Prévia do material em texto
Maria Nayara Melo Terapia medicamentosa em periodontia As bactérias e os seus produtos tóxicos causam perda de inserção e reabsorção. Ainda assim, sabe-se que a resposta imunológica do hospedeiro contra a infecção pode causar mais destruição óssea do que as bactérias patogênicas e seus produtos. Essa resposta imunológica pode ser influenciada pelo ambiente (p. ex., uso de nicotina), pode ser adquirida (p. ex., doença sistêmica) ou até ser influenciada por fatores de risco genéticos. Os agentes quimioterápicos podem modular a resposta do hospedeiro contra as bactérias patogênicas e reduzir, assim, a resposta autodestrutiva e, consequentemente, a perda óssea. Um agente quimioterápico é um agente anti-infeccioso que age reduzindo o número de bactérias presentes. Antibióticos são agentes antimicrobianos naturais, semissintéticos. ou sintéticos que destroem ou inibem o crescimento de microrganismos seletivos, em geral em baixas concentrações. Os agentes anti-infecciosos podem ser administrados localmente ou sistemicamente por via oral. Quando aplicados sistemicamente, muitos desses agentes podem ser detectados no fluido crevicular gengival (FCG). Em qualquer das formas de administração, o propósito é reduzir o número de bactérias presentes na bolsa periodontal. A administração sistêmica de antibióticos pode ser uma medida coadjuvante necessária para o controle da infecção bacteriana, considerando-se que algumas bactérias podem invadir os tecidos periodontais, tornando a terapia mecânica isolada, às vezes, ineficaz. A administração local de agentes antiinfecciosos promove ação direta na área infectada da bolsa periodontal tornando o agente disponível em grandes concentrações e com menores possibilidades de efeitos colaterais sistêmicos. Lembrar que: um único agente quimioterápico pode ter dois mecanismos de ação. Por exemplo, as tetraciclinas (especialmente a doxiciclina) são agentes quimioterápicos que podem reduzir a destruição óssea e de colágeno pela capacidade de inibir a enzima colagenase. Como agentes antibióticos, elas também podem reduzir os patógenos periodontais nos tecidos. O antibiótico ideal para uso na periodontia seria um medicamento específico para patógenos periodontais, halogênico, atóxico, com substantividade, não usado geralmente para tratamento de outras doenças e de baixo custo. Atualmente, não há um antibiótico ideal para tratamento de doenças periodontais. Embora bactérias bucais sejam suscetíveis a muitos antibióticos, nenhum deles, sozinho, nas concentrações alcançadas nos fluidos corporais, inibe todos os patógenos periodontais. Na verdade, uma combinação de antibióticos seria necessária para eliminar todos os prováveis patógenos de algumas bolsas periodontais. A escolha do tratamento deve ser feita, como sempre, em comum acordo entre clínico e paciente, o tratamento individual deve ter como base o estado clínico do paciente, a natureza das bactérias colonizadoras e os riscos e benefícios associados ao plano de tratamento proposto. O clínico é responsável pela escolha do agente antimicrobiano correto e deve explicar ao paciente como funciona o medicamento, bem como o que ele pode causar. . Maria Nayara Melo Tetraciclinas As tetraciclinas têm sido muito usadas no tratamento de doenças periodontais, principalmente no tratamento de periodontites refratárias e periodontites agressivas localizadas. As tetraciclinas têm a capacidade de se concentrar nos tecidos periodontais e inibir o crescimento (principalmente da Aggregatibacter actinomycetemcomitans). Além disso, elas exercem um efeito anticolagenase que pode inibir a destruição tecidual e pode ajudar a regeneração óssea. Somente a tetraciclina causa pigmentação de dentes permanentes erupcionados e tecidos gengivais quando administrada via oral. Minociclina: é eficaz contra um amplo espectro de microrganismos. Em pacientes com periodontite do adulto, são suprimidos espiroquetas e bastonetes de forma tão efetiva quanto com raspagem e alisamento radiculares, com supressão remanescente evidente acima de três meses após a terapia. A minociclina pode ser administrada duas vezes ao dia, facilitando, assim, a colaboração quando comparada com tetraciclina. Embora seja associada à menor fototoxicidade e nefrotoxicidade que a tetraciclina, ela pode causar vertigem. A minociclina administrada em dosagem de 200 mg/dia por uma semana resulta em redução da contagem de bactérias, completa eliminação de espiroquetas por períodos acima de dois meses e melhora em todos os parâmetros clínicos. Os efeitos adversos são similares à tetraciclina, entretanto com maior incidência de vertigens. Doxiciclina: tem o mesmo espectro de atividade que as minociclinas e pode ser igualmente efetiva. Pode ser administrada em doses diárias únicas, o uso da doxiciclina pode ter mais aderência dos pacientes. A aderência ao tratamento também é favorecida, pois sua absorção no trato gastrointestinal não é alterada por cálcio, íons metálicos ou antiácidos, como é a absorção de outras tetraciclinas. A dosagem recomendada quando usada como um agente antimicrobiano é de 100 mg duas vezes no primeiro dia, e depois 100 mg uma vez ao dia. Para reduzir otranstorno gastrointestinal, pode-se tomar 50 mg duas vezes ao dia. Quando usada na dose subantimicrobiana (para inibir a colagenase), a doxiciclina é recomendada na dose de 20 mg duas vezes ao dia. O Periostat (CollaGenex Pharmaceutical Inc, Newtown, PA) e formas genéricas estão atualmente disponíveis em uma dose de 20 mg de doxiciclina. Metronidazol O metronidazol é um composto à base de nitroimidazol desenvolvido para tratamento de infecções por protozoários. É um bactericida para organismos anaeróbios e acredita- se que desorganize a síntese bacteriana de DNA em condições de um baixo potencial de redução. O metronidazol não é a droga de escolha para o tratamento de infecções por A. actinomycetemcomitans. No entanto, ele é eficaz contra A. actinomycetemcomitans quando usado em combinação com outros antibióticos. O metronidazol também é eficiente contra anaeróbios, como Porphyromonas gingivalis e Prevotella intermedia. O metronidazol tem sido usado clinicamente para tratamento de gengivite ulcerativa necrosante (GUN), periodontite crônica e periodontite agressiva tanto em monoterapia Maria Nayara Melo como em combinação com alisamento radicular e cirurgia ou com outros antibióticos. O metronidazol tem sido usado com sucesso para tratamento da GUN. O metronidazol tem um efeito Antabuse (a aversão que o medicamento causa propositalmente quando o paciente ingere bebida alcoólica após fazer uso da medicação) quando associado à ingestão de álcool. A resposta é, geralmente, proporcional à quantidade ingerida, e pode resultar em câimbras graves, náuseas e vômitos. Os produtos que contêm álcool devem ser evitados durante e um dia após o término da terapia. O metronidazol também inibe o metabolismo da varfarina. Os pacientes sob terapia anticoagulante devem evitar o metronidazol, pois este prolonga o tempo de protrombina. Ele também deve ser evitado em pacientes que estão fazendo uso de lítio. Produz ainda um gosto metálico na boca que pode influenciar a adaptação ao paciente. Penicilinas As penicilinas são um dos antibióticos mais utilizados e de escolha para o tratamento de muitas infecções graves nos seres humanos. Elas inibem a produção da parede elular bacteriana e, portanto, são bactericidas. Os mais utilizados são amoxicilina e amoxicilina-clavulanato de potássio (Clavulin). As penicilinas podem induzir reaçõesalérgicas e resistência bacteriana; mais de 10% dos pacientes podem ser alérgicos à penicilina. Amoxicilina: A amoxicilina é uma penicilina semissintética, com um amplo espectro antimicrobiano que inclui bactérias Gram-positivas e Gram-negativas. Demonstra excelente absorção após administração via oral. É suscetível à penicilinase, uma β-lactamase produzida por certas bactérias que quebram a estrutura circular da penicilina, tornando-a ineficaz. A amoxicilina pode ser usada no tratamento de pacientes com periodontite agressiva tanto na forma localizada quanto na generalizada. Amoxicilina-Clavulanato de Potássio: A combinação da amoxicilina com clavulanato de potássio torna a amoxicilina resistente à enzima penicilinase produzida por algumas bactérias. A amoxicilina com clavulanato (Clavulin) pode ser útil no tratamento dos pacientes com periodontite refratária ou agressiva localizada. Bueno et al1 relataram que o Clavulim interrompeu a perda óssea alveolar em pacientes com doença periodontal refratária ao tratamento com outros antibióticos, incluindo a tetraciclina, o metronidazol e a clindamicina. Cefalosporinas A família das β-lactamas conhecidas como cefalosporinas é similar, na ação e na estrutura, às penicilinas. São resistentes a várias β-lactamases normalmente ativas contra as penicilinas. As cefalosporinas geralmente não são usadas para tratar infecções relacionadas aos dentes. As penicilinas são superiores às cefalosporinas em sua gama de ação contra bactérias periodontais patogênicas. Pacientes alérgicos à penicilina devem ser considerados alérgicos a todo produto β-lactâmico. Erupções cutâneas, urticária, febre e transtorno gastrointestinal têm sido associados às cefalosporinas. Maria Nayara Melo Clindamicina A clindamicina é eficaz contra bactérias anaeróbias e apresenta forte afinidade com o tecido ósseo. É eficaz em situações nas quais o paciente é alérgico à penicilina. A clindamicina mostrou-se eficiente em pacientes com periodontite refratária à terapia com tetraciclina. A clindamicina tem sido associada à colite pseudomembranosa, embora maior incidência ocorra com as cefalosporinas e a ampicilina. Quando necessário, a clindamicina pode ser usada com cautela, mas não é indicada em pacientes com histórico de colite. Diarreia ou câimbra que se desenvolve durante a terapia com clindamicina pode ser indicativo de colite, e o seu uso deve ser interrompido. Ciprofloxacina A ciprofloxacina é uma quinolona ativa contra bastonetes Gram-negativos, incluindo todos os facultativos e alguns patógenos periodontais anaeróbios. Devido aos efeitos mínimos sobre espécies de Streptococcus que são associadas à saúde periodontal, a terapia com ciprofloxacina pode facilitar o estabelecimento de uma microbiota associada à saúde periodontal. No momento, a ciprofloxacina é o único antibiótico na terapia periodontal à qual todas as variedades de A.actinomycetemcomitans são susceptíveis. Ela tem sido usada, também, em associação ao metronidazol. Náuseas, dor de cabeça, gosto metálico na boca e desconforto abdominal têm sido associados à ciprofloxacina. Quinolonas inibem o metabolismo da teofilina e da cafeína. Assim, a administração conjunta pode produzir toxicidade. Também tem sido relatado que as uinolonas aumentam o efeito da varfarina e de outros anticoagulantes. Macrolídeos Os antibióticos macrolídeos contêm muitos anéis de lactona associados, aos quais um ou mais desoxiaçúcares são fixados. Eles inibem a síntese proteica ligando-se às subunidades de ribossomos de microrganismos sensíveis. Os macrolídeos podem ser bacteriostáticos ou bactericidas, dependendo da concentração da droga e da natureza do microrganismo. Os antibióticos macrolídeos usados no tratamento periodontal incluem a eritromicina, a espiramicina e a azitromicina. A eritromicina não se concentra no FCG, e não é eficaz contra a maioria dos patógenos periodontais putativos. Por isso, ela não é recomendada como um adjunto na terapia periodontal. A espiramicina é ativa contra organismos Gram-positivos e é excretada em altas concentrações na saliva. Ela é usada como um auxiliar no tratamento periodontal. A espiramicina possui mínimo efeito no ganho dos níveis de inserção periodontal. A azitromicina é um membro da classe azalídea dos macrolídeos. É eficaz contra anaeróbios e bacilos Gram-negativos A concentração de azitromicina nos tecidos das lesões periodontais é muito maior que nos de gengiva normal. Tem sido proposto que a azitromicina penetra nos fibroblastos e fagócitos em concentrações 100 a 200 vezes maiores que na área extracelular. Ela é ativamente transportada para locais de inflamação por fagócitos e, então, liberada diretamente dentro desses locais, com a ruptura dos fagócitos durante a fagocitose. O uso terapêutico requer uma única dose de 250 mg por dia por cinco dias após uma dose inicial de ataque de 500 mg. Dados recentes sugerem que a azitromicina pode ter um efeito adjunto à terapia periodontal por aumentar os níveis de inserção em pacientes com periodontite agressiva, bem como reduzir o grau de crescimento gengival. As instruções para o uso de antibióticos no tratamento periodontal incluem o que segue: Maria Nayara Melo > O diagnóstico clínico e a condição observada irá estabelecer a possível necessidade da terapia antibiótica adjunta no controle da doença periodontal. O diagnóstico do paciente pode se alterar com o tempo. > A atividade da doença, avaliada pela continuidade de perda de inserção, presença de exsudato purulento e sangramento à sondagem, pode ser uma indicação de intervenção periodontal e investigação microbiana por meio de coleta microbiana. > Quando usado no tratamento periodontal, os antibióticos são selecionados baseados na história médica e dental do paciente, > Quando antibióticos sistêmicos são usados como adjuntos à raspagem e ao alisamento radicular, melhoras foram observadas em relação aos níveis de inserção clínica de pacientes com periodontite crônica ou agressiva; todavia, pacientes com periodontite agressiva experimentaram maiores benefícios. > O desbridamento das superfícies radiculares, boa higiene bucal e visitas de manutenção periódicas são fundamentais na terapia periodontal. Para que um antibiótico fosse efetivo contra as bactérias do biofilme, seria preciso que ele estivesse em uma concentração 500 vezes maior do que a concentração proveniente da dose sistêmica comum. Assim, é importante destruir o biofilme fisicamente para que o agente ativo possa ter acesso aos patógenos periodontais. > Apesar de existir um número suficiente de dados sugerindo que o antibiótico sistêmico possa trazer benefícios no tratamento das doenças periodontais destrutivas, ainda são limitados os dados que identifiquem quais antibióticos são apropriados às diferentes infecções, qual a dosagem exata, qual a frequência e a duração ideais do tratamento, quando o regime de antibióticos deve ser introduzido no tratamento, quais os resultados de usos de antibióticos em longo prazo, quais os perigos potenciais desses agentes e quais as possíveis ramificações econômicas desse tipo de intervenção farmacológica. > A decisão de quando usar antimicrobianos locais ou sistêmicos deve basear-se na consideração do clínico, na história médica e odontológica, nos achados clínicos, na preferência do paciente e nos potenciais benefícios da terapia adjunta com tais agentes. Maria Nayara Melo Todos os dados são do Carranza.