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INTRODUÇÃO Há muito tempo se conhecem as propriedades tanto anorexígenas como anestésicas das folhas do arbusto andino Erythroxylon coca. O princípio ativo dessas folhas foi isolado em 1860 e denominado cocaína, tendo sido o primeiro anestésico local descoberto. Seu uso clínico foi proposto por dois pesquisadores vienenses, Sigmund Freud e Karl Koller, no final do século 19. Em 1884, Freud estudou os efeitos da cocaína no sistema nervoso central (SNC) e Koller a introduziu como anestésico local em oftalmologia. No mesmo ano, o pesquisador Hall empregoua em odontologia e Halmsted, avaliando seus efeitos em troncos nervosos, sugeriu seu emprego em anestesia por bloqueio nervoso. Em 1892, foi sintetizada a procaína, a qual, por não causar dependência nem ser vasoconstritora como a cocaína, substituiu esta última com vantagens, tornandose o protótipo dos anestésicos locais. Vários outros aminoésteres foram introduzidos posteriormente, incluindo a tetracaína, em 1932, e a cloroprocaína, em 1955. Em 1943, a lidocaína foi sintetizada por Lofgren, e sua introdução clínica 1 ano depois marcou o primeiro uso de uma nova classe de anestésicos locais, as aminoamidas. Outros agentes desse grupo foram desenvolvidos, incluindo mepivacaína (1956), bupivacaína (1957), prilocaína (1959), etidocaína (1971) e ropivacaína (1989). Os anestésicos locais são agentes que bloqueiam reversivelmente a condução nervosa, quando aplicados localmente no tecido nervoso em concentração apropriada. É importante lembrar que a grande vantagem dos anestésicos locais é seu efeito reversível; após seu emprego há recuperação completa da função nervosa sem que se evidencie dano estrutural nas células ou fibras nervosas. Causam a perda da sensibilidade dolorosa pelo bloqueio da condução nervosa do estímulo doloroso ao SNC, porém não causam perda da consciência, como ocorre com os anestésicos gerais. Sua ação é seletiva e específica. Assim, se aplicados no córtex motor, impedem a geração de impulsos a partir desta área; quando injetados na pele, impedem a geração e transmissão de impulsos sensoriais. Além disso, o anestésico local, quando aplicado a um tronco nervoso, bloqueia tanto fibras sensitivas como as motoras da área inervada. Outro ponto importante é que o anestésico local deve estar no seu local de ação em concentração suficiente para produzir a perda da sensibilidade dolorosa, o que nem sempre é possível, como nos processos inflamatórios, regiões infeccionadas, abscessos etc. Assim, o anestésico local, por ser base fraca, e o pH local do processo inflamatório muito baixo estão dissociados e, portanto, somente pequena quantidade do agente está disponível para produzir anestesia local. ESTRUTURA QUÍMICA Os anestésicos locais (AL) variam em seus efeitos clínicos e essas diferenças dependem de sua estrutura química. A maioria dos agentes empregados é constituída de três partes fundamentais: um radical lipofílico e outro hidrofílico, unidos pela cadeia intermediária (Figura 12.1). A porção lipofílica é um resíduo aromático derivado do ácido benzoico (cocaína, benzocaína), ácido para aminobenzoico (procaína, tetracaína) ou a xilidina (lidocaína, bupivacaína). O ácido paraaminobenzoico, por ser uma molécula pequena, pode funcionar como hapteno e determinar reações alérgicas. A ligação da cadeia intermediária com o resíduo aromático determina algumas propriedades importantes dos anestésicos locais. Assim, quando esta ligação é do tipo éster, como na procaína, o medicamento é rapidamente hidrolisado e, portanto, este tipo de anestésico local é rapidamente degradado e inativado no organismo. Por outro lado, quando esta ligação é do tipo amida, como é o caso da bupivacaína, sua biotransformação é lenta, tendo então ação duradoura. A hidrofobicidade aumenta tanto a potência, como também a duração do efeito do anestésico local. Isto ocorre porque a ligação do medicamento em locais hidrofóbicos diminui a velocidade de hidrólise pelas esterases plasmáticas e ocorre aumento da distribuição do medicamento no seu local de ação. Além disso, observase que a hidrofobicidade aumenta a toxicidade do anestésico local, mas com relação à potência anestésica pouco ou nada contribui. ■ Figura 12.1 Fórmula estrutural dos anestésicos locais. Com relação à cadeia intermediária, a distância de 6 a 9 Å entre os grupos lipofílicos e hidrofílicos (4 a 5 átomos) é crítica para a ação anestésica. Compostos como antihistamínicos e fármacos anticolinérgicos apresentam fraca ação anestésica, pois possuem uma cadeia intermediária semelhante à dos anestésicos locais. Até certo ponto, o aumento da cadeia intermediária aumenta também a lipossolubilidade do anestésico local. A porção hidrofílica (grupo amina) é, em geral, derivada do álcool etílico ou do ácido acético. Moléculas ligadas à porção hidrofílica tornam o agente insolúvel, restringindo seu uso à anestesia tópica de mucosas. O grupo hidrofílico é geralmente uma amina terciária, como é o caso da procaína, porém pode ser uma amina secundária como a butetamina. É a porção ionizável da molécula que vai sofrer a influência do pH do meio e, portanto, é a única que pode ser manipulada pelo anestesiologista. É ela que determina a velocidade de ação do AL. Os anestésicos locais podem ser classificados segundo o tipo de ligação do resíduo aromático com a cadeia intermediária. Desta forma, têmse os anestésicos locais do tipo éster (procaína, cloroprocaína, tetracaína) e do tipo amida (etidocaína, prilocaína, mepivacaína, lidocaína, bupivacaína e ropivacaína). As qualidades do anestésico local para que este seja considerado ideal são apresentadas no Quadro 12.1. Com poucas exceções, os AL são aminas, comportandose como bases fracas. São instáveis e pouco solúveis em água, daí serem apresentados na forma de sais de ácidos fortes (em geral cloridratos), para que tenham maior estabilidade e sejam hidrossolúveis. Assim, em um frasco de AL encontrase o agente sob a forma de cloridrato, em solução aquosa. Nessa solução, parte do AL estará na forma ionizada e parte na forma não ionizada. O grau de ionização do AL depende do pKa do agente e do pH do meio e é regido pela equação de HendersonHasselbalch: pKa – pH = log ionizado/não ionizado QUADRO 12.1 Qualidades desejáveis de um anestésico local. Características Qualidades Químico-físicas Solubilidade em água, pH próximo à neutralidade, permitir esterilização, ser estável Farmacocinéticas Latência curta para a anestesia, duração suficiente para a cirurgia, inativação rápida, não deixar resíduos, ser compatível com a epinefrina, não ser irritante para os tecidos Gerais Ser eficaz sem importar qual o tecido a ser anestesiado, não produzir hiperalgesia, ter baixa toxicidade sistêmica, ter preço acessível Como o pH das soluções de AL é ácido (3,5 a 5,5), principalmente nas soluções contendo epinefrina, a maior parte do AL está na forma ionizada. Ao ser injetado no organismo, é tamponado pelos sistemas tampão teciduais, a equação é desviada no sentido de aumento da forma não ionizada e, assim, o AL pode penetrar nos tecidos. Ao chegar à membrana axonal no lado interno da célula, encontra um território mais ácido, ionizase novamente e, assim, tem condições de agir, fazendo interação de cargas com pontos específicos do canal de Na+. PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS Peso molecular. Varia de 220 a 290 Da entre os diferentes agentes. Desempenha papel relevante na movimentação dos AL através dos canais de sódio da membrana nervosa, além de ser fator preponderante no grau de permeabilidade através daduramáter. Lipossolubilidade. Principal determinante da potência anestésica. O axolema é composto de 90% de lipídios e apenas 10% de proteínas. Desta forma, compostos altamente lipossolúveis tendem a penetrar a membrana nervosa mais facilmente. Como exemplo temos que a adição do grupamento butil na porção final da procaína torna esta substância mais lipossolúvel e intrinsecamente mais potente que a procaína. A reposição do grupamento metil com butil na porção lipofílica da mepivacaína leva à formação da bupivacaína (mais lipossolúvel e três a quatro vezes mais potente). Grau de ionização. O início do bloqueio de condução está diretamente ligado à proporção de formas não ionizadas. O período de latência depende do pKa da substância e do pH do meio. Assim, quanto maior o valor do pKa, menor quantidade da forma não ionizada está presente. Por exemplo, lidocaína/etidocaína possuem pKa 7,7; no pH 7,4, aproximadamente 65% destas drogas estarão na forma ionizada e 35% na forma não ionizada; tetracaína pKa 8,6 a 5% na forma não ionizada e 95% catiônica; bupivacaína pKa 8,1 a 15% na forma não ionizada. Desta forma, o período de latência da lidocaína e da etidocaína é mais curto em relação aos demais agentes (Quadro 12.2). Ligação às proteínas plasmáticas. A duração de ação está primariamente relacionada ao grau de afinidade proteica dos vários AL (Quadro 12.2). QUADRO 12.2 Propriedades físicoquímicas dos anestésicos locais. Anestésico Peso molecular pKa Coeficiente de partição Ligação proteica (%) Procaína 236 8,9 0,02 6 Tetracaína 264 8,6 4,1 76 Cloroprocaína 271 8,7 0,14 – Prilocaína 220 7,9 0,9 55 Lidocaína 234 7,7 2,9 65 Mepivacaína 246 7,6 0,8 75 Bupivacaína 288 8,1 28 95 Etidocaína 276 7,7 141 95 Ropivacaína 274 8 9 90 a 95 RELAÇÃO ESTRUTURA-ATIVIDADE Modificações na estrutura química de um AL alteram seus efeitos farmacológicos. Por exemplo, alongandose a cadeia intermediária ou aumentandose o número de carbonos da amina terciária ou do anel aromático, obtém se um fármaco com lipossolubilidade diferente, bem como potência, taxa de metabolismo e período hábil também diferentes. Na realidade, a adição de um radical butil ao grupo amino do anel benzênico da procaína resulta na tetracaína, que é mais lipossolúvel, 10 vezes mais potente e apresenta uma duração de ação mais longa, relacionada a uma redução de quatro vezes na taxa de biotransformação. Em contrapartida, a introdução de um halógeno (Cl–) no anel aromático da procaína resulta na formação do cloroprocaína, substância que é hidrolisada três a quatro vezes mais rapidamente pela colinesterase plasmática. Esta hidrólise rápida limita sua duração de ação e reduz a ocorrência de toxicidade sistêmica. A adição do grupo butil à extremidade amina da mepivacaína resulta na bupivacaína, que é cerca de 15 vezes mais lipossolúvel e tem potência e duração cerca de três a quatro vezes maiores que as da mepivacaína. A etidocaína assemelhase à lidocaína, porém um grupo propil em lugar de um etil na porção amina e a adição de um grupo etil no carbono alfa da cadeia intermediária lhe conferem um aumento de 50 vezes na lipossolubilidade e de duas a três vezes na duração de ação. FARMACOCINÉTICA O anestésico local atravessa as membranas do nervo por difusão, obedecendo a um gradiente de concentração que depende basicamente da lipossolubilidade do medicamento, do pH do meio e da concentração do medicamento. Sob condições habituais de administração, o pH das soluções dos anestésicos locais é trazido para aquele dos líquidos extracelulares (pH = 7,4), sem levar em consideração o pH da solução injetada. Como os anestésicos locais são bases fracas com pKa que varia de 8 a 9, no pH dos tecidos, os anestésicos locais tendem a ficar em maior proporção na sua forma ionizada, tendo, portanto, maior dificuldade de atravessar as barreiras celulares. No entanto, é esta forma ionizada que é responsável pelo efeito anestésico local. Assim, a penetração do anestésico local se faz gradativamente através de sua forma não ionizada e sua ação se dá através de sua forma ionizada. A absorção a partir de diferentes locais é influenciada pelo fluxo sanguíneo do tecido e passagem para o compartimento circulatório, o que é dependente da solubilidade de cada agente. A absorção ocorre na seguinte ordem de magnitude: intercostal > epidural > plexo > periférica > subcutâneo. A absorção é particularmente alta quando os agentes são aplicados de forma tópica na mucosa (p. ex., a lidocaína em forma de spray na orofaringe). O agente vasoconstritor pode ser empregado para diminuir a absorção. A distribuição do anestésico local se faz a partir do momento que este ganha inadvertidamente a corrente sanguínea. Os anestésicos locais do tipo éster, como a procaína, são rapidamente biotransformados pelas esterases plasmáticas e hepáticas e praticamente não se acumulam no plasma e nos tecidos. Aqueles de biotransformação mais lenta, como a tetracaína, têm o seu processo de distribuição estudado melhor. Os anestésicos locais são primeiro distribuídos aos órgãos de maior perfusão sanguínea, como o cérebro, o fígado, os rins e os pulmões. A seguir, vão para tecidos com suprimento sanguíneo intermediário, como os músculos e, por fim, para os tecidos de menor perfusão, como, por exemplo, o tecido adiposo. A velocidade com que ■ ■ ■ desaparecem da circulação varia de um agente para outro, na dependência da sua lipossolubilidade e ligação às proteínas plasmáticas. Em geral, os anestésicos do tipo amida ligamse à glicoproteína e, em menor extensão, à albumina. A principal via de biotransformação dos anestésicos locais, tanto com ligações amida como éster, é a hidrólise enzimática. Os derivados do ácido 4aminobenzoico são hidrolisados primeiro no plasma e depois no fígado por meio de pseudocolinesterases inespecíficas. A hidrólise dos anestésicos locais com ligação do tipo amida ocorre muito lentamente. Uma exceção é o cloridrato de prilocaína, cuja metabolização é bastante rápida. A bupivacaína não é hidrolisada pelas esterases plasmáticas, mas é conjugada com ácido glicurônico no fígado. Um processo importante na biotransformação dos anestésicos locais é a dealquilação, que ocorre nos microssomos hepáticos. Os metabólitos ou mesmo o anestésico local na sua forma íntegra são excretados quase totalmente pelos rins. MECANISMO DE AÇÃO Os anestésicos locais impedem a geração e a condução de impulsos nervosos na membrana nervosa. À medida que o efeito anestésico progride em um nervo, o limiar para a sua excitabilidade elétrica se eleva gradualmente, o potencial de ação declina e a condução do impulso nervoso se torna mais lenta. Portanto, diminui a probabilidade de propagação do potencial de ação e a condução nervosa é reduzida. O mecanismo de ação dos anestésicos locais envolve interações do mesmo com canais de sódio. Assim, o anestésico local interage com os canais de sódio na parte interna da membrana celular, sob a forma iônica, bloqueando estes canais. É importante lembrar que somente as formas moleculares (não ionizadas) são lipossolúveis e, portanto, o anestésico local tem que penetrar nos tecidos na forma não protonada para depois, dentro da célula, se dissociar e interagir com os canais de sódio (Figura 12.2). Três sítios distintos têm sido propostos como locais onde os agentes anestésicos possam exercer seu efeito sobre a condutância ao sódio: Na superfície da membrana, envolvendo alteração de cargas negativas fixas e o potencial transmembrana, sem alterar o potencial de repouso intracelular Na matrizda membrana, envolvendo sua expansão lateral e, deste modo, causando modificações espaciais no canal de sódio Em receptores proteicos localizados na face interna da membrana do canal de sódio. Este modelo de receptor adaptase a todos os tipos de anestésicos locais específicos e prevê diferentes vias de acesso para as formas ionizadas e não ionizadas através de três conformações espaciais diferentes para o canal de sódio: aberta, fechada e inativada. A forma aberta permite a passagem de íons e as formas fechada e inativada não são condutoras. Durante cada potencial de ação, os canais de sódio ciclam de um estado para outro. A afinidade pela configuração fechada é baixa, enquanto a configuração inativada é extremamente favorável à interação. Assim sendo, o anestésico local se liga preferencialmente à forma inativada do canal, não condutora, mantendoo nesta forma e estabilizando a membrana. Quanto maior o número de canais na forma inativada, maior será a facilidade do bloqueio; da mesma forma, quanto maior a frequência de estímulos de uma fibra, mais canais se abrem, se fecham e se inativam. O bloqueio do canal de sódio é proporcional à frequência dos impulsos despolarizantes, que fazem com que mais canais inativados apareçam. Esse fenômeno é denominado de bloqueio uso ou frequênciadependente. ■ Figura 12.2 Mecanismo de ação dos anestésicos locais. O anestésico local penetra no nervo sob a forma molecular (AL + H+), e as formas protonadas (ALH+) não atravessam as membranas celulares. À medida que vai atravessando os vários compartimentos, antes de chegar na fibra nervosa, vai sofrendo novas dissociações e apenas as formas moleculares atravessam barreiras celulares até alcançar a fibra nervosa. Neste local, o anestésico atravessa a membrana de fosfolipídios e, no meio intracelular, novamente se dissocia e a porção protonada vai interagir com o canal de sódio, do lado interno da membrana. Acreditase que a combinação dos AL com o receptor proteico localizado no canal de sódio da membrana nervosa contribua para a duração de seu efeito além de sua ligação a proteínas plasmáticas. USOS O principal uso dos anestésicos locais é sem dúvida em procedimentos cirúrgicos. Em algumas situações, este grupo de medicamentos é empregado no alívio das dores intensas, como anticonvulsivante e como antiarrítmico. A atividade anticonvulsivante é comum em todos os anestésicos locais, porém a utilização deles como antiarrítmico é restrita a alguns. Assim, a procainamida, por ser mais estável no organismo, e a lidocaína são indicadas para o tratamento de arritmias ventriculares (ver Capítulo 25). Os anestésicos locais são administrados em regiões próximas do seu local de ação. Assim, a anestesia local pode ser realizada de várias maneiras, conforme a seguir. Anestesia superficial ou tópica É o resultado da aplicação do anestésico local sobre a pele ou mucosas para, assim, bloquear as terminações nervosas e provocar a perda da sensibilidade dolorosa. Em geral, são extremamente eficientes quando aplicados em mucosas do olho, nariz e boca. Por outro lado, são pouco eficazes quando utilizados na pele, pois a camada córnea impede sua absorção. Os produtos comerciais podem ser apresentados sob a forma de pomadas ou spray e, quando aplicados localmente, produzem adormecimento local, útil para o alívio de prurido. Anestesia por infiltração É o método mais usual do emprego dos anestésicos locais, que são injetados em pequenas quantidades nos tecidos por via intradérmica, subcutânea ou mais profundamente em áreas musculares. Neste caso, o medicamento se difunde até as terminações nervosas para produzir seu efeito. Anestesia perineural É obtida mediante bloqueio da condução do nervo (ou nervos) sensitivo que inerva a região onde será executada a cirurgia. O próprio campo cirúrgico não é tocado, mas é necessário que se leve o anestésico bastante próximo ao nervo a ser bloqueado. Anestesia espinal Esta anestesia compreende a injeção do anestésico local em alguma parte do canal espinal, paralisando temporariamente regiões do organismo inervadas por aquela área. Na anestesia subaracnóidea, a solução anestésica é introduzida abaixo da aracnoide, em contato direto com o liquor, e, na anestesia epidural ou peridural, a solução é injetada ao redor da duramáter. Anestesia intravenosa Realizada por meio da injeção do anestésico local pela via intravenosa. Inicialmente a circulação sanguínea deve ser interrompida por um torniquete e, posteriormente, o anestésico local é injetado no vaso que irriga a região onde ocorreu a estase sanguínea, promovendo anestesia regional por embebição. Cuidados devem ser tomados na retirada precoce (menos de 10 a 15 min) ou tardia (mais de 60 min) do torniquete, evitando, respectivamente, intoxicação por anestésico local e necrose tecidual. Anestesia intra-articular Utilizada com fins diagnósticos principalmente em equinos. Métodos alternativos A anestesia local pode ser conseguida por intermédio de métodos alternativos que não envolvem a administração de medicamentos. Praticaramse por muito tempo pressão sobre troncos nervosos e pressão sobre vasos sanguíneos para produzir isquemia tecidual, a qual se traduz por uma anestesia local. Em ambos os casos, a anestesia é periférica com relação ao ponto de aplicação da pressão. Mais recentemente, o frio tem sido um recurso empregado para produzir anestesia regional de um apêndice ou anestesia local de um tecido. Esta crioanestesia é realizada mediante pulverização da pele com líquidos voláteis, como, por exemplo, o cloreto de etila. Uma vez que estas substâncias evaporam muito rapidamente, ocorre grande perda de calor na pele, provocando anestesia. As camadas mais superficiais se congelam e se tornam insensíveis. A duração desta anestesia é apenas o suficiente para realizar pequenas cirurgias. A acupuntura é uma opção para a anestesia que provoca grande interesse devido a sua eficiência e ausência de riscos. É empregada tradicionalmente na China, sendo atualmente utilizada no Ocidente, nos meios médicos e científicos. ASSOCIAÇÃO COM OUTRAS SUBSTÂNCIAS Epinefrina O recurso de associar epinefrina (vasoconstritores) com os anestésicos locais permite menor absorção sistêmica do anestésico, diminuindo assim o risco do seu emprego, uma vez que são absorvidos lentamente, podendo até ser metabolizados neste ínterim. Além disso, a duração do seu efeito será aumentada de modo significativo. As concentrações de epinefrina deverão variar desde 1 parte de epinefrina para 50.000 a 200.000 do anestésico local. A absorção sistêmica dos vasoconstritores pode provocar reações indesejáveis como agitação e taquicardia. Devem ser evitados em extremidades ou circulações terminais. Podem também retardar a cicatrização das feridas, promover edema ou necrose local devido, principalmente, à redução do consumo de oxigênio tecidual, que, associada à vasoconstrição, causa hipoxia e lesão local. Bicarbonato de sódio Já em 1892, Bignon, ao alcalinizar a solução contendo cocaína, aumentou sua potência anestésica. As soluções comerciais contendo anestésicos tipo amida têm pH entre 3,2 e 6,5, mas, como o pKa varia entre 7,5 e 9, menos de 3% do anestésico local está presente como porção não ionizável. Se o pH da solução for elevado, haverá maior quantidade de AL na forma não ionizada e, assim, o início da ação será mais rápido. Entretanto, devese ter cuidado em não adicionar bicarbonato demais, pois pode ocorrer precipitação. Clinicamente, a adição de1 mEq de bicarbonato de sódio para cada 10 mℓ de solução de lidocaína a 1,5% aumenta o pH para 7,15 e produz início rápido e mais rápida difusão do bloqueio sensitivo. Dióxido de carbono Os anestésicos locais carbonatados têm vida média muito curta e são extremamente caros. Essas soluções apresentam período de latência mais curto decorrente da rápida difusão pelos tecidos conjuntivos que circundam os nervos. Além disso, diminuem o pH intraneural; tal redução atrai o anestésico, aumentando a concentração intraneural. Hialuronidase A hialuronidase hidrolisa o ácido hialurônico, facilitando a difusão dos anestésicos locais. Os proponentes do emprego dessa enzima sugerem que há aumento do sucesso de várias técnicas regionais e prevenção da formação de hematoma caso uma artéria seja puncionada. Entretanto, a adição de hialuronidase pode aumentar a concentração do agente anestésico, provocar reações alérgicas e reduzir o período hábil. EFEITOS COLATERAIS E/OU TÓXICOS Caso o AL atinja outras membranas excitáveis em quantidade suficiente, seja por sobredose, absorção exagerada ou injeção intravascular, poderá também exercer uma ação estabilizadora. As principais membranas atingidas são as do sistema nervoso central e as do coração. É importante ressaltar que, quanto maior potência do agente anestésico, maior sua toxicidade, e que o SNC é mais sensível que o sistema cardiovascular. Os sinais e sintomas de intoxicação pelo AL dependem não só da concentração plasmática, mas também da velocidade com que se estabelece essa concentração. Os efeitos centrais dos anestésicos locais são concentraçãodependentes. As concentrações baixas promovem sedação, enquanto as elevadas produzem convulsões. De maneira crescente, os efeitos tóxicos no SNC se manifestam da seguinte forma: dormência, torpor, tremores musculares, perda da consciência, convulsão (grande mal), coma e apneia. A atividade convulsivante dos anestésicos locais resulta do predomínio da depressão de fibras ou centros inibitórios no SNC, desencadeando excessiva atividade excitatória. É importante observar que se trata de um desequilíbrio de forças, e que os circuitos excitatórios também estão inibidos. Dessa forma, ao utilizarmos um depressor, estaremos agravando a depressão do SNC. O mecanismo primário pelo qual os AL produzem convulsões se deve ao bloqueio de receptores GABAA. O tratamento adequado é devolver a oxigenação e corrigir o desequilíbrio acidobásico, uma vez que, com o predomínio da atividade excitatória, há grande consumo de oxigênio local e consequente acidose. Caso não se consiga ventilar e oxigenar adequadamente, devese fazer uso de bloqueadores neuromusculares para facilitar o procedimento. O uso de benzodiazepínicos e barbitúricos deve ser reservado para situações incomuns de convulsões duradouras. Os efeitos cardiovasculares, em geral, são observados após altas concentrações sistêmicas. O primeiro local de ação é o miocárdio, onde ocorre redução da excitabilidade elétrica, taxa de condução e força contrátil. O mecanismo de cardiotoxicidade dos anestésicos locais baseiase na cinética de ligação desses agentes com a fibra miocárdica. Da mesma forma que ocorre no nervo, os anestésicos locais ligamse à fibra miocárdica quando o canal está na forma inativada. No intervalo de repouso diastólico, deve haver tempo suficiente para que o agente se libere do canal da fibra. No caso da bupivacaína, o tempo de ligação é longo; há um padrão de entrada rápida e saída lenta (fast in – slow out) e o intervalo diastólico não é suficiente para permitir sua liberação. Assim, a cada ciclo, mais canais vão sendo ocupados até que a depressão do órgão se instale. Em relação à lidocaína, que exibe uma entrada rápida no canal, com saída também rápida (fast in – fast out), o intervalo de repouso diastólico é adequado para permitir que os canais sejam liberados. O fenômeno do bloqueio frequênciadependente é fundamental para explicar a diferença de toxicidade entre a lidocaína e a bupivacaína. Quanto maior a frequência cardíaca, maior a intensidade de bloqueio para a bupivacaína. Ao contrário, com a lidocaína, os efeitos depressores não aparecem enquanto a frequência cardíaca não estiver acima de 150 a 200 bpm. No coração, entretanto, em decorrência da faixa de frequência de estímulos, a bupivacaína é considerada 70 vezes mais cardiotóxica que a lidocaína. Fatores como taquicardia, acidose e hipoxia, que despolarizam a célula miocárdica, agravam o quadro de intoxicação, pois promovem mais ciclos cardíacos e fornecem mais canais inativados para a impregnação pelo anestésico local. Além disso, a acidose local retém o anestésico dentro da fibra, pois, sendo um medicamento de caráter básico, tende a se acumular em territórios de maior acidez. O melhor tratamento nesses casos é a prevenção. É importante observar as doses empregadas, a técnica proposta e, na ocorrência das reações tóxicas, detectar e promover suporte ventilatório e circulatório o mais rápido possível. PRINCIPAIS ANESTÉSICOS LOCAIS USADOS EM MEDICINA VETERINÁRIA O Quadro 12.3 apresenta os anestésicos locais e respectivas especialidades farmacêuticas mais usadas em Medicina Veterinária. Cloridrato de procaína É menos ativo que a cocaína e menos tóxico que a maioria dos outros anestésicos locais. A anestesia é de curta duração (30 a 60 min), podendo ser prolongada quando se associa um vasoconstritor. A procaína não deve ser empregada junto com as sulfonamidas; este anestésico local é hidrolisado até o ácido paraaminobenzoico (PABA), competindo, portanto, com as sulfas, e o resultado será a inibição das ações antimicrobianas das sulfonamidas. Devido a suas ações analgésicas, a procaína também é empregada ilegalmente para melhorar o rendimento de cavalos de corrida; no caso de claudicação, este anestésico local é empregado para sua dissimulação. A dose máxima permitida é de 10 mg/kg (Quadro 12.4). QUADRO 12.3 Classificação e especialidade farmacêutica dos anestésicos locais. Anestésico Especialidade farmacêutica Tipo Cloridrato de procaína Cloridrato de procaína Éster Cloridrato de lidocaína Xylocaína, Xyleste-sin®, Xyloproct®, Novocol®, cloridrato de lidocaína Amida Cloridrato de levobupivacaína Novabupi® Amida Cloridrato de tetracaína Cloridrato de tetracaína Éster Cloridrato de bupivacaína Cloridrato de bupivacaína, marcaína, neocaína Amida Cloridrato de prilocaína Citanest®, citocaína Amida Cloridrato de ropivacaína Naropin® Amida Cloridrato de tetracaína É empregado principalmente na anestesia tópica. Sua potência e toxicidade são 10 vezes maiores do que as da procaína. A dose máxima permitida é de 1 mg/kg. A concentração empregada em anestesia ocular é de 0,5% e, em mucosas, de 1 a 2%. Cloridrato de lidocaína Alto poder de penetração com potência e duração de ação moderadas (60 a 120 min). Apresentase sob a forma de gel e colutório (2 a 10%) e em solução (0,5 a 2%). Atravessa a barreira placentária, podendo desencadear problemas cardíacos no feto. A lidocaína tem efeito antiarrítmico (1 a 2 mg/kg, por via intravenosa) e é usada no controle de arritmias ventriculares em cães e gatos. Nos equinos, é indicada no tratamento de íleo pósoperatório. Dentre seus efeitos tóxicos, destacamse: sonolência, tremores musculares, hipotensão, náuseas e vômitos. Seu período de ação varia entre 60 e 120 min. A dose tóxica de lidocaína no cão varia entre 6 e 10 mg/kg na anestesia infiltrativa, sendo a dose convulsivante de 11 a 20 mg/kg e a letal 16 a 28 mg/kg. O sinal mais comum de intoxicaçãoé convulsão enquanto as bradiarritmias e os distúrbios de condução são mais raros. Já nos equinos, os tremores musculares são os sinais de intoxicação mais frequentes. Na anestesia intravenosa ou de Bier é utilizada na dose de 2,5 a 5 mg/kg (Quadro 12.5). Cloridrato de prilocaína A potência e a duração de ação são semelhantes às da lidocaína, com menor toxicidade. Em altas doses, pode induzir a formação de metemoglobina, devido ao seu metabólito otoluidina. O tratamento deve ser realizado com oxigenoterapia e administração de azul de metileno. A dose máxima de prilocaína permitida é de 9 mg/kg com vasoconstritor e de 6 mg/kg sem vasoconstritor. Cloridrato de bupivacaína É anestésico local de ação duradoura (2 a 4 h). É cerca de 4 vezes mais potente que a lidocaína. Pode ser empregado em bloqueios nervosos regionais e na anestesia epidural. Sua dose máxima permitida é de 2 mg/kg, sendo a dose convulsivante em cães ao redor de 4 mg/kg. As concentrações comumente empregadas variam de 0,125 a 0,75%. A injeção acidental, assim como dose elevada, pode resultar em hipotensão arterial e arritmias cardíacas, incluindo taqui e fibrilação ventricular e bloqueio atrioventricular. O limiar da cardiotoxicidade pode estar reduzido em pacientes que estão sendo tratados com betabloqueadores e digitálicos. É indicado nas infiltrações, bloqueio de nervos periféricos e anestesia espinal. Cloridrato de levobupivacaína É o enantiômero levogiro (l ou –) da bupivacaína racêmica, sendo ambas, levobupivacaína e bupivacaína, clinicamente similares. Estudos experimentais demonstraram que tanto o bloqueio motor quanto o sensitivo são também semelhantes. Uma vantagem da levobupivacaína é o menor tempo de instalação de sua ação em relação à bupivacaína racêmica, sendo este fato importante na prática clínica. A levobupivacaína apresenta menor toxicidade tanto no sistema cardiovascular quanto no SNC. Entretanto, a dose recomendada continua sendo 2 mg/kg e é contraindicada para a anestesia intravenosa. Cloridrato de ropivacaína É o primeiro anestésico local utilizado exclusivamente na forma levogira. Possui grupamento aminoamida, estruturalmente bastante similar à bupivacaína, e promove ação de longa duração. Tem propriedades vasoconstritoras intermediárias, não necessitando da adição de epinefrina. Do ponto de vista farmacocinético, após infusão intravenosa, a ropivacaína apresenta meiavida de eliminação mais curta que a bupivacaína (T½bro = 26 min, T½bbu = 39 min). É menos cardiotóxica que a bupivacaína e, em doses equipotentes, a ropivacaína produz menor grau de bloqueio motor e maior propensão para bloquear as fibras Aδ e C, propriedades vantajosas para anestesia epidural. Sumarizando, a ropivacaína promove bloqueio sensitivo semelhante ao da bupivacaína, mas o bloqueio motor demora mais para se instalar, sendo menos pronunciado e de menor duração. Mistura enantiomérica da bupivacaína (S75/R25) A mistura com excesso enantiomérico de 50% tem tido ampla utilização em nosso meio, sendolhe reputada, inclusive, menor toxicidade. A menor toxicidade cardíaca do isômero S(–) seria devida à sua menor afinidade pelos canais de sódio das células cardíacas, inferior àquela do isômero R(+) que foi demonstrada em cobaias. Tais dados, no entanto, devem ser analisados com alguma reserva antes de serem extrapolados para outras espécies animais. QUADRO 12.4 Uso de procaína. Anestesia local Uso Espécie Procaína Anestesia infiltrativa Caudectomia, descorna, ruminotomia, cesarianas Canina, caprina e bovina e ruminantes bovinos 1 a 2% Anestesia epidural Cirurgias obstétricas e perineais Grandes animais 5 a 10 mℓ de solução a 4% Anestesia perineural Bloqueia nervos digitais; enucleação Equina, bovina 2 a 5 mℓ de solução a 4% QUADRO 12.5 Uso de lidocaína. Anestesia local Espécie Lidocaína Tópica (5%) Felinos e equinos Para intubação orotraqueal – spray (10%), gel ou solução (1 a 2%) Infiltração Pequenos e grandes animais 0,5 a 2% Perineural Pequenos e grandes animais 1 a 2% Anestesia epidural Pequenos e grandes animais 1 a 2% Intra-articular Principalmente equinos 1 a 2% BIBLIOGRAFIA Arthur, G.R.; Feldman, H.S.; Covino, B.G. 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