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MEMÓRIA E PATRIMÔNIO HISTÓRICO-CULTURAL Hugo Moura Tavares E d u ca çã o M E M Ó R IA E P A T R IM Ô N IO H IS T Ó R IC O -C U LT U R A L H ug o M ou ra T av ar es Curitiba 2018 Memória e Patrimônio Histórico-Cultural Hugo Moura Tavares Ficha Catalográfica elaborada pela Editora Fael. T231m Tavares, Hugo Moura Memória e patrimônio histórico-cultural / Hugo Moura Tavares. – Curitiba: Fael, 2018. 178 p.: il. ISBN 978-85-5337-044-3 1. Patrimônio histórico - Proteção 2. Patrimônio histórico - Brasil I. Título CDD 363.69 Direitos desta edição reservados à Fael. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. FAEL Direção Acadêmica Francisco Carlos Sardo Coordenação Editorial Raquel Andrade Lorenz Revisão Editora Coletânea Projeto Gráfico Sandro Niemicz Capa Vitor Bernardo Backes Lopes Imagem da Capa Shutterstock.com/Thiago Leite Arte-Final Evelyn Caroline dos Santos Betim Sumário Carta ao Aluno | 5 1. O conceito de cultura | 7 2. Memória e Patrimônio Cultural | 23 3. O patrimônio desde sua origem até o século XXI | 45 4. Patrimônio e Propriedade | 61 5. Patrimônio, representação e identidade | 73 6. Patrimônio Cultural no mundo | 87 7. As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil | 97 8. Patrimônio Cultural e Meio Ambiente | 109 9. Os Marcos Legais | 121 10. Educação Patrimonial | 141 Gabarito | 151 Referências | 167 Prezado(a) aluno(a), O ensino da História requer do historiador análises diversas dos fragmentos deixados pelo passado. Nessa obra, serão apre- sentados conceitos pertinentes para a reflexão do uso do Patrimô- nio Cultural dentro do ensino da História. O autor apresenta nessa obra os percalços, conceitos e pro- blematizações profícuos para a compreensão do estudo do Patri- mônio Histórico-Cultural, a fim de possibilitar ao acadêmico uma preparação de qualidade para a execução de sua futura profissão. Essa obra pretende introduzir o futuro historiador ao conheci- mento dos bens patrimoniais de valor material, imaterial, natural e mundial, transmitindo segurança em sua formação. Desejamos uma excelente leitura e bons estudos. Carta ao Aluno 1 O conceito de cultura Nesse capítulo abordaremos o conceito de cultura. Partimos de como o conhecemos no nosso senso comum rumo a uma con- ceituação mais elaborada e complexa. Este conceito, como qualquer categoria científica, apresenta sua historicidade, isto é, mudou e adquiriu vários significados através do tempo, e conhecê-lo é importante. Nenhum conceito é estático, definitivo e esta perspectiva deve sempre estar na mente do leitor e do estudante. Dentre os inúmeros pensadores da cultura, destacamos a interpretação do intelectual galês Raymond Williams autor de, entre outros trabalhos, Cultura e Sociedade - de Coleridge a Orwell. Fundador dos chamados Estudos Culturais, esse autor trouxe importantes contribuições teóricas ao campo de estudos sobre a cultura. Do seu conceito de cultura comum é possível estabelecer uma ponte para a definição antropológica do termo. Assim, procuramos dar um panorama geral de como a Antropo- logia tratou a cultura e seus principais elementos formadores que nos ajudarão a compreender melhor os capítulos seguintes. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 8 – 1.1 Cultura no nosso cotidiano No nosso cotidiano, quando uma pessoa é muito inteligente e tem muito conhecimento, costumamos dizer que ela tem cultura. Ter cultura, neste sentido, significa conhecer as belas artes, como música, pintura, literatura, filosofia etc. Também é usual as pessoas utilizarem este termo quando nos referimos a uma pessoa que estudou muito, frequentou o ensino superior, fez cursos de pós-graduação, enfim, que é “diplomada”! Na verdade, um significado está ligado ao outro. Ao afirmarmos que uma pessoa culta é aquela que tem muito conhe- cimento e que este conhecimento é consequência do estudo que ela tem, estamos querendo dizer que cultura se aprende na escola, na educação formal. E isto nos leva a acreditar que é esta educação formal que nos permitirá ter acesso e compreender as chamadas belas artes. Em outras palavras, a parcela da população que tem acesso à educação formal é a que tem acesso aos concertos de música, às galerias e museus de arte, às bibliotecas, às livrarias, aos cinemas e aos teatros. A partir desta lógica, quanto mais estudo, mais acesso à cultura e, em consequência, mais culto alguém será. Correto? Parcialmente, sim. Figura 1.1 – Cultura como acúmulo de conhecimento Fo nt e: S hu tte rs to ck .c om /Ic on ic B es tia ry . – 9 – O conceito de cultura Outro significado para este conceito está ligado a nossa identidade. No nosso cotidiano, quando vamos nos referir a uma característica única de um país, região ou cidade, utilizamos a palavra cultura. Quando apresentamos nossa cidade a um visitante, escolhemos aquilo que nos diferencia, que nos faz únicos. Levamos nosso visitante a um restaurante onde ele poderá apreciar um prato típico da nossa região, ou então conhecer um artesanato, experimentar uma bebida local, apreciar uma dança ou uma celebração religiosa. Como resultado, temos expres- sões como “churrasco gaúcho”, “cozinha amazonense” e “cerâmica mara- joara”, por exemplo. Quem nunca ouviu alguém falar que o brasileiro gosta de futebol e feijoada porque isto faz parte da nossa formação cultural? Ou, numa situ- ação inversa, numa discussão, quando queremos explicar um problema crônico, defendermos a ideia de que este problema não tem solução por- que é cultural. Assim, neste sentido, cultura não é sinônimo de conhecimento adqui- rido na educação formal ou manifestação artística. Diz respeito a algo mais profundo: tem a ver com nossa identidade, com aquilo que nos faz diferentes, por exemplo, dos árabes, dos japoneses, dos franceses, dos americanos etc. Figura 1.2 – Mulher baiana no Pelourinho, Salvador/BA Fonte: Shutterstock.com/Filipe Frazao. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 10 – Pelo o que podemos perceber até o momento, o conceito de cultura é mais complexo e tem mais de um significado e, neste caso, dizemos que ele é polissêmico, do grego polysemos, cuja tradução é: algo que tem muitos significados. O fato de a cultura ser um conceito polissêmico acon- tece porque as palavras são criadas, produzidas e reproduzidas pelos seres humanos vivendo em sociedade. O que equivale a dizer que elas não têm sempre o mesmo significado, mudam no tempo e no espaço. Aliás, vários significados convivem uns com os outros. Este fato nos leva a perceber que cultura, como qualquer conceito, tem sua historicidade, e conhecê-la nos ajudará a compreendê-la melhor. 1.2 História do conceito de cultura Dentre os vários intelectuais que estudaram o tema, o intelectual galês Raymond Williams se destaca. Este pensador foi um dos fundado- res dos chamados Estudos Culturais e dedicou grande parte da sua vida profissional ao estudo da história do termo cultura. O fato de seu objeto de pesquisa na obra Cultura e Sociedade ter sido a tradição cultural bri- tânica, não invalida a importância da sua pesquisa para a reflexão mais ampla do conceito. De acordo com Tavares, a obra Cultura e Sociedade reconstitui historicamente os discursos sobre a cultura presentes na tradição britânica entre 1780 e 1950. Examina as ideias sobre cultura e sociedade e a mudança do sig- nificado desses termos desde os primeiros anos de consolidação da Revolução Industrial. Analisa as mudanças semânticas e suas relações com as mudanças sociais pelas quais passou a Inglaterra com o desenvolvimento e consolidaçãodo modo de produção capitalista. Seu livro identifica e estabelece uma tradição inglesa de debates sobre as relações entre a cultura e a sociedade que congrega autores dos mais diversos pontos de vista políticos. Em outras palavras, um dos méritos desse trabalho foi o de localizar essa tradição em obras de autores que comumente eram estuda- dos em separado. Isto é, procura focar as respostas que intelectu- ais ingleses dão às transformações sociais, políticas e econômicas pelas quais estão passando. (TAVARES, 2008, p. 14) – 11 – O conceito de cultura Saiba mais Quer conhecer mais sobre os Estudos Culturais? Para Stuart Hall, dire- tor do Centro Contemporâneo de Estudos Culturais da Universidade de Birmingham, entre 1968 e 1980, os estudos culturais tiveram sua origem nos trabalhos de Raymond Williams, Richard Hoggart e E. P. Thompson, autores de três textos que, surgidos no final dos anos 50, são considerados a base dessa disciplina: The Making of the English Working Class (1963), de Edward P. Thompson; Culture and Society, 1780-1950 (1958), de Raymond Williams; e The Uses of Literacy (1957), de Richard Hoggart. Para Hall, a importância dessas obras está no fato de que elas representaram uma ruptura dentro das ciências humanas na Inglaterra. Uma ótima dica para iniciar sua caminhada neste campo de estudos é a leitura destes dois livros: 2 CEVASCO, M. E. Para ler Raymond Williams. São Paulo: Paz e Terra, 2001. 2 CEVASCO, M. E. Dez lições sobre os estudos culturais. São Paulo: Boitempo, 2003. Boa leitura! O termo cultura entrou na língua inglesa a partir do latim colere, habitar, do qual derivou colono e colônia. Também significava adorar, no sentido de culto religioso, e cultivar, no sentido de cuidar da terra e dos animais. Esse sentido prevaleceu até o século XVI. A partir de então, a palavra cultura começou a ser usada como o cultivo do espírito, das facul- dades mentais, algo que deveria ser cuidado desde a infância, de onde, provavelmente, surgiu a expressão “jardins da infância” em que o conhe- cimento/cultura poderiam ser cultivados (TAVARES, 2008, p. 12). No século XVIII, junto com civilização, cultura designa progresso intelectual e espiritual. Uma pessoa culta seria aquela que evoluiu nos seus estudos e o mesmo pensamento se estendia para as sociedades. Assim, Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 12 – os países europeus seriam o ponto máximo do desenvolvimento humano, para onde todos os povos do mundo deveriam se dirigir. Deste modo, quem seria considerado civilizado? Seria o indivíduo ou o país educado dentro daquela tradição humanista que buscava na antiguidade clássica o seu modelo de vida e educação. Seguindo este raciocínio, quem não seria civilizado? Aquelas pessoas ou sociedades que ainda viviam num estado natural, “bárbaro” e, comumente, afastados das metrópoles europeias. O iluminismo francês, no século XVIII, reforçou esta ideia de civili- zação. Só que, neste caso, o caminho rumo ao estado civilizado seria o da razão, o do pensamento livre e lógico. Pelo uso da razão, o homem chega- ria à civilização tendo como modelo a França setecentista. Neste modelo iluminista, ser civilizado reforça a ideia de cultura como resultado de um processo de educação. A pessoa culta seria aquela que foi “cultivada” nos valores da civilização e, principalmente, da civi- lização francesa. Se o pensamento francês estabeleceu uma relação íntima entre cul- tura e civilização, o pensamento alemão caminhou em sentido inverso. Numa interpretação nacionalista, para os alemães, cultura tinha a ver com aquilo que as pessoas sentem, intuem, enfim, algo ligado ao espírito e não à razão. Esta oposição entre razão e emoção ainda está presente nos dias de hoje em várias expressões artísticas como a música, a poesia, o cinema, os romances e, com certeza, já foi título de alguma telenovela. Enfim, o que estava em jogo era, do lado alemão, a tentativa de resgatar os valores morais, costumes e comportamentos tradicionais dos povos germânicos. Os alemães, no século XIX, estavam construindo uma nação unificada e precisavam difundir o sentimento de uma cultura nacional. Para isso, o conceito de civilização proposto pelos franceses não funcionava. Ele era muito universal, aplicável a todas as sociedades europeias. Para os germâni- cos, era necessário um conceito de cultura que representasse o modo de vida alemão em oposição a outros modos de vida de outras nações. Se você parar um pouco para refletir, perceberá que os conceitos apresentados no início do capítulo, de cultura como conhecimento e como modo de vida, tiveram seu surgimento neste período. – 13 – O conceito de cultura O desenvolvimento e a expansão do modo capitalista de produção, que teve na Revolução Industrial uma das suas expressões, influenciou a mudança semântica da palavra cultura. Durante o século XIX, na medida em que se percebia que, junto com o desenvolvimento capitalista havia uma perda dos valores humanos, e que civilizar “os bárbaros” (as populações colonizadas pelos europeus) tinha como consequência sua conquista, dominação e exploração, a palavra cultura sintetizou uma posição de crítica à sociedade industrial. Num mundo em acelerada transformação e perda de referências e valores, o cultivo do espírito humano, das belas artes, significava a resis- tência de um humanismo em vias de desintegração. Com isso, no século XIX, o termo cultura passou a ser associado ao processo geral de desen- volvimento “íntimo”, em oposição ao “externo”. Cultura passou a ser ligada às artes, religião, instituições, práticas e valores distintos e às vezes até opostos à civilização e à sociedade que surgiram com a Revolução Industrial. (TAVARES, 2008, p. 13). Se por civilização entendia-se “civilização industrial” dominada pelas máquinas e pelo materialismo, a cultura seria o último refúgio de um mundo em desintegração. Para estes pensadores, só seria possível desenvolver a cultura se ela estivesse afastada das influências nefastas da sociedade industrial e moderna. Temos que lembrar que este é o período das grandes aglomerações urbanas, quando milhares e milhares de pessoas se dirigiam às cidades em busca de emprego. Manchester, na Inglaterra, era uma cidade povoada por chaminés de fábricas, cortiços de operários, poluição, violência e problemas urbanos. Uma realidade bem distante do que se entendia por civilizado ou culto! A cultura, ameaçada pela sociedade industrial que transformava tudo em mercadoria, deveria ser salva e cultivada por poucos e para poucos. Nesta concepção, caberia a uma elite cultural organizada numa irmandade formar seus pares e garantir a manutenção e reprodução dos bens culturais ameaçados pelo progresso. Em termos da cultura como uma vida voltada para os sentimentos, para as emoções, o desenvolvimento industrial era o surgimento de uma Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 14 – realidade oposta a este ideal. Se a industrialização da sociedade e o seu progresso sem freios destruía tradições, era necessário buscar e valorizar uma forma de viver oposta a tudo isso. Um modo de vida “orgânico”, “natural” deveria se opor ao progresso sem medida! Quando o século vinte iniciou, além do sentido que permaneceu, de cultivo agrícola, outros três significados passam a conviver entre si: a) a cultura como resultado de uma ação educativa, formal ou informal. b) como consequência da primeira, também era vista como o con- junto de expressões artísticas e seus produtos, como a música, a literatura, a escultura, o teatro, a pintura, entre outras. As cha- madas belas artes que deveriam formar o bom gosto e o senso estético das pessoas. c) por fim, como algo ligado a um mundo utópico, perdido, puro, em oposição aos males da modernidade.Estes três sentidos atravessaram o século XX e, ainda hoje, parti- cipam do debate sobre a concepção de cultura. Porém, um outro fato contribuiu para ampliar o significado do termo: o surgimento e expansão da Antropologia. 1.3 O conceito antropológico de cultura A Antropologia enquanto ciência, derivada das ciências sociais, tem sua origem na especialização que as chamadas ciências humanas sofreram no século dezenove. Com a globalização, que teve sua aceleração com os descobrimen- tos marítimos a partir do século quinze, os europeus tiveram contato com várias sociedades. Alguns autores interpretam este encontro como um choque cultural que afetou tanto a Europa quanto os outros continentes. Após o choque inicial, os europeus iniciaram um esforço de com- preensão das sociedades contatadas. Fosse para melhor dominá-las, por meio da colonização, ou conhecê-las, para fins de comércio ou de conhe- – 15 – O conceito de cultura cimento científico, fato é que a existência destes “outros” exigiu esque- mas explicativos. Uma das propostas era a de estabelecer uma hierarquia, com base na ideia de civilização. Por este modelo, os europeus representariam o último estágio civilizatório e os demais povos, o início ou a fase intermediária. Assim, os indígenas brasileiros, por exemplo, estariam classificados como “bárbaros” ou “selvagens”. De acordo com este ponto de vista, para muitos europeus, a coloni- zação de outros povos tinha como um dos objetivos o de levar ao restante do globo os valores da civilização europeia, isto é, “ajudar” outros povos e nações a evoluírem. Outro aspecto que fortaleceu esta classificação do mundo entre “civi- lizados” e “primitivos” foi a teoria da evolução de Charles Darwin. Com sua obra A origem das espécies, Darwin defendeu e demonstrou a evolu- ção das espécies por meio do processo evolutivo da seleção natural. Para ele, as espécies vegetais e animais teriam se desenvolvido durante milha- res de anos, a partir de formas ancestrais.1 A teoria da evolução das espécies causou – e ainda causa – polêmica, mas fato é que foi interpretada de várias maneiras e influenciou a Antro- pologia. Influenciou negativamente ao possibilitar uma leitura equivocada da evolução das espécies, pela qual existiriam seres humanos evoluídos em oposição aos não evoluídos, ou, em outras palavras, superiores e infe- riores. Este fato demonstra como, em muitas ocasiões, certas ideias são utilizadas conforme convém a determinados interesses. O chamado “darwinismo social” influenciou e motivou teorias racis- tas que justificaram a escravização de seres humanos e até seu extermínio. Por estas teorias, o termo raça definiria as características físicas, psico- lógicas e culturais transmitidas desde os seus antepassados. As diferen- ças humanas seriam determinadas essencialmente pela biologia e, deste modo, os indivíduos de uma determinada raça herdariam, além dos traços físicos, habilidades e inteligência. 1 Para mais informações sobre Charles Darwin, acesse <https://www.ebiografia.com/char- les_darwin/>. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 16 – Figura 1.3 – Campo de extermínio de Auschwitz, Polônia Fonte: Shutterstock.com/Lois GoBe. É claro que o darwinismo social influenciou a concepção de cultura e reforçou aquela que via nas manifestações culturais das sociedades ditas primitivas algo a ser desprezado ou, no máximo, objeto de curiosidade. No entanto, a Antropologia e as ciências humanas no geral, supera- ram o evolucionismo e, desde o final do século XIX, várias tendências teóricas surgiram e influenciaram o conceito de cultura. Dentre elas, o aparecimento da Antropologia Cultural. De acordo com Oliveira, podemos afirmar que o objeto do estudo da Antropologia é a pes- soa humana e a sua atividade. No caso da Antropologia Cultu- ral o objeto é o ser humano e os seus comportamentos, ou seja, o homem e a mulher enquanto integrantes de grupos sociais que fazem cultura. Por essa razão é possível dizer que o objetivo da antropologia é o estudo da humanidade como um todo, bem como das suas diversas manifestações e expressões. Assim sendo, pode- -se dizer que no seu objetivo a Antropologia se preocupa com a pessoa humana na sua condição de ser biológico, ser pensante, ser que produz culturas e ser capaz de organizar-se em sociedades estruturadas. (OLIVEIRA, [S.d.], p. 2) Se todo ser humano é um ser pensante e que se manifesta e se expressa de várias formas, o conceito de cultura se amplia e abrange, praticamente, todas as atividades humanas. Nós somos, ao mesmo tempo, produtores e produto da nossa cultura. Produzimos e somos produzidos pela cultura de maneiras diversas, no tempo e no espaço. – 17 – O conceito de cultura Deste modo, oposições binárias como cultura civilizada versus cul- tura primitiva, cultura de elite versus cultura popular; obra de arte versus mercadoria; não contribuem e não enriquecem o conceito. Ele é muito mais amplo e complexo e envolve as ideias que são os conhecimentos, os saberes e as filosofias de vida. A crença que consiste em tudo aquilo que se crê ou se acredita em comum. Os valores, ou seja, a ideologia e a moral que determi- nam o que é bom e o que é ruim. As normas que englobam tanto as leis, os códigos, como os costumes, aquilo que se faz por tradi- ção. As atitudes ou comportamentos, isto é, maneiras de cultivar os relacionamentos com as pessoas do mesmo grupo e com aque- las que pertencem a grupos diferentes. A abstração do comporta- mento, a qual consiste nos símbolos e nos compromissos coletivos. As instituições que funcionam como uma espécie de controle dos comportamentos, indicando valores, normas e crenças. As técnicas ou artes e habilidades desenvolvidas coletivamente. Os artefatos que são os instrumentos e utensílios usados para aperfeiçoar as técnicas e os modos de vida. (MARCONI; PRESOTTO, p. 27-31 apud OLIVEIRA, [S.d.], p. 2) Podemos perceber nesta citação o quanto o conceito se ampliou e abrange, praticamente, quase todos os aspectos da nossa vida. Em 1958, Raymond Williams escreveu Culture is ordinary, numa tra- dução livre, “cultura comum”. Este livro foi inovador por apresentar um conceito de cultura muito próximo ao antropológico. No seu início, mais parecido com a abertura de um romance do que de um trabalho científico - o narrador descreve uma experiência corri- queira: uma visita a uma catedral e o trajeto de retorno de ônibus. O que afinal une cada estágio percorrido pelo ônibus? É a palavra cultura o que une a catedral, o cinema, os campos arados, os castelos, o ferro trabalhado da escarpa, as fazendas, o moinho, o gasômetro, as minas. Em suma, ao longo da complexa e contestada história da palavra cultura, ela já foi usada para designar todas essas coisas (CEVASCO, 2001, p. 45). Williams afirma: crescer naquela região era ver a formação de uma cultura e suas modalidades de mudança. De pé no alto das montanhas eu olhava para o norte e via as fazendas e a catedral, ou para o sul, e via a fumaça e o clarão das fornalhas que compunham um segundo pôr Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 18 – do sol. Crescer naquela família era ver a formação de modos de pensar: o aprendizado de novas técnicas, a alteração das relações, o surgimento de novas linguagens e ideias. Meu avô, um trabalha- dor calejado, chorou em uma reunião da comunidade ao contar, preciso e emocionado, como tinha sido expulso pelo proprietário da fazenda da casa onde morava. Meu pai, não muito antes da sua morte, falava, calmo e contente, de como tinha fundado uma sec- ção do sindicato e um grupo do Partido Trabalhista no povoado onde morava, e, sem amargura, dos “homens de rabo preso” da nova política. Eu uso uma linguagem diferente, mas penso nessas mesmas coisas. (WILLIAMS apud CEVASCO, 2001, p. 118) A partir destareflexão, Williams conclui que ninguém detém a pro- priedade da cultura. Ela é de todos, porque todos produzimos, de uma forma ou de outra, a cultura. Ela não pode ser apenas proletária ou bur- guesa, da elite ou popular. Isto é o que ele quer dizer com a expressão cultura comum. A cultura é de todos, mas não é igual para todos. Ela é produzida e vivida de diferentes formas e sua riqueza está no encontro, na troca e no respeito às diferenças. Uma cultura comum sempre pressupõe a igualdade do ser e, principalmente, o acesso a qualquer das suas atividades: este é o sentido real do princípio de igualdade de oportunidades (WILLIAMS, 1969, p. 326). Assim, ao chegarmos no século XXI, a cultura deixou de ser pensada enquanto o produto de um determinado grupo social ou de um estágio de desenvolvimento, por exemplo, o de civilizado. Também deixou de ser ape- nas um modo de vida ou a expressão de uma determinada tradição folclórica. No entanto, se o conceito se ampliou tanto, algumas divisões didá- ticas são necessárias para uma compreensão melhor do que ele trata atu- almente. Assim, os antropólogos estabeleceram os elementos da cultura. Quais seriam? Muitos, como, por exemplo, ideias, crenças, valores, nor- mas, instituições, técnicas e artefatos. As ideias são o conjunto de conhecimentos, formais e informais. Se formais, comumente, são passados de geração para geração por meio da educação formal na escola. Se informais, por meio da educação não formal, pela família, pelos grupos de relacionamento ou instituições que trabalham com esta forma de ensino. Vale observar que, muitas vezes, – 19 – O conceito de cultura aquele conhecimento que num momento era considerado informal, acaba adquirindo um status de formal e é incorporado aos currículos escolares. Isto é, esta definição não é tão rígida e muda com o tempo. Por crenças definimos tudo aquilo que, individualmente ou em grupo, acreditamos. Algumas vezes com base racional e, em outras, por meio da fé institucionalizada, ou não, pelas religiões. Por valores podemos entender o que forma nossa ideologia, nossa moral, o que consideramos certo e errado, bom ou ruim. Quando nossos valores são organizados, compilados em leis e códi- gos, surgem os elementos chamados de normas. Então, as normas são as leis, os costumes coletivos seguidos pela tradição. Nos nossos relacionamentos com pessoas que pertencem ao nosso grupo social ou não, temos determinadas atitudes ou comportamentos. Algumas vezes estes comportamentos são passados pela família, pelo grupo de relação mais próximo e, popularmente, chamamos de “educação” e disto decorrem expressões como “mal-educado” ou “bem-educado”. Normas, comportamentos, atitudes e valores são produzidos e repro- duzidos pelo que denominamos instituições. De certa forma, as institui- ções garantem a permanência e a difusão dos elementos culturais. Podem ser instituições culturais, como os museus; educacionais, como as escolas e universidades; religiosas, como as várias igrejas e suas crenças. Enfim, as instituições, das mais simples às mais complexas, existem para preser- var e controlar nossos comportamentos. As sociedades, tanto as mais simples como aquelas mais comple- xas, desenvolvem e dominam determinadas técnicas e habilidades. Com o passar do tempo, muitas destas sociedades incorporam estas técnicas e habilidades em processos de manufatura ou de indústria mais sofistica- dos. Porém, quando pensamos em sociedades menos complexas, é possí- vel identificar certas habilidades e técnicas em vários ramos de atividade como a construção, a culinária, a agricultura, as artes, artesanato etc. Até mesmo a arquitetura e seus estilos trazem muito das técnicas e habilidades de um povo. Quem nunca ouviu falar da arquitetura grega, ou japonesa, dentre muitas outras? Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 20 – Por fim, existem os instrumentos e utensílios que as sociedades utili- zam para aperfeiçoar suas técnicas, habilidades, modos de vida. São cha- mados de artefatos. A Arqueologia tem nos artefatos um dos objetos de estudo e pelos quais procura reconstruir a vida cotidiana dos grupos huma- nos que viveram em épocas mais ou menos distantes. Uma rede de pesca criada e aperfeiçoada por uma comunidade de pescadores do Nordeste brasileiro é um artefato. Uma canoa de um grupo de ribeirinhos de um rio na Amazônia, também. Porém, até mesmo um aparelho de telefone celular pode ser considerado um artefato. São tantos e diferentes os artefatos que um dos problemas que se coloca é como classificá-los e qual o grau de importância de cada um. Podemos afirmar que é quase impossível medir a quantidade e a diver- sidade dos bens culturais de um país, de uma nação, enfim, de um povo. Muitos têm utilidade imediata, outros se destacam pela sua durabili- dade. E existem aqueles artefatos que produzem outros artefatos, como as máquinas, por exemplo. A arte de cozinhar, de acordo com uma receita, muitas vezes é o resultado de conhecimentos acumulados durante gera- ções! Já uma flecha é um exemplo de artefato que pode ser perdido no primeiro uso. As pirâmides são artefatos, as igrejas também. As casas ribeirinhas construídas à beira de algum rio da Amazônia, também. Enfim, o ser humano vem produzindo artefatos há milhares e milhares de anos. Este exemplo dos artefatos nos ajuda a compreender a complexi- dade do conceito de cultura, sua abrangência e o quanto ele se tornou amplo ao chegarmos no século atual. No, entanto, não com o objetivo de encerrar o tema, mas, didaticamente, enquadrá-lo, concluímos que a cul- tura se constitui de três elementos fundamentais: as ideias, as abstrações e os comportamentos. As ideias são elaborações mentais das coisas concretas e abstratas. Quando refletimos, contemplamos as ideias e conseguimos expressá-las em símbolos, sinais, sistemas, temos as abstrações. Por fim, de acordo com nossas ideias e abstrações configuramos modos de agir. Estes elementos numa ponta, nos fazem todos humanos e, em outra, estabelecem nossas – 21 – O conceito de cultura diferenças em termos culturais. E como podemos perceber estas diferen- ças? Por meio da observação do outro, por meio do olhar para aquilo que está “fora de nós” e que conosco dialoga. Os antropólogos chamam isto de “coisas que podem ser observadas num contexto extrassomático” (OLI- VEIRA, 2008, p. 3). Concluindo, para entendermos efetivamente o que é cultura, pode- mos resumir na seguinte frase: cultura é tudo o que nos faz iguais enquanto seres humanos, mas, ao mesmo tempo, diferentes uns dos outros. A capa- cidade de dialogar com a diferença na busca da nossa humanidade é o que torna este conceito tão amplo e tão rico na compreensão de quem somos no tempo e no espaço. Síntese Vimos nesse primeiro capítulo uma introdução ao conceito de cul- tura. Partindo do nosso senso comum, foi apresentada a trajetória histórica do conceito, formulada pelo intelectual Raymond Williams. Da história do conceito de cultura foram analisadas as definições de cultura comum e do conceito antropológico do termo e seus elemen- tos formadores: ideias, crenças, valores, normas, instituições, técnicas e artefatos. Figura 1.4 – Cultura Fonte: Rawpixel.com. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 22 – Atividades 1. Descreva dois significados de cultura utilizados pelo senso comum. 2. De acordo com o texto, na sua trajetória histórica, quais signifi- cados adquiriu o conceito de cultura? 3. Qual a influência do darwinismo social na conceituação de cultura? 4. Descreva e explique os principais elementos da cultura dentro do conceito antropológico do termo. 2 Memória e Patrimônio Cultural A memória constitui uma seara do conhecimento estudada por diversas ciências. A memória enquanto instrumento que deve ser funcionalao indivíduo e à manutenção deste funcionamento é objeto de estudo constante da neurologia, por exemplo, e de seus interesses pelas falhas nessa ferramenta, como o mal de Alzheimer. A memória enquanto potência de salvaguarda de informa- ções e da recuperação consciente ou não destas informações, guardadas as devidas proporções e divergências sobre a confia- bilidade desta recuperação, tem sido há muitos anos um dos inte- resses da psicologia. Já a memória enquanto foco de reflexões sobre a própria existência de si e as possibilidades de ação a partir dela é, desde a Grécia Clássica, tema dos debates da filosofia. Ainda, enquanto objeto que pode ser moldado subjetiva- mente, enquanto matéria que pode ser eleita como principal em detrimento de outras em mesmo nível e enquanto submissa ao silenciamento, ou esquecimento, como preferem alguns teóricos, a memória tem sido também considerada, principalmente após a década de 1930, com maior proximidade pela história. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 24 – A memória configura-se, assim, como um campo de interesses e olha- res variados, como objeto de diferentes análises, com variados fins e com resultados também bastante diversos. A memória pode ser entendida como a faculdade cerebral de lem- brar, a capacidade de armazenar informações, as imagens que ressaltam ao consciente de forma incontrolável, entre outras interpretações. A memória se apresenta, então, como algo racionalmente instrumentalizado, mas tam- bém como algo passivamente funcional. O que se considera ao tratar da memória em todos os aspectos é que a interpretação do passado realizada por meio dela é sempre fruto do pre- sente de quem tenta, quer ou consegue lembrar. A memória está ligada ao nosso presente, à nossa posição no mundo e na sociedade, tanto que em variados momentos de nossas vidas lembramos mais facilmente de coisas diferentes. A memória é, com isso, uma representação do passado fundamentada na vivência do presente. Não se trata de tirar de um baú informações há muito guardadas, mas sim tratar do que e como fazer para inseri-las no presente de quem lembra. 2.1 A memória, a humanidade e o tempo: um trajeto da memória no mundo ocidental da Pré-História à modernidade A memória está intimamente relacionada com as percepções de pas- sagem do tempo, de lembrança, do irremediável esquecimento, das forças que se opõem em brigas metafísicas e por vezes até reais para se sobrepo- rem umas às outras, de (re)afirmações, de justificações, relações do indi- víduo consigo e com os demais nos âmbitos sociais, e outras incontáveis atividades humanas nos processos históricos ocorridos que, em muitas das vezes, nem nos damos conta. Começando por considerar o início da atividade humana enquanto “sociedade organizada” ou como grupo em vias de civilização, podemos nos remeter aos grupos que se estabeleciam em cavernas ou em espaços que proporcionassem alguma forma de sedentarização, acabando com o nomadismo e proporcionando a capacidade de registro sobre si e sobre o – 25 – Memória e Patrimônio Cultural grupo. Nas cavernas mais famosas do mundo contemporâneo, destinos de visitas e de estudos intensos, as abordagens se dão de diferentes modos sobre os registros nelas encontrados. No Brasil, temos os complexos da Serra da Capivara e da Lagoa Santa. Na França, o complexo de cavernas de Lascaux, por exemplo, se tornou tão interessante aos olhos dos estudiosos e visitantes que tam- bém recebeu a alcunha de Capela Sistina da Pré-História. Descoberto na década de 1940, o sítio foi analisado pelo pré-historiador Henri Breuil e seus companheiros Jean Bouyssonnie e André Cheynier durante o decênio de sua descoberta. No fim deste período, em 1949, Breuil formou com Séverin Blanc e Maurice Bourgon outro grupo de estudos para o sítio. A intenção era a análise, a interpretação e a catalogação dos desenhos e objetos encontrados. Entre as décadas de 1950 e 1960, Breuil encomen- dou novos estudos que foram realizados por André Glory. Nos anos que se seguiram, Annette Laming-Emperaire, André Leroi-Gourhan e Norbert Aujoulat também estudaram o lugar. No interior das cavernas do complexo encontram-se pinturas e outras formas de registro que indicam bovinos, felinos, cavalos, cervos, cabras e outros animais, datados, os mais antigos, de dezessete mil anos, e os mais recentes, de quinze mil e quinhentos anos de idade, segundo os testes de Carbono 14. As primeiras interpretações feitas sobre Lascaux foram de temáticas arqueológicas, especialmente por se tratar de restos de ativida- des de grupos humanos extintos e com modos de vida há muito substitu- ídos e/ou transformados. Em seguida, a história da arte tratou de analisar os desenhos, as cores, as formas, e passou a produzir possíveis intenções sobre a visualidade daquelas figuras. Também, mais recentemente, e é aí que se aproxima dos estudos sobre a memória, o ato de registrar as formas animais, por exemplo, em Lascaux, passou a chamar atenção de estudio- sos da área dos estudos sobre a memória. As questões feitas remetem-se à intenção de terem sido realizados esses registros dentro das cavernas. Seria uma comunicação dos membros do grupo com outros que talvez não conhecessem a realidade apresentada nos desenhos? Seria uma forma de inscrever no tempo, cristalizando em formas nas paredes, as atividades realizadas? Seria, ainda, uma vontade de transmissão de algum conhecimento para futuras gerações? Sem poder Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 26 – responder especificamente estas perguntas, uma interpretação teórica que podemos fazer é que, irremediavelmente, talvez até sem esse intento, os registros inscrevem nas paredes da caverna, em suas diferentes passagens e salas, um conhecimento adquirido na experiência (da caça, do descobri- mento do ambiente, do contato com o que cercava os indivíduos daquele momento), acondicionado na memória e posteriormente recuperado e arti- culado nos desenhos que temos nos dias atuais. Novamente, talvez mesmo sem perceberem, os desenhos se tornam inevitavelmente uma forma de preservação de um conhecimento e de uma memória, neste caso a memó- ria de quem realizou a atividade de pintura, seja ela adquirida por meio de conversas entre pintores e caçadores, na possibilidade de haver esta divisão de atividades no grupo humano que ali habitou, ou por meio da vivência plena do ser em seu contexto que, posterior à sua realização, a marcou nas paredes de Lascaux. A realização destas pinturas, para além dos pontos de vista estéticos e/ou artísticos, tem o potencial inato de transmissão de um saber que foi recebido e maturado em uma memória. Memória esta trabalhada para que se recuperasse este saber e se registrasse. Vale sempre lembrarmos que essas flexões da memória em receber, aninhar e recuperar informa- ções nem sempre são resultado de um ato consciente, mas, pelo contrário, passa despercebido. Passando para as sociedades já “desenvolvidas” da perspectiva que temos hoje de civilização, cultura, sedentarização, formas de governança e interpretações do mundo, podemos analisar as sociedades da antigui- dade. O Egito Antigo (séculos 3.150 a.C. a 31 a.C.), civilização que rece- beu a admiração dos gregos como um berço das civilizações, bem como colocamos atualmente sobre os próprios gregos este princípio, estabele- ceu algumas relações com a memória em diferentes frentes. São famosas as pirâmides egípcias, túmulos dos faraós aonde se guardavam, além do corpo mumificado do líder, objetos especiais para aquela pessoa e bens que denotassem seu poder e riqueza. As pirâmides marcavam suntuosa- mente o local de sepultamento destes líderes e, sendo grandes e facilmente visíveis, mantinham na memória dos vivos a presença deles. Nem todos os líderes egípcios, ou os homens mais poderosos destacivilização foram sepultados em pirâmides como as que mais facilmente lembramos, claro, – 27 – Memória e Patrimônio Cultural outros foram sepultados em criptas de pedra, por vezes subterrâneas, sob as dunas de areia, e também guardavam em si o corpo mumificado e os bens do sepultado. Essas tumbas, pirâmides ou não, denotam alguns valo- res simbólicos agregados ao morto que ali jaz e ainda sublinham que esses valores não devem, ou não deviam em seu contexto, ser esquecidos, por isso um sepultamento com intenção de preservação ao eterno da materia- lidade relativa ao que morreu. A perpetuação destes valores que, unidos, gerariam um senso de respeito, juntamente com a manutenção da memória de seu nome e suas louváveis ações, eram uma intenção e uma consequência desta forma de sepultamento, sendo este rito produtor e produto da memória social sobre alguém. Muitas vezes os nomes destes sepultados foram apagados pela ação dos ventos e do atrito das pedras com a areia, mas, como intenciona- vam os egípcios, paira sobre o deserto oriental do Egito um senso imate- rial de alguma santidade, algum heroísmo, alguma consideração elevada acerca dos que ali estão, justamente pelas vias que possibilitaram este modo de serem encerrados, enlevando suas memórias que chegam a nós hoje de diferentes formas, mais anônimas que individualizadas, mas che- gam. A memória do grupo de pessoas ali encerradas é ainda presente, não nas memórias vivas de nosso tempo, mas justamente na intenção de não serem esquecidas, porque hoje sabemos que essa era a vontade e, sendo novamente produtor e produto dessa atividade, nos lembramos. Outra relação dos antigos egípcios com a memória está, novamente, no ato de se mumificar. A mumificação possibilitava a preservação do corpo, como podemos comprovar com as numerosas múmias egípcias espalhadas pelo mundo. Ao mumificar o morto, eram retirados do corpo todos os órgãos internos, exceto o coração, porque era ele que mantinha a sabedoria, as emoções, a alma, a personalidade e a memória da pessoa. Todo esse conteúdo era necessário ter consigo no além-vida para se passar pelo crivo das sete portas e ter o próprio coração pesado na balança, a qual faria o julgamento no Tribunal de Osíris, do merecimento do morto ser castigado ou de poder acessar novamente os benefícios que possuía na vida terrena, mas em outra existência, na eternidade. Mais uma vez, a memória se apresenta como conteúdo essencial ao ser, dessa vez na morte, porque por meio da memória o morto teria acesso ao que foi instruído pelo Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 28 – Livro dos Mortos. O Livro era um compilado de várias sugestões de res- postas, ações e comportamentos a serem executados durante o julgamento no Tribunal de Osíris, como que um manual para se conseguir acessar a outra existência, a da alma, e lembrar dessas indicações era de extrema importância. Por isso, a memória, contida no coração preservado do corpo mumificado, era essencial. Na Grécia Antiga (1.100 a.C. até 146 a.C.), a memória também teve um local de destaque na vida e nas reflexões dos filósofos. Precisamos sempre lembrar que a Grécia Antiga é o momento em que a humanidade passa a considerar filosoficamente a memória e seu papel na sociedade e que, da perspectiva do processo histórico humano, é um tempo bastante considerável, uma vez que nesta época temos o que consideramos o início da filosofia ocidental. Mnemosine, ser mitológico, era filha de Urano e Gaia, então, uma titânide, divindades anteriores aos deuses mais comu- mente conhecidos como Zeus, seus dois irmãos e seus filhos. Mnemosine era a divindade que guardava todas as lembranças e possibilitava a recupe- ração das informações. Ela está, então, mais intimamente relacionada ao ato de lembrar que à memória propriamente dita. O trabalho de Mnemo- sine seria o de evitar o esquecimento, representado na cultura da Grécia Antiga principalmente pelo rio Lete, que cruza a morada dos mortos e do qual as almas tomavam a água antes de reencarnarem, esquecendo-se assim de existências anteriores. Ironicamente, a guardiã da atividade de lembrar quase nunca é lembrada por essa possibilidade, mas sim por ser mãe das musas que influíam também na vida da sociedade grega. Por possuir a lembrança, Mnemosine também representava a posse da razão, uma vez que, dotado de suas lembranças, é mais fácil ao indivíduo agir de forma consciente, coerente e racional. Sem a memória, a pessoa estaria fadada ao desequilíbrio de si, de suas ações e decisões. A importân- cia da memória, na época da deusa em questão, se dava pela não existência de escrita, portanto, toda forma de conhecimento só podia ser registrada na memória, recuperada pela lembrança e transmitida oralmente. Uma vez que, nesse período da crença nos deuses, não existia ainda o alfabeto, o conhecimento que Mnemosine tratava de não se deixar esquecer eram os saberes basilares para a vida e para a existência: o funcionamento do uni- verso, os ciclos da vida, os modos de agir no mundo e, como não deixou de ser em nenhum tempo da história humana no qual existiram governos, – 29 – Memória e Patrimônio Cultural não deixaria esquecer também a memória dos seres notáveis, como os imperadores e heróis. Ainda na mitologia grega antiga, Zeus liderou os demais deuses na bata- lha contra os Titãs. Vitoriosos, os deuses se estabeleceram como os ocupantes do Olimpo, com poderes plenos. Zeus, sabendo que Mnemosine era uma titâ- nide e sabendo da sua também destruição juntamente com seus companhei- ros, teve medo de ter suas honras, glórias, vitórias e decisões esquecidas, por isso disfarçou-se de pastor e foi encontrar Mnemosine, com quem dormiu por nove noites, dando origem às nove Musas que perpetuariam, sob as ideias do novo líder do Olimpo, as lembranças para a nova etapa na Grécia. Intimamente relacionada a Mnemosine, a mnemotécnica foi desen- volvida da antiguidade grega (por volta de 1700 a.C.). Como o nome explicita, considera a memória como técnica, como arte, de aprendizado consciente. A técnica em questão trata a memória como uma folha em branco na qual é realizada a escrita mental, usando como elementos diver- sos locais e imagens, portanto, a fonte principal da memória deixa de ser a oralidade, como no tempo da titânide, e passa a ser a imagem. Por se tratar de um instrumento de aprendizado, o armazenamento é confiável, e a recuperação, a lembrança das informações, é idêntica à de quando foi registrada na memória. Neste caso, o tempo não é importante, mas sim o espaço. O conteúdo a ser recordado e o motivo desta recordação não inte- ressam à técnica, ela não considera o nexo entre a lembrança e as articu- lações a partir dela, pois, simplesmente possibilita o resgate de uma infor- mação apreendida e registrada. A relação estabelecida entre os conteúdos e a memória por meio da mnemotécnica é puramente a de um depósito de informações e a atividade de recuperá-las quando seja necessário. Também na Grécia Clássica a memória passou a ser refletida como uma potência, como algo natural, como o instrumento não controlável de atividades humanas individuais e sociais. A consideração nesta área das potencialidades da memória está na capacidade de formação de identidade do ser e do grupo, e aqui o tempo é importantíssimo, pois ele interfere na memória: quanto maior o tempo entre a inscrição da informação na memória e a articulação de recuperá-la, mais difícil se torna a atividade. Há, nestes casos, a diferença entre o que se arquiva e o que se recupera, então, o objeto do armazenamento é diferente do da recordação. Esta diferença se dá porque, no processo de recordação, há deslocamentos, Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 30 – deformações, distorções, revalorações, renovações do conteúdo em voga, então, o conteúdonão fica em um lugar cem por cento seguro do ponto de vista da manutenção do conteúdo em integralidade, ele sofre alterações. Nesta visão mais abstrata e incontrolável da memória, ela é dotada de leis próprias e desconhecidas porque pode, por conta própria, esquecer ou reprimir lembranças, assuntos, temas, em contrapartida à técnica que é dura contra o esquecimento, relegando ao tempo um lugar de inércia, e que é dotada de métodos que propiciam a lembrança. Independentemente da visão escolhida, é notável desde a Antiguidade que a relação entre lem- brar e esquecer é íntima, propiciando, inclusive, uma a outra e medindo forças entre si de uma forma não perceptível a nós, seres humanos. Em todos os casos, desde os filósofos gregos a humanidade tem consciência de que o homem pode armazenar (funcional) e recordar (cultural). Dentre os pensadores da época, Platão é o mais salientado desde então. As controvérsias existentes sobre a autoria de Platão sobre os tex- tos que conhecemos é antiga. Platão teria sido aluno de Sócrates e com ele teria aprendido o valor da fala, da oralidade, da conversa, do diálogo, e por isso preferia estas formas de conhecimento aos registros. Platão apa- rece como o autor dos textos registrados, mas paira ainda a dúvida sobre a autoria do conteúdo deles. Teria sido Sócrates o pensador primeiro das considerações, como aparece nos textos platônicos, ou teria sido o pró- prio Platão que teria feito de Sócrates apenas uma personagem de suas passagens registradas em texto? O que devemos considerar em análises sobre a memória é o conteúdo trazido a nós dos tempos clássicos. Desde Platão, a memória é mais considerada como uma atividade consciente que inconsciente. Essa visão sobre ela permanecerá até o século XIX, no qual será dividido entre o lembrar consciente e a lembrança inconsciente, como veremos mais adiante. No Fedro, o texto mais importante sobre a memória nas obras platô- nicas, Sócrates aparece lembrando o mito do deus egípcio Thoth, respon- sável pela técnica e pelo “conhecimento científico” no Egito Antigo. Em um encontro com o rei Tamuz, Thoth lhe apresentou a arte, a técnica da escrita, considerando sobre a necessidade de distribuí-la entre as pessoas e sobre a potência que seria agregada à memória a partir do uso da escrita. O rei alerta ao deus sobre os possíveis malefícios da técnica criada, uma – 31 – Memória e Patrimônio Cultural vez que o criador tem a tradição de enxergar apenas os benefícios de suas invenções. O debate contido no Fedro não está em torno da existência da escrita, porque ela, sim, auxilia a humanidade com a possibilidade de se registrar informações, mas na interação da escrita com a memória. A intencionalidade de Thoth ao criar a escrita era a de potencializar a memó- ria, dificultando o esquecimento, mas o que o rei Tamuz alerta e Sócrates pontua no diálogo é que, uma vez podendo confiar à escrita as informa- ções, as pessoas deixariam de se importar com a memória chamada na obra de verdadeira. A escrita seria uma falsa memória, uma representação do que a memória de fato é, e nunca conseguiria acessar a essência do con- teúdo ou do conhecimento contido na memória viva das pessoas. A escrita separaria o caráter de vida que o conhecimento tem estando armazenado nas próprias pessoas. A escrita se apresenta no Fedro, dessa forma, como uma ferramenta que pode auxiliar a lembrança, mas não pode ocupar o lugar da memória no registro e na recuperação das coisas que inscrevemos nela. A compara- ção estabelecida da escrita se dá com a pintura. O pensador alega que uma pintura é uma representação de uma cena da vida humana, mas nunca a vida humana em essência. Elas têm a aparência de vida, mas não a vida, tanto que, se perguntarmos algo às pessoas pintadas em alguma cena, elas não nos respondem, apenas as vivas podem nos responder. Neste pensa- mento, a escrita uma vez realizada pode ser distribuída a qualquer parte, para qualquer pessoa, mas não leva a intenção essencial, a vontade pri- meira do discurso quando este foi formulado, desconsiderando inclusive quem é o alvo do discurso. A escrita causa, segundo o filósofo, ao contrário de potência à memó- ria, uma potência ao esquecimento, porque as pessoas, novamente, rele- gariam aos documentos, aos textos e às palavras a função de lembrar, que está naturalmente e desde os tempos imemoriais a cargo do indivíduo, não de instrumentos. O esquecimento considerado nessa filosofia é o esqueci- mento “nas almas”. Há de ser lembrado que a alma platônica era apresen- tada como um bloco de cera no qual se marcam coisas, portanto, no qual se inscrevem conteúdos, e dependendo da forma como essa gravação se dá no bloco de cera é que podemos mais fácil ou mais dificilmente recuperar, recordar. A alma, que é no caso da memória tratada como um bloco de Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 32 – cera, é diferente da alma cristã ocidental. A alma neste tempo é uma reali- dade psíquica individual, parecida com a recuperada por Freud quando o psicanalista fala dos traumas, por exemplo. O bloco de cera, parte responsável pela memória em nossa psique individual, é onde são registradas coisas que se tornam lembranças (carac- teres, imagens, cheiros, modos), e a qualidade da gravação, e consequen- temente da facilidade de lembrar, depende de dois elementos: da qualidade da cera (que pode ser mais dura/firme ou mais mole/informe) e da quali- dade da força com a qual as coisas são gravadas no bloco (mais forte ou mais fraca). Se um bloco de cera está muito duro e a gravação se dá com muita força, como em uma situação traumática ou de acidente, o bloco pode se quebrar no momento da inscrição da informação, criando marcas sensíveis e dolorosas, por exemplo. Também, se a cera é muito firme a gravação muito fraca, como em situações nas quais vivemos, mas não prestamos muita atenção, a marca é muito superficial e não conseguimos lembrar com efetividade. Se o bloco de cera for muito mole, sem nenhuma firmeza, qualquer que seja a gravação pode ser feita de forma incorreta e que possa ser distorcida depois, portanto, lembraríamos de uma forma distorcida das coisas. Pela alegoria platônica, são sempre instáveis a força e a dureza da cera e é justamente dessa relação que se dá a qualidade da gravação e a posterior facilidade de lembrar. Com isso, a escrita então exauriria a função da gravação no bloco de cera, porque a lembrança seria relegada a um instrumento externo ao ser, que é alheio à natureza humana. Sobre essas gravações, também chamadas de imagens mnemônicas, Platão lembra que existe uma capacidade passiva da presença delas em nossas vidas. Isso se dá pela atividade inconsciente da lembrança. Quando menos esperamos, lembramos de alguma informação ou momento e, muitas vezes, é assim que se dão as lembranças necessárias para a manutenção da vida cotidiana. Quando vamos, por exemplo, ao trabalho, depois de muito realizarmos o mesmo caminho, já o fazemos de maneira inconsciente e quase nunca paramos para pensar que sabemos o que sabemos ou que lem- bramos o que lembramos, justamente porque essas imagens mnemônicas se apresentam quando precisamos sem que nos esforcemos para tal. Voltando à alegoria de Platão, a escrita se tornaria estéril quanto a posse da essência do discurso. A verdade da fala, do intento do discurso, – 33 – Memória e Patrimônio Cultural se daria exclusivamente no momento da troca do ser com o outro por meio do diálogo, e o texto não conseguiria carregar consigo esse poder. O texto escrito, publicado e difundido não teria em si, como o discurso tem, a possibilidade de ser contestado, questionado, revisto, readaptado a novas realidades, sendo ele petrificado, monótono, inerte, imutável, lembrando que a troca e a possibilidade de contraponto eram essenciais na Grécia Clássica.Outro tópico que não se deve esquecer é que, neste tempo, a existên- cia humana está vinculada a uma pré-existência da alma (psique) e nessa existência não terrena as pessoas tiveram contato com as verdades essen- ciais do mundo, ainda que disformes, e por mais que tenham se banhado nas águas do Lete, o rio que as fariam esquecer desse conhecimento do mundo, da vida e do todo, a escrita traria um risco de que as pessoas relembrassem de alguma coisa. Na Idade Média, as relações com a memória, assim como nos tempos anteriores, foram variadas, mas vale considerar especialmente as relações com a religião e com o poder. Na Idade Média, a Igreja Católica colocou- -se em um local de importância e de poder, de onde interferia ativamente na vida cotidiana das pessoas. A religião católica, oficializada e difundida na Europa pelo Império Romano, foi aos poucos substituindo o culto aos deuses tidos pela Igreja como pagãos, como Zeus e seus companheiros olimpianos. Os templos da religião oficial da Antiguidade, com os deuses diversos, seus panteões e etc., eram templos que valorizavam o contato do indivíduo com algo divino, maior, superior, e também eram espaços acessados apenas pelos sacerdotes e pelas virgens devotadas ao deus que ocupava cada templo. Os templos eram espaços tão divinos que apenas as divindades, as virgens (que eram puras por não terem sido corrompidas pelo mundo) e os sacerdotes podiam acessar o espaço interior deles, os devotos ficavam no lado externo cultuando. O início da religião católica apostólica romana se deu no culto aos ancestrais, que era realizado no Império Romano em pequenos altares domésticos. O espaço era reservado para a lembrança dos mortos por parte dos vivos, portanto, a manutenção da memória de indivíduos por outros inscritos em seus círculos íntimos. Após a oficialização da religião cató- lica como a religião do Império Romano, por meio do Edito de Milão, em Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 34 – 313 d.C., esta não era mais proibida nem eram caçados os seus praticantes. Para se inscrever no cotidiano das cidades e das pessoas, os antigos tem- plos e outros prédios não necessariamente religiosos foram aos poucos se transformando em espaços católicos. A ideia dessa ação era a de inserir na prática social a atividade católica, substituindo aos poucos e de forma sutil àquela pagã, que havia existido até então, evitando algum trauma ou impacto negativo das pessoas para com a religião católica. Durante as ações da Igreja Católica na Idade Média ocidental, outras foram as relações com a memória. As confissões, por exemplo, trazem à tona a vontade e a capacidade criada pela Igreja de se execrar da memória os sentimentos de culpa mediante a franca fala sobre as faltas cometidas e o pagamento das devidas penitências. Os sacerdotes tinham o poder, dotado por meio da agregação de valores simbólicos, de ouvir, dar a solução e aca- bar com as marcas negativas da vida das pessoas, portanto, de suas pró- prias memórias. Outra função da memória na Idade Média, com o poder extremado da Igreja Católica como o primeiro estamento da sociedade, foi a de substituir os antigos heróis pelos santos. A agregação de valores era a mesma: a exaltação de uma pessoa a um patamar superior aos demais, reles mortais. A criação desses ícones nada mais é que a manutenção da memória de alguém dotada de glórias, vitórias, abnegações e ações essen- ciais ao governo, no caso da Antiguidade, e à Igreja, no caso medieval. Ser considerado santo na Idade Média ou herói na Antiguidade era receber os louvores, especialmente no post mortem, por atividades desempenhadas em vida e reconhecidas por quem pode agregar ou não os valores simbólicos essenciais para a eternização do nome e da vida de alguma pessoa. Como exemplo, temos Santo Agostinho, logo nos primeiros séculos do catolicismo. Nascido no ano de 354 na atual Argélia, só aceitou o cristianismo e seu próprio batismo em 387. Até o batismo, cometia os pecados comuns aos seres humanos: quando jovem, roubava frutas das árvores dos vizinhos, tinha divergências com a mãe por conta da reli- gião, sendo ela muito devota de Cristo; e frequentava espaços em que se encontravam facilmente prostitutas e outros elementos que representa- vam alguma degradação social. Antes de se tornar um sacerdote, Agos- tinho escreveu suas Confissões nas quais, como o nome indica, entrega suas faltas cometidas em sua vida pré-cristã. As confissões publicadas – 35 – Memória e Patrimônio Cultural não se destinavam só à Igreja, para que fosse aceito como um pecador arrependido, mas sim para que a sociedade visse nele o arrependimento e a validação moral de sua entrada na Igreja Católica. Uma vez perdo- ado pela Igreja e também moralmente pela sociedade, Agostinho pôde ingressar em sua vida sacerdotal e se tornou para a Igreja um homem de extrema importância para as articulações das ideias cristãs, além de for- mular pensamentos que foram basilares para o estabelecimento do poder do catolicismo sobre a vida ocidental. Outro caráter da memória medieval, repetido em certa medida na Modernidade, é o de justificação da ocupação do poder. Quando se esta- belecem os governos monárquicos após a dissolução das antigas Cidades- -Estados e também do Império Romano, as cidades foram evacuadas por conta das ocupações territoriais por parte dos chamados “bárbaros”, quem e porquê ocupa o poder é um dos temas em pauta. A própria rotulação de “bárbaros” aos que invadiram os territórios do Império Romano é um modo de inscrever na memória coletiva europeia o caráter negativo destes grupos como invasores, perigosos, não civilizados e outros adjetivos que desmere- cessem suas posições. Foi silenciada nesse momento a memória destes gru- pos que invadem os territórios romanos, grupos esses que foram em grande medida dominados ou expulsos pelo próprio Império Romano quando das expansões territoriais, portanto, chamar a tomada de terras pelos romanos de “expansão” e a mesma ação pelos outros grupos menores de “invasão” já nos mostra um modo de tarjar a identidade e a memória coletiva destes grupos. Uma vez estabelecidos os feudos, retomado o modo rural de vida, imensas extensões de terras, larga produção agrícola e etc., a ocupação dos cargos se dá, muitas vezes, especialmente em momentos de conflitos, pela comprovação ou pela justificativa deste ou daquele outro possível gover- nante. A justificativa se deu, por vezes, por meio de documentos que foram relembrados com a função de comprovar a afirmação de uma ocupação em detrimento de outra, por exemplo, os livros de linhagens. Alguns livros de linhagens traziam crônicas escritas, diziam estes mesmos, contempo- raneamente aos governantes de cada período e para justificar sua subida ao poder, o quase rei buscava nos livros sua sustentação no sentido de mostrar que sua linhagem, sua família, seu sangue era há muito tempo o ocupante do cargo, portanto, se seguiria essa tradição. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 36 – A diferença nessa ação de ocupar o poder e se justificar, especialmente, justificar a memória do poder ao rei e a memória de saber que ele é o rei ao povo, entre o Medievo e a Modernidade, está na proximidade do poder com a Igreja Católica. Durante a Idade Média, a Igreja também servia como uma validadora dessa memória de poder do rei e de sua linhagem, abençoando-o e seguindo em harmonia com as decisões reais. Na Modernidade, mesmo que ainda tenhamos vivido momentos de presença religiosa forte, aos pou- cos os poderes reais vão se afastando da Igreja Católica e o poder real se sus- tenta por ele mesmo e pela memória criada sobre ele para a própria realeza, para a nobreza que a circunda e para os demais estamentos sociais. Um dos testemunhos sobre a manutenção da memória por meio da linhagem real na Modernidadesão as pinturas que retratam os reis. Nos castelos, as galerias com pinturas trazendo as figuras da família real, desde os tempos mais antigos possíveis, são abundantes, na tentativa de tornar visualmente didática a transmissão natural do poder de uma geração para a outra. As galerias mostram, por exemplo, um rei que tenha tomado o poder em um ano, depois outro que ocupou o cargo quinze anos depois (filho do primeiro), depois outro ocupante do trono vinte e cinco anos depois (neto do primeiro), ainda mais adiante o retrato de outro rei que ocupou o cargo trinta e oito anos depois (bisneto do primeiro), tão logo se tornava lógico que o tataraneto do primeiro, que é parte natural da linhagem dessa família, ocupará o poder em seguida na ausência de seu pai, guardadas, claro, as especificidades de cada reinado, cada território e cada modelo de transmissão de poder. O que nos interessa aqui é como as galerias de arte das monarquias modernas, principalmente as que se enquadram no Antigo Regime, ajudaram a tornar mais fácil o entendimento da transmissão do poder, tentando diminuir as contestações. 2.2 A memória no mundo contemporâneo: o mundo pós-revoluções burguesas – o caso do século XVIII A partir das revoluções burguesas no fim do século XVIII, especial- mente da Revolução Industrial, da Revolução Francesa e da Independên- cia Norte-Americana, as relações das sociedades ocidentais se alteraram – 37 – Memória e Patrimônio Cultural de maneira profunda, mas bastante sutil em relação à memória. É nesse momento que temos, por exemplo, o surgimento dos museus e o começo do trabalho com os patrimônios (histórico, artístico, cultural), exatamente para mediar as relações da memória com a sociedade. O primeiro fato a ser observado é que as revoluções burguesas torna- ram mais democráticos os acessos ao saber, à cultura e à própria produção da memória. Essa participação democrática ainda estava longe de ser a con- temporânea, com direito de vez, voz e espaço para todos os indivíduos, pois estava restringida aos burgueses que ocuparam o poder, que era até então posse das monarquias, e não a participação integral da sociedade de um modo totalizante. O camponês pobre, agricultor pequeno, o chão de fábrica (que inclusive surge nesses momentos) continua sendo o que é. Quem ascende ao poder são os burgueses que antes eram do estamento social da população em geral, mas tinham posses e especialmente os meios de produ- ção que articulavam as economias dos territórios antes monárquicos. Com os museus e patrimônios, o trabalho foi muito objetivo e sua ação foi muito amena. O caso francês é o mais didático: após a Revolução Francesa e a deposição da monarquia, os burgueses, agora governantes, precisavam colocar no cotidiano da população que a vida francesa seria outra, que a administração seria outra, que a monarquia tão tradicional não mais estava onde estava de costume, mas que, ao mesmo tempo, estava tudo bem e não havia a necessidade de choques ao contato com isso tudo. A alteração complexa na administração francesa, para ser aceita de maneira mais branda, exigiu um trabalho ainda mais complexo que foi executado com os museus, galerias e patrimônios. Os museus históricos, primeiramente, tinham o papel de selecionar e musealizar objetos e bens da antiga monarquia com o novo caráter de propriedade pública. As obras de arte da monarquia francesa, por exemplo, foram transformadas em uma coleção artística pública, mantida pelo Estado Francês, materializada fortemente no Museu do Louvre. Dessa forma, a monarquia não desapareceria tão drasticamente da vida francesa, pois esta- ria presente nos retratos, nas paisagens encomendadas, nas obras compradas ou conquistadas militarmente em outros territórios. A diferença é que a cole- ção não era mais um capricho real, mas sim uma coleção pública que seguia articulando a memória coletiva, como um instrumento do novo governo. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 38 – O Estado Francês teve o trabalho de eleger “o que e porque” da antiga França seria transformado em objeto de museu para amenizar as altera- ções no território. Dessa forma, a ausência monárquica teria sua presença materializada e encerrada nos museus. Dentro dos museus, o discurso dos governantes era administrado da maneira mais conveniente possível, colo- cando, por exemplo, um histórico da administração monárquica do país levando a França a colapsos econômicos, sociais e políticos, mostrando, no discurso museológico, que a monarquia havia exaurido o país e a ela mesma e que, portanto, o novo governo era uma nova chance de seguir adiante. Por trás disso tudo estava a noção de que não se poderia implodir toda uma tradição de vida e começar uma nova, como se um país todo desaparecesse de repente e outro surgisse do nada. As transições, lembre- mos, são moderadas do ponto de vista da memória que, neste exemplo, pode ser moldada e difundida da maneira mais conveniente àquele que está no poder, exatamente para justificar esse poder. Os patrimônios, outro exemplo, foram o modo encontrado para tornar em ícone cristalizado no tempo as ações da monarquia. Lugares, coleções, livros etc. foram elei- tos como patrimônios para que fossem mesmo um marco entre a antiga França e o Estado Francês pós-revolução. Os patrimônios eleitos seriam, como são até hoje, preservados, mantendo a presença monárquica amiúde, e o que restasse seria dizimado e alterado aos poucos. Como no caso dos museus e das coleções de arte, isso traria a oportunidade de uma alteração calma e sem choques na memória da população. 2.3 Os séculos XIX e XX e as interpretações da memória Do século XVIII ao século XIX, e depois ao XX, os estudos em memó- ria se diversificaram, principalmente pelo caráter de ciência atribuído aos saberes e pela democracia cada vez maior na produção e estudo do assunto. As ciências citadas no começo do texto passaram a ocupar seus espaços de interesse no campo da memória e cada uma começou a produzir por si, no intuito de entender o fenômeno da memória nas sociedades humanas. No fim do século XIX, Henri Bergson, filósofo e diplomata francês, trata a memória de uma maneira ainda não rotulada como tal, mas que já – 39 – Memória e Patrimônio Cultural está nos debates sobre o tema desde Platão: a memória de hábito. Bergson trata o ato de lembrar de dois modos: o lembrar autêntico, natural, espontâ- neo; e o lembrar consciente, racional, que é bastante vinculado ao aprendi- zado. Se percebermos, isso alude às ideias da mnemotécnica e da recorda- ção presentes da Grécia Clássica, mas que, por meio do caráter científico, passam a ser revalorizados no mundo contemporâneo. Um exemplo prático sobre os dois modos de lembrar de Bergson pode ser o aprendizado de uma nova língua e a atividade de tradução: no começo, quando sabemos ainda pouco sobre a nova língua, precisamos associar conscientemente as pala- vras de nosso idioma nativo ao idioma aprendido e, portanto, fazemos um esforço racional para tal; quando já estamos acostumados com o conheci- mento acerca da outra língua, quando conhecemos bem o conteúdo, con- seguimos fazer a tradução de maneira espontânea, às vezes até automática, ainda que consciente. O aprender com esforço e empenho sobre o assunto, é o momento mais fácil de esquecermos também, porque o conhecimento está sendo pouco a pouco inscrito em nossa memória. Quando estamos acostumados, faz-nos parecer que nunca nem aprendemos esse conteúdo, como se nos fosse natural e automático, e aí considera-se, por Bergson, a memória de hábito. Quando o que foi aprendido fica apreendido em nosso cotidiano, vira hábito e não é mais um lembrar racional. Sigmund Freud, pai da psicanálise, também ponderou sobre a memó- ria nos fins do século XIX e na passagem para o século XX. O psicanalista retomaa ideia platônica do bloco de cera, mas troca a alegoria por uma lousa-mágica, o brinquedo infantil no qual se escreve e se apaga quando se quer. Freud alude ao tema tratando do guardar ou não as informações na memória e das transformações que as informações sofrem quando arma- zenadas nela. Para ele, se buscarmos nas camadas mais antigas das nossas memórias, encontraremos temas e lembranças que achamos esquecidos, mas que em verdade estão apenas escondidos sob outros assuntos. Ainda, Freud trata do trauma: para o autor, todas as pessoas têm uma proteção psíquica para evitar o trauma, que seria uma violência à nossa individu- alidade, e essa proteção é o susto, o espanto. Quando o trauma é gerado, essa proteção psíquica é violada e uma marca profunda e não esperada é deixada em nossa individualidade psicológica. Durante um período, Freud tratou do tema da memória recalcada, que seria a atividade inconsciente e natural do cérebro para esconder de si mesmo as temáticas que nos assus- Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 40 – tam e que nos atrapalham. Depois de atender os soldados retornados da Primeira Guerra Mundial, Freud passou a pensar no trauma como uma marca profunda, que ainda viola a proteção psíquica do indivíduo, e que pode se esconder por vezes e que por mais que não seja externalizado em palavras, pode se apresentar em ações, fatos, comportamentos. Assim, a memória de um trauma, como a situação de uma guerra, pode ficar intrin- secamente marcada na pessoa em sua mais recôndita individualidade. Na década de 1930, Maurice Halbwachs, sociólogo francês da escola durkheimiana passou a trabalhar a ideia de memória coletiva. Até então, os estudos em memória eram muito voltados para o entendimento da memó- ria enquanto formadora do indivíduo e, após Halbwachs, novas interpre- tações foram colocadas em voga, especialmente as que incidem sobre o caráter coletivo da memória. Os estudiosos que seguiram Halbwachs por vezes criticaram o caráter romântico com o qual a memória era tratada por ele, pois, em sua obra a memória coletiva é apresentada como uma cria- ção natural do convívio humano, sem interferências conscientes, apenas com a interação sociocultural do homem com seus pares. Os discordantes dessa teoria passaram a tratar a memória como um tecido volátil, metafí- sico ao extremo e lugar de jogos de poder muito intensos e sempre atuais nos quais quem tem mais poder (econômico, político, informativo etc.) consegue sobrepor a memória que lhe desagrada e ocupa o espaço de ter o discurso com o qual concorda difundido socialmente. Walter Benjamin, pensador e crítico marxista, por mais que pouco ortodoxo, pensa as relações de memória à luz de Freud, mas incluídas na lógica da luta de classes. As reflexões dele se enquadram na análise de como permitir ao público uma memória das classes inferiores, não só as dos dominantes. A intenção de colocar em pauta essas memórias era a de possibilitar novas interpretações da história, fugindo do domí- nio de alguma hegemonia. Para Benjamin, a dificuldade de se executar essa intenção está no fato de que a memória individual, privilegiada até o século XIX, tem um só narrador e, então, criar um acordo sobre ela é fácil, já a memória coletiva tem muito mais narradores, e criar um discurso que seja satisfatório a todos ou pelo menos para a maioria seria muito difí- cil. Benjamin queria, essencialmente, como é comum aos marxistas, dar espaço público aos silenciados. – 41 – Memória e Patrimônio Cultural Na década de 1940, o escritor alemão W. G. Sebald tratou, sem usar o termo em si, da memória envergonhada. Segundo ele, havia uma falha grave na literatura alemã pós-guerra por não tratar do sofrimento alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Para ele, os alemães foram estigma- tizados de um modo totalizante pelo sofrimento judeu, como se todos os alemães fossem os responsáveis, e, após o fim do governo nazista e a liber- tação dos judeus sobreviventes do Holocausto, os alemães que também sofreram com destruições massivas em suas cidades por conta dos bom- bardeios ingleses, não trataram suas próprias memórias. Ele aponta para os temas tratados na literatura alemã da geração de 45 em diante e aponta para a ausência dos temas sobre o horror da guerra para os próprios ale- mães, porque estes estariam estigmatizados e envergonhados pelo estigma que receberam como responsáveis pelos horrores do Holocausto. Paul Ricoeur, filósofo e pensador francês, também do pós-guerra, trata das mudanças profundas impostas aos indivíduos que viveram o trauma da guerra em diferença com os que não participaram. Para ele, o homem que passou pelo combate bélico da guerra ou o que sofreu nos campos de concentração têm traumas que não permitem que se lembrem de si mesmos da mesma maneira que as pessoas que não passaram por essas situações. Para Ricouer, quem passou por uma situação que aproxima a pessoa da morte, lembra de si com mais importância à manutenção da própria vida do que aquele que não passou por situações de risco iminente de morte. Com isso, o autor coloca no plano político o que deve ou não ser lembrado do ponto de vista dos horrores ou dos acontecimentos traumá- ticos. É cunhado, então, o termo da justa memória, que é a medida exata com a qual um assunto deve ser tratado ou não do ponto de vista político/ público. Um exemplo é que a França primeiramente negou que, durante o domínio nazista, no governo Vichy, estregou muitas crianças judias aos militares alemães. Hoje, reconhece o feito e tem eventos para lembrar no intuito de se desculpar com a população que se sente afetada com isso, colocando o assunto em âmbito público na medida correta para poder se desculpar pelo feito, mas sem estigmatizar ou desmerecer os afetados. Na mesma temática, Michael Pollak, sociólogo e historiador austrí- aco, na década de 1980, trata do tema da memória da Segunda Guerra Mundial, mas do ponto de vista dos sobreviventes do Holocausto. Para Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 42 – ele, ao retornar para a Alemanha e para a Áustria, por mais que tenham sofrido nestes mesmos territórios, os judeus não receberam a atenção que talvez precisassem para tratar suas memórias traumáticas. Unindo as duas ideias, a de Pollak e a de Sebald, podemos perceber dois grupos distin- tos e fechados em si: os alemães estigmatizados e envergonhados pela alcunha generalista de nazistas, que se ocuparam em reconstruir as cida- des destruídas pelos ataques aéreos; e os judeus sobreviventes que, ao retornar, não receberam a atenção para tratar seus traumas e foram obri- gados a se inserir na dinâmica de reconstrução das cidades para que se incluíssem como parte da sociedade novamente. Pollak também salienta a importância da memória, das experiências compartilhadas e das sensações de pertencimento comuns entre os indivíduos que, através dos conteúdos registrados na memória e evocados para a geração de empatia, formavam grupos sociais. O termo das memórias subterrâneas é criado por ele para considerar os saberes e as trajetórias silenciadas, mas que nunca são apa- gadas e apenas esperam o momento de retornar ao público em momento oportuno, porque, no caso da Segunda Guerra Mundial, os judeus sobrevi- ventes não terem tratado suas memórias corretamente ao voltar à Alema- nha certamente lhes gerou um mal-estar individual, no grupo étnico judeu e na sociedade de uma forma geral, pela tragédia do Holocausto e a não consideração do tema como se deveria. 2.4 Temas contemporâneos em memória Na atualidade, há temas ainda tratados pelos estudiosos da memó- ria, alguns bastante antigos, outros mais contemporâneos. A formação das identidades ainda está muito em pauta, mas agora considerando o mundo globalizado. Como se criam as identidades individuais e de grupo em um mundo que tem acesso àsmesmas coisas, a uma mesma cultura e interage sem fronteiras entre si por meio do advento da internet, por exemplo, é uma das preocupações. Atualmente, é normal que jovens americanos, chi- neses e franceses tenham as mesmas aspirações, especialmente no enfo- que do consumo pelo advento da disseminação do capitalismo, mesmo fazendo parte de culturas extremamente diferentes. As análises se dão, então, em como esses jovens são moldados, neste caso do consumo pelo discurso do mercado, para que queiram possuir o mesmo aparelho celular – 43 – Memória e Patrimônio Cultural ou para que joguem os mesmos jogos online para serem aceitos em seus grupos sociais e reconhecidos como parte deles. O tema dos moldes da memória, trazidos agora sob o olhar do mer- cado, já foram antes, nos séculos XIX e XX especialmente, estudados pela perspectiva da formação das nações e do esforço dos governos para a con- solidação de um povo que se reconhecesse como tal, produto e produtor do próprio espaço totalizante de sociedade na qual está inscrito. Os registros sobre si, as autobiografias, a organização de arquivos sobre os próprios produtores deles também têm sido objetos de estudos contemporâneos. As ideias mais articuladas nesses estudos são de como e porque, com que intenção, os produtores de coleções sobre si executam essa ação. Uma das hipóteses mais trabalhadas é a de que quem produz uma coleção sobre si quer registrar na memória coletiva uma narrativa sobre si mesmo, ignorando ou tentando silenciar outras interpretações, alheias, também sobre si. Portanto, ao eleger documentos de diversos suportes e conteúdo, o produtor de sua própria história quer cristalizar na história social a versão que ele mesmo criou de si, não abrindo margens para outras análises. A memória, desde a Grécia Clássica, passando por todos os momen- tos da história humana até a contemporaneidade, tem sido objeto de inte- resse de diferentes interpretações, cabendo sempre ao contemporâneo analisar o material da memória com suas próprias intenções. Atividades 1. Quais campos do conhecimento estudam a memória e como a tratam em seus estudos? 2. Discorra sobre as interpretações existentes sobre o complexo de cavernas de Lascaux, no sudoeste da França. 3. De forma geral, qual a relação da memória com o tempo presente? 4. Durante as ações da Igreja Católica na Idade Média ocidental, quais as relações desta Igreja com a memória? 3 O patrimônio desde sua origem até o século XXI Nesse capítulo compreenderemos um pouco mais sobre o conceito de patrimônio, como ele foi entendido ao longo da his- tória até os dias atuais. Também serão analisadas as diversas for- mas de patrimônio enquanto cultura, história e arte e sua relação com a sociedade. A terminologia patrimônio é atribuída a uma série de sig- nificados. No dicionário pode ser definida como um bem indivi- dual que tem um grande valor emocional ou capital, mas também pode ser um bem conjunto, aquele que está presente e é notá- vel para a manutenção cultural e histórica da sociedade ao qual está inserido. Nem sempre foi comum à sociedade a ideia de patrimô- nio, ele surge em conjunto com o conceito de propriedade, isso porque o homem sente a necessidade de dividir suas terras das demais, circula suas casas com cercas e define “isso é meu!”. Nasce nesse momento a noção de herança, pois se é meu, tam- bém será dos meus filhos. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 46 – No início, patrimônio era, portanto, somente algo individual e geral- mente ligado aos valores capitais, como fazendas, casas e comércio. Hoje esse conceito expandiu, patrimônio pode ser algo de grande valor artís- tico, cultural e histórico, importante para compreender aspectos pertinen- tes ao seu bairro, sua cidade e para o mundo todo. Acredita-se que o conceito de patrimônio expande após a Revolu- ção Francesa, em 1790. A guerra trouxe um desejo de preservar a histó- ria social por meio dos bens materiais que restaram, como, por exemplo, armas, livros e prédios, com o objetivo de serem lembrados. A ideia de preservar é uma das bases do patrimônio, afinal de contas, é pela preserva- ção que será garantido o direito de tê-lo pelo maior tempo possível. Isso se aplica a qualquer uma das definições de patrimônio. Pensemos o seguinte: se você for herdeiro de uma bela casa e fizer todas as manutenções nela necessárias, terá o privilégio de usufruir dela por longos anos; contudo, se você abandoná-la, em pouco tempo ela será tomada por cupins, infil- trações e você perderá o imóvel. Esse exemplo é importante para com- preender que o patrimônio enquanto um bem de todos também deve ser preservado e cuidado por nós e pelos órgãos responsáveis. Falaremos mais disso nos próximos capítulos. Figura 3.1 – Vale dos Templos, Agrigento, Sicília Fonte: Shutterstock.com/Alfio Finocchiaro. No Brasil, a ideia de patrimônio como um bem cultural é documen- tada pela primeira vez no século XVIII, com o governador Luiz Pereira – 47 – O patrimônio desde sua origem até o século XXI Freire de Andrade. Sua vontade era a preservação da arquitetura holan- desa deixada no Recife, em Pernambuco. Essa proposta é então revisitada em 1980, data que marca a oficialização da primeira versão da história da preservação do patrimônio cultural no Brasil, que foi denominada como Proteção e revitalização do Patrimônio cultural no Brasil: uma tra- jetória, o órgão responsável por publicar esse material foi a Secretaria de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e a Fundação Pró-Memória (SPHAN/Pró-memória). Segundo Marcia Chuva, em seu artigo intitu- lado Por uma história da noção de patrimônio cultural, nesta ocasião, o SPHAN/Pró-memória também reuniu documentos que localizavam a história do patrimônio cultural brasileiro em dois períodos, denominados de fase heroica e fase moderna. Além disso, o material publicado relata a importância de Mario de Andrade para a história do patrimônio cultural no Brasil, quando, em 1936, propõe a criação do Serviço de Patrimônio His- tórico Artístico Nacional (SPHAN) a pedido de Gustavo Capanema, então ministro da Educação e Saúde. Mario de Andrade foi escolhido para esta função por estar forte- mente relacionado com questões de folclore e cultura nacional, inclu- sive na situação da pré-formulação do SPHAN, o poeta era o diretor do Departamento de Cultura de São Paulo, neste cargo fez diversas viagens ao Nordeste do Brasil, o que lhe deu bagagem intelectual suficiente para criar, em 1947, a Comissão Nacional do Folclore. Mario de Andrade ten- tou dar visibilidade a aspectos não só materiais como imateriais da cultura nacional, em suas mais diferentes características e posições sociais. Con- tudo, mesmo que o poeta fosse o responsável pelo projeto de SPHAN, outros intelectuais se envolviam na administração e não era unânime a necessidade de preservar certos aspectos da nossa cultura, principalmente as manifestações de cunho imaterial. Muitos destes intelectuais estavam em busca de consagrar um nacionalismo característico da Era Vargas. O material produzido por Mario de Andrade em 1936 deu início a uma série de movimentações e discussões sobre as questões de preserva- ção de patrimônio cultural. Em 30 de novembro de 1937, enfim é criado o SPHAN. Fica decidido que patrimônio é o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja do interesse público quer por sua vinculação a Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 48 – fatos memoráveis da História do Brasil, quer por seu excepcio- nal valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. (SPHAN,1937). Passa a se considerar também, “[...] monumentos naturais, bem como sítios e paisagens que importe conservar e proteger pela feição notável com que tenham sido dotados pela naturezaou agenciados pela indústria humana” (SPHAN, 1937). O primeiro diretor deste novo órgão foi Rodrigo Melo Franco de Andrade, que manteve o cargo durante trinta anos e trouxe diversas alte- rações ao projeto original de 1936. Alguns historiadores criticam o papel do SPHAN durante este período, isto porque ele se dedicava a criar na população brasileira um sentimento de unidade nacional, dando ênfase para os grandes personagens (heróis da nação) e momentos também heroi- cos da história do país. Essa era a característica máxima da política desse período, que tinha como objetivo criar o “homem brasileiro”, com sua arte e arquitetura barroca. Por esse motivo grande parte dos nossos bens tom- bados estão em Minas Gerais. Esta é a denominada fase heroica. Assim, o SPHAN foi ressignificado e, na Constituição de 1988, ganhou não só alguns novos aspectos como também um novo nome, Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que entre suas mudanças estabelece que substituindo a nominação Patrimônio Histórico e Artístico, por Patrimônio Cultural Brasileiro. Essa alteração incorporou o conceito de referência cultural e a definição dos bens passíveis de reconhe- cimento, sobretudo os de caráter imaterial. A Constituição estabe- lece ainda a parceria entre o poder público e as comunidades para a promoção e proteção do Patrimônio Cultural Brasileiro, no entanto mantém a gestão do patrimônio e da documentação relativa aos bens sob responsabilidade da administração pública. (IPHAN, 1988). O Iphan não só amplia a forma de se eleger um patrimônio como também democratiza sua eleição, revisitando o conceito de patrimônio defendido por Mario de Andrade, em 1937. O patrimônio passa a ser representado por intervenções de “natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasi- leira” (IPHAN, 1988). – 49 – O patrimônio desde sua origem até o século XXI O objetivo desta mudança é que o máximo de grupos sejam repre- sentados em seus mais variados aspectos, como, por exemplo, uma dança, uma feira, um parque e assim por diante. É também uma maneira mais democrática de eleger um bem, afinal, qualquer demonstração de arte, história e cultura que seja relevante para alguma camada ou grupo social pode se tornar um patrimônio cultural. O Iphan é o primeiro na América Latina a compreender o patrimônio desta maneira e a definir regras de preservação mais rígidas. É ainda hoje uma referência para países com um passado semelhante ao da colonização do Brasil. Desta forma, é possível manter vínculos e apoio internacional. 3.1 O Patrimônio Cultural após 1988 A criação do Iphan em 1988 reconheceu como Patrimônio Cultural um novo conjunto de bens, sendo eles o patrimônio material, patrimônio imaterial, arqueológico e mundial. Neste momento, a ideia de Mario de Andrade é revisitada e passa-se a considerar o Patrimônio Imaterial como um importante fator para preservação da memória e da identidade social. Cada um desses grupos é composto por características únicas. Contudo, todos eles passam pelo processo de tombamento. Vamos compreender um pouco mais esse termo. Tombo, assim como patrimônio, tem diversas definições, entre elas a mais comum, que é a de fazer algo cair. Contudo, tombo também pode estar relacionado ao ato de inventariar ou registrar algo, e é esta a defini- ção que trabalharemos neste momento. Falamos há pouco sobre a origem do patrimônio e suas diversas definições. Quando o patrimônio passa a ser visto como algo coletivo e se decide conservar grandes monumentos e obras de arte, por exemplo, se faz necessária a catalogação destes. Esta catalogação só se faz possível graças ao tombo. Para se ter o controle do que foi tombado, órgãos como o Iphan se responsabili- zam por criar o chamado Livro Tombo. Nele estão presentes todos os bens tombados pela instituição responsável, assim como informações referentes a suas característi- cas. Por exemplo, se for um edifício, o Livro Tombo trará informações sobre a data de edificação, os responsáveis pela obra, o estilo arquitetônico, entre outros. Existem quatro tipos de Livros Tombo, sendo eles: arqueológico, paisagístico e etnográfico; Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 50 – histórico; belas artes; e das artes aplicadas. É importante salientar que tanto o tomba- mento quanto o Livro Tombo surgem no Brasil na constituição de 1937. Agora que o conceito de tombamento está claro, vamos compreender os tipos de patrimônio existentes no Brasil. O mais usual deles é o Patri- mônio Material, que é definido pelo Iphan como imóveis como as cidades históricas, sítios arqueológicos e paisagís- ticos e bens individuais; ou móveis, como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos. (IPHAN, 1988) Um exemplo de bem material tombado pelo Iphan são os remanes- centes e as ruínas da Igreja de São Miguel, localizada no município de São Miguel das Missões, no Estado do Rio Grande do Sul. Foi tombado em 1938 e é um dos mais importantes exemplares da arquitetura barroca no Brasil. Além de ser um patrimônio material tombado pelo Iphan, as ruínas de São Miguel foram consideradas Patrimônio Mundial, Cultural e Natural pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), também no ano de 1938. Figura 3.2 – Ruínas Igreja São Miguel Fonte: Shutterstock.com/ThiagoSantos. O Patrimônio Imaterial, por definição, é toda forma de expressão que esteja além do âmbito da materialidade. Segundo o Iphan, práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cêni- – 51 – O patrimônio desde sua origem até o século XXI cas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares (como merca- dos, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas). (IPHAN, 1988) O Patrimônio Imaterial é em base o maior responsável pela democra- tização da preservação da cultura, arte e história, afinal, não está necessa- riamente relacionado às questões do capital. São atos, saberes, indivíduos, entre outros, que nasceram e se preservam por atitude e encorajamento popular. Só se preservam vivos na memória por serem de atitudes coleti- vas e de nenhuma forma podem ser impostos, afinal, como já discutido, a cultura vem do povo. Um exemplo de Patrimônio Imaterial é a Roda de Capoeira, que foi inscrita no Livro Tombo das Formas de Expressão em 2008. É considerada um Patrimônio Imaterial graças ao fardo histórico que carrega, trazida pelos povos africanos no Brasil escravizados. Foi uma forma de ressigni- ficar a cultura que em nosso país foi silenciada. A amplitude de seu tom- bamento é nacional e é o Patrimônio Imaterial brasileiro mais conhecido no mundo. Segundo o Iphan, “[...] está presente em mais de 150 países, com variações regionais e locais criadas a partir de suas ‘modalidades’ mais conhecidas: as chamadas ‘capoeira angola’ e ‘capoeira regional’” (IPHAN, 2008). Figura 3.3 – Roda de capoeira, resquício das danças de guerra segundo Johann Moritz Rugendas, 1835 Fonte: Johann Moritz Rugendas (1835). Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 52 – O Patrimônio Arqueológico é assim reconhecido devido a seu cará- ter de salvaguardar a memória, cultura e identidade de uma determinada comunidade ou civilização. Segundo o site do Iphan, (www.iphan.gov.br) o Brasil tem vinte e seis mil sítios arqueológicos, mas é importante lem- brar que esse é o número já cadastrado e que podem existir outros milhares ainda não descobertos. Mas o que exatamente pode ser considerado um sítio arqueológico? O Iphan define que os locais onde se encontram vestígiospositivos de ocupação humana, os sítios identificados como cemitérios, sepulturas ou locais de pouso prolongado ou de aldeamento, “estações” e “cerâ- micos”, as grutas, lapas e abrigos sob rocha. Além das inscrições rupestres ou locais com sulcos de polimento, os sambaquis e outros vestígios de atividade humana. (IPHAN, 1988) Também é importante lembrar que é crime federal omitir a desco- berta de um sítio arqueológico, sendo que o responsável pelo local da des- coberta tem o prazo de 60 dias para entrar em contato com o Iphan, afinal de contas, vestígios arqueológicos contam parte da nossa história, já que ela é constituída de fragmentos. “Todos os sítios arqueológicos têm prote- ção legal e quando são reconhecidos devem ser cadastrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA)” (IPHAN, 1988). Um dos mais importantes exemplos de Patrimônio Arqueológico no Brasil é o Sítio Arqueológico Ita- coatiaras do Rio Ingá, no Estado da Paraíba. Foi tombado no livro de Belas Artes e no Livro Tombo Histórico em esfera nacional pelo Iphan em 1944, sendo a primeira arte rupestre a ser tombada como patrimônio no país. Se localiza na região rural da cidade de Ingá. As representações são gravuras e em sua maioria antropomórficas (representações de figuras huma- nas) e zoomórficas (representa- ções de animais). Fonte: portal.iphan.gov.br. Figura 3.4 – Sítio Arqueológico Itacoatiaras do Rio Ingá (PB) – 53 – O patrimônio desde sua origem até o século XXI Uma curiosidade: o termo Itacoatiara significa escrita ou desenho na pedra, e tem sua origem na língua tupi-guarani. No Brasil, esse termo é usado para definir as gravuras rupestres. Por fim, temos o Patrimônio Mundial, que é definido por um con- junto de bens que tem relevância para a conservação da história, arte, iden- tidade, cultura ou memória de todas as populações. O responsável pela administração deste patrimônio é a Convenção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural (UNESCO). Foi adotada em 1972. Para a UNESCO, o Patrimônio Cultural é formado por monumentos, grupos de edifícios ou sítios que tenham valor uni- versal excepcional do ponto de vista histórico, estético, arqueo- lógico, científico, etnológico ou antropológico. Incluem obras de arquitetura, escultura e pintura monumentais ou de caráter arqueo- lógico, e, ainda, obras isoladas ou conjugadas do homem e da natu- reza. São denominadas Patrimônio Natural as formações físicas, biológicas e geológicas excepcionais, habitats de espécies animais e vegetais ameaçadas e áreas que tenham valor científico, de con- servação ou estético excepcional e universal. (IPHAN, 1978). O Brasil passa a fazer parte dos países afiliados à UNESCO em 1978. Hoje fazem parte da organização 21 países e, para instigar a participa- ção efetiva destes países na conservação de seus patrimônios, a UNESCO criou a chamada Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, um título internacional que dá imensa visibilidade ao bem tombado. Também se vinculou em 2003 aos tipos de Patrimônio Mundial aque- les que são imateriais, ou seja, o ofícios, saberes, costumes, danças, poe- sias e músicas, também podem compor o time de patrimônios considera- dos importantes para o mundo todo. O Cais do Valongo, localizado na cidade do Rio de Janeiro, é um dos Patrimônios Mundiais mais importantes do Brasil. Isso porque ele está localizado no porto que mais recebeu escravizados vindos da África no mundo todo. Seu reconhecimento como Patrimônio Mundial é a materia- lização do sentimento de culpa pela violência que marca a escravidão no Brasil e é de suma importância para as futuras sociedades a sua conserva- ção. O Cais do Valongo é um símbolo de resistência e força vivida pelas Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 54 – populações africanas escravizadas por séculos no Brasil. Passou a fazer parte do Livro Tombo da UNESCO em 2017, e tem sido um importante meio de debate para as questões raciais, não só no território nacional como no mundo todo. Foi descoberto em 2011, e cobre uma área de cerca de 5 milhões de metros quadrados. Construído em 1811, tinha como objetivo o desembarque e também comércio de escravizados que seriam posterior- mente levados para as fazendas no interior do Rio de Janeiro, e também para outros Estados do país. Figura 3.5 – Cais do Valongo – Rio de Janeiro Fonte: Shutterstock.com/LuizSouza. 3.2 Patrimônio, sociedade e memória O Patrimônio Cultural tem por objetivo a representação do indivíduo enquanto sociedade. Preservar um patrimônio é, portanto, a preservação do meu próprio eu, da memória individual e afetuosa, mas esse “eu” ainda envolto na malha social. Cada patrimônio tombado deve a priori valorizar o sentimento de pertencimento, não necessariamente para toda a socie- dade, mas para os mais diversos grupos que o compõem. A Feira do Largo da Ordem, na cidade de Curitiba/PR, é um patrimônio imaterial tombado a nível municipal e resgata a história de sociabilidade e comércio que ocorre na mesma região ao longo da existência da cidade, contudo, essa mesma feira não representa a identidade de todas as pessoas do município, mas sim de um grupo especifico, os comerciantes e artesãos. Essa é a lógica – 55 – O patrimônio desde sua origem até o século XXI do Patrimônio Cultural, a feira não precisa representar a memória e iden- tidade de toda a cidade de Curitiba, porém, se faz necessário que todos em Curitiba possam ter um Patrimônio Cultural ao qual se identifiquem. Figura 3.6 – Feira do Largo da Ordem – Curitiba/PR Fonte: Ben Tavener/Flickr/CC BY 2.0. O Patrimônio Cultural tem por obrigação o resgate da memória cole- tiva. É por meio dele que as pessoas passam a se conectar de maneira afetiva com o lugar em que estão inseridas, e isso acontece graças ao ato de lembrar, por exemplo, quando passamos na frente da casa que vivemos a nossa infância, nós lembramos não só da casa, mas dos momentos e pes- soas que estiveram envolvidos nesse espaço. Com o Patrimônio Cultural acontece o mesmo, a diferença é que ele pode nos fazer criar laços com momentos e histórias que não vivemos. O patrimônio usa nosso imagi- nário, quando vemos um edifício que foi construído no início do século XX, nos transportamos para esse espaço, imaginamos como viviam essas pessoas, quais eram suas roupas, meios de transporte, suas ideias. É para isso que o Patrimônio Cultural vive. Segundo Marina Soares Leão, como referência para a ação de recriar o espaço, é preciso com- preender como este adquire o valor simbólico que lhe é atribuído. Sua valoração é dada a partir das atividades de representação e res- significação do patrimônio local e do resgate da memória coletiva para com o sujeito que se constitui como produto e produtor deste espaço. (LEÃO, 2009 p. 12) Leão ainda afirma que Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 56 – A continuidade da tradição de um grupo social se dá através da transferência do patrimônio a partir das práticas sociais atribuídas a ele. Esta apropriação coletiva e /ou individual do patrimônio ali- menta os sentimentos de identificação e de atribuição de valor ao bem. Neste sentido, o patrimônio em sua forma física representa um acervo acumulado, reelaborado e intransferível das experiên- cias vivenciadas pelas diversas gerações antepassadas. (LEÃO, 2009 p. 14) Dica de Filme Para compreender um pouco mais essa relação individuo versus patri- mônio, é interessante analisar a animação que leva o nome de A Casa de Pequenos Cubinhos, criada pelo japonês Kunio Katõ, que recebeu o Oscar de melhor animação em 2009. Conta a história de um velho senhor que tem sua casa a cada dia mais submersa nas águas do mar e que, para escapar desse fatídico desastre natural, tenta a cada momento assen- tar tijolo sobre tijolo e construiruma casa sobre outra. Certo dia seu cachimbo cai por entre uma construção e outra, o que lhe obriga a sub- mergir para encontrar este objeto tão valioso, contudo, ao passo que ele desce e vê objetos e até mesmo as diferentes construções feitas ao longo de sua vida, suas memórias lhe são trazidas. Esse é o real motivo da existência de Patrimônios Culturais, que nossas memórias nos sejam dadas conforme nos confrontamos com músicas, danças, festas, construções edificadas, entre outros. 3.2.1 A gestão do Patrimônio Cultural no Brasil e o papel do cidadão O Brasil passa a discutir políticas de gestão patrimonial desde 1977, mas é somente em 2009 que o Iphan, em parceria com o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura e a Associação Brasileira de Cidades Históricas (ABCH) realizam um encontro onde o foco de dis- cussão era os novos caminhos a serem tomados pelos gestores culturais. Segundo Til Pestana, esse fórum serviu como matriz para a realização de novos objetivos na área da gestão do patrimônio, entre eles: – 57 – O patrimônio desde sua origem até o século XXI consolidação de um Programa Nacional de Formação dentro do Sistema Nacional de Patrimônio; formação de uma coordenação multidisciplinar para o Programa Nacional de Formação em Patri- mônio; estudo sobre a possibilidade de formação de um Sistema de Indicadores para Avaliação dos Programas de Formação em Patri- mônio em âmbito nacional, adotando como referência o Sistema de Indicadores do Ministério da Cultura em parceria com o IBGE, o da Capes e do Programa de Estatística de Cultura da UNESCO; ampliação dos projetos voltados para a Formação, Gestão e Educa- ção para o campo do Patrimônio Cultural. (PESTANA, [S.d.], p. 3) Mesmo que os objetivos não tenham sido cumpridos dentro dos pra- zos estabelecidos, a importância deste fórum é inegável, afinal de contas, é a partir deste momento que a gestão da cultura e do patrimônio passam a ser discutidas de uma maneira mais consolidada, buscando novas dire- trizes e a resolução de problemas, tanto para a área de patrimônio quanto para o profissional responsável por sua gestão. O problema é que o fórum foi basicamente pautado nas questões econô- micas da preservação e globalização do patrimônio, ou seja, qual era o recurso financeiro disponível e qual lucro se obteria com esse gasto. Os novos gestores culturais eram orientados a pensar no patrimônio como um bem capital e que necessariamente deveria arcar com os seus próprios gastos de preservação. A maior parte dos Patrimônios Nacionais são usados para a captação de renda, ou seja, servem muito mais como ponto turístico do que salva- guarda da cultura e memória, principalmente os Patrimônios Mundiais; o título que a UNESCO proporciona é um chamariz para as oportunidades de fazer negócio sobre o patrimônio. Mas por que essa valorização financeira do patrimônio é de certa maneira prejudicial? Nas palavras de Pestana, lembramos que preservamos o nosso patrimônio cultural porque ainda tem um significado no contexto sociocultural. A sociedade estabelece vínculos vitais com seus bens culturais conservando aqueles elementos que cumprem uma função social. Existe um consenso geral de resistência à destruição de certos fatos que tem valor e, em que cada um possa reconhecer a si mesmo e sua expe- riência de vida associada. Portanto, é necessário partirmos da con- cepção da importância social da preservação do patrimônio cultu- ral. (PESTANA, [S.d.], p. 14). Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 58 – Ou seja, o Patrimônio Cultural, quando vendido, deixa de cumprir seu papel de resgatar e rememorar a história e a cultura. Ele se torna um atributo, algo sacralizado, muito mais importante para os turistas do que para a sociedade que deveria se sentir pertencente e ressignificada nele. O patrimônio pode sim ser um ponto turístico, mas ele deve ir além disso, é um espaço de conquista, um espaço de cultura e resistência. É papel do cidadão reivindicar seu direito ao patrimônio. Como já vimos anteriormente, o Patrimônio Cultural é eleito pela história e cultura de múltiplos grupos sociais, ou seja, é eleito ou deveria ser eleito pelo povo e ter importância relevante para esse. Pestana fala que quando intervimos de alguma forma em nosso patrimônio cultu- ral tocamos em fibras muito sensíveis dos vínculos histórico-cul- turais que dão coerência e congruência a toda sociedade. Nesse sentido, é importante considerar, antes de tudo, que o patrimônio cultural pertence à comunidade, a qual estabelece vínculos vitais com seus bens culturais, conservando aqueles elementos que cum- prem uma função social. Estas relações podem ser de caráter eco- nômico, social, cultural, etc. Ou seja: as relações da comunidade com seu patrimônio cultural não se circunscrevem somente na esfera econômica, mas nas diferentes e complexas esferas da vida social. (PESTANA, [S.d.], p. 16) É nesse sentido que o cidadão se torna agente na preservação do Patri- mônio Cultural. É pelas mãos da sociedade que o patrimônio deixa de ser apenas uma forma de angariar fundos e passa a ter valor cultural. Ser agente do patrimônio significa reivindicar o seu lugar na história, preservar ele é preservar nossa cultura. Usando o exemplo antes dado, o Cais do Valongo pode ser um lugar turístico, com grande valor capital e isso ser de auxílio para que tenha capital suficiente para sua própria preservação, mas de nada vale mantê-lo vivo se a população ao qual ele diz respeito não se sentir pertencida a ele, não lhe preservar e não lhe compreender como lugar de memória. 3.3 Patrimônio e paisagem A paisagem é por definição um conjunto heterogêneo de componen- tes, seja ele natural ou criado pelo homem e que pode ser visto. Esse con- ceito está presente nos nossos dias e é natural termos a certeza de que o – 59 – O patrimônio desde sua origem até o século XXI entendemos. Mas o que a paisagem tem a ver com o Patrimônio Cultural, neste capítulo discutido? Segundo George Bertrand (1978 apud ALMEIDA, 2007), a paisagem é um produto social, é uma resultante da história local ou regional. Se ela é um produto social é, portanto, parte incondicional da nossa cultura. E se torna patrimônio quando a ela atribuímos características únicas, seja pelo seu valor histórico ou mesmo pelo privilégio de ser única, como, por exemplo, as ruínas da Igreja de São Miguel: esse Patrimônio Cultural é simbólico pela sua admirável característica de construção que é singu- lar no Brasil, mas também é uma referência histórica. É nesse sentido que as belas ruinas deixam de ser apenas uma paisagem para se tornarem um patrimônio. Mas como se define uma paisagem patrimonial? O artigo Os valores patrimoniais da paisagem cultural: uma abordagem para o processo de intervenção, elaborado por Silva e colaboradores (2007), busca na inter- pretação de Sauer a seguinte resposta para esta pergunta: a paisagem cultural é, nas palavras de Sauer (Corrêa e Rosendahl, 1998, p. 9), “modelada a partir de uma paisagem natural por um grupo cultural. A cultura é o agente, a área natural é o meio, a paisagem cultural o resultado”. Todavia, Sauer privilegiou a aná- lise morfológica da paisagem cultur\al e os aspectos materiais da cultura, não considerando seus aspectos subjetivos. (SILVA et al., 2007, p. 299) Contudo, é importante salientar que uma paisagem patrimonial, assim como compreendemos no Patrimônio Cultural, pode ter diversas formas de representação e pertencimento, desde a mais simples e individual, até as mais complexas e coletivas, chegando a níveis mundiais. Quem avalia a paisagem mundial é a UNESCO, desta maneira podemos perceber sua proximidade com a relação do Patrimônio Cultural. As questões da paisagem natural vêm sendo discutidas ao longo do século XX, principalmentecom o avanço das políticas de globalização e também com os avanços das indústrias e a visível perda de Patrimônio Natural. É nesse contexto histórico que passa a se perceber a necessidade de conservação e, mais do que isso, preservação de Patrimônios Natu- rais. A paisagem neste quesito assume duplo papel: o de corresponder às Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 60 – necessidades humanas, com mudanças na paisagem natural, construção de estradas e pontes, edifícios e casas; mas também o de preservar as pai- sagens que o homem não domina, como as serras, por exemplo, que assu- mem o papel do belo e não necessariamente narram questões culturais ou indenitárias da população. A importância da paisagem patrimonial é bastante singular, visto que ela abraça conceitos que o patrimônio sozinho não poderia abraçar. A paisagem patrimonial valoriza a vida humana, mas também respeita o lugar de onde somos. Síntese Abordamos nesse capítulo o conceito de patrimônio. Partindo do nosso senso comum, foi apresentada a trajetória histórica do conceito, desde sua definição capital e individual até sua definição cultural e conjunta. Após compreendermos a definição de patrimônio, principalmente cultural, analisamos algumas diferenças entre os vários tipos de patrimô- nio e os papeis da sociedade para preservá-los. Atividades 1. Quais definições de patrimônio são abordadas nesse capítulo? 2. Discorra sobre os 4 diferentes tipos de Patrimônio Cultural. 3. Discorra sobre a importância do poeta Mario de Andrade para a Constituição de 1988 e as novas maneiras de se considerar o Patrimônio Cultural. 4. Defina Paisagem Cultural. 4 Patrimônio e Propriedade No capítulo anterior, definimos o conceito de patrimônio como um bem que é deixado como legado de uma geração a outra, seja na esfera coletiva ou individual. Neste capítulo, dis- correremos sobre o sentimento de posse ao patrimônio e à cultura do mesmo. O século XXI é formado por um novo tipo de sociedade, uma nova geração, na qual a globalização é a base de sua estru- tura e, se tratando do Ocidente, a ordem é o capitalismo. O termo posse nos é muito comum, somos donos de muitas coi- sas, e é claro fazemos o possível para sermos também possui- dores de patrimônios. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 62 – 4.1 Patrimônios Culturais e a posse social Mas como se dá a posse da sociedade sobre os patrimônios culturais? Discutimos anteriormente que o patrimônio é responsabilidade de órgãos governamentais, mas que também é de responsabilidade social. Definir quais patrimônios serão geridos e preservados e lhes proteger é uma res- ponsabilidade da comunidade a qual estão inseridos, mas para que esses patrimônios sejam cuidados como se deve é de suma importância que as pessoas se sintam pertencidas, sintam-se donas e responsáveis por eles. Sobre isso, Elsa Peralta da Silva explica que: o património não é só o legado que é herdado, mas o legado que, através de uma seleção consciente, um grupo significativo da população deseja legar ao futuro. Ou seja, existe uma escolha cul- tural subjacente à vontade de legar o património cultural a gera- ções futuras. E existe também uma noção de posse por parte de um determinado grupo relativamente ao legado que é coletivamente herdado. (SILVA, 2005, p. 218) O patrimônio destinado à preservação deve corresponder às necessi- dades da sociedade na qual está inserido, deve fazer parte de sua cultura e dizer algo sobre seus hábitos, é desta maneira que ele passa a existir. Possuir um patrimônio individual, em muitos casos, é uma maneira de garantir um status social, e com o Patrimô- nio Cultural acontece o mesmo. Vejamos o Cristo Redentor, localizado no Rio de Janeiro. A bela estátua sobre o Corco- vado é um orgulho para mui- tos cariocas, bem como para os brasileiros que se sentem repre- sentados ao vê-la. Fala sobre o Brasil quando ainda não laico, fala sobre o Rio de Janeiro e lhe faz ser reconhecido, uma foto do Cristo e você pode saber onde seu amigo está passando férias. É desta maneira que o Patrimônio Cultural age, ou deveria agir, a partir do sentimento de Figura 4.1 – Cristo Redentor, Rio de Janeiro/RJ Fonte: Shutterstock.com/lazyllama. – 63 – Patrimônio e Propriedade posse, de reconhecimento, ele conta uma história, fala de uma cultura, pertence a alguém. Partindo disto, a autora Elsa da Silva discute que: esta noção de património, com a ideia de posse que lhe é implí- cita, sugere-nos imediatamente que estamos na presença de algo de valor. Valor que os seres humanos, tanto individual como social- mente, atribuem ao legado material do passado, valor no sentido do apreço individual ou social atribuído aos bens patrimoniais numa dada circunstância histórica e conforme o quadro de refe- rências de então. Trata-se de um conceito relativo, que varia com as pessoas e com os grupos que atribuem esse valor, permeável às flutuações da moda e aos critérios de gosto dominantes, mati- zado pelo figurino intelectual, cultural e psicológico de uma época. (SILVA, 2005, p. 218). Ou seja, o patrimônio é, assim como o tempo e a história, uma cons- trução social, e é submisso aos desejos das pessoas, não deve nunca ser o contrário disso. O Patrimônio Cultural deve a priori dar aos cidadãos a liberdade de sentirem-se pertencidos, a sociedade tem o direito de dizer, “isto é, meu! Isto é nosso!” para seus patrimônios conjuntos. 4.2 Direito à propriedade Na atualidade, a relação entre o homem e seus bens é bastante ligada ao seu valor de mercado. Na verdade, raramente ao longo da história o homem esteve tão ligado aos valores financeiros como está no século XXI. A sociedade moderna está ligada ao consumo individual dos bens e todos os nossos direitos percorrem esta característica. Hoje, todo e qualquer homem tem garantido por lei o direito à pro- priedade, isso desde a criação do Código Civil Francês, em 1804, que tinha como ordem principal dar aos homens direito à família e à propriedade. A nova ordem social, o avanço do capitalismo, as burguesias se tor- nando mais fortes e os estados se garantindo liberais fizeram com que a noção de propriedade fosse ressignificada. Mas afinal de contas, o que é propriedade? Segundo João Luís Nogueira Matias e Afonso de Paula Pinheiro Rocha: Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 64 – pode-se entender que a propriedade é fenômeno espontâneo, decor- rente da necessidade de subsistência do ser humano, sendo posterior- mente regulado a fim de possibilitar a convivência social pacífica. Apresentava-se em feição coletiva, dada a prevalência da comuni- dade sobre o indivíduo nas sociedades primitivas. Com a evolução das sociedades, sendo assegurado maior prestígio aos indivíduos, é possibilitada a apropriação individual, restrita aos bens imóveis em primeiro momento, sendo ampliada para bens móveis em fase posterior. O invento da moeda e a expansão de seu uso consolidou a propriedade individual. (MATIAS; ROCHA, 2006). A sociedade pós-moderna dividiu a propriedade em: propriedade ativa, propriedade de gestão ou produtiva e passiva, concernente na pro- priedade de parcela do capital de empresas. Isso significa que a proprie- dade agora não necessariamente tem de ser algo fixo ou material, ela pode estar concentrada no mundo das ideias, ela é um empreendimento, por exemplo. Essa construção de propriedade é chamada de “proprie- dade empresarial”. Neste caminho, a propriedade é protegida por lei quando tem uma razão social. Nas diversas mudanças do status da propriedade ao longo do tempo, em muitos momentos ela era um direito absoluto, se um pro- prietário de terra encontrasse petróleo, o direito ao usufruto disso seria totalmente dele. A sociedade pós-moderna compreende a propriedade de outra maneira, isso porquevê a propriedade numa construção social e é desejável que todos dentro dela tenham as mesmas oportunidades de possuir uma. É um paradigma que o momento histórico em que a sociedade é mais individu- alista e voltada ao lucro, ela seja vista como um atributo social. Qualquer formação empre- sarial, por exemplo, tem de ter obrigatoriamente uma “razão social”, só desta maneira seus direitos são garantidos. Figura 4.2 – Empreendedores Fonte: Shutterstock.com/F8 studio. – 65 – Patrimônio e Propriedade No capítulo anterior, discutimos que a noção de patrimônio surge no momento que o homem percebe a necessidade de ser um indivíduo, de cercar sua terra, ou seja, sua propriedade. Percebemos então que patrimô- nio e propriedade nascem no mesmo momento da história. A diferença é que o patrimônio é um bem que será ligado às gerações futuras, já com a propriedade não necessariamente ocorre o mesmo, pois a propriedade pode ser efêmera e está ligada aos valores econômicos. 4.2.1 Propriedade como um bem social Tanto a propriedade quanto o patrimônio estão sujeitos a riscos sociais, isso graças ao fato de que se algo é meu, por mais vasta que seja a quantidade deste algo, ele também pode ser querido pelo outro. Usando o exemplo de João Luís Nogueira Matias e Afonso de Paula Pinheiro Rocha, no seu artigo Repensando o direito à propriedade: aparentemente, ao se apoderar de um recurso, por mais abundante que seja, tal qual uma maçã de um vasto pomar, qualquer indivíduo passa a arcar com determinados custos. Ele tem o custo relativo ao desgaste da colheita, mesmo que seja mínimo e os “custos de exclusão”. Estes custos de exclusão são todos aqueles relativos aos riscos de que outro indivíduo, mesmo frente a abundância do recurso, deseje o que se encontra na posse de outro indivíduo. Assim, são custos de exclusão, por exemplo, uma cerca para pro- teger um pomar, um muro para proteger o gado, jarros de água guardados em uma caverna, etc. (MATIAS; ROCHA, 2006) Ou seja, a propriedade tem valor econômico e não está presente somente no mundo das ideias, está no mundo físico e principalmente econômico. Cada sociedade lida e lidou ao longo do tempo com a pro- priedade, alguns grupos humanos simplesmente passaram a fingir que ela não existia, tudo é de todos e ninguém discute isso. Outros dividiram as propriedades e criaram regras sobre elas. Muitos estudiosos da antropolo- gia dizem que quanto mais simples é a configuração social de um grupo, menos a propriedade importa, enquanto, pelo contrário, quanto mais com- plexa for a organização, mais a propriedade é importante e debatida. As formas de dividir o direito à propriedade também variaram ao longo do tempo, poderia acontecer pela ordem de chegada, pelo poder exercido e, hoje, em grande parte, esse direito é garantido pelo capital. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 66 – Segundo João Luís Nogueira Matias e Afonso de Paula Pinheiro Rocha, “o direito de propriedade, nada mais é do que uma miríade de direitos de exclusão que surgem para permitir uma relação mais eficiente dentro da sociedade e que se destinam a permitir a alocação de riquezas” (MATIAS; ROCHA, 2006). O direito à propriedade só é válido quando essa garante o mínimo de dignidade, igualdade e respeito aos direitos humanos, é para esse fim que ele foi criado. Além disso, é com o direito à propriedade que a sociedade poderá evoluir econômica e socialmente. Portanto, se a propriedade não estiver ocupando esse espaço, se ela só for um mecanismo de acréscimo às desigualdades sociais, não há motivos para existir. Nas palavras de João Luís Nogueira Matias e Afonso de Paula Pinheiro Rocha, “qualquer forma de absolutização da propriedade que ter- mine por impactar negativamente no seio social ou venha a desperdiçar os recursos econômicos para o bem do coletivo já está em descompasso com a própria razão de ser da propriedade” (MATIAS e ROCHA, 2006). Seguindo esta lógica, o acúmulo de grandes números de proprieda- des, sem um fim a não ser o lucro, vai contra seu conceito. A sociedade do consumo rápido e em grandes quantidades mudou o mundo, mudou aspectos que o mundo nem poderia imaginar, foi responsável pelas duas grandes guerras, reinventou o conceito de propriedade. São novos tempos. 4.3 Direito e Patrimônio Cultural No capítulo anterior discutimos sobre a elaboração de órgãos volta- dos para a preservação do Patrimônio Cultural, como o SPHAN, em 1936, por exemplo. Os debates que surgiram no século passado se fortalecem com a Constituição de 1988, na qual o Patrimônio Cultural ganha uma nova formulação, abrangendo, por exemplo, aspectos imateriais da nossa cultura. Todas essas mudanças foram essenciais para garantir que a socie- dade tenha acesso ao Patrimônio Cultural como um todo. Enquanto sociedade, nos foi garantido o direito de nos sentirmos repre- sentados pela nossa cultura e, portanto, nossos Patrimônios Culturais. – 67 – Patrimônio e Propriedade A Constituição de 1988 garante aos brasileiros o chamado direito à “dignidade humana”. Esse direito diz respeito também ao consumo e pro- dução de cultura. Segundo Afonso Bandeira Coradini e Tauã Lima Verdan Rangel, “o Patrimônio Cultural brasileiro ao ser encaixado na dignidade da pessoa humana estará preservando o seu próprio valor, o valor da iden- tidade nacional, já que este é o significado de dignidade”. (CORADINI; RANGEL, 2017) Quando se refere a cultura patrimonial é importante compreendermos que ela está ligada à representação da mais vasta pluralidade nacional, o Patrimônio Cultural é por obrigação um direito nacional: negros, bran- cos, ricos, pobres, indiferentemente do grupo ao qual pertençam, têm por direito a sua representatividade patrimonial. Por esse motivo, em 1988, a Constituição vai definir novos caminhos para que o patrimônio se torne mais democrático e acessível aos mais variados tipos de pessoas que constroem a identidade nacional, juntas, em grupos isolados ou individualmente. A partir de 1988, qualquer pessoa física pode solicitar o tombamento de um bem. Para tanto, deverá consul- tar o órgão responsável no seu município sobre como fazer a solicitação. Figura 4.3 – Diversidade Cultural Fonte: Shutterstock.com/Cienpies Design. 4.3.1 Direitos ligados ao acesso e à preservação garantidos por lei Não basta que os variados indivíduos sociais sejam representados se o acesso ao seu patrimônio e cultura lhe for negado. Além disso, esse acesso deve ser de qualidade e consciente, mas, para isso, é necessário que Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 68 – a sociedade perceba a relevância de preservar seus patrimônios. Quanto a este assunto, o autor Renato Duro Dias diz que a proteção do Patrimônio Cultural é uma decorrência de seu próprio conceito, do direito de acesso a ele e do dever constitucional imposto ao poder público (Constituição Federal, artigo 215, caput e Constitui- ção Estadual, artigo 220, caput e parágrafo único) como um desdobra- mento da nova categoria de direitos culturais, expressão do gênero de direitos difusos, protegidos pela ação popular, ao alcance de qualquer cidadão (CF. artigo 5º, LXXIII), e pela Ação Civil Pública, própria do Ministério Público (CF, artigo 129, III). (DIAS, 2010) Para que esse direito fosse atingido, o Governo Federal aliou a cul- tura e a educação. Desde 1960, o país investe na arte-educação dentro das escolas, em que as crianças interagem com as mais diversas manifestações artísticas, desde as artes plásticas até as cênicas, a dança, o canto, entre outas representações culturais. Desta maneira, se almejava garantir que a população brasileira tivesse acesso democrático a sua cultura. Contudo, o projeto foi se tornando obso- leto, muitos grupos sociais não se sentiam representados e o problema do acesso voltoua ser uma realidade. Percebendo esta falha institucional, o Governo Federal revisitou sua estratégia e elaborou maneiras de garantir o acesso à cultura dentro das escolas. Para isso, iniciou o projeto Educação Patrimonial. A educação patrimonial busca levar aos alunos conhecimento básico sobre o que é patrimônio, o que é cultura e a importância da legitimação de ambos conceitos para a formação de uma identidade social. A educação patrimonial se tornou o braço forte do Patrimônio Cultural, e por meio dela o processo de democratização ao acesso ocorre. Crianças que muitas vezes nunca tiveram a oportunidade de conhecer sua cidade passam a vê-la com outros olhos, esses olhos curiosos infantis são o futuro da preservação patrimonial e cultural do país, e isso só é pos- sível graças à educação. Segundo os autores Maria de Lourdes Parreiras Horta, Evelina Grun- berg e Adriane Queiroz Monteiro, em seu artigo intitulado Guia básico da Educação Patrimonia, a educação patrimonial é – 69 – Patrimônio e Propriedade um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária de conhe- cimento e enriquecimento individual e coletivo. A partir da expe- riência e do contato direto com as evidências e manifestações da cultura, em todos os seus múltiplos aspectos, sentidos e significa- dos, o trabalho da Educação Patrimonial busca levar as crianças e adultos a um processo ativo de conhecimento, apropriação e valo- rização de sua herança cultural, capacitando-os para um melhor usufruto destes bens, e propiciando a geração e a produção de novos conhecimentos, num processo contínuo de criação cultural. (GRUNBERG; HORTA; MONTEIRO, 2000, p. 4) É importante compreender que essa educação patrimonial, além de visar o uso consciente do Patrimônio Cultural, também promove uma discussão crítica sobre os aspec- tos pertinentes a nossa cultura e modo de ver e fazê-la acontecer. Hoje, a educação patri- monial é um direito garantido e está presente na grade cur- ricular das escolas públicas de todo o Brasil. É evidente que seus modos de fazer variam e se modificam, nem sempre ocorrendo da maneira ideal, mas é um grande passo em direção à consciência cul- tural desejada. É direito do cidadão ter sua cultura preservada e o patrimônio histórico e artístico é a maneira com a qual esse direito pode ser atingido. Lutar por esse direito é sem dúvidas estar também lutando pela manutenção dos modos de se viver e fazer presentes na sociedade. Para isso, se faz necessária a elabora- Figura 4.4 – Crianças em visita guiada pelo Setor de Ação Educativa da Fundação Cultural de Curitiba à Igreja da Ordem. Curitiba/PR Fonte: acervo do autor. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 70 – ção de leis de preservação, como o tombamento, apresentado no capítulo anterior. O autor Renato Dias explica que é importante registrar que, além das clássicas e conhecidas medi- das de tombamento e desapropriação, a nova ordem jurídico-cons- titucional prevê novas e múltiplas formas de proteção do Patrimô- nio Cultural, como os inventários, os registros e a vigilância, além de outras formas de acautelamento e preservação. (DIAS, 2010) É importante enquanto sociedade estarmos cientes dos nossos direitos ao patrimônio, afinal de contas, ele é nossa propriedade conjunta. A histó- ria, a arte e a cultura se mantêm pelos usos que damos a elas. 4.4 Apropriação cultural A cultura é, em tese, algo que se compartilha com o próximo, ela não tem barreiras, não há limites, isso porque não há formas de controlá-la. Seguindo este ideal, o que é e como ocorre a apropriação cultural? A cultura, mesmo que sem uma barreira, é a marca de um grupo, cada grupo tem seus modos de viver e fazer, apropriar-se das culturas alheias é algo bastante comum – nós não precisamos viver no Japão para comermos sushi. A apropriação cultural é, portanto, o uso de atributos da cultura alheia, é se apropriar de ritos, modos de viver, arquitetura, jeitos de vestir. A apropriação cultural se intensificou após a globalização mundial e o advento da internet; hoje, é simples e rápido conhecer outra cultura e encontrar nela referências para usar para si. Desse ponto de vista, a apropriação cultural é saudável e acontece de forma natural, todos os dias somos confrontados com culturas alheias e delas nos apropriamos assimilando o que nos convém, é uma caracterís- tica social do homem pós-moderno. Entretanto, nos últimos anos ocorreram polêmicas acerca deste tema, isso porque grupos marginalizados pela sociedade iniciaram um movi- mento de reivindicar sua cultura e acusar a apropriação cultural como nociva à manutenção de suas culturas. Mas por quê? Ao pensar sobre apropriação cultural, sempre surge a discussão de quem pode e de quem não pode fazer o uso de um determinado “objeto”; no – 71 – Patrimônio e Propriedade entanto, ao delimitar o tema apenas a essa questão se perde o real sentido por trás das reivindicações e do que de fato significa apropriação cultural. Quando se fala em apropriação cultural, é importante pensar na his- tória do grupo que está reclamando o direito sobre tal símbolo, como por exemplo, a população negra sobre o turbante, as guias e seus ritos reli- giosos. Os negros, ao chegarem no Brasil na condição de escravizados, tiveram sua religião, suas vestimentas e sua beleza negadas, tudo que era relacionado à cultura negra foi marginalizado por anos, portanto, o negro, para se inserir na sociedade a qual ele passou a fazer parte, renegou tudo em detrimento da aceitação, pois uma pessoa negra, ao fazer o uso do tur- bante, de dreads, da religiosidade africana, era mal vista dentro do meio social; contudo, uma pessoa branca, ao fazer o uso dessas mesmas vesti- mentas, penteados, e ter como expressão de fé o candomblé ou a umbanda, não sofria os mesmos tipos de sanções sociais. Com o surgimento dos movimentos sociais, o uso desses símbolos ganha o caráter de resistência, pois uma pessoa negra, ao usar um turbante, ao se reafirmar candomblecista ou umbandista com sua guia, reconhece a negritude como parte constituinte da cultura e rompe com a marginaliza- ção dessas expressões. Figura 4.5 – Mulher em manifestação Fonte: Shutterstock.com/Diego G Diaz. E é a partir deste ponto que se pode começar a discutir sobre apro- priação cultural, que é muito mais sobre o processo de reconhecimento, de reivindicação de uma cultura negada, do que quem pode ou não pode usar. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 72 – A apropriação cultural é sobre entender a importância que há sobre determinada roupa, penteado e expressão para certos grupos, e respeitar toda a historicidade que advém do uso, sendo de forma alguma uma proibi- ção, mas a compreensão da sua função no meio de todo esse processo. Por- tanto, quando um grupo reclama uma expressão cultural como sua, é preciso saber a história e os motivos que levam esse grupo a assumir essa posição. Síntese Neste capítulo, foi apresentado o conceito de posse e como o direito à propriedade influencia o patrimônio individual e cultural na formação do indivíduo contemporâneo. Também foram analisadas as formas de ver e respeitar a cultura alheia, já que as trocas culturais são comuns para as sociedades. Atividades 1. Quais são as necessidades que o Patrimônio Cultural, enquanto bem preservado, deve suprir? 2. Qual a relação entre indivíduo pós-moderno e propriedade? 3. Qual o papel social da educação patrimonial? 4. O que é apropriação cultural e como ela ocorre? Dê sua opinião sobre o assunto. 5 Patrimônio, representação e identidade Nesse capítulo discutiremos conceitos pertinentes à seleção do Patrimônio Cultural, quem ele representa e de que forma isso ocorre dentro da sociedade.Também se refletirá sobre os arca- bouços da identidade inseridos no contexto patrimonial e como a relação do indivíduo e sociedade se dá por meio da identidade criada ou resultante de fenômenos sociais que ocorrem de forma natural. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 74 – 5.1 Representatividade e Patrimônio Cultural nas obras de Durkhein e Moscovici A representatividade é, de forma bastante geral, o ato de alguém ou algo exprimir características de um grupo, um coletivo. Por exemplo, quando elegemos um presidente, nós, por meio do voto, damos direito a um único individuo para representar nossas ideias e perceber nossas necessidades conjuntas, ele é um representante. Esse representante tem como objetivo falar em nome do conjunto pelo qual ele é designado a representar, portanto, se falarmos em Patrimônio Cultural, um represen- tante é um objeto, imóvel, ação, modo de viver, entre outros, que sintetize a cultura do povo ao qual ele foi destinado. Um bom exemplo para com- preendermos isso é a Umbanda, Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro, desde 2016, isso graças ao seu aspecto simbólico da cultura afro-brasi- leira, sua história e luta pela liberdade de expressar livremente crenças, seu tombamento é um ato em favor da liberdade religiosa. Figura 5.1 – Umbanda Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro Fonte: Shuttestock.com/Ciceia Almeida. O famoso sociólogo e antropólogo francês, Émile Durkhein, criou o conceito de “Representação Coletiva”. Para ele fenômenos como a religião e até mesmo o idioma, são ações de um coletivo, esse coletivo social é responsável por criar convenções, como a contagem do tempo, por exemplo. Para explicar isso, ele define que indivíduo e sociedade não – 75 – Patrimônio, representação e identidade são a mesma coisa, mas é importante compreender que ambos se comple- mentam. A sociedade é formada através dos indivíduos e ao mesmo tempo podemos perceber com exemplos simples que os indivíduos também são uma construção da sociedade a qual pertencem, o ideal de beleza e sua relação direta com o meio social é um exemplo. Marcos Alexandre, em seu artigo intitulado Representação Social, uma genealogia do conceito, diz que: Para o sociólogo, a individualidade humana se constitui a partir da sociedade. A “representação coletiva”, segundo Durkheim22, não se reduz à soma das representações dos indivíduos que compõem a sociedade, mas são, mais do que isso, um novo conhecimento é formado, que supera a soma dos indivíduos e favorece uma recria- ção do coletivo. Uma função primordial da “representação cole- tiva” seria a transmissão da herança coletiva dos antepassados, que acrescentariam às experiências individuais tudo que a sociedade acumulou de sabedoria e ciência ao passar dos anos. (ALEXAN- DRE, 2004, p. 131). É graças a esse papel de interação entre indivíduo e sociedade que podemos perceber a grande variedade de movimentos culturais coletivos. Pois a junção de grupos variados de indivíduos vai consolidar uma grande variedade de demonstrações culturais. E é neste sentido que o Patrimônio Cultural se consolida. Cada grupo vai eleger um dos seus fenômenos cul- turais para lhe representar, esse fenômeno escolhido geralmente carrega consigo a história e a síntese cultural do grupo ao qual pertence. A singu- laridade destas representações é também um ponto importante. Outro pensador que discute a representatividade é o psicólogo social Serge Moscovici, o intelectual cria a “Teoria da Representação Social”, sua teoria é uma das formas de explicar como o indivíduo se relaciona com a sociedade e como é influenciado por ela. Para ele, a representação social é a forma de comunicação entre os indivíduos dentro da sociedade, graças a isso não é estável, via de regra, ela se transforma conforme a lin- guagem social também se transforma. Moscovici afirma que a representação social é a forma como res- significamos nossos aprendizados de mundo. Tudo que aprendemos indiretamente passa a ser um conhecimento direto ao longo do tempo, por exemplo, quando somos crianças falamos tudo que pensamos, tudo Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 76 – que queremos. De forma indireta, a sociedade nos ensina a filtrar nos- sos pensamentos e falas, nos tornamos polidos e transformamos isso em um conhecimento direto, é como a famosa história da roupa nova do rei, ninguém dirá que o rei está nu até que uma criança o diga, ela não conhece as regras sociais, ainda passará pelo processo de conhe- cimento indireto. Figura 5.2 – Conto A roupa nova do Rei Fonte: Shutterstock.com/mark stay. Para Moscovici, as representações sociais não podem ser tomadas como verdade científica, mas elas são fragmentos da verdade, são como as lendas, não são a história em si, mas são pedaços dela, uma espécie de cola, para que tudo que está faltando faça algum sentido. A representa- ção social transforma o conhecimento cientifico em algo democrático e entendível aos cidadãos comuns, é o que chamamos de senso comum. Ele, segundo Moscovici, é importante para a compreensão clara e objetiva do mundo, de forma homogênea pela população geral. Moscovici era um seguidor de Durkheim, contudo, em certo momento, seus pensamentos quanto à representação social entram em choque. Para Durkheim, a representação da sociedade se dá como uma maneira de com- preender os indivíduos coletivamente, observando a cultura e os modos de viver de uma sociedade pode-se compreendê-la. Já Moscovici objetivou seus estudos em diferenciar os mais heterogêneos modos de pensar coleti- vamente dentro da sociedade do século XX. – 77 – Patrimônio, representação e identidade 5.1.1 Representatividades como forma de conhecimento A representatividade é um fator de grande importância na sociedade, é uma das maneiras com as quais é possível a manutenção da mesma. Ela é um elo entre a cultura e a população. O patrimônio e a representatividade são exemplos de conhecimento indireto se tornando direto, pois toda a cultura que antes poderia passar sem ser percebida, agora não só é perce- bida, como também é valorizada e preservada. O patrimônio é um atributo da cultura e consecutivamente da repre- sentatividade, é por esse motivo que ele deve existir para todos os grupos que formam a sociedade, não pode ser um mérito ou privilégio de um grupo, ele nasceu para representar a sociedade como um todo, seja de forma particular ou coletiva. Figura 5.3 – Mistura cultural Fonte: Shutterstock.com/Cienpies Design. 5.2 Patrimônio e seletividade segundo a UNESCO O Patrimônio é o bem que recebemos, um legado deixado pelo pas- sado para o usufruto do presente e a conservação para o futuro. Patrimônio Cultural é o fragmento da nossa cultura, um pedaço da história e da arte do nosso lugar, lugar ao qual nós pertencemos, ele nos representa. Mas como acontece a seleção para definir o que é e o que não é Patrimônio Cultural, o que deve ou não ser preservado? A UNESCO determinou regras para a definição de Patrimônio Cul- tural, para que ele seja classificado de maneira justa e igualitária, em Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 78 – que todas as pessoas tenham oportunidades iguais de representação. Ao mesmo tempo devem ser manifestações realmente importantes para a coletividade. Vejamos alguns exemplos: 5.2.1 Bens culturais Segundo a UNESCO, os bens culturais devem contemplar seis aspec- tos importantes para serem considerados Patrimônio Cultural, sendo eles: I. representar uma obra-prima do gênio criativo humano; II. ser a manifestação de um intercâmbio considerável de valores humanos durante um determinado período ou em uma área cultural específica, no desenvolvimento da arqui- tetura, das artes monumentais, de planejamento urbano ou de paisagismo; III. aportar um testemunho único ou excepcional deuma tra- dição cultural ou de uma civilização ainda viva ou que tenha desaparecido; IV. ser um exemplo excepcional de um tipo de edifício ou de conjunto arquitetônico ou tecnológico, ou de paisagem que ilustre uma ou várias etapas significativas da história da humanidade; V. constituir um exemplo excepcional de habitat ou estabele- cimento humano tradicional ou do uso da terra, que seja representativo de uma cultura ou de culturas, especialmente as que tenham se tornado vulneráveis por efeitos de mudan- ças irreversíveis; VI. estar associados diretamente ou tangivelmente a aconteci- mentos ou tradições vivas, com ideias ou crenças, ou com obras artísticas ou literárias de significado universal excep- cional (o Comitê considera que este critério não deve justi- ficar a inscrição na lista, salvo em circunstâncias excepcio- nais e na aplicação conjunta com outros critérios culturais ou naturais). – 79 – Patrimônio, representação e identidade 5.2.2 Bens naturais Enquanto os bens culturais são regidos por seis regras de seletivi- dade, os bens naturais se atribuem de apenas quatro, sendo elas: I. ser exemplos excepcionais representativos dos diferentes períodos da história da Terra, incluindo o registro da evo- lução, dos processos geológicos significativos em curso, do desenvolvimento das formas terrestres ou de elementos geomórficos e fisiográficos significativos; II. ser exemplos excepcionais que representem processos ecoló- gicos e biológicos significativos para a evolução e o desen- volvimento de ecossistemas terrestres, costeiros, marítimos e de água doce e de comunidades de plantas e animais; III. conter fenômenos naturais extraordinários ou áreas de uma beleza natural e uma importância estética excepcional; IV. conter os habitats naturais mais importantes e mais repre- sentativos para a conservação in situ da diversidade bio- lógica, incluindo aqueles que abrigam espécies ameaçadas que possuam um valor universal excepcional do ponto de vista da ciência ou da conservação. Outro ponto de bastante importância para sua seleção é a integridade a qual este está submetido, assim como sua preservação, quanto mais pre- servado e organizado, mais fácil de fazer parte da lista de Patrimônios Culturais pela UNESCO. A UNESCO também é clara quanto à preservação dos bens tombados pós-tombamento, isso porque esse Patrimônio Cultural fica sob responsa- bilidade do país ao qual pertence, podendo assim perder o privilégio do tombamento mundial. É importante que os bens tombados sejam constan- temente visitados pelos órgãos responsáveis; é neste sentido que o ges- tor, figura já discutida em capítulos anteriores, se torna importante para a salvaguarda do Patrimônio. A UNESCO criou uma categoria para sítios em perigo, para que desta maneira se atente para suas subjetividades e ele seja tratado de maneira especial, é o caso de Patrimônios Naturais aos quais se proíbe a visita. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 80 – É importante salientar que estas são as regras definidas pela UNESCO, todos os órgãos em cada país, Estados ou regiões delimitam regras ao seu modo; por exemplo, o IPHAN se atribui de muitas destas regras para defi- nir seu Patrimônio Cultural, mas ele ainda salienta outras, que estão pre- sentes na Constituição de 1988. Contudo, estas regras são válidas apenas para o território nacional, diferente da UNESCO, que é composta por países do mundo todo. Sua cidade e Estado também podem ter regras especificas para a seleção do Patrimônio Cultural, pesquise mais sobre isto no site do IPHAN (portal.iphan.gov.br) ou na Secretaria de Cultura do seu município. 5.2.3 Seletividade e as questões de Patrimônio Cultural Discutimos no capítulo II deste livro um breve histórico do Patri- mônio Cultural no Brasil, lá foram citadas algumas figuras responsáveis pela criação de órgãos de preservação e seleção patrimonial, falamos de Mario de Andrade e sua ideia para o tombamento de bens ima- teriais. Essa ideia surge para que a seleção dos patrimônios fosse mais democrática. Analisemos o seguinte exemplo: uma família, constitu- ída por pai, mãe e cinco filhos, não possui casa própria e de ano em ano muda-se de bairro, algu- mas vezes troca de cidade. Ela faz parte da sociedade, evidente- mente, mas não se relaciona com bens materiais como uma casa, não deixará esse legado. Con- tudo, essa mesma família tem por tradição, em todo natal, Figura 5.4 – Mario de Andrade Fonte: Michelle Rizzo/Wikimedia. – 81 – Patrimônio, representação e identidade fazer um pudim de leite, receita que está entre eles por muitas gerações, é o patrimônio deixado para os filhos, é a herança. É um bem imaterial para esta família, para este grupo de indivíduos. Para que este pudim fosse considerado um bem imaterial pelas auto- ridades, ele deveria representar mais do que a tradição de uma família. Deveria fazer parte da tradição de uma sociedade, pertencer à cultura ali- mentar deste grupo social mais amplo. Figura 5.5 – Acarajé – prato típico da Bahia Fonte: Shuttesrtock.com/Paulo Vilela. Assim se dá a seleção dos Patrimônios Imateriais, visando valorizar e preservar a cultura de um determinado grupo, ela também está sujeita a regras de seleção, como, por exemplo, seu uso no cotidiano do grupo ao qual pertence. Porém, sua principal função é selecionar bens que permi- tam à comunidade se sentir representada e valorizada. 5.3 Patrimônio Cultural e identidade Identidade pode ser definida de diversas maneiras, quando pensamos no termo lembramo-nos das singularidades enquanto indivíduos, que nos diferenciam dos outros, cada um de nós é formado por uma identidade, uma forma de nos identificar, seja um nome, um número. Contudo, se ana- lisarmos de forma mais cautelosa, poderemos perceber que a identidade e a separação dos indivíduos por ela só fazem sentido na existência da Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 82 – sociedade. Portanto, identidade é o elo que liga o indivíduo à sociedade. O indivíduo pós-moderno ressignificou a identidade, colocou sobre ela novos valores. Segundo Bauman, poucos de nós, se é que alguém, são capazes de evitar a passa- gem por mais de uma “comunidade de idéias e princípios”, sejam genuínas ou supostas, bem-integradas ou efêmeras, de modo que a maioria tem problemas em resolver (...) a questão de la mêmete (a consistência e continuidade de nossa identidade com o passar do tempo). Poucos de nós, se é que alguém, são expostos a apenas uma “comunidade de idéias e princípios” de cada vez, de modo que a maioria tem problemas semelhantes com a questão da l’ipséite (a coerência daquilo que nos distingue como pessoas, o que quer que seja). (apud SOUZA, 2011, p. 3). A identidade individual é quem dá vida à sociedade. Juntas, essas identidades formam um corpo, uma identidade única, que se mantém refém da cultura, essa identidade está no povo, mas mais do que isso, ela forma o povo. Em muitos momentos da história, o indivíduo foi manipulado a pos- suir uma identidade social criada, vinda do topo da hierarquia social e atin- gindo as camadas mais populares. Por exemplo, nos anos 1920, o Estado do Paraná passou por um projeto de criação de identidade regional. Movi- mentos como o hoje chamado “Paranismo” surgiram e ganharam forma, ideias de unidade eram lançadas ao povo por meio da arte e da ciência. Já nos anos 1930, o Brasil passou por um processo de nacionalização, a ideia era criar uma “identidade nacional” onde as pessoas se reconheces- sem e se identificassem no seu país, amando-o e lutando por ele. Os atribu- tos para a formação desta identidade nacional eram muito parecidos com os usados pelos movimentos regionalistas, vindo estes atributos, também, da elite governamental para o povo. Com a crescente modernização mundiale o acesso à cultura e à tec- nologia na palma da mão, a dificuldade em se promover uma identidade única se tornou uma realidade. As pessoas passaram a buscar formas de se reconhecer em mundos muito diferentes. Temos hoje uma sociedade com identidades fragmentadas. Para Bauman, a identidade hoje é liquida. Mas o que Patrimônio Cultural e identidade têm a ver um com o outro? Segundo o autor Edson Vander de Souza, – 83 – Patrimônio, representação e identidade ligar os dois temas, a nosso ver, requer pensar com Benedetto Vec- chi, que diz que a identidade é uma “convenção socialmente neces- sária” (apud BAUMAN, 2005, p.13) e que, no processo de seleção e consagração do patrimônio cultural, convencionou-se uma dada identidade do povo brasileiro. (SOUZA, 2011, p.07). O Patrimônio Cultural, principalmente aquele regido pelas leis ante- riores à Constituição de 1988, visava reforçar por meio dos heróis e de lugares heroicos, uma identidade nacional por meio desta “convenção social”. Nos dias de hoje e com a já discutida democratização ao acesso da seleção dos bens tombados, esse perfil sofreu modificações. Destarte, uma parcela da população brasileira não se reconhece no patrimônio cultural consagrado, ou melhor, como não partici- pou de sua elaboração e, ainda, como não domina os códigos de sua interpretação, não se reconhece nele. Mesmo assim, se por um lado o patrimônio cultural funcionou nesse momento como uma maneira de dar forma à nação, o que obviamente não se fez só com isso, pois outras ações ocorriam simultaneamente no mesmo sentido (veja-se, por exemplo, a atuação do IBGE na definição da composição do povo brasileiro), por outro lado negligenciava as expressões populares, que ficaram alocadas sob a rubrica de fol- clore e aos cuidados dos folcloristas. (SOUZA, 2011, p. 8). O que Souza está nos dizendo é que mesmo que o Patrimônio Cultu- ral fosse visto com bons olhos, ele deixava de lado a família e seu pudim de leite, não dava as mesmas oportunidades de selecionar os bens tomba- dos e, desta maneira, automaticamente, acabava por forçar uma identidade única para todas as pessoas ao mesmo tempo, o que é impossível, princi- palmente no século XXI, onde as sociedades se misturam e se confundem. Caso clássico desse último caso é a posição do Japão, que ques- tionava a concepção ocidental de patrimônio que não conseguia dar conta das especificidades da cultura japonesa; se no ocidente preserva-se uma dada edificação, entre os japoneses o que se pre- tende preservar é a técnica de construção de uma habitação, por exemplo, e, com isso, os prédios são demolidos e reconstruídos como forma de não perder este “saber fazer” (SOUZA, 2011, p. 9). Contudo, é importante lembrar que mesmo com essa característica pós-moderna de identidade, ela ainda é importante para a reinvindicação de direitos sociais, ela é uma forma de militância e política. É o caso dos gru- pos indígenas e sua exaustiva luta por terras, ela se faz possível pela iden- Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 84 – tidade que esse grupo representa e, mesmo que não vivam como os grupos indígenas em 1500, seus direitos ainda devem ser preservados, pois essa identidade é carregada por um forte contexto histórico de morte e perda de direitos, em muitos momentos a própria identidade esteve em risco. Figura 5.6 – Indígenas reivindicando direito a terras Fonte: Shutterstock.com/Joa Souza. 5.3.1 Identidade e sociedade Pudemos observar nos últimos cinco anos um crescente avanço pelo reconhecimento de identidades, tanto de grupos identificados como mino- rias (mulheres, LGBTs, negros), como também um avanço de movimentos indenitários nacionalistas e regionalistas, discutidos anteriormente. Esse movimento pela busca por identidade é sem dúvida um dos fenômenos sociais em maior evidência no país nos últimos anos, e devemos nos cons- cientizar da importância de discuti-los de maneira critica. Um conceito importante de identidade é trazido pelo autor Luciano dos Santos, que diz o seguinte: Concentrando as atenções no processo de construção das identida- des vemos que o sentimento de pertencimento a um povo, a uma cultura, nacionalidade, região, religião, grupo, ou a outra forma de identidade cultural, quase sempre, significou o não pertencer a outro. Na verdade, a identidade cultural se faz, indubitavelmente, na alteridade. Na perspectiva da ideia de alteridade (ou outridade) – 85 – Patrimônio, representação e identidade todo ser social interage e é interdependente de outros seres sociais. Não são poucos os teóricos que defendem esta perspectiva. (SAN- TOS, 2011, p. 145). Ou seja, a identidade é um fenômeno social, que elege o Patrimônio Cultural e é formada pelas suas diferenças e igualdades. Ela é resultado das diferentes formas de ver e viver a sociedade. A identidade faz parte de nós e é componente insubstituível da sociedade, seja uma identidade construída pelas minorias, seja uma identidade construída pela mais alta escala dos níveis sociais. Michael Pollak discute que o indivíduo possui uma identidade única, contudo, ninguém pode construir uma imagem própria e esperar que os outros não a transformem. A identidade individual depende da sociedade. Por exemplo, quando nos olhamos no espelho, vemos nossa autoimagem, mas por mais idêntica a nós que ela esteja, ela está ao con- trário, sofreu alterações. É isso que Pollak defende: por mais que nós tenhamos construído uma autoimagem, ela ainda é dependente da sociedade, pois é a socie- dade quem a verá e essa identidade é submissa aos olhares sociais. Para o autor, a identidade é um negócio, contratos que fazemos socialmente, dessa maneira são ou não aceitos. (POLLAK, 1992, p. 202). Conclui-se então que o Patrimônio Cultural é definido, atualmente, por uma variedade de identidades sociais, ele está sob o comando destas identidades reivindicarem ou não seu pertencimento. Síntese Nesse capítulo discutimos os conceitos de representatividade social discutidos pelos intelectuais Durkheim e Moscovici, diagnosticando pen- samentos semelhantes e aspectos diferentes de pensamento. Foi um capítulo destinado à discussão referente às questões sociais dentro do Patrimônio Cultural, a importância do meio social para a sele- ção e manutenção do mesmo e a forma de pensar essa sociedade e sua identidade no pensamento de Pollak, por exemplo. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 86 – Atividades 1. Quanto ao tema representação social, diferencie o pensamento de Durkheim e de Moscovici: 2. Cite três normas da UNESCO para a seleção de um Patrimônio Cultural e dê sua opinião acerca do assunto: 3. O que é identidade segundo o texto lido? Dê sua opinião quanto ao tema: 4. Qual é a teoria de identidade trazida pelo historiador Michael Pollak e sua relação com a sociedade? 6 Patrimônio Cultural no mundo Nos capítulos anteriores pudemos discorrer sobre as ques- tões do Patrimônio Cultural de forma ampla, sua relação com a sociedade e com os indivíduos. Nesse capítulo, veremos quando um patrimônio é classificado como material ou imaterial e natu- ral, as suas diferenças e semelhanças e ainda alguns exemplos de patrimônios nacionais e mundiais. Além disso, veremos a Histó- ria Ambiental como um campo de pesquisa funcional para a rea- lização de investigações ambientais e as interferências humanas no ecossistema. 6.1 Patrimônios Culturais Imateriais e Materiais Para entender o que é o Patrimônio Cultural é preciso enten- der a cultura do material e imaterial. No livro intitulado O que é Patrimônio Cultural Imaterial, de Sandra C. A. Pelegrini e Paulo A. Funari, a diversidade da cultura se divide para construir o material e o imaterial. Como já dito em capítulos anteriores, o patrimônio se torna de todos, de um povo, é constituídopela única linguagem, território e cultura. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 88 – O Patrimônio Cultural se forma por meio da cultura material e ima- terial, sendo assim, a divergência está no que é concreto e o que não é. De acordo com Daniela Diana (2018), licenciada em Letras, o que designa a cultura a ser material ou imaterial são os elementos materiais que estão associados à cultura material e os elementos abstratos associados à cul- tura imaterial. Figura 6.1 – Universidade Federal do Paraná, Curitiba Fonte: Shutterstock.com/Kleyton Kamogawa. Daniela Diana vai dizer que há a existência de elementos para a defi- nição do objeto material: Elementos concretos de uma sociedade estão associados à cultura material ou o patrimônio cultural material. Esses elementos foram sendo criados ao longo do tempo e, portanto, representam a histó- ria de determinado povo. Diversas edificações, objetos artísticos e cotidianos, fazem parte da cultura material. (DIANA, 2018, [S.p.]) 6.2 A cultura material A relação do homem com o objeto e sua criação se desenvolveu e continua a se desenvolver de forma intensa desde os tempos primitivos, como forma de memorizar o que se considera um passo importante ou um evento que seja relevante entre os povos. O uso da cultura material se faz presente no conjunto que envolve a memória e como usar, por exemplo, as – 89 – Patrimônio Cultural no mundo pinturas rupestres que estão nas paredes das cavernas, consideradas e no caso do historiador, seriam um meio de investigar os acontecimentos que ali foram memorizados. Contudo, é importante haver um estudo atencioso ao material envol- vido na cultura material, porque o mesmo envolve a cultura, o que o torna um Patrimônio. Segundo o especialista em liderança e comunicação Ian C. Woodward (2007), há defensores do estudo da cultura material que obtêm interpretação do objeto material como um símbolo do esforço humano que está envolvido na sua produção, bem como a representatividade da capacidade de exploração do homem. Os objetos materiais possuem uma importância cultural bastante sig- nificante. Por exemplo, o que é material de algo imaterial é a sua concentri- cidade. O objeto material é concreto, dessa forma, acontece a classificação de um Patrimônio Material, claro que não somente por ser algo concreto, mas pelo seu valor cultural e histórico. Em outras palavras, não basta ser algo concreto para ser Patrimônio Material, ele deve ter um valor, um sig- nificado a mais para aquela sociedade. Como Patrimônio Material Cultural temos lugares (cidades, estrutu- ras, paisagens etc.) que foram considerados pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Patrimô- nios Mundiais Culturais, por terem grande importância histórica e cultural no local, como Taj Mahal na Índia, Grand Canyon nos Estados Unidos, Ilha de Páscoa no Chile etc. No Brasil, temos a cidade do Rio de Janeiro, o Pantanal, as ruínas de São Miguel das missões e as Cataratas do Iguaçu, que estão na lista dos Patrimônios Mundiais. A cultura material se envolve por meio dos valores depositados e de grande significado histórico e cultural. O prédio histórico da Universi- dade Federal do Paraná, localizado na praça Santos Andrade, no Centro de Curitiba, não recebe a classificação de Patrimônio Material Cultural por sua localidade (a praça ou o centro da cidade), mas pela sua história. A universidade atualmente tem 105 anos de existência, sendo também a primeira universidade do país. Segundo o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o Patrimônio Material é constituído por um conjunto de bens Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 90 – culturais que são classificados e relacionados pela sua natureza de origem; pelo seu valor arqueológico, paisagístico e etnográfico; pelas belas artes; artes aplicadas; e seu valor histórico. Os principais Patrimônios Mundiais Culturais no Brasil são: a Cidade Histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais, o Centro Histórico de Olinda, em Pernambuco, as Missões jesuíticas, em Guarani, as Ruínas de São Miguel das Missões, no Rio Grande de Sul e na Argentina, o Centro His- tórico de Salvador, na Bahia, o Santuário do Senhor Bom Jesus de Mato- sinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais, o Plano Piloto de Bra- sília, no Distrito Federal, o Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí, o Centro Histórico de São Luís do Maranhão, o Centro Histórico da cidade de Diamantina, em Minas Gerais, o Centro Histórico da cidade de Goiás, a Praça de São Francisco, na cidade de São Cristóvão, no Sergipe, Rio de Janeiro, paisagens cariocas entre a monta- nha e o mar, Conjunto Moderno da Pampulha, Sítio Arqueológico Cais do Valongo, na cidade do Rio de Janeiro. Alguns dos Patrimônios Mundiais Culturais espalhados pelo mundo são: sítios com fósseis de hominídeos de Sterkfontein, Swartkrans, Kromdraai e arredores, Parque da zona húmida de Santa Lúcia, Ilha Robben, Parque uKhahlamba Drakensberg, Paisagem Cultural de Mapun- gubwe, Catedral de Aachen, Catedral de Speyer, Residência de Wurzburg com os jardins da Corte e a Praça da Residência, Igreja de Peregrinação de Wies, Castelos de Augustusburg e de Falkenlust em Brühl, Centro His- tórico da cidade de Salzburgo, Palácio e Jardins de Schönbrunn, Paisagem Cultural de Hallstatt-Dachstein, Salzkammergut, Via Férrea de Semme- ring, Centro Histórico de Roma, Propriedades da Santa Sé e Basílica de São Paulo Extramuros (1980, 1990) (sítio transfronteiriço com a Itália), Cidade do Vaticano. 6.3 Patrimônio Natural Os Patrimônios Naturais são materiais, mas de forma natural, como por exemplo, paisagens, montanhas, rios, lagos, cachoeiras, reservas etc. Contudo, não é qualquer paisagem ou lugar que é considerado Patrimônio Natural, há também a exigência dos valores locais. – 91 – Patrimônio Cultural no mundo Assim como as outras exigências de Patrimônio Cultural Material e Imaterial, o Patrimônio Natural deve envolver uma linguagem e relação com a humanidade, por isso, podemos exemplificar a Serra do Mar no Paraná, uma longa extensão de conjuntos montanhosos que se estende de São Paulo até Santa Catarina, atualmente é um patrimônio tombado do Paraná. Antes que isso acontecesse, houve diversas alterações humanas, com a construção de trilhas tropeiras, caminhos que ligam o planalto ao litoral, a construção da estrada de ferro e as rodovias. Houve uma neces- sidade de se preservar a biodiversidade e o ecossistema já alterado como forma de salvar o que ainda permanecia natural. Figura 6.2 – Grand Canyon, EUA Fonte: Shutterstock.com/Galyna Andrushko. Segundo a Unesco, para que uma área natural seja tom- bada como Patrimônio Natural é necessário que a mesma con- tenha importâncias culturais, históricas, geológicas e bioló- gicas, e que contenha valores científicos e estéticos. No Bra- sil, temos como Patrimônios Naturais: Cataratas do Iguaçu, Fernando de Noronha, Com- plexo da Amazônia Central, Figura 6.3 – Serra do Mar, Paraná. Patrimônio Natural Fonte: Shutterstock.com/Pedro Moraes. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 92 – Pantanal, Chapada dos Veadeiros (área protegida do Cerrado) e Parque Nacional do Monte Pascoal, na Bahia. 6.3.1 A História Ambiental A importância desse campo de pesquisa se fez mais popular entre os estudos sobre a naturalidade, biodiversidade e o ecossistema do ambiente natural. Esse campo de pesquisa se estruturou na década de 1970. A História Ambiental não trabalha sozinha, mas busca auxílio em outras áreas, como a biologia, a antropologia, a geografia etc. Essas ciên- cias buscam entender o que pode, será ou já foi alterado. Dessa forma, a patrimonialização de bens sociais é uma forma de proteger e guardar. Exemplos já citadossão Patrimônios Naturais, como mais exemplos, podemos lembrar dos Lagos de Plitvice, na Croácia e da Ilha de Páscoa, no Chile. Segundo José Augusto Pádua, em seu artigo As bases teóricas da história ambiental: O avanço da chamada globalização, com o crescimento qualitativo e quantitativo da produção científico-tecnológica e da velocidade dos meios de comunicação, catalisou uma explosão de temas da vida e do ambiente na agenda política. A discussão ambiental se tornou ao mesmo tempo criadora e criatura do processo de globa- lização. A própria imagem da globalidade planetária, em grande parte, é uma construção simbólica desse campo cultural complexo. (PÁDUA, 2010, p. 82) A História Ambiental engloba a investigação do meio ambiente e das interações humanas com o mesmo. A partir daí, vemos a importância do estudo não somente cultural, mas também ambiental para titular uma pai- sagem, um recanto, parques e bosques como Patrimônios Naturais. 6.3.2 A cultura e o Patrimônio Imaterial O Patrimônio Cultural imaterial é formado pelas expressões e tradi- ções de um determinado grupo, e comunidades/grupos de todas as partes do mundo que recebem e mantêm características de seus ancestrais e as ensinam para seus descendentes. – 93 – Patrimônio Cultural no mundo Apesar de tentar manter um senso de identidade e continuidade, este patrimônio é particularmente vulnerável uma vez que está em cons- tante mutação e multiplicação de seus portadores. Por esta razão, a comunidade internacional adotou a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial em 2003. (UNESCO, 2017, p. 1) É considerado Patrimônio Cultural Imaterial o que não é concreto; sendo assim, é o contrário do Patrimônio Cultural Material. Geralmente essa classificação de Patrimônio Imaterial é dada a valores culturais locais, como por exemplo as expressões, tradições, músicas, artes plásticas, dan- ças, religiosidade, folclore etc. Figura 6.4 – Festa Junina. Patrimônio Imaterial Brasileiro Fonte: Shutterstock.com/Bricolage. As sociedades ou comuni- dades específicas nas quais os conhecimentos ou informações estão sempre sofrendo altera- ções e se multiplicando, nos mostram que os Patrimônios Imateriais estão sendo ameaça- dos. Segundo a UNESCO, no Brasil são reconhecidos como Patrimônios Imateriais Cultu- rais o frevo, o samba, o fan- dango etc. Fonte: Shutterstock.com/Filipe Frazao. Figura 6.5 – Capoeira Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 94 – No Sul do Brasil, tradições de danças e músicas enriquecem a cultura imaterial. O fandango, dança que se originou na Europa e atualmente faz parte do folclore brasileiro, era mais comum no Nordeste, mas atualmente está espalhada por várias regiões do Brasil; e também a festa que traz a imagem do caipira sertanejo e comidas típicas da época, é comemorada no mês de junho. Figura 6.6 – Budismo Fonte: Shutterstock.com/RENATOK. Como já mencionado, os Patrimônios Imateriais também são a religio- sidade. Por exemplo, budismo é um Patrimônio Mundial Cultural Imaterial. Para que haja conhecimentos e preservação dos patrimônios, sejam materiais ou imateriais culturais, existem órgãos e entidades responsá- veis por cuidar, comunicar e ajudar esses patrimônios. Como já citado, a Unesco oferece informações sobre quais atualmente são considera- dos os Patrimônios Mundiais, e também informações e alguns exemplos dos que são materiais e imateriais, sendo ela mesmo entidade responsá- vel pela proteção destes patrimônios. O IPHAN, que é uma instituição criada para preservar o Patrimônio Histórico e Cultural do Brasil, tam- bém oferece informações: Instituição criada para preservar o patrimônio cultural brasileiro, entendido este como sendo as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológi- cas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; e os conjuntos – 95 – Patrimônio Cultural no mundo urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueoló- gico, paleontológico, ecológico e científico. Há mais de 75 anos, o IPHAN vem realizando um trabalho permanente de identificação, documentação, proteção e promoção do patrimônio cultural brasi- leiro.” (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2013) O Patrimônio Cultural é uma forma de preservar a memória; por meio dos patrimônios, a nação recebe suporte de investigação histórica e cultural. Dessa forma, o significado dado a esse objeto material e aos classificados como imateriais, é de extrema importância para os valores do povo que os mantêm. Atividades 1. De que forma podemos ajudar a preservar os Patrimônios Naturais? 2. Como posso me relacionar com os patrimônios, sejam materiais ou imateriais, sem agredir a sua natureza? 3. Qual a importância de se conhecer patrimônios e de se existir uma educação patrimonial? 4. O que é a história ambiental e como ela pode ser usada para investigar a relação humana com o ecossistema natural? 7 As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil A sociedade do século passado foi sem dúvida a sociedade das transformações, esteve envolvida nas duas grandes guerras, viu a morte, a fome e a pobreza, abraçou e expulsou os imigrantes e subjugou as raças, mas mesmo que o século XX seja marcado por grandes desastres sociais, ele também é o pai das políticas de globalização, questão social que vem de encontro com políticas cada vez mais pautadas na preservação e valorização dos Patrimônios Culturais por quase o mundo todo. É importante relembrar aqui os estududos e discussões presentes no capítulo 3 deste livro quanto ao histórico do Patrimônio Cultural no Brasil. Nesse capítulo, conheceremos um pouco mais quanto às questões de políticas públicas para a proteção dos Patrimônios Culturais no Brasil. Também analisaremos algumas das mais proeminentes políticas vigentes na atualidade e que refletem em grande impacto na sociedade contemporânea. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 98 – 7.1 Marcos históricos das políticas públicas de valorização do Patrimônio Cultural Brasileiro As políticas públicas no Brasil nascem oficialmente dos anos 70. Seus primeiros passos se dão em Minas Gerais; elas marcam o momento em que se deixa de congelar o passado, de deixar o passado como algo imaculado e se passa a valorizá-lo de outra maneira, compreendendo que este é um aspecto cultural e que está em constante movimento; mesmo que pareça sempre estagnado, a verdade é que ele muda, se transforma, e a sociedade é o agente desta mudança. Contudo, muitos intelectuais defendem que as políticas de preservação nasceram muito antes de o Bra- sil ser independente, segundo o ensaio elaborado por Michelon e colabo- radores (2012): A proteção ao patrimônio cultural brasileiro, antes da criação de uma entidade no âmbito federal deu-se pontualmente através de ações e leis isoladas, influenciadas mais tarde por experiências internacionais, principalmente portuguesas. Sendo colônia de Portugal, a primeira proteção legal ao acervo de arte antiga e aos monumentos existentes no território brasileiro foi introduzida pelo direito português, de modo pioneiro no cenário jurídico mundial. Essa proteção ocorreu por meio de alvará, em 1721, onde o Rei Dom João V decretou, sobre os monumentos antigos que existiam ou que viriam a ser descobertos durante o reinado, que não se “des- faça ou destrua em todo, nem em parte, qualquer edifício que mos- tre ser daqueles tempos” sob domínio dos fenícios, gregos, penos, [19] romanos, godos e árabes. (MICHELON, 2012. p. 18) Ou seja, não é atual a ideia de preservação e conservação do passado, contudo, essa ideia toma forma mais eficiente com as iniciativas de Minas Gerais, se tornando leis, e essas leis estãopresentes até hoje no cenário nacional, por meio das medidas tomadas desde a criação dos órgãos desti- nados a proteger os bens nacionais. Entretanto, é importante compreender que é o estado de Minas Gerais o pioneiro nas medidas de preservação estadual, foco da discussão deste capítulo. Em 1971, Minas Gerais cria o Instituto Estadual do Patrimônio His- tórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG), por meio da Lei Estadual n. 5.775. Seu principal objetivo era proteger os bens materiais, tanto públi- cos quanto privados, do estado. Também surge com a dinâmica de auxi- – 99 – As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil liar o SPHAN, atual IPHAN, com políticas de proteção do patrimônio e também possibilitar que bens invisíveis para a Nação, porém ainda muito importantes para Minas Gerais, e a cultura local fossem valorizados por meio da política estadual. A reforma da constituição elaborada no ano de 1988 veio para somar às conquistas culturais, isso porque a nova e moderna Constituição ela- borava medidas da mais vasta especialidade para os mais diversos tipos de Patrimônios Culturais. O Brasil avançava cada dia mais para que o Patrimônio Cultural fosse realmente levado a sério. As políticas públicas de valorização do património passaram a ser democráticas, dando acesso e visibilidade para a sociedade civil; além disso, muitas das iniciativas visa- vam a participação efetiva do povo, como veremos adiante nesse capítulo. Houve também uma abertura de autonomia para que os estados e municípios designassem quais eram os Patrimônios Culturais rele- vantes para a perpetuação da cultura local; isso faz com que grande parte das cidades do Brasil tenha políticas de manutenção e preserva- ção patrimoniais. Vejamos a seguir as principais iniciativas políticas em favorecimento da salvaguarda do Patrimônio Cultural no Brasil. 7.2 Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) A discussão referente ao Patrimônio Cultural no Brasil tem seu início no século XX, mais precisamente desde o ano de 1916, quando Alceu Amoroso Lima, famoso escritor brasileiro, compreende a necessidade de preservação da arquitetura barroca no Estado de Minas Gerais. Contudo, políticas públicas para a preservação do Patrimônio Nacional surgem anos depois e somente se consolidam de maneira a abarcar diversos tipos de Patrimônio Cultural após a Constituição de 1988. O primeiro órgão responsável pela preservação do patrimônio cul- tural no Brasil foi o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacio- nal (SPHAN), consolidado por meio da Lei n. 378, assinada pelo então Presidente do Brasil, Getúlio Vargas, no ano de 1937, e era vinculado ao Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 100 – Ministério da Educação e Saúde. Entretanto, o SPHAN era um órgão bas- tante restrito, poucos eram os Patrimônios Culturais que cumpriam as exi- gentes regras e padrões para a preservação; além disso, ele representava apenas os Patrimônios Culturais materiais e, em grande parte, era voltado aos patrimônios luso-brasileiros e barrocos, como vimos no capítulo 3 dessa obra. Comandado por Rodrigo Melo Franco de Andrade, o SPHAN teve uma fase heroica, constituído de uma política de exaltação da história nacional e a criação de uma ideologia de unidade da população brasileira. O Patrimônio Cultural tinha como compromisso trabalhar para a manuten- ção destas intenções. Os principais nomes desse período foram: Oscar Niemeyer, Luiz de Castro Faria, Sérgio Buarque de Holanda, Heloísa Alberto Torres, Vinícius de Morais, Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade, Renato Soeiro e Lúcio Costa. Também se dedicaram à instituição Lígia Martins Costa, Sílvio Vasconcelos, Augusto Carlos da Silva Teles, Alcides da Rocha Miranda, José de Sousa Reis, Edson Motta, Judith Martins, Paulo Thedim Barreto, Miran de Barros Latif, Luís Saia, Airton Carvalho e Edgar Jacinto da Silva, entre outros. (IPHAN, 2018). Em 1946, o SPHAN tem sua primeira alteração de nome e passa a se chamar DPHAN (Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O DPHAN esteve subordinado ao Ministério da Saúde e Educação até 1953, ano em que é criado o Ministério da Educação e Cultura (MEC). Houve uma mudança nas leis e o DPHAN passa a ser responsável por: I – a catalogação sistemática e a proteção dos arquivos estaduais, municipais, eclesiásticos e particulares, cujos acervos interessem à história nacional e à história da arte no Brasil; II – medidas que tenham por objetivo o enriquecimento do patrimônio histórico e artístico nacional; III – a proteção dos bens tombados na conformidade do Decreto-lei número 25, de 30 de novembro de 1937 e, bem assim, a fiscalização sobre os mesmos, extensiva ao comércio de antiguidades e de obras de arte tradicional do país, para os fins estabelecidos no citado decreto-lei; IV – a coordenação e a orientação das atividades dos museus federais que lhe ficam subordinados, prestando assistência técnica aos demais; V – o estimulo e a orientação no país da organização de museus de arte, história, etnografia e arqueologia, quer pela iniciativa particular, quer pela iniciativa pública; VI – a realização de exposições – 101 – As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil temporárias de obras de valor histórico e artístico, assim como de publicações e quaisquer outros empreendimentos que visem difundir, desenvolver e apurar o conhecimento do patrimônio histórico e artístico nacional (BRASIL, 1946 apud IPHAN. 2018). Ocorreram também nessa data algumas mudanças administrativas do DPHAN, segundo normas da Constituição de 1946: Art. 6° A Diretoria terá um Diretor Geral, subordinado imediata- mente ao Ministro; as divisões terão Diretores e o Serviço Auxi- liar terá chefe, subordinados imediatamente ao Diretor Geral; as Seções terão Chefes subordinados imediatamente aos competen- tes Diretores de Divisão; e os Distritos terão Chefes, que recebe- rão orientação técnica e administrativa dos Diretores de Divisão, segundo a natureza dos assuntos a resolver seja da alçada de uma ou de outra Divisão. Art. 7° O Diretor Geral terá um Assistente e um Secretário, escolhidos dentre os servidores o Ministério (BRASIL, 1946 apud IPHAN. 2018). Em 1970, ocorre a última e permanente mudança de nomenclatura, nascendo desta maneira o Instituto de Patrimônio Histórico, Artístico Nacional (IPHAN). Nesse período, houve uma crise econômica nacional. Com uma superinflação e juros cada vez mais altos, o país precisava passar por um sistema de modernização. Essa modernização atingiu as mais vastas esferas políticas, mas claro, as políticas de preservação também sofreram mudanças e não somente no ato de deixar de ser um departamento para um instituto. O IPHAN surgiu com novidades. A partir da data de sua inauguração, cada Estado brasileiro teria uma data limite para enviar projetos de restauro e preservação de Patrimônios Culturais, uma forma de espalhar o Patrimô- nio Cultural por todo território nacional. Segundo o site do IPHAN: [...] Cada Estado a apresentação prévia do Programa de Restaura- ção e Preservação para o período 1976/1979, indicando os monu- mentos a serem restaurados, o cronograma de execução, os roteiros turísticos recomendados e as fontes de recursos para fazer face à contrapartida que o Programa requeria das instituições estaduais com que trabalhava. O mesmo procedimento foi adotado para o biênio 1980/1981 (IPHAN, 2018). Outro marco da história do IPHAN é o tombamento do Terreiro de Candomblé da Casa Branca, em 1984, na Bahia. A importância deste Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 102 – tombamento se dá por diver- sos fatores, sendo o principal deles a percepção da influência da cultura afro-brasileira para a Bahia, além do fato deste Patri- mônio Cultural fugirtotalmente dos princípios de tombamento que priorizavam as construções luso-brasileiras. Era a primeira vez na história da preservação que a cultura das minorias era visitada e compreendida como importante e influente. E por fim, a Constituição de 1988, que dá uma nova vista ao Patri- mônio Cultural no Brasil. Já discutimos esse momento histórico em capítulos anteriores, mas é importante ligarmos a incorporação do patri- mônio imaterial aos bens culturais brasileiros; é um grande passo den- tro das políticas de preservação e é uma mudança bastante drástica para o IPHAN. Hoje, o IPHAN, em conjunto com a UNESCO, é o principal órgão de preservação patrimonial do país e, se a Constituição de 1988 for seguida a rigor, o Instituto é também o que possui uma das políticas de preservação mais completas do mundo. A partir deste posicionamento, podemos com- preender a importância do órgão para o resgate e memória da identidade coletiva nacional e a valorização dos patrimônios culturais brasileiros, sejam eles imóveis ou demonstrações de cultura imateriais. 7.3 Sistema Nacional de Cultura (SNC) O SNC é uma estratégia de política pública, um projeto de gestão cul- tural que garante direito ao acesso à cultura. Ele se baseia em programas como o Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo. Para que o municí- pio garanta verba para a cultura, ele deve obrigatoriamente estar vinculado ao SNC federal, sem esse o vínculo o município e a comunidade estão “desprotegidos”, da mesma forma que o SUS. Figura 7.1 – Candomblé Fonte: Shutterstock.com/Alf Ribeiro. – 103 – As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil O SNC surgiu por meio de uma Emenda Constitucional, a chamada PEC da Cultura. Essa proposta surgiu em 2005, contudo, somente em 2012 passou a fazer parte da Constituição Federal do Brasil. Funcionando, preferencialmente, de maneira democrática, integrando os três entes fede- rados, ou seja, União, estados e municípios, e também a contar com a par- ticipação fundamental da sociedade civil. Essa união trabalha em prol da disseminação de políticas culturais, por isso é essencial que toda a comu- nidade trabalhe em conjunto com os entes federados. O Sistema Nacional de Cultura busca por meio da parceria completa da sociedade desenvolver políticas públicas que protejam a cultura, os direitos humanos, o desenvolvimento humano e o acesso a esses direitos. Segundo a Constituição Federativa de 1988, são órgãos obrigatórios e facultativos deste sistema: 2 obrigatórios I. órgãos gestores da cultura; II. conselhos de política cultural; III. conferências de cultura; IV. planos de cultura; V. sistemas de financiamento à cultura. 2 facultativos VI. comissões intergestores; VII. sistemas de informações e indicadores culturais; VIII. programas de formação na área da cultura; IX. sistemas setoriais de cultura. (Art. 216-A, Constituição Federal de 1988). O SNC surgiu graças ao Plano Nacional de Cultura (PNC), que é um projeto federal instituído em 2010, com objetivo de executar políticas públicas; contudo, o PNC funciona em longo prazo, sendo concebido para realizar políticas em prol da cultura até 2020. Segundo o site do Ministério da Cultura, o PNC tem por objetivo: Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 104 – Os objetivos do PNC são o fortalecimento institucional e definição de políticas públicas que assegurem o direito constitucional à cul- tura; a proteção e promoção do patrimônio e da diversidade étnica, artística e cultural; a ampliação do acesso à produção e fruição da cultura em todo o território; a inserção da cultura em modelos sus- tentáveis de desenvolvimento socioeconômico e o estabelecimento de um sistema público e participativo de gestão, acompanhamento e avaliação das políticas culturais. (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2010, [s.n.]). Existe um site próprio para o monitoramento das metas, se o governo as está cumprindo (<pnc. culturadigital.br>). É importante salientar que a sociedade civil é responsável por cobrar e promover debates quanto às metas estabelecidas, para que assim nosso sistema de cultura não seja deixado de lado e nossos patrimônios esquecidos. É dever do Estado manter nossa cultura e promover políticas para a manutenção, proteção, disseminação e democratização da cultura no país. Planos como esse são de extrema importância para que nossos bens e memórias coletivas sejam valorizados. Para que as 53 metas estabelecidas pelo Estado para o funcionamento do PNC sejam cumpridas da melhor maneira possível, é criado o Sistema Nacional de Cultura, que age como uma espécie de ponte, ligando os três entes federativos ao PNC. Entrar no Sistema Nacional de Cultura é voluntário, contudo, somente dessa maneira a verba destinada ao Plano Nacional de Cultura poderá ser destinada aos projetos. O Ministério da Cultura avisa aos cidadãos que Se seu estado ou sua cidade ainda não aderiu ao PNC, é preciso entrar em contato com o responsável pela Cultura na prefeitura ou no governo do estado. O órgão do Ministério da Cultura (MinC) responsável pela adesão é a Secretaria de Articulação Institucional (SAI). (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2010). É muito importante que seu estado e o seu município se adequem e façam parte desses projetos governamentais; somente assim a verba necessária e destinada para a manutenção da cultura chegará até você. A sociedade é agente fundamental para o bom funcionamento das políticas públicas em prol da cultura, isso porque as demandas partem do coletivo; além do mais, é papel do cidadão cobrar para que as metas sejam – 105 – As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil atingidas e, acima de tudo, se atentar para a cultura do seu lugar. Somente assim todo o restante desse processo poderá ocorrer de maneira clara e sem uso indevido do Patrimônio Público, polêmica tão presente na nossa sociedade atual. É por meio dessas iniciativas popu- lares que poderemos barrar tragédias, como o incêndio ao Museu da Língua Portuguesa em São Paulo ou, ainda, o desastre com o Museu de História Nacional no Rio de Janeiro, onde muito mais de 500 anos de história foram perdidos pelas chamas. A ação pública é efetiva se realizada em conjunto. Figura 7.3 –Museu da Língua Portuguesa – São Paulo/SP Fonte: Shutterstock.com/Thiago Leite. 7.4 O Sistema Nacional de Cultura e o IPHAN: parceria que dá certo O Sistema Nacional de Cultura, quinta eta do Plano Nacional de Cul- tura, busca em parceria com o IPHAN implantar planos para que as metas estabelecidas pelo PNC possam ser realizadas. Esse trabalho conjunto deu Figura 7.2 – Sociedade trabalhando em conjunto Fonte: Shutterstock.com/GN ILLUSTRATORA. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 106 – vida a ações como o Plano de Ação para Cidades Históricas entre os anos de 2010 e 2011. O Plano de Ação para Cidades Históricas é um trabalho construído entre os estados, municípios e o IPHAN com o objetivo de integração do Patrimônio Cultural Brasileiro como um todo, ou seja, a ideia é a valori- zação da cidade toda e não apenas de patrimónios específicos. É a valo- rização do território urbano e não apenas de bens isolados e, para isso, realiza.-se metas e objetivos a serem realizados pelos órgãos destinados dentro das cidades e dos estados; também conta-se com o auxílio das empresas privadas e da sociedade civil para o bom funcionamento e anga- riamento de verba para agir de forma local. Segundo o IPHAN, os objetivos primarios são: Fortalecer a implantação do Sistema Nacional do Patrimônio Cultu- ral; Promover a atuação integrada do setor público (em suas diversas instâncias), do setor privado e da sociedade nas Cidades Históricas; Definir estratégias para enfrentar problemas estruturais das Cidades Históricas e para promover o desenvolvimento local,a partir das potencialidades do patrimônio cultural; Orientar a priorização de investimentos no âmbito do planejamento integrado para o Patrimô- nio Cultural e definir ações e projetos estratégicos para as Cidades Históricas. (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2010. p. 1) Figura 7.4 – Vista cidade de Mariana, Minas Gerais Fonte: Shutterstock.com/Daniel Indiana. Outra ação conjunta entre o IPHAN e o SNC é a Associação Bra- sileira de Cidades Históricas (ABCH), elaborada em 2009, no Distrito – 107 – As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil Federal, que tem por objetivo proteger e enriquecer o patrimônio – tanto cultural quanto natural – dos municípios que integram projetos de tomba- mento, em âmbito federal e mundial por meio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO); também pre- tende auxiliar cidades que se destacaram por seus planejamentos de con- servação e proteção, tanto em projetos municipais quanto estaduais. Assim como a SNC, a ABCH também prioriza a participação da sociedade civil e dos órgãos dos três entes federativos, dando ênfase a importância do traba- lho do Estado em conjunto com a comunidade para o funcionamento exe- quível da política de proteção patrimonial. Podemos concluir, portanto, que as políticas públicas vêm em favor da salvaguarda dos bens materiais e imateriais de valores históricos, artís- ticos, paisagísticos nacionais; contudo, nenhuma dessas políticas poderá funcionar com eficiência se feita sem a legitimação da sociedade civil, agente de importante valor dentro desse movimento. É graças à comuni- dade que os Patrimônios Culturais são selecionados, tombados e sofrem a ação política de proteção. Sem o cuidado intensivo dos devidos inte- ressados (a sociedade), é muito provável que as entidades responsáveis também não cumpram seu papel. É de suma importância que as pessoas tenham atitudes de cobrança e amor quando se trata de seus patrimônios, de suas histórias. Síntese Nesse capítulo, compreendemos um pouco mais como funcionam as políticas públicas em detrimento do Patrimônio Cultural no Brasil a partir da história de órgãos como o IPHAN e iniciativas como o Sistema Nacio- nal de Cultura, que visam sobretudo a interação da sociedade civil junto ao Patrimônio e a sua valorização e proteção. Atividades 1. Qual a importância da reforma na Constituição de 1988 para as políticas públicas de salvaguarda de Patrimônio? Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 108 – 2. Qual a importância do tombamento do Terreiro de Candomblé na Bahia para a história do IPHAN em 1984? 3. O que é o Plano de Ação para Cidades Históricas? 4. Qual a importância da sociedade civil dentro das políticas de preservação do Patrimônio Cultural? 8 Patrimônio Cultural e Meio Ambiente Nesse capítulo abordaremos o Patrimônio Natural como formação de pertencimento social no Brasil. Para isso, analisare- mos o conceito de paisagem, sua história dentro da geografia, a legislação à qual esse patrimônio é regido, bem como sua impor- tância e influência na sociedade. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 110 – 8.1 O que é paisagem Para compreendermos o Patrimônio Natural do Brasil, precisa- mos primeiramente compreender o conceito de paisagem e como ele se transforma ao longo do tempo. O termo paisagem, por si só, é repleto de significados, não nos aprofundaremos aqui em cada um deles. Portanto, definiremos a paisagem e a paisagem cultural segundo os parâmetros da geografia, isso porque o estudo da paisagem nesse campo é essencial e muito discutido, possibilitando assim uma abordagem mais diversa. Figura 8.1 – Paisagem aérea urbana Fonte: Shutterstock.com/Pinglabel. Graças à variedade ampla de definições, alguns pesquisadores negam que ela possa compor o quadro de termos científicos, pois possui significa- dos distintos para cada uso em cada disciplina. Por exemplo: para John B. Jackson (1984, p. 5), a paisagem “é uma realidade concreta e compartilhada tridimensionalmente”, ou seja, paisagem seria um grande grupo de espaços e esses espaços são resultado de transformações humanas, isso porque a paisagem para o autor é analisada por meio da arquitetura e do urbanismo. A geografia analisa a paisagem de um modo diferente. Para a dis- ciplina, o termo é ambíguo no que se refere à interferência humana. Isto quer dizer que paisagem não é somente fruto de interferências humanas, é na verdade um conjunto do meio natural e das mudanças construtivas por meio humano. Mas afinal de contas, o que é paisagem cultural? Simplificando diver- sos estudos, podemos chegar à conclusão de que a paisagem cultural é – 111 – Patrimônio Cultural e Meio Ambiente aquela que sofreu mudanças no seu natural; essas mudanças foram reali- zadas pelo homem e elas narram conceitos culturais humanos. Um bom exemplo de paisagem cultural são as comunidades indígenas, as reservas; essa sociedade envolta pela natureza faz parte da paisagem, mas a modifi- cou, construiu suas tendas, cortou algumas árvores, ela transforma a pai- sagem natural em uma paisagem cultural. Figura 8.2 – Comunidade indígena Fonte: Shutterstock.com/PARTYRAISER. 8.1.1 História da paisagem no Brasil A história da paisagem no Brasil é antiga, vem desde sua coloniza- ção, quando Américo Vespúcio relatou em cartas suas experiências pelo território nacional, contando sobre a beleza natural nunca vista antes e comparando o território ao próprio paraíso. Outro importante documento para a história do país e para a paisagem cultural é a famosa carta de Pero Vaz de Caminha, que romanticamente enaltece o visual pouco explorado do território descoberto. Além de cartas, pinturas e poemas trataram de representar a paisagem do Novo Mundo. É o caso do francês Jean-Baptiste Debret, que retratou o Brasil em pinturas e gravuras por longos anos, dando origem a um livro cha- mado Viagens Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicado em Paris, em 1831. Em grande parte, os documentos relatam sobre as descobertas de plantas e animais e o registro das populações nativas, incomuns aos solos Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 112 – europeus; mas muitos curiosos, artistas e intelectuais, vieram ao Brasil em busca de aventuras e retrataram a bela natureza. Podemos perceber esse efeito não só ao longo da colonização, mas também nos séculos subse- quentes. O Brasil chama atenção pela sua geografia, composta pela mais bela diversidade, é um retrato do nosso povo e, é claro, de nossa cultura. Talvez esse seja o maior motivo para a paisagem cultural ser tão impor- tante para a nossa formação patrimonial. Figura 8.3 – Representação Jean-Baptiste Debret Fonte: Shutterstock.com/Marzolino. 8.1.2 Paisagem arqueológica A arqueologia também tem suas definições de paisagem, a qual é vista pelo viés social e econômico, além de espacial. Na arqueologia, o estudo da paisagem se dá pela construção social dela sobre o espaço e como essa paisagem se transforma de maneira igual para todos dentro dessa mesma sociedade. Para Fernanda Simões, a Paisagem (arqueológica) que é percebida e compreendida pelo grupo que a ocupou, possui características que são resultados de construções sociais a partir das relações dos fatores naturais/huma- nos e individuais/compartilhados, sendo identificadas dentro de evidências arqueologicamente perceptíveis. (SIMÕES, 2014, p. 1) É uma preocupação primária de o arqueólogo inserir a paisagem como problemática em sua pesquisa, isso porque os fatores como alimentação, geografia, cultura e vestimenta, estão relacionados diretamente ao fator – 113 – Patrimônio Cultural e Meio Ambiente paisagístico ao qual certa sociedade estava delimitada. É importante com- preender que a arqueologia se agrega dos estudos da geografia quanto à paisagem paradefinir suas próprias pesquisas. Segundo Marcelo Fagundes, tanto na Geografia quanto na Arqueologia, a paisagem possui o mesmo significado, podendo ser definida como um determinado espaço organizado, cuja natureza é transformada e transformadora da cultura humana ali estabelecida. (FAGUNDES, 2009, p. 60). A paisagem dentro da arqueologia é muito importante para ampliar o campo de estudo, fugindo do padrão consolidado do sítio arqueológico, indo à busca de uma pesquisa de território ampla, englobando a região como um todo. Além disso, é pela paisagem que muitas pesquisas conse- guem compreender os pontos culturais; a paisagem é uma das formadoras de cultura e a arqueologia compreende nela um papel importante na for- mação humana, isso porque cada sociedade se desenvolve pelo meio ao qual está inserida. 8.1.3 Paisagem cultural no Brasil e sua preservação A paisagem cultural passa a ser protegida no Brasil em 2009, com o intuito de preservar os bens naturais que foram modificados pelo homem e que dizem respeito ao seu modo de viver. A UNESCO definiu a paisagem como Patrimônio ainda antes disso, em 1992. Um dos mais importan- tes Patrimônios Paisagísticos do Brasil, considerado pela UNESCO, é a cidade do Rio de Janeiro, que foi a primeira cidade do mundo todo a ser considerada uma paisagem cultural. O Rio de Janeiro tem uma paisagem única. Foi, ao longo dos sécu- los, cenário dos mais importantes acontecimentos históricos do Brasil. Em 2012, a UNESCO define que a cidade é uma demonstração singular de beleza que, transformada ao longo da história do país pelos homens, nunca deixou de ter sua relevância na natureza, demonstrando assim o bom con- vívio entre o homem e o meio natural, a singularidade humana e a criativi- dade do povo brasileiro. Esse marco fez com que políticas de preservação natural fossem alimentadas e o Rio de Janeiro passou a ser mundialmente conhecido, um importante avanço econômico para o país pela produção em massa de turismo. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 114 – Figura 8.4 – Fotografia aérea cidade do Rio de Janeiro Fonte: Shutterstock.com/Matyas Rehak. O Brasil é um dos maiores países do mundo, mas não é só em exten- são que ele chama a atenção: nosso país é dono de uma diversidade cul- tural pouco vista em outros lugares. Seu clima, suas paisagens, sua gas- tronomia, são heterogêneos em todos os sentidos; por isso, a variedade de bens culturais existentes no território é incontável. A paisagem cultural é isso, a natureza e o homem, seja ele indivíduo ou sociedade, integrando-se e interagindo em harmonia, a natureza sendo suporte de criação cultural, agente ativo na construção da história, da arte e da cultura nacionais. Podemos encontrar bens paisagísticos em todas as regiões do país, desde o Rio de Janeiro até populações ribeirinhas esquecidas à margem do rio, comunidades quilombolas e grupos indígenas que fizeram do meio natural seu lar, vivendo em perfeita harmonia, compreendendo e inte- grando a natureza, fazendo dela parte importante em suas vidas. Questões econômicas são, em geral, o maior inimigo da preservação da paisagem cultural no Brasil, isso porque essas paisagens muitas vezes se localizam em lugares de interesse comercial, como jazidas de ouro, por exemplo. As próprias reservas indígenas são atacadas quase que diaria- mente para se transformarem em lugares de exploração de madeira e bens econômicos naturais. Mesmo que os bens culturais sejam um dos principais incentivos para a preservação da paisagem cultural, a geografia do nosso país é singu- – 115 – Patrimônio Cultural e Meio Ambiente lar, com uma riqueza estética, geográfica e cultural imensurável. Pouco debatida atualmente, nossa paisagem cultural corre risco de ser destruída para dar lugar a grandes clareiras. É o caso da Amazônia, em que regular- mente vemos diminuir suas florestas, dando lugar a um deserto formado por indústrias de exploração madeireira. A preservação da paisagem cultural é muito mais complexa que a preservação de bens patrimoniais como casas ou obras de arte, porque ela requer uma equipe muito diversa, composta por geógrafos, arquitetos, antropólogos, paisagistas, entre outros. Suas pesquisas são abrangentes para que a paisagem possa ser considerada um patrimônio, não basta saber sua história; a paisagem cultural vai muito além disso, ela é o estudo da singularidade do solo, do povo que a habita, do uso da sua natureza. Infelizmente, o Brasil ainda se vê desamparado de leis especificas para a proteção da paisagem cultural, grande parte das paisagens pro- tegidas hoje tem essa proteção garantida pelos órgãos ambientais. A UNESCO então conta com o auxílio de dois grandes órgãos nacionais, o IPHAN e o IBAMA. Cada um desses órgãos é responsável por definir um aspecto dentro da paisagem cultural. Mas ainda há um longo cami- nho pela frente. A criação de um órgão que atenda às necessidades da UNESCO de preservação e proteção das paisagens culturais do Brasil cada dia mais se torna essencial. 8.2 O Patrimônio Natural A natureza é, sobretudo, fonte de vida. Nela estão dispostos todos os materiais necessários para a vida humana, seu alimento, oxigênio, tecido para suas roupas, entre outros. Mas a natureza é também inspiração para a arte, para a matemática, para as ciências... então, consideremos justo dizer que a natureza por si só é um patrimônio e, mais do que isso, é um patrimônio formador de cultura. As formas com as quais utilizamos da natureza podem ser signifi- cativas em nossa qualidade de vida e na forma como compreendemos o universo. Hoje, a natureza é explorada de forma econômica e isso também diz muito sobre nossa cultura: quando nós deixamos de pensar na natureza Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 116 – para pensar no capital, estamos demonstrando quão importante se tornou o poder monetário ao longo dos séculos e essa importância hoje é parte intrínseca da cultura ocidental. Sem natureza, não teremos recursos para proteger nosso patrimônio, ou, mais ainda, não teremos patrimônio. Assim a natureza é a base sobre a qual se sustenta o que consideramos patrimônio e sem ela ficamos sem saber quem somos e como vivemos. O Patrimônio Natural é gerador de respeito a diversidade, seja a pai- sagem ecológica ou humana. É também é fonte de renda para diversas comunidades que o exploram para o ecoturismo. No Brasil, existe um número significativo de sítios de Patrimônio Natural sendo preservados; é o caso da própria Mata Atlântica e de grande parte da Amazônia, que ilegalmente sofrem ataques e têm sua biodiversi- dade sendo extinta de forma gradual e alarmante. Figura 8.5 – Desmatamento da Amazônia Fonte: Shutterstock.com/Rich Carey. 8.2.1 A legislação do Patrimônio Natural A legislação que compreende a salvaguarda da natureza brasileira surgiu durante a década de 1930, no mesmo contexto da legislação do Patrimônio Cultural e do respectivo conselho que dispunha as questões patrimoniais. Os primeiros códigos que incluíam essas pautas foram o Código de Águas, o Código de Minas, o Decreto de Proteção aos Animais e o preliminar Código Florestal. – 117 – Patrimônio Cultural e Meio Ambiente O Código Florestal, por sua vez, entendia de múltiplas maneiras a preservação da flora, com apontamentos direcionados para a vegetação própria de diferentes localidades do Brasil; atualmente, a legislação pre- coniza uma abordagem uniforme, o que facilmente se questiona, dada a grandiosidade e a diversidade territoriais brasileiras. Todavia, o interesse pelo Patrimônio Natural e Cultural brasileiro se aplicou de maneira ampla e abrangendo particularidades apenas com a Constituição Federal da República Federativa de 1988, a qual se estabe- leceu por intermédio de dois capítulos: o capítulo do Meio Ambiente e o capítuloda Cultura. A preservação da natureza no capítulo específico do Meio Ambiente é tratada pela perspectiva biológica; nesse sentido e de acordo com o Ins- tituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN): A responsabilidade legal e administrativa pelo meio ambiente eco- logicamente equilibrado, pela preservação e restauração de pro- cessos ecológicos essenciais, pela biodiversidade e pela integri- dade do patrimônio genético, bem por unidades de conservação como parques nacionais e reservas ecológicas é conferida a órgãos ambientais. (IPHAN, 2004, p. 2) No que se refere à Cultura, o artigo 126 da Constituição afirma e atribui a administração às instituições públicas: Constituem o patrimônio cultural brasileiro, os bens, de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos dife- rentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifes- tações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. (BRASIL, 1988, p. 80) Um fato significativo foi no início da década de 1980, em que foi criada a Política Nacional do Meio Ambiente, dispondo os órgãos legisla- tivos voltados para a temática ambiental que, na generalidade, irão transi- tar especificamente na proteção do Patrimônio Natural, e atuar de forma mais rígida do que previamente estabelecia a Lei Cultural. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 118 – Assim, o desenvolvimento sustentável, a participação social, a pre- venção e a punição previstas no direito ambiental, transfiguraram-se em medidas efetivas; atualmente, a Lei de Crimes Ambientais, promulgada em 1998, estabelece aplicações de multas e sanções diversas, a fim da salvaguarda do patrimônio ambiental e indenizações, como reparação, a danos ocasionados ao Patrimônio Cultural. Figura 8.6 – Imagem aérea de Fernando de Noronha Fonte: Shutterstock.com/Michal Staniewsk. 8.2.2 Futuro do Patrimônio Natural Mesmo que o Brasil seja um privilegiado na questão de Patrimônio Natural, tendo diversos parques e reservas, poucos destes espaços são pre- servados. A relação entre o homem e o meio natural se tornou distante e ameaçadora e a ação dos órgãos responsáveis não é suficientemente eficaz para garantir a salvaguarda do nosso Patrimônio Natural. Faltam-nos ações efetivas para o tombamento desses bens, mas mais do que isso, os bens já tombados foram, em grande parte, abandonados e estão degradados por diversos fatores, entre eles o turismo, grande aliado aos objetivos econômicos, mas um vilão em se tratando da preservação, principalmente dos Patrimônios Naturais. Outros fatores também sofrem com problemas. As questões indíge- nas, por exemplo: temos um órgão federal responsável pela sua prote- – 119 – Patrimônio Cultural e Meio Ambiente ção; contudo, não temos nenhum órgão cultural designado para a proteção efetiva dessa sociedade e do Patrimônio Natural ao qual estão inseridos. Tendo eles uma paisagem cultural vasta e diversa, é importante que órgãos culturais tomem conta desta especificidade. 8.2.3 Patrimônio Natural e paisagem cultural O Patrimônio Natural é, portanto, aquele ligado ao meio ambiente. Compreendemos a importância da natureza para a formação da cultura humana e, a partir disso, podemos definir que todas as formas naturais podem ser consideradas patrimônio, inclusive aquelas às quais o homem ainda não atribuiu finalidade. Já a paisagem cultural são os meios naturais que sofreram interferência humana e, mesmo assim, não perderam suas características, na verdade ajudaram a construir a cultura e a diversidade cultural que vemos no nosso país. Infelizmente, ambos os aspectos aca- bam sendo desvalorizados pelos órgãos culturais, que quase não possuem atribuições especificas para a manutenção e proteção dos patrimônios de ordem natural. Perdê-los é, assim, como perder um edifício construído em 1930: um grande retrocesso. Se não for ainda pior, pois interfere na nossa identidade cultural e coloca em risco nossa própria existência. Síntese Nesse capítulo, pudemos conhecer um pouco mais sobre a paisagem cultural, percebendo a sua importância na história do nosso país e alguns dos seus principais conceitos, abordada tanto pela arqueologia quanto pela geografia. Também conhecemos um pouco mais sobre o Patrimônio Natu- ral e a responsabilidade em preservá-lo. Atividades 1. Defina paisagem segundo John B. Jackson. 2. O que é paisagem cultural? Cite um exemplo: Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 120 – 3. Qual é o maior inimigo da preservação da paisagem cultural? Por quê? 4. Qual a diferença entre paisagem cultural e Patrimônio Natural? 9 Os Marcos Legais Nesse capítulo, abordaremos os principais marcos legais relativos à preservação do Patrimônio Cultural, assim como suas relações com as políticas nacionais e regionais de preservação, e as cartas que delimitam a atuação dos profissionais da área do patrimônio frente aos bens de valor histórico, tal como as leis e os aparatos constitucionais que atualmente protegem o Patrimô- nio Cultural no âmbito nacional e tornam sua gestão efetiva. As cartas históricas, assim como toda a legislação descrita nesse capítulo, estão disponíveis para consulta online no site do IPHAN e de outros órgãos governamentais. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 122 – 9.1 As cartas patrimoniais As cartas patrimoniais foram uma série de esforços para elaborar regimentos que fornecessem os alicerces da atuação dos profissionais da área do Patrimônio Cultural. São manifestos que sintetizam em algumas páginas as discussões de congressos, e seus princípios servem de base para discussões mais aprofundadas e fundamentadas, assim como para a criação de leis para a preservação do patrimônio. São documentos vindos de períodos distintos, organizados por gru- pos com propriedades diversas e não têm a intenção de serem normas definitivas, apenas diretrizes para fundamentar o trabalho de agentes do patrimônio, restauradores, urbanistas e outros técnicos. Segundo Kuhl (2010, p. 289), As cartas patrimoniais são fruto da discussão de um determinado momento. Antes de tudo, não têm a pretensão de ser um sistema teórico desenvolvido de maneira extensa e com absoluto rigor, nem de expor toda a fundamentação teórica do período. As cartas são documentos concisos e sintetizam os pontos a respeito dos quais foi possível obter consenso, oferecendo indicações de caráter geral. Seu caráter, portanto, é indicativo ou, no máximo, prescritivo. Obvia- mente, cartas internacionais, como a de Veneza, não podem ter caráter normativo, pois suas indicações devem ser reinterpretadas e aprofundadas para as diversas realidades culturais de cada país, e ser, ou não, absorvidas em suas propostas legislativas. As cartas internacionais, se devidamente interpretadas para as realidades locais, podem resultar em cartas nacionais, ou articularem-se a elas; podem, assim, ter papel importantíssimo na construção normativa relacionada à preservação dos bens culturais dos vários países. Embora formulados por participantes de congressos internacionais, os princípios sobre a conservação e a restauração seriam aplicáveis de acordo com o contexto cultural de cada nação. Os documentos históricos estão disponíveis na íntegra no site do IPHAN. A Carta de Atenas foi elaborada a partir das deliberações estabe- lecidas no Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos dos Monu- mentos Históricos, na cidade de Atenas, em 1931, determinandoalgumas resoluções e políticas internacionais para a preservação do Patrimônio – 123 – Os Marcos Legais Histórico. Foi o primeiro esforço de caráter internacional que delimitou diretrizes para o restauro de edificações históricas, e apresentou conside- rações de caráter avaliativo para esses projetos. Entre algumas das propostas elencadas na carta, vale ressaltar a cria- ção de organizações internacionais para a revisão e avaliação criteriosa dos processos de restauro, com a intenção de prevenir equívocos que des- caracterizem certas estruturas, danificando seu atribuído valor histórico. O documento também levantou algumas problemáticas acerca da preservação de sítios históricos e definiu que as políticas de preservação deveriam ser legisladas de forma nacional por todos os países, zelando pela proteção desses locais e suas áreas adjacentes. Definiu também que o emprego de materiais e técnicas arquitetônicas modernas poderia ser usado no trabalho de restauração, desde que fossem obedecidos certos critérios para evitar a descaracterização das estruturas: Os técnicos receberam diversas comunicações relativas ao emprego de materiais modernos para a consolidação de edifícios antigos. Eles aprovaram o emprego adequado de todos os recursos da téc- nica moderna e especialmente, do cimento armado. Especificam, porém, que esses meios de reforço devem ser dissi- mulados, salvo impossibilidade, a fim de não alterar o aspecto e o caráter do edifício a ser restaurado. Recomendam os técnicos esses procedimentos especialmente nos casos em que permitam evitar os riscos de desagregação dos ele- mentos a serem conservados. (CARTA DE ATENAS, 1931, p. 2) Se analisarmos o documento por meio de um olhar contemporâneo, percebemos que nele existem alguns critérios ultrapassados, como por exemplo a preservação de certas ornamentações “pitorescas” no entorno dos monumentos, que teriam a finalidade de simular uma certa antigui- dade na obra. No entanto, algumas decisões ainda são relevantes para a manutenção do patrimônio, como a supressão da publicidade, postes e cabos de energia em logradouros históricos, tal como o afastamento de fábricas das regiões onde estão presentes as edificações. Nota-se também que existia um foco apenas no caráter monumental do patrimônio, o que seria alterado em cartas e legislações posteriores. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 124 – A carta criou uma movimentação que favoreceu a criação de legisla- ções nacionais e organizações como o Conselho Internacional de Museus (ICOM) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), construindo um amplo movimento internacional. A Carta de Veneza, elaborada a partir do II Congresso Internacio- nal de Arquitetos e Técnicos dos Monumentos Históricos, em maio de 1964, aprofunda e amplia as noções sobre os bens patrimoniais e estabe- lece as bases para a criação do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS). O documento, embora ultrapassado por parâmetros atuais, ainda é bastante referenciado, e tido como base no trabalho com o Patrimô- nio Cultural. A professora Beatriz Mugayar Kühl, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da USP, apresenta uma leitura crítica do documento em seu artigo Notas sobre a Carta de Veneza: A organização do congresso, que deu origem à Carta de Veneza, o próprio texto da Carta e, ainda, a criação do Icomos, fazem parte de um esforço cumulativo de várias nações (e também de seus ser- viços de preservação e de profissionais do campo) para estabelecer um sistema de cooperação internacional que auxiliasse na reso- lução das numerosíssimas questões envolvidas na preservação de bens culturais, de modo a enfrentá-las com rigor metodológico e coerência de critérios e de princípios. (KUHL, 2010, p. 290) No documento, o patrimônio é encarado como testemunho da Histó- ria e das tradições de uma sociedade. Fazem parte, além das obras de arte e monumentos, edificações e sítios de grande significância e construções modestas que tenham adquirido relevância cultural. O trabalho de restauro e conservação é visto como de caráter interdisciplinar, requerendo a assis- tência de todas as ciências para a salvaguarda e manutenção permanente do patrimônio. Uma discussão relevante refere-se ao uso prático das edificações e o rigor necessário para adaptar os edifícios para os usos contemporâneos: Artigo 5º – A conservação dos monumentos é sempre favorecida por sua destinação a uma função útil à sociedade; tal destinação e portanto, desejável, mas não pode nem deve alterar a disposição – 125 – Os Marcos Legais ou a decoração dos edifícios. E somente dentro destes limites que se deve conceber e se pode autorizar as modificações exigidas pela evolução dos usos e costumes. (CARTA DE VENEZA, 1964, p. 2) Podemos perceber, a partir da leitura do documento, que ele propõe uma visão que respeita às intervenções da passagem do tempo, encarando o monumento como um documento histórico. Nessa lógica, a reprodução de um elemento original que se perdeu ganha um caráter de falsificação. Embora considerada por muitos como um documento antigo e ultra- passado, seus princípios ainda são fundamentais para encarar a preserva- ção do patrimônio, e seu conteúdo continua a ser debatido e ampliado. A Carta de Veneza pode fornecer uma série de procedimentos e nor- mas de conduta. Nos anos seguintes a sua publicação, vários esforços sur- giram para expandir as discussões do material, refletindo em maior inte- resse na proteção de sítios históricos nas décadas seguintes. As cartas patrimoniais despertaram debates e foram muito discutidas nas suas aplicabilidades e influenciaram uma série de outros documen- tos semelhantes que expandiram ou questionaram seus princípios. Vamos conhecer um breve histórico de alguns debates e adequações realizadas a partir desses primeiros documentos, começando com a Recomendação de Paris, de 1963, que versa sobre a importância de se criar mecanismos para impedir o roubo, a escavação e exportação ilegal de obras de arte, monumentos e peças arqueológicas. Recomendou também a criação de inventários nacionais de bens culturais, para que as trocas de objetos de importância patrimonial pudessem ser realizadas adequadamente. A Recomendação de Paris, de 1968, buscou soluções frente ao problema do crescimento das cidades, assim como a necessidade de pos- sibilitar maior envolvimento entre a população e os bens patrimoniais, salientando a necessidade de financiamento, legislação e uma educação a serviço do patrimônio. O Compromisso de Brasília, de 1970, recomendou a criação de órgãos regionais de patrimônio cultural, focando também na proteção dos bens naturais. Foi levantada a questão da carência de mão de obra qua- lificada para atuar na área, assim como a falta de políticas públicas de educação na área. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 126 – Ela estabeleceu algumas diretrizes para políticas de divulgação do Patrimônio Cultural nacional: Sendo o culto do passado elemento básico da formação da consciên- cia nacional, deverão ser incluidos nos currículos escolares de níveis primário, médio e superior, matérias que versem o conhecimento e a preservação do acervo histórico e artístico, das jazidas arqueológicas e pré-históricas, das riquezas naturais e de cultura popular, adotado o seguinte critério: no nível elementar, noções que estimulem a aten- ção para os monumentos representativos da tradição nacional; no nível médio, através da disciplina de Educação Moral e Cívica; no nível superior (a exemplo do que já existe nos cursos de Arquitetura com a disciplina de Arquitetura no Brasil), a introdução, no currículo das Escolas de Arte da disciplina de História da Arte no Brasil; e nos cursos não especializados, e de Estudos Brasileiros,parte dêste consagrados aos bens culturais ligados à tradição nacional. (COM- PROMISSO DE BRASÍLIA, 1970) Durante o segundo encontro, ocorrido no ano de 1971, foi escrito o Compromisso de Salvador. No evento, além de ratificadas as conside- rações do documento assinado em Brasília, foi recomendada a criação do Ministério, de Secretarias e de Fundações de Cultura, assim como a criação de legislações que protegessem e valorizassem o bem patrimonial. A Recomendação Paris, de 1972, foi aprovada na Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, e buscava atentar para a salvaguarda de monumentos, conjuntos e locais de interesse naturais ou feitos pela mão do homem. O documento define o Patrimônio Natural: Para fins da presente Convenção serão considerados como patri- mónio natural: Os monumentos naturais constituídos por formações físicas e biológicas ou por grupos de tais formações com valor universal excepcional do ponto de vista estético ou científico; As formações geológicas e fisiográficas e as zonas estritamente delimitadas que constituem habitat de espécies animais e vegetais ameaçadas, com valor universal excepcional do ponto de vista da ciência ou da conservação; Os locais de interesse naturais ou zonas naturais estritamente deli- mitadas, com valor universal excepcional do ponto de vista a ciên- cia, conservação ou beleza natural. (RECOMENDAÇÃO PARIS, 1972, p. 2-3) – 127 – Os Marcos Legais É interessante perceber como as formações naturais ganharam o caráter de monumento ao longo das publicações. Esse é um dos casos em que uma convenção da UNESCO influenciou legislações relativas ao patrimônio aqui no Brasil. Me refiro ao Decreto Legislativo n. 74, de 30 de junho de 1977 que será exposto mais adiante no capítulo. A Carta do Restauro, do Ministério da Instrução Pública do Governo da Itália, datada de 1972, busca detalhar os conceitos de restauro e salva- guarda de obras de arte, monumentos, construções e vestígios arqueológicos. É composta por doze artigos que versam sobre diferentes aspectos do trabalho de restauração. Define os métodos e materiais para a realização de intervenções, assim como instruções para o registro dos processos. O Manifesto de Amsterdã, também conhecido como Carta Europeia do Patrimônio Arquitetônico, de 1975, levantou algumas problemáticas sobre convenções anteriores, sobretudo no foco aos conjuntos arquitetônicos. Durante muito tempo só se protegem e restauram os monumentos mais importantes, sem levar em conta o ambiente em que se inse- rem. Ora, eles podem perder uma grande parte de seu caráter se esse ambiente é alterado. Por outro lado, os conjuntos, mesmo que não disponham de edificações excepcionais, podem oferecer uma qualidade de atmosfera produzida por obras de arte diversas e arti- culadas. É preciso conservar tanto esses conjuntos quanto aqueles. (MANIFESTO DE AMSTERDÃ, 1975, p. 2) O manifesto e a declaração do mesmo ano ressaltam a importância da revitalização de bairros históricos, focando na inserção social de seus habitantes locais, evitando o êxodo das regiões e beneficiando assim o maior número possível de camadas da sociedade. Isso seria competência do setor público. A política de planejamento regional deve integrar as exigências de conservação do patrimônio arquitetônico e para elas contribuir. Ela pode, particularmente, incitar novas atividades a serem implanta- das nas zonas em declínio econômico a fim de sustar seu despo- voamento e contribuir para impedir a degradação das construções antigas. Por outro lado, as decisões tomadas para o desenvolvi- mento das zonas periféricas das aglomerações devem ser orienta- das de tal maneira que sejam atenuadas as pressões que são exer- cidas sobre os bairros antigos. Com essa finalidade, as políticas relativas aos transportes, aos empregos e a uma melhor repartição Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 128 – dos polos de atividade urbana podem incidir mais profundamente sobre a conservação do patrimônio arquitetônico. (DECLARA- ÇÃO DE AMSTERDÃ, 1975, p. 4) As Recomendações de Nairóbi, de 1976, refletem sobre a função dos conjuntos históricos no contexto contemporâneo, salientando a prote- ção contra modificações violentas nas regiões históricas. Nos anos seguintes, as cartas de Machu Picchu e Burra, salienta- ram a importância do planejamento urbano em se adequar às necessida- des da população, e de envolvê-la nas instâncias deliberativas relaciona- das à conservação. Em 1981, a Carta de Florença prezou pela manutenção dos jardins históricos, ressaltando a manutenção adequada desses espaços que fun- dem arquitetura e elementos naturais. A Declaração de Nairóbi, no ano seguinte, reforçou novamente a necessidade de se atentar para questões ambientais, e a carência de progra- mas educacionais e de capacitação profissional na área. Em 1986, a Carta de Washington foi criada pelo ICOMOS. Ela definiu alguns parâmetros para a salvaguarda das cidades históricas, assim como sua harmonia com a vida contemporânea. Alguns valores-chave para a criação de medidas de proteção foram elencados, com destaque para as relações da cidade com o ambiente natural e o ambiente criado pelos homens ao longo do tempo, assim como os múltiplos significados que a cidade teve durante a História. A Carta de Petrópolis foi construída em 1987, no 1º Seminário Bra- sileiro para Preservação e Revitalização de Centros Históricos. Nela, o patrimônio e sua preservação são encarados como elementos formadores da cidadania e devem ser pensados desde a concepção urbana. É consi- derada imprescindível a ação dos cidadãos junto aos governos Federais, Estaduais e Municipais nas ações de tombamento e inventário. A Declaração de São Paulo, de 1989, salientou que a Carta de Veneza, que comemorava 25 anos, deveria se manter como modelo de carta patrimonial. O debate em torno da escassez de trabalhos na área da preservação, assim como a necessidade do emprego de novas tecnologias – 129 – Os Marcos Legais no restauro e um maior envolvimento na preservação do Patrimônio Natu- ral foram os pontos-chave na discussão. No mesmo ano, a Recomendação Paris, organizada em conferência da UNESCO, destacou a importância de se incluir a memória dos povos tradicionais e da cultura popular nas pesquisas e nas ações de registro. Em 1994, a Conferência de Nara novamente alarga conceitos esta- belecidos na Carta de Veneza, focando na inserção das memórias coletivas da sociedade. Reafirma que a autenticidade continua sendo o principal medidor de valor na preservação do Patrimônio Cultural. Durante as comemorações dos 60 anos do IPHAN, em 1997, foi escrita a Carta de Fortaleza, que buscava alinhar políticas legais nos setores público e privado para o registro, conservação e promoção dos bens culturais imateriais no Brasil No ano de 2003, a Recomendação Paris foi lançada após a 32º Con- ferência da UNESCO, também com foco na preservação do Patrimônio Imaterial, nas tradições orais e culturais. Estabelece também um comitê para assegurar a salvaguarda dessas expressões em inventários: Artigo 12º: Inventários 1. Para assegurar a identificação, com fins de salvaguarda, cada Estado Parte estabelecerá um ou mais inventários do patrimônio cultural ima- terial presente em seu território, em conformidade com seu próprio sistema de salvaguarda do patrimônio. Os referidos inventários serão atualizados regularmente. (RECOMENDAÇÃO PARIS, 2003) Em 2009, ocorreu o I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural, e como parte da institucionalização do Sistema Nacional do Patrimônio Cultural (SNPC), publicou um documento no ano seguinte, que se debru- çou na implementação de uma política nacional de patrimônio, e a regu- lamentar, a partir da União, as instituições, metodologias e procedimentos adotados naárea de maneira transversal. Na busca por envolver a juventude na discussão, o Fórum Juve- nil do Patrimônio Mundial em Brasília, Brasil foi formado por algumas dezenas de jovens de diferentes países da América do Sul. Nessa oca- sião, foi elaborada a Carta de Brasília, que propõe a participação des- Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 130 – ses jovens no Comitê de Patrimônio Mundial da UNESCO, a inserção da Educação Patrimonial no currículo escolar, nos âmbitos formais, não formais e informais, o direito e acesso ao patrimônio, mais acessibili- dade aos bens patrimoniais, a promoção e a garantia da identificação e registro das culturas de segmentos sociais mais amplos e a promoção de um turismo responsável que não comprometa as características do patri- mônio e das comunidades. As cartas patrimoniais ainda são publicadas em congressos, fóruns e outros eventos de especialistas em Patrimônio Cultural, arquitetura e urbanismo. Elas contribuem para o aumento das discussões na área, para a fundamentação do trabalho dos profissionais e também são a base para uma série de legislações mundo afora. 9.2 Dispositivos constitucionais A Constituição Federal estabelece os direitos fundamentais frente ao Estado brasileiro. Ela oferece algumas garantias para a preservação e a difusão do Patrimônio Cultural, assim como para o seu acesso. Em 2014, o Senado Federal publicou uma compilação com os dispositivos constitu- cionais e legislações pertinentes sobre o assunto. Todos os dispositivos da constituição, leis e decretos estão disponí- veis online. De acordo com o Art. 5º, inciso LXXIII, o cidadão tem direito de propor ação popular para anular um ato que prejudique o Patrimônio Público, o meio ambiente e o Patrimônio Histórico e Cultural. É dever da União zelar pela guarda do Patrimônio Público. No Art. 23º, incisos III e IV, é reforçado o papel do estado em proteger a docu- mentação, obras de valor histórico, monumentos e paisagens naturais, e impedir sua descaracterização ou destruição. Isso é reforçado no Art. 24º da constituição, incisos VII e VIII, que atribuem à União e aos Estados a responsabilidade de legislar sobre a proteção do Patrimônio Cultural, Histórico, Artístico, Turístico e Paisagístico, assim como o encargo de se responsabilizar no caso de dano aos mesmos. – 131 – Os Marcos Legais O Art. 30º incumbe aos Municípios a promoção da salvaguarda do Patrimônio Histórico-Cultural local, de acordo com a legislação federal e estadual. (inciso IX). É função do Ministério Público, das instituições de segurança pública e do Estado a promoção de inquéritos e ações civis para proteger o Patri- mônio Público (Art. 129º, inciso III, Art. 144º). Sobre a Cultura (Art. 215º), é garantido constitucionalmente o pleno exercício de direitos culturais e o acesso à cultura nacional, e o apoio e incentivo à valorização e difusão é papel do Estado, assim como o de pro- teger as manifestações culturais indígenas, afro-brasileiras e de outros gru- pos sociais. O artigo também cobre o estabelecimento do Plano Nacional de Cultura, que visa o desenvolvimento cultural do País no parágrafo 3º: § 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à: I – defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; II – produção, promoção e difusão de bens culturais; III – formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões; IV – democratização do acesso aos bens de cultura; V – valorização da diversidade étnica e regional (BRASIL, 1988) A partir da constituição de 1988, o que era então chamado “Patrimô- nio Histórico e Artístico” passou a ser denominado “Patrimônio Cultural Brasileiro”. Instituiu também a definição dos bens que podem ser reconhe- cidos como tal. O documento torna possível a preservação das formas de expressão, modos de criar, fazer e viver, e outras manifestações culturais de natureza imaterial. A constituição do Patrimônio Cultural é definida conforme o Art. 216º: Art. 216º. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza mate- rial e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, porta- dores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 132 – I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico (BRASIL, 1988). Nos parágrafos anexos ao artigo, fica estabelecido que cabe ao poder público a promoção e proteção do Patrimônio Nacional, por meio de inven- tários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, assim como a gestão da documentação e a garantia ao acesso e à pesquisa. O documento também prevê incentivos para a produção cultural, bem como punição no caso de dano ou ameaça ao patrimônio, e também o tombamento de todos os documentos e vestígios históricos de antigos quilombos. Fica estabelecido que é dever dos Estados e do Distrito federal dire- cionarem até cinco décimos por cento da receita tributária para o fomento de projetos culturais. Sobre o Sistema Nacional de Cultura, o Art. 216-A da Constituição prevê que sua organização deve ser centralizada e colaborativa, para pro- mover políticas públicas que estimulem o desenvolvimento por meio do exercício dos direitos culturais. Por fim, o Art. 219º prevê que o mercado interno é parte integrante do patrimônio nacional, e que o mesmo será incentivado para viabilizar o desenvolvimento cultural, econômico e social da população. 9.3 Leis A Lei n. 378/1937, por meio da nova organização do Ministério da Educação e Saúde Pública, em seu Art. 46º, cria o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que mais tarde viria a tornar-se o IPHAN. A Lei ainda fala brevemente sobre as atribuições fundamentais do órgão então recém-criado: – 133 – Os Marcos Legais Art. 46. Fica creado o Serviço do Patrimonio Historico e Artístico Nacional, com a finalidade de promover, em todo o Paiz e de modo permanente, o tombamento, a conservação, o enriquecimento e o conhecimento do patrimonio historico e artístico nacional. (BRA- SIL, 1937) No parágrafo terceiro do mesmo artigo, a lei ainda vai definir outros órgãos que dariam auxílio ao Serviço: “§ 3º O Museu Historico Nacional, o Museu Nacional de Bellas Artes e outros museus nacionaes de coisas historicas ou artísticas, que forem creados, cooperarão nas actividades do Serviço do Patrimonio Historico e Artistico Nacional, pela fórma que fôr estabelecida em regulamento” (Ibidem) Os Artigos 47º e 48º atribuem ainda a função de guarda, conserva- ção e exposição dos bens patrimoniais brasileiros ao Museu Histó- rico Nacional e ao Museu Nacional de Belas Artes, o qual é criado pelo mesmo Artigo: Art. 47. O Museu Historico Nacional é mantido como estabele- cimento destinado á guarda, conservação e exposição das relíquias referentes ao passado do Paiz e pertencentes ao patrimonio federal. Paragrapho unico. No Museu Historico Nacional funccionará o curso de museologia alli existente. Art. 48. Fica creado o Museu Nacional de Bellas Artes, destinado a recolher, conservar e expor as obras de arte pertencentes ao patrimonio federal. (Ibidem) A Lei n. 3.924/1961 declara guarda e proteção de monumentos pré- -históricos e arqueológicos pelo Poder Público. A Lei define ainda o que são esses monumentos aos olhos do Estado brasileiro,assim como legisla em torno do que se pode ou não fazer com os diversos materiais que podem ser extraídos desses locais, criminalizando a exploração comercial de locais nos quais há vestígios de intervenção humana de ameríndios e a destruição parcial ou total desses locais. A Lei n. 4.845/1965 proibiu a saída de obras de arte, ourivesaria, mobiliário e ofícios produzidos no Brasil, até o fim do Período Monár- quico brasileiro, ao exterior, tais como obras de arte produzidas no exte- rior e que se encontram no Brasil, mas que retratam, de alguma forma, a história ou os costumes brasileiros da época. A Lei proíbe ainda a saída Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 134 – de obras que vieram de Portugal, mas que foram inseridas no Brasil ou no Período Colonial ou no Período Imperial. A Lei n. 6.292/1975 regulamentou o tombamento de bens no Insti- tuto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A Lei n. 7.347/1985 regulamentou as ações de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente, ao consumidor e a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. A Lei n. 7.661/1988 institui o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC) que, entre outras atribuições e conforme os Incisos II e III, deve priorizar a proteção e conservação de: “II – sítios ecológicos de relevância cultural e demais unidades naturais de preservação perma- nente; III – monumentos que integrem o patrimônio natural, histórico, paleontológico, espeleológico, arqueológico, étnico, cultural e paisagís- tico” (BRASIL, 1988). A Lei n. 7.668/1988 autoriza a criação da Fundação Cultural Palma- res (FCP), instituição vinculada ao Ministério da Cultura, com o intuito de preservar as influências socioculturais da presença negra no Brasil. A Lei n. 8.313/1991, popularmente conhecida como “Lei Rouanet”, institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), que tem como fim a captação de recursos para o setor cultural, tal como estabelece os mecanismos de implementação do programa. O Art. 1º, inciso VI, deter- mina como uma das finalidades de existência do Pronac “preservar os bens materiais e imateriais do patrimônio cultural e histórico brasileiro” (BRASIL, 1991). Segundo o próprio Ministério da Cultura: Principal mecanismo de fomento à Cultura do Brasil, a Lei Roua- net, como é conhecida a Lei 8.313/91, instituiu o Programa Nacio- nal de Apoio à Cultura (Pronac). O nome Rouanet remete a seu criador, o então secretário Nacional de Cultura, o diplomata Sérgio Paulo Rouanet. Para cumprir este objetivo, a lei estabelece as nor- mativas de como o Governo Federal deve disponibilizar recursos para a realização de projetos artístico-culturais. A Lei foi conce- bida originalmente com três mecanismos: o Fundo Nacional da Cultura (FNC), o Incentivo Fiscal e o Fundo de Investimento Cul- tural e Artístico (Ficart). Este nunca foi implementado, enquanto o Incentivo Fiscal - também chamado de mecenato - prevaleceu e chega ser confundido com a própria Lei. (BRASIL, [s.d], [s.p.]) – 135 – Os Marcos Legais A Lei foi ratificada em 2008 e em 2015 para melhor compreensão de seus dispositivos que tratam sobre o caráter dos projetos que podem ou não ser submetidos aos editais de concessão de financiamento: § 1o Os incentivos criados por esta Lei somente serão concedidos a projetos culturais cuja exibição, utilização e circulação dos bens culturais deles resultantes sejam abertas, sem distinção, a qualquer pessoa, se gratuitas, e a público pagante, se cobrado ingresso. (Renu- merado do parágrafo único pela Lei nº 11.646, de 2008) § 2o É vedada a concessão de incentivo a obras, produtos, even- tos ou outros decorrentes, destinados ou circunscritos a coleções particulares ou circuitos privados que estabeleçam limitações de acesso. (Incluído pela Lei nº 11.646, de 2008) § 3o Os incentivos criados por esta Lei somente serão concedidos a projetos culturais que forem disponibilizados, sempre que tec- nicamente possível, também em formato acessível à pessoa com deficiência, observado o disposto em regulamento. (Incluído pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência) (BRASIL, 2008, 2015) Houve ainda diversas ratificações na lei através dos anos, principal- mente nos pontos que causaram mais polêmica entre a sociedade civil. A Lei n. 8.394/1991 discorre sobre os acervos documentais privados dos presidentes da república e sua proteção, preservação e organização. A Lei estabelece, entre outros assuntos, que os documentos, embora sejam propriedade privada dos presidentes, são de interesse público e a priori- dade de venda é sempre da União, além de não permitir a alienação dos mesmos ao exterior do país. A Lei n. 10.413/2002, vai determinar que: Os bens culturais móveis e imóveis, assim definidos no art. 1º do Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, serão tombados e desincorporados do patrimônio das empresas incluídas no Pro- grama Nacional de Desestatização de que trata a Lei nº 9.491, de 9 de setembro de 1997, passando a integrar o acervo histórico e artístico da União. (BRASIL, 2002) A Lei n. 11.483/2007, que trata sobre a revitalização do setor ferro- viário estabelece, entre outros, em seu Art. 9º, que “Caberá ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN receber e administrar os bens móveis e imóveis de valor artístico, histórico e cultural, oriun- Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 136 – dos da extinta RFFSA, bem como zelar pela sua guarda e manutenção”. (BRASIL, 2007) A Lei n. 11.904/2009 cria o Estatuto dos Museus, estabelecendo, em seu Art. 1º, o que o Estado brasileiro considera como sendo um museu: Art. 1º Consideram- se museus, para os efeitos desta Lei, as instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpre- tam e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artís- tico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento. Parágrafo único. Enquadrar- se- ão nesta Lei as instituições e os processos museoló- gicos voltados para o trabalho com o patrimônio cultural e o ter- ritório visando ao desenvolvimento cultural e socioeconômico e à participação das comunidades. (BRASIL, 2009) A Lei determina ainda qual é a função do Estado na manutenção dos museus brasileiros. e versa também sobre outros assuntos, como o espaço físico dos museus, seus acervos e sobre a função e a importância social do museu, tal como sobre o caráter científico e educacional desses espaços. A Lei n. 11.906/2009 vai criar o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), assim como centenas de cargos federais da cultura, sendo um passo importante na consolidação das políticas culturais no Brasil. A Lei n. 12.192/2010 “regulamenta o depósito legal de obras musi- cais na Biblioteca Nacional, com o intuito de assegurar o registro, a guarda e a divulgação da produção musical brasileira, bem como a preservação da memória fonográfica nacional”. (BRASIL, 2010). A Lei define ainda o que são obras musicais sob a perspectiva do Estado, a fim de protegê-las. A Lei n. 12.343/2010 institui o Plano Nacional de Cultura (PNC) e cria o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC). Em seu Art. 1º estão definidos os princípios que regem o PNC, como diver- sidade cultural, respeito aos direitos humanos, controle social das políticas que versam sobre cultura, entre outros. Em seu Art. 2º, a lei fala sobre os objetivos do PNC, que são basicamente a valorização e o reconhecimento das diversas manifestações culturais brasileiras, a democratização, tanto da cultura em si quanto do acesso ao conhecimento produzido a partir dela – 137 – Os Marcos Legais e o desenvolvimentode meios públicos e de controle social de gestão de políticas culturais. O restante do texto versa sobre as diversas atribuições das instituições do Estado em relação às políticas culturais, como em seu Art. 3º, inciso VI, quando fala das atribuições do Poder Público em rela- ção ao Patrimônio Cultural brasileiro: VI – garantir a preservação do patrimônio cultural brasileiro, res- guardando os bens de natureza material e imaterial, os documentos históricos, acervos e coleções, as formações urbanas e rurais, as línguas e cosmologias indígenas, os sítios arqueológicos pré-histó- ricos e as obras de arte, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência aos valores, identidades, ações e memó- rias dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira; 9.4 Decretos-Leis Os decretos têm força de lei e foram expedidos em períodos de exce- ção: durante a Era Vargas e no Regime Militar. Alguns desses decretos relacionados ao patrimônio ainda permanecem em vigor. Com a assinatura do Decreto n. 19.402/1930, foi instituído o Minis- tério da Educação e Saúde Pública, que abrigaria posteriormente as insti- tuições culturais federais; A lei brasileira de preservação de maior destaque, o Decreto-Lei n. 25/1937, organiza a proteção do Patrimônio Histórico e Artístico nacional e determina, em seu Art. 1º, quais são as características que definem algo como fazendo parte do Patrimônio Histórico e Artístico brasileiros: Constitue o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interêsse público, quer por sua vinculação a fatos memorá- veis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueo- lógico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. (BRASIL, 1937) O decreto-lei institui o tombamento como medida de proteção aos bem culturais, organizados em quatro livros: 1) no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, as coisas pertencentes às categorias de arte arqueológica, etno- gráfica, ameríndia e popular, e bem assim as mencionadas no § 2º do citado art. 1º. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 138 – 2) no Livro do Tombo Histórico, as coisas de interêsse histórico e as obras de arte históricas; 3) no Livro do Tombo das Belas Artes, as coisas de arte erudita, nacional ou estrangeira; 4) no Livro do Tombo das Artes Aplicadas, as obras que se inclu- írem na categoria das artes aplicadas, nacionais ou estrangeiras. (BRASIL, 1937) Prevê que determinadas paisagens naturais são sujeitas a tomba- mento, e também institui o tombamento voluntário e seus requisitos, dire- trizes para o tombamento compulsório, assim como dispositivos legais para a segurança dos bens. O decreto foi apresentado por Gustavo Capanema, e padronizou a organização, as definições e as políticas de proteção ao patrimônio. O Decreto-Lei n. 526, de 1º de julho de 1938, instituiu o Conselho Nacional de Cultura como órgão do Ministério da Educação e Saúde, que focava no cultivo às artes, à filosofia, à ciência e ao civismo. Institui também como mantenedores de obras históricas e artísticas pertencentes à União, além do Museu Histórico Nacional e do Museu Nacional de Belas Artes, outras instituições federais a serem inauguradas conforme a demanda. 9.5 Decretos Legislativos O Decreto Legislativo n. 71, de 28 de novembro de 1972 aprova a documentação da Recomendação de Paris (1964) sobre medidas que impeçam a importação de propriedade ilícita dos Bens Culturais, elabo- rada na XVI conferência da UNESCO. O documento cita que o Estado tem dever de proteger o Patrimônio Cultural do território de tentativas de roubo e exportação ilegal. Já o Decreto Legislativo n. 74, de 30 de junho de 1977 aprova o texto da Recomendação de Paris (1972), na Convenção Relativa à Pro- teção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural. da UNESCO realizada em 1972. – 139 – Os Marcos Legais No Decreto Legislativo n. 22, de 1º de fevereiro de 2006 foi apro- vada, com ressalvas, a Recomendação de Paris (2003), documento da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Esse é um breve apanhado de alguns dos dispositivos legislativos para a proteção do Patrimônio Cultural no Brasil. Podemos perceber que os princípios elencados pelas cartas patrimoniais tiveram grande influên- cia sobre a construção das leis que atualmente são fundamentais para a preservação de obras, monumentos e sítios históricos brasileiros. Atividades 1. De acordo com o texto, as cartas patrimoniais não são documen- tos definitivos com relação ao rigor metodológico do profissio- nal do patrimônio. Explique por quê. 2. A Carta de Atenas foi o primeiro esforço internacional na busca de se criar políticas patrimoniais padronizadas. Cite algumas repercussões de sua publicação no cenário internacional. 3. A Carta de Veneza despertou debates e foi muito discutida e ampliada, mas seus princípios continuam servindo como base para a criação de políticas patrimoniais. Cite alguns desses princípios. 4. O pleno exercício de direitos culturais é garantido pelo Estado por meio da Constituição Federal. Qual a posição do documento com relação ao Patrimônio Cultural? 10 Educação Patrimonial Desempenhar o papel de investigador do ambiente que nos cerca é uma forma de entender questões referentes ao sistema que vivemos. Para ser mais claro, para que uma pessoa possa entender como funciona, ela precisa conhecer. Isso cabe a qual- quer coisa – vejamos, por exemplo, um grupo de estudantes que visita a selva, a natureza e os animais, mas esses mesmos estudantes não estudaram ou não sabem nada sobre o que estão vendo. Parece contraditório, mas o grupo está indo conhecer o local, e isso pode e deve despertar o interesse em pesquisar e investigar ainda mais a fundo o assunto. Entender a rotina de uma cidade, os feriados, as decorações e as festividades faz parte da educação patrimonial. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 142 – Figura 10.1 – Carnaval. Rio de Janeiro. Fonte: Shutterstock.com/Gustavo Ardila. 10.1 Educação patrimonial A educação patrimonial é uma metodologia que busca exercitar e ampliar os conhecimentos culturais importantes da região, e também preservar e divulgar esse conhecimento, não somente identificar quais são os Patrimônios Culturais, imateriais ou materiais, mas também entender e refletir questões que constituem a nossa cultura e o Patrimô- nio Cultural. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/Iphan – Ins- tituição Federal, vinculada ao Ministério da Cultura/MinC e responsável pela política de Patrimônio Cultural de forma nacional, entende a Educa- ção Patrimonial como sendo: os processos educativos formais e não-formais que têm como foco o patrimônio cultural apropriado socialmente como recurso para a compreensão sócio histórica das referências culturais em todas as suas manifestações, com o objetivo de colaborar para o seu reco- nhecimento, valorização e preservação. (IPHAN, 2014, p. 5) Ainda, o IPHAN considera a educação patrimonial como um dos processos pelos quais se prima a construção coletiva e democrática do conhecimento, dentro do ambiente reconhecido por diversas noções de Patrimônios Culturais. – 143 – Educação Patrimonial No Guia Básico de Educação Patrimonial (1999), Maria de Lourdes Parreiras Horta, Evelina Grunberg e Adriane Queiroz Monteiro, exem- plificam e conceituam a educação patrimonial como uma “alfabetização cultural”, permitindo que o indivíduo que a estuda e aplica a metodologia educacional conheça o espaço e compreenda o ambiente sociocultural e paisagem histórico-temporal em que se insere. Figura 10.2 – Sala de Aula Fonte: Shutterstock.com/Zurijeta. Após a criação do SPHAN (Serviço de Patrimônio Histórico e Artís- ticoNacional) em 13 de janeiro de 1937, da Lei n. 378, durante o Estado novo, é que ocorre a preocupação em relação aos Patrimônios Históri- cos e a identidade cultural do Brasil. A partir disso, surge a construção da nacionalidade, pois começam a ser valorizadas as festas nacionais, as comemorações religiosas e as manifestações esportivas e artísticas brasi- leiras, como por exemplo, a capoeira. Independentemente de suas raízes, essas manifestações começaram a ser melhor valorizadas e abraçadas, tornando-as características fundamentais para a identificação da naciona- lidade brasileira. O IPHAN, a partir daí, começa a desenvolver o projeto de naciona- lização da cultura brasileira, bem como a valorização da cultura popular. Dessa forma, a criação de formas de divulgar e motivar o conhecimento do que é cultura, patrimônio e preservação dos bens nacionais começa a ser mais forte. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 144 – Figura 10.3 – Apresentação de Olodum. Salvador, Bahia, Brasil Fonte: Shutterstock.com/Joa Souza. Para a melhor identificação e formalização do que é caracterizado como de interesse cultural e Patrimônio Nacional, existem leis quanto à proteção e preservação. Essas leis ajudam no desenvolvimento da educa- ção patrimonial, uma vez que as mesmas leis devem ser ressaltadas para demonstrar a importância e a falta que a educação patrimonial faz em relação à preservação da identidade cultural nacional. Leis Federais – As disposições legais mais importantes estão incluídas no Decreto-Lei nº 25/1937 que cria o Instituto do Tom- bamento, na Lei de Arqueologia nº 3.924/6, nas atribuições conti- das na Constituição Federal de 1988 – Art. 215 e 216, nas normas sobre a entrada e saída de obras de arte do país, e no Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000, que institui o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem Patrimônio Cul- tural Brasileiro e cria o Programa Nacional do Patrimônio Imate- rial; Leis Estaduais – a gestão do Patrimônio Cultural do Estado da Bahia é regulamentada pelo Decreto nº 10.039 de 03 de julho de 2006, que regulamenta a Lei nº 8.895; pela Lei nº 8.895 de 16 de dezembro de 2003 que instituiu normas de proteção e estímulo à preservação do Patrimônio Cultural do Estado da Bahia, cria a Comissão de Espaços Preservados; e pela Lei nº 8.899 de 18 de dezembro de 2003 que institui o Registro dos Mestres dos Saberes e Fazeres do Estado da Bahia; Leis Municipais – além do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano - PDDU que regulamenta a ocupação e uso do solo urbano, o Município ainda pode promulgar leis específicas de proteção. (IPAC, [s.d.], p. 7) – 145 – Educação Patrimonial As vertentes amplas que a Educação Patrimonial oferece estão rela- cionadas à questão de preservação do Patrimônio Cultural e conhecimento da identidade nacional cultural. Toda a conservação patrimonial cultural ou histórica é de interesse coletivo, um interesse da sociedade brasileira como um todo, levando em conta a referência da identidade nacional e a memória coletiva. Portanto, a importância da educação patrimonial é grande, uma vez que se utiliza de uma metodologia de conscientização e conhecimento da própria identidade nacional. Figura 10.4 – Diversidade Cultural Nacional Fonte: Shutterstock.com/SimpleB. A educação patrimonial deveria ter sido implantada como uma matéria comum aos currículos escolares, mas se tem apenas palestras curtas e bási- cas em algumas escolas, o que não é suficiente para o aprofundamento do Patrimônio Histórico e Cultural, dos bens materiais e imateriais, da educa- ção cultural e da investigação do ambiente onde o aluno está inserido. 10.2 A educação patrimonial no uso da História A relação da História com o Patrimônio Histórico-Cultural é fortemente visível, uma vez que a história e a antropologia estão juntas para a criação de dinâmicas eficazes em relacionar o Patrimônio Cultural com os estudos e conteúdos canônicos, Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 146 – porque essa relação favorece a criação de pontos de contato com o universo cultural dos alunos, permitindo a apreensão sig- nificativa de assuntos considerados de difícil compreensão, por sua distância no tempo e no espaço, pois que apropriados pelos discentes a partir de suas referências culturais. Na medida em que tais referências são conhecidas, a memória torna-se refle- tida, as lembranças se tornam experiências permitindo melhor compreensão da natureza histórica dos acontecimentos, contri- buindo na formação cidadã dos educandos. (VIANA; MELLO, 2013, p. 1) O patrimônio cultural também é objeto da história. Ele pode ser investigado, estudado e problematizado pelos historiadores e é um tema relevante para a pesquisa histórica. Na História, o patrimônio está rela- cionado à caracterização de memória identitária, ou seja, uma memória que pertence e caracteriza um indivíduo a ela relacionada. Vejamos que um Patrimônio Cultural pertencente à nação é uma memória cultural, a qual pode ser material ou imaterial; ele é a origem ou a busca pela identidade da sociedade, como por exemplo o samba, a dança ou a pró- pria música. Figura 10.5 – Identidade étnica Fonte: Shutterstock.com/UltraViolet. Há de se considerar que não somente é válida a opinião histórica ou antropológica, mas ainda mais forte a opinião pública, já que os valores agregados ao que é considerado patrimônio estão na utilização e opinião da sociedade como um todo. Portanto, a história se responsabiliza em estudar a importância histórica e o sentido que se dá à trajetória dos indi- víduos e dos grupos. – 147 – Educação Patrimonial 10.3 Mediação cultural A mediação cultural está inserida em um dos métodos de comparti- lhamento da cultura, por meio de expressões artísticas e produtos cultu- rais, por meio da sociedade, seja por pontos de diálogo ou mídia em geral. Como método, a mediação cultural é uma forma de educação informal que procura acolher o visitante, respeitar sua cultura e, por meio do diálogo, construir uma nova leitura do objeto ou do espaço cultural apreciado. A mediação, então, é a busca e o alcance do cidadão ao direito cul- tural, que por sua vez oferece ainda mais conhecimento e ajuda na com- preensão do espaço e da sociedade, assumindo a uma identidade social. A mediação pode ser entendida também como um dos processos de aprendi- zado cultural humano, em que se aprende a agir e pensar em relação a nós mesmos e aos outros. Basicamente, por meio da mediação, nos tornamos outros mediado- res e conhecedores da nossa e de outras culturas, podendo assim compre- ender o desenvolvimento social. Figura 10.6 – Multicultura racial Fonte: Shutterstock.com/GagliardiImages. É importante que cada cidadão tenha vínculo ou acesso à vivência das ofertas culturais de sua região. A mediação cultural, num todo, é a maneira pela qual a informação é comunicada aos ouvintes, seja em um museu, em um centro de ciências, em teatros, parques, zoológicos etc., cujo objetivo é enriquecer e complementar os conhecimentos de quem é mediado sobre a cultura e o patrimônio. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 148 – Figura 10.7 – Guia mediador naturalista. Reserva do Equador Fonte: Shutterstock.com/Ammit Jack. A mediação cultural não se limita a um mediador (guia), mas é feita também por meio de materiais ou produtos contendo informações rele- vantes em relação ao objeto cultural. Por exemplo, algo que signifique ou traga a memória cultural, ou ainda, que traga ao cotidiano a execução da cultura, desde objetos materiais até objetos imateriais, como a música ou a dança. 10.4 Na prática Todo o processo de gestão do patrimônio cultural necessita de uma ação educativa, cujo o trabalho é de construção coletiva, em que o pro- fessor/técnico auxilia e ensina formasde preservação de um Patrimônio Histórico e Cultural. Todo o estudo de Patrimônio Cultural é um campo de conflito, já que há divergências entre os pensamentos de o que é patrimônio e o que deve ser valorizado. As instituições gestoras dos patrimônios da sociedade são as media- doras na construção dos ambientes de aprendizagem, onde será discutido o que é ou não um Patrimônio Cultural. A ação educativa surge a partir da identificação do que é patrimônio e da cultura a que está habilitado esse patrimônio. – 149 – Educação Patrimonial Desde o início, a comunidade sempre deve estar envolvida na dis- cussão do que deve ou não ser considerado de interesse patrimonial, por meio de oficinas com educação patrimonial e com a voz da comunidade dizendo o que é Patrimônio Cultural para ela e quais são as referências que o tornam um patrimônio. Já existe legislação em relação à educação patrimonial, a Portaria n. 137, de 28 de abril de 2016, que diz que deve-se estabelecer marcos normativos de educação patrimonial nos âmbitos do IPHAN e de Casas do Patrimônio. Trabalhar com o Patrimônio Cultural traz consigo o conceito de sus- tentabilidade e desenvolvimento social, a partir da memória e da cultura. Começa a se agregar um coletivo de pertencimento à cultura local; dessa forma, se resgata uma memória coletiva. Sendo assim, se torna fundamen- tal a participação de toda a sociedade, levando em conta a história local, a memória local e a história de vida das pessoas. A sensação de se sentir pertencente à cultura local é importante para a valorização do Patrimônio Cultural. Valoriza-se e preserva-se ainda mais aquilo que se conhece. Atividades 1. De que forma ou de quais formas a História pode auxiliar na compreensão do Patrimônio Cultural? 2. Como as artes podem ser caracterizadas ou definidas como Patrimônio Cultural? 3. Quais dificuldades podem ser encontradas ao aplicar a educa- ção patrimonial? 4. Qual a importância de se identificar ou de se ter uma identi- dade social? Gabarito Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 152 – 1. O conceito de cultura 1. Os dois significados mais comuns atribuídos à palavra cultura são: 2 o de cultura enquanto acúmulo de conhecimentos formais e, principalmente, ligados à produção cultural artística. 2 o de cultura enquanto um modo de vida, uma tradição ligada à nacionalidade ou à identidade de um grupo determinado. 2. Cultivar no sentido de cuidar da terra e dos animais; cultivo do espí- rito, das faculdades mentais; junto com civilização representando um processo geral de progresso intelectual e espiritual, tanto indi- vidual como social; a expressão dos valores subjetivos, mais liga- dos ao chamado espírito do que a uma razão universal; ao processo geral de desenvolvimento “íntimo”, em oposição ao “externo”; A cultura como processo de desenvolvimento, de educação. Como consequência, também era vista como o conjunto de tra- balhos e práticas de atividade intelectual e especialmente artís- tica: a música, a literatura, a escultura, entre outras. As chamadas belas artes que deveriam formar o bom gosto e o senso estético das pessoas. Por fim, como um modo de vida específico ligado às tradições nacionais ou a um mundo utópico, perdido, porém valorizado pela literatura e pelas artes em geral. 3. O chamado “darwinismo social” influenciou e motivou teorias racistas que justificaram a escravização de seres humanos e até seu extermínio. Por estas teorias, o termo raça definiria um grupo humano com características próprias – físicas, psicoló- gicas e culturais – transmitidas desde os seus antepassados. As diferenças humanas seriam determinadas essencialmente pelo fator biológico e, deste modo, os indivíduos de uma determinada raça herdariam, além dos traços físicos, as aptidões do seu grupo social de nascimento. 4. As ideias são o conjunto de conhecimentos, formais e informais. Se formais, comumente, são passados de geração para geração – 153 – Gabarito por meio da educação formal na escola. Se informais, por meio da educação não formal, pela família, pelos grupos de relaciona- mento ou instituições que trabalham com esta forma de ensino. Vale observar que, muitas vezes, aquele conhecimento que num momento era considerado informal, acaba adquirindo um status de formal e é incorporado aos currículos escolares. Isto é, esta definição não é tão rígida e muda com o tempo. As crenças são, em resumo, aquilo que coletivamente acredita- mos, algumas vezes com base racional e, em outras, por meio da fé institucionalizada, ou não, pelas religiões. Por valores podemos entender o que forma nossa ideologia, nossa moral, o que consideramos certo e errado, bom ou ruim. Quando nossos valores são organizados, compilados em leis e códigos, surgem os elementos chamados de normas. Então, as normas são as leis, os costumes coletivos seguidos pela tradição. Nos nossos relacionamentos com pessoas que pertencem ao nosso grupo social ou não, temos determinadas atitudes ou com- portamentos. Algumas vezes estes comportamentos são passa- dos pela família, pelo grupo de relação mais próximo e, popu- larmente, chamamos de “educação” e disto decorrem expressões como “mal-educado” ou “bem-educado”. Normas, comportamentos, atitudes e valores são produzidos e reproduzidos pelo o que denominamos instituições. De certa forma, as instituições garantem a permanência e a difusão dos elementos culturais. Podem ser instituições culturais, como os museus; educacionais, como as escolas e universidades; religio- sas, como as várias igrejas e suas crenças. Enfim, as instituições, das mais simples às mais complexas, existem para preservar e controlar nossos comportamentos. As sociedades, tanto as mais simples como aquelas mais com- plexas, desenvolvem e dominam determinadas técnicas e habili- dades. Com o passar do tempo, muitas destas sociedades incor- poram estas técnicas e habilidades em processos de manufatura Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 154 – ou de indústria mais sofisticados. Porém, quando pensamos em sociedades menos complexas, é possível identificar certas habi- lidades e técnicas em vários ramos de atividade como a cons- trução, a culinária, a agricultura, as artes, artesanato etc. Até mesmo a arquitetura e seus estilos trazem muito das técnicas e habilidades de um povo. Quem nunca ouviu falar da arquitetura grega, ou japonesa, dentre muitas outras? Por fim, existem os instrumentos e utensílios que as sociedades utilizam para aperfeiçoar suas técnicas, habilidades, modos de vida. São chamados de artefatos. A Arqueologia tem nos artefa- tos um dos objetos de estudo e pelos quais procura reconstruir o modo de vida dos nossos antepassados mais distantes. 2. Memória e Patrimônio Cultural 1. A memória constitui, atualmente, uma seara do conhecimento estudada por diversas ciências. A memória enquanto instru- mento que deve ser funcional ao indivíduo e à manutenção deste funcionamento é objeto de estudo constante da neurologia, por exemplo, e de seus interesses pelas falhas nessa ferramenta, como o mal de Alzheimer. A memória enquanto potência de salvaguarda de informações e da recuperação consciente ou não destas informações, guar- dadas as devidas proporções e divergências sobre a confiabili- dade desta recuperação, tem sido há muitos anos um dos inte- resses da psicologia. Já a memória enquanto foco de reflexões sobre a própria exis- tência de si e as possibilidades de ação a partir dela é, desde a Grécia Clássica, tema dos debates da filosofia. Ainda, enquanto objeto que pode ser moldado subjetivamente, enquanto matéria que pode ser eleita como principal em detri- mento de outras em mesmo nível e enquanto submissaao silenciamento, ou esquecimento, como preferem alguns teóri- cos, a memória tem sido também considerada, principalmente após a década de 1930, com maior proximidade pela história. – 155 – Gabarito 2. As primeiras interpretações feitas sobre Lascaux foram de temá- ticas arqueológicas, especialmente por se tratarem de restos de atividades de grupos humanos extintos e com modos de vida há muito substituídos e/ou transformados. Em seguida, a história da arte tratou de analisar os desenhos, as cores, as formas, e passou a produzir possíveis intenções sobre a visualidade daque- las figuras. Também, mais recentemente, e é aí que se aproxima dos estudos sobre a memória, o ato de registrar as formas ani- mais, por exemplo, em Lascaux, passou a chamar atenção de estudiosos da área. As questões feitas remetem-se à intenção de terem sido realizados esses registros dentro das cavernas. Seria uma comunicação dos membros do grupo com outros que talvez não conhecessem a realidade apresentada nos desenhos? Seria uma forma de inscrever no tempo, cristalizando em formas nas paredes, as atividades realizadas? Seria, ainda, uma vontade de transmissão de algum conhecimento para futuras gerações? Sem poder responder especificamente estas perguntas, uma inter- pretação teórica que podemos fazer é que, irremediavelmente, talvez até sem esse intento, os registros inscrevem nas paredes da caverna em suas diferentes passagens e salas um conheci- mento adquirido na experiência (da caça, do descobrimento do ambiente, do contato com o que cercava os indivíduos daquele momento), acondicionado na memória e posteriormente recupe- rado e articulado nos desenhos que temos nos dias atuais. Nova- mente, talvez mesmo sem perceberem, os desenhos se tornam inevitavelmente uma forma de preservação de um conhecimento e de uma memória, neste caso a memória de quem realizou a atividade de pintura, seja ela adquirida por meio de conversas entre pintores e caçadores, na possibilidade de haver esta divisão de atividades no grupo humano que ali habitou, ou por meio da vivência plena do ser em seu contexto que, posterior à realização dessa vivência, a marcou nas paredes de Lascaux. 3. O que se considera ao tratar da memória em todos os aspectos é que a interpretação do passado realizada por meio dela é sem- pre fruto do presente de quem tenta, quer ou consegue lembrar. A memória está ligada ao nosso presente, à nossa posição no Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 156 – mundo e na sociedade, tanto que em diferentes momentos de nossas vidas lembramos mais facilmente de coisas diferentes. A memória é, com isso, uma representação do passado funda- mentada na vivência do presente. Não se trata de tirar de um baú informações há muito guardadas, mas sim de tratar do que e como fazer para inseri-las no presente de quem lembra. 4. Durante as ações da Igreja Católica na Idade Média ociden- tal, outras foram as relações com a memória. As confissões, por exemplo, trazem à tona a vontade e a capacidade criada pela Igreja de se execrar da memória os sentimentos de culpa mediante a franca fala sobre as faltas cometidas e o pagamento das devidas penitências. Os sacerdotes tinham o poder, dotado por meio da agregação de valores simbólicos, de ouvir, dar a solução e acabar com as marcas negativas da vida das pessoas, portanto, de suas próprias memórias. Outra função da memó- ria na Idade Média, com o poder extremado da Igreja Católica como o primeiro estamento da sociedade, foi de substituir os antigos heróis pelos santos. A agregação de valores era a mesma: a exaltação de uma pessoa a um patamar superior aos demais, reles mortais. A criação desses ícones nada mais é que a manu- tenção da memória de alguém dotada de glórias, vitórias, abne- gações e ações essenciais ao governo, no caso da Antiguidade, e à Igreja, no caso medieval. Ser considerado santo na Idade Média ou herói na Antiguidade era receber os louvores, espe- cialmente no post mortem, por atividades desempenhadas em vida e reconhecidas por quem pode agregar ou não os valores simbólicos essenciais para a eternização do nome e da vida de alguma pessoa. 3. O patrimônio desde sua origem até o século XXI 1. A terminologia patrimônio é atribuída a uma série de significa- dos. No dicionário, pode ser definida como um bem individual que tem um grande valor emocional ou capital, mas também – 157 – Gabarito pode ser um bem conjunto, aquele que está presente e é notável para a manutenção cultural e histórica da sociedade ao qual está inserido. 2. Patrimônio Material: definido pelo Iphan como imóveis, como as cidades históricas, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; ou móveis, como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, vide- ográficos, fotográficos e cinematográficos (IPHAN, 1988). Patrimônio Imaterial: é em base o maior responsável pela demo- cratização da preservação da cultura, arte e história, afinal, não está necessariamente relacionado às questões do capital, são atos, saberes, indivíduos, entre outros, que nasceram e se pre- servam por atitude e encorajamento popular. Só se preservam vivos na memória por serem de atitudes coletivas e de nenhuma forma podem ser impostas, afinal, como já discutido, a cultura vem do povo. Patrimônio Arqueológico: os locais onde se encontram vestígios positivos de ocupação humana, os sítios identificados, como cemitérios, sepulturas ou locais de pouso prolongado ou de alde- amento, “estações” e “cerâmicos”, grutas, lapas e abrigos sob rocha. Além das inscrições rupestres ou locais com sulcos de polimento, os sambaquis e outros vestígios de atividade humana (IPHAN, 1988). Patrimônio Mundial: definido por um conjunto de bens que tem relevância para a conservação da história, arte, identidade, cul- tura ou memória de todas as populações. O responsável pela administração deste patrimônio é a Convenção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural (UNESCO). 3. Mario de Andrade estava fortemente relacionado com ques- tões de folclore e cultura nacional, inclusive quando da pré- -formulação do SPHAN, o poeta era o diretor do Departamento de Cultura de São Paulo. Nesse cargo fez diversas viagens ao Nordeste do Brasil, o que lhe deu bagagem intelectual suficiente para criar, em 1947, a Comissão Nacional do Folclore. Mario de Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 158 – Andrade tentou dar visibilidade aos aspectos não só materiais como imateriais da cultura nacional, em suas mais diferentes características e posições sociais. Em 1988, o ideal de patrimônio questionado por Mario de Andrade é revisitado, passando a assumir o Patrimônio Imaterial como um bem a ser tombado. 4. A paisagem cultural é, nas palavras de Sauer (apud CORRÊA; ROSENDAHL, 1998, p. 9), “modelada a partir de uma paisagem natural por um grupo cultural. A cultura é o agente, a área natural é o meio, a paisagem cultural o resultado”. Todavia, Sauer privi- legiou a análise morfológica da paisagem cultural e os aspectos materiais da cultura, não considerando seus aspectos subjetivos. 4. Patrimônio e Propriedade 1. O patrimônio destinado à preservação deve corresponder às necessidades da sociedade a qual está inserido, deve fazer parte de sua cultura e dizer algo sobre seus hábitos, é desta maneira que ele passa a existir. 2. A sociedade pós-moderna compreende a propriedade numa construção social e é desejável que todos dentro dela tenham as mesmas oportunidades de possuir uma. 3. A educação patrimonial busca levar aos alunos conhecimentobásico sobre o que é patrimônio, o que é cultura e a importância da legitimação de ambos os conceitos para a formação de uma identidade social. A educação patrimonial se tornou o braço forte do Patrimônio Cultural, e por meio dela o processo de democra- tização ao acesso ocorre. 4. A apropriação cultural é o uso de atributos da cultura alheia, é se apropriar de ritos, modos de viver, arquitetura, jeitos de vestir. A apropriação cultural se intensificou após a globalização mundial e o advento da internet; hoje, é simples e rápido conhecer outra cultura e encontrar nela referências para usar para si. – 159 – Gabarito 5. Patrimônio, representação e identidade 1. Para Durkheim a representação da sociedade se dá como uma maneira de compreender os indivíduos coletivamente, obser- vando a cultura e os modos de viver de uma sociedade pode-se compreendê-la. Já Moscovici objetivou seus estudos em dife- renciar os mais heterogêneos modos de pensar coletivamente dentro da sociedade do século XX. 2. Ser exemplos excepcionais que representem processos ecológi- cos e biológicos significativos para a evolução e o desenvolvi- mento de ecossistemas terrestres, costeiros, marítimos e de água doce e de comunidades de plantas e animais; ou conter fenô- menos naturais extraordinários ou áreas de uma beleza natural e uma importância estética excepcional; ou conter os habitats naturais mais importantes e mais representativos para a conser- vação in situ da diversidade biológica, incluindo aqueles que abrigam espécies ameaçadas que possuam um valor universal excepcional do ponto de vista da ciência ou da conservação. 3. A identidade é um fenômeno social, que elege o Patrimônio Cul- tural e é formada pelas suas diferenças e igualdades. O patrimônio é o resultado das diferentes formas de ver e viver a sociedade. A identidade faz parte de nós e é componente insubstituível da sociedade, seja uma identidade construída pelas minorias, seja uma identidade construída pela mais alta escala dos níveis sociais. 4. Michael Pollak discute que o indivíduo possui uma identidade única, contudo, ninguém pode construir uma imagem própria e esperar que os outros não a transformem. A identidade indivi- dual depende da sociedade, por exemplo, quando nos olhamos no espelho, vemos nossa autoimagem, mas por mais idêntica a nós que ela esteja ela está ao contrário, sofreu alterações 6. Patrimônio Cultural no mundo 1. A resposta é simples: seja como um explorador, busque conhecer primeiramente o patrimônio e investigá-lo sem agre- Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 160 – dir. Uma forma que poucos sabem, mas que ajuda a preservar lugares e os patrimônios é divulgando, quanto mais pessoas souberem da existência, mais atenção será dada, e dessa forma será preservado. 2. Para que um patrimônio se torne patrimônio independente que seja material ou imaterial, é preciso existir valores atribuídos ao objeto em questão, e um desses valores é a relação da humani- dade com o objeto. Sendo assim, todos temos uma relação com o patrimônio. A agressão a sua natureza somente vai existir se houver o risco de depredação. Muitos patrimônios correm ris- cos, em principal os imateriais, por consequência do desenvol- vimento social e sua multiplicação, tradições, religiões, música etc. Uma forma de se preservar, ainda assim, é pela divulgação; entidades como as citadas na obra são responsáveis por cultivar e informar a existência desses patrimônios. 3. Os Patrimônios Municipal, Estadual, Nacional e Mundial são bens de todos. Por isso, devemos preservá-los como se fossem algo de mais precioso e particular nosso, bem como ter cons- ciência de seu valor histórico e cultural. O patrimônio guarda riquezas memoriais para Patrimônios Materiais e Imateriais, e biológicas no caso dos Patrimônios Naturais. Por meio de mui- tos patrimônios, se estudam comportamentos da sociedade con- temporânea e se conhece mais a história local e mundial. 4. A História Ambiental é um campo de estudo que se relaciona com outros campos, como biologia, geografia e antropologia, para investigar o ambiente do qual a humanidade tem se uti- lizado no decorrer da história. Donald Worster vai dizer que a História Ambiental começa a surgir quando o desenvolvimento global e a necessidade de preservação começam a se idealizar. Não somente isso, a História Ambiental procura investigar e entender as interações ambientais relacionadas às interações sociais no ecossistema natural; por exemplo, investigar os ves- tígios de interações humanas em uma floresta dita como intocá- vel e que nunca fora habitada por humanos. Contudo, a História – 161 – Gabarito Ambiental também visa estudar as mudanças causadas pela inte- ração humana com o ambiente natural. Para ser mais claro, esse campo de pesquisa investiga as rela- ções humanas com os resultados ambientais, como por exemplo os estudos e causas dos derretimentos das geleiras da Antártida. 7. As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil 1. A reforma da constituição elaborada no ano de 1988 veio para somar às conquistas culturais, isso porque a nova e moderna Constituição elaborava medidas da mais vasta especialidade para os mais diversos tipos de Patrimônios Culturais. O Brasil avançava cada dia mais para que o Patrimônio Cultural fosse realmente levado a sério. As políticas públicas de valorização do património passaram a ser democráticas, dando acesso e visi- bilidade para a sociedade civil; além disso, muitas das iniciati- vas visavam a participação efetiva do povo. 2. A importância desse tombamento se dá por diversos fatores, o principal deles é a percepção da influência da cultura afro- -brasileira para a Bahia, além do fato desse Patrimônio Cultural fugir totalmente dos princípios de tombamento que priorizavam as construções luso-brasileiras. Era a primeira vez na história da preservação brasileira que a cultura das minorias era visitada e compreendida como importante e influente. 3. O Plano de Ação para Cidades Históricas é um trabalho constru- ído entre os estados, municípios e o IPHAN com o objetivo de integração do Patrimônio Cultural Brasileiro como um todo, ou seja, a ideia é a valorização da cidade toda e não apenas de patri- mônios específicos. É a valorização do território urbano e não apenas de bens isolados e, para isso, realizam metas e objetivos para serem realizados pelos órgãos destinados dentro das cida- des e dos estados; também contam com o auxílio das empresas Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 162 – privadas e da sociedade civil para o bom funcionamento e anga- riamento de verba para agir de forma local. 4. Podemos concluir, portanto, que as políticas públicas vêm em favor da salvaguarda dos bens materiais e imateriais de valo- res históricos, artísticos e paisagísticos nacionais, contudo, nenhuma destas políticas poderá funcionar com eficiência se feita sem a legitimação da sociedade civil, agente de importante valor dentro desse movimento. É graças à comunidade que os Patrimônios Culturais são selecionados, tombados e sofrem a ação política de proteção. Sem o cuidado intensivo dos devi- dos interessados (a sociedade), é muito provável que as entida- des responsáveis também não cumpram seu papel. É de suma importância que as pessoas tenham atitudes de cobrança e amor quando se trata de seus patrimônios, de suas histórias. 8. Patrimônio Cultural e Meio Ambiente 1. Para John B. Jackson (1984, p. 5) a paisagem “é uma realidade concreta e compartilhada tridimensionalmente”, ou seja, paisa- gem seria um grande grupo de espaços e esses espaços são resul- tado de transformaçõeshumanas, isso porque a paisagem, para o autor, é analisada por meio da arquitetura e do urbanismo. 2. A paisagem cultural é aquela que sofreu mudanças no seu natural; essas mudanças foram realizadas pelo homem e elas narram conceitos culturais humanos. Um bom exemplo de pai- sagem cultural são as comunidades indígenas, as reservas; essa sociedade envolta pela natureza faz parte da paisagem, mas a modificou, construiu suas tendas, cortou algumas árvores. A comunidade indígena transforma a paisagem natural em uma paisagem cultural. 3. Questões econômicas são, em geral, o maior inimigo da pre- servação da paisagem cultural no Brasil, isso porque essas paisagens, muitas vezes, se localizam em lugares de interesse comercial, como jazidas de ouro, por exemplo. As próprias – 163 – Gabarito reservas indígenas são atacadas quase que diariamente para se transformarem em lugares de exploração de madeira e bens econômicos naturais. 4. O Patrimônio Natural é aquele ligado ao meio ambiente. Com- preendemos a importância da natureza para a formação da cul- tura humana e, partindo disso, podemos definir que todas as formas naturais podem ser consideradas patrimônio, inclusive aquelas às quais o homem ainda não atribuiu finalidade. Já a pai- sagem cultural são os meios naturais que sofreram interferência humana e, mesmo assim, não perderam suas características, na verdade ajudaram a construir a cultura e a diversidade cultural que vemos no nosso país. Infelizmente, ambos os aspectos aca- bam sendo desvalorizados pelos órgãos culturais, que quase não possuem atribuições especificas para a manutenção e proteção dos patrimônios de ordem natural. 9. Os Marcos Legais 1. As cartas patrimoniais foram uma série de esforços para ela- borar regimentos que fornecessem os alicerces da atuação dos profissionais da área do Patrimônio Cultural. São documentos vindos de períodos distintos, organizados por grupos com prio- ridades diversas. Segundo Kuhl (2010), as cartas são documentos concisos e sin- tetizam os pontos a respeito dos quais foi possível obter con- senso, oferecendo indicações de caráter geral. Embora formulados por participantes de congressos internacio- nais, os princípios sobre a conservação e a restauração seriam aplicáveis de acordo com o contexto cultural de cada nação. 2. Entre algumas das propostas elencadas na carta, vale ressaltar a criação de organizações internacionais para a revisão e avaliação criteriosa dos processos de restauro, com a intenção de preve- nir equívocos que descaracterizem certas estruturas, danificando seu atribuído valor histórico. Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 164 – A carta criou uma movimentação que favoreceu a criação de legislações nacionais, e organizações como o ICOM (Conselho Internacional de Museus) e a UNESCO, construindo um amplo movimento internacional. 3. No documento, o patrimônio é encarado como testemunho da História e das tradições de uma sociedade. Fazem parte, além de obras de arte e monumentos, edificações e sítios de grande signi- ficância e construções modestas que tenham adquirido relevância cultural. O trabalho de restauro e conservação é visto como de caráter interdisciplinar, requerendo a assistência de todas as ciên- cias para a salvaguarda e manutenção permanente do patrimônio. Podemos perceber, a partir da leitura do documento, que ele propõe uma visão que respeita às intervenções da passagem do tempo, encarando o monumento como um documento histórico. 4. Conforme o Art. 216º da constituição: Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza mate- rial e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, porta- dores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espa- ços destinados às manifestações artístico-culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico (BRASIL, 1988). 10. Educação Patrimonial 1. A História busca estudar a humanidade e os eventos que ocor- rem ao longo da história; dessa forma, consequentemente está – 165 – Gabarito vinculada a estudar e compreender o que se entende por Patri- mônio Cultural. Como já ressaltado ao longo de todo o capí- tulo, a história problematiza os valores culturais e históricos do patrimônio, tendo como resultado os valores de identificação para a sociedade. Mas como a opinião pública prevalece, quem decide o que de fato é ou não Patrimônio Cultural para a nação é a sociedade! A História busca defender a ideia de que o Patrimônio Cultural é de fato válido para a identidade da sociedade, uma vez que o uso e a execução de longo prazo o caracterizaram assim. A mediação histórica e cultural auxilia na melhor compreensão, e pesquisas e livros são ainda mais aprofundados. 2. Toda arte que tenha valor histórico ou pertencente a um indiví- duo ou grupo é considerada patrimônio. Como vimos, o Patri- mônio Cultural é julgado pelos seus valores culturais e histó- ricos. Para um patrimônio ser considerado nacional, é levada em conta toda a sua história e a construção identitária do povo. Como exemplo, são caracterizados como Patrimônio Cultural estilos musicais como o fandango e o samba. Nas danças popu- lares brasileiras, podemos destacar: danças folclóricas, frevo, quadrilha e maracatu. 3. A maior dificuldade encontrada atualmente é a falta de qualifica- ção em educação patrimonial. Levando em conta que o pouco que se tem ainda é de qualidade, atualmente o Brasil não possui como disciplina de currículo escolar a educação patrimonial. Encontra- mos maiores informações sobre os patrimônios e quais são eles por meio dos museus e mediações ou pesquisas mais aprofunda- das de forma particular. Não se vê professores qualificados pas- sando informações mais aprofundadas sobre a cultura ou sobre o que é Patrimônio Cultural nas escolas. Por falta de informações, muitos não se sentem próximos de sua realidade cultural ou do que é um Patrimônio Cultural e a quê se aplica o termo. 4. Todos nós desejamos ter algo em especial, que nos diferencie dos outros, ou que nos faça mais independentes. A procura por uma identidade própria ou a construção dessa identidade base- Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 166 – ada na cultura é significativa, já que nos tornamos mais “inde- pendentes”, ainda que o histórico cultural brasileiro seja baseado em outras culturas, vindas da Europa e da África. Mesmo assim, possuímos características próprias, culturais e históricas. Um exemplo de busca identitária desesperadora foi no Paraná, após a emancipação: a procura por uma identidade própria culminou na construção de um movimento conhecido por “paranismo”, que influenciou a arte e movimentos políticos. Na arte, buscava valorizar as paisagens do Estado, construindo símbolos; na polí- tica, enaltecia o Estado, que agora começava um novo curso em busca de identidade própria. A sociedade é sedenta por cultura e sedenta por demonstrá-la. Referências Memória e Patrimônio Histórico-Cultural – 168 – 100 PATRIMÔNIOS Mundiais da UNESCO para conhecer. 2014. Dis- ponível em: <http://roadfortwo.com/100-patrimonios-mundiais-da- -unesco-para-conhecer/>. Acesso em: 29 out. 2018. 5 Festas Populares Brasileiras. 2018. Disponível em: <https://www.minu- toseguros.com.br/blog/5-festas-populares-brasileiras/>. Acesso em: 30 out. 2018. ALEXANDRE M. Representaçãosocial: uma genealogia do conceito. Comum, v. 10, n. 23, 2004. Disponível em: <http://www.sinpro-rio.org. br/imagens/espaco-do-professor/sala-de-aula/marcos-alexandre/Artigo7. pdf>. Acesso em: 9 out. 2018. BEZERRA, J. Budismo. 2018. Disponível em: <https://www.todamate- ria.com.br/budismo/>. Acesso em: 28 out. 2018. BRASIL. UNESCO. 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Revista Estudos Históri- cos, v. 4, n. 8, 1991. O campo de estudos do Patrimônio Cultural é, por excelência, um campo multi- disciplinar. Ele envolve a História, a Geografia, a Antropologia, a Arqueologia, a Arquitetura, as Artes visuais, o Direito, dentre outros. O profissional de História, tanto no magistério quanto em outros espaços de atuação, será cada vez mais demandado na área do Patrimônio Cultural. Mu- seus, centros de pesquisa, universidades e órgãos e preservação demandam esse serviço de forma crescente. Foi pensando na perspectiva da atuação profissional que essa obra foi escrita. Ela abrange, de forma panorâmica, os conteúdos principais desse campo do saber: conceito de cultura, relações entre a história e a memória, cultura e pro- priedade, marcos legais, identidade, Patrimônio Ambiental, órgãos de preser- vação e educação patrimonial. Trata-se de uma obra introdutória que não esgota o assunto; pelo contrá- rio, apenas inaugura um caminho para que profissionais, dos mais diversos campos, aprofundem seus estudos, multipliquem pesquisas e ampliem nosso conhecimento sobre um tema tão importante para a nossa sociedade. 9 7885 53 3 7044 3