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Estudos Bíblicos: Sinóticos e Escritos Joaninos Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Valter Luiz Lara Revisão Textual: Prof. Esp. Claudio Pereira do Nascimento Cartas Joaninas e Apocalipse • Introdução; • Parte I – Cartas Joaninas; • Parte II – O Livro do Apocalipse. · Capacitar o aluno a desenvolver leitura crítica e contextualizada das Cartas Joaninas e do Apocalipse, oferecendo informações básicas sobre as motivações, objetivos e a organização temática que deram origem a esses dois conjuntos de Escritos do Novo Testamento como resposta aos problemas e conflitos vividos pelas comunidades de fé que eles representam. OBJETIVO DE APRENDIZADO Cartas Joaninas e Apocalipse Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse Contextualização A fé religiosa é tão antiga quanto o ser humano. E o conflito entre religiões também parece ter nascido com a religião. Afinal de contas quem tem a verdade sobre os mistérios da vida e da morte? Quem detém a senha que abre o selo do sentido de tudo o que existe e o porquê definitivo das coisas? Para onde vamos? De onde viemos? Estas e outras questões semelhantes continuam a inquietar os seres humanos em qualquer lugar e em qualquer época. Apesar de todo avanço tecnológico o mistério da existência continua vivo. O livro do Apocalipse é apenas uma entre tantas expressões da fé religiosa que visa explicar e dar sentido à vida. Mais do que o sentido da vida, o Apocalipse é uma tentativa de dar sentido à história, sobretudo quando ela parece ser marcada pelo absurdo da violência, do sangue derramado e da desigualdade que fazem seres humanos vítimas de si mesmos. Vivemos num momento da história em que de fato o próprio ser humano pode destruir todo o planeta. O apocalipse como fim deste mundo já não é uma quimera ou obra dos deuses, mas possibilidade real quando consideramos o descaso com o meio ambiente e a proliferação de armas de capacidade para acabar com o que chamamos de vida. O estudo das Cartas, embora não tenha uma linguagem simbólica apocalíptica é expressão do conflito entre grupos religiosos cristãos que disputam a autoridade sobre quem decide o que é ou não a verdade, a verdadeira doutrina da fé. O maior exemplo das cartas talvez esteja no fato de propor no centro da disputa o valor principal, sem o qual nenhuma religião tem sentido: a vivência do amor mútuo (2Jo 5) e, portanto, o testemunho do amor ao irmão como condição para o aces- so, conhecimento e permanência em Deus (1Jo 4,8.16). Boa leitura! Bom estudo! Que o cultivo do amor entre nós esteja em tudo o que fizermos e seja mais importante do que cada uma de nossas verdades! 8 9 Introdução As cartas joaninas (CJ) são consideradas, desde muito cedo pela tradição das igrejas cristãs, como escritos ligados ao Evangelho Segundo João (EJo). A primeira carta (1Jo) por conter paralelos explícitos ao evangelho joanino. As outras duas, 2Jo e 3Jo, por apresentarem semelhanças temáticas com o EJo. O autor, remetente de 2Jo e 3Jo, apresenta-se como um tal “presbítero”. Por isso, a autoria delas, embora seja atestada como sendo a mesma pessoa para as duas cartas, tem sido admitida como distinta daquela que escreve 1Jo. Aliás, o primei- ro documento (1Jo), dos três, é o que de fato não tem a forma de carta, é mais uma exortação para seus destinatários com recomendações diversas sobre doutrina e comportamentos que devem ser adotados inclusive como testemunho contra deter- minados adversários. Os escritos joaninos são, portanto, aqueles que incluem a menção explícita ou implícita à tradição do evangelho joanino, incluem, além do EJo, os três escritos ou cartas (1Jo, 2Jo e 3Jo) e o Apocalipse (Ap). O livro do Apocalipse é, por sua vez, pela tradição da Igreja, considerado como escrito joanino, pois o texto assim se identifica: “Revelação de Jesus Cristo [...]” concedida por meio de “seu Anjo, enviado ao seu servo João” (Ap 1,1). Atualmente, os estudiosos costumam separar o estudo das cartas joaninas ao do Apocalipse. A razão maior alegada é a diferença do gênero literário, mas também da autoria e dos temas abordados. Embora o autor que escreve o texto identifique-se como João (Ap 1,1.4.9), nada, além disso, indica que seja o mesmo autor mencionado como “presbítero” nas duas cartas (2Jo 1; 3Jo 1) ou do não identificado autor do Evangelho, ou ainda, de quem escreve 1Jo. Por isso, essa unidade será desenvolvida em duas diferentes partes: a primeira tratará das cartas como escritos joaninos (Parte I) propriamente ditos (exceto o EJo) e uma segunda apresentará o livro do Apocalipse (Parte II) como documento independente, representante de comunidades e grupos distintos aos da comunidade joanina. Parte I – Cartas Joaninas As cartas joaninas são escritos que representam uma etapa da história da co- munidade pressuposta pelo EJo. A teoria de Raymond Brown (1983) sobre as fases da história dessa comunidade é aceita como a mais completa e melhor fun- damentada para compreender o conjunto dos escritos joaninos. Sua tese coloca as cartas na última etapa quando uma versão, não necessariamente concluída, do EJo já era conhecida. Veja abaixo, em síntese, quais são as fases da história da comunidade joanina e observe à qual momento dessa história as cartas fazem parte1. 1 O texto sobre as fases é transcrição direta da obra de R. Brown (1983, p. 20-13). 9 UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse As Fases da História da Comunidade Pressuposta nos Escritos Joaninos Veja abaixo, em síntese, quais são as fases da história da comunidade joanina e os conflitos que marcaram cada uma delas. Observe à qual momento dessa história as cartas fazem parte2. Em seguida, leia os termos que acabaram historicamente definindo alguns dos grupos cristãos que derivaram de conflitos que nasceram com base em diferentes interpretações do EJo. Primeira fase, a era pré-evangélica inclusive as origens da comunidade, e sua relação com o judaísmo da metade do século primeiro. No tempo em que o evangelho foi escrito, os cristãos joaninos tinham sido expulsos das sinagogas (Jo 9,22;16,2) porque eles reconheciam Jesus como Cristo. Tal expulsão reflete a situaçãono último quartel do século primeiro [...] Embora o evangelho tenha sido escrito depois dessa expulsão, a história pré-evan- gélica certamente incluía as controvérsias entre cristãos joaninos e os chefes da sinagoga [...]. E assim podemos ter razão quando datamos a primeira fase, o período pré-evangélico da história joanina consciente, num período de várias décadas, desde a metade dos 50 até o fim dos 80. A Segunda fase envolvia a situação da vida da comunidade joanina no tempo em que o evangelho foi escrito. “Escrito” é um termo ambíguo, pressupondo-se a atividade tanto de um evangelista como de um redator, mas o período de aproximadamente 90 d.C dataria a principal redação do evangelho. A expulsão das sinagogas então já passou, mas a perseguição (Jo16,2-3) continua, e há profundas cicatrizes na alma joanina em relação aos “judeus”. A insistência numa alta cristologia, tornada cada vez mais intensa pelas lutas com “os judeus”, afeta as relações da comunidade com os outros grupos cristãos, cuja avaliação de Jesus é inadequada segundo os padrões joaninos. As tentativas de proclamar a luz de Jesus aos gentios podem também ter encontrado dificuldades, e “o mundo” tornou-se um termo geral para todos aqueles que preferem as trevas à luz. Esta fase nos fornece informações detalhadas sobre o local da comunidade joanina num mundo pluralístico de crentes e não crentes, no final do século. A Terceira fase envolvia a situação de vida nas comunidades joaninas agora divididas, no tempo em que foram escritas as epístolas, provavelmente por volta do ano 100 d.C. [...] Argumentarei com a hipótese de que a luta acontece entre dois grupos dos discípulos de João, que estão interpretando o evangelho de maneira opostas, no que se refere à cristologia, à ética, à escatologia e à pneumatologia. Os temores e o pessimismo do autor das epístolas sugerem que os separatistas estão tendo maior sucesso numérico (1Jo 4,5) e o autor está tentando defender seus adeptos contra posteriores incursões de falsos mestres (1Jo 2,27; 2Jo10,11). O autor sente que é a “última hora” (1 Jo 2,18). 2 O texto sobre as fases é transcrição direta da obra de R. Brown (1983, p. 20-23). 10 11 A Quarta fase viu a dissolução dos dois grupos joaninos depois que as epístolas foram escritas. Os separatistas, não mais em comunhão com a ala mais conservadora da comunidade joanina, provavelmente tenderam mais rapidamente no século segundo para o docetismo, o gnosticismo, cerintianismo e montanismo [O grifo é nosso]. Isto explica porque o quarto evangelho, que eles levaram consigo, é citado mais cedo e mais frequentemente por escritores heterodoxos do que por escritores ortodo- xos. Os adeptos do autor de 1Jo no começo do século segundo parece terem gradualmente se incorporado no que Inácio de Antioquia chama “a Igreja católica”, como se demonstra pela aceitação crescente da cristo- logia joanina da pré-existência do Verbo [...] (BROWN, 1983, p.20-23) Acesse os links sugeridos e leia alguns textos que definem e esclarecem cada um dos conceitos citados por Brown. A leitura vai completar o seu conhecimento sobre quem são e o que professam os “separatistas” da comunidade pressupostos nas cartas joaninas. Docetismo: https://goo.gl/P3j3R7 – Gnosticismo: https://goo.gl/Jd4HCm Cerintianismo: https://goo.gl/y6U4LB – Montanismo: https://goo.gl/s6TWeVEx pl or O que está em jogo nas cartas é, principalmente na primeira, a tentativa de regrar a interpretação do Evangelho e conter os adversários que parecem estar exagerando nas consequências da “alta” cristologia professada pelo Evangelho. As segunda e terceira cartas tratam de problemas mais específicos derivados do conflito com os adversários numa etapa ainda mais avançada em que eles já são considerados desde a primeira como “separatistas”, grupo que rompeu com a comunidade de origem pressuposta pelo autor não só das duas cartas, mas também da primeira. Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nos- sos, teriam permanecido conosco. Mas era preciso que se manifestasse que nem todos eram dos nossos (1Jo 2,19). Primeira Carta de João (1Jo) Propósito e Motivo A primeira carta de João foi escrita com o propósito de combater interpretações e práticas julgadas equivocadas do EJo. O motivo é regrar a prática e o relaciona- mento entre pessoas e grupos em conflito sobre questões fundamentais em torno da confissão de fé em Jesus, o pecado e o amor devido aos irmãos, sobretudo aos mais carentes e outras relacionadas ao conhecimento de Deus. 11 UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse Estrutura de Redação3 1,1-4: Prólogo 1,5-2,29: I – O Caminho na luz 1,5-2,17: Os dois caminhos 1,5: Deus é luz 1,6-2,2: Liberdade frente ao pecado 2,3-11:Guardar os mandamentos 2,12-14: Tripla recomendação 2,18-29: Rejeição dos anticristos 3,1-24: II – O AMOR como identidade dos filhos de Deus 3,1-10: O Pai nos torna filhos agora 3,11-18: Amor recíproco 3,19-22: Confiança diante de Deus 3,23-24: Deus permanece em quem guarda os mandamentos 4,1-5,12: III – DEUS É AMOR 4,7-21: Quem ama conhece a Deus 5,1-12: A Fé no Filho: Testemunho de Amor em Jesus 5,13-21: IV – Conclusão: Confiança Cristologia, Conhecimento de Deus e amor aos irmãos A cristologia da 1Jo é uma afirmação da humanidade de Jesus frente àqueles que parecem estar negando essa identidade importante da encarnação de Jesus como ser divino e pré-existente. É preciso afirmar que Jesus, “[...] o Verbo da vida [...] era desde o princípio (1Jo 1,1). Entretanto, a afirmação cristológica mais importante é a seguinte: 3 Cf. PERKINS, 2011, p. 821-822. 12 13 “Nisto reconheceis o espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio na carne é de Deus; e todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus: é este o espírito do Anticristo [...]” (1Jo 4,2-3a) Para 1Jo o conhecimento de Deus não é produto do esforço humano, mas dádiva do próprio Deus que nos amou primeiro (1Jo 4, 10.19). Além disso, esse conhecimento ou acesso a Deus se faz senão através do amor aos irmãos, “pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê não poderá amar” (1Jo 4, 20b). Por isso, a grande revelação de 1Jo, o resumo não só do Novo Testamento, mas provavelmente toda Sagrada Escritura está no testemunho que identifica amor e o ato de amar como a essência de Deus e de seu conhecimento: 7 Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. 8 Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é Amor. [...] 16 E nós temos reconhecido o amor de Deus por nós, e nele cremos. Deus é Amor; aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele (1Jo 7-8.16). [O grifo é nosso] Portanto, assim estão relacionados os principais temas da 1Jo: a confissão do Cristo através do reconhecimento de Jesus como Filho de Deus, aquele que veio na carne, testemunha do amor de Deus, assim conhecido por aquele que ama seu irmão. Segunda Carta de João (2Jo) Propósito e Tema Fundamental O tema da segunda carta é fundamentalmente a defesa da doutrina, chamada pelo presbítero de doutrina de Cristo (2Jo 9). A ocasião é o acirramento dos conflitos entre os grupos da comunidade joanina já atestado tanto no Evangelho quanto na primeira carta (1Jo). A segunda carta (2Jo) é bem mais genérica do ponto de vista dos problemas que enfrenta. Não entra em detalhes como a primeira sobre a doutrina que defende. A palavra “verdade” aparece várias vezes (2Jo 1.2.3.4) referindo-se a si mesmo, à igreja que defende e representa, àqueles que a conhecem (2Jo 1) e nela permanecem (2Jo 2), isto é, os seus filhos (2Jo 4). E que verdade é essa? É a mesma já professada como identidade da comunidade, ou seja, a verdade fundamental é confissão defé em Jesus encarnado, pois quem assim não o confessa é chamado de sedutor, o Anticristo (2Jo 7). Além da verdade cristológica da encarnação, 2Jo é uma reafirmação também do mandamento do amor mútuo (2Jo 5b-6) como consequência da conduta de quem confessa Jesus, o Cristo como Filho do Pai (2Jo 3b). Esse modo de abordar a fé cristológica e a coincidência da prática do amor mútuo nos mesmos termos do quarto evangelho torna 2Jo um documento representante da escola joanina. 13 UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse Estrutura de Redação4 2Jo 1-3: Introdução – saudação à Igreja e Ação de Graças 2Jo 4-11: Conteúdo da Mensagem: A) (4-6) Elogio e alegria pela fidelidade dos destinatários que se mantêm fiéis B) (7-9) Advertência aos infiéis que não Permanecem na verdade: não confessam Jesus Cristo encarnado C) (10-11) Procedimentos contra os adversários Infiéis: não acolher em casa 2Jo 12-13: Conclusão - Saudação final Terceira Carta de João (3Jo) Propósito e Motivo A primeira carta joanina é testemunho de uma divisão muito forte na comuni- dade (1Jo 2,19) e que parece não ter mais volta. A segunda é herdeira da situação anterior, mas agora pretende reforçar e afirmar os seus na convicção das verdades que professa para mantê-los firmes e unidos no amor mútuo (2 Jo 5-6). A terceira já é, por sua vez, a expressão da defesa da comunidade contra o que ele considera os adversários que representam “o mal” (3Jo 11). Trata-se de uma tentativa de deixar clara a separação entre o joio e o trigo, isto é, oportunidade para afirmar a autoridade de quem está do lado da “verdade” como são declarados Gaio e Demé- trio (3Jo 1. 12), mas não Diótrefes (3Jo 9), este último, apontado como quem não recebe os irmãos e ainda profere “palavras más contra nós” (3Jo 10). Além disso, o problema prático em 3Jo é o da hospitalidade devida aos missio- nários. Há os que acolhem os irmãos provendo-os com o necessário para a viagem (3Jo 6) e aqueles que não o fazem (3 Jo 10b). Os primeiros estão representados por Gaio e Demétrio. Os outros, chamados de ambiciosos, são representados por Diótrefes (3Jo 9). 4 Cf. PERKINS, 2011, p. 831. 14 15 Estrutura de Redação5 3Jo 1-2: Introdução – saudação ao destinatário 3Jo 3-12: Conteúdo da Mensagem: A) (3-8) Exortação à hospitalidade aos irmãos B) (9-10) Recusa da hospitalidade: Diótrefes C) (11) Exortação à Diótrefes para evitar o mal D) (12) Demétrio como testemunho da verdade 3Jo 13-15: Saudação final Importante! As cartas joaninas são documentos do último quarto do primeiro século de nossa Era, ou até mesmo do início do segundo. Elas mostram os desdobramentos dos confl itos causados pelas interpretações distintas não só da cristologia do EJo, mas das condutas adotadas pelos grupos em oposição. São condutas que derivam ou legitimam suas respectivas interpretações do Quarto Evangelho. As cartas professam então uma identidade eclesiológica buscando afi rmar princípios de autoridade que defendam suas verdades e suas condutas em confronto com seus adversários. Os valores e verdades que prevalecem são: o mandamento do amor mútuo, a encarnação do Messias em Jesus, Filho do Pai e o conhecimento de Deus que só pode ser reconhecido quando há o amor ao irmão. Essas são as crenças das quais a comunidade joanina não abriu mão e imprimiu basicamente o que até hoje se reconhece como os princípios fundamentais da religião cristã. Em Síntese Parte II – O Livro do Apocalipse O livro do Apocalipse (Ap) é o último livro do Novo Testamento. É aquele que fecha e conclui o cânon da Bíblia cristã. Não bastasse esse lugar privilegiado na or- dem dos escritos sagrados, seu gênero, estilo e a forma como apresenta a mensa- gem é igualmente singular. Literariamente estamos diante de um texto cujo gênero era bem conhecido pela religião judaica do período que antecedeu o cristianismo. 5 Cf. PERKINS, 2011, p. 832. 15 UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse Os livros de Daniel e o de Henoc, entre outros6, influenciaram a visão religiosa apocalíptica dos primeiros cristãos a ponto de condicionar a literatura apocalíptica presente não só no livro do Apocalipse, mas também no imaginário religioso das comunidades cristãs primitivas. A mentalidade religiosa profética e visionária é o que alimenta o gênero apocalíptico. Os evangelhos também foram marcados pela fé apocalíptica. A confissão de fé em Jesus como Filho do Homem (Mc 8,31) ou juiz escatológico (Lc 17,22-30) são frutos das influências apocalípticas, por exemplo, já anunciadas no livro de Daniel (Dn 7,13) ou no Livro de Ezequiel (Ez 2-3). Literatura e Imaginário Apocalípticos A palavra “apocalipse” é praticamente a transliteração para o português do substantivo grego “apokalypsis” que significa revelação. A literatura apocalíptica, nesse sentido, apesar de ser um gênero com muitas variações de forma e conteú- do, é sempre um gênero narrativo que contém a revelação de segredos divinos, geralmente dados pela mediação de um ser celestial ao visionário que tem a incum- bência de comunicar e de escrever à sua comunidade. ‘Apocalipse’ é um gênero de literatura de revelação com uma moldura narrativa, na qual uma revelação é confiada por um ser ultramundano a um receptor humano, tornando visível uma realidade transcendente que é tanto temporal, na medida em que visa à salvação escatológica, quanto espacial na medida em que implica outro mundo, sobrenatural; [a finalidade é] interpretar circunstâncias terrenas presentes à luz do mundo sobrenatural e do futuro, e influenciar tanto a compreensão como o comportamento do público mediante a autoridade divina (COLLINS, J.J. Semeia 36, p. 2 e 7, Apud MORESCHINI NORELLI, 1996, p. 138). Características do Gênero Apocalípticos7 Embora o debate sobre o que de fato é o gênero apocalíptico esteja em curso, é possível um consenso em torno das seguintes características: 1. a pseudonímia: uso de um nome famoso e de reconhecida autoridade religiosa (Abraão, Moisés, Henoc, João) para ser o mediador que ouve, vê e escreve a mensagem divina a ser revelada; 2. visão e/ou [escuta da fala divina] como meio de revelação; 3. simbolismo das imagens mostradas ao vidente; 6 Da literatura apocalíptica conhecemos outros textos que não entraram no cânon da Bíblia hebraica. São os livros que habitualmente são chamados pelos cristãos de apócrifos do Antigo Testamento. Estão entre eles, além de Henoc, Ascensão de Isaías, Assunção de Moisés, Testamento dos Doze Patriarcas, Apocalipse de Baruc e Apocalipse de Abraão. Alguns desses textos circulavam nas comunidades cristãs, mas o cristianismo também havia produzido textos apocalípticos espalhados em outros documentos do Novo Testamento ou em livros que foram mais tarde incluídos na lista dos apócrifos cristãos. Os textos de Mc 13 e seus paralelos em Mt 24,1-3 e Lc 21,5-7 são exemplos de trechos apocalípticos dentro do Evangelho. 7 Cf. MORESCHINI e NORELLI, 1996, p. 138. 16 17 4. explicação dessas imagens; 5. organização dos fenômenos mediante esquemas, no mais das vezes numéricos; 6. interesse pelo desenvolvimento da história e em particular pelo futuro; 7. representação do mundo do além, geralmente o céu e o caminho (condi- ções) para se chegar lá; 8. dualismo - dois níveis de realidade: céu e terra; seres espirituais/celestiais e seres humanos/terrenos; Deus e o diabo; etc. O Imaginário Religioso Apocalíptico O gênero literário é, na verdade, uma abstração que serve para identificar textos diversos com características semelhantes de forma e conteúdo, algumas das quais foram discriminadas no item anterior. No entanto, nem sempre se encontra todas essas características nos textos chamados apocalípticos. Esse fenômeno literário, por isso mesmo, nada mais é como tantos outros, expressão de situações vitais, isto é, de imaginários da fé religiosa vivida concretamente em ritos, orações, cultos e condutaséticas adotadas em decorrência dessa mesma fé assumida no cotidiano. O livro do Apocalipse (Ap) é um exemplo de expressão literária de religião vivida no cotidiano de comunidades que professam a fé em Deus Pai (Ap 4) e em Jesus Cristo (Ap 5), seu único Filho, como soberano e senhor tanto da história como de suas próprias vidas. Autoria, Data E Local • Autoria: A menção a João como autor do livro aparece 4 vezes (Ap 1,1.4.9; 22,8). No entanto, sabe-se que é bem possível, como é o caso do Evangelho de João (EJo) e das Cartas Joaninas (CJ), ser uma atribuição tardia inserida no escrito. Foi a tradição da Igreja que atribuiu ao Apóstolo João essa autoria: Jus- tino desde 160 d.C e Irineu, um pouco mais tarde foram os primeiros a mani- festarem em suas obras essa identificação de João com o autor do Apocalipse. • Data: A época mais provável para a redação do Ap é o final do primeiro século sob o domínio e a perseguição de cristãos no governo do imperador romano Domiciano (81-96). Entretanto, os relatos sobre o passado parecem guardar memória de momento de perseguição sob o imperador Nero (54-68) a pretexto do incêndio de Roma a partir do ano 64. De qualquer forma, é mais provável que o final do século reúna as condições para juntar memórias mais antigas e conhecidas por todos de um passado de dores que se repetem no presente da vida da comunidade. • Local: O Ap tem interlocutores e destinatários bem definidos: são as igrejas da região da Ásia Menor (Ap 1,4), próximas à cidade de Éfeso: Esmirna, Pérga- mo, Tiatira, Sardes, Filadélfia, Laodicéia, incluindo a própria Éfeso (Ap 2-3). O autor escreve desde a prisão onde se encontra, em Patmos (Ap 1,9), ilha mais ou menos próxima àquela região da Ásia, onde hoje é a Turquia. 17 UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse Propósito e Contexto Sócio-Político e Religioso O Propósito do Apocalipse O Ap é um livro cuja linguagem suscita muitas inquietações e dúvidas, mas tam- bém muito fervor, fanatismo e radicalismo religioso. Traz em sua mensagem uma rica simbologia, cheia de menções a sangue, perseguição e morte, mas também de esperança, vida e justiça que virão. O Ap, como bem resumiu Johan Konings, É um livro de exortação dos cristãos na sua vida ameaçada, por fora, pela perseguição, por dentro, pela infidelidade. Páginas como Ap 2,17; 3,7-13; 21,1-22,5 justificariam para o Ap um apelido análogo ao do 2º Isaías: o “Livro da Consolação da Igreja Perseguida”. O “vidente” do Apocalipse vê a realidade celeste, a vitória do Cordeiro, decisiva e definitiva, enquanto no plano da história seus seguidores enfrentam o martírio (KONINGS, 1998, p. 166). Contexto Religioso, Político e Social. Como já foi aludido, o texto do Ap refere-se a momentos de profunda perse- guição aos cristãos. Muito provavelmente é escrito como exortação a cristãos que já não mais são identificados como judeus da sinagoga, pois dela foram expulsos como se vê claramente no EJo (Jo 16,2) e na oposição ao que o autor chama de “Sinagoga de Satanás” (Ap 3,9). A distinção entre cristãos e judeus implicou automaticamente suspeita dos pri- meiros serem criminosos. O problema é que o privilégio conseguido a duras penas pelos judeus de não precisarem prestar culto ao imperador, o que na época era prática comum para todos os cidadãos e principalmente aos povos submetidos ao império, já não se estendia aos cristãos. A recusa de participação a atos litúrgicos, festivos e sacrificiais destinados à honra dos ídolos e principalmente ao louvor de César era entendida como crime de lesa majestade. E conforme o governo, como foi o de Domiciano, confessar-se como cristão era fato suficiente para decretar sua morte, caso o sujeito continuasse a negar sua fidelidade ao serviço do imperador. 18 19 Após sua morte, em 44 a.C., Júlio César foi, por decreto do senado, declarado um dos protetores divinos do Estado. Augusto não reivindicou honras divinas em Roma, mas foi cultuado como divindade no Oriente, onde se ergueram templos em sua honra (como o templo de Augusto construído por Herodes, o Grande, em Sebaste, a Samaria restaurada). Os imperadores que vieram mais tarde (notadamente Domiciano) reivindi- cavam abertamente honras divinas em vida. O culto imperial lançara raí- zes profundas na Ásia Menor, e em nenhuma outra região era propagado com mais entusiasmo (HARRINGTON, 1985, p. 617). Os leitores destinatários do Ap sabiam o risco que corriam ao serem exortados a manterem a fé e não sucumbirem as exigências do sistema imperial. O culto ao imperador exigia que se oferecesse sacrifício (ou que se quei- masse incenso) diante de uma imagem de César, com a declaração: Kyrios Kaisar – “César é Senhor”, isto é, divino – pura blasfêmia aos olhos dos cristãos. Para estes, Jesus Cristo era Kyrios, e eles deviam “segurar fir- memente o seu nome” (Ap 2,13), reservando-lhe o título com exclusivi- dade. Os leitores de Apocalipse que eram contemporâneos de João, e aos quais era, em primeiro lugar, destinado o livro, estavam em condições de entender perfeitamente o objetivo que presidira sua composição e as suas alusões à situação contemporânea, bem como sua polêmica contra a religião do Estado (HARRINGTON, 1985, p. 617). A situação era dramática, pois a perseguição religiosa tinha implicações em todas as esferas da participação dos cristãos na vida pública. Tudo lhes era negado caso insistissem em manter a identidade cristã. Exílio, tortura ou a morte não estavam distantes do horizonte imediato. Rezar e pedir para que a justiça de Deus triunfasse e do céu trouxesse uma nova terra (Ap 21,1), pondo fim a do presente era a esperança que mobilizava e mantinha a comunidade viva, cultivando a coragem e a solidariedade no martírio de muitos irmãos. Estrutura de Composição da Narrativa Apocalíptica A estrutura de composição do Ap é demasiadamente complexa. Há várias possi- bilidades de arranjo estrutural. A seguir apresentamos uma estrutura mais simples8 para que você possa ter um panorama da lógica que guia a narrativa em seu con- junto como um todo. 8 Cf. a estrutura da narrativa do Apocalipse de VILLAC, 2001, p. 166. A estrutura aqui proposta é uma transcrição livre desse subsídio didático sobre o Novo Testamento produzido pelo ITEBRA (Instituto Teológico Brasilândia) da Região Episcopal da Igreja Arquidiocesana de São Paulo. 19 UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse Estrutura Literária do Apocalipse 1 Introdução: Visão de Jesus Cristo 2-3 7 Cartas às Igrejas 4-11 1º Roteiro da caminhada de libertação do povo (Releitura da história inspirada no livro do Êxodo) 4-5: Visão do passado (do céu; do Trono [4] e do Cordeiro [5]) 6-7: Visão do presente (7 selos) 8-11: Visão do presente para Visão do futuro (7 trombetas, 7 anjos e 3 ais; duas testemunhas [11,1-13]) 12 A Mulher perseguida pelo Dragão (Igreja perseguida pelo poder) 13-19 2º Roteiro da caminhada de libertação do povo Poderes terrenos – representantes do Dragão Bestas-feras contra os fiéis são denunciados e vencidos no final 13-14: besta-fera no confronto com os seguidores do Cordeiro (144 mil) 15-19: 7 anjos e 7 pragas [15]; 7 taças do furor de Deus [16] Prostituta e a besta-fera (7cabeças, 7montes, 7reis [17]) Anúncio da Queda da Babilônia [18] Cânticos de triunfo no céu [19] 20-22: Julgamento e vitória final (visão do futuro triunfante) 20 21 Símbolos Fundamentais A linguagem apocalíptica é profundamente simbólica. O que isso significa? Significa que quase tudo o que é transmitido possui um caráter enigmático, isto é, uma mensagem a ser decodificada com critérios diversos que podem variar da experiência de fé e leitura que a comunidade tem da experiência que historica- mente ela já viveu, como por exemplo, da perseguição sob Nero, ou de símbo- los litúrgicos e veterotestamentários ligados diretamente à literatura apocalíptica.Há referências constantes às figuras conhecidas do Livro de Daniel (Dn 7), de Eze- quiel (Ez 1,4-28; 2-3) e de Zacarias (Zc 1,7s) ou ainda, da esperança messiânica do juízo final em que haveria uma intervenção divina para dar fim (Escaton em grego – desse termo deriva a palavra escatologia) à história de injustiça e violência. Esse fim chegaria com o dia de Iahweh. Os cristãos interpretaram o dia de Iahweh como o dia do retorno do Senhor Jesus Cristo: o dia da parusia – palavra grega que significa exatamente isso “retorno” ou a “volta” de Cristo para fazer o juízo final. Veja abaixo alguns desses símbolos importantes9 para a compreensão do Ap. Cores • Branco (2,17): vitória, glória, alegria, pureza. • Vermelho (6,4): sangue, fogo, guerra, perseguição. • Amarelo-esverdeado (6,7): cor de cadáver que se decompõe, doença. • Púrpura e escarlate, vermelho vivo (17,4): luxo e dignidade real. • Preto (6,5): fome Números • 3: superlativo em hebraico: plenitude (21,13) e santidade (4,8); • 4: Número cósmico – 4 elementos do universo: terra, fogo, água e ar (4,6; 7,1; 20,8) • 7: composição de 3+4. Indica plenitude, perfeição, totalidade (1,4) • Metade de 7 é 3,5: “um tempo, dois tempos, meio tempo” (12,14; Dn 7,25) significa 3 anos e meio; é duração limitada das perseguições, pois é controlada por Deus. • 10: “Dez dias de provação” (2,10 // Dn 1,12.14) é tempo de curta duração. • 12: é uma composição de 3x4. Número de perfeição e totalidade (21,12-14). Alusão às 12 tribos de Israel. A igreja é o novo Israel da Utopia do tribalismo da liberdade onde só Iahweh é Rei (Jz 8,22-23). 9 Transcrevemos os símbolos de acordo com a tabela de decodificação proposta por Carlos Mesters e Francisco Orofino (2002, p. 265-270). 21 UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse • 24: é uma composição de 2x12. Os 24 anciãos (4,4) representam o povo do AT (12 tribos) e 12 apóstolos (é a totalidade do povo de Deus: da Antiga e da Nova Aliança.) • 42: 42 meses é igual a três anos e meio ou 1260 dias (11,2). Significa a me- tade de 7 anos e, por isso, indica o tempo limitado por Deus. • 144: é uma composição de 12 x 12 (21,17); é sinal da totalidade do povo de Deus. • 666: é o número da besta-fera (13,18). Em grego e em hebraico cada letra tinha um valor numérico. O número de um nome era o total do valor numérico de suas letras. O número 666 é do nome César-Nero conforme o valor das letras hebraicas ou César-deus conforme o valor das letras gregas. É também o número de maior imperfeição: 6 não alcança o 7 e é só a metade de 12. É a trindade imperfeita do mal (são três vezes a sequência do número imper- feito). É a maior expressão da imperfeição e da maldade. • 1000: é o prazo do tempo cumprido e completo. Reino de mil anos (20,2). As combinações 7 x 1000 (11,13), 12 x 1000 (7,5-8) e 144 x 1000 (7,4) possuem significação semelhante. Elementos da Natureza • Sol e lua (12,1); estrela (1,16; 2,28), arco-íris (10,1): evocam imagens positivas da criação a serviço da comunidade: estrelas são os líderes da comu- nidade e o arco-íris evoca a nova criação (Gn 9,12-17); • Mar (13,1, abismo (9,2); água da boca da serpente (12,15): símbolos do mal. • Cristal (4,6;22,1): clareza, esplendor, transparência, ausência do mal. • Pedras preciosas (21,19-20): raridade, beleza, valor. • Pedra branca (2,17): usada no tribunal pelo juiz para declarar alguém inocente. • Ferro, cetro de ferro (2,17): poder. • Barro, vasos de barro (2,27): fragilidade; paralelo com Is 64,7 e Jr 18,6. • Palma (7,9): triunfo. • Duas oliveiras (11,4): personagens importantes. Evocam a visão do AT (Zc 4,3-14). 22 23 Animais • Besta-fera que sobe do abismo ou do mar (11,7): Nero ou império romano. • Besta-fera que sai da terra (13,11): o falso profeta que propaga o culto ao imperador. • O dragão, a besta-fera do mar e a besta-fera da terra são uma caricatura da Trindade. O “Antideus”, o “Anticristo” e o “Antiespírito”. • Pantera, leão e urso (13,2): crueldade, sem misericórdia. Evoca a visão de Daniel sobre os impérios que dominaram Israel e o mundo conhecido de então (Dn 7,4-6). • Cavalos (6,2-7): poder, exército que arrasa. Evoca a visão de Zacarias (Zc 1,8-10). • Cordeiro (5,6): indica Jesus. Evoca o cordeiro pascal imolado no Êxodo (Ex 12,1-14) • Leão, touro, homem, água – quatro seres vivos (4,6-7) animais fortes que presidem o governo do mundo terreno: touro (instinto); leão (senti- mento); águia (inteligência); homem (rosto). Os quatro juntos formavam o ser mitológico da Babilônia, chamado Karibu ou Querubim, e a Esfinge do Antigo Egito. Evocam as visões de Isaías (Is 6,2) e de Ezequiel (Ez 1,10; 10,14). • Gafanhotos (9,3): invasores estrangeiros (Ex 19,4; Dt 32,11). • Escorpião (9,3): perfídia, traição (Sb 16,9). • Cobra, serpente (9,19): poder mortal. • Sapo (16,13): animal impuro (Lv 11,10-12); símbolo persa da divindade das trevas. Evoca a praga das rãs (Ex 7,26 a 8,11). • Chifre (5,6): poder; especialmente poder do rei. • Asas (4,8): mobilidade, velocidade em executar a vontade de Deus. Evocam Ezequiel (Ez 1,6-12). Há ainda muitos outros símbolos de objetos, coisas da vida, vestes e partes do corpo humano. Há também o simbolismo da Jerusalém celeste que evoca a utopia do governo (Reino) de Deus que vem para terra, bem como da Babilônia que sig- nifica a cidade de Roma como símbolo da prostituição, das maldades e dos pode- res opressivos. 23 UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse Para finalizar essa breve apresentação de símbolos, veja no quadro abaixo como Roma e seus imperadores aparecem simbolizados no Apocalipse, sobretudo quan- do o anjo procura explicar o simbolismo da besta-fera: 7 O Anjo, porém, me disse: Por que estás admirado? Explicar-te-ei o mistério da mulher e da besta com sete cabeças e dez chifres. 8 A besta que existia, mas não existe mais; está para subir do Abismo, mas caminha para a perdição. [...] ficarão admirados ao ver a besta, pois ela existia, não existe mais, mas reaparecerá. 9 Aqui é necessário a inteligência que tem discernimento: as setes cabeças são 7 montes sobre os quais a mulher está sentada. São também 7 reis, 10 dos quais cinco já caíram, um existe e o outro ainda não veio, mas quando vier deverá permanecer por pouco tempo. 11 A besta que existia e não existe mais é ela própria, o oitavo e também um dos sete, mas caminha para a perdição (Ap 17,7-10). 1º. Otávio Augusto 27 a.C a 14 2º. Tibério 14 a 37 3º. Calígula 37 a 41 4º. Cláudio 41 a 54 5º. Nero 54 a 68 6º. Vespasiano 69 a 79 7º. Tito Flávio 79 a 81 8º. Domiciano 81 a 96 Quando se aplica as explicações na ordem dos imperadores romanos tomando como base “a besta que existia, não existe mais e ela própria é o oitavo” pode-se chegar à mesma conclusão assinalada por Mesters e Orofino: O anjo diz: “São sete reis, dos quais cinco já caíram, um existe, e o outro ainda não veio”. Ou seja, os imperadores desde Augusto até Nero já pertencem ao passado, pois “cinco já caíram”. Vespasiano é o “um que existe”. Só falta a chegada do sétimo, Tito (79-81), que deverá permanecer por pouco tempo, só dois anos. Depois de Tito vem o oitavo rei que era um dos sete. Ou seja, virá Domiciano, do qual todos diziam: “É Nero que voltou!” Por isso, “este oitavo é também um dos sete!” Domiciano é a própria encarnação da besta. Mas ele caminha para a perdição (MESTERS e OROFINO, p. 2002, p. 203). 24 25 Importante! Assim concluímos essa Unidade. As três cartas pertencem à escola joanina, pois representam uma época tardia da história da comunidade e a tentativa de regrar a leitura e interpretação do Evangelho que devia ter acirrado os confl itos internos que já existiam na comunidade. A cristologia foi um pretexto forte para dividir e afi rmar a identidade dos diferentes grupos. Outras razões existiam e o EJo já havia denunciado: questões em torno da não aceitação do lava-pés (Jo 13), a relação com a sina goga (16,2) e uma eclesiologia mais radicalmenteigualitária (15,1s) devem ter provocado confl itos entre grupos dentro e fora da comunidade. Em relação ao Apocalipse, o momento, a geografi a, a linguagem simbólica e a autoria testemunham um documento distinto da Escola joanina. Embora a proximidade com Éfeso e a atribuição do nome de João no texto e a confi rmação da tradição, tudo indica que o Ap trata de uma expressão distinta da escola joanina. A linguagem é de afi rmação da identidade contrária aos poderes terrenos e uma absoluta negação do culto ao imperador (Ap 13,15). A realidade do martírio é um fato (Ap 13,10) e sua proposta é alimentar a fé da comunidade com uma resistência profundamente marcada pela esperança no juízo fi nal em que a intervenção divina, especialmente de Jesus, o vivente (Ap 1,18), viria confi rmar a vitória sobre os poderes terrenos opressores (Ap 19-22). Por isso, o Apocalipse não deve ser lido como livro que cause temor. Ao contrário, ele é proclamação de esperança para aqueles que perseveram na fi delidade aos princípios do amor, da justiça e da solidariedade às vítimas da violência (“aqueles que vêm da grande tribulação” [Ap 7,14]). Mas evidentemente, deve ser uma ameaça aos que atuam contra os pequenos e os pobres da terra e pactuam a favor da Babilônia e seu sistema opressor (Ap 181,s, principalmente 18,11-13). Importa hoje ler os símbolos do Apocalipse e traduzi-los para os novos sujeitos dos tempos atuais. É preciso perguntar quem são as bestas, quais são as Babilônias e os mercadores da terra que lucram com coisas e vidas humanas (Ap 18,13). Em Síntese 25 UNIDADE Cartas Joaninas e Apocalipse Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Sites Cronologias do Novo Testamento Veja com cuidado algumas cronologias, observe as datas, os imperadores e os docu- mentos escritos no Novo Testamento ao longo do primeiro século da Era Comum (EC). Abaixo alguns links para acesso de cronologias do Novo Testamento. Esse con- tato maior e mais demorado com cronologia do século primeiro devem ajudar muito a compreensão das Cartas Joaninas e do Apocalipse. https://goo.gl/qC6bPx https://goo.gl/gsb1Cj https://goo.gl/tt3nbr https://goo.gl/73Vyvc https://goo.gl/T862Us https://goo.gl/n3TWwM Filmes O Apocalipse Assista o filme sobre o livro do Apocalipse. O filme é muito interessante. Tenta ser fiel o quanto é possível ao texto. Atenção: não confunda com o filme estrelado com Nicolas Cage. Diretor: Raffaele Mertes Atores: Richard Harris, Vittoria Belveedere e Benjamin Sadler Ano: 2015 O Sétimo Selo Trata-se de filme clássico de Bergman sobre o sentido da vida, da religião, de Deus e do diabo, inspirado nos temas do Apocalipse. A baixo você pode ler a ficha técnica. Direção: Ingmar Bergman Roteiro: Ingmar Bergman Elenco: Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Max von Sydow, Bibi Andersson, Inga Gill. Leitura A nova Jerusalém Breves considerações a partir do livro do Apocalipse de MEDEIROS, Daniel Luiz. IN: Studium Theologicum, Artigos, p. 205-222. https://goo.gl/ybKQdK 26 27 Referências BROWN, Raymond E. A comunidade do discípulo amado. São Paulo: Paulinas, 1983. HARRINGTON, Wilfrid John. Chave para a Bíblia: a revelação, a promessa, a realização. Tradução de Josué Xavier e Alexandre Macintyre. São Paulo: Paulus, 1985. KONINGS, Johan. A Bíblia nas suas origens e hoje. Petrópolis: Vozes, 1998. KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1982. LOHSE, Eduard. Contexto e ambiente do Novo Testamento. Tradução Hans Jörg Witter – São Paulo: Paulinas, 2000. MESTERS, Carlos e OROFINO, Francisco. Apocalipse de João. Esperança, coragem e alegria. Círculos Bíblicos. São Leopoldo/RS – São Paulo/SP: Centro de Estudos Bíblicos – Paulus, 2002. MORESCHINI, Claudio e NORELLI, Enrico. História da Literatura Cristã Antiga Grega e Latina. 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