fótons. Hã paralelos surpreendentes entre Aquino e Einstein 
com respeito à natureza dos anjos e dos fótons: em sua locomoção 
e no modo de se movimentar, em sua perenidade e em seu despro- 
vimento de massa.
■ São musicais por natureza e trabalham em harmoniosa convivência 
uns com os outros.
■ A maioria dos anjos é amistosa, mas nem todos. Cristo tem poder 
sobre os anjos.
■ Mantêm uma relação especial com a consciência humana. Nós, seres 
humanos, ajudamos a conectar o mundo terreno com as inteligên­
cias cósmicas.
■ Os anjos podem ter exercido um papel especial no nascimento da
linguagem,
■ Eles inspiram os profetas e despertam a imaginação e a intuição 
humanas, e assim amparam os artistas de modo. especial.
* Os anjos são maravilhados conosco, e nossas ações por meio deles 
podem afetar todo o cosmo.
■ Sua principal ofício é louvar.
■ Eles desempenham uma variedade de funções em seu relaciona­
mento com os seres humanos, incluindo inspirar, transmitir a pala­
vra, proteger e guiar.
■ Estão presentes na adoração sagrada.
■ Tanto os anjos bons quanto os maus agem no âmbito de nossa cons­
ciência e tomada de decisões.
■ Eles não têm corpos físicos, mas podem assumir temporariamente a 
aparência humana ou outros corpos com a finalidade de se comuni­
car com os seres humanos e ajudá-los.
■ Eles acompanham as pessoas desta vida para a próxima.
Conclusão 183
Questões para o futuro
Em uma época como a nossa, não basta recorrer aos ensinamentos tradicio­
nais da religião e da angelologia. Uma nova cosmologia, bem como uma 
nova crise na Terra, exigem mais trabalho criativo da parte daqueles que 
herdam, as tradições religiosas. E assim concluímos nossa discussão não com 
uma afirmação de sabedoria legada, mas com questões que nos assaltam do 
futuro sobre a relação da humanidade com os anjos.
■ Como podemos entender a consciência dos planetas, das estrelas e 
das galáxias?
■ À luz da cosmologia contemporânea, a compreensão tradicional das 
inteligências celestiais pode nos ajudar a interpretar as forças auto- 
organizadoras dos planetas, das estrelas e das galáxias?
■ Os anjos têm um papel a desempenhar na dinâmica auto-organiza­
dora do mundo microscópico?
■ Em um universo evolucionário e em expansão, novas espécies de 
anjos estão passando a existir conforme surgem novas formas, estru­
turas e campos?
■ Qual o papel dos anjos na orientação do processo evolucionário?
■ Os anjos se desenvolvem?
■ Quão rapidamente os anjos podem se comunicar pela vastidão do 
universo?
■ Os anjos caídos provocam o mal em outros organismos conscientes 
residentes em outras partes do universo?
■ Como podemos nos aproximar dos anjos bons?
* A experiência com anjos e a crença neles, compartilhadas por todas as 
tradições espirituais, podem promover um ecumenismo profundo?
■ Os anjos podem nos guiar por entre as perversidades sociais e eco­
lógicas que nos cercam e que ameaçam as gerações vindouras?
* Os anjos podem nos ajudar a reavivar nossas formas de adoração para 
que o louvor verdadeiro possa inspirar visão profética e retidão?
184 A FÍSICA DOS ANJOS
m Nosso despertar para os anjos pode aumentar a capacidade de co­
munhão?
■ Como os anjos podem ajudar na ressacralização do trabalho dos 
artistas?
■ Como nós podemos, com os anjos, ressacralizar o mundo?
Apêndice
Anjos na Bíbíia
Os textos antigos da Bíblia hebraica são, de cena forma, re-
ticentesa respeito da angelologia. Não há dúvida de que isso se deve ao fato 
de os israelitas terem se precavido na reintrodução de velhas idéias sobre 
mensageiros divinos e espíritos, quando da difusão do monoteísmo entre os 
povos outrora politeístas. Apenas três anjos - Gabriel, Miguel e Rafael —'são 
chamados pelo nome no Antigo Testamento, e os livros proféticos raramen­
te mencionam essas criaturas.
Nos livros mais recentes, os anjos aparecem com mais frequência, prin­
cipalmente nos textos apocalípticos, como o Livro de Daniel, em que exer­
cem um papel importante. Nessa época, o monoteísmo já estava tão bem 
estabelecido no pensamento judaico que não havia razão para os anjos se­
rem temidos como objetos de adoração. Também nesse período, outras tra­
dições, como a religião zoroástrica da Pérsia, influenciaram Israel com sua 
ênfase nos espíritos.
Além dos termos “anjos” ou “mensageiros”, as Escrituras hebraicas in­
cluem outras denominações a esses seres, como “filhos de Deus”, “anfitriões 
do Senhor”, “anfitriões do Céu” e “os sagrados”.
Os anjos são encontrados em abundância nas Escrituras cristãs. Isso 
acontece particularmente nas narrativas sobre a infância de Jesus, no minis­
tério de Cristo e na literatura apocalíptica, como o Livro da Revelação. Os 
anjos representam as forças cósmicas que se unem em Jesus e que ele em­
186 A FÍSICA DOS ANJOS
prega para o bem das pessoas. Paulo menciona os nove coros de anjos ou 
espíritos celestes, mas sua ênfase está em como Cristo tem poder sobre os 
anjos e sobre todas as forças espirituais. Assim acaba a tentação de ser pes­
simista com relação às forças cósmicas. O universo é essencialmente bené­
volo em todos os aspectos. Os espíritos do mal não podem triunfar sobre o 
poder do amor de Cristo.
No Livro da Revelação (Apocalipse), os anjos desempenham diversos 
papéis, incluindo exaltar na adoração celeste, ajudar no trabalho da revelação 
profética, auxiliar na governança do mundo e na realização dos desejos divi­
nos, além de proteger as sete igrejas da Ásia, seus líderes e comunidades.
A seguir, uma lista de referências bíblicas aos anjos.
I. Antigo Testamento (B íblia hebraica)
Gênesis*
16,7-11:
1 9 ,1 -2 6 :
22,11-15:
24,7.40:
2 8 ,1 2 :
3 1 ,1 1 :
3 2 ,2 :
4 8 ,1 6 :
O anjo de Javé encontra a escrava Agar e lhe ordena que volte para 
sua patroa Sarai, para dar à luz um filho (Ismael), (cf. 21, 17)
Dois anjos a quem Ló recebeu com hospitalidade salvam a ele e sua 
família da destruição de Sodoma.
Um anjo intervém para salvar Isaac da imolação pela faca de Abraão. 
Abraão promete ao servo mais velho de sua casa que um anjo será 
enviado para levã-lo à terra natal de seu senhor, para encontrar uma 
esposa para seu filho Isaac.
Jacó sonha com anjos de Deus subindo e descendo uma escada que 
se erguia até o Céu.
Um anjo conversa com jacó em sonho.
Anjos encontram Jacó em sua jornada e ele chama o lugar do encon­
tro de “Maanaim”, dizendo, “Este é o acampamento de Deus”.
Israel (jacó) abençoa os filhos de José, dizendo: “Que o anjo que me 
salvou de todo o mal abençoe estas crianças”.
* Todas as citações deste Apêndice, literais ou indiretas, bem como as referências bíblicas 
contidas em todo o livro, foram extraídas da seguinte versão do livro sagrado: bíblia SAGRADA 
- Edição Pastoral São Paulo: Paulus, 2001. [n . do E.]
Apêndice 187
Êxodo
3,2:
14,19:
0 anjo de Javé aparece a Moisés em uma sarça ardente. 
0 anjo de Javé marcha à frente do exército de Israel.
23,20-24: Javé promete que um anjo protegerá os israelitas de seus inimigos.
32,34; 33,2: Javé promete enviar um anjo para ir adiante dos israelitas, protegê-
los e combater seus inimigos.
Números
20,16: Moisés envia uma mensagem ao rei de Edom, dizendo que um anjo 
tiraria os israelitas do Egito.
22,22-35: 0 anjo de Javé ensina Balaão a tratar sua jumenta com mais deli­
cadeza.
Deuteronômio
32,17: O Cântico de Moisés repreende aqueles que “sacrificaram a demônios,
Juízes
2,1.4:
5,23:
6,11-24:
3,3-25:
falsos deuses, a deuses que não haviam conhecido”.
0 anjo de Javé diz aos israelitas que ele os tirou da terra do Egito. 
No Cântico de Débora e Barac, o anjo de Javé amaldiçoa Meroz.
Um anjo de Javé visita Gedeão e diz a ele que salve Israel.
Um anjo de Javé aparece à mulher de Manué e diz que ela dará à luz
um filho; ela lhe deu o nome de Sansão.
Primeiro Livro de Samuel
29,9: Aquis diz que Davi é tão leal quanto um enviado de Deus.
Segundo Livro de Samuel
14,17.20: A sabedoria de Davi “é como a sabedoria de um enviado de Deus:
ou seja, divina (cf. 2Samuel 19,28).
24,16-17: Um anjo cumpria a vingança por causa dos pecados de Davi.
Primeiro Livro dos Reis
13,18: Um anjo testa se um profeta obedecerá a Javé.
19,5-7: Um anjo faz com que Elias se alimente para a jornada.
Segundo Livro dos Reis
1,3.15; Um anjo diz a Elias que desafie Ocosias, que procurou ajuda com o 
deus de Acaron.
188 A FÍSICA DOS ANJOS
19,35: Um anjo de Javé dizima o exército assírio, possivelmente com uma
praga.
Primeiro Livro das Crônicas
21,1: “Satã se insurgiu contra Israel”.
21,12-30: Um anjo vingador alastra uma peste sobre Israel por causa das trans­
gressões de Davi, e o anjo exorta Davi a erguer um altar para Javé.
Segundo Livro das Crônicas
32,21: Um anjo extermina todos os oficiais de batalha do rei da Assíria, e a
paz é estabelecida em Jerusalém..
Tobias
5,4-28: Tobias encontra o anjo Rafael, que conforta seu pai idoso e protege
Tobias em sua jornada.
6,10-19: O anjo Rafael ajuda Tobias a encontrar uma esposa.
9,1-9: Rafael ajuda Tobias com a festa de casamento.
11,7-8: Rafael promete a Tobias que seu pai cego voltará a enxergar.
11,14: Ao ter sua visão restabelecida, Tobit exulta: “Bendito seja Deus! Bendi­
to seja o seu Nome grandioso! Benditos sejam os seus santos anjos!”.
12,6-22: Rafael instrui Tobias e Tobit a respeito de assuntos espirituais e “os
dois ficaram assustados e caíram com o rosto por terra, cheios de 
medo”. Garantindo que eles não tinham o que temer, o anjo os dei­
xou e retornou para a casa de Deus.
Jó
1,6-12: Satã se empenha em testar Jó.
2,1-10: Satã lança mais infortúnios sobre Jó, que não ofendeu Deus com
palavras.
4,18: Deus vê falhas em seus próprios servos, “e mesmo em seus anjos
descobre defeitos”.
Salmos
8,6: “Tu o fizeste [o ser humano] pouco menos do que um anjo”.
34,8: O anjo de Javé mantém em segurança aquele que o teme.
35,5.6: Que o anjo de Javé persiga meus inimigos, clama o salmista.
78,25: Ao comer o maná dos Céus, os israelitas “comeram o pão dos anjos”.
Apêndice 189
78,49: Anjos portadores de desgraças cumpriram a ira de Deus contra os
israelitas algumas vezes.
91,11:
103,20:
104,4:
Deus o guardará, colocando-o sob os cuidados de seus anjos. 
"Bendigam a Javé, anjos seus [...]”
“Tu fazes dos ventos os teus mensageiros, e das chamas de fogo os 
teus ministros!”.
106,37: Os israelitas, sob influências pagãs, “sacrificaram aos demônios seus 
filhos e suas filhas”.
148,1-2: “Louvem a Javé nas alturas. Louvem a Javé, todos os anjos, louvem 
a ele seus exércitos todos!”
Eclesiastes
5,5: Não diga a seu anjo que suas palavras são impensadas.
Isaías
37,36: Um anjo do Senhor abateu milhares de homens no acampamento 
assírio durante a noite.
63,9: Um salmista canta sobre como “não foi um enviado ou mensageiro, 
mas o próprio Javé” quem salvou do sofrimento o povo de Deus.
Daniel
3,49:
6,23:
Um anjo salva três homens da fornalha do rei Nabucodonosor.
Daniel atribui à intervenção de um anjo sua salvação da boca de um 
leão.
Oséias
12,4: O profeta se lembra da luta de Jacó com um anjo (Gn 32,24-28).
Zacarias
1,9-17: O profeta tem visões nas quais os anjos desempenham um papel im­
portante na transmissão das mensagens de Javé ao povo de Israel.
3,1-6: O anjo de Javé preside umtribunal de justiça no Céu, e Satã, o acu­
sador, que é inimigo do homem, fica em pé, ao lado de Josué, o 
chefe dos sacerdotes.
190 A FÍSICA DOS ANJOS
4,1-6.10-14: Um anjo explica uma visão e seu significado, incluindo os sete olhos 
de Javé, que “percorrem toda a Terra”, e os dois homens ungidos, 
que “estão de pé diante do Senhor de toda a Terra”,
5, 5-11: Um anjo explica uma visão que diz respeito à maldade.
6,4-8: Um anjo explica uma visão que diz respeito a quatro grandes cavalos
saindo em quatro direções distintas, “os quatro ventos do Céu” - eles 
têm de “percorrer a Terra”,
12,8: Na era messiânica, a Casa de Davi será restaurada, será “como o anjo
de javé”.
II. Novo Testamento
Evangelho Segundo Mateus
1,20-24: Um anjo aparece para José em sonho e o informa sobre a concepção
de Maria pelo Espírito Santo, aconselhando-o a aceitar Maria como 
sua esposa.
I , 24: José acorda de seu sonho e faz o que o anjo lhe havia recomendado.
2,13.14: Um anjo aparece para José em sonho e o exorta a fugir de Herodes,
levando sua esposa e seu filho para o Egito. José obedece.
2,19-21: Após a morte de Herodes, um anj o apareceu a José em sonho e disse
a ele que voltasse a Israel, e José obedeceu.
4,1-11: Jesus é levado para o deserto e tentado pelo demônio. Ele resiste.
“Então o diabo o deixou. E os anjos de Deus se aproximaram e ser­
viram Jesus”.
7,22: Alguns dirão que eles expulsarão os demônios em nome de Cristo.
8,16.17: Ele expulsou os demônios e curou muitas pessoas doentes.
9,32-34: Jesus expulsa um demônio de um homem mudo.
10,8: Jesus exorta seus discípulos a “expulsar demônios”.
I I , 18: Veio João e foi acusado de estar “possuído” por um demônio.
12,22-28: Jesus cura um endemoninhado cego e mudo, e os fariseus disse­
ram que apenas o príncipe dos demônios era capaz de expulsar 
demônios.
13,39-41: Explicando a parábola das boas sementes semeadas no campo, Jesus diz
que o demônio é o inimigo que semeou as más sementes, e os anjos são 
os ceifadores. No fim dos tempos, o Filho do homem “enviará seus an­
jos”, que recolherão o mal e o lançará na fornalha de fogo.
13,49: No fim dos tempos, os anjos separarão os maus dos justos.
Apêndice 191
15,22-28:
16,23:
16,27:
17,14-20:
18,10:
22,30:
24,30-31:
24,36:
25,31:
25,41:
26,53:
28,2-8:
Uma mulher cananéia pede a Jesus que cure sua filha que está sendo 
atormentada por um demônio, e Jesus faz o que ela pede.
“Para longe de mim, Satanás. Você é uma pedra de tropeço para 
mim””, disse Jesus a Pedro.
“O Filho do Homem virá na glória do seu Pai com os seus anjos”, 
para retribuir a cada um conforme sua conduta.
Jesus cura um menino epiléptico e possuído pelo demônio.
Os pequeninos têm “seus anjos no Céu, [que] sempre estão na pre­
sença de meu Pai no Céu”.
Na ressurreição, homens e mulheres não se casam, mas “são como 
os anjos no Céu”.
O Filho do homem, virá sobre as nuvens do Céu e “enviará seus an­
jos, que tocarão bem alto a trombeta” para reunir os eleitos desde os 
quatro ventos e todas as direções.
Nem os anjos nem o Filho, mas apenas o Pai sabe o dia e a hora do 
momento final.
Os anjos acompanharão o Filho do homem quando ele vier em sua 
glória.
Um fogo eterno preparado pelo demônio e por seus anjos espera 
aqueles que se recusaram a alimentar o faminto ou a visitar o doente 
e o aprisionado.
Quando detido no jardim do Getsêmani, Jesus diz aos discípulos que 
o Pai poderia mandar “doze legiões de anjos” para defendê-lo se ele 
assim o desejasse.
Um anjo do Senhor retira a pedra do sepulcro de Jesus e diz a Maria 
Madalena e a Maria, mãe de Tiago, que Jesus havia ressuscitado, e 
que elas deveriam contar a notícia aos outros discípulos.
Evangelho Segundo Marcos
1,12.13: Jesus foi tentado por Satã no deserto logo após seu batismo, mas os
“anjos o serviam”.
1,32-39: Ele expulsou demônios e curou muitas pessoas.
3,15: Ele conferiu aos discípulos “o poder de expulsar demônios”.
3,22-30: Jesus confronta aqueles que o acusam de estar possuído por Satã e
por meio dele expulsar demônios.
5,1-20: Na região dos gerasenos, Jesus cura um homem tomado por espíritos
impuros “e todos ficavam, admirados”.
192 A FÍSICA DOS ANJOS
6,13:
7,25-30:
8,38:
9,38.39:
12,25:
13,27:
13,32:
16,9:
16,17:
Os doze discípulos expulsaram muitos demônios e curaram muitas 
pessoas doentes.
Jesus expulsa o demônio da filha de uma mulher pagã.
O Filho do homem virá na glória com seus anjos sagrados.
Um homem que não era discípulo expulsava os demônios em nome 
de Jesus.
Aqueles que ressuscitarem dos mortos não casarão, mas serão como 
os anjos.
O Filho do homem enviará seus anjos para reunir os escolhidos des­
de os quatro ventos e nos confins da Terra.
Mas o dia e a hora dessa vinda nem mesmo os anjos sabem.
O Cristo ressuscitado aparece a Maria Madalena, “de quem havia 
expulsado sete demónios”.
Meus seguidores “expulsarão demônios em meu nome”, diz o Cristo 
ressuscitado.
Evangelho Segundo Lucas
1,11-25: O anjo Gabriel aparece a Zacarias e o informa que sua esposa idosa,
Isabel, terá um filho chamado João.
1.26- 38: O anjo Gabriel diz a Maria que ela conceberá um filho chamado Je­
sus pelo poder do Espírito Santo. Maria aceita.
2,9-15: O anjo do Senhor aparece aos pastores â noite com “a Boa Notícia
que será uma grande alegria”, a ser compartilhada por todo povo: 
“Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o 
Messias, o Senhor”. Uma multidão de anjos aparece cantando “Gló­
ria a Deus nas alturas”.
2,21: Quando de sua circuncisão, deram ao menino o nome de Jesus,
como fora chamado pelo anjo de seu nascimento.
4,1-13: O demônio tenta Jesus no deserto.
4,33-36: Jesus ordena que um espírito impuro abandone um homem possuído
que está na sinagoga.
4,40.41: Ele colocava as mãos sobre as pessoas e demônios saíam delas.
7.33: João Batista é acusado de estar possuído.
8,2: Maria Madalena teve sete demônios expulsos dela.
8,12: A semente como Palavra de Deus é tirada do coração daqueles que
estão à beira do caminho pelo demônio.
8.26- 39: Jesus expulsa os demônios do homem da região dos gerasenos.
Apêndice 193
9,1:
9,26:
9,37-45:
10,17-20:
11,14-22:
12 ,8 :
13,10-17:
13,32:
15,10:
16,22;
20,36:
22,31:
22,43:
24,32:
Jesus chamou os doze discípulos e lhes deu poder sobre todos os 
demônios e para curar os enfermos,
O Filho do homem virá “na glória do Pai e dos santos anjos”.
Jesus expulsa o espirito impuro do menino epiléptico endemoninhado. 
“Os setenta e dois voltaram muito alegres, dizendo ‘Senhor, até os 
demônios obedecem a nós por causa do teu nome’”.
Jesus confronta aqueles que dizem que ele expulsa demônios com a 
ajuda de demônios.
“Todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, o 
Filho do Homem também dará testemunho dele diante dos anjos de 
Deus”.
Jesus cura uma mulher aleijada no sábado, uma filha de Abraão a 
quem Satã possuía há dezoito anos.
Jesus diz aos fariseus que digam a Herodes que ele está expulsando 
demônios.
“Os anjos de Deus sentem a mesma alegria por um só pecador que 
se coverte.”
Na história de Lázaro, o pobre homem morre e “os anjos o levam 
para junto de Abraão”.
Aqueles que são ressuscitados não se casam e “são como os anjos”. 
“Simão, Simão! Olhe que Satanás pediu permissão para peneirar vo­
cês como trigo”.
Um anjo vai até Jesus no jardim de Getsêmani para confortá-lo.
As pessoas na estrada para Emaús discutem sobre como as mulheres 
que visitaram o túmulo de Jesus não encontraram o corpo, mas “ti­
nham visto anjos, e estes afirmaram que Jesus está vivo”.
Evangelho Segundo João
1,51: Jesus diz a Natanael que ele “verá o Céu aberto, e os anjos de Deus
subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.
5,4: Está dito que um anjo descia e movimentava as águas curativas na
piscina de Betesda.
6,70.71: “Um de vocês é umdiabo”, disse Jesus, referindo-se ajudas, que o
trairia.
8,44: Jesus confronta seus inimigos e diz: “O pai de vocês é o diabo”, e “ele
nunca esteve com a verdade, porque nele não existe verdade”.
8,48-54: Jesus é acusado de estar possuído por um demônio.
194 A FÍSICA DOS ANJOS
10,20.21: Jesus é acusado de estar possuído por um demônio e, consequente­
mente, de ser louco.
12,29: Quando Jesus ora “Pai, manifesta a glória do teu nome!”, e uma voz 
vinda do Céu responde “Eu manifestei a glória do meu nome, e vou 
manifestá-la de novo”, as pessoas presentes atribuem tal assombro a
13,2:
um anjo que fala com ele.
Na Última Ceia, “o demônio já tinha posto no coração de Judas Is- 
cariotes” o projeto de trair Jesus.
20,12.13: Maria vê dois anjos no túmulo vazio de Jesus, os quais perguntam a 
ela: “Mulher, por que você está chorando?”
Atos dos Apóstolos
5,3: Pedro pergunta a Ananias: “Por que você deixou Satanás tomar posse
5,19-21:
do seu coração? Por que você está mentindo para o Espírito Santo?”
O anjo de Senhor liberta os apóstolos da prisão e diz a eles: “Vão ao 
Templo e lá continuem a anunciar ao povo toda a mensagem, da 
vida”. Eles obedecem.
6,15: O rosto de Estevão diante do Sinédrio parece “o rosto de um anjo” 
fassim, sugere-se um tipo de teofania para a experiência de transfi­
guração] .
7,30.35.38: O discurso de Estevão relembra como Moisés ficou admirado ao ver
7,53:
8,26:
10,3-8.22:
“um anjo que tinha aparecido a ele na sarça ardente”. Por meio Moi­
sés, o povo judeu se comunicou com o anjo.
Em seu discurso, Estevão diz ao povo que os anjos levaram a lei até eles. 
O anjo do Senhor pede que Filipe parta em viagem, e é o que ele faz. 
Um. centurião chamado Cornélio teve uma visão na qual um anjo de 
Deus vinha ao seu encontro convocando-o a encontrar Simão Pedro.
10,38:
Ele envia seus homens para fazer isso.
Pedro prega e diz: “E Jesus andou por toda parte, fazendo o bem e 
curando todos os que estavam dominados pelo diabo”.
11,13:
12,7-15:
12,23:
13,10:
Pedro recorda o papel do anjo na visão de Cornélio, o de ir buscá-lo. 
Um anjo do Senhor liberta Pedro da prisão.
Um anjo do Senhor inflige Herodes com uma doença que o mata. 
Paulo confronta o mago Elimas e o chama de “filho do diabo, cheio 
de falsidade e malícia, inimigo de toda justiça”.
23,8.9: No julgamento de Paulo ante o Sinédrio, surge uma divisão entre 
fariseus, que acreditam em anjos, e saduceus, que não acreditam.
Apêndice 195
26,18: Paulo faz um discurso em que afirma termos de nos mover “das
trevas para a luz, da autoridade de Satanás para Deus”.
27,23-26: Paulo tranquiliza seus companheiros de bordo, que estão à deriva,
com a notícia de que um anjo de Deus garantiu a ele que nenhuma 
vida seria perdida no mar.
Carta aos Romanos
8,38-39: Paulo está convencido de que nada, “nem a morte nem a vida, nem
os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os 
poderes nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qual­
quer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, ma­
nifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor”.
16,20: “O Deus da paz não tardará em esmagar Satanás debaixo dos pés de
vocês”.
Carta aos Coríntios
“Porque nos tornamos espetáculo para o mundo, para os anjos e para 
os homens!”.
Satanás arrasará uma pessoa que conviver com a mulher de seu pai. 
Também haveremos de julgar os anjos.
Satanás pode tentar os casais.
Sacrifícios a ídolos são alimentos oferecidos aos demônios, não a Deus. 
Por respeito aos anjos, a mulher deve cobrir a cabeça nas assembléias 
litúrgicas.
“Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se eu não ti­
vesse o amor, seria como sino ruidoso ou como o címbalo estridente.”
Segunda Carta aos Coríntios
2,11: “Desse modo, não seremos enganados por Satanás.
11,14.15: Paulo fala sobre Satanás que se disfarça em anj o de luz e imita certos
apóstolos.
12,7: O espinho na carne de Paulo também é chamado anjo de Satanás.
Carta aos Gálatas
1,8: Paulo fala a seus leitores que ignorem as predicações que sejam
diferentes daquelas que anunciamos, mesmo que noticiadas por 
um anjo.
Primeira
4,9:
5,1-5:
6,3:
7,5:
10,20- 22 :
11,10:
13,1:
196 A FÍSICA DOS ANJOS
3,19: “A Lei foi promulgada pelos anjos”.
4,14: Paulo sente que foi acolhido como “um anjo de Deus” pelos gálatas
quando estava doente.
Carta aos Efésios
4,27: Você “dará ocasião ao diabo” se deixar o sol se pôr sobre o seu res­
sentimento..
6,12-13: “A nossa luta, de fato, não é contra homens de carne e osso, mas contra
os principados e as autoridades, contra os dominadores deste mundo 
de trevas, contra os espíritos do mal que habitam as regiões celestes”.
Carta aos Colossenses
2,18: “Que ninguém, com humildade afetada ou culto aos anjos, impeça
vocês de conseguir a vitória; essas pessoas se fecham em suas visões 
e se incham de orgulho com o seu modo de pensar”.
Primeira Carta aos Tessalonicenses
2,18: Paulo diz que Satanás o impediu de visitar seus irmãos em Tessa-
lônica.
Segunda Carta aos Tessalonicenses
1,7: Quando o Senhor Jesus se manifestar do Céu com os anjos, aqueles
que lhes ofendem serão expiados.
2,9-12: Satanás agirá com falsos sinais e prodígios quando o ímpio vier.
Primeira Carta a Timóteo
1,20: O autor diz ter entregado os homens “a Satanás, a fim de que apren­
dam a não mais blasfemar”.
3,6,7: O dirigente da igreja de Deus não deve ser uma pessoa orgulhosa e
passível de ser “condenada como o foi o diabo”.
3,16: Cristo “se manifestou na carne, foi justificado no espírito, apareceu
aos anjos
4,1: Alguns darão atenção a embustes e mentiras do demônio.
5,15: Por causa do indecoro, algumas viúvas jã se desviaram, seguindo
Satanás.
5,21: Paulo adverte os cristãos a se comportarem: “Eu conjuro você diante
de Deus, de Jesus Cristo e dos anjos eleitos: observe essas regras sem 
preconceito, nada fazendo por favoritismo”.
Apêndice 197
Segunda Carta a Timóteo
2,26: O demônio prende as pessoas e as escraviza, mas elas podem ser
salvas dessa armadilha.
Hebreus
Cristo está muito acima dos anjos, e o autor invoca as Escrituras para 
demonstrar seu argumento.
A. lei foi uma promessa feita por meio dos anjos.
Os anjos não governarão o mundo que virá. Citando o salmista, o 
autor diz que Jesus é aquele que, por um curto momento, “foi feito 
pouco menor do que os anjos”.
Com sua morte, Cristo subtraiu todo o poder do demônio.
“Ele não veio para ajudar os anjos, e sim para ajudar a descendência 
de Abraão.”
Na cidade do Deus vivo, milhares de anjos se reúnem em festa.
“Não se esqueçam da hospitalidade, pois algumas pessoas, graças a 
ela, sem saber acolheram anjos”.
Carta de Tiago
2,19: Os demônios acreditam e tremem de medo. A fé exige realizações.
3,14-15: Um coração ciumento e ambicioso é diabólico.
4,7: “Resistam ao diabo, e este fugirá de vocês”.
Primeira Carta de Pedro
1,12: “Até os anjos gostariam de contemplar” as boas novas de Cristo.
3,22: Cristo “subiu ao Céu e está sentado à direita de Deus, após ter sub­
metido os anjos, as autoridades e as potestades”.
5,8: Sejam vigilantes contra seu inimigo, o demônio.
Segunda Carta de Pedro
2,4: “Deus não poupou os anjos que haviam pecado”.
2,11: Algumas pessoas são tão voluntariosas que ofendem os anjos; mas os
anjos não as acusam diante de Deus; a retribuição por sua maldade 
virá depois.
Primeira Carta de João
3,8: “Foi para isto que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as
obras do diabo”.
Diferencie os filhos de Deus dos filhos do diabo.
Carta aos
1.4- 14:
2 ,2 :
2.5- 9:
2,14:
2,16:
12 , 22 :
13,2:
3,10:
198 A FÍSICA DOS ANJOS
Carta de Judas
6: Certos anjos tinham, autoridade suprema, mas não a conservaram e
9:
foram expulsos de sua esfera de influência. 
O arcanjo Miguel discutiu com o demônio.
Livro da Revelação (Apocalipse)1,1: A fonte do Livro da Revelação é um anjo enviado por Deus para dar
1,20:
2.1- 7: 
2,8-11: 
2,12-17: 
2,18-19:
3.1- 4: 
3,5:
3,7:
3,9:
conhecimento das coisas ao autor, João.
As sete estrelas e as sete igrejas estão sob o controle dos anjos, 
“Escreva ao anjo da igreja de Éfeso. [...]”
“Escreva ao anjo da igreja de Esmirna. [...]”
“Escreva ao anjo da igreja de Pérgamo. [...]”
“Escreva ao anjo da igreja de Tiatira. [...]”
“Escreva ao anjo da igreja de Sardes. [...]”
Na presença do Pai e dos anjos, algumas pessoas serão reconhecidas. 
“Escreva ao anjo da igreja de Filadélfia. [...]"
Existem pessoas que se dizem judias, mas não são. A essas o autor 
chama “mentirosas, da sinagoga de Satanás”.
3,14-22:
5,2:
“Escreva ao anjo da igreja de Laodicéia. [...]”
Um anjo poderoso pergunta se há alguém digno de romper os selos 
e abrir o livro.
5,11-12: Em uma visão, milhões e milhares de anjos clamavam e cantavam 
em volta do trono celeste.
7.1-3: O autor vê quatro anjos, um em cada canto da Terra, e outro anjo 
vindo do Oriente. Este gritava aos quatro anjos para que não preju­
dicassem a terra, o mar ou as árvores até que fosse marcada a fronte 
dos servos de Deus.
7,11.12: Todos os anjos em um círculo ao redor do trono estavam adorando 
a Deus.
8,2-10.11: Sete anjos no Céu tocam suas sete trombetas, cada qual com sua 
própria e poderosa mensagem a emitir. Um outro anjo se encontra 
no altar com um turíbulo nas mãos, ora com todos os santos e saco­
de a Terra pelo fogo do altar,
9,20.21:
11,15:
Muitas pessoas se recusaram a desistir de adorar os demônios.
O sétimo anjo toca sua trombeta e vozes gritam no Céu: “A realeza 
do mundo passou agora para Nosso Senhor e para o seu Cristo. E 
Cristo vai reinar para sempre”.
Apêndice 199
1 2 ,7 -1 7 :
1 4 ,6 -1 1 :
1 4 ,1 5 -2 0 :
1 5 ,1 -8 :
1 6 ,1 -2 1 :
1 7 ,1 -1 8 :
1 8 ,1 -3 :
1 8 ,2 1 -2 4 :
1 9 ,1 7 .1 8 :
2 0 ,1 -3 :
2 0 ,7 -1 0 :
2 1 ,9 -1 5 :
2 2 ,6 -1 5 :
2 2 ,1 6 :
Na visão, uma batalha acontece no Céu; Miguel e seus anjos atacam 
o dragão. Os dias do demônio estão contados, mas ele persegue a 
mulher que havia dado à luz um filho homem, e começa a atacar aos 
outros filhos dela.
Três anjos são vistos. Um diz a todas as pessoas que elas devem te­
mer a Deus e louvá-lo; o outro diz:.“Caiu, caiu Babilônia, a Grande”; 
e um terceiro exclama que aqueles que adoram a besta beberão o 
vinho da ira de Deus.
Os anjos fazem a colheita da lavoura, vindimam as uvas da vinha da
terra e as lançam no lagar do furor de Deus.
Sete anjos portam sete pragas, mas também seguram harpas e entoam 
o cântico de Moisés, junto com sete taças de ouro, cheias da ira de 
Deus.
Os sete anjos despejam as sete taças da ira de Deus sobre a Terra. 
Um anjo mostra ao autor como “a grande prostituta”, o império ro­
mano, será punida por seus vários pecados. “Essa mulher que você 
viu é a Grande Cidade que está reinando sobre os reis da Terra”. 
Outro anjo anuncia a queda da Babilônia.
Outro anjo arremessa uma pedra ao mar e declara que a Babilônia 
será lançada com a mesma força e não mais será encontrada,
Um anjo em pé sobre o sol chama os pássaros a se reunirem no gran­
de banquete de Deus.
Um anjo desce do Céu e vence o diabo, Satanás, acorrentando-o por 
mil anos.
Depois de mil anos, Satanás será libertado da prisão e se espalhará pela 
Terra, mas será lançado ao lago de fogo e enxofre para sempre.
Um anjo mostra ao autor a cidade santa de Jerusalém que, radiante, 
descia do Céu. Um anjo carregava uma vara de ouro para medir a 
cidade, seus portões e a muralha na Jerusalém celeste.
Um anjo fala ao autor sobre a veracidade de seus textos e o exorta a 
adorar a Deus, e não a ele, tão servo quanto o próprio João; e para 
não guardar as profecias em segredo. “Feliz aquele que observa as 
palavras da profecia deste livro”.
“Eu, Jesus, enviei o meu anjo. Ele atestou para vocês todas essas 
coisas a respeito das igrejas.”
Notas
Prefácio
1. Angels among us. Time, p. 56-65, 27 dez, 1993.
Introdução
1. Suma teológica 1, questão 50, artigo 1; questão 63, artigo 7.
2. FOX, Matthew. Sheer joy: conversations with Thomas Aquinas on creation spirituality São Francisco: 
HarperSanFracisco, 1992, p. 161.
3. Para saber mais sobre essas hipóteses, ver: SHELDRAKE, Rupert. A new science o f life: the hypothesis 
of formative causation. Los Angeles: Tarcher, 1982; e The presence of the past: morphic resonance 
and the habits of nature. Nova York: Times Book, 1988 [A presença do passado: a ressonância mór- 
fica e os hábitos da natureza. Lisboa: Instituto Piaget, 1996]; ambos publicados pela Park Street 
Press, Rochester, Vermont, 1995.
4. Ver, por exemplo: FERRIS, Timothy The mind’s shy: human intelligence in a cosmic context. Nova 
York: Bantam, 1992. [O céu da mente: a inteligência humana num contexto cósmico. Rio de janei­
ro: Campus, 1993.]
5. FERRIS, Timothy, op. cit, p. 31.
6. Londres: Chapman e Hall, 1911.
7. FOX, Matthew. The coming o f the cosmic chrisL São Francisco: HarperSanFracisco, 1988. [A vinda do 
cristo cósmico. São Paulo: Nova Era, 1995.]
Capítulo 1 - Dionísio, o Areopagita
1. dionísio, o AREOPAGITA. The celestial hierarchies. In: Mystical theology and the celestial hierarchies. 
Traduzido pelos editores da The Shrine o f Wisdom (Surrey, Inglaterra: The Shrine of Wisdom, 
1965), Cap. XIV, 60. Todas as citações de Dionísio foram extraídas deste texto, a menos que te­
nham sido indicadas de outra forma.
2. Cap. ill, 29, 30.
3. Cap. IV, 32-34.
4. Cap. vil, 38-39.
5. Cap. xill, 57.
6. Cap, vni, 43-44.
7. Cap. XI, 46-49.
8. Cap. xm, 56-57.
9. Cap. xiv, 62-63.
202 A FÍSICA DOS ANJOS
10. Cap. xiv, 67.
11. Cap. xil, 53-54.
12. DIONÍSIO, o AREOFAGITA, The divine names. Traduzido pelos editores da Shrine ofWisâom (Surrey, 
Inglaterra: The Shrine of Wisdom, 1957), Cap. viii, 69-70, n. 1, 5.
13. The celestial hierardáes, Cap, XV, 65.
14. Cap. XV, 66-67.
Capítulo 2 - São Tom ás de A quino
1. S u m m a th e o lo g ia e (s t ) 1, questão 63, artigo 7. [S u m a teo lóg ica . São Paulo: Loyola, 2001. 9 v.]
2. ST 1, q. 61, a. 3,
3. ST 1, q. 62, a. 9, ad. 2.
4. ST 1, q. 58, a. 3.
5. Apud fo x , Matthew. Sheerjoy: conversations with Thomas Aquinas on creation spírituality. São 
Francisco: FíarperSanFracisco, 1992, p. 185,
6. ST 1, q. 58 , a. 3.
7. S T l, q. 58, a. 4.
8. Apud FOX, Matthew, op. cit., p, 201.
9. Ibidem, p. 21.
10. ST 1, q. 50, a. 1.
11. ST 1, q. 50, a. 2.
12. ST 1, q. 51, a. 1.
13. ST 1, q. 50 , a, 4,
14. S T l, q, 51, a. 2.
15. ST 2, q. 172; apud FOX, Matthew, op. cit., p. 470-471.
16. ST, a. 2.
17. ST, ad. 1.
18. ST, ad. 3.
19. Apud FOX, Matthew, op. cit., p. 466,
20. Apud FOX, Matthew, op. cit., p. 216-217.
21. Apud FOX, Matthew, op. cit., p. 161.
22. Quaestiones Q u od lib etá les (Q u od .) . 1, 4.
23. ST 1, q. 52 , a. 2.
24. S T l, q. 52 , a. 2.
25. ST 1, q. 60, a. 2.
26. ST 1, q. 60, a. 5.
27. ST 1, q. 52, a. 3.
28. ST 1, q. 53, a. 1.
29. ST l , q . 53, a. 2.
30. ST 1, q. 53, a. 2.
31. ST 1, q. 53 , a. 3.
32. Quod. XI, 4.
33. ST 1, q. 54 , a. 4.
34. S T l, q. 57, a. 2.
35. ST 1, q. 57, a. 4.
36. ST 1, q. 57, a. 3.
37. ST 1, q. 61, a. 3.
38. ST 1, q. 62, a. 4.
39. ST 1, q. 62, a. 1.
40. ST 1, q. 62, a. 2.
Notas 203
41. ST 1, q. 62, a. 3.
42. Apud FOX, Matthew, op. cit., p, 119.
43. Apud FOX, Matthew, op, cit., p. 515.
44. ST 1, q. 62, a. 3,
45. ST 1, q. 62, a, 5.
46. ST 1, q. 63, a, 2.
47. ST 1, q. 63, a. 3.
48. ST 1, q. 63, a. 6.
49. ST l ,q . 63, a. 7.
50. ST 1, q. 63, a. 9.
51. ST l ,q . 63, a. 7.
52. ST 1, q, 63, a. 8.
53. ST 1, q. 64, a. 4.
Capitulo 3 - H ildegarda de Bingen
1. HILDEGARDA DE BINGEN. Liber vitae meritorum. Pitra, 1882, 24.
2. HILDEGARDA DE BINGEN. Scivtas 3 ,4 .
3. HILDEGARDA DE BINGEN. In: MIGNE, j . P. (Ed.). Patrologia latima (pl). Paris: Migne, 1844-91,197, 
229C.
4. PL, 197, 262D.
5. PL, 197, 889A.
6. PL, 197, 917B.
7. Liber vitae meritorum, 444.
8. PL, 197,917B.
9. PL, 197, 746C.
10. Liber vitae meritorum, 157.
11. PL, 197,442A.
12. Liber vitae meritorum, 352.
13. Liber vitae meritorum, 217,
14. Liber vitae meritorum, 75.
15. PL, 197, 960D-916A.
16. PL, 197, 812B.
17. Ibidem.
18. Ibidem.
19. PL, 197, 170A.
20. Liber vitae meritorum, 361.
21. Sernas 2, 2.
22. PL, 197, 747C.
23. Sernas 2, 2.
24. Scivias 3 ,1 ,
25. PL, 197, 272D.
26. PL, 197, 945C.
27. PL, 197, 865D.
28. PL, 197, 1061C.
29. PL, 197, 236C.
30. PL, 197, 1041C.
31. PL, 197, 1045A.
32. HILDEGARDA DE BINGEN. Causae et curae. Leipzig: P Kaiser, 1903, 26, 53.
33. Scivias 1,1,
34. PL, 898B.
204 A F.TSICA DOS ANJOS
35. pl, 197, 898D.
36. pl, 197, 1043A.
37. Patrologia latina, 197, 1043C.
38. Sernas 2,1.
39. Ver FOX, Matthew. Breakthrough: Meister Eckhart's creation spirituality in new translation. Nova 
York: Doubleday 1980, p. 77.
40. PL, 197, 946B.
41. Scivias 1, 4.
42. Scmas 2, 6.
43. Liber vitae meritorum, 320.
índice Remissivo
A
abismo, 151-3 
Abraão, 88, 166 
acaso, 30 , 31 , 81, 111 
Adão e Eva, 149, 159-60 
África, 25
Agostinho, Santo, 77, 87, 112, 119 
agricultura, 48 
águia, 73, 90 
Alberto, o Grande, 77 
alegria, 116-8, 136 
e totalidade, 79-80 
Alemanha, 133 
Algol (estrela), 125
alma, 45, 75, 87, 97, 100, 101-2, 147, 153, 
155
guia, 174-5 
Ambrõsio, Santo, 59 
amor angélico, 100-1 
Andromeda, galáxia, 27 
anima mundi, 45 
animismo, 75 
anjos, 13
alegria e totalidade, 79-80 
amor, 100-1
angelologia escolástica, 101
Aquino sobre, 77-131 
barrocos, 16, 22, 106, 128 
boas ações, 139-40 
campos, 44-9 
como deuses, 69-71
como fótons, 29-30, 9 8 ,1 0 5 -7 , 1 3 6 ,1 8 2 
como mensageiros, 46 , 5 9 ,1 4 0 , 169, 182 
comunhão humana com, 155-7 
conhecimento e pressentimento dos, 
108-13
criação dos, 113-5, 118-9 
Cristo e, 171-4
da guarda, 12, 61, 78, 80, 89, 102, 103,
110-1, 162-3, 165
das trevas, 18
definições de, 7, 16, 46
diferentes tipos de, 55-63
Dionísio, o Areopagita sobre, 35 , 36-76
e os Céus, 80-1
e o cosmo, 78-9
em graça e beatitude, 116-9
em um lugar por vez, 99-100
espécies, 87-8
fazer amizade com bons anjos, 177-9 
fogo como origem dos, 134 
formas corpóreas, 88-90 
futuro dos, 183-4
206 A FÍSICA DOS ANJOS
hierarquias, campos e luz, 37-49, 51-2, 
143-5
Hüdegarda de Bingen sobre, 133-79
incapacidade humana de ver a verdadeira
forma dos, 166-8
intelectos e corpos, 86-7
interesse moderno em, 13, 15-33, 68-9,
78, 114, 125, 1 3 4 ,1 8 1 -4
intuição, 82-3, 90-1
linguagem dos, 159-61, 169
localizados, 97-102 , 106
louvor,123-4, 136-9, 140, 148, 153,
157-9, 162
Lúcifer, 147-54
luz e fogo, 63-9, 75
maravilhados com os seres humanos,
157-8, 172
maus e caídos, 120-31, 147-54, 162-6, 
169-71, 174-5, 182, 183 
movimento dos, 102-7, 140-2 
instantâneo, 105-7 
multiplicidade dos, 36-7 
na Eucaristia, 175-7 
na natureza, 71-6 
natureza da compreensão, 85 
papel bíblico dos, 1 4 ,1 6 , 23, 50-2 , 58-9, 
63, 70-1, 84, 88, 113, 125, 126, 134, 149, 
1 5 5 ,1 5 9 -6 0 , 166, 185-99 
papel evolucionário dos, 31, 80-1, 109, 
1 1 2 ,1 1 3 -5 ,1 8 3 
participação e revelação, 49-54 
pecado, 120-31, 147-54, 162-6, 169-71 
poderes de mudança de forma, 169-71 •
presente nas mortes humanas, 174-5, 182 
primeira ordem de, 55-7, 60 
revelação e profecia, 90-2 
segunda ordem de, 55, 57-8, 60 
silêncio divino, 92-5 
sob formas humanas, 169-71, 182 
terceira ordem de, 55, 58-9, 60 
trabalhando com, 95-7 
vários simultaneamente no mesmo lugar, 
101-2
Antigo Testamento, 185, 186-90 
Ver também Bíblia hebraica.
Anunciação, 166, 173
Aquino, São Tomás de, 11, 12, 13, 16-7, 18, 
28, 29, 31, 33, 53, 56, 68, 7 7 -1 3 1 ,1 4 3 , 
149, 1 5 9 ,1 6 4 ,1 7 0 ,1 7 8 ,1 8 1
sobre a criação dos anjos, 113-5, 118-9
sobre a luz divina, 83-4
sobre a natureza da compreensão, 85
sobre alegria e totalidade, 79-80
sobre anjos maus, 120-31
sobre anjos e o cosmo, 78-9
sobre anjos em formas corpóreas, 88-90
sobre anjos em graça, glória e beatitude,
116-9
sobre anjos localizados, 97-102, 106-7 
sobre conhecimento e pressentimento, 
108-13
sobre espécies de anjos, 87-8 
sobre imaginação, 107-8 
sobre intelectos e corpos, 86-7 
sobre intuição angélica, 82-3 , 90-1 
sobre o amor angélico, 100-1 
sobre o movimento dos anjos, 102-7 
sobre o pecado angélico, 120-31 
sobre o silêncio divino, 92-5 
sobre os anjos e os Céus, 80-1 
sobre revelação e profecia, 90-2 
sobre trabalhar com anjos, 95-7 
Suma Teológica, 129 
arcanjos, 23, 55, 58, 60-1, 71, 96, 178 
Aristóteles, 13, 77, 87, 129, 133 
arquétipos, 1 6 1 ,1 6 7 
arquitetura barroca, 22-3 
arquitetura gótica, 166 
arte clássica, 91
artistas, 107, 108, 168, 182, 184 
asas, 89-90, 1 3 4 ,1 4 0 , 141, 174 
Ascensão, 173 
astrologia, 24-5
astronomia, 19, 24-7, 36, 181, 183 
separada da astrologia, 24-5 
Ver também galáxias; planetas; sistema 
solar; estrelas.
Atenas, 35
átomos, 20, 22, 42, 45, 53, 61-2, 68, 110 
Atos dos Apóstolos (Bíblia), referências, 35, 
194-5
Babilônia, 70, 141 
Bacon, Sir Francis, 127 
beatitude, 116-7, 119, 153 
Berry, Thomas, 150
índice remissivo 207
Bíblia, 13
Hebraica (Antigo Testamento), 96, 185, 
186-90
história da criação, 155, 160
luz e fogo como imagens divinas, 66, 84
Novo Testamento, 70-1, 185-6, 190-9
papel dos anjos na, 14, 16, 23, 50-2, 58-9,
63, 70-1, 84, 88 , 113, 125, 126, 134, 149,
155, 159-60, 166, 185-99
Ver também livros específicos.
Big Bang, teoria do, 29, 30 , 31, 66, 8 4 ,1 0 6 , 
1 1 4 ,1 2 5 
biologia, 30, 144 
Bohm, David, 68, 85 
boi, 73
berne mal, 1 2 0 -3 1 ,1 4 7 -5 4 , 162-6, 167, 
169-71, 174-6, 1 8 2 ,1 8 3 
boas ações, 139-40
da humanidade, 157-9, 172 
Britannia, 60 
bruxaria, 170
budismo, 31-2 , 67, 93, 141 
buracos negros, 24 , 152, 153
C
cadeia do ser, 38 
calendário litúrgico, 96 
campo universal, 47
campos, 20 , 44-9 , 53, 62-3, 75, 76, 98-102, 
110-1 
anjo, 44-9
Dionísio, o Areopagita sobre, 44-9 
gravitacionais, 44-5 , 47 , 53, 98, 99, 101, 
1 0 2 ,1 5 2
mórficos, 22, 44-9 
morfogenéticos, 99-100 
canalização, 91-2 
câncer, 124 
capitalismo, 123 
caridade, 119, 126, 128 
carruagens, 65-6 
casamento, 25, 48
casos de múltiplas personalidades, 102
catolicismo, 178-9
cavalos, 73, 160
celtas, 32
células, 144
cemitérios vitorianos, 174
cérebro, 45-6
padrões eletromagnéticos no, 28 
Céus, anjos e os, 80-1 
chakras, 59, 63, 66-8, 87 
fogo em, 67, 68
Chartres, Catedral de (França), 101, 108, 133 
Chomsky, Noam, 160 
ciclo solar, 28
ciência, 13-4, 19, 41, 66, 81, 122, 127, 167 
mecanícista, 16, 78, 127
como mito de Fausto, 127 
revolução do século XVII na, 1 3 ,1 9 -2 0 , 22, 
1 2 7 ,1 4 4 -5 , 170
Ver também astronomia; átomos; 
cosmologia; fótons; física; tecnologia, 
círculo do ser, 40
Colossenses (Bíblia) referências, 23 , 196 
compreensão, natureza da, 85 
comunicação, 94, 142, 159-62, 169, 177,
17 9 ,1 8 2 , 183 
intergalãctica, 26-8 
comunismo, 122 
conhecimento angélico, 108-13 
consciência, 22, 45, 52, 75, 78, 79, 100, 117, 
1 4 3 ,1 4 4 ,1 5 6 ,1 5 9 , 164-6, 1 8 1 ,1 8 2 
evolução humana, 156 
origem da, 149 
solar, 28
Concílio Laterano (694 a.C.), 35 
Copérnico, Nicolau, 144 
coração, 86, 94
Coríntios (Bíblia) referências, 70, 195 
cosmologia, 23
evolucionária, 19-22, 29-31, 76, 78, 80-1, 
115
mecânica, 16, 19-21, 79, 127, 167-8, 170, 
178
medieval, 11, 17, 19, 30, 31, 96, 100, 101, 
133 ,167
moderna, 13, 15-33, 69, 7 8 -9 ,1 1 4 , 125, 
130, 1 3 4 ,1 8 1 -4
revolução dos anos 1960, 24, 114 
criação, história bíblica da, 155, 160
Ver também Gênesis (Bíblia), referências, 
crianças, 4 8 ,1 7 9
crise ecológica, 12, 18, 32 , 8 7 ,1 4 9 , 179 
Cristo, 35, 50-1, 52, 54, 70-1, 89, 1 5 1 ,1 7 8 , 
182,185-6
Cósmico, 23 , 52,

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