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MEMÓRIA E PATRIMÔNIO
HISTÓRICO-CULTURAL
Hugo Moura Tavares
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Curitiba
2018
Memória e 
Patrimônio 
Histórico-Cultural
Hugo Moura Tavares
Ficha Catalográfica elaborada pela Editora Fael.
T231m Tavares, Hugo Moura
Memória e patrimônio histórico-cultural / Hugo Moura Tavares. – 
Curitiba: Fael, 2018.
178 p.: il.
ISBN 978-85-5337-044-3
1. Patrimônio histórico - Proteção 2. Patrimônio histórico - Brasil 
I. Título 
CDD 363.69
Direitos desta edição reservados à Fael.
É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael.
FAEL
Direção Acadêmica Francisco Carlos Sardo
Coordenação Editorial Raquel Andrade Lorenz
Revisão Editora Coletânea
Projeto Gráfico Sandro Niemicz
Capa Vitor Bernardo Backes Lopes
Imagem da Capa Shutterstock.com/Thiago Leite
Arte-Final Evelyn Caroline dos Santos Betim
Sumário
Carta ao Aluno | 5
1. O conceito de cultura | 7
2. Memória e Patrimônio Cultural | 23
3. O patrimônio desde sua origem até o século XXI | 45
4. Patrimônio e Propriedade | 61
5. Patrimônio, representação e identidade | 73
6. Patrimônio Cultural no mundo | 87
7. As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil | 97
8. Patrimônio Cultural e Meio Ambiente | 109
9. Os Marcos Legais | 121
10. Educação Patrimonial | 141
Gabarito | 151
Referências | 167
Prezado(a) aluno(a),
O ensino da História requer do historiador análises diversas 
dos fragmentos deixados pelo passado. Nessa obra, serão apre-
sentados conceitos pertinentes para a reflexão do uso do Patrimô-
nio Cultural dentro do ensino da História.
O autor apresenta nessa obra os percalços, conceitos e pro-
blematizações profícuos para a compreensão do estudo do Patri-
mônio Histórico-Cultural, a fim de possibilitar ao acadêmico uma 
preparação de qualidade para a execução de sua futura profissão. 
Essa obra pretende introduzir o futuro historiador ao conheci-
mento dos bens patrimoniais de valor material, imaterial, natural 
e mundial, transmitindo segurança em sua formação. Desejamos 
uma excelente leitura e bons estudos.
Carta ao Aluno
1
O conceito de cultura
Nesse capítulo abordaremos o conceito de cultura. Partimos 
de como o conhecemos no nosso senso comum rumo a uma con-
ceituação mais elaborada e complexa.
Este conceito, como qualquer categoria científica, apresenta 
sua historicidade, isto é, mudou e adquiriu vários significados 
através do tempo, e conhecê-lo é importante. Nenhum conceito é 
estático, definitivo e esta perspectiva deve sempre estar na mente 
do leitor e do estudante.
Dentre os inúmeros pensadores da cultura, destacamos a 
interpretação do intelectual galês Raymond Williams autor de, 
entre outros trabalhos, Cultura e Sociedade - de Coleridge a 
Orwell. Fundador dos chamados Estudos Culturais, esse autor 
trouxe importantes contribuições teóricas ao campo de estudos 
sobre a cultura. Do seu conceito de cultura comum é possível 
estabelecer uma ponte para a definição antropológica do termo. 
Assim, procuramos dar um panorama geral de como a Antropo-
logia tratou a cultura e seus principais elementos formadores que 
nos ajudarão a compreender melhor os capítulos seguintes.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 8 –
1.1 Cultura no nosso cotidiano
No nosso cotidiano, quando uma pessoa é muito inteligente e tem 
muito conhecimento, costumamos dizer que ela tem cultura. Ter cultura, 
neste sentido, significa conhecer as belas artes, como música, pintura, 
literatura, filosofia etc. Também é usual as pessoas utilizarem este termo 
quando nos referimos a uma pessoa que estudou muito, frequentou o 
ensino superior, fez cursos de pós-graduação, enfim, que é “diplomada”! 
Na verdade, um significado está ligado ao outro.
Ao afirmarmos que uma pessoa culta é aquela que tem muito conhe-
cimento e que este conhecimento é consequência do estudo que ela tem, 
estamos querendo dizer que cultura se aprende na escola, na educação 
formal. E isto nos leva a acreditar que é esta educação formal que nos 
permitirá ter acesso e compreender as chamadas belas artes. Em outras 
palavras, a parcela da população que tem acesso à educação formal é a 
que tem acesso aos concertos de música, às galerias e museus de arte, às 
bibliotecas, às livrarias, aos cinemas e aos teatros.
A partir desta lógica, quanto mais estudo, mais acesso à cultura e, em 
consequência, mais culto alguém será. Correto? Parcialmente, sim.
Figura 1.1 – Cultura como acúmulo de conhecimento
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– 9 –
O conceito de cultura
Outro significado para este conceito está ligado a nossa identidade. 
No nosso cotidiano, quando vamos nos referir a uma característica única 
de um país, região ou cidade, utilizamos a palavra cultura.
Quando apresentamos nossa cidade a um visitante, escolhemos 
aquilo que nos diferencia, que nos faz únicos. Levamos nosso visitante a 
um restaurante onde ele poderá apreciar um prato típico da nossa região, 
ou então conhecer um artesanato, experimentar uma bebida local, apreciar 
uma dança ou uma celebração religiosa. Como resultado, temos expres-
sões como “churrasco gaúcho”, “cozinha amazonense” e “cerâmica mara-
joara”, por exemplo.
Quem nunca ouviu alguém falar que o brasileiro gosta de futebol e 
feijoada porque isto faz parte da nossa formação cultural? Ou, numa situ-
ação inversa, numa discussão, quando queremos explicar um problema 
crônico, defendermos a ideia de que este problema não tem solução por-
que é cultural.
Assim, neste sentido, cultura não é sinônimo de conhecimento adqui-
rido na educação formal ou manifestação artística. Diz respeito a algo 
mais profundo: tem a ver com nossa identidade, com aquilo que nos faz 
diferentes, por exemplo, dos árabes, dos japoneses, dos franceses, dos 
americanos etc.
Figura 1.2 – Mulher baiana no Pelourinho, Salvador/BA
Fonte: Shutterstock.com/Filipe Frazao.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 10 –
Pelo o que podemos perceber até o momento, o conceito de cultura 
é mais complexo e tem mais de um significado e, neste caso, dizemos 
que ele é polissêmico, do grego polysemos, cuja tradução é: algo que tem 
muitos significados. O fato de a cultura ser um conceito polissêmico acon-
tece porque as palavras são criadas, produzidas e reproduzidas pelos seres 
humanos vivendo em sociedade. O que equivale a dizer que elas não têm 
sempre o mesmo significado, mudam no tempo e no espaço. Aliás, vários 
significados convivem uns com os outros. Este fato nos leva a perceber 
que cultura, como qualquer conceito, tem sua historicidade, e conhecê-la 
nos ajudará a compreendê-la melhor.
1.2 História do conceito de cultura
Dentre os vários intelectuais que estudaram o tema, o intelectual 
galês Raymond Williams se destaca. Este pensador foi um dos fundado-
res dos chamados Estudos Culturais e dedicou grande parte da sua vida 
profissional ao estudo da história do termo cultura. O fato de seu objeto 
de pesquisa na obra Cultura e Sociedade ter sido a tradição cultural bri-
tânica, não invalida a importância da sua pesquisa para a reflexão mais 
ampla do conceito.
De acordo com Tavares,
a obra Cultura e Sociedade reconstitui historicamente os discursos 
sobre a cultura presentes na tradição britânica entre 1780 e 1950. 
Examina as ideias sobre cultura e sociedade e a mudança do sig-
nificado desses termos desde os primeiros anos de consolidação 
da Revolução Industrial. Analisa as mudanças semânticas e suas 
relações com as mudanças sociais pelas quais passou a Inglaterra 
com o desenvolvimento e consolidaçãodo modo de produção 
capitalista. Seu livro identifica e estabelece uma tradição inglesa 
de debates sobre as relações entre a cultura e a sociedade que 
congrega autores dos mais diversos pontos de vista políticos. Em 
outras palavras, um dos méritos desse trabalho foi o de localizar 
essa tradição em obras de autores que comumente eram estuda-
dos em separado. Isto é, procura focar as respostas que intelectu-
ais ingleses dão às transformações sociais, políticas e econômicas 
pelas quais estão passando. (TAVARES, 2008, p. 14)
– 11 –
O conceito de cultura
 Saiba mais
Quer conhecer mais sobre os Estudos Culturais? Para Stuart Hall, dire-
tor do Centro Contemporâneo de Estudos Culturais da Universidade 
de Birmingham, entre 1968 e 1980, os estudos culturais tiveram sua 
origem nos trabalhos de Raymond Williams, Richard Hoggart e E. P. 
Thompson, autores de três textos que, surgidos no final dos anos 50, são 
considerados a base dessa disciplina: The Making of the English Working 
Class (1963), de Edward P. Thompson; Culture and Society, 1780-1950 
(1958), de Raymond Williams; e The Uses of Literacy (1957), de Richard 
Hoggart. Para Hall, a importância dessas obras está no fato de que elas 
representaram uma ruptura dentro das ciências humanas na Inglaterra.
Uma ótima dica para iniciar sua caminhada neste campo de estudos é a 
leitura destes dois livros:
 2 CEVASCO, M. E. Para ler Raymond Williams. São Paulo: Paz e 
Terra, 2001.
 2 CEVASCO, M. E. Dez lições sobre os estudos culturais. São Paulo: 
Boitempo, 2003.
Boa leitura!
O termo cultura entrou na língua inglesa a partir do latim colere, 
habitar, do qual derivou colono e colônia. Também significava adorar, no 
sentido de culto religioso, e cultivar, no sentido de cuidar da terra e dos 
animais. Esse sentido prevaleceu até o século XVI. A partir de então, a 
palavra cultura começou a ser usada como o cultivo do espírito, das facul-
dades mentais, algo que deveria ser cuidado desde a infância, de onde, 
provavelmente, surgiu a expressão “jardins da infância” em que o conhe-
cimento/cultura poderiam ser cultivados (TAVARES, 2008, p. 12).
No século XVIII, junto com civilização, cultura designa progresso 
intelectual e espiritual. Uma pessoa culta seria aquela que evoluiu nos seus 
estudos e o mesmo pensamento se estendia para as sociedades. Assim, 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 12 –
os países europeus seriam o ponto máximo do desenvolvimento humano, 
para onde todos os povos do mundo deveriam se dirigir.
Deste modo, quem seria considerado civilizado? Seria o indivíduo ou o 
país educado dentro daquela tradição humanista que buscava na antiguidade 
clássica o seu modelo de vida e educação. Seguindo este raciocínio, quem 
não seria civilizado? Aquelas pessoas ou sociedades que ainda viviam num 
estado natural, “bárbaro” e, comumente, afastados das metrópoles europeias.
O iluminismo francês, no século XVIII, reforçou esta ideia de civili-
zação. Só que, neste caso, o caminho rumo ao estado civilizado seria o da 
razão, o do pensamento livre e lógico. Pelo uso da razão, o homem chega-
ria à civilização tendo como modelo a França setecentista.
Neste modelo iluminista, ser civilizado reforça a ideia de cultura 
como resultado de um processo de educação. A pessoa culta seria aquela 
que foi “cultivada” nos valores da civilização e, principalmente, da civi-
lização francesa.
Se o pensamento francês estabeleceu uma relação íntima entre cul-
tura e civilização, o pensamento alemão caminhou em sentido inverso.
Numa interpretação nacionalista, para os alemães, cultura tinha a ver 
com aquilo que as pessoas sentem, intuem, enfim, algo ligado ao espírito e 
não à razão. Esta oposição entre razão e emoção ainda está presente nos dias 
de hoje em várias expressões artísticas como a música, a poesia, o cinema, 
os romances e, com certeza, já foi título de alguma telenovela. Enfim, o 
que estava em jogo era, do lado alemão, a tentativa de resgatar os valores 
morais, costumes e comportamentos tradicionais dos povos germânicos.
Os alemães, no século XIX, estavam construindo uma nação unificada 
e precisavam difundir o sentimento de uma cultura nacional. Para isso, o 
conceito de civilização proposto pelos franceses não funcionava. Ele era 
muito universal, aplicável a todas as sociedades europeias. Para os germâni-
cos, era necessário um conceito de cultura que representasse o modo de vida 
alemão em oposição a outros modos de vida de outras nações.
Se você parar um pouco para refletir, perceberá que os conceitos 
apresentados no início do capítulo, de cultura como conhecimento e como 
modo de vida, tiveram seu surgimento neste período.
– 13 –
O conceito de cultura
O desenvolvimento e a expansão do modo capitalista de produção, 
que teve na Revolução Industrial uma das suas expressões, influenciou a 
mudança semântica da palavra cultura.
Durante o século XIX, na medida em que se percebia que, junto 
com o desenvolvimento capitalista havia uma perda dos valores 
humanos, e que civilizar “os bárbaros” (as populações colonizadas 
pelos europeus) tinha como consequência sua conquista, dominação 
e exploração, a palavra cultura sintetizou uma posição de crítica à 
sociedade industrial.
Num mundo em acelerada transformação e perda de referências e 
valores, o cultivo do espírito humano, das belas artes, significava a resis-
tência de um humanismo em vias de desintegração. Com isso, no século 
XIX, o termo cultura passou a ser associado ao processo geral de desen-
volvimento “íntimo”, em oposição ao “externo”. Cultura passou a ser 
ligada às artes, religião, instituições, práticas e valores distintos e às vezes 
até opostos à civilização e à sociedade que surgiram com a Revolução 
Industrial. (TAVARES, 2008, p. 13).
Se por civilização entendia-se “civilização industrial” dominada 
pelas máquinas e pelo materialismo, a cultura seria o último refúgio de 
um mundo em desintegração. Para estes pensadores, só seria possível 
desenvolver a cultura se ela estivesse afastada das influências nefastas da 
sociedade industrial e moderna. Temos que lembrar que este é o período 
das grandes aglomerações urbanas, quando milhares e milhares de pessoas 
se dirigiam às cidades em busca de emprego. Manchester, na Inglaterra, 
era uma cidade povoada por chaminés de fábricas, cortiços de operários, 
poluição, violência e problemas urbanos. Uma realidade bem distante do 
que se entendia por civilizado ou culto!
A cultura, ameaçada pela sociedade industrial que transformava tudo 
em mercadoria, deveria ser salva e cultivada por poucos e para poucos. 
Nesta concepção, caberia a uma elite cultural organizada numa irmandade 
formar seus pares e garantir a manutenção e reprodução dos bens culturais 
ameaçados pelo progresso.
Em termos da cultura como uma vida voltada para os sentimentos, 
para as emoções, o desenvolvimento industrial era o surgimento de uma 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 14 –
realidade oposta a este ideal. Se a industrialização da sociedade e o seu 
progresso sem freios destruía tradições, era necessário buscar e valorizar 
uma forma de viver oposta a tudo isso. Um modo de vida “orgânico”, 
“natural” deveria se opor ao progresso sem medida!
Quando o século vinte iniciou, além do sentido que permaneceu, de 
cultivo agrícola, outros três significados passam a conviver entre si:
a) a cultura como resultado de uma ação educativa, formal ou 
informal.
b) como consequência da primeira, também era vista como o con-
junto de expressões artísticas e seus produtos, como a música, 
a literatura, a escultura, o teatro, a pintura, entre outras. As cha-
madas belas artes que deveriam formar o bom gosto e o senso 
estético das pessoas.
c) por fim, como algo ligado a um mundo utópico, perdido, puro, 
em oposição aos males da modernidade.Estes três sentidos atravessaram o século XX e, ainda hoje, parti-
cipam do debate sobre a concepção de cultura. Porém, um outro fato 
contribuiu para ampliar o significado do termo: o surgimento e expansão 
da Antropologia.
1.3 O conceito antropológico de cultura
A Antropologia enquanto ciência, derivada das ciências sociais, tem 
sua origem na especialização que as chamadas ciências humanas sofreram 
no século dezenove.
Com a globalização, que teve sua aceleração com os descobrimen-
tos marítimos a partir do século quinze, os europeus tiveram contato com 
várias sociedades. Alguns autores interpretam este encontro como um 
choque cultural que afetou tanto a Europa quanto os outros continentes.
Após o choque inicial, os europeus iniciaram um esforço de com-
preensão das sociedades contatadas. Fosse para melhor dominá-las, por 
meio da colonização, ou conhecê-las, para fins de comércio ou de conhe-
– 15 –
O conceito de cultura
cimento científico, fato é que a existência destes “outros” exigiu esque-
mas explicativos.
Uma das propostas era a de estabelecer uma hierarquia, com base na 
ideia de civilização. Por este modelo, os europeus representariam o último 
estágio civilizatório e os demais povos, o início ou a fase intermediária. 
Assim, os indígenas brasileiros, por exemplo, estariam classificados como 
“bárbaros” ou “selvagens”.
De acordo com este ponto de vista, para muitos europeus, a coloni-
zação de outros povos tinha como um dos objetivos o de levar ao restante 
do globo os valores da civilização europeia, isto é, “ajudar” outros povos 
e nações a evoluírem.
Outro aspecto que fortaleceu esta classificação do mundo entre “civi-
lizados” e “primitivos” foi a teoria da evolução de Charles Darwin. Com 
sua obra A origem das espécies, Darwin defendeu e demonstrou a evolu-
ção das espécies por meio do processo evolutivo da seleção natural. Para 
ele, as espécies vegetais e animais teriam se desenvolvido durante milha-
res de anos, a partir de formas ancestrais.1
A teoria da evolução das espécies causou – e ainda causa – polêmica, 
mas fato é que foi interpretada de várias maneiras e influenciou a Antro-
pologia. Influenciou negativamente ao possibilitar uma leitura equivocada 
da evolução das espécies, pela qual existiriam seres humanos evoluídos 
em oposição aos não evoluídos, ou, em outras palavras, superiores e infe-
riores. Este fato demonstra como, em muitas ocasiões, certas ideias são 
utilizadas conforme convém a determinados interesses. 
O chamado “darwinismo social” influenciou e motivou teorias racis-
tas que justificaram a escravização de seres humanos e até seu extermínio. 
Por estas teorias, o termo raça definiria as características físicas, psico-
lógicas e culturais transmitidas desde os seus antepassados. As diferen-
ças humanas seriam determinadas essencialmente pela biologia e, deste 
modo, os indivíduos de uma determinada raça herdariam, além dos traços 
físicos, habilidades e inteligência.
1 Para mais informações sobre Charles Darwin, acesse <https://www.ebiografia.com/char-
les_darwin/>.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 16 –
Figura 1.3 – Campo de extermínio de Auschwitz, Polônia
Fonte: Shutterstock.com/Lois GoBe.
É claro que o darwinismo social influenciou a concepção de cultura 
e reforçou aquela que via nas manifestações culturais das sociedades ditas 
primitivas algo a ser desprezado ou, no máximo, objeto de curiosidade.
No entanto, a Antropologia e as ciências humanas no geral, supera-
ram o evolucionismo e, desde o final do século XIX, várias tendências 
teóricas surgiram e influenciaram o conceito de cultura. Dentre elas, o 
aparecimento da Antropologia Cultural. De acordo com Oliveira,
podemos afirmar que o objeto do estudo da Antropologia é a pes-
soa humana e a sua atividade. No caso da Antropologia Cultu-
ral o objeto é o ser humano e os seus comportamentos, ou seja, 
o homem e a mulher enquanto integrantes de grupos sociais que 
fazem cultura. Por essa razão é possível dizer que o objetivo da 
antropologia é o estudo da humanidade como um todo, bem como 
das suas diversas manifestações e expressões. Assim sendo, pode-
-se dizer que no seu objetivo a Antropologia se preocupa com a 
pessoa humana na sua condição de ser biológico, ser pensante, 
ser que produz culturas e ser capaz de organizar-se em sociedades 
estruturadas. (OLIVEIRA, [S.d.], p. 2)
Se todo ser humano é um ser pensante e que se manifesta e se expressa 
de várias formas, o conceito de cultura se amplia e abrange, praticamente, 
todas as atividades humanas. Nós somos, ao mesmo tempo, produtores e 
produto da nossa cultura. Produzimos e somos produzidos pela cultura de 
maneiras diversas, no tempo e no espaço.
– 17 –
O conceito de cultura
Deste modo, oposições binárias como cultura civilizada versus cul-
tura primitiva, cultura de elite versus cultura popular; obra de arte versus 
mercadoria; não contribuem e não enriquecem o conceito. Ele é muito 
mais amplo e complexo e envolve
as ideias que são os conhecimentos, os saberes e as filosofias de 
vida. A crença que consiste em tudo aquilo que se crê ou se acredita 
em comum. Os valores, ou seja, a ideologia e a moral que determi-
nam o que é bom e o que é ruim. As normas que englobam tanto 
as leis, os códigos, como os costumes, aquilo que se faz por tradi-
ção. As atitudes ou comportamentos, isto é, maneiras de cultivar 
os relacionamentos com as pessoas do mesmo grupo e com aque-
las que pertencem a grupos diferentes. A abstração do comporta-
mento, a qual consiste nos símbolos e nos compromissos coletivos. 
As instituições que funcionam como uma espécie de controle dos 
comportamentos, indicando valores, normas e crenças. As técnicas 
ou artes e habilidades desenvolvidas coletivamente. Os artefatos 
que são os instrumentos e utensílios usados para aperfeiçoar as 
técnicas e os modos de vida. (MARCONI; PRESOTTO, p. 27-31 
apud OLIVEIRA, [S.d.], p. 2)
Podemos perceber nesta citação o quanto o conceito se ampliou e 
abrange, praticamente, quase todos os aspectos da nossa vida.
Em 1958, Raymond Williams escreveu Culture is ordinary, numa tra-
dução livre, “cultura comum”. Este livro foi inovador por apresentar um 
conceito de cultura muito próximo ao antropológico.
No seu início, mais parecido com a abertura de um romance do que 
de um trabalho científico - o narrador descreve uma experiência corri-
queira: uma visita a uma catedral e o trajeto de retorno de ônibus. O que 
afinal une cada estágio percorrido pelo ônibus? É a palavra cultura o que 
une a catedral, o cinema, os campos arados, os castelos, o ferro trabalhado 
da escarpa, as fazendas, o moinho, o gasômetro, as minas. Em suma, ao 
longo da complexa e contestada história da palavra cultura, ela já foi usada 
para designar todas essas coisas (CEVASCO, 2001, p. 45).
Williams afirma:
crescer naquela região era ver a formação de uma cultura e suas 
modalidades de mudança. De pé no alto das montanhas eu olhava 
para o norte e via as fazendas e a catedral, ou para o sul, e via a 
fumaça e o clarão das fornalhas que compunham um segundo pôr 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 18 –
do sol. Crescer naquela família era ver a formação de modos de 
pensar: o aprendizado de novas técnicas, a alteração das relações, 
o surgimento de novas linguagens e ideias. Meu avô, um trabalha-
dor calejado, chorou em uma reunião da comunidade ao contar, 
preciso e emocionado, como tinha sido expulso pelo proprietário 
da fazenda da casa onde morava. Meu pai, não muito antes da sua 
morte, falava, calmo e contente, de como tinha fundado uma sec-
ção do sindicato e um grupo do Partido Trabalhista no povoado 
onde morava, e, sem amargura, dos “homens de rabo preso” da 
nova política. Eu uso uma linguagem diferente, mas penso nessas 
mesmas coisas. (WILLIAMS apud CEVASCO, 2001, p. 118)
A partir destareflexão, Williams conclui que ninguém detém a pro-
priedade da cultura. Ela é de todos, porque todos produzimos, de uma 
forma ou de outra, a cultura. Ela não pode ser apenas proletária ou bur-
guesa, da elite ou popular. Isto é o que ele quer dizer com a expressão 
cultura comum.
A cultura é de todos, mas não é igual para todos. Ela é produzida e 
vivida de diferentes formas e sua riqueza está no encontro, na troca e no 
respeito às diferenças. Uma cultura comum sempre pressupõe a igualdade 
do ser e, principalmente, o acesso a qualquer das suas atividades: este é 
o sentido real do princípio de igualdade de oportunidades (WILLIAMS, 
1969, p. 326).
Assim, ao chegarmos no século XXI, a cultura deixou de ser pensada 
enquanto o produto de um determinado grupo social ou de um estágio de 
desenvolvimento, por exemplo, o de civilizado. Também deixou de ser ape-
nas um modo de vida ou a expressão de uma determinada tradição folclórica.
No entanto, se o conceito se ampliou tanto, algumas divisões didá-
ticas são necessárias para uma compreensão melhor do que ele trata atu-
almente. Assim, os antropólogos estabeleceram os elementos da cultura. 
Quais seriam? Muitos, como, por exemplo, ideias, crenças, valores, nor-
mas, instituições, técnicas e artefatos.
As ideias são o conjunto de conhecimentos, formais e informais. 
Se formais, comumente, são passados de geração para geração por meio 
da educação formal na escola. Se informais, por meio da educação não 
formal, pela família, pelos grupos de relacionamento ou instituições que 
trabalham com esta forma de ensino. Vale observar que, muitas vezes, 
– 19 –
O conceito de cultura
aquele conhecimento que num momento era considerado informal, acaba 
adquirindo um status de formal e é incorporado aos currículos escolares. 
Isto é, esta definição não é tão rígida e muda com o tempo.
Por crenças definimos tudo aquilo que, individualmente ou em grupo, 
acreditamos. Algumas vezes com base racional e, em outras, por meio da 
fé institucionalizada, ou não, pelas religiões.
Por valores podemos entender o que forma nossa ideologia, nossa 
moral, o que consideramos certo e errado, bom ou ruim.
Quando nossos valores são organizados, compilados em leis e códi-
gos, surgem os elementos chamados de normas. Então, as normas são as 
leis, os costumes coletivos seguidos pela tradição.
Nos nossos relacionamentos com pessoas que pertencem ao nosso 
grupo social ou não, temos determinadas atitudes ou comportamentos. 
Algumas vezes estes comportamentos são passados pela família, pelo 
grupo de relação mais próximo e, popularmente, chamamos de “educação” 
e disto decorrem expressões como “mal-educado” ou “bem-educado”.
Normas, comportamentos, atitudes e valores são produzidos e repro-
duzidos pelo que denominamos instituições. De certa forma, as institui-
ções garantem a permanência e a difusão dos elementos culturais. Podem 
ser instituições culturais, como os museus; educacionais, como as escolas 
e universidades; religiosas, como as várias igrejas e suas crenças. Enfim, 
as instituições, das mais simples às mais complexas, existem para preser-
var e controlar nossos comportamentos.
As sociedades, tanto as mais simples como aquelas mais comple-
xas, desenvolvem e dominam determinadas técnicas e habilidades. Com 
o passar do tempo, muitas destas sociedades incorporam estas técnicas e 
habilidades em processos de manufatura ou de indústria mais sofistica-
dos. Porém, quando pensamos em sociedades menos complexas, é possí-
vel identificar certas habilidades e técnicas em vários ramos de atividade 
como a construção, a culinária, a agricultura, as artes, artesanato etc. Até 
mesmo a arquitetura e seus estilos trazem muito das técnicas e habilidades 
de um povo. Quem nunca ouviu falar da arquitetura grega, ou japonesa, 
dentre muitas outras?
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 20 –
Por fim, existem os instrumentos e utensílios que as sociedades utili-
zam para aperfeiçoar suas técnicas, habilidades, modos de vida. São cha-
mados de artefatos. A Arqueologia tem nos artefatos um dos objetos de 
estudo e pelos quais procura reconstruir a vida cotidiana dos grupos huma-
nos que viveram em épocas mais ou menos distantes.
Uma rede de pesca criada e aperfeiçoada por uma comunidade de 
pescadores do Nordeste brasileiro é um artefato. Uma canoa de um grupo 
de ribeirinhos de um rio na Amazônia, também. Porém, até mesmo um 
aparelho de telefone celular pode ser considerado um artefato.
São tantos e diferentes os artefatos que um dos problemas que se 
coloca é como classificá-los e qual o grau de importância de cada um. 
Podemos afirmar que é quase impossível medir a quantidade e a diver-
sidade dos bens culturais de um país, de uma nação, enfim, de um povo.
Muitos têm utilidade imediata, outros se destacam pela sua durabili-
dade. E existem aqueles artefatos que produzem outros artefatos, como as 
máquinas, por exemplo. A arte de cozinhar, de acordo com uma receita, 
muitas vezes é o resultado de conhecimentos acumulados durante gera-
ções! Já uma flecha é um exemplo de artefato que pode ser perdido no 
primeiro uso.
As pirâmides são artefatos, as igrejas também. As casas ribeirinhas 
construídas à beira de algum rio da Amazônia, também. Enfim, o ser 
humano vem produzindo artefatos há milhares e milhares de anos.
Este exemplo dos artefatos nos ajuda a compreender a complexi-
dade do conceito de cultura, sua abrangência e o quanto ele se tornou 
amplo ao chegarmos no século atual. No, entanto, não com o objetivo de 
encerrar o tema, mas, didaticamente, enquadrá-lo, concluímos que a cul-
tura se constitui de três elementos fundamentais: as ideias, as abstrações 
e os comportamentos.
As ideias são elaborações mentais das coisas concretas e abstratas. 
Quando refletimos, contemplamos as ideias e conseguimos expressá-las 
em símbolos, sinais, sistemas, temos as abstrações. Por fim, de acordo com 
nossas ideias e abstrações configuramos modos de agir. Estes elementos 
numa ponta, nos fazem todos humanos e, em outra, estabelecem nossas 
– 21 –
O conceito de cultura
diferenças em termos culturais. E como podemos perceber estas diferen-
ças? Por meio da observação do outro, por meio do olhar para aquilo que 
está “fora de nós” e que conosco dialoga. Os antropólogos chamam isto de 
“coisas que podem ser observadas num contexto extrassomático” (OLI-
VEIRA, 2008, p. 3).
Concluindo, para entendermos efetivamente o que é cultura, pode-
mos resumir na seguinte frase: cultura é tudo o que nos faz iguais enquanto 
seres humanos, mas, ao mesmo tempo, diferentes uns dos outros. A capa-
cidade de dialogar com a diferença na busca da nossa humanidade é o que 
torna este conceito tão amplo e tão rico na compreensão de quem somos 
no tempo e no espaço.
Síntese
Vimos nesse primeiro capítulo uma introdução ao conceito de cul-
tura. Partindo do nosso senso comum, foi apresentada a trajetória histórica 
do conceito, formulada pelo intelectual Raymond Williams.
Da história do conceito de cultura foram analisadas as definições 
de cultura comum e do conceito antropológico do termo e seus elemen-
tos formadores: ideias, crenças, valores, normas, instituições, técnicas 
e artefatos.
Figura 1.4 – Cultura
Fonte: Rawpixel.com.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 22 –
Atividades
1. Descreva dois significados de cultura utilizados pelo senso comum.
2. De acordo com o texto, na sua trajetória histórica, quais signifi-
cados adquiriu o conceito de cultura?
3. Qual a influência do darwinismo social na conceituação de cultura?
4. Descreva e explique os principais elementos da cultura dentro 
do conceito antropológico do termo.
2
Memória e 
Patrimônio Cultural 
A memória constitui uma seara do conhecimento estudada 
por diversas ciências. A memória enquanto instrumento que deve 
ser funcionalao indivíduo e à manutenção deste funcionamento é 
objeto de estudo constante da neurologia, por exemplo, e de seus 
interesses pelas falhas nessa ferramenta, como o mal de Alzheimer.
A memória enquanto potência de salvaguarda de informa-
ções e da recuperação consciente ou não destas informações, 
guardadas as devidas proporções e divergências sobre a confia-
bilidade desta recuperação, tem sido há muitos anos um dos inte-
resses da psicologia.
Já a memória enquanto foco de reflexões sobre a própria 
existência de si e as possibilidades de ação a partir dela é, desde 
a Grécia Clássica, tema dos debates da filosofia.
Ainda, enquanto objeto que pode ser moldado subjetiva-
mente, enquanto matéria que pode ser eleita como principal em 
detrimento de outras em mesmo nível e enquanto submissa ao 
silenciamento, ou esquecimento, como preferem alguns teóricos, 
a memória tem sido também considerada, principalmente após a 
década de 1930, com maior proximidade pela história.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 24 –
A memória configura-se, assim, como um campo de interesses e olha-
res variados, como objeto de diferentes análises, com variados fins e com 
resultados também bastante diversos.
A memória pode ser entendida como a faculdade cerebral de lem-
brar, a capacidade de armazenar informações, as imagens que ressaltam ao 
consciente de forma incontrolável, entre outras interpretações. A memória 
se apresenta, então, como algo racionalmente instrumentalizado, mas tam-
bém como algo passivamente funcional.
O que se considera ao tratar da memória em todos os aspectos é que 
a interpretação do passado realizada por meio dela é sempre fruto do pre-
sente de quem tenta, quer ou consegue lembrar. A memória está ligada 
ao nosso presente, à nossa posição no mundo e na sociedade, tanto que 
em variados momentos de nossas vidas lembramos mais facilmente de 
coisas diferentes. A memória é, com isso, uma representação do passado 
fundamentada na vivência do presente. Não se trata de tirar de um baú 
informações há muito guardadas, mas sim tratar do que e como fazer para 
inseri-las no presente de quem lembra.
2.1 A memória, a humanidade e o tempo: 
um trajeto da memória no mundo ocidental 
da Pré-História à modernidade
A memória está intimamente relacionada com as percepções de pas-
sagem do tempo, de lembrança, do irremediável esquecimento, das forças 
que se opõem em brigas metafísicas e por vezes até reais para se sobrepo-
rem umas às outras, de (re)afirmações, de justificações, relações do indi-
víduo consigo e com os demais nos âmbitos sociais, e outras incontáveis 
atividades humanas nos processos históricos ocorridos que, em muitas das 
vezes, nem nos damos conta.
Começando por considerar o início da atividade humana enquanto 
“sociedade organizada” ou como grupo em vias de civilização, podemos 
nos remeter aos grupos que se estabeleciam em cavernas ou em espaços 
que proporcionassem alguma forma de sedentarização, acabando com o 
nomadismo e proporcionando a capacidade de registro sobre si e sobre o 
– 25 –
Memória e Patrimônio Cultural 
grupo. Nas cavernas mais famosas do mundo contemporâneo, destinos de 
visitas e de estudos intensos, as abordagens se dão de diferentes modos 
sobre os registros nelas encontrados.
No Brasil, temos os complexos da Serra da Capivara e da Lagoa 
Santa. Na França, o complexo de cavernas de Lascaux, por exemplo, 
se tornou tão interessante aos olhos dos estudiosos e visitantes que tam-
bém recebeu a alcunha de Capela Sistina da Pré-História. Descoberto na 
década de 1940, o sítio foi analisado pelo pré-historiador Henri Breuil e 
seus companheiros Jean Bouyssonnie e André Cheynier durante o decênio 
de sua descoberta. No fim deste período, em 1949, Breuil formou com 
Séverin Blanc e Maurice Bourgon outro grupo de estudos para o sítio. 
A intenção era a análise, a interpretação e a catalogação dos desenhos e 
objetos encontrados. Entre as décadas de 1950 e 1960, Breuil encomen-
dou novos estudos que foram realizados por André Glory. Nos anos que 
se seguiram, Annette Laming-Emperaire, André Leroi-Gourhan e Norbert 
Aujoulat também estudaram o lugar.
No interior das cavernas do complexo encontram-se pinturas e outras 
formas de registro que indicam bovinos, felinos, cavalos, cervos, cabras e 
outros animais, datados, os mais antigos, de dezessete mil anos, e os mais 
recentes, de quinze mil e quinhentos anos de idade, segundo os testes de 
Carbono 14. As primeiras interpretações feitas sobre Lascaux foram de 
temáticas arqueológicas, especialmente por se tratar de restos de ativida-
des de grupos humanos extintos e com modos de vida há muito substitu-
ídos e/ou transformados. Em seguida, a história da arte tratou de analisar 
os desenhos, as cores, as formas, e passou a produzir possíveis intenções 
sobre a visualidade daquelas figuras. Também, mais recentemente, e é aí 
que se aproxima dos estudos sobre a memória, o ato de registrar as formas 
animais, por exemplo, em Lascaux, passou a chamar atenção de estudio-
sos da área dos estudos sobre a memória.
As questões feitas remetem-se à intenção de terem sido realizados 
esses registros dentro das cavernas. Seria uma comunicação dos membros 
do grupo com outros que talvez não conhecessem a realidade apresentada 
nos desenhos? Seria uma forma de inscrever no tempo, cristalizando em 
formas nas paredes, as atividades realizadas? Seria, ainda, uma vontade 
de transmissão de algum conhecimento para futuras gerações? Sem poder 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 26 –
responder especificamente estas perguntas, uma interpretação teórica que 
podemos fazer é que, irremediavelmente, talvez até sem esse intento, os 
registros inscrevem nas paredes da caverna, em suas diferentes passagens 
e salas, um conhecimento adquirido na experiência (da caça, do descobri-
mento do ambiente, do contato com o que cercava os indivíduos daquele 
momento), acondicionado na memória e posteriormente recuperado e arti-
culado nos desenhos que temos nos dias atuais. Novamente, talvez mesmo 
sem perceberem, os desenhos se tornam inevitavelmente uma forma de 
preservação de um conhecimento e de uma memória, neste caso a memó-
ria de quem realizou a atividade de pintura, seja ela adquirida por meio 
de conversas entre pintores e caçadores, na possibilidade de haver esta 
divisão de atividades no grupo humano que ali habitou, ou por meio da 
vivência plena do ser em seu contexto que, posterior à sua realização, a 
marcou nas paredes de Lascaux.
A realização destas pinturas, para além dos pontos de vista estéticos 
e/ou artísticos, tem o potencial inato de transmissão de um saber que foi 
recebido e maturado em uma memória. Memória esta trabalhada para 
que se recuperasse este saber e se registrasse. Vale sempre lembrarmos 
que essas flexões da memória em receber, aninhar e recuperar informa-
ções nem sempre são resultado de um ato consciente, mas, pelo contrário, 
passa despercebido.
Passando para as sociedades já “desenvolvidas” da perspectiva que 
temos hoje de civilização, cultura, sedentarização, formas de governança 
e interpretações do mundo, podemos analisar as sociedades da antigui-
dade. O Egito Antigo (séculos 3.150 a.C. a 31 a.C.), civilização que rece-
beu a admiração dos gregos como um berço das civilizações, bem como 
colocamos atualmente sobre os próprios gregos este princípio, estabele-
ceu algumas relações com a memória em diferentes frentes. São famosas 
as pirâmides egípcias, túmulos dos faraós aonde se guardavam, além do 
corpo mumificado do líder, objetos especiais para aquela pessoa e bens 
que denotassem seu poder e riqueza. As pirâmides marcavam suntuosa-
mente o local de sepultamento destes líderes e, sendo grandes e facilmente 
visíveis, mantinham na memória dos vivos a presença deles. Nem todos 
os líderes egípcios, ou os homens mais poderosos destacivilização foram 
sepultados em pirâmides como as que mais facilmente lembramos, claro, 
– 27 –
Memória e Patrimônio Cultural 
outros foram sepultados em criptas de pedra, por vezes subterrâneas, sob 
as dunas de areia, e também guardavam em si o corpo mumificado e os 
bens do sepultado. Essas tumbas, pirâmides ou não, denotam alguns valo-
res simbólicos agregados ao morto que ali jaz e ainda sublinham que esses 
valores não devem, ou não deviam em seu contexto, ser esquecidos, por 
isso um sepultamento com intenção de preservação ao eterno da materia-
lidade relativa ao que morreu.
A perpetuação destes valores que, unidos, gerariam um senso de 
respeito, juntamente com a manutenção da memória de seu nome e suas 
louváveis ações, eram uma intenção e uma consequência desta forma de 
sepultamento, sendo este rito produtor e produto da memória social sobre 
alguém. Muitas vezes os nomes destes sepultados foram apagados pela 
ação dos ventos e do atrito das pedras com a areia, mas, como intenciona-
vam os egípcios, paira sobre o deserto oriental do Egito um senso imate-
rial de alguma santidade, algum heroísmo, alguma consideração elevada 
acerca dos que ali estão, justamente pelas vias que possibilitaram este 
modo de serem encerrados, enlevando suas memórias que chegam a nós 
hoje de diferentes formas, mais anônimas que individualizadas, mas che-
gam. A memória do grupo de pessoas ali encerradas é ainda presente, não 
nas memórias vivas de nosso tempo, mas justamente na intenção de não 
serem esquecidas, porque hoje sabemos que essa era a vontade e, sendo 
novamente produtor e produto dessa atividade, nos lembramos.
Outra relação dos antigos egípcios com a memória está, novamente, 
no ato de se mumificar. A mumificação possibilitava a preservação do 
corpo, como podemos comprovar com as numerosas múmias egípcias 
espalhadas pelo mundo. Ao mumificar o morto, eram retirados do corpo 
todos os órgãos internos, exceto o coração, porque era ele que mantinha 
a sabedoria, as emoções, a alma, a personalidade e a memória da pessoa. 
Todo esse conteúdo era necessário ter consigo no além-vida para se passar 
pelo crivo das sete portas e ter o próprio coração pesado na balança, a 
qual faria o julgamento no Tribunal de Osíris, do merecimento do morto 
ser castigado ou de poder acessar novamente os benefícios que possuía 
na vida terrena, mas em outra existência, na eternidade. Mais uma vez, a 
memória se apresenta como conteúdo essencial ao ser, dessa vez na morte, 
porque por meio da memória o morto teria acesso ao que foi instruído pelo 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 28 –
Livro dos Mortos. O Livro era um compilado de várias sugestões de res-
postas, ações e comportamentos a serem executados durante o julgamento 
no Tribunal de Osíris, como que um manual para se conseguir acessar a 
outra existência, a da alma, e lembrar dessas indicações era de extrema 
importância. Por isso, a memória, contida no coração preservado do corpo 
mumificado, era essencial.
Na Grécia Antiga (1.100 a.C. até 146 a.C.), a memória também teve 
um local de destaque na vida e nas reflexões dos filósofos. Precisamos 
sempre lembrar que a Grécia Antiga é o momento em que a humanidade 
passa a considerar filosoficamente a memória e seu papel na sociedade e 
que, da perspectiva do processo histórico humano, é um tempo bastante 
considerável, uma vez que nesta época temos o que consideramos o início 
da filosofia ocidental. Mnemosine, ser mitológico, era filha de Urano e 
Gaia, então, uma titânide, divindades anteriores aos deuses mais comu-
mente conhecidos como Zeus, seus dois irmãos e seus filhos. Mnemosine 
era a divindade que guardava todas as lembranças e possibilitava a recupe-
ração das informações. Ela está, então, mais intimamente relacionada ao 
ato de lembrar que à memória propriamente dita. O trabalho de Mnemo-
sine seria o de evitar o esquecimento, representado na cultura da Grécia 
Antiga principalmente pelo rio Lete, que cruza a morada dos mortos e 
do qual as almas tomavam a água antes de reencarnarem, esquecendo-se 
assim de existências anteriores. Ironicamente, a guardiã da atividade de 
lembrar quase nunca é lembrada por essa possibilidade, mas sim por ser 
mãe das musas que influíam também na vida da sociedade grega.
Por possuir a lembrança, Mnemosine também representava a posse da 
razão, uma vez que, dotado de suas lembranças, é mais fácil ao indivíduo 
agir de forma consciente, coerente e racional. Sem a memória, a pessoa 
estaria fadada ao desequilíbrio de si, de suas ações e decisões. A importân-
cia da memória, na época da deusa em questão, se dava pela não existência 
de escrita, portanto, toda forma de conhecimento só podia ser registrada 
na memória, recuperada pela lembrança e transmitida oralmente. Uma vez 
que, nesse período da crença nos deuses, não existia ainda o alfabeto, o 
conhecimento que Mnemosine tratava de não se deixar esquecer eram os 
saberes basilares para a vida e para a existência: o funcionamento do uni-
verso, os ciclos da vida, os modos de agir no mundo e, como não deixou 
de ser em nenhum tempo da história humana no qual existiram governos, 
– 29 –
Memória e Patrimônio Cultural 
não deixaria esquecer também a memória dos seres notáveis, como os 
imperadores e heróis.
Ainda na mitologia grega antiga, Zeus liderou os demais deuses na bata-
lha contra os Titãs. Vitoriosos, os deuses se estabeleceram como os ocupantes 
do Olimpo, com poderes plenos. Zeus, sabendo que Mnemosine era uma titâ-
nide e sabendo da sua também destruição juntamente com seus companhei-
ros, teve medo de ter suas honras, glórias, vitórias e decisões esquecidas, por 
isso disfarçou-se de pastor e foi encontrar Mnemosine, com quem dormiu por 
nove noites, dando origem às nove Musas que perpetuariam, sob as ideias do 
novo líder do Olimpo, as lembranças para a nova etapa na Grécia.
Intimamente relacionada a Mnemosine, a mnemotécnica foi desen-
volvida da antiguidade grega (por volta de 1700 a.C.). Como o nome 
explicita, considera a memória como técnica, como arte, de aprendizado 
consciente. A técnica em questão trata a memória como uma folha em 
branco na qual é realizada a escrita mental, usando como elementos diver-
sos locais e imagens, portanto, a fonte principal da memória deixa de ser 
a oralidade, como no tempo da titânide, e passa a ser a imagem. Por se 
tratar de um instrumento de aprendizado, o armazenamento é confiável, 
e a recuperação, a lembrança das informações, é idêntica à de quando foi 
registrada na memória. Neste caso, o tempo não é importante, mas sim o 
espaço. O conteúdo a ser recordado e o motivo desta recordação não inte-
ressam à técnica, ela não considera o nexo entre a lembrança e as articu-
lações a partir dela, pois, simplesmente possibilita o resgate de uma infor-
mação apreendida e registrada. A relação estabelecida entre os conteúdos 
e a memória por meio da mnemotécnica é puramente a de um depósito de 
informações e a atividade de recuperá-las quando seja necessário.
Também na Grécia Clássica a memória passou a ser refletida como 
uma potência, como algo natural, como o instrumento não controlável de 
atividades humanas individuais e sociais. A consideração nesta área das 
potencialidades da memória está na capacidade de formação de identidade 
do ser e do grupo, e aqui o tempo é importantíssimo, pois ele interfere 
na memória: quanto maior o tempo entre a inscrição da informação na 
memória e a articulação de recuperá-la, mais difícil se torna a atividade. 
Há, nestes casos, a diferença entre o que se arquiva e o que se recupera, 
então, o objeto do armazenamento é diferente do da recordação. Esta 
diferença se dá porque, no processo de recordação, há deslocamentos, 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
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deformações, distorções, revalorações, renovações do conteúdo em voga, 
então, o conteúdonão fica em um lugar cem por cento seguro do ponto de 
vista da manutenção do conteúdo em integralidade, ele sofre alterações.
Nesta visão mais abstrata e incontrolável da memória, ela é dotada 
de leis próprias e desconhecidas porque pode, por conta própria, esquecer 
ou reprimir lembranças, assuntos, temas, em contrapartida à técnica que 
é dura contra o esquecimento, relegando ao tempo um lugar de inércia, e 
que é dotada de métodos que propiciam a lembrança. Independentemente 
da visão escolhida, é notável desde a Antiguidade que a relação entre lem-
brar e esquecer é íntima, propiciando, inclusive, uma a outra e medindo 
forças entre si de uma forma não perceptível a nós, seres humanos. Em 
todos os casos, desde os filósofos gregos a humanidade tem consciência 
de que o homem pode armazenar (funcional) e recordar (cultural).
Dentre os pensadores da época, Platão é o mais salientado desde 
então. As controvérsias existentes sobre a autoria de Platão sobre os tex-
tos que conhecemos é antiga. Platão teria sido aluno de Sócrates e com ele 
teria aprendido o valor da fala, da oralidade, da conversa, do diálogo, e 
por isso preferia estas formas de conhecimento aos registros. Platão apa-
rece como o autor dos textos registrados, mas paira ainda a dúvida sobre 
a autoria do conteúdo deles. Teria sido Sócrates o pensador primeiro das 
considerações, como aparece nos textos platônicos, ou teria sido o pró-
prio Platão que teria feito de Sócrates apenas uma personagem de suas 
passagens registradas em texto? O que devemos considerar em análises 
sobre a memória é o conteúdo trazido a nós dos tempos clássicos. Desde 
Platão, a memória é mais considerada como uma atividade consciente 
que inconsciente. Essa visão sobre ela permanecerá até o século XIX, no 
qual será dividido entre o lembrar consciente e a lembrança inconsciente, 
como veremos mais adiante.
No Fedro, o texto mais importante sobre a memória nas obras platô-
nicas, Sócrates aparece lembrando o mito do deus egípcio Thoth, respon-
sável pela técnica e pelo “conhecimento científico” no Egito Antigo. Em 
um encontro com o rei Tamuz, Thoth lhe apresentou a arte, a técnica da 
escrita, considerando sobre a necessidade de distribuí-la entre as pessoas 
e sobre a potência que seria agregada à memória a partir do uso da escrita. 
O rei alerta ao deus sobre os possíveis malefícios da técnica criada, uma 
– 31 –
Memória e Patrimônio Cultural 
vez que o criador tem a tradição de enxergar apenas os benefícios de suas 
invenções. O debate contido no Fedro não está em torno da existência 
da escrita, porque ela, sim, auxilia a humanidade com a possibilidade de 
se registrar informações, mas na interação da escrita com a memória. A 
intencionalidade de Thoth ao criar a escrita era a de potencializar a memó-
ria, dificultando o esquecimento, mas o que o rei Tamuz alerta e Sócrates 
pontua no diálogo é que, uma vez podendo confiar à escrita as informa-
ções, as pessoas deixariam de se importar com a memória chamada na 
obra de verdadeira. A escrita seria uma falsa memória, uma representação 
do que a memória de fato é, e nunca conseguiria acessar a essência do con-
teúdo ou do conhecimento contido na memória viva das pessoas. A escrita 
separaria o caráter de vida que o conhecimento tem estando armazenado 
nas próprias pessoas.
A escrita se apresenta no Fedro, dessa forma, como uma ferramenta 
que pode auxiliar a lembrança, mas não pode ocupar o lugar da memória 
no registro e na recuperação das coisas que inscrevemos nela. A compara-
ção estabelecida da escrita se dá com a pintura. O pensador alega que uma 
pintura é uma representação de uma cena da vida humana, mas nunca a 
vida humana em essência. Elas têm a aparência de vida, mas não a vida, 
tanto que, se perguntarmos algo às pessoas pintadas em alguma cena, elas 
não nos respondem, apenas as vivas podem nos responder. Neste pensa-
mento, a escrita uma vez realizada pode ser distribuída a qualquer parte, 
para qualquer pessoa, mas não leva a intenção essencial, a vontade pri-
meira do discurso quando este foi formulado, desconsiderando inclusive 
quem é o alvo do discurso.
A escrita causa, segundo o filósofo, ao contrário de potência à memó-
ria, uma potência ao esquecimento, porque as pessoas, novamente, rele-
gariam aos documentos, aos textos e às palavras a função de lembrar, que 
está naturalmente e desde os tempos imemoriais a cargo do indivíduo, não 
de instrumentos. O esquecimento considerado nessa filosofia é o esqueci-
mento “nas almas”. Há de ser lembrado que a alma platônica era apresen-
tada como um bloco de cera no qual se marcam coisas, portanto, no qual 
se inscrevem conteúdos, e dependendo da forma como essa gravação se dá 
no bloco de cera é que podemos mais fácil ou mais dificilmente recuperar, 
recordar. A alma, que é no caso da memória tratada como um bloco de 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 32 –
cera, é diferente da alma cristã ocidental. A alma neste tempo é uma reali-
dade psíquica individual, parecida com a recuperada por Freud quando o 
psicanalista fala dos traumas, por exemplo.
O bloco de cera, parte responsável pela memória em nossa psique 
individual, é onde são registradas coisas que se tornam lembranças (carac-
teres, imagens, cheiros, modos), e a qualidade da gravação, e consequen-
temente da facilidade de lembrar, depende de dois elementos: da qualidade 
da cera (que pode ser mais dura/firme ou mais mole/informe) e da quali-
dade da força com a qual as coisas são gravadas no bloco (mais forte ou 
mais fraca). Se um bloco de cera está muito duro e a gravação se dá com 
muita força, como em uma situação traumática ou de acidente, o bloco 
pode se quebrar no momento da inscrição da informação, criando marcas 
sensíveis e dolorosas, por exemplo. Também, se a cera é muito firme a 
gravação muito fraca, como em situações nas quais vivemos, mas não 
prestamos muita atenção, a marca é muito superficial e não conseguimos 
lembrar com efetividade. Se o bloco de cera for muito mole, sem nenhuma 
firmeza, qualquer que seja a gravação pode ser feita de forma incorreta 
e que possa ser distorcida depois, portanto, lembraríamos de uma forma 
distorcida das coisas. Pela alegoria platônica, são sempre instáveis a força 
e a dureza da cera e é justamente dessa relação que se dá a qualidade da 
gravação e a posterior facilidade de lembrar. Com isso, a escrita então 
exauriria a função da gravação no bloco de cera, porque a lembrança seria 
relegada a um instrumento externo ao ser, que é alheio à natureza humana.
Sobre essas gravações, também chamadas de imagens mnemônicas, 
Platão lembra que existe uma capacidade passiva da presença delas em 
nossas vidas. Isso se dá pela atividade inconsciente da lembrança. Quando 
menos esperamos, lembramos de alguma informação ou momento e, muitas 
vezes, é assim que se dão as lembranças necessárias para a manutenção da 
vida cotidiana. Quando vamos, por exemplo, ao trabalho, depois de muito 
realizarmos o mesmo caminho, já o fazemos de maneira inconsciente e 
quase nunca paramos para pensar que sabemos o que sabemos ou que lem-
bramos o que lembramos, justamente porque essas imagens mnemônicas 
se apresentam quando precisamos sem que nos esforcemos para tal.
Voltando à alegoria de Platão, a escrita se tornaria estéril quanto a 
posse da essência do discurso. A verdade da fala, do intento do discurso, 
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Memória e Patrimônio Cultural 
se daria exclusivamente no momento da troca do ser com o outro por 
meio do diálogo, e o texto não conseguiria carregar consigo esse poder. 
O texto escrito, publicado e difundido não teria em si, como o discurso 
tem, a possibilidade de ser contestado, questionado, revisto, readaptado 
a novas realidades, sendo ele petrificado, monótono, inerte, imutável, 
lembrando que a troca e a possibilidade de contraponto eram essenciais 
na Grécia Clássica.Outro tópico que não se deve esquecer é que, neste tempo, a existên-
cia humana está vinculada a uma pré-existência da alma (psique) e nessa 
existência não terrena as pessoas tiveram contato com as verdades essen-
ciais do mundo, ainda que disformes, e por mais que tenham se banhado 
nas águas do Lete, o rio que as fariam esquecer desse conhecimento do 
mundo, da vida e do todo, a escrita traria um risco de que as pessoas 
relembrassem de alguma coisa.
Na Idade Média, as relações com a memória, assim como nos tempos 
anteriores, foram variadas, mas vale considerar especialmente as relações 
com a religião e com o poder. Na Idade Média, a Igreja Católica colocou-
-se em um local de importância e de poder, de onde interferia ativamente 
na vida cotidiana das pessoas. A religião católica, oficializada e difundida 
na Europa pelo Império Romano, foi aos poucos substituindo o culto aos 
deuses tidos pela Igreja como pagãos, como Zeus e seus companheiros 
olimpianos. Os templos da religião oficial da Antiguidade, com os deuses 
diversos, seus panteões e etc., eram templos que valorizavam o contato 
do indivíduo com algo divino, maior, superior, e também eram espaços 
acessados apenas pelos sacerdotes e pelas virgens devotadas ao deus que 
ocupava cada templo. Os templos eram espaços tão divinos que apenas as 
divindades, as virgens (que eram puras por não terem sido corrompidas 
pelo mundo) e os sacerdotes podiam acessar o espaço interior deles, os 
devotos ficavam no lado externo cultuando.
O início da religião católica apostólica romana se deu no culto aos 
ancestrais, que era realizado no Império Romano em pequenos altares 
domésticos. O espaço era reservado para a lembrança dos mortos por parte 
dos vivos, portanto, a manutenção da memória de indivíduos por outros 
inscritos em seus círculos íntimos. Após a oficialização da religião cató-
lica como a religião do Império Romano, por meio do Edito de Milão, em 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
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313 d.C., esta não era mais proibida nem eram caçados os seus praticantes. 
Para se inscrever no cotidiano das cidades e das pessoas, os antigos tem-
plos e outros prédios não necessariamente religiosos foram aos poucos se 
transformando em espaços católicos. A ideia dessa ação era a de inserir 
na prática social a atividade católica, substituindo aos poucos e de forma 
sutil àquela pagã, que havia existido até então, evitando algum trauma ou 
impacto negativo das pessoas para com a religião católica.
Durante as ações da Igreja Católica na Idade Média ocidental, outras 
foram as relações com a memória. As confissões, por exemplo, trazem à 
tona a vontade e a capacidade criada pela Igreja de se execrar da memória 
os sentimentos de culpa mediante a franca fala sobre as faltas cometidas e o 
pagamento das devidas penitências. Os sacerdotes tinham o poder, dotado 
por meio da agregação de valores simbólicos, de ouvir, dar a solução e aca-
bar com as marcas negativas da vida das pessoas, portanto, de suas pró-
prias memórias. Outra função da memória na Idade Média, com o poder 
extremado da Igreja Católica como o primeiro estamento da sociedade, foi 
a de substituir os antigos heróis pelos santos. A agregação de valores era 
a mesma: a exaltação de uma pessoa a um patamar superior aos demais, 
reles mortais. A criação desses ícones nada mais é que a manutenção da 
memória de alguém dotada de glórias, vitórias, abnegações e ações essen-
ciais ao governo, no caso da Antiguidade, e à Igreja, no caso medieval. Ser 
considerado santo na Idade Média ou herói na Antiguidade era receber os 
louvores, especialmente no post mortem, por atividades desempenhadas em 
vida e reconhecidas por quem pode agregar ou não os valores simbólicos 
essenciais para a eternização do nome e da vida de alguma pessoa.
Como exemplo, temos Santo Agostinho, logo nos primeiros séculos 
do catolicismo. Nascido no ano de 354 na atual Argélia, só aceitou o 
cristianismo e seu próprio batismo em 387. Até o batismo, cometia os 
pecados comuns aos seres humanos: quando jovem, roubava frutas das 
árvores dos vizinhos, tinha divergências com a mãe por conta da reli-
gião, sendo ela muito devota de Cristo; e frequentava espaços em que se 
encontravam facilmente prostitutas e outros elementos que representa-
vam alguma degradação social. Antes de se tornar um sacerdote, Agos-
tinho escreveu suas Confissões nas quais, como o nome indica, entrega 
suas faltas cometidas em sua vida pré-cristã. As confissões publicadas 
– 35 –
Memória e Patrimônio Cultural 
não se destinavam só à Igreja, para que fosse aceito como um pecador 
arrependido, mas sim para que a sociedade visse nele o arrependimento 
e a validação moral de sua entrada na Igreja Católica. Uma vez perdo-
ado pela Igreja e também moralmente pela sociedade, Agostinho pôde 
ingressar em sua vida sacerdotal e se tornou para a Igreja um homem de 
extrema importância para as articulações das ideias cristãs, além de for-
mular pensamentos que foram basilares para o estabelecimento do poder 
do catolicismo sobre a vida ocidental.
Outro caráter da memória medieval, repetido em certa medida na 
Modernidade, é o de justificação da ocupação do poder. Quando se esta-
belecem os governos monárquicos após a dissolução das antigas Cidades-
-Estados e também do Império Romano, as cidades foram evacuadas por 
conta das ocupações territoriais por parte dos chamados “bárbaros”, quem 
e porquê ocupa o poder é um dos temas em pauta. A própria rotulação de 
“bárbaros” aos que invadiram os territórios do Império Romano é um modo 
de inscrever na memória coletiva europeia o caráter negativo destes grupos 
como invasores, perigosos, não civilizados e outros adjetivos que desmere-
cessem suas posições. Foi silenciada nesse momento a memória destes gru-
pos que invadem os territórios romanos, grupos esses que foram em grande 
medida dominados ou expulsos pelo próprio Império Romano quando das 
expansões territoriais, portanto, chamar a tomada de terras pelos romanos de 
“expansão” e a mesma ação pelos outros grupos menores de “invasão” já nos 
mostra um modo de tarjar a identidade e a memória coletiva destes grupos.
Uma vez estabelecidos os feudos, retomado o modo rural de vida, 
imensas extensões de terras, larga produção agrícola e etc., a ocupação dos 
cargos se dá, muitas vezes, especialmente em momentos de conflitos, pela 
comprovação ou pela justificativa deste ou daquele outro possível gover-
nante. A justificativa se deu, por vezes, por meio de documentos que foram 
relembrados com a função de comprovar a afirmação de uma ocupação em 
detrimento de outra, por exemplo, os livros de linhagens. Alguns livros 
de linhagens traziam crônicas escritas, diziam estes mesmos, contempo-
raneamente aos governantes de cada período e para justificar sua subida 
ao poder, o quase rei buscava nos livros sua sustentação no sentido de 
mostrar que sua linhagem, sua família, seu sangue era há muito tempo o 
ocupante do cargo, portanto, se seguiria essa tradição.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 36 –
A diferença nessa ação de ocupar o poder e se justificar, especialmente, 
justificar a memória do poder ao rei e a memória de saber que ele é o rei ao 
povo, entre o Medievo e a Modernidade, está na proximidade do poder com 
a Igreja Católica. Durante a Idade Média, a Igreja também servia como uma 
validadora dessa memória de poder do rei e de sua linhagem, abençoando-o 
e seguindo em harmonia com as decisões reais. Na Modernidade, mesmo 
que ainda tenhamos vivido momentos de presença religiosa forte, aos pou-
cos os poderes reais vão se afastando da Igreja Católica e o poder real se sus-
tenta por ele mesmo e pela memória criada sobre ele para a própria realeza, 
para a nobreza que a circunda e para os demais estamentos sociais.
Um dos testemunhos sobre a manutenção da memória por meio da 
linhagem real na Modernidadesão as pinturas que retratam os reis. Nos 
castelos, as galerias com pinturas trazendo as figuras da família real, desde 
os tempos mais antigos possíveis, são abundantes, na tentativa de tornar 
visualmente didática a transmissão natural do poder de uma geração para a 
outra. As galerias mostram, por exemplo, um rei que tenha tomado o poder 
em um ano, depois outro que ocupou o cargo quinze anos depois (filho 
do primeiro), depois outro ocupante do trono vinte e cinco anos depois 
(neto do primeiro), ainda mais adiante o retrato de outro rei que ocupou o 
cargo trinta e oito anos depois (bisneto do primeiro), tão logo se tornava 
lógico que o tataraneto do primeiro, que é parte natural da linhagem dessa 
família, ocupará o poder em seguida na ausência de seu pai, guardadas, 
claro, as especificidades de cada reinado, cada território e cada modelo de 
transmissão de poder. O que nos interessa aqui é como as galerias de arte 
das monarquias modernas, principalmente as que se enquadram no Antigo 
Regime, ajudaram a tornar mais fácil o entendimento da transmissão do 
poder, tentando diminuir as contestações.
2.2 A memória no mundo contemporâneo: 
o mundo pós-revoluções burguesas 
– o caso do século XVIII
A partir das revoluções burguesas no fim do século XVIII, especial-
mente da Revolução Industrial, da Revolução Francesa e da Independên-
cia Norte-Americana, as relações das sociedades ocidentais se alteraram 
– 37 –
Memória e Patrimônio Cultural 
de maneira profunda, mas bastante sutil em relação à memória. É nesse 
momento que temos, por exemplo, o surgimento dos museus e o começo 
do trabalho com os patrimônios (histórico, artístico, cultural), exatamente 
para mediar as relações da memória com a sociedade.
O primeiro fato a ser observado é que as revoluções burguesas torna-
ram mais democráticos os acessos ao saber, à cultura e à própria produção 
da memória. Essa participação democrática ainda estava longe de ser a con-
temporânea, com direito de vez, voz e espaço para todos os indivíduos, pois 
estava restringida aos burgueses que ocuparam o poder, que era até então 
posse das monarquias, e não a participação integral da sociedade de um 
modo totalizante. O camponês pobre, agricultor pequeno, o chão de fábrica 
(que inclusive surge nesses momentos) continua sendo o que é. Quem 
ascende ao poder são os burgueses que antes eram do estamento social da 
população em geral, mas tinham posses e especialmente os meios de produ-
ção que articulavam as economias dos territórios antes monárquicos.
Com os museus e patrimônios, o trabalho foi muito objetivo e sua 
ação foi muito amena. O caso francês é o mais didático: após a Revolução 
Francesa e a deposição da monarquia, os burgueses, agora governantes, 
precisavam colocar no cotidiano da população que a vida francesa seria 
outra, que a administração seria outra, que a monarquia tão tradicional 
não mais estava onde estava de costume, mas que, ao mesmo tempo, 
estava tudo bem e não havia a necessidade de choques ao contato com 
isso tudo. A alteração complexa na administração francesa, para ser aceita 
de maneira mais branda, exigiu um trabalho ainda mais complexo que foi 
executado com os museus, galerias e patrimônios.
Os museus históricos, primeiramente, tinham o papel de selecionar 
e musealizar objetos e bens da antiga monarquia com o novo caráter de 
propriedade pública. As obras de arte da monarquia francesa, por exemplo, 
foram transformadas em uma coleção artística pública, mantida pelo Estado 
Francês, materializada fortemente no Museu do Louvre. Dessa forma, a 
monarquia não desapareceria tão drasticamente da vida francesa, pois esta-
ria presente nos retratos, nas paisagens encomendadas, nas obras compradas 
ou conquistadas militarmente em outros territórios. A diferença é que a cole-
ção não era mais um capricho real, mas sim uma coleção pública que seguia 
articulando a memória coletiva, como um instrumento do novo governo.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 38 –
O Estado Francês teve o trabalho de eleger “o que e porque” da antiga 
França seria transformado em objeto de museu para amenizar as altera-
ções no território. Dessa forma, a ausência monárquica teria sua presença 
materializada e encerrada nos museus. Dentro dos museus, o discurso dos 
governantes era administrado da maneira mais conveniente possível, colo-
cando, por exemplo, um histórico da administração monárquica do país 
levando a França a colapsos econômicos, sociais e políticos, mostrando, 
no discurso museológico, que a monarquia havia exaurido o país e a ela 
mesma e que, portanto, o novo governo era uma nova chance de seguir 
adiante. Por trás disso tudo estava a noção de que não se poderia implodir 
toda uma tradição de vida e começar uma nova, como se um país todo 
desaparecesse de repente e outro surgisse do nada. As transições, lembre-
mos, são moderadas do ponto de vista da memória que, neste exemplo, 
pode ser moldada e difundida da maneira mais conveniente àquele que 
está no poder, exatamente para justificar esse poder. Os patrimônios, outro 
exemplo, foram o modo encontrado para tornar em ícone cristalizado no 
tempo as ações da monarquia. Lugares, coleções, livros etc. foram elei-
tos como patrimônios para que fossem mesmo um marco entre a antiga 
França e o Estado Francês pós-revolução. Os patrimônios eleitos seriam, 
como são até hoje, preservados, mantendo a presença monárquica amiúde, 
e o que restasse seria dizimado e alterado aos poucos. Como no caso dos 
museus e das coleções de arte, isso traria a oportunidade de uma alteração 
calma e sem choques na memória da população.
2.3 Os séculos XIX e XX e as 
interpretações da memória
Do século XVIII ao século XIX, e depois ao XX, os estudos em memó-
ria se diversificaram, principalmente pelo caráter de ciência atribuído aos 
saberes e pela democracia cada vez maior na produção e estudo do assunto. 
As ciências citadas no começo do texto passaram a ocupar seus espaços de 
interesse no campo da memória e cada uma começou a produzir por si, no 
intuito de entender o fenômeno da memória nas sociedades humanas.
No fim do século XIX, Henri Bergson, filósofo e diplomata francês, 
trata a memória de uma maneira ainda não rotulada como tal, mas que já 
– 39 –
Memória e Patrimônio Cultural 
está nos debates sobre o tema desde Platão: a memória de hábito. Bergson 
trata o ato de lembrar de dois modos: o lembrar autêntico, natural, espontâ-
neo; e o lembrar consciente, racional, que é bastante vinculado ao aprendi-
zado. Se percebermos, isso alude às ideias da mnemotécnica e da recorda-
ção presentes da Grécia Clássica, mas que, por meio do caráter científico, 
passam a ser revalorizados no mundo contemporâneo. Um exemplo prático 
sobre os dois modos de lembrar de Bergson pode ser o aprendizado de uma 
nova língua e a atividade de tradução: no começo, quando sabemos ainda 
pouco sobre a nova língua, precisamos associar conscientemente as pala-
vras de nosso idioma nativo ao idioma aprendido e, portanto, fazemos um 
esforço racional para tal; quando já estamos acostumados com o conheci-
mento acerca da outra língua, quando conhecemos bem o conteúdo, con-
seguimos fazer a tradução de maneira espontânea, às vezes até automática, 
ainda que consciente. O aprender com esforço e empenho sobre o assunto, 
é o momento mais fácil de esquecermos também, porque o conhecimento 
está sendo pouco a pouco inscrito em nossa memória. Quando estamos 
acostumados, faz-nos parecer que nunca nem aprendemos esse conteúdo, 
como se nos fosse natural e automático, e aí considera-se, por Bergson, a 
memória de hábito. Quando o que foi aprendido fica apreendido em nosso 
cotidiano, vira hábito e não é mais um lembrar racional.
Sigmund Freud, pai da psicanálise, também ponderou sobre a memó-
ria nos fins do século XIX e na passagem para o século XX. O psicanalista 
retomaa ideia platônica do bloco de cera, mas troca a alegoria por uma 
lousa-mágica, o brinquedo infantil no qual se escreve e se apaga quando 
se quer. Freud alude ao tema tratando do guardar ou não as informações na 
memória e das transformações que as informações sofrem quando arma-
zenadas nela. Para ele, se buscarmos nas camadas mais antigas das nossas 
memórias, encontraremos temas e lembranças que achamos esquecidos, 
mas que em verdade estão apenas escondidos sob outros assuntos. Ainda, 
Freud trata do trauma: para o autor, todas as pessoas têm uma proteção 
psíquica para evitar o trauma, que seria uma violência à nossa individu-
alidade, e essa proteção é o susto, o espanto. Quando o trauma é gerado, 
essa proteção psíquica é violada e uma marca profunda e não esperada é 
deixada em nossa individualidade psicológica. Durante um período, Freud 
tratou do tema da memória recalcada, que seria a atividade inconsciente e 
natural do cérebro para esconder de si mesmo as temáticas que nos assus-
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 40 –
tam e que nos atrapalham. Depois de atender os soldados retornados da 
Primeira Guerra Mundial, Freud passou a pensar no trauma como uma 
marca profunda, que ainda viola a proteção psíquica do indivíduo, e que 
pode se esconder por vezes e que por mais que não seja externalizado em 
palavras, pode se apresentar em ações, fatos, comportamentos. Assim, a 
memória de um trauma, como a situação de uma guerra, pode ficar intrin-
secamente marcada na pessoa em sua mais recôndita individualidade.
Na década de 1930, Maurice Halbwachs, sociólogo francês da escola 
durkheimiana passou a trabalhar a ideia de memória coletiva. Até então, os 
estudos em memória eram muito voltados para o entendimento da memó-
ria enquanto formadora do indivíduo e, após Halbwachs, novas interpre-
tações foram colocadas em voga, especialmente as que incidem sobre o 
caráter coletivo da memória. Os estudiosos que seguiram Halbwachs por 
vezes criticaram o caráter romântico com o qual a memória era tratada por 
ele, pois, em sua obra a memória coletiva é apresentada como uma cria-
ção natural do convívio humano, sem interferências conscientes, apenas 
com a interação sociocultural do homem com seus pares. Os discordantes 
dessa teoria passaram a tratar a memória como um tecido volátil, metafí-
sico ao extremo e lugar de jogos de poder muito intensos e sempre atuais 
nos quais quem tem mais poder (econômico, político, informativo etc.) 
consegue sobrepor a memória que lhe desagrada e ocupa o espaço de ter o 
discurso com o qual concorda difundido socialmente.
Walter Benjamin, pensador e crítico marxista, por mais que pouco 
ortodoxo, pensa as relações de memória à luz de Freud, mas incluídas 
na lógica da luta de classes. As reflexões dele se enquadram na análise 
de como permitir ao público uma memória das classes inferiores, não 
só as dos dominantes. A intenção de colocar em pauta essas memórias 
era a de possibilitar novas interpretações da história, fugindo do domí-
nio de alguma hegemonia. Para Benjamin, a dificuldade de se executar 
essa intenção está no fato de que a memória individual, privilegiada até o 
século XIX, tem um só narrador e, então, criar um acordo sobre ela é fácil, 
já a memória coletiva tem muito mais narradores, e criar um discurso que 
seja satisfatório a todos ou pelo menos para a maioria seria muito difí-
cil. Benjamin queria, essencialmente, como é comum aos marxistas, dar 
espaço público aos silenciados.
– 41 –
Memória e Patrimônio Cultural 
Na década de 1940, o escritor alemão W. G. Sebald tratou, sem usar 
o termo em si, da memória envergonhada. Segundo ele, havia uma falha 
grave na literatura alemã pós-guerra por não tratar do sofrimento alemão 
durante a Segunda Guerra Mundial. Para ele, os alemães foram estigma-
tizados de um modo totalizante pelo sofrimento judeu, como se todos os 
alemães fossem os responsáveis, e, após o fim do governo nazista e a liber-
tação dos judeus sobreviventes do Holocausto, os alemães que também 
sofreram com destruições massivas em suas cidades por conta dos bom-
bardeios ingleses, não trataram suas próprias memórias. Ele aponta para 
os temas tratados na literatura alemã da geração de 45 em diante e aponta 
para a ausência dos temas sobre o horror da guerra para os próprios ale-
mães, porque estes estariam estigmatizados e envergonhados pelo estigma 
que receberam como responsáveis pelos horrores do Holocausto.
Paul Ricoeur, filósofo e pensador francês, também do pós-guerra, trata 
das mudanças profundas impostas aos indivíduos que viveram o trauma 
da guerra em diferença com os que não participaram. Para ele, o homem 
que passou pelo combate bélico da guerra ou o que sofreu nos campos 
de concentração têm traumas que não permitem que se lembrem de si 
mesmos da mesma maneira que as pessoas que não passaram por essas 
situações. Para Ricouer, quem passou por uma situação que aproxima a 
pessoa da morte, lembra de si com mais importância à manutenção da 
própria vida do que aquele que não passou por situações de risco iminente 
de morte. Com isso, o autor coloca no plano político o que deve ou não ser 
lembrado do ponto de vista dos horrores ou dos acontecimentos traumá-
ticos. É cunhado, então, o termo da justa memória, que é a medida exata 
com a qual um assunto deve ser tratado ou não do ponto de vista político/
público. Um exemplo é que a França primeiramente negou que, durante 
o domínio nazista, no governo Vichy, estregou muitas crianças judias aos 
militares alemães. Hoje, reconhece o feito e tem eventos para lembrar no 
intuito de se desculpar com a população que se sente afetada com isso, 
colocando o assunto em âmbito público na medida correta para poder se 
desculpar pelo feito, mas sem estigmatizar ou desmerecer os afetados.
Na mesma temática, Michael Pollak, sociólogo e historiador austrí-
aco, na década de 1980, trata do tema da memória da Segunda Guerra 
Mundial, mas do ponto de vista dos sobreviventes do Holocausto. Para 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 42 –
ele, ao retornar para a Alemanha e para a Áustria, por mais que tenham 
sofrido nestes mesmos territórios, os judeus não receberam a atenção que 
talvez precisassem para tratar suas memórias traumáticas. Unindo as duas 
ideias, a de Pollak e a de Sebald, podemos perceber dois grupos distin-
tos e fechados em si: os alemães estigmatizados e envergonhados pela 
alcunha generalista de nazistas, que se ocuparam em reconstruir as cida-
des destruídas pelos ataques aéreos; e os judeus sobreviventes que, ao 
retornar, não receberam a atenção para tratar seus traumas e foram obri-
gados a se inserir na dinâmica de reconstrução das cidades para que se 
incluíssem como parte da sociedade novamente. Pollak também salienta a 
importância da memória, das experiências compartilhadas e das sensações 
de pertencimento comuns entre os indivíduos que, através dos conteúdos 
registrados na memória e evocados para a geração de empatia, formavam 
grupos sociais. O termo das memórias subterrâneas é criado por ele para 
considerar os saberes e as trajetórias silenciadas, mas que nunca são apa-
gadas e apenas esperam o momento de retornar ao público em momento 
oportuno, porque, no caso da Segunda Guerra Mundial, os judeus sobrevi-
ventes não terem tratado suas memórias corretamente ao voltar à Alema-
nha certamente lhes gerou um mal-estar individual, no grupo étnico judeu 
e na sociedade de uma forma geral, pela tragédia do Holocausto e a não 
consideração do tema como se deveria.
2.4 Temas contemporâneos em memória
Na atualidade, há temas ainda tratados pelos estudiosos da memó-
ria, alguns bastante antigos, outros mais contemporâneos. A formação das 
identidades ainda está muito em pauta, mas agora considerando o mundo 
globalizado. Como se criam as identidades individuais e de grupo em um 
mundo que tem acesso àsmesmas coisas, a uma mesma cultura e interage 
sem fronteiras entre si por meio do advento da internet, por exemplo, é 
uma das preocupações. Atualmente, é normal que jovens americanos, chi-
neses e franceses tenham as mesmas aspirações, especialmente no enfo-
que do consumo pelo advento da disseminação do capitalismo, mesmo 
fazendo parte de culturas extremamente diferentes. As análises se dão, 
então, em como esses jovens são moldados, neste caso do consumo pelo 
discurso do mercado, para que queiram possuir o mesmo aparelho celular 
– 43 –
Memória e Patrimônio Cultural 
ou para que joguem os mesmos jogos online para serem aceitos em seus 
grupos sociais e reconhecidos como parte deles.
O tema dos moldes da memória, trazidos agora sob o olhar do mer-
cado, já foram antes, nos séculos XIX e XX especialmente, estudados pela 
perspectiva da formação das nações e do esforço dos governos para a con-
solidação de um povo que se reconhecesse como tal, produto e produtor 
do próprio espaço totalizante de sociedade na qual está inscrito.
Os registros sobre si, as autobiografias, a organização de arquivos 
sobre os próprios produtores deles também têm sido objetos de estudos 
contemporâneos. As ideias mais articuladas nesses estudos são de como 
e porque, com que intenção, os produtores de coleções sobre si executam 
essa ação. Uma das hipóteses mais trabalhadas é a de que quem produz 
uma coleção sobre si quer registrar na memória coletiva uma narrativa 
sobre si mesmo, ignorando ou tentando silenciar outras interpretações, 
alheias, também sobre si. Portanto, ao eleger documentos de diversos 
suportes e conteúdo, o produtor de sua própria história quer cristalizar na 
história social a versão que ele mesmo criou de si, não abrindo margens 
para outras análises.
A memória, desde a Grécia Clássica, passando por todos os momen-
tos da história humana até a contemporaneidade, tem sido objeto de inte-
resse de diferentes interpretações, cabendo sempre ao contemporâneo 
analisar o material da memória com suas próprias intenções.
Atividades
1. Quais campos do conhecimento estudam a memória e como a 
tratam em seus estudos?
2. Discorra sobre as interpretações existentes sobre o complexo de 
cavernas de Lascaux, no sudoeste da França.
3. De forma geral, qual a relação da memória com o tempo presente?
4. Durante as ações da Igreja Católica na Idade Média ocidental, 
quais as relações desta Igreja com a memória?
3
O patrimônio 
desde sua origem 
até o século XXI
Nesse capítulo compreenderemos um pouco mais sobre o 
conceito de patrimônio, como ele foi entendido ao longo da his-
tória até os dias atuais. Também serão analisadas as diversas for-
mas de patrimônio enquanto cultura, história e arte e sua relação 
com a sociedade.
A terminologia patrimônio é atribuída a uma série de sig-
nificados. No dicionário pode ser definida como um bem indivi-
dual que tem um grande valor emocional ou capital, mas também 
pode ser um bem conjunto, aquele que está presente e é notá-
vel para a manutenção cultural e histórica da sociedade ao qual 
está inserido.
Nem sempre foi comum à sociedade a ideia de patrimô-
nio, ele surge em conjunto com o conceito de propriedade, isso 
porque o homem sente a necessidade de dividir suas terras das 
demais, circula suas casas com cercas e define “isso é meu!”. 
Nasce nesse momento a noção de herança, pois se é meu, tam-
bém será dos meus filhos.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 46 –
No início, patrimônio era, portanto, somente algo individual e geral-
mente ligado aos valores capitais, como fazendas, casas e comércio. Hoje 
esse conceito expandiu, patrimônio pode ser algo de grande valor artís-
tico, cultural e histórico, importante para compreender aspectos pertinen-
tes ao seu bairro, sua cidade e para o mundo todo.
Acredita-se que o conceito de patrimônio expande após a Revolu-
ção Francesa, em 1790. A guerra trouxe um desejo de preservar a histó-
ria social por meio dos bens materiais que restaram, como, por exemplo, 
armas, livros e prédios, com o objetivo de serem lembrados. A ideia de 
preservar é uma das bases do patrimônio, afinal de contas, é pela preserva-
ção que será garantido o direito de tê-lo pelo maior tempo possível. Isso se 
aplica a qualquer uma das definições de patrimônio. Pensemos o seguinte: 
se você for herdeiro de uma bela casa e fizer todas as manutenções nela 
necessárias, terá o privilégio de usufruir dela por longos anos; contudo, 
se você abandoná-la, em pouco tempo ela será tomada por cupins, infil-
trações e você perderá o imóvel. Esse exemplo é importante para com-
preender que o patrimônio enquanto um bem de todos também deve ser 
preservado e cuidado por nós e pelos órgãos responsáveis. Falaremos mais 
disso nos próximos capítulos.
Figura 3.1 – Vale dos Templos, Agrigento, Sicília
Fonte: Shutterstock.com/Alfio Finocchiaro.
No Brasil, a ideia de patrimônio como um bem cultural é documen-
tada pela primeira vez no século XVIII, com o governador Luiz Pereira 
– 47 –
O patrimônio desde sua origem até o século XXI
Freire de Andrade. Sua vontade era a preservação da arquitetura holan-
desa deixada no Recife, em Pernambuco. Essa proposta é então revisitada 
em 1980, data que marca a oficialização da primeira versão da história 
da preservação do patrimônio cultural no Brasil, que foi denominada 
como Proteção e revitalização do Patrimônio cultural no Brasil: uma tra-
jetória, o órgão responsável por publicar esse material foi a Secretaria 
de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e a Fundação Pró-Memória 
(SPHAN/Pró-memória). Segundo Marcia Chuva, em seu artigo intitu-
lado Por uma história da noção de patrimônio cultural, nesta ocasião, 
o SPHAN/Pró-memória também reuniu documentos que localizavam a 
história do patrimônio cultural brasileiro em dois períodos, denominados 
de fase heroica e fase moderna. Além disso, o material publicado relata a 
importância de Mario de Andrade para a história do patrimônio cultural no 
Brasil, quando, em 1936, propõe a criação do Serviço de Patrimônio His-
tórico Artístico Nacional (SPHAN) a pedido de Gustavo Capanema, então 
ministro da Educação e Saúde.
Mario de Andrade foi escolhido para esta função por estar forte-
mente relacionado com questões de folclore e cultura nacional, inclu-
sive na situação da pré-formulação do SPHAN, o poeta era o diretor do 
Departamento de Cultura de São Paulo, neste cargo fez diversas viagens 
ao Nordeste do Brasil, o que lhe deu bagagem intelectual suficiente para 
criar, em 1947, a Comissão Nacional do Folclore. Mario de Andrade ten-
tou dar visibilidade a aspectos não só materiais como imateriais da cultura 
nacional, em suas mais diferentes características e posições sociais. Con-
tudo, mesmo que o poeta fosse o responsável pelo projeto de SPHAN, 
outros intelectuais se envolviam na administração e não era unânime a 
necessidade de preservar certos aspectos da nossa cultura, principalmente 
as manifestações de cunho imaterial. Muitos destes intelectuais estavam 
em busca de consagrar um nacionalismo característico da Era Vargas.
O material produzido por Mario de Andrade em 1936 deu início a 
uma série de movimentações e discussões sobre as questões de preserva-
ção de patrimônio cultural. Em 30 de novembro de 1937, enfim é criado o 
SPHAN. Fica decidido que patrimônio é
o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja 
conservação seja do interesse público quer por sua vinculação a 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 48 –
fatos memoráveis da História do Brasil, quer por seu excepcio-
nal valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. 
(SPHAN,1937).
Passa a se considerar também, “[...] monumentos naturais, bem como 
sítios e paisagens que importe conservar e proteger pela feição notável 
com que tenham sido dotados pela naturezaou agenciados pela indústria 
humana” (SPHAN, 1937).
O primeiro diretor deste novo órgão foi Rodrigo Melo Franco de 
Andrade, que manteve o cargo durante trinta anos e trouxe diversas alte-
rações ao projeto original de 1936. Alguns historiadores criticam o papel 
do SPHAN durante este período, isto porque ele se dedicava a criar na 
população brasileira um sentimento de unidade nacional, dando ênfase 
para os grandes personagens (heróis da nação) e momentos também heroi-
cos da história do país. Essa era a característica máxima da política desse 
período, que tinha como objetivo criar o “homem brasileiro”, com sua arte 
e arquitetura barroca. Por esse motivo grande parte dos nossos bens tom-
bados estão em Minas Gerais. Esta é a denominada fase heroica.
Assim, o SPHAN foi ressignificado e, na Constituição de 1988, 
ganhou não só alguns novos aspectos como também um novo nome, Iphan 
(Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que entre suas 
mudanças estabelece que
substituindo a nominação Patrimônio Histórico e Artístico, por 
Patrimônio Cultural Brasileiro. Essa alteração incorporou o conceito 
de referência cultural e a definição dos bens passíveis de reconhe-
cimento, sobretudo os de caráter imaterial. A Constituição estabe-
lece ainda a parceria entre o poder público e as comunidades para a 
promoção e proteção do Patrimônio Cultural Brasileiro, no entanto 
mantém a gestão do patrimônio e da documentação relativa aos bens 
sob responsabilidade da administração pública. (IPHAN, 1988).
O Iphan não só amplia a forma de se eleger um patrimônio como 
também democratiza sua eleição, revisitando o conceito de patrimônio 
defendido por Mario de Andrade, em 1937. O patrimônio passa a ser 
representado por intervenções de “natureza material e imaterial, tomados 
individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, 
à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasi-
leira” (IPHAN, 1988).
– 49 –
O patrimônio desde sua origem até o século XXI
O objetivo desta mudança é que o máximo de grupos sejam repre-
sentados em seus mais variados aspectos, como, por exemplo, uma dança, 
uma feira, um parque e assim por diante. É também uma maneira mais 
democrática de eleger um bem, afinal, qualquer demonstração de arte, 
história e cultura que seja relevante para alguma camada ou grupo social 
pode se tornar um patrimônio cultural.
O Iphan é o primeiro na América Latina a compreender o patrimônio 
desta maneira e a definir regras de preservação mais rígidas. É ainda hoje 
uma referência para países com um passado semelhante ao da colonização 
do Brasil. Desta forma, é possível manter vínculos e apoio internacional.
3.1 O Patrimônio Cultural após 1988
A criação do Iphan em 1988 reconheceu como Patrimônio Cultural 
um novo conjunto de bens, sendo eles o patrimônio material, patrimônio 
imaterial, arqueológico e mundial. Neste momento, a ideia de Mario de 
Andrade é revisitada e passa-se a considerar o Patrimônio Imaterial como 
um importante fator para preservação da memória e da identidade social. 
Cada um desses grupos é composto por características únicas. Contudo, 
todos eles passam pelo processo de tombamento. Vamos compreender 
um pouco mais esse termo.
Tombo, assim como patrimônio, tem diversas definições, entre elas 
a mais comum, que é a de fazer algo cair. Contudo, tombo também pode 
estar relacionado ao ato de inventariar ou registrar algo, e é esta a defini-
ção que trabalharemos neste momento. Falamos há pouco sobre a origem 
do patrimônio e suas diversas definições. Quando o patrimônio passa a 
ser visto como algo coletivo e se decide conservar grandes monumentos 
e obras de arte, por exemplo, se faz necessária a catalogação destes. Esta 
catalogação só se faz possível graças ao tombo.
Para se ter o controle do que foi tombado, órgãos como o Iphan se responsabili-
zam por criar o chamado Livro Tombo. Nele estão presentes todos os bens tombados 
pela instituição responsável, assim como informações referentes a suas característi-
cas. Por exemplo, se for um edifício, o Livro Tombo trará informações sobre a data 
de edificação, os responsáveis pela obra, o estilo arquitetônico, entre outros. Existem 
quatro tipos de Livros Tombo, sendo eles: arqueológico, paisagístico e etnográfico; 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 50 –
histórico; belas artes; e das artes aplicadas. É importante salientar que tanto o tomba-
mento quanto o Livro Tombo surgem no Brasil na constituição de 1937.
Agora que o conceito de tombamento está claro, vamos compreender 
os tipos de patrimônio existentes no Brasil. O mais usual deles é o Patri-
mônio Material, que é definido pelo Iphan como
imóveis como as cidades históricas, sítios arqueológicos e paisagís-
ticos e bens individuais; ou móveis, como coleções arqueológicas, 
acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, 
videográficos, fotográficos e cinematográficos. (IPHAN, 1988)
Um exemplo de bem material tombado pelo Iphan são os remanes-
centes e as ruínas da Igreja de São Miguel, localizada no município de 
São Miguel das Missões, no Estado do Rio Grande do Sul. Foi tombado 
em 1938 e é um dos mais importantes exemplares da arquitetura barroca 
no Brasil. Além de ser um patrimônio material tombado pelo Iphan, as 
ruínas de São Miguel foram consideradas Patrimônio Mundial, Cultural e 
Natural pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência 
e a Cultura (UNESCO), também no ano de 1938.
Figura 3.2 – Ruínas Igreja São Miguel
Fonte: Shutterstock.com/ThiagoSantos.
O Patrimônio Imaterial, por definição, é toda forma de expressão 
que esteja além do âmbito da materialidade. Segundo o Iphan,
práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, 
ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cêni-
– 51 –
O patrimônio desde sua origem até o século XXI
cas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares (como merca-
dos, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas). 
(IPHAN, 1988)
O Patrimônio Imaterial é em base o maior responsável pela democra-
tização da preservação da cultura, arte e história, afinal, não está necessa-
riamente relacionado às questões do capital. São atos, saberes, indivíduos, 
entre outros, que nasceram e se preservam por atitude e encorajamento 
popular. Só se preservam vivos na memória por serem de atitudes coleti-
vas e de nenhuma forma podem ser impostos, afinal, como já discutido, a 
cultura vem do povo.
Um exemplo de Patrimônio Imaterial é a Roda de Capoeira, que foi 
inscrita no Livro Tombo das Formas de Expressão em 2008. É considerada 
um Patrimônio Imaterial graças ao fardo histórico que carrega, trazida 
pelos povos africanos no Brasil escravizados. Foi uma forma de ressigni-
ficar a cultura que em nosso país foi silenciada. A amplitude de seu tom-
bamento é nacional e é o Patrimônio Imaterial brasileiro mais conhecido 
no mundo. Segundo o Iphan, “[...] está presente em mais de 150 países, 
com variações regionais e locais criadas a partir de suas ‘modalidades’ 
mais conhecidas: as chamadas ‘capoeira angola’ e ‘capoeira regional’” 
(IPHAN, 2008).
Figura 3.3 – Roda de capoeira, resquício das danças de guerra segundo Johann 
Moritz Rugendas, 1835
Fonte: Johann Moritz Rugendas (1835).
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 52 –
O Patrimônio Arqueológico é assim reconhecido devido a seu cará-
ter de salvaguardar a memória, cultura e identidade de uma determinada 
comunidade ou civilização. Segundo o site do Iphan, (www.iphan.gov.br) 
o Brasil tem vinte e seis mil sítios arqueológicos, mas é importante lem-
brar que esse é o número já cadastrado e que podem existir outros milhares 
ainda não descobertos. Mas o que exatamente pode ser considerado um 
sítio arqueológico? O Iphan define que
os locais onde se encontram vestígiospositivos de ocupação 
humana, os sítios identificados como cemitérios, sepulturas ou 
locais de pouso prolongado ou de aldeamento, “estações” e “cerâ-
micos”, as grutas, lapas e abrigos sob rocha. Além das inscrições 
rupestres ou locais com sulcos de polimento, os sambaquis e outros 
vestígios de atividade humana. (IPHAN, 1988)
Também é importante lembrar que é crime federal omitir a desco-
berta de um sítio arqueológico, sendo que o responsável pelo local da des-
coberta tem o prazo de 60 dias para entrar em contato com o Iphan, afinal 
de contas, vestígios arqueológicos contam parte da nossa história, já que 
ela é constituída de fragmentos. “Todos os sítios arqueológicos têm prote-
ção legal e quando são reconhecidos devem ser cadastrados no Cadastro 
Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA)” (IPHAN, 1988).
Um dos mais importantes exemplos de Patrimônio Arqueológico no 
Brasil é o Sítio Arqueológico Ita-
coatiaras do Rio Ingá, no Estado 
da Paraíba. Foi tombado no livro 
de Belas Artes e no Livro Tombo 
Histórico em esfera nacional pelo 
Iphan em 1944, sendo a primeira 
arte rupestre a ser tombada como 
patrimônio no país. Se localiza 
na região rural da cidade de Ingá. 
As representações são gravuras e 
em sua maioria antropomórficas 
(representações de figuras huma-
nas) e zoomórficas (representa-
ções de animais).
Fonte: portal.iphan.gov.br.
Figura 3.4 – Sítio Arqueológico Itacoatiaras do Rio 
Ingá (PB)
– 53 –
O patrimônio desde sua origem até o século XXI
Uma curiosidade: o termo Itacoatiara significa escrita ou desenho 
na pedra, e tem sua origem na língua tupi-guarani. No Brasil, esse termo é 
usado para definir as gravuras rupestres.
Por fim, temos o Patrimônio Mundial, que é definido por um con-
junto de bens que tem relevância para a conservação da história, arte, iden-
tidade, cultura ou memória de todas as populações. O responsável pela 
administração deste patrimônio é a Convenção do Patrimônio Mundial 
Cultural e Natural (UNESCO). Foi adotada em 1972. Para a UNESCO, o 
Patrimônio Cultural é formado por
monumentos, grupos de edifícios ou sítios que tenham valor uni-
versal excepcional do ponto de vista histórico, estético, arqueo-
lógico, científico, etnológico ou antropológico. Incluem obras de 
arquitetura, escultura e pintura monumentais ou de caráter arqueo-
lógico, e, ainda, obras isoladas ou conjugadas do homem e da natu-
reza. São denominadas Patrimônio Natural as formações físicas, 
biológicas e geológicas excepcionais, habitats de espécies animais 
e vegetais ameaçadas e áreas que tenham valor científico, de con-
servação ou estético excepcional e universal. (IPHAN, 1978).
O Brasil passa a fazer parte dos países afiliados à UNESCO em 1978. 
Hoje fazem parte da organização 21 países e, para instigar a participa-
ção efetiva destes países na conservação de seus patrimônios, a UNESCO 
criou a chamada Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial 
da Humanidade, um título internacional que dá imensa visibilidade ao 
bem tombado.
Também se vinculou em 2003 aos tipos de Patrimônio Mundial aque-
les que são imateriais, ou seja, o ofícios, saberes, costumes, danças, poe-
sias e músicas, também podem compor o time de patrimônios considera-
dos importantes para o mundo todo.
O Cais do Valongo, localizado na cidade do Rio de Janeiro, é um dos 
Patrimônios Mundiais mais importantes do Brasil. Isso porque ele está 
localizado no porto que mais recebeu escravizados vindos da África no 
mundo todo. Seu reconhecimento como Patrimônio Mundial é a materia-
lização do sentimento de culpa pela violência que marca a escravidão no 
Brasil e é de suma importância para as futuras sociedades a sua conserva-
ção. O Cais do Valongo é um símbolo de resistência e força vivida pelas 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 54 –
populações africanas escravizadas por séculos no Brasil. Passou a fazer 
parte do Livro Tombo da UNESCO em 2017, e tem sido um importante 
meio de debate para as questões raciais, não só no território nacional como 
no mundo todo. Foi descoberto em 2011, e cobre uma área de cerca de 
5 milhões de metros quadrados. Construído em 1811, tinha como objetivo 
o desembarque e também comércio de escravizados que seriam posterior-
mente levados para as fazendas no interior do Rio de Janeiro, e também 
para outros Estados do país.
Figura 3.5 – Cais do Valongo – Rio de Janeiro
Fonte: Shutterstock.com/LuizSouza.
3.2 Patrimônio, sociedade e memória
O Patrimônio Cultural tem por objetivo a representação do indivíduo 
enquanto sociedade. Preservar um patrimônio é, portanto, a preservação 
do meu próprio eu, da memória individual e afetuosa, mas esse “eu” ainda 
envolto na malha social. Cada patrimônio tombado deve a priori valorizar 
o sentimento de pertencimento, não necessariamente para toda a socie-
dade, mas para os mais diversos grupos que o compõem. A Feira do Largo 
da Ordem, na cidade de Curitiba/PR, é um patrimônio imaterial tombado a 
nível municipal e resgata a história de sociabilidade e comércio que ocorre 
na mesma região ao longo da existência da cidade, contudo, essa mesma 
feira não representa a identidade de todas as pessoas do município, mas 
sim de um grupo especifico, os comerciantes e artesãos. Essa é a lógica 
– 55 –
O patrimônio desde sua origem até o século XXI
do Patrimônio Cultural, a feira não precisa representar a memória e iden-
tidade de toda a cidade de Curitiba, porém, se faz necessário que todos em 
Curitiba possam ter um Patrimônio Cultural ao qual se identifiquem.
Figura 3.6 – Feira do Largo da Ordem – Curitiba/PR
Fonte: Ben Tavener/Flickr/CC BY 2.0.
O Patrimônio Cultural tem por obrigação o resgate da memória cole-
tiva. É por meio dele que as pessoas passam a se conectar de maneira 
afetiva com o lugar em que estão inseridas, e isso acontece graças ao ato 
de lembrar, por exemplo, quando passamos na frente da casa que vivemos 
a nossa infância, nós lembramos não só da casa, mas dos momentos e pes-
soas que estiveram envolvidos nesse espaço. Com o Patrimônio Cultural 
acontece o mesmo, a diferença é que ele pode nos fazer criar laços com 
momentos e histórias que não vivemos. O patrimônio usa nosso imagi-
nário, quando vemos um edifício que foi construído no início do século 
XX, nos transportamos para esse espaço, imaginamos como viviam essas 
pessoas, quais eram suas roupas, meios de transporte, suas ideias. É para 
isso que o Patrimônio Cultural vive. Segundo Marina Soares Leão,
como referência para a ação de recriar o espaço, é preciso com-
preender como este adquire o valor simbólico que lhe é atribuído. 
Sua valoração é dada a partir das atividades de representação e res-
significação do patrimônio local e do resgate da memória coletiva 
para com o sujeito que se constitui como produto e produtor deste 
espaço. (LEÃO, 2009 p. 12)
Leão ainda afirma que
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 56 –
A continuidade da tradição de um grupo social se dá através da 
transferência do patrimônio a partir das práticas sociais atribuídas 
a ele. Esta apropriação coletiva e /ou individual do patrimônio ali-
menta os sentimentos de identificação e de atribuição de valor ao 
bem. Neste sentido, o patrimônio em sua forma física representa 
um acervo acumulado, reelaborado e intransferível das experiên-
cias vivenciadas pelas diversas gerações antepassadas. (LEÃO, 
2009 p. 14)
 Dica de Filme
Para compreender um pouco mais essa relação individuo versus patri-
mônio, é interessante analisar a animação que leva o nome de A Casa de 
Pequenos Cubinhos, criada pelo japonês Kunio Katõ, que recebeu o Oscar 
de melhor animação em 2009. Conta a história de um velho senhor que 
tem sua casa a cada dia mais submersa nas águas do mar e que, para 
escapar desse fatídico desastre natural, tenta a cada momento assen-
tar tijolo sobre tijolo e construiruma casa sobre outra. Certo dia seu 
cachimbo cai por entre uma construção e outra, o que lhe obriga a sub-
mergir para encontrar este objeto tão valioso, contudo, ao passo que ele 
desce e vê objetos e até mesmo as diferentes construções feitas ao longo 
de sua vida, suas memórias lhe são trazidas.
Esse é o real motivo da existência de Patrimônios Culturais, que nossas 
memórias nos sejam dadas conforme nos confrontamos com músicas, 
danças, festas, construções edificadas, entre outros.
3.2.1 A gestão do Patrimônio Cultural 
no Brasil e o papel do cidadão
O Brasil passa a discutir políticas de gestão patrimonial desde 1977, 
mas é somente em 2009 que o Iphan, em parceria com o Fórum Nacional 
de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura e a Associação Brasileira 
de Cidades Históricas (ABCH) realizam um encontro onde o foco de dis-
cussão era os novos caminhos a serem tomados pelos gestores culturais. 
Segundo Til Pestana, esse fórum serviu como matriz para a realização de 
novos objetivos na área da gestão do patrimônio, entre eles:
– 57 –
O patrimônio desde sua origem até o século XXI
consolidação de um Programa Nacional de Formação dentro do 
Sistema Nacional de Patrimônio; formação de uma coordenação 
multidisciplinar para o Programa Nacional de Formação em Patri-
mônio; estudo sobre a possibilidade de formação de um Sistema de 
Indicadores para Avaliação dos Programas de Formação em Patri-
mônio em âmbito nacional, adotando como referência o Sistema 
de Indicadores do Ministério da Cultura em parceria com o IBGE, 
o da Capes e do Programa de Estatística de Cultura da UNESCO; 
ampliação dos projetos voltados para a Formação, Gestão e Educa-
ção para o campo do Patrimônio Cultural. (PESTANA, [S.d.], p. 3)
Mesmo que os objetivos não tenham sido cumpridos dentro dos pra-
zos estabelecidos, a importância deste fórum é inegável, afinal de contas, 
é a partir deste momento que a gestão da cultura e do patrimônio passam 
a ser discutidas de uma maneira mais consolidada, buscando novas dire-
trizes e a resolução de problemas, tanto para a área de patrimônio quanto 
para o profissional responsável por sua gestão.
O problema é que o fórum foi basicamente pautado nas questões econô-
micas da preservação e globalização do patrimônio, ou seja, qual era o recurso 
financeiro disponível e qual lucro se obteria com esse gasto. Os novos gestores 
culturais eram orientados a pensar no patrimônio como um bem capital e que 
necessariamente deveria arcar com os seus próprios gastos de preservação.
A maior parte dos Patrimônios Nacionais são usados para a captação 
de renda, ou seja, servem muito mais como ponto turístico do que salva-
guarda da cultura e memória, principalmente os Patrimônios Mundiais; o 
título que a UNESCO proporciona é um chamariz para as oportunidades 
de fazer negócio sobre o patrimônio.
Mas por que essa valorização financeira do patrimônio é de certa 
maneira prejudicial? Nas palavras de Pestana,
lembramos que preservamos o nosso patrimônio cultural porque 
ainda tem um significado no contexto sociocultural. A sociedade 
estabelece vínculos vitais com seus bens culturais conservando 
aqueles elementos que cumprem uma função social. Existe um 
consenso geral de resistência à destruição de certos fatos que tem 
valor e, em que cada um possa reconhecer a si mesmo e sua expe-
riência de vida associada. Portanto, é necessário partirmos da con-
cepção da importância social da preservação do patrimônio cultu-
ral. (PESTANA, [S.d.], p. 14).
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 58 –
Ou seja, o Patrimônio Cultural, quando vendido, deixa de cumprir 
seu papel de resgatar e rememorar a história e a cultura. Ele se torna um 
atributo, algo sacralizado, muito mais importante para os turistas do que 
para a sociedade que deveria se sentir pertencente e ressignificada nele. 
O patrimônio pode sim ser um ponto turístico, mas ele deve ir além disso, 
é um espaço de conquista, um espaço de cultura e resistência.
É papel do cidadão reivindicar seu direito ao patrimônio. Como já 
vimos anteriormente, o Patrimônio Cultural é eleito pela história e cultura 
de múltiplos grupos sociais, ou seja, é eleito ou deveria ser eleito pelo 
povo e ter importância relevante para esse. Pestana fala que
quando intervimos de alguma forma em nosso patrimônio cultu-
ral tocamos em fibras muito sensíveis dos vínculos histórico-cul-
turais que dão coerência e congruência a toda sociedade. Nesse 
sentido, é importante considerar, antes de tudo, que o patrimônio 
cultural pertence à comunidade, a qual estabelece vínculos vitais 
com seus bens culturais, conservando aqueles elementos que cum-
prem uma função social. Estas relações podem ser de caráter eco-
nômico, social, cultural, etc. Ou seja: as relações da comunidade 
com seu patrimônio cultural não se circunscrevem somente na 
esfera econômica, mas nas diferentes e complexas esferas da vida 
social. (PESTANA, [S.d.], p. 16)
É nesse sentido que o cidadão se torna agente na preservação do Patri-
mônio Cultural. É pelas mãos da sociedade que o patrimônio deixa de 
ser apenas uma forma de angariar fundos e passa a ter valor cultural. Ser 
agente do patrimônio significa reivindicar o seu lugar na história, preservar 
ele é preservar nossa cultura. Usando o exemplo antes dado, o Cais do 
Valongo pode ser um lugar turístico, com grande valor capital e isso ser 
de auxílio para que tenha capital suficiente para sua própria preservação, 
mas de nada vale mantê-lo vivo se a população ao qual ele diz respeito não 
se sentir pertencida a ele, não lhe preservar e não lhe compreender como 
lugar de memória.
3.3 Patrimônio e paisagem
A paisagem é por definição um conjunto heterogêneo de componen-
tes, seja ele natural ou criado pelo homem e que pode ser visto. Esse con-
ceito está presente nos nossos dias e é natural termos a certeza de que o 
– 59 –
O patrimônio desde sua origem até o século XXI
entendemos. Mas o que a paisagem tem a ver com o Patrimônio Cultural, 
neste capítulo discutido?
Segundo George Bertrand (1978 apud ALMEIDA, 2007), a paisagem 
é um produto social, é uma resultante da história local ou regional. Se ela 
é um produto social é, portanto, parte incondicional da nossa cultura. E 
se torna patrimônio quando a ela atribuímos características únicas, seja 
pelo seu valor histórico ou mesmo pelo privilégio de ser única, como, por 
exemplo, as ruínas da Igreja de São Miguel: esse Patrimônio Cultural é 
simbólico pela sua admirável característica de construção que é singu-
lar no Brasil, mas também é uma referência histórica. É nesse sentido 
que as belas ruinas deixam de ser apenas uma paisagem para se tornarem 
um patrimônio.
Mas como se define uma paisagem patrimonial? O artigo Os valores 
patrimoniais da paisagem cultural: uma abordagem para o processo de 
intervenção, elaborado por Silva e colaboradores (2007), busca na inter-
pretação de Sauer a seguinte resposta para esta pergunta:
a paisagem cultural é, nas palavras de Sauer (Corrêa e Rosendahl, 
1998, p. 9), “modelada a partir de uma paisagem natural por um 
grupo cultural. A cultura é o agente, a área natural é o meio, a 
paisagem cultural o resultado”. Todavia, Sauer privilegiou a aná-
lise morfológica da paisagem cultur\al e os aspectos materiais da 
cultura, não considerando seus aspectos subjetivos. (SILVA et al., 
2007, p. 299)
Contudo, é importante salientar que uma paisagem patrimonial, assim 
como compreendemos no Patrimônio Cultural, pode ter diversas formas 
de representação e pertencimento, desde a mais simples e individual, até 
as mais complexas e coletivas, chegando a níveis mundiais. Quem avalia 
a paisagem mundial é a UNESCO, desta maneira podemos perceber sua 
proximidade com a relação do Patrimônio Cultural.
As questões da paisagem natural vêm sendo discutidas ao longo do 
século XX, principalmentecom o avanço das políticas de globalização e 
também com os avanços das indústrias e a visível perda de Patrimônio 
Natural. É nesse contexto histórico que passa a se perceber a necessidade 
de conservação e, mais do que isso, preservação de Patrimônios Natu-
rais. A paisagem neste quesito assume duplo papel: o de corresponder às 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 60 –
necessidades humanas, com mudanças na paisagem natural, construção 
de estradas e pontes, edifícios e casas; mas também o de preservar as pai-
sagens que o homem não domina, como as serras, por exemplo, que assu-
mem o papel do belo e não necessariamente narram questões culturais 
ou indenitárias da população. A importância da paisagem patrimonial é 
bastante singular, visto que ela abraça conceitos que o patrimônio sozinho 
não poderia abraçar. A paisagem patrimonial valoriza a vida humana, mas 
também respeita o lugar de onde somos.
Síntese
Abordamos nesse capítulo o conceito de patrimônio. Partindo do nosso 
senso comum, foi apresentada a trajetória histórica do conceito, desde sua 
definição capital e individual até sua definição cultural e conjunta.
Após compreendermos a definição de patrimônio, principalmente 
cultural, analisamos algumas diferenças entre os vários tipos de patrimô-
nio e os papeis da sociedade para preservá-los.
Atividades
1. Quais definições de patrimônio são abordadas nesse capítulo?
2. Discorra sobre os 4 diferentes tipos de Patrimônio Cultural.
3. Discorra sobre a importância do poeta Mario de Andrade para 
a Constituição de 1988 e as novas maneiras de se considerar o 
Patrimônio Cultural.
4. Defina Paisagem Cultural.
4
Patrimônio e 
Propriedade
No capítulo anterior, definimos o conceito de patrimônio 
como um bem que é deixado como legado de uma geração a 
outra, seja na esfera coletiva ou individual. Neste capítulo, dis-
correremos sobre o sentimento de posse ao patrimônio e à cultura 
do mesmo.
O século XXI é formado por um novo tipo de sociedade, 
uma nova geração, na qual a globalização é a base de sua estru-
tura e, se tratando do Ocidente, a ordem é o capitalismo. O 
termo posse nos é muito comum, somos donos de muitas coi-
sas, e é claro fazemos o possível para sermos também possui-
dores de patrimônios.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 62 –
4.1 Patrimônios Culturais e a posse social
Mas como se dá a posse da sociedade sobre os patrimônios culturais? 
Discutimos anteriormente que o patrimônio é responsabilidade de órgãos 
governamentais, mas que também é de responsabilidade social. Definir 
quais patrimônios serão geridos e preservados e lhes proteger é uma res-
ponsabilidade da comunidade a qual estão inseridos, mas para que esses 
patrimônios sejam cuidados como se deve é de suma importância que as 
pessoas se sintam pertencidas, sintam-se donas e responsáveis por eles.
Sobre isso, Elsa Peralta da Silva explica que:
o património não é só o legado que é herdado, mas o legado que, 
através de uma seleção consciente, um grupo significativo da 
população deseja legar ao futuro. Ou seja, existe uma escolha cul-
tural subjacente à vontade de legar o património cultural a gera-
ções futuras. E existe também uma noção de posse por parte de um 
determinado grupo relativamente ao legado que é coletivamente 
herdado. (SILVA, 2005, p. 218)
O patrimônio destinado à preservação deve corresponder às necessi-
dades da sociedade na qual está inserido, deve fazer parte de sua cultura e 
dizer algo sobre seus hábitos, é desta maneira que ele passa a existir.
Possuir um patrimônio 
individual, em muitos casos, 
é uma maneira de garantir um 
status social, e com o Patrimô-
nio Cultural acontece o mesmo. 
Vejamos o Cristo Redentor, 
localizado no Rio de Janeiro. 
A bela estátua sobre o Corco-
vado é um orgulho para mui-
tos cariocas, bem como para os 
brasileiros que se sentem repre-
sentados ao vê-la. Fala sobre o 
Brasil quando ainda não laico, 
fala sobre o Rio de Janeiro e lhe faz ser reconhecido, uma foto do Cristo 
e você pode saber onde seu amigo está passando férias. É desta maneira 
que o Patrimônio Cultural age, ou deveria agir, a partir do sentimento de 
Figura 4.1 – Cristo Redentor, Rio de Janeiro/RJ
Fonte: Shutterstock.com/lazyllama.
– 63 –
Patrimônio e Propriedade
posse, de reconhecimento, ele conta uma história, fala de uma cultura, 
pertence a alguém.
Partindo disto, a autora Elsa da Silva discute que:
esta noção de património, com a ideia de posse que lhe é implí-
cita, sugere-nos imediatamente que estamos na presença de algo de 
valor. Valor que os seres humanos, tanto individual como social-
mente, atribuem ao legado material do passado, valor no sentido 
do apreço individual ou social atribuído aos bens patrimoniais 
numa dada circunstância histórica e conforme o quadro de refe-
rências de então. Trata-se de um conceito relativo, que varia com 
as pessoas e com os grupos que atribuem esse valor, permeável 
às flutuações da moda e aos critérios de gosto dominantes, mati-
zado pelo figurino intelectual, cultural e psicológico de uma época. 
(SILVA, 2005, p. 218).
Ou seja, o patrimônio é, assim como o tempo e a história, uma cons-
trução social, e é submisso aos desejos das pessoas, não deve nunca ser 
o contrário disso. O Patrimônio Cultural deve a priori dar aos cidadãos a 
liberdade de sentirem-se pertencidos, a sociedade tem o direito de dizer, 
“isto é, meu! Isto é nosso!” para seus patrimônios conjuntos.
4.2 Direito à propriedade
Na atualidade, a relação entre o homem e seus bens é bastante ligada 
ao seu valor de mercado. Na verdade, raramente ao longo da história o 
homem esteve tão ligado aos valores financeiros como está no século 
XXI. A sociedade moderna está ligada ao consumo individual dos bens e 
todos os nossos direitos percorrem esta característica.
Hoje, todo e qualquer homem tem garantido por lei o direito à pro-
priedade, isso desde a criação do Código Civil Francês, em 1804, que tinha 
como ordem principal dar aos homens direito à família e à propriedade.
A nova ordem social, o avanço do capitalismo, as burguesias se tor-
nando mais fortes e os estados se garantindo liberais fizeram com que a 
noção de propriedade fosse ressignificada.
Mas afinal de contas, o que é propriedade? Segundo João Luís 
Nogueira Matias e Afonso de Paula Pinheiro Rocha:
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 64 –
pode-se entender que a propriedade é fenômeno espontâneo, decor-
rente da necessidade de subsistência do ser humano, sendo posterior-
mente regulado a fim de possibilitar a convivência social pacífica. 
Apresentava-se em feição coletiva, dada a prevalência da comuni-
dade sobre o indivíduo nas sociedades primitivas. Com a evolução 
das sociedades, sendo assegurado maior prestígio aos indivíduos, 
é possibilitada a apropriação individual, restrita aos bens imóveis 
em primeiro momento, sendo ampliada para bens móveis em fase 
posterior. O invento da moeda e a expansão de seu uso consolidou a 
propriedade individual. (MATIAS; ROCHA, 2006).
A sociedade pós-moderna dividiu a propriedade em: propriedade 
ativa, propriedade de gestão ou produtiva e passiva, concernente na pro-
priedade de parcela do capital de empresas. Isso significa que a proprie-
dade agora não necessariamente tem de ser algo fixo ou material, ela 
pode estar concentrada no mundo das ideias, ela é um empreendimento, 
por exemplo. Essa construção de propriedade é chamada de “proprie-
dade empresarial”.
Neste caminho, a propriedade é protegida por lei quando tem uma 
razão social. Nas diversas mudanças do status da propriedade ao longo 
do tempo, em muitos momentos ela era um direito absoluto, se um pro-
prietário de terra encontrasse petróleo, o direito ao usufruto disso seria 
totalmente dele.
A sociedade pós-moderna compreende a propriedade de outra 
maneira, isso porquevê a propriedade numa construção social e é desejável 
que todos dentro dela tenham 
as mesmas oportunidades de 
possuir uma. É um paradigma 
que o momento histórico em 
que a sociedade é mais individu-
alista e voltada ao lucro, ela seja 
vista como um atributo social.
Qualquer formação empre-
sarial, por exemplo, tem de ter 
obrigatoriamente uma “razão 
social”, só desta maneira seus 
direitos são garantidos.
Figura 4.2 – Empreendedores
Fonte: Shutterstock.com/F8 studio.
– 65 –
Patrimônio e Propriedade
No capítulo anterior, discutimos que a noção de patrimônio surge no 
momento que o homem percebe a necessidade de ser um indivíduo, de 
cercar sua terra, ou seja, sua propriedade. Percebemos então que patrimô-
nio e propriedade nascem no mesmo momento da história. A diferença é 
que o patrimônio é um bem que será ligado às gerações futuras, já com 
a propriedade não necessariamente ocorre o mesmo, pois a propriedade 
pode ser efêmera e está ligada aos valores econômicos.
4.2.1 Propriedade como um bem social
Tanto a propriedade quanto o patrimônio estão sujeitos a riscos 
sociais, isso graças ao fato de que se algo é meu, por mais vasta que seja a 
quantidade deste algo, ele também pode ser querido pelo outro. Usando o 
exemplo de João Luís Nogueira Matias e Afonso de Paula Pinheiro Rocha, 
no seu artigo Repensando o direito à propriedade:
aparentemente, ao se apoderar de um recurso, por mais abundante 
que seja, tal qual uma maçã de um vasto pomar, qualquer indivíduo 
passa a arcar com determinados custos. Ele tem o custo relativo 
ao desgaste da colheita, mesmo que seja mínimo e os “custos de 
exclusão”. Estes custos de exclusão são todos aqueles relativos 
aos riscos de que outro indivíduo, mesmo frente a abundância 
do recurso, deseje o que se encontra na posse de outro indivíduo. 
Assim, são custos de exclusão, por exemplo, uma cerca para pro-
teger um pomar, um muro para proteger o gado, jarros de água 
guardados em uma caverna, etc. (MATIAS; ROCHA, 2006)
Ou seja, a propriedade tem valor econômico e não está presente 
somente no mundo das ideias, está no mundo físico e principalmente 
econômico. Cada sociedade lida e lidou ao longo do tempo com a pro-
priedade, alguns grupos humanos simplesmente passaram a fingir que ela 
não existia, tudo é de todos e ninguém discute isso. Outros dividiram as 
propriedades e criaram regras sobre elas. Muitos estudiosos da antropolo-
gia dizem que quanto mais simples é a configuração social de um grupo, 
menos a propriedade importa, enquanto, pelo contrário, quanto mais com-
plexa for a organização, mais a propriedade é importante e debatida.
As formas de dividir o direito à propriedade também variaram ao 
longo do tempo, poderia acontecer pela ordem de chegada, pelo poder 
exercido e, hoje, em grande parte, esse direito é garantido pelo capital.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 66 –
Segundo João Luís Nogueira Matias e Afonso de Paula Pinheiro 
Rocha, “o direito de propriedade, nada mais é do que uma miríade de 
direitos de exclusão que surgem para permitir uma relação mais eficiente 
dentro da sociedade e que se destinam a permitir a alocação de riquezas” 
(MATIAS; ROCHA, 2006).
O direito à propriedade só é válido quando essa garante o mínimo de 
dignidade, igualdade e respeito aos direitos humanos, é para esse fim que 
ele foi criado. Além disso, é com o direito à propriedade que a sociedade 
poderá evoluir econômica e socialmente.
Portanto, se a propriedade não estiver ocupando esse espaço, se ela só 
for um mecanismo de acréscimo às desigualdades sociais, não há motivos 
para existir. Nas palavras de João Luís Nogueira Matias e Afonso de Paula 
Pinheiro Rocha, “qualquer forma de absolutização da propriedade que ter-
mine por impactar negativamente no seio social ou venha a desperdiçar os 
recursos econômicos para o bem do coletivo já está em descompasso com 
a própria razão de ser da propriedade” (MATIAS e ROCHA, 2006).
Seguindo esta lógica, o acúmulo de grandes números de proprieda-
des, sem um fim a não ser o lucro, vai contra seu conceito. A sociedade 
do consumo rápido e em grandes quantidades mudou o mundo, mudou 
aspectos que o mundo nem poderia imaginar, foi responsável pelas duas 
grandes guerras, reinventou o conceito de propriedade. São novos tempos.
4.3 Direito e Patrimônio Cultural
No capítulo anterior discutimos sobre a elaboração de órgãos volta-
dos para a preservação do Patrimônio Cultural, como o SPHAN, em 1936, 
por exemplo. Os debates que surgiram no século passado se fortalecem 
com a Constituição de 1988, na qual o Patrimônio Cultural ganha uma 
nova formulação, abrangendo, por exemplo, aspectos imateriais da nossa 
cultura. Todas essas mudanças foram essenciais para garantir que a socie-
dade tenha acesso ao Patrimônio Cultural como um todo.
Enquanto sociedade, nos foi garantido o direito de nos sentirmos repre-
sentados pela nossa cultura e, portanto, nossos Patrimônios Culturais.
– 67 –
Patrimônio e Propriedade
A Constituição de 1988 garante aos brasileiros o chamado direito à 
“dignidade humana”. Esse direito diz respeito também ao consumo e pro-
dução de cultura. Segundo Afonso Bandeira Coradini e Tauã Lima Verdan 
Rangel, “o Patrimônio Cultural brasileiro ao ser encaixado na dignidade 
da pessoa humana estará preservando o seu próprio valor, o valor da iden-
tidade nacional, já que este é o significado de dignidade”. (CORADINI; 
RANGEL, 2017)
Quando se refere a cultura patrimonial é importante compreendermos 
que ela está ligada à representação da mais vasta pluralidade nacional, o 
Patrimônio Cultural é por obrigação um direito nacional: negros, bran-
cos, ricos, pobres, indiferentemente do grupo ao qual pertençam, têm por 
direito a sua representatividade patrimonial.
Por esse motivo, em 1988, a Constituição vai definir novos caminhos 
para que o patrimônio se torne mais democrático e acessível aos mais 
variados tipos de pessoas que constroem a identidade nacional, juntas, em 
grupos isolados ou individualmente. A partir de 1988, qualquer pessoa 
física pode solicitar o tombamento de um bem. Para tanto, deverá consul-
tar o órgão responsável no seu município sobre como fazer a solicitação.
Figura 4.3 – Diversidade Cultural
Fonte: Shutterstock.com/Cienpies Design.
4.3.1 Direitos ligados ao acesso e à 
preservação garantidos por lei
Não basta que os variados indivíduos sociais sejam representados se 
o acesso ao seu patrimônio e cultura lhe for negado. Além disso, esse 
acesso deve ser de qualidade e consciente, mas, para isso, é necessário que 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 68 –
a sociedade perceba a relevância de preservar seus patrimônios. Quanto a 
este assunto, o autor Renato Duro Dias diz que
a proteção do Patrimônio Cultural é uma decorrência de seu próprio 
conceito, do direito de acesso a ele e do dever constitucional imposto 
ao poder público (Constituição Federal, artigo 215, caput e Constitui-
ção Estadual, artigo 220, caput e parágrafo único) como um desdobra-
mento da nova categoria de direitos culturais, expressão do gênero de 
direitos difusos, protegidos pela ação popular, ao alcance de qualquer 
cidadão (CF. artigo 5º, LXXIII), e pela Ação Civil Pública, própria do 
Ministério Público (CF, artigo 129, III). (DIAS, 2010)
Para que esse direito fosse atingido, o Governo Federal aliou a cul-
tura e a educação. Desde 1960, o país investe na arte-educação dentro das 
escolas, em que as crianças interagem com as mais diversas manifestações 
artísticas, desde as artes plásticas até as cênicas, a dança, o canto, entre 
outas representações culturais.
Desta maneira, se almejava garantir que a população brasileira tivesse 
acesso democrático a sua cultura. Contudo, o projeto foi se tornando obso-
leto, muitos grupos sociais não se sentiam representados e o problema do 
acesso voltoua ser uma realidade.
Percebendo esta falha institucional, o Governo Federal revisitou sua 
estratégia e elaborou maneiras de garantir o acesso à cultura dentro das 
escolas. Para isso, iniciou o projeto Educação Patrimonial.
A educação patrimonial busca levar aos alunos conhecimento básico 
sobre o que é patrimônio, o que é cultura e a importância da legitimação 
de ambos conceitos para a formação de uma identidade social. A educação 
patrimonial se tornou o braço forte do Patrimônio Cultural, e por meio 
dela o processo de democratização ao acesso ocorre.
Crianças que muitas vezes nunca tiveram a oportunidade de conhecer 
sua cidade passam a vê-la com outros olhos, esses olhos curiosos infantis 
são o futuro da preservação patrimonial e cultural do país, e isso só é pos-
sível graças à educação.
Segundo os autores Maria de Lourdes Parreiras Horta, Evelina Grun-
berg e Adriane Queiroz Monteiro, em seu artigo intitulado Guia básico da 
Educação Patrimonia, a educação patrimonial é
– 69 –
Patrimônio e Propriedade
um processo permanente e sistemático de trabalho educacional 
centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária de conhe-
cimento e enriquecimento individual e coletivo. A partir da expe-
riência e do contato direto com as evidências e manifestações da 
cultura, em todos os seus múltiplos aspectos, sentidos e significa-
dos, o trabalho da Educação Patrimonial busca levar as crianças e 
adultos a um processo ativo de conhecimento, apropriação e valo-
rização de sua herança cultural, capacitando-os para um melhor 
usufruto destes bens, e propiciando a geração e a produção de 
novos conhecimentos, num processo contínuo de criação cultural. 
(GRUNBERG; HORTA; MONTEIRO, 2000, p. 4)
É importante compreender que essa educação patrimonial, além de visar 
o uso consciente do Patrimônio 
Cultural, também promove uma 
discussão crítica sobre os aspec-
tos pertinentes a nossa cultura e 
modo de ver e fazê-la acontecer.
Hoje, a educação patri-
monial é um direito garantido 
e está presente na grade cur-
ricular das escolas públicas 
de todo o Brasil. É evidente 
que seus modos de fazer 
variam e se modificam, nem 
sempre ocorrendo da maneira 
ideal, mas é um grande passo 
em direção à consciência cul-
tural desejada.
É direito do cidadão ter 
sua cultura preservada e o 
patrimônio histórico e artístico 
é a maneira com a qual esse 
direito pode ser atingido. Lutar 
por esse direito é sem dúvidas 
estar também lutando pela 
manutenção dos modos de se 
viver e fazer presentes na sociedade. Para isso, se faz necessária a elabora-
Figura 4.4 – Crianças em visita guiada pelo Setor de 
Ação Educativa da Fundação Cultural de Curitiba à 
Igreja da Ordem. Curitiba/PR
Fonte: acervo do autor.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 70 –
ção de leis de preservação, como o tombamento, apresentado no capítulo 
anterior. O autor Renato Dias explica que
é importante registrar que, além das clássicas e conhecidas medi-
das de tombamento e desapropriação, a nova ordem jurídico-cons-
titucional prevê novas e múltiplas formas de proteção do Patrimô-
nio Cultural, como os inventários, os registros e a vigilância, além 
de outras formas de acautelamento e preservação. (DIAS, 2010)
É importante enquanto sociedade estarmos cientes dos nossos direitos 
ao patrimônio, afinal de contas, ele é nossa propriedade conjunta. A histó-
ria, a arte e a cultura se mantêm pelos usos que damos a elas.
4.4 Apropriação cultural
A cultura é, em tese, algo que se compartilha com o próximo, ela não 
tem barreiras, não há limites, isso porque não há formas de controlá-la. 
Seguindo este ideal, o que é e como ocorre a apropriação cultural?
A cultura, mesmo que sem uma barreira, é a marca de um grupo, cada 
grupo tem seus modos de viver e fazer, apropriar-se das culturas alheias é 
algo bastante comum – nós não precisamos viver no Japão para comermos 
sushi. A apropriação cultural é, portanto, o uso de atributos da cultura 
alheia, é se apropriar de ritos, modos de viver, arquitetura, jeitos de vestir.
A apropriação cultural se intensificou após a globalização mundial 
e o advento da internet; hoje, é simples e rápido conhecer outra cultura e 
encontrar nela referências para usar para si.
Desse ponto de vista, a apropriação cultural é saudável e acontece de 
forma natural, todos os dias somos confrontados com culturas alheias e 
delas nos apropriamos assimilando o que nos convém, é uma caracterís-
tica social do homem pós-moderno.
Entretanto, nos últimos anos ocorreram polêmicas acerca deste tema, 
isso porque grupos marginalizados pela sociedade iniciaram um movi-
mento de reivindicar sua cultura e acusar a apropriação cultural como 
nociva à manutenção de suas culturas. Mas por quê?
Ao pensar sobre apropriação cultural, sempre surge a discussão de 
quem pode e de quem não pode fazer o uso de um determinado “objeto”; no 
– 71 –
Patrimônio e Propriedade
entanto, ao delimitar o tema apenas a essa questão se perde o real sentido 
por trás das reivindicações e do que de fato significa apropriação cultural.
Quando se fala em apropriação cultural, é importante pensar na his-
tória do grupo que está reclamando o direito sobre tal símbolo, como por 
exemplo, a população negra sobre o turbante, as guias e seus ritos reli-
giosos. Os negros, ao chegarem no Brasil na condição de escravizados, 
tiveram sua religião, suas vestimentas e sua beleza negadas, tudo que era 
relacionado à cultura negra foi marginalizado por anos, portanto, o negro, 
para se inserir na sociedade a qual ele passou a fazer parte, renegou tudo 
em detrimento da aceitação, pois uma pessoa negra, ao fazer o uso do tur-
bante, de dreads, da religiosidade africana, era mal vista dentro do meio 
social; contudo, uma pessoa branca, ao fazer o uso dessas mesmas vesti-
mentas, penteados, e ter como expressão de fé o candomblé ou a umbanda, 
não sofria os mesmos tipos de sanções sociais.
Com o surgimento dos movimentos sociais, o uso desses símbolos 
ganha o caráter de resistência, pois uma pessoa negra, ao usar um turbante, 
ao se reafirmar candomblecista ou umbandista com sua guia, reconhece a 
negritude como parte constituinte da cultura e rompe com a marginaliza-
ção dessas expressões.
Figura 4.5 – Mulher em manifestação
Fonte: Shutterstock.com/Diego G Diaz.
E é a partir deste ponto que se pode começar a discutir sobre apro-
priação cultural, que é muito mais sobre o processo de reconhecimento, de 
reivindicação de uma cultura negada, do que quem pode ou não pode usar.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 72 –
A apropriação cultural é sobre entender a importância que há sobre 
determinada roupa, penteado e expressão para certos grupos, e respeitar 
toda a historicidade que advém do uso, sendo de forma alguma uma proibi-
ção, mas a compreensão da sua função no meio de todo esse processo. Por-
tanto, quando um grupo reclama uma expressão cultural como sua, é preciso 
saber a história e os motivos que levam esse grupo a assumir essa posição.
Síntese
Neste capítulo, foi apresentado o conceito de posse e como o direito 
à propriedade influencia o patrimônio individual e cultural na formação 
do indivíduo contemporâneo. Também foram analisadas as formas de 
ver e respeitar a cultura alheia, já que as trocas culturais são comuns para 
as sociedades.
Atividades
1. Quais são as necessidades que o Patrimônio Cultural, enquanto 
bem preservado, deve suprir?
2. Qual a relação entre indivíduo pós-moderno e propriedade?
3. Qual o papel social da educação patrimonial?
4. O que é apropriação cultural e como ela ocorre? Dê sua opinião 
sobre o assunto.
5
Patrimônio, 
representação 
e identidade
Nesse capítulo discutiremos conceitos pertinentes à seleção 
do Patrimônio Cultural, quem ele representa e de que forma isso 
ocorre dentro da sociedade.Também se refletirá sobre os arca-
bouços da identidade inseridos no contexto patrimonial e como 
a relação do indivíduo e sociedade se dá por meio da identidade 
criada ou resultante de fenômenos sociais que ocorrem de forma 
natural.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 74 –
5.1 Representatividade e Patrimônio Cultural 
nas obras de Durkhein e Moscovici
A representatividade é, de forma bastante geral, o ato de alguém ou 
algo exprimir características de um grupo, um coletivo. Por exemplo, 
quando elegemos um presidente, nós, por meio do voto, damos direito 
a um único individuo para representar nossas ideias e perceber nossas 
necessidades conjuntas, ele é um representante. Esse representante tem 
como objetivo falar em nome do conjunto pelo qual ele é designado a 
representar, portanto, se falarmos em Patrimônio Cultural, um represen-
tante é um objeto, imóvel, ação, modo de viver, entre outros, que sintetize 
a cultura do povo ao qual ele foi destinado. Um bom exemplo para com-
preendermos isso é a Umbanda, Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro, 
desde 2016, isso graças ao seu aspecto simbólico da cultura afro-brasi-
leira, sua história e luta pela liberdade de expressar livremente crenças, 
seu tombamento é um ato em favor da liberdade religiosa.
Figura 5.1 – Umbanda Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro
Fonte: Shuttestock.com/Ciceia Almeida.
O famoso sociólogo e antropólogo francês, Émile Durkhein, criou 
o conceito de “Representação Coletiva”. Para ele fenômenos como a 
religião e até mesmo o idioma, são ações de um coletivo, esse coletivo 
social é responsável por criar convenções, como a contagem do tempo, 
por exemplo. Para explicar isso, ele define que indivíduo e sociedade não 
– 75 –
Patrimônio, representação e identidade
são a mesma coisa, mas é importante compreender que ambos se comple-
mentam. A sociedade é formada através dos indivíduos e ao mesmo tempo 
podemos perceber com exemplos simples que os indivíduos também são 
uma construção da sociedade a qual pertencem, o ideal de beleza e sua 
relação direta com o meio social é um exemplo.
Marcos Alexandre, em seu artigo intitulado Representação Social, 
uma genealogia do conceito, diz que:
Para o sociólogo, a individualidade humana se constitui a partir da 
sociedade. A “representação coletiva”, segundo Durkheim22, não 
se reduz à soma das representações dos indivíduos que compõem 
a sociedade, mas são, mais do que isso, um novo conhecimento é 
formado, que supera a soma dos indivíduos e favorece uma recria-
ção do coletivo. Uma função primordial da “representação cole-
tiva” seria a transmissão da herança coletiva dos antepassados, que 
acrescentariam às experiências individuais tudo que a sociedade 
acumulou de sabedoria e ciência ao passar dos anos. (ALEXAN-
DRE, 2004, p. 131).
É graças a esse papel de interação entre indivíduo e sociedade que 
podemos perceber a grande variedade de movimentos culturais coletivos. 
Pois a junção de grupos variados de indivíduos vai consolidar uma grande 
variedade de demonstrações culturais. E é neste sentido que o Patrimônio 
Cultural se consolida. Cada grupo vai eleger um dos seus fenômenos cul-
turais para lhe representar, esse fenômeno escolhido geralmente carrega 
consigo a história e a síntese cultural do grupo ao qual pertence. A singu-
laridade destas representações é também um ponto importante.
Outro pensador que discute a representatividade é o psicólogo social 
Serge Moscovici, o intelectual cria a “Teoria da Representação Social”, 
sua teoria é uma das formas de explicar como o indivíduo se relaciona 
com a sociedade e como é influenciado por ela. Para ele, a representação 
social é a forma de comunicação entre os indivíduos dentro da sociedade, 
graças a isso não é estável, via de regra, ela se transforma conforme a lin-
guagem social também se transforma.
Moscovici afirma que a representação social é a forma como res-
significamos nossos aprendizados de mundo. Tudo que aprendemos 
indiretamente passa a ser um conhecimento direto ao longo do tempo, 
por exemplo, quando somos crianças falamos tudo que pensamos, tudo 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 76 –
que queremos. De forma indireta, a sociedade nos ensina a filtrar nos-
sos pensamentos e falas, nos tornamos polidos e transformamos isso 
em um conhecimento direto, é como a famosa história da roupa nova 
do rei, ninguém dirá que o rei está nu até que uma criança o diga, ela 
não conhece as regras sociais, ainda passará pelo processo de conhe-
cimento indireto. 
Figura 5.2 – Conto A roupa nova do Rei
Fonte: Shutterstock.com/mark stay.
Para Moscovici, as representações sociais não podem ser tomadas 
como verdade científica, mas elas são fragmentos da verdade, são como 
as lendas, não são a história em si, mas são pedaços dela, uma espécie de 
cola, para que tudo que está faltando faça algum sentido. A representa-
ção social transforma o conhecimento cientifico em algo democrático e 
entendível aos cidadãos comuns, é o que chamamos de senso comum. Ele, 
segundo Moscovici, é importante para a compreensão clara e objetiva do 
mundo, de forma homogênea pela população geral.
Moscovici era um seguidor de Durkheim, contudo, em certo momento, 
seus pensamentos quanto à representação social entram em choque. Para 
Durkheim, a representação da sociedade se dá como uma maneira de com-
preender os indivíduos coletivamente, observando a cultura e os modos de 
viver de uma sociedade pode-se compreendê-la. Já Moscovici objetivou 
seus estudos em diferenciar os mais heterogêneos modos de pensar coleti-
vamente dentro da sociedade do século XX.
– 77 –
Patrimônio, representação e identidade
5.1.1 Representatividades como 
forma de conhecimento
A representatividade é um fator de grande importância na sociedade, 
é uma das maneiras com as quais é possível a manutenção da mesma. Ela 
é um elo entre a cultura e a população. O patrimônio e a representatividade 
são exemplos de conhecimento indireto se tornando direto, pois toda a 
cultura que antes poderia passar sem ser percebida, agora não só é perce-
bida, como também é valorizada e preservada.
O patrimônio é um atributo da cultura e consecutivamente da repre-
sentatividade, é por esse motivo que ele deve existir para todos os grupos 
que formam a sociedade, não pode ser um mérito ou privilégio de um 
grupo, ele nasceu para representar a sociedade como um todo, seja de 
forma particular ou coletiva. 
Figura 5.3 – Mistura cultural
Fonte: Shutterstock.com/Cienpies Design.
5.2 Patrimônio e seletividade segundo a UNESCO
O Patrimônio é o bem que recebemos, um legado deixado pelo pas-
sado para o usufruto do presente e a conservação para o futuro. Patrimônio 
Cultural é o fragmento da nossa cultura, um pedaço da história e da arte do 
nosso lugar, lugar ao qual nós pertencemos, ele nos representa. Mas como 
acontece a seleção para definir o que é e o que não é Patrimônio Cultural, 
o que deve ou não ser preservado?
A UNESCO determinou regras para a definição de Patrimônio Cul-
tural, para que ele seja classificado de maneira justa e igualitária, em 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 78 –
que todas as pessoas tenham oportunidades iguais de representação. Ao 
mesmo tempo devem ser manifestações realmente importantes para a 
coletividade. Vejamos alguns exemplos:
5.2.1 Bens culturais
Segundo a UNESCO, os bens culturais devem contemplar seis aspec-
tos importantes para serem considerados Patrimônio Cultural, sendo eles:
I. representar uma obra-prima do gênio criativo humano;
II. ser a manifestação de um intercâmbio considerável de 
valores humanos durante um determinado período ou em 
uma área cultural específica, no desenvolvimento da arqui-
tetura, das artes monumentais, de planejamento urbano ou 
de paisagismo;
III. aportar um testemunho único ou excepcional deuma tra-
dição cultural ou de uma civilização ainda viva ou que 
tenha desaparecido;
IV. ser um exemplo excepcional de um tipo de edifício ou 
de conjunto arquitetônico ou tecnológico, ou de paisagem 
que ilustre uma ou várias etapas significativas da história 
da humanidade;
V. constituir um exemplo excepcional de habitat ou estabele-
cimento humano tradicional ou do uso da terra, que seja 
representativo de uma cultura ou de culturas, especialmente 
as que tenham se tornado vulneráveis por efeitos de mudan-
ças irreversíveis;
VI. estar associados diretamente ou tangivelmente a aconteci-
mentos ou tradições vivas, com ideias ou crenças, ou com 
obras artísticas ou literárias de significado universal excep-
cional (o Comitê considera que este critério não deve justi-
ficar a inscrição na lista, salvo em circunstâncias excepcio-
nais e na aplicação conjunta com outros critérios culturais 
ou naturais).
– 79 –
Patrimônio, representação e identidade
5.2.2 Bens naturais
Enquanto os bens culturais são regidos por seis regras de seletivi-
dade, os bens naturais se atribuem de apenas quatro, sendo elas:
I. ser exemplos excepcionais representativos dos diferentes 
períodos da história da Terra, incluindo o registro da evo-
lução, dos processos geológicos significativos em curso, 
do desenvolvimento das formas terrestres ou de elementos 
geomórficos e fisiográficos significativos;
II. ser exemplos excepcionais que representem processos ecoló-
gicos e biológicos significativos para a evolução e o desen-
volvimento de ecossistemas terrestres, costeiros, marítimos e 
de água doce e de comunidades de plantas e animais;
III. conter fenômenos naturais extraordinários ou áreas de uma 
beleza natural e uma importância estética excepcional;
IV. conter os habitats naturais mais importantes e mais repre-
sentativos para a conservação in situ da diversidade bio-
lógica, incluindo aqueles que abrigam espécies ameaçadas 
que possuam um valor universal excepcional do ponto de 
vista da ciência ou da conservação.
Outro ponto de bastante importância para sua seleção é a integridade 
a qual este está submetido, assim como sua preservação, quanto mais pre-
servado e organizado, mais fácil de fazer parte da lista de Patrimônios 
Culturais pela UNESCO.
A UNESCO também é clara quanto à preservação dos bens tombados 
pós-tombamento, isso porque esse Patrimônio Cultural fica sob responsa-
bilidade do país ao qual pertence, podendo assim perder o privilégio do 
tombamento mundial. É importante que os bens tombados sejam constan-
temente visitados pelos órgãos responsáveis; é neste sentido que o ges-
tor, figura já discutida em capítulos anteriores, se torna importante para a 
salvaguarda do Patrimônio. A UNESCO criou uma categoria para sítios em 
perigo, para que desta maneira se atente para suas subjetividades e ele seja 
tratado de maneira especial, é o caso de Patrimônios Naturais aos quais 
se proíbe a visita.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 80 –
É importante salientar que estas são as regras definidas pela UNESCO, 
todos os órgãos em cada país, Estados ou regiões delimitam regras ao seu 
modo; por exemplo, o IPHAN se atribui de muitas destas regras para defi-
nir seu Patrimônio Cultural, mas ele ainda salienta outras, que estão pre-
sentes na Constituição de 1988. Contudo, estas regras são válidas apenas 
para o território nacional, diferente da UNESCO, que é composta por países 
do mundo todo. Sua cidade e Estado também podem ter regras especificas 
para a seleção do Patrimônio Cultural, pesquise mais sobre isto no site do 
IPHAN (portal.iphan.gov.br) ou na Secretaria de Cultura do seu município.
5.2.3 Seletividade e as questões 
de Patrimônio Cultural
Discutimos no capítulo II deste livro um breve histórico do Patri-
mônio Cultural no Brasil, lá 
foram citadas algumas figuras 
responsáveis pela criação de 
órgãos de preservação e seleção 
patrimonial, falamos de Mario 
de Andrade e sua ideia para 
o tombamento de bens ima-
teriais. Essa ideia surge para 
que a seleção dos patrimônios 
fosse mais democrática.
Analisemos o seguinte 
exemplo: uma família, constitu-
ída por pai, mãe e cinco filhos, 
não possui casa própria e de ano 
em ano muda-se de bairro, algu-
mas vezes troca de cidade. Ela 
faz parte da sociedade, evidente-
mente, mas não se relaciona com 
bens materiais como uma casa, 
não deixará esse legado. Con-
tudo, essa mesma família tem 
por tradição, em todo natal, 
Figura 5.4 – Mario de Andrade
Fonte: Michelle Rizzo/Wikimedia.
– 81 –
Patrimônio, representação e identidade
fazer um pudim de leite, receita que está entre eles por muitas gerações, é 
o patrimônio deixado para os filhos, é a herança. É um bem imaterial para 
esta família, para este grupo de indivíduos.
Para que este pudim fosse considerado um bem imaterial pelas auto-
ridades, ele deveria representar mais do que a tradição de uma família. 
Deveria fazer parte da tradição de uma sociedade, pertencer à cultura ali-
mentar deste grupo social mais amplo.
Figura 5.5 – Acarajé – prato típico da Bahia
Fonte: Shuttesrtock.com/Paulo Vilela.
Assim se dá a seleção dos Patrimônios Imateriais, visando valorizar 
e preservar a cultura de um determinado grupo, ela também está sujeita a 
regras de seleção, como, por exemplo, seu uso no cotidiano do grupo ao 
qual pertence. Porém, sua principal função é selecionar bens que permi-
tam à comunidade se sentir representada e valorizada.
5.3 Patrimônio Cultural e identidade
Identidade pode ser definida de diversas maneiras, quando pensamos 
no termo lembramo-nos das singularidades enquanto indivíduos, que nos 
diferenciam dos outros, cada um de nós é formado por uma identidade, 
uma forma de nos identificar, seja um nome, um número. Contudo, se ana-
lisarmos de forma mais cautelosa, poderemos perceber que a identidade 
e a separação dos indivíduos por ela só fazem sentido na existência da 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 82 –
sociedade. Portanto, identidade é o elo que liga o indivíduo à sociedade. 
O indivíduo pós-moderno ressignificou a identidade, colocou sobre ela 
novos valores. Segundo Bauman,
poucos de nós, se é que alguém, são capazes de evitar a passa-
gem por mais de uma “comunidade de idéias e princípios”, sejam 
genuínas ou supostas, bem-integradas ou efêmeras, de modo que 
a maioria tem problemas em resolver (...) a questão de la mêmete 
(a consistência e continuidade de nossa identidade com o passar 
do tempo). Poucos de nós, se é que alguém, são expostos a apenas 
uma “comunidade de idéias e princípios” de cada vez, de modo que 
a maioria tem problemas semelhantes com a questão da l’ipséite (a 
coerência daquilo que nos distingue como pessoas, o que quer que 
seja). (apud SOUZA, 2011, p. 3).
A identidade individual é quem dá vida à sociedade. Juntas, essas 
identidades formam um corpo, uma identidade única, que se mantém 
refém da cultura, essa identidade está no povo, mas mais do que isso, ela 
forma o povo.
Em muitos momentos da história, o indivíduo foi manipulado a pos-
suir uma identidade social criada, vinda do topo da hierarquia social e atin-
gindo as camadas mais populares. Por exemplo, nos anos 1920, o Estado 
do Paraná passou por um projeto de criação de identidade regional. Movi-
mentos como o hoje chamado “Paranismo” surgiram e ganharam forma, 
ideias de unidade eram lançadas ao povo por meio da arte e da ciência.
Já nos anos 1930, o Brasil passou por um processo de nacionalização, 
a ideia era criar uma “identidade nacional” onde as pessoas se reconheces-
sem e se identificassem no seu país, amando-o e lutando por ele. Os atribu-
tos para a formação desta identidade nacional eram muito parecidos com 
os usados pelos movimentos regionalistas, vindo estes atributos, também, 
da elite governamental para o povo.
Com a crescente modernização mundiale o acesso à cultura e à tec-
nologia na palma da mão, a dificuldade em se promover uma identidade 
única se tornou uma realidade. As pessoas passaram a buscar formas de se 
reconhecer em mundos muito diferentes. Temos hoje uma sociedade com 
identidades fragmentadas. Para Bauman, a identidade hoje é liquida.
Mas o que Patrimônio Cultural e identidade têm a ver um com o 
outro? Segundo o autor Edson Vander de Souza,
– 83 –
Patrimônio, representação e identidade
ligar os dois temas, a nosso ver, requer pensar com Benedetto Vec-
chi, que diz que a identidade é uma “convenção socialmente neces-
sária” (apud BAUMAN, 2005, p.13) e que, no processo de seleção 
e consagração do patrimônio cultural, convencionou-se uma dada 
identidade do povo brasileiro. (SOUZA, 2011, p.07).
O Patrimônio Cultural, principalmente aquele regido pelas leis ante-
riores à Constituição de 1988, visava reforçar por meio dos heróis e de 
lugares heroicos, uma identidade nacional por meio desta “convenção 
social”. Nos dias de hoje e com a já discutida democratização ao acesso 
da seleção dos bens tombados, esse perfil sofreu modificações.
Destarte, uma parcela da população brasileira não se reconhece 
no patrimônio cultural consagrado, ou melhor, como não partici-
pou de sua elaboração e, ainda, como não domina os códigos de 
sua interpretação, não se reconhece nele. Mesmo assim, se por um 
lado o patrimônio cultural funcionou nesse momento como uma 
maneira de dar forma à nação, o que obviamente não se fez só 
com isso, pois outras ações ocorriam simultaneamente no mesmo 
sentido (veja-se, por exemplo, a atuação do IBGE na definição da 
composição do povo brasileiro), por outro lado negligenciava as 
expressões populares, que ficaram alocadas sob a rubrica de fol-
clore e aos cuidados dos folcloristas. (SOUZA, 2011, p. 8).
O que Souza está nos dizendo é que mesmo que o Patrimônio Cultu-
ral fosse visto com bons olhos, ele deixava de lado a família e seu pudim 
de leite, não dava as mesmas oportunidades de selecionar os bens tomba-
dos e, desta maneira, automaticamente, acabava por forçar uma identidade 
única para todas as pessoas ao mesmo tempo, o que é impossível, princi-
palmente no século XXI, onde as sociedades se misturam e se confundem.
Caso clássico desse último caso é a posição do Japão, que ques-
tionava a concepção ocidental de patrimônio que não conseguia 
dar conta das especificidades da cultura japonesa; se no ocidente 
preserva-se uma dada edificação, entre os japoneses o que se pre-
tende preservar é a técnica de construção de uma habitação, por 
exemplo, e, com isso, os prédios são demolidos e reconstruídos 
como forma de não perder este “saber fazer” (SOUZA, 2011, p. 9).
Contudo, é importante lembrar que mesmo com essa característica 
pós-moderna de identidade, ela ainda é importante para a reinvindicação de 
direitos sociais, ela é uma forma de militância e política. É o caso dos gru-
pos indígenas e sua exaustiva luta por terras, ela se faz possível pela iden-
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 84 –
tidade que esse grupo representa e, mesmo que não vivam como os grupos 
indígenas em 1500, seus direitos ainda devem ser preservados, pois essa 
identidade é carregada por um forte contexto histórico de morte e perda de 
direitos, em muitos momentos a própria identidade esteve em risco.
Figura 5.6 – Indígenas reivindicando direito a terras
Fonte: Shutterstock.com/Joa Souza.
5.3.1 Identidade e sociedade
Pudemos observar nos últimos cinco anos um crescente avanço pelo 
reconhecimento de identidades, tanto de grupos identificados como mino-
rias (mulheres, LGBTs, negros), como também um avanço de movimentos 
indenitários nacionalistas e regionalistas, discutidos anteriormente. Esse 
movimento pela busca por identidade é sem dúvida um dos fenômenos 
sociais em maior evidência no país nos últimos anos, e devemos nos cons-
cientizar da importância de discuti-los de maneira critica.
Um conceito importante de identidade é trazido pelo autor Luciano 
dos Santos, que diz o seguinte:
Concentrando as atenções no processo de construção das identida-
des vemos que o sentimento de pertencimento a um povo, a uma 
cultura, nacionalidade, região, religião, grupo, ou a outra forma 
de identidade cultural, quase sempre, significou o não pertencer a 
outro. Na verdade, a identidade cultural se faz, indubitavelmente, 
na alteridade. Na perspectiva da ideia de alteridade (ou outridade) 
– 85 –
Patrimônio, representação e identidade
todo ser social interage e é interdependente de outros seres sociais. 
Não são poucos os teóricos que defendem esta perspectiva. (SAN-
TOS, 2011, p. 145).
Ou seja, a identidade é um fenômeno social, que elege o Patrimônio 
Cultural e é formada pelas suas diferenças e igualdades. Ela é resultado 
das diferentes formas de ver e viver a sociedade. A identidade faz parte 
de nós e é componente insubstituível da sociedade, seja uma identidade 
construída pelas minorias, seja uma identidade construída pela mais alta 
escala dos níveis sociais.
Michael Pollak discute que o indivíduo possui uma identidade 
única, contudo, ninguém pode construir uma imagem própria e esperar 
que os outros não a transformem. A identidade individual depende da 
sociedade. Por exemplo, quando nos olhamos no espelho, vemos nossa 
autoimagem, mas por mais idêntica a nós que ela esteja, ela está ao con-
trário, sofreu alterações.
É isso que Pollak defende: por mais que nós tenhamos construído 
uma autoimagem, ela ainda é dependente da sociedade, pois é a socie-
dade quem a verá e essa identidade é submissa aos olhares sociais. Para 
o autor, a identidade é um negócio, contratos que fazemos socialmente, 
dessa maneira são ou não aceitos. (POLLAK, 1992, p. 202).
Conclui-se então que o Patrimônio Cultural é definido, atualmente, 
por uma variedade de identidades sociais, ele está sob o comando destas 
identidades reivindicarem ou não seu pertencimento.
Síntese
Nesse capítulo discutimos os conceitos de representatividade social 
discutidos pelos intelectuais Durkheim e Moscovici, diagnosticando pen-
samentos semelhantes e aspectos diferentes de pensamento.
Foi um capítulo destinado à discussão referente às questões sociais 
dentro do Patrimônio Cultural, a importância do meio social para a sele-
ção e manutenção do mesmo e a forma de pensar essa sociedade e sua 
identidade no pensamento de Pollak, por exemplo.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 86 –
Atividades
1. Quanto ao tema representação social, diferencie o pensamento 
de Durkheim e de Moscovici:
2. Cite três normas da UNESCO para a seleção de um Patrimônio 
Cultural e dê sua opinião acerca do assunto:
3. O que é identidade segundo o texto lido? Dê sua opinião quanto 
ao tema:
4. Qual é a teoria de identidade trazida pelo historiador Michael 
Pollak e sua relação com a sociedade?
6
Patrimônio Cultural 
no mundo
Nos capítulos anteriores pudemos discorrer sobre as ques-
tões do Patrimônio Cultural de forma ampla, sua relação com a 
sociedade e com os indivíduos. Nesse capítulo, veremos quando 
um patrimônio é classificado como material ou imaterial e natu-
ral, as suas diferenças e semelhanças e ainda alguns exemplos de 
patrimônios nacionais e mundiais. Além disso, veremos a Histó-
ria Ambiental como um campo de pesquisa funcional para a rea-
lização de investigações ambientais e as interferências humanas 
no ecossistema.
6.1 Patrimônios Culturais 
Imateriais e Materiais
Para entender o que é o Patrimônio Cultural é preciso enten-
der a cultura do material e imaterial. No livro intitulado O que 
é Patrimônio Cultural Imaterial, de Sandra C. A. Pelegrini e 
Paulo A. Funari, a diversidade da cultura se divide para construir 
o material e o imaterial. Como já dito em capítulos anteriores, 
o patrimônio se torna de todos, de um povo, é constituídopela 
única linguagem, território e cultura.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 88 –
O Patrimônio Cultural se forma por meio da cultura material e ima-
terial, sendo assim, a divergência está no que é concreto e o que não é. De 
acordo com Daniela Diana (2018), licenciada em Letras, o que designa a 
cultura a ser material ou imaterial são os elementos materiais que estão 
associados à cultura material e os elementos abstratos associados à cul-
tura imaterial.
Figura 6.1 – Universidade Federal do Paraná, Curitiba
Fonte: Shutterstock.com/Kleyton Kamogawa.
Daniela Diana vai dizer que há a existência de elementos para a defi-
nição do objeto material:
Elementos concretos de uma sociedade estão associados à cultura 
material ou o patrimônio cultural material. Esses elementos foram 
sendo criados ao longo do tempo e, portanto, representam a histó-
ria de determinado povo. Diversas edificações, objetos artísticos e 
cotidianos, fazem parte da cultura material. (DIANA, 2018, [S.p.])
6.2 A cultura material
A relação do homem com o objeto e sua criação se desenvolveu e 
continua a se desenvolver de forma intensa desde os tempos primitivos, 
como forma de memorizar o que se considera um passo importante ou um 
evento que seja relevante entre os povos. O uso da cultura material se faz 
presente no conjunto que envolve a memória e como usar, por exemplo, as 
– 89 –
Patrimônio Cultural no mundo
pinturas rupestres que estão nas paredes das cavernas, consideradas e no 
caso do historiador, seriam um meio de investigar os acontecimentos que 
ali foram memorizados.
Contudo, é importante haver um estudo atencioso ao material envol-
vido na cultura material, porque o mesmo envolve a cultura, o que o torna 
um Patrimônio. Segundo o especialista em liderança e comunicação Ian C. 
Woodward (2007), há defensores do estudo da cultura material que obtêm 
interpretação do objeto material como um símbolo do esforço humano 
que está envolvido na sua produção, bem como a representatividade da 
capacidade de exploração do homem.
Os objetos materiais possuem uma importância cultural bastante sig-
nificante. Por exemplo, o que é material de algo imaterial é a sua concentri-
cidade. O objeto material é concreto, dessa forma, acontece a classificação 
de um Patrimônio Material, claro que não somente por ser algo concreto, 
mas pelo seu valor cultural e histórico. Em outras palavras, não basta ser 
algo concreto para ser Patrimônio Material, ele deve ter um valor, um sig-
nificado a mais para aquela sociedade.
Como Patrimônio Material Cultural temos lugares (cidades, estrutu-
ras, paisagens etc.) que foram considerados pela UNESCO (Organização 
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Patrimô-
nios Mundiais Culturais, por terem grande importância histórica e cultural 
no local, como Taj Mahal na Índia, Grand Canyon nos Estados Unidos, 
Ilha de Páscoa no Chile etc. No Brasil, temos a cidade do Rio de Janeiro, 
o Pantanal, as ruínas de São Miguel das missões e as Cataratas do Iguaçu, 
que estão na lista dos Patrimônios Mundiais.
A cultura material se envolve por meio dos valores depositados e de 
grande significado histórico e cultural. O prédio histórico da Universi-
dade Federal do Paraná, localizado na praça Santos Andrade, no Centro 
de Curitiba, não recebe a classificação de Patrimônio Material Cultural 
por sua localidade (a praça ou o centro da cidade), mas pela sua história. 
A universidade atualmente tem 105 anos de existência, sendo também a 
primeira universidade do país.
Segundo o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico 
Nacional), o Patrimônio Material é constituído por um conjunto de bens 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 90 –
culturais que são classificados e relacionados pela sua natureza de origem; 
pelo seu valor arqueológico, paisagístico e etnográfico; pelas belas artes; 
artes aplicadas; e seu valor histórico.
Os principais Patrimônios Mundiais Culturais no Brasil são: a Cidade 
Histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais, o Centro Histórico de Olinda, 
em Pernambuco, as Missões jesuíticas, em Guarani, as Ruínas de São 
Miguel das Missões, no Rio Grande de Sul e na Argentina, o Centro His-
tórico de Salvador, na Bahia, o Santuário do Senhor Bom Jesus de Mato-
sinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais, o Plano Piloto de Bra-
sília, no Distrito Federal, o Parque Nacional Serra da Capivara, em São 
Raimundo Nonato, Piauí, o Centro Histórico de São Luís do Maranhão, 
o Centro Histórico da cidade de Diamantina, em Minas Gerais, o Centro 
Histórico da cidade de Goiás, a Praça de São Francisco, na cidade de São 
Cristóvão, no Sergipe, Rio de Janeiro, paisagens cariocas entre a monta-
nha e o mar, Conjunto Moderno da Pampulha, Sítio Arqueológico Cais do 
Valongo, na cidade do Rio de Janeiro.
Alguns dos Patrimônios Mundiais Culturais espalhados pelo mundo 
são: sítios com fósseis de hominídeos de Sterkfontein, Swartkrans, 
Kromdraai e arredores, Parque da zona húmida de Santa Lúcia, Ilha 
Robben, Parque uKhahlamba Drakensberg, Paisagem Cultural de Mapun-
gubwe, Catedral de Aachen, Catedral de Speyer, Residência de Wurzburg 
com os jardins da Corte e a Praça da Residência, Igreja de Peregrinação 
de Wies, Castelos de Augustusburg e de Falkenlust em Brühl, Centro His-
tórico da cidade de Salzburgo, Palácio e Jardins de Schönbrunn, Paisagem 
Cultural de Hallstatt-Dachstein, Salzkammergut, Via Férrea de Semme-
ring, Centro Histórico de Roma, Propriedades da Santa Sé e Basílica de 
São Paulo Extramuros (1980, 1990) (sítio transfronteiriço com a Itália), 
Cidade do Vaticano.
6.3 Patrimônio Natural
Os Patrimônios Naturais são materiais, mas de forma natural, como 
por exemplo, paisagens, montanhas, rios, lagos, cachoeiras, reservas etc. 
Contudo, não é qualquer paisagem ou lugar que é considerado Patrimônio 
Natural, há também a exigência dos valores locais.
– 91 –
Patrimônio Cultural no mundo
Assim como as outras exigências de Patrimônio Cultural Material e 
Imaterial, o Patrimônio Natural deve envolver uma linguagem e relação 
com a humanidade, por isso, podemos exemplificar a Serra do Mar no 
Paraná, uma longa extensão de conjuntos montanhosos que se estende de 
São Paulo até Santa Catarina, atualmente é um patrimônio tombado do 
Paraná. Antes que isso acontecesse, houve diversas alterações humanas, 
com a construção de trilhas tropeiras, caminhos que ligam o planalto ao 
litoral, a construção da estrada de ferro e as rodovias. Houve uma neces-
sidade de se preservar a biodiversidade e o ecossistema já alterado como 
forma de salvar o que ainda permanecia natural.
Figura 6.2 – Grand Canyon, EUA
Fonte: Shutterstock.com/Galyna Andrushko.
Segundo a Unesco, para 
que uma área natural seja tom-
bada como Patrimônio Natural 
é necessário que a mesma con-
tenha importâncias culturais, 
históricas, geológicas e bioló-
gicas, e que contenha valores 
científicos e estéticos. No Bra-
sil, temos como Patrimônios 
Naturais: Cataratas do Iguaçu, 
Fernando de Noronha, Com-
plexo da Amazônia Central, 
Figura 6.3 – Serra do Mar, Paraná. Patrimônio Natural
Fonte: Shutterstock.com/Pedro Moraes.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 92 –
Pantanal, Chapada dos Veadeiros (área protegida do Cerrado) e Parque 
Nacional do Monte Pascoal, na Bahia.
6.3.1 A História Ambiental
A importância desse campo de pesquisa se fez mais popular entre os 
estudos sobre a naturalidade, biodiversidade e o ecossistema do ambiente 
natural. Esse campo de pesquisa se estruturou na década de 1970.
A História Ambiental não trabalha sozinha, mas busca auxílio em 
outras áreas, como a biologia, a antropologia, a geografia etc. Essas ciên-
cias buscam entender o que pode, será ou já foi alterado. Dessa forma, 
a patrimonialização de bens sociais é uma forma de proteger e guardar. 
Exemplos já citadossão Patrimônios Naturais, como mais exemplos, 
podemos lembrar dos Lagos de Plitvice, na Croácia e da Ilha de Páscoa, 
no Chile.
Segundo José Augusto Pádua, em seu artigo As bases teóricas da 
história ambiental:
O avanço da chamada globalização, com o crescimento qualitativo 
e quantitativo da produção científico-tecnológica e da velocidade 
dos meios de comunicação, catalisou uma explosão de temas da 
vida e do ambiente na agenda política. A discussão ambiental se 
tornou ao mesmo tempo criadora e criatura do processo de globa-
lização. A própria imagem da globalidade planetária, em grande 
parte, é uma construção simbólica desse campo cultural complexo. 
(PÁDUA, 2010, p. 82)
A História Ambiental engloba a investigação do meio ambiente e das 
interações humanas com o mesmo. A partir daí, vemos a importância do 
estudo não somente cultural, mas também ambiental para titular uma pai-
sagem, um recanto, parques e bosques como Patrimônios Naturais.
6.3.2 A cultura e o Patrimônio Imaterial
O Patrimônio Cultural imaterial é formado pelas expressões e tradi-
ções de um determinado grupo, e comunidades/grupos de todas as partes 
do mundo que recebem e mantêm características de seus ancestrais e as 
ensinam para seus descendentes.
– 93 –
Patrimônio Cultural no mundo
Apesar de tentar manter um senso de identidade e continuidade, este 
patrimônio é particularmente vulnerável uma vez que está em cons-
tante mutação e multiplicação de seus portadores. Por esta razão, a 
comunidade internacional adotou a Convenção para a Salvaguarda 
do Patrimônio Cultural Imaterial em 2003. (UNESCO, 2017, p. 1)
É considerado Patrimônio Cultural Imaterial o que não é concreto; 
sendo assim, é o contrário do Patrimônio Cultural Material. Geralmente 
essa classificação de Patrimônio Imaterial é dada a valores culturais locais, 
como por exemplo as expressões, tradições, músicas, artes plásticas, dan-
ças, religiosidade, folclore etc.
Figura 6.4 – Festa Junina. Patrimônio Imaterial Brasileiro
Fonte: Shutterstock.com/Bricolage.
As sociedades ou comuni-
dades específicas nas quais os 
conhecimentos ou informações 
estão sempre sofrendo altera-
ções e se multiplicando, nos 
mostram que os Patrimônios 
Imateriais estão sendo ameaça-
dos. Segundo a UNESCO, no 
Brasil são reconhecidos como 
Patrimônios Imateriais Cultu-
rais o frevo, o samba, o fan-
dango etc. Fonte: Shutterstock.com/Filipe Frazao.
Figura 6.5 – Capoeira
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 94 –
No Sul do Brasil, tradições de danças e músicas enriquecem a cultura 
imaterial. O fandango, dança que se originou na Europa e atualmente faz 
parte do folclore brasileiro, era mais comum no Nordeste, mas atualmente 
está espalhada por várias regiões do Brasil; e também a festa que traz a 
imagem do caipira sertanejo e comidas típicas da época, é comemorada 
no mês de junho.
Figura 6.6 – Budismo
Fonte: Shutterstock.com/RENATOK.
Como já mencionado, os Patrimônios Imateriais também são a religio-
sidade. Por exemplo, budismo é um Patrimônio Mundial Cultural Imaterial.
Para que haja conhecimentos e preservação dos patrimônios, sejam 
materiais ou imateriais culturais, existem órgãos e entidades responsá-
veis por cuidar, comunicar e ajudar esses patrimônios. Como já citado, 
a Unesco oferece informações sobre quais atualmente são considera-
dos os Patrimônios Mundiais, e também informações e alguns exemplos 
dos que são materiais e imateriais, sendo ela mesmo entidade responsá-
vel pela proteção destes patrimônios. O IPHAN, que é uma instituição 
criada para preservar o Patrimônio Histórico e Cultural do Brasil, tam-
bém oferece informações:
Instituição criada para preservar o patrimônio cultural brasileiro, 
entendido este como sendo as formas de expressão; os modos de 
criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas e tecnológi-
cas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços 
destinados às manifestações artístico-culturais; e os conjuntos 
– 95 –
Patrimônio Cultural no mundo
urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueoló-
gico, paleontológico, ecológico e científico. Há mais de 75 anos, o 
IPHAN vem realizando um trabalho permanente de identificação, 
documentação, proteção e promoção do patrimônio cultural brasi-
leiro.” (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2013)
O Patrimônio Cultural é uma forma de preservar a memória; por 
meio dos patrimônios, a nação recebe suporte de investigação histórica 
e cultural. Dessa forma, o significado dado a esse objeto material e aos 
classificados como imateriais, é de extrema importância para os valores 
do povo que os mantêm.
Atividades
1. De que forma podemos ajudar a preservar os Patrimônios Naturais?
2. Como posso me relacionar com os patrimônios, sejam materiais 
ou imateriais, sem agredir a sua natureza?
3. Qual a importância de se conhecer patrimônios e de se existir 
uma educação patrimonial?
4. O que é a história ambiental e como ela pode ser usada para 
investigar a relação humana com o ecossistema natural?
7
As políticas públicas 
e o Patrimônio 
Cultural no Brasil
A sociedade do século passado foi sem dúvida a sociedade 
das transformações, esteve envolvida nas duas grandes 
guerras, viu a morte, a fome e a pobreza, abraçou e expulsou 
os imigrantes e subjugou as raças, mas mesmo que o século 
XX seja marcado por grandes desastres sociais, ele também é 
o pai das políticas de globalização, questão social que vem de 
encontro com políticas cada vez mais pautadas na preservação e 
valorização dos Patrimônios Culturais por quase o mundo todo.
É importante relembrar aqui os estududos e discussões 
presentes no capítulo 3 deste livro quanto ao histórico do 
Patrimônio Cultural no Brasil.
Nesse capítulo, conheceremos um pouco mais quanto às 
questões de políticas públicas para a proteção dos Patrimônios 
Culturais no Brasil. Também analisaremos algumas das mais 
proeminentes políticas vigentes na atualidade e que refletem em 
grande impacto na sociedade contemporânea.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 98 –
7.1 Marcos históricos das políticas públicas de 
valorização do Patrimônio Cultural Brasileiro
As políticas públicas no Brasil nascem oficialmente dos anos 70. 
Seus primeiros passos se dão em Minas Gerais; elas marcam o momento 
em que se deixa de congelar o passado, de deixar o passado como algo 
imaculado e se passa a valorizá-lo de outra maneira, compreendendo que 
este é um aspecto cultural e que está em constante movimento; mesmo 
que pareça sempre estagnado, a verdade é que ele muda, se transforma, 
e a sociedade é o agente desta mudança. Contudo, muitos intelectuais 
defendem que as políticas de preservação nasceram muito antes de o Bra-
sil ser independente, segundo o ensaio elaborado por Michelon e colabo-
radores (2012):
A proteção ao patrimônio cultural brasileiro, antes da criação de 
uma entidade no âmbito federal deu-se pontualmente através de 
ações e leis isoladas, influenciadas mais tarde por experiências 
internacionais, principalmente portuguesas. Sendo colônia de 
Portugal, a primeira proteção legal ao acervo de arte antiga e aos 
monumentos existentes no território brasileiro foi introduzida pelo 
direito português, de modo pioneiro no cenário jurídico mundial. 
Essa proteção ocorreu por meio de alvará, em 1721, onde o Rei 
Dom João V decretou, sobre os monumentos antigos que existiam 
ou que viriam a ser descobertos durante o reinado, que não se “des-
faça ou destrua em todo, nem em parte, qualquer edifício que mos-
tre ser daqueles tempos” sob domínio dos fenícios, gregos, penos, 
[19] romanos, godos e árabes. (MICHELON, 2012. p. 18)
Ou seja, não é atual a ideia de preservação e conservação do passado, 
contudo, essa ideia toma forma mais eficiente com as iniciativas de Minas 
Gerais, se tornando leis, e essas leis estãopresentes até hoje no cenário 
nacional, por meio das medidas tomadas desde a criação dos órgãos desti-
nados a proteger os bens nacionais. Entretanto, é importante compreender 
que é o estado de Minas Gerais o pioneiro nas medidas de preservação 
estadual, foco da discussão deste capítulo.
Em 1971, Minas Gerais cria o Instituto Estadual do Patrimônio His-
tórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG), por meio da Lei Estadual 
n. 5.775. Seu principal objetivo era proteger os bens materiais, tanto públi-
cos quanto privados, do estado. Também surge com a dinâmica de auxi-
– 99 –
As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil
liar o SPHAN, atual IPHAN, com políticas de proteção do patrimônio e 
também possibilitar que bens invisíveis para a Nação, porém ainda muito 
importantes para Minas Gerais, e a cultura local fossem valorizados por 
meio da política estadual.
A reforma da constituição elaborada no ano de 1988 veio para somar 
às conquistas culturais, isso porque a nova e moderna Constituição ela-
borava medidas da mais vasta especialidade para os mais diversos tipos 
de Patrimônios Culturais. O Brasil avançava cada dia mais para que o 
Patrimônio Cultural fosse realmente levado a sério. As políticas públicas 
de valorização do património passaram a ser democráticas, dando acesso e 
visibilidade para a sociedade civil; além disso, muitas das iniciativas visa-
vam a participação efetiva do povo, como veremos adiante nesse capítulo.
Houve também uma abertura de autonomia para que os estados 
e municípios designassem quais eram os Patrimônios Culturais rele-
vantes para a perpetuação da cultura local; isso faz com que grande 
parte das cidades do Brasil tenha políticas de manutenção e preserva-
ção patrimoniais.
Vejamos a seguir as principais iniciativas políticas em favorecimento 
da salvaguarda do Patrimônio Cultural no Brasil.
7.2 Instituto do Patrimônio Histórico 
e Artístico Nacional (IPHAN)
A discussão referente ao Patrimônio Cultural no Brasil tem seu início 
no século XX, mais precisamente desde o ano de 1916, quando Alceu 
Amoroso Lima, famoso escritor brasileiro, compreende a necessidade de 
preservação da arquitetura barroca no Estado de Minas Gerais. Contudo, 
políticas públicas para a preservação do Patrimônio Nacional surgem anos 
depois e somente se consolidam de maneira a abarcar diversos tipos de 
Patrimônio Cultural após a Constituição de 1988.
O primeiro órgão responsável pela preservação do patrimônio cul-
tural no Brasil foi o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacio-
nal (SPHAN), consolidado por meio da Lei n. 378, assinada pelo então 
Presidente do Brasil, Getúlio Vargas, no ano de 1937, e era vinculado ao 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 100 –
Ministério da Educação e Saúde. Entretanto, o SPHAN era um órgão bas-
tante restrito, poucos eram os Patrimônios Culturais que cumpriam as exi-
gentes regras e padrões para a preservação; além disso, ele representava 
apenas os Patrimônios Culturais materiais e, em grande parte, era voltado 
aos patrimônios luso-brasileiros e barrocos, como vimos no capítulo 3 
dessa obra. Comandado por Rodrigo Melo Franco de Andrade, o SPHAN 
teve uma fase heroica, constituído de uma política de exaltação da história 
nacional e a criação de uma ideologia de unidade da população brasileira. 
O Patrimônio Cultural tinha como compromisso trabalhar para a manuten-
ção destas intenções.
Os principais nomes desse período foram:
Oscar Niemeyer, Luiz de Castro Faria, Sérgio Buarque de Holanda, 
Heloísa Alberto Torres, Vinícius de Morais, Gilberto Freyre, Carlos 
Drummond de Andrade, Renato Soeiro e Lúcio Costa. Também se 
dedicaram à instituição Lígia Martins Costa, Sílvio Vasconcelos, 
Augusto Carlos da Silva Teles, Alcides da Rocha Miranda, José de 
Sousa Reis, Edson Motta, Judith Martins, Paulo Thedim Barreto, 
Miran de Barros Latif, Luís Saia, Airton Carvalho e Edgar Jacinto 
da Silva, entre outros. (IPHAN, 2018).
Em 1946, o SPHAN tem sua primeira alteração de nome e passa a se 
chamar DPHAN (Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). 
O DPHAN esteve subordinado ao Ministério da Saúde e Educação até 
1953, ano em que é criado o Ministério da Educação e Cultura (MEC).
Houve uma mudança nas leis e o DPHAN passa a ser responsável por:
I – a catalogação sistemática e a proteção dos arquivos estaduais, 
municipais, eclesiásticos e particulares, cujos acervos interessem 
à história nacional e à história da arte no Brasil; II – medidas que 
tenham por objetivo o enriquecimento do patrimônio histórico 
e artístico nacional; III – a proteção dos bens tombados na 
conformidade do Decreto-lei número 25, de 30 de novembro de 
1937 e, bem assim, a fiscalização sobre os mesmos, extensiva ao 
comércio de antiguidades e de obras de arte tradicional do país, 
para os fins estabelecidos no citado decreto-lei; IV – a coordenação 
e a orientação das atividades dos museus federais que lhe ficam 
subordinados, prestando assistência técnica aos demais; V – o 
estimulo e a orientação no país da organização de museus de arte, 
história, etnografia e arqueologia, quer pela iniciativa particular, 
quer pela iniciativa pública; VI – a realização de exposições 
– 101 –
As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil
temporárias de obras de valor histórico e artístico, assim como 
de publicações e quaisquer outros empreendimentos que visem 
difundir, desenvolver e apurar o conhecimento do patrimônio 
histórico e artístico nacional (BRASIL, 1946 apud IPHAN. 2018).
Ocorreram também nessa data algumas mudanças administrativas do 
DPHAN, segundo normas da Constituição de 1946:
Art. 6° A Diretoria terá um Diretor Geral, subordinado imediata-
mente ao Ministro; as divisões terão Diretores e o Serviço Auxi-
liar terá chefe, subordinados imediatamente ao Diretor Geral; as 
Seções terão Chefes subordinados imediatamente aos competen-
tes Diretores de Divisão; e os Distritos terão Chefes, que recebe-
rão orientação técnica e administrativa dos Diretores de Divisão, 
segundo a natureza dos assuntos a resolver seja da alçada de uma 
ou de outra Divisão.
Art. 7° O Diretor Geral terá um Assistente e um Secretário, escolhidos 
dentre os servidores o Ministério (BRASIL, 1946 apud IPHAN. 2018).
Em 1970, ocorre a última e permanente mudança de nomenclatura, 
nascendo desta maneira o Instituto de Patrimônio Histórico, Artístico 
Nacional (IPHAN). Nesse período, houve uma crise econômica nacional. 
Com uma superinflação e juros cada vez mais altos, o país precisava 
passar por um sistema de modernização. Essa modernização atingiu 
as mais vastas esferas políticas, mas claro, as políticas de preservação 
também sofreram mudanças e não somente no ato de deixar de ser um 
departamento para um instituto.
O IPHAN surgiu com novidades. A partir da data de sua inauguração, 
cada Estado brasileiro teria uma data limite para enviar projetos de restauro 
e preservação de Patrimônios Culturais, uma forma de espalhar o Patrimô-
nio Cultural por todo território nacional. Segundo o site do IPHAN:
[...] Cada Estado a apresentação prévia do Programa de Restaura-
ção e Preservação para o período 1976/1979, indicando os monu-
mentos a serem restaurados, o cronograma de execução, os roteiros 
turísticos recomendados e as fontes de recursos para fazer face à 
contrapartida que o Programa requeria das instituições estaduais 
com que trabalhava. O mesmo procedimento foi adotado para o 
biênio 1980/1981 (IPHAN, 2018).
Outro marco da história do IPHAN é o tombamento do Terreiro de 
Candomblé da Casa Branca, em 1984, na Bahia. A importância deste 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 102 –
tombamento se dá por diver-
sos fatores, sendo o principal 
deles a percepção da influência 
da cultura afro-brasileira para a 
Bahia, além do fato deste Patri-
mônio Cultural fugirtotalmente 
dos princípios de tombamento 
que priorizavam as construções 
luso-brasileiras. Era a primeira 
vez na história da preservação 
que a cultura das minorias era 
visitada e compreendida como 
importante e influente.
E por fim, a Constituição de 1988, que dá uma nova vista ao Patri-
mônio Cultural no Brasil. Já discutimos esse momento histórico em 
capítulos anteriores, mas é importante ligarmos a incorporação do patri-
mônio imaterial aos bens culturais brasileiros; é um grande passo den-
tro das políticas de preservação e é uma mudança bastante drástica para 
o IPHAN.
Hoje, o IPHAN, em conjunto com a UNESCO, é o principal órgão de 
preservação patrimonial do país e, se a Constituição de 1988 for seguida a 
rigor, o Instituto é também o que possui uma das políticas de preservação 
mais completas do mundo. A partir deste posicionamento, podemos com-
preender a importância do órgão para o resgate e memória da identidade 
coletiva nacional e a valorização dos patrimônios culturais brasileiros, 
sejam eles imóveis ou demonstrações de cultura imateriais.
7.3 Sistema Nacional de Cultura (SNC) 
O SNC é uma estratégia de política pública, um projeto de gestão cul-
tural que garante direito ao acesso à cultura. Ele se baseia em programas 
como o Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo. Para que o municí-
pio garanta verba para a cultura, ele deve obrigatoriamente estar vinculado 
ao SNC federal, sem esse o vínculo o município e a comunidade estão 
“desprotegidos”, da mesma forma que o SUS.
Figura 7.1 – Candomblé
Fonte: Shutterstock.com/Alf Ribeiro.
– 103 –
As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil
O SNC surgiu por meio de uma Emenda Constitucional, a chamada 
PEC da Cultura. Essa proposta surgiu em 2005, contudo, somente em 
2012 passou a fazer parte da Constituição Federal do Brasil. Funcionando, 
preferencialmente, de maneira democrática, integrando os três entes fede-
rados, ou seja, União, estados e municípios, e também a contar com a par-
ticipação fundamental da sociedade civil. Essa união trabalha em prol da 
disseminação de políticas culturais, por isso é essencial que toda a comu-
nidade trabalhe em conjunto com os entes federados.
O Sistema Nacional de Cultura busca por meio da parceria completa 
da sociedade desenvolver políticas públicas que protejam a cultura, os 
direitos humanos, o desenvolvimento humano e o acesso a esses direitos. 
Segundo a Constituição Federativa de 1988, são órgãos obrigatórios e 
facultativos deste sistema:
 2 obrigatórios
I. órgãos gestores da cultura;
II. conselhos de política cultural;
III. conferências de cultura;
IV. planos de cultura;
V. sistemas de financiamento à cultura.
 2 facultativos
VI. comissões intergestores;
VII. sistemas de informações e indicadores culturais;
VIII. programas de formação na área da cultura;
IX. sistemas setoriais de cultura.
(Art. 216-A, Constituição Federal de 1988).
O SNC surgiu graças ao Plano Nacional de Cultura (PNC), que é 
um projeto federal instituído em 2010, com objetivo de executar políticas 
públicas; contudo, o PNC funciona em longo prazo, sendo concebido para 
realizar políticas em prol da cultura até 2020.
Segundo o site do Ministério da Cultura, o PNC tem por objetivo:
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 104 –
Os objetivos do PNC são o fortalecimento institucional e definição 
de políticas públicas que assegurem o direito constitucional à cul-
tura; a proteção e promoção do patrimônio e da diversidade étnica, 
artística e cultural; a ampliação do acesso à produção e fruição da 
cultura em todo o território; a inserção da cultura em modelos sus-
tentáveis de desenvolvimento socioeconômico e o estabelecimento 
de um sistema público e participativo de gestão, acompanhamento 
e avaliação das políticas culturais. (MINISTÉRIO DA CULTURA, 
2010, [s.n.]).
Existe um site próprio para o monitoramento das metas, se o governo 
as está cumprindo (<pnc. culturadigital.br>). É importante salientar que 
a sociedade civil é responsável por cobrar e promover debates quanto às 
metas estabelecidas, para que assim nosso sistema de cultura não seja 
deixado de lado e nossos patrimônios esquecidos. É dever do Estado 
manter nossa cultura e promover políticas para a manutenção, proteção, 
disseminação e democratização da cultura no país. Planos como esse são 
de extrema importância para que nossos bens e memórias coletivas sejam 
valorizados.
Para que as 53 metas estabelecidas pelo Estado para o funcionamento 
do PNC sejam cumpridas da melhor maneira possível, é criado o Sistema 
Nacional de Cultura, que age como uma espécie de ponte, ligando os 
três entes federativos ao PNC. Entrar no Sistema Nacional de Cultura é 
voluntário, contudo, somente dessa maneira a verba destinada ao Plano 
Nacional de Cultura poderá ser destinada aos projetos.
O Ministério da Cultura avisa aos cidadãos que
Se seu estado ou sua cidade ainda não aderiu ao PNC, é preciso 
entrar em contato com o responsável pela Cultura na prefeitura ou 
no governo do estado. O órgão do Ministério da Cultura (MinC) 
responsável pela adesão é a Secretaria de Articulação Institucional 
(SAI). (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2010).
É muito importante que seu estado e o seu município se adequem 
e façam parte desses projetos governamentais; somente assim a verba 
necessária e destinada para a manutenção da cultura chegará até você.
A sociedade é agente fundamental para o bom funcionamento das 
políticas públicas em prol da cultura, isso porque as demandas partem do 
coletivo; além do mais, é papel do cidadão cobrar para que as metas sejam 
– 105 –
As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil
atingidas e, acima de tudo, se 
atentar para a cultura do seu 
lugar. Somente assim todo o 
restante desse processo poderá 
ocorrer de maneira clara e sem 
uso indevido do Patrimônio 
Público, polêmica tão presente 
na nossa sociedade atual. É por 
meio dessas iniciativas popu-
lares que poderemos barrar 
tragédias, como o incêndio ao 
Museu da Língua Portuguesa 
em São Paulo ou, ainda, o desastre com o Museu de História Nacional no 
Rio de Janeiro, onde muito mais de 500 anos de história foram perdidos 
pelas chamas. A ação pública é efetiva se realizada em conjunto.
Figura 7.3 –Museu da Língua Portuguesa – São Paulo/SP
Fonte: Shutterstock.com/Thiago Leite.
7.4 O Sistema Nacional de Cultura e 
o IPHAN: parceria que dá certo
O Sistema Nacional de Cultura, quinta eta do Plano Nacional de Cul-
tura, busca em parceria com o IPHAN implantar planos para que as metas 
estabelecidas pelo PNC possam ser realizadas. Esse trabalho conjunto deu 
Figura 7.2 – Sociedade trabalhando em conjunto
Fonte: Shutterstock.com/GN ILLUSTRATORA.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 106 –
vida a ações como o Plano de Ação para Cidades Históricas entre os 
anos de 2010 e 2011.
O Plano de Ação para Cidades Históricas é um trabalho construído 
entre os estados, municípios e o IPHAN com o objetivo de integração do 
Patrimônio Cultural Brasileiro como um todo, ou seja, a ideia é a valori-
zação da cidade toda e não apenas de patrimónios específicos. É a valo-
rização do território urbano e não apenas de bens isolados e, para isso, 
realiza.-se metas e objetivos a serem realizados pelos órgãos destinados 
dentro das cidades e dos estados; também conta-se com o auxílio das 
empresas privadas e da sociedade civil para o bom funcionamento e anga-
riamento de verba para agir de forma local.
Segundo o IPHAN, os objetivos primarios são:
Fortalecer a implantação do Sistema Nacional do Patrimônio Cultu-
ral; Promover a atuação integrada do setor público (em suas diversas 
instâncias), do setor privado e da sociedade nas Cidades Históricas; 
Definir estratégias para enfrentar problemas estruturais das Cidades 
Históricas e para promover o desenvolvimento local,a partir das 
potencialidades do patrimônio cultural; Orientar a priorização de 
investimentos no âmbito do planejamento integrado para o Patrimô-
nio Cultural e definir ações e projetos estratégicos para as Cidades 
Históricas. (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2010. p. 1)
Figura 7.4 – Vista cidade de Mariana, Minas Gerais
Fonte: Shutterstock.com/Daniel Indiana.
Outra ação conjunta entre o IPHAN e o SNC é a Associação Bra-
sileira de Cidades Históricas (ABCH), elaborada em 2009, no Distrito 
– 107 –
As políticas públicas e o Patrimônio Cultural no Brasil
Federal, que tem por objetivo proteger e enriquecer o patrimônio – tanto 
cultural quanto natural – dos municípios que integram projetos de tomba-
mento, em âmbito federal e mundial por meio da Organização das Nações 
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO); também pre-
tende auxiliar cidades que se destacaram por seus planejamentos de con-
servação e proteção, tanto em projetos municipais quanto estaduais. Assim 
como a SNC, a ABCH também prioriza a participação da sociedade civil e 
dos órgãos dos três entes federativos, dando ênfase a importância do traba-
lho do Estado em conjunto com a comunidade para o funcionamento exe-
quível da política de proteção patrimonial.
Podemos concluir, portanto, que as políticas públicas vêm em favor 
da salvaguarda dos bens materiais e imateriais de valores históricos, artís-
ticos, paisagísticos nacionais; contudo, nenhuma dessas políticas poderá 
funcionar com eficiência se feita sem a legitimação da sociedade civil, 
agente de importante valor dentro desse movimento. É graças à comuni-
dade que os Patrimônios Culturais são selecionados, tombados e sofrem 
a ação política de proteção. Sem o cuidado intensivo dos devidos inte-
ressados (a sociedade), é muito provável que as entidades responsáveis 
também não cumpram seu papel. É de suma importância que as pessoas 
tenham atitudes de cobrança e amor quando se trata de seus patrimônios, 
de suas histórias.
Síntese
Nesse capítulo, compreendemos um pouco mais como funcionam as 
políticas públicas em detrimento do Patrimônio Cultural no Brasil a partir 
da história de órgãos como o IPHAN e iniciativas como o Sistema Nacio-
nal de Cultura, que visam sobretudo a interação da sociedade civil junto 
ao Patrimônio e a sua valorização e proteção.
Atividades
1. Qual a importância da reforma na Constituição de 1988 para as 
políticas públicas de salvaguarda de Patrimônio?
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 108 –
2. Qual a importância do tombamento do Terreiro de Candomblé 
na Bahia para a história do IPHAN em 1984?
3. O que é o Plano de Ação para Cidades Históricas?
4. Qual a importância da sociedade civil dentro das políticas de 
preservação do Patrimônio Cultural?
8
Patrimônio Cultural 
e Meio Ambiente
Nesse capítulo abordaremos o Patrimônio Natural como 
formação de pertencimento social no Brasil. Para isso, analisare-
mos o conceito de paisagem, sua história dentro da geografia, a 
legislação à qual esse patrimônio é regido, bem como sua impor-
tância e influência na sociedade.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 110 –
8.1 O que é paisagem
Para compreendermos o Patrimônio Natural do Brasil, precisa-
mos primeiramente compreender o conceito de paisagem e como ele se 
transforma ao longo do tempo. O termo paisagem, por si só, é repleto de 
significados, não nos aprofundaremos aqui em cada um deles. Portanto, 
definiremos a paisagem e a paisagem cultural segundo os parâmetros da 
geografia, isso porque o estudo da paisagem nesse campo é essencial e 
muito discutido, possibilitando assim uma abordagem mais diversa.
Figura 8.1 – Paisagem aérea urbana
Fonte: Shutterstock.com/Pinglabel.
Graças à variedade ampla de definições, alguns pesquisadores negam 
que ela possa compor o quadro de termos científicos, pois possui significa-
dos distintos para cada uso em cada disciplina. Por exemplo: para John B. 
Jackson (1984, p. 5), a paisagem “é uma realidade concreta e compartilhada 
tridimensionalmente”, ou seja, paisagem seria um grande grupo de espaços 
e esses espaços são resultado de transformações humanas, isso porque a 
paisagem para o autor é analisada por meio da arquitetura e do urbanismo.
A geografia analisa a paisagem de um modo diferente. Para a dis-
ciplina, o termo é ambíguo no que se refere à interferência humana. Isto 
quer dizer que paisagem não é somente fruto de interferências humanas, é 
na verdade um conjunto do meio natural e das mudanças construtivas por 
meio humano.
Mas afinal de contas, o que é paisagem cultural? Simplificando diver-
sos estudos, podemos chegar à conclusão de que a paisagem cultural é 
– 111 –
Patrimônio Cultural e Meio Ambiente
aquela que sofreu mudanças no seu natural; essas mudanças foram reali-
zadas pelo homem e elas narram conceitos culturais humanos. Um bom 
exemplo de paisagem cultural são as comunidades indígenas, as reservas; 
essa sociedade envolta pela natureza faz parte da paisagem, mas a modifi-
cou, construiu suas tendas, cortou algumas árvores, ela transforma a pai-
sagem natural em uma paisagem cultural.
Figura 8.2 – Comunidade indígena
Fonte: Shutterstock.com/PARTYRAISER.
8.1.1 História da paisagem no Brasil
A história da paisagem no Brasil é antiga, vem desde sua coloniza-
ção, quando Américo Vespúcio relatou em cartas suas experiências pelo 
território nacional, contando sobre a beleza natural nunca vista antes e 
comparando o território ao próprio paraíso. Outro importante documento 
para a história do país e para a paisagem cultural é a famosa carta de Pero 
Vaz de Caminha, que romanticamente enaltece o visual pouco explorado 
do território descoberto.
Além de cartas, pinturas e poemas trataram de representar a paisagem 
do Novo Mundo. É o caso do francês Jean-Baptiste Debret, que retratou o 
Brasil em pinturas e gravuras por longos anos, dando origem a um livro cha-
mado Viagens Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicado em Paris, em 1831.
Em grande parte, os documentos relatam sobre as descobertas de 
plantas e animais e o registro das populações nativas, incomuns aos solos 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 112 –
europeus; mas muitos curiosos, artistas e intelectuais, vieram ao Brasil em 
busca de aventuras e retrataram a bela natureza. Podemos perceber esse 
efeito não só ao longo da colonização, mas também nos séculos subse-
quentes. O Brasil chama atenção pela sua geografia, composta pela mais 
bela diversidade, é um retrato do nosso povo e, é claro, de nossa cultura. 
Talvez esse seja o maior motivo para a paisagem cultural ser tão impor-
tante para a nossa formação patrimonial.
Figura 8.3 – Representação Jean-Baptiste Debret
Fonte: Shutterstock.com/Marzolino.
8.1.2 Paisagem arqueológica
A arqueologia também tem suas definições de paisagem, a qual é 
vista pelo viés social e econômico, além de espacial. Na arqueologia, o 
estudo da paisagem se dá pela construção social dela sobre o espaço e 
como essa paisagem se transforma de maneira igual para todos dentro 
dessa mesma sociedade. Para Fernanda Simões,
a Paisagem (arqueológica) que é percebida e compreendida pelo 
grupo que a ocupou, possui características que são resultados de 
construções sociais a partir das relações dos fatores naturais/huma-
nos e individuais/compartilhados, sendo identificadas dentro de 
evidências arqueologicamente perceptíveis. (SIMÕES, 2014, p. 1)
É uma preocupação primária de o arqueólogo inserir a paisagem como 
problemática em sua pesquisa, isso porque os fatores como alimentação, 
geografia, cultura e vestimenta, estão relacionados diretamente ao fator 
– 113 –
Patrimônio Cultural e Meio Ambiente
paisagístico ao qual certa sociedade estava delimitada. É importante com-
preender que a arqueologia se agrega dos estudos da geografia quanto à 
paisagem paradefinir suas próprias pesquisas. Segundo Marcelo Fagundes,
tanto na Geografia quanto na Arqueologia, a paisagem possui o 
mesmo significado, podendo ser definida como um determinado 
espaço organizado, cuja natureza é transformada e transformadora 
da cultura humana ali estabelecida. (FAGUNDES, 2009, p. 60).
A paisagem dentro da arqueologia é muito importante para ampliar 
o campo de estudo, fugindo do padrão consolidado do sítio arqueológico, 
indo à busca de uma pesquisa de território ampla, englobando a região 
como um todo. Além disso, é pela paisagem que muitas pesquisas conse-
guem compreender os pontos culturais; a paisagem é uma das formadoras 
de cultura e a arqueologia compreende nela um papel importante na for-
mação humana, isso porque cada sociedade se desenvolve pelo meio ao 
qual está inserida.
8.1.3 Paisagem cultural no Brasil e sua preservação
A paisagem cultural passa a ser protegida no Brasil em 2009, com o 
intuito de preservar os bens naturais que foram modificados pelo homem e 
que dizem respeito ao seu modo de viver. A UNESCO definiu a paisagem 
como Patrimônio ainda antes disso, em 1992. Um dos mais importan-
tes Patrimônios Paisagísticos do Brasil, considerado pela UNESCO, é a 
cidade do Rio de Janeiro, que foi a primeira cidade do mundo todo a ser 
considerada uma paisagem cultural.
O Rio de Janeiro tem uma paisagem única. Foi, ao longo dos sécu-
los, cenário dos mais importantes acontecimentos históricos do Brasil. Em 
2012, a UNESCO define que a cidade é uma demonstração singular de 
beleza que, transformada ao longo da história do país pelos homens, nunca 
deixou de ter sua relevância na natureza, demonstrando assim o bom con-
vívio entre o homem e o meio natural, a singularidade humana e a criativi-
dade do povo brasileiro. Esse marco fez com que políticas de preservação 
natural fossem alimentadas e o Rio de Janeiro passou a ser mundialmente 
conhecido, um importante avanço econômico para o país pela produção 
em massa de turismo.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 114 –
Figura 8.4 – Fotografia aérea cidade do Rio de Janeiro
Fonte: Shutterstock.com/Matyas Rehak.
O Brasil é um dos maiores países do mundo, mas não é só em exten-
são que ele chama a atenção: nosso país é dono de uma diversidade cul-
tural pouco vista em outros lugares. Seu clima, suas paisagens, sua gas-
tronomia, são heterogêneos em todos os sentidos; por isso, a variedade de 
bens culturais existentes no território é incontável. A paisagem cultural é 
isso, a natureza e o homem, seja ele indivíduo ou sociedade, integrando-se 
e interagindo em harmonia, a natureza sendo suporte de criação cultural, 
agente ativo na construção da história, da arte e da cultura nacionais.
Podemos encontrar bens paisagísticos em todas as regiões do país, 
desde o Rio de Janeiro até populações ribeirinhas esquecidas à margem 
do rio, comunidades quilombolas e grupos indígenas que fizeram do meio 
natural seu lar, vivendo em perfeita harmonia, compreendendo e inte-
grando a natureza, fazendo dela parte importante em suas vidas.
Questões econômicas são, em geral, o maior inimigo da preservação 
da paisagem cultural no Brasil, isso porque essas paisagens muitas vezes 
se localizam em lugares de interesse comercial, como jazidas de ouro, por 
exemplo. As próprias reservas indígenas são atacadas quase que diaria-
mente para se transformarem em lugares de exploração de madeira e bens 
econômicos naturais.
Mesmo que os bens culturais sejam um dos principais incentivos para 
a preservação da paisagem cultural, a geografia do nosso país é singu-
– 115 –
Patrimônio Cultural e Meio Ambiente
lar, com uma riqueza estética, geográfica e cultural imensurável. Pouco 
debatida atualmente, nossa paisagem cultural corre risco de ser destruída 
para dar lugar a grandes clareiras. É o caso da Amazônia, em que regular-
mente vemos diminuir suas florestas, dando lugar a um deserto formado 
por indústrias de exploração madeireira.
A preservação da paisagem cultural é muito mais complexa que a 
preservação de bens patrimoniais como casas ou obras de arte, porque 
ela requer uma equipe muito diversa, composta por geógrafos, arquitetos, 
antropólogos, paisagistas, entre outros. Suas pesquisas são abrangentes 
para que a paisagem possa ser considerada um patrimônio, não basta saber 
sua história; a paisagem cultural vai muito além disso, ela é o estudo da 
singularidade do solo, do povo que a habita, do uso da sua natureza.
Infelizmente, o Brasil ainda se vê desamparado de leis especificas 
para a proteção da paisagem cultural, grande parte das paisagens pro-
tegidas hoje tem essa proteção garantida pelos órgãos ambientais. A 
UNESCO então conta com o auxílio de dois grandes órgãos nacionais, 
o IPHAN e o IBAMA. Cada um desses órgãos é responsável por definir 
um aspecto dentro da paisagem cultural. Mas ainda há um longo cami-
nho pela frente. A criação de um órgão que atenda às necessidades da 
UNESCO de preservação e proteção das paisagens culturais do Brasil 
cada dia mais se torna essencial.
8.2 O Patrimônio Natural
A natureza é, sobretudo, fonte de vida. Nela estão dispostos todos os 
materiais necessários para a vida humana, seu alimento, oxigênio, tecido 
para suas roupas, entre outros. Mas a natureza é também inspiração para 
a arte, para a matemática, para as ciências... então, consideremos justo 
dizer que a natureza por si só é um patrimônio e, mais do que isso, é um 
patrimônio formador de cultura.
As formas com as quais utilizamos da natureza podem ser signifi-
cativas em nossa qualidade de vida e na forma como compreendemos o 
universo. Hoje, a natureza é explorada de forma econômica e isso também 
diz muito sobre nossa cultura: quando nós deixamos de pensar na natureza 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 116 –
para pensar no capital, estamos demonstrando quão importante se tornou 
o poder monetário ao longo dos séculos e essa importância hoje é parte 
intrínseca da cultura ocidental.
Sem natureza, não teremos recursos para proteger nosso patrimônio, 
ou, mais ainda, não teremos patrimônio. Assim a natureza é a base sobre 
a qual se sustenta o que consideramos patrimônio e sem ela ficamos sem 
saber quem somos e como vivemos. 
O Patrimônio Natural é gerador de respeito a diversidade, seja a pai-
sagem ecológica ou humana. É também é fonte de renda para diversas 
comunidades que o exploram para o ecoturismo.
No Brasil, existe um número significativo de sítios de Patrimônio 
Natural sendo preservados; é o caso da própria Mata Atlântica e de grande 
parte da Amazônia, que ilegalmente sofrem ataques e têm sua biodiversi-
dade sendo extinta de forma gradual e alarmante.
Figura 8.5 – Desmatamento da Amazônia
Fonte: Shutterstock.com/Rich Carey.
8.2.1 A legislação do Patrimônio Natural
A legislação que compreende a salvaguarda da natureza brasileira 
surgiu durante a década de 1930, no mesmo contexto da legislação do 
Patrimônio Cultural e do respectivo conselho que dispunha as questões 
patrimoniais. Os primeiros códigos que incluíam essas pautas foram o 
Código de Águas, o Código de Minas, o Decreto de Proteção aos Animais 
e o preliminar Código Florestal.
– 117 –
Patrimônio Cultural e Meio Ambiente
O Código Florestal, por sua vez, entendia de múltiplas maneiras a 
preservação da flora, com apontamentos direcionados para a vegetação 
própria de diferentes localidades do Brasil; atualmente, a legislação pre-
coniza uma abordagem uniforme, o que facilmente se questiona, dada a 
grandiosidade e a diversidade territoriais brasileiras.
Todavia, o interesse pelo Patrimônio Natural e Cultural brasileiro se 
aplicou de maneira ampla e abrangendo particularidades apenas com a 
Constituição Federal da República Federativa de 1988, a qual se estabe-
leceu por intermédio de dois capítulos: o capítulo do Meio Ambiente e o 
capítuloda Cultura.
A preservação da natureza no capítulo específico do Meio Ambiente 
é tratada pela perspectiva biológica; nesse sentido e de acordo com o Ins-
tituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN):
A responsabilidade legal e administrativa pelo meio ambiente eco-
logicamente equilibrado, pela preservação e restauração de pro-
cessos ecológicos essenciais, pela biodiversidade e pela integri-
dade do patrimônio genético, bem por unidades de conservação 
como parques nacionais e reservas ecológicas é conferida a órgãos 
ambientais. (IPHAN, 2004, p. 2)
No que se refere à Cultura, o artigo 126 da Constituição afirma e 
atribui a administração às instituições públicas:
Constituem o patrimônio cultural brasileiro, os bens, de natureza 
material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, 
portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos dife-
rentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se 
incluem as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver; 
as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, 
documentos, edificações e demais espaços destinados às manifes-
tações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor 
histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, 
ecológico e científico. (BRASIL, 1988, p. 80)
Um fato significativo foi no início da década de 1980, em que foi 
criada a Política Nacional do Meio Ambiente, dispondo os órgãos legisla-
tivos voltados para a temática ambiental que, na generalidade, irão transi-
tar especificamente na proteção do Patrimônio Natural, e atuar de forma 
mais rígida do que previamente estabelecia a Lei Cultural.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 118 –
Assim, o desenvolvimento sustentável, a participação social, a pre-
venção e a punição previstas no direito ambiental, transfiguraram-se em 
medidas efetivas; atualmente, a Lei de Crimes Ambientais, promulgada 
em 1998, estabelece aplicações de multas e sanções diversas, a fim da 
salvaguarda do patrimônio ambiental e indenizações, como reparação, a 
danos ocasionados ao Patrimônio Cultural.
Figura 8.6 – Imagem aérea de Fernando de Noronha
Fonte: Shutterstock.com/Michal Staniewsk.
8.2.2 Futuro do Patrimônio Natural
Mesmo que o Brasil seja um privilegiado na questão de Patrimônio 
Natural, tendo diversos parques e reservas, poucos destes espaços são pre-
servados. A relação entre o homem e o meio natural se tornou distante e 
ameaçadora e a ação dos órgãos responsáveis não é suficientemente eficaz 
para garantir a salvaguarda do nosso Patrimônio Natural.
Faltam-nos ações efetivas para o tombamento desses bens, mas mais 
do que isso, os bens já tombados foram, em grande parte, abandonados e 
estão degradados por diversos fatores, entre eles o turismo, grande aliado 
aos objetivos econômicos, mas um vilão em se tratando da preservação, 
principalmente dos Patrimônios Naturais.
Outros fatores também sofrem com problemas. As questões indíge-
nas, por exemplo: temos um órgão federal responsável pela sua prote-
– 119 –
Patrimônio Cultural e Meio Ambiente
ção; contudo, não temos nenhum órgão cultural designado para a proteção 
efetiva dessa sociedade e do Patrimônio Natural ao qual estão inseridos. 
Tendo eles uma paisagem cultural vasta e diversa, é importante que órgãos 
culturais tomem conta desta especificidade.
8.2.3 Patrimônio Natural e paisagem cultural
O Patrimônio Natural é, portanto, aquele ligado ao meio ambiente. 
Compreendemos a importância da natureza para a formação da cultura 
humana e, a partir disso, podemos definir que todas as formas naturais 
podem ser consideradas patrimônio, inclusive aquelas às quais o homem 
ainda não atribuiu finalidade. Já a paisagem cultural são os meios naturais 
que sofreram interferência humana e, mesmo assim, não perderam suas 
características, na verdade ajudaram a construir a cultura e a diversidade 
cultural que vemos no nosso país. Infelizmente, ambos os aspectos aca-
bam sendo desvalorizados pelos órgãos culturais, que quase não possuem 
atribuições especificas para a manutenção e proteção dos patrimônios de 
ordem natural.
Perdê-los é, assim, como perder um edifício construído em 1930: um 
grande retrocesso. Se não for ainda pior, pois interfere na nossa identidade 
cultural e coloca em risco nossa própria existência.
Síntese
Nesse capítulo, pudemos conhecer um pouco mais sobre a paisagem 
cultural, percebendo a sua importância na história do nosso país e alguns 
dos seus principais conceitos, abordada tanto pela arqueologia quanto pela 
geografia. Também conhecemos um pouco mais sobre o Patrimônio Natu-
ral e a responsabilidade em preservá-lo.
Atividades
1. Defina paisagem segundo John B. Jackson.
2. O que é paisagem cultural? Cite um exemplo:
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 120 –
3. Qual é o maior inimigo da preservação da paisagem cultural? 
Por quê?
4. Qual a diferença entre paisagem cultural e Patrimônio Natural?
9
Os Marcos Legais
Nesse capítulo, abordaremos os principais marcos legais 
relativos à preservação do Patrimônio Cultural, assim como suas 
relações com as políticas nacionais e regionais de preservação, 
e as cartas que delimitam a atuação dos profissionais da área do 
patrimônio frente aos bens de valor histórico, tal como as leis e 
os aparatos constitucionais que atualmente protegem o Patrimô-
nio Cultural no âmbito nacional e tornam sua gestão efetiva.
As cartas históricas, assim como toda a legislação descrita 
nesse capítulo, estão disponíveis para consulta online no site do 
IPHAN e de outros órgãos governamentais.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 122 –
9.1 As cartas patrimoniais
As cartas patrimoniais foram uma série de esforços para elaborar 
regimentos que fornecessem os alicerces da atuação dos profissionais da 
área do Patrimônio Cultural. São manifestos que sintetizam em algumas 
páginas as discussões de congressos, e seus princípios servem de base 
para discussões mais aprofundadas e fundamentadas, assim como para a 
criação de leis para a preservação do patrimônio.
São documentos vindos de períodos distintos, organizados por gru-
pos com propriedades diversas e não têm a intenção de serem normas 
definitivas, apenas diretrizes para fundamentar o trabalho de agentes do 
patrimônio, restauradores, urbanistas e outros técnicos.
Segundo Kuhl (2010, p. 289),
As cartas patrimoniais são fruto da discussão de um determinado 
momento. Antes de tudo, não têm a pretensão de ser um sistema 
teórico desenvolvido de maneira extensa e com absoluto rigor, nem 
de expor toda a fundamentação teórica do período. As cartas são 
documentos concisos e sintetizam os pontos a respeito dos quais foi 
possível obter consenso, oferecendo indicações de caráter geral. Seu 
caráter, portanto, é indicativo ou, no máximo, prescritivo. Obvia-
mente, cartas internacionais, como a de Veneza, não podem ter 
caráter normativo, pois suas indicações devem ser reinterpretadas 
e aprofundadas para as diversas realidades culturais de cada país, 
e ser, ou não, absorvidas em suas propostas legislativas. As cartas 
internacionais, se devidamente interpretadas para as realidades 
locais, podem resultar em cartas nacionais, ou articularem-se a elas; 
podem, assim, ter papel importantíssimo na construção normativa 
relacionada à preservação dos bens culturais dos vários países.
Embora formulados por participantes de congressos internacionais, 
os princípios sobre a conservação e a restauração seriam aplicáveis de 
acordo com o contexto cultural de cada nação.
Os documentos históricos estão disponíveis na íntegra no site do IPHAN.
A Carta de Atenas foi elaborada a partir das deliberações estabe-
lecidas no Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos dos Monu-
mentos Históricos, na cidade de Atenas, em 1931, determinandoalgumas 
resoluções e políticas internacionais para a preservação do Patrimônio 
– 123 –
Os Marcos Legais
Histórico. Foi o primeiro esforço de caráter internacional que delimitou 
diretrizes para o restauro de edificações históricas, e apresentou conside-
rações de caráter avaliativo para esses projetos.
Entre algumas das propostas elencadas na carta, vale ressaltar a cria-
ção de organizações internacionais para a revisão e avaliação criteriosa 
dos processos de restauro, com a intenção de prevenir equívocos que des-
caracterizem certas estruturas, danificando seu atribuído valor histórico.
O documento também levantou algumas problemáticas acerca da 
preservação de sítios históricos e definiu que as políticas de preservação 
deveriam ser legisladas de forma nacional por todos os países, zelando 
pela proteção desses locais e suas áreas adjacentes.
Definiu também que o emprego de materiais e técnicas arquitetônicas 
modernas poderia ser usado no trabalho de restauração, desde que fossem 
obedecidos certos critérios para evitar a descaracterização das estruturas:
Os técnicos receberam diversas comunicações relativas ao emprego 
de materiais modernos para a consolidação de edifícios antigos.
Eles aprovaram o emprego adequado de todos os recursos da téc-
nica moderna e especialmente, do cimento armado.
Especificam, porém, que esses meios de reforço devem ser dissi-
mulados, salvo impossibilidade, a fim de não alterar o aspecto e o 
caráter do edifício a ser restaurado.
Recomendam os técnicos esses procedimentos especialmente nos 
casos em que permitam evitar os riscos de desagregação dos ele-
mentos a serem conservados. (CARTA DE ATENAS, 1931, p. 2)
Se analisarmos o documento por meio de um olhar contemporâneo, 
percebemos que nele existem alguns critérios ultrapassados, como por 
exemplo a preservação de certas ornamentações “pitorescas” no entorno 
dos monumentos, que teriam a finalidade de simular uma certa antigui-
dade na obra. No entanto, algumas decisões ainda são relevantes para a 
manutenção do patrimônio, como a supressão da publicidade, postes e 
cabos de energia em logradouros históricos, tal como o afastamento de 
fábricas das regiões onde estão presentes as edificações. Nota-se também 
que existia um foco apenas no caráter monumental do patrimônio, o que 
seria alterado em cartas e legislações posteriores.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 124 –
A carta criou uma movimentação que favoreceu a criação de legisla-
ções nacionais e organizações como o Conselho Internacional de Museus 
(ICOM) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência 
e a Cultura (UNESCO), construindo um amplo movimento internacional.
A Carta de Veneza, elaborada a partir do II Congresso Internacio-
nal de Arquitetos e Técnicos dos Monumentos Históricos, em maio de 
1964, aprofunda e amplia as noções sobre os bens patrimoniais e estabe-
lece as bases para a criação do Conselho Internacional de Monumentos 
e Sítios (ICOMOS).
O documento, embora ultrapassado por parâmetros atuais, ainda 
é bastante referenciado, e tido como base no trabalho com o Patrimô-
nio Cultural.
A professora Beatriz Mugayar Kühl, docente do curso de Arquitetura 
e Urbanismo da USP, apresenta uma leitura crítica do documento em seu 
artigo Notas sobre a Carta de Veneza:
A organização do congresso, que deu origem à Carta de Veneza, o 
próprio texto da Carta e, ainda, a criação do Icomos, fazem parte 
de um esforço cumulativo de várias nações (e também de seus ser-
viços de preservação e de profissionais do campo) para estabelecer 
um sistema de cooperação internacional que auxiliasse na reso-
lução das numerosíssimas questões envolvidas na preservação de 
bens culturais, de modo a enfrentá-las com rigor metodológico e 
coerência de critérios e de princípios. (KUHL, 2010, p. 290)
No documento, o patrimônio é encarado como testemunho da Histó-
ria e das tradições de uma sociedade. Fazem parte, além das obras de arte 
e monumentos, edificações e sítios de grande significância e construções 
modestas que tenham adquirido relevância cultural. O trabalho de restauro 
e conservação é visto como de caráter interdisciplinar, requerendo a assis-
tência de todas as ciências para a salvaguarda e manutenção permanente 
do patrimônio.
Uma discussão relevante refere-se ao uso prático das edificações e o 
rigor necessário para adaptar os edifícios para os usos contemporâneos:
Artigo 5º – A conservação dos monumentos é sempre favorecida 
por sua destinação a uma função útil à sociedade; tal destinação e 
portanto, desejável, mas não pode nem deve alterar a disposição 
– 125 –
Os Marcos Legais
ou a decoração dos edifícios. E somente dentro destes limites que 
se deve conceber e se pode autorizar as modificações exigidas pela 
evolução dos usos e costumes. (CARTA DE VENEZA, 1964, p. 2)
Podemos perceber, a partir da leitura do documento, que ele propõe 
uma visão que respeita às intervenções da passagem do tempo, encarando 
o monumento como um documento histórico. Nessa lógica, a reprodução 
de um elemento original que se perdeu ganha um caráter de falsificação.
Embora considerada por muitos como um documento antigo e ultra-
passado, seus princípios ainda são fundamentais para encarar a preserva-
ção do patrimônio, e seu conteúdo continua a ser debatido e ampliado.
A Carta de Veneza pode fornecer uma série de procedimentos e nor-
mas de conduta. Nos anos seguintes a sua publicação, vários esforços sur-
giram para expandir as discussões do material, refletindo em maior inte-
resse na proteção de sítios históricos nas décadas seguintes.
As cartas patrimoniais despertaram debates e foram muito discutidas 
nas suas aplicabilidades e influenciaram uma série de outros documen-
tos semelhantes que expandiram ou questionaram seus princípios. Vamos 
conhecer um breve histórico de alguns debates e adequações realizadas a 
partir desses primeiros documentos, começando com a Recomendação 
de Paris, de 1963, que versa sobre a importância de se criar mecanismos 
para impedir o roubo, a escavação e exportação ilegal de obras de arte, 
monumentos e peças arqueológicas. Recomendou também a criação de 
inventários nacionais de bens culturais, para que as trocas de objetos de 
importância patrimonial pudessem ser realizadas adequadamente.
A Recomendação de Paris, de 1968, buscou soluções frente ao 
problema do crescimento das cidades, assim como a necessidade de pos-
sibilitar maior envolvimento entre a população e os bens patrimoniais, 
salientando a necessidade de financiamento, legislação e uma educação a 
serviço do patrimônio.
O Compromisso de Brasília, de 1970, recomendou a criação de 
órgãos regionais de patrimônio cultural, focando também na proteção dos 
bens naturais. Foi levantada a questão da carência de mão de obra qua-
lificada para atuar na área, assim como a falta de políticas públicas de 
educação na área.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 126 –
Ela estabeleceu algumas diretrizes para políticas de divulgação do 
Patrimônio Cultural nacional:
Sendo o culto do passado elemento básico da formação da consciên-
cia nacional, deverão ser incluidos nos currículos escolares de níveis 
primário, médio e superior, matérias que versem o conhecimento e a 
preservação do acervo histórico e artístico, das jazidas arqueológicas 
e pré-históricas, das riquezas naturais e de cultura popular, adotado 
o seguinte critério: no nível elementar, noções que estimulem a aten-
ção para os monumentos representativos da tradição nacional; no 
nível médio, através da disciplina de Educação Moral e Cívica; no 
nível superior (a exemplo do que já existe nos cursos de Arquitetura 
com a disciplina de Arquitetura no Brasil), a introdução, no currículo 
das Escolas de Arte da disciplina de História da Arte no Brasil; e 
nos cursos não especializados, e de Estudos Brasileiros,parte dêste 
consagrados aos bens culturais ligados à tradição nacional. (COM-
PROMISSO DE BRASÍLIA, 1970)
Durante o segundo encontro, ocorrido no ano de 1971, foi escrito o 
Compromisso de Salvador. No evento, além de ratificadas as conside-
rações do documento assinado em Brasília, foi recomendada a criação 
do Ministério, de Secretarias e de Fundações de Cultura, assim como a 
criação de legislações que protegessem e valorizassem o bem patrimonial.
A Recomendação Paris, de 1972, foi aprovada na Convenção para a 
Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, e buscava atentar para 
a salvaguarda de monumentos, conjuntos e locais de interesse naturais ou 
feitos pela mão do homem. O documento define o Patrimônio Natural:
Para fins da presente Convenção serão considerados como patri-
mónio natural:
Os monumentos naturais constituídos por formações físicas e 
biológicas ou por grupos de tais formações com valor universal 
excepcional do ponto de vista estético ou científico;
As formações geológicas e fisiográficas e as zonas estritamente 
delimitadas que constituem habitat de espécies animais e vegetais 
ameaçadas, com valor universal excepcional do ponto de vista da 
ciência ou da conservação;
Os locais de interesse naturais ou zonas naturais estritamente deli-
mitadas, com valor universal excepcional do ponto de vista a ciên-
cia, conservação ou beleza natural. (RECOMENDAÇÃO PARIS, 
1972, p. 2-3)
– 127 –
Os Marcos Legais
É interessante perceber como as formações naturais ganharam o 
caráter de monumento ao longo das publicações. Esse é um dos casos 
em que uma convenção da UNESCO influenciou legislações relativas ao 
patrimônio aqui no Brasil. Me refiro ao Decreto Legislativo n. 74, de 30 
de junho de 1977 que será exposto mais adiante no capítulo.
A Carta do Restauro, do Ministério da Instrução Pública do Governo 
da Itália, datada de 1972, busca detalhar os conceitos de restauro e salva-
guarda de obras de arte, monumentos, construções e vestígios arqueológicos.
É composta por doze artigos que versam sobre diferentes aspectos do 
trabalho de restauração. Define os métodos e materiais para a realização 
de intervenções, assim como instruções para o registro dos processos.
O Manifesto de Amsterdã, também conhecido como Carta Europeia 
do Patrimônio Arquitetônico, de 1975, levantou algumas problemáticas sobre 
convenções anteriores, sobretudo no foco aos conjuntos arquitetônicos.
Durante muito tempo só se protegem e restauram os monumentos 
mais importantes, sem levar em conta o ambiente em que se inse-
rem. Ora, eles podem perder uma grande parte de seu caráter se 
esse ambiente é alterado. Por outro lado, os conjuntos, mesmo que 
não disponham de edificações excepcionais, podem oferecer uma 
qualidade de atmosfera produzida por obras de arte diversas e arti-
culadas. É preciso conservar tanto esses conjuntos quanto aqueles. 
(MANIFESTO DE AMSTERDÃ, 1975, p. 2)
O manifesto e a declaração do mesmo ano ressaltam a importância 
da revitalização de bairros históricos, focando na inserção social de seus 
habitantes locais, evitando o êxodo das regiões e beneficiando assim o 
maior número possível de camadas da sociedade. Isso seria competência 
do setor público.
A política de planejamento regional deve integrar as exigências de 
conservação do patrimônio arquitetônico e para elas contribuir. Ela 
pode, particularmente, incitar novas atividades a serem implanta-
das nas zonas em declínio econômico a fim de sustar seu despo-
voamento e contribuir para impedir a degradação das construções 
antigas. Por outro lado, as decisões tomadas para o desenvolvi-
mento das zonas periféricas das aglomerações devem ser orienta-
das de tal maneira que sejam atenuadas as pressões que são exer-
cidas sobre os bairros antigos. Com essa finalidade, as políticas 
relativas aos transportes, aos empregos e a uma melhor repartição 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 128 –
dos polos de atividade urbana podem incidir mais profundamente 
sobre a conservação do patrimônio arquitetônico. (DECLARA-
ÇÃO DE AMSTERDÃ, 1975, p. 4)
As Recomendações de Nairóbi, de 1976, refletem sobre a função 
dos conjuntos históricos no contexto contemporâneo, salientando a prote-
ção contra modificações violentas nas regiões históricas.
Nos anos seguintes, as cartas de Machu Picchu e Burra, salienta-
ram a importância do planejamento urbano em se adequar às necessida-
des da população, e de envolvê-la nas instâncias deliberativas relaciona-
das à conservação.
Em 1981, a Carta de Florença prezou pela manutenção dos jardins 
históricos, ressaltando a manutenção adequada desses espaços que fun-
dem arquitetura e elementos naturais.
A Declaração de Nairóbi, no ano seguinte, reforçou novamente a 
necessidade de se atentar para questões ambientais, e a carência de progra-
mas educacionais e de capacitação profissional na área.
Em 1986, a Carta de Washington foi criada pelo ICOMOS. Ela 
definiu alguns parâmetros para a salvaguarda das cidades históricas, assim 
como sua harmonia com a vida contemporânea. Alguns valores-chave 
para a criação de medidas de proteção foram elencados, com destaque 
para as relações da cidade com o ambiente natural e o ambiente criado 
pelos homens ao longo do tempo, assim como os múltiplos significados 
que a cidade teve durante a História.
A Carta de Petrópolis foi construída em 1987, no 1º Seminário Bra-
sileiro para Preservação e Revitalização de Centros Históricos. Nela, o 
patrimônio e sua preservação são encarados como elementos formadores 
da cidadania e devem ser pensados desde a concepção urbana. É consi-
derada imprescindível a ação dos cidadãos junto aos governos Federais, 
Estaduais e Municipais nas ações de tombamento e inventário.
A Declaração de São Paulo, de 1989, salientou que a Carta de 
Veneza, que comemorava 25 anos, deveria se manter como modelo de 
carta patrimonial. O debate em torno da escassez de trabalhos na área da 
preservação, assim como a necessidade do emprego de novas tecnologias 
– 129 –
Os Marcos Legais
no restauro e um maior envolvimento na preservação do Patrimônio Natu-
ral foram os pontos-chave na discussão.
No mesmo ano, a Recomendação Paris, organizada em conferência 
da UNESCO, destacou a importância de se incluir a memória dos povos 
tradicionais e da cultura popular nas pesquisas e nas ações de registro.
Em 1994, a Conferência de Nara novamente alarga conceitos esta-
belecidos na Carta de Veneza, focando na inserção das memórias coletivas 
da sociedade. Reafirma que a autenticidade continua sendo o principal 
medidor de valor na preservação do Patrimônio Cultural.
Durante as comemorações dos 60 anos do IPHAN, em 1997, foi 
escrita a Carta de Fortaleza, que buscava alinhar políticas legais nos 
setores público e privado para o registro, conservação e promoção dos 
bens culturais imateriais no Brasil
No ano de 2003, a Recomendação Paris foi lançada após a 32º Con-
ferência da UNESCO, também com foco na preservação do Patrimônio 
Imaterial, nas tradições orais e culturais. Estabelece também um comitê 
para assegurar a salvaguarda dessas expressões em inventários:
Artigo 12º: Inventários
1. Para assegurar a identificação, com fins de salvaguarda, cada Estado 
Parte estabelecerá um ou mais inventários do patrimônio cultural ima-
terial presente em seu território, em conformidade com seu próprio 
sistema de salvaguarda do patrimônio. Os referidos inventários serão 
atualizados regularmente. (RECOMENDAÇÃO PARIS, 2003)
Em 2009, ocorreu o I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural, 
e como parte da institucionalização do Sistema Nacional do Patrimônio 
Cultural (SNPC), publicou um documento no ano seguinte, que se debru-
çou na implementação de uma política nacional de patrimônio, e a regu-
lamentar, a partir da União, as instituições, metodologias e procedimentos 
adotados naárea de maneira transversal.
Na busca por envolver a juventude na discussão, o Fórum Juve-
nil do Patrimônio Mundial em Brasília, Brasil foi formado por algumas 
dezenas de jovens de diferentes países da América do Sul. Nessa oca-
sião, foi elaborada a Carta de Brasília, que propõe a participação des-
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 130 –
ses jovens no Comitê de Patrimônio Mundial da UNESCO, a inserção 
da Educação Patrimonial no currículo escolar, nos âmbitos formais, não 
formais e informais, o direito e acesso ao patrimônio, mais acessibili-
dade aos bens patrimoniais, a promoção e a garantia da identificação e 
registro das culturas de segmentos sociais mais amplos e a promoção de 
um turismo responsável que não comprometa as características do patri-
mônio e das comunidades.
As cartas patrimoniais ainda são publicadas em congressos, fóruns 
e outros eventos de especialistas em Patrimônio Cultural, arquitetura e 
urbanismo. Elas contribuem para o aumento das discussões na área, para 
a fundamentação do trabalho dos profissionais e também são a base para 
uma série de legislações mundo afora.
9.2 Dispositivos constitucionais
A Constituição Federal estabelece os direitos fundamentais frente ao 
Estado brasileiro. Ela oferece algumas garantias para a preservação e a 
difusão do Patrimônio Cultural, assim como para o seu acesso. Em 2014, 
o Senado Federal publicou uma compilação com os dispositivos constitu-
cionais e legislações pertinentes sobre o assunto.
Todos os dispositivos da constituição, leis e decretos estão disponí-
veis online.
De acordo com o Art. 5º, inciso LXXIII, o cidadão tem direito de 
propor ação popular para anular um ato que prejudique o Patrimônio 
Público, o meio ambiente e o Patrimônio Histórico e Cultural.
É dever da União zelar pela guarda do Patrimônio Público. No Art. 
23º, incisos III e IV, é reforçado o papel do estado em proteger a docu-
mentação, obras de valor histórico, monumentos e paisagens naturais, e 
impedir sua descaracterização ou destruição. Isso é reforçado no Art. 24º 
da constituição, incisos VII e VIII, que atribuem à União e aos Estados 
a responsabilidade de legislar sobre a proteção do Patrimônio Cultural, 
Histórico, Artístico, Turístico e Paisagístico, assim como o encargo de se 
responsabilizar no caso de dano aos mesmos.
– 131 –
Os Marcos Legais
O Art. 30º incumbe aos Municípios a promoção da salvaguarda do 
Patrimônio Histórico-Cultural local, de acordo com a legislação federal e 
estadual. (inciso IX).
É função do Ministério Público, das instituições de segurança pública 
e do Estado a promoção de inquéritos e ações civis para proteger o Patri-
mônio Público (Art. 129º, inciso III, Art. 144º).
Sobre a Cultura (Art. 215º), é garantido constitucionalmente o pleno 
exercício de direitos culturais e o acesso à cultura nacional, e o apoio e 
incentivo à valorização e difusão é papel do Estado, assim como o de pro-
teger as manifestações culturais indígenas, afro-brasileiras e de outros gru-
pos sociais. O artigo também cobre o estabelecimento do Plano Nacional 
de Cultura, que visa o desenvolvimento cultural do País no parágrafo 3º:
§ 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração 
plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à 
integração das ações do poder público que conduzem à:
I – defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;
II – produção, promoção e difusão de bens culturais;
III – formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em 
suas múltiplas dimensões;
IV – democratização do acesso aos bens de cultura;
V – valorização da diversidade étnica e regional (BRASIL, 1988)
A partir da constituição de 1988, o que era então chamado “Patrimô-
nio Histórico e Artístico” passou a ser denominado “Patrimônio Cultural 
Brasileiro”. Instituiu também a definição dos bens que podem ser reconhe-
cidos como tal. O documento torna possível a preservação das formas de 
expressão, modos de criar, fazer e viver, e outras manifestações culturais 
de natureza imaterial. A constituição do Patrimônio Cultural é definida 
conforme o Art. 216º:
Art. 216º.
Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza mate-
rial e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, porta-
dores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes 
grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 132 –
I – as formas de expressão;
II – os modos de criar, fazer e viver;
III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços 
destinados às manifestações artístico-culturais;
V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, 
artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico 
(BRASIL, 1988).
Nos parágrafos anexos ao artigo, fica estabelecido que cabe ao poder 
público a promoção e proteção do Patrimônio Nacional, por meio de inven-
tários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, assim como a 
gestão da documentação e a garantia ao acesso e à pesquisa. O documento 
também prevê incentivos para a produção cultural, bem como punição no 
caso de dano ou ameaça ao patrimônio, e também o tombamento de todos 
os documentos e vestígios históricos de antigos quilombos.
Fica estabelecido que é dever dos Estados e do Distrito federal dire-
cionarem até cinco décimos por cento da receita tributária para o fomento 
de projetos culturais.
Sobre o Sistema Nacional de Cultura, o Art. 216-A da Constituição 
prevê que sua organização deve ser centralizada e colaborativa, para pro-
mover políticas públicas que estimulem o desenvolvimento por meio do 
exercício dos direitos culturais.
Por fim, o Art. 219º prevê que o mercado interno é parte integrante 
do patrimônio nacional, e que o mesmo será incentivado para viabilizar o 
desenvolvimento cultural, econômico e social da população.
9.3 Leis
A Lei n. 378/1937, por meio da nova organização do Ministério da 
Educação e Saúde Pública, em seu Art. 46º, cria o Serviço do Patrimônio 
Histórico e Artístico Nacional, que mais tarde viria a tornar-se o IPHAN. 
A Lei ainda fala brevemente sobre as atribuições fundamentais do órgão 
então recém-criado:
– 133 –
Os Marcos Legais
Art. 46. Fica creado o Serviço do Patrimonio Historico e Artístico 
Nacional, com a finalidade de promover, em todo o Paiz e de modo 
permanente, o tombamento, a conservação, o enriquecimento e o 
conhecimento do patrimonio historico e artístico nacional. (BRA-
SIL, 1937)
No parágrafo terceiro do mesmo artigo, a lei ainda vai definir outros 
órgãos que dariam auxílio ao Serviço: “§ 3º O Museu Historico Nacional, 
o Museu Nacional de Bellas Artes e outros museus nacionaes de coisas 
historicas ou artísticas, que forem creados, cooperarão nas actividades do 
Serviço do Patrimonio Historico e Artistico Nacional, pela fórma que fôr 
estabelecida em regulamento” (Ibidem)
Os Artigos 47º e 48º atribuem ainda a função de guarda, conserva-
ção e exposição dos bens patrimoniais brasileiros ao Museu Histó-
rico Nacional e ao Museu Nacional de Belas Artes, o qual é criado 
pelo mesmo Artigo:
Art. 47. O Museu Historico Nacional é mantido como estabele-
cimento destinado á guarda, conservação e exposição das relíquias 
referentes ao passado do Paiz e pertencentes ao patrimonio federal. 
Paragrapho unico. No Museu Historico Nacional funccionará o curso de 
museologia alli existente.
Art. 48. Fica creado o Museu Nacional de Bellas Artes, destinado a 
recolher, conservar e expor as obras de arte pertencentes ao patrimonio 
federal. (Ibidem)
A Lei n. 3.924/1961 declara guarda e proteção de monumentos pré-
-históricos e arqueológicos pelo Poder Público. A Lei define ainda o que 
são esses monumentos aos olhos do Estado brasileiro,assim como legisla 
em torno do que se pode ou não fazer com os diversos materiais que 
podem ser extraídos desses locais, criminalizando a exploração comercial 
de locais nos quais há vestígios de intervenção humana de ameríndios e a 
destruição parcial ou total desses locais.
A Lei n. 4.845/1965 proibiu a saída de obras de arte, ourivesaria, 
mobiliário e ofícios produzidos no Brasil, até o fim do Período Monár-
quico brasileiro, ao exterior, tais como obras de arte produzidas no exte-
rior e que se encontram no Brasil, mas que retratam, de alguma forma, a 
história ou os costumes brasileiros da época. A Lei proíbe ainda a saída 
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 134 –
de obras que vieram de Portugal, mas que foram inseridas no Brasil ou no 
Período Colonial ou no Período Imperial.
A Lei n. 6.292/1975 regulamentou o tombamento de bens no Insti-
tuto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
A Lei n. 7.347/1985 regulamentou as ações de responsabilidade por 
danos causados ao meio ambiente, ao consumidor e a bens e direitos de 
valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.
A Lei n. 7.661/1988 institui o Plano Nacional de Gerenciamento 
Costeiro (PNGC) que, entre outras atribuições e conforme os Incisos II 
e III, deve priorizar a proteção e conservação de: “II – sítios ecológicos 
de relevância cultural e demais unidades naturais de preservação perma-
nente; III – monumentos que integrem o patrimônio natural, histórico, 
paleontológico, espeleológico, arqueológico, étnico, cultural e paisagís-
tico” (BRASIL, 1988).
A Lei n. 7.668/1988 autoriza a criação da Fundação Cultural Palma-
res (FCP), instituição vinculada ao Ministério da Cultura, com o intuito de 
preservar as influências socioculturais da presença negra no Brasil.
A Lei n. 8.313/1991, popularmente conhecida como “Lei Rouanet”, 
institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), que tem como 
fim a captação de recursos para o setor cultural, tal como estabelece os 
mecanismos de implementação do programa. O Art. 1º, inciso VI, deter-
mina como uma das finalidades de existência do Pronac “preservar os 
bens materiais e imateriais do patrimônio cultural e histórico brasileiro” 
(BRASIL, 1991). Segundo o próprio Ministério da Cultura:
Principal mecanismo de fomento à Cultura do Brasil, a Lei Roua-
net, como é conhecida a Lei 8.313/91, instituiu o Programa Nacio-
nal de Apoio à Cultura (Pronac). O nome Rouanet remete a seu 
criador, o então secretário Nacional de Cultura, o diplomata Sérgio 
Paulo Rouanet. Para cumprir este objetivo, a lei estabelece as nor-
mativas de como o Governo Federal deve disponibilizar recursos 
para a realização de projetos artístico-culturais. A Lei foi conce-
bida originalmente com três mecanismos: o Fundo Nacional da 
Cultura (FNC), o Incentivo Fiscal e o Fundo de Investimento Cul-
tural e Artístico (Ficart). Este nunca foi implementado, enquanto 
o Incentivo Fiscal - também chamado de mecenato - prevaleceu e 
chega ser confundido com a própria Lei. (BRASIL, [s.d], [s.p.])
– 135 –
Os Marcos Legais
A Lei foi ratificada em 2008 e em 2015 para melhor compreensão de 
seus dispositivos que tratam sobre o caráter dos projetos que podem ou 
não ser submetidos aos editais de concessão de financiamento:
§ 1o Os incentivos criados por esta Lei somente serão concedidos 
a projetos culturais cuja exibição, utilização e circulação dos bens 
culturais deles resultantes sejam abertas, sem distinção, a qualquer 
pessoa, se gratuitas, e a público pagante, se cobrado ingresso. (Renu-
merado do parágrafo único pela Lei nº 11.646, de 2008) 
§ 2o É vedada a concessão de incentivo a obras, produtos, even-
tos ou outros decorrentes, destinados ou circunscritos a coleções 
particulares ou circuitos privados que estabeleçam limitações de 
acesso. (Incluído pela Lei nº 11.646, de 2008)
§ 3o Os incentivos criados por esta Lei somente serão concedidos 
a projetos culturais que forem disponibilizados, sempre que tec-
nicamente possível, também em formato acessível à pessoa com 
deficiência, observado o disposto em regulamento. (Incluído pela 
Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência) (BRASIL, 2008, 2015)
Houve ainda diversas ratificações na lei através dos anos, principal-
mente nos pontos que causaram mais polêmica entre a sociedade civil.
A Lei n. 8.394/1991 discorre sobre os acervos documentais privados 
dos presidentes da república e sua proteção, preservação e organização. A 
Lei estabelece, entre outros assuntos, que os documentos, embora sejam 
propriedade privada dos presidentes, são de interesse público e a priori-
dade de venda é sempre da União, além de não permitir a alienação dos 
mesmos ao exterior do país.
A Lei n. 10.413/2002, vai determinar que:
Os bens culturais móveis e imóveis, assim definidos no art. 1º do 
Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, serão tombados 
e desincorporados do patrimônio das empresas incluídas no Pro-
grama Nacional de Desestatização de que trata a Lei nº 9.491, de 
9 de setembro de 1997, passando a integrar o acervo histórico e 
artístico da União. (BRASIL, 2002)
A Lei n. 11.483/2007, que trata sobre a revitalização do setor ferro-
viário estabelece, entre outros, em seu Art. 9º, que “Caberá ao Instituto do 
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN receber e administrar 
os bens móveis e imóveis de valor artístico, histórico e cultural, oriun-
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 136 –
dos da extinta RFFSA, bem como zelar pela sua guarda e manutenção”. 
(BRASIL, 2007)
A Lei n. 11.904/2009 cria o Estatuto dos Museus, estabelecendo, em 
seu Art. 1º, o que o Estado brasileiro considera como sendo um museu:
Art. 1º Consideram- se museus, para os efeitos desta Lei, as instituições 
sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpre-
tam e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, 
contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artís-
tico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas 
ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento.
Parágrafo único.
Enquadrar- se- ão nesta Lei as instituições e os processos museoló-
gicos voltados para o trabalho com o patrimônio cultural e o ter-
ritório visando ao desenvolvimento cultural e socioeconômico e à 
participação das comunidades. (BRASIL, 2009)
A Lei determina ainda qual é a função do Estado na manutenção dos 
museus brasileiros. e versa também sobre outros assuntos, como o espaço 
físico dos museus, seus acervos e sobre a função e a importância social do 
museu, tal como sobre o caráter científico e educacional desses espaços.
A Lei n. 11.906/2009 vai criar o Instituto Brasileiro de Museus 
(Ibram), assim como centenas de cargos federais da cultura, sendo um 
passo importante na consolidação das políticas culturais no Brasil.
A Lei n. 12.192/2010 “regulamenta o depósito legal de obras musi-
cais na Biblioteca Nacional, com o intuito de assegurar o registro, a guarda 
e a divulgação da produção musical brasileira, bem como a preservação 
da memória fonográfica nacional”. (BRASIL, 2010). A Lei define ainda o 
que são obras musicais sob a perspectiva do Estado, a fim de protegê-las.
A Lei n. 12.343/2010 institui o Plano Nacional de Cultura (PNC) e 
cria o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC). 
Em seu Art. 1º estão definidos os princípios que regem o PNC, como diver-
sidade cultural, respeito aos direitos humanos, controle social das políticas 
que versam sobre cultura, entre outros. Em seu Art. 2º, a lei fala sobre os 
objetivos do PNC, que são basicamente a valorização e o reconhecimento 
das diversas manifestações culturais brasileiras, a democratização, tanto 
da cultura em si quanto do acesso ao conhecimento produzido a partir dela 
– 137 –
Os Marcos Legais
e o desenvolvimentode meios públicos e de controle social de gestão de 
políticas culturais. O restante do texto versa sobre as diversas atribuições 
das instituições do Estado em relação às políticas culturais, como em seu 
Art. 3º, inciso VI, quando fala das atribuições do Poder Público em rela-
ção ao Patrimônio Cultural brasileiro:
VI – garantir a preservação do patrimônio cultural brasileiro, res-
guardando os bens de natureza material e imaterial, os documentos 
históricos, acervos e coleções, as formações urbanas e rurais, as 
línguas e cosmologias indígenas, os sítios arqueológicos pré-histó-
ricos e as obras de arte, tomados individualmente ou em conjunto, 
portadores de referência aos valores, identidades, ações e memó-
rias dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira;
9.4 Decretos-Leis
Os decretos têm força de lei e foram expedidos em períodos de exce-
ção: durante a Era Vargas e no Regime Militar. Alguns desses decretos 
relacionados ao patrimônio ainda permanecem em vigor.
Com a assinatura do Decreto n. 19.402/1930, foi instituído o Minis-
tério da Educação e Saúde Pública, que abrigaria posteriormente as insti-
tuições culturais federais;
A lei brasileira de preservação de maior destaque, o Decreto-Lei n. 
25/1937, organiza a proteção do Patrimônio Histórico e Artístico nacional 
e determina, em seu Art. 1º, quais são as características que definem algo 
como fazendo parte do Patrimônio Histórico e Artístico brasileiros:
Constitue o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto 
dos bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação 
seja de interêsse público, quer por sua vinculação a fatos memorá-
veis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueo-
lógico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. (BRASIL, 1937)
O decreto-lei institui o tombamento como medida de proteção aos 
bem culturais, organizados em quatro livros:
1) no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, 
as coisas pertencentes às categorias de arte arqueológica, etno-
gráfica, ameríndia e popular, e bem assim as mencionadas no § 
2º do citado art. 1º.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 138 –
2) no Livro do Tombo Histórico, as coisas de interêsse histórico e 
as obras de arte históricas;
3) no Livro do Tombo das Belas Artes, as coisas de arte erudita, 
nacional ou estrangeira;
4) no Livro do Tombo das Artes Aplicadas, as obras que se inclu-
írem na categoria das artes aplicadas, nacionais ou estrangeiras. 
(BRASIL, 1937)
Prevê que determinadas paisagens naturais são sujeitas a tomba-
mento, e também institui o tombamento voluntário e seus requisitos, dire-
trizes para o tombamento compulsório, assim como dispositivos legais 
para a segurança dos bens.
O decreto foi apresentado por Gustavo Capanema, e padronizou a 
organização, as definições e as políticas de proteção ao patrimônio.
O Decreto-Lei n. 526, de 1º de julho de 1938, instituiu o Conselho 
Nacional de Cultura como órgão do Ministério da Educação e Saúde, que 
focava no cultivo às artes, à filosofia, à ciência e ao civismo.
Institui também como mantenedores de obras históricas e artísticas 
pertencentes à União, além do Museu Histórico Nacional e do Museu 
Nacional de Belas Artes, outras instituições federais a serem inauguradas 
conforme a demanda.
9.5 Decretos Legislativos
O Decreto Legislativo n. 71, de 28 de novembro de 1972 aprova 
a documentação da Recomendação de Paris (1964) sobre medidas que 
impeçam a importação de propriedade ilícita dos Bens Culturais, elabo-
rada na XVI conferência da UNESCO.
O documento cita que o Estado tem dever de proteger o Patrimônio 
Cultural do território de tentativas de roubo e exportação ilegal.
Já o Decreto Legislativo n. 74, de 30 de junho de 1977 aprova o 
texto da Recomendação de Paris (1972), na Convenção Relativa à Pro-
teção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural. da UNESCO realizada 
em 1972.
– 139 –
Os Marcos Legais
No Decreto Legislativo n. 22, de 1º de fevereiro de 2006 foi apro-
vada, com ressalvas, a Recomendação de Paris (2003), documento da 
Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.
Esse é um breve apanhado de alguns dos dispositivos legislativos 
para a proteção do Patrimônio Cultural no Brasil. Podemos perceber que 
os princípios elencados pelas cartas patrimoniais tiveram grande influên-
cia sobre a construção das leis que atualmente são fundamentais para a 
preservação de obras, monumentos e sítios históricos brasileiros.
Atividades
1. De acordo com o texto, as cartas patrimoniais não são documen-
tos definitivos com relação ao rigor metodológico do profissio-
nal do patrimônio. Explique por quê.
2. A Carta de Atenas foi o primeiro esforço internacional na busca 
de se criar políticas patrimoniais padronizadas. Cite algumas 
repercussões de sua publicação no cenário internacional.
3. A Carta de Veneza despertou debates e foi muito discutida e 
ampliada, mas seus princípios continuam servindo como base para 
a criação de políticas patrimoniais. Cite alguns desses princípios.
4. O pleno exercício de direitos culturais é garantido pelo Estado 
por meio da Constituição Federal. Qual a posição do documento 
com relação ao Patrimônio Cultural?
10
Educação Patrimonial
Desempenhar o papel de investigador do ambiente que nos 
cerca é uma forma de entender questões referentes ao sistema 
que vivemos. Para ser mais claro, para que uma pessoa possa 
entender como funciona, ela precisa conhecer. Isso cabe a qual-
quer coisa – vejamos, por exemplo, um grupo de estudantes 
que visita a selva, a natureza e os animais, mas esses mesmos 
estudantes não estudaram ou não sabem nada sobre o que estão 
vendo. Parece contraditório, mas o grupo está indo conhecer o 
local, e isso pode e deve despertar o interesse em pesquisar e 
investigar ainda mais a fundo o assunto. Entender a rotina de 
uma cidade, os feriados, as decorações e as festividades faz parte 
da educação patrimonial.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 142 –
Figura 10.1 – Carnaval. Rio de Janeiro.
Fonte: Shutterstock.com/Gustavo Ardila.
10.1 Educação patrimonial
A educação patrimonial é uma metodologia que busca exercitar e 
ampliar os conhecimentos culturais importantes da região, e também 
preservar e divulgar esse conhecimento, não somente identificar quais 
são os Patrimônios Culturais, imateriais ou materiais, mas também 
entender e refletir questões que constituem a nossa cultura e o Patrimô-
nio Cultural.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/Iphan – Ins-
tituição Federal, vinculada ao Ministério da Cultura/MinC e responsável 
pela política de Patrimônio Cultural de forma nacional, entende a Educa-
ção Patrimonial como sendo:
os processos educativos formais e não-formais que têm como foco 
o patrimônio cultural apropriado socialmente como recurso para a 
compreensão sócio histórica das referências culturais em todas as 
suas manifestações, com o objetivo de colaborar para o seu reco-
nhecimento, valorização e preservação. (IPHAN, 2014, p. 5)
Ainda, o IPHAN considera a educação patrimonial como um dos 
processos pelos quais se prima a construção coletiva e democrática do 
conhecimento, dentro do ambiente reconhecido por diversas noções de 
Patrimônios Culturais.
– 143 –
Educação Patrimonial
No Guia Básico de Educação Patrimonial (1999), Maria de Lourdes 
Parreiras Horta, Evelina Grunberg e Adriane Queiroz Monteiro, exem-
plificam e conceituam a educação patrimonial como uma “alfabetização 
cultural”, permitindo que o indivíduo que a estuda e aplica a metodologia 
educacional conheça o espaço e compreenda o ambiente sociocultural e 
paisagem histórico-temporal em que se insere.
Figura 10.2 – Sala de Aula
Fonte: Shutterstock.com/Zurijeta.
Após a criação do SPHAN (Serviço de Patrimônio Histórico e Artís-
ticoNacional) em 13 de janeiro de 1937, da Lei n. 378, durante o Estado 
novo, é que ocorre a preocupação em relação aos Patrimônios Históri-
cos e a identidade cultural do Brasil. A partir disso, surge a construção 
da nacionalidade, pois começam a ser valorizadas as festas nacionais, as 
comemorações religiosas e as manifestações esportivas e artísticas brasi-
leiras, como por exemplo, a capoeira. Independentemente de suas raízes, 
essas manifestações começaram a ser melhor valorizadas e abraçadas, 
tornando-as características fundamentais para a identificação da naciona-
lidade brasileira.
O IPHAN, a partir daí, começa a desenvolver o projeto de naciona-
lização da cultura brasileira, bem como a valorização da cultura popular. 
Dessa forma, a criação de formas de divulgar e motivar o conhecimento 
do que é cultura, patrimônio e preservação dos bens nacionais começa a 
ser mais forte.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 144 –
Figura 10.3 – Apresentação de Olodum. Salvador, Bahia, Brasil
Fonte: Shutterstock.com/Joa Souza.
Para a melhor identificação e formalização do que é caracterizado 
como de interesse cultural e Patrimônio Nacional, existem leis quanto à 
proteção e preservação. Essas leis ajudam no desenvolvimento da educa-
ção patrimonial, uma vez que as mesmas leis devem ser ressaltadas para 
demonstrar a importância e a falta que a educação patrimonial faz em 
relação à preservação da identidade cultural nacional.
Leis Federais – As disposições legais mais importantes estão 
incluídas no Decreto-Lei nº 25/1937 que cria o Instituto do Tom-
bamento, na Lei de Arqueologia nº 3.924/6, nas atribuições conti-
das na Constituição Federal de 1988 – Art. 215 e 216, nas normas 
sobre a entrada e saída de obras de arte do país, e no Decreto nº 
3.551, de 4 de agosto de 2000, que institui o Registro de Bens 
Culturais de Natureza Imaterial que constituem Patrimônio Cul-
tural Brasileiro e cria o Programa Nacional do Patrimônio Imate-
rial; Leis Estaduais – a gestão do Patrimônio Cultural do Estado 
da Bahia é regulamentada pelo Decreto nº 10.039 de 03 de julho 
de 2006, que regulamenta a Lei nº 8.895; pela Lei nº 8.895 de 16 
de dezembro de 2003 que instituiu normas de proteção e estímulo 
à preservação do Patrimônio Cultural do Estado da Bahia, cria a 
Comissão de Espaços Preservados; e pela Lei nº 8.899 de 18 de 
dezembro de 2003 que institui o Registro dos Mestres dos Saberes 
e Fazeres do Estado da Bahia; Leis Municipais – além do Plano 
Diretor de Desenvolvimento Urbano - PDDU que regulamenta a 
ocupação e uso do solo urbano, o Município ainda pode promulgar 
leis específicas de proteção. (IPAC, [s.d.], p. 7)
– 145 –
Educação Patrimonial
As vertentes amplas que a Educação Patrimonial oferece estão rela-
cionadas à questão de preservação do Patrimônio Cultural e conhecimento 
da identidade nacional cultural. Toda a conservação patrimonial cultural 
ou histórica é de interesse coletivo, um interesse da sociedade brasileira 
como um todo, levando em conta a referência da identidade nacional e 
a memória coletiva. Portanto, a importância da educação patrimonial é 
grande, uma vez que se utiliza de uma metodologia de conscientização e 
conhecimento da própria identidade nacional.
Figura 10.4 – Diversidade Cultural Nacional
Fonte: Shutterstock.com/SimpleB.
A educação patrimonial deveria ter sido implantada como uma matéria 
comum aos currículos escolares, mas se tem apenas palestras curtas e bási-
cas em algumas escolas, o que não é suficiente para o aprofundamento do 
Patrimônio Histórico e Cultural, dos bens materiais e imateriais, da educa-
ção cultural e da investigação do ambiente onde o aluno está inserido.
10.2 A educação patrimonial no uso da História
A relação da História com o Patrimônio Histórico-Cultural é 
fortemente visível, uma vez que a história e a antropologia estão juntas 
para a criação de dinâmicas eficazes em relacionar o Patrimônio Cultural 
com os estudos e conteúdos canônicos,
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 146 –
porque essa relação favorece a criação de pontos de contato 
com o universo cultural dos alunos, permitindo a apreensão sig-
nificativa de assuntos considerados de difícil compreensão, por 
sua distância no tempo e no espaço, pois que apropriados pelos 
discentes a partir de suas referências culturais. Na medida em 
que tais referências são conhecidas, a memória torna-se refle-
tida, as lembranças se tornam experiências permitindo melhor 
compreensão da natureza histórica dos acontecimentos, contri-
buindo na formação cidadã dos educandos. (VIANA; MELLO, 
2013, p. 1)
O patrimônio cultural também é objeto da história. Ele pode ser 
investigado, estudado e problematizado pelos historiadores e é um tema 
relevante para a pesquisa histórica. Na História, o patrimônio está rela-
cionado à caracterização de memória identitária, ou seja, uma memória 
que pertence e caracteriza um indivíduo a ela relacionada. Vejamos que 
um Patrimônio Cultural pertencente à nação é uma memória cultural, 
a qual pode ser material ou imaterial; ele é a origem ou a busca pela 
identidade da sociedade, como por exemplo o samba, a dança ou a pró-
pria música.
Figura 10.5 – Identidade étnica
Fonte: Shutterstock.com/UltraViolet.
Há de se considerar que não somente é válida a opinião histórica ou 
antropológica, mas ainda mais forte a opinião pública, já que os valores 
agregados ao que é considerado patrimônio estão na utilização e opinião 
da sociedade como um todo. Portanto, a história se responsabiliza em 
estudar a importância histórica e o sentido que se dá à trajetória dos indi-
víduos e dos grupos.
– 147 –
Educação Patrimonial
10.3 Mediação cultural
A mediação cultural está inserida em um dos métodos de comparti-
lhamento da cultura, por meio de expressões artísticas e produtos cultu-
rais, por meio da sociedade, seja por pontos de diálogo ou mídia em geral. 
Como método, a mediação cultural é uma forma de educação informal que 
procura acolher o visitante, respeitar sua cultura e, por meio do diálogo, 
construir uma nova leitura do objeto ou do espaço cultural apreciado.
A mediação, então, é a busca e o alcance do cidadão ao direito cul-
tural, que por sua vez oferece ainda mais conhecimento e ajuda na com-
preensão do espaço e da sociedade, assumindo a uma identidade social. A 
mediação pode ser entendida também como um dos processos de aprendi-
zado cultural humano, em que se aprende a agir e pensar em relação a nós 
mesmos e aos outros.
Basicamente, por meio da mediação, nos tornamos outros mediado-
res e conhecedores da nossa e de outras culturas, podendo assim compre-
ender o desenvolvimento social.
Figura 10.6 – Multicultura racial
Fonte: Shutterstock.com/GagliardiImages.
É importante que cada cidadão tenha vínculo ou acesso à vivência 
das ofertas culturais de sua região. A mediação cultural, num todo, é a 
maneira pela qual a informação é comunicada aos ouvintes, seja em um 
museu, em um centro de ciências, em teatros, parques, zoológicos etc., 
cujo objetivo é enriquecer e complementar os conhecimentos de quem é 
mediado sobre a cultura e o patrimônio.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 148 –
Figura 10.7 – Guia mediador naturalista. Reserva do Equador
Fonte: Shutterstock.com/Ammit Jack.
A mediação cultural não se limita a um mediador (guia), mas é feita 
também por meio de materiais ou produtos contendo informações rele-
vantes em relação ao objeto cultural. Por exemplo, algo que signifique ou 
traga a memória cultural, ou ainda, que traga ao cotidiano a execução da 
cultura, desde objetos materiais até objetos imateriais, como a música ou 
a dança.
10.4 Na prática
Todo o processo de gestão do patrimônio cultural necessita de uma 
ação educativa, cujo o trabalho é de construção coletiva, em que o pro-
fessor/técnico auxilia e ensina formasde preservação de um Patrimônio 
Histórico e Cultural. Todo o estudo de Patrimônio Cultural é um campo de 
conflito, já que há divergências entre os pensamentos de o que é patrimônio 
e o que deve ser valorizado.
As instituições gestoras dos patrimônios da sociedade são as media-
doras na construção dos ambientes de aprendizagem, onde será discutido 
o que é ou não um Patrimônio Cultural. A ação educativa surge a partir 
da identificação do que é patrimônio e da cultura a que está habilitado 
esse patrimônio.
– 149 –
Educação Patrimonial
Desde o início, a comunidade sempre deve estar envolvida na dis-
cussão do que deve ou não ser considerado de interesse patrimonial, por 
meio de oficinas com educação patrimonial e com a voz da comunidade 
dizendo o que é Patrimônio Cultural para ela e quais são as referências 
que o tornam um patrimônio. Já existe legislação em relação à educação 
patrimonial, a Portaria n. 137, de 28 de abril de 2016, que diz que deve-se 
estabelecer marcos normativos de educação patrimonial nos âmbitos do 
IPHAN e de Casas do Patrimônio.
Trabalhar com o Patrimônio Cultural traz consigo o conceito de sus-
tentabilidade e desenvolvimento social, a partir da memória e da cultura. 
Começa a se agregar um coletivo de pertencimento à cultura local; dessa 
forma, se resgata uma memória coletiva. Sendo assim, se torna fundamen-
tal a participação de toda a sociedade, levando em conta a história local, a 
memória local e a história de vida das pessoas.
A sensação de se sentir pertencente à cultura local é importante para 
a valorização do Patrimônio Cultural. Valoriza-se e preserva-se ainda mais 
aquilo que se conhece.
Atividades
1. De que forma ou de quais formas a História pode auxiliar na 
compreensão do Patrimônio Cultural?
2. Como as artes podem ser caracterizadas ou definidas como 
Patrimônio Cultural?
3. Quais dificuldades podem ser encontradas ao aplicar a educa-
ção patrimonial?
4. Qual a importância de se identificar ou de se ter uma identi-
dade social?
Gabarito
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 152 –
1. O conceito de cultura
1.	 Os	dois	significados	mais	comuns	atribuídos	à	palavra	cultura	são:
 2 o	de	cultura	enquanto	acúmulo	de	conhecimentos	formais	
e,	principalmente,	ligados	à	produção	cultural	artística.
 2 o	de	cultura	enquanto	um	modo	de	vida,	uma	tradição	ligada	
à	nacionalidade	ou	à	identidade	de	um	grupo	determinado.
2. Cultivar	no	sentido	de	cuidar	da	terra	e	dos	animais;	cultivo	do	espí-
rito,	das	faculdades	mentais;	junto	com	civilização	representando	
um	processo	geral	de	progresso	intelectual	e	espiritual,	tanto	indi-
vidual	como	social;	a	expressão	dos	valores	subjetivos,	mais	liga-
dos	ao	chamado	espírito	do	que	a	uma	razão	universal;	ao	processo	
geral	de	desenvolvimento	“íntimo”,	em	oposição	ao	“externo”;
A	 cultura	 como	 processo	 de	 desenvolvimento,	 de	 educação.	
Como	consequência,	também	era	vista	como	o	conjunto	de	tra-
balhos	e	práticas	de	atividade	intelectual	e	especialmente	artís-
tica:	a	música,	a	literatura,	a	escultura,	entre	outras.	As	chamadas	
belas	artes	que	deveriam	formar	o	bom	gosto	e	o	senso	estético	
das	pessoas.
Por	fim,	como	um	modo	de	vida	específico	ligado	às	tradições	
nacionais	ou	a	um	mundo	utópico,	perdido,	porém	valorizado	
pela	literatura	e	pelas	artes	em	geral.
3. O	chamado	“darwinismo	social”	influenciou	e	motivou	teorias	
racistas	 que	 justificaram	 a	 escravização	 de	 seres	 humanos	 e	
até	seu	extermínio.	Por	estas	teorias,	o	termo	raça	definiria	um	
grupo	 humano	 com	 características	 próprias	 –	 físicas,	 psicoló-
gicas	e	culturais	–	transmitidas	desde	os	seus	antepassados.	As	
diferenças	 humanas	 seriam	 determinadas	 essencialmente	 pelo	
fator	biológico	e,	deste	modo,	os	indivíduos	de	uma	determinada	
raça	herdariam,	além	dos	traços	físicos,	as	aptidões	do	seu	grupo	
social	de	nascimento.
4. As	ideias	são	o	conjunto	de	conhecimentos,	formais	e	informais.	
Se	formais,	comumente,	são	passados	de	geração	para	geração	
– 153 –
Gabarito
por	meio	da	educação	formal	na	escola.	Se	informais,	por	meio	
da	educação	não	formal,	pela	família,	pelos	grupos	de	relaciona-
mento	ou	instituições	que	trabalham	com	esta	forma	de	ensino.	
Vale	observar	que,	muitas	vezes,	aquele	conhecimento	que	num	
momento	era	considerado	informal,	acaba	adquirindo	um	status 
de	formal	e	é	incorporado	aos	currículos	escolares.	Isto	é,	esta	
definição	não	é	tão	rígida	e	muda	com	o	tempo.
As	crenças	são,	em	resumo,	aquilo	que	coletivamente	acredita-
mos,	algumas	vezes	com	base	racional	e,	em	outras,	por	meio	da	
fé	institucionalizada,	ou	não,	pelas	religiões.
Por	 valores	 podemos	 entender	 o	 que	 forma	 nossa	 ideologia,	
nossa	moral,	o	que	consideramos	certo	e	errado,	bom	ou	ruim.
Quando	nossos	valores	são	organizados,	compilados	em	leis	e	
códigos,	surgem	os	elementos	chamados	de	normas.	Então,	as	
normas	são	as	leis,	os	costumes	coletivos	seguidos	pela	tradição.
Nos	 nossos	 relacionamentos	 com	 pessoas	 que	 pertencem	 ao	
nosso	grupo	social	ou	não,	temos	determinadas	atitudes	ou	com-
portamentos.	Algumas	vezes	estes	comportamentos	são	passa-
dos	pela	família,	pelo	grupo	de	relação	mais	próximo	e,	popu-
larmente,	chamamos	de	“educação”	e	disto	decorrem	expressões	
como	“mal-educado”	ou	“bem-educado”.
Normas,	comportamentos,	atitudes	e	valores	 são	produzidos	e	
reproduzidos	 pelo	 o	 que	 denominamos	 instituições.	 De	 certa	
forma,	as	instituições	garantem	a	permanência	e	a	difusão	dos	
elementos	culturais.	Podem	ser	 instituições	culturais,	como	os	
museus;	educacionais,	como	as	escolas	e	universidades;	religio-
sas,	como	as	várias	igrejas	e	suas	crenças.	Enfim,	as	instituições,	
das	mais	simples	às	mais	complexas,	existem	para	preservar	e	
controlar	nossos	comportamentos.
As	sociedades,	tanto	as	mais	simples	como	aquelas	mais	com-
plexas,	desenvolvem	e	dominam	determinadas	técnicas	e	habili-
dades.	Com	o	passar	do	tempo,	muitas	destas	sociedades	incor-
poram	estas	técnicas	e	habilidades	em	processos	de	manufatura	
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 154 –
ou	de	indústria	mais	sofisticados.	Porém,	quando	pensamos	em	
sociedades	menos	complexas,	é	possível	identificar	certas	habi-
lidades	e	 técnicas	em	vários	ramos	de	atividade	como	a	cons-
trução,	 a	 culinária,	 a	 agricultura,	 as	 artes,	 artesanato	 etc.	Até	
mesmo	a	arquitetura	e	seus	estilos	trazem	muito	das	técnicas	e	
habilidades	de	um	povo.	Quem	nunca	ouviu	falar	da	arquitetura	
grega,	ou	japonesa,	dentre	muitas	outras?
Por	fim,	existem	os	instrumentos	e	utensílios	que	as	sociedades	
utilizam	para	aperfeiçoar	suas	 técnicas,	habilidades,	modos	de	
vida.	São	chamados	de	artefatos.	A	Arqueologia	tem	nos	artefa-
tos	um	dos	objetos	de	estudo	e	pelos	quais	procura	reconstruir	o	
modo	de	vida	dos	nossos	antepassados	mais	distantes.
2. Memória e Patrimônio Cultural
1.	 A	memória	 constitui,	 atualmente,	uma	 seara	do	conhecimento	
estudada	 por	 diversas	 ciências.	 A	 memória	 enquanto	 instru-
mento	que	deve	ser	funcional	ao	indivíduo	e	à	manutenção	deste	
funcionamento	é	objeto	de	estudo	constante	da	neurologia,	por	
exemplo,	 e	 de	 seus	 interesses	 pelas	 falhas	 nessa	 ferramenta,	
como	o	mal	de	Alzheimer.
A	memória	enquanto	potência	de	salvaguarda	de	informações	
e	da	recuperação	consciente	ou	não	destas	informações,	guar-
dadas	as	devidas	proporções	e	divergências	sobre	a	confiabili-
dade	desta	recuperação,	tem	sido	há	muitos	anos	um	dos	inte-
resses	da	psicologia.
Já	a	memória	enquanto	foco	de	reflexões	sobre	a	própria	exis-
tência	de	si	e	as	possibilidades	de	ação	a	partir	dela	é,	desde	a	
Grécia	Clássica,	tema	dos	debates	da	filosofia.
Ainda,	enquanto	objeto	que	pode	ser	moldado	subjetivamente,	
enquanto	matéria	que	pode	ser	eleita	como	principal	em	detri-
mento	 de	 outras	 em	 mesmo	 nível	 e	 enquanto	 submissaao	
silenciamento,	ou	esquecimento,	como	preferem	alguns	teóri-
cos,	a	memória	tem	sido	também	considerada,	principalmente	
após	a	década	de	1930,	com	maior	proximidade	pela	história.
– 155 –
Gabarito
2. As	primeiras	interpretações	feitas	sobre	Lascaux	foram	de	temá-
ticas	arqueológicas,	especialmente	por	se	tratarem	de	restos	de	
atividades	de	grupos	humanos	extintos	e	com	modos	de	vida	há	
muito	 substituídos	e/ou	 transformados.	Em	seguida,	 a	história	
da	 arte	 tratou	 de	 analisar	 os	 desenhos,	 as	 cores,	 as	 formas,	 e	
passou	a	produzir	possíveis	intenções	sobre	a	visualidade	daque-
las	figuras.	Também,	mais	recentemente,	e	é	aí	que	se	aproxima	
dos	estudos	sobre	a	memória,	o	ato	de	registrar	as	formas	ani-
mais,	 por	 exemplo,	 em	Lascaux,	 passou	 a	 chamar	 atenção	 de	
estudiosos	da	área.	As	questões	feitas	remetem-se	à	intenção	de	
terem	sido	realizados	esses	registros	dentro	das	cavernas.	Seria	
uma	comunicação	dos	membros	do	grupo	com	outros	que	talvez	
não	conhecessem	a	realidade	apresentada	nos	desenhos?	Seria	
uma	forma	de	inscrever	no	tempo,	cristalizando	em	formas	nas	
paredes,	as	atividades	realizadas?	Seria,	ainda,	uma	vontade	de	
transmissão	de	algum	conhecimento	para	futuras	gerações?	Sem	
poder	 responder	 especificamente	 estas	 perguntas,	 uma	 inter-
pretação	 teórica	que	podemos	fazer	é	que,	 irremediavelmente,	
talvez	até	sem	esse	intento,	os	registros	inscrevem	nas	paredes	
da	 caverna	 em	 suas	 diferentes	 passagens	 e	 salas	 um	 conheci-
mento	adquirido	na	experiência	(da	caça,	do	descobrimento	do	
ambiente,	do	contato	com	o	que	cercava	os	indivíduos	daquele	
momento),	acondicionado	na	memória	e	posteriormente	recupe-
rado	e	articulado	nos	desenhos	que	temos	nos	dias	atuais.	Nova-
mente,	 talvez	mesmo	sem	perceberem,	os	desenhos	se	 tornam	
inevitavelmente	uma	forma	de	preservação	de	um	conhecimento	
e	de	uma	memória,	neste	caso	a	memória	de	quem	realizou	a	
atividade	de	pintura,	seja	ela	adquirida	por	meio	de	conversas	
entre	pintores	e	caçadores,	na	possibilidade	de	haver	esta	divisão	
de	atividades	no	grupo	humano	que	ali	habitou,	ou	por	meio	da	
vivência	plena	do	ser	em	seu	contexto	que,	posterior	à	realização	
dessa	vivência,	a	marcou	nas	paredes	de	Lascaux.
3. O	que	se	considera	ao	tratar	da	memória	em	todos	os	aspectos	
é	que	a	interpretação	do	passado	realizada	por	meio	dela	é	sem-
pre	fruto	do	presente	de	quem	tenta,	quer	ou	consegue	lembrar.	
A	memória	 está	 ligada	 ao	nosso	presente,	 à	 nossa	 posição	no	
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 156 –
mundo	 e	 na	 sociedade,	 tanto	 que	 em	diferentes	momentos	 de	
nossas	 vidas	 lembramos	mais	 facilmente	 de	 coisas	 diferentes.	
A	memória	é,	com	isso,	uma	representação	do	passado	funda-
mentada	na	vivência	do	presente.	Não	 se	 trata	 de	 tirar	 de	um	
baú	informações	há	muito	guardadas,	mas	sim	de	tratar	do	que	e	
como	fazer	para	inseri-las	no	presente	de	quem	lembra.
4. Durante	 as	 ações	 da	 Igreja	 Católica	 na	 Idade	Média	 ociden-
tal,	 outras	 foram	 as	 relações	 com	 a	 memória.	As	 confissões,	
por	 exemplo,	 trazem	 à	 tona	 a	 vontade	 e	 a	 capacidade	 criada	
pela	 Igreja	de	se	execrar	da	memória	os	sentimentos	de	culpa	
mediante	a	franca	fala	sobre	as	faltas	cometidas	e	o	pagamento	
das	devidas	penitências.	Os	sacerdotes	tinham	o	poder,	dotado	
por	meio	 da	 agregação	de	 valores	 simbólicos,	 de	 ouvir,	 dar	 a	
solução	e	acabar	com	as	marcas	negativas	da	vida	das	pessoas,	
portanto,	 de	 suas	 próprias	memórias.	Outra	 função	da	memó-
ria	na	Idade	Média,	com	o	poder	extremado	da	Igreja	Católica	
como	 o	 primeiro	 estamento	 da	 sociedade,	 foi	 de	 substituir	 os	
antigos	heróis	pelos	santos.	A	agregação	de	valores	era	a	mesma:	
a	exaltação	de	uma	pessoa	a	um	patamar	superior	aos	demais,	
reles	mortais.	A	criação	desses	ícones	nada	mais	é	que	a	manu-
tenção	da	memória	de	alguém	dotada	de	glórias,	vitórias,	abne-
gações	e	ações	essenciais	ao	governo,	no	caso	da	Antiguidade,	
e	 à	 Igreja,	 no	 caso	medieval.	 Ser	 considerado	 santo	 na	 Idade	
Média	ou	herói	na	Antiguidade	era	 receber	os	 louvores,	espe-
cialmente	 no	post mortem,	 por	 atividades	 desempenhadas	 em	
vida	e	reconhecidas	por	quem	pode	agregar	ou	não	os	valores	
simbólicos	essenciais	para	a	eternização	do	nome	e	da	vida	de	
alguma	pessoa.
3. O patrimônio desde sua 
origem até o século XXI
1.	 A	terminologia	patrimônio	é	atribuída	a	uma	série	de	significa-
dos.	No	dicionário,	pode	ser	definida	como	um	bem	individual	
que	 tem	um	grande	valor	emocional	ou	capital,	mas	 também	
– 157 –
Gabarito
pode	ser	um	bem	conjunto,	aquele	que	está	presente	e	é	notável	
para	 a	manutenção	 cultural	 e	 histórica	 da	 sociedade	 ao	 qual	
está	inserido.
2. Patrimônio	Material:	definido	pelo	Iphan	como	imóveis,	como	
as	cidades	históricas,	sítios	arqueológicos	e	paisagísticos	e	bens	
individuais;	ou	móveis,	como	coleções	arqueológicas,	acervos	
museológicos,	documentais,	bibliográficos,	arquivísticos,	vide-
ográficos,	fotográficos	e	cinematográficos	(IPHAN,	1988).
Patrimônio	Imaterial:	é	em	base	o	maior	responsável	pela	demo-
cratização	da	preservação	da	cultura,	arte	e	história,	afinal,	não	
está	 necessariamente	 relacionado	 às	 questões	 do	 capital,	 são	
atos,	saberes,	 indivíduos,	entre	outros,	que	nasceram	e	se	pre-
servam	por	 atitude	e	 encorajamento	popular.	Só	 se	preservam	
vivos	na	memória	por	serem	de	atitudes	coletivas	e	de	nenhuma	
forma	podem	ser	impostas,	afinal,	como	já	discutido,	a	cultura	
vem	do	povo.
Patrimônio	Arqueológico:	os	locais	onde	se	encontram	vestígios	
positivos	 de	 ocupação	 humana,	 os	 sítios	 identificados,	 como	
cemitérios,	sepulturas	ou	locais	de	pouso	prolongado	ou	de	alde-
amento,	 “estações”	e	 “cerâmicos”,	grutas,	 lapas	 e	 abrigos	 sob	
rocha.	Além	das	 inscrições	 rupestres	 ou	 locais	 com	 sulcos	 de	
polimento,	os	sambaquis	e	outros	vestígios	de	atividade	humana	
(IPHAN,	1988).
Patrimônio	Mundial:	definido	por	um	conjunto	de	bens	que	tem	
relevância	para	a	conservação	da	história,	arte,	identidade,	cul-
tura	 ou	memória	 de	 todas	 as	 populações.	 O	 responsável	 pela	
administração	deste	 patrimônio	 é	 a	Convenção	do	Patrimônio	
Mundial	Cultural	e	Natural	(UNESCO).
3. Mario	 de	 Andrade	 estava	 fortemente	 relacionado	 com	 ques-
tões	 de	 folclore	 e	 cultura	 nacional,	 inclusive	 quando	 da	 pré-
-formulação	do	SPHAN,	o	poeta	era	o	diretor	do	Departamento	
de	Cultura	de	São	Paulo.	Nesse	cargo	fez	diversas	viagens	ao	
Nordeste	do	Brasil,	o	que	lhe	deu	bagagem	intelectual	suficiente	
para	criar,	em	1947,	a	Comissão	Nacional	do	Folclore.	Mario	de	
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 158 –
Andrade	 tentou	dar	visibilidade	aos	aspectos	não	 só	materiais	
como	 imateriais	 da	 cultura	 nacional,	 em	 suas	mais	 diferentes	
características	e	posições	sociais.
Em	 1988,	 o	 ideal	 de	 patrimônio	 questionado	 por	 Mario	 de	
Andrade	é	revisitado,	passando	a	assumir	o	Patrimônio	Imaterial	
como	um	bem	a	ser	tombado.
4. A	paisagem	cultural	é,	nas	palavras	de	Sauer	(apud	CORRÊA;	
ROSENDAHL,	1998,	p.	9),	“modelada	a	partir	de	uma	paisagem	
natural	por	um	grupo	cultural.	A	cultura	é	o	agente,	a	área	natural	
é	o	meio,	a	paisagem	cultural	o	resultado”.	Todavia,	Sauer	privi-
legiou	a	análise	morfológica	da	paisagem	cultural	e	os	aspectos	
materiais	da	cultura,	não	considerando	seus	aspectos	subjetivos.
4. Patrimônio e Propriedade
1.	 O	 patrimônio	 destinado	 à	 preservação	 deve	 corresponder	 às	
necessidades	da	sociedade	a	qual	está	inserido,	deve	fazer	parte	
de	sua	cultura	e	dizer	algo	sobre	seus	hábitos,	é	desta	maneira	
que	ele	passa	a	existir.
2. A	 sociedade	 pós-moderna	 compreende	 a	 propriedade	 numa	
construção	social	e	é	desejável	que	todos	dentro	dela	tenham	as	
mesmas	oportunidades	de	possuir	uma.
3. A	educação	 patrimonial	 busca	 levar	 aos	 alunos	 conhecimentobásico	sobre	o	que	é	patrimônio,	o	que	é	cultura	e	a	importância	
da	legitimação	de	ambos	os	conceitos	para	a	formação	de	uma	
identidade	social.	A	educação	patrimonial	se	tornou	o	braço	forte	
do	Patrimônio	Cultural,	e	por	meio	dela	o	processo	de	democra-
tização	ao	acesso	ocorre.
4. A	apropriação	cultural	é	o	uso	de	atributos	da	cultura	alheia,	é	se	
apropriar	de	ritos,	modos	de	viver,	arquitetura,	jeitos	de	vestir.	A	
apropriação	cultural	se	intensificou	após	a	globalização	mundial	
e	o	advento	da	internet;	hoje,	é	simples	e	rápido	conhecer	outra	
cultura	e	encontrar	nela	referências	para	usar	para	si.
– 159 –
Gabarito
5. Patrimônio, representação e identidade
1.	 Para	Durkheim	a	representação	da	sociedade	se	dá	como	uma	
maneira	 de	 compreender	 os	 indivíduos	 coletivamente,	 obser-
vando	a	cultura	e	os	modos	de	viver	de	uma	sociedade	pode-se	
compreendê-la.	 Já	Moscovici	 objetivou	 seus	 estudos	 em	dife-
renciar	 os	mais	 heterogêneos	modos	 de	 pensar	 coletivamente	
dentro	da	sociedade	do	século	XX.
2. Ser	exemplos	excepcionais	que	representem	processos	ecológi-
cos	e	biológicos	significativos	para	a	evolução	e	o	desenvolvi-
mento	de	ecossistemas	terrestres,	costeiros,	marítimos	e	de	água	
doce	 e	 de	 comunidades	de	plantas	 e	 animais;	 ou	 conter	 fenô-
menos	naturais	extraordinários	ou	áreas	de	uma	beleza	natural	
e	 uma	 importância	 estética	 excepcional;	 ou	 conter	 os	 habitats	
naturais	mais	importantes	e	mais	representativos	para	a	conser-
vação	 in situ	 da	 diversidade	 biológica,	 incluindo	 aqueles	 que	
abrigam	espécies	 ameaçadas	que	possuam	um	valor	 universal	
excepcional	do	ponto	de	vista	da	ciência	ou	da	conservação.
3. A	identidade	é	um	fenômeno	social,	que	elege	o	Patrimônio	Cul-
tural	e	é	formada	pelas	suas	diferenças	e	igualdades.	O	patrimônio	
é	o	 resultado	das	diferentes	 formas	de	ver	e	viver	a	 sociedade.	
A	 identidade	faz	parte	de	nós	e	é	componente	 insubstituível	da	
sociedade,	 seja	 uma	 identidade	 construída	 pelas	minorias,	 seja	
uma	identidade	construída	pela	mais	alta	escala	dos	níveis	sociais.
4. Michael	Pollak	discute	que	o	indivíduo	possui	uma	identidade	
única,	contudo,	ninguém	pode	construir	uma	imagem	própria	e	
esperar	que	os	outros	não	a	 transformem.	A	identidade	indivi-
dual	depende	da	sociedade,	por	exemplo,	quando	nos	olhamos	
no	espelho,	vemos	nossa	autoimagem,	mas	por	mais	idêntica	a	
nós	que	ela	esteja	ela	está	ao	contrário,	sofreu	alterações
6. Patrimônio Cultural no mundo
1.	 A	 resposta	 é	 simples:	 seja	 como	 um	 explorador,	 busque	
conhecer	primeiramente	o	patrimônio	e	investigá-lo	sem	agre-
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 160 –
dir.	Uma	forma	que	poucos	sabem,	mas	que	ajuda	a	preservar	
lugares	e	os	patrimônios	é	divulgando,	quanto	mais	pessoas	
souberem	da	existência,	mais	atenção	será	dada,	e	dessa	forma	
será	preservado.
2. Para	que	um	patrimônio	se	torne	patrimônio	independente	que	
seja	material	ou	imaterial,	é	preciso	existir	valores	atribuídos	ao	
objeto	em	questão,	e	um	desses	valores	é	a	relação	da	humani-
dade	com	o	objeto.	Sendo	assim,	todos	temos	uma	relação	com	
o	patrimônio.	A	agressão	a	sua	natureza	somente	vai	existir	se	
houver	o	risco	de	depredação.	Muitos	patrimônios	correm	ris-
cos,	em	principal	os	imateriais,	por	consequência	do	desenvol-
vimento	social	e	sua	multiplicação,	tradições,	religiões,	música	
etc.	Uma	forma	de	se	preservar,	ainda	assim,	é	pela	divulgação;	
entidades	como	as	citadas	na	obra	são	responsáveis	por	cultivar	
e	informar	a	existência	desses	patrimônios.
3. Os	Patrimônios	Municipal,	 Estadual,	Nacional	 e	Mundial	 são	
bens	de	todos.	Por	isso,	devemos	preservá-los	como	se	fossem	
algo	de	mais	precioso	e	particular	nosso,	bem	como	 ter	cons-
ciência	de	 seu	valor	histórico	e	cultural.	O	patrimônio	guarda	
riquezas	memoriais	para	Patrimônios	Materiais	e	 Imateriais,	e	
biológicas	no	caso	dos	Patrimônios	Naturais.	Por	meio	de	mui-
tos	patrimônios,	se	estudam	comportamentos	da	sociedade	con-
temporânea	e	se	conhece	mais	a	história	local	e	mundial.
4. A	História	Ambiental	é	um	campo	de	estudo	que	se	 relaciona	
com	 outros	 campos,	 como	 biologia,	 geografia	 e	 antropologia,	
para	 investigar	 o	 ambiente	 do	 qual	 a	 humanidade	 tem	 se	 uti-
lizado	no	decorrer	da	história.	Donald	Worster	vai	dizer	que	a	
História	Ambiental	começa	a	surgir	quando	o	desenvolvimento	
global	e	a	necessidade	de	preservação	começam	a	se	idealizar.
Não	 somente	 isso,	 a	 História	Ambiental	 procura	 investigar	 e	
entender	 as	 interações	 ambientais	 relacionadas	 às	 interações	
sociais	no	ecossistema	natural;	por	exemplo,	investigar	os	ves-
tígios	de	interações	humanas	em	uma	floresta	dita	como	intocá-
vel	e	que	nunca	fora	habitada	por	humanos.	Contudo,	a	História	
– 161 –
Gabarito
Ambiental	também	visa	estudar	as	mudanças	causadas	pela	inte-
ração	humana	com	o	ambiente	natural.
Para	ser	mais	claro,	esse	campo	de	pesquisa	 investiga	as	rela-
ções	humanas	com	os	resultados	ambientais,	como	por	exemplo	
os	estudos	e	causas	dos	derretimentos	das	geleiras	da	Antártida.
7. As políticas públicas e o 
Patrimônio Cultural no Brasil
1.	 A	reforma	da	constituição	elaborada	no	ano	de	1988	veio	para	
somar	 às	 conquistas	 culturais,	 isso	 porque	 a	 nova	 e	moderna	
Constituição	 elaborava	 medidas	 da	 mais	 vasta	 especialidade	
para	os	mais	diversos	tipos	de	Patrimônios	Culturais.	O	Brasil	
avançava	 cada	 dia	mais	 para	 que	 o	Patrimônio	Cultural	 fosse	
realmente	 levado	a	 sério.	As	políticas	públicas	de	valorização	
do	património	passaram	a	ser	democráticas,	dando	acesso	e	visi-
bilidade	para	a	sociedade	civil;	além	disso,	muitas	das	iniciati-
vas	visavam	a	participação	efetiva	do	povo.
2. A	 importância	 desse	 tombamento	 se	 dá	 por	 diversos	 fatores,	
o	 principal	 deles	 é	 a percepção	 da	 influência	 da	 cultura	 afro-
-brasileira	para	a	Bahia,	além	do	fato	desse	Patrimônio	Cultural	
fugir	totalmente	dos	princípios	de	tombamento	que	priorizavam	
as	construções	luso-brasileiras.	Era	a	primeira	vez	na	história	da	
preservação	brasileira	que	a	cultura	das	minorias	era	visitada	e	
compreendida	como	importante	e	influente.
3. O	Plano	de	Ação	para	Cidades	Históricas	é	um	trabalho	constru-
ído	entre	os	estados,	municípios	e	o	IPHAN	com	o	objetivo	de	
integração	do	Patrimônio	Cultural	Brasileiro	como	um	todo,	ou	
seja,	a	ideia	é	a	valorização	da	cidade	toda	e	não	apenas	de	patri-
mônios	específicos.	É	a	valorização	do	território	urbano	e	não	
apenas	de	bens	isolados	e,	para	isso,	realizam	metas	e	objetivos	
para	serem	realizados	pelos	órgãos	destinados	dentro	das	cida-
des	e	dos	estados;	também	contam	com	o	auxílio	das	empresas	
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 162 –
privadas	e	da	sociedade	civil	para	o	bom	funcionamento	e	anga-
riamento	de	verba	para	agir	de	forma	local.
4. Podemos	concluir,	portanto,	que	as	políticas	públicas	vêm	em	
favor	 da	 salvaguarda	 dos	 bens	materiais	 e	 imateriais	 de	 valo-
res	 históricos,	 artísticos	 e	 paisagísticos	 nacionais,	 contudo,	
nenhuma	 destas	 políticas	 poderá	 funcionar	 com	 eficiência	 se	
feita	sem	a	legitimação	da	sociedade	civil,	agente	de	importante	
valor	dentro	desse	movimento.	É	graças	à	comunidade	que	os	
Patrimônios	Culturais	 são	 selecionados,	 tombados	 e	 sofrem	 a	
ação	 política	 de	 proteção.	 Sem	o	 cuidado	 intensivo	 dos	 devi-
dos	interessados	(a	sociedade),	é	muito	provável	que	as	entida-
des	 responsáveis	 também	não	cumpram	seu	papel.	É	de	suma	
importância	que	as	pessoas	tenham	atitudes	de	cobrança	e	amor	
quando	se	trata	de	seus	patrimônios,	de	suas	histórias.
8. Patrimônio Cultural e Meio Ambiente
1.	 Para	John	B.	Jackson	(1984,	p.	5)	a	paisagem	“é	uma	realidade	
concreta	e	compartilhada	tridimensionalmente”,	ou	seja,	paisa-
gem	seria	um	grande	grupo	de	espaços	e	esses	espaços	são	resul-
tado	de	transformaçõeshumanas,	isso	porque	a	paisagem,	para	o	
autor,	é	analisada	por	meio	da	arquitetura	e	do	urbanismo.
2. A	 paisagem	 cultural	 é	 aquela	 que	 sofreu	 mudanças	 no	 seu	
natural;	essas	mudanças	 foram	realizadas	pelo	homem	e	elas	
narram	conceitos	culturais	humanos.	Um	bom	exemplo	de	pai-
sagem	cultural	são	as	comunidades	indígenas,	as	reservas;	essa	
sociedade	envolta	pela	natureza	faz	parte	da	paisagem,	mas	a	
modificou,	 construiu	 suas	 tendas,	 cortou	 algumas	 árvores.	A	
comunidade	 indígena	 transforma	a	paisagem	natural	em	uma	
paisagem	cultural.
3. Questões	econômicas	são,	em	geral,	o	maior	 inimigo	da	pre-
servação	 da	 paisagem	 cultural	 no	 Brasil,	 isso	 porque	 essas	
paisagens,	muitas	vezes,	se	localizam	em	lugares	de	interesse	
comercial,	 como	 jazidas	 de	 ouro,	 por	 exemplo.	As	 próprias	
– 163 –
Gabarito
reservas	indígenas	são	atacadas	quase	que	diariamente	para	se	
transformarem	 em	 lugares	 de	 exploração	 de	madeira	 e	 bens	
econômicos	naturais.
4. O	Patrimônio	Natural	é	aquele	ligado	ao	meio	ambiente.	Com-
preendemos	a	importância	da	natureza	para	a	formação	da	cul-
tura	 humana	 e,	 partindo	 disso,	 podemos	 definir	 que	 todas	 as	
formas	 naturais	 podem	 ser	 consideradas	 patrimônio,	 inclusive	
aquelas	às	quais	o	homem	ainda	não	atribuiu	finalidade.	Já	a	pai-
sagem	cultural	são	os	meios	naturais	que	sofreram	interferência	
humana	e,	mesmo	assim,	não	perderam	suas	características,	na	
verdade	ajudaram	a	construir	a	cultura	e	a	diversidade	cultural	
que	vemos	no	nosso	país.	Infelizmente,	ambos	os	aspectos	aca-
bam	sendo	desvalorizados	pelos	órgãos	culturais,	que	quase	não	
possuem	atribuições	especificas	para	a	manutenção	e	proteção	
dos	patrimônios	de	ordem	natural.
9. Os Marcos Legais
1.	 As	cartas	patrimoniais	foram	uma	série	de	esforços	para	ela-
borar	regimentos	que	fornecessem	os	alicerces	da	atuação	dos	
profissionais	da	área	do	Patrimônio	Cultural.	São	documentos	
vindos	de	períodos	distintos,	organizados	por	grupos	com	prio-
ridades	diversas.
Segundo	Kuhl	(2010),	as	cartas	são	documentos	concisos	e	sin-
tetizam	os	pontos	 a	 respeito	dos	quais	 foi	possível	obter	 con-
senso,	oferecendo	indicações	de	caráter	geral.
Embora	formulados	por	participantes	de	congressos	internacio-
nais,	os	princípios	sobre	a	conservação	e	a	restauração	seriam	
aplicáveis	de	acordo	com	o	contexto	cultural	de	cada	nação.
2. Entre	algumas	das	propostas	elencadas	na	carta,	vale	ressaltar	a	
criação	de	organizações	internacionais	para	a	revisão	e	avaliação	
criteriosa	dos	processos	de	restauro,	com	a	intenção	de	preve-
nir	equívocos	que	descaracterizem	certas	estruturas,	danificando	
seu	atribuído	valor	histórico.
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 164 –
A	 carta	 criou	 uma	movimentação	 que	 favoreceu	 a	 criação	 de	
legislações	nacionais,	e	organizações	como	o	ICOM	(Conselho	
Internacional	de	Museus)	e	a	UNESCO,	construindo	um	amplo	
movimento	internacional.
3. No	 documento,	 o	 patrimônio	 é	 encarado	 como	 testemunho	 da	
História	e	das	tradições	de	uma	sociedade.	Fazem	parte,	além	de	
obras	de	arte	e	monumentos,	edificações	e	sítios	de	grande	signi-
ficância	e	construções	modestas	que	tenham	adquirido	relevância	
cultural.	O	 trabalho	de	 restauro	e	conservação	é	visto	como	de	
caráter	interdisciplinar,	requerendo	a	assistência	de	todas	as	ciên-
cias	para	a	salvaguarda	e	manutenção	permanente	do	patrimônio.
Podemos	 perceber,	 a	 partir	 da	 leitura	 do	 documento,	 que	 ele	
propõe	uma	visão	que	respeita	às	intervenções	da	passagem	do	
tempo,	encarando	o	monumento	como	um	documento	histórico.
4. Conforme	o	Art.	216º	da	constituição:
Constituem	patrimônio	cultural	brasileiro	os	bens	de	natureza	mate-
rial	e	 imaterial,	 tomados	 individualmente	ou	em	conjunto,	porta-
dores	de	referência	à	identidade,	à	ação,	à	memória	dos	diferentes	
grupos	formadores	da	sociedade	brasileira,	nos	quais	se	incluem:
I	–	as	formas	de	expressão;
II	–	os	modos	de	criar,	fazer	e	viver;
III	–	as	criações	científicas,	artísticas	e	tecnológicas;
IV	–	as	obras,	objetos,	documentos,	edificações	e	demais	espa-
ços	destinados	às	manifestações	artístico-culturais;
V	–	os	conjuntos	urbanos	e	sítios	de	valor	histórico,	paisagístico,	
artístico,	 arqueológico,	 paleontológico,	 ecológico	 e	 científico	
(BRASIL,	1988).
10. Educação Patrimonial
1.	 A	História	busca	estudar	a	humanidade	e	os	eventos	que	ocor-
rem	ao	longo	da	história;	dessa	forma,	consequentemente	está	
– 165 –
Gabarito
vinculada	a	estudar	e	compreender	o	que	se	entende	por	Patri-
mônio	Cultural.	Como	já	ressaltado	ao	longo	de	todo	o	capí-
tulo,	a	história	problematiza	os	valores	culturais	e	históricos	do	
patrimônio,	 tendo	como	resultado	os	valores	de	 identificação	
para	a	sociedade.	Mas	como	a	opinião	pública	prevalece,	quem	
decide	o	que	de	fato	é	ou	não	Patrimônio	Cultural	para	a	nação	
é	a	sociedade!
A	História	busca	defender	a	ideia	de	que	o	Patrimônio	Cultural	é	
de	fato	válido	para	a	identidade	da	sociedade,	uma	vez	que	o	uso	
e	a	execução	de	longo	prazo	o	caracterizaram	assim.	A	mediação	
histórica	e	cultural	auxilia	na	melhor	compreensão,	e	pesquisas	e	
livros	são	ainda	mais	aprofundados.
2. Toda	arte	que	tenha	valor	histórico	ou	pertencente	a	um	indiví-
duo	ou	grupo	é	considerada	patrimônio.	Como	vimos,	o	Patri-
mônio	Cultural	 é	 julgado	pelos	 seus	valores	 culturais	 e	 histó-
ricos.	 Para	 um	 patrimônio	 ser	 considerado	 nacional,	 é	 levada	
em	conta	toda	a	sua	história	e	a	construção	identitária	do	povo.	
Como	 exemplo,	 são	 caracterizados	 como	 Patrimônio	Cultural	
estilos	musicais	como	o	fandango	e	o	samba.	Nas	danças	popu-
lares	 brasileiras,	 podemos	 destacar:	 danças	 folclóricas,	 frevo,	
quadrilha	e	maracatu.
3. A	maior	dificuldade	encontrada	atualmente	é	a	falta	de	qualifica-
ção	em	educação	patrimonial.	Levando	em	conta	que	o	pouco	que	
se	tem	ainda	é	de	qualidade,	atualmente	o	Brasil	não	possui	como	
disciplina	de	currículo	escolar	a	educação	patrimonial.	Encontra-
mos	maiores	informações	sobre	os	patrimônios	e	quais	são	eles	
por	meio	dos	museus	e	mediações	ou	pesquisas	mais	aprofunda-
das	de	forma	particular.	Não	se	vê	professores	qualificados	pas-
sando	informações	mais	aprofundadas	sobre	a	cultura	ou	sobre	o	
que	é	Patrimônio	Cultural	nas	escolas.	Por	falta	de	informações,	
muitos	não	se	sentem	próximos	de	sua	realidade	cultural	ou	do	
que	é	um	Patrimônio	Cultural	e	a	quê	se	aplica	o	termo.
4. Todos	nós	desejamos	 ter	algo	em	especial,	que	nos	diferencie	
dos	outros,	ou	que	nos	faça	mais	independentes.	A	procura	por	
uma	identidade	própria	ou	a	construção	dessa	identidade	base-
Memória e Patrimônio Histórico-Cultural
– 166 –
ada	na	cultura	é	significativa,	já	que	nos	tornamos	mais	“inde-
pendentes”,	ainda	que	o	histórico	cultural	brasileiro	seja	baseado	
em	outras	culturas,	vindas	da	Europa	e	da	África.	Mesmo	assim,	
possuímos	 características	 próprias,	 culturais	 e	 históricas.	 Um	
exemplo	de	busca	identitária	desesperadora	foi	no	Paraná,	após	
a	emancipação:	a	procura	por	uma	identidade	própria	culminou	
na	 construção	 de	 um	movimento	 conhecido	 por	 “paranismo”,	
que	influenciou	a	arte	e	movimentos	políticos.	Na	arte,	buscava	
valorizar	as	paisagens	do	Estado,	construindo	símbolos;	na	polí-
tica,	enaltecia	o	Estado,	que	agora	começava	um	novo	curso	em	
busca	de	identidade	própria.	A	sociedade	é	sedenta	por	cultura	e	
sedenta	por	demonstrá-la.
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O campo de estudos do Patrimônio Cultural é, por excelência, um campo multi-
disciplinar. Ele envolve a História, a Geografia, a Antropologia, a Arqueologia, a 
Arquitetura, as Artes visuais, o Direito, dentre outros.
O profissional de História, tanto no magistério quanto em outros espaços de 
atuação, será cada vez mais demandado na área do Patrimônio Cultural. Mu-
seus, centros de pesquisa, universidades e órgãos e preservação demandam 
esse serviço de forma crescente.
Foi pensando na perspectiva da atuação profissional que essa obra foi escrita. 
Ela abrange, de forma panorâmica, os conteúdos principais desse campo do 
saber: conceito de cultura, relações entre a história e a memória, cultura e pro-
priedade, marcos legais, identidade, Patrimônio Ambiental, órgãos de preser-
vação e educação patrimonial.
Trata-se de uma obra introdutória que não esgota o assunto; pelo contrá-
rio, apenas inaugura um caminho para que profissionais, dos mais diversos 
campos, aprofundem seus estudos, multipliquem pesquisas e ampliem nosso 
conhecimento sobre um tema tão importante para a nossa sociedade.
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