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HISTAMINA A histamina foi sintetizada no início do século 20, mas suas propriedades fisiológicas foram descobertas apenas mais tarde. Esta mesma amina, tal como ocorreu com a acetilcolina, foi encontrada como uma toxina contaminante de extratos do ergot, capaz de promover a contração da musculatura uterina. A partir de 1910, Dale e Laidlaw iniciaram o estudo da histamina, descobriram suas ações na musculatura lisa e nos vasos, levantando a hipótese de sua participação em fenômenos fisiológicos e patológicos do organismo. Em 1927, Best et al. demonstraram a presença da histamina em amostras de fígado e de pulmão. Em tecidos animais, a função da histamina, ou βaminoetilimidazol, foi primeiramente caracterizada como mediadora dos processos inflamatórios e, posteriormente, sua participação também foi confirmada como um modulador importante de numerosos processos fisiológicos, incluindo as reações alérgicas, proliferação celular (incluindo reparação tecidual e estimulação do crescimento de certas neoplasias), angiogênese, permeabilidade vascular, anafilaxia e na secreção gástrica. Assim, embora a própria histamina não seja usada como um medicamento, o emprego de seus antagonistas (os chamados antihistamínicos) tem grande importância terapêutica em diversas enfermidades na Medicina Veterinária.A liberação da histamina endógena é responsável pela sintomatologia ou contribui para o agravamento do quadro clínico promovido por determinada moléstia primária. Síntese, armazenamento e liberação A histamina é uma amina primária sintetizada no organismo a partir do aminoácido histidina, que sofre descarboxilação através da enzima histidinadescarboxilase (Figura 18.1), uma enzima que se expressa nas células de todo organismo, inclusive nos neurônios do SNC, nas células da mucosa gástrica parietal, nas células tumorais, nos mastócitos e nos basófilos. Apesar de esta enzima estar presente em diversos tipos de células e em bactérias da flora intestinal, acreditase que a histamina ingerida ou produzida por estes microrganismos não contribua para o seu estoque orgânico. Além disso, a administração oral de histamina não promove o aparecimento de qualquer efeito farmacológico, já que é rapidamente biotransformada no fígado e pelas bactérias presentes no intestino. A histamina está amplamente distribuída nos tecidos de mamíferos, sendo que sua concentração varia de acordo com o tecido e a espécie animal. A histamina também está presente como componente de venenos e nas secreções de picaduras de insetos. ■ Figura 18.1 Síntese da histamina. Após sua síntese no complexo de Golgi, a histamina é transportada para o interior de grânulos citoplasmáticos, onde é armazenada em associação iônica com resíduos de glicosaminoglicanos, heparina e proteases, formando um complexo inativo. As principais células que contêm estes grânulos são os mastócitos teciduais e basófilos presentes na circulação (sendo responsáveis por mais de 90% das reservas de histamina dos mamíferos) que, além da histamina, podem promover também a liberação de heparina, bradicinina e serotonina. A histamina pode também ser encontrada em outras células do sistema gastrintestinal, endoteliais, na derme, em alguns neurônios do SNC (hipotálamo), em células em crescimento ou de tecidos em regeneração. No SNC de mamíferos, a histamina é sintetizada no núcleo tuberomamilar do hipotálamo, e os neurônios desta região projetamse difusamente pelo cérebro e estão envolvidos em diversas funções, tais como sono/vigília, secreção hormonal, controle do sistema cardiovascular, termorregulação, apetite, aprendizado e memória. Além disso, a atividade da enzima histidinadescarboxilase pode ser induzida por diversas situações em várias linhagens de células mieloides e linfoides, como neutrófilos e linfócitos T. No interior de mastócitos e basófilos, a histamina é produzida lentamente e a sua taxa se renovação é baixa; entretanto, fora destes locais, ela é sintetizada e liberada continuamente, sendo pouco estocada e apresentando, portanto, efeitos fisiológicos e farmacológicos diferentes daqueles apresentados pela histamina contida em mastócitos e basófilos. A liberação da histamina pode ser a principal resposta a uma lesão, embora seja, na maioria das vezes, apenas um dos mediadores químicos envolvidos. Sendo assim, a liberação de seus locais de armazenamento pode ocorrer após ação de agentes que causem a lise das células (como toxinas e agentes físicos), agentes sensibilizantes ou por estimulação direta, como ocorre por alguns medicamentos (p. ex., a dtubocurarina). Biotransformação A biotransformação da histamina pode ocorrer através de reações de metilação ou de oxidação, por meio de duas vias metabólicas. A histamina pode ser transformada em Nmetilhistamina pela ação da Nmetiltransferase ou imidazolNmetiltransferase. A Nmetilhistamina, por sua vez, sofre principalmente a ação da monoaminoxidase (MAO), formando o ácido metilimidazolacético. A histamina pode também passar por desaminação oxidativa através de reação catalisada pela histaminase (diamina oxidase), originando o ácido imidazolacético (Figura 18.2). Pequena quantidade de histamina é eliminada pela urina, após sofrer acetilação no sistema gastrintestinal (1%) ou na forma de histamina livre (2 a 3%). Receptores da histamina A histamina liberada promove seus efeitos fisiológicos ou patológicos pela ligação a receptores de superfície localizados nas diversas célulasalvo. Até o momento, foram reconhecidos quatro tipos de receptores histaminérgicos (chamados de H1, H2, H3 e H4). Cabe ressaltar que o número do receptor da histamina referese à cronologia do seu descobrimento. Em 1966, por meio de estudos utilizando a pirilamina como bloqueador de alguns efeitos de histamina, Ash e Shild mostraram a existência dos receptores H1 e H2. O terceiro tipo de receptor (H3), foi descrito por Lovenberg et al. em 1999 e, mais recentemente (2000), o quarto tipo de receptor (H4) foi relatado por Oda et al. Algumas das funções desempenhadas por cada um destes receptores já foram esclarecidas, mas a exata participação deles nas diversas ações fisiológicas e patológicas, bem como o papel desempenhado em cada tecido do organismo ainda estão sendo amplamente estudados, dada a grande complexidade dos mecanismos que os envolvem e a possibilidade de exibirem respostas diferentes entre as espécies animais. ■ Figura 18.2 Vias metabólicas de biotransformação da histamina. Todos os receptores da histamina apresentam sete domínios helicoidais transmembrana e realizam a transdução de sinais extracelulares por meio de sistemas de segundo mensageiro mediados pela proteína G. O receptor H1 é encontrado em diversos tecidos do organismo, sendo identificado em células do cérebro, musculatura lisa das vias respiratórias, sistema gastrintestinal e geniturinário, medula da adrenal, sistema imune, coração e endotélio vascular. Este receptor está relacionado a várias funções celulares, como contração da musculatura lisa dos brônquios, intestino e vasos, aumento da permeabilidade vascular (a histamina estimula o endotélio a liberar o óxido nítrico produzido a partir a Larginina) e no desenvolvimento da maioria dos processos alérgicos e anafiláticos (como asma, rinites, alergia alimentar, a picada de insetos ou a medicamentos, atopia e outras). É o principal subtipo de receptor de histamina envolvido com inflamação aguda e desordens alérgicas nos animais e no ser humano. A ligação da histamina a este tipo de receptor também aumenta a síntese de prostaglandina E. Os receptoresH1 são acoplados à proteína G que atuam pelo sistema fosfolipase C/fosfato de inositol. Os receptores H2 estão presentes no estômago, vasos, SNC e também no sistema respiratório; sua função neste último local ainda é desconhecida. Também são receptores acoplados à proteína G pelo sistema adenilato ciclase/cAMP. O acúmulo intracelular de AMP cíclico promove o aumento da atividade metabólica em células mesenquimais, neurônios e do sistema imune. Além disso, diferente do que ocorre com os receptores H1, apresenta diversos efeitos inibitórios, como redução na síntese de anticorpos, da proliferação dos linfócitos T e da produção de citocinas. Alguns locais de ação da histamina, de acordo com o receptor H1 ou H2, são ilustrados pela Figura 18.3. Os receptores H3 são responsáveis pelo controle da liberação da histamina, ou seja, são receptores pré sinápticos (autorreceptores) que inibem a liberação da histamina, por meio da inibição da adenilato ciclase, via proteína G inibitória. Podem funcionar também como heterorreceptores, pois estão presentes em outras terminações nervosas e são capazes de inibir a síntese e a liberação de outros neurotransmissores, como a acetilcolina, dopamina, norepinefrina e serotonina. Foram descobertas pelo menos três isoformas deste receptor ■ ■ ■ ■ ■ ■ em ratos (H3A, H3B e H3C) e duas em seres humanos, as quais são expressas de maneira diferente em diversas áreas do cérebro; estes fatos sugerem que as funções biológicas mediadas por este tipo de receptor podem ser reguladas por meio de mecanismos alternativos. Entre as funções cerebrais associadas a estes receptores estão processos de aprendizado/memória e regulação do apetite. Além disso, a ativação de receptores H3 em suínos foi capaz de inibir a vasoconstrição simpática da mucosa nasal em suínos, indicando que este tipo de receptor pode ter algum efeito na regulação do tônus vascular em doenças nasais congestivas de origem alérgica. Os receptores H4 funcionam também acoplados à proteína G e estão intimamente associados aos receptores do tipo H3. Embora a ligação da histamina a estes receptores ocorra de maneira semelhante à que ocorre com os demais receptores, existem diferenças que podem sugerir que o desenvolvimento de agentes com especificidade de ligação a estes receptores pode ser benéfico em algumas enfermidades, principalmente naquelas relacionadas ao sistema imune e a reações inflamatórias, como a asma e a alergia. Os receptores H4 são encontrados principalmente em mastócitos e eosinófilos em diversos tecidos do organismo, como intestino, baço, timo e em outras células do sistema imune, como neutrófilos, monócitos e linfócitos T. A ligação da histamina a estes diferentes tipos de receptores é capaz de desempenhar uma série de funções, entre as quais destacamse: Vasodilatação arteriolar (participação dos receptores H1 e H2) Aumento da permeabilidade capilar (principalmente H1) Secreção ácida gástrica (participação do receptor H2) Broncoconstrição (participação do receptor H1) Alteração da frequência cardíaca (participação do receptor H2) Participação nas reações anafiláticas e alérgicas (como asma, rinites, alergia alimentar, a picada de insetos ou a medicamentos, atopia e outras). Recentemente, foi demonstrado que a histamina pode regular a resposta de linfócitos T e de anticorpos por meio de receptores H1 e H2. Além disso, o receptor H4 também é relacionado a funções do sistema imunológico. Efeitos fisiológicos, farmacológicos e patológicos da histamina Inflamação e hipersensibilidade A histamina é um dos mediadores da inflamação, sendo liberada principalmente de mastócitos dos tecidos lesados ou de basófilos sanguíneos após o estímulo desencadeado pela reação inflamatória, danos físicos ou reações alérgicas. A liberação da histamina promove a sensação de dor e de prurido, que é levada ao SNC por meio de terminações nervosas sensitivas. Em neurônios histaminérgicos localizados no SNC, a histamina funciona como um neurotransmissor e, em nervos histaminérgicos eferentes periféricos, a histamina participa também produzindo vasodilatação. Além disso, a histamina pode intensificar a resposta inflamatória por ser quimiotática para eosinófilos e neutrófilos. As imunoglobulinas E (IgE), que participam das reações alérgicas do tipo antígenoanticorpo, têm grande afinidade de ligação a mastócitos e basófilos, de tal forma que uma única célula desta pode estar ligada a mais de 500 mil moléculas de IgE. Assim, quando a reação antígenoanticorpo ocorre com imunoglobulinas já ligadas a mastócitos ou basófilos, há a ruptura destas células ou a liberação de seus grânulos, com consequente liberação de grandes quantidades de diversos mediadores (bradicinina, serotonina, heparina, fatores quimiotáticos, fatores de ativação plaquetária e enzimas lisossômicas) e de histamina, promovendo o desenvolvimento de diversos sinais clínicos, como edema e hipotensão, que podem evoluir até a ocorrência de choque circulatório e morte. Neste processo, a liberação da histamina pode estar relacionada ao cAMP. Quando há aumento da concentração de cAMP, é reduzida a liberação desta amina, ao mesmo tempo que agentes que ativam a adenilato ciclase, como as catecolaminas, ou que inibem a fosfodiesterase, como a teofilina, podem também inibir a liberação da histamina. ■ Figura 18.3 Alguns dos principais locais de ação da histamina, de acordo com seus receptores H1 e H2. Sendo assim, após o estímulo desencadeante, a liberação da histamina e dos demais mediadores dos seus locais de armazenamento pode promover uma resposta alérgica localizada ou generalizada. Se a liberação da histamina ocorre de forma lenta, permitindo sua inativação antes de atingir a corrente sanguínea, a reação será localizada. Entretanto, se a liberação for rápida o bastante para impedir uma inativação satisfatória, a reação será generalizada. Secreções A histamina estimula a secreção do pâncreas e das glândulas salivares, lacrimais e brônquicas. No entanto, tem maior importância a ação da histamina na secreção gástrica, constituída de ácido clorídrico e de pepsina. Os principais neurotransmissores e hormônios envolvidos na secreção do ácido gástrico são a acetilcolina, a histamina e a gastrina (ver Capítulo 33). A acetilcolina estimula todas as células gástricas secretoras, incluindo as células pépticas, parietais e mucosas, que secretam respectivamente pepsinogênio, ácido clorídrico e muco. Por outro lado, a histamina (produzida pelas células enterocromafins) e a gastrina podem estimular principalmente a secreção das células parietais. Assim, a produção e a secreção do ácido gástrico pelas células parietais vai ser proporcional à quantidade de histamina liberada. Entretanto, a liberação deste autacoide envolve principalmente a ação da gastrina (produzida basicamente na porção antral da mucosa gástrica), mas a acetilcolina também pode estimular as células enterocromafins. Devese ressaltar que os receptores histaminérgicos relacionados à secreção ácida gástrica são os do tipo H2. Sistema cardiovascular A histamina promove vasodilatação, sendo a hipotensão o efeito resultante geralmente observado na maioria das espécies, incluindo o ser humano, os cães, gatos e macacos. Os vasos de maior calibre, no entanto, tendem a contrairse pela ação da histamina. Em algumas espécies animais, como, por exemplo, em coelhos, a vasoconstrição pode promover aumento da resistência vascular com consequente aumento da pressão arterial; nesta espécie, a hipertensão é o efeito esperado. Além disso, a histamina estimula a liberação de catecolaminas pelas células cromafins da medula da adrenal, contribuindo paraa ocorrência do efeito hipertensor. Assim, a ação final da histamina nos vasos vai depender da espécie animal e do balanço final entre a vasoconstrição em vasos de maior calibre e da vasodilatação em pequenos vasos. Por outro lado, quando administrada localmente, a histamina promove vasodilatação na maioria dos tecidos. Os efeitos no sistema vascular estão relacionados aos receptores H1 e H2. Os receptores H1 (devido a sua alta afinidade) são estimulados por baixas doses de histamina e causam a ativação da óxido nítrico sintetase endotelial (eNOS) das células endoteliais dependente de Ca2+; o ácido nítrico (NO) então formado difundese para musculatura lisa dos vasos sanguíneos, aumenta o monofosfato cíclico de guanosina (cGMP) e produz o efeito rapidamente, tendo curta duração; também estão envolvidos no aumento da permeabilidade vascular. Ao contrário, os receptores H2 (presentes na musculatura lisa dos vasos sanguíneos) respondem a doses mais elevadas de histamina, e estimulam a via do monofosfato cíclico de adenosina (cAMP), causando dilatação de maneira mais lenta e com efeitos persistentes. Por esta razão, os antagonistas H1 revertem de forma eficaz as respostas vasodilatadoras brandas às concentrações baixas de histamina, mas apenas atenuam a fase inicial das respostas mais intensas às concentrações mais elevadas desta amina. No entanto, a proporção em que estes receptores estão envolvidos varia consideravelmente nas diferentes espécies. O efeito vasodilatador local da histamina, associado à sua capacidade de aumentar a permeabilidade capilar, com consequente extravasamento de fluido e de proteínas plasmáticas para os tecidos, promove o aparecimento do edema. Este efeito se dá principalmente pela ação histaminérgica nas células endoteliais, por meio de receptores H1. Em alguns casos graves, como em reações alérgicas e no choque anafilático, a ação da histamina e de outros mediadores que causam vasodilatação promove efeitos sistêmicos na pressão arterial (redução devido à vasodilatação de arteríolas) e no retorno venoso (redução consequente à vasodilatação de vênulas e à perda de fluidos pela permeabilidade vascular), podendo levar a rápida ocorrência de choque e morte após poucos minutos. Experimentalmente, a participação da histamina em processos inflamatórios pode ser observada após a administração subcutânea deste mediador, sendo os efeitos conhecidos como “tríplice reação de Lewis”, istoé: mácula (vermelhidão local decorrente da vasodilatação), pápula (edema local consequente ao aumento da permeabilidade vascular em arteríolas, vênulas e capilares) e eritema (vermelhidão difusa). No coração, a administração de histamina pode provocar a estimulação de receptores H2 e a liberação de norepinefrina, produzindo efeito inotrópico positivo. Musculatura lisa extravascular A ação em receptores H1 promove a contração da musculatura lisa dos brônquios na maioria dos mamíferos (homem, cão, equino, suíno, caprino, coelhos, bovinos), sendo a cobaia particularmente sensível a este efeito, levando frequentemente à ocorrência de broncoconstrição grave e fatal durante a anafilaxia. Em ovinos, a histamina relaxa esta musculatura através de receptores H2 e, em gatos, ocorre relaxamento da musculatura lisa da traqueia por meio dos receptores H1 e H2. Na maioria das espécies, a histamina também promove contração uterina (com exceção dos ratos) e contração intestinal (por meio de receptores H1). Sistema nervoso central A participação da histamina em funções fisiológicas centrais é bastante complexa e envolve os receptores H1, H2 e H3, além de diversos outros neurotransmissores. Entre estas funções estão controle do estado de vigíliasono, controle do apetite, aprendizado e memória, comportamento agressivo e emoção. Agonistas e agentes liberadores de histamina O uso de agonistas de receptores da histamina não tem importância na clínica médica veterinária, tendo sido empregados apenas em modelos experimentais. Em Medicina Humana, a histamina já foi empregada para o diagnóstico da acloridria, do feocromocitoma e na avaliação sensorial e circulatória cutânea através da resposta tríplice de Lewis. A impromidina tem emprego clínico na avaliação da capacidade de secreção gástrica. O Quadro 18.1 mostra exemplos de agonistas de receptores histaminérgicos. Existem alguns agentes capazes de estimular a liberação de histamina, produzindo os sinais clínicos clássicos, e que são suscetíveis ao bloqueio exercido pelos antihistamínicos. O principal representante deste grupo é a substância química conhecida como 48/80, além de dextrana, histona e outras substâncias. Da mesma forma, a administração de altas doses de alguns medicamentos é capaz de promover a liberação de histamina, com consequente produção de efeitos colaterais. Entre estes agentes estão a morfina, os alcaloides do curare, a polimixina, a codeína, a papaverina, a meperidina e a atropina. QUADRO 18.1 Alguns agonistas de receptores da histamina. H1 H2 H3 H4 2-metil-histamina 2-fenil-histamina Fluorofenil-histamina Histaprodifeno HTMT-dimaleato Pirimidil-etilamina Tiazoliletilamina Antamina Betazol Dimaprit Impromidina Alfametil-histamina imetit Immepip Proxifan 4-metil-histamina Imetit Clozapina Dimaprit OUP16 VUF 8430 Vale destacar também que alguns tipos de peixes, principalmente os da família Scombridae (atuns, bonitos, cavalas, cavalinhas) e outros, como a anchova e a sardinha, apresentam altas concentrações do aminoácido histidina em sua musculatura. A manipulação, a estocagem e o transporte do pescado em condições inadequadas de refrigeração permitem que bactérias contaminantes promovam a descarboxilação desse aminoácido, formando a histamina. A ingestão da carne do peixe contendo altos níveis de histamina é responsável pelo rápido desenvolvimento (poucos minutos a algumas horas) de um quadro tóxico conhecido como escombrotoxicose e a histamina, nestes casos, é chamada de escombrotoxina. Outras aminas biogênicas, como a putrescina e a cadaverina, têm sido sugeridas como potencializadoras da toxicidade promovida pela histamina. O cozimento da carne ou o seu processamento não são capazes de destruir a histamina formada. Os sinais clínicos surgem rapidamente e se assemelham àqueles relacionados às reações alérgicas mediadas pela IgE, incluindo eritema cutâneo (principalmente da face e do pescoço), náuseas, êmese e diarreia. Complicações como hipotensão, broncospasmos e insuficiência respiratória são menos frequentes. Antagonistas da histamina Os antagonistas de receptores da histamina, também conhecidos como antihistamínicos, são agentes capazes de interagir de maneira reversível com receptores da histamina impedindo a sua ação, sem, contudo, estimular estes receptores. Este antagonismo é do tipo competitivo, ou seja, o bloqueio pode ser revertido quando for aumentada a concentração da histamina ou de outro agonista destes receptores. As primeiras evidências experimentais de que os efeitos da histamina poderiam ser antagonizados foram observadas por Bovet e Staub em 1937, através de uma substância conhecida como 929F, capaz de prevenir a morte de cobaias expostas a doses elevadas de histamina. Em vista da grande aplicação clínica de agentes com este tipo de propriedade, iniciouse, então, a busca de agentes com baixa toxicidade e capazes de antagonizar os efeitos indesejáveis produzidos pela liberação da histamina endógena. Os antihistamínicos podem ser classificados de acordo com o seu local de ação em quatro categorias: antagonistas de receptores H1, antagonistas de receptores H2, antagonistas de receptores H3,antagonistas de receptores H4 e de inibidores da liberação da histamina. Atualmente, apenas os antagonistas de receptores H1 e H2 têm alguma aplicação clínica em Medicina Veterinária. Antagonistas de receptores H1 A estrutura química destes agentes é resultante de modificações da própria molécula da histamina, podendo ser também classificados de acordo com sua estrutura química como etalonaminas, etilenodiaminas, alquilaminas, piperazinas, fenotiazinas e piperidinas, ou ainda como agentes de primeira (os cinco primeiros grupos) ou segunda geração (piperidinas). A Figura 18.4 mostra a estrutura química geral destes agentes. Nesta, notase que uma porção da molécula é a etilamina (CH2CH2NH2), responsável pela capacidade destes agentes de competirem com a histamina pelos mesmos receptores. Os radicais R1 e R2 podem ser grupamentos arila, X pode ser o átomo de nitrogênio nas etilenodiaminas, o átomo de carbono nas alquilaminas ou a ligação tipo éter (– C – O –), nas etanolaminas. Estes antagonistas podem ainda apresentar estrutura com cadeia aromática, como ocorre com as fenotiazinas ou com o grupo etilamina ligado a estrutura cíclica, como mostram as piperazinas. ■ Figura 18.4 Estrutura química geral dos antagonistas de receptores H1. Os antagonistas de receptores H1 são bem absorvidos pela via oral em animais monogástricos, com período de latência para seus efeitos de 30 min e com pico de ação ocorrendo entre 1 e 6 h. Em poligástricos, a latência para o início da ação é de 20 a 45 min após a administração pela mesma via, com duração de efeitos de 3 a 12 h. Apresentam alta lipossolubilidade e alguns deles podem penetrar na barreira hematencefálica, causando sedação. Por isso, a via intravenosa deve ser evitada em alguns casos, devido à possibilidade da ocorrência de efeitos centrais. Entretanto, muitos dos antihistamínicos de segunda geração não penetram no SNC, não sendo sedativos ou possuindo fraco potencial para sedação. A biotransformação é hepática, sendo capazes de ativar o sistema microssomal hepático, facilitando esse processo. As principais propriedades farmacológicas destes antihistamínicos que podem ter utilidade na prática clínica veterinária incluem o controle de alguns tipos de reações inflamatórias e alérgicas, como as promovidas pela picada de insetos (formigas, abelhas), rinites alérgicas e urticária; da cinetose, isto é, náuseas promovidas pelo movimento; e nos casos em que a sedação e a indução do sono sejam indicadas. Estes agentes também podem controlar outras ações da histamina na musculatura lisa (dos brônquios, intestino, útero e vasos). No entanto, vale lembrar que na alergia ou na anafilaxia, outros mediadores também são liberados e, por isso, o uso de outros medicamentos pode ser fundamental para a reversão do quadro clínico ou mesmo para impedir o óbito do animal. Os efeitos de alguns dos bloqueadores dos receptores H1 podem também representar ações não relacionadas ao bloqueio destes receptores, mas com o provável efeito de bloqueio nos receptores colinérgicos (particularmente a prometazina e a difenidramina), adrenérgicos (especialmente a prometazina) e serotoninérgicos. A Figura 18.5 ilustra a estrutura química de alguns antihistamínicos H1, e o Quadro 18.2 mostra alguns destes antagonistas empregados em Medicina Veterinária, sua posologia e especialidades farmacêuticas. Os antagonistas de receptores H1 são capazes de antagonizar a vasodilatação ou a vasoconstrição mediada pela histamina, além do aumento da permeabilidade vascular e do prurido promovidos por esta amina. Também impedem a estimulação da adrenal e dos gânglios autonômicos, bem como a secreção de diversas glândulas, com exceção da secreção gástrica, onde estão envolvidos receptores H2. Outro efeito que pode ser de utilidade clínica é a redução da cinetose (ver Capítulo 33), mas este efeito pode se dar em virtude da ação anticolinérgica destes agentes nos receptores muscarínicos. O dimenidrinato e a prometazina são exemplos de agentes com ação potente anticinetose. Como citado anteriormente, alguns antagonistas de receptores H1 são capazes de atravessar a barreira hematencefálica, promovendo efeitos depressores, como sonolência, redução do estado de alerta e dos reflexos. Por isso, podem potencializar os efeitos depressores de outros medicamentos, como tranquilizantes e anestésicos. A terfenadina e o astemizol, por produzirem arritmias cardíacas fatais, foram retirados do mercado, e a loratadina, por não atravessar a barreira hematencefálica, permanece para o uso clínico. ■ Figura 18.5 Estrutura química de alguns antagonistas de receptores H1. QUADRO 18.2 Classificação de alguns antagonistas de receptores de H1 utilizados em Medicina Veterinária e posologia sugerida na literatura. Classificação (especialidades) Posologia Cães Gatos Ferrets Ruminantes e equinos Suínos Aves Etanolaminas Difenidramina 2 a 4 mg/kg, VO, a cada 6 a 12 h 1 mg/kg IM, SC, IV, a cada 8 a 12 h Não exceder a dose total de 40 mg 2 a 4 mg/kg, VO, a cada 6 a 12 h ou 1 mg/kg, IM, SC, IV, a cada 8 a 12 h 0,5 a 2 mg/kg, a cada 8 a 12 h, VO, ou a cada 12 h, IM _ _ 2 a 4 mg/kg, VO, IM profunda, a cada 12 h 2,2 mg/ℓ na água de bebida 0,06 a 0,1 mℓ da solução pediátrica a cada 10 mℓ de água de beber Dimenidrinato 4 a 8 mg/kg, VO, IM, IV, a cada 8 a 12 h 4 a 8 mg/kg, VO, IM, IV, a cada 8 a 12 h Não exceder a dose total de 12,5 mg _ _ _ _ Clemastina 0,05 a 0,1 mg/kg, 0,67 mg/gato, VO, a _ _ _ _ VO, a cada 12 h cada 12 h, ou 0,1 mg/kg, VO, a cada 12 h Etilenodiaminas Tripelenamina _ _ _ 0,4 a 1,1 mg/kg, IM, IV, a cada 8 a 12 h _ _ Alquilaminas Clorfeniramina ou Clorfenamina 0,5 a 1 mg/kg, VO, a cada 8 a 12 h Prurido 0,22 mg/kg, VO 1 a 2 mg/gato VO, a cada 8 a 12 h Prurido 2 a 4 mg/gato VO 1 a 2 mg/kg, VO, a cada 8 a 12 h _ _ _ Piperazinas Hidroxizina 0,5 a 2 mg/kg, VO, IM, a cada 6 a 8 h Prurido: 1 a 2,2 mg/kg, VO, a cada 8 a 24 h Alteração comportamental: 2,2 mg/kg, VO, a cada 8 a 12 h Não exceder a dose total de 90 mg 10 mg VO, a cada 12 h Alteração comportamental: 2,2 mg/kg, VO, a cada 8 a 12 h 2 mg/kg, VO 0,5 a 1 mg/kg, VO, IM, a cada 8 h _ _ Fenotiazinas Prometazina 0,2 a 0,4 mg/kg (dose máxima 1 mg/kg), VO, SC, IM, a cada 8 a 12 h 0,2 a 0,4 mg/kg (dose máxima 1 mg/kg), VO, SC, IM, a cada 8 a 12 h _ 1 mg/kg, IM, IV 1 mg/kg, IM, IV 1 mg/kg, IM, IV IM: via intramuscular; IV: via intravenosa; SC: via subcutânea; VO: via oral. A sedação é o efeito colateral mais comum observado após a administração destes compostos em doses terapêuticas ou nos quadros de intoxicação. Podem ocorrer também incoordenação motora e prostração e, em doses elevadas, alucinações, excitação, ataxia, convulsões, hipertermia, colapso cardiorrespiratório e morte. A gravidade destes sinais é dosedependente e o tratamento inclui medidas de descontaminação do sistema gastrintestinal, sintomáticas e de suporte, pois não há antídoto específico. Outros efeitos colaterais que podem ocorrer com o uso destes medicamentos são distúrbios do sistema gastrintestinal (náuseas, êmese, constipação intestinal ou diarreia) e reações de sensibilidade. Além disso, alguns destes medicamentos podem apresentar efeitos anticolinérgicos, causando midríase, taquicardia e boca seca. Por isso, pacientes em tratamento com inibidores da MAO não devem utilizar antihistamínicos, pois os inibidores podem aumentar os efeitos anticolinérgicos dos antihistamínicos. Experimentalmente foi observada teratogenicidade para roedores com alguns desses produtos; por isso, seu uso deve ser cauteloso em animais prenhes. O Quadro 18.3 mostraos principais efeitos colaterais observados após o uso de antagonistas de receptores H1. Antagonistas de receptores H2 Os antagonistas de receptores H2 são compostos com estrutura química formada pela porção imidazol da molécula de histamina e modificação de sua cadeia lateral. Apresentam pouca ou nenhuma afinidade pelos receptores H1. Os primeiros antagonistas destes receptores sintetizados foram a burimamida e a metiamida; porém, a cimetidina foi o primeiro fármaco de importância clínica, sendo obtida da modificação da molécula da metiamida, que, apesar de possuir ação potente sobre receptores H2, apresenta alta nefrotoxicidade e promove agranulocitose em seres humanos. A redução desta toxicidade foi obtida pela adição de um grupo ciano no lugar do grupamento tiol existente na molécula da metiamida (Figura 18.6). QUADRO 18.3 Intensidade dos efeitos adversos observados com o uso de antihistamínicos H1. Anti-histamínicos SNC Sistema gastrintestinal Ação anticolinérgica CoraçãoEstimulação Depressão Primeira geração Etanolaminas Baixa Alta Baixa Alta Sem efeito Etilenodiaminas Baixa Moderada Alta Baixa Sem efeito Alquilaminas Alta Moderada Moderada Baixa Sem efeito Piperazinas Baixa Baixa Baixa Baixa Sem efeito Fenotiazinas Baixa Moderada Baixa Baixa Sem efeito Segunda geração Piperidinas Sem efeito Sem efeito Sem efeito Sem efeito Baixa SNC: sistema nervoso central. ■ Figura 18.6 Estrutura química da metiamida e da cimetidina. Embora estes antagonistas bloqueiem a ação da histamina em todos os receptores H2, seu principal uso terapêutico é a redução da secreção gástrica (por reduzirem as concentrações intracelulares de cAMP) no tratamento de gastrites e úlceras, diminuindo a acidez e acelerando a cicatrização (para detalhes, veja Capítulo 33). Cabe ressaltar que estes agentes inibem a secreção do ácido gástrico estimulada pela histamina, mas têm pouco ou nenhum efeito inibidor contra a secreção induzida pela acetilcolina e a gastrina. A cimetidina é muito empregada nestes casos. Além desta, foram desenvolvidos outros antagonistas de H2, como a ranitidina (ação 5 a 10 vezes superior à da cimetidina), a nizatidina (ação semelhante à da ranitidina) e a famotidina (ação 20 a 50 vezes superior à da cimetidina e 3 a 20 vezes a da ranitidina). Estes agentes também podem ser divididos em agentes de primeira (cimetidina e metiamida), segunda (ranitidina) ou terceira geração (nizatidina e famotidina). A biotransformação de cimetidina, ranitidina e famotidina é hepática. A cimetidina tem baixa meiavida sérica, estando esta aumentada nos pacientes com insuficiência renal. A nizatidina é eliminada principalmente pelos rins e sua biodisponibilidade é próxima a 100%, (ocorre pouca biotransformação de primeira passagem). Apesar da ampla distribuição dos receptores H2 no organismo, os antagonistas destes receptores praticamente não interferem com outras funções do organismo. Apresentam especificidade por este tipo de receptor, sendo capazes de impedir as ações da histamina por ele mediadas, como, por exemplo, na estimulação da secreção gástrica, contração da musculatura uterina e efeitos no sistema cardiovascular. No entanto, o uso destes agentes pode interferir na absorção de medicamentos pHdependentes. Além disso, a ranitidina e a nizatidina possuem efeito procinético por apresentarem também efeito anticolinesterásico, aumentando a motilidade gastrintestinal e podendo agravar os quadros em que há obstrução do sistema digestório. Entre os efeitos colaterais destes medicamentos estão náuseas, diarreia ou constipação intestinal, prurido e perda da libido. Efeitos no SNC, como alucinações, podem ocorrem em pacientes idosos ou após a administração pela via intravenosa. Por inibir o sistema oxigenase de função mista do fígado, a cimetidina pode interferir na biotransformação de inúmeros fármacos (como diazepam, varfarina, fenitoína, quinidina, carbamazepina, teofilina, imipramina), causando aumento da concentração sérica destas substâncias; além disso, a dosagem da cimetidina deve ser reduzida nos indivíduos com insuficiência renal e hepática. Foi descrita a ocorrência de efeito antiandrogênico e estimulante da prolactina e diminuição da contagem espermática com o uso da cimetidina. Fármacos que dependem de meio ácido para a absorção, como o cetoconazol, podem ter sua eficácia reduzida quando da administração concomitante com os antagonistas H2. Antagonistas de receptores H3 e H4 Os antagonistas de receptores H3 foram desenvolvidos com a potencial finalidade terapêutica de melhorar o estado de alerta em seres humanos por meio do aumento da liberação de histamina do SNC e em outras enfermidades, como Alzheimer, epilepsia, distúrbios de atenção e obesidade. Considerandose a alta similaridade existente entre os receptores H3 e H4, não é incomum que haja agentes com ação em ambos receptores, como a tioperamida. No entanto, estes antagonistas ainda não têm sido aplicados na rotina clínica de pacientes animais, mas sim na investigação da participação dos receptores H3 e H4 em diversos mecanismos e possíveis usos clínicos de seus antagonistas. Por exemplo, há estudos em animais de laboratório usando antagonistas de receptores H3 e H4 na investigação da dor neuropática, como os denominados GSK189254 e GSK334429 (antagonistas H3), JNJ 7777120 (antagonista H4) e a tioperamida (antagonista H3 e H4). Inibidores da degranulação de mastócitos Neste grupo de agentes encontramse medicamentos como o cromoglicato dissódico, que apresenta aplicação terapêutica em seres humanos como preventivo dos sinais clínicos de asma, rinite e bronquite alérgica. Sua eficácia em Medicina Veterinária é ainda desconhecida. SEROTONINA A 5hidroxitriptamina ou serotonina (5HT) foi descoberta na década de 1930 e atualmente é reconhecida como reguladora da função da musculatura lisa dos sistemas gastrintestinal e cardiovascular, bem como agente que aumenta a agregação plaquetária e um neurotransmissor no sistema nervoso central (SNC). Deste modo, não é de se estranhar que a 5HT seja encontrada em altas concentrações nas células enterocromafins por todo o sistema gastrintestinal, em grânulos de armazenamento nas plaquetas e largamente no SNC. Embora tenha sido implicada como reguladora de inúmeros processos fisiológicos, apenas quatro dos sete subtipos de receptores têm função definida. Provavelmente este fato esteja relacionado aos seus diversos receptores, os quais serão abordados mais adiante, bem como suas possíveis aplicações em Medicina Veterinária. Síntese, armazenamento e biotransformação A 5hidroxitriptamina ou serotonina (5HT) é uma indolamina produto da hidroxilação e carboxilação do aminoácido Ltriptofano, como mostrado na Figura 18.7. O primeiro passo para a síntese da serotonina no SNC, e também em outros locais, como nas células enterocromafins presentes na mucosa gastrintestinal, é a captação do triptofano. O triptofano, oriundo principalmente da dieta proteica, é transportado ativamente por carreadores comuns a outras cadeias de aminoácidos. Portanto, o nível de triptofano, principalmente no cérebro, é influenciado não apenas por sua concentração plasmática, mas também pela concentração plasmática dos outros aminoácidos que competem por estes mesmos carreadores proteicos. De fato, os aminoácidos neutros, tais como tirosina, fenilalanina, leucina, isoleucina e valina, competem com o triptofano também no transporte através da barreira hematencefálica. O Ltriptofano sofre, então, a ação datriptofanohidroxilase, transformandose em L5 hidroxitriptofano. O segundo passo é a transformação do L5 hidroxitriptofano em serotonina. A enzima responsável por esta última conversão é a Lamina ácida descarboxilase, que está amplamente distribuída e tem grande espectro de especificidade a diferentes substratos. Isto torna praticamente impossível controlar os níveis de serotonina cerebral através desta via enzimática. A biotransformação da serotonina pode ocorrer no fígado ou no seu tecido de origem, sendo que a principal via deste processo ocorre em duas etapas e envolve a MAO. Inicialmente, há a desaminação oxidativa da serotonina pela MAO, originando o 5hidroxiindolacetildeído. Em seguida, este pode ser oxidado pela enzima aldeído deidrogenase a ácido 5hidroxiindolacético (5HIAA), seu principal metabólito (Figura 18.8) ou sofrer redução pela aldeído redutase a 5hidroxitriptofol (5HTOL). Estes metabólitos podem passar por glicuronidação ou sulfatação e serem eliminados principalmente pela via urinária. ■ Figura 18.7 Síntese da serotonina. Além da produção da serotonina nas terminações nervosas serotoninérgicas e posterior acúmulo nas vesículas sinápticas, onde fica protegida da MAO, a maior parte da serotonina presente no organismo é sintetizada e armazenada nas células enterocromafins da mucosa gástrica, constituindo a principal fonte da serotonina circulante. Cabe ressaltar que a serotonina não é sintetizada nas plaquetas, sendo apenas captada a partir da circulação e armazenada em grânulos secretores por transporte ativo. Receptores da serotonina A serotonina exerce suas funções por meio da interação com uma variedade de receptores, os quais podem estar relacionados ao sistema de segundo mensageiro, estimulando ou inibindo a adenilciclase e alterando os níveis de cAMP, por meio do sistema fosfolipase C/fosfato de inositol, controlando o fluxo de cálcio, ou ainda pela regulação dos canais iônicos. Recentemente, a utilização de técnicas de biologia molecular, como a clonagem, permitiu a caracterização de novos tipos de receptores da serotonina em animais, o que favoreceu o conhecimento da relação entre estrutura e função, bem como a compreensão dos seus mecanismos de regulação homeostática no desenvolvimento e plasticidade sináptica. Embasado nas suas características estruturais e operacionais, os receptores 5HT estão subdivididos em sete classes distintas (5HT1 a 5HT7), sendo identificados 14 subtipos. Existem pelos menos cinco subtipos de receptores 5HT1, três subtipos de 5HT2, dois subtipos de 5HT5 e apenas um subtipo de 5HT3, 5HT4, 5HT6 e 5HT7. Portanto, tornase clara a existência de grande heterogeneidade de funções que envolvem os receptores serotoninérgicos. ■ Figura 18.8 Via de biotransformação que origina o principal metabólito da serotonina, o ácido 5hidroxi indolacético (5HIAA). De fato, o receptor 5HT1A também atua como um autorreceptor somatodendrítico que modula a atividade dos neurônios serotoninérgicos. A ativação deste receptor parece modular o comportamento emocional e alimentar, funções cognitivas, maturação e diferenciação celular. Os receptores 5HT1B e 5HT1D modulam a liberação de serotonina e de outros neurotransmissores, como, por exemplo, a acetilcolina. Receptores 5HT2 estão envolvidos com o córtex visual, modulação do comportamento alimentar e mediação da vasoconstrição, e o receptor 5HT3 modula a liberação de 5HT e parece estar envolvido em mecanismos de percepção da dor, liberação de acetilcolina e dopamina, bem como motilidade gástrica e secreção de fluidos entéricos. Os receptores 5HT3 e 5HT4 parecem também estar envolvidos com a motilidade gastrintestinal. Efeitos fisiológicos, farmacológicos e patológicos da serotonina A serotonina está envolvida com a regulação de vários mecanismos relacionados ao comportamento, incluindo sono, percepção de dor (nocicepção), depressão e atividade sexual, bem como a regulação da motilidade do sistema gastrintestinal e hemostasia. De fato, a serotonina é uma amina vasoativa que exerce efeitos sistêmicos no sistema cardiovascular (cronotropismo e inotropismo positivos), musculatura lisa (broncoconstrição, estímulo do peristaltismo) e promoção da agregação plaquetária. Quando o endotélio é lesado, ocorre aglutinação plaquetária inicial mediada por substâncias liberadas pelas próprias plaquetas, que será posteriormente acelerada pela liberação da serotonina (estocada nos grânulos das próprias plaquetas), o que leva a hemostasia, pela estimulação do receptor 5HT2. Conforme já citado, a serotina age como um neurotransmissor no SNC, relacionado principalmente ao sistema límbico, controlando reações de ansiedade, medo, sono e percepção à dor. De fato, alterações nos níveis extracelulares de serotonina em áreas do SNC são obtidas durante diferentes estados comportamentais. Sabese que redução nos níveis de serotonina aumenta a sensibilidade para a dor, o comportamento exploratório, a atividade locomotora e o comportamento agressivo e sexual. Em seres humanos e animais, distúrbios psíquicos são associados a alterações das funções da serotonina, como agressividade, comportamento obsessivo e também déficit de atenção. Com relação ao comportamento sexual, a serotonina apresenta efeito inibitório na liberação hipotalâmica de gonadotrofinas, com a consequente diminuição da resposta sexual. Por outro lado, esta redução facilita a conduta sexual. A serotonina é o principal neurotransmissor inibitório do núcleo hipotalâmico ventromedial, região do SNC onde está localizado o centro da saciedade. Este efeito hipotalâmico da serotonina é altamente específico para os carboidratos, necessitando de outros cofatores centrais e periféricos para agir nas proteínas e nos lipídios. Assim, se por um lado a diminuição da serotonina resulta em ganho de peso (efeito observado com o uso de alguns antidepressivos – veja Capítulo 14), o excesso de serotonina, por outro lado, produz anorexia. A serotonina é também um dos principais neurotransmissores do núcleo supraquiasmático hipotalâmico, regulador central de todos os ritmos endógenos circadianos, além de exercer efeito na temperatura corpórea, promovendo hipotermia pela estimulação do receptor 5HT1 e hipertermia pela estimulação do receptor 5HT2. A regulação farmacológica da função serotoninérgica, concomitantemente com o manejo do ambiente (identificação e modificação das condições ambientais em que os animais expressam a sintomatologia, além de treinamento comportamental) e modificação comportamental (identificação e modificação do comportamento do dono que se reflete no do animal) é empregada no tratamento de doenças de animais de companhia (como cães e gatos) e cavalos, como depressão, ansiedade, agressividade, desordem obsessiva compulsiva e fobia social. Neste contexto, sabese que alguns dos mais importantes agentes antidepressivos inibem a recaptação de serotonina. Inibidores seletivos da recaptação da serotonina Os inibidores da receptação da serotonina, como, por exemplo, a fluoxetina, devem ser utilizados de maneira criteriosa pelo médicoveterinário, pois causam secundariamente estimulação dos receptores serotoninérgicos, levando a alguns efeitos adversos, como sedação e perda do apetite. Além disto, são necessárias algumas semanas de tratamento para se notar algum efeito benéfico. Deste modo, recomendase monitoramento contínuo e bem próximo, pela necessidade do ajuste da dose (normalmente 1 a 2 mg/kg a cada 24 h, indicada para o tratamentode fobia a trovões ou barulhos altos, distúrbios de ansiedade e agressividade em cães). Agonistas e antagonistas da serotonina Embora existam diversos agonistas e antagonista de receptores serotoninérgicos, poucos são aqueles com utilização prática em animais, pois sua indicação na terapêutica veterinária ainda não está bem estabelecida. O Quadro 18.4 mostra o emprego terapêutico de alguns deles. A cisaprida, um agonista 5HT4, era comumente empregada no tratamento do íleo paralítico em equinos e, em pequenos animais, no refluxo gastresofágico, regurgitação associada ao megaesôfago idiopático, gastroparesia e megacólon em gatos. Contudo, em seres humanos, foi associada à ocorrência de arritmias cardíacas graves e fatais, o que fez com que a sua comercialização fosse proibida. Experimentalmente, este fármaco foi substituído com sucesso pelo tegaserode (HTF 919 – agonista 5HT4) no tratamento do íleo paralítico em equinos. A ondansetrona, um antagonista 5HT3, tem indicação na clínica de pequenos animais no controle da êmese induzida pela quimioterapia, sendo geralmente fornecida 30 min antes do início da administração do quimioterápico (ver Capítulo 33). Outros exemplos de antagonistas 5HT3 são a granisetrona, a dolasetrona e a tropisetrona, porém, o uso em veterinária é ainda limitado. A trazodona, antagonista 5HT2, é utilizada, em Medicina Humana, no tratamento de depressão profunda, sendo sua eficácia bem documentada em pacientes idosos, como substituto dos benzodiazepínicos, devido a sua eficácia ansiolítica e efeito normalizador do sono em quadros depressivos. Recentemente, em Medicina Veterinária, a trazodona demonstrou ser de grande valia durante a fase póscirúrgica ortopédica, quando há necessidade de tranquilizar o animal, devido ao grande tempo de restrição de movimentos. QUADRO 18.4 Exemplos de alguns agentes agonistas e antagonistas da serotonina, de acordo com o mecanismo de ação. Agente Ação Uso Cetanserina Antagonista receptor 5-HT2 Ovino: pró-cinético Trazodona Antagonista receptor 5-HT2 Cães: auxiliar na restrição de movimentos no pós-cirúrgico Ondansetrona Antagonista receptor 5-HT3 Equino: íleo paralítico Tegaserode Agonista receptor 5-HT4 Cães e gatos: antiemético Uso do precursor da serotonina em Medicina Veterinária Em Medicina Veterinária, foi introduzida recentemente a suplementação alimentar com Ltriptofano que, como já salientado, é um aminoácido essencial e precursor da serotonina. A suplementação com Ltriptofano é feita considerandose que, em situações normais, o aumento da concentração plasmática deste aminoácido eleva a sua captação pelo SNC. Além disso, a enzima triptofano hidroxilase, responsável pela conversão do Ltriptofano em L5 hidroxitriptofano, não é totalmente saturada pelo seu substrato e não há nenhum mecanismo de feedback negativo conhecido para a serotonina. Teoricamente, o aumento nos níveis deste neurotransmissor no SNC equivaleria a um aumento dos níveis de serotonina. Entretanto, mesmo sem a administração de triptofano, diversos fatores nutricionais, bem como atividade física, podem influenciar seu transporte através da barreira hematencefálica e, consequentemente, alterar a produção de serotonina. De fato, animais que têm acesso a uma dieta rica em gordura têm elevada concentração de serotonina. Dietas gordurosas elevam os níveis de ácido graxos livres, deslocando o triptofano ligado a proteínas plasmáticas (como a albumina), aumentando a concentração plasmática de triptofano livre e, assim, os níveis de serotonina. Por outro lado, animais recebendo altos níveis de proteína apresentam maior concentração de cadeias grandes de aminoácidos neutros do que de triptofano, os quais competem pelo mesmo carreador, diminuindo os níveis de serotonina. A concentração destes aminoácidos é reduzida pela liberação de insulina, que parece remover seletivamente os aminoácidos neutros do plasma, com um efeito menor para o triptofano. Animais que fazem exercícios físicos tendem a ter níveis elevados de serotonina, pois acreditase que o exercício promova um aumento nos níveis plasmáticos de ácido graxo livre e diminua os níveis plasmáticos de aminoácidos neutros, em virtude da captação pelos músculos esqueléticos. Sabese que ambas as condições aumentam os níveis de triptofano, elevando a produção de serotonina (Figura 18.9). A prática de realizar a suplementação com altos níveis de triptofano é empregada em Medicina Veterinária, principalmente em animais de produção com o objetivo de controlar e reduzir o estresse, o medo e a agressividade. Entretanto, recomendase não utilizar em bovinos pela via oral, pois o rúmen contém microrganismos que convertem o triptofano em 3metil indol, o qual está associado à doença respiratória grave. O Quadro 18.5 traz as principais indicações da suplementação com triptofano em Medicina Veterinária em diferentes espécies, bem como os possíveis efeitos colaterais. ■ Figura 18.9 Efeito da dieta e do exercício físico na disponibilidade de triptofano. O aumento (+) dos níveis plasmáticos de ácidos graxos livres e a diminuição (–) dos níveis plasmáticos de aminoácidos neutros favorecem o transporte do triptofano através da barreira hematencefálica e, consequentemente, o aumento nos níveis cerebrais de serotonina. QUADRO 18.5 Principais indicações e possíveis efeitos colaterais do uso da suplementação com triptofano em Medicina Veterinária. Espécie animal Indicações Efeitos colaterais Gado leiteiro estabulado Controle do estresse que diminui a produção leiteira Doença respiratória aguda Galinhas poedeiras Controle do estresse que diminui a produção de ovos Não descritos Suínos Diminuição da agressividade pré-abate Não descritos Suínos (período de creche) Aumento do bem-estar e manutenção da integridade gastrintestinal em períodos específicos de aumento da carga de estresse Não descritos Equinos Hiperatividade Aumento da frequência respiratória, hemólise e hemoglobinúria Cães e gatos Ansiedade, agressividade, dermatite psicogênica, medo excessivo e hiperatividade Não descritos BIBLIOGRAFIA Adachi, N.; Liu, K.; Motoki. A.; Nishibori, M.; Arai, T. Suppression of ischemia/reperfusion liver injury by histamine H4 receptor stimulation in rats. European Journal of Pharmacology, v. 21, n. 544(13), p. 181187, 2006. Adams, H. R. Farmacologia e terapêutica veterinária. 8 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. 1034 p. 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