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1. Conceito de Psicopatologia: Ramo da ciência que trata da natureza essencial da doença mental – suas causas, as mudanças estruturais e funcionais associadas a ela e as formas como ela se manifesta. 2. Conceito de Semiologia (Semiologia – estudo dos signos) (signo – elemento nuclear da semiologia; constituído por estes dois elementos: o significante – suporte material, o veículo do signo; significado – aquilo que é designado e que está ausente, o conteúdo do veículo; Há três tipos de signos: o ícone, o indicador e o símbolo). 2.1. Semiologia Médica: É o estudo dos sinais e sintomas das doenças, estudo que permite ao profissional de saúde identificar as alterações físicas e mentais, ordenar os fenômenos observados, formular diagnósticos e empreender terapêuticas. 2.2. Semiologia Psicopatológica: o estudo dos sinais e sintomas dos transtornos mentais. Os signos de maior interesse para a psicopatologia são os sinais comportamentais objetivos, verificáveis pela observação direta do paciente, e os sintomas, isto é, as vivências subjetivas relatadas pelos pacientes, suas queixas e narrativas, aquilo que o sujeito experimenta e, de alguma forma, comunica a alguém. - Sintomas objetivos (percebidos pelo examinador); - Sintomas subjetivos (queixas subjetivas do paciente ex: dor de cabeça, alucinações, etc.). - Sinais são os achados objetivos no exame do paciente (ex: sinal de Romberg, sinal de Babinski, etc.). 3. Dimensão dupla do sintoma psicopatológico: indicador e símbolo ao mesmo tempo. - O sintoma como índice indica uma disfunção que está em outro ponto do organismo ou do aparelho psíquico, numa relação de contiguidade (ex. A febre pode corresponder a uma infecção que induz os leucócitos a liberarem certas citocinas que, por sua ação no hipotálamo, produzem o aumento da temperatura). - os sintomas, ao serem nomeados pelo paciente, por seu meio cultural ou pelo médico, passam a ser “símbolos lingüísticos” no interior de uma linguagem (ex: a angústia manifesta-se como mãos geladas, tremores e aperto na garganta, e ao ser tal estado designado como nervosismo, neurose, ansiedade ou gastura, pode ser interpretado e passa a receber certo significado simbólico dentro de um universo cultural). 4. Divisões da Semiologia: 4.1. Semiotécnica: técnicas e procedimentos específicos de observação e coleta de sinais e sintomas, assim como à descrição de tais sintomas. Para os transtornos mentais: entrevista (paciente, familiares e outros com quem convive); # Fundamental, sobretudo para a semiotécnica em psicopatologia, é a observação minuciosa, atenta e perspicaz do comportamento do paciente, do conteúdo de seu discurso e do seu modo de falar, da sua mímica, da postura, da vestimenta, da forma como reage e do seu estilo de relacionamento com o entrevistador, com outros pacientes e com seus familiares. 4.2. Semiogênese (ou propedêutica): campo de investigação da origem, dos mecanismos, do significado e do valor diagnóstico e clínico dos sinais e sintomas. 5. Síndromes e Entidades Nosológicas (entidades nosológicas: Conjunto de manifestações patológicas caracterizadas pela sua composição e constância, constituindo uma situação ou doença individualizada/ nosos= doença) 5.1. Síndromes – agrupamentos relativamente constantes e estáveis de determinados sinais e sintomas (ex: síndrome depressiva, demencial, paranóide, etc.). 5.2. Entidades nosológicas, doenças ou transtornos específicos – fenômenos mórbidos nos quais podem se identificar certos fatores causais, um curso relativamente homogêneo, estados terminais típicos, mecanismos psicológicos e psicopatológicos característicos, antecedentes genético-familiares algo específicos e respostas a tratamentos mais ou menos previsíveis. 5.3. Etiologia – fatores causais. Em psicopatologia e psiquiatria trabalha-se mais com síndromes do que com doenças. Questões de revisão 1) Estabeleça um paralelo entre os conceitos de semiologia, semiologia médica e semiologia psicopatológica: R: Semiologia é o estudo dos signos, Embora seja relacionada à linguística, a semiologia geral engloba também os signos, os gestos, as atitudes e os comportamentos não verbais. Enquanto a semiologia médica estuda os sinais e sintomas das doenças, o que permite ao profissional identificar alterações e formular o diagnóstico, a semiologia psicopatológica estuda os sinais e sintomas dos transtornos mentais. 2) Quais os signos de maior interesse para a psicopatologia? R: Os sinais comportamentais objetivos, percebidos pela avaliação direta do paciente, e os sintomas, isto é, as vivências subjetivas relatadas pelos pacientes, suas queixas e narrativas, aquilo que o sujeito experimenta e, de alguma forma, comunica a alguém. 3) Explique a dupla dimensão do sintoma psicopatológico. R: Eles são tanto um indicador como um símbolo. O indicador aponta para uma disfunção que está em outro ponto do aparelho psíquico. Além de tal dimensão, os sintomas psicopatológicos, quando nomeados pelo paciente, passam a ser símbolos linguísticos que podem ser compreendidos dentro de um universo cultural. Um exemplo é a angústia, que pode se manifestar ao mesmo tempo como tremores (disfunção do sistema nervoso autônomo) e ansiedade (significado simbólico-cultural). 4) Como se subdivide a semiologia médica/psicopatológica? R: Em Semiogênese e semiotécnica. Semiotécnica: técnicas de observação e coleta de sinais e sintomas, assim como à descrição de tais sintomas. Para os transtornos mentais. Ela engloba a entrevista direta com o paciente, seus familiares e demais pessoas do convívio do paciente. Parte fundamental do processo é a observação minuciosa, atenta e perspicaz do paciente. Semiogênese: campo de investigação da origem, dos mecanismos, do significado e a investigação do valor diagnóstico e clínico dos sinais e sintomas. Definição de Psicopatologia e Organização de Seus Fenômenos 1. Conceito de Psicopatologia: Ramo da ciência que trata da natureza essencial da doença mental – suas causas, as mudanças estruturais e funcionais associadas a ela e as formas como ela se manifesta. - Em acepção mais ampla, pode ser definida como o conjunto de conhecimentos referentes ao adoecimento mental do ser humano. É um conhecimento que se esforça por ser sistemático, elucidativo e desmistificante. E por ser científico não inclui critérios de valor, nem aceita dogmas (filosófico, religioso, biológico, psicológico) ou verdades a priori. 2. O campo da psicopatologia – fenômenos humanos especiais, associados ao que tem sido historicamente chamado doença mental. São vivências, estados mentais e comportamentais que apresentam, por um lado, uma especificidade psicológica (dimensão própria e genuína) e, por outro, conexões complexas com a psicologia do normal. Suas raízes vêm das tradições médicas e das humanistas. - Karl Jaspers, um dos principais nomes da psicopatologia, afirma que esta é uma ciência básica que serve de auxílio à psiquiatria. - O objeto da psicopatologia – segundo Jaspers, o homem na sua totalidade, contudo não se pode explicar o homem somente com conceitos psicopatológicos. Ex: ao se diagnosticar Van Gogh como esquizofrênico (epiléptico, maníaco-depressivo ou qualquer que seja o diagnóstico formulado), ao se fazer uma análise psicopatológica de sua biografia, isso nunca explicará totalmente sua vida e sua obra. Sempre resta algo que transcende à psicopatologia e mesmo à ciência, permanecendo no domínio do mistério. - A psicopatologia não é a única abordagem a tratar do homem mentalmente doente. - O domínio da psicopatologia - todo fenômeno psíquico que possa apreender-se em conceitos de significação constantes e com possibilidade de comunicação. Embora a psicopatologia trabalhe com o pensamento rigoroso e sistemático, a intuição pessoal é admitida na prática profissional. 3. Forma e conteúdodos Sintomas 3.1. Forma dos Sintomas – sua estrutura básica, relativamente semelhante nos diversos pacientes (alucinação, delírio, ideia obsessiva, labilidade afetiva, etc.). 3.2. Conteúdo dos Sintomas – (de caráter pessoal) é aquilo que preenche a alteração da estrutura (conteúdo de culpa, religioso, de perseguição, etc.). Depende da história de vida do paciente e seu ambiente onde vive. De modo geral, o conteúdo dos sintomas está ligado aos temas centrais da existência humana, que representam uma espécie de substrato para a experiência psicológica do indivíduo (morte, doença, sentido existencial, dinheiro, poder, sexo, religião, etc.), que entra como ingrediente fundamental na constituição da experiência psicopatológica. Temas e interesses centrais do ser humano: Sexo, Alimentação e Conforto físico – Sobrevivência e prazer. Dinheiro, Poder e Prestígio – Segurança e Controle sobre o outro. Temores centrais no ser humano e as formas de lidar com isso: Morte – Religião,/mundo místico, Continuidade através das novas gerações. Ter uma doença grave, sofrer dor física e moral, Miséria – Vias mágicas/medicina/psicologia, etc. 4. A ordenação dos fenômenos em psicopatologia - O estudo da doença mental inicia pela observação cuidadosa de suas manifestações. - Para observar é preciso produzir, definir, classificar, interpretar e ordenar seguindo certa lógica. - Para Aristóteles, o problema da classificação é a questão da unidade e da variedade dos fatos e dos conhecimentos que sobre eles são produzidos. - Distinguem-se três tipos de fenômenos humanos para a psicopatologia: a) Fenômenos semelhantes em todas as pessoas – ex: fome, sede, sono, medo de um animal perigoso, a ansiedade perante uma prova, o desejo por uma pessoa amada, etc. b) Fenômenos em parte semelhantes e em parte diferentes – o homem comum experimenta, mas apenas em parte são semelhantes aos que o doente mental vivencia. Ex: todos sentem tristeza, mas é apenas parcialmente semelhante à alteração profunda, avassaladora, de um paciente com depressão psicótica. A depressão grave, por exemplo, com ideias de ruína, lentificação psicomotora, apatia, etc., introduz algo qualitativamente novo na experiência humana. c) Fenômenos qualitativamente novos, diferentes – são próprios apenas a certas doenças e estados mentais. Aqui incluem fenômenos psicóticos, como alucinações, delírios, turvação da consciência, alteração da cognição nas demências, entre outros. Questões de revisão 1) Defina psicopatologia e comente suas origens e seu campo de atuação. R: É o ramo da ciência que trata da natureza essencial da doença mental – suas causas, as mudanças estruturais e funcionais associadas a ela e as formas como ela se manifesta. Suas raízes vêm das tradições médicas e naturais, e seu campo de atuação são os fenômenos humanos especiais, aqueles que têm sido historicamente chamados doença mental. 2) Discuta os dois aspectos básicos dos sintomas psicopatológicos: forma e conteúdo. R: A forma diz respeito à sua estrutura básica, a maneira como ele se apresenta, relativamente semelhante nos diversos pacientes (alucinação, delírio, ideia obsessiva, labilidade afetiva, etc.), e o conteúdo é aquilo que preenche a alteração da estrutura (conteúdo de culpa, religioso, de perseguição, etc.). 3) Relacione os temas centrais da existência humana com o conteúdo dos sintomas psicopatológicos. R: Os temas centrais da existência humana, tais como a morte, dinheiro, doença, sentido da existência, etc. representam uma espécie de substrato que entra como ingrediente fundamental na constituição da experiência psicopatológica. 4) Descreva a ordenação dos fenômenos psicopatológicos em semelhantes, parcialmente semelhantes e qualitativamente novos. R: Semelhantes – aqueles comuns a todos os seres humanos, como fome, sede, medo, ansiedade. Parcialmente semelhantes – aqueles que o homem comum experimenta, mas que são apenas semelhantes em parte ao que o doente mental vivencia. Qualitativamente novos – aqueles próprios apenas a certas doenças e estados mentais. O conceito de normalidade em psicopatologia - Questão controversa na psicopatologia. Nos casos em que os sintomas são acentuados e de longa duração, é fácil estabelecer a fronteira entre o normal e o patológico. Entretanto, há casos limítrofes onde fica difícil delimitar comportamentos e formas de sentir normais ou patológicas. - O conceito de normalidade em psicopatologia também implica a própria definição do que é saúde ou doença mental. - Não é uma questão apenas da psicopatologia, mas tem desdobramentos em várias áreas da saúde mental: a) psiquiatria legal ou forense, onde o que é normal ou patológico pode ter implicações criminais, legais ou éticas. b) epidemiologia psiquiátrica, onde a definição de normalidade é tanto um problema como objeto de trabalho e pesquisa. c) Psiquiatria cultural e etnopsiquiatria, onde o conceito de normalidade é tema importante de pesquisas e debates, recebendo este ou aquele significado cultural. d) Planejamento em saúde mental e políticas de saúde, no sentido de verificar as demandas assistenciais de determinado grupo populacional, as necessidades de serviços, quais e quantos serviços devem ser colocados à disposição. e) Orientação e capacitação profissional, a fim de que indivíduos possam exercer certa profissão, manipular máquinas, usar armas, dirigir veículos, etc. f) Prática clínica – é muito importante a capacidade de discriminar, no processo de avaliação e intervenção clínica, se tal ou qual fenômeno é patológico ou normal, se faz parte de um momento existencial do indivíduo ou é algo francamente patológico. 1. Critérios de Normalidade São vários os critérios de normalidade e anormalidade em medicina e psicopatologia. Depende, entre outras coisas, de opções filosóficas, ideológicas e pragmáticas do profissional. Os principais: a) Normalidade como ausência de doença – Normal, do ponto de vista psicopatológico, seria, então, aquele indivíduo que simplesmente não é portador de um transtorno mental definido. Esse critério é bastante falho e precário, redundante, e baseado em uma “definição negativa”, onde normalidade não é aquilo que supostamente é, mas, sim, aquilo que ela não é, o que lhe falta. b) Normalidade ideal – A normalidade aqui é tomada como uma “utopia”. Estabelece-se uma norma ideal, o que é supostamente “sadio”, mais “evoluído”. Tal norma é, de fato, socialmente constituída e referendada. Depende, portanto, de critérios socioculturais e ideológicos arbitrários, e, às vezes, dogmáticos e doutrinários. c) Normalidade estatística – Identifica norma e frequência. Se aplica especialmente a fenômenos quantitativos, com determinada distribuição estatística na população geral (como peso, altura, tensão arterial, horas de sono, quantidade de sintomas ansiosos, etc.). O normal passa a ser aquilo que se observa com mais frequência, e os indivíduos que se situam estatisticamente fora (ou no extremo) de uma curva de distribuição normal passam, por exemplo, a ser considerados anormais ou doentes. d) Normalidade como bem-estar – A OMS definiu, em 1946, a saúde como o completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente como ausência de doença. É um conceito criticável, pois bem-estar é algo difícil de definir objetivamente. Além disso, esse completo bem-estar físico, mental e social utópico que poucas pessoas se encaixariam na categoria “saudável”. e) Normalidade funcional – baseia-se em aspectos funcionais e não necessariamente quantitativos. O fenômeno é considerado patológico a partir do momento em que é disfuncional, produz sofrimento para o próprio indivíduo ou para o seu grupo social. f) Normalidade como processo - mais que uma visão estática, onde são considerados os aspectos dinâmicos do desenvolvimento psicossocial, das desestruturações e das reestruturaçõesao longo do tempo, de crises, de mudanças próprias a certos períodos etários. g) Normalidade subjetiva – maior ênfase à percepção subjetiva do próprio indivíduo em relação a seu estado de saúde, às suas vivências subjetivas. O ponto falho é que muitas pessoas que se sentem bem, “muito saudáveis e felizes”, como no caso de sujeitos em fase maníaca, apresentam, de fato, um transtorno mental grave. h) Normalidade como liberdade – alguns autores de orientação fenomenológica e existencial propõem conceituar a doença mental como perda da liberdade existencial. Assim, a saúde mental se vincularia às possibilidades de transitar com graus distintos de liberdade sobre o mundo e sobre o próprio destino. i) Normalidade operacional – Um critério assumidamente arbitrário, com finalidades pragmáticas explícitas. Define-se, a priori, o que é normal e o que é patológico e busca-se trabalhar operacionalmente com esses conceitos, aceitando as consequências de tal definição prévia. Questões de revisão 1) Que áreas da saúde mental estão relacionadas com e implicadas no conceito de normalidade em psicopatologia? R: psiquiatria legal ou forense, epidemiologia psiquiátrica, Psiquiatria cultural e etnopsiquiatria, Planejamento em saúde mental e políticas de saúde, Orientação e capacitação profissional, Prática clínica. 2) Quais são os principais critérios de normalidade interligados em psicopatologia e quais suas “forças” e “debilidades”? a) Normalidade como ausência de doença – critério falho e precário, onde normalidade se define por aquilo que lhe falta. b) Normalidade ideal – Dogmático e doutrinário. Estabelece-se arbitrariamente uma norma ideal do que é “sadio”. c) Normalidade estatística – O normal passa a ser aquilo que se observa com mais frequência, e os indivíduos que se situam estatisticamente fora, são considerados anormais ou doentes. d) Normalidade como bem-estar – bem-estar físico, mental e social é algo difícil de definir objetivamente, além de ser utópico. e) Normalidade funcional – baseia-se em aspectos funcionais e não necessariamente quantitativos. O fenômeno é considerado patológico a partir do momento em que é disfuncional. f) Normalidade como processo - São considerados os aspectos dinâmicos do desenvolvimento psicossocial, das desestruturações e das reestruturações ao longo do tempo, de crises, de mudanças próprias a certos períodos etários. g) Normalidade subjetiva – maior ênfase à percepção subjetiva do próprio indivíduo em relação a seu estado de saúde, às suas vivências subjetivas. O ponto falho é que muitas pessoas que se sentem bem, “muito saudáveis e felizes”, como no caso de sujeitos em fase maníaca, apresentam, de fato, um transtorno mental grave. h) Normalidade como liberdade – Saúde mental se vincularia às possibilidades de transitar com graus distintos de liberdade sobre o mundo e sobre o próprio destino. i) Normalidade operacional – Um critério assumidamente arbitrário, com finalidades pragmáticas explícitas. Define-se, a priori, o que é normal e o que é patológico e busca-se trabalhar operacionalmente com esses conceitos, aceitando as consequências de tal definição prévia. Os Principais campos e tipos de psicopatologia - Multiplicidade de abordagens e referenciais teóricos nos últimos 200 anos. Tal multiplicidade é vista por alguns como “debilidade” científica, como prova de sua imaturidade (excesso de explicações e teorias). - A psicopatologia é um campo de conhecimento que requer debate constante e aprofundado. O conflito de ideias não é uma debilidade, mas uma necessidade. - Algumas das principais correntes da psicopatologia, dispostas de forma arbitrária, por motivos estritamente didáticos, em pares antagônicos. PSICOPATOLOGIA DESCRITIVA VERSUS PSICOPATOLOGIA DINÂMICA - Para a psiquiatria descritiva, interessa fundamentalmente a forma das alterações psíquicas, a estrutura dos sintomas e aquilo que caracteriza a vivência patológica como sintoma mais ou menos típico (registrar o que é mórbido e formular um diagnóstico a partir dos sintomas da doença, com base no que já está classificado) - Já para a psiquiatria dinâmica, interessa o conteúdo da vivência, os movimentos internos de afetos, desejos e temores do indivíduo, sua experiência particular, pessoal, não necessariamente classificável em sintomas previamente descritos (escutar o doente, dar menor importância ao que é mórbido e chegar a um diagnóstico impessoal, na tentativa de compreender a singularidade do seu paciente). A boa prática em saúde mental implica a combinação hábil e equilibrada de uma abordagem descritiva, diagnóstica e objetiva e uma abordagem dinâmica, pessoal e subjetiva do doente e de sua doença. PSICOPATOLOGIA MÉDICA VERSUS PSICOPATOLOGIA EXISTENCIAL - A perspectiva médico-naturalista trabalha com uma noção de homem centrada no corpo, no ser biológico como espécie natural e universal. Assim, o adoecimento mental é visto como um mau funcionamento do cérebro, uma disfunção de alguma parte do “aparelho biológico”. - Na perspectiva existencial, o doente é visto principalmente como “existência singular”, como ser lançado a um mundo que é apenas natural e biológico na sua dimensão elementar, mas é fundamentalmente histórico e humano. O ser é construído por meio da experiência particular de cada sujeito, na sua relação com outros sujeitos, na abertura para a construção de cada destino pessoal. A doença mental, nessa perspectiva, não é vista tanto como disfunção biológica ou psicológica, mas, sobretudo, como um modo particular de existência, uma forma trágica de ser no mundo, de construir um destino, um modo particularmente doloroso de ser com os outros. PSICOPATOLOGIA COMPORTAMENTAL-COGNITIVISTA VERSUS PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA - Na visão comportamental, o homem é visto como um conjunto de comportamentos observáveis, verificáveis, que são regulados por estímulos específicos e gerais, e por certas leis e determinantes do aprendizado. Associada a isso, a perspectiva cognitivista centra atenção sobre as representações cognitivas conscientes de cada indivíduo, que seriam vistas como essenciais ao funcionamento mental, normal e patológico. Os sintomas resultam de comportamentos e representações cognitivas disfuncionais, aprendidas e reforçadas pela experiência sociofamiliar. - Na visão psicanalítica, o homem é visto como ser “determinado”, dominado, por forças, desejos e conflitos inconscientes. A psicanálise dá grande importância aos afetos, que, segundo ela, dominam o psiquismo; o homem racional, autocontrolado, senhor de si e de seus desejos, é, para ela, uma enorme ilusão. Na visão psicanalítica, os sintomas e síndromes mentais são considerados formas de expressão de conflitos, predominantemente inconscientes, de desejos que não podem ser realizados, de temores os quais o indivíduo não tem acesso. O sintoma é encarado, nesse caso, como uma “formação de compromisso”, um arranjo entre o desejo inconsciente, as normas e as permissões culturais e as possibilidades reais de satisfação desse desejo. A resultante desse emaranhado de forças, dessa “trama conflituosa” inconsciente, é o que se identifica como sintoma psicopatológico. PSICOPATOLOGIA CATEGORIAL VERSUS PSICOPATOLOGIA DIMENSIONAL As entidades nosológicas ou transtornos mentais específicos podem ser compreendidos como entidades completamente individualizadas, com contornos e fronteiras bem demarcados. As categorias diagnósticas seriam “espécies únicas”, tal qual espécies biológicas, cuja identificação precisa constituiria uma das tarefas da psicopatologia. Assim, entre a esquizofrenia e os transtornos afetivos bipolares e os delirantes, haveria, por exemplo, uma fronteira nítida, configurando-os como entidades ou categorias diagnósticas diferentes e discerníveis na sua natureza básica. - A perspectiva “dimensional” em psicopatologia, queseria hipoteticamente mais adequada à realidade clínica. Haveria, então, dimensões como, por exemplo, o espectro esquizofrênico, que incluiria desde formas muito graves, tipo “demência precoce” (com grave deterioração da personalidade, embotamento afetivo, muitos sintomas residuais), formas menos deteriorantes de esquizofrenia, formas com sintomas afetivos, chegando até um outro pólo, de transtornos afetivos, incluindo formas com sintomas psicóticos até formas puras de depressão e mania (hipótese esta que se relaciona à antiga noção de psicose unitária). PSICOPATOLOGIA BIOLÓGICA VERSUS PSICOPATOLOGIA SOCIOCULTURAL - A psicopatologia biológica enfatiza os aspectos cerebrais, neuroquímicos ou neurofisiológicos das doenças e dos sintomas mentais, alterações de mecanismos neurais e de determinadas áreas e circuitos cerebrais. Nessa visão “doenças mentais são (de fato) doenças cerebrais”. - A perspectiva sociocultural visa estudar os transtornos mentais como comportamentos desviantes que surgem a partir de certos fatores socioculturais, como discriminação, pobreza, migração, estresse ocupacional, desmoralização sociofamiliar, etc. Os sintomas e os transtornos devem ser estudados no seu contexto eminentemente sociocultural, simbólico e histórico, onde os sintomas recebem seu significado, e, portanto, poderiam ser precisamente estudados e tratados. A cultura, em tal perspectiva, é elemento fundamental na própria determinação do que é normal ou patológico, na constituição dos transtornos e nos repertórios terapêuticos disponíveis em cada sociedade. PSICOPATOLOGIA OPERACIONAL PRAGMÁTICA VERSUS PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL - Na visão operacional-pragmática, as definições básicas de transtornos mentais e sintomas são formuladas e tomadas de modo arbitrário, em função de sua utilidade pragmática, clínica ou orientada à pesquisa. Não são questionados a natureza da doença ou do sintoma e tampouco os fundamentos filosóficos ou antropológicos de determinada definição. Trata-se do modelo adotado pelas modernas classificações de transtornos mentais; o DSM-IV, norteamericano, e a CID-10, da OMS. - O projeto de psicopatologia fundamental, proposto pelo psicanalista francês Pierre Fedida, visa centrar a atenção da pesquisa psicopatológica sobre os fundamentos de cada conceito psicopatológico. Além disso, tal psicopatologia dá ênfase à noção de doença mental como pathos, que significa sofrimento, paixão e passividade, que pode ser transformado em experiência e enriquecimento. Questões de revisão 1) Cite e defina oito correntes da psicopatologia. R: ver acima 2) Discuta as principais diferenças entre a psicopatologia médica e a existencial, assim como entre a psicopatologia categorial e a dimensional. R: A psicopatologia médica vê o homem como um ser biológico. O adoecimento mental é visto como um mau funcionamento do cérebro, uma disfunção de alguma parte do “aparelho biológico”. - A existencial vê o homem como “existência singular”, como ser lançado a um mundo que é apenas natural e biológico na sua dimensão elementar, mas é fundamentalmente histórico e humano, construído por meio da sua experiência particular. A doença mental, nessa perspectiva, não é vista tanto como disfunção biológica ou psicológica, mas, sobretudo, como um modo particular de existência, uma forma trágica de ser no mundo, de construir um destino, um modo particularmente doloroso de ser com os outros. - Na Psicopatologia Categorial, as entidades nosológicas ou transtornos mentais específicos podem ser compreendidos como entidades completamente individualizadas, com contornos e fronteiras bem demarcados, diferentes e discerníveis na sua natureza básica. - Na perspectiva “dimensional” em psicopatologia, que seria hipoteticamente mais adequada à realidade clínica, haveria, então, dimensões nosológicas que incluiria desde formas muito graves até formas mais leves menos deteriorantes. Princípios gerais do Diagnóstico Psicopatológico - Há pelo menos duas posições extremas: a) o diagnóstico em psiquiatria não tem valor, pois cada pessoa é única e, assim inclassificável. O diagnóstico psiquiátrico apenas rotula as pessoas diferentes, legitimando o poder médico e o controle social (particularmente válido nos regimes totalitários). b) O valor e o lugar do diagnóstico em psiquiatria são absolutamente semelhantes ao valor e ao lugar do diagnóstico nas outras especialidades médicas. O diagnóstico é o elemento principal e mais importante da prática psiquiátrica. Apesar de ser importante considerar os aspectos pessoais, singulares de cada indivíduo, sem um diagnóstico psicopatológico aprofundado não se pode nem compreender adequadamente o paciente e seu sofrimento, nem escolher a melhor estratégia terapêutica. - Os diagnósticos são ideias (constructos), fundamentais para o trabalho científico, para o conhecimento do mundo, mas não objetos reais e concretos. Aristóteles defende que somente o individual é real; o que se tem é acesso direto apenas aos objetos concretos e particulares. - Há, no processo diagnóstico, uma relação dialética permanente entre o particular, individual (aquele paciente em particular), e o geral, universal (a categoria diagnóstica a qual o indivíduo pertence). - Tanto na natureza como na esfera humana, podem-se distinguir três grupos de fenômenos em relação à possibilidade de classificação: a) Aspectos e fenômenos encontrados em todos os seres humanos – categoria ampla demais para a classificação, sendo pouco útil o seu estudo taxonômico. De modo geral, em todos os indivíduos a privação das horas de sono causa sonolência, e a restrição alimentar, fome; ou seja, são fenômenos triviais que não despertam grande interesse à psicopatologia. b) Aspectos e fenômenos encontrados em algumas pessoas, mas não em todas – De maior interesse para a classificação diagnóstica em psicopatologia. Aqui situa a maioria dos sinais, sintomas e transtornos mentais. c) Aspectos e fenômenos encontrados em apenas um ser humano – restritos demais e de difícil classificação e agrupamento, tendo maior interesse os seus aspectos antropológicos, existenciais e estéticos que propriamente taxonômicos. - De modo geral, pode-se afirmar que o diagnóstico só é útil e válido se for visto como algo mais que simplesmente rotular o paciente. Esse tipo de utilização do diagnóstico psiquiátrico seria uma forma precária, questionável e não propriamente científica. - Rotular estimula preconceitos que devem ser combatidos. - A legitimidade do diagnóstico psiquiátrico sustenta-se na perspectiva de aprofundar o conhecimento, tanto do indivíduo em particular como das entidades nosológicas utilizadas. Isso permite o avanço da ciência, a antevisão de um prognóstico e o estabelecimento de ações terapêuticas e preventivas mais eficazes. - O diagnóstico possibilita a comunicação mais precisa entre profissionais e pesquisadores. - Do ponto de vista clínico e específico da psicopatologia, embora o processo diagnóstico em psiquiatria siga os princípios gerais das ciências médicas, há certamente alguns aspectos particulares que devem ser aqui apresentados: 1. O diagnóstico de um transtorno psiquiátrico é quase sempre baseado preponderantemente nos dados clínicos. Dosagens laboratoriais, exames de neuroimagem estrutural (tomografia, ressonância magnética, etc.) e funcional (SPECT, PET, mapeamento por EEG, etc.), testes psicológicos ou neuropsicológicos auxiliam de forma muito importante, principalmente para o diagnóstico diferencial entre um transtorno psiquiátrico primário (esquizofrenia, depressão primária, etc.) e uma doença neurológica (encefalites, tumores, doenças vasculares, etc.) ou sistêmica. É importante ressaltar, entretanto, que os exames complementares (semiotécnica armada) não substituem o essencial do diagnóstico psicopatológico: uma história bem-colhida e umexame psíquico minucioso, ambos interpretados com habilidade. 2. O diagnóstico psicopatológico, com exceção dos quadros psicoorgânicos (delirium, demências, síndromes focais, etc.), não é, de modo geral, baseado em possíveis mecanismos etiológicos supostos pelo entrevistador. Baseia-se principalmente no perfil de sinais e sintomas apresentados pelo paciente na história da doença e no momento da entrevista. Por exemplo, estabelecer um dagnóstico baseado no relato de histórias repletas de sofrimento é um erro. A maioria dos quadros psiquiátricos, seja de etiologia “psicogênica”, “endogenética” ou mesmo “orgânica”, surge após eventos estressantes. Além disso, é frequente que o próprio eclodir dos sintomas psicopatológicos contribua para o desencadeamento de eventos da vida (como perda do cônjuge, separações, perda de emprego, brigas familiares, etc.). Muitas vezes o raciocínio diagnóstico baseado em pressupostos etiológicos mais confunde que esclarece. Deve-se, portanto, manter duas linhas paralelas de raciocínio clínico; uma linha diagnóstica, baseada fundamentalmente na cuidadosa descrição evolutiva e atual dos sintomas que de fato o paciente apresenta, e uma linha etiológica, que busca, na totalidade de dados biológicos, psicológicos e sociais, uma formulação hipotética plausível sobre os possíveis fatores etiológicos envolvidos no caso. 3. De modo geral, não existem sinais ou sintomas psicopatológicos totalmente específicos de determinado transtorno mental. Além disso, não há sintomas patognomônicos em psiquiatria (devemos evitar atribuir importância característica a um único fenômeno mórbido), - Portanto, o diagnóstico psicopatológico repousa sobre a totalidade dos dados clínicos, momentâneos (exame psíquico) e evolutivos (anamnese, história dos sintomas e evolução do transtorno). É essa totalidade clínica que, detectada, avaliada e interpretada com conhecimento (teórico e científico) e habilidade (clínica e intuitiva), conduz ao diagnóstico psicopatológico. 4. O diagnóstico psicopatológico é, muitas vezes, apenas possível com a observação do curso da doença. Dessa forma, o padrão evolutivo de determinado quadro clínico obriga o psicopatólogo a repensar e refazer continuamente o seu diagnóstico. - Uma das funções do diagnóstico em medicina é prever e prognosticar a evolução e o desfecho da doença (o diagnóstico deve indicar o prognóstico). Porém, às vezes, na psiquiatria, não é incomum que o prognóstico, a evolução do caso, obrigue o clínico a reformular o seu diagnóstico inicial. 5. Como salientou o psiquiatra brasileiro José Leme Lopes, em 1954, o diagnóstico psiquiátrico deve ser sempre pluridimensional. Várias dimensões clínicas e psicossociais devem ser incluídas para uma formulação diagnóstica completa: Ex: identifica-se um transtorno psiquiátrico como a esquizofrenia, a depressão, a histeria, a dependência ao álcool, etc., diagnosticam-se condições ou doenças físicas associadas (hipertensão, cirrose hepática, cardiopatias, etc.) e avaliam-se a personalidade e o nível intelectual desse doente, a sua rede de apoio social, além de fatores ambientais protetores ou desencadeantes. - O DSM, tem enfatizado a importância da formulação diagnóstica em vários eixos. Também é sumamente importante o esforço para a formulação dinâmica do caso (conflitos conscientes e inconscientes implicados no caso específico, mecanismos de defesa, ganho secundário, aspectos transferenciais, etc.) e a formulação diagnóstica cultural (símbolos e linguagem cultural específica para aquele paciente, representações sociais, valores, rituais, religiosidade, etc.). 6. Confiabilidade e validade do diagnóstico em psiquiatria. A confiabilidade (reliability) de um procedimento diagnóstico (técnica de entrevista padronizada, escala, teste, diferentes entrevistadores, etc.) diz respeito à capacidade desse procedimento produzir, em relação a um mesmo indivíduo ou para pacientes de um mesmo grupo diagnóstico, em circunstâncias diversas, o mesmo diagnóstico. Para saber se um novo procedimento diagnóstico é válido, é preciso compará-lo com outro procedimento diagnóstico prévio (“padrão ouro”), que seja bem-aceito e reconhecido como mais acurado, capaz de identificar satisfatoriamente o objeto pesquisado. - A sensibilidade de um novo procedimento diagnóstico está relacionada à capacidade desse procedimento de detectar casos verdadeiros incluídos na categoria diagnóstica. - A especificidade do procedimento refere-se à capacidade de identificar verdadeiros “não-casos” em relação à categoria diagnóstica que se pesquisa. Um procedimento com alta sensibilidade identifica quase todos os casos, mas pode falhar reconhecendo erroneamente um não-caso (falso-positivo) como caso. Outro procedimento com alta especificidade pode ter a qualidade de apenas reconhecer casos verdadeiros, mas pode falhar, deixando de reconhecê-los, considerando-os como não- casos. Obviamente, o ideal de um procedimento diagnóstico é que ele seja confiável (reprodutível), válido (o mais próximo possível da “verdade” diagnóstica), com alta sensibilidade e especificidade. Exemplos de Formulação Diagnóstica Eixo 1. Diagnóstico do Transtorno Mental Esquizofrenia paranóide, episódio depressivo grave, dependência ao álcool, anorexia nervosa, etc. Eixo 2. Diagnóstico de Personalidade e do Nível Intelectual Personalidade histriônica, personalidade borderline, etc., retardo mental leve, retardo mental grave, etc. Eixo 3. Diagnóstico de Distúrbios Somáticos Associados Diabete, hipertensão arterial, cirrose hepática, infecção urinária, etc. Eixo 4. Problemas Psicossociais e Eventos da Vida Desencadeantes ou Associados Morte de uma pessoa próxima, separação, falta de apoio social, viver sozinho, desemprego, pobreza extrema, detenção, exposição a desastres, etc. Eixo 5. Avaliação Global do Nível de Funcionamento Psicossocial Bom funcionamento familiar e ocupacional, incapacidade de realizar a própria higiene, não sabe lidar com dinheiro, dependência de familiares ou serviços sociais nas atividades sociais ou na vida diária, etc. Formulação Psicodinâmica do Caso Que conflitos afetivos são mais importantes neste paciente? Conflitos relativos à sexualidade? Dinâmica afetiva da família? Conflitos relativos à identidade psicossocial? Que tipo de transferência o paciente estabelece com os profissionais de saúde? Que sentimentos contratransferenciais desperta nos profissionais que o tratam? Que mecanismos de defesa utilizapreponderantemente? Qual o padrão relacional do paciente? Qual a estrutura psicopatológica, do ponto de vista psicanalítico (estrutura neurótica, obsessiva, histérica, fóbica, etc.; estrutura psicótica; estrutura “perversa”, “autista”, etc.)? Formulação Cultural do Caso Como é o meio sociocultural atual do paciente (bairro de periferia, favela, morador de rua, de uma instituição, etc.)? Como o paciente e seu meio cultural concebem e representam o problema? Quais as suas teorias etiológicas e de cura? Como é a identidade étnica e cultural do paciente? Qual e como é sua religiosidade? Como o paciente e seu meio cultural encaram o diagnóstico e o tratamento psiquiátrico “oficial”? O paciente é migrante de área rural? Como isso interfere no diagnóstico e na terapêutica? Qual a “linguagem das emoções” que utiliza? Qual o impacto das mudanças socioculturais pelas quais o paciente passou em seu transtorno mental? Questões de revisão 1) Discuta o valor, os limites e as críticas em relação ao diagnóstico em psicopatologia. R: Há duas posições extremas: a de que o diagnóstico apenas rotula o doente; e a segunda de que o diagnóstico em psiquiatria tem tanto valor quanto os de outras especialidades médicas, sendo o elemento mais importante da prática psiquiátrica, que permite conhecer o paciente, antever um prognóstico e estabelecer a ação terapêutica e preventiva mais eficaz. Os diagnósticossão ideias fundamentais para o trabalho científico, para o conhecimento do mundo, mas não objetos reais e concretos. O diagnóstico em psiquiatria, dependendo da evolução e desfecho da doença, pode ser repensado e modificado. 2) Esclareça por que o diagnóstico em psicopatologia é baseado preponderantemente nos dados clínicos e não em possíveis mecanismos causais supostos pelo entrevistador. R: Com exceção dos quadros psicoorgânicos (delirium, demências, síndromes focais, etc.), basear-se em possíveis mecanismos etiológicos supostos pelo entrevistador pode induzir ao erro. Além disso, de modo geral não existem sinais ou sintomas psicopatológicos totalmente específicos de determinado transtorno mental. Dosagens laboratoriais, exames de neuroimagem estrutural (tomografia, ressonância magnética, etc.) e funcional (SPECT, PET, mapeamento por EEG, etc.), testes psicológicos ou neuropsicológicos auxiliam de forma muito importante, principalmente para o diagnóstico diferencial entre um transtorno psiquiátrico primário (esquizofrenia, depressão primária, etc.) e uma doença neurológica (encefalites, tumores, doenças vasculares, etc.) ou sistêmica. O diagnóstico psicopatológico repousa sobre a totalidade dos dados clínicos, momentâneos (exame psíquico) e evolutivos (anamnese, história dos sintomas e evolução do transtorno). É essa totalidade clínica que, detectada, avaliada e interpretada com conhecimento (teórico e científico) e habilidade (clínica e intuitiva), conduz ao diagnóstico psicopatológico. 3) Por que o diagnóstico psicopatológico é, em muitos casos, apenas possível com a observação do curso da doença? R: Porque a evolução da doença e seu prognóstico podem apontar para outro diagnóstico, obrigando o psiquiatra a repensar o diagnóstico inicial. A avaliação do paciente - A avaliação do paciente, em psicopatologia, é feita principalmente por meio da entrevista. Ela, juntamente com a observação cuidadosa do paciente, é, de fato, o principal instrumento de conhecimento da psicopatologia. - Através da entrevista realizada com arte e técnica, o profissional pode obter informações valiosas para o diagnóstico clínico, para o conhecimento da dinâmica afetiva do paciente e, o que pragmaticamente é mais importante, para a intervenção e o planejamento terapêuticos mais adequados. - Extrair um conhecimento relevante do encontro com o doente e, neste encontro, agir de forma útil e criativa, eis um dos eixos básicos da prática profissional em saúde mental. - A entrevista psicopatológica permite a realização dos dois principais aspectos da avaliação: 1. A anamnese, ou seja o histórico dos sinais e dos sintomas que o paciente apresenta ao longo de sua vida, seus antecedentes pessoais e familiares, assim como de sua família e meio social. 2. O exame psíquico, também chamado exame do estado mental atual. Aspectos considerados mais relevantes sobre a técnica de entrevista em psicopatologia. AVALIAÇÃO FÍSICA O exame físico do paciente com transtorno psiquiátrico não difere, em essência, daquele dos indivíduos sem patologias mentais. Deve-se, entretanto, ressaltar que: – Os pacientes com transtornos psiquiátricos apresentam morbidade física mais freqüente que a população geral, motivo que reforça a necessidade de avaliação somática (anamnese e exame físico cuidadoso) – Apesar disso, os distúrbios e doenças físicas são “subdiagnosticados”, não adequadamente reconhecidos se tratados nos pacientes ditos psiquiátricos. Algumas das causas são: a) O clínico geral (o médico nãopsiquiatra, de forma geral) tende a não examinar adequadamente o doente mental, pois ele não é “seu doente”. b) O psiquiatra não realiza o exame físico do paciente, pois não se considera “médico do corpo”, mas “especialista”. c) Os pacientes com transtornos mentais graves podem ter dificuldades em comunicar objetivamente suas queixas somáticas. d) Os pacientes psiquiátricos graves podem não ser adequadamente “ouvidos” pelos médicos em geral, pois o estigma de “louco” invalida suas queixas somáticas. e) O exame físico do paciente com transtornos mentais, quando realizado de forma adequada, pode ser um excelente “instrumento” de aproximação afetiva, principalmente com pacientes muito regredidos, inseguros, e mesmo com os pacientes psicóticos. Ser examinado respeitosamente pelo médico pode transmitir segurança e afeto a muitos pacientes. O médico deve saber lidar com possíveis aspectos paranóides e eróticos que, eventualmente, emergem em alguns pacientes quando “tocados” e “apalpados” por seus médicos. AVALIAÇÃO NEUROLÓGICA O exame neuropsicológico é considerado parte importante da avaliação psicopatológica, tanto em psiquiatria como em psicologia clínica e em neurologia. A avaliação neurológica do paciente com transtorno mental é, também, igual à da clientela geral. Alguns pontos, entretanto, devem ser aqui lembrados: a) A avaliação neurológica depende de anamnese bem colhida e de exame neurológico objetivo que, bem realizado, visa identificar topograficamente uma possível lesão ou disfunção no sistema nervoso central e/ou periférico. Deve-se lembrar, entretanto, que muitas afecções neuronais, responsáveis por quadros neuropsiquiátricos, embora presentes e clinicamente significativas, não produzem sintomas localizatórios. Em muitos casos, ainda que haja lesão ou disfunção neurológica, não se identifica um sintoma ou sinal que indique lesão com topografia cerebral localizável. b) A avaliação neurológica baseia-se sobremodo no exame neurológico. Neste, a presença de sinais neurológicos claramente patológicos (co mo o sinal de Babinsky na síndrome piramidal) e as assimetrias são aspectos muito relevantes. O médico sempre deve estar atento à assimetria da força muscular nos membros, dos reflexos miotáticos profundos e musculocutâneos superficiais. Deve pesquisar igualmente, de forma cuidadosa, as diversas alterações sensitivas (tátil, dolorosa, vibratória, térmica, etc.). c) São importantes na neuropsiquiatria alguns sinais e reflexos neurológicos, ditos primitivos, indicadores de lesão cerebral difusa, encefalopatia, ou lesões frontais difusas sem que haja, necessariamente, outros sinais localizatórios. São eles: • Reflexo de preensão (grasping ou grasp reflex). É a resposta de flexão dos dedos evocada pelo contato rápido de um objeto (uma espátula ou o dedo indicador do examinador) com a região palmar (ou plantar) do paciente, respondendo este com um movimento involuntário de preensão. O grasping é considerado uma manifestação motora primitiva, pois é observado em recém-nascidos e lactentes. Em adultos, o reflexo de preensão tem importante valor diagnóstico:sendo bilateral, é muito sugestivo de lesão ou disfunção frontal ou de sofrimento cerebral difuso (encefalopatias); sendo unilateral, localiza a lesão na área 6 de Broadman contralateral. O grasping é o mais significativo dos reflexos primitivos. • Reflexo de sucção. Trata-se de uma resposta primitiva à estimulação da região perioral com uma espátula, na qual há uma protusão dos lábios, desvio para o lado estimulado e movimentos de sucção. Esse reflexo pode ocorrer em lesões frontais (mas também em encefalopatias difusas). • Reflexo orbicular dos lábios. A percussão da área acima do lábio superior, na linha média, pode produzir a projeção dos lábios para a frente. A compressão dessa área pode desencadear uma clara projeção dos lábios, como se o indivíduo fizesse um bico ou focinho (snout reflex, ou reflexo do focinho). Embora menos específico que o grasping e o reflexo de sucção, o reflexo orbicular dos lábios e o snout reflex podem ser indicativos de dano cerebral difuso. • Reflexo palmomentual. Pelo estímulo cutâneo da eminência tenar, pode-se observar a contração do pequeno músculo do mento ipsilateral e sua elevação e, eventualmente, a elevação do lábio inferior ipsilateralà mão estimulada. Este reflexo pode ser observado em idosos, em indivíduos com lesões piramidais e em quadros encefalopáticos difusos. O PSICODIAGNÓSTICO - A área desenvolvida pela psicologia clínica, denominada “psicodiagnóstico”, representa um importante meio de auxílio ao diagnóstico. - Os testes de personalidade e os rastreamentos (screening) para “organicidade” são os mais utilizados na prática clínica diária. - Os testes projetivos, “abertos”, mais utilizados são: o teste de Rorschach; o TAT (Teste de Apercepção Temática, de Murray); o Teste de Relações Objetais – TRO de Phillipson; o Teste das Pirâmides, de Pfister; e o HTP-F (teste de desenho da casa-árvore-pessoa-família), de Buck (2003). Os testes de personalidade estruturados mais difundidos são o MMPI, o 16-PF e, a partir dos anos 1990, o “modelo dos cinco fatores – the big five model” de McCrae e John (1992). São testes mais objetivos em sua interpretação, com melhor confiabilidade (reliability) e, por isso, mais empregados em pesquisa. Para rastreamento (screening) de possíveis alterações cerebrais, os testes de Bender e Benton são bastante utilizados. - Tem grande importância, entretanto, o uso de testes neuropsicológicos mais direcionados, destinados à detecção de alterações cognitivas mais específicas que aquelas identificadas pelos instrumentos globais de screening, que reconhecem apenas organicidade de forma inespecífica. EXAMES COMPLEMENTARES Os exames complementares laboratoriais, neurofisiológicos e de neuroimagem também são um auxílio fundamental ao diagnóstico psicopatológico, particularmente na detecção de disfunções e patologia neurológicas e sistêmicas que produzem síndromes e sintomas psiquiátricos. Os exames laboratoriais de sangue, urina e fezes, assim como as biópsias e as diferentes avaliações da patologia clínica, devem ser sempre utilizados de acordo com a boa prática médica geral. A avaliação do líquido cerebrospinal é uma prática simples, relativamente barata, que fornece informações valiosas ao profissional (em encefalites, doenças inflamatórias, neoplasias, infecções do SNC, etc.). O EEG, por sua vez, é bastante útil no diagnóstico diferencial dos quadros confusionais agudos (delirium), na classificação das diferentes formas de epilepsia, e como parte da avaliação dos transtornos do sono (polissonografia). Já os exames de neuroimagem estrutural e funcional (tomografia computadorizada, ressonância magnética estrutural e funcional e perfusão sangüínea cerebral por meio de SPECT) são instrumentos sofisticados de grande auxílio para o diagnóstico diferencial em psicopatologia. Questões de revisão 1) Quais os principais problemas da avaliação física de pacientes com transtornos psiquiátricos? R: O clínico aça que o doente não é “seu doente”, o psiquiatra aça que só deve cuidar da mente e não do corpo, paciente com transtornos graves podem ter dificuldades em relatar suas queixas, os médicos podem não ouvi-los adequadamente por serem “loucos”. 2) Cite e descreva a importância dos sinais e reflexos neurológicos ditos primitivos. R: Reflexo de preensão (grasping ou grasp reflex) - é muito sugestivo de lesão ou disfunção frontal ou de sofrimento cerebral difuso (encefalopatias); sendo unilateral, localiza a lesão na área 6 de Broadman contralateral. O grasping é o mais significativo dos reflexos primitivos. • Reflexo de sucção - Esse reflexo pode ocorrer em lesões frontais (mas também em encefalopatias difusas). • Reflexo orbicular dos lábios – podem ser indicativos de dano cerebral difuso. • Reflexo palmomentual – Este reflexo pode ser observado em idosos, em indivíduos com lesões piramidais e em quadros encefalopáticos difusos. 3) Cite os principais testes projetivos e testes estruturados de personalidade. Qual a utilidade dos testes de rastreamento de alterações cerebrais? R: Representam um importante meio de auxílio ao diagnóstico. Os testes de personalidade e os rastreamentos (screening) para “organicidade” são os mais utilizados na prática clínica diária. Os testes projetivos, “abertos”, mais utilizados são: o teste de Rorschach; o TAT (Teste de Apercepção Temática, de Murray); o Teste de Relações Objetais – TRO de Phillipson; o Teste das Pirâmides, de Pfister; e o HTP-F (teste de desenho da casa-árvore-pessoa-família), de Buck (2003). Os testes de personalidade estruturados mais difundidos são o MMPI, o 16-PF e, a partir dos anos 1990, o “modelo dos cinco fatores – the big five model” de McCrae e John (1992). São testes mais objetivos em sua interpretação, de maior confiabilidade (reliability) e, por isso, mais empregados na pesquisa. Para rastreamento (screening) de possíveis alterações cerebrais, os testes de Bender e Benton são bastante utilizados. Os testes de rastreamento servem para a detecção de possível doença não identificada anteriormente. A Entrevista com o paciente - A técnica e a habilidade em realizar entrevistas são atributos fundamentais e insubstituíveis do profissional de saúde em geral e de saúde mental em particular e é, em parte, aprendida e, em outra, intuitiva, patrimônio da personalidade do profissional, de sua sensibilidade nas relações pessoais. - A habilidade do entrevistador se revela pelas perguntas que formula, por aquelas que evita formular e pela decisão de quando e como falar ou apenas calar, na capacidade de estabelecer uma relação ao mesmo tempo empática e tecnicamente útil do ponto de vista humano, acolhendo o paciente em seu sofrimento, e ouvi-lo realmente, escutando-o em suas dificuldades e idiossincrasias. - Além de paciência e respeito, o profissional necessita de certa têmpera e habilidade para estabelecer limites aos pacientes invasivos ou agressivos, e, assim, proteger-se e assegurar o contexto da entrevista. Às vezes, uma entrevista bem conduzida é aquela na qual o profissional fala muito pouco e ouve pacientemente o enfermo. - Outras vezes, o paciente e a situação “exigem” que o entrevistador seja mais ativo, mais participante, falando mais, fazendo muitas perguntas, intervindo mais freqüentemente. Isso varia muito em função: 1. Do paciente, da sua personalidade, do seu estado mental e emocional no momento, das suas capacidades cognitivas, etc. Às vezes, o entrevistador precisa ouvir muito, pois o paciente “precisa muito falar, precisa desabafar”; outras vezes, o entrevistador deve falar mais para que o paciente não se sinta muito tenso ou retraído. 2. Do contexto institucional da entrevista (pronto-socorro, enfermaria, ambulatório, centro de saúde, CAPS, consultório, etc.). 3. Dos objetivos da entrevista (diagnóstico clínico; estabelecimento de vínculo terapêutico inicial; entrevista para psicoterapia, tratamento farmacológico, orientação familiar, conjugal, pesquisa, finalidades forenses, trabalhistas, etc.). 4. Da personalidade do entrevistador. Alguns profissionais são ótimos entrevistadores, falam muito pouco durante a entrevista, sendo discretos e introvertidos; outros só conseguem trabalhar bem e realizar boas entrevistas sendo espontaneamente falantes e extrovertidos. Algumas atitudes são, na maior parte das vezes, inadequadas e improdutivas, devendo o profissional, sempre que possível, evitar: 1. Posturas rígidas, estereotipadas, fórmulas que o profissional acha que funcionaram bem com alguns pacientes e, portanto, devem funcionar com todos. Assim, ele deve buscar uma atitude flexível, que seja adequada à personalidade do doente, aos sintomas que apresenta no momento, à sua bagagem cultural, aos seus valores e à sua linguagem. 2. Atitude excessivamente neutra ou fria, que, muito frequentemente em nossa cultura, transmite ao paciente sensação de distância e desprezo. 3. Reações exageradamente emotivas ou artificialmente calorosas, que produzem, na maioria das vezes, uma falsa intimidade. Uma atitude receptiva e calorosa, mas discreta,de respeito e consideração pelo paciente, é o ideal para a primeira entrevista. Criar um clima de confiança para que a história do doente surja em sua plenitude tem grande utilidade tanto diagnóstica como terapêutica. 4. Comentários valorativos ou emitir julgamentos sobre o que o paciente relata ou apresenta. 5. Reações emocionais intensas de pena ou compaixão. Para o paciente desesperadamente transtornado, aos prantos, em uma situação existencial dramática, é preciso um profissional que acolhe tal sofrimento de forma empática, mas discreta, não de um profissional que se desespera junto com ele. 6. Responder com hostilidade ou agressão às investidas hostis ou agressivas de alguns pacientes. O profissional deve se esforçar por demonstrar serenidade e firmeza e estabelecer limites. 7. Entrevistas excessivamente prolixas, nas quais o paciente fala, mas não diz nada de substancial sobre seu sofrimento. Às vezes, para se esconder, para dissuadir a si mesmo e ao entrevistador. Nesse sentido, o profissional deve conduzir a entrevista para termos e pontos mais significativos. 8. Fazer muitas anotações durante a entrevista, isso pode transmitir ao paciente que as anotações são mais importantes que a própria entrevista. - Uma dificuldade comum nas entrevistas nos serviços públicos é a falta de tempo dos profissionais, excesso de trabalho, estresse e condições físicas (arquitetônicas) precárias. Assim, muitas vezes o profissional de saúde está impaciente para ouvir pessoas com queixas pouco precisas, aqueles doentes que informam de forma vaga ou que estão muito desorganizados psiquicamente. - A paciência é fundamental. Muitas vezes, não é a quantidade de tempo com o paciente que mais conta, mas a qualidade da atenção do profissional. - O profissional, no contato com cada novo paciente, deve preparar seu espírito para encarar o desafio de conhecer essa pessoa, formular um diagnóstico, entender, quando possível, algo do que realmente se passa em seu interior. - A entrevista inicial é o momento crucial no diagnóstico e no tratamento em saúde mental, que deve ser bem conduzido, e produzir no paciente uma sensação de confiança e de esperança em relação ao alívio do sofrimento. - Entrevistas iniciais desastrosas em geral são seguidas de abandono do tratamento. - Logo no início, o olhar, a comunicação não verbal, tem sua importância: é o centro da comunicação, que inclui toda a carga emocional do ver e ser visto, do gesto, da postura, das vestimentas, do modo de sorrir ou expressar sofrimento (primeira impressão). - Pesquisas indicam que os primeiros três minutos da entrevista são extremamente significativos, sendo muitas vezes úteis tanto para a identificação do perfil dominante de sintomas do paciente como para a formulação da hipótese diagnóstica final. - A primeira impressão que o paciente produz no entrevistador é, na verdade, uma mescla de muitos fatores, como a experiência clínica do profissional, a transferência que o paciente estabelece com ele, aspectos contratransferenciais do entrevistador e valores pessoais e preconceitos inevitáveis que o profissional, querendo ou não, carrega consigo. – A intuição do entrevistador pode se tornar instrumento valioso de conhecimento e ação. ASPECTO GLOBAL DO PACIENTE - Fator importante nas fases iniciais da avaliação do paciente é notar e descrever o aspecto global do paciente (corpo, postura corporal, indumentária, acessórios, detalhes como maquiagem, perfumes, odores, marcas corporais, porte e atitudes psicológicas específicas e globais do paciente). Estes revelam muito de seu estado mental interior e é recurso fundamental para o diagnóstico. Devem ser relatados de forma detalhada, objetiva e precisa, mas sem precipitações ou inferências indevidas. Apresentação - Logo no início da entrevista, é conveniente que o profissional se apresente, dizendo seu nome, se necessário, sua profissão e especialidade e, se for o caso, a razão da entrevista. A confidencialidade, a privacidade e o sigilo poderão ser explicitamente garantidos caso se note o paciente tímido ou desconfiado ou se o contexto da entrevista assim o exigir. Para isso, em alguns casos, é importante que o profissional garanta explicitamente o que segue: 1. A entrevista e o tratamento ocorrerão com sigilo e discrição. Caso isso se faça necessário por exigência do próprio tratamento (encaminhamento a outro profissional, carta à alguma instituição, informação à família para proteger o paciente, etc.), só será feito após consulta e anuência do entrevistado. O sigilo poderá ser rompido no caso de idéias, planos ou atos seriamente auto ou heterodestrutivos. - A colaboração mútua entre o profissional e o paciente. Ambos devem trabalhar ativamente para que o processo terapêutico tenha bons resultados. - Na primeira entrevista, o profissional deve colher os dados sociodemográficos básicos, como nome, idade, data de nascimento, naturalidade e procedência, estado civil, com quem reside, profissão, atividade profissional, religião, etc. Após isso, que de fato situa-se quem é o paciente que chega ao serviço de saúde, deve-se solicitar que o paciente relate a queixa básica, o sofrimento, a dificuldade ou o conflito que o traz à consulta. Esse primeiro relato deve ocorrer de forma predominantemente livre. - O profissional deve, nesse momento, muito mais ouvir que falar. Suas intervenções objetivam facilitar o prosseguimento da fala do paciente, isso não significa colocar-se em posição totalmente passiva. - O entrevistador desempenha um papel muito ativo na introdução de interrogações, não para mostrar que é inteligente ou cético, mas literalmente para ter certeza que ele sabe o que está sendo dito. - Nas fases mais iniciais da entrevista, o paciente pode estar muito ansioso e usar manobras e mecanismos defensivos como riso, silêncio, perguntas inadequadas, comentários circunstanciais sobre o profissional, etc. São estratégias involuntárias ou propositais para não falar de si, de seu sofrimento, de suas dificuldades. O profissional deve lidar com tais manobras, lembrando polidamente ao paciente que a entrevista tem por finalidade identificar seu problema para, assim, poder melhor ajudá-lo e que a pessoa do entrevistador não é o tema da entrevista. - Nos primeiros encontros, o entrevistador deve evitar pausas e silêncios prolongados, que possam aumentar muito o nível de ansiedade do paciente e deixar a entrevista muito tensa e improdutiva. - Alguns procedimentos podem facilitar a entrevista no momento em que o entrevistador lida com o silêncio do paciente: 1. Fazer perguntas e colocações breves que assinalem a sua presença efetiva e mostrem ao paciente que ele está atento e tranquilo para ouvi-lo. 2. Evitar perguntas muito direcionadas, fechadas, que possam ser respondidas com um sim ou um não categóricos; também deve evitar perguntas muito longas e complexas, difíceis de serem compreendidas pelo paciente. 3. É sempre melhor intervenções do tipo “Como foi isso?”, “Explique melhor”, “Conte um pouco mais sobre isso”, que questões como “Por quê?” ou “Qual a causa?”. Estas últimas estimulam o paciente a fechar e encerrar a sua fala. 4. O entrevistador deve buscar para cada paciente em particular o tipo de intervenção que facilite a continuidade de sua fala. - Nos primeiros encontros, o profissional deve ter a estrutura da entrevista em sua mente, permitindo ao mesmo tempo que o paciente conte sua própria versão. Falar de forma livre permite que o entrevistador avalie melhor a personalidade e, por vezes, alguns conflitos do paciente. A fala livre também tem frequentemente uma dimensão catártica, de “desabafo”, que pode ser muito útil e servir de alívio para o paciente. - À medida que o relato feito pelo doente progride, tal relato vai sendo “encaixado” em determinada estrutura de história, que está na mente do entrevistador. Surgirão lacunasnessa história, que saltarão à mente deste. Após a fase de exposição livre, ele fará as perguntas que faltam para completar e esclarecer os pontos importantes da história e da anamnese de modo geral. - A duração e o número de entrevistas iniciais, com fins diagnósticos e de planejamento terapêutico não são fixos, dependendo do contexto institucional onde se dá a prática profissional, da complexidade e da gravidade do caso e da habilidade do entrevistador. Transferência e contratransferência - É um elemento fundamental que o profissional deve conhecer. A transferência compreende atitudes e sentimentos cuja origem são basicamente inconscientes para o paciente. Inclui tanto sentimentos positivos (como confiança, amor e carinho) quanto negativos (como raiva, hostilidade, inveja, etc.). - A contratransferência é, em certo sentido, a transferência que o profissional estabelece com seus pacientes. A avaliação psiquiátrica como um todo: Anamnese, exame psíquico, exames somáticos e exames complementares 1. Entrevista inicial, na qual se faz a anamnese, ou seja, são colhidos todos os dados necessários para um diagnóstico pluridimensional do paciente, o que inclui os dados sociodemográficos, a queixa ou o problema principal e a história dessa queixa, os antecedentes mórbidos somáticos e psíquicos pessoais, contendo os hábitos e o uso de substâncias químicas, os antecedentes mórbidos familiares, a história de vida do paciente, englobando as várias etapas do desenvolvimento somático, neurológico, psicológico e psicossocial e, finalmente, a avaliação das interações familiares e sociais do paciente. 2. Exame psíquico, que é o exame do estado mental atual, realizado com cuidado e minúcia pelo entrevistador desde o início da entrevista até a fase final, quando são feitas outras perguntas. 3. Exame físico geral e neurológico, que deve ser mais ou menos detalhado a partir das hipóteses diagnósticas que se formam com os dados da anamnese e do exame do estado mental do paciente. Caso o profissional suspeite de doença física, deverá examinar o paciente somaticamente em detalhes; caso suspeite de distúrbio neurológico ou neuropsiquiátrico, o exame neurológico deverá ser completo e detalhado. De qualquer forma, é conveniente que todos os pacientes passem por uma avaliação somática geral e neurológica sumária. 4. Exames complementares, sendo exemplos as avaliações por meio de testes da personalidade e da cognição (psicodiagnóstico e testes neuropsicológicos). 5. Exames complementares (semiotécnica armada), como os exames laboratoriais (p. ex., exame bioquímico, citológico e imunológico do líquido cerebrospinal, hemograma, eletrólitos, metabólitos, hormônios, etc.), exames de neuroimagem (tomografia computadorizada do cérebro, ressonância magnética do cérebro, SPECT, etc.) e neurofisiológicos (EEG, potenciais evocados, etc.). Alguns pontos adicionais sobre a anamnese psiquiátrica: - Na anamnese, o entrevistador se interessa tanto pelos sintomas objetivos como pela vivência subjetiva em relação àqueles sintomas; pela cronologia dos fenômenos e pelos dados pessoais e familiares. - O entrevistador permanece atento às reações do paciente ao fazer os seus relatos. Realiza, assim, parte do exame psíquico e da avaliação do estado mental atual durante a coleta da história (anamnese). - Em alguns casos, o paciente consegue formular com certa clareza e precisão a “queixa principal”, que, ao entrevistador, parece consistente e central no sofrimento do paciente e para o seu diagnóstico. Isso pode ajudar o entrevistador a limitar o “campo de procura” a ser investigado. - Muitas vezes, entretanto, o paciente psiquiátrico não tem qualquer queixa a fazer; ou simplesmente não tem crítica ou insight de sua situação, de seu sofrimento. Outras vezes, se recusa defensivamente a admitir que tenha um problema mental, comportamental ou psicológico e que esteja sofrendo (isso ocorre mais em pacientes do sexo masculino). - Entrevista e dados fornecidos por um “informante”. Muitas vezes faz-se necessária a informação de familiares, amigos, conhecidos e outros. Os dados fornecidos pelo “informante” também padecem de certo subjetivismo, que o entrevistador deve levar em conta. Pessoas próximas têm a sua visão do caso, e não “a visão” (correta e absoluta) do caso. De qualquer forma, suas informações podem revelar dados mais confiáveis, claros e significativos. - Pacientes com quadro demencial, déficit cognitivo, em estado psicótico grave e em mutismo geralmente não conseguem informar dados sobre sua história, sendo fundamental a contribuição do acompanhante. Sobre a confiabilidade dos dados obtidos: simulação e dissimulação - O profissional com alguma experiência sabe que os dados obtidos em uma entrevista podem estar subestimados ou superestimados. Não raro, o paciente esconde um sintoma que vem apresentando, às vezes, de forma intensa; ou relata um sintoma ou vivência que de fato não apresenta. - O profissional deve exercer toda a sua habilidade para buscar diferenciar as informações verdadeiras, confiáveis e consistentes, das falsas e inconsistente. - Dissimulação: ato de esconder ou negar voluntariamente a presença de sinais e sintomas psicopatológicos. Em geral, tal negativa ocorre por medo de ser internado, de receber medicamentos ou de ser rotulado como louco. O paciente nega alucinações auditivas, mas cochicha com um ser imaginário que está ao seu lado, ou seja, apesar de dissimular as alucinações para o profissional, revela indícios de sua presença por meio de comportamento que é incapaz de dissimular. - Simulação é a tentativa do paciente de criar, apresentar, como o faria um ator, voluntariamente, um sintoma, sinal ou vivência que de fato não tem. Geralmente, o paciente que simula sintomas está buscando obter algum ganho com isso: dispensa do trabalho, aposentadoria, internação para não ser encontrado por traficantes de drogas, etc. A simulação é um ato voluntário e consciente, não se incluindo aqui os sintomas psicogênicos (como paralisia histérica) sem base orgânica, mas com suas raízes em processos e conflitos inconscientes. - Crítica do paciente e insight em relação a sintomas e transtornos. Em psicopatologia, um aspecto característico da clínica é que parte dos pacientes, apesar de apresentar sintomas graves que comprometem profundamente suas vidas, não os reconhece como tal. Insight é composto por três componentes: 1. consciência da doença; 2. modo de nomear ou renomear os sintomas; 3. adesão a tratamentos propostos. Em particular, pacientes graves, como psicóticos, bipolares em quadro maníaco, alguns dependentes químicos, com retardo mental, síndromes autísticas ou demências, apresentam graves prejuízos quanto ao insight. Perspectiva transversal versus longitudinal - A avaliação psiquiátrica possui uma dimensão longitudinal (histórica, temporal) e outra transversal (momentânea, atual) da vida do paciente. - Sem a dimensão longitudinal, a transversal fica obscura e incompleta, sendo difícil a sua devida apreciação. Relato do caso por escrito - Ao final da entrevista, forma-se o esboço do caso na mente do entrevistador. O estado mental foi observado durante toda a coleta dos dados, surgindo, dessa forma, a síntese do estado mental do paciente para o profissional. O relato do caso por escrito deve conter, de preferência, as próprias palavras que o paciente e os informantes usaram ao descrever os sintomas mais relevantes. O uso de termos técnicos deve ser sóbrio e proporcional ao grau de conhecimento que o profissional obteve do caso. - A caligrafia deve ser legível, e o estilo, claro, preciso, com frases e parágrafos curtos. - Deve-se evitar terminologia por demais tecnicista que geralmente revela a insegurança do profissional, que busca compensar, na linguagem rebuscada, os vácuos de sua ignorância sobre o caso, ou que querdemonstrar de modo exibicionista sua erudição e seu saber médico. - O profissional deve evitar a interpretação precoce dos dados. Uma interpretação precoce, feita muitas vezes de modo apressado pode impedir que se enxergue o paciente que está à sua frente. - Apesar de serem descritos fenômenos irracionais muitas vezes de forma desorganizada e caótica, o relato deve ser organizado e coerente, facilitando o estabelecimento de hipóteses diagnósticas e o planejamento terapêutico adequado. - O paciente tem o direito de ser confuso, o entrevistador não. - Além do aspecto médico essencial, que é o diagnóstico clínico, a entrevista e o seu relato devem fornecer compreensão suficientemente ampla da personalidade do paciente, da dinâmica de sua família e de seu meio sociocultural imediato. - O relato escrito de um caso tem, além de valor médico, importante valor legal. Quando bem redigido, poderá ser decisivo em questões legais futuras, impensáveis no momento em que a avaliação está sendo feita. - No momento em que o entrevistador redige os dados que coletou, deve lembrar que a história clínica deve ser redigida em linguagem simples, precisa e compreensível. - O relato deve ser pormenorizado, mas não prolixo, detalhado naquilo que é essencial ao caso e conciso naquilo que é secundário. As três regras “de ouro” da entrevista em saúde mental 1. Pacientes organizados (mentalmente), com inteligência normal, com escolaridade boa ou razoável, fora de um “estado psicótico”, devem ser entrevistados de forma mais aberta, permitindo que falem e se expressem de maneira mais fluente e espontânea. O entrevistador fala pouco, fazendo algumas pontuações para que o paciente “conte a sua história”. 2. Pacientes desorganizados, com nível intelectual baixo, em estado psicótico ou paranóide, “travados” por alto nível de ansiedade, devem ser entrevistados de forma mais estruturada. Nesse caso, o entrevistador fala mais, faz perguntas mais simples e dirigidas (perguntas fáceis de serem compreendidas e respondidas). 3. Nos primeiros contatos com pacientes muito tímidos, ansiosos ou paranóides, deve-se fazer primeiro perguntas neutras (nome, onde mora, profissão, estado civil, nome de familiares, etc.), para apenas, gradativamente, começar a formular perguntas “mais quentes” (às vezes, constrangedoras para o paciente), como: “Qual o seu problema?”, “Por que foi trazido ao hospital?”, “O que aconteceu para que você agredisse seus familiares?”, etc. Aspectos físicos e psíquicos dos pacientes verificados por meio da aparência e da atitude global Postura geral: a) Ativa: verificada por meio da postura, da iniciativa, da fala. Paciente com energia, toma iniciativa, sugere o que fazer. Postura excessivamente ativa: pacientes histriônicos, maníacos, alguns delirantes, etc. a) Passiva: paciente apático, “largado”, indiferente ao que acontece na entrevista. Quadros demenciais, depressões, personalidades passivas, esquizofrenia crônica, etc. Roupas e acessórios segundo os quadros clínicos: - Anorexia nervosa: roupas largas e escuras. - Demência: pode apresentar higiene e roupas descuidadas, dentes sujos, ausência de senso crítico em relação à aparência. - Depressão: às vezes, roupas desalinhadas ou sujas, cabelos despenteados, higiene descuidada, sem maquiagem, preferência por roupas escuras. - Esquizofrenia: nos pacientes mais crônicos, pode-se notar higiene e roupas descuidadas e sujas, indiferença pela vestimenta; pode apresentar roupas e acessórios bizarros que expressam delírios (medalhas, colares e tiaras que podem ter significado no delírio) ou desorganização comportamental. - Histeria: algo semelhante à mania; roupas chamativas, muita maquiagem, roupas muito curtas e decotadas. - Mania: roupas coloridas, chamativas, muita maquiagem, perfume em excesso, roupas muito curtas e decotadas. - Personalidade borderline: roupas extravagantes, muitos piercings, marcas no corpo, tatuagens, cabelos coloridos. - Transtorno obsessivo-compulsivo e personalidade obsessiva: às vezes, roupas e acessórios muito “certinhos” (roupas passadas de forma impecável, cabelos penteados de modo ultracuidadoso, etc.). Atitudes globais - Afetada: modo de falar, gesticular e andar muito teatral e artificial. - Arrogante: coloca-se como superior, acima do entrevistador, ironiza e critica constantemente. - Amaneirada: comportamento caricatural, se curva diante do entrevistador, diz “vossa excelência”. - Confusa: parece não entender nada, não estar na situação de entrevista. - Deprimida: paciente triste e desanimado de modo geral. - Desconfiada ou suspicaz: pelo olhar, postura, pelo modo de ouvir e responder revela desconfiança, medo. - Desinibida: contato extremamente fácil, próximo fisicamente, trata como se conhecesse o entrevistador há anos, fala e pergunta sobre intimidades, sem inibição. - Indiferente: não parece estar na entrevista, não se sente incomodado por estar na entrevista. - Inibida ou contida: não encara o examinador, demonstra estar pouco à vontade, se segura para não falar. - Irônica: faz comentários críticos a toda hora, mas não revela superioridade como o arrogante. - Lamuriosa ou queixosa: queixa-se o tempo todo de seus problemas, demonstra autopiedade. - Manipuladora: tenta obrigar o entrevistador a fazer o que ele quer, com chantagens, indiretas, ameaças. - Não-cooperante: não colabora com solicitações básicas na entrevista. - Oposicionista ou negativista: recusa-se a participar da entrevista, se opõe a tudo que solicitam. - Perplexa: assustado, parece não entender nada do que está acontecendo na entrevista. - Dissimuladora: tenta ocultar sintomas ou fatos de sua vida com algum intuito. - Dramática ou teatral: hiperemocional, quer chamar a atenção, dá grande expressão a coisas corriqueiras. -Evasiva: evita responder a perguntas, dá respostas muito gerais e inespecíficas. - Esquiva: não deseja o contato social e foge dele. - Excitada: fala e gesticula muito e de forma acelerada. -Expansiva: fala alto, é o “dono do pedaço”, comporta-se como se fosse muito importante. - Gliscróide ou “grudenta”: difícil de encerrar a conversa, quer atenção na sua prolixidade. - Hostil ou beligerante: provoca, irrita, parece querer confronto. - Querelante: discute ou briga com o entrevistador por se sentir ofendido ou prejudicado. - Reivindicativa: exige, de forma insistente, aquilo que julga ser seu direito, mesmo se inadequado. - Sedutora: elogia e tenta agradar o examinador, às vezes sexualmente. - Simuladora: tenta parecer que tem um sintoma ou problema que realmente não tem. - Submissa: atende passiva e imediatamente, sem questionar, a todas as solicitações do entrevistador Termos descritivos relativos à aparência física do paciente Aspecto corporal Termos e possibilidades - Rosto: Agradável, atraente, bonito, feio, disforme, repugnante, neutro, pálido, cansado, doloroso, bronzeado, corado, rosado, magro, gordo, ossudo, redondo, quadrado, sem maquiagem, maquiagem adequada, maquiagem excessiva ou bizarra, rosto lavado, sujo, ensebado, perplexo, triste, alegre, angustiado, assustado, desanimado, rosto sem expressão (hipomímico). - Olhos e olhar: Olhar - vivaz, intenso, agressivo, vago, sonolento, perdido, esquivo, confuso, assustado, amedrontado, perplexo, fixo, abatido, doloroso, bondoso, afetuoso, de compaixão, tedioso, maligno, de desprezo, arrogante, irônico. Olhos - penetrantes, alegres, tristes, arregalados, lacrimejantes, avermelhados, inchados por choro, pálpebras caídas (sono ou sonolência). - Cabelos Limpos, bem-penteados, emaranhados, sujos, oleosos, sebosos, com muita caspa, despenteados, curtos, longos, raspados (total ou parcial), na altura dos ombros, escassos, calvo (total ou parcial), lisos, crespos, ondulados, encaracolados, encarapinhados ou pixaim, rabo-de-cavalo, maria-chiquinha, tranças, afro, alisados, rastafári, punk (moicano),pintados, artificialmente aloirados ou oxigenados, com dread-locks, alisados, com “escova”. - Pêlos faciais: barbeado adequadamente, barba bem-feita, longa ou curta, tingida, rala, com corte bizarro, tipo de bigode, cavanhaque, costeletas. - Unhas: unhas descuidada, bem-cuidada, por fazer, bem-cortadas, longas, limpas, sujas, esmaltadas, com esmalte cuidado ou descascado. - Dentes Bem ou mal conservados, limpos, sujos, apodrecidos, com falhas (banguela), muitas cáries, gengivite, prótese (dentadura), uso de aparelho ortodôntico. Odor Agradável, desagradável, perfumado adequadamente ou em excesso, fétido, odor de fezes, de urina, mau hálito. - Roupas Limpas, sujas, descuidadas, manchadas, apropriadas, velhas, caras, baratas, inadequadas, bizarras, profissionais, impecáveis, na moda, desleixadas, desconfortáveis, antiquadas, extravagantes, sexualmente provocantes, apertadas, folgadas, com slogans religiosos (ou políticos, filosóficos, ideológicos, etc.). - Movimentos: Inquieto, esfregando as mãos, pernas inquietas, trêmulo, tiques, espasmos, posturas e gestos estala lábios ou articulações, franze os olhos e/ou lábios, parado, rígido, flácido, largado, curvado, empertigado, posturas, gestos e movimentos bizarros. A postura (e/ou gestos) pode(m) ser também, em maior ou menor grau, afeminada(os) em homens e masculinizada(os) em mulheres. - Corpo (global): Compleição normal, magro, caquético, frágil, abaixo do peso, acima do peso, musculoso, robusto, atarracado, disforme, pouco obeso, obeso ou obeso mórbido, marcas corporais, tatuagens, piercing, posturas bizarras, corpo bonito, feio, sensual, atraente, desagradável, repugnante, proporcional, desproporcional, altura baixa, média ou alta. Questões de revisão • Uma entrevista bem-conduzida é aquela em que o profissional fala muito pouco e ouve pacientemente o enfermo. Há, contudo, certas situações que exigem intervenção mais ativa do entrevistador. Nesse sentido, que aspectos devem ser observados ao se conduzir uma entrevista? • Ao entrevistar um paciente, que tipo de postura/atitude o entrevistador deve evitar? • Quais as “três regras de ouro” da entrevista em saúde mental? • Diante de um paciente tímido, que fica em silêncio durante a entrevista, que estratégias podem ser usadas pelo entrevistador a fim de que este silêncio seja rompido? • Estabeleça a diferença entre transferência e contratransferência. • Descreva como deve ser o relato do caso por escrito. Cap. 9 – As funções Psíquicas Elementares e Suas Alterações - É importante estudar os constructos psíquicos um a um, contudo - Não existem funções psíquicas isoladas e alterações psicopatológicas compartimentalizadas desta ou daquela função. É sempre a pessoa na sua totalidade que adoece. - A psicopatologia é, impreterivelmente, uma ciência “a duas vozes”, fundamentada em determinado encontro de, pelo menos, dois seres humanos. O que conta não são os sinais e os sintomas, mas, sobretudo, o fundo mental e inter-humano do qual eles procedem e no qual se realizam, e que, afinal, determinam a sua significação, o seu sentido. - A psicopatologia, na medida em que é centrada na pessoa humana, não se desenvolve a não ser partindo de determinadas síndromes (psicopatologia sindrômica). - Nos transtornos psiquiátricos, não se trata apenas de agrupamentos de sintomas que coexistem com regularidade e revelam, assim, sua origem comum. Os sintomas que os compõem são ligados estruturalmente entre si. - As alterações de funções isoladas constituem, em última análise, objeto da neurologia, da neuropsicologia ou da neurofisiologia, e não da psicopatologia. - Os sintomas que compõe as síndromes são interligados entre si. Sintomas de mesma nomenclatura podem se apresentar de maneiras diferentes nas diferentes síndromes. Por isso, torna-se necessária a contínua referência aos quadros nosográficos, que são estruturas totalizantes, nos quais adquirem sentido os fenômenos particulares. Funções psíquicas no exame do estado mental atual Funções mais afetadas nos transtornos psico-orgânicos Nível de consciência, Atenção (também nos quadros afetivos (mania, principalmente)), Orientação, Memória, Inteligência, Linguagem (também nas psicoses). Funções mais afetadas nos transtornos afetivos, neuróticos e da personalidade Afetividade, Vontade, Psicomotricidade, Personalidade Funções mais afetadas nos transtornos psicóticos Sensopercepção, Pensamento, Juízo de realidade, Vivência do Eu. Questões de revisão 1) Cite as principais limitações de uma psicopatologia das funções psíquicas compartimentalizadas. R: Não existem funções psíquicas isoladas e alterações psicopatológicas compartimentalizadas desta ou daquela função. É sempre a pessoa na sua totalidade que adoece. 2) Qual a importância, segundo Monedero (1973), dos quadros nosográficos para dar sentido aos fenômenos particulares (sintomas isolados)? R: Os sintomas que compõe as síndromes são interligados entre si. Sintomas de mesma nomenclatura podem se apresentar de maneiras diferentes nas diferentes síndromes. Por isso, torna-se necessária a contínua referência aos quadros nosográficos, que são estruturas totalizantes, nos quais adquirem sentido os fenômenos particulares. Cap. 10 – A Consciência e as suas alterações - cum (com) e scio (conhecer), indicando o conhecimento compartilhado com outro e, por extensão, o conhecimento “compartilhado consigo mesmo”. - A definição neuropsicológica – é o estado de estar desperto, acordado, vígil, lúcido. Trata-se especificamente do nível de consciência. - A definição psicológica – soma total das experiências conscientes de um indivíduo em determinado momento. É a dimensão subjetiva da atividade psíquica do sujeito que se volta para a realidade. Na relação do Eu com o meio ambiente, a consciência é a capacidade de o indivíduo entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os seus objetos. - A definição ético-filosófica – a capacidade de tomar ciência dos deveres éticos e assumir as responsabilidades, os direitos e os deveres concernentes a essa ética (consciência moral ou ética) A fenomenologia desenvolvida pelo filósofo Edmund Husserl, se ocupou de modo particular da consciência. A psicologia clássica, com base na teoria sensualista-empirista, compreendia a consciência como algo passivo, uma tábula rasa ou papel em branco. Para Husserl não existiria, então, uma consciência pura, pois ela é necessariamente “consciência de algo”. A intencionalidade, isto é, o visar algo, o dirigir-se aos objetos, de modo ativo e produtivo, é próprio da consciência na visão fenomenológica. - O aspecto fundamental da consciência que se deve tentar explicar, segundo ele, é seu caráter de unidade qualitativa subjetiva. - Experimentar os estados de consciência é também algo essencialmente subjetivo. - Por fim, os estados de consciência são experimentados como um campo de consciência unificado. Assim, unidade, subjetividade e caráter qualitativo são as marcas da experiência dos estados de consciência. - Searle (2000) ainda acrescenta outras características aos estados de consciência. Esses estados são sempre vivenciados com caráter prazeroso ou desprazível, como experiências totais e globalizantes (caráter gestáltico) e com um senso de familiaridade que impregna todas as experiências conscientes. NEUROPSICOLOGIA DA CONSCIÊNCIA - O conceito de sistema reticular ativador ascendente (SRAA), desenvolvido por Moruzzi e Magoun (1949), afirma que a capacidade de estar desperto e agir conscientemente depende da atividade do tronco cerebral e do diencéfalo, os quais exercem poderosa influência sobre os hemisférios cerebrais, ativando-os e mantendo o tônus necessário para seu funcionamento normal. - Além do SRAA, também o tálamo e as regiões do córtex parietal direito e préfrontal direito têm importância estratégicapara o funcionamento da consciência. - Estão relacionados a alterações do nível da consciência na síndrome denominada delirium as regiões do córtex parietal posterior direito superficial, o córtex pré-frontal bilateral, o córtex fusiforme (ventromedial temporoparietal), o giro lingual, o tálamo anterior direito e os núcleos basais. CAMPO DA CONSCIÊNCIA Ao voltar-se para a realidade, a consciência demarca um campo, no qual se pode delimitar um foco, ou parte central mais iluminada da consciência, e uma margem que seria a periferia menos iluminada, mais nebulosa, da consciência. Segundo a psicopatologia clássica, é na margem da consciência que surgem os chamados automatismos mentais e os estados ditos subliminares. O inconsciente - Lugar psíquico teorizado por Freud. - A rigor, para Freud, o inconsciente verdadeiro só se revela por meio de subprodutos que surgem na consciência, as chamadas formações do inconsciente: os sonhos, os atos falhos, os chistes e os sintomas neuróticos. - Para Freud, o inconsciente é bem mais do que um simples estado mental fora da consciência. Ele é, embora obscuro, a estrutura mental mais importante do psiquismo humano. Ele é regido pelo princípio do prazer por meio do processo primário em forma de condensação e deslocamento. É, também, isento de contradições mútuas e não possui referência ao tempo (atemporalidade e isenção de contradição). Caráter dinâmico do inconsciente - O inconsciente é dinâmico, segundo Freud, na medida em que exerce uma ação permanente, exigindo de forma permanente, para lhe interditar o acesso à consciência. ALTERAÇÕES NORMAIS DA CONSCIÊNCIA O sono normal - um estado especial da consciência, que ocorre de forma recorrente e cíclica nos organismos superiores. Dividido em sono não-Rem que se subdivide em 4 fases, e sono REM. Pessoas com depressão grave e narcolepsia podem ter a latência – adormecimento- primeiro sono REM – bastante diminuída, implicando geralmente uma inversão da arquitetura do sono. O sonho - O sonho, fenômeno associado ao sono, pode ser considerado uma alteração normal da consciência. A maioria das pessoas sonha várias vezes durante uma noite, apenas não lembra da maior parte dos seus sonhos, pois se acordarem (ou forem despertadas) após mais de oito minutos de um sono REM (durante o qual sonharam), não lembrarão mais do conteúdo do sonho. - Os sonhos são vivências predominantemente visuais, sendo rara a ocorrência de percepções auditivas, olfativas ou táteis. Em sonhos eróticos, podem ocorrer sensações de orgasmo. - O sonho é um fenômeno psicológico extremamente rico e revelador de desejos e temores, ainda que de forma indireta e disfarçada. - Freud afirma que tal trabalho transforma os conteúdos latentes (inconscientes) do sonho original em conteúdos manifestos (conscientes) do sonho lembrado. Isso se dá por meio da condensação (fusão de duas ou mais representações), do deslocamento (passagem da energia de uma representação à outra representação) e da figurabilidade (desejos transformam-se em imagens visuais). Esses três mecanismos servem para disfarçar o desejo reprimido (inconsciente), possibilitando o seu acesso à consciência, ainda que com deformações e restrições, pois existe a censura entre as duas instâncias: inconsciente e consciente/pré-consciente. Dessa forma, para Freud, o sonho é uma solução de compromisso, o resultado de uma intensa negociação entre o inconsciente (que visa expulsar, forçar os desejos para a consciência) e o consciente (que visa impedir que tais desejos inconscientes emerjam) . ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS DA CONSCIÊNCIA A consciência pode se alterar tanto por processos fisiológicos, normais, como por processos patológicos. Alterações patológicas quantitativas da consciência: rebaixamento do nível de consciência Em diversos quadros neurológicos e psicopatológicos, o nível de consciência diminui de forma progressiva, desde o estado normal, vígil, desperto, até o estado de coma profundo, no qual não há qualquer resquício de atividade consciente. 1. Obnubilação ou turvação da consciência. Trata-se do rebaixamento da consciência em grau leve a moderado. À inspeção inicial, o paciente pode já estar claramente sonolento ou parecer desperto, o que dificulta o diagnóstico. De qualquer forma, há sempre diminuição do grau de clareza do sensório, com lentidão da compreensão e dificuldade de concentração. O paciente tem dificuldade para integrar as informações sensoriais oriundas do ambiente. O paciente encontra- se um tanto perplexo, com a compreensão dificultada, podendo o pensamento estar já ligeiramente confuso. 2. Sopor. Estado de marcante turvação da consciência, no qual o paciente pode ser despertado apenas por estímulo enérgico, sobretudo de natureza dolorosa. Paciente sempre se mostra evidentemente sonolento. Ele é incapaz de qualquer ação espontânea. A psicomotricidade encontra-se mais inibida do que nos estados de obnubilação. O 3. Coma. É o grau mais profundo de rebaixamento do nível de consciência. No estado de coma, não é possível qualquer atividade voluntária consciente. Os graus de intensidade de coma são classificados de I a IV: grau I (semicoma), grau II (coma superficial), grau III (coma profundo) e grau IV (coma dépassé). Síndromes psicopatológicas associadas ao rebaixamento do nível de consciência Delirium – é o termo atual mais adequado para designar a maior parte das síndromes confusionais agudas (o termo “paciente confuso”, muito usado em serviços de emergência e enfermarias médicas, refere- se a tais síndromes confusionais). O delirium é uma das síndromes mais frequentes na prática clínica diária, principalmente em pacientes com doenças somáticas (emergências e enfermarias médicas) e em idosos. O delirium diz respeito, portanto, aos vários quadros com rebaixamento leve a moderado do nível de consciência, acompanhados de desorientação temporoespacial, dificuldade de concentração, perplexidade, ansiedade em graus variáveis, agitação ou lentificação psicomotora, discurso ilógico e confuso e ilusões e/ou alucinações, quase sempre visuais. Trata-se de um quadro que oscila muito ao longo do dia. Não se deve confundir delirium (quadro sindrômico causado por alteração do nível de consciência, em pacientes com distúrbios cerebrais agudos) com o termo delírio (idéia delirante; alteração do juízo de realidade encontrada principalmente em psicóticos esquizofrênicos). Estado onírico – alteração da consciência na qual, paralelamente à turvação da consciência, o indivíduo entra em estado semelhante a um sonho muito vívido. Atividade alucinatória visual intensa com caráter cênico e fantástico. O indivíduo vê cenas complexas, ricas em detalhes, às vezes terríficas, com lutas, matanças, fogo, assaltos, sangue, etc. Há angústia, terror ou pavor.Há geralmente amnésia consecutiva ao período em que o doente permaneceu assim.Tal estado ocorre devido a psicoses tóxicas, síndromes de abstinência a substâncias (com maior freqüência no delirium tremens) e quadros febris tóxicoinfecciosos. Algumas vezes em pacientes psicóticos (esquizofrenia, mania e depressão psicóticas), - Além dos diversos estados de redução global do nível de consciência, a observação psicopatológica registra uma série de estados alterados da consciência, nos quais se tem mudança parcial ou focal do campo da consciência. Uma parte do campo da consciência está preservada, normal, e outra parte, alterada. De modo geral, há quase sempre, nas alterações qualitativas da consciência, algum grau de rebaixamento (mesmo que mínimo) do nível de consciência (distúrbios focais ou do conteúdo da consciência) enquanto os psiquiatras as definem como alterações qualitativas da consciência. Têm-se, então, as seguintes alterações qualitativas da consciência: 1. Estados crepusculares - Estado patológico transitório no qual uma obnubilação da consciência(mais ou menos perceptível) é acompanhada de relativa conservação da atividade motora coordenada. 2. Estado segundo - Estado patológico transitório semelhante ao estado crepuscular, caracterizado por uma atividade psicomotora coordenada, a qual, entretanto, permanece estranha à personalidade do sujeito acometido e não se integra a ela. 3. Dissociação da consciência – fragmentação ou a divisão do campo da consciência, ocorrendo perda da unidade psíquica comum do ser humano. Ocorre com certa frequência nos quadros histéricos (crises histéricas de tipo dissociativo).Observa-se um estado semelhante ao sonho. Alguns pacientes têm crises ou estados dissociativos agudos que se iniciam devido a quedas, abalos musculares e movimentação do corpo semelhante à crise convulsiva (da epilepsia). 4. Transe - dissociação da consciência que se assemelha a sonhar acordado, diferindo disso, porém, pela presença de atividade motora automática e estereotipada acompanhada de suspensão parcial dos movimentos voluntários. Ocorre em contextos religiosos e culturais. 5. Estado hipnótico. É um estado de consciência reduzida e estreitadae de atenção concentrada, quepode ser induzido por outra pessoa(hipnotizador). A sugestionabilidade do indivíduo está aumentada, e a sua atenção, concentrada no hipnotizador. 6. Experiência de quase-morte – Um estado especial de consciência é verificado em situações críticas de ameaça grave à vida, como parada cardíaca, hipoxia grave, isquemias, acidente automobilístico grave, entre outros. Semiotécnica da consciência-I -Lembrar que qualquer alteração do nível de consciência repercute no funcionamento global do psiquismo. Ele deve ser avaliado em primeiro lugar. - Observar a fácies e a atitude do paciente e, se possível, notar se ele está desperto ou sonolento. - Observar se o paciente está perplexo, com dificuldade de integrar coerentemente os estímulos ambientais. - Lembrar que é por meio da orientação (sobretudo temporoespacial) que, muitas vezes, se avalia o nível de consciência. - Teste da parede ou do papel branco. Pedir ao paciente que olhe atenta e fixamente para uma parede branca (ou papel grande branco); o paciente com leve rebaixamento do nível de consciência pode, ao fazer isso, apresentar alucinações visuais simples ou complexas. Questões de revisão 1) Estabeleça a diferença entre as três acepções possíveis, em língua portuguesa, para a definição da palavra “consciência”. R: 2) Indique as diferenças entre sono REM e sono não-REM. Que estágios ocorrem durante o sono não-REM? R: 3) Cite e caracterize os graus de rebaixamento da consciência. R: 4) Quais são as principais características do delirium? R: O delirium diz respeito, portanto, aos vários quadros com rebaixamento leve a moderado do nível de consciência, acompanhados de desorientação temporoespacial, dificuldade de concentração, perplexidade, ansiedade em graus variáveis, agitação ou lentificação psicomotora, discurso ilógico e confuso e ilusões e/ou alucinações, quase sempre visuais. 5) Descreva a diferença entre delirium e delírio. R: Dellirium (quadro sindrômico causado por alteração do nível de consciência, em pacientes com distúrbios cerebrais agudos) com o termo delírio (idéia delirante; alteração do juízo de realidade encontrada principalmente em psicóticos esquizofrênicos). 6) Cite e caracterize as alterações qualitativas da consciência. R: 7) Quais as características mais freqüentes da experiência de quase-morte? R: Cap. 11 A Atenção e suas alterações - A atenção pode ser definida como a direção da consciência, o estado de concentração da atividade mental sobre determinado objeto. - A atenção se refere ao conjunto de processos psicológicos que torna o ser humano capaz de selecionar, filtrar e organizar as informações em unidades controláveis e significativas. PSICOLOGIA DA ATENÇÃO Conceitos da psicologia e da psicopatologia clássicas da atenção Tomando-se em consideração a naturezada atenção, pode-se discernir dois tipos - Atenção voluntária - exprime a concentração ativa e intencional da consciência sobre um objeto; - Atenção espontânea - tipo de atenção suscitado pelo interesse momentâneo, incidental, que desperta este ou aquele objeto. Esta última geralmente está aumentada nos estados mentais em que o indivíduo tem pouco controle voluntário sobre sua atividade mental. Em relação à direção da atenção: - Atenção externa, projetada para fora do mundo subjetivo do sujeito, voltada para o mundo exterior. - Atenção interna, que se volta para os processos mentais do próprio indivíduo. É uma atenção mais reflexiva, introspectiva e meditativa. Em relação à amplitude da atenção: - Atenção focal, que se mantém concentrada sobre um campo determinado e relativamente delimitado e restrito da consciência. - Atenção dispersa, que não se concentra em um campo determinado, espalhando-se de modo menos delimitado; Tenacidade - capacidade do indivíduo de fixar sua atenção sobre determinada área ou objeto. Na tenacidade, a atenção se prende a certo estímulo, fixando- se sobre ele. Vigilância - qualidade da atenção que permite ao indivíduo mudar seu foco de um objeto para outro. Atenção flutuante - é um conceito desenvolvido por Freud (1856-1939), relativo ao estado de como deve funcionar a atenção do psicanalista durante uma sessão analítica. Não deve privilegiar a priori qualquer elemento do discurso ou comportamento do paciente, o que implica deixar funcionar livremente sua própria atividade mental, consciente e inconsciente, deixando livre a atenção e suspendendo ao máximo as motivações, os desejos e os planos próprios. A atenção do analista deve se manter o máximo possível aberta à experiência imediata, evitando a fuga para o passado ou para o futuro; A psicologia contemporânea da atenção Atualmente, subdivide-se a atenção em quatro aspectos básicos: 1. Capacidade e foco de atenção - A capacidade de focalizar a atenção relaciona-se diretamente com o número de operações mentais que precisam ser realizadas ao mesmo tempo e com a dificuldade das tarefas. 2. Atenção seletiva - diz respeito aos processos que permitem ou facilitam a seleção de informações relevantes para o sujeito e seu processamento cognitivo. Ela resume a qualidade mais importante dos processos atencionais: a seletividade. 3. Seleção de resposta e controle executivo - são de extrema relevância, pois o ato de prestar a atenção está, quase sempre, associado a uma ação planejada, voltada a certos objetivos. O controle executivo possibilita que se mude com eficácia de uma resposta possível para outra conforme as demandas cambiantes do ambiente. 4. Atenção constante ou sustentada - capacidade de manter a atenção ao longo do tempo. Hábito e sensibilização Hábito é o oposto da “sensibilização”, que ocorre quando, devido à natureza ou ao contexto do estímulo, o organismo passa a se excitar mais com a repetição do estímulo, aumentando a prontidão geral de resposta. NEUROPSICOLOGIA DA ATENÇÃO A atenção resulta da interação complexa de diversas áreas do sistema nervoso, não sendo, portanto, um processo unitário. ANORMALIDADES DA ATENÇÃO A alteração mais comum e menos específica da atenção é a diminuição global desta, chamada hipoprosexia. Aqui se verifica uma perda básica da capacidade de concentração, com fatigabilidade aumentada, o que dificulta a percepção dos estímulos ambientais e a compreensão; as lembranças tornam-se mais difíceis e imprecisas, há dificuldade crescente em todas as atividades psíquicas complexas, como o pensar, o raciocinar, a integração de informações, etc. Aprosexia - total abolição da capacidade de atenção, por mais fortes e variados que sejam os estímulos utilizados. Hiperprosexia consisteem um estado da atenção exacerbada. A distração éum sinal, não de déficit propriamente, mas de superconcentração ativa da atenção sobre determinados conteúdos ou objetos, com a inibição de tudo o mais. Há, nesse sentido, certa hipertenacidade e hipovigilância. Distraibilidade é, ao contrário da distração, um estado patológico que se exprime por instabilidade marcante e mobilidade acentuada da atenção voluntária, com dificuldade ou incapacidade para fixar-se ou deter-se em qualquer coisa. - As alterações da atenção podem ocorrer tanto em distúrbios neurológicos e neuropsicológicos como em transtornos mentais. DISTÚRBIOS NEUROLÓGICOS E NEUROPSICOLÓGICOS - condições em que ocorre diminuição do nível de consciência. Pode-se mencionar aqui as encefalopatias metabólicas (por alteração de níveis de oxigênio, glicose e do equilíbrio eletrolítico, acúmulo de catabólitos, etc.), meningoencefalites, acidentes vasculares cerebrais, esclerose múltipla e quadros tumorais. - Nas demências, as alterações de atenção podem estar relacionadas a quadros episódicos com rebaixamento do nível de consciência (delirium que se sobrepõe ao quadro demencial) ou deterioração cognitiva progressiva. Na demência de Alzheimer, os pacientes têm dificuldades em tarefas que requerem concentração e foco, assim como em atividades de controle executivo (funções frontais). TRANSTORNOS MENTAIS - Sabe-se, desde os primórdios da semiologia psicopatológica, no século XIX, que a atenção quase sempre está alterada nos transtornos mentais graves. - Transtornos do humor (depressão e transtorno bipolar), transtorno obsessivo compulsivo (TOC), esquizofrenia e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) são os que mais apresentam alterações da atenção. Questões de revisão • Defina os tipos de atenção em relação à direção e à amplitude do processo atencional. • O que você pode dizer sobre os pressupostos teóricos a respeito da psicologia contemporânea da atenção? Caracterize os quatro aspectos básicos da atenção. • Quais são as principais estruturas do sistema nervoso relacionadas à atenção? Quais as mais relevantes? Por quê? • Cite e caracterize as anormalidades que podem ocorrer com a atenção. Qual é a sua associação com distúrbios neurológicos e neuropsicológicos e transtornos mentais? • Como se apresenta a atenção nos quadros maníacos e depressivos, na esquizofrenia e no TDAH? As três principais dimensões metapsicologia freudiana são: a tópica (lugar), a dinâmica (conflito impulso x defesa) e a econômica (quantidade de energia investida). Ele introduziu a ideia de que o aparelho mental é composto de diferentes áreas da mente Na primeira tópica ele dividiu o aparelho psíquico em consciente, pré-consciente e inconsciente, e na segunda tópica em id, ego e superego (Ou isso, eu e super eu). Na primeira tópica, o reservatório das pulsões seria no Eu, e na segunda tópica, no Isso. Para Freud, a neurose é o resultado de um conflito entre o ego e o id. O Ego recusa-se a aceitar certos impulsos do id e se defende com o recalcamento, a exclusão de uma representação da consciência (1º. Tempo). O material reprimido, então luta contra esse destino e retorna do recalcamento por meio de uma representação substitutiva (o sintoma). Daí as neuroses (ex. histeria, toc). A maneira de quebrar o sintoma é trazendo o recalcado à consciência. Ainda segundo ele, a psicose é o resultado de um conflito entre o ego e a realidade externa. Num primeiro momento (1o. Tempo) o ego se afasta da realidade, A seguir, cria um novo mundo externo e interno (2º. Tempo). Esse mundo é constituído de acordo com os impulsos do id. O motivo dessa dissociação do mundo externo é alguma frustração muito séria e intolerável de um desejo por parte da realidade. (ex. esquizofrenia paranoide). Ainda há as neuroses narcísicas, fruto do conflito entre o Super Eu e o Eu. Neurose e Psicose – Freud 1923 Neurose Psicose É o resultado de um conflito entre o ego e o id É o resultado de um conflito entre o ego e o mundo externo As neuroses transferências acontecem porque o ego recusa-se a aceitar um poderoso impulso instintual do id ou a ajudá-lo a encontrar um escoador ou motor, ou de o ego proibir àquele impulso o objeto a que visa. Na amência de Meynert — uma confusão alucinatória aguda que constitui talvez a forma mais extrema e notável de psicose — o mundo exterior não é percebido de modo algum ou a percepção dele não possui qualquer efeito. O ego se defende do impulso pelo mecanismo da repressão. Normalmente, o mundo externo governa o ego por duas maneiras: cem primeiro lugar, através de percepções atuais e presentes, sempre renováveis; e, em segundo, mediante o armazenamento de lembranças de percepções anteriores, as quais, sob a forma de um ‘mundo interno’, são uma possessão do ego e parte constituinte dele. O material reprimido luta contra esse destino e cria para si próprio, ao longo de caminhos sobre os quais o ego não tem poder, uma representação substitutiva (que se impõe ao ego mediante uma conciliação) — o sintoma. O ego cria, autocraticamente, um novo mundo externo e interno, e não pode haver dúvida quanto a dois fatos: que esse novo mundo é construído de acordo com os impulsos desejosos do id e que o motivo dessa dissociação do mundo externo é alguma frustração muito séria de um desejo, por parte da realidade — frustração que parece intolerável. O ego se descobre ameaçado e prejudicado por esse intruso e continua a lutar contra o sintoma, tal como fez com o impulso instintual original. A estreita afinidade dessa psicose com os sonhos normais é inequívoca.Uma precondição do sonhar, além do mais, é o estado de sono, e uma das características do sono é o completo afastamento da percepção e do mundo externo. No fundo, o ego só está seguindo ordens do superego, que, por sua vez, se originam de influências do mundo externo que encontraram representação no superego. Outras formas de psicose, as esquizofrenias, inclinam-se a acabar em uma perda de toda participação no mundo externo. Com referência à gênese dos delírios, inúmeras análises nos ensinaram que o delírio se encontra aplicado como um remendo no lugar em que originalmente uma fenda apareceu na relação do ego com o mundo externo. Se essa precondição de um conflito com o mundo externo não nos é muito mais observável do que atualmente acontece, isso se deve ao fato de que, no quadro clínico da psicose, as manifestações do processo patogênico são amiúde recobertas por manifestações de uma tentativa de cura ou uma reconstrução. O ego tomou o partido do superego, ignorando os apelos do id. O ego é a força que põe a repressão em movimento contra a parte do id interessada e fortifica a repressão por meio da anticatexia da resistência. Anticatexia. É um termo da psicanálise, onde o Ego bloqueia ações irracionais, imorais ou inaceitáveis do Id, serve para bloquear catexias. Uma pessoa que está com fome pode criar uma imagem mental de um alimento desejado ao invés de realmente comer, isso seria uma catexia. O ego entrou em conflito com o id, a serviço do superego e da realidade, e esse é o estado de coisas em toda neurose de transferência. Conclusão: em uma neurose o ego, em sua dependência da realidade, suprimir um fragmento do id (da vida instintual). Para uma neurose o fator decisivo seria a predominância da influência da realidade Conclusão: em uma psicose esse mesmo ego, a serviço do id, se afasta de um fragmento da realidade. Na psicose a perda de realidade estaria necessariamente presente, ao passo que na neurose, segundo pareceria, essa perda seria evitada. - Podemos provisoriamente presumir que tem de haver também doenças que se baseiam em um conflito entre o ego e o superego. Podemos supor que a melancolia é um exemplo típico desse grupo,e reservaríamos o nome de ‘psiconeuroses narcísicas’. O sofrimento mental grave: Quadros Clínicos - A busca de uma etiologia irá tomar impulso em meados do século 19. - Formas graves de sofrimento mental são uma espécie peculiar de doenças, mas não se enquadram de forma alguma, no modelo explicativo das doenças orgânicas. - desde o final do século XVIII até o início do século XX: neste período, foram definidas e descritas as principais distinções psicopatológicas, assim como os quadros clínicos mais importantes. - No final do século XIX o psiquiatra alemão Kraepelin organizou um primeiro sistema classificatório utilizado mundialmente: ali, ganharam autonomia nosológica os quadros mais importantes da clínica psiquiátrica. Hoje mudaram de nome, mas as características continuam basicamente as mesmas. - A classificação de Kraepelin reunia diversos quadros, antes dispersos, sob a rubrica da demência precoce – que pouco depois, a partir do trabalho do psiquiatra Eugen Bleuler, passou a ser chamada de esquizofrenia. Fez o mesmo, reunindo os quadros de mania e melancolia (ou episódio depressivo grave), isolados ou alternados, sob a denominação de psicose maníaco-depressiva – hoje transtorno bipolar; e abordou também a paranóia, hoje conhecida como transtorno delirante persistente. - no início do século XX, um importante trabalho de sistematização na área da psicopalogia, realizado pelo psiquiatra e filósofo alemão Karl Jaspers reorganizou distinções psicopatológicas importantes já construídas antes e introduziu outras, de grande pertinência clínica. - O trabalho destes dois autores foi feito fundamentalmente a partir da observação clínica, ou seja: caracterização cuidadosa dos sintomas, agrupamento de sintomas mais típicos e comuns de certos quadros, e sua evolução. - Este enfoque, predominantemente descritivo, continua sendo utilizado nas atuais classificações psiquiátricas. O DSM-V nos EUA e na Europa utiliza-se a décima revisão da Classificação Internacional de Doenças – a CID-10. Segundo Kaplan, todas as categorias usadas no DSM-IV se encontram na CID-10, mas nem todas as categorias da CID-10 estão no DSM-IV; contudo, as diferenças são pouco expressivas. - Mudança realmente maior ocorreu na passagem da CID-9 para a CID-10 – com o abandono de certos termos e distinções tradicionais na clínica psiquiátrica, como neuroses e psicoses. - Há uma distinção primeira: aquela entre os quadros psiquiátricos que derivam de um substrato orgânico claramente estabelecido, e aqueles em que este substrato não se encontra definido. - Os primeiros constam na CID-10 como quadros orgânicos: essencialmente, as demências e os delirium. - Os segundos constituem a grande maioria dos quadros psiquiátricos descritos. Entre eles, podemos estabelecer uma importante subdivisão: aquela que correspondia, na CID 9, à diferença entre psicoses e neuroses. - Psicoses são os quadros de sofrimento mental severos e persistentes – a esquizofrenia, a paranoia, os transtornos graves de humor – em que se apresentam, como veremos, certas vivências psíquicas peculiares e bizarras, como os delírios e as alterações de consciência do eu, dentre outras. - Neuroses são quadros constituídos por vivências psíquicas que podem aparecer em algumas pessoas de forma exarcebada, sendo, porém, em maior ou menor grau, experimentadas por todos nós – por exemplo, ansiedade, tristeza, medo, “manias”, etc. QUADROS PSIQUIÁTRICOS ORGÂNICOS CID-10 F00 – F09; e também F.10 – F.19. Principal característica clínica: Prejuízo primariamente cognitivo (de inteligência e memória e/ou nível de consciência), derivado de causa orgânica constatável. Formas principais: Demências. Delirium. PSICOSES CID-10: F.20 a F.29; F.30, F.31, F.32.2 e 32.3. Principais características clínicas: São psicologicamente incompreensíveis (Jaspers) Apresentam vivências bizarras, de forma anômala, como delírios, alucinações, alterações da consciência do eu. Não há prejuízo primário de inteligência e de memória e/ou nível de consciência. Formas principais: Esquizofrenia. Paranóia (transtorno delirante persistente, na CID 10). Transtornos graves do humor (a antiga psicose maníaco-depressiva, hoje fragmentada na CID-10 em episódio maníaco, episódio depressivo grave e transtorno bipolar). NEUROSES CID 10: F.40 – F.48, além de outros itens. Principais características clínicas: São psicologicamente compreensíveis (Jaspers) Apresentam em grau e freqüência exarcebados vivências experimentadas pelo psiquismo dito normal (ansiedade, tristeza, medo, idéias obsessivas, etc). Não há prejuízo primário de inteligência e de memória e/ou nível de consciência. Formas principais: Neuroses de ansiedade (transtornos fóbico-ansiosos, na CID-10). Neurose histérica (transtornos somatomorfos e dissociativos, na CID-10). Neurose obsessiva (transtornos obsessivo-compulsivos, na CID-10). Episódios depressivos em neuróticos (episódios depressivos leves e moderados, e outros, na CID 10). QUADROS PSIQUIÁTRICOS ORGÂNICOS PSICOSES E NEUROSES O fundamento orgânico é conhecido, e não apenas suposto. Não têm um substrato orgânico identificável como causa de seus sintomas. Ocorre primariamente um comprometimento daquelas funções psíquicas relacionadas à cognição, ou seja, à capacidade intelectual: estão afetados , seja o nível de consciência, seja a memória. Caracterizam-se também por não se apresentarem alterações primárias na esfera cognitiva: ou seja, memória e nível de consciência não estão prejudicados (ou caso estejam, é apenas de forma secundária a outras alterações psíquicas). Estas funções psíquicas são justamente aquelas cujo exercício exige condições de integridade neuroanatômica e neurofisiológica das estruturas cerebrais – condições que se encontram afetadas nestes quadros. Temos aqui lesões ou perdas neuronais claramente identificáveis, como nas demências; ou alterações metabólicas, tóxicas e outras que interferem na neurofisiologia cerebral, como nos delirium. Os quadros orgânicos incluem, portanto, quadros neuropsiquiátricos (doença de Alzheimer, doenças cérebro- vasculares, traumatismos crânio-encefálicos, tumores cerebrais, etc), quadros devidos a condições médicas gerais (doenças endócrinas, cardiopatias, insuficiência renal ou hepática, etc), e quadros relacionados a abstinência ou a intoxicação por substâncias psicoativas (delirium tremens e vários outros). 6.2.3 O raciocínio diagnóstico Raciocínio diagnóstico, quando nos chega um paciente apresentando sintomas psíquicos: 1. A primeira pergunta que nos devemos fazer é: este paciente apresenta ou não alterações de memória e/ou de nível de consciência, derivadas de um quadro orgânico – seja neurológico, tóxico, infeccioso, etc? Em caso afirmativo, o paciente apresenta um quadro orgânico. 2. Em caso negativo – ou seja, os sintomas psíquicos se instalam sobre um fundo de preservação da memória e do nível de consciência, nem há doença orgânica que possa determinar os sintomas psíquicos – o paciente se inclui num dos outros grupos: ou o das psicoses, ou o das neuroses. 3. Neste caso, vem uma segunda investigação fundamental no diagnóstico: ele apresenta vivências bizarras, como: acredita-se teleguiado pela Internet? Afirma que leem ou adivinham seus pensamentos? Escuta vozes que comentam seu comportamento? Apresenta uma exaltação ou uma inibição psicomotora muito intensa, e de matiz peculiar? Neste caso, situaremos o paciente no grupo das psicoses, – que costuma apresentar-se classicamente sob uma das três formas já citadas (esquizofrenias, paranoias, transtornos severos do humor), ou sob formas mistas entre estas. 4. Enfim, há uma terceira possibilidade: o paciente não apresenta estas vivênciasde forma anômala exemplificadas acima, mas encontra-se intensamente ansioso, ou deprimido? Ou traz uma série de queixas físicas vagas e incaracterísticas como forma de expressar um mal estar ou insatisfação de ordem psíquica? Ou fica uma boa parte do tempo ruminando ideias obsessivas e executando rituais para livrar-se delas? Se este tipo de sintomas apresenta-se com intensidade e frequência suficientes para prejudicar seriamente a vida do paciente, falamos então de uma neurose. - Para o grupo dos quadros orgânicos, os conhecimentos médicos são necessários e costumam ser suficientes: então ligados a uma condição médica geral, ou a uma doença ou síndrome neuropsiquiátrica. - Quanto aos dois outros grupos – das neuroses e das psicoses – é essencial a contribuição da psicanálise. - O esboço de classificação apresentado aqui não inclui algumas categorias da CID-10, seja porque nos parecem cabíveis num destes três grupos (por exemplo, os transtornos de personalidade podem ser considerados uma forma ou uma manifestação das neuroses); seja porque consistem em sintomas que se podem encontrar nos diferentes grupos aqui mencionados (por exemplo, os transtornos alimentares, do sono, disfunção sexual, entre outros). OS QUADROS PSIQUIÁTRICOS ORGÂNICOS O nível de consciência e a memória são as funções psíquicas primariamente alteradas nestes quadros: o exercício adequado destas funções exige a preservação da neuroanatomia e da neurofisiologia cerebrais As alterações do nível de consciência ocorrem, sobretudo nos delirium; as alterações mais importantes da memória, nas demências. O que têm em comum: uma determinação orgânica evidente, ao qual se pode atribuir valor causal – ou seja, na ausência desta alteração orgânica de base, os sintomas psíquicos não ocorreriam. Delirium Os delirium são também chamados de estados confusionais, porque as alterações do nível de consciência constituem um quadro de confusão mental. A alteração orgânica de base nos delirium na maioria das vezes é exterior ao sistema nervoso central. Por conseguinte, não costumam provocar alterações neuroanatômicas no cérebro, apenas causando disfunções neurofisiológicas temporárias. Nos hospitais gerais e outros serviços de Saúde é comum encontrarmos pacientes com delirium, decorrente de insuficiências de outros órgãos, de endocrinopatias, de estados pós-operatórios, e vários outros. Muito frequentes são os delirium relacionados à ingestão abusiva ou abstinência de drogas psicoativas. Podem também ser provocados por agentes anticolinérgicos (entre os quais se incluem vários psicofármacos). Contudo, embora a origem extracerebral seja a mais comum, podem ainda dever-se a traumatismos crânio-encefálicos, epilepsias, neoplasmas, etc. A pesquisa desta alteração de base é de grande importância na anamnese, tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento. Seus sintomas estão relacionados a uma diminuição da acetilcolina, principalmente na formação reticular. Pode-se constatar uma lentificação no eletroencefalograma. Os delirium costumam ter início súbito e curso breve e flutuante, com melhoras e pioras ao longo do dia. São frequentes as perturbações no ritmo do sono. A melhora costuma ocorrer após a identificação e o tratamento da causa, sendo o paciente restituído ao estado psíquico anterior, sem sequelas ou danos. Alterações psíquicas dos delirium O nível de consciência está normal: a consciência está clara, a pessoa está plenamente vigilante e alerta. Ela é capaz de focar sua atenção no que for necessário – seja concentrando-se para estudar para uma prova, por exemplo, seja percebendo um estímulo que provoca a mudança do foco da atenção. Encontra-se também orientada no tempo e no espaço, ou seja, sabe que dia é hoje, distingue o dia de hoje do de ontem, etc; sabe qual o lugar onde se encontra, e como chegar ou sair de lá. O psiquiatra espanhol Alonso Fernandez nos apresenta uma clara descrição clínica das alterações da consciência. Mostra-nos como a alteração do nível de consciência gera perturbações da atenção e da orientação. Dizemos então que o paciente está obnubilado. Os graus de perturbação do nível de consciência são variáveis: no grau leve, temos apenas uma certa sonolência e dificuldade de concentração. No grau moderado, estes sintomas se acentuam, acompanhando-se também de desorientação, primeiro no tempo, e depois no espaço; o paciente passa também a confundir as pessoas; geralmente não se recorda do que lhe ocorreu neste período. Em casos graves, instala-se o torpor, e, enfim, o coma. A obnubilação (confusão mental) da consciência pode acompanhar-se de alucinações, principalmente visuais e auditivas. Esse é um quadro bastante comum no delirium tremens dos alcoólatras, conhecido como onirismo: o paciente com freqüência vê bichos como aranhas e cobras (as chamadas zoopsias); escuta vozes que o chamam e o ameaçam. Estas alucinações são mais comuns ao cair da noite, e o paciente experimenta-as de forma tão vívida que age de acordo com elas: procura afastar os bichos do seu corpo, mostra-se assustado, supõe que as pessoas em volta estão vendo e ouvindo o mesmo que ele. Estas características das alucinações que ocorrem nos delirium ou quadros confusionais ajudam-nos a distingui-las daquelas que ocorrem nas psicoses. Demências Diferentemente dos delirium, as demências são quadros caracterizados por um prejuízo progressivo da inteligência ou da capacidade intelectual, relacionado à perda também progressiva da memória. Envolvem sempre alterações neuroanatômicas do Sistema Nervoso Central: atrofia difusa do cérebro, perda neuronal no córtex, e outras ainda. Algumas formas de demência, como a doença de Alzheimer, apresentam lesões cerebrais características, como as placas amilóides. As demências costumam manifestar-se, sobretudo – mas não necessariamente – em pessoas idosas. A doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência: 50 a 60% dos casos; seguem-se as demências vasculares, com 10 a 20% dos casos; outras causas, como as doenças neurodegenerativas (de Pick, de Parkinson, de Hutington), ou as massas intracranianas (tumores, abscessos), traumatismos crânio-encefálicos, respondem pelo restante. É importante lembrar que a AIDS pode causar quadros demenciais. Também diferem dos delirium quanto ao curso: a menos que sejam identificadas e tratadas num estágio muito inicial, as demências evoluem de forma progressiva e irreversível. O prejuízo crescente da inteligência é uma consequência da perda progressiva da memória, que se explica pela lesão do tecido cerebral. É importante distinguir o tipo de déficit intelectivo das oligofrenias, ou retardos mentais, daquele das demências. Os oligofrênicos já nascem com este déficit, que se evidência desde a infância por diversas alterações do desenvolvimento neuropsicomotor. Na demência, pouco importa o nível intelectual anterior à instalação do quadro: seja alto, médio ou baixo, será necessariamente prejudicado pelo processo demencial. Alterações psíquicas das demências Procuremos visualizar um quadro clássico de demência, evocando um personagem com o qual todos nós temos alguma familiaridade: uma pessoa idosa “caduca” ou “esclerosada”. Tendo como base este prejuízo da memória, e, por conseguinte, da atividade intelectual, o paciente, nos estágios iniciais, apresenta diminuição da capacidade de fixação de lembranças, dificuldade de compreensão, perseveração de pensamento (tende a fixar-se em algumas poucas idéias). À medida que o quadro progride, as alterações de memória se acentuam, afetando, sobretudo, as recordações mais recentes: por exemplo, à tarde, o paciente não consegue se lembrar quem o visitou pela manhã. Muitas vezes, na ausência das lembranças, o paciente preenche este vazio com confabulações, ou seja: quandolhe perguntamos o que almoçou hoje, responde que comeu frango ao molho pardo, quando na verdade lhe serviram bife com salada. Muito comumente, o próprio paciente se dá conta de que está perdendo certas habilidades, angustiando-se com isso. Ao mesmo tempo, é relativamente comum o aparecimento de idéias deliróides: o paciente “cisma” com a empregada, a nora, os filhos, achando, por exemplo, que estão roubando suas coisas ou envenenando sua comida; estas idéias costumam ser oscilantes e fragmentárias, sem chegar a constituir um delírio propriamente dito. Podem aparecer sintomas neurológicos, como afasia, agnosia, apraxia. Agravando-se mais ainda o quadro, manifestam-se sinais visíveis de deterioração da personalidade, que se seguem ao crescente comprometimento intelectivo: perda dos interesses e afetos anteriores, dificuldade crescente para os contatos sociais, desleixo com a própria aparência, comportamentos desorganizados (como fugas de casa, agitação excessiva, atitudes sexuais inadequadas ou não habituais). O pensamento se torna incoerente. O paciente não consegue, por exemplo, chegar até sua própria cama, por já não se recordar de onde ela se encontra. Os transtornos de pensamento do paciente demenciado são diferentes daqueles do paciente esquizofrênico. No caso das demências, esses transtornos derivam do comprometimento da inteligência e da memória, que se relacionam, por sua vez, a uma lesão neuronal evidente; nas esquizofrenias e outras psicoses a inteligência está essencialmente preservada, ainda que não esteja sendo usada em todo o seu potêncial. A evolução da demência pode ser atravessada por alguns episódios tipo delirium. Quadros psiquiátricos de fundamento orgânico-sinopse Características comuns: Secundários a uma causa orgânica identificável (sem esta causa, o quadro clínico não se estabeleceria). As funções psíquicas primariamente alteradas são aquelas que mais claramente dependem da integridade cerebral (memória, inteligência, nível de consciência, orientação no tempo e no espaço). QUADRO DIFERENCIAL ENTRE DELIRIUM E DEMÊNCIA DELIRIUM DEMÊNCIA Etiologia frequentemente extra-encefálica A participação etiopatogênica do cérebro é primária Geralmente não há substrato cerebral histopatológico O substrato histopatológico cerebral costuma ser irreversível Costumam ser quadros agudos e reversíveis São quadros crônicos, com agravamento progressivo Afetam sobretudo o nível de consciência (orientação e atenção) Afetam sobretudo a inteligência e a memória Exemplo: delirium conseqüente à abstinência de substâncias psicoativas Exemplo: doença de Alzheimer PSICOSES a) Sintomas ou fenômenos elementares da psicose (delírios, alucinações verbais, alterações da consciência do eu) b) Outros sintomas psicóticos importantes (alterações graves dos sentimentos vitais; sintomas negativos) SINTOMAS ELEMENTARES DA PSICOSE: Delírio: vivências delirantes primárias e sua elaboração (Transformação global da consciência da realidade) As vivências delirantes primárias são de difícil caracterização, “por implicar num modo de vivência completamente estranho para nós.” Consistem na imposição de novas significações, não partilháveis com outras pessoas. Começa de forma vaga e imprecisa: a pessoa sente que há algo diferente no mundo, que diz respeito a ela própria, sem que saiba dizer do que se trata. As diferentes vivências delirantes primárias têm alguns traços em comum: São extravagantes, bizarras. Constituem uma espécie de rasgo ou de ruptura. São uma espécie de mensagens endereçadas ao sujeito, em que algo ou alguém quer dizer alguma coisa a ele. Tornam o paciente perplexo, pois são estranhas também para ele: não sabe por que é assim, só sabe que é assim. Sente-se também visado: é o destinatário de uma mensagem, que deve decifrar como puder. Esta situação é propícia para a instalação das chamadas “idéias de perseguição”: querem alguma coisa dele, estão atrás dele, e assim por diante. O que faz então o sujeito? Tenta reunir esses fragmentos de vivências delirantes num conjunto mais ou menos coerente de explicação. A possibilidade de obter uma elaboração delirante que “funcione” sob este aspecto depende de vários fatores: A intensidade e a frequência das vivências delirantes primárias, assim como das “vozes” e de outros fenômenos elementares. Quanto mais frequentes e intensas, mais difícil será para o sujeito refletir a seu respeito: ele fica “tomado” por estas vivências, sem conseguir distanciar-se minimamente delas. Outro fator é a inventividade de cada um: quanto mais inventivo, melhor conseguirá dar uma forma própria a estas vivências informes. O apoio da família, a receptividade da cultura, a qualidade do tratamento recebido, também influem fortemente nesta produção. Num certo sentido, as características da elaboração delirante ajudam a definir se o paciente apresenta uma paranóia ou uma esquizofrenia. Quando o paciente compõe um sistema delirante mais sistematizado, mas também mais rígido e fechado, falamos de uma paranóia. Quando não chega a constituir propriamente um delírio sistemático, falamos de uma esquizofrenia: esquizofrenia paranóide, se a atividade delirante produz construções significativas, embora mais fragmentárias e bizarras; esquizofrenia hebefrênica, quando a elaboração delirante é pobre ou ausente. O delírio não é um erro lógico do pensamento, não é um prejuízo da capacidade de pensar. Pelo contrário, é um desafio ao pensar! Pensar sobre estas coisas problemáticas e absurdas que estão realmente acontecendo no próprio pensamento da pessoa não é uma tarefa fácil. Alucinações: auditivas ou verbais (“vozes”) e outras. Ocorrem também em outros quadros psiquiátricos – principalmente nos delirium e alucinoses decorrentes de abuso ou abstinência de substâncias psicoativas. Na maioria das vezes, dá-se conta de que as “vozes”, embora lhe pareçam reais, são escutadas apenas por ele. Nos momentos de crise, estas vozes perturbam profundamente o paciente, tanto pelas coisas atormentadoras que dizem, como por invadirem o seu psiquismo: impedem-no de organizar suas idéias, tornam-no inquieto, não o deixam dormir. Por vezes, procura responder-lhes: freqüentemente, quando surpreendemos um paciente falando sozinho, ele está tentando “conversar” com as vozes. Pode chegar a obedecer a ordens recebidas. Passada a crise, as vozes muitas vezes desaparecem. Outra possibilidade: o paciente continua a escutar as vozes depois da crise, mas aprende de certa forma a conviver com elas. Alterações da consciência do eu (vivências de influência As alterações da consciência do eu são um fenômeno de tipo muito diferente das alterações do nível da consciência Habitualmente, diz, temos a consciência de que os nossos fenômenos psíquicos nos pertencem, são privativos do nosso psiquismo. Nesses casos, a privacidade e a autonomia da própria vida psíquica encontram-se alteradas nas psicoses. Os pacientes acreditam que seus pensamentos podem ser lidos ou conhecidos pelos outros; por vezes, acham que são divulgados na Internet ou na TV (fenômenos de divulgação de pensamento). Também podemos situar nesta série os fenômenos de subtração, bloqueio ou roubo do pensamento. Outros sintomas psicóticos importantes Agrupamos da seguinte forma outros sintomas importantes e característicos das psicoses, que se distinguem, porém, dos fenômenos elementares. São eles: A) Alterações graves dos sentimentos vitais Tristeza vital: característica do melancólico. Instala-se em motivo aparente. Trata-se antes de um vazio de sentimentos do que um sentimento de tristeza propriamente dito. Inércia, apatia, lentificação psicomotora, profundo desinteresse por si mesmo e pelos outros: estes são umcortejo de sintomas que derivam da tristeza vital, enquanto sintoma nuclear do episódio depressivo grave. Exaltação vital: é a manifestação oposta à tristeza vital, que ocorre na mania. O sujeito é tomado por uma animação extraordinária, que o faz achar que pode tudo; acelera seu ritmo vital, sua fala, seu andar, seus apetites. Inquietude ou agitação psicomotora: é outro sintoma que, embora não seja específico das psicoses (podem ocorrer, por exemplo, nos quadros orgânicos). Desvitalização: trata-se de uma perda significativa de energia e vitalidade. Nos casos mais graves de esquizofrenia, esta desvitalização se manifesta por vezes de forma profunda, estando relacionada a alguns dos sintomas negativos, que veremos a seguir. B) Sintomas negativos. Os sintomas negativos, característicos da esquizofrenia, estão relacionados a uma forma muito peculiar de esvaziamento psíquico encontrada nesta psicose. Tal esvaziamento não se confunde com o prejuízo intelectivo primário da demência, mas representa uma grande dificuldade para que o paciente reorganize sua vida psíquica e retome seus laços sociais. Podem aparecer de forma simultânea aos sintomas elementares. Outros sintomas negativos importantes são aqueles que evidenciam uma desagregação do pensamento: o paciente já não fala “coisa com coisa”. Em muitos pacientes, o pensamento se reorganiza, ainda que seja de forma delirante, em outros, porém, a desagregação persiste e se agrava. São comuns então as estereotipias (repetição constante e monótona das mesmas frases ou gestos), as saladas de palavras (frases que não fazem nenhum sentido) e outros afins. Outros sintomas negativos, ainda, apontam para uma inadequação ideo-afetiva: encontramos aqui a ambivalência, os risos imotivados, a puerilidade, as estranhezas de gestos e comportamentos. Um traço clínico curioso dos sintomas negativos é o seu aspecto maquinal, automático: o paciente muitas vezes parece comportar-se como uma marionete ou robô o que costuma ser fortemente intensificado pelo uso de neurolépticos. Vamos recapitular os passos indispensáveis ao diagnóstico de qualquer transtorno psíquico. O diagnóstico diferencial entre psicoses, neuroses e quadros orgânicos Inicialmente, perguntamo-nos se estamos ou não diante de um quadro organicamente determinado. Em caso afirmativo, devemos verificar se trata de um delirium ou de um quadro demencial. Se, pelo contrário, descartamos um quadro orgânico, estamos diante do diagnóstico diferencial mais importante na clínica da Saúde Mental: psicose ou neurose? Por que o mais importante? Primeiro, por ser aquele que necessitamos fazer com maior freqüência. Segundo, porque é indispensável para a condução do tratamento. Terceiro, porque exige maior finura e experiência clínica do que o diagnóstico dos transtornos orgânicos. A caracterização dos sintomas da psicose Para fazer o diagnóstico de psicose, vamos procurar os sintomas que descrevemos acima: as vivências delirantes, as alucinações verbais, as alterações da consciência do eu, as alterações graves do sentimento vital, os sintomas negativos. Geralmente, quando um deles está presente, algum outro também está ou esteve – pois são, de certa forma, aparentados entre si e relacionados uns aos outros. Para ajudar nesta procura, vamos destacar alguns aspectos comuns aos diferentes grupos de sintomas estudados até aqui. Sintomas ou fenômenos elementares: as vivências delirantes, as alucinações verbais e as alterações da consciência do eu. Têm um caráter de evidência ou certeza para o sujeito: podem não saber por que, mas é assim; isto lhes parece indiscutivelmente real, embora inexplicável. Constituem uma invasão no psiquismo do sujeito, algo que se impõe a ele independentemente de sua vontade. Costumam envolver mensagens que se dirigem ao sujeito: comunicações intrincadas, enigmas a decifrar, e assim por diante. Como diria o psicanalista francês Jacques Lacan, os delírios, as vozes, as alterações da consciência do eu envolvem sempre algo da relação do sujeito com o Outro: uma relação que, nas psicoses, se caracteriza por uma intrusão, uma interferência, uma colagem. É como se o psicótico não pudesse se destacar inteiramente do Outro – o Outro lhe faz sinais que só ele entende, penetra-o, entra nele a qualquer momento. Alterações graves dos sentimentos vitais: também dão testemunho desta invasão do Outro, mas de uma outra maneira Enquanto os sintomas elementares se manifestam de forma evidente no registro do pensamento e da linguagem, as alterações do sentimento vital incidem num ponto limite entre o psiquismo e o corpo; logo, afetam o sujeito literalmente no seu ânimo vital. Fazem-no ficar imóvel no seu canto ou movendo-se sem parar, completamente desvitalizado e apático, ou lhe impõem um excesso de energia; interferem fortemente em funções vitais básicas, como o apetite, o sono, o interesse sexual. Envolvem um fator quantitativo que não é importante nos outros sintomas elementares (a vivência delirante primária deve ser caracterizada por sua forma, e não por sua intensidade; já a tristeza vital, embora possua também uma forma característica, deve apresentar-se de forma intensa para ser diagnosticada como tal). Sintomas negativos: como vimos, costumam surgir depois dos sintomas elementares ou produtivos – seja no lugar deles, seja coexistindo com eles. Representam um esvaziamento psíquico, como sinal de uma evolução difícil e problemática da psicose. Também como vimos, costumam estar associados a uma desvitalização importante. As principais formas clínicas da psicose - esquizofrenia paranóide, esqizofrenia hebfrênica, esquizofrenia catatônica, esquizofrenia residual, episódio depressivo grave, a mania, o transtorno bipolar; NEUROSES Aspectos importantes para realizar o diagnóstico de uma neurose: Excluir o diagnóstico dos quadros de origem orgânica. Excluir o diagnóstico de psicose, verificando, sobretudo, a ausência de sintomas elementares na história do paciente e no momento atual. Caracterizar os sintomas presentes como realmente patológicos (excessivos, freqüentes, insistentes, seriamente prejudiciais à vida) Não permitir que o paciente fique centrado na descrição ou na repetição da queixa, mas convidá-lo a falar sobre si, sua maneira de lidar com as pessoas e situações, suas relações afetivas, sociais, profissionais. Verificar as relações dos sintomas com a história do paciente, e com as circunstâncias atuais de sua vida. Procurar as relações dos sintomas com impulsos sexuais ou agressivos dos quais o próprio paciente não se dá conta, assim como a culpabilidade, também inconsciente, gerada por esses impulsos. Sempre buscar as circunstâncias que fazem surgir e/ou agravar os sintomas. As principais formas de neurose estudadas por Freud são: Neurose de ansiedade Neurose histérica Neurose obsessiva Estas continuam sendo as formas fundamentais que encontramos na clínica. Em cada uma delas, pode ocorrer também a presença de sintomas depressivos. Algumas recomendações para o diagnóstico das neuroses de ansiedade Caracterizar bem o sintoma da ansiedade como predominante no quadro. Distinguir os sintomas da ansiedade dos sintomas depressivos (lembrando sempre que ambos podem estar presentes no mesmo paciente). Caracterizar tal ansiedade como realmente patológica (excessiva, desproporcional, fora do controle, incapacitante).