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Sumário UNIDADE 1 - Ética: evolução, fundamentos, conceitos e conduta Relação com a filosofia ..................................................................................................07 Conceito de ética ...........................................................................................................11 Ética e valores ...............................................................................................................12 Síntese ..........................................................................................................................28 Referências Bibliográficas ................................................................................................29 05 Nesta disciplina, vamos conhecer os fundamentos históricos e conceituais da ética, estudar alguns dos seus pensadores e, também, a contribuição da filosofia para o desenvolvimento da humanidade. Veremos as bases mentais e de conduta, definições de moral e ética, prática moral, além das principais doutrinas éticas da Idade Antiga, Idade Média e Idade Contemporânea. Assim, teremos subsídios que ajudarão no desenvolvimento das questões relacionadas com a ética e legislação profissional. O conceito de ética é complexo, já que engloba juízos de valor, difíceis de serem aplicados. A ética, por exemplo, está relacionada aos princípios de conduta que orientam um grupo ou um indivíduo. Assim, a ética profissional contempla o conjunto de normas que norteiam a conduta dos integrantes de determinada profissão. Segundo Fipecafi (1997), os filósofos referem-se à ética para denotar o estudo teórico dos padrões de julgamentos morais, inerentes às decisões de cunho moral. Observe adiante o que informa Sá (2004): “Em seu sentido e maior amplitude, a Ética tem sido entendida como a ciência da conduta humana perante o ser e seus semelhantes”. A ética envolve, pois, os estudos de aprovação ou desaprovação da ação dos homens e a consideração de valor como equivalente de uma medição do que é real e voluntarioso no campo das ações virtuosas. Encara a virtude como prática do bem e esta como a promotora da felicidade dos seres, quer individualmente, quer coletivamente. Desse modo, avalia os desempenhos humanos em relação às normas comportamentais pertinentes. Unidade 1Apresentação 07 Relação com a filosofia Conforme vários autores, como um ramo da filosofia, a ética a influenciou e foi por ela influenciada. Segundo Fipecafi (1997), na ética normativa, distinguem-se dois grupos principais de filósofos: • - os deontologistas (do grego déontos, “de obrigatório”); e • - os teleologistas (do grego teleíos: “no fim”, “final” (causa). Vejamos, a seguir, qual era o pensamento dos deontologistas, teologistas, axiologistas e filósofos, segundo Fipecafi (1997, p. 29): Os deontologistas têm como conceitos básicos o direito e o dever, e assumem que as definições de moral derivam desses conceitos fundamentais. Os teleologistas têm na bondade e valor os valores os conceitos axiológicos básicos que detectam de onde vem a preponderância da bondade intrínseca. Os teleologistas enfatizam o cálculo das consequências de cada ação, entre as várias alternativas possíveis. Os axiologistas (do grego axiós, “digno”, “útil”) acham que certas ações são corretas por causa do valor da bondade que eles inerentemente contêm, como a alegria ou o prazer, e não meramente por causa da bondade e suas consequências. Os filósofos têm procurado, ao longo do tempo, analisar o conceito de moralidade de per si (no sentido em que amoral contrasta como amoral, em lugar do imoral). Assim eles se perguntam de que forma as regras e os julgamentos morais diferem daqueles moralmente condenáveis, ou amorais. Indagam-se sobre qual a diferença que existe entre o que é moral- mente bom ou correto e entre ser bom ou correto em apenas alguns aspectos, tais como prudência, legalidade, estética, intelectualidade e religiosidade. Os filósofos perguntam-se, ainda, em que intensidade a instituição da moralidade difere de outros sentimentos de pessoas ou de outras instituições da sociedade. Verificamos que, também segundo Fipecafi (1997), a ética é um ramo da filosofia que lida com o que é moralmente bom ou mau, certo ou errado. Para os filósofos, a ética é o estudo teórico dos padrões de julgamento morais. Moral e ética são equivalentes? Fique atento, porque, em geral, o julgamento moral tem influência sobre o conceito de ética, mas não significa que sejam a mesma coisa. NÓS QUEREMOS SABER! Capítulo 1Ética: evolução, fundamentos, conceitos e conduta 08 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional 1.1.2. Pensadores clássicos Os posicionamentos dos pensadores clássicos eram distintos à ética. Para alguns, a ética situa- se no campo do ideal. Para outros, no campo das forças que causam a conduta, quer dizer, o que leva à ação comportamental do ser. Assim, levam em consideração as causas ou relações que implicam sobre a conduta, sobre a natureza ou essência. Vejamos aspectos da ética, segundo Sá (2004, p. 16): 1º Como ciência que estuda a conduta dos seres humanos, analisando os meios que devem ser empregados para que a referida conduta se reverta sempre em favor do homem. Nesse aspecto o homem torna-se o centro da observação, em consonância com o meio que lhe envolve. Cuida das formas ideais da ação humana e busca a essência do Ser, procurando conexões entre o material e o espiritual. 2º Como ciência que busca os modelos da conduta conveniente, objetiva, dos seres humanos. A correlação, nesse aspecto, é objetiva, entre o homem e o seu ambiente. Os modelos, como valores, passam a guiar a estrutura normativa. Desta forma, percebe-se a ética buscando a essência do ser e a correlação entre o homem e o ambiente. Vamos, agora, conhecer alguns pensadores clássicos importantes. Aristóteles Para este filósofo grego, o bem é a felicidade e deve ser praticado como ideal e como ato consciente. Segundo Sá (2004, p. 17) “[...] para o homem não existe maior felicidade que a virtude e a razão”. O pensador assinala o aspecto ético sob a ótica de uma realidade aceita como modelo de conduta racional. Assim, a felicidade é diferentemente concebida pelo leigo (forma empírica) e pelo sábio (forma científica). Aristóteles teoriza que o bem é o que se relaciona com o espírito e com a mente, porém não apenas concebida, senão praticada, através da atividade virtuosa. Em suas afirmações, deixa claro que mesmo as situações ideais não alcançam todo o valor se não materializarem pela conduta virtuosa. Platão Este pensador clássico da Grécia Antiga explora a ética das virtudes, ou seja, aquela que considera como objeto de seu exame essa exposição da alma. Na concepção filosófica dos ditos estoicos, o fim supremo, o único bem do homem, não é o prazer e a felicidade, mas a virtude. Ao mesmo tempo, os estoicos apresentam a ética como uma conduta mutável, relacionada com cada época. Mas mesmo diante das mudanças do ambiente por alterações conceituais, em todos esses estudos filosóficos da ética, nota-se que a preocupação é o homem com vistas aos seus procedimentos perante terceiros, buscando a prática da virtude. Embora a filosofia renove conceitos a cada época, em virtude de constantes mudanças no ambiente e consequentemente no rumo da história, as formulações de cada filósofo, independentemente da corrente de pensamento em que está circunscrito, sempre teve em conta o homem como elemento central de qualquer pressuposto. Trocando em miúdos, a preocupação primeira e única é, para os filósofos, a humanidade e suas relações. NÃO DEIXE DE LER... 09 Pensadores modernos O estudo da ética pelos pensadores modernos mostra que os filósofos modernos buscaram inspirações distantes para seus estudos, porém, alguns aplicaram algumasdoses de radicalismo, de acordo com suas preferências em entender o ideal do bem e da conduta do ser. Alguns analisaram o bem como algo natural, inerente à alma; outros encararam como autoafirmação do ser; outros confundiram a lei e o Estado como as materializações do bem. Algumas tendências se desenvolvem ainda no campo da ciência ética, como particularizar ou universalizar o bem, assim como as tendências de avaliação dos agentes passivos e ativos. Temos, também, uma posição supremamente ideal que invadiu os estudos modernos dessa ciência: entender a ação ética, como a assumir uma postura divina ou desejar assumir a Deus como algo infinito em virtude. Há muitos aspectos da filosofia moderna que abordam filigranas de um alicerce sedimentado pelos clássicos. Apesar dos tempos e das contribuições das ciências da mente, as referências filosóficas dos escritos clássicos resistem às evoluções tecnológicas e continuam como referência para a humanidade. Merecem destaque no pensamento moderno alguns autores, como Henri Bergson. Ética de Bergson Filósofo francês nascido em Paris, em 1859, ele se destacou por sua teoria da evolução. Ele focou dois ângulos distintos nos estudos morais e éticos a que denominou de moral fechada e moral aberta, como conceitos de suas razões. Para o filósofo, moral fechada é a derivada do instinto, na preservação das sociedades em que se grupam os seres. Termina por aceitar uma ética do fim, ou seja, uma finalidade a ser perseguida, ao comparar o comportamento derivado de uma inspiração religiosa com aquele da formação do indivíduo. Admitindo a necessidade de uma renovação moral, Bergson, assim, terminou por deduzir que existem forças que se destinam a promover essa mesma renovação, fazendo apologia da intuição. Com um espírito crítico marcante, ele, em seu desejo de renovação social pelo comportamento humano voltado à liberdade e comportamento honrado e pragmático, não poupou os demais que pensaram diferentemente sobre a questão ética. Segundo alguns autores, existe infinitamente mais uma consciência humana do que o cérebro correspondente. Existe a defesa da atividade ética derivada como relação entre o material e o espiritual. Bergson reconhece que é mais difícil o conhecimento da própria personalidade, do próprio ser, que aquele que dedicamos a saber sobre as coisas exteriores. O pensador também indicou que, sob certas circunstâncias e ainda que com a consciência formada, pode ser difícil a compreensão universal. Assim, leva em conta aspectos peculiares no estudo de problemas éticos. Em suma, a ética de Bergson caracteriza-se por análises restritas ou fechadas e amplas ou abertas. Contudo, deve-se respeitar a consciência ética como regente da atividade ética e uma forte ligação entre os fenômenos da matéria e do espírito. Ética do Valor de Scheler e Hartmann Estes autores desenvolveram importantes estudos sobre o conceito de valor que veio substituir a noção de bem que era a predominante nos domínios da ética. O trabalho de Scheler foi centrado no combate a uma ética material do bem, quer dizer, aquela que considera este apenas como desejo ou vontade própria, sem que isto possa representar um efeito perante os agregados humanos. 10 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional Para o pensador, a ética não se baseia nem na noção do bem, nem em aspirações desejadas, mas na intuição emotiva dos valores, observados em suas diversas hierarquias. Hartmann adota o princípio de Scheler, que idealiza uma esfera ideal ética. Qual o conceito da ética para o indivíduo? É importante ter em mente o conceito de ética a partir de cada filósofo, mas leve em conta que a hierarquia de valores é a base das proposições dos filósofos em geral. Assim, a ética pode ser vista como o resultado da soma de valores de cada indivíduo. NÓS QUEREMOS SABER! A ética de Wagner Esta filosofia enfoca o espírito de defesa, a conquista da energia, o preço da vida, a simplicidade, a obediência, a guarda interior, a bondade reparadora, os começos difíceis, o esforço e o trabalho, a fidelidade, a jovialidade, a educação heroica, a honra viril, o medo e o combate. Estas são formas comportamentais que Wagner considerou importantes para a qualidade de vida. Através de outros estudos e teorias dos elementos éticos, levou-se em conta também se é algo integrado com o homem ou se é algo independente, e qual o parâmetro para atribuição do valor. Sá aponta que (2004, p. 22): O valor é uma expressão de um aspecto de aferição sobre o que se elege, escolhe ou se atribui uma preferência (esse o sentido filosófico e que diverge daquele contábil, em que o valor é uma expressão de grandeza do fato patrimonial). Quando o que se escolhe ou se elege torna-se um objetivo de vontade, quando a eleição se transforma em dever, torna-se um valor, dentro da acepção que lhe foi dada filosoficamente no campo da Ética. Vamos observar que o relativismo dos valores transformou-se em uma escola prestigiada de pensamento ainda em nossos dias. No campo da ética, é modernamente aceito aquele (o indivíduo) que: • tem o valor como norma, como algo desejável e critério de juízo, como possibilidade de escolha inteligente; • a reflexão sobre a ética não pode esperar transformar os agentes sociais em indivíduos éticos, porém pode dar-lhes instrumentos para que decidam consequentemente, de acordo com o que a coletividade espera deles. Pode-se dizer, então, que: • a ética representa uma adoção de posição ideológico-filosófica que leva aos interesses sociais envolvidos; • de acordo com a posição dos agentes, pode-se ter mais de uma maneira ética, segundo a visão de cada um. 11 Conceito de ética As palavras “ética” e “moral” têm a mesma base etimológica: a palavra grega ethos e a palavra latina mores, ambas significando hábitos e costumes. Pode-se, também, definir a moral como sinônimo de ética, como o conjunto das normas que, em determinado meio, recebem a aprovação para o comportamento dos homens. A ética, como demonstração única do pensamento correto, leva à ideia da universalidade moral, ou, ainda, à forma ideal universal do comportamento humano, expressa em princípios válidos para todo pensamento normal e sadio. Não há grupos humanos que não obedeçam às normas morais, apesar de que o aparentemente natural para uma sociedade não o seja para outra, além do que, uma sociedade pode tomar diferentes normas morais, uma para uso interno e outra para uso externo. Conforme a situação e o momento em que os agentes estão envolvidos, o termo ética adquire diferentes significados. Pode-se tomar como exemplo o mundo dos negócios com situações próprias e exclusivas. Neste caso, a pessoa moral que atua como um causador desse sistema é uma definição particular da ética nos negócios. Dessa forma, toma-se essa relação da pessoa com a atividade como objeto de estudo da forma pela qual normas morais pessoais se aplicam aos objetivos da empresa comercial. Veja que não se trata de um padrão moral separado, mas da observação de como o contexto dos negócios indica seus problemas próprios e exclusivos à pessoa moral que atua como administrador desse sistema. O que as pessoas ou os grupos pensam que é correto fazer, ou que são obrigadas a fazer, é o que consiste a ética ou moralidade, e não apenas o que elas fazem costumeiramente. As ações dos homens podem diferir de suas crenças e ambas podem diferir do que eles devem fazer ou crer, mas as ações nem sempre são um reflexo de suas crenças. Um bom exemplo para análise é o de um gerente de auditoria que designa um auditor contábil independente para auditar as contas de uma empresa. O auditor contábil tem relações de parentesco com o presidente da empresa que será auditada. Acreditando estar agindo de acordo com sua crença de que conseguirá separar assuntosprofissionais dos assuntos pessoais, o profissional aceitará a tarefa, pensando não haver nada de errado em fazer auditoria nestas contas. Mas teria sido a recusa do serviço o comportamento esperado para o auditor. Entende-se como o procedimento correto a separação entre o autor dos serviços e o presidente da empresa, para que se tenha um parecer completamente isento sobre a veracidade ou não dos dados contidos nos relatórios auditados. O que seria esperado da empresa, sob a ótica da ética profissional, ao mesmo tempo, seria a substituição do auditor escolhido, demonstrando à sociedade que a empresa de auditoria trabalha com integridade de procedimentos. As pessoas travam entre si grande número de relacionamentos em função da convivência em sociedade para atingir determinados objetivos, que podem ser: • de natureza individual (particular); • ou coletiva (envolvendo o conjunto inteiro da sociedade ou grande parte desta). Os relacionamentos são profundamente influenciados por aspectos atrelados ao comportamento humano que, por sua vez, recebe influência das crenças e dos valores que cada pessoa carrega. Assim, é possível que surjam conflitos entre as pessoas envolvidas nos vários tipos de relacionamentos existentes na sociedade, já que todos temos objetivos diferentes. 12 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional Com objetivos opostos, cada parte assumirá uma posição e um comportamento próprios, em função daquilo que acredita ser certo e justo para a situação. Diante deste cenário, buscamos o entendimento comum. Questões complexas, no entanto, são o maior desafio e, assim, buscamos o ponto de entendimento eliminando ou atenuando o conflito de interesses que envolvem as pessoas em cada situação. Ética e valores Ao nascer, adquirimos nossas primeiras referências sobre a vida, passando a fazer parte de uma família, classe econômica da qual a nossa família faz parte, a raça etc. As condições iniciais, no entanto, podem ser modificadas ao longo da nossa existência, mas também nos acompanhará ao longo de nossa vida, nos influenciando em todos os momentos. Além das condições que as cercam, cada pessoa recebe, desde cedo, uma gama de informações a respeito da vida, informações que tratam de assuntos relacionados à sociedade e que abrangem, inclusive, questões ligadas à justiça social entre os homens. Torna-se importante reconhecer que o fato de pessoas distintas apresentarem comportamentos distintos diante de situações semelhantes nem sempre significa que existe uma parte correta e outra errada. Significa que cada parte tem sua visão própria da vida, isto em função das condições que possui e das informações que recebe. Nosso comportamento não é imutável e nem estável: • não é estável, em função das modificações sofridas nas condições que acompanham cada pessoa durante a vida; • não é imutável, também em virtude da habilidade que a pessoa tem de analisar e entender as informações que lhes são passadas, caso em que pode modificar seus valores e transformar seu comportamento. Assim, podemos perceber com clareza a diferença entre os valores das pessoas em consequência dos seus comportamentos. É preciso que tenhamos em conta que as necessidades cotidianas, as diferenças constatadas entre as pessoas e, por consequência, entre as sociedades, são demonstradas por pensamentos e por comportamentos distintos, como regra geral, estando diretamente ligados aos valores que cada um atribui às coisas e aos fatos. Problemas morais e éticos Os conflitos morais e éticos apresentam-se em diversos momentos da vida do homem. Segundo Fipecafi (1997, p. 20): Considerando-se que cada pessoa apresenta suas próprias crenças e seus próprios valores, buscando alcançar seus interesses particulares, a fim de ver supridas suas necessidades, é fácil imaginar que ela tenha, da mesma forma, sua própria maneira de comporta-se. A perseguição de objetivos diferentes por parte de pessoas que se comportam de maneira desigual, isto é, a busca de interesses distintos, intra e intersociedades, conduz ao surgimento de conflitos de interesses, algumas vezes entre indivíduos, outras entre indivíduo e a sociedade, o que significa que em determinados momentos as pessoas precisam decidir qual interesse atender em primeiro plano, qual comportamento adotar diante de determinadas situações ou, de outro modo, decidir sobre o que é justo, o que é certo, o que é errado, o que é bom, e o que é ruim. 13 Há alguns exemplos ilustrativos em que percebemos como o cotidiano nos apresenta diversas situações nas quais prejuízos individuais ou coletivos são causados em função das decisões tomadas, dos comportamentos assumidos e dos interesses contrariados: • funcionário que aceita um suborno; • carro que não respeita um sinal vermelho e avança; • brigas entre torcidas de times adversários. Podemos perceber, então, que o ser humano e sua convivência em sociedade nem sempre é pacífica. E será mais difícil quanto maiores forem os conflitos de interesses nela existentes. Vale refletir uma questão feita por Fipecafi (1997): “[...] o que é certo ou errado quando o interesse de determinada pessoa contraria o de outra ou de todas as pessoas?”. O objetivo de estudo da ética, levando em conta os conflitos existentes entre as pessoas, e a partir das suas razões como consequência direta de crenças e valores, remete à proposição ou ao estabelecimento de padrões de comportamento que permitam a convivência em sociedade. Assim, Fipecafi (1997, p. 22) assinala: Uma vez que cada pessoa apresenta seu próprio conjunto de crenças e valores, com comportamentos e objetivos diferenciados, surgem conflitos nos relacionamentos existentes no seio de cada sociedade. Tendo em vista que a convivência em sociedade precisa ser mantida, torna-se necessário que o comportamento das pessoas permaneça dentro de um nível aceito pelo conjunto da sociedade, a despeito do rol de crenças e valores de cada pessoa individualmente. A Ética, enquanto ramo do conhecimento, tem por objeto o comportamento humano no interior de cada sociedade. O estudo deste comportamento, com o fim de estabelecer os níveis aceitáveis que garantam a convivência pacífica dentro das sociedades e entre elas, constitui o objetivo da Ética. Enfim, vivendo em sociedade com indivíduos dos mais diversos grupos sociais, com diferentes valores e padrões de comportamento, o homem necessita adotar um comportamento aceito pelo conjunto para que a harmonia exista e seja mantida. Evolução ética, consciência ética, inteligência emocional e ética A partir das referências filosóficas e tradicionais em que se sustentam as condutas humanas e identificando que os fundamentos nos fazem entender o que é ético é que se podemos encontrar respostas para o fenômeno. Bases mentais e conduta Segundo Sá (2001), sendo a conduta observável uma consequência de vontade, e esta de uma consciência, tudo o que reside nas áreas da mente e do espírito interessa ao estudo da ética, que tem ligações muito fortes com as doutrinas mentais e espirituais. Contudo, não se deixa de lado sua autonomia científica, pois são fontes de conhecimento que interessam diretamente à análise das virtudes. No início do século XX, filósofos como Bergson alertavam que os estudos relativos à energia espiritual não eram tão claros. O pensador afirmava que toda consciência se mostrava como uma antecipação do futuro e ensinou que, ainda de acordo com Sá (2001), reter o que já não mais existe e antecipar sobre o que não existe ainda seriam a função básica de nossa consciência. 14 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional Qual a influência do conhecimento inicial adquirido? Parece não existir dúvidas de que são predominantes as estruturas mentais adquiridas no passado.Deste modo, os estudos científicos sobre a mente concluíram de maneira comum que há influência da aquisição dos conhecimentos das primeiras idades, em relação às estruturas dos pensamentos e das ações. NÓS QUEREMOS SABER! Saiba que a barreira das impressões formadas nas primeiras idades serão sempre barreiras, mesmo para outros sentimentos de maior influência. Grandes esforços e motivação podem, porém, conduzir a mudanças das bases adquiridas. De acordo com Sá (2001, p. 47), levando em conta a formação moral das crianças: O campo da infância é mais fértil que o de outras idades, especialmente no que tange à formação moral. Na espontaneidade infantil, no seu manifesto sincero, existem áreas amplamente favoráveis para o desenvolvimento de toda a sorte de conhecimentos. Na medida em que a criança convive com seus semelhantes, deles tende a absorver, por imitação, o que lhe apraz e por recalque o que lhe desagrada ou causa mal estar. É a fase em que se devem estimular virtudes, de forma afetuosa; também com amor se deve repelir toda a tendência para o vício, como igualmente advertir sobre os males do mesmo. É, ainda, a mesma época na qual se instalam os principais e mais profundos complexos (quase sempre derivados de reações iguais e contrárias de prazer e dor). As bases que foram citadas anteriormente devem ser implantadas pela educação, tanto no lar quanto na escola. Os dois ambientes são importantes, ou seja, a criança começa a adquirir sua formação também nos seus contatos com seus semelhantes. Definições de moral e de ética “Moral” vem do latim mores, que quer dizer costume, conduta, modo de agir; enquanto “ética” vem do grego ethos e, do mesmo modo, quer dizer costume, modo de agir. As duas palavras, na etimologia, possuem origens distintas e significados idênticos, daí a tendência de serem tratadas como a mesma coisa. Entretanto, pode-se dizer que a moral normatiza e direciona a prática das pessoas e a ética teoriza sobre as condutas, estudando as concepções que dão suporte à moral. Logo, o primeiro possui status de objeto. Para a sua sobrevivência, o ser humano necessita de condições materiais de vida e de normas de conduta, que são formuladas pela sociedade a fim de impor limites nos desejos e nas ambições individuais e guiá-los para uma relação equilibrada com as necessidades sociais. NÃO DEIXE DE LER... 15 As normas de conduta ou de comportamento, por exemplo, a priori, tendem a parecer individuais, haja vista que são praticadas por um indivíduo no que se refere ao seu comportamento no mundo e de sua decisão. No entanto, quando há o envolvimento direta ou indiretamente de outros indivíduos, tal conjunto de normas adquire outras dimensões, mesmo apresentando-se como produto de livre arbítrio e consciente do sujeito, de fato, há a influência histórica e cultural do agente. Apesar de o comportamento moral juntar-se com as circunstâncias históricas do agente moral, isto não o impede de fazer e responsabilizar-se por suas escolhas. Isto porque, segundo alguns autores, o homem é complexo, e apenas adquirir hábitos não o satisfaz. Ele pensa no que faz e busca a melhor maneira de direcionar a sua prática para lhe ser útil e de forma conscientizada. Por ser um animal racional, o homem projeta seus planos e traça seus objetivos e metas que propõe alcançar, isto o faz um ser superior. O conhecimento humano faz parte de um processo que avança e se dá através da troca de relações e experiências ininterruptas. Diante disso, o ser humano tem capacidade de compreender melhor o mundo e ser consciente dos seus atos. Nas relações mantidas com o mundo, torna-se visível a sua superioridade com relação ao animal irracional, por exemplo, que tem ações bastante limitadas, quase todas no que concerne a satisfazer suas necessidades básicas. Por outro lado, o ser humano busca o sentido para sua existência na terra. A busca pelo conhecimento de si, das coisas e do mundo proporciona ao ser humano a capacidade de manter múltiplas relações, que abrangem desde sua realidade física com o intuito de transformá-lo em benefício próprio ou coletivo, até o desenvolvimento de uma visão mais ampla do mundo. Saiba que as relações humanas são ilimitadas no que se refere ao mundo material e que elas vão além e se estendem às que envolvem os indivíduos entre si, tais como: relações jurídicas, econômicas e morais. Toda essa variedade de relações gera comportamentos diversos e supõe-se um sujeito real e concreto. Um ente social e historicamente localizado, sujeito que manifestará na sua prática os condicionamentos e os limites que lhe são impostos. Assim, o sujeito real, histórico, consciente de suas escolhas, dotado de liberdade é o sujeito da prática moral. Só o ser humano é capaz de um ato moral, porque ele é dotado de consciência, de liberdade e de poder de decidir. Assim, levamos em conta a liberdade interior, o livre arbítrio. Para alguns autores, apesar do ser humano estar submetido a condicionamentos, é possível pensar em um sujeito livre desde que ele elabore o que colocará em prática depois. Por sua vez, o ato moral não é arbitrário, ele fica na dependência de várias circunstâncias e condições que o agente não pode controlar. Nesse sentido, acredita-se que: • a liberdade que faz parte do agente moral dá-se dentro dos condicionamentos impostos, fazendo com que este tome suas decisões conscientemente e a convivência da liberdade com os limites implica em uma tomada de consciência dos fenômenos que também faz parte do mundo que vivemos. Então, a liberdade necessita ser analisada através da história, pois surge com a vivência do ser humano real, concreto e operante, com capacidade de transformar a realidade a partir de suas necessidades. É este o real agente da moral, o ser humano dotado de poder de decidir, agir e coordenar suas ações. 16 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional Família: núcleo dos valores morais Todas as sociedades, não importando o tamanho e independente do grau de desenvolvimento, possuem seus valores morais, que são passados de geração em geração através da escola, da família, igreja e dos meios de comunicação de massa. Esses valores desempenham papel de fundamental importância, regulando o comportamento humano na sociedade. Os valores morais dominantes na sociedade emergem da experiência coletiva dos sujeitos e vão se internalizando com o passar tempo. Quando socializados, são absorvidos num consenso entre os membros numa sociedade. Aos poucos, ao teorizar-se acerca dessa moral, a tomada de consciência é necessária e os preceitos são explicitados, isto a fim de tentar buscar a hegemonia através da capacidade de propagação e legitimação dos valores (pelos fins educativos e comunicativos que são muito eficazes). O processo de propagação e legitimidade como um todo é muito importante, entretanto, o ponto de partida é a família, que realiza o papel central nessa etapa inicial do processo. As crianças aceitam os valores com mais facilidade, tendo a família como ponto de referência dos valores relevantes para a manutenção da sociedade. A prática moral em nossa sociedade A sociedade atual foi a que mais deu crédito aos poderes da ciência e da técnica no intuito de oferecer ao homem uma vida feliz e rica materialmente. Experimentamos benefícios em todos os campos ao longo do tempo, mas a ciência e a técnica também tomaram direções que impuseram ameaças à própria humanidade e à natureza. Nem sempre os avanços tecnológicos foram colocados a serviço de todos, gerando assim grandes possibilidades de perigos ecológicos e guerras nucleares, entre outros. Percebe-se que a sociedade atual acha-se orientada por um verdadeiro culto ao prazer e ao poder. Segundo diversos autores, a sociedade capitalista em que vivemos gerou relações materiais esociais que dividem a população em classes antagônicas: • uma que desfruta dos benefícios do poder; e • outra que sofre as consequências do poder. Nesse contexto, a concepção moral também se orienta na exploração do ser humano pelo ser humano. É a lei do “salve-se quem puder”. Cada indivíduo confia apenas em si mesmo, concentra todos os esforços em prol da realização de seus interesses e infelizmente o coletivo foi esquecido. Então, a essência humana nessa nova ordem é alterada, o ser humano passa a ser apenas uma das peças de engrenagem, um apêndice ao processo produtivo, e não como deveria um ser dotado de consciência, de expectativas e de desejos. Apesar de não ser exclusivo das sociedades capitalistas, esse estado de alienação, atinge nela seu auge. Desta forma, todos permanecem submetidos ao poder do capital. 17 Pode parecer banal, mas é fato. Pensava-se que a tecnologia seria sinônimo de menos trabalho. No entanto, a possibilidade de menor esforço físico e maior tempo livre para o trabalhador não se tornou realidade. O cansaço físico foi substituído pela tensão emocional. Podemos considerar a tensão emocional também como uma forma de escravização. NÃO DEIXE DE LER... Assim, a moral que aparece em nossa sociedade baseia-se na exploração do ser humano e na diminuição de crédito da pessoa. A exploração do ser humano é uma prática moral que se identifica com uma sociedade conduzida pela desigualdade e pelo processo de exploração interna e externa. Desse modo, percebe-se que nossa moral despreza as virtudes públicas da justiça social, igualdade e liberdade e, assim, valoriza os ditos “vícios” individuais, tais como: sexo, vestimenta, descanso, ou seja, prende-se no moralismo privado, deixando de lado a moral pública. Principais doutrinas éticas De acordo com as suas condições históricas e sociais e os seus interesses e necessidades, cada sociedade e cada cultura cria valores morais diferentes, relacionados à sua própria cultura. Verifica-se, portanto, que existem diferentes doutrinas éticas, que são articuladas no tempo e no espaço. Idade Antiga A ética adquiriu grande valor no período considerado Clássico da Idade Antiga, no qual viveram os filósofos gregos Sócrates, Platão e Aristóteles. Os filósofos se voltaram para o ser e para os problemas sociais e morais após o momento pré-socrático. As condições da Grécia, especialmente de Atenas, favoreceram o surgimento da filosofia moral, formada por comunidades independentes e dispersas em torno do Mediterrâneo, que tinha certa homogeneidade quanto à língua e crenças religiosas, entre outras. Nas polis, ou cidades, em grego, aconteciam as discussões públicas, nas quais era permitida a participação de todos os cidadãos. Diferentemente do cenário atual em que o capital exerce domínio preponderante, nessa forma grega de organização social e política (a democracia), o logos, ou seja, a razão, a palavra e o discurso tornaram-se mais importantes do que a condição social e econômica do indivíduo. Sócrates (469-399 a.C.) Considerado o pai da filosofia moral, viveu a democracia grega do início ao fim. Dedicou-se à busca da verdade, não pretendia ensinar e sim aprender, o que era feito através da formulação de questões, que levariam ao conhecimento verdadeiro. A questão central da ética de Sócrates era o bem supremo da vida humana, a felicidade que consistia em proceder bem e ter uma alma boa. Para Sócrates, felicidade e conduta são a mesma coisa e consistem nos bens da alma, em ter o espírito livre de perturbações e dedicado ao conhecimento e à verdade. 18 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional Platão (427-347 a.C.) Foi discípulo de Sócrates e, após a morte do seu mentor, desistiu do desejo de participar da política e funda a Academia, dedicando-se à reflexão filosófica, assim como à discussão sobre temas diversos, tais como a matemática e a astronomia. Para ele, tudo o que conhecemos como existente não é real, mas, sim, imagens reflexas do Ser transcendente, pois, segundo ele, existiam dois mundos: um sensível e outro suprassensível ou inteligível, porém articulados, pois o primeiro seria imitação do segundo. Platão subordina o bem moral ao supramoral. Sua moral, assim como a de Sócrates e como será a de Aristóteles, é eudemonista (felicidade). Diferente de Sócrates, Platão, contudo, considera que a moral é a arte de preparar o indivíduo para uma felicidade que não está na vida terrena, por não estar ligada às necessidades corporais. Platão via a alma como constituída de razão, vontade e apetite, destacando a superioridade da primeira (razão). Aristóteles (384-322 a.C.) Discípulo de Platão e preceptor de Alexandre Magno, um dedicado discípulo da Academia de Platão que mais tarde fundou sua escola, o Liceu, que se tornou um centro de estudos das ciências naturais. Não desprezou o mundo sensível, diferentemente de seu mestre Platão, mas buscou unir as observações platônicas à ciência e à filosofia e também rejeitou o mundo inteligível. O conhecimento deveria ser do real, e não de sua ideia, portanto, parte dos sentidos. Podemos verificar que Aristóteles preocupou-se muito com a forma como as pessoas viviam na sociedade e que escreveu obras importantes sobre a ética: “Ética a Eudemo”, “Ética a Nicômaco” e uma “Magna Ética”. A ética de Aristóteles era uma promessa de felicidade, ou seja, era finalista. Ele entendia a moral como uma espécie de segunda natureza que guiaria o ser humano para a felicidade, considerada a aspiração da vida humana. Assim, o pensador grego apontava que: • o bem moral consistia em agir de forma equilibrada e sob a orientação da razão; • o bem individual não poderia estar em desacordo com o bem social. A orientação aristotélica preconizava que era vivendo em conformidade com a razão e com as virtudes do cidadão, de onde viriam o discernimento e o autocontrole, é que levam à assimetria entre desejos e habilidades. Deste modo, sumariamente, pode-se entender dos filósofos gregos que: • a prática moral exercitada orientou-se por princípios gerais acerca do fim e do bem, fornecidos pela reflexão ontológica; • a ideia de bem moral dependia da ideia do ser e seu comportamento deveria ser pela compreensão da essência, pois esse entendimento era condição para se perseguir o verdadeiro bem. Mudanças significativas no plano moral ocorrem com a morte de Alexandre Magno, pois Macedônia e Grécia se desagregam, e é nesse momento que surgem as correntes filosóficas denominadas de epicurismo e estoicismo. Utilize um tempo livre para pesquisar um pouco sobre estas filosofias. Fique sabendo que: • a ética epicurista guia para a necessidade de haver limites, a fim de garantir a calma e uma vida feliz e sem atropelos e para se construir uma “estética da existência”; 19 • o estoicismo é uma ética, ou seja, uma forma de viver, cuja direção principal consiste em viver conforme a natureza, assim os estoicos não fizeram distinção entre virtude e bem, tal como havia feito Aristóteles. Para eles, a virtude basta-se por si mesma, e também a contemplação perde lugar para a virtude moral, que é colocada como o que há de mais importante. Dessa forma, para os estoicos, o mais importante é viver conforme a razão, tendo consciência do seu destino e de sua função no universo, sem deixar-se dominar pelas paixões nem pelas coisas do mundo exterior. Idade Média A Idade Média foi considerada, pelos renascentistas e de forma preconceituosa, como um momento de obscurantismo justificado pelas epidemias e pelo medo reinante. Todavia, houve feitos significativos no campo cultural. O cristianismo tornou-se a religião oficial e influenciou em tudo, inclusive na prática moral. O conteúdo moral modificou-se, passando a vigorar: • a autonegação, • a humildade; • a disposiçãopara obedecer. Porém, o que os ligava era a autoridade de Deus, identificada como a origem e o fundamento da lei moral. Esta é decorrente de verdades reveladas que deveriam ser respeitadas e seguidas, a fim de que o ser humano pudesse atingir a salvação. Com esse entendimento, surgem virtudes morais, entre elas: • a fé, • a esperança; • a caridade. E, também, a ideia de igualdade entre os seres humanos. Trata-se, porém, de uma igualdade espiritual e só possível no plano sobrenatural. A ética cristã era uma maneira de regular a vida das pessoas e baseava-se em regras de conduta abstratas e universais, oriundas de Deus. Qual teria sido a relação histórica entre a religião e a filosofia? Ao longo da história da humanidade, percebe-se a subordinação da filosofia à teologia, ou seja, o pensamento filosófico, de alguma maneira, esteve relacionado à religião, especialmente a católica. Deste modo, ética e religião estavam conectadas. Foram Santo Agostinho e São Tomás de Aquino as duas principais referências desta vertente. NÓS QUEREMOS SABER! Santo Agostinho (354-430) foi caracterizado inicialmente por grande inquietação intelectual. Vinculou-se ao maniqueísmo e, não satisfeito, tomou conhecimento do pensamento de Platão e escreveu obras como “Confissões” e “A cidade de Deus”. São Tomás de Aquino considerava a filosofia menos importante do que a fé, à qual deveria se submeter de forma natural. Ele fundamentou sua concepção de mundo e sua consequente concepção moral também em um fim último, em uma verdade transcendental, em Deus. 20 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional Tomás distanciou-se de Aristóteles quanto ao fim último da prática moral, entretanto, tanto para um quanto para o outro, chegariam a ela pela contemplação e pelo conhecimento na Idade Média e, sem desviar-se da orientação metafísica, implantou uma novidade no terreno da moral ao deslocar o eixo do fim último da vida humana, de um valor bom em si mesmo, para um bem que está em Deus. Idade Moderna Diferentemente da anterior em todos os aspectos: econômico, político, social e espiritual, é a modernidade estabelecida entre os séculos XVI e XIX. Centrada em relações econômicas capitalistas e no desenvolvimento cientifico, há o fortalecimento da burguesia, que postula impor-se politicamente; criam-se estados modernos centralizados e a Igreja Católica perde a hegemonia de que até então desfrutava. Desta forma, as consequências incluem: • a separação entre razão e fé, emergindo o ser humano como um valor em si mesmo; • a vida boa ganha novos significados e a felicidade passa a ser, por exemplo, a liberdade de escolha; • a possibilidade de escolha da profissão, religião ou a forma de vida que se quiser são exemplos dessa nova condição. Observe que isso foi possível porque os indivíduos passaram a ter valores por si mesmos, e não apenas por serem cidadãos da polis, como acontecia com a ética aristotélica, ou por serem a imagem e semelhança de Deus. De acordo com Passos (2009, p. 40): A ética que surge e vigora nesse período é de tendência antropocêntrica, em que o ser humano é seu fim e fundamento, apesar de ainda consistir na ideia de um ser universal e possuidor de uma natureza instável. Assim mesmo, ele aparece como o centro de tudo: da ciência, da política, da arte e da moral. Nota-se que o ser humano é o centro para a ética neste momento. Immanuel Kant (1724-1804) contribuiu muito nos campos do conhecimento e da ética. Demonstrou que não era o sujeito a girar em torno do objeto, e sim o contrário, o que ele conhecia era produto de sua consciência. Suas obras ligadas à ética foram: “Metafísica dos costumes” (1785) e “Crítica da razão prática” (1788). Passos (2009, p. 40) assinala que: O valor concedido ao sujeito, como ativo e criador, vai estar presente também em sua doutrina moral, ao afirmar que a lei moral era apresentada ao homem pela sua própria consciência. Para ele o único bem em si mesmo era a boa vontade. A vontade é boa quando age sem nenhum interesse que não seja o cumprimento do dever pelo dever. Então, a consciência também irá interferir na formação da doutrina moral, ou seja, irá influenciar na formação de conceito de valor para o sujeito. Passos (2009, p. 41) ainda aponta: Como se vê, a moral kantiana difere substancialmente das concepções anteriormente apresentadas, contudo, apresenta alguns elementos de identificação. Seu ideal moral foi profundamente marcado pelo Cristianismo e por suas convicções cristãs. Com esses elementos, ele fundou uma moral autônoma e absoluta, extremamente fiel ao valor sagrado da obrigação moral, e baseada no imperativo categórico do dever imposto racionalmente. Observe que as doutrinas éticas anteriores tinham por objetivo atingir uma felicidade ou um bem. Ou seja, esta é uma moral da pura razão e do puro dever. O mundo empírico deveria ser deixado de lado e a prática moral deveria basear-se apenas na orientação da razão. Passos (2009, p. 41) destaca que: Assim ele construiu uma moral desinteressada, desprovida de qualquer finalidade e de qualquer motivação que não fosse o “o cumprimento do dever pelo dever”, pois, para ele, a 21 única coisa verdadeiramente boa seria, como dissemos, “uma boa vontade” a disposição em seguir a lei moral em detrimento das vantagens que ela pudesse proporcionar ao indivíduo. Assim, a lei moral seria incondicional e absoluta. Kant reconhecia que os preceitos da sua Ética eram duros e difíceis de serem colocados em prática, contudo, estava convencido de que uma sociedade perfeita só seria possível se a beleza, a felicidade, o amor, se submetessem ao dever e à moralidade. Kant, mesmo percebendo a dificuldade de colocar os preceitos da sua moral em prática, achava que só haveria uma sociedade perfeita com a submissão incondicional e absoluta. Idade Contemporânea Os estudos mostram que a Idade Contemporânea exigia uma ética que tinha o ser humano como sua origem e seu fim. Foi um período de notável avanço cientifico e valorização do ser humano concreto. Com uma ética centrada em valores absolutos, foi também de reação ao formalismo e racionalismo kantianos. Discutiam-se as virtudes públicas, as regras morais transformam-se em regras de convivência e os direitos fundamentais passaram a ser a igualdade e a liberdade. Com uma sociedade plural e heterogênea, a ética deve ser capaz de garantir a realização dos direitos fundamentais a todos os indivíduos, com códigos a serem obedecidos, e não pela imposição ou obrigação. Como concepções mais importantes do ponto de vista da reflexão ética, podemos destacar três correntes do pensamento: o Marxismo, o Pragmatismo e o Existencialismo. Marxismo Karl Marx (1818-1883) foi o fundador e maior representante do materialismo histórico. Partiu do princípio de que o idealismo mistificava a realidade ao fazê-la decorrente dos conceitos e, assim, criava uma moral também mistificada. A moral deixa de ser um conjunto de valores eternos e imutáveis aos quais os seres humanos deviam submeter-se, e transforma-se em um conjunto de normas construídas por eles a partir do próprio processo de desenvolvimento das sociedades, tornando-se temporais e espaciais. Condicionada ao momento e às condições históricas, e também de classe, já que cada classe elabora seus princípios morais, os quais serão constituídos ou adaptados aos princípios da classe dominante ou antagônica, a moral sob a perspectiva marxista é relativa. Os valores morais alteram-se de época para época ou apresentam-se com características diferentes dentro do mesmo período, a depender das diferentes classes sociais. Pragmatismo Definido não como teoria, mas, sim, como método, por seu objetivo consistir em auxiliar a compreensão da ciência e da filosofia. Buscava compreender a relação entre a prática ea teoria, ação e pensamento. É uma concepção que se distancia da especulação e se vincula aos problemas práticos e utilitaristas. Quanto à moral, algo é bom quando conduz à obtenção de um fim exitoso. Existencialismo Jean-Paul Sartre (1905-1980) é considerado um dos expoentes do existencialismo, uma concepção filosófica que parte do princípio de que a existência precede a essência, quer dizer, o indivíduo é aquilo que quiser ser, que se projetou ser. Sartre é representante do existencialismo ateu, que rejeita toda verdade metafísica, assim como todo valor universal. Segundo Passos (2009, p. 45), referindo-se à ética e valor: A ética baseia-se na liberdade como fim, de modo que são os seres humanos que vão atribuir valor ao mundo, pois ele não tem valor nem sentido. Os seres humanos vão lhe 22 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional atribuindo valor, a partir de sua experiência concreta e de suas escolhas. Assim, o valor do ato moral não se dá pela submissão a princípios estabelecidos e sim pelo uso que o sujeito fizer de sua liberdade. Só a liberdade decide, e como não existem parâmetros, leis, normas, a liberdade torna-se o fim da moral e o valor mais importante. Conforme o pensamento existencialista, o objetivo final é a liberdade, o ponto de partida para a maneira como os seres humanos vão valorizar o mundo. Até aqui, discutimos e entendemos as doutrinas morais. Pudemos perceber que variam dependendo das condições histórico-sociais e da forma de interpretação da realidade hegemônica; porém, o fazer e o agir são fundamentais, assim, é preciso que se entendam também condutas e estatutos éticos. Conduta ética e estatuto ético dos atos: o fazer e o agir De acordo com Sá (2001), no campo da ética, a consciência possui um aspecto peculiar que vai desde o seu conceito até os ângulos de seus conflitos com as práticas sociais. O mesmo autor define ética como sendo um estado decorrente de mente e espírito, através do qual não só aceitamos modelos para a conduta, como efetivamos julgamentos próprios. A consciência, assim, instala e age na relação entre o espírito e a sensibilidade da mente captadora de condições e ou necessidades. A razão pela qual a consciência ética é peculiar e determinada pela característica de que conquistar a felicidade de forma egoísta não lhe é considerável. Então, nada é ético se é produzido, se é feito com o prejuízo de alguém. O ético é produzido através de uma ação harmônica entre o ser que o pratica e a sociedade na qual se insere. As determinações do ambiente em que vive podem ser tão fortes que o ser humano passa a ceder, sem prejuízo, sua liberdade espiritual, em favor dos interesses e da pressão dos seus semelhantes. Quando o que está em questão é o problema ético, o espírito molda-se diante das realidades ambientais. Observe que não se trata de renunciar ao espírito nem ao ego, porém, trata-se de uma adaptação natural, tendo como condutor o amor como condição essencial da existência. Aspectos da consciência ética Interferências irão ocorrer no nosso autojulgamento, e nosso condicionamento à prática. No campo ético, a questão se relaciona a uma conduta objetiva de comportamento de grupo que elimina o subjetivismo. Neste caso, nossa conduta, já que é fruto da nossa consciência, passa por nossos próprios julgamentos, por julgamentos de terceiros, e, neste caso, torna-se especificamente ética. Existe, então, uma correlação entre o que cada um de nós absorve como um modelo para a conduta e o que sente como resultado de seus próprios entendimentos. 23 Consciência subjetiva e consciência ética Verifica-se que podem ocorrer diferenças entre o que construímos, o que elaboramos como formação geral de nosso conhecimento e as ações que realizamos em nossa conduta em sociedade. A conduta que deriva da vontade gerada na consciência pode não ser considerada boa segundo terceiros. Isto porque a consciência formada, somada à estrutura mental de cada um de nós, tem um comportamento de universo próprio, individual. Podem surgir aí os conflitos de diferentes naturezas, tanto para o indivíduo como no seu grupo, sua sociedade, seu Estado. Como a consciência forma-se para o exercício de vontades que resultam em condutas que se submetem à análise de terceiros, a consciência ética é específica. Consideremos os seguintes aspectos como exemplo: • para quem não foi educado para falar a verdade, mentir pode ser natural, pois não recebeu em sua consciência o modelo do verdadeiro, porém não será natural perante terceiros. De acordo com Sá (2001, p. 62), neste caso: Uma consciência virtuosa, opostamente, fica isenta de conflitos, em geral, pois, é esse o estado de valor que se tem objetivado conseguir, ao longo dos milênios, na sociedade humana. Isto vale para o geral e também para grupos e classes. Assim, por exemplo, também um código de ética profissional que proíba a propaganda de serviços pode criar uma norma a ser seguida, mas conflitante com o que o Ser entende pela questão. Tal forma de proceder pode beneficiar apenas as grandes organizações profissionais que, já possuindo nome implantado, cerceiam às menores seus propósitos de crescimento por conquista de mercado através da difusão. A norma pode ser aceita por um código, mas, essencialmente, poderá ferir a direitos individuais, contrariando ao que um profissional entende como correto. Desse modo, podemos notar que as organizações sociais estão submetidas ao controle de grupos e que estes podem colocar normas em favor de seus próprios interesses. Consciência ética e reflexão transcendental Como toda consciência, a consciência ética forma também uma opinião, oriunda da reflexão, quer dizer, desse embate entre a realidade percebida e aquela que se insere no íntimo do ser. Para Sá (2001,), essas posições inferiores que atribuímos à nossa mente são transcendentais, provenientes de partes recônditas e desconhecidas do cérebro pela ciência ou dessa energia ainda tão pouco conhecida pelo homem, que denominamos espírito. Observe que existe dentro de cada um de nós, de acordo com nossa capacidade, uma corrente de análises, de críticas e de intuições para o que denominamos como verdade. É nossa capacidade que pode estabelecer conflitos com as normalizações, com as leis sob determinadas condições. Enfim, o aspecto da consciência ética é bem concreto para nós e tem sua forma objetiva de ser aceita. O mundo perante a consciência ética Nos questionamentos sobre consciência ética, é possível se ter uma visão do quanto ela depende do ambiente e das circunstâncias que podem levar o profissional em casos extremos a conflitar-se com o interesse social. Sá (2001, p. 62) chama a atenção para os seguintes aspectos: 24 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional Também pode ocorrer que o profissional se volte contra medidas provenientes dos poderes que geram o Estado e que forçam medidas em nome do social, mas, em verdade, com lesões ao interesse individual dos cidadãos que exercem seus trabalhos. Refiro-me ao caso, por exemplo, que tem ocorrido na prática, em que o Poder Público, em lei, estabelece que o profissional deve denunciar o contribuinte que não está em dia com as obrigações fiscais. Entre o interesse do governo, a imposição da lei e a ética profissional que protege o sigilo, tem-se o contabilista firmado na proteção ao cliente, com muita justiça e adequação, entendo. Como deve agir o profissional da contabilidade? A opção profissional é em favor da empresa, se nosso Código Civil protege o sigilo e se a lei fiscal obriga sua quebra, já que o conflito da própria legislação desmoraliza a posição legal. Agora, a questão da consciência tem como dever o não trair, o não levantar-se contra aquele que tem o dever de proteger. O profissionalda contabilidade, na situação, segue os mesmos modelos do advogado que, mesmo tendo conhecimento de que seu cliente é criminoso, o defende. Observe que não se trata de defender o crime, mas a pessoa que se deixou vitimar por tais eventos. Quem tem prioridade? A pessoa ou o profissional quando se trata do julgamento ético? Note que a missão de contadores, advogados e médicos, por exemplo, é defender o ser humano, uma vez que o ser sobrepõe-se à prática de qualquer ato. A consciência ética, preste atenção, não é tão simples quanto parece e pode virar um imenso quebra-cabeça conforme a circunstância. NÓS QUEREMOS SABER! Estados especiais de manifestação da consciência ética A razão pode ser superada por sentimentos morais, partidários, religiosos etc., e em qualquer momento modificar modelos conscientes. Por exemplo, o indivíduo envolvido pela crença, pela forte emoção, pelo preconceito, pode enfrentar uma experiência em que o ego tende a deturpar o racional, podendo alterá-lo, superestimá-lo de acordo com as consequências. E mais: a visão do ser pode ser alterada por paixões e sentimentos mais profundos. A ciência também ainda não conseguiu um instrumento que medisse o valor da paixão e da tristeza. No entanto, Sá (2001, p. 66) aponta: A ciência também ainda não conseguiu uma valorimetria da paixão, da dor da tristeza, e da melancolia que fosse confiável e comprovável quanto à fixação quantitativa de sua intensidade e elasticidade. (...) A história do mundo está plena de atos lesivos à Ética praticada pelo fanatismo religioso, pelos preconceitos, em suma por emoções que empanam a razão, mas que dominam o ego e que contaminam sociedade. Não é, pois, exagero afirmarmos que uma consciência ética pode ceder lugar a deturpações motivadas por fanatismos religiosos, preconceitos e paixões de diversas naturezas. O enfraquecimento das virtudes pode ser facilitado pela ignorância, e o erro pode firmar-se como conduta aceitável até perante o social. Perante a doutrina da moral, as éticas de cada época não podem ser – senão casos especiais de estudos –, não podendo jamais alcançar o caráter de universalidade científica. A razão é um predicado humano importante relacionado à justiça, igualdade, felicidade e tolerância, por exemplo. 25 A virtude e a ética Constantemente, a palavra “virtude” tem o significado de algo bom que faz parte do indivíduo. Sá (2001) assim define: A virtude é uma conduta ética básica, quer dizer, não é possível, como princípio, conceber o ético sem o virtuoso. Representando a maneira própria de condutas específicas existe uma virtude ética. Para a área da ética, a virtude está ligada à qualidade do ser, em sua prática de atos morais essenciais, importantes, íntimos da alma. Para muitos, o ser humano nasce com programações genéticas, biológicas, espirituais etc., que a ciência ainda não conseguiu desvendar. Os atributos pelo nascimento evoluem e se adequam com a educação doméstica nas escolas e nos diversos ambientes de convivência. Por exemplo, existem padrões de virtude aceitos como verdadeiros, transmitidos durante vários anos pela via educacional. Para Sá (2001), no campo da ética, a virtude é, sem dúvida, uma qualidade necessária, sem a qual não se consegue exercer a disciplina comportamental nos grupos. Evolução do conceito de virtude Com o avanço das ciências, das sociedades, das leis, surgiram novos estilos de vida, e estes já não possibilitam mais a adoção de alguns conceitos de virtude que há séculos se utilizavam. Algumas das alterações, hoje aceitas também pela lei, não terão a garantia de estarem presente em tempos futuros; Sá (2001, p. 72) destaca este aspecto da seguinte maneira: As alterações sócio-morais, todavia, nem todas, foram maléficas; muitas evoluções foram e ainda são altamente proveitosas, à liberdade do ser humano e a uma aproximação à verdade. Tudo isto é perceptível, mas não altera, segundo entendo, ainda, as bases que devem caracterizar a conduta de um profissional como a já referida do contabilista, por exemplo, em sua responsabilidade de guardião da riqueza das células sociais ou de um médico como guardião do organismo humano. As alterações ampliaram os níveis de liberdade, embora nem sempre com a preservação de um estado de melhor qualidade de vida do ser. Tendo normas e valores sociais alterados, igualmente se alteraram atitudes e comportamentos. Em razão dos progressos do conhecimento, outros aspectos também mudaram, mesmo tendo moralmente semelhanças entre o homem do início deste século e o homem do século XX. Segundo Sá (2001, p. 73), a virtude não se faz dispensável em nenhuma circunstância, e não podemos transgredir diante daquelas pétreas, indeformáveis, ligadas à essência, ao espírito. De acordo com Sá: Um profissional que vive lidando diretamente com valores materiais, tendo como objeto de sua tarefa o zelo pela riqueza, como o da contabilidade, mais do que ninguém deve resguardar-se contra a sedução da fortuna, à custa de prejudicar a terceiros, notadamente seu cliente (esse, todavia, um dos aspectos, apenas, das virtudes a serem exercidas).O Código de Ética Profissional do Contabilista, por exemplo, fixa um sem-número de virtudes exigíveis; poderíamos, mesmo, até dizer, que é um complexo de normalizações de virtudes a serem cumpridas. Não basta, entretanto, que sejam normalizadas as condutas; o que importa é que o profissional dessa área e daquelas que cuidam de interesses de terceiros tenha absoluta convicção de que não deve construir seu bem à custa de prejuízo de terceiros, sejam eles quem forem. Por mais rigorosos que sejam os códigos, as classes estarão sempre a transgredi- los se não possuírem educação ética com absoluta convicção sobre os benefícios da prática das virtudes. As áreas ligadas a finanças, principalmente a contabilidade, são constantemente relacionadas à sedução da fortuna. Para os profissionais ligados ao exercício da profissão contábil, o Código de Ética profissional deve ser seguido com rigor. 26 Laureate- International Universities Ebook - Ética e Legislação Profissional Perfeição, caráter e virtude O fazer e o agir possuem suas relações com a perfeição e o caráter. Fazer as coisas com perfeição, muitas vezes, é a preocupação dos homens. Filósofos e algumas religiões pregam sobre modelos de perfeição. Admitem, por exemplo, que Deus fez o homem a sua imagem e perfeição. Para Sá (2001), a virtude é essencialmente a perfeição inspirada nas propriedades divinas, preexistindo à concepção do homem e existindo por essência, independentemente da vontade humana. Ainda segundo o autor: Os homens podem estabelecer paradigmas que consideram virtuosos, mas não é por esta razão que se transformam em virtudes. Não somos autores da verdade; apenas conseguimos encontrá-las e identificá-las com um modelo que tudo faz crer trazemos por origem na alma; por isto é que sentimos acender-se em nós uma energia ou satisfação quando encontramos a essência que por nascimento parecemos trazer. (SÁ, 2001, p. 77). Verifica-se que o caráter sinaliza o indivíduo, sendo seu símbolo de ação como individualidade que, assim, permite a qualificação. A conduta é como um efeito, um resultado, em que a causa é uma vontade. Já a vontade se inspira em algo que se concretiza oriundo de um estado de consciência, contido no caráter e que, por sua vez, é resultado de energias impressas no ser e que se alteram pela adição de outros elementos. Sá (2001) destaca importantes elementos a serem levados em conta: um bom caráter forma-se na virtude; a virtude está além do caráter; a forma de cada um se conduzir, guiado por seu caráter, é uma questão que ainda tem facetas desconhecidas. O caráter, como maneira de individualização, acaba por identificar os indivíduos, e quando se ajusta na virtude, não há dúvida – tenta sempre uma vida adequadapara o ser e a sociedade. Passos (2009, p. 50) ainda afirma que: As ideias e os valores que um gestor ou em empresário coloca em prática em sua ação são construtos históricos socais, portanto sínteses da articulação de seu eu, num processo intersubjetivo, onde interagiram pessoas que vão desde aquelas vinculadas com sua trajetória de vida familiar, educacional esportiva, profissional, religiosa, etc. Também se compõem pelo espírito da época, ou seja, pelos valores, anseios e princípios que vigoram em determinado momento histórico e suas condições econômicas, políticas e sociais. Portanto, o agir está diretamente ligado ao ser, e a trajetória de vida irá, de alguma forma, interferir nos valores que serão formados no indivíduo. As empresas e as organizações são pequenas estruturas sociais participantes da sociedade, que acabam criando valores e definindo caminhos e decidem por uma forma de ser e de agir consciente ou inconscientemente. Passos (2009, p. 52) complementa: Essas escolhas são de suma importância, pois os valores orientam a vida organizacional, não como normas e prescrições dogmáticas e a priori, mas, como dissemos, como princípios e crenças que dão uma orientação para a ação, uma filosofia que dá o norte às ações empresariais e, portanto, também ao comportamento das pessoas que as constituem. (...) Apesar de os valores empresariais terem nos seres humanos que as constituem uma de suas fontes, cada empresa estrutura-se em torno de um fim que pode incluir necessidades básicas de sobrevivência humana ou priorizar o bem-estar da instituição. A partir desses valores cria-se um clima, um ethos organizacional que faz a empresa ser ao mês o tempo igual e diferente das demais. Igual no que compartilha do culturalmente defendido no espaço e tempo e diversa naquilo que caracteriza seus sujeitos, em especial quem a pensa e conduz. Assim, os empregados precisam apropriar-se dos valores de sua empresa, a fim de manter uma coerência técnica e ética que os faça partes do todo sem perder sua identidade pessoal. Atitude que pressupõe a preservação do lugar de sujeito: livre, consciente, responsável e criativo. Conforme visto, o indivíduo pode manter sua integridade, sua identidade pessoal, e, ao mesmo tempo, apropriar-se dos valores da empresa. No entanto, cabe ao indivíduo manter uma harmonia entre seus valores e os valores da empresa. O clima organizacional pode ser estabelecido sem que o indivíduo desrespeite a ética profissional. O fazer e agir devem ser realizados propiciando o bem-estar da instituição. 27 Sá, entre outros autores, destaca que existe uma coerência natural do dever que nos instiga a exercer os modelos mentais e educacionais que recebemos e aqueles que adquirimos pela conveniência. Deste modo, com avanço da ciência, dados especiais nos foram atribuídos, como estados especiais de memórias, provenientes de nossa formação biológica ou genética. Sá (2001, p. 83) afirma que: A ética, como conduta, é transcendental, quase intuitiva, a partir das bases educacionais comuns, mas aperfeiçoa-se, quanto à complexidade dos deveres, pelos Códigos, pelas leis, pelo consenso nas comunidades, aceitos e criados especialmente para tal fim. Assim, existe uma cobrança de nós mesmos, como atuação de sensibilidade ética, ou seja, o instinto natural de vontade e repressões de nossa consciência. O instinto ético busca a utilidade, porque ele é uma forma de ação que tem por objetivo o indivíduo. No sentido ético, isto deve ser considerado com a relatividade que liga o ser ao conjunto. Conforme relata Sá (2001, p. 94): O instinto ético não provém de algo que se recebeu nem do que se escolheu, mas de uma disposição natural, biológica, de autoconservação pela prática de uma ação, sendo estável sua manifestação. A conduta de um ser em acordo com sua ambivalência social é o que caracteriza tal ação no campo da ética. Significa dizer que, no campo da moral e da ética, o ser humano, em seu interior instintivo de preservação dentro de sua equipe, age em conformidade com a sociedade. Trocando em miúdos, o ser humano, com sua disposição natural e instinto ético, comporta-se de acordo com a sociedade da qual faz parte. Acesse o link a seguir e leia mais sobre o tema: “O que é Ética”. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/direitos/codetica/textos/oque_e_etica.html>. NÃO DEIXE DE LER... 28 Laureate- International Universities Ramo da filosofia, a ética envolve juízos de valor e padrões de conduta moral, que variam histórica e socialmente. Cada sociedade, assim, cria valores éticos conforme a sua cultura para nortear comportamentos individuais e condutas profissionais. Parâmetros éticos foram formulados originalmente nas Idades Antiga e Média, mas pressupostos doutrinários continuam sendo formulados nas Idades Moderna e Contemporânea, de acordo com o rumo de cada civilização. São as bases éticas que sustentam a convivência harmônica e minimizam conflitos na vida em comunidade. Virtude e caráter estão para a ética como espinha dorsal, tornando sólidos não somente o pensamento individual, mas as trocas coletivas e a prática profissional. Na vida atribulada que levamos atualmente, não temos o tempo livre dedicado ao pensamento como os filósofos antigos, mas recebemos como herança de Sócrates, Platão e Aristóteles o pensamento ético que passamos de geração para geração. Entende-se que a ética, na prática, está ligada ao exercício do bem, ao cotidiano que visa tão somente a felicidade individual e, consequentemente, a qualidade de vida em coletividade. Um caso prático que ocorre com frequência e serve de exemplo negativo para os profissionais da área é quando o trabalhador passa a participar de situações ilícitas. Um exemplo: o profissional pede para seu cliente ou empregador vantagens financeiras para aplicações ilícitas ou favorecimento pessoal. Isso, além de ser imoral, trata-se de crime. Para tanto, é necessário que o profissional esteja ciente e construa, desde o início, uma carreira com lisura e pautada na ética e credibilidade. SínteseSíntese 29 Síntese BRASIL. Presidência da República. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 29 nov. 2014. ______. Lei no 4.591, de 16 de dezembro de 1964. Dispõe sobre o condomínio em edificações e as incorporações imobiliárias. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ CCIVIL/LEIS/L4591.htm>. Acesso em: 25 set. 2009. GONÇALVES, C. R. Direito civil brasileiro: direito das coisas. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. ReferênciasBibliográficas