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Livro - Introdução Aá Linguística - Vol 2 - Domínios e Fronteiras

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Prévia do material em texto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA: domínios e fronteiras, vol. 2
Fernanda Mussalim e Anna Christina Bentes (Orgs.)
Capa: aeroestúdio
Preparação de originais: Nair Hitomi Kayo
Revisão: Agnaldo Alves, Solange Martins
Composição: Linea Editora Ltda.
Coordenação editorial: Danilo A. Q. Morales
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização expressa dos autores e
do editor.
© 2000 by Organizadoras
Direitos para esta edição
CORTEZ EDITORA
Rua Monte Alegre, 1074 – Perdizes
05009-000 – São Paulo – SP
Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290
E-mail: cortez@cortezeditora.com.br
www.cortezeditora.com.br
Publicado no Brasil – 2021
Para Sírio e Inge
Que nos mostraram
Os encantos da linguagem.
(As Organizadoras)
O homem sentiu sempre — e os poetas frequentemente cantaram — o poder fundador da linguagem,
que instaura uma sociedade imaginária, anima as coisas inertes, faz ver o que ainda não existe, traz
de volta o que desapareceu.
Émile Benveniste
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO À 8ª EDIÇÃO
APRESENTAÇÃO
Sírio Possenti
INTRODUÇÃO
Fernanda Mussalim
Anna Christina Bentes
1. SEMÂNTICA
Roberta Pires de Oliveira
2. PRAGMÁTICA
Joana Plaza Pinto
3. ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO
Ângela Paiva Dionísio
4. ANÁLISE DO DISCURSO
Fernanda Mussalim
5. NEUROLINGUÍSTICA
Edwiges Maria Morato
6. PSICOLINGUÍSTICA
Ari Pedro Balieiro Jr.
7. AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM
Ester Mirian Scarpa
8. LÍNGUA E ENSINO: políticas de fechamento
Marina Célia Mendonça
SOBRE OS AUTORES
APRESENTAÇÃO À 8ª EDIÇÃO
A obra Introdução à Linguística: domínios e fronteiras (vols. 1 e 2) foi
lançada no II Congresso Internacional da Associação Brasileira de
Linguística (Abralin), que aconteceu em Fortaleza, na Universidade Federal
do Ceará (UFC), em março de 2001.
Com a participação de linguistas brasileiros de várias instituições do
país, os dois volumes foram organizados de forma a dar acesso aos
principais objetos de estudo e às principais teorizações das diferentes áreas
da Linguística, em uma linguagem focada no público de graduação, mas
sem abrir mão do necessário rigor acadêmico na apresentação de cada uma
das áreas que constituem esse campo do conhecimento.
O trabalho coletivo e engajado dos vários autores dessa obra resultou na
sua consolidação como uma referência no Brasil: um material
imprescindível para a formação dos profissionais da área de Letras e
Linguística e também um guia de conhecimento básico do campo dos
estudos da linguagem, que figura na bibliografia obrigatória de vários
programas de pós-graduação no país.
Para nós, organizadoras da obra Introdução à Linguística: domínios e
fronteiras, isso tudo é, ao mesmo tempo, uma grande alegria, mas também
uma grande responsabilidade.
A atualização da obra no ano de seu aniversário de dez anos foi a
maneira que encontramos para celebrar o seu sucesso e, ao mesmo tempo,
continuar a fornecer um material de formação adequada e de qualidade no
campo dos estudos linguísticos.
Essa atualização foi feita de maneira diversificada e contemplou
reformulações pontuais e/ou reformulações mais gerais de grande parte dos
artigos. Houve desde a aplicação do acordo ortográfico e correções dos
originais, até atualizações de bibliografia, exemplos e dados, além da
inserção de novos conceitos e/ou reformulações teóricas. Foram feitas
também atualizações das informações sobre os autores e uma mudança no
layout da capa, conservando-se, no entanto, as cores e o espírito das capas
originais.
Os dez anos de sucesso editorial e de reconhecimento do mérito
acadêmico dessa obra devem-se a muitos: autores, editores, colegas e
leitores. A eles, o nosso mais sincero agradecimento e a reiteração de nosso
compromisso com o fortalecimento das práticas de reflexão sobre a
linguagem a partir de uma perspectiva linguística.
Assim, gostaríamos de agradecer, mais uma vez, a todos os autores que
se dispuseram a colaborar, há dez anos, com esse projeto e que também se
dispuseram a colaborar com esta atualização da obra.
Gostaríamos de agradecer à Cortez Editora, por ter acolhido esta obra
para publicação e por ter sido incansável na sua divulgação e distribuição.
Agradecemos também aos nossos colegas da Linguística e aos
estudiosos da linguagem em geral, que consideram que esta obra deve ser
lida por seus alunos de graduação e/ou de pós-graduação em Letras e
Linguística e/ou em outras áreas do conhecimento.
E, por fim, gostaríamos de agradecer aos nossos leitores de todo o país,
por terem escolhido nossa obra como um dos inúmeros companheiros de
jornada no curso de sua formação profissional.
Sabemos que os tempos de hoje exigem muito mais de todos nós,
profissionais das Letras e da Linguística. Por sua abrangência e
objetividade, acreditamos que esta obra continua a constituir-se em um
significativo apoio para a obtenção de uma boa formação profissional e
humana no campo dos estudos da linguagem, já que a questão linguística é,
atualmente, uma das mais importantes agendas da educação e da ciência
brasileiras.
Fernanda Mussalim
Anna Christina Bentes
Organizadoras
Dezembro de 2011
APRESENTAÇÃO
Prefaciar um livro como este que o leitor tem em mãos não é uma tarefa
que se cumpra facilmente. Por duas razões, principalmente. Em primeiro
lugar, não é obra de autor, ou seja, sendo uma coletânea, não se trata de um
livro que possa ser atribuído a uma pessoa, caso em que os prefácios
dedicam parte de seu espaço para celebrar o autor, não necessariamente
para comentar o livro. Em segundo, porque se trata de uma obra contendo
textos sobre Linguística, destinada de certa forma à sua divulgação, ou, dito
de outra maneira, destinada a propiciar uma introdução não trivial a um
campo de saber já veterano, mas para muitos completamente desconhecido.
O livro trata de temas bastante conhecidos nos meios mais ou menos
especializados, mas nada — eu disse “nada”, não disse “pouco” —
conhecidos nos meios que não se dedicam especificamente a essas questões,
por mais que elas lhes sejam afetas. Este poderia bem ser o caso dos críticos
literários, antropólogos, sociólogos, cientistas políticos, psicólogos, e
mesmo psicanalistas.
Os estudantes que chegam à universidade repetem e confirmam a
situação: eles não têm a menor familiaridade com as questões mais banais
às quais se dedica a Linguística, a despeito de longa experiência escolar
com manifestações variadas e relevantes de linguagem, e também de
alguma experiência, frequentemente dolorosa e quase sempre inútil, com
gramáticas (sempre e só as normativas).
Este é um fato curioso, sobre o qual se deveria meditar. Todos
conhecem, mesmo os que se devotam apenas ao campo das humanidades, e
mesmo às letras, alguma coisa sobre relatividade, big bang e universo em
expansão, DNA e clonagem. No mínimo. Às vezes, equivocadamente, é
verdade, a ponto de confundirem a relatividade de Einstein com o
relativismo de suas convicções... De qualquer forma, nos campos da Física
e da Biologia, faz tempo que a escola e a imprensa diária ultrapassaram
Newton e Mendel. Mas nunca — se houver pelo menos um caso, me
avisem — ultrapassaram, nem escola, nem imprensa, nem mesmo o
ensaísmo dos finais de semana, muito menos as colunas que agora assolam
a mídia, os limiares das gramáticas normativas (a única exceção são as
menções cansativas a um texto de Jakobson sobre as funções da linguagem)
quando a questão são as línguas. Ouvir o comentário de um intelectual ou
de um jogador de futebol sobre a questão é exatamente a mesma coisa.
Ora, tais gramáticas estão para a Linguística mais ou menos como
Galileu está para a Física Moderna, isso se considerarmos de maneira
otimista e generosa apenas os tópicos nos quais discutem a organização
interna da língua e sua eventual relação com o mundo, que é o caso da
herança filosófica das gramáticas. Quanto ao mais, a atitude é meramente
normativa, pré-baconiana nos melhores casos, e manual de etiqueta — ruim
— nos piores. O melhor testemunhodesse atraso é o sucesso de
pseudoprofessores nos meios de comunicação, que nada mais fazem do que
repetir materiais do nível das apostilas dos cursinhos, com listas de
“problemas” de uso do português falado julgado à luz da língua escrita.
Faça o leitor a suposição de que os programas e as colunas sobre música,
teatro e economia sejam do mesmo calibre, e o atraso saltará aos olhos
ainda mais claramente. Em resumo: Linguística é uma coisa de que
ninguém ouviu falar. Daí a relevância de um livro como este. Mas há mais
razões.
Outra observação sobre um certo atraso, outra justificativa para a
publicação deste livro: quem já ouviu falar de Linguística (isso se vê na
imprensa e às vezes em departamentos avançados) supõe que ela se resume
à arbitrariedade do signo, às relações paradigmáticas e sintagmáticas
(quando a coisa é sofisticada, menciona-se outra dupla saussuriana,
sincronia e diacronia). Frequentemente, as introduções à Linguística —
disciplina obrigatória nos cursos de Letras — não ultrapassam essa leitura
mais ou menos festiva de Saussure, feita em algum manual, ou em apostila,
que ninguém é de ferro.
Assim, este livro se justifica plenamente, e por uma só razão, embora ela
tenha sentidos diferentes em diversos domínios sociais. O que justifica este
livro é sua capacidade de produzir uma certa ruptura. No caso dos
intelectuais vizinhos, o efeito poderia ser o da atualização mínima. Seria
importante, por isso mesmo, no entanto, que não buscassem no livro
ferramentas para seu trabalho. Para isso, as introduções aqui apresentadas
não serviriam, pois se trata de introduções. Mas ninguém espera que façam
as categorias da Linguística aqui oferecidas em embrião render em seus
trabalhos. Poderiam instruir-se, apenas, mesmo que fosse para conversas em
recepções. Já está na hora de não se ouvirem mais imprecações grosseiras
sobre erros de português, avaliações de baixíssimo nível sobre a pronúncia
desta ou daquela região, preconceitos ridículos — se não fossem
socialmente excludentes — a respeito da linguagem corrente, quer se trate
de fala popular, quer se trate de línguas de menor prestígio, especialmente
quando isso se deve a peculiaridades estruturais (que não se diga mais, por
exemplo, que o chinês não tem sintaxe, só porque sua frase não se organiza
como a do francês). Até porque essas avaliações, feitas supostamente de
algum patamar elevado, depõem muito mais sobre a ignorância de quem as
faz do que sobre a suposta deficiência dos produtores dos fatos linguísticos
comentados.
Um segundo nível de ruptura em que este livro pode atuar é em relação
ao estudante de Letras. É o que mais importa. De fato, nada é mais
necessário do que eliminar o suposto saber do aluno de colegial em relação
aos fatos linguísticos. Em primeiro lugar, a ruptura precisa realizar-se até
mesmo em relação ao que sejam fatos linguísticos. É mais ou menos sabido
que os fatos não se oferecem graciosamente ao estudioso, que cada teoria de
certa forma decide sobre eles — quais e como são, quais os mais e os
menos relevantes etc.
Nesse domínio, duas questões são essenciais: que o estudante se torne
capaz de ver como fatos os casos de variação; em segundo lugar, que
perceba que há pesquisa possível em língua — ou melhor, que fazer
pesquisa a propósito de língua não equivale a consultar gramáticas e
dicionários para verificar o que neles consta e o que não consta neles.
Essas são apenas as primeiras rupturas. Talvez as mais necessárias. Mas,
além disso, cabe verificar minimamente o quanto são ricos e estão sendo
cada vez mais enriquecidos novos campos. Por exemplo: pode-se dizer com
certeza que um texto não é uma soma de frases, que propriedades como
coesão e coerência têm dimensões bastante objetivas, por um lado, mas
relacionam-se com domínios que se poderiam dizer interdisciplinares, por
outro. Assim, mesmo sem poder-se dizer que se atinge o patamar da
“objetividade” nesse domínio, pode-se dizer com certeza que a categoria
decisiva já não é o (bom ou mau) gosto do leitor.
O que se pode dizer do texto vale para outros tantos campos
relativamente recentes: as novidades relacionadas a questões postas pelo
estudo do discurso, pela Psicolinguística, pela Neurolinguística, pelos novos
problemas (e novas propostas de saídas) que a Linguística propõe ao
professor e educador são suficientemente desafiadoras.
O livro deixará claro a seu leitor o quanto a linguagem é um campo de
experiências riquíssimas, quer se trate de abordar os aspectos relativos ao
que se poderia chamar de seus problemas estruturais (Fonologia,
Morfologia, Sintaxe), quer se trate de tematizar suas relações com outros
campos de saber. Ou com o mundo, que só conhecemos, de fato, ou que
tentamos conhecer, por meio da linguagem — de alguma linguagem.
Sírio Possenti
INTRODUÇÃO
A Linguística, nos dias de hoje, conta com uma vasta bibliografia de
estudos no campo, desde textos mais introdutórios até textos de grande
especificidade e aprofundamento. Os textos introdutórios já existentes são,
sem dúvida alguma, bastante esclarecedores. O que justificaria, então, a
organização de uma obra como esta, que se propõe a introduzir o leitor nos
estudos da Linguística?
Nosso propósito na organização desta obra é o de preparar o terreno
conceitual para contatos posteriores com materiais que analisem o
fenômeno da linguagem com um maior grau de detalhe e aprofundamento,
além de tornar acessível, para leitores iniciantes ou não especializados em
Linguística, as relevantes abordagens sobre o fenômeno da linguagem. No
intuito de realizarmos tal propósito, concebemos os dois volumes de
Introdução à Linguística: domínios e fronteiras, buscando aliar os seguintes
aspectos:
a) uma apresentação geral e gradual das principais áreas da Linguística
no Brasil;
b) uma amostra de como as diversas áreas abordam os fatos de
linguagem;
c) uma linguagem acessível.
Com base nesses três aspectos, procuramos organizar os capítulos de
forma a conferir uma certa unidade à obra. Assim, de um modo geral, os
capítulos estão constituídos da seguinte maneira: (i) histórico da área; (ii)
bases epistemológicas da área; (iii) diferentes vertentes da área; (iv) análise
de dados. No entanto, em função da especificidade de cada área e do
próprio estilo e visão de cada autor com relação ao campo apresentado, os
capítulos conferem um peso diferenciado aos aspectos acima citados.
Com relação à ordem dos capítulos, não optamos pela apresentação das
disciplinas seguindo a perspectiva clássica, que perscruta o fenômeno da
linguagem partindo dos níveis mínimos de análise em direção aos níveis
superiores. Optamos por oferecer ao leitor a possibilidade de inicialmente
enxergar o fenômeno linguístico como um fenômeno sociocultural,
fundamentalmente heterogêneo e em constante processo de mudança.
Entendemos que, assim, podemos lhe promover uma entrada mais
significativa no terreno das necessárias e esclarecedoras orientações
teóricas formais sobre a linguagem humana.
Iniciamos o volume 1 desta obra com o capítulo de Sociolinguística
(partes 1 e 2) porque essa área, na tentativa de compreender a questão da
relação entre linguagem e sociedade, postula o princípio da diversidade
linguística. Além, disso, a Sociolinguística inscreve-se na corrente das
orientações teóricas contextuais sobre o fenômeno linguístico, orientações
teóricas estas que consideram as comunidades linguísticas não somente sob
o ângulo das regras de linguagem, mas também sob o ângulo das relações
de poder que se manifestam na e pela linguagem.
O capítulo de Linguística Histórica é apresentado na sequência,
enfocando os processos de mudança das línguas no tempo. Essa sequência
se justifica porque mudança e variação linguística encontram-se
estreitamente relacionadas: se há mudança linguística é porque, em algum
momento anterior, ocorreu o fenômeno da variação. Sendo assim,
esperamos que estes primeiros textos possam esclarecer para o leitor dois
dos mais importantes pressupostos da Linguística moderna: que todas as
línguas variam eque todas as línguas mudam.
Em seguida, começamos a explorar as áreas que fazem parte daquilo
que é tradicionalmente concebido como a descrição gramatical das línguas
naturais. Os capítulos de Fonética, Fonologia, Morfologia e Sintaxe
possuem a tarefa de introduzir as perspectivas teóricas e metodológicas que
constituíram a Linguística como uma ciência autônoma e com um objeto de
estudo próprio, ao longo do século XX. Em contato com esses capítulos, o
leitor terá a oportunidade de escrutinar o fenômeno linguístico em seus
diferentes níveis e, também, de ter acesso a um olhar predominantemente
formalista em relação às línguas naturais. Em outras palavras, nesses
capítulos, o leitor estará entrando em contato com abordagens que propõem
um número restrito de princípios firmes e seguros que são utilizados na
construção positiva do conhecimento das línguas e da faculdade de
linguagem.
Finalizamos o primeiro volume com o capítulo de Linguística Textual.
Essa área, que tem como principal interesse o estudo dos processos de
produção, recepção e interpretação dos textos, reintegra o sujeito e a
situação de comunicação em seu escopo teórico. Esse movimento faz parte
de um esforço mais amplo de construção de uma Linguística para além dos
limites da frase.
Iniciamos o volume 2 apresentando a área da Semântica, que tem como
objeto de estudo a questão do significado e/ou dos processos de
significação. Esse foi um tema sempre presente em outros lugares de
construção do conhecimento, tais como a Lógica, a Retórica, a Filosofia e,
mais recentemente, a Semiótica, a História, a Antropologia e as Ciências
Cognitivas, o que nos sinaliza para o fato de que este objeto “transborda as
próprias fronteiras da Linguística” e nos coloca na posição de ter de
enfrentar as discussões sobre as relações entre linguagem e mundo,
linguagem e conhecimento.
Os capítulos de Pragmática, Análise da Conversação e Análise do
Discurso, que são apresentados na sequência, podem ser definidos, de
maneira geral, como aqueles que, a partir de pressupostos teóricos
diferenciados, estabelecem relações com a exterioridade da linguagem,
problematizando a separação entre a materialidade da língua e seus
contextos de produção. Para tanto, essas áreas também mobilizam saberes
advindos de outros campos, tais como a Filosofia da Linguagem, a
Antropologia, a História, a Sociologia, a Psicanálise, e as Ciências
Cognitivas, proporcionando ao leitor diferentes olhares em relação às
formas de construção dos sentidos, de nossa subjetividade/alteridade e de
nossa historicidade.
Com o capítulo de Neurolinguística, continuamos o nosso percurso
pelas áreas que, pela natureza das indagações que fazem, são constituídas
fundamentalmente por teorias linguísticas e por teorias advindas de outros
campos do saber. Em outras palavras, “as fronteiras que delimitam os
objetos de estudo destas áreas são instáveis, movediças”. Os capítulos de
Neurolinguística, Psicolinguística e Aquisição da Linguagem se distinguem
dos outros e se aproximam entre si por necessitarem da articulação de
saberes produzidos, principalmente, na Linguística, na Psicologia e na área
de Neurociências, para que sejam respondidas as questões elaboradas em
seus respectivos campos sobre as relações entre linguagem e cognição,
linguagem e cérebro, enfim, sobre os diferentes modos pelos quais os
sujeitos adquirem, organizam e reelaboram o conhecimento.
O último capítulo deste volume, Língua e ensino: políticas de
fechamento, tematiza as contribuições que alguns importantes pressupostos
teóricos construídos pela ciência da linguagem ao longo do século XX
podem dar para o ensino. O capítulo apresenta as diferentes concepções de
gramática que norteiam as práticas pedagógicas, além de problematizar as
atuais práticas de leitura e de produção de textos na escola, proporcionando
ao leitor um olhar crítico em relação aos processos de “homogeneização e
silenciamento dos sujeitos”, tão em curso nas instituições escolares.
Essa explicação sobre a disposição dos capítulos na obra não tem o
objetivo de impor uma leitura linear. Dependendo dos seus interesses e de
suas questões, o leitor poderá elaborar a sua própria ordem de leitura.
Introdução à Linguística: domínios e fronteiras é fruto de um trabalho
coletivo, resultante de uma verdadeira cooperação entre nós, organizadoras,
entre as organizadoras e os autores, entre os autores e seus diversos
interlocutores, entre nós e as pessoas que acompanharam mais de perto o
projeto ao longo desses três anos, e entre nós e os editores. Esta experiência
de constante diálogo nos foi extremamente valiosa e prazerosa. Esperamos
que nossos leitores também se beneficiem da estimulante “atmosfera” de
reflexão sobre a linguagem propiciada pelo trabalho de cada um dos autores
desta obra.
Aos autores e autoras, agradecemos o entusiasmo com que se engajaram
neste projeto intelectual, a tolerância às longas conversas teóricas por
telefone e às propostas de intervenção em seus estilos pessoais de escrita e
pelos textos em si, que se constituem em brilhantes contribuições para o
entendimento da ciência da linguagem e de seus tão diversos e fascinantes
objetos.
Agradecemos a Sírio Possenti pela gentileza em prefaciar esta obra,
colaborando, com seu conhecimento sobre a linguagem e sua experiência
como pesquisador e professor, para que este projeto alcançasse o bom nível
que alcançou. Agradecemos também à Ingedore Koch que, com sua
reconhecida autoridade e competência, nos presenteou com um texto de
apresentação para a capa desta obra.
Gostaríamos de deixar público o nosso reconhecimento aos professores
Angel Mori, Aryon Rodrigues, Edwiges Morato, Erotilde Pezatti, Ester
Scarpa, Helena Brandão, Ingedore Koch, Jairo M. Nunes, João Wanderley
Geraldi, Kanavillil Rajagopalan, Luiz Antônio T. Marcuschi, Sírio Possenti
e à pesquisadora Helena Britto, por suas leituras atenciosas, que
contribuíram de forma decisiva para a concepção e organização de alguns
capítulos desta obra.
Temos também o prazer de reconhecer que, nestes tempos difíceis para a
universidade brasileira, ainda existem espaços institucionais que
proporcionam as condições para que um projeto dessa natureza seja
passível de ser executado. Assim, agradecemos ao Instituto de Estudos da
Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, por ser uma espécie de
confortável “lar” acadêmico, onde tivemos a oportunidade de aprender que
uma formação sólida pode e deve estar aliada a compromissos políticos
mais amplos.
A evolução deste livro tem um débito especial para com Edwiges Maria
Morato, nossa companheira nesta jornada intelectual, por ter participado das
inúmeras discussões sobre a organização dos capítulos, pelas leituras
perspicazes e construtivas de alguns deles e por nos ter sempre incentivado,
com sua amizade sólida, com seu brilhantismo e com seu compromisso com
níveis elevados de instigação, a acreditar que valia a pena. Gostaríamos
ainda de agradecer a Ivana Lima Regis, por sua amizade e por ter sido uma
interlocutora especial em todos os estágios deste trabalho, e a Marcelo
Lemos Silveira, pelo apoio e companheirismo.
Esperamos que este livro possibilite ao leitor vislumbrar a ciência da
linguagem. Evidentemente, não tivemos a pretensão de esgotar as
discussões que são feitas atualmente nas diferentes áreas apresentadas. Ao
contrário, Introdução à Linguística: domínios e fronteiras propõe-se a ser
uma porta de entrada para o campo da Linguística, um campo vasto,
heterogêneo, multidisciplinar, que consolida seus domínios e constrói seus
objetos de estudo a partir de influências intradisciplinares e de uma
complexa, mas muito produtiva, rede de relações com outros lugares de
construção do conhecimento.
Fernanda Mussalim
Anna Christina Bentes
Organizadoras
1
SEMÂNTICA1
Roberta Pires de Oliveira
1. INTRODUÇÃO
Embora não seja tarefa fácil definir o objeto de estudos da Semântica,
afirma-se classicamente que seu objeto é o “significado” das palavras e das
sentenças. Abordagens mais recentes entendemque seu objetivo é
descrever a capacidade que um falante tem para interpretar qualquer
sentença de sua língua. Em quaisquer das abordagens, devemos definir o
conceito de significado. O problema é que não há consenso sobre o que é o
“significado”. Uma das dificuldades de definirmos esse termo se deve ao
fato de que ele é usado para descrever situações de fala muito diferentes.
Vejamos: em “Qual é o significado de mesa?”, indagamos sobre o
significado de um termo, mesa; em “Qual o significado dessa sua atitude?”,
perguntamos sobre a intenção não linguística de nosso interlocutor. Falamos
ainda sobre o significado de um livro, o significado da vida, o significado
do verde no semáforo, o significado da fumaça (“O que significa aquela
fumaça?”) e sobre muitos outros significados. Abarcar essas e outras
situações de uso mina o próprio projeto de se construir uma teoria científica
sobre o significado nas línguas naturais.2 E mesmo delimitando seu alcance
ao significado que o falante atribui às palavras e sentenças de sua língua,
continua válida a afirmação do filósofo Hilary Putnam (1975, p. 32): “o que
atrapalha a Semântica é ela depender de um conceito pré-teórico de
‘significado’”, porque não sabemos exatamente o que é o significado.
Explicar o significado — e essa é a dificuldade — transborda as
próprias fronteiras do puramente linguístico, entre outros motivos porque
ele está fortemente ligado à questão do conhecimento. Responder a como é
que atribuímos significado a uma cadeia de ruídos implica adotar um ponto
de vista sobre a aquisição de conhecimento. É o significado uma relação
causal entre as palavras e as coisas? Será ele uma entidade mental? Ele
pertence ao indivíduo ou à comunidade, ao domínio público? Essas
perguntas, caras ao semanticista, levam inevitavelmente a enfrentar a
espinhosa relação entre linguagem e mundo e consequentemente a buscar
uma resposta sobre como é possível (se é que é possível) o conhecimento.
Se não há acordo sobre as questões anteriormente levantadas, então há
várias formas de se descrever o significado. Há várias semânticas. Cada
uma elege a sua noção particular de significado, responde diferentemente à
questão da relação linguagem e mundo e constitui, até certo ponto, um
modelo fechado, incomunicável com outros. O Estruturalismo de vertente
saussureana, por exemplo, define o significado como uma unidade de
diferença, isto é, o significado se dá numa estrutura de semelhanças e
diferenças com relação a outros significados. Assim, o significado de uma
palavra se define por não ser outros significados — mesa se define por não
ser cadeira, sofá — e por manter com esses outras semelhanças — eles são
móveis. Nessa perspectiva, o significado não tem nada a ver com o mundo,
mesa não é o nome de um objeto no mundo, é a estrutura de diferença e
semelhança com cadeira, sofá. Essa abordagem pode levar a uma posição
relativista, já que cada língua, cada sistema de diferenças, institui sua
própria racionalidade.3 Para a Semântica Formal, o significado é um termo
complexo que se compõe de duas partes objetivas, o sentido e a referência.
O sentido do nome mesa é o modo de apresentação de um conjunto de
objetos no mundo, as mesas. Assim, no modelo lógico, a relação da
linguagem com o mundo é fundamental e pouco importa as relações
internas ao sistema.
Para a Semântica da Enunciação, herdeira do estruturalismo, o
significado é o resultado do jogo argumentativo criado na linguagem e por
ela. Diferentemente do estruturalismo, mesa, na Semântica da Enunciação,
significa as diversas possibilidades de encadeamentos argumentativos das
quais a palavra pode participar. Seu significado é o somatório das suas
contribuições em inúmeros fragmentos de discurso: “Comprei uma mesa”,
“Senta ali na mesa...”. Estamos fechados nas cadeias linguísticas e não há
lugar para o mundo. Para a Semântica Cognitiva, mesa é a superfície
linguística de um conceito, o conceito mesa, que é adquirido por meio de
nossas manipulações sensório-motoras com o mundo. É tocando coisas que
são mesas que formamos o conceito pré-linguístico mesa que aparece nas
nossas interações. Esse conceito tem estrutura prototípica, porque se define
pelo membro mais emblemático: um objeto de quatro pernas com um
tampo. Nessa modelo, o significado está no corpo.
A pluralidade de semânticas será ilustrada pela apresentação das linhas
mestras de três formas de fazer semântica: a Semântica Formal, a
Semântica da Enunciação e a Semântica Cognitiva. A escolha desses
modelos procura refletir o atual estado da arte em Semântica no Brasil.4
Buscaremos mostrar como um fenômeno linguístico, a pressuposição,
recebe um tratamento diferenciado em cada abordagem. Na sentença “O
homem de chapéu saiu” há, segundo a Semântica Formal, uma
pressuposição de existência e unicidade: existe um e apenas um indivíduo, e
ele é homem. A Semântica da Enunciação vê nessa mesma sentença a
presença da polifonia, a voz de mais de um enunciador: uma fala que diz
que há um único indivíduo, outra, que ele está de chapéu e outra, que ele
saiu. Finalmente, a Semântica Cognitiva descreve a sentença a partir da
hipótese de que na sua interpretação formamos espaços mentais: o espaço
mental em que há um único homem. Esperamos que, ao final deste capítulo,
o leitor não apenas seja capaz de diferenciar esses modelos de Semântica,
mas consiga manipulá-los minimamente.
2. A SEMÂNTICA FORMAL
Historicamente, a Semântica Formal antecede as demais abordagens, o
que a torna o referencial teórico e o grande inimigo a ser destruído. Hoje em
dia falamos em semântica formal das línguas naturais para diferenciá-la da
lógica. Embora sua história possa ser retraçada até Aristóteles, a semântica
formal das línguas naturais teve início na década de 1970 com os trabalhos
de Barbara Partee. Seu ponto de partida é a crença de que o significado das
sentenças se estrutura logicamente.5 Para ilustrar relações lógicas
retomemos a análise de Aristóteles, um pioneiro neste tipo de estudo.
Ao analisar o raciocínio dedutivo presente nas sentenças a seguir,
Aristóteles mostra que há relações de significado que se dão
independentemente do conteúdo das expressões. Vejamos:
(1) Todo homem é mortal.
João é homem.
Logo, João é mortal.
Se garantirmos que as duas primeiras sentenças, chamadas premissas,
são verdadeiras, concluímos a terceira. A primeira premissa afirma que o
conjunto dos homens está contido no conjunto dos mortais; a segunda, que
João é um elemento do conjunto dos homens. Então, necessariamente, ele é
um elemento do conjunto dos mortais. O interessante é que esse raciocínio
se garante apenas pelas relações que se estabelecem entre os termos,
independentemente do que homem ou mortal significam. Se alterarmos as
expressões e mantivermos as relações, o raciocínio será sempre válido.
Experimente verificar se o raciocínio seguinte é válido e justificar sua
validade: Todo cachorro tem 4 patas; Bela é um cachorro; logo, Bela tem 4
patas.
Essas são relações lógicas, ou formais, porque podemos representá-las
por letras vazias de conteúdo, mas que descrevem as relações de sentido.
Podemos, pois, dizer que “se A é um conjunto qualquer que está contido em
um outro conjunto qualquer, o conjunto B, e se c é um elemento do
conjunto A, então, c é um elemento do conjunto B”. Lógico, não?!
A definição de significado que ancora as pesquisas em semântica formal
e contra a qual as demais semânticas irão reagir, deve-se ao lógico alemão
Gottlob Frege (1848-1925), que nos legou pelo menos várias contribuições,
entre elas: a distinção entre sentido e referência, o conceito de função, a
primeira compreensão de quantificador. Para ele, o estudo científico do
significado só é possível se diferenciarmos os seus diversos aspectos para
reter apenas aqueles que são objetivos. Ele exclui da Semântica o estudo
das representações individuais que uma dada palavra pode provocar. Ao
ouvir o nome próprio estrela da manhã, formo uma ideia, uma
representação, que é só minha, uma vez que ela depende de minha
experiênciasubjetiva no mundo. O estudo desse aspecto do significado cabe
à Psicologia. À Semântica cabe o estudo dos aspectos objetivos, isto é,
aqueles que estão abertos à inspeção pública. Sua objetividade é garantida
pela uniformidade de assentimento entre os membros de uma comunidade.
Eu e você temos representações distintas de estrela — você talvez a associe
a um sentimento nostálgico, eu, à euforia das viagens espaciais —, mas
compartilhamos o sentido de estrela, já que sempre concordamos quando
alguém diz estrela apontando um certo objeto no céu que reconhecemos
como estrela. Nós também concordamos em discordar do uso de estrela
para se referir à lua, a menos que estejamos diante de algum tipo de uso
indireto da palavra ou de um engano. O sentido de um nome próprio como
estrela da manhã é o que nos permite alcançar, falar sobre, um certo objeto
no mundo da razão pública, o planeta Vênus, a sua referência, que também
é pública porque todos temos acesso ao mesmo objeto.
O sentido é o caminho que nos permite chegar a uma referência no
mundo. Frege (1978) precisa dessa distinção porque sem ela não é possível
explicar a diferença entre:
(2) A estrela da manhã é a estrela da manhã.
(3) A estrela da manhã é a estrela da tarde.
A sentença (2) é uma tautologia, uma verdade óbvia que independe dos
fatos no mundo. Daí seu grau de informatividade tender a zero. Já em (3),
afirmamos uma igualdade, cuja veracidade deve ser verificada no mundo.
Se, de fato, aquilo que denominamos estrela da manhã é o mesmo objeto
que denominamos estrela da tarde, então, quando aprendemos que a estrela
da manhã é a estrela da tarde aprendemos uma verdade sobre o mundo:
que podemos nos referir ao planeta Vênus de pelo menos duas maneiras
diferentes. A sentença (3) expressa uma verdade sintética, isto é, uma
verdade que só pode ser apreendida pela inspeção de fatos no mundo, por
isso ela pode nos proporcionar um ganho real de conhecimento. Ela
exprime uma descoberta da Astronomia: a estrela da manhã não era, como
se pensava desde os gregos, uma estrela diferente da estrela da tarde, mas o
mesmo planeta Vênus. Estrela da manhã e estrela da tarde são dois
caminhos/sentidos para se chegar à mesma referência, o planeta Vênus.
Só conseguimos explicar a diferença entre as sentenças (2) e (3) se
distinguimos sentido de referência: embora ambas as sentenças tenham a
mesma referência, elas expressam pensamentos diferentes. Se o sentido é o
caminho que nos permite alcançar a referência, quando descobrimos que
dois caminhos levam à mesma referência, aprendemos algo sobre esse
objeto, sobre o mundo. Todos nós já experimentamos a sensação de
entusiasmo quando de repente descobrimos que 3 + 3 é o mesmo que 10 –
4. Ao tomarmos consciência da igualdade, descobrimos dois caminhos, dois
sentidos, para alcançarmos a mesma referência, o número 6. Uma mesma
referência pode, pois, ser recuperada por meio de vários sentidos. Considere
a cidade de Florianópolis. Podemos nos referir a ela por meio de diferentes
sentidos: a cidade de Florianópolis, Florianópolis, a capital de Santa
Catarina, a antiga Nossa Senhora do Desterro... Você certamente já viveu a
experiência de descobrir que Florianópolis é a capital de Santa Catarina,
isto é, de falar de um objeto, a cidade de Florianópolis, de modos distintos.
Atente para a distinção entre linguagem e mundo: Florianópolis e
Florianópolis.
Para esclarecer a diferença entre sentido e referência, Frege propõe uma
analogia com um telescópio apontado para a Lua. A Lua é referência: sua
existência e propriedades independem daquele ou daquela que a observa.
Ela pode, no entanto, ser olhada a partir de diferentes perspectivas, e
observá-la de determinado ângulo pode nos ensinar algo novo sobre ela. A
imagem da Lua formada pelas lentes do telescópio é o que tanto eu quanto
você vemos. Essa imagem compartilhada é o sentido. Ao mudarmos o
telescópio de posição, vemos uma face diferente da mesma Lua,
alcançamos o mesmo objeto por meio de outro sentido. Lembremos que a
imagem mental que cada um de nós forma da imagem objetiva do
telescópio está fora dos interesses da Semântica.
O sentido só nos permite conhecer algo se a ele corresponder uma
referência. Em outros termos, o sentido permite alcançarmos um objeto no
mundo, mas é o objeto no mundo que nos permite formular um juízo de
valor, isto é, que nos permite avaliar se o que dizemos é falso ou é
verdadeiro. A verdade não está, pois, na linguagem, mas nos fatos do
mundo. A linguagem é apenas um instrumento que nos permite alcançar
aquilo que há. Por isso, para Frege, mas não para a Semântica Formal
contemporânea, sentenças que falam de personagens fictícios carecem de
valor de verdade. Uma sentença ficcional, por exemplo “Papai Noel tem a
barba branca”, não pode ser cognitiva, porque ela não se refere a um objeto
real. Hoje em dia, com a Semântica de Mundos Possíveis, temos uma outra
compreensão dos objetos fictícios, eles existem em outros mundos que não
o mundo do falante.
Intervalo I
Se você entendeu bem essa história de sentido e referência, diga qual a referência de: a capital da
França, Paris, Paris é a capital da França. A seguir descreva a cidade do Rio de Janeiro através
de diferentes sentidos.6
Para Frege (1978), um nome próprio deve ter sentido e referência.
Florianópolis e a capital de Santa Catarina são dois nomes próprios porque
têm sentido e nos permitem falar sobre um objeto no mundo, a cidade de
Florianópolis. Os nomes próprios são saturados porque eles expressam um
pensamento completo e podemos, por meio deles, identificar uma
referência. Há, no entanto, expressões que são incompletas, que não nos
possibilitam chegar a uma referência, porque não expressam um
pensamento completo. Esse é o caso da expressão ser capital de. Além
disso, é fácil notar que a expressão ser capital de é recorrente em inúmeras
sentenças:
(4) São Paulo é a capital de São Paulo.
(5) São Paulo é a capital de Santa Catarina.
(6) Florianópolis é a capital de Santa Catarina.
(7) Florianópolis é a capital de São Paulo.
As sentenças anteriores são nomes próprios porque elas expressam um
pensamento completo e têm uma referência. Em (4) e (6), a referência é a
verdade, já que no nosso mundo São Paulo é a capital de São Paulo e
Florianópolis é a capital de Santa Catarina; em (5) e (7), a referência é o
falso. A expressão ser capital de, que se repete nas sentenças acima, é
insaturada, porque não expressa um pensamento completo. Para tanto, ela
precisa preenchida em dois lugares: um que a antecede, outro que a sucede.
Esses vazios são chamados argumentos. A expressão insaturada chama-se
predicado. O predicado ser capital de é um predicado de dois lugares,
porque há dois espaços a serem preenchidos por argumentos: ______ ser
capital de ______. Podemos, no entanto, transformá-lo em um predicado de
um lugar: ______ ser a capital de São Paulo, por exemplo. Você conseguiria
recortar diferentes predicados de um lugar a partir das sentenças de (4) a
(7)? São Paulo é a capital de______; Florianópolis é a capital de______;
______ é a capital de Santa Catarina são alguns exemplos.
O contraste que Frege constrói é, pois, entre funções incompletas, isto é,
aquelas que comportam pelo menos um espaço e pedem, portanto, pelo
menos um argumento, e argumentos que denotam uma referência em
particular. Uma expressão insaturada combinada com um argumento gera
uma sentença, que é uma expressão completa/saturada, um nome próprio,
que tem como referência um valor de verdade, isto é, o verdadeiro ou o
falso. Podemos entender o predicado como uma máquina, que toma
elementos ou que os relaciona. Em (4), o predicado ser capital de relaciona
São Paulo com São Paulo, gerando o nome próprio, São Paulo é a capital
de São Paulo, que tem sentido, expressa um pensamento, e tem uma
referência, a verdade.
O predicado pode ser preenchido por um nome próprio, como nos
exemplos dados, mas ele pode também ser preenchido por uma expressão
quantificada, que, intuitivamente, indica uma quantidade.7 Vejamos alguns
exemplos:(8) Alguma cidade de Santa Catarina é de origem alemã.
(9) Todos os homens são mortais.
(10) Todos os meninos amam uma professora.
Em (8), afirmamos que há uma cidade de Santa Catarina tal que ela é a
capital daquele Estado, embora a sentença não especifique que cidade é
essa. Algum é um quantificador existencial que afirma que a intersecção
entre o conjunto das cidades de SC e o conjunto das cidades de origem
alemã não é vazia, há pelo menos um elemento que é ao mesmo tempo
cidade de SC e cidade de origem alemã. Em (9) temos um quantificador
universal todos que afirma que o conjunto dos homens está contido no
conjunto dos mortais. Na sentença (10) temos a presença de dois
quantificadores combinados: o universal (todos) e o existencial (uma). Essa
sentença pode ter duas interpretações; ela é ambígua: para todo aluno há
pelo menos uma professora que ele ama — trata-se de uma leitura
distributiva — ou há uma única professora que todos os alunos amam. No
primeiro caso, o quantificador universal antecede o existencial; no segundo,
inverte-se a situação de modo que o existencial tem escopo sobre o
universal.
O modo como os operadores se combinam gera diferentes
interpretações. Essa interação de operadores — os quantificadores são
operadores — explica a chamada ambiguidade semântica. Considere a
sentença:
(11) O João não convidou só a Maria.
Você consegue enxergar duas interpretações? A sentença (11) descreve
duas situações bem distintas: ou o João só não convidou a Maria, ou o João
não só convidou a Maria, mas também outras pessoas. Utilizamos
diferentes entonações para veicular um ou outro significado. Essa dupla
interpretação é explicada pelo modo como se combinam os operadores não
e só: ou o não atua sobre o só, gerando não só; ou o só atua sobre o não,
produzindo só não. Essa relação em que um operador atua sobre um certo
domínio denomina-se escopo: na primeira leitura, o operador só tem escopo
sobre a negação; na segunda, é a negação que tem escopo sobre o só: “O
João não só convidou a Maria”.
Intervalo II
1. Considere as seguintes sentenças. Recorte-as segundo os conceitos de predicado e argumento
em Frege:
a) João é casado com Maria.
b) Maria é brasileira.
c) Oscar é jogador de basquete.
2. A partir dos conceitos de quantificador universal e existencial e da noção de escopo, descreva
as sentenças abaixo:
a) Todo homem é casado com alguma mulher.
b) Um homem é casado com todas as mulheres.
c) A Maria não está grávida de novo.
Considere agora a sentença:
(12) O rei da França é careca.
Ela se compõe de um nome próprio, o rei da França, e de um predicado
de um lugar, ser careca. Nosso problema é o sintagma nominal o rei da
França, que chamamos de descrição definida. Uma descrição definida
caracteriza-se por ser uma expressão nominal introduzida por um artigo
definido. Como veremos, há diferentes maneiras de analisarmos a descrição
definida. Na abordagem formal, a controvérsia diz respeito ao conteúdo
semântico veiculado pela descrição. Pergunte-se: a sentença em (12) é falsa
ou verdadeira? Leve em consideração que não há, no momento atual, rei da
França. Essa sentença proferida em 1780 na França seria falsa, porque a
descrição definida denotaria Luís XVI, que não era careca.8 Mas é hoje em
dia? Ela é falsa ou verdadeira? Há duas respostas: uma que descende de
Frege e entende que se não há uma referência para a descrição definida, a
sentença não tem valor de verdade — não faz sentido afirmar de algo que
não existe, que ele é careca ou não — e outra que vem de Bertrand Russell,
para quem o artigo definido é um quantificador e na situação atual a
sentença é falsa.
Na tradição de Frege, a descrição definida carrega uma pressuposição: a
pressuposição de que há um único indivíduo que é rei da França. Em outros
termos, a sentença (12) expressa um pensamento completo, mas para
atribuirmos a ela um valor de verdade é preciso que a pressuposição de que
há um único rei da França seja verdadeira. Essa pressuposição não é
semântica. Frege mantém que se a pressuposição fosse semântica, então a
negação da sentença seria ambígua. Vejamos:
(13) O rei da França não é careca.
Se a pressuposição fosse semântica, afirma Frege, então (13) significaria
ou que não existe um único indivíduo que é rei da França ou que há um
único rei da França e ele não é careca. No entanto, intuitivamente, (13) só
significa que ele não é careca. Isto é, a pressuposição de que existe um
único indivíduo que é rei da França se mantém inalterada na negação, por
isso ela não se confunde com o conteúdo da sentença.9 Essa solução de
Frege caminha paralelamente à sua análise sobre os seres imaginários,
como o Batman: sentenças em que uma das suas expressões se refere a
seres ou coisas que não têm existência têm sentido, mas não têm referência.
Elas não são nem verdadeiras nem falsas.
Bertrand Russell (1905) propõe outra análise da descrição definida. Ele
trata o artigo definido como um quantificador.10 Assim, o conteúdo
semântico da sentença em (12) é: existe um e apenas um indivíduo que é rei
da França e ele é careca. Como já vimos, os operadores podem se combinar.
Dado que tanto o artigo definido quanto o não são operadores, esperamos
que eles estabeleçam diferentes relações de escopo. A sentença (13) seria,
portanto, ambígua: a negação pode ter escopo sobre o artigo definido, e
teremos a forma lógica (14), ou o artigo definido tem escopo sobre a
negação, e a forma lógica será (15):
(14) [não [existe um apenas um indivíduo tal que [ele é rei da França] e [é careca]]]
(15) [existe um e apenas um indivíduo tal que [ele é rei da França] e [não [é careca]]]
A proposta de Russell trata a existência e a unicidade como partes do
conteúdo da sentença. Nesse caso, proferir a sentença (12) hoje em dia,
quando não existe rei da França, é afirmar uma falsidade.
Independentemente dessa controvérsia, a Semântica Formal considera
que há pressuposição quando tanto a verdade quanto a falsidade da sentença
dependem da verdade da sentença pressuposta. Há muitos tipos de
pressuposição. A sentença (16) contém uma pressuposição, mas dessa vez
não se trata de uma pressuposição de existência e unicidade:
(16) Maria parou de fumar.
Para podermos atribuir um valor de verdade a essa sentença, devemos
aceitar que a pressuposição que Maria fumava é verdadeira. A sentença é
falsa se ela não parou de fumar e verdadeira se ela parou. Se Maria nunca
fumou, então ter parado de fumar é algo que simplesmente não se aplica a
ela e a sentença não é nem verdadeira nem falsa.
Intervalo III
A partir das noções de escopo e operador, descreva a ambiguidade presente na sentença a seguir:
(1) João não escreveu sua tese para agradar a mãe.
Determine se há pressuposição na sentença abaixo e justifique sua resposta. O melhor teste para a
pressuposição é negar a sentença e avaliar qual informação se mantém inalterada:
(2) João lamenta a morte do pai.
A década de 1970 conheceu uma explosão de trabalhos sobre a
pressuposição. Salienta-se, dentre eles, o trabalho de Oswald Ducrot que,
certamente influenciado pelos trabalhos de Émile Benveniste e pela escola
francesa de Análise do Discurso,11 se opõe veementemente ao tratamento
que a Semântica Formal oferece para a pressuposição em particular e para o
significado em geral. Suas críticas e análises possibilitaram a formação de
um outro modelo: a Semântica da Enunciação.
3. A SEMÂNTICA DA ENUNCIAÇÃO
A visão de linguagem que, segundo Ducrot, subsidia a Semântica
Formal é inadequada porque, argumenta o autor, ela se respalda num
modelo informacional, em que o conceito de verdade é externo à
linguagem. Na Semântica Formal, a linguagem é um meio para
alcançarmos uma verdade que está fora da linguagem, o que nos permite
falar objetivamente sobre o mundo e, consequentemente, adquirir um
conhecimento seguro sobre ele. É possível que o conceito de referência em
Frege esteja mesmo revestido de tal realismo: a metáfora do telescópio
deixa claro que o objeto descrito, a Lua, não é uma função da descrição
dada, do sentido. É o nossoconhecimento da Lua que depende do sentido.
Vemos a mesma Lua a partir de pontos de vista diferentes, não vemos luas
diferentes. A diferença é sutil, mas necessária para distinguirmos entre
semânticas ditas objetivistas ou realistas, que postulam uma ordem no
mundo que dá, ao menos em certa medida, conteúdo à linguagem, e
semânticas mais próximas do relativismo, que acreditam que não há uma
ordem no mundo que seja dada independentemente da linguagem e da
história. Só a linguagem constitui o mundo, por isso não é possível escapar
dela. A Semântica da Enunciação certamente se inscreve nessa perspectiva,
mas há abordagens formais que não se vinculam a uma metafísica realista.12
Para a Semântica da Enunciação, a referência é uma ilusão criada pela
linguagem. Estamos sempre inseridos na linguagem, moscas presas na
garrafa. Os dêiticos — expressões cujo conteúdo depende da remissão à
externalidade linguística, os pronomes isto, eu, você, por exemplo — que
nos dão a sensação/ilusão de estar fora da língua. Estamos, no entanto,
sempre fechados nela e por ela. A Semântica Formal, diz Ducrot, cai na
ilusão, criada pela própria linguagem, de que ela se refere a algo externo a
ela mesma, de onde ela retira a sua sustentação. A linguagem, afirma
Ducrot, é um jogo de argumentação enredado em si mesmo; não falamos
sobre o mundo, falamos para construir um mundo e a partir dele tentar
convencer nosso interlocutor da nossa verdade, verdade criada pelas e nas
nossas interlocuções. A verdade deixa, pois, de ser um atributo do mundo e
passa a ser relativa à comunidade que se forma na argumentação. Assim, a
linguagem é uma dialogia, ou melhor, uma “argumentalogia”; não falamos
para trocar informações sobre o mundo, mas para convencer o outro a entrar
no nosso jogo discursivo, para convencê-lo de nossa verdade.13
Essa diferença de concepção da linguagem surte efeitos na forma como
os fenômenos semânticos são descritos. Tomemos a questão da
pressuposição. Se a linguagem não se refere, se a referência é interna ao
próprio jogo discursivo, então também a pressuposição, seja ela existencial
ou de qualquer outro tipo, é criada pelo e no próprio jogo de encenação que
a linguagem constrói. A pressuposição não pode ser uma crença em algo
externo à linguagem. É porque falamos de algo que esse algo passa a ter sua
existência no quadro criado pelo próprio discurso. Nas versões mais atuais
da Semântica da Enunciação, o conceito de pressuposição é substituído pelo
de enunciador. Um enunciado se constitui de vários enunciadores que, por
sua vez, formam o quadro institucional que referenda o espaço discursivo
em que o diálogo vai se desenvolver. A pressuposição, um enunciador
presente no enunciado, situa o diálogo no comprometimento de que o
ouvinte aceita essa voz pressuposta. De tal sorte que negá-la é romper o
diálogo, criando um discurso polêmico.
Retornemos ao exemplo do rei da França ser careca. Quando
enunciamos (12), comprometemos nosso ouvinte com o fato de que há um e
apenas um rei da França. O enunciado é polifônico porque encerra várias
vozes. Na enunciação de (12), o locutor põe em cena um diálogo entre
enunciadores. Vejamos:
(17) O rei da França é careca.
E1: Há um e apenas uma pessoa.
E2: Essa pessoa é rei da França.
E3: Essa pessoa é careca.
Essa estrutura polifônica deixa claro que há dois tipos de negação.
Diferentemente do que ocorre na proposta de Russell, a sentença em (17)
não é ambígua. O que ocorre é que o ouvinte pode realizar diferentes tipos
de negação: ele pode negar o enunciador E1, nesse caso estamos diante de
uma negação polêmica; mas ele pode negar o posto, o enunciador E3, nesse,
caso temos uma negação metalinguística. Vejamos a análise do exemplo
(16), retomado aqui em (18):
(18) Maria parou de fumar.
E1: Maria fumava.
E2: Maria não fuma mais.
A enunciação de (18) põe em jogo um enunciador que afirma que Maria
fumava antes, trata-se do pressuposto, e outro que diz que ela já não fuma
mais, o posto. Se negamos a fala do primeiro enunciador, realizamos uma
negação polêmica; se negamos o posto, uma negação metalinguística.
Assim, as diferentes leituras, explicadas como ambiguidade estrutural
pela Semântica Formal, são, para a Semântica da Enunciação, explicadas
lançando mão do conceito de polissemia; em outras palavras, um mesmo
enunciado se abre num leque de significados diferentes, mas relacionados.
A Semântica Formal resolve o problema da ambiguidade por meio do
conceito de escopo, enquanto na Semântica da Enunciação a noção de
escopo não tem lugar e o problema se resolve via a hipótese de que há
diferentes tipos de negação. O que explica as diferentes leituras da sentença
(19) é a presença de uma série de enunciadores e diferentes tipos de
negação.
(19) O rei da França não é careca.
(19’) E1: Há apenas um rei da França.
E2: Ele é careca.
E3: E1 é falsa.
(19”) E1: Há apenas um rei da França.
E2: Ele é careca.
E3: E2 é falsa.
Não se trata de uma diferença estrutural, até porque nessa abordagem
não há forma lógica. A pressuposição, na Semântica da Enunciação, se
resolve pela hipótese da polifonia e, portanto, da existência de diferentes
enunciadores, e a ambiguidade se desfaz pela determinação de diferenças de
uso das palavras: o não polêmico e o não metalinguístico.
Eis outro exemplo. Em resposta a alguém que diz que meu carro está
mal estacionado, posso retrucar:
(20) Não, meu carro não está mal estacionado (porque eu não tenho carro).
Nesse caso, estou fazendo uso da negação polêmica, afinal estou
negando o quadro criado pela fala do meu interlocutor, na medida em que
nego o enunciador que afirma a existência de um único carro que seja meu.
Imagine agora a mesma situação, só que dessa vez o locutor tem um carro:
(21) Não, meu carro não está mal estacionado (porque está bem estacionado).
Essa é a negação metalinguística: o locutor retoma a fala do outro, que
aparece na voz de um enunciador que afirma que o carro está mal
estacionado, para negá-la, mas aceita o enunciador que afirma que o falante
tem apenas um carro. A sentença (21) pode ser descrita da seguinte forma:
(21’) E1: Você tem um único carro.
E2: Esse carro está mal estacionado.
E3: A fala de E2 é falsa.
Ducrot distingue ainda um terceiro tipo de negação, a negação
descritiva. Nela o locutor descreve um estado do mundo negativamente;
portanto, na sua enunciação não há um enunciador que retoma a fala de
outro enunciador negando-a. Na enunciação de (22), o locutor está
descrevendo um estado do mundo utilizando a negação:
(22) Não há uma nuvem no céu.
Nesse caso, não há a retomada da fala de outro, mas a apresentação
negativa de uma descrição. Evidentemente, não é possível definirmos o tipo
de negação sem levarmos em consideração os encadeamentos discursivos
em que a enunciação ocorre. (22) poderia comportar uma negação
polêmica, desde que ela ocorresse em outro contexto. Vale notar que para a
Semântica da Enunciação não há sentença, entidade cujo sentido não
depende do contexto em que ela é dita, mas enunciações, singularidades
enunciativas que formam cadeias discursivas.
Intervalo IV
1. Utilizando o arcabouço teórico da Semântica da Enunciação, descreva as leituras possíveis do
enunciado “Meu livro não foi reeditado”. A seguir descreva a ambiguidade por meio da noção de
escopo da Semântica Formal.
A negação é, pois, um fenômeno de polissemia que, como dissemos,
define-se por identificar usos distintos que são relacionados. Outro exemplo
de polissemia é televisão, que designa tanto o aparelho quanto a rede de
transmissão. A mesma estratégia de multiplicação de sentidos aparece na
descrição que a Semântica da Enunciação propõe para o conectivo mas.
Para a Semântica Formal não há diferença semântica entre e e mas. Na
forma lógica, ambos fazem o mesmo: garantem que a sentença complexa é
verdadeira se e somente se as partes que a compõem também forem
verdadeiras. Assim as sentenças:
(23) João passou no concurso e não foi contratado.
(24) João passou no concurso mas não foi contratado.
exprimem o mesmoconteúdo semântico: as sentenças João passou no
concurso e João não foi contratado são verdadeiras. A diferença de
significado é explicada pela Pragmática. Como dissemos, a Semântica da
Enunciação dispensa a hipótese de forma lógica. A diferença é descrita pela
postulação de que e e mas são dois itens lexicais distintos. Ducrot dá um
passo além afirmando que há dois mas que, em português, são homônimos,
porque têm a mesma representação sonora e escrita. O espanhol e o alemão
são, no entanto, línguas em que a cada mas corresponde uma palavra
diferente: em espanhol, pero e mas; em alemão, sonder e aber.
Na Semântica da Enunciação distinguem-se, pois, dois sentidos de mas:
o masPA e o masSN. O masPA se caracteriza por apresentar um raciocínio
inferencial do tipo: a primeira sentença nos leva a supor uma certa
conclusão e essa conclusão é negada pela segunda sentença. Retornemos ao
exemplo (24): a afirmação de que João passou no concurso nos leva a
imaginar que ele será contratado. A conclusão, suscitada pela primeira
sentença, é negada pela segunda em que se afirma que ele não vai ser
contratado.
O masSN estabelece outra relação semântica. Nele, a primeira sentença
nega fortemente uma fala que supostamente a antecede, e repara, na
segunda sentença, o que foi dito na primeira. Tomemos a sentença (25):
(25) Pedro não está triste, mas ensimesmado.
Essa sentença se decompõe numa série de enunciadores. Um enunciador
afirma que Pedro está triste (E1: Pedro está triste). Essa fala é negada pelo
segundo enunciador (E2: E1 é falsa). E um terceiro enunciador descreve o
estado de Pedro (E3: Pedro está ensimesmado).
Intervalo V
Diga se o mas presente nas sentenças abaixo é PA ou SN. Justifique a sua resposta:
(1) João não está cansado, mas deprimido.
(2) João foi ao cabeleireiro, mas não cortou o cabelo.
Construa cadeias discursivas em que a negação nos seguintes exemplos receba diferentes
interpretações:
(1) O João não saiu.
(2) O céu não está azul.
A Semântica da Enunciação também se consagrou por ter iniciado a
descrição de fenômenos que até pouco tempo resistiam a um tratamento
formal: as gradações — presentes em O café não está frio, está morno —, e
as escalas argumentativas. Vejamos um caso.
Considere o par de sentenças a seguir:
(26) João comeu pouco.
(27) João comeu um pouco.
Segundo a Semântica da Enunciação, não seria possível analisar
formalmente essas sentenças porque em termos informativos elas veiculam
o mesmo conteúdo; suas condições de verdade são exatamente as mesmas:
elas são verdadeiras se João não comeu muito. No entanto, sabemos
intuitivamente que elas não são equivalentes, porque não podemos
substituir uma pela outra. Ao contrário, há contextos específicos para o uso
de cada uma dessas formas, o que significa dizer que seus encadeamentos
discursivos são distintos.
Imaginemos a situação de um moleque que está ameaçado pelo pai: se
não comer, não brinca. O pai pergunta para a mãe: “E o Joãozinho,
comeu?”. Supondo que a mãe saiba da ameaça, se ela responde com (26),
sua fala vai na direção de que ele não comeu: se ele comeu pouco, então ele
está mais próximo de não comeu. E o coitado do Joãozinho fica sem
brincar. Se a mãe responde com (27), sua fala vai na direção de comer: se
ele comeu um pouco (um tanto de comida), então ele caminha na direção de
comeu. E, portanto, ele pode brincar. A hipótese é de que os operadores
pouco e um pouco direcionam diferentemente uma mesma escala de comer,
que vai de comer muito a não comer: um pouco direciona a escala no
sentido de comer e pouco no de não comer.
Se a semântica da enunciação analisa sempre em termos de
argumentação, então a fala da mãe com um pouco vai na direção de comer
e, portanto, é um argumento a favor do menino sair para brincar, ao passo
que com pouco a estrutura argumentativa é inversa e ele não brinca.
Intervalo VI
Em termos de valor de verdade, as sentenças a seguir são idênticas. No entanto, do ponto de vista
argumentativo, elas se comportam de forma bem diferente. Procure descrever a contribuição de
sentido proporcionada pelo até nas sentenças:
(1) O presidente do Brasil esteve na festa.
(2) Até o presidente do Brasil esteve na festa.14
A partir da análise de “pouco” e “um pouco” reflita sobre o par:
(1) João dormiu um pouco.
(2) João dormiu pouco.
4. A SEMÂNTICA COGNITIVA
A Semântica Cognitiva tem como marco inaugural a publicação, em
1980, de Metaphors We Live By, de George Lakoff e Mark Johnson.15
Embora bastante recente, esse modelo semântico conta hoje com a
participação de diversos pesquisadores, trabalhando nos diferentes níveis de
análise da linguagem, da Fonologia à Pragmática. Parte-se, nesse modelo,
da hipótese de que o significado é central na investigação sobre a
linguagem, chocando-se, portanto, com a abordagem gerativista, que
defende a centralidade da sintaxe.16 A forma deriva da significação
corpórea, da interação do corpo com o ambiente, inclusive o social. O corpo
está na mente; ele a estrutura. Daí a Semântica Cognitiva se inscrever no
quadro do funcionalismo.
Ela se opõe explicitamente ao que Lakoff denomina Semântica
Objetivista, aquela que, segundo o autor, prega que o significado se baseia
na referência e na verdade, que entende verdade como correspondência com
o mundo e que acredita na existência de apenas uma maneira objetivamente
correta de associar símbolos e mundo. É inadequado associar essa visão à
Semântica Formal, embora seja esse o alvo das críticas de Lakoff, um
dissidente do gerativismo. A Semântica Cognitiva quer combater a ideia, de
fato presente em algumas abordagens formais, de que a linguagem está
numa relação de correspondência direta com o mundo. O significado,
afirma a Semântica Cognitiva, nada tem a ver com pareamento entre
linguagem e mundo. Antes, ele emerge de dentro para fora, do corpo para o
mundo, e por isto ele é motivado. A significação linguística emerge de
nossas significações corpóreas, dos movimentos de nossos corpos em
interação com o meio que nos circunda.
Estaria, então, a Semântica Cognitiva mais próxima dos postulados da
Semântica da Enunciação, que insiste que o significado é o resultado dos
jogos argumentativos na linguagem? Sim, se levarmos em consideração o
fato de que ambas negam a hipótese da referência. No entanto,
diferentemente da Semântica da Enunciação, a Semântica Cognitiva não se
baseia na crença de que não há mundo, não há exterioridade, a não ser
aquela constituída pela própria linguagem, nem na crença de que a
linguagem é um jogo de argumentação. Ela é uma abordagem realista; um
realismo experiencialista, diz Lakoff, que se afasta do relativismo. A
hipótese central de que o significado é natural e experiencial se sustenta na
constatação de que ele se constrói a partir de nossas interações físicas,
corpóreas, com o meio ambiente em que vivemos. O significado, enquanto
corpóreo, não é nem exclusiva, nem prioritariamente linguístico.
A criança, na história da aquisição contada pela Semântica Cognitiva,
inicialmente aprende esquemas de movimento e categorias de nível básico.
Por exemplo, a criança se move várias vezes em direção a certos alvos.
Desses movimentos, emerge um esquema imagético cinestésico (uma
memória de movimento) em que há um ponto de partida do movimento, um
percurso e um ponto de chegada. Esse esquema, que surge diretamente de
nossa experiência corpórea com o mundo, ancora o significado de nossas
expressões linguísticas sobre o espaço. Nessa perspectiva, o significado
linguístico não é arbitrário, porque deriva de esquemas sensório-motores.
São, portanto, as nossas ações no mundo que nos permitem apreender
diretamente esquemas imagéticos espaciais e são esses esquemas que dão
significado às nossas expressões linguísticas. Esquemas mais básicos são
obviamente independentes da linguagem.
Nossos deslocamentos de um lugar para outro, que ocorrem quando
ainda não falamos, estruturam um esquema imagético, e, portanto, não
proposicional. O esquema de deslocamento Lakoff denomina CAMINHO17
e pode ser esquematizado comoa seguir:
A (fonte do movimento) B (alvo do movimento)
Muitos outros esquemas derivam diretamente de nossas experiências
corpóreas no mundo. Por exemplo, o esquema de estar dentro e fora de
algum lugar, chamado RECIPIENTE; o esquema de balanço, BALANÇO,
aprendido em nossos ensaios para ficar em pé. São esses esquemas que dão
sentido às nossas interações linguísticas. A linguagem é uma manifestação
desses esquemas, como atestam as sentenças a seguir:
(28) Fui do quarto para a sala.
(29) Vim de São Paulo.
(30) Estou em Florianópolis.
(31) Nasceu no Brasil.
O que dá sentido às sentenças (28) a (31) não é uma relação de
correspondência com o mundo, nem uma relação de dialogia com um outro
construindo encadeamentos discursivos, mas o fato de que em (28) e (29)
está presente o esquema imagético CAMINHO, e em (30) e (31), o
esquema RECIPIENTE. Esses esquemas, organizações cinestésicas
diretamente apreendidas, carregam uma memória de movimentação ou de
experiência. É essa memória que ampara nosso falar e pensar. Por isso, o
significado é uma questão da cognição em geral, e não um fenômeno pura
ou prioritariamente linguístico. A linguagem articulada não é mais que uma
das manifestações superficiais da nossa estruturação cognitiva, que lhe
antecede e dá consistência.
Mas nem todos os nossos conceitos resultam diretamente de esquemas
imagético-cinestésicos. Basta lembrarmos o conceito de argumentação para
notarmos que não há um esquema sensório-motor que o ancore diretamente.
Há, pois, domínios da experiência cuja conceitualização depende de
mecanismos de abstração. A Semântica Cognitiva privilegia dois
mecanismos: a metáfora e a metonímia. A metáfora define-se por ser o
mapa (um conjunto de correspondências matemáticas) entre um domínio da
experiência e outro domínio. Vamos examinar algumas sentenças sobre o
tempo:
(32) De ontem para hoje, o José ficou doente.
(33) A conferência foi de segunda a sábado.
Se observarmos essas e outras sentenças, notaremos que nosso conceito
de tempo se estrutura via o esquema espacial do CAMINHO: nos
deslocamos no tempo ou com o tempo em direção ao futuro. Nesse sentido,
as sentenças (32) e (33) são metafóricas, porque nelas o tempo é
conceituado a partir de correspondências com o esquema espacial. Falamos,
pensamos e agimos sobre o tempo como se ele fosse uma linearidade, como
uma reta direcionada para o futuro. De tal sorte que há o ponto de partida
do movimento temporal, ontem em (32), segunda em (33); um percurso, o
tempo decorrido entre os dois pontos; e um ponto de chegada, hoje em (32),
sábado em (33).
Nas sentenças (32) e (33), o esquema CAMINHO foi mapeado para o
domínio do tempo. Ele pode, no entanto, ser mapeado para outros domínios.
É esse esquema que utilizamos para expressar passagens de um estado
emocional a outro, como na sentença (34) a seguir. Ele também está
presente na estruturação de nosso conceito de transferência de posse, como
em (35):
(34) João foi de mal a pior.
(35) João deu este presente para a Maria.
Já deve estar claro que não apenas o termo “metáfora” tem um sentido
especial na Semântica Cognitiva, mas principalmente que nesse modelo
nosso falar e pensar cotidianos são, na sua maior parte, metafóricos.
Metáfora não são aquelas sentenças que, na escola, aprendemos a classificar
como metáfora. A sentença Maria é uma flor é uma metáfora linguística
para a Semântica Cognitiva, porque expressa uma maneira fantasiosa de
falar, não uma metáfora conceitual. A metáfora, para a Semântica
Cognitiva, é um processo cognitivo que permite mapearmos esquemas,
aprendidos diretamente pelo nosso corpo, em domínios mais abstratos, cuja
experimentação é indireta. É por isso que as sentenças de (32) a (35) são
metafóricas. Nelas há o mapeamento de um domínio mais concreto da
experiência, o domínio organizado pelo esquema imagético CAMINHO, na
conceituação de domínios da experiência que são mais abstratos, o tempo, o
estado de saúde, a posse. Nesses exemplos, percebemos a ubiquidade da
metáfora.
A propriedade fundamental da metáfora é preservar as inferências do
domínio fonte no domínio alvo, desde que não haja violação da estrutura
inerente ao domínio alvo. Se mapeamos o esquema CAMINHO no tempo,
então podemos esperar que nesse domínio se estabelece uma organização
espacial em que as inferências do espaço se mantêm. Trata-se da Hipótese
da Invariância. Por exemplo: se eu vou daqui para ali, e esse esquema é
mapeado no tempo, então eu também devo poder me mover no tempo de
um ponto de partida A em direção a um ponto B. Se entre os pontos
espaciais A e B há posições intermediárias, então também entre o ponto A e
B na linha do tempo há pontos intermediários. Além de explicar as
inferências, essa hipótese procura justificar o fato de que há aspectos que
não são mapeados. Podemos mapear o espaço no tempo, mas certas
relações espaciais serão bloqueadas por causa da própria estrutura do
tempo. Eis o realismo! Assim, não podemos dizer Chegou atrás da hora.
Como, então, se explica a estrutura de inferência apresentada no
primeiro exemplo deste texto, reproduzido a seguir?
(36) Todo homem é mortal.
João é homem.
Logo, João é mortal.
Essas sentenças refletem a presença do esquema imagético
RECIPIENTE, em que há recipientes nos quais podemos entrar e sair ou
colocar e tirar coisas. A base corpórea que a sustenta é estarmos sempre em
algum lugar e nosso próprio corpo ser um recipiente. Assim, entendemos a
primeira premissa como “o recipiente que contém homens está dentro do
recipiente dos mortais”; “João está dentro do recipiente dos homens”.
Enfatizando, é o nosso corpo que dá sentido para as relações lógicas.
A título de exemplo da metodologia de análise na Semântica Cognitiva,
apresentamos uma possibilidade de descrição do conectivo mas. Sua
descrição inicia com um levantamento de suas várias possibilidades de uso.
Uma pesquisa etimológica, resgatando a história desse conectivo, seria
também interessante. Considere como dado a sentença (25), Pedro não está
triste, mas ensimesmado. Etimologicamente, segundo Vogt (1977), mas
deriva da expressão latina magis quam, que estabelece a comparação de
superioridade: isso é mais do que aquilo. Se adotamos a hipótese de que os
usos mais antigos são aqueles mais próximos do físico, então é o esquema
corporal do BALANÇO que dá sustentação ao mas: pesamos duas coisas e
a balança pende para uma delas. No caso do exemplo (25), a balança pende
para o lado do ensimesmado: se pesamos os dois, Pedro é mais
ensimesmado do que triste. Uma vez estabelecida que essa é a base física,
resta-nos dar conta de suas extensões metafóricas.18
Intervalo VII
Considere as sentenças a seguir:
(1) Gastei cinco horas para chegar aqui.
(2) Economizei duas horas por este caminho.
Descreva essas sentenças a partir do arcabouço teórico proporcionado pela Semântica Cognitiva.
Ache exemplos que confirmem a existência da metáfora conceitual ARGUMENTAÇÃO É UMA
GUERRA.
Dissemos que há dois primitivos na teoria da Semântica Cognitiva: os
esquemas imagéticos e as categorias de nível básico. Sobre os primeiros já
falamos e mostramos que eles se estendem via metáfora. Resta-nos agora
tratar das categorias de nível básico. Sua discussão é importante porque ela
toca numa questão cara à Semântica Cognitiva: a categorização.
Mas qual é o problema da categorização? É explicar que critérios
necessários e suficientes permitem que um dado exemplar faça parte de
uma certa categoria (ou conceito). Ilustremos esse problema: como é que
determinamos que um indivíduo particular pertence à classe dos homens?
Como é que sabemos que João é humano? Na visão tradicional, aquela que
se encontra na Semântica Formal clássica, um termo genérico como homem
não se refere a um indivíduo em particular, mas a todos os indivíduos que
possam ser alcançados por meio de certas propriedades, necessárias e
suficientes, instanciadas por homem. Sabemos que João pertence à classe
dos humanos porque ele tem certas propriedades que só os humanos têm. A
essas propriedades, que definem oconteúdo semântico de um termo, a
Semântica Formal dá o nome de intensão. A intensão permite alcançarmos
uma classe de objetos em todos os mundos possíveis. O conjunto dos
homens no nosso mundo é a sua extensão nesse mundo. Você certamente
percebeu que há um paralelo com os conceitos de sentido e referência que
definimos no início deste capítulo, não?
No caso de homem, sua extensão são os vários humanos no mundo, as
entidades extralinguísticas. E qual seria a sua intensão? Suas propriedades
essenciais. Além da delicada questão filosófica que aí se esmiúça — afinal,
existem mesmo propriedades essenciais? —, essa abordagem enfrenta o
difícil problema de determinar com certo grau de segurança quais são as
propriedades necessárias e suficientes para que algo pertença a uma certa
categoria. Pergunte-se: o que faz uma pessoa ser parte da categoria
HUMANO? O fato de compartilhar com todos os outros seres humanos
certas propriedades e, ao mesmo tempo, de se distinguir, por meio dessas
propriedades, de todos os demais seres. Eis a resposta da Semântica Formal
clássica. Pare um instante de ler e pense: mas que propriedades são essas?
A questão não é trivial e tem recebido as mais diferentes respostas ao longo
dos séculos. Já se afirmou que a categoria HUMANO se define pela
presença de duas propriedades, “ser bípede” e “ser implume”: pertencer à
classe dos humanos é ter dois pés e não ter penas. De fato, essas
propriedades permitem distinguir um homem de um cachorro e de um pato.
No entanto, é muito fácil achar exemplos de seres humanos que, ao menos
aparentemente, não preenchem essas condições. Basta imaginar um perneta;
alguém com uma única perna continua a ser humano ou não? E se, por uma
mutação genética qualquer, um ser humano nascesse com algumas plumas,
ele deixaria de ser um humano? Já deu para você ter uma ideia do
problema, não?
Sem dúvida alguma foi Ludwig Wittgenstein, em Investigações
filosóficas, quem problematizou com maior maestria o problema das
categorias.19 Ele se perguntou sobre quais seriam as propriedades
definidoras da categoria jogo, levando em consideração os vários usos que
essa palavra pode ter. Tente se lembrar de tudo o que você chama de jogo:
amarelinha, palavra cruzada, vôlei, damas, solitário, futebol. E agora veja se
você consegue descobrir uma única propriedade que seja comum a todas as
atividades que denominamos jogo, isto é, uma propriedade necessária
porque presente em todos os exemplos de jogo. Se você disser
“divertimento”, eu retruco com roleta-russa. Se você falar em
“competição”, eu lembro os jogos de amarelinha e os solitários.
Imaginemos, no entanto, que você me convença de que a propriedade
comum a todos os exemplos de jogo seja divertimento. Mas divertimento é
uma propriedade tão genérica que é insuficiente para separar a classe dos
jogos de outras classes, como a das diversões. Não conseguimos distinguir
jogo de divertimento se divertimento é o traço, já que há coisas divertidas
que não são jogos: ir ao cinema é divertido e não é um jogo. Parece que se
houver uma propriedade comum a todos os usos de uma palavra, uma
propriedade necessária, ela não será suficiente para delimitar a classe. Com
base nessa constatação, Wittgenstein propôs que as categorias se organizam
por relações de semelhanças de família. Os usos de uma mesma palavra se
assemelham da mesma forma que os membros de uma família. Não é
necessário que os membros compartilhem a mesma propriedade para
pertencerem todos à mesma família, nem mesmo o sobrenome.
A Semântica Cognitiva baseia-se nessa linha de pensamento para negar
a abordagem clássica da categoria. Ela se ancora fortemente em evidências
psicológicas para assegurar a posição de que não categorizamos por meio
do estabelecimento de propriedades necessárias e suficientes. O trabalho de
Berlin & Kay (1969) sobre as cores em diferentes línguas, assim como as
pesquisas de Eleanor Rosch (apud Lakoff, 1987) apontam para fatos que
contradizem as predições da categorização por propriedades necessárias e
suficientes. Vejamos um exemplo. Se peço para você me dar um exemplo
de pássaro, você com certeza não vai dizer pinguim, a menos que você seja
um semanticista. Por que não? Por que as pessoas tendem a responder
perguntas sobre categorias com certos elementos e não com outros? Os
experimentos de Rosch trouxeram uma resposta a essas questões. A
abordagem formal clássica não pode dar uma explicação para esse fato,
porque para ela as categorias se organizam por propriedades necessárias e
suficientes, e, se é assim, então todos os membros de uma categoria devem
ter o mesmo valor. Isso significa que as pessoas deveriam responder
aleatoriamente, ora pardal, ora pinguim, ora galinha ao meu pedido de
exemplo de pássaro. Mas não é isso o que elas fazem; elas respondem
preferencialmente uma subespécie de pássaro. No Brasil, provavelmente
diríamos pardal e muito raramente pinguim.20
Baseado nesses resultados, formulou-se a hipótese de que os conceitos
se estruturam por protótipos. Em outros termos, quando classificamos não
recorremos ao estabelecimento de condições necessárias e suficientes, mas
nos escoramos em casos que são exemplares, que são os mais reveladores
da categoria, na nossa experiência imediata. É por isso que no Brasil,
acredito, a resposta seria pardal ao pedido de exemplificação de pássaro:
convivemos com pardais. Além disso, pardal tem propriedades que são
salientes nos pássaros, e que pinguins não têm: ele voa como os pássaros
em geral. As categorias se estruturam, pois, por meio de um caso mais
prototípico que se relaciona via semelhanças com os outros membros
menos centrais. Pardal é o membro central da categoria PÁSSARO, ao
passo que pinguim ocupa posição periférica.
Mas como é que a criança aprende essas categorias? Ela aprende
primeiramente as categorias de nível médio, porque é com objetos desse
tipo de categoria que temos contato físico direto. Mais uma vez com base
em experimentos da Psicologia, a Semântica Cognitiva afirma que
aprendemos categorias de nível básico diretamente, porque elas não
indicam nem as categorias mais abstratas, nem as categorias mais
específicas. Aprendemos primeiro e diretamente categorias como cachorro
e mesa e só posteriormente, pelo processo de metonímia, as categorias
genéricas animal e móveis e as particulares como boxer e mesa de
cabeceira. Da mesma forma que a metáfora é o processo para estender os
esquemas imagéticos, a metonímia é o processo para estender as categorias.
Também aqui metonímia não se refere à figura de linguagem que
aprendemos nos manuais de retórica ou nas gramáticas tradicionais. Trata-
se antes de um processo cognitivo que permite criar relações de hierarquias
entre conceitos. A sentença (37) é um exemplo de metonímia:
(37) O governo decretou o fim do seguro-desemprego.
É, pois, por meio dos processos cognitivos da metáfora e da metonímia
que estendemos nossos esquemas e categorias para além das nossas
experiências físicas imediatas na direção da abstração.
Intervalo VIII
Procure mostrar que a propriedade “voar” não é nem necessária nem suficiente para que algo
pertença à categoria AVE.
Procure descrever, a partir do conceito de protótipo, a categoria MÃE.
Explique por que a sentença a seguir é uma metonímia:
(1) A Maria saiu com o seu animal de estimação.
Vamos agora nos contentar em apresentar em suas linhas gerais a
abordagem cognitiva para as pressuposições. Sobre esse assunto, a grande
contribuição tem sido de Gilles Fauconnier (1985).21 Esse autor parte da
hipótese de que na interpretação formamos espaços mentais, estruturas
conceituais que descrevem como os falantes atribuem e manipulam a
referência, dentre elas as descrições definidas. Em conformidade com os
postulados da Semântica Cognitiva, o significado não está na linguagem;
antes, a linguagem é como um método, uma receita, que permite a
identificação de uma estrutura cognitiva subjacente. Para dar conta da
referência, Fauconnier propõe que durante a interpretação construímos
domínios ou espaços mentais nosquais ela ocorre. Suponha a sentença:
(38) Júlio César conquistou o Egito.
Na interpretação de (38) criamos um espaço mental em que Júlio César
se refere ao personagem histórico na nossa mente e não no mundo. O que
ocorre se repentinamente passamos a falar do personagem de Shakespeare,
como na sentença (39)?
(39) Na peça de Shakespeare, Júlio César conquistou o Egito.
Nesse caso, diz Fauconnier, abrimos um novo espaço mental, em que
Júlio César não se refere ao personagem histórico, mas ao ficcional, mas
mantemos relações entre eles.
É a partir desse arsenal teórico que Fauconnier propõe uma análise
distinta das pressuposições, já que elas nem garantem a referência a
entidades no mundo, nem são procedimentos argumentativos; são antes
entidades mentais/cognitivas. Sem entrar nos detalhes, retornemos à
sentença sobre Maria ter parado de fumar, a sentença (16). Dissemos, então,
que a sentença veiculava a pressuposição de que Maria fumou um dia.
Mostramos que a sentença negativa pode ser descrita como comportando
uma ambiguidade: ou negamos a pressuposição, Maria não fumava antes,
ou negamos o predicado, Maria não parou de fumar. Na Semântica
Cognitiva, a pressuposição é descrita como significados que se transferem
de um espaço mental para outro. No caso da sentença (16), estaríamos
diante de dois espaços mentais: um em que está a informação de que Maria
já fumou; outro que diz que ela parou de fumar. Quando interpretamos,
acionamos os dois espaços mentais. No caso de negarmos o primeiro
espaço mental, isto é, Maria nunca fumou, essa informação não é
transportada para o segundo espaço mental. Já, se Maria fumou um dia,
então a pressuposição é carregada para o segundo espaço mental, e a
negação incide sobre o fato de ela ter parado de fumar.
O mesmo raciocínio se aplica ao caso do rei da França. Formamos, na
interpretação, dois espaços mentais: um em que há um e apenas um rei da
França, independentemente de haver de fato um rei da França, isto é,
independentemente da relação de referência. Essa sentença, que se originou
no espaço mental A, ou permanece nesse espaço mental (se, por exemplo,
negamos que há um único rei da França), ou se move até o espaço mental B
(em que se afirma que o único rei da França é careca) e se torna uma
pressuposição de B — nesse caso, a negação só poderá atingir a afirmação
de que ele é careca.
5. UMA RÁPIDA CONCLUSÃO
Na introdução dissemos que nossa intenção era apresentar um
instrumental que já faz parte do campo da Semântica, independentemente
do modelo adotado, e que permite mostrarmos como o “mesmo” fenômeno
ganha diferentes descrições. Esse é o caso dos problemas levantados com
relação à referência, à pressuposição, às definições definidas, à
categorização. Ao apresentarmos como esses problemas são descritos de
modos diferentes, queríamos mostrar as linhas mestres dos modelos
semânticos atuais: o modelo formal, o modelo enunciativo e o modelo
cognitivo. Se conseguimos apresentar esse quadro minimamente,
acreditamos que você, leitor, tem condições de seguir em frente, de
aprofundar (veja aí uma metáfora para a Semântica Cognitiva) seus estudos.
É por isso que apresentamos, ao longo deste capítulo, várias referências
bibliográficas que permitem iniciar um estudo menos superficial a respeito
de cada um dos modelos apresentados. Contamos ainda ter mostrado que,
na Linguística contemporânea, não há nem uma resposta única para o
problema do significado, nem uma metodologia única para descrevê-lo.
Essa pluralidade de modelos transparece também no fato de que, muitas
vezes, aquilo que é problema para um modelo não o é para outro. É esse o
caso da categorização, que interessa à Semântica Formal e à Semântica
Cognitiva, mas que é secundário na Semântica da Enunciação.
Finalmente, se não for esperar demais, esperamos ter deixado o leitor
com a “pulga atrás da orelha”, com uma certa certeza de que qualquer
descrição semântica está necessariamente engajada numa visão da
linguagem, o que implica uma explicação para a relação entre linguagem e
mundo, linguagem e conhecimento. Adotar a abordagem da Semântica
Formal não é apenas utilizar o instrumental lógico para descrever a
linguagem — o que em si poderia ser feito por quaisquer das abordagens
aqui propostas —, mas assumir que a linguagem natural se estrutura
logicamente e que o significado é uma relação entre o linguístico e o não
linguístico. Esses são pontos de discussão. É verdade que a linguagem tem
uma estrutura, mas que ela seja lógica... Se adotamos o ponto de vista da
Semântica da Enunciação ou da Semântica Cognitiva, jogamos fora a ideia
de que a verdade tem algo a ver com o significado, de que o extralinguístico
tem um papel na fundamentação do significado. Esse também é um
postulado polêmico. Na Semântica da Enunciação, o significado é descrito
nas relações de dialogia, de argumentatividade. Ele não serve, pois, para
apontar algo no mundo exterior, mas para convencer, para seduzir o outro.
Enredado na linguagem, não há como transcendê-la. No modelo da
Semântica Cognitiva também abandonamos a ideia de verdade como dando
suporte ao significado, porque ele está no corpo que vive, que se move, que
está em várias relações com o meio e não na correspondência entre palavras
e coisas.
Que a heterogeneidade pode tornar as coisas mais complicadas para
aqueles que querem fazer semântica é certo, mas ela pode também ajudar a
ver que talvez a linguagem seja de fato um objeto muito complexo. Tão
complexo que somente deixando coexistir diferentes abordagens, somente
espiando a linguagem por diferentes buracos de fechadura, poderemos um
dia chegar a compreendê-la melhor.
RESPOSTAS
Intervalo I: A referência de a capital da França e Paris é Paris, o objeto no
mundo. Atente para a distinção entre linguagem e objeto. A referência de
Paris é a capital da França, uma sentença, é o verdadeiro, porque no nosso
mundo Paris é a capital da França. Eis alguns exemplos de sentido para
descrever o Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, a capital do Império, a cidade
do Cristo Redentor.
Intervalo II: 1) Há várias possibilidades de recortar a primeira sentença: ser
casado com (predicado de dois lugares), ser casado com Maria (predicado
de um lugar), João ser casado com (predicado de um lugar). A segunda
sentença é um exemplo de predicado de um lugar: ser brasileira. Cuidado
aqui, porque não é possível recortar a sentença como ___ é ___, pois
brasileira não é um nome próprio, não tem sentido completo, nem
referência, e o verbo ser não está estabelecendo uma identidade, mas
pertença a um conjunto. A última sentença pode ser recortada de três
formas: Oscar é jogador de, ser jogador de, ser jogador de basquete.
2) Em Todo homem é casado com alguma mulher, para todo elemento
do conjunto dos homens corresponde um elemento do conjunto das
mulheres. Nesse caso, o universal tem escopo sobre o existencial. Já em Um
homem é casado com todas as mulheres, afirmamos que há um único
homem que é casado com todos os elementos do conjunto mulheres. Nesse
caso, o existencial tem escopo sobre o universal. Finalmente, na última
sentença temos um caso de ambiguidade, porque temos dois operadores não
e de novo: mais uma vez Maria não está grávida — ou seja, ela nunca
esteve grávida antes, e dessa vez, de novo, ele não conseguiu engravidar —
ou Maria já esteve grávida, mas não está grávida dessa vez.
Intervalo III: A sentença João não escreveu sua tese para agradar a mãe
tem duas interpretações por causa do escopo da negação — isto é sua
amplitude:
(1) João não escreveu sua tese e o motivo de ele não ter escrito é a sua
mãe.
O operador de negação tem escopo sobre o evento denotado pelo verbo.
(2) João escreveu sua tese mas o motivo não foi a sua mãe.
A negação tem escopo sobre o motivo.
Há pressuposição factiva na sentença João lamenta a morte do pai,
porque para ser verdadeira ou para ser falsa é preciso que seja verdade que
o pai de João tenha morrido. Veja que se negamos a sentença João não
lamenta a morte do pai continua a ser verdadeiro que o pai morreu.Essa é a
pressuposição factiva quando a sentença pressupõe que houve um evento.
Intervalo IV: Segundo a Semântica da Enunciação, a sentença pode
comportar uma negação polêmica — Meu livro não foi reeditado, porque
não tenho livro — ou uma negação metalinguística — Não é verdade que
meu livro foi reeditado. A sentença exibe a seguinte estrutura:
E1: Eu tenho um livro.
E2: Este livro foi reeditado.
O enunciador E3 pode ou negar E1 ou negar E2.
A Semântica Formal descreveria esta sentença como ambígua. Num
caso, a negação teria escopo sobre a pressuposição de que eu escrevi um
livro; no outro, ela incidiria sobre a afirmação de que ele foi reeditado.
Fala-se aqui de duas formas lógicas distintas.
Intervalo V: A primeira sentença é um caso de masSN, porque há presença
de um enunciador que nega a fala João está cansado, e outro que repara a
descrição dessa fala: João está deprimido. Na segunda temos um masPA,
porque a primeira sentença, João foi ao cabeleireiro, nos leva a imaginar
que ele cortou o cabelo, precisamente a conclusão que é negada na segunda
parte da sentença.
A sentença João não saiu pode comportar diferentes tipos de negação,
dependendo do encadeamento discursivo em que ela aparece. A negação
pode ser descritiva ou metalinguística. Se você acabou de me dizer que João
saiu e eu replico com a sentença em questão, temos uma negação
metalinguística. O mesmo vale para a negação em O céu não está azul que,
dependendo do encadeamento linguístico, pode ser descritiva ou
metalinguística.
Intervalo VI: Em termos argumentativos, (1) e (2) são bastante diferentes. A
contribuição de sentido proporcionada pelo até está no fato de que ele
pressupõe uma escala de valores, em que o presidente do Brasil está no
topo. De modo que a sua presença é um argumento para a conclusão de que
a festa foi um sucesso.
Na sentença (1) seguinte, argumenta-se em favor da tese de que João
dormiu; ao passo que na sentença (2) a escala argumentativa vai na direção
do argumento de que João não dormiu.
Intervalo VII: As sentenças manifestam a presença de uma metáfora
conceitual: TEMPO É DINHEIRO, tanto que podemos gastá-lo,
economizá-lo, empregá-lo mal, investir nele...
Há muitos exemplos que confirmam a metáfora conceitual
ARGUMENTAÇÃO É UMA GUERRA. Eis alguns: Vou defender minha
tese hoje; Use todas as suas armas contra os argumentos dele; Ele atacou
meu ponto de vista.
Intervalo VIII: Há aves que não voam, portanto, voar não é uma
propriedade essencial das aves, por exemplo, os pinguins e as galinhas. Há
outras coisas que voam e não são aves, por exemplo, os insetos e os aviões.
De onde se conclui que essa propriedade não é suficiente para caracterizar a
categoria AVE.
A categoria MÃE se organiza ao redor da ideia de progenitora e de ser
aquela que cuida da criança, a provedora. As mães não biológicas são
provedoras.
Há metonímia porque animal de estimação é uma categoria
superordenada com relação à categoria de nível básico; não sabemos se é
cachorro ou gato ou qualquer outro animal o animal de estimação da Maria.
REFERÊNCIAS
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VOGT, C. O intervalo semântico. São Paulo: Hucitec, 1977.
1 Agradeço às organizadoras a oportunidade de reescrever este texto após 10 anos de sua primeira
publicação.
2. Sobre o significado de “significado”, o texto clássico é de Ogden e Richards (1976).
3. Ver Ilari (1995).
4. O termo “modelo” é utilizado aqui de modo informal, como se ele não fosse em si mesmo
problemático. Sobre a semântica no Brasil, ver Pires de Oliveira (1999).
5. A bibliografia em Semântica Formal é extensa. Manuais introdutórios em português são:
Kempson (1980), Ilari e Geraldi (1985), Chierchia (2003). Há muitos estudos sobre fenômenos do
português brasileiro que adotam a perspectiva formal. Ver, entre outros, Ilari (1998), Negrão (1992),
Borges (1991).
6. Indicações de respostas aparecem no final deste capítulo.
7. A visão mais aceita hoje em dia sobre quantificação foi proposta por Barwise e Cooper (1981).
8. Veja um retrato de Luís XVI em http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/RFLuis16.html
9. A descrição definida ganhou uma nova análise após o doutoramento de Heim (1982). Nessa
abordagem, a descrição definida carrega uma pressuposição de familiaridade.
10. Uma biografia divertida do Bertrand Russell e que faz uma revisão da sua importância para a
lógica, a linguagem e a matemática é um quadrinho recém-publicado: Logicomix. Ver Papadimitriou,
Doxiadis e Papadatos (2010).
11. Ver o capítulo “Análise do Discurso”, neste volume.
12. Há as teorias de coerência, ver Haack (1978).
13. Para uma introdução à Semântica da Enunciação, ver Ducrot (1979, 1987). A Semântica da
Enunciação tem contribuído para a descrição de vários fenômenos semânticos do português
brasileiro. Ver, entre outras análises, Vogt (1977), Koch (1984), Guimarães (1991).
14. Para uma descrição desse operador argumentativo, ver Guimarães (1991).
15. Esse marco da Semântica Cognitiva foi traduzido para o português como Metáforas da vida
cotidiana (Lakoff e Johnson, 2002). Para uma apresentação da Semântica Cognitiva, ver Lakoff
(1987). No Brasil, ver os trabalhos de Pontes (1990) e Lima (1997), entreoutros.
16. Ver o capítulo “Sintaxe”, no volume 1 desta obra. O fato de que a Semântica Cognitiva está em
franca oposição ao gerativismo impõe, como o leitor perceberá adiante, a discussão sobre aquisição
da linguagem. Sobre este último tema, ver o capítulo “Aquisição da Linguagem”, neste volume.
17. Na Semântica Cognitiva, os conceitos e esquemas são sempre apresentados em caixa-alta.
18. O trabalho de Sweetser (1991) sobre os modais em inglês é talvez uma das mais brilhantes
peças da Semântica Cognitiva. Nesse trabalho ela mostra, por evidências etimológicas, e também
pelos diferentes usos dos modais, que sua compreensão se sustenta num esquema da FORÇA.
19. Ludwig Wittgenstein foi um dos grandes filósofos da linguagem do século XX. Há muita
controvérsia em torno desse autor, em parte porque ele aparentemente alterou radicalmente sua
maneira de entender a linguagem. No Tractatus Logico-Philosophicus (1921), a linguagem refletia a
ordem do mundo; nas Investigações Filosóficas (1953), a linguagem é ação no mundo.
20. Sobre a categorização, ver Taylor (1989).
21. Para uma descrição detalhada, ver Fauconnier (1985).
2
PRAGMÁTICA
Joana Plaza Pinto
1. LINHAS GERAIS
De que tratam os estudos linguísticos que se classificam como
“pragmáticos”, ou pertencentes à área da Pragmática? Essa é uma pergunta
que pode gerar respostas tão variadas quanto o número de pessoas que se
dispuserem a respondê-la. Um número muito grande de trabalhos, com
temas e objetivos os mais diversos, circula nos periódicos e outras
publicações declaradamente inseridos no domínio da Pragmática. Pode-se,
no entanto, a partir de um grupo mais ou menos coeso desses estudos,
procurar delimitar a Pragmática, admitindo a diversidade. Vamos assim
tentar compreender um pouco da história da constituição dessa área tão
heterogênea, procurando ao mesmo tempo evidenciar o que, em meio a
diferentes perspectivas, torna possível reconhecer certos tipos de estudos
linguísticos como pragmáticos.
Mesmo que se admita a variedade presente na Pragmática, também se
deve admitir que as autoras e autores desse domínio compartilham certos
pressupostos. Haberland e Mey (1977), editores do Journal of Pragmatics,
na primeira edição desse periódico, afirmam que a Pragmática analisa, de
um lado, o uso concreto da linguagem, com vistas em seus usuários e
usuárias, na prática linguística; e, de outro lado, estuda as condições que
governam essa prática. Assim, em primeiro lugar, a Pragmática pode ser
apontada como o estudo do uso linguístico. As pessoas que a estudam
esperam explicar antes a linguagem do que a língua. Essa afirmação é
decorrente da dicotomia clássica saussureana língua/fala: Saussure (1991)
defende que a língua, que seria o objeto de estudo da Linguística por
excelência, é a linguagem menos a fala,1 enquanto a Pragmática se inicia
justamente defendendo a não centralidade da língua em relação à fala. Em
outras palavras, a Pragmática aposta nos estudos da linguagem, levando em
conta também a fala, e nunca nos estudos da língua isolada de sua produção
social. Dessa forma, os estudos pragmáticos pretendem definir o que é
linguagem e analisá-la trazendo para a definição os conceitos de sociedade
e de comunicação descartados pela Linguística saussureana na subtração da
fala, ou seja, na subtração das pessoas que falam.
Um segundo ponto acordado entre os estudiosos e estudiosas dessa área
é que os fenômenos linguísticos não são puramente convencionais, mas sim
compostos também por elementos criativos, inovadores, que se alteram e
interagem durante o processo de uso da linguagem. Numa pequena fita
cassete, com uma gravação curta de alguém conversando com um linguista,
vamos escutar trechos do tipo:
(1)
Entrevistadora: Então ela largou o namorado?
Entrevistada: Eu vi ela largar... largou sim... largou a ele...
Entrevistadora: A ele?
Entrevistada: É, a ele, sim; a ele... largou a ele aquela vida infeliz que eles tinham juntos... largou
a ele.
Repare que a entrevistadora tem um impasse de interpretação da fala da
entrevistada porque esta última cria uma estrutura “alterada”, um objeto
indireto inesperado, no entanto de extrema importância para o
entendimento, não só do que a entrevistada queria dizer, mas
principalmente das possibilidades expressivas de inovações linguísticas. O
que vemos aqui não é poesia, ou variação linguística. Ainda que poesia e
variação expressem esse mesmo tipo de situações criativas, esse diálogo (1)
é a prova de que não é produtivo descrever a linguagem como um sistema
delimitável, mas sim que esta deve ser trabalhada a partir da possibilidade
de se juntar grupos de indícios sobre seu funcionamento, tendo como limite
possível um recorte convencional, não justificado por qualquer fator
inerente à linguagem. Quando a análise linguística é feita em outros moldes,
trechos como de (1) são descartados como erros de uso do sistema, ou, na
melhor das hipóteses, exceção — “licença poética”.
A variedade de materiais que são analisados nas publicações aceitas
pelo Journal of Pragmatics nos ajuda a perceber que linguistas estão se
dedicando às situações de “exceção”, fundamentais na compreensão da
linguagem em uso: diálogos colhidos entre falantes de uma comunidade,
literatura, poesia, humor, e podemos ler mesmo trabalhos analisando
material linguístico visual, como cartuns e propagandas.
Explicar a linguagem em uso e não descartar nenhum elemento não
convencional: esses dois pontos comuns aos estudos pragmáticos formam
uma linha derivada da história da preocupação com o uso linguístico. No
final do século XIX, a Filosofia iniciou um redirecionamento na forma de
responder a suas perguntas. Desde Kant,2 os estudos filosóficos passaram a
ser entendidos como um conjunto de critérios para avaliar a maneira pela
qual a mente é capaz de construir representações. Mais tarde, então, no final
do século XIX, os estudos filosóficos cunharam sua variante da filosofia
kantiana, defendendo principalmente que representação é antes linguística
do que mental, e que se deve refletir antes em filosofia da linguagem que
em crítica transcendental.3 Assim, objetivos filosóficos de discutir e
descrever nossa representação do mundo respaldaram um movimento em
direção às usuárias e usuários da linguagem, acarretando uma tendência
análoga no âmbito da Linguística. A Pragmática é fruto desse movimento
em direção aos problemas relativos ao uso da linguagem, por isso, ao
estudarmos a constituição dessa área, devemos acompanhar também um
pouco da história dos grupos filosóficos que a influenciaram. Como bem
afirma Françoise Armengaud (2006, p. 9), a Pragmática é “uma das mais
vivas no cruzamento das pesquisas em filosofia e em linguística, atualmente
indissociáveis”.
2. OBJETOS E MÉTODOS DA PRAGMÁTICA
Como a Pragmática é uma área genericamente definida por pesquisar
sobre o uso linguístico, os temas escolhidos para análise são amplos e
variados. Em publicações da Pragmática podemos ler estudos teóricos sobre
a relação entre signos e falantes, como é o caso do estudo de Mey (1985),
que procura debater o lugar da linguagem na sociedade, de uma perspectiva
marxista, discutindo o conceito de manipulação linguística. Também
encontramos levantamento de aspectos de diálogos entre falantes de uma
mesma comunidade ou comunidades diferentes (Verschueren e Bertuccelli-
Papi, 1987). Observe o diálogo a seguir:
(2)
A: Você viu meu rato por aí?
B [apontando um rádio ao seu lado]: Está aqui o rádio.
A: Não, é o rato mesmo. Meu rato de borracha.
B compreende a palavra rato, mas considera 1º) a improbabilidade de
alguém estar procurando seu próprio rato (!); 2º) a proximidade concreta
[ao seu lado] de um objeto e fonológica da palavra que se refere a esse
objeto. Assim, uma análise pragmática desse diálogo deve considerar tantos
aspectos da estrutura da própria língua quanto aspectos relacionados ao
usuário ou à usuária (a situação que ele/ela vivencia).
Um outro tipo de tema comumente levantado pelos estudos pragmáticos
são os funcionamentos e efeitos de atosde fala. Atos de fala é um conceito
proposto pelo filósofo inglês J. L. Austin para debater a realidade de ação
da fala, ou seja, a relação entre o que se diz e o que se faz — ou, mais
acuradamente, o fato de que se diz fazendo, ou se faz dizendo. Discutiremos
melhor esse conceito na seção 2.2. Por enquanto, vale ressaltar que alguns
estudos, cada qual com seu critério, procuram, por exemplo, classificar os
atos de fala de acordo com seus efeitos. É o caso de Benveniste (1991), que
pretende classificar os atos de fala. De um lado teríamos aqueles atos que
seriam compostos por um verbo declarativo jussivo na primeira pessoa do
presente mais uma afirmação, como:
(3) Eu ordeno que você saia.
Ainda que ele não explique detalhadamente o que seriam esses tipos de
verbos, na lista dos “declarativos-jussivos”, Benveniste inclui ordenar,
comandar, decretar, o que nos leva a perceber esses verbos como
estabelecendo uma relação entre “declaração de uma ação” e “jus à posição
de autoridade para tal ação”. Assim, ordenar não só explicita, “declara” a
ação feita por quem fala, como este deve estar apto a fazê-lo. No caso do
exemplo (3), “ordenar” é o verbo declarativo-jussivo, e “você saia”, a
afirmação. De outro lado, Benveniste propõe outro conjunto de atos de fala,
atos estes que seriam compostos por um verbo com complemento direto
mais um termo predicativo, tal qual:
(4) Proclamo-o eleito vereador.
Essa classificação proposta por Benveniste não é a única e mesmo pode
ser firmemente contestada (cf. Ottoni, 1998).
O mais importante é se perceber que, ao selecionar, entre tantos
fenômenos de linguagem em uso, quais devem ou não ser estudados, e a
quais perguntas devem ser submetidos tais fenômenos, os autores e autoras
da Pragmática acabam por fazer aparecer suas diferenças. A influência de
grupos filosóficos nessas seleções de objetos e métodos é patente e será
usada aqui para delimitar os diferentes grupos de estudos pragmáticos.
São três os grupos principais de estudos. O pragmatismo norte-
americano, influenciado pelos estudos semiológicos de William James; os
estudos de atos de fala, sob o crédito dos trabalhos do inglês J. L. Austin; e
os estudos pragmáticos interdisciplinares, com preocupação firmada nas
relações sociais, de classe, de gênero, raciais e entre culturas, presentes na
atividade linguística. Este último grupo é especialmente diverso4 e, sem
dúvida, é o que mais tem se desenvolvido nos últimos anos.
Vale a pena observar que, entre os autores e autoras que são referência
para a Pragmática, também estão os franceses Oswald Ducrot e Émile
Benveniste, e o britânico H. P. Grice. Até o final da década de 1980, muitos
trabalhos cuja orientação teórica está fundamentada nesses autores
incluíam-se na área da Pragmática. Entretanto, a evolução de seus trabalhos
conferiram-lhes campos de estudos e métodos hoje separados dos
pragmáticos. A Semântica Argumentativa e a Análise da Conversação são
duas áreas de estudo outrora participantes do movimento que integrou
componentes pragmáticos aos estudos linguísticos. Neste momento
histórico da Linguística, são mais enriquecedoras quando estudadas como
áreas diferentes. Mas não estranhem a leitora e o leitor se encontrarem,
ainda hoje, os nomes desses autores associados de alguma forma à
Pragmática.5
2.1. Pragmatismo norte-americano
Foi o filósofo norte-americano Charles S. Peirce o primeiro autor a
utilizar a palavra pragmatics, no seu artigo How to make our ideas clear, de
1878. Peirce exerceu influência sobre vários filósofos e assim foram
divulgadas suas ideias sobre a tríade pragmática. Essa tríade representa a
relação entre signo, objeto e interpretante. O que Peirce procurou destacar
ao postular essa tríade foi a necessidade de se teorizar a linguagem levando-
se em conta o que sempre foi lembrado na Linguística, ou seja, o sinal, mas
também aquilo a que este sinal remete e, principalmente, a quem ele
significa. Num dos trechos de sua obra, Peirce explica:
[Os que se dedicavam ao estudo] da referência geral dos símbolos aos seus objetos ver-se-iam
obrigados a realizar também pesquisas das referências em relação aos seus interpretantes, assim
como de outras características dos símbolos e não só dos símbolos, mas de todas as espécies de
sinais. Por isso, atualmente, o homem que pesquisa a referência dos símbolos em relação aos seus
objetos será forçado a fazer estudos originais em todos os ramos da teoria geral dos sinais.6
É bom ressaltar que a ideia da tríade pragmática e toda a teoria que a
acompanha são complexas. Peirce fez um trabalho prolongado, procurando
explicar exaustivamente os componentes de sua teoria do signo, definindo e
subdividindo cada um dos itens para explorar ao máximo sua capacidade
explicativa e seu alcance teórico — só os sinais ele subdividiu em dez
classes principais!
Devemos aqui nos deter na repercussão de seu trabalho, na sua proposta
principal de expor todos os aspectos da relação símbolo-objeto-
interpretante. Os dois principais seguidores de Peirce, e que passaram
adiante interpretações da obra deste autor, foram William James e Charles
W. Morris.
Ao travar contato com o círculo de filósofos de Viena, Morris sabe da
proposta de Rudolf Carnap de dividir as investigações sobre linguagem em
três campos: a Sintaxe, que trataria da relação lógica entre as expressões; a
Semântica, que trataria da relação entre expressões e seus significados; e a
Pragmática, que estaria responsável por tratar da relação entre expressões e
seus locutores e locutoras. Repare que essa partição ternária lembra muito
os três pontos cruciais da significação para Peirce: o signo propriamente,
em Carnap destacado pela ideia de que uma área, a Sintaxe, poderia tratá-
lo; o significado, ou a que remete o signo, tratado na Semântica; e a pessoa
que interpreta o signo, tratado, de acordo com Carnap, pela Pragmática.
Essa proximidade entre os dois raciocínios entusiasma Morris. Em 1938,
Morris atesta, com Foundations of the theory of signs,7 a doutrina
pragmática de Peirce, e defende a interdependência, combatendo a
hierarquização dos três campos. Assim, Morris mostra-se fortemente
influenciado pelo grupo de empiricistas de Viena, mas, ao mesmo tempo,
busca minimizar a força da separação entre os três campos de estudo, o que,
consequentemente, afastaria, na prática da pesquisa linguística, os três
elementos da tríade pragmática. Entretanto, ainda que esse gesto de Morris
seja bastante apropriado ao pensamento de Peirce, é forte a ascendência do
empirismo lógico em seu pensamento, fazendo com que sua obra se
direcione para outros caminhos, como, por exemplo, para fundamentar a
doutrina da ciência unitária defendida pelos empiricistas.
Seguindo outro caminho, o filósofo William James aproveitou de Peirce
a ideia de refletir no âmbito da filosofia sobre os sinais e seus significados.
Ao escrever o ensaio Philosophical conceptions and practical results, em
1898, vinte anos depois de Peirce ter utilizado a palavra pragmatics, James
cunha pragmatism e inaugura o que ficou conhecido como Pragmatismo
norte-americano. Mas as ideias de James só vieram a causar impacto no
século XX, sob a égide de novos filósofos empenhados em definir a
filosofia, e também a linguagem e o conhecimento, como uma prática
social. A definição mais popular de James é a de verdade como “o que é
melhor para nós acreditarmos”. Essa fórmula é bastante polêmica. Desde
Platão, que discutiu com certa constância a questão “A que se pode chamar
corretamente verdadeiro ou falso?”, a maior parte dos textos filosóficos,
especialmente influenciados pela lógica clássica, até então tinha definido
verdade como um conceito que está fora das pessoas, pois o que é
verdadeiro estaria sempre em conformidade com o mundo. Desse modo, a
verdade seria suscetível de ser encontrada e confirmada. Esse conceito de
verdade sempre foi extremamente importante para a definição de
significado, pois a conceitualização deste último girava em torno da
correspondência entre o mundo e a palavra. WilliamJames, por meio de sua
reflexão filosófica baseada em componentes pragmáticos, valoriza a pessoa
que fala como detentora do próprio significado, já que a verdade, palavra-
chave na compreensão da relação entre mundo e linguagem, nada mais é
que aquilo que todos e todas nós, inseridos/as numa comunidade, queremos
que ela seja. Repare como essa posição de James desloca com grande força
o tratamento do significado linguístico, porque impele o debate acerca da
verdade para o terreno do imprevisível: as pessoas sociais. No momento em
que ele relativiza a noção de verdade, atinge em cheio todo o discurso sobre
a possibilidade de conhecimento de fato, pois duvida da própria ideia de
confirmação no mundo deste conhecimento.
É o norte-americano Willard V. Quine quem inicia um grande empenho
em prosseguir as ideias pragmatistas de James e Peirce. Quine, como
Morris, também estuda o empirismo lógico do Círculo de Viena, mas
abandona de vez o vocabulário logicista e reforça muitas das ideias de
Peirce, reformulando-as no que ele chamou de pragmatismo radical. Sua
atitude contra a tradição lógica é ousada. Com Quine, podemos aprender
que muitos argumentos utilizados pela Semântica lógica para sustentar a
exclusão do usuário e da usuária na análise do significado são questionáveis
em sua própria condição de argumento válido.
Para entendermos o radicalismo da proposta pragmática de Quine,
devemos nos deter um pouco na questão da determinação da referência, e
procurar perceber como Quine levanta o problema de que determinar o
objeto referido por uma expressão é uma questão muito mais séria do que
simplesmente encontrá-lo ou não no mundo. Muitas dificuldades podem ser
levantadas para se apontar um objeto referido. Quine (1980), defendendo
que a indeterminação da referência permanece não importa com qual tipo
de expressão referencial estejamos trabalhando, apresenta a situação do uso
de expressões demonstrativas. A sentença
(5) Esta mesa está quebrada.
proferida numa situação similar à ostensão, não deixa de produzir
perguntas: o que está sendo referido para o predicado “está quebrada”: a
quina da mesa? o pé da mesa? as dobradiças? Se concordamos com Quine,
essas perguntas não são realmente problemas referenciais. É perfeitamente
aceitável, do ponto de vista de qualquer falante, que permaneça a
indeterminação da parte da mesa que está quebrada. A apreensão do objeto
referido fica assim fragmentada, e não mais transparente.
Com exemplos como este, Quine está defendendo a tese de que a
referência é impenetrável, no sentido de que não se pode determinar “com
toda certeza” o alcance da expressão referencial no mundo. É a famosa tese
da inescrutabilidade da referência, a base de sua visão holista. A
inescrutabilidade da referência é a prova cabal de que as discrepâncias
entre significações só podem ser teorizadas a partir da sua condição
pragmática. Quine (1968) nos explica isso mostrando que um linguista em
pesquisa de campo, que ouve um nativo dizer “gavagai” apontando para um
coelho que passa, só pode interpretar pragmaticamente esse ato. Nada
garante que “gavagai” possa ser traduzido como “coelho” ou “parte de
coelho” ou “coelho andando”. Sua tradução só pode ser feita a partir da
prática linguística que o produziu.
Outros dois estudiosos do Pragmatismo norte-americano que se
destacam são Donald Davidson e Richard Rorty. Ambos admitem créditos
por suas ideias aos trabalhos dos filósofos James Dewey e L. Wittgenstein.
Estes últimos autores acrescentaram uma perspectiva historicista aos
estudos pragmáticos norte-americanos, defendendo que as investigações
dos fundamentos da linguagem podem ser consideradas uma prática social
contemporânea. A Teoria da coerência elaborada por Davidson (1986), e
respaldada pelas críticas de Rorty (1994) à tradição analítica8, delineia um
arcabouço teórico para tratar a coerência interna, e não a verdade, como o
elemento que sustenta qualquer sistema interpretativo. Sua defesa polemiza,
portanto, em torno daquela noção clássica de verdade que citamos
anteriormente, e contrapõe-se à Teoria da Correspondência, presente na
definição clássica de significado. Essa última sustenta que sentenças e
coisas no mundo podem ser relacionadas a fim de calcular valores de
verdade dessa relação. Para Davidson, se há coerência, pouco importa o
valor de verdade dessa correspondência. Dessa forma, o que Davidson quer
mostrar é que as atitudes proposicionais de uma pessoa, sua fala, crenças e
intenções são verdadeiras porque existe um princípio legítimo que diz que
qualquer uma das atitudes proposicionais do/a falante é verdadeira se ela é
coerente com o conjunto de atitudes proposicionais desse/a mesmo/a
falante. Tomemos um exemplo:
(6)
A: Estou pensando em assistir ao carnaval em Olinda. Você, que é de lá, sabe se tem muito
barulho?
B: Não, tem polícia, é tudo bem organizado.
A: A polícia não deixa ter muito samba?
B: Não, a polícia não deixa as pessoas bagunçarem as ruas.
A: Não, não foi isso que eu quis dizer. Eu não estou falando de barulho como bagunça, estou
falando de barulho de batida de samba.
Esse trecho ilustra o que, entre linguistas, é conhecido como “mal-
entendido”, um momento no diálogo em que não há coincidência de
interpretação entre participantes. Muitos estudos têm procurado estabelecer
padrões para a “resolução” desses chamados mal-entendidos, justificando,
por exemplo em (6), que a expressão “barulho” é empregada com
diferenças culturais suficientemente marcantes para causar diferença
também na interpretação preferencial de tal expressão.
Um exemplo deste tipo de ideia de que mal-entendidos são erros e
devem ser resolvidos é um texto de M. Dascal (1986) chamado A
relevância do mal-entendido9. Não se iludam pelo título. O texto de Dascal
procura responder com especial ênfase à questão sobre a relação entre
entender e mal-entender. De acordo com esse autor, o mal-entendido
relaciona-se com o entender na medida em que ambos estão ligados a
camadas de um esquema conversacional que é sempre utilizado pelos
interlocutores e interlocutoras na atividade de linguagem.
Dascal pretende mostrar que o mal-entendido deve ser tratado como um
fenômeno importante no trabalho com a linguagem. Mas ele defende que,
de fato, esta relação entre entendimento/mal-entendido é importante na
medida em que revela o funcionamento do entendimento. Dessa maneira,
como toda dicotomia, esse par não passa de uma hierarquia camuflada, em
que o mal-entendido é um “mau funcionamento” do esquema de
significação harmônico. Como em toda hierarquia, um elemento se
sobrepõe ao outro, e, sem dúvida, neste caso, não é o mal-entendido o
membro positivamente valorado do par. Seu enfoque não é para integrar
propriamente o mal-entendido ao esquema interpretativo, mas sim criar um
mecanismo que o evidencie e ao mesmo tempo permita corrigi-lo. Podemos
compreender que Dascal considere “um tanto paradoxal” defender a
importância do mal-entendido em sua análise: a relação que o autor defende
entre entender e mal-entender não pode efetivamente integrar o segundo
elemento ao esquema interpretativo; ao contrário, sua importância
“paradoxal” está em ser levado em conta para ser eliminado.
Esse texto de Dascal nos serve de exemplo da forma como têm sido
tratados os fatos linguísticos que resultam no mal-entendido: intempéries a
serem corrigidas, evitadas, impedidas. Quando um autor como Dascal
defende que se deve corrigir um mal-entendido, é porque ele pressupõe que
a noção de entendimento deve ser mantida intocada.
Mas uma análise linguística baseada nos debates de Davidson e Rorty
acerca da coerência de sistemas interpretativos ilumina outros ângulos da
questão do mal-entendido. Por que pensar em “mal-entendido” se existe
apenas coerência interna nos sistemas interpretativos? Duas pessoas de
culturas diferentes podem encontrar dificuldades em manter um diálogo
produtivo, sim. Mas também pessoas de mesma cultura lidam com
situações como a anterior, pois cada uma encaminha suas interpretações de
maneira singular. Teorizardessa forma sobre linguagem não tem nada a ver
com pensar que cada qual diz o que quer e entende quem puder. A ideia de
coerência interna em sistemas linguísticos nos diz, muito mais
apropriadamente, que é inadequada a argumentação em torno de “mal-
entendido”, pois o processo que acarreta esse fenômeno desconcertante dos
diálogos cotidianos é parte coerente de uma interpretação, e não deve ser
encarado como “erro” ou “inadequação” de significado.
Dessa forma, podemos afirmar que a conversação humana é, para esse
grupo de estudos da Pragmática mais do que para qualquer outra, uma
prática linguística. Prática entendida como sempre social, e no sentido que
colocou James, como “aquilo que é melhor para nós”, no caso, falarmos,
praticarmos como linguagem. O Pragmatismo norte-americano oferece,
então, bases filosóficas para uma análise linguística que relacione a todo
momento signo e falante, antes de qualquer coisa, compondo ambos o que
se chama de fenômeno linguístico.
2.2. Atos de fala
G. E. Moore assistiu a cursos proferidos por Wittgenstein e definiu o
pensamento desse autor como um desvio no desenvolvimento da tradição
filosófica (Silva, 1980). O que ele chamou de “desvio” seria um
encaminhamento das preocupações dos estudiosos para a linguagem
corrente. É Moore quem faz repercutir entre os filósofos da Universidade de
Oxford esse redirecionamento. Autores como Gilbert Ryle, John Langshaw
Austin e Peter Frederick Strawson seguem as indicações de Moore e de
Wittgenstein para examinar a linguagem corrente como fonte de solução
para os problemas filosóficos. É o movimento que ficou conhecido como
Filosofia Analítica ou Filosofia da Linguagem Ordinária, e que tem como
resultado principal para os estudos linguísticos os Estudos de Atos de Fala.
Depois do impacto do ensaio de Ryle, Systematic misleading
expressions, de 1932, foi aberto o espaço para se debater como as
construções gramaticais podem levar a confusões lógicas ineficientes entre
filósofos e filósofas. Na esteira dessa abertura, Austin foi quem melhor
expôs o problema, discutindo a materialidade e historicidade das palavras.
Seus estudos procuraram refletir sobre a possibilidade de uma teoria que
explicasse questões, exclamações e sentenças que expressam comandos,
desejos e concessões. Os Estudos de Atos de Fala, que tem por base
conferências de Austin publicadas postumamente em 1962 sob o título How
to do things with words (Austin, 1990), concebem a linguagem como uma
atividade construída pelos/as interlocutores/as, ou seja, é impossível
discutir linguagem sem considerar o ato de linguagem, o ato de estar
falando em si — a linguagem não é assim descrição do mundo, mas ação.
Uma das distinções mais importantes feitas por Austin nesta sua defesa
dos atos de fala é entre os enunciados performativos, como aqueles que
realizam ações porque são ditos, e os enunciados constativos, que realizam
uma afirmação, falam de algo. O exemplo abaixo:
(7) Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
é um enunciado performativo pois, como os anteriormente citados (3) e
(4), “pratica” uma ação enquanto é enunciado. Somente proferindo “Eu te
batizo” é que o padre pode batizar alguém, e isso é o que caracteriza a
performatividade. Por outro lado, Austin propõe a existência de enunciados
constativos, como os representados pelo exemplo abaixo:
(8) A mosca caiu na sopa.
Neste caso (8), não haveria uma ação praticada, ao contrário, a ação [a
mosca cair na sopa] já ocorreu e provavelmente por isso há o enunciado. A
análise dos contrastes entre esses tipos de enunciados, o performativo e o
constativo, levou Austin a prosseguir no raciocínio e aventar a separação de
níveis de ação linguística através de enunciados. Ele propôs chamar atos
locucionários aqueles que dizem alguma coisa; atos ilocucionários, aqueles
que refletem a posição do/a locutor/a em relação ao que ele/a diz; e atos
perlocucionários, aqueles que produzem certos efeitos e consequências
sobre os/as alocutários/as, sobre o/a próprio/a locutor/a ou sobre outras
pessoas. Esses três níveis atuam simultaneamente no enunciado. Para
entender melhor, vejamos uma rápida análise:
(9) Eu vou estar em casa hoje.
Em (9), o ato locucionário seria o conjunto de sons que se organizam
para efetivar um significado referencial e predicativo, quer dizer, para
efetivar uma proposição que diz alguma coisa sobre “eu”. O ato
ilocucionário é a força que o enunciado produz, que pode ser de pergunta,
de afirmação, de promessa etc., o que, neste caso de (9), fica diluído entre
uma promessa e uma afirmação, dependendo do contexto em que é
enunciado. O ato perlocucionário é o efeito produzido na pessoa que ouve o
enunciado: efeito de agrado, pois gostaria de estar mais tempo em casa com
quem enunciou (9); ou efeito de ameaça, pois vai se sentir vigiada por
aquela presença na casa, e assim por diante.
Uma constatação importante é que os atos de fala são muitas vezes de
efeito ambíguo, podendo expressar tanto uma promessa quanto uma
ameaça, e assim por diante. Para solucionar o dilema, falantes costumam se
basear em indícios explicitados no momento da fala, ou amplamente
percebidos na relação entre as pessoas que falam. Dessa forma, podemos
dizer que os atos de um enunciado ocorrem simultaneamente, são relativos
ao contexto de fala e às pessoas que falam, e são interpretáveis com uma
amplitude muitas vezes difícil de ser descrita nos limites de uma análise
linguística.
Nos cursos que deram origem à obra How to do things with words,
Austin dedica-se principalmente aos verbos performativos, ligando as
realidades tanto verbal quanto não verbal. O grande furor causado
inicialmente pela ideia de performatividade tinha a ver com a
impossibilidade, ditada pelo próprio Austin, de manter a distinção
verdadeiro/falso para esses tipos de enunciados. Em 1958, num encontro de
Royaumont, França, um filósofo questionou longamente Austin,
argumentando que um enunciado performativo poderia ser sim verdadeiro
ou falso no que se relaciona àquele que fala, ou no sentido do próprio ato
em si. Austin respondeu de forma insistente:
Pode-se dizer de um ato que ele é útil, que é conveniente, que ele é mesmo sensato, não se pode
dizer que ele seja true or false. Qualquer que seja ele, tudo que posso dizer é que os enunciados
desse tipo são muito mais numerosos e variados do que se acreditava10.
Nesse famoso debate, para sustentar a impossibilidade de atribuição de
valor de verdade para os enunciados performativos, Austin trata de mostrar
como muitos enunciados com aparência de constativos são de fato
performativos, como é o caso de “Eu te digo para fechar a porta”. Esse seu
argumento desvela uma outra ousadia de Austin: ele próprio jamais sentiu
inteira satisfação com a distinção constativo-performativo, e questionou-a,
chegando mesmo a atestar a impossibilidade de sustentá-la. “Austin
finalmente estabelece que o tal de constativo nada mais era de fato senão
um performativo mascarado” (Rajagopalan, 1990, p. 237).
Mas os estudos austinianos firmaram-se na Linguística, de fato, pela via
da interpretação de John Searle, em Speech acts, de 1969 (Searle, 1981). O
trabalho de Searle empenhou-se no sentido de produzir um acabamento nas
inúmeras reviravoltas11 que Austin efetiva em sua reflexão sobre a
linguagem. Um exemplo disso é a taxonomia para os atos de fala proposta
por Searle, que inclusive procurou deixar clara a distinção entre ato
ilocucionário e verbo ilocucionário. Searle defendeu que os atos de fala
possuem um componente básico: a proposição, o que orientaria, por meio
de doze “dimensões de variação”, a sua classificação. Austin, por seu lado,
também havia arriscado algumas tentativas taxonômicas, mas percebeu
cedo uma certa falta de nitidez para essa classificação12.
Outros autores, como Jacques Derrida (1991), procuraram ler a obra de
Austin com consequências bem mais radicais e problematizadoras que a
organização proposta por Searle. Para autores como Derrida, atos de fala
não são uma simples bipartição entreenunciados constativos e enunciados
performativos, ou um levantamento de níveis de ação linguística. Austin,
para Derrida, expõe a dimensão ética da linguagem, porque leva às últimas
consequências a identidade entre dizer e fazer e insiste na presença do ato
na linguagem, e não aceita separação entre descrição e ação. Não existe
assim diferença entre “dizer” (9) e a ação praticada em (9). Quando uma
pessoa emite (9), ela pratica uma ação, e não descreve algo — a saber, “o
fato de que vai ficar em casa hoje”. O ato locucionário, aquele que diz algo,
é, portanto, uma abstração. Os diferentes níveis não existem senão na
proposta de separação. Derrida assim interpreta o conceito de
performatividade:
O performativo não tem o seu referente (mas aqui esta palavra não convém sem dúvida, e
constitui o interesse da descoberta) fora de si ou, em todo o caso, antes de si e face a si. Produz ou
transforma uma situação; opera13.
No Brasil, Rajagopalan (1990, 1992, 1996, 1999) tem seguido esta linha
de inquirição de Derrida desde o início da década de 1990 e oferecido
resistência à “leitura oficial” de Austin. A coletânea recém-lançada das
traduções de diversos de seus artigos (Rajagopalan, 2010) será sem dúvida
mais um estímulo para leituras austinianas críticas e pujantes em língua
portuguesa.
Assim, os atos de fala são hoje fonte inesgotável de trabalhos na área da
Pragmática, mas também na Linguística em geral. Vale lembrar que se
vasculharmos outras áreas de estudos linguísticos também encontraremos
trabalhos que levam em conta os atos de fala em suas análises,
especialmente nos estudos do Direito e na Antropologia. Não se pode dizer
propriamente que todos esses trabalhos são seguidores das reflexões
austinianas; mas o que de fato ocorreu foi que a popularização dos trabalhos
de Austin, por intermédio de leitoras e leitores de Derrida e da divulgação
feita por Searle, abriu espaço para a preocupação com uma realidade
linguística bastante incômoda: o fato de que aquilo que dizemos tem efeito,
altera o sentido e funcionamento linguísticos.
No início da década de 1970, até as famosas árvores gerativistas
incorporaram os atos de fala em seus galhos. Com o tempo, esse fenômeno
se abrandou, mas a leitora e o leitor vão encontrar em muitos trabalhos
menções aos Estudos dos Atos de Fala. Na Semântica, na Linguística
Textual, na Análise Conversacional, na Análise do Discurso e em muitos
outros lugares, para criticar ou reverenciar, para ser fiel a Austin ou para lhe
fazer “consertos”, os Estudos de Atos de Fala têm sido tanto instrumento
para explicar efeitos da linguagem em uso, como a relevância de uma
promessa ou a eficácia de uma ordem, como no caso dos trabalhos de
Searle (1981), quanto tem sido fonte de reflexão não somente sobre a
prática do uso linguístico, mas principalmente sobre a teorização desta
prática, como no caso das reflexões de Rajagopalan (1990, 1992, 1996,
1999, 2010).
2.3. Estudos pragmáticos interdisciplinares
Genericamente definido aqui como estudos pragmáticos
interdisciplinares, esse grupo de pesquisas pragmáticas se caracteriza por
ser um híbrido dos dois grupos anteriores. Híbrido porque podemos
encontrar neste grupo autoras e autores que utilizam ambos os métodos
descritos anteriormente, acrescentados muitas vezes de renovadas leituras
do Pragmatismo norte-americano ou dos Estudos dos Atos de Fala. O que
os torna diferentes dos demais é o crédito a teorias filosóficas historicistas e
culturalistas que estavam em situação de ausência ou de pouca
expressividade nos dois grupos anteriores. Haberland e Mey (2002, p.
1680), no editorial de 25 anos do Journal of Pragmatics, chamam a atenção
para o fato de que esses estudos interdisciplinares renovam a atenção ao que
antes era considerado “extralinguístico”.
Desde quando os estudos marxistas promovidos em todos os campos das
chamadas ciências sociais tomaram conta da Europa,14 questões relativas ao
papel da linguagem nas relações sociais começaram a ser levantadas com a
seriedade e a sistematicidade necessárias para firmar um novo paradigma. O
pano de fundo dessas questões era especialmente a luta de classes. Isso quer
dizer que, de uma maneira geral, muitos autores e autoras se perguntavam o
que significaria a diferença de classe social para as práticas linguísticas
entre pessoas. Outras estudiosas e estudiosos, que não seguiram o ímpeto
das investigações marxistas, elaboraram perguntas sobre as perguntas que
estavam sendo feitas e inauguraram uma linha de inquirição para avaliar
como estava sendo tratado o problema das práticas linguísticas no âmbito
da Filosofia, da Linguística, da Etnologia e das ciências sociais em geral. O
ponto comum é sem dúvida o reconhecimento de que não é possível
abordar questões relativas ao uso linguístico sem antes reconhecer a
inerente dimensão social da linguagem, já que “a pesquisa em pragmática
se vê inevitavelmente envolvida na política da linguagem e na não menos
importante política linguística” (Rajagopalan, 2010, p. 40).
A reavaliação do conceito de cooperação é um exemplo de resultado
dessa linha de inquirição. De acordo com Grice, o introdutor desse
conceito, para haver comunicação seria preciso haver cooperação entre
usuárias(os). Seria possível inclusive levantar os princípios que regem o
espírito cooperativo de comunicação. Grice elaborou, em meados da década
de 1960, um quadro de implicaturas conversacionais, ou seja, de regras que
deveriam estar presentes no sucesso de todo e qualquer ato de linguagem.15
Jacob L. Mey (1987) é um excelente exemplo de como, a partir da
Pragmática, é possível questionar severamente a cooperação comunicativa:
ele discute como a noção de cooperação sustenta a ideologia da “parceria
social”, pois apresenta o uso da linguagem como uma parceira igualitária e
livre entre falantes. Em parceria com Harmut Haberland, Mey (Haberland e
Mey, 2002) sustenta que deixar a condição humana de fora das análises
impacta negativamente os estudos pragmáticos.
Seguindo uma linha crítica como a de Mey, atuais pragmatistas apostam
em linguagem como trabalho social, realizado com todos os conflitos
consequentes das relações na sociedade. Ou seja, os conflitos das relações
entre homens e mulheres, entre professor/a e aluno/a, entre brancos/as e
negros/as, ou entre judeus/judias e antissemitas, podem ser identificados
linguisticamente.
Acredito que você possa perceber facilmente essa linha argumentativa
por meio da análise deste mesmo texto que você está lendo. Algumas
pessoas, ao lerem um texto como este, sentem um certo desconforto com a
presença constante do feminino na caracterização genérica, como
“estudiosas e estudiosos da Pragmática”, o que significa a negação de que o
masculino possa representar tanto homens quanto mulheres. Outras pessoas
talvez não se sintam desconfortáveis, mas ao menos estranham essa
insistência. Diante dessas reações se pode perguntar: por que manter o
feminino nas caracterizações? Não pode o masculino ser o genérico?
Muitos estudos pragmáticos respondem a essas perguntas da seguinte
forma: existem pesquisadoras pragmatistas, mulheres que estudam e
produzem materiais de qualidade nos estudos introdutórios da Pragmática?
Sim; só para citar: Françoise Armengaud (2006), Jenny Thomas (1995),
Marcella Bertuccelli-Papi (1993), Brigitte Schlieben-Lange (1987). Referi-
las pelo masculino é ser sexista, ou seja, é manter simbolicamente o
masculino como representante mais adequado do gênero humano. Em
trabalho baseado nas Propostas para evitar o sexismo na linguagem,
publicado pelo Instituto da Mulher da Espanha, lemos:
Quando se estabelecem as normas linguísticas de uma perspectiva sexista, se prejudica
diretamente as mulheres e indiretamente toda a sociedade.16
Assim, pragmatistas dos estudos interdisciplinares, preocupados/as em
debater os conflitos sociais que são também linguísticos, devolvem as
perguntas com outra: por que não tornar visíveis linguisticamente homens e
mulheres? Como aponta Caldas-Coulthard (2007, p. 235), “a linguagem
ajuda a definir,depreciar e excluir as mulheres linguisticamente”. O
desconforto ou estranhamento produzido por uma ação assertiva (a de se
textualizar também o feminino nas caracterizações de estudiosos e
estudiosas) é prova de que conflitos entre homens e mulheres podem ser
identificados linguisticamente, se se considera a linguagem como um
trabalho social pleno de conflitos sociais.
Qualquer tentativa de descrição da linguagem que exclua aspectos
sociais é considerada inócua e ineficiente para a pesquisa pragmática. A
linguagem não é, portanto, meio neutro de transmitir ideias, mas sim
constitutiva da realidade social. Não sendo “a realidade social” um conceito
abstrato, mas o conjunto de atos repetidos dentro de um sistema regulador, a
linguagem é sua parte presente e legitimadora, e deve ser sempre tratada
nesses termos.
Desde a Escola de Frankfurt, com os trabalhos de Jurgen Habermas
(2000) sobre a ação comunicativa às elaborações da desconstrução de
Jacques Derrida (1991, 1998), as mais diversas formas de se pensar a
linguagem como parte da realidade social, e não seu espelho, estão sendo
elaboradas. Essa diversidade, se não ajuda a identificar temas e métodos
pré-definidos da Pragmática, pelo menos tem impedido a exclusão das mais
variadas formas dos fenômenos da linguagem.
Roy Harris (1981), por exemplo, defende que somente levando-se em
conta o que é metodicamente excluído na Linguística tradicional podemos
desmitificar as nossas ideias sobre as regras de funcionamento da
linguagem. Assim, podemos perguntar: como usos inovadores e não
dicionarizados de palavras ou mesmo estruturas sintáticas da língua são
tratados nas pesquisas? Ou: como a incoerência de ações produzidas por
atos de fala são relegadas ao plano do “mal-entendido a ser corrigido”?
Essas exclusões, quando debatidas, podem dar conta de problemas que
atormentaram linguistas durante muito tempo. Uma garotinha que está na
ponta dos pés, com o mato alcançando seus joelhos, diz:
(10) Olhe, mãe, vai certinho até minhas dobras!17
o que ela quis dizer? A mãe sabe, ainda que ela nunca tenha ouvido esse
uso de “dobras”. E nós que lemos o exemplo também o compreendemos.
Uma situação como esta tem sido tomada pela Linguística tradicional como
exemplo para a distinção “necessária” entre conhecimento linguístico e
conhecimento pragmático, ou conhecimento contextual, conhecimento de
mundo etc., resumidamente, a distinção entre conhecimento linguístico e
conhecimento extralinguístico. Assim, o problema não é levado a sério, pois
reduz a questão a decidir entre a falta de conhecimento linguístico, ou a
falta de conhecimento extralinguístico.
Para os estudos interdisciplinares atuais, a questão principal é “como a
mãe sabe, se esse uso não é devido?”. Ou, com um pouco mais de crítica,
“como o uso é indevido se a mãe sabe?”. Sendo o uso da linguagem lugar
de conflito, ele situa também negociações, modificações, recusas. Isso torna
inevitáveis as inovações, e mais inevitável ainda que para se falar em
linguagem tenha-se que falar em fenômenos até então considerados como
não linguagem. Esses argumentos enfrentam a constante crítica de não
estarem de fato “fazendo Linguística”, mas sociologia, antropologia, ou
qualquer outra coisa do gênero. Afinal, em que interessariam problemas que
não legitimam a ideia de Linguística como ciência delimitada, com objeto e
método pré-definidos? Dizer que linguagem não é puramente convencional
implica assumir a impossibilidade de descrever o fenômeno linguístico
inteira e sistematicamente.
O contra-argumento principal a essa crítica é que a demarcação dos
limites entre linguagem e mundo, ou entre linguagem e sociedade é uma
tarefa inglória e reducionista. Em outras palavras, pensar que incluir
aspectos sociais chamados “extralinguísticos” em uma análise leva ao risco
de não se “fazer Linguística”, desvirtuando o campo sagrado do saber sobre
a língua, é o mesmo que pensar que aulas de educação sexual vão fazer as
pessoas terem mais relações sexuais. É um argumento frágil para não expor
a própria frustração de não apreender o objeto de estudo por inteiro, nos
moldes do positivismo que abriu nosso século XX e foi inspiração para a
fundação da Linguística.
Defendendo essas posições, os estudos pragmáticos interdisciplinares
seguem procurando ampliar as possibilidades de objetos de estudo de
linguistas, retirando a criatividade do nível da mera estatística.
3. DIVULGAÇÃO E IMPACTO ATUAL DA PRAGMÁTICA
No final da década de 1970 e início da de 1980, a Pragmática começou a
ser levada a sério. Nessa época os estudos que vinham discutindo os
componentes pragmáticos da linguagem chamam a atenção e merecem
várias publicações, entre periódicos e livros inteiros.
Em 1977, inúmeros artigos autoproclamados pragmáticos são enviados
para edição no recém-criado Journal of Pragmatics, que abre o primeiro
espaço de prestígio para as pesquisas que se preocupavam com o uso
linguístico. Em 1978, Jef Verschueren publica a primeira bibliografia
comentada sobre Pragmática. Logo em seguida, em 1979, Richard Rorty
publica o seu A filosofia e o espelho da natureza, trazendo novamente para
as rodas filosóficas as ideias de William James. Dois anos depois, em 1981,
inicia-se a edição do Language and Communication, oferecendo aos
leitores e leitoras discussões centradas na prática linguística. Nesse mesmo
ano, Roy Harris publica The language myth, questionando a ausência
sistemática, nos trabalhos linguísticos, de perguntas sobre aspectos criativos
da linguagem e questionando explicitamente o mito da “língua como
sistema”. No Brasil, Marcelo Dascal edita, em 1982, uma coletânea de
textos filosóficos clássicos para a consolidação da Pragmática. Já pelos
meados da década de 1980, outros trabalhos com perspectivas
completamente diferentes, como de Jacob L. Mey, de 1985, a de Françoise
Armengaud, de 1985, e o de Brigitte Schlieben-Lange, de 1987, se
acrescentam ao debate em torno da pergunta “qual o objeto da
Pragmática?”.
O Journal of Pragmatics, que tinha periodicidade trimestral em seu
lançamento em 1977, dois anos depois (em 1979) já era bimestral e, dez
anos depois, em 1999, passa a publicar números mensais. A virada para o
século XXI é, portanto, ainda mais promissora. Em 2007, um novo
periódico internacional é inaugurando, o Semantics and Pragmatics. No
Brasil, além de capítulos em livros introdutórios bem divulgados, a
tradução do livro de Armengaud (2006) lança mais uma obra para a difusão
da Pragmática.
Está inflamada a área dos estudos pragmáticos. A atividade linguística
ganha um espaço cada vez mais frequente na Linguística. Trabalhos
discutem a relação dos signos com a prática da linguagem para evidenciar o
processo inovador da conversação humana. Para pragmatistas que se
dedicam a levantar problemas teóricos do estudo da linguagem, questões
sobre o papel da linguagem na formação do sujeito, sobre a noção de
unicidade e identidade linguísticas, sobre a imprevisibilidade e a
criatividade como propriedades linguísticas, sobre a própria condição do
fazer teórico linguístico não podem mais ficar relegadas ao plano das
especulações.
Conforme apontei na seção anterior, a criatividade é uma constante na
realização da linguagem, de tal modo que leva a negociações, modificações,
recusas, o que entre sociolinguistas é conhecido como fenômenos de
variação e mudança.18 Isso leva à imprevisibilidade no sistema descrito: é
impossível descrever e/ou prever todas as estruturas e combinações
existentes numa língua. É fundamental perguntar-se como o signo mantém
a sua unicidade, como continua sendo o mesmo através de repetições tão
diferentes, e como, ao mesmo tempo, continua a ser intercambiável, como
se sua unidade fosse fragmentada, fazendo, perdendo e refazendo todo
tempo o próprio limite. É definidor perguntar-se o que é identidade
linguística, e como ela se produz, tendo em vista que, ao contrário do que
muitos/as linguistas pensam, a linguagem não reflete o lugar social de quem
fala, mas faz parte desse lugar social: “Identidade não preexisteà
linguagem. Falantes têm que marcar suas identidades assídua e
repetidamente.” (Cameron, 1995, p. 17). A repetição é necessária para
sustentar a identidade, precisamente porque ela não existe fora dos atos de
linguagem que a sustentam.
Temas como esses, e as posições teóricas e éticas que os acompanham,
são polêmicos porque estão sendo construídos para mostrar que o uso
linguístico não é, como queria Carnap, um dos componentes da linguagem,
mas a única forma produtiva de se pensar os fenômenos linguísticos. Dizer
é fazer: a prática social que chamamos linguagem é, para a Pragmática
atual, indissociável de suas consequências éticas, sociais, econômicas,
culturais.
3.1. Emergências de questões políticas
Em disciplinas variadas, aspectos linguísticos são sistematicamente
submetidos a exame para valorizar sua condição de constituinte social. As
variações sintáticas e fonológicas são estudadas pela sua significação social
para os/as falantes. O bilinguismo é analisado como construtor e
mantenedor das hierarquias sociais em países colonizados. Os relatos de
mulheres são interpretados no que transmitem de suas autoimagens e das
imagens que o universo masculino tem delas. O ensino de línguas é
analisado à luz dos processos coloniais e de globalização.
Para pragmatistas que utilizam dados empíricos em seus trabalhos,
questões sobre racismo e sexismo, sobre conflitos socioeconômicos, sobre
ética ou sobre relações de poder não são mais consideradas como detalhes
surgidos ao acaso em pesquisas centradas na língua pela língua. Ao
contrário, a Pragmática está defendendo um quadro de pesquisa sobre, para
e com os sujeitos sociais;19 um quadro metodológico que permita aos
pesquisadores e pesquisadoras interagirem integralmente com suas
informantes e seus informantes, discutir com elas e eles seus interesses e
avaliar a repercussão de afirmações conclusivas do trabalho teórico.
O diálogo tem sido muito profícuo também para encontrar um novo
quadro teórico para os estudos da linguagem. Uma leitura interdisciplinar
do alcance dos estudos de atos de fala nos leva aos trabalhos de linguistas
envolvidos(as) em explicitar fundamentos ideológicos de decisões teóricas
e descritivas e de rever a construção de conceitos na Linguística.
Rajagopalan (2010) discute amplamente a agenda ideológica das “leituras
oficiais” de Austin e aponta, ironiza a separação entre ensino e doutrinação
política:
Como sabemos onde o ensino termina e a doutrinação assume o controle? Qualquer tentativa de
traçar uma linha de demarcação nítida entre essas duas coisas exigiria que realmente tivéssemos
uma distinção clara entre o que é estritamente acadêmico e o que é, também, político-
ideológico.20
Pennycook (2007, p. 112), em parceria com Sinfree Makoni e um grupo
de linguistas em diálogos Sul-Sul,21 trabalham para mapear os “efeitos de
língua”, efeitos de atos de fala sobre língua nas práticas de pesquisa e
ensino mundo afora, “as maneiras como as línguas se materializam através
dos discursos”.
Esses tipos de abordagens, metodológicas e teóricas, impulsionam a
emergência de preocupações políticas e apontam o futuro da Pragmática
como uma área vigorosa para o debate ideológico da linguagem como ação,
representação, espaço.
3.2. Palavras finais
No estágio de desenvolvimento atual das razões filosóficas que a
formaram, a saber, do Pragmatismo norte-americano, dos Estudos de Atos
de Fala e dos atuais estudos interdisciplinares, esta polivalente área da
Linguística não deixa de acompanhar e aprofundar todas as implicações
teóricas do fato de que as manifestações e empregos da linguagem são
paradoxalmente dependentes e resistentes às usuárias e aos usuários. Nem
centro nem periferia da linguagem, “falante”, pela óptica da Pragmática, é
tanto ator ou atriz da prática linguística quanto participante e reprodutor/a
das instabilidades do processo de vida social que coordena essa ação.
Espero que o leitor e a leitora possam ter compreendido um pouco de
como a Pragmática se consolidou como a ciência do uso linguístico. O
campo não se esgota. Muitos ainda são os temas que podem ser abordados
num estudo pragmático: tanto fenômenos concretos, quanto a própria
teorização do fazer pragmático. No enfoque pragmático, o interesse por
cada ponto a ser analisado é sempre um ganho quando não se quer deixar de
fora da linguagem quem a faz existir: nós e nossas práticas sociais.
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1. Note que a definição de linguagem inicialmente utilizada pela Pragmática é bastante diversa de
outras áreas da Linguística (cf. outros capítulos deste volume). Essa noção inicial de linguagem como
o somatório da língua mais a fala é própria do estruturalismo, paradigma de estudos sociais iniciado
por Ferdinand de Saussure, e inicialmente divulgado por Roman Jakobson, na Linguística, e Claude
Lévi-Strauss, na Antropologia (Dosse, 1993).
2. Immanuel Kant foi um filósofo alemão que viveu entre 1724-1804. Exerceu grande influência
no pensamento ocidental, procurando caracterizar os limites, o alcance e o valor da razão.
3. Para maiores detalhes, consultar Rorty (1994), especialmente a Introdução e o Capítulo I.
4. Em versão anterior deste capítulo, identifiquei este grupo como “estudos da comunicação”, mas
percebo agora que a diversidade do grupo se articula não em torno das preocupações com a
comunicação e interação social como eu imaginava outrora, e sim em função da interdisciplinaridade
de suas abordagens. Como observa Rajagopalan (1999, p. 332): “A grande variedade de assuntos
tratados é prova de que a Pragmática mantém vínculos com muitas outras disciplinas, assim como
muitas das demais subáreas dentro da Linguística”.
5. Para maiores detalhes, consultar os capítulos “Semântica” e “Análise da Conversação”, neste
volume.
6. Peirce (1906), citado em Ogden e Richards (1972, p. 280).
7. Citado em Schlieben-Lange (1987).
8. Tradição analítica é entendida aqui no sentido de Rorty (1994) como aquele vocabulário
filosófico que se inicia com os trabalhos do filósofo alemão Frege, e que baseia toda a argumentação
para a defesa de que significar é representar algo que está fora da linguagem, seja fora porque está no
mundo concreto, seja fora porque está no “pensamento” ou “sentimento”, entendidos estes últimos
como conceitos abstratos, não ligados a nenhuma prática cotidiana de linguagem.
9. Uma análise detalhada desse texto de Dascal (1986) e uma discussão mais aprofundada sobre as
motivações em torno da manutenção de um modelo harmônico de “entendimento” encontram-se em
Pinto (1998).
10. Austin, 1998, p. 132.
11. Incluem-se aí os questionamentos de Austin sobre o valor veritativo dos atos de fala, ou
mesmo suas dúvidas sobre a distinção performativo-constativo.
12. Para um debate mais aprofundado sobre a questão da taxonomia para os atos de fala, ver
Rajagopalan (1992).
13. Derrida, 1991, p. 363.
14. Ver outros detalhes sobre os estudos marxistas da linguagem no capítulo “Análise do
Discurso”, neste volume.
15. Para maiores explicações, ver o capítulo “Análise da Conversação”, neste volume.
16. PROMUJER, 1992, s.p.
17. O exemplo é de Harris (1981, p. 152) e a versão em inglês é a que se segue: “Look, mummy, it
comes right up to my hinges”.
18. Recomendo que o leitor busque saber mais sobre variação e mudança e repare nas diferenças
de enfoque entre a Pragmática e a Sociolinguística. Ver, então, o capítulo “Sociolinguística” (partes I
e II) no volume I desta obra.
19. Para maiores detalhes, consultar Cameron et al. (1993).
20. Rajagopalan, 2010, p. 139.
21. Diálogos Sul-Sul são aqueles ocorridos entre pessoas de países localizados ao Sul no mapa
tradicional do planeta. São diálogos acadêmicos, econômicos, artísticos etc. O grupo liderado por
Makoni e Pennycook (2007) inclui, entre outras, a contribuição do linguista brasileiro Lynn Mario T.
Menezes de Souza.
3
ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO
Ângela Paiva Dionísio
1. PARA INÍCIO DE CONVERSA...
Os estudos mais recentes na área da interação verbal definem a
linguagem como uma forma de ação conjunta (Clark, 1996; Marcuschi,
1998a), que emerge quando falantes/escritores e ouvintes/leitores realizam
ações individuais, coordenadas entre si, fazendo com que tais ações se
integrem, formem um conjunto. Usar a linguagem consiste, portanto, em
realizar ações individuais e sociais. Estamos sempre fazendo algo com a
linguagem. Conversar, por exemplo, é uma atividade social que
desempenhamos desde que começamos a falar. No dia a dia, estamos
conversando com alguém, convidando alguém para conversar, puxando
conversa com um outro. Na década de 1980, em nosso país, foi lançado o
primeiro livro nesta área com o título Análise da Conversação, de autoria
do professor Luiz Antônio Marcuschi. Segundo esse autor, “a conversação é
a primeira das formas de interação a que estamos expostos e provavelmente
a única da qual nunca abdicamos pela vida afora”.1 Quando se diz aqui
“conversação” está se tratando de todas as formas de “interação verbal”
existentes em nossa sociedade, embora alguns estudiosos dessa área a
concebam como apenas as interações verbais face a face em que há
“simetria de direitos e espontaneidade na realização do evento”.2 Ainda
segundo esse autor,
é sugestivo, portanto, conceber a conversação como algo mais do que um simples fenômeno de
uso da linguagem em que ativa o código. Ela é o exercício prático das potencialidades cognitivas
do ser humano em suas relações interpessoais, tornando-se assim um dos melhores testes para a
organização e funcionamento da cognição na complexa atividade da comunicação humana. Neste
contexto a língua é um dos tantos investimentos, mas não o único, o que permite uma análise de
múltiplos fenômenos em seu entrecruzamento.3
A Análise da Conversação (AC) consiste numa abordagem discursiva
que teve origem na década de 1960, ligada aos estudos sociológicos, ou,
mais especificamente, à Etnometodologia,4 com os trabalhos de Harold
Garfinkel, Harvey Sacks, Emanuel Schegloff e Gail Jefferson. Enquanto os
sociólogos reconhecem que a conversação nos diz algo sobre a vida social,
ao procurarem responder a questões do tipo “como nós conversamos?”, os
linguistas da Análise da Conversação perguntam “como a linguagem é
estruturada para favorecer a conversação?” e reconhecem que a
conversação nos diz algo sobre a natureza da língua como fonte para se
fazer a vida social (Eggins e Slade, 1997).
Para a Etnometodologia, os analistas devem ser sensíveis aos fenômenos
interacionais, observando detalhes e conexões estruturais existentes no
processo interativo. Motivados por esses princípios, os estudiosos da AC,
nestas três décadas de trabalho,procuram investigar os aspectos essenciais
para a organização do texto conversacional. Hilgert (1989) aponta três
níveis de enfoque da estrutura conversacional:5
a) macronível: estuda as fases conversacionais, que são abertura,
fechamento e parte central, e o tema central e subtemas da
conversação;
b) nível médio: investiga o turno conversacional, a tomada de turnos, a
sequência conversacional, os atos de fala6 e os marcadores
conversacionais;
c) micronível: analisa os elementos internos do ato de fala, que
constituem sua estrutura sintática, lexical, fonológica e prosódia.7
Dentre as razões que justificam o estudo da conversação, podemos
apontar: (i) é a prática social mais comum do ser humano; (ii) desempenha
um papel privilegiado na construção de identidades sociais e relações
interpessoais; (iii) “exige uma enorme coordenação de ações que exorbitam
em muito a simples habilidade linguística dos falantes”,8 (iv) permite que se
abordem questões envolvendo “a sistematicidade da língua presente em seu
uso e a construção das teorias para enfrentar essas questões”.9
Quando estamos conversando, estamos sempre abordando um ou mais
de um assunto, um ou mais de um tópico discursivo,10 não importa se os
temas são sérios, fundamentais para a vida dos interlocutores, para o bem-
estar do país, do mundo ou se estamos “jogando conversa fora”. O
importante é a existência de algo e sobre o qual duas pessoas, pelo menos,
estão conversando. O tópico discursivo pode ser definido como uma
atividade em que há uma certa correspondência de objetivos entre os
interlocutores (Fávero, 1992) e em que há um movimento dinâmico da
estrutura conversacional (Jubran et al., 1992), fazendo com que o tópico
seja um elemento fundamental na constituição do texto oral. A organização
tópica compreende duas propriedades básicas, que são a centração e a
organicidade. A primeira propriedade diz respeito ao conteúdo, ou seja, diz
respeito ao falar-se sobre alguma coisa, enquanto a segunda se refere às
relações de interdependência que são estabelecidas entre os tópicos de uma
conversação.
A conversa espontânea se constrói a cada intervenção dos interlocutores,
ou seja, a elaboração e a produção ocorrem, simultaneamente, no mesmo
eixo temporal. É uma atividade coprodutiva, que “nunca se pode prever
com exatidão em que sentido o parceiro vai orientar a sua intervenção”,11 o
que não significa que sua organização seja caótica ou aleatória. As
contribuições dos falantes devem demonstrar, de alguma forma, uma
relação com o curso da conversa, pois a conversação é uma atividade
semântica, ou seja, um processo de produção de sentidos, altamente
estruturado e funcionalmente motivado.
Durante uma conversação, recorremos frequentemente a enunciados do
tipo “isso me lembra”, “por falar em”, “agora”, “mudando de assunto”,
“voltando ao assunto” para sinalizar que estamos compartilhando
cognitivamente da interação. Ainda empregamos enunciados do tipo
“desculpe interromper a conversa de vocês, mas...” quando nos inserimos
em interações de que não somos participantes. Marcuschi (1998a) destaca
que “uma conversação fluente é aquela em que a passagem de um tópico a
outro se dá com naturalidade, mas é muito comum que a passagem de um
tópico a outro seja marcada”.12 A determinação e a extensão de um tópico
discursivo depende da anuência mútua dos interlocutores. A estrutura tópica
serve, portanto, como “fio condutor de organização discursiva”,
constituindo um traço fundamental para “definir os processos de
entrosamento e colaboração entre os falantes na determinação dos núcleos
comuns” e para “demonstrar a forma dinâmica pela qual a conversação se
estrutura”.13 Há uma linearidade na construção do tópico discursivo, que
garante a organicidade da interação, pois “o conjunto de relevâncias em
foco em dado momento vai, paulatinamente, cedendo lugar a outros
conjuntos de relevâncias, ligadas a aspectos antes marginais do tópico em
desenvolvimento ou a novos conjuntos de mencionáveis que vão sendo
introduzidos a partir dos já existentes”.14 Observando os segmentos (1) e
(2) a seguir, conclui-se que há conversações em cada um deles e que há um
tópico sobre o qual se constrói a interação. No segmento (1), dois
interlocutores (Dora e Josué) discutem sobre uma viagem a ser realizada
(tópico discursivo) e no segmento (2), os três interlocutores [duas mulheres
(M33 e M34) e um homem (H28)] discutem sobre o comportamento
feminista-machista de M34 (tópico discursivo).
No que diz respeito às condições de produção, é clara a distinção entre
as interações. Em (1), fragmento do roteiro do filme Central do Brasil
(1998), os interlocutores seguem um planejamento discursivo previamente
elaborado, assim como acontece nas novelas, nas peças de teatro, por
exemplo. Esse tipo de interação simboliza a conversação artificial. Já em
(2), fragmento de uma conversa informal entre pessoas conhecidas, é
possível perceber que a interação se dá de forma natural e informal, tendo
em vista que é relativamente não planejada, ou seja, a construção da
interação vai sendo “planejada e replanejada a cada novo ‘lance’ do jogo da
linguagem”.15 O planejamento ocorre no momento da interação, ou seja, a
conversação é localmente planejada. Os interlocutores constroem
conjuntamente a interação, caracterizando a conversação como uma
atividade coprodutiva, tendo em vista que eles estão empenhados na
produção do texto falado. É claro que em Central do Brasil os personagens
também estão envolvidos na construção de sentido da interação, porém se
trata de uma simulação das interações reais, naturais, entre os indivíduos na
sociedade em que estão inseridos. O objeto de estudo da AC é justamente a
conversação natural, ou seja, aquelas que são produzidas em situações
naturais.
É importante destacar que a conversação natural apresenta variedades no
grau de formalidade. Estabelecendo uma gradação do informal para o
formal, podemos observar que há conversações mais informais, como as
conversas espontâneas, por exemplo, ao lado de outras bem mais formais,
como as conferências acadêmicas. Ao abordar as diferenças entre fala e
escrita, Marcuschi (1995) assegura que essas diferenças se dão dentro do
“continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na
relação dicotômica de dois pólos opostos”,16 pois as estratégias de
formulação textual que determinam o contínuo apresentam variações
estruturais, léxicas e sintáticas, entre outras, que são responsáveis pelas
semelhanças e diferenças entre fala e escrita.
2. DADOS ORAIS: COMO TRATÁ-LOS?
Antes de prosseguirmos com a apresentação e análise de segmentos de
textos conversacionais, faz-se necessário comentarmos sobre o sistema de
transcrição empregado nas transcrições dos dados orais. Como o corpus da
AC deve ser constituído por conversações produzidas em situações naturais,
é necessário que tais conversações sejam gravadas ou filmadas, para que o
analista, após a sua transcrição e observação, possa comprovar suas
análises. Essa transcrição deve ser a mais fiel possível, pois “a análise tem
de se concentrar necessariamente na produção dos interlocutores e nunca
em interpretações e adaptações do pesquisador. Nesse sentido, por exemplo,
representaria um grave equívoco que o pesquisador completasse, com base
em sua interpretação, um enunciado incompleto ou incompreensível da
gravação ou da transcrição, e submetesse essa versão à análise”.17
No livro Análise da conversação, mencionado anteriormente, é
apresentado, no capítulo 2, um sistema de transcrição para textos falados.
Uma das observações feitas por Marcuschi (1986) diz respeito ao fato de
“não existir a melhor transcrição”.18 De acordo com os objetivos da
pesquisa, o analista faz a transcrição assinalando o que é fundamental para
suas análises. É necessário, no entanto, que a transcrição seja legível e sem
sobrecarga de símbolos complicados. No geral, as normas para transcrição
têm seguido as orientações do Projeto de Estudo Coordenado da Norma
Urbana Linguística Culta (Projeto NURC).Essas normas estão sintetizadas
no Quadro 3.1.
Quadro 2.1
Normas para transcrição
Ocorrências Sinais Exemplificação
1. Indicação dos
falantes
os falantes devem ser indicados
em linha, com letras ou alguma
sigla convencional
H28
M33
Doc.
Inf.
2. Pausas ... não... isso é besteira...
3. Ênfase MAIÚSCULAS ela comprou um OSSO
4. Alongamento de
vogal
: (pequeno)
:: (médio)
::: (grande)
eu não tô querendo é dizer que... é: o eu
fico até:: o: tempo todo
5. Silabação - do-minadora
6. Interrogação ? ela é contra a mulher machista... sabia?
7. Segmentos
incompreensíveis
ou ininteligíveis
( )
(ininteligível)
bora gente... tenho aula... ( ) daqui
8. Truncamento de
palavras ou desvio
sintático
/ eu... pre/ pretendo comprar
9. Comentário do
transcritor
(( )) M.H.... é ((rindo))
10. Citações “ ” “mai Jandira eu vô dizê a Anja agora
que ela vai apanhá a profissão de
madrinha agora mermo”
11. Superposição
de vozes
[ H28. é... existe... [você ( ) do homem...
M33. [pera aí... você acha...
pera aí... pera aí
12. Simultaneidade
de vozes
[[ M33. [[mas eu garanto que muita coisa
H28. [[eu acho eu acho é a autoridade
13. Ortografia tô, tá, vô, ahã, mhm
A AC analisa materiais empíricos, orais, contextuais, considerando
também as realizações entonacionais e o uso de gestos ocorridos durante o
processamento da conversação. Expressões faciais, entonações específicas,
um sorriso, um olhar ou um maneio de cabeça corroboram com a
construção do sentido do enunciado linguístico que está sendo proferido,
ou, ainda, podem substituir um enunciado linguístico no processo
interacional face a face. As conversas espontâneas que construímos
cotidianamente estão repletas dessa mistura do verbal e do não verbal.
Steinberg (1988) sistematiza os recursos não verbais normalmente
empregados pelos falantes de uma dada língua numa conversa em:
a) paralinguagem: sons emitidos pelo aparelho fonador, mas que não
fazem parte do sistema sonoro da língua usada;
b) cinésica: movimentos do corpo como gestos, postura, expressão
facial, olhar e riso;
c) proxêmica: a distância mantida entre os interlocutores;
d) tacêsica: o uso de toques durante a interação;
e) silêncio: a ausência de construções linguísticas e de recursos da
paralinguagem.19
Steinberg (1988) diz que a paralinguagem é “uma espécie de
modificação do aparelho fonador, ou mesmo a ausência de atividade desse
aparelho, incluindo nesse âmbito todos os sons e ruídos não linguísticos,
tais como assobios, sons onomatopaicos, altura exagerada”.20 Quanto aos
gestos, os audíveis estão no campo da paralinguagem, enquanto os visuais
podem ser analisados no âmbito da cinésica. Para Steinberg, os atos
paralinguísticos e cinésicos desempenham funções variadas no curso da
interação e de acordo com essas funções podem ser classificados como
lexicais (episódios não verbais com significado próprio, como “Shhh” para
indicar “fique quieto”); descritivos (“suplementam o significado do diálogo
através dos ouvidos e dos olhos”); reforçadores (“reforçam ou enfatizam o
ato verbal”); embelezadores (movimenta-se o corpo todo para realçar a
fala); e acidentais (aqueles que ocorrem por acaso, sem uma função
semântica). Dessa forma, a interação verbal se encontra estruturada em uma
estrutura tríplice — linguagem, paralinguagem e cinésica21 —, exigindo
dessa forma dos analistas da oralidade uma postura interdisciplinar, uma
vez que esses elementos estruturam a sociedade e são por ela estruturados.
Falamos, portanto, com a voz e com o corpo. Por isso, o sistema de
transcrição deve contemplar informações que assegurem o registro desses
aspectos. Para exemplificar o que estamos afirmando, vejamos alguns
fragmentos de conversas espontâneas, examinando a inter-relação entre atos
linguísticos, paralinguísticos e cinésicos e verificando algumas sequências
em que esses atos coocorrem. Os exemplos de (3) a (6) foram extraídos de
Dionísio (1998) e nos mostram como são construídas indicações de pessoas,
de objetos, de paisagens presentes no momento da interação:
3. COMO A CONVERSA SE ORGANIZA?
Desde pequenos estamos convivendo com uma regra básica da AC, pois
os mais velhos nos ensinam que devemos falar um de cada vez. Esperar a
vez para falar significa esperar a ocorrência de um lugar relevante para a
transição (LRT), ou seja, esperar por marcas como pausas, hesitações,
entonações descendentes, uso de marcadores etc., na fala do nosso
interlocutor. Um falante pode entregar o direito de fala a um outro por meio
de sinais que deixem claro que ele terminou de falar ou por meio de um
convite ao outro para falar. Em outras palavras, manda a regra que só após a
conclusão de sua “fala” (de seu “turno”), o outro interlocutor deve assumir
a posição de falante. Mas basta pensarmos num grupo de pelo menos três
amigos, conversando entre si, durante um encontro descontraído ou, ainda,
nas salas de aula quando o professor faz uma pergunta à turma e vários
alunos respondem ao mesmo tempo, para percebermos que esta regra não é
seguida. Frequentemente, em sala de aula, estamos dizendo “vocês falaram
ao mesmo tempo e eu não entendi nada” ou “um de cada vez”. Por outro
lado, somos capazes de participarmos de uma interação com várias pessoas
e nos entendermos perfeitamente. A falta de organização nesse tipo de
interação é apenas aparente, pois a harmonia e a organização nas
conversações são muito relativas.
O primeiro trabalho sobre a organização de turnos conversacionais foi o
de Sacks, Schegloff e Jefferson (1974). Para eles, a noção de turno engloba
dois sentidos: (i) o de distribuição de turno, ou seja, qualquer locutor tem o
direito de tomar a palavra e (ii) o de unidade construcional, isto é, a fala
elaborada no momento em que um indivíduo toma a palavra e se torna um
falante. Com base nesses princípios, pode-se definir turno conversacional
como cada intervenção dos interlocutores formada pelo menos por uma
unidade construcional. Marcuschi (1986) concebe turno como “a produção
de um falante enquanto ele está com a palavra, incluindo a possibilidade de
silêncio”, mas não considera turno como “a produção do ouvinte durante a
fala de alguém, embora isto tenha repercussão sobre o que fala”.22 No
exemplo (2), já apresentado, temos 22 turnos conversacionais, distribuídos
entre os três interlocutores. A interação é constituída por meio de uma
relação simétrica, ou seja, todos os falantes possuem o mesmo direito de
fala. Os turnos podem ser identificados de acordo com os falantes no
esquema a seguir:
Os turnos, quanto ao desenvolvimento do tópico na sequência
conversacional, podem ser nucleares e inseridos. Os nucleares contribuem
substancialmente para o desenvolvimento do tópico discursivo, pois exigem
que as intervenções subsequentes estejam relacionadas com o turno
anterior. No exemplo (2), os turnos 02, 03, 07, 08, 11, 12, 13, 14, 15, 17, 18,
19, 20 e 21 são nucleares porque estão dando andamento ao tópico
(comportamento feminista-machista de M34), enquanto os turnos 04, 05,
06, 09, 10 e 16 são turnos inseridos por serem produções marginais em
relação ao desenvolvimento tópico da conversa, apesar de colaborarem para
esse desenvolvimento, exercendo sempre uma função meramente
interacional.
Dependendo do papel desempenhado por cada inserção no desenrolar da
conversa, os turnos inseridos podem ser classificados como turno de
esclarecimento, turno de avaliação, turno de concordância, turno de
discordância, entre outros. Observando os exemplos (2) e (7), podemos
constatar que os turnos inseridos também sofrem a influência do tipo de
interação, pois no exemplo (2), por se tratar de uma conversa espontânea, os
interlocutores procuram marcar suas posições não só por meio de
concordâncias (turnos 04, 05), mas também de discordâncias (turnos 06,
16), por exemplo. Já no exemplo (7) a seguir, por se tratar de uma
entrevista, a postura da documentadora é predominantemente de
concordâncias, com apenas uma realização de esclarecimento, com a função
de testagem das informações dadas. A transcrição a seguir comprovaessa
classificação:
Outro aspecto relevante na organização das conversas é o fato de ser
constituída pelas estratégias de gestão de turno que dizem respeito à troca
de falantes, através de passagem de turno e de assalto ao turno, e à
sustentação da fala. No primeiro caso, “a troca de falantes se processa
segundo a presença (passagem) ou ausência (assalto) de pistas de LRT”.23
Essa troca de turno pode ser requerida pelo falante, quando este entrega o
turno de forma explícita, ou ainda pode ser consentida, isto é, quando a
entrega é implícita. Já os assaltos ao turno constituem uma espécie de
violação de uma regra básica da conversa, que é falar um de cada vez.
Assim, os autores concebem essa questão da seguinte forma: “no assalto,
um dos interlocutores invade o turno do outro, sem que a sua intervenção
tenha sido solicitada ou consentida; em termos funcionais, verifica-se que a
transição de um turno a outro ocorre sem que haja pistas de LRT. O assalto
pode ocorrer com ou sem deixa”.24 O tipo de assalto com deixa é aquele que
se dá durante hesitações, alongamentos, entonação descendente, pausas
realizadas pelo falante que possui o turno. O assalto sem deixa caracteriza-
se por intervenções bruscas, provocando sobreposição de vozes. Para
Marcuschi (1986), a ocorrência de sobreposições e de falas simultâneas
pode provocar um “colapso” na interação. Talvez seja esse conhecimento
prévio sobre o funcionamento da estrutura da interação que faz com que um
dos interlocutores em sobreposição desista do turno e deixe o outro assumi-
lo, como se verifica no exemplo (2), nas linhas 13 e 14:
Retomando do exemplo (2), no trecho das linhas 16 a 33, constatamos
quatro ocorrências de troca de falantes, decorrentes de assalto ao turno. Nas
linhas 19 e 20, M33 assalta o turno de H28, durante uma pausa, e nas linhas
23 e 24 o assalto se dá durante a realização provável de um sinal prosódico,
o que caracteriza em ambos os casos um assalto com deixa. Já nas demais
ocorrências de assalto ao turno (linhas 25 e 26, 29 e 30), as tomadas se dão
de forma mais brusca, tendo em vista que não há pistas de LRT,
caracterizando o assalto sem deixa.
Nos contextos de assalto com deixa, podem ser geradas as seguintes
situações:
(i) o interlocutor assaltado abandona o turno e o interlocutor assaltante fica
com o turno, como em (7), quando a informante assaltou o turno da
documentadora durante um alongamento:
(ii) o interlocutor assaltado não abandona o turno e continua a comandar a
interação, como em (5), pois P01 em sobreposição ao turno de H05, durante
uma pausa, faz uma solicitação de esclarecimento, mas H05 se mantém no
turno e ignora a intervenção de sua interlocutora:
(iii) o interlocutor assaltado perde o turno, mas o recupera em seguida,
como no exemplo (2), já que H28 não permite que M33 se mantenha com o
turno de que ela tentou tomar posse:
A segunda estratégia de gestão de turnos — a sustentação da fala — é,
na realidade, uma tentativa empregada pelo falante para garantir a posse do
turno, assinalando à sua audiência o desejo de manter-se na conduta do
diálogo. Para isso, recorre aos marcadores conversacionais, aos
alongamentos, às repetições e à elevação da voz. Ainda no exemplo (2),
podemos verificar que no turno 17, linhas 21-23, H28 realiza quatro pausas
e usa um marcador conversacional (“veja bem”) para assegurar seu turno,
enquanto no turno 20, linhas 28-29, por exemplo, a falante M33 mantém
seu direito de fala recorrendo a pausas e alongamento de vogal (é:).
No caso das entrevistas formais, a exemplo das realizadas pelo NURC,
apesar de consistir num evento conversacional, que apresenta uma estrutura
básica pergunta e resposta, unidade mínima dialógica, semelhante à da
conversa espontânea, a elaboração do turno conversacional apresenta uma
distinção nítida: os turnos que correspondem às respostas tendem a ser
longos e não sofrem intervenção do interlocutor no sentido de tomar o
turno. No exemplo (8), o turno do documentador contém 20 palavras,
enquanto o do informante tem 313. Apesar das pausas, dos truncamentos,
das hesitações, dos alongamentos, ou seja, das várias deixas, o
documentador não toma o turno, pois o seu papel era meramente conduzir a
interação, numa relação assimétrica.
Nem sempre, porém, é essa a estrutura da entrevista, pois, dependendo
do processo de interação instaurado entre os interlocutores, tal estrutura
pode consistir numa estratégia de perguntas e respostas, com turnos cujas
dimensões estejam mais próximas da conversa espontânea. No exemplo (9),
que se encontra a seguir, trecho de uma entrevista com uma empregada
doméstica, percebe-se que a entrevistada (S) limita-se a responder
exatamente o que lhe é perguntado, com frases curtas, sem demonstrar
interesse em desenvolver mais exaustivamente a pergunta que lhe foi
endereçada. A exceção dessa postura se encontra nas linhas de 08 a 14,
quando a entrevistada procura esclarecer sobre o tempo em que ela
acompanha as crianças. No entanto, a postura assimétrica permanece, pois o
tópico discursivo é proposto pela entrevistadora (I), que conduz a interação,
sem permitir que haja um desvio do tema da entrevista.
4. COMO SE ORGANIZAM AS SEQUÊNCIAS NA CONVERSAÇÃO?
Pergunta (P) e resposta (R) compõem a unidade fundamental da
organização conversacional, ou par adjacente, na terminologia de Sacks,
Schegloff e Jefferson.25 Mas este par adjacente pode ter “várias formas de
realização; a P pode ser na forma interrogativa direta, mais comum, ou na
indireta”, e as respostas também podem “ser na interrogativa”.26 Urbano et
al. (1993) abordam essencialmente dois tipos de perguntas: perguntas
fechadas (sim/não) e perguntas abertas (sobre algo). O primeiro tipo
caracteriza-se como um enunciado, que conduz para uma resposta que, em
princípio, se constitui de um sim ou de um não. A repetição de verbo da
pergunta, o uso de back-channel, o uso de certos advérbios e o emprego do
verbo topicalizado em negativas são alguns recursos que substituem o
sim/não nesse tipo de pergunta. As perguntas fechadas têm carga semântica
e as respostas consistem apenas numa confirmação ou não do que foi
questionado. O segundo tipo, as perguntas abertas, contêm marcadores
interrogativos e as respostas devem estar compatíveis com a circunstância
expressa no marcador. Esses autores lembram ainda que, ao se realizar um
conjunto de perguntas simbolizando um todo, a tendência é a elaboração de
respostas truncadas, de respostas à última pergunta ou numa ordem
preferencial do interlocutor. Apresentaremos um fragmento de uma
entrevista que tinha por objetivo verificar como homens e mulheres
caracterizam a própria fala e a fala do outro:
Analisando o exemplo (10), podemos observar que as perguntas abertas
são introduzidas pelos pronomes como, o que, que, por que, alguma e o
advérbio de tempo quando, que tendem a orientar o discurso informante
quanto à autodescrição da fala. Das quatro ocorrências de perguntas
fechadas, verificamos que as duas primeiras têm uma função meramente
interacional, pois parecem desnecessárias do ponto de vista informacional,
já que as respostas dadas às perguntas abertas que as antecedem são claras e
objetivas. A hipótese da função interacional justifica-se, por um lado, pelo
término do turno do entrevistado, demonstrando que não deseja prolongar
sua resposta e, por outro lado, pela insegurança da entrevistadora em
conduzir a interação, ao parafrasear as respostas do informante.
5. É BOM FALAR SOBRE MARCADORES CONVERSACIONAIS, NÃO É?
Observando as conversações apresentadas neste capítulo, podemos
perceber a ocorrência de alguns recursos que são traços característicos da
fala, como em (7), por exemplo, em que a informante finaliza seus turnos
com o emprego de “não é?”, “entendeu?”, procurando interagir com sua
interlocutora. Esta, por sua vez, participa da conversação empregando
expressões não lexicalizadas (“uhrum”) e expressões estereotipadas
sinalizadoras de convergência (“é exato”, “sim”, “certo”). Esses recursos
são chamados de marcadoresconversacionais (MC).
Como o texto oral é planejado e verbalizado ao mesmo tempo, os
interlocutores podem empregar MCs em qualquer ponto da interação,
desempenhando funções conversacionais e sintáticas. Os falantes podem
inserir MCs no início, no meio ou no fim de turnos ou de unidades
comunicativas (UC). São denominadas de unidades comunicativas as
porções informacionais, ou seja, os enunciados conversacionais, que
coincidem ou não com turnos, orações ou atos de fala. Segundo Marcuschi
(1989), “tal como a frase na escrita, a UC no texto oral é um ponto de
referência dos mais diversos fenômenos linguísticos”.27
No exemplo (2), o falante H28, no turno 17, emprega dois MCs: “veja
bem” no início da UC — “veja bem... você acha assim o machismo do
homem...” — e “tá entendendo?” no final do seu turno, que também
coincide com o término da UC — “você acha assim o machismo do
homem... mas você tem que analisar assim a mulher pode ser machista pelo
lado dela tá entendendo?”.
Com funções conversacionais, os MCs são produzidos pelos falantes
(aqueles que servem para dar tempo à organização do pensamento, sustentar
o turno, monitorar o ouvinte, corrigir-se, reorganizar e reorientar o discurso)
e pelos ouvintes (aqueles que são produzidos durante o turno do falante e
que servem para orientar o falante e monitorá-lo quanto à recepção, por
meio de sinais de convergência, como “sim”, “claro”, “mhm”, “ah sim”; de
indagação, como “será?”, “mesmo?”, “o quê?”, “é?”; e de divergência,
como “duvido”, “não”, “peraí”, “calma”).
Os interlocutores podem recorrer a marcadores conversacionais
linguísticos (verbais e prosódicos) e paralinguísticos (não verbais). Os MCs
verbais, conjunto de partículas, palavras, sintagmas, expressões
estereotipadas e orações ou ainda expressões não lexicadas (“ahã”,
“uhrum”, “ué”) “não contribuem propriamente com informações novas para
o desenvolvimento do tópico, mas situam-no no contexto geral, particular
ou pessoal da conversação”.28 Os MCs prosódicos (chamados também de
suprassegmentais), apesar de sua natureza linguística, são de caráter não
verbal (os contornos entonacionais, as pausas, o tom de voz, o ritmo, a
velocidade, os alongamentos de vogais etc.). Dentre eles se destacam as
pausas e o tom de voz como sendo os mais importantes para as análises das
conversações. Já os MCs paralinguísticos ou não verbais estabelecem,
mantêm e regulam a interação, por meio de risos, olhares, gestos, meneios
de cabeça.
Quanto às formas em que se apresentam os MCs linguísticos, eles
podem ser divididos em quatro grupos:
(i) MCs simples: realizam-se com um só item lexical (“mas”, “éh”,
“olha”, “exatamente”, “agora”, “aí”, “então” etc.);
(ii) MCs compostos: realizam-se como sintagmas, geralmente
estereotipados (“sim mas”, “bom mas aí”, “e então”, “tudo bem
mas” etc.);
(iii) MCs oracionais: realizam-se como pequenas orações (“eu acho
que”, “não mas sabe”, “sim mas me diga”, “então eu acho que”,
“porque eu acho que” etc.);
(iv) MCs prosódicos: realizam-se como recursos prosódicos (entonação,
pausa, hesitação, tom de voz) e geralmente acompanhados por
algum MC verbal.
6. COMO SE CONSTRÓI A COMPREENSÃO NO TEXTO FALADO?
De acordo com Marcuschi (1998b), “admite-se, hoje, que a
compreensão, na interação verbal face a face, resulta de um projeto
conjunto de interlocutores em atividades colaborativas e coordenadas de
coprodução de sentido e não de uma simples interpretação semântica de
enunciados proferidos”.29 É importante salientar que colaboração não
implica consenso ou concordância, mas apenas a realização de ações
coordenadas.30 Quando dois ou mais indivíduos participam de uma
conversação, eles estão coordenando conteúdos e ações, ou seja, os
interlocutores fazem um esforço mútuo para construir sentido, isto é, para
construir um texto coerente. O sucesso de uma interação face a face está,
portanto, atrelado ao processo interacional estabelecido entre os
participantes, uma vez que esses se envolvem e refletem esse envolvimento
num esforço coletivo, buscando a construção de sentidos. O exemplo (2)
exemplifica claramente a distinção entre colaboração e concordância. Os
três interlocutores realizam ações colaborativas durante toda a interação, ou
seja, todos estão engajados no processo interacional. No entanto, percebe-se
que não há uma concordância entre eles: se há um consenso entre M33 e
H28, quanto ao fato de considerarem M34 uma dominadora, uma feminista
machista, não há consenso entre eles (M33 e H28) e M34, que não concorda
com as características que lhe são atribuídas.
Marcuschi (1998b) alerta o analista de interações verbais face a face
para o fato de que “não lhe cabe apenas identificar e admitir que há
compreensão. Ele deve dar conta da seguinte questão: como é que os
participantes de uma interação resolvem suas estratégias e processos de
compreensão de forma tão competente?”.31 O próprio autor apresenta
algumas atividades de compreensão na interação verbal, a partir da análise
de materiais do corpus do NURC-SP. Dentre as atividades propostas, serão
destacadas, neste artigo: a) a negociação; b) a construção de um foco
comum; c) a demonstração de (des)interesse e (não )partilhamento; d) a
existência e diversidade de expectativas e as marcas de atenção.
6.1. Estratégia 1: negociação
A negociação é “aspecto central para a produção de sentido na interação
verbal enquanto projeto conjunto”.32 No exemplo (11), citado a seguir, nas
linhas 121 a 128, a troca do fonema /p/ pelo /t/ provocou um estranhamento
quanto ao nome do veículo — uma Pampa —, já que havia sido entendido
por M06 como “tampa”. O riso (linhas 127 e 130) é resultado da
inadequação terminológica, pois o nome de um objeto (tampa), associado a
um meio de transporte não parece ser coerente para M06. M06 procura
checar a sua compreensão do termo e M22 colabora repetindo o nome do
carro, enfatizando a sílaba que desfaz o equívoco (PAMpa).
Marcuschi (1998b) ainda nos chama a atenção para o fato de que “nem
tudo é negociável. Por exemplo, não negociamos crenças nem convicções, o
que tem consequências por vezes relevantes na continuidade de um tópico e
pode ditar sua ‘morte’”.33 O exemplo (12), fragmento de uma interação
longa, na qual H05 apresentava as linhas divisórias do lote de terra da sua
família, demonstra que a atitude encontrada por H05 foi abortar o tópico,
mediante a não compreensão de P01 sobre as áreas limítrofes. H05 discorda
severamente da conclusão (linhas 638-639) a que P01 havia chegado. P01
percebe que seu interlocutor ficou ofendido e brinca com seu erro (linha
640). Tenta voltar à questão (linha 642), mas H05 muda de tópico,
encerrando o assunto (linha 643). P01 reconhece que não há condições de
consenso e aceita construir um novo tópico (linha 644).
6.2. Estratégia 2: construção de um foco comum
Uma outra atividade de compreensão na interação verbal diz respeito à
construção de um foco comum. Como argumenta Marcuschi, “numa
interação face a face, a base do sucesso das trocas é a presença de interesses
comuns e referentes partilhados, previamente existentes ou construídos no
processo de interação”.34 Nos exemplos (7), (8), (9) e (10), que contêm
trechos de entrevistas, pode-se observar que, em (7) e (8), entrevistador e
entrevistado entram em sintonia na configuração de um foco comum, pois
os tópicos sugeridos são desenvolvidos pelos entrevistados com interesse e
atenção. Já em (9) e (10), percebe-se que os entrevistadores têm um esforço
maior para conduzir as interações, pois as respostas dos entrevistados,
apesar de se manterem no tópico focalizado, são mais sucintas e não
revelam interesse em informar além do mínimo solicitado nas perguntas.
A construção desta sintonia referencial35 nem sempre é possível,
exigindo de um dos interlocutores um árduo trabalho. No exemplo (12), é
possível observar o esforço de ambos os interlocutores, buscando
construírem o mapa das terras de H05. Apesar de os interlocutores terem
interesses comuns (a construção do mapa das terras de H05) e de P01,
durante a interação,demonstrar concordância ou procurar checar suas
dúvidas quanto às informações dadas por H05, não foram construídos
referentes partilhados no processo da interação, pois a pergunta “então eu
posso dizê que a linha é esse caminho? [não?” (linha 637) revela a falta de
sintonia referencial.
6.3. Estratégia 3: demonstração de (des)interesse e
(não-)partilhamento
A terceira atividade de compreensão apresentada por Marcuschi (1998b)
é a demonstração de (des)interesse e (não-)partilhamento. No exemplo (5),
verifica-se que o não-partilhamento das informações vai se desfazendo na
medida em que a interação progride. No exemplo (10), o informante afirma
que se fiscaliza mais ao falar quando está na companhia da documentadora.
Em seguida, ela pergunta o porquê dessa fiscalização e ao mesmo tempo
propõe uma razão: serem professoras de língua portuguesa. O argumento
proposto é aceito imediatamente por seu interlocutor (linha 22). Há entre os
interlocutores interesses comuns e conhecimento partilhado. Nem sempre
os interlocutores possuem os mesmos conhecimentos ou possuem os
mesmos interesses sobre os tópicos. Para ilustrar esta afirmação, será
apresentado a seguir um trecho analisado por Marcuschi (1998b), que
exemplifica uma situação típica de desinteresse pelo tópico em andamento.
36
Pode ser constatada, neste exemplo (13), a construção de uma relação de
não colaboração tópica. Os interlocutores discorrem em faixas diferentes
(L1 na faixa séria e L2 na faixa não séria). L2 toma no sentido literal a
analogia que L1 propõe: “boy barato”-“rei do oeste” e provoca em L1 uma
reação de desagrado (linha 675, “não tem oeste aqui”). A resposta de L2
revela que ele estava entendendo, apenas não tinha interesse no assunto.
Marcuschi (1998b) salienta que “trocas deste tipo são utilizadas
intencionalmente para produzir humor ou então construir piadas ou chistes,
pois mostram interlocutores jogando em campos diversos, sem sintonia
cognitiva”.37
6.4. Estratégia 4: existência e diversidade de expectativas
Um encontro entre pelo menos dois interlocutores gera expectativas
muito diversificadas, as quais estão intimamente relacionadas ao contexto,
às condições em que o encontro ocorre, ao conhecimento partilhado, às
diferentes perspectivas que os interlocutores possuem. Em situações
interativas, os interlocutores sempre têm expectativas prévias (às vezes,
chegamos até a ensaiar o que vamos dizer, como vamos dizer, simulamos a
resposta do nosso interlocutor; e quase sempre esses ensaios não servem
para nada no momento real da interação). Por ter expectativas prévias, o
falante sempre procura estratégias para fazer com que elas ocorram, bem
como fica atento à reação do seu interlocutor. A interação é, pois, um “jogo
com regras dinamicamente escolhidas, por isso é um jogo perigoso: nem
sempre se escolhe a regra certa”.38 Nos fragmentos de entrevistas dos
exemplos (8) e (10), verificamos que, em (8), documentador e informante
parecem ter selecionado bem as regras do jogo, já que a informante constrói
o seu turno enumerando as partes da carne que ela mais gosta de ter em
casa, assinalando no turno aquela de que mais gosta. Já no exemplo (10), o
informante deixa transparecer um certo espanto com a pergunta da
documentadora, através do emprego de uma interjeição, seguida de uma
pausa e um riso nervoso (linha 02: “eita... ((ri demonstrando nervosismo
)))”.
6.5. Estratégia 5: marcas de atenção
Durante a construção de uma conversação, são de importância
fundamental os sinais enviados pelos interlocutores, pois dependendo desta
sinalização é possível avaliar se está havendo uma boa sincronia ou uma má
sincronia entre os interlocutores. A boa sincronia revela maior atenção pelo
tópico em andamento e a má sincronia revela problemas no processo
interacional, que vão desde a não aceitação do tópico até a não
compreensão do mesmo. O uso de marcadores conversacionais, o uso de
alguns traços prosódicos (entonação, mudança de altura de som,
alongamentos de vogais etc.), a realização de alguns gestos, de expressões
faciais e de risos são marcas que informam ao falante sobre a compreensão
do que está sendo dito e sobre o envolvimento dos seus interlocutores na
interação. Observando alguns exemplos analisados previamente neste
artigo, verificamos as marcas de sintonia entre os interlocutores, como o
uso de marcadores conversacionais, nos exemplos (5) e (7), de
alongamentos nos exemplos (10) e (12), e de gestos no exemplo (5). Apesar
do caráter sucinto dessas análises, é possível afirmar que muito do que se
compreende numa interação social resulta da relação construída entre os
interlocutores e da contextualização da própria interação. Não se quer com
isso descartar a importância da linguagem verbal, mas apenas salientar (i)
que ao falarmos não nos utilizamos apenas de uma diversidade de
linguagens, mas colocamos em conexão indivíduos, linguagens, cultura e
sociedade e que (ii) gestos, expressões faciais e tons de voz são, muitas
vezes, mais informativos do que construções linguísticas, visto que a
“gramática é um veículo pobre para exprimir os sutis padrões de
emoção”.39
7. E PARA ENCERRAR A CONVERSA...
No Brasil, a Análise da Conversação consiste numa linha de pesquisa
que vem sendo praticada sistematicamente e conta com uma produção
editorial que abrange transcrições de materiais do corpus do Projeto de
Estudo da Norma Linguística Urbana Culta (NURC); análises de textos
orais realizadas por pesquisadores brasileiros sobre diversos temas da AC;
gramáticas de consulta referentes ao português falado, utilizando o corpus
dos NURCs; além de dissertações e teses apresentadas nos programas de
pós-graduação das universidades brasileiras. Após a bibliografia, o leitor
poderá encontrar enumeradas as publicações referentes às transcrições de
textos orais do corpus do NURC e aos volumes referentes à gramática do
português falado. Uma outra conversa que poderá ser iniciada a partir de
agora será entre você leitor e as referências bibliográficas que foram aqui
apresentadas. Certamente, muitos assuntos virão à tona!
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Unicamp/Fapesp, v. II, 1992.
Gramática do português falado. As abordagens. CASTILHO, A. T. (Org.). Campinas:
Unicamp/Fapesp, v. III, 1993.
Gramática do português falado. Estudos descritivos. CASTILHO, M. (Org.). Campinas:
Unicamp/Fapesp, v. IV, 1996.
Gramática do português falado. Convergências. KATO, M. (Org.). Campinas: Unicamp/Fapesp, v. V,
1996.
Gramática do português falado. KOCH, I. (Org.). Campinas: Unicamp/Fapesp, v. VI, 1996.
1. Marcuschi, L. A. Análise da conversação. São Paulo: Ática, 1986, p. 14.
2. Marcuschi, L. A. Perspectivas dos estudos em interação social na Linguística brasileira dos
anos 90. Recife, 1998a, p. 7. (Mimeografado.)
3. Ibidem, p. 6.
4. A Etnometodologia “tem como objeto de estudo (a) as atividades práticas do cotidiano, o que
implica (b) o caráter empírico desse estudo, além disso, supõe (c) um princípio de organização na
realização dessas atividades pelos membros do grupo social”. Hilgert, J. G. A paráfrase: um
procedimento de constituição do diálogo. Tese de doutorado. PUC-SP, 1989, p. 80.
5. A análise desses níveis se encontra diluída no desenrolar deste capítulo. Em função disso,
faremos agora apenas uma apresentação mais geral.
6. Ver o conceito de atos de fala no capítulo “Pragmática”, neste mesmo volume.
7. Hilgert, J. G., A paráfrase, op. cit.
8. Marcuschi, L. A. Análise da conversação, op. cit., p. 5.
9. Marcuschi, L. A. Perspectivas dos estudos em interação social na Linguística brasileira dos
anos 90, op. cit., p. 6.
10. Uma das dificuldades encontradas pelos analistas da conversação se refere à definição do
termo tópico discursivo, tendo em vista o “caráter vago e amplo do significado de assunto, e do
consequente grau de subjetividade que preside a própria compreensão dessa noção”; (...) e o “fato de
que a associação de assunto e tema torna a explicação circular, na medida em que o conceito de tema
carece, igualmente, de uma definição precisa” (Jubran, C. C. A. S. et al. Organização tópica da
conversação. In: Ilari, R. (org.). Gramática do português falado. Campinas: Editora da Unicamp,
1992, p. 360-361.)
11. Koch, I. G. V. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997, p. 116.
12. Marcuschi, L. A. Perspectivas dos estudos em interação social na Linguística brasileira dos
anos 90, op. cit., p. 14.
13. Ibidem.
14. Koch, I. G. V. O texto e a construção dos sentidos, op. cit., p. 116.
15. Koch, I. G. V. O texto e a construção dos sentidos, op. cit., p. 63.
16. Marcuschi, L. A. Oralidade e escrita. Conferência pronunciada durante II Colóquio Franco-
Brasileiro sobre Linguagem e Educação. Natal, UFRN, 26-28 de junho de 1995, p. 14.
17. Hilgert, J. G. A paráfrase, op. cit., p. 90.
18. Marcuschi,L. A. Análise da conversação, op. cit, p. 9.
19. Steinberg, M. Os elementos não verbais da conversação. São Paulo: Atual, 1988, p. 3.
20. Ibidem, p. 5.
21. Ibidem, p. 16.
22. Marcuschi, L. A. Análise da conversação, op. cit., p. 89.
23. Galembeck, P. et al. O turno conversacional. In: Preti, D.; Urbano, H. A linguagem falada
culta na cidade de São Paulo. São Paulo: T. A . Queiroz/Fapesp, 1997, v. IV, p. 75. (Título original,
1990.)
24. Ibidem, p. 78.
25. Sacks, Schegloff eJefferson (1974) elaboraram um modelo sobre o sistema de organização da
conversação com base na tomada de turno.
26. Marcuschi, L. A. Análise da conversação, op. cit., p. 37.
27. Marcuschi, L. A. Marcadores conversacionais no português brasileiro: formas, posições e
funções. In: Castilho, A. T. (org.) Português culto falado no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp,
1989, p. 288.
28. Marcuschi, L. A. Análise da conversação, op. cit., p. 62.
29. Marcuschi, L. A. Atividades de compreensão na interação verbal. In: Preti, D. (org.) Variações
e confrontos. São Paulo, FFLCH/USP, 1998b, p. 15.
30. Ibidem, p. 21.
31. Ibidem, p. 19.
32. Ibidem, p. 19.
33. Ibidem, p. 19.
34. Ibidem, p. 21.
35. “Sintonia referencial” é um termo empregado por Marcuschi (1998b).
36. Marcuschi, L. A. Atividades de compreensão na interação verbal, op. cit., p. 25-26.
37. Ibidem, p. 26.
38. Ibidem, p. 30.
39. Keller, M. C.; Keller, J. D. Imaging in iron, or thought is not inner speech. In: Gumperz, J.;
Levinson, S. (Eds.). Rethinking linguistic relativity. Cambridge: Cambridge University Press, 1996,
p. 118.
4
ANÁLISE DO DISCURSO1
Fernanda Mussalim
1. A GÊNESE DA DISCIPLINA
1.1. Estruturalismo, marxismo e psicanálise: um terreno fecundo
Falar em Análise do Discurso pode significar, num primeiro momento,
algo vago e amplo, já que toda produção de linguagem pode ser considerada
“discurso”. No entanto, a Análise do Discurso de que vamos falar neste
capítulo trata-se de uma disciplina que teve sua origem na França na década
de 1960.
Para entender a gênese dessa disciplina é preciso compreender as
condições que propiciaram a sua emergência. Maldidier (1994) descreve a
fundação da Análise do Discurso através das figuras de Jean Dubois e
Michel Pêcheux. Dubois, um linguista, lexicólogo envolvido com os
empreendimentos da Linguística de sua época; Pêcheux, um filósofo
envolvido com os debates em torno do marxismo, da psicanálise, da
epistemologia. O que há de comum no trabalho desses dois pesquisadores
com preocupações distintas é que ambos são tomados pelo espaço do
marxismo e da política, partilhando convicções sobre a luta de classes, a
história e o movimento social.
É, pois, sob o horizonte comum do marxismo e de um momento de
crescimento da Linguística — que se encontra em franco desenvolvimento
e ocupa o lugar de ciência piloto — que nasce o projeto da Análise do
Discurso (doravante AD). O projeto da AD se inscreve num objetivo
político, e a Linguística oferece meios para abordar a política. Vamos
compreender de que maneira.
Na conjuntura estruturalista, a autonomia relativa da língua é
unanimemente reconhecida. Isso porque, devido ao recorte que as teorias
estruturalistas da linguagem fazem de seu objeto de estudo — a língua —,
torna-se possível estudá-la a partir de regularidades e, portanto, apreendê-la
na sua totalidade (pelo menos é nisso que crê o estruturalismo), já que as
influências externas, geradoras de irregularidades, não afetam o sistema por
não serem consideradas como parte da estrutura. A língua não é apreendida
na sua relação com o mundo, mas na estrutura interna de um sistema
autônomo. Daí “estruturalismo”: é no interior do sistema que se define, que
se estrutura o objeto, e é este objeto assim definido que interessa a esta
concepção de ciência em vigor na época.
Um exemplo. O estruturalismo de vertente saussureana2 define as
estruturas da língua em função da relação que elas estabelecem entre si no
interior de um mesmo sistema linguístico. Essa relação é sempre binária —
ou seja, os elementos do sistema são sempre tomados dois a dois — e se
organiza a partir do critério diferencial, que determina que todos os
elementos do sistema se definem negativamente. Tomando como pares os
fonemas [p] e [b], para citar um exemplo no nível fonológico, pode-se dizer
que, quanto ao traço de sonoridade, [p] se define com relação a [b] por ser
[-vozeado], ou seja, [b] é um fonema vozeado enquanto [p] é desvozeado.
Por sua vez, tomando como pares os fonemas [p] e [t], quanto ao lugar de
articulação, pode-se dizer que [p] se define como [-dental]3 em relação a [t].
Nessa mesma vertente, o significado também é definido a partir de uma
relação de diferenças no interior do sistema.4 Por exemplo, o signo
linguístico “homem” se define em relação ao signo linguístico “mulher”, do
ponto de vista dos traços semânticos, por ser [-feminino]; por sua vez, com
relação ao signo linguístico “cachorro”, o signo “homem” se define por ser
[-quadrúpede], e assim por diante.
A Linguística, assim, acaba por se impor, com relação às ciências
humanas, como uma área que confere cientificidade aos estudos, já que
esses deveriam passar por suas leis (é nesse sentido que ela se torna uma
ciência piloto), em vez de agarrarem-se diretamente a instâncias
socioeconômicas.5 É nesse horizonte que se inscreve, por exemplo, o
projeto do filósofo Althusser, como afirma Maingueneau (1990): “a
linguística caucionava tacitamente a linha de horizonte do estruturalismo na
qual se inscreve o procedimento althusseriano”.6
Em Ideologia e aparelhos ideológicos do estado (1970/1974), Althusser,
fazendo uma releitura de Marx, distingue uma “teoria das ideologias
particulares”, que exprimem posições de classes, de uma “teoria da
ideologia em geral”, que permitiria evidenciar o mecanismo responsável
pela reprodução das relações de produção, comum a todas as ideologias
particulares. É nesse último aspecto que reside o interesse do autor.
Ao propor-se a investigar o que determina as condições de reprodução
social, Althusser parte do pressuposto de que as ideologias têm existência
material, ou seja, devem ser estudadas não como ideias, mas como um
conjunto de práticas materiais que reproduzem as relações de produção.
Trata-se do materialismo histórico, que dá ênfase à materialidade da
existência, rompendo com a pretensão idealista da ciência de dominar o
objeto de estudo, controlando-o a partir de um procedimento administrativo
aplicável a um determinado universo, como se a sua existência se desse no
nível das ideias. Para o materialismo, “o objeto real (tanto no domínio das
ciências da natureza como no da história) existe independentemente do fato
de que ele seja conhecido ou não, isto é, independentemente da produção ou
não produção do objeto do conhecimento que lhe corresponde”.7
Um exemplo: no modelo econômico do capitalismo (considerando aqui
a concepção clássica de capitalismo, tal como ele foi compreendido pelas
teorias marxistas), as relações de produção implicam divisão de trabalho
entre aqueles que são donos do capital e aqueles que vendem a mão de obra.
Esse modo de produção é a base econômica da sociedade capitalista. Na
metáfora marxista do edifício social, a base econômica é chamada de
infraestrutura, e as instâncias político-jurídicas e ideológicas são
denominadas superestrutura. Valendo-se dessa metáfora, Althusser levanta a
necessidade de se considerar que a infraestrutura determina a superestrutura
(materialismo histórico), ou seja, que a base econômica é que determina o
funcionamento das instâncias político-jurídicas e ideológicas de uma
sociedade. A ideologia — parte da superestrutura do edifício —, portanto,
só pode ser concebida como uma reprodução do modo de produção, uma
vez que é por ele determinada. Ao mesmo tempo, por uma “ação de
retorno” da superestrutura sobre a infraestrutura, a ideologia acaba por
perpetuar a base econômica que a sustenta. Nesse sentido é que se pode
reconhecer a base estruturalista da teoria de Althusser, na medida em que a
infraestruturadetermina a superestrutura e é ao mesmo tempo perpetuada
por ela, como um sistema cuja circularidade faz com que seu
funcionamento recaia sobre si mesmo.
Como modo de apreensão do funcionamento da ideologia, o conceito de
aparelhos ideológicos de Althusser é bastante esclarecedor. Retomando a
teoria marxista de Estado, o autor afirma que o que tradicionalmente se
chama de Estado é um aparelho repressivo do Estado (ARE), que funciona
“pela violência” e cuja ação é complementada por instituições — a escola, a
religião, por exemplo —, que funcionam “pela ideologia” e são
denominadas aparelhos ideológicos de Estado (AIE). Pela maneira como se
estruturam e agem esses aparelhos ideológicos — por meio de suas práticas
e de seus discursos — é que se pode depreender como funciona a ideologia
(trata-se sempre, para Althusser, do funcionamento da ideologia dominante,
pois mesmo que as ideologias apresentadas pelos AIE sejam contraditórias,
tal contradição se inscreve no domínio da ideologia dominante).
A Linguística, então, aparece como um horizonte para o projeto
althusseriano da seguinte maneira: como a ideologia deve ser estudada em
sua materialidade, a linguagem se apresenta como o lugar privilegiado em
que a ideologia se materializa. A linguagem se coloca para Althusser como
uma via por meio da qual se pode depreender o funcionamento da
ideologia.
Poderemos agora melhor compreender a afirmação de Maingueneau
(1990) anteriormente citada — “a linguística caucionava tacitamente a linha
de horizonte do estruturalismo na qual se inscreve o procedimento
althusseriano” — e entender também por que é que, como já foi dito,
presidem o nascimento da AD o marxismo e a Linguística. O projeto
althusseriano, inserido em uma tradição marxista que buscava apreender o
funcionamento da ideologia a partir de sua materialidade, ou seja, por meio
das práticas e dos discursos dos AIE, via com bons olhos uma Linguística
fundamentada sobre bases estruturalistas. Mas uma Linguística saussureana,
uma Linguística da língua, não seria suficiente; só uma teoria do discurso,
concebido como o lugar teórico para o qual convergem componentes
linguísticos e socioideológicos, poderia acolher esse projeto.
É neste contexto que nasce o projeto da AD. Michel Pêcheux, apoiado
numa formação filosófica, desenvolve um questionamento crítico sobre a
Linguística e, diferentemente de Dubois, não pensa a instituição da AD
como um progresso natural permitido pela Linguística, ou seja, não concebe
que o estudo do discurso seja uma passagem natural da Lexicologia (estudo
das palavras) para a Análise do Discurso. A instituição da AD, para
Pêcheux, exige uma ruptura epistemológica, que coloca o estudo do
discurso num outro terreno em que intervêm questões teóricas relativas à
ideologia e ao sujeito. Assim é que, como afirma Maldidier (1994), o objeto
discurso de que se ocupa Pêcheux em seu empreendimento “não é uma
simples ‘superação da Linguística saussuriana’”.8
A Linguística saussureana, fundada sobre a dicotomia língua/fala9 — a
primeira concebida como sistêmica, por isso objetivamente apreendida; a
segunda, não objetivamente apreendida por variar de acordo com os
diversos falantes, que selecionam parte do sistema da língua para seu uso
concreto em determinadas situações de comunicação —, permitiu a
constituição da Fonologia, da Morfologia e da Sintaxe, mas não foi,
segundo Pêcheux (1975/1988), suficiente para permitir a constituição da
Semântica, lugar de contradições da Linguística. Para ele, o sentido, objeto
da Semântica, escapa às abordagens de uma Linguística da língua.10 A
teoria do valor de Saussure (1916/1974), segundo a qual os signos se
definem negativamente, subordina, como aponta Brandão (1998a), a
significação ao valor, de onde decorre que a significação, para Saussure, é
concebida como sistêmica. Para Pêcheux, ao contrário, a significação não é
sistematicamente apreendida por não ser da ordem da língua, mas da ordem
do discurso e, portanto, do sujeito, e sofrer, assim, alterações de acordo com
as posições ocupadas pelos sujeitos que enunciam. O autor retoma esta
dicotomia saussureana para inscrever os processos de significação num
outro terreno, mas não concebe nem o sujeito, nem os sentidos como
individuais, mas como históricos, ideológicos. Assim é que o autor propõe
uma semântica do discurso — concebido como lugar para onde convergem
componentes linguísticos e socioideológicos — em vez de uma semântica
linguística, pois as condições sócio-históricas de produção de um discurso
são constitutivas de suas significações.
Pode-se, assim, perceber o paralelismo dos projetos althusseriano e da
AD. A Análise do Discurso, demonstrando uma vontade de formalização do
discurso a partir da proposta de Pêcheux (1969/1990) de uma análise
automática do discurso (doravante AAD), oferecia um procedimento de
leitura que relacionava determinadas condições de produção11 —
“mecanismo de colocação dos protagonistas e do objeto do discurso,
mecanismo que chamamos de ‘condições de produção do discurso’”12 —
com os processos de produção de um discurso. Para Pêcheux, é como se
houvesse uma “máquina discursiva”, um dispositivo capaz de determinar,
sempre numa relação com a história, as possibilidades discursivas dos
sujeitos inseridos em determinadas formações sociais, conceito originário
da obra de Althusser (1970/1974), que designa, em um determinado
momento histórico, um estado de relações — de aliança, antagonismo ou
dominação — entre as classes sociais de uma sociedade. Assim é que a AD
intervém como um componente essencial do projeto althusseriano que
visava definir uma ciência da ideologia que não fosse ideológica, isto é, que
não implicasse uma posição ideológica de sujeito. O autor, buscando definir
uma “teoria da ideologia em geral” que permitisse evidenciar o mecanismo
responsável pela reprodução das relações de produção comum a todas as
ideologias particulares, vislumbrava a AAD como uma possibilidade
empírica de realização de seu projeto. Do mesmo modo, o pensamento
althusseriano também é determinante na fase inicial de instituição da AD,
cuja proposta se inscreve no materialismo histórico.
Esperamos ter explicitado até aqui o palco do materialismo histórico e
do estruturalismo sobre o qual surge a AD. O materialismo histórico e o
estruturalismo estabelecem as bases não só para a gênese da AD e do
projeto althusseriano (o conceito de “máquina discursiva” e a metáfora do
edifício social evidenciam isso), mas também para a convergência entre
esses projetos.
Ainda um outro elemento compõe o quadro epistemológico do
surgimento da AD: a psicanálise lacaniana. Abordaremos o pensamento
lacaniano procurando evidenciar como ele é fundamental neste momento
inicial de fundação da Análise do Discurso.
A partir da descoberta do inconsciente por Freud, o conceito de sujeito
sofre uma alteração substancial, pois seu estatuto de entidade homogênea
passa a ser questionado diante da concepção freudiana de sujeito clivado,
dividido entre o consciente e o inconsciente. Lacan faz uma releitura de
Freud recorrendo ao estruturalismo linguístico, mais especificamente a
Saussure e a Jakobson, numa tentativa de abordar com mais precisão o
inconsciente, muitas vezes tomado como uma entidade misteriosa, abissal.
Para poder trazer à tona seu material, Lacan assume que o inconsciente
se estrutura como uma linguagem, como uma cadeia de significantes13
latente que se repete e interfere no discurso efetivo, como se houvesse
sempre, sob as palavras, outras palavras, como se o discurso fosse sempre
atravessado pelo discurso do Outro, do inconsciente. A tarefa do analista14
seria a de fazer vir à tona, através de um trabalho na palavra e pela palavra,
essa cadeia de significantes, essas “outras palavras”, esse “discurso do
Outro”, isto é, do inconsciente, lugar desconhecido, estranho, de onde
emana o discurso do pai, da família, da lei, enfim, do Outro e em relação ao
qual o sujeito se define, ganha identidade. Apoiado em alguns critérios do
estruturalismo linguístico,Lacan aborda esse inconsciente, demonstrando
que existe uma estrutura discursiva que é regida por leis. Decorrem dessa
proposta implicações para a psicanálise. A que mais diretamente interessa à
AD diz respeito ao conceito de sujeito, definido em função do modo como
ele se estrutura a partir da relação que mantém com o inconsciente, com a
linguagem, portanto, já que, para Lacan, “a linguagem é condição do
inconsciente”.15
Saussure, como já apontado anteriormente, define o sistema linguístico a
partir do critério diferencial, segundo o qual na língua não há mais que
diferenças. Sendo assim, não se pode atribuir aos elementos do sistema
nada de substancial, ou seja, não se pode defini-los por eles mesmos,
tomando suas características independentemente das características de
outros elementos do sistema, com os quais pode ser tomado em relação.
Passa-se, assim, como uma consequência inevitável do critério diferencial,
ao critério relacional, que delimita a função da relação entre os elementos
no interior do sistema. Dessa remissão entre os elementos do sistema
também decorre o critério do lugar vazio, segundo o qual cada elemento
adquire sua identidade fora de si, já que, na óptica estruturalista, são as
diferenças que definem os elementos. Essas diferenças, por sua vez, não são
intrínsecas aos elementos e nem extrínsecas a eles, mas só podem ser
consideradas a partir de uma posição no interior do sistema. A definição de
cada elemento é uma definição de posição, ou seja, a sua identidade resulta
sempre da relação que um elemento, que ocupa uma determinada posição
inicial no interior do sistema, mantém com outro elemento, que ocupa uma
posição terminal: o fonema [p], ponto inicial, com relação ao fonema [b],
ponto terminal; o fonema [p], ponto inicial, com relação ao fonema [t],
ponto terminal, por exemplo. A identidade resulta sempre dos lugares de
onde são tomados os elementos na relação binária. Trata-se do critério
posicional.
Desses critérios decorrem implicações para o conceito lacaniano de
sujeito (Santiago, 1995), ao qual não se pode atribuir nada de substancial,
pois ele só se define em relação ao Outro (critérios diferencial e
relacional). O sujeito dessubstancializado não está onde é procurado, ou
seja, no consciente, lugar onde reside a ilusão do “sujeito centro” como
sendo aquele que sabe o que diz, aquele que sabe o que é, mas pode ser
encontrado onde não está, no inconsciente (critério do lugar vazio). Assim,
a identidade do sujeito lhe é garantida pelo Outro (inconsciente), ou seja,
por um sistema parental simbólico que determina a posição do sujeito desde
sua aparição. Como explica Santiago (1995), “o pai e a mãe deixam de ser
meros semelhantes com os quais o sujeito se relacionou numa dimensão de
rivalidade ou amor, para se tornarem lugares na estrutura”,
16
 como se o
sujeito fosse tomado por uma ordem anterior e exterior a ele. Dessa forma,
o pai, por exemplo, pode surgir sob diferentes formas buscadas no
imaginário — pai complacente, pai ameaçador etc. —, mas pode também,
ocupando um lugar no discurso da mãe, tomar formas diferentes — pai
ausente, pai presente etc. (critério posicional).
Essa relação entre o sujeito e o Outro se apoia na oposição binária de
Jakobson (1960/1970), segundo a qual um remetente, ocupando uma
posição inicial no processo de comunicação, coloca-se em relação
comunicativa com um destinatário, que ocupa uma posição terminal no
sistema de comunicação. Jakobson não é um estruturalista stricto sensu,
pois, além de considerar os interlocutores do processo comunicativo — fato
completamente discordante do estruturalismo de vertente saussureana, que
exclui de seu campo de análise a fala por ser do âmbito do sujeito —, não
trata do sistema linguístico em si, das regras de organização da língua
propriamente ditas. Jakobson é, por vezes, apontado como estruturalista
pelo fato de abordar o processo comunicativo como um sistema composto
de elementos — remetente, destinatário, código, mensagem, contexto, canal
— que se relacionam no interior de um sistema fechado e recorrente, como
um circuito comunicativo.
Pôde-se perceber, até aqui, em que sentido Lacan recorre ao
estruturalismo, mais especificamente a Saussure e a Jakobson. No entanto,
há pontos em que divergem radicalmente os caminhos do estruturalismo e
de Lacan. O primeiro deles diz respeito à inserção do sujeito na estrutura,
um deslocamento com relação ao estruturalismo saussureano que, num
certo sentido e de maneira diferente, Jakobson também realizara. O segundo
ponto se refere à maneira como é concebida a relação do sujeito com o
Outro, deslocamento que se realiza a partir da concepção do processo
comunicativo de Jakobson.
Esclareçamos o primeiro ponto, mostrando como a inserção do sujeito
no sistema afeta a sua estrutura. O sujeito, por definir-se na relação com o
Outro (inconsciente), nada mais é que um significante do Outro. Mas, por
ser um sujeito clivado, dividido entre o consciente e o inconsciente,
inscreve-se na estrutura, caracteristicamente definida por relações binárias
entre seus elementos, como uma descontinuidade, pois emerge no intervalo
existente entre dois significantes, emerge sob as palavras, sob o discurso.
Lacan, assim, não assume o pressuposto básico do estruturalismo, de
completude do sistema, já que o sujeito — pura descontinuidade na cadeia
significante — “descompleta” o conjunto dos significantes.
No que diz respeito ao segundo ponto, Lacan rompe com o
estruturalismo ao romper com a simetria entre os interlocutores. Jakobson
atesta uma simetria entre esses interlocutores na medida em que não
considera a supremacia de nenhum deles sobre o outro. Lacan rompe com
essa simetria. Para ele, o Outro ocupa uma posição de domínio com relação
ao sujeito, é uma ordem anterior e exterior a ele, em relação à qual o sujeito
se define, ganha identidade.
Feita essa breve abordagem de alguns aspectos do pensamento
lacaniano, poderemos agora explicar em que sentido o pensamento
lacaniano é fundamental neste momento inicial de fundação da Análise do
Discurso, ou seja, em que se pode perceber a relevância do projeto
lacaniano para a AD.
O estudo do discurso para a AD, como já dito anteriormente, inscreve-se
num terreno em que intervêm questões teóricas relativas à ideologia e ao
sujeito. Assim, o sujeito lacaniano, clivado, dividido, mas estruturado a
partir da linguagem, fornecia para a AD uma teoria de sujeito condizente
com um de seus interesses centrais, o de conceber os textos como produtos
de um trabalho ideológico não consciente. Calcada no materialismo
histórico, a AD concebe o discurso como uma manifestação, uma
materialização da ideologia decorrente do modo de organização dos modos
de produção social. Sendo assim, o sujeito do discurso não poderia ser
considerado como aquele que decide sobre os sentidos e as possibilidades
enunciativas de seu dizer, mas como aquele que ocupa um lugar social e a
partir dele enuncia, sempre inserido no processo histórico que lhe permite
determinadas inserções e não outras. Em outras palavras, o sujeito não é
livre para dizer o que quer, mas é levado, sem que tenha consciência disso
(e aqui reconhecemos a propriedade do conceito lacaniano de sujeito para a
AD), a ocupar seu lugar em determinada formação social e enunciar o que
lhe é possível a partir do lugar que ocupa. Como afirma Althusser (1970):
A ideologia é bem um sistema de representações: mas estas representações não têm, na maior
parte do tempo, nada a ver com a “consciência”: elas são na maior parte das vezes imagens, às
vezes conceitos, mas é antes de tudo como estruturas que elas se impõem à maioria dos homens,
sem passar por suas consciências.17
Tendo até aqui descrito o terreno em que se funda a Análise do Discurso
— um terreno em que se relacionam a Linguística e as Ciências Sociais —,
uma questão importante se coloca: qual a especificidade da AD neste
terreno? É o que procuraremos responder a seguir.
1.2. A especificidade da AD
Como aponta Maingueneau (1997), o campo daLinguística, de maneira
muito esquemática, opõe um núcleo “rígido” a uma periferia de contornos
instáveis, que está em contato com a Sociologia, Psicologia, História,
Filosofia etc. O núcleo rígido18 se ocupa do estudo da língua como se ela
fosse apenas um conjunto de regras e propriedades formais, ou seja, não
considera a língua enquanto produzida em determinadas conjunturas
históricas e sociais. A outra região, de contornos instáveis,19 ao contrário,
“se refere à linguagem apenas à medida que esta faz sentido para sujeitos
inscritos em estratégias de interlocução, em posições sociais ou em
conjunturas históricas”.20 A Análise do Discurso pertence a essa última
região, ou seja, considera esse último modo de compreender a linguagem, o
que não significa que, para ela, a linguagem não apresente também um
caráter formal, como apontava o próprio Pêcheux (1975/1988), ao afirmar
que existe uma base linguística regida por leis internas (conjunto de regras
fonológicas, morfológicas, sintáticas) sobre a qual se constituem os efeitos
de sentido, como poderemos observar a partir da análise da tira que se
segue:
Há duas maneiras de interpretar o enunciado de Stock no último
quadrinho: que há vinte anos ele vivia fazendo sexo com a própria noiva, ou
então que há vinte anos ele vivia fazendo sexo com a noiva de Wood, seu
amigo. Em termos essencialmente linguísticos, diríamos que o que permite
essa ambiguidade é a presença do pronome possessivo de 1ª pessoa
“minha”. Pelo fato de ser um dêitico21 — termo que permite identificar
pessoas, coisas, momentos e lugares a partir da situação de enunciação —,
possibilita que o seu referente seja tanto Stock quanto Wood, ou seja,
permite ao leitor que ele interprete o pronome “minha” como referindo-se à
noiva de Stock, o responsável pelo enunciado, ou à noiva de Wood. Isso
porque poderíamos nos perguntar: sobre que parte do enunciado o advérbio
“também” da expressão “Eu também” incide? Sobre “Bete Speed” (eu
também fazendo sexo com a Bete Speed) ou sobre “minha noiva” (eu
também fazendo sexo com minha noiva)? Em outras palavras, qual o
escopo22 de “também”?
Essa primeira análise, referente ao funcionamento da língua, explica o
porquê da ambiguidade na tira, mas não explica por que achamos graça
quando Stock enuncia “Eu também” no último quadrinho. Por que lemos
esta tira como um discurso de humor? Devido às suas condições de
produção. Produzido para circular em uma sociedade em que fazer sexo
com a noiva de outro seria um comportamento bastante fora dos padrões
morais apresentados como adequados a seus membros, a possibilidade de
Stock ter feito sexo com a noiva de seu amigo gera riso, pois coloca Wood
em uma situação bastante constrangedora. No entanto, este mesmo discurso
produzido no interior da comunidade dos esquimós, por exemplo, não
geraria riso, pois, segundo os costumes dessa comunidade, quando um
esquimó recebe um visitante em sua casa, ele oferece sua mulher a ele
como sinal de hospitalidade. Nesse contexto, portanto, o discurso
apresentado nesta tira não seria de humor, seria apenas uma conversa
corriqueira entre dois amigos que relembram fatos do passado.
A ambiguidade se mantém tanto num como noutro contexto, mas os
efeitos que ela gera são diferentes, e são justamente esses efeitos de sentido
que interessam à Análise do Discurso. No caso da tira em questão, a
pergunta que os analistas do discurso fariam seria: por que essa
ambiguidade gera riso? Para a Análise do Discurso, perguntar somente o
que gera a ambiguidade seria muito pouco, essa pergunta já seria feita, por
exemplo, pela Semântica e pela Pragmática (as noções de escopo e de
dêixis, mobilizadas para a análise da tira, pertencem, respectivamente, ao
quadro teórico dessas duas áreas da Linguística). O que garante a
especificidade da Análise do Discurso é a formulação de uma pergunta
subsequente a essa: qual o efeito dessa ambiguidade? A resposta a essa
pergunta reside justamente na relação que os analistas do discurso procuram
estabelecer entre um discurso e suas condições de produção, ou seja, entre
um discurso e as condições sociais e históricas que permitiram que ele fosse
produzido e gerasse determinados efeitos de sentido e não outros.
É preciso esclarecer, no entanto, ao falarmos da especificidade da AD,
que não há apenas uma Análise do Discurso, esta de que vimos falando.
Como decorrência dessa fronteira instável sobre a qual se situa a Análise do
Discurso e em função da disciplina vizinha com a qual ela privilegia o
contato, surgem diferentes “Análises do Discurso”. Classicamente
considera-se que, se uma delas mantém uma relação privilegiada com a
História, com os textos de arquivo, que emanam de instâncias institucionais,
enquanto uma outra privilegia a relação com a Sociologia, interessando-se
por enunciados com estruturas mais flexíveis, como uma conversa informal,
por exemplo, têm-se duas “Análises do Discurso” diferentes: a Análise do
Discurso de origem francesa, que privilegia o contato com a História, e a
Análise do Discurso anglo-saxã,23 área bastante produtiva no Brasil, que
privilegia o contato com a Sociologia.
Atualmente, no entanto, este marco divisório não é tão rígido assim.
Possenti (1996), no artigo “O dado dado e o dado dado (O dado em análise
do discurso)”, faz uma consideração a esse respeito, apontando que a
diferença entre a Análise do Discurso de origem francesa e uma análise
conversacional não precisa ser uma diferença de dados, mas de teoria: “não
é porque os eventos de discurso de tipo ‘linguagem ordinária’ foram objeto
de descrições ‘conversacionais’ ou ‘intencionais’ que eles não são
discursos, que eles não podem ser tomados em conta numa AD”.24 Assim, o
que diferencia a Análise do Discurso de origem francesa da Análise do
Discurso anglo-saxã, ou comumente chamada de americana, é que esta
última considera a intenção dos sujeitos numa interação verbal como um
dos pilares que a sustenta, enquanto a Análise do Discurso francesa não
considera como determinante essa intenção do sujeito; esta considera que
esses sujeitos são condicionados por uma determinada ideologia que
predetermina o que poderão ou não dizer em determinadas conjunturas
histórico-sociais. Essa é, entre outras, uma das diferenças teóricas entre as
duas linhas.
Apontamos, de maneira bastante geral, diferenças entre a Análise do
Discurso de origem francesa e a de origem anglo-saxã. No entanto, há
diferenças no interior de cada uma dessas vertentes. No interior da Análise
do Discurso de origem francesa, por exemplo, Fiorin (1990) aponta
diferentes tendências. Fazendo uma análise do que foi feito no Brasil nas
últimas décadas em termos de Análise do Discurso, o autor apresenta três
correntes ordenadas historicamente e apresentadas a partir dos interditos, ou
seja, a partir do que não é “permitido” fazer no interior de cada uma delas.
A primeira corrente “proibia ocupar-se do funcionamento interno do
texto”, sob o risco de ser tachado de um “direitista do campo da Letras”. A
segunda corrente esboçava um interdito contrário: “é preciso ocupar-se do
funcionamento interno do texto”.25 Fiorin (1990) analisa esse interdito
relacionando-o com a “vitória” do capitalismo, que concebe a história como
“contrato”, ou seja, como sendo regida pelos mecanismos internos do
mercado. Analogicamente, na Análise do Discurso, os mecanismos internos
de produção do sentido é que serão enfatizados. Não obedecer à interdição
dessa segunda corrente significaria pagar o preço de ser considerado
“anacrônico”, assim como neste momento é considerado anacrônico o
universo conceitual marxista. A terceira corrente, que representa a
tendência atual, procura eliminar esses dois interditos que pesaram sobre a
AD em determinados momentos e abordar o discurso em toda a sua
complexidade, concebendo-o como um objeto linguístico e cultural. Há,
entretanto, apesar dessas divergências, um elemento comum entre essas
Análises do Discurso, e esse elemento comum diz respeito à própria
especificidade da AD, como ressalta Fiorin (1990):“o que é específico de
todas essas Análises do Discurso é o estudo da discursivização”,26 ou seja,
o estudo das relações entre condições de produção dos discursos e seus
processos de constituição.
Tendo apresentado o palco intelectual — ocupado ao mesmo tempo pelo
estruturalismo, marxismo e psicanálise — sobre o qual emerge a AD e
mostrado a sua especificidade, passaremos agora a apontar duas influências
decisivas neste primeiro momento de fundação da AD, no que tange aos
seus procedimentos de análise. Trata-se do método harrisiano de análise e
das gramáticas gerativas.
1.3. Procedimentos de análise: a contribuição de Harris e Chomsky
O método de Harris (1969) seguia o rumo das análises estruturalistas,
mas ampliava a unidade de análise. Propondo-se a analisar o texto, concebe
tal análise como uma análise transfrástica, isto é, como uma análise que
transpunha o limite do enunciado, uma vez que não toma como unidade de
análise os elementos que o compõem, mas o próprio enunciado. É um
método fundado basicamente na linearidade do discurso; o autor propõe que
se observe a ligação entre os enunciados a partir de conectivos, com o
objetivo de equacionar essa linearidade em classes de equivalência.
Tomaremos como exemplo ilustrativo de uma análise pautada pelo método
harrisiano o seguinte discurso, analisado por Osakabe (1979, p. 12-13):
(1) O menino viu o belo quadro e gostou dele. Mas o pintor não lhe deu o quadro.
Segundo o autor, esse discurso, já na forma reduzida por transformações
e equivalências fornecidas pela gramática da língua, poderia ser
apresentado da seguinte maneira:
(1’) O menino viu o quadro.
O quadro era belo.
O menino gostou do quadro.
(Mas) o pintor não deu o quadro ao menino.
Partindo das recorrências e da distribuição dos elementos de cada
enunciado, obtém-se um quadro de equivalências. Por exemplo, o verbo ver
pode, neste contexto, ser tomado como equivalente a gostar, e assim
teríamos:
(2) A: 1. O menino viu o quadro.
2. O menino gostou do quadro.
B: O quadro era belo.
(Mas)
C: O pintor não deu o quadro ao menino.
Como resultado, obteríamos a seguinte forma para esse discurso:
(3) A1:
A2:
B:
(Mas)
C:
Ou ainda,
(4) A:
B:
(Mas)
C:
O recurso a esse método pelos iniciadores da AD explica-se por um
certo interesse comum em produzir uma análise da superfície discursiva:
Dubois se valia desse método, como relata Maldidier (1994), como “um
meio de fazer aparecer as regularidades significativas dos discursos
contrastados pelo corpus”,27 ou seja, como uma forma de evidenciar o que
havia de regular, de constante em cada um dos discursos contrastados. Para
Pêcheux, por sua vez, a deslinearização decorrente das transformações —
(1) e (2) —, por exemplo, permitia perceber os traços dos processos
discursivos — (3) e (4) —, ou seja, os processos pelos quais um discurso se
constituía enquanto tal.
Harris, como foi possível perceber, restringe-se a uma concepção de
discurso como uma sequência de enunciados. Essa definição mostrou-se
insuficiente para os propósitos da AD, que buscava reintegrar uma teoria do
sujeito e uma teoria da situação. Assim, Pêcheux, visando a construção de
um arcabouço teórico que lhe permitisse isso, passa a considerar a oposição
enunciação e enunciado.28 A primeira se refere às condições de produção
do discurso (é neste nível que será possível reintegrar as teorias do sujeito e
da ideologia), que permitiriam a elocução de um discurso e não de outros,
isto é, refere-se a determinadas circunstâncias, a saber, o contexto histórico-
ideológico e as representações que o sujeito, a partir da posição que ocupa
ao enunciar, faz de seu interlocutor, de si mesmo, do próprio discurso etc.; e
o segundo se refere à superfície discursiva resultante dessas condições. O
procedimento gerativista de análise,29 já bastante difundido na época, vem
ao encontro dos interesses de Pêcheux.
Em 1957, Noam Chomsky, aluno de Z. Harris, publica Estruturas
sintáticas e coloca em questão o método estruturalista americano.30
Chomsky postula a existência de um sistema de regras internalizadas
responsável pela geração das sentenças. A possibilidade de produzir uma
análise nesses moldes aponta um caminho para a AD reintegrar as teorias
do sujeito e da situação. Numa analogia com o postulado de que o sistema
de regras é responsável pela geração das sentenças, propõe-se a noção de
condições de produção, responsável pela geração dos discursos. Esse
conceito de condições de produção é, como aponta Orlandi (1987), básico
para a AD, pois elas “caracterizam o discurso, o constituem e como tal são
objeto de análise”.31 Para a AD, portanto, a enunciação não é um desvio,
mas um “processo constitutivo da matéria enunciada”, afirma a autora.32
É este último procedimento de análise que será produtivo para a AD,
pois será a partir dele que ela formulará e reformulará seus procedimentos
de análise e seu objeto de estudo, que definirão, por sua vez, o que
chamamos as fases da AD.
2. FASES DA AD: OS PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE E A DEFINIÇÃO DO OBJETO
A primeira época da Análise do Discurso33 (doravante AD-1) explora a
análise de discursos mais “estabilizados”, no sentido de serem pouco
polêmicos,34 por permitirem uma menor carga polissêmica, isto é, uma
menor abertura para a variação do sentido devido a um maior silenciamento
do outro (outro discurso/outro sujeito). Os discursos políticos teórico-
doutrinários, como um manifesto do Partido Comunista, são um bom
exemplo. Por serem mais “estabilizados”, pressupõe-se que tais discursos
sejam produzidos a partir de condições de produção mais estáveis e
homogêneas, isto é, no interior de posições ideológicas e de lugares sociais
menos conflitantes: o manifesto comunista é enunciado do interior do
Partido Comunista e representa seus possíveis interlocutores inscritos neste
mesmo espaço discursivo. Considere, para contrapor, um debate político de
que estivessem participando marxistas e liberais. Nessas condições de
produção, o discurso do Partido Comunista representaria parte de seu(s)
interlocutor(es) inscrito(s) em um outro lugar social, a saber, no espaço
discursivo liberal. Neste caso, teríamos uma relação mais conflitante, pouco
“estabilizada”. Um debate não seria, portanto, objeto de análise da AD-1.
Com relação aos procedimentos de análise da AD-1, eles são realizados
por etapas, apresentadas a seguir:
a) primeiramente se seleciona um corpus fechado de sequências
discursivas (o corpus analisado por Simone Bonnafous,35 sobre as
moções do Congresso de Metz do Partido Socialista, de 1979, é um
bom exemplo);
b) em seguida, faz-se a análise linguística de cada sequência,
considerando as construções sintáticas (de que maneira são
estabelecidas as relações entre os enunciados) e o léxico
(levantamento de vocabulário);
c) passa-se depois à análise discursiva, que consiste basicamente em
construir sítios de identidades a partir da percepção da relação de
sinonímia (substituição de uma palavra por outra no contexto) e de
paráfrase (sequências substituíveis entre si no contexto);
d) por fim, procura-se mostrar que tais relações de sinonímia e paráfrase
são decorrentes de uma mesma estrutura geradora do processo
discursivo.
Têm-se, então, a noção de “máquina discursiva”: uma estrutura
(condições de produção estáveis) responsável pela geração de um processo
discursivo (o processo de construção das moções do Congresso de Metz do
Partido Socialista, de 1979, por exemplo) a partir de um conjunto de
argumentos e de operadores responsáveis pela construção e transformação
das proposições, concebidas como princípios semânticos que definem,
delimitam um discurso (o do Congresso de Metz do Partido Socialista, para
tomá-lo como exemplo).
Para a AD-1, cada processo discursivo é gerado por uma máquina
discursiva. Assim, diferentes processos discursivos referem-se a diferentes
máquinas discursivas, cada uma delas idêntica a si mesma e fechada sobre
si mesma (Pêcheux, 1983/1990).
Na segunda fase da AD36 (AD-2), a noção de máquina estrutural
fechada começa a explodir.O conceito de formação discursiva, elaborado
pelo filósofo Michel Foucault (1969/2004), é um dos dispositivos que
desencadeia esse processo de transformação na concepção do objeto de
análise da Análise do Discurso. Faremos uma incursão pelas formulações
de Foucault em torno desse conceito, a fim de delimitar melhor sua
abordagem e, ao mesmo tempo, possibilitar ao leitor que, no decorrer da
leitura deste capítulo, ele possa bem distinguir entre as concepções
foucaultiana e pecheutiana de formação discursiva.
Foucault (1969/2004), em seu livro Arqueologia do saber, define
discurso como um conjunto de enunciados que provém de um mesmo
sistema de formação, ou ainda, para especificar melhor, define discurso
como sendo constituído por um número limitado de enunciados para os
quais se pode definir um conjunto de condições de existência.
Nesse livro, o autor dá um tratamento extenso ao discurso, uma vez que
a arqueologia proposta por ele é uma modalidade de análise do discurso. O
discurso, nessa obra, tem o estatuto de uma entrada metodológica, visto que
o alvo das reflexões de Foucault não é o discurso em si, isto é, o conjunto
de enunciados, mas a descrição de suas condições de existência, de seu
sistema de formação, ou, melhor dizendo, da formação discursiva, definida
como
um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que
definiram em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou linguística dada,
as condições de exercício da função enunciativa.37
Enunciado, discurso e formação discursiva são, pois, conceitos que, em
Foucault, reenviam uns aos outros.
N’Arqueologia, o autor se propõe a realizar, fundamentalmente, duas
grandes tarefas. A primeira delas consiste em liberar terreno, isto é, em
desfazer-se de categorias que, em alguma medida reforçam:
i) o pressuposto da continuidade histórica, como é o caso das noções de
tradição; de influência; de desenvolvimento e evolução; de
mentalidade ou espírito de época;
ii) a ideia de familiaridade, que sustenta agrupamentos (ciência,
literatura, filosofia, religião, história, ficção) tomados como grandes
individualidades históricas;
iii) temas que condenam a análise histórica à repetição, tais como o de
que há, para além de qualquer começo, uma origem secreta; e o de
que todo discurso efetivo repousaria sobre um já dito.
Uma vez suspensas tais categorias, o autor passa a delinear os
instrumentos e o objetivo fundamental da arqueologia que propõe.
Enquanto método de análise dos discursos, a arqueologia não busca ser nem
interpretação, o que implicaria referir o discurso às coisas ou à interioridade
da consciência de um indivíduo (por isso Foucault recusa o conceito de
frase), nem tampouco formalização, o que implicaria estabelecer as
condições gramaticais e lógicas da formação dos enunciados (por isso
recusa o conceito de proposição). Diferentemente, a arqueologia que propõe
trata-se de uma análise histórica das condições de enunciabilidade ou, mais
especificamente, trata-se de uma análise das condições de possibilidade que
fizeram com que, em determinado momento histórico, apenas alguns
enunciados tenham sido efetivamente possíveis — isto é, tenham sido
efetivamente produzidos — e outros não. É a partir dessa perspectiva que
Foucault assume o enunciado como unidade de análise e busca definir as
formações discursivas a partir de suas regularidades.
Mas que regularidades são essas? Para esclarecer essa questão, Foucault
delineia quatro hipóteses que fundamentam a arqueologia que propõe
enquanto método de análise dos discursos.
Recusando a ideia de que enunciados, diferentes em sua forma e
dispersos no tempo, formam um conjunto quando se referem a um único e
mesmo objeto, isto é, rechaçando a ideia de que a unidade dos discursos se
funda na unidade do objeto, o autor formula a hipótese de que cada discurso
(por exemplo, o discurso clínico, o discurso econômico, o discurso da
história natural, o discurso psiquiátrico) constitui seu objeto e o elabora até
transformá-lo inteiramente, de modo que os enunciados de um discurso
remetem não a um correlato que lhe imprime sentido, ou a um referente no
mundo que determina seu valor de verdade, mas a um referencial
constituído pelas regras que definem as condições históricas de surgimento
de um objeto. Com base em seu trabalho desenvolvido em História da
loucura (1961/2008), o autor esclarece que não se deve tentar identificar
um objeto (no caso, a loucura) único e perene, mas tentar estabelecer as
regras que determinaram o espaço histórico-social em que esse objeto se
constituiu e se transformou. Por exemplo, deve-se tentar explicar por que,
em determinada época, começou-se a falar de determinados
comportamentos em termos de loucura e enfermidade mental.
Na análise da formação dos objetos, Foucault afirma que é necessário:
a) demarcar as superfícies primeiras de emergência, isto é, mostrar onde
podem surgir. No caso da psicopatologia do século XIX, o autor
afirma que essas superfícies primeiras de emergência dos objetos
(que fazem-nos aparecer, tornam-nos nomeáveis e descritíveis)
foram, muito provavelmente, constituídas pela família, pelo meio do
trabalho, pela comunidade religiosa, pelo grupo social próximo, pela
arte com sua normatividade própria, pela sexualidade, pela
penalidade;
b) descrever as instâncias de delimitação, que distinguem, nomeiam,
instauram os objetos. No século XIX, por exemplo, a medicina
tornou-se a instância superior que, na sociedade ocidental,
distinguiu, designou, nomeou e instaurou a loucura como objeto.
Mas, além da medicina, também a justiça penal, a autoridade
religiosa, a crítica literária e artística tornaram-se instâncias de
delimitação desse objeto;
c) analisar as grades de especificação, que se referem aos sistemas
segundo os quais se separam, se opõem, se associam, se reagrupam,
se classificam, se derivam, por exemplo, as diferentes “loucuras”
como objetos do discurso psiquiátrico do século XIX. As grades de
especificação desse discurso, segundo Foucault, foram a alma, o
corpo, a vida e a história dos indivíduos, os jogos de correlações
psicológicas.
Entretanto, de acordo com Foucault (1969/2004), a consideração dessas
três instâncias não é suficiente para se analisar a formação dos objetos e,
com base nesse aspecto, caracterizar a individualidade de um discurso. A
formação dos objetos é assegurada pelo conjunto de relações estabelecidas
entre essas instâncias — de emergência, delimitação e especificação.
A segunda hipótese formulada pelo autor nasce da recusa à ideia de que
a unidade dos discursos se funda na forma de seus enunciados, no tipo de
encadeamento entre eles, ou seja, num certo caráter constante da
enunciação, num certo estilo, portanto. Diferentemente, Foucault postula
que apenas se pode dizer que um conjunto de enunciados pertence à mesma
ordem do discurso, caracterizando o modo de coexistência desses
enunciados (dispersos e heterogêneos), descrevendo o sistema que rege sua
repartição, o modo como se transformam, se apoiam uns nos outros, se
supõem ou se excluem, se revezam, se substituem. Por exemplo, em O
nascimento da clínica (1963/2008), o autor busca demonstrar que a unidade
do discurso clínico não decorre da unicidade das modalidades enunciativas;
diferentemente, sua individualidade provém do conjunto de regras que
possibilitam a coexistência de diferentes modalidades enunciativas. Essas
modalidades enunciativas diversas e o lugar de onde vêm podem ser
identificadas a partir das seguintes questões:
a) “quem fala?”: quem, no conjunto de todos os sujeitos falantes, tem
esta espécie de linguagem? / qual é o status dos indivíduos que têm
o direito de proferir semelhante discurso?;
b) “de que lugares institucionais se fala?”: de onde o médico obtém seu
discurso, e de onde este encontra sua origem legítima e seu ponto de
aplicação (o hospital, a prática privada, o laboratório)?;
c) “de que posições variadas se fala?”: o sujeito questiona a partir de
que grade de interrogações, ouve apartir de que programa de
informação? / ocupa que lugar na rede de informações (no ensino
teórico ou na pedagogia escolar; no sistema da comunicação oral ou
da documentação escrita)? etc.
Foucault (1969/2004) esclarece que essas diversas modalidades de
enunciação não estão relacionadas à unidade de um sujeito, isto é, não
remetem à função unificante de um sujeito; diferentemente, manifestam sua
dispersão nos diversos status, nos diversos lugares, nas diversas posições
que pode ocupar ao exercer um discurso, na descontinuidade dos planos de
onde fala, portanto. Com base nesse pressuposto é que o autor postula que
não é pelo recurso a uma subjetividade psicológica ou a um sujeito
transcendental que o regime das enunciações de um discurso é definido,
mas pelo sistema de relações por meio do qual todas as modalidades de
enunciação encontram-se ligadas. Deve-se, pois, definir a unidade de um
discurso considerando o campo de regularidades que rege essas diversas (e
dispersas) modalidades de subjetividade.
A terceira hipótese apresentada pelo autor em Arqueologia do saber
(1969/2004) diz respeito à formação dos conceitos. Foucault refuta a ideia
de que a unidade dos discursos se funda na persistência e permanência de
determinados conceitos e defende que o reconhecimento dessa unidade
decorre da descrição da organização do campo em que os enunciados
aparecem e circulam, isto é, da descrição de:
a) como esses enunciados se sucedem:
• como as séries enunciativas se ordenam (por inferência,
demonstração etc.);
• quais são os tipos de dependência enunciativa (dependência
hipótese-verificação, lei geral-caso particular etc.);
• quais são os esquemas retóricos (como se articulam num texto, por
exemplo, deduções e descrições).
b) quais são suas formas de coexistência, que incluem:
• campo de presença: todos os enunciados já formulados em alguma
parte e que são retomados em um discurso, a título de pressuposto
necessário, verdade admitida, raciocínio fundado, bem como todos
os enunciados discutidos, criticados, julgados, rejeitados, excluídos;
• campo de concomitância: enunciados que pertencem a tipos de
discurso diversos e/ou que se referem a domínios de objetos
inteiramente diferentes, mas que atuam entre os enunciados
estudados, valendo como confirmação lógica, princípio geral,
modelos transferíveis a outros conteúdos etc.;
• domínio de memória: enunciados que não são mais admitidos, nem
discutidos e que, por isso, não definem mais nem um corpo de
verdades, nem um domínio de validade, mas em relação aos quais
são estabelecidos laços de gênese, filiação, transformação,
continuidade ou descontinuidade histórica.
c) quais são os procedimentos de intervenção que podem ser aplicados
aos enunciados, e que aparecem:
• nas técnicas de reescrita: as que permitiram, por exemplo, aos
naturalistas do período clássico reescrever descrições lineares em
quadros classificatórios;
• nos métodos de transcrição de enunciados: das línguas naturais para
uma língua mais ou menos formalizada e artificial, por exemplo;
• nos modos de tradução dos enunciados quantitativos em
formulações qualitativas e vice-versa;
• nos meios utilizados para aumentar a aproximação dos enunciados e
refinar sua exatidão;
• na maneira pela qual se delimita o domínio de validade dos
enunciados (por extensão ou restrição);
• na maneira pela qual se transfere um tipo de enunciado de um
campo de aplicação a outro (por exemplo, a transferência da
caracterização vegetal à taxinomia animal);
• nos métodos de sistematização de proposições, que já foram
formuladas anteriormente e em separado;
• nos métodos de redistribuição de enunciados já ligados uns aos
outros, mas que são recompostos em um novo conjunto sistemático.
No entanto, mais uma vez, Foucault (1969/2004) esclarece que toda essa
descrição não é suficiente para definir a unidade de um discurso, visto que o
que permite delimitar o grupo de conceitos específicos a ele é a maneira
pela qual todos esses diferentes elementos (relativos à organização do
campo de enunciados, à configuração desse campo e aos procedimentos de
intervenção) estão relacionados uns aos outros; é esse feixe de relações que
constitui um sistema de formação conceitual.
Por fim, Foucault apresenta a quarta hipótese de seu trabalho. Refutando
o pressuposto de que a unidade dos discursos provém da identidade e da
persistência de determinados temas, o autor afirma que definir essa unidade
implica definir as suas possibilidades estratégicas,38 ou seja, implica:
a) assinalar os pontos de difração possíveis do discurso, que se
caracterizam como:
• pontos de incompatibilidade: dois objetos, dois tipos de enunciação
ou dois conceitos podem aparecer no mesmo discurso, mas não
podem entrar em uma mesma e única série de enunciados;
• pontos de equivalência: dois elementos incompatíveis que, por
responderem às mesmas possibilidades de existência, por serem
formados a partir das mesmas regras e se situarem em um mesmo
nível, representam uma alternativa;
• pontos de ligação de uma sistematização, que possibilitam que, a
partir de pontos de equivalência ou incompatibilidade, sejam
derivados uma série coerente de objetos, formas enunciativas e
conceitos, com outros pontos de incompatibilidade ou equivalência.
b) descrever as instâncias específicas de decisão, a fim de explicar as
escolhas realizadas, entre todas que poderiam ter sido feitas.
Descrever tais instâncias implica:
• explicitar a economia da constelação discursiva, isto é, o papel
desempenhado pelo discurso estudado em relação aos que lhe são
contemporâneos e vizinhos;
• descrever, entre diversos discursos, relações de delimitação
recíproca, isto é, quais são as marcas distintivas (de singularidade)
de cada um deles, perceptíveis pela diferenciação de seus métodos,
instrumentos e domínio de aplicação.
c) estabelecer a função do discurso em relação às práticas não
discursivas.
Em relação a essa última hipótese, Foucault (1969/2004) também afirma
que a individualidade de um discurso não decorre da descrição de todos
esses pontos relativos à formação das estratégias. Diferentemente, a
individualização de um discurso decorre do sistema de formação das
diferentes estratégias que nele se desenrolam, estratégias essas que derivam
de um mesmo jogo de relações.
Como deve ter sido possível perceber na apresentação dessas quatro
hipóteses, a unidade dos discursos não decorre de um plano de análise
específico, ou do conjunto de todos os planos de análise considerados, mas
do sistema de relações entre todos eles. É considerando esse método
arqueológico de análise do discurso que Foucault (1969/2004) propõe que
se busque descrever os sistemas de dispersão em suas regularidades,
afirmando que:
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de
dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas
temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e
funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação
discursiva.39
Dessa perspectiva, mais de um discurso pode relevar de uma mesma
formação discursiva. É o caso, apenas para exemplificar, do discurso da
gramática do século XIX e do discurso da biologia do mesmo século. Isto
porque os enunciados (de diversos discursos) se submetem, em última
instância, a um sistema de formação, cujas “regras anônimas, históricas,
sempre determinadas no tempo e no espaço” definiram “em uma época
dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou linguística dada, as
condições de exercício da função enunciativa” (Foucault, 1969/2004, p.
133). Evidentemente, da perspectiva foucaultiana, não se trata de um
espírito de época, mas de condições históricas de enunciabilidade.
Tendo apresentado a noção de formação discursiva em Foucault,
voltamos ao tópico central dessa seção (apresentação das fases de AD),
buscando responder em que sentido a noção de formação discursiva
formulada em Arqueologiado saber participa do processo de transformação
na concepção do objeto de análise da Análise do Discurso.
Paul Henry (1990), no artigo intitulado “Os fundamentos teóricos da
Análise ‘Análise Automática do Discurso’ de Michel Pêcheux (1969)”,
afirma que existem muitos pontos de contato entre o que Michel Foucault e
Michel Pêcheux elaboraram em suas reflexões sobre discurso, dentre eles
— e talvez o ponto mais evidente — o interesse comum que partilhavam
pela história das ciências e das ideias. Falar, pois, das influências do
trabalho de Foucault sobre as reflexões de Pêcheux — mesmo no que tange
especificamente às formulações referentes à Arqueologia do saber —
exigiria paralelos razoavelmente extensos.40 Para os propósitos deste texto,
entretanto, gostaríamos apenas de pontuar que uma das contribuições
fundamentais que a noção de formação discursiva desenvolvida por
Foucault traz para o campo da Análise do Discurso é a possibilidade de se
eliminar o problema da homogeneidade na constituição dos corpora
discursivos.41 O campo de aplicação da noção de formação discursiva
foucaultiana extrapola — e muito — um discurso produzido a partir de
condições de produção homogêneas (concepção de discurso formulada na
primeira fase da AD), e isso será decisivo para os novos horizontes
vislumbrados pelas reflexões de Pêcheux.
A noção de formação discursiva é acolhida por Pêcheux, mas
reconfigurada no quadro teórico do marxismo althusseriano, passando a
constituir a tríade formação social, formação ideológica e formação
discursiva. De acordo com Pêcheux e Fuchs (1975/1990), toda formação
social se caracteriza por uma certa relação entre as classes sociais e implica
a existência de posições ideológicas e políticas que se organizam em
formações, que mantêm entre si relações de confronto e antagonismo, de
aliança ou dominação. A esse respeito, os autores esclarecem que falarão
em formação ideológica
para caracterizar um elemento (esse aspecto da luta nos aparelhos) suscetível de intervir como
uma força em confronto com outras na conjuntura ideológica característica de uma formação
social em dado momento; desse modo, cada formação ideológica constitui um conjunto complexo
de atitudes e de representações que não são nem “individuais” nem “universais” mas se
relacionam mais ou menos diretamente a posições de classes em conflito umas com as outras.42
Seguindo Althusser, Pêcheux e Fuchs ainda afirmam que o discursivo
deve ser concebido como um dos aspectos materiais da materialidade
ideológica, ou, em outras palavras, afirmam que
a espécie discursiva pertence ao gênero ideológico, o que é o mesmo que dizer que as formações
ideológicas (...) comportam necessariamente, como um de seus componentes, uma ou várias
formações discursivas interligadas que determinam o que pode e deve ser dito (articulado sob a
forma de uma harenga, um sermão um panfleto, uma exposição, um programa etc.) a partir de
uma posição dada numa conjuntura, isto é, numa certa relação de lugares no interior de um
aparelho ideológico, e inscrita numa relação de classes.43
As formações discursivas, portanto, intervêm nas formações ideológicas
enquanto componentes que materializam a contradição entre diferentes
posições ideológicas. Assim, uma formação discursiva (doravante FD) não
pode ser concebida como homogênea ou como um espaço estrutural
fechado, visto que, pelo fato de suas condições de produção serem
contraditórias, ela se constitui como um espaço constantemente invadido
por elementos que vêm de outro lugar, de outras formações discursivas.
Neste sentido, o espaço de uma FD é atravessado pelo “pré-construído”,44
ou seja, por discursos que vieram de outro lugar (de uma construção
anterior e exterior) e que são incorporados por ela numa relação de
confronto ou aliança. Uma FD, portanto, é constituída por um sistema de
paráfrases, já que é um espaço em que enunciados são retomados e
reformulados sempre “num esforço constante de fechamento de suas
fronteiras em busca da preservação de sua identidade”.45
Nesta segunda fase da AD, o objeto de análise passará a ser as relações
entre as “máquinas” discursivas. Vale ressaltar, no entanto, que o
fechamento da maquinaria ainda é conservado, pois a presença do outro
(outra FD) sempre é concebida a partir do interior da FD em questão.
No que diz respeito aos procedimentos de análise, a AD-2 apresenta
muito poucas inovações; o deslocamento efetivo que se dá com relação à
AD-1 diz respeito sobretudo ao objeto de análise: discursos menos
“estabilizados”, por serem produzidos a partir de condições de produção
menos homogêneas. O “discurso comunista dirigido aos cristãos”, corpus
de análise de Courtine (1981) é um bom exemplo.
A desconstrução da maquinaria discursiva só ocorrerá mesmo na
terceira fase da Análise do Discurso46 (AD-3). Essa desconstrução é
decorrente de um deslocamento que ocorre no que diz respeito à relação de
uma FD com as outras. Na AD-2, o “outro” — outra(s) FD(s) — é
incorporado pela FD em questão, que mantém, mesmo sendo atravessada
por outros discursos, uma identidade. É possível, através de uma análise
discursiva, determinar o interno e o externo de uma formação discursiva,
isto é, o que pertence a uma ou à(s) outra(s) FD(s).
Na AD-3, por sua vez, adota-se a perspectiva segundo a qual uma FD
está sempre dominada pelo interdiscurso,47 a ponto de Pêcheux afirmar que
a formação discursiva só pode produzir o assujeitamento ideológico — isto
é, só pode levar um sujeito a ocupar uma posição no interior das relações de
classes sem se dar conta de que é levado a isso —, na medida em que ela
está de fato dominada pelo interdiscurso, conceito que é entendido pelo
autor como sendo o conjunto estruturado das formações discursivas ou,
ainda, como um todo complexo com dominante. Essa é uma das formas de
se entender uma tese cara à AD, a saber, a do primado do interdiscurso
sobre o discurso:
(...) toda formação discursiva dissimula, pela transparência de sentido que nela se constitui, sua
dependência em relação ao “todo complexo com dominante” das formações discursivas, intricado
no complexo das formações ideológicas.48
Essa nova postura teórica frente ao objeto da AD exclui definitivamente
a possibilidade de se considerar a FD como a unidade de análise. O objeto
de análise da Análise do Discurso passa a ser o espaço de trocas entre
formações discursivas, ou ainda, o interdiscurso.
Os trabalhos de Dominique Maingueneau, além de serem bastante
representativos dessa nova forma de se conceber o objeto da AD, ainda
desenvolvem uma concepção de interdiscurso bastante produtiva e
operacional para o analista do discurso, na medida em que explicita seus
diversos níveis de funcionamento. Em Gênese dos discursos (1984/2008), o
autor concebe o interdiscurso a partir da consideração do discurso sob o
duplo ponto de vista de sua gênese e de sua relação com o interdiscurso, o
que significa assumir que a identidade de um discurso é indissociável de
sua emergência e de sua manutenção através do interdiscurso. Ou seja, o
que há, a princípio, é o interdiscurso (um conjunto de formações discursivas
em relação), de modo que a identidade de cada FD não está dada a priori,
mas se constitui de maneira regulada no interior de um interdiscurso. Será a
relação interdiscursiva, portanto, que estruturará a identidade das formações
discursivas em relação. Um postulado como esse explode definitivamente o
procedimento de análise por etapas, com ordem fixa, tal como levavam a
cabo os trabalhos da AD-1 e da AD-2.
O conceito de interdiscurso apresentado em Gênese dos discursos49 é
um dos pontos fortes da reflexão teórica de Dominique Maingueneau. No
intuito de especificar melhor essa noção, que considera vaga para seus
propósitos, o autor propõe que se considere o interdiscurso a partir da tríade
universo discursivo, campo discursivo e espaço discursivo.
A noção de universo discursivo diz respeito ao conjunto de formações
discursivas de todos os tipos, que interagem em uma conjuntura dada.
Mesmo não sendo possível apreendê-loem sua globalidade, trata-se de um
conjunto finito que define uma extensão a partir da qual serão construídos
domínios susceptíveis de serem estudados, a saber, os campos discursivos.
O campo discursivo deve ser compreendido como sendo um conjunto de
formações discursivas50 com mesma função social, que divergem,
entretanto, quanto ao modo pelo qual essa função deve ser preenchida.51
Em uma região determinada do universo discursivo, tais formações
discursivas buscam delimitar-se reciprocamente, por meio de uma relação
de concorrência, compreendendo este último termo de maneira mais ampla,
de modo a significar tanto afrontamento aberto, quanto aliança, neutralidade
aparente etc. O recorte em campos discursivos não define zonas insulares; é
antes uma abstração necessária que deve permitir abrir múltiplas redes de
trocas. A delimitação desses campos também não tem nada de evidente,
mas exige do analista que ele faça hipóteses e escolhas, pautadas tanto na
materialidade linguística dos supostos discursos que se encontram em
relação, como nas condições de enunciabilidade de tais discursos, condições
que, por sua vez, circunscrevem-se historicamente.
É no interior do campo discursivo que se constitui uma FD, e sua
constituição pode, de acordo com Maingueneau, ser descrita em termos de
operações regulares sobre formações discursivas já existentes. Essa hipótese
nos conduz a uma outra noção definida pelo autor, a saber, a noção de
espaço discursivo, que deve ser compreendido como um subconjunto de
formações discursivas cuja relação o analista julga pertinente considerar
para seu propósito. O recorte desse subconjunto deve resultar de hipóteses
fundadas sobre um conhecimento dos textos e sobre um saber histórico que
serão confirmados, ou não, no decorrer da pesquisa.
Estas três noções (universo, campo e espaço discursivos) trazidas para o
interior da Análise do Discurso por Maingueneau permitem definir zonas de
regularidade semântica (o campo e o espaço), no interior das quais pode ser
mais produtivo o tratamento da gênese e do modo de coesão entre as
formações discursivas em relação, já que tais zonas de regularidade acabam
por delimitar rigorosamente o fenômeno da interdiscursividade a partir de
condições históricas bem especificadas.
Na seção que se segue, faremos a análise de uma crônica a fim de
operacionalizar uma análise de texto com base nos pressupostos da AD.
Retomaremos alguns conceitos já apresentados, além de apresentar outros
ainda não abordados (pelo menos de forma direta), como os conceitos de
sujeito e sentido.52
3. UMA ANÁLISE
3.1. Como ler um texto: em pauta as noções de formação ideológica,
formação discursiva, interdiscurso, condições de produção,
heterogeneidade, sujeito e sentido
Nesta seção, nos debruçaremos sobre a análise de um texto — a crônica
“Um só seu filho” de Bráulio Tavares, publicada no Caderno Mais da Folha
de S.Paulo, no dia l6 de março de 1997. Antes, porém, é necessário
esclarecer que o texto, para a AD, não é concebido como uma unidade
coerente de sentido, tal como o é, por exemplo, para a Linguística Textual.
A relevância do texto para a AD “decorre do fato de que cada texto é parte
de uma cadeia (de um arquivo)”, decorre de ele ser concebido “como uma
superfície discursiva, uma manifestação aqui e agora de um processo
discursivo específico”.53 Para a AD, o texto faz sentido
por sua inserção em uma FD, em função de uma memória discursiva, do interdiscurso, que o texto
retoma e do qual é parte. Ou seja, não há propriamente texto, concebido como uma unidade; o
que há são linearizações concretas (materiais) de discursos.54
Será, pois, desta perspectiva que empreenderemos a análise da crônica.
Vale ainda esclarecer que a escolha por este material de análise se justifica
pela própria forma como a crônica é construída, de maneira bastante
interessante para um primeiro contato com alguns dos fundamentos teóricos
da AD. Em função dos objetivos deste capítulo, não consideraremos
aspectos literários do texto em questão, o que não significa que não os
reconheçamos.55
Outra questão importante a esclarecer é que empreenderemos uma
análise fundamentalmente de filiação pecheutiana, mobilizando os
conceitos de formação ideológica, formação discursiva, interdiscurso,
condições de produção, heterogeneidade, sujeito e sentido. Entretanto,
como se trata de um texto literário e não de um texto do campo político
(tipo de corpus privilegiado por Pêcheux), são necessários alguns
deslocamentos teóricos. Mais efetivamente, os deslocamentos necessários
são aqueles relacionados às noções de formação ideológica e formação
discursiva. Como já apresentado, a noção de formação ideológica, tal como
mobilizada em Pêcheux e Fuchs (1975/1990, p. 166), é definida como
sendo um conjunto de atitudes e representações que “se relacionam mais ou
menos diretamente a posições de classe em conflito umas com as outras”
(grifos nossos). A formação discursiva, como componente da formação
ideológica, acaba por materializar — também mais ou menos diretamente
— essas posições de classe em conflito. A própria formulação desses
conceitos, portanto, abre possibilidade para a análise de corpora discursivos
a partir dos quais se podem considerar conjuntos de atitudes e
representações que se relacionam menos diretamente a posições de
classe, como é o caso, a nosso ver, do discurso literário.56
Consequentemente, a noção de formação discursiva passa a ser produtiva
também em campos não propriamente (ou diretamente) político-social ou
econômico. Assumindo, pois, a possibilidade desse deslocamento, é que, na
análise da crônica “Um só seu filho”, mobilizaremos, da perspectiva
pecheutiana, as noções de formação ideológica e de formação discursiva,
focalizando, a partir dessas noções, conflitos e contradições ideológicas
decorrentes do embate entre diferentes posições discursivas.
Outras perspectivas discursivas de abordagem dessa crônica poderiam
ser empreendidas. No entanto, como este capítulo tem o intuito de
apresentar os fundamentos da constituição da Análise do Discurso enquanto
disciplina, e é Pêcheux quem se debruça mais arduamente sobre essa tarefa,
colocando a questão fundamental da AD, a saber, como ler um texto, e
postulando as bases para uma semântica discursiva que seja da ordem das
formações discursivas e não da ordem da língua,57 optamos por privilegiar a
perspectiva teórica pecheutiana.
Tendo feito essas considerações, reproduzimos, a seguir, a crônica a ser
analisada.
Naquela noite, o papa atravessou sua recorrente insônia com a ajuda de algumas páginas do
tratado ilustrado de Mary D’Império sobre o manuscrito Voynich, na edição de luxo de 1994. Leu
até que os nomes de John Dee e Roger Bacon pareceram misturar-se e seus olhos começaram a
arder. Usando os óculos dobrados para marcar a página, colocou o livro sobre a mesa de cabeceira
e apertou o botão que mergulhou o quarto nas trevas. Fez suas orações deitado, autoindulgência
da qual teria se envergonhado aos 60 anos, mas que agora já lhe parecia um direito adquirido.
Também lhe sucedia às vezes adormecer antes de concluir as preces; isso também não o
inquietava mais. Pensava: “Deus enxerga meu coração; ele sabe que meu pecado não é este, que
minhas dívidas são outras”.
De repente, estava sentado no alto de uma montanha. O horizonte imenso estendia-se à sua
frente; o vento era frio, mas não incomodava.
— Este foi seu último dia sobre a Terra — disse uma voz ao seu lado. Tens agora o direito de
fazer um último pedido.
Ao seu lado havia uma forma que a princípio ele tomou por um homem de pé, depois por uma
árvore, depois por uma nuvem vertical. Seus traços podiam corresponder a qualquer uma das
coisas, e ele imaginou que aquilo era Deus.
— Obrigado, Senhor — disse. Não mereço esta graça.
— Todos os homens a recebem — disse a voz. Não és melhor do que ninguém.
Sem saber o que responder, ele inclinou-se mais uma vez. Pensou: “É meu último dia de vida,
isto não deve me amedrontar; é como quando após uma refeição alguém retira de minhafrente o
prato vazio. Por que me rebelar, se já fruí o que me interessava?”.
— Olha para tua mão — disse a voz. O que mais desejas?
Ele fitou a palma da própria mão: viu com espantosa nitidez as linhas e as comissuras da pele,
viu as rugosidades, o intrincamento têxtil das camadas superpostas, viu o fervilhar da matéria
viva e as células que se partiam e se fundiam umas às outras como gotas d’água.
— Nascer de novo — respondeu ele, sem pensar.
— Queres voltar ao passado?
— Quero nascer de novo, mas no futuro — retrucou. Quero nascer sob a forma de outra pessoa
e saber se serei novamente seminarista, e padre, e cardeal, e papa. Quero que algumas destas
minhas células sejam transplantadas para um tubo de ensaio e dali talvez para um ventre, de onde
eu renasça: corpo, rosto e mente iguais aos que tive quando nasci. Código genético igual ao meu,
sem a interferência abastardante de genes de uma fêmea, de uma parideira intrusa. Quero que meu
espírito se faça carne, mas quero ser o Pai único de meu Filho.
— Para quê?
Ele ergueu-se e maravilhou-se de ver que mesmo diante de Deus podia ficar de pé quando bem
entendesse (“mas, aí”, pensou, “é o último dia”). Olhou o vale que se espalhava lá embaixo: à luz
roxa que vinha do céu, distinguia florestas, mares, arquipélagos, cidades, desertos de areia intacta,
enormes cordilheiras de gelo rodopiando devagar em águas de um azul metálico. Cruzou os
braços e virou-se para o vulto.
— Se minha alma existe está ligada sem remissão a este corpo mortal. Se meu corpo se repetir,
minha alma permanecerá aqui na Terra. De novo nascerei e serei um menino que irá dançar ao
som de pandeiros e rabecas; de novo roubarei frutas, correrei atrás de cães, beijarei a boca de
alguma moça de tranças louras. De novo estudarei o latim e a álgebra, de novo andarei anônimo e
de batina por entre homens arrogantes que não suspeitarão o meu futuro. Farei voto de pobreza e
viverei depois como um monarca; farei voto de obediência e subirei degrau após degrau das
hierarquias de comando; farei voto de castidade... e quem sabe da próxima vez terei mais sorte.
Lá embaixo, no vale, a luz crescia, e ele já enxergava centenas de metrópoles e cada janela de
cada casa, e cada rosto adormecido por trás de cada janela.
— Ninguém teve esta segunda chance — disse a voz, mas sem tentar persuadi-lo.
— O que pedem os homens, então?
— Pedem dinheiro, poder, mulheres. Pedem oxímoros, paradoxos: juventude eterna,
imortalidade do corpo... Tu pedes que teu corpo se multiplique. E se, em vez de um, fizerem dois?
De quantas almas irás precisar? E se fizerem 20, 200?
Ele voltou a sentar-se. Sabia que quem acabara de fazer aquele pedido não era o ancião
calejado pelos debates escolásticos, o erudito capaz de enfrentar a teologia e a metafísica em 12
idiomas e, sim, o rapaz que em uma noite de febre sentira pela primeira vez, no pulsar dos
próprios gânglios, a semente da morte crescendo dentro de si.
— Vai, pede — disse a voz; e, sem surpresa, ele soube naquele instante que aquela voz não era
Deus. Estendeu a mão para o vulto, e tocou nele.
O camareiro, que se chamava Gesualdo, encontrou-o pela manhã, apalpou a pele fria de seu
rosto, viu os olhos azuis virados para o teto. Gritou por socorro e teve a preocupação de não tocar
em nada no quarto.
Nessa crônica é possível perceber que se cruzam, pelo menos, duas
questões mobilizadas pelo autor através do devaneio do Papa, que se vê
diante de seu último dia de vida. Antes de iniciarmos esta análise, no
entanto, gostaríamos de esclarecer que, ao falarmos em devaneio ou
discurso do personagem Papa, estaremos, na verdade, sempre nos referindo
a discursos que são mobilizados pelo autor por meio deste personagem.
Neste devaneio é delatado um conflito entre dois posicionamentos, um
religioso e outro científico. Suspenso entre duas maneiras de conceber a sua
existência, o Papa reflete sobre a possibilidade de nascer de novo, “sem a
interferência abastardante de uma fêmea, de uma parideira intrusa”, numa
referência à clonagem de seres humanos, mas se depara com um conflito
espiritual: “Tu pedes que teu corpo se multiplique. E se, em vez de um,
fizerem dois? De quantas almas irás precisar?”.
A Análise do Discurso considera como parte constitutiva do sentido o
contexto histórico-social; ela considera as condições em que este texto, por
exemplo, foi produzido. Contextualizado num momento histórico em que a
clonagem levantava a questão da ética na ciência, nada mais representativo
desse contexto que a figura do Papa como contraponto ideológico. Por meio
deste personagem, o autor presentifica no texto o posicionamento religioso
católico que faz oposição a uma ciência que se confronta com a concepção
de homem como ser espiritual. Se este contexto for ignorado, todo o sentido
do texto é alterado. Basta considerar a hipótese de este texto, por exemplo,
ter sido escrito no século XIX, em que a clonagem de seres humanos não
passava de pura ficção científica e não era, como nos dias atuais, uma
possibilidade que a ciência considera. Este texto não teria o estatuto que
atribuímos a ele, o de colocar em cena um conflito ideológico atual, mas lhe
seria atribuído o estatuto de “ficção científica” por abordar fatos
inconcebíveis ao homem da época. O contexto histórico-social, então, as
condições de produção, constituem parte do sentido do discurso e não
apenas um apêndice que pode ou não ser considerado. Em outras palavras,
pode-se dizer que, para a AD, os sentidos são historicamente construídos.
Nesta crônica, é delatado um conflito, um confronto entre forças
ideológicas. O conflito, materializado na alternância das posições que o
personagem Papa ocupa durante seu devaneio — ora desempenha o papel
de autoridade da Igreja Católica, instituição que representa, ora ocupa o
lugar de um homem comum fascinado pelas promessas da ciência de sua
época —, é caraterístico de posições ideológicas contrárias uma em relação
à outra em uma conjuntura dada, ou seja, o conflito é característico de um
embate de nossa época. O texto, portanto, não se apresenta como um
conjunto de enunciados unificados por posições ideológicas não
conflitantes, como algo homogêneo. Ao contrário, o texto se constitui de
posicionamentos divergentes cujas fronteiras se intersectam (o próprio
devaneio se caracteriza pela ausência de uma demarcação definida entre
uma posição e outra); o texto, nesse sentido, é constitutivamente
heterogêneo, de modo que não é possível definir a identidade de um desses
posicionamentos sem remeter ao outro.
O que se pode dizer do devaneio do Papa? Que ele representa um
posicionamento da Igreja Católica com relação à liberdade do homem
diante da própria vida? Que ele representa as possibilidades que a ciência
moderna oferece ao homem de ser senhor da própria vida? Não é possível
optar por apenas uma das hipóteses sem incorrer no risco de desconfigurar
o sentido do texto. O devaneio do Papa representa, ao mesmo tempo, o
posicionamento católico e o posicionamento da ciência moderna, ele só
existe na verdade porque existe um conflito ideológico, ético no caso, entre
as duas posições. Como já apontado, Pêcheux e Fuchs (1975/1990) falam
em formação ideológica (FI) para caracterizar este confronto de forças em
um dado momento histórico. Sendo assim, uma formação ideológica
comporta necessariamente mais de uma posição capaz de se confrontar uma
com a outra. Na verdade, numa formação ideológica, as forças não
precisam estar necessariamente em confronto; elas podem entreter entre si
relações de aliança ou também de dominação. A ideia de confronto foi
colocada em destaque aqui unicamente em função do texto analisado.
O conceito de formação discursiva (FD), também já apresentado, é
mobilizado pela AD de filiação pecheutiana para designar o lugar onde se
articulam discurso e ideologia. Nesse sentido é que podemos dizer que uma
formação discursiva é governada por uma formação ideológica (FI). Como
uma FI coloca em relação necessariamente mais de uma força ideológica,
uma formação discursiva semprecolocará em jogo mais de uma posição
discursiva. No caso da crônica analisada, temos interligados, por uma
relação de forças contraditórias, certo posicionamento da ciência moderna e
o posicionamento religioso católico.
Para esclarecer melhor a constituição de uma formação discursiva,
gostaríamos de analisar uma tira de Bill Watterson:
Calvin, o personagem menino que assume o papel de enunciador do
discurso “A força para mudar o que eu puder, a inabilidade de aceitar o que
eu não posso e a incapacidade de ver a diferença”, enuncia inscrito em uma
formação discursiva. Como uma FD é um dos componentes de uma
formação ideológica específica, o fechamento, o limite que define uma
formação discursiva é instável, pois ela se inscreve em um espaço de
embates, de lutas ideológicas. Assim, uma FD não consiste em um limite
traçado de maneira definitiva; uma FD se inscreve entre diversas formações
discursivas, e a fronteira entre elas se desloca em função dos embates da
luta ideológica, sendo esses embates recuperáveis no interior mesmo de
cada uma das FDs em relação. Vejamos como isso se dá no discurso de
Calvin.
O quadro que se segue foi-nos apresentado por um aluno do 2º ano do
curso de Tradutor e Intérprete da Universidade de Franca,58 por ocasião da
leitura da primeira versão deste texto. Nós o reproduzimos aqui como uma
contribuição para a explanação do conceito em questão.
FD FD CRISTÃ FD NEOLIBERAL
“A força para
mudar o que eu
puder”
A força para mudar o que puder
(objetiva transformar)
A força para mudar o que puder
(objetiva uma imposição ditatorial)
“A inabilidade
para aceitar o
que eu não
posso”
A habilidade de aceitar o que não
pode ser mudado (resignação diante
dos obstáculos intransponíveis)
A inabilidade de aceitar o que não pode
ser mudado (revolta e insatisfação diante
dos obstáculos intransponíveis)
“A incapacidade
de ver a
diferença”
A capacidade de ver a diferença
(aspira-se à sabedoria)
A incapacidade de ver a diferença
(aspira-se somente à realização das
vontades pessoais, nada deve detê-las)
O quadro apresentado mostra o discurso de Calvin como decorrente de
um embate entre duas formações discursivas, a “FD cristã”, enunciada a
partir de um lugar ideológico que valoriza a convivência pacífica e
equilibrada de um sujeito consigo mesmo e com o próximo, e a “FD
neoliberal”,59 enunciada a partir de um lugar ideológico que valoriza a vida
pautada pelos desejos pessoais e particulares do sujeito (os nomes dados às
FDs são bastante “esquemáticos”, no sentido de rotularem os discursos;
foram escolhidos em função do que julgamos ser o componente semântico
mais característico das FDs em questão e são aqui utilizados apenas para
fins didáticos). De acordo com o quadro, um mesmo enunciado pode ser
compreendido de duas maneiras, dependendo do lugar ideológico de onde é
enunciado. “A força para mudar o que eu puder” pode significar a luta por
uma transformação pautada na boa vontade e na solidariedade cristãs ou
uma imposição ditatorial pautada pelo egocentrismo e individualismo. Ao
mesmo tempo, enunciados como “A inabilidade para aceitar o que eu não
posso” e “A incapacidade para ver a diferença”, que parecem nos remeter
univocamente à “FD neoliberal”, no quadro são apresentados como nos
remetendo também à “FD cristã”. O leitor deve estar se perguntando por
quê. Uma breve apresentação do conceito de heterogeneidade discursiva
poderá esclarecer essa questão. Antes, porém, não poderíamos deixar de
fazer uma referência a Bakhtin (1929/1988), que apresenta uma noção de
dialogismo sobre a qual se funda grande parte da literatura sobre
heterogeneidade discursiva.
Bakhtin (1929/1988) considera que a verdadeira substância da língua é
constituída pelo fenômeno social da interação verbal e que o ser humano é
inconcebível fora das relações que o ligam ao outro.60 Partindo desse
pressuposto, critica a concepção de língua enquanto estrutura,
argumentando que, ao ser tomada como alheia aos processos sociais, passa
a não ser articulável com uma prática social concreta, com a história e
tampouco com o sujeito.
Segundo Authier-Revuz (1982), um paradigma é constante nos estudos
do círculo de Bakhtin: opõem-se o dialógico ao monológico, o múltiplo ao
único, o heterogêneo ao homogêneo.61 O dialogismo do círculo de Bakhtin,
no entanto, não tem como preocupação central o diálogo face a face, mas
diz respeito a uma teoria de dialogização interna do discurso. É nesse
sentido que, para Bakhtin, o discurso, cujo dialogismo se orienta para
outros discursos e para o outro da interlocução, instaura-se numa
perspectiva plurivalente de sentidos, bem como a própria palavra que, pelo
fato de ser atravessada por sentidos constituídos historicamente, não é
monológica, não é neutra, mas atravessada pelos discursos nos quais viveu
sua existência socialmente sustentada.62
Recorrendo a este conceito de dialogismo63 concebido pelo círculo de
Bakhtin, Authier-Revuz (1990) indica algumas formas de heterogeneidade
mostrada no discurso, formas que se articulam sobre a realidade da
heterogeneidade constitutiva de todo discurso. A heterogeneidade
constitutiva, segundo Maingueneau (1997), não é marcada em superfície,
mas a AD pode defini-la, formulando hipóteses, a partir do pressuposto da
presença constante do Outro na constituição de uma formação discursiva.
Authier-Revuz (1982) aponta três tipos de heterogeneidade mostrada:
a) aquela em que o locutor ou usa de suas próprias palavras para
traduzir o discurso de um Outro (discurso relatado) ou então recorta
as palavras do Outro e as cita (discurso direto);
b) aquela em que o locutor assinala as palavras do Outro em seu
discurso, por meio, por exemplo, de aspas, de itálico, de uma
remissão a outro discurso, sem que o fio discursivo seja
interrompido;
c) aquela em que a presença do Outro não é explicitamente mostrada na
frase, mas é mostrada no espaço do implícito, do sugerido, como nos
casos do discurso indireto livre, da antífrase, da ironia, da imitação,
da alusão.64
Essas três formas de heterogeneidade mostrada assinalam a presença do
Outro na superfície discursiva de maneira diferente, desde formas mais
evidentes (a, b), que Authier-Revuz (1990) classifica como heterogeneidade
mostra- 
da marcada, até a forma mais complexa, menos evidente (c), em que a voz
do locutor se mistura à do Outro, e que a autora classifica como
heterogeneidade mostrada não marcada. No entanto, independentemente
dessa classificação, todas essas formas de heterogeneidade estão ancoradas
no princípio da heterogeneidade constitutiva do discurso.
Retornando agora à análise da tira de Watterson apresentada no quadro,
ficará mais fácil de compreender por que os enunciados “A inabilidade para
aceitar o que eu não posso” e “A incapacidade para ver a diferença” são
apresentados como remetendo também à “FD cristã”.
Nos dois enunciados há a marca da negação — o prefixo in —, uma
forma de heterogeneidade mostrada marcada na superfície do discurso. Por
meio desta marca, o que é negado é justamente o discurso que é
apresentado no quadro como remetendo à “FD cristã”: “A habilidade para
aceitar o que eu não posso” e “A capacidade para ver a diferença”. Assim, a
negação de um discurso necessariamente nos remete a ele, de forma que ele
pode ser percebido como a presença do “Outro” no interior do discurso que
o nega.
Já o enunciado “A força para mudar o que eu puder”, como já dito
anteriormente, também remete à “FD cristã” e à “FD neoliberal”, mas pela
presença da heterogeneidade mostrada não marcada na superfície
discursiva. É no espaço do sugerido que percebemos esta heterogeneidade,
é em função da relação que estabelecemos entre “A força para mudar o que
eu puder” e os demais enunciados do discurso de Calvin que percebemos a
dupla alusão deste enunciado. Retomando Maingueneau (1997), é
formulando hipóteses desse tipo que podemos perceber a presença
constante do Outro na constituição de uma formação discursiva, que
podemos perceber a realidade da heterogeneidade constitutiva do discurso.
A própria Authier-Revuz(1982) considera que os dois níveis de
heterogeneidade mostrada, a marcada e a não marcada, são, na verdade,
formas linguísticas de representação de diferentes modos de negociação do
sujeito falante com a heterogeneidade constitutiva, sendo a heterogeneidade
mostrada não marcada uma forma mais arriscada de negociação porque, ao
jogar com a diluição, é mais dificilmente controlada pelo sujeito.
Foi possível perceber, então, que existe, numa formação discursiva,
sempre a presença do Outro, e é esta presença que confere ao discurso o
caráter de ser heterogêneo. O quadro apresentado a partir da análise da tira
de Watterson dá visibilidade a esse caráter heterogêneo do discurso. Apesar
de Calvin enunciar de um lugar ideológico, digamos, “neoliberal”, os
embates entre este lugar ideológico e o “cristão” são recuperáveis no
interior mesmo da FD. Calvin, ao ironizar o discurso cristão negando-o
através de uma paródia, recupera-o como parte constitutiva do discurso. É
em função desse modo de funcionamento discursivo que Maingueneau
(1997) — considerando, na esteira de Pêcheux, que uma formação
discursiva não pode ser compreendida como um bloco compacto e fechado,
mas que ela é definida a partir de uma incessante relação com o Outro —
afirma o primado do interdiscurso sobre o discurso. Para ele, como já
dissemos anteriormente, a unidade de análise pertinente não é o discurso,
mas um espaço de trocas entre vários discursos. Os diversos discursos que
atravessam uma FD não passam de componentes, ou seja, em termos de
gênese, tais discursos não se constituem independentemente uns dos outros
para serem, em seguida, postos em relação, mas se formam de maneira
regulada no interior de um interdiscurso. Será a relação interdiscursiva,
pois, que estruturará a identidade das FDs em questão. A AD-3 e as
recentes pesquisas tomam, como já apontado, o interdiscurso como um
pressuposto teórico.
O pressuposto do primado do interdiscurso sustenta-se muito bem na
crônica “Um só seu filho”, pois o sentido do texto não pode ser apreendido
em um espaço fechado, dependente de uma posição enunciativa absoluta ou
de outra, mas ele deve ser apreendido como circulação dissimétrica de uma
posição enunciativa à outra. Observemos dois trechos.
Quando a voz pergunta ao Papa qual era o seu último pedido, o Papa,
depois de alguma hesitação, responde:
— Quero nascer de novo, mas no futuro — retrucou. Quero nascer sob a forma de outra pessoa e
saber se serei novamente seminarista, e padre, e cardeal, e papa. Quero que algumas destas
minhas células sejam transplantadas para um tubo de ensaio e dali talvez para um ventre, de onde
eu renasça: corpo, rosto e mente iguais aos que tive quando nasci. Código genético igual ao meu,
sem a interferência abastardante de genes de uma fêmea, de uma parideira intrusa. Quero que meu
espírito se faça carne, mas quero ser o Pai único de meu Filho.
Nesse trecho, podemos perceber que há um diálogo incessante entre a
“voz” da ciência — “Código genético igual ao meu, sem a interferência
abastardante de genes de uma fêmea, de uma parideira intrusa.” — e a
“voz” da religião — “Quero que meu espírito se faça carne, mas quero ser o
Pai único de meu Filho”. A posição enunciativa do sujeito do discurso, no
caso o personagem Papa, mobilizado pelo autor como responsável por esta
enunciação, circula dissimetricamente pelo espaço interdiscursivo, na
medida em que ora enuncia de uma posição, ora de outra.
O mesmo ocorre quando esse personagem faz uma reflexão a respeito
do que ele voltaria a viver se nascesse de novo. Atravessando o discurso
sobre a sua trajetória na Igreja Católica, é possível perceber a presença de
um discurso de crítica à Igreja, uma vez que faz referência à arrogância de
alguns de seus companheiros, ao mesmo tempo que deixa entrever em sua
fala um certo sentimento de orgulho e desforra ao referir-se ao seu brilhante
futuro: “De novo estudarei o latim e a álgebra, de novo andarei anônimo e
de batina por entre homens arrogantes que não suspeitarão o meu futuro”.
Nesses dois trechos, o personagem ora enuncia de um lugar ideológico,
ora de outro. Os trabalhos mais recentes da AD não considerariam que os
dois polos enunciativos de onde enuncia o personagem Papa são
constituídos a priori e só então colocados em relação, mas que essa
circulação dissimétrica de uma posição enunciativa à outra ocorre devido ao
fato de o campo discursivo (Maingueneau, 1984/2008) — conjunto de
formações discursivas com mesma função social que se encontram em
concorrência, aliança ou neutralidade aparente e que se divergem sobre o
modo pelo qual tal função deve ser preenchida —, no qual o sujeito do
discurso se inscreve e circula, caracterizar-se essencialmente por ser um
espaço interdiscursivo. Do ponto de vista da AD, seria possível dizer que o
efeito de devaneio do sujeito-personagem é construído sobre a possibilidade
de circulação entre posições enunciativas que o campo discursivo oferece.
3.2. A noção de sentido para a AD
Considerando o que foi apresentado até aqui, seria quase redundante
dizer que, para a AD, o(s) sentido(s) de uma formação discursiva
depende(m) da relação que ela estabelece com as formações discursivas no
interior do espaço interdiscursivo.
A heterogeneidade constitutiva do discurso o impede, como vimos, de
ser um espaço “estável”, “fechado”, “homogêneo”, mas não o redime de
estar inserido em um espaço controlado, demarcado pelas possibilidades de
sentido que a formação ideológica pela qual é governado lhe concede. Uma
formação discursiva, apesar de heterogênea, sofre as coerções da formação
ideológica em que está inserida. Sendo assim, as sequências linguísticas
possíveis de serem enunciadas por um sujeito já estão, em alguma medida,
previstas, porque o espaço interdiscursivo se caracteriza pela defasagem
entre uma e outra formação discursiva. Explicando melhor: as sequências
linguísticas possíveis de serem enunciadas por um sujeito circulam entre
esta ou aquela formação discursiva que compõem o interdiscurso.
O devaneio do personagem Papa é bastante esclarecedor nesse sentido.
Ora o personagem fala a partir de um posicionamento ideológico, ora de
outro. Ora é o representante da Igreja Católica diante de Deus —
“Obrigado, Senhor. Não mereço esta graça” —, ora é apenas um homem
moderno atormentado pela ideia da morte — “Nascer de novo”.
Mas não seria inverossímil o personagem Papa, mobilizado pelo autor
como responsável pela enunciação, pedir para nascer de novo? É justamente
neste ponto que a AD se mostra bastante esclarecedora. Para a Análise do
Discurso, o que está em questão não é o sujeito em si; o que importa é o
lugar ideológico de onde enunciam os sujeitos. Em outras palavras, no
espaço interdiscursivo, enunciando do interior de uma formação discursiva
de cunho ideológico cristão-católico, o personagem jamais poderia pedir
para nascer de novo. Ao fazer esse pedido, o que ocorre é que ele deixa de
enunciar inscrito em uma FD de cunho cristão-católico e passa a enunciar
de um outro lugar ideológico, estando inscrito, assim, em outra formação
discursiva. Dessa forma, apesar do caráter constitutivamente heterogêneo
do discurso, não se pode concebê-lo como livre de restrições. O que é e o
que não é possível de ser enunciado por um sujeito já está, em alguma
medida, demarcado pela própria formação discursiva na qual está inserido.
Os sentidos possíveis de um discurso, portanto, são sentidos fortemente
condicionados pela própria identidade de cada uma das formações
discursivas colocadas em relação no espaço interdiscursivo.
No entanto, apesar de os sentidos possíveis de um discurso estarem
fortemente condicionados, eles não são constituídos a priori, ou seja, eles
não existem antes do discurso. O sentido vai se constituindo à medida que
se constitui o próprio discurso. Não existe, portanto, o sentido em si, ele vai
sendo determinado simultaneamente às posições ideológicas que vão sendo
colocadas em jogo na relação entre as formações discursivas que compõem
o interdiscurso.
Se tomarmoscomo exemplo a própria constituição da crônica “Um só
seu filho”, ou melhor, se a tomarmos como uma metáfora de como se
constitui o sentido para a AD, ficará mais fácil de compreender a noção de
sentido.
O sentido (ou os sentidos) da crônica não é dado a priori, mas vai sendo
construído à medida que se constrói o texto. Não se tem a priori com muita
clareza o que está efetivamente ocorrendo com o personagem Papa. O
personagem vai se constituindo à medida que o texto vai sendo construído
e, por sua vez, vai-se construindo o sentido do texto à medida que se dá a
sua própria constituição. Esse sentido, no entanto, não é qualquer sentido,
mas está, de certa forma, previsto pelas forças ideológicas colocadas em
jogo na crônica. A AD diria que os sentidos possíveis para esta crônica
deslocam-se entre (e aqui diremos de maneira bastante esquemática e
simplificadora, apenas para exemplificar) a “formação discursiva da
ciência” e a “formação discursiva católica”. No espaço de circulação entre
essas duas formações discursivas é que residiria o sentido. O sentido,
portanto, não é único, já que se dá num espaço de heterogeneidade, mas é
necessariamente demarcado.
Um outro exemplo que pode ser esclarecedor é pensarmos nas
propagandas eleitorais que a cada quatro anos assistimos pela televisão. Os
discursos de cada partido ou político não são elaborados previamente e
guardados em gavetas até a data prevista para serem enunciados na TV.
Mas, à medida que vai se dando o embate político entre partidos e
candidatos, os discursos vão sendo escritos, reescritos, e os sentidos, então,
vão sendo constituídos no próprio processo de constituição dos discursos.
Evidentemente, não são quaisquer sentidos que são constituídos a partir de
uma formação discursiva, como já foi dito anteriormente, mas somente
aqueles possíveis pela configuração da formação ideológica que rege
determinado discurso. Assim, considerando o contexto político-histórico-
social do Brasil nos anos de 1980, por exemplo, dificilmente ouviríamos de
um candidato do PT algo como “Vamos privatizar os setores básicos da
economia” ou, então, de um candidato do PFL, “Abaixo a privatização”.
3.3. O conceito de sujeito na AD
Não fica muito difícil de prever, considerando o percurso que fizemos
até aqui, de que maneira a subjetividade é concebida pela AD. Para
abordarmos essa questão, consideraremos as fases da AD apresentadas
anteriormente, já que, decorrente de cada noção de discurso, têm-se
diferentes noções de sujeito.
Na AD-1, como cada processo discursivo é gerado por uma “máquina
discursiva”, o sujeito não poderia ser concebido como um indivíduo que
fala (“eu falo”), como fonte do próprio discurso. O sujeito, para a AD-1, é
concebido como sendo assujeitado à maquinaria [para utilizar um termo do
próprio Pêcheux (1983/1990)], já que está submetido às regras específicas
que delimitam o discurso que enuncia. Assim, segundo essa concepção de
sujeito, “quem de fato fala é uma instituição, ou uma teoria, ou uma
ideologia”.65
Na AD-2, a noção de sujeito sofre uma alteração. Não existe mais, neste
segundo momento, a noção de um sujeito marcado pela ideia de unidade, tal
como era concebido na AD-1. Diferentemente, o sujeito passa a ser
concebido como aquele que desempenha diferentes funções de acordo com
as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo. Dessa forma, na
AD-2, “vigora a ideia de que o sujeito é uma função, e que ele pode estar
em mais de uma”.66 No entanto, nesta segunda fase, o sujeito, apesar da
possibilidade de ocupar diferentes posições, não é totalmente livre; ele sofre
as coerções da formação discursiva do interior da qual enuncia, já que esta é
regulada por uma formação ideológica. Em outras palavras, o sujeito do
discurso ocupa um lugar de onde enuncia, e é este lugar, entendido como a
representação de traços de determinado lugar social (o lugar do professor,
do político, do publicitário, por exemplo), que determina o que ele pode ou
não dizer a partir dali. Ou seja, este sujeito, ocupando o lugar que ocupa no
interior de uma formação social, é dominado por uma determinada
formação ideológica que preestabelece as possibilidades de sentido de seu
discurso.
Com relação, portanto, às concepções de sujeito da AD-1 e da AD-2,
pode-se dizer que, apesar de diferentes, elas são influenciadas por uma
teoria da ideologia que coloca o sujeito no quadro de uma formação
ideológica e discursiva (Brandão, 1994). Nesse sentido é que, para a AD,
não existe o sujeito individual, mas apenas o sujeito ideológico: a ideologia
se manifesta (é falada) através dele.
Na AD-3, por sua vez, a noção de sujeito sofre um deslocamento que
inaugura uma nova vertente, bastante atual, da Análise do Discurso.
Compatível com uma noção de discurso marcado radicalmente pela
heterogeneidade — afirma-se na AD-3 o primado do interdiscurso —, tem-
se um sujeito essencialmente heterogêneo e descentrado.
Os trabalhos de Authier-Revuz,67 em torno dos quais se desenvolve essa
nova vertente, incorporam descobertas das teorias do inconsciente, que
consideram que o centro do sujeito não é mais o estágio consciente, mas
que ele é dividido, clivado entre o consciente e o inconsciente. Inserido
nesta base conceitual, o sujeito da AD se movimenta entre esses dois polos
sem poder definir-se em momento algum como um sujeito inteiramente
consciente do que diz. Nesse sentido, o “eu” perde a sua centralidade,
deixando de ser senhor de si, já que o “outro”, o desconhecido, o
inconsciente, passa a fazer parte de sua identidade. O sujeito é, então, um
sujeito descentrado, constitutivamente heterogêneo, da mesma forma como
o discurso o é. Para Authier-Revuz (1982), a heterogeneidade mostrada é
uma tentativa do sujeito de explicitar a presença do outro no fio discursivo,
na busca de harmonizar as diferentes vozes que atravessam o seu discurso,
na busca pela unidade, mesmo que ilusória.
Apresentadas as concepções de sujeito em três diferentes fases da AD, é
possível perceber que, apesar de distintas, elas possuem uma característica
em comum: o sujeito não é senhor de sua vontade; ou temos um sujeito que
sofre as coerções de uma formação ideológica e discursiva, ou temos um
sujeito submetido à sua própria natureza inconsciente.
É preciso salientar, também, que, ao contrapormos uma primeira
vertente (AD-1 e AD-2) a uma segunda, mais atual, o fizemos de maneira a
focalizar apenas os aspectos discriminadores entre essas vertentes. No
entanto, Authier-Revuz, ao privilegiar o enfoque da dimensão do
inconsciente como constitutiva da linguagem e do sujeito, não deixa de
concebê-los — linguagem e sujeito — no interior de uma perspectiva
discursiva em que se articulam com o social e, portanto, com o ideológico.
Por sua vez, a AD-1 e a AD-2, ao conceberem o sujeito como interpelado
pela ideologia, não deixam de concebê-lo também como um sujeito
inconsciente. Os esquecimentos 1 e 2 de que tratam Pêcheux e Fuchs
(1975/1990) são uma evidência disso. Segundo os autores, o sujeito se ilude
duplamente: a) por “esquecer-se” de que ele mesmo é assujeitado pela
formação discursiva em que está inserido ao enunciar (esquecimento nº 1);
b) por crer que tem plena consciência do que diz e que por isso pode
controlar os sentidos de seu discurso (esquecimento nº 2). Esses dois
esquecimentos estão constitutivamente relacionados ao conceito de
assujeitamento ideológico, ou interpelação ideológica, que “consiste em
fazer com que cada indivíduo (sem que ele tome consciência disso, mas, ao
contrário, tenha a impressão de que é senhor de sua própria vontade) seja
levado a ocupar seu lugar, a identificar-se ideologicamente com grupos ou
classes de uma determinada formação social”.68
O personagem Papa, tal como foi constituído pelo autor da crônica, é
uma boa metáfora de como se constitui o sujeito para a AD.
Exemplificaremos aqui a constituição desse sujeito, considerando-o apenas
a partir das perspectivas da AD-2 e da AD-3, por serem essas as
perspectivas que se mostraram mais produtivas no campo da Análise doDiscurso.
Na perspectiva da AD-3, diríamos que o personagem Papa é um
personagem heterogêneo, descentrado, que por alguns momentos crê que
tem consciência do que diz — “Nascer de novo” —, mas que, a seguir, se
depara com a própria inconsciência — “Sabia que quem acabara de fazer
aquele pedido não era o ancião calejado pelos debates escolásticos, o
erudito capaz de enfrentar a teologia e a metafísica em 12 idiomas”. O
personagem em questão é uma metáfora de um sujeito dividido pela própria
inconsciência.
Na perspectiva da AD-2, por sua vez, diríamos que o personagem Papa
é assujeitado pelas formações discursivas colocadas em relação no texto,
por enunciar apenas o que já está previsto por estas mesmas FDs. Assim, o
personagem enuncia inscrito num espaço discursivo demarcado pela
formação ideológica que o rege. De acordo com o que vimos analisando da
crônica em questão, diríamos, de maneira bastante esquemática, que este
personagem enuncia inscrito em um espaço discursivo que coloca em uma
relação de conflito dois posicionamentos, um religioso e outro científico;
enunciará, portanto, apenas o que está previsto como enunciados possíveis
para estas FDs.
3.4. As condições de produção do discurso
A dupla ilusão do sujeito de que tratam Pêcheux e Fuchs (1975/1990),
abordada anteriormente, é, para a AD, constitutiva das condições de
produção do discurso. Como decorrência dessa dupla ilusão, manifestações
que se dão no nível da superfície discursiva, como a heterogeneidade
mostrada, foram interpretadas por Pêcheux (1969/1990) como uma
evidência dessa relação imaginária que o sujeito tem com o próprio
discurso, como uma manifestação da tentativa (ilusória) de controlar o
próprio discurso.
Assim, para a AD, o sujeito, por não ter acesso às reais condições de
produção de seu discurso, representa essas condições de maneira
imaginária. É o que Pêcheux (1969/1990) chama de jogo de imagens de um
discurso. Reproduziremos a seguir o quadro que o próprio autor apresenta:
A fim de facilitar a compreensão desse quadro69 para o leitor, vamos
apresentá-lo dividindo-o em dois blocos:
1. A imagem que o sujeito, ao enunciar seu discurso, faz:
a) do lugar que ocupa;
b) do lugar que ocupa seu interlocutor;
c) do próprio discurso ou do que é enunciado.
2. A imagem que o sujeito, ao enunciar seu discurso, faz da imagem que
seu interlocutor faz:
a) do lugar que ocupa o sujeito do discurso;
b) do lugar que ele (interlocutor) ocupa;
c) do discurso ou do que é enunciado.
Esse jogo de imagens, mesmo estabelecendo as condições de produção
do discurso, ou seja, aquilo que o sujeito pode/deve ou não dizer, a partir do
lugar que ocupa e das representações que faz ao enunciar, não é
preestabelecido antes que o sujeito enuncie o discurso, mas este jogo vai se
constituindo à medida que se constitui o próprio discurso. Em outras
palavras, o sujeito não é livre para dizer o que quer, a própria opção do que
dizer já é em si determinada pelo lugar que ocupa no interior da formação
ideológica à qual está submetido, mas as imagens que o sujeito constrói ao
enunciar só se constituem no próprio processo discursivo.
Ainda mais uma vez nos valeremos da metáfora do personagem, agora
para explicar como as imagens se constituem no próprio processo
discursivo. O discurso do sujeito-personagem não está constituído a priori,
mas vai se delineando à medida que ele representa a voz que lhe fala, a
partir das imagens que faz do que lhe é dito. Assim, por exemplo, num
primeiro momento, coloca-se como um sujeito que não teme a morte — “É
meu último dia de vida, isto não deve me amedrontar; é como quando após
uma refeição alguém retira de minha frente o prato vazio. Por que me
rebelar, se já fruí o que me interessava?” —, mas redefine todo seu discurso
a partir da imagem que faz de si naquele momento — “Ele fitou a palma da
própria mão: viu com espantosa nitidez as linhas e as comissuras da pele,
viu as rugosidades, o intrincamento têxtil das camadas superpostas, viu o
fervilhar da matéria viva e as células que se partiam e se fundiam umas às
outras como gotas d’água”. É nesse sentido que o jogo de imagens faz parte
das condições de produção de um discurso, na medida em que as imagens
que o sujeito vai construindo ao enunciar vão definindo e redefinindo o
processo discursivo.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Abordamos neste artigo o que julgamos ser fundamental para um
primeiro contato com a Análise do Discurso, buscando, ao mesmo tempo,
esclarecer, por meio das análises aqui apresentadas, alguns dos conceitos
que foram colocados. Queremos ressaltar, no entanto, que este texto não
esgota de forma alguma as questões que são colocadas pela AD; propõe-se
apenas a ser uma porta de entrada possível para o campo, fornecendo ao
leitor alguns subsídios para que ele possa iniciar seus estudos na área.
Assim, concluir este texto significa apenas concluir a reflexão que
fizemos nestas poucas páginas, já que muitas questões poderiam ainda ser
aqui consideradas. Optamos, então, por concluí-lo retomando apenas um
aspecto já abordado neste capítulo, por julgarmos crucial enfatizá-lo ao
falarmos em Análise do Discurso: sua especificidade.
O leitor deve ter percebido, ao entrar em contato com os conceitos que
embasam a AD, que a definição de todos eles se fundamenta sobre uma
característica em comum, que chamaremos aqui de constitutividade: o
discurso, o sentido, o sujeito, as condições de produção vão se constituindo
no próprio processo de enunciação. E não poderia ser diferente. A AD, ao
conceber o discurso como sendo de natureza, ao mesmo tempo linguística e
sócio-histórica, não poderia constituir-se enquanto disciplina no interior de
fronteiras rígidas, que não levassem em conta sua intrínseca relação com
determinadas áreas das ciências humanas — como a História, a Sociologia,
a Psicanálise — e com certas tendências desenvolvidas no interior da
própria Linguística — como a Semântica da Enunciação e a Pragmática,
por exemplo.
Devido a esse caráter eminentemente “relacional”, a Análise do
Discurso se apresenta como uma disciplina em constante processo de
constituição, de onde decorre a constitutividade dos próprios conceitos que
a fundamentam. Esse caráter “relacional”, diriam alguns, poderia colocar a
AD numa situação de extrema fugacidade. No entanto, não é esse o perigo
que a espreita. Na verdade, o único perigo que poderia colocá-la em xeque
seria o de não reconhecermos sua especificidade e tentarmos excluir de seu
campo as contradições, em vez de simplesmente tentarmos apreendê-las na
materialidade discursiva.
Se o leitor tiver apreendido esse caráter da Análise do Discurso, terá
compreendido sua característica fundamental. O mais será uma questão de
interesse que, obviamente, esperamos ter despertado com esta introdução.
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TAVARES, Bráulio. Um só filho seu. Folha de S.Paulo. São Paulo, 16 de março de 1997. Caderno
Mais.
1 Agradecemos a Sírio Possenti, a Anna Christina Bentes, a Edwiges Morato, a Claudia Bertelli
Reis e a Cleudemar Alves Fernandes pelas contribuições a este texto.
2. Remetemos o leitor à obra de Saussure (1916/1974), Curso de linguística geral, considerada a
obra fundadora da Linguística moderna por possibilitar uma abordagem da língua a partir de suas
regularidades e, assim, defini-la como um objeto passível de análise científica, para os padrões de
cientificidade da época.
3. A respeito das classificações dos fonemas, remetemos o leitor aos capítulos “Fonética” e
“Fonologia”, no volume 1 desta obra.
4. Remetemos o leitor ao capítulo “Semântica”, neste mesmo volume.
5. Löwy (1988) faz um interessante estudo da história das ciências sociais. Remetemos o leitor à
sua obra para compreender como as vertentes filosóficas— positivismo, historicismo, marxismo —
nortearam os critérios de cientificidade de cada época, critérios que, por sua vez, nortearam os
propósitos, os estudos e os métodos nas ciências humanas.
6. Maingueneau, D. Análise do Discurso: a questão dos fundamentos. Cadernos de Estudos
Linguísticos. Campinas: Unicamp- IEL, n. 19, jul./dez., 1990. p.68.
7. Pêcheux, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da
Unicamp, 1988, p. 74. (título original: Les vérites de la Palice, 1975)
8. Maldidier, D. Elementos para uma história da Análise do Discurso na França. In: Orlandi, E. P.
(org.) Gestos de leitura: da história no discurso. Campinas: Editora da Unicamp, 1994, p. 19.
9. Remetemos o leitor ao capítulo “Fonologia” no volume 1 desta obra, que também aborda esta
dicotomia.
10. Possenti (1995) aponta que, para Granger (1973), as línguas não são sistemas formais, mas
sistemas simbólicos que contêm um sistema formal, pois só se comportam como uma estrutura no
nível fonológico; nos outros domínios, inclusive nos domínios da Morfologia e da Sintaxe, a língua
falha como estrutura.
11. Sobre a origem do termo condições de produção, ver Brandão (1998a).
12. Pêcheux, M. Análise automática do discurso (AAD-69). In: Gadet, F.; Hak, T. (Orgs.) Por uma
análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas: Editora da
Unicamp, 1990, p. 78.
13. Para Saussure (1916/1974), o signo linguístico é composto de significante e significado
compreendidos, respectivamente, como imagem acústica (som com função linguística) e conceito.
Remetemos o leitor ao capítulo “Fonologia” no volume 1, que também aborda o conceito de signo.
14. Maingueneau (1990) aponta uma questão interessante com relação ao uso do termo análise: “é
a materialização de uma certa configuração do saber em que o termo análise funciona ao mesmo
tempo sobre os registros linguístico, textual e psicanalítico”. Pode-se estender esta colocação ao
termo analista, na medida em que, ainda como afirma o autor, “a escola francesa de Análise do
Discurso se afirma como uma análise (= psicanálise) aplicada aos textos” (Maingueneau, 1990, p.
69).
15. Lacan é citado em Brandão, H. N. Introdução à Análise do Discurso. 7. ed. Campinas: Editora
da Unicamp, 1998a, p. 56.
16. Santiago, J. Jacques Lacan: a estrutura dos estruturalistas e a sua. In: Mari, H.; Domingues, I.;
Pinto, J. (Orgs.). Estruturalismo: memória e repercussões. Rio de Janeiro: Diadorim/UFMG, 1995, p.
221.
17. Althusser (1970) é citado em Maingueneau (1990, p. 69).
18. Ver os capítulos “Fonética”, “Fonologia” e “Sintaxe”, no volume 1, e “Semântica”, no volume
2. No que diz respeito ao capítulo “Sintaxe”, referimo-nos apenas à Sintaxe Gerativa, e, em relação
ao capítulo “Semântica”, apenas à Semântica Formal.
19. Ver no volume 1 os capítulos “Sintaxe” (referimo-nos aqui à Sintaxe funcional),
“Sociolinguística” e “Linguística Textual”; ver neste volume os capítulos “Semântica” (referimo-nos
aqui à Semântica da enunciação), “Pragmática” e “Análise de Conversação”.
20. Maingueneau, D. Novas tendências em Análise do Discurso. Campinas: Pontes/Editora da
Unicamp, 1997, p. 11.
21. Sobre a noção de dêitico, ver Lahud (1979) e Geraldi e Ilari (1985).
22. Sobre a noção de escopo, ver Geraldi e Ilari (1985).
23. Sobre a Análise do Discurso anglo-saxã ver, neste mesmo volume, o capítulo “Análise da
Conversação” e, no volume 1, o capítulo “Linguística Textual”.
24. Possenti, S. O dado dado e o dado dado (O dado em análise do discurso). In: Castro, M. F. P.
de. (org.) O método e o dado no estudo da linguagem. Campinas: Editora da Unicamp, 1996, p. 199.
25. Fiorin, J. L. Tendências da Análise do Discurso. Cadernos de Estudos Linguísticos. Campinas:
Unicamp-IEL, jul./dez., 1990, p. 175.
26. Ibidem, p. 174.
27. Maldidier (1994, p. 21).
28. Remetemos o leitor aos capítulos “Semântica” e “Pragmática” neste mesmo volume para uma
maior compreensão da oposição enunciado/enunciação. Ver também Benveniste (1974/1989) e Searle
(1981). Vale dizer, no entanto, que a noção de enunciação é reinterpretada pela AD. Neste arcabouço
teórico, a enunciação não é compreendida como a situação empírica em que ocorre o discurso, mas
como estando relacionada à imagem que o sujeito do discurso, inserido em determinadas condições
sociais, faz das condições de produção de seu discurso. Ver, a esse respeito, Pêcheux e Fuchs
(1975/1990).
29. Remetemos o leitor ao capítulo “Sintaxe” no volume 1 desta obra, e aos capítulos “Aquisição
da Linguagem” e “Psicolinguística” neste mesmo volume.
30. O gerativismo, apesar do rigor de sua formalização, é interpretado como uma ruptura com o
estruturalismo. Posicionando-se a esse respeito em entrevista dada a Jean Paris, como relata Silva
(1995), Chomsky aponta os limites do estruturalismo, afirmando a seu respeito não ser
suficientemente teórico, por deixar de pesquisar os processos gerativos subjacentes que determinam
as estruturas que observa e estuda.
31. Orlandi, E. P. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 2. ed. Campinas:
Pontes, 1987, p. 110.
32. Orlandi (1987) faz uma comparação entre as diferentes formas de a Sociolinguística, a teoria
da enunciação e a Análise do Discurso trabalharem com a exterioridade. Aponta que a
Sociolinguística visa a relação entre o social e o linguístico; a teoria da enunciação trata da
determinação entre o funcional (enunciação) e o formal (enunciado); a AD “procura estabelecer essa
relação de forma mais imanente, considerando as condições de produção (exterioridade, processo
histórico-social) como constitutivas da linguagem” (Orlandi, E. P. A linguagem e o seu
funcionamento, op. cit., p. 111).
33. Ver Pêcheux (1969/1990).
34. Orlandi (1987) propõe uma tipologia discursiva classificando os discursos em três tipos: o
lúdico, o polêmico e o autoritário. Essa classificação é feita, entre outras coisas, com base no grau de
reversibilidade entre os interlocutores: no discurso autoritário esta reversibilidade tende a zero; no
polêmico ela é controlada; no lúdico a reversibilidade é total. Optamos no texto pela utilização da
expressão “menos polêmicos” porque queremos enfatizar apenas esta reversibilidade que possibilita,
de acordo com seu grau, uma menor/maior abertura para a variação do sentido devido a um
menor/maior silenciamento do outro (outro discurso/outro sujeito), de onde decorrem discursos
menos/mais “estabilizados”. Ressaltamos, portanto, que não temos aqui a intenção de classificar
discursos.
35. Ver Pêcheux et al. (1982/1990)
36. Ver Pêcheux e Fuchs (1975/1990).
37. Foucault (1969/2004, p. 133).
38. Foucault (1969/2004, p. 71) esclarece o que entende por estratégias: “Discursos como a
economia, a medicina, a gramática, a ciência dos seres vivos dão lugar a certas organizações de
conceitos, a certos reagrupamentos de objetos, a certos tipos de enunciação, que formam, segundo
seu grau de coerência, de rigor e de estabilidade, temas ou teorias. (...) Qualquer que seja seu nível
formal, chamaremos, convencionalmente, de ‘estratégias’ a esses temas e a essas teorias. O problema
é saber como se distribuem na história.”
39. Foucault, 1969/2004, p. 43.
40. Para uma relação mais pontual entre os trabalhos de Michel e Foucault e Michel Pêcheux, ver
Gregolin (2004).
41. Para uma discussão mais aprofundada sobre essa questão, ver Courtine (1981).
42. Pêcheux e Fuchs (1975/1990, p. 166).
43. Ibidem, p. 166-167.
44. Sobre a noção de pré-construído, ver Pêcheux (1975/1988).
45. Brandão, H. N. Introdução à Análise do Discurso, op. cit., p. 39.
46. Ver Maingueneau (1997, 2008).
47. Para um melhor desenvolvimento da noção de interdiscurso, ver o capítulo “Teoria do
discurso: um caso de múltiplas rupturas” do volume 3 desta obra.
48. Pêcheux (1975/1988, p. 162).
49. Para uma melhor apresentação dos trabalhos de Dominique Maingueneau, ver Possenti e
Mussalim (2010).
50. No Prefácio da edição brasileira de Gênese dos discursos, Maingueneau afirma que o termo
“formação discursiva” foiutilizado com certa “frouxidão”, já que hoje se falaria preferencialmente
em posicionamento, noção que deve ser compreendida mais precisamente como uma identidade
enunciativa forte, um lugar de produção discursiva bem específico no interior de um campo (por
exemplo, o discurso do partido comunista de tal período). Na verdade esse termo designa “ao mesmo
tempo as operações pelas quais essa identidade enunciativa se instaura e se conserva num campo
discursivo, e essa própria identidade” (Charaudeau; Maingueneau, 2004, p. 392).
51. Por exemplo, pode-se falar em campo político, filosófico, literário, etc. Considerando, a título
de ilustração, o campo literário, pode-se falar em formação discursiva modernista, formação
discursiva parnasiana e assim por diante.
52. Para uma abordagem mais detalhada destes e de outros conceitos da AD, ver o capítulo
“Teoria do discurso: um caso de múltiplas rupturas” do volume 3 desta obra.
53. Possenti, 2004, p. 364.
54. Ibidem, p. 365.
55. Para uma abordagem discursiva do fato literário, remetemos o leitor a Maingueneau (2006).
56. Há, entretanto, a possibilidade de se considerar que a literatura mantém relações diretas com
posições de classes sociais. Da perspectiva da abordagem marxista do fenômeno literário, as obras
“devem ser lidas como um ‘reflexo’ ideológico e, portanto, deformado de uma instância exterior a
elas que os determina em última análise: a luta de classes” (Maingueneau, 2006, p. 21). Lucien
Goldmann, proeminente representante dessa vertente, reconhece que a abordagem marxista do
fenômeno literário tem o mérito de oferecer o fundamento científico ao conceito de visão de mundo,
ao se propor a integrar o pensamento dos indivíduos ao conjunto da vida social, realizando uma
análise da função histórica das classes sociais.
57. Pêcheux reconhece a especificidade da língua (que tem regras próprias de funcionamento),
mas limita seu domínio: o sentido, conforme afirma Pêcheux (1975/1988), não é da ordem da língua,
não se submetendo, pois, aos seus critérios. A Linguística saussureana, analisa o autor, permitiu a
constituição da Fonologia da Morfologia e da Sintaxe, mas não foi suficiente para permitir a
constituição da Semântica, lugar de contradições da Linguística. Para ele, o sentido, objeto da
Semântica, escapa às abordagens de uma Linguística da língua, já que a significação não é
sistematicamente apreendida, devido ao fato de sofrer alterações de acordo com as posições ocupadas
pelos sujeitos que enunciam. Nesse sentido é que Pêcheux, considerando que as condições de
produção de um discurso são constitutivas de suas significações, propõe uma semântica do discurso,
no lugar de uma semântica da língua.
58. Agradecemos a Eugênio Rodrigues pela contribuição.
59. Na versão não revista e ampliada deste capítulo, havíamos nomeado esta FD como “FD
individualista”. Para uma melhor adequação à ideia de posição ideológica, alteramos para “FD
neoliberal”.
60. Remetemos o leitor a Brait (1997), uma coletânea de artigos que apresenta estudos sobre os
principais conceitos da obra bakhtiniana.
61. Authier-Revuz (1982) é citada em Brandão, H. N., Introdução à Análise do Discurso, op. cit.,
p. 52.
62. Bakhtin (1929/1988).
63. Embora ele se situe na perspectiva da Semântica da Enunciação, cabe citar aqui o texto de
Ducrot (1984/1987), “Esboço de uma teoria polifônica da enunciação”, em que o autor, contestando a
unicidade do sujeito falante, procura mostrar como em um mesmo enunciado é possível detectar mais
de uma voz. Remetemos o leitor ao capítulo “Semântica”, neste mesmo volume, para maiores
informações.
64. Authier-Revuz (1982) é citada em Brandão, H. N., Introdução à Análise do Discurso, op. cit.,
p. 50.
65. Possenti, S. Apresentação da Análise do Discurso. Campinas, [19--]b. (mimeografado)
66. Idem.
67. Ver Authier-Revuz (1982, 1990 e 1998).
68. Brandão, H. N. Introdução à Análise do Discurso, op. cit., p. 89.
69. Remetemos o leitor a Osakabe (1979), que, além fazer uma apresentação bastante
esclarecedora do jogo de imagens de Pêcheux (1969), reestrutura esse quadro mostrando a
necessidade de se considerar os atos de linguagem como pertinentes às condições de produção.
Assim, teríamos outra representação: “O que A pretende falando dessa forma?”.
5
NEUROLINGUÍSTICA
Edwiges Maria Morato
1. INTRODUÇÃO: UM BREVE PERCURSO HISTÓRICO
A Neurolinguística, precedida por estudos realizados no século XIX,
tem se firmado como um dos mais promissores domínios da ciência da
linguagem.
Inicial e tradicionalmente pautada, por um lado, pelo localizacionismo
estrito e, por outro, pelo estruturalismo linguístico, a Neurolinguística tem
abrigado nas últimas décadas, como veremos neste capítulo, uma agenda
heterogênea de questões provindas seja de modelos biomédicos, seja de
modelos psicossociais sobre nossa vida mental.
Um incremento da discussão epistemológica no campo, especialmente a
partir dos anos 1980, é possível ser observado em manuais ou livros-texto
publicados a partir desse período, como os de Lesser e Milroy (1993),
Goodwin(2003), Ahlsén (2006).
Do ponto de vista da demarcação do campo, as definições e as
descrições concernentes ao interesse teórico e metodológico da
Neurolinguística encontradas na literatura da área revelam que as fronteiras
que delimitam seu objeto — as relações entre linguagem, cérebro e
cognição — são de fato movediças. Assim, não é de estranhar que a
Neurolinguística, enquanto disciplina do conhecimento, resulte de
verdadeiros clusters de influência, integrando em torno de seu objeto
diferentes áreas como a Linguística, as Neurociências, a Filosofia, as
Ciências Cognitivas, a Sociologia, as Ciências da Computação, dentre
outras. Com isso, tanto áreas das ciências humanas e sociais, quanto das
ciências biológicas e da saúde encontram-se representadas na agenda
científica atual da Neurolinguística. Como podemos definir, então, esse
campo de estudos?
Há quem atribua o início da Neurolinguística, como o fazem Bouton
(1984) ou Lecours e Lhermitte (1979), à publicação, em 1939, do livro Le
Syndrome de Désintégration Phonétique, de Alajouanine, Ombredane
(neurologistas) e Durand (foneticista). Há também os que consideram a
Neurolinguística um ramo (Luria, 1976) ou um subconjunto (Hécaen, 1972)
da Neuropsicologia, o que significa circunscrevê-la ao campo de estudo das
perturbações verbais decorrentes de lesões cerebrais. Para autores como
Whitaker e Whitaker (1976), em função de seu complexo objeto, a
Neurolinguística seria uma área “francamente interdisciplinar” que
relaciona linguagem e comunicação humana com algum aspecto do cérebro
ou da função cerebral.
Posteriormente aos autores mencionados acima e, de certo modo,
consoante a essa visão mais tradicional, Caplan (1987) define a
Neurolinguística como o estudo das relações entre cérebro e linguagem,
com enfoque no campo das patologias cerebrais e na relação de
determinadas estruturas do cérebro com distúrbios da linguagem. Por seu
turno, Menn e Obler (1990) procuram definir a área por meio de seu
objetivo, que é, segundo as autoras, teorizar sobre o “como” a linguagem é
processada no cérebro.
Mais recentemente, em um manual de Neurolinguística, Ahlsén define a
Neurolinguística como o estudo da relação entre diferentes aspectos da
função cerebral atinentes à linguagem e à comunicação. Para a autora, que
não limita o campo a estudos atinentes ao contexto patológico, cabe à
Neurolinguística “explorar como o cérebro compreende e produz linguagem
e comunicação” (Ahlsén, 2006, p. 3).
Ainda que professem diferentes abordagens relativas a distintos modelos
e construtos teóricos e metodológicos, todos esses autores não deixam de
considerar que os estudos sobre as condições de linguagem e de
comunicação após algum comprometimento neuropsicológico constituem,
provavelmente, a investigação neurolinguística mais corrente e prolífera.
Parece óbvio, levando em conta o hibridismo da palavra, que
Neurolinguística diga respeito às relações entre linguagem e cérebro e que
acione dois principaiscampos do conhecimento humano para explicá-las, as
Neurociências e a Linguística. Isso realmente seria um truísmo se nós não
tivéssemos tantos problemas para dar conta dos complexos processos que
constituem linguagem e cérebro, bem como do modo de funcionamento de
ambos.
A despeito do avanço biotecnológico encontrado em nossa época,
muitas das indagações a respeito das relações entre linguagem e cérebro
ainda permanecem à hora atual, como as referentes à constituição daquilo
que chamamos de conhecimento ou aos fenômenos cerebrais envolvidos
nos chamados processos cognitivos superiores (linguagem, memória,
atenção etc.). Nossos processos cognitivos, vale lembrar, já se mostraram
empiricamente não redutíveis à intimidade do tecido neural, tanto por meio
de estudos considerados metodologicamente invasivos (como os córtico-
eletrofisiológicos, realizados em geral em ambiente intracirúrgico), quanto
não invasivos (como os que utilizam ressonância magnética funcional,
tomografia por emissão de fóton único, tomografia por emissão de
pósitrons, potencial evocado relacionado a evento).
Mesmo depois de terminada a chamada “década do cérebro”, os anos
1990, ainda não podemos prognosticar entre os estudiosos um consenso em
torno das correlações estabelecidas entre linguagem e cérebro. Assim, um
bom começo para entrever as relações que ambos os processo mantêm entre
si — e nas quais intervêm a cultura, as práticas ou experiências histórico-
sociais, o contexto, a interação — é verificar o que estamos entendendo por
uma e outra coisa. A partir daí, naturalmente, não escaparemos da Filosofia.
É fundamentando empiricamente essa questão que estaremos “fazendo”
Neurolinguística.
Se considerarmos que linguagem e cérebro têm uma relação (ou seja,
não são uma mesma coisa e tampouco são coisas logicamente heterogêneas
entre si), de que ordem ela seria? Haveria uma relação de causalidade entre
ambos os processos ou sistemas (na medida em que um cérebro
“defeituoso” causaria uma linguagem ou uma mente “defeituosa”) ou
haveria uma relação de reciprocidade entre eles, na medida em que a
estrutura e o funcionamento do cérebro podem constituir a linguagem e da
mesma forma ser por ela constituídos?
Embora as respostas a essas questões sejam por vezes apaixonadas e
parciais, o que sabemos na atualidade sobre a atividade cognitiva indica que
há na verdade entre linguagem e cérebro uma relação estreita, baseada na
influência recíproca entre diferentes áreas do Sistema Nervoso Central e
vários processos cognitivos com os quais percebemos e interpretamos o
mundo de várias formas.
Linguagem e cérebro, assim, funcionariam como um sistema dinâmico e
flexível, cujas regularidades e estabilidades não são determinadas a priori
(ou seja, não são fixadas ou pré-determinadas biologicamente; não
obedecem a padrões estáticos e homogêneos de existência). Antes,
dependem e são constituídos por diferentes fatores de ordem sociocognitiva
(cultural, pragmática, contextual, interacional).
Tendo isso em vista, admitamos, pois, que Neurolinguística é um campo
de arbitragem interdisciplinar, cujo foco é o estudo das relações entre
linguagem, cérebro e cognição; admitamos, ainda, que seu objeto diz
respeito, a um só tempo, às ciências humanas, às neurociências e às ciências
da cognição. A partir disso, nosso olhar deve estar voltado para o que
caracteriza tal campo de investigação, para o legado filosófico-científico
que o tem constituído. Em boa parte por assumir pressupostos e métodos
próprios à Linguística e às Neurociências, a Neurolinguística está sempre
colocada frente aos modos de se conceber e investigar tais relações: em que
termos são elas estabelecidas?
1.1. A agenda científica da Neurolinguística
Apesar de não ter um programa definido de forma muito precisa, a
Neurolinguística, grosso modo, caracteriza um campo de investigação que
se interessa de maneira geral pela cognição humana e, de maneira mais
específica, pela linguagem e por processos afeitos a ela, direta ou
indiretamente.
A Neurolinguística tem sido, pois, um lugar de estudo do processamento
normal e patológico da linguagem, oral e escrita, da relação entre semiose
verbal e não verbal, da semiologia de patologias de linguagem, da relação
entre normalidade e patologia, das condições de reorganização linguístico-
cognitiva após dano cerebral, das relações entre o processo de aquisição e o
de patologia de linguagem. Um lugar, enfim, de proposição de construtos
ou modelos de processamento cerebral da linguagem e da cognição. Visto
assim, o programa teórico-metodológico da Neurolinguística tem na
questão do Conhecimento seu problema fundamental.
Enquanto disciplina híbrida, a Neurolinguística tem construído sua
agenda científica assumindo pressupostos e métodos próprios à Linguística
e às Neurociências.
Da tradição e da agenda mais atual dos estudos linguísticos, a
Neurolinguística mantém o foco e o interesse na descrição e na análise da
estrutura, organização e funcionamento da linguagem. Isso implica, além do
interesse pelo sistema linguístico e seus diferentes níveis de constituição, o
interesse pela estruturação e gestão das práticas socioculturais, pelo
contexto de produção e interpretação linguística, pelos vários modos de
significação não verbais, pelos processos cognitivos com os quais
compreendemos e atuamos no mundo (dentre os quais a memória, a
atenção, a percepção, a gestualidade etc.).
Da tradição de estudo das Neurociências, a Neurolinguística mantém o
foco e o interesse em um conjunto de questões às voltas com o velho
problema mente-cérebro: como o cérebro reage ante as dificuldades
linguísticas e cognitivas que se impõem após o dano neurológico? Como se
desenvolve a plasticidade cerebral e como ela atua no desenvolvimento e no
declínio cognitivo? Como as crianças desenvolvem e usam a linguagem?
Qual é a responsabilidade do cérebro em relação aos processos cognitivos, e
qual seria a responsabilidade destes em relação ao cérebro, sua estrutura e
seu funcionamento? Em que medida é possível “visualizar” substratos
cerebrais do processamento linguístico e cognitivo?
Na esteira das Neurociências, assim como o faz em relação à
Linguística, a Neurolinguística tem se servido de uma complexa e variada
metodologia, tanto de modo quantitativo e experimental, quanto qualitativo
e observacional: estudo da linguagem e da comunicação após lesões
cerebrais por meio de vários recursos metodológicos, como os testes
diagnósticos, a observação da linguagem e da comunicação em ambientes
naturais de produção, as simulações computacionais, a elaboração de
modelos de processamento linguístico e cognitivo por meio de técnicas
cada vez mais sofisticadas (porque funcionais e temporais, não apenas
estruturais) de imageamento cerebral.
Tendo em vista essa dinâmica e híbrida configuração disciplinar da
Neurolinguística, é possível esboçar, sem chegar a exaurir as possibilidades
do campo, sua agenda científica atual:
a) estudo do processamento normal e patológico da linguagem, oral e
escrita, por meio de modelos ou construtos elaborados no campo da
Linguística e no das Neurociências;
b) estudo da repercussão dos estados patológicos no funcionamento da
linguagem e da cognição, com base na sustentação, refutação ou
construção de teorias linguísticas e cognitivas. Associados a este
item estão a (re)discussão e (re)análise da semiologia tradicional das
patologias neurolinguísticas, bem como da tipologia ou classificação
de quadros nosológicos. Os dados de contextos patológicos, como a
afasia ou a Doença de Alzheimer, por exemplo, por implicarem
graus variados de instabilidade nos processos linguístico-cognitivos,
tornam-se cruciais para qualquer teorização geral sobre o
funcionamento da linguagem e da cognição humana;
c) estudo das condições e características neurolinguísticas do
bilinguismo e da surdez. Tanto a rediscussão de antigos mitos
existentes no campo dos estudos sobre a surdez (como o relativo à
idade crítica para aquisição da linguagem ou a uma suposta
concretude cognitivado pensamento do indivíduo surdo), quanto das
teses sobre a natureza monolíngue ou plurilíngue do cérebro e sobre
a natureza inata ou adquirida da competência linguística,
identificam, em relação a este item, a contribuição relevante da
pesquisa neurolinguística;
d) estudo neurolinguístico e sociocognitivo do envelhecimento e da
neurodegenerescência, como a Doença de Alzheimer. Estão
associados a este item as relações entre linguagem, memória e
consciência no contexto normal e no patológico, a discussão acerca
de vantagens e desvantagens de modelos biomédicos e modelos
sociais do envelhecimento normal e patológico, as caracaterísticas e
relações entre fenômenos linguísticos e cognitivos no contexto do
envelhecimento normal, da Doença de Alzheimer e das afasias, a
análise de discrepâncias observadas no comportamento dos
indivíduos em ambientes fortemente institucionalizados e em
ambientes mais naturais de produção de linguagem e interação;
e) estudo de processos de significação não verbais, com destaque para a
relação que estes mantêm com a linguagem e com o contexto
comunicacional. Associados a este item estão os estudos de
processos ou estratégias compensatórias de comunicação e os
estudos sobre a dimensão multimodal da linguagem e da interação.
Este item diz respeito à análise de contextos não necessariamente
patológicos e não estritamente verbais, tais como os que focalizam a
gestualidade, a música, o corpo etc.;
f) discussão sobre a questão do método de investigação
neurolinguística. Este item refere-se à questão da constituição,
visibilidade e tratamento de dados — o que inclui o problema da
escolha e do aperfeiçoamento de sistemas de transcrição (linguística
e mutimodal) adequados para os fenômenos ou processos
focalizados nas investigações. A questão, assim, recobre múltiplas
preocupações: teórica, metodológica, técnica, ética, jurídica,
tecnológica.
O desenvolvimento dessa agenda tem permitido que a teorização
produzida pela pesquisa neurolinguística retorne à Linguística de forma
extremamente produtiva em relação aos interesses gerais da ciência da
linguagem.
A análise dos dados obtidos no contexto patológico, bem como o estudo
sistemático da relação entre linguagem, cérebro e cognição em diferentes
contextos de produção, permite diferentes e prolíferos movimentos teóricos:
colabora para o entendimento dos processos normais de aquisição e
desenvolvimento da linguagem e da cognição; promove a construção de
teorias “pontes” no interior da própria Linguística; atua na relação
interdisciplinar entre a Linguística e outras disciplinas do conhecimento;
contribui para o desenvolvimento teórico e prático de atividades clínico-
terapêuticas, desempenhando também um importante papel social ao
destinar seus interesses científicos à diminuição de impactos e sofrimentos
derivados das patologias cerebrais e ao atuar na recepção social de doenças
ou circunstâncias cujo estigma é ainda forte entre nós.
Não é de se estranhar, portanto, que a arbitragem interdisciplinar seja o
vetor epistemológico que sustenta toda e qualquer pesquisa produzida na
área.
Tanto a tradição europeia, que identifica a Neurolinguística com os
estudos afasiológicos e psicolinguísticos, quanto a tradição americana de
inspiração conversacional e aplicada, que a identifica com a fundamentação
de práticas clínico-terapêuticas e com estudos de aspectos comunicacionais
afetados pela patologia, são bons indicadores da relevância da área que,
cumpre observar, tem se desenvolvido bastante nos últimos anos no meio
acadêmico do País.
2. DAS CONDIÇÕES DE SURGIMENTO DA ANTIGA AFASIOLOGIA
Ainda que seja tradicional apontar o século XIX como aquele que
propiciou o nascimento da Afasiologia e do estudo científico da
correspondência entre cérebro e linguagem, a questão sobre a representação
cerebral da linguagem e de outros processos mentais é tão antiga quanto a
Humanidade.
Desde a Antiguidade (de Hipócrates a Galeno), focaliza-se o cérebro
como o órgão da sensação e da inteligência. Mesmo antes disso, os
sacerdotes egípcios já faziam correlações anátomo-clínicas após a morte de
indivíduos doentes. Apenas no século XIX, período culturalmente animado
pela corrente teórica positivista, chegamos ao estudo “científico” do
cérebro. A descoberta das localizações cerebrais e os primeiros trabalhos
sobre a teoria celular da rede nervosa datam dessa época
Se é bem verdade que o problema corpo-mente funda toda nossa
tradição científico-filosófica, o problema cérebro-linguagem, de sua parte,
toma forma num período mais recente, mais precisamente no início do
século XIX. Esse início, chamado Frenologia (teoria a respeito das
localizações cerebrais de nossas faculdades mentais, que tem por base a
observação a olho nu das fossas cranianas), logo alargou seus interesses em
direção aos estudos anátomo-fisiológicos mais complexos da linguagem e
seus distúrbios.
Para entendermos o nascimento da Afasiologia, também chamada de
“Neuropsicologia da linguagem” por autores franceses (Hécaen e Dubois,
1969), é preciso levar em conta o espírito intelectual dos séculos XVIII e
XIX, marcado por uma crescente e grande confiabilidade na ideia de
ciência e no gosto por antinomias clássicas. Nesse contexto intelectual,
encontramos um tipo de dualismo biológico (cérebro/mente) que marca
fortemente a Linguística e demais ciências ao longo de todo século XX.
O que temos ao final do século XIX, de fato, é um perfeito mosaico de
inteligibilidades construído em torno do empreendimento positivista. Trata-
se de um período estimulante para as descobertas biológicas: a teoria celular
já tinha avançado no século anterior, Darwin publica nesse período sua obra
Origem das espécies, a Revolução Industrial torna-se mais do que uma
realidade no campo das ciências, o gosto pelas “origens” insinua uma
cultura ocidental etnocêntrica e expansionista, passível de ser observada na
constituição da própria Linguística, bem como de outras ciências que à
época se firmavam enquanto tais.
Com relação ao conhecimento sobre o cérebro, o século XIX foi de fato
impressionante. De Galeno (século II) até a Idade Média preponderou a
Teoria dos Ventrículos, responsável pela explicação da arquitetura
anatomicamente determinante de três faculdades mentais: a memória, a
razão e o senso comum — a linguagem praticamente não fazia parte das
evidências de sequelas de distúrbios cerebrais em virtude do fato de que ela
simplesmente não existia para os estudiosos (cf. Marx, 1966; Benton e
Joint, 1974). A linguagem era “invisível” porque não era corpórea, não
estava localizada no cérebro.1
O interesse pela organização cerebral da linguagem, bem como pela sua
realidade cognitiva surgiu a partir do momento em que ela passa a ser
“visível” para os antigos estudiosos da correlação entre comportamentos
humanos e áreas corticais lesadas, por volta da segunda metade do século
XIX. Antes disso, cumpre lembrar, os fenômenos que de alguma forma
eram afeitos ou relacionados à linguagem eram creditados a alguma
capacidade intelectiva do homem, como a percepção, a memória, o
raciocínio, a inteligência.
De fato, toda a tradição científico-filosófica acerca da linguagem a toma
como uma espécie de exteriorização de conteúdos mentais que seriam
subjetivados e aparentemente inacessíveis ao investigador. Afinal, para os
antigos, a linguagem, essa espécie de “dom divino” dado homem (portanto,
inata, essencial, verdadeira, lógica) não se confunde com a realização
humana (a fala), que a deforma, e sim com a mente (o espírito), que a
contém.
A falta de teorias-pontes entre a Linguística e a Neurologia então
nascente de fato contribuiu para que os estudos linguísticos sobre a afasia e
sobre outros contextos patológicos não acontecessem ainda no século XIX
(podemos até mesmo aludir a um desconhecimento teórico recíproco entre
essas duas ciências).
Além disso, a percepção da Linguística como mera “ciência auxiliar”
também não foi favorável à colaboração dos linguistas com o estudo
neuropatológico das afasias que entãodespontava. Somado a todos esses
fatores, lembramos ainda que o psicologismo que dominava as primeiras
explicações sobre as afasias de certa forma também inibia a incursão dos
linguistas no campo da Afasiologia (Françozo, 1987).
A linguagem só veio a ter uma realidade mental (“mental” significando
ou reduzindo-se ao cerebral, de acordo com o espírito da época) e um
estatuto nosológico (a afasia) apenas no século XIX. A partir daí,
consagrou-se a ideia de que a linguagem tinha uma realidade
neurocognitiva (isto é, era concebida como um processo mental e estava
localizada no cérebro).
Se a questão da localização cerebral precisa dos processos mentais
humanos é ainda hoje um tema discutível, a definição da responsabilidade
da “área de Broca” (isto é, a região situada ao pé da terceira circunvolução
frontal do hemisfério esquerdo) frente aos processos da linguagem
articulada significou, sem dúvidas, um avanço do reconhecimento da
importância da comunicação verbal em nossa vida mental.
A descrição sistemática das alterações de linguagem decorrentes de
lesões cerebrais, feita inicialmente por médicos neurologistas (ou por
anatomistas), deu origem à Afasiologia, o campo de estudo das afasias, isto
é, problemas de linguagem decorrentes de lesão focal adquirida no Sistema
Nervoso Central.
Quando se efetivou, em meados da década de 1960, o estudo linguístico
da afasia dizia respeito basicamente à sintaxe (ou melhor, às regularidades
gramaticais e às regras de boa formação de sentenças) e à semântica (ou
melhor, às representações lógico-formais de sentenças). A fala, em seu
contexto fonético, ficou de fora dos problemas afásicos (como estava, no
início, de fora da própria Linguística, cumpre lembrar), já que era
considerada uma realização simplesmente motora (o que equivale a dizer
não simbólica, ou não linguística).
Também ficaram de fora do início dos primeiros estudos linguísticos das
afasias as atividades realizadas pelos falantes em situações de uso efetivo da
linguagem, os aspectos socioculturais a ela relacionados e as práticas
discursivas que a mobilizam. Vale ressaltar, a propósito, que foi preciso
esperar por Roman O. Jakobson, que realizou o primeiro estudo
propriamente linguístico das afasias (tendo como base de seu trabalho a
descrição neuropsicológica dos fenômenos afásicos feita pelo
neuropsicólogo russo Alexander R. Luria), para que o diálogo entre a
Afasiologia e a teoria linguística se tornasse fecundo, criativo e promissor.
3. AFASIOLOGIA E NEUROLINGUÍSTICA
A Afasiologia, em seu início, pode ser compreendida como o campo de
estudo das correlações entre linguagem e determinadas áreas do cérebro que
seriam por ela responsáveis. Dos estudos específicos sobre as afasias aos
estudos de processos linguísticos e cerebrais em contexto normal ou
patológico, deu-se um desdobramento quase natural. Dessa maneira,
precedida por trabalhos realizados há mais de duzentos anos, com base na
colaboração algo tumultuosa entre a ciência médica e a ciência linguística,
nasce a Neurolinguística, inicialmente representada por uma área de
interesses bem determinada, o estudo das afasias, ou Afasiologia. Ainda que
a Afasiologia (ou Linguística Afasiológica, na expressão de Caplan, 1987)
não totalize o interesse teórico-metodológico da Neurolinguística atual, ela
é, sem dúvida, o seu campo de investigação mais prolífero, razão pela qual
damos destaque a ele neste capítulo.
Embora seja tradicional falar que a Afasiologia nasceu com o médico
francês Paul Broca em 1861, quando ele descreveu os primeiros casos de
afasia motora, alteração que afetaria basicamente o aspecto expressivo da
linguagem (descrevendo, entre outros, o caso do paciente Leborgne,
apelidado “Tan-tan” por ser esta a única forma expressiva que lhe restara
para se comunicar com os outros), cumpre salientar que quem estabeleceu
propriamente a relação entre área cerebral lesada e manifestações clínicas
de pacientes neurológicos foi Gall, no início do século XIX, fazendo
correlações anátomo-clínicas vistas a olho nu na caixa craniana. A
propósito, sua peculiar doutrina, intitulada “Anatomia e fisiologia do
Sistema Nervoso em geral e do cérebro em particular”, recebeu o nome de
Frenologia e dizia que as disposições morais e intelectuais dependiam de
faculdades inatas e distintas, que estariam inscritas no cérebro. Assim, o
lugar ontológico da alma desviou-se para o cérebro...
Coube, pois, ao médico e anatomista alemão Franz Joseph Gall, no
começo do século XIX, a partir dos estudos de correlação anátomo-clínica,
introduzir a linguagem entre as faculdades mentais localizadas no cérebro,
e coube ao médico francês Paul Broca, na década de 1860, “localizá-la” em
partes circunscritas do Sistema Nervoso, a qual chamou Área de Broca,
responsável pela linguagem articulada, pela memória das palavras.
Quando Broca apresentou o “caso Lerborgne” (cuja afasia se
caracterizava essencialmente por um distúrbio de linguagem articulada, sem
problemas de compreensão ou de outros déficits linguísticos e cognitivos),
de certo modo reforçando as ideias de Gall, passou-se a localizar ao pé da
terceira circunvolução frontal do hemisfério esquerdo do cérebro (a “área
de Broca”) a sede da linguagem. Ainda que sob contestações, essa ideia
perdura até os dias de hoje, como já mencionamos.
Todavia, a descrição do caso desse paciente de Broca tem sido alvo de
muitas críticas. Internado havia 20 anos no Hospital Bicêtre, em Paris, o
paciente padecia de vários males mesmo antes de ter sofrido uma lesão
cerebral (e consta que não teria sido apenas uma lesão, o que enfraquece
ainda mais a corrente localizacionista, que relaciona diretamente área
cerebral lesada e alteração de linguagem e de outros processos
cognitivos....). Com isso, muitos admitem, não sem uma ponta de ironia,
que a Afasiologia tem sua origem numa espécie de malogro ou equívoco
clínico. Além disso, como diziam os críticos da corrente localizacionista
(como Sigmund Freud, que escreveu em 1891 uma instigante monografia
doutoral sobre as afasias), uma coisa é localizar no cérebro áreas que,
prejudicadas, perturbariam a linguagem e demais processos cognitivos;
outra coisa — bem diferente — é localizar de maneira precisa a linguagem
no cérebro. Somente a história das ideias ou a filosofia da ciência seriam
capazes de identificar as razões da manutenção, até os dias de hoje, de um
paradigma estabelecido nessas bases.
Já à época do nascimento da Afasiologia, vários autores também se
dedicavam a compreender se a alteração da linguagem nas afasias
perturbava o comportamento psicoafetivo do indivíduo, ou sua
inteligência.2
Associado por vários autores a uma alteração de memória, de maneira
explícita ou implícita, o distúrbio de fala então descrito já havia sido
classificado pelo filólogo alemão Johann Gesner, no século XVIII, como
“amnésia da fala”, causada, segundo ele, pela inércia de conexões entre
diferentes partes do cérebro (Ahlsén, 2006, p. 13).
Em trabalho de 1825, contrariando a tese unitarista segundo a qual o
cérebro participa como um todo e não de maneira especializada e específica
do funcionamento de uma determinada função mental, Jean-Baptiste
Bouillaud, aluno de Gall, descreveu dois tipos de desordens afásicas
relacionadas a lesões no lobo frontal: os concernentes aos movimentos da
fala (relativos à capacidade motora de articular os sons da fala), e os
concernentes à memória de palavras (relativos à capacidade mental de
evocar palavras). Em 1898, Albert Pitres descreveu o que chamou de
“afasia amnésica”, isto é, uma dificuldade de nomear objetos e encontrar
palavras na fala espontânea (Ahlsén, 2006, p. 24).
Nessas primeiras descobertas, linguagem e memória são fenômenos
associados entre si nas descrições das afasias; contudo, para os primeiros
afasiólogos, a primeira não seria mais do que mera expressão da segunda.
O distúrbio de linguagem articulada, descrito nas monografias dos
neuropatologistas do século XIX e chamado inicialmente de afemia por
Broca, é finalmente denominado de afasia apóso médico francês Armand
Trousseau usar o termo pela primeira vez em 1862. A propósito dessa
questão terminológica, observa Morato (2010b, p. 24):
No mundo clássico, a ideia de afasia não era ligada à ideia de doença, propriamente; era ligada à
ideia de retórica, de mneumotécnica, de defesa de pontos de vista. Era ligada, portanto, à ideia de
logos, não apenas de realização motora da fala ou do pensamento que não se materializa. Poderia
ser considerado afásico aquele desprovido de argumento de um discurso racional; afásico também
poderia se referir àquele de quem não se podia falar. A ideia de afasia e, mais ainda, a ideia de
afemia, assim, está ligada à ideia de infâmia, ou de infame (daí o fato de Trousseau ter recusado o
termo afemia, originalmente proposto por Broca para dar nome à patologia da linguagem
articulada que de forma pioneira descrevera em 1861, preferindo, em vez disso, o termo afasia).
Tal sugestão teria sido acatada pelo pai da Afasiologia, em correspondência trocada entre ambos,
ainda que Broca tenha reivindicado para si a descrição e o diagnóstico da doença agora
renomeada (cf. Hécaen e Dubois, 1969).
Ainda que até hoje perdure a ideia de que a área de Broca atua de
maneira importante e imprescindível no processamento da linguagem
articulada houve, à época do médico francês, um acirrado debate em torno
de um arrazoado ainda vigente entre nós: uma coisa seria identificar zonas
cerebrais que atuam de maneira importante na linguagem articulada, de
modo a se responsabilizar por suas alterações (como as afasias), outra coisa
bem diferente é a postulação de uma localização precisa ou estrita da
linguagem no cérebro.
O velho localizacionismo, ainda que corrente dominante por muito
tempo, não parecia já no início da Afasiologia corresponder à explicação
definitiva de como o cérebro se estrutura e funciona. De todo modo,
tampouco o associacionismo ou o globalismo conseguiram firmar-se como
corrente explicativa dominante ou consensual nessa época.
Ao final do século XIX, o localizacionismo era questionado fortemente
por autores como o neurologista britânico John Hughlings Jackson e o
neurologista austríaco Sigmund Freud.
Na primeira metade do século XX, vários neurologistas e afasiólogos,
procurando superar os limites do antagonismo localizacionismo (corrente
teórica baseada, em termos gerais, na ideia de que as funções mentais
encontram-se localizadas em determinadas regiões do cérebro, por elas
responsáveis) versus globalismo (corrente teórica baseada, em termos
gerais, não na ideia da não especialização cerebral, mas sim na de que todo
o cérebro, de forma holística, é responsável por cada uma das funções
mentais), já admitiam que o cérebro opera em concerto, ainda que certas
regiões pareçam mais importantes do que outras para a constituição e
funcionamento das funções mentais.
Ligados a esse pensamento crítico, encontramos autores identificados
com a “moderna Neuropsicologia”, como Constantin von Monakov, Henry
Head, Kurt Goldstein e Alexander Romanovich Luria. Para eles, o cérebro
obedecia a uma lei hierárquica de organização das funções mentais,
resultante de uma longa trajetória filogenética, isto é, de uma evolução
biológica e cultural da espécie humana.
Embora importantes estudiosos dessa mesma época esboçassem críticas
à tese do localizacionismo (ou tese da correlação direta entre zona cerebral
e função mental), como o médico e neuroatanomista Jean-Martin Charcot e
seu então discípulo Sigmund Freud, foi preciso esperar o século XX para
que a tese funcionalista — segundo a qual o cérebro, assim como a
linguagem e demais processos cognitivos, se estrutura como um sistema
funcional complexo — se consolidasse de forma a implicar mudanças
teóricas e metodológicas importantes no campo das Neurociências.
A noção de sistema funcional complexo foi introduzida no campo da
Neuropsicologia por Alexander Romanovich Luria (1981). Por ela se
entende que as diferentes partes do Sistema Nervoso Central (portanto, do
cérebro) funcionam de maneira integrada, trabalhando em concerto em
distintos níveis de complexidade hierárquica da atividade cognitiva. Para o
autor,
toda atividade mental humana é um sistema funcional complexo efetuado por meio de uma
combinação de estruturas cerebrais funcionando em concerto, cada uma das quais dá sua
contribuição peculiar para o sistema funcional como um todo. (Luria, 1981, p. 23)
Com base nessa concepção integrativa, dinâmica e plástica da estrutura
e do funcionamento cerebral, a afasia é concebida não apenas como um
problema de articulação da fala, mas também como uma alteração do
sistema linguístico como um todo (fala, audição, leitura e escrita), ainda que
os sintomas possam se manifestar de forma seletiva (mais semânticos ou
mais sintáticos, por exemplo).
De todo modo, essa concepção sistêmica e funcional do cérebro implica
uma nova forma de se conceber os distúrbios cognitivos. A afasia,
compreendida inicialmente como um problema de fala articulada ou um
problema de linguagem interna, passa a ser vista como um problema de
metalinguagem, o que traz à tona a relação do falante com a produção e a
interpretação da linguagem e da comunicação, com os aspectos verbais e
não verbais da significação.
A partir do momento em que passa a situar-se na Linguística, a antiga
Afasiologia — atualmente, Neurolinguística — pode projetar de maneira
interessante antigas indagações filosóficas sobre o sentido, a representação,
o conhecimento, o pathos, a memória etc. Pode, sobretudo, voltar-se para a
Linguística de modo a assumir seus pressupostos e métodos próprios, por
vezes criando teorias-pontes entre distintos domínios da própria ciência da
linguagem, como a Psicolinguística, a Sociolinguística, a Pragmática, a
Análise da Conversação, a Linguística Textual, a Linguística Cognitiva, a
Análise do Discurso.
4. AS PRIMEIRAS TEORIZAÇÕES SOBRE AS AFASIAS E A LINGUAGEM PATOLÓGICA
O conhecimento a respeito das afasias dá-se inicial e
predominantemente no campo das ciências médicas. Métodos investigativos
utilizados à época do nascimento da Afasiologia, como a correlação
anátomo-clínica, a entrevista anamnésica e os protocolos diagnósticos estão
na base da investigação clínica ainda vigente.
Vimos que os primeiros a diagnosticar e classificar as afasias foram os
próprios médicos que as descreveram a partir do que exibiam seus
pacientes. Na realidade, as classificações vigentes, em sua maioria, não
divergem entre si e reafirmam de certa forma descrições e concepções
tradicionais.
Desde a primeira metade do século XX os linguistas passaram a estudar
as afasias com o intuito de testar ou comprovar suas teorias. Dessa forma, a
Afasiologia tornou-se uma importante fonte de dados para o
desenvolvimento da teoria linguística.
Se a falta de uma ciência da linguagem obrigou os primeiros afasiólogos
a levarem em conta o bom senso e a intuição na análise da linguagem em
contextos patológicos (à maneira de Jacques Lordat ou Armand Trousseau,
por exemplo, que faziam inúmeras observações interessantes, embora algo
subjetivistas, a respeito das implicações da afasia na linguagem cotidiana e
na vida prática de seus pacientes), a institucionalização inicial do estudo das
afasias no terreno da Medicina do século XIX fez com que fosse afastado
tudo aquilo que envolvesse aspectos socioculturais, contextuais e
psicoafetivos da linguagem. O que se recusava à época, em função da
concepção positivista de ciência, era a “exótica” inclinação filosófica que o
estudo das afasias suscitava.3
A distinção entre língua e fala, central no nascimento da Linguística, por
sua vez, conduziu os estudos da afasia em direção ao estudo da língua,
concebida como sistema abstrato, autônomo, homogêneo e inato, dissociado
da fala ou das atividades que com ela fazem os falantes. Esta concepção de
língua ajustava-se à veiculada nos estudos afasiológicos iniciais, que a
consideravam uma espécie de representação do pensamento. Com isso, a
afasia acabava sendo definida não como um problema de linguagemem
toda a sua abrangência, mas basicamente como um problema relativo a
aspectos internos, subjetivados, representacionais, mentais: em suma, como
um problema de “linguagem interna” (Françozo, 1987).4
Foi preciso que a forte distinção língua/ fala fosse diluída de algum
modo para que aqueles objetos considerados “heteróclitos” por Saussure à
época do nascimento da Linguística (ou seja, os falantes, suas atividades, os
aspectos histórico-culturais que configuram os usos da linguagem etc.)
passassem a ser incorporados ao estudo da linguagem.
A tradição estruturalista dividiu as afasias em dois grandes tipos: não
fluentes e fluentes,5 anteriores e posteriores, motores e sensoriais. Os
primeiros têm como características principais problemas de expressão oral
e/ou escrita (como alterações fonético-fonológicas, estereotipias,
perserverações, disprosódias, parafasias — sobretudo fonológicas —, fala
telegráfica, agramatismo, falta de iniciativa verbal, alteração de linguagem
escrita, apraxia buco-lábio-lingual) e são creditados a lesões na parte
anterior do córtex cerebral. Os segundos têm como características a
ausência de déficits articulatórios, a presença de problemas de compreensão
oral e/ou escrita e a alteração nos aspectos semânticos da linguagem (como
anomias, dificuldades de evocar ou selecionar palavras, parafasias —
sobretudo semânticas —, circunlóquios, confabulações). Os problemas
perceptivos e gestuais são mais frequentes e numerosos nesse tipo de afasia,
que é creditado a lesões na parte posterior do córtex cerebral.
Sem maiores especificações, esse é o quadro geral das classificações das
afasias, que acaba por orientar a classificação de síndromes neurológicas
distintas, como as demências, por exemplo. Tanto os neuropsicólogos
quanto os neurolinguistas têm tentado colocar tal quadro à prova mediante
outras e distintas descrições e análises de fenômenos afásicos. Contudo,
novas descrições e explicações acabam sendo “encaixadas” nas velhas
classificações de maneira ad hoc. O fato é que, sob contestações de toda
ordem, elas continuam a vigorar, sobretudo quando evocadas para serem
aplicadas ao contexto clínico-terapêutico.
4.1. Sobre as afasias: o problema do escopo do termo
A afasia tem sido definida tradicionalmente como uma alteração de
linguagem oral e/ou escrita causada por um comprometimento cerebral
adquirido decorrente de acidentes vasculares cerebrais (isquêmicos ou
hemorrágicos), traumatismos crânio-encefálicos, tumores. Em relação à
etiologia, os quadros neurológicos aos quais pertencem as afasias estão
associados (muitas vezes de maneira integrada) a doenças cardíacas,
diabetes, tabagismo, hipertensão, alcoolismo, sedentarismo.
A afasia pode e geralmente é acompanhada de alterações de outros
processos cognitivos e sinais neurológicos, como a hemiplegia (paralisia de
um dos lados do corpo), a apraxia (distúrbio da gestualidade), a agnosia
(distúrbio do reconhecimento), a anosognosia (falta de consciência do
problema por parte do sujeito cérebro-lesado) etc. Não se trata de afasia,
assim, alterações de linguagem que se manifestam nas psicopatologias
(como a esquizofrenia ou o autismo), nas deficiências mentais e auditivas
ou nas demências, ou mesmo nas amnésias (Morato et al., 2002).
Esta definição restringe a concepção de afasia a um problema de
linguagem derivado de uma lesão focal no hemisfério cerebral esquerdo.
Além isso, entende que, por ser um sintoma diagnóstico, a afasia — e,
portanto, o distúrbio de linguagem que ela representa — integra um
determinado conjunto de critérios de diagnose (cf. Ahlsén, 2006, p. 101). A
propósito, ressalta Morato (2010b, p. 40):
A atual investigação das afasias no campo da Neurolinguística e no da Neuropsicologia não deixa
de ser marcada pela influência do método clínico iniciado no século XIX: a correlação
anatomoclínica, a entrevista anamnésica dirigida e, mais posteriormente, a psicometria são
elementos que normalmente funcionam como base da semiologia ou sintomatologia da síndrome
afásica, base por sua vez do diagnóstico e da prescrição: “Ao dar um rótulo ao problema espera-se
diminuir a ansiedade da ignorância. A nomeação de doenças envolve classificação, promove o
prognóstico e indica a terapia” (Porter, 1994, p. 365).
Após o dano cerebral, a qualidade de vida do sujeito cérebro-lesado será
proporcional à intensidade do impacto da afasia. Este dependerá, entre
outras coisas, do grau de extensão e importância do comprometimento
lesional, da etiologia da afecção (AVC, TCE, tumor etc.), das sequelas
neurológicas e neurolinguísticas resultantes (afasia, agnosia, hemiplegia,
apraxia etc.) e das características do próprio sujeito (idade, atividade sócio-
ocupacional, interesses culturais, escolaridade, habilidades, humor etc.),
bem como da forma como ele e seus familiares ou amigos reagem a isso
tudo.
Na prática, com quais dificuldades se deparam em geral as pessoas
afásicas, que podem apresentar dificuldades motoras (como hemiplegias) e
sensoriais (como agnosias e apraxias)?
Do ponto de vista da linguagem oral e escrita, podem faltar-lhe as
palavras de maneira importante (anomias, dificuldades de selecionar ou
evocar palavras), resultando muitas vezes em substituições ou trocas
inesperadas e incompreensíveis de palavras inteiras ou de partes delas (são
as parafasias, que têm diversas naturezas: fonético-fonológicas, semânticas,
morfológicas). Sua fala pode ser permeada por longas pausas ou hesitações,
muitas vezes seguidas de desalentado abandono do turno de fala ou do
tópico conversacional, bem como da perda do “fio da meada”. Pode
também acontecer de sua fala resultar muito laboriosa (alterações apráxicas,
fonoarticulatórias) ou ter um aspecto “telegráfico”, em função de
dificuldades de ordem sintática (como o agramatismo) ou semântico-lexical
(como as dificuldades de encontrar palavras).
Ainda pode acontecer de o indivíduo afásico ter dificuldades para
objetivar ou “controlar” os sentidos e a forma de expressá-los, tendo em
vista os contextos e as regras pragmáticas e conversacionais que presidem a
utilização da linguagem. O afásico pode “infringi-las” ao confabular (isto é,
produzir falsas informações ou falsas memórias), ao produzir circunlóquios,
ao apresentar uma fala jargonafásica (isto é, uma fala permeada de
abundantes parafasias de diversas naturezas), ao atuar de maneira
irrelevante com relação à atividade referencial (e aos fatores de coesão, de
coerência, de progressão tópica) e à atividade inferencial (subentendidos,
implícitos etc.).
É interessante ressaltar que esses aspectos, em muito semelhantes ao que
ocorre no contexto “normal”, extrapolam o terreno do sistema linguístico e
atingem a chamada exterioridade da língua, como os contextos de uso da
linguagem, as normas sociais que presidem a produção e a interpretação da
linguagem, a coexistência de processos de significação verbais e não
verbais nos atos comunicativos etc.
A partir da integração de elementos e fatores tidos como intra e
extralinguísticos, a afasia se exibe de maneira mais radical como uma
questão discursiva, isto é, não redutível aos níveis linguísticos ou à língua e
seus mecanismos internos de constituição. Envolve o funcionamento da
linguagem e os processos de alguma maneira a ele associados; envolve,
dessa maneira, práticas linguísticas e sociocognitivas que caracterizam as
mais diversas rotinas e práticas significativas humanas.
A maneira como se lida social e subjetivamente com a afasia
condiciona, de certa forma, a sorte dos que com ela convivem. Isso acaba
por influenciar fortemente o processo de (re)construção linguístico-
cognitiva ou a possibilidade de adaptação ou reinserção sócio-ocupacional
de sujeitos afásicos: “Nesse caso, a afasia deixa de ser apenas uma questão
de saúde, uma questão linguística, uma questão cognitiva. A afasia torna-se
uma questão social” (Morato, 2000, p. 65-66).6
Em 1875, M. Legroux definia a afasia como “perversão da faculdade
normal de exprimir ou compreender as ideias pelos signos convencionais”.A origem anatômica parece dar a essa linguagem uma morbidez
indiscutível (daí a medicalização, o organicismo, a psicologização etc.).
Herdeira do logocentrismo greco-latino, a cultura ocidental, ao vigiar
severamente as formas de dizer ou falar, acaba por caracterizar a perda ou a
alteração da linguagem como um “escândalo” intolerável, como se o pathos
não fosse constitutivo também da ideia de normal (algo abordado com
agudeza por autores como Sigmund Freud, George Canguilhem e Michel
Foucault). Como afirma Roy Porter (1993), a “doença põe a linguagem sob
tensão”. Daí se vê a preocupação com o sintoma, com a nosologia, com a
forte distinção entre o normal e o patológico: “uma doença nomeada é uma
doença quase curada”. A pessoa que se torna afásica, em função dessa
idealização (da linguagem, do falante, da saúde etc.), acaba por conviver
com um estigma muitas vezes devastador.
As afasias têm sido definidas como alteração da capacidade de realizar
operações metalinguísticas (cf. Jakobson, 1954/1981) ou como perda ou
alteração da metalinguagem (cf. Lebrun, 1983). O que estaria alterado ou
perdido no caso dos afásicos credita-se a um domínio cognitivo ou mental
da competência linguística de que os indivíduos seriam dotados para se
servir de recursos linguísticos com os quais representam e categorizam os
objetos e estados de coisas do mundo. No sentido que lhe dá Chomsky
(1970, p. 52), trata-se de uma capacidade inata e mental que temos para
falar e compreender a linguagem: “O conhecimento de uma língua — a
‘competência linguística’, no sentido técnico deste termo — implica que
dominamos esses processos gramaticais”.
Contudo, indaga Morato (2010b, p. 32-33), em relação a esse ponto:
Se a perda da capacidade metalinguística que caracterizaria as afasias disser respeito à perda de
uma competência ligada ao conhecimento (psicológico) que teria o indivíduo acerca dos recursos
a serem processados na produção e na compreensão de objetos linguísticos com os quais é
possível referir e interpretar o mundo, como explicar os fatos linguísticos descritos e analisados
no âmbito deste volume — que nos mostram precisamente várias formas ou dimensões da
competência relativamente à linguagem (e à cognição)? Como analisar esses fatos a não ser por
um deslocamento teórico que permita repor no estudo da linguagem e da cognição aqueles
elementos tidos como “heteróclitos” para a tradição estruturalista e cognitivista, tais como o
aspecto intersubjetivo, cultural e histórico das atividades que desenvolvem os indivíduos em sua
vida social, a forma contextualizada pela qual emergem e se desenvolvem os processos de
significação verbais e não verbais, a dimensão dialógica própria das práticas linguísticas, a
construção multimodal e interacional do sentido, a forma dinâmica e distribuída do
processamento da fala e dos processos cognitivos?
Como é possível observar, deparamos-nos com um problema sério nessa
tentativa de divisão de águas. Porém, se fugirmos do beco sem saída da
dicotomia língua-fala, bem como da oposição interno-externo em relação à
linguagem, admitiremos que a afasia, sendo um problema de linguagem,
afeta tanto a estrutura da língua quanto seu funcionamento. Assim, vários
são os processos e níveis de descrição que devem ser levados em conta na
compreensão da linguagem: não apenas os fonético-fonológicos, lexicais e
sintáticos, mas também os pragmáticos, os sociolinguísticos, os textuais, os
discursivos. Além disso, outros processos cognitivos, com suas realidades
semiológicas particulares, devem também ser considerados no
processamento da linguagem em uso: memória, emoção, gestualidade,
percepção etc.
Assim, voltamos ao ponto de nossa discussão acerca das polêmicas que
encerram os debates ainda vigentes sobre os limites acerca da correlação
direta entre área cerebral e função linguística.
4.2. O estudo das afasias no âmbito da Linguística: as reflexões
pioneiras de Jakobson
O primeiro linguista que se dedicou sistematicamente ao estudo das
afasias foi o moscovita Roman O. Jakobson, tendo por base a classificação
neuropsicológica feita por outro eminente cientista russo, Alexander R.
Luria (que estipulou seis formas básicas de afasia: eferente, aferente,
sensorial, dinâmica, semântica e amnésica). Para Luria, lembremos, as
afasias afetam distintamente os aspectos motores e sensoriais (expressivos e
receptivos) implicados nas tarefas de articular e compreender a linguagem,
que pode ser alterada de forma seletiva em suas diferentes funções (fala,
audição, leitura e escrita) e modalidades (oral e escrita).
Jakobson, ao longo de sua vasta obra, focalizou as afasias de um ponto
de vista linguístico no contexto do estruturalismo e do funcionalismo.
“Aphasia as a linguistic topic” (1953) e o célebre “Dois tipos de linguagem
e dois tipos de afasia” (1954) são dois artigos complementares que
representam a reflexão jakobsoniana a respeito das afasias nos anos 1950.
Em outros trabalhos, como “Metalanguage as a linguistic problem”
(1956) e “Linguística e Poética” (1960), dedicados à descrição do sistema
comunicacional, o autor evoca a noção de metalinguagem — a capacidade
autorreflexiva da linguagem de voltar-se sobre si mesma, tanto sobre sua
estrutura, quanto sobre seu uso — para analisar a presença das operações
metalinguísticas no uso cotidiano da linguagem.
Ao se dedicar às afasias, Jakobson estava, na verdade, interessado em
construir uma teoria geral da linguagem, uma teoria que a explicasse no seu
todo: aquisição, funcionamento, estrutura, alteração etc. Para o autor
(1954/1981), justamente por ferir a norma, a gramaticalidade, os padrões
estruturais e funcionais da língua, as afasias dariam solidez empírica à sua
teorização sobre o funcionamento da linguagem de um modo geral (e da sua
aquisição pela criança, de um modo particular).
A partir dessa primeira incursão linguística (já que as anteriores nada
mais fizeram do que coadjuvar, digamos assim, as investigações de médicos
e neuropatologistas), passou-se a admitir que os linguistas (e a Linguística)
em muito contribuiriam para uma melhor descrição da semiologia e do
diagnóstico das afasias.
Na prática (isto é, na teoria), Jakobson ampliou, tendo como pano de
fundo o estruturalismo e o funcionalismo linguístico (sob sua forma mais
produtiva, o Círculo Linguístico de Praga), algumas das ideias de Ferdinand
de Saussure, considerado o pai da Linguística. No entendimento dos tipos
de afasia descritos em termos neuropsicológicos por Luria, Jakobson
trabalhou teórica e metodologicamente com dicotomias clássicas,
estabelecendo dois grandes eixos de relações (simbólicas) inicialmente
projetados um sobre o outro e posteriormente inter-relacionados: duas
formas de organização da linguagem, sintagmática/metonímica
(responsável pela combinação de unidades) e paradigmática/metafórica
(responsável pela seleção de unidades). Esta combinação conferiria unidade
linguística ao sistema de linguagem. Nas afasias, segundo o autor, “um ou
outro desses dois processos é reduzido ou totalmente bloqueado”
(1954/1981, p. 55).
Lembrando a tradição saussuriana, as explicações de Jakobson partem
do princípio de que o falante não apenas opera com unidades, mas também
com unidades em relação, isto é, em cadeia linguística. Estas combinações
são chamadas de sintagmas e são qualificadas como relações in praesentia
(como as estruturas sintáticas). Haveria ainda uma outra classe de relações,
só que entre entidades que têm entre si algo de comum. São chamadas de
paradigmáticas e são qualificadas como relações in absentia (como classes
morfológicas e campos lexicais).
Mais no início de seus estudos sobre as afasias, Jakobson (1954/1981)
era mais fortemente comprometido com o pensamento luriano, chegando
mesmo a afirmar que haveria correlação entre lesões anteriores e
transtornos de codificação, assim como entre lesões posteriores e
transtornos de decodificação. A hipótese de Jakobson era de que as duas
formas do eixo estariam na dependência de estruturas cerebrais diferentes;embora ambas possam atuar de maneira integrada na comunicação, são
relativamente independentes.
Considerando, posteriormente, que nem sempre os linguistas estão
atentos para a natureza sistêmica e funcional dos dois processos
(metafórico-paradigmático/metonímico-sintagmático) que estão interligados
por uma relação de “predominância” no uso da linguagem, Jakobson
(1960/1981) chega a afirmar que não há entre eles uma forte divisão de
águas. O autor discute essa questão na análise dos eixos de reações
substitutivas (metafóricas) e de reações predicativas (metonímicas). A
reflexão jakobsoniana assinala que as afasias são um bom lugar para a
análise funcional da linguagem, já que perturbariam de maneira seletiva
esses dois eixos responsáveis por todo seu funcionamento simbólico.
Para Jakobson, a metalinguagem é deficiente nos afásicos que
apresentam uma desordem de similaridade; nesse caso, apesar das
instruções do interlocutor, os indivíduos afásicos não podem responder à
palavra estímulo com uma palavra ou uma expressão equivalente e carecem
da capacidade de construir proposições equacionais. Com isso, o contexto
mostra-se decisivo neste tipo de distúrbio, pois o individuo apoia-se na
contiguidade para contornar seus problemas relativos ao processo de
decodificação. A função metalinguística, aquela em que se usa a linguagem
para falar sobre a linguagem (isto é, o código ou o sistema linguístico), seria
da ordem da fala, e é concebida apenas como expressão externa de
conteúdos internos ou do pensamento. Para Jakobson, ao que parece,
metalinguagem e função metalinguística são, na realidade, operações
distintas (cf. Morato, 2005).
Para ilustrar minimamente o teor da argumentação de Jakobson,
tomemos uma distinção que decorreria, segundo o autor, da consideração do
eixo paradigmático/sintagmático, relacionado aos problemas de
decodificação e codificação da linguagem.
No processo de decodificação da linguagem, o contato inicial do falante
é com o contexto linguístico e depois com seus constituintes. O inverso dar-
se-ia na codificação, em que a primeira etapa diz respeito à seleção dos
termos para que, na etapa posterior, seja possível combiná-los.
Ao processo de codificação subjaz a relação de contiguidade (que opera
através da combinação das unidades linguísticas entre si, a precedente
determinando a consecutiva e esta a posterior). Este é o processo que
determina o contexto verbal. Na afasia motora, um tipo muito recorrente,
este seria o problema básico (isto é, uma desordem de combinação e de
contexto que se manifestaria no nível fonológico através da dificuldade no
uso de grupo de fonemas, na construção da sílaba e na transição de um
fonema a outro). Em termos de produção verbal, o que se nota é a ausência
quase total dos conectivos que constituem o contexto gramatical e a
permanência de palavras com conteúdo lexical: a isso a literatura
afasiológica tem reservado um termo, “fala telegráfica”.
Distanciando-se paulatinamente em suas reflexões dos interesses
anátomo-clínicos da Neuropsicologia, Jakobson passa a descrever ainda
uma série de dicotomias que estariam na base do funcionamento
comunicativo da linguagem, tais como: limitação/desintegração (aplicada à
situação na qual há alteração dos processos de combinação e seleção de
constituintes que compõem a sentença); sequenciação/simultaneidade
(aplicada à situação na qual há alteração da ordenação ou da possibilidade
combinatória dos constituintes, tal como ocorre nas afasias eferentes ou nas
afasias amnésicas, bem como à situação na qual há perturbação de seleção
de traços distintivos que compõem um fonema, tal como ocorre nas afasias
aferentes).
Além de representar uma espécie de marco no estudo das afasias, as
reflexões de Jakobson também tiveram o mérito de incentivar o interesse
dos linguistas pelas patologias e de apontar propriedades comuns tanto às
afecções, quanto à aquisição de língua materna e demais fatos de linguagem
ordinária.
A teorização formulada por Jakobson não deixou, contudo, de sofrer
críticas no que diz respeito ao potencial explicativo de sua classificação
linguística dos distúrbios afásicos. A propósito, na obra Nouveau
dictionaire encyclopédique des sciences du langage, Ducrot e Schaeffer
assim comentam os estudos de Jakobson sobre as afasias: “Malgrado o
interesse do empreendimento de Jakobson, essas distinções, entretanto,
permanecem muito gerais para darem conta da variedade de operações
perturbadas nos diferentes tipos de afasia” (1995, p. 528 — nossa tradução).
5. UMA PERSPECTIVA INTERACIONISTA EM NEUROLINGUÍSTICA
Tomada em um sentido largo, a perspectiva sociocognitiva destaca
dentre seus postulados os seguintes aspectos: i) a linguagem é indissociável
de outros fatores e propriedades da cognição humana; ii) a linguagem é
resultado de uma imbricação de fatores externos e internos, como os
relativos às propriedades biológicas e cognitivas dos seres humanos e os
relativos às práticas da vida em sociedade e às experiências socioculturais
dos indivíduos. Tais aspectos, de maneira distinta, estão presentes no
desenvolvimento, na restrição ou na reorganização tanto de processos de
aquisição, quanto de alteração da linguagem.
Nessa perspectiva, a pergunta sobre a cognição não é uma indagação
direta sobre a relação linguagem-mundo, mas sim sobre como nós usamos a
linguagem enquanto forma constitutiva de mediação dessa relação. Para
essa perspectiva, a cognição é um resultado, e não um antecedente da
atividade interacional dos indivíduos com o mundo sociocultural. Esse
entendimento, forte desde os anos 1980, está de alguma forma presente na
concepção de cognição e de linguagem como atividades situadas e
coletivas.
Como afirma Tomasello (1999/2003), nossa cognição não se tornou
possível via mera adaptação biológica, mas sim por aprendizado,
transmissão e construção evolutivo-cultural. Tal percurso evolutivo não se
deu somente de forma cumulativa, mas sim de forma psicossocial, por meio
de sistemas de representação dos quais a linguagem é, sem dúvida, o
exemplo mais radical. Esta é, à maneira de Vygotsky (1934/1987), uma tese
forte a respeito da sociogênese da cognição humana, intersubjetiva e
perspectival, como assinala Tomasello (1999/2003), a partir do que se pode
estabelecer um quadro relacional entre o biológico e o cultural.
Uma das teses da perspectiva sociocognitiva (cf. Salomão, 1999) refere-
se à centralidade da linguagem e da interação social na constituição da
cognição humana. A Neurolinguística cria um terreno propício a essa
abordagem ao se instanciar entre os vários domínios da Linguística pós-
estruturalista.
Se o primeiro passo da antiga Afasiologia do século XIX em direção à
Linguística foi a descrição, a semiologia e a classificação das afasias em
termos linguísticos, o segundo passo, condição para que se expandisse sob a
forma híbrida denominada Neurolinguística, foi levar em conta o arcabouço
teórico-metodológico da ciência da linguagem.
É dentro dessa preocupação teórica que a Neurolinguística, para além da
descrição de processos gramaticais (prosódicos, fonológicos, morfológicos,
semânticos, sintáticos) relativos ao sistema, procura sustentação nos
construtos teóricos da Linguística, de modo a transcendê-la. Na área da
Pragmática e da Análise da Conversação, a Neurolinguística procura
sustentação para o estudo da estruturação e da gestão da interação, bem
como da competência linguística e comunicativa dos falantes; para o
reconhecimento e a manipulação das chamadas “leis conversacionais” e das
intenções dos interactantes; para o reconhecimento e a manipulação de
normas pragmáticas que orientam o uso social da linguagem, bem como a
produção e a interpretação de inferências e dos vários atos de fala presentes
na comunicação.
Do mesmo modo, é a preocupação com a estrutura e o funcionamento da
linguagem que leva a Neurolinguística à Linguística Textual e aos estudos
da textualização e da referenciação (Koch, 2002, 2004; Marcuschi, 2007,
2008; Cavalcante et al., 2005; Koch, Morato e Bentes,

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