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SUMÁRIO
1 A ARTE ....................................................................................................... 3
1.1 Arte nas Imagens do Cotidiano ......................................................... 6
1.2 A Beleza, o Feio e o Gosto ................................................................ 8
1.3 Artes Liberais ................................................................................... 10
1.4 Arte Contemporânea ........................................................................ 11
2 ARTE ERUDITA, ARTE POPULAR E ARTE DE MASSA ....................... 13
3 TÉCNICAS E MATERIAIS ARTÍSTICOS E EXPRESSIVOS NAS ARTES
VISUAIS 20
3.1 Desenho ............................................................................................ 20
3.2 Gravura .............................................................................................. 24
3.3 Pintura ............................................................................................... 26
3.4 Colagem ............................................................................................ 39
3.5 Escultura ........................................................................................... 42
3.6 Arquitetura ........................................................................................ 44
3.7 Fotografia Artística........................................................................... 46
4 BIBLIOGRAFIA BÁSICA ......................................................................... 46
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1 A ARTE
Fonte: www.jornaldafotografia.com.br
A frente de Poéticas Visuais se forma a partir da necessidade do Circuito Fora
do Eixo de qualificar e ampliar sua produção visual. Inicia-se em 2009 o processo de
elaboração da frente a partir da formação do núcleo de design, criado inicialmente
para suprir a demanda de peças gráficas do próprio circuito. Em 2010 amplia seu
leque de atuação para suprir também a necessidade de expressão e representação
dos designers e artistas envolvidos na rede, incorporando também outras linguagens
visuais. A fotografia soma-se à frente em movimento de natural expansão, firmando
suas práticas a partir de 2011, ligando-se ao tripé que hoje forma a Poéticas Visuais
– fotografia, design e arte urbana.
Para existir a arte são precisos três elementos: o artista, o observador e a
obra de arte. O primeiro elemento é o artista, aquele que cria a obra, partindo do seu
conhecimento concreto, abstrato e individual transmitindo e expressando suas ideias,
sentimentos, emoções em um objeto artístico (pintura, escultura, desenho etc.) que
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simbolize esses conceitos. Para criar a obra o artista necessita conhecer e
experimentar os materiais com que trabalha, quais as técnicas que melhor se
encaixam à sua proposta de arte e como expor seu conhecimento de maneira formal
no objeto artístico.
O outro elemento é o observador, que faz parte do público que tem o contato
com a obra, partindo num caminho inverso ao do artista – observa a obra para chegar
ao conhecimento de mundo que ela contém. Para isso o observador precisa de
sensibilidade, disponibilidade para entendê-la e algum conhecimento de história e
história da arte, assim poderá entender o contexto em que a obra foi produzida e fazer
relação com o seu próprio contexto.
Por fim, a obra de arte ou o objeto artístico, faz parte de todo o processo,
indo da criação do artista até o entendimento e apreciação do observador. A obra de
arte guarda um fim em si mesma sem precisar de um complemento ou “tradução”,
desde que isso não faça parte da proposta do artista.
Dentre os possíveis e variados conceitos que a arte pode ter podemos sintetizá-
los do seguinte modo – a arte é uma experiência humana de conhecimento
estético que transmite e expressa ideias e emoções na forma de um objeto
artístico (desenho, pintura, escultura, arquitetura etc.) e que possui em si o seu
próprio valor. Portanto, para apreciarmos a arte é necessário aprender sobre ela.
Aprender a observar, a analisar, a refletir, a criticar e a emitir opiniões fundamentadas
sobre gostos, estilos, materiais e modos diferentes de fazer arte.
Uma tela pintada na Europa no séc. XIX pode não ter o mesmo valor artístico
para uma comunidade indígena ou para uma sociedade africana que conservem seus
valores e tradições originais. Por que isso pode acontecer se a arte é universal? Para
esses grupos étnicos os significados da arte como a entendemos podem não ser os
mesmos por não pertencerem ao contexto em que eles vivem. Cada sociedade possui
seus próprios valores morais, religiosos, artísticos entre outros. Isso forma o que
chamamos de cultura de um povo. Mas uma cultura não fica isolada e sofre influências
de outras, portanto, nenhuma cultura é estática e sim dinâmica e mutável. A arte, ao
longo dos tempos, tem se manifestado de modos e finalidades diversas. Na
Antiguidade, em diferentes lugares a arte era vislumbrada em manifestações e formas
variadas – na Grécia, no Egito, na Índia, na Mesopotâmia... Os grupos sociais veem
a arte de um modo diferente, cada qual segundo a sua função.
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Nas sociedades indígenas e africanas originais, por exemplo, a arte não era
separada do convívio do dia-a-dia, mas presente nas vestimentas, nas pinturas, nos
artefatos, na relação com o natural e o sobrenatural, onde cada membro da
comunidade podia exercer uma função artística. Somente no séc. XX a arte foi
reconhecida e valorizada por si, como objeto que possibilita uma experiência de
conhecimento estético. Ao longo da história da arte podemos distinguir três funções
principais para a arte – a pragmática ou utilitária, a naturalista e a formalista.
Pela ação da tecnologia, ao nível do seu desempenho, o indivíduo passou a
ser mais um elemento disponível na panóplia de elementos que integram a raiz da
constituição das obras de arte. A sua importância deixou de ser meramente vista como
pertencendo ao mundo da finalização/destino da arte - a obra passou a integrá-lo de
um ponto de visto diferente, o seu papel deixou de ser passivo e passou a ser ativo.
Através do design das interfaces dos computadores, iniciado em 1960 por J. C. R.
Licklider, podemos facilmente perceber como a barreira da comunicação entre o
indivíduo e máquina necessita de compreender uma linguagem que utilize no seu
espectro uma metalinguagem, uma convergência de ambos os lados, "seja onde for
que o computador esteja, o design de interface mais eficaz resultará da combinação
das forças da riqueza sensorial a da inteligência da máquina"
• Função pragmática ou utilitária: a arte serve como meio para se alcançar
um fim não artístico, não sendo valorizada por si mesma, mas pela sua finalidade.
Segundo este ponto de vista a arte pode estar a serviço para finalidades pedagógicas,
religiosas, políticas ou sociais. Não interessa aqui se a obra tem ou não qualidade
estética, mas se a obra cumpre seu papel moral de atingir a finalidade a que ela se
prestou. Uma cultura pode ser chamada pragmática quando o comportamento, as
produções intelectuais ou artísticas de um povo são determinadas por sua utilidade.
• Função naturalista: o que interessa é a representação da realidade ou da
imaginação o mais natural possível para que o conteúdo possa ser identificado e
compreendido pelo observador. A obra de arte naturalista mostra uma realidade que
está fora dela retratando objetos, pessoas ou lugares. Para a função naturalista o que
importa é a correta representação (perfeição da técnica) para que possamos
reconhecer a imagem retratada; a qualidade de representar o assunto por inteiro; e o
vigor, isto é, opoder de transmitir de maneira convincente o assunto para o
observador.
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• Função formalista: atribui maior qualidade na forma de apresentação da obra
preocupando-se com seus significados e motivos estéticos. A função formalista
trabalha com os princípios que determinam a organização da imagem – os elementos
e a composição da imagem. Com o formalismo nas obras, o estudo e entendimento
da arte passaram a ter um caráter menos ligado às duas funções anteriores
importando-se mais em transmitir e expressar ideias e emoções através de objetos
artísticos. Foi só a partir do séc. XX que a função formalista predominou nas
produções artísticas através da arte moderna, com novas propostas de criação. O
conceito de arte que temos hoje em dia é derivado desta função.
1.1 Arte nas Imagens do Cotidiano
1.1.1 Ampliando os conhecimentos
Uma imagem guarda uma semelhança com algo, representando aquilo que o
nosso sentido da visão pode captar, aquilo que podemos ver, ou que nossa
imaginação pode criar. Assim, o reflexo de nosso rosto na água é uma imagem que a
natureza se encarregou de criar.
O ser humano, ao longo de seu desenvolvimento, tem procurado encontrar
formas de registrar essa imaginação ou realidade captada, através de pinturas,
desenhos, esculturas, gravuras ou filmes, ou seja, através de representações
imagéticas.
A principal diferença entre imagem e representação imagética é que imagem é
tudo aquilo que nosso sentido da visão pode captar registrando tanto o que é realidade
quanto imaginação, e representação imagética são imagens carregadas de
significados organizados ou não de maneira consciente – com valores artísticos.
Os significados e intenções na criação variam de acordo com o período, lugar
e pessoas, ou seja, de acordo com o contexto histórico. Desde tempos remotos, o ser
humano já procurava fazer representações imagéticas nas paredes das cavernas.
Essas imagens podiam ter finalidades místicas e de sobrevivência. Na Idade Média,
as imagens das obras de arte possuíam um cunho educativo a serviço da religião. Já
no Renascimento as imagens artísticas procuravam elevar a condição do ser humano
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a um nível maior. No Romantismo e Modernismo, as obras de arte possuíam fins
diversos, como protestos e denúncias dos problemas políticos e sociais.
Na atualidade existem várias maneiras de se representar a realidade ou a
imaginação. Hoje em dia, além das formas tradicionais (desenho, pintura, escultura,
gravura, arquitetura), existe o cinema, a televisão, o computador e a Internet. Através
dessas novas tecnologias surgiram também várias manifestações artísticas que são
produzidas basicamente utilizando-se das suas possibilidades e inovações.
Através da TV encontramos várias manifestações de produções artísticas,
como, por exemplo, telenovelas, seriados, filmes ou desenhos animados. Estes
ligados diretamente às artes cênicas, porém utilizando mecanismo de representação
imagética das artes visuais, como o vídeo. Nesse caso, são linguagens artísticas que
se fundem, se unem. Podemos denominar essa linguagem artística como
“audiovisual” – união de som e de imagem. Outras manifestações com elementos
artísticos que estão presentes nas imagens do nosso cotidiano são as publicações
gráficas como os jornais, as revistas, os livros, os outdoors, os panfletos, entre outras.
Nessas publicações encontramos várias formas de representação, que vão desde o
desenho até a fotografia.
Nos jornais, por exemplo, nos divertimos frequentemente com as tiras de
histórias em quadrinhos, os cartuns e as charges políticas. Em contrapartida, também
podemos nos chocar vendo imagens com cenas de violência captadas com precisão
pela câmera do fotógrafo. Nas revistas utiliza-se dessas mesmas imagens, porém,
com um pouco mais de sofisticação, elaborando o visual da página junto com texto,
fotografias e gráficos para que se torne mais interessante ao leitor. As próprias
histórias em quadrinhos (também conhecidas por HQ’s), que inicialmente surgiram
para entreter os leitores de antigos jornais norte-americanos, alcançaram um nível
artístico elevado, em que artistas fazem uso de sua linguagem para expressarem suas
criações.
Para saber mais
Você já reparou que as roupas variam de acordo com várias situações: o
ambiente, a época, o nível social, o poder de aquisição, o grupo cultural, os lugares.
Esta variação nos gostos, estilos e modos de se vestir possui um nome: moda.
Geralmente atribuímos a moda a algo fútil, sem conteúdo e passageiro, que se
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preocupa apenas com a beleza exterior do “modelo”. De certa maneira isto tem um
sentido.
Contudo, também podemos pensar na moda como um registro de impressões
e características de grupos humanos que convivem socialmente e que procuram
transmitir e expressar, pelas suas vestimentas, elementos artísticos no cotidiano. O
homem pré-histórico tinha uma moda ou um modo de vestir para atrair a caça, para
vencer uma guerra ou para cultuar os mortos, o homem moderno se veste de jeito
diferente para seduzir, para fechar um negócio ou para passear. Estar na moda é
incorporar os símbolos de determinado grupo social. É como afirmar aos outros,
através das roupas, que você está bem informado sobre o que se passa no mundo.
Em qualquer que seja a época a moda está relacionada ao conceito de status, o nível
social a que pertence à pessoa.
A moda, tanto nas vestimentas quanto nos acessórios e peças de decoração,
tem mostrado diferentes faces ao longo das épocas, funcionando como registro diário
do convívio em sociedade, com suas diferenças de classe, de nível cultural, financeiro
etc. O que devemos preservar e respeitar é a diversidade existente nas manifestações
da moda pelo mundo, já que ela possui elementos artísticos que também devem se
manter. As diversas formas de tecidos, cortes, peças de roupas e cores são usadas
para identificar a que grupo uma pessoa pertence, não que isto resuma a
personalidade dela, nem que seja motivo para excluí-la de outros grupos, mas como
questão de atitude perante os demais.
1.2 A Beleza, o Feio e o Gosto
Pensando sobre o tema
O que você considera como belo? Um rosto feminino ou masculino? Um corpo
saudável? Um pôr do sol na praia? Uma roupa que está na moda?
Ampliando os conhecimentos
Quando você sabe que algo possui beleza? Quando a imagem é agradável de
ser vista, quando você sente uma emoção ao vê-la, quando você entende o que está
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vendo? Se você encontrou dificuldades para formular uma resposta, saiba que ela não
é a mesma para todos. Alguns estudiosos de arte dizem que existe uma “beleza
universal”, um “padrão de beleza” que mantém o mesmo valor para qualquer pessoa.
Você concorda com esta afirmação? Assim como o conceito de arte, o conceito de
beleza vem mudando de acordo com as épocas e os lugares, assumindo diferentes
rostos e personalidades. Você já deve ter ouvido a expressão “gosto não se discute”,
que podemos entender como o que é belo para você pode não ser para outra pessoa,
portanto não podemos julgar. Você já deve também ter ouvido a frase “a beleza está
nos olhos de quem vê”, isto é, a beleza não está no objeto, pessoa ou paisagem que
vemos, mas no entendimento da pessoa que observa sobre o que é beleza. Você já
conseguiu criar um conceito e entender o que é a beleza?
Como foi mencionado anteriormente, a arte é uma experiência de
conhecimento estético de transmissão e expressão de ideias e sentimentos.
Associamos a palavra estética à arte e também à beleza. A palavra estética vem do
grego aisthesis e significa “faculdade de sentir”, “compreensão pelos sentidos”,“percepção totalizante”. Quando observamos uma obra de arte ou uma imagem
qualquer ela primeiro é sentida (percepção pelos sentidos), depois ela é analisada
(interpretação simbólica do mundo) e, por fim, entendida e apreciada (conhecimento
intuitivo). Para apreciarmos algo “belo” não usamos imediatamente nossa razão, mas
os sentimentos, nossa intuição, nossa imaginação. Desta maneira é que temos uma
experiência estética com a obra de arte ou imagem.
O conceito de beleza teve várias modificações ao longo dos tempos. O que
uma cultura pode considerar como feio outra cultura pode considerar como belo. São
as diferenças nos contextos de espaço e tempo das variadas culturas e etnias
existentes no planeta que tornam difícil uma conceituação para o que é belo. A beleza
pode ser algo objetivo, isto é, que pertence ao objeto, suas características físicas e de
conteúdo; ou algo subjetivo, ou seja, que pertence ao sujeito, àquele que observa.
Para os estudiosos de arte o belo, a beleza é uma qualidade que atribuímos
aos objetos para exprimir certo estado da nossa subjetividade, não havendo, portanto,
uma ideia de belo nem regras para produzi-lo. Não existe a ideia de um único valor
estético a partir do qual podemos julgar todas as obras de artes visuais. Cada objeto
artístico vai estabelecer seu próprio tipo de beleza.
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Quando falamos no belo associamos imediatamente a ideia do “feio”, o seu
contrário. Assim como o belo o feio vem sido discutido ao longo das épocas e
atualmente podemos destacar três modos de entender o que é “feio” dentro das artes
visuais:
Quando a representação do assunto é “feia”, isto é, quando um tema escolhido
é mal trabalhado e não transmite a proposta do criador;
Quando a forma de representação é “feia”, ou seja, quando o criador não tem
conhecimento da técnica e dos materiais que escolheu para trabalhar e não consegue
transmitir sua proposta; e
Quando o observador não possui o conhecimento ou sensibilidade para
apreciar e entender a proposta do criador da obra.
Como podemos então julgar se uma obra é “feia”, quando podemos chamá-la
de arte? A partir do séc. XIX, quando a arte deixa de ter puramente uma função
utilitária e naturalista e passa a se preocupar mais com a forma da representação
estética, ela passa a ser avaliada pela sua proposta e capacidade de falar ao
sentimento. Assim, a arte passa a ser autêntica, deixa de ser uma cópia do real. Então,
só haverá obras “feias” quando forem malfeitas, isto é, quando não corresponderem
à proposta de criação do artista (por falta de conhecimento, técnica, etc.). Se houver
uma obra “feia”, não existe uma obra de arte.
O gosto é capacidade de julgarmos a beleza de uma obra entendendo-a e
apreciando-a. O gosto pode ser subjetivo, mas ele parte da observação e experiência
objetiva com a obra de arte. O que não devemos é criar pré-conceitos sobre
determinadas obras antes de vivenciá-las esteticamente, ou seja, com sentimento.
Para podermos adquirir o gosto devemos refiná-lo com informações, conhecimento e
a experiência com obras de arte. Não devemos nos impedir de termos contato com o
universo da arte, pois ele é muito rico e vivo, através dele descobrimos o que o mundo
pode ser e, também, o que nós podemos ser e conhecer.
1.3 Artes Liberais
Conceito aplicado às disciplinas chamadas trivium - gramática, retórica e lógica
- e quadrivium - aritmética, geometria, música e astronomia - introduzido por
Marciano Capella, no século V, com a publicação de sua famosa obra De nuptiis
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Mercurii et Philologiae. Nela são estabelecidas as sete disciplinas liberais dignas dos
homens livres, sendo um grupo dedicado à palavra e outro à ciência dos números e
medidas. Durante o século XV, Leon Battista Alberti (1404-1472), publica o livro De
pictura (1436), seguido de De statua (1464) e De re edificatória (1485). O pintor e
escritor italiano tenta conquistar para as artes visuais um novo lugar na sociedade,
defendendo-a e explicando-a intelectualmente - através de tratados como os que
defendiam a poesia - de forma inédita. A partir do início do século XVI,
disciplinas como História, Filosofia Moral e Literatura passam a integrar as artes
liberais e a fazer parte da educação considerada ideal para o homem daquela época.
Pintura, escultura e arquitetura, consideradas artes vulgares por sua relação com os
trabalhos manuais, elevam-se ao universo das artes liberais com a ajuda
dos humanistas italianos, principalmente de Leonardo da Vinci (1452-1519) que, a
partir do argumento de Alberti, luta com mais empenho e disciplina, pela dignidade da
pintura e por uma nova posição social para o artista, que deve ser aceito como um
criador, dotado de inteligência e nobreza, e não mais como alguém limitado ao
trabalho manual.
As atividades classificadas como artes mecânicas são socialmente
desprestigiadas e pouco honrosas, enquanto os profissionais ligados às artes liberais
gozam de honras, distinções e privilégios. Com a ascensão da atividade artística à
categoria das artes liberais, os artistas passam a ocupar uma nova posição
hierárquica na sociedade, ganhando poder e respeito. No século XVIII, as principais
artes liberais são a pintura, a escultura, a arquitetura, a navegação, a retórica, a
poesia, a geometria, a picaria (arte da equitação), a impressão e a cunhagem de
moedas.
1.4 Arte Contemporânea
Os balanços e estudos disponíveis sobre arte contemporânea tendem a fixar-
se na década de 1960, sobretudo com o advento da arte pope do minimalismo, um
rompimento em relação à pauta moderna, o que é lido por alguns como o início do
pós-modernismo. Impossível pensar a arte a partir de então em categorias como
"pintura" ou "escultura". Mais difícil ainda pensá-la com base no valor visual, como
quer o crítico norte-americano Clement Greenberg. A cena contemporânea - que se
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esboça num mercado internacionalizado das novas mídias e tecnologias e de variados
atores sociais que aliam política e subjetividade (negros, mulheres, homossexuais
etc.) - explode os enquadramentos sociais e artísticos do modernismo, abrindo-se a
experiências culturais díspares. As novas orientações artísticas, apesar de distintas,
partilham um espírito comum: são, cada qual a seu modo, tentativas de dirigir a arte
às coisas do mundo, à natureza, à realidade urbana e ao mundo da tecnologia. As
obras articulam diferentes linguagens - dança, música, pintura, teatro, escultura,
literatura etc. -, desafiando as classificações habituais, colocando em questão o
caráter das representações artísticas e a própria definição de arte. Interpelam
criticamente também o mercado e o sistema de validação da arte.
Tanto a arte pop quanto o minimalismo estabelecem um diálogo crítico com
o expressionismo abstrato que as antecede por vias diversas. A arte pop - Andy
Warhol, Roy Lichtenstein, Claes Oldenburg e outros - traduz uma atitude contrária ao
hermetismo da arte moderna. A comunicação direta com o público por meio de signos
e símbolos retirados da cultura de massa e do cotidiano - histórias em quadrinhos,
publicidade, imagens televisivas e cinematográficas - constitui o objetivo primeiro de
um movimento que recusa a separação arte e vida, na esteira da estética anti-arte
dos dadaístas e surrealistas. Trata-se também da adoção de outro tipo de figuração,
que se beneficia de imagens, comuns e descartáveis, veiculadas pelas mídias e novas
tecnologias, bem como de figuras emblemáticas do mundo contemporâneo, a Marilyn
Monroe de Andy Warhol, por exemplo. A figuração é retomada, com sentido
inteiramente diverso, nos anos 1980 pela transvanguarda, no interior dochamado neo-expressionismo internacional. O minimalismo de Donald Judd, Tony
Smith, Carl Andre e Robert Morris, por sua vez, localiza os trabalhos de arte no terreno
ambíguo entre pintura e escultura. Um vocabulário construído com base em idéias de
despojamento, simplicidade e neutralidade, manejado com o auxílio de materiais
industriais, define o programa da minimal art. Uma expansão crítica dessa vertente
encontra-se nas experiências do pós-minimalismo, em obras como as de Richard
Serra e Eva Hesse. Parte da pesquisa de Serra, sobretudo suas obras públicas, toca
diretamente às relações entre arte e ambiente, em consonância com uma tendência
da arte contemporânea que se volta mais decididamente para o espaço -
incorporando-o à obra e/ou transformando-o -, seja ele o espaço da galeria, o
ambiente natural ou as áreas urbanas. Preocupações semelhantes, traduzidas em
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intervenções sobre a paisagem natural, podem ser observadas na land art de Walter
De Maria e Robert Smithson. Outras orientações da arte ambiente se verificam nas
obras de Richard Long e Christo.
Se os trabalhos de Eva Hesse não descartam a importância do espaço,
colocam ênfase em materiais, de modo geral, não rígidos, alusivos à corporeidade e
à sensualidade. O corpo sugerido em diversas obras de E. Hesse - Hang Up, 1966 -
toma o primeiro plano no interior da chamada body art. É o próprio corpo do artista o
meio de expressão em trabalhos associados freqüentemente
a happenings e performances. Nestes, a tônica recai, uma vez mais, sobre o
rompimento das barreiras entre arte e não-arte, fundamental para a arte pop, e sobre
a importância decisiva do espectador, central já para o minimalismo. A percepção do
observador, pensada como experiência ou atividade que ajuda a produzir a realidade
descoberta, é largamente explorada pelas instalações. Outro desdobramento direto
do minimalismo é a arte conceitual, que, como indica o rótulo, coloca o foco sobre a
concepção - ou conceito - do trabalho. Sol LeWitt em seus Parágrafos sobre Arte
Conceitual (1967), esclarece: nessas obras, "a idéia torna-se uma máquina de fazer
arte". É importante lembrar que o uso de novas tecnologias - vídeo, televisão,
computador etc. - atravessa parte substantiva da produção contemporânea, trazendo
novos elementos para o debate sobre o fazer artístico.
Os desafios enfrentados pela arte contemporânea podem ser aferidos na
produção artística internacional. Em relação ao cenário brasileiro, as Bienais
Internacionais de São Paulo ajudam a mapear as diversas soluções e propostas
disponíveis nos últimos anos. Na década de 1980, a exposição Como Vai Você,
Geração 80?, no Parque Lage, Rio de Janeiro, e a participação dos artistas do Ateliê
da Lapa e Casa 7 na Bienal Internacional de São Paulo, em 1985, evidenciam
as pesquisas visuais.
2 ARTE ERUDITA, ARTE POPULAR E ARTE DE MASSA
A arte erudita refere-se àquela produzida e apreciada pela elite de uma
sociedade. Mas não necessariamente uma elite econômica, compreendida pelas
pessoas ricas, e sim por uma pequena parcela, uma minoria de pessoas que
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conhecem vários estilos artísticos e que são bem informadas, ou seja, a elite cultural.
Os artistas eruditos são reconhecidos por grande parte da população, possuem
estudos refinados de diversas técnicas, materiais, estudos e de história da arte.
Geralmente esses artistas são homenageados postumamente com seu nome na
História cultural de um povo, como é o caso de Sandro Botticelli, Leonardo da Vinci,
Michelangelo, Salvador Dalli, Pablo Picasso, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila
do Amaral entre outros.
Fonte: vejabh.abril.com.br
A arte erudita é facilmente encontrada em grandes museus e galerias e
possuem um valor artístico e qualidade estética incontestável pelos críticos e pelos
apreciadores mais exigentes. A arte erudita caracteriza-se por:
• apresentar esforço para captar o significado da existência humana;
• instigar o público apreciador a mudar sua visão de mundo;
• envolver o desenvolvimento dos códigos artísticos;
• abarcar a expressão individual do artista.
No outro extremo encontra-se a arte popular, ou seja, aquela feita pelo povo e
para o povo. O artista popular mantém raízes com a comunidade que faz parte sendo
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grandemente influenciado na sua criação pelos seus motivos e significados simbólicos
e estéticos.
A arte popular faz referência a uma herança cultural das diferentes etnias que
consistem um povo, como no caso do Brasil. Os temas da arte popular são dos mais
variados desde a representação do sagrado e místico, como nas figuras de santos e
ex-votos, passando por cenas do cotidiano, como nas estatuetas de cerâmica ou
madeira, até nas indumentárias e artefatos de festas folclóricas, como no Bumba meu
boi, festa do Divino Espírito Santo ou Maracatu.
Dentro do estudo da arte, a arte popular tem sido encarada como a “prima
pobre” da arte erudita, devido à sua origem junto a comunidades consideradas “sem
instrução”. As manifestações da arte popular como o artesanato, a cerâmica em argila,
as peças de madeira, as xilogravuras na literatura de cordel etc. têm sido consideradas
como “artes menores” em relação à arte erudita e as pessoas que produzem esse tipo
de arte não são reconhecidas como artistas e, sim, como artesãos.
Esta diferenciação acontece, principalmente, pela maneira e intenção que a
arte popular é produzida já que, na maioria das vezes, a pessoa que cria a arte popular
aprendeu seu “ofício” com os pais ou outra pessoa mais experiente. O que tem se
discutido em arte é que a arte popular, assim como a arte erudita, tem seus valores
estéticos próprios oriundos da maneira como é produzida, dos materiais e técnicas
empregados e da intenção do criador. De fato, a arte popular facilmente é encontrada
e comercializada nos centros das comunidades a que pertence sendo também
exportada para os apreciadores da arte erudita.
Podemos afirmar então, que a arte popular é atribuída à produção estética de
uma parte da população que não é formalmente intelectualizada, nem urbana, nem
industrial. A arte popular possui como principais características:
• ser geralmente anônima, pois é resultado de várias colaborações que passam
de geração em geração ao longo do tempo, geralmente feita oralmente;
• apresentar visão de mundo de um determinado grupo social, ou seja, o
conteúdo da tradição cultural e folclórica expressa os sentimentos comuns de uma
coletividade;
• desenvolver-se dentro de convenções tradicionais;
• ter como maior público apreciador pessoas de seu próprio grupo ou
comunidade;
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• resistir às influências dos modismos ditados pela elite dirigente.
Fonte: speglich.blogspot.com.br
A arte popular pode ser considerada o retrato de uma nação, pois guarda
características peculiares e genuínas do povo que formou esse grupo durante anos.
Muitas pessoas acreditam que esse tipo de arte é produto apenas de pessoas que
vivem na zona rural ou de povos imigrantes. No entanto, grande parte da população
que vive na zona urbana, de grandes cidades, é composta de pessoas que vieram do
interior ou de outros países, incorporando à cidade manifestações de sua cultura.
Curiosidade
Arte popular e o folclore: No Brasil a produção de arte popular é muito rica.
Esse tipo de produção atrai a atenção de muitas pessoas e, de modo especial, os
turistas. Em cada região do país existe um tipo de arte popular que se destaca, e por
isso mesmo pode ser vista como uma peculiaridade dos costumes desse lugar, a
característica cultural e folclóricadesse povo.
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Essas manifestações artísticas populares compreendem além de artes visuais,
a música, a dança, artes cênicas e até mesmo a arquitetura. Na cidade de São Luís,
Maranhão, intitulada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, por
exemplo, o que se destaca como arte popular são os vasos cerâmicos, feitos em argila
e com desenhos variados, herança dos povos indígenas e africanos. As indumentárias
e adereços das festas e folguedos folclóricos de São João e do Carnaval são
confeccionados por grupos comunitários que preservam e divulgam a tradição cultural
do povo. Os azulejos nas paredes dos casarões antigos do centro histórico possuem
diferentes desenhos padronizados com técnicas de produção oriundas dos
portugueses. Todo este conjunto de elementos forma um acervo que conta um pouco
da história do povo ludovicense.
Algumas manifestações artísticas durante a história da arte possuíram e
possuem alcance muito grande, ou seja, atingem a uma quantidade maior de pessoas,
de diferentes classes sociais e culturais por isso são consideradas como arte popular
e, ao mesmo tempo, arte de massa. O termo arte de massa - significando “ao alcance
de todos e para todos” - é recente, surgido no século XX com o advento da fotografia,
cinema e televisão, mas o seu conceito remonta à Antiguidade quando os faraós
egípcios representavam sua autoridade política e religiosa ao povo na forma de
pirâmides, templos e outras obras monumentais para serem observadas e entendidas
por todos de uma só vez. Portanto, a intenção da produção do objeto artístico era
utilitária e buscava atingir à grande massa da população que, em geral, não tinha
acesso às produções mais refinadas destinadas à elite dominante. O império romano
fez muito uso da imagem como símbolo de poder na representação de estátuas dos
imperadores para impressionar os povos dominados, a Igreja Católica fez uso das
representações imagéticas do sagrado para assegurar e converter fiéis à sua fé cristã,
já que na Idade Média, por exemplo, grande parte da população era analfabeta e a
Bíblia impressa não existia.
Nos tempos modernos, com a evolução tecnológica dos meios de comunicação
de massa – rádio, televisão, jornais, revistas e cinema – a arte pôde ser explorada no
sentido de ampliar o público que pretende conhecê-la, entendê-la e apreciá-la.
Contudo, mesmo com a arte ao alcance de quase todos, ela continua sendo produzida
por uma minoria que forma uma elite cultural. A grande diferença entre “arte popular”
e “arte de massa” seria sua origem, ou seja, quem as produz. As demais pessoas não
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adquirem conhecimentos suficientes para usufruir a arte de maneira plena em todos
os seus sentidos.
A arte só é percebida e compreendida pela massa enquanto se mantém
figurativa e guarda referências ao cotidiano e experiências mais imediatas e concretas
das pessoas tornando difícil o acesso ao entendimento de manifestações artísticas
mais complexas e sofisticadas como a arte abstrata. Por isso os filmes de cinema ou
telenovelas com pouco conteúdo conceitual e argumentos simples são mais
consumidos pela massa, salvas exceções que extrapolam o mercado comum e
lançam propostas inovadoras em termos de roteiro, narrativa e visual. Podemos citar
como características da arte de massa:
• ter um alcance abrangente;
• ser de rápida visualização e de fácil acesso;
• ser produzida por uma minoria cultural para entretenimento e apreciação de
muitos;
• ser interpretada por vários pontos de vista diferentes em relação aos seus
significados;
• poder se utilizar de todas as manifestações artísticas como as artes visuais,
as artes cênicas, a dança e a música através dos meios audiovisuais;
• acompanhar tendências e mudanças contemporâneas que influenciam a sua
criação;
• ser comercializada fazendo parte de um grande mercado consumidor.
19
Fonte: speglich.blogspot.com.br
Além das manifestações artísticas de massa já citadas existem também outras
que fazem parte de grupos específicos. Uma dessas forma de arte de massa é o
graffiti (técnica de pintura mural usando tintas spray) ligada ao movimento cultural Hip
Hop, surgido na década de 1970, nos centros urbanos dos Estados Unidos, que inclui
também o Rap (música), Break (dança) e DJ (Disc Jóquei – música).
Atualmente a arte de massa possui algumas mídias que atingem um número
impressionante de pessoas. Uma produção cinematográfica ou televisa, por exemplo,
pode atingir facilmente milhões de espectadores, dos mais variados níveis culturais e
sociais, tendo seus significados interpretados em diferentes graus de entendimento e
apreciação.
Outra mídia que já existe há quase um século no seu formato atual são as
revistas de histórias em quadrinhos, originalmente feitas com um fim puramente de
entretenimento e sem pretensões artísticas maiores. Com a evolução da linguagem
dos quadrinhos (comics, formato americano ou mangá, no formato japonês) muitos
escritores (argumentistas ou roteiristas) deram um direcionamento mais literário às
tramas, diálogos e personagens e os artistas visuais passaram a utilizar tanto técnicas
tradicionais – desenho, pintura à óleo ou aquarela – quanto técnicas contemporâneas
– pintura digital usando softwares (programas) gráficos avançados. Estes tipos de
revistas em quadrinhos são vendidos na forma de Graphic Novels, que poderia ser
traduzido como “romances gráficos”.
Mas nenhuma mídia divulga a arte com mais intensidade e democracia do que
a Internet. Na Internet você pode encontrar desde imagens de obras de arte dos
grandes pintores quanto o trabalho mais novo de um jovem artista. Você pode visitar
virtualmente galerias e museus, pode divulgar suas próprias obras, debater sobre arte,
receber e emitir críticas e comentários, além de aprender com outros profissionais ou
amadores da arte.
20
3 TÉCNICAS E MATERIAIS ARTÍSTICOS E EXPRESSIVOS NAS ARTES
VISUAIS
Nas artes visuais quase todo material e técnica podem ser utilizados para criar
uma obra, mas existem aqueles que são mais conhecidos, considerados como
tradicionais ou convencionais e os modernos ou contemporâneos. Entre os meios
artísticos tradicionais ou convencionais, três deles manifestam-se em duas dimensões
(bidimensional – altura e comprimento): o desenho, a gravura e a pintura. Embora o
resultado formal de cada um deles seja bastante diferente (embora o desenho e a
gravura sejam similares), a grande diferença entre eles se encontra na técnica
envolvida. Os outros meios tradicionais – a escultura e a arquitetura – manifestam-
se nas três dimensões do espaço (tridimensional – altura, comprimento e largura ou
profundidade).
3.1 Desenho
Fonte: giovanatoffoli.blogspot.com.br
É o processo pelo qual uma superfície é marcada aplicando-se sobre ela a
pressão de uma ferramenta (em geral, um lápis, carvão, nanquim, grafite, pastel,
caneta, pincel etc.) e movendo-a, de forma a surgirem pontos, linhas e formas planas.
O resultado deste processo (a imagem obtida) também pode ser chamado de
desenho. Desta forma, um desenho manifesta-se essencialmente como uma
21
composição bidimensional. Quando esta composição possui uma certa intenção
estética, o desenho passa a ser considerado uma expressão artística.
A escolha dos meios e materiais está intimamente relacionada à técnica
escolhida para o desenho. Um mesmo objeto desenhado a bico de pena e a grafite
produz resultados absolutamente diferentes. As ferramentas de desenho mais
comuns são o lápis, o carvão, os pastéis, crayons e pena e tinta. Muitos materiais de
desenho são à base de águaou óleo e são aplicados secos, sem nenhuma
preparação.
Existem meios de desenho à base d'água (o "lápis-aquarela", por exemplo),
que podem ser desenhados como os lápis normais, e então umedecidos com um
pincel molhado para produzir vários efeitos. Há também pastéis oleosos e lápis de
cera. Desde a invenção do papel, no século XIV, ele se torna o suporte dominante
para a realização de desenhos. É possível classificar o desenho em função dos
instrumentos utilizados para a sua execução, ou da ausência deles. Pode-se pensar
ainda em modalidades distintas do registro de acordo com as finalidades almejadas.
• Desenho técnico ou industrial: uma forma padronizada e normatizada de
desenho, voltado à representação de peças, objetos e projetos inseridos em um
processo de produção.
• Desenho arquitetônico: desenho voltado especialmente ao projeto de
arquitetura realizado, de modo geral, com o auxílio de réguas, compassos, esquadros
e outros instrumentos.
• Desenho científico: empregado na zoologia, na botânica e anatomia
(fartamente empregados como ilustrações de manuais didáticos)
• Ilustração: um tipo de desenho que pretende expressar alguma informação,
normalmente acompanhado de outras mídias, como o texto.
• Croqui ou esboço: um desenho rápido, normalmente feito à mão sem a ajuda
de demais instrumentos que não propriamente os de traçado e o papel, feito com a
intenção de discutir determinadas ideias gráficas ou de simplesmente registrá-las.
Normalmente são os primeiros desenhos feitos dentro de um processo para se chegar
a uma pintura ou ilustração mais detalhada.
Vários são os materiais empregados na elaboração de desenhos. Eles podem
ser feitos com pena ou ponta de prata, para a obtenção de traços finos; com lápis, giz
ou carvão, quando a linha se torna mais espessa; também com pastel ou pincel,
22
quando o objetivo é um traço mais grosso. Desde a invenção do papel, no século XIV,
ele se torna o suporte dominante para a realização de desenhos. É possível classificar
o desenho em função dos instrumentos utilizados para sua execução, ou da ausência
deles, e pensar em modalidades distintas do registro de acordo com as finalidades
almejadas. Há o desenho científico, usado na zoologia, botânica e anatomia
(fartamente empregados como ilustrações de manuais didáticos); o desenho técnico,
industrial e arquitetônico (realizado, de modo geral, com o auxílio de réguas,
compassos, esquadros e outros instrumentos); o desenho utilizado pela imprensa e
pelos livros (ilustrações, retratos e caricaturas), o desenho artístico etc. Desenhos são
também utilizados por cineastas, designers, coreógrafos e cenógrafos em esboços,
maquetes e projetos auxiliares. Desse modo, conclui-se que o desenho invade os
mais diferentes campos e áreas de atuação - ciências, artes aplicadas, belas-artes,
indústria, publicidade etc. -, nas mais diversas etapas da história da humanidade. É a
partir do século XVI, com o advento do Renascimento, que o desenho se desenvolve
como obra de arte.
Os artistas do Renascimento, se orientam por ideais de perfeição, harmonia,
equilíbrio e graça - representados com o auxílio dos sentidos de simetria e proporção
das figuras - de acordo com os parâmetros ditados pelo belo clássico. Nesse contexto,
os estudos (leia-se: desenhos) de anatomia para composições maiores são bastante
utilizados no período. Podem ser citados como exemplos o Estudo para uma das
Sibilas no teto da capela Sistina, de Michelangelo Buonarroti, os desenhos feitos por
Rafael em seu caderno de esboços para a posterior realização da Virgem do Prado,
1505, ou os estudos de Correggio para afresco, os de 1526, parte do acervo do Museu
do Louvre.
O desenvolvimento de pesquisas científicas nesse período, fornece subsídios
para a elaboração de novos métodos e técnicas. A perspectiva central, sistematizada
por Fillippo Brunelleschi e descrita por Leon Battista Alberti no tratado Della Pittura,
1435, altera de modo radical os modos de representação e as concepções de espaço,
o que se reflete nos desenhos realizados na época. Os rendimentos do uso da
perspectiva podem ser observados, entre outros, na obra de Leonardo da Vinci.
Responsável por ampla produção artística e científica, célebre por seus escritos, pelos
retratos e pela invenção da técnica do sfumato, Da Vinci se vale sistematicamente do
desenho - sobretudo dos desenhos com giz - para a realização de investigações e
23
esboços. Estudos de proporção e anatomia são feitos com base na observação
minuciosa de corpos humanos e de animais como em Estudos Anatômicos - Laringe
e Perna, 1510. Do mesmo modo, desenhos preparatórios de gestos e expressões são
sistematicamente executados por ele.
A arte do desenho ganha extrema importância nesse momento, mas
fundamentalmente como atividade preparatória para a realização das obras principais,
pinturas e esculturas. Atividade de apoio, é verdade, mas considerada imprescindível
na formação dos artistas, que, por meio do desenho, registram a realidade observada,
treinam as medidas e proporções dos corpos humanos. Por essa razão as academias
de arte, nos séculos XVI, XVII e XVIII, fazem do desenho uma disciplina obrigatória
para o aprimoramento da atividade artística. As novas instituições defendem a
possibilidade de ensino de todo e qualquer aspecto da criação artística por meio de
regras comunicáveis. Nesse contexto, as aulas de desenho de observação e cópia de
moldes são fundamentais para o treinamento dos novos artistas. O desenho como
aprendizado técnico ou como exercício acadêmico da forma tem lugar nas academias
com a realização de nus, naturezas-mortas e paisagens, assim como pela cópia de
esculturas antigas.
Diante do papel proeminente da pintura no decorrer da história da arte
ocidental, o desenho figura em boa parte desse percurso como designação genérica
para as etapas intermediárias: apontamentos, estudos preparatórios ou contornos de
figuras e objetos posteriormente cobertos pela tinta. A despeito desse movimento mais
geral, alguns artistas, como o paisagista inglês Joseph Mallord William Turner,
conferem ao desenho lugar destacado em sua obra, como é possível perceber pela
enorme quantidade de desenhos que realiza entre 1814 e 1830, alguns publicados
na Picturesque Views of the Southern Coast of England, 1826. Turner concebe
desenhos para a coleção de gravuras Portos da Inglaterra e para uma edição ilustrada
de Italy, poema de Samuel Rogers. Na tradição paisagística, o desenho ocupa lugar
importante na obra de Fragonard, que obtém efeitos originais em seus desenhos de
paisagem, como em O Parque da Villa d'Este em Tivoli, 1760. O surgimento da
caricatura é responsável por uma relativa independência do desenho em relação à
pintura, como indica a obra de Honoré Daumier, famoso por suas charges e sátiras
políticas feitas por meio de desenhos, gravuras e escultura.
24
A arte moderna e sua ênfase na autonomia da pintura, sobretudo com Éduard
Manet e com os impressionistas - que alçam a pintura ao ar livre ao primeiro plano -
descartam o recurso de esboços e estudos preliminares para a confecção da tela. No
momento em que se torna dispensável ao pintor, o desenho pode efetivamente se
autonomizar, adquirindo status independente como obra de arte. Os nanquins de
Vincent van Gogh - Vista de Saintes-Maries, 1888 - ou os desenhos a carvão de
Georges Seurat são sinais explícitos do novo lugar que o desenho passa a ocupar na
cena moderna. Ligados à arte figurativa, mas também às pesquisas abstracionistas,
os artistas modernos se lançam ao desenho, experimentando as possibilidades
abertaspela linha, contornos, contrastes e materiais. Pablo Picasso, Paul Klee e
André Masson são alguns dos inúmeros artistas que experimentam o desenho em
suas obras. O desenho moderno no Brasil encontra expressão em artistas de
vocações estilísticas variadas, como Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Flávio de
Carvalho, Oswaldo Goeldi, Guignard, Djanira, Iberê Camargo, Mira Schendel, entre
outros.
3.2 Gravura
Difere do desenho na medida em que ela é produzida pensando-se na sua
impressão e reprodução. Uma gravura é produzida a partir de uma matriz que pode
ser feita de metal (calcografia), pedra (litografia), madeira (xilogravura) ou seda
(serigrafia). O artista trabalha nesses suportes fazendo uma gravação da imagem de
acordo com as ferramentas que utiliza com o propósito de imprimir uma tiragem de
exemplares idênticos podendo ser feita pelo próprio artista ou orientando um
impressor especializado.
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Fonte: www.reidosquadros.com.br
Uma gravura é considerada original quando é assinada e numerada pelo artista
dentro de conceitos estabelecidos internacionalmente. Após aprovar uma gravura o
artista tira várias provas que são chamadas p. a. (prova do artista). Ao chegar ao
resultado desejado é feita uma cópia "bonne à tirer" (boa para imprimir – b.p.i.). A
tiragem final deve ser aprovada pelo artista, que, então, assina a lápis, coloca a data,
o título da obra e numera a série. Finda a edição, a matriz deve ser destruída ou
inutilizada. Cada imagem impressa é um exemplar original de gravura e o conjunto
destes exemplares é denominado tiragem ou edição. Em uma tiragem de 100
gravuras, as obras são numeradas em frações: 1/100, 2/100 etc. Conheça um pouco
mais sobre as quatro técnicas de gravura:
• Litografia (matriz de pedra): a litografia (lithos = pedra e graphein = escrever)
foi criada no ano de 1796 por Alois Senefelder.
• Xilogravura (matriz de madeira): surgiu como consequência da demanda cada
vez maior de consumo de imagens e livros sacros a partir da invenção da imprensa
por Gutenberg, quando as iluminuras e códigos manuscritos passaram a ser um luxo
de poucos. A gravura em madeira seria um meio econômico de substituir o desenho
26
manual, imitando-o de forma ilusória e permitindo a reprodução mecânica de originais
consagrados.
• Calcografia (matriz de metal): surgiu nos ateliês de ourivesaria e de
armaduras, no século XV, onde era usual imprimir-se os desenhos das joias e brasões
em papel para melhor visualização das imagens.
• Serigrafia (matriz de seda ou náilon): também conhecida como silkscreen (tela
de seda) é um processo de impressão no qual a tinta é vazada - pela pressão de um
rodo ou puxador - através de uma tela preparada. É utilizada na impressão em
variados tipos de materiais (papel, plástico, borracha, madeira, vidro, tecido, etc.),
superfícies (cilíndrica, esférica, irregular, clara, escura, opaca, brilhante, etc.)
espessuras ou tamanhos, com diversos tipos de tintas ou cores. Também pode ser
feita de forma mecânica (por pessoas) ou automática (por máquinas).
3.3 Pintura
Refere-se genericamente à técnica de aplicar pigmento em forma líquida a uma
superfície bidimensional, a fim de colori-la, atribuindo-lhe matizes, tons e texturas. Em
um sentido mais específico, é a arte de pintar uma superfície, tais como papel, tela,
ou uma parede (pintura mural ou de afrescos). A pintura é considerada por muitos
como uma das expressões artísticas tradicionais mais importantes; muitas das obras
de arte mais importantes do mundo, tais como a Mona Lisa, são pinturas. Diferencia-
se do desenho pelo uso dos pigmentos líquidos e do uso constante da cor, enquanto
aquele se apropria principalmente de materiais secos. Enquanto técnica, a pintura
envolve um determinado meio de manifestação (a superfície onde ela será produzida)
e um material para lidar com os pigmentos (os vários tipos de pincéis e tintas).
A escolha dos materiais e técnicas adequadas está diretamente ligada ao
resultado final desejado para o trabalho como se pretende que ele seja entendido.
Desta forma, a análise de qualquer obra artística passa pela identificação do suporte
e da técnica utilizadas. Enquanto técnica, a pintura envolve um determinado meio de
manifestação (a superfície onde ela será produzida) e um material para lidar com os
pigmentos (os vários tipos de pincéis e tintas).
O suporte mais comum é a tela (normalmente uma superfície de madeira
coberta por algum tipo de tecido), embora durante a Idade Média e o Renascimento o
27
afresco tenha tido mais importância. É possível também usar o papel (embora seja
muito pouco adequado à maior parte das tintas). Quanto aos materiais, a escolha é
mais demorada e, normalmente, envolve uma preferência pessoal do pintor e sua
disponibilidade. Materiais comuns são: a tinta a óleo, a tinta acrílica, o guache e a
aquarela. É também possível lidar com pastéis e crayons, embora estes materiais
estejam mais identificados com o desenho.
No entanto, há controvérsias sobre essa definição de pintura. Com a variedade
de experiências entre diferentes meios e o uso da tecnologia digital, a ideia de que
pintura não precisa se limitar à aplicação do "pigmento em forma líquida". Atualmente
o conceito de pintura pode ser ampliado para a representação visual através das
cores. Mesmo assim, a definição tradicional de pintura não deve ser ignorada. O
elemento fundamental da pintura é a cor. A relação formal entre as massas coloridas
presentes em uma obra constitui sua estrutura fundamental, guiando o olhar do
espectador e propondo-lhe sensações de calor, frio, profundidade, sombra, entre
outros. Estas relações estão implícitas na maior parte das obras da História da Arte e
sua explicitação foi uma bandeira dos pintores abstratos.
Para saber mais
Conheça as principais técnicas e materiais da pintura:
• Muralismo, pintura mural ou parietal: é a pintura executada sobre uma
parede, quer diretamente na sua superfície, como num afresco, quer num painel
montado numa exposição permanente. Ela difere de todas as outras formas de arte
pictórica por estar profundamente vinculada à arquitetura, podendo explorar o caráter
plano de uma parede ou criar o efeito de uma nova área de espaço. A técnica
tradicional de uso mais generalizado é a do afresco, que consiste na aplicação de
pigmentos de cores diferentes, diluídos em água, sobre argamassa ainda úmida.
• Tinta a óleo: é uma mistura de pigmento pulverizado e óleo de linhaça ou
papoula. É uma massa espessa, da consistência da manteiga, e já vem pronta para o
uso, embalada em tubos ou em pequenas latas. Dissolve-se com óleo de linhaça ou
terebintina para torná-la mais diluída e fácil de espalhar. O óleo acrescenta brilho à
tinta; o solvente tende a torná-la opaca. A grande vantagem da pintura a óleo é a
flexibilidade, pois a secagem lenta da tinta permite ao pintor alterar e corrigir o seu
trabalho.
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• Acrílico: é uma tinta sintética solúvel em água que pode ser usada em
camadas espessas ou finas, permitindo ao artista combinar as técnicas da pintura a
óleo e da aquarela. Se você quiser fazer tinta acrílica, você pode misturar tinta guache
com cola.
• Aquarela: é uma técnica de pintura na qual os pigmentos se encontram
suspensos ou dissolvidos em água. Os suportes utilizados na aquarela são muito
variados, embora o mais comum seja o papel com elevada gramatura (espessura do
papel). São também utilizados como suporte o papiro, casca de árvore, plástico,
couro, tecido, madeira e tela.
• Guache: é um tipo de aquarela opaca. Seu grau de opacidade varia com aquantidade de pigmento branco adicionado à cor, geralmente o suficiente para evitar
que a textura do papel apareça através da pintura, fazendo com que não tenha a
luminosidade das aquarelas transparentes.
3.3.1 Pintura Histórica
O termo se aplica à pintura que representa fatos históricos, cenas mitológicas,
literárias e da história religiosa. Em acepção mais estrita, refere-se ao registro pictórico
de eventos da história política. Batalhas, cenas de guerra, personagens célebres,
fatos e feitos de homens notáveis são descritos em telas de grandes dimensões.
Realizadas, em geral, sob encomenda, as pinturas históricas evidenciam um tipo de
produção plástica comprometida com a tematização da nação e da política. Se os
acontecimentos domésticos, o cotidiano e os personagens anônimos são registrados
pela pintura de gênero, os grandes atos e seus heróis são narrados em tom elevado
e estilo grandioso pela pintura histórica. O desafio pictórico colocado por essas telas
reside na experimentação simultânea de diferentes gêneros artísticos:
das paisagens e naturezas-mortas (nos panos de fundo e elementos do cenário);
dos retratos e cenas de gênero (ensaiados na caracterização dos personagens e
ambiências). A realização de telas com grande número de elementos, por sua vez,
incita os pintores a procurarem soluções inéditas em termos de composição.
Figura: Batalha dos Guararapes , 1875 , Victor Meirelles
Reprodução fotográfica Eduardo Marques
29
Fonte: enciclopedia.itaucultural.org.br
A pintura histórica adquire prestígio nas academias de arte, alçada ao primeiro
plano na hierarquia acadêmica a partir do século XVII, com a criação da Real
Academia de Pintura e Escultura em Paris, 1648. Verifica-se aí um estreitamento das
relações entre arte e poder político, e uma associação mais nítida entre a instituição
e uma doutrina particular. A paixão pela Antigüidade - revelada nos temas mitológicos
e nos motivos históricos - associada à clareza expressiva e à obediência às regras
definem o estilo que se converterá no eixo da doutrina acadêmica. A pintura
neoclassica, que tem como centro a França do século XVIII, explora fartamente os
temas históricos. Diante da Revolução Francesa, o modelo clássico adquire sentido
ético e moral. A busca de um ideal estético da Antigüidade vem acompanhada de
ideais de justiça e civismo, como mostram as telas do pintor Jacques-Louis David
(1748 - 1825). Os retratos dos mártires da revolução realizados por ele atestam a face
engajada de sua pintura (A Morte de Lepetier, A Morte de Marate A Morte de Bara,
1793). David é também o pintor oficial de Napoleão, como mostra a série sobre o
imperador realizada entre 1802 e 1807, na qual se destaca a gigantesca Coroação de
Napoleão (1805-1807). Antoine-Jean Gros (1771 - 1835), seguidor da forma austera
de David, inclina-se às cores e vibrações dramáticas nas batalhas napoleônicas que
executa - por exemplo, A Batalha de Eylau (1808) -, o que faz dele um elemento
central no desenvolvimento do romantismo francês.
Na Espanha, pinturas históricas são realizadas a partir do século XVI por
diversos artistas. Cenas de batalhas são executadas pelos pintores da corte de Felipe
IV, comprometidos com a representação da invencibilidade do exército espanhol em
suas campanhas militares. Nesse contexto, Francisco de Zurbarán (1598 - 1664)
30
realiza A Defesa de Cádiz e Diego Velázquez (1599 - 1660), A Rendição de
Breda (1634-1635), ambas glorificando os triunfos do reinado de Felipe.
Posteriormente, cenas históricas têm lugar no interior da variada produção de
Francisco José de Goya y Lucientes (1746 - 1828), por meio das dramáticas telas
sobre a ocupação francesa da Espanha (1808-1814), em que o pintor coloca a sua
ênfase na revolta dos cidadãos de Madri contra os ocupantes (Fuzilamento, 1808).
Com esses trabalhos de Goya, a dimensão heróica e celebrativa da pintura histórica
encontra sua primeira contestação. Mas é na série de 65 água-fortes, Os Desastres
da Guerra (1810-1814), que o pintor revela sua visão realista dos acontecimentos: as
cenas de pesadelos e as figuras macabras falam das atrocidades da guerra, pelas
quais são responsáveis franceses e espanhóis. A própria opção por uma "técnica
menor", a gravura - procedimento que Goya dignifica -, revela o quanto a pintura
histórica poderia estar comprometida com a apologia do poder.
A preocupação com o passado e com as origens, assim como a interferência
no tempo presente, marcam a visão de mundo romântica. O impacto da Revolução
Francesa e o mito napoleônico se refletem nos temas históricos e nas cenas de
batalhas, explorados pelos pintores. Théodore Géricault (1791 - 1824) retoma a
história em telas como A Jangada da Medusa (1819). O quadro trata de um
acontecimento contemporâneo (um naufrágio ocorrido em 1817), narrando, em tom
épico, o embate entre vida e morte, assim como as relações hostis entre o homem e
a natureza. Eugène Delacroix (1798 - 1863) se detém sobre a história política desde
o início de sua carreira (O Massacre de Quios, 1824, A Grécia Sobre as Ruínas de
Missolongi, 1827). Mas é o célebre A Liberdade Guia o Povo (1850) que evidencia o
compromisso do pintor com a história de seu tempo; a tela registra a insurreição de
1830 contra o poder monárquico. A liberdade, representada pela figura feminina que
ergue a bandeira da França sobre as barricadas, converte-se em alegoria da
independência nacional.
Marcas neoclássicas e românticas se fazem sentir na pintura histórica
exercitada pelos pintores acadêmicos brasileiros. A produção inscrita no interior
da Academia Imperial de Belas Artes - Aiba possui fortes vínculos com o governo
imperial de Dom Pedro II (1825 - 1891), para o qual os artistas criam uma iconografia
nacional - A Coroação de D. Pedro II, de Porto Alegre (1806 - 1879). Os nomes
de Pedro Américo (1843 - 1905) e Victor Meirelles (1832 - 1903) associam-se
31
diretamente à pintura histórica no país. Pedro Américo tem no desenho, e na
preocupação com a execução das figuras, um dos traços característicos de sua
pintura. A Guerra do Paraguai serve de modelo para as narrativas épicas de suas
telas, por exemplo, aquelas realizadas em 1871: Batalha do Campo Grande, Batalha
do Avaí e Passagem do Chaco. Nota-se aí uma atenção aos detalhes,
minuciosamente descritos: os trajes militares, os cavalos, a fisionomia dos
personagens. O uso de fotografias como apoio para realização de suas telas históricas
revela a preocupação de Pedro Américo em diminuir a distância entre uma arte
celebrativa e a documentação histórica. Victor Meirelles também se deteve no registro
da história nacional, na representação do império e na guerra do Paraguai. Do ponto
de vista da composição, observam-se afinidades de sua pintura com o espírito
romântico. Dentre suas principais obras estão: A Primeira Missa no Brasil (1860), A
Batalha dos Guararapes(1879), Passagem do Humaitá e Combate Naval do
Riachuelo (ambas de 1882). A expressividade da cor e a atenção às paisagens estão
entre as marcas do pintor. O tom grandioso e o ímpeto da ação aparecem como
elementos fortes de suas narrativas visuais, que, longe de assinalarem a crueldade
da guerra, visam enobrecê-la.
3.3.2 Pintura a óleo
Tipo de pintura na qual os pigmentos de cor são aglutinados por tipos
específicos de óleo que, ao oxidar, passam também a protegê-los. Ela se caracteriza
pela maior possibilidade de mistura e sobreposição de cores, por ser transparente
(velaturas). Por não secar rapidamente, também possibilita maior fusão entre as
camadas de tinta. Sua origem é indefinida, mas seu uso torna-sepopular por toda a
Europa durante o século XV, primeiro sendo utilizada na pintura de retábulos de
madeira e depois em tela, papel e na pintura mural. Até então, os artistas trabalhavam
principalmente com a têmpera, na pintura de cavalete.
3.3.3 Pintura de Interior
O termo designa uma ramificação da pintura de gênero, especificamente as
obras que representam cenas do cotidiano doméstico e aquelas ocorridas em espaços
interiores: salas, quartos, cozinhas etc. Ainda que seja possível localizar registros de
32
ambientes interiores em diversas tradições e épocas, a expressão faz referência
sobretudo à pintura da Holanda protestante do século XVII, onde se desenvolve um
estilo sóbrio e realista, comprometido com a descrição de cenas rotineiras, de
situações da vida diária, de homens realizando seus ofícios, de mulheres no interior
das casas e de festas comunitárias. As imagens se particularizam pela riqueza de
detalhes, pela precisão e apuro técnico, na contramão das formas barrocasque tomam
os países da Europa católica. Vale lembrar que a expressão pintura de interior, ainda
que parte integrante do vocabulário da crítica e da história da arte, é empregada de
modo esporádico, encontrando-se ausente em boa parte dos dicionários e
enciclopédias dedicadas às artes visuais. De modo geral, o termo pintura de gênero é
aquele mais amplamente adotado.
A pintura flamenga, já nos séculos XV e XVI, mostra-se sensível à descrição
dos registros triviais do cotidiano. O célebre quadro Giovanni Arnolfini e Sua
Esposa (1434) de Jan van Eyck (ca.1390-1441) é revelador dessa orientação
descritiva da pintura holandesa. Basta notarmos o cuidado do pintor com as texturas
reais das faces do casal em primeiro plano e de suas vestimentas, bem como a
composição detalhada do ambiente interior: os móveis, os candelabros, o cão e o
espelho ao fundo em que se encontram refletidos o casal (de costas) e duas outras
figuras. Peter Bruegel, o velho (ca.1525-1569), se notabiliza pelas cenas de gênero
que realiza, em especial, as cenas da vida camponesa: os aldeões no trabalho e em
festejos variados. Dentre elas, algumas podem ser mais claramente classificadas
como pinturas de interior, por exemplo, Um Casamento Aldeão (1565). A cena,
ocorrida no interior de um celeiro, repleta de personagens e situações, exemplifica a
opção primeira de sua pintura: a riqueza de detalhes, o colorido e a técnica precisa.
Muita coisa ocorre simultaneamente: em primeiro plano, os pratos transportados por
dois homens de avental branco; no canto esquerdo, um homem serve cerveja e um
menino brinca; à mesa, as pessoas comem e conversam, enquanto um grupo de
músicos toca, de pé; no fundo, outros tentam entrar pela porta. O filão aberto por
Bruegel vai ser explorado pelas obras animadas e humorísticas de Jan Steen (1626-
1679), popular pelas tavernas e ambientes festivos que descreve com atenção aos
coloridos, gestos e poses. Dentre suas obras, algumas são pinturas de interiores,
como A Festa na Osteria (1674) e A Festa de Batizado (1664). Jan Vermeer (1622-
1669 ou 1670) deixou registros antológicos de cenas de interior como A
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Leiteira (ca.1660), Mulher Lendo Diante da Janela (ca.1657), Jarro de
Vinho (ca.1658-1660), A Lição de Música (ca.1662-1665), entre outras. O registro de
cenas da vida doméstica, por meio de imagens harmoniosas, o foco colocado em uma
ou duas figuras - que realizam tarefas domésticas ou em momentos de lazer - e a luz
que entra pelas janelas, á esquerda da composição - em que predominam amarelos,
azuis e tons acinzentados - são traços destacados da pintura de Vermeer.
No Brasil, a pintura de gênero é realizada pelos pintores do final do século XIX
e início do século XX. No interior da ampla produção de Debret (1768-1848), por
exemplo, o registro de cenas da vida cotidiana, dos ambientes domésticos e do mundo
do trabalho está presente em diversos trabalhos, como Uma Senhora Brasileira em
seu Lar (ca.1823), Botica e Interior de uma Casa de Ciganas (1823). Almeida Júnior
(1850-1899), por sua vez, realiza pinturas de interior em diferentes momentos: Quarto
do Artista em Paris (1886), O Importuno (1898). A pintura de gênero, e nesse caso
mais detidamente o registro de ambientes interiores, encontra expressão em obras
de Modesto Brocos (1852-1936) - Engenho de Mandioca (1892) -, de Belmiro de
Almeida (1858-1935) - A Tagarela (1893) e Arrufos (1887) - e de Henrique Bernardelli
(1858-1936), por exemplo Interior Italiano (s.d.). E nos anos 1920 convém recordar a
produção francesa de Anita Malfatti (1889-1964).
3.3.4 Pintura Sacra
Convenciona-se chamar de pintura sacra aquela que representa assuntos ou
personagens religiosos. Uma parcela significativa dessa produção é realizada sob
encomenda para decorar forros das igrejas e capelas. Nesse sentido falar em pintura
sacra significa referir-se a praticamente toda a história da arte cristã pois é na religião,
nas cenas e figuras bíblicas, que os pintores vão buscar a maior parte de seus temas.
Algumas representações transformaram-se em verdadeiros tópicos da pintura sacra,
trabalhadas pelos artistas em diferentes períodos: a virgem; a virgem com o menino,
a santa ceia, a crucificação, a conversação sacra (onde a virgem, o menino e os
santos estão dispostos numa única cena). Desde que o imperador Constantino
estabelece a Igreja Cristã como um poder do Estado, no ano 311 d.C., o
relacionamento entre religião e arte se redefine. Trata-se de pensar a partir de então
os lugares de culto e o modo de decorá-los, o que dá origem a uma série de disputas.
34
Afinal, seria lícito colocar imagens esculpidas e pintadas no interior das basílicas? O
papa Gregório Magno, que vive em fins do século VI, tem grande importância na
história da arte sacra na medida em que defende o uso de imagens nas igrejas, por
seu sentido didático. As imagens são úteis para ensinar a palavra sagrada aos leigos.
Diz ele: "A pintura pode fazer pelos analfabetos o que a escrita faz pelos que sabem
ler". Isso leva a que a arte apele para métodos narrativos, contando e explicando os
episódios da história bíblica (por exemplo, O Milagre dos Pães e dos Peixes, ca. 520
d.C., mosaico da Basílica de Santo Apolinário, o Novo, em Ravena, Itália).
35
Apóstolo São Paulo , 1869 , Almeida Júnior
Reprodução fotografica Romulo Fialdini
Fonte: enciclopedia.itaucultural.org.br
A arte cristã da Idade Média se beneficia da arte grega e romana, misturando
processos e métodos, o que pode ser aferido pelo modo de representação das figuras
humanas nos manuscritos e nas ilustrações da Bíblia em várias partes da Europa.
Mas antes de conferir verossimilhança à imagem representada, o artista medieval visa
transmitir de forma convincente a mensagem da história sagrada. A busca de clareza
na apresentação dos conteúdos acompanha a arte religiosa desse período:
iluminuras, calendários, esculturas, tapeçarias etc. Se a longa Idade Média é o tempo
das catedrais isso quer dizer que a arquitetura é a arte mais importante de todo o
período, prevalecendo na maior parte da Europa dos séculos XI e XII com o estilo
românico e, entre os séculos XII e meados do XVI, com o gótico. Tendo a França
como fonte de irradiação, toda a primeira fase do novo estilo gótico pode ser definida
36
como a linguagem artística da sólida estrutura monárquica francesa e do poder da
Igreja, que se via como depositária das ciências e das artes, além de mediadora entre
Deus e os homens. A proeminência da Igreja é enfatizada pela intensificação do culto
à Virgem Maria, queassume o primeiro plano na iconografia sacra. Se é na arquitetura
religiosa que o gótico vai predominar ao longo dos séculos XII e XIII - dialogando de
perto com a escultura na decoração das catedrais -, entre os pintores o nome de Giotto
(1266 ou 1267 - 1337) se destaca por lograr traduzir para a pintura as figuras realistas
da escultura gótica. A obra do pintor florentino representa um corte em relação às
convenções da tradição bizantina pela introdução de novos ideais naturalistas e pelo
novo sentido atribuído ao espaço pictórico. Entre os trabalhos a ele atribuídos estão
os afrescos da Capela de Arena, em Pádua (provavelmente concluídos em 1306). As
idéias de Giotto influenciariam pintores como Simone Martini (ca.1284 - 1344) e Lippo
Memmi. O retábulo representando a anunciação é pintado por ambos, em 1333, para
a catedral de Siena. Nota-se a predileção por formas delicadas, corpos esguios, pela
graça de movimentos e harmonia da composição, de acordo com os ensinamentos do
gótico.
Mas é ao longo do Renascimento, primeiro na Itália e depois no resto da
Europa, entre os séculos XIV e XVI, que a pintura assume lugar destacado entre as
artes e, com ela, os temas bíblicos, que se associam muitas vezes às figuras da
mitologia greco-romana. Os ideais de perfeição, harmonia, equilíbrio e graça -
representados com o auxílio dos sentidos de simetria e proporção das figuras -
definem a orientação geral da arte do período e também da pintura sacra. Em
Florença, Masaccio (1401 - 1428) efetua uma revolução na representação pictórica.
A proximidade com arte escultórica de Donatello (ca.1386 - 1466), leva-o a projetar
figuras vigorosas e robustas, que rejeitam a elegância gótica. Em sua breve trajetória,
Masaccio deixa três obras reveladoras de seu estilo: um políptico, 1426, para a Igreja
Carmelita de Pisa; um ciclo de afrescos sobre a vida de São Pedro (Capela Brancacci
de Santa Maria dela Carmine, Florença, ca.1425/1428) e um afresco da Trindade em
Santa Maria Novella, Florença, ca.1428. Marcas da pintura de Masaccio - sobretudo
a representação pictórica da perspectiva arquitetônica - podem ser encontradas nas
obras de Fra Angelico (ca.1400 - 1455), por exemplo, na Anunciação, ca.1435 (Museu
Diocesano, Cortona). As obras mais famosas desse frei dominicano estão em São
Marco, Florença (hoje Museu de Angelico), onde ele pinta mais de 50 afrescos. Um
37
dos maiores pintores do Quattrocento, responsável por vigorosas pinturas sacras, é
Piero della Francesca (ca.1415 - 1492), que imortaliza um estilo em que se combinam
grandeza, naturalidade, cor e luz. A série de afrescos sobre A Lenda da Verdadeira
Cruz, ca.1452/ca.1465, no coro da Igreja de S. Francesco, em Arezzo, é considerada
uma de suas maiores obras. Entre as imagens sacras que realiza estão: Flagelação,
1455 e Nossa Senhora e o Menino com Federico da Montefeltro, ca.1475.
Leonardo da Vinci (1452 - 1519) é autor de ampla obra artística e científica,
célebre por seus escritos, pelos retratos e pela invenção da técnica
do esfumato ("fumo", "fumaça"), em que se vale da justaposição de tons e cores
diferentes, de modo que se misturem "sem limites ou bordas, à maneira da fumaça".
Com isso Leonardo logra suavizar os contornos característicos da pintura do início do
XV, revelando as potencialidades da tinta a óleo. Ele é autor de grandes obras da
pintura com temas religiosos: Anunciação, ca.1475, em Uffizi, o retábulo A Adoração
dos Magos (encomendado em 1478 e inacabado), A Virgem dos Rochedos, iniciada
em 1483, Última Ceia, ca.1495, entre outras. As imagens de Rafael (1483 - 1520) dão
plena expressão aos valores da arte renascentista, destacando-se pela beleza
projetada segundo os padrões idealizados do universo clássico. A seu período
florentino remontam célebres representações da virgem com o menino e pinturas da
sagrada família, em que os personagens bíblicos são representados como seres
humanos. Datam do período florentino, algumas de suas mais famosas imagens
da Virgem com o Menino [Madona Sistina], ca.1512/1514. As obras de Michelangelo
Buonarroti (1475 - 1564), exemplificam em várias modalidades mais uma realização
bem-sucedida do modelo clássico. O afresco para o forro da Capela Sistina,
1508/1512, está entre as mais importantes obras da pintura sacra e da arte pictórica
em geral. Executa para Paulo III suas últimas pinturas: a Conversão de S. Paulo e
a Crucificação de S. Pedro, 1542/1550, afrescos na capela Paolina, no Vaticano. Na
escola veneziana, o nome de Ticiano (ca.1488 - 1576) deve ser lembrado pela
execução de uma série de obras-primas da pintura religiosa: a Assunção, 1518,
a Virgem Aparecendo a São Francisco e a Santo Alviso, 1520 e a Apresentação da
Virgem no Templo, 1534/1538.
Falar em pintura sacra fora da Itália é referir-se imediatamente a Matthias
Grünewald (ca.1480 - 1528), pintor alemão que se concentra exclusivamente em
temas religiosos, em particular no tópico da crucificação. Sua mais famosa
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representação do tema é o painel central do retábulo para a igreja do hospital de
Isenheim, Alsácia - A Crucificação, ca.1515. O pintor neerlandês Hieronymus Bosch
(ca.1450 - 1516), imortaliza episódios bíblicos, representados de forma alegórica e
não-convencional. Cenas da vida de Cristo e dos santos são narradas em parte de
suas telas como base em representações do mal e das tentações (As Tentações de
Santo Antão, por exemplo). Na escola espanhola, El Greco (1541- 1614) amadurece
um estilo próprio em telas repletas de figuras alongadas pintadas com cores frias. A
execução do retábulo-mor da Igreja de S. Domingo El Antiguo leva-o a Toledo, em
1577, onde realiza a famosa Ascensão da Virgem, 1577. Outro retábulo célebre é o El
Espolio [Cristo Despojado de Suas Vestes], 1577/1579, da catedral de Toledo. Diego
Velázquez (1599 - 1660), com A Imaculada Conceição, ca.1618 e a Adoração dos
Magos, 1619, cria uma arte religiosa naturalista, em que as figuras, menos do que
tipos idealizados, são retratos.
O barroco talvez seja a última expressão contundente da pintura sacra.
Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571 - 1610), mais original e influente pintor
italiano do século XVII, é responsável por duas encomendas públicas em seu segundo
período romano (1599-1606) - decoração da Capela Contarelli, em S. Luigi dei
Francesi (Vocação de S. Mateus e Martírio de São Mateus, 1599/1600) e duas
pinturas para a Capela Cerasi em Santa Maria del Popolo (Crucificação de São
Pedro e Conversão de São Paulo, 1600/1601) - a partir das quais se dedica quase
que exclusivamente à pintura de obras religiosas de grande porte, entre elas:
o Sepultamento, 1602/1604 (Vaticano), a Virgem de Loreto, 1603/1605 (S. Agostino,
Roma), a Virgem dos Palafreneiros, 1605 (Galeria Borghese, Roma) e a Morte da
Virgem, 1605/1606. Oriundo de Bolonha, Annibale Carraci (1560 - 1609) realiza obras
religiosas, como o retábulo da virgem chorando sobre o corpo do Cristo morto (Pietá,
1599/1600), que não oferece os horrores da morte e da dor - como em Grünewald -
mas uma cena plácida a ser contemplada. Guido Reni (1575 - 1642) flerta com o estilo
de Caravaggio em várias obras religiosas, por exemplo na Crucificação de São Pedro,
1603 (Vaticano).
Ainda que seja difícil definir os marcos temporais exatos, é possível verificar o
declínio da pintura sacra a partir do fim do século XVII e início do século XVIII,
explicável em função da redefinição da sociedade européia, no interior da qual a Igreja
- e com ela a arte religiosa - perde progressivamente a importância. As transformações
39
econômicas, políticas e sociais em curso se aprofundam nos séculos posteriores,originando uma "era das revoluções", nos termos empregados pelo historiador inglês
Eric Hobsbawn para fazer referência ao período compreendido entre 1789 e 1848.
Assiste-se ao triunfo da indústria capitalista, da sociedade burguesa liberal e do
Estado moderno e, com eles, à crença na idéia de progresso, de conhecimento
científico e à crescente laicização da sociedade. Nesse contexto transformado, os
temas religiosos prevalentes na pintura até então perdem força, ainda que a pintura
sacra se mantenha como um gênero, entre outros, concorrendo com a pintura
histórica, a pintura de gênero, a pintura documental etc.
No Brasil, o barroco e o rococó são fontes privilegiadas da produção de arte
religiosa. No campo da pintura sacra especificamente, destaca-se o nome de Manoel
da Costa Athaide (1762 - 1830), um dos mais talentosos pintores barrocos,
responsável, entre outros, pela pintura ilusionista do teto da nave (1802) da Igreja da
Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Penitência, de Ouro Preto, Minas
Gerais. Da chamada "escola baiana de pintura" destacam-se José Joaquim da Rocha
(1737 - 1807) - responsável pelo óleo Coroação de Nossa Senhora, ca.1790 -
e Teófilo de Jesus (1758 - 1847), autor de O Sumo Sacerdote Melquisedeque e Jesus
Institui a Eucaristia, ambas de 1793, obras pertencentes ao acervo do Museu de Arte
Sacra, em Salvador.
3.4 Colagem
Fonte: www.zupi.com.br
40
A colagem como procedimento técnico tem uma história antiga, mas sua
incorporação na arte do século XX, com o cubismo, representa um ponto de inflexão
na medida em que liberta o artista do jugo da superfície. Ao abrigar no espaço do
quadro elementos retirados da realidade - pedaços de jornal e papéis de todo tipo,
tecido, madeira, objeto e outros -, a pintura passa a ser concebida como construção
sobre um suporte, o que dificulta o estabelecimento de fronteiras rígidas entre pintura
e escultura. Fruteira e Copo(1912), de Georges Braque (1882-1963), é considerada
uma das primeiras colagens da arte moderna. A partir desse momento, a técnica é
largamente empregada em diferentes escolas e movimentos artísticos, com sentidos
muito variados. Pablo Picasso (1881-1973) encontra no novo recurso um instrumento
de experimentação inigualável, que tem início com Copo e Garrafa de Suze (1912),
parte de uma série em que são utilizados papéis e desenhos a carvão.
O uso de papéis colados abre pesquisas cubistas em novas direções. A
utilização cada vez mais livre de materiais heterogêneos, não só papel, dá origem a
objetos tridimensionais e relevos. Nessa direção, Juan Gris (1887-1927), outro grande
nome do cubismo que trabalha exaustivamente com colagens, define a pintura como
"espécie de arquitetura plana com cor". As colagens de Braque, Picasso e Gris
despertam o interesse de artistas dos círculos cubistas mais próximos e mais
distantes. Albert Gleizes (1881-1953), Louis Marcoussis (1883-1941), André Derain
(1880-1954), Robert Delaunay (1885-1941) e Sonia Delaunay-Terk (1885-1979), entre
outros nomes do circuito parisiense, passam a fazer uso de colagens em suas
composições. Na escultura - também realizada por Braque e Picasso -, os trabalhos
de Alexander Archipenko (1887-1964), Jacques Lipchitz (1891-1973), Vladimir Tatlin
(1885-1953), Pablo Gargallo (1881-1934) e Henri Laurens (1885-1954) são exemplos
da articulação entre superfícies e volumes, em consonância com o programa das
colagens cubistas.
Os princípios de composição inaugurados pelas colagens encontram
seguidores em todo o mundo, o que não significa falar em generalização uniforme,
mas em interpretações distintas de um mesmo procedimento. Na Itália, um diálogo
cerrado com o meio francês leva os artistas reunidos em torno do futurismo a praticar
colagens em sentido cubista estrito. Um traço destacado da produção futurista - em
Umberto Boccioni (1882-1916) e Gino Severini (1883-1966), por exemplo - diz respeito
à atenção dedicada ao mundo moderno, sobre o qual os artistas se debruçam
41
sistematicamente, por meio de comentários que fazem à guerra, - tecnologia,
velocidade, violência etc. Os trabalhos de Giacomo Balla (1871 ou 1874-1958) e Luigi
Russolo (1885-1947) apontam rumo às pesquisas abstratas. Na Rússia de Kazimir
Malevich (1878-1935) e Tatlin, as conquistas cubistas adquirem novas feições. As
colagens aderem às tendências construtivas em pauta, ganhando destaque os
princípios de composição propriamente ditos e o poder expressivo dos materiais, por
exemplo nos "relevos pictóricos" de Tatlin.
Diverso é o resultado da técnica no interior do movimento dada. Em Marcel
Duchamp (1887-1968) e Francis Picabia (1879-1953), nota-se uma radicalização dos
procedimentos usuais da colagem, numa clara recusa ao que eles consideram a
rigidez cubista. Nos trabalhos de Kurt Schwitters (1887-1948), a ênfase recai sobre
elementos e materiais diversos, que encontram seu exemplo mais acabado nas
obras Merz (1919). "A pintura Merz", diz ele, "não utiliza só a cor e a tela, o pincel e a
paleta, senão todos os materiais percebidos pelos olhos e todas as ferramentas
necessárias." Com Max Ernst (1891-1976), ampliam-se as possibilidades da colagem.
Nota-se uma articulação imprevista dos elementos e uma abertura mais direta ao
irracional, no que é seguido pelos surrealistas, que levam ao limite a idéia de
associação de elementos díspares e de construção de uma "realidade irreal", por
exemplo, em Joán Miró (1893-1983), Yves Tanguy (1900-1955), René Magritte (1898-
1967), André Masson (1896-1987) e Salvador Dalí (1904-1989). Diferente é a
trajetória seguida pelos artistas ligados a Bauhaus quando empregam a colagem e a
montagem como parte de seu programa pedagógico. Distinto também o sentido que
Henri Matisse (1869-1954) atribui aos papéis colados que utiliza na obra de
maturidade, em que a pesquisa da forma liga-se diretamente à exploração da cor.
Nas artes plásticas brasileiras, as colagens foram testadas por diferentes
artistas, por exemplo, nas obras de Carlos Scliar (1920-2001), Piza (1928), Guignard
(1896-1962), Jorge de Lima (1893-1953) e Athos Bulcão (1918-2008). São elas que
também oferecem possibilidades aos relevos espaciais de Hélio Oiticica (1937-
1980) e os casulos e bichos de Lygia Clark (1920-1988).
42
3.5 Escultura
Fonte: incrivel.club
É uma arte que representa imagens plásticas em relevo total ou parcial usando
a tridimensionalidade do espaço. Os processos da arte em escultura datam da
Antiguidade e sofreram poucas variações até o século XX. Estes processos podem
ser classificados segundo o material empregado: pedra, metal, argila, gesso ou
madeira. A técnica da modelagem consiste em elaborar esculturas inéditas através
desta técnica. São utilizados materiais macios e flexíveis, facilmente modeláveis,
como a cera, o gesso e a argila.
No caso da argila, a escultura será posteriormente cozida, tornando-se
resistente. A modelagem é, também, o primeiro passo para a confecção de esculturas
através de outras técnicas, como a fundição e a moldagem.
A técnica do entalhe é um processo que requer tempo e esforço, já que o artista
trabalha minuciosamente numa escultura, cortando ou extraindo o material supérfluo
(madeira, por exemplo) até obter a forma desejada. O material é sempre rígido e, com
frequência, pesado. A arte de esculpir em madeira utiliza poucas espécies de árvores,
que são selecionadas em função da sua textura, da beleza do material proporcionado
pelos veios e pela tonalidade da matéria prima. As madeiras comumente utilizadas
são o cedro e o mogno, por serem fáceisde trabalhar e mais leves. O acabamento da
obra é dado com tintas e vernizes preparados com resinas químicas ou naturais.
43
Outra técnica utilizada para a escultura é fundição de metal (ferro, cobre,
bronze etc.) em que se faz um processo complexo que começa com um modelo em
argila, passando por um molde que será preenchido com cera, obtendo-se outra peça
idêntica neste material, que poderá ser retocada, para corrigir algumas imperfeições
derivadas do molde. Depois de modelada em cera.
Fonte: blog.usenatureza.com
Em seguida, o metal líquido é vazado dentro de um molde, ocupando o lugar
deixado pela cera. O gesso é dissolvido em uma lavagem a jato de água, revelando a
peça com seus contornos. A escultura de metal passa, então, por um processo final
de recorte e de acabamento.
44
3.6 Arquitetura
Fonte: www.anchieta.br
Entre muitas outras coisas, a Arquitetura é a organização do espaço
tridimensional. É uma atividade humana existente desde que o homem passou a se
abrigar das intempéries do clima. Uma definição mais precisa da área envolve todo o
design do ambiente construído pelo homem, o que engloba desde o desenho de
mobiliário (desenho industrial) até o desenho da paisagem (paisagismo) e da cidade
(urbanismo), passando pelo desenho dos edifícios e construções (considerada a
atividade mais comum dos arquitetos). O trabalho do arquiteto envolve, portanto, toda
a escala da vida do homem, desde a manual até a urbana.
A arquitetura se manifesta de dois modos diferentes: a atividade (a arte, o
campo de trabalho do arquiteto) e o resultado físico (o conjunto construído de um
arquiteto, de um povo e da humanidade como um todo).
A Arquitetura depende ainda, necessariamente, da época da sua ocorrência,
do meio físico e social a que pertence, da técnica decorrente dos materiais
empregados e, finalmente, dos objetivos e dos recursos financeiros disponíveis para
a realização da obra, ou seja, do programa proposto.
Bem mais do que planejar uma construção ou dividir espaços para sua melhor
ocupação, a Arquitetura fascina, intriga e, muitas vezes, revolta as pessoas envolvidas
pelas paredes. Isso porque ela não é apenas uma habilidade prática para solucionar
os espaços habitáveis, mas encarna valores. A Arquitetura desenha a realidade
45
urbana que acomoda os seres humanos no presente. É o pensamento transformado
em pedra, mas também a criação do pensamento.
3.6.1 Arquitetura Racionalista
O racionalismo arquitetônico corresponde a uma tendência introduzida na
Europa, no início do século XX, que mantém forte compromisso com as conquistas da
estética do cubismo. A experiência da Bauhaus (1919) é decisiva para o
desenvolvimento de uma linhagem racionalista no campo da arquitetura. As pesquisas
formais e as tendências construtivistas realizadas com o máximo de economia na
utilização do solo e na construção; a atenção às características específicas de
diferentes materiais (madeira, ferro, vidro, metais etc.), a idéia de que a forma artística
deriva de um método, ou problema, previamente definido, o que leva à
correspondência entre forma e função; e o recurso permanente às novas tecnologias
estão entre os principais postulados da escola criada e dirigida por Walter Gropius
(1883 - 1969). O léxico de matriz cubistae construtivista adotado pelos arquitetos traz
o uso sistemático de formas elementares na composição arquitetônica de modo a
obter simetria, equilíbrio e regularidade no conjunto projetado. A utilização de
materiais novos, a estrutura aparente, as coberturas planas, o despojamento da
ornamentação, as grandes superfícies envidraçadas e a preocupação com o espaço
interno do edifício constituem outros pontos centrais da chamada arquitetura
racionalista.
Além de Gropius, os nomes de Mies van der Rohe (1886 - 1969) e Le Corbusier
(nascido Charles-Édouard Jeanneret, 1887-1966) estão entre os mais importantes
expoentes da arquitetura moderna - de corte racionalista e funcionalista -, que se
dissemina nas primeiras décadas do século XX por todo o mundo. Le Corbusier,
especialmente, conhece proeminência na cena internacional, entre 1920 e 1960.
Pintor e escultor, além de arquiteto e urbanista, ele tem intensa participação nos
debates das artes visuais, sobretudo em função da revista L'Esprit Nouveau (1920-
1925) e do purismo que defende no manifesto Après le cubisme(1918). Mas são os
ensaios reunidos em Vers une Architecture (1923) que lhe conferem reconhecimento
internacional como formulador dos princípios da nova arquitetura, ancorada no plano
racional e na funcionalidade. Os cinco elementos que definem seu programa são os
46
pilotis, a planta livre, o terraço-jardim, a fachada livre e as janelas horizontais. Os
princípios centrais do método de trabalho e da filosofia urbanística de Le Corbusier -
o uso racional dos materiais, métodos econômicos de construção, linguagem formal
sem ornamentos e diálogo sistemático com a tecnologia industrial - têm forte influência
na arquitetura moderna brasileira, sobretudo por suas sucessivas vindas ao país.
3.7 Fotografia Artística
Denominação equivocada e desprovida de sentido profundo, surgida em
meados do século XIX para designar as canhestras tentativas daqueles fotógrafos que
procuravam a valorização de seus trabalhos como arte através da imitação da estética
consagrada da pintura. Termos mais indicados para designar a fotografia criativa na
atualidade são: fotografia de autor ou fotografia de expressão pessoal.
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