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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA: domínios e fronteiras, vol. 2 Fernanda Mussalim e Anna Christina Bentes (Orgs.) Capa: aeroestúdio Preparação de originais: Nair Hitomi Kayo Revisão: Agnaldo Alves, Solange Martins Composição: Linea Editora Ltda. Coordenação editorial: Danilo A. Q. Morales Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização expressa dos autores e do editor. © 2000 by Organizadoras Direitos para esta edição CORTEZ EDITORA Rua Monte Alegre, 1074 – Perdizes 05009-000 – São Paulo – SP Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290 E-mail: cortez@cortezeditora.com.br www.cortezeditora.com.br Publicado no Brasil – 2021 Para Sírio e Inge Que nos mostraram Os encantos da linguagem. (As Organizadoras) O homem sentiu sempre — e os poetas frequentemente cantaram — o poder fundador da linguagem, que instaura uma sociedade imaginária, anima as coisas inertes, faz ver o que ainda não existe, traz de volta o que desapareceu. Émile Benveniste SUMÁRIO APRESENTAÇÃO À 8ª EDIÇÃO APRESENTAÇÃO Sírio Possenti INTRODUÇÃO Fernanda Mussalim Anna Christina Bentes 1. SEMÂNTICA Roberta Pires de Oliveira 2. PRAGMÁTICA Joana Plaza Pinto 3. ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO Ângela Paiva Dionísio 4. ANÁLISE DO DISCURSO Fernanda Mussalim 5. NEUROLINGUÍSTICA Edwiges Maria Morato 6. PSICOLINGUÍSTICA Ari Pedro Balieiro Jr. 7. AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM Ester Mirian Scarpa 8. LÍNGUA E ENSINO: políticas de fechamento Marina Célia Mendonça SOBRE OS AUTORES APRESENTAÇÃO À 8ª EDIÇÃO A obra Introdução à Linguística: domínios e fronteiras (vols. 1 e 2) foi lançada no II Congresso Internacional da Associação Brasileira de Linguística (Abralin), que aconteceu em Fortaleza, na Universidade Federal do Ceará (UFC), em março de 2001. Com a participação de linguistas brasileiros de várias instituições do país, os dois volumes foram organizados de forma a dar acesso aos principais objetos de estudo e às principais teorizações das diferentes áreas da Linguística, em uma linguagem focada no público de graduação, mas sem abrir mão do necessário rigor acadêmico na apresentação de cada uma das áreas que constituem esse campo do conhecimento. O trabalho coletivo e engajado dos vários autores dessa obra resultou na sua consolidação como uma referência no Brasil: um material imprescindível para a formação dos profissionais da área de Letras e Linguística e também um guia de conhecimento básico do campo dos estudos da linguagem, que figura na bibliografia obrigatória de vários programas de pós-graduação no país. Para nós, organizadoras da obra Introdução à Linguística: domínios e fronteiras, isso tudo é, ao mesmo tempo, uma grande alegria, mas também uma grande responsabilidade. A atualização da obra no ano de seu aniversário de dez anos foi a maneira que encontramos para celebrar o seu sucesso e, ao mesmo tempo, continuar a fornecer um material de formação adequada e de qualidade no campo dos estudos linguísticos. Essa atualização foi feita de maneira diversificada e contemplou reformulações pontuais e/ou reformulações mais gerais de grande parte dos artigos. Houve desde a aplicação do acordo ortográfico e correções dos originais, até atualizações de bibliografia, exemplos e dados, além da inserção de novos conceitos e/ou reformulações teóricas. Foram feitas também atualizações das informações sobre os autores e uma mudança no layout da capa, conservando-se, no entanto, as cores e o espírito das capas originais. Os dez anos de sucesso editorial e de reconhecimento do mérito acadêmico dessa obra devem-se a muitos: autores, editores, colegas e leitores. A eles, o nosso mais sincero agradecimento e a reiteração de nosso compromisso com o fortalecimento das práticas de reflexão sobre a linguagem a partir de uma perspectiva linguística. Assim, gostaríamos de agradecer, mais uma vez, a todos os autores que se dispuseram a colaborar, há dez anos, com esse projeto e que também se dispuseram a colaborar com esta atualização da obra. Gostaríamos de agradecer à Cortez Editora, por ter acolhido esta obra para publicação e por ter sido incansável na sua divulgação e distribuição. Agradecemos também aos nossos colegas da Linguística e aos estudiosos da linguagem em geral, que consideram que esta obra deve ser lida por seus alunos de graduação e/ou de pós-graduação em Letras e Linguística e/ou em outras áreas do conhecimento. E, por fim, gostaríamos de agradecer aos nossos leitores de todo o país, por terem escolhido nossa obra como um dos inúmeros companheiros de jornada no curso de sua formação profissional. Sabemos que os tempos de hoje exigem muito mais de todos nós, profissionais das Letras e da Linguística. Por sua abrangência e objetividade, acreditamos que esta obra continua a constituir-se em um significativo apoio para a obtenção de uma boa formação profissional e humana no campo dos estudos da linguagem, já que a questão linguística é, atualmente, uma das mais importantes agendas da educação e da ciência brasileiras. Fernanda Mussalim Anna Christina Bentes Organizadoras Dezembro de 2011 APRESENTAÇÃO Prefaciar um livro como este que o leitor tem em mãos não é uma tarefa que se cumpra facilmente. Por duas razões, principalmente. Em primeiro lugar, não é obra de autor, ou seja, sendo uma coletânea, não se trata de um livro que possa ser atribuído a uma pessoa, caso em que os prefácios dedicam parte de seu espaço para celebrar o autor, não necessariamente para comentar o livro. Em segundo, porque se trata de uma obra contendo textos sobre Linguística, destinada de certa forma à sua divulgação, ou, dito de outra maneira, destinada a propiciar uma introdução não trivial a um campo de saber já veterano, mas para muitos completamente desconhecido. O livro trata de temas bastante conhecidos nos meios mais ou menos especializados, mas nada — eu disse “nada”, não disse “pouco” — conhecidos nos meios que não se dedicam especificamente a essas questões, por mais que elas lhes sejam afetas. Este poderia bem ser o caso dos críticos literários, antropólogos, sociólogos, cientistas políticos, psicólogos, e mesmo psicanalistas. Os estudantes que chegam à universidade repetem e confirmam a situação: eles não têm a menor familiaridade com as questões mais banais às quais se dedica a Linguística, a despeito de longa experiência escolar com manifestações variadas e relevantes de linguagem, e também de alguma experiência, frequentemente dolorosa e quase sempre inútil, com gramáticas (sempre e só as normativas). Este é um fato curioso, sobre o qual se deveria meditar. Todos conhecem, mesmo os que se devotam apenas ao campo das humanidades, e mesmo às letras, alguma coisa sobre relatividade, big bang e universo em expansão, DNA e clonagem. No mínimo. Às vezes, equivocadamente, é verdade, a ponto de confundirem a relatividade de Einstein com o relativismo de suas convicções... De qualquer forma, nos campos da Física e da Biologia, faz tempo que a escola e a imprensa diária ultrapassaram Newton e Mendel. Mas nunca — se houver pelo menos um caso, me avisem — ultrapassaram, nem escola, nem imprensa, nem mesmo o ensaísmo dos finais de semana, muito menos as colunas que agora assolam a mídia, os limiares das gramáticas normativas (a única exceção são as menções cansativas a um texto de Jakobson sobre as funções da linguagem) quando a questão são as línguas. Ouvir o comentário de um intelectual ou de um jogador de futebol sobre a questão é exatamente a mesma coisa. Ora, tais gramáticas estão para a Linguística mais ou menos como Galileu está para a Física Moderna, isso se considerarmos de maneira otimista e generosa apenas os tópicos nos quais discutem a organização interna da língua e sua eventual relação com o mundo, que é o caso da herança filosófica das gramáticas. Quanto ao mais, a atitude é meramente normativa, pré-baconiana nos melhores casos, e manual de etiqueta — ruim — nos piores. O melhor testemunhodesse atraso é o sucesso de pseudoprofessores nos meios de comunicação, que nada mais fazem do que repetir materiais do nível das apostilas dos cursinhos, com listas de “problemas” de uso do português falado julgado à luz da língua escrita. Faça o leitor a suposição de que os programas e as colunas sobre música, teatro e economia sejam do mesmo calibre, e o atraso saltará aos olhos ainda mais claramente. Em resumo: Linguística é uma coisa de que ninguém ouviu falar. Daí a relevância de um livro como este. Mas há mais razões. Outra observação sobre um certo atraso, outra justificativa para a publicação deste livro: quem já ouviu falar de Linguística (isso se vê na imprensa e às vezes em departamentos avançados) supõe que ela se resume à arbitrariedade do signo, às relações paradigmáticas e sintagmáticas (quando a coisa é sofisticada, menciona-se outra dupla saussuriana, sincronia e diacronia). Frequentemente, as introduções à Linguística — disciplina obrigatória nos cursos de Letras — não ultrapassam essa leitura mais ou menos festiva de Saussure, feita em algum manual, ou em apostila, que ninguém é de ferro. Assim, este livro se justifica plenamente, e por uma só razão, embora ela tenha sentidos diferentes em diversos domínios sociais. O que justifica este livro é sua capacidade de produzir uma certa ruptura. No caso dos intelectuais vizinhos, o efeito poderia ser o da atualização mínima. Seria importante, por isso mesmo, no entanto, que não buscassem no livro ferramentas para seu trabalho. Para isso, as introduções aqui apresentadas não serviriam, pois se trata de introduções. Mas ninguém espera que façam as categorias da Linguística aqui oferecidas em embrião render em seus trabalhos. Poderiam instruir-se, apenas, mesmo que fosse para conversas em recepções. Já está na hora de não se ouvirem mais imprecações grosseiras sobre erros de português, avaliações de baixíssimo nível sobre a pronúncia desta ou daquela região, preconceitos ridículos — se não fossem socialmente excludentes — a respeito da linguagem corrente, quer se trate de fala popular, quer se trate de línguas de menor prestígio, especialmente quando isso se deve a peculiaridades estruturais (que não se diga mais, por exemplo, que o chinês não tem sintaxe, só porque sua frase não se organiza como a do francês). Até porque essas avaliações, feitas supostamente de algum patamar elevado, depõem muito mais sobre a ignorância de quem as faz do que sobre a suposta deficiência dos produtores dos fatos linguísticos comentados. Um segundo nível de ruptura em que este livro pode atuar é em relação ao estudante de Letras. É o que mais importa. De fato, nada é mais necessário do que eliminar o suposto saber do aluno de colegial em relação aos fatos linguísticos. Em primeiro lugar, a ruptura precisa realizar-se até mesmo em relação ao que sejam fatos linguísticos. É mais ou menos sabido que os fatos não se oferecem graciosamente ao estudioso, que cada teoria de certa forma decide sobre eles — quais e como são, quais os mais e os menos relevantes etc. Nesse domínio, duas questões são essenciais: que o estudante se torne capaz de ver como fatos os casos de variação; em segundo lugar, que perceba que há pesquisa possível em língua — ou melhor, que fazer pesquisa a propósito de língua não equivale a consultar gramáticas e dicionários para verificar o que neles consta e o que não consta neles. Essas são apenas as primeiras rupturas. Talvez as mais necessárias. Mas, além disso, cabe verificar minimamente o quanto são ricos e estão sendo cada vez mais enriquecidos novos campos. Por exemplo: pode-se dizer com certeza que um texto não é uma soma de frases, que propriedades como coesão e coerência têm dimensões bastante objetivas, por um lado, mas relacionam-se com domínios que se poderiam dizer interdisciplinares, por outro. Assim, mesmo sem poder-se dizer que se atinge o patamar da “objetividade” nesse domínio, pode-se dizer com certeza que a categoria decisiva já não é o (bom ou mau) gosto do leitor. O que se pode dizer do texto vale para outros tantos campos relativamente recentes: as novidades relacionadas a questões postas pelo estudo do discurso, pela Psicolinguística, pela Neurolinguística, pelos novos problemas (e novas propostas de saídas) que a Linguística propõe ao professor e educador são suficientemente desafiadoras. O livro deixará claro a seu leitor o quanto a linguagem é um campo de experiências riquíssimas, quer se trate de abordar os aspectos relativos ao que se poderia chamar de seus problemas estruturais (Fonologia, Morfologia, Sintaxe), quer se trate de tematizar suas relações com outros campos de saber. Ou com o mundo, que só conhecemos, de fato, ou que tentamos conhecer, por meio da linguagem — de alguma linguagem. Sírio Possenti INTRODUÇÃO A Linguística, nos dias de hoje, conta com uma vasta bibliografia de estudos no campo, desde textos mais introdutórios até textos de grande especificidade e aprofundamento. Os textos introdutórios já existentes são, sem dúvida alguma, bastante esclarecedores. O que justificaria, então, a organização de uma obra como esta, que se propõe a introduzir o leitor nos estudos da Linguística? Nosso propósito na organização desta obra é o de preparar o terreno conceitual para contatos posteriores com materiais que analisem o fenômeno da linguagem com um maior grau de detalhe e aprofundamento, além de tornar acessível, para leitores iniciantes ou não especializados em Linguística, as relevantes abordagens sobre o fenômeno da linguagem. No intuito de realizarmos tal propósito, concebemos os dois volumes de Introdução à Linguística: domínios e fronteiras, buscando aliar os seguintes aspectos: a) uma apresentação geral e gradual das principais áreas da Linguística no Brasil; b) uma amostra de como as diversas áreas abordam os fatos de linguagem; c) uma linguagem acessível. Com base nesses três aspectos, procuramos organizar os capítulos de forma a conferir uma certa unidade à obra. Assim, de um modo geral, os capítulos estão constituídos da seguinte maneira: (i) histórico da área; (ii) bases epistemológicas da área; (iii) diferentes vertentes da área; (iv) análise de dados. No entanto, em função da especificidade de cada área e do próprio estilo e visão de cada autor com relação ao campo apresentado, os capítulos conferem um peso diferenciado aos aspectos acima citados. Com relação à ordem dos capítulos, não optamos pela apresentação das disciplinas seguindo a perspectiva clássica, que perscruta o fenômeno da linguagem partindo dos níveis mínimos de análise em direção aos níveis superiores. Optamos por oferecer ao leitor a possibilidade de inicialmente enxergar o fenômeno linguístico como um fenômeno sociocultural, fundamentalmente heterogêneo e em constante processo de mudança. Entendemos que, assim, podemos lhe promover uma entrada mais significativa no terreno das necessárias e esclarecedoras orientações teóricas formais sobre a linguagem humana. Iniciamos o volume 1 desta obra com o capítulo de Sociolinguística (partes 1 e 2) porque essa área, na tentativa de compreender a questão da relação entre linguagem e sociedade, postula o princípio da diversidade linguística. Além, disso, a Sociolinguística inscreve-se na corrente das orientações teóricas contextuais sobre o fenômeno linguístico, orientações teóricas estas que consideram as comunidades linguísticas não somente sob o ângulo das regras de linguagem, mas também sob o ângulo das relações de poder que se manifestam na e pela linguagem. O capítulo de Linguística Histórica é apresentado na sequência, enfocando os processos de mudança das línguas no tempo. Essa sequência se justifica porque mudança e variação linguística encontram-se estreitamente relacionadas: se há mudança linguística é porque, em algum momento anterior, ocorreu o fenômeno da variação. Sendo assim, esperamos que estes primeiros textos possam esclarecer para o leitor dois dos mais importantes pressupostos da Linguística moderna: que todas as línguas variam eque todas as línguas mudam. Em seguida, começamos a explorar as áreas que fazem parte daquilo que é tradicionalmente concebido como a descrição gramatical das línguas naturais. Os capítulos de Fonética, Fonologia, Morfologia e Sintaxe possuem a tarefa de introduzir as perspectivas teóricas e metodológicas que constituíram a Linguística como uma ciência autônoma e com um objeto de estudo próprio, ao longo do século XX. Em contato com esses capítulos, o leitor terá a oportunidade de escrutinar o fenômeno linguístico em seus diferentes níveis e, também, de ter acesso a um olhar predominantemente formalista em relação às línguas naturais. Em outras palavras, nesses capítulos, o leitor estará entrando em contato com abordagens que propõem um número restrito de princípios firmes e seguros que são utilizados na construção positiva do conhecimento das línguas e da faculdade de linguagem. Finalizamos o primeiro volume com o capítulo de Linguística Textual. Essa área, que tem como principal interesse o estudo dos processos de produção, recepção e interpretação dos textos, reintegra o sujeito e a situação de comunicação em seu escopo teórico. Esse movimento faz parte de um esforço mais amplo de construção de uma Linguística para além dos limites da frase. Iniciamos o volume 2 apresentando a área da Semântica, que tem como objeto de estudo a questão do significado e/ou dos processos de significação. Esse foi um tema sempre presente em outros lugares de construção do conhecimento, tais como a Lógica, a Retórica, a Filosofia e, mais recentemente, a Semiótica, a História, a Antropologia e as Ciências Cognitivas, o que nos sinaliza para o fato de que este objeto “transborda as próprias fronteiras da Linguística” e nos coloca na posição de ter de enfrentar as discussões sobre as relações entre linguagem e mundo, linguagem e conhecimento. Os capítulos de Pragmática, Análise da Conversação e Análise do Discurso, que são apresentados na sequência, podem ser definidos, de maneira geral, como aqueles que, a partir de pressupostos teóricos diferenciados, estabelecem relações com a exterioridade da linguagem, problematizando a separação entre a materialidade da língua e seus contextos de produção. Para tanto, essas áreas também mobilizam saberes advindos de outros campos, tais como a Filosofia da Linguagem, a Antropologia, a História, a Sociologia, a Psicanálise, e as Ciências Cognitivas, proporcionando ao leitor diferentes olhares em relação às formas de construção dos sentidos, de nossa subjetividade/alteridade e de nossa historicidade. Com o capítulo de Neurolinguística, continuamos o nosso percurso pelas áreas que, pela natureza das indagações que fazem, são constituídas fundamentalmente por teorias linguísticas e por teorias advindas de outros campos do saber. Em outras palavras, “as fronteiras que delimitam os objetos de estudo destas áreas são instáveis, movediças”. Os capítulos de Neurolinguística, Psicolinguística e Aquisição da Linguagem se distinguem dos outros e se aproximam entre si por necessitarem da articulação de saberes produzidos, principalmente, na Linguística, na Psicologia e na área de Neurociências, para que sejam respondidas as questões elaboradas em seus respectivos campos sobre as relações entre linguagem e cognição, linguagem e cérebro, enfim, sobre os diferentes modos pelos quais os sujeitos adquirem, organizam e reelaboram o conhecimento. O último capítulo deste volume, Língua e ensino: políticas de fechamento, tematiza as contribuições que alguns importantes pressupostos teóricos construídos pela ciência da linguagem ao longo do século XX podem dar para o ensino. O capítulo apresenta as diferentes concepções de gramática que norteiam as práticas pedagógicas, além de problematizar as atuais práticas de leitura e de produção de textos na escola, proporcionando ao leitor um olhar crítico em relação aos processos de “homogeneização e silenciamento dos sujeitos”, tão em curso nas instituições escolares. Essa explicação sobre a disposição dos capítulos na obra não tem o objetivo de impor uma leitura linear. Dependendo dos seus interesses e de suas questões, o leitor poderá elaborar a sua própria ordem de leitura. Introdução à Linguística: domínios e fronteiras é fruto de um trabalho coletivo, resultante de uma verdadeira cooperação entre nós, organizadoras, entre as organizadoras e os autores, entre os autores e seus diversos interlocutores, entre nós e as pessoas que acompanharam mais de perto o projeto ao longo desses três anos, e entre nós e os editores. Esta experiência de constante diálogo nos foi extremamente valiosa e prazerosa. Esperamos que nossos leitores também se beneficiem da estimulante “atmosfera” de reflexão sobre a linguagem propiciada pelo trabalho de cada um dos autores desta obra. Aos autores e autoras, agradecemos o entusiasmo com que se engajaram neste projeto intelectual, a tolerância às longas conversas teóricas por telefone e às propostas de intervenção em seus estilos pessoais de escrita e pelos textos em si, que se constituem em brilhantes contribuições para o entendimento da ciência da linguagem e de seus tão diversos e fascinantes objetos. Agradecemos a Sírio Possenti pela gentileza em prefaciar esta obra, colaborando, com seu conhecimento sobre a linguagem e sua experiência como pesquisador e professor, para que este projeto alcançasse o bom nível que alcançou. Agradecemos também à Ingedore Koch que, com sua reconhecida autoridade e competência, nos presenteou com um texto de apresentação para a capa desta obra. Gostaríamos de deixar público o nosso reconhecimento aos professores Angel Mori, Aryon Rodrigues, Edwiges Morato, Erotilde Pezatti, Ester Scarpa, Helena Brandão, Ingedore Koch, Jairo M. Nunes, João Wanderley Geraldi, Kanavillil Rajagopalan, Luiz Antônio T. Marcuschi, Sírio Possenti e à pesquisadora Helena Britto, por suas leituras atenciosas, que contribuíram de forma decisiva para a concepção e organização de alguns capítulos desta obra. Temos também o prazer de reconhecer que, nestes tempos difíceis para a universidade brasileira, ainda existem espaços institucionais que proporcionam as condições para que um projeto dessa natureza seja passível de ser executado. Assim, agradecemos ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, por ser uma espécie de confortável “lar” acadêmico, onde tivemos a oportunidade de aprender que uma formação sólida pode e deve estar aliada a compromissos políticos mais amplos. A evolução deste livro tem um débito especial para com Edwiges Maria Morato, nossa companheira nesta jornada intelectual, por ter participado das inúmeras discussões sobre a organização dos capítulos, pelas leituras perspicazes e construtivas de alguns deles e por nos ter sempre incentivado, com sua amizade sólida, com seu brilhantismo e com seu compromisso com níveis elevados de instigação, a acreditar que valia a pena. Gostaríamos ainda de agradecer a Ivana Lima Regis, por sua amizade e por ter sido uma interlocutora especial em todos os estágios deste trabalho, e a Marcelo Lemos Silveira, pelo apoio e companheirismo. Esperamos que este livro possibilite ao leitor vislumbrar a ciência da linguagem. Evidentemente, não tivemos a pretensão de esgotar as discussões que são feitas atualmente nas diferentes áreas apresentadas. Ao contrário, Introdução à Linguística: domínios e fronteiras propõe-se a ser uma porta de entrada para o campo da Linguística, um campo vasto, heterogêneo, multidisciplinar, que consolida seus domínios e constrói seus objetos de estudo a partir de influências intradisciplinares e de uma complexa, mas muito produtiva, rede de relações com outros lugares de construção do conhecimento. Fernanda Mussalim Anna Christina Bentes Organizadoras 1 SEMÂNTICA1 Roberta Pires de Oliveira 1. INTRODUÇÃO Embora não seja tarefa fácil definir o objeto de estudos da Semântica, afirma-se classicamente que seu objeto é o “significado” das palavras e das sentenças. Abordagens mais recentes entendemque seu objetivo é descrever a capacidade que um falante tem para interpretar qualquer sentença de sua língua. Em quaisquer das abordagens, devemos definir o conceito de significado. O problema é que não há consenso sobre o que é o “significado”. Uma das dificuldades de definirmos esse termo se deve ao fato de que ele é usado para descrever situações de fala muito diferentes. Vejamos: em “Qual é o significado de mesa?”, indagamos sobre o significado de um termo, mesa; em “Qual o significado dessa sua atitude?”, perguntamos sobre a intenção não linguística de nosso interlocutor. Falamos ainda sobre o significado de um livro, o significado da vida, o significado do verde no semáforo, o significado da fumaça (“O que significa aquela fumaça?”) e sobre muitos outros significados. Abarcar essas e outras situações de uso mina o próprio projeto de se construir uma teoria científica sobre o significado nas línguas naturais.2 E mesmo delimitando seu alcance ao significado que o falante atribui às palavras e sentenças de sua língua, continua válida a afirmação do filósofo Hilary Putnam (1975, p. 32): “o que atrapalha a Semântica é ela depender de um conceito pré-teórico de ‘significado’”, porque não sabemos exatamente o que é o significado. Explicar o significado — e essa é a dificuldade — transborda as próprias fronteiras do puramente linguístico, entre outros motivos porque ele está fortemente ligado à questão do conhecimento. Responder a como é que atribuímos significado a uma cadeia de ruídos implica adotar um ponto de vista sobre a aquisição de conhecimento. É o significado uma relação causal entre as palavras e as coisas? Será ele uma entidade mental? Ele pertence ao indivíduo ou à comunidade, ao domínio público? Essas perguntas, caras ao semanticista, levam inevitavelmente a enfrentar a espinhosa relação entre linguagem e mundo e consequentemente a buscar uma resposta sobre como é possível (se é que é possível) o conhecimento. Se não há acordo sobre as questões anteriormente levantadas, então há várias formas de se descrever o significado. Há várias semânticas. Cada uma elege a sua noção particular de significado, responde diferentemente à questão da relação linguagem e mundo e constitui, até certo ponto, um modelo fechado, incomunicável com outros. O Estruturalismo de vertente saussureana, por exemplo, define o significado como uma unidade de diferença, isto é, o significado se dá numa estrutura de semelhanças e diferenças com relação a outros significados. Assim, o significado de uma palavra se define por não ser outros significados — mesa se define por não ser cadeira, sofá — e por manter com esses outras semelhanças — eles são móveis. Nessa perspectiva, o significado não tem nada a ver com o mundo, mesa não é o nome de um objeto no mundo, é a estrutura de diferença e semelhança com cadeira, sofá. Essa abordagem pode levar a uma posição relativista, já que cada língua, cada sistema de diferenças, institui sua própria racionalidade.3 Para a Semântica Formal, o significado é um termo complexo que se compõe de duas partes objetivas, o sentido e a referência. O sentido do nome mesa é o modo de apresentação de um conjunto de objetos no mundo, as mesas. Assim, no modelo lógico, a relação da linguagem com o mundo é fundamental e pouco importa as relações internas ao sistema. Para a Semântica da Enunciação, herdeira do estruturalismo, o significado é o resultado do jogo argumentativo criado na linguagem e por ela. Diferentemente do estruturalismo, mesa, na Semântica da Enunciação, significa as diversas possibilidades de encadeamentos argumentativos das quais a palavra pode participar. Seu significado é o somatório das suas contribuições em inúmeros fragmentos de discurso: “Comprei uma mesa”, “Senta ali na mesa...”. Estamos fechados nas cadeias linguísticas e não há lugar para o mundo. Para a Semântica Cognitiva, mesa é a superfície linguística de um conceito, o conceito mesa, que é adquirido por meio de nossas manipulações sensório-motoras com o mundo. É tocando coisas que são mesas que formamos o conceito pré-linguístico mesa que aparece nas nossas interações. Esse conceito tem estrutura prototípica, porque se define pelo membro mais emblemático: um objeto de quatro pernas com um tampo. Nessa modelo, o significado está no corpo. A pluralidade de semânticas será ilustrada pela apresentação das linhas mestras de três formas de fazer semântica: a Semântica Formal, a Semântica da Enunciação e a Semântica Cognitiva. A escolha desses modelos procura refletir o atual estado da arte em Semântica no Brasil.4 Buscaremos mostrar como um fenômeno linguístico, a pressuposição, recebe um tratamento diferenciado em cada abordagem. Na sentença “O homem de chapéu saiu” há, segundo a Semântica Formal, uma pressuposição de existência e unicidade: existe um e apenas um indivíduo, e ele é homem. A Semântica da Enunciação vê nessa mesma sentença a presença da polifonia, a voz de mais de um enunciador: uma fala que diz que há um único indivíduo, outra, que ele está de chapéu e outra, que ele saiu. Finalmente, a Semântica Cognitiva descreve a sentença a partir da hipótese de que na sua interpretação formamos espaços mentais: o espaço mental em que há um único homem. Esperamos que, ao final deste capítulo, o leitor não apenas seja capaz de diferenciar esses modelos de Semântica, mas consiga manipulá-los minimamente. 2. A SEMÂNTICA FORMAL Historicamente, a Semântica Formal antecede as demais abordagens, o que a torna o referencial teórico e o grande inimigo a ser destruído. Hoje em dia falamos em semântica formal das línguas naturais para diferenciá-la da lógica. Embora sua história possa ser retraçada até Aristóteles, a semântica formal das línguas naturais teve início na década de 1970 com os trabalhos de Barbara Partee. Seu ponto de partida é a crença de que o significado das sentenças se estrutura logicamente.5 Para ilustrar relações lógicas retomemos a análise de Aristóteles, um pioneiro neste tipo de estudo. Ao analisar o raciocínio dedutivo presente nas sentenças a seguir, Aristóteles mostra que há relações de significado que se dão independentemente do conteúdo das expressões. Vejamos: (1) Todo homem é mortal. João é homem. Logo, João é mortal. Se garantirmos que as duas primeiras sentenças, chamadas premissas, são verdadeiras, concluímos a terceira. A primeira premissa afirma que o conjunto dos homens está contido no conjunto dos mortais; a segunda, que João é um elemento do conjunto dos homens. Então, necessariamente, ele é um elemento do conjunto dos mortais. O interessante é que esse raciocínio se garante apenas pelas relações que se estabelecem entre os termos, independentemente do que homem ou mortal significam. Se alterarmos as expressões e mantivermos as relações, o raciocínio será sempre válido. Experimente verificar se o raciocínio seguinte é válido e justificar sua validade: Todo cachorro tem 4 patas; Bela é um cachorro; logo, Bela tem 4 patas. Essas são relações lógicas, ou formais, porque podemos representá-las por letras vazias de conteúdo, mas que descrevem as relações de sentido. Podemos, pois, dizer que “se A é um conjunto qualquer que está contido em um outro conjunto qualquer, o conjunto B, e se c é um elemento do conjunto A, então, c é um elemento do conjunto B”. Lógico, não?! A definição de significado que ancora as pesquisas em semântica formal e contra a qual as demais semânticas irão reagir, deve-se ao lógico alemão Gottlob Frege (1848-1925), que nos legou pelo menos várias contribuições, entre elas: a distinção entre sentido e referência, o conceito de função, a primeira compreensão de quantificador. Para ele, o estudo científico do significado só é possível se diferenciarmos os seus diversos aspectos para reter apenas aqueles que são objetivos. Ele exclui da Semântica o estudo das representações individuais que uma dada palavra pode provocar. Ao ouvir o nome próprio estrela da manhã, formo uma ideia, uma representação, que é só minha, uma vez que ela depende de minha experiênciasubjetiva no mundo. O estudo desse aspecto do significado cabe à Psicologia. À Semântica cabe o estudo dos aspectos objetivos, isto é, aqueles que estão abertos à inspeção pública. Sua objetividade é garantida pela uniformidade de assentimento entre os membros de uma comunidade. Eu e você temos representações distintas de estrela — você talvez a associe a um sentimento nostálgico, eu, à euforia das viagens espaciais —, mas compartilhamos o sentido de estrela, já que sempre concordamos quando alguém diz estrela apontando um certo objeto no céu que reconhecemos como estrela. Nós também concordamos em discordar do uso de estrela para se referir à lua, a menos que estejamos diante de algum tipo de uso indireto da palavra ou de um engano. O sentido de um nome próprio como estrela da manhã é o que nos permite alcançar, falar sobre, um certo objeto no mundo da razão pública, o planeta Vênus, a sua referência, que também é pública porque todos temos acesso ao mesmo objeto. O sentido é o caminho que nos permite chegar a uma referência no mundo. Frege (1978) precisa dessa distinção porque sem ela não é possível explicar a diferença entre: (2) A estrela da manhã é a estrela da manhã. (3) A estrela da manhã é a estrela da tarde. A sentença (2) é uma tautologia, uma verdade óbvia que independe dos fatos no mundo. Daí seu grau de informatividade tender a zero. Já em (3), afirmamos uma igualdade, cuja veracidade deve ser verificada no mundo. Se, de fato, aquilo que denominamos estrela da manhã é o mesmo objeto que denominamos estrela da tarde, então, quando aprendemos que a estrela da manhã é a estrela da tarde aprendemos uma verdade sobre o mundo: que podemos nos referir ao planeta Vênus de pelo menos duas maneiras diferentes. A sentença (3) expressa uma verdade sintética, isto é, uma verdade que só pode ser apreendida pela inspeção de fatos no mundo, por isso ela pode nos proporcionar um ganho real de conhecimento. Ela exprime uma descoberta da Astronomia: a estrela da manhã não era, como se pensava desde os gregos, uma estrela diferente da estrela da tarde, mas o mesmo planeta Vênus. Estrela da manhã e estrela da tarde são dois caminhos/sentidos para se chegar à mesma referência, o planeta Vênus. Só conseguimos explicar a diferença entre as sentenças (2) e (3) se distinguimos sentido de referência: embora ambas as sentenças tenham a mesma referência, elas expressam pensamentos diferentes. Se o sentido é o caminho que nos permite alcançar a referência, quando descobrimos que dois caminhos levam à mesma referência, aprendemos algo sobre esse objeto, sobre o mundo. Todos nós já experimentamos a sensação de entusiasmo quando de repente descobrimos que 3 + 3 é o mesmo que 10 – 4. Ao tomarmos consciência da igualdade, descobrimos dois caminhos, dois sentidos, para alcançarmos a mesma referência, o número 6. Uma mesma referência pode, pois, ser recuperada por meio de vários sentidos. Considere a cidade de Florianópolis. Podemos nos referir a ela por meio de diferentes sentidos: a cidade de Florianópolis, Florianópolis, a capital de Santa Catarina, a antiga Nossa Senhora do Desterro... Você certamente já viveu a experiência de descobrir que Florianópolis é a capital de Santa Catarina, isto é, de falar de um objeto, a cidade de Florianópolis, de modos distintos. Atente para a distinção entre linguagem e mundo: Florianópolis e Florianópolis. Para esclarecer a diferença entre sentido e referência, Frege propõe uma analogia com um telescópio apontado para a Lua. A Lua é referência: sua existência e propriedades independem daquele ou daquela que a observa. Ela pode, no entanto, ser olhada a partir de diferentes perspectivas, e observá-la de determinado ângulo pode nos ensinar algo novo sobre ela. A imagem da Lua formada pelas lentes do telescópio é o que tanto eu quanto você vemos. Essa imagem compartilhada é o sentido. Ao mudarmos o telescópio de posição, vemos uma face diferente da mesma Lua, alcançamos o mesmo objeto por meio de outro sentido. Lembremos que a imagem mental que cada um de nós forma da imagem objetiva do telescópio está fora dos interesses da Semântica. O sentido só nos permite conhecer algo se a ele corresponder uma referência. Em outros termos, o sentido permite alcançarmos um objeto no mundo, mas é o objeto no mundo que nos permite formular um juízo de valor, isto é, que nos permite avaliar se o que dizemos é falso ou é verdadeiro. A verdade não está, pois, na linguagem, mas nos fatos do mundo. A linguagem é apenas um instrumento que nos permite alcançar aquilo que há. Por isso, para Frege, mas não para a Semântica Formal contemporânea, sentenças que falam de personagens fictícios carecem de valor de verdade. Uma sentença ficcional, por exemplo “Papai Noel tem a barba branca”, não pode ser cognitiva, porque ela não se refere a um objeto real. Hoje em dia, com a Semântica de Mundos Possíveis, temos uma outra compreensão dos objetos fictícios, eles existem em outros mundos que não o mundo do falante. Intervalo I Se você entendeu bem essa história de sentido e referência, diga qual a referência de: a capital da França, Paris, Paris é a capital da França. A seguir descreva a cidade do Rio de Janeiro através de diferentes sentidos.6 Para Frege (1978), um nome próprio deve ter sentido e referência. Florianópolis e a capital de Santa Catarina são dois nomes próprios porque têm sentido e nos permitem falar sobre um objeto no mundo, a cidade de Florianópolis. Os nomes próprios são saturados porque eles expressam um pensamento completo e podemos, por meio deles, identificar uma referência. Há, no entanto, expressões que são incompletas, que não nos possibilitam chegar a uma referência, porque não expressam um pensamento completo. Esse é o caso da expressão ser capital de. Além disso, é fácil notar que a expressão ser capital de é recorrente em inúmeras sentenças: (4) São Paulo é a capital de São Paulo. (5) São Paulo é a capital de Santa Catarina. (6) Florianópolis é a capital de Santa Catarina. (7) Florianópolis é a capital de São Paulo. As sentenças anteriores são nomes próprios porque elas expressam um pensamento completo e têm uma referência. Em (4) e (6), a referência é a verdade, já que no nosso mundo São Paulo é a capital de São Paulo e Florianópolis é a capital de Santa Catarina; em (5) e (7), a referência é o falso. A expressão ser capital de, que se repete nas sentenças acima, é insaturada, porque não expressa um pensamento completo. Para tanto, ela precisa preenchida em dois lugares: um que a antecede, outro que a sucede. Esses vazios são chamados argumentos. A expressão insaturada chama-se predicado. O predicado ser capital de é um predicado de dois lugares, porque há dois espaços a serem preenchidos por argumentos: ______ ser capital de ______. Podemos, no entanto, transformá-lo em um predicado de um lugar: ______ ser a capital de São Paulo, por exemplo. Você conseguiria recortar diferentes predicados de um lugar a partir das sentenças de (4) a (7)? São Paulo é a capital de______; Florianópolis é a capital de______; ______ é a capital de Santa Catarina são alguns exemplos. O contraste que Frege constrói é, pois, entre funções incompletas, isto é, aquelas que comportam pelo menos um espaço e pedem, portanto, pelo menos um argumento, e argumentos que denotam uma referência em particular. Uma expressão insaturada combinada com um argumento gera uma sentença, que é uma expressão completa/saturada, um nome próprio, que tem como referência um valor de verdade, isto é, o verdadeiro ou o falso. Podemos entender o predicado como uma máquina, que toma elementos ou que os relaciona. Em (4), o predicado ser capital de relaciona São Paulo com São Paulo, gerando o nome próprio, São Paulo é a capital de São Paulo, que tem sentido, expressa um pensamento, e tem uma referência, a verdade. O predicado pode ser preenchido por um nome próprio, como nos exemplos dados, mas ele pode também ser preenchido por uma expressão quantificada, que, intuitivamente, indica uma quantidade.7 Vejamos alguns exemplos:(8) Alguma cidade de Santa Catarina é de origem alemã. (9) Todos os homens são mortais. (10) Todos os meninos amam uma professora. Em (8), afirmamos que há uma cidade de Santa Catarina tal que ela é a capital daquele Estado, embora a sentença não especifique que cidade é essa. Algum é um quantificador existencial que afirma que a intersecção entre o conjunto das cidades de SC e o conjunto das cidades de origem alemã não é vazia, há pelo menos um elemento que é ao mesmo tempo cidade de SC e cidade de origem alemã. Em (9) temos um quantificador universal todos que afirma que o conjunto dos homens está contido no conjunto dos mortais. Na sentença (10) temos a presença de dois quantificadores combinados: o universal (todos) e o existencial (uma). Essa sentença pode ter duas interpretações; ela é ambígua: para todo aluno há pelo menos uma professora que ele ama — trata-se de uma leitura distributiva — ou há uma única professora que todos os alunos amam. No primeiro caso, o quantificador universal antecede o existencial; no segundo, inverte-se a situação de modo que o existencial tem escopo sobre o universal. O modo como os operadores se combinam gera diferentes interpretações. Essa interação de operadores — os quantificadores são operadores — explica a chamada ambiguidade semântica. Considere a sentença: (11) O João não convidou só a Maria. Você consegue enxergar duas interpretações? A sentença (11) descreve duas situações bem distintas: ou o João só não convidou a Maria, ou o João não só convidou a Maria, mas também outras pessoas. Utilizamos diferentes entonações para veicular um ou outro significado. Essa dupla interpretação é explicada pelo modo como se combinam os operadores não e só: ou o não atua sobre o só, gerando não só; ou o só atua sobre o não, produzindo só não. Essa relação em que um operador atua sobre um certo domínio denomina-se escopo: na primeira leitura, o operador só tem escopo sobre a negação; na segunda, é a negação que tem escopo sobre o só: “O João não só convidou a Maria”. Intervalo II 1. Considere as seguintes sentenças. Recorte-as segundo os conceitos de predicado e argumento em Frege: a) João é casado com Maria. b) Maria é brasileira. c) Oscar é jogador de basquete. 2. A partir dos conceitos de quantificador universal e existencial e da noção de escopo, descreva as sentenças abaixo: a) Todo homem é casado com alguma mulher. b) Um homem é casado com todas as mulheres. c) A Maria não está grávida de novo. Considere agora a sentença: (12) O rei da França é careca. Ela se compõe de um nome próprio, o rei da França, e de um predicado de um lugar, ser careca. Nosso problema é o sintagma nominal o rei da França, que chamamos de descrição definida. Uma descrição definida caracteriza-se por ser uma expressão nominal introduzida por um artigo definido. Como veremos, há diferentes maneiras de analisarmos a descrição definida. Na abordagem formal, a controvérsia diz respeito ao conteúdo semântico veiculado pela descrição. Pergunte-se: a sentença em (12) é falsa ou verdadeira? Leve em consideração que não há, no momento atual, rei da França. Essa sentença proferida em 1780 na França seria falsa, porque a descrição definida denotaria Luís XVI, que não era careca.8 Mas é hoje em dia? Ela é falsa ou verdadeira? Há duas respostas: uma que descende de Frege e entende que se não há uma referência para a descrição definida, a sentença não tem valor de verdade — não faz sentido afirmar de algo que não existe, que ele é careca ou não — e outra que vem de Bertrand Russell, para quem o artigo definido é um quantificador e na situação atual a sentença é falsa. Na tradição de Frege, a descrição definida carrega uma pressuposição: a pressuposição de que há um único indivíduo que é rei da França. Em outros termos, a sentença (12) expressa um pensamento completo, mas para atribuirmos a ela um valor de verdade é preciso que a pressuposição de que há um único rei da França seja verdadeira. Essa pressuposição não é semântica. Frege mantém que se a pressuposição fosse semântica, então a negação da sentença seria ambígua. Vejamos: (13) O rei da França não é careca. Se a pressuposição fosse semântica, afirma Frege, então (13) significaria ou que não existe um único indivíduo que é rei da França ou que há um único rei da França e ele não é careca. No entanto, intuitivamente, (13) só significa que ele não é careca. Isto é, a pressuposição de que existe um único indivíduo que é rei da França se mantém inalterada na negação, por isso ela não se confunde com o conteúdo da sentença.9 Essa solução de Frege caminha paralelamente à sua análise sobre os seres imaginários, como o Batman: sentenças em que uma das suas expressões se refere a seres ou coisas que não têm existência têm sentido, mas não têm referência. Elas não são nem verdadeiras nem falsas. Bertrand Russell (1905) propõe outra análise da descrição definida. Ele trata o artigo definido como um quantificador.10 Assim, o conteúdo semântico da sentença em (12) é: existe um e apenas um indivíduo que é rei da França e ele é careca. Como já vimos, os operadores podem se combinar. Dado que tanto o artigo definido quanto o não são operadores, esperamos que eles estabeleçam diferentes relações de escopo. A sentença (13) seria, portanto, ambígua: a negação pode ter escopo sobre o artigo definido, e teremos a forma lógica (14), ou o artigo definido tem escopo sobre a negação, e a forma lógica será (15): (14) [não [existe um apenas um indivíduo tal que [ele é rei da França] e [é careca]]] (15) [existe um e apenas um indivíduo tal que [ele é rei da França] e [não [é careca]]] A proposta de Russell trata a existência e a unicidade como partes do conteúdo da sentença. Nesse caso, proferir a sentença (12) hoje em dia, quando não existe rei da França, é afirmar uma falsidade. Independentemente dessa controvérsia, a Semântica Formal considera que há pressuposição quando tanto a verdade quanto a falsidade da sentença dependem da verdade da sentença pressuposta. Há muitos tipos de pressuposição. A sentença (16) contém uma pressuposição, mas dessa vez não se trata de uma pressuposição de existência e unicidade: (16) Maria parou de fumar. Para podermos atribuir um valor de verdade a essa sentença, devemos aceitar que a pressuposição que Maria fumava é verdadeira. A sentença é falsa se ela não parou de fumar e verdadeira se ela parou. Se Maria nunca fumou, então ter parado de fumar é algo que simplesmente não se aplica a ela e a sentença não é nem verdadeira nem falsa. Intervalo III A partir das noções de escopo e operador, descreva a ambiguidade presente na sentença a seguir: (1) João não escreveu sua tese para agradar a mãe. Determine se há pressuposição na sentença abaixo e justifique sua resposta. O melhor teste para a pressuposição é negar a sentença e avaliar qual informação se mantém inalterada: (2) João lamenta a morte do pai. A década de 1970 conheceu uma explosão de trabalhos sobre a pressuposição. Salienta-se, dentre eles, o trabalho de Oswald Ducrot que, certamente influenciado pelos trabalhos de Émile Benveniste e pela escola francesa de Análise do Discurso,11 se opõe veementemente ao tratamento que a Semântica Formal oferece para a pressuposição em particular e para o significado em geral. Suas críticas e análises possibilitaram a formação de um outro modelo: a Semântica da Enunciação. 3. A SEMÂNTICA DA ENUNCIAÇÃO A visão de linguagem que, segundo Ducrot, subsidia a Semântica Formal é inadequada porque, argumenta o autor, ela se respalda num modelo informacional, em que o conceito de verdade é externo à linguagem. Na Semântica Formal, a linguagem é um meio para alcançarmos uma verdade que está fora da linguagem, o que nos permite falar objetivamente sobre o mundo e, consequentemente, adquirir um conhecimento seguro sobre ele. É possível que o conceito de referência em Frege esteja mesmo revestido de tal realismo: a metáfora do telescópio deixa claro que o objeto descrito, a Lua, não é uma função da descrição dada, do sentido. É o nossoconhecimento da Lua que depende do sentido. Vemos a mesma Lua a partir de pontos de vista diferentes, não vemos luas diferentes. A diferença é sutil, mas necessária para distinguirmos entre semânticas ditas objetivistas ou realistas, que postulam uma ordem no mundo que dá, ao menos em certa medida, conteúdo à linguagem, e semânticas mais próximas do relativismo, que acreditam que não há uma ordem no mundo que seja dada independentemente da linguagem e da história. Só a linguagem constitui o mundo, por isso não é possível escapar dela. A Semântica da Enunciação certamente se inscreve nessa perspectiva, mas há abordagens formais que não se vinculam a uma metafísica realista.12 Para a Semântica da Enunciação, a referência é uma ilusão criada pela linguagem. Estamos sempre inseridos na linguagem, moscas presas na garrafa. Os dêiticos — expressões cujo conteúdo depende da remissão à externalidade linguística, os pronomes isto, eu, você, por exemplo — que nos dão a sensação/ilusão de estar fora da língua. Estamos, no entanto, sempre fechados nela e por ela. A Semântica Formal, diz Ducrot, cai na ilusão, criada pela própria linguagem, de que ela se refere a algo externo a ela mesma, de onde ela retira a sua sustentação. A linguagem, afirma Ducrot, é um jogo de argumentação enredado em si mesmo; não falamos sobre o mundo, falamos para construir um mundo e a partir dele tentar convencer nosso interlocutor da nossa verdade, verdade criada pelas e nas nossas interlocuções. A verdade deixa, pois, de ser um atributo do mundo e passa a ser relativa à comunidade que se forma na argumentação. Assim, a linguagem é uma dialogia, ou melhor, uma “argumentalogia”; não falamos para trocar informações sobre o mundo, mas para convencer o outro a entrar no nosso jogo discursivo, para convencê-lo de nossa verdade.13 Essa diferença de concepção da linguagem surte efeitos na forma como os fenômenos semânticos são descritos. Tomemos a questão da pressuposição. Se a linguagem não se refere, se a referência é interna ao próprio jogo discursivo, então também a pressuposição, seja ela existencial ou de qualquer outro tipo, é criada pelo e no próprio jogo de encenação que a linguagem constrói. A pressuposição não pode ser uma crença em algo externo à linguagem. É porque falamos de algo que esse algo passa a ter sua existência no quadro criado pelo próprio discurso. Nas versões mais atuais da Semântica da Enunciação, o conceito de pressuposição é substituído pelo de enunciador. Um enunciado se constitui de vários enunciadores que, por sua vez, formam o quadro institucional que referenda o espaço discursivo em que o diálogo vai se desenvolver. A pressuposição, um enunciador presente no enunciado, situa o diálogo no comprometimento de que o ouvinte aceita essa voz pressuposta. De tal sorte que negá-la é romper o diálogo, criando um discurso polêmico. Retornemos ao exemplo do rei da França ser careca. Quando enunciamos (12), comprometemos nosso ouvinte com o fato de que há um e apenas um rei da França. O enunciado é polifônico porque encerra várias vozes. Na enunciação de (12), o locutor põe em cena um diálogo entre enunciadores. Vejamos: (17) O rei da França é careca. E1: Há um e apenas uma pessoa. E2: Essa pessoa é rei da França. E3: Essa pessoa é careca. Essa estrutura polifônica deixa claro que há dois tipos de negação. Diferentemente do que ocorre na proposta de Russell, a sentença em (17) não é ambígua. O que ocorre é que o ouvinte pode realizar diferentes tipos de negação: ele pode negar o enunciador E1, nesse caso estamos diante de uma negação polêmica; mas ele pode negar o posto, o enunciador E3, nesse, caso temos uma negação metalinguística. Vejamos a análise do exemplo (16), retomado aqui em (18): (18) Maria parou de fumar. E1: Maria fumava. E2: Maria não fuma mais. A enunciação de (18) põe em jogo um enunciador que afirma que Maria fumava antes, trata-se do pressuposto, e outro que diz que ela já não fuma mais, o posto. Se negamos a fala do primeiro enunciador, realizamos uma negação polêmica; se negamos o posto, uma negação metalinguística. Assim, as diferentes leituras, explicadas como ambiguidade estrutural pela Semântica Formal, são, para a Semântica da Enunciação, explicadas lançando mão do conceito de polissemia; em outras palavras, um mesmo enunciado se abre num leque de significados diferentes, mas relacionados. A Semântica Formal resolve o problema da ambiguidade por meio do conceito de escopo, enquanto na Semântica da Enunciação a noção de escopo não tem lugar e o problema se resolve via a hipótese de que há diferentes tipos de negação. O que explica as diferentes leituras da sentença (19) é a presença de uma série de enunciadores e diferentes tipos de negação. (19) O rei da França não é careca. (19’) E1: Há apenas um rei da França. E2: Ele é careca. E3: E1 é falsa. (19”) E1: Há apenas um rei da França. E2: Ele é careca. E3: E2 é falsa. Não se trata de uma diferença estrutural, até porque nessa abordagem não há forma lógica. A pressuposição, na Semântica da Enunciação, se resolve pela hipótese da polifonia e, portanto, da existência de diferentes enunciadores, e a ambiguidade se desfaz pela determinação de diferenças de uso das palavras: o não polêmico e o não metalinguístico. Eis outro exemplo. Em resposta a alguém que diz que meu carro está mal estacionado, posso retrucar: (20) Não, meu carro não está mal estacionado (porque eu não tenho carro). Nesse caso, estou fazendo uso da negação polêmica, afinal estou negando o quadro criado pela fala do meu interlocutor, na medida em que nego o enunciador que afirma a existência de um único carro que seja meu. Imagine agora a mesma situação, só que dessa vez o locutor tem um carro: (21) Não, meu carro não está mal estacionado (porque está bem estacionado). Essa é a negação metalinguística: o locutor retoma a fala do outro, que aparece na voz de um enunciador que afirma que o carro está mal estacionado, para negá-la, mas aceita o enunciador que afirma que o falante tem apenas um carro. A sentença (21) pode ser descrita da seguinte forma: (21’) E1: Você tem um único carro. E2: Esse carro está mal estacionado. E3: A fala de E2 é falsa. Ducrot distingue ainda um terceiro tipo de negação, a negação descritiva. Nela o locutor descreve um estado do mundo negativamente; portanto, na sua enunciação não há um enunciador que retoma a fala de outro enunciador negando-a. Na enunciação de (22), o locutor está descrevendo um estado do mundo utilizando a negação: (22) Não há uma nuvem no céu. Nesse caso, não há a retomada da fala de outro, mas a apresentação negativa de uma descrição. Evidentemente, não é possível definirmos o tipo de negação sem levarmos em consideração os encadeamentos discursivos em que a enunciação ocorre. (22) poderia comportar uma negação polêmica, desde que ela ocorresse em outro contexto. Vale notar que para a Semântica da Enunciação não há sentença, entidade cujo sentido não depende do contexto em que ela é dita, mas enunciações, singularidades enunciativas que formam cadeias discursivas. Intervalo IV 1. Utilizando o arcabouço teórico da Semântica da Enunciação, descreva as leituras possíveis do enunciado “Meu livro não foi reeditado”. A seguir descreva a ambiguidade por meio da noção de escopo da Semântica Formal. A negação é, pois, um fenômeno de polissemia que, como dissemos, define-se por identificar usos distintos que são relacionados. Outro exemplo de polissemia é televisão, que designa tanto o aparelho quanto a rede de transmissão. A mesma estratégia de multiplicação de sentidos aparece na descrição que a Semântica da Enunciação propõe para o conectivo mas. Para a Semântica Formal não há diferença semântica entre e e mas. Na forma lógica, ambos fazem o mesmo: garantem que a sentença complexa é verdadeira se e somente se as partes que a compõem também forem verdadeiras. Assim as sentenças: (23) João passou no concurso e não foi contratado. (24) João passou no concurso mas não foi contratado. exprimem o mesmoconteúdo semântico: as sentenças João passou no concurso e João não foi contratado são verdadeiras. A diferença de significado é explicada pela Pragmática. Como dissemos, a Semântica da Enunciação dispensa a hipótese de forma lógica. A diferença é descrita pela postulação de que e e mas são dois itens lexicais distintos. Ducrot dá um passo além afirmando que há dois mas que, em português, são homônimos, porque têm a mesma representação sonora e escrita. O espanhol e o alemão são, no entanto, línguas em que a cada mas corresponde uma palavra diferente: em espanhol, pero e mas; em alemão, sonder e aber. Na Semântica da Enunciação distinguem-se, pois, dois sentidos de mas: o masPA e o masSN. O masPA se caracteriza por apresentar um raciocínio inferencial do tipo: a primeira sentença nos leva a supor uma certa conclusão e essa conclusão é negada pela segunda sentença. Retornemos ao exemplo (24): a afirmação de que João passou no concurso nos leva a imaginar que ele será contratado. A conclusão, suscitada pela primeira sentença, é negada pela segunda em que se afirma que ele não vai ser contratado. O masSN estabelece outra relação semântica. Nele, a primeira sentença nega fortemente uma fala que supostamente a antecede, e repara, na segunda sentença, o que foi dito na primeira. Tomemos a sentença (25): (25) Pedro não está triste, mas ensimesmado. Essa sentença se decompõe numa série de enunciadores. Um enunciador afirma que Pedro está triste (E1: Pedro está triste). Essa fala é negada pelo segundo enunciador (E2: E1 é falsa). E um terceiro enunciador descreve o estado de Pedro (E3: Pedro está ensimesmado). Intervalo V Diga se o mas presente nas sentenças abaixo é PA ou SN. Justifique a sua resposta: (1) João não está cansado, mas deprimido. (2) João foi ao cabeleireiro, mas não cortou o cabelo. Construa cadeias discursivas em que a negação nos seguintes exemplos receba diferentes interpretações: (1) O João não saiu. (2) O céu não está azul. A Semântica da Enunciação também se consagrou por ter iniciado a descrição de fenômenos que até pouco tempo resistiam a um tratamento formal: as gradações — presentes em O café não está frio, está morno —, e as escalas argumentativas. Vejamos um caso. Considere o par de sentenças a seguir: (26) João comeu pouco. (27) João comeu um pouco. Segundo a Semântica da Enunciação, não seria possível analisar formalmente essas sentenças porque em termos informativos elas veiculam o mesmo conteúdo; suas condições de verdade são exatamente as mesmas: elas são verdadeiras se João não comeu muito. No entanto, sabemos intuitivamente que elas não são equivalentes, porque não podemos substituir uma pela outra. Ao contrário, há contextos específicos para o uso de cada uma dessas formas, o que significa dizer que seus encadeamentos discursivos são distintos. Imaginemos a situação de um moleque que está ameaçado pelo pai: se não comer, não brinca. O pai pergunta para a mãe: “E o Joãozinho, comeu?”. Supondo que a mãe saiba da ameaça, se ela responde com (26), sua fala vai na direção de que ele não comeu: se ele comeu pouco, então ele está mais próximo de não comeu. E o coitado do Joãozinho fica sem brincar. Se a mãe responde com (27), sua fala vai na direção de comer: se ele comeu um pouco (um tanto de comida), então ele caminha na direção de comeu. E, portanto, ele pode brincar. A hipótese é de que os operadores pouco e um pouco direcionam diferentemente uma mesma escala de comer, que vai de comer muito a não comer: um pouco direciona a escala no sentido de comer e pouco no de não comer. Se a semântica da enunciação analisa sempre em termos de argumentação, então a fala da mãe com um pouco vai na direção de comer e, portanto, é um argumento a favor do menino sair para brincar, ao passo que com pouco a estrutura argumentativa é inversa e ele não brinca. Intervalo VI Em termos de valor de verdade, as sentenças a seguir são idênticas. No entanto, do ponto de vista argumentativo, elas se comportam de forma bem diferente. Procure descrever a contribuição de sentido proporcionada pelo até nas sentenças: (1) O presidente do Brasil esteve na festa. (2) Até o presidente do Brasil esteve na festa.14 A partir da análise de “pouco” e “um pouco” reflita sobre o par: (1) João dormiu um pouco. (2) João dormiu pouco. 4. A SEMÂNTICA COGNITIVA A Semântica Cognitiva tem como marco inaugural a publicação, em 1980, de Metaphors We Live By, de George Lakoff e Mark Johnson.15 Embora bastante recente, esse modelo semântico conta hoje com a participação de diversos pesquisadores, trabalhando nos diferentes níveis de análise da linguagem, da Fonologia à Pragmática. Parte-se, nesse modelo, da hipótese de que o significado é central na investigação sobre a linguagem, chocando-se, portanto, com a abordagem gerativista, que defende a centralidade da sintaxe.16 A forma deriva da significação corpórea, da interação do corpo com o ambiente, inclusive o social. O corpo está na mente; ele a estrutura. Daí a Semântica Cognitiva se inscrever no quadro do funcionalismo. Ela se opõe explicitamente ao que Lakoff denomina Semântica Objetivista, aquela que, segundo o autor, prega que o significado se baseia na referência e na verdade, que entende verdade como correspondência com o mundo e que acredita na existência de apenas uma maneira objetivamente correta de associar símbolos e mundo. É inadequado associar essa visão à Semântica Formal, embora seja esse o alvo das críticas de Lakoff, um dissidente do gerativismo. A Semântica Cognitiva quer combater a ideia, de fato presente em algumas abordagens formais, de que a linguagem está numa relação de correspondência direta com o mundo. O significado, afirma a Semântica Cognitiva, nada tem a ver com pareamento entre linguagem e mundo. Antes, ele emerge de dentro para fora, do corpo para o mundo, e por isto ele é motivado. A significação linguística emerge de nossas significações corpóreas, dos movimentos de nossos corpos em interação com o meio que nos circunda. Estaria, então, a Semântica Cognitiva mais próxima dos postulados da Semântica da Enunciação, que insiste que o significado é o resultado dos jogos argumentativos na linguagem? Sim, se levarmos em consideração o fato de que ambas negam a hipótese da referência. No entanto, diferentemente da Semântica da Enunciação, a Semântica Cognitiva não se baseia na crença de que não há mundo, não há exterioridade, a não ser aquela constituída pela própria linguagem, nem na crença de que a linguagem é um jogo de argumentação. Ela é uma abordagem realista; um realismo experiencialista, diz Lakoff, que se afasta do relativismo. A hipótese central de que o significado é natural e experiencial se sustenta na constatação de que ele se constrói a partir de nossas interações físicas, corpóreas, com o meio ambiente em que vivemos. O significado, enquanto corpóreo, não é nem exclusiva, nem prioritariamente linguístico. A criança, na história da aquisição contada pela Semântica Cognitiva, inicialmente aprende esquemas de movimento e categorias de nível básico. Por exemplo, a criança se move várias vezes em direção a certos alvos. Desses movimentos, emerge um esquema imagético cinestésico (uma memória de movimento) em que há um ponto de partida do movimento, um percurso e um ponto de chegada. Esse esquema, que surge diretamente de nossa experiência corpórea com o mundo, ancora o significado de nossas expressões linguísticas sobre o espaço. Nessa perspectiva, o significado linguístico não é arbitrário, porque deriva de esquemas sensório-motores. São, portanto, as nossas ações no mundo que nos permitem apreender diretamente esquemas imagéticos espaciais e são esses esquemas que dão significado às nossas expressões linguísticas. Esquemas mais básicos são obviamente independentes da linguagem. Nossos deslocamentos de um lugar para outro, que ocorrem quando ainda não falamos, estruturam um esquema imagético, e, portanto, não proposicional. O esquema de deslocamento Lakoff denomina CAMINHO17 e pode ser esquematizado comoa seguir: A (fonte do movimento) B (alvo do movimento) Muitos outros esquemas derivam diretamente de nossas experiências corpóreas no mundo. Por exemplo, o esquema de estar dentro e fora de algum lugar, chamado RECIPIENTE; o esquema de balanço, BALANÇO, aprendido em nossos ensaios para ficar em pé. São esses esquemas que dão sentido às nossas interações linguísticas. A linguagem é uma manifestação desses esquemas, como atestam as sentenças a seguir: (28) Fui do quarto para a sala. (29) Vim de São Paulo. (30) Estou em Florianópolis. (31) Nasceu no Brasil. O que dá sentido às sentenças (28) a (31) não é uma relação de correspondência com o mundo, nem uma relação de dialogia com um outro construindo encadeamentos discursivos, mas o fato de que em (28) e (29) está presente o esquema imagético CAMINHO, e em (30) e (31), o esquema RECIPIENTE. Esses esquemas, organizações cinestésicas diretamente apreendidas, carregam uma memória de movimentação ou de experiência. É essa memória que ampara nosso falar e pensar. Por isso, o significado é uma questão da cognição em geral, e não um fenômeno pura ou prioritariamente linguístico. A linguagem articulada não é mais que uma das manifestações superficiais da nossa estruturação cognitiva, que lhe antecede e dá consistência. Mas nem todos os nossos conceitos resultam diretamente de esquemas imagético-cinestésicos. Basta lembrarmos o conceito de argumentação para notarmos que não há um esquema sensório-motor que o ancore diretamente. Há, pois, domínios da experiência cuja conceitualização depende de mecanismos de abstração. A Semântica Cognitiva privilegia dois mecanismos: a metáfora e a metonímia. A metáfora define-se por ser o mapa (um conjunto de correspondências matemáticas) entre um domínio da experiência e outro domínio. Vamos examinar algumas sentenças sobre o tempo: (32) De ontem para hoje, o José ficou doente. (33) A conferência foi de segunda a sábado. Se observarmos essas e outras sentenças, notaremos que nosso conceito de tempo se estrutura via o esquema espacial do CAMINHO: nos deslocamos no tempo ou com o tempo em direção ao futuro. Nesse sentido, as sentenças (32) e (33) são metafóricas, porque nelas o tempo é conceituado a partir de correspondências com o esquema espacial. Falamos, pensamos e agimos sobre o tempo como se ele fosse uma linearidade, como uma reta direcionada para o futuro. De tal sorte que há o ponto de partida do movimento temporal, ontem em (32), segunda em (33); um percurso, o tempo decorrido entre os dois pontos; e um ponto de chegada, hoje em (32), sábado em (33). Nas sentenças (32) e (33), o esquema CAMINHO foi mapeado para o domínio do tempo. Ele pode, no entanto, ser mapeado para outros domínios. É esse esquema que utilizamos para expressar passagens de um estado emocional a outro, como na sentença (34) a seguir. Ele também está presente na estruturação de nosso conceito de transferência de posse, como em (35): (34) João foi de mal a pior. (35) João deu este presente para a Maria. Já deve estar claro que não apenas o termo “metáfora” tem um sentido especial na Semântica Cognitiva, mas principalmente que nesse modelo nosso falar e pensar cotidianos são, na sua maior parte, metafóricos. Metáfora não são aquelas sentenças que, na escola, aprendemos a classificar como metáfora. A sentença Maria é uma flor é uma metáfora linguística para a Semântica Cognitiva, porque expressa uma maneira fantasiosa de falar, não uma metáfora conceitual. A metáfora, para a Semântica Cognitiva, é um processo cognitivo que permite mapearmos esquemas, aprendidos diretamente pelo nosso corpo, em domínios mais abstratos, cuja experimentação é indireta. É por isso que as sentenças de (32) a (35) são metafóricas. Nelas há o mapeamento de um domínio mais concreto da experiência, o domínio organizado pelo esquema imagético CAMINHO, na conceituação de domínios da experiência que são mais abstratos, o tempo, o estado de saúde, a posse. Nesses exemplos, percebemos a ubiquidade da metáfora. A propriedade fundamental da metáfora é preservar as inferências do domínio fonte no domínio alvo, desde que não haja violação da estrutura inerente ao domínio alvo. Se mapeamos o esquema CAMINHO no tempo, então podemos esperar que nesse domínio se estabelece uma organização espacial em que as inferências do espaço se mantêm. Trata-se da Hipótese da Invariância. Por exemplo: se eu vou daqui para ali, e esse esquema é mapeado no tempo, então eu também devo poder me mover no tempo de um ponto de partida A em direção a um ponto B. Se entre os pontos espaciais A e B há posições intermediárias, então também entre o ponto A e B na linha do tempo há pontos intermediários. Além de explicar as inferências, essa hipótese procura justificar o fato de que há aspectos que não são mapeados. Podemos mapear o espaço no tempo, mas certas relações espaciais serão bloqueadas por causa da própria estrutura do tempo. Eis o realismo! Assim, não podemos dizer Chegou atrás da hora. Como, então, se explica a estrutura de inferência apresentada no primeiro exemplo deste texto, reproduzido a seguir? (36) Todo homem é mortal. João é homem. Logo, João é mortal. Essas sentenças refletem a presença do esquema imagético RECIPIENTE, em que há recipientes nos quais podemos entrar e sair ou colocar e tirar coisas. A base corpórea que a sustenta é estarmos sempre em algum lugar e nosso próprio corpo ser um recipiente. Assim, entendemos a primeira premissa como “o recipiente que contém homens está dentro do recipiente dos mortais”; “João está dentro do recipiente dos homens”. Enfatizando, é o nosso corpo que dá sentido para as relações lógicas. A título de exemplo da metodologia de análise na Semântica Cognitiva, apresentamos uma possibilidade de descrição do conectivo mas. Sua descrição inicia com um levantamento de suas várias possibilidades de uso. Uma pesquisa etimológica, resgatando a história desse conectivo, seria também interessante. Considere como dado a sentença (25), Pedro não está triste, mas ensimesmado. Etimologicamente, segundo Vogt (1977), mas deriva da expressão latina magis quam, que estabelece a comparação de superioridade: isso é mais do que aquilo. Se adotamos a hipótese de que os usos mais antigos são aqueles mais próximos do físico, então é o esquema corporal do BALANÇO que dá sustentação ao mas: pesamos duas coisas e a balança pende para uma delas. No caso do exemplo (25), a balança pende para o lado do ensimesmado: se pesamos os dois, Pedro é mais ensimesmado do que triste. Uma vez estabelecida que essa é a base física, resta-nos dar conta de suas extensões metafóricas.18 Intervalo VII Considere as sentenças a seguir: (1) Gastei cinco horas para chegar aqui. (2) Economizei duas horas por este caminho. Descreva essas sentenças a partir do arcabouço teórico proporcionado pela Semântica Cognitiva. Ache exemplos que confirmem a existência da metáfora conceitual ARGUMENTAÇÃO É UMA GUERRA. Dissemos que há dois primitivos na teoria da Semântica Cognitiva: os esquemas imagéticos e as categorias de nível básico. Sobre os primeiros já falamos e mostramos que eles se estendem via metáfora. Resta-nos agora tratar das categorias de nível básico. Sua discussão é importante porque ela toca numa questão cara à Semântica Cognitiva: a categorização. Mas qual é o problema da categorização? É explicar que critérios necessários e suficientes permitem que um dado exemplar faça parte de uma certa categoria (ou conceito). Ilustremos esse problema: como é que determinamos que um indivíduo particular pertence à classe dos homens? Como é que sabemos que João é humano? Na visão tradicional, aquela que se encontra na Semântica Formal clássica, um termo genérico como homem não se refere a um indivíduo em particular, mas a todos os indivíduos que possam ser alcançados por meio de certas propriedades, necessárias e suficientes, instanciadas por homem. Sabemos que João pertence à classe dos humanos porque ele tem certas propriedades que só os humanos têm. A essas propriedades, que definem oconteúdo semântico de um termo, a Semântica Formal dá o nome de intensão. A intensão permite alcançarmos uma classe de objetos em todos os mundos possíveis. O conjunto dos homens no nosso mundo é a sua extensão nesse mundo. Você certamente percebeu que há um paralelo com os conceitos de sentido e referência que definimos no início deste capítulo, não? No caso de homem, sua extensão são os vários humanos no mundo, as entidades extralinguísticas. E qual seria a sua intensão? Suas propriedades essenciais. Além da delicada questão filosófica que aí se esmiúça — afinal, existem mesmo propriedades essenciais? —, essa abordagem enfrenta o difícil problema de determinar com certo grau de segurança quais são as propriedades necessárias e suficientes para que algo pertença a uma certa categoria. Pergunte-se: o que faz uma pessoa ser parte da categoria HUMANO? O fato de compartilhar com todos os outros seres humanos certas propriedades e, ao mesmo tempo, de se distinguir, por meio dessas propriedades, de todos os demais seres. Eis a resposta da Semântica Formal clássica. Pare um instante de ler e pense: mas que propriedades são essas? A questão não é trivial e tem recebido as mais diferentes respostas ao longo dos séculos. Já se afirmou que a categoria HUMANO se define pela presença de duas propriedades, “ser bípede” e “ser implume”: pertencer à classe dos humanos é ter dois pés e não ter penas. De fato, essas propriedades permitem distinguir um homem de um cachorro e de um pato. No entanto, é muito fácil achar exemplos de seres humanos que, ao menos aparentemente, não preenchem essas condições. Basta imaginar um perneta; alguém com uma única perna continua a ser humano ou não? E se, por uma mutação genética qualquer, um ser humano nascesse com algumas plumas, ele deixaria de ser um humano? Já deu para você ter uma ideia do problema, não? Sem dúvida alguma foi Ludwig Wittgenstein, em Investigações filosóficas, quem problematizou com maior maestria o problema das categorias.19 Ele se perguntou sobre quais seriam as propriedades definidoras da categoria jogo, levando em consideração os vários usos que essa palavra pode ter. Tente se lembrar de tudo o que você chama de jogo: amarelinha, palavra cruzada, vôlei, damas, solitário, futebol. E agora veja se você consegue descobrir uma única propriedade que seja comum a todas as atividades que denominamos jogo, isto é, uma propriedade necessária porque presente em todos os exemplos de jogo. Se você disser “divertimento”, eu retruco com roleta-russa. Se você falar em “competição”, eu lembro os jogos de amarelinha e os solitários. Imaginemos, no entanto, que você me convença de que a propriedade comum a todos os exemplos de jogo seja divertimento. Mas divertimento é uma propriedade tão genérica que é insuficiente para separar a classe dos jogos de outras classes, como a das diversões. Não conseguimos distinguir jogo de divertimento se divertimento é o traço, já que há coisas divertidas que não são jogos: ir ao cinema é divertido e não é um jogo. Parece que se houver uma propriedade comum a todos os usos de uma palavra, uma propriedade necessária, ela não será suficiente para delimitar a classe. Com base nessa constatação, Wittgenstein propôs que as categorias se organizam por relações de semelhanças de família. Os usos de uma mesma palavra se assemelham da mesma forma que os membros de uma família. Não é necessário que os membros compartilhem a mesma propriedade para pertencerem todos à mesma família, nem mesmo o sobrenome. A Semântica Cognitiva baseia-se nessa linha de pensamento para negar a abordagem clássica da categoria. Ela se ancora fortemente em evidências psicológicas para assegurar a posição de que não categorizamos por meio do estabelecimento de propriedades necessárias e suficientes. O trabalho de Berlin & Kay (1969) sobre as cores em diferentes línguas, assim como as pesquisas de Eleanor Rosch (apud Lakoff, 1987) apontam para fatos que contradizem as predições da categorização por propriedades necessárias e suficientes. Vejamos um exemplo. Se peço para você me dar um exemplo de pássaro, você com certeza não vai dizer pinguim, a menos que você seja um semanticista. Por que não? Por que as pessoas tendem a responder perguntas sobre categorias com certos elementos e não com outros? Os experimentos de Rosch trouxeram uma resposta a essas questões. A abordagem formal clássica não pode dar uma explicação para esse fato, porque para ela as categorias se organizam por propriedades necessárias e suficientes, e, se é assim, então todos os membros de uma categoria devem ter o mesmo valor. Isso significa que as pessoas deveriam responder aleatoriamente, ora pardal, ora pinguim, ora galinha ao meu pedido de exemplo de pássaro. Mas não é isso o que elas fazem; elas respondem preferencialmente uma subespécie de pássaro. No Brasil, provavelmente diríamos pardal e muito raramente pinguim.20 Baseado nesses resultados, formulou-se a hipótese de que os conceitos se estruturam por protótipos. Em outros termos, quando classificamos não recorremos ao estabelecimento de condições necessárias e suficientes, mas nos escoramos em casos que são exemplares, que são os mais reveladores da categoria, na nossa experiência imediata. É por isso que no Brasil, acredito, a resposta seria pardal ao pedido de exemplificação de pássaro: convivemos com pardais. Além disso, pardal tem propriedades que são salientes nos pássaros, e que pinguins não têm: ele voa como os pássaros em geral. As categorias se estruturam, pois, por meio de um caso mais prototípico que se relaciona via semelhanças com os outros membros menos centrais. Pardal é o membro central da categoria PÁSSARO, ao passo que pinguim ocupa posição periférica. Mas como é que a criança aprende essas categorias? Ela aprende primeiramente as categorias de nível médio, porque é com objetos desse tipo de categoria que temos contato físico direto. Mais uma vez com base em experimentos da Psicologia, a Semântica Cognitiva afirma que aprendemos categorias de nível básico diretamente, porque elas não indicam nem as categorias mais abstratas, nem as categorias mais específicas. Aprendemos primeiro e diretamente categorias como cachorro e mesa e só posteriormente, pelo processo de metonímia, as categorias genéricas animal e móveis e as particulares como boxer e mesa de cabeceira. Da mesma forma que a metáfora é o processo para estender os esquemas imagéticos, a metonímia é o processo para estender as categorias. Também aqui metonímia não se refere à figura de linguagem que aprendemos nos manuais de retórica ou nas gramáticas tradicionais. Trata- se antes de um processo cognitivo que permite criar relações de hierarquias entre conceitos. A sentença (37) é um exemplo de metonímia: (37) O governo decretou o fim do seguro-desemprego. É, pois, por meio dos processos cognitivos da metáfora e da metonímia que estendemos nossos esquemas e categorias para além das nossas experiências físicas imediatas na direção da abstração. Intervalo VIII Procure mostrar que a propriedade “voar” não é nem necessária nem suficiente para que algo pertença à categoria AVE. Procure descrever, a partir do conceito de protótipo, a categoria MÃE. Explique por que a sentença a seguir é uma metonímia: (1) A Maria saiu com o seu animal de estimação. Vamos agora nos contentar em apresentar em suas linhas gerais a abordagem cognitiva para as pressuposições. Sobre esse assunto, a grande contribuição tem sido de Gilles Fauconnier (1985).21 Esse autor parte da hipótese de que na interpretação formamos espaços mentais, estruturas conceituais que descrevem como os falantes atribuem e manipulam a referência, dentre elas as descrições definidas. Em conformidade com os postulados da Semântica Cognitiva, o significado não está na linguagem; antes, a linguagem é como um método, uma receita, que permite a identificação de uma estrutura cognitiva subjacente. Para dar conta da referência, Fauconnier propõe que durante a interpretação construímos domínios ou espaços mentais nosquais ela ocorre. Suponha a sentença: (38) Júlio César conquistou o Egito. Na interpretação de (38) criamos um espaço mental em que Júlio César se refere ao personagem histórico na nossa mente e não no mundo. O que ocorre se repentinamente passamos a falar do personagem de Shakespeare, como na sentença (39)? (39) Na peça de Shakespeare, Júlio César conquistou o Egito. Nesse caso, diz Fauconnier, abrimos um novo espaço mental, em que Júlio César não se refere ao personagem histórico, mas ao ficcional, mas mantemos relações entre eles. É a partir desse arsenal teórico que Fauconnier propõe uma análise distinta das pressuposições, já que elas nem garantem a referência a entidades no mundo, nem são procedimentos argumentativos; são antes entidades mentais/cognitivas. Sem entrar nos detalhes, retornemos à sentença sobre Maria ter parado de fumar, a sentença (16). Dissemos, então, que a sentença veiculava a pressuposição de que Maria fumou um dia. Mostramos que a sentença negativa pode ser descrita como comportando uma ambiguidade: ou negamos a pressuposição, Maria não fumava antes, ou negamos o predicado, Maria não parou de fumar. Na Semântica Cognitiva, a pressuposição é descrita como significados que se transferem de um espaço mental para outro. No caso da sentença (16), estaríamos diante de dois espaços mentais: um em que está a informação de que Maria já fumou; outro que diz que ela parou de fumar. Quando interpretamos, acionamos os dois espaços mentais. No caso de negarmos o primeiro espaço mental, isto é, Maria nunca fumou, essa informação não é transportada para o segundo espaço mental. Já, se Maria fumou um dia, então a pressuposição é carregada para o segundo espaço mental, e a negação incide sobre o fato de ela ter parado de fumar. O mesmo raciocínio se aplica ao caso do rei da França. Formamos, na interpretação, dois espaços mentais: um em que há um e apenas um rei da França, independentemente de haver de fato um rei da França, isto é, independentemente da relação de referência. Essa sentença, que se originou no espaço mental A, ou permanece nesse espaço mental (se, por exemplo, negamos que há um único rei da França), ou se move até o espaço mental B (em que se afirma que o único rei da França é careca) e se torna uma pressuposição de B — nesse caso, a negação só poderá atingir a afirmação de que ele é careca. 5. UMA RÁPIDA CONCLUSÃO Na introdução dissemos que nossa intenção era apresentar um instrumental que já faz parte do campo da Semântica, independentemente do modelo adotado, e que permite mostrarmos como o “mesmo” fenômeno ganha diferentes descrições. Esse é o caso dos problemas levantados com relação à referência, à pressuposição, às definições definidas, à categorização. Ao apresentarmos como esses problemas são descritos de modos diferentes, queríamos mostrar as linhas mestres dos modelos semânticos atuais: o modelo formal, o modelo enunciativo e o modelo cognitivo. Se conseguimos apresentar esse quadro minimamente, acreditamos que você, leitor, tem condições de seguir em frente, de aprofundar (veja aí uma metáfora para a Semântica Cognitiva) seus estudos. É por isso que apresentamos, ao longo deste capítulo, várias referências bibliográficas que permitem iniciar um estudo menos superficial a respeito de cada um dos modelos apresentados. Contamos ainda ter mostrado que, na Linguística contemporânea, não há nem uma resposta única para o problema do significado, nem uma metodologia única para descrevê-lo. Essa pluralidade de modelos transparece também no fato de que, muitas vezes, aquilo que é problema para um modelo não o é para outro. É esse o caso da categorização, que interessa à Semântica Formal e à Semântica Cognitiva, mas que é secundário na Semântica da Enunciação. Finalmente, se não for esperar demais, esperamos ter deixado o leitor com a “pulga atrás da orelha”, com uma certa certeza de que qualquer descrição semântica está necessariamente engajada numa visão da linguagem, o que implica uma explicação para a relação entre linguagem e mundo, linguagem e conhecimento. Adotar a abordagem da Semântica Formal não é apenas utilizar o instrumental lógico para descrever a linguagem — o que em si poderia ser feito por quaisquer das abordagens aqui propostas —, mas assumir que a linguagem natural se estrutura logicamente e que o significado é uma relação entre o linguístico e o não linguístico. Esses são pontos de discussão. É verdade que a linguagem tem uma estrutura, mas que ela seja lógica... Se adotamos o ponto de vista da Semântica da Enunciação ou da Semântica Cognitiva, jogamos fora a ideia de que a verdade tem algo a ver com o significado, de que o extralinguístico tem um papel na fundamentação do significado. Esse também é um postulado polêmico. Na Semântica da Enunciação, o significado é descrito nas relações de dialogia, de argumentatividade. Ele não serve, pois, para apontar algo no mundo exterior, mas para convencer, para seduzir o outro. Enredado na linguagem, não há como transcendê-la. No modelo da Semântica Cognitiva também abandonamos a ideia de verdade como dando suporte ao significado, porque ele está no corpo que vive, que se move, que está em várias relações com o meio e não na correspondência entre palavras e coisas. Que a heterogeneidade pode tornar as coisas mais complicadas para aqueles que querem fazer semântica é certo, mas ela pode também ajudar a ver que talvez a linguagem seja de fato um objeto muito complexo. Tão complexo que somente deixando coexistir diferentes abordagens, somente espiando a linguagem por diferentes buracos de fechadura, poderemos um dia chegar a compreendê-la melhor. RESPOSTAS Intervalo I: A referência de a capital da França e Paris é Paris, o objeto no mundo. Atente para a distinção entre linguagem e objeto. A referência de Paris é a capital da França, uma sentença, é o verdadeiro, porque no nosso mundo Paris é a capital da França. Eis alguns exemplos de sentido para descrever o Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, a capital do Império, a cidade do Cristo Redentor. Intervalo II: 1) Há várias possibilidades de recortar a primeira sentença: ser casado com (predicado de dois lugares), ser casado com Maria (predicado de um lugar), João ser casado com (predicado de um lugar). A segunda sentença é um exemplo de predicado de um lugar: ser brasileira. Cuidado aqui, porque não é possível recortar a sentença como ___ é ___, pois brasileira não é um nome próprio, não tem sentido completo, nem referência, e o verbo ser não está estabelecendo uma identidade, mas pertença a um conjunto. A última sentença pode ser recortada de três formas: Oscar é jogador de, ser jogador de, ser jogador de basquete. 2) Em Todo homem é casado com alguma mulher, para todo elemento do conjunto dos homens corresponde um elemento do conjunto das mulheres. Nesse caso, o universal tem escopo sobre o existencial. Já em Um homem é casado com todas as mulheres, afirmamos que há um único homem que é casado com todos os elementos do conjunto mulheres. Nesse caso, o existencial tem escopo sobre o universal. Finalmente, na última sentença temos um caso de ambiguidade, porque temos dois operadores não e de novo: mais uma vez Maria não está grávida — ou seja, ela nunca esteve grávida antes, e dessa vez, de novo, ele não conseguiu engravidar — ou Maria já esteve grávida, mas não está grávida dessa vez. Intervalo III: A sentença João não escreveu sua tese para agradar a mãe tem duas interpretações por causa do escopo da negação — isto é sua amplitude: (1) João não escreveu sua tese e o motivo de ele não ter escrito é a sua mãe. O operador de negação tem escopo sobre o evento denotado pelo verbo. (2) João escreveu sua tese mas o motivo não foi a sua mãe. A negação tem escopo sobre o motivo. Há pressuposição factiva na sentença João lamenta a morte do pai, porque para ser verdadeira ou para ser falsa é preciso que seja verdade que o pai de João tenha morrido. Veja que se negamos a sentença João não lamenta a morte do pai continua a ser verdadeiro que o pai morreu.Essa é a pressuposição factiva quando a sentença pressupõe que houve um evento. Intervalo IV: Segundo a Semântica da Enunciação, a sentença pode comportar uma negação polêmica — Meu livro não foi reeditado, porque não tenho livro — ou uma negação metalinguística — Não é verdade que meu livro foi reeditado. A sentença exibe a seguinte estrutura: E1: Eu tenho um livro. E2: Este livro foi reeditado. O enunciador E3 pode ou negar E1 ou negar E2. A Semântica Formal descreveria esta sentença como ambígua. Num caso, a negação teria escopo sobre a pressuposição de que eu escrevi um livro; no outro, ela incidiria sobre a afirmação de que ele foi reeditado. Fala-se aqui de duas formas lógicas distintas. Intervalo V: A primeira sentença é um caso de masSN, porque há presença de um enunciador que nega a fala João está cansado, e outro que repara a descrição dessa fala: João está deprimido. Na segunda temos um masPA, porque a primeira sentença, João foi ao cabeleireiro, nos leva a imaginar que ele cortou o cabelo, precisamente a conclusão que é negada na segunda parte da sentença. A sentença João não saiu pode comportar diferentes tipos de negação, dependendo do encadeamento discursivo em que ela aparece. A negação pode ser descritiva ou metalinguística. Se você acabou de me dizer que João saiu e eu replico com a sentença em questão, temos uma negação metalinguística. O mesmo vale para a negação em O céu não está azul que, dependendo do encadeamento linguístico, pode ser descritiva ou metalinguística. Intervalo VI: Em termos argumentativos, (1) e (2) são bastante diferentes. A contribuição de sentido proporcionada pelo até está no fato de que ele pressupõe uma escala de valores, em que o presidente do Brasil está no topo. De modo que a sua presença é um argumento para a conclusão de que a festa foi um sucesso. Na sentença (1) seguinte, argumenta-se em favor da tese de que João dormiu; ao passo que na sentença (2) a escala argumentativa vai na direção do argumento de que João não dormiu. Intervalo VII: As sentenças manifestam a presença de uma metáfora conceitual: TEMPO É DINHEIRO, tanto que podemos gastá-lo, economizá-lo, empregá-lo mal, investir nele... Há muitos exemplos que confirmam a metáfora conceitual ARGUMENTAÇÃO É UMA GUERRA. Eis alguns: Vou defender minha tese hoje; Use todas as suas armas contra os argumentos dele; Ele atacou meu ponto de vista. Intervalo VIII: Há aves que não voam, portanto, voar não é uma propriedade essencial das aves, por exemplo, os pinguins e as galinhas. Há outras coisas que voam e não são aves, por exemplo, os insetos e os aviões. De onde se conclui que essa propriedade não é suficiente para caracterizar a categoria AVE. A categoria MÃE se organiza ao redor da ideia de progenitora e de ser aquela que cuida da criança, a provedora. As mães não biológicas são provedoras. Há metonímia porque animal de estimação é uma categoria superordenada com relação à categoria de nível básico; não sabemos se é cachorro ou gato ou qualquer outro animal o animal de estimação da Maria. REFERÊNCIAS BORGES, J. B. Adjetivos. Predicados extensionais e predicados intensionais. Campinas: Editora da Unicamp, 1991. BARWISE, J.; COOPER, R. Generalized quantifiers and natural language. 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Sobre o significado de “significado”, o texto clássico é de Ogden e Richards (1976). 3. Ver Ilari (1995). 4. O termo “modelo” é utilizado aqui de modo informal, como se ele não fosse em si mesmo problemático. Sobre a semântica no Brasil, ver Pires de Oliveira (1999). 5. A bibliografia em Semântica Formal é extensa. Manuais introdutórios em português são: Kempson (1980), Ilari e Geraldi (1985), Chierchia (2003). Há muitos estudos sobre fenômenos do português brasileiro que adotam a perspectiva formal. Ver, entre outros, Ilari (1998), Negrão (1992), Borges (1991). 6. Indicações de respostas aparecem no final deste capítulo. 7. A visão mais aceita hoje em dia sobre quantificação foi proposta por Barwise e Cooper (1981). 8. Veja um retrato de Luís XVI em http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/RFLuis16.html 9. A descrição definida ganhou uma nova análise após o doutoramento de Heim (1982). Nessa abordagem, a descrição definida carrega uma pressuposição de familiaridade. 10. Uma biografia divertida do Bertrand Russell e que faz uma revisão da sua importância para a lógica, a linguagem e a matemática é um quadrinho recém-publicado: Logicomix. Ver Papadimitriou, Doxiadis e Papadatos (2010). 11. Ver o capítulo “Análise do Discurso”, neste volume. 12. Há as teorias de coerência, ver Haack (1978). 13. Para uma introdução à Semântica da Enunciação, ver Ducrot (1979, 1987). A Semântica da Enunciação tem contribuído para a descrição de vários fenômenos semânticos do português brasileiro. Ver, entre outras análises, Vogt (1977), Koch (1984), Guimarães (1991). 14. Para uma descrição desse operador argumentativo, ver Guimarães (1991). 15. Esse marco da Semântica Cognitiva foi traduzido para o português como Metáforas da vida cotidiana (Lakoff e Johnson, 2002). Para uma apresentação da Semântica Cognitiva, ver Lakoff (1987). No Brasil, ver os trabalhos de Pontes (1990) e Lima (1997), entreoutros. 16. Ver o capítulo “Sintaxe”, no volume 1 desta obra. O fato de que a Semântica Cognitiva está em franca oposição ao gerativismo impõe, como o leitor perceberá adiante, a discussão sobre aquisição da linguagem. Sobre este último tema, ver o capítulo “Aquisição da Linguagem”, neste volume. 17. Na Semântica Cognitiva, os conceitos e esquemas são sempre apresentados em caixa-alta. 18. O trabalho de Sweetser (1991) sobre os modais em inglês é talvez uma das mais brilhantes peças da Semântica Cognitiva. Nesse trabalho ela mostra, por evidências etimológicas, e também pelos diferentes usos dos modais, que sua compreensão se sustenta num esquema da FORÇA. 19. Ludwig Wittgenstein foi um dos grandes filósofos da linguagem do século XX. Há muita controvérsia em torno desse autor, em parte porque ele aparentemente alterou radicalmente sua maneira de entender a linguagem. No Tractatus Logico-Philosophicus (1921), a linguagem refletia a ordem do mundo; nas Investigações Filosóficas (1953), a linguagem é ação no mundo. 20. Sobre a categorização, ver Taylor (1989). 21. Para uma descrição detalhada, ver Fauconnier (1985). 2 PRAGMÁTICA Joana Plaza Pinto 1. LINHAS GERAIS De que tratam os estudos linguísticos que se classificam como “pragmáticos”, ou pertencentes à área da Pragmática? Essa é uma pergunta que pode gerar respostas tão variadas quanto o número de pessoas que se dispuserem a respondê-la. Um número muito grande de trabalhos, com temas e objetivos os mais diversos, circula nos periódicos e outras publicações declaradamente inseridos no domínio da Pragmática. Pode-se, no entanto, a partir de um grupo mais ou menos coeso desses estudos, procurar delimitar a Pragmática, admitindo a diversidade. Vamos assim tentar compreender um pouco da história da constituição dessa área tão heterogênea, procurando ao mesmo tempo evidenciar o que, em meio a diferentes perspectivas, torna possível reconhecer certos tipos de estudos linguísticos como pragmáticos. Mesmo que se admita a variedade presente na Pragmática, também se deve admitir que as autoras e autores desse domínio compartilham certos pressupostos. Haberland e Mey (1977), editores do Journal of Pragmatics, na primeira edição desse periódico, afirmam que a Pragmática analisa, de um lado, o uso concreto da linguagem, com vistas em seus usuários e usuárias, na prática linguística; e, de outro lado, estuda as condições que governam essa prática. Assim, em primeiro lugar, a Pragmática pode ser apontada como o estudo do uso linguístico. As pessoas que a estudam esperam explicar antes a linguagem do que a língua. Essa afirmação é decorrente da dicotomia clássica saussureana língua/fala: Saussure (1991) defende que a língua, que seria o objeto de estudo da Linguística por excelência, é a linguagem menos a fala,1 enquanto a Pragmática se inicia justamente defendendo a não centralidade da língua em relação à fala. Em outras palavras, a Pragmática aposta nos estudos da linguagem, levando em conta também a fala, e nunca nos estudos da língua isolada de sua produção social. Dessa forma, os estudos pragmáticos pretendem definir o que é linguagem e analisá-la trazendo para a definição os conceitos de sociedade e de comunicação descartados pela Linguística saussureana na subtração da fala, ou seja, na subtração das pessoas que falam. Um segundo ponto acordado entre os estudiosos e estudiosas dessa área é que os fenômenos linguísticos não são puramente convencionais, mas sim compostos também por elementos criativos, inovadores, que se alteram e interagem durante o processo de uso da linguagem. Numa pequena fita cassete, com uma gravação curta de alguém conversando com um linguista, vamos escutar trechos do tipo: (1) Entrevistadora: Então ela largou o namorado? Entrevistada: Eu vi ela largar... largou sim... largou a ele... Entrevistadora: A ele? Entrevistada: É, a ele, sim; a ele... largou a ele aquela vida infeliz que eles tinham juntos... largou a ele. Repare que a entrevistadora tem um impasse de interpretação da fala da entrevistada porque esta última cria uma estrutura “alterada”, um objeto indireto inesperado, no entanto de extrema importância para o entendimento, não só do que a entrevistada queria dizer, mas principalmente das possibilidades expressivas de inovações linguísticas. O que vemos aqui não é poesia, ou variação linguística. Ainda que poesia e variação expressem esse mesmo tipo de situações criativas, esse diálogo (1) é a prova de que não é produtivo descrever a linguagem como um sistema delimitável, mas sim que esta deve ser trabalhada a partir da possibilidade de se juntar grupos de indícios sobre seu funcionamento, tendo como limite possível um recorte convencional, não justificado por qualquer fator inerente à linguagem. Quando a análise linguística é feita em outros moldes, trechos como de (1) são descartados como erros de uso do sistema, ou, na melhor das hipóteses, exceção — “licença poética”. A variedade de materiais que são analisados nas publicações aceitas pelo Journal of Pragmatics nos ajuda a perceber que linguistas estão se dedicando às situações de “exceção”, fundamentais na compreensão da linguagem em uso: diálogos colhidos entre falantes de uma comunidade, literatura, poesia, humor, e podemos ler mesmo trabalhos analisando material linguístico visual, como cartuns e propagandas. Explicar a linguagem em uso e não descartar nenhum elemento não convencional: esses dois pontos comuns aos estudos pragmáticos formam uma linha derivada da história da preocupação com o uso linguístico. No final do século XIX, a Filosofia iniciou um redirecionamento na forma de responder a suas perguntas. Desde Kant,2 os estudos filosóficos passaram a ser entendidos como um conjunto de critérios para avaliar a maneira pela qual a mente é capaz de construir representações. Mais tarde, então, no final do século XIX, os estudos filosóficos cunharam sua variante da filosofia kantiana, defendendo principalmente que representação é antes linguística do que mental, e que se deve refletir antes em filosofia da linguagem que em crítica transcendental.3 Assim, objetivos filosóficos de discutir e descrever nossa representação do mundo respaldaram um movimento em direção às usuárias e usuários da linguagem, acarretando uma tendência análoga no âmbito da Linguística. A Pragmática é fruto desse movimento em direção aos problemas relativos ao uso da linguagem, por isso, ao estudarmos a constituição dessa área, devemos acompanhar também um pouco da história dos grupos filosóficos que a influenciaram. Como bem afirma Françoise Armengaud (2006, p. 9), a Pragmática é “uma das mais vivas no cruzamento das pesquisas em filosofia e em linguística, atualmente indissociáveis”. 2. OBJETOS E MÉTODOS DA PRAGMÁTICA Como a Pragmática é uma área genericamente definida por pesquisar sobre o uso linguístico, os temas escolhidos para análise são amplos e variados. Em publicações da Pragmática podemos ler estudos teóricos sobre a relação entre signos e falantes, como é o caso do estudo de Mey (1985), que procura debater o lugar da linguagem na sociedade, de uma perspectiva marxista, discutindo o conceito de manipulação linguística. Também encontramos levantamento de aspectos de diálogos entre falantes de uma mesma comunidade ou comunidades diferentes (Verschueren e Bertuccelli- Papi, 1987). Observe o diálogo a seguir: (2) A: Você viu meu rato por aí? B [apontando um rádio ao seu lado]: Está aqui o rádio. A: Não, é o rato mesmo. Meu rato de borracha. B compreende a palavra rato, mas considera 1º) a improbabilidade de alguém estar procurando seu próprio rato (!); 2º) a proximidade concreta [ao seu lado] de um objeto e fonológica da palavra que se refere a esse objeto. Assim, uma análise pragmática desse diálogo deve considerar tantos aspectos da estrutura da própria língua quanto aspectos relacionados ao usuário ou à usuária (a situação que ele/ela vivencia). Um outro tipo de tema comumente levantado pelos estudos pragmáticos são os funcionamentos e efeitos de atosde fala. Atos de fala é um conceito proposto pelo filósofo inglês J. L. Austin para debater a realidade de ação da fala, ou seja, a relação entre o que se diz e o que se faz — ou, mais acuradamente, o fato de que se diz fazendo, ou se faz dizendo. Discutiremos melhor esse conceito na seção 2.2. Por enquanto, vale ressaltar que alguns estudos, cada qual com seu critério, procuram, por exemplo, classificar os atos de fala de acordo com seus efeitos. É o caso de Benveniste (1991), que pretende classificar os atos de fala. De um lado teríamos aqueles atos que seriam compostos por um verbo declarativo jussivo na primeira pessoa do presente mais uma afirmação, como: (3) Eu ordeno que você saia. Ainda que ele não explique detalhadamente o que seriam esses tipos de verbos, na lista dos “declarativos-jussivos”, Benveniste inclui ordenar, comandar, decretar, o que nos leva a perceber esses verbos como estabelecendo uma relação entre “declaração de uma ação” e “jus à posição de autoridade para tal ação”. Assim, ordenar não só explicita, “declara” a ação feita por quem fala, como este deve estar apto a fazê-lo. No caso do exemplo (3), “ordenar” é o verbo declarativo-jussivo, e “você saia”, a afirmação. De outro lado, Benveniste propõe outro conjunto de atos de fala, atos estes que seriam compostos por um verbo com complemento direto mais um termo predicativo, tal qual: (4) Proclamo-o eleito vereador. Essa classificação proposta por Benveniste não é a única e mesmo pode ser firmemente contestada (cf. Ottoni, 1998). O mais importante é se perceber que, ao selecionar, entre tantos fenômenos de linguagem em uso, quais devem ou não ser estudados, e a quais perguntas devem ser submetidos tais fenômenos, os autores e autoras da Pragmática acabam por fazer aparecer suas diferenças. A influência de grupos filosóficos nessas seleções de objetos e métodos é patente e será usada aqui para delimitar os diferentes grupos de estudos pragmáticos. São três os grupos principais de estudos. O pragmatismo norte- americano, influenciado pelos estudos semiológicos de William James; os estudos de atos de fala, sob o crédito dos trabalhos do inglês J. L. Austin; e os estudos pragmáticos interdisciplinares, com preocupação firmada nas relações sociais, de classe, de gênero, raciais e entre culturas, presentes na atividade linguística. Este último grupo é especialmente diverso4 e, sem dúvida, é o que mais tem se desenvolvido nos últimos anos. Vale a pena observar que, entre os autores e autoras que são referência para a Pragmática, também estão os franceses Oswald Ducrot e Émile Benveniste, e o britânico H. P. Grice. Até o final da década de 1980, muitos trabalhos cuja orientação teórica está fundamentada nesses autores incluíam-se na área da Pragmática. Entretanto, a evolução de seus trabalhos conferiram-lhes campos de estudos e métodos hoje separados dos pragmáticos. A Semântica Argumentativa e a Análise da Conversação são duas áreas de estudo outrora participantes do movimento que integrou componentes pragmáticos aos estudos linguísticos. Neste momento histórico da Linguística, são mais enriquecedoras quando estudadas como áreas diferentes. Mas não estranhem a leitora e o leitor se encontrarem, ainda hoje, os nomes desses autores associados de alguma forma à Pragmática.5 2.1. Pragmatismo norte-americano Foi o filósofo norte-americano Charles S. Peirce o primeiro autor a utilizar a palavra pragmatics, no seu artigo How to make our ideas clear, de 1878. Peirce exerceu influência sobre vários filósofos e assim foram divulgadas suas ideias sobre a tríade pragmática. Essa tríade representa a relação entre signo, objeto e interpretante. O que Peirce procurou destacar ao postular essa tríade foi a necessidade de se teorizar a linguagem levando- se em conta o que sempre foi lembrado na Linguística, ou seja, o sinal, mas também aquilo a que este sinal remete e, principalmente, a quem ele significa. Num dos trechos de sua obra, Peirce explica: [Os que se dedicavam ao estudo] da referência geral dos símbolos aos seus objetos ver-se-iam obrigados a realizar também pesquisas das referências em relação aos seus interpretantes, assim como de outras características dos símbolos e não só dos símbolos, mas de todas as espécies de sinais. Por isso, atualmente, o homem que pesquisa a referência dos símbolos em relação aos seus objetos será forçado a fazer estudos originais em todos os ramos da teoria geral dos sinais.6 É bom ressaltar que a ideia da tríade pragmática e toda a teoria que a acompanha são complexas. Peirce fez um trabalho prolongado, procurando explicar exaustivamente os componentes de sua teoria do signo, definindo e subdividindo cada um dos itens para explorar ao máximo sua capacidade explicativa e seu alcance teórico — só os sinais ele subdividiu em dez classes principais! Devemos aqui nos deter na repercussão de seu trabalho, na sua proposta principal de expor todos os aspectos da relação símbolo-objeto- interpretante. Os dois principais seguidores de Peirce, e que passaram adiante interpretações da obra deste autor, foram William James e Charles W. Morris. Ao travar contato com o círculo de filósofos de Viena, Morris sabe da proposta de Rudolf Carnap de dividir as investigações sobre linguagem em três campos: a Sintaxe, que trataria da relação lógica entre as expressões; a Semântica, que trataria da relação entre expressões e seus significados; e a Pragmática, que estaria responsável por tratar da relação entre expressões e seus locutores e locutoras. Repare que essa partição ternária lembra muito os três pontos cruciais da significação para Peirce: o signo propriamente, em Carnap destacado pela ideia de que uma área, a Sintaxe, poderia tratá- lo; o significado, ou a que remete o signo, tratado na Semântica; e a pessoa que interpreta o signo, tratado, de acordo com Carnap, pela Pragmática. Essa proximidade entre os dois raciocínios entusiasma Morris. Em 1938, Morris atesta, com Foundations of the theory of signs,7 a doutrina pragmática de Peirce, e defende a interdependência, combatendo a hierarquização dos três campos. Assim, Morris mostra-se fortemente influenciado pelo grupo de empiricistas de Viena, mas, ao mesmo tempo, busca minimizar a força da separação entre os três campos de estudo, o que, consequentemente, afastaria, na prática da pesquisa linguística, os três elementos da tríade pragmática. Entretanto, ainda que esse gesto de Morris seja bastante apropriado ao pensamento de Peirce, é forte a ascendência do empirismo lógico em seu pensamento, fazendo com que sua obra se direcione para outros caminhos, como, por exemplo, para fundamentar a doutrina da ciência unitária defendida pelos empiricistas. Seguindo outro caminho, o filósofo William James aproveitou de Peirce a ideia de refletir no âmbito da filosofia sobre os sinais e seus significados. Ao escrever o ensaio Philosophical conceptions and practical results, em 1898, vinte anos depois de Peirce ter utilizado a palavra pragmatics, James cunha pragmatism e inaugura o que ficou conhecido como Pragmatismo norte-americano. Mas as ideias de James só vieram a causar impacto no século XX, sob a égide de novos filósofos empenhados em definir a filosofia, e também a linguagem e o conhecimento, como uma prática social. A definição mais popular de James é a de verdade como “o que é melhor para nós acreditarmos”. Essa fórmula é bastante polêmica. Desde Platão, que discutiu com certa constância a questão “A que se pode chamar corretamente verdadeiro ou falso?”, a maior parte dos textos filosóficos, especialmente influenciados pela lógica clássica, até então tinha definido verdade como um conceito que está fora das pessoas, pois o que é verdadeiro estaria sempre em conformidade com o mundo. Desse modo, a verdade seria suscetível de ser encontrada e confirmada. Esse conceito de verdade sempre foi extremamente importante para a definição de significado, pois a conceitualização deste último girava em torno da correspondência entre o mundo e a palavra. WilliamJames, por meio de sua reflexão filosófica baseada em componentes pragmáticos, valoriza a pessoa que fala como detentora do próprio significado, já que a verdade, palavra- chave na compreensão da relação entre mundo e linguagem, nada mais é que aquilo que todos e todas nós, inseridos/as numa comunidade, queremos que ela seja. Repare como essa posição de James desloca com grande força o tratamento do significado linguístico, porque impele o debate acerca da verdade para o terreno do imprevisível: as pessoas sociais. No momento em que ele relativiza a noção de verdade, atinge em cheio todo o discurso sobre a possibilidade de conhecimento de fato, pois duvida da própria ideia de confirmação no mundo deste conhecimento. É o norte-americano Willard V. Quine quem inicia um grande empenho em prosseguir as ideias pragmatistas de James e Peirce. Quine, como Morris, também estuda o empirismo lógico do Círculo de Viena, mas abandona de vez o vocabulário logicista e reforça muitas das ideias de Peirce, reformulando-as no que ele chamou de pragmatismo radical. Sua atitude contra a tradição lógica é ousada. Com Quine, podemos aprender que muitos argumentos utilizados pela Semântica lógica para sustentar a exclusão do usuário e da usuária na análise do significado são questionáveis em sua própria condição de argumento válido. Para entendermos o radicalismo da proposta pragmática de Quine, devemos nos deter um pouco na questão da determinação da referência, e procurar perceber como Quine levanta o problema de que determinar o objeto referido por uma expressão é uma questão muito mais séria do que simplesmente encontrá-lo ou não no mundo. Muitas dificuldades podem ser levantadas para se apontar um objeto referido. Quine (1980), defendendo que a indeterminação da referência permanece não importa com qual tipo de expressão referencial estejamos trabalhando, apresenta a situação do uso de expressões demonstrativas. A sentença (5) Esta mesa está quebrada. proferida numa situação similar à ostensão, não deixa de produzir perguntas: o que está sendo referido para o predicado “está quebrada”: a quina da mesa? o pé da mesa? as dobradiças? Se concordamos com Quine, essas perguntas não são realmente problemas referenciais. É perfeitamente aceitável, do ponto de vista de qualquer falante, que permaneça a indeterminação da parte da mesa que está quebrada. A apreensão do objeto referido fica assim fragmentada, e não mais transparente. Com exemplos como este, Quine está defendendo a tese de que a referência é impenetrável, no sentido de que não se pode determinar “com toda certeza” o alcance da expressão referencial no mundo. É a famosa tese da inescrutabilidade da referência, a base de sua visão holista. A inescrutabilidade da referência é a prova cabal de que as discrepâncias entre significações só podem ser teorizadas a partir da sua condição pragmática. Quine (1968) nos explica isso mostrando que um linguista em pesquisa de campo, que ouve um nativo dizer “gavagai” apontando para um coelho que passa, só pode interpretar pragmaticamente esse ato. Nada garante que “gavagai” possa ser traduzido como “coelho” ou “parte de coelho” ou “coelho andando”. Sua tradução só pode ser feita a partir da prática linguística que o produziu. Outros dois estudiosos do Pragmatismo norte-americano que se destacam são Donald Davidson e Richard Rorty. Ambos admitem créditos por suas ideias aos trabalhos dos filósofos James Dewey e L. Wittgenstein. Estes últimos autores acrescentaram uma perspectiva historicista aos estudos pragmáticos norte-americanos, defendendo que as investigações dos fundamentos da linguagem podem ser consideradas uma prática social contemporânea. A Teoria da coerência elaborada por Davidson (1986), e respaldada pelas críticas de Rorty (1994) à tradição analítica8, delineia um arcabouço teórico para tratar a coerência interna, e não a verdade, como o elemento que sustenta qualquer sistema interpretativo. Sua defesa polemiza, portanto, em torno daquela noção clássica de verdade que citamos anteriormente, e contrapõe-se à Teoria da Correspondência, presente na definição clássica de significado. Essa última sustenta que sentenças e coisas no mundo podem ser relacionadas a fim de calcular valores de verdade dessa relação. Para Davidson, se há coerência, pouco importa o valor de verdade dessa correspondência. Dessa forma, o que Davidson quer mostrar é que as atitudes proposicionais de uma pessoa, sua fala, crenças e intenções são verdadeiras porque existe um princípio legítimo que diz que qualquer uma das atitudes proposicionais do/a falante é verdadeira se ela é coerente com o conjunto de atitudes proposicionais desse/a mesmo/a falante. Tomemos um exemplo: (6) A: Estou pensando em assistir ao carnaval em Olinda. Você, que é de lá, sabe se tem muito barulho? B: Não, tem polícia, é tudo bem organizado. A: A polícia não deixa ter muito samba? B: Não, a polícia não deixa as pessoas bagunçarem as ruas. A: Não, não foi isso que eu quis dizer. Eu não estou falando de barulho como bagunça, estou falando de barulho de batida de samba. Esse trecho ilustra o que, entre linguistas, é conhecido como “mal- entendido”, um momento no diálogo em que não há coincidência de interpretação entre participantes. Muitos estudos têm procurado estabelecer padrões para a “resolução” desses chamados mal-entendidos, justificando, por exemplo em (6), que a expressão “barulho” é empregada com diferenças culturais suficientemente marcantes para causar diferença também na interpretação preferencial de tal expressão. Um exemplo deste tipo de ideia de que mal-entendidos são erros e devem ser resolvidos é um texto de M. Dascal (1986) chamado A relevância do mal-entendido9. Não se iludam pelo título. O texto de Dascal procura responder com especial ênfase à questão sobre a relação entre entender e mal-entender. De acordo com esse autor, o mal-entendido relaciona-se com o entender na medida em que ambos estão ligados a camadas de um esquema conversacional que é sempre utilizado pelos interlocutores e interlocutoras na atividade de linguagem. Dascal pretende mostrar que o mal-entendido deve ser tratado como um fenômeno importante no trabalho com a linguagem. Mas ele defende que, de fato, esta relação entre entendimento/mal-entendido é importante na medida em que revela o funcionamento do entendimento. Dessa maneira, como toda dicotomia, esse par não passa de uma hierarquia camuflada, em que o mal-entendido é um “mau funcionamento” do esquema de significação harmônico. Como em toda hierarquia, um elemento se sobrepõe ao outro, e, sem dúvida, neste caso, não é o mal-entendido o membro positivamente valorado do par. Seu enfoque não é para integrar propriamente o mal-entendido ao esquema interpretativo, mas sim criar um mecanismo que o evidencie e ao mesmo tempo permita corrigi-lo. Podemos compreender que Dascal considere “um tanto paradoxal” defender a importância do mal-entendido em sua análise: a relação que o autor defende entre entender e mal-entender não pode efetivamente integrar o segundo elemento ao esquema interpretativo; ao contrário, sua importância “paradoxal” está em ser levado em conta para ser eliminado. Esse texto de Dascal nos serve de exemplo da forma como têm sido tratados os fatos linguísticos que resultam no mal-entendido: intempéries a serem corrigidas, evitadas, impedidas. Quando um autor como Dascal defende que se deve corrigir um mal-entendido, é porque ele pressupõe que a noção de entendimento deve ser mantida intocada. Mas uma análise linguística baseada nos debates de Davidson e Rorty acerca da coerência de sistemas interpretativos ilumina outros ângulos da questão do mal-entendido. Por que pensar em “mal-entendido” se existe apenas coerência interna nos sistemas interpretativos? Duas pessoas de culturas diferentes podem encontrar dificuldades em manter um diálogo produtivo, sim. Mas também pessoas de mesma cultura lidam com situações como a anterior, pois cada uma encaminha suas interpretações de maneira singular. Teorizardessa forma sobre linguagem não tem nada a ver com pensar que cada qual diz o que quer e entende quem puder. A ideia de coerência interna em sistemas linguísticos nos diz, muito mais apropriadamente, que é inadequada a argumentação em torno de “mal- entendido”, pois o processo que acarreta esse fenômeno desconcertante dos diálogos cotidianos é parte coerente de uma interpretação, e não deve ser encarado como “erro” ou “inadequação” de significado. Dessa forma, podemos afirmar que a conversação humana é, para esse grupo de estudos da Pragmática mais do que para qualquer outra, uma prática linguística. Prática entendida como sempre social, e no sentido que colocou James, como “aquilo que é melhor para nós”, no caso, falarmos, praticarmos como linguagem. O Pragmatismo norte-americano oferece, então, bases filosóficas para uma análise linguística que relacione a todo momento signo e falante, antes de qualquer coisa, compondo ambos o que se chama de fenômeno linguístico. 2.2. Atos de fala G. E. Moore assistiu a cursos proferidos por Wittgenstein e definiu o pensamento desse autor como um desvio no desenvolvimento da tradição filosófica (Silva, 1980). O que ele chamou de “desvio” seria um encaminhamento das preocupações dos estudiosos para a linguagem corrente. É Moore quem faz repercutir entre os filósofos da Universidade de Oxford esse redirecionamento. Autores como Gilbert Ryle, John Langshaw Austin e Peter Frederick Strawson seguem as indicações de Moore e de Wittgenstein para examinar a linguagem corrente como fonte de solução para os problemas filosóficos. É o movimento que ficou conhecido como Filosofia Analítica ou Filosofia da Linguagem Ordinária, e que tem como resultado principal para os estudos linguísticos os Estudos de Atos de Fala. Depois do impacto do ensaio de Ryle, Systematic misleading expressions, de 1932, foi aberto o espaço para se debater como as construções gramaticais podem levar a confusões lógicas ineficientes entre filósofos e filósofas. Na esteira dessa abertura, Austin foi quem melhor expôs o problema, discutindo a materialidade e historicidade das palavras. Seus estudos procuraram refletir sobre a possibilidade de uma teoria que explicasse questões, exclamações e sentenças que expressam comandos, desejos e concessões. Os Estudos de Atos de Fala, que tem por base conferências de Austin publicadas postumamente em 1962 sob o título How to do things with words (Austin, 1990), concebem a linguagem como uma atividade construída pelos/as interlocutores/as, ou seja, é impossível discutir linguagem sem considerar o ato de linguagem, o ato de estar falando em si — a linguagem não é assim descrição do mundo, mas ação. Uma das distinções mais importantes feitas por Austin nesta sua defesa dos atos de fala é entre os enunciados performativos, como aqueles que realizam ações porque são ditos, e os enunciados constativos, que realizam uma afirmação, falam de algo. O exemplo abaixo: (7) Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. é um enunciado performativo pois, como os anteriormente citados (3) e (4), “pratica” uma ação enquanto é enunciado. Somente proferindo “Eu te batizo” é que o padre pode batizar alguém, e isso é o que caracteriza a performatividade. Por outro lado, Austin propõe a existência de enunciados constativos, como os representados pelo exemplo abaixo: (8) A mosca caiu na sopa. Neste caso (8), não haveria uma ação praticada, ao contrário, a ação [a mosca cair na sopa] já ocorreu e provavelmente por isso há o enunciado. A análise dos contrastes entre esses tipos de enunciados, o performativo e o constativo, levou Austin a prosseguir no raciocínio e aventar a separação de níveis de ação linguística através de enunciados. Ele propôs chamar atos locucionários aqueles que dizem alguma coisa; atos ilocucionários, aqueles que refletem a posição do/a locutor/a em relação ao que ele/a diz; e atos perlocucionários, aqueles que produzem certos efeitos e consequências sobre os/as alocutários/as, sobre o/a próprio/a locutor/a ou sobre outras pessoas. Esses três níveis atuam simultaneamente no enunciado. Para entender melhor, vejamos uma rápida análise: (9) Eu vou estar em casa hoje. Em (9), o ato locucionário seria o conjunto de sons que se organizam para efetivar um significado referencial e predicativo, quer dizer, para efetivar uma proposição que diz alguma coisa sobre “eu”. O ato ilocucionário é a força que o enunciado produz, que pode ser de pergunta, de afirmação, de promessa etc., o que, neste caso de (9), fica diluído entre uma promessa e uma afirmação, dependendo do contexto em que é enunciado. O ato perlocucionário é o efeito produzido na pessoa que ouve o enunciado: efeito de agrado, pois gostaria de estar mais tempo em casa com quem enunciou (9); ou efeito de ameaça, pois vai se sentir vigiada por aquela presença na casa, e assim por diante. Uma constatação importante é que os atos de fala são muitas vezes de efeito ambíguo, podendo expressar tanto uma promessa quanto uma ameaça, e assim por diante. Para solucionar o dilema, falantes costumam se basear em indícios explicitados no momento da fala, ou amplamente percebidos na relação entre as pessoas que falam. Dessa forma, podemos dizer que os atos de um enunciado ocorrem simultaneamente, são relativos ao contexto de fala e às pessoas que falam, e são interpretáveis com uma amplitude muitas vezes difícil de ser descrita nos limites de uma análise linguística. Nos cursos que deram origem à obra How to do things with words, Austin dedica-se principalmente aos verbos performativos, ligando as realidades tanto verbal quanto não verbal. O grande furor causado inicialmente pela ideia de performatividade tinha a ver com a impossibilidade, ditada pelo próprio Austin, de manter a distinção verdadeiro/falso para esses tipos de enunciados. Em 1958, num encontro de Royaumont, França, um filósofo questionou longamente Austin, argumentando que um enunciado performativo poderia ser sim verdadeiro ou falso no que se relaciona àquele que fala, ou no sentido do próprio ato em si. Austin respondeu de forma insistente: Pode-se dizer de um ato que ele é útil, que é conveniente, que ele é mesmo sensato, não se pode dizer que ele seja true or false. Qualquer que seja ele, tudo que posso dizer é que os enunciados desse tipo são muito mais numerosos e variados do que se acreditava10. Nesse famoso debate, para sustentar a impossibilidade de atribuição de valor de verdade para os enunciados performativos, Austin trata de mostrar como muitos enunciados com aparência de constativos são de fato performativos, como é o caso de “Eu te digo para fechar a porta”. Esse seu argumento desvela uma outra ousadia de Austin: ele próprio jamais sentiu inteira satisfação com a distinção constativo-performativo, e questionou-a, chegando mesmo a atestar a impossibilidade de sustentá-la. “Austin finalmente estabelece que o tal de constativo nada mais era de fato senão um performativo mascarado” (Rajagopalan, 1990, p. 237). Mas os estudos austinianos firmaram-se na Linguística, de fato, pela via da interpretação de John Searle, em Speech acts, de 1969 (Searle, 1981). O trabalho de Searle empenhou-se no sentido de produzir um acabamento nas inúmeras reviravoltas11 que Austin efetiva em sua reflexão sobre a linguagem. Um exemplo disso é a taxonomia para os atos de fala proposta por Searle, que inclusive procurou deixar clara a distinção entre ato ilocucionário e verbo ilocucionário. Searle defendeu que os atos de fala possuem um componente básico: a proposição, o que orientaria, por meio de doze “dimensões de variação”, a sua classificação. Austin, por seu lado, também havia arriscado algumas tentativas taxonômicas, mas percebeu cedo uma certa falta de nitidez para essa classificação12. Outros autores, como Jacques Derrida (1991), procuraram ler a obra de Austin com consequências bem mais radicais e problematizadoras que a organização proposta por Searle. Para autores como Derrida, atos de fala não são uma simples bipartição entreenunciados constativos e enunciados performativos, ou um levantamento de níveis de ação linguística. Austin, para Derrida, expõe a dimensão ética da linguagem, porque leva às últimas consequências a identidade entre dizer e fazer e insiste na presença do ato na linguagem, e não aceita separação entre descrição e ação. Não existe assim diferença entre “dizer” (9) e a ação praticada em (9). Quando uma pessoa emite (9), ela pratica uma ação, e não descreve algo — a saber, “o fato de que vai ficar em casa hoje”. O ato locucionário, aquele que diz algo, é, portanto, uma abstração. Os diferentes níveis não existem senão na proposta de separação. Derrida assim interpreta o conceito de performatividade: O performativo não tem o seu referente (mas aqui esta palavra não convém sem dúvida, e constitui o interesse da descoberta) fora de si ou, em todo o caso, antes de si e face a si. Produz ou transforma uma situação; opera13. No Brasil, Rajagopalan (1990, 1992, 1996, 1999) tem seguido esta linha de inquirição de Derrida desde o início da década de 1990 e oferecido resistência à “leitura oficial” de Austin. A coletânea recém-lançada das traduções de diversos de seus artigos (Rajagopalan, 2010) será sem dúvida mais um estímulo para leituras austinianas críticas e pujantes em língua portuguesa. Assim, os atos de fala são hoje fonte inesgotável de trabalhos na área da Pragmática, mas também na Linguística em geral. Vale lembrar que se vasculharmos outras áreas de estudos linguísticos também encontraremos trabalhos que levam em conta os atos de fala em suas análises, especialmente nos estudos do Direito e na Antropologia. Não se pode dizer propriamente que todos esses trabalhos são seguidores das reflexões austinianas; mas o que de fato ocorreu foi que a popularização dos trabalhos de Austin, por intermédio de leitoras e leitores de Derrida e da divulgação feita por Searle, abriu espaço para a preocupação com uma realidade linguística bastante incômoda: o fato de que aquilo que dizemos tem efeito, altera o sentido e funcionamento linguísticos. No início da década de 1970, até as famosas árvores gerativistas incorporaram os atos de fala em seus galhos. Com o tempo, esse fenômeno se abrandou, mas a leitora e o leitor vão encontrar em muitos trabalhos menções aos Estudos dos Atos de Fala. Na Semântica, na Linguística Textual, na Análise Conversacional, na Análise do Discurso e em muitos outros lugares, para criticar ou reverenciar, para ser fiel a Austin ou para lhe fazer “consertos”, os Estudos de Atos de Fala têm sido tanto instrumento para explicar efeitos da linguagem em uso, como a relevância de uma promessa ou a eficácia de uma ordem, como no caso dos trabalhos de Searle (1981), quanto tem sido fonte de reflexão não somente sobre a prática do uso linguístico, mas principalmente sobre a teorização desta prática, como no caso das reflexões de Rajagopalan (1990, 1992, 1996, 1999, 2010). 2.3. Estudos pragmáticos interdisciplinares Genericamente definido aqui como estudos pragmáticos interdisciplinares, esse grupo de pesquisas pragmáticas se caracteriza por ser um híbrido dos dois grupos anteriores. Híbrido porque podemos encontrar neste grupo autoras e autores que utilizam ambos os métodos descritos anteriormente, acrescentados muitas vezes de renovadas leituras do Pragmatismo norte-americano ou dos Estudos dos Atos de Fala. O que os torna diferentes dos demais é o crédito a teorias filosóficas historicistas e culturalistas que estavam em situação de ausência ou de pouca expressividade nos dois grupos anteriores. Haberland e Mey (2002, p. 1680), no editorial de 25 anos do Journal of Pragmatics, chamam a atenção para o fato de que esses estudos interdisciplinares renovam a atenção ao que antes era considerado “extralinguístico”. Desde quando os estudos marxistas promovidos em todos os campos das chamadas ciências sociais tomaram conta da Europa,14 questões relativas ao papel da linguagem nas relações sociais começaram a ser levantadas com a seriedade e a sistematicidade necessárias para firmar um novo paradigma. O pano de fundo dessas questões era especialmente a luta de classes. Isso quer dizer que, de uma maneira geral, muitos autores e autoras se perguntavam o que significaria a diferença de classe social para as práticas linguísticas entre pessoas. Outras estudiosas e estudiosos, que não seguiram o ímpeto das investigações marxistas, elaboraram perguntas sobre as perguntas que estavam sendo feitas e inauguraram uma linha de inquirição para avaliar como estava sendo tratado o problema das práticas linguísticas no âmbito da Filosofia, da Linguística, da Etnologia e das ciências sociais em geral. O ponto comum é sem dúvida o reconhecimento de que não é possível abordar questões relativas ao uso linguístico sem antes reconhecer a inerente dimensão social da linguagem, já que “a pesquisa em pragmática se vê inevitavelmente envolvida na política da linguagem e na não menos importante política linguística” (Rajagopalan, 2010, p. 40). A reavaliação do conceito de cooperação é um exemplo de resultado dessa linha de inquirição. De acordo com Grice, o introdutor desse conceito, para haver comunicação seria preciso haver cooperação entre usuárias(os). Seria possível inclusive levantar os princípios que regem o espírito cooperativo de comunicação. Grice elaborou, em meados da década de 1960, um quadro de implicaturas conversacionais, ou seja, de regras que deveriam estar presentes no sucesso de todo e qualquer ato de linguagem.15 Jacob L. Mey (1987) é um excelente exemplo de como, a partir da Pragmática, é possível questionar severamente a cooperação comunicativa: ele discute como a noção de cooperação sustenta a ideologia da “parceria social”, pois apresenta o uso da linguagem como uma parceira igualitária e livre entre falantes. Em parceria com Harmut Haberland, Mey (Haberland e Mey, 2002) sustenta que deixar a condição humana de fora das análises impacta negativamente os estudos pragmáticos. Seguindo uma linha crítica como a de Mey, atuais pragmatistas apostam em linguagem como trabalho social, realizado com todos os conflitos consequentes das relações na sociedade. Ou seja, os conflitos das relações entre homens e mulheres, entre professor/a e aluno/a, entre brancos/as e negros/as, ou entre judeus/judias e antissemitas, podem ser identificados linguisticamente. Acredito que você possa perceber facilmente essa linha argumentativa por meio da análise deste mesmo texto que você está lendo. Algumas pessoas, ao lerem um texto como este, sentem um certo desconforto com a presença constante do feminino na caracterização genérica, como “estudiosas e estudiosos da Pragmática”, o que significa a negação de que o masculino possa representar tanto homens quanto mulheres. Outras pessoas talvez não se sintam desconfortáveis, mas ao menos estranham essa insistência. Diante dessas reações se pode perguntar: por que manter o feminino nas caracterizações? Não pode o masculino ser o genérico? Muitos estudos pragmáticos respondem a essas perguntas da seguinte forma: existem pesquisadoras pragmatistas, mulheres que estudam e produzem materiais de qualidade nos estudos introdutórios da Pragmática? Sim; só para citar: Françoise Armengaud (2006), Jenny Thomas (1995), Marcella Bertuccelli-Papi (1993), Brigitte Schlieben-Lange (1987). Referi- las pelo masculino é ser sexista, ou seja, é manter simbolicamente o masculino como representante mais adequado do gênero humano. Em trabalho baseado nas Propostas para evitar o sexismo na linguagem, publicado pelo Instituto da Mulher da Espanha, lemos: Quando se estabelecem as normas linguísticas de uma perspectiva sexista, se prejudica diretamente as mulheres e indiretamente toda a sociedade.16 Assim, pragmatistas dos estudos interdisciplinares, preocupados/as em debater os conflitos sociais que são também linguísticos, devolvem as perguntas com outra: por que não tornar visíveis linguisticamente homens e mulheres? Como aponta Caldas-Coulthard (2007, p. 235), “a linguagem ajuda a definir,depreciar e excluir as mulheres linguisticamente”. O desconforto ou estranhamento produzido por uma ação assertiva (a de se textualizar também o feminino nas caracterizações de estudiosos e estudiosas) é prova de que conflitos entre homens e mulheres podem ser identificados linguisticamente, se se considera a linguagem como um trabalho social pleno de conflitos sociais. Qualquer tentativa de descrição da linguagem que exclua aspectos sociais é considerada inócua e ineficiente para a pesquisa pragmática. A linguagem não é, portanto, meio neutro de transmitir ideias, mas sim constitutiva da realidade social. Não sendo “a realidade social” um conceito abstrato, mas o conjunto de atos repetidos dentro de um sistema regulador, a linguagem é sua parte presente e legitimadora, e deve ser sempre tratada nesses termos. Desde a Escola de Frankfurt, com os trabalhos de Jurgen Habermas (2000) sobre a ação comunicativa às elaborações da desconstrução de Jacques Derrida (1991, 1998), as mais diversas formas de se pensar a linguagem como parte da realidade social, e não seu espelho, estão sendo elaboradas. Essa diversidade, se não ajuda a identificar temas e métodos pré-definidos da Pragmática, pelo menos tem impedido a exclusão das mais variadas formas dos fenômenos da linguagem. Roy Harris (1981), por exemplo, defende que somente levando-se em conta o que é metodicamente excluído na Linguística tradicional podemos desmitificar as nossas ideias sobre as regras de funcionamento da linguagem. Assim, podemos perguntar: como usos inovadores e não dicionarizados de palavras ou mesmo estruturas sintáticas da língua são tratados nas pesquisas? Ou: como a incoerência de ações produzidas por atos de fala são relegadas ao plano do “mal-entendido a ser corrigido”? Essas exclusões, quando debatidas, podem dar conta de problemas que atormentaram linguistas durante muito tempo. Uma garotinha que está na ponta dos pés, com o mato alcançando seus joelhos, diz: (10) Olhe, mãe, vai certinho até minhas dobras!17 o que ela quis dizer? A mãe sabe, ainda que ela nunca tenha ouvido esse uso de “dobras”. E nós que lemos o exemplo também o compreendemos. Uma situação como esta tem sido tomada pela Linguística tradicional como exemplo para a distinção “necessária” entre conhecimento linguístico e conhecimento pragmático, ou conhecimento contextual, conhecimento de mundo etc., resumidamente, a distinção entre conhecimento linguístico e conhecimento extralinguístico. Assim, o problema não é levado a sério, pois reduz a questão a decidir entre a falta de conhecimento linguístico, ou a falta de conhecimento extralinguístico. Para os estudos interdisciplinares atuais, a questão principal é “como a mãe sabe, se esse uso não é devido?”. Ou, com um pouco mais de crítica, “como o uso é indevido se a mãe sabe?”. Sendo o uso da linguagem lugar de conflito, ele situa também negociações, modificações, recusas. Isso torna inevitáveis as inovações, e mais inevitável ainda que para se falar em linguagem tenha-se que falar em fenômenos até então considerados como não linguagem. Esses argumentos enfrentam a constante crítica de não estarem de fato “fazendo Linguística”, mas sociologia, antropologia, ou qualquer outra coisa do gênero. Afinal, em que interessariam problemas que não legitimam a ideia de Linguística como ciência delimitada, com objeto e método pré-definidos? Dizer que linguagem não é puramente convencional implica assumir a impossibilidade de descrever o fenômeno linguístico inteira e sistematicamente. O contra-argumento principal a essa crítica é que a demarcação dos limites entre linguagem e mundo, ou entre linguagem e sociedade é uma tarefa inglória e reducionista. Em outras palavras, pensar que incluir aspectos sociais chamados “extralinguísticos” em uma análise leva ao risco de não se “fazer Linguística”, desvirtuando o campo sagrado do saber sobre a língua, é o mesmo que pensar que aulas de educação sexual vão fazer as pessoas terem mais relações sexuais. É um argumento frágil para não expor a própria frustração de não apreender o objeto de estudo por inteiro, nos moldes do positivismo que abriu nosso século XX e foi inspiração para a fundação da Linguística. Defendendo essas posições, os estudos pragmáticos interdisciplinares seguem procurando ampliar as possibilidades de objetos de estudo de linguistas, retirando a criatividade do nível da mera estatística. 3. DIVULGAÇÃO E IMPACTO ATUAL DA PRAGMÁTICA No final da década de 1970 e início da de 1980, a Pragmática começou a ser levada a sério. Nessa época os estudos que vinham discutindo os componentes pragmáticos da linguagem chamam a atenção e merecem várias publicações, entre periódicos e livros inteiros. Em 1977, inúmeros artigos autoproclamados pragmáticos são enviados para edição no recém-criado Journal of Pragmatics, que abre o primeiro espaço de prestígio para as pesquisas que se preocupavam com o uso linguístico. Em 1978, Jef Verschueren publica a primeira bibliografia comentada sobre Pragmática. Logo em seguida, em 1979, Richard Rorty publica o seu A filosofia e o espelho da natureza, trazendo novamente para as rodas filosóficas as ideias de William James. Dois anos depois, em 1981, inicia-se a edição do Language and Communication, oferecendo aos leitores e leitoras discussões centradas na prática linguística. Nesse mesmo ano, Roy Harris publica The language myth, questionando a ausência sistemática, nos trabalhos linguísticos, de perguntas sobre aspectos criativos da linguagem e questionando explicitamente o mito da “língua como sistema”. No Brasil, Marcelo Dascal edita, em 1982, uma coletânea de textos filosóficos clássicos para a consolidação da Pragmática. Já pelos meados da década de 1980, outros trabalhos com perspectivas completamente diferentes, como de Jacob L. Mey, de 1985, a de Françoise Armengaud, de 1985, e o de Brigitte Schlieben-Lange, de 1987, se acrescentam ao debate em torno da pergunta “qual o objeto da Pragmática?”. O Journal of Pragmatics, que tinha periodicidade trimestral em seu lançamento em 1977, dois anos depois (em 1979) já era bimestral e, dez anos depois, em 1999, passa a publicar números mensais. A virada para o século XXI é, portanto, ainda mais promissora. Em 2007, um novo periódico internacional é inaugurando, o Semantics and Pragmatics. No Brasil, além de capítulos em livros introdutórios bem divulgados, a tradução do livro de Armengaud (2006) lança mais uma obra para a difusão da Pragmática. Está inflamada a área dos estudos pragmáticos. A atividade linguística ganha um espaço cada vez mais frequente na Linguística. Trabalhos discutem a relação dos signos com a prática da linguagem para evidenciar o processo inovador da conversação humana. Para pragmatistas que se dedicam a levantar problemas teóricos do estudo da linguagem, questões sobre o papel da linguagem na formação do sujeito, sobre a noção de unicidade e identidade linguísticas, sobre a imprevisibilidade e a criatividade como propriedades linguísticas, sobre a própria condição do fazer teórico linguístico não podem mais ficar relegadas ao plano das especulações. Conforme apontei na seção anterior, a criatividade é uma constante na realização da linguagem, de tal modo que leva a negociações, modificações, recusas, o que entre sociolinguistas é conhecido como fenômenos de variação e mudança.18 Isso leva à imprevisibilidade no sistema descrito: é impossível descrever e/ou prever todas as estruturas e combinações existentes numa língua. É fundamental perguntar-se como o signo mantém a sua unicidade, como continua sendo o mesmo através de repetições tão diferentes, e como, ao mesmo tempo, continua a ser intercambiável, como se sua unidade fosse fragmentada, fazendo, perdendo e refazendo todo tempo o próprio limite. É definidor perguntar-se o que é identidade linguística, e como ela se produz, tendo em vista que, ao contrário do que muitos/as linguistas pensam, a linguagem não reflete o lugar social de quem fala, mas faz parte desse lugar social: “Identidade não preexisteà linguagem. Falantes têm que marcar suas identidades assídua e repetidamente.” (Cameron, 1995, p. 17). A repetição é necessária para sustentar a identidade, precisamente porque ela não existe fora dos atos de linguagem que a sustentam. Temas como esses, e as posições teóricas e éticas que os acompanham, são polêmicos porque estão sendo construídos para mostrar que o uso linguístico não é, como queria Carnap, um dos componentes da linguagem, mas a única forma produtiva de se pensar os fenômenos linguísticos. Dizer é fazer: a prática social que chamamos linguagem é, para a Pragmática atual, indissociável de suas consequências éticas, sociais, econômicas, culturais. 3.1. Emergências de questões políticas Em disciplinas variadas, aspectos linguísticos são sistematicamente submetidos a exame para valorizar sua condição de constituinte social. As variações sintáticas e fonológicas são estudadas pela sua significação social para os/as falantes. O bilinguismo é analisado como construtor e mantenedor das hierarquias sociais em países colonizados. Os relatos de mulheres são interpretados no que transmitem de suas autoimagens e das imagens que o universo masculino tem delas. O ensino de línguas é analisado à luz dos processos coloniais e de globalização. Para pragmatistas que utilizam dados empíricos em seus trabalhos, questões sobre racismo e sexismo, sobre conflitos socioeconômicos, sobre ética ou sobre relações de poder não são mais consideradas como detalhes surgidos ao acaso em pesquisas centradas na língua pela língua. Ao contrário, a Pragmática está defendendo um quadro de pesquisa sobre, para e com os sujeitos sociais;19 um quadro metodológico que permita aos pesquisadores e pesquisadoras interagirem integralmente com suas informantes e seus informantes, discutir com elas e eles seus interesses e avaliar a repercussão de afirmações conclusivas do trabalho teórico. O diálogo tem sido muito profícuo também para encontrar um novo quadro teórico para os estudos da linguagem. Uma leitura interdisciplinar do alcance dos estudos de atos de fala nos leva aos trabalhos de linguistas envolvidos(as) em explicitar fundamentos ideológicos de decisões teóricas e descritivas e de rever a construção de conceitos na Linguística. Rajagopalan (2010) discute amplamente a agenda ideológica das “leituras oficiais” de Austin e aponta, ironiza a separação entre ensino e doutrinação política: Como sabemos onde o ensino termina e a doutrinação assume o controle? Qualquer tentativa de traçar uma linha de demarcação nítida entre essas duas coisas exigiria que realmente tivéssemos uma distinção clara entre o que é estritamente acadêmico e o que é, também, político- ideológico.20 Pennycook (2007, p. 112), em parceria com Sinfree Makoni e um grupo de linguistas em diálogos Sul-Sul,21 trabalham para mapear os “efeitos de língua”, efeitos de atos de fala sobre língua nas práticas de pesquisa e ensino mundo afora, “as maneiras como as línguas se materializam através dos discursos”. Esses tipos de abordagens, metodológicas e teóricas, impulsionam a emergência de preocupações políticas e apontam o futuro da Pragmática como uma área vigorosa para o debate ideológico da linguagem como ação, representação, espaço. 3.2. Palavras finais No estágio de desenvolvimento atual das razões filosóficas que a formaram, a saber, do Pragmatismo norte-americano, dos Estudos de Atos de Fala e dos atuais estudos interdisciplinares, esta polivalente área da Linguística não deixa de acompanhar e aprofundar todas as implicações teóricas do fato de que as manifestações e empregos da linguagem são paradoxalmente dependentes e resistentes às usuárias e aos usuários. Nem centro nem periferia da linguagem, “falante”, pela óptica da Pragmática, é tanto ator ou atriz da prática linguística quanto participante e reprodutor/a das instabilidades do processo de vida social que coordena essa ação. Espero que o leitor e a leitora possam ter compreendido um pouco de como a Pragmática se consolidou como a ciência do uso linguístico. O campo não se esgota. Muitos ainda são os temas que podem ser abordados num estudo pragmático: tanto fenômenos concretos, quanto a própria teorização do fazer pragmático. No enfoque pragmático, o interesse por cada ponto a ser analisado é sempre um ganho quando não se quer deixar de fora da linguagem quem a faz existir: nós e nossas práticas sociais. REFERÊNCIAS ARMENGAUD, Françoise. A pragmática. Trad. Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. (Col. Na ponta da língua, 8.) AUSTIN, J. L. Quando dizer é fazer. Palavras e ações. Trad. Danilo Marcondes. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. ______. Performativo-constativo. Trad. Paulo Roberto Ottoni. In: OTTONI, Paulo Roberto. Visão performativa da linguagem. Campinas: Editora da Unicamp, 1998. p. 107-144. (Col. Viagens da Voz.) BENVENISTE, Émile. A filosofia analítica e a linguagem. 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The pragmatic perspective: selected papers from the 1985 International Pragmatics Conference. Amsterdam: John Benjamins, 1987. 1. Note que a definição de linguagem inicialmente utilizada pela Pragmática é bastante diversa de outras áreas da Linguística (cf. outros capítulos deste volume). Essa noção inicial de linguagem como o somatório da língua mais a fala é própria do estruturalismo, paradigma de estudos sociais iniciado por Ferdinand de Saussure, e inicialmente divulgado por Roman Jakobson, na Linguística, e Claude Lévi-Strauss, na Antropologia (Dosse, 1993). 2. Immanuel Kant foi um filósofo alemão que viveu entre 1724-1804. Exerceu grande influência no pensamento ocidental, procurando caracterizar os limites, o alcance e o valor da razão. 3. Para maiores detalhes, consultar Rorty (1994), especialmente a Introdução e o Capítulo I. 4. Em versão anterior deste capítulo, identifiquei este grupo como “estudos da comunicação”, mas percebo agora que a diversidade do grupo se articula não em torno das preocupações com a comunicação e interação social como eu imaginava outrora, e sim em função da interdisciplinaridade de suas abordagens. Como observa Rajagopalan (1999, p. 332): “A grande variedade de assuntos tratados é prova de que a Pragmática mantém vínculos com muitas outras disciplinas, assim como muitas das demais subáreas dentro da Linguística”. 5. Para maiores detalhes, consultar os capítulos “Semântica” e “Análise da Conversação”, neste volume. 6. Peirce (1906), citado em Ogden e Richards (1972, p. 280). 7. Citado em Schlieben-Lange (1987). 8. Tradição analítica é entendida aqui no sentido de Rorty (1994) como aquele vocabulário filosófico que se inicia com os trabalhos do filósofo alemão Frege, e que baseia toda a argumentação para a defesa de que significar é representar algo que está fora da linguagem, seja fora porque está no mundo concreto, seja fora porque está no “pensamento” ou “sentimento”, entendidos estes últimos como conceitos abstratos, não ligados a nenhuma prática cotidiana de linguagem. 9. Uma análise detalhada desse texto de Dascal (1986) e uma discussão mais aprofundada sobre as motivações em torno da manutenção de um modelo harmônico de “entendimento” encontram-se em Pinto (1998). 10. Austin, 1998, p. 132. 11. Incluem-se aí os questionamentos de Austin sobre o valor veritativo dos atos de fala, ou mesmo suas dúvidas sobre a distinção performativo-constativo. 12. Para um debate mais aprofundado sobre a questão da taxonomia para os atos de fala, ver Rajagopalan (1992). 13. Derrida, 1991, p. 363. 14. Ver outros detalhes sobre os estudos marxistas da linguagem no capítulo “Análise do Discurso”, neste volume. 15. Para maiores explicações, ver o capítulo “Análise da Conversação”, neste volume. 16. PROMUJER, 1992, s.p. 17. O exemplo é de Harris (1981, p. 152) e a versão em inglês é a que se segue: “Look, mummy, it comes right up to my hinges”. 18. Recomendo que o leitor busque saber mais sobre variação e mudança e repare nas diferenças de enfoque entre a Pragmática e a Sociolinguística. Ver, então, o capítulo “Sociolinguística” (partes I e II) no volume I desta obra. 19. Para maiores detalhes, consultar Cameron et al. (1993). 20. Rajagopalan, 2010, p. 139. 21. Diálogos Sul-Sul são aqueles ocorridos entre pessoas de países localizados ao Sul no mapa tradicional do planeta. São diálogos acadêmicos, econômicos, artísticos etc. O grupo liderado por Makoni e Pennycook (2007) inclui, entre outras, a contribuição do linguista brasileiro Lynn Mario T. Menezes de Souza. 3 ANÁLISE DA CONVERSAÇÃO Ângela Paiva Dionísio 1. PARA INÍCIO DE CONVERSA... Os estudos mais recentes na área da interação verbal definem a linguagem como uma forma de ação conjunta (Clark, 1996; Marcuschi, 1998a), que emerge quando falantes/escritores e ouvintes/leitores realizam ações individuais, coordenadas entre si, fazendo com que tais ações se integrem, formem um conjunto. Usar a linguagem consiste, portanto, em realizar ações individuais e sociais. Estamos sempre fazendo algo com a linguagem. Conversar, por exemplo, é uma atividade social que desempenhamos desde que começamos a falar. No dia a dia, estamos conversando com alguém, convidando alguém para conversar, puxando conversa com um outro. Na década de 1980, em nosso país, foi lançado o primeiro livro nesta área com o título Análise da Conversação, de autoria do professor Luiz Antônio Marcuschi. Segundo esse autor, “a conversação é a primeira das formas de interação a que estamos expostos e provavelmente a única da qual nunca abdicamos pela vida afora”.1 Quando se diz aqui “conversação” está se tratando de todas as formas de “interação verbal” existentes em nossa sociedade, embora alguns estudiosos dessa área a concebam como apenas as interações verbais face a face em que há “simetria de direitos e espontaneidade na realização do evento”.2 Ainda segundo esse autor, é sugestivo, portanto, conceber a conversação como algo mais do que um simples fenômeno de uso da linguagem em que ativa o código. Ela é o exercício prático das potencialidades cognitivas do ser humano em suas relações interpessoais, tornando-se assim um dos melhores testes para a organização e funcionamento da cognição na complexa atividade da comunicação humana. Neste contexto a língua é um dos tantos investimentos, mas não o único, o que permite uma análise de múltiplos fenômenos em seu entrecruzamento.3 A Análise da Conversação (AC) consiste numa abordagem discursiva que teve origem na década de 1960, ligada aos estudos sociológicos, ou, mais especificamente, à Etnometodologia,4 com os trabalhos de Harold Garfinkel, Harvey Sacks, Emanuel Schegloff e Gail Jefferson. Enquanto os sociólogos reconhecem que a conversação nos diz algo sobre a vida social, ao procurarem responder a questões do tipo “como nós conversamos?”, os linguistas da Análise da Conversação perguntam “como a linguagem é estruturada para favorecer a conversação?” e reconhecem que a conversação nos diz algo sobre a natureza da língua como fonte para se fazer a vida social (Eggins e Slade, 1997). Para a Etnometodologia, os analistas devem ser sensíveis aos fenômenos interacionais, observando detalhes e conexões estruturais existentes no processo interativo. Motivados por esses princípios, os estudiosos da AC, nestas três décadas de trabalho,procuram investigar os aspectos essenciais para a organização do texto conversacional. Hilgert (1989) aponta três níveis de enfoque da estrutura conversacional:5 a) macronível: estuda as fases conversacionais, que são abertura, fechamento e parte central, e o tema central e subtemas da conversação; b) nível médio: investiga o turno conversacional, a tomada de turnos, a sequência conversacional, os atos de fala6 e os marcadores conversacionais; c) micronível: analisa os elementos internos do ato de fala, que constituem sua estrutura sintática, lexical, fonológica e prosódia.7 Dentre as razões que justificam o estudo da conversação, podemos apontar: (i) é a prática social mais comum do ser humano; (ii) desempenha um papel privilegiado na construção de identidades sociais e relações interpessoais; (iii) “exige uma enorme coordenação de ações que exorbitam em muito a simples habilidade linguística dos falantes”,8 (iv) permite que se abordem questões envolvendo “a sistematicidade da língua presente em seu uso e a construção das teorias para enfrentar essas questões”.9 Quando estamos conversando, estamos sempre abordando um ou mais de um assunto, um ou mais de um tópico discursivo,10 não importa se os temas são sérios, fundamentais para a vida dos interlocutores, para o bem- estar do país, do mundo ou se estamos “jogando conversa fora”. O importante é a existência de algo e sobre o qual duas pessoas, pelo menos, estão conversando. O tópico discursivo pode ser definido como uma atividade em que há uma certa correspondência de objetivos entre os interlocutores (Fávero, 1992) e em que há um movimento dinâmico da estrutura conversacional (Jubran et al., 1992), fazendo com que o tópico seja um elemento fundamental na constituição do texto oral. A organização tópica compreende duas propriedades básicas, que são a centração e a organicidade. A primeira propriedade diz respeito ao conteúdo, ou seja, diz respeito ao falar-se sobre alguma coisa, enquanto a segunda se refere às relações de interdependência que são estabelecidas entre os tópicos de uma conversação. A conversa espontânea se constrói a cada intervenção dos interlocutores, ou seja, a elaboração e a produção ocorrem, simultaneamente, no mesmo eixo temporal. É uma atividade coprodutiva, que “nunca se pode prever com exatidão em que sentido o parceiro vai orientar a sua intervenção”,11 o que não significa que sua organização seja caótica ou aleatória. As contribuições dos falantes devem demonstrar, de alguma forma, uma relação com o curso da conversa, pois a conversação é uma atividade semântica, ou seja, um processo de produção de sentidos, altamente estruturado e funcionalmente motivado. Durante uma conversação, recorremos frequentemente a enunciados do tipo “isso me lembra”, “por falar em”, “agora”, “mudando de assunto”, “voltando ao assunto” para sinalizar que estamos compartilhando cognitivamente da interação. Ainda empregamos enunciados do tipo “desculpe interromper a conversa de vocês, mas...” quando nos inserimos em interações de que não somos participantes. Marcuschi (1998a) destaca que “uma conversação fluente é aquela em que a passagem de um tópico a outro se dá com naturalidade, mas é muito comum que a passagem de um tópico a outro seja marcada”.12 A determinação e a extensão de um tópico discursivo depende da anuência mútua dos interlocutores. A estrutura tópica serve, portanto, como “fio condutor de organização discursiva”, constituindo um traço fundamental para “definir os processos de entrosamento e colaboração entre os falantes na determinação dos núcleos comuns” e para “demonstrar a forma dinâmica pela qual a conversação se estrutura”.13 Há uma linearidade na construção do tópico discursivo, que garante a organicidade da interação, pois “o conjunto de relevâncias em foco em dado momento vai, paulatinamente, cedendo lugar a outros conjuntos de relevâncias, ligadas a aspectos antes marginais do tópico em desenvolvimento ou a novos conjuntos de mencionáveis que vão sendo introduzidos a partir dos já existentes”.14 Observando os segmentos (1) e (2) a seguir, conclui-se que há conversações em cada um deles e que há um tópico sobre o qual se constrói a interação. No segmento (1), dois interlocutores (Dora e Josué) discutem sobre uma viagem a ser realizada (tópico discursivo) e no segmento (2), os três interlocutores [duas mulheres (M33 e M34) e um homem (H28)] discutem sobre o comportamento feminista-machista de M34 (tópico discursivo). No que diz respeito às condições de produção, é clara a distinção entre as interações. Em (1), fragmento do roteiro do filme Central do Brasil (1998), os interlocutores seguem um planejamento discursivo previamente elaborado, assim como acontece nas novelas, nas peças de teatro, por exemplo. Esse tipo de interação simboliza a conversação artificial. Já em (2), fragmento de uma conversa informal entre pessoas conhecidas, é possível perceber que a interação se dá de forma natural e informal, tendo em vista que é relativamente não planejada, ou seja, a construção da interação vai sendo “planejada e replanejada a cada novo ‘lance’ do jogo da linguagem”.15 O planejamento ocorre no momento da interação, ou seja, a conversação é localmente planejada. Os interlocutores constroem conjuntamente a interação, caracterizando a conversação como uma atividade coprodutiva, tendo em vista que eles estão empenhados na produção do texto falado. É claro que em Central do Brasil os personagens também estão envolvidos na construção de sentido da interação, porém se trata de uma simulação das interações reais, naturais, entre os indivíduos na sociedade em que estão inseridos. O objeto de estudo da AC é justamente a conversação natural, ou seja, aquelas que são produzidas em situações naturais. É importante destacar que a conversação natural apresenta variedades no grau de formalidade. Estabelecendo uma gradação do informal para o formal, podemos observar que há conversações mais informais, como as conversas espontâneas, por exemplo, ao lado de outras bem mais formais, como as conferências acadêmicas. Ao abordar as diferenças entre fala e escrita, Marcuschi (1995) assegura que essas diferenças se dão dentro do “continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação dicotômica de dois pólos opostos”,16 pois as estratégias de formulação textual que determinam o contínuo apresentam variações estruturais, léxicas e sintáticas, entre outras, que são responsáveis pelas semelhanças e diferenças entre fala e escrita. 2. DADOS ORAIS: COMO TRATÁ-LOS? Antes de prosseguirmos com a apresentação e análise de segmentos de textos conversacionais, faz-se necessário comentarmos sobre o sistema de transcrição empregado nas transcrições dos dados orais. Como o corpus da AC deve ser constituído por conversações produzidas em situações naturais, é necessário que tais conversações sejam gravadas ou filmadas, para que o analista, após a sua transcrição e observação, possa comprovar suas análises. Essa transcrição deve ser a mais fiel possível, pois “a análise tem de se concentrar necessariamente na produção dos interlocutores e nunca em interpretações e adaptações do pesquisador. Nesse sentido, por exemplo, representaria um grave equívoco que o pesquisador completasse, com base em sua interpretação, um enunciado incompleto ou incompreensível da gravação ou da transcrição, e submetesse essa versão à análise”.17 No livro Análise da conversação, mencionado anteriormente, é apresentado, no capítulo 2, um sistema de transcrição para textos falados. Uma das observações feitas por Marcuschi (1986) diz respeito ao fato de “não existir a melhor transcrição”.18 De acordo com os objetivos da pesquisa, o analista faz a transcrição assinalando o que é fundamental para suas análises. É necessário, no entanto, que a transcrição seja legível e sem sobrecarga de símbolos complicados. No geral, as normas para transcrição têm seguido as orientações do Projeto de Estudo Coordenado da Norma Urbana Linguística Culta (Projeto NURC).Essas normas estão sintetizadas no Quadro 3.1. Quadro 2.1 Normas para transcrição Ocorrências Sinais Exemplificação 1. Indicação dos falantes os falantes devem ser indicados em linha, com letras ou alguma sigla convencional H28 M33 Doc. Inf. 2. Pausas ... não... isso é besteira... 3. Ênfase MAIÚSCULAS ela comprou um OSSO 4. Alongamento de vogal : (pequeno) :: (médio) ::: (grande) eu não tô querendo é dizer que... é: o eu fico até:: o: tempo todo 5. Silabação - do-minadora 6. Interrogação ? ela é contra a mulher machista... sabia? 7. Segmentos incompreensíveis ou ininteligíveis ( ) (ininteligível) bora gente... tenho aula... ( ) daqui 8. Truncamento de palavras ou desvio sintático / eu... pre/ pretendo comprar 9. Comentário do transcritor (( )) M.H.... é ((rindo)) 10. Citações “ ” “mai Jandira eu vô dizê a Anja agora que ela vai apanhá a profissão de madrinha agora mermo” 11. Superposição de vozes [ H28. é... existe... [você ( ) do homem... M33. [pera aí... você acha... pera aí... pera aí 12. Simultaneidade de vozes [[ M33. [[mas eu garanto que muita coisa H28. [[eu acho eu acho é a autoridade 13. Ortografia tô, tá, vô, ahã, mhm A AC analisa materiais empíricos, orais, contextuais, considerando também as realizações entonacionais e o uso de gestos ocorridos durante o processamento da conversação. Expressões faciais, entonações específicas, um sorriso, um olhar ou um maneio de cabeça corroboram com a construção do sentido do enunciado linguístico que está sendo proferido, ou, ainda, podem substituir um enunciado linguístico no processo interacional face a face. As conversas espontâneas que construímos cotidianamente estão repletas dessa mistura do verbal e do não verbal. Steinberg (1988) sistematiza os recursos não verbais normalmente empregados pelos falantes de uma dada língua numa conversa em: a) paralinguagem: sons emitidos pelo aparelho fonador, mas que não fazem parte do sistema sonoro da língua usada; b) cinésica: movimentos do corpo como gestos, postura, expressão facial, olhar e riso; c) proxêmica: a distância mantida entre os interlocutores; d) tacêsica: o uso de toques durante a interação; e) silêncio: a ausência de construções linguísticas e de recursos da paralinguagem.19 Steinberg (1988) diz que a paralinguagem é “uma espécie de modificação do aparelho fonador, ou mesmo a ausência de atividade desse aparelho, incluindo nesse âmbito todos os sons e ruídos não linguísticos, tais como assobios, sons onomatopaicos, altura exagerada”.20 Quanto aos gestos, os audíveis estão no campo da paralinguagem, enquanto os visuais podem ser analisados no âmbito da cinésica. Para Steinberg, os atos paralinguísticos e cinésicos desempenham funções variadas no curso da interação e de acordo com essas funções podem ser classificados como lexicais (episódios não verbais com significado próprio, como “Shhh” para indicar “fique quieto”); descritivos (“suplementam o significado do diálogo através dos ouvidos e dos olhos”); reforçadores (“reforçam ou enfatizam o ato verbal”); embelezadores (movimenta-se o corpo todo para realçar a fala); e acidentais (aqueles que ocorrem por acaso, sem uma função semântica). Dessa forma, a interação verbal se encontra estruturada em uma estrutura tríplice — linguagem, paralinguagem e cinésica21 —, exigindo dessa forma dos analistas da oralidade uma postura interdisciplinar, uma vez que esses elementos estruturam a sociedade e são por ela estruturados. Falamos, portanto, com a voz e com o corpo. Por isso, o sistema de transcrição deve contemplar informações que assegurem o registro desses aspectos. Para exemplificar o que estamos afirmando, vejamos alguns fragmentos de conversas espontâneas, examinando a inter-relação entre atos linguísticos, paralinguísticos e cinésicos e verificando algumas sequências em que esses atos coocorrem. Os exemplos de (3) a (6) foram extraídos de Dionísio (1998) e nos mostram como são construídas indicações de pessoas, de objetos, de paisagens presentes no momento da interação: 3. COMO A CONVERSA SE ORGANIZA? Desde pequenos estamos convivendo com uma regra básica da AC, pois os mais velhos nos ensinam que devemos falar um de cada vez. Esperar a vez para falar significa esperar a ocorrência de um lugar relevante para a transição (LRT), ou seja, esperar por marcas como pausas, hesitações, entonações descendentes, uso de marcadores etc., na fala do nosso interlocutor. Um falante pode entregar o direito de fala a um outro por meio de sinais que deixem claro que ele terminou de falar ou por meio de um convite ao outro para falar. Em outras palavras, manda a regra que só após a conclusão de sua “fala” (de seu “turno”), o outro interlocutor deve assumir a posição de falante. Mas basta pensarmos num grupo de pelo menos três amigos, conversando entre si, durante um encontro descontraído ou, ainda, nas salas de aula quando o professor faz uma pergunta à turma e vários alunos respondem ao mesmo tempo, para percebermos que esta regra não é seguida. Frequentemente, em sala de aula, estamos dizendo “vocês falaram ao mesmo tempo e eu não entendi nada” ou “um de cada vez”. Por outro lado, somos capazes de participarmos de uma interação com várias pessoas e nos entendermos perfeitamente. A falta de organização nesse tipo de interação é apenas aparente, pois a harmonia e a organização nas conversações são muito relativas. O primeiro trabalho sobre a organização de turnos conversacionais foi o de Sacks, Schegloff e Jefferson (1974). Para eles, a noção de turno engloba dois sentidos: (i) o de distribuição de turno, ou seja, qualquer locutor tem o direito de tomar a palavra e (ii) o de unidade construcional, isto é, a fala elaborada no momento em que um indivíduo toma a palavra e se torna um falante. Com base nesses princípios, pode-se definir turno conversacional como cada intervenção dos interlocutores formada pelo menos por uma unidade construcional. Marcuschi (1986) concebe turno como “a produção de um falante enquanto ele está com a palavra, incluindo a possibilidade de silêncio”, mas não considera turno como “a produção do ouvinte durante a fala de alguém, embora isto tenha repercussão sobre o que fala”.22 No exemplo (2), já apresentado, temos 22 turnos conversacionais, distribuídos entre os três interlocutores. A interação é constituída por meio de uma relação simétrica, ou seja, todos os falantes possuem o mesmo direito de fala. Os turnos podem ser identificados de acordo com os falantes no esquema a seguir: Os turnos, quanto ao desenvolvimento do tópico na sequência conversacional, podem ser nucleares e inseridos. Os nucleares contribuem substancialmente para o desenvolvimento do tópico discursivo, pois exigem que as intervenções subsequentes estejam relacionadas com o turno anterior. No exemplo (2), os turnos 02, 03, 07, 08, 11, 12, 13, 14, 15, 17, 18, 19, 20 e 21 são nucleares porque estão dando andamento ao tópico (comportamento feminista-machista de M34), enquanto os turnos 04, 05, 06, 09, 10 e 16 são turnos inseridos por serem produções marginais em relação ao desenvolvimento tópico da conversa, apesar de colaborarem para esse desenvolvimento, exercendo sempre uma função meramente interacional. Dependendo do papel desempenhado por cada inserção no desenrolar da conversa, os turnos inseridos podem ser classificados como turno de esclarecimento, turno de avaliação, turno de concordância, turno de discordância, entre outros. Observando os exemplos (2) e (7), podemos constatar que os turnos inseridos também sofrem a influência do tipo de interação, pois no exemplo (2), por se tratar de uma conversa espontânea, os interlocutores procuram marcar suas posições não só por meio de concordâncias (turnos 04, 05), mas também de discordâncias (turnos 06, 16), por exemplo. Já no exemplo (7) a seguir, por se tratar de uma entrevista, a postura da documentadora é predominantemente de concordâncias, com apenas uma realização de esclarecimento, com a função de testagem das informações dadas. A transcrição a seguir comprovaessa classificação: Outro aspecto relevante na organização das conversas é o fato de ser constituída pelas estratégias de gestão de turno que dizem respeito à troca de falantes, através de passagem de turno e de assalto ao turno, e à sustentação da fala. No primeiro caso, “a troca de falantes se processa segundo a presença (passagem) ou ausência (assalto) de pistas de LRT”.23 Essa troca de turno pode ser requerida pelo falante, quando este entrega o turno de forma explícita, ou ainda pode ser consentida, isto é, quando a entrega é implícita. Já os assaltos ao turno constituem uma espécie de violação de uma regra básica da conversa, que é falar um de cada vez. Assim, os autores concebem essa questão da seguinte forma: “no assalto, um dos interlocutores invade o turno do outro, sem que a sua intervenção tenha sido solicitada ou consentida; em termos funcionais, verifica-se que a transição de um turno a outro ocorre sem que haja pistas de LRT. O assalto pode ocorrer com ou sem deixa”.24 O tipo de assalto com deixa é aquele que se dá durante hesitações, alongamentos, entonação descendente, pausas realizadas pelo falante que possui o turno. O assalto sem deixa caracteriza- se por intervenções bruscas, provocando sobreposição de vozes. Para Marcuschi (1986), a ocorrência de sobreposições e de falas simultâneas pode provocar um “colapso” na interação. Talvez seja esse conhecimento prévio sobre o funcionamento da estrutura da interação que faz com que um dos interlocutores em sobreposição desista do turno e deixe o outro assumi- lo, como se verifica no exemplo (2), nas linhas 13 e 14: Retomando do exemplo (2), no trecho das linhas 16 a 33, constatamos quatro ocorrências de troca de falantes, decorrentes de assalto ao turno. Nas linhas 19 e 20, M33 assalta o turno de H28, durante uma pausa, e nas linhas 23 e 24 o assalto se dá durante a realização provável de um sinal prosódico, o que caracteriza em ambos os casos um assalto com deixa. Já nas demais ocorrências de assalto ao turno (linhas 25 e 26, 29 e 30), as tomadas se dão de forma mais brusca, tendo em vista que não há pistas de LRT, caracterizando o assalto sem deixa. Nos contextos de assalto com deixa, podem ser geradas as seguintes situações: (i) o interlocutor assaltado abandona o turno e o interlocutor assaltante fica com o turno, como em (7), quando a informante assaltou o turno da documentadora durante um alongamento: (ii) o interlocutor assaltado não abandona o turno e continua a comandar a interação, como em (5), pois P01 em sobreposição ao turno de H05, durante uma pausa, faz uma solicitação de esclarecimento, mas H05 se mantém no turno e ignora a intervenção de sua interlocutora: (iii) o interlocutor assaltado perde o turno, mas o recupera em seguida, como no exemplo (2), já que H28 não permite que M33 se mantenha com o turno de que ela tentou tomar posse: A segunda estratégia de gestão de turnos — a sustentação da fala — é, na realidade, uma tentativa empregada pelo falante para garantir a posse do turno, assinalando à sua audiência o desejo de manter-se na conduta do diálogo. Para isso, recorre aos marcadores conversacionais, aos alongamentos, às repetições e à elevação da voz. Ainda no exemplo (2), podemos verificar que no turno 17, linhas 21-23, H28 realiza quatro pausas e usa um marcador conversacional (“veja bem”) para assegurar seu turno, enquanto no turno 20, linhas 28-29, por exemplo, a falante M33 mantém seu direito de fala recorrendo a pausas e alongamento de vogal (é:). No caso das entrevistas formais, a exemplo das realizadas pelo NURC, apesar de consistir num evento conversacional, que apresenta uma estrutura básica pergunta e resposta, unidade mínima dialógica, semelhante à da conversa espontânea, a elaboração do turno conversacional apresenta uma distinção nítida: os turnos que correspondem às respostas tendem a ser longos e não sofrem intervenção do interlocutor no sentido de tomar o turno. No exemplo (8), o turno do documentador contém 20 palavras, enquanto o do informante tem 313. Apesar das pausas, dos truncamentos, das hesitações, dos alongamentos, ou seja, das várias deixas, o documentador não toma o turno, pois o seu papel era meramente conduzir a interação, numa relação assimétrica. Nem sempre, porém, é essa a estrutura da entrevista, pois, dependendo do processo de interação instaurado entre os interlocutores, tal estrutura pode consistir numa estratégia de perguntas e respostas, com turnos cujas dimensões estejam mais próximas da conversa espontânea. No exemplo (9), que se encontra a seguir, trecho de uma entrevista com uma empregada doméstica, percebe-se que a entrevistada (S) limita-se a responder exatamente o que lhe é perguntado, com frases curtas, sem demonstrar interesse em desenvolver mais exaustivamente a pergunta que lhe foi endereçada. A exceção dessa postura se encontra nas linhas de 08 a 14, quando a entrevistada procura esclarecer sobre o tempo em que ela acompanha as crianças. No entanto, a postura assimétrica permanece, pois o tópico discursivo é proposto pela entrevistadora (I), que conduz a interação, sem permitir que haja um desvio do tema da entrevista. 4. COMO SE ORGANIZAM AS SEQUÊNCIAS NA CONVERSAÇÃO? Pergunta (P) e resposta (R) compõem a unidade fundamental da organização conversacional, ou par adjacente, na terminologia de Sacks, Schegloff e Jefferson.25 Mas este par adjacente pode ter “várias formas de realização; a P pode ser na forma interrogativa direta, mais comum, ou na indireta”, e as respostas também podem “ser na interrogativa”.26 Urbano et al. (1993) abordam essencialmente dois tipos de perguntas: perguntas fechadas (sim/não) e perguntas abertas (sobre algo). O primeiro tipo caracteriza-se como um enunciado, que conduz para uma resposta que, em princípio, se constitui de um sim ou de um não. A repetição de verbo da pergunta, o uso de back-channel, o uso de certos advérbios e o emprego do verbo topicalizado em negativas são alguns recursos que substituem o sim/não nesse tipo de pergunta. As perguntas fechadas têm carga semântica e as respostas consistem apenas numa confirmação ou não do que foi questionado. O segundo tipo, as perguntas abertas, contêm marcadores interrogativos e as respostas devem estar compatíveis com a circunstância expressa no marcador. Esses autores lembram ainda que, ao se realizar um conjunto de perguntas simbolizando um todo, a tendência é a elaboração de respostas truncadas, de respostas à última pergunta ou numa ordem preferencial do interlocutor. Apresentaremos um fragmento de uma entrevista que tinha por objetivo verificar como homens e mulheres caracterizam a própria fala e a fala do outro: Analisando o exemplo (10), podemos observar que as perguntas abertas são introduzidas pelos pronomes como, o que, que, por que, alguma e o advérbio de tempo quando, que tendem a orientar o discurso informante quanto à autodescrição da fala. Das quatro ocorrências de perguntas fechadas, verificamos que as duas primeiras têm uma função meramente interacional, pois parecem desnecessárias do ponto de vista informacional, já que as respostas dadas às perguntas abertas que as antecedem são claras e objetivas. A hipótese da função interacional justifica-se, por um lado, pelo término do turno do entrevistado, demonstrando que não deseja prolongar sua resposta e, por outro lado, pela insegurança da entrevistadora em conduzir a interação, ao parafrasear as respostas do informante. 5. É BOM FALAR SOBRE MARCADORES CONVERSACIONAIS, NÃO É? Observando as conversações apresentadas neste capítulo, podemos perceber a ocorrência de alguns recursos que são traços característicos da fala, como em (7), por exemplo, em que a informante finaliza seus turnos com o emprego de “não é?”, “entendeu?”, procurando interagir com sua interlocutora. Esta, por sua vez, participa da conversação empregando expressões não lexicalizadas (“uhrum”) e expressões estereotipadas sinalizadoras de convergência (“é exato”, “sim”, “certo”). Esses recursos são chamados de marcadoresconversacionais (MC). Como o texto oral é planejado e verbalizado ao mesmo tempo, os interlocutores podem empregar MCs em qualquer ponto da interação, desempenhando funções conversacionais e sintáticas. Os falantes podem inserir MCs no início, no meio ou no fim de turnos ou de unidades comunicativas (UC). São denominadas de unidades comunicativas as porções informacionais, ou seja, os enunciados conversacionais, que coincidem ou não com turnos, orações ou atos de fala. Segundo Marcuschi (1989), “tal como a frase na escrita, a UC no texto oral é um ponto de referência dos mais diversos fenômenos linguísticos”.27 No exemplo (2), o falante H28, no turno 17, emprega dois MCs: “veja bem” no início da UC — “veja bem... você acha assim o machismo do homem...” — e “tá entendendo?” no final do seu turno, que também coincide com o término da UC — “você acha assim o machismo do homem... mas você tem que analisar assim a mulher pode ser machista pelo lado dela tá entendendo?”. Com funções conversacionais, os MCs são produzidos pelos falantes (aqueles que servem para dar tempo à organização do pensamento, sustentar o turno, monitorar o ouvinte, corrigir-se, reorganizar e reorientar o discurso) e pelos ouvintes (aqueles que são produzidos durante o turno do falante e que servem para orientar o falante e monitorá-lo quanto à recepção, por meio de sinais de convergência, como “sim”, “claro”, “mhm”, “ah sim”; de indagação, como “será?”, “mesmo?”, “o quê?”, “é?”; e de divergência, como “duvido”, “não”, “peraí”, “calma”). Os interlocutores podem recorrer a marcadores conversacionais linguísticos (verbais e prosódicos) e paralinguísticos (não verbais). Os MCs verbais, conjunto de partículas, palavras, sintagmas, expressões estereotipadas e orações ou ainda expressões não lexicadas (“ahã”, “uhrum”, “ué”) “não contribuem propriamente com informações novas para o desenvolvimento do tópico, mas situam-no no contexto geral, particular ou pessoal da conversação”.28 Os MCs prosódicos (chamados também de suprassegmentais), apesar de sua natureza linguística, são de caráter não verbal (os contornos entonacionais, as pausas, o tom de voz, o ritmo, a velocidade, os alongamentos de vogais etc.). Dentre eles se destacam as pausas e o tom de voz como sendo os mais importantes para as análises das conversações. Já os MCs paralinguísticos ou não verbais estabelecem, mantêm e regulam a interação, por meio de risos, olhares, gestos, meneios de cabeça. Quanto às formas em que se apresentam os MCs linguísticos, eles podem ser divididos em quatro grupos: (i) MCs simples: realizam-se com um só item lexical (“mas”, “éh”, “olha”, “exatamente”, “agora”, “aí”, “então” etc.); (ii) MCs compostos: realizam-se como sintagmas, geralmente estereotipados (“sim mas”, “bom mas aí”, “e então”, “tudo bem mas” etc.); (iii) MCs oracionais: realizam-se como pequenas orações (“eu acho que”, “não mas sabe”, “sim mas me diga”, “então eu acho que”, “porque eu acho que” etc.); (iv) MCs prosódicos: realizam-se como recursos prosódicos (entonação, pausa, hesitação, tom de voz) e geralmente acompanhados por algum MC verbal. 6. COMO SE CONSTRÓI A COMPREENSÃO NO TEXTO FALADO? De acordo com Marcuschi (1998b), “admite-se, hoje, que a compreensão, na interação verbal face a face, resulta de um projeto conjunto de interlocutores em atividades colaborativas e coordenadas de coprodução de sentido e não de uma simples interpretação semântica de enunciados proferidos”.29 É importante salientar que colaboração não implica consenso ou concordância, mas apenas a realização de ações coordenadas.30 Quando dois ou mais indivíduos participam de uma conversação, eles estão coordenando conteúdos e ações, ou seja, os interlocutores fazem um esforço mútuo para construir sentido, isto é, para construir um texto coerente. O sucesso de uma interação face a face está, portanto, atrelado ao processo interacional estabelecido entre os participantes, uma vez que esses se envolvem e refletem esse envolvimento num esforço coletivo, buscando a construção de sentidos. O exemplo (2) exemplifica claramente a distinção entre colaboração e concordância. Os três interlocutores realizam ações colaborativas durante toda a interação, ou seja, todos estão engajados no processo interacional. No entanto, percebe-se que não há uma concordância entre eles: se há um consenso entre M33 e H28, quanto ao fato de considerarem M34 uma dominadora, uma feminista machista, não há consenso entre eles (M33 e H28) e M34, que não concorda com as características que lhe são atribuídas. Marcuschi (1998b) alerta o analista de interações verbais face a face para o fato de que “não lhe cabe apenas identificar e admitir que há compreensão. Ele deve dar conta da seguinte questão: como é que os participantes de uma interação resolvem suas estratégias e processos de compreensão de forma tão competente?”.31 O próprio autor apresenta algumas atividades de compreensão na interação verbal, a partir da análise de materiais do corpus do NURC-SP. Dentre as atividades propostas, serão destacadas, neste artigo: a) a negociação; b) a construção de um foco comum; c) a demonstração de (des)interesse e (não )partilhamento; d) a existência e diversidade de expectativas e as marcas de atenção. 6.1. Estratégia 1: negociação A negociação é “aspecto central para a produção de sentido na interação verbal enquanto projeto conjunto”.32 No exemplo (11), citado a seguir, nas linhas 121 a 128, a troca do fonema /p/ pelo /t/ provocou um estranhamento quanto ao nome do veículo — uma Pampa —, já que havia sido entendido por M06 como “tampa”. O riso (linhas 127 e 130) é resultado da inadequação terminológica, pois o nome de um objeto (tampa), associado a um meio de transporte não parece ser coerente para M06. M06 procura checar a sua compreensão do termo e M22 colabora repetindo o nome do carro, enfatizando a sílaba que desfaz o equívoco (PAMpa). Marcuschi (1998b) ainda nos chama a atenção para o fato de que “nem tudo é negociável. Por exemplo, não negociamos crenças nem convicções, o que tem consequências por vezes relevantes na continuidade de um tópico e pode ditar sua ‘morte’”.33 O exemplo (12), fragmento de uma interação longa, na qual H05 apresentava as linhas divisórias do lote de terra da sua família, demonstra que a atitude encontrada por H05 foi abortar o tópico, mediante a não compreensão de P01 sobre as áreas limítrofes. H05 discorda severamente da conclusão (linhas 638-639) a que P01 havia chegado. P01 percebe que seu interlocutor ficou ofendido e brinca com seu erro (linha 640). Tenta voltar à questão (linha 642), mas H05 muda de tópico, encerrando o assunto (linha 643). P01 reconhece que não há condições de consenso e aceita construir um novo tópico (linha 644). 6.2. Estratégia 2: construção de um foco comum Uma outra atividade de compreensão na interação verbal diz respeito à construção de um foco comum. Como argumenta Marcuschi, “numa interação face a face, a base do sucesso das trocas é a presença de interesses comuns e referentes partilhados, previamente existentes ou construídos no processo de interação”.34 Nos exemplos (7), (8), (9) e (10), que contêm trechos de entrevistas, pode-se observar que, em (7) e (8), entrevistador e entrevistado entram em sintonia na configuração de um foco comum, pois os tópicos sugeridos são desenvolvidos pelos entrevistados com interesse e atenção. Já em (9) e (10), percebe-se que os entrevistadores têm um esforço maior para conduzir as interações, pois as respostas dos entrevistados, apesar de se manterem no tópico focalizado, são mais sucintas e não revelam interesse em informar além do mínimo solicitado nas perguntas. A construção desta sintonia referencial35 nem sempre é possível, exigindo de um dos interlocutores um árduo trabalho. No exemplo (12), é possível observar o esforço de ambos os interlocutores, buscando construírem o mapa das terras de H05. Apesar de os interlocutores terem interesses comuns (a construção do mapa das terras de H05) e de P01, durante a interação,demonstrar concordância ou procurar checar suas dúvidas quanto às informações dadas por H05, não foram construídos referentes partilhados no processo da interação, pois a pergunta “então eu posso dizê que a linha é esse caminho? [não?” (linha 637) revela a falta de sintonia referencial. 6.3. Estratégia 3: demonstração de (des)interesse e (não-)partilhamento A terceira atividade de compreensão apresentada por Marcuschi (1998b) é a demonstração de (des)interesse e (não-)partilhamento. No exemplo (5), verifica-se que o não-partilhamento das informações vai se desfazendo na medida em que a interação progride. No exemplo (10), o informante afirma que se fiscaliza mais ao falar quando está na companhia da documentadora. Em seguida, ela pergunta o porquê dessa fiscalização e ao mesmo tempo propõe uma razão: serem professoras de língua portuguesa. O argumento proposto é aceito imediatamente por seu interlocutor (linha 22). Há entre os interlocutores interesses comuns e conhecimento partilhado. Nem sempre os interlocutores possuem os mesmos conhecimentos ou possuem os mesmos interesses sobre os tópicos. Para ilustrar esta afirmação, será apresentado a seguir um trecho analisado por Marcuschi (1998b), que exemplifica uma situação típica de desinteresse pelo tópico em andamento. 36 Pode ser constatada, neste exemplo (13), a construção de uma relação de não colaboração tópica. Os interlocutores discorrem em faixas diferentes (L1 na faixa séria e L2 na faixa não séria). L2 toma no sentido literal a analogia que L1 propõe: “boy barato”-“rei do oeste” e provoca em L1 uma reação de desagrado (linha 675, “não tem oeste aqui”). A resposta de L2 revela que ele estava entendendo, apenas não tinha interesse no assunto. Marcuschi (1998b) salienta que “trocas deste tipo são utilizadas intencionalmente para produzir humor ou então construir piadas ou chistes, pois mostram interlocutores jogando em campos diversos, sem sintonia cognitiva”.37 6.4. Estratégia 4: existência e diversidade de expectativas Um encontro entre pelo menos dois interlocutores gera expectativas muito diversificadas, as quais estão intimamente relacionadas ao contexto, às condições em que o encontro ocorre, ao conhecimento partilhado, às diferentes perspectivas que os interlocutores possuem. Em situações interativas, os interlocutores sempre têm expectativas prévias (às vezes, chegamos até a ensaiar o que vamos dizer, como vamos dizer, simulamos a resposta do nosso interlocutor; e quase sempre esses ensaios não servem para nada no momento real da interação). Por ter expectativas prévias, o falante sempre procura estratégias para fazer com que elas ocorram, bem como fica atento à reação do seu interlocutor. A interação é, pois, um “jogo com regras dinamicamente escolhidas, por isso é um jogo perigoso: nem sempre se escolhe a regra certa”.38 Nos fragmentos de entrevistas dos exemplos (8) e (10), verificamos que, em (8), documentador e informante parecem ter selecionado bem as regras do jogo, já que a informante constrói o seu turno enumerando as partes da carne que ela mais gosta de ter em casa, assinalando no turno aquela de que mais gosta. Já no exemplo (10), o informante deixa transparecer um certo espanto com a pergunta da documentadora, através do emprego de uma interjeição, seguida de uma pausa e um riso nervoso (linha 02: “eita... ((ri demonstrando nervosismo )))”. 6.5. Estratégia 5: marcas de atenção Durante a construção de uma conversação, são de importância fundamental os sinais enviados pelos interlocutores, pois dependendo desta sinalização é possível avaliar se está havendo uma boa sincronia ou uma má sincronia entre os interlocutores. A boa sincronia revela maior atenção pelo tópico em andamento e a má sincronia revela problemas no processo interacional, que vão desde a não aceitação do tópico até a não compreensão do mesmo. O uso de marcadores conversacionais, o uso de alguns traços prosódicos (entonação, mudança de altura de som, alongamentos de vogais etc.), a realização de alguns gestos, de expressões faciais e de risos são marcas que informam ao falante sobre a compreensão do que está sendo dito e sobre o envolvimento dos seus interlocutores na interação. Observando alguns exemplos analisados previamente neste artigo, verificamos as marcas de sintonia entre os interlocutores, como o uso de marcadores conversacionais, nos exemplos (5) e (7), de alongamentos nos exemplos (10) e (12), e de gestos no exemplo (5). Apesar do caráter sucinto dessas análises, é possível afirmar que muito do que se compreende numa interação social resulta da relação construída entre os interlocutores e da contextualização da própria interação. Não se quer com isso descartar a importância da linguagem verbal, mas apenas salientar (i) que ao falarmos não nos utilizamos apenas de uma diversidade de linguagens, mas colocamos em conexão indivíduos, linguagens, cultura e sociedade e que (ii) gestos, expressões faciais e tons de voz são, muitas vezes, mais informativos do que construções linguísticas, visto que a “gramática é um veículo pobre para exprimir os sutis padrões de emoção”.39 7. E PARA ENCERRAR A CONVERSA... No Brasil, a Análise da Conversação consiste numa linha de pesquisa que vem sendo praticada sistematicamente e conta com uma produção editorial que abrange transcrições de materiais do corpus do Projeto de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta (NURC); análises de textos orais realizadas por pesquisadores brasileiros sobre diversos temas da AC; gramáticas de consulta referentes ao português falado, utilizando o corpus dos NURCs; além de dissertações e teses apresentadas nos programas de pós-graduação das universidades brasileiras. Após a bibliografia, o leitor poderá encontrar enumeradas as publicações referentes às transcrições de textos orais do corpus do NURC e aos volumes referentes à gramática do português falado. Uma outra conversa que poderá ser iniciada a partir de agora será entre você leitor e as referências bibliográficas que foram aqui apresentadas. Certamente, muitos assuntos virão à tona! REFERÊNCIAS BRAIT, B. O processo interacional. In: PRETI, D. (Org.). 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HILGERT, J. G. (Org.). Passo Fundo/Porto Alegre: Ediupf/Universitária/UFRGS, v. I, 1997. PUBLICAÇÕES DE GRAMÁTICAS DO PORTUGUÊS FALADO Gramática do português falado. A ordem. CASTILHO, A. T. (Org.). Campinas: Unicamp/Fapesp, v. I, 1990. Gramática do português falado. Níveis de análises linguísticas. ILARI, R. (Org.). Campinas: Unicamp/Fapesp, v. II, 1992. Gramática do português falado. As abordagens. CASTILHO, A. T. (Org.). Campinas: Unicamp/Fapesp, v. III, 1993. Gramática do português falado. Estudos descritivos. CASTILHO, M. (Org.). Campinas: Unicamp/Fapesp, v. IV, 1996. Gramática do português falado. Convergências. KATO, M. (Org.). Campinas: Unicamp/Fapesp, v. V, 1996. Gramática do português falado. KOCH, I. (Org.). Campinas: Unicamp/Fapesp, v. VI, 1996. 1. Marcuschi, L. A. Análise da conversação. São Paulo: Ática, 1986, p. 14. 2. Marcuschi, L. A. Perspectivas dos estudos em interação social na Linguística brasileira dos anos 90. Recife, 1998a, p. 7. (Mimeografado.) 3. Ibidem, p. 6. 4. A Etnometodologia “tem como objeto de estudo (a) as atividades práticas do cotidiano, o que implica (b) o caráter empírico desse estudo, além disso, supõe (c) um princípio de organização na realização dessas atividades pelos membros do grupo social”. Hilgert, J. G. A paráfrase: um procedimento de constituição do diálogo. Tese de doutorado. PUC-SP, 1989, p. 80. 5. A análise desses níveis se encontra diluída no desenrolar deste capítulo. Em função disso, faremos agora apenas uma apresentação mais geral. 6. Ver o conceito de atos de fala no capítulo “Pragmática”, neste mesmo volume. 7. Hilgert, J. G., A paráfrase, op. cit. 8. Marcuschi, L. A. Análise da conversação, op. cit., p. 5. 9. Marcuschi, L. A. Perspectivas dos estudos em interação social na Linguística brasileira dos anos 90, op. cit., p. 6. 10. Uma das dificuldades encontradas pelos analistas da conversação se refere à definição do termo tópico discursivo, tendo em vista o “caráter vago e amplo do significado de assunto, e do consequente grau de subjetividade que preside a própria compreensão dessa noção”; (...) e o “fato de que a associação de assunto e tema torna a explicação circular, na medida em que o conceito de tema carece, igualmente, de uma definição precisa” (Jubran, C. C. A. S. et al. Organização tópica da conversação. In: Ilari, R. (org.). Gramática do português falado. Campinas: Editora da Unicamp, 1992, p. 360-361.) 11. Koch, I. G. V. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997, p. 116. 12. Marcuschi, L. A. Perspectivas dos estudos em interação social na Linguística brasileira dos anos 90, op. cit., p. 14. 13. Ibidem. 14. Koch, I. G. V. O texto e a construção dos sentidos, op. cit., p. 116. 15. Koch, I. G. V. O texto e a construção dos sentidos, op. cit., p. 63. 16. Marcuschi, L. A. Oralidade e escrita. Conferência pronunciada durante II Colóquio Franco- Brasileiro sobre Linguagem e Educação. Natal, UFRN, 26-28 de junho de 1995, p. 14. 17. Hilgert, J. G. A paráfrase, op. cit., p. 90. 18. Marcuschi,L. A. Análise da conversação, op. cit, p. 9. 19. Steinberg, M. Os elementos não verbais da conversação. São Paulo: Atual, 1988, p. 3. 20. Ibidem, p. 5. 21. Ibidem, p. 16. 22. Marcuschi, L. A. Análise da conversação, op. cit., p. 89. 23. Galembeck, P. et al. O turno conversacional. In: Preti, D.; Urbano, H. A linguagem falada culta na cidade de São Paulo. São Paulo: T. A . Queiroz/Fapesp, 1997, v. IV, p. 75. (Título original, 1990.) 24. Ibidem, p. 78. 25. Sacks, Schegloff eJefferson (1974) elaboraram um modelo sobre o sistema de organização da conversação com base na tomada de turno. 26. Marcuschi, L. A. Análise da conversação, op. cit., p. 37. 27. Marcuschi, L. A. Marcadores conversacionais no português brasileiro: formas, posições e funções. In: Castilho, A. T. (org.) Português culto falado no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 1989, p. 288. 28. Marcuschi, L. A. Análise da conversação, op. cit., p. 62. 29. Marcuschi, L. A. Atividades de compreensão na interação verbal. In: Preti, D. (org.) Variações e confrontos. São Paulo, FFLCH/USP, 1998b, p. 15. 30. Ibidem, p. 21. 31. Ibidem, p. 19. 32. Ibidem, p. 19. 33. Ibidem, p. 19. 34. Ibidem, p. 21. 35. “Sintonia referencial” é um termo empregado por Marcuschi (1998b). 36. Marcuschi, L. A. Atividades de compreensão na interação verbal, op. cit., p. 25-26. 37. Ibidem, p. 26. 38. Ibidem, p. 30. 39. Keller, M. C.; Keller, J. D. Imaging in iron, or thought is not inner speech. In: Gumperz, J.; Levinson, S. (Eds.). Rethinking linguistic relativity. Cambridge: Cambridge University Press, 1996, p. 118. 4 ANÁLISE DO DISCURSO1 Fernanda Mussalim 1. A GÊNESE DA DISCIPLINA 1.1. Estruturalismo, marxismo e psicanálise: um terreno fecundo Falar em Análise do Discurso pode significar, num primeiro momento, algo vago e amplo, já que toda produção de linguagem pode ser considerada “discurso”. No entanto, a Análise do Discurso de que vamos falar neste capítulo trata-se de uma disciplina que teve sua origem na França na década de 1960. Para entender a gênese dessa disciplina é preciso compreender as condições que propiciaram a sua emergência. Maldidier (1994) descreve a fundação da Análise do Discurso através das figuras de Jean Dubois e Michel Pêcheux. Dubois, um linguista, lexicólogo envolvido com os empreendimentos da Linguística de sua época; Pêcheux, um filósofo envolvido com os debates em torno do marxismo, da psicanálise, da epistemologia. O que há de comum no trabalho desses dois pesquisadores com preocupações distintas é que ambos são tomados pelo espaço do marxismo e da política, partilhando convicções sobre a luta de classes, a história e o movimento social. É, pois, sob o horizonte comum do marxismo e de um momento de crescimento da Linguística — que se encontra em franco desenvolvimento e ocupa o lugar de ciência piloto — que nasce o projeto da Análise do Discurso (doravante AD). O projeto da AD se inscreve num objetivo político, e a Linguística oferece meios para abordar a política. Vamos compreender de que maneira. Na conjuntura estruturalista, a autonomia relativa da língua é unanimemente reconhecida. Isso porque, devido ao recorte que as teorias estruturalistas da linguagem fazem de seu objeto de estudo — a língua —, torna-se possível estudá-la a partir de regularidades e, portanto, apreendê-la na sua totalidade (pelo menos é nisso que crê o estruturalismo), já que as influências externas, geradoras de irregularidades, não afetam o sistema por não serem consideradas como parte da estrutura. A língua não é apreendida na sua relação com o mundo, mas na estrutura interna de um sistema autônomo. Daí “estruturalismo”: é no interior do sistema que se define, que se estrutura o objeto, e é este objeto assim definido que interessa a esta concepção de ciência em vigor na época. Um exemplo. O estruturalismo de vertente saussureana2 define as estruturas da língua em função da relação que elas estabelecem entre si no interior de um mesmo sistema linguístico. Essa relação é sempre binária — ou seja, os elementos do sistema são sempre tomados dois a dois — e se organiza a partir do critério diferencial, que determina que todos os elementos do sistema se definem negativamente. Tomando como pares os fonemas [p] e [b], para citar um exemplo no nível fonológico, pode-se dizer que, quanto ao traço de sonoridade, [p] se define com relação a [b] por ser [-vozeado], ou seja, [b] é um fonema vozeado enquanto [p] é desvozeado. Por sua vez, tomando como pares os fonemas [p] e [t], quanto ao lugar de articulação, pode-se dizer que [p] se define como [-dental]3 em relação a [t]. Nessa mesma vertente, o significado também é definido a partir de uma relação de diferenças no interior do sistema.4 Por exemplo, o signo linguístico “homem” se define em relação ao signo linguístico “mulher”, do ponto de vista dos traços semânticos, por ser [-feminino]; por sua vez, com relação ao signo linguístico “cachorro”, o signo “homem” se define por ser [-quadrúpede], e assim por diante. A Linguística, assim, acaba por se impor, com relação às ciências humanas, como uma área que confere cientificidade aos estudos, já que esses deveriam passar por suas leis (é nesse sentido que ela se torna uma ciência piloto), em vez de agarrarem-se diretamente a instâncias socioeconômicas.5 É nesse horizonte que se inscreve, por exemplo, o projeto do filósofo Althusser, como afirma Maingueneau (1990): “a linguística caucionava tacitamente a linha de horizonte do estruturalismo na qual se inscreve o procedimento althusseriano”.6 Em Ideologia e aparelhos ideológicos do estado (1970/1974), Althusser, fazendo uma releitura de Marx, distingue uma “teoria das ideologias particulares”, que exprimem posições de classes, de uma “teoria da ideologia em geral”, que permitiria evidenciar o mecanismo responsável pela reprodução das relações de produção, comum a todas as ideologias particulares. É nesse último aspecto que reside o interesse do autor. Ao propor-se a investigar o que determina as condições de reprodução social, Althusser parte do pressuposto de que as ideologias têm existência material, ou seja, devem ser estudadas não como ideias, mas como um conjunto de práticas materiais que reproduzem as relações de produção. Trata-se do materialismo histórico, que dá ênfase à materialidade da existência, rompendo com a pretensão idealista da ciência de dominar o objeto de estudo, controlando-o a partir de um procedimento administrativo aplicável a um determinado universo, como se a sua existência se desse no nível das ideias. Para o materialismo, “o objeto real (tanto no domínio das ciências da natureza como no da história) existe independentemente do fato de que ele seja conhecido ou não, isto é, independentemente da produção ou não produção do objeto do conhecimento que lhe corresponde”.7 Um exemplo: no modelo econômico do capitalismo (considerando aqui a concepção clássica de capitalismo, tal como ele foi compreendido pelas teorias marxistas), as relações de produção implicam divisão de trabalho entre aqueles que são donos do capital e aqueles que vendem a mão de obra. Esse modo de produção é a base econômica da sociedade capitalista. Na metáfora marxista do edifício social, a base econômica é chamada de infraestrutura, e as instâncias político-jurídicas e ideológicas são denominadas superestrutura. Valendo-se dessa metáfora, Althusser levanta a necessidade de se considerar que a infraestrutura determina a superestrutura (materialismo histórico), ou seja, que a base econômica é que determina o funcionamento das instâncias político-jurídicas e ideológicas de uma sociedade. A ideologia — parte da superestrutura do edifício —, portanto, só pode ser concebida como uma reprodução do modo de produção, uma vez que é por ele determinada. Ao mesmo tempo, por uma “ação de retorno” da superestrutura sobre a infraestrutura, a ideologia acaba por perpetuar a base econômica que a sustenta. Nesse sentido é que se pode reconhecer a base estruturalista da teoria de Althusser, na medida em que a infraestruturadetermina a superestrutura e é ao mesmo tempo perpetuada por ela, como um sistema cuja circularidade faz com que seu funcionamento recaia sobre si mesmo. Como modo de apreensão do funcionamento da ideologia, o conceito de aparelhos ideológicos de Althusser é bastante esclarecedor. Retomando a teoria marxista de Estado, o autor afirma que o que tradicionalmente se chama de Estado é um aparelho repressivo do Estado (ARE), que funciona “pela violência” e cuja ação é complementada por instituições — a escola, a religião, por exemplo —, que funcionam “pela ideologia” e são denominadas aparelhos ideológicos de Estado (AIE). Pela maneira como se estruturam e agem esses aparelhos ideológicos — por meio de suas práticas e de seus discursos — é que se pode depreender como funciona a ideologia (trata-se sempre, para Althusser, do funcionamento da ideologia dominante, pois mesmo que as ideologias apresentadas pelos AIE sejam contraditórias, tal contradição se inscreve no domínio da ideologia dominante). A Linguística, então, aparece como um horizonte para o projeto althusseriano da seguinte maneira: como a ideologia deve ser estudada em sua materialidade, a linguagem se apresenta como o lugar privilegiado em que a ideologia se materializa. A linguagem se coloca para Althusser como uma via por meio da qual se pode depreender o funcionamento da ideologia. Poderemos agora melhor compreender a afirmação de Maingueneau (1990) anteriormente citada — “a linguística caucionava tacitamente a linha de horizonte do estruturalismo na qual se inscreve o procedimento althusseriano” — e entender também por que é que, como já foi dito, presidem o nascimento da AD o marxismo e a Linguística. O projeto althusseriano, inserido em uma tradição marxista que buscava apreender o funcionamento da ideologia a partir de sua materialidade, ou seja, por meio das práticas e dos discursos dos AIE, via com bons olhos uma Linguística fundamentada sobre bases estruturalistas. Mas uma Linguística saussureana, uma Linguística da língua, não seria suficiente; só uma teoria do discurso, concebido como o lugar teórico para o qual convergem componentes linguísticos e socioideológicos, poderia acolher esse projeto. É neste contexto que nasce o projeto da AD. Michel Pêcheux, apoiado numa formação filosófica, desenvolve um questionamento crítico sobre a Linguística e, diferentemente de Dubois, não pensa a instituição da AD como um progresso natural permitido pela Linguística, ou seja, não concebe que o estudo do discurso seja uma passagem natural da Lexicologia (estudo das palavras) para a Análise do Discurso. A instituição da AD, para Pêcheux, exige uma ruptura epistemológica, que coloca o estudo do discurso num outro terreno em que intervêm questões teóricas relativas à ideologia e ao sujeito. Assim é que, como afirma Maldidier (1994), o objeto discurso de que se ocupa Pêcheux em seu empreendimento “não é uma simples ‘superação da Linguística saussuriana’”.8 A Linguística saussureana, fundada sobre a dicotomia língua/fala9 — a primeira concebida como sistêmica, por isso objetivamente apreendida; a segunda, não objetivamente apreendida por variar de acordo com os diversos falantes, que selecionam parte do sistema da língua para seu uso concreto em determinadas situações de comunicação —, permitiu a constituição da Fonologia, da Morfologia e da Sintaxe, mas não foi, segundo Pêcheux (1975/1988), suficiente para permitir a constituição da Semântica, lugar de contradições da Linguística. Para ele, o sentido, objeto da Semântica, escapa às abordagens de uma Linguística da língua.10 A teoria do valor de Saussure (1916/1974), segundo a qual os signos se definem negativamente, subordina, como aponta Brandão (1998a), a significação ao valor, de onde decorre que a significação, para Saussure, é concebida como sistêmica. Para Pêcheux, ao contrário, a significação não é sistematicamente apreendida por não ser da ordem da língua, mas da ordem do discurso e, portanto, do sujeito, e sofrer, assim, alterações de acordo com as posições ocupadas pelos sujeitos que enunciam. O autor retoma esta dicotomia saussureana para inscrever os processos de significação num outro terreno, mas não concebe nem o sujeito, nem os sentidos como individuais, mas como históricos, ideológicos. Assim é que o autor propõe uma semântica do discurso — concebido como lugar para onde convergem componentes linguísticos e socioideológicos — em vez de uma semântica linguística, pois as condições sócio-históricas de produção de um discurso são constitutivas de suas significações. Pode-se, assim, perceber o paralelismo dos projetos althusseriano e da AD. A Análise do Discurso, demonstrando uma vontade de formalização do discurso a partir da proposta de Pêcheux (1969/1990) de uma análise automática do discurso (doravante AAD), oferecia um procedimento de leitura que relacionava determinadas condições de produção11 — “mecanismo de colocação dos protagonistas e do objeto do discurso, mecanismo que chamamos de ‘condições de produção do discurso’”12 — com os processos de produção de um discurso. Para Pêcheux, é como se houvesse uma “máquina discursiva”, um dispositivo capaz de determinar, sempre numa relação com a história, as possibilidades discursivas dos sujeitos inseridos em determinadas formações sociais, conceito originário da obra de Althusser (1970/1974), que designa, em um determinado momento histórico, um estado de relações — de aliança, antagonismo ou dominação — entre as classes sociais de uma sociedade. Assim é que a AD intervém como um componente essencial do projeto althusseriano que visava definir uma ciência da ideologia que não fosse ideológica, isto é, que não implicasse uma posição ideológica de sujeito. O autor, buscando definir uma “teoria da ideologia em geral” que permitisse evidenciar o mecanismo responsável pela reprodução das relações de produção comum a todas as ideologias particulares, vislumbrava a AAD como uma possibilidade empírica de realização de seu projeto. Do mesmo modo, o pensamento althusseriano também é determinante na fase inicial de instituição da AD, cuja proposta se inscreve no materialismo histórico. Esperamos ter explicitado até aqui o palco do materialismo histórico e do estruturalismo sobre o qual surge a AD. O materialismo histórico e o estruturalismo estabelecem as bases não só para a gênese da AD e do projeto althusseriano (o conceito de “máquina discursiva” e a metáfora do edifício social evidenciam isso), mas também para a convergência entre esses projetos. Ainda um outro elemento compõe o quadro epistemológico do surgimento da AD: a psicanálise lacaniana. Abordaremos o pensamento lacaniano procurando evidenciar como ele é fundamental neste momento inicial de fundação da Análise do Discurso. A partir da descoberta do inconsciente por Freud, o conceito de sujeito sofre uma alteração substancial, pois seu estatuto de entidade homogênea passa a ser questionado diante da concepção freudiana de sujeito clivado, dividido entre o consciente e o inconsciente. Lacan faz uma releitura de Freud recorrendo ao estruturalismo linguístico, mais especificamente a Saussure e a Jakobson, numa tentativa de abordar com mais precisão o inconsciente, muitas vezes tomado como uma entidade misteriosa, abissal. Para poder trazer à tona seu material, Lacan assume que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, como uma cadeia de significantes13 latente que se repete e interfere no discurso efetivo, como se houvesse sempre, sob as palavras, outras palavras, como se o discurso fosse sempre atravessado pelo discurso do Outro, do inconsciente. A tarefa do analista14 seria a de fazer vir à tona, através de um trabalho na palavra e pela palavra, essa cadeia de significantes, essas “outras palavras”, esse “discurso do Outro”, isto é, do inconsciente, lugar desconhecido, estranho, de onde emana o discurso do pai, da família, da lei, enfim, do Outro e em relação ao qual o sujeito se define, ganha identidade. Apoiado em alguns critérios do estruturalismo linguístico,Lacan aborda esse inconsciente, demonstrando que existe uma estrutura discursiva que é regida por leis. Decorrem dessa proposta implicações para a psicanálise. A que mais diretamente interessa à AD diz respeito ao conceito de sujeito, definido em função do modo como ele se estrutura a partir da relação que mantém com o inconsciente, com a linguagem, portanto, já que, para Lacan, “a linguagem é condição do inconsciente”.15 Saussure, como já apontado anteriormente, define o sistema linguístico a partir do critério diferencial, segundo o qual na língua não há mais que diferenças. Sendo assim, não se pode atribuir aos elementos do sistema nada de substancial, ou seja, não se pode defini-los por eles mesmos, tomando suas características independentemente das características de outros elementos do sistema, com os quais pode ser tomado em relação. Passa-se, assim, como uma consequência inevitável do critério diferencial, ao critério relacional, que delimita a função da relação entre os elementos no interior do sistema. Dessa remissão entre os elementos do sistema também decorre o critério do lugar vazio, segundo o qual cada elemento adquire sua identidade fora de si, já que, na óptica estruturalista, são as diferenças que definem os elementos. Essas diferenças, por sua vez, não são intrínsecas aos elementos e nem extrínsecas a eles, mas só podem ser consideradas a partir de uma posição no interior do sistema. A definição de cada elemento é uma definição de posição, ou seja, a sua identidade resulta sempre da relação que um elemento, que ocupa uma determinada posição inicial no interior do sistema, mantém com outro elemento, que ocupa uma posição terminal: o fonema [p], ponto inicial, com relação ao fonema [b], ponto terminal; o fonema [p], ponto inicial, com relação ao fonema [t], ponto terminal, por exemplo. A identidade resulta sempre dos lugares de onde são tomados os elementos na relação binária. Trata-se do critério posicional. Desses critérios decorrem implicações para o conceito lacaniano de sujeito (Santiago, 1995), ao qual não se pode atribuir nada de substancial, pois ele só se define em relação ao Outro (critérios diferencial e relacional). O sujeito dessubstancializado não está onde é procurado, ou seja, no consciente, lugar onde reside a ilusão do “sujeito centro” como sendo aquele que sabe o que diz, aquele que sabe o que é, mas pode ser encontrado onde não está, no inconsciente (critério do lugar vazio). Assim, a identidade do sujeito lhe é garantida pelo Outro (inconsciente), ou seja, por um sistema parental simbólico que determina a posição do sujeito desde sua aparição. Como explica Santiago (1995), “o pai e a mãe deixam de ser meros semelhantes com os quais o sujeito se relacionou numa dimensão de rivalidade ou amor, para se tornarem lugares na estrutura”, 16 como se o sujeito fosse tomado por uma ordem anterior e exterior a ele. Dessa forma, o pai, por exemplo, pode surgir sob diferentes formas buscadas no imaginário — pai complacente, pai ameaçador etc. —, mas pode também, ocupando um lugar no discurso da mãe, tomar formas diferentes — pai ausente, pai presente etc. (critério posicional). Essa relação entre o sujeito e o Outro se apoia na oposição binária de Jakobson (1960/1970), segundo a qual um remetente, ocupando uma posição inicial no processo de comunicação, coloca-se em relação comunicativa com um destinatário, que ocupa uma posição terminal no sistema de comunicação. Jakobson não é um estruturalista stricto sensu, pois, além de considerar os interlocutores do processo comunicativo — fato completamente discordante do estruturalismo de vertente saussureana, que exclui de seu campo de análise a fala por ser do âmbito do sujeito —, não trata do sistema linguístico em si, das regras de organização da língua propriamente ditas. Jakobson é, por vezes, apontado como estruturalista pelo fato de abordar o processo comunicativo como um sistema composto de elementos — remetente, destinatário, código, mensagem, contexto, canal — que se relacionam no interior de um sistema fechado e recorrente, como um circuito comunicativo. Pôde-se perceber, até aqui, em que sentido Lacan recorre ao estruturalismo, mais especificamente a Saussure e a Jakobson. No entanto, há pontos em que divergem radicalmente os caminhos do estruturalismo e de Lacan. O primeiro deles diz respeito à inserção do sujeito na estrutura, um deslocamento com relação ao estruturalismo saussureano que, num certo sentido e de maneira diferente, Jakobson também realizara. O segundo ponto se refere à maneira como é concebida a relação do sujeito com o Outro, deslocamento que se realiza a partir da concepção do processo comunicativo de Jakobson. Esclareçamos o primeiro ponto, mostrando como a inserção do sujeito no sistema afeta a sua estrutura. O sujeito, por definir-se na relação com o Outro (inconsciente), nada mais é que um significante do Outro. Mas, por ser um sujeito clivado, dividido entre o consciente e o inconsciente, inscreve-se na estrutura, caracteristicamente definida por relações binárias entre seus elementos, como uma descontinuidade, pois emerge no intervalo existente entre dois significantes, emerge sob as palavras, sob o discurso. Lacan, assim, não assume o pressuposto básico do estruturalismo, de completude do sistema, já que o sujeito — pura descontinuidade na cadeia significante — “descompleta” o conjunto dos significantes. No que diz respeito ao segundo ponto, Lacan rompe com o estruturalismo ao romper com a simetria entre os interlocutores. Jakobson atesta uma simetria entre esses interlocutores na medida em que não considera a supremacia de nenhum deles sobre o outro. Lacan rompe com essa simetria. Para ele, o Outro ocupa uma posição de domínio com relação ao sujeito, é uma ordem anterior e exterior a ele, em relação à qual o sujeito se define, ganha identidade. Feita essa breve abordagem de alguns aspectos do pensamento lacaniano, poderemos agora explicar em que sentido o pensamento lacaniano é fundamental neste momento inicial de fundação da Análise do Discurso, ou seja, em que se pode perceber a relevância do projeto lacaniano para a AD. O estudo do discurso para a AD, como já dito anteriormente, inscreve-se num terreno em que intervêm questões teóricas relativas à ideologia e ao sujeito. Assim, o sujeito lacaniano, clivado, dividido, mas estruturado a partir da linguagem, fornecia para a AD uma teoria de sujeito condizente com um de seus interesses centrais, o de conceber os textos como produtos de um trabalho ideológico não consciente. Calcada no materialismo histórico, a AD concebe o discurso como uma manifestação, uma materialização da ideologia decorrente do modo de organização dos modos de produção social. Sendo assim, o sujeito do discurso não poderia ser considerado como aquele que decide sobre os sentidos e as possibilidades enunciativas de seu dizer, mas como aquele que ocupa um lugar social e a partir dele enuncia, sempre inserido no processo histórico que lhe permite determinadas inserções e não outras. Em outras palavras, o sujeito não é livre para dizer o que quer, mas é levado, sem que tenha consciência disso (e aqui reconhecemos a propriedade do conceito lacaniano de sujeito para a AD), a ocupar seu lugar em determinada formação social e enunciar o que lhe é possível a partir do lugar que ocupa. Como afirma Althusser (1970): A ideologia é bem um sistema de representações: mas estas representações não têm, na maior parte do tempo, nada a ver com a “consciência”: elas são na maior parte das vezes imagens, às vezes conceitos, mas é antes de tudo como estruturas que elas se impõem à maioria dos homens, sem passar por suas consciências.17 Tendo até aqui descrito o terreno em que se funda a Análise do Discurso — um terreno em que se relacionam a Linguística e as Ciências Sociais —, uma questão importante se coloca: qual a especificidade da AD neste terreno? É o que procuraremos responder a seguir. 1.2. A especificidade da AD Como aponta Maingueneau (1997), o campo daLinguística, de maneira muito esquemática, opõe um núcleo “rígido” a uma periferia de contornos instáveis, que está em contato com a Sociologia, Psicologia, História, Filosofia etc. O núcleo rígido18 se ocupa do estudo da língua como se ela fosse apenas um conjunto de regras e propriedades formais, ou seja, não considera a língua enquanto produzida em determinadas conjunturas históricas e sociais. A outra região, de contornos instáveis,19 ao contrário, “se refere à linguagem apenas à medida que esta faz sentido para sujeitos inscritos em estratégias de interlocução, em posições sociais ou em conjunturas históricas”.20 A Análise do Discurso pertence a essa última região, ou seja, considera esse último modo de compreender a linguagem, o que não significa que, para ela, a linguagem não apresente também um caráter formal, como apontava o próprio Pêcheux (1975/1988), ao afirmar que existe uma base linguística regida por leis internas (conjunto de regras fonológicas, morfológicas, sintáticas) sobre a qual se constituem os efeitos de sentido, como poderemos observar a partir da análise da tira que se segue: Há duas maneiras de interpretar o enunciado de Stock no último quadrinho: que há vinte anos ele vivia fazendo sexo com a própria noiva, ou então que há vinte anos ele vivia fazendo sexo com a noiva de Wood, seu amigo. Em termos essencialmente linguísticos, diríamos que o que permite essa ambiguidade é a presença do pronome possessivo de 1ª pessoa “minha”. Pelo fato de ser um dêitico21 — termo que permite identificar pessoas, coisas, momentos e lugares a partir da situação de enunciação —, possibilita que o seu referente seja tanto Stock quanto Wood, ou seja, permite ao leitor que ele interprete o pronome “minha” como referindo-se à noiva de Stock, o responsável pelo enunciado, ou à noiva de Wood. Isso porque poderíamos nos perguntar: sobre que parte do enunciado o advérbio “também” da expressão “Eu também” incide? Sobre “Bete Speed” (eu também fazendo sexo com a Bete Speed) ou sobre “minha noiva” (eu também fazendo sexo com minha noiva)? Em outras palavras, qual o escopo22 de “também”? Essa primeira análise, referente ao funcionamento da língua, explica o porquê da ambiguidade na tira, mas não explica por que achamos graça quando Stock enuncia “Eu também” no último quadrinho. Por que lemos esta tira como um discurso de humor? Devido às suas condições de produção. Produzido para circular em uma sociedade em que fazer sexo com a noiva de outro seria um comportamento bastante fora dos padrões morais apresentados como adequados a seus membros, a possibilidade de Stock ter feito sexo com a noiva de seu amigo gera riso, pois coloca Wood em uma situação bastante constrangedora. No entanto, este mesmo discurso produzido no interior da comunidade dos esquimós, por exemplo, não geraria riso, pois, segundo os costumes dessa comunidade, quando um esquimó recebe um visitante em sua casa, ele oferece sua mulher a ele como sinal de hospitalidade. Nesse contexto, portanto, o discurso apresentado nesta tira não seria de humor, seria apenas uma conversa corriqueira entre dois amigos que relembram fatos do passado. A ambiguidade se mantém tanto num como noutro contexto, mas os efeitos que ela gera são diferentes, e são justamente esses efeitos de sentido que interessam à Análise do Discurso. No caso da tira em questão, a pergunta que os analistas do discurso fariam seria: por que essa ambiguidade gera riso? Para a Análise do Discurso, perguntar somente o que gera a ambiguidade seria muito pouco, essa pergunta já seria feita, por exemplo, pela Semântica e pela Pragmática (as noções de escopo e de dêixis, mobilizadas para a análise da tira, pertencem, respectivamente, ao quadro teórico dessas duas áreas da Linguística). O que garante a especificidade da Análise do Discurso é a formulação de uma pergunta subsequente a essa: qual o efeito dessa ambiguidade? A resposta a essa pergunta reside justamente na relação que os analistas do discurso procuram estabelecer entre um discurso e suas condições de produção, ou seja, entre um discurso e as condições sociais e históricas que permitiram que ele fosse produzido e gerasse determinados efeitos de sentido e não outros. É preciso esclarecer, no entanto, ao falarmos da especificidade da AD, que não há apenas uma Análise do Discurso, esta de que vimos falando. Como decorrência dessa fronteira instável sobre a qual se situa a Análise do Discurso e em função da disciplina vizinha com a qual ela privilegia o contato, surgem diferentes “Análises do Discurso”. Classicamente considera-se que, se uma delas mantém uma relação privilegiada com a História, com os textos de arquivo, que emanam de instâncias institucionais, enquanto uma outra privilegia a relação com a Sociologia, interessando-se por enunciados com estruturas mais flexíveis, como uma conversa informal, por exemplo, têm-se duas “Análises do Discurso” diferentes: a Análise do Discurso de origem francesa, que privilegia o contato com a História, e a Análise do Discurso anglo-saxã,23 área bastante produtiva no Brasil, que privilegia o contato com a Sociologia. Atualmente, no entanto, este marco divisório não é tão rígido assim. Possenti (1996), no artigo “O dado dado e o dado dado (O dado em análise do discurso)”, faz uma consideração a esse respeito, apontando que a diferença entre a Análise do Discurso de origem francesa e uma análise conversacional não precisa ser uma diferença de dados, mas de teoria: “não é porque os eventos de discurso de tipo ‘linguagem ordinária’ foram objeto de descrições ‘conversacionais’ ou ‘intencionais’ que eles não são discursos, que eles não podem ser tomados em conta numa AD”.24 Assim, o que diferencia a Análise do Discurso de origem francesa da Análise do Discurso anglo-saxã, ou comumente chamada de americana, é que esta última considera a intenção dos sujeitos numa interação verbal como um dos pilares que a sustenta, enquanto a Análise do Discurso francesa não considera como determinante essa intenção do sujeito; esta considera que esses sujeitos são condicionados por uma determinada ideologia que predetermina o que poderão ou não dizer em determinadas conjunturas histórico-sociais. Essa é, entre outras, uma das diferenças teóricas entre as duas linhas. Apontamos, de maneira bastante geral, diferenças entre a Análise do Discurso de origem francesa e a de origem anglo-saxã. No entanto, há diferenças no interior de cada uma dessas vertentes. No interior da Análise do Discurso de origem francesa, por exemplo, Fiorin (1990) aponta diferentes tendências. Fazendo uma análise do que foi feito no Brasil nas últimas décadas em termos de Análise do Discurso, o autor apresenta três correntes ordenadas historicamente e apresentadas a partir dos interditos, ou seja, a partir do que não é “permitido” fazer no interior de cada uma delas. A primeira corrente “proibia ocupar-se do funcionamento interno do texto”, sob o risco de ser tachado de um “direitista do campo da Letras”. A segunda corrente esboçava um interdito contrário: “é preciso ocupar-se do funcionamento interno do texto”.25 Fiorin (1990) analisa esse interdito relacionando-o com a “vitória” do capitalismo, que concebe a história como “contrato”, ou seja, como sendo regida pelos mecanismos internos do mercado. Analogicamente, na Análise do Discurso, os mecanismos internos de produção do sentido é que serão enfatizados. Não obedecer à interdição dessa segunda corrente significaria pagar o preço de ser considerado “anacrônico”, assim como neste momento é considerado anacrônico o universo conceitual marxista. A terceira corrente, que representa a tendência atual, procura eliminar esses dois interditos que pesaram sobre a AD em determinados momentos e abordar o discurso em toda a sua complexidade, concebendo-o como um objeto linguístico e cultural. Há, entretanto, apesar dessas divergências, um elemento comum entre essas Análises do Discurso, e esse elemento comum diz respeito à própria especificidade da AD, como ressalta Fiorin (1990):“o que é específico de todas essas Análises do Discurso é o estudo da discursivização”,26 ou seja, o estudo das relações entre condições de produção dos discursos e seus processos de constituição. Tendo apresentado o palco intelectual — ocupado ao mesmo tempo pelo estruturalismo, marxismo e psicanálise — sobre o qual emerge a AD e mostrado a sua especificidade, passaremos agora a apontar duas influências decisivas neste primeiro momento de fundação da AD, no que tange aos seus procedimentos de análise. Trata-se do método harrisiano de análise e das gramáticas gerativas. 1.3. Procedimentos de análise: a contribuição de Harris e Chomsky O método de Harris (1969) seguia o rumo das análises estruturalistas, mas ampliava a unidade de análise. Propondo-se a analisar o texto, concebe tal análise como uma análise transfrástica, isto é, como uma análise que transpunha o limite do enunciado, uma vez que não toma como unidade de análise os elementos que o compõem, mas o próprio enunciado. É um método fundado basicamente na linearidade do discurso; o autor propõe que se observe a ligação entre os enunciados a partir de conectivos, com o objetivo de equacionar essa linearidade em classes de equivalência. Tomaremos como exemplo ilustrativo de uma análise pautada pelo método harrisiano o seguinte discurso, analisado por Osakabe (1979, p. 12-13): (1) O menino viu o belo quadro e gostou dele. Mas o pintor não lhe deu o quadro. Segundo o autor, esse discurso, já na forma reduzida por transformações e equivalências fornecidas pela gramática da língua, poderia ser apresentado da seguinte maneira: (1’) O menino viu o quadro. O quadro era belo. O menino gostou do quadro. (Mas) o pintor não deu o quadro ao menino. Partindo das recorrências e da distribuição dos elementos de cada enunciado, obtém-se um quadro de equivalências. Por exemplo, o verbo ver pode, neste contexto, ser tomado como equivalente a gostar, e assim teríamos: (2) A: 1. O menino viu o quadro. 2. O menino gostou do quadro. B: O quadro era belo. (Mas) C: O pintor não deu o quadro ao menino. Como resultado, obteríamos a seguinte forma para esse discurso: (3) A1: A2: B: (Mas) C: Ou ainda, (4) A: B: (Mas) C: O recurso a esse método pelos iniciadores da AD explica-se por um certo interesse comum em produzir uma análise da superfície discursiva: Dubois se valia desse método, como relata Maldidier (1994), como “um meio de fazer aparecer as regularidades significativas dos discursos contrastados pelo corpus”,27 ou seja, como uma forma de evidenciar o que havia de regular, de constante em cada um dos discursos contrastados. Para Pêcheux, por sua vez, a deslinearização decorrente das transformações — (1) e (2) —, por exemplo, permitia perceber os traços dos processos discursivos — (3) e (4) —, ou seja, os processos pelos quais um discurso se constituía enquanto tal. Harris, como foi possível perceber, restringe-se a uma concepção de discurso como uma sequência de enunciados. Essa definição mostrou-se insuficiente para os propósitos da AD, que buscava reintegrar uma teoria do sujeito e uma teoria da situação. Assim, Pêcheux, visando a construção de um arcabouço teórico que lhe permitisse isso, passa a considerar a oposição enunciação e enunciado.28 A primeira se refere às condições de produção do discurso (é neste nível que será possível reintegrar as teorias do sujeito e da ideologia), que permitiriam a elocução de um discurso e não de outros, isto é, refere-se a determinadas circunstâncias, a saber, o contexto histórico- ideológico e as representações que o sujeito, a partir da posição que ocupa ao enunciar, faz de seu interlocutor, de si mesmo, do próprio discurso etc.; e o segundo se refere à superfície discursiva resultante dessas condições. O procedimento gerativista de análise,29 já bastante difundido na época, vem ao encontro dos interesses de Pêcheux. Em 1957, Noam Chomsky, aluno de Z. Harris, publica Estruturas sintáticas e coloca em questão o método estruturalista americano.30 Chomsky postula a existência de um sistema de regras internalizadas responsável pela geração das sentenças. A possibilidade de produzir uma análise nesses moldes aponta um caminho para a AD reintegrar as teorias do sujeito e da situação. Numa analogia com o postulado de que o sistema de regras é responsável pela geração das sentenças, propõe-se a noção de condições de produção, responsável pela geração dos discursos. Esse conceito de condições de produção é, como aponta Orlandi (1987), básico para a AD, pois elas “caracterizam o discurso, o constituem e como tal são objeto de análise”.31 Para a AD, portanto, a enunciação não é um desvio, mas um “processo constitutivo da matéria enunciada”, afirma a autora.32 É este último procedimento de análise que será produtivo para a AD, pois será a partir dele que ela formulará e reformulará seus procedimentos de análise e seu objeto de estudo, que definirão, por sua vez, o que chamamos as fases da AD. 2. FASES DA AD: OS PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE E A DEFINIÇÃO DO OBJETO A primeira época da Análise do Discurso33 (doravante AD-1) explora a análise de discursos mais “estabilizados”, no sentido de serem pouco polêmicos,34 por permitirem uma menor carga polissêmica, isto é, uma menor abertura para a variação do sentido devido a um maior silenciamento do outro (outro discurso/outro sujeito). Os discursos políticos teórico- doutrinários, como um manifesto do Partido Comunista, são um bom exemplo. Por serem mais “estabilizados”, pressupõe-se que tais discursos sejam produzidos a partir de condições de produção mais estáveis e homogêneas, isto é, no interior de posições ideológicas e de lugares sociais menos conflitantes: o manifesto comunista é enunciado do interior do Partido Comunista e representa seus possíveis interlocutores inscritos neste mesmo espaço discursivo. Considere, para contrapor, um debate político de que estivessem participando marxistas e liberais. Nessas condições de produção, o discurso do Partido Comunista representaria parte de seu(s) interlocutor(es) inscrito(s) em um outro lugar social, a saber, no espaço discursivo liberal. Neste caso, teríamos uma relação mais conflitante, pouco “estabilizada”. Um debate não seria, portanto, objeto de análise da AD-1. Com relação aos procedimentos de análise da AD-1, eles são realizados por etapas, apresentadas a seguir: a) primeiramente se seleciona um corpus fechado de sequências discursivas (o corpus analisado por Simone Bonnafous,35 sobre as moções do Congresso de Metz do Partido Socialista, de 1979, é um bom exemplo); b) em seguida, faz-se a análise linguística de cada sequência, considerando as construções sintáticas (de que maneira são estabelecidas as relações entre os enunciados) e o léxico (levantamento de vocabulário); c) passa-se depois à análise discursiva, que consiste basicamente em construir sítios de identidades a partir da percepção da relação de sinonímia (substituição de uma palavra por outra no contexto) e de paráfrase (sequências substituíveis entre si no contexto); d) por fim, procura-se mostrar que tais relações de sinonímia e paráfrase são decorrentes de uma mesma estrutura geradora do processo discursivo. Têm-se, então, a noção de “máquina discursiva”: uma estrutura (condições de produção estáveis) responsável pela geração de um processo discursivo (o processo de construção das moções do Congresso de Metz do Partido Socialista, de 1979, por exemplo) a partir de um conjunto de argumentos e de operadores responsáveis pela construção e transformação das proposições, concebidas como princípios semânticos que definem, delimitam um discurso (o do Congresso de Metz do Partido Socialista, para tomá-lo como exemplo). Para a AD-1, cada processo discursivo é gerado por uma máquina discursiva. Assim, diferentes processos discursivos referem-se a diferentes máquinas discursivas, cada uma delas idêntica a si mesma e fechada sobre si mesma (Pêcheux, 1983/1990). Na segunda fase da AD36 (AD-2), a noção de máquina estrutural fechada começa a explodir.O conceito de formação discursiva, elaborado pelo filósofo Michel Foucault (1969/2004), é um dos dispositivos que desencadeia esse processo de transformação na concepção do objeto de análise da Análise do Discurso. Faremos uma incursão pelas formulações de Foucault em torno desse conceito, a fim de delimitar melhor sua abordagem e, ao mesmo tempo, possibilitar ao leitor que, no decorrer da leitura deste capítulo, ele possa bem distinguir entre as concepções foucaultiana e pecheutiana de formação discursiva. Foucault (1969/2004), em seu livro Arqueologia do saber, define discurso como um conjunto de enunciados que provém de um mesmo sistema de formação, ou ainda, para especificar melhor, define discurso como sendo constituído por um número limitado de enunciados para os quais se pode definir um conjunto de condições de existência. Nesse livro, o autor dá um tratamento extenso ao discurso, uma vez que a arqueologia proposta por ele é uma modalidade de análise do discurso. O discurso, nessa obra, tem o estatuto de uma entrada metodológica, visto que o alvo das reflexões de Foucault não é o discurso em si, isto é, o conjunto de enunciados, mas a descrição de suas condições de existência, de seu sistema de formação, ou, melhor dizendo, da formação discursiva, definida como um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiram em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou linguística dada, as condições de exercício da função enunciativa.37 Enunciado, discurso e formação discursiva são, pois, conceitos que, em Foucault, reenviam uns aos outros. N’Arqueologia, o autor se propõe a realizar, fundamentalmente, duas grandes tarefas. A primeira delas consiste em liberar terreno, isto é, em desfazer-se de categorias que, em alguma medida reforçam: i) o pressuposto da continuidade histórica, como é o caso das noções de tradição; de influência; de desenvolvimento e evolução; de mentalidade ou espírito de época; ii) a ideia de familiaridade, que sustenta agrupamentos (ciência, literatura, filosofia, religião, história, ficção) tomados como grandes individualidades históricas; iii) temas que condenam a análise histórica à repetição, tais como o de que há, para além de qualquer começo, uma origem secreta; e o de que todo discurso efetivo repousaria sobre um já dito. Uma vez suspensas tais categorias, o autor passa a delinear os instrumentos e o objetivo fundamental da arqueologia que propõe. Enquanto método de análise dos discursos, a arqueologia não busca ser nem interpretação, o que implicaria referir o discurso às coisas ou à interioridade da consciência de um indivíduo (por isso Foucault recusa o conceito de frase), nem tampouco formalização, o que implicaria estabelecer as condições gramaticais e lógicas da formação dos enunciados (por isso recusa o conceito de proposição). Diferentemente, a arqueologia que propõe trata-se de uma análise histórica das condições de enunciabilidade ou, mais especificamente, trata-se de uma análise das condições de possibilidade que fizeram com que, em determinado momento histórico, apenas alguns enunciados tenham sido efetivamente possíveis — isto é, tenham sido efetivamente produzidos — e outros não. É a partir dessa perspectiva que Foucault assume o enunciado como unidade de análise e busca definir as formações discursivas a partir de suas regularidades. Mas que regularidades são essas? Para esclarecer essa questão, Foucault delineia quatro hipóteses que fundamentam a arqueologia que propõe enquanto método de análise dos discursos. Recusando a ideia de que enunciados, diferentes em sua forma e dispersos no tempo, formam um conjunto quando se referem a um único e mesmo objeto, isto é, rechaçando a ideia de que a unidade dos discursos se funda na unidade do objeto, o autor formula a hipótese de que cada discurso (por exemplo, o discurso clínico, o discurso econômico, o discurso da história natural, o discurso psiquiátrico) constitui seu objeto e o elabora até transformá-lo inteiramente, de modo que os enunciados de um discurso remetem não a um correlato que lhe imprime sentido, ou a um referente no mundo que determina seu valor de verdade, mas a um referencial constituído pelas regras que definem as condições históricas de surgimento de um objeto. Com base em seu trabalho desenvolvido em História da loucura (1961/2008), o autor esclarece que não se deve tentar identificar um objeto (no caso, a loucura) único e perene, mas tentar estabelecer as regras que determinaram o espaço histórico-social em que esse objeto se constituiu e se transformou. Por exemplo, deve-se tentar explicar por que, em determinada época, começou-se a falar de determinados comportamentos em termos de loucura e enfermidade mental. Na análise da formação dos objetos, Foucault afirma que é necessário: a) demarcar as superfícies primeiras de emergência, isto é, mostrar onde podem surgir. No caso da psicopatologia do século XIX, o autor afirma que essas superfícies primeiras de emergência dos objetos (que fazem-nos aparecer, tornam-nos nomeáveis e descritíveis) foram, muito provavelmente, constituídas pela família, pelo meio do trabalho, pela comunidade religiosa, pelo grupo social próximo, pela arte com sua normatividade própria, pela sexualidade, pela penalidade; b) descrever as instâncias de delimitação, que distinguem, nomeiam, instauram os objetos. No século XIX, por exemplo, a medicina tornou-se a instância superior que, na sociedade ocidental, distinguiu, designou, nomeou e instaurou a loucura como objeto. Mas, além da medicina, também a justiça penal, a autoridade religiosa, a crítica literária e artística tornaram-se instâncias de delimitação desse objeto; c) analisar as grades de especificação, que se referem aos sistemas segundo os quais se separam, se opõem, se associam, se reagrupam, se classificam, se derivam, por exemplo, as diferentes “loucuras” como objetos do discurso psiquiátrico do século XIX. As grades de especificação desse discurso, segundo Foucault, foram a alma, o corpo, a vida e a história dos indivíduos, os jogos de correlações psicológicas. Entretanto, de acordo com Foucault (1969/2004), a consideração dessas três instâncias não é suficiente para se analisar a formação dos objetos e, com base nesse aspecto, caracterizar a individualidade de um discurso. A formação dos objetos é assegurada pelo conjunto de relações estabelecidas entre essas instâncias — de emergência, delimitação e especificação. A segunda hipótese formulada pelo autor nasce da recusa à ideia de que a unidade dos discursos se funda na forma de seus enunciados, no tipo de encadeamento entre eles, ou seja, num certo caráter constante da enunciação, num certo estilo, portanto. Diferentemente, Foucault postula que apenas se pode dizer que um conjunto de enunciados pertence à mesma ordem do discurso, caracterizando o modo de coexistência desses enunciados (dispersos e heterogêneos), descrevendo o sistema que rege sua repartição, o modo como se transformam, se apoiam uns nos outros, se supõem ou se excluem, se revezam, se substituem. Por exemplo, em O nascimento da clínica (1963/2008), o autor busca demonstrar que a unidade do discurso clínico não decorre da unicidade das modalidades enunciativas; diferentemente, sua individualidade provém do conjunto de regras que possibilitam a coexistência de diferentes modalidades enunciativas. Essas modalidades enunciativas diversas e o lugar de onde vêm podem ser identificadas a partir das seguintes questões: a) “quem fala?”: quem, no conjunto de todos os sujeitos falantes, tem esta espécie de linguagem? / qual é o status dos indivíduos que têm o direito de proferir semelhante discurso?; b) “de que lugares institucionais se fala?”: de onde o médico obtém seu discurso, e de onde este encontra sua origem legítima e seu ponto de aplicação (o hospital, a prática privada, o laboratório)?; c) “de que posições variadas se fala?”: o sujeito questiona a partir de que grade de interrogações, ouve apartir de que programa de informação? / ocupa que lugar na rede de informações (no ensino teórico ou na pedagogia escolar; no sistema da comunicação oral ou da documentação escrita)? etc. Foucault (1969/2004) esclarece que essas diversas modalidades de enunciação não estão relacionadas à unidade de um sujeito, isto é, não remetem à função unificante de um sujeito; diferentemente, manifestam sua dispersão nos diversos status, nos diversos lugares, nas diversas posições que pode ocupar ao exercer um discurso, na descontinuidade dos planos de onde fala, portanto. Com base nesse pressuposto é que o autor postula que não é pelo recurso a uma subjetividade psicológica ou a um sujeito transcendental que o regime das enunciações de um discurso é definido, mas pelo sistema de relações por meio do qual todas as modalidades de enunciação encontram-se ligadas. Deve-se, pois, definir a unidade de um discurso considerando o campo de regularidades que rege essas diversas (e dispersas) modalidades de subjetividade. A terceira hipótese apresentada pelo autor em Arqueologia do saber (1969/2004) diz respeito à formação dos conceitos. Foucault refuta a ideia de que a unidade dos discursos se funda na persistência e permanência de determinados conceitos e defende que o reconhecimento dessa unidade decorre da descrição da organização do campo em que os enunciados aparecem e circulam, isto é, da descrição de: a) como esses enunciados se sucedem: • como as séries enunciativas se ordenam (por inferência, demonstração etc.); • quais são os tipos de dependência enunciativa (dependência hipótese-verificação, lei geral-caso particular etc.); • quais são os esquemas retóricos (como se articulam num texto, por exemplo, deduções e descrições). b) quais são suas formas de coexistência, que incluem: • campo de presença: todos os enunciados já formulados em alguma parte e que são retomados em um discurso, a título de pressuposto necessário, verdade admitida, raciocínio fundado, bem como todos os enunciados discutidos, criticados, julgados, rejeitados, excluídos; • campo de concomitância: enunciados que pertencem a tipos de discurso diversos e/ou que se referem a domínios de objetos inteiramente diferentes, mas que atuam entre os enunciados estudados, valendo como confirmação lógica, princípio geral, modelos transferíveis a outros conteúdos etc.; • domínio de memória: enunciados que não são mais admitidos, nem discutidos e que, por isso, não definem mais nem um corpo de verdades, nem um domínio de validade, mas em relação aos quais são estabelecidos laços de gênese, filiação, transformação, continuidade ou descontinuidade histórica. c) quais são os procedimentos de intervenção que podem ser aplicados aos enunciados, e que aparecem: • nas técnicas de reescrita: as que permitiram, por exemplo, aos naturalistas do período clássico reescrever descrições lineares em quadros classificatórios; • nos métodos de transcrição de enunciados: das línguas naturais para uma língua mais ou menos formalizada e artificial, por exemplo; • nos modos de tradução dos enunciados quantitativos em formulações qualitativas e vice-versa; • nos meios utilizados para aumentar a aproximação dos enunciados e refinar sua exatidão; • na maneira pela qual se delimita o domínio de validade dos enunciados (por extensão ou restrição); • na maneira pela qual se transfere um tipo de enunciado de um campo de aplicação a outro (por exemplo, a transferência da caracterização vegetal à taxinomia animal); • nos métodos de sistematização de proposições, que já foram formuladas anteriormente e em separado; • nos métodos de redistribuição de enunciados já ligados uns aos outros, mas que são recompostos em um novo conjunto sistemático. No entanto, mais uma vez, Foucault (1969/2004) esclarece que toda essa descrição não é suficiente para definir a unidade de um discurso, visto que o que permite delimitar o grupo de conceitos específicos a ele é a maneira pela qual todos esses diferentes elementos (relativos à organização do campo de enunciados, à configuração desse campo e aos procedimentos de intervenção) estão relacionados uns aos outros; é esse feixe de relações que constitui um sistema de formação conceitual. Por fim, Foucault apresenta a quarta hipótese de seu trabalho. Refutando o pressuposto de que a unidade dos discursos provém da identidade e da persistência de determinados temas, o autor afirma que definir essa unidade implica definir as suas possibilidades estratégicas,38 ou seja, implica: a) assinalar os pontos de difração possíveis do discurso, que se caracterizam como: • pontos de incompatibilidade: dois objetos, dois tipos de enunciação ou dois conceitos podem aparecer no mesmo discurso, mas não podem entrar em uma mesma e única série de enunciados; • pontos de equivalência: dois elementos incompatíveis que, por responderem às mesmas possibilidades de existência, por serem formados a partir das mesmas regras e se situarem em um mesmo nível, representam uma alternativa; • pontos de ligação de uma sistematização, que possibilitam que, a partir de pontos de equivalência ou incompatibilidade, sejam derivados uma série coerente de objetos, formas enunciativas e conceitos, com outros pontos de incompatibilidade ou equivalência. b) descrever as instâncias específicas de decisão, a fim de explicar as escolhas realizadas, entre todas que poderiam ter sido feitas. Descrever tais instâncias implica: • explicitar a economia da constelação discursiva, isto é, o papel desempenhado pelo discurso estudado em relação aos que lhe são contemporâneos e vizinhos; • descrever, entre diversos discursos, relações de delimitação recíproca, isto é, quais são as marcas distintivas (de singularidade) de cada um deles, perceptíveis pela diferenciação de seus métodos, instrumentos e domínio de aplicação. c) estabelecer a função do discurso em relação às práticas não discursivas. Em relação a essa última hipótese, Foucault (1969/2004) também afirma que a individualidade de um discurso não decorre da descrição de todos esses pontos relativos à formação das estratégias. Diferentemente, a individualização de um discurso decorre do sistema de formação das diferentes estratégias que nele se desenrolam, estratégias essas que derivam de um mesmo jogo de relações. Como deve ter sido possível perceber na apresentação dessas quatro hipóteses, a unidade dos discursos não decorre de um plano de análise específico, ou do conjunto de todos os planos de análise considerados, mas do sistema de relações entre todos eles. É considerando esse método arqueológico de análise do discurso que Foucault (1969/2004) propõe que se busque descrever os sistemas de dispersão em suas regularidades, afirmando que: No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva.39 Dessa perspectiva, mais de um discurso pode relevar de uma mesma formação discursiva. É o caso, apenas para exemplificar, do discurso da gramática do século XIX e do discurso da biologia do mesmo século. Isto porque os enunciados (de diversos discursos) se submetem, em última instância, a um sistema de formação, cujas “regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço” definiram “em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou linguística dada, as condições de exercício da função enunciativa” (Foucault, 1969/2004, p. 133). Evidentemente, da perspectiva foucaultiana, não se trata de um espírito de época, mas de condições históricas de enunciabilidade. Tendo apresentado a noção de formação discursiva em Foucault, voltamos ao tópico central dessa seção (apresentação das fases de AD), buscando responder em que sentido a noção de formação discursiva formulada em Arqueologiado saber participa do processo de transformação na concepção do objeto de análise da Análise do Discurso. Paul Henry (1990), no artigo intitulado “Os fundamentos teóricos da Análise ‘Análise Automática do Discurso’ de Michel Pêcheux (1969)”, afirma que existem muitos pontos de contato entre o que Michel Foucault e Michel Pêcheux elaboraram em suas reflexões sobre discurso, dentre eles — e talvez o ponto mais evidente — o interesse comum que partilhavam pela história das ciências e das ideias. Falar, pois, das influências do trabalho de Foucault sobre as reflexões de Pêcheux — mesmo no que tange especificamente às formulações referentes à Arqueologia do saber — exigiria paralelos razoavelmente extensos.40 Para os propósitos deste texto, entretanto, gostaríamos apenas de pontuar que uma das contribuições fundamentais que a noção de formação discursiva desenvolvida por Foucault traz para o campo da Análise do Discurso é a possibilidade de se eliminar o problema da homogeneidade na constituição dos corpora discursivos.41 O campo de aplicação da noção de formação discursiva foucaultiana extrapola — e muito — um discurso produzido a partir de condições de produção homogêneas (concepção de discurso formulada na primeira fase da AD), e isso será decisivo para os novos horizontes vislumbrados pelas reflexões de Pêcheux. A noção de formação discursiva é acolhida por Pêcheux, mas reconfigurada no quadro teórico do marxismo althusseriano, passando a constituir a tríade formação social, formação ideológica e formação discursiva. De acordo com Pêcheux e Fuchs (1975/1990), toda formação social se caracteriza por uma certa relação entre as classes sociais e implica a existência de posições ideológicas e políticas que se organizam em formações, que mantêm entre si relações de confronto e antagonismo, de aliança ou dominação. A esse respeito, os autores esclarecem que falarão em formação ideológica para caracterizar um elemento (esse aspecto da luta nos aparelhos) suscetível de intervir como uma força em confronto com outras na conjuntura ideológica característica de uma formação social em dado momento; desse modo, cada formação ideológica constitui um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem “individuais” nem “universais” mas se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classes em conflito umas com as outras.42 Seguindo Althusser, Pêcheux e Fuchs ainda afirmam que o discursivo deve ser concebido como um dos aspectos materiais da materialidade ideológica, ou, em outras palavras, afirmam que a espécie discursiva pertence ao gênero ideológico, o que é o mesmo que dizer que as formações ideológicas (...) comportam necessariamente, como um de seus componentes, uma ou várias formações discursivas interligadas que determinam o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma harenga, um sermão um panfleto, uma exposição, um programa etc.) a partir de uma posição dada numa conjuntura, isto é, numa certa relação de lugares no interior de um aparelho ideológico, e inscrita numa relação de classes.43 As formações discursivas, portanto, intervêm nas formações ideológicas enquanto componentes que materializam a contradição entre diferentes posições ideológicas. Assim, uma formação discursiva (doravante FD) não pode ser concebida como homogênea ou como um espaço estrutural fechado, visto que, pelo fato de suas condições de produção serem contraditórias, ela se constitui como um espaço constantemente invadido por elementos que vêm de outro lugar, de outras formações discursivas. Neste sentido, o espaço de uma FD é atravessado pelo “pré-construído”,44 ou seja, por discursos que vieram de outro lugar (de uma construção anterior e exterior) e que são incorporados por ela numa relação de confronto ou aliança. Uma FD, portanto, é constituída por um sistema de paráfrases, já que é um espaço em que enunciados são retomados e reformulados sempre “num esforço constante de fechamento de suas fronteiras em busca da preservação de sua identidade”.45 Nesta segunda fase da AD, o objeto de análise passará a ser as relações entre as “máquinas” discursivas. Vale ressaltar, no entanto, que o fechamento da maquinaria ainda é conservado, pois a presença do outro (outra FD) sempre é concebida a partir do interior da FD em questão. No que diz respeito aos procedimentos de análise, a AD-2 apresenta muito poucas inovações; o deslocamento efetivo que se dá com relação à AD-1 diz respeito sobretudo ao objeto de análise: discursos menos “estabilizados”, por serem produzidos a partir de condições de produção menos homogêneas. O “discurso comunista dirigido aos cristãos”, corpus de análise de Courtine (1981) é um bom exemplo. A desconstrução da maquinaria discursiva só ocorrerá mesmo na terceira fase da Análise do Discurso46 (AD-3). Essa desconstrução é decorrente de um deslocamento que ocorre no que diz respeito à relação de uma FD com as outras. Na AD-2, o “outro” — outra(s) FD(s) — é incorporado pela FD em questão, que mantém, mesmo sendo atravessada por outros discursos, uma identidade. É possível, através de uma análise discursiva, determinar o interno e o externo de uma formação discursiva, isto é, o que pertence a uma ou à(s) outra(s) FD(s). Na AD-3, por sua vez, adota-se a perspectiva segundo a qual uma FD está sempre dominada pelo interdiscurso,47 a ponto de Pêcheux afirmar que a formação discursiva só pode produzir o assujeitamento ideológico — isto é, só pode levar um sujeito a ocupar uma posição no interior das relações de classes sem se dar conta de que é levado a isso —, na medida em que ela está de fato dominada pelo interdiscurso, conceito que é entendido pelo autor como sendo o conjunto estruturado das formações discursivas ou, ainda, como um todo complexo com dominante. Essa é uma das formas de se entender uma tese cara à AD, a saber, a do primado do interdiscurso sobre o discurso: (...) toda formação discursiva dissimula, pela transparência de sentido que nela se constitui, sua dependência em relação ao “todo complexo com dominante” das formações discursivas, intricado no complexo das formações ideológicas.48 Essa nova postura teórica frente ao objeto da AD exclui definitivamente a possibilidade de se considerar a FD como a unidade de análise. O objeto de análise da Análise do Discurso passa a ser o espaço de trocas entre formações discursivas, ou ainda, o interdiscurso. Os trabalhos de Dominique Maingueneau, além de serem bastante representativos dessa nova forma de se conceber o objeto da AD, ainda desenvolvem uma concepção de interdiscurso bastante produtiva e operacional para o analista do discurso, na medida em que explicita seus diversos níveis de funcionamento. Em Gênese dos discursos (1984/2008), o autor concebe o interdiscurso a partir da consideração do discurso sob o duplo ponto de vista de sua gênese e de sua relação com o interdiscurso, o que significa assumir que a identidade de um discurso é indissociável de sua emergência e de sua manutenção através do interdiscurso. Ou seja, o que há, a princípio, é o interdiscurso (um conjunto de formações discursivas em relação), de modo que a identidade de cada FD não está dada a priori, mas se constitui de maneira regulada no interior de um interdiscurso. Será a relação interdiscursiva, portanto, que estruturará a identidade das formações discursivas em relação. Um postulado como esse explode definitivamente o procedimento de análise por etapas, com ordem fixa, tal como levavam a cabo os trabalhos da AD-1 e da AD-2. O conceito de interdiscurso apresentado em Gênese dos discursos49 é um dos pontos fortes da reflexão teórica de Dominique Maingueneau. No intuito de especificar melhor essa noção, que considera vaga para seus propósitos, o autor propõe que se considere o interdiscurso a partir da tríade universo discursivo, campo discursivo e espaço discursivo. A noção de universo discursivo diz respeito ao conjunto de formações discursivas de todos os tipos, que interagem em uma conjuntura dada. Mesmo não sendo possível apreendê-loem sua globalidade, trata-se de um conjunto finito que define uma extensão a partir da qual serão construídos domínios susceptíveis de serem estudados, a saber, os campos discursivos. O campo discursivo deve ser compreendido como sendo um conjunto de formações discursivas50 com mesma função social, que divergem, entretanto, quanto ao modo pelo qual essa função deve ser preenchida.51 Em uma região determinada do universo discursivo, tais formações discursivas buscam delimitar-se reciprocamente, por meio de uma relação de concorrência, compreendendo este último termo de maneira mais ampla, de modo a significar tanto afrontamento aberto, quanto aliança, neutralidade aparente etc. O recorte em campos discursivos não define zonas insulares; é antes uma abstração necessária que deve permitir abrir múltiplas redes de trocas. A delimitação desses campos também não tem nada de evidente, mas exige do analista que ele faça hipóteses e escolhas, pautadas tanto na materialidade linguística dos supostos discursos que se encontram em relação, como nas condições de enunciabilidade de tais discursos, condições que, por sua vez, circunscrevem-se historicamente. É no interior do campo discursivo que se constitui uma FD, e sua constituição pode, de acordo com Maingueneau, ser descrita em termos de operações regulares sobre formações discursivas já existentes. Essa hipótese nos conduz a uma outra noção definida pelo autor, a saber, a noção de espaço discursivo, que deve ser compreendido como um subconjunto de formações discursivas cuja relação o analista julga pertinente considerar para seu propósito. O recorte desse subconjunto deve resultar de hipóteses fundadas sobre um conhecimento dos textos e sobre um saber histórico que serão confirmados, ou não, no decorrer da pesquisa. Estas três noções (universo, campo e espaço discursivos) trazidas para o interior da Análise do Discurso por Maingueneau permitem definir zonas de regularidade semântica (o campo e o espaço), no interior das quais pode ser mais produtivo o tratamento da gênese e do modo de coesão entre as formações discursivas em relação, já que tais zonas de regularidade acabam por delimitar rigorosamente o fenômeno da interdiscursividade a partir de condições históricas bem especificadas. Na seção que se segue, faremos a análise de uma crônica a fim de operacionalizar uma análise de texto com base nos pressupostos da AD. Retomaremos alguns conceitos já apresentados, além de apresentar outros ainda não abordados (pelo menos de forma direta), como os conceitos de sujeito e sentido.52 3. UMA ANÁLISE 3.1. Como ler um texto: em pauta as noções de formação ideológica, formação discursiva, interdiscurso, condições de produção, heterogeneidade, sujeito e sentido Nesta seção, nos debruçaremos sobre a análise de um texto — a crônica “Um só seu filho” de Bráulio Tavares, publicada no Caderno Mais da Folha de S.Paulo, no dia l6 de março de 1997. Antes, porém, é necessário esclarecer que o texto, para a AD, não é concebido como uma unidade coerente de sentido, tal como o é, por exemplo, para a Linguística Textual. A relevância do texto para a AD “decorre do fato de que cada texto é parte de uma cadeia (de um arquivo)”, decorre de ele ser concebido “como uma superfície discursiva, uma manifestação aqui e agora de um processo discursivo específico”.53 Para a AD, o texto faz sentido por sua inserção em uma FD, em função de uma memória discursiva, do interdiscurso, que o texto retoma e do qual é parte. Ou seja, não há propriamente texto, concebido como uma unidade; o que há são linearizações concretas (materiais) de discursos.54 Será, pois, desta perspectiva que empreenderemos a análise da crônica. Vale ainda esclarecer que a escolha por este material de análise se justifica pela própria forma como a crônica é construída, de maneira bastante interessante para um primeiro contato com alguns dos fundamentos teóricos da AD. Em função dos objetivos deste capítulo, não consideraremos aspectos literários do texto em questão, o que não significa que não os reconheçamos.55 Outra questão importante a esclarecer é que empreenderemos uma análise fundamentalmente de filiação pecheutiana, mobilizando os conceitos de formação ideológica, formação discursiva, interdiscurso, condições de produção, heterogeneidade, sujeito e sentido. Entretanto, como se trata de um texto literário e não de um texto do campo político (tipo de corpus privilegiado por Pêcheux), são necessários alguns deslocamentos teóricos. Mais efetivamente, os deslocamentos necessários são aqueles relacionados às noções de formação ideológica e formação discursiva. Como já apresentado, a noção de formação ideológica, tal como mobilizada em Pêcheux e Fuchs (1975/1990, p. 166), é definida como sendo um conjunto de atitudes e representações que “se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classe em conflito umas com as outras” (grifos nossos). A formação discursiva, como componente da formação ideológica, acaba por materializar — também mais ou menos diretamente — essas posições de classe em conflito. A própria formulação desses conceitos, portanto, abre possibilidade para a análise de corpora discursivos a partir dos quais se podem considerar conjuntos de atitudes e representações que se relacionam menos diretamente a posições de classe, como é o caso, a nosso ver, do discurso literário.56 Consequentemente, a noção de formação discursiva passa a ser produtiva também em campos não propriamente (ou diretamente) político-social ou econômico. Assumindo, pois, a possibilidade desse deslocamento, é que, na análise da crônica “Um só seu filho”, mobilizaremos, da perspectiva pecheutiana, as noções de formação ideológica e de formação discursiva, focalizando, a partir dessas noções, conflitos e contradições ideológicas decorrentes do embate entre diferentes posições discursivas. Outras perspectivas discursivas de abordagem dessa crônica poderiam ser empreendidas. No entanto, como este capítulo tem o intuito de apresentar os fundamentos da constituição da Análise do Discurso enquanto disciplina, e é Pêcheux quem se debruça mais arduamente sobre essa tarefa, colocando a questão fundamental da AD, a saber, como ler um texto, e postulando as bases para uma semântica discursiva que seja da ordem das formações discursivas e não da ordem da língua,57 optamos por privilegiar a perspectiva teórica pecheutiana. Tendo feito essas considerações, reproduzimos, a seguir, a crônica a ser analisada. Naquela noite, o papa atravessou sua recorrente insônia com a ajuda de algumas páginas do tratado ilustrado de Mary D’Império sobre o manuscrito Voynich, na edição de luxo de 1994. Leu até que os nomes de John Dee e Roger Bacon pareceram misturar-se e seus olhos começaram a arder. Usando os óculos dobrados para marcar a página, colocou o livro sobre a mesa de cabeceira e apertou o botão que mergulhou o quarto nas trevas. Fez suas orações deitado, autoindulgência da qual teria se envergonhado aos 60 anos, mas que agora já lhe parecia um direito adquirido. Também lhe sucedia às vezes adormecer antes de concluir as preces; isso também não o inquietava mais. Pensava: “Deus enxerga meu coração; ele sabe que meu pecado não é este, que minhas dívidas são outras”. De repente, estava sentado no alto de uma montanha. O horizonte imenso estendia-se à sua frente; o vento era frio, mas não incomodava. — Este foi seu último dia sobre a Terra — disse uma voz ao seu lado. Tens agora o direito de fazer um último pedido. Ao seu lado havia uma forma que a princípio ele tomou por um homem de pé, depois por uma árvore, depois por uma nuvem vertical. Seus traços podiam corresponder a qualquer uma das coisas, e ele imaginou que aquilo era Deus. — Obrigado, Senhor — disse. Não mereço esta graça. — Todos os homens a recebem — disse a voz. Não és melhor do que ninguém. Sem saber o que responder, ele inclinou-se mais uma vez. Pensou: “É meu último dia de vida, isto não deve me amedrontar; é como quando após uma refeição alguém retira de minhafrente o prato vazio. Por que me rebelar, se já fruí o que me interessava?”. — Olha para tua mão — disse a voz. O que mais desejas? Ele fitou a palma da própria mão: viu com espantosa nitidez as linhas e as comissuras da pele, viu as rugosidades, o intrincamento têxtil das camadas superpostas, viu o fervilhar da matéria viva e as células que se partiam e se fundiam umas às outras como gotas d’água. — Nascer de novo — respondeu ele, sem pensar. — Queres voltar ao passado? — Quero nascer de novo, mas no futuro — retrucou. Quero nascer sob a forma de outra pessoa e saber se serei novamente seminarista, e padre, e cardeal, e papa. Quero que algumas destas minhas células sejam transplantadas para um tubo de ensaio e dali talvez para um ventre, de onde eu renasça: corpo, rosto e mente iguais aos que tive quando nasci. Código genético igual ao meu, sem a interferência abastardante de genes de uma fêmea, de uma parideira intrusa. Quero que meu espírito se faça carne, mas quero ser o Pai único de meu Filho. — Para quê? Ele ergueu-se e maravilhou-se de ver que mesmo diante de Deus podia ficar de pé quando bem entendesse (“mas, aí”, pensou, “é o último dia”). Olhou o vale que se espalhava lá embaixo: à luz roxa que vinha do céu, distinguia florestas, mares, arquipélagos, cidades, desertos de areia intacta, enormes cordilheiras de gelo rodopiando devagar em águas de um azul metálico. Cruzou os braços e virou-se para o vulto. — Se minha alma existe está ligada sem remissão a este corpo mortal. Se meu corpo se repetir, minha alma permanecerá aqui na Terra. De novo nascerei e serei um menino que irá dançar ao som de pandeiros e rabecas; de novo roubarei frutas, correrei atrás de cães, beijarei a boca de alguma moça de tranças louras. De novo estudarei o latim e a álgebra, de novo andarei anônimo e de batina por entre homens arrogantes que não suspeitarão o meu futuro. Farei voto de pobreza e viverei depois como um monarca; farei voto de obediência e subirei degrau após degrau das hierarquias de comando; farei voto de castidade... e quem sabe da próxima vez terei mais sorte. Lá embaixo, no vale, a luz crescia, e ele já enxergava centenas de metrópoles e cada janela de cada casa, e cada rosto adormecido por trás de cada janela. — Ninguém teve esta segunda chance — disse a voz, mas sem tentar persuadi-lo. — O que pedem os homens, então? — Pedem dinheiro, poder, mulheres. Pedem oxímoros, paradoxos: juventude eterna, imortalidade do corpo... Tu pedes que teu corpo se multiplique. E se, em vez de um, fizerem dois? De quantas almas irás precisar? E se fizerem 20, 200? Ele voltou a sentar-se. Sabia que quem acabara de fazer aquele pedido não era o ancião calejado pelos debates escolásticos, o erudito capaz de enfrentar a teologia e a metafísica em 12 idiomas e, sim, o rapaz que em uma noite de febre sentira pela primeira vez, no pulsar dos próprios gânglios, a semente da morte crescendo dentro de si. — Vai, pede — disse a voz; e, sem surpresa, ele soube naquele instante que aquela voz não era Deus. Estendeu a mão para o vulto, e tocou nele. O camareiro, que se chamava Gesualdo, encontrou-o pela manhã, apalpou a pele fria de seu rosto, viu os olhos azuis virados para o teto. Gritou por socorro e teve a preocupação de não tocar em nada no quarto. Nessa crônica é possível perceber que se cruzam, pelo menos, duas questões mobilizadas pelo autor através do devaneio do Papa, que se vê diante de seu último dia de vida. Antes de iniciarmos esta análise, no entanto, gostaríamos de esclarecer que, ao falarmos em devaneio ou discurso do personagem Papa, estaremos, na verdade, sempre nos referindo a discursos que são mobilizados pelo autor por meio deste personagem. Neste devaneio é delatado um conflito entre dois posicionamentos, um religioso e outro científico. Suspenso entre duas maneiras de conceber a sua existência, o Papa reflete sobre a possibilidade de nascer de novo, “sem a interferência abastardante de uma fêmea, de uma parideira intrusa”, numa referência à clonagem de seres humanos, mas se depara com um conflito espiritual: “Tu pedes que teu corpo se multiplique. E se, em vez de um, fizerem dois? De quantas almas irás precisar?”. A Análise do Discurso considera como parte constitutiva do sentido o contexto histórico-social; ela considera as condições em que este texto, por exemplo, foi produzido. Contextualizado num momento histórico em que a clonagem levantava a questão da ética na ciência, nada mais representativo desse contexto que a figura do Papa como contraponto ideológico. Por meio deste personagem, o autor presentifica no texto o posicionamento religioso católico que faz oposição a uma ciência que se confronta com a concepção de homem como ser espiritual. Se este contexto for ignorado, todo o sentido do texto é alterado. Basta considerar a hipótese de este texto, por exemplo, ter sido escrito no século XIX, em que a clonagem de seres humanos não passava de pura ficção científica e não era, como nos dias atuais, uma possibilidade que a ciência considera. Este texto não teria o estatuto que atribuímos a ele, o de colocar em cena um conflito ideológico atual, mas lhe seria atribuído o estatuto de “ficção científica” por abordar fatos inconcebíveis ao homem da época. O contexto histórico-social, então, as condições de produção, constituem parte do sentido do discurso e não apenas um apêndice que pode ou não ser considerado. Em outras palavras, pode-se dizer que, para a AD, os sentidos são historicamente construídos. Nesta crônica, é delatado um conflito, um confronto entre forças ideológicas. O conflito, materializado na alternância das posições que o personagem Papa ocupa durante seu devaneio — ora desempenha o papel de autoridade da Igreja Católica, instituição que representa, ora ocupa o lugar de um homem comum fascinado pelas promessas da ciência de sua época —, é caraterístico de posições ideológicas contrárias uma em relação à outra em uma conjuntura dada, ou seja, o conflito é característico de um embate de nossa época. O texto, portanto, não se apresenta como um conjunto de enunciados unificados por posições ideológicas não conflitantes, como algo homogêneo. Ao contrário, o texto se constitui de posicionamentos divergentes cujas fronteiras se intersectam (o próprio devaneio se caracteriza pela ausência de uma demarcação definida entre uma posição e outra); o texto, nesse sentido, é constitutivamente heterogêneo, de modo que não é possível definir a identidade de um desses posicionamentos sem remeter ao outro. O que se pode dizer do devaneio do Papa? Que ele representa um posicionamento da Igreja Católica com relação à liberdade do homem diante da própria vida? Que ele representa as possibilidades que a ciência moderna oferece ao homem de ser senhor da própria vida? Não é possível optar por apenas uma das hipóteses sem incorrer no risco de desconfigurar o sentido do texto. O devaneio do Papa representa, ao mesmo tempo, o posicionamento católico e o posicionamento da ciência moderna, ele só existe na verdade porque existe um conflito ideológico, ético no caso, entre as duas posições. Como já apontado, Pêcheux e Fuchs (1975/1990) falam em formação ideológica (FI) para caracterizar este confronto de forças em um dado momento histórico. Sendo assim, uma formação ideológica comporta necessariamente mais de uma posição capaz de se confrontar uma com a outra. Na verdade, numa formação ideológica, as forças não precisam estar necessariamente em confronto; elas podem entreter entre si relações de aliança ou também de dominação. A ideia de confronto foi colocada em destaque aqui unicamente em função do texto analisado. O conceito de formação discursiva (FD), também já apresentado, é mobilizado pela AD de filiação pecheutiana para designar o lugar onde se articulam discurso e ideologia. Nesse sentido é que podemos dizer que uma formação discursiva é governada por uma formação ideológica (FI). Como uma FI coloca em relação necessariamente mais de uma força ideológica, uma formação discursiva semprecolocará em jogo mais de uma posição discursiva. No caso da crônica analisada, temos interligados, por uma relação de forças contraditórias, certo posicionamento da ciência moderna e o posicionamento religioso católico. Para esclarecer melhor a constituição de uma formação discursiva, gostaríamos de analisar uma tira de Bill Watterson: Calvin, o personagem menino que assume o papel de enunciador do discurso “A força para mudar o que eu puder, a inabilidade de aceitar o que eu não posso e a incapacidade de ver a diferença”, enuncia inscrito em uma formação discursiva. Como uma FD é um dos componentes de uma formação ideológica específica, o fechamento, o limite que define uma formação discursiva é instável, pois ela se inscreve em um espaço de embates, de lutas ideológicas. Assim, uma FD não consiste em um limite traçado de maneira definitiva; uma FD se inscreve entre diversas formações discursivas, e a fronteira entre elas se desloca em função dos embates da luta ideológica, sendo esses embates recuperáveis no interior mesmo de cada uma das FDs em relação. Vejamos como isso se dá no discurso de Calvin. O quadro que se segue foi-nos apresentado por um aluno do 2º ano do curso de Tradutor e Intérprete da Universidade de Franca,58 por ocasião da leitura da primeira versão deste texto. Nós o reproduzimos aqui como uma contribuição para a explanação do conceito em questão. FD FD CRISTÃ FD NEOLIBERAL “A força para mudar o que eu puder” A força para mudar o que puder (objetiva transformar) A força para mudar o que puder (objetiva uma imposição ditatorial) “A inabilidade para aceitar o que eu não posso” A habilidade de aceitar o que não pode ser mudado (resignação diante dos obstáculos intransponíveis) A inabilidade de aceitar o que não pode ser mudado (revolta e insatisfação diante dos obstáculos intransponíveis) “A incapacidade de ver a diferença” A capacidade de ver a diferença (aspira-se à sabedoria) A incapacidade de ver a diferença (aspira-se somente à realização das vontades pessoais, nada deve detê-las) O quadro apresentado mostra o discurso de Calvin como decorrente de um embate entre duas formações discursivas, a “FD cristã”, enunciada a partir de um lugar ideológico que valoriza a convivência pacífica e equilibrada de um sujeito consigo mesmo e com o próximo, e a “FD neoliberal”,59 enunciada a partir de um lugar ideológico que valoriza a vida pautada pelos desejos pessoais e particulares do sujeito (os nomes dados às FDs são bastante “esquemáticos”, no sentido de rotularem os discursos; foram escolhidos em função do que julgamos ser o componente semântico mais característico das FDs em questão e são aqui utilizados apenas para fins didáticos). De acordo com o quadro, um mesmo enunciado pode ser compreendido de duas maneiras, dependendo do lugar ideológico de onde é enunciado. “A força para mudar o que eu puder” pode significar a luta por uma transformação pautada na boa vontade e na solidariedade cristãs ou uma imposição ditatorial pautada pelo egocentrismo e individualismo. Ao mesmo tempo, enunciados como “A inabilidade para aceitar o que eu não posso” e “A incapacidade para ver a diferença”, que parecem nos remeter univocamente à “FD neoliberal”, no quadro são apresentados como nos remetendo também à “FD cristã”. O leitor deve estar se perguntando por quê. Uma breve apresentação do conceito de heterogeneidade discursiva poderá esclarecer essa questão. Antes, porém, não poderíamos deixar de fazer uma referência a Bakhtin (1929/1988), que apresenta uma noção de dialogismo sobre a qual se funda grande parte da literatura sobre heterogeneidade discursiva. Bakhtin (1929/1988) considera que a verdadeira substância da língua é constituída pelo fenômeno social da interação verbal e que o ser humano é inconcebível fora das relações que o ligam ao outro.60 Partindo desse pressuposto, critica a concepção de língua enquanto estrutura, argumentando que, ao ser tomada como alheia aos processos sociais, passa a não ser articulável com uma prática social concreta, com a história e tampouco com o sujeito. Segundo Authier-Revuz (1982), um paradigma é constante nos estudos do círculo de Bakhtin: opõem-se o dialógico ao monológico, o múltiplo ao único, o heterogêneo ao homogêneo.61 O dialogismo do círculo de Bakhtin, no entanto, não tem como preocupação central o diálogo face a face, mas diz respeito a uma teoria de dialogização interna do discurso. É nesse sentido que, para Bakhtin, o discurso, cujo dialogismo se orienta para outros discursos e para o outro da interlocução, instaura-se numa perspectiva plurivalente de sentidos, bem como a própria palavra que, pelo fato de ser atravessada por sentidos constituídos historicamente, não é monológica, não é neutra, mas atravessada pelos discursos nos quais viveu sua existência socialmente sustentada.62 Recorrendo a este conceito de dialogismo63 concebido pelo círculo de Bakhtin, Authier-Revuz (1990) indica algumas formas de heterogeneidade mostrada no discurso, formas que se articulam sobre a realidade da heterogeneidade constitutiva de todo discurso. A heterogeneidade constitutiva, segundo Maingueneau (1997), não é marcada em superfície, mas a AD pode defini-la, formulando hipóteses, a partir do pressuposto da presença constante do Outro na constituição de uma formação discursiva. Authier-Revuz (1982) aponta três tipos de heterogeneidade mostrada: a) aquela em que o locutor ou usa de suas próprias palavras para traduzir o discurso de um Outro (discurso relatado) ou então recorta as palavras do Outro e as cita (discurso direto); b) aquela em que o locutor assinala as palavras do Outro em seu discurso, por meio, por exemplo, de aspas, de itálico, de uma remissão a outro discurso, sem que o fio discursivo seja interrompido; c) aquela em que a presença do Outro não é explicitamente mostrada na frase, mas é mostrada no espaço do implícito, do sugerido, como nos casos do discurso indireto livre, da antífrase, da ironia, da imitação, da alusão.64 Essas três formas de heterogeneidade mostrada assinalam a presença do Outro na superfície discursiva de maneira diferente, desde formas mais evidentes (a, b), que Authier-Revuz (1990) classifica como heterogeneidade mostra- da marcada, até a forma mais complexa, menos evidente (c), em que a voz do locutor se mistura à do Outro, e que a autora classifica como heterogeneidade mostrada não marcada. No entanto, independentemente dessa classificação, todas essas formas de heterogeneidade estão ancoradas no princípio da heterogeneidade constitutiva do discurso. Retornando agora à análise da tira de Watterson apresentada no quadro, ficará mais fácil de compreender por que os enunciados “A inabilidade para aceitar o que eu não posso” e “A incapacidade para ver a diferença” são apresentados como remetendo também à “FD cristã”. Nos dois enunciados há a marca da negação — o prefixo in —, uma forma de heterogeneidade mostrada marcada na superfície do discurso. Por meio desta marca, o que é negado é justamente o discurso que é apresentado no quadro como remetendo à “FD cristã”: “A habilidade para aceitar o que eu não posso” e “A capacidade para ver a diferença”. Assim, a negação de um discurso necessariamente nos remete a ele, de forma que ele pode ser percebido como a presença do “Outro” no interior do discurso que o nega. Já o enunciado “A força para mudar o que eu puder”, como já dito anteriormente, também remete à “FD cristã” e à “FD neoliberal”, mas pela presença da heterogeneidade mostrada não marcada na superfície discursiva. É no espaço do sugerido que percebemos esta heterogeneidade, é em função da relação que estabelecemos entre “A força para mudar o que eu puder” e os demais enunciados do discurso de Calvin que percebemos a dupla alusão deste enunciado. Retomando Maingueneau (1997), é formulando hipóteses desse tipo que podemos perceber a presença constante do Outro na constituição de uma formação discursiva, que podemos perceber a realidade da heterogeneidade constitutiva do discurso. A própria Authier-Revuz(1982) considera que os dois níveis de heterogeneidade mostrada, a marcada e a não marcada, são, na verdade, formas linguísticas de representação de diferentes modos de negociação do sujeito falante com a heterogeneidade constitutiva, sendo a heterogeneidade mostrada não marcada uma forma mais arriscada de negociação porque, ao jogar com a diluição, é mais dificilmente controlada pelo sujeito. Foi possível perceber, então, que existe, numa formação discursiva, sempre a presença do Outro, e é esta presença que confere ao discurso o caráter de ser heterogêneo. O quadro apresentado a partir da análise da tira de Watterson dá visibilidade a esse caráter heterogêneo do discurso. Apesar de Calvin enunciar de um lugar ideológico, digamos, “neoliberal”, os embates entre este lugar ideológico e o “cristão” são recuperáveis no interior mesmo da FD. Calvin, ao ironizar o discurso cristão negando-o através de uma paródia, recupera-o como parte constitutiva do discurso. É em função desse modo de funcionamento discursivo que Maingueneau (1997) — considerando, na esteira de Pêcheux, que uma formação discursiva não pode ser compreendida como um bloco compacto e fechado, mas que ela é definida a partir de uma incessante relação com o Outro — afirma o primado do interdiscurso sobre o discurso. Para ele, como já dissemos anteriormente, a unidade de análise pertinente não é o discurso, mas um espaço de trocas entre vários discursos. Os diversos discursos que atravessam uma FD não passam de componentes, ou seja, em termos de gênese, tais discursos não se constituem independentemente uns dos outros para serem, em seguida, postos em relação, mas se formam de maneira regulada no interior de um interdiscurso. Será a relação interdiscursiva, pois, que estruturará a identidade das FDs em questão. A AD-3 e as recentes pesquisas tomam, como já apontado, o interdiscurso como um pressuposto teórico. O pressuposto do primado do interdiscurso sustenta-se muito bem na crônica “Um só seu filho”, pois o sentido do texto não pode ser apreendido em um espaço fechado, dependente de uma posição enunciativa absoluta ou de outra, mas ele deve ser apreendido como circulação dissimétrica de uma posição enunciativa à outra. Observemos dois trechos. Quando a voz pergunta ao Papa qual era o seu último pedido, o Papa, depois de alguma hesitação, responde: — Quero nascer de novo, mas no futuro — retrucou. Quero nascer sob a forma de outra pessoa e saber se serei novamente seminarista, e padre, e cardeal, e papa. Quero que algumas destas minhas células sejam transplantadas para um tubo de ensaio e dali talvez para um ventre, de onde eu renasça: corpo, rosto e mente iguais aos que tive quando nasci. Código genético igual ao meu, sem a interferência abastardante de genes de uma fêmea, de uma parideira intrusa. Quero que meu espírito se faça carne, mas quero ser o Pai único de meu Filho. Nesse trecho, podemos perceber que há um diálogo incessante entre a “voz” da ciência — “Código genético igual ao meu, sem a interferência abastardante de genes de uma fêmea, de uma parideira intrusa.” — e a “voz” da religião — “Quero que meu espírito se faça carne, mas quero ser o Pai único de meu Filho”. A posição enunciativa do sujeito do discurso, no caso o personagem Papa, mobilizado pelo autor como responsável por esta enunciação, circula dissimetricamente pelo espaço interdiscursivo, na medida em que ora enuncia de uma posição, ora de outra. O mesmo ocorre quando esse personagem faz uma reflexão a respeito do que ele voltaria a viver se nascesse de novo. Atravessando o discurso sobre a sua trajetória na Igreja Católica, é possível perceber a presença de um discurso de crítica à Igreja, uma vez que faz referência à arrogância de alguns de seus companheiros, ao mesmo tempo que deixa entrever em sua fala um certo sentimento de orgulho e desforra ao referir-se ao seu brilhante futuro: “De novo estudarei o latim e a álgebra, de novo andarei anônimo e de batina por entre homens arrogantes que não suspeitarão o meu futuro”. Nesses dois trechos, o personagem ora enuncia de um lugar ideológico, ora de outro. Os trabalhos mais recentes da AD não considerariam que os dois polos enunciativos de onde enuncia o personagem Papa são constituídos a priori e só então colocados em relação, mas que essa circulação dissimétrica de uma posição enunciativa à outra ocorre devido ao fato de o campo discursivo (Maingueneau, 1984/2008) — conjunto de formações discursivas com mesma função social que se encontram em concorrência, aliança ou neutralidade aparente e que se divergem sobre o modo pelo qual tal função deve ser preenchida —, no qual o sujeito do discurso se inscreve e circula, caracterizar-se essencialmente por ser um espaço interdiscursivo. Do ponto de vista da AD, seria possível dizer que o efeito de devaneio do sujeito-personagem é construído sobre a possibilidade de circulação entre posições enunciativas que o campo discursivo oferece. 3.2. A noção de sentido para a AD Considerando o que foi apresentado até aqui, seria quase redundante dizer que, para a AD, o(s) sentido(s) de uma formação discursiva depende(m) da relação que ela estabelece com as formações discursivas no interior do espaço interdiscursivo. A heterogeneidade constitutiva do discurso o impede, como vimos, de ser um espaço “estável”, “fechado”, “homogêneo”, mas não o redime de estar inserido em um espaço controlado, demarcado pelas possibilidades de sentido que a formação ideológica pela qual é governado lhe concede. Uma formação discursiva, apesar de heterogênea, sofre as coerções da formação ideológica em que está inserida. Sendo assim, as sequências linguísticas possíveis de serem enunciadas por um sujeito já estão, em alguma medida, previstas, porque o espaço interdiscursivo se caracteriza pela defasagem entre uma e outra formação discursiva. Explicando melhor: as sequências linguísticas possíveis de serem enunciadas por um sujeito circulam entre esta ou aquela formação discursiva que compõem o interdiscurso. O devaneio do personagem Papa é bastante esclarecedor nesse sentido. Ora o personagem fala a partir de um posicionamento ideológico, ora de outro. Ora é o representante da Igreja Católica diante de Deus — “Obrigado, Senhor. Não mereço esta graça” —, ora é apenas um homem moderno atormentado pela ideia da morte — “Nascer de novo”. Mas não seria inverossímil o personagem Papa, mobilizado pelo autor como responsável pela enunciação, pedir para nascer de novo? É justamente neste ponto que a AD se mostra bastante esclarecedora. Para a Análise do Discurso, o que está em questão não é o sujeito em si; o que importa é o lugar ideológico de onde enunciam os sujeitos. Em outras palavras, no espaço interdiscursivo, enunciando do interior de uma formação discursiva de cunho ideológico cristão-católico, o personagem jamais poderia pedir para nascer de novo. Ao fazer esse pedido, o que ocorre é que ele deixa de enunciar inscrito em uma FD de cunho cristão-católico e passa a enunciar de um outro lugar ideológico, estando inscrito, assim, em outra formação discursiva. Dessa forma, apesar do caráter constitutivamente heterogêneo do discurso, não se pode concebê-lo como livre de restrições. O que é e o que não é possível de ser enunciado por um sujeito já está, em alguma medida, demarcado pela própria formação discursiva na qual está inserido. Os sentidos possíveis de um discurso, portanto, são sentidos fortemente condicionados pela própria identidade de cada uma das formações discursivas colocadas em relação no espaço interdiscursivo. No entanto, apesar de os sentidos possíveis de um discurso estarem fortemente condicionados, eles não são constituídos a priori, ou seja, eles não existem antes do discurso. O sentido vai se constituindo à medida que se constitui o próprio discurso. Não existe, portanto, o sentido em si, ele vai sendo determinado simultaneamente às posições ideológicas que vão sendo colocadas em jogo na relação entre as formações discursivas que compõem o interdiscurso. Se tomarmoscomo exemplo a própria constituição da crônica “Um só seu filho”, ou melhor, se a tomarmos como uma metáfora de como se constitui o sentido para a AD, ficará mais fácil de compreender a noção de sentido. O sentido (ou os sentidos) da crônica não é dado a priori, mas vai sendo construído à medida que se constrói o texto. Não se tem a priori com muita clareza o que está efetivamente ocorrendo com o personagem Papa. O personagem vai se constituindo à medida que o texto vai sendo construído e, por sua vez, vai-se construindo o sentido do texto à medida que se dá a sua própria constituição. Esse sentido, no entanto, não é qualquer sentido, mas está, de certa forma, previsto pelas forças ideológicas colocadas em jogo na crônica. A AD diria que os sentidos possíveis para esta crônica deslocam-se entre (e aqui diremos de maneira bastante esquemática e simplificadora, apenas para exemplificar) a “formação discursiva da ciência” e a “formação discursiva católica”. No espaço de circulação entre essas duas formações discursivas é que residiria o sentido. O sentido, portanto, não é único, já que se dá num espaço de heterogeneidade, mas é necessariamente demarcado. Um outro exemplo que pode ser esclarecedor é pensarmos nas propagandas eleitorais que a cada quatro anos assistimos pela televisão. Os discursos de cada partido ou político não são elaborados previamente e guardados em gavetas até a data prevista para serem enunciados na TV. Mas, à medida que vai se dando o embate político entre partidos e candidatos, os discursos vão sendo escritos, reescritos, e os sentidos, então, vão sendo constituídos no próprio processo de constituição dos discursos. Evidentemente, não são quaisquer sentidos que são constituídos a partir de uma formação discursiva, como já foi dito anteriormente, mas somente aqueles possíveis pela configuração da formação ideológica que rege determinado discurso. Assim, considerando o contexto político-histórico- social do Brasil nos anos de 1980, por exemplo, dificilmente ouviríamos de um candidato do PT algo como “Vamos privatizar os setores básicos da economia” ou, então, de um candidato do PFL, “Abaixo a privatização”. 3.3. O conceito de sujeito na AD Não fica muito difícil de prever, considerando o percurso que fizemos até aqui, de que maneira a subjetividade é concebida pela AD. Para abordarmos essa questão, consideraremos as fases da AD apresentadas anteriormente, já que, decorrente de cada noção de discurso, têm-se diferentes noções de sujeito. Na AD-1, como cada processo discursivo é gerado por uma “máquina discursiva”, o sujeito não poderia ser concebido como um indivíduo que fala (“eu falo”), como fonte do próprio discurso. O sujeito, para a AD-1, é concebido como sendo assujeitado à maquinaria [para utilizar um termo do próprio Pêcheux (1983/1990)], já que está submetido às regras específicas que delimitam o discurso que enuncia. Assim, segundo essa concepção de sujeito, “quem de fato fala é uma instituição, ou uma teoria, ou uma ideologia”.65 Na AD-2, a noção de sujeito sofre uma alteração. Não existe mais, neste segundo momento, a noção de um sujeito marcado pela ideia de unidade, tal como era concebido na AD-1. Diferentemente, o sujeito passa a ser concebido como aquele que desempenha diferentes funções de acordo com as várias posições que ocupa no espaço interdiscursivo. Dessa forma, na AD-2, “vigora a ideia de que o sujeito é uma função, e que ele pode estar em mais de uma”.66 No entanto, nesta segunda fase, o sujeito, apesar da possibilidade de ocupar diferentes posições, não é totalmente livre; ele sofre as coerções da formação discursiva do interior da qual enuncia, já que esta é regulada por uma formação ideológica. Em outras palavras, o sujeito do discurso ocupa um lugar de onde enuncia, e é este lugar, entendido como a representação de traços de determinado lugar social (o lugar do professor, do político, do publicitário, por exemplo), que determina o que ele pode ou não dizer a partir dali. Ou seja, este sujeito, ocupando o lugar que ocupa no interior de uma formação social, é dominado por uma determinada formação ideológica que preestabelece as possibilidades de sentido de seu discurso. Com relação, portanto, às concepções de sujeito da AD-1 e da AD-2, pode-se dizer que, apesar de diferentes, elas são influenciadas por uma teoria da ideologia que coloca o sujeito no quadro de uma formação ideológica e discursiva (Brandão, 1994). Nesse sentido é que, para a AD, não existe o sujeito individual, mas apenas o sujeito ideológico: a ideologia se manifesta (é falada) através dele. Na AD-3, por sua vez, a noção de sujeito sofre um deslocamento que inaugura uma nova vertente, bastante atual, da Análise do Discurso. Compatível com uma noção de discurso marcado radicalmente pela heterogeneidade — afirma-se na AD-3 o primado do interdiscurso —, tem- se um sujeito essencialmente heterogêneo e descentrado. Os trabalhos de Authier-Revuz,67 em torno dos quais se desenvolve essa nova vertente, incorporam descobertas das teorias do inconsciente, que consideram que o centro do sujeito não é mais o estágio consciente, mas que ele é dividido, clivado entre o consciente e o inconsciente. Inserido nesta base conceitual, o sujeito da AD se movimenta entre esses dois polos sem poder definir-se em momento algum como um sujeito inteiramente consciente do que diz. Nesse sentido, o “eu” perde a sua centralidade, deixando de ser senhor de si, já que o “outro”, o desconhecido, o inconsciente, passa a fazer parte de sua identidade. O sujeito é, então, um sujeito descentrado, constitutivamente heterogêneo, da mesma forma como o discurso o é. Para Authier-Revuz (1982), a heterogeneidade mostrada é uma tentativa do sujeito de explicitar a presença do outro no fio discursivo, na busca de harmonizar as diferentes vozes que atravessam o seu discurso, na busca pela unidade, mesmo que ilusória. Apresentadas as concepções de sujeito em três diferentes fases da AD, é possível perceber que, apesar de distintas, elas possuem uma característica em comum: o sujeito não é senhor de sua vontade; ou temos um sujeito que sofre as coerções de uma formação ideológica e discursiva, ou temos um sujeito submetido à sua própria natureza inconsciente. É preciso salientar, também, que, ao contrapormos uma primeira vertente (AD-1 e AD-2) a uma segunda, mais atual, o fizemos de maneira a focalizar apenas os aspectos discriminadores entre essas vertentes. No entanto, Authier-Revuz, ao privilegiar o enfoque da dimensão do inconsciente como constitutiva da linguagem e do sujeito, não deixa de concebê-los — linguagem e sujeito — no interior de uma perspectiva discursiva em que se articulam com o social e, portanto, com o ideológico. Por sua vez, a AD-1 e a AD-2, ao conceberem o sujeito como interpelado pela ideologia, não deixam de concebê-lo também como um sujeito inconsciente. Os esquecimentos 1 e 2 de que tratam Pêcheux e Fuchs (1975/1990) são uma evidência disso. Segundo os autores, o sujeito se ilude duplamente: a) por “esquecer-se” de que ele mesmo é assujeitado pela formação discursiva em que está inserido ao enunciar (esquecimento nº 1); b) por crer que tem plena consciência do que diz e que por isso pode controlar os sentidos de seu discurso (esquecimento nº 2). Esses dois esquecimentos estão constitutivamente relacionados ao conceito de assujeitamento ideológico, ou interpelação ideológica, que “consiste em fazer com que cada indivíduo (sem que ele tome consciência disso, mas, ao contrário, tenha a impressão de que é senhor de sua própria vontade) seja levado a ocupar seu lugar, a identificar-se ideologicamente com grupos ou classes de uma determinada formação social”.68 O personagem Papa, tal como foi constituído pelo autor da crônica, é uma boa metáfora de como se constitui o sujeito para a AD. Exemplificaremos aqui a constituição desse sujeito, considerando-o apenas a partir das perspectivas da AD-2 e da AD-3, por serem essas as perspectivas que se mostraram mais produtivas no campo da Análise doDiscurso. Na perspectiva da AD-3, diríamos que o personagem Papa é um personagem heterogêneo, descentrado, que por alguns momentos crê que tem consciência do que diz — “Nascer de novo” —, mas que, a seguir, se depara com a própria inconsciência — “Sabia que quem acabara de fazer aquele pedido não era o ancião calejado pelos debates escolásticos, o erudito capaz de enfrentar a teologia e a metafísica em 12 idiomas”. O personagem em questão é uma metáfora de um sujeito dividido pela própria inconsciência. Na perspectiva da AD-2, por sua vez, diríamos que o personagem Papa é assujeitado pelas formações discursivas colocadas em relação no texto, por enunciar apenas o que já está previsto por estas mesmas FDs. Assim, o personagem enuncia inscrito num espaço discursivo demarcado pela formação ideológica que o rege. De acordo com o que vimos analisando da crônica em questão, diríamos, de maneira bastante esquemática, que este personagem enuncia inscrito em um espaço discursivo que coloca em uma relação de conflito dois posicionamentos, um religioso e outro científico; enunciará, portanto, apenas o que está previsto como enunciados possíveis para estas FDs. 3.4. As condições de produção do discurso A dupla ilusão do sujeito de que tratam Pêcheux e Fuchs (1975/1990), abordada anteriormente, é, para a AD, constitutiva das condições de produção do discurso. Como decorrência dessa dupla ilusão, manifestações que se dão no nível da superfície discursiva, como a heterogeneidade mostrada, foram interpretadas por Pêcheux (1969/1990) como uma evidência dessa relação imaginária que o sujeito tem com o próprio discurso, como uma manifestação da tentativa (ilusória) de controlar o próprio discurso. Assim, para a AD, o sujeito, por não ter acesso às reais condições de produção de seu discurso, representa essas condições de maneira imaginária. É o que Pêcheux (1969/1990) chama de jogo de imagens de um discurso. Reproduziremos a seguir o quadro que o próprio autor apresenta: A fim de facilitar a compreensão desse quadro69 para o leitor, vamos apresentá-lo dividindo-o em dois blocos: 1. A imagem que o sujeito, ao enunciar seu discurso, faz: a) do lugar que ocupa; b) do lugar que ocupa seu interlocutor; c) do próprio discurso ou do que é enunciado. 2. A imagem que o sujeito, ao enunciar seu discurso, faz da imagem que seu interlocutor faz: a) do lugar que ocupa o sujeito do discurso; b) do lugar que ele (interlocutor) ocupa; c) do discurso ou do que é enunciado. Esse jogo de imagens, mesmo estabelecendo as condições de produção do discurso, ou seja, aquilo que o sujeito pode/deve ou não dizer, a partir do lugar que ocupa e das representações que faz ao enunciar, não é preestabelecido antes que o sujeito enuncie o discurso, mas este jogo vai se constituindo à medida que se constitui o próprio discurso. Em outras palavras, o sujeito não é livre para dizer o que quer, a própria opção do que dizer já é em si determinada pelo lugar que ocupa no interior da formação ideológica à qual está submetido, mas as imagens que o sujeito constrói ao enunciar só se constituem no próprio processo discursivo. Ainda mais uma vez nos valeremos da metáfora do personagem, agora para explicar como as imagens se constituem no próprio processo discursivo. O discurso do sujeito-personagem não está constituído a priori, mas vai se delineando à medida que ele representa a voz que lhe fala, a partir das imagens que faz do que lhe é dito. Assim, por exemplo, num primeiro momento, coloca-se como um sujeito que não teme a morte — “É meu último dia de vida, isto não deve me amedrontar; é como quando após uma refeição alguém retira de minha frente o prato vazio. Por que me rebelar, se já fruí o que me interessava?” —, mas redefine todo seu discurso a partir da imagem que faz de si naquele momento — “Ele fitou a palma da própria mão: viu com espantosa nitidez as linhas e as comissuras da pele, viu as rugosidades, o intrincamento têxtil das camadas superpostas, viu o fervilhar da matéria viva e as células que se partiam e se fundiam umas às outras como gotas d’água”. É nesse sentido que o jogo de imagens faz parte das condições de produção de um discurso, na medida em que as imagens que o sujeito vai construindo ao enunciar vão definindo e redefinindo o processo discursivo. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Abordamos neste artigo o que julgamos ser fundamental para um primeiro contato com a Análise do Discurso, buscando, ao mesmo tempo, esclarecer, por meio das análises aqui apresentadas, alguns dos conceitos que foram colocados. Queremos ressaltar, no entanto, que este texto não esgota de forma alguma as questões que são colocadas pela AD; propõe-se apenas a ser uma porta de entrada possível para o campo, fornecendo ao leitor alguns subsídios para que ele possa iniciar seus estudos na área. Assim, concluir este texto significa apenas concluir a reflexão que fizemos nestas poucas páginas, já que muitas questões poderiam ainda ser aqui consideradas. Optamos, então, por concluí-lo retomando apenas um aspecto já abordado neste capítulo, por julgarmos crucial enfatizá-lo ao falarmos em Análise do Discurso: sua especificidade. O leitor deve ter percebido, ao entrar em contato com os conceitos que embasam a AD, que a definição de todos eles se fundamenta sobre uma característica em comum, que chamaremos aqui de constitutividade: o discurso, o sentido, o sujeito, as condições de produção vão se constituindo no próprio processo de enunciação. E não poderia ser diferente. A AD, ao conceber o discurso como sendo de natureza, ao mesmo tempo linguística e sócio-histórica, não poderia constituir-se enquanto disciplina no interior de fronteiras rígidas, que não levassem em conta sua intrínseca relação com determinadas áreas das ciências humanas — como a História, a Sociologia, a Psicanálise — e com certas tendências desenvolvidas no interior da própria Linguística — como a Semântica da Enunciação e a Pragmática, por exemplo. Devido a esse caráter eminentemente “relacional”, a Análise do Discurso se apresenta como uma disciplina em constante processo de constituição, de onde decorre a constitutividade dos próprios conceitos que a fundamentam. Esse caráter “relacional”, diriam alguns, poderia colocar a AD numa situação de extrema fugacidade. No entanto, não é esse o perigo que a espreita. Na verdade, o único perigo que poderia colocá-la em xeque seria o de não reconhecermos sua especificidade e tentarmos excluir de seu campo as contradições, em vez de simplesmente tentarmos apreendê-las na materialidade discursiva. Se o leitor tiver apreendido esse caráter da Análise do Discurso, terá compreendido sua característica fundamental. O mais será uma questão de interesse que, obviamente, esperamos ter despertado com esta introdução. REFERÊNCIAS ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos do estado. Trad. J. J. Moura Ramos. Lisboa: Presença/Martins Fontes, 1974. (Título original, 1970.) AUTHIER-REVUZ, J. 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A respeito das classificações dos fonemas, remetemos o leitor aos capítulos “Fonética” e “Fonologia”, no volume 1 desta obra. 4. Remetemos o leitor ao capítulo “Semântica”, neste mesmo volume. 5. Löwy (1988) faz um interessante estudo da história das ciências sociais. Remetemos o leitor à sua obra para compreender como as vertentes filosóficas— positivismo, historicismo, marxismo — nortearam os critérios de cientificidade de cada época, critérios que, por sua vez, nortearam os propósitos, os estudos e os métodos nas ciências humanas. 6. Maingueneau, D. Análise do Discurso: a questão dos fundamentos. Cadernos de Estudos Linguísticos. Campinas: Unicamp- IEL, n. 19, jul./dez., 1990. p.68. 7. Pêcheux, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1988, p. 74. (título original: Les vérites de la Palice, 1975) 8. Maldidier, D. Elementos para uma história da Análise do Discurso na França. In: Orlandi, E. P. (org.) Gestos de leitura: da história no discurso. Campinas: Editora da Unicamp, 1994, p. 19. 9. Remetemos o leitor ao capítulo “Fonologia” no volume 1 desta obra, que também aborda esta dicotomia. 10. Possenti (1995) aponta que, para Granger (1973), as línguas não são sistemas formais, mas sistemas simbólicos que contêm um sistema formal, pois só se comportam como uma estrutura no nível fonológico; nos outros domínios, inclusive nos domínios da Morfologia e da Sintaxe, a língua falha como estrutura. 11. Sobre a origem do termo condições de produção, ver Brandão (1998a). 12. Pêcheux, M. Análise automática do discurso (AAD-69). In: Gadet, F.; Hak, T. (Orgs.) Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas: Editora da Unicamp, 1990, p. 78. 13. Para Saussure (1916/1974), o signo linguístico é composto de significante e significado compreendidos, respectivamente, como imagem acústica (som com função linguística) e conceito. Remetemos o leitor ao capítulo “Fonologia” no volume 1, que também aborda o conceito de signo. 14. Maingueneau (1990) aponta uma questão interessante com relação ao uso do termo análise: “é a materialização de uma certa configuração do saber em que o termo análise funciona ao mesmo tempo sobre os registros linguístico, textual e psicanalítico”. Pode-se estender esta colocação ao termo analista, na medida em que, ainda como afirma o autor, “a escola francesa de Análise do Discurso se afirma como uma análise (= psicanálise) aplicada aos textos” (Maingueneau, 1990, p. 69). 15. Lacan é citado em Brandão, H. N. Introdução à Análise do Discurso. 7. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1998a, p. 56. 16. Santiago, J. Jacques Lacan: a estrutura dos estruturalistas e a sua. In: Mari, H.; Domingues, I.; Pinto, J. (Orgs.). Estruturalismo: memória e repercussões. Rio de Janeiro: Diadorim/UFMG, 1995, p. 221. 17. Althusser (1970) é citado em Maingueneau (1990, p. 69). 18. Ver os capítulos “Fonética”, “Fonologia” e “Sintaxe”, no volume 1, e “Semântica”, no volume 2. No que diz respeito ao capítulo “Sintaxe”, referimo-nos apenas à Sintaxe Gerativa, e, em relação ao capítulo “Semântica”, apenas à Semântica Formal. 19. Ver no volume 1 os capítulos “Sintaxe” (referimo-nos aqui à Sintaxe funcional), “Sociolinguística” e “Linguística Textual”; ver neste volume os capítulos “Semântica” (referimo-nos aqui à Semântica da enunciação), “Pragmática” e “Análise de Conversação”. 20. Maingueneau, D. Novas tendências em Análise do Discurso. Campinas: Pontes/Editora da Unicamp, 1997, p. 11. 21. Sobre a noção de dêitico, ver Lahud (1979) e Geraldi e Ilari (1985). 22. Sobre a noção de escopo, ver Geraldi e Ilari (1985). 23. Sobre a Análise do Discurso anglo-saxã ver, neste mesmo volume, o capítulo “Análise da Conversação” e, no volume 1, o capítulo “Linguística Textual”. 24. Possenti, S. O dado dado e o dado dado (O dado em análise do discurso). In: Castro, M. F. P. de. (org.) O método e o dado no estudo da linguagem. Campinas: Editora da Unicamp, 1996, p. 199. 25. Fiorin, J. L. Tendências da Análise do Discurso. Cadernos de Estudos Linguísticos. Campinas: Unicamp-IEL, jul./dez., 1990, p. 175. 26. Ibidem, p. 174. 27. Maldidier (1994, p. 21). 28. Remetemos o leitor aos capítulos “Semântica” e “Pragmática” neste mesmo volume para uma maior compreensão da oposição enunciado/enunciação. Ver também Benveniste (1974/1989) e Searle (1981). Vale dizer, no entanto, que a noção de enunciação é reinterpretada pela AD. Neste arcabouço teórico, a enunciação não é compreendida como a situação empírica em que ocorre o discurso, mas como estando relacionada à imagem que o sujeito do discurso, inserido em determinadas condições sociais, faz das condições de produção de seu discurso. Ver, a esse respeito, Pêcheux e Fuchs (1975/1990). 29. Remetemos o leitor ao capítulo “Sintaxe” no volume 1 desta obra, e aos capítulos “Aquisição da Linguagem” e “Psicolinguística” neste mesmo volume. 30. O gerativismo, apesar do rigor de sua formalização, é interpretado como uma ruptura com o estruturalismo. Posicionando-se a esse respeito em entrevista dada a Jean Paris, como relata Silva (1995), Chomsky aponta os limites do estruturalismo, afirmando a seu respeito não ser suficientemente teórico, por deixar de pesquisar os processos gerativos subjacentes que determinam as estruturas que observa e estuda. 31. Orlandi, E. P. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 2. ed. Campinas: Pontes, 1987, p. 110. 32. Orlandi (1987) faz uma comparação entre as diferentes formas de a Sociolinguística, a teoria da enunciação e a Análise do Discurso trabalharem com a exterioridade. Aponta que a Sociolinguística visa a relação entre o social e o linguístico; a teoria da enunciação trata da determinação entre o funcional (enunciação) e o formal (enunciado); a AD “procura estabelecer essa relação de forma mais imanente, considerando as condições de produção (exterioridade, processo histórico-social) como constitutivas da linguagem” (Orlandi, E. P. A linguagem e o seu funcionamento, op. cit., p. 111). 33. Ver Pêcheux (1969/1990). 34. Orlandi (1987) propõe uma tipologia discursiva classificando os discursos em três tipos: o lúdico, o polêmico e o autoritário. Essa classificação é feita, entre outras coisas, com base no grau de reversibilidade entre os interlocutores: no discurso autoritário esta reversibilidade tende a zero; no polêmico ela é controlada; no lúdico a reversibilidade é total. Optamos no texto pela utilização da expressão “menos polêmicos” porque queremos enfatizar apenas esta reversibilidade que possibilita, de acordo com seu grau, uma menor/maior abertura para a variação do sentido devido a um menor/maior silenciamento do outro (outro discurso/outro sujeito), de onde decorrem discursos menos/mais “estabilizados”. Ressaltamos, portanto, que não temos aqui a intenção de classificar discursos. 35. Ver Pêcheux et al. (1982/1990) 36. Ver Pêcheux e Fuchs (1975/1990). 37. Foucault (1969/2004, p. 133). 38. Foucault (1969/2004, p. 71) esclarece o que entende por estratégias: “Discursos como a economia, a medicina, a gramática, a ciência dos seres vivos dão lugar a certas organizações de conceitos, a certos reagrupamentos de objetos, a certos tipos de enunciação, que formam, segundo seu grau de coerência, de rigor e de estabilidade, temas ou teorias. (...) Qualquer que seja seu nível formal, chamaremos, convencionalmente, de ‘estratégias’ a esses temas e a essas teorias. O problema é saber como se distribuem na história.” 39. Foucault, 1969/2004, p. 43. 40. Para uma relação mais pontual entre os trabalhos de Michel e Foucault e Michel Pêcheux, ver Gregolin (2004). 41. Para uma discussão mais aprofundada sobre essa questão, ver Courtine (1981). 42. Pêcheux e Fuchs (1975/1990, p. 166). 43. Ibidem, p. 166-167. 44. Sobre a noção de pré-construído, ver Pêcheux (1975/1988). 45. Brandão, H. N. Introdução à Análise do Discurso, op. cit., p. 39. 46. Ver Maingueneau (1997, 2008). 47. Para um melhor desenvolvimento da noção de interdiscurso, ver o capítulo “Teoria do discurso: um caso de múltiplas rupturas” do volume 3 desta obra. 48. Pêcheux (1975/1988, p. 162). 49. Para uma melhor apresentação dos trabalhos de Dominique Maingueneau, ver Possenti e Mussalim (2010). 50. No Prefácio da edição brasileira de Gênese dos discursos, Maingueneau afirma que o termo “formação discursiva” foiutilizado com certa “frouxidão”, já que hoje se falaria preferencialmente em posicionamento, noção que deve ser compreendida mais precisamente como uma identidade enunciativa forte, um lugar de produção discursiva bem específico no interior de um campo (por exemplo, o discurso do partido comunista de tal período). Na verdade esse termo designa “ao mesmo tempo as operações pelas quais essa identidade enunciativa se instaura e se conserva num campo discursivo, e essa própria identidade” (Charaudeau; Maingueneau, 2004, p. 392). 51. Por exemplo, pode-se falar em campo político, filosófico, literário, etc. Considerando, a título de ilustração, o campo literário, pode-se falar em formação discursiva modernista, formação discursiva parnasiana e assim por diante. 52. Para uma abordagem mais detalhada destes e de outros conceitos da AD, ver o capítulo “Teoria do discurso: um caso de múltiplas rupturas” do volume 3 desta obra. 53. Possenti, 2004, p. 364. 54. Ibidem, p. 365. 55. Para uma abordagem discursiva do fato literário, remetemos o leitor a Maingueneau (2006). 56. Há, entretanto, a possibilidade de se considerar que a literatura mantém relações diretas com posições de classes sociais. Da perspectiva da abordagem marxista do fenômeno literário, as obras “devem ser lidas como um ‘reflexo’ ideológico e, portanto, deformado de uma instância exterior a elas que os determina em última análise: a luta de classes” (Maingueneau, 2006, p. 21). Lucien Goldmann, proeminente representante dessa vertente, reconhece que a abordagem marxista do fenômeno literário tem o mérito de oferecer o fundamento científico ao conceito de visão de mundo, ao se propor a integrar o pensamento dos indivíduos ao conjunto da vida social, realizando uma análise da função histórica das classes sociais. 57. Pêcheux reconhece a especificidade da língua (que tem regras próprias de funcionamento), mas limita seu domínio: o sentido, conforme afirma Pêcheux (1975/1988), não é da ordem da língua, não se submetendo, pois, aos seus critérios. A Linguística saussureana, analisa o autor, permitiu a constituição da Fonologia da Morfologia e da Sintaxe, mas não foi suficiente para permitir a constituição da Semântica, lugar de contradições da Linguística. Para ele, o sentido, objeto da Semântica, escapa às abordagens de uma Linguística da língua, já que a significação não é sistematicamente apreendida, devido ao fato de sofrer alterações de acordo com as posições ocupadas pelos sujeitos que enunciam. Nesse sentido é que Pêcheux, considerando que as condições de produção de um discurso são constitutivas de suas significações, propõe uma semântica do discurso, no lugar de uma semântica da língua. 58. Agradecemos a Eugênio Rodrigues pela contribuição. 59. Na versão não revista e ampliada deste capítulo, havíamos nomeado esta FD como “FD individualista”. Para uma melhor adequação à ideia de posição ideológica, alteramos para “FD neoliberal”. 60. Remetemos o leitor a Brait (1997), uma coletânea de artigos que apresenta estudos sobre os principais conceitos da obra bakhtiniana. 61. Authier-Revuz (1982) é citada em Brandão, H. N., Introdução à Análise do Discurso, op. cit., p. 52. 62. Bakhtin (1929/1988). 63. Embora ele se situe na perspectiva da Semântica da Enunciação, cabe citar aqui o texto de Ducrot (1984/1987), “Esboço de uma teoria polifônica da enunciação”, em que o autor, contestando a unicidade do sujeito falante, procura mostrar como em um mesmo enunciado é possível detectar mais de uma voz. Remetemos o leitor ao capítulo “Semântica”, neste mesmo volume, para maiores informações. 64. Authier-Revuz (1982) é citada em Brandão, H. N., Introdução à Análise do Discurso, op. cit., p. 50. 65. Possenti, S. Apresentação da Análise do Discurso. Campinas, [19--]b. (mimeografado) 66. Idem. 67. Ver Authier-Revuz (1982, 1990 e 1998). 68. Brandão, H. N. Introdução à Análise do Discurso, op. cit., p. 89. 69. Remetemos o leitor a Osakabe (1979), que, além fazer uma apresentação bastante esclarecedora do jogo de imagens de Pêcheux (1969), reestrutura esse quadro mostrando a necessidade de se considerar os atos de linguagem como pertinentes às condições de produção. Assim, teríamos outra representação: “O que A pretende falando dessa forma?”. 5 NEUROLINGUÍSTICA Edwiges Maria Morato 1. INTRODUÇÃO: UM BREVE PERCURSO HISTÓRICO A Neurolinguística, precedida por estudos realizados no século XIX, tem se firmado como um dos mais promissores domínios da ciência da linguagem. Inicial e tradicionalmente pautada, por um lado, pelo localizacionismo estrito e, por outro, pelo estruturalismo linguístico, a Neurolinguística tem abrigado nas últimas décadas, como veremos neste capítulo, uma agenda heterogênea de questões provindas seja de modelos biomédicos, seja de modelos psicossociais sobre nossa vida mental. Um incremento da discussão epistemológica no campo, especialmente a partir dos anos 1980, é possível ser observado em manuais ou livros-texto publicados a partir desse período, como os de Lesser e Milroy (1993), Goodwin(2003), Ahlsén (2006). Do ponto de vista da demarcação do campo, as definições e as descrições concernentes ao interesse teórico e metodológico da Neurolinguística encontradas na literatura da área revelam que as fronteiras que delimitam seu objeto — as relações entre linguagem, cérebro e cognição — são de fato movediças. Assim, não é de estranhar que a Neurolinguística, enquanto disciplina do conhecimento, resulte de verdadeiros clusters de influência, integrando em torno de seu objeto diferentes áreas como a Linguística, as Neurociências, a Filosofia, as Ciências Cognitivas, a Sociologia, as Ciências da Computação, dentre outras. Com isso, tanto áreas das ciências humanas e sociais, quanto das ciências biológicas e da saúde encontram-se representadas na agenda científica atual da Neurolinguística. Como podemos definir, então, esse campo de estudos? Há quem atribua o início da Neurolinguística, como o fazem Bouton (1984) ou Lecours e Lhermitte (1979), à publicação, em 1939, do livro Le Syndrome de Désintégration Phonétique, de Alajouanine, Ombredane (neurologistas) e Durand (foneticista). Há também os que consideram a Neurolinguística um ramo (Luria, 1976) ou um subconjunto (Hécaen, 1972) da Neuropsicologia, o que significa circunscrevê-la ao campo de estudo das perturbações verbais decorrentes de lesões cerebrais. Para autores como Whitaker e Whitaker (1976), em função de seu complexo objeto, a Neurolinguística seria uma área “francamente interdisciplinar” que relaciona linguagem e comunicação humana com algum aspecto do cérebro ou da função cerebral. Posteriormente aos autores mencionados acima e, de certo modo, consoante a essa visão mais tradicional, Caplan (1987) define a Neurolinguística como o estudo das relações entre cérebro e linguagem, com enfoque no campo das patologias cerebrais e na relação de determinadas estruturas do cérebro com distúrbios da linguagem. Por seu turno, Menn e Obler (1990) procuram definir a área por meio de seu objetivo, que é, segundo as autoras, teorizar sobre o “como” a linguagem é processada no cérebro. Mais recentemente, em um manual de Neurolinguística, Ahlsén define a Neurolinguística como o estudo da relação entre diferentes aspectos da função cerebral atinentes à linguagem e à comunicação. Para a autora, que não limita o campo a estudos atinentes ao contexto patológico, cabe à Neurolinguística “explorar como o cérebro compreende e produz linguagem e comunicação” (Ahlsén, 2006, p. 3). Ainda que professem diferentes abordagens relativas a distintos modelos e construtos teóricos e metodológicos, todos esses autores não deixam de considerar que os estudos sobre as condições de linguagem e de comunicação após algum comprometimento neuropsicológico constituem, provavelmente, a investigação neurolinguística mais corrente e prolífera. Parece óbvio, levando em conta o hibridismo da palavra, que Neurolinguística diga respeito às relações entre linguagem e cérebro e que acione dois principaiscampos do conhecimento humano para explicá-las, as Neurociências e a Linguística. Isso realmente seria um truísmo se nós não tivéssemos tantos problemas para dar conta dos complexos processos que constituem linguagem e cérebro, bem como do modo de funcionamento de ambos. A despeito do avanço biotecnológico encontrado em nossa época, muitas das indagações a respeito das relações entre linguagem e cérebro ainda permanecem à hora atual, como as referentes à constituição daquilo que chamamos de conhecimento ou aos fenômenos cerebrais envolvidos nos chamados processos cognitivos superiores (linguagem, memória, atenção etc.). Nossos processos cognitivos, vale lembrar, já se mostraram empiricamente não redutíveis à intimidade do tecido neural, tanto por meio de estudos considerados metodologicamente invasivos (como os córtico- eletrofisiológicos, realizados em geral em ambiente intracirúrgico), quanto não invasivos (como os que utilizam ressonância magnética funcional, tomografia por emissão de fóton único, tomografia por emissão de pósitrons, potencial evocado relacionado a evento). Mesmo depois de terminada a chamada “década do cérebro”, os anos 1990, ainda não podemos prognosticar entre os estudiosos um consenso em torno das correlações estabelecidas entre linguagem e cérebro. Assim, um bom começo para entrever as relações que ambos os processo mantêm entre si — e nas quais intervêm a cultura, as práticas ou experiências histórico- sociais, o contexto, a interação — é verificar o que estamos entendendo por uma e outra coisa. A partir daí, naturalmente, não escaparemos da Filosofia. É fundamentando empiricamente essa questão que estaremos “fazendo” Neurolinguística. Se considerarmos que linguagem e cérebro têm uma relação (ou seja, não são uma mesma coisa e tampouco são coisas logicamente heterogêneas entre si), de que ordem ela seria? Haveria uma relação de causalidade entre ambos os processos ou sistemas (na medida em que um cérebro “defeituoso” causaria uma linguagem ou uma mente “defeituosa”) ou haveria uma relação de reciprocidade entre eles, na medida em que a estrutura e o funcionamento do cérebro podem constituir a linguagem e da mesma forma ser por ela constituídos? Embora as respostas a essas questões sejam por vezes apaixonadas e parciais, o que sabemos na atualidade sobre a atividade cognitiva indica que há na verdade entre linguagem e cérebro uma relação estreita, baseada na influência recíproca entre diferentes áreas do Sistema Nervoso Central e vários processos cognitivos com os quais percebemos e interpretamos o mundo de várias formas. Linguagem e cérebro, assim, funcionariam como um sistema dinâmico e flexível, cujas regularidades e estabilidades não são determinadas a priori (ou seja, não são fixadas ou pré-determinadas biologicamente; não obedecem a padrões estáticos e homogêneos de existência). Antes, dependem e são constituídos por diferentes fatores de ordem sociocognitiva (cultural, pragmática, contextual, interacional). Tendo isso em vista, admitamos, pois, que Neurolinguística é um campo de arbitragem interdisciplinar, cujo foco é o estudo das relações entre linguagem, cérebro e cognição; admitamos, ainda, que seu objeto diz respeito, a um só tempo, às ciências humanas, às neurociências e às ciências da cognição. A partir disso, nosso olhar deve estar voltado para o que caracteriza tal campo de investigação, para o legado filosófico-científico que o tem constituído. Em boa parte por assumir pressupostos e métodos próprios à Linguística e às Neurociências, a Neurolinguística está sempre colocada frente aos modos de se conceber e investigar tais relações: em que termos são elas estabelecidas? 1.1. A agenda científica da Neurolinguística Apesar de não ter um programa definido de forma muito precisa, a Neurolinguística, grosso modo, caracteriza um campo de investigação que se interessa de maneira geral pela cognição humana e, de maneira mais específica, pela linguagem e por processos afeitos a ela, direta ou indiretamente. A Neurolinguística tem sido, pois, um lugar de estudo do processamento normal e patológico da linguagem, oral e escrita, da relação entre semiose verbal e não verbal, da semiologia de patologias de linguagem, da relação entre normalidade e patologia, das condições de reorganização linguístico- cognitiva após dano cerebral, das relações entre o processo de aquisição e o de patologia de linguagem. Um lugar, enfim, de proposição de construtos ou modelos de processamento cerebral da linguagem e da cognição. Visto assim, o programa teórico-metodológico da Neurolinguística tem na questão do Conhecimento seu problema fundamental. Enquanto disciplina híbrida, a Neurolinguística tem construído sua agenda científica assumindo pressupostos e métodos próprios à Linguística e às Neurociências. Da tradição e da agenda mais atual dos estudos linguísticos, a Neurolinguística mantém o foco e o interesse na descrição e na análise da estrutura, organização e funcionamento da linguagem. Isso implica, além do interesse pelo sistema linguístico e seus diferentes níveis de constituição, o interesse pela estruturação e gestão das práticas socioculturais, pelo contexto de produção e interpretação linguística, pelos vários modos de significação não verbais, pelos processos cognitivos com os quais compreendemos e atuamos no mundo (dentre os quais a memória, a atenção, a percepção, a gestualidade etc.). Da tradição de estudo das Neurociências, a Neurolinguística mantém o foco e o interesse em um conjunto de questões às voltas com o velho problema mente-cérebro: como o cérebro reage ante as dificuldades linguísticas e cognitivas que se impõem após o dano neurológico? Como se desenvolve a plasticidade cerebral e como ela atua no desenvolvimento e no declínio cognitivo? Como as crianças desenvolvem e usam a linguagem? Qual é a responsabilidade do cérebro em relação aos processos cognitivos, e qual seria a responsabilidade destes em relação ao cérebro, sua estrutura e seu funcionamento? Em que medida é possível “visualizar” substratos cerebrais do processamento linguístico e cognitivo? Na esteira das Neurociências, assim como o faz em relação à Linguística, a Neurolinguística tem se servido de uma complexa e variada metodologia, tanto de modo quantitativo e experimental, quanto qualitativo e observacional: estudo da linguagem e da comunicação após lesões cerebrais por meio de vários recursos metodológicos, como os testes diagnósticos, a observação da linguagem e da comunicação em ambientes naturais de produção, as simulações computacionais, a elaboração de modelos de processamento linguístico e cognitivo por meio de técnicas cada vez mais sofisticadas (porque funcionais e temporais, não apenas estruturais) de imageamento cerebral. Tendo em vista essa dinâmica e híbrida configuração disciplinar da Neurolinguística, é possível esboçar, sem chegar a exaurir as possibilidades do campo, sua agenda científica atual: a) estudo do processamento normal e patológico da linguagem, oral e escrita, por meio de modelos ou construtos elaborados no campo da Linguística e no das Neurociências; b) estudo da repercussão dos estados patológicos no funcionamento da linguagem e da cognição, com base na sustentação, refutação ou construção de teorias linguísticas e cognitivas. Associados a este item estão a (re)discussão e (re)análise da semiologia tradicional das patologias neurolinguísticas, bem como da tipologia ou classificação de quadros nosológicos. Os dados de contextos patológicos, como a afasia ou a Doença de Alzheimer, por exemplo, por implicarem graus variados de instabilidade nos processos linguístico-cognitivos, tornam-se cruciais para qualquer teorização geral sobre o funcionamento da linguagem e da cognição humana; c) estudo das condições e características neurolinguísticas do bilinguismo e da surdez. Tanto a rediscussão de antigos mitos existentes no campo dos estudos sobre a surdez (como o relativo à idade crítica para aquisição da linguagem ou a uma suposta concretude cognitivado pensamento do indivíduo surdo), quanto das teses sobre a natureza monolíngue ou plurilíngue do cérebro e sobre a natureza inata ou adquirida da competência linguística, identificam, em relação a este item, a contribuição relevante da pesquisa neurolinguística; d) estudo neurolinguístico e sociocognitivo do envelhecimento e da neurodegenerescência, como a Doença de Alzheimer. Estão associados a este item as relações entre linguagem, memória e consciência no contexto normal e no patológico, a discussão acerca de vantagens e desvantagens de modelos biomédicos e modelos sociais do envelhecimento normal e patológico, as caracaterísticas e relações entre fenômenos linguísticos e cognitivos no contexto do envelhecimento normal, da Doença de Alzheimer e das afasias, a análise de discrepâncias observadas no comportamento dos indivíduos em ambientes fortemente institucionalizados e em ambientes mais naturais de produção de linguagem e interação; e) estudo de processos de significação não verbais, com destaque para a relação que estes mantêm com a linguagem e com o contexto comunicacional. Associados a este item estão os estudos de processos ou estratégias compensatórias de comunicação e os estudos sobre a dimensão multimodal da linguagem e da interação. Este item diz respeito à análise de contextos não necessariamente patológicos e não estritamente verbais, tais como os que focalizam a gestualidade, a música, o corpo etc.; f) discussão sobre a questão do método de investigação neurolinguística. Este item refere-se à questão da constituição, visibilidade e tratamento de dados — o que inclui o problema da escolha e do aperfeiçoamento de sistemas de transcrição (linguística e mutimodal) adequados para os fenômenos ou processos focalizados nas investigações. A questão, assim, recobre múltiplas preocupações: teórica, metodológica, técnica, ética, jurídica, tecnológica. O desenvolvimento dessa agenda tem permitido que a teorização produzida pela pesquisa neurolinguística retorne à Linguística de forma extremamente produtiva em relação aos interesses gerais da ciência da linguagem. A análise dos dados obtidos no contexto patológico, bem como o estudo sistemático da relação entre linguagem, cérebro e cognição em diferentes contextos de produção, permite diferentes e prolíferos movimentos teóricos: colabora para o entendimento dos processos normais de aquisição e desenvolvimento da linguagem e da cognição; promove a construção de teorias “pontes” no interior da própria Linguística; atua na relação interdisciplinar entre a Linguística e outras disciplinas do conhecimento; contribui para o desenvolvimento teórico e prático de atividades clínico- terapêuticas, desempenhando também um importante papel social ao destinar seus interesses científicos à diminuição de impactos e sofrimentos derivados das patologias cerebrais e ao atuar na recepção social de doenças ou circunstâncias cujo estigma é ainda forte entre nós. Não é de se estranhar, portanto, que a arbitragem interdisciplinar seja o vetor epistemológico que sustenta toda e qualquer pesquisa produzida na área. Tanto a tradição europeia, que identifica a Neurolinguística com os estudos afasiológicos e psicolinguísticos, quanto a tradição americana de inspiração conversacional e aplicada, que a identifica com a fundamentação de práticas clínico-terapêuticas e com estudos de aspectos comunicacionais afetados pela patologia, são bons indicadores da relevância da área que, cumpre observar, tem se desenvolvido bastante nos últimos anos no meio acadêmico do País. 2. DAS CONDIÇÕES DE SURGIMENTO DA ANTIGA AFASIOLOGIA Ainda que seja tradicional apontar o século XIX como aquele que propiciou o nascimento da Afasiologia e do estudo científico da correspondência entre cérebro e linguagem, a questão sobre a representação cerebral da linguagem e de outros processos mentais é tão antiga quanto a Humanidade. Desde a Antiguidade (de Hipócrates a Galeno), focaliza-se o cérebro como o órgão da sensação e da inteligência. Mesmo antes disso, os sacerdotes egípcios já faziam correlações anátomo-clínicas após a morte de indivíduos doentes. Apenas no século XIX, período culturalmente animado pela corrente teórica positivista, chegamos ao estudo “científico” do cérebro. A descoberta das localizações cerebrais e os primeiros trabalhos sobre a teoria celular da rede nervosa datam dessa época Se é bem verdade que o problema corpo-mente funda toda nossa tradição científico-filosófica, o problema cérebro-linguagem, de sua parte, toma forma num período mais recente, mais precisamente no início do século XIX. Esse início, chamado Frenologia (teoria a respeito das localizações cerebrais de nossas faculdades mentais, que tem por base a observação a olho nu das fossas cranianas), logo alargou seus interesses em direção aos estudos anátomo-fisiológicos mais complexos da linguagem e seus distúrbios. Para entendermos o nascimento da Afasiologia, também chamada de “Neuropsicologia da linguagem” por autores franceses (Hécaen e Dubois, 1969), é preciso levar em conta o espírito intelectual dos séculos XVIII e XIX, marcado por uma crescente e grande confiabilidade na ideia de ciência e no gosto por antinomias clássicas. Nesse contexto intelectual, encontramos um tipo de dualismo biológico (cérebro/mente) que marca fortemente a Linguística e demais ciências ao longo de todo século XX. O que temos ao final do século XIX, de fato, é um perfeito mosaico de inteligibilidades construído em torno do empreendimento positivista. Trata- se de um período estimulante para as descobertas biológicas: a teoria celular já tinha avançado no século anterior, Darwin publica nesse período sua obra Origem das espécies, a Revolução Industrial torna-se mais do que uma realidade no campo das ciências, o gosto pelas “origens” insinua uma cultura ocidental etnocêntrica e expansionista, passível de ser observada na constituição da própria Linguística, bem como de outras ciências que à época se firmavam enquanto tais. Com relação ao conhecimento sobre o cérebro, o século XIX foi de fato impressionante. De Galeno (século II) até a Idade Média preponderou a Teoria dos Ventrículos, responsável pela explicação da arquitetura anatomicamente determinante de três faculdades mentais: a memória, a razão e o senso comum — a linguagem praticamente não fazia parte das evidências de sequelas de distúrbios cerebrais em virtude do fato de que ela simplesmente não existia para os estudiosos (cf. Marx, 1966; Benton e Joint, 1974). A linguagem era “invisível” porque não era corpórea, não estava localizada no cérebro.1 O interesse pela organização cerebral da linguagem, bem como pela sua realidade cognitiva surgiu a partir do momento em que ela passa a ser “visível” para os antigos estudiosos da correlação entre comportamentos humanos e áreas corticais lesadas, por volta da segunda metade do século XIX. Antes disso, cumpre lembrar, os fenômenos que de alguma forma eram afeitos ou relacionados à linguagem eram creditados a alguma capacidade intelectiva do homem, como a percepção, a memória, o raciocínio, a inteligência. De fato, toda a tradição científico-filosófica acerca da linguagem a toma como uma espécie de exteriorização de conteúdos mentais que seriam subjetivados e aparentemente inacessíveis ao investigador. Afinal, para os antigos, a linguagem, essa espécie de “dom divino” dado homem (portanto, inata, essencial, verdadeira, lógica) não se confunde com a realização humana (a fala), que a deforma, e sim com a mente (o espírito), que a contém. A falta de teorias-pontes entre a Linguística e a Neurologia então nascente de fato contribuiu para que os estudos linguísticos sobre a afasia e sobre outros contextos patológicos não acontecessem ainda no século XIX (podemos até mesmo aludir a um desconhecimento teórico recíproco entre essas duas ciências). Além disso, a percepção da Linguística como mera “ciência auxiliar” também não foi favorável à colaboração dos linguistas com o estudo neuropatológico das afasias que entãodespontava. Somado a todos esses fatores, lembramos ainda que o psicologismo que dominava as primeiras explicações sobre as afasias de certa forma também inibia a incursão dos linguistas no campo da Afasiologia (Françozo, 1987). A linguagem só veio a ter uma realidade mental (“mental” significando ou reduzindo-se ao cerebral, de acordo com o espírito da época) e um estatuto nosológico (a afasia) apenas no século XIX. A partir daí, consagrou-se a ideia de que a linguagem tinha uma realidade neurocognitiva (isto é, era concebida como um processo mental e estava localizada no cérebro). Se a questão da localização cerebral precisa dos processos mentais humanos é ainda hoje um tema discutível, a definição da responsabilidade da “área de Broca” (isto é, a região situada ao pé da terceira circunvolução frontal do hemisfério esquerdo) frente aos processos da linguagem articulada significou, sem dúvidas, um avanço do reconhecimento da importância da comunicação verbal em nossa vida mental. A descrição sistemática das alterações de linguagem decorrentes de lesões cerebrais, feita inicialmente por médicos neurologistas (ou por anatomistas), deu origem à Afasiologia, o campo de estudo das afasias, isto é, problemas de linguagem decorrentes de lesão focal adquirida no Sistema Nervoso Central. Quando se efetivou, em meados da década de 1960, o estudo linguístico da afasia dizia respeito basicamente à sintaxe (ou melhor, às regularidades gramaticais e às regras de boa formação de sentenças) e à semântica (ou melhor, às representações lógico-formais de sentenças). A fala, em seu contexto fonético, ficou de fora dos problemas afásicos (como estava, no início, de fora da própria Linguística, cumpre lembrar), já que era considerada uma realização simplesmente motora (o que equivale a dizer não simbólica, ou não linguística). Também ficaram de fora do início dos primeiros estudos linguísticos das afasias as atividades realizadas pelos falantes em situações de uso efetivo da linguagem, os aspectos socioculturais a ela relacionados e as práticas discursivas que a mobilizam. Vale ressaltar, a propósito, que foi preciso esperar por Roman O. Jakobson, que realizou o primeiro estudo propriamente linguístico das afasias (tendo como base de seu trabalho a descrição neuropsicológica dos fenômenos afásicos feita pelo neuropsicólogo russo Alexander R. Luria), para que o diálogo entre a Afasiologia e a teoria linguística se tornasse fecundo, criativo e promissor. 3. AFASIOLOGIA E NEUROLINGUÍSTICA A Afasiologia, em seu início, pode ser compreendida como o campo de estudo das correlações entre linguagem e determinadas áreas do cérebro que seriam por ela responsáveis. Dos estudos específicos sobre as afasias aos estudos de processos linguísticos e cerebrais em contexto normal ou patológico, deu-se um desdobramento quase natural. Dessa maneira, precedida por trabalhos realizados há mais de duzentos anos, com base na colaboração algo tumultuosa entre a ciência médica e a ciência linguística, nasce a Neurolinguística, inicialmente representada por uma área de interesses bem determinada, o estudo das afasias, ou Afasiologia. Ainda que a Afasiologia (ou Linguística Afasiológica, na expressão de Caplan, 1987) não totalize o interesse teórico-metodológico da Neurolinguística atual, ela é, sem dúvida, o seu campo de investigação mais prolífero, razão pela qual damos destaque a ele neste capítulo. Embora seja tradicional falar que a Afasiologia nasceu com o médico francês Paul Broca em 1861, quando ele descreveu os primeiros casos de afasia motora, alteração que afetaria basicamente o aspecto expressivo da linguagem (descrevendo, entre outros, o caso do paciente Leborgne, apelidado “Tan-tan” por ser esta a única forma expressiva que lhe restara para se comunicar com os outros), cumpre salientar que quem estabeleceu propriamente a relação entre área cerebral lesada e manifestações clínicas de pacientes neurológicos foi Gall, no início do século XIX, fazendo correlações anátomo-clínicas vistas a olho nu na caixa craniana. A propósito, sua peculiar doutrina, intitulada “Anatomia e fisiologia do Sistema Nervoso em geral e do cérebro em particular”, recebeu o nome de Frenologia e dizia que as disposições morais e intelectuais dependiam de faculdades inatas e distintas, que estariam inscritas no cérebro. Assim, o lugar ontológico da alma desviou-se para o cérebro... Coube, pois, ao médico e anatomista alemão Franz Joseph Gall, no começo do século XIX, a partir dos estudos de correlação anátomo-clínica, introduzir a linguagem entre as faculdades mentais localizadas no cérebro, e coube ao médico francês Paul Broca, na década de 1860, “localizá-la” em partes circunscritas do Sistema Nervoso, a qual chamou Área de Broca, responsável pela linguagem articulada, pela memória das palavras. Quando Broca apresentou o “caso Lerborgne” (cuja afasia se caracterizava essencialmente por um distúrbio de linguagem articulada, sem problemas de compreensão ou de outros déficits linguísticos e cognitivos), de certo modo reforçando as ideias de Gall, passou-se a localizar ao pé da terceira circunvolução frontal do hemisfério esquerdo do cérebro (a “área de Broca”) a sede da linguagem. Ainda que sob contestações, essa ideia perdura até os dias de hoje, como já mencionamos. Todavia, a descrição do caso desse paciente de Broca tem sido alvo de muitas críticas. Internado havia 20 anos no Hospital Bicêtre, em Paris, o paciente padecia de vários males mesmo antes de ter sofrido uma lesão cerebral (e consta que não teria sido apenas uma lesão, o que enfraquece ainda mais a corrente localizacionista, que relaciona diretamente área cerebral lesada e alteração de linguagem e de outros processos cognitivos....). Com isso, muitos admitem, não sem uma ponta de ironia, que a Afasiologia tem sua origem numa espécie de malogro ou equívoco clínico. Além disso, como diziam os críticos da corrente localizacionista (como Sigmund Freud, que escreveu em 1891 uma instigante monografia doutoral sobre as afasias), uma coisa é localizar no cérebro áreas que, prejudicadas, perturbariam a linguagem e demais processos cognitivos; outra coisa — bem diferente — é localizar de maneira precisa a linguagem no cérebro. Somente a história das ideias ou a filosofia da ciência seriam capazes de identificar as razões da manutenção, até os dias de hoje, de um paradigma estabelecido nessas bases. Já à época do nascimento da Afasiologia, vários autores também se dedicavam a compreender se a alteração da linguagem nas afasias perturbava o comportamento psicoafetivo do indivíduo, ou sua inteligência.2 Associado por vários autores a uma alteração de memória, de maneira explícita ou implícita, o distúrbio de fala então descrito já havia sido classificado pelo filólogo alemão Johann Gesner, no século XVIII, como “amnésia da fala”, causada, segundo ele, pela inércia de conexões entre diferentes partes do cérebro (Ahlsén, 2006, p. 13). Em trabalho de 1825, contrariando a tese unitarista segundo a qual o cérebro participa como um todo e não de maneira especializada e específica do funcionamento de uma determinada função mental, Jean-Baptiste Bouillaud, aluno de Gall, descreveu dois tipos de desordens afásicas relacionadas a lesões no lobo frontal: os concernentes aos movimentos da fala (relativos à capacidade motora de articular os sons da fala), e os concernentes à memória de palavras (relativos à capacidade mental de evocar palavras). Em 1898, Albert Pitres descreveu o que chamou de “afasia amnésica”, isto é, uma dificuldade de nomear objetos e encontrar palavras na fala espontânea (Ahlsén, 2006, p. 24). Nessas primeiras descobertas, linguagem e memória são fenômenos associados entre si nas descrições das afasias; contudo, para os primeiros afasiólogos, a primeira não seria mais do que mera expressão da segunda. O distúrbio de linguagem articulada, descrito nas monografias dos neuropatologistas do século XIX e chamado inicialmente de afemia por Broca, é finalmente denominado de afasia apóso médico francês Armand Trousseau usar o termo pela primeira vez em 1862. A propósito dessa questão terminológica, observa Morato (2010b, p. 24): No mundo clássico, a ideia de afasia não era ligada à ideia de doença, propriamente; era ligada à ideia de retórica, de mneumotécnica, de defesa de pontos de vista. Era ligada, portanto, à ideia de logos, não apenas de realização motora da fala ou do pensamento que não se materializa. Poderia ser considerado afásico aquele desprovido de argumento de um discurso racional; afásico também poderia se referir àquele de quem não se podia falar. A ideia de afasia e, mais ainda, a ideia de afemia, assim, está ligada à ideia de infâmia, ou de infame (daí o fato de Trousseau ter recusado o termo afemia, originalmente proposto por Broca para dar nome à patologia da linguagem articulada que de forma pioneira descrevera em 1861, preferindo, em vez disso, o termo afasia). Tal sugestão teria sido acatada pelo pai da Afasiologia, em correspondência trocada entre ambos, ainda que Broca tenha reivindicado para si a descrição e o diagnóstico da doença agora renomeada (cf. Hécaen e Dubois, 1969). Ainda que até hoje perdure a ideia de que a área de Broca atua de maneira importante e imprescindível no processamento da linguagem articulada houve, à época do médico francês, um acirrado debate em torno de um arrazoado ainda vigente entre nós: uma coisa seria identificar zonas cerebrais que atuam de maneira importante na linguagem articulada, de modo a se responsabilizar por suas alterações (como as afasias), outra coisa bem diferente é a postulação de uma localização precisa ou estrita da linguagem no cérebro. O velho localizacionismo, ainda que corrente dominante por muito tempo, não parecia já no início da Afasiologia corresponder à explicação definitiva de como o cérebro se estrutura e funciona. De todo modo, tampouco o associacionismo ou o globalismo conseguiram firmar-se como corrente explicativa dominante ou consensual nessa época. Ao final do século XIX, o localizacionismo era questionado fortemente por autores como o neurologista britânico John Hughlings Jackson e o neurologista austríaco Sigmund Freud. Na primeira metade do século XX, vários neurologistas e afasiólogos, procurando superar os limites do antagonismo localizacionismo (corrente teórica baseada, em termos gerais, na ideia de que as funções mentais encontram-se localizadas em determinadas regiões do cérebro, por elas responsáveis) versus globalismo (corrente teórica baseada, em termos gerais, não na ideia da não especialização cerebral, mas sim na de que todo o cérebro, de forma holística, é responsável por cada uma das funções mentais), já admitiam que o cérebro opera em concerto, ainda que certas regiões pareçam mais importantes do que outras para a constituição e funcionamento das funções mentais. Ligados a esse pensamento crítico, encontramos autores identificados com a “moderna Neuropsicologia”, como Constantin von Monakov, Henry Head, Kurt Goldstein e Alexander Romanovich Luria. Para eles, o cérebro obedecia a uma lei hierárquica de organização das funções mentais, resultante de uma longa trajetória filogenética, isto é, de uma evolução biológica e cultural da espécie humana. Embora importantes estudiosos dessa mesma época esboçassem críticas à tese do localizacionismo (ou tese da correlação direta entre zona cerebral e função mental), como o médico e neuroatanomista Jean-Martin Charcot e seu então discípulo Sigmund Freud, foi preciso esperar o século XX para que a tese funcionalista — segundo a qual o cérebro, assim como a linguagem e demais processos cognitivos, se estrutura como um sistema funcional complexo — se consolidasse de forma a implicar mudanças teóricas e metodológicas importantes no campo das Neurociências. A noção de sistema funcional complexo foi introduzida no campo da Neuropsicologia por Alexander Romanovich Luria (1981). Por ela se entende que as diferentes partes do Sistema Nervoso Central (portanto, do cérebro) funcionam de maneira integrada, trabalhando em concerto em distintos níveis de complexidade hierárquica da atividade cognitiva. Para o autor, toda atividade mental humana é um sistema funcional complexo efetuado por meio de uma combinação de estruturas cerebrais funcionando em concerto, cada uma das quais dá sua contribuição peculiar para o sistema funcional como um todo. (Luria, 1981, p. 23) Com base nessa concepção integrativa, dinâmica e plástica da estrutura e do funcionamento cerebral, a afasia é concebida não apenas como um problema de articulação da fala, mas também como uma alteração do sistema linguístico como um todo (fala, audição, leitura e escrita), ainda que os sintomas possam se manifestar de forma seletiva (mais semânticos ou mais sintáticos, por exemplo). De todo modo, essa concepção sistêmica e funcional do cérebro implica uma nova forma de se conceber os distúrbios cognitivos. A afasia, compreendida inicialmente como um problema de fala articulada ou um problema de linguagem interna, passa a ser vista como um problema de metalinguagem, o que traz à tona a relação do falante com a produção e a interpretação da linguagem e da comunicação, com os aspectos verbais e não verbais da significação. A partir do momento em que passa a situar-se na Linguística, a antiga Afasiologia — atualmente, Neurolinguística — pode projetar de maneira interessante antigas indagações filosóficas sobre o sentido, a representação, o conhecimento, o pathos, a memória etc. Pode, sobretudo, voltar-se para a Linguística de modo a assumir seus pressupostos e métodos próprios, por vezes criando teorias-pontes entre distintos domínios da própria ciência da linguagem, como a Psicolinguística, a Sociolinguística, a Pragmática, a Análise da Conversação, a Linguística Textual, a Linguística Cognitiva, a Análise do Discurso. 4. AS PRIMEIRAS TEORIZAÇÕES SOBRE AS AFASIAS E A LINGUAGEM PATOLÓGICA O conhecimento a respeito das afasias dá-se inicial e predominantemente no campo das ciências médicas. Métodos investigativos utilizados à época do nascimento da Afasiologia, como a correlação anátomo-clínica, a entrevista anamnésica e os protocolos diagnósticos estão na base da investigação clínica ainda vigente. Vimos que os primeiros a diagnosticar e classificar as afasias foram os próprios médicos que as descreveram a partir do que exibiam seus pacientes. Na realidade, as classificações vigentes, em sua maioria, não divergem entre si e reafirmam de certa forma descrições e concepções tradicionais. Desde a primeira metade do século XX os linguistas passaram a estudar as afasias com o intuito de testar ou comprovar suas teorias. Dessa forma, a Afasiologia tornou-se uma importante fonte de dados para o desenvolvimento da teoria linguística. Se a falta de uma ciência da linguagem obrigou os primeiros afasiólogos a levarem em conta o bom senso e a intuição na análise da linguagem em contextos patológicos (à maneira de Jacques Lordat ou Armand Trousseau, por exemplo, que faziam inúmeras observações interessantes, embora algo subjetivistas, a respeito das implicações da afasia na linguagem cotidiana e na vida prática de seus pacientes), a institucionalização inicial do estudo das afasias no terreno da Medicina do século XIX fez com que fosse afastado tudo aquilo que envolvesse aspectos socioculturais, contextuais e psicoafetivos da linguagem. O que se recusava à época, em função da concepção positivista de ciência, era a “exótica” inclinação filosófica que o estudo das afasias suscitava.3 A distinção entre língua e fala, central no nascimento da Linguística, por sua vez, conduziu os estudos da afasia em direção ao estudo da língua, concebida como sistema abstrato, autônomo, homogêneo e inato, dissociado da fala ou das atividades que com ela fazem os falantes. Esta concepção de língua ajustava-se à veiculada nos estudos afasiológicos iniciais, que a consideravam uma espécie de representação do pensamento. Com isso, a afasia acabava sendo definida não como um problema de linguagemem toda a sua abrangência, mas basicamente como um problema relativo a aspectos internos, subjetivados, representacionais, mentais: em suma, como um problema de “linguagem interna” (Françozo, 1987).4 Foi preciso que a forte distinção língua/ fala fosse diluída de algum modo para que aqueles objetos considerados “heteróclitos” por Saussure à época do nascimento da Linguística (ou seja, os falantes, suas atividades, os aspectos histórico-culturais que configuram os usos da linguagem etc.) passassem a ser incorporados ao estudo da linguagem. A tradição estruturalista dividiu as afasias em dois grandes tipos: não fluentes e fluentes,5 anteriores e posteriores, motores e sensoriais. Os primeiros têm como características principais problemas de expressão oral e/ou escrita (como alterações fonético-fonológicas, estereotipias, perserverações, disprosódias, parafasias — sobretudo fonológicas —, fala telegráfica, agramatismo, falta de iniciativa verbal, alteração de linguagem escrita, apraxia buco-lábio-lingual) e são creditados a lesões na parte anterior do córtex cerebral. Os segundos têm como características a ausência de déficits articulatórios, a presença de problemas de compreensão oral e/ou escrita e a alteração nos aspectos semânticos da linguagem (como anomias, dificuldades de evocar ou selecionar palavras, parafasias — sobretudo semânticas —, circunlóquios, confabulações). Os problemas perceptivos e gestuais são mais frequentes e numerosos nesse tipo de afasia, que é creditado a lesões na parte posterior do córtex cerebral. Sem maiores especificações, esse é o quadro geral das classificações das afasias, que acaba por orientar a classificação de síndromes neurológicas distintas, como as demências, por exemplo. Tanto os neuropsicólogos quanto os neurolinguistas têm tentado colocar tal quadro à prova mediante outras e distintas descrições e análises de fenômenos afásicos. Contudo, novas descrições e explicações acabam sendo “encaixadas” nas velhas classificações de maneira ad hoc. O fato é que, sob contestações de toda ordem, elas continuam a vigorar, sobretudo quando evocadas para serem aplicadas ao contexto clínico-terapêutico. 4.1. Sobre as afasias: o problema do escopo do termo A afasia tem sido definida tradicionalmente como uma alteração de linguagem oral e/ou escrita causada por um comprometimento cerebral adquirido decorrente de acidentes vasculares cerebrais (isquêmicos ou hemorrágicos), traumatismos crânio-encefálicos, tumores. Em relação à etiologia, os quadros neurológicos aos quais pertencem as afasias estão associados (muitas vezes de maneira integrada) a doenças cardíacas, diabetes, tabagismo, hipertensão, alcoolismo, sedentarismo. A afasia pode e geralmente é acompanhada de alterações de outros processos cognitivos e sinais neurológicos, como a hemiplegia (paralisia de um dos lados do corpo), a apraxia (distúrbio da gestualidade), a agnosia (distúrbio do reconhecimento), a anosognosia (falta de consciência do problema por parte do sujeito cérebro-lesado) etc. Não se trata de afasia, assim, alterações de linguagem que se manifestam nas psicopatologias (como a esquizofrenia ou o autismo), nas deficiências mentais e auditivas ou nas demências, ou mesmo nas amnésias (Morato et al., 2002). Esta definição restringe a concepção de afasia a um problema de linguagem derivado de uma lesão focal no hemisfério cerebral esquerdo. Além isso, entende que, por ser um sintoma diagnóstico, a afasia — e, portanto, o distúrbio de linguagem que ela representa — integra um determinado conjunto de critérios de diagnose (cf. Ahlsén, 2006, p. 101). A propósito, ressalta Morato (2010b, p. 40): A atual investigação das afasias no campo da Neurolinguística e no da Neuropsicologia não deixa de ser marcada pela influência do método clínico iniciado no século XIX: a correlação anatomoclínica, a entrevista anamnésica dirigida e, mais posteriormente, a psicometria são elementos que normalmente funcionam como base da semiologia ou sintomatologia da síndrome afásica, base por sua vez do diagnóstico e da prescrição: “Ao dar um rótulo ao problema espera-se diminuir a ansiedade da ignorância. A nomeação de doenças envolve classificação, promove o prognóstico e indica a terapia” (Porter, 1994, p. 365). Após o dano cerebral, a qualidade de vida do sujeito cérebro-lesado será proporcional à intensidade do impacto da afasia. Este dependerá, entre outras coisas, do grau de extensão e importância do comprometimento lesional, da etiologia da afecção (AVC, TCE, tumor etc.), das sequelas neurológicas e neurolinguísticas resultantes (afasia, agnosia, hemiplegia, apraxia etc.) e das características do próprio sujeito (idade, atividade sócio- ocupacional, interesses culturais, escolaridade, habilidades, humor etc.), bem como da forma como ele e seus familiares ou amigos reagem a isso tudo. Na prática, com quais dificuldades se deparam em geral as pessoas afásicas, que podem apresentar dificuldades motoras (como hemiplegias) e sensoriais (como agnosias e apraxias)? Do ponto de vista da linguagem oral e escrita, podem faltar-lhe as palavras de maneira importante (anomias, dificuldades de selecionar ou evocar palavras), resultando muitas vezes em substituições ou trocas inesperadas e incompreensíveis de palavras inteiras ou de partes delas (são as parafasias, que têm diversas naturezas: fonético-fonológicas, semânticas, morfológicas). Sua fala pode ser permeada por longas pausas ou hesitações, muitas vezes seguidas de desalentado abandono do turno de fala ou do tópico conversacional, bem como da perda do “fio da meada”. Pode também acontecer de sua fala resultar muito laboriosa (alterações apráxicas, fonoarticulatórias) ou ter um aspecto “telegráfico”, em função de dificuldades de ordem sintática (como o agramatismo) ou semântico-lexical (como as dificuldades de encontrar palavras). Ainda pode acontecer de o indivíduo afásico ter dificuldades para objetivar ou “controlar” os sentidos e a forma de expressá-los, tendo em vista os contextos e as regras pragmáticas e conversacionais que presidem a utilização da linguagem. O afásico pode “infringi-las” ao confabular (isto é, produzir falsas informações ou falsas memórias), ao produzir circunlóquios, ao apresentar uma fala jargonafásica (isto é, uma fala permeada de abundantes parafasias de diversas naturezas), ao atuar de maneira irrelevante com relação à atividade referencial (e aos fatores de coesão, de coerência, de progressão tópica) e à atividade inferencial (subentendidos, implícitos etc.). É interessante ressaltar que esses aspectos, em muito semelhantes ao que ocorre no contexto “normal”, extrapolam o terreno do sistema linguístico e atingem a chamada exterioridade da língua, como os contextos de uso da linguagem, as normas sociais que presidem a produção e a interpretação da linguagem, a coexistência de processos de significação verbais e não verbais nos atos comunicativos etc. A partir da integração de elementos e fatores tidos como intra e extralinguísticos, a afasia se exibe de maneira mais radical como uma questão discursiva, isto é, não redutível aos níveis linguísticos ou à língua e seus mecanismos internos de constituição. Envolve o funcionamento da linguagem e os processos de alguma maneira a ele associados; envolve, dessa maneira, práticas linguísticas e sociocognitivas que caracterizam as mais diversas rotinas e práticas significativas humanas. A maneira como se lida social e subjetivamente com a afasia condiciona, de certa forma, a sorte dos que com ela convivem. Isso acaba por influenciar fortemente o processo de (re)construção linguístico- cognitiva ou a possibilidade de adaptação ou reinserção sócio-ocupacional de sujeitos afásicos: “Nesse caso, a afasia deixa de ser apenas uma questão de saúde, uma questão linguística, uma questão cognitiva. A afasia torna-se uma questão social” (Morato, 2000, p. 65-66).6 Em 1875, M. Legroux definia a afasia como “perversão da faculdade normal de exprimir ou compreender as ideias pelos signos convencionais”.A origem anatômica parece dar a essa linguagem uma morbidez indiscutível (daí a medicalização, o organicismo, a psicologização etc.). Herdeira do logocentrismo greco-latino, a cultura ocidental, ao vigiar severamente as formas de dizer ou falar, acaba por caracterizar a perda ou a alteração da linguagem como um “escândalo” intolerável, como se o pathos não fosse constitutivo também da ideia de normal (algo abordado com agudeza por autores como Sigmund Freud, George Canguilhem e Michel Foucault). Como afirma Roy Porter (1993), a “doença põe a linguagem sob tensão”. Daí se vê a preocupação com o sintoma, com a nosologia, com a forte distinção entre o normal e o patológico: “uma doença nomeada é uma doença quase curada”. A pessoa que se torna afásica, em função dessa idealização (da linguagem, do falante, da saúde etc.), acaba por conviver com um estigma muitas vezes devastador. As afasias têm sido definidas como alteração da capacidade de realizar operações metalinguísticas (cf. Jakobson, 1954/1981) ou como perda ou alteração da metalinguagem (cf. Lebrun, 1983). O que estaria alterado ou perdido no caso dos afásicos credita-se a um domínio cognitivo ou mental da competência linguística de que os indivíduos seriam dotados para se servir de recursos linguísticos com os quais representam e categorizam os objetos e estados de coisas do mundo. No sentido que lhe dá Chomsky (1970, p. 52), trata-se de uma capacidade inata e mental que temos para falar e compreender a linguagem: “O conhecimento de uma língua — a ‘competência linguística’, no sentido técnico deste termo — implica que dominamos esses processos gramaticais”. Contudo, indaga Morato (2010b, p. 32-33), em relação a esse ponto: Se a perda da capacidade metalinguística que caracterizaria as afasias disser respeito à perda de uma competência ligada ao conhecimento (psicológico) que teria o indivíduo acerca dos recursos a serem processados na produção e na compreensão de objetos linguísticos com os quais é possível referir e interpretar o mundo, como explicar os fatos linguísticos descritos e analisados no âmbito deste volume — que nos mostram precisamente várias formas ou dimensões da competência relativamente à linguagem (e à cognição)? Como analisar esses fatos a não ser por um deslocamento teórico que permita repor no estudo da linguagem e da cognição aqueles elementos tidos como “heteróclitos” para a tradição estruturalista e cognitivista, tais como o aspecto intersubjetivo, cultural e histórico das atividades que desenvolvem os indivíduos em sua vida social, a forma contextualizada pela qual emergem e se desenvolvem os processos de significação verbais e não verbais, a dimensão dialógica própria das práticas linguísticas, a construção multimodal e interacional do sentido, a forma dinâmica e distribuída do processamento da fala e dos processos cognitivos? Como é possível observar, deparamos-nos com um problema sério nessa tentativa de divisão de águas. Porém, se fugirmos do beco sem saída da dicotomia língua-fala, bem como da oposição interno-externo em relação à linguagem, admitiremos que a afasia, sendo um problema de linguagem, afeta tanto a estrutura da língua quanto seu funcionamento. Assim, vários são os processos e níveis de descrição que devem ser levados em conta na compreensão da linguagem: não apenas os fonético-fonológicos, lexicais e sintáticos, mas também os pragmáticos, os sociolinguísticos, os textuais, os discursivos. Além disso, outros processos cognitivos, com suas realidades semiológicas particulares, devem também ser considerados no processamento da linguagem em uso: memória, emoção, gestualidade, percepção etc. Assim, voltamos ao ponto de nossa discussão acerca das polêmicas que encerram os debates ainda vigentes sobre os limites acerca da correlação direta entre área cerebral e função linguística. 4.2. O estudo das afasias no âmbito da Linguística: as reflexões pioneiras de Jakobson O primeiro linguista que se dedicou sistematicamente ao estudo das afasias foi o moscovita Roman O. Jakobson, tendo por base a classificação neuropsicológica feita por outro eminente cientista russo, Alexander R. Luria (que estipulou seis formas básicas de afasia: eferente, aferente, sensorial, dinâmica, semântica e amnésica). Para Luria, lembremos, as afasias afetam distintamente os aspectos motores e sensoriais (expressivos e receptivos) implicados nas tarefas de articular e compreender a linguagem, que pode ser alterada de forma seletiva em suas diferentes funções (fala, audição, leitura e escrita) e modalidades (oral e escrita). Jakobson, ao longo de sua vasta obra, focalizou as afasias de um ponto de vista linguístico no contexto do estruturalismo e do funcionalismo. “Aphasia as a linguistic topic” (1953) e o célebre “Dois tipos de linguagem e dois tipos de afasia” (1954) são dois artigos complementares que representam a reflexão jakobsoniana a respeito das afasias nos anos 1950. Em outros trabalhos, como “Metalanguage as a linguistic problem” (1956) e “Linguística e Poética” (1960), dedicados à descrição do sistema comunicacional, o autor evoca a noção de metalinguagem — a capacidade autorreflexiva da linguagem de voltar-se sobre si mesma, tanto sobre sua estrutura, quanto sobre seu uso — para analisar a presença das operações metalinguísticas no uso cotidiano da linguagem. Ao se dedicar às afasias, Jakobson estava, na verdade, interessado em construir uma teoria geral da linguagem, uma teoria que a explicasse no seu todo: aquisição, funcionamento, estrutura, alteração etc. Para o autor (1954/1981), justamente por ferir a norma, a gramaticalidade, os padrões estruturais e funcionais da língua, as afasias dariam solidez empírica à sua teorização sobre o funcionamento da linguagem de um modo geral (e da sua aquisição pela criança, de um modo particular). A partir dessa primeira incursão linguística (já que as anteriores nada mais fizeram do que coadjuvar, digamos assim, as investigações de médicos e neuropatologistas), passou-se a admitir que os linguistas (e a Linguística) em muito contribuiriam para uma melhor descrição da semiologia e do diagnóstico das afasias. Na prática (isto é, na teoria), Jakobson ampliou, tendo como pano de fundo o estruturalismo e o funcionalismo linguístico (sob sua forma mais produtiva, o Círculo Linguístico de Praga), algumas das ideias de Ferdinand de Saussure, considerado o pai da Linguística. No entendimento dos tipos de afasia descritos em termos neuropsicológicos por Luria, Jakobson trabalhou teórica e metodologicamente com dicotomias clássicas, estabelecendo dois grandes eixos de relações (simbólicas) inicialmente projetados um sobre o outro e posteriormente inter-relacionados: duas formas de organização da linguagem, sintagmática/metonímica (responsável pela combinação de unidades) e paradigmática/metafórica (responsável pela seleção de unidades). Esta combinação conferiria unidade linguística ao sistema de linguagem. Nas afasias, segundo o autor, “um ou outro desses dois processos é reduzido ou totalmente bloqueado” (1954/1981, p. 55). Lembrando a tradição saussuriana, as explicações de Jakobson partem do princípio de que o falante não apenas opera com unidades, mas também com unidades em relação, isto é, em cadeia linguística. Estas combinações são chamadas de sintagmas e são qualificadas como relações in praesentia (como as estruturas sintáticas). Haveria ainda uma outra classe de relações, só que entre entidades que têm entre si algo de comum. São chamadas de paradigmáticas e são qualificadas como relações in absentia (como classes morfológicas e campos lexicais). Mais no início de seus estudos sobre as afasias, Jakobson (1954/1981) era mais fortemente comprometido com o pensamento luriano, chegando mesmo a afirmar que haveria correlação entre lesões anteriores e transtornos de codificação, assim como entre lesões posteriores e transtornos de decodificação. A hipótese de Jakobson era de que as duas formas do eixo estariam na dependência de estruturas cerebrais diferentes;embora ambas possam atuar de maneira integrada na comunicação, são relativamente independentes. Considerando, posteriormente, que nem sempre os linguistas estão atentos para a natureza sistêmica e funcional dos dois processos (metafórico-paradigmático/metonímico-sintagmático) que estão interligados por uma relação de “predominância” no uso da linguagem, Jakobson (1960/1981) chega a afirmar que não há entre eles uma forte divisão de águas. O autor discute essa questão na análise dos eixos de reações substitutivas (metafóricas) e de reações predicativas (metonímicas). A reflexão jakobsoniana assinala que as afasias são um bom lugar para a análise funcional da linguagem, já que perturbariam de maneira seletiva esses dois eixos responsáveis por todo seu funcionamento simbólico. Para Jakobson, a metalinguagem é deficiente nos afásicos que apresentam uma desordem de similaridade; nesse caso, apesar das instruções do interlocutor, os indivíduos afásicos não podem responder à palavra estímulo com uma palavra ou uma expressão equivalente e carecem da capacidade de construir proposições equacionais. Com isso, o contexto mostra-se decisivo neste tipo de distúrbio, pois o individuo apoia-se na contiguidade para contornar seus problemas relativos ao processo de decodificação. A função metalinguística, aquela em que se usa a linguagem para falar sobre a linguagem (isto é, o código ou o sistema linguístico), seria da ordem da fala, e é concebida apenas como expressão externa de conteúdos internos ou do pensamento. Para Jakobson, ao que parece, metalinguagem e função metalinguística são, na realidade, operações distintas (cf. Morato, 2005). Para ilustrar minimamente o teor da argumentação de Jakobson, tomemos uma distinção que decorreria, segundo o autor, da consideração do eixo paradigmático/sintagmático, relacionado aos problemas de decodificação e codificação da linguagem. No processo de decodificação da linguagem, o contato inicial do falante é com o contexto linguístico e depois com seus constituintes. O inverso dar- se-ia na codificação, em que a primeira etapa diz respeito à seleção dos termos para que, na etapa posterior, seja possível combiná-los. Ao processo de codificação subjaz a relação de contiguidade (que opera através da combinação das unidades linguísticas entre si, a precedente determinando a consecutiva e esta a posterior). Este é o processo que determina o contexto verbal. Na afasia motora, um tipo muito recorrente, este seria o problema básico (isto é, uma desordem de combinação e de contexto que se manifestaria no nível fonológico através da dificuldade no uso de grupo de fonemas, na construção da sílaba e na transição de um fonema a outro). Em termos de produção verbal, o que se nota é a ausência quase total dos conectivos que constituem o contexto gramatical e a permanência de palavras com conteúdo lexical: a isso a literatura afasiológica tem reservado um termo, “fala telegráfica”. Distanciando-se paulatinamente em suas reflexões dos interesses anátomo-clínicos da Neuropsicologia, Jakobson passa a descrever ainda uma série de dicotomias que estariam na base do funcionamento comunicativo da linguagem, tais como: limitação/desintegração (aplicada à situação na qual há alteração dos processos de combinação e seleção de constituintes que compõem a sentença); sequenciação/simultaneidade (aplicada à situação na qual há alteração da ordenação ou da possibilidade combinatória dos constituintes, tal como ocorre nas afasias eferentes ou nas afasias amnésicas, bem como à situação na qual há perturbação de seleção de traços distintivos que compõem um fonema, tal como ocorre nas afasias aferentes). Além de representar uma espécie de marco no estudo das afasias, as reflexões de Jakobson também tiveram o mérito de incentivar o interesse dos linguistas pelas patologias e de apontar propriedades comuns tanto às afecções, quanto à aquisição de língua materna e demais fatos de linguagem ordinária. A teorização formulada por Jakobson não deixou, contudo, de sofrer críticas no que diz respeito ao potencial explicativo de sua classificação linguística dos distúrbios afásicos. A propósito, na obra Nouveau dictionaire encyclopédique des sciences du langage, Ducrot e Schaeffer assim comentam os estudos de Jakobson sobre as afasias: “Malgrado o interesse do empreendimento de Jakobson, essas distinções, entretanto, permanecem muito gerais para darem conta da variedade de operações perturbadas nos diferentes tipos de afasia” (1995, p. 528 — nossa tradução). 5. UMA PERSPECTIVA INTERACIONISTA EM NEUROLINGUÍSTICA Tomada em um sentido largo, a perspectiva sociocognitiva destaca dentre seus postulados os seguintes aspectos: i) a linguagem é indissociável de outros fatores e propriedades da cognição humana; ii) a linguagem é resultado de uma imbricação de fatores externos e internos, como os relativos às propriedades biológicas e cognitivas dos seres humanos e os relativos às práticas da vida em sociedade e às experiências socioculturais dos indivíduos. Tais aspectos, de maneira distinta, estão presentes no desenvolvimento, na restrição ou na reorganização tanto de processos de aquisição, quanto de alteração da linguagem. Nessa perspectiva, a pergunta sobre a cognição não é uma indagação direta sobre a relação linguagem-mundo, mas sim sobre como nós usamos a linguagem enquanto forma constitutiva de mediação dessa relação. Para essa perspectiva, a cognição é um resultado, e não um antecedente da atividade interacional dos indivíduos com o mundo sociocultural. Esse entendimento, forte desde os anos 1980, está de alguma forma presente na concepção de cognição e de linguagem como atividades situadas e coletivas. Como afirma Tomasello (1999/2003), nossa cognição não se tornou possível via mera adaptação biológica, mas sim por aprendizado, transmissão e construção evolutivo-cultural. Tal percurso evolutivo não se deu somente de forma cumulativa, mas sim de forma psicossocial, por meio de sistemas de representação dos quais a linguagem é, sem dúvida, o exemplo mais radical. Esta é, à maneira de Vygotsky (1934/1987), uma tese forte a respeito da sociogênese da cognição humana, intersubjetiva e perspectival, como assinala Tomasello (1999/2003), a partir do que se pode estabelecer um quadro relacional entre o biológico e o cultural. Uma das teses da perspectiva sociocognitiva (cf. Salomão, 1999) refere- se à centralidade da linguagem e da interação social na constituição da cognição humana. A Neurolinguística cria um terreno propício a essa abordagem ao se instanciar entre os vários domínios da Linguística pós- estruturalista. Se o primeiro passo da antiga Afasiologia do século XIX em direção à Linguística foi a descrição, a semiologia e a classificação das afasias em termos linguísticos, o segundo passo, condição para que se expandisse sob a forma híbrida denominada Neurolinguística, foi levar em conta o arcabouço teórico-metodológico da ciência da linguagem. É dentro dessa preocupação teórica que a Neurolinguística, para além da descrição de processos gramaticais (prosódicos, fonológicos, morfológicos, semânticos, sintáticos) relativos ao sistema, procura sustentação nos construtos teóricos da Linguística, de modo a transcendê-la. Na área da Pragmática e da Análise da Conversação, a Neurolinguística procura sustentação para o estudo da estruturação e da gestão da interação, bem como da competência linguística e comunicativa dos falantes; para o reconhecimento e a manipulação das chamadas “leis conversacionais” e das intenções dos interactantes; para o reconhecimento e a manipulação de normas pragmáticas que orientam o uso social da linguagem, bem como a produção e a interpretação de inferências e dos vários atos de fala presentes na comunicação. Do mesmo modo, é a preocupação com a estrutura e o funcionamento da linguagem que leva a Neurolinguística à Linguística Textual e aos estudos da textualização e da referenciação (Koch, 2002, 2004; Marcuschi, 2007, 2008; Cavalcante et al., 2005; Koch, Morato e Bentes,