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Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX A predominância da Europa O período imediatamente anterior à Primeira Guerra Mundial (1914-1918) é recorrentemente descrito como sendo o do auge da predominância da Europa sobre o resto do mundo. Essa situação pode ser aferida a partir do exame de algumas variáveis, como o tamanho da sua população, seu po- der industrial, comercial, financeiro e o papel que diversos países do continente exerciam na prática do imperialismo. Em 1913, a Europa contava com uma população de 460 milhões de indivíduos, o que representa- va 26% dos habitantes do planeta. Além de enorme, essa população aumentava continuamente, sendo os maiores crescimentos registrados nos grandes impérios da Europa Central: o russo (que aumentava em dois milhões de indivíduos a cada ano) e o alemão (mais 850 000 novos habitantes a cada ano). Além do expressivo crescimento demográfico da Europa, o continente também era perfeitamente capaz de contribuir, por meio da emigração, para o aumento da população dos novos países da Oceania e das Américas, que estavam em processo de colonização. Somente naquele ano, 400 000 italianos e 450 000 britânicos abandonaram a Europa rumo a países como Austrália, Argentina, Brasil, EUA etc. Tendo sido o local de nascimento da Revolução Industrial (1760), a Europa, ainda no início do século XX, concentra a maior parte do total das exportações mundiais de produtos industrializados (62%). Em contrapartida, é a maior importadora de alimentos, combustíveis e matérias-primas. Nos países mais desenvolvidos, como a Grã-Bretanha, a Alemanha e a França, esses produtos compõem en- tre 75% e 80% das suas importações. Também é na Europa, em especial na cidade de Londres, que se concentram a quase totalidade dos serviços financeiros de alcance mundial. Por exemplo, a contrata- ção de fretes marítimos, seguros navais, empréstimos internacionais, lançamentos de ações e constitui- ção de novas firmas de alcance global são feitas quase que totalmente em algumas poucas cidades da Europa: Londres, Amsterdã, Antuérpia, Berlim e Paris. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O volume de capitais investidos em países estrangeiros também é um indicador da preponderân- cia econômica e financeira da Europa. Do total de recursos investidos no exterior, 45% provêm da Grã- -Bretanha, 25% da França e 13% da Alemanha, em contraste com os EUA, responsáveis por apenas 5% do total. Além disso, o papel dos EUA como praça financeira tem um alcance restrito. Seus bancos e ins- tituições financiadoras não têm atuação global, limitando-se a operações apenas nas Américas. E, ainda, o papel central desempenhado pela Europa nas relações internacionais é realçado pelo fato de o continente ser sede das principais potências imperialistas. O maior desses impérios da épo- ca – ou de qualquer outra – sem dúvida era o britânico. Mas os impérios francês, russo, austro-húngaro, italiano e alemão também eram de enorme importância. Quase todos eles foram capazes de incorpo- rar à sua administração extensas áreas na África, na Ásia e na Oceania, fazendo com que as questões re- lacionadas a essas regiões fossem discutidas e decididas em conferências e congressos na Europa. Esse aspecto talvez seja o que melhor evidencia o papel central da Europa nas relações internacionais antes da Primeira Guerra Mundial. Finalmente, cabe mencionar o papel da Europa enquanto centro de desenvolvimento e disse- minação de novas tendências artísticas e culturais. Data dessa época o auge da influência da Europa nessas esferas de atividade humanas, constituindo-se em referência na pintura, na literatura, no cinema etc. Os EUA, a Alemanha e o Japão como potências emergentes O início do século XX é marcado por uma nova etapa na história da industrialização, cuja ca- racterística principal é a disseminação dos processos industriais, quebrando o monopólio que a Grã- -Bretanha exercia até então. Agora, ao lado dos britânicos, vários outros países, em ambos os lados do Atlântico norte, disputavam entre si o mercado mundial de produtos industrializados. Desses, os mais importantes são os EUA, a Alemanha e, secundariamente, a França, a Bélgica e a Holanda. Pouco tempo depois, o Japão também se lançou na competição industrial e, subsequentemente, militar, com as na- ções mais desenvolvidas. A disseminação da industrialização decorreu, na maior parte, da busca de novas oportunidades de lucro e de investimento britânicos. Ao longo de todo o século XIX, os britânicos – que já dominavam o mercado mundial de bens de consumo – transformaram-se numa grande nação exportadora de bens de capital1, vendendo ferrovias, máquinas para mineração, locomotivas, navios a vapor etc. para todo o mundo. Simultaneamente, investiam nos países da Europa e dos EUA, financiando por meio de emprés- timos a aquisição desses bens ou se associando aos empreendimentos locais nas áreas de transportes, indústria, mineração, serviços públicos etc. Em ambos os lados do Atlântico norte havia áreas propícias à industrialização que, se inicialmen- te se constituíam em mercados para os produtos britânicos, logo se converteram em seus concorrentes. Destas, as mais notáveis eram os EUA e a Alemanha. Ambos os países tinham populações enormes, em rápido processo de crescimento, constituindo-se em mercados internos interessantes para os empresá- rios industriais locais explorarem. Gradualmente, tornou-se disponível uma extensa rede de transportes 1 Bens de capital são aqueles empregados no processo produtivo, como equipamentos e máquinas, em oposição aos de consumo final, ou de consumo. 10 | Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 11|Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX a vapor, marítimos e terrestres, fazendo com que a produção e a distribuição de mercadorias fosse mui- to fácil e lucrativa. Além de que – e isso é particularmente notável no caso alemão – ambos os países contavam com uma população com níveis baixos de analfabetismo e alto nível de instrução formal, o que favorecia e sustentava o aperfeiçoamento do processo produtivo e a busca de níveis cada vez mais altos de produtividade. Finalmente, a imposição de tarifas protecionistas destinadas à taxação de produtos industriali- zados importados também serviu de estímulo para o investimento privado no setor. Assim, ao se ini- ciar o século XX, os EUA e a Alemanha já disputavam entre si a primazia industrial mundial da qual a Grã-Bretanha parecia se afastar cada vez mais. Dos dois países emergentes, eram os EUA que tinham as maiores vantagens comparativas. O tamanho da sua área e população permitia que as empresas indus- triais operassem num enorme mercado interno, que propiciava economias de escala que não podiam ser realizadas pelos seus concorrentes na Europa ou no Japão. Do outro lado do mundo, o Japão, que até pouco tempo atrás mantinha seus portos fechados sem qualquer contato com o estrangeiro, passava por um acelerado processo de modernização. Esse processo se iniciou em 1868, com a restauração da centralização do poder político por parte da dinastia Meiji. A observação cuidadosa do processo de submissão da China às potências imperialistas foi assimi- lada pelos japoneses com apreensão. As elites dirigentes do Japão compreenderam que a menos que fossem fortalecidas as bases do poder nacional, por meio da criação de indústrias capazes de sustenta- rem e manterem aparelhadas as forças armadas, o Japão seguiria o caminho da China, tornando-se ele próprio uma colônia informal das potências ocidentais. Para atingir seus objetivos, o governo japonês se esmerou em copiar as instituições ocidentais, adotando um programa que é recorrentemente descrito como sendo uma “modernizaçãoconserva- dora”, isto é, um esforço para atualizar o setor produtivo e as forças armadas com pouca ou nenhuma transformação social, em particular aquela que pudesse ameaçar o poder estabelecido (liberdades po- líticas, democratização da propriedade, instauração de um governo laico etc.). Apesar do enorme custo social, o programa de modernização japonesa foi, em grande parte, cumprido: ao se iniciar o século XX, o Japão contava com transporte, comunicações e um parque industrial capaz de equipar e manter em estado de eficiência seu exército e marinha de guerra. Já ao final do século XIX, os japoneses empreenderam guerra contra a China a fim de obter os mesmos tipos de vantagens comerciais de que já gozavam as potências europeias. Em 1905, o Japão ini- ciou e ganhou uma guerra contra o Império Russo, fazendo valer suas pretensões territoriais sobre ter- ritórios que os russos ambicionavam na China e na Coreia. Tratou-se, enfim, do único país não ocidental que foi capaz de passar da condição de candidato à colônia para a de sede de um império ultramarino colonial. Com o passar do tempo, contudo, suas pretensões coloniais fatalmente entrariam em rota de colisão com os demais países imperialistas. A Segunda Revolução Industrial Ao final do século XIX e início do XX, assiste-se a uma notável mudança nas bases tecnológicas e energéticas que até então vigiam no processo de industrialização, bem como na aplicação da ciência e tecnologia aos processos econômicos, a qual ficou conhecida como a Segunda Revolução Industrial. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Novas matrizes energéticas e novas tecnologias produtivas estavam sendo descobertas e adota- das. A Revolução Industrial na sua origem (1760) foi baseada na tecnologia da máquina a vapor, geral- mente queimando carvão ou lenha para obter a pressão necessária ao seu funcionamento. Ao fim do século XIX, essa tecnologia e sua respectiva matriz energética serão complementadas, em alguns casos substituídas, pela generalização do uso dos motores elétricos e a explosão. Ganham destaque, conse- quentemente, as atividades econômicas relacionadas à produção e à distribuição de eletricidade e dos derivados de petróleo. Para além das mudanças tecnológicas e da matriz energética, assiste-se também ao surgimento de um número considerável de novas atividades produtivas, resultado da aplicação cada vez maior e mais ampla das descobertas científicas à produção econômica. O processo é mais notável na indústria química, responsável pelo desenvolvimento de novos produtos, como corantes artificiais, fertilizantes, alimentos industrializados etc. Mas também foi muito importante para o ramo do entretenimento, com o surgimento da primeira diversão em massa da era moderna, o cinema. Da mesma forma na metalur- gia, com a oferta de novas ligas metálicas que tornaram a bicicleta e o fogão a gás produtos de amplo consumo popular. Pode-se citar também a indústria elétrica, responsável pela ampliação do consumo de telefones, lâmpadas, eletrodomésticos etc. Tais mudanças é que levam vários estudiosos a designa- rem o período como sendo caracterizado por uma Segunda Revolução Industrial. A Segunda Revolução Industrial também teve impacto sobre as formas de organização da indús- tria e da concorrência. De fato, o estabelecimento de unidades produtivas dedicadas à fabricação dos novos produtos demandava um volume mais substancial de capital e dependia de um prazo de matu- ração dos investimentos muito maior. As exigências de um volume consideravelmente maior de capital para o financiamento dos novos setores produtivos acabou por se constituir numa barreira de entrada nesses novos ramos de negócio que poucas empresas eram capazes de superar. Assim, é possível afir- mar que a Segunda Revolução Industrial tinha uma tendência muito mais forte à concentração da pro- priedade, sob a forma de cartéis, trustes e monopólios, do que a sua antecessora do século XVIII. Mais ainda, a necessidade de um maior montante de capital para iniciar e sustentar os novos setores produti- vos fez aumentar a dependência das indústrias em relação aos bancos e outras instituições financeiras. Essa dependência fazia com que, recorrentemente, os bancos acabassem se tornando sócios importan- tes dos novos empreendimentos industriais, chegando, no limite, a serem seus verdadeiros controlado- res. Essa tendência foi tão marcante que podemos nos referir a esse período como sendo marcado pela superação do capitalismo industrial pelo capitalismo financeiro. O imperialismo As relações internacionais nos anos compreendidos entre 1875 e 1914, período anterior à Primeira Guerra Mundial, foram marcadas pela anexação de extensos territórios na África, Ásia e Oceania por par- te das potências europeias e, em menor grau, pelos EUA e Japão. Praticamente toda a África, a Oceania e as ilhas do Oceano Pacífico passaram formalmente à condição de colônias submetidas à soberania de al- gum dos países europeus mais avançados. Os maiores impérios ultramarinos certamente foram, por or- dem, os da Grã-Bretanha, da França, da Alemanha, da Itália, dos EUA e do Japão. Desses, o maior era, de longe, o da Grã-Bretanha. Sob a autoridade da Grã-Bretanha vivia um quarto da população mundial, es- palhada por todos os continentes. O segundo maior império era o francês, que abrangia extensas áreas 12 | Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 13|Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX pouco povoadas da África e da Ásia. Os impérios alemão e italiano eram muito menores, resultado da chegada tardia de ambos a assim chamada “corrida imperialista”. Ao lado da ocupação formal dessas áreas, o imperialismo também foi praticado nesse período de maneira informal. Nesses casos ficava clara a hegemonia exercida pela potência imperialista sobre áreas que, embora formalmente independentes, ficavam submetidas na prática às suas determinações. O caso mais evidente desse imperialismo informal e seu correspondente contraste com a sua versão formal certamente é o norte-americano. Depois de uma curta e vitoriosa guerra contra a Espanha, ao fim do século XIX, os EUA tomaram para si as Filipinas e uma pequena parte de Cuba – a Península de Guantánamo – como suas colônias. Por outro lado, no período compreendido entre 1895 e 1917, as for- ças armadas dos EUA intervieram em praticamente todos os países da América Central e do Caribe, em- bora estes fossem, formalmente, nações independentes. Em todas essas intervenções, a motivação era a mesma: garantir a integridade e a segurança dos investimentos e propriedades dos cidadãos norte- -americanos naqueles países. O país que foi o alvo mais recorrente das ações do imperialismo informal foi, certamente, a China. Mergulhada na anarquia de uma guerra civil desde o fim do século XIX, a China não tinha um governo central e nacional minimamente eficaz, o que a tornou incapaz de deixar de se submeter a todo tipo de exigências e acordos ruinosos que lhe foram impostos por europeus, norte-americanos e, mais tarde, japoneses. A divisão daquele país em diferentes “áreas de influência” entre as potências capitalistas só foi rompida a partir de 1931, com a tentativa dos japoneses em tomar para seu impé- rio todo o território chinês. A ocorrência simultânea da Segunda Revolução Industrial e da corrida imperialista suscitou incon- táveis debates sobre a possível inter-relação entre esses dois fenômenos. Para os indivíduos que se iden- tificavam com a orientação teórica desenvolvida por Karl Marx, tais como Lênin e Rosa Luxemburgo, o imperialismo era um resultado direto das contradições do capitalismo. Fosse devido à queda da taxa de lucros de empresas capitalistas, segundo Lênin, ou devido aocaráter limitado dos seus mercados inter- nos, de acordo com Rosa Luxemburgo, o fato é que as potências do capitalismo industrial só poderiam sustentar seu ritmo de crescimento apelando para a aquisição de colônias. Tais colônias se constitui- riam tanto em um novo e ampliado mercado consumidor cativo quanto ofereceriam novas e exclusivas oportunidades de investimentos nas áreas de mineração, transportes, serviços públicos urbanos etc. A disputa pelas áreas passíveis de serem anexadas teria levado, ainda segundo Lênin, a diversos conflitos entre as potências capitalistas. Nesses conflitos, incluir-se-iam tantos os choques de fronteiras nas colô- nias quanto a Primeira Guerra Mundial. Inversamente, intelectuais identificados com a defesa das virtudes do capitalismo, a partir de uma orientação teórica liberal, refutavam a existência de qualquer nexo entre a corrida imperialista e a Segunda Revolução Industrial. Desses pensadores, os mais importantes foram Veblen e Schumpeter. Segundo eles, a corrida imperialista e a própria Guerra Mundial teriam sido resultado de iniciativas das elites dirigentes do Estado que, assim agindo, pretendiam realizar objetivos que nada tinham a ver com o capitalismo, mas com a conservação do seu próprio poder político. Para esses autores, eram elemen- tos de origem nobre, cujas fontes de poder econômico eram a renda obtida pela propriedade fundiária urbana e rural, que definiam e executavam – em associação com alguns poucos empresários privados – as políticas coloniais. Agindo desse modo, atuavam de forma oposta à do conjunto de interesses dos empresários capitalistas, interessados fundamentalmente na quebra e no abandono de todas as barrei- ras ao livre-comércio e no fim das restrições que os monopólios coloniais impunham ao mercado mun- dial. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O debate entre autores de orientação marxista e liberal continua em aberto, sendo uma ou outra orientação teórica mais ou menos convincente, dependendo do caso em exame. As considerações de or- dem econômica parecem ter sido as mais relevantes no caso britânico. De fato, era graças ao enorme su- perávit comercial com a sua mais importante colônia – a Índia – que os britânicos conseguiam superar algumas das suas maiores dificuldades no balanço de pagamentos. Já no caso francês e alemão não pare- cem ser predominantes as motivações afetas à superação de conflitos e às contradições inerentes à ordem capitalista. Nesses casos, o reforço ou a conquista de posições estratégicas em escala global, o uso da con- quista imperial como fator de reforço do prestígio político dos governantes ou, ainda, como elemento de reforço da lealdade dos cidadãos ao regime, parecem ter sido as motivações mais importantes. A corrida imperialista foi marcada por todo tipo de violências e abusos contra as populações sub- metidas. O relato dos crimes do imperialismo é extenso e provavelmente continuará a ser ampliado. Além disso, a imposição da autoridade colonial trouxe consigo também um choque cultural, derivado da imposição de valores e práticas culturais dos colonizadores sobre os colonizados. Na sua forma mais suave, esse processo resultou na “ocidentalização” dos costumes locais e, na sua versão mais agressiva, na pura e simples destruição das formas tradicionais de organização da vida coletiva e da produção de bens simbólicos. As forças da tradição e da transformação O século XX é marcado em escala mundial pela modernização. Tal processo é entendido como um conjunto de transformações históricas que ocorre em três diferentes níveis: a superação da econo- mia agrícola pela industrial; da sociedade rural pela urbana; e da universalização dos direitos e prerro- gativas individuais em relação ao Poder Público. Esses processos tiveram início ao fim do século XVIII com as Revoluções Industrial e Burguesa. A primeira deu início à perda de importância das atividades rurais em relação às industriais; a segunda à superação do Estado absolutista e das relações feudais de produção pela democracia política e as relações capitalistas de produção. Ao se iniciar o século XX, pa- recia que essas transformações estavam prestes a se concluírem, mas na prática seriam necessárias ain- da muitas décadas para tal. É importante reconhecer que a modernização jamais operou de forma contínua ou linear, muito embora elementos de diferentes orientações teóricas acreditassem sinceramente que isso de fato ocor- ria. Tratava-se dos partidários da noção de progresso, muito influentes na virada do século XIX para o XX. Segundo eles, os avanços da ciência, da técnica e do conhecimento humano em vários níveis estariam conduzindo a um contínuo aperfeiçoamento de todas as esferas de atividade humana. Ao fim e ao cabo desse processo, a humanidade se veria livre de todas as restrições ao seu bem estar material e moral, go- zando de paz e felicidade permanentes. 14 | Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 15|Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX Pelo menos nos países mais desenvolvidos, os substanciais avanços obtidos até então haviam permitido um enorme aumento da produtividade, garantindo à maioria das pessoas um mínimo que lhes permitisse sobreviver. A descoberta, e posterior industrialização das vacinas, permitiu a erradi- cação de uma série de doenças que, há até bem pouco tempo, seriam capazes de ceifar a vida de mi- lhões de pessoas. A invenção de máquinas e equipamentos de transporte (locomotiva, automóvel, aeronaves etc.) e comunicações (telégrafo, cabos submarinos, telefone etc.) prometia anular a restri- ção que as longas distâncias sempre impuseram ao desenvolvimento das trocas comerciais, científi- cas e culturais entre os povos. Porém, deve-se levar em conta que a tendência à instauração de uma sociedade moderna ope- rava de forma muito mais gradual do que se supunha e, mais ainda, contra ela operavam forças que vi- savam à preservação de elementos centrais na conjuntura anterior àquelas duas revoluções. Se pouca ou nenhuma restrição havia ao avanço do conhecimento e ao cada vez maior domínio do homem so- bre a natureza, o mesmo não ocorria no que se refere à extensão dos direitos dos cidadãos frente ao Estado e à instauração de uma forma de governo que permitisse uma maior participação popular nas questões políticas. Mesmo na Europa, por exemplo, predominavam regimes monárquicos, formalmen- te de orientação parlamentarista. Mas o poder desses parlamentos frente aos monarcas, e a própria forma pela qual se definia quem podia votar ou ser votado, variava enormemente. Via de regra, os regimes monárquicos tinham – exceto na Grã-Bretanha – uma enorme prevale- cência sobre as assembleias eleitas. No caso extremo – o russo – o parlamento (“Duma”) tinha uma exis- tência puramente formal, quase o mesmo se verificando no autoritário império alemão. Na França e na Itália, a instabilidade e pouca duração dos gabinetes parlamentares é que acabava reforçando a autori- dade do Poder Executivo – do presidente num caso e do rei no outro. Em qualquer cenário, inexistia o direito universal de votar e ser votado. Restrições ao voto das mulheres, dos analfabetos ou dos que não possuíam idade ou renda suficiente, para não mencionar a fraude pura e simples na criação de obstá- culos ao registro dos eleitores, limitavam grandemente o caráter “representativo” dos políticos eleitos. E mesmo estes quase que obrigatoriamente deveriam ou ser pessoas de muitos recursos, ou apelariam para a corrupção para se manterem, já que inexistia remuneração pelo exercício dos cargos eletivos. Essa situação só será revertida – por exemplo – na Inglaterra, em 1917. No geral, será necessário o duplo impacto da crise de 1929 e da Segunda Guerra Mundialpara que o processo de modernização política, iniciado com as Revoluções Burguesas do século XVIII, finalmente chegue à sua conclusão lógica. Também a transformação da economia de base agrícola pela industrial e da sociedade rural pela urbana só se efetivará no segundo pós-guerra, ainda assim não em todos os países desenvolvidos e, com muito mais lentidão, nas nações periféricas. No caso brasileiro, por exemplo, é somente em 1953 que o valor da produção industrial finalmente alcança a agrícola; e apenas em 1973 a soma da popula- ção urbana ultrapassa a rural. Finalmente, em 1989, é que o país adota o princípio da eleição direta para todos os cargos públicos baseado no voto universal. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Atividades 1. Sintetize as características comuns aos EUA e à Alemanha ao final do século XIX e início do XX que permitiram a industrialização desses países. 2. Descreva de que forma se deu a modernização do Japão a partir da segunda metade do século XX. 3. Aponte as diferenças mais marcantes entre a Primeira e a Segunda Revoluções Industriais. Dicas de estudo O debate historiográfico mais relevante desse período é relativo ao peso político que as elites de origem nobre ainda exerciam em relação à burguesia industrial. É de grande valia para o estudante a leitura completa de duas obras, contendo interpretações antagônicas sobre a questão. Recomenda- -se fortemente a leitura do livro de Eric Hobsbawn (A Era dos Impérios) em contraste com o traba- lho de Arno Mayer (A Força da Tradição). A leitura consecutiva desses dois livros permitirá ao aluno perceber de que forma diferentes orientações teóricas esposadas por autores diversos conduz a resultados antagônicos. 16 | Introdução: o mundo ao alvorecer do século XX Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. 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O súbito surgimento de uma Alemanha unificada, no centro do continente que era sede dos mais importantes impérios coloniais daquela época, colocava a diplomacia alemã diante de uma série de desafios. Desses, os mais perigosos eram os da França e da Rússia. No caso francês, havia o propósito dos governos daquele país de recuperarem as terras perdidas para a Alemanha no conflito de 1871. Sucessivos governos franceses defendiam a ideia da “revanche” contra os alemães e o restabelecimento da sua soberania nas províncias perdidas para os alemães da Alsácia e da Lorena. Daí a busca por aliados potenciais num futuro conflito por parte tanto da França quanto da Alemanha. Já as preocupações comuns à Alemanha e à Rússia se referiam à progressiva desintegração dos im- périos Austro-Húngaro e Otomano. As pressões de diferentes grupos étnicos que lutavam pela indepen- dência desses impérios preocupavam as diplomacias alemã e russa. O apoio da Rússia à independência dos povos eslavos, que viviam sob domínio Austro-Húngaro e Otomano, gerava o temor do aumento da presença russa numa região que se imaginava predestinada a se constituir em parte da esfera de influên- cia alemã. Desde as últimas décadas do século XIX, vinha aumentando sistematicamente o comércio da região com a Alemanha. No início do século XX, os alemães já cogitavam construir uma ferrovia ligando Berlim a Bagdá. Tudo isso levaria ao surgimento, em 1894, da assim chamada “Tríplice Aliança” que aliava de forma permanente a Alemanha e a Áustria-Hungria à Itália, esta última receosa de um futuro conflito com a França1. No mesmo ano, Rússia e França também formam entre si uma aliança militar. 1 A Itália sofreu sucessivas vezes a intervenção militar da França na conjuntura anterior à sua unificação. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Tais compromissos deixavam de incluir uma única potência importante da Europa: a Grã-Bretanha. Detentores do maior império colonial já visto na história, os ingleses pretendiam manter-se distantes dos compromissos com quaisquer alianças, ao mesmo tempo em que esperavam não existir mudanças significativasno equilíbrio de forças entre as potências no continente europeu. Essa esperança acabou quando a disposição da Alemanha em construir uma enorme frota naval se tornou pública. Dispostos a construir uma esquadra que apoiasse suas pretensões coloniais por todo o mundo, lançaram-se os alemães a uma expansão ilimitada da sua frota. À medida que iam expandindo seus efetivos navais, os alemães aumentavam os receios dos britânicos, que viam no fato de possuírem a maior frota de com- bate do mundo a melhor e mais segura garantia de que o Império e sua sede não sofreriam ameaças de fora. Os receios com relação aos planos expansionistas alemães acabou atraindo os britânicos para entendimentos mútuos de segurança com os franceses, antes mesmo da eclosão do conflito. A causa imediata da guerra foi o assassinato do arquiduque Ferdinando do Império Austro- -Húngaro em julho de 1914 por terroristas da Sérvia. A Sérvia havia se libertado do Império Otomano pouco tempo antes e atuava como modelo e inspiração para os demais povos eslavos que viviam sob domínio Austro-Húngaro e Otomano. O episódio serviu como pretexto para a invasão austro-húngara da Sérvia. Os russos, por seu lado, anunciaram que iriam em socorro da Sérvia, o que levou a Alemanha a pressionar a Rússia para desmobilizar seu exército. A negativa dos russos em fazê-lo levou a Rússia a declarar guerra à Alemanha. Simultaneamente, os alemães exigiram que os franceses provassem que não se aproveita- riam da crise para atacar a Alemanha, entregando ao controle alemão suas fortificações de fronteira. Diante da recusa dos franceses em fazê-lo, decidiram os alemães invadir a França, que contavam der- rotar rapidamente, para em seguida atacarem a Rússia. Os planos alemães de invasão da França esta- vam prontos desde 1905 e previam primeiro a ocupação da Bélgica, a fim de evitar o ataque frontal às defesas francesas de fronteira. Ocorre que a Bélgica era um país neutro, cuja integridade territorial era garantida – entre outros – pela Grã-Bretanha. Jamais os ingleses permitiriam que qualquer potên- cia europeia dominasse a Bélgica, já que isso colocaria em perigo suas comunicações vitais através do Canal da Mancha e também por constituir a ocupação do litoral belga em ameaça ao seu próprio litoral. Dessa forma, a invasão alemã da Bélgica colocou imediatamente o Império Britânico ao lado dos franceses e russos contra si. O resultado concreto de todos esses episódios foi a formação de duas grandes alianças antagô- nicas que entre si travaram a Primeira Guerra Mundial. De um lado, os Aliados (Entente): França, Rússia, Grã-Bretanha e, em 1915, a Itália (que repudiou seu acordo anterior com alemães e austro-húngaros) e os EUA (em 1917). De outro, a Alemanha, a Áustria-Hungria e (a partir de setembro de 1914) o Império Otomano, que constituíam as assim chamadas “Potências Centrais”. O impasse militar: a guerra de trincheiras Quando da eclosão do conflito, havia um consenso entre os países contendores de que a guerra seria breve. Acreditava-se mesmo que estaria terminada antes do Natal de 1914. Tal presunção se basea- va no fato de que todos os países haviam se preparado longamente para o conflito, mobilizando exérci- tos de milhões de homens, os quais seriam imediatamente lançados contra seus inimigos, precipitando o mais rapidamente possível a destruição de seus oponentes. 18 | Primeira Guerra Mundial Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 19|Primeira Guerra Mundial Ao mesmo tempo em que se consolidava essa mentalidade ofensiva, que visava obter resultados decisivos e rápidos, importantes desenvolvimentos estavam ocorrendo na tecnologia aplicada aos ar- mamentos. Antes mesmo do século XX se iniciar, novas e cada vez mais aperfeiçoadas armas estavam sendo desenvolvidas e adotadas. Por volta de 1914, a maior parte dos exércitos estava equipada com fuzis de repetição, geralmen- te com depósitos internos de cinco cartuchos, capazes de alcançar distâncias muito maiores e com uma cadência de tiro bem mais alta do que a dos seus antecessores, carregados pela boca. Também já esta- va em serviço a metralhadora, geralmente disparando munição carregada em fitas e capaz de susten- tar, de forma automática e quase que indefinidamente, o fogo disparado em rajadas que podiam somar até seiscentos tiros por minuto. Ocorreram também melhoramentos decisivos na artilharia. A adoção de uma variedade de meca- nismos de absorção do recuo do cano dos canhões após o disparo permitia que as guarnições permane- cessem o tempo todo junto a eles, remuniciando-os com a máxima velocidade possível que, em alguns casos, permitia até seis tiros por minuto. O resultado desses desenvolvimentos foi o aumento do poder de fogo que as unidades milita- res, a partir de suas posições defensivas, podiam lançar contra seus inimigos, o que por sua vez tornava os ataques contra elas cada vez mais perigosos e custosos. O volume e a cadência de tiro agora dispo- níveis tornava as antigas cargas de cavalaria totalmente impossíveis e os ataques frontais da infantaria cada vez mais arriscados. Dessa forma, depois de um ou dois meses da invasão alemã à França e à Bélgica, quando as per- das humanas já somavam milhões em cada lado, os oponentes se viram obrigados a interromper suas manobras às vistas do inimigo. Começaram a cavar, imediatamente, em extensão e profundidade cada vez maior, abrigos subterrâneos que permitissem que suas tropas sobrevivessem ao devastador fogo disparado pelo adversário. Tinha início então a “Guerra de Trincheiras” na Frente Ocidental, caracteriza- da pela quase imobilidade dos oponentes e pelo altíssimo custo das tentativas de se tomar terreno do adversário. Ao fim dos quatro anos de conflito, e a despeito do enorme custo humano e material em- pregado na busca da vitória, as posições ocupadas pelos oponentes jamais variaram além de 30 quilô- metros. Por outro lado, na Frente Oriental, onde alemães e seus aliados austro-húngaros se defrontavam com os russos, verificou-se um padrão inverso. Dada a extensão muito maior da linha de frente que opunha os adversários, bem como pela natureza do terreno muito mais arborizado e acidentado, pre- dominou um estilo de guerra marcado pelo movimento. De fato, já em 1914, os russos promovem uma fracassada invasão da Alemanha, a qual se sucede no ano seguinte uma bem-sucedida invasão alemã e austro-húngara da Polônia, então parte do Império Russo. Ao longo de 1916 e 1917, extensas batalhas em enormes áreas ocorrem nos montes Cárpatos e no Mar Báltico, as quais só serão interrompidas com a retirada da Rússia da guerra. As novas tecnologias e a guerra no ar e no mar O prolongado e indefinido impasse vivido na Frente Ocidental levou à busca de soluções que vi- sassem dar a cada lado do conflito alguma vantagem sobre seus oponentes que pudesse ser decisi- va. A primeira reação em ambos os lados foi o aumento maciço da fabricação de munições e peças de Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br artilharia. Acreditava-se que somente uma enorme expansão do volume de alto explosivo lançado so- bre as posições adversárias seria capaz de destruir os ocupantes e permitir a sua captura. Apesar de ex- tensos, esses bombardeios nunca foram capazes de destruir totalmente a defesa adversária: sempre sobreviviam pelo menos alguns defensores que, usando o fogo das suas metralhadoras e informando à sua própria artilharia sobre a localização dos atacantes, conseguiam frustrar todos os ataques. Também se apelava para os bombardeios aéreos, mas nunca foi tão importante a quantidades de explosivos lançados por aeronaves em relação à dos canhões. O papel mais importante do avião era mesmo o de observar a disposição das linhas inimigas e corrigir o fogo da sua artilharia contraelas. Durante o conflito, o desenvolvimento tecnológico aplicado à aviação desenvolveu-se como nunca an- tes. O aperfeiçoamento de novos e poderosos motores e as melhorias nos armamentos e nas comunica- ções transformaram o avião de uma simples e recente invenção em uma das mais mortíferas armas de guerra. Mas nem assim se podia romper o impasse gerado pela “guerra de trincheiras”. Dessa forma, surgiram, em 1915, novas armas, como o morteiro, o lança-chamas e o uso de gases venenosos. No ano seguinte, os britânicos lançaram os primeiros veículos blindados e sobre lagartas, destinados a acompanhar e proteger a infantaria nos seus ataques às trincheiras inimigas: os tanques de guerra. Embora importantes, nenhum desses desenvolvimentos foi capaz de cumprir a esperança que neles se depositava, a de lograr uma vitória militar que fosse barata e definitiva. Incapazes de obter uma solução militar em terra, ambos os lados se voltaram para a guerra na- val. As Potências Centrais desde o início se viram bloqueadas pelas marinhas dos Aliados. Os anglo-bri- tânicos contavam impedir qualquer tipo de abastecimento vindo do além-mar para seus adversários. Sabendo da dependência da importação de alimentos, matérias-primas e combustível dos seus adver- sários, os Aliados esperavam, com o bloqueio naval, levar ao colapso a produção militar e a própria mo- ral da população civil em continuar a luta. Em resposta ao bloqueio naval Aliado, a Alemanha lançou o contrabloqueio, efetivado pela sua frota de submarinos. Embora altamente eficazes na destruição de navios mercantes que se dirigiam às Ilhas Britânicas por torpedeamentos, a guerra submarina alemã criou inúmeras tensões e conflitos com os países neutros, os quais ainda mantinham extensas trocas comerciais com os ingleses. De fato, serão os sucessivos afundamentos de embarcações de países neu- tros que irão levar novos países à guerra contra as Potências Centrais, como os EUA (abril de 1917) e o Brasil (novembro de 1917). O desfecho da guerra Ao fim de três anos de guerra total, as perdas humanas e materiais sofridas pelos oponentes eram imensas e, em alguns casos, insuportáveis. Os casos extremos eram os da França, da Itália e da Rússia. Esses três países haviam perdido proporcionalmente muito mais vidas do que os seus oponentes e o es- forço econômico e produtivo que fizeram absorveram muito mais recursos do que podiam empenhar. Civis e militares sofriam com a escassez e o alto custo dos alimentos. Fome, doenças e privações mate- riais abalavam a fé na vitória e provocavam todo tipo de manifestações de descontentamento, senão mesmo de recusa à continuidade da guerra. A Itália foi praticamente colocada para fora da guerra em 1917 pelos ataques dos exércitos das Potências Centrais, as quais eliminaram o poder ofensivo dos seus exércitos e provocaram a perda de 20 | Primeira Guerra Mundial Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 21|Primeira Guerra Mundial muito terreno ao norte do país. A França estava enfrentando até mesmo uma espécie de “greve” de seu exército que, em sua maior parte, recusava-se a dar continuidade aos inúteis e custosos ataques frontais às trincheiras inimigas. Finalmente, a Rússia acaba por se retirar do conflito, face à desintegração do seu exército provocada por uma série de ofensivas alemãs extremamente bem-sucedidas e também devido à agitação revolucionária interna, fruto tanto do descontentamento com as terríveis condições de vida que o esforço de guerra impunha à população civil, quanto do empenho dos militantes de esquerda em minar a autoridade e a legitimidade da ordem estabelecida. A intervenção dos EUA na guerra é tão importante que ela impediu a derrota dos Aliados em 1917 e praticamente condenou ao fracasso os esforços das Potências Centrais em obter a vitória. Despejando um milhão e meio de combatentes a mais do lado dos Aliados na Frente Ocidental, concedendo crédi- tos para aquisição de alimentos, matérias-primas e materiais militares, os norte-americanos com a sua entrada no conflito mais do que compensaram a saída da Rússia da guerra, reabilitaram a fé na vitória e propiciaram os meios de lançar novamente à luta os italianos e franceses. Ao mesmo tempo a economia civil e a produção militar das Potências Centrais entravam em de- clínio irreversível. O desvio de quase todo potencial humano e de recursos materiais para atender às sempre crescentes exigências das forças armadas, somado ao incontornável bloqueio naval imposto pelos Aliados, levou à imposição de uma dieta insuficiente e à impossibilidade de obtenção de agasa- lhos e calçados adequados por parte dos civis. Simultaneamente, a retomada de extensas operações militares contra os aliados da Alemanha na Europa Oriental e Meridional levou à retirada da Bulgária e da Turquia que apoiavam a Alemanha, da guerra, expondo-a mesmo a uma invasão direta do seu terri- tório em outubro de 1918. A insatisfação com as miseráveis condições de vida, a percepção de que a entrada dos EUA na guerra tornava a vitória impossível, somada à revolta com as perdas humanas nos campos de batalha, criou as condições para a eclosão de movimentos de inspiração esquerdista e com objetivos revolucio- nários na Alemanha e nos seus ex-aliados. Esses fatores convenceram a liderança alemã a buscar o fim da guerra, através do pedido de um armistício que encerrou o conflito em novembro de 1918. Consequências do conflito A mais dolorosa consequência do conflito foi mesmo as perdas humanas: oito milhões de milita- res morreram e número quase igual havia sido totalmente incapacitado para a vida produtiva. Também havia cerca de quinze milhões de feridos com diferentes graus de gravidade e pelo menos sete milhões de civis haviam morrido como decorrência das operações de guerra, deportações forçadas ou massa- cres. Desses, talvez quatro milhões eram compostos por armênios, sírios, judeus e gregos, vítimas tanto dos combates quanto dos massacres, imputados principalmente ao Império Otomano. Como se todas essas desgraças não fossem suficientes para marcar a Grande Guerra na memória dos povos, ao final do conflito eclodiu uma epidemia, conhecida como “Gripe Espanhola” que, nos anos imediatamente sub- sequentes ao conflito, ceifou pelo menos seis milhões de vidas humanas em todo o mundo, embora alguns autores citem o número de doze milhões como mais fidedigno. Numa época onde tantos passa- vam fome e careciam de vestuário, medicamentos e abrigo adequados, a gripe grassou de forma incon- trolável, assumindo dimensões mundiais. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A Primeira Guerra Mundial terminou com a assinatura do Tratado de Versalhes (1919), que pro- duziu profundas transformações no mapa político da Europa e atribuiu à Alemanha derrotada a res- ponsabilidade pela eclosão do conflito. Através do Tratado de Versalhes foram criados novos países, buscando-se atender aos anseios de autonomia por parte das minorias étnicas e religiosas dos antigos impérios Alemão e Austro-Húngaro (derrotados em 1918) e a criação de “Estados-Tampão” que isolas- sem geograficamente dois países que alguns dos Aliados (Inglaterra e França) consideravam uma ame- aça à sua segurança, tais como a Alemanha e a recém-constituída União Soviética. Com o apoio para o surgimento dessas novas unidades nacionais às expensas dos antigos impé- rios alemão e russo, os anglo-britânicos contavam em estar criando entidades naturalmente voltadas para a contenção de um eventual ressurgimento alemão ou de expansões da Revolução Bolchevique. Uma vez que seus territórios haviam sido formados pelo desmembramento desses antigos impérios, tais países seriam aliados naturais de ingleses e franceses contra eventuais projetos de redivisão territo- rial que redundassem emuma expansão tanto russa quanto alemã. O caráter artificial e improvisado dessa nova divisão territorial levou ao surgimento de novas con- tradições, conflitos e reivindicações nacionais por toda a Europa, além de ter se revelado profundamen- te disfuncional do ponto de vista econômico. A divisão territorial de Versalhes fazia somar 38 novas unidades nacionais, cada qual com sua moeda, e praticamente nenhuma capaz de lograr a autossufi- ciência econômica: fazendeiros foram separados de seus mercados, fábricas de seus fornecedores de matéria-prima, ferrovias de suas fontes de energia etc. Além da não integração econômica entre esses diferentes países, vivia-se profunda crise comercial resultante das consequências da guerra. Para come- çar, a instauração do comunismo na Rússia, o prolongamento do caos político-administrativo no antigo Império Otomano e a eclosão de uma guerra civil na China, opondo comunistas e “nacionalistas”, ter- minaram por retirar essas regiões do circuito das trocas comerciais em escala mundial. A perda desses importantes mercados coincidiu com a redução da elevada demanda por alimentos, combustíveis, ma- térias-primas e outros produtos oriundos de países da periferia do capitalismo que havia sido gerada pela Grande Guerra. Dessa forma, a primeira metade da década de 1920 é marcada por uma considerá- vel retração do volume do comércio internacional, levando a uma queda geral dos preços, juros e ao au- mento do nível de desemprego. Poucas nações tiraram real proveito do conflito como os EUA e o Japão. Livres da concorrência eu- ropeia, usufruindo do aumento da demanda por seus produtos e serviços por parte dos beligerantes e a salvo das destruições que caracterizaram as regiões que foram palco das operações militares, a econo- mia desses países se diversificou e ampliou. De fato, durante a guerra, os EUA deixam de ser devedores para se tornarem credores, transformando-se no grande agente financeiro do planeta e ajudando, por meio de seus empréstimos, os países arruinados da Europa a restabelecer em algum grau os níveis an- teriores de atividade econômica. Contudo, será somente em meados da década de 1920 que a econo- mia europeia irá retomar os níveis de produção anteriores à Grande Guerra. O Japão aproveitou-se da ausência de seus concorrentes para ampliar substancialmente sua influência econômica, diplomática e militar sobre a China, a qual contava anexar ao seu império. A redivisão territorial do Tratado de Versalhes atingiu mais pesadamente a Alemanha, que se viu despojada de áreas importantes de seu território que foi, inclusive , separado em duas partes, para garan- tir que as reivindicações de acesso da Polônia (tornada independente do Império Russo) ao mar fossem atendidas. A Alemanha e o Império Otomano perderam também todos seus territórios coloniais para a Inglaterra e a França. Mais ainda, coube à Alemanha o pagamento de uma pesada indenização de guerra aos vitoriosos, além de ter sido despojada da quase totalidade de seu poder militar e proibida de projetar 22 | Primeira Guerra Mundial Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 23|Primeira Guerra Mundial ou fabricar armas ofensivas. Surgia aí a oportunidade para o aparecimento, naquele país, de grupos polí- ticos radicais, ultranacionalistas, de extrema-direita, assumidamente “revisionistas” que, na luta política no regime democrático alemão da República de Weimar (1919-1933), insistiam em priorizar numa revisão – se necessário pela força – dos termos do Tratado de Versalhes a fim de angariarem apoio popular. Atividades 1. Compare os mapas a seguir e descreva as novas nações que surgiram na Europa, com base em sua função como “Estado-Tampão” (se dirigido contra a URSS, Alemanha ou ambos) e origem (se Império Alemão, Russo etc.). (K EN N ED Y, P . A sc en sã o e Q ue da d as G ra nd es P ot ên ci as . Ri o de Ja ne iro , C am pu s, 1 98 9, p . 2 68 .) Europa em 1914. A Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 2. Com base nos dados industriais e tecnológicos estabeleça a proporção em que os Aliados eram superiores às Potências Centrais para os indicadores ali disponíveis. (K EN N ED Y, P . A sc en sã o e Q ue da d as G ra nd es Po tê nc ia s. R io d e Ja ne iro , C am pu s, 1 98 9, p . 2 63 .) Comparação industrial/tecnológica com os Estados Unidos, excluindo a Rússia Reino Unido/ EUA/França Alemanha/ Áustria-Hungria Porcentagem da produção mundial de manufaturados (1913). 51,7 19,2 Consumo de energia (1913), milhões de toneladas métricas de equivalente de carvão. 798,8 236,4 Produção de aço (1913) em milhões de toneladas. 44,1 20,2 Potencial industrial total (Reino Unido em 1900 = 100) 476,6 178,4 3. Descreva a relação entre a Primeira Guerra Mundial e a Gripe Espanhola. Dicas de estudo É importante que o aluno saiba estabelecer correlações entre os processos que se desenvolvem em diferentes esferas de atividade humana. Com base nos escritos de Julio de Mesquita – A Guerra (1914-1918) – e Sidney Garambone – A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira – sugerimos que seja interpretado o impacto da guerra submarina sobre a ética nas relações internacionais do período. 24 | Primeira Guerra Mundial Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a época contemporânea. São Paulo: Difel, 1977. DROZ, Bernard; ROWLEY, Anthony. História do Século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1988. v. 1. GARAMBONE, Sidney. A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GORENDER, J. 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Talvez o primeiro pensador de inspiração socialista tenha sido Thomas Morus, autor do clássico Utopia (1516), onde descreve uma ilha imaginária na qual os bens de produção pertencem a todos e ine- xistem diferenças sociais entre seus habitantes, todos igualmente dedicados ao trabalho coletivo em prol do bem comum. Com a intensificação da Revolução Industrial em princípios do século XIX e a subsequente expan- são da exploração e da miséria que é imposta à nascente classe operária, as ideias socialistas ganham novo interesse. Surgem novos autores dedicados a idealizar e propor a constituição de sociedades or- ganizadas com base em princípios socialistas. Desses, os mais importantes são os autores do século XIX: Saint Simon, Fourier, Cabet e Proudhon. Cada um a seu modo idealizava um tipo de sociedade em que a opressão dos indivíduos inexis- tiria, uma vez que a vida coletiva estaria baseada na propriedade em comum dos meios de produção e na divisão equitativa do trabalho entre todos. Em qualquer um dos autores citados a via escolhida para a instauração da sociedade socialista é a persuasão, o convencimento do conjunto dos indivíduos da su- perioridade do modelo de sociedade ali descrito em comparação com as misérias e agruras impostas à classe operária naquela conjuntura. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br De concepção bem diferente serão as ideias desenvolvidas por Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista, de 1848. Ali se defende o ponto de vista de que qualquer esforço para a superação da sociedade capitalista fatalmente terá de superar a resistência dos indivíduos que se beneficiam das relações capitalistas de produção: os proprietários dos meios de produção, ou simplesmente, a burgue- sia. Rejeitando o ponto de vista de que a persuasão e o convencimento por si sós seriam suficientes para se chegar ao socialismo, defendiam a ideia de que caberia à classe operária, usando de violên- cia, derrubar e destruir o capitalismo e, ao fim e ao cabo de um processo descrito como a Ditadura do Proletariado, impor aos demais indivíduos da sociedade – mas muito especialmente à burguesia – o modo de vida socialista. Em 1864, Marx e seus seguidores fundam a Primeira Internacional Socialista em Genebra (Suíça) destinada a congregar todos os indivíduos e organizações que lutavam pela causa, com vistas à reali- zação de uma revolução de dimensões mundiais. Imediatamente instaura-se uma crise a partir do con- fronto de Marx e Bakunin, então a mais importante liderança anarquista. Etimologicamente anarquia significa ausência ou inexistência de governo. Para os anarquistas a plena liberdade humana só pode ser alcançada se cada comunidade, cada indivíduo tiver o poder de determinar sua vida, recusando a delegação de responsabilidade sobre o seu futuro a quem quer que seja, sempre participando conscientemente da unidade social a que pertence. A revolução que destrui- ria todas formas de opressão se daria pela ação direta e espontânea de indivíduos, se necessário através de organizações julgadas válidas como o sindicato e a comunidade. Esses pontos de vista entraram em colisão frontal com os princípios enunciados por Marx no Manifesto, no qual a liderança do partido comunista e a imposição de uma Ditadura do Proletariado ocupavam um lugar central. O resultado do confronto foi a expulsão da Primeira Internacional de Bakunin e seus seguidores em 1872. Pouco tempo depois, a própria Internacional deixava de existir (1876). Uma Segunda Internacional Socialista foi fundada em 1889 propondo justamente a substituição do Marxismo Revolucionário pelo socialismo-democrático – o qual acabaria por dar origem à Social- -Democracia tratada a seguir. O movimento operário A principal manifestação do esforço organizacional da classe operária são os sindicatos. Trata-se de um tipo de associação de profissionais, empregados ou empregadores, que exercem atividades se- melhantes, destinada à defesa ou promoção dos seus interesses. Originalmente, esse tipo de organiza- ção já estava presente na Idade Média, sob a forma das ligas ou corporações de ofícios. Contudo, a partir do triunfo das Revoluções Burguesas ao fim do século XVIII, essas corporações foram proibidas, ressur- gindo de certa forma apenas na clandestinidade. As organizações de caráter profissional se convertem então em sociedades secretas. Foi somente na segunda metade do século XIX que os sindicatos ressurgem tanto na Europa quanto nos EUA, sob a forma de organizações legítimas, destinadas fundamentalmente a reunir e a or- ganizar a ação política e econômica das diferentes classes sociais. Inicialmente, apenas os trabalhadores de mais alto nível salarial, também chamados de “aristocracia operária” gozando de uma situação eco- nômica privilegiada, é que aderem aos sindicatos. Tratava-se do “sindicalismo de profissão”. 26 | Revoluções socialistas e movimento operário Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 27|Revoluções socialistas e movimento operário Essa modalidade de organização sindical será complementada – em alguns casos nacionais, substituída – pelo “sindicalismo de indústria”. Essa forma é a mais importante e a mais numerosa na virada do século XIX para o XX, marcada pelo ingresso de grandes massas de indivíduos proletarizados que, sem possuírem qualquer qualificação anterior para o trabalho industrial, e também sem terem condições de se manterem como cultivadores ou artesãos autônomos, convertem-se maciçamente em novos operários industriais. A partir daí tem início um prolongado e tenso período de luta da classe operária organizada em sindicatos, na busca de melhorias imediatas para a sua condição (salário, férias, seguros etc.) e a trans- formação do conjunto da sociedade capitalista. Entre os elementos que, a partir dos sindicatos, almeja- vam esse objetivo, destacam-se os anarquistas, os socialistas e os comunistas1. Não se tem registro de êxito dessas iniciativas. Já as melhorias das condições de vida e trabalho demandavam um considerá- vel esforço organizacional, em especial no que se refere ao planejamento e execução de greves e outros protestos, nos quais dois problemas parecem ter sido os principais: por um lado a reação dos patrões e das organizações repressivas do Estado, e a dificuldade de se gerar o consenso entre os trabalhadores para não enfraquecer o movimento, por outro. De todos os problemas que assoberbavam a organização e atuaçãodos sindicatos, o pior de to- dos parece ter sido mesmo a busca do mencionado consenso. Muito já foi escrito sobre as tensões e a luta de classes que opõem patrões e empregados. Na prática, a essas lutas devem ser somados os con- flitos dentro mesmo da classe operária. Por um lado, existe a necessidade de se erradicar a figura do “fu- ra-greve”, o indivíduo que se recusa a assumir o risco de perder o emprego por ter aderido à paralisação do trabalho, sabendo que se a greve for vitoriosa, de qualquer forma ele mesmo também será beneficia- do por uma negociação salarial bem-sucedida. Por outro, a concorrência que é feita aos trabalhadores pelos desempregados. A existência desse “exército industrial de reserva” no dizer de Karl Marx, é o fator mais importante a limitar o êxito da ação sindical dos trabalhadores. À luz dessas considerações parece óbvio que o êxito da ação sindical é tanto mais provável quan- to maiores e mais consistentes forem os índices de crescimento econômico. Numa situação de crise ou recessão econômica como foram os anos entre 1875-1914, os empregadores não tinham a menor difi- culdade em dispensar os trabalhadores insatisfeitos e substituí-los por desempregados dispostos a tra- balhar por qualquer salário. Já numa outra conjuntura, como aquela compreendida entre 1945 e 1975, marcada por um crescimento vigoroso e permanente da economia, com a consequente redução do de- semprego, as reivindicações operárias tinham muito mais possibilidade de se efetivarem. Essas implicações da ação sindical se refletem quase que uniformemente sobre os diferentes ní- veis da organização operária, ou seja, em âmbito local, regional e nacional. O apelo ao caráter interna- cionalista da classe operária pelos diversos movimentos e pensadores socialistas jamais redundou em resultados concretos no que diz respeito à ação sindical. Mesmo o apelo de caráter mais universal es- posado, por exemplo, pelo movimento socialista – de recusa à guerra e ao militarismo – não foi capaz de mobilizar a ação sindical, como se viu em agosto de 1914, quando, por toda Europa, verificou-se um mínimo ou mesmo a inexistência de resistência por parte dos sindicatos à convocação de seus filiados para prestarem o serviço militar na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Os sindicatos de trabalhadores tiveram importância muito maior a partir da implementação de políticas públicas destinadas à retomada da produção e do consumo deprimidos pela Crise de 1929. No início da década de 1930, antigas reivindicações sindicais, como o reconhecimento do direito legal 1 Na segunda metade do século XIX, os termos socialismo e comunismo passaram a ser usados como sinônimos. Sua origem remonta às socie- dades secretas socialistas francesas da década de 1830. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br de representar seus associados, imposição de um salário mínimo, limitação da jornada de trabalho etc. acabam sendo incorporadas ao regime jurídico de diferentes nações do mundo, uma vez que nessa con- juntura tais demandas são percebidas não apenas como do interesse da classe operária, mas como funcio- nais para a superação da crise econômica. A Revolução Russa Segundo os prognósticos de Marx, uma eventual revolução socialista só poderia ter êxito em al- gum país pertencente à condição de capitalismo avançado. Altas taxas de industrialização com um cor- respondentemente elevado efetivo da classe operária industrial, tanto quanto possível sindicalizada – que se presumia ser a portadora da missão “histórica” de construir a sociedade socialista – eram enten- didos como essenciais para o sucesso de uma revolução socialista. Na realidade, a primeira revolução socialista que conseguiu êxito foi aquela que ocorreu na Rússia em 1917. Um exame das condições políticas, econômicas e sociais do país revela o enorme potencial re- volucionário do país que, paradoxalmente, tinha uma minúscula classe operária. De fato, havia apenas três milhões de trabalhadores empregados nas fábricas russas, somando 1,75% da população total. A es- cassez de capital local para investimentos fazia com que o setor industrial russo fosse pesadamente de- pendente de recursos estrangeiros, os quais controlavam a totalidade dos setores relacionados com o petróleo, metade da indústria química, quase a metade da metalurgia e mais da quarta parte da têxtil. A economia russa ainda era essencialmente agrícola, empregando 80% da sua população nesse setor. A agricultura era responsável por 63% das exportações do país, e o extrativismo também ocupa- va um lugar de destaque: 11% das vendas russas para o exterior se constituíam de madeira. Além disso, a Rússia era o país de mais alta taxa de concentração de propriedade fundiária. Apenas 10% dos indiví- duos de origem nobre detinham a propriedade de 75% de todas as terras. No ápice dessa pirâmide so- cial, 155 pessoas eram donas de um terço de todas as terras cultiváveis. Essas terras eram arrendadas a camponeses que pagavam pelo seu uso em dinheiro. O governo do Tzar Nicolau II dedicava a maior parte das rendas governamentais aos gastos mili- tares, restando poucos recursos para a saúde ou educação. Aliás, é importante notar que apenas 30% dos russos eram alfabetizados, tendo o país também que suportar a mais alta taxa de mortalidade en- tre os países europeus. A injustiça social do regime tzarista se manifestava também na estrutura tribu- tária: a maior parte da receita dos impostos provinha da taxação de bens de consumo como alimentos e vodka, que representavam 40% das receitas. Em contrapartida, os impostos sobre os indivíduos mais ricos da sociedade somavam apenas 6% da carga tributária. O resultado era uma série de revoltas e mo- tins desencadeados pelo povo russo quando a péssima situação social os levava à fome. Em 1902, por exemplo, foi necessária a intervenção das forças armadas para debelar levantes contra a autoridade do Estado todos os dias daquele ano. As tensões sociais na Rússia chegaram ao extremo com a entrada do país na Primeira Guerra Mundial. O sofrimento e os sacrifícios do povo e das forças armadas russas foram levadas a níveis insu- portáveis, resultado tanto das sucessivas derrotas sofridas diante de seus inimigos, quanto da inoperân- cia, corrupção e incompetência do governo russo. Era enorme a insatisfação popular manifesta sob a forma de greves, motins e passeatas de protesto. Em março de 1917, o Tzar abdica e o poder é transferido 28 | Revoluções socialistas e movimento operário Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 29|Revoluções socialistas e movimento operário para um governo provisório sob a chefia de Kerenski. Em novembro, o próprio Kerenski abandona o país que cai em poder dos membros do partido comunista russo. Ainda naquele mês, Lênin, o líder daquela facção, declara a vitória da revolução socialista e a instauração de um governo chefiado por ele. Em março de 1918, Rússia e Alemanha celebram um tratado de paz que encerra a participação da- quele país na Primeira Guerra Mundial. Segundo os termos do Tratado de Brest Litovski, a Rússia perde para os alemães a Polônia, a Lituânia, a Curlândia, a cidade de Riga e parte do território da Transcaucásia, além de pagar uma vultosa indenização em ouro. Ainda em 1918, EUA, Grã-Bretanha, França e Japão (Aliados) enviam substanciais efetivos militares para destruir a Revolução Socialista. Essa intervenção fracassa, mas dá margem à reorganização dos opositores da revolução que iniciam uma guerra civil con- tra o novo regime bolchevique. Essa guerra civil irá durar até 1921 e só será encerrada com a vitória do Exército Vermelho (bolchevique) sobre seus adversários. Outras revoluções socialistas A conjuntura do final da Primeira Guerra Mundial continha praticamente todos os elementos ti-dos como necessários para o desencadeamento de revoluções socialistas: colapso ou desmoralização da ordem constituída, enorme insatisfação popular com as condições de vida, prestígio e repercussão mundiais da revolução bolchevista de 1917 na Rússia etc. A presença de tais condições dava ânimo aos que acreditavam, dentro e fora da Rússia, que havia soado a hora da eclosão de uma autêntica revolu- ção mundial. Ainda em 1918, eclodem outras duas revoluções de inspiração socialista na Europa: a alemã e a húngara. Em novembro de 1918, tem início uma revolução na Alemanha, resultado tanto do trabalho da organização política do recém-fundado Partido Comunista Alemão, quanto da insatisfação de setores populares e das forças armadas (em especial dos marinheiros amotinados da esquadra de guerra ale- mã) com as péssimas condições de vida e trabalho naquele país. A partir da proclamação da república alemã em novembro, é constituído um governo chefiado pelo Partido da Social Democracia Alemã. O novo governo rapidamente entra em entendimentos com o exército para esmagar a revolta comunista e reinstaurar um governo constitucional, o que de fato acaba ocorrendo. Além do alemão, também em outro dos impérios derrotados na Primeira Guerra Mundial estou- rou uma revolução socialista: na Hungria. O Partido Comunista Húngaro havia sido fundado em 1918 e, aproveitando-se da situação caótica criada com o colapso do Império Austro-Húngaro a partir da der- rota na Primeira Guerra Mundial, é criada em março de 1919 a República Bolchevista Húngara. A dura- ção desse novo governo será muito breve: em novembro a república bolchevique é derrubada e em seu lugar é instalado um governo abertamente contrarrevolucionário. Finalmente, também na Finlândia – tornada independente do Império Russo – estourou uma breve guerra civil, opondo os partidários da manutenção do capitalismo aos socialistas, a qual irá terminar com a derrota destes últimos. Com a repressão bem-sucedida das revoluções alemã e húngara, são contidas temporariamente as forças socialistas que militavam por toda Europa pela ampliação da Revolução Russa. Persistia, contu- do, o processo revolucionário na Rússia, o qual só irá concluir a obra de criação de uma sociedade socia- lista em 1933, com a etapa final da erradicação da propriedade privada naquele país. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O surgimento de um Estado de regime autoritário e economia comunista provocou um impacto considerável nas relações internacionais do período. Com seu comprometimento com a propagação da revolução socialista para todo planeta, a recém-fundada URSS tornou-se alvo de desconfiança, senão hostilidade, permanentes por parte das potências capitalistas, bem como de todos os grupos e institui- ções que se contrapunham aos ideais da Revolução Bolchevique de 1917. Entre esses incluíam-se indi- víduos de origens diversas, mas que englobavam os defensores da propriedade privada, da sociedade de mercado e de diferentes confissões religiosas: por não concordarem com a socialização dos meios de produção (em oposição ao ideal capitalista da propriedade privada), com o papel do Estado como planejador e gestor da economia (contra as leis da oferta e da procura que vigoram em uma sociedade de mercado) e com os ideais do ateísmo e do materialismo soviéticos (contrários à moral cristã) os indi- víduos desses grupos transformaram-se quase que da noite para o dia nos maiores opositores de tudo o que emanava de Moscou. A social-democracia Na década de 1880 começaram a surgir na Europa os primeiros movimentos destinados à funda- ção de partidos socialistas que almejavam a superação da sociedade capitalista através do voto. Era o início da social-democracia. As razões que levaram ao surgimento da social-democracia estão ligadas à conjuntura do final do século XIX e início do XX e dizem respeito tanto à correlação de forças políticas vigentes quanto às expectativas sobre a futura composição social dos países do capitalismo avançado. No que se refere à correlação de forças políticas, o principal fator a ser levado em conta é o fracas- so das tentativas de tomada do poder pelas entidades socialistas pela força, comuns em todo continen- te europeu, ao longo do século XX. Os aparelhos repressivos de Estado haviam se aperfeiçoado muito com a adoção de fichários policiais com fotografias, censura à correspondência e mensagens telegráfi- cas, acordos entre diversos países para ações repressivas comuns etc. As forças militares e policiais agora podiam contar inclusive com extensas reformas urbanas, realizadas no sentido de se otimizar os esfor- ços da repressão aos movimentos sociais e populares nas grandes cidades. Os riscos inerentes à ação revolucionária, caracterizada pela exposição dos militantes a métodos violentos e cada vez mais efica- zes empregados pelas forças repressivas, servia como desestímulo à tentativa de instauração do socia- lismo pela força. Por outro lado, desde a publicação do Manifesto do Partido Comunista, em 1848, vinham se confirmando as expectativas sobre a futura composição social dos países do capitalismo avançado. Gradualmente eram eliminados os produtores independentes no campo e na cidade, incapazes de com- petir com a produção em larga escala que se organizava em bases capitalistas. A permanente ampliação dos contingentes proletários permitia antecipar o momento em que os trabalhadores seriam a maioria dos indivíduos na sociedade. Se eles pudessem ser persuadidos a votarem em candidatos oriundos dos partidos socialistas, então necessariamente seriam instaurados governos de esquerda que, dentro das regras do jogo democrático, poderiam então construir o socialismo. Um outro estímulo à tentativa de se chegar ao socialismo através do voto era a possibilidade de se usar as campanhas eleitorais para fazer propaganda da causa socialista e angariar mais membros para os partidos que a defendiam. 30 | Revoluções socialistas e movimento operário Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 31|Revoluções socialistas e movimento operário Esses prognósticos levariam algum tempo até se realizar. Teriam necessariamente que esperar pela ampliação do direito de voto, ainda bastante restrito na Europa do início do século XX. Contudo, à medida que essa ampliação se dava, ia aumentando o percentual de votos dos diversos países so- cial-democratas por toda Europa. Embora jamais tenham obtido a maioria absoluta dos votos ne- cessários à formação de um governo que lhes permitisse dispensar o apoio dos outros partidos não socialistas, os social-democratas tomaram parte no exercício do poder político – às vezes como chefes de governo – em vários países da Escandinávia, na Grã-Bretanha e na Austrália já a partir dos anos 1920. As principais dimensões da atuação dos governos de inspiração social-democrata foram as nacio- nalizações e a instauração do Estado de bem-estar social (welfare state). No primeiro caso, imaginava-se que as nacionalizações seriam um caminho viável para a conversão da economia capitalista em socialis- ta. E a generalização de uma série de direitos econômicos (previdência social, seguro-desemprego etc.) era entendida não só como uma etapa necessária rumo à sociedade socialista, como também pré-re- quisito para o pleno exercício dos direitos civis. De fato, quem não dispõe de um mínimo de estabilida- de econômica sempre fica à mercê dos favores dos mais poderosos para se manter, e não poderá jamais exercer plenamente sua cidadania política. As nacionalizações consistiam na encampação da propriedade privada e sua conversão em pro- priedade estatal em nome do interesse público e foram realizadas extensivamente tanto em função da crise de 1929 quanto da conjuntura do fim da Segunda Guerra Mundial, ocasiõesem que o colapso das leis de mercado praticamente impunham algum grau de intervenção estatal. Importantes setores pro- dutivos como mineração, transportes, indústria bélica, saúde, educação e comunicações foram nacio- nalizados porque várias nações não podiam permitir a sua desaparição ou mal funcionamento face à crise econômica resultante do colapso do mercado mundial ou, posteriormente, da desestruturação econômica legada pela guerra. Foi igualmente em função das crises consecutivas legadas pelo colapso econômico de 1929 e da Segunda Guerra Mundial que se forjou um mínimo de consenso nas sociedades capitalistas avançadas em relação ao projeto social-democrata de universalização do acesso aos serviços públicos e à instau- ração de uma ampla rede de proteção social. Para tanto deve-se levar em conta o caráter economica- mente funcional dessas iniciativas para a retomada do circuito de produção e consumo de mercadorias e serviços. Outra motivação para o referido consenso era a necessidade de se atenuar as características mais socialmente nocivas do capitalismo, numa conjuntura de intensificação do confronto entre o blo- co capitalista e o comunista durante a Guerra Fria (1946-1989), a fim de não favorecer a propagação dos ideais mais radicais de nivelamento social implícitos na divulgação da propaganda soviética. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Atividades 1. Descreva os contrastes e conflitos entre as várias correntes socialistas na segunda metade do século XIX. 2. Faça a distinção no interior das lutas de classes entre as tensões intra e extraclasses. 3. Reconstitua os principais componentes da conjuntura que antecede a Revolução Russa de 1917. Dica de estudo O correto entendimento das propostas de esquerda (socialismo, anarquismo, comunismo) é de grande utilidade não só para ampliar o conhecimento geral do estudante como também para chamar sua atenção para o longo e totalizante predomínio ideológico da doutrina neoliberal, constituindo o fe- nômeno que atualmente é designado como “pensamento único”. Para tanto, o estudante pode lançar mão da consulta aos verbetes da internet. 32 | Revoluções socialistas e movimento operário Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a época contemporânea. São Paulo: Difel, 1977. DROZ, Bernard; ROWLEY, Anthony. História do Século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1988. v. 1. GARAMBONE, Sidney. A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GORENDER, J. Fim da URSS: origens e fracasso da perestroika. São Paulo: Moderna, 2005. HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1995. HOBSBAWN, Eric. A Era dos Impérios: 1875-1914. 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Nessa fase, vai-se passando progressivamente de uma economia concorrencial, típica da Primeira Revolução Industrial (1760-1875), para uma economia monopolizada. A concentração da propriedade privada deu margem a uma situação em que – em diversos ra- mos de negócio – um número limitado de empresas dividia entre si a totalidade do mercado consu- midor. A existência de um reduzido número de grandes empresas tornava cada vez mais fácil para elas elaborarem acordos, visando diminuir ou eliminar a concorrência, estabelecer preços e controlar o mer- cado. Era o início dos trustes (quando uma empresa comprava seus concorrentes) e dos cartéis (quando empresas de proprietários diferentes estabeleciam entre si esse tipo de acordo). O exemplo mais famo- so é o cartel de produtores de carvão alemães, que chegou a dominar 90% do mercado nacional do pro- duto naquela época. Já grandes empresas como a norte-americana Standard Oil Company da família Rockfeller dominou, através da compra de seus concorrentes, quase todo mercado de derivados de pe- tróleo, chegando a 95% de participação; fato que também se verificou no mercado de aço e produtos siderúrgicos dos EUA, no qual a United States Steel, empresa fundada pela família Kaiser, detinha 63% de participação. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O crescente gigantismo das empresas, associado à pressão cada vez maior dos seus proprietários pela manutenção da taxa de lucros, numa conjuntura em que a economia atravessava um período re- cessivo, criaram as condições para uma série de transformações no mundo do trabalho. O objetivo era, através da ampliação dos controles sociais sobre os operários, extrair o maior lucro possíveldo seu tra- balho, fazendo-os trabalhar mais e de forma mais produtiva. É aí que surgem e ganham ampla divulgação as ideias relativas à administração de empresas e de seu pessoal desenvolvidas por Frederick W. Taylor (1856-1915), que se tornariam conhecidas como o “taylorismo”. Seu autor defendia a necessidade de uma administração “científica” e “racional” dos empre- endimentos capitalistas, gerando com suas propostas tamanho corpo de conhecimentos que ajudou a levar à criação da disciplina da Administração de Empresas, na qual até hoje seus trabalhos são consi- derados clássicos. O novo método de administração tinha como etapa inicial a transferência do controle do processo de formação da mão de obra e definição dos métodos de trabalho da classe operária para a gerência das empresas. O objetivo era acabar com a diversidade de métodos e técnicas de trabalho, selecionando apenas os que fossem mais rápidos e produtivos e os impondo como padrão aos operários. No processo, era fundamental a figura de um novo profissional: o analista de tempos e movimentos. O papel desse analista era cronometrar os diferentes métodos e técnicas empregados na produção, escolher os mais eficazes e rentáveis e impô-los como regra ao conjunto dos trabalhadores. Uma vez impostos os novos métodos, o trabalho do analista de tempos e movimentos era checar o nível de produtividade de cada operário, a fim de imputar a cada um punições pelo desempenho insuficiente (que assumiam a forma de multas e podiam chegar à demissão) e recompensar aqueles que se submetessem à nova disciplina que estava sendo exigida (através do repasse, sob forma de aumentos de salário ou prêmios pelo atingimento das metas, de uma pequena parte dos lucros obtidos com o aumento da produtividade). A imposição dos métodos tayloristas incrementou enormemente os lucros das empresas, numa conjuntura em que a recessão ameaçava estreitar cada vez mais o retorno sobre o capital investido. Os trabalhadores, por sua vez, reagiram como puderam à imposição dessa nova disciplina de trabalho, tan- to fraudando o cumprimento das metas de produção que lhes eram impostas, quanto ameaçando e usando de violência contra o analista de tempos e movimentos. No final, prevaleceu a lógica taylorista, uma vez que a conjuntura recessiva, caracterizada por um persistente e elevado índice de desempre- go, permitia a fácil substituição dos trabalhadores que se recusavam a cooperar, ao mesmo tempo em que modestas, mas importantes, compensações eram concedidas aos que concordavam em se subme- ter ao novo padrão de trabalho. A contribuição de Henry Ford (1863-1947) a sempre crescente busca de aumentos de produtivi- dade por parte dos empresários foi a adoção da linha de montagem (1914). Graças a essa nova tecno- logia, o controle sobre a mão de obra e a imposição de um ritmo de produção cada vez mais rápido foi levado a um novo auge. O controle sobre o operário e a forma pela qual ele gastava seu tempo dentro das fábricas ganhou uma forma completa, totalizante. Agora ele não se deslocava mais pelos diferentes espaços fabris para desenvolver o processo produtivo. Pelo contrário, o trabalhador ficava numa posi- ção imóvel e, diante dele sobre a esteira rolante da linha de montagem, desfilava o processo produtivo no qual ele desempenhava uma parte, geralmente uma única operação. A especialização do trabalhador em uma única tarefa que lhe era designada e, cujo tempo de exe- cução lhe era determinado pela velocidade em que circulava a linha de montagem, elevou a produtivi- dade a um novo patamar. De fato, já nos anos 1920, Ford se orgulhava de produzir um automóvel a cada 34 | Modelos econômicos: o desenvolvimento do capitalismo Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 35|Modelos econômicos: o desenvolvimento do capitalismo cinco minutos. Da parte dos trabalhadores, a monótona e acelerada repetição de uma única tarefa ao longo de todo dia de trabalho levou a uma série de doenças profissionais, das quais as mais frequentes eram as Lesões por Esforço Repetitivo (LER), embora as doenças psicológicas derivadas do estresse e do tédio também tenham sido muito importantes. A persistente recusa da classe operária às imposições da linha de montagem levou a uma elevada rotatividade da mão de obra empregada, a qual era supri- da pelos sempre renovados estoques de novos imigrantes que chegavam aos EUA e, por vezes, através do recrutamento de migrantes oriundos da zona rural que se dirigiam às cidades em acelerado proces- so de crescimento. A urbanização O mundo no início do século XX ainda é essencialmente rural. Em todos os países, a população ru- ral é invariavelmente maior do que a urbana, sendo a Grã-Bretanha a única exceção: em 1890, a maioria (61,9%) da sua população reside em cidades. Apesar disso, não se pode deixar de notar que o processo de urbanização ganha nesse período uma velocidade maior e também se torna mais abrangente. Não só na Europa, mas também nos EUA e nos países periféricos do capitalismo, a taxa de crescimento das cidades aumenta, resultado tanto de um crescimento vegetativo quanto da migração de populações cada vez maiores que se dirigem do campo para as cidades. O crescimento da produtividade no campo foi resultado da incorporação de novas técnicas de uso e conservação do solo, ao lado da introdução das primeiras máquinas e tratores dedicados especifi- camente aos trabalhos agrícolas. Também, a busca de melhores oportunidades de trabalho e renda de- rivadas da industrialização, simultaneamente à progressiva concentração da propriedade fundiária, são alguns dos fatores que impulsionam a migração do campo para as cidades. O crescimento urbano se manifesta tanto no tamanho das maiores cidades do mundo quanto na multiplicação do número de grandes cidades. Capitais importantes como Nova York, Londres, Berlim e Paris contam no final do século XIX com bem mais de um milhão de habitantes, ao passo que o núme- ro de cidades com mais de dez mil habitantes cresce enormemente. Em 1850, existiam 878 cidades na Europa com esse número de habitantes ou mais; ao fim do século serão 1 709. O aspecto mais visível dessas cidades é o liberalismo com que elas crescem e se organizam. Uma vez que a gestão urbana planejada, ou o urbanismo, ainda está nos seus primórdios, cabe aos proprie- tários dos imóveis urbanos e aos que neles investem determinar a forma e os métodos pelos quais se dará o crescimento urbano. O resultado recorrente é a socialização dos prejuízos e malefícios derivados da acumulação capitalista. Na inexistência de restrições às novas atividades produtivas, à especulação imobiliária, à degradação ambiental, à imposição de cuidados de higiene e salubridade etc., a nova pai- sagem urbana que se constitui no início do século XX é recorrentemente descrita como “assustadora”, “repulsiva” ou “anárquica”. Tais cenários são particularmente recorrentes nas grandes cidades industriais e portuárias. Nas cidades em rápido processo de industrialização, coerentemente com os princípios do capitalismo libe- ral daquela época inexiste, por exemplo, o confinamento das fábricas a uma região específica. Cabe aos empresários decidirem onde elas serão instaladas, sem quaisquer considerações sobre o impacto que o Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br despejo de resíduos industriais na atmosfera, rios e solo poderá provocar. Isso levou na maior parte dos casos a surtos epidêmicos de doenças respiratórias, ou daquelas derivadas do envenenamento das fon- tes de água, ou ainda da exposição a elementos cancerígenos ou contaminantes. A necessidade de alojar a sempre crescente classe operária nas cidades também tem suas ma- nifestações negativas. Na inexistência de um número suficiente de moradias adequadas e decusto compatível com a renda dos trabalhadores, multiplicam-se as habitações degradadas, insalubres e de baixo custo, geralmente destinadas a alojar uma família em cada cômodo, onde as instalações sanitá- rias e os cuidados com a ventilação e a exposição ao Sol são mínimos ou inexistentes. São os famosos “cortiços” tão familiares à paisagem brasileira, mas também de enorme recorrência por todo mundo em urbanização. O caráter precário e o custo dos transportes coletivos, então dependentes de bondes e trens em fase apenas inicial de eletrificação, reforça entre as camadas mais pobres da população a necessidade de residir o mais próximo dos seus locais de trabalho, aumentando o congestionamento dos centros urbanos e fazendo da vida nos cortiços praticamente a única opção de moradia. Inexistindo a imposição de normas urbanísticas ou sanitárias, os proprietários desses imóveis multiplicavam o quanto podiam o número de cômodos a serem alugados, sem quaisquer preocupações com a higiene ou a salubridade. Ainda no início do século, mesmo em Londres, que era a mais importante cidade do mundo e coração do capitalismo mundial, era comum nos cortiços a média de uma única privada sanitária para 200 pessoas, e janelas para insolação e ventilação em, no máximo, a metade dos cômodos disponíveis. Nas cidades portuárias, essas condições parecem ter sido ainda piores. A necessidade de se cor- tar custos de produção, localizando as unidades fabris o mais próximo possível dos portos, levou a um constante e maciço engarrafamento do trânsito nessas localidades, ao mesmo tempo em que se nota- vam os mesmos problemas de higiene e conforto nas moradias dedicadas à classe operária: exposição a epidemias e doenças derivadas da poluição ambiental etc. Não obstante esses problemas, o afluxo de pessoas e investimentos para as cidades se manteve em constante crescimento. Afinal de contas, era nas cidades que se encontravam as melhores oportu- nidades de trabalho e renda, mesmo se levando em conta os custos – e os riscos – de nelas residir. Para aqueles que foram expulsos do trabalho rural por conta de imposições econômicas não havia alternati- va. A não ser que se dispusessem a imigrar para os países de colonização recente em busca da condição de pequeno proprietário de terra, teriam que se submeter ao papel de trabalhador assalariado urbano – com todas as consequências que daí advém. Ao longo do século XX, as tensões provocadas pela quase inexistência de restrições ao uso do es- paço das cidades por parte dos donos das propriedades urbanas acabarão por criar uma situação in- sustentável, da qual as epidemias e engarrafamentos de tráfego são as manifestações mais visíveis. Progressivamente e, sempre de acordo com a correlação de forças políticas e econômicas em cada lo- cal específico, se irá restringindo o direito ilimitado de propriedade, típico do capitalismo em sua fase liberal, em favor da normatização e regulamentação dos usos permissíveis do espaço urbano em cada região da cidade, sempre tendo em vista a minimização dos danos ocasionados à coletividade pelo exercício das atividades econômicas privadas. Por volta da década de 1920, essas atividades do Poder Público relacionadas à gestão e ao planejamento do uso das áreas urbanas passarão a ser conhecidas como urbanismo ou planejamento urbano. 36 | Modelos econômicos: o desenvolvimento do capitalismo Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 37|Modelos econômicos: o desenvolvimento do capitalismo A divisão internacional do trabalho Na primeira metade do século XX já estava plenamente configurada aquilo que se tornou conhe- cida como a divisão internacional do trabalho, a qual separava as nações do mundo em duas categorias principais: os países industrializados e os países produtores e exportadores de bens originados no setor primário (agricultura, extrativismo etc.). Vários fatores levaram a essa configuração. Desses, os mais im- portantes parecem ter sido o desenvolvimento dos transportes e o aprofundamento do processo de in- dustrialização nos países economicamente mais desenvolvidos. O desenvolvimento dos transportes marítimos e terrestres entrou em uma nova e decisiva fase com a Revolução Industrial. A partir daí, foram progressivamente afastadas as restrições que a natureza impunha ao deslocamento de quantidades cada vez maiores de pessoas e mercadorias. A dependência dos ventos para a navegação oceânica e os obstáculos colocados pela topografia ao transporte terres- tre começaram a serem superados com a introdução do navio a vapor e da locomotiva. Os permanentes aperfeiçoamentos introduzidos na navegação e nas ferrovias levaram a sucessivos e crescentes barate- amentos nos custos dos fretes. À medida que as linhas de transporte marítimo e terrestre iam ficando cada vez mais extensas e economicamente competitivas, sucessivas regiões do planeta foram sendo conectadas ao mercado mun- dial. Vastas regiões em todos os continentes, até então à margem do mercado global, puderam se conec- tar com os centros dinâmicos do capitalismo para vender-lhes alimentos, matérias-primas, combustíveis etc., ao mesmo tempo em que deles importavam os produtos industrializados de que necessitavam. O processo foi levado até incluir praticamente todas as regiões do mundo não desenvolvido, por mais frágeis que fossem as mercadorias que pudessem vender aos países industrializados. Por volta de 1880, a velocidade dos novos modelos de navios oceânicos permitia a importação maciça e a baixo custo de todo tipo de mercadorias, mesmo as mais perecíveis, como bananas da América Central pela Inglaterra. Na década seguinte, com o advento dos navios-frigoríficos, produtores dos EUA e da Argentina podiam exportar carne bovina para toda a Europa. A correspondente importação de produtos industrializados geralmente não oferecia nenhum risco de depreciação às mercadorias transportadas. Esse processo acabou por consolidar um padrão de divisão internacional do trabalho: de um lado os países industrializados; de outro os de perfil primário-exportador. A complementaridade entre esses dois tipos de economias nacionais dependia de uma demanda sustentável de alimentos, matérias-primas e combustíveis por parte dos países industrializados. Só assim os países de perfil primário-exportador poderiam obter os recursos de que necessitavam para pagar pelas mercadorias industrializadas que consumiam. A queda na demanda de alimentos, matérias-primas e combustíveis nos países avançados fatalmente levaria também à queda nos países periféricos da demanda de produtos industrializados, generalizando para todo o mundo uma crise econômica que – numa economia global não integrada pelos transportes – poderia perfeitamente ter importância apenas local. Pelo contrário, foi o início de uma crise global, que se iniciou nos países periféricos em 1924 e chegou ao centro do capitalismo em 1929. A crise de 1929 e as relações internacionais A eclosão da crise de 1929 acirrou os ânimos tanto dos países que se sentiam injustiçados pelo Tratado de Versalhes quanto daqueles que defendiam a sua execução implacável a qualquer preço. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Entre os primeiros cabe citar dois dos vencedores da Primeira Guerra Mundial, a Itália e o Japão, que rei- vindicavam territórios e privilégios comerciais à altura de suas pretensões. Ambos os países haviam che- gado tarde à corrida imperialista pela anexação de territórios coloniais na Ásia e na África e sentiam-se prejudicados pela forma com a qual se deu a partilha das ex-colônias do Império Alemão (1871-1918). Esse ressentimento era particularmente intenso na Itália que, apesar de ter aderido ao lado vencedor, viu negadas suas pretensões sobre vastas áreas do Império Austro-Húngaro,Otomano e Alemão, as quais foram passadas exclusivamente para o controle de seus antigos aliados anglo-franceses sob a eu- femística fórmula dos “mandatos”. Segundo esse regime jurídico, fruto do Tratado de Versalhes, caberia à Inglaterra e França administrarem essas colônias a fim de prepará-las para a independência. Na prá- tica, o que se verificou foi pura e simplesmente a mudança do poder colonial nessas regiões, para fúria daqueles que se viram excluídos da partilha. O crescente déficit comercial e do setor público em todo mundo foi durante algum tempo atenu- ado pela oferta de empréstimos em dólares a taxas de juros atraentes. Tal fato permitiu não só se poster- gar a chegada de uma crise ainda maior como também se promover um breve surto de prosperidade, que os contemporâneos se referem como “os loucos anos 20”. Para além desses fenômenos de grande visibilidade e profundo impacto sobre a economia, tam- bém era de conhecimento mais ou menos geral dos contemporâneos de que o volume de consumo tendia a ser crescentemente insuficiente para absorver a produção. Os temas da “superprodução” e da “inelasticidade” da demanda tornaram-se preocupações cada vez mais importantes para os gestores econômicos daquela época. Tal fato ia se tornando cada vez mais perturbador à medida que mais e melhores técnicas de in- tensificação da produção, redução da mão de obra necessária ao processo produtivo e de barateamen- to de produtos iam sendo introduzidas. A partir da criação da primeira linha de montagem de veículos, por Henry Ford, o volume de mercadorias fabricadas por esses novos métodos tendeu quase sempre a superar a capacidade de absorção do mercado, ainda gravemente perturbados pelas sequelas da Primeira Guerra Mundial e súbita e adicionalmente abalados pela perda de mercados importantes, mer- gulhados em revoluções e perturbação da ordem interna, na Rússia, na China, na Turquia etc. É por isso que os anos 1920 são marcados por uma acentuada deflação de preços, juros e salários que, progressivamente, foi tomando todos os setores industriais e os respectivos fornecedores de maté- rias-primas, alimentos e combustíveis que o suportavam. À medida que o desemprego ia se alastrando, simultaneamente à queda do nível real dos salários, restringia-se ainda mais a capacidade dos merca- dos absorverem a produção de bens e mercadorias fabricados por aqueles novos métodos. Na segunda metade daquela década, os países da periferia do capitalismo industrial, em particular os de perfil eco- nômico primário-exportador, iam encontrando dificuldade cada vez maior para escoar sua produção para as nações industrializadas. Consequentemente, diminuíam sua demanda por produtos industriali- zados importados, ajudando a confirmar e alargar o cenário de baixa geral dos preços. A partir da eclosão da grande crise econômica de 1929, o ambiente internacional se tornou som- brio e hostil. As rivalidades imperiais se intensificaram com a drástica redução do comércio internacional e com a impossibilidade de se prosseguir com a rolagem das dívidas, propiciada até então principal- mente pelos EUA. Cada nação tratava de cuidar do seu bem-estar econômico, se necessário, às custas de seus rivais. O sintoma mais visível da degradação do ambiente internacional foi, como parte das reações de cada país à queda da demanda internacional pelos seus produtos, a criação dos acordos que ficaram conhecidos como “Blocos de Moedas”. Nesses acordos, determinadas nações se reuniam em torno de 38 | Modelos econômicos: o desenvolvimento do capitalismo Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 39|Modelos econômicos: o desenvolvimento do capitalismo tratados comerciais de preferências tarifárias, bem como de trocas de mercadorias, tendo uma determi- nada unidade monetária como padrão de referência. Surgiram, então, os Blocos: da Libra (britânica), do Marco (alemão) e do Ien (japonês). Visando manter equilibrada a balança comercial, praticamente todos países se lançaram a uma guerra de levantamento de barreiras protecionistas e de sucessivas desvalo- rizações cambiais – tudo isso sempre em prejuízo do funcionamento normal do mercado mundial. De fato, em meados dos anos 1930, o volume de trocas comerciais em nível mundial havia caído para cerca de metade do nível de antes da crise. Naturalmente que o processo não passou ao largo da compreensão de pelo menos alguns dos mais destacados promotores das mudanças econômicas em curso. O próprio Ford foi o primeiro a de- fender a ideia de que produção de massa requeria um consumo de massa, propondo a adoção de em- pregos estáveis, descanso remunerado e salários mais elevados como saída para neutralizar o impasse gerado pela queda da demanda. A aplicação de tais ideias, contudo, ficariam restritas apenas a suas in- dústrias, pelo menos até que o surgimento de políticas públicas de caráter antirrecessivo a partir dos anos 1930 começassem a provocar, através da adoção de iniciativas voltadas para a geração de empre- go e distribuição de renda, a retomada do consumo de massa, entendida como precondição para a su- peração da crise. Atividades 1. A busca por índices de produtividades cada vez maiores implica fazer os trabalhadores trabalha- rem sempre mais e melhor. Explique de que forma as contribuições de Taylor e Ford tornaram isso possível. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 2. Explique o contraste entre o nível de preços dos setores monopolizados e livres exemplificado no gráfico abaixo. (C RO U ZE T, M . H is tó ri a G er al d as C iv ili za çõ es – a ép oc a co nt em po râ ne a. S ão P au lo . v . 7 . D ife l, 19 77 . p . 1 33 .) 3. Interprete as variações da tabela a seguir à luz das variações de desempenho de cada país e da conjuntura econômica. Parcelas relativas da produção manufatureira mundial, 1880-1938 (percentual) 1880 1900 1913 1928 1938 Grã-Bretanha Estados Unidos Alemanha França Rússia Áustria-Hungria Itália 22,9 14,7 8,5 7,8 7,6 4,4 2,5 18,5 23,6 13,2 6,8 8,8 4,7 2,5 13,6 32,0 14,8 6,1 8,2 4,4 2,4 9,9 39,3 11,6 6,0 5,3 – 2,7 10,7 31,4 12,7 4,4 9,0 – 2,8 Dica de estudo Assista ao filme Tempos Modernos, dirigido por Charles Chaplin. Roteiro de Charles Chaplin, gê- nero comédia, produzido nos Estados Unidos, com duração de 87 minutos. O objetivo é que o aluno interprete e contextualize a crítica à rotinização da existência que está implícita na produção em linha de montagem. 40 | Modelos econômicos: o desenvolvimento do capitalismo Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. 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A produção indus- trial e agrícola se encontrava paralisada e boa parte da infraestrutura produtiva havia sido perdida ou destruída por conta da guerra mundial, da intervenção estrangeira e da guerra civil. O problema com que se defrontava o então recém-instalado governo comunista não era tanto o de promover a futura construção de uma sociedade de base socialista mas, pura e simplesmente, de retomar o funcionamen- to normal da economia. As primeiras medidas do novo governo, tomadas em 1918, previam a entrega imediata e gratui- ta de terra aos camponeses que nela trabalhavam, simultaneamente ao pedido feito à Alemanha de um armistício que retirasse a Rússia da guerra. O governo comunista pôde sobreviver à intervenção estran- geira e à guerra civil subsequente em boa medida devido a essas medidas. O cansaço com a guerra e o correspondente desejo universal de paz entre o povo russo, além da percepção de que a queda do novo governo levaria à perda do acesso à terra recentemente obtida, é que levaram ao engajamento de am- plas massas populares na defesa do regime. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Os setores essenciais da economia foram logo nacionalizados, em especial os de caráter mono- polista, como bancos, petróleo, metalurgia, açúcar, comércio exterior e, lógico, terra. A propriedade da terra passa ao Estado, ficando os camponeses com a sua posse. Todas as empresas industriais e manu- fatureiras com mais de dez empregados também foram imediatamente nacionalizadas, permitindo-se apenas a existência de negócios privados que não empregassem mão de obra assalariada. Na prática, aboliu-se a propriedade privada que, do ponto de vista legal existe apenas para o Estado, sendo preser- vada somente a moradia e objetos de uso pessoal possuídos pelos indivíduos. A quase total paralisação da economia decorrente da situação de guerra leva o governo de Lênin a adotar em 1921 a assim chamada Nova Política Econômica (NEP). Tratava-se de um conjunto de me- didas destinadas a superar a grave crise de abastecimento alimentar vivida em todo país, mas muito especialmente nas cidades. Nos termos dessa nova política, permitia-se certo retorno à economia de mercado, a fim de motivar os camponeses a retomar a produção. A partir daí seria permitido aos cultiva- dores venderem sua produção livremente no mercado, após ceder parte dela ao Estado sob a forma de impostos. Mais ainda, foram derrubadas as restrições à posse de dinheiro, restabelecidas as contas ban- cárias, liberado o aluguel das terras e a contratação de mão de obra assalariada. Dessa forma, restabele- ceu-se o abastecimento de víveres, superando a situação de quase fome vivida anteriormente. Nas cidades, a NEP previa a criação de trustes, bem à maneira capitalista, a fim de dar indepen- dência e restaurar a iniciativa entre as empresas estatais. Cabia a esses trustes planejar e executar a compra de matérias-primas necessárias ao seu funcionamento e providenciar a distribuição da sua pro- dução. Imediatamente surgem os trustes estatais do carvão, petróleo e têxteis, empregando dezenas de milhares de trabalhadores e permitindo retomar o abastecimento das áreas rurais e urbanas. A retomada da produção industrial só foi possível através da permissão de retorno às suas fun- ções dos mesmos elementos que, antes da Revolução Bolchevique, faziam o parque produtivo funcio- nar. Antigos homens de negócio, especialistas e especuladores retomam suas posições nas fábricas, lojas etc. obtendo amplos poderes para organizar a produção e distribuição e também acumular sig- nificativo patrimônio pessoal. No campo, a situação assumiu características ainda mais incompatíveis com os desígnios de nivelamento social e abolição das classes pretendidos pela Revolução. Forma-se em breve uma nova burguesia rural composta de camponeses abastados, que em proporções crescen- tes alugam terras e assalariam mão de obra. Se a NEP permitiu a retomada em algum grau da devastada economia russa, deixou inteiramen- te de lado o enfrentamento de questões fundamentais para o país, como a retomada das indústrias de base e a erradicação da nascente burguesia rural e, em alguns casos, urbana. Mais ainda, percebia-se que o crescimento da renda da agricultura dependia do aumento da produtividade, o que só seria pos- sível com a adoção de novas técnicas produtivas e intensiva mecanização. Tais eram os desafios que pe- savam sobre o novo regime ao fim dos anos 1920. A planificação e seus objetivos Os impasses vividos pela economia soviética começaram a ser equacionados com a implementa- ção dos Planos Quinquenais. O objetivo era dotar o país de um parque industrial capaz de fornecer as máquinas e insumos agrícolas necessários ao aumento da produtividade no campo, o que levaria à li- beração de mão de obra ali empregada para uso nas atividades urbanas. Para tanto, foram instituídas 42 | Modelos econômicos: o desenvolvimentodo comunismo Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 43|Modelos econômicos: o desenvolvimento do comunismo comissões do plano em nível regional (Oblplan), setorial (Raiplan) e nas cidades (Gosplan) encarregadas de detalhar a execução das atividades consideradas essenciais ao atingimento dos objetivos propostos. Tendo renunciado às leis da oferta e da procura, típicas de uma sociedade de mercado, ficavam os ges- tores do planejamento como os únicos encarregados de controlar a aplicação de recursos destinados a financiar a produção e o consumo. O Primeiro Plano Quinquenal deveria se realizar no período compreendido entre 1928 e 1933 e previa a duplicação da produção nacional. Suas ênfases eram as indústrias pesadas relacionadas com a produção de energia, siderurgia e máquinas. Na impossibilidade de contar com recursos estrangeiros, face ao boicote dos países capitalistas à Revolução Bolchevique, para a aquisição das máquinas e equi- pamentos necessários, o financiamento do Plano foi feito exclusivamente com base em fontes internas. O consumo privado foi reduzido ao mínimo, destinando-se a cada ano 30% da renda nacional para o in- vestimento nas obras relacionadas ao Plano. Os resultados foram significativos, levando à expansão sem precedentes da produção de máquinas, equipamentos elétricos, petróleo, ferro fundido etc. A ênfase na indústria pesada levou a resultados muito mais modestos no que diz respeito à produção de produtos de consumo popular, como a lã, carne e açúcar. Essa ênfase talvez excessiva na indústria pesada foi em parte corrigida nos planos quinquenais seguintes, o segundo (1933-1937) e no terceiro (1937-1941). Esse último pretendia enfatizar indústrias de bens de consumo popular e especializadas como a química, mas o ambiente internacional em franca deterioração impediu que tal ocorresse. As políticas revisionistas, levadas a cabo por potências declaradas e ostensivamente anticomunistas fizeram com que se desse máxima prioridade às indústrias bélicas. A industrialização, urbanização e educação A parcela de recursos extraída da população pelo regime soviético para financiar seus planos quinquenais foi enorme. Os salários foram fixados em um valor muito baixo, ao passo que o preço dos alimentos e outros gêneros de primeira necessidade foram substancialmente encarecidos. Isso foi fei- to ao mesmo tempo em que novos impostos e taxas eram criados e, sob a opressão de um regime dita- torial imposto por Stalin a partir da sua ascensão ao poder após a morte de Lênin, os cidadãos se viam obrigados a comprar apólices e títulos do governo, a fim de demonstrar sua lealdade ao regime. O resultado desses esforços foi dedicar a parcela de 25% do PIB para a transformação de um país de perfil primário-exportador à época dos tzares em uma potência industrial. No período entre 1928 e 1937, a renda nacional russa quadruplicou, a produção de carvão mais do que triplicou, a de aço qua- druplicou, a de eletricidade aumentou sete vezes, a produção de máquinas em 20 vezes e a de tratores em 40 vezes. Dessa forma, o PIB soviético ultrapassou o da França, do Japão e da Itália, igualou-se ao da Grã-Bretanha e por pouco não alcançou também o da Alemanha. Ao invés de destinar o essencial dos recursos reservados para investimento produtivo nas indús- trias de bens de consumo durável, conforme se pretendia ao longo do terceiro plano, boa parte dos in- vestimentos foi feita na indústria bélica. No início da década de 1930, a URSS fabricava todo ano 3 000 tanques e mais de 2 500 aviões, o que era muito mais do que era fabricado por qualquer outra potên- cia capitalista. A ênfase nos números, uma obsessão na doutrina militar soviética, ocultava o caráter ob- soleto da maior parte dos armamentos fabricados. O gigantismo da produção industrial significava que quaisquer mudanças na produção das armas e veículos fabricados demoraria necessariamente muito mais tempo para se materializar do que esperavam os gestores da produção de material bélico. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Tendo compreendido o nexo existente entre educação e desenvolvimento, o governo russo desti- nou somas enormes para a educação de base e superior. Além da eliminação do analfabetismo, a Educação Básica tornou-se obrigatória, bem como expandiu-se enormemente as vagas em nível superior. Por exem- plo, se em 1928 eram formados 48 mil engenheiros, em 1941 serão 289 mil. Também foram feitos investi- mentos vultosos na criação de centros e instituições de pesquisa nas áreas de física, química, biologia etc. tanto nas unidades produtivas quanto nas universidades, criando uma massa de cientistas e pesquisado- res cuja ausência até então fora uma das responsáveis pelo subdesenvolvimento crônico da Rússia. Ao mesmo tempo em que a população empregada na indústria se expandia, o efetivo dedicado aos trabalhos no campo declinava. Entre 1928 e 1941, a parcela da população empregada na agricultu- ra caiu de 71% para 51% do total. Tudo isso levou ao crescimento do número de habitantes nas cidades e do próprio número de cidades densamente povoadas. Entre 1923 e 1939, o número de cidades com mais de cem mil habitantes passa de 22 para 82. A maior cidade continua sendo a capital. Em Moscou viviam, em 1939, mais de quatro milhões de habitantes. Em seguida estava Leningrado com pouco mais de três milhões. Esse crescimento colocou novos desafios ao regime comunista, na forma da necessida- de de se prover habitação e transporte para as crescentes massas urbanas. A coletivização e o fim da propriedade privada A NEP levou ao fortalecimento da agricultura privada, em detrimento do ideal socialista da pro- priedade coletiva. Com a ênfase na industrialização proposta por sucessivos planos quinquenais, toda agricultura seria transformada, no intuito de liberar mão de obra para a indústria e intensificar a produ- tividade agrícola. A meta do governo comunista era aumentar a produção no campo, ao mesmo tempo em que diminuía a quantidade de trabalhadores ali empregada. Teve início, então, o processo conhe- cido como coletivização da agricultura soviética, decidido no decorrer do 15.º Congresso do Partido Comunista da URSS, em 1927. A coletivização pretendia substituir as fazendas administradas privadamente por fazendas cole- tivas, organizadas como cooperativas de produtores altamente mecanizadas. Para tanto, foram criadas estações de máquinas e tratores que alugavam esse tipo de material para as fazendas, ao mesmo tempo em que eram estabelecidos contratos de exclusividade da venda dos produtos do campo para o Estado. As fazendas coletivizadas passam de 23,6% do total para quase 100% em 1940. O processo não se fez sem resistências. Inúmeros fazendeiros recusaram-se a abrir mão das fazen- das que consideravam suas e reagiam contra a coletivização. Temendo ver o produto de seu trabalho entregue ao governo comunista, matavam preventivamente suas criações e deixavam de executar as colheitas, levando à perda da safra. Entre 1933 e 1935, a perda dos rebanhos de cavalos e bois havia le- vado à desaparição da metade daqueles animais, verificando-se prejuízos similares nas colheitas. A res- posta do governo foi duríssima, levando à deportação, prisão e, eventualmente, execução, de todos que resistissem à política de coletivização e se recusassem a permanecer nas novas fazendas coletivizadas. Estima-se que pelo menos três milhões de pessoas tenham sido mortas no decorrer do processo. O custo econômico da coletivização só começou a ser revertido em fins da década de 1930, quan- do um número substancial de tratores, máquinas colheitadeiras e a crescente disponibilidade de novas técnicas produtivas fez retomar a produção aos níveis anteriores à crise. Contudo, existem elementos que autorizama afirmar que a crise da agricultura em processo de coletivização só foi realmente supe- rada na década de 1950. 44 | Modelos econômicos: o desenvolvimento do comunismo Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 45|Modelos econômicos: o desenvolvimento do comunismo Economia, política e sociedade sob a ordem comunista O período de intensa industrialização, urbanização e coletivização aqui descrito coincide com o governo de Josef Stalin, secretário-geral do comitê central do Partido Comunista da URSS, posição a que ele foi alçado depois da morte de Lênin. Sob o governo de Stalin foi instaurada uma ditadura na qual os direitos constitucionais dos cidadãos foram sucessivamente desrespeitados, os opositores – ou suspeitos de o serem – encarcerados, deportados ou mortos e instituída rigorosa censura aos meios de comunicação. Para além dessas medidas, instituiu-se o assim chamado “culto à personalidade”, ou seja, um conjunto de estratégias de publicidade e propaganda que visava transformar a figura de Stalin aos olhos do povo soviético num sujeito infalível, inteligentíssimo e onisciente. Muito se discute se as características totalitárias do regime soviético derivam apenas das impo- sições que Stalin fazia no sentido de garantir para si o máximo de poder e inexistência de contestação a seu governo. Deve-se levar em conta que a inexistência da propriedade privada dos meios de produ- ção, ao concentrar o controle da totalidade da riqueza produzida no Estado, por si só já seria suficiente para impedir a emergência de um regime autenticamente democrático. Tudo isso para não se deixar de mencionar o regime de partido único, a existência de eleições diretas apenas no nível inicial de esco- lha dos representantes, a delegação de enormes poderes decisórios à burocracia do planejamento etc. Entre tantos outros fatores a inibir o livre debate e a disputa aberta pelos cargos eletivos. É inegável, contudo, que a atuação de Stalin muito fez no sentido de tornar o regime comunista uma ditadura totalitária, fazendo com que a maior parte da população se desinteressasse da política ou das dis- cussões afetas ao destino da sociedade. O processo teria tido início já a partir de 1924, com Stalin sucessiva- mente aumentando seu poder dentro do partido, ao concentrar na sua figura responsabilidades cada vez maiores e garantindo a ocupação de posições estratégicas na cúpula decisória por parte de seus aliados. Em 1937, esse processo se intensifica com a eliminação de toda cúpula da Revolução Bolchevique e quaisquer outros ou possíveis rivais à sua liderança nos famosos “Julgamentos de Moscou”, os quais perduram até a véspera da guerra. Através de sucessivos julgamentos baseados em acusações forjadas, centenas de quadros e ex-quadros do Partido Comunista são executados, deixando o poder de Stalin sem contestação. Subsequentemente, a prática de espionagem, delação e forjamento de provas levaria mais de dois milhões de pessoas ao encarceramento ou à sentença de morte. Por meio das denúncias forjadas de deslealdade ao regime, manifestas na “sabotagem”, “roubo” e “espionagem” procurava o regi- me Stalinista encontrar bodes expiatórios para os fracassos cotidianos na economia e sociedade sovié- ticas. Muitas vezes a delação era a única forma dos acusados se livrarem das acusações ou minimizarem suas penas. Com o tempo, uma porção substancial do povo soviético passou a crer que os fiascos eco- nômicos não se deviam à incompetência do governo, mas à presença de “sabotadores”, “ladrões” e “espi- ões” a serviço das potências capitalistas. O processo abalou profundamente o crescimento econômico, levando à perda de inúmeros qua- dros profissionais treinados, cientistas, professores, engenheiros, estatísticos e, na sua fase final até mes- mo maquinistas e capatazes de fazendas. O encerramento dos “julgamentos” de Moscou se deu quando o mesmo processo atingiu as forças armadas. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, milhares de ofi- ciais militares foram destituídos das suas funções, presos ou executados, com base nas acusações mais fúteis ou mesmo sem nenhuma acusação formal, tornando extremamente difícil a expansão das unida- des de blindados do exército ou da formação de esquadrilhas da força aérea. Somente a iminência do segundo conflito mundial levou Stalin a interromper o ataque a tantas pessoas que, em sua totalidade, jamais deixaram de ser fiéis ao seu governo ou ao regime comunista. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Atividades 1. Descreva a relação existente entre desenvolvimento econômico e investimentos em educação e ciência. 2. Explique de que forma a modernização promove a urbanização. 3. Interprete a forma pela qual a extinção da propriedade privada limita ou impede a vigência de um regime autenticamente democrático. Dicas de estudo O caráter arbitrário e irracional da repressão política do regime stalinista não deixava de ter sua funcionalidade para o processo de mobilidade social naquela época. A partir da leitura do livro Stalin, de Dmitri Volkogonov, percebe-se nitidamente o caráter e a forma de operação dos órgãos de repres- são. Já o artigo de Robert MacNeal no livro História do Marxismo, organizado por Eric Hobsbawn, permi- te entender de que forma essa mesma repressão se fez num momento de intensa mobilidade social, em parte viabilizando-a. É altamente recomendada a leitura e posterior confronto do conteúdo de ambas as obras para se lograr um entendimento sólido sobre a sociedade soviética do período e das implica- ções da instauração do socialismo em qualquer época. 46 | Modelos econômicos: o desenvolvimento do comunismo Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a época contemporânea. São Paulo: Difel, 1977. DROZ, Bernard; ROWLEY, Anthony. História do Século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1988. v. 1. GARAMBONE, Sidney. A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GORENDER, J. Fim da URSS: origens e fracasso da perestroika. São Paulo: Moderna, 2005. HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1995. HOBSBAWN, Eric. A Era dos Impérios: 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. _____. A Era dos Extremos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. IANNI, O. Capitalismo, Violência e Terrorismo. São Paulo: Civilização Brasileira, 2004. KEEGAN, John. História Ilustrada da Primeira Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. KENNEDY, Paul. 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Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004. 102 | Referências Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Segunda Guerra Mundial A ascensão do nazifascismo e do militarismo japonês Foi num quadro de profunda crise econômica, política e social que emergiram, ao fim da Primeira Guerra Mundial e da crise de 1929, os regimes fascista (Itália, 1922) e nazista (Alemanha, 1933). Ambos, para se legitimarem junto à opinião pública, propunham-se a alterar – pela força, se necessário – uma ordem mundial que consideravam injusta e prejudicial aos seus interesses nacionais. No plano interno tratavam-se de regimes autoritários, ferozmente anticomunistas, baseados na existência legal de ape- nas um partido, além do constante recurso à censura e à repressão política contra os críticos e oposi- tores do regime. No caso alemão cabe destacar também a política nazista de aperfeiçoamento racial (eugenia), cuja característica mais notável foi a proposta de eliminação das “raças inferiores”, tidas como ameaça à segurança e ao progresso daquele que se supunha ser o “verdadeiro” povo alemão. Dentre aqueles que deveriam ser eliminados da face da terra, segundo os nazistas, cabe destacar os deficien- tes físicos e mentais, inadaptados sociais, opositores políticos, judeus, eslavos, ciganos e outras minorias que seriam, a partir de 1941, vítimas de deportação, escravização e genocídio em escala continental. Talvez o aspecto mais visível de ambas ditaduras seja justamente a força do prestígio de seus lí- deres, reconhecidamente carismáticos. Independentemente das diferenças de estilo, tanto Hitler quan- to Mussolini sabiam falar às massas, conduzindo suas audiências a autênticos frenesis coletivos. Certos recursos tecnológicos já disponíveis naquela época também os ajudaram nesse esforço de sedução das massas. Graças a um grande aparato de propaganda envolvendo meios de comunicação tão distin- tos como o rádio e o cinema, bem como diversas práticas pedagógicas do sistema educacional (jogos, eventos, canções, exercícios de várias disciplinas etc.) conseguiram por um longo tempo impor-se como chefes marcados por uma aura de infalibilidade e cuja vontade era incontestável. Do outro lado do mundo, as maiores ameaças à paz vinham do Japão. Seu governo só na apa- rência era parlamentarista, sendo controlado de fato por facções militares comprometidas com a criação de um império colonial japonês. Essa pretensão só podia se realizar pela força, pois acor- dos diplomáticos que lhe haviam sido impostos, reservaram ao Japão um lugar subordinado na par- tilha imperialista dos territórios asiáticos, então em boa parte sob domínio da Grã-Bretanha, EUA e Holanda, os grandes favorecidos. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Com a invasão da província chinesa da Manchúria, em 1931, e da própria China, em 1937, revelou- -se inequivocamente ao mundo a intenção japonesa de monopolizar a exploração comercial e financei- ra daquele país. Contavam os japoneses com a ocupação total do território chinês anexando-o ao seu império colonial. Dessa forma, anulariam as concessões que as demais potências imperialistas já haviam obtido dos chineses em outras épocas. Em 1936 é firmada uma aliança militar entre a Alemanha e Itália, à qual o Japão adere em 1940, formando o assim chamado Eixo. O desafio lançado por esses três países à ordem mundial talvez pu- desse ter sido rapidamente superado, se tivesse havido um mínimo de unidade entre as principais po- tências vencedoras da Primeira Guerra Mundial, os Aliados (Grã-Bretanha, URSS, EUA). Contudo, isso só aconteceu quando já era tarde demais. Veja, por exemplo, a forma pela qual os regimes nazista e fascis- ta impuseram sua política de revisão do Tratado de Versalhes. Em 1935, Mussolini invade a Etiópia, um dos últimos países independentes na África, e Hitler reintroduz o serviço militar obrigatório e anuncia a retomada da produção de armas proibidas pelo tratado (aviões, tanques, submarinos etc.) sem ser con- testado pelas demais potências. Ambas medidas foram muito eficazes para combater o desemprego, ao mesmo tempo em que provocavam enorme déficit comercial e fiscal. No ano seguinte, Hitler remili- tariza a fronteira com a França – o que também era proibido pelo tratado – e em 1936 decide, da mes- ma forma que Mussolini, apoiar a tentativa dos militares espanhóis de destruir o governo constitucional vigente, em favor de um regime inspirado no nazifascismo, naquilo que viria a se tornar a prolongada e sangrenta Guerra Civil Espanhola (1936-1939). As sucessivas exigências alemãs de revisão das fronteiras estabelecidas em Versalhes encon- traram resposta favorável das potências ocidentais tanto na anexação da Áustria quanto no Acordo de Munique (1938), o qual marca o auge da política de “apaziguamento” executada por franceses e ingleses. Segundo essa política, fazia sentido proceder-se a modificações do Tratado de Versalhes se isso garantisse a continuidade da paz na Europa. O temor de uma nova guerra mundial, uma opinião públi- ca indiferente às questões de fronteira na Europa Central e Oriental e a não efetivação de uma aliança militar com a URSS para conter Hitler acabaram por reforçar a adesão ao “apaziguamento”. Hitler sou- be aproveitar-se ao máximo dessa política para impor seus termos e, com o Acordo de Munique obteve o direito de reocupar a região fronteiriça da Tchecoslováquia. A ocupação do resto da Tchecoslováquia no ano seguinte finalmente leva ao fim da política do “apaziguamento” e ao início da mobilização po- lítica e social na Inglaterra e na França visando conter a Alemanha. Assim, quando são feitas novas exi- gências de devoluções de territórios alemães perdidos para a Polônia segundo o Tratado de Versalhes, britânicos e franceses mobilizam-se para defender aquele país. Com a invasão da Polônia pelos alemães ocorre a declaração de guerra da Grã-Bretanha e, em seguida, da França à Alemanha em 1.º de setem- bro de 1939. A mundialização do conflito Em 1.o de setembro de 1939, tropas alemãs atacam a Polônia. No dia 17, tropas russas invadem o país, como resultado do Pacto de não agressão e a correspondente divisão da Polônia, que havia sido firmado entre russos e alemães no mês anterior. O período que se seguiu ficou conhecido como “Guerra Falsa”. Nem alemães, nem anglo-franceses efetuaram quaisquer operações militares. Em novembro, a URSS ataca a Finlândia, ao ver suas exigências territoriais recusadas pelo governo daquele país. Em abril 48 | Segunda Guerra Mundial Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 49|Segunda Guerra Mundial de 1940, os alemães invadem a Noruega e ocupam a Dinamarca. No dia 10 de maio, os alemães acabam com a “Guerra Falsa” invadindo a Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Com a invasão da França, em maio de 1940, deu-se finalmente a reproduçãodo choque de armas da guerra anterior. No que se refere aos aspectos propriamente militares, as vantagens estavam contra os Aliados. Os alemães eram os detentores do monopólio do conhecimento relativo à coordenação de forças blindadas (Divisões Panzer) e aéreas (Luftwaffe) em campanha, tendo se aproveitado da invasão da Polônia para apressar o treinamento de seus militares e proporcionar-lhes experiência em comba- te. O comando Aliado, por seu turno, apegava-se às táticas da guerra anterior, pautando sua doutrina pela crença no poderio de suas fortificações e outros recursos de defesa para esgotar qualquer ofensiva alemã. Em 14 de junho, Paris é ocupada e, uma semana depois, o governo francês assina um armistício com a Alemanha. Hitler começou em agosto uma campanha aérea de “debilitação”, preliminar à Invasão das Ilhas Britânicas: a Batalha da Inglaterra. A iminente chegada do inverno inviabilizando operações anfíbias e aéreas tornava remota a probabilidade de os alemães tentarem a invasão. A descrença geral numa futura invasão da Grã-Bretanha se manifesta tanto no desinteresse do alto escalão nazistas nessas operações quanto na atenção desproporcional que dedicava à Operação Barbarrossa, que é como veio a ser conhecido o plano de ataque à URSS. Em junho de 1941, repudiando o Acordo de não agressão firmado em agosto de 1939, os alemães invadem a Rússia, obtendo até dezembro daquele ano sucessos extraordinários. De fato, chegaram até Rostov, Leningrado e Moscou. Embora não tenham sido capazes de tomar essas duas últimas cidades, capturaram ou mataram cinco milhões e meio de soldados inimigos e se apossaram de uma área res- ponsável por 40% do PIB soviético. No segundo semestre de 1942, os alemães reiniciam suas ofensivas na Rússia, chegando a ocupar parcialmente a importante cidade industrial de Stalingrado. Contudo, em novembro, os russos contra-atacam, cercando dentro da cidade um enorme contingente de alemães – 330 000 homens. Sem poder romper o cerco, os alemães se rendem em fevereiro do ano seguinte, na- quela que foi a pior derrota alemã na guerra até então, somando no processo perdas superiores a um milhão de homens, a qual também marca o início da virada da correlação de forças contrária aos países do Eixo. No início de 1941, as relações nipo-americanas estavam em processo de franca deterioração. A agressão japonesa à China afetou imediatamente os interesses comerciais, militares, diplomáticos e econômicos dos EUA e da Grã-Bretanha naquele país. Mais ainda, a derrota da França e da Holanda na campanha de 1940 levou os japoneses a intensificar as pressões sobre aqueles países para obter vantagens e direitos sobre suas colônias na Ásia. De todos os atingidos, o único em condições de bar- rar as pretensões do Japão eram os EUA, àquela época ainda imersos no isolacionismo. Por esse ter- mo denomina-se a cultura política norte-americana que, com base na experiência da Primeira Guerra Mundial, repudiava a intervenção dos EUA em assuntos europeus. A partir de 1941, com a ocupação da Indochina Francesa, a administração Roosevelt finalmente conseguiu obter apoio para sua políti- ca de contenção das operações militares japonesas. Foi decretado um embargo total às exportações de materiais estratégicos para o Japão, como petróleo e metais, bem como decretado o congelamen- to dos bens japoneses nos EUA. Para um país que dependia pesadamente de importações para manter seu complexo industrial- militar funcionando, o embargo foi um golpe mortal. Diante dele, a liderança japonesa tinha apenas dois caminhos a tomar: ou abandonar sua guerra contra a China, renunciando inclusive ao território já ocupado, ou partir para a conquista das fontes de petróleo e matérias-primas estratégicas da Ásia, então em poder da Inglaterra (Malásia e Nova Guiné) e da Holanda (Java). Para garantir a segurança Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br dessas regiões e respectivas rotas marítimas, seria indispensável neutralizar as frotas britânica e norte- -americana no Pacífico, ocupando a importante base naval inglesa de Cingapura, destruindo a base norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, bem como expulsando os norte-americanos das Filipinas. Em dezembro de 1941, esses planos foram postos em prática. De surpresa e contando com subs- tancial superioridade numérica e técnica sobre seus adversários, o Japão se abate sobre esses alvos-chave, conquistando-os em pouco mais de três meses e sem perdas significativas. Tinham a seu favor uma gran- de frota de porta-aviões, excelentes aeronaves embarcadas (como o famoso avião de caça Zero, superior a qualquer outro em serviço entre os Aliados) e aquela que era considerada a melhor arma naval do mundo, o torpedo conhecido como “longa lança”. Todas as tentativas navais e terrestres de conter os japoneses fo- ram anuladas, deixando-os senhores, naquelas vastidões do Pacífico, de oitava parte do globo. Finalmente, a partir de 1941, a guerra se torna mundial, uma vez que não só atraiu ao conflito as principais potências industriais do planeta, como pôs em conexão os eventos do oriente e do ociden- te. Embora as forças armadas da Alemanha, da Itália e do Japão obtivessem êxitos fulminantes nos pri- meiros anos do conflito, a longo prazo o peso demográfico e econômico dos países Aliados, somado à sua infeliz condução da guerra, acabaria por esmagar totalmente o poder militar do Eixo (Alemanha, Japão, Itália). As novas tecnologias: a guerra no ar e no mar Os desenvolvimentos na indústria aeronáutica durante a guerra foram particularmente notáveis tanto na área da eletrônica quanto no uso estratégico das aeronaves. Na eletrônica, foi fundamental o desenvolvimento por parte dos britânicos de um aparelho de detecção de aviões inimigos: o radar. Graças a esse aparelho – repassado já em 1941 aos EUA – os Aliados podiam antecipar todas as ações aéreas do inimigo, tanto sobre o mar quanto em terra. Na aviação deu-se o surgimento do bombardeio estratégico: aeronaves de múltiplos motores, com alcance de milhares de quilômetros, transportando várias toneladas de bombas que podiam atingir o coração do território inimigo. Os anglo-americanos se dedicavam a bombardear alvos civis e militares por toda Europa ocupada a partir de 1942 e no Japão a partir de 1944. Inicialmente, os re- sultados foram mínimos, devido tanto à ineficácia dos aparelhos de mira disponíveis, quanto à cerra- da oposição das defesas de solo (artilharia antiaérea) e ar (caças noturnos e diurnos), tudo isso para não mencionar outras contramedidas, como a dispersão das instalações mais valiosas e a construção de fábricas subterrâneas. Na realidade, a proposta do bombardeio estratégico que fosse autodefensável se mostrou im- possível de se realizar inteiramente na prática, levando os Aliados a desenvolverem suas próprias es- quadrilhas de caças de escolta com alto desempenho e enorme alcance, capazes de acompanhar os bombardeios durante toda missão. Dessa forma, conseguiu-se eliminar boa parte das aeronaves inimi- gas que tentavam interceptar os bombardeios, tanto reduzindo-se em números absolutos os efetivos aéreos inimigos pelos combates no ar, quanto enfraquecendo-os pela destruição das fábricas de aviões a sua produção aeronáutica. Com sua insistência em bombardeios de terror contra áreas urbanas, com o intuito de “desalojar” e “desmoralizar” a população inimiga, acabaram provocando centenas de milha- res de mortes de civis alemães e japoneses. 50 | Segunda Guerra Mundial Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 51|Segunda Guerra Mundial No mar, os maiores desenvolvimentos deram-se na área tecnológica, como a adoção de um apa- relho de detecção submarina, o sonar. Graças a esse aparelho era possível aos Aliados descobrirem e atacarem ossubmarinos alemães e japoneses mesmo submersos, lançando contra eles cargas de pro- fundidades, isto é, dispositivos explosivos programados para explodirem à profundidade em que se encontravam seus alvos. O uso generalizado de navios capazes de operar aviões foi outra importante mudança tática. Os porta-aviões eram capazes, com suas aeronaves, de lançar ataques a centenas de quilômetros de distância, eclipsando totalmente os navios equipados com grandes canhões (encoura- çados, cruzadores etc.), capazes de atingir alvos a apenas uma ou duas dezenas de quilômetros. O desfecho da guerra A derrota do Eixo foi ocasionada devido tanto à soma de sucessivas decisões errôneas quanto à maciça desproporção de recursos demográficos, tecnológicos e econômicos entre as potências em guerra. A entrada dos EUA na guerra alterou todo o quadro para muito pior, no que se refere ao Eixo. Os EUA tinham um potencial econômico dez vezes maior que o do Japão e três vezes maior que o da Alemanha. Durante a guerra, na qual seus inimigos foram totalmente arrasados, os EUA, ao contrário, aumentaram em 50% seu PIB. Em 1945, seriam, então, os possuidores de mais da metade da frota mer- cante e das reservas de ouro mundiais. A menos que a liderança dos Aliados cometesse erros realmente graves, seria impossível às tropas do Eixo deixarem de sentir os efeitos da superioridade da coalizão que se formou contra eles em 1941. A ironia da história é que a guerra na Europa e no Pacífico foi decidida antes que a conversão do potencial econômico de tempo de paz em um complexo industrial-militar produzisse todos seus efeitos. Afinal de contas, ao final da guerra os EUA eram capazes de fabricar um navio por dia e um avião por minuto. Acabaram ocorrendo importantes reveses para a Alemanha também na diplomacia. Diversos países neutros (Turquia, Espanha etc.) com os quais se podia contar com a adesão ao Eixo, continuaram a permanecer em expectativa. Os japoneses pretendiam garantir a hegemonia no Pacífico, antes que os EUA atingissem a total mobilização de seus recursos militares. Somente dessa forma imaginavam terminar a guerra de forma favorável, dada a desproporção de recursos econômicos e demográficos que a longo prazo sempre fa- voreceriam os americanos. Em junho de 1942 provocaram a Batalha de Midway, para a qual esperavam atrair para o combate a frota americana que havia escapado da destruição nos eventos anteriores. Ao in- vés do pretendido esmagamento da armada norte-americana, amargaram os japoneses, graças a erros táticos na condução das operações, à perda de todos os seus porta-aviões envolvidos (contra o afunda- mento de um único navio desse tipo dos americanos), revertendo a favor dos EUA a correlação de forças aeronavais naquele conflito e incapacitando-os a prosseguir em suas ações ofensivas. A partir daí, sucederam-se vários encontros entre as duas esquadras, sempre em função da dispu- ta de ilhas cada vez mais próximas do Japão. Em 1944 travou-se em torno das Filipinas aquela que até hoje é considerada a maior batalha naval da História, a do Golfo de Leyte. Mais uma vez os japoneses so- freram perdas muito superiores às dos norte-americanos, alargando ainda mais as vantagens materiais que os EUA desfrutavam sobre eles. Nessa batalha aeronaval pelas Filipinas surgiram pela primeira vez os ataques de aviadores suicidas, os kamikazes. Seus pilotos com seus aparelhos cheios de explosivos se sacrificavam atirando sobre os navios americanos na tentativa de neutralizar a crescente e irreversível Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br disparidade de forças contra as quais eles tinham de lutar. Embora os kamikazes não tivessem sido ca- pazes de, por si sós, impedir a perda das Filipinas, Iwo Jima, Okinawa e várias outras ilhas importantes, não se pode negar o efeito psicológico dessa nova tática sobre o inimigo. No segundo semestre de 1944, os EUA já dispunham de várias bases em ilhas relativamente pró- ximas ao Japão, da qual puderam desfechar maciços ataques aéreos às cidades e instalações militares japonesas. Simultaneamente, os EUA vinham realizando intensa campanha submarina contra os navios mercantes japoneses, fazendo com que o Japão perdesse gradualmente quase toda sua marinha e im- pedindo o contato com as partes recém-anexadas de seu Império. A partir de março de 1945, os EUA desfecharam importantes sequências de ataques aéreos no Japão, usando seus novos bombardeiros B-29, cujo raio de ação e carga de bombas não tinham similares na força aérea japonesa. Em 1943, Hitler decidiu pela realização de mais uma – que seria a última – ofensiva na frente russa, na tentativa de recuperar a iniciativa estratégica perdida desde Stalingrado. O local escolhido foi um salien- te território ocupado pelos russos bem no centro da linha alemã, em torno da cidade de Kursk. Os alemães imaginavam que se conseguissem isolar esse bolsão atacando suas bases de ambos os lados, lograriam se- pará-lo do resto do território ocupado pelos russos. Assim, poderiam destruir ou capturar através do cerco realizado importantes grupamentos de tropas inimigas, dando, através da imputação de pesadas perdas aos russos, no mínimo mais tempo para recompletarem seus próprios efetivos e, no limite, a chance de tirar das mãos soviéticas a capacidade de impor aos alemães o ritmo e a intensidade da luta naquela frente. Nesse estágio, a divisão de meios humanos e materiais entre os contendores era amplamente fa- vorável aos soviéticos. Ao contrário das Batalhas de Moscou e Stalingrado, nas quais ambos os lados tinham mais ou menos os mesmos efetivos – cerca de um milhão e meio de homens cada – agora o Exército Vermelho era bem superior em quantidade aos seus adversários. Mais ainda, a introdução de novas e melhores armas providas pela indústria soviética significava que, em boa medida, elas gozariam senão de superioridade, pelo menos de igualdade técnica sobre seus inimigos. Esta contraofensiva durou até o fim de 1943, provocando a destruição das preciosas (e, aquela al- tura, insubstituíveis) reservas blindadas alemãs e libertando extensas áreas da URSS ocupadas, em par- ticular a Ucrânia e a Crimeia. Quase que simultaneamente ao desastre na frente oriental, os alemães também tiveram de fazer face ao desembarque de tropas aliadas na Itália, pressagiando o fechamento final do cerco que os Aliados vinham fazendo ao Eixo. Pelos seus resultados, a Batalha de Kursk se mos- trou muito mais decisiva para a derrota do Eixo do que a de Stalingrado, marcando o início de um pro- cesso irreversível de recuos e retiradas alemãs que só findaria nas ruínas de Berlim. O evento permanece até hoje como sendo a maior batalha de tanques jamais travada na História. Em 6 de junho de 1944 soldados Aliados desembarcam nas costas da França, na região da Normandia. A imensa desproporção de qualidade e quantidade de todo tipo de meios militares a fa- vor dos Aliados, bem como uma inteligente estratégia de despistamento, impediu que as reações ale- mãs pusessem a assim chamada Operação Overlord sob ameaça. Na verdade, os efetivos do Eixo na área eram em sua maioria de qualidade inferior, incluindo também divisões retiradas da frente russa – onde permaneciam constantemente mais de dois terços das tropas do Eixo – para descanso e recompleta- mento. Depois da perda de Paris, em agosto, os alemães não foram mais capazes de realizar quaisquer contra-ataques, cedendo terreno até dezembro daquele ano. Na véspera de Natal lançam aquela que seria sua última ofensiva importante na frente ocidental, logo contida pelos Aliados. Quase que simultaneamente aos desembarques na Normandia, os russos desfecharam uma gigantesca ofensiva na frente oriental, destinada a liberar de vez os territórios soviéticos ocupados. 52 | Segunda Guerra Mundial Este material é parte integrante do acervodo IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 53|Segunda Guerra Mundial Para tanto, reuniram 1 200 000 homens para lançar contra os 700 000 soldados do Eixo que guarneciam o centro da linha de frente, verificando-se no que se refere a blindados, à artilharia e à aviação uma cor- relação de forças ainda mais amplamente favorável a eles. O resultado é que menos de uma quinzena depois de iniciados os ataques, os alemães perderam 25 das 43 divisões, permitindo aos russos avançar até a Prússia, Polônia e Romênia e acelerando a desintegração da coalizão de países da Europa oriental que apoiavam o nazismo. Para celebrar, os russos realizaram um imenso desfile pelas ruas de Moscou com cerca de 57 000 dos prisioneiros alemães feitos nessa ofensiva. Em janeiro de 1945, os russos estavam prontos para iniciar sua ofensiva rumo a Berlim. Para tanto, contavam com 2 200 000 homens (contra 400 000 alemães), 6 400 blindados (contra 1 150), 46 000 pe- ças de artilharia (contra 4 100). Contando com tamanha superioridade de forças, empregadas com efici- ência pelo menos igual à dos alemães, não se podia ter qualquer dúvida com relação ao resultado final. No início de fevereiro, os russos chegavam ao rio Oder, última barreira fluvial antes de Berlim, distante pouco mais de 40 quilômetros dali. Em abril desfecharam seu ataque final contra Berlim, encontrando sempre feroz resistência. Somente terminaram de ocupar Berlim em 28 de abril de 1945, no mesmo dia em que Hitler dava cabo da própria vida, em seu abrigo subterrâneo de comando, localizado naquela cidade. Uma semana antes Mussolini havia sido capturado e fuzilado por guerrilheiros comunistas, ao tentar fugir do norte da Itália para a Suíça. Em 8 de maio, o governo alemão sucessor assinou a rendi- ção aos Aliados. Em agosto de 1945, quaisquer esperanças japonesas de prosseguir com a guerra foram arrasadas, tanto pela ocorrência de dois ataques nucleares ao Japão, quanto pela invasão soviética da Manchúria, que logo de saída provoca a quase total desestruturação do exército japonês sediado ali. A despeito do caráter decisivo da entrada da URSS na guerra, a memória dos eventos ligados à rendição do Japão sem- pre será dominada pela lembrança dos ataques atômicos às cidades de Hiroshima e Nagasaki, respon- sáveis por centenas de milhares de vítimas, e cujos efeitos deletérios entre a população japonesa ainda se verificaram por muitos anos. Consequências do conflito A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi, pelo menos até o presente, o maior e mais devastador conflito sofrido pela humanidade em toda sua história. As perdas de vidas humanas decorrentes dos combates militares, massacres premeditados de civis, fome e doenças decorrentes de outras privações sofridas durante o conflito são estimadas em 50 milhões. Desses, pelo menos 20 milhões são de cida- dãos da antiga União Soviética (URSS) e talvez outros seis milhões, em sua maioria judeus, são os mortos do programa de destruição das minorias racialmente “indesejáveis” desenvolvido pelo regime nacional- socialista (nazismo) vigente na Alemanha (1933-1945). Ao lado das imensas perdas humanas, cabe citar também a destruição física da maioria da infra- estrutura econômica e da vida urbana da Europa, China e Japão, incluindo aí boa parte da navegação mercante dos países beligerantes e neutros no conflito. Na Europa Ocidental, nas regiões que foram pal- co dos combates aéreos e terrestres, a atividade econômica desceu a níveis desastrosos, com a perda de ferrovias, rodovias, portos, linhas de comunicação, fábricas e fazendas que foram quase que totalmente devastadas. A maior parte das habitações foi destruída por bombardeios aéreos e terrestres, bem como pelos exércitos em retirada, a fim de que não fossem utilizadas pelos seus adversários. Nos territórios da Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br URSS, palco de uma guerra “total”, tanto na linha de frente entre exércitos convencionais, como pela luta na retaguarda das forças guerrilheiras de ocupação ao invasor alemão, a guerra levou a um retrocesso econômico que só seria recuperado dez anos depois. Só esses dados já conferem à Segunda Guerra Mundial um lugar de destaque, único mesmo, no repulsivo e deprimente leque de conflitos militares dos quais a história humana se acha tão lamenta- velmente repleta. Como se tudo isso ainda não fosse razão suficiente para nos dedicarmos ao estudo e à lembrança daquele conflito, não se pode deixar de mencionar que na vigência da Segunda Guerra Mundial foram realizados os primeiros ataques com armas atômicas contra populações civis, que redun- daram na destruição das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki (1945). A partir daí, as perspectivas deletérias de extensas experiências atômicas com fins militares, bem como do próprio fim da humani- dade numa nova guerra mundial travada com armas nucleares tornou-se o principal pesadelo das ge- rações que se seguiram. Além disso, a Segunda Guerra Mundial tem uma importância histórica fundamental por sua in- fluência na criação de uma nova ordem política em escala planetária e de efeitos duradouros, cuja ex- pressão mais visível foram os blocos internacionais que dela emergiram, dando origem à “Guerra Fria” (1945-1989). Simultaneamente à emergência dos EUA e da URSS como únicas superpotências mundiais, líderes de blocos antagônicos que disputavam a hegemonia em escala global, assistimos também ao definitivo declínio dos antigos poderes coloniais, que tanta importância detinham anteriormente. De fato, o fim da Segunda Guerra Mundial dá início à era da descolonização e ao surgimento do bloco dos países em desenvolvimento ou, como se diz, do Terceiro Mundo. Finalmente, o fim da Segunda Guerra Mundial também é marcado pelo surgimento de importantes organizações multilaterais, dedicadas à negociação diplomática, como a Organização das Nações Unidas (ONU), e econômica, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Atividades 1. Analise o mapa referente à Europa no auge do poder de Adolf Hitler e compare as revisões ope- radas nas fronteiras da Alemanha em relação àquelas impostas pelo Tratado de Versalhes. (K EN N ED Y, P . A sc en sã o e Q ue da d as G ra nd es P ot ên ci as . Ri o de Ja ne iro : C am pu s, 1 98 9, p . 3 37 .) 54 | Segunda Guerra Mundial Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 55|Segunda Guerra Mundial 2. Compare a tabela relativa à produção de armamentos pelas coalizões antagônicas da Segunda Guerra Mundial e explique a proporção ali contida em função do início da corrida armamentista em cada país. Produção de armamentos das potências, 1940-1943 (em bilhões de dólares de 1944) (K EN N ED Y, P . A sc en sã o e Q ue da d as G ra nd es P ot ên ci as . Ri o de Ja ne iro : C am pu s, 1 98 9, p . 3 41 .) 1940 1941 1943 Grã-Bretanha 3,5 6,5 11,1 URSS (5,0) 8,5 13,9 Estados Unidos (1,5) 4,5 37,5 Total de combatentes aliados 3,5 19,5 62,5 Alemanha 6,0 6,0 13,8 Japão (1,0) 2,0 4,5 Itália 0,75 1,0 – Total de combatentes aliados 6,75 9,0 18,3 Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 3. Estabeleça, com base na comparação dos dados de produção aeronáutica, a correlação de forças aéreas entre as coalizões antagônicas da Segunda Guerra Mundial no início e no fim do conflito. Produção de aviões das potências (1939-1945) (K EN N ED Y, P . A sc en sã o e Q ue da d as G ra nd es P ot ên ci as . Ri o de Ja ne iro : C am pu s,1 98 9, p . 3 39 ) 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945 Estados Unidos 5 856 12 804 26 277 47 836 85 898 98 318 46 761 URSS 10 382 10 565 15 735 25 436 34 900 40 300 20 900 Grã-Bretanha 7 940 15 049 20 094 23 672 26 263 26 461 12 070 Comunidades Britânicas 205 1 100 2 600 4 575 4 700 4 575 2 075 Total Aliados 24 178 39 518 64 706 101 519 151 761 167 654 84 806 Alemanha 8 295 10 247 11 776 15 409 24 807 39 807 7 540 Japão 4 467 4 768 5 088 8 864 16 693 28 180 11 066 Itália 1 800 1 800 2 400 2 400 1 600 – – Total Eixo 14 562 16 815 19 264 26 670 43 100 67 987 18 606 Dica de estudo O livro de Paul Kennedy – Ascensão e Queda das Grandes Potências – contém uma interpretação até hoje considerada clássica que coloca em foco tanto a desproporção de recursos disponíveis entre as potências em luta na Segunda Guerra Mundial quanto as diferentes opções estratégicas por elas adota- das. Selecione um período, evento ou ano do conflito e tente estabelecer qual das duas considerações é mais pertinente enquanto interpretação do desfecho final dos eventos. 56 | Segunda Guerra Mundial Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a época contemporânea. São Paulo: Difel, 1977. DROZ, Bernard; ROWLEY, Anthony. História do Século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1988. v. 1. GARAMBONE, Sidney. A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GORENDER, J. Fim da URSS: origens e fracasso da perestroika. São Paulo: Moderna, 2005. HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna. 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França, Holanda e Grã-Bretanha também se veem progressiva- mente despojadas de suas possessões e, apesar de manterem importantes forças armadas, conseguem dedicar ao financiamento destas apenas uma pequena fração dos gastos militares das superpotências globais: os EUA e a URSS. Mais ainda, a partir de 1949, somente a URSS, além dos EUA, é capaz de proje- tar e construir armas nucleares, bem como os meios para lançá-las. Problemas relacionados aos custos da reconstrução, ao endividamento anterior e ao declínio econômico de vencedores e vencidos, fazem com que apenas esses dois países tenham relevância nas relações internacionais do imediato pós-guerra. E, das duas superpotências, os EUA eram claramente a maior. Afinal de contas, o fato de não ter o seu território atingido pelas operações militares, somada à expansão ininterrupta da economia para atender à demanda provocada pela guerra, transformaram os EUA não só numa superpotência militar, mas também econômica e científica. Somente os EUA eram capazes de produzir bombas atômicas (1945), e continuariam mantendo esse monopólio do conhecimento até 1949. A URSS, por outro lado, teve em seu solo as maiores e mais destrutivas batalhas daquele confli- to, perdeu o equivalente a 20 milhões de cidadãos e quase todos investimentos produtivos que haviam sido realizados na Rússia europeia antes da guerra. Apesar de dispor de enormes forças armadas – as maiores do mundo – a URSS era economicamente minúscula. Mesmo muito tempo depois de concluído o processo de reconstrução nacional, seu PIB mal chegava a equivaler a 1/3 do norte-americano. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O fato de URSS e EUA representarem alternativas dimetralmente opostas para a organização so- cial tornava o conflito entre ambos altamente provável, senão inevitável. O internacionalismo marxis- ta, o qual sustentava o projeto de uma revolução mundial como possível e desejável, deixou de ser uma realidade histórica a partir da dissolução do órgão do partido comunista da URSS, encarregado de or- ganizar a subversão mundial, o Comintern, por Stalin em 1943. Porém, a liderança norte-americana sus- tentava que ainda estava em execução um plano subversivo mundial, organizado em Moscou. Dessa forma, tendiam a ver quaisquer movimentos nacionalistas ou de busca de maior autonomia nacional – e, portanto, críticos ou hostis ao capital estrangeiro – como parte desse movimento, os quais deveriam ser “contidos” no interesse da preservação da sociedade capitalista, democrática e cristã. As tensões entre as superpotências começaram antes mesmo do fim da Segunda Guerra Mundial. A rendição da Itália aos Aliados após a derrubada do regime fascista de Mussolini, em 1943, foi tratada exclusivamente com norte-americanos e britânicos. Ao ser consumada, a URSS protestou por não ter sido incluída nas negociações de rendição de um ex-aliado da Alemanha nazista. Noano seguinte, novo confronto se deu em torno das discussões entre russos, norte-americanos e britânicos sobre as futuras fronteiras da Polônia na qual as pretensões de Stalin acabaram por prevalecer. Ainda naquele ano eclodiu a Guerra Civil na Grécia, recentemente liberta da ocupação nazista. Nesse conflito, os antigos guerrilheiros que lutavam contra a ocupação alemã começaram a brigar entre si. O fato de os grupos chefiados por comunistas estarem prestes a vencer a guerra levou à ocupação do país por tropas do exército britânico em 1944. Com o fim da guerra ocorreu uma divisão da antiga Europa dominada pelos nazistas em duas zonas de ocupação: a russa e a dos Aliados ocidentais. Nos países da Europa Oriental (Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária) ocupadas pelo Exército Soviético rapidamente foram es- tabelecidos governos de orientação comunista, ao passo que nos países ocupados pelos Aliados oci- dentais em nenhum caso isso ocorreu. No coração da Europa havia a Alemanha, dividida em quatro zonas de ocupação, tornadas de responsabilidade de russos, norte-americanos, franceses e britânicos e a própria Berlim, também dividida em quatro zonas. Ali se daria o rompimento da grande aliança que havia destruído o nazismo, quando as autoridades de ocupação não lograram um acordo para a unifi- cação do país. O resultado foi a divisão da Alemanha e da cidade de Berlim em duas partes, cada uma dando origem a um novo país: a República Federal da Alemanha (capitalista) e a República Democrática Alemã (comunista). A bipolarização e as superpotências A divisão da Europa em dois blocos, segundo as áreas abrangidas pelas zonas de ocupação rus- sa ou Aliada ocidental, elevou consideravelmente a tensão nas relações internacionais do segundo pós-guerra. No Ocidente, temia-se que o retorno à política democrática abrisse a possibilidade da ins- tauração de novos regimes comunistas, resultado tanto do prestígio internacional obtido pela URSS com a vitória na guerra, quanto pela insatisfação do eleitorado com as miseráveis condições de vida, produto inevitável das destruições daquele conflito. A partir da obtenção do consenso da elite norte-americana de que deveria existir uma “estraté- gia de contenção” do comunismo que estaria visando à retomada do projeto de revolução mundial, se- guiu-se a busca de soluções para a restabelecimento do pleno funcionamento da economia na Europa. 58 | Guerra Fria e bipolarização Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 59|Guerra Fria e bipolarização Entendia-se que a eternização da miséria a que estava submetida a Europa só faria aumentar a tendên- cia no sentido de uma ruptura com a sociedade de mercado, levando à generalização do comunismo por todo continente. O resultado foi o Plano Marshall, assim chamado por ter sido idealizado por aquele secretário de Estado dos EUA. Tratava-se de um amplo programa de financiamento da reconstrução da Europa, numa base de integração e complementaridade com a economia norte-americana. Grandes emprésti- mos com baixas taxas de juros e longo prazo foram oferecidos a todos países europeus, desde que com- prometidos com a economia de mercado e a liberdade democrática. Embora Polônia e Tchecoslováquia se candidatassem aos empréstimos, foram forçados por Moscou a renunciarem às suas pretensões. Ao financiar a reconstrução apenas dos países que estavam fora da zona de ocupação soviética, o Plano Marshall acabou por marcar o aprofundamento das diferenças entre as duas zonas. O confronto se aprofundou com a tentativa russa de tomar para si toda Berlim. A cidade de Berlim estava encravada bem no meio da zona soviética de ocupação e, presumia-se que os aliados ocidentais teriam direito irrestrito de acesso às suas respectivas zonas, atravessando a área sob controle dos russos. Em 1948, os soviéticos decidiram o contrário e, para forçar a unificação da cidade sob a égide do partido comunista alemão, bloquearam todos acessos terrestres ocidentais à Berlim. Restava o transporte aéreo e, durante 11 meses, os aliados ocidentais mantiveram a população da parte ocidental de Berlim abastecida usando aviões de transporte. Ao fim desse período, em 1949, os russos finalmente concordaram em levantar o bloqueio e se resignaram a manter dividida a cidade com seus antigos aliados. Outro resultado foi a renúncia de ambos os lados, agora em aberto confronto, em unificar o país, que acabou levando à separação da Alemanha em duas nações: a Ocidental e a Oriental. Esses eventos estimularam a criação de uma aliança militar permanente, sob a hegemonia nor- te-americana, dos antigos aliados ocidentais. Assim, deu-se a fundação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que, a partir de 1949, congregou praticamente todos países capitalistas e demo- cráticos da Europa numa aliança firmada claramente com o propósito de resistir a qualquer tentativa soviética de impor seu regime sobre o restante do continente. No devido tempo acabaria por surgir o equivalente comunista dessa aliança militar sob a forma do Pacto de Varsóvia firmado em 1955 e que agregava os países da Europa Oriental numa coalizão liderada pela URSS. Prevalecia, entretanto, a convicção de que as antigas zonas de ocupação demarcavam claramen- te as respectivas áreas de influência das superpotências. Por exemplo, em 1953, uma série de protestos operários na Alemanha Oriental que parecia escapar ao controle daquele país levou à intervenção do Exército Soviético. Também a intervenção militar russa se deu sem contestação – exceto propagandísti- ca – na Hungria, quando esse país decidiu abandonar o Pacto de Varsóvia em 1956. Embora pudesse se impor militarmente às suas populações, se necessário com o auxílio russo, os vários regimes socialistas da Europa Oriental não se mostravam capazes de lograr nas áreas econômi- ca e social os mesmos resultados positivos que os países de economia de mercado que haviam aderido ao Plano Marshall estavam obtendo. Uma das consequências era a fuga ininterrupta de dezenas de mi- lhares de cidadãos da Europa Oriental para a Ocidental a cada ano, em busca de melhores condições de vida que as oferecidas pelo regime comunista. O caminho mais fácil para se evadir era mesmo a cidade de Berlim, ainda dividida em duas partes, respectivamente a Oriental e Ocidental. Finalmente, reconhe- cendo sua incapacidade em rivalizar com o bem-estar e as liberdades democráticas que os países oci- dentais ofereciam aos seus cidadãos e, não podendo evitar o número crescente de fugas, é erguido em Berlim, em 1961, um muro vedando o acesso dos habitantes do lado oriental ao ocidental. Apesar da sua sinistra fama, este Muro de Berlim não se restringia à cidade. Toda fronteira entre as duas Alemanhas Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br foi murada, vedando completamente a fuga dos indivíduos do leste para o oeste. O Muro de Berlim se tornaria um símbolo da divisão entre os dois mundos em confronto – o capitalista e o comunista – e, por decorrência, da própria Guerra Fria: uma situação de conflito latente que só não se permite eclodir pela consciência de que uma eventual terceira guerra mundial entre as duas superpotências igualmente ar- madas de bombas atômicas significaria o fim da humanidade. As guerras localizadas e a bipolarização O ano de 1949 foi pleno de acontecimentos marcantes na história da Guerra Fria na Europa. Mas por todo o mundo, dado o caráter global da confrontação leste-oeste, verificar-se-ia a eclosão de episó- dios em associação com a Guerra Fria. Naquele ano, finalmente terminou a Guerra Civil na China, opondo comunistas e partidários do capitalismo (agrupados no movimento do Kuomintang), com a vitória dos primeiros, liderados por Mao Tse Tung. Alguns dos derrotados se exilaramna ilha de Formosa (Taiwan), onde estabeleceram uma sociedade capitalista, sob o governo de Chiang Kaichek. Imediatamente, os norte-americanos reconheceram o governo de Taiwan, insistindo para que ele fosse admitido como membro do conselho de segurança da ONU1. Por outro lado, russos e chineses continentais estabelece- ram relações amistosas, que irão resultar numa aliança no conflito da Coreia no ano seguinte. A Coreia havia sido parte do extinto Império Japonês e, ao fim da Segunda Guerra Mundial, foi dividida em duas zonas de ocupação: a do norte sob o exército soviético e a do sul pelo exército norte- americano. Com a retirada das tropas de ambas superpotências, estabeleceu-se a divisão do país, insta- lando-se uma nação capitalista ao sul e outra comunista ao norte. Imediatamente, começou uma guerra de guerrilhas no sul que visava instaurar ali um regime comunista. O governo sul-coreano era apoiado pelos EUA e deles recebia constante ajuda militar para debelar a guerrilha comunista. Em 1950, a Coreia do Norte municiada e aparelhada materialmente pelos russos, por meio dos chineses, invadiu a Coreia do Sul visando forçar a reunificação da península sob a égide comunista. A in- vasão obteve notável êxito e em breve quase toda Coreia do Sul era ocupada. Os EUA levaram a questão ao Conselho de Segurança da ONU onde, graças à ausência dos russos, conseguiram aprovar um man- dato para organizarem uma coalizão de países para ajudar a Coreia do Sul a resistir à invasão. Coube aos EUA fornecer a maior parte das tropas e armamentos usados no conflito. Lançando dois milhões de soldados na guerra e extensos efetivos navais e aéreos, empurraram de volta os corea- nos do norte, chegando quase que até a fronteira com a China. Quando já era iminente a ocupação total do território norte-coreano, os chineses entraram no conflito, empenhando extraoficialmente (“volun- tários”) milhões de soldados armados e equipados pelos russos. Isso tudo levou a um impasse. Em 1954, ambos os lados haviam sofrido dezenas de milhares de baixas e ocupavam posições quase idênticas à da fronteira anterior ao início do conflito. Finalmente, decide-se pela assinatura de um armistício que suspende as operações bélicas. No início dos anos 1960, já se relativizava o entendimento da bipolarização. Embora EUA e URSS continuassem a ser as únicas superpotências, importantes mudanças estavam acontecendo no interior dos respectivos blocos que chefiavam. Essas mudanças foram muito importantes no interior do mun- do comunista, embora conflitos significativos tenham ocorrido também dentro do bloco capitalista. 1 Organização multilateral, surgida ao final da Segunda Guerra Mundial, fundada pela coalizão dos países Aliados. 60 | Guerra Fria e bipolarização Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 61|Guerra Fria e bipolarização Ao final da guerra da Coreia, ocorre uma importante divisão do mundo comunista depois do rompi- mento da China com a União Soviética. A partir daí, ambos os países vão disputar entre si a hegemo- nia dentro do bloco comunista, dando início a uma intensa rivalidade. Essas tensões entre a China e a URSS serão intensificadas por problemas de fronteira. Os chineses tiveram sucessivos choques fronteiri- ços com a Índia, o Vietnã e a própria URSS. No último caso, os dois países quase chegaram à guerra em 1969. Nos outros, os russos ajudavam os oponentes dos chineses a fim de enfraquecê-los. Em qualquer cenário, as tensões entre as duas maiores potências comunistas ajudam a relativizar o entendimento da Guerra Fria como a confrontação de dois campos internamente isentos de conflitos e unificados no compartilhamento de valores comuns. No campo capitalista, as principais tensões deram-se entre os EUA e a França e, nem de longe fo- ram tão sérias como as que opunham chineses e russos. Um dos focos de tensão era a insistência da França em manter seu império colonial, numa conjuntura marcada pela etapa final do processo de des- colonização. Os EUA com seu arraigado liberalismo eram, por definição, hostis à manutenção dos anti- gos impérios coloniais, cujas áreas contavam abrir ao seu próprio comércio. Os EUA ofereceram algum apoio material aos franceses na tentativa de manterem o Vietnã, mas apenas porque o processo de in- dependência era liderado pelo Partido Comunista do Vietnã (Vietcong), apoio esse que militares fran- ceses criticavam como insuficiente. Também a França estremeceu a coesão do bloco capitalista quando se retirou temporariamente da Otan em 1966, e expulsou a sede da organização de Paris. Mais ainda, o projeto de criação de um arsenal nuclear independente, sem apelo à ajuda norte-americana, também foi um fator de disputa com os EUA, só superado algum tempo mais tarde. Finalmente, a ação militar franco-britânica contra o Egito em 1956, foi flagrantemente desautorizada pelos EUA, num caso extre- mo de discordância entre os aliados da Otan. A Guerra Fria, a descolonização e o Terceiro Mundo A Segunda Guerra Mundial abalou definitivamente os antigos impérios coloniais europeus, dan- do início a um extenso e definitivo processo de descolonização. Esse processo acabou por ser decisiva- mente influenciado pela Guerra Fria e, lógico, pela forma como cada antiga potência colonial encarava suas possessões. Além disso, a fundação da Organização da Nações Unidas, em 1944, extensivamente baseada no direito à autodeterminação dos povos, negava qualquer justificativa moral ou ética para a continuidade do colonialismo. No caso francês, as colônias mais importantes eram o Vietnã e a Argélia e pensavam que valia a pena lutar para mantê-las como tal. Para os britânicos, incapazes de pagar pelo custo em baixas huma- nas e dinheiro da maior parte do seu império, estavam mais do que dispostos a considerar a indepen- dência de quase todas suas colônias, desde que fosse tanto quanto possível preservar seus interesses anteriormente nelas estabelecidos. No caso da África e do Oriente Médio, essas considerações eram complicadas pela aparição do nacionalismo árabe, em boa medida uma reação à criação pela ONU do Estado judeu de Israel nos territórios da colônia britânica da Palestina em 1947. A reação à criação do Estado de Israel dos paí- ses árabes vizinhos foi a tentativa de destruir a nova nação, a qual resultou na guerra de 1948, venci- da por Israel. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br A insatisfação com o fraco desempenho das forças armadas egípcias contra Israel em 1948 foi um dos fatores que levaram a um golpe militar no Egito, em 1952. O golpe foi conduzido por Gamal Abdel Nasser que a partir daí desenvolve uma política pan-árabe, manifestada na fracassada tentativa de com- por uma República Árabe Unida (RAU) com a Síria em 1953, e nacionalista, que levou à encampação do canal de Suez em 1956, expropriando-se os antigos proprietários franceses e britânicos. A reação a essa nacionalização foi a Guerra do Sinai, de 1956, quando franceses, britânicos e israelenses se uniram mi- litarmente contra o Egito. Em pouco tempo, o canal foi reocupado pelos seus antigos donos, enquanto Israel ocupava o deserto do Sinai, até então parte do Egito. Contando com o apoio dos EUA e da URSS, a ONU vota uma resolução condenando a agressão e coagindo franceses, britânicos e israelenses a aban- donarem o território egípcio. Fortalece-se dessa forma a influência e o prestígio de Nasser que mesmo sendo derrotado militarmente conseguiu reverter as consequências da derrota diplomaticamente. As atitudes anti-imperialistas e pan-arabistas de Nasser o levaram a se comprometer com algum nível de apoio à revolta dos argelinos contra a ocupação francesa. Sabendo disso, os franceses acabam por apoiar o fortalecimento militar de Israel, instalando no país uma fábrica de aviõesmilitares. Por seu lado, a URSS apoiou o reequipamento militar do Egito e, mais tarde, concedeu empréstimos financeiros e assistência militar também para a Síria e o Iraque, num esforço de contrabalançar a influência dos pa- íses ocidentais na região. Muitos outros pontos de interseção dos conflitos da Guerra Fria e da descolonização ocorreram, na Ásia, na América Latina e na África. Como exemplos mais significativos têm-se o caso do Vietnã, de Cuba e de Angola. O Vietnã era uma colônia francesa até que uma bem-sucedida guerra de indepen- dência foi travada e vencida pelo Partido Comunista daquele país. Como condição para o reconhe- cimento da independência por parte da França, estabeleceu-se, em 1954, a divisão do país em duas partes, a do norte, dominada pelos comunistas e a do sul, onde vigia o regime capitalista. Dessa forma, pelo menos parte dos interesses econômicos dos franceses no Vietnã seria preservada, ao mesmo tem- po em que se abria uma área para receber os refugiados que se recusassem a viver sob o regime co- munista ao norte. A partir de 1961, os EUA começam a fornecer armas e assessoria militar ao Vietnã do Sul para capacitá-lo a combater a guerrilha comunista, financiada pelo norte. Em 1964, os EUA entram abertamente na guerra, enviando quantidades cada vez maiores de tropas e armas. Do outro lado, os Vietcongs eram apoiados pelos russos, dos quais recebiam armas, munições, aeronaves etc. A guerra só acabaria em 1975, depois do reconhecimento norte-americano de que a vitória americana era impossí- vel e o subsequente abandono do país, que é então reunificado sob a égide comunista. Em 1959, o imperialismo norte-americano sobre Cuba é encerrado com a derrubada do gover- no cubano alinhado com os EUA por uma guerra de guerrilhas liderada por Fidel Castro que, a par- tir do ano seguinte, implanta na ilha um regime comunista. A partir daí, a ilha será convertida num dos pontos focais da Guerra Fria, com a tentativa de invasão de Cuba por exilados residentes nos EUA com apoio norte-americano. A invasão fracassa e leva o regime de Fidel Castro a estreitar suas rela- ções com a URSS, como a única forma de garantir a independência da ilha. As negociações com os russos vão levar à instalação na ilha de mísseis capazes de atingir os EUA, detonando a famosa “Crise dos Mísseis” de 1961, a qual quase encerrou a Guerra Fria da pior forma ao levar as superpotências à beira da confrontação nuclear. Outro ponto exemplar de encontro das tensões inerentes à Guerra Fria e a descolonização é o de Angola. Em 1975, o país finalmente deixa de ser colônia de Portugal e imediatamente começa uma guerra civil opondo os grupos guerrilheiros que anteriormente haviam lutado pela independên- cia. Novamente, reaparece o confronto entre as superpotências, com o Movimento pela Libertação de 62 | Guerra Fria e bipolarização Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 63|Guerra Fria e bipolarização Angola (MPLA) sendo apoiado pela URSS e por Cuba, e a Unita (União pela Independência Total de Angola) financiado pelos EUA. Como reação à bipolaridade explícita da Guerra Fria é que surgiu o Movimento dos Países Não Alinhados, cuja origem foi a Conferência Ásia-África de Bandung, na Indonésia, em 1955. Nessa reunião, compareceram 29 países em desenvolvimento, todos igualmente interessados em não ceder às pres- sões das potências, mantendo a independência e resistindo ao neocolonialismo (das antigas potências coloniais) e ao neocolonialismo (das superpotências da Guerra Fria). Finalmente, em Belgrado, no ano de 1961, deu-se a Primeira Conferência dos Chefes de Estado e de Governo Não Alinhados, cujo foco foi justamente a corrida armamentista – agora de características nucleares – entre as grandes potências e suas implicações para os países em desenvolvimento. O fim da Guerra Fria O fim da Guerra Fria só ocorreria com o colapso de algum dos blocos em confronto. Tal fato veio a se verificar a partir de 1989, com a queda do regime comunista na Alemanha Oriental e a correspon- dente queda do Muro de Berlim. Com o colapso soviético ocorre, subsequentemente, a desintegração do Pacto de Varsóvia, o que se verifica em 1991. A partir daí, os EUA emergem como única superpotên- cia global e começam a pautar suas relações internacionais pela total falta de restrições e constrangi- mentos à sua ação que qualquer outro país pudesse fazer. Tal tendência ficou clara nas duas guerras do Golfo Pérsico, travadas por coalizões de países liderados pelos EUA. Na primeira, em 1991, com a desaparição da URSS sendo ainda um fenômeno recente e não de todo assimilado, os EUA se obrigaram a obter da ONU um mandato para agir contra Iraque sob o regi- me de Sadam Hussein, o que acaba ocorrendo. Já na segunda Guerra do Golfo (2003), os EUA agiram de forma unilateral e à revelia tanto da ONU quanto das convenções internacionais, sem qualquer receio de virem as suas ações a serem contestadas por qualquer outro poder nacional. De fato, desde então, os EUA e seus aliados na Otan mantêm aquele país, bem como o Afeganistão, sob permanente ocupação militar, totalmente à revelia das leis internacionais. Atividades 1. Interprete as origens da diferença no potencial econômico e tecnológico dos EUA e da URSS a partir dos eventos da Segunda Guerra Mundial. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 2. Examine a partir da experiência histórica cubana os impasses vividos pelos países do Terceiro Mundo em suas tentativas de se libertarem das diversas pressões imperialistas. 3. Compare os diferentes enfoques da diplomacia norte-americana atual para os casos de Cuba e Vietnã. Dica de estudo O fim da URSS e correspondente abertura dos arquivos do antigo regime comunista tornou dis- ponível enorme quantidade de informações inéditas sobre a Crise dos Mísseis de outubro de 1961, en- volvendo Cuba, EUA e URSS. Pesquise na internet informações que permitam reconstituir a sequência de eventos que tornaram pela primeira vez uma guerra nuclear não só possível como eminente. 64 | Guerra Fria e bipolarização Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a época contemporânea. São Paulo: Difel, 1977. DROZ, Bernard; ROWLEY, Anthony. História do Século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1988. v. 1. GARAMBONE, Sidney. A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GORENDER, J. Fim da URSS: origens e fracasso da perestroika. São Paulo: Moderna, 2005. HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna. 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Contudo, a neces- sidade de se prevenir ante um possível ataque alemão distorceu todo planejamento soviético, adiando o plano de se oferecer mais e melhores bens de consumo à população e obrigando à concentração cada vez maior de recursos e investimentos na indústria bélica, à medida que o ambiente internacional ia se tornado cada vez mais perigoso. Quando esse ataque finalmente se consuma em junho de 1941, a reo- rientação no sentido de se reforçar a produção de armas e munições é levada a extremos. O consumo privado é reduzido ao mínimo e quase todos os investimentos são destinados ao complexo industrial- -militar soviético. Tais investimentos foram ainda mais difíceis de se realizar devido à rápida ocupação de grande parte do território da Rússia europeia, onde residiam 40% da população e se localizava uma porção significativa do parque industrial soviético. Graças a um arrojado programa de realocação industrial, a maior parte das indústrias essenciais ao esforço de guerra foi retirado da zona que seria ocupada pelos alemães e transferido para fora dos li- mites da Rússia europeia, além dos Montes Urais. Antecipando-se a um possível ataque alemão e/ou ja- ponês, já havia sido destinada a essa região uma importante parcela dos investimentos industriais, em especial os grandes trustes da indústria metalúrgica e mecânica. Com a vinda das fábricas anteriormen- te instaladas na região agora ocupada pelos alemães, essa região industrial ganha uma importância ain- da maior, tendo a vantagem adicional de estar imune à interferência dos inimigos da URSS. Os resultados são aferidos no enorme aumento da produção de tanques, aviões, canhões, armas portáteis e munições. No segundo ano do conflito, a URSS já havia alcançado os níveis de produção bé- lica atingidos pelos alemães e, a partir daí, vai alargando cada vez mais a disparidade produtiva em seu favor. Um auxílio importante, mas de importância menor, foi prestado pelos Aliados ocidentais da URSS, Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br a Grã-Bretanha e os EUA. Juntos, enviaram para a URSS quantidades consideráveis de alimentos, maté- rias-primas, combustíveis, armas, veículos e munições, fazendo uma contribuição significativa para o es- forço bélico da URSS após fevereiro de 1943 (Batalha de Stalingrado). Estima-se que os embarques dos Aliados ocidentais desses produtos para a URSS tenha sido correspondente a 15% do total do potencial produtivo gerado pelos russos durante a guerra. Graças à enorme concentração de investimentos no setor industrial-militar, bem como ao fato de ter empenhado quase toda população no esforço de guerra, a URSS foi capaz de destruir as forças arma- das do III Reich de Adolf Hitler praticamente sozinha. Estima-se que das 550 divisões mobilizadas pela Alemanha e seus aliados na Segunda Guerra Mundial, nada menos de 500 foram destruídas na frente russa, sendo as 50 restantes colocadas fora de combate pelos norte-americanos, britânicos e outros. A vitória da URSS sobre a Alemanha nazista custou muito caro. Para começar as perdas humanas foram terríveis, sendo o povo russo o que mais sofreu com a guerra, sofrendo a perda de 22 milhões de seus cidadãos. Além disso, boa parte da infraestrutura produtiva da Rússia europeia foi completamente arrasada. Deve-se levar em conta que foram realizadas no território russo as maiores e mais importan- tes batalhas da Segunda Guerra Mundial, correspondendo à destruição de quase todas as suas cidades, rodovias, ferrovias, plantações e outras unidades produtivas. As limitações do planejamento centralizado e suas manifestações Terminada a guerra, a URSS sob o governo de Stalin retomou sua ênfase na indústria pesada e de bens de produção. O desafio posto pela Guerra Fria, a necessidade de alcançar a paridade em armamen- tos com os EUA – inclusive nucleares – e a manutenção de enormes forças armadas tornaram a adiar a desejada ênfase na produção de bens de consumo. Mais ainda, persistiam sem solução os problemas crônicos da agricultura. O desvio de recursos para a indústria e a insistência na coletivização da agricul- tura praticamente garantiram que o setor permanecesse com baixa produtividade. A esse respeito é ilustrativa a comparação com os EUA. Enquanto os Estados Unidos empregavam 3% da população eco- nomicamente ativa na agricultura, na URSS esse percentual passava de 30%. Enquanto nos EUA cada empregado na lavoura alimentava outros 65 cidadãos, na URSS esse índice mal chegava a oito cidadãos para cada agricultor. Não obstante, o planejamento centralizado ainda era capaz de lograr expressivos resultados. No imediato pós-guerra, a URSS continuou avançando economicamente, tornando-se um dos maiores pro- dutores de petróleo do mundo e o maior fabricante de aço. Somas consideráveis de recursos foram in- vestidos nas áreas de ciência e tecnologia, em especial no que se refere aos armamentos e ao programa espacial. Já no final dos anos 1940, a URSS estava fabricando seus primeiros aviões a jato (1947) e tam- bém havia explodido sua primeira bomba atômica (1949). Na década seguinte, ela iniciou a produção de foguetes intercontinentais que, tanto podiam transportar ogivas nucleares a milhares de quilôme- tros de distância, como também alcançar o espaço sideral. De fato, em 1959 a URSS se torna a primei- ra nação do mundo a lançar um satélite artificial, o Sputnik. Outros êxitos se seguiram na área espacial, com o lançamento do primeiro homem ao espaço (1961) e também da primeira mulher (1962). 66 | Socialismo: seus limites e possibilidades Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 67|Socialismo: seus limites e possibilidades Esses sucessos foram, a curto prazo, bastante impactantes e granjearam enorme prestígio para a causa socialista. Em médio prazo, contudo, havia tendência à queda da taxa de crescimento. Nos anos entre 1940 e 1960, a URSS cresceu a taxas médias de dois dígitos (10 ou 11%ao ano). No início dos anos 1970, essa taxa caiu para um dígito (5 ou 6%) e continuou caindo. Essa tendência ao declínio da taxa de crescimento tem várias causas, mas as mais importantes dizem respeito ao estágio de industrialização e às características da economia planejada. A maior parte dos observadores concorda que as elevadas taxas de crescimento econômico sovi- ético remontam à fase inicial da industrialização, quando estavam disponíveis reservas abundantes de mão de obra e recursos naturais. Dispondo de uma população numerosa e em rápido crescimento, não foi difícil para a URSS reunir e empregar vastos contingentes de mão de obra necessários para planeja- mento, produção e distribuição de bens e serviços. O enorme território da URSS (15% da superfície ter- restre do planeta) também facilitava a busca e obtenção de todo tipo de recursos naturais necessários ao crescimento econômico. Estavam disponíveis vários insumos desde madeira, passando pelas jazidas minerais – inclusive de materiais estratégicos, como os necessários ao programa nuclear – até o petró- leo e, devido à abundância, sua obtenção se fazia de forma rápida e barata. Contudo, à medida que iam sendo intensivamente explorados, tornavam-se escassos e os custos e dificuldades associadas à sua ob- tenção eram crescentes. Por outro lado, com a redução das taxas de crescimento demográfico, também os recursos humanos passaram de abundantes para escassos, impactando negativamente nas taxas de crescimento da economia. Para além dessas questões referentes a diferentes etapas da industrialização, a economia soviéti- ca também era dependente da forma pela qual se organizava o planejamento centralizado. Percebe-se que a criação de entidades voltadas especificamente para o planejamento econômico, realizado de for- ma militarizada, lograva realizações expressivas em se tratando da alocação de recursos e obtenção de resultados na fase inicial da industrialização. A coordenação de esforços, a atribuição de responsabilida- des, a imposição de metas a serem cumpridas pelos diferentes agentes econômicos eram questões que a burocracia do planejamento parecia resolver de forma satisfatória. Contudo, à medida em que a eco- nomia ia ficando mais sofisticada e complexa, o planejamento ia perdendo eficácia. Tal fato era especialmente perceptível na área de ciência e tecnologia. Nas sociedades capitalistas havia uma economia de mercado, na qual os produtores de bens com alto índice de tecnologia com- petiam entre si na busca por clientes. A concorrência no mercado é que levava esses produtores a pro- duzir cada vez mais, melhor e mais barato. Tendo renunciado à sociedade de mercado, cabia ao Estado soviético, através das suas instâncias de planejamento, promover e incrementar o desenvolvimento tec- nológico. Contudo, na inexistência de um mercado consumidor de bens com alto índice de tecnologia, o único “cliente” para esses produtos era o Estado sob a forma do complexo militar e espacial. De fato, eram as encomendas do programa espacial e das forças armadas que promoviam o avanço científico e tecnológico, mas seus estímulos nunca poderiam ser tão duráveis e permanentes, e nem lograr resulta- dos tão expressivos quanto aqueles que os países capitalistas vinham obtendo com base numa econo- mia de mercado. Eventos semelhantes eram verificados na agricultura. Recorrentemente as opções dos planejado- res eram de grande escala, prevendo a construção de grandes silos e armazéns, provendo transporte terrestre e fluvial para o escoamento da produção etc. Os agricultores, aos quais eram impostas cotas de produção, além de não terem estímulo financeiro para aumentar a produtividade também não ti- nham como interferir no processo decisório centralizado, no qual provavelmente fariam valer suas pre- tensões a práticas de armazenagem em pequena escala, modelos específicos de máquinas e tratores etc. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Enfim, toda uma série de decisões e ajustes em pequena escala que, numa sociedade de mercado esta- ria refletindo leis da oferta e da procura, tinham de ser tomadas de forma centralizada, pelos gestores da planificação econômica. A enorme – e geralmente intransponível – distância entre os produtores di- retos e os gestores do planejamento resultava na perda de produtividade e de oportunidades de avan- ço tecnológico. O planejamento centralizado não tinha, claro, apenas uma dimensão econômica. Mais do que isso, o planejamento se constituía no principal instrumento de poder político do Partido Comunista so- bre a sociedade soviética. Conceder maior liberdade de execução ou, no limite, permitir que as leis da oferta e da procura influenciassem as decisões dos produtores diretos, implicariam automaticamente no esvaziamento do poder decisório do Partido. O fato de todos os envolvidos na produção depende- rem do planejamento centralizado era o principal fator para garantir o monopólio do poder político do partido. Com o tempo, essa classe de burocratas e planejadores subordinados ao Partido acabou por se tornar a classe dominante na URSS e em seus países satélites. A vigilância sobre os cidadãos e a censu- ra às comunicações, inerentes ao regime de ditadura comunista, atrapalharam ainda mais a busca pela inovação e aperfeiçoamento tecnológicos. O simples intercâmbio de ideias entre cientistas e pesquisa- dores encontrava na URSS dificuldades quase insuperáveis para se realizar. Por exemplo, o uso do tele- fone era restringido pela escuta feita pelos órgãos de segurança do Estado e as máquinas copiadoras (“xerox”) estavam sob controle da polícia política (KGB). As reações do autoritarismo soviético A imposição de uma ditadura comunista não se fez sem reação. Com o tempo, milhões de cida- dãos soviéticos seriam encarcerados em campos de concentração, suspeitos de atividades considera- das pelo regime como “subversivas” ou “contrarrevolucionárias”. Na prática, jamais emergiu qualquer tipo de movimento de oposição ou contestação organizada que ameaçasse o monopólio do poder por parte do partido comunista. Dessa forma, na sua quase totalidade, os encarcerados pelo regime não se constituíam de fato em uma ameaça, mas foram considerados perigosos apenas e tão somen- te por manifestarem em algum grau sua discordância ou crítica ao regime. Tal é a essência do regime totalitário. Ele não se satisfaz em proibir e reprimir atividades suspeitas – ele enxerga no interior mes- mo da consciência do indivíduo o perigo para a sua dominação. Não basta agir conforme as expecta- tivas do poder. É necessário pensar – introjetando a doutrina comunista – de acordo com aquilo que é imposto pelo governo. Com o tempo foram construídos uma série de aparelhos repressivos do Estado, encarregados de vigiar e reprimir os indivíduos considerados suspeitos aos olhos do governo. Forças internas de segu- rança compartilhavam com as forças armadas a tarefa de monitorar a população e a produção cultu- ral e intelectual do país, reprimindo movimentos, produtos, obras e autores considerados “desviantes” em relação à doutrina oficial do partido. Além das penas de detenção (a mais comum era de dez anos de trabalhos forçados) elementos dissidentes também foram expulsos do país ou condenados ao exí- lio interno. Nessa última modalidade, tornavam-se inacessíveis aos que do estrangeiro com eles tenta- vam manter contato. 68 | Socialismo: seus limites e possibilidades Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 69|Socialismo: seus limites e possibilidades Além de internamente à URSS, por toda Europa comunista se fez necessária a repressão soviética. Greves de trabalhadores na Polônia e na Alemanha dos anos 1950 foram reprimidas com ajuda de tro- pas russas. Em 1956, uma enorme revolução popular eclodiu na Hungria,ameaçando findar ali o regime comunista. Novamente tropas russas foram chamadas a intervir, reprimindo a rebelião com máximo ri- gor, o que levou a milhares de mortes e dezenas de milhares de prisões. Finalmente, em maio de 1968, tropas russas invadem a Tchecoslováquia no intuito de barrar o processo de abertura política e econô- mica que estava em curso naquele país. A era da “estagnação” Além de índices cada vez menores de crescimento ao longo das décadas de 1970 e 1980, outras evidências de declínio econômico da URSS estavam se tornando cada vez mais visíveis para os observa- dores de fora do país. Para começar, devido à inexistência de estímulo para os indivíduos se dedicarem ao aperfeiçoamento do sistema, havia a tendência à queda da produtividade, na indústria e no campo. Não havendo uma economia de mercado, cabia ao Estado fixar os preços pelos quais os produtos e ser- viços deveriam ser vendidos e os salários que seriam pagos. Mais ainda, empresas e fazendas ineficien- tes continuavam funcionando, sustentados pelos repasses de recursos por parte do Estado. No intuito de conservar baixos os preços da cesta básica dos trabalhadores, boa parte dos bens que a compunham eram subsidiados com recursos públicos, sendo de fato vendidos a preços abaixo do custo para os con- sumidores. Isso levava a situações absurdas que afrontavam o funcionamento lógico da economia. Por exemplo, no início dos anos 1980, criadores de porcos estavam alimentando seus animais com pão, o qual era muito mais barato que as batatas. Isso se devia ao fato de que o pão tinha seu preço subsidia- do pelo Estado e as batatas não. Outro indicador do declínio econômico soviético era sua pauta de exportações. Ainda na déca- da de 1960, a maior parte das vendas ao estrangeiro consistia de produtos industrializados (máquinas, equipamentos, material de transporte, artigos de metal etc.) ao passo que nos anos 1980 mais da meta- de da pauta de exportações era composta por energia, isto é, petróleo e gás, muito valorizados depois dos choques do petróleo de 1973 e 19791. Finalmente, um outro indicador relevante era a transformação dos principais indicadores de bem- -estar social: queda na taxa de natalidade e crescimento na taxa de mortalidade. Enquanto entre os rus- sos o número de nascimentos mal dava para repor o efetivo populacional, entre as minorias étnicas que compunham a URSS esse índice era muitíssimo maior. Como os russos compunham a parte mais instru- ída e leal ao regime, o poder soviético encontrava dificuldades para conciliar as demandas de pessoal entre a economia civil e as forças armadas. Por outro lado, a queda na qualidade dos serviços médicos prestados pelo Estado, resultado da falta de investimentos no setor, levou a um aumento da mortalida- de precoce e a correspondente redução da expectativa de vida. Este último índice era particularmente preocupante porque historicamente isso fez da URSS a única nação industrializada do mundo onde se verificou queda na expectativa média de vida dos cidadãos. 1 Em 1973 ocorreu o primeiro choque do petróleo. O barril passou de, mais ou menos, quatro para 20 dólares. Em 1979, com o segundo cho- que do petróleo, o barril chegou a 40 dólares. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Para além desses problemas econômicos e sociais, também havia questões políticas associadas à decadência do regime soviético. Durante o prolongado período de rápido crescimento econômico era fácil para o regime político encontrar oportunidades para premiar a fidelidade e a obediência dos ci- dadãos. Inúmeras chances de ascensão social estavam disponíveis a todos que demonstrassem com- petência profissional e alinhamento ideológico ao regime. A expansão praticamente ininterrupta das unidades produtivas levava a uma demanda permanente por pessoal qualificado para gerência, admi- nistração e planejamento. Agricultores e operários podiam ascender à condição de administradores, ge- rentes e, o que seria o auge das suas carreiras, planejadores, de preferência nas instituições centrais de planejamento em Moscou. Nesse último estágio, os indivíduos já teriam também adentrado no núcleo da elite dirigente do partido comunista. Com a redução do crescimento econômico, essas possibilidades de ascensão social se reduziram drasticamente. No intuito de continuar a retribuir materialmente àqueles que se identificavam com o regime vigente em geral e o grupo político específico do Partido Comunista no poder, começou-se a fazer vista grossa para os casos de corrupção e ineficiência. Indivíduos ambiciosos, desde que estives- sem apoiando a facção no poder, tinham condições de amealhar fortunas consideráveis, por exemplo, desviando a produção que deveria ser entregue ao Estado para o mercado negro. Os que fracassassem ou fossem incompetentes podiam fugir às sanções estabelecidas mascarando, com a cumplicidade de aliados seus nos escalões superiores, o atingimento das suas metas. Tudo isso preservava e promovia indivíduos leais ao poder estabelecido, mas não ajudava em nada no que diz respeito ao crescimento econômico. Por outro lado, administradores e gestores das unidades produtivas, responsáveis por fa- zer a economia realmente funcionar, identificavam-se cada vez menos com as autoridades do plane- jamento, para as quais a fidelidade partidária acabava sendo mais importante do que a competência administrativa e econômica. Não por acaso, a corrupção e a ineficiência serão os principais problemas a serem enfrentados pela administração de caráter reformista que sobe ao poder na URSS em meados dos anos 1980. O fim do socialismo No início dos anos 1980, os sintomas de decadência, ineficiência e corrupção eram cada vez mais visíveis, pelo menos para os envolvidos com a administração pública na URSS. A população, por outro lado, embora mantida satisfeita com o grau ainda relativamente aceitável da qualidade dos serviços pú- blicos, não tinha como não sentir inveja dos habitantes do mundo capitalista, cada vez mais marcado pelo crescente acesso a uma variedade de bens de consumo de qualidade inexistente no mundo so- cialista. A tentativa de alcançar e superar a acumulação de armas realizada pelos EUA, baseada numa economia muito maior e mais produtiva do que a da URSS, também teve efeitos desastrosos. Os gastos militares se tornaram ainda mais difíceis de serem suportados pela economia soviética devido aos cus- tos da invasão do Afeganistão pela URSS em 1979. Enfim, aumentava cada vez mais a probabilidade de uma reorientação reformista por parte da elite dirigente da URSS. Essa reorientação finalmente será adotada em 1985 com a ascensão ao poder de Mikhail Gorbatchev. Caberá a ele lançar uma ampla campanha de transformação do socialismo, apelando tan- to à reestruturação política e econômica (perestroika) quanto se comprometendo com a maior transpa- rência dos atos do governo e ampliação da liberdade de informação (glasnost). O que se buscava era 70 | Socialismo: seus limites e possibilidades Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 71|Socialismo: seus limites e possibilidades introduzir um regime constitucional e democrático, eleito diretamente pelos cidadãos e pautado pelo respeito aos direitos civis, simultaneamente a algum retorno à economia de mercado. A despeito dessas reformas terem sido pensadas no sentido de se conservar e revitalizar a URSS, na prática, isso significou o fim do monopólio partidário dos comunistas e também a erosão dos mecanismos de planejamento econômico centralizado. Simultaneamente ao fim dos Planos Quinquenais e do planejamento centralizado, permitiu-se que as empresas estatais deficitárias fossem à falência e as rentáveis fossem passadas ao controle dos seus funcionários sob a forma de cooperativas. Pretendia-secom isso lograr maior eficiência econômica e democratizar a propriedade. Na prática, a súbita desaparição de tantas empresas estatais produziu a anarquia econômica e o cooperativismo pretendido degenerou no puro e simples açambarcamento da propriedade pública, tornada agora propriedade privada dos seus antigos gerentes e diretores. No fim da segunda metade dos anos 1980, a combinação da reestruturação política e econômica com a ampliação da liberdade de informação levou ao colapso da autoridade central na URSS. A partir daí começou uma busca desesperada de diferentes regiões, cidades e complexos produtivos pela so- brevivência, em boa medida baseado em acordos diretos entre os interessados. É importante notar que essa descentralização estrutural não era novidade, sempre havia existido na URSS. Para além do apare- lho central do partido comunista em Moscou, o qual impunha ao país as determinações do plano quin- quenal, havia toda uma rede de trocas e acordos paralelos, entre regiões e trustes que, na prática, era o que fazia o plano funcionar. Uma vez dadas as determinações e metas do plano, era permitida ampla autonomia aos encarregados de executá-lo, isto é, aos que tinham funções reais na produção, distribui- ção e consumo. Esses indivíduos é que faziam a economia se manter funcionando e, portanto, eram in- dispensáveis. Já a burocracia do Partido Comunista não tinha muitas outras funções além de impor o plano e manter as diversas partes da URSS unidas através da burocracia e das forças de segurança. Com o fim do monopólio partidário, eles e a própria URSS perderam toda razão de ser, como se viu nos even- tos do início dos anos 1990, nesse país e em todo antigo mundo comunista. Concluindo, a tentativa de se reformar a economia simultaneamente ao fim do poder político centralizado, longe de conservar, levou à precipitação do colapso final do socialismo na Europa. Em contraste, a liderança do Partido Comunista Chinês, ao se decidir por reformar a economia, jamais abriu mão do seu poder político centralizado, o que vem garantindo até o momento a preservação do regime comunista naquele país, a despeito do ininterrupto crescimento das relações de produção capitalistas. Atividades 1. Estabeleça o nexo entre as taxas de crescimento econômico e demográfico. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 2. É possível se falar nos “impérios” soviético e norte-americano? Por quê? 3. Tanto a URSS quanto a China Comunista aderiram a expressivos programas de modernização. Por que num caso isso levou ao fim do comunismo e no outro a sua estabilização? Dicas de estudo Assista e compare dois filmes sobre a repressão stalinista feitos em diferentes épocas: The Inner Circle, de Andrei Konchalovsky, USA, 1991, cor, 137 min., e Doutor Jivago, de David Lean, USA, 1965, cor, 200 min., tentando perceber se neles existe ou se manifesta o maniqueísmo inerente aos filmes norte- -americanos da época da Guerra Fria. 72 | Socialismo: seus limites e possibilidades Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. 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A institucionalização de um padrão permanente de intervenção – e não mais apenas transitório, como aquele da época das guerras mundiais – demandou a criação ou transforma- ção das instituições estatais numa amplitude e profundidade sem precedentes. Simultaneamente, as empresas e os sindicatos passavam por transformações igualmente importantes. Os poderes de “orga- nização” do mercado por parte dos trustes, cartéis e monopólios passaram para uma nova fase, pautada agora por uma atuação ainda mais intensa do capital financeiro. Os sindicatos finalmente foram reco- nhecidos como representantes jurídicos dos seus filiados e, em seu nome, firmavam acordos cujo cum- primento poderia ser garantido judicialmente. A ocorrência simultânea dessas transformações no Estado, nas empresas e nos sindicatos não foi nem rápida e nem isenta de problemas e, aparentemente só foi resolvida após a Segunda Guerra Mundial. Desde 1936, com a publicação do influente livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro por John Maynard Keynes, já se dispunha de uma formulação teórica para a adoção de políticas públi- cas contra a crise. Claro que a partir do ano seguinte à mundialização da crise, praticamente todos os países estavam experimentando, em algum grau, políticas para estimular a retomada da demanda, do consumo e da produção. Embora generalizada, a simples percepção de que algum novo padrão de in-tervenção do Estado sobre a economia deveria ser estabelecido não bastava, por si só, para lograr sua implementação. Para tanto, uma considerável soma de interesses estabelecidos na iniciativa privada – que seriam atingidos por um eventual aumento do poder do Estado ou dos sindicatos – teriam de se submeter às novas regras e, aparentemente, foi apenas com a eclosão da guerra que tal sujeição veio a Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br se verificar. Para além dos interesses estabelecidos, receosos de qualquer restrição aos direitos que de- tinham sobre suas propriedades, deve-se levar em conta também o papel desempenhado pela ideolo- gia liberal a qual, mesmo diante das evidências da crise de 1929, continuava a entender a intervenção do Estado na economia como uma afronta à lógica das leis de mercado. Por trás das origens da crise estava um enorme descompasso entre a produção, tornada cada vez maior pelos ganhos de produtividade, e o consumo, este cada vez mais restrito pelos baixos níveis sa- lariais e o desemprego em massa. Finalmente, havia se compreendido a lógica de Ford, segundo quem à produção de massa deveria corresponder um consumo de massa. Demandas históricas da classe ope- rária como descanso remunerado e salário mínimo deveriam se tornar – como também defendia Ford – universais, a fim de sustentar o nível de consumo que agora se fazia necessário. A tentativa pessoal de Ford no sentido de convencer seus pares, os industriais da era da produção em massa, a agir assim, foi infrutífera. Somente leis federais votadas pelo Congresso dos EUA a partir de 1932, já sob o impacto ma- nifesto da crise, é que deram ao Estado o poder de impor um salário mínimo e reconhecer aos sindica- tos o direito de representar seus filiados. Tais iniciativas encontram similares por todo mundo àquela época, como a lei promulgada na França limitando a jornada de trabalho a 40 horas semanais, ou mesmo no Brasil, com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1942. Mas foi a eclosão da Segunda Guerra Mundial que possibilitou ao Estado obter, como no conflito anterior, poderes praticamente ilimitados para regulamentar a econo- mia, fixar margens de lucro e salários, impor metas e prazos para produção e distribuição e até adminis- trar diretamente o processo produtivo. Simultaneamente, ao longo dos anos 1930 e 1940, sucessivos governos europeus vão adotan- do políticas inspiradas no programa da social-democracia. Essas políticas se caracterizavam pela uni- versalização de acesso dos cidadãos aos serviços públicos, numa base pública e gratuita. Entendia-se essas políticas tanto como uma etapa no caminho rumo ao socialismo, quanto condição indispensá- vel para o exercício da cidadania política. Ao garantir um mínimo de bem-estar social a todos, o Estado (welfare state) capacitava os indivíduos a agirem politicamente de forma livre, sem os constrangimentos típicos da dependência pessoal que é uma dimensão inerente aos indivíduos que padecem de insufici- ência crônica de recursos para sua própria manutenção. Serviços de educação, saúde, previdência so- cial, transporte coletivo etc. foram nacionalizados no todo ou em parte, tornando-se acessíveis a todos e caracterizando-se como uma forma de salário social, ou indireto, aos cidadãos. Ao mesmo tempo em que o Estado assumia, sob inspiração social-democrata, esses papéis distri- butivos, exercia também uma função vital para o bom funcionamento da economia, ao executar as polí- ticas anticíclicas, tal qual propostas por Keynes. Defendia Keynes que usando das políticas fiscal (através da fixação do nível dos impostos) e monetária (regulando o montante de papel-moeda em circulação) poderia o Estado evitar os piores extremos das variações dos ciclos de crescimento e recessão que se al- ternavam nas economias capitalistas. Um crescimento muito acelerado, o qual geralmente pressiona os índices de inflação, poderia ser contido com taxas de juros e impostos mais altos; inversamente, o cres- cimento insuficiente para a geração de empregos, poderia ser estimulado com taxas de juros e impos- tos mais baixos. O resultado final dessas transformações foi a constituição de uma espécie de pacto social entre o Estado, a empresa e o sindicato. Caberia ao Estado promover políticas que garantissem um crescimento estável e continuado, tanto através das políticas anticíclicas, quanto através da manutenção do Estado do bem-estar social e a correspondente distribuição de renda. Às empresas, caberia sustentar o inves- timento na produção em massa, gerando ao mesmo tempo empregos e mantendo a renda da classe 74 | Capitalismo: suas crises e superações Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 75|Capitalismo: suas crises e superações trabalhadora, como condição da sustentação do consumo de massa. Dos sindicatos, finalmente, era es- perado que renunciassem à ação revolucionária e, em troca da estabilidade no emprego de seus filiados e eventual participação nos ganhos de produtividade, sustentassem e elevassem a produção e a distri- buição de mercadorias em massa. O fordismo como projeto de sociedade O modelo de sociedade concebido por Ford previa abundância de bens de consumo, desde que estes pudessem ser produzidos em massa e, o que era igualmente importante, consumidos em massa. Embora jamais tenha perdido de vista a importância do mercado de exportação, Ford entendia que era o mercado interno que deveria ser o responsável por absorver o essencial do que era produzido em série. No limite, os operários deveriam ser capazes de comprar o que produziam, daí o interesse das fábricas em produzir o mais rápido e barato possível e garantir um mínimo de remuneração aos seus funcionários. A imposição do salário mínimo e do descanso remunerado enquanto política pública permitiu fi- nalmente a concretização desses ideais, embora deixasse diversos problemas ainda sem solução. Por exemplo: considerável esforço psicológico deveria ser exercido sobre os trabalhadores para que eles dedicassem seu tempo livre e renda disponível para destinar seu dinheiro para o consumo dos bens produzidos em massa, e não para serem dissipados em estabelecimentos de prestação de serviços tra- dicionalmente associados à cultura operária como o bar, o cassino ou o prostíbulo. Quando essas objeções puderam ser superadas, finalmente se logrou um tipo de sociedade de con- sumo de massa, cuja característica mais notável no que diz respeito à estética é o caráter dominante do modernismo. A busca por produtos mais baratos, que pudessem ser fabricados mais rapidamente, acabou por impor uma extrema simplificação e padronização, características centrais da estética modernista. No que dizia respeito ao ramo de atividade de Ford, isso levou durante anos à fabricação de um mesmo tipo de automóvel, simples, despojado e “standarizado”, isto é, fabricado sempre da mesma forma, com pouca ou nenhuma consideração pelo gosto do consumidor. A invariabilidade da forma e aparência dos produ- tos fabricados em massa chegava ao extremo de não se prever cores diferentes. O próprio Ford teria dito que o consumidor poderia comprar carros da cor que quisesse, desde que fosse preta. De forma equivalente, essa estética foi aplicada a cidades em processo acelerado de expansão (ou reconstrução, como foi no caso da Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial) resultando na ar- quitetura e no urbanismo modernos. Imposições relacionadas com o déficit habitacional demandavam a produção, o mais rápido e barato possível, de grande número de unidades habitacionais. Essas, geral- mente destinadas a um público de baixa renda, acabavam por assumir todas a mesma forma. Fachadas simples, sem símbolos ou elementos de decoração, prédios feitos exclusivamente com ângulos retos, extrema economiana execução dos interiores, simplicidade de produção etc. levaram à construção re- lâmpago de conjuntos habitacionais, numa base de produção totalmente fordista. Juntamente com essa arquitetura surgiu um urbanismo modernista, o qual visava simplificar ao máximo a gestão dos problemas urbanos, dos quais um dos mais urgentes era oferecer soluções para a circulação dos automóveis particulares – logicamente já então produzidos também em massa. Surgem aí os projetos urbanísticos dominados por numerosas e enormes pistas expressas, destinadas a absorver o fluxo crescente de veículos automotores, em detrimento dos espaços e vias destinados aos pedestres. A necessidade de garantir o fluxo do processo produtivo levou à criação de espaços especializados em Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br determinadas funções urbanas. Ganha novo fôlego o zoneamento funcional, segundo o qual para cada região da cidade haverá usos possíveis, permitidos ou proibidos. As cidades foram a partir daí divididas em zonas residenciais, industriais, comerciais e administrativas que tanto revelavam quanto impunham uma vocação potencial de cada uma delas. As tensões e contradições do fordismo e do welfare state Os esforços combinados do fordismo, do keynesianismo e do welfare state foram em boa medida responsáveis pelo mais longo e sustentado período de crescimento da história do capitalismo. De fato, entre 1945 e 1975, os países avançados do mundo ocidental viveram tamanha fase de prosperidade e bem-estar que muitos se referem a esse período como “os 30 anos gloriosos”. Contudo, várias tendên- cias conspiravam para abalar os fundamentos do pacto social fordista, fazendo com que por volta do final desse período, as mesmas tensões, conflitos e contradições que ele combatia, retornassem com in- tensidade ainda maior. Os problemas começaram quando voltou a se manifestar a queda da demanda, explicitada na saturação dos mercados internos das nações mais desenvolvidas. Dez anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o esforço de reconstrução da Europa estava encerrado, como também já estava con- cluído o abastecimento dos mercados internos daqueles países da maior parte dos bens de consumo duráveis, como automóveis, aparelhos de TV etc. Consequentemente, para essas nações, entre as quais também devemos incluir o Japão, já recuperado do conflito, a busca de mercados externos para ab- sorver seus excedentes tinha de começar imediatamente. À medida que mais e mais produtores riva- lizavam entre si no mercado mundial, ia caindo o preço de seus produtos e, consequentemente, sua margem de lucro. O problema foi agravado pela industrialização de uma série de países periféricos na América Latina e na Ásia. No mínimo, isso ajudou a derrubar a demanda pelos produtos industrializados numa base fordista de produção. No limite, levou ao surgimento de novos rivais no mercado mundial, para toda uma série de produtos, como foi o caso da Coreia, Brasil etc. Com a demanda cada vez menor, os lucros também diminuíam cada vez mais, levando o Estado a reduzir progressivamente o volume de arrecadação de impostos. Com menos recursos arrecadados, começaram a surgir dificuldades para manter as políticas anticíclicas e o próprio Estado do bem-estar social. Uma tentativa por parte do Estado de superar tanto a queda da demanda interna quanto a redu- ção no volume de impostos arrecadados foi a colocação de mais papel-moeda em circulação. A fabri- cação de mais dinheiro permitia ao Estado aumentar seu consumo da produção interna (por exemplo, com o Programa Espacial norte-americano, a Guerra do Vietnã, a “guerra contra a pobreza” etc.) e com- pensar o declínio na arrecadação de impostos, mas ao custo de provocar uma inflação de preços cada vez maior. Como resposta a essas questões, um número substancial de empresas dos países desenvolvidos começou a transferir seu processo produtivo para países da periferia, onde inexistia ou era pouco res- peitado o pacto fordista. De fato, as filiais das empresas multinacionais preferiam instalar unidades em países como Brasil e Filipinas porque ali os níveis salariais eram muito mais baixos, livrando-se dessa for- ma dos onerosos acordos coletivos de trabalho firmado com os sindicatos no país-sede. Reforçavam dessa maneira a tendência à queda de lucros nos seus países de origem, pela concorrência que lhes fa- ziam a partir das nações em processo de industrialização. 76 | Capitalismo: suas crises e superações Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 77|Capitalismo: suas crises e superações Tudo isso levou os países centrais do capitalismo a índices de crescimento cada vez menores, dé- ficit público crescente, inflação em alta, enfim, todos fatores de declínio da eficácia do pacto social for- dista em garantir a estabilidade e crescimento econômico. Por volta de 1965, esses problemas já estarão se manifestando de forma incontornável, compondo uma crise geral do sistema diante da impossibi- lidade de serem revistos os compromissos assumidos com os sindicatos (através da manutenção dos empregos relativamente privilegiados do fordismo), e com a sociedade civil (manutenção das políticas redistributivas do Estado de bem-estar social) o que levará a uma onda de greves operárias, protestos estudantis e populares que se tornarão típicos do fim dos anos 1960. Os excluídos do sistema e suas manifestações O fordismo e o keynesianismo foram capazes de promover uma expansão fenomenal do merca- do de bens de consumo. Ao longo da sua vigência, crescentes massas populares se tornaram capazes de consumir as mercadorias produzidas em massa. Automóveis, eletrodomésticos, vestuário, calçados etc. se tornaram, enfim, bens de uso corrente para a maior parte da população. Em geral, os acordos entre as grandes empresas monopolistas e os sindicatos de trabalhadores nunca abarcaram uma maioria dos membros da classe operária, ou dos candidatos a ela pertencerem. De fato, a maior parte dos filiados aos sindicatos era composta de membros masculinos e de cor branca. Em princípio, mulheres e negros não eram aceitos como filiados aos sindicatos de forma que o trabalho relativamente privilegiado, o qual previa estabilidade no emprego e participação nos ganhos de produ- tividade, resultado do pacto social fordista, atingia uma minoria de trabalhadores. Isso explica a força que ganhou na década de 1960, nos EUA, o Movimento Feminista e o Movimento dos Direitos Civis dos negros. Ao longo da década, esses dois setores excluídos do pacto social fordis- ta vão sucessivamente promover greves, passeatas e manifestações de massa, nas quais eram reivindi- cados o mesmo tratamento e nível salarial de que já gozavam os integrantes dos grandes sindicatos. No caso dos negros, também os direitos políticos eram reivindicados, uma vez que em vários estados da federação norte-americana eles não dispunham dos mesmos direitos de uso do espaço e dos servi- ços públicos que os outros cidadãos. De fato, em particular nos estados do sul, restaurantes, lanchone- tes, banheiros, ônibus e cinemas eram rigidamente segregados, estabelecendo-se direitos de uso desses equipamentos em função da cor da pele do usuário (se branco ou “não branco”). Adicionalmente, o fato das juntas eleitorais serem manipuladas pelos interessados na segregação racial, significava que apenas uma minoria de negros conseguia se alistar como eleitor. Então, também a busca do direito do voto en- tre os negros aparecia como manifestação da exclusão deles do pacto social vigente. Finalmente, a rejeição ao fordismo enquanto padronização tanto estética quanto do estilo de vida, também se verificou na segunda metade dos anos 1960. Estilos alternativos de vida, em boa medi- da baseados em orientações religiosas não ocidentais, recusavamo consumismo e/ou a padronização dos bens de consumo, pregando um estilo de vida frugal, distante das implicações nocivas ao meio am- biente e à saúde individual. O caso mais visível que exemplifica essas reações contrárias às imposições estéticas do fordismo certamente foi o movimento hippie. Para os hippies, as formas de se vestir, calçar e cortar (ou não) os cabelos deveriam ser entendidas como resultado de opções derivadas da liberda- de de escolha pessoal, ser afirmação da individualidade de cada um, e não resultado de padrões aceitos como “normais”, “socialmente aceitáveis” ou, pior ainda, de imposições da “última moda”. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br O declínio e crise do fordismo e do keynesianismo No início dos anos 1970, os países desenvolvidos viviam a assim chamada “estagflação”: uma com- binação de índices de crescimento cada vez menores com taxas crescentes de inflação. Sucessivas ten- tativas foram feitas, e isso por governos de diversas inclinações ideológicas, no sentido de se conter a crise. Por um lado, tentava-se reduzir os benefícios trabalhistas a fim de diminuir custos e aumentar a lu- cratividade das empresas, base da arrecadação da maior parte dos impostos. Por outro, buscava-se uma redução do gasto social, a fim de conter o déficit público, reduzir a emissão de papel-moeda e baixar a inflação. Nenhuma dessas políticas deixou de enfrentar intensos e geralmente bem-sucedidos protes- tos trabalhistas e populares. Da parte das empresas, às voltas com a concorrência cada vez maior de produtores por todo mun- do em desenvolvimento, outro objetivo era mudar o foco da produção em massa voltada para atender um público homogêneo e indiferenciado para uma produção de escopo, destinada a atender nichos específicos de mercado que ainda não estivessem saturados. Isso implicava em menos compromissos com investimentos caros e de longo tempo de maturação, como até então era norma na produção em massa vigente no fordismo. Também as empresas buscavam cada vez mais se evadir dos comprometi- mentos com os acordos coletivos de trabalho que haviam firmado com os grandes sindicatos. Para tan- to, apelavam para a terceirização e subcontratação e, eventualmente, para a mão de obra empregada de maneira informal, a qual não era reconhecida pelo pacto social fordista. Enquanto a economia crescia – embora cada vez menos – e o Estado podia bancar amplamente a seguridade social no qual o seguro-desemprego ocupava lugar essencial, a correlação de forças favo- receu os movimentos trabalhistas e populares na manutenção do essencial das políticas do Estado do bem-estar social e do próprio pacto social fordista. Será necessária uma recessão em escala mundial, como aquela detonada pelo Choque do Petróleo, em 1973, o qual encareceu substancialmente o preço do produto, para inverter essa correlação. A partir da disseminação da crise por todo mundo, assiste-se à explosão do desemprego, tornada para muitos permanente, o que enfraquece de forma decisiva o po- der da classe operária. Será somente num quadro de recessão econômica que os patrões conseguirão, através do recurso ao crescente exército industrial de reserva, impor seus termos aos trabalhadores e le- var a uma revisão dos compromissos que haviam assumido na origem do pacto social fordista. Atividades 1. Estabeleça a relação entre as políticas fiscal e monetária e o nível de crescimento econômico. 78 | Capitalismo: suas crises e superações Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 79|Capitalismo: suas crises e superações 2. Pesquise e compare as diferentes trajetórias das indústrias de automóveis Ford (EUA) e Rolls Royce (GB). 3. Interprete a relação entre a taxa de crescimento econômico e o poder de barganha da classe operária. Dica de estudo No Brasil do início dos anos 1990, no decorrer de uma intensa e sem precedentes transformação nos processos produtivos decorrentes da abertura do mercado interno à concorrência estrangeira, reto- mou-se a ideia de um pacto social envolvendo os sindicatos, as empresas e o Estado. Estabeleça um pa- ralelo entre essa experiência histórica e o fordismo-keynesianismo a partir da leitura do seguinte texto: Câmaras Setoriais: histórico e acordos firmados – 1991/95, de Patrícia Anderson. Editora IPEA, 1999. Disponível em: <www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_ obra=4293>. Acesso em: 24 maio 2007. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 80 | Capitalismo: suas crises e superações Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a época contemporânea. São Paulo: Difel, 1977. DROZ, Bernard; ROWLEY, Anthony. História do Século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1988. v. 1. GARAMBONE, Sidney. A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GORENDER, J. 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O mercado mundial de petróleo era dominado quase que totalmente por sete grandes empresas multinacionais (as “Sete Irmãs”), as quais se esforçavam em manter o mais baixo possível o preço do barril de petróleo. Agindo assim, realizavam seus lucros não numa margem alta entre custo e preço de venda, mas sim no enorme volume de produ- tos vendidos. Dessa forma, estimulavam a demanda pelos derivados de petróleo, ao mesmo tempo em que levantavam uma intransponível barreira de entrada nesse ramo de atividade, impedindo que ou- tras empresas viessem com elas disputar os clientes. Em 1973, eclode a Guerra do Yom Kippur, opondo Israel ao Egito e Síria. O objetivo desses países árabes era retomar as terras perdidas para Israel na Guerra dos Seis Dias, ocorrida em 1967. Em repre- sália ao apoio dos países ocidentais a Israel, os produtores árabes reunidos na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) decidem pela brusca e substancial majoração dos preços do barril de petróleo. Rapidamente, os preços do barril são quadruplicados e, logo em seguida, novamente quadru- plicados, levando ao encarecimento da principal matriz energética dos países ocidentais, em especial no que se refere aos transportes. Diversas consequências advieram desse choque do petróleo (oil schok). Em primeiro lugar, levou à necessidade dos países industrializados reduzirem a importação de petróleo, uma vez que eram inca- pazes de manter o consumo nos níveis anteriores à luz do preço, agora muito maior, do produto. Essa redução acabou por levar também a restrições na produção e no consumo de todos os outros insumos Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br necessários à economia. Também fez com que as empresas cortassem custos de produção, a fim de ge- rar mais recursos para importar o petróleo. Tudo isso, somado à existência precedente de taxas cada vez menores de crescimento econômico, levou à instauração de uma recessão em escala mundial, já em 1975. A eclosão dessa recessão levou a restringir ainda mais o consumo de petróleo e derivados, bem como deu início a uma série de iniciativas visando substituir o uso de combustíveis fósseis e colocar em operação fontes alternativas de energia. Ao mesmo tempo em que o mundo capitalista entrava em recessão, os países produtores de pe- tróleo se enriqueciam – inclusive a URSS, que usa dos recursos obtidos com a exportação de petróleo para pagar pelas suas crescentes importações de produtos agrícolas. O súbito enriquecimento das na- ções exportadoras de petróleo teve outra consequência importante: carreou somas fantásticas de recur- sos (“petrodólares”) sob a forma de depósitos para os bancos de países desenvolvidos. Ocorre então o assim chamado “excesso de liquidez” dos bancos internacionais, ou seja, um enorme volume de recursos que os bancos terão dificuldade de aplicar de forma rentável, do seu interesse e dos seus correntistas. Com a economia mundial entrando em recessão, puxada pela queda da atividade produtiva nos países mais desenvolvidos, parecia não haver interessados na captação dos enormes recursos deposi- tados nos grandes bancos internacionais. Contudo, não foi o que acabou acontecendo. Uma série de países em desenvolvimento, enfrentando dificuldades para manter o ritmo de crescimento das suas economias, resolveu tomar emprestado esses petrodólares, a taxas de juros que naquela época eram re- almente baixas. Foi enorme e vultoso o processo de endividamento de países da América Latina (Brasil, México, Argentina etc.) e da Europa Oriental (Polônia, Hungria etc.). Esse processo foi estimulado pela atitude dos bancos que, cobrando juros muito baixos e sendo extremamente condescendentes – para dizer o mínimo – na análise dos pedidos dos empréstimos liberaram vastas somas que irão ampliar substancialmente o nível de endividamento desses países. Finalmente, o enorme volume adicional de recursos oriundos do petróleo depositados no sistema financeiro internacional deu nova dimensão e importância a esse ramo de atividade. Com base nas recentes tecnologias de informação (satélites, telex etc.) novas e mais lucrativas formas de especulação financeira foram buscadas ou criadas, formando um novo e gigantesco mercado mundial de aplicações financeiras, cuja importância desde então só vem aumentando com o passar do tempo. A nova sociedade capitalista: a “acumulação flexível” A prolongada recessão que se abateu sobre o mundo capitalista a partir do choque do petróleo teve importantes consequências para o pacto social implícito nas práticas fordistas e keynesianas. As oportunidades para se cortar custos de produção, aumentar a produtividade e lucratividade das em- presas capitalistas e, consequentemente, de se rever as concessões feitas à classe operária dentro do fordismo-keynesianismo foram decisivamente ampliadas pela instauração e permanência da recessão econômica. Dispondo de um exército industrial de reserva cada vez maior e, coagidos pela concorrência crescente, os patrões levaram a cabo todo um esforço de cortes de salários e benefícios anteriormente concedidos aos trabalhadores, ao mesmo tempo em que realizavam novas e profundas modificações nos processos e métodos de produção. Um objetivo importante a ser atingido dizia respeito ao combate ao que era considerado a ex- cessiva “rigidez” dos compromissos assumidos pelos patrões na vigência do fordismo-keynesianismo. 82 | Neoliberalismo, globalização e mundialização do capital no final do século XX Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 83|Neoliberalismo, globalização e mundialização do capital no final do século XX A produção em massa, demandando extensas linhas de produção e volumosos estoques de matérias- -primas, requeria investimentos consideráveis e de longo prazo de resgate para realizar lucros. Numa época marcada pela saturação dos mercados, tais lucros se tornavam cada vez menos prováveis de serem obtidos. Ao mesmo tempo, os contratos coletivos que previam estabilidade no emprego e o repasse de parte dos ganhos de produtividade deixavam os produtores de países desenvolvidos em desvantagem face à concorrência movida pelos novos países em processo de industrialização, onde tais acordos inexistiam ou eram desrespeitados. A possibilidade de se dispensar mão de obra e/ou reduzir salários em tempos de lucros declinantes era outra meta a ser atingida. Dessa forma, a “flexiblização” dos processos produtivos e dos contratos de trabalho ganham enor- me impulso nessa época, levando à uma considerável transformação em relação às práticas fordistas- -keynesianas até então vigentes. Novas tecnologias de transporte e comunicação, simultaneamente a uma integração cada vez maior do mercado mundial, levou ao progressivo abandono da produção em massa tal qual praticada e ao desenvolvimento da produção “enxuta” (lean production) ou “flexível”. Surge o conceito da produção just in time, ou seja, na hora mesma em que surgem as encomendas. A possibilidade de se terceirizar a contratação da produção de componentes ou mesmo todo o processo de montagem de produtos dispensava a construção de dispendiosas linhas de montagem, cujo retor- no financeiro era demorado e incerto. Ao mesmo tempo, diminuía-se a necessidade de manutenção de grandes estoques de matérias-primas ou componentes já prontos, levando a uma maior margem de lu- cro e a uma certeza maior da sua realização. Finalmente, aadoção do controle de qualidade em todas as etapas do processo produtivo – em vez de apenas na sua etapa final – permitia um controle maior sobre a mão de obra, redução dos desperdícios durante a fabricação e dos e prejuízos derivados da devolução de mercadorias defeituosas já vendidas. Tudo isso levou a enormes transformações nas relações de trabalho. Foram drasticamente redu- zidas as oportunidades de obtenção de emprego estável e bem remunerado, os quais se restringiam apenas ao pessoal absolutamente indispensável às empresas. Todos os demais cargos foram terceiriza- dos, numa base de subcontratação de mão de obra, nem sempre feita dentro do que previa a legisla- ção. Também se verificou uma enorme expansão dos empregos temporários, de tempo parcial, os quais contavam com poucos ou nenhum dos antigos direitos trabalhistas. O “Estado mínimo” Ao mesmo tempo em que o processo produtivo e o mundo do trabalho passavam por um inten- sa flexibilização, cresciam as pressões por parte dos empresários para o abandono das políticas relativas ao Estado do bem-estar social e em prol da privatização das empresas de propriedade pública. Com o abandono – ou, caso não fosse possível, redução – dos gastos públicos com as políticas sociais visava- -se viabilizar a redução dos impostos. De fato, quanto mais amplas as políticas sociais, maior seria a car- ga tributária. Com a redução dos gastos públicos desejava-se reduzir os impostos e abrir novas oportunidades de investimento, uma vez que a privatização dos serviços e empresas públicas abriria novos mercados a serem explorados na área da saúde, previdência social, educação etc. O mesmo se contava fazer com as empresas estatais, operando numa base monopolista toda uma série de setores produtivos (transpor- tes, comunicações etc.) que se esperava pudessem ser privatizadas. Dessa forma, novas oportunidades de lucro surgiriam, ao mesmo tempo em que se reduziriam os impostos. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Essas tendências seguiam em boa medida a proposta da doutrina liberal que pregava uma drásti- ca redução do tamanho do Estado, entendido como excessivo além de responsável, através da cobran- ça de impostos elevados, pela perda de competitividade da economia nacional. Os liberais – também denominados nessa fase de neoliberais – defendiam que o Estado deveria se ocupar no máximo de al- gumas poucas funções consideradas típicas do Poder Público, como a defesa externa, relações interna- cionais, justiça, segurança etc. deixando que todas outras atividades fossem realizadas pela atividade privada, com base nas leis de mercado. Dessa forma, alegavam que seria possível se lograr a redução dos impostos e a melhoria dos serviços públicos, os quais atenderiam ao consumidor numa base con- correncial, na qual prevaleceriam as leis da oferta e da procura. Tal era o projeto do “Estado mínimo” que de um ponto de vista teórico deu sustentação tanto a uma substancial redução do Estado do bem-estar social, quanto ao prolongado processo de privatiza- ção de empresas estatais. Esse processo foi intenso tanto nos países centrais quanto periféricos do capi- talismo. Simultaneamente, defendia-se o abandono das políticas anticíclicas1 desenvolvidas pelo Poder Público e um maior respeito pelas leis de mercado, entendidas com as únicas capazes de impor a busca permanente do aperfeiçoamento do processo produtivo e a manutenção da competitividade da eco- nomia nacional. Na prática, mesmo com a emergência de sucessivos governos de inspiração neoliberal tanto na Europa (a partir de Margareth Thatcher na Grã-Bretanha) quanto nos EUA (Reagan-Bush), o Estado con- tinuou sendo um agente de regulação da economia indispensável. Apesar de duramente criticados, os métodos keynesianistas jamais foram totalmente abandonados, sendo o investimento público – inclusi- ve os que provocam o déficit das contas públicas e/ou inflação – uma forma estratégica de se sustentar o crescimento econômico. Mais ainda, em que pese a fé dos liberais nas leis de mercado, a intervenção do Estado foi fundamental para se manter a estabilidade econômica, mesmo em setores tidos como concorrenciais e muito competitivos, como os bancos. De fato, em vista do vultoso e pouco seguro vo- lume de endividamento de países e empresas, o Estado teve que intervir sucessiva e agressivamente no mercado financeiro, a fim de conter ou minimizar crises potencialmente ruinosas para o conjunto da economia. Finalmente, a resistência dos movimentos populares e de trabalhadores conseguiu impedir que as políticas do Estado do bem-estar social desaparecessem e, em alguns casos nacionais, que se- quer fossem reduzidas de forma substancial. O neoliberalismo e suas bases sociais e culturais de apoio A doutrina neoliberal jamais teria tido tamanha aceitação se ela tivesse inspirado práticas que be- neficiassem apenas os empresários. Embora esses tenham de fato aumentado seu poder sobre a classe operária e logrado realizar maiores margens de lucro, percebe-se que, pelo menos nos países desen- volvidos, diversos outros setores sociais se beneficiaram, em algum grau, da redução do tamanho do Estado e da flexibilização dos processos produtivos e das relações de trabalho. A redução de impostos, derivada do abandono de várias políticas públicas e/ou da privatização de empresas estatais ineficientes e deficitárias, e a simultânea redução da inflação permitiu que uma soma maior de recursos permanecesse em mãos dos cidadãos e das empresas, obtendo alguns efeitos positivos na ampliação do consumo e, consequentemente, da produção e do emprego. A flexibilização 1 Uso das políticas fiscal (através da fixação do nível dos impostos) e monetária (regulando o montante de papel-moeda em circulação) para o Estado evitar os piores extremos das variações dos ciclos de crescimento e recessão que se alternavam nas economias capitalistas. 84 | Neoliberalismo, globalização e mundialização do capital no final do século XX Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 85|Neoliberalismo, globalização e mundialização do capital no final do século XX dos processos produtivos, por outro lado, ampliou enormemente o mercado de contratação de indiví- duos e empresas terceirizadas. Desse grupo é que saíram os assim chamados “novos emergentes”, isto é, pessoas que de fato se beneficiaram com o declínio dos métodos fordistas e, em função disso, conse- guiram ampliar suas oportunidades de geração de renda. A eles se unem toda uma série de indivíduos que ingressaram nos inéditos ramos de negócios propiciados pela adoção de novas tecnologias de co- municação e produção. Outro fenômeno estreitamente ligado a essa tendência é a disseminação da ideologia do empre- endedorismo, isto é, o conjunto de valores e símbolos associados à busca do êxito não mais a partir de um emprego ou carreira estável, mas pela criação de um negócio próprio. Os indivíduos que obtiveram êxito em seu próprio negócio são naturalmente receptivos à retórica liberal. Para eles, a regulamentação da economia por parte dos poderes públicos não só é dispensável, mas também geradora de ineficiên- cias e distorções. Sendo eles próprios dependentes da pessoa jurídica em que consistem suas empre- sas, não admitem nem nutrem simpatia por quaisquer outras formas de regulamentação dos negócios do que aquelas que contratantes e contratados estabelecem entre si. O fim do socialismo, o desenvolvimento das comunicações e a era da globalização Entre 1989 e 1992 chegaram ao fim os regimes socialistas na antiga URSS e por toda Europa Central e Oriental. Desde então, essas vastas áreas e suas substanciais populações passaram a integrar o mercado mundial, em bases propriamente capitalistas. Ao mesmo tempo, a China – embora ainda sob domíniopolítico indisputável do Partido Comunista – deu início a uma série de reformas econômicas que, na prática, abriram o país para o investimento do capital privado estrangeiro e a criação de uma economia de mercado em larga escala. Simultaneamente, o desenvolvimento e a disseminação de novas tecnologias de comunicação e transporte permitiam o acesso seguro e rápido dos investidores a qualquer um dos mercados nacionais. A expressão mais visível do processo foi a disseminação da telefonia (fixa e móvel) baseada em trans- missão por satélites e a rede mundial de computadores (internet) as quais propiciaram aos usuários um nível de intensidade e facilidade de acesso às informações sem precedentes na história. Além disso, a hegemonia cultural dos EUA sobre o resto do mundo ajudou a reforçar o uso do termo, uma vez que as- sociava a globalização à adoção “espontânea” por parte do mundo dos valores e símbolos típicos do ca- pitalismo norte-americano, como a ênfase no consumismo, a glorificação do êxito pessoal etc. Dessa forma, praticamente todas as áreas economicamente produtivas do planeta ficaram abertas ao investimento e exploração econômica com base nas relações capitalistas de produção, viabilizadas pelas novas tecnologias de comunicação. Com todo globo aberto ao capitalismo ou subordinado a ele, fosse econômica, fosse culturalmente, fazia sentido se falar em “globalização”, palavra que entrou de forma permanente no vocabulário político e econômico do final do século XX. Para além do modismo associado à palavra, deve-se levar em conta a componente ideológica do termo. Globalização remete a um processo de integração em escala global que, historicamente, começou no século XV com as grandes navegações e só pôde ser concluído inteiramente com o colapso das relações socialistas de produção. É de se notar que o termo em si não tem nenhuma conotação política ou econômica explícita Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br e tampouco remete às contradições inerentes ao capitalismo e nem aos conflitos que essa integração tem provocado. Daí a aceitação do termo e recorrência com que é usado, em especial por indivíduos e empresas que se beneficiam da era da globalização. Atividades 1. Analise o impacto que as oscilações do preço do petróleo exercem sobre a história da economia mundial, passada e atual. 2. Estabeleça uma comparação entre as concepções de diferentes governos – social-democrata e neoliberal – no que se refere ao Estado. 3. Discuta a originalidade do termo globalização para se referir à conjuntura do fim do século XX. Dicas de estudo Nas transformações do papel social da empresa, suas relações com a comunidade e com a classe operária, os gerentes e diretores tiveram um papel fundamental. Recomenda-se fortemente a leitura de duas obras sobre o tema que se constituem em referências fundamentais sobre esses agentes históri- cos. O livro de Anthony Sampson, O Homem da Companhia, e a obra de Michael Useem, The Inner Circle. Ao fim dessas leituras, o estudante poderá entender, por meio de casos de pequena quanto de larga es- cala, de que forma tais agentes moldaram a época da globalização. 86 | Neoliberalismo, globalização e mundialização do capital no final do século XX Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a época contemporânea. São Paulo: Difel, 1977. DROZ, Bernard; ROWLEY, Anthony. História do Século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1988. v. 1. GARAMBONE, Sidney. A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GORENDER, J. Fim da URSS: origens e fracasso da perestroika. São Paulo: Moderna, 2005. HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1995. HOBSBAWN, Eric. A Era dos Impérios: 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. _____. A Era dos Extremos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. IANNI, O. Capitalismo, Violência e Terrorismo. São Paulo: Civilização Brasileira, 2004. KEEGAN, John. História Ilustrada da Primeira Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências. Rio de Janeiro: Campus, 1989. KEYNES, John M. Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro. São Paulo: Abril Cultural, 1983. Coleção Economistas. MACNEAL, Robert. As Instituições da Rússia de Stalin. In: HOBSBAWN, Eric. J. História do Marxismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. Disponível em: <www.vermelho.org.br/img/ obras/manifesto_comunista.asp>. Acesso em: 21 maio 2007. MAYER, Arno. A Força da Tradição: a persistência do antigo regime. São Paulo: Cia. das Letras, 1987. MESQUITA, Julio de. A Guerra (1914-1918). São Paulo: O Estado de S. Paulo: Terceiro Nome, 2002. MORAES, Reginaldo. Estado, Desenvolvimento e Globalização. Franca: Unesp, 2007. MORUS, T. Utopia. Disponível em: <http://dominiopublico.gov.br>. Acesso em: 21 maio 2007. OLIVA, Alberto. Anarquismo e Conhecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. PRZEWORSKI, Adam. Capitalismo e Social-Democracia. São Paulo: Cia. das Letras, 1989. SAMPSON, A. O Homem da Companhia. São Paulo: Cia. das Letras, 1996. SANDRONI, P. Dicionário de Economia do Século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2005. SENNET, R. A Cultura do Novo Capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. SEVCENKO, Nicolau. A Corrida para o Século XXI. São Paulo: Cia. das Letras, 2001. SZTERLING, Silvia. A Formação de Israel e a Questão Palestina. São Paulo: Ática, 2004. THOMPSON, Edward Paul. A Formação da Classe Operária Inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 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A ideia central era que, aterrorizando-se os opositores do novo regime e seus simpatizantes, seria possível a salvação do processo revolucionário ameaçado tan- to internamente (por uma contrarrevolução de base rural) quanto externamente (pela invasão das ou- tras potências europeias). O vínculo com o desencadeamento do terror com fins políticos é particularmente notável nos ex- tremos do espectro político ao longo do século XX: esquerda e direita. Indivíduos identificados com o comunismo ou anarquismo sistematicamente apelaram para atos de terror, como assassinatos e aten- tados, no intuito de desestabilizar e desmoralizar a ordem burguesa. Os violentos golpes de Estado, ge- ralmente sob autoridade militar, que ocorreram por toda América Latina, por exemplo, também são exemplos de uso do terror para intimidação dos críticos e opositores do regime político vigente. Outra conjuntura onde o termo é empregado é a da Segunda Guerra Mundial. A campanha de bombardeioaéreo indiscriminado e de larga escala movida pelos anglo-americanos tanto contra ci- dades alemãs quanto japonesas se assumia como terrorista. O objetivo declarado era, através da des- truição das edificações e da propagação do pânico, “desalojar” a população civil e, aterrorizando-a, destruir-lhe a vontade de continuar com a guerra. A aplicação dessa tática resultou em mais de um mi- lhão de vítimas e milhões de desabrigados. Em tempos mais recentes, o termo tem sido usado para designar os atos atribuídos não mais a governos ou nações, mas a organizações empenhadas em recriar esse tipo de terror no intuito de alte- Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br rar a ordem estabelecida, seja interna (como o IRA, o ETA, o Exército Simbionês de Libertação, Facção do Exército Vermelho, Brigadas Vermelhas etc.) seja externamente (como a OLP, Al Qaeda etc.). Enfim, em qualquer cenário percebe-se que terrorismo designa o desencadeamento do terror com fins políticos, tanto por parte dos indivíduos, quanto organizações ou Estados Nacionais. A questão palestina e o terrorismo A forma como foi criado um Estado judeu na Palestina, em 1947, foi responsável pela instauração de um conflito que, decorridos já tantos anos, não só se apresenta como sem solução, como também é o principal foco das tensões internacionais. Os antecedentes da criação do Estado de Israel remontam ao final do século XIX, com a aparição de um movimento que lutava pela instauração de uma nação para os judeus, considerados na maior parte do mundo como apátridas. Reivindicando o retorno dos judeus ao seu lar ancestral de onde teriam sido expulsos há cerca de dois mil anos, o Movimento Sionista defen- dia a criação do Estado de Israel na Palestina. A Palestina se tornou parte do Império Britânico em 1918. Pouco antes, em 1917, através da Declaração Balfour, a Grã-Bretanha se comprometeu com a criação de um “lar nacional” para o povo judeu na Palestina. Pretendendo apressar a criação dessa nova unidade nacional, o Movimento Sionista promovia a entrada de colonos judeus na Palestina. Foi criada então uma Organização Sionista Mundial. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, sob o impacto da revelação ao mundo do genocídio dos judeus duran- te o regime nazista, aumentam as pressões para que seja criado um lar nacional para os judeus ali. Simultaneamente à entrada maciça de imigrantes judeus, principalmente oriundos da Europa anterior- mente ocupada pelos nazistas, eram promovidos atos de terrorismo contra as autoridades britânicas e as populações rurais de origem árabe. As organizações responsáveis por tais atos denominavam-se Irgun e Stern. Eram compostas de extremistas sionistas que visavam tanto precipitar o encerramento da administração britânica quanto provocar o êxodo dos palestinos de origem árabe. Mais ainda, ficou fa- moso o atentado de terroristas judeus que matou o comissário da ONU para os refugiados palestinos, o sueco Folke Bernardotte, em 1948. A subsequente Guerra de Independência de Israel ampliou ainda mais os recursos às ações ter- roristas, inclusive porque as organizações Irgun e Stern foram incorporadas ao novo Exército Nacional Israelense. Subsequentemente, a partir da recolonização da Palestina por imigrantes judeus, foram es- tes que passaram à condição de vítimas do terrorismo, através do lançamento de disparos de foguetes e morteiros dos países árabes vizinhos, além de emboscadas nas estradas rurais, por parte das organi- zações terroristas de origem palestina. A mais antiga organização terrorista árabe é a Al Fatah, criada em 1959, e que visava, a nada menos, do que a destruição do Estado de Israel e subsequente formação de um Estado Palestino. Em 1964, foi criada a OLP (Organização pela Libertação da Palestina) que, em 1969, passou a ser dirigida pelo líder da Al Fatah, Yasser Arafat. A unificação dessas organizações não alterou em nada a disposição de se apelar ao terrorismo como estratégia política visando forçar a criação de uma nação Palestina. Em tempos mais recentes, diversas organizações de origem árabe também foram criadas para atingir com atos de terror alvos em Israel, seus aliados ou países árabes com quem mantém relações di- plomáticas: Egito, EUA, Arábia Saudita. Elas conheceram novo impulso a partir da invasão soviética do 88 | Terrorismo, guerras e conflitos Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 89|Terrorismo, guerras e conflitos Afeganistão em 1979. Organizações como o Talebã e a Al Qaeda surgiram e se expandiram através do recrutamento e treinamento de indivíduos para lutar contra a ocupação russa, em boa medida apoiados por recursos materiais e financeiros dos EUA. Com o fim da ocupação soviética, parte significativa dos membros dessas organizações continuou a se empenhar em atos terroristas, mas dessa vez diretamen- te ligados à causa Palestina. A frequência e intensidade desses atos foi tamanha que hoje em dia quan- do se menciona terrorismo imediatamente nos vêm à cabeça a imagem do terrorista árabe. Essa atitude, embora compreensível, não nos pode fazer perder de vista que atualmente não apenas outras organi- zações, mas Estados Nacionais também planejam e executam atos de terrorismo. As guerras árabe-israelenses Em 1947, as investidas dos grupos terroristas judeus e as correspondentes medidas por parte dos árabes levou a uma escalada dos conflitos na região. Nesse ano, a ONU operou uma partilha da Palestina que a partir daí ficou dividida em duas áreas: a judaica e a palestina. A partir da retirada britânica realiza- da em 1948, é oficialmente proclamado o Estado de Israel, o que imediatamente provoca uma resposta dos árabes, que recusam reconhecer a nova entidade política. Em seguida, forças combinadas de países árabes entre os quais se contavam a Síria, Iraque, Jordânia, Egito e Líbano atacam o Estado de Israel. O conflito se estendeu até janeiro de 1949 e, ao seu término, o Estado de Israel tinha duplicado seu território. Entre as terras recentemente ocupadas se des- tacam a Cisjordânia e a faixa de Gaza, originalmente destinadas ao Estado Palestino. A consequência mais importante desse conflito foi o êxodo da população palestina que, a partir daí, na sua maior parte se exilou nos países árabes limítrofes. Essa é a origem da assim chamada “Questão Palestina”, ou seja, a luta desse povo por um território e um Estado autônomos. O conflito seguinte eclodiu em 1956 e foi motivado pelas disputas de fronteira legadas pela guer- ra de 1947 e pela nacionalização do Canal de Suez por meio do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser. O resultado foi uma invasão combinada do Egito por efetivos franceses, britânicos e israelenses, resul- tando na derrota militar dos egípcios. Houve, contudo, um importante sucesso diplomático. Graças às pressões soviética e norte-americana, chegou-se a um acordo que reconhecia a nacionalização do ca- nal, ao mesmo tempo em que era garantido nele o direito de livre navegação. Em 1967 eclode novo conflito e, em função da sua rápida duração, se tornou conhecido como a Guerra dos Seis Dias. Dessa vez, uma coligação formada por Egito, Síria e Jordânia ameaçava atacar Israel. Contudo, os israelenses se anteciparam e atacaram primeiro, obtendo notável vitória militar. Dessa vez, Israel anexou para si a totalidade da cidade internacional de Jerusalém, ocupou toda Cisjordânia, bem como a Península do Sinai, toda a faixa de Gaza e as colinas de Golan, até então território sírio, quadru- plicando o território israelense original. Novo e importante impulso foi dado ao êxodo palestino que, uma vez mais, significou a realocação forçada de milhares de pessoas nos países árabes vizinhos. Sucessivas resoluções da ONU exigiam que Israel procedesse à devolução dos territórios ilegal- mente ocupadosem 1967, o que nunca ocorreu. Em 1973 eclode a assim chamada Guerra do Yom Kippur por ser esse o dia em que os judeus comemoravam o Dia do Perdão (ou Yom Kippur) opondo Egito e Síria à Israel. Apesar da vantagem inicial dos atacantes árabes, o conflito logo chegou a um im- passe, em especial devido ao apoio material e diplomático dos EUA a Israel. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Foi somente em 1979 que ocorreu alguma aproximação entre Egito e Israel, com os acordos de Camp David. Pela primeira vez um país árabe assinava um acordo com o Estado de Israel. Não se chegou, contudo, ao restabelecimento original das fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias como insistia a ONU. Embora Israel tenha devolvido parte das colinas de Golan à Síria e o deserto do Sinai ao Egito, continuou a assentar ilegalmente colonos na Cisjordânia e na faixa de Gaza, para não mencionar o anúncio de que a cidade internacional de Jerusalém passaria à condição de capital exclusiva do Estado de Israel, situação que se mantém até hoje. Aos palestinos que ficaram vivendo sob ocupação israelense restou uma dura rotina diária. Viviam como não cidadãos e recorrentemente seus bens e propriedades eram expropriados ou destruídos pe- las tropas de ocupação israelenses. Em 1987 estourou a revolta palestina da Intifada nos territórios ocu- pados, duramente reprimida por Israel, inclusive com largo recurso a atos terroristas pelos israelenses, como a demolição de casas de suspeitos de abrigarem militantes palestinos. Em 1993, pelos acordos fir- mados em Oslo, Israel e OLP finalmente se reconheceram diplomaticamente. Foi estabelecido um pla- no para a retirada de tropas israelenses das áreas ocupadas e sua subsequente transferência a uma nova Autoridade Nacional Palestina. Esse começo promissor foi perturbado pela questão das colônias judai- cas ilegalmente instaladas nos territórios ocupados, sobre as quais não havia consenso na sua retirada entre as elites israelenses. Em 2000, tem início uma segunda Intifada após a visita considerada ultrajan- te do primeiro-ministro de Israel à Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém ocupada. A revolta se tornou ainda maior dois dias depois quando dezenas de palestinos indefesos foram mortos pelos israelenses na mesquita de Al Aqsa. Desde então, o processo de paz no Oriente Médio encontra-se estagnado. O atual terrorismo ára- be se volta tanto para o Estado de Israel quanto para os EUA, uma vez que a política norte-americana é de apoio permamente e incondicional ao Estado judeu. Para piorar o cenário, em diferentes ocasiões os israelenses e sírios invadiram e ocuparam o Líbano. Nesse caso, o foco do conflito era o grupo terrorista islâmico Hezbollah, apoiado por sírios e iranianos que, do sul do Líbano onde se concentravam milha- res de refugiados palestinos, desfechava ataques à Israel. Os israelenses atacavam e ocupavam frequen- te e prolongadamente o sul do país para criar uma zona de segurança contra ataques terroristas; a Síria para apoiar e manter o Hezbollah. Os grupos terroristas nos países do Primeiro Mundo Também nos países avançados da Europa, no Japão e nos EUA emergiram ao longo do sécu- lo XX diversos grupos e organizações terroristas. Suas motivações divergiam conforme cada caso nacional. O Exército Republicano Irlandês, IRA (Irish Republican Army), e o Grupo Separatista Basco Pátria Basca e Liberdade, conhecido como ETA (Euzkadi Ta Askatasuna), por exemplo, lutavam pela constituição de uma nação autônoma. No caso do IRA, apelou-se a atos terroristas contra as autori- dades britânicas, visando abalar ou encerrar a manutenção da Irlanda do Sul enquanto colônia da Grã-Bretanha. Ao fim do processo imaginava-se que toda ilha da Irlanda seria uma nação unificada e independente. De forma semelhante, o ETA lutava pela autonomia, e mesmo pela separação, de sua província do resto da Espanha. Também grupos radicais de esquerda mantiveram até tempos recentes fortes compromissos com o uso do terrorismo no interesse de preparar ou iniciar uma revolução socialista. Nos EUA, ganharam 90 | Terrorismo, guerras e conflitos Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 91|Terrorismo, guerras e conflitos notoriedade o Exército Simbionês de Libertação (Symbionese Liberation Army) e o grupo Wheatherman (Metereologista), ambos de orientação marxista e que protagonizaram sequestros e atentados contra membros das grandes corporações monopolistas e às próprias instituições. Na Europa atuava de forma similar na Alemanha, a Facção do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion) também conhecido como Baader-Meinhof Group (ou Gang), na Itália as Brigadas Vermelhas, entre outros. Finalmente, um terceiro leque de motivações para atuação de grupos terroristas nos países de Primeiro Mundo, diz respeito às relações internacionais. A Revolução Fundamentalista Islâmica desen- cadeada no Irã em 1979 deu, sob diversas formas, novo impulso aos grupos terroristas árabes. A não so- lução da Questão Palestina acabou por se somar à ascensão do prestígio do fundamentalismo islâmico e o surgimento em larga escala de grupos islâmicos que lutavam contra a ocupação soviética para gerar uma onda de atentados terroristas contra Israel e os EUA, que se mantém desde então. Desses grupos os mais notórios foram a OLP, de Yasser Arafat, e a Al Qaeda, de Osama Bin Laden. As guerras no Iraque e Afeganistão As relações internacionais do final do século XX foram abaladas pela frequência com que eclo- diam guerras no Oriente Médio. A partir de 1979, aos já muito frequentes conflitos entre árabes e ju- deus, somaram-se as guerras relacionadas ao Iraque, que envolveram o Irã e os EUA. Desde então, a região continua a ser o principal foco das tensões internacionais, devido à prolongada e aparentemen- te interminável ocupação militar norte-americana daquele país. O fim da estabilidade na região está associado tanto à Questão Palestina, que se arrasta desde 1948, quanto à Revolução Fundamentalista Islâmica de 1979. Em 1980, eclode a guerra Irã-Iraque com a invasão iraquiana do Irã. As motivações para o início da guerra se prendem tanto a questões de fron- teira não resolvidas, quanto à aspiração do governo de Saddam Hussein a se converter em potência he- gemônica na região. A despeito de um sucesso inicial, os iraquianos logo sofreram sucessivas perdas, ameaçando inclusive virem a ser derrotados. Temendo que o Irã vencesse a guerra, monopolizasse os fornecimentos de petróleo no Golfo Pérsico e ameaçasse a estabilidade dos países árabes aliados dos EUA na região, os norte-americanos começaram a apoiar o Iraque. Nem mesmo o uso por parte dos ira- quianos de armas químicas ilegais, tanto na linha de frente como também contra as populações de cur- dos rurais no interior do país, abalaram o apoio dos EUA a Saddam Hussein. O conflito acabou somente em 1988, depois da perda de dezenas de milhares de vidas de ambos os lados, com um cessar-fogo no qual ambos os lados mantinham suas posições do início do conflito. O prolongado, custoso e infrutífero conflito com o Irã provocou uma crise no governo de Saddam Hussein. Visando tanto recuperar internamente seu prestígio quanto minorar suas dificuldades finan- ceiras, o governo de Saddam promove em agosto de 1990 a invasão do vizinho Kuwait. Alarmados com a pretensão de Saddam de açambarcar tamanha fatia dos fornecimentos mundiais de petróleo, os EUA gestionam junto aos seus aliados e à ONU a imposição de sanções econômicas contra o Iraque e a ob- tenção de um mandato para forçar a desocupação do Kuwait. Em janeiro de 1991 tem início as opera- ções militares da coalizão chefiada pelos EUA contra o Iraque que, decorridas algumas horas, abandona completamente o país invadido, perdendo no processo a maior parte dos recursos materiaise huma- nos empregados na ocupação. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Para precipitar o fim do regime de Saddam, os EUA conclamam a minoria curda a se insurgir con- tra o governo. Contudo, os EUA não levam até o fim seu propósito de destruição do regime de Saddam, por perceber sua utilidade na contenção da minoria xiita dentro do Iraque, tradicionais aliados dos fun- damentalistas islâmicos. A preservação do governo de Saddam e de um número limitado de efetivos e armamentos por parte de suas tropas foi mais do que suficiente para o esmagamento da rebelião curda, originalmente insuflada pelos EUA. O resultado foi a fuga em massa dos curdos para a vizinha Turquia que, tanto se converteu num enorme drama humano quanto perturbou significativamente as relações dos EUA com aquele país. Após os célebres atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA, tem início a “guerra contra o terror” desencadeada pela administração norte-americana. Os alvos foram países acusados de man- ter e de apoiar as organizações terroristas consideradas responsáveis pelos ataques: o Afeganistão e o Iraque. Em 2002, os EUA, chefiando uma coligação de países aliados, invadiu o Afeganistão a pretexto de destruir as bases de treinamento da Al Qaeda e o governo fundamentalista islâmico do Talebã, que governava o país. A partir disso, o Afeganistão foi ocupado pela ação militar estrangeira, e de forma completamente ilegal, nos termos das leis internacionais vigentes. No ano seguinte também o Iraque foi invadido, e o governo de Saddam derrubado. Ele e vários dos seus auxiliares mais próximos foram executados. Dessa vez, o pretexto era a presença e o apoio que o governo de Saddam estaria dando às organizações terroristas no Iraque, bem como a posse de armas proibidas de destruição em massa. Apesar de nenhuma das acusações jamais ter sido comprovada, e dos EUA não terem obtido qualquer aval da ONU para a invasão, o país foi invadido e ocupado. Desde o início da ocupação militar, o Iraque enfrenta a realidade de um contínuo enfrentamento armado entre os grupos islâmicos rivais, e também destes contra as tropas de ocupação norte-americanas. Tem-se pois, a superposição de uma guerra civil a uma guerra de libertação nacional, cujo custo em vidas humanas alcança centenas de milhares de civis iraquianos e milhares de militares norte-americanos mortos. O contraste que se pode fazer entre as duas guerras do Golfo Pérsico – 1991 e 2003 – está na for- ma como os EUA encaminharam a questão no âmbito das relações internacionais. Na primeira Guerra do Golfo ainda era recente o colapso da URSS e a Guerra Fria tinha terminado há pouco tempo. Dessa forma, os EUA ainda achavam arriscado agir de forma unilateral e providenciaram não só uma ampla co- alizão de aliados para se apoiarem militar e diplomaticamente, como também se esmeraram em seguir a lei internacional, obtendo da ONU a necessária legitimidade para desencadear a guerra. Já na segunda Guerra do Golfo e a precedente invasão do Afeganistão encontra-se consolidada a posição dos EUA como única superpotência mundial e, nessa nova conjuntura, podem os norte-ame- ricanos agir sem restrições ou constrangimentos, impondo ao mundo sem risco de reação das demais nações as suas decisões na esfera internacional. Acredita-se que por um bom tempo essa situação irá se manter, o que em nada irá contribuir para a estabilidade das relações internacionais e a manutenção da paz. Somente a emergência de uma nação ou conjunto de nações com poder militar e econômico comparável ao dos EUA seria capaz de limitar as ações unilaterais dos norte-americanos. Nesse caso, o mais provável é que esse contrapeso venha a ser exercido pela China, Índia ou ambas. Igualmente não se pode descartar o reerguimento da Rússia, o que recolocaria a contenção mútua das maiores super- potências mundiais em termos muito próximos àqueles da Guerra Fria. 92 | Terrorismo, guerras e conflitos Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 93|Terrorismo, guerras e conflitos Atividades 1. O fato de os EUA serem a única superpotência mundial permite-lhes agir de forma unilateral. Comente a importância do fim da Guerra Fria para o surgimento dessa situação, com referência às duas guerras do Golfo Pérsico. 2. A questão Palestina é até o momento o principal foco das tensões internacionais. Interprete o pa- pel dos EUA com relação à questão sob a óptica de diferentes governos (Carter, Bush etc.). 3. De que forma o terrorismo pode ser entendido e como se manifesta? Dica de estudo A distinção entre “terrorismo” e “guerrilha” é sempre sujeita a critérios subjetivos, resultado da apropriação com fins políticos e propagandísticos que diferentes grupos fazem desses termos. No caso brasileiro, a reação armada à Ditadura Militar (1964-1985) é classificada pelos seus defensores como “guerrilha” e pelos seus críticos como “terrorismo”. Examine e valide – ou não – as alegações de que as ações armadas de esquerda no Brasil entre 1967 e 1975 se constituem em “terrorismo” a partir das infor- mações contidas no site “Terrorismo nunca mais”, disponível em: <www.ternuma.com.br/>. Acesso em: 28 maio 2007. Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 94 | Terrorismo, guerras e conflitos Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a época contemporânea. São Paulo: Difel, 1977. DROZ, Bernard; ROWLEY, Anthony. História do Século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1988. v. 1. GARAMBONE, Sidney. A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Mauad, 2003. GORENDER, J. Fim da URSS: origens e fracasso da perestroika. São Paulo: Moderna, 2005. HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1995. HOBSBAWN, Eric. A Era dos Impérios: 1875-1914. 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Em flagrante oposição a estes, havia os grupos e movimentos identificados com a esquer- da que se inspiravam no ideal socialista de organização social. Tratavam-se de defensores da economia coletivizada, críticos ou mesmo inimigos da propriedade privada, defensores das virtudes da organiza- ção popular e da ação coletiva, e viam no Estado e suas políticas públicas instrumentos adequados, tan- to para a implantação do socialismo quanto para a promoção da plena cidadania para o conjunto dos indivíduos. Obviamente, os modelos de organização social a que ambos os grupos se remetiam como exemplos e inspiração eram as duas superpotências da época da Guerra Fria: os EUA para a direita e a URSS para a esquerda. Com o fim da Guerra Fria, a esquerda perde sua principal referência. Embora outras nações e go- vernos possam se constituir em exemplo e inspiração, nenhum deles possui a força e a capacidade de persuasão dos países do “socialismo real” como a antiga URSS e os países do Leste Europeu. A dissemi- nação das relações de produção capitalista por todo mundo, inclusive na China ainda politicamente sob o jugo do Partido Comunista Chinês, também reforça a ideia de superação do uso de termos como esquerda e direita. Temos um cenário onde o confronto histórico entre “esquerda” e “direita” teria che- gado ao fim, com a demonstração “irrefutável” da superioridade do modelo capitalista de organização social em relação ao seu rival socialista. A inexistência de qualquer movimento ou partido político dedi- cado à construção do socialismo que tenha importância e relevância reforça essa interpretação. A hege- monia do modelo capitalista na sua versão democrática é tamanha que seus críticos defendem o ponto Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br de vista de que isso se dá não em função de uma inequívoca superioridade sobre o modelo socialista, mas devido ao domínio que os seus defensores exercem sobre os meios de comunicação de massa e, portanto, da capacidade de anular ou minimizar as manifestações mais disfuncionais do capitalismo, apresentando-o como única opção de organização social. Tal seria a ideia subjacente à situação ora vi- vida, que os críticos da nova ordem globalizada chamam de “pensamento único”. Independente do maior ou menor grau de acerto sobre as origens da hegemonia do modelo capitalista de organização social, o fato é que o debate político não é mais dominado pelos temas da reforma ou revolução do sistema vigente. Consequentemente, na presunção de que não existem alter- nativas ao capitalismo, verifica-se um considerável esvaziamento do debate político. Num cenário onde há ausência de discussões sobre qualquer forma de reorientação radical do modelo vigente, resta à clas- se política meramente o papel de atendimento às demandas materiais do eleitorado. Inexistindo qual- quer perspectiva de mudança social radical em médio e longo prazo, o debate político se restringe ao atendimento de demandas localizadas, de grupos e indivíduos, no curto prazo. Dessa forma, inexistindo diferenças ideológicas ou programáticas que sejam nítidas entre parti- dos e movimentos políticos, fica difícil ao eleitor distinguir institucionalmente entre os que disputam as eleições, restando como forma de decisão para o voto apenas e tão somente o personalismo de cada candidato. Enfim, tudo se passa como se os valores e métodos da sociedade de mercado também pau- tassem a luta e o debate políticos. O eleitor se vê reduzido à condição de consumidor de determinado serviço, isto é, a representação eleitoral, da mesma forma que ele consumisse qualquer outro bem de consumo ou serviço. Tem-se aí um cenário que é descrito adequadamente como sendo o da “despoliti- zação” da política ou, como preferem alguns, o fim da política. Os EUA como única superpotência Ao colapso da URSS e ao fim da confrontação entre as superpotências que marcou a Guerra Fria correspondeu a uma considerável liberdade de movimentos na área das relações internacionais por parte dos EUA. A partir de 1991, os EUA passaram a agir praticamente sem constrangimentos nas suas relações internacionais, atuando tanto de forma aberta e de acordo com as instituições multilaterais, quanto de forma velada ou secreta e ignorando os fóruns e as leis internacionais de resolução de con- flitos. Por exemplo, na recente tentativa de uma contenção ou suspensão do programa nuclear levado a cabo pelo Irã, os EUA têm agido diplomaticamente, acionando apoios na União Europeia e na Rússia, encaminhando através do Conselho de Segurança da ONU um programa de sanções que leve o Irã a reconsiderar suas opções no campo da energia. Por outro lado, no que se refere ao governo de Hugo Chávez, na Venezuela, os EUA não hesitaram em apelar para a subversão e o terrorismo, ao patroci- narem uma tentativa de golpe de Estado que deveria levar à deposição e execução do presidente ve- nezuelano. A despeito dos fortes indícios de envolvimento da embaixada dos EUA no caso, nenhuma sanção ou censura chegou a ser feita à Casa Branca por conta desse episódio. O paradoxo da situação é que, em que pese o fato de os EUA serem incontestavelmente a úni- ca superpotência mundial, seus gastos militares continuaram sendo muitíssimo elevados, e isso sob quaisquer padrões. No auge da Guerra Fria, na qual a contenção da URSS aparecia como uma questão de vida ou morte, os EUA gastavam um bilhão de dólares por semana com seu complexo industrial-mi- litar. Desde o início do século, os gastos são da ordem de um bilhão de dólares por dia, e continuaram 96 | Economia e sociedade no século XXI Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 97|Economia e sociedade no século XXI aumentando. O financiamento das recentes guerras que resultaram na ocupação permanente do Iraque e do Afeganistão prometem elevar ainda mais esses gastos que, desde o início do século, beiram os dois bilhões de dólares por dia. Tudo isso redundou na manutenção dos efetivos das forças armadas da épo- ca da Guerra Fria, bem como na substancial ampliação da sua capacidade ofensiva. Desde o início do século, as forças armadas dos EUA são mais numerosas e mais bem equipadas do que a soma das 25 maiores forças armadas do planeta. Em suma, esses gastos militares astronômicos fizeram mais do que tornar os EUA imbatíveis. Sequer tornam possível contemplar a possibilidade de um confronto armado com os norte-americanos que, sozinhos, poderiam derrotar uma coalizão hipotética que reunisse todosos outros países do mundo contra si. Parece claro que tais gastos militares não dizem tanto respeito à segurança dos EUA, já que as maiores ameaças ao país não provêm de forças armadas hostis, mas de atos de terrorismo que, aliás, dis- pensam até mesmo o uso de armas, sejam convencionais, sejam alternativas, conforme se evidenciou nos episódios do dia 11 de setembro de 2001. A melhor explicação para tamanho gasto militar parece residir na pressão que, a seu favor, exercem os políticos e empresários que gravitam em torno do com- plexo industrial-militar. Encomendas tornadas permanentes de armas, munições, veículos de combate, navios e aeronaves geram empregos e contratos e, consequentemente, estimulam a organização polí- tica dos que se beneficiam economicamente com eles. Em que pese os efeitos supostamente benéficos do complexo industrial-militar (geração de empregos, desenvolvimento de ciência e tecnologia etc.) a verdade é que a economia norte-americana passou a ser caracterizada por uma crescente perda de efi- ciência e produtividade. O déficit comercial é a mais notável confirmação desse declínio, enquanto que o déficit público expõe as distorções que os gastos astronômicos em armas e guerras de ocupação po- dem trazer para o equilíbrio das contas públicas. A ascensão da China O final do século XX também é marcado pela ascensão da China ao bloco das maiores economias mundiais. Tal promoção se deu a partir do fim do governo de Mao Tse Tung e a subsequente ascensão ao poder de Deng Xiao Ping, que lançou o programa das quatro modernizações. No diagnóstico das eli- tes dirigentes do Partido Comunista Chinês, a economia da China só poderia evitar a estagnação se pu- desse contar com substanciais aportes de capital e tecnologia. Daí a ideia de reformar a agricultura, a ciência, a tecnologia, a indústria e as forças armadas. Na agricultura, permitiu-se o retorno à economia de mercado, a fim de estimular a produtivida- de, permitindo-se que os camponeses vendessem parte da sua produção livremente. Dessa forma, além dos alimentos e gêneros de primeira necessidade, logo surgiu uma substancial oferta de produtos até então pouco conhecidos na China, permitindo aumentar a variedade de espécies cultivadas e incre- mentando a produção por hectare. Já a ciência e a tecnologia apresentavam problemas maiores. A prolongada Revolução Cultural lançada por Mao Tse Tung, em 1966, e que se estendeu até 1976, liquidou os centros de pós-graduação e reduziu os estudos de nível universitário ao mínimo. Suspeitando dos “intelectuais” como elementos “burgueses” e “desviantes”, Mao levou ao extremo a regressão das áreas de ciência e tecnologia, as quais só foram objeto de atenção governamental após a sua morte. Compreendendo o atraso científico e tecnológico do país, a liderança chinesa investiu pesadamente no envio de milhares de jovens estudantes Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br para o exterior, notadamente na Europa e nos EUA, onde deveriam frequentar centros de excelência acadêmica. Na volta ao país, contava-se que esses jovens seriam capazes de montar centros de pesquisa e pós-graduação que permitiriam o desenvolvimento científico e tecnológico chinês. Embora o programa fosse em si um sucesso, ele não deixou de apresentar aspectos contraditórios. O contato com a democracia e as liberdades civis ocidentais estimulou entre os estudantes a realização de uma série de protestos contra a ditadura, dos quais o mais famoso foi certamente o massacre da Praça da Paz Celestial, de 1989, uma demonstração pacífica que foi brutalmente esmagada pela repressão comunista. A fim de atrair investimentos e tecnologia estrangeiros para o país, sem colocar em risco seu po- der político, a liderança chinesa criou as zonas especiais de exportação, para a instalação de plantas industriais produtoras de bens de consumo destinados ao mercado externo, no interior das quais consi- deráveis subsídios e incentivos foram oferecidos. Dessa forma, a liderança do partido comunista conta- va circunscrever e controlar essas atividades do capital estrangeiro, ao mesmo tempo em que reforçava o superávit na balança comercial. Para o governo chinês, só faz sentido abrir a economia se for para in- crementar exportações. A pura e simples produção para venda no mercado interno apenas estimularia o consumismo, ao mesmo tempo em que criaria problemas na balança de pagamentos. Empresas es- trangeiras que vendessem ao mercado interno realizariam seus negócios em moeda nacional, mas re- meteriam seu lucro para as matrizes nos países de origem em moeda conversível, provocando déficit no balanço de pagamentos. De fato, pouco mais de um quarto da população chinesa tem acesso ao mer- cado de bens de consumo. A ênfase na industrialização com base no capital estrangeiro é claramente na exportação. Finalmente, a liderança chinesa se comprometeu com a modernização e reequipamento das for- ças armadas. Contudo, até o presente, tais compromissos têm sido cautelosamente adiados, a fim de destinar o máximo possível de recursos para o crescimento econômico. É de se admitir que, no momen- to em que a economia chinesa faça a relação do tamanho do país e da população, esse compromisso seja, enfim, retomado. A China, que no início do programa das quatro modernizações sequer figurava na lista das maiores economias mundiais, chegou em 2005 à quarta posição no ranking de maior PIB do planeta, atrás dos EUA, do Japão, da Alemanha e, tudo indica que vá chegar, nos próximos anos, ao pri- meiro lugar. O aquecimento global e os problemas ambientais Na segunda metade do século XX começou a se consolidar entre os meteorologistas um con- senso sobre o progressivo aumento das temperaturas médias do planeta. Tal acréscimo é considerado como resultado da ação de agentes poluentes, produtos da ação humana, a que se dá o nome de efei- to estufa. Segundo esse entendimento, normalmente o planeta recebe a radiação solar e a devolve em boa medida de volta para o espaço. Certos gases, porém, são capazes de absorver a radiação impedin- do-a de ser dissipada de volta, contribuindo para o aumento da temperatura no planeta. O Protocolo de Kyoto, firmado em 1992, visava comprometer as nações do mundo com a redu- ção da emissão de gases que provocam o efeito estufa. Contudo, até agora, os maiores emissores de poluentes associados a esse efeito, como os EUA e, secundariamente, a Austrália, ainda não aderiram à esse compromisso. Somente os EUA, cuja população é de 4% do total de habitantes da Terra, consomem 25% da produção mundial de gasolina e liberam a terça parte dos gases reponsáveis pelo efeito estufa. 98 | Economia e sociedade no século XXI Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br 99|Economia e sociedade no século XXI Já a Austrália detém enormes rebanhos de gado, cujo subproduto do processo digestivo é a emissão de gás metano na atmosfera. As consequências dessa atitude de desprezo pelos efeitos do aquecimento global já se fazem notar e, certamente, seus temas dominarão as relações internacionais com frequên- cia cada vez maior daqui para frente. Entre as principais consequências do efeito estufa deve-se citar o derretimento das calotas pola- res, com implicações tanto sobre a vida silvestre dessas regiões quanto sobre o nível dos oceanos, que tendem a subir cada vez mais. Também já está dada a tendência dos furacões ficarem cada vez mais for- tes, resultado do aquecimento da água dos oceanos sobre as quais se formam. Era um fato estabeleci- do de que inexistem ciclones ao sul do Equador, mas em 2004 os metereologistas foram surpreendidos pela eclosão de um forte ciclone no litoral do Brasil. O forte calor fará avançar a desertificação, cuja ace- leração tem sido acompanhada pelos geógrafos com preocupaçãoe, cujos efeitos sociais mais dramáti- cos certamente serão as migrações em massa das zonas desertificadas para aquelas que ainda contam com reservas de água. A questão demográfica Os problemas ambientais se tornam ainda mais graves se levarmos em conta a pressão sobre os recursos naturais que exerce a explosão demográfica. Faz sentido falar em explosão se levarmos em conta a ruptura ocorrida na evolução da população humana no século XX. No início do século XIX, cer- ca de um bilhão de seres humanos habitavam o planeta. Ao começar o século XX, a população mundial já havia duplicado, atingindo dois bilhões de habitantes. Em meio século duplicou de novo, atingindo quatro bilhões de pessoas e em 1990 chegou a 5,3 bilhões de pessoas. As causas para as elevadas taxas de crescimento da população mundial são bem conhecidas. Os espetaculares avanços na medicina e na higiene, levando à queda da mortalidade infantil bem como à extensão da expectativa de vida, além de uma maior disponibilidade de alimentos, resultado de suces- sivos aumentos da produtividade agropecuária, são tidos como os fatores mais importantes para expli- car o aumento sem precedentes da população mundial nos últimos cem anos. Para o futuro a tendência é desse crescimento se manter. As estimativas variam muito, mas acre- dita-se que para o ano de 2025 a Terra terá uma população entre 7,6 bilhões e 9,4 bilhões de habitantes. Em algum momento esse crescimento deverá se estabilizar, mas isso só deve acontecer na segunda me- tade desse século, quando o planeta deverá suportar uma população entre 11 e 14,5 bilhões de pesso- as. Para além do aumento da população em si, deve-se levar em conta que quase todo acréscimo está ocorrendo nos países mais pobres ou, como se diz, em desenvolvimento. Se na Europa as taxas de cres- cimento populacional são bem inferiores a 1% ao ano, na África elas chegam a 3% ao ano. Foi dessa forma que evoluiu a população da África em relação à da Europa. Em 1950, a Europa tinha o dobro de habitantes que a África. Em 1985, ambos os continentes tinham a mesma população. E antes do ano de 2025 haverá o triplo de africanos em relação aos europeus. Outros polos de intenso crescimento demo- gráfico estão na Ásia, onde dois países isoladamente têm em meados dos anos 2000, populações supe- riores a um bilhão de habitantes: a China (1,3 bilhão) e a Índia (1,1 bilhão). O extraordinário crescimento demográfico implica em uma pressão cada vez maior sobre os re- cursos do planeta. Terra para cultivo, água para abastecimento, ar não contaminado para uso humano, Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br espaço livre para despejos de dejetos resultantes da produção industrial etc. tenderão a ser cada vez mais raros e de obtenção cada vez mais custosa. Para além disso, o crescimento populacional também irá criar conflitos relativos à política migratória e de concessão de cidadania. De fato, é cada vez maior a pressão que grupos humanos desesperados para escapar da miséria em seus países fazem para ob- ter direitos de ingresso nas nações desenvolvidas. A referência do caso extremo certamente é a frontei- ra do México com os EUA. Atividades 1. As recentes campanhas presidenciais no Brasil têm sido marcadas por diferenças substanciais no programa dos candidatos? Sim ou não? Por quê? 2. A liderança e a autoridade dos EUA podem ser contestadas? Como isso pode ser feito? 3. Como o crescimento demográfico pode afetar o meio ambiente? Dicas de estudo Assista aos dois filmes a seguir e compare-os no que diz respeito ao aquecimento global, bus- cando neles tanto o que é consensual quanto contraditório. O primeiro é o filme de ficção The Day After Tomorrow, de Roland Emerich, EUA, 2004, cor, 124 min. O outro é o documentário de An Inconvenient Truth, de Davis Guggenheim, EUA, 2006, cor, 100 min. 100 | Economia e sociedade no século XXI Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br Referências ARBEX JR., José. A Guerra Fria. São Paulo: Moderna, 2005. BAUMAN, Zygmunt. Europa: uma aventura inacabada. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BRAGA, Ruy. A Nostalgia do Fordismo. Rio de Janeiro: Xamã, 2005. CHOMSKY, Noan. Poder e Terrorismo. Rio de Janeiro: Record, 2006. CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações: a época contemporânea. São Paulo: Difel, 1977. DROZ, Bernard; ROWLEY, Anthony. História do Século XX. 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