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2013
Língua Portuguesa:
Práticas de Linguagem
Profª. Eli Regina Nagel dos Santos
Copyright © UNIASSELVI 2013
Elaboração:
Profª. Eli Regina Nagel dos Santos
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri
UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
469.07
S2371 Santos, Eli Regina Nagel dos
Língua portuguesa: práticas de linguagem / Eli Regina Nagel dos
Santos. Indaial : Uniasselvi, 2013.
219 p. : il
ISBN 978-85-7830-756-1
1. Língua portuguesa – Estudo e ensino.
I. Centro Universitário Leonardo da Vinci.
III
aPresentação
Olá, caro(a) acadêmico(a)! Você já leu a obra: “O Pequeno Príncipe?”
Lembra que o príncipe termina perguntando: “– Terá ou não terá o carneiro
comido a flor? [...] E nenhuma pessoa grande compreenderá que isso tenha
tanta importância!” (SAINT- EXUPÉRY, 1986, p. 95).
O que é compreender? Qual é a importância de compreender?
Compreender é uma possibilidade de ação, de imprimir gestos de
interpretação. Recorde que em uma parte do livro o príncipe visita o quinto
planeta! Ele encontra um acendedor de lampiões, personagem que executa
uma função, qual seja, passa o dia acendendo e apagando o lampião. Então,
ele questiona:
[...] – Por que acabas de apagar teu lampião?
– É o regulamento, respondeu o acendedor.
– Mas por que acabas de o acender de novo?
– É o regulamento, respondeu o acendedor.
– Eu não compreendo, disse o principezinho.
– Não é para compreender, disse o acendedor.
Regulamento é regulamento.
(SAINT-EXUPÉRY 1986, p. 52).
Mas isso é pouco! Não gostaria que simplesmente lesse esse material
porque faz parte do regulamento, das obrigações de acadêmico(a), mas que
relesse, anotasse, fosse como o principezinho com muitos questionamentos.
E que buscasse compreender os sentidos, as linhas e as entrelinhas dos textos
apresentados. Que concordassem e duvidassem com criticidade do que está
exposto.
Isso porque “as pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que
viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para
outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouros. Mas todas
essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém...” Espero que elas
ajudem na constituição de sua formação acadêmica.
O livro sem o leitor não tem vida. Ele necessita da voz de um
interlocutor! O que somos faz parte das experiências pessoais e profissionais
que nos constituíram. Desta forma, continuo escrevendo e reconhecendo os
outros com quem convivi, durante a exploração de cada unidade: Os que
olhavam somente para si. Os vaidosos que enxergam somente a sua opinião.
O rei que pensa que basta falar para que seja cumprida sua ordem. Ou
ainda, os bêbados que têm vergonha de admitir seus pontos fracos. Durante
a constituição do caderno, ainda me deparei com pessoas lampiões que me
acenderam uma luz, quem não se preocupava somente consigo. Sem me
esquecer das interpelações que mantive com os homens de negócio, sem tempo,
IV
mas que administravam com seriedade seus deveres. Ah, também meus
amigos que escrevem livros preocupados com o que é relevante e efêmero.
Todas essas pessoas foram especiais.
Assim, o caderno foi sendo construído, numa proposta de mediação,
diálogo e construção coletiva que visa possibilitar a ampliação dos
conhecimentos referentes à Língua Portuguesa: práticas de linguagem. Para
tanto, os conteúdos foram distribuídos em três unidades, ou serão planetas?
E cada unidade é subdividida em tópicos e subtópicos. Ao término de cada
tópico estarão disponíveis autoatividades com o objetivo de retomar a leitura,
refletir e fixar o conhecimento. Encontrará ainda, um resumo contendo os
principais aspectos relevantes estudados naquele tópico. No decorrer do
caderno encontrará ainda leituras complementares, que corroborarão no
sentido de qualificar o entendimento em relação à temática.
Na primeira unidade apresentamos uma abordagem sobre: noções
fundamentais da semântica, a linguagem para: pragmática, análise do
discurso e teoria da enunciação. Logo, na segunda, damos enfoque à estilística
e às diferentes figuras de linguagem. Na terceira e última unidade passamos
a refletir sobre a linguagem oral e escrita, os recursos de coesão e coerência,
por fim, sugerimos um trabalho com os alunos a partir dos gêneros textuais,
organizados por meio de sequência didática.
Ao refletir sobre a constituição da escrita desse Caderno de Estudos
e no livro mencionado desejo-lhe bons estudos e espero como o pequeno
príncipe que você (SAINT- EXUPÉRY, 1986, p. 21) “dia a dia fique sabendo
mais alguma coisa do planeta, da partida, da viagem. Mas isso devagarzinho,
ao acaso das reflexões”. Pois, é lendo, refletindo e trocando que nós nos (des)
entendemos...
Profª. Eli Regina Nagel dos Santos
V
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto
para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é
o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de
Desempenho de Estudantes – ENADE.
Bons estudos!
NOTA
Opa, já que apresentamos o UNI e nos valemos dos diálogos do
príncipe, fica registrada sua referência, SAINT-EXUPÉRY, Antoine
de. O pequeno príncipe. 30. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1986. Vale
a pena conhecer, ler, ou até mesmo revisitá-lo! Abraços e
continuamos nossa caminhada!
VI
VII
UNIDADE 1 – A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS .................................................. 1
TÓPICO 1 – A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA .............................................................................. 3
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3
2 A LINGUAGEM E O HOMEM .......................................................................................................... 4
3 O QUE VEM A SER A SEMÂNTICA? .............................................................................................. 7
3.1 SEMÂNTICA FORMAL .................................................................................................................. 11
3.1.1 Sentido, referência e quantificador ....................................................................................... 13
3.2 SEMÂNTICA ENUNCIATIVA ......................................................................................................17
3.3 SEMÂNTICA COGNITIVA ............................................................................................................ 19
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 23
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 24
TÓPICO 2 – O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM ......................................................... 27
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 27
2 PRAGMÁTICA ..................................................................................................................................... 27
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 43
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 46
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 47
TÓPICO 3 – ANÁLISE DO DISCURSO: A LINGUAGEM EM MOVIMENTO E OS
EFEITOS DE SENTIDOS ................................................................................................ 49
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 49
2 A LINGUAGEM NA ANÁLISE DO DISCURSO ........................................................................... 49
3 FASES DA ANÁLISE DO DISCURSO ............................................................................................. 50
4 FORMAS DE DIZER ............................................................................................................................ 53
5 FORMAÇÃO DISCURSIVA E O CONTEXTO DE PRODUÇÃO .............................................. 57
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 62
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 63
TÓPICO 4 – A LINGUAGEM E OS SENTIDOS NA TEORIA DA ENUNCIAÇÃO ................. 65
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 65
2 LINGUAGEM X DIALOGISMO ....................................................................................................... 66
3 PALAVRA: SIGNO DE CRIAÇÃO IDEOLÓGICA ....................................................................... 68
4 ESFERA E GÊNEROS DO DISCURSO ............................................................................................ 73
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 76
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 78
UNIDADE 2 – LINGUAGEM E ESTILÍSTICA .................................................................................. 81
TÓPICO 1 – NOÇÃO DE ESTILÍSTICA ............................................................................................. 83
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 83
2 ESTILÍSTICA ......................................................................................................................................... 84
3 GRANDES VERTENTES DA ESTILÍSTICA .................................................................................. 89
sumário
VIII
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 91
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 97
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 98
TÓPICO 2 – FIGURAS DE LINGUAGEM ......................................................................................... 99
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 99
2 FIGURAS DE PALAVRAS .................................................................................................................. 101
3 FIGURAS DE PENSAMENTO .......................................................................................................... 110
4 FIGURAS DE SINTAXE OU DE CONSTRUÇÃO ........................................................................ 116
5 FIGURAS DE SOM .............................................................................................................................. 125
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 131
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 135
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 137
UNIDADE 3 – LINGUAGEM E EXPRESSÃO ................................................................................... 139
TÓPICO 1 – EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO ......................................... 141
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 141
2 A PRESENÇA DA FALA E DA ESCRITA NA SOCIEDADE ....................................................... 143
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 160
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 165
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 166
TÓPICO 2 – AS RELAÇÕES DE SENTIDOS ..................................................................................... 169
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 169
2 POLISSEMIA ........................................................................................................................................ 170
3 HOMÔNIMOS ...................................................................................................................................... 175
4 AMBIGUIDADE ................................................................................................................................... 179
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 183
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 186
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 187
TÓPICO 3 – MÉTODO E TÉCNICA DE ENSINO DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA
LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA....................................... 189
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................189
2 O ENSINO DA LÍNGUA NA PERSPECTIVA DO TEXTO .......................................................... 192
3 O PLANEJAMENTO POR MEIO DE SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS: ORIENTAÇÕES
TEÓRICO-METODOLÓGICAS DE TRABALHO A PARTIR DO GÊNERO ............................. 199
4 EXEMPLO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA ....................................................................................... 201
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 211
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 212
REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 213
1
UNIDADE 1
A LINGUAGEM E SEUS
DESDOBRAMENTOS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade, você será capaz de:
• reconhecer diferentes conceitos de linguagem;
• familiarizar-se a respeito dos tipos de semântica;
• compreender a relação da semântica nos atos comunicativos;
• conhecer as principais característica da pragmática e da teoria dos atos de
fala;
• refletir sobre origem e conceitos da análise do discurso;
• compreender a linguagem na concepção de Bakhtin: como fenômeno so-
cial de interação verbal.
Esta primeira unidade está dividida em quatro tópicos. No final de cada
tópico, você encontrará atividades que possibilitarão a apropriação de
conhecimentos na área.
TÓPICO 1 – A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
TÓPICO 2 – O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
TÓPICO 3 – ANÁLISE DO DISCURSO: A LINGUAGEM EM MOVIMENTO
E OS EFEITOS DE SENTIDOS
TÓPICO 4 – A LINGUAGEM E OS SENTIDOS NA TEORIA DA
ENUNCIAÇÃO
2
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
1 INTRODUÇÃO
FIGURA 1 – UMA LÍNGUA CHAMADA PORTUGUESA
FONTE: Disponível em: <http://umalinguachamadaportuguesa.blogspot.com/>. Acesso em: 10
abr. 2012.
A linguagem, inserida no contexto social, possibilita a compreensão dos
sujeitos que são dialogicamente constituídos, uma vez que desvela a discursividade
da sociedade. Dito de outra maneira, a linguagem está em curso e se move no
contexto histórico-social. Dessa forma, somos constituídos pela linguagem
por meio de enunciados produzidos no convívio social, na coletividade e nas
interlocuções, consequentemente, ampliamos nosso conhecimento e do outro.
É inapropriado tratar de semântica sem introduzir aspectos relacionados
à linguagem. Sem a linguagem não conseguiríamos transmitir conhecimentos.
Assim, nesse tópico, apresentaremos o conceito de semântica propriamente dito,
visando compreender a relação da semântica nos atos comunicativos.
Estimado(a) acadêmico(a)! Para compreensão e análise dos conceitos
estudados, sugerimos que ao ler faça sínteses, esquemas, sublinhe ideias que julgue
pertinentes. Estas são formas de organizar seu estudo e reter as principais ideias do texto.
Então, desejamos um bom trabalho!
UNI
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
4
2 A LINGUAGEM E O HOMEM
FIGURA 2 – JANELA DE IDEIAS: A CONSTITUIÇÃO DOS DISCURSOS
FONTE: Disponível em: <http://www.convergencia.jor.br/impressao/janeladeideias/letras/
linguistica_1_maio10.html>. Acesso em: 12 abr. 2012.
A linguagem faz parte da vida de todos os seres humanos, como um
instrumento de comunicação expresso por meio de desenhos, gestos, músicas,
danças, pinturas e símbolos. Apresenta-se de forma variada, complexa, múltipla,
marcada pela diversidade cultural. Assim, a linguagem além de um meio de
comunicação, é um elemento de representação das diferentes identidades da
pessoa, ou de um grupo.
Caro(a) acadêmico(a)! Realizamo-nos na relação com os outros. Quando
sentimos, percebemos, descobrimos, compreendemos, trocamos, raciocinamos,
transformamos e interagimos, nos expressamos e interpretamos o nosso entorno
a partir de diferentes linguagens, são elas: a verbal e a não verbal. A linguagem
medeia toda relação humana, é vista como uma forma de interação em que
necessitamos considerar o contexto que permeia essa comunicação.
Vejamos exemplos de cada uma dessas linguagens:
TÓPICO 1 | A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
5
2 A LINGUAGEM E O HOMEM Linguagem Verbal
Pai não entende nada
– Um biquíni novo?
– É, pai.
– Você comprou um no ano passado!
– Não serve mais, pai. Eu cresci.
– Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos,
este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.
– Não serve, pai.
– Está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.
– Maior não, pai. Menor.
Aquele pai, também, não entendia nada.
(Luis Fernando Veríssimo)
FONTE: Disponível em: <http://portaldoprofessor.mec.
gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=23921>. Acesso em: 10
abr. 2012.
FONTE: Disponível em:
<https://goo.gl/GPrHF4>.
Acesso em: 5 mai. 2012.
Linguagem Não Verbal
Caro(a) acadêmico(a)!
Lembre-se de que a linguagem não verbal utiliza apenas imagens para transmitir uma
mensagem. Essa faz uso de pintura, imagens, símbolos, figuras, dança, mímica, gestos,
desenhos, tom de voz, postura corporal, música e escultura como meio de comunicação.
A linguagem não verbal pode ser observada até nos animais, quando um coelho levanta
a orelha representa que está alarmado com algum som e/ou movimento, ou quando está
com a orelha abaixada sinaliza tranquilidade. E a linguagem verbal é quando o sujeito faz
uso da linguagem oral ou escrita, pois nesse caso se utiliza da palavra como um código a ser
decifrado.
UNI
Assim, desde que nascemos passamos a conhecer e conviver com
diferentes linguagens, e através das interações com outras pessoas, vamos
adquirindo o código linguístico. Partindo desse pressuposto e baseados em
Bakhtin (1992), não são palavras que pronunciamos e/ou escutamos, mas são
enunciados positivos ou negativos, resultados das relações sociais de que
participamos.
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
6
FIGURA 3 – MAFALDA
FONTE: Disponível em: <http://www.sempretops.com/diversao/tirinhas-da-mafalda/>. Acesso
em: 20 maio 2012.
Você sabia...
Que o criador de Mafalda em sua infância não gostava de histórias em quadrinhos? Um dia
ele inventou de ler uma história parecida e assim teve a ideia de criar sua própria personagem.
UNI
Com efeito, “a linguagem não é um meio neutro que se torne fácil
e livremente a propriedade intencional do falante, ela está povoada, ou
superpovoada de intenções de outrem. Dominá-la, submetê-la às próprias
intenções e acentos é um processo difícil e complexo”. (BAKHTIN, 1985, p. 271).
Desta forma, a linguagem é utilizada dependendo da situação e do contexto de
comunicação. Para tanto podemos fazer uso da linguagem formal (ou culta) e
informal (coloquial ou popular).
TÓPICO 1 | A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
7
Caro(a) acadêmico(a)! Os conceitos de linguagem verbal, não verbal, linguagem
formal e informal foram desenvolvidas nos cadernos de Língua Portuguesa: Expressão Escrita
e Compreensão de Texto e também no de Linguística Aplicada à Língua Portuguesa. Caso
tenha dúvidas sugerimos a retomada desses assuntos, a fim de facilitar o entendimento desse
material em estudo.
UNI
3 O QUE VEM A SER A SEMÂNTICA?
Pense um pouco... Você conseguiria explicar para um colega o que significa
a palavra semântica? Para alguns poderá ser difícil. Bem, vamos ao dicionário,
importante aliado quando da busca de significados e sinônimos: semântica para
a linguística: “num sistema linguístico, o componente do sentido das palavras
e da interpretação das sentenças e dos enunciados”. Semântica para a filologia,
“ciência que estuda a evolução do significado das palavras e de outros símbolos
que servem à comunicação humana”. (HOUAISS, 2009, p. 1724).
Agora vejamos como melhor reorganizar estas informações.Observe:
FONTE: A autora, com base em Oliveira (2001)
A semântica é um ramo da linguística que busca descrever o significado
das palavras e/ou das sentenças. A palavra semântica tem origem do grego, uma
vez que sema significa marca, sinal distintivo. Ao estudar questões acerca do
significado, ela preocupa-se com relações de:
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
8
FIGURA 4 – PREOCUPAÇÕES DA SEMÂNTICA
FONTE: A autora
Mas, será que descrever o significado é algo simples assim?
FIGURA 5 – QUAL É O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS?
FONTE: Disponível em: <http://www.arautoveritatis.com/2011/06/e-semantica-entornou.html>.
Acesso em: 20 maio 2012.
O que é significado para os semanticistas? Não encontramos um consenso,
uma definição única, uma vez que ele é atribuído em diferentes situações de uso.
Vejamos: Qual o significado de fogo? Pensamos no significado de um termo.
Porém, outras vezes pensamos no significado de um livro (objeto) que lemos,
no significado da vida para cada um de nós, o significado da cor amarela nas
sinaleiras de um semáforo. Ou o que significa calor? Assim, podemos perceber
que vivemos rodeados por significados e esses dependem de uma relação casual
entre palavra e as coisas.
Leia a letra da música e observe os diferentes significados que são
empregados referentes à palavra “pé”.
TÓPICO 1 | A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
9
Pé Com Pé
Palavra Cantada
Um pé pra lá
Outro pra cá
Um pé pra lá
Outro pra cá
Pé com pé, pé com pé
Pé com pé, pé contra pé
Acordei com o pé esquerdo
Calcei meu pé de pato
Chutei o pé da cama
Botei o pé na estrada
Deu um pé de vento
Caiu um pé d'água
Enfiei o pé na lama
Perdi o pé de apoio
Agarrei num pé de planta
Despenquei com pé descaço
Tomei pé da situação
Tava tudo em pé de guerra
Tudo em pé de guerra
Pé com pé, pé com pé,
Pé com pé, pé contra pé
Não me leve ao pé da letra
Essa história não tem pé nem cabeça
Vou dar no pé / Pé quente
Pé ante pé / Pé rapado
Samba no pé / Pé na roda
Não dá mais pé / Pé chato
Pegar no pé / Pé de anjo
Beijar o pé / Pé de pato
Manter o pé / Pé de moleque
Passar o pé / Pé de gente
Ponta do pé / pé de guerra
Bicho de pé / Pé atrás
De orelha em pé / Pé fora
Pé contra pé / Pé frio
A pé
Rodapé / Pé
FONTE: Música: Pé com pé, do grupo Palavra Cantada. Disponível em: <http://letras.terra.com.
br/palavra-cantada/447929/>. Acesso em: 29 maio 2012.
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
10
Viu de quantas formas diferentes a palavra pé foi empregada? Com
certeza poderemos concordar, ou discordar sobre o que é significado, porque por
ora já não sabemos mais o significado da palavra significado? “Daí a afirmação
do filósofo Putman: o que atrapalha a semântica é ela depender de um conceito
pré-construído de significado”. (OLIVEIRA, 2003, p. 17-18). A problemática do
significado está ligada à questão do conhecimento.
O significado envolve dimensões estritamente linguísticas, mas também
competências translinguísticas. “O sentido é o resultante de uma interação
complexa entre o significado, e até, não raro, a materialidade do significante,
a situação/contextos e, em particular, o universo de saberes e crenças dos
interlocutores”. (FONSECA, 1994, p. 75-76).
Explanaremos três formas de estudar o significado linguístico, sendo que
cada uma delas aborda o mesmo fenômeno, porém com enfoques, conceitos e
concepções diferentes. São elas:
Prezado(a) acadêmico(a)! Para aprofundar seus
estudos e compreensões acerca da semântica, sugerimos a obra:
Introdução à semântica: brincando com a gramática, de Rodolfo
Ilari. Apresenta conceitos juntamente com atividades práticas que
enriquecem o conhecimento das principais operações sintáticas
importantes para a significação do português brasileiro. Nessa obra,
ainda pontua o trabalho que pode ser desenvolvido nas faculdades
e escolas, no que se refere à exploração do sentido. O autor se
vale também de sua ampla experiência para iniciar a discussão
sobre a semântica nos meios educacionais brasileiros, destacando
inúmeros caminhos com os recursos linguísticos disponíveis.
UNI
TÓPICO 1 | A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
11
3.1 SEMÂNTICA FORMAL
Historicamente a semântica formal antecede todas as outras. Ela
preocupa-se em “descrever o problema do significado a partir do postulado
de que as sentenças se estruturam logicamente”. (OLIVEIRA, 2003, p. 19). Um
dos pioneiros nesse tipo de estudo é Aristóteles, que acredita que as relações de
significado independem do conteúdo expresso, utilizando para isso o raciocínio
dedutivo.
Raciocínio dedutivo é a modalidade de raciocínio lógico que faz uso
da dedução para obter uma conclusão a respeito de determinadas sentenças.
Esse tipo de raciocínio trabalha no intuito de apresentar conclusões que devem,
necessariamente, ser verdadeiras caso todas as sentenças sejam verdadeiras.
Possui base na razão e somente esta pode direcionar ao conhecimento
verdadeiro. Assim, no momento que algo é tido como verdade (sentença
maior), passamos a estabelecer relações com uma sentença menor e a partir
daí chegamos a uma conclusão, ou seja, a uma verdade daquilo que propomos
analisar.
Esta obra reúne uma coletânea de textos que abordam
a semântica formal no centro dos estudos. Nela os autores discutem
que a semântica é uma das áreas mais instigantes e criativas da
linguística. Em uma das partes, apresenta noções básicas de uma
semântica de tradição lógica, como a relação entre significado e
verdade, referência e denotação, quantificação, extensão e intenção.
Logo, discute as noções de uma outra tradição semântica, chamada
mentalista, ao abordar temas como predicação, papel temático,
estrutura do léxico, foco e pressuposição. MÜLLER, Ana Lúcia;
NEGRÃO, Esmeralda V; FOLTRAN, Maria José (Org.). Semântica
formal. Ed. Contexto, 243 p.
UNI
“A semântica formal considera, como uma propriedade central, o fato
de que a língua é utilizada para falar sobre objetos, indivíduos, fatos, eventos,
propriedades, descritos como externos à própria língua”. (MÜLLER; VIOTTI,
2003, p. 139). Assim, quando falamos, o referente, ou seja, o elemento ao qual nos
remetemos quando nos comunicamos, o assunto da mensagem, é propriedade
fundamental e, se analisado, fornece características indispensáveis para que
possamos estabelecer relações e construir significados.
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
12
Caro(a) acadêmico(a), atenção! Referente: é o elemento sobre o qual nos
remetemos quando nos comunicamos. Podemos dizer que é o assunto da mensagem. Ao
analisarmos o referente, este nos fornece características indispensáveis para que possamos
estabelecer relações e assim, construir conceitos.
UNI
Analisamos a sentença:
1- Todo homem é um animal.
2- Renato é um homem.
3- Logo, Renato é um animal.
Nesse exemplo, analisamos se a primeira sentença é verdadeira, a segunda
e a terceira é constituída por pressuposto e/ou lógica (Oliveira, 2003). E se as duas
primeiras sentenças forem verdadeiras, conclui-se que a terceira é fato. Segundo
Oliveira (2003, p. 20), “essas são relações lógicas, ou formais, porque descrevem
relações de sentidos”. Partindo desse pressuposto, a linguagem torna-se uma
estrutura lógica, ou seja, o significado de uma sentença é o tipo de situação que
ela descreve, e essa por sua vez exprime uma condição de verdade pelas relações
lógicas que estabelece entre termos.
Observe o raciocínio seguinte. Se a primeira e segunda sentença forem
verdadeiras, você poderá completar a terceira por meio da lógica:
1- Todo gato tem quatro patas.
2- Fiona é uma gata.
3- Logo, _______________________________________.
Conforme Oliveira (2003) foi o lógico alemão Frege, quem muito contribuiu
com a semântica na definição de significado, isso se deu, a partir da distinção
entreTÓPICO 1 | A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
13
FONTE: A autora com base em Oliveira (2003)
Explanaremos cada um dos conceitos a seguir.
3.1.1 Sentido, referência e quantificador
Há que se considerar que a análise das representações no âmbito individual
é excluída da semântica para Frege. Por exemplo: ao escutar a expressão estrela
guia, formamos uma representação subjetiva e individual. Esta representação é
formada de acordo com experiência e vivência de mundo que possuímos. Para
Frege, a experiência pessoal, não tem nada a ver com a semântica, mas sim com
os estudos da psicologia (OLIVEIRA, 2003).
A semântica formal foca os estudos nos conhecimentos vividos e
nos significados atribuídos por uma comunidade, que partilha da mesma
uniformidade de conceito. Exemplo: “eu e você temos representações distintas
de estrelas – você talvez associe a um sentimento nostálgico, eu, à euforia das
viagens espaciais –, mas compartilhamos o mesmo sentido de estrela apontando
um certo objeto no céu que reconhecemos como estrela”. (OLIVEIRA, 2003, p. 20,
grifo nosso).
Estimado(a) acadêmico(a)!
Você já vivenciou a sensação de felicidade quando uma criança descobre que 2 + 2 chega ao
mesmo resultado que 8 – 4? Dois caminhos, dois sentidos, que nos conduzem à consciência
de igualdade, ou seja, a mesma referência, o resultado 4.
UNI
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
14
A partir do exemplo dado no UNI, observamos que uma mesma
referência pode recuperar vários sentidos. Observe: considere o Brasil por meio
de diferentes sentidos: O país do futebol, do esporte, do carnaval, do samba no pé, das
águas, da impunidade. Falamos de um país (é a referência) de variadas formas.
Assim, também como já ouvimos as denominações referentes às capitais a seguir:
1- Salvador é a capital negra.
2- Florianópolis é a capital da inovação.
3- São Paulo é a capital dos negócios.
4- Rio de Janeiro é a capital do Brasil colonial.
Desta forma, o sentido permite alcançarmos um objeto no mundo, “mas
é o objeto no mundo que nos permite formular um juízo de valor, isto é, que nos
permite avaliar se o que dizemos é falso ou verdadeiro. A verdade não está, pois,
na linguagem, mas nos fatos do mundo. A linguagem é apenas um instrumento
que nos permite alcançar aquilo que há, a verdade ou a falsidade”. (OLIVEIRA,
2003, p. 22).
Podemos ainda, esclarecer a diferença entre sentido e referência fazendo
uma analogia com um carro.
FIGURA 6 - ESCLARECENDO A DIFERENÇA ENTRE SENTIDO E REFERÊNCIA FAZENDO UMA
ANALOGIA COM UM CARRO
FONTE: Disponível em: <http://www.blogcarros.com.br/novo-ecosport-ford/>. Acesso em: 15
maio 2012.
Nesse caso, observando a imagem, o carro é a referência. Seu modelo,
cor, todas as suas propriedades não dependem de quem observa. Pode ser
observado a partir de diferentes ângulos e atentamente para captar detalhes.
Mas, a imagem que vemos tanto você, quanto eu nos leva a partilhar do mesmo
sentido: é um meio de transporte terrestre que nos conduz de um lugar para
o outro. “Lembramos que a imagem mental que cada um de nós forma da
imagem objetiva (...) está fora dos interesses da semântica” (OLIVEIRA, 2003,
p. 22), ou seja, se é grande, confortável, com cores de minha preferência, nada
disso importa para a semântica.
TÓPICO 1 | A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
15
Agora é sua vez: descreva o estado em que você mora. A partir da referência,
estado, estabeleça diferentes sentidos. Em seguida compartilhe com o grupo e
perceba as semelhanças, ou seja, a referência que tem seu estado.
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
____________
AUTOATIVIDADE
Dentro dos estudos da semântica formal e dos estudos de Oliveira (2003)
existem dois tipos de expressões: as saturadas e as insaturadas. As sentenças
saturadas são quando expressam um pensamento completo, assim podemos
identificar facilmente a referência. Exemplo: Alemanha é um país da Europa.
Mas, quando as expressões são incompletas, chamamos de insaturadas, ou seja,
não conseguimos localizar uma referência. Podemos citar a expressão: é um país,
essa não diz nada de exato e pode ser recorrente em muitas sentenças.
Exemplos de sentenças saturadas:
1- Estados Unidos é um país em crise.
2- Japão é um país que extrema com o Brasil.
3- Brasil é um país tropical.
Observamos que as três sentenças anteriores expressam um pensamento
completo e tem uma referência. Atente que em (2) a referência é falsa, uma vez
que Japão não faz fronteira com o Brasil. Já em (1) e (3) as referências são verdadeiras.
Exemplo de sentença insaturada:
_____________é um país __________________.
Insaturada pelo fato de faltar argumentos que antecedem e sucedem a
sentença. Desta forma, não tem como referência um valor de verdade ou falsidade,
pois existem dois lugares a serem preenchidos a fim de completar a ideia. Já se
completarmos:
Argentina é um país que valoriza a cultura.
Notamos que, agora sim, a sentença é saturada, pois tem um sentido,
exprime um pensamento, tem uma referência e retrata uma verdade.
Uma sentença pode ser completada como nos exemplos expostos
anteriormente, como também, por meio de um quantificador. Este indica o
número de elementos na expressão. Exemplos de sentenças quantificadas:
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
16
1- Uma cidade de Sergipe é a capital de Sergipe.
2- Todos os homens são animais.
3- Todos os meninos amam uma menina da escola.
Em (1), afirmamos que há uma cidade de Sergipe, cuja cidade é a
capital do Estado citado, embora a sentença não explicite que cidade é essa.
Em (1) observamos um quantificador existencial. Já a sentença (2) sintetiza um
quantificador universal uma vez que faz uso do predicado ‘animal’ aplicando
a todos os homens. Por fim, na última sentença (3) temos os dois tipos de
quantificadores: o universal (Todos) e o existencial (Uma). Essa junção de
quantificadores em uma mesma sentença pode levar à interpretação ambígua.
Conceito esse que retomaremos nos próximos tópicos.
Se você quiser saber mais sobre
a semântica e outros conceitos relacionados
à Linguística, sugerimos a pesquisa e leitura
dos textos contidos nestes dois livros:
MUSSALIN, Fernanda & Anna Christina
BENTES (2001) (Orgs.). Introdução à
Linguística: Domínios e Fronteiras. Volumes 1
e 2. São Paulo: Cortez Editora. 194 p. e 270 p.
UNI
FONTE: Disponível em: <http://www.extra.com.br/livros/LinguisticaOratoria/Linguistica/
Introducao-a-Linguistica-Dominios-e-Fronteiras-118787.html>. Acesso em: 26 maio 2015.
Contrapondo a semântica formal que tem o princípio do significado na
pressuposição e na lógica, mencionamos a semântica da enunciação. Assim,
passamos a conhecer como essa semântica concebe o significado.
TÓPICO 1 | A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
17
3.2 SEMÂNTICA ENUNCIATIVA
A semântica argumentativa ou semântica da enunciação, segundo Koch
(2002, p. 102), tem por função identificar enunciados cujo traço constitutivo é o
“de serem empregados com a pretensão de orientar o interlocutor para certos
tipos de conclusão, com exclusão de outros”. Veremos nesse momento, o conceito
de enunciação a partir dos estudos realizados por Oswald Ducrot, bem como a
noção de polifonia para esse estudioso.
A linguagem, afirma Ducrot (apud OLIVEIRA, 2003, p. 28):
[...] é um jogo de argumentação enredado em si mesmo; não falamos
sobre o mundo, falamos para construir o mundo e a partir dele
tentar convencer nosso interlocutor da nossa verdade, verdade
criada pelas e nas nossas interlocuções. A verdade que se forma na
argumentação. Assim, a linguagem é uma dialogia, ou melhor, uma
“argumentologia”; não falamos para trocar informações sobre o
mundo, mas para convencer o outro a entrar no jogo discursivo, para
convencê-lode nossa verdade.
Para esse estudioso a argumentação é determinante para a apreensão do
sentido em um enunciado, sendo que na semântica da enunciação, o sentido está
incluso na língua. Desta forma, a linguagem não tem mais uma dimensão objetiva,
que retrata uma verdade que está fora dela, mas expressa o ponto de vista subjetivo
ora do eu–locutor, ora do tu/alocutário no discurso. Nesse sentido, a “linguagem
constitui o mundo, por isso não é possível sair fora dela”. (OLIVEIRA, 2003, p.
27).
Isso porque o pensamento do outro é constituído pelo meu pensamento
e, vice-versa, sendo impossível separá-los totalmente. Dessa lógica, surge a noção
de polifonia, ou seja, a possibilidade de ouvir a voz de diferentes enunciadores e
destinatários em um discurso estabelecendo a significação da frase e descrevendo
o sentido dos enunciados.
Caro(a) acadêmico(a)! Fique atento(a)!
Na semântica da enunciação o conceito de pressuposição é substituído
pelo do enunciador e esse se resolve pela hipótese da polifonia. É o conceito de
ambiguidade pelo de polissemia, quando consideram que um mesmo discurso
possui um leque de significados diferentes, porém relacionados. (OLIVEIRA,
2003, p. 28).
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
18
Na sentença:
(1) Raquel parou de caminhar.
E1 Raquel caminhava.
E2 Raquel não caminha mais.
A sentença (1) põe em jogo um enunciador de que afirma que Raquel
caminhava antes, pois se parou é porque um dia já caminhou. Nessa estrutura
polifônica podemos encontrar dois tipos de negação. A primeira pode ocorrer
quando o ouvinte nega a fala do primeiro enunciador E1, nesses casos nos
deparamos com uma negação polêmica. Já quando o ouvinte nega o posto, ou
seja, o enunciador E2 temos uma negação metalinguística.
Agora, observe o exemplo:
Não há uma gota de água na torneira.
Segundo Ducrot (1987), neste exemplo acima temos outro tipo de negação,
qual seja, a negação descritiva, que ocorre quando o locutor descreve o mundo
negativamente. No excerto, analisamos uma apresentação negativa de uma
descrição.
Podemos ainda citar outros tipos de sentenças que para a semântica da
enunciação tem um valor e para a semântica formal não seria possível de analisá-
los uma vez que retratam o mesmo conteúdo. Vejamos:
1- Júlia estudou pouco.
2- Júlia estudou um pouco.
Para a semântica formal, ambas as sentenças têm o mesmo pressuposto
e são sentenças saturadas. Para a semântica da enunciação elas são diferentes.
Dizer que estudou pouco é admitir que não estudou, caso direcionemos o discurso
no sentido de se dar mal na prova. Já o operador argumentativo um pouco (2),
utilizado conduz o discurso no sentido que Júlia estudou, assim conduz o
argumento a favor da menina, o que pode contribuir na hora da prova.
Agora é sua vez:
Descreva a contribuição proporcionada pelo uso do até nas sentenças,
a partir do ponto de vista argumentativo:
(1) A professora do meu filho esteve no Conselho Tutelar.
(2) Até a professora do meu filho esteve no Conselho Tutelar.
______________________________________________________________
____________________________________________________________________
TÓPICO 1 | A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
19
3.3 SEMÂNTICA COGNITIVA
FIGURA 7 – IMAGEM TRADUZINDO DIFERENTES SIGNIFICADOS
FONTE: Disponível em: <http://semantizando.blogspot.com/2010_11_01_archive.html>. Acesso
em: 10 maio 2012.
A semântica cognitiva está ligada ao surgimento da linguística cognitiva.
A publicação de Lakoff e Johnson, de 1980, a Metaphors we live by marcou o seu
reconhecimento. Hoje corroboram contribuições de diferentes pesquisadores
com o foco da fonologia à pragmática.
A semântica cognitiva insere-se nos paradigmas da linguística do uso,
fazendo oposição aos modelos estruturalistas de Saussure, e converge seus
estudos nos aspectos que dizem respeito aos processos que o falante utiliza para
categorizar o mundo. Desta forma, o significado surge de dentro para fora, ou seja,
é motivado, decorrente da experiência corpórea com o mundo. A hipótese central
é que o significado é natural e experiencial e se sustenta na constatação de que ele
se constrói a partir de nossas intenções físicas. (OLIVEIRA, 2003).
Caro(a) acadêmico(a)! Lembre-se de fazer relações entre as três
semânticas que estamos estudando. A semântica cognitiva contrapõe-se
a semântica formal (objetivista) no que se refere à questão de o significado
pautar-se na referência e na verdade como uma única maneira de associar o
símbolo e o mundo.
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
20
A semântica cognitiva acentua seus trabalhos nos finais da década de
70 e início da década de 80, centrava no interesse de estudar o fenômeno de
significação. Contudo, o fator dos estudos cognitivos foi movido pela investigação
da psicolinguística de Eleanor Rosch. Ela se baseava na dinâmica fundamental
de protótipos para o processo comunicativo. Desta forma, a percepção corpórea
de mundo por parte do sujeito é o alicerce para estabelecer sentido no ato de
interação do falante.
De acordo com Lakoff e Johnson (1999), em meados da década de 70,
surge uma visão que compete com aquela desenvolvida no período anterior,
centrada em duas teses básicas:
(i) há uma forte dependência de conceitos e razão sobre o corpo; e
(ii) que a conceptualização e a razão têm como eixo processos
imaginativos como metáfora, metonímia, protótipos, frames, espaços mentais
e categorias radiais.
Elenca, então, as seguintes características como sendo centrais para
essa segunda geração de pesquisas (LAKOKK e JOHNSON, 1999, p. 77):
Os princípios que norteiam essa nova abordagem são os seguintes:
(1) A estrutura conceptual origina-se de nossa experiência sensório-
motora e das estruturas neurais que lhes dão origem, sendo a noção de
“estrutura” caracterizada como esquemas de imagens e esquemas motores.
(2) As estruturas mentais são intrinsecamente significativas devido à
sua conexão com nossos corpos e nossa experiência corpórea, o que contraria
a ideia de manipulação de símbolos não semantizados.
(3) Há um nível básico de conceitos que originam parte de nossos
esquemas motores e nossas capacidades para percepção gestáltica e formação
de imagens.
(4) Nossos cérebros são estruturados de forma a projetar a ativação de
padrões de áreas sensório-motoras para níveis corticais mais altos, constituindo
as chamadas metáforas primárias. Tais projeções permitem-nos conceptualizar
conceitos abstratos com base em padrões inferenciais utilizados em processos
sensório-motores que estão diretamente ligados ao corpo.
(5) A estrutura dos conceitos inclui protótipos de vários tipos: casos
típicos, casos ideais, estereótipos sociais, exemplares salientes, pontos de
referência cognitivos, entre outros, sendo que cada tipo de protótipo utiliza
uma forma distinta de raciocínio.
(6) A razão é corpórea à medida que nossas formas fundamentais
de inferência originam-se de formas sensório-motoras e outras formas de
inferência baseadas na experiência corpórea.
TÓPICO 1 | A LINGUAGEM E A SEMÂNTICA
21
(7) A razão é imaginativa à medida que as formas de inferência são
mapeadas de modos abstratos de inferência pela metáfora.
(8) Os sistemas conceptuais são pluralísticos, não monolíticos, de tal
sorte que conceitos abstratos são definidos por múltiplas metáforas conceptuais
que são muitas vezes inconsistentes entre si.
FONTE: Disponível em: <http://www.pessoal.utfpr.edu.br/paulo/semantica%20cognitiva_
introducao.pdf>. Acesso em: 10 jun. 2012
A semântica cognitiva pautava-se no princípio de que, para a construção
do sentido, é importante considerar fatores extralinguísticos. Cognitivamente, a
língua é algo que está correlacionada à percepção individual, o que caracteriza
a dinamicidade e heterogeneidade da língua, uma vez que se preocupacom
estudos de construções mentais que estruturam o conhecimento. Há dois conceitos
que dão suporte à semântica cognitiva, são eles:
FONTE: A autora com base em Oliveira (2003)
Isso porque primeiramente, aprendemos esquemas de movimento e
categorias básicas. Ou seja, quando a criança aprende a subir e descer uma escada.
Ela repete inúmeras vezes o mesmo movimento. Desta ação, surge um esquema
imagético, uma memória do movimento, ou experiência que resulta no ponto de:
Percurso
PARTIDA CHEGADA
A categorização é outro conceito fundamental em semântica cognitiva e
baseia-se em processos de generalização, abstração e discriminação. Associada à
noção de categorização surge o conceito de protótipo e de membros periféricos,
essencial também em semântica cognitiva. Vejamos um exemplo:
Formulou-se a hipótese de que os conceitos se estruturam por
protótipos. Em outros termos, quando classificamos não recorremos
ao estabelecimento de condições necessárias e suficientes, mas nos
escoramos em casos que são exemplares, que são mais reveladores
da categoria. É por isso que respondemos com pardal ao pedido de
exemplificação de pássaro: pardal é muito mais exemplar de pássaro
do que pinguim. Há vários motivos para nossa preferência por pardal:
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
22
pardal voa e os pássaros em geral voam, pardal é um pássaro que a
gente vê sempre, é familiar. As categorias se estruturam, pois, por meio
de um caso mais protótipo que se relaciona via semelhanças com os
outros membros. Pardal é o membro central da categoria PÁSSARO,
ao passo que pinguim ocupa uma posição periférica. (OLIVEIRA,
2003, p. 40).
O processo semântico-cognitivo da língua, em seus mais diversos usos,
ultiliza-se de dois mecanismos: a Metáfora e a Metonímia. Ambas não devem ser
vistas e tratadas aqui como simples figuras de estilo, conforme são vistas com
frequência na esfera escolar. Para a semântica cognitiva, tanto uma, quanto outras
são importantes e aparecem nos domínios discursivos.
FONTE: A autora com base em Oliveira (2003)
A compreensão de um falante no processo de formulação de palavras
e atribuição de significado de uma língua depende de uma rede de relações
semânticas e lexicais, que são selecionados pelos falantes nos atos de fala. Os
semanticistas não podem menosprezar os fatos lexicais para não reduzir o estudo
da semântica. No próximo tópico, abordaremos a questão do significado na
linguagem em uso.
23
RESUMO DO TÓPICO 1
Na discussão desse tópico podemos compreender que cada uma das
semânticas abordadas tem uma forma de analisar o mesmo objeto. Podemos
sintetizar assim:
FONTE: Disponível em: <http://www.alunosonline.com.br/portugues/aspectos-eufonicos-na-
colocacao-pronominal.html>. Acesso em: 10 jun. 2012.
O estruturalismo trata o significado como unidade de diferença. Por
exemplo, a palavra CADEIRA não é definida como uma mesa, quadro ou sofá.
O significado não tem a ver com o mundo, mas com a estrutura de diferença
entre os objetos.
A semântica formal é composta pela referência e pelo sentido. O sentido
de A CADEIRA é do padrão, é o modo de definir a referência. A relação da
linguagem com o mundo, aqui é peça fundamental.
Na semântica de enunciação, a CADEIRA significa diversas
possibilidades de operadores argumentativos que a palavra pode participar.
“Comprei uma cadeira. Senta e come na cadeira”..., são exemplos de enunciação.
Na semântica cognitiva, o significado, neste caso CADEIRA, é adquirido
por manipulações sensório-motoras, ou seja, por meio de experiências. Defino
que cadeira é de quatro pernas.
FONTE: A autora com base em Oliveira, 2003.
24
AUTOATIVIDADE
1 Leia a tirinha/imagem a seguir:
FONTE: Disponível em: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/discovirtual/galerias/
imagem/0000000139/0000013121.jpg>. Acesso em: 20 jul. 2012.
• Obs.: Notou que foi retirada a escrita?
• Então, observe as imagens dos quadrinhos:
a) É possível compreender a informação que o autor pretende comunicar pela
leitura das imagens? Justifique.
b) É possível inferir o que poderia estar escrito nos balões? Registre a seguir.
Agora observe os balões com a escrita:
FONTE: Disponível em: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/discovirtual/galerias/
imagem/0000000139/0000013121.jpg>. Acesso em: 20 jul. 2012.
• Prezado(a) acadêmico(a)! Em sua opinião, a informação ficou mais completa
com a junção da escrita? Destacamos, nesse caso, que tanto a imagem quanto
a escrita são interdependentes. Nesses casos, temos a presença da linguagem
mista (ou seja, ambas as linguagens). Agora, é sua vez de conceituar esse tipo
de linguagem.
25
2 Para você fixar o conteúdo apresentado nesse tópico, sugerimos que resolva
a seguinte atividade referente à semântica:
26
27
TÓPICO 2
O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
No sistema linguístico temos oposições fônicas e semânticas, bem como
as regras combinatórias dos elementos linguísticos. Porém, existem casos que
nem as oposições semânticas, nem as regras de combinação conseguem explicar.
Partindo dessa problemática observou-se a necessidade de estudar o uso da
linguagem – objeto da pragmática. É o que abordaremos nesse tópico. Iniciando
essa reflexão, observe o diálogo entre duas formigas:
FIGURA 8 – AS FORMIGAS JAPONESAS
FONTE: Disponível em: <http://ac-nadadecoisanenhuma.blogspot.com.br/>. Acesso em: 20 jun.
2012.
Observe que o suposto diálogo ocorreu num contexto específico e nesse
sentido é preciso enfatizar que nas interações sociais, o uso da linguagem
determina o ato da comunicação.
2 PRAGMÁTICA
Há, na linguística, estudos relacionados à linguagem no seu contexto de
uso. Esse ramo da linguística é chamado de pragmática. O interesse da pragmática
reside nos significados linguísticos a partir de um contexto discursivo e não
apenas pela semântica proposicional ou frásica.
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
28
As palavras, mais que sua significação dicionarizada, assumem diferentes
significados no uso concreto da linguagem.
A pragmática está além da construção da frase, estudado na sintaxe, ou do
seu significado, estudado pela semântica. Estuda, essencialmente, a significação
no ato da fala, da comunicação. Como exemplo, imagine uma pessoa que diga
“Você tem horas?” Repare que ele não está simplesmente interessado no objeto,
mas indiretamente está pedindo informação que esse objeto oferece. Seria
estranho afirmar que tem e não tomar o objeto para obter a informação, pois a
pergunta indiretamente revela a intenção do locutor.
O termo “pragmática”, como ramo da linguística, originou-se com
Charles Morris, em 1938, significando o estudo da linguagem em uso. Rudolf
Carnap, que trabalhara com Morris em Chicago, definiu-a como sendo a relação
entre a linguagem e seus falantes. O ponto de partida da pragmática foram os
trabalhos dos filósofos da linguagem: John AUSTIN e Paul GRICE.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Pragm%C3%A1tica>. Acesso em: 20 maio
2012.
Os estudos relacionados à pragmática com o passar dos anos passaram
a ser compreendidos de forma mais filosófica, como prática social concreta, que
analisa a significação linguística no contexto de uso: quem fala, quem ouve, seus
objetivos, efeitos e interferências socioculturais. Para Moeschler (apud FIORIN,
2011, p. 167) existem três domínios que exigem a introdução de uma dimensão
pragmática nos estudos linguísticos:
I – Os fatos de enunciação.
II – Os fatos de interferência.
III – Os fatos de instrução.
Veremos cada um dos três domínios.
OS FATOS DE ENUNCIAÇÃO
É o ato de produzir enunciados concretos. “Certos enunciados não têm por
finalidadea designação de um objeto ou um evento do mundo, mas referem-se a
si mesmos, ou seja, não têm função referencial, mas autorreferencial”. (FIORIN,
2011, p. 167). Existem certos fatos linguísticos que só são compreendidos em
função do ato de comunicar. Exemplos:
TÓPICO 2 | O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
29
FIGURA 9 – FATOS DE ENUNCIAÇÃO
FONTE: A autora com base em Fiorin (2011)
Os dêiticos: são elementos linguísticos que destacam o lugar ou o tempo
em que o enunciado é produzido, portanto, podem referir-se à situação, ao
momento e aos participantes em uma situação de produção do enunciado. São
dêiticos:
• os pronomes pessoais que indicam os participantes da comunicação eu/tu;
• os marcadores de espaço, como os advérbios de lugar;
• os pronomes demonstrativos (por exemplo: aqui, lá, este, esse, aquele);
• os marcadores de tempo (por exemplo, agora, hoje, ontem).
Note que um dêitico só pode ser entendido dentro da situação de
comunicação e, quando aparece, num texto escrito, a situação enunciativa deve
ser explicitada. (FIORIN, 2011). Vejamos alguns dêiticos (destacados em itálico)
no texto:
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
30
A LUVA E A CALCINHA
Um jovem estudante, ao passar em uma loja em São Paulo, resolveu
comprar um belo par de luvas para enviar a sua jovem namorada, ainda
virgem, de família tradicional mineira, a quem muito respeitava. Na pressa de
embrulhar, a moça da loja cometeu um 'pequeno' engano, trocando as luvas
por uma CALCINHA!
O jovem, não notando a troca, enviou o presente via SEDEX junto com
a seguinte carta:
São Paulo, 30 de maio de 2005.
Querida:
Sabendo que dia 12 próximo é o Dia dos Namorados, resolvi te mandar
este presentinho. Embora eu saiba que você não costuma usar (pelo menos eu
nunca te vi usando uma), acho que vai gostar da cor e do modelo, pois a moça
da loja experimentou e, pelo que vi, ficou ótima. Apesar de um pouco larga na
frente, ela disse que é melhor assim do que muito apertada, pois a mão entra
com mais facilidade e os dedos podem se movimentar à vontade. Depois de
usá-la, é bom virar do avesso e colocar um pouco de talco para evitar aquele
odor desagradável. Espero que goste, pois vai cobrir aquilo que breve irei pedir
ao teu pai, além de proteger o local em que colocarei aquilo que você tanto
sonha.
Beijos de seu amor!
Uso de conectores: são formas linguísticas que estabelecem ligações entre
os atos de enunciação. Observe os seguintes usos:
• Paulo será candidato, mas é um segredo.
• Amanhã vou à sua casa. Porque estou com saudades.
Percebemos que os conectores, mas e porque não se ligam aos conteúdos,
mas aos atos de enunciação. No caso de Paulo, isso ocorre por meio da informação
sigilosa. Já no segundo caso, o conector porque justifica a primeira afirmação e não
o conteúdo, ou seja, explica o motivo.
Certas negações: quando se diz:
• Não gosto de chocolate, amo-os.
• O dia não está feio, está péssimo.
TÓPICO 2 | O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
31
A negação nesses casos não trabalha sobre a expressão negada e sim sobre
a possibilidade de afirmação. Observe, o que o sujeito está tentando dizer, não é
que não ama chocolate, ou que o dia não está feio. Pelo contrário, amar e feio, são
expressões insuficientes para definir o quanto ele gosta e o quanto ele se apresenta
indignado com as condições do tempo. O que é posto em questão nesses casos,
não é o conteúdo, mas sua enunciação.
FIGURA 10 – APOSENTADORIA: EXERCENDO DIREITOS!
FONTE: Disponível em: <http://www.exercendodireitos.com.br/2012/03/aposentadoria-deve-
considerar-media-dos.html>. Acesso em: 1 jul. 2012.
Advérbios de enunciação: sinceramente, infelizmente, francamente, os
advérbios não modificam o verbo, mas qualificam o próprio ato de dizer: sincero,
infeliz, franco. Dá uma ênfase ao enunciado. Exemplo:
"A única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.
Quem sou?
Bem, isso já é demais..."
Clarice Lispector
Enunciados performativos: são os que realizam a ação que eles nomeiam.
É o caso da promessa, da ordem, do juramento, do desejo, do
agradecimento, do pedido de desculpas etc. A realização da ação
depende da enunciação da frase. Em outras palavras, a enunciação faz
parte integrante da significação (...) não há a possibilidade de enunciar
esses fatos, senão enunciados. (FIORIN, 2011, p. 167).
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
32
Os enunciados performativos são enunciados que quando emitidos
realizam uma ação (daí o termo performativo: o verbo inglês to perform
significa realizar), ou seja, quando proferidos realizam a ação denotada pelo
verbo. Sendo assim, dizer é fazer. Esses enunciados constituem o maior foco
de interesse de Austin.
Há que se considerar que proferir um enunciado performativo
não garante a sua realização, para que isso ocorra é preciso, ainda, que as
circunstâncias sejam adequadas. Para Austin, caso o enunciado seja proferido
em situação inadequada, por exemplo: Declaro-vos marido e mulher, e não
existem os noivos, será um enunciado nulo, o performativo não se realiza (isto
é, o casamento não ocorre). Aprofundaremos mais estas reflexões a seguir.
FIGURA 11 – ENUNCIADO PERFORMATIVO
FONTE: Disponível em: <http://perfumados.blogs.sapo.pt/45422.html>. Acesso em: 1 jul. 2012.
Outro domínio que exige a introdução de uma dimensão pragmática
(MOESCHLER apud FIORIN, 2011, p. 167) nos estudos linguísticos é a
interferência. É o que discutiremos a seguir:
OS FATOS DE INTERFERÊNCIA
A interferência ocorre em enunciados que implicam outros. Vejamos essa
definição pelas próprias palavras de Fiorin (2011, p. 168).
TÓPICO 2 | O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
33
Certos enunciados têm a propriedade de implicar outros. Assim,
quando se diz João é meu sobrinho, esse enunciado implica Sou tio de João;
quando se afirma Se tivesse chovido, não haveria falta de energia, essa afirmação
implica Não choveu e há falta de energia. Essas implicações derivam dos próprios
enunciados e, portanto, não exigem, para que sejam feitas, informações
retiradas do contexto, da situação de comunicação. No entanto, muitos casos, a
comunicação não é literal e, por conseguinte, só pode ser entendida dentro do
contexto. Nesse caso, os falantes comunicam muito mais do que as palavras da
frase significam. Os exemplos seguintes mostram isso: (a) Não há mais homens
no mundo; (b) Você pode me passar esse pacote?; (c) A lata de lixo está cheia. No
primeiro caso, o que está dizendo, quando se comenta, por exemplo, o fato de
que muitos homens cuidam da casa, enquanto as mulheres trabalham fora, é
que o papel masculino, tal como era concebido, está mudando. Isso só pode
ser entendido num contexto específico. No segundo caso, não se pergunta
sobre a capacidade que tem o interlocutor de passar o pacote diz a frase para a
empregada, ela não faz uma constatação, mas indica à interlocutora que deve
levar o lixo para fora.
A pragmática deve explicar como os falantes são capazes de entender
não literalmente uma dada expressão, como podem compreender mais do que
as expressões significam e por que um falante pode preferir dizer alguma coisa
de maneira indireta e não de maneira direta. Em outras palavras, a pragmática
deve mostrar como se fazem inferências necessárias para chegar ao sentido dos
enunciados.
O que está implícito nesse enunciado?
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AUTOATIVIDADE
Existem duas definições fundamentais para a Pragmática:
• Significação versus sentido.
• Frase versus enunciado.
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
34
Fonte:A autora
Partindo dessa definição, a significação de uma frase é mutável conforme
o contexto em que é enunciada, pois dependerá de indicações contextuais e
situacionais. Vejamos: Está pegando fogo pode se referir:
• A comida vai ficar pronta rápido.
• A comida vai queimar.
• Eles estão brigando a coisa está pegando fogo.
• Corra sai daí, está pegando fogo!
OS FATOS DE INSTRUÇÃO
Por fim, outro domínio que interessa à pragmática é a instrução, ou
seja, as palavras do discurso, as maneiras de dizer e a ênfase na interpretação.
Quem cumpre essa função são: as preposições, advérbios, conjunções, ou seja,
os operadores argumentativos. Koch (1997), nos ajuda a explicar tais operadores.
Operadores argumentativos
São elementos da língua que indicam a força argumentativa dos
enunciados, ou seja, a direção que queremos tomar ao dizer alguma coisa.
Podemos dividi-los em duas noções básicas: escala argumentativa e classe
argumentativa.
A classe argumentativa pode ser entendida por argumentos que têm o
mesmo “peso” para levar o interlocutor a uma determinada conclusão. Assim,
vários argumentos (que iremos simbolizar por P) diferentes direcionam a uma
mesma conclusão (que iremos simbolizar como R), dando mais força ainda à
ideia defendida. Vejamos:
Classe Argumentativa
R = João é um bom candidato.
Ou seja, iremos concluir que João é um bom candidato.
Para isso utilizaremos os argumentos:
TÓPICO 2 | O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
35
P = Arg. 1 – tem boa formação em economia.
P = Arg. 2 – tem experiência no cargo.
P = Arg. 3 – não se envolve em negociatas.
P = Arg. 4 ...
Todos os argumentos direcionam o enunciado no sentido de mostrar que
João é um bom candidato, por isso, estão dentro da mesma classe argumentativa.
Poderíamos assim, estruturar uma frase como:
[João é um bom candidato]R, pois [tem boa formação em economia]P, [tem
experiência no cargo]P e [não se envolve em negociatas]P.
Temos, dessa forma, um enunciado que não só afirma uma ideia (“João
é um bom candidato”), como também defende a ideia com argumentos. Isso da
base à argumentação: afirmar algo e justificar essa afirmação.
Contudo, é bem comum os argumentos apresentarem certa gradação, ou
seja, alguns argumentos são mais fortes que outros, quando isso acontece, temos
aí uma escala argumentativa. Veja:
Escala Argumentativa
Quando dois ou mais enunciados de uma classe apresentam essa
gradação, tem-se uma escala argumentativa. Assim, o nosso enunciado parte para
uma mesma conclusão, mas os argumentos são dispostos de forma um pouco
diferente, eles agora têm uma hierarquia, isto é, uma ordem do mais forte para o
mais fraco. Exemplo:
R = A apresentação foi coroada com sucesso.
P = arg. 1 – estiveram presentes personalidade do mundo artístico.
P = arg. 2 – estiveram presentes pessoas influentes nos meios políticos.
P = arg. 3 – esteve presente o Presidente da República [argumento mais
forte].
Podemos representar graficamente essa escala, afirmando – R: A
apresentação foi coroada com sucesso:
(arg. + forte) p’’ – esteve presente o Presidente da República.
p’ – estiveram presentes pessoas influentes nos meios políticos.
p – estiveram presentes personalidades do mundo artístico.
E também podemos representá-la como negação, mas assim, os elementos
irão se inverter.
R: A apresentação não teve sucesso:
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
36
(arg. + forte) p’’ – não estivem presentes personalidade do mundo
artístico.
p’ – não estiveram presentes pessoas influentes nos meios políticos.
p – não esteve presente o Presidente da República.
Assim, poderíamos escrever o enunciado afirmativo desta forma, por
exemplo:
[A apresentação foi coroada com sucesso]R, porque [estiveram presentes
personalidade do mundo artístico]p, [pessoas influentes nos meios políticos]p’ e
até mesmo [o Presidente da República]p’’.
Já no caso da escala em sentido negativo, além de mudar a ordem dos
argumentos, o operador que iria introduzir o argumento mais fraco seria outro:
nem mesmo.
[A apresentação não teve sucesso]R, já que [o presidente não compareceu]
p, nem [pessoas influentes nos meios políticos]p’ nem mesmo [personalidades do
mundo artístico]p’’.
Principais Operadores Argumentativos
1) Assinalam o argumento mais forte de uma escala orientada no sentido
de determinada conclusão.
§ ATÉ / mesmo / até mesmo/ inclusive
O homem teme o pensamento como nada mais sobre a terra, mais que a
ruína e mesmo mais que a morte.
2) Somam argumentos a favor de uma mesma conclusão.
§ E / também / ainda / nem (= e não) / não só... mas também/ tanto... como
/ além de... / além disso... / a par de...
João é o melhor candidato: tem boa formação em economia, tem experiência
no cargo e não se envolve em negociatas.
João é o melhor candidato: não só tem boa formação em economia, mas
também tem experiência no cargo e não se envolve em negociatas.
João é o melhor candidato: tanto tem boa formação em economia, como
tem experiência no cargo, além disso, não se envolve em negociatas.
3) Introduzem uma conclusão relativa a argumentos apresentados em
enunciados anteriores.
§ PORTANTO / logo / por conseguinte / pois / em decorrência /
consequentemente
TÓPICO 2 | O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
37
O custo de vida continua subindo vertiginosamente; as condições de
saúde do povo brasileiro são péssimas e a educação vai de mal a pior. Portanto,
não se pode dizer que o Brasil esteja prestes a se integrar no primeiro mundo.
4) Introduzem argumentos alternativos que levam a conclusões diferentes
ou opostas.
§ OU / ou então / quer... quer / seja... seja
Vamos juntos participar da passeata. Ou você prefere se omitir e ficar
aguardando os acontecimentos?
5) Estabelecem relações de comparação entre elementos, com vistas a uma
dada conclusão.
§ mais que / menos que / tão... como
A: Vamos convocar Lúcia para redigir o contrato.
B: A Márcia é tão competente quanto a Lúcia.
6) Introduzem uma justificativa ou explicação relativa ao enunciado
anterior
§ PORQUE / que / já que / pois
“Não fiques triste que este mundo é todo teu
Tu és muito mais bonita que Camélia que morreu”.
(“Jardineira”)
7) Introduzem pressupostos no enunciado
§ Já / ainda / agora
Paulo ainda mora no Rio [Pressuposto = Paulo morava no Rio antes]
8) Distribuídos em escalas oposta: afirmação total ou negação total
§ Quase / Apenas
R: O voto não deveria ser obrigatório
Arg. 1: A maioria dos cidadãos já vota conscientemente: quase 80%.
Arg. 2: São poucos, mesmo agora, os que votam conscientemente: Apenas
30%.
Também podem ocorrer desta forma:
Será que Ana vai passar no exame?
Ela estudou um pouco [tem possibilidade de passar].
Ela estudou pouco [provavelmente não passará].
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
38
9) Operadores que contrapõem argumentos orientados para conclusões
contrárias.
§ MAS / porém / contudo / todavia / no entanto
§ EMBORA / ainda que / posto que / apesar de (que)
Quando usamos esses operadores é como se colocássemos os argumentos
em uma balança. De um lado está o argumento A que iremos contrariar
(normalmente algo que alguém disse), e do outro o nosso argumento B. Assim,
mostramos que aquilo que o outro disse é “possível”, isto é, de certa forma
entendemos, só que discordamos, ou seja, no final o nosso argumento pesa mais,
veja os exemplos:
A equipe da casa não jogou mal, mas o adversário foi melhor e mereceu
ganhar o jogo.
Poderíamos entender que alguém disse “P: a equipe da casa não jogou mal”.
Assim, talvez essa voz queira nos levar a acreditar em determinada conclusão R:
A equipe da casa merecia ganhar. Nós, porém, queremoso contrário, queremos
esta conclusão ~R: a equipe da casa não merecia ganhar. Daí, contrabalancemos o
argumento dizendo que Q: “o adversário foi melhor”.
Embora o candidato tivesse se esforçado para causar boa impressão, sua
timidez e insegurança fizeram com que não fosse selecionado.
O mesmo acontece aqui, R: O candidato poderia ter sido selecionado. P:
Pois se esforçou para causar boa impressão. Porém, no final, ~R: O Candidato não
foi selecionado. Q: Pois demonstrou timidez e insegurança.
FONTE: KOCH, Ingelore G. Villaça. Operadores Argumentativos. In: Inter-Ação Pela
Linguagem. São Paulo: Contexto, 1997. Disponível em: <https://sites.google.com/site/
producaodetextoediscurso/operadores-argumentativos>. Acesso em: 20 jun. 2012.
TEORIA DOS ATOS DE FALA
A pragmática, como já mencionamos, tem como precursor Austin, que se
preocupa com os falantes e desenvolve a: Teoria dos Atos de Fala. Austin (1990),
em seus estudos, observa que quando falamos, não fazemos apenas declarações,
mas fazemos coisas como: ordenar, perguntar, pedir desculpas, lamentar, rogar,
julgar, reclamar etc. Assim, rompe com a noção tradicional da semântica que se
baseava nos valores de verdade e falsidade e propõe-se a introduzir o conceito de
“performativo”.
Performativo é todo enunciado que realiza o ato que está sendo enunciado.
Assim, se em “eu ajoelho para rezar” temos um enunciado que pode ser verdadeiro
ou falso, em “ajoelhou, tem que rezar” está implícita a ideia de comprometimento
do locutor em a ação, ou melhor, com as possíveis consequências do ato por ele
realizado, e não com a verdade ou a falsidade do enunciado. (WILSON, 2008, p. 92).
TÓPICO 2 | O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
39
Uma das distinções mais importantes feitas por Austin(1990) nesta sua
defesa dos atos de fala é entre:
FONTE: A autora
A visão performativa da linguagem é o centro dos estudos de Austin.
Apresentamos as situações.
FIGURA 12 – ENUNCIADO PERFORMATIVO FIGURA 13 – ENUNCIADO CONSTATIVO
FONTE: A autora
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
40
Diante da diferença que ocorre entre os enunciados, Austin(1990) continua
seus estudos e propõe a separação de níveis de ação linguística. São eles:
FIGURA 14 – NÍVEIS DE AÇÃO LINGUÍSTICA, DE ACORDO COM AUSTIN
FONTE: A autora baseada em Austin (1990)
Vejamos a análise:
• Eu vou estar na reunião hoje.
Locucitário: seria o conjunto de sons, tom de voz, entonação.
Ilocucionário: a força que o enunciado produz, nesse caso, pode ser de
promessa ou afirmação.
Perlocucionário: efeito produzido na pessoa que ouve: agrado, ameaça,
contentamento, alívio, vigília.
Nem sempre os performativos estão explícitos, eu prometo. Há casos de
performativos implícitos em que: pedidos, promessas, ameaças, reclamações
e outras ações não são indicadas por verbos, como promessa é dívida (WILSON,
2008).
FONTE: Wilson (2008, p. 94)
TÓPICO 2 | O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
41
As principais condições de sucesso de um performativo (FIORIN, 2011)
são:
• por convenção. Ex.: Declaro aberta essa sessão. Para que o performativo se realize
o enunciado precisa ser proferido por um presidente e não por um porteiro;
• de forma correta pelos participantes. O padre para que o ato do batismo se
concretize ele precisa dizer: Eu te batizo... se ele disser: Eu vos declaro, Eu te
perdoo o batismo não se realiza;
• a enunciação deve ser de comum acordo entre os participantes. É o caso das
apostas, ambos os lados precisam estar em comum acordo. Aposto uma caixa de
chocolate... O performativo necessita de aceitação.
A teoria dos atos de fala, proposta por Austin, foi retomada e ampliada
por Searle.
Esse autor adota o conceito de “finalidade ilocutória” (SEARLE, 1981, p.33)
para classificar os usos linguísticos, salientando que há um número limitado de
coisas que fazemos com a linguagem e que podem ser simultâneas. Para o autor,
falar uma língua é adaptar uma forma de comportamento regido por regras.
Searle(1981) criou as seguintes classificações para os atos de fala:
1) Atos assertivos: constituem no fato de dizermos às pessoas como as
coisas são (esse ato envolve comprometimento do falante com a “verdade” da
proposição). Por exemplo:
“É mais divertido ir e voltar.”
“O bumerangue é o ícone do consumo responsável.”
2) Atos diretivos: constituem nas tentativas de levarmos as pessoas a
fazer coisas (as tentativas podem variar em grau de intensidade: mais brandas
como um convite, uma sugestão, ou mais enérgicas como uma ordem). Por
exemplo: convidar, sugerir, aconselhar, ordenar, exigir etc.
“Se beber, não dirija. Volte de táxi ou com o amigo da vez.”
3) Atos expressivos: consistem na expressão de sentimentos e atitudes.
Por exemplo: agradecer, desculpar-se, lamentar(-se) etc.
“É de cortar o coração saber que tantas mães não têm notícias de seus
filhos, que desaparecem por várias razões, algumas desconhecidas.”
“Um absurdo o que vem acontecendo em relação a projetos para
empreendimentos imobiliários.”
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
42
4) Atos comissivos: consistem nos atos cujo efeito é produzir uma
mudança por meio do que dizemos: é o caso do convite e da promessa. No
exemplo a seguir, o trecho em itálico representa a promessa feita pelo jornal
aos seus eleitores.
“A cultura toma o poder. Nesse domingo, o caderno B estará nas mãos de
um novo editor”.
5) Atos declarativos: requerem situações extralinguísticas para a sua
atualização baseada em instituições ocupada por falantes e ouvintes. São
atos que podem promover uma mudança na realidade, o que distingue das
categorias. Incluem-se entre os atos declarativos: o ato de batizar, o de fazer uma
sentença judicial, por exemplo. Quando as declarações se referem à linguagem
propriamente dita, os verbos: “eu defino”, “eu nomeio”, “eu abrevio”.
“Eu vos declaro marido e mulher”.
FONTE: Wilson (2008, p. 94).
Observe, caro(a) acadêmico(a), que o ato de fala não pode ser considerado
isoladamente, mas como parte de um entendimento mútuo de uma comunidade
de falantes. Como uma forma de acrescentar reflexões acerca do que foi
apresentado nesse tópico, leia o texto que segue, cujo conteúdo aborda a teoria
dos atos de fala de Austin.
TÓPICO 2 | O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
43
LEITURA COMPLEMENTAR
A SIGNIFICAÇÃO NA TEORIA DOS ATOS D E FALA
Luiza Naome Suguimati
A teoria dos Atos de Fala elabora uma teoria da linguagem que pretente
dar conta do problema da significação, investigando o fenômeno lingüístico como
forma de representação, comunicação e ação. Ela é colocada pela maioria dos
estudiosos da linguagem como uma teoria Linguística do uso e desperta muito
interesse não só na Linguística mas também na Psicologia, na Antropologia, na
Sociologia, na Teoria da Literatura, etc. Estas ciências tentam dar conta, por meio
desta Teoria, de fenômenos como a aquisição da linguagem, a natureza das falas e
rituais mágicos, o estatuto das afirmações éticas, a natureza dos gêneros literários,
etc.
Sendo uma teoria de amplo interesse, há uma enorme literatura sobre
o assunto. Pretendemos nos fixar na teoria como foi desenvolvida por Searle,
acompanhando sua origem e sua trajetória, seus pressupostos filosóficos e as
dificuldades que sua postura individualista trouxe para a teoria.
2.1. Austin e o Ato Linguístico
A Teoria dos Atos, de Fala surgiu como uma reação ao positivismo lógico,
que floresceu por volta de 1930, que considerava a verificabilidade empírica
das sentenças e das afirmações como critério único para a significabilidade das
enunciações. A maioria dos discursos éticos, políticos e literários e a linguagem
ordinária em geral eram considerados enunciações emotivas, portanto sem valor
científico, porque suas condições de verificação nãopodiam ser testadas.
Elaborada inicialmente por Austin, a Teoria dos Atos de Fala fundamenta-
se na noção de ato linguístico. Esta noção consiste em mostrar a relação que
existe entre o comportamento: humano e um determinado sistema de códigos
que é usado de acordo com certas regras. Segundo Austin, ao proferir uma frase
estamos realizando uma série de atos como afirmar, negar, prometer, ordenar,
etc. A noção de linguagem como efetuadora de atos trouxe um novo enfoque
no campo da filosofia da linguagem, principalmente no que se refere ã noção
de significação. Introduz a noção de força ilocucionária que é responsável pela
especificação do ato linguístico que o locutor realiza ao proferir determinada
frase. A linguagem passa a ser considerada não só como um instrumento de
comunicação e representação, mas também passa a ser considerada como ação,
isto é, ela pode ser usada para realizar atos.
Na formulação da teoria, Austin faz, a princípio, a distinção entre
enunciado constativo e enunciado performativo. O enunciado constativo seria
aquele que se usa para "dizer" alguma coisa: descreve ou relata fatos, enuncia
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
44
estados de coisas, dá informações. A possibilidade de ser verdadeiro ou falso
ë sua característica essencial. O enunciado performativo ë usado para "fazer"
alguma coisa. Neste tipo de proferimento, quando um enunciado ë proferido, um
ato é realizado, isto é, enunciado e ato se identificam. Assim, dizer "eu prometo
que X" ë efetivamente prometer X. Enunciando esta oração o compromisso fica
assumido. Estes proferimentos não têm um valor de verdade nem relatam um fato
exterior, mas constituem eles próprios o fato. Possuem uma força ilocucionária
que permite pela simples enunciação, a realização de um ato linguístico.
Austin, entretanto, percebe que os performativos encontram-se em
todos os usos da linguagem. Percebe que mesmo nos relatos e descrições há
implicitamente um ato do falante.
(1) a - Eu prometo estudar.
b - Eu ordeno que você venha,
c - Eu nego a afirmação.
Em (1) os performativos estão explícitos. Ao enunciar percebe-se
claramente os atos que estão sendo realizados: dizer (1a) é efetivamente prometer;
em (1b) o ato que realizo é a ordem e em (1c) é a negação.
(2) a - Ele promete,
b - Eu faço isto.
c - O gato está no tapete.
Em (2) os verbos prometer, fazer e estar não são performativos. Nestas
sentenças há o relato, a descrição de um fato existente. Embora as sentenças em
si não realizem atos, a sua enunciação implica necessariamente a existência de
um falante que enuncia, isto é, que realiza o ato de enunciar. Assim, (2) pode ser
entendido da seguinte forma:
(2) a’ - Eu afirmo que ele promete.
b’ - Eu prometo que faço isto.
C’ - Eu declaro que o gato está no tapete.
Na realidade, toda enunciação efetivamente realiza um ato que e
atribuído ao falante. Este ato pode ser uma promessa, uma ordem, um relato,
uma descrição, uma constatação, etc., e pode estar explicito ou implícito, mas
está sempre presente porque toda enunciação pressupõe alguém que a enuncia.
Austin passa, então, a ignorar a divisão dos enunciados em duas categorias,
considerando agora o ato de enunciar como um todo complexo formado pelo
ato locucionário, ilocucionãrio e perlocucionário. Dizer alguma coisa é realizar
simultaneamente pelo menos estes três tipos de atos. ]
O ato locucionário é o ato de proferir uma sentença com um certo
significado. É o ato linguístico produzido em uma determinada língua, composta
de regras, convenções fonéticas, sintáticas e semânticas, com a função de referir e
predicar. Este ato traz em si uma série de atos ao ser proferido:
TÓPICO 2 | O SIGNIFICADO E O USO DA LINGUAGEM
45
- o ato fonético (que é o ato de emitir certos sons) .
- o ato fático (que é o ato de emitir sons sintaticamente organizados, através .de
um vocabulário e da estruturação gramatical de uma língua).
- o ato rético (que é o ato de usar os vocábulos com um certo sentido e referência
mais ou menos definidos).
A relação entre estes três tipos de ato locucionário é uma relação de
dependência do ato mais complexo ao mais simples. Não se pode realizar um
ato rético sem realizar um ato fático ou um ato fonético, embora o inverso seja
possível.
A realização completa do ato locucionário se dá através do ato rético que
é a instância Linguística básica da comunicação humana.
O ato ilocucionãrio é o ato propriamente dito que se pratica ao enunciar
determinada oração. 0 falante ao proferir uma sentença com um certo significado
performa também atos como informar, perguntar, ordenar, prometer, etc. O ato
ilocucionãrio não é efeito nem consequência do ato locucionário. Sua determinação
é dada principalmente pela intenção do locutor que veicula esta intenção através
de uma convenção aceita que estipula que proferir determinadas palavras em
determinadas circunstâncias tem a força de um certo ato.
O ato perlocucionário é o resultado não convencional do ato linguístico, o
efeito produzido no ouvinte pela enunciação da sentença. Não depende de uma
convenção embora seja sempre conseqüência de um outro ato qualquer. Pode, às
vezes, escapar aos efeitos pretendidos pelo falante.
(3) Ela vai chegar.
A enunciação de (3) realiza um ato locucionário (um proferimento)
pelo qual o falante tem a intenção de avisar sobre a chegada de alguém (ato
ilocucionário). O efeito perlocucionário pretendido é que o ouvinte fique sabendo
que alguém vai chegar. No entanto, o proferimento, dependendo da situação de
enunciação, pode provocar um ato perlocucionãrio completamente diferente
(irritação, por exemplo, se a pessoa que vai chegar é alguém indesejável).
Todo ato linguístico é, então, composto de um ato locucionário que é
realizado segundo convenções Linguísticas e que como tal varia de língua para
língua; de um ato ilocucionário que é estabelecido por convenções sociais e um
ato perlocucionário que é o efeito não convencional que a enunciação produz.
FONTE: Texto extraído e adaptado da Dissertação de Mestrado: SUGUIMATI, Luiza Naome.
Elementos para uma crítica aos fundamentos da Teoria dos Atos de Fala. 1989. 86 f.
Dissertação (Mestrado em Linguística) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1989.
46
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você viu:
• Que há na linguística estudos relacionados à linguagem no seu contexto de
uso. Esse ramo da linguística é chamado de pragmática.
• Que para Moeschler (apud FIORIN, 2011, p. 167) existem três domínios que
exigem a introdução de uma dimensão pragmática nos estudos linguísticos: os
fatos de enunciação, os fatos de interferência, os fatos de instrução.
• Os fatos de enunciação: dêiticos, uso de conectores, certas negações, advérbios
de enunciação, enunciados performativos.
• Os fatos de interferência: a interferência ocorre em enunciados que implicam
outros.
• Os atos de instrução: quem cumpre essa função são: as preposições, advérbios,
conjunções, ou seja, os operadores argumentativos.
• Atos de fala: Austin, em seus estudos, observa que quando falamos, não fazemos
apenas declarações, mas fazemos coisas como: ordenar, perguntar, pedir
desculpas, lamentar, rogar, julgar, reclamar etc. Assim, rompe com a noção
tradicional da semântica que se baseava nos valores de verdade e falsidade e
propõe-se a introduzir o conceito de “performativo”.
• Os níveis de ação linguística: locucitário, ilocucionário, perlocucionário.
47
1 Caro(a) acadêmico(a)! Depois de ter lido a crônica (Leitura Complementar),
escreva qual o ato ilocucionário realizado pelo professor quando se dirige ao
candidato com a frase: Esse “for” aí que verbo é esse?
2 Agora, a partir da frase do professorConjugue aí o presente do indicativo desse
verbo. Pontue qual é o ato perlocucionário realizado nesse enunciado?
3 Observe a imagem:
AUTOATIVIDADE
FONTE: Disponível em: <lihttp://diariodenet.blogspot.com.br/2011/05/desculpas.htm>.
Acesso em: 10 jul. 2012.
O enunciado “desculpe-me” pode ser classificado como:
a) ( ) Advérbio.
b) ( ) Performativo.
c) ( ) Conector.
d) ( ) Dêitico.
4 Leia o quadrinho:
FONTE: Disponível em: <http://centraldamorfologia.blogspot.com.br/>. Acesso em: 7 ago.
2012.
Qual é o papel que cumpre o conector “mas” nesse enunciado?
48
49
TÓPICO 3
ANÁLISE DO DISCURSO: A LINGUAGEM EM
MOVIMENTO E OS EFEITOS DE SENTIDOS
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
FIGURA 15 – AMBIGUIDADE (O EFEITO DE HUMOR DA TIRA DE ANGELI SE DÁ JUSTAMENTE
PELO USO DA AMBIGUIDADE)
FONTE: Disponível em: <http://oficinaderedacaoindac.blogspot.com.br/>. Acesso em: 12 ago.
2012.
O que significa a expressão “Eu também!” nesse contexto? Há duas formas
de interpretar o enunciado do terceiro quadradinho: uma que Stock há vinte anos
fazia sexo com frequência com sua noiva, ou então, que nesse período Stock vivia
fazendo sexo, porém com a noiva de seu amigo Wood. Estudar sobre a linguagem
em uso é admitir que existem muitas teorias e maneiras de estudá-la.
A forma de abordar a linguagem é diferente para alguns autores como:
Pêcheux e Bakhtin, e isso também, tem a ver com a época em que a teoria foi
discutida. É justamente pelo fato de existir muitas maneiras de significar que
esses estudiosos começam a se interessar não pela língua em si, nem a língua
como objeto da gramática (embora todos esses aspectos também lhes interessem),
mas pela linguagem em movimento, de maneiras particulares, é o que deu origem
à análise do discurso e à teoria da enunciação. Nesse tópico, focaremos nossas
reflexões na origem e conceitos da análise do discurso.
2 A LINGUAGEM NA ANÁLISE DO DISCURSO
Foi num clima de insatisfação, propício à emergência de um novo estatuto
epistemológico para a ciência, que surge a Análise do Discurso/AD. A origem
epistemológica da AD deu-se nos anos 60 (séc. XX), com a junção de três domínios
disciplinares: a linguística, o marxismo e a psicanálise. A junção desses domínios
50
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
resultou na consideração: da linguagem, da história e do sujeito respectivamente.
A origem da AD deu-se a partir dos estudos de Pêcheux, na perspectiva contrária
ao engessamento instaurado pelo Estruturalismo, principalmente ao que diz
respeito aos estudos do objetivismo abstrato de Saussure. Saussure se pautava na
lógica que a língua era um corpo fechado e podia ser explicado como um sistema,
uma estrutura. Pêcheux não visou estudar a língua em si, mas buscou entender a
linguagem, disso decorreu uma ruptura com o pensamento do século XIX.
ESTRUTURALISMO: Corrente teórica da linguística baseada nos princípios do
Curso de Linguística Geral (1916) de Ferdinand de Saussure, que se desenvolveu a partir dos
anos 30 do século XX. Saussure é considerado o fundador do Estruturalismo. As relações
entre as partes da estrutura foram descritas em termos de relações sintagmáticas (no plano
do sintagma, num eixo horizontal) e paradigmáticas (no plano da semântica, num eixo
vertical). (Fonte: adaptado de: CÂMARA JUNIOR, Joaquim Mattoso. Estrutura da Língua
Portuguesa. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 43).
UNI
Existem duas Análises do Discurso diferentes. Uma de origem francesa
(em que vamos focar nosso estudo nesse tópico) que privilegia o contato com a
História. E outra, a Análise do Discurso Anglo-Saxã, que privilegia contato com a
Sociologia. (MUSSALIM, 2011, p. 113).
3 FASES DA ANÁLISE DO DISCURSO
A AD passou por três fases, e cada uma delas expressa o movimento
conflituoso trazendo uma revelação dos embates, das reconstruções e retificações,
segundo o próprio Pêcheux (1988) em torno dos pilares teóricos que compõem a
raiz epistemológica da teoria. Vejamos:
TÓPICO 3 | ANÁLISE DO DISCURSO: A LINGUAGEM EM MOVIMENTO E OS EFEITOS DE SENTIDOS
51
1a fase: conhecida como AD – 1 ou AAD (Análise Automática do Discurso)
teve como efeito o “primado do mesmo sobre o Outro”. Ambicionava-se nessa
primeira fase:
a construção de um dispositivo capaz de produzir a leitura automática
de um conjunto de discursos previamente selecionados e organizados
segundo critérios que garantissem homogeneidade e estabilidade
em termos de circunstâncias históricas e sociais de produção, numa
palavra, em termos de condição de produção” (COSTA, 2005, p. 17).
Nesse período, Pêcheux interpretava a noção de ideologia de Althusser,
que denominava de Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE – instituição religiosa,
escolar, familiar, política) que solidificava as relações sociais. Assim, o sujeito era
considerado como homogêneo, dominado pela classe dominante. O sujeito era,
portanto, assujeitado, atravessado pela ideologia e pelo inconsciente, como uma
maquinaria autodeterminada e fechada sobre si mesmo (GREGOLIN, 2004).
2a fase: AD – 2, ou época dos tateamentos, predominou a “heterogeneidade,
ao Outro”. A seguir, discutiremos as mudanças e conceitos relacionados a essa
fase (GREGOLIN, 2004).
3a fase: AD – 3, conhecida como desconstrução dirigida, o encontro com a
Nova História. Nessa última fase, não aprofundaremos a discussão nesse caderno.
Ressaltamos apenas que as ideias de Foucault foram centrais, pois nesta época é
que Pêcheux revê todas as suas críticas à teoria de Foucault.
DICAS
Prezado(a) acadêmico(a)! Para ampliar essa discussão sugerimos ler:
COSTA, Nelson Barros da. Práticas discursivas: exercícios analíticos. Campinas, SP: Pontes,
2005.
GREGOLIN, Maria do Rosário. Foucault e Pêcheux na análise do discurso: diálogos e duelos.
São Carlos, SP: Clara Luz, 2004.
Explanamos agora conceitos referentes à segunda fase da AD, quando se
dá início o movimento em direção à heterogeneidade, ao Outro. O movimento que
ocorreu nessa fase incorporou de modo definitivo toda a força do pensamento de
Foucault, a quem Pêcheux sempre considerava um adversário estimulante.
Pêcheux começa a retrabalhar o conceito de ideologia, quando argumenta
que “não se pode de maneira nenhuma, ser compreendida como um bloco
homogêneo, idêntico a si mesmo, com seu núcleo, sua essência, sua forma típica”.
(PÊCHEUX, apud GREGOLIN, 2004, p. 128). A partir da ideia de heterogeneidade
52
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
da ideologia, Pêcheux toma por empréstimo a noção foucaultiana de formação
discursiva (FD), e reinterpreta pela lente althusseriana, sinalizando um período
de polêmicas e reajustes na AD.
O conceito de formação discursiva passa a ser um conceito de base da
AD, que permite, assim, compreender o processo de produção dos efeitos de
sentidos, a sua relação com a ideologia e atribui ao analista a possibilidade de
estabelecer regularidades no funcionamento do discurso (ORLANDI, 2005). A
partir disso, Pêcheux reafirma as relações “entre língua, discurso, ideologia e
sujeito e formula a sua teoria dos “dois esquecimentos” (definição a seguir), sob
ação da interpelação ideológica, o sujeito pensa que é a fonte do dizer, pois este se
apresenta como evidência”. (GREGOLIN, 2004, p. 62, grifos do autor).
A ideologia é retratada na/pela língua. Língua não em seu sentido restrito,
mas dentro de um movimento histórico em que cada sujeito, dependendo da
posição que ocupa, é gerador de interpretações. “A ideologia, por sua vez, é
interpretação de sentido em certa direção, direção determinada pela relação da
linguagem com a história em seus mecanismos imaginários”. (ORLANDI, 1996,
p. 31).
A linguagem, na fase (2), passa a ser considerada como um acontecimento,
uma prática de sentido que intervém no real. A “AD se interessa pela linguagem
tomada como prática:mediação, trabalho simbólico, e não só instrumento
de comunicação. É ação que transforma, que constitui identidade, ao falar,
ao significar, eu me significo”. (ORLANDI, 1996, p. 28). A linguagem, nessa
perspectiva, torna-se inseparável da condição humana, e atua como mediadora
entre o natural e o social, apontando como uma forma de separação entre o
mundo cultural e o mundo rudimentar. Remetemo-nos à linguagem como um
acontecimento, na condição de incompletude, e temos o discurso (objeto da
análise) que não está pronto (estratificado), mas em movimento. Esse movimento
é revelado quando nos deparamos com o homem falando e levamos em conta sua
história, como um sujeito que participa de uma determinada sociedade.
DICAS
Estimado(a) acadêmico(a)! Se você deseja
aprofundar seus estudos sobre conceitos de ideologia, sujeito,
efeitos de sentido, contexto de produção. Sugerimos a obra:
ORLANDI, Eni P. Análise do discurso: princípios e procedimentos.
3. ed. São Paulo: Pontes, 2001.
TÓPICO 3 | ANÁLISE DO DISCURSO: A LINGUAGEM EM MOVIMENTO E OS EFEITOS DE SENTIDOS
53
A ideologia é o pilar para constituição do sujeito e dos efeitos de sentidos,
uma vez que a materialidade da ideologia é o discurso (ORLANDI, 1996). Na AD
a ideologia:
Não se define como o conjunto de representações, nem muito menos
como ocultação de realidade. Ela é uma prática significativa; sendo
necessidade da interpretação, não é consciente – ela é efeito da relação
do sujeito com a língua e com a história em sua relação necessária,
para que se signifique. (ORLANDI, 1996, p. 48).
A ideologia é produzida no encontro entre a língua e a história, no
momento em que essas duas materialidades se juntam é composto o discurso.
Na 2a fase da AD, Pêcheux aborda a relação do sujeito com a língua e a ideologia
de maneira inusitada, assim “há uma espécie de “atenuação” no assujeitamento,
o que indica o seu afastamento da posição dogmática anterior e que abre várias
reorientações para a análise do discurso”. (GREGOLIN, 2004, p. 129).
4 FORMAS DE DIZER
No discurso não encontramos um início e nem um fim verificável. É uma
relação entre presente e passado. Assim, não se constrói no vácuo, mas nas relações
entre o sujeito-sujeito e/ou sujeito-contexto. Os discursos na AD (PÊCHEUX,
1988; ORLANDI, 2005) são constituídos por três diferentes formas de dizer:
Apresentamos o silêncio (uma das formas de dizer). O silêncio na AD
faz parte da constituição do sujeito, não aparece por acaso, uma vez que o ser
humano é constituído por palavras e pelo silêncio, e ambas são formas de dizer.
“O silêncio não está apenas nas palavras. Ele as atravessa”. (ORLANDI, 1992, p.
71).
54
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
FONTE: A autora com base em Orlandi (1992)
O discurso fundador:
[...] tem significância própria, não significa originário nem lugar do
sentido absoluto, mas o silêncio como o movimento de sentidos.
Ele é a possibilidade do sujeito de trabalhar com a contradição e o
deslocamento, que deixa indícios que todo discurso se remete a
discurso que lhe dá sentido. (ORLANDI, 1992, p. 71).
O discurso fundador está pautado no silêncio fundante, raiz de toda
significação. O silêncio (ORLANDI, 1992) tem sentido, o “vazio” da linguagem
compreendemos como um horizonte, uma incompletude e não como falta.
“A incompletude é condição de linguagem, pois nem sujeito, nem sentido,
nem discurso estão acabados, é o silêncio que preside essa possibilidade num
movimento constante com a história, é a condição dos sujeitos e dos sentidos”.
(ORLANDI, 1992, p. 75). Se não considerarmos a história, os processos de
construção do discurso e analisarmos como os efeitos de sentidos foram
produzidos, é impossível compreender o silêncio.
O silêncio não é visível, não é diretamente observável, mas escorre entre
as palavras, passa por entre a trama do discurso, “o silêncio não fala. O silêncio é.
Ele significa. Ou melhor: no silêncio, o sentido é”. (ORLANDI, 1992, p. 33, grifos
do autor).
TÓPICO 3 | ANÁLISE DO DISCURSO: A LINGUAGEM EM MOVIMENTO E OS EFEITOS DE SENTIDOS
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Caro(a) acadêmico(a)! Como você justifica a afirmação: “dizem que o silêncio
fala”.
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AUTOATIVIDADE
Já o outro silenciamento, (ou política do silêncio) nos conduz à reflexão
que: para dizer é preciso não dizer (uma palavra apaga outras palavras. Exemplo:
Vote sem medo, por trás o silenciamento: Vote com coragem). Parte do princípio
da opressão, ou em contrapartida da resistência. E, o silêncio local se refere à
censura propriamente dita (aquilo que é proibido dizer em certa conjuntura), é a
interdição do dizer, proíbem-se certas palavras, para se proibirem certos sentidos
(ORLANDI, 1992).
A diferença entre “o silêncio fundador e o silenciamento, é que o segundo
produz um recorte entre o que se diz e o que não se diz. Enquanto o primeiro
faz com que o dizer signifique por si mesmo, não estabelece nenhuma divisão”
(ORLANDI, 1992).
FIGURA 16 – ALGUNS SILENCIAMENTOS
FONTE: Disponível em: <http://sugestível.blogspot.com/2007_03_01_archive.html>. Acesso
em: 12 set. 2012.
Nessa tira podemos encontrar alguns silenciamentos, como: o que significa
quem toma sopa cresce? Fica sempre criança? Por que faz referência a Marx?
Karl Marx, fundador do marxismo, constituiu uma concepção
materialista da História. Mas, por que Mafalda o cita? Possivelmente, porque
Marx compreendia o homem como um ser social, desta forma, ele se posicionava
contrário a qualquer separação entre teoria e prática, pensamento e realidade, ou
seja, essas abstrações mentais integram uma mesma totalidade. Assim, se Marx
não tivesse crescido, não teria elaborado sua teoria.
56
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
Outra forma de dizer é o interdiscurso. Esse é base do que Pêcheux
(1988) chamou de esquecimento, uma vez que compõe os dizeres já proferidos
e esquecidos na memória discursiva. Pêcheux teorizou (na AD -2) dois
esquecimentos:
• o esquecimento no 2: que é denominado de parcial, o semiconsciente, quando
dizemos de uma maneira e não de outra; é do nível enunciativo. O esquecimento
que produz no sujeito a impressão da realidade do pensamento (ilusão
referencial): impressão de que aquilo que ele diz só pode ser aquilo, quando na
verdade o dizer sempre podia ser outro (PÊCHEUX, 1988).
• o esquecimento no 1, que é o inconsciente, também chamado (PÊCHEUX, 1988) de
esquecimento ideológico, daí decorre a impressão, ou ainda, a ilusão de sermos
a origem do dizer, quando na realidade, retomamos sentidos preexistentes. Ao
se referir à ilusão, Orlandi (2005, p. 36) argumenta que:
[...] não são “defeitos”, são uma necessidade para que a linguagem
funcione nos sujeitos e na produção de sentido. Os sujeitos “esquecem”
que já foi dito – e este não é um esquecimento voluntário – para, ao se
identificarem com o que dizem se constituírem em sujeitos. É assim
que eles se significam retomando as palavras já existentes como se elas
se originassem neles e é assim que sentidos e sujeitos estão sempre
em movimento, significando sempre de muitas e variadas maneiras.
Sempre as mesmas, mas, ao mesmo tempo, sempre outras.
O dizível em nível do interdiscurso – “é o da globalidade do dizer que
só adquire especificidade na determinação histórica das diferentes formações
discursivas. [...] ninguém tem acesso ao conjunto do dizível (o interdiscurso), só
a porções dele” (ORLANDI, 1992, p. 165). Define-se o interdiscurso (PÊCHEUX,
1988) como um conjunto de formulações discursivas exteriores ao sujeito
enunciador, que formam, em seu conjunto, o domínio da memória. Na memória
discursiva, ressoa umavoz sem nome, que constitui o discurso pela ordem do
repetível (paráfrase, o mesmo).
O dizer é uma estratificação de formulações já feitas, mas “esquecidas” e
que vão construindo, na história, os sentidos (PÊCHEUX, 1988). “Toda fala resulta
assim de efeito de sustentação no já-dito que, por sua vez, só funciona quando
as vozes que poderiam identificar em cada formulação particular se apagam e
trazem o sentido para o regime do “anonimato” e da “universalidade”. Ilusão de
que o sentido nasce ali, não tem história”. (GREGOLIN, 2004, p. 142).
E o último processo que apresentamos (como forma de dizer) é o
intradiscurso que Pêcheux considera como o eixo da formulação discursiva. O
intradiscurso é determinado pela forma como o sujeito articula a constituição
do saber já esquecido (interdiscurso) e sua formulação atual (intradiscurso)
num determinado acontecimento. É uma mistura, uma fluidificação de discurso
exterior com o interior, isso porque “as palavras falam com outras palavras. Toda
palavra é sempre parte de um discurso. E todo discurso se delineia na relação
TÓPICO 3 | ANÁLISE DO DISCURSO: A LINGUAGEM EM MOVIMENTO E OS EFEITOS DE SENTIDOS
57
com outros: dizeres presentes e dizeres que se alojam na memória” (ORLANDI,
2005, p. 43). Do jogo do inter e intradiscurso se retiram os efeitos de sentidos
(conceituação a seguir). O intradiscurso é a formulação do discurso (o diferente),
no aqui e agora do sujeito. Pelo intradiscurso temos o sujeito que intervém no
repetível, abre espaço para a polissemia, a constituição de múltiplos sentidos.
A partir das considerações das três constituições do dizer (silêncio, o
interdiscurso e o intradiscurso) situamos você, acadêmico(a), no que nos referimos
por formação discursiva.
5 FORMAÇÃO DISCURSIVA E O CONTEXTO DE PRODUÇÃO
Pontuamos a formação discursiva como: as “marcas estilísticas e tipológicas
que se constituem na relação da linguagem com as condições de produção. De
outro lado, podemos dizer que o que define a formação discursiva é sua relação
com a formação ideológica”. (ORLANDI, 1987, p. 132).
A formação discursiva não é homogênea, tem base heterogênea, é
construída pela sua interrupção, atravessada na relação com o outro, disso decorre
sua constante reconfiguração: perdas, substituições, acréscimos, transferências
acontecem continuamente nesse espaço: palavras, expressões e enunciados
sofrem mudanças (FURLANETTO, 2002). São, pois, um conjunto de dizeres,
definem uma regularidade ou dispersão que refletem diferenças ideológicas de
posição sujeitos e de formação imaginária representada. A formação discursiva
representa as escolhas, os tipos de dizeres e as relações com outras diferentes
formações discursivas, o que pode e deve ser dito num dado acontecimento
(PÊCHEUX, 1988).
Nas formações discursivas, consideramos a:
PALAVRA CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO
Os sentidos da palavra estão vinculados às formações discursivas e sem
as quais a palavra não existiria. Referimo-nos à palavra como uma expressão
que muda de sentido dependendo de quem as emprega e do contexto em que
a utiliza, “as palavras não têm um sentido nelas mesmas, elas derivam seus
sentidos das formações discursivas em que se inscrevem”. (ORLANDI, 2005,
p. 42). Dessa forma, “as palavras recebem sentidos das formações discursivas
em suas relações”. (ORLANDI, 2005, p. 46). A significação é determinada pelas
condições de produção.
Pêcheux (1988) argumenta que o sentido da palavra se modifica, e é
determinado, pela posição sujeito. O sentido de uma palavra não existe em
si mesmo – a palavra pode ser palavra no momento quando consideramos as
condições de produção.
58
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
A palavra abrange os sujeitos e a situação, diante de duas circunstâncias
do discurso:
O CONTEXTO IMEDIATO
E O CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO-IDEOLÓGICO
O contexto imediato (ORLANDI, 2005) refere-se ao campus no qual a
palavra é dita, o fato de ter sido de uma forma e não de outra. Já o contexto
socio-histórico-ideológico traz as formações discursivas carregadas de efeitos de
sentido, ou seja, a forma como a sociedade organiza as relações de força. Essas
relações se sustentam no poder desde os diferentes lugares e diferentes posições
que o sujeito ocupa.
O que significa no discurso são, portanto, as POSIÇÕES.
Não são os sujeitos, nem os lugares ou como estão inscritos na
sociedade, mas a imagem que resulta dessa projeção que permite
passar do lugar de sujeito (situação empírica) para posição (discursiva)
sujeito do discurso, a forma que ele se posiciona está relativamente
atrelada à sua memória, e condições de produção. (ORLANDI, 2005,
p. 40).
A formação imaginária é um jogo de imagens, (quem sou, quem é ele/ de
que objeto estou falando, do que ele me fala) que nos ajuda a compreender os efeitos
de sentidos considerando que o discurso funciona entre o real, a incompletude,
a palavra e o imaginário, a completude que se constitui no confronto entre o
simbólico e o político (PECHEUX, 1988).
Falar em efeitos de sentidos é, pois, aceitar que se está sempre no jogo
das diferentes formações discursivas. Os efeitos de sentido não estão alocados
em lugar nenhum, mas se produzem nas relações dos sujeitos e dos sentidos
(ORLANDI, 1992).
Para Pêcheux (1988), o discurso é efeito de sentidos entre locutores, é um
efeito do dizer. Efeito de sentido é a produção oriunda do dizer, é no campo do
discurso, não temos um único significado, o que temos são efeitos de sentidos. A
AD analisa o sentido como efeito, como produção de um discurso. O discurso,
como já ressaltamos, se mescla pela possibilidade de três formas de dizer: o silêncio,
o inter e o intradiscurso. Compreender o que vem a ser efeitos de sentido é,
TÓPICO 3 | ANÁLISE DO DISCURSO: A LINGUAGEM EM MOVIMENTO E OS EFEITOS DE SENTIDOS
59
[...] compreender a necessidade da ideologia na constituição dos
sentidos e dos sujeitos. É da relação regulada historicamente entre
muitas formulações discursivas que se constituem os diferentes efeitos
de sentidos entre locutores. Sem esquecer que os próprios locutores
(posição do sujeito) não são anteriores à constituição desses efeitos,
mas se produzem com eles. (ORLANDI, 1992, p. 21).
Compreender que efeitos de sentidos apontam as formulações discursivas
olhar para os dizeres como opacidade da linguagem, lugar de manifestações da
história, das relações de força e de sentidos que refletem os confrontos ideológicos.
Foucault (2001) não pensa na ideologia e lutas de classe, mas pensa no
poder, pela lente da microfísica dos poderes. Para Foucault o poder se faz presente
em toda sociedade, uma vez que esse se aloja nas práticas e/ou relações entre
indivíduos. Althusser dizia que o Aparelho Ideológico do Estado era responsável
por todas essas relações, mas Foucault (2001) amplia essa discussão e argumenta
que não é somente o Estado que exerce esse poder, e sim, o que ele denomina de
microfísica dos poderes que estão espalhados por toda sociedade como redes de
dispositivos interconectados.
[...] a sociedade moderna construiu uma maquinaria de poder através
da disciplinariedade, cuja anatomia política desenha-se aos poucos até
alcançar um método geral e espalhar-se numa microfísica do poder
que vem evoluindo em técnicas cada vez mais sutis, mais sofisticadas
e, com sua aparente inocência, vem tomando o corpo social em sua
quase totalidade. (GREGOLIN, 2004, p. 132).
Leia o trecho que contém um recorte de análise, pautada nos conceitos da
AD.
Marcos (sujeito pesquisado) menciona o fato de não gostar de ler, mas
lê em voz alta como uma obrigação para auxiliar a avó que não tem o domínio
do código escrito. Marcos enuncia sobre sua identidade leitora, mediante o
questionamento: Você se considera leitor?Marcos: não’ não gosto de ler’ leio quando é necessário (incompreensível)
não gosto de ler
P: o que tu chamas de necessário”
Marcos: tipo alguém pede pra lê’ lê isso aqui pra mim’
P: na escola hoje tu se sente chamado ou obrigado a ler”
Marcos: dentro da escola acho que é chamado’ por a gente vem pra fazer
isso e fora acho que é obrigado’ fora da escola,
P: mas quem te obriga fora”
Marcos: fora que nem ’deixa eu vê como posso dize’ a vó não sabe lê, daí
ela diz lê isso aqui pra mim (incompreensível) daí ela não consegue.
60
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
Os efeitos de sentidos que perpassam a formulação discursiva de Marcos
acerca da sua identidade leitora giram em torno, da leitura em voz alta para o
outro, e isso reflete a leitura como: obrigação e como letramento, ou seja, a leitura
como prática social atrelada aqui à necessidade. Necessidade do leitor em ajudar
o outro (a avó), e a necessidade da avó satisfazer às exigências que decorrem do
mundo da escrita.
O que apreendemos no discurso de Marcos é a presença da obrigatoriedade
da leitura, e a implicação de relações de força. A posição sujeito da avó exerce
o papel de autoridade a quem o neto deve respeito. Inerente a isso, traz uma
formação imaginária, de que o neto, como frequenta a escola, deve saber ler, ser
um bom leitor e ajudar quem não teve a mesma oportunidade de ser alfabetizado.
O neto possui o conhecimento do código escrito, legitimado ideologicamente
pela sociedade, e reconhecido pela avó. Ao ocupar a posição de neto, necessita
respeitar a avó mediante a solicitação de ler, faz parte da formação social que
projeta a imagem que o neto tem do que seja a avó, a imagem que se tem de leitor,
a imagem que se tem de aluno (PÊCHEUX, 1988). Entretanto, esse lerá da forma
que lhe for mais conveniente, pelo peso na voz, ritmo e destaques. A relação entre
ambos (avó e neto) pode ser uma constante luta, mesmo porque,
qualquer luta é sempre resistência dentro da própria rede do poder,
teia que se alastra por toda a sociedade e a que ninguém pode escapar:
ele está sempre presente e se exerce como uma multiplicidade de
relações de força. E como onde há poder há resistência, não existe
propriamente o lugar de resistência, mas pontos móveis e transitórios
que também se distribuem por toda estrutura social. (MACHADO,
2001, p. XIV).
Notamos a presença de uma relação de força e dependência no discurso
de Marcos, entre quem tem o conhecimento cultural do signo e quem não tem
apropriação desse universo. Nessas circunstâncias, mesmo que Marcos seja
obrigado pela avó a ler, culturalmente o neto possui um conhecimento além do
saber dela e ideologicamente mais reconhecido do que o dela perante a escola.
Quando a avó diz: lê isso aqui pra mim, trata-se de eventos de letramento.
O evento de letramento busca “focalizar uma situação específica em que as
coisas estejam acontecendo, e em que se possa vê-las – esse é o evento clássico
de letramento, em que conseguimos observar um evento que envolva a leitura e/
ou a escrita” (STREET, 2003), sobretudo, ao pensar que sua natureza pode estar
relacionada a momentos que lhe dão significados. Neste sentido, a linguagem
escrita apresenta-se como veículo de manifestação de cultura, mas também de
ideologia, quando as habilidades de leitura e escrita são empregadas em contexto
social e ideológico e o indivíduo atribui significados às palavras (STREET, 2003).
TÓPICO 3 | ANÁLISE DO DISCURSO: A LINGUAGEM EM MOVIMENTO E OS EFEITOS DE SENTIDOS
61
As palavras mudam de sentido, dependendo do contexto e de quem as
emprega (PÊCHEUX, 1988). Articulamos o discurso de Marcos, quando assume
uma identidade de leitor a fim de ajudar outro analfabeto, há duas questões: à
necessidade e à contingência (PÊCHEUX, 1988).
A necessidade da leitura em voz alta pode ser subentendida quando a
avó manda: lê isso aqui pra mim, “isso aqui” é a palavra, porque o sujeito usa essas
palavras e não outras. A necessidade, geralmente, é de caráter social, o sujeito
a constrói relacionando com a sua vida cotidiana, atrelada à dependência ao
universo escrito. Logo, a necessidade nos é dada pelo contexto (PÊCHEUX, 1988).
Já a contingência é querer saber: por qual motivo a avó quer que leia?
Nesse caso, entra no campo de onde a palavra é dita, o que leva a considerar
as condições de produção e os diferentes pontos de vistas e as intenções dos
sujeitos. A cada interpelação da avó a Marcos, os motivos podem se alterar,
diante das subjetividades alocadas naquele momento. Lê isso aqui para mim -
em um dia pode significar ler uma bula de remédio, em outro, uma carta que
lhe foi enviada, ou talvez uma receita nova de bolo, quem sabe até a bíblia. A
contingência (PÊCHEUX, 1988) é caracterizada pelo fato que pode ou não ocorrer
em uma determinada circunstância, sobretudo, pode ser considerada como
acontecimento. Desse modo, podemos defini-la como únicas em um constante
movimento, e aproximá-la de eventos de letramentos (STREET, 2003).
A produção de um acontecimento significa a maneira como esse universo
afeta os sujeitos em suas posições sociais e culturais. É diferente se um sujeito
leitor dissesse “Lê isso pra mim”. Os efeitos de sentidos ali são diferentes,
dependendo da posição sujeito (ORLANDI, 2005), se o pedido fosse feito pela
professora, por exemplo: poderia ser com o fim de verificação do aprendido, a
fim de avaliar se a leitura está ideal, como depreendemos no discurso de outros
sujeitos. Do advogado, poderia pedir uma confirmação do contrato. Os efeitos
ainda poderiam ser outros se o discurso viesse de um leitor que, por estar ocupado,
acaba pedindo para outro ler uma notícia de jornal em voz alta. Ou, mesmo da
organizadora das celebrações na igreja, que pede que alguém leia aos fiéis que ali
se encontram. O rito de leitura na igreja faz parte daquela comunidade, como é o
caso de Ellen, que lê em voz alta no contexto da igreja que frequenta.
FONTE: SANTOS, Eli Regina Nagel dos. Os efeitos de sentidos acerca da leitura: com a palavra
os alunos. Dissertação de Mestrado, 2010.
62
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você viu:
• A origem epistemológica da AD deu-se nos anos 60 (séc. XX), com a junção de
três domínios disciplinares: a linguística, o marxismo e a psicanálise.
• A AD passou por três fases: 1a fase: o primado do mesmo sobre o outro; 2a fase:
a heterogeneidade sobre o outro; 3a fase: desconstrução dirigida, o encontro
com a nova história.
• A linguagem atua como mediadora entre o natural e o social, apontando
como uma forma de separação entre o mundo cultural e o mundo rudimentar.
Remetemo-nos à linguagem como um acontecimento, na condição de
incompletude, e temos o discurso (objeto da análise) que não está pronto
(estratificado), mas em movimento.
• A ideologia é o pilar para constituição do sujeito e dos efeitos de sentidos, uma
vez que a materialidade da ideologia é o discurso (ORLANDI, 1996).
• Os discursos na AD (PÊCHEUX, 1988; ORLANDI, 2005) são constituídos por
três diferentes formas de dizer: o silêncio; o interdiscurso; o intradiscurso.
• O silêncio dentro na AD está dividido em dois: o discurso fundador; e a política
do silêncio.
• Nas formações discursivas, consideramos: PALAVRA e as CONDIÇÕES DE
PRODUÇÃO.
63
AUTOATIVIDADE
Caro(a) acadêmico(a)! Para fixar o conteúdo explanado neste tópico,
sugerimos que resolva as seguintes atividades:
1 Observe a charge que segue:
FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/_jpGLLJBg_X8/TOSePYk99KI/
AAAAAAAAAGg/2Hxn6oBr_i0/s1600/dia_dos_professores_charge.jpg>. Acesso em: 20 ago.
2012.
Relacione a charge apresentada e a Lei que estabelece o piso salarial nacional
para o professor com carga de 40 horas semanais. Destaque os POSSÍVEIS:
a) Contextos de produção:
b) Os silenciamentos:c) Os efeitos de sentidos produzidos nesse discurso:
2 Clarice Lispector (1920-1977), escritora e jornalista naturalizada brasileira
tem uma frase que diz: “As palavras que digo escondem outras”. Pautando-se
na AD, quais os efeitos de sentidos implícitos nesse discurso?
64
65
TÓPICO 4
A LINGUAGEM E OS SENTIDOS NA TEORIA DA
ENUNCIAÇÃO
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Não há linguagem sem possibilidade de resposta. Falar é falar a outros
que falam e que, portanto, respondem. (AMORIM, 2004, p. 95).
A partir do século XX, mais precisamente 1926, o conceito de linguagem
passa a ser discutido pelos integrantes do Círculo de Bakhtin, para o grupo a
língua vai além do estudo de regras gramaticais e morfológicas, ultrapassa a
concepção da língua como sistema fechado, estático, preestabelecido, voltado ao
estudo do código.
O Círculo de Bakhtin era um grupo de intelectuais de diversas formações e
atuações profissionais. O que os unia era a paixão pela linguagem. Os que se destacaram
dentro do círculo foram:
NOTA
Mikhail M. Bakhtin Valentin N. Valoshinov Pavel N. Medvedev
(1895-1975) (1892-1938) (1895-1936)
66
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
Para esses estudiosos o objeto de seu interesse, em amplas linhas era o
“[...] discurso, isto é, a língua em sua totalidade concreta viva, e não a língua como
objeto específico da linguística, obtido por meio de uma abstração totalmente
legítima e necessária de vários aspectos da vida concreta da palavra”. (FARACO,
2006, p. 91).
O que interessava então, era a linguagem, pois uma “verdadeira substância
da língua (...) não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas (...)
mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação.”
(BAKHTIN, 1986, p. 123).
O Círculo pautou-se em base materialista e sócio-histórica do universo
de criação ideológica. A palavra utilizada nos textos do Círculo para designar
a cultura imaterial e as formas de consciência social. “Ideologia é o nome que
o Círculo costuma dar, então para o universo que engloba a arte, a ciência, a
filosofia, o direito, a religião, a ética, a política, ou seja, todas as manifestações
superestruturais”. (FARACO, 2006, p. 46).
2 LINGUAGEM X DIALOGISMO
A linguagem, no viés bakhtiniano tem um papel social e dialógico, que
nomeia de dialogismo. É o dialogismo que constrói sentidos e possibilita ao
sujeito interagir com outros. Segundo Freitas (2003, p. 37), o sujeito “é um ser
social que marca e é marcado pelo contexto no qual vive”, o meio em que o sujeito
está inserido.
FIGURA 17 – LAÇO DE UNIÃO
FONTE: Escher (1994, p. 46)
A dialogicidade é apresentada em três dimensões diferentes:
TÓPICO 4 | A LINGUAGEM E OS SENTIDOS NA TEORIA DA ENUNCIAÇÃO
67
FONTE: A autora com base em Faraco (2006, p. 58)
Para Bakhtin (apud CLARK; HOLOQUIST, 1998, p. 264), todo discurso
humano é uma rede complexa de inter-relações dialógicas com outros enunciados.
eu nunca estou livre para impor minha intenção desimpedida, mas
devo sempre mediá-la através das intenções dos outros, a começar
pela outridade da linguagem em que estou falando. Tenho que entrar
em diálogo com outrem. Isto não significa que não posso fazer com que
meu próprio ponto de vista seja entendido, mas implica simplesmente
que o meu ponto de vista há de emergir somente através da interação
de minhas palavras e as de um outro à medida que elas contendem
umas com as outras em situações particulares.
As relações dialógicas são espaços de tensões entre enunciados, que
possibilitam à interação, a troca, a resposta às palavras do outro, o que requer
uma atitude responsiva e ativa do outro com quem interagimos, relacionando
com a realidade extraverbal (BAKHTIN, 1992). A enunciação como uma réplica
do diálogo social, é carregada de ideologia. Desta forma depende de um contexto,
de uma necessidade, de uma situação ou intenção produzida e retratada por
sujeitos socialmente organizados.
68
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
FIGURA 18 – O EU E O OUTRO
FONTE: Disponível em: <http://juliacalderoni.blogspot.com.br/2011/10/o-eu-e-o-outro.html>.
Acesso em: 2 jun. 2012.
É importante ressaltar que para o Círculo a significação dos enunciados
tem sempre um caráter ideológico, pois expressa dois sentidos:
• “expressa uma dimensão avaliativa e um posicionamento social valorativo.
Isso por que não há enunciado neutro e eles ocorrem no interior de atividades
intelectuais humanas;
• os signos emergem e significam no interior de relações sociais”. (FARACO,
2006, p. 48).
Os signos são alimentados pela consciência social, adquirida por um
grupo organizado dentro de relações sociais. A consciência “sobre”, é a lógica
da ideologia, da interação semiótica dentro de um grupo social. Para o Círculo,
todos os signos são ideológicos, pois são utilizados para materializar um diálogo,
o que torna “a palavra um fenômeno ideológico por excelência”. (BAKHTIN,
2004, p. 36).
3 PALAVRA: SIGNO DE CRIAÇÃO IDEOLÓGICA
A palavra, isolada em um contexto, é um sinal (BAKHTIN, 2003). Quando
inserida em um contexto discursivo, passa a ser um signo de criação ideológica
com múltiplos sentidos.
TÓPICO 4 | A LINGUAGEM E OS SENTIDOS NA TEORIA DA ENUNCIAÇÃO
69
a palavra não apenas designa um objeto como uma entidade pronta,
mas também expressa por sua entonação minha atitude valorativa em
relação ao objeto, em relação àquilo que é desejável nele, e, desse modo,
movimenta-o em direção do que ainda está por ser determinado nele,
transforma-o num momento constituinte do evento vivo, em processo.
(BAKHTIN, 2003, p. 32-33 apud FARACO, 2006, p. 25).
Nesse processo, os signos são produzidos e significam no interior de
relações sociais, são elas que lhe dão significação. Por esse motivo, os textos do
Círculo discutem, frequentemente, que o signo não apenas reflete o mundo, mas
também refrata.
E, refratar significa, aqui, que com nossos signos nós não somente
descrevemos o mundo, mas construímos – na dinâmica da história
e por decorrência do caráter sempre múltiplo e heterogêneo das
experiências concretas dos grupos humanos – diversas interpretações
(refrações) desse mundo. (FARACO, 2006, p. 50).
Ressaltamos que para o Círculo não existe uma, mas várias verdades,
diferentes modos de olhar o mundo, que retratam a diversidade e as contradições
das experiências de um grupo, pois “não falamos para trocar informação sobre o
mundo, mas para convencer o outro no nosso jogo discursivo, para convencê-lo
de nossa verdade”. (OLIVEIRA, 2001, p. 28).
Para eles o significado está no nível da palavra. Quando não consideramos
o contexto em que a palavra é enunciada, temos apenas um sinal, ou seja, um
significado congelado (dicionarizado). Mas, é devido à possibilidade de múltiplas
significações que faz uma palavra ser uma palavra. É nesse sentido que Bakhtin
várias vezes postula que “figurativamente, que não tomamos nossas palavras do
dicionário, mas dos lábios dos outros.” (FARACO, 2006, p. 81).
Partindo desse princípio,
[...] toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo
fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para
alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor
e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão de um em relação ao
outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em
última análise, em relação à coletividade. [...] A palavra é o território
comum do locutor e do interlocutor. (BAKHTIN, 1981, p. 113).
Sendo assim, “não há, nem pode haver enunciados neutros. Todo
enunciado emerge sempre e necessariamente num contexto cultural saturado
de significados e valores e é sempre um ato responsivo, isto é, uma tomada de
posição neste contexto”. (FARACO, 2006, p. 25).
O enunciado no viés bakhtinianoé a unidade concreta e real da comunicação
discursiva, e “está repleto de ecos e lembranças de outros enunciados, aos
quais está vinculado no interior de uma esfera comum da comunidade verbal”.
(BAKHTIN, 2000, p. 317).
70
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
Isso significa que, cada enunciado é considerado um novo acontecimento,
um evento único e irrepetível. Ninguém diz a mesma coisa duas vezes, as
palavras podem ser as mesmas, mas o tom de voz, o contexto, os interlocutores
são diferentes, portanto, as manifestações de emoção pensamento, significação
se alteram. Se digo: é fogo! Qual é o sentido dessa expressão? Na teoria da
enunciação ela pode ter diferentes significações, tudo depende do contexto em
que é enunciado. Por hora pode ser que estou desapontado com uma pessoa
que me deixou na mão. Não apareceu. Ou que está pegando fogo. Talvez ainda,
a necessidade de resolver um problema sozinho. Estar sobrecarregado, entre
muitos outros sentidos.
FIGURA 19 – LIGA-TE À POESIA: A PALAVRA
FONTE: Disponível em: <http://liga-teapoesia.blogspot.com.br/2012/10/a-palavra_30.
html#!/2012/10/a-palavra_30.html>. Acesso em: 20 jun. 2012.
A palavra está, fundamentalmente, atrelada ao outro, o que procuramos
na palavra é a resposta do outro que irá nos constituir como sujeito. Assim, as
relações de sentidos só existem na troca dialógica entre o eu e o outro, pois “a
enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados
e, mesmo que não haja um interlocutor real, este pode ser substituído pelo
representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor”. (BAKHTIN,
2003, p.117).
Daí a compreensão de que “[...] todo discurso dialoga com outro discurso
e toda palavra é cercada de outras palavras”. Então, “todo sujeito é constituído
por outro sujeito, isso se chama alteridade”. (BAKHTIN, 2004, p. 18).
TÓPICO 4 | A LINGUAGEM E OS SENTIDOS NA TEORIA DA ENUNCIAÇÃO
71
Alteridade de acordo com o dicionário é a situação, estado ou qualidade
que se constitui através de relações de contraste, distinção, diferença [Relegada ao plano
de realidade não essencial pela metafísica antiga, a alteridade adquire centralidade e
relevância ontológica na filosofia moderna (hegelianismo) e esp. na contemporânea (pós-
estruturalismo).] (HOUAISS).
NOTA
FIGURA 20 – O ENCONTRO
FONTE: Escher (1994, p. 30)
A subjetividade se constitui por meio do conceito de alteridade e
intersubjetividade, ou seja, “eu não posso me arranjar sem um outro, eu não posso
me tornar eu mesmo sem um outro; eu tenho de me encontrar num outro por
encontrar um outro em mim”. (BAKHTIN, 2004, p. 287 apud FARACO, 2006, p. 73).
FIGURA 21 – EU E O OUTRO=NÓS
FONTE: Disponível em: <http://www.google.com.br/imgres?q=eu+e+outro&um=1&hl=pt->.
Acesso em: 10 ago. 2012.
72
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
“É no interior da dialogização e diferentes vozes sociais (heteroglossia)
que nasce e se constitui o sujeito.” (FARACO, 2010, p. 84). Não absorvemos uma
única voz, mas muitas.
FIGURA 22 – COMPLEMENTO DO QUADRO EVA E A MAÇÃ
FONTE: Kriegeskort (2003, p. 29)
O diálogo é, pois, um espaço de luta de vozes sociais, ou seja, um espaço
de forças: centrífugas e centrípetas. Fica registrado que:
FONTE: A autora com base em Faraco (2006)
TÓPICO 4 | A LINGUAGEM E OS SENTIDOS NA TEORIA DA ENUNCIAÇÃO
73
FONTE: A autora com base em Faraco (2006)
4 ESFERA E GÊNEROS DO DISCURSO
Um enunciado para ter sentidos necessita participar de uma determinada
esfera. Nela podemos encontrar diferentes gêneros discursivos. Para Bakhtin
(1992, p. 279):
[...] a utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e
escritos), concretos, únicos, que emanam dos integrantes de uma ou
de outra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as condições
específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu
conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada
nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais
–, mas também, e, sobretudo, por sua construção composicional. Estes
três elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional)
fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são
marcados pela especificidade de uma esfera da comunicação.
Em 1928, Bakhtin elabora o conceito de esfera para explicar a natureza e
as especificidades das produções literárias. “As esferas de uso da linguagem não
são uma noção abstrata, mas uma referência direta aos enunciados concretos que
se manifestam nos discursos.” (BAKHTIN, 2003, p. 156). Uma esfera é, portanto,
os lugares em que permeiam os discursos da atividade humana expressos pela
linguagem, seja ela verbal ou não.
Bakhtin denomina gêneros de discurso primários e gêneros secundários,
e conceitua:
[...] como os tipos relativamente estáveis de enunciados que se elaboram
no interior de cada esfera da atividade humana. Face aos enfoques
tradicionais da questão dos gêneros que privilegiam as formas
em si e chegavam a operar normativamente sobre sua reitificação,
algumas observações são aqui indispensáveis. Ao dizer que os tipos
são relativamente estáveis, Bakhtin está dando relevo, de um lado à
historicidade dos gêneros; e, de outro, à necessária imprecisão de suas
características e fronteiras. (FARACO, 2006, p. 112).
74
UNIDADE 1 | A LINGUAGEM E SEUS DESDOBRAMENTOS
Para o gênero de discurso considerar a historicidade, significa assumir
que os mesmos se hibridizam continuamente, estando em constante mutação e
em contínuas transformações. Destacamos a característica de cada um:
“A noção de gênero serve, portanto, como uma unidade de classificação: reunir
entes diferentes com base em traços comuns”. (FARACO, 2006, p. 108).
UNI
É importante destacar, porém, que Bakhtin (apud FARACO, 2006, p. 117)
não entende esses dois tipos de gêneros como composições independentes, mas
interdependentes. Nesse caso, reproduziremos aqui suas palavras:
Durante o processo de sua formação, eles absorvem e digerem vários
gêneros primários (simples) que tomaram forma na comunicação
verbal imediata. Esses gêneros primários se alteram e assumem
um caráter especial quando entram nos mais complexos. Perdem
sua relação imediata com a situação concreta e com os enunciados
concretos dos outros. Apenas no plano do conteúdo do romance é que,
por exemplo, réplicas de um diálogo cotidiano ou cartas encontradas
nele retêm sua forma e sua significação cotidiana. Elas participam
da realidade concreta somente por meio do romance como um todo,
isto é, como um evento artístico-literário e não como um evento da
vida diária. O romance como um todo é um enunciado do mesmo
modo que o são réplicas no diálogo cotidiano ou cartas íntimas (todos
têm realmente uma natureza comum), mas diferentemente destas,
o romance é um gênero secundário (complexo). (BAKHTIN, apud
FARACO, 2006, p. 117).
Podemos encontrar diversos gêneros em diferentes contextos sociais,
algumas vezes considerados como patrimônio literário da humanidade, ou
tomado como palavra de autoridade como é o caso da Bíblia. Daí ocorrem as
citações diretas, paródias ironias e assim por diante.
DICAS
Caro(a) acadêmico(a)! Caso tenha interesse em
aprofundar seus estudos sobre os conceitos do Círculo de Bakhtin
e da linguagem numa perspectiva sociointeracionista, sugerimos a
leitura desta obra que irá auxiliar na compreensão de termos como
filosofia da linguagem, criação, ideologia, dialogismo.
FARACO, Carlos Alberto. Linguagem e diálogo: as ideias do círculo
de Bakhtin. Curitiba: ed. Criar, 2006.
TÓPICO 4 | A LINGUAGEM E OS SENTIDOS NA TEORIA DA ENUNCIAÇÃO
75
É uma tarefa complexa sintetizar em poucas páginas os conceitos,
pressupostos e características das teorias:
• dos atos de fala;
• da análisedo discurso de linha francesa;
• da teoria da enunciação.
Principalmente, ao considerarmos a diversidade que fundamenta essas
três teorias. Porém, é possível afirmar que todas elas apontam para uma teoria da
significação do dizer, se preocupando como objeto de estudo o que está aquém e
além da estrutura, ou seja, os entremeios do dizer em um dado momento.
76
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você viu que:
• O Círculo de Bakhtin era um grupo de intelectuais de diversas formações e
atuações profissionais. O que os unia era a paixão pela linguagem.
• Para esses estudiosos o objeto de seu interesse, a grosso modo, era o discurso.
• O que interessava, então, era a linguagem.
• O Círculo pautou-se em base materialista e sócio-histórica do universo de
criação ideológica.
• A linguagem, no viés bakhtiniano, tem um papel social e dialógico, que
nomeiam de dialogismo. É o dialogismo constrói sentidos e possibilita ao
sujeito interagir com outros. Segundo Freitas (2003, p. 37), o sujeito “é um ser
social que marca e é marcado pelo contexto no qual vive”, o meio em que o
sujeito está inserido.
• Para Bakhtin (apud CLARK; HOLQUIST, 1998, p. 264) “todo discurso humano
é uma rede complexa de inter-relações dialógicas com outros enunciados”.
• As relações dialógicas são espaços de tensões entre enunciados, que possibilitam
a interação, a troca, a resposta às palavras do outro.
• Os signos são produzidos e significam no interior de relações sociais, são elas
que lhe dão significação.
• O significado está no nível da palavra. Quando não consideramos o contexto
em que a palavra é enunciada, temos apenas um sinal, ou seja, um significado
congelado (dicionarizado).
• Cada enunciado é considerado um novo acontecimento, um evento único e
irrepetível. Ninguém diz a mesma coisa duas vezes.
• A palavra está, fundamentalmente, atrelada ao outro, o que procuramos na
palavra é a resposta do outro que irá nos constituir como sujeito.
• A subjetividade se constitui por meio do conceito de alteridade e
intersubjetividade.
77
• É no interior da dialogização e diferentes vozes sociais (heteroglossia) que
nasce e se constitui o sujeito. Não absorvemos uma única voz, mas muitas.
• Um enunciado, para ter sentido, necessita participar de uma determinada
esfera. Nela podemos encontrar diferentes gêneros discursivos.
• Uma esfera é, portanto, os lugares em que permeiam os discursos da atividade
humana expressos pela linguagem, seja ela verbal ou não.
78
AUTOATIVIDADE
1 Leia a tirinha de Mafalda e, em seguida, elabore um breve texto para explicar
a enunciação e o sentido.
FONTE: Disponível em: <http://www.sempretops.com/diversao/tirinhas-da-mafalda/
attachment/wefwefrtgeth/>. Acesso em: 7 jul. 2012.
2 Levando em conta o texto a seguir, responda ao que se pede:
Em código
(Fernando Sabino)
Fui chamado ao telefone. Era o chefe de escritório de meu irmão:
- Recebi de Belo Horizonte um recado dele para o senhor. É uma mensagem
meio esquisita, com vários itens, convém tomar nota: o senhor tem um lápis aí?
- Tenho. Pode começar.
- Então lá vai. Primeiro: minha mãe precisa de uma nora. - Precisa de quê?
- De uma nora.
- Que história é essa?
- Eu estou dizendo ao senhor que é um recado meio esquisito. Posso continuar?
- Continue.
- Segundo: pobre vive de teimoso. Terceiro: não chora, morena, que eu volto.
- Isso é alguma brincadeira.
- Não é não, estou repetindo o que ele escreveu. Tem mais. Quarto: sou amarelo,
mas não opilado. Tomou nota?
79
- Mas não opilado - repeti, tomando nota. - Que diabo ele pretende com isso?
- Não sei não, senhor. Mandou transmitir o recado, estou transmitindo.
- Mas você há de concordar comigo que é um recado meio esquisito.
- Foi o que eu preveni ao senhor. E tem mais. Quinto: não sou colgate, mas
ando na boca de muita gente. Sexto: poeira é minha penicilina. Sétimo: carona,
só de saia. Oitavo...
- Chega! - protestei, estupefato. - Não vou ficar aqui tomando nota disso, feito
idiota.
- Deve ser carta em código ou coisa parecida - e ele vacilou: - Estou dizendo ao
senhor que também não entendi, mas enfim... Posso continuar?
- Continua. Falta muito?
- Não, está acabando: são doze. Oitavo: vou, mas volto. Nono: chega à janela,
morena. Décimo:
quem fala de mim tem mágoa. Décimo primeiro: não sou pipoca, mas também
dou meus pulinhos.
- Não tem dúvida, ficou maluco.
- Maluco não digo, mas como o senhor mesmo disse, a gente até fica com ar
meio idiota... Está acabando, só falta um. Décimo segundo: Deus, eu e o Rocha:
- Que Rocha?
- Não sei: é capaz de ser a assinatura.
- Meu irmão não se chama Rocha, essa é boa!
- É, mas foi ele que mandou, isso foi.
Desliguei, atônito, fui até refrescar o rosto com água, para poder pensar melhor.
Só então me lembrei: haviam-me encomendado uma crônica sobre essas frases
que os motoristas costumam pintar, como lema, à frente dos caminhões.
Meu irmão, que é engenheiro e viaja sempre pelo interior fiscalizando obras,
prometera ajudar-me, recolhendo em suas andanças farto e variado material.
E ele viajou, o tempo passou, acabei me esquecendo completamente do trato,
na suposição de que o mesmo lhe acontecera.
Agora, o material ali estava, era só fazer a crônica. Deus, eu e o Rocha! Tudo
explicado: Rocha era o motorista. Deus era Deus mesmo, e eu, o caminhão.
FONTE: SABINO, Fernando. A mulher do vizinho. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1962.
a) Quando o moço do escritório diz: “…deve ser carta em código…” o que
percebemos?
b) Após receber o recado, como se sentiu o narrador, o que fez e para que o fez?
c) O narrador queria pensar melhor sobre o quê e para quê?
d) Ao dizer, no final do texto, que seu irmão havia prometido conseguir “farto
e variado material” a que material se refere o narrador e a que se destinava
esse material?
e) A que se refere o narrador ao dizer “Tudo explicado” e o que lhe foi
explicado?
80
81
UNIDADE 2
LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade, esperamos que você consiga:
• conhecer as dimensões da estilística;
• identificar o conceito de estilística;
• compreender o que são figuras de linguagem;
• reconhecer que as figuras de linguagem se dividem em: figuras de pala-
vras, figuras de harmonia, figuras de pensamento e figuras de construção;
• compreender os desdobramentos e as funções de cada uma das figuras de
linguagem.
Esta unidade está dividida em dois tópicos. No final de cada um deles, você
encontrará atividades que o(a) ajudarão a refletir sobre os assuntos aborda-
dos.
TÓPICO 1 – NOÇÃO DE ESTILÍSTICA
TÓPICO 2 – FIGURAS DE LINGUAGEM
82
83
TÓPICO 1
NOÇÃO DE ESTILÍSTICA
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite
esfriou, e agora José? E agora, você? Você que é sem nome, que zomba
dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José?
Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode
beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia
não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo
acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora José? E agora, José? Sua
doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca,
sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio – e
agora?
Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer
no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais.
José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa
vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse... Mas
você não morre, você é duro, José!
Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua
para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha,
José! José, para onde?Carlos Drummond de Andrade. Disponível em: <http://mundo-das-poesias.
blogspot.com.br/2012/07/e-agora-jose-carlos-drummond-de-andrade.html>.
Acesso em: 8 jul. 2012
Muitas foram e serão as definições de estilo no decorrer da história. No
dicionário Larousse Cultural (1993, p. 467), estilo refere-se ao termo de origem
grega stylos, que quer dizer:
ponteiro para escrever. Haste pontiaguda usada desde a Antiguidade
para traçar caracteres sobre superfícies de cera; gráfico. Modo de
expressão peculiar a um artista, a um gênero de arte, de um lugar,
a uma época ou a uma atividade profissional. Maneira pessoal de se
comportar, de se vestir, de executar um movimento.
O fato é que nos perguntamos: “o que é estilo no âmbito da escrita"? Isso
nos conduz a refletir sobre os principais recursos que os prosadores, oradores e
poetas se servem para tornarem mais significativas, expressivas e duradouras a
suas ideias, os seus pensamentos, as suas mensagens, a arte de particularizar um
discurso.
A propósito, deixemos aqui as palavras de Aquilino Ribeiro, para que
você possa analisar o valor do estilo:
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
84
Em literatura o estilo é como o álcool para os corpos embalsamados:
conserva-a. Toda a literatura que resiste à corrosão do tempo deve-o
ao estilo. Homero, Cícero, Shakespeare, Camões, Voltaire, Tolstoi
foram grandes estilistas. Quer isto dizer que o estilo seja uma arte? De
modo algum. Mas sem estilo nenhuma obra se salva.
Acresce que a nossa língua está tão pouco clarificada que apenas pensa
com precisão e justeza quem escreve corretamente. Julgar que em
nome duma postiça originalidade ou evidenciação do humano haja de
se abolir a técnica é pueril. E fazer tábua rasa da experiência adquirida
no domínio da expressão não pode deixar de representar um inútil,
inglório e malogrado intento. A palavra é como o mármore na estátua;
dar a essa matéria semblante de vida, curvas voluptuosas, sombras
quentes, frêmito, solidez, eis o difícil objetivo que não se alcança
de golpe. Com verbo desordenado, segundo a flux apocalíptica da
imaginação, só poderá obter-se uma turva e destrambelhada arte.
(FONTE: Disponível em: <http://esjmlima.prof2000.pt/figuras_estilo/figurestil.htm>.
Acesso em: 12 set. 2012.).
AUTOATIVIDADE
Registre nas linhas a seguir o que você compreendeu por ESTILO.
____________________________________________________________________
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____________________________________________________________________
____________________________________________________________________
____________________________________________________________________
2 ESTILÍSTICA
A estilística é a disciplina que se preocupa com a expressividade de uma
língua, ou seja, com a possibilidade de emocionar o outro por meio do estilo
empregado. Acompanhe a definição no acróstico:
FONTE: A autora com base em Guiraud, 1970
TÓPICO 1 | NOÇÃO DE ESTILÍSTICA
85
Ressaltamos que o estilo é o objeto de estudo da retórica:
O conjunto dos processos do estilo constituía entre os antigos, objeto
de um estudo especial, a retórica, arte da linguagem, técnica da
linguagem considerada como arte e simultaneamente, gramática da
expressão literária e instrumento crítico para a apreciação das obras.
Transmitida da Antiguidade à Idade Média, renovada na época
clássica, constitui uma estilística que é ao mesmo tempo ciência da
expressão e ciência da literatura, tal como podia ser entendida na
época. (GUIRAUD, 1970, p.18).
Contudo, se a retórica é, ao mesmo tempo, uma arte da expressão literária
e uma norma; instrumento crítico para a apreciação de estilos individuais e da
arte de escritores renomados (GUIRAUD, 1970), a partir do século XVIII, sua
concepção tornou-se obsoleta, devido à chegada de novas tendências da arte e
da linguagem. Desta forma, no século XVIII essa concepção cedeu espaço para
as novas tendências da arte da linguagem, ganhando força a estilística como uma
“ciência da expressão” e também uma crítica dos estilos individuais, uma vez que
tem o foco na:
FONTE: A autora com base em Guiraud (1970)
Caro(a) acadêmico(a)!
Na Antiguidade, a “maneira de escrever” consistiu em um objeto de um estudo especial,
a retórica, que é, ao mesmo tempo, uma arte da expressão literária e uma norma, um
instrumento crítico para a apreciação dos estilos individuais e da arte dos grandes escritores.
(GUIRAUD, 1970, p. 9).
UNI
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
86
Desta forma, a “estilística […] não é mais que o estudo da expressão
linguística; e a palavra estilo, reduzida a sua definição básica, nada mais é que uma
maneira de exprimir o pensamento por intermédio da linguagem”. (GUIRAUD,
1970, p. 11).
Ao considerarmos que a gramática das línguas naturais se abrem em quatro
áreas: fonética/fonologia, morfologia, sintaxe e semântica e que as fronteiras entre
elas não são absolutas, mas graduais, torna-se possível dividir pelo menos três
grandes dimensões da Estilística, conforme o faz Parente (MATTOSO, 1997, p.
110 apud PARENTE, 2008, p. 91), a saber:
a) Estilística fônica ou fonoestilística, que ressalta a expressividade do material
fônico dos vocábulos tanto isolados quanto agrupados em frase. Nesse caso,
estudam-se, sobretudo as assonâncias vocálicas, como no verso “E as cantilenas
de serenos sons amenos”, de Eugênio de Castro; as aliterações, como nos seguintes
versos de Fernando Pessoa: “Em horas, ainda louras. Lindas / Clorindas e Belindas,
brandas / Brincam nos tempos das Berlindas / As vindas vendo das varandas”; e as
onomatopeias, como em “Café com pão; Café com pão / Café com pão / Café com pão”,
de Manuel Bandeira, onde a repetição do sintagma “café com pão” sugere o ruído
de uma locomotiva em movimento. Para tanto, o objeto de análise é o material
fonético da língua, sobretudo os jogos entre sons oclusivos versus fricativos,
surdos versus sonoros, entre outras oposições possíveis. Além disso, considerando
a representação escrita, à estilística fônica interessam também os fenômenos da
paronímia, homofonia e homografia, a entoação frasal, o ritmo do verso ou da
frase e a musicalidade inerente à palavra.
FIGURA 23 - PARONÍMIA
FONTE: Disponível em: <http://lpafiada.blogspot.com.br/2010/09/paronimia.html>. Acesso em:
12 out. 2012.
b) Estilística léxico-semântica ou léxico-estilística, que estuda a seleção
vocabular e os fenômenos de conotação e polissemia, referentes aos valores
afetivos, emotivos, ou socialmente convencionais que se aderem à significação
das palavras. Assim, entram aí a exploração do vocabulário, o emprego de
diminutivos e aumentativos afetivos, o emprego de diminutivos pejorativos
ou maliciosos, a exploração da polissemia, da sinonímia e da paronímia, mais a
exploração do antagonismo entre determinados campos semânticos. Somem-se
ainda a coesão semântica obtida a partir da seleção vocabular, os fenômenos de
TÓPICO 1 | NOÇÃO DE ESTILÍSTICA
87
denotação e conotação, a monossemia ou monossignificação versus a polissemia
ou plurissignificação, as figuras de linguagem tais como as comparações, as
metáforas e metonímias, as hipérboles e as sinestesias, os neologismos (criação
estilística de novas palavras) e a adequação vocabular.
FIGURA 24 – METONÍMIA
FONTE: Disponível em: <http://emportuguesporfavorporsoniasilvino.blogspot.com.br/2012/02/
voce-sabe-o-que-e-metonimia.html>. Acesso em: 12 out. 2012.
c) Estilística sintática, cujo objetivo de análise é a ordem sintática e os fenômenos
a ela inerentes, tais como ruptura da ordem sintática preferencial dentro de um
verso ou de uma frase. Nesse caso, à estilística sintática interessam as variantes de
colocação, suscetíveis de causar emoção ou sugestionar o próximo.
Já para Guiraud (1970), no século XX, aestilística teve quatro fases distintas:
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
88
1. Estilística estrutural ou da expressão – condiz aos primeiros estudos de Charles
Bally e Karl Vossler. Bally escreveu o “Tratado de Estilística Francesa” em 1909, a
partir dos ensinamentos de seu mestre, Saussure.
2. Estilística genética ou do indivíduo – entre os estudiosos, destaca-se Leo
Spitzer. Essa manteve o foco nas análises do vínculo do texto literário pautada
em uma base psicológica.
3. Estilística funcional – fase desenvolvida pelos estudos de R. Jakobson e
abordou a respeito da comunicação verbal sobre os valores estilísticos.
4. Estilística textual – esses estudos foram realizados por M. Cressot, J. Marouzeau
e M. Riffaterre. Tinha como objetivo a fase de análise de textos em seus aspectos
estilísticos sob princípios da linguística estrutural e da gramática gerativa.
Lembre-se: você estudou as funções da linguagem, teorizadas por R. Jakobson
no caderno de Língua portuguesa: expressão escrita e compreensão de texto.
UNI
TÓPICO 1 | NOÇÃO DE ESTILÍSTICA
89
3 GRANDES VERTENTES DA ESTILÍSTICA
Conforme Monteiro (2005, p. 15-41), no decorrer do desenvolvimento dos
estudos estilísticos, segundo este ou aquele ponto de vista, foram se delineando
pelo menos nove grandes vertentes, a saber:
Vamos conceituar algumas de forma sucinta para que você, prezado(a)
acadêmico(a), tenha uma noção do que as diferenciam:
Estilística retórica: é o resultado da retomada da retórica clássica. A
estilística retórica pauta-se em dois grandes objetivos: primeiro: fazer uso dos
métodos linguísticos para a análise do texto literário; segundo: preocupa-se em
transpor o conceito de função poética da linguagem para o de função retórica.
Estilística descritiva: os objetivos dessa vertente dos estudos da estilística
partem do princípio de: análise das expressões dos fatos de sensibilidade sobre a
linguagem; análise das ações dos fatos de linguagem sobre a sensibilidade. Esses
objetivos seriam aplicáveis a alguns domínios, tais como: à linguagem em sua
totalidade, procurando determinar os chamados “universais estilísticos”; a uma
determinada língua, resultando a “estilística langue”, conforme Monteiro (2005).
Estilística idealista: é resultado das ideias esteticistas de Benedetto Croce
(1866-1952). O principal postulado é a unidade do espírito humano, uma vez que
esse seria a fonte de todo o conhecimento. Desta forma, entende-se que os traços
fundamentais da expressão poética são a totalidade e a universalidade. Croce
procurou submeter o conceito de poesia a uma investigação sistemática, segundo
Monteiro (2005).
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
90
Estilística estrutural: já a estilística estrutural está baseada em critérios
objetivos, suficientes para controlar as possíveis inferências do leitor, ou seja, a
metodologia de análise estilística pauta-se nos fatos “estilisticamente marcados”
em oposição a outros fenômenos linguísticos “não marcados”. O que significa que
o papel do leitor é importante, posto que sejam exatamente os fatos “marcados”
os que surpreendem o leitor, uma vez que são imprevisíveis. Logo, aí, são
fundamentais as noções de “norma” e “desvio” e a de “campos estilísticos”,
proposta por Pierre Guiraud (1970).
Estilística gerativa: para Monteiro (2005), o estilo é o produto de
transformações de estruturas profundas em estruturas de superfície, que variam
de acordo com as regras em operação. Logo, o “efeito estilístico” é consequência
de uma maneira particular do uso do dispositivo transformacional inerente à
língua em nível de realização superficial. Partindo desse princípio, seria possível
uma descrição do estilo a partir de um conjunto finito de regras gerativas de
“estruturas profundas”. Desta forma, são essenciais os conceitos de aceitabilidade
e inaceitabilidade, uma vez que no domínio da linguagem poética, deparamo-nos
com muitas frases (versos) inaceitáveis nas situações comunicativas cotidianas,
porém aceitáveis num determinado contexto literário.
Um exemplo é o caso dos versos iniciais do Hino Nacional Brasileiro: “Ouviram
do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”, que, a rigor, é
inaceitável, tomando-se como parâmetro os padrões gramaticais lógicos da língua.
NOTA
Estilística poética: com base em metodologia de análise linguística, a
estilística poética procura descrever os níveis estruturais da linguagem poética,
que seriam a fonte da “literariedade” ou “expressividade literária”. Dessa forma,
a linguagem poética diferencia-se da língua prosaica pelo caráter perceptível
de sua construção. Podemos perceber tanto pelo aspecto acústico, quanto pelo
aspecto articulatório, ou ainda pelo aspecto semântico (MONTEIRO, 2005).
Estilística semiótica: essa procurou ir além dos limites da frase ou verso,
do texto literário, buscando uma análise da expressividade nos mais variados
tipos de mensagens advindas de quaisquer outros sistemas semióticos (sistemas
de signos). Nessa linha de pensamento, a estilística se aplicaria a qualquer
linguagem, sobretudo às artísticas, enquanto sistemas de signos, tendo em vista
dois grandes objetivos:
• Primeiro: a análise da organização da obra de arte.
• Segundo: a análise da tipologia do discurso literário.
TÓPICO 1 | NOÇÃO DE ESTILÍSTICA
91
LEITURA COMPLEMENTAR
A ESTILÍSTICA E O ENSINO DE PORTUGUÊS
Castelar de Carvalho (UFRJ, ABF)
A Estilística
Definida como a disciplina linguística que estuda os recursos afetivo-
expressivos da linguagem e seu lado criativo, a Estilística é uma ciência recente
(fundada no início do século XX pelo suíço Charles Bally e o alemão Karl Vossler),
mas um saber muito antigo, que remonta à tradicional Retórica dos gregos.
Tendo em comum o estudo da expressividade, distinguem-se, contudo, por seus
objetivos: a Retórica era uma doutrina com finalidade pragmático-prescritiva,
enquanto a Estilística, por seu comprometimento científico, apresenta um caráter
mais descritivo-interpretativo, sem considerações de natureza normativa. Essa
preocupação fica reservada à gramática, sistematização dos fatos contemporâneos
da língua, com vistas a uma aplicação pedagógico-escolar. Tendo por objeto de
estudo, preferencialmente, a língua literária, a Estilística desempenha, na aula de
Português, papel interativo, despertando a sensibilidade linguística e estética do
aluno, além de tornar menos árido o ensino da matéria gramatical.
Há quem veja os estudos estilísticos antes como um procedimento
metodológico do que propriamente uma ciência. De acordo com essa visão,
a Estilística seria considerada um subdomínio das ciências da linguagem,
fundamentando-se em teorias linguísticas e literárias de diversas tendências,
como o idealismo, o estruturalismo, o gerativismo etc. Cumpre também destacar
as relações da Estilística com outras disciplinas, como a Semiótica, a Pragmática,
a Poética, a Semântica e, mais recentemente, com a Análise do Discurso.
Dividida por Pierre Guiraud (1970, p. 62) em Estilística da língua ou
da expressão (linha estruturalista de Bally: ênfase à expressividade latente no
sistema) e Estilística genética ou do autor (corrente idealista de Vossler e Leo
Spitzer: ênfase à criação expressiva individual), trabalha com algumas categorias
básicas, como funções da linguagem, estilo, norma, desvio, escolha, enunciação/
enunciado.
Categorias estilísticas
Estilo é o uso individual dos recursos expressivos da língua ou, como
ensina Sílvio Elia (1978, p. 76), é “o máximo de efeito expressivo que se consegue
obter dentro das possibilidades da língua”. Trata-se de um conceito intimamente
relacionado com as noções de norma, desvio e escolha, pois, “a tensão entre o
espírito criador e as normas gramaticais é que explica o fenômenodo estilo, na
sua gênese mais profunda”.
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
92
O efeito estilístico resulta não raro da singularidade, do desvio em relação
ao padrão normativo e da escolha diante das virtualidades oferecidas pelo
sistema. Por exemplo, Machado de Assis optou pelo desvio gramatical, para poder
reproduzir com fidelidade a fala do escravo Prudêncio em Memórias póstumas de
Brás Cubas (LXVIII): “É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele
(e não deixei-o) na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na (e não à) cidade”. Outro
exemplo pode ser apreciado neste passo de Vieira, em que o autor, com o intuito
de valorizar cada núcleo do sujeito composto, preferiu deixar o verbo no singular:
“Mas nem a lisonja, nem a razão, nem o exemplo, nem a esperança bastava (e não
bastavam) a lhe moderar as ânsias”.
O poeta Carlos Drummond de Andrade, para enfatizar a importância do
deus Kom Unik Assão, não hesitou em transgredir a norma gramatical a respeito
da formação do plural: “Eis-me prostrado a vossos peses / Que sendo tantos todo
plural é pouco”. Lembremos, contudo, que só é estilístico o desvio intencional,
aquele que tem finalidade expressiva. E quanto à escolha, Gladstone Chaves de
Melo (1976, p. 23) ensina que ela é “a alma do estilo”.
É a enunciação (ato linguístico, com suas circunstâncias, ou contexto) que
permite uma compreensão estilística do enunciado (fato linguístico, produto da
enunciação) presente no poema Irene no céu, de Manuel Bandeira, em que o poeta,
misturando os pronomes tu e você, põe na boca de “São Pedro bonachão” o famoso
verso “- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”. O fato de esses pronomes
de tratamento serem permutáveis no português coloquial do Brasil (circunstância
da enunciação) é que permitiu a Bandeira o efeito estilístico ou expressividade
de que se impregna o seu verso, a par do aspecto afetivo do próprio verso em si
(entorno do discurso).
A respeito das três funções primordiais da linguagem, foram elas
depreendidas pelo alemão Karl Bühler: representação, expressão e apelo, que
correspondem, respectivamente, às faculdades de inteligência, sensibilidade e
desejo ou vontade.
A representação é a linguagem referencial e denotativa, operando
linearmente no eixo sintagmático. A expressão é a exteriorização psíquica de nossos
anseios e sentimentos, e o apelo é o meio pelo qual exercemos influência sobre
nossos interlocutores ou leitores, no caso da língua literária. Essas duas funções
podem ter caráter conotativo e operar simbolicamente no eixo paradigmático.
Por exemplo, uma definição do tempo de natureza puramente representativa
diria: “O tempo é a sucessão das horas e dos dias e pode ser aproveitado de
muitas maneiras”. Já um exemplo em que sobressaem a expressão e o apelo pode
ser encontrado na elaborada e genial definição de Machado de Assis (Esaú e Jacó,
XXII): “O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo”. A função de
apelo adquire relevância no discurso publicitário, em frases como esta, divulgando
uma tradicional instituição de ensino: “Inglês é cultura. Cultura Inglesa”. Ou esta
outra, exaltando a solidez de uma seguradora: “Sul América: o nosso negócio é
seguro”. As funções expressiva e apelativa geralmente caminham pari passu.
TÓPICO 1 | NOÇÃO DE ESTILÍSTICA
93
Cumpre ressaltar que, enquanto a representação, por sua natureza
intelectiva, diz respeito à linguística, as outras duas funções – expressão e apelo
– interessam à Estilística, devido à impregnação afetiva de que se revestem. Na
prática, essas três funções se integram, tanto no texto informativo quanto no
literário, podendo ocorrer o predomínio de uma ou de outra, dependendo do
tipo de discurso.
Quanto às relações entre a Estilística e a Gramática, cabe salientar que essas
duas disciplinas não são excludentes, ao contrário, são complementares, como
adverte o professor Evanildo Bechara (1999, p. 615): “Ambas se completam no estudo
dos processos do material de que o gênero humano se utiliza na exteriorização
das ideias e sentimentos ou do conteúdo do pensamento designativo”. Cumpre
lembrar que muitas das aparentes irregularidades registradas pelas gramáticas
têm sua origem em motivações de natureza estilística, sobretudo no campo da
sintaxe. O método de análise estilística segue inclusive as divisões clássicas da
gramática, daí a tripartição em Estilística fônica, léxica e sintática.
Estilística fônica
Também chamada de Estilística do som, estuda os recursos expressivos
presentes no nível fônico da língua. Na prosódia, por exemplo, os acentos de altura
e intensidade podem apresentar valor afetivo, como se percebe na valorização
prosódica do vocábulo só no célebre soneto Sete anos de pastor, de Luís de Camões:
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só / por prêmio pretendia.
Lido com a pausa prosódico-semântica acima sugerida, o referido vocábulo
enfatiza que somente ela, Raquel, a insubstituível, era o prêmio pretendido por
Jacó, e não Lia, sua irmã, que Labão, “usando de cautela”, tentara impingir ao
apaixonado pastor.
A evocação sonora sugerida pelos fonemas também pode ser explorada
estilisticamente nas aulas de português. Veja-se, por exemplo, o poema Os sinos,
de Manuel Bandeira:
Sino de Belém, pelos que inda vêm!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino da paixão, pelos que lá vão!
Sino da paixão bate bão-bão-bão.
A aliteração do /b/ e a reiteração de vocábulos labiais evocam fonicamente
o tanger dos sinos. A onomatopeia bem-bem-bem sugere o som metálico e alegre
“pelos que inda vêm” (os batizados); bão-bão-bão, o dobre de finados “pelos que
lá vão” (os mortos).
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
94
Através do estudo da Estilística fônica pode o professor despertar em
seus alunos o gosto pelo bom uso dos recursos sonoros da língua, evitando as
silabadas e cacofonias nas redações escolares. Pode também chamar a atenção
do estudante para o emprego expressivo das onomatopeias, homoteleutos,
aliterações, coliterações e assonâncias.
Estilística léxica
Nesta parte poderá o professor ensinar a diferença entre denotação
(linguagem própria, referencial) e conotação (linguagem simbólica, figurada).
Cabe aqui o estudo das metáforas literárias nos bons autores da nossa literatura.
Sirva de exemplo esta primorosa metáfora machadiana no apólogo da agulha e
da linha: “Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária”, ou seja,
“tenho aberto caminho a quem não merece”.
O valor expressivo dos sufixos pode ser estudado neste capítulo. Repare-
se nestes versos de Manuel Bandeira, em que o poeta joga estilisticamente com
a ausência/presença do sufixo aumentativo -ão, para enfatizar o caráter íntegro
do intelectual português Jaime Cortesão, assim como denunciar a perseguição
de que ele fora vítima, num poema que tem por título o nome do homenageado:
Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão;
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
No campo da Estilística léxica também podem ser estudados os casos de
quebra do paralelismo semântico, como vemos no seguinte passo de Machado de
Assis: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis” (Brás Cubas,
XVII). O efeito estilístico é extraído do inusitado contraponto entre categorias
semânticas desiguais: quinze meses = tempo; onze contos de réis = interesse.
Numa outra passagem, Machado de Assis consegue a quebra simultânea do
paralelismo semântico e sintático: “Viegas tossia com tal força que me fazia arder
o peito” (Brás Cubas, LXXXIX). Empregando o pronome oblíquo na 1ª pessoa (me)
e não na 3ª (lhe), o bruxo do Cosme Velho subverte a sintaxe e a semântica da
frase, quebra a expectativa e surpreende o leitor. Cabe ao professor, nesses casos,
ressaltar que o humormachadiano, fino e irônico, marca inconfundível do seu
estilo, resulta muitas vezes do imprevisto, do desvio do padrão.
O estudo da Estilística léxica também permite explorar o rendimento
afetivo-expressivo das diversas classes de palavras. Sirvam de exemplos: a
passagem de substantivos abstratos a concretos através da personificação (“Uma
aflição mordeu-o no íntimo”, Otto Lara Resende) e da pluralização (“Tive uns
amores, perdi-os”, Manuel Bandeira); a conversão dos substantivos concretos em
abstratos por meio da metaforização (“Não quero a rosa que me dás, quero a rosa
que tu és.”); a substantivação de adjetivos (“A curiosidade agitada dos alunos” =
alunos curiosos e agitados).
TÓPICO 1 | NOÇÃO DE ESTILÍSTICA
95
O valor expressivo dos pronomes possessivos (“O nosso Machado
de Assis.”) e demonstrativos (“Esse teu filho não vale nada.”), assim como a
caracterização adjetiva por meio de sufixos (“Que filmezinho horroroso!”) e
da intensificação (“Ronaldinho fez um gol e tanto.”) podem igualmente ser
explorados.
O estudo estilístico do artigo constitui outro recurso motivador nas aulas
de português, como no seguinte exemplo, em que se contrapõem os valores
indefinido e definido dessa classe de palavra: “Pedro não é um professor; ele
é o professor”. Em Cunha & Cintra (1997, p. 228), lê-se: “Foi acusado do crime
[acusação precisa]; Foi acusado de um crime [acusação vaga]; Foi acusado de crime
[acusação mais vaga ainda]”.
Essas são algumas sugestões de estudo que podem ser levadas para a sala
de aula, com o intuito de incutir no aluno o gosto pela Estilística léxica ou da
palavra.
Estilística sintática
A sintaxe, por atuar no nível da frase e por sua versatilidade, oferece
variada gama de recursos expressivos, por isso é o campo de estudo estilístico
mais fértil de nossa língua. O emprego das diversas classes de palavras aí deve ser
incluído, com proveito para o professor e o aluno. Quanto às partes tradicionais
em que se divide o plano sintático, vejamos a seguir algumas sugestões de estudo.
Na sintaxe de colocação, cabe ressaltar a posição do adjetivo como marcador
semântico-estilístico (pobre homem = homem infeliz; homem pobre = carente de
recursos), a permutabilidade substantivo/adjetivo (autor defunto/defunto autor),
os casos de hipálage (adjetivação inusitada: “As criadas remendavam meias
sonolentas.” por “As criadas sonolentas remendavam meias.”), o deslocamento e
a elipse de termos, o anacoluto (desconexão sintática), a colocação pronominal,
todos constituem recursos expressivos, quando produzidos com motivação
estilística. A gradação sintático-semântica também pode ser estudada, como neste
exemplo de Vieira: “Tão dura, tão áspera, tão injuriosa palavra é um não”.
Na sintaxe de regência, podem ser objeto de estudo não só os exemplos
literários, mas também os do discurso publicitário, como neste caso em que a
regência estilística está a serviço da função “apelo” da linguagem: “O Rio de Janeiro
assiste (vê) à Record porque a Record assiste (ajuda) o Rio de Janeiro”. Os casos
de objeto direto interno (“Morrerás morte vil”, Gonçalves Dias), preposicionado
(“Amemos a Deus sobre todas as coisas.”) e pleonástico (“O dinheiro, ele o trazia
escondido no bolso.”) oferecem ao professor interessante material para o estudo
da regência afetiva.
O campo da concordância é rico em recursos expressivos. Aprecie-se
este passo de Vieira: “Muito trabalhou o diabo e seus ministros para que eu não
viesse a Portugal”. Deixando no singular o verbo anteposto ao sujeito composto
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
96
(concordância atrativa), o grande orador teve a intenção de carregar sobre o diabo,
pondo-o em primeiro plano e relegando a condição secundária os ajudantes
do coisa ruim. Mesmo com o verbo posposto, em sua posição usual, é possível
deixá-lo invariável quando a intenção estilística é valorizar cada núcleo do sujeito
composto: “Mas nem a lisonja, nem a razão, nem o exemplo, nem a esperança
bastava a lhe moderar as ânsias” (VIEIRA).
Os casos de aparente ausência de concordância do adjetivo predicativo junto
ao plural de modéstia, por seu caráter inusitado, devem ser levados ao conhecimento
dos estudantes: “Mas ficaríamos satisfeito [e não satisfeitos] se pudéssemos com ele
prestar algum serviço aos alunos de nossas Faculdades de Letras”. (CUNHA, 1976,
p. 9). O plural de interesse (“Como vamos de saúde, meu caro?”) e o de convite
(“Venha, filhinha, vamos tomar o nosso leitinho antes de dormir.”) também merecem
relevância no estudo da concordância estilística ou afetiva.
Por fim, cabe destacar os três casos de silepse ou concordância pelo
significado (ideia) e não pelo significante (forma). De gênero: “É uma criança
rebelde; os pais não podem com ele [é um menino]”; de número: “Coisa curiosa
é gente velha. Como comem [os velhos].” (ANÍBAL MACHADO); de pessoa:
“Dizem que os cariocas somos [o autor era carioca] pouco dados aos jardins
públicos” (MACHADO DE ASSIS). Exemplo curioso e inusitado de superposição
das silepses de gênero e número encontra-se no capítulo II de O Ateneu, de Raul
Pompeia: “O resto, uma cambadinha indistinta, adormentados [e não adormentada]
nos bancos, confundidos [e não confundida] na sombra preguiçosa do fundo da
sala”. Ressalte-se, a propósito, a hipálage “sombra preguiçosa” (preguiçosos eram
os alunos e não a sombra).
Estas são algumas sugestões no campo da Estilística da frase ou sintática.
Conclusão
Do que foi dito neste breve estudo, concluímos que a presença da Estilística
nas aulas de português é da maior relevância. Desperta a sensibilidade linguística
e o gosto literário do aluno, além de motivar e tornar menos árido o estudo da
matéria gramatical. Vale lembrar que muitas das aparentes irregularidades da
língua têm sua origem em motivações de natureza estilística. Por fim, cabe enfatizar
que o estudo da Estilística e o da Gramática são perfeitamente compatíveis, por se
tratar de disciplinas complementares e afins, e tanto o professor quanto o aluno
sairão ganhando com essa dobradinha, sobretudo como subsídio para a prática
da redação e da compreensão de textos.
FONTE: Disponível em: <http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno12-02.html>. Acesso
em: 10 set. 2012.
Neste tópico, discutimos algumas das vertentes da estilística. Vale salientar
que como futuro profissional da área de Letras, nos interessa aprofundar sobre a
comunicação oral e ou escrita. No próximo tópico aprofundaremos, a partir das
figuras de linguagem, outras questões pertinentes à estilística.
97
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você viu que:
• No âmbito da escrita pensar em estilo é refletir sobre os principais recursos que
os prosadores, oradores e poetas se servem para tornarem mais significativas,
expressivas e duradouras a suas ideias, os seus pensamentos, as suas mensagens.
• A estilística é a disciplina que se preocupa com a expressividade de uma
língua, ou seja, com a possibilidade de emocionar o outro por meio do estilo
empregado.
• Conforme Parente (MATTOSO 1997, p. 110 apud PARENTE, 2008, p. 91),
podemos dividir pelo menos três grandes dimensões da estilística:
a) Estilística fônica ou fonoestilística, que ressalta a expressividade do material
fônico dos vocábulos tanto isolados quanto agrupados em frase.
b) Estilística léxico-semântica ou léxico-estilística, que estuda a seleção
vocabular e os fenômenos de conotação e polissemia, referentes aos valores
afetivos, emotivos, ou socialmente convencionais que se aderem à significação
das palavras.
c) Estilística sintática, cujo objetivo de análise é a ordem sintática e os fenômenos
a ela inerentes, tais como ruptura da ordem sintática preferencial dentro de um
verso ou de uma frase.
• Segundo Guiraud (1970), no século XX, a estilística teve quatro fases distintas:
estilísticaestrutural ou da expressão; estilística genética ou do indivíduo;
estilística funcional; estilística textual.
• Monteiro (2005, p. 15-41), no decorrer do desenvolvimento dos estudos
estilísticos, delineia pelo menos nove grandes vertentes, a saber: estilística
retórica; estilística descritiva; estilística idealista; estilística estrutural; estilística
gerativa; estilística poética; estilística semiótica; estilística estatística; estilística
discursiva.
98
AUTOATIVIDADE
1 Leia o texto a seguir e depois responda ao que se pede:
Poética
Que é poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos os lados
Que é um poeta?
um homem
que trabalha um poema
com o suor do seu rosto
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
(Cassiano Ricardo)
Quais são as funções da linguagem predominantes no poema anterior?
2 Leia trechos do poema “Os Sinos”, de Manuel Bandeira, de onde destacamos
os seguintes fragmentos:
Sino de Belém bate bem-bem-bem
........................................................
Sino da Paixão bate bão-bão-bão.
A partir dos fragmentos destacados relate que tipo de estilística predomina e
justifique sua resposta.
99
TÓPICO 2
FIGURAS DE LINGUAGEM
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Imagem
(Cecília Meireles)
Meu coração tombou na vida
tal qual uma estrela ferida
pela flecha de um caçador.
Meu coração, feito de chama,
em lugar de sangue derrama
um longo rio de esplendor
Os caminhos do mundo, agora,
ficam semeados de aurora.
não sei o que germinarão.
Não sei que dias singulares
cobrirão as terras e os mares,
nascidos do meu coração.
Leia mais uma vez o poema de Cecília Meireles, intitulado: Imagem.
Cecília faleceu no Rio de Janeiro, em 1964, foi uma poetisa, pintora, professora,
jornalista e é considerada uma das vozes líricas mais importantes das literaturas de
língua portuguesa. Agora pense: quando dizemos “estrela do universo” estamos
empregando o vocábulo estrela no sentido que lhe é próprio. Entretanto, se
compararmos no poema o termo “estrela ferida” notamos que ele foi empregado
de modo implícito, remetendo-se a uma figura de linguagem, ou seja, um sentido
que não lhe é próprio.
Leia o poema “Inutilidades”, de José Paulo Paes:
Ninguém coça as costas da cadeira.
Ninguém chupa a manga da camisa.
O piano jamais abandona a cauda.
Tem asa, porém não voa, a xícara.
De que serve o pé da mesa se não anda?
E a boca da calça, se não fala nunca?
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
100
Nem sempre o botão está na sua casa.
O dente de alho não morde coisa alguma.
Ah! Se trotassem os cavalos do motor…
Ah! Se fosse de circo o macaco do carro…
Então a menina dos olhos comeria
Até bolo esportivo e bala de revólver.
No texto acima, o poeta faz uso da linguagem denotativa para expressões
que são conotativas. No momento que cita “dente de alho”, percebemos que
“dente” está fora do sentido real, mas mesmo assim vai brincando ao completar
“não morde coisa alguma”. Desta forma, vai construindo o poema, por meio do
jogo com as palavras, podemos inferir que José Paulo Paes brinca com as palavras.
Nesse caso, a palavra é empregada com um novo sentido que chamamos
de figuras de linguagem. Passaremos a explanar quatro desses grupos:
FONTE: A autora
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
101
2 FIGURAS DE PALAVRAS
As figuras de palavras referem-se ao emprego de um termo com sentido
diferente daquele que empregamos convencionalmente, visando reafirmar o
movimento da linguagem, e retratar um efeito expressivo na comunicação.
São figuras de palavras:
FONTE: A autora
Vejamos as características de cada uma dessas figuras de palavras:
COMPARAÇÃO: ocorre a comparação quando comparamos uma ideia,
ou expressão, em lugar de outra. Observe a letra da música: Pais e Filhos da
Legião Urbana.
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
102
Pais e Filhos
Legião Urbana
(...)
Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.
Já morei em tanta casa
Que nem me lembro mais
Eu moro com os meus pais.
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há.
FONTE: Disponível em: <http://letras.mus.br/legiao-urbana/22488/>. Acesso em: 12 set. 2012.
No trecho “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”
encontramos um caso de comparação, quando o escritor sugere um grau de
igualdade, semelhança entre os fatos, sendo que todo o dia deve amar as pessoas
como se fosse o último, ou seja, com qualidade e vigor.
METÁFORA: é uma figura de palavra, que se caracteriza pela alteração
do sentido. Consiste na comparação de dois termos sem o uso de um conectivo.
A metáfora, “vem do grego metaphora, de metaphero, eu transporto, uma figura
de linguagem que consiste em transpor o significado de um termo para outro
em virtude de uma analogia ou de uma comparação subentendida”, segundo o
dicionário Larousse (1993, p. 742).
Manguel (1997) relata que as metáforas são muito antigas, com raízes nas
primeiras sociedades judaico-cristãs. E diz que Blumenberg (um crítico alemão)
escreveu que as metáforas são representações da esfera que guiam nossas
concepções e as formações de conceitos, assim é, considerado um dispositivo
dentro da linguagem em busca de compreender os contextos.
É oportuno, ainda, voltar a Manguel (1997, p. 87), a fim de pontuar que a
metáfora tornou retórica comum, a seu ver, principalmente, a gastronômica, isso
já em 1695. “A metáfora da leitura solicita por sua vez outra metáfora, exige ser
explicada em imagens que estão fora da biblioteca do leitor e, contudo, dentro
do corpo dele, de tal forma que a função de ler é associada a outras funções.”
Caro(a) acadêmico(a)! Leia a letra da música Metáfora de Gilberto Gil e veja como
é possível brincar com as palavras.
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
103
Metáfora
Gilberto Gil
Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora.
A partir da letra da música Metáfora, é possível verificar o jogo feito com
os vocábulos meta e lata, ora assume a posição de verbo, ora de substantivo.
FONTE: A autora
A metáfora consiste no emprego de uma palavra com sentido que não
lhe é comum ou próprio, sendo esse novo sentido resultante de uma relação de
semelhança, de intersecção entre dois termos, como observamos no exemplo
anterior.
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
104
AUTOATIVIDADE
Em nosso cotidiano, utilizamos muitas metáforas para expressar nosso
pensamento. Muitas vezes não queremos ou não conseguimos expressar o que
realmente sentimos. Então falamos frases por metáforas, assim seu significado
fica subentendido. Exemplo: Seus olhos são luzes brilhantes. Lembrou-se de
mais alguma? Registre aqui e compartilhe com o grupo:
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O que seria de nós sem as metáforas? Sem as figuras de linguagem? Pobre
daquele que não as compreende! Observe a tirinha:
FIGURA 25 – AS GALINHAS FILOSÓFICAS (METÁFORA)
FONTE: Disponívelem: <http://mauricioserafim.com.br/linha-tnue-entre-o-que-o-que-no-
metfora/>. Acesso em: 12 set. 2012.
A partir da análise desse material podemos perceber o quão importante é
tomar cuidado com quem não compreende uma metáfora!
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
105
DICAS
Uma ótima definição de metáfora, você encontra no filme: O carteiro e o
poeta (Il postino, 1994), de Michael Radford. Narra a história (fictícia) da amizade entre o
poeta chileno Pablo Neruda e Mario Ruppuolo. Filme poético sobre os extremos da poesia
em que Mario (Massimo Troisi) é um carteiro que, ao fazer amizade com o grande poeta
Neruda (então exilado político), vira seu carteiro particular e acredita que ele pode se tornar
seu cúmplice para conquistar o coração de uma donzela. Descobre, assim, a poesia que
sempre existiu em si. O filme baseia-se no livro Ardiente Paciencia (1985), do escritor chileno
Antonio Skarmeta. No Brasil, foi editado pela Record com o título O Carteiro e o Poeta. Vale
a pena assistir!
Algumas variações da metáfora
Podemos citar como variação da metáfora a personificação e a hipérbole.
Assim passamos a diferenciá-las. Porém, destacamos que ambas possuem com a
metáfora uma relação de união semântica, não sendo dissociada uma da outra. É
como se tais figuras formassem “metáforas especiais”.
Se observarmos a frase: “Neste dia frio, o fogo me convida ao seu
encontro e as chamas querem me esquentar”, temos a metáfora na comparação
sem o conectivo: O dia está tão frio e o fogo tão quente que é “como se” o fogo
convidasse para chegá-lo mais perto e se esquentar. Existe também, de forma
simultânea, a personificação, uma vez que “convidar” e “esquentar” são ações
comuns de pessoas e não de seres a-vivos como o fogo e as chamas.
A metáfora pode ter as seguintes funções:
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
106
FONTE: A autora baseada nos autores já mencionados nesse caderno
CATACRESE: ocorre pela falta de um termo específico para designar um
conceito, acabamos por pegar outro emprestado. É um termo que vem do grego
katáchresis que significa uso, segundo Larousse (1993, p. 196) “é o emprego de
uma palavra com um sentido que não lhe é próprio”. Observe o exemplo:
FIGURA 26 – CATACRESE
FONTE: Disponível em: <http://figura2b.blogspot.com.br/2011/04/catacrese.html>. Acesso em:
12 set. 2012.
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
107
Caro(a) acadêmico (a)! Você sabia que o vocábulo “azulejo” em sua origem era
utilizado para designar ladrilhos de cor azul. Atualmente, esse vocábulo perdeu a sua ideia de
azul e passou a designar ladrilhos de diferentes cores. Essa é outra característica da catacrese:
quando as palavras perdem o seu sentido original. Ex.: cabelo de milho; pé de mesa.
As cores quentes estão associadas a sensações completamente opostas
àquelas que as cores frias transmitem. Assim, as cores quentes associam-se às sensações
de calor, adrenalina. São consideradas cores excitantes. As cores quentes são todas aquelas
que, no círculo das cores primárias derivam das seguintes cores: amarelo, laranja e vermelho.
Estas cores associam-se ao sol, ao fogo, a vulcões em erupção, entre outras.
NOTA
NOTA
SINESTESIA: quando ao escrever misturamos várias sensações percebidas
por diferentes órgãos do sentido: visão, audição, gustação, olfato e tato.
Ex.: Vou pintar a casa com uma cor quente.
Esta expressão é bem comum. Porém sabemos que ninguém irá se
queimar se acaso pôr a mão na parede de tom vermelho. Mas, pelo fato da cor
estar associada ao fogo, ela nos transmite a sensação de calor, assim é classificada
como uma cor quente.
METONÍMIA
Metonímia é a figura de palavra que consiste na substituição de um
termo por outro. É uma expressão do grego metonymia, que significa mudança
de nome. Larousse (1993, p. 744) define como "figura de linguagem pela qual
um conceito é expresso por um termo a ele ligado por uma relação de causa e
efeito, lugar e produto, continente e conteúdo ou parte pelo todo”. Desta forma,
um termo pode ser substituído considerando uma relação de dependência que
o elemento mantém com a realidade, ou seja, uma proximidade entre os termos
que utilizamos para substituir uma palavra.
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
108
Se associamos a ideia de máscara à falsidade e dissimulação, é porque
estabelecemos uma relação de proximidade entre elas. Nesse caso estamos
tratando de termos de universos próximos, vizinhos e contíguos. Vejamos um
exemplo de metonímia nas letras do poema “A laçada”, de Oswald de Andrade:
O Bento caiu como um touro
No terreiro
E o médico veio de Chevrolé
Trazendo o prognóstico
E toda a minha infância nos olhos”.
No exemplo, percebemos que o emprego do vocábulo chevrolé, foi
substituído pelo carro, mas nem por isso deixamos de compreender a mensagem
expressa, nesse caso a compreensão não fica comprometida, pois faz a mesma
relação carro/chevrolé.
Caro(a) acadêmico(a)! Lembre-se: a metáfora se dá pela substituição de um
termo por outro. Desta forma ocorre por meio de um processo dependente do sujeito
que realiza a interpretação, ou seja, interno e intuitivo. Já na metonímia, a relação entre a
substituição dos termos ocorre por meio de um processo externo, uma vez que a relação
entre aquilo que os termos significam precisa ser conhecido pela comunidade próxima para
que seja verificável e aceitável.
UNI
Exemplos de metonímia
“Trabalhava ao piano, não só Chopin como ainda os estudos de Czerny”.
(Murilo Mendes)
Nesse caso, uma relação de causa-efeito permitiu que o poeta usasse a
palavra Chopin (compositor de uma partitura musical) para designar a própria
partitura (a obra “causada” pelo autor).
A metonímia ocorre quando empregamos:
1. O efeito pela causa ou vice-versa: “Conseguiu sucesso com determinação e
suor” (trabalho).
2. O nome do autor pela obra: “Ler Guimarães Rosa é um projeto desafiador” (a
obra).
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
109
3. O continente (o que está fora) pelo conteúdo (o que está dentro): “Bebeu só dois
copos e já saiu cambaleando” (a bebida).
4. O substantivo concreto pelo abstrato: “Tratava-se de um papo-cabeça”
(intelectual).
5. O abstrato pelo concreto: “Era difícil resistir aos encantos daquela doçura”
(pessoa meiga, agradável).
6. A marca pelo produto: “Comprei uma caixa de Gilette” (lâmina de barbear).
7. O instrumento pela pessoa: “Quantos quilos ela come por dia?
Quilos? Não sei, mas ela é boa de garfo” (o instrumento utilizado para comer).
(Luiz Vilela)
8. O lugar pelo produto: “Queria tomar um Porto fervido com maçãs” (o vinho).
9. O sinal pela coisa significada: “O trono inglês está abalado pelas recentes
revelações sobre a família real” (o governo exercido pela monarquia).
10. O singular pelo plural: “O brasileiro tenta encontrar uma saída para suportar
a crise” (um indivíduo por todos).
11. A parte pelo todo: “Enormes chaminés dominam os bairros fabris da cidade
inglesa”. (fábricas).
12. A classe pelo indivíduo: “Depois desse episódio, não acredito mais no Juizado
brasileiro” (os juízes).
13. A matéria pelo objeto: “O jantar foi servido à base de porcelanas e cristais”
(matéria de que é feito o objeto).
No cotidiano, a metonímia é também muito empregada para orientar
usuários em guias turísticos, terminais de transportes, ginásios esportivos, postos
de gasolina e rodoviários etc. Eles vêm em forma de criptogramas, imagens ou
grupo de imagens que integram uma escrita sintética, resumida.
FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com/linguistica/metonimia/>. Acesso em: 2
ago. 2012.
Antonomásia: substituir um nome, pessoa ou lugar por uma expressão
que o identifique com facilidade, ou seja, a ocorrência entre nome e seu aposto.
Exemplos:
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
110
Os quatro rapazes de Liverpool = em vez de os BeatlesO mestre = Jesus Cristo
A cidade luz = Paris
O rei das selvas = o leão
Escritor maldito = Lima Barreto
O país do carnaval = Brasil
3 FIGURAS DE PENSAMENTO
As figuras de pensamento trazem uma ideia implícita nos textos, uma
mensagem nas entrelinhas, vai se constituir por meio da linguagem conotativa
em detrimento da denotativa. São subdivididas em:
FONTE: A autora
Eufemismo: “é uma palavra ou expressão empregada no lugar de
outra palavra ou expressão considerada desagradável ou chocante”. (CEREJA;
MAGALHÃES, 1999, p. 399).
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
111
FIGURA 27 – EUFEMISMO
FONTE: Disponível em: <http://let006.blogspot.com.br/2011/09/figuras-de-linguagem.html>.
Acesso em: 10 ago. 2012.
Nesse quadrinho percebemos um caso de eufemismo quando a esposa
procura suavizar a informação desagradável que bateu o carro, maquiando uma
informação direta/brusca.
Outros exemplos:
“Ele enriqueceu por meios ilícitos” (em vez de, ele roubou).
“Ele partiu dessa para melhor” (em vez de, ele morreu).
Antítese: esta figura de linguagem você já conhecia quando estudou sobre
o movimento Barroco. Vejamos, antítese é “o emprego de palavras que se opõem
quanto ao sentido.” (CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 398)
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
112
FIGURA 28 – ANTÍTESE
FONTE: Disponível em: <http://edinanarede.webnode.com.br/atividades/ensino%20medio%20-%20
lingua%20portuguesa,%20literatura%20e%20reda%C3%A7%C3%A3o/>. Acesso em: 10 ago. 2012.
Ex.: “Os jardins têm vida e morte.”.
Hipérbole: segundo o dicionário (LAROUSSE, 1993, p. 588), é uma
“figura de retórica que consiste na ênfase resultante de um exagero deliberado”.
Compartilhando da mesma ideia, Cereja e Magalhães (1999, p. 399) afirmam que
“é uma figura de linguagem que consiste em expressar uma ideia com exagero”.
Exemplo: Chorei rios de lágrimas.
FIGURA 29 – HIPÉRBOLE
FONTE: Disponível em: <http://www.ctvclic.com/bocadura/bocadura.htm>. Acesso em: 12 set. 2012.
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
113
Por mais que choramos não formará um rio de lágrimas, aqui encontramos
um caso de exagero. Outros casos: Estava morrendo de sede; Era louco por ela;
Demorou um século. Comer o pão que o diabo amassou.
A metáfora, juntamente com a metonímia, a alegoria, a ironia, o oxímoro e
alguns trocadilhos formam um grupo de recursos de retórica semânticos chamados de
tropos. Os tropos caracterizam-se por parecerem impertinências numa análise superficial,
ora impertinências lógicas, ora contextuais.
FONTE: Disponível em: <http://www.radames.manosso.nom.br/retorica/metafora.htm>.
Acesso em: 15 out. 2012.
NOTA
Ironia
A ironia “ocorre quando se diz alguma coisa, querendo-se dizer
exatamente ao contrário” (CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 399), ou seja, é uma
forma de sarcasmo, quando dizemos o contrário do que as palavras significam.
Encontramos um exemplo de ironia no texto de Veríssimo, leiamos:
O Povo – por Luís Fernando Veríssimo
Não posso deixar de concordar com tudo que dizem do povo. É uma
posição impopular, eu sei, mas o que fazer? É a hora da verdade. O povo que
me perdoe, mas ele merece tudo o que se tem dito dele. E muito mais.
As opiniões recentemente emitidas sobre o povo até agora foram
tolerantes. Disseram, por exemplo, que o povo se comporta mal em grenais.
Disseram que o povo é corrupto. Por um natural escrúpulo, não quiseram ir
mais longe. Pois eu não tenho escrúpulo.
O povo se comporta mal em toda parte, não apenas no futebol. O povo
tem péssimas maneiras. O povo se veste mal. Não raro, cheira mal também. O
povo faz xixi e cocô em escala industrial. Se não houvesse povo, não teríamos o
problema ecológico. O povo não sabe comer. O povo tem um gosto deplorável.
O povo é insensível. O povo é vulgar.
A chamada explosão demográfica é culpa exclusivamente do povo. O povo
se reproduz numa proporção verdadeiramente suicida. O povo é promíscuo e sem-
vergonha. A superpopulação nos grandes centros se deve ao povo. As lamentáveis
favelas que tanto prejudicam nossa paisagem urbana foram inventadas pelo povo,
que as mantém contra os preceitos da higiene e da estética.
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
114
Responda, sem meias palavras: haveria os problemas de trânsito se não
fosse pelo povo? O povo é um estorvo.
É notória a incapacidade política do povo. O povo não sabe votar.
Quando vota, invariavelmente vota em candidatos populares que, justamente
por agradarem ao povo, não podem ser boa coisa.
O povo é pouco saudável. Há, sabidamente, 95 por cento mais cáries
dentárias entre o povo. O índice de morte por má nutrição entre o povo é
assustador. O povo não se cuida. Estão sempre sendo atropelados. Isto quando
não se matam entre si. O banditismo campeia entre o povo. O povo é ladrão. O
povo é viciado. O povo é doido. O povo é imprevisível. O povo é um perigo.
O povo não tem a mínima cultura. Muitos nem sabem ler ou escrever. O
povo não viaja, não se interessa por boa música ou literatura, não vai a museus.
O povo não gosta de trabalho criativo, prefere empregos ignóbeis e aviltantes.
Isto quando trabalha, pois há os que preferem o ócio contemplativo, embaixo
de pontes. Se não fosse o povo nossa economia funcionaria como uma máquina.
Todo mundo seria mais feliz sem o povo. O povo é deprimente. O povo deveria
ser eliminado.
FONTE: Disponível em: <http://guilhermedutra.blogspot.com.br/2007/09/o-povo-por-lus-
fernando-verssimo.html>. Acesso em: 19 set. 2012.
O texto irônico de Veríssimo faz uso do povo como culpado por tudo o
que está de errado, porém nas entrelinhas retrata a indignação do povo com o
governo, o poder, a política no cenário brasileiro.
FIGURA 30 – IRONIA
FONTE: Disponível em: <http://www.dispatch.com/content/slideshows/2009/01/04/stahler.
html>. Acesso em: 19 set. 2012.
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
115
AUTOATIVIDADE
Caro(a) acadêmico(a)! Agora é sua vez: Essa charge utilizou-se do recurso de
ironia para apresentar sua mensagem. O que ela retrata?
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Prosopopeia ou personificação: é a figura que consiste em “atribuir
linguagem, sentimento e ações próprios dos seres humanos a seres inanimados”
(CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 398), ou seja, a “pessoa que representa com
perfeição uma ideia ou condição. Tipo, modelo”. (LAROUSSE, 1993, p. 860).
Leia os textos a seguir:
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
116
4 FIGURAS DE SINTAXE OU DE CONSTRUÇÃO
As figuras de sintaxe ou de construção referem-se a desvios em relação
à concordância entre os termos da oração, sua ordem, possíveis repetições ou
omissões. “São recursos de expressão criados com base na construção sintática da
frase” (CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 324). Podem ser construídas por:
FONTE: A autora
Podemos encontrar a omissão nos casos exemplificados, a seguir:
Zeugma: consiste na omissão de um termo que já apareceu antes na frase.
Ex.: “Ele prefere comida doce; eu, salgada.”
Nesse caso, percebemos a omissão (elipse) de um termo que já apareceu
antes, o verbo preferir, às vezes pode necessitar adaptações de número e pessoa
verbais. Zeugma pode ser utilizada, sobretudo, nas orações comparativas. Na
música de Chico Buarque notamos a omissão do termo “era” já nos primeiros
versos:
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
117
Para todos
(Chico Buarque)
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antônio Brasileiro
Foi Antônio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoadaVer o inferno e maravilhas
Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho
Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto
Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethânia, Rita, Clara
Evoé, jovens à vista
O meu pai era paulista
Meu avô pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô baiano
Estou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro
FONTE: Disponível em: <http://www.mpbnet.com.br/musicos/chico.buarque/letras/paratodos.
htm>. Acesso em: 30 out. 2012.
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
118
Elipse: é a omissão de um termo que será identificável pelo contexto. De
um modo geral, as gramáticas da língua portuguesa assumem a “elipse” como
uma figura de linguagem. Segundo Cunha (1976, p. 575), “elipse (do grego
élleipsis, “falta”, “insuficiência”) é a omissão, espontânea ou voluntária, de um
termo que o contexto ou a situação permitem facilmente suprir.” Para esse autor
a elipse pode ser usada como um recurso estilístico, uma forma de condensar a
expressão.
Porém, sabemos que a “elipse” também é um vocábulo utilizado dentro
da geometria, como sendo: “lugar geométrico dos pontos de um plano cujas
distâncias a dois pontos fixos desse plano têm soma constante; interseção de um
cone circular reto e um plano que corta todas as suas geratrizes”. (PEREIRA,
2006, p. 1).
Vamos conhecer alguns casos mais comuns de omissão de um termo ou
expressão facilmente subentendida:
a) Pronome sujeito, gerando sujeito oculto ou implícito: iremos depois, compraríeis
a casa?
b) Substantivo - a catedral, no lugar de a igreja catedral; Maracanã, no lugar de
o estádio Maracanã.
c) Preposição - estar bêbado, a camisa rota, as calças rasgadas, no lugar de: estar
bêbado, com a camisa rota, com as calças rasgadas.
d) Conjunção - espero você me entenda, no lugar de: espero que você me entenda.
e) Verbo - queria mais ao filho que à filha, no lugar de: queria mais o filho que
queria à filha. Em especial o verbo dizer em diálogos – E o rapaz: – Não sei de
nada!, em vez de E o rapaz disse.
FONTE: Disponível em: <http://www.algosobre.com.br/gramatica/figuras-de-linguagem>.
Acesso em: 10 ago. 2012.
Figuras de sintaxe geradas pela repetição de um termo:
Anáfora: repetição de uma ou mais palavras no início dos versos ou
orações. (CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 325). Observe um caso de anáfora na
letra da música dos Titãs:
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
119
Sonífera Ilha – Titãs
Não posso mais viver assim ao seu ladinho
Por isso colo meu ouvido no radinho de pilha
Pra te sintonizar sozinha, numa ilha
Sonífera ilha
Descansa meus olhos
Sossega minha boca
Me enche de luz
Sonífera ilha
Descansa meus olhos
Sossega minha boca
Me enche de luz
Não posso mais viver assim ao seu ladinho
Por isso colo meu ouvido no radinho de pilha
Pra te sintonizar sozinha, numa ilha
Sonífera ilha
Descansa meus olhos
Sossega minha boca
Me enche de luz
Sonífera ilha
Descansa meus olhos
Sossega minha boca
Me enche de luz
Sonífera ilha
Descansa meus olhos
Sossega minha boca
Me enche de luz
Sonífera ilha
Descansa meus olhos
Pleonasmo: redundância para reforçar a mensagem, ou melhor, “é a
repetição, por meio de palavras diferentes, de uma noção já apresentada, com o
objetivo de enfatizar uma palavra ou expressão”. (CEREJA; MAGALHÃES, 1999,
p. 325). Ex.:
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal”!
(Fernando Pessoa)
Outro exemplo, podemos encontrar na charge a seguir:
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
120
FIGURA 31 – PLEONASMO
FONTE: Disponível em: <http://www.ivancabral.com/2011/11/charge-do-dia-pleonasmo.html>.
Acesso em: 15 ago. 2012.
Caro(a) acadêmico(a)! Existe ainda o que chamamos de pleonasmo vicioso.
Esse nada mais é que “certas expressões – entra para dentro, sair para fora, subir para
cima, descer para baixo, reiterar de novo etc. – constituem redundâncias, isto é, repetem
o significado já contido no termo anterior, não acrescentando nada de novo. São vícios
de linguagem e devem ser evitados no padrão culto. Há, entretanto, certas construções
pleonásticas da linguagem coloquial que, embora constituam pleonasmos, são aceitáveis no
padrão culto: ver com os próprios olhos, palpar com a mão, pisar com os pés, chover chuva
etc.”. (CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 325).
NOTA
FIGURA 32 – EXEMPLO DE PLEONASMO VICIOSO
FONTE: Disponível em: <http://suellemmeloped.wordpress.com/2011/02/05/cuidado-com-o-
que-voce-fala/>. Acesso em: 12 set. 2012.
Dr. Paulo
não está.
Ele saiu lá
pra fora
agorinha.
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
121
AUTOATIVIDADE
Caro(a) acadêmico(a)! Agora é sua vez: nessa construção frasal encontramos
um caso de pleonasmo, justifique essa afirmação. E escreva porque devemos
evitar em uma redação.
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Veja na listagem a seguir, alguns exemplos de pleonasmos viciosos. Você
já ouviu alguns desses? Será que também já não fez uso? Vamos conhecê-los:
Pleonasmo Significado
Cego dos olhos Se está cego, é do olho.
Sangrava sangue Se sangra, é sangue.
Maluco da cabeça Se está maluco, só pode ser da cabeça.
Subir para cima Se está subindo, só pode ser para cima.
Descer para baixo Se está descendo, é para baixo.
Entrar para dentro Se está entrando, é para dentro.
Sair para fora Se está saindo, é para fora.
Hemorragia de sangue
A hemorragia já é um derramamento de
sangue para fora dos vasos.
Pessoa humana
Se é pessoa, só pode ser humana. Utiliza-se
para diferenciar da Pessoa Jurídica.
Unanimidade de todos Se é unânime se trata de todos.
Última versão definitiva
Se é a última versão, será a definitiva. A
menos que seja a última até aquele momento.
Acabamento final Se é um acabamento, só pode ser final.
Amanhecer o dia Se está a amanhecer, só pode ser o dia.
Surpresa inesperada Se é uma surpresa, logo, será inesperada.
Conviver junto
Se uma pessoa está convivendo com outra,
só pode ser junto.
Encarar de frente
Se a pessoa está encarando, só pode ser de
frente.
Gritar alto Se uma pessoa grita, só pode ser alto.
Certeza absoluta
Se uma pessoa tem certeza, ela só pode ser
absoluta.
Cheirar com o nariz
Se uma pessoa cheira, tem que ser com o
nariz.
Elo de ligação Se é um elo, apenas é de ligação.
Dupla de dois Se é dupla, tem que ser de dois.
Verdade verdadeira Se é uma verdade, só pode ser verdadeira.
Olhar com os olhos
Se uma pessoa está olhando, só pode ser
com os olhos.
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
122
Lamber com a língua Se a pessoa lambe, só é possível com a língua.
Isto é um fato real Se é fato, é real.
Multidão de pessoas Se é uma multidão, só pode ser de pessoas.
Morder com os dentes
Se a pessoa morde, só pode ser com os
dentes.
Estreia pela primeira vez Se é estreia, tem que ser a primeira vez.
Cala a boca Se é para se calar, tem de ser da boca.
Goteira no teto
Se é goteira, é no teto; se é na parede, escorre;
no chão é poça.
Panorama geral
Se é um panorama, vai ser uma abordagem
geral.
Prefiro mais
Se você prefere algo, é óbvio que irá gostar
mais daquilo.
Mais melhor
Se alguma coisa é melhor, obviamente será
mais conveniente.
Ganharde graça
Se você ganha alguma coisa, ela é de graça.
Se não fosse, seria uma compra.
Criar novas Se você cria alguma coisa, logo ela é nova.
Própria autobiografia A autobiografia é a sua própria biografia.
Infarto do coração O infarto é uma lesão que afeta o miocárdio.
Há muitos anos atrás
Se algo ocorreu há muitos anos, certamente
será do pretérito.
Países do mundo
Os países estão localizados no mundo
(planeta).
Viúvo(a) do falecido(a)
Se ele(a) é viúvo(a), seu marido(esposa) está
falecido(a).
Fato verídico
Se é um fato, é algo verdadeiro. Se é
verdadeiro, é verídico.
Almirante da marinha Só existe essa espécie de patente na marinha.
Demente mental
A demência é uma deficiência que afeta a
mentalidade.
Decapitar (ou guilhotinar) a cabeça
Se você decapita alguém, está retirando a
cabeça desse sujeito.
Suicidou(-se) a si mesmo Se alguém se suicida, ele o mata.
Comer com a boca
Se você está comendo alguma coisa, só é
possível com a boca.
Prefeito municipal Se alguém é prefeito, governa um município.
Amanhecer o dia
Se o dia está começando, e le está
amanhecendo.
Andar com os pés Se andamos, utilizamos os pés.
Adiar para depois
Se algo está sendo adiado, ele ficará para
depois.
Sussurrar baixo Se é sussurro, é baixo.
Comparecer pessoalmente
Se você comparece, apresenta-se em um
local.
Conclusão final Se é conclusão, está no epílogo.
Mar salgado Se é mar, tem sua água salgada.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_pleonasmos>. Acesso em:
2 ago. 2012.
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
123
Polissíndeto: repetição de conectivos ligando termos da frase ou do
período, podemos dizer que “é o uso repetido de conjunções coordenativas”.
(CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 325).
No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
e as criadas das burguesinhas ricas,
e as mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.
(Manuel Bandeira)
Figuras de sintaxe geradas pela inversão dos fatos:
Hipérbato
Alteração ou inversão da ordem direta dos termos na oração, ou das
orações no período. São determinadas por ênfase e podem até gerar anacolutos.
Ex.: Morreu o presidente, por: O presidente morreu.
Obs. 1: Também denominada de antecipação.
Obs. 2: Se a inversão for violenta, comprometendo o sentido
drasticamente, alguns autores denominam-na sínquise.
Obs. 3: Alguns autores consideram anástrofe um tipo de hipérbato.
Anástrofe
Anteposição, em expressões nominais, do termo regido de preposição
ao termo regente.
Ex.: "Da morte o manto lutuoso vos cobre a todos.", por: O manto
lutuoso da morte vos cobre a todos.
Obs.: alguns autores consideram um tipo de hipérbato.
Ocorre anástrofe quando há uma simples inversão de palavras vizinhas
(determinante/determinado).
Exemplo: "Tão leve estou (estou tão leve) que nem sombra tenho."
(Mário Quintana).
Hipérbato:
Ocorre hipérbato quando há uma inversão completa de membros da frase.
Exemplo: "Passeiam à tarde, as belas na Avenida.” (As belas passeiam
na Avenida à tarde.) (Carlos Drummond de Andrade).
Sínquise:
Ocorre sínquise quando há uma inversão violenta de distantes partes
da frase. É um hipérbato exagerado.
Exemplo: "A grita se alevanta ao Céu, da gente.” (A grita da gente se
alevanta ao Céu) (Camões).
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
124
Hipálage:
Ocorre hipálage quando há inversão da posição do adjetivo: uma
qualidade que pertence a um objeto é atribuída a outro, na mesma frase.
Exemplo: "... as lojas loquazes dos barbeiros." (as lojas dos barbeiros
loquazes.) (Eça de Queiros).
FONTE: Disponível em: <http://www.pciconcursos.com.br/aulas/portugues/figuras-de-
sintaxe>. Acesso em: 12 ago. 2012.
Figura de sintaxe gerada pela ruptura de pensamento:
Anacoluto: um termo solto na frase; é como se fosse uma mudança brusca
de assunto. Exemplo 1: “A morte, não sei realmente se ela nos leva a lugar algum.”
Termo solto na frase, quebrando a estruturação lógica, que normalmente
deixa um elemento sem função sintática, ocorrendo geralmente depois de uma
pausa sensível.
Exemplo 2: "Esses patrões de hoje, não se pode confiar neles."
Figura de sintaxe gerada pela concordância ideológica:
Silepse:
Ocorre silepse quando a concordância não é feita com as palavras, mas
com a ideia a elas associada.
a) Silepse de gênero:
Ocorre quando há discordância entre os gêneros gramaticais (feminino
ou masculino).
Exemplo: "Quando a gente é novo, gosta de fazer bonito." (Guimarães
Rosa).
b) Silepse de número:
Ocorre quando há discordância envolvendo o número gramatical
(singular ou plural).
Exemplo: Corria gente de todos lados, e gritavam." (Mário Barreto).
c) Silepse de pessoa:
Ocorre quando há discordância entre o sujeito expresso e a pessoa
verbal: o sujeito que fala ou escreve se inclui no sujeito enunciado.
Exemplo: "Na noite seguinte estávamos reunidas algumas pessoas."
(Machado de Assis).
FONTE: Disponível em: <http://www.pciconcursos.com.br/aulas/portugues/figuras-de-
sintaxe>. Acesso em: 12 ago. 2012.
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
125
5 FIGURAS DE SOM
FIGURA 33 – FIGURAS DE SOM OU DE HARMONIA
FONTE: Disponível em: <http://www.brasilescola.com/gramatica/figuras-som-ou-harmonia.
htm>. Acesso em: 19 set. 2012.
As figuras de som ou de harmonia são outra ramificação das figuras de
linguagem, essas são compostas por efeitos que se voltam para a repetição de
som, às vezes com ênfase nas vogais, outra nas consoantes, também podem ser
utilizadas para expressar sons produzidos por objetos (toc-toc) ou seres (au, au).
Conheceremos algumas das subdivisões dessas figuras:
FONTE: A autora
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
126
Aliteração: “é a repetição constante de um mesmo fonema consonantal”
(CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 409). Observe como o poeta Luís Vaz de
Camões alitera os fonemas no trecho do poema Canto.
Canto V (Parte I)
Luiz Vaz de Camões
(...)
Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto,
Ver as nuvens, do mar com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.
Luiz Vaz de Camões
FONTE: Disponível em: <http://www.jornaldepoesia.jor.br/camoes11.html>. Acesso em: 10 ago.
2012.
Outro exemplo de aliteração encontramos na poesia: Cume.
No alto daquela serra
Semeei uma roseira
O mato no Cume arde
A rosa no Cume cheira
Quando cai a chuva grossa
A água o Cume desce
O orvalho no Cume brilha
O mato no Cume cresce
Mas logo que a chuva cessa
Ao Cume volta alegria
Pois volta a brilhar depressa
O sol que no Cume ardia
E quando chega o Verão
E tudo no Cume seca
O vento o Cume limpa
E o Cume fica careca
Ao subir a linda serra
Vê-se o Cume aparecendo
Mas começando a descer
O Cume se vai escondendo
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
127
Quando cai a chuva fria
Salpicos no Cume caiem
Abelhas no Cume picam
Lagartos do Cume saiem.
FONTE: Disponível em: <http://www.sal.pt/a4_humor/humor_poesia_cume.htm>. Acesso em:
10 set. 2012.
Assonância: é a repetição constante de um mesmo fonema vocálico.
(CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 410).
FIGURA 34 - ASSONÂNCIA
FONTE: Disponível em: <http://ofi cinaenem.wordpress.com/linguagem/fi guras-de-linguagem/>.
Acesso em: 20 set. 2012.
Paronomásia: “é a aproximação de palavras de um texto pela sua
semelhança na forma ou no som” (CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 410).
Enquanto a chuva cai
Manuel Bandeira
(...)
É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas-d'água!
FONTE: Disponível em: <http://www.jornaldepoesia.jor.br/manuelbandeira01.html>.Acesso em:
12 set. 2012.
Paralelismo: é a repetição de palavras ou estruturas sintáticas maiores
(frases e orações, etc.) que se correspondem quanto ao som e ao sentido. (CEREJA;
MAGALHÃES, 1999, p. 410). Vejamos um exemplo na canção de Caetano Veloso,
Alguém cantando:
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
128
Alguém Cantando
Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir
Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como que pra ninguém
A voz de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza
Da natureza
Onde não há pecado nem perdão
Onde não há pecado nem perdão.
Onomatopeia: criação de uma palavra para imitar um som. É, portanto, a
reprodução aproximada de sons ou ruídos. (SARMENTO, 2006, p. 267).
A língua do nhem
Havia uma velhinha
Que andava aborrecida
Pois dava a sua vida
Para falar com alguém.
E estava sempre em casa
A boa velhinha,
Resmungando sozinha:
Nhem-nhem-nhem-nhem-nhem
(...)"
(Cecília Meireles)
Outro exemplo de onomatopeia na escrita do texto:
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
129
O Relógio
Vinicius de Moraes
Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
“A onomatopeia consiste no aproveitamento de palavras, cuja pronúncia
imita o som ou a voz natural dos seres. É um recurso fonêmico ou melódico que
a língua proporciona ao escritor”. (CEGALLA, 2002, p. 577).
Vejamos a seguir alguns exemplos de onomatopeias:
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
130
FONTE: Disponível em: <http://www.chinitarte.net/bd/gui4.html>. Acesso em: 10 jul. 2012.
Ao levar em conta os conceitos definidos, e os exemplos empregados
ressaltamos que a gramática normativa dita as regras convencionais da língua.
Porém, a estilística, conduz a possibilidade da ruptura dos limites, abrindo para o
brincar com palavras e expressões, aplicada a diferentes gêneros textuais, seja na
música, na poesia, na propaganda ou na piada, retratando a ludicidade verbal e
sua qualidade estética. Depois desse estudo sobre os tipos de figuras de linguagem
e ter uma noção sobre estilística, conseguiu identificar o seu estilo de escrita?
Percebeu que muitas vezes escrevemos, utilizamos de uma figura de linguagem,
porém não a reconhecemos? Valeu! Encontrarei você, caro(a) acadêmico(a), na
próxima unidade.
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
131
LEITURA COMPLEMENTAR
FIGURAS DE LINGUAGEM
Latuf Isaias Mucci
O estudo das figuras de linguagem – ou figuras de retórica ou, ainda, figuras
de estilo – não deve resultar numa inócua taxonomia, fastigiosa para o aluno do
segundo grau e mais enfadonha ainda e infindável para o estudante universitário.
Com efeito, as figuras estruturam a própria linguagem, potencializam o discurso,
carregam com expressividade a fala, realçam o que Roman Jakobson denomina
“função poética da linguagem”, sendo que toda linguagem é poièsis, vale dizer,
criação. Aliás, é em sua Poética, e não em sua Retórica, que Aristóteles, o pai da
teoria da arte e, metonimicamente, pai da teoria da literatura, trata de algumas
figuras. Tradicionalmente, há um repertório infindo de figuras de linguagem,
com nomenclaturas diversas, heterogêneas e, até, contraditórias. A própria
ambiguidade da classificação das figuras revela a natureza conotativa de todo
discurso: a denotação seria, então, uma utopia, na medida em que o poeta, por
exemplo, almeja que a palavra seja a coisa, o ícone seja o real, o signo seja o ser.
Para além da polissemia de todo enunciado, as figuras também se misturam,
configurando um concerto significativo.
Grosso modo, o termo “figura” designa todos os procedimentos de estilo
num determinado enunciado. De acordo com Marc Angenot, a figura é, “na
retórica tradicional, todo fragmento de enunciado cuja configuração aparente
não está conforme a sua função real e que resulta desde logo numa transgressão
codificada do próprio código (fônico, gráfico, semântico, sintático, textual,
lógico)”. Desde seus primórdios, a retórica, sobretudo sob a rubrica (ou figura) da
elocutio, distingue as figuras de palavras, ou tropos, das figuras de pensamento,
que intervêm mais diretamente na organização do conjunto do discurso. Em seu
constantemente reeditado Dicionário de termos literários, Massaud Moisés retoma,
citando Heinrich Lausberg, a distinção entre figuras de palavras, “que dizem
respeito à formação linguística e consistem na transformação desta, por meio de
categorias da adiectio, detractio, transmutatio, e figuras de pensamento, que dizem
respeito aos pensamentos (auxiliares), encontrados pelo sujeito falante para a
elaboração da matéria e, por conseguinte, são, em princípio, objeto da inventio.
Integrando o capítulo da linguagem figurada, distinguem-se dos tropos, visto
que estes implicam a mudança semântica dos vocábulos”. Com base nas regras
formuladas por Aristóteles, aos retores cabe, mais do que ensinar a maneira de
elaborar um discurso (falado ou escrito, mas, sobretudo, escrito), trabalhar os
processos do discurso e os processos do estilo, conhecidos sob o nome de figuras.
Nessa pauta, o estatuto da retórica varia conforme se considerem as figuras como
um ornatus adjacente ao pensamento que se exprime no texto ou como tópica
de um trabalho específico sobre a própria significação (signifiance, na clave de
Barthes); em todo caso, a retórica manifesta-se, sempre, como um código segundo,
que se junta e eventualmente contradiz as prescrições do código linguístico.
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
132
Na literatura – arte da palavra, ou, como conceitua Roland Barthes, arte
da linguagem –, as figuras ocupam um lugar privilegiado de estudo, de mediação
e de meditação. Cai sobre o estudo das figuras de retórica o pejo de serem
ornamentos da linguagem ou, mais prosaicamente, a cereja que enfeita a torta do
discurso ou, até, a construção de uma retórica do elogio, fácil ou ardiloso, ou da
mera bajulação. Para além desse aspecto pejorativo, há outro, mais interessante,
que caracteriza o estudo das figuras como argumentativo e lúdico, realçando os
traços dialéticos da linguagem. No ludismo reside grande parte da sedução do
discurso e da arte, em particular. Com sua longa, gloriosa e inglória história, a
retórica renova-se no século XX: Roman Jakobson articula duas fundamentais
figuras de retórica – a metáfora e a metonímia – e duas importantes categorias da
linguagem – a seleção e a combinação –, e formula esta hipótese fulcral: “la fonction
poétique projette le príncipe d’équivalence de l’axe de la sélection (ou: paradigmatique) sur
l’axe de la combinaison (ou: syntagmatique)”, correlacionando os polos metafórico e
metonímico que configuram a estrutura linguística; os novos retores do “Grupo
de Liège” e semiólogos, da estirpe de Roland Barthes, que insiste sobre o papel
cognitivo e hermenêutico da figura de retórica e que, tratando da “morte da
retórica”, sinaliza para uma “retórica erotizada (o prazer do texto é um prazer
retórico) e para a insuspeita (ou suspeita) plurissignificação de todo e qualquer
signo, seja em sua origem, seja em sua recepção. No jogo que as figuras de
linguagem travam, estabelece-se, além de uma substituição, uma superposição
dialética.
Dentro da mais clássica tradição retórica, as figuras pertencem a quatro
famílias: segundo afetam o aspecto sonoro ou gráfico das palavras, o aspecto
semântico das unidades, a disposição formalda frase ou o valor lógico e referencial
da proposição, operando funções de supressão, acréscimo, substituição e permuta.
Eis os quatro grupos: os metaplasmas ou figuras de dicção, que recobrem tanto
figuras gráficas quanto figuras fonéticas (apócope, síncope, anagrama, diérese,
sinérese, neologismo, paronomásia, aliteração, assonância, calembur, sufixação
parasitária, rima...); os metassememas ou tropos ou figuras de palavras, que
reenviam à mudança de significado, isto é, projeta-se um significado outro da
palavra, diferente de seu significado “normal”, “literal” (metáfora, metonímia,
sinédoque, comparação, antonomásia, perífrase, sinestesia, alegoria, catacrese,
parábola, símbolo, silepse...); os metataxes ou figuras de construção, que atuam
sobre a frase, a ordem das palavras, a gramática, que agem no plano sintático
e formal, alteram a estrutura habitual da frase (elipse, zeugma, pleonasmo,
assíndeto, polissíndeto, hipérbato, inversão, hipálage, quiasmo, parataxe, silepse,
anacoluto, anáfora, aliteração, assonância, onomatopeia, oxímoro, tmese...); enfim,
os metalogismos ou figuras de pensamento, que concernem mais diretamente
à linguagem, que se apoiam em ideias (litote, antítese, paradoxo, hipérbole,
eufemismo, ironia, personificação ou prosopopeia, apóstrofe, gradação...). Outras
taxonomias há das figuras de linguagem – o que prova a atualidade e instigação
do estudo da retórica –, como a proposta por Harry Shaw: “As figuras de estilo
ou de retórica podem dividir-se em três classes: (1) semelhanças imaginadas, como
sucede com a alegoria, a alusão, o conceito e o símile; (2) associações sugestivas em
que se relaciona uma palavra com outra, como, por exemplo, áurea com juventude,
TÓPICO 2 | FIGURAS DE LINGUAGEM
133
felicidade e riqueza: a hipálage, a hipérbole, a metonímia e a sinédoque; (3) apelos
à vista e ao ouvido: a aliteração, o anacoluto e a onomatopeia. As figuras de estilo
podem também agrupar-se em (1) figuras do pensamento, em que as palavras
conservam o seu significado, mas não os seus moldes retóricos, como sucede
na apóstrofe, e (2) tropos, em que as palavras sofrem uma mudança nítida de
significado, como acontece na metáfora. Outra classificação prática das figuras
de retórica é: (1) aquelas que envolvem efetivamente uma comparação (analogia,
personificação, tropo) e (2) aquelas que normalmente não comparam coisa alguma
(hipérbole, lítotes, ironia).”
Haverá, no rico repertório das figuras de retórica, uma figura prima inter
pares? Às vezes, a metáfora é, metaforicamente, coroada como “a rainha dos
tropos”. Na psicanálise freudiana, reduzem-se a duas as figuras de linguagem: a
metáfora, que condensa os signos, e a metonímia, que os desloca”. No fundo, no
fundo, tudo é metáfora, na medida em que o chamado “sentido literal”, “sentido
próprio”, “sentido dicionarizado” não deixa de ser um sentido figurado ou, em
outros termos, a denotação seria uma máscara da conotação. Se, para repetir com
Fernando Pessoa, ser poeta é fingir, falar é, também, fingir, ficcionalizar, forjar
sentidos, que o interlocutor traduz em sentidos outros, próprios ou impróprios.
A própria linguagem é metáfora, metáfora da metáfora, metáfora de um real
inatingível, segundo Lacan. Aplicado ao discurso, ou à retórica, o próprio termo
“figura” é uma figura de linguagem: a metáfora. A figura é uma tradução e, como
toda tradução, uma traição. Gérard Genette pondera que, quando se lança mão
da sinédoque “vela” para significar “navio”, o sentido é o mesmo, embora não
seja a mesma coisa, dado que o signo é diferente.
Para evitar, na prática magisterial, um estudo insípido e, talvez, inócuo
das figuras de linguagem, tenho carreado a tipologia para outras linguagens da
arte, além da própria literatura, iniciativa que deixa os estudantes à vontade para
escolherem o campo de aplicabilidade e que suscita um surpreendente exercício
de criatividade. Na teoria da literatura, a sinédoque aplica-se, por exemplo, à
questão do gênero para a espécie e da espécie para o gênero, assim como realismo,
visto sob o prisma da sinédoque, que designa o continente pelo conteúdo e vive-
versa, a causa pelo efeito e vice-versa, chama a atenção para as representações
culturais. Analisando-se o filme Vestido, do cineasta Paulo Thiago, inspirado
no belo poema “Caso do vestido”, de Carlos Drummond de Andrade, pode-se
considerar que as duas personagens fulcrais, Ângela e Bárbara, respectivamente
interpretadas por Ana Beatriz e Gabriela Duarte, estabelecem um jogo, onde
prevalece o quiasma, na medida em que seriam duas faces da mesma moeda,
a esposa ilibada e a perversa concubina, o lado mau e o lado bom de todo ser
humano, o angelical (o nome da esposa legítima resolve-se como metáfora) e a
sensualidade sedutora e exacerbada (a amante porta, metaforicamente também,
o nome de personagem de célebre poema de Chico Buarque, além de ter, numa
espécie de dialética da denotação e da conotação, o prenome da protagonista
de Jorge Amado, no luxurioso romance Gabriela, cravo e canela). Se a linguagem
corriqueira investe-se, sem que disso nos demos conta, de inúmeras figuras de
retórica, leem-se expressões, tais que “céu da boca”, “pé da mesa”, “braço da
UNIDADE 2 | LINGUAGEM E ESTILÍSTICA
134
cadeira”, como catacreses (metáforas esclerosadas, metáforas-clichês, metáforas-
nariz-de-cera), que ao estudante, desejo da busca de um estilo, cumpriria
ressuscitar, atendendo ao apelo do poeta francês Mallarmé: “Donner un sens plus
pur aux mots de la tribu”. Também tecido por insuspeitas figuras de linguagem,
o discurso social tem paradigmáticos casos, quando, por exemplo, emprega a
metonímia no enunciado da prática simbólica do casamento: “pedir a mão”.
A ambiguidade, que toda figura de linguagem estrutura, configura o que
o semiólogo italiano Umberto Eco designa como “obra aberta”, na medida em
que, para falar com os formalistas russos, causa “estranhamento”, “dépaysement”.
Reenviando, não às coisas de que fala, mas ao modo como as fala, “o discurso
aberto tem como primeiro significado a própria estrutura. Assim, a mensagem
não se consuma jamais, permanece sempre como fonte de informações possíveis
e responde de modo diverso a diversos tipos de sensibilidade e de cultura. O
discurso aberto é um apelo à responsabilidade, à escolha individual, um desafio
e um estímulo para o gosto, para a imaginação, para a inteligência”. Porque
estrutura um discurso fechado, ou persuasivo, na concepção de Umberto Eco,
a publicidade presta-se como campo profícuo para o estudo das figuras de
linguagem: linguagem com função essencialmente apelativa, ou conativa, o
discurso publicitário organiza, todavia, uma retórica da sedução, ancorada em
tropos e figuras, que mascaram a ideologia de mercado. Para além, portanto, do
estudo da linguagem propriamente dita, a investigação das figuras de linguagem
aponta para a ideologia que habita cada signo.
Bibliografia
Roman Jakobson, Essais de linguistique générale, p. 110 (1963); Marc
Angenot, Glossário da crítica contemporânea, p. 97 (1984); Massaud Moisés,
Dicionário de termos literários, p. 188 (2004); Roland Barthes, Leçon (1978); Harry
Shaw, Dicionário de termos literários, p. 209 (1982); Gérard Genette, Figures I, p. 211
(1966); Roland Barthes, A aventura semiológica, p. 19-94, (1987); Latuf Isaias Mucci,
A Retórica como plenitude da linguagem (2005); Umberto Eco, Obra aberta, p. 280
(1962).
FONTE: Disponível em: <http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_
mtree&task=viewlink&link_id=199&Itemid=2>. Acesso em: 20 ago. 2012.
135
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, vimos:
• Figuras de palavras: consistem no emprego de um termo com sentido diferente
daquele convencionalmente empregado, a fim de se conseguir um efeito mais
expressivo na comunicação. São elas:
• Comparação: Não quero ser como vocês.
• Metáfora:Ela é uma flor de pessoa.
• Metonímia: Ler Guimarães Rosa é prazeroso. (obra)
• Catacrese: O pé da cadeira quebrou.
• Antonímia: O bebê dormiu... Logo o bebê acordou.
• Sinestesia: “Esta chuvinha de água viva esperneando luz e ainda com gosto
de mato longe, meio baunilha, meio manacá, meio alfazema”. (Mário de
Andrade)
• Figuras de pensamento: retratam as ideias que estão por trás das palavras.
• Ironia: A comida está uma delícia, prova disso é que sobrou tudo!
• Hipérbole: Eles morreram de rir com a piada.
• Antítese: O que seria da guerra sem a paz.
• Eufemismo: Você está faltando com a verdade. (está mentindo)
• Personificação: O fogo dançava com a lua.
• Figuras de sintaxe ou construção: “são recursos de expressão criados com base
na construção sintática da frase” (CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 324).
• Assíndeto: Chora, ri, canta.
• Elipse: Hoje, um calor exorbitante. (Hoje, faz um calor exorbitante.).
• zeuma: Alguns preferem o verão, outros o inverno. (Alguns preferem o
verão, outros preferem o inverno).
• Anáfora: “Mudam-se o tempos, mudam-se as vontades, /Muda-se o ser,
muda-se a confiança” (Camões).
• Pleonasmo: Ele ficou cego do olho. (Se é cego, é do olho).
• Polissíndeto: “E saber, e crescer, e ser, e haver/e perder, e sofrer, e ter horror”.
(Vinícius de Moraes)
• Anástrofe: Tão leve ficou. Ficou tão leve.
• Hipérbato: “Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco.” (Gonçalves Dias) (A
ordem direta seria: “Há pouco a flor do tamarindo abriu-se.”
• Sínquise: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/De um povo heróico o
brado retumbante.”.
• Anacoluto: Você, não lhes convidou.
• Silepse: Todos estávamos ansiosos.
136
• Figuras de som: repetição de vogais, consoantes, som para imitar objetos e
seres.
• Assonância: “E as cantilenas de serenos sons amenos” (Eugênio de Castro)
• Aliteração: “Vozes veladas, veludosas vozes/volúpias dos violões,
vozes veladas/vagam nos velhos vórtices velozes dos ventos, vivas, vãs,
vulcanizadas” Cruz e Souza.
• Paronomásia: “Berro pelo aterro/ Pelo desterro/ Berro por seu berro/ Pelo
seu erro”. (Caetano Veloso)
• Onomatopeia: O relógio faz tic-tac.
137
AUTOATIVIDADE
1 Identifiquem nas frases a seguir as figuras de linguagem empregadas:
a)
És bela – eu moço; tens amor.
- eu medo (Álvares de Azevedo).
b)
GRILO GRILADO
(Elias José)
O grilo,
coitado,
anda grilado,
e eu sei
o que há.
Salta pra aqui,
salta pra ali.
c)
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
(Carlos Dumont de Andrade)
3 Assinale a alternativa CORRETA:
a) “Vi uma estrela tão alta. / Vi uma estrela tão fria! / Vi uma estrela luzindo /
Na minha vida vazia. (Manuel Bandeira)
( ) Assíndeto ( ) Anacoluto ( ) Anáfora
b) Vozes veladas, veludosas vozes, / Volúpias dos violões, vozes veladas...
(Cruz e Sousa)
( ) Aliteração ( ) Polissíndeto ( ) Anáfora
c) “ Umas carabinas que guardava atrás do guarda-roupa, a gente brincava
com elas de tão imprestáveis.” (José Lins do Rego)
( ) Polissíndeto ( ) Anacoluto ( ) Inversão
138
d) “Nossos bosques têm mais vida / Nossas vidas, mais amores”. (Gonçalves
Dias)
( ) Zeugma ( ) Silepse ( ) Anacoluto
e) “Na solidão solitude / Na solidão entrei, / Na solidão perdi-me, / Nunca me
alegrarei.” (Mário de Andrade)
( ) Onomatopeia ( ) Anáfora ( ) Zeugma
4 Leia as frases que expressam uma notícia desagradável. Reescreva-as
empregando eufemismo:
Maria bateu o carro._________________________________________________.
Além de grosseiro, é burro.___________________________________________.
Seu vizinho acaba de morrer.__________________________________________.
Caro(a), seu trabalho está um lixo!______________________________________.
139
UNIDADE 3
LINGUAGEM E EXPRESSÃO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir desta unidade, esperamos que você consiga:
• diferenciar fala, escrita, oralidade e letramento;
• compreender a linguagem como fator que é determinado pelo contexto
dos interlocutores;
• entender o que é escrever e analisar elementos que caracterizam a ativida-
de de escrever;
• refletir acerca da motivação e do desvio no uso da linguagem;
• compreender a importância dos recursos de linguagens nos atos comuni-
cativos;
• conhecer as principais semelhanças e diferenças entre a polissemia, ambi-
guidade e as homonímias;
• sugerir método e técnica de ensino dos aspectos semânticos da linguagem,
por meio de sequências didáticas.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No final de cada um deles, você
encontrará atividades que o(a) ajudarão a refletir sobre os assuntos aborda-
dos.
TÓPICO 1 – EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
TÓPICO 2 – AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
TÓPICO 3 – MÉTODO E TÉCNICA DE ENSINO DOS ASPECTOS
SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE
SEQUÊNCIA DIDÁTICA
140
141
TÓPICO 1
EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
“Quando escrevemos, estamos interpretando, estamos “lendo” algum
aspecto do mundo, dos outros, do eu no mundo, do eu nos outros e
com os outros que vamos esboçando”.
(Severino Antonio Barbosa)
Sabemos que o homem emprega e pode expressar a língua por meio de
duas modalidades: a fala e a escrita, segundo o contexto e a situação em que se
encontra.
FIGURA 35 – MODALIDADES DA LÍNGUA PORTUGUESA
FONTE: Disponível em: <http://portalmultirio.rio.rj.gov.br/acordoortografico/u2a2.shtml>.
Acesso em: 15 set. 2012.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
142
A fala, enquanto prática oral, é adquirida naturalmente no dia a dia,
por meio de contextos informais, através de relações sociais e dialógicas que
estabelecemos com as pessoas que nos cercam. Então, outros signos se unem à
linguagem oral num processo de comunicação tornando-a entendível.
A comunicação oral [...] vai utilizar também signos de sistemas
semióticos não linguísticos, desde que codificados, isto é,
convencionalmente reconhecidos como significantes ou sinais de uma
atitude. É assim que mímicas faciais, posturas, olhares, a gestualidade
do corpo ao longo da interação comunicativa vêm confirmar ou
invalidar a codificação linguística e/ou prosódica e mesmo, às vezes,
substituí-la. (DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 160).
Por outro lado, a escrita possui um caráter cultural desejável, esta é
adquirida e desenvolvida em contexto formal: na escola. Se pensarmos a escrita
em relação à história da humanidade percebemos que esta foi criada tardiamente
em relação à linguagem oral, mas hoje permeia toda a sociedade.
Certamente em termos de desenvolvimento humano, a fala é o status
primário. Culturalmente, os homens aprendem a falar antes de saber
escrever e, individualmente, as crianças aprendem a falar (excluindo-
se as patologias), muitas crianças não aprendem a ler e a escrever.
Todas as culturas fazem uso da comunicação oral; muitas línguas são
ágrafas. De uma perspectiva histórica e da teoria do desenvolvimento,
a fala é claramente primária. (BIBER, 1988, p. 8 apud FÁVERO et al.,
1999, p. 11).
FIGURA 36 – DICAS DE REDAÇÃO
FONTE: Disponível em: <http://www.grupoescolar.com/pesquisa/escrita.html>. Acesso em: 20
set. 2012.
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
143
Refletindo sobre o papel da fala e da escrita na sociedade, nesse tópico
temos por objetivos conhecer a diferença entre fala, escrita, oralidade e letramento;
bem como compreender a linguagem como fator que é determinado pelo contexto
dos interlocutores. Por fim, entender o que é escrever e analisar elementos que
caracterizam a atividade de escrever.
2 A PRESENÇA DA FALA E DA ESCRITA NA SOCIEDADE
Há uma variedade de falas utilizadasem circunstâncias diversificadas
que requerem graus de formalidades e convenções diferenciadas. Falamos ou
escrevemos de maneira diferente em situações diferentes, com estilos diferentes,
porque cada situação exige um tipo de uso. Dolz; Noverraz; Schneuwly; (2004, p.
171) mencionam que “a ação de falar realiza-se com a ajuda de um gênero, que é
um instrumento para agir linguisticamente”, que possibilita a comunicação.
Não estamos apontando a questão de “ensinar a falar”, mas a necessidade
de mostrar ao aluno a variação linguística. Segundo os PCN (1997, p. 32):
a questão não é falar certo ou errado e sim saber que forma utilizar,
considerando as características do contexto de comunicação, ou seja,
saber adequar o registro às diferentes situações comunicativas. É saber
coordenar satisfatoriamente o que falar e como fazê-lo, considerando a
quem e por que se diz determinada coisa.
Caro(a) acadêmico(a)!
Não há dúvida que a linguagem de sinais, também constitui um tipo de fala, embora não
identificamos nela o componente sonoro como constituinte. Contudo, temos uma língua
articulada, completamente reconhecida e eficiente no processo educativo. Som, grafia e
gesto, quando tomados como matéria básica dos elementos da representação, constituem
apenas três modos de representar a língua.
UNI
As interações sociais produzem uma enorme variedade de gêneros
discursivos/textuais, que estão organizados com especificidades, de acordo com
suas necessidades. Parafraseando Bakhtin, Schneuwly (2004, p. 25), mencionam
que “cada esfera de troca social elabora tipos relativamente estáveis de
enunciados: os gêneros”. Estes gêneros se caracterizam pelo conteúdo temático,
estilo e construção composicional.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
144
FIGURA 37 – TIPOS DE GÊNEROS TEXTUAIS
FONTE: Disponível em: <http://alemdogiz.blogspot.com.br/2010/09/generos-textuais-material-
bem-legal-com.html>. Acesso em: 12 set. 2012.
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
145
O aluno faz parte de uma cultura e reconhece muitos gêneros: receitas,
listas, notícias, poesias, debates. Além disso, assiste a novelas, tem acesso à
internet, visualiza rótulos e propaganda. Entretanto, um trabalho com a oralidade
se faz necessário, a fim de ultrapassar as formas de produções orais utilizadas no
cotidiano para produções dirigidas e institucionalizadas, realizando um trabalho
sistemático, estudando paulatinamente os gêneros secundários, “que aparecem
em circunstâncias de uma comunicação cultural, mais complexa e relativamente
mais evoluída, principalmente artística, científica, sociopolítica.” (BAKHTIN
apud SCHNEUWLY 2004, p. 29).
Podemos dizer que os gêneros são práticas de linguagens construídas
historicamente pelas interações humanas. Disponibilizar aos alunos o trabalho
com diferentes gêneros, possibilitar sua apropriação e reconstrução, é inseri-los
nas práticas sociais de leitura e escrita, ou seja, o letramento.
Sabemos que, mesmo um sujeito analfabeto, convive com diferentes
práticas de letramento.
FIGURA 38 – GERANDO LETRAS: O LETRAMENTO E A FUNÇÃO SOCIAL DA ESCRITA
Letramento é um conceito “criado para nos referirmos aos usos da língua
escrita não somente na escola, mas em todo lugar. Pois a escrita está por todos os
lados, fazendo parte da paisagem cotidiana” (KLEIMAN, 2003, p. 5).
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
146
FONTE: Disponível em: <http://gerandoletras.blogspot.com.br/2011/06/o-letramento-e-funcao-
social-da-escrita.html>. Acesso em 10 set. 2012.
Conforme a definição de Soares (1999, p. 3), letramento é: “estado ou
condição de quem não só sabe ler e escrever, MAS exerce as práticas sociais de
leitura e escrita que circulam na sociedade em que vive, conjugando-as com as
práticas sociais de interação oral” (grifos no original).
Ainda, segundo a autora, neste conceito está implícita “a ideia de que a
escrita traz consequências sociais e culturais, políticas, econômicas, cognitivas,
linguísticas, quer para o grupo social em que seja introduzida, quer para o
indivíduo que aprenda a usá-la”. (SOARES, 1998, p. 17).
Kate M. Chong (apud SOARES, 2003, p. 41) escreveu um poema:
O QUE É LETRAMENTO?
Letramento não é um gancho
em que se pendura cada som enunciado,
não é treinamento repetitivo
de uma habilidade,
nem um martelo
quebrando blocos de gramática.
Letramento é diversão
é leitura à luz de vela
ou lá fora, à luz do sol.
São notícias sobre o presidente,
o tempo, os artistas da TV
e mesmo Mônica e Cebolinha
nos jornais de domingo.
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
147
É uma receita de biscoito,
uma lista de compras, recados colados na geladeira,
um bilhete de amor;
telegrama de parabéns e cartas
de velhos amigos.
É viajar para países desconhecidos,
sem deixar sua cama,
é rir e chorar
com personagens, heróis e grandes amigos.
É um atlas do mundo,
sinais de trânsito, caças ao tesouro,
manuais, instruções, guias,
e orientações em bulas de remédios,
para que você não fique perdido.
Letramento é, sobretudo,
um mapa do coração do homem,
um mapa de quem você é,
e de tudo o que você pode ser.
É isso aí, prezado(a) acadêmico(a), você pode perceber que “letramento refere-
se ao envolvimento com as práticas sociais que incluem a leitura e a escrita. Somente o
domínio do código não garante esse processo.” (LEITE, 2001, p. 30).
UNI
Leia uma síntese elaborada por Marcuschi dos conceitos de oralidade,
letramento, fala e escrita:
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
148
Oralidade seria uma prática social interativa para fins comunicativos
que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fundados na
realidade sonora; ela vai desde uma realização mais informal a mais formal
nos mais variados contextos de uso. Uma sociedade pode ser totalmente oral
ou de oralidade secundária, como se expressou Ong (1982), ao caracterizar
a distinção entre povos com e sem a escrita. Considerando-se essa posição,
nós brasileiros, por exemplo, seríamos hoje um povo de oralidade secundária,
tendo em vista o intenso uso da escrita neste país.
O letramento, por sua vez, envolve as mais diversas práticas da escrita
(nas suas variadas formas) na sociedade e pode ir desde uma apropriação
mínima da escrita, tal como o indivíduo que é analfabeto, mas letrado na
medida em que identifica o valor do dinheiro, identifica o ônibus que deve
tomar, consegue fazer cálculos complexos, sabe distinguir as mercadorias
pelas marcas etc., mas não escreve cartas, nem lê jornal regularmente, até uma
apropriação profunda, como no caso do indivíduo que desenvolve tratados
de Filosofia e Matemática ou escreve romances. Letrado é o indivíduo que
participa de forma significativa de eventos de letramento e não apenas aquele
que faz uso formal da escrita.
A fala seria uma forma de produção textual-discursiva para fins
comunicativos na modalidade oral (situa-se no plano da oralidade, portanto),
sem a necessidade de uma tecnologia além do aparato disponível pelo
próprio ser humano. Caracteriza-se pelo uso da língua na sua forma de sons
sistematicamente articulados e significativos, bem como os aspectos prosódicos,
envolvendo, ainda, uma série de recursos expressivos de outra ordem, tem
como a gestualidade, os movimentos do corpo e a mímica.
A escrita seria um modo de produção textual-discursiva para fins
comunicativos com certas especificidades materiais e se caracteriza por sua
constituição gráfica, embora envolva também recursos de ordem pictórica e
outros (situa-se no plano dos letramentos). Pode manifestar-se do ponto de
vista de sua tecnologia, por unidades iconográficas, sendo que no geral não
temos uma dessas escritas puras. Trata-se de uma modalidade de uso da língua
complementar à fala.
FONTE: Marcuschi (2008, p. 25-26)
TÓPICO1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
149
Leia o anúncio!
AUTOATIVIDADE
Agora reflita: Considerando os dizeres da placa, estabeleça uma relação entre:
escrita e as práticas de letramento dentro e fora do contexto escolar.
____________________________________________________________________
____________________________________________________________________
____________________________________________________________________
____________________________________________________________________
FONTE: Disponível em: <http://libertosdoopressor.blogspot.com.br/2010/02/erros-
ortograficos-em-placas.html>. Acesso em: 15 nov. 2012.
Quando nos comunicamos por meio da fala, ela representa um caráter
individual, é também dotada de efeitos de estilo. Nesse sentido, Guiraud (1970,
p. 86) “a entonação e a fluência constituem outras tantas variantes estilísticas
que definem a expressão”. Para o mesmo autor, “a estilística é, precisamente,
a ciência dos desvios; o método que permite observá-los, medi-los e interpretá-
los”. (GUIRAUD, 1970, p. 160).
“Todo desvio linguístico corresponde a algum desvio da norma noutro
plano” (GUIRAUD, 1970, p. 116). Desta forma, o estilo envolve as escolhas
linguísticas, tornando-o variável, individual e inesperado. Porém, salientamos
que na literatura, o desvio geralmente se dá de forma consciente, sendo assim,
não é considerado um erro pela gramática, a menos que o desvio da norma culta
se dá por desconhecimento, em que ao utilizar o falante se desvia.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
150
Lembre-se: Norma culta é o conjunto de formas consideradas como o modo
correto, socialmente aceitável, de falar ou escrever. Assim, na rede das linguagens de uma
dada sociedade, a língua padrão ocupa um espaço privilegiado, cujo domínio é solicitado
como forma de ascensão profissional e social. (FARACO; TEZZA, 1992, p. 30).
NOTA
O desvio intencional é um recurso presente nas produções literárias,
humorísticas, publicitárias, lúdicas. Para Almeida (2001, p. 35), o desvio
intencional, pode produzir efeito:
• contraditório ou paradoxal – quando se usa um item lexical no lugar de outro,
apresentando algum aspecto opositivo em relação a algum termo;
• ambíguo – cujo item lexical utilizado aponta para significados diferentes, ou
seja, admite mais de uma leitura;
• intertextual – quando se usa um item lexical no lugar de outro, ao fazer
referência a um texto já existente;
• polifônico-incoerente: quando na enunciação, há mudança de voz, mas, no
momento em que outra voz entra, há uma incoerência com relação ao que foi
dito pela primeira;
• memória social – qual exige que o destinatário faça interferências e associações
com a contexto social, para ler o que está implícito no enunciado;
• neologismo – cuja criação de um vocabulário designa uma nova realidade ou
expressa opinião, sentimento;
• referencial – quando ocorre no momento em que o enunciador troca o referente
no seu discurso por outro, podendo haver até mesmo certa rivalidade –
concorrência entre ambos;
• associativo – no enunciado é estabelecida uma relação equivocada entre o
elemento abordado e o sentido atribuído pelo destinatário;
• polissêmico – em que um mesmo item lexical é utilizado num enunciado em
vários sentidos.
Utilizamos a escrita, em paralelo com a oralidade nos contextos da vida
cotidiana (MARCUSCHI, 2004). Exemplo:
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
151
Em cada contexto, temos objetivos diferentes para o uso da escrita. Ainda
que, alguns gêneros textuais (orais ou escritos) sejam mais recorrentes em um
contexto e domínio discursivo, encontramos quem faz uso mais intenso da escrita.
Se nos remetermos ao contexto do trabalho.
Nem todas as pessoas fazem uso da escrita na mesma intensidade ou
em condições idênticas. Não é apenas uma questão de distribuição de
tarefas. É também uma questão de delegação de tarefas, um fato muito
comum na prática da escrita em contextos de trabalho. Em quase
todos os ambientes de trabalho há alguém (uma determinada pessoa,
a “secretária”) que sabe escrever, alguém que tem um desempenho
escrito considerado “ideal” para aquele contexto. (MARCUSCHI,
2004, p. 20).
A inevitável relação entre escrita x texto x contexto nos conduz ao
surgimento de gêneros textuais e formas comunicativas (MARCUSCHI, 2004).
Na realidade, sempre que escrevemos, escrevemos textos.
Mas por que procurar entender o que é escrever? Por uma razão simples.
Pela compreensão que temos do que seja escrever vão derivar nossas atividades
com a prática escrita, e consequentemente, nosso estilo de escrever. Conforme a
concepção que temos do que seja “escrever, podemos treinar a escrita de palavras
soltas, de frases inventadas, de redações descontextualizadas, para nada e para
ninguém, ou podemos escrever textos socialmente relevantes, de um determinado
gênero, com objetivos claros, supondo um leitor, mesmo simulado”. (ANTUNES,
2005, p. 28).
Pontuamos o que caracteriza a atividade de escrever:
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
152
FONTE: A autora, com base em Antunes (2005)
É uma
atividade em
interdependência
com a leitura;
Escrever é,
como falar, uma
atividade de
interação;
Escrever na
perspectiva
da interação,
necessita
ser atividade
cooperativa;
Escrever, a
outros de forma
interativa, é, pois
uma atividade
contextualizada;
Escrever é
uma atividade
necessariamente
textual;
Escrever é
uma atividade
tematicamente
orientada;
Escrever é uma
atividade que
se manifesta
em gêneros
particulares de
texto;
Escrever é
uma atividade
que retoma
outros textos;
Recordamo-nos que escrever é como falar, uma atividade de interação,
uma vez que ao escrever precisamos pensar para quem estamos escrevendo.
Não tem sentido escrever sem ter um destinatário para trocar informações. Logo,
torna-se uma atividade cooperativa, pois é necessário um esforço para interpretar
o que está sendo dito e por que está sendo dito.
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
153
Daí passamos a ajustar a escrita:
Como selecionar as informações, como escolher a ordem em que
as coisa devem ser ditas, como ajustar o grau de formalidade da
linguagem, o nível do vocabulário e outras particularidades, se não
sabemos mesmo de forma simulada, quem é nosso interlocutor e como
avaliá-lo? Se repararmos que, com algumas exceções, essa tem sido
a prática costumeira das escolas, fica fácil entender por que a escrita
fica reduzida a um exercício mecânico de escrever qualquer coisa, de
qualquer jeito, que, afinal, não se sabe bem que fim vai ter. Também
não fica difícil entender por que tanta aversão dos alunos à atividade
de escrever. (ANTUNES, 2005, p. 29).
Desta forma, a escrita não deve se suceder sem um propósito definido.
Sabemos que ninguém fala ou escreve por meio de palavras soltas, sem unidade,
o que vale enfatizar que só nos comunicamos por meio de textos: orais ou escritos.
Sabemos que o texto está à espera de um leitor e assume uma função
diferente, ora de coerção, ora de interseção ou mesmo de ironia. Segundo Kleiman
(1995), a leitura é uma interação em que autor e leitor constroem sentidos de
um texto, o que significa que para o fenômeno da compreensão, este traz sua
experiência sociocultural, seu interdiscurso (FIORIN, 2006) determinando assim,
leituras diferentes para cada leitor e também, para um mesmo leitor, conforme
seus conhecimentos, interesses e objetivos naquele momento.
Em um texto, há uma ideia central, um tópico, um tema global que
se pretende desenvolver. Um ponto de chegada, para o qual cada
segmento vai-se encaminhando, vai-se orientando. Assim, como
acontece numa caminhada. Não importa se estamos dissertando,
contando uma história, fazendo um relatório,uma carta, ou uma
descrição de um aparelho. Não importa. Há sempre um ponto
em vista. E perdê-lo significa romper com a unidade temática e
comprometer a relevância comunicativa da interação. Esse aspecto
justifica plenamente a legitimidade de se preferir o texto à frase para
ampliar nossa competência comunicativa. (ANTUNES, 2005, p. 32).
Ressaltamos que o texto aqui, está sendo entendido por meio dos estudos
de Bronckart (1999); Bakhtin (1992), ou seja, como uma unidade de linguagem
situada, acabada e autossuficiente do ponto de vista da ação ou da comunicação.
O texto pode ser:
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
154
Desde que a criança nasce ela é uma leitora do mundo (FREIRE, 1997).
Muito jovem começa a observar, antecipar, interpretar e interagir, dando
significado a seres, objetos e signos que a rodeia. Manguel (1997) nos leva a
compreender que a leitura não está só nas páginas de um livro, não está restrita
às letras impressas em um papel. Cada pessoa tem uma ou variadas formas de
ler. O agricultor lê o céu para prevenir-se da chuva. O poeta lê o coração para
escrever seus versos. A mãe lê no semblante da criança sua expressão de alegria
ou tristeza. Em todos estes gestos está a leitura, mesmo porque, um texto pode
ser oral ou escrito.
Lembre-se de que a palavra, ou um texto, está carregado de sentido ideológico,
muda seu sentido conforme o contexto em que é utilizado.
UNI
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
155
Trabalhar o texto, enquanto elemento básico no processo de ensino na
sala de aula, é oportunizar o desenvolvimento da capacidade de organizar
o pensamento em diversas situações comunicativas. Neste sentido, o aluno
desempenha duplo papel, ora de produtor, ora de receptor de textos. Porém,
destacamos que trabalhar com texto, não é pedir para que os alunos produzam
uma redação.
Creio que o termo ‘redação’, pela sua grande didatização, já ganhou
uma conotação demasiado escolar, privativa do exercício didático de “fazer
uma dissertação” ou, até, “escrever um texto qualquer”. Se observarmos,
normalmente, em nossa vida social fora da escola, não somos solicitados a ‘fazer
uma redação’. Pede-nos que façamos uma carta, uma ata, um requerimento,
um relatório, um artigo, um resumo, etc. Ou seja, indicam-nos, com um nome
específico, um determinado gênero de texto que devemos escrever, com vistas
a algum fim bem definido. Só na escola acontece a solicitação amorfa de ‘fazer
uma redação’. Não seria melhor usar, em lugar de ‘redação’, o nome do próprio
gênero que vai ser elaborado? Por exemplo: ‘Faça um comentário’; faça uma
carta ou convite; apresente uma justificativa, dê um parecer. Talvez criasse
um efeito novo, mais próximo do que acontece nas interações sociais fora da
escola. (ANTUNES, 2005, p. 38).
Ao tomar uma posição de autor nos deparamos com o texto enquanto
existência física que pode ser expresso em diferentes gêneros, tais como: anúncio,
receita, propaganda. Entretanto, esses objetos não têm sua total dimensão, pois se
destinam ao olhar do seu interlocutor, que a cada leitura cria e recria significações.
Neste ponto, concordo com Boff (1997, p. 9) quando pontua que:
Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com
os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo
ponto de vista é à vista de um ponto. Para entender como alguém lê,
é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo.
Isto faz da leitura sempre uma releitura.
A maneira que se interage com os textos é diferente para qualquer
indivíduo, visto que, o resultado da leitura precede das experiências pessoais.
Fiorin e Saviolli (1996) defendem que todo texto é produto de criação coletiva:
a voz do produtor se manifesta junto de muitas outras vozes que já trataram do
mesmo tema e com as quais propõe acordo e desacordo. Para Perissé (2005), o
texto necessita da voz do leitor para renascer e criar vida, sem o leitor o texto não
sobrevive, fica sombrio sem o ato de recriação e vitalização.
Pautados em Antunes (2003), existem três grandes momentos para a
atividade de escrever:
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
156
Elaborar um texto escrito é uma tarefa cujo sucesso não se completa,
simplesmente, pela codificação de ideias ou informações, através de sinais gráficos.
Supõe etapas de idas e vindas, etapas interdependentes e intercomplementares,
que acontecem desde o planejamento, passando pela escrita que retrata o estilo,
até o momento posterior da revisão e reescrita. (ANTUNES, 2003).
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
157
Caro(a) acadêmico(a)! Os quesitos de coesão e coerência textual também
são fundamentais para uma escrita concisa e uma boa apresentação textual. Os chamados
“vícios de linguagens” devem ser evitados, uma vez que podem impedir a compreensão do
texto. Explique, trabalhe, analise com seus alunos, muitas vezes aí reside a importância da
reescrita de um texto.
NOTA
FONTE: Disponível em: <http://retratosdaalma.com.br/karina-boccia-na-boca-do-povo/
vicios-de-linguagem-por-karina-boccia/>. Acesso em: 18 nov. 2012.
O planejamento e a revisão da escrita ainda parecem na escola, ser
um procedimento que ocorre eventualmente e não uma prática processual e
sistemática, que já fosse prevista como algo natural, no momento do planejamento:
o momento da revisão.
Para Bakhtin (1997, p. 332), “a reprodução do texto pelo sujeito [que se
dá num processo de volta ao texto, releitura, nova redação] é um acontecimento
novo, irreproduzível na vida do texto, é um novo elo na cadeia histórica da
comunicação verbal.”
A reescritura do texto estabelece um diálogo do sujeito-autor com o
seu produto em construção e, consequentemente, com seu interlocutor. Este
processo possibilita ao aluno observar aquilo que antes não via em seu texto. A
possibilidade de reescrever consente ao autor notar que o texto não é um produto
pronto e inacabado, mas uma construção de conhecimento, um ambiente de
interação. Para Sercundes (2004, p. 89),
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
158
partindo do próprio texto, o aluno terá melhores condições de perceber
que escrever é trabalho, é construção do conhecimento; estará,
portanto, mais bem capacitado para compreender a linguagem, ser
um usuário efetivo, e consequentemente aprender a variedade padrão
e inteirar-se dela.
Caro(a) acadêmico(a)! Lembre-se de que os principais articuladores são
formados pelas conjunções, preposições e advérbios. Os operadores argumentativos, por
sua vez, dão um novo sentido ao texto, assim, o uso de até, modifica um dizer. Uma coisa é
dizer: Ele foi à festa; a outra é: Até ele foi à festa. Lembre-se!
UNI
Para a atividade de reescrita, existem diferentes estratégias. Uma delas é
o professor fornecer marcas no texto do aluno por meio de códigos de correção
predefinidos, ou ainda fazer interferência direta, através da fala, de comentários
ou questionamentos orais e/ou escritos, para que o aluno exerça o papel de
reescritor das próprias ideias.
Outra estratégia, ainda, pode ser trocar os textos entre os alunos, para um
observar e registrar os erros do outro. Logo fazer uma lista de erros recorrentes
do grupo, e analisar, refletir, trabalhar no grande grupo, isso estabelece interação
entre alunos-escritores e alunos-leitores que, ao repensar a escrita, ajustam suas
expressões para submetê-las a um segundo leitor. Desta forma, o aluno toma
cuidado com o processo de reescritura de texto, passa a se preocupar mais com a
escrita, devido às pontuações que o leitor poderá fazer.
O texto, falado, ouvido, lido e escrito é que constitui, na verdade, o objeto de
estudo das aulas de língua. Tudo deve convergir para ele: todas as noções, todas as atividades
e procedimentos propostos. Não tem sentido aprender noções sobreo pronome, por
exemplo, se não se sabe como usá-lo em textos, orais e escritos, e que função ele tem para
a coesão e a coerência do que se pretende dizer. Não tem sentido aprender a classificar as
conjunções, saber que nomes elas têm, se não se sabe que tipos de relações semânticas elas
estabelecem nos pontos do texto onde aparecem. (ANTUNES, 2005, p. 39).
UNI
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
159
Compreendemos que coesão é uma relação das significações existentes
entre um elemento e outro do mesmo texto, isto é, as relações e valores atribuídos
a um elemento dependem de outros, sem que a estruturação gramatical de onde
tais termos se encontrem possa interferir. Para Marcuschi (1988, p. 2), “a coerência
não é uma unidade de sentido, mas uma possibilidade interpretativa resultante
localmente”.
Para que isso ocorra, também é de suma importância fazer uso de alguns
recursos linguísticos que possibilitem: a retomada do referente, ou seja, que o
tema, sujeito, fato discutido possa ser relembrado sem usar a mesma expressão,
daí surgem os recursos de coesão. Por outro lado, o texto é dinâmico e as ideias
vão sendo apresentadas de maneira que o leitor possa construir sentidos. Para
isso, são usados articuladores e operadores argumentativos.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
160
LEITURA COMPLEMENTAR
OS ELEMENTOS DA TEXTUALIDADE E A PRODUÇÃO DE SENTIDO NO
TEXTO: PRINCÍPIOS E A PRÁTICA DOCENTE
Leonor Lopes Fávero
Os princípios da textualidade que serão apresentados neste trabalho como
ferramentas para a produção de sentido no texto, são:
Inicialmente destacaremos as características necessárias para a produção
de sentido no texto.
Ao elaborar qualquer tipo de texto seja ele literário ou não, devem-se
destacar os principais elementos que o autor utilizará para a transmissão de ideias
e assim elaborar as informações necessárias para a compreensão do interlocutor.
A produção de sentido no texto está inteiramente ligada à leitura e
compreensão.
Segundo Marcuschi (2003), “a produção textual não é uma simples
atividade de codificação e a leitura não é um processo de mera decodificação”,
logo o que se pode concluir desta afirmativa é que tanto o processo de criação de
texto quanto a leitura são procedimentos que requerem saberes prévios acerca dos
conteúdos e sua exploração implica compreender os significados e a finalidade
do texto.
Não adianta decodificar sem assimilação e compreensão.
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
161
Quando se estuda a produção textual e seus elementos e comparamos
na prática, verificamos que o principal desafio entre os alunos é aplicarem os
procedimentos ensinados, de forma estrutural que possa lhe direcionar nas
possibilidades de interpretação que está totalmente atrelado às diversas estratégias
e conhecimentos, dando-lhes sentido e facilidade na leitura e na escrita.
Portanto, vale discorrer acerca de alguns elementos da textualidade para
entendermos as dificuldades no ensino, na produção e elaboração textual.
Halliday e Hasan (1976) afirmam que o que permite determinar se uma
série de sentenças constitui ou não um texto são as relações coesivas com e entre
as sentenças, que criam a textura:
Um texto tem uma textura e é isto que o distingue de um não texto. O texto é
formado pela relação semântica de coesão.
Entendem, então, coesão como um conceito semântico referente às relações
de sentido que se estabelecem entre os enunciados que compõem o texto, assim, a
interpretação de um elemento depende da interpretação de outro.
A coerência, por sua vez, refere-se aos modos como os componentes do
universo textual, isto é, os conceitos e as relações subjacentes ao texto de superfície,
se unem numa configuração de maneira reciprocamente acessível e relevante.
O contexto pode ser analisado de diversas formas, porém um dos conceitos
mais abrangente para esclarecer a sua importância na produção de sentido no
texto é a teoria de Van Dijk (1997) que define contexto como um conjunto de todas
as propriedades de situação social que são sistematicamente relevantes para a
produção, compreensão ou funcionamento do discurso e de suas estruturas;
o estudo e aplicabilidade da contextualidade são de grande importância na
produção de texto por que implica um dos fatores pragmáticos que é o grau
de informatividade e é este embasamento que vai dar ao texto a riqueza de seu
conteúdo, o foco para o que será escrito e por isso a contextualidade é elemento
fundamental, portanto devido a estes fatores que os elementos da textualidade
devem ser abordados nas escolas de maneira incisiva para que os alunos
desmistifiquem as aulas de produção de texto, pois alunos bem informados e
com conteúdos contextualizados possuem o primeiro passo para um texto de
qualidade.
Os fatores pragmáticos são aqueles que analisamos dentro e fora do texto, de
forma direta e indireta, pois ao ler um texto identificam-se a sua intencionalidade,
aceitabilidade, situacionalidade, informatividade e intertextualidade, sendo esta
última a que mais apresenta dificuldades de assimilação dos alunos.
Os fatores pragmáticos que abrangem a linguística textual pouco são
ensinados na educação pública de nosso país.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
162
Estudos mostram que a maioria dos alunos que concluiu o ensino médio
desconhece os fatores pragmáticos do texto e apesar de fazer suposições erradas
a respeito também desconhecem diferenças básicas em diversos tipos de textos
como redações, sínteses e resumos que são conhecimentos básicos para a entrada
deste estudante na universidade e para a vida profissional sendo esta a realidade
na maior parte do país, logo isso se deve ao fato de que o ensino defasado não
dá suporte para que docentes de Língua Portuguesa abordem o conteúdo, pois
devido ao tempo e ao cronograma dos conteúdos obrigatórios do ano letivo,
os mesmos se veem sem recursos para traçar prioridades, ficando conteúdos
importantes para o desenvolvimento do aluno em segundo plano.
Os fatores pragmáticos consistem em conhecimentos básicos para a
interpretação, pois o estabelecimento da compreensão de um texto depende, em
grande parte desses fatores.
Tais fatores são trabalhados de forma interligada, pois a coerência textual
se estabelece através da interação, crenças, desejos, preferências, normas e valores
dos interlocutores e estando afinados com tais conhecimentos é que o leitor
identificará de maneira clara no texto seu conteúdo (tema) e finalidade.
Lembre-se de que os conceitos de coerência e coesão textual você já estudou
no Caderno de Estudos de Língua Portuguesa: laboratório de texto.
UNI
São cinco os fatores pragmáticos que serão delineados a seguir:
FONTE: FÁVERO, Leonor Lopes. Coesão e Coerência Textuais. 11ed. São Paulo: Ética, 2009.
TÓPICO 1 | EXPRESSIVIDADE DA FALA E DA ESCRITA: ESTILO
163
INTENCIONALIDADE
ACEITABILIDADE
SITUACIONALIDADE
INFORMATIVIDADE
INTERTEXTUALIDADE
• Intencionalidade
Refere-se ao esforço do produtor do texto em construir uma comunicação eficiente
capaz de satisfazer os objetivos de ambos os interlocutores. Quer dizer, o texto
produzido deverá ser compatível com as intenções comunicativas de quem o
produz.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
164
• Aceitabilidade
O texto produzido também deverá ser compatível com a expectativa do receptor
em colocar-se diante de um texto coerente, coeso, útil e relevante. O contrato de
cooperação estabelecido pelo produtor e pelo receptor permite que a comunicação
apresente falha de quantidade e de qualidade, sem que haja vazios comunicativos.
Isso se dá porque o receptor esforça-se em compreender os textos produzidos.
• Situacionalidade
É a adequação do texto a uma situação comunicativa, ao contexto. Note-se quea situação orienta o sentido do discurso, tanto na sua produção como na sua
interpretação. Por isso, muitas vezes, menos coeso e, aparentemente, menos claro
pode funcionar melhor em determinadas situações do que outro de configuração
mais completa. É importante notar que a situação comunicativa interfere na
produção do texto, assim como este tem reflexos sobre toda a situação, já que o
texto não é um simples reflexo do mundo real. O homem serve de mediador, com
suas crenças e ideias, recriando a situação. O mesmo objeto é descrito por duas
pessoas distintamente, pois elas o encaram de modo diverso. Muitos linguistas
têm-se preocupado em desenvolver cada um dos fatores citados, ressaltando sua
importância na construção dos textos.
• Informatividade
É a medida na qual as ocorrências de um texto são esperadas ou não, conhecidas
ou não, pelo receptor. Um discurso menos previsível tem mais informatividade.
Sua recepção é mais trabalhosa, porém mais interessante e envolvente. O excesso
de informatividade pode ser rejeitado pelo receptor, que não poderá processá-lo.
O ideal é que o texto se mantenha num nível mediano de informatividade, que
fale de informações que tragam novidades, mas que venham ligadas a dados
conhecidos.
• Intertextualidade
Concerne aos fatores que tornam a interpretação de um texto dependente da
interpretação de outros. Cada texto constrói-se, não isoladamente, mas em relação
a outro já dito, do qual abstrai alguns aspectos para dar-lhes outra feição. O
contexto de um texto também pode ser de outros textos com os quais se relaciona.
FONTE: Adaptado de Fávero (2009)
165
Neste tópico, você viu que:
• O homem emprega e pode expressar a língua por meio de duas modalidades:
a fala e a escrita.
• Falamos ou escrevemos de maneira diferente em situações diferentes, com
estilos diferentes, porque cada situação exige um tipo de uso.
• Letramento é um conceito “criado para nos referirmos aos usos da língua
escrita não somente na escola, mas em todo lugar. Pois a escrita está por todos
os lados, fazendo parte da paisagem cotidiana”. (KLEIMAN, 2005, p. 5).
• Quando nos comunicamos por meio da fala, ela representa um caráter
individual, é também dotada de efeitos de estilo.
• O desvio intencional é um recurso presente nas produções literárias,
humorísticas, publicitárias, lúdicas.
• Trabalhar o texto enquanto elemento básico no processo de ensino na sala
de aula é oportunizar o desenvolvimento da capacidade de organizar o
pensamento em diversas situações comunicativas.
• Pautados em Antunes (2003), existem três grandes momentos para a atividade
de escrever: o planejamento, a escrita, e a revisão.
RESUMO DO TÓPICO 1
166
Leia os textos a seguir:
Texto 1: Ali no canto ainda está a cômoda. Feita toda em madeira entalhada,
tem três gavetas com puxadores de metal. Esse móvel velho e pesado, que
ocupa uma área bastante grande do dormitório, era a peça preferida da minha
avó.
Texto 2: Dona Cômoda tem três gavetas. E um ar confortável de senhora rica.
Nas gavetas guarda coisas de outros tempos, só para si. Foi sempre assim,
dona Cômoda: gorda, fechada e egoísta.
(Mário Quintana)
1 Agora, é com você! Escreva dois pequenos textos sobre o que é memória.
Um no sentido literal, ou seja, com uma linguagem conotativa e outro,
utilizando figuras de estilo, fazendo uso das marcas de expressividade, com
a predominância da linguagem denotativa.
Compartilhe seus escritos com o grupo. Se você conhece a literatura infantil de
Guilherme Augusto Araújo Fernandes, ela poderá ser lida para o grupo para
cruzar as informações.
2 Identifique nos textos a seguir todos os termos que retomam as palavras em
itálico:
Texto 1: Em outubro de 1839 Paris ainda possuía a mesma mística embriagadora
que Chopin experimentara ao chegar lá em setembro de 1831. A ausência de
11 meses só servira para aumentar seu apaixonado fascínio pela magnífica
metrópole espraiada ao longo das sinuosas margens do Sena. Paris havia-
se tornado a amante de Chopin muito antes de ele conhecer Mme. Sand e
durante vários anos subsequentes suas afeições ficariam divididas entre as
duas. Ambas o adoravam, do mesmo modo que eram, por sua vez, cultuadas
por ele, e ambas eram essenciais à sua existência. Com a saúde debilitada, o
jovem músico não podia sobreviver ao estímulo de uma sem o amparo da
outra. (ATWOOD, William G. A leoa e seu filhote. Trad. Bárbara Heliodora. Rio
de Janeiro, Zahar, 1982, p. 139).
Texto 2: As imagens ficarão gravadas como um raio na memória dos brasileiros.
Na sétima volta do Grande Prêmio de San Marino, no autódromo de Ímola,
na Itália, Ayrton Senna passa direto pela curva Tamburello, a 300 quilômetros
por hora, e espatifa-se no muro de concreto. A 1h40 da tarde, hora do Brasil,
um boletim médico do hospital Maggiore de Bolonha, para onde o piloto foi
levado de helicóptero, anunciou a morte cerebral de Ayrton Senna. Não havia
AUTOATIVIDADE
167
mais nada a fazer. Ayrton Senna da Silva, 34 anos, tricampeão de Fórmula 1,
41 vitórias de Grandes Prêmios, 65 pole-positions, um dos maiores fenômenos
de todos os tempos no automobilismo, estava morto.
Ninguém simboliza melhor a comoção que tomou conta do mundo que a
imagem de Alain Prost, chorando num dos boxes de Ímola. Não era o choro de
um torcedor, mas de um rival, o maior de todos em dez anos de brigas dentro
e fora das pistas, um alter ego de Ayrton Senna na Fórmula 1. Na manhã de
domingo, minutos antes de entrar pela última vez no cockpit de sua Williams,
Senna encontrou-se com o ex-adversário, deu-lhe um tapinha nas costas e
comentou: “Prost, você faz falta”. Horas mais tarde, cercado pelos jornalistas,
o francês não conseguiu retribuir a gentileza. “Estou consternado demais para
falar”, limitou-se a dizer, com lágrimas nos olhos. (Veja, Edição extra, 3 maio
1994, p. 7).
168
169
TÓPICO 2
AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
FIGURA 39 – POLISSEMIA
FONTE: Disponível em: <http://centraldasletras.blogspot.com.br/2011/02/interpretacao-de-
textos.html>. Acesso em: 12 set. 2012.
Na tirinha depreendemos o sentido do texto com base nos diferentes
significados da palavra “veículo”. A tirinha produz não somente um efeito
humorístico, mas também, crítico em que implicitamente retrata a indignação
de Mafalda, uma vez que a TV não cumpre seu papel de ser um meio de difusão
cultural, mas é utilizada de forma banal para muitos outros assuntos.
Dentro dos estudos da Semântica, constatamos o dinamismo e a
flexibilidade da qual se perfaz a língua, posto que uma mesma palavra possa
apresentar diferentes sentidos, bastando para isso, estar inserida em um ato
comunicativo, em que as palavras são definidas umas em relação às outras,
podendo ser desdobradas em: polissemia, ambiguidade e as homonímias.
Passamos a conhecer as principais semelhanças e diferenças entre elas.
170
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
2 POLISSEMIA
Polissemia: Que palavra é essa? Segundo o dicionário é “uma palavra que
possui vários significados” (LAROUSSE, 1993, p. 881). Leiamos a tirinha a seguir:
FIGURA 40 – POLISSEMIA EM RELAÇÃO À PALAVRA “CABEÇA”
FONTE: Disponível em: < http://www.monica.com.br/cookpage/cookpage.cgi?!pag=comics/
tirinhas/tira309>. Acesso em: 18 nov. 2012.
Na tirinha encontramos um caso de polissemia em relação à palavra
cabeça. Para Orlandi (2005, p. 38):
[...] a polissemia é a fonte da linguagem uma vez que ela é a
própria condição de existência dos discursos, pois se os sentidos –
e os sujeitos – não fossem múltiplos, não pudessem ser outros, não
haveria necessidade de dizer. A palavra polissemia é justamente a
simultaneidade de movimentos distintos de sentido no mesmo objeto
simbólico.
Nas frases:
“Rafaela tem uma mão para cozinhar!”
“Hoje, vamos abrir essa mão!”“O bebê queimou as mãos.”
“Aquele prefeito passou a mão no bolso do povo”.
As frases, dos exemplos anteriores, são constituídas de um vocábulo
idêntico, mão. Contudo, partimos do pressuposto que tal vocábulo está
condicionado a um dado contexto, e esse é condição elementar para que
possamos analisar o sentido retratado em cada enunciado. Percebemos que os
sentidos são diferentes nos quatro enunciados. No primeiro reporta-se a uma
habilidade, já no segundo refere-se à doação/dinheiro, em relação ao terceiro,
significa parte do corpo humano, e por fim, o quarto faz menção a roubo. Assim, é
pertinente considerar que é no jogo de palavras “[...] que os sujeitos e os sentidos
se movimentam, fazem seus percursos, (se) significam.” (ORLANDI, 2005, p. 36).
TÓPICO 2 | AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
171
Leia a crônica de Stanislaw Ponte Preta, e perceba a polissemia do vocábulo
bala.
O menino que chupou a bala errada
Diz que era um menininho que adorava bala e isto não lhe dava
qualquer condição de originalidade, é ou não é? Tudo que é menininho
gosta de bala. Mas o garoto desta história era tarado por bala. Ele tinha
assim uma espécie de ideia fixa, uma coisa assim... assim, como direi?
Ah... creio que arranjei um bom exemplo comparativo: o garoto tinha por
bala a mesma loucura que o senhor Lacerda tem pelo poder.
Vai daí um dia o pai do menininho estava limpando o revólver e, para
que a arma não lhe fizesse uma falseta, descarregou-a, colocando as
balas em cima da mesa. O menininho veio lá do quintal, viu aquilo ali e
perguntou pro pai o que era.
– É bala – respondeu o pai, distraído.
Imediatamente o menininho pegou diversas, botou na boca e engoliu,
para desespero do pai, que não medira as consequências de uma informação
que seria razoável a um filho comum, mas não a um filho que
não podia ouvir falar em bala que ficava tarado para chupá-las.
Chamou a mãe (do menino), explicou o que ocorrera e a pobre senhora
saiu desvairada para o telefone, para comunicar a desgraça ao médico.
Esse tranquilizou a senhora e disse que iria até lá, em seguida.
Era um velho clínico, desses gordos e bonachões, acostumados aos
pequenos dramas domésticos. Deu um laxante para o menininho e esclareceu
que nada de mais iria ocorrer. Mas a mãe estava ainda aflita e insistiu:
– Mas não há perigo de vida, doutor?
– Não – garantiu o médico: – Para o menino não há o menor perigo
de vida. Para os outros talvez.
– Para os outros? – estranhou a senhora.
– Bem... – ponderou o doutor: – O que eu quero dizer é que, pelo
menos durante o período de recuperação, talvez fosse prudente não apontar
o menino para ninguém
.
FONTE: Garoto linha dura - Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975.
Note que no momento em que o filho e o pai conversam, cada um aciona
um significado diferente da palavra bala.
172
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
Se o real da língua não fosse sujeito a falhas e o real da história não
fosse passível de ruptura não haveria transformação, não haveria
movimento possível, nem dos sujeitos, nem dos sentidos. É porque a
língua é sujeita ao equívoco e a ideologia é um ritual com falas que o
sujeito, ao significar, se significa. Por isso, dizemos que a incompletude
é a condição da linguagem: nem os sujeitos, nem os sentidos, logo,
nem o discurso, já estão prontos e acabados. Eles estão sempre se
fazendo, havendo um trabalho contínuo, um movimento constante do
simbólico e da história. É condição de existência dos sujeitos e dos
sentidos: constituírem-se na relação tensa [...] Daí dizermos que os
sentidos e os sujeitos sempre podem ser outros. Todavia nem sempre o
são. Depende de como são afetados pela língua, de como se inscrevem
na história. Dependem de como trabalham e são trabalhados pelo jogo
da [...] polissemia. (ORLANDI, 2005, p. 37).
Desta forma, podemos afirmar que a polissemia é o nome que se dá quando
um vocábulo possui vários significados. A palavra polissemia compreende dois
radicais: poli = muito e semia = significado. Portanto, uma palavra pode apresentar
significados distintos, dependendo dos usos linguísticos em que possa aparecer.
Vejamos os diferentes significados de abater:
Abater a árvore = derrubar
Abater a fera = matar
Abater o inimigo = derrotar
Abater-se com a derrota = sentir
Abater a dívida = descontar
Ou o significado de pasta a partir do dicionário Houaiss (2009, p. 1443):
substantivo feminino
1 porção de matéria sólida aglutinada, ligada ou amassada com substância
líquida ou viscosa, e que se caracteriza por sua plasticidade
2 qualquer massa assim formada
Exs.: p. de farinha
p. de limpeza
doce em p.
3 porção de metal fundida e ainda não trabalhada
4 Rubrica: indústria de papel.
substância constituída de trapos, madeira, palha etc., que passa por processo de
depuração no fabrico do papel
5 Rubrica: pintura.
m.q. empastamento
6 Rubrica: petrologia.
m.q. base
7 Rubrica: encadernação.
retângulo de papel muito encorpado que se coloca em cada um dos lados do livro
a ser encadernado, formando a capa
TÓPICO 2 | AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
173
8 Derivação: por metonímia. Rubrica: encadernação.
cada uma das partes da capa assim formada
9 Derivação: por extensão de sentido
classificador de documentos, ger. em cartolina ou cartão ('papel')
10 espécie de bolsa achatada, de couro, plástico, tecido etc., us. para guardar e
transportar livros, documentos etc.
11 Derivação: por metáfora
posto de ministro de Estado
12 Rubrica: angiospermas. Regionalismo: Ceará.
m.q. flor-d'água (Pistia stratiotes)
13 Rubrica: informática.
diretório ('lista de arquivos') representado pelo ícone de uma pasta (acp.)
Outros exemplos:
• mangueira: tubo de borracha ou de plástico para regar as plantas ou apagar
incêndios; árvore frutífera; grande curral de gado.
• pena: pluma; peça de metal para escrever; punição; dó.
• velar: cobrir com véu; ocultar; vigiar; cuidar; relativo ao véu do paladar.
• pregar: (um sermão) - pregar: (pregar uma bainha da roupa) - pregar: (um
prego)
• manga: (de camisa ou de candeeiro) - manga: (fruto) - manga: (bando,
ajuntamento)
• cabo: (cabeça, extremidade, posto na hierarquia militar) - cabo: (parte de
instrumento por onde esse se impunha ou utiliza: cabo da faca).
FONTE: Disponível em: <http://www.jurisway.org.br/v2/cursosentrar.asp?id_curso=745>. Acesso
em: 12 set. 2012.
Há uma infinidade de outros exemplos em que podemos verificar a ocorrência
da polissemia, mas agora você vai escrever os sentidos. Vamos lá!
AUTOATIVIDADE
Frases Significado
O rapaz é um tremendo gato.
O gato do vizinho é fofinho e foge para
minha casa.
Já sei. Você não pagou a conta de luz e
fez um gato!
174
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
Caro(a) acadêmico(a)! Contudo é preciso esclarecer aspectos entre
polissemia e homonímia. Para tanto leia o texto a seguir:
A polissemia confunde-se, muitas vezes, com a homonímia, o que constitui
um dos problemas mais complexos em lexicografia e em semântica lexical,
como se pode observar pelas opções nem sempre coincidentes que são tomadas
pelos lexicógrafos quando decidem que uma palavra constitui uma entrada no
dicionário com várias acepções (polissemia) ou que, pelo contrário, corresponde
a várias entradas com a mesma forma (homonímia).
A análise sincrônica da língua e a constatação de que um conteúdo semântico
está incluído dentro de outro seja por extensão metafórica ou abstração é geralmente
o critério tomado pelos lexicógrafos quando decidem sobre a polissemia de uma
palavra. No entanto, a problemática de distinção entre polissemia e homonímia
não foi resolvida nem pelo estruturalismo nem pelo generativismo.
A teoria dos protótipos trouxe uma importante contribuição para a análise
da polissemia e da homonímia dentro do paradigma teórico do cognitivismo.
Os estudos sobre a polissemiaem semântica cognitiva permitem afirmar que a
maior parte das palavras é polissêmica e não monossêmica ou homonímica, o
que significa que o fenômeno da polissemia é o mais representado na estrutura
cognitiva das línguas. A polissemia é de fato o processo de categorização da
realidade mais frequente, apesar de haver uma tradição de estudos diacrônicos
que defendem a expansão da homonímia em detrimento da polissemia.
A polissemia é geralmente o resultado de uma expansão metafórica ou
metonímica do significado de um lexema. Nos dicionários, esta expansão costuma
assinalar-se pela etiqueta de sentido figurado, o que deixa entender um fenômeno
de abstração subjacente. A teoria dos protótipos dá uma explicação cognitivista
deste fenômeno, que pode ser exemplificada pela análise do lexema:
Anel de noivado
Anel de Saturno
A relação que existe entre os dois usos de <anel> é muito clara: ambos
evocam a mesma imagem gráfica de objeto arredondado que contorna outro
objeto (no primeiro caso, o dedo, no segundo caso, o planeta). Estamos perante
dois usos diferentes cujo significado se intercepta na forma esquemática que
memorizamos. Por outras palavras, a primeira acepção enquadra-se dentro do
núcleo do protótipo que nós possuímos para a palavra <anel>, ficando a segunda
acepção na margem desse protótipo, criada pelo processo da metáfora, ao lado de
<cabelos aos anéis> ou de <anel de fogo>. Os significados polissêmicos são assim
categorias radiais, que se fixam pelas margens do protótipo, com graus diferentes
de representatividade.
FONTE: Disponível em: polissemia. In: Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012.
[Consult.2012-07-13]. Disponível em: www: <URL: http://www.infopedia.pt/$polissemia>. Acesso
em: 10 jul. 2012.
TÓPICO 2 | AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
175
Caro(a) acadêmico(a)! Pense na palavra manga: podemos considerar que
existe uma relação entre a fruta e a manga da camisa? Nesse caso, temos um só vocábulo
com dois sentidos, ou será que são duas palavras diferentes com a mesma forma? Quando
uma palavra tem mais de um significado, chamamos de polissemia. Quando duas palavras
diferentes, de origens e significados variados, terminam convergindo para a mesma
configuração fonológica e ortográfica, chamamos de homonímia.
UNI
3 HOMÔNIMOS
Palavras homônimas “são aquelas que se pronunciam da mesma maneira,
mas têm significados distintos e são percebidas como diferentes pelos falantes da
língua” (ILARI, 2006, p. 103), ou seja, tem o mesmo som, porém com significados
diferentes. “Há homônimos que pertencem a classes gramaticais diferentes: banco
(de jardim) e banco (casa de crédito) são ambos substantivos. [...] pia (lavatório) é
um substantivo, ele pia (uma das tantas vozes de piar) é um verbo; e pia (piedosa)
é um adjetivo (ILARI, 2006, p. 103, grifos nossos). Veja um exemplo:
FIGURA 41 – HOMÔNIMOS: A TURMA DO PORTUGUÊS
FONTE: Disponível em: <http://escola.previdencia.gov.br/dicas/dica11.html>. Acesso em: 25 jan.
2012.
Homônimas são palavras que possuem a mesma grafia e a mesma
pronúncia, porém com diferentes significados. O que determina o emprego de
uma palavra ou outra é o contexto. Para Silva (1989, p. 1), a homonímia consiste
em que “um mesmo significante pode significar simultaneamente dois ou mais
significados entre os quais não existe qualquer relação cognitiva. Neste caso, não
se pode falar de uma palavra com vários significados, mas de várias palavras
(homônimas) com o mesmo significante”.
176
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
Analisemos os exemplos a seguir:
acender (colocar fogo) ascender (subir)
acento (sinal gráfico) assento (local onde se senta)
acerto (ato de acertar) asserto (afirmação)
apreçar (ajustar o preço) apressar (tornar rápido)
bucheiro (tripeiro) buxeiro (pequeno arbusto)
bucho (estômago) buxo (arbusto)
caçar (perseguir animais) cassar (tornar sem efeito)
cegar (deixar cego) segar (cortar, ceifar)
cela (pequeno quarto) sela (forma do verbo selar; arreio)
censo (recenseamento) senso (entendimento, juízo)
céptico (descrente) séptico (que causa infecção)
cerração (nevoeiro) serração (ato de serrar)
cerrar (fechar) serrar (cortar)
cervo (veado) servo (criado)
chá (bebida) xá (antigo soberano do Irã)
cheque (ordem de pagamento) xeque (lance no jogo de xadrez)
círio (vela) sírio (natural da Síria)
cito (forma do verbo citar) sito (situado)
concertar (ajustar, combinar) consertar (reparar, corrigir)
concerto (sessão musical) conserto (reparo)
coser (costurar) cozer (cozinhar)
esotérico (secreto)
exotérico (que se expõe em
público)
espectador (aquele que assiste)
expectador (aquele que tem
esperança, que espera)
esperto (perspicaz) experto (experiente, perito)
espiar (observar) expiar (pagar pena)
espirar (soprar, exalar) expirar (terminar)
estático (imóvel) extático (admirado)
esterno (osso do peito) externo (exterior)
estrato (camada) extrato (o que se extrai de algo)
estremar (demarcar) extremar (exaltar, sublimar)
incerto (não certo, impreciso) inserto (inserido, introduzido)
incipiente (principiante) insipiente (ignorante)
laço (nó) lasso (frouxo)
ruço (pardacento, grisalho) russo (natural da Rússia)
tacha (prego pequeno) taxa (imposto, tributo)
tachar (atribuir defeito a) taxar (fixar taxa)
FONTE: Disponível em: <http://www.soportugues.com.br/secoes/seman/seman6.php:>. Acesso
em: 25 jan. 2012.
TÓPICO 2 | AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
177
A homonímia é descrita por Rocha (2005, p. 487) como “fator de perturbação
da boa escolha das palavras (...) que, tendo origem diversa, apresentam a mesma
forma, em virtude de uma coincidência na sua evolução fonética”. Desta forma
podemos encontrar uma subdivisão de homônimos.
Subdivisão de Homônimos
Homófonos Homógrafos Homônimos Perfeitos
A palavra homófono
vem do grego homo
= mesmo e phonos
= som. Portanto
significa "mesmo som",
porém com grafias e
significados diferentes.
A sessão demorou
para começar. (Espaço
de tempo de uma
reunião, cinema,
teatro...).
A cessão de terras foi
aceita. (significado de
ceder, dar posse.)
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É só clicar nessa seção.
(Divisão de repartições
públicas, ato ou efeito
de repartir).
São palavras iguais
na grafia, mas com
pronúncias e significados
diferentes. Exemplos:
Olho (ó) verbo – Eu olho
você e me admiro.
Olho (ô) substantivo –
Beatriz precisou operar o
olho direito.
Perfeitos, pois se trata de
palavras iguais na escrita
e na pronúncia, mas com
diferentes significados.
Nós vamos à festa amanhã.
(pronome pessoal reto).
Esses nós estão bem
apertados? (substantivo)
Outro exemplo:
Eu cedo este lugar para a
senhora. (cedo = verbo)
Cheguei cedo para as
festividades. (cedo =
advérbio de tempo)
FONTE: A autora
178
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
Segundo Ullmann (1964, p. 374), existem três processos pelo qual a
homonímia pode ocorrer:
1. Convergência fonética: quando desenvolvimento de sons convergentes, isto é,
quando dois ou mais itens lexicais tiveram, no passado, formas diferentes que
coincidem na linguagem falada e escrita.
2. Divergência semântica: quando há o desenvolvimento de sentidos divergentes,
isto é, “quando dois ou mais significados da mesma palavra se separam de tal
modo que não haja nenhuma conexão evidente entre eles, a polissemia dará
lugar à homonímia e a unidade da palavra será destruída”. (ULLMANN,
1964, p. 368). É o caso de palavras como canal1 (abertura, passagem de água,
cavidade) e canal 2 (meio de transmissão de sinais); criação1 (obra, invenção)
e criação 2 (animais domésticos criados conjuntamente), dentre muitos outros
exemplos do português contemporâneo.
3. Influência estrangeira: quando palavras estrangeiras se introduzem em uma
língua, adaptando-se ao sistema fonético no qual se introduziram,e coincidem
com outras palavras já existentes; consequentemente, surgem pares de
homônimos. De acordo com Ullmann (1964, p. 373), além de ser um processo
pouco comum, “este tipo de influência estrangeira não é, pois, uma fonte
separada de homonímia, mas apenas uma forma especial de desenvolvimentos
fonéticos convergentes”.
Caro(a) acadêmico(a)!
Tome cuidado, pois uma palavra grafada errada pode alterar o significado da frase! Assim,
sempre que tiver alguma dúvida, consulte um dicionário para concerto não virar conserto, e
vice-versa! Leia a piada:
CONCERTO OU CONSERTO?
O português foi convidado pelo amigo brasileiro para assistir a um
concerto de piano. No intervalo do espetáculo o amigo pergunta ao português:
– E aí? Está gostando do concerto de piano?
– O gajo toca tão bem que eu nem havia percebido que o piano estava quebrado! (AVIZ,
2003, p. 153)
UNI
TÓPICO 2 | AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
179
4 AMBIGUIDADE
A ambiguidade aparece quando algo que está sendo dito admite mais de
um sentido, comprometendo a compreensão do conteúdo. O uso de elementos
como pronomes, adjuntos adverbiais, expressões e até mesmo enunciados
inteiros podem acarretar um duplo sentido, se empregado de forma inadequada,
comprometendo a clareza do texto. A ambiguidade pode ser utilizada de duas
formas:
• para obter um efeito de sentido no receptor, utilizada como um recurso textual;
ou
• produzida de forma involuntária, não como um recurso textual, indevida,
inadequada dificultando a compreensão do texto.
No segundo caso, a presença da ambiguidade causada pela construção
textual, emprego de palavras polissêmicas, pontuação inadequada pode
prejudicar a coesão e a coerência textual e conduzir o interlocutor a mais de uma
interpretação.
Existem exemplos típicos de ambiguidade sintática que podem ser
explorados didaticamente. Vejamos exemplo de como a pontuação altera o
sentido do texto:
1. Deixo os meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do
alfaiate nada aos pobres.
Verifica-se que o apagamento da pontuação tornou a frase ambígua, não
ficando explícito a quem é que o sujeito deixou os seus bens. Diferentes soluções
de pontuação podem levar a diferentes atribuições desses bens:
2. Deixo os meus bens a minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a
conta do alfaiate. Nada aos pobres.
3. Deixo os meus bens a minha irmã? Não. A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do
alfaiate. Nada aos pobres.
4. Deixo os meus bens a minha irmã? Não. A meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do
alfaiate. Nada aos pobres.
5. Deixo os bens a minha irmã? Não. A meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do
alfaiate? Nada. Aos pobres.
Em termos linguísticos, podemos afirmar que a estrutura de superfície
(1) oculta várias estruturas profundas (2; 3; 4; 5), que constituem os sentidos da
frase ambígua. Percebemos que a tetrassignificação da frase (1) revela ainda que a
ambiguidade vai além de circunstância fortuita da linguagem, mas que é possível
exercer certo poder sobre essa (decidir por um dos destinatários).
180
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
Destacamos outros casos em que podemos encontrar frequentemente a
ambiguidade, e podem ser problemáticos, pois altera os possíveis sentidos do
enunciado:
a) Problemas com o uso de pronomes possessivos
Júlia preparou o estudo com Beatriz e fez sua apresentação.
(Júlia fez a sua apresentação ou a de Beatriz?)
• Júlia e Beatriz prepararam o estudo, e ambos fizeram a apresentação.
• Júlia e Beatriz prepararam o estudo, e ele fez a apresentação dele.
• Júlia e Beatriz prepararam o estudo, e ela fez a apresentação dela.
b) Problemas com o uso de pronomes relativos
Visitamos a fazenda e o parque cuja qualidade ambiental é inegável. (É a fazenda
ou o parque que possui qualidade ambiental?)
• Visitamos a fazenda e o parque, os quais têm qualidade ambiental.
• Visitamos a fazenda e o parque, e aquele tem qualidade ambiental.
• Visitamos a fazenda e o parque e esse tem qualidade ambiental.
c) Colocação inadequada de palavras
O sujeito impaciente recusou a entrega por causa da data. (O sujeito era impaciente
ou ficou impaciente naquele momento?)
• O sujeito recusou impaciente a entrega por causa da data.
• O sujeito, que era impaciente, recusou a entrega por causa da data.
d) Sentido indistinto entre agente e paciente
A recepção dos jogadores foi no campo do clube. (A recepção foi oferecida pelos
jogadores ou eles foram recepcionados?)
• A recepção foi oferecida pelos jogadores no campo do clube.
• Os jogadores foram recepcionados no campo do clube.
e) Uso indistinto entre o pronome relativo e a conjunção integrante
O carteiro falou com o chefe que era nordestino. (O carteiro era nordestino ou o
chefe?)
• O carteiro disse que era nordestino ao chefe.
• O carteiro conversou com o chefe nordestino.
f) Problemas com o uso de formas nominais
A professora viu a diretora chegando à escola bem tarde. (Quem chegou à escola
bem tarde: a professora ou a diretora?)
• A professora viu a diretora que chegava à escola bem tarde.
• A professora, ao chegar à escola bem tarde, viu a diretora.
TÓPICO 2 | AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
181
O recurso à ambiguidade no texto publicitário
Podemos encontrar a ambiguidade nos mais diferentes textos “é
frequentemente utilizada como recurso de expressão em textos poéticos,
publicitários e humorísticos, em quadrinhos e anedotas. [...] como recursos para
se comunicar com o consumidor de forma mais direta, descontraída e divertida”.
(CEREJA; MAGALHÃES, 1999, p. 388).
Na publicidade, observamos a linguagem plurissignificante com muita
frequência, seja por meio de trocadilhos e jogos de palavras, ou mesmo imagens.
Esse recurso visa chamar a atenção do interlocutor para a mensagem. O que você
imaginaria se lesse a manchete em se tratando de esporte: Veja só a cobertura do
Oscar 2012. Nem sempre o que imaginamos é!
FIGURA 42 – A COBERTURA DO OSCAR (AMBIGUIDADE)
FONTE: Disponível em: <http://www.analisedetextos.com.br/search/label/Ambiguidade%20
e%20polissemia>. Acesso em: 10 jul. 2012.
Outros exemplos de ambiguidade em textos jornalísticos:
Saúde apura causas de suicídios no Sul
CARLOS ALBERTO DE SOUZA
da Agência Folha em Porto Alegre – O Ministério da Saúde deve realizar
um Inquérito epidemiológico para apurar as causas das mortes por suicídio
na região do Vale do Rio Pardo (RS). Há suspeita de que a contaminação por
agrotóxicos organofosforados esteja associada a 21 suicídios ocorridos em 95 em
Venâncio Aires, uma das cidades do Vale, a maioria delas envolvendo agricultores
que plantavam fumo. (Folha de São Paulo, 1.10.1996)
182
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
AUTOATIVIDADE
Caro(a) acadêmico(a)! Pense e compartilhe com o grupo um “caso” que tenha por
fundamento a interpretação equivocada de uma informação ou de uma ordem.
DICAS
Uma das estratégias para evitar a ambiguidade nos textos é a revisão. É preciso
estar atento à construção de orações. Você observou que algumas palavras devem ser
evitadas ou tomar cuidado ao empregá-las para não suscitar dúvidas no leitor ou conduzi-
lo a conclusões equivocadas na interpretação do texto. Fique atento que uma redação de
qualidade depende muito do domínio dos mecanismos de construção da textualidade e da
capacidade de se colocar na posição do leitor.
Se em alguns casos a ambiguidade parece um incômodo para o escritor
em outros pode se transformar num artefato, ou seja, um recurso estilístico na
construção do sentido do texto. O uso desse recurso pode ser importante para
provocar o efeito polissêmico do texto. A ambiguidade como um recurso estilístico
pode estar presente nos textos literários, como no romance, poemas ou crônicas,
em que predominam a linguagem conotativa (figurada), com umviés metafórico.
Sobre a metáfora, analisaremos sua característica no próximo tópico.
Pelé critica futebol movido por dinheiro
Budapeste (APF) – O dinheiro destruiu a beleza, o atrativo e o lado
espetacular do futebol, pois os patrocinadores de hoje só exigem eficiência e gols,
Pelé comentou ontem em Budapeste. "Os jogadores de hoje já não jogam por
prazer. Não têm nada a ver com Puskas, a estrela dos anos 50 que eu considero
meu mestre...” (A Tarde, Salvador, 6.9.1994)
Detido acusado de furto de processos
A Polícia Civil de São Paulo prendeu funcionário do Poder Judiciário acusado
de liderar esquema de furtos de processos nos tribunais paulistanos. (FSP, 8.7.2000)
Time pega Flamengo sem cinco titulares
da Reportagem Local: O São Paulo não terá cinco titulares contra o Flamengo,
amanhã, no Morumbi. Axel, Pedro Luís, Djair e Belletti, suspensos, e Aristizábal, na
seleção colombiana. "Temos bons reservas, mas o time sentirá falta de entrosamento",
disse o técnico Parreira, que ainda não definiu os substitutos. (FSP, 1010.1996)
TÓPICO 2 | AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
183
LEITURA COMPLEMENTAR
A PRECISÃO DA FRASE
AMBIGUIDADES LEXICAL E SINTÁTICA AJUDAM A TORNAR
MAIS FRÁGEIS OS ARGUMENTOS
José Luiz Fiorin
O título “Código defenderá cliente de banco” foi o cabeçalho de um artigo
publicado na Folha de S.Paulo (27/7/2001, B3). A frase é ambígua, pois tem dois
sentidos possíveis:
a) código agirá em defesa dos clientes contra os bancos;
b) código protegerá de um perigo os clientes de banco.
Uma construção é ambígua, quando ela se presta a mais de uma
interpretação. No nosso caso, a dupla interpretação ocorre porque a colocação da
expressão “de banco” permite entendê-la como complemento do verbo ou como
adjunto adnominal.
A ambiguidade e a vagueza são inerentes à linguagem natural, porque, de
um lado, a maior parte das palavras é polissêmica, e, de outro, porque há pontos
de vista contraditórios na compreensão dos fatos e dos acontecimentos. Diante
dessa realidade, poder-se-ia pensar que não há nenhuma possibilidade de um
mínimo de compreensão e que não devemos preocupar-nos com a questão da
ambiguidade.
Contextos
Na verdade, o contexto resolve a maioria dos casos de polissemia e o
conhecimento das contradições discursivas permite-nos saber de que lugar social
fala alguém. Apesar disso, há outros tipos de ambiguidades que devem ser
evitadas. Elas são de dois tipos: lexicais e sintáticas.
As primeiras são aquelas construções em que um termo admite mais de
um significado, ou seja, aquelas em que o problema da polissemia não é resolvido
pelo contexto. Na frase “O cadáver do índio Galdino foi encontrado perto de
um banco”, a palavra “banco” pode significar tanto “assento estreito e duro
para mais de uma pessoa” e “estabelecimento mercantil de crédito”. Em “Meus
filhos viram feras no zoológico”, a forma “viram” pode ser a terceira pessoa do
plural do presente do indicativo do verbo “virar”, que quer dizer “tornar-se”,
ou a terceira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo do verbo “ver”,
que significa “contemplar”. Em “O arquivo está sendo restaurado”, o vocábulo
“arquivo” pode denotar “móvel para a guarda de documentos”, “conjunto de
documentos”, “órgão que se destina à guarda de documentos”, “prédio em que
se localiza esse órgão”.
184
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
Equívocos do uso
A ambiguidade sintática é aquela em que a dupla interpretação
deriva da combinatória das palavras. Na frase “Pessoas que não fazem
exercício habitualmente têm problemas de saúde”, não se sabe se o advérbio
“habitualmente” se refere a fazer exercícios ou a ter problemas de saúde. Em
“Pedro foi à casa de João em seu carro”, há duas interpretações: Pedro foi à casa
de João no seu próprio carro ou no carro de João. Em “Antônia disse a minha
irmã que seu namorado estava traindo-a”, a pessoa traída pode ser Antônia ou
minha irmã, pois “seu namorado” pode ser tanto o namorado de uma quanto de
outra. Em “O ladrão atirou no policial caído no chão”, quem está caído pode ser
o ladrão ou o policial. Em “Ela não sofre mais, porque ele foi embora”, a causa
do sofrimento pode ser o fato de ele ter ido embora como isso pode ser o motivo
de ela não sofrer, pois ela sofria com a sua presença. Em “Soube do assalto lá no
escritório”, há dois sentidos possíveis: tomei conhecimento, quando estava no
escritório, de um determinado assalto e tomei conhecimento de um dado assalto
ao escritório. Em “Ângela pegou a caixa vazia do presente que estava em cima da
mesa”, não se sabe se o que estava em cima da mesa é a caixa vazia ou o presente.
Além dos casos de ambiguidade, há certos equívocos que derivam do uso,
nos raciocínios lógicos, de palavras com mais de um sentido. Por exemplo, nos
silogismos, o termo médio aparece duas vezes, uma na premissa maior e uma na
menor. Ele não pode, porém, ocorrer com dois sentidos diferentes em cada uma
das proposições, porque o raciocínio se torna equivocado.
Tome-se, por exemplo:
“Toda estrela é um corpo em órbita no espaço. Cláudia Raia é uma estrela.
Logo, Cláudia Raia é um corpo em órbita no espaço.”
Nesse caso, “estrela” quer dizer “corpo celeste com luz própria” na
premissa maior e “celebridade do entretenimento” na premissa menor. Quando
o termo médio tem dois sentidos diferentes, o silogismo tem quatro termos e
não três, como determina uma das regras formuladas pelos escolásticos sobre
esse tipo de raciocínio: terminus esto tríplex, medius, majorque, minorque. O mesmo
problema apresenta o silogismo: “Todo cão come carne. O cão é uma constelação.
Logo, uma constelação come carne.” “Cão” significa “cachorro” na premissa
maior e “grupo de estrelas denominado cão” na menor.
Também é equivocado o seguinte silogismo: “O elefante é um animal.
O elefante cinzento é um animal cinzento. Logo, o elefante pequeno é um
animal pequeno.” Temos mais de quatro termos, pois aparecem “elefante”,
“animal”, “elefante cinzento”, “animal cinzento”, “elefante pequeno”,
“animal pequeno”. Aliás, a conclusão é impossível, pois o termo médio
não aparece duas vezes, uma vez que o termo “elefante”, acompanhado
do adjetivo “cinzento”, ocorre como menor na segunda proposição.
Um caso clássico de mudança de significado dos termos é:
TÓPICO 2 | AS RELAÇÕES DE SENTIDOS
185
Quanto mais você estuda, mais você sabe.
Quanto mais você sabe, mais você esquece.
Quanto mais você esquece, menos você sabe.
Então, estudar é inútil.
À medida que aprendemos mais, podemos esquecer mais, mas isso não
quer dizer que, no total, sabemos menos.
FONTE: Disponível em: <http://revistalingua.uol.com.br/textos/54/artigo248808-1.asp>. Acesso
em: 1 ago. 2012.
No próximo tópico abordaremos método e técnica de ensino dos aspectos
semânticos da linguagem por meio de sequência didática. Destacamos desde já que
sequência didática é um termo utilizado para definir um procedimento composto
por atividades, ligadas entre si para tornar mais eficiente o aprendizado. Para
compreender o valor pedagógico e as razões que justificam um planejamento por
meio de uma sequência didática é importante identificar as fases, que a constitui.
É o que veremos a seguir. Acompanhe-nos!
186
Neste tópico, você viu que:
• As relações lexicais básicas desdobram-se em: polissemia, ambiguidade e as
homonímias.
RESUMO DO TÓPICO 2
Polissemia Ambiguidade Homonímias
Conceito: uma palavra
que possui vários
significados.
Conceito: a ambiguidade
surge quando algo que
está sendo dito admite
mais de um sentido,
comprometendo
a compreensão do
conteúdo. O uso
de elementos como
pronomes, adjuntos
adverbiais, expressões e
até mesmo enunciados
inteiros podem acarretar
em duplo sentido,
quando empregados
de forma inadequada,
comprometendoa clareza
do texto.
Conceito: duas palavras
diferentes, de origens e
significados variados,
terminam convergindo
para a mesma
configuração fonológica
e ortográfica.
Exemplo: velar: cobrir
com véu; ocultar; vigiar;
cuidar; relativo ao véu do
paladar.
Exemplo: O carteiro
falou com o chefe que era
nordestino. (O carteiro
era nordestino ou o
chefe?)
Exemplo: acender
(colocar fogo)
ascender (subir).
187
AUTOATIVIDADE
Leia o conto de Luis Fernando Veríssimo e logo responda às questões:
Conto Erótico nº1
Luis Fernando Veríssimo
- Assim?
- É. Assim.
- Mais depressa?
- Não. Assim está bem. Um pouco mais para...
- Assim?
- Não, espere.
- Você disse que...
- Para o lado. Para o lado!
- Querido...
- Estava bem, mas você...
- Eu sei. Vamos recomeçar. Diga quando estiver bem.
- Estava perfeito e você...
- Desculpe.
- Você se descontrolou e perdeu o...
- Eu já pedi desculpa!
- Está bem. Vamos tentar outra vez. Agora.
- Assim?
- Quase. Está quase!
- Me diga como você quer. Oh, querido...
- Um pouco mais para baixo.
- Sim.
- Agora para o lado. Rápido!
- Amor, eu...
- Para cima! Um pouquinho...
- Assim?
- Aí! Aí!
- Está bom?
- Sim. Oh, sim. Oh yes, sim.
- Pronto.
- Não. Continue.
- Puxa, mas você...
- Olhaí. Agora você...
- Deixa ver...
- Não, não. Mais para cima.
- Aqui?
- Mais. Agora para o lado.
- Assim?
- Para a esquerda. O lado esquerdo!
- Aqui?
- Isso! Agora coça.
FONTE: Disponível em: <http://www.casadobruxo.com.br/poesia/l/contoe1.htm>. Acesso
em: 12 nov. 2012.
188
Caro(a) acadêmico(a)! Durante a leitura do conto você foi conduzido(a)
a imaginar um sentido diferente do esperado no final do texto. As pistas
deixadas pelo autor não ocorrem por acaso, são elas que nos conduzem a uma
interpretação equivocada do texto. Assim responda:
1 Aparentemente que tipo de situação o diálogo presente no texto retrata?
2 Quais são as pistas textuais deixadas pelo escritor que nos conduzem a
construir um sentido ambíguo da situação?
3 Além das pistas (palavras, frases, construções) empregadas no texto, por
meio de que recurso o autor constrói a ambiguidade?
a) ( ) Omitindo o narrador.
b) ( ) Omitindo palavras.
c) ( ) Omitindo dados do contexto em que se dá o diálogo.
d) ( ) Omitindo informações sobre os personagens.
4 Imagine se você escutasse a seguinte frase: Como fazer o ponto de uma galinha.
Registre o que pensou sobre a frase.
Lembre-se: nem sempre o que pensamos é!
FONTE: Disponível em: <http://pontocruzfiodameada.blogspot.com.br/2012/07/grafico-de-
ponto-cruz-galinha.html>. Acesso em: 2 ago. 2012. Adaptado pela autora.
Como fazer uma
galinha no ponto.
189
TÓPICO 3
MÉTODO E TÉCNICA DE ENSINO DOS ASPECTOS
SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE
SEQUÊNCIA DIDÁTICA
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
É importante dominar a língua nas mais diferentes circunstâncias, pois na
sociedade, há múltiplas situações que requerem o uso eficaz da fala e da escrita.
Neste sentido, é importante possibilitar para a criança o confrontar e o domínio de
uma diversidade de gêneros e práticas de linguagens construídas, historicamente.
Uma metodologia que pode ser utilizada para realizar este trabalho é a sequência
didática.
Mas o que é uma sequência didática?
FIGURA 43 – SEQUÊNCIA DIDÁTICA
FONTE: Disponível em: <http://ricardo85r.blogspot.com.br/2011/06/sequencia-didatica.
html#!/2011/06/sequencia-didatica.html>. Acesso em: 20 nov. 2012.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
190
Esta é uma maneira de trabalhar e conhecer os gêneros textuais na escola.
A proposta de trabalhar com sequência didática foi desenvolvida por dois
pesquisadores, Schneuwly e Dolz (2004), ambos suíços. Para os autores trata-se
de propor:
[...] um conjunto de atividades escolares organizadas, de maneira
sistemática, em torno de um determinado gênero textual oral ou
escrito [...] tem, precisamente, a finalidade de ajudar o aluno a dominar
melhor um gênero de texto, permitindo-lhe, assim, escrever ou falar de
uma maneira mais adequada em uma dada situação de comunicação.
(DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 97).
Como desenvolver? O que pode promover? Como aplicar e utilizar?
Vamos lá! É isso que abordaremos nesse último tópico do Caderno de Estudos de
Língua Portuguesa: práticas de linguagens.
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
191
FIGURA 44 – SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS
FONTE: Disponível em: <http://atelierdeducadores.blogspot.com.br/2010/12/sequencias-
didaticas.html>. Acesso em: 10 nov. 2012.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
192
Para tanto, temos por objetivo nesse tópico, sugerir métodos e técnicas de
ensino dos aspectos semânticos da linguagem, por meio de sequências didáticas.
2 O ENSINO DA LÍNGUA NA PERSPECTIVA DO TEXTO
Embora a ênfase sobre a temática dos gêneros seja um tanto recente no
Brasil, a ciência já se reportava a eles há muito tempo. Leia o texto a seguir, que
aborda o surgimento da expressão gênero no decorrer da história e a ligação entre
falar e escrever e o domínio sobre os gêneros.
Marcuschi (2008, p. 147) relata que “a expressão “gênero” esteve, na
tradição ocidental, especialmente ligada aos gêneros literários, cuja análise se inicia
em Platão, para firmar-se com Aristóteles, passando por Horácio e Quintiliano,
pela Idade Média, o Renascimento e a Modernidade, até os primórdios do século
XX.”
O autor explica, ainda, que hoje, no Brasil, temos várias tendências
no tratamento dos gêneros textuais/discursivos. Aqui vale destacar: “a
linha bakhtiniana, alimentada pela perspectiva de orientação vygotskiana
sociointeracionista da Escola de Genebra, representada por Schneuwly/Dolz e
pelo interacionismo sociodiscursivo de Bronckart” (MARCUSCHI, 2008, p. 152).
Bakhtin representa uma espécie de bom senso teórico em relação à
concepção de linguagem, fornecendo subsídios de ordem macroanalítica no
trabalho com os gêneros, estendendo-se para categorias mais amplas, como, por
exemplo, o discurso, podendo ser, assim, assimilado por diferentes correntes dos
estudos da linguagem.
O autor defende a língua como forma de interação, compreendendo que
ela só se efetua em enunciados (orais e escritos), concretos e únicos que emanam
dos integrantes de uma ou de outra esfera da atividade humana, constituindo,
assim, os gêneros do discurso, conforme explica Bakhtin:
O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada
uma das esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo
verbal, (...) – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais – mas
também, e, sobretudo, por sua construção composicional. Estes três
elementos (conteúdo temático, estilo e construção composicional)
fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado e todos eles são
marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Qualquer
enunciado considerado isoladamente, é, claro, individual, mas cada
esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis
de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso.
(BAKHTIN, 1986, p. 279).
Compreender a língua por meio dos gêneros significa, então, reconhecer
os diferentes enunciados materializados nos textos que circulam socialmente.
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
193
Significa, ainda, refletir sobre a inovação dessa circulação, sobre as esferas
sociais que produzem tais enunciados, sobre sua função social, seus suportes,
entendendo que o formato de qualquer texto com função sociocomunicativa em
uma sociedade pode ser agrupado e estudado como gênero textual/discursivo.
[...] os enunciados e o tipo a que pertencem, ou seja,os gêneros
do discurso são as correias de transmissão que levam a história da
sociedade à história da língua. Nenhum fenômeno novo (fonético,
lexical, gramatical) pode entrar no sistema da língua sem ter sido
longamente testado e ter passado pelo acabamento do estilo-gênero.
(BAKHTIN, 1992, p. 285).
Apoiados em Bakhtin (1992), os pesquisadores da Escola de Genebra
reconhecem que os gêneros são enunciados orais ou escritos que atendem a um
propósito comunicativo. Nesse sentido, Bronckart afirma que “a apropriação dos
gêneros é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas
atividades comunicativas humanas” (BRONCKART, 1999, p. 103), o que permite
dizer que operam, em certos contextos, como formas de legitimação discursiva, já
que se situam numa relação sócio-histórica, com fontes de produção que lhes dão
sustentação. Em outros termos, a comunicação verbal só é possível por algum
gênero textual/discursivo.
O certo é que, compreendida nesse contexto, a língua vai assumindo
formas de organização que correspondem à atuação social dos falantes em suas
interações. Essa diversidade, segundo Marcuschi (2005), vai se cristalizando
em formas textuais as quais são chamadas de gêneros, “e os gêneros textuais
transformam-se em instrumentos da ação social” (BRONCKART, 1999, p. 103).
Bronckart (1999) retoma o conceito de gênero do discurso de Bakhtin e opta
por denominá-lo como gênero de texto, tendo em vista que seu objeto de estudo,
naquele momento, era a arquitetura interna dos textos, preocupando-se em definir,
principalmente, as sequências tipológicas e os elementos de coesão. Todavia, da
mesma forma que Bakhtin, entende os gêneros como formas de comunicação que
usamos, ou seja, “são os construtos históricos que estão disponíveis no intertexto”.
(BRONCKART, 1999, p. 108). Por isso, não as trata como entidades fixas, uma vez
que estão em constante transformação, conforme as mudanças que acontecem na
sociedade. Ainda segundo o autor:
A organização de gêneros apresenta-se, para os usuários de uma
língua, na forma de uma nebulosa, que comporta pequenas ilhas mais
ou menos estabilizadas (gêneros são claramente definidos e rotulados)
e conjuntos de textos com contornos vagos e em intersecção parcial
(gêneros para os quais as definições e os critérios de classificação são
móveis e/ou divergentes). (BRONCKART, 1999, p. 74).
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
194
Dessa forma, para interagir com o(s) outro(s), o indivíduo utiliza
determinado gênero, oral ou escrito, compreendido como relativamente estável
e situado histórica e socialmente, adequado àquela situação discursiva. Assim,
quanto mais reconhecermos os gêneros, mais dominaremos os diferentes
discursos que organizam as esferas da atividade humana, no sentido bakhtiniano
do termo.
Os gêneros, para Marcuschi (2008, p. 155), “indicam instâncias discursivas
(por exemplo: discurso jurídico, discurso jornalístico, discurso religioso etc.)”,
dando origem a vários outros gêneros, “já que são institucionalmente marcados”.
(MARCUSCHI, 2008, p. 155). As esferas, portanto, constituem práticas discursivas
dentro das quais podemos identificar um conjunto de gêneros textuais/
discursivos que às vezes lhe são próprios ou específicos “como práticas ou
rotinas comunicativas institucionalizadas e instauradoras de relações de poder”.
(MARCUSCHI, 2008, p. 155).
Se os gêneros organizam as formas de interação, cabe à escola ensinar
ao aluno essas formas de interação, garantindo-lhe o direito à cidadania,
considerando que:
A educação escolar é uma prática que tem a função de criar condições
para que todos os alunos desenvolvam suas capacidades e aprendam
os conteúdos necessários para construir instrumentos de compreensão
da realidade e de participação em relações sociais, políticas e culturais
diversificadas e cada vez mais amplas, condições estas fundamentais
para o exercício da cidadania na construção de uma sociedade
democrática e não excludente. (BRASIL, 1998, p. 32).
Nesse sentido, compete à escola organizar-se para a construção de um
projeto educativo, capaz de contribuir com a formação do cidadão que se deseja.
Assim, surge a necessidade de (re)pensar, com rapidez, sobre as mudanças
ocorridas no meio social, bem como sobre as influências negativas e/ou positivas
decorrentes desse processo, as quais vêm transformando o ambiente escolar.
Ao pensarmos no ensino de Língua Portuguesa, buscamos atividades
interativas em sala de aula, as quais propiciem a valorização da leitura, da
oralidade e da escrita e conduzam os alunos a produzir textos, colocando-se
como autores diante daquilo que escrevem. Isso porque entendemos ser por
meio da leitura que se acentuam as experiências e, é nesse momento de o aluno
ler, interpretar e produzir diversos gêneros textuais/discursivos, que surgem
condições de desenvolvimento intelectual, de aprimoramento linguístico e de
interação com diferentes situações de interlocução, representadas em diferentes
textos que, por sua vez, são porta-vozes dos discursos propagados socialmente.
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
195
Dessa forma, os estudos e a produção de diferentes gêneros na escola
sustentam-se nas palavras de Bakhtin:
O estudo da natureza do enunciado e da diversidade de formas de
gênero dos enunciados nos diversos campos da atividade humana
é de enorme importância para quase todos os campos da linguística
e da filologia. Porque todo trabalho de investigação de um material
linguístico concreto – seja de história da língua, de gramática
normativa, de confecção de toda espécie de dicionários ou de estilística
da língua etc. – opera inevitavelmente com enunciados concretos
(escritos e orais) relacionados a diferentes campos da atividade
humana e da comunicação (...) de onde os pesquisadores haurem os
fatos linguísticos de que necessitam. (BAKHTIN, 1997, p. 261).
Aprender a falar e a escrever significa ter domínio sobre os gêneros. Dolz
e Schneuwly (2004) também consideram os gêneros textuais/discursivos como
megainstrumentos que possibilitam a comunicação entre os sujeitos pertencentes
a esferas da atividade da comunicação humana.
Em suma, é importante reconhecer as orientações teóricas definidoras dos
gêneros para, na prática, socializar conhecimentos, cujos fundamentos apontam
para procedimentos com possibilidades de entender o contexto cultural, sua
pluralidade inserida no mundo e no processo histórico do ser humano que, por
protagonizar essa ação, se desenvolve, se modifica e consequentemente adquire
características próprias.
FONTE: MALANSKI, Elizabet Padilha; COSTA-HÜBES, Terezinha da Conceição. Disponível em:
<http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/2001-8.pdf>. Acesso em: 20 out.
2012.
Para continuarmos a nossa discussão acerca da linguagem e porque
apontamos a sequência didática, como metodologia de abordagem no trabalho
em sala de aula, apresentamos, a seguir, algumas reflexões acerca do texto
fundamentadas na Teoria da Linguística Textual.
CONCEITO DE TEXTO
Fernanda Mussalin; Anna Christina Bentes
Poderíamos iniciar esta parte, apresentando uma definição de texto,
de preferência a mais atual e/ou a mais reconhecida no campo dos estudos
sobre texto no Brasil, indo, digamos assim, direto ao ponto. Entretanto, se
assim o fizéssemos, estaríamos apagando o fato de que os conceitos, por mais
interessantes e explicativos que sejam em um determinado contexto histórico,
são resultado de um longo processo de reflexões, de idas e vindas, de disputas
de/entre diferentes sujeitos sobre um certo objeto em um determinado campo
do conhecimento. Preferimos então, mesmo sacrificando um pouco o didatismo,
tentar revelar aqueles que acreditamos serem os pontos mais importantesUNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
196
desta história da construção do conceito de texto. A noção de textualidade foi
introduzida por Beaugrande e Dressler (1981), que propuseram sete princípios
gerais de textualidade, a saber:
a) coesividade;
b) coerência;
c) intencionalidade;
d) aceitabilidade;
e) informatividade;
f) situacionalidade;
g) intertextualidade.
A partir daqui, passaremos a uma reordenação dos momentos
anteriormente apresentados, considerando não a constituição do campo e
seus objetivos, mas, sim, a definição de texto predominante. Podemos afirmar
que, em uma primeira fase dos estudos sobre textos, fase esta que engloba os
trabalhos dos períodos da “análise transfrástica” e da “elaboração de gramáticas
textuais”, acreditava-se que as propriedades definidoras de um texto estariam
expressas principalmente na forma de organização do material linguístico. Em
outras palavras, existiriam então textos (sequências linguísticas coerentes em si)
e não textos (sequências linguísticas incoerentes em si). Segundo Koch (1997),
nesta primeira fase, os conceitos de texto variaram desde “unidade linguística
(do sistema) superior à frase” até “complexo de proposições semânticas”.
A concepção que subjazia a todas essas definições era a de texto como uma
estrutura acabada e pronta, como “produto de uma competência linguística
social e idealizada”. Um conceito de texto que pode representar este período é
o de Stammerjohann (1975):
O termo texto abrange tanto textos orais, como textos escritos que
tenham como extensão mínima dois signos linguísticos, um dos quais, porém,
pode ser suprido pela situação, no caso de textos de uma só palavra, como
“Socorro!”, sendo sua extensão máxima indeterminada.
É possível perceber, nessa definição, uma ênfase no aspecto material
e/ou formal do texto: sua extensão, seus constituintes. Nesse sentido, o texto
é encarado como uma unidade que, apesar de teoricamente poder ser de
tamanho indeterminado, é, em geral, delimitada, com um início e um final
mais ou menos explícito. Ainda fazendo parte da fase em que o texto é visto
como um produto acabado, como uma unidade formal a ser necessariamente
circunscrita, há definições que priorizam o fato de o texto apresentar um
determinado conjunto de conteúdos. Como exemplo, podemos citar aquela em
que o texto é considerado como “um complexo de proposições semânticas”.
Weinrich (1971) ressalta que os textos podem ser definidos a partir de aspectos
diversos:
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
197
“a) a sequência coerente e consistente de signos linguísticos;
b) a delimitação por interrupções significativas na comunicação;
c) o status do texto como maior unidade linguística”.
Essa definição, apesar de considerar, ao mesmo tempo, vários aspectos
(o da delimitação, o do sentido e do status no interior de uma teoria linguística
da unidade “texto”), ainda pode ser vista como pertencente à primeira fase,
quando o texto é visto como o elemento primeiro de pesquisa, sem que se
considere o que Leontév (1969) afirma ser essencial: o fato de que “o texto não
existe fora de sua produção ou de sua recepção”. Considerar as condições de
produção e de recepção dos textos signifi ca, então, passar a encarar o texto não
mais como uma estrutura acabada (produto), mas como parte de atividades
mais globais de comunicação. Nesse sentido, nas palavras de Koch (1997), trata-
se de tentar compreender o texto no seu próprio processo de planejamento,
verbalização e construção. Sendo assim, em uma segunda fase, aquela que
abrange elaboração de uma teoria do texto, a definição de texto deve levar em
conta que:
a) a produção textual é uma atividade verbal, isto é, os falantes, ao produzirem
um texto, estão praticando ações, atos de fala. Sempre que se interage por
meio da língua, ocorre produção de enunciados dotados de certa força, que
irão produzir no interlocutor determinado(s) efeito(s), ainda que não sejam
aqueles que o locutor tinha em mira. Dijk (1972) afirma que, em um texto,
apesar de se realizarem diversos tipos de atos (em uma carta, por exemplo,
podem realizar-se atos de saudação, pergunta, asserção, solicitação, convite,
despedida, entre outros), há sempre um objetivo principal a ser atingido,
para o qual concorrem todos os demais. O autor propõe, então, a noção de
“macroato” de fala, aquele que estaria ordenando os demais. Além disso,
não se pode esquecer que essas ações ou esses “macroatos” estão inseridos
em contextos situacionais, sociocognitivos e culturais, assim como a serviço
de certos fins sociais;
b) a produção textual é uma atividade verbal consciente,28 isto é, trata-se de
uma atividade intencional, por meio da qual o falante dará a entender seus
propósitos, sempre levando em conta as condições em que tal atividade
é produzida; considera-se, dentro desta concepção, que o sujeito falante
possui um papel ativo na mobilização de certos tipos de conhecimentos,
de elementos linguísticos, de fatores pragmáticos e interacionais, ao produzir
um texto. Em outras palavras, o sujeito sabe o que faz, como faz e com que
propósitos faz (se entendemos que dizer é fazer);
c) a produção textual é uma atividade interacional, ou seja, os interlocutores
estão obrigatoriamente, e de diversas maneiras, envolvidos nos processos de
construção e compreensão de um texto. Sobre esse aspecto, nada nos parece
mais claro para explicar a noção de interação verbal do que o trecho que se
segue:
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
198
Na realidade, toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada
tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige
para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do
ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da
palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à
coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros.
Se ela se apoia sobre mim numa extremidade, na outra se apoia sobre meu
interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor.
Não poderíamos deixar de seguir a forma como Koch (1997), em seu último
livro, finaliza o problema da conceituação da unidade “texto”. A autora não
só apresenta a sua própria formulação sobre o que é um texto, mas também
a formulação de mais outros dois autores. Ao fazer isso, sinaliza para o fato
de que sempre teremos à nossa disposição mais de uma definição de texto
ou daquilo que se postula ser o objeto da Linguística Textual, importando,
então, escolher aquelas que compartilhem pressupostos teóricos e que sejam
passíveis de serem reconhecidas como estabelecendo relações de proximidade
e complementariedade.
Para concluirmos esta seção, apresentaremos duas das definições de
texto mobilizadas pela autora, e em uma delas, além da deÞ nição de texto, são
apresentados os objetivos da disciplina:
Poder-se-ia, assim, conceituar o texto, como uma manifestação verbal
constituída de elementos linguísticos selecionados e ordenados pelos falantes
durante a atividade verbal, de modo a permitir aos parceiros, na interação,
não apenas a depreensão de conteúdos semânticos, em decorrência da ativação
de processos e estratégias de ordem cognitiva, como também a interação (ou
atuação) de acordo com práticas socioculturais.
Proponho que se veja a Linguística do Texto, mesmo que provisória
e genericamente, como o estudo das operações linguísticas e cognitivas
reguladoras e controladoras da produção, construção, funcionamento e
recepção de textos escritos ou orais. Seu tema abrange a coesão superficial ao
nível dos constituintes linguísticos, a coerência conceitual ao nível semântico
e cognitivo e o sistema de pressuposições e implicações a nívelpragmático da
produção do sentido no plano das ações e intenções. Em suma, a Linguística
Textual trata o texto como um ato de comunicação unificado num complexo
universo de ações humanas. Por um lado, deve preservar a organização linear
que é o tratamento estritamente linguístico, abordado no aspecto da coesão e,
por outro lado, deve considerar a organização reticulada ou tentacular, não
linear: portanto, dos níveis do sentido e intenções que realizam a coerência no
aspecto semântico e funções pragmáticas.
FONTE: Extraído e adaptado de: Linguística Textual. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Anna
Christina (Orgs.) Introdução à Linguística: Domínios e Fronteiras. Volumes 1 e 2. São Paulo:
Cortez Editora, 2001.
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
199
3 O PLANEJAMENTO POR MEIO DE SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS:
ORIENTAÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS DE TRABALHO
A PARTIR DO GÊNERO
Para um trabalho sistematizado com o gênero, Dolz, Noverraz e Schnewly
(2004) sugerem a metodologia da sequência didática (SD). Trata-se de uma
orientação didática que pressupõe a seleção de um gênero, tendo em vista uma
situação de articulação definida, a partir do qual se organizam atividades que
auxiliarão no reconhecimento do mesmo.
Cuidado! Não confunda gênero textual com suporte textual!
Suporte tem a ver centralmente com a ideia de um portador do texto, que fixa o gênero.
Suporte é um lócus físico ou virtual, que serve de fixação do gênero materializado como
texto. São exemplos de suporte convencionais (MARCUSCHI, 2008): livro, jornal, encarte,
folder, faixas, rádio, televisão, telefone, revistas, luminosos, faixas. E suportes incidentais:
embalagens, para-choques e para-lamas de caminhões, roupas, paredes, muros, corpo
humano, árvores, pedras...
UNI
Os passos da sequência consistem na apresentação da situação, produção
inicial, módulos e produção final. Vejamos:
1 Apresentação da situação: são dadas as informações necessárias
para que os alunos conheçam o projeto de comunicação que será realizado na
produção final e a aprendizagem de linguagem a que se relaciona.
2 Produção Inicial: os alunos tentam elaborar um primeiro texto do
gênero escolhido de forma a revelar o que conhecem sobre ele. Para os alunos,
mostrará o que eles já conhecem sobre o gênero e, para o professor, indicará o
que ele deverá abordar nos diversos módulos ou oficinas, para auxiliar o aluno
a construir aqueles conhecimentos que ele ainda não tem sobre o gênero.
FIGURA 45 – ESQUEMA DA SEQUÊNCIA DIDÁTICA
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
200
3 Módulos: as características do gênero são trabalhadas durante
algumas aulas. Note bem que no esquema não aparece um número
determinado de módulos. Isso que dizer que podem ser trabalhados tantos
módulos quantos se fizerem necessário.
4 Produção final: o aluno põe em prática o que construiu nos módulos
para produzir o seu texto final e, em seguida, compara este texto com a produção
inicial, percebendo progressos que teve durante o trabalho.
FONTE: Adaptado de Dolz; Noverraz e Schneuwly (2004, p. 98)
Um dos primeiros passos para trabalhar com sequência didática, portanto,
é definir o gênero a ser trabalhado. Esta é composta por uma organização
detalhada de atividades sistemáticas flexíveis, que passo a passo, vai trabalhando
o gênero, concomitantemente, a práticas de letramento. Já pontuamos que:
cada situação de comunicação social exige uma forma específica de
linguagem. Por isso, falamos e escrevemos de formas diferentes
dependendo de cada situação de interlocução. Os gêneros textuais
vão se estabelecendo socialmente e, sendo assim, precisamos estar
atentos para os usos sociais da linguagem, para fazer da sala de aula
um ambiente em que circulem os mais diferentes gêneros. (PORTO,
2009, p. 42).
Para tanto, é preciso reconhecer os gêneros como instrumentos mediadores
para o desenvolvimento da linguagem. Depois, com base na produção inicial,
define-se o ponto de intervenção do processo ensino-aprendizagem, ou seja, a
análise da produção orientará as atividades a serem trabalhadas nos módulos,
de forma a adaptá-los às necessidades reais dos estudantes envolvidos. Logo, o
trabalho com os módulos consiste em abordar, de forma didática, as fragilidades
que foram detectadas pela análise da produção inicial. Segundo Dolz, Noverraz
e Schneuwly (2004), os problemas específicos de cada gênero são avaliados sobre
quatro níveis:
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
201
E são trabalhados didaticamente divididos em três categorias: observação
e análise de textos; tarefas simplificadas de produção de textos e elaboração de
uma linguagem comum. Esse método de avaliar a produção inicial para, a partir
daí, propor atividades em função das dificuldades elencadas no diagnóstico,
possibilita a construção progressiva de conhecimento sobre o gênero em foco.
Para os autores:
Uma sequência didática tem, precisamente, a finalidade de ajudar o aluno
a dominar melhor um texto, permitindo-lhe assim, escrever ou falar de uma
maneira mais adequada numa dada situação de comunicação. O trabalho escolar
será realizado, evidentemente, sobre gêneros que o aluno não domina ou o faz de
maneira insuficiente. (DOLZ, NOVERRAZ e SCHNEUWLY, 2004, p. 97-98).
4 EXEMPLO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
A seguir você encontra um exemplo de sequência didática, para que você
possa observar na prática os passos descritos anteriormente. Essa sequência está
intitulada de O QUE CABE NA LATA DO POETA? e foi adaptada de Ramos (2012,
site: <http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/o-
que-cabe-na-lata-do-poeta-426207.shtml>).
Introdução
Esta sequência didática aborda um conteúdo curricular pouco abordado
atualmente: a poesia. Conhecer esse gênero é altamente desejável não só para
a formação do leitor e do escritor que aprecia e sabe fazer uso de recursos da
linguagem literária, como também para a formação de um ser humano mais
sensível à poesia da realidade que está à sua volta.
Antes de iniciar o trabalho, vamos refletir sobre: por que vale a pena
ensinar poesia na escola? A poesia desperta a sensibilidade para a manifestação
do poético no mundo, nas artes e nas palavras. O convívio com a poesia favorece
o prazer da leitura do texto poético e sensibiliza para a produção dos próprios
poemas. O exercício poético desenvolve uma percepção mais rica da realidade,
aumenta a familiaridade com a linguagem mais elaborada da literatura e
enriquece a sensibilidade.
O poeta José Paulo Paes diz em seu livro É isso ali: a poesia não é mais do
que uma brincadeira com as palavras. Nessa brincadeira, cada palavra pode e deve
significar mais de uma coisa ao mesmo tempo: isso aí é também isso ali. Toda
poesia tem que ter uma surpresa. Se não tiver, não é poesia: é papo furado.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
202
Poesia e poema
No ensino da poesia, é muito comum haver confusão entre o que é poesia
e o que é poema, como se fossem vocábulos sinônimos. Então, poesia e poema
significam a mesma coisa?
Não. Poesia é um termo que vem do grego. No sentido original, poiesis
é a atividade de produção artística, a atividade de criar ou de fazer. De acordo
com essa definição, haverá poesia sempre que, criando ou fazendo coisas, somos
dominados pelo sentimento do belo, sempre que nos comovermos com lugares,
pessoas e objetos. A poesia, portanto, pode estar nos lugares, nos objetos e
nas pessoas. Assim, não só os poemas, mas uma paisagem, uma pintura, uma
foto, uma dança, um gesto, um conto, por exemplo, podem estar carregados de
poesia. Poema é uma palavra que vem do latim poema, que significava 'poema,
composição em verso; companhia de atores, comédia, peçateatral', e do gr. poíéma
'o que se faz, obra, manual; criação do espírito, invenção'. Portanto, poema é
poesia que se organiza com palavras.
Objetivo
Aprender a escutar, ler, compreender, interpretar, declamar e produzir
poemas. Reconhecer e fazer uso de recursos da linguagem poética, quanto à
sonoridade.
Conteúdos específicos
Poesia e poema, rima, verso e estrofe.
Recursos da linguagem poética, quanto à sonoridade: rima; e quanto ao
significado das palavras: linguagem figurada, conotação e denotação, metáfora.
Ano
8° e 9° anos
Tempo estimado
Cerca de 12 aulas de 50 minutos
Material necessário
A classe vai precisar de uma lata média ou de um balde com alça e de
tintas, papel colorido ou páginas de revistas para decorar o objeto, que será a lata
do poeta, onde tudo nada cabe. Você também vai precisar de uma TV e de um
videocassete ou DVD player.
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
203
Desenvolvimento das atividades
1 APRESENTAÇÃO DA SITUAÇÃO:
Para criar um ambiente favorável ao estudo, leve para a classe imagens e
breves biografias dos poetas que serão lidos em sala de aula. Os alunos devem ser
solicitados para também pesquisarem imagens e biografias. Organize um painel
num canto da sala com esse material e dê um título a ele ou faça um concurso
entre os alunos para a escolha do nome da área. Na medida em que o trabalho
avançar, ali podem ser fixados poemas de autores escolhidos pelos alunos ou
poemas produzidos por eles.
Explique para a classe que, juntos, vocês vão ampliar a compreensão da
linguagem poética, dedicando-se agora ao estudo específico da metáfora.
Para introduzir o assunto e conhecer o que pensam os alunos sobre o tema,
pergunte: Você sabe o que é metáfora? O que é linguagem subjetiva e linguagem
objetiva? Em que a linguagem de um texto científico é diferente da linguagem de
um poema? Alguém da classe já escreveu um poema? Qual?
2 PRODUÇÃO INICIAL
Roda de conversa
Dê um tempo para a classe discutir as questões em pequenos grupos.
Depois, abra uma roda de conversa e solicite que comentem sobre o que
conversaram. Esse momento dará a você uma ideia do que seus alunos já sabem
ou pensam sobre metáfora e linguagem subjetiva e objetiva. Na roda de conversa,
eles estarão expondo o conhecimento prévio que têm do tema.
3 MÓDULOS
Prepare-se para ler
Em seguida, diga aos alunos que você vai ler para eles um poema de Mário
Quintana. Estude previamente a leitura do texto. Prepare-se para ler em voz alta
e leia com bastante expressividade. Peça para prestarem atenção à definição que
o poeta dá para poemas.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
204
Os poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
FONTE: QUINTANA, Mário. Esconderijos do tempo. Porto Alegre: L&PM,1980.
Depois dessa primeira leitura, escreva o poema na lousa ou forneça cópias
do texto para os alunos. Pergunte: Poemas são a mesma coisa que pássaros? Que
semelhanças o poeta vê entre pássaros e poemas e que permitem ao poeta dizer:
os poemas são pássaros?
Depois dessa indagação, explique:
Sentido literal e sentido figurado
De maneira geral, usamos as palavras com dois diferentes sentidos: o
sentido literal e o sentido figurado.
Sentido literal: nesse caso, o sentido da palavra é exato, direto, simples, não
deixa dúvida. Geralmente, nos textos em que deve predominar uma linguagem
clara e objetiva, como os jornalísticos e científicos, as palavras aparecem com um
único sentido, aquele que aparece nos dicionários. O sentido literal também é
chamado denotativo.
Sentido figurado: quando o sentido da palavra aparece com um sentido
ampliado ou alterado no contexto, sugerindo ideias diferentes do sentido literal,
dizemos que a palavra está no sentido figurado. O sentido figurado também é
chamado conotativo.
A linguagem do poeta
A linguagem que o poeta usa não é uma linguagem comum. Os poetas
não usam as palavras em seu sentido literal, do modo como estão no dicionário.
A linguagem do poema “Poemas” não é comum. Ela expressa o modo particular
como o poeta Mário Quintana vê e sente o mundo.
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
205
Os poetas se expressam de modo subjetivo. O mesmo não ocorre com
os cientistas. Peça para os alunos imaginarem o que aconteceria se um cientista
explicasse uma nova descoberta da medicina em linguagem subjetiva. Cada
médico faria uma interpretação diferente da explicação e esta variedade de
interpretações poderia causar muitos problemas.
A linguagem comum usada no dia a dia não é suficiente para aqueles
que trabalham com a palavra. Para um escritor conseguir expressar-se com
originalidade, ele precisa criar imagens. Para um poeta não serve qualquer
palavra. Ele escolhe aquelas palavras e expressões que melhor traduzam sua
visão das coisas. Essa escolha dá muito trabalho. Por esse motivo se diz que o
poeta é um artesão da palavra. Olavo Bilac (1865-1918), no poema “A um poeta”,
já dizia que o autor, quando está criando, trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua.
Observe os exemplos:
Para o cientista, a Lua é:
Satélite natural da Terra
Para poetas, a Lua pode ser:
Casa de São Jorge
Fatia de queijo
Colar de prata da noite
Atividades para praticar a linguagem conotativa
Pergunte para a classe por que motivo um cientista ou um professor usam
o sentido literal das palavras ou a linguagem denotativa, quando escrevem um
texto para explicar uma teoria.
Peça para a classe ampliar a lista acima: para os poetas, a Lua pode ser...
Os poetas se expressam de modo subjetivo. O mesmo não ocorre com
os cientistas. Selecione poemas e textos científicos. Proponha aos alunos que
comparem a linguagem de um com a do outro para perceber as diferenças entre
esses gêneros textuais.
Peça para a classe comparar o verso de Quintana com uma definição de
poema encontrada no dicionário. Comente o efeito de sentido de cada definição:
Poemas são pássaros.
Poema é obra em versos.
Solicite que os alunos, em dupla, elaborem uma definição científica e
uma definição poética para coração. Organize um painel com essas definições
distribuídas em duas colunas: a coluna Coração para o cientista é... e outra,
Coração para o poeta é...
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
206
Pergunte para a classe por que um cientista não pode fazer uso de
linguagem subjetiva e o poeta pode.
De acordo com o que responderam acima, peça para concluírem: um
cientista precisa fazer uso de uma linguagem objetiva, utilizando o significado
mais conhecido das palavras porque sua intenção comunicativa é... . Já a intenção
dos poetas não é explicar nada, sua linguagem é subjetiva porque a intenção
comunicativa é...
Leia para a classe o poema do poeta português Luís Vaz de Camões, Amor
é fogo que arde sem se ver, e que vem comentado logo a seguir. Peça para os
alunos fazerem um levantamento em todo o poema do que é o amor para o poeta.
Conversando sobre a linguagem poética
Explique para a classe que a linguagem subjetiva dá um novo sentido
a palavras conhecidas. O novo sentido nasce de uma semelhança percebida
pelo autor. Para Quintana, os poemas são como os pássaros. No famoso soneto
de Camões, o poeta português enumera várias semelhanças que ele vê para o
sentimento do amor:
Amor é fogo que arde sem se ver
Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e nãose sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Linguagem figurada e as figuras de linguagem
Explique que a linguagem poética é chamada de figurada porque faz uso
de figuras de linguagem. Tais figuras são recursos que os poetas usam para criar
efeitos de expressividade, ou seja, para emocionar o leitor. Há vários tipos de
figuras. Uma delas é a metáfora.
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
207
A metáfora
Essas semelhanças ou relações que o poeta estabelece entre dois elementos,
sem usar o termo de comparação como, chama-se metáfora e é uma figura de
palavra muito usada na poesia. Ela ocorre quando um termo é substituído por
outro em função de algum ponto de contato, de alguma semelhança entre eles. Se
o primeiro verso do poema de Camões fosse: o calor do amor arde como o calor do
fogo, ele estaria fazendo uma comparação. Camões preferiu escrever uma metáfora.
No poema de Quintana, se a opção fosse a comparação ficaria assim: Os poemas
chegam não se sabe de onde como os pássaros chegam e não se sabe de onde.
Para comparar
Ofereça muitos poemas para a classe. Peça para os alunos compararem o
efeito de sentido da comparação e da metáfora nos poemas citados aqui e nos que
você, professor(a), levou para a turma.
Gilberto Gil: A metáfora
Lembre-se: A letra dessa música de Gil está na íntegra na Unidade 2, na parte
que exploramos o conceito de metáfora.
UNI
O cantor e compositor baiano Gilberto Gil escreveu uma letra para uma
canção que é uma explicação poética para metáfora. A canção está gravada nos
discos Gil Luminoso (1999) e Uma banda um (1982) e é possível escutá-la em:
<http://www.gilbertogil.com.br/sec_discografia_view.php?id=51>.
Leia a letra da música para a classe e, depois, se possível, leve o CD ou
acesse na internet para juntos cantarem a canção.
1. Peça para que interpretem os seis versos iniciais.
2. Pergunte se concordam com os versos:
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
3. Solicite que expliquem por que tudonada está escrito como se fosse
uma palavra só na música Metáfora (Gilberto Gil)?
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
208
A lata do poeta
Leve uma lata média ou um balde com alça para a classe. Oriente os alunos
para decorar a lata por fora, pintando-a ou recobrindo-a com papel colorido. Ela
será a Lata do Poeta, onde tudonada cabe.
O que vai dentro da Lata do Poeta?
Organize um acervo de livros de poesia ou cópias de poemas de diferentes
poetas. Exponha os livros e os poemas sobre um tecido bem bonito no chão da
sala de aula e solicite que cada aluno selecione metáforas nos poemas expostos.
Para isso, eles terão de ler vários. Deixe-os escolher à vontade. Este momento não
pode ser apressado. Planeje um tempo para a atividade. As metáforas deverão ser
copiadas em papel cartão, com letra bonita, e jogadas dentro da Lata do Poeta. A
lata (ou balde) ficará pendurada no pátio da escola. Os colegas das outras turmas,
além de professores, funcionários e pais serão convidados a jogar mais metáforas
dentro da Lata do Poeta.
Metáfora, literatura e cinema
DICAS
Aqui sugerimos que assista com o grupo ao filme: O Carteiro e o Poeta.
Os dados encontram-se na Unidade 2, juntamente com o conceito de metáfora.
Se possível, leve o livro e o filme para a classe e programe uma sessão de
cinema. Há diálogos maravilhosos entre o poeta e o carteiro no livro e no filme.
Um deles é sobre metáfora, que o filme reproduz fielmente:
O carteiro e o poeta
- Metáforas, homem!
- Que são essas coisas?
O poeta colocou a mão sobre o ombro do rapaz.
- Para esclarecer mais ou menos de maneira imprecisa, são modos de dizer uma coisa
comparando-a com outra.
- Dê-me um exemplo...
Neruda olhou o relógio e suspirou.
- Bem, quando você diz que o céu está chorando. O que é que você quer dizer com isto?
- Ora, fácil! Que está chovendo, ué!
- Bem, isso é uma metáfora.
- E por que se chama tão complicado, se é uma coisa tão fácil?
- Porque os nomes não têm nada a ver com a simplicidade ou a complexidade das coisas.
(O Carteiro e o Poeta, Antonio Skármeta)
TÓPICO 3 | MÉTODO E TÉCNICA DE EN. DOS ASPECTOS SEMÂNTICOS DA LINGUAGEM POR MEIO DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA
209
Poesia e cinema
Organize outra sessão de cinema com debate. Desta vez com o filme A
Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society), EUA, 1989. Direção de Peter
Weir. Com Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke e Josh Charles.
O filme conta a história de um professor que fez com que os estudantes se
encantassem com a literatura. Segundo ele, o que dá sentido à vida tem a ver
com o espírito e com o prazer, e a literatura, incluindo aí a poesia, são fontes
riquíssimas desses elementos.
Preparar um poema para ler para os outros
Falar para um público não é tarefa fácil, principalmente para os mais
inibidos. Este momento tem como objetivo desenvolver a oralidade. Sabemos que
para expor um assunto oralmente é importante a preparação anterior. Assim, dê
um tempo para os alunos se prepararem para falar.
Peça que os alunos escolham poemas para declamar. Os poemas podem
ser escolhidos entre todos os que você, professor(a), já ofereceu ou a escolha pode
ser feita em casa, na biblioteca da escola, ou em pesquisa na internet.
Os alunos devem levar os poemas escolhidos para casa e ensaiar sua
leitura em voz alta. Desafie-os a decorar os poemas.
Sarau
Em data marcada, previamente, organize um sarau para eles se
apresentarem, declamando os poemas, que podem ser lidos ou falados de cor.
Explique para a classe o que é sarau. Antigamente os saraus eram manifestações
artísticas de teatro, dança, música e poesia apresentadas para nobres e reis. Hoje
continua sendo encontro literário, com a reunião de pessoas para recitação e
audição de obras em prosa ou verso.
PRODUÇÃO FINAL
Avaliação
Este é o momento de saber se eles, de fato, aprenderam aquilo que
você queria que aprendessem. Se não aconteceu, você deve buscar as causas e
reorientar a prática.
Atividade de avaliação
Produção de texto – Por meio dos textos que os alunos irão produzir,
você avaliará o que compreenderam do que foi estudado e se os seus objetivos de
aprendizagem foram atingidos. Ensine que nenhum texto nasce pronto. Para ficar
bom, é preciso escrevê-lo e reescrevê-lo muitas vezes, como fazem os bons escritores.
UNIDADE 3 | LINGUAGEM E EXPRESSÃO
210
Diga à classe que cada um planeje o que vai escrever, faça rascunho, revise
e finalmente passe a limpo seu poema. Reúna as produções dos alunos e exponha-
as num mural ou organize uma antologia:
1. Metáfora – Solicite que escrevam um texto expositivo, em prosa, para o
7° ano em que explicam o que é metáfora. Depois de pronto, marque um encontro
com os colegas da outra série. Avise que os textos serão avaliados por esses
colegas. O leitor é que dirá se entendeu a explicação sobre metáfora dada no texto
lido por ele. Será considerado bom o texto que conseguir dar uma explicação
satisfatória para o leitor do 7° ano.
2. Imite o poeta – Peça que produzam um poema com metáforas. Esse texto
deve ser em versos, distribuídos em estrofes, com rima. Enfatize que poesia é invenção.
FONTE: Adaptado de Ramos, Heleisa Ceri. Disponível em:<nova escolahttp://revistaescola.abril.
com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/o-que-cabe-na-lata-do-poeta-426207.shtml>.
Acesso em: 10 set. 2012.
Encerramos, aqui, mais um Caderno de Estudos que auxiliará na sua
formação de licenciatura em Letras.
Nosso objetivo, nestas páginas, foi impulsioná-lo(a) a refletir sobre Práticas
de Linguagens, ou seja, conhecer e refletir sobre aspectos relacionados à língua,
fala, linguagem, figuras de linguagem, aspectos da semântica e da estilística.
E, provocá-lo(a) à reflexão sobre o contexto da escola, das salas de aulas, como
conduzir seu planejamento.
O(A) professor(a) é desafiado(a) cotidianamente pelo processo dialógico
que se efetua nesse meio, novas habilidades são requeridas, a fim de pensar
procedimentos metodológicos e técnicos de atuação. Aqui alguns conceitos e
conhecimentos foram ampliados e sabemos que no dia a dia outros serão (re)
criados. Então, desejamos que você empreenda outros desafios, a partir do que
foi proposto e estudado.
Enfim, esperamos que este caderno contribua para sua prática nos campos
educacionais brasileiros.
Ressaltamos que não existe tempo predeterminado para a realização de
uma sequência didática, pois necessitamos considerar a complexidade de cada gênero e
necessidade de cada grupo de estudantes.
NOTA
211
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você viu:
• Sequência didática é um conjunto de atividades escolares organizadas, de
maneira sistemática, em torno de um determinado gênero textual.
• Domínios discursivos: instrucional, ficcional, jornalístico, religioso, saúde,
comercial, industrial, jurídico, publicitário, lazer, interpessoal, militar.
• Não confunda gênero textual com suporte textual.
• Os passos da sequência consistem na apresentação da situação, produção
inicial, módulos e produção final.
• Um dos primeiros passos para trabalhar com sequência didática, portanto,
é definir o gênero a ser trabalhado. Esta é composta por uma organização
detalhada de atividades sistemáticas flexíveis, que passo a passo, vai
trabalhando o gênero, concomitantemente, a práticas de letramento.
• E são trabalhados didaticamente em três categorias: observação e análise
de textos; tarefas simplificadas de produção de textos; e elaboração de uma
linguagem comum.
212
AUTOATIVIDADE
Em grupos, elaborem uma minissequência didática, pensando em como
explorar o gênero textual: BULA. Logo compartilhem as ideias com a turma.
1 Apresentação da situação.
2 Primeira produção.
3 Módulos.
4 Produção final (avaliação).
213
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