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OFICINA DE INSTRUMENTOS TÉCNICOS OPERATIVOS Professora Esp. Daniela Sikorski Professora Esp. Fernanda Carvalho Basilio Hernandez Professora Esp. Júlia Fernanda Mariotto Casini Professora Esp. Suzie Keilla Viana da Silva GRADUAÇÃO Unicesumar Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Impresso por: C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; SIKORSKI, Daniela; HERNANDEZ, Fernanda Carvalho Basilio; CASINI, Júlia Fernanda Mariotto; SILVA, Suzie Keilla Viana da. Oficina de Instrumentos Técnicos Operativos. Daniela Sikorski; Fernanda Carvalho Basilio Hernandez; Júlia Fernanda Mariotto Casini; Suzie Keilla Viana da Silva. Maringá-Pr.: UniCesumar, 2016. Reimpresso em 2018. 189 p. “Graduação - EaD”. 1. Oficina. 2. Instrumentos. 3. Técnicos. 4. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-0432-8 CDD - 22 ed. 361 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Diretoria Executiva Chrystiano Minco� James Prestes Tiago Stachon Diretoria de Design Educacional Débora Leite Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Head de Produção de Conteúdos Celso Luiz Braga de Souza Filho Gerência de Produção de Conteúdo Diogo Ribeiro Garcia Gerência de Projetos Especiais Daniel Fuverki Hey Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila Toledo Supervisão Operacional de Ensino Luiz Arthur Sanglard Coordenador de Conteúdo Maria Cristina Araújo de Brito Cunha Designer Educacional Rossana Costa Giani Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Arte Capa Arthur Cantareli Silva Ilustração Capa Bruno Pardinho Editoração Matheus Felipe Davi Qualidade Textual Pedro Barth Gabriel Bruno Martins Ilustração Marcelo Goto Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não so- mente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão in- tegral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educa- dores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a quali- dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Pró-Reitor de Ensino de EAD Diretoria de Graduação e Pós-graduação Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu- nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con- tribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competên- cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessá- rios para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis- cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica. A U TO RE S Professora Esp. Daniela Sikorski Especialista em Política Social e Gestão de Serviços Sociais pela Universidade Estadual de Londrina. Possui Graduação em Serviço Social pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Tem experiência profissional na área de Serviço Social na Educação, Terceiro Setor, Responsabilidade Social e Gestão na Área da Saúde. Experiência em Educação a Distância em Serviço Social. Professora Esp. Fernanda Carvalho Basilio Hernandez Especialista em EAD e as Novas Tecnologias. Graduada em Serviço Social pela Faculdade Estadual de Ciências Econômicas de Apucarana (FECEA). Atualmente, é professora orientadora da Pós-graduação do Núcleo de Educação a Distância - NEAD Unicesumar. Professora Esp. Júlia Fernanda Mariotto Casini Especialista em Gestão da Política de Assistência Social na Perspectiva do SUAS pela Faculdade de Paraíso do Norte (FAPAN). Especialista em Gestão da Saúde pela Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (UNICENTRO). Graduada em Serviço Social pela Faculdade Estadual de Ciências Econômicas de Apucarana (FECEA). Foi aluna não-regular do mestrado em Serviço Social e Política Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL) – 2015-2016. Atualmente, é assistente social do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), do Município de Maringá – PR. Professora Esp. Suzie Keilla Viana da Silva Especialista em Gestão da Política de Assistência Social na Perspectiva do SUAS – FAPAN e aluna Não-regular do Curso de Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá – UEM. Bacharel em Serviço Social pela Fundação Universidade do Tocantins – UNITINS. Atualmente é Professora Mediadora do Curso de Serviço Social no Núcleo de Educação a Distância - NEAD Unicesumar. SEJA BEM-VINDO(A)! Olá, caro (a) estudante! É com imenso prazer que apresentamos a você o livro da discipli- na de Oficina de Instrumentos Técnicos e Operativos. Este material foi produzido a partir de um trabalho coletivo de parte da equipe do curso de Serviço Social. Nós somos as professoras Fernanda Carvalho Basilio Hernandez, Júlia Fernanda Mariot- to Casini, DanielaSikorski e Suzie Keilla Viana da Silva, autoras deste livro. Pensamos e realizamos esta produção com muito carinho, levando em consideração os aspectos mais relevantes que são necessários para o seu processo de formação profissional. Afi- nal, você é um assistente social em formação! E, portanto, já faz parte da categoria pro- fissional de assistentes sociais. Logo mais, você estará inserido nos mais diversos espaços sócio-ocupacionais que ne- cessitam do exercício profissional do assistente social. Sabe-se que, atualmente, são di- versificados os espaços nos quais o assistente social se faz presente e impacta, de modo positivo, a vida da população usuária, independente da especificidade que a interven- ção possua. Seja na esfera pública ou privada, o Serviço Social é requisitado para aten- der demandas que emanam de seu objeto de estudo e intervenção: a questão social. Enquanto profissão, inserida na divisão social e técnica do trabalho, os assistentes so- ciais precisam responder a necessidades sociais. Para tanto, é necessário realizar inter- venção na realidade social. É a partir da intervenção no tecido social que o assistente social pode transformar a realidade social. O processo de trabalho do assistente social possui distintas dimensões que se relacionam: teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa. A dimensão técnico-operativa do assistente social é a dimensão que possibilita o “agir” profissional. É operando que o assistente social realiza intervenções e pode transformar a realidade dos sujeitos que atende. E é, desse modo, que a dimensão técnico-operativa traduz o agir profissional. Para in- tervir na realidade o assistente social se utiliza de instrumentos e técnicas. Por isso que falamos em “instrumentos técnicos e operativos”. São, portanto, instrumentos de opera- cionalização da prática profissional do assistente social. Tal dimensão oferece significa- do ao “operar” do assistente social. Para operar, para agir, para intervir na realidade social, o assistente social precisa, neces- sariamente, estar ancorado em uma sustentável base teórico-metodológica e em uma base ético-política. Sendo assim, é preciso conhecer a realidade por meio de um méto- do e de teorias e, ainda, assumir uma posição profissional que esteja ao lado da classe trabalhadora. A partir disso, é que a dimensão técnico-operativa ganha sentido. Pensando dessa forma, foi que organizamos este livro de modo a contemplar os prin- cipais pontos, nesta disciplina, que são necessários ao processo de ensino e aprendiza- gem. APRESENTAÇÃO OFICINA DE INSTRUMENTOS TÉCNICOS OPERATIVOS A unidade I introduzirá a instrumentalidade no Serviço Social e os seus conceitos, demonstrando como esse assunto toma corpo no âmbito da profissão. A diferen- ciação entre instrumento e instrumentalidade e, ainda, as mudanças ocorridas no processo de operacionalização da prática. Na unidade II, vamos discutir a dimensão técnico-operativa do Serviço Social e a sua relação com as dimensões teórico-metodológica e ético-política. Veremos que a atuação do profissional possui essas dimensões e é preciso que o assistente social tenha clareza sobre elas. Na unidade III, abordaremos os principais instrumentos e técnicas utilizados pelos assistentes sociais. Você conhecerá os principais instrumentos e técnicas dos quais o Serviço Social se utiliza para intervir na realidade. Na unidade IV, vamos trabalhar a questão do registro e da documentação no exer- cício profissional. Pois, a utilização de um instrumental pressupõe a coleta de infor- mações para a intervenção no tecido social. Isso, por sua vez, requer registro e docu- mentação. Sem registrar e sem documentar a prática profissional, não conseguimos dar materialidade ao nosso agir. Por fim, na unidade V, vamos relacionar a importância do conhecimento para a prá- xis (relação teoria e prática) no Serviço Social. Pois, é o conhecimento que oferece sustentação para a intervenção profissional que ocorre por meio da dimensão téc- nico-operativa e, portanto, a partir da instrumentalidade. Esperamos que seus conhecimentos possam ser aprimorados por meio das refle- xões aqui propostas. Lembre-se que nenhum instrumento ou técnica utilizado pos- sui valor ou materialidade se for desprovido do conhecimento. Desse modo, que- remos possibilitar que você seja um profissional instrumentalizado e possa estar comprometido com a qualidade dos serviços prestados, na perspectiva da garantia dos direitos sociais, civis e políticos. Bons estudos! APRESENTAÇÃO SUMÁRIO 09 UNIDADE I A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL 15 Introdução 16 Um Breve Resgate Histórico 18 Conceitos de Instrumentalidade 21 Diferenças entre Instrumento e Instrumentalidade 26 A Instrumentalidade como Mediação 29 A Instrumentalidade no Exercício da Profissão 31 Instrumentalidade e o Serviço Social 34 Considerações Finais 39 Referências 40 Gabarito UNIDADE II A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E A SUA RELAÇÃO COM AS DIMENSÕES TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA 43 Introdução 44 A Dimensão Técnico-Operativa no Serviço Social 48 A Dimensão Ético-Política no Serviço Social 50 A Dimensão Teórico-Metodológica no Serviço Social 52 A Relação entre as Três Dimensões no Serviço Social 56 Considerações Finais SUMÁRIO 10 61 Referências 62 Gabarito UNIDADE III OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL 65 Introdução 66 Condições para um Bom Atendimento 74 Observação e Diálogo 82 Relacionamento 88 Investigação 89 Análise de Conjuntura 91 Instrumentais Quantitativos 92 Instrumentais Qualitativos 94 Diário de Campo 95 Entrevista 97 Visita Domiciliar 106 Abordagem 107 Reunião 110 Dinâmica de Grupo 112 Relatório Social 115 Estudo de Diagnóstico Pós-Acolhimento SUMÁRIO 11 117 Plano Individual de Atendimento (PIA) 119 Estudo Social 121 Perícia Social 122 Laudo Social 123 Parecer Social 126 Considerações Finais 132 Referências 135 Gabarito UNIDADE IV A RELEVÂNCIA DOS REGISTROS NA DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL 139 Introdução 140 Considerações Acerca da Documentação e Registro da Ação Profissional 141 Informação, Registro e Documentação Como Instrumento de Trabalho do Assistente Social 146 A Documentação do Cotidiano Profissional no Espaço Sóciojurídico 149 O Sigilo Profissional Acerca do Atendimento e da Documentação 153 Considerações Finais 159 Referências 160 Gabarito SUMÁRIO 12 UNIDADE V O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: A PRÁXIS NO PROCESSO DE INTERVENÇÃO 163 Introdução 164 Conceitos do Conhecimento e a sua Importância para o Serviço Social 170 Concepção de Práxis no Serviço Social 179 A Relação Teoria e Prática no Serviço Social 180 Considerações Finais 187 Referências 188 Gabarito 189 CONCLUSÃO U N ID A D E I Professora Esp. Fernanda Carvalho Basilio Hernandez A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar o processo de construção, análise e utilização do instrumental técnico-operativo do serviço social em concordância com o projeto ético-político profissional. ■ Refletir e entender a instrumentalidade do serviço social na prática profissional cotidiana. ■ Compreender técnica, método, instrumento e instrumentalidade enquanto parte da prática profissional do assistente social. ■ Discutir a instrumentalidade enquanto mediação das dimensões ético-política, teórico-metodológica e técnico-operativa do serviço social. ■ Apresentar a relevância da instrumentalidade no cotidiano profissional.■ Discutir a estreita relação entre a instrumentalidade e a profissão. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Um breve resgate histórico ■ Conceitos de instrumentalidade ■ Diferenças entre instrumento e instrumentalidade ■ A instrumentalidade como mediação ■ A instrumentalidade no exercício da profissão ■ A instrumentalidade e o serviço social INTRODUÇÃO Caro (a) aluno (a), com imensa satisfação este conteúdo foi preparado para lhe auxiliar na compreensão do que é instrumentalidade no serviço social, pois muito se confunde instrumentalidade com instrumentos e você perceberá que embora sejam palavras parecidas, na prática profissional seus significados são diferentes. Discorreremos sobre a instrumentalidade no serviço social e seus conceitos. Faremos um breve resgate histórico para compreendermos o início da profis- são e as mudanças que ocorreram na forma de se trabalhar, mudanças estas que ocorrem até a atualidade, pois como veremos no decorrer desta unidade, cada profissional tem sua própria instrumentalidade, já que cada um age a sua maneira. Ou seja, mesmo utilizando os mesmos instrumentais, a instrumentalidade muda. Dessa forma, também abordaremos as diferenças existentes entre instrumento e instrumentalidade, bem como a utilização da mesma no cotidiano profissio- nal, transformando a prática, a realidade social e o cotidiano das pessoas. Isso quer dizer que os assistentes sociais usam e/ou modificam os meios e as condi- ções, transformando-as, adaptando-as e utilizando-as em benefício próprio a fim de atingir seus objetivos e ao transformar a natureza da matéria os homens transformam a si próprios. Parece complicado, não é mesmo? Mas no decorrer da leitura você perceberá que é mais simples do que parece! E compreenderá cada vez mais as diferenças que tanto falamos entre instrumento e instrumentalidade. Por fim, falaremos sobre a instrumentalidade na prática profissional, o que acaba se tornando um desafio, pois no dia a dia pode predominar a no agir profissional, a reprodução automática da prática por si só, o fazer por fazer. O desafio é não se deixar paralisar pelo costume de fazer as mesmas coisas do mesmo jeito. E também por esse motivo é que a instrumentalidade se torna tão importante. Espero que você goste do conteúdo desta unidade e que ele auxilie no seu processo de aprendizagem e futuramente no sucesso de sua prática pro- fissional. Boa leitura! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 15 ©shutterstock A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E16 UM BREVE RESGATE HISTÓRICO O Serviço Social enquanto profissão pressupõe no desenvolvimento de suas funções algumas atribuições ético-políticas, teórico-metodológicas e técnico-ope- rativas para trabalhar com as peculiaridades do dia a dia profissional. Portanto, para entendermos o que é instrumentalidade, voltaremos um pouco na história para entendermos melhor tudo isso. Vamos lá? Na década de 1950, surgiu na América Latina, junto com a perspectiva desenvolvimentista, o Serviço Social de caso, grupo e comunidade. O objetivo do desenvolvimento, utilizando-se do capitalismo industrial, era possibilitar a transformação dos países subdesenvolvidos em uma potência como os Estados Unidos. Partindo desse cenário, os assistentes sociais, que antes analisavam os problemas da comunidade de maneira individual diante da concepção desen- volvimentista, buscam um entendimento das relações sociais. Nesse período, constata-se uma tecnificação da ação profissional, junto com um processo buro- crático intenso das atividades institucionais. O primeiro estudo em nível de Serviço Social mais diretamente fundamen- tado nas contribuições marxianas foi publicado na primeira metade dos anos 80 do século XX. Trata-se da obra “Relações Sociais e Serviço Social no Brasil – esboço de uma interpretação histórico-metodológica” (1985), de au- toria da assistente social e professora Marilda Vilela Iamamoto, em parceria com Raul de Carvalho. Fonte: Silva (2007 p. 282). Um Breve Resgate Histórico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 17 Nos anos de 1960, as discrepâncias conjunturais auxiliam para que os primei- ros questionamentos sejam realizados. Momento da Ditadura Militar, arrocho salarial, e outros acontecimentos contribuíram para que o Serviço Social tradi- cional criasse o conhecido Movimento de Reconceituação. O serviço social, na década de 1970, era problemático, pois, diante do Movimento de Reconceituação e o processo de ruptura com o tradicionalismo não foi bem aceito por toda a classe. Somente nos anos 1980 e 1990 é que o pro- jeto ético-político rompe o tradicionalismo na profissão e constitui uma estrutura teórica com base na tradição marxiana. Diante do breve resgate histórico, podemos compreender a razão, de na con- temporaneidade, o projeto ético-político do Serviço Social ainda ser fortemente marcado pela tradição marxista, e comprometido com a classe trabalhadora na árdua luta de interesses travada entre capitalismo e proletariado. ©shutterstock A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E18 CONCEITOS DE INSTRUMENTALIDADE Para compreendermos o termo instrumentalidade é preciso compreender o sufixo “idade”, que aqui expressa qualidade, peculiaridade ou habilidade de algo. Instrumentalidade transmite a ideia de instrumentos necessários ao trabalho do profissional, permitindo aos assistentes sociais planejar, delinear seus objetivos até chegar a resultados efetivos. Percebemos dessa maneira que a instrumenta- lidade do Serviço Social não é feita somente de termos teórico-filosóficos, mas sim “constituídas de históricos da realidade social, tendo como matéria prima sua profissionalidade que está sempre sendo construída, conduzida e reconstru- ída.” (GUERRA, 1995, p. 13). Dessa maneira, comprovamos que a instrumentalidade no dia a dia do assistente social não é composta por instrumentos técnicos, mas sim por uma capacidade de constituir da profissão, no íntimo dos vínculos sociais do desem- penho profissional, oportunizando a possibilidade de atender às demandas e a conquista dos projetos traçados. Segundo Guerra (2000, p. 2): Foi dito que a instrumentalidade é uma propriedade e/ou capacidade que a profissão vai adquirindo na medida em que concretiza objeti- vos. Ela possibilita que os profissionais objetivem sua intencionalidade em respostas profissionais. É por meio desta capacidade, adquirida no exercício profissional, que os assistentes sociais modificam, transfor- mam, alteram as condições objetivas e subjetivas e as relações interpes- soais e sociais existentes num determinado nível da realidade social: no nível do cotidiano. Na medida em que os profissionais utilizam, criam, adequam às condições existentes, transformando-as em meios/instrumentos para a objetivação das intencionalidades, suas ações são portadoras de instrumentalidade. Deste modo, a instrumentalidade é tanto condição necessária de todo trabalho social quanto categoria constitutiva, um modo de ser, de todo trabalho. Fonte: Guerra (2000, p. 2). Conceitos de Instrumentalidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e Lei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 19 Dito isso, perceba que o assistente social dá instrumentalidade ao seu exercício quando modifica o dia a dia, tanto profissional quanto das classes sociais que são sua demanda, alterando as condições efetivas, as transformando em condições, modo e instrumentos capazes de atingir as metas profissionais. Segundo Iamamoto (2003, p. 62-63): as bases teórico-metodológicas, são recursos essenciais que o Assisten- te Social aciona para exercer o seu trabalho: contribuem para iluminar a leitura da realidade e imprimir rumos à ação, ao mesmo tempo em que a moldam. Assim, o conhecimento não é só um verniz que sobre- põe superficialmente a prática profissional, podendo ser dispensado; mas é um meio pelo qual é possível decifrar a realidade e clarear a con- dução do trabalho realizado. O ser social é a base necessária para constatar que além de novos instrumentos, o serviço social precisa de racionalidade, como parâmetro e expressão faz teo- rias e praticas capaz de esclarecer os objetivos. Ou seja, o Assistente Social não deve tomar os instrumentos como um fim em si mesmo, e sim entendê-los como instrumentalidade necessária para transformar a realidade. Você pode estar se perguntando: por que a instrumentalidade é requisito para que a profissão tenha reconhecimento social? A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E20 Vamos lá! Essa exigência ligada ao exercício profissional é transferida pelos homens no decurso de atendimentos das demandas materiais, por exemplo, comer, beber, dormir, procriar e também as necessidades espirituais, que dizem respeito à mente, ao espírito, às fantasias. Essa condição da instrumentalidade é construída e reconstruída no dia a dia por seus agentes no decorrer de todo tra- balho social e suas ramificações, por exemplo, o Serviço Social. O processo de trabalho proporciona a transformação do homem, dos outros e da realidade, e é por esse processo que, segundo Lessa (1999, p. 6), o homem detém a capacidade de manipulação, de conversão dos objetos em ins- trumentos que atendam as necessidades dos homens e de transforma- ção da natureza em produtos úteis (e em decorrência, a transformação da sociedade). Mas a práxis necessita de muitas outras capacidades/ propriedades além da própria instrumentalidade. Partindo desse pressuposto, o processo de trabalho é entendido como uma soma de atividades para se atingir o objetivo proposto, os quais advêm à existência e estão ligadas a adequação e criação dos modos e condições objetivas e subjetivas. Em outras palavras, os profissionais usam ou modificam os meios e as con- dições, transformando, adaptando e utilizando em benefício próprio a fim de atingir seus objetivos, e ao transformar a natureza da matéria os homens trans- formam a si próprios, compondo um mundo necessário a realização do processo de trabalho. Conforme Guerra (2000, p. 4), “entretanto, tal conhecimento seria insuficiente se a ele não se acrescentasse a operatividade propriamente dita, a capacidade de os homens alterarem o estado atual de tais objetos”. Dito isso, percebemos que por intermédio do trabalho, o homem passa a mediar seu relacionamento com os outros, desenvolvendo consciência e conhe- cimento, pois “(...) o desenvolvimento do trabalho exige o desenvolvimento de suas próprias relações sociais e o processo de reprodução social como ser histó- rico, e, portanto pela própria práxis” (LESSA, 1999; GUERRA, 2000). Diferenças entre Instrumento e Instrumentalidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 21 Veja que a transformação na discussão e na utilização da instrumentalidade se insere no cenário da construção e reconstrução da profissão, cenário esse que mudou ao longo dos anos, conforme vimos no conteúdo anterior. Agora, caro (a) aluno (a), você precisa saber diferenciar instrumentalidade e instrumentos, que parecem ser a mesma coisa, mas você verá que não são. Vamos ao próximo tópico! DIFERENÇAS ENTRE INSTRUMENTO E INSTRUMENTALIDADE Para começarmos a entender a instrumentalidade é necessário distingui-la de instrumentos. A autora Guerra (2007, p.1) nos mostra que a instrumentalidade: No exercício profissional refere-se, não ao conjunto de instrumentos e técnicas (neste caso, a instrumentação técnica), mas a uma determina- da capacidade ou propriedade constitutiva da profissão, construído e reconstruída no processo sócio-histórico. O que é Práxis? Prática; atividade ou situação concreta que se opõe à teórica. Filosofia. Marxismo. Atividade humana concreta que, contrária à teó- rica, possibilita que alguém trabalhe no cultural, política e socialmen- te, alterando e modificando as relações entre indivíduos e grupos. Tipo de conhecimento que se volta para as relações sociais e para o âmbito político, econômico e moral. Fonte: Dicionário Práxis1 ©shutterstock A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E22 Perceba que na concepção da autora, a instrumentalidade se tra- duz no modo de ser característico do cotidiano do profissional, que é delineado tendo como ponto de partida as relações sociais. Relações estas que são firmadas no cerne da conjuntura, tanto obje- tivas quanto subjetivas, nas quais se desenvolvem o cotidiano profis- sional, e na medida em que viabilizam a efetivação dos objetivos a que se dispõe a profissão se firma como “condição concreta de reconhecimento social da pro- fissão” (GUERRA, 2007, p. 2). Conforme se compreende que instrumentalidade quer dizer capacidade for- mada a partir do cotidiano profissional, haverá possibilidade de notar que é essa capacidade a viabilizadora para o profissional modificar as condições de traba- lho que são dispostas em instrumentos e formas que oportunizam a realização das suas metas de trabalho. Diante disso, Guerra (2000, p. 54) nos diz que: [...] a instrumentalidade possibilita que os profissionais objetivem sua intencionalidade em respostas profissionais. É por meio da instrumen- talidade que os assistentes sociais modificam, transformam, alteram as condições objetivas e subjetivas e as relações interpessoais e sociais existentes num determinado nível da realidade social: no nível do co- tidiano. Em outras palavras, a instrumentalidade no contexto capitalista se transforma em instrumentalização das pessoas que são aproveitadas para se conseguir alguns objetivos. Dessa forma, a profissão vem como uma maneira do capital conseguir alcançar objetivos político-econômicos, definindo-se como um instrumento a favor do capital. A ação do profissional deve ser mediatizada por referenciais teórico-meto- dológicos e princípios ético-políticos. (Guerra) 2012. Diferenças entre Instrumento e Instrumentalidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 23 É necessário destacar que mesmo que as solicitações sejam urgentes e de cunho instrumental a ação do assistente social não deve ficar presa a elas, pois senão o profissional pode se tornar um simples instrumento para obter respos- tas imediatas. Iamamoto (2008, p. 20) diz que: Um dos maiores desafios que o Assistente Social vive no presente é de- senvolver sua capacidade de decifrar a realidade e construir propostas de trabalho criativas e capazes de preservar e efetivar direitos,a partir de demandas emergentes no cotidiano. Enfim, ser um profissional pro- positivo e não só executivo. Para isso, o assistente social tem que estar disposto a refletir e buscar uma opinião e um raciocínio crítico, indo de encontro às práticas cotidianas e ao desaponta- mento teórico colocado a prova pela prática do dia a dia. É importantve que o assistente social desenvolva sua instrumentalidade de maneira que traga originalidade ao seu cotidiano, sem cessar a habilidade para atender às demandas sociais. Sendo assim, é importante que você, caro (a) aluno (a), reflita sobre a importância sócia histórica da instrumentalidade do serviço social como premissa de oportunidade, e perceba a estrutura das políticas sociais, como área de atuação e intervenção. Falando em políticas sociais, abordaremos agora os vínculos existentes entre elas e o Serviço Social, uma vez que a profissão tem utilidade social ligada às políticas sociais, a instrumentalidade pode ser vista como: A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E24 (...) uma condição sócio histórica da profissão em três níveis: 1. Da instrumentalidade do Serviço Social face ao projeto burguês, o que significa a capacidade que a profissão porta (dado ao caráter re- formista e integrador das políticas sociais) de ser convertida em ins- trumento, em meio de manutenção da ordem, a serviço do projeto reformista da burguesia. Neste caso, dentro do projeto burguês de re- formar conservando, o Estado lança mão de uma estratégia histórica de controle da ordem social, qual seja, as políticas sociais, e requisita um profissional para atuar no âmbito da sua operacionalização: os as- sistentes sociais. Este aspecto está vinculado a uma das funções que a ordem burguesa atribui à profissão: reproduzir as relações capitalistas de produção. 2. Da instrumentalidade das respostas profissionais, no que se refere à sua peculiaridade operatória, ao aspecto instrumental-operativo das respostas profissionais frente às demandas das classes, aspecto este que permite o reconhecimento social da profissão, dado que, por meio dele o Serviço Social pode responder às necessidades sociais que se tradu- zem (por meio de muitas mediações) em demandas (antagônicas) ad- vindas do capital e do trabalho. Isto porque as diversas modalidades de intervenção profissional tem um caráter instrumental, dado pelas requisições que tanto as classes hegemônicas quanto as classes popula- res lhe fazem. Nesta condição, no que se refere às respostas profissio- nais, a instrumentalidade do exercício profissional expressa-se: 2.1. Nas funções que lhe são requisitadas: executar, operacionalizar, im- plementar políticas sociais; a partir de pactos políticos em torno dos sa- lários e dos empregos (do qual o fordismo é exemplar) melhor dizendo, no âmbito da reprodução da força de trabalho; 2.2. No horizonte do exercício profissional: no cotidiano das classes vulnerabilizadas, em termos de modificar empiricamente as variáveis do contexto social e de intervir nas condições objetivas e subjetivas de vida dos sujeitos (visando a mudança de valores, hábitos, atitudes, comportamento de indivíduos e grupos). É no cotidiano — tanto dos usuários dos serviços quanto dos profissionais — no qual o assisten- te social exerce sua instrumentalidade, o local em que imperam as demandas imediatas, e consequentemente, as respostas aos aspectos imediatos, que se referem à singularidade do eu, à repetição, à pa- dronização. O cotidiano é o lugar onde a reprodução social se realiza Diferenças entre Instrumento e Instrumentalidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 25 através da reprodução dos indivíduos (NETTO, 1987), por isso um es- paço ineliminável e insuprimível. As singularidades, os imediatismos que caracterizam o cotidiano, que implicam na ausência de mediação, só podem ser enfrentados pela apreensão das mediações objetivas e subjetivas (tais como valores éticos, morais e civilizatórios, princípios e referências teóricas, práticas e políticas) que se colocam na realidade da intervenção profissional. 2.3. Nas modalidades de intervenção que lhe são exigidas pelas deman- das das classes sociais. Estas intervenções, em geral, são em nível do imediato, de natureza manipulatória, segmentadas e desconectadas das suas determinações estruturais, apreendidas nas suas manifestações emergentes, de caráter microscópico. Nestes três casos (2.1, 2.2, 2.3) são respostas manipulatórias, fragmen- tadas, imediatistas, isoladas, individuais, tratadas nas suas expressões/ aparências (e não nas determinações fundantes), cujo critério é a pro- moção de uma alteração no contexto empírico, nos processos segmen- tados e superficiais da realidade social, cujo parâmetro de competência é a eficácia segundo a racionalidade burguesa. São operações realizadas por ações instrumentais, são respostas operativo-instrumentais, nas quais impera uma relação direta entre pensamento e ação e onde os meios (valores) se subsumem aos fins. Abstraídas de mediações sub- jetivas e universalizantes (referenciais teóricos, éticos, políticos, sócio profissionais, tais como os valores coletivos) estas respostas tendem a percepcionar as situações sociais como problemáticas individuais (por exemplo: o caso individual, a situação existencial problematizada, as problemáticas de ordem moral e/ou pessoal, as patologias individuais etc.) (GUERRA, 2007, p.10). Tratamos anteriormente de duas dimensões da instrumentalidade da profissão, agora conheceremos uma terceira condição, a instrumentalidade como media- ção, que é o passar das ações instrumentais para a prática profissional crítica, permitindo também o caminho contrário, em que a teoria pode compreender as singularidades da prática profissional do dia a dia. ©shutterstock A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E26 A INSTRUMENTALIDADE COMO MEDIAÇÃO Quando se reconhece a instrumentalidade como mediação, toma-se a profissão como universalidade formada por várias dimensões, como: “técnico-instru- mental, teórico-intelectual, ético-política e formativa” (GUERRA, 1997) e a instrumentalidade como singularidade e, sendo assim, transforma-se em área de mediação que articula as dimensões fazendo-as se tornarem respostas para a atuação profissional. No exercício profissional o assistente social lança mão do acervo ídeo- cultural disponível nas ciências sociais ou na tradição marxista e o adapta aos objetivos profissionais. Constrói um certo modo de fazer que lhe é próprio e pelo qual a profissão torna-se reconhecida social- mente. Produz elementos novos que passam a fazer parte de um acervo cultural (re) construído pelo profissional e que se compõe de objetos, objetivos, princípios, valores, finalidades, orientações políticas, referen- cial técnico, teórico-metodológico, ídeo-cultural e estratégico, perfis de profissional, modos de operar, tipos de respostas; projetos profissionais e societários, racionalidades que se confrontam e direção social hege- mônica, etc.(...) Isso porque, no âmbito profissional, não existem ações pessoais, mas ações públicas e sociais de responsabilidade do indivíduo como profissional e da categoria profissional como um todo. Para tan- to, há que se ter conhecimento dos objetos, dos meios/instrumentos e dos resultados possíveis (GUERRA, 1997, p.14). A Instrumentalidade como Mediação Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Códi go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 27 Nesse contexto, compreendemos que a cultura profissional pega para si as teo- rias críticas projetivas, e por meio da mediação da cultura da profissão talvez o profissional negue a ação que é somente instrumental e a transforme em respos- tas sócio-profissionais e, dessa maneira, construindo novas legitimidades, com respostas qualificadas, a instrumentalidade por si só não é suficiente. A partir do momento em que se ultrapassa a ação imediata para uma ação mais aprofundada e qualificada, nos deparamos como um campo de “mediações” que permite a passagem das ações instrumentais para o exercício profissional crítico e competente, possibilitando, desta forma, que a profissão dê respostas mais enriquecidas e eficazes. (ALVES, 2012 p. 103) Ou seja, é primordial que o profissional saia da falsa concreticidade, buscando a natureza dos acontecimentos, ultrapassando o limite do imediatismo, fazendo assim a mediação com o concreto pensado. Nesse sentido: Ao assistente social, no âmbito da sua inserção na divisão social e téc- nica do trabalho, cabe captar como as diversas expressões da questão social se particularizam em cada espaço sócio-ocupacional e chegam como demandas que dependem de sua intervenção profissional. As- sim, entendemos que a clareza acerca de como concebemos a “questão social”, ou seja, a partir de que pressupostos teóricos, a percepção que temos de suas expressões, tais como: desemprego, fome, doenças, vio- lência, falta de acesso aos bens e serviços sociais (moradia, creches, es- colas, hospitais etc.), bem como dos valores que orientam tais concep- ções, são mediações que incidem sobre os meios e modos de responder às demandas profissionais. (GUERRA, 2009, p. 704) Contra o que muitos podem pensar, quando falamos em mediação não esta- mos nos referindo somente à mediação de conflitos, problemas, embates, mas a mediação discutida aqui é consistente na teoria crítica marxista e só é possibili- tada por meio da dialética de análise da realidade. A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E28 Figura 1 – Mediação em Serviço Social Assistente Social Usuário Instituição * Bens * Serviços * Políticas Públicas Fonte: a autora. DIALÉTICA: a dialética pode ser descrita como a arte do diálogo. Uma dis- cussão na qual há contraposição de ideias, em que uma tese é defendida e contradita logo em seguida; uma espécie de debate. Sendo ao mesmo tempo, uma discussão onde é possível divisar e defender com clareza os conceitos envolvidos. A prática da dialética surgiu na Grécia antiga, no entanto, há controvérsias a respeito do seu fundador. Aristóteles considerava Zenôn como tal, já outros defendem que Sócrates foi o verdadeiro fundador da dialética por usar de um método discursivo para propagar suas ideias. A DIALÉTICA MARXISTA: Karl Marx reformula o conceito de dialética, vol- tando-o para a sociedade, as lutas de classes vinculadas a uma determinada organização social, surgindo assim, a chamada: dialética materialista ou ma- terialismo dialético. A dialética materialista une pensamento e realidade, mostrando que a re- alidade é contraditória ao pensamento dialético. Contradições estas, que é preciso compreender para então, transpô-las por meio da dialética. Marx fala da dialética sempre em um contexto de luta de classes, diferentes in- teresses, que geram a contradição. Sendo assim, o materialismo dialético é uma das bases do pensamento marxista. Fonte: adaptado de Borges (2010 on-line).2 ©shutterstock A Instrumentalidade no Exercício da Profissão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 29 Não restam dúvidas que o saber, o conhecimento, é extremamente necessário ao cotidiano de trabalho, pois é ele quem direciona o agir profissional. Vamos aprofundar essa discussão no tópico seguinte. A INSTRUMENTALIDADE NO EXERCÍCIO DA PROFISSÃO Quando se fala de instrumentalidade no agir do assistente social logo se pensa naqueles instrumentos que os profissionais normalmente utilizam para desenvolver seu trabalho, pelos quais os profissionais obje- tivam suas metas em resultados efetivos, e como dito anteriormente o sufixo “idade” traduz-se em capacidade, qualidade. Dessa forma, a instrumentalidade no Serviço Social faz referência não ao conjunto de instrumentais e técnicas, mas sim a capacidade que a profissão tem de cons- truir e reconstruir ao longo do processo sócio-histórico. O objetivo aqui, caro (a) aluno (a), é fazê-lo (a) pensar na instrumentalidade profissional no coti- diano do assistente social como um modo definido que a profissão conquista no íntimo das relações sociais, no embate entre objetividade e subjetividade do cotidiano da profissão. O dia a dia profissional é desafiante, pois nele predomina a práxis, a repro- dução automática da prática por si só. Isso ocorre de maneira natural, pois dá ao assistente social o sentimento de confiança, já que ele pode se habituar a trabalhar daquela mesma forma. O importante é não se deixar paralisar pelo costume de fazer as mesmas coisas do mesmo jeito, sempre, apenas repetindo uma prática, sem transformá-la para melhor atender à demanda que carece de sua intervenção. A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E30 O cotidiano precisa ser suspendido de forma crítica, ou seja, realizar momentos de suspensão, ainda que temporariamente, para assim, re- fletir e analisar criticamente a situação com a finalidade de mudar a rota, a direção da ação, não se trata apenas, por exemplo, de distribuir uma cesta básica todo mês para determinada família porque a mesma passa fome, mas refletir o “por que” desta situação, não se limitando a demanda imediata, mas extrapolando-a, buscando detectar a demanda real e nela intervir (GUERRA, 2002 apud ALVES 2012, p. 103). O assistente social, por meio da capacidade adquirida, consegue mudar, trans- formar as condições das relações sociais e interpessoais que existem em um certo ponto da realidade social. Também é capaz de mudar o dia a dia profissio- nal e das classes sociais que precisam da sua intervenção; alterando os meios e instrumentos utilizados para se alcançar uma meta, os profissionais dão instru- mentalidade a sua atividade. Sendo assim, é viável que o profissional pense nas possíveis intervenções, na intenção de solucionar ou ao menos abrandar a demanda que lhe é retratada. A autora Iamamoto (2008, p. 208) nos mostra que o assistente social: Requisita um perfil profissional culto, crítico e capaz de formular, re- criar e avaliar propostas que apontem para a progressiva democratiza- ção das relações sociais. Exige-se, para tanto, compromisso ético-polí- tico com os valores democráticos e competência teórico-metodológica na teoria crítica em sua lógica de explicação da vida social. Esses ele- mentos, aliados à pesquisa da realidade, possibilitam decifrar situações particulares com que se defronta o assistente social no seu trabalho, de modo a conectá-las aos processos sociais macroscópicos que as ge- ram e as modificam. Mas, requisita, também, um profissional versado no instrumental técnico-operativo, capaz de potencializar as ações nos níveis de assessoria, planejamento, negociação, pesquisa e ação dire- ta, estimuladora da participação dos sujeitos sociais nas decisões que lhes dizem respeito, na defesa de seus direitos e no acesso aos meios de exercê-los.É sabido que para todo tipo de intervenção é necessário que o profissional use diversos instrumentos para desempenhar seu trabalho, buscando modificar a essência da realidade existente, enfatizando que cada demanda tem suas singu- laridades. Cabe ao profissional avaliar qual a melhor técnica para suprir ou ao menos amenizar as demandas dos seus usuários, conseguindo bom desfecho, não somente de imediato, e sim em médio e longo prazo. Instrumentalidade e o Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 31 Muitos se questionam “qual o serviço do assistente social?” ou “quais as ações no dia a dia desse profissional?”. Vemos que aqui se encaixa a prática profissional, que representa um componente constitutivo e efetivo a ação do cotidiano, isto é, o próprio trabalho. Há de se ressaltar, também, que para tal trabalho existir, é preciso meios, matéria-prima e objetos para atuação profissional. Para Iamamoto (2003, p. 94), A leitura hoje predominante da “prática profissional” é de que ela não deve ser considerada “isoladamente”, “em si mesma”, mas em seus “con- dicionantes” sejam eles “internos” – os que dependem do desempe- nho profissional – ou “externos” – determinados pelas circunstâncias sociais nas quais se realiza a prática do assistente social. Os primeiros são geralmente referidos a competências do assistente social como, por exemplo, acionar estratégias e técnicas; a capacidade de leitura da realidade conjuntural, a habilidade no trato das relações humanas, a convivência numa equipe interprofissional etc. Os segundos abrangem um conjunto de fatores que não dependem exclusivamente do sujeito profissional, desde as relações de poder institucional, os recursos co- locados à disposição para o trabalho pela instituição ou empresa que contrata o assistente social; as políticas sociais específicas, os objetivos e demandas da instituição empregadora, a realidade social da população usuária dos serviços prestados etc. INSTRUMENTALIDADE E O SERVIÇO SOCIAL Se o agir do Serviço Social for reduzido à dimensão técnico instrumental, ele se tornará apenas um meio para se atingir um objetivo, e assim restringir as deman- das profissionais às condições do mercado de trabalho. Uma vez que as demandas trabalhadas pelos assistentes sociais necessitam de mais que ações imediatistas, como dito anteriormente, necessitam de atuação que estejam ligadas a projetos com referencias teórico-metodológicos e também a concepções ético-políticas. ©shutterstock A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E32 Para dar formas às ações realizadas, o profissional recorre a seus conheci- mentos, capacidade, referência, instrumentos técnicos, sendo esses uma condição primordial para o cumprimento da intervenção. Porém, há várias opiniões a respeito do “como fazer” da profissão, como Guerra (2007, p. 30) nos mostra: Para além das definições operacionais (o que faz, como faz), necessi- tamos compreender “para que” (para quem, onde e quando fazer) e analisar quais as consequências que o nível “mediato” as nossas ações profissionais produzem. Na contemporaneidade, o trabalho executado pelo assistente social teve um aumento significativo em virtude das demandas vindas da questão social, no qual o serviço prestado pelo assistente social procura trazer alterações efetivas a quem utiliza seus serviços, de maneira a fortalecer a garantia de seus direitos. Para que se efetive esse trabalho, de maneira investigativa e interventiva, é neces- sário, segundo Netto (2009, p. 693-694): todo/a assistente social, no seu campo de trabalho e intervenção, deve de- senvolver uma atitude investigativa: o fato de não ser um/a pesquisador/a em tempo integral não o/a exime quer de acompanhar os avanços dos co- nhecimentos pertinentes ao seu campo de trabalho, quer de procurar co- nhecer concretamente a realidade da sua área particular de trabalho. Este é o principal modo de qualificar o seu exercício profissional, qualificação que, como se sabe, é uma prescrição do nosso próprio Código de Ética. Mais uma vez a instrumentalidade entra em cena, pois mesmo fazendo uso de todos os instrumentos, técnicas, teorias disponíveis, o assistente social deve lan- çar mão da sua instrumentalidade ao realizar a ação proposta pelo autor citado antes. Contudo cada profissional agirá a sua maneira, dentro do Código de Ética, para se chegar ao objetivo proposto. Dito isso, compreendemos que por intermédio do processo investigativo e da pro- ximidade com certa realidade o profissional produz conhecimento, que acaba por funda- mentar sua atuação profissional, afirmando que sem ele – o conhecimento – não capta- ríamos as necessidades da realidade social. Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 33 Da Assistência Social Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar, indepen- dentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos: I - a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; II - o amparo às crianças e adolescentes carentes; III - a promoção da integração ao mercado de trabalho; V - a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. Art. 204. As ações governamentais na área da assistência social serão rea- lizadas com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no art. 195, além de outras fontes, e organizadas com base nas seguintes diretrizes: I - descentralização político-administrativa, cabendo à coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e a execução dos respectivos programas às esferas estadual e municipal, bem como a entidades benefi- centes e de assistência social; II - participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis. Fonte: Brasil (1988, on-line)3. A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E34 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade abordamos o conceito de instrumentalidade e suas aplicabilida- des, evidenciando que o fazer profissional tem como intuito tentar oportunizar uma melhoria, uma transformação no cotidiano do usuário, bem como a ins- trumentalidade técnico-operativa, baseado nas competências e atribuições que constam na Lei de Regulamentação da profissão. Os instrumentos, como bem vimos, são técnicas operacionais fundamentais para a atuação do profissional, visando à intervenção. A instrumentalidade faz referência às habilidades, conhecimentos que o (a) assistente social conquista no dia a dia, que são capazes de modificar a realidade social do usuário. Há que se enxergar como é importante saber o sentido sócio-histórico da instrumentalidade, como premissa da atuação profissional e como essa confere certas configurações, conteúdos e dinâmicas ao exercício profissional. Mesmo tendo surgido no mundo das práticas reformistas, o Serviço Social ampliou suas atribuições ao longo do tempo até conseguir alcançar a esfera da universalização aoacesso a bens, serviços e direitos sociais e humanos. Quando ele se desvinculada da teoria de onde surgiu, a profissão se capacita para novas habilidades, competências e legitimidades, enriquecendo assim sua instrumentali- dade e o resultado disso é um profissional apto para trabalhar com o instrumental técnico e que investe na criação de alternativas para sua intervenção. É necessário que o(a) assistente social experimente a construção, recons- trução e desconstrução de conceitos, de pré-conceitos, traga a experiência para a teoria e construa novos conhecimentos, para posteriormente serem substan- cializados na prática. Por fim, é preciso reafirmar a indispensabilidade do profissional ir além do que é visto, usando a habilidade crítica para compreender e atuar na realidade social. 35 1. Frente ao conteúdo estudado nesta unidade, diferencie Instrumento de Instru- mentalidade. 2. Na prática profissional, qual a importância da instrumentalidade? 3. Qual a relação existente entre instrumentalidade e o Serviço Social? 4. O que é práxis profissional e por que ela representa um desafio para os profis- sionais? 5. Em relação à instrumentalidade no serviço social, pode-se dizer que ela faz refe- rência a quê? 36 Caro (a) aluno (a), a Lei 8.662/93 é a lei que regulamenta a profissão de assistente social, leitura obrigatória para todos nós, profissionais e futuros profissionais, pois lá se encon- tram as informações sobre competências, exercício profissional, conselhos e muito mais. Leia um trecho dessa lei, em que há o esclarecimento sobre as competências do assis- tente social: Art. 4º Constituem competências do Assistente Social: I - elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da adminis- tração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organizações populares; II - elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da sociedade civil; III - encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos, grupos e à população; IV - (Vetado); V - orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos; VI - planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais; VII - planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais; VIII - prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo; IX - prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da coletividade; X - planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social; XI - realizar estudos socioeconômicos com os usuários para fins de benefícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades. Art. 5º Constituem atribuições privativas do Assistente Social: I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social; II - planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Serviço Social; III - assessoria e consultoria e órgãos da Administração Pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social; 37 IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social; V - assumir, no magistério de Serviço Social tanto em nível de graduação como pós- graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular; VI - treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de Serviço Social; VII - dirigir e coordenar Unidades de Ensino e Cursos de Serviço Social, de graduação e pós-graduação; VIII - dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de pesquisa em Serviço Social; IX - elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões julgadoras de concursos ou outras formas de seleção para Assistentes Sociais, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao Serviço Social; X - coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos de Serviço Social; XI - fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal e Regionais; XII - dirigir serviços técnicos de Serviço Social em entidades públicas ou privadas; XIII - ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira em órgãos e entidades representativas da categoria profissional. Fonte: Brasil (1993, on-line)⁴. MATERIAL COMPLEMENTAR Elefante Branco (2012) Direção: Pablo Trapero Sinopse: O fi lme retrata a história de uma favela, em Villa Virgem (Buenos Aires), onde moram cerca de 30 mil pessoas - base cálculos feita levando em consideração os batismos realizados pela igreja. Os protagonistas são o Padre Nicolas que fazia um trabalho no Amazonas e que por ser europeu quase foi morto nessa missão, a assistente social Luciana, o padre Júlian, que realiza um trabalho dentro da favela e sendo responsável por supervisionar a obra dentro da comunidade e o Esteban (Macaquinho) um jovem dependente químico e que já trabalhou no tráfi co. A obra mostra claramente a brutalidade da polícia, a ameaça do tráfi co, a indiferença das altas esferas da igreja e o imenso descaso do governo, que reprime toda e qualquer revolta que saia dali, mantendo aquela comunidade alienada, esfomeada e revoltada à margem de um sistema a qual não escolheram. Comentário: Esse fi lme é muito interessante para entendermos a prática profi ssional do assistente social de forma diferenciada da prática fi lantrópica. O Serviço Social ao superar neotomismo e promover a laicização permitiu o alargamento da prática profi ssional por meio do redimensionamento do ensino a fi m de formar profi ssionais capazes de responder às demandas não somente pela execução terminal, mas também por meio da elaboração, organização, coordenação, ou seja, por meio de todo o planejamento de políticas públicas. Rompendo com o tradicionalismo profi ssional e legitimando a profi ssão no mercado. REFERÊNCIAS ALVES, A. P. S. G. A importância do conhecimento para a prática profissional. Saber Acadêmico, São Paulo, v. 14, 2012, p. 101-110. GUERRA, Y. A dimensão investigativa no exercício profissional. In: CONSELHO FE- DERAL DE SERVIÇO SOCIAL (org.) Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009. ______. A Instrumentalidade do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1995. ______. A instrumentalidade no trabalho do assistente social. Anais do Simpósio Mineiro de Assistentes Sociais, Belo Horizonte, maio 2007, p. 1-35. ______. Instrumentalidade do processo de trabalho e Serviço Social. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, Cortez, n. 62, 2000. ______. Ontologia do ser social: bases para a formação profissional. Revista Serviço Social e Sociedade, São Paulo, Cortez, n. 54, 1997. IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. de. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: Esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 22. ed. São Paulo: Cortez, 2008. IAMAMOTO, M. V. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. São Paulo: Cortez, 2008. ______. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissio- nal. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2003. LESSA, S. O processo de produção/reprodução social: trabalho e sociabilidade. Programa de capacitaçãocontinuada para assistentes sociais, Módulo II: Reprodu- ção Social, Trabalho e Serviço Social. Brasília: CFESS/ABEPSS-UNB/CEAD, 1999. NETTO, J. P. Introdução ao método da teoria social. Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais, Brasília, CFESS/ABEPSS, 2009, p. 668-700. SILVA, J. F. S. Pesquisa e produção do conhecimento em serviço social. Revista Tex- tos & Contextos, Porto Alegre, v. 6, n. 2 , jul./dez. 2007, p. 282-297. Referências On-Line: 1 - Em: <http://www.dicio.com.br/praxis/>. Acesso em: 30 maio 2016. 2 - Em: <http://www.infoescola.com/filosofia/dialetica/>. Acesso em: 30 maio 2016. 3 - Em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado .htm>. Acesso em: 30 maio 2016. 4 - Em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8662.htm>. Acesso em: 30 maio 2016. 39 GABARITO 1. Instrumentalidade no Serviço Social se refere à capacidade, habilidade constitu- tiva da profissão, ou seja, o conhecimento utilizado como ferramenta de traba- lho. Já instrumentos se referem à instrumentação técnica, o instrumental utiliza- do, como entrevistas, relatórios, documentação, entre outros. 2. A instrumentalidade possibilita que os profissionais objetivem sua intenção, por meio dessa capacidade, que é adquirida no cotidiano profissional, os assistentes sociais transformam as condições, realidade social, relações no cotidiano. E ao modificarem o cotidiano eles estão dando instrumentalidade a suas ações. Des- sa maneira, a instrumentalidade é condição necessária do trabalho social. 3. Ela é entendida como uma propriedade e/ou capacidade que o assistente so- cial adquire à medida que concretiza objetivos pautados pelas dimensões teóri- co- metodológicas, ético-políticas e técnico-operativas do trabalho profissional. O assistente social insere-se em processos de trabalho voltados diretamente à defesa de direitos, ampliação e consolidação da cidadania, diante do processo histórico e das contradições que se configuram no interior das relações sociais. Essas demandas sociais requerem uma intervenção crítica, criativa, propositiva, sensível, que só é possível quando se alia a teoria e a prática, dando instrumen- talidade a atuação do assistente social, ou seja, o conhecimento aliado à ação profissional. 4. Práxis é o costume de se fazer a mesma coisa do mesmo jeito sempre. É a repro- dução automática da ação. O risco é o profissional não tentar outras formas de atuação por estar acostumado a fazer sempre igual. O problema disso tudo é que cada intervenção precisa de uma atuação diferente, pois as demandas não são iguais. 5. Faz referência não ao conjunto de instrumentais e técnicas, mas sim a capacida- de que a profissão tem de construir e reconstruir ao longo do processo sócio- -histórico. U N ID A D E II Professora Esp. Fernanda Carvalho Basilio Hernandez A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E A SUA RELAÇÃO COM AS DIMENSÕES TEÓRICO- METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA Objetivos de Aprendizagem ■ Desenvolver a postura crítico-reflexiva sobre as dimensões, saberes, habilidades na elaboração da intervenção profissional. ■ Desenvolver aprendizagem sobre as dimensões ético-política, teórico-metodológica e técnico-operativa da profissão; habilidades; atitudes e valores. ■ Compreender a relação existente entre as três dimensões, bem como sua importância para o Serviço Social. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ A dimensão técnico-operativa no Serviço Social. ■ A dimensão ético-política no Serviço Social. ■ A dimensão teórico-metodológica no Serviço Social. ■ A relação existente entre as três dimensões no Serviço Social. INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! Novamente nos encontramos e dessa vez para falarmos sobre as dimensões que são partes constituintes da atuação profissional. Nesta unidade discutiremos as dimensões técnico-operativa, teórico-meto- dológica e ético-política e a relação existente entre elas, e com isso veremos que a atuação do profissional está ligada a essas dimensões. É preciso que o assis- tente social tenha clareza sobre elas. A palavra dimensão nos faz pensar em propriedade de algo, em direção. Aqui ela diz respeito aos princípios que colaboram para a efetivação do Serviço Social, ou seja, são todos os componentes que constituem e são constitutivos da profissão. As dimensões estão interligadas, são interdependentes, complemen- tam-se, mas têm suas particularidades. Conforme veremos mais adiante, a dimensão teórico-metodológica propor- ciona ao assistente social a visão dos processos, a compreensão da importância da ação e também a avaliação da realidade. Já a dimensão ético-política engloba o projeto da ação levando em consideração os princípios e valores da profis- são, do local onde ele trabalha e da população envolvida, sendo encarregada de analisar os resultados das ações realizadas pelos profissionais. E a dimensão téc- nico-operativa, é a efetivação da ação, o fazer tudo que se planejou, respeitando valores e princípios, finalidades e avaliação da realidade. Como sabemos, o Serviço Social é investigativo e interventivo, dessa maneira, suas pesquisas devem ser elaboradas a partir de situações reais e serem úteis para a sociedade em questão. Assim, o saber obtido apenas com finalidade des- critiva não é interessante aqui, para que tenha utilidade é imprescindível que se tenha claro o projeto ético-político, o domínio teórico-metodológico e técnico- -operativo, firmados em alicerces de saberes e conhecimentos, competências, habilidades e comprometimento com o processo de trabalho, onde quer que o profissional atue. Espero que esse conteúdo traga compreensão sobre como é importante as dimensões se relacionarem na atuação do assistente social. Bom estudo! Professora Fernanda. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 43 ©shutterstock A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E A SUA RELAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E44 A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA NO SERVIÇO SOCIAL Para iniciarmos esta unidade, discorreremos neste primeiro momento sobre a dimensão técnico-operativa do Serviço Social, seus componentes como instru- mentos e técnicas e suas relações com as demais dimensões. Diante disso, pode surgir a dúvida: o que são as dimensões de uma interven- ção? Para que possamos entender vamos nos ater à dimensão técnico-operativa para estabelecermos os instrumentos e técnicas como elementos constituintes dessa e das demais dimensões. Para o Serviço Social, dimensões são os princípios contributivos para efeti- var a profissão, é a sua origem, ou seja, são todas as partes que constituem e são características dela. No caso da dimensão teórico-operativa de uma intervenção, estamos falando das teorias que auxiliam na compreensão de uma determinada realidade que o profissional vai trabalhar e que está presente no dia a dia, possibilitando que ele faça uma análise real, e execute o que foi planejado, ou seja, o conhecimento teó- rico do assistente social. A Dimensão Técnico-Operativa no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 45 Podemos afirmar que o assistente social precisa ter um grande conheci- mento para usar os instrumentos técnico-operativos com os objetivos de efetivar as ações, e, além disso, é necessário ter técnicas para oportunizar uma atuação crítica e eficaz na sua ação profissional juntocom os usuáriose suas demandas. É essa dimensão que mais se aproxima da prática profissional, por causa da sua especificidade, sendo assim, ela expressa e contém as outras dimensões, quer dizer que, no agir do profissional, ele expressa as compreensões teórico-metodo- lógicas e ético-políticas, abrangendo um composto de estratégias e técnicas da atuação profissional que demonstram teorias, meios e opinião política. A dimensão técnico-operativa é formada por objetivos, tentativa de efetivar esses objetivos, condições objetivas e subjetivas. Propõe saber quem são os sujei- tos da intervenção, perfil do usuário, de onde vêm as demandas, qual a realidade social, análise das condições subjetivas, entendimento do agir e das competências do profissional e também os procedimentos e instrumentais técnico-operativos. Segundo Lima, Ioto e Dal Prá (2007, p. 36), “essa dimensão é entendida como o espaço de trânsito entre o projeto profissional e a formulação de respostas às demandas que se impõem no cotidiano dos assistentes sociais”. A autora Guerra (2012) nos diz que: a dimensão técnico-operativa se constitui no modo de aparecer da pro- fissão, pela qual ela é conhecida e reconhecida. Responde às questões: Para que fazer? Para quem fazer? Quando e onde fazer? O que fazer? Como fazer? Tendo essa citação como base, concluímos que não podemos considerar tal dimensão como autônoma, uma vez que as demais dimensões estão contidas nela. Também não podemos considerá-la neutra, pois tem traços ético-políti- cos que se sustentam em fundamentos teóricos. A autora julga essa dimensão como a base do Serviço Social, sua razão de existir, pois se reporta aos instru- mentais que legitimam e reconhecem a profissão do assistente social, e é aqui que entram os instrumentos e técnicas da intervenção, pois constituem - embora não sejam os únicos elementos - a dimensão, pertencendo à esfera de operacio- nalização da atuação profissional. A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E A SUA RELAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E46 Segundo Trindade (2001, p. 66), em relação ao instrumental técnico-ope- rativo há de se considerar: A articulação entre instrumentos e técnicas, pois expressam a conexão entre um elemento ontológico do processo de trabalho (os instrumen- tos de trabalho) e o seu desdobramento – qualitativamente diferencia- do – ocorrido ao longo do desenvolvimento das forças produtivas (as técnicas). Por serem ligados às técnicas, os instrumentos são continuamente aperfeiçoa- dos por elas, pois há a necessidade de adaptação frente às mudanças da realidade visando o melhor atendimento as demandas existentes. Por esse motivo é que esse instrumental tem caráter histórico, porque vem mudando de acordo com a realidade da sociedade ao longo do tempo. Os instrumentos são classificados como resultado da ação do homem em busca de se alcançar um objetivo. Há de se ressaltar que a ação que tem o pro- pósito de se efetivar usando determinado instrumento está relacionada com o objetivo pretendido, lembrando que a finalidade está no campo teórico. Trindade (2001, p. 396) nos mostra que: O conteúdo do instrumental técnico-operativo depende da análise da realidade, a qual fundamenta a intencionalidade/direção social empre- endida à ação, pelos sujeitos profissionais. É essa relação entre a dimensão técnico-operativa com as dimensões teórico- -metodológica e a dimensão ético-política que possibilita transformar em ação os conceitos que norteiam o assistente social, sendo muito importante a escolha dos instrumentos e técnicas que serão utilizados para determinada finalidade/ objetivo da profissão. Devemos ter cautela com os instrumentos de ação. Por serem tidos como meios para se alcançar objetivos, o assistente social precisa ter compreensão do objetivo que pretende alcançar, se está de acordo com os propósitos do Serviço Social e se possibilitará que as finalidades se efetivem. Por esse motivo, o profissional deve acompanhar as mudanças da sociedade e da realidade social, levando em consideração as características dos diversos espaços em que atua, tendo sempre como base os fundamentos da profissão e também o código de ética que o rege. A Dimensão Técnico-Operativa no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 47 É extremamente necessário que o assistente social conheça de fato a reali- dade para que possa escolher o instrumental a ser utilizado. Isso permite que ele alcance o resultado esperado, bem como é necessário que ele conheça as exi- gências de manuseio do instrumento escolhido, fazendo uma avaliação, pois por meio dessa ele analisará se as escolhas dos instrumentos estão coerentes às fina- lidades propostas, e se ele conseguirá instrumentalizar as competências exigidas. Dito isso, podemos afirmar que cada projeto define tanto uma compreensão da realidade quanto o tratamento aos instrumentos e técnicas utilizados pelos pro- fissionais. Porém, isso não quer dizer que há instrumentos e técnicas destinados para cada teoria, ao contrário, não existe ligação entre instrumentos e teorias, mas sim, entre método e teoria. Destaca-se um elemento fundamental no processo de escolha dos instru- mentos que se refere à autonomia profissional. Aqui é importante levar em consideração como desempenhar as atividades determinadas pelas organi- zações, haja vista que o profissional deve ter autonomia não só para emitir sua opinião técnica sobre a situação, mas também de escolher os instru- mentos que contribuirão para a obtenção desta opinião técnica. O Serviço Social atua na satisfação das demandas sociais postas. A forma com que os profissionais respondem a essas demandas reflete o seu projeto profissio- nal. Fonte: Santos (2013, p. 28). ©shutterstock A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E A SUA RELAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E48 A DIMENSÃO ÉTICO-POLÍTICA NO SERVIÇO SOCIAL Caro (a) aluno (a), essa dimensão se fez visível no exercício profissional após o Movimento de reconceituação início da década de 1980. Tal discussão tem duas direções, a rejeição do caráter apolítico e neutro e o comprome- timento com as classes. Isso provocou alguns enganos na compreensão, que repercutiram na prática profissional. É importante ressal- tar que tal debate no campo do Serviço Social contribuiu na estruturação de um olhar crí- tico da sociedade e da profissão nela inserida. Os questionamentos que surgiram nesse momento fizeram com que as discussões sobre a história, a teoria e o método da profissão dessem um salto significativo. Logo se percebeu que o profissional não poderia ficar neutro, devendo tomar uma posição política frente à realidade social, para que possa interferir, tomando consciência, então, do rumo a ser seguido, sendo imprescindível a compreensão e entendimento do código de ética. Diante disso, o Serviço Social transformou sua dimensão ética e o debate: elaborou com democracia sua base normativo-teórica, que está expressa na Lei da Regulamentação da Profissão, estabelecendo atribuições e competências para os assistentes sociais, e expressa também no Código de Ética, que traz os deve- res e direitos do profissional, destacando: ■ O reconhecimento da liberdade como valor ético central, que re- quer o reconhecimento da autonomia, emancipação e plena ex- pansão dos indivíduos sociais e de seus direitos; ■ A defesa intransigente dos direitos humanos contra todo tipo de arbítrio e autoritarismo; ■ A defesa, aprofundamento e consolidação da cidadania e da democra- cia – da socialização da participação políticae da riqueza produzida; ■ O posicionamento a favor da equidade e da justiça social, que implica a universalidade no acesso a bens e serviços e a gestão democrática; A Dimensão Ético-Política no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 49 ■ O empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, e a garantia do pluralismo; ■ O compromisso com a qualidade dos serviços prestados na arti- culação com outros profissionais e trabalhadores. (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2012, p. 24). Essa dimensão refere-se aos diversos compromissos que o Serviço Social pode ter como a tomada de decisões e posições, a intenção da ação entre outros. Porém, caro (a) aluno (a), lembre-se que tais compromissos têm uma base teó- rica. Lembre-se sempre que ética é uma visão critica sobre valores evidentes na ação, e se a ação exige que se tome partido, lembre-se também que existe uma relação estreita entre ética e política. A dimensão ético-política compreende o planejar da ação considerando os valores e objetivos do assistente social, do local em que ele trabalha e da popu- lação. Dessa maneira, os profissionais assumem diversos partidos e posições. O Serviço Social, de acordo com essa dimensão, compromete-se em defen- der intransigentemente os direitos humanos, ampliando a cidadania, oferecendo serviços de qualidade, lutando contra a injustiça social e em favor da equidade. Tais compromissos devem estar presentes no cotidiano dos assistentes sociais, para isso precisam priorizar o uso de instrumentos de cunho democrático, glo- bal, de acordo com a realidade social em que intervirá e o menos burocrático. O que é o projeto ético-político do serviço social? É o nosso projeto profissional que foi construído no contexto histórico de transição dos anos 1970 aos 1980, em um processo de redemocratização da sociedade brasileira, recusando o conservadorismo profissional presente no Serviço Social brasileiro. Constata-se o seu amadurecimento na década de 1990, período de profundas transformações societárias que afetam a produ- ção, a economia, a política, o Estado, a cultura, o trabalho. Transformações marcadas pelo modelo de acumulação flexível (Harvey) e pelo neoliberalismo. Para ler o material na íntegra, acesse o link nas referências on-line. Fonte: CRESS 17ª região/ES(on-line)1. ©shutterstock A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E A SUA RELAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E50 É imprescindível que o assistente social tenha entendimento político essen- cial a sua atuação, pois está aplicado às ligações de poder e força da sociedade. Entretanto, a atuação profissional não provém de si mesma e sim das relações existentes na sociedade. Dessa maneira, é preciso que o assistente social tenha um posicionamento político frente a conflitos da sociedade, organizando sua atuação para benefício da sociedade. Diante disso, podemos afirmar que conhecer a realidade, ter o desejo de mudá-la, possuir conhecimento, não é o bastante, pois tudo isso deve ser dimen- sionado nas oportunidades de atuação na esfera política. Sendo assim, essa dimensão deverá respaldar o desenvolvimento de capaci- dades e competências, fundamentado nos princípios ético-políticos da profissão, possibilitando assim que o profissional avalie e problematize limitações e pos- sibilidades no seu cotidiano. A DIMENSÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA NO SERVIÇO SOCIAL Nesta tópico, abordaremos a dimensão teórico-metodológica, veremos que o assistente social deve ir à busca de novas oportunidades para a profissão. Porém, existe a necessidade de embasamento teórico-metodológico para tal inovação, e é sobre isso que discutiremos adiante. Para propor tal mudança, o profissio- nal deve conhecer compreender e dominar a teoria crítica, da realidade ou de uma base técnico-operativa. No tópico anterior vimos a importância do debate que ocorreu na década de 1980, em que foram questionados meios, teo- rias, instrumentos referentes à prática do Serviço Social. A contribuição da técnica e dos instrumentos utilizados ao longo do A Dimensão Teórico-Metodológica no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 51 caminho da profissão dá lugar ao cuidado da sua articulação com os fundamen- tos teórico-metodológicos. O debate gerou a consciência acerca do tema teórico-metodológico, que segundo Iamamoto engloba: [...] o modo de ler, de interpretar, de se relacionar com o ser social; uma relação entre o sujeito congoscente - que busca compreender e desven- dar essa sociedade – e o objeto investigado. Encontra-se estreitamente imbricada à maneira de explicar essa sociedade e os fenômenos parti- culares que a constituem. Para isso implica uma apropriação da teoria – uma capacitação teórico-metodológica – e um ângulo de visibilidade na leitura da sociedade, um ponto de vista político, que, tomado em si, não é suficiente para explicar o social. (IAMAMOTO 2008, p. 174). A teoria é capaz de mudar conceitos, porém não a realidade. Entretanto, ela é necessária, pois, segundo Sarmento (1994, p. 214), “é a ela que corresponde à produção de objetivos e conhecimentos, seu objeto são as sensações ou percep- ções (subjetivas) e a elaboração de conceitos e representações ideal”. Por sua vez, a prática pode ser definida pelo caráter objetivo da matéria- -prima, dos instrumentos com que se trabalha e o resultado obtido. Há de se ressaltar que a questão teórico-metodológica ultrapassa a estrutura dos proce- dimentos técnico-operativos, visto que se refere ao modo de realizar a leitura, entender, interpretar, compreender e se relacionar com o ser social. As atuais Diretrizes Curriculares para os cursos de Serviço Social no Brasil evidenciam como propósito o uso da teoria crítica e do fundamento materialis- ta-histórico-dialético, como norte teórico- metodológico. Nessa direção, a ABEPSS diz que: [...] a capacitação teórico-metodológica é que permite uma apreensão do processo social como totalidade, reproduzindo o movimento do real em suas manifestações universais, particulares e singulares em seus compo- nentes de objetividade e subjetividade, em suas dimensões econômicas, políticas, éticas, ideológicas e culturais, fundamentado em categorias que emanam da adoção de uma teoria social crítica (ABESS, 1996, p. 152). Lembrando que a teoria em sua natureza se difere da prática, porém “propor- ciona um conhecimento indispensável para a transformação da realidade, ou traça finalidades que antecipam idealmente sua transformação” (VASQUEZ, 1977, p. 203), possibilitando, assim, mudanças que junto com a prática produzem um ©shutterstock A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E A SUA RELAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E52 novo conhecimento. Ainda em Vasquez (1997, p. 185): “Toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis”. Portanto, é preciso que os profissionais imprimam constante e permanen- temente na atuação e no entendimento da realidade, uma atitude investigativa para assegurar mais rigidez e consistência teórico-metodológica no seu dia a dia. A RELAÇÃO ENTRE AS TRÊS DIMENSÕES NO SERVIÇO SOCIAL Agora que conhecemos as três dimensões, vamos falar da relação que existe entre elas, pois a teoria orienta a finalidade, a seleção dos instrumentos a serem utili- zados, e também oferece seu conteúdo. Essas dimensões demonstram também nossa cultura, que éformada por conhecimentos e saberes (técnicos, teóricos e interventivos) do Serviço Social, sendo as dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa indispensáveis para que os assistentes sociais reflitam sobre a sua intervenção e recusem se for o caso, uma atuação profissional pautada na reprodução automá- tica de atitudes conservadoras vindas do nosso legado cultural. A Relação entre as Três Dimensões no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 53 É necessário ao profissional que ele tenha o conhecimento e a compreen- são de todo processo histórico da profissão, para que possa entender o atual contexto, os desdobramentos teórico-metodológicos, técnico-operativos e éti- co-políticos que substancializam a ação profissional e o processo de formação dos futuros profissionais. Nesse sentido, a ABEPSS (Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social), em 1996, definiu as seguintes diretrizes para os cursos de ser- viço social: 1. Apreensão crítica do processo histórico como totalidade; 2. Investigação sobre a formação histórica e os processos sociais con- temporâneos que conformam a sociedade brasileira, no sentido de apreender as particularidades da constituição e desenvolvimento do capitalismo e do Serviço Social no país; 3. Apreensão do significado social da profissão desvelando as possibili- dades de ação contidas na realidade; 4. Apreensão das demandas – consolidadas e emergentes – postas ao Serviço Social via mercado de trabalho, visando formular respostas profissionais que potenciem o enfrentamento da questão social, consi- derando as novas articulações entre público e privado; 5. Exercício profissional cumprindo as competências e atribuições pre- vistas na legislação legal em vigor. (ABEPSS, 1996, p. 7-8) Isso se torna real quando o profissional articula em suas ações todas essas dimen- sões da prática profissional e reconhece que a dimensão técnico-operativa não é somente um fundamento instrumental, e quando ele se dá conta disso é capaz de elaborar e propor melhores respostas para as demandas da sociedade. Já a dimensão teórico-metodológica possibilita aos profissionais funda- mentar sua interpretação da realidade, e quanto maior o conhecimento, maior serão as possibilidades de mediações e mais alternativas terão para a interven- ção profissional. Por meio dessa dimensão é possível definir a intenção e a direção social da ação, oportunizando assim a seleção de instrumentos e técnicas apropriados para substancializar essa intencionalidade, da mesma maneira que o conhecimento da realidade dispõe de conteúdo a ser abordado nos instrumentos da intervenção. A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E A SUA RELAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E54 Vamos exemplificar: No atendimento à população, que reflexão você poderá trocar com esses usuários em uma visita domiciliar? Ou em uma entrevista? Tanto o conhecimento teórico quanto os demais conhecimentos sobre tal realidade me dão conteúdo a ser trabalhado, e a partir daí, traçarei minha estra- tégia, escolherei meus instrumentos e realizarei minha intervenção. Lembrando que os instrumentos serão usados para feedbacks de caráter administrativo, por esse a dimensão ético-política está ligada a teórico-meto- dológica, pois ela é encarregada da escolha dos instrumentos que se confrontam com as finalidades e o compromisso do assistente social. Além dessas dimensões, como vimos, existe a dimensão técnica-operativa, que diz respeito à competência do profissional em lidar com os instrumentos de trabalho, que traduz a qualidade técnica da ação profissional. Em suma, os assistentes sociais necessitam obter todas essas habilidades e vinculá-las para concretizar as intencionalidades do serviço social no cotidiano profissional e assim efetivamente realizar um atendimento com qualidade. Então, podemos afirmar que os instrumentos e técnicas são componentes dos meios de atuação profissional, e entre outros formam a dimensão técnico-ope- rativa do Serviço Social, esse por sua vez está ligado às outras duas dimensões, e apesar da sua especificidade não estão sozinhos no tempo e no espaço e não tem um final em si mesmo, pois estão presentes na finalidade que o assistente social coloca na sua ação. Tomando essa afirmação como pressuposto, podemos concluir que a ação profissional deve ser sobrepujada pela reflexão sobre os princípios e valores pre- sentes nas ações do Serviço Social, sobre as respostas dadas às demandas e sobre as direções que norteiam tais demandas. Ou seja, é preciso ter a compreensão do Serviço Social, de suas condições, possibilidades e determinações. São essas reflexões que orientam alternativas de ações e a escolha pelos instrumentos e técnicas da intervenção. E é essa compre- ensão que não deixa o profissional entrar no universo da dicotomia existente no campo do Serviço Social, pois muitos profissionais caem no erro de pensar que a prática e a teoria são duas vertentes diferentes na prática profissional, o que A Relação entre as Três Dimensões no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 55 é extremamente perigoso, pois é dever, obrigação do profissional que passou por um tempo considerável de formação, perceber que toda a teoria aprendida e saber adquirido toma forma e se efetiva no momento em que se atende uma demanda posta. Sobre isso, as autoras Gonçalves e Santiago (2012, p. 10)2 dizem que: Essa dicotomia teoria/prática atribui consequências extremamente ne- gativas para profissão. Um profissional que acredita que a sua prática é suficiente para a efetivação das suas intervenções no que está sendo apresentado, contribui para o tratamento pulverizado e naturalizado das expressões da questão social. Além de oferecer resultados frágeis e insuficientes no atendimento aos usuários. Entretanto, ele também não pode cair no erro de pensar que a teoria, é um manual que oferece todas as medidas que proporcionam a solução dos problemas sociais advindo da ordem capitalista. Todas essas implicações colocam em xe- que a discussão no interior da categoria de encontrar alternativas que possibilitem a desmistificação desse falso dilema. Diante disso, o que chama atenção é o fato de que o projeto ético-político que os profissionais defendem, é uma construção constante, presente no dia a dia das instituições e profissionais, sob o ponto de vista ético, teórico e político. É o velho discurso de que “na prática, a teoria é outra”, nesse sentido as auto- ras Santiago e Gonçalves (2012, p. 9)2 nos mostram que: O cotidiano profissional é permeado por inúmeras armadilhas, sendo que o assistente social deve estar apto a identificá-las. Por isso, que o profissional deve tomar posse de um conhecimento intelectual e te- órico que viabilize uma postura criativa, crítica, questionadora para execução de suas atividades interventivas. Pois o conhecimento é uma alavanca poderosa para aqueles que estudam ou atuam na realidade, pois oferece as bases para propostas de mudança e transformação. O trabalho profissional muitas vezes, é marcado por distorções influen- ciadas pela leitura vaga da realidade e a falta de um debate e racionali- dade crítica para nortear as respostas profissionais. Sabemos que esse assunto é amplo e não vamos nos aprofundar aqui, apenas apresentamos de uma forma sucinta alguns desafios que os profissionais às vezes enfrentam na prática profissional,bem como ressaltar a importância de se rela- cionar sempre as três dimensões aqui expostas. A DIMENSÃO TÉCNICO-OPERATIVA E A SUA RELAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E56 CONSIDERAÇÕES FINAIS No Serviço Social é comum se falar em dicotomia na relação teoria/prática, o que acaba revelando traços de uma delicada fundamentação teórico-metodo- lógica para uma ação efetiva por falta de esclarecimento desses fundamentos norteadores da prática, em que predominam certas posturas conservadoras, que enfraquecem o projeto ético político que prega o discurso da defesa da liberdade. Isso exige do profissional ir além de ser somente executivo, sendo também propositivo e implementar políticas sociais e também analisar projetos entre outras atribuições, e para isso ele fará uso das três dimensões que estudamos nesta unidade, pois ele precisa saber a teoria, saber como fazer e também saber o que consta no código de ética da profissão, pois é ele que orienta a prática coti- diana do assistente social. Sendo assim, podemos estabelecer que a relação entre as três dimensões é constante, uma vez que estão ligadas para o melhor agir do profissional. Vamos exemplificar: na dimensão teórico-metodológica a teoria é instru- mento de análise da realidade social, usada para criar estratégias de intervenção (dimensão técnico-operativa), estratégias essas que seguem um determinado projeto profissional (dimensão ético-política). O caminho de superação da dicotomia teoria/prática certamente se dará por meio de uma relação intrínseca entre as Universidades, docentes, profis- sionais, supervisores de estágios, estudantes, organizações representativas da profissão, espaços sócio ocupacionais, reconhecendo e defendendo a necessidade de articulação da teoria com a prática no Serviço Social, para que a profissão venha oferecer uma intervenção de qualidade e contribuir para a transformação da realidade. Com isso, poderemos sempre reconstruir a história da nossa profissão em nosso país e possibilitar o aperfeiçoamento da instrumentalidade utilizada pelos profissionais para que a sistematização da prática se efetive trazendo respostas eficazes para a população usuária. (SANTIAGO; GONÇALVES, 2012, p.12).2 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 57 A articulação dessas dimensões é o que caracteriza a atuação profissional e acontece perante condições objetivas e subjetivas, demarcadas pela história, que marca a indispensabilidade que o Serviço Social tem de atender as deman- das sociais. E a dimensão técnico-operativa, que é aquela que mais se aproxima da prá- tica, se destaca, pois nela estão inseridas as outras duas dimensões, ou seja, as ações dessa dimensão expressam as dimensões teórico-metodológica e ético-po- lítica, envolvendo um agrupado de estratégia, técnicas, instrumentos de ação, que consumam a atuação profissional. Articular essas dimensões é um desafio, porém é fundamental e isso é um tema de grande discussão entre profissionais e acadêmicos do Serviço Social: a carência da articulação entre teoria e prática, análise e intervenção, pesquisa e ação, conhecimento e técnica. Esses fatores não devem ser encarados como dimensões separadas – isso pode gerar profissionais desqualificados inseridos no mercado de trabalho, assim como lesar os princípios éticos fundamentais que norteiam a ação profissional. 58 1. Qual a importância da relação entre as três dimensões estudadas nesta unidade? 2. Diante do conteúdo, responda por que a dimensão técnico-operativa engloba as dimensões teórico-metodológica e a ético-política? 3. Qual a importância de se relacionar teoria e prática no exercício profissional? 4. Após a leitura e estudo do conteúdo desta unidade, o que você entende por dicotomia? 5. A ação profissional deve ser pautada na reflexão sobre os princípios e valores presentes nas ações do Serviço Social. O que isso significa? 59 Caro(a) aluno(a), no decorrer desta unidade estudamos as três dimensões do Serviço So- cial; vimos que há uma relação entre elas, ou seja, o agir profissional depende de todas para acontecer. Dessa maneira, que tal conhecer um pouco mais sobre a Lei que regula- menta a profissão e também o Código de Ética do (a) assistente social? Código de Ética - Princípios Fundamentais I. Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políti- cas a ela inerentes - autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais; II. Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritaris- mo; III. Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras; IV. Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participa- ção política e da riqueza socialmente produzida; V. Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure universalida- de de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão democrática; VI. Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o res- peito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à dis- cussão das diferenças; VII. Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráti- cas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante apri- moramento intelectual; VIII. Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação, exploração de classe, etnia e gênero; IX. Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos/as trabalhadores/as; X. Compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com o apri- moramento intelectual, na perspectiva da competência profissional; XI. Exercício do Serviço Social sem ser discriminado/a, nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, orientação se- xual, identidade de gênero, idade e condição física. Fonte: Conselho Federal de Serviço Social (2012). MATERIAL COMPLEMENTAR Links úteis Sempre que você tiver dúvidas sobre o Serviço Social, a fonte mais confi ável e atualizada é o site do CFESS – Conselho Federal de Serviço Social, para acessá-lo, use o link: <www.cfess.org.br/>. Nesse site, é possível encontrar a versão digital atualizada do Código de Ética do (a) Assistente Social. Disponível em: <http://www.cfess.org.br/arquivos/CEP_CFESS-SITE.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2016. Também o da ABEPSS – Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social utilize o link: <www.abepss.org.br/>. Acesso em: 17 jun. 2016. A Dimensão Técnico-operativa no Serviço Social- desafi os contemporâneos Clauida Monica dos Santos, Sheila Back, yolanda Guerra. Editora: UFJF - Universidade Federal De Juiz de Fora Sinopse: Esta coletânea trata de um dos temas mais candentes do Serviço Social contemporâneo. Ela materializa o debate sobre a dimensão técnico- operativa realizado por pesquisadores que, preocupados com os rumos e o futuro da profi ssão, buscam explicitar as suas peculiaridades. É uma busca pautada na tradição da teoria social crítica e calcada na concepção de que a dimensão técnico-operativa só pode ser tratada na sua indissociabilidade das dimensões teórico metodológica e ético-política. Por diferentes caminhos e com diferentes trajetórias, os autores desta coletânea iluminam o debate apresentando diferentes perspectivas analíticase nos instigam a participar dele. REFERÊNCIAS ABEPSS - Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social. Rio de Janeiro, 1996. CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Código de ética do/a assistente social. Lei 8.662/93 de regulamentação da profissão. - 10. ed. Brasília: Conselho Federal de Serviço Social, 2012. GUERRA, Y. (org.) A dimensão técnico-operativa no Serviço Social: desafios con- temporâneos. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2012. IAMAMOTO, M. V. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. São Paulo: Cortez, 2008. LIMA, T.; MIOTO R.; DAL PRÁ, K. R. Dal Prá. A documentação no cotidiano da inter- venção dos assistentes sociais: algumas considerações acerca do diário de campo. Textos & Contextos, Porto Alegre, v. 6, n. 1, 2007. SANTOS, C. M. dos. A dimensão técnico-operativa e os instrumentos e técnicas no Serviço Social. Revista Conexão Geraes, Belo Horizonte, ano 2, n. 3, jul. – dez. 2013. SARMENTO, H. B. de M. Instrumentos e Técnicas em Serviço Social: elementos para uma rediscussão. 1994. Dissertação (Mestrado em Serviço Social). PUC/ SP: São Paulo, 1994. TRINDADE, R. L. P. Desvendando as Determinações Sócio-históricas do Instrumental técnico-operativo do Serviço Social na Articulação entre Demandas Sociais e Proje- tos Profissionais. Revista Temporalis, Vitória, ano 2, n. 4, jul.-dez., 2001. VÁZQUEZ, A. S. Filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. Referências on-line: 1 Em: <http://cress-es.org.br/projetoetico.htm>. Acesso em: 23 jul. 2016. 2 Em: <http://www.cress-mg.org.br/arquivos/simposio/OS%20DESAFIOS% 20DE%20 EFETIVA%C3%87%C3%83O%20DA%20TEORIA%20NA%20SISTEMATIZA%C3%87%- C3%83O%20DA%20PR%C3%81TICA%20PROFISSIONAL%20DO%20ASSISTEN- TE%20SOCIAL.pdf>. Acesso em: 15 fev. 2016. 61 GABARITO 1. Para que os assistentes sociais reflitam sobre a sua intervenção e recusem se for o caso, uma atuação profissional pautada na reprodução automática de atitudes conservadoras vindas do nosso legado cultural. Utilizarão as três dimensões na articulação entre a teoria e a prática, que vai da investigação até a execução da prática. 2. Na dimensão técnico-operativa, que é aquela que mais se aproxima da práti- ca, estão inseridas as outras duas dimensões, ou seja, as ações dessa dimensão expressam as dimensões teórico-metodológica e ético-política, envolvendo um agrupado de estratégia, técnicas, instrumentos de ação, que consumam a atua- ção profissional. 3. O assistente social, por ter uma formação que o permite trabalhar com os ser- viços sociais em várias áreas, e isso exige do profissional ir além de ser somente executivo, sendo também propositivo e implementar políticas sociais e também analisar projetos entre outras atribuições, e para isso, ele fará uso das três di- mensões, pois ele precisa saber a teoria, saber como fazer e também saber o que consta no código de ética da profissão, pois é ele que orienta a prática cotidiana do assistente social. 4. Podemos resumir dicotomia em pensar que a prática e a teoria são duas verten- tes diferentes na prática profissional. O velho ditado de que “na prática, a teoria é outra!”. 5. Significa que é necessário que se compreenda a profissão, suas condições, pos- sibilidades e determinações, pois são essas reflexões que norteiam as ações e escolha dos instrumentos e técnicas da intervenção. U N ID A D E III Professora Esp. Suzie Keilla Viana da Silva Professora Esp. Daniela Sikorski OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar os principais instrumentos do Serviço Social. ■ Referenciar os principais modelos de instrumentos técnicos do Serviço Social. ■ Refletir sobre a importância dos instrumentos e técnicas da intervenção profissional. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Condições para um bom atendimento ■ Observação e Diálogo ■ Relacionamento ■ Investigação ■ Análise de conjuntura ■ Instrumentais Quantitativos ■ Instrumentais Qualitativos ■ Entrevista ■ Diário de Campo ■ Visita Domiciliar ■ Abordagem ■ Reunião ■ Dinâmica de Grupo ■ Relatório Social ■ Estudo de Diagnóstico Pós-Acolhimento ■ Plano Individual de Atendimento (PIA) ■ Estudo Social ■ Parecer Social ■ Laudo Social ■ Perícia Social INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! O conteúdo apresentado nesta unidade constitui-se em um relevante subsídio para que você possa elaborar os instrumentais aqui apresentados. Espera-se que ao lidar com estes instrumentais você tenha uma atitude investigativa, conheci- mento das atribuições privativas contidas na Lei de Regulamentação da Profissão - Lei n. 8.662, de 7 de Junho de 1993 e do Código de Ética do/a Assistente Social. Esse conhecimento é importante para você, pois, no momento da práxis fará a diferença, para ter o domínio sobre quais instrumentais deverão ser utilizados e como serão utilizados. Você, acadêmico (a), terá um companheiro; o seu diário de campo, em que registrará todas as suas observações durante o estágio supervi- sionado, fazendo desse instrumental uma ferramenta para sua vida profissional. Antes de realizarmos quaisquer intervenções junto do usuário devemos reali- zar uma análise conjuntural da situação, para tanto, é de fundamental importância que o profissional de Serviço Social tenha fundamentação teórica. Veremos nesta unidade que, para entrevista, o assistente social deve estar em um ambiente sigi- loso e seguro para ambas as partes, tendo escuta qualificada, ser observador e investigativo, procurando sempre estar aberto para compreender com clareza o usuário. Quanto os instrumentais quantitativos e qualitativos utilizamos para elaboração de relatórios, projetos e acompanhamentos. A visita domiciliar é fun- damental para o acompanhamento dos casos (usuários). Portanto, o profissional deve estar preparado eticamente para não retornar a atitudes conservadoras do passado, estando pautado no Código de Ética e demais Leis de regulamentação. Enfim, todos os instrumentais apresentados nesta unidade têm sua relevância na práxis e você deve internalizar todo conhecimento passado em nossas aulas. Desde já registro os nossos sinceros agradecimentos por estarmos juntos durante esta unidade, que possamos agregar conhecimento para utilizar em seu dia a dia! Bons Estudos. Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 65 ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E66 CONDIÇÕES PARA UM BOM ATENDIMENTO Mesmo depois da conclusão do curso de Serviço Social, muitos profissionais ainda possuem dúvidas. Isso porque a realidade nos ensina, o exercício da pro- fissão nos ensina, o cotidiano nos ensina e à medida que vamos desvelando a realidade, novos saberes vão se revelando. Sem contar que nossa profissão pres- supõe contato direto e permanente com o ser humano, e cada pessoa é singular e individual, vivendo e apresentando sua vida a sua maneira, com suas angustias, seus temores, problemas e medos. Cada indivíduo tem a sua interpretação do mundo. Por isso, é impossível prever o comportamento humano, não há como saber o que cada um falará, agirá ou reagirá. Logo, não há como criar uma lista precisa e única de como proceder em cada atendimento. Não se desespere! Isso ficará mais claro no decorrer do texto. É comum que mesmo depois deformado ainda persistam algumas preocu- pações existentes no cotidiano de muitos assistentes sociais: Teríamos procedido de maneira certa, deixando o [usuário] à vontade? Teríamos sido capazes de fazer com que ele se deixasse conhecer? O que faríamos se ele não falasse e, no caso de fazê-lo, estaríamos seguros em selecionar os fatos mais significativos, contidos nas suas observa- ções e no seu comportamento? (GARRETT, 1991, p. 18). Condições para um Bom Atendimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 67 Um modelo para um atendimento perfeito não existe, esse será aperfeiçoado pelo próprio profissional ao longo do seu exercício profissional, na medida em que se afastarem os receios e as ansiedades frente a cada nova situação. Isso ocorrerá na medida em que espontaneamente se é capaz de estabelecer entre profissional e usuário, uma “[...] afinidade que permita ao usuário revelar os fatos essenciais da sua situação e ao [profissional] tornar-se capaz de auxiliá-lo” (GARRETT, 1991, p. 18). Porém, deve-se ter claro que os instrumentais não são compartimentos isolados e muitos deles são utilizados de forma simultânea. A rediscussão em torno da questão dos instrumentais e técnicas está situada no âmbito da formação profissional, pensando-a no aspecto da prática profissional que remete-nos diretamente à intervenção pro- fissional. [...] a discussão acerca da prática profissional não pode ser apreendida apenas a partir do seu agir imediato, mas, particularmente compreendemos a prática elaborada a partir de um aporte teórico que a fundamente. [pois]...os instrumentos e as técnicas não expressam, ob- viamente, toda a profissão (SARMENTO, 1994, p. 232-251, grifo nosso) Somado à citação anterior, proponho uma atenção à citação a seguir. Procure perceber o impacto que ela tem no que diz respeito ao Serviço Social e ao exer- cício profissional: Abandonasse o homem um dia o hábito de rotular as coisas como boas, más, desejáveis e indesejáveis e os males, obra sua, produtos de seus atos carregados de valores, desapareceriam, e os restantes males natu- rais não seriam mais vistos como males, e sim como parte inevitável da trajetória desta vida. (TZU, 1964, p. 14) Devemos estar sempre atentos para algumas questões presentes no cotidiano profissional. O trato com o usuário, o local, comportamentos, a valorização do usuário enquanto sujeito e cidadão de direitos devem sempre estar na mente e nas ações do profissional. Sendo assim, alguns detalhes devem ser observados e colocados em prática, algumas precauções devem ser tomadas para que o atendimento tenha os atri- butos necessários para que alcance seus objetivos. ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E68 Discutir [os] instrumentos e técnicas envolve o “o que fazer”, o “para que fazer”, o “por que fazer”, mas também, o “como fazer”. O cuidado com o “que fazer”, com o “para que” fazer e com o “por que fazer” não pode excluir o “como fazer”. (SANTOS, 2007, p. 82). Lembre-se que estamos falando da dimensão prática/técnica da atuação profissional, porém essa não é a única, temos ainda a dimensão teórica e metodológica, pois se nos determos somente à dimensão prática da profis- são estaremos sendo imediatistas, desconsiderando o caráter político e de força que possui a profissão. Antes de refletirmos sobre os instrumentais técnicos propriamente ditos, nos atentaremos para alguns cuidados técnicos que permeiam e envolvem a maioria das ações do profissional. LOCAL DO ATENDIMENTO O atendimento deverá ocorrer sempre que possível, num ambiente acolhedor, discreto, que lhe transmita um certo grau de reserva e segurança e que permita ao usuário sentir-se à vontade (BARDAVID,1987). Contudo, juntamente aos cuidados com o espaço físico, o acolhimento no local é de extrema relevância: o primeiro passo em um atendimento deve ser auxi- liar o usuário a sentir-se à vontade e confortável. Naturalmente isto será difícil de conseguir, a menos que o próprio profissional esteja à vontade (GARRETT, 1991). Uma boa recepção (acolhimento) mostra ao usuário que ele não deve temer o atendimento. A recepção deverá ocorrer da forma mais natural possível e o profissional não pode ser forçosamente agradável. Isso pode ocorrer pelo fato do profissio- nal estar na mesma condição que o usuário enquanto ser humano. Ele vive na mesma sociedade que aquele que recebe atendimento. O profissional deve evitar ao máximo interrupções e chamados ao telefone. O des- vio de atenção por parte do profissional pode ©shutterstock Condições para um Bom Atendimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 69 vir a ser entendido pelo usuário como uma ofensa, ou então pode sentir que o profissional faz pouco caso da sua pessoa, desqualificando o atendimento, difi- cultando, talvez, o fornecimento de informações por parte do usuário. O espaço físico, se não for adequado, pode comprometer a privacidade do indivíduo que está sendo atendido e ele pode não se sentir confortável ao per- ceber que outras pessoas escutam seus problemas ou coisas afins. Levando em conta a singularidade de cada usuário, o espaço físico pode vir a inibi-lo ainda mais. Ele pode não conseguir abrir-se com o profissional, omitir ou deturpar informações, pois, o ser humano possui mecanismos inconscientes de defesa que são acionados quando este se depara com uma situação que o intimida. Contudo, a falta de estrutura física deve ser contornada pelo profissional, não devendo ser desculpa pelo fracasso ou para o não alcance de seus objetivos. Muitos profissionais enfrentam esse desafio: desempenhar seu trabalho em con- dições que não são as ideais, porém, não se deve atribuir somente a esse fator a deficiência de sua prática. Certamente ela poderá ser prejudicada, mas se a equipe de profissionais tiver clareza dessa situação, é possível que juntos estabe- leçam uma linha de trabalho que contorne essa questão e que se proporcione, mesmo que difícil, um mínimo de privacidade ao usuário. DURAÇÃO DO ATENDIMENTO Não é porque um atendimento foi demasiado longo que obteve grande êxito ou foi efetivo e resolutivo. O que garantirá o seu sucesso será a qualidade da reflexão e enca- minhamentos realizados. Bardavid (1987) e Garrett (1991) dizem que o tempo de duração de um atendimento varia de acordo com o seu objetivo, mas alertam que o seu prolongamento pode vir a cansar ambas as partes, a não ser quando o atendimento espon- taneamente se prolonga por ricas informações ou quando se faz realmente necessário. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E70 Um atendimento longo pode indicar que o usuário falou mais do que queria ou que foi mal conduzido, gastando o tempo de ambos e não gerando benefícios a ninguém. Entretanto, não se pode estipular um tempo máximo ou mínimo de atendimento, por não se tratar de uma consulta. O atendimento segue uma sequ- ência e o tempo será delimitado com base nas questões apresentados pelo usuário. Pode-se perceber que o fator tempo está ligado à questão do acúmulo de usuários a serem atendidos em um único dia. Porém, quando há uma preocu- pação excessiva com o tempo (em atender muita gente ou de não dar tempo de atender atodos), muitas vezes se acaba perdendo a qualidade do atendimento. O usuário não ficará tão transtornado em esperar pelo atendimento se o profissional no momento em que for atendê-lo dispor da mesma atenção e pro- fissionalismo que foi dispensada ao usuário anterior. O usuário perceberá que essa é uma prática comum desse profissional para com todos os seus usuários. ACEITAR Compreender as singularidades e particularidades de cada usuário é uma condi- ção indispensável para um bom assistente social, pois, de acordo com Carvalho (1987 p. 39) “cada um deles [usuários] expressa à sua maneira o mundo, os outros, a existência, seu desemprego ou sua fome, seu trabalho ou afetos, seu desespero ou sua revolta”. Quando falamos na subjetividade de cada um, podemos dizer: “[...] nunca sei exatamente como você vê a si mesmo e você nunca sabe exatamente como eu me relaciono comigo próprio” (MAY, 1987, p. 78). É por essa razão que o profis- sional deve aprender a controlar-se para que não venha a condenar o usuário por este possuir uma conduta que não condiz com seus valores e padrões próprios. Aceitar o outro, livre ao máximo de preconceito, é fundamental. Isso tam- bém não quer dizer que o assistente social é aquele que tudo perdoa e que passa por cima de tudo quando se trata de falhas, somente para deixar o usuário à vontade, pois, aceitar “[...] comportamentos antissociais não é perdoá-los, mas sim compreendê-los no sentido de conhecer os sentimentos que expressam” (GARRETT, 1991, p. 47). ©shutterstock Condições para um Bom Atendimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 71 O preconceito por parte do profissional é muitas vezes visto por ele mesmo como opiniões naturais e não históricas. Outra questão é que se pensa em preconceito em níveis mais gerais do tipo racismo, classe social, política, étnica etc., quando na verdade o preconceito aparece também em aspectos mais sutis: [...] sentimentos de aversão exagerada à indumentária deselegante, ex- travagante, a pessoas franzinas, gordas, ‘salientes’, homens fracos, mu- lheres agressivas, moças louras, morenas ou de cabelo vermelho (GAR- RETT, 1991, p. 43). Situação que poderá ser superada se o profissional descobrir e tiver consci- ência dos seus preconceitos, para melhor conhecer o outro. O profissional deverá ter consciência de si mesmo, de seus medos, preconceitos e limitações, se per- ceber enquanto cidadão singular. Não se guardam valores em casa quando se vai trabalhar, sendo assim o pro- fissional deve estar atento para não estar reforçando a compartimentalização de valores existentes na sociedade atual. Devemos combater essa compartimenta- lização, pois, o profissional deve buscar cada vez mais a inter-relação e vivência desses valores. ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E72 GUIAR Compete ao profissional guiar, conduzir o atendimento, não com um caráter autoritário de forma a deixar o usuário desconfortável, e sim conduzi-lo de forma que as informações essenciais não se percam, e que informações desnecessárias não se acumulem devido a um usuário tagarela. O profissional não deve esperar que o usuário tome as rédeas da situação, pois correrá o risco de receber aten- dimento ao invés de atender. Deve ter claros os objetivos de seu atendimento, ter clareza para saber quando deixar o usuário falar, quando interrompê-lo, quando questioná-lo: deve-se ter a sensibilidade para poder perceber quando o atendimento tornou-se maçante, exaustivo, por excesso de tempo ou pelas condições psicológicas do usuário. Também é preciso saber quando é hora de encerrar o atendimento e outros deta- lhes que devem ser percebidos pelo profissional, a fim de evitar que ambas as partes gastem seu tempo, não chegando a lugar algum. ©shutterstock Condições para um Bom Atendimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 73 CLAREZA DE OBJETIVOS O profissional deve ter claro para si todos os objetivos do atendimento, o porquê de cada pergunta a ser realizada no momento do atendimento, pois não se per- gunta algo apenas por perguntar, por uma simples curiosidade. De acordo com Garrett (1991, p. 42), “[...] o primeiro objetivo básico [do atendimento] é obter uma compreensão do problema e da situação da pessoa que necessita auxílio”. Bardavid (apud CARVALHO, 1987), coloca que o atendimento apresenta dois grandes objetivos que são: objetivo remoto, que diz respeito à perspectiva de realização do ser humano; e o objetivo próximo, que diz respeito à capacita- ção do usuário considerando seu pedido. Nenhum profissional deve realizar um atendimento sem ter claro com que objetivos estará realizando tal ação, pois no momento do atendimento: As pessoas são feridas em sua sensibilidade ao abordarem fatos de sua vida pessoal, hábitos familiares, pobreza, erros passados e assim por diante. E um questionário direto, aplicado prematuramente, pode afas- tar o assistido e fazê-lo levantar barreiras protetoras contra o que muito pode lhe parecer intrusão indevida (GARRETT, 1991, p. 52). ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E74 Por exemplo: a entrevista trata de informações pessoais dos usuários, logo deve ele saber por meio do profissional, de forma clara e direta quais os objeti- vos daquela entrevista, e que ela possui um caráter confidencial. É necessário ter claro os objetivos da instituição a qual se representa os objetivos de cada setor (se existirem setores), os objetivos da própria profissão enquanto especificidade e o objetivo de cada ação efetuada. O desconhecimento dos objetivos das questões realizadas prejudica o traba- lho de qualquer profissional. Se este não tiver claro para si mesmo tais objetivos, sentir-se-á realmente um “intruso” realizando tais perguntas, pois não saberá como trabalhar com as respostas fornecidas pelo usuário, e assim, o profissio- nal não estará à vontade para perguntar e o usuário à vontade para responder. OBSERVAÇÃO E DIÁLOGO Observar, segundo Costa e Sarmento (1989, p. 4) significa: [...] aproximar-se da realidade para ver o aparente e ser capaz de ver além do que se apresenta, do que é dado ao observador. A observação pressupõe observar o que são as inter-relações dos [usuários]. Não é uma ação tão simples quanto parece, não basta ver apenas com os olhos é preciso ir além, em busca de uma constatação mais exata possível acerca do usuário. Se o assis- tente social não for um bom observador não saberá decodificar os diversos sinais e infor- mações transmitidas pelo usuário, poderá ser um exímio técnico, mas apresentará falhas, enquanto assistente social, na leitura da vida do sujeito. Observação e Diálogo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 75 Para isso, algumas considerações devem ser levadas em conta: ■ Ter cuidado para não fantasiar o que se apresenta, procurar ver as coisas como elas realmente são. ■ Não se “[...] deixar levar pelas impressões e confundi-las com a observa- ção” (SARMENTO, 1994, p. 265). ■ Olhar o singular da realidade apresentadasem desprezar o geral. Sarmento (1994, p. 265) ainda complementa: [...] o assistente social necessita exercer um controle sobre sua atitu- de de observar, para que tenha plenas condições de constatar as coisas como elas realmente são e, efetivar o julgamento, ou seja, ao mesmo tempo em que se procura detectar os dados da realidade procura-se expurgar os seus elementos de relação com o objeto observado, daí a neutralidade como ponto relevante no processo de observação. Temos ainda a definição de Souza (2004, p.184) acerca da observação: A observação consiste na ação de perceber, tomar conhecimento de um fato ou acontecimento que ajude a explicar a compreensão da realida- de objeto do trabalho e, como tal, encontrar os caminhos necessários aos objetivos a serem alcançados. É um processo mental e, ao mesmo tempo técnico. A autora citada anteriormente complementa que, sendo a observação um recurso técnico, pressupõe alguns pontos de relevância na sua execução: a especificação (o que se observará); a quantificação (que tipo de dados é possível observar); e objetividade (significado dos elementos observados, objetividade implícita na aparência) (SOUZA, 2004). Logo, podemos afirmar que a observação engloba toda a instrumentalidade; não é, em si, uma técnica, no sentido lato da palavra, mas uma potencialida- de a ser desenvolvida. Nessa linha de pensamento a observação caminharia passo a passo com a linguagem, ou melhor, dizendo, com as linguagens. Ambas estariam presentes em toda instrumentalidade profissional. Fonte: Magalhães (2003, p. 57). OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E76 A observação é uma das formas de coletar dados importantes para o aten- dimento posterior ao usuário. Garrett (1991, p. 61) diz que “observar [...] certos fatos, como tensões do corpo, enrubescimento, excitabilidade, melancolia, [...] suplementam e algumas vezes até substituem o quadro esboçado pelas palavras do [usuário]”. A boa observação deve levar em consideração dois aspectos do usuário: o físico (seu comportamento, ações e reações) e aquilo que fica subentendido por meio das palavras. Somamos a esses outros elementos a serem observados: o andar, a postura, o vestuário, a maneira de falar ou de silenciar, o comporta- mento e as emoções que acompanham a fala. A observação exige um grau de abertura do profissional, assim como sen- sibilidade humana a fim de captar com maior fidelidade o que o usuário está expressando direta ou indiretamente, pois, “[...] aparecem no atendimento pes- soas que nem sempre dizem o que pensam ou agem como sentem” (GARRETT, 1991, p. 64). O profissional deve estar atento realmente às reações de seu usuário, pois a pressão exercida exteriormente sobre o indivíduo, muitas vezes, o faz agir de forma que ele ache que as pessoas querem que ele aja, ou então a dar respostas que ele acha que o profissional gostaria de ouvir. Outro fato que deve ser observado é a ansiedade vivenciada pelo indivíduo no momento do atendimento. Ele pode estar vivenciando um dos níveis de ansie- dade: tensão, apreensão ou terror. E em caso extremo, o indivíduo pode ter uma crise de ansiedade por estar diante do assistente social pela primeira vez. Muitas vezes é normal certa ansiedade diante do novo. Mas se o usuário apresenta sinais de ansiedade desproporcional ao momento, o profissional deve voltar à atenção primeiramente para essa reação, considerando, dessa forma, o comportamento vivenciado pelo usuário naquele momento. O bom observador consegue captar aquilo que está oculto no indivíduo e que pode vir a ser a chave para o cumprimento do objetivo do atendimento ou do problema. Pois, “pessoas são pessoas, onde quer que estejam [para tanto é pre- ciso] aprender ver a floresta, não só as árvores” (DIMITRIUS; MAZZARELLA, 2000, p. 25). Observação e Diálogo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 77 A forma como a observação vai se processando está intimamente ligado ao jeito de ser do profissional, pois envolve além de tudo sua subjetividade. Não há como se dizer/ordenar: proceda desta ou daquela forma. Qualquer pessoa que tenha montado um quebra-cabeça aprendeu que sem alguma abordagem lógica pode ficar infindavelmente atrapalhada com centenas de peças na mesa, antes de conseguir achar um único encaixe. Como ponto de partida, a maioria começa a montar as peças da borda – não porque elas mostra como será o quebra-cabeças termi- nado, mas porque são relativamente fáceis de identificar e de juntar. Uma vez que a borda do quebra-cabeças esteja completa, nós temos um quadro de referência que nos ajuda a determinar como as outras peças se encaixam. (DIMITRIUS; MAZZARELLA, 2000, p. 28). Durante o processo de observação podemos estar atentos a alguns pontos que auxiliarão a prática profissional junto com o seu usuário: associação de ideias; mudança de assunto durante a conversa e primeiras e últimas palavras. Vejamos a seguir cada um deles: Uma senhora pode estar falando sobre sua dificuldade em continuar com seu marido, e passar a falar subitamente sobre a separação de seus pais quando era criança e sua infelicidade e vergonha, decorrentes dis- so. Isso indica que seus problemas atuais não estão isolados, mas rela- cionados em sua mente com dificuldades semelhantes às de seus pais (GARRETT, 1991, p. 101). Esse tipo de ação por parte do usuário chama-se associação de ideias, quando este consegue estar articulando o atual momento de sua vida a outro que o mar- cou intimamente. A partir disso, o profissional poderá estar encontrando um canal para refletir com seu usuário a situação por ele apresentada. Outra atitude a ser observada é quando o usuário começa a mudar de assunto durante a conversa. Isso pode ser um indicativo de que não quer revelar tanto sobre si mesmo, “[...] ou talvez o assunto lhe fosse muito penoso para prosse- guir, ou demasiadamente pessoal, ou ainda passível de censura” (GARRETT, 1991, p. 101). Ao perceber que o usuário muda constantemente de assunto, o profissional deve estar atento a essas mudanças. Os desvios que ocorrem durante o aten- dimento devem ser passíveis de receber uma atenção especial. Claro que, por vezes, o usuário poderá tecer algum outro comentário complementar, porém se OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E78 logo retornar ao assunto principal pode ser encarado como uma fuga natural. Outra maneira de buscar compreender melhor o usuário e como ele está se sen- tindo é estar atento as primeiras e últimas palavras proferidas. As primeiras nos dão a dica sobre o estado de espírito do usuário, como ele apresenta seu problema, o que espera do atendimento. A maneira (o jeito) como ele expõe os fatos sempre merece um estudo. Já as últimas palavras nos dão a ideia do que ele apreendeu até ali e até que ponto o profissional contribuiu para a resolução do problema do usuário. De acordo com Garrett (1991, p. 105), “[...] é essencial para o profissional acostumar-se a ouvir não só o que o assistido diz, mas também a procurar enten- der o que ele quer dizer”. Cada profissional, porém, deverá observar seu usuário da forma na qual se sinta à vontade e que deixe seu usuário ao mesmo tempo à vontade. Por isso a discrição é uma condição fundamental para tal prática. A observação permeia todo o atendimento, ela inicia assim que o usuário chega e perdura todo o atendimento até o momento de ir embora.De acordo com Garrett (1991, p. 67): Um erro comum dos [...] experientes é embaraçarem-se com as pausa do cliente e acharem que devem tomar a iniciativa de fazer pergun- tas ou comentários [...] Uma interrupção precipitada pode omitir para sempre esta importante parte da história. [...] e prolongando-se muito, somente atrapalhará a pessoa entrevistada. Em tais casos, uma obser- vação pertinente, ou uma pergunta, encorajará a mesma a prosseguir. Podemos então dizer que é necessário um discernimento para saber: quando o silêncio atrapalha; quando o silêncio expressa algo; quando a intervenção sobre o silêncio é necessária ou prejudicial. É necessário decodificar o silêncio. Isso demonstra a interligação dos elementos observação-escuta; pois, somente observando os pormenores do usuário teremos condição de analisar melhor as suas atitudes. Podendo-se perguntar ao usuário: o que esse silêncio quer dizer? Relacioná-lo (o silêncio) com o que o usuário falou anteriormente ou as pró- ximas palavras que proferir é uma forma de se estar interpretando o que esta atitude significa naquele momento. Há momentos em que deixamos que o usuário fale livremente antes da entre- vista (se houver), isto pode vir a facilitar o atendimento, pode ser que ele venha a responder espontaneamente questões que não foram perguntadas e assim nos ©shutterstock Observação e Diálogo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 79 fornecer a forma de como devemos conduzir o atendimento (GARRETT, 1991). São “dicas“ que o próprio usuário fornece e que somente são percebidas por um profissional atento. A arte de ouvir com atenção visa à apreensão e a apre- ciação dos comentários feitos pelo usuário. Segundo Carvalho (1987, p. 40-41): Enquanto escuta e vê, o Assistente Social diz e é ouvido ao mesmo tem- po, também é fala e fala que é gesto e olhar [...] ouvir aqui não pode ser a simples permissão da palavra [...] onde o silêncio não é a cessação da palavra, mas a imersão no ser [...]. É um momento de interação, de mútuo comprometimento. O profissional deve ouvir, olhando para o usuário não em posição de descaso ou falta de atenção. “Escutar a palavra do [usuário] não é ouvir por complacência ou misericórdia, não é ouvir mesmo por acaso, ou coincidência, mas é tornar- -se sensibilidade e intuição” (CARVALHO, 1987, p. 40-41). Aprender a ouvir é mais difícil do que aprender a fazer boas perguntas. [...] Ouvir é essencial, mas como parece passivo, é frequentemente su- bestimado. (DIMITRIUS; MAZZARELLA, 2000, p. 138) O ser humano necessita de atenção, precisa ser ouvido, de um espaço em que possa desabafar, por para fora suas aflições. O gesto de ouvir dá um real sentido ao fazer profissional do assistente social na medida em que esse estará realizando um atendimento mais humanizado, pois as questões partirão daquele que neces- sita do auxílio e não do profissional que, por vezes, pensa saber a solução para um problema que ele acha que já conhece o suficiente. Existe além de tudo um compromisso ético-profissional do assistente social: neste é depositado por parte do usuário a confiança de seus problemas e de sua vida. Assim, o diálogo é um elemento essencial para um bom atendimento. O diálogo pressupõe duas ou mais pessoas e também fala e escuta, ordenadamente. E esse diálogo tem muito ou até mesmo tudo a ver com o processo reflexivo do usuário. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E80 Poderíamos dizer que o diálogo não é “o que se usa mais”, e sim, o que se usa sempre e, ele é fundamental em um atendimento e no processo de reflexão junto ao usuário. O profissional precisará estabelecer um bom, agradável e esti- mulante diálogo, para que o usuário sinta-se à vontade em estar ali. Para que o indivíduo sinta-se em condição de abrir-se, o profissional deve deixar-se perce- ber em condição e posição de escuta. A primeira regra do bom ouvinte é não interromper. É impossível ouvir bem quando você está falado ou planejando o que vai dizer a seguir. [...] Quando interrompemos alguém, nós cortamos o fio do pensamento dele, mesmo que por um breve momento. A espontaneidade e o ritmo da conversa podem ter se perdido quando ele conseguir retomar seus pensamentos. (DIMITIRIUS; MAZZARELLA, 2000, p. 139, grifo nos- so). De acordo com Paulo Freire (apud KISNERMAN, 1978, p. 24-25), devemos nos perguntar sempre como forma de autorreflexão quanto à prática: [...] Como posso dialogar, se me sinto participante de um ‘ghetto’ de homens puros, donos da verdade e do saber para quem todos os demais são ‘essa gente’ ou são ‘uns caipiras ignorante’? Como posso dialogar, se me fecho para não me dar aos outros? [...] aos quais jamais reconheço e até me sinto ofendido pela contribuição que eles, por acaso, me quei- ram dar? Como posso dialogar, se temo a superação e se só em pensar nela sofro e desfaleço? É relevante a predisposição permanente a ouvir aquele que vem até ao Assistente Social, pois, o simples ato de ouvir com atenção poderá ser o auxílio àquele que recorre. O que não ocorrerá se, conforme citação anterior, o profissional assu- mir uma posição autoritária e de menosprezo, diante do usuário. Kisnerman (1978, p. 25, grifo nosso), apresenta alguns pontos para que se estabeleça um bom diálogo e que facilitam o ouvir mútuo: a. confiança, compreensão - Não é um amigo, porém um profissio- nal que efetua o [atendimento] com intenção precisa; b. não fazer críticas, nem julgar; Observação e Diálogo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 81 c. analisar exaustivamente a situação para que o [usuário] se escla- reça; d. reorganizar o [atendimento] de acordo com a situação e o [usu- ário]; e. não prometer coisa alguma, não procurar gratificações pessoais, não se mostrar onipotente; f. escutar mais do que falar. Não usar conceitos teóricos que o [usu- ário] não entenda; g. não improvisar; formular perguntas diretas e claras de acordo com os objetivos e adequadas à situação; h. se a situação for favorável, anotar apenas os dados importantes; i. não comentar com outros [usuários] os resultados do [atendimen- to]; j. ser autêntico; não fazer ostentações nem disfarçar em pobre, ser como é comumente; k. observar todo contexto do [atendimento], pois que tudo tem sig- nificado. Conforme citamos anteriormente, ressaltamos a relevância de um profissional autêntico. A autenticidade não deve ser qualidade apenas de um ou outro grupo social, ela deve estender-se a sociedade como um todo, fazendo parte do coti- diano dos homens. Um “jeito forçoso” de ser demonstra que o profissional não é livre interior- mente, porque situações externas o convencem a agir dessa forma. Como, então, o profissional proporcionará ao seu usuário um espaço para reflexão? As considerações de Kisnermann (1978) sobre a autorreflexão do profis- sional devem sempre estar presente na prática, a fim de melhor qualificar seu trabalho. É bom lembrar que todos esses apontamentos devem ser adaptados ao momento, ao usuário, a realidade com a qual se trabalha. ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E82 RELACIONAMENTO Vamos primeiramente compreender o relacio- namento no âmbito profissional considerandoo seu processo histórico. Para isso, utilizaremos como fonte para nossa análise algumas refle- xões de Gordon Hamilton (1958). Período Clássico: Mary Richmond é a assistente social artífice do relacionamento, quando siste- matizou o conhecimento da profissão, trabalhando as relações sociais entre as pessoas. Aqui especificamente, relações entre pessoas, que se efetivam na prá- tica. Para Mary Richmond, todo indivíduo que não consegue dar conta dos seus problemas, que tem bloqueios de personalidade, caracteriza-se por caso social (o que era trabalhado por assistentes sociais). Portanto, no início da nossa profissão o relacionamento esteve presente como elemento fundamental da prática profissional. Gordon Hamilton (1958), que se aproximou da psicanálise, também trabalha o relacionamento: 1. Relações humanas – sua importância, sua dinâmica, sua utilização no tratamento. 2. Cada tipo de comportamento é, não só um conjunto de fatos psicológi- cos e biológicos, um julgamento de valor, pois o comportamento de um indivíduo sofre influência do modo de agir de outros. 3. As relações pessoais ativam processos intelectuais e emocionais, formam atitudes e socializam o indivíduo. 4. O assistente social deve ser uma pessoa de natureza agradável com jeito para fazer amizades, deve estar disposto a entrar em contato com a expe- riência emotiva do outro, a ouvir o seu ponto de vista a respeito dos seus problemas e de palmilhar pacientemente com ele o caminho para a solu- ção de suas dificuldades. Relacionamento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 83 O autor Félix Biestek (1960), em seu livro “O relacionamento em Serviço Social de Casos”, faz suas considerações e contribuições acerca do instrumental no exer- cício profissional da época (+- dez. de 60): 1. O elemento relacionamento é uma intervenção de atitudes e emoções do assistentes sociais e clientes. 2. O relacionamento entre o assistente social de casos e o cliente é o meio pelo qual se usa o conhecimento da natureza humana e do indivíduo: apenas o conhecimento é inadequado quando não há relacionamento. O relacionamento é mobilização das capacidades do indivíduo e a mobili- zação dos recursos da comunidade; também por meio dele aparecem as habilidades em entrevistas, estudo, diagnóstico e tratamento. 3. O objetivo do relacionamento foi descrito como criador de um ambiente, como desenvolvimento de personalidade, como melhor solução para o problema do cliente, como meio de realizar um trabalho, uma função determinada e focalizando realidades e problemas emocionais, ajudando o cliente a fazer um ajustamento mais aceitável de um problema pessoal. O relacionamento tem objetivos gerais e específicos. Além disso, em alguns casos é a principal forma de tratamento, enquanto em outros é um auxí- lio para o tratamento. 4. O relacionamento em Serviço Social de casos é a interação dinâmica de atitudes e emoções entre o assistente social e o cliente, com objetivo de auxiliar o individuo a atingir um ajustamento com seu ambiente. De acordo com Biestek (2010), ainda é possível elencar alguns princípios para individuação, sendo eles: 1. Expressão de sentimentos tendo em vista um objetivo. 2. Envolvimento emociona controlado. 3. Aceitação. 4. Atitudes de não julgamento. 5. Autodeterminação do cliente. 6. Discrição. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E84 Atualmente: Neste momento histórico da profissão, em que se valoriza a construção do conhe- cimento, podemos entender o relacionamento como: 1. Ênfase nas relações interpessoais. 2. Forma privilegiada da ação profissional. 3. Fatores psicossociais. 4. Forma de ação necessária para a concretização dos objetivos profissionais. 5. Relacionamento baseado nos próprios valores do assistente social. A perspectiva tradicional vê o relacionamento no seu aspecto afetivo, em que o problema social necessita da intervenção do assistente social sobre o sujeito, porque se ele possuía problema possuía, então, uma relação disfuncional com o meio social. Nessa perspectiva, o cliente é visto como necessitado e o assistente social deveria escutar o necessitado com agrado e paciência estabelecendo uma simpatia com muita compreensão, logo se compreendia o relacionamento como um instrumento facilitador da intervenção no plano afetivo, para que o trata- mento tivesse êxito. Já na perspectiva crítica, o Serviço Social responde aos problemas do seu tempo com a intervenção, ou seja, a partir do relacionamento (ação concreta) ele “reconstrói” os campos de mediação (relacionamento entendido como media- ção profissional). Pois as relações sociais retratam a forma concreta do projeto sócio-político dominante, as relações sociais modelam as relações interpessoais. Nessa perspectiva, o relacionamento tem não apenas dimensão afetiva, mas também cognitiva, em que se articulam todas as relações que estão presentes entre os indivíduos. O trabalho social está inserido em uma relação contraditó- ria, pois os problemas trabalhados são expressão da sociedade. Relacionamento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 85 No trabalho do assistente social com o usuário, estabelece-se uma relação: Figura 1 - Relação Profissional Fonte: a autora. Segundo Sarmento (1994, p. 254), relacionamento é um instrumental facilitador da intervenção no plano afetivo e cognitivo, “se apresenta como uma categoria fundamental que permeia toda a prática profissional”. Ou seja, não existe prática profissional sem que haja um relacionamento entre o assistente social e o usuário. A relação entre assistente social e o usuário não se dá na imediaticidade (já, agora) e sim na mediaticidade (com o tempo). É um dos instrumentais no qual o subjetivo, a personalidade do assistente social tem grande função e influência. O relacionamento nesse caso possui um caráter intencional, objetivo o rela- cionamento entre o assistente social e o usuário possui um caráter profissional, consciente e dirigido. Mas isso não significa que o assistente deva demonstrar frieza, descaso e menosprezo pela pessoa que a ele se apresenta. Como acabamos de relatar este instrumental possui um caráter subjetivo, assim também pressupõe sensibilidade humana, para que durante a interação profissional-usuário, o primeiro seja capaz de avaliar e decodificar os elementos que se apresentam por meio das experiências e vivências relatadas pelo segundo. Afinal, todo indivíduo chega até o assistente social porque precisa que algum tipo de necessidade seja sanada, seja ela uma simples informação ou orientação, como um encaminhamento ou algo material. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E86 É por meio do tipo de relação que se estabelece que se possibilita o tipo de solução que se obterá ao fim do trabalho. Sarmento ainda aponta alguns requisi- tos para que o assistente social estabeleça um bom relacionamento com o usuário: ausência de preconceitos; conhecimento do comportamento humano; habilidades de ouvir e observar; habilidade de seguir o ritmo do [usu- ário]; habilidade para conservar a perspectiva na condução do relacio- namento (1994, p. 256). Deve-se levar em conta que o usuário vem a nós com toda uma história (cole-tiva e individual), valores, e, portanto, não cabe ao profissional questioná-lo ou julgá-las. Ao potencializar o relacionamento é necessário que esteja claro que na inter- mediação do assistente social com o objeto de seu trabalho são estabelecidas as relações de: poder – autoritarismo – autonomia – práxis – relacionamento. Quando o relacionamento entre assistente social e usuário fica somente no nível afetivo, nega-se a dimensão ou caráter político da prática, desencadeando relações de dependência, subordinação etc. Quando se consegue estabelecer o equilíbrio entre o afetivo e o cognitivo, assume-se então o caráter político da prática, são trabalhadas as relações de auto- ridade, poder, liberdade. Os instrumentos são os meios pelos quais potencializamos determinada for- ça, em determinada direção, de determinada forma. Que pode caracterizar dominição, poder e coerção, quando não utilizada ética e adequadamente. Fonte: as autoras. Relacionamento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 87 Logo, podemos sintetizar: 1. O trabalho social, inserido na ótica das relações sociais contraditórias entendidas no contato das relações de classe. 2. Os problemas vividos na prática profissional são resultados de relações complexas. 3. Os problemas apresentados são expressão das relações sociais e de produção. 4. O problema é sempre um dos pontos de partida. 5. Nessa articulação, é visualizado o encaminhamento da superação. 6. No relacionamento estão presentes as relações globais de força. Quando o assistente social relaciona-se com um usuário, ele estabelece uma dada conexão, que é sempre consequência das relações sociais de produção. O relacionamento é essa ação profissional intencional na interação, isto é, o pro- cesso de mediações sociais. O relacionamento é a mediação de relações sociais com vistas ao avanço da prática social dos segmentos populares. ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E88 INVESTIGAÇÃO Investigar significa seguir vestígios, indagar, pesquisar, inquirir, informar-se a respeito de, procurar esclarecimentos, informes que escla- reçam casos obscuros. A investigação toma caráter instrumental sendo algo incorporado ao que a profissão vem desempenhando desde a sua gênese: a prática. Segundo Battini (1994, p. 144)1 para com- preender uma situação e intervir nela com competência os assistentes sociais precisam: 1. Ter claro o referencial teórico que ilumina a leitura que faz da realidade (competência teórica), para a reconstrução de conceitos. O assistente social escolhe essas referências segundo sua visão de mundo e de como se posiciona no jogo de forças da sociedade, junto com aqueles grupos que mais se aproximam da sua ideologia, e assim, age coletivamente. 2. Saber desempenhar a função com habilidade, usando instrumental téc- nico e estratégias adequadas no enfrentamento da questão social objeto da sua intervenção (competência técnica). 3. Inscrever-se de modo crítico nas demandas sociais, ter consciência da reper- cussão da sua intervenção na defesa de um projeto de sociedade (dimensão política). A pesquisa é a base para essa competência no sentido da conso- lidação da mudança com a adoção da atitude investigativa na intervenção profissional cotidiana, criando maiores possibilidades de novas explicações. Logo, a atitude investigativa faz superar a visão pragmática da ação dos assisten- tes sociais que é centrada na imediaticidade dos fatos e que privilegia sequências empíricas de ação. A investigação privilegia a relação sujeito de prática/objeto real. A atitude investigativa faz superar a visão pragmática da ação dos assistentes sociais que é centrada na imediaticidade dos fatos que privilegia sequências empíricas de ação no exercício profissional, a atitude investigativa desmitificada. ©shutterstock Análise de Conjuntura Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 89 ANÁLISE DE CONJUNTURA O profissional de Serviço Social em seu processo de trabalho deve estar articu- lado com a realidade social e deve compreendê-la como um fenômeno para se chegar à essência, isto é, o mais próximo da vida social dos sujeitos, buscando os meios necessários para intervir na realidade que está inserido, a partir de uma atitude investigativa associando a competência interventiva que conduz à prá- xis. O assistente social deve ter referencial teórico e técnico para responder às demandas sociais oriundas das expressões da questão social, assim identifican- do-as para enfrentar as correlações das forças sociais, econômicas e políticas, as quais se unem por meio das relações de poder. De acordo com Perin (2008, p. 2): A realidade social, por sua vez se traduz a partir de movimentos com- plexos, os quais nem sempre são possíveis de serem identificados, de forma imediata, pois para tal, se faz necessários que possamos alcançar o mais próximo possível a vida objetiva do sujeito. É fato que várias inter-relações são estabelecidas entre o sujeito e a sua realidade, mas nem sempre são identificadas por verbalizações, necessitando dedicar atenção ao que não é visível, o que não é dito, o que não está aparente, ou seja, que encontra-se latente na vida do sujeito. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E90 Para se compreender essa realidade multifacetada precisamos fazer uma aná- lise de conjuntura, uma tarefa muito complexa e difícil, que exige não apenas conhecimento minucioso de todos os fatos considerados importantes. Para Souza (1984, p. 8), “exige também um tipo de capacidade de perceber, compreender, descobrir sentidos, relações, tendências a partir dos dados e das informações”. Segundo Alves (2011, p. 1): A realidade multifacetada muda se a olharmos de prismas diferentes. Numa sociedade de classe, composta por grupos que possuem interes- ses antagônicos no interior do processo produtivo, o ponto de vista de classe, não muda a interpretação do real, mas leva a alternativas dife- rentes de ação e a projetos diferenciados de intervenção social. Isto não quer dizer que existam várias realidades, mas sim que existem várias alternativas de ação frente a uma determinada realidade. Neste sentido, análise de conjuntura deve compreender tanto a análise das fraquezas quanto da solidez de cada força que participa da disputa política e eco- nômica do dia a dia. A análise não deve se basear apenas em fatos empíricos, que estão à superfície de experiências imediatas, os acontecimentos nem sempre tem relevância. Uma análise de conjuntura vai além dos limites pertencentes de uma determinada situação histórica, deve descortinar as oportunidades oferecidas e as possibili- dades a cada tempo, em um espaço efetivo e nos processos de modificação, não podemos baseá-la em uma visão fragmentada que nos leva a ações inúteis, mas devemos integralizar os pontos de vista com a compreensão do todo. Conforme Souza (1984, p. 9): Para se fazer análise de conjuntura são necessárias algumas ferramen- tas próprias para isso. São as categorias com que se trabalha: aconteci- mentos, cenários, atores, relação de forças, articulação (relação) entre “estrutura” e “conjuntura” e analise de fatos tendo como pano de fundo as “estruturas”, ou articulaçãoentre estrutura e conjuntura. A estrutura, por sua vez, está relacionada aos períodos de longo prazo, é a inter- ligação dos acontecimentos do passado (História) com elementos do presente de uma determinada ordem ou organismo, gerando uma determinada conjun- tura social, industrial, fundiária, entre outras. ©shutterstock Instrumentais Quantitativos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 91 A conjuntura pode ser vista como relativa aos períodos de curto prazo da eco- nomia e da política (lógica do poder) classe dominante; isto é, refere-se à orga- nização do modo de produção capitalista, o qual, estabelece diretrizes, ideários para seu fortalecimento enquanto modelo econômico. Para isso, as relações sociais e políticas são fundamentais para implementação das estratégias adap- tadas para a subordinação e submissão da classe trabalhadora, bem como dos países em desenvolvimento. Exemplos disso são as políticas públicas de transfe- rência de renda e a expansão do neoliberalismo na América Latina, pois, apre- sentam-se com o intuito positivo, mas sua verdadeira finalidade é manter as amarras de domínio e poder frente a questão social. Também pode ser vista por meio dos movimentos sociais e populares, das classes subordinadas que fazem oposição à classe dominante. INSTRUMENTAIS QUANTITATIVOS Este instrumental refere-se à eficiência e à eficácia no acompanhamento dos projetos e programas, padronizando informações, objetivos e metas a serem cumpridas. O profissional deve interpre- tar dados mensuráveis e utilizá-los em sua prática garantindo a efetividade de suas ações. Exemplos: gráficos, mapas, tabelas estatísticas, planejamento estratégico, convênios, relatórios quantitativos, processos informativos e outros. Para Martinelli e Koumrouyan, (1994, p. 9): Os quantitativos são aqueles que garantem o acompanhamento de pro- gramas, a mensuração dos resultados obtidos e a relação custo/bene- fício, valorizando a eficiência, a eficácia e a efetividades das ações e objetivos, respondendo mais prontamente às exigências técnico buro- cráticas. ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E92 Observamos, na figura 2, um exemplo dos países mais populosos do mundo. Figura 2 – Países mais Populosos do mundo PAÍSES MAIS POPULOSOS DO MUNDO (em milhôes de hab.) China Índia EUA Indonésia Brasil Paquistão Nigéria Bangladesh Rússia Japão 1400 1200 1000 800 600 400 200 0 Fonte: adaptado Street (2015, on-line)2 INSTRUMENTAIS QUALITATIVOS Os instrumentais qualitativos estão ligados aos resultados esperados das ações dos profissionais como um processo de acompanhamento das finalidades e resultados esperados. Necessita-se uma ação/consciência crítica para o alcance e o uso desse instrumental. Exemplos: Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), índices de analfabetismo, taxa de mortalidade, índices de analfabetismo, planejamento estratégico partici- pativo, relatórios de acompanhamento e outros. Instrumentais Qualitativos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 93 Os instrumentais qualitativos direcionam-se mais intensamente para o processo e para o produto das práticas profissionais e sociais. Nes- se sentido, acompanham os processos inovadores engendrados na di- nâmica societária, estando em permanente construção coletiva. Essa construção se objetiva através de indicadores que se constituem em referências que permitem acompanhar a evolução da qualidade de vida e o desempenho das ações e atividades, produzindo informações para sua avaliação. Essas informações são expressas na forma de indicadores e índices que são números que procuram descrever um determinado ângulo da realidade ou a relação entre seus diversos aspectos. (BATTI- NI, 2001, p. 10).1 Observamos na figura 3 um exemplo dos números do desenvolvimento humano. Figura 3 – Números do desenvolvimento humano Os números dos desenvolvimento humano Mudanças no ranking do IDH ajustado à desigualdade * O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) varia de zero a um. Quanto mais próximo de um, maior é o desenvolvimento. **Em posições no ranking Variação na classi�cação** 1,0 -13 -1 1 -19 -17 -24 -5 77 0,8 0,6 0,4 0,2 0,718 0,519 0,670 0,687 0,534 0,547 0,392 0,910 0,771 0,897 0,749 0,710 0,479 0,905 0,851 0,882 0,833 IDH* IDH Desigualdade* 0,755 Brasil Rússia China Índia EUA Coreia do Sul Colômbia Suécia Finlândia Fonte: adaptado de: Costa (2011, on-line).3 ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E94 DIÁRIO DE CAMPO Este instrumento é necessário no cotidiano do assistente social e é exigido do aluno (a) de Serviço Social em estágio curricular. Esses devem observar com atenção para conseguir descrever os fatos com precisão. No diário, registra-se o processo de trabalho, comentários, observações das falas dos usuários durante o atendimento, relatos de discussões de casos com outros profissionais, ativida- des de pesquisa, um exercício diário com detalhamento das situações, fazendo sempre uma ligação entre teoria-prática. Para Lewgoy e Arruda (2004, p. 123-124): O diário consiste em um instrumento capaz de possibilitar “o exercício acadêmico na busca da identidade profissional” à medida que, através de aproximações sucessivas e críticas, pode-se realizar uma ‘reflexão da ação profissional cotidiana, revendo seus limites e desafios’. É um docu- mento que apresenta tanto um ‘caráter descritivo-analítico’, como tam- bém um caráter ‘investigativo e de sínteses cada vez mais provisórias e reflexivas’, ou seja, consiste em ‘uma fonte inesgotável de construção, desconstrução e reconstrução do conhecimento profissional e do agir através de registros quantitativos e qualitativos’. ©shutterstock Entrevista Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 95 Para Falkembach (s.d apud LIMA; MIOTO; DEL PRÁ, 2007, p. 99): Recomenda que sejam datadas as observações, especificando local e hora. Refere ainda que o diário de campo pode ser organizado em três partes: (1) descrição; (2) interpretação do observado, momento no qual é importante explicitar, conceituar, observar e estabelecer relações en- tre os fatos e as consequências; (3) registro das conclusões preliminares, das dúvidas, imprevistos, desafios tanto para um profissional específico e/ou para a equipe, quanto para a instituição e os sujeitos envolvidos no processo. ENTREVISTA O primeiro instrumental a ser utilizado é a entrevista. O profissional deve explicitar seus objetivos buscando uma postura horizontal, já que é por meio da entrevista que se conhece o usuário em questão, na qual ele irá averiguar os fatos que o levaram ao atendimento. A entrevista é feita em local sigiloso (Resolução CFESS nº 493/2006)4 para que o usuário se sinta seguro e estimulado a con- versar abertamente sobre suas vulnerabilidades. O profissional deve estar atento observando aos sinais que o usuário expressa por meio de movimentos cor- porais e ter escuta qualificada. Aofazer a entrevista, o profissional deve fazer per- guntas simples bem elaboradas sem sentido duplo, não podemos forçar o usuário a responder nossos questionamentos, deixando-o à vontade. A entrevista também pode ser utilizada como uma técnica que viabiliza o instrumento. Por exemplo, para realizar a visita domiciliar, muitas vezes, a técnica utilizada é a da entrevista. Cada espaço sócio-ocupacional tem um modelo a ser seguido com ques- tões estruturadas e não-estruturadas, com sua técnica de registro dependendo de sua necessidade. Entretanto, essa prática deixa o atendimento engessado, difi- cultado o trabalho do profissional. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E96 Para Gentilli (2006, p. 64): A primeira observação que salta aos olhos, ao se analisar os depoimen- tos dos colegas da prática, é que, por melhores que tenham sido as úl- timas aproximações entre a produção do conhecimento, a formação profissional e o efetivo exercício profissional. Isso se deve ao fato de cada um desses espaços de prática - apesar de complementares para a formação do profissional - sofrerem mediações diferenciadas das es- truturas organizacionais em que estão inseridos, possuírem finalidades diferentes e desenvolverem dinâmicas próprias. A entrevista estruturada tem um roteiro a ser seguido, com questões fechadas, sem liberdade de condução do assunto, já a entrevista não-estruturada o profis- sional consegue chegar ao usuário com mais facilidade, descobrindo quem ele é, de onde veio, para onde pretende ir, como pretende chegar e como encami- nhá-lo. Com a participação do usuário o profissional consegue avaliar, reforçar, orientar, permitindo, assim, aprofundar nas questões trazidas pelos mesmos como situações conflitantes que o limita enquanto sujeito em situações sociais. ©shutterstock Visita Domiciliar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 97 VISITA DOMICILIAR A visita domiciliar é um instrumento de tra- balho do Serviço Social, utilizada a partir da análise principal que é conhecer o meio em que o usuário está inserido, as condições de vida, situação sociais e culturais sem precon- ceitos e discriminação, sob a qual esta sob sua responsabilidade. O assistente social pos- sui capacidade teórica e metodológica para analisar tal situação, logo, proporciona uma aproximação da realidade do usuário com a instituição. RESOLUÇÃO CFESS nº 493/2006 de 21 de agosto de 2006 EMENTA: Dispõe sobre as condições éticas e técnicas do exercício profissio- nal do assistente social. Art. 1º - É condição essencial, portanto obrigatória, para a realização e exe- cução de qualquer atendimento ao usuário do Serviço Social a existência de espaço físico, nas condições que esta Resolução estabelecer. Art. 2º - O local de atendimento destinado ao assistente social deve ser do- tado de espaço suficiente, para abordagens individuais ou coletivas, con- forme as características dos serviços prestados, e deve possuir e garantir as seguintes características físicas: a- iluminação adequada ao trabalho diurno e noturno, conforme a organização institucional; b- recursos que garantam a privacidade do usuário naquilo que for revelado durante o processo de intervenção profissional; c- ventilação adequada a atendimentos breves ou demorados e com portas fechadas d- espaço adequado para colocação de arquivos para a adequada guarda de material técnico de caráter reservado. Para saber mais acesse o link nas referências on-line e leia na íntegra: Fonte: Conselho Federal de Serviço Social (2006, on-line).4 OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E98 Ao realizar a visita domiciliar, o profissional deve sempre avisar o usuário com antecedência e ao se apresentar informar com exatidão o motivo da visita. Não existe um tempo predeterminado para sua realização, mas o profissional tem que conseguir ter uma visão concreta dos fatos que o levou a realizá-la, tendo o cuidado de não ter interpretações conforme seus conceitos morais e culturais. De acordo com Perin (2008, p. 7): Não se pode esquecer que o local onde se desenvolve a visita domiciliar é privativo dos sujeitos, onde a realidade social se apresenta de modo diferenciado a como vive o profissional e, ‘capturar a realidade dentro de seu quadro social e cultural específico exige do profissional a visão de seus elementos difíceis, intrigantes e conflitantes, por mais estra- nhos que eles possam parecer a nossa razão’. Não existe um formulário ou roteiro ideal a ser seguido, por isso alguns pro- fissionais em seu eixo técnico/operativo usam a entrevista como instrumento, construindo um processo de trabalho próprio, utilizado para assimilar a realidade social, potencializando a compreensão do cotidiano dos sujeitos, possibilitando uma intervenção qualificada que responda às demandas sociais. Segundo Perin (2008, p. 8): A visita domiciliar se constitui em um instrumento, que por si só não se caracteriza em uma técnica. Para a utilização desta ferramenta se faz necessário o emprego de duas técnicas fundamentais, que são a entre- vista e a observação. A entrevista poderá ocorrer com perguntas aber- tas ou semiestruturadas, mas direcionada à situação social que indicou a necessidade da visita domiciliar. Conjugada à entrevista deve ser uti- lizada a técnica da observação, que visa apreender o que está à volta, ao que não é falado, as relações entre os sujeitos envolvidos. O profissional deve ter ética e estar pautado nas legislações da profissão princi- palmente ao sigilo profissional, ter o cuidado para não retornar ao Serviço Social conservador, pois muitas famílias ainda confundem o nosso trabalho. A seguir será apresentado um modelo de relatório de visita domiciliar, apre- sentando alguns dados necessários como identificação, composição familiar, antecedentes, objetivo da visita, entre outros: Visita Domiciliar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 99 MODELO DE RELATÓRIO DE VISITA DOMICILIAR Identificação -Data: 17/02/2016 -Horário: 09h30min -Local: Rua Sem saída, nº 266 – Jardim das Flores. -Família: Santos -Nome do Entrevistado: Jandira Pereira Silva -Visita nº: 3 -Visitadores: Aparecida Maria de Oliveira, Suellen R. Correa, Júlia F. Mariotto Casini Quadro-síntese de composição familiar Nome Idade Parentesco Escolaridade Ocupação Rendimento Benedito Santos 45 Pai Ensino Fundamental Incompleto Instalador de Tubulação R$ 550,00 Jandira Pereira Santos 42 Mãe Ensino Fundamental Incompleto Desempregada - Francisco Santos 16 Filho Ensino Médio Incompleto (cursando) Estudante - Bárbara Santos 15 Filha Ensino Médio Incompleto (cursando) Estudante - Jéssica Santos 13 Filha Ensino Fundamental Incompleto (cursando) Estudante - OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E100 Antecedentes A família foi atendida pelo CRAS – Centro de Referência de Assistência Social, ao todo, sete vezes. Em 2008, foram realizados dois atendimentos nos quais houve concessão de cesta básica. Em 2009, a família também foi atendidaduas vezes e recebeu cestas básicas. Este ano, foram realizados dois atendimentos, nos quais em um a família recebeu cesta básica e em outro kit emergencial. No dia 06 de setembro de 2010, o Sr. Benedito Santos compareceu ao CRAS, pela manhã, solicitando uma cesta básica para sua família. Realizou-se, então, o segundo atendimento do ano, com o objetivo de explanar acerca das condi- ções socioeconômicas. O Sr. Benedito relatou que necessita de alimentos, pois tinha em sua casa somente arroz e a empresa onde trabalha atrasaria o salário. Por meio dos ques- tionamentos da Assistente Social, ele expôs a situação de sua família, esclarecendo que por problemas de saúde (sofre de distúrbio da tireoide), sente-se cansado para o trabalho que realiza, pois exige um grande empenho físico, já que o ser- viço consiste em furar o asfalto para a passagem de tubulação para rede de esgoto. O usuário colocou também que, por vezes, fica sem tomar o remédio, por falta de recursos financeiros para adquiri-los. Também relatou que sua esposa está desempregada e os filhos não trabalham ainda, devido à idade que têm. O Sr. Benedito disse que a conta de luz alcança um valor muito alto, em torno de R$ 120,00 por mês, pois as instalações elétricas não são adequadas e a família não possui condições de pagar o conserto. Dessa forma, pelas normas da instituição, é realizada, primeiramente, a visita domiciliar onde se entrevista a família e, posteriormente, é entregue o encami- nhamento para que o usuário retire os alimentos no CRAS. A Assistente Social explicou, então, que não seria possível conceder a cesta básica sem a realização de uma visita domiciliar, pois, são muitas as famílias referenciadas e não há na instituição cestas suficiente para todas as que requerem. O usuário foi indagado sobre quem estaria na casa, e ele respondeu que a esposa talvez estivesse na UBS – Unidade Básica de Saúde, e que não se recorda do número do telefone, para que a Assistente Social agendasse a visita. Visita Domiciliar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 101 Assim, a Assistente Social, juntamente com as estagiárias, realizaram a visita domiciliar, com o objetivo de obter mais dados, que possam subsidiar a decisão de concessão ou não da cesta básica. Objetivos da visita Geral: Coletar dados que subsidiem a intervenção profissional quanto à concessão de cesta básica. Específicos: Aproximar o profissional e as estagiárias ao cotidiano de vida do usuário. Observar as interações familiares. Conhecer o real contexto socioeconômico e sócio-histórico da família. Apreender aspectos que, em geral, escaparam à primeira entrevista, no CRAS. Relato descritivo da situação sócio-econômico-cultural Chegando ao local da visita, a assistente social bateu palmas e quem atendeu foi o filho mais velho (Francisco, 16 anos), então, perguntou se sua mãe estava em casa, ele entrou e chamou a mãe, que veio até o portão. A assistente social escla- receu que o Sr. Benedito, seu esposo, tinha ido até o CRAS pela manhã e que se fosse possível, gostaria de conversar com ela, então a Sra. Jandira convidou a assistente social e as estagiárias para entrarem. Ao ser indagada, Sra. Jandira relatou que o marido está trabalhando há um mês e que ainda não recebeu o salário, que a carteira de trabalho está na empresa e que não sabe se ele está ou se será registrado. Disse que o esposo trabalha até as 20h00min e que, como ele mesmo relatou, por vezes fica sem tomar o remé- dio devido à falta de dinheiro para comprar. Segundo a entrevistada, a renda da família é em torno de R$ 550,00 por mês e ela também relatou sobre a conta de luz, que alcança um alto valor e sobre as instalações elétricas da casa. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E102 A residência da família, segundo Jandira, foi construída pela Companhia de Habitação do Paraná - COHAPAR e o material predominante na constru- ção é alvenaria, contendo quatro cômodos, sendo dois quartos, um banheiro e uma cozinha. O quintal não é cimentado e a pavimentação do bairro é precária. Os filhos frequentam a escola, porém o Bolsa Família foi cortado, há menos de um ano, pelo motivo de que Jandira havia começado a trabalhar, contudo, no momento está desempregada e o recadastramento não foi efetuado. No momento da visita, o filho permaneceu no quarto e quando a Sra. Jandira comentou que sente vontade de voltar a estudar, após ser instigada pela profis- sional, ele “zombou” da mãe. Ela comentou que não gosta de deixar os filhos sozinhos e que talvez esse fosse um fator que a impossibilitaria de retornar aos estudos. Disse também que sente vontade de fazer curso de costura. A filha (Bárbara, 15 anos) chegou durante a visita, nada disse, permaneceu por pouco tempo e saiu novamente. A filha mais nova (Jéssica, 13 anos) não estava em casa e por isso não foram envolvidas todas as pessoas da família. A entrevistada relatou ainda que está com problemas na coluna e sente muitas dores nas costas e que por esse motivo mal consegue dormir a noite, e, portanto, foi orientada pela Assistente Social a procurar pela Unidade Básica de Saúde (Posto de Saúde) mais próxima. A família veio para a cidade há alguns anos e por isso, não há uma rede de apoio na qual a família possa contar com familiares, aqui no município. A Sra. Jandira se mostrou “acanhada” ao falar de suas reais necessidades, com dificuldades em se expressar. Mostrou-se também deprimida e triste com a situação de sua família. Análise Analisando o anteriormente foi descrito, constata-se que a família Santos encon- tra-se em situação de pobreza. Pobreza, segundo Gomes e Pereira (2005), pode ser entendida quando a população não possui a capacidade de gerar renda que possa assegurar o acesso a recursos básicos para uma vida digna. As autoras expõem ainda que o Brasil possui elevados níveis de pobreza, acentuadas desigualdade social e de renda, e que isso afeta as condições de sobrevivência das famílias. Visita Domiciliar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 103 Tratando família como um mundo de variedade, ou seja, enxergando famí- lia distante de um modelo e assumindo-a em suas mais variadas formas de ser, nas quais cada uma cria o seu modo de emocionar, de interpretar comunicações; Szymanski (2002) coloca que as transformações que ocorrem no mundo inci- dem na família. Assim, podemos inferir que as transformações que ocorrem no mundo do trabalho, das quais Antunes (2000) trata com propriedade, também incidem mudanças na família, como o caso da família Santos, em que somente um membro possui renda, o vínculo de trabalho não é estável, tem uma grande jornada e um salário insuficiente para suprir as necessidades básicas, como a ali- mentação, por exemplo, e por esse motivo requereu a concessão da cesta básica. A partir do observado na visita em relação ao comportamento do filho diante do desejo da mãe em retornar aos estudos, percebe-se que, inseridos em condi- ções sociais de carência, os seres humanos têm suas possibilidades de amar, de respeitar o outro bastante ameaçadas, também pelo fato de que, a pobreza, muitas vezes, rompe ou faz com que os vínculos se percam e, assim, provoca sofrimento e faz com que o indivíduo não acredite nem em si mesmo, tendo a autoestima baixa (VINCENT, 1994 apud GOMES; PEREIRA, 2005). O fato de Jandira ter se mostrado, a partirda observação profissional, “aca- nhada” e com dificuldade de expressar suas reais necessidades, também merece ser analisado. Grazia (2007), a partir de sua pesquisa, constatou que algumas pessoas se sentem dessa forma, diante de algumas situações: “[...] depoimentos mostram sentimentos de constrangimento, vergonha e humilhação, resultantes da necessidade de pedir, de depender quase que permanentemente da ajuda de outros para garantir o primeiro direito básico do ser humano: comer.” É assim que se sentiu Jandira, triste e envergonhada diante do pedido pela cesta básica, feito pelo esposo. Contudo, a família acerca da qual se expôs, encontra-se em ausência de garantia de direitos, sem acesso à alimentação, a condições de moradia que possibilitem uma vida digna – pelo fato de as instalações elétricas não serem adequadas, fazendo com que a família dispense boa parte de sua renda mensal para o pagamento da tarifa de energia –, sem acesso à garantia plena do direito a saúde, uma vez que carece de medicamentos para tratamento. A Constituição OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E104 Federal de 1988 coloca em seu art. 6º que são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, portanto, pode-se dizer que o Estado deve cumprir o seu papel perante a família Santos. Ainda, a Política Nacional de Assistência Social – PNAS coloca a alimentação como direito, a partir do qual, inicia-se a provisão de necessidades humanas, portanto, evidencia-se, mais uma vez, que a família Santos encontra-se despro- vida de seu direito básico, uma vez que solicitou a cesta básica. Proposta de Intervenção A partir da visita domiciliar e análise realizadas, o caminho sugerido pela profis- sional é que a família Santos receba uma cesta básica, e seja, novamente, inserida no Programa Bolsa Família, pois até então recebiam o benefício e, pelo fato de a Sra. Jandira ter voltado a trabalhar, a renda per capta foi ultrapassada e, pelas condicionalidades do programa, a família não se enquadrava. Assim, foi entre- gue a Sra. Jandira a requisição para que retire a cesta básica no CRAS e também foi instruída quanto aos documentos necessários para a reinserção no Programa Bolsa Família, pois no momento a família se enquadra para receber o benefício. Também com o objetivo de assegurar os direitos no que diz respeito à saúde, a família foi informada quanto ao acesso a medicamentos, explicitando que há o direito de solicitar a receita do medicamento, levar até o CRAS e assim obter o encaminhamento para retirar a medicação na Autarquia Municipal de Saúde. Em relação ao alto valor da tarifa de energia, a família foi orientada a pro- curar pelos serviços da Companhia Paranaense de Energia – COPEL, a fim de que coloque sua situação e veja a possibilidade de ser enquadrada no programa implementado pela COPEL de troca de geladeira, para que consuma menos energia elétrica e, dessa forma, possa ser inserida no Programa Luz Fraterna. A Sra. Jandira também informada sobre a Oficina da Mulher que oferece cur- sos gratuitos de costura e também sobre os serviços que são oferecidos pelo CRAS, nos quais poderia ser inserida, como oficinas de pintura em tecidos, pintura em telas, decoupage em madeiras, bordado em chinelos, biscuit, bijuterias e sabonetes. Visita Domiciliar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 105 Aponta-se a necessidade de um acompanhamento, no que diz respeito à inser- ção nos programas sociais e a necessidade de uma nova visita com o objetivo de obter informações sobre a situação do problema referente à energia elétrica, assim, saber se esse foi solucionado junto a COPEL. Avaliação da Intervenção Embora não se tenha, no momento, os resultados da intervenção de forma a res- ponder se a família foi inserida novamente no Programa Bolsa Família e se os problemas em relação à energia elétrica foram sanados, avaliando a visita rea- lizada, conclui-se que ela cumpriu com o seu objetivo, pois, por meio dela a assistente social e as estagiárias puderam coletar dados que subsidiaram a inter- venção profissional, dessa forma auxiliando a decisão pela concessão da cesta – medida emergencial, porém, necessária –; também porque por meio da visita houve a aproximação ao cotidiano de vida do usuário, observaram-se as interações familiares, pode-se conhecer o real contexto socioeconômico e sócio-histó- rico da família e apreenderam-se aspectos que, em geral, escaparam à primeira entrevista, no CRAS. Dessa forma, a visita possibilitou com que a família fosse informada acerca de seus direitos. A intervenção se deu na perspectiva da garantia dos direitos, objetivando que a família Santos obtenha melhoria da qualidade de vida, tanto em aspectos materiais quanto em aspectos relacionados aos seus sentimentos enquanto seres humanos possuidores de direitos, os quais devem ser garantidos, de forma que possam atribuir, assim, uma maior autonomia a família. Fonte: elaborado e cedido por Júlia Fernanda Mariotto Casini, professora especialista e Assistente Social. ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E106 ABORDAGEM É por meio da abordagem que o profissional desenvolve suas relações com a comunidade, por isso, é um processo aparentemente simples, intencional, por- que possui objetivos já definidos, mediando sempre futuras ações do profissional. Abordar como o próprio nome já indica, significa achegar-se, aproxi- mar-se. A abordagem é o próprio ato de abordar. A sua importância está no chamar a atenção para o ato de achegar-se ou aproximar-se da população. Este ato pode revelar diferentes tendências e objetivos e, como tal, marca decisivamente o desenrolar do processo (SOUZA, 2004, p. 182). A abordagem é um contato intencional de aproximação, através do qual criamos um espaço para o diálogo, para a troca de informações e/ou experiências, para a tomada de conhecimento de um conjun- to de particularidades necessárias à ação profissional e, ainda, para o estabelecimento de novas relações (SARMENTO, 1994, p. 281). A abordagem correta pede atenção, pois alerta para alguns cuidados que devemos tomar na hora de colocá-la em prática: não se mostrar autoritário ou discrimi- nante, não mostrar insegurança, timidez, subserviência e baixa autoestima. ©shutterstock Reunião Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 107 Devemos buscar a construção de uma relação de cooperação, troca, curio- sidade, interesse, questionamentos. Deixando e levando indagações. O processo de abordagem varia de caso para caso, de comunidade para comunidade. Cabe ao profissional adaptá-la a cada situação. A abordagem intermedia ações, nunca é uma ação em si, finalizada e sim algo que prevê uma ação anterior e/ou posterior. REUNIÃO Você já participou de uma reunião? Como e por quem ela foi conduzida? Você sabia ao certo os objetivos da reunião? Se sim, você percebeu se eles foram alcançados ou cumpridos? Como foi preparada, estava bem organizada? Quais os recursos utilizados? Como você foi chamado para esta reunião? Foi solicitado que você fizesse uma avaliação da reunião?Você pode se expres- sar ao longo do seu acontecimento? Bem, vejam quantas perguntas são possíveis de se fazer acerca de uma reu- nião, com certeza outras podem surgir, e você já deve ter mentalizado algumas delas, não é mesmo? A reunião é um instrumento riquíssimo que o profissional tem a sua disposição, se bem utilizado e entendido pode gerar resultado mais que satisfatórios. De acordo com Sarmento (1994), reunião seria um meio de aplicar a expe- riência e os conhecimentos de várias pessoas a um assunto específico. Não se faz reunião por fazer, necessita de um objetivo bem definido e um condutor de reu- nião bem preparado e planejado. A aplicação da reunião tem um caráter muito importante: desenvolver capacidades humanas, estudar assuntos de interesses comuns, prevenir, incentivar a decisão de problemas sozinhos ou em conjunto. A reunião é um espaço concreto onde se reproduzem as relações sociais de produção, deixando antever as correlações de força e as estratégias de superação da dominação. [...] a reunião é um instrumento utilizado quando dados, informações, recursos, etc., necessitam de ser socializados entre pes- soas envolvidas nas mesmas situações ou interesses comuns. Fonte: Sarmento (1994, p. 298-299). OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E108 Sobre a reunião, podemos dizer que: ...é instrumento coletivo de reflexão sobre as necessidades, preocu- pações e interesses comunitários, assim como de organização e ação. (SOUZA, 2004, p. 188) O termo reunião tem o significado de tornar a unir, agrupar, vários indivíduos para realizar um objetivo comum, também é reconhecida como um meio de interação. Não sendo um encontro casual, a reunião é propositada pelos membros ou pelo assistente social. (SARMENTO, 1994, p. 293) Antes de iniciar a reunião o condutor deverá preocupar-se com o estado do local, os equipamentos necessários, material de apoio, número de participantes etc. Ser pontual no iniciar e ao terminar a reunião, não se desviar muito do assunto e não esquecer da avaliação final. Ainda estar apto e ser conhecedor dos diversos tipos de recursos áudio visu- ais disponíveis, pois por melhor que seja o orador, este deve saber usufruir dos recursos audiovisuais existentes, para que as informações sejam melhor assi- miladas pelos ouvintes. O orador deve sempre valorizar as suas palavras, não suprimi-las ou tomar o seu lugar. Os recursos audiovisuais facilitam a mensagem ou adicionam valor a elas. Podem ser: cartazes, filmes, jornais, transparências, retro projetor, músicas, slides, data show, carta, circular, convites, gráficos, tabe- las, organograma, modelos, maquetes, objetos, mapas, flip chart, quadros. Reunião Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 109 Após o exposto acima ainda se faz necessário abordar algumas questões que contribuem para o entendimento da utilização desse instrumento no exercício profissional, não são princípios para a sua realização, contudo possibilitarão estar indicando algumas maneiras e formas de como poderemos estar repro- duzindo as relações sociais e fortalecendo a sua não socialização. Os elementos que serão compartilhados com você a seguir visam contribuir para a eficácia da reunião, indicam “alguns cuidados” de como este instrumento se processa e desencadeia a participação e socialização, previstos em seus objetivos e já cita- dos anteriormente. Ficou claro e entendido? Então vamos lá, são os elementos: sugeridos por Sarmento (1994): - “ESPELHO” ou as atitudes, postura, e comportamentos dos profissionais que são observados, às vezes, copiados como referência, proporcionando a reprodução das relações não pelo discurso mas, pela ação concreta. - Institucionalização das relações, pois, desde que nascemos tais relações sociais já existem, focam a reprodução, o voltar-se para a condição de ser instituinte dessas relações. - As situações de conflito, nas quais nos preocupamos com as relações de poder, com as mesmas forças internas, sem às vezes nos atentarmos para as possíveis resoluções ou como processo de amadurecimento. - O amadurecimento, enquanto leitura das relações que se constroem, despertando para a força do grupo, a tomada de consciência de sua orga- nização. - Ruptura, as possibilidades de desvencilharmo-nos da realidade alie- nante, permitindo, a identidade com o outro e, com a classe. - O indivíduo, como possibilidade de reconhecimento de sua condição de Ser Social, expressando-se como sujeito. - O objetivo da reunião é fundamental, é preciso clareza do que se quer, e o discernimento da condução das atividades, para tal, é imprescindí- vel objetividade. - Destacamos também o processo de avaliação, reconhecimento do pro- duto das relações, dos limites e dos avanços, a condição rela do processo. ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E110 DINÂMICA DE GRUPO As técnicas de dinâmicas de grupo tornam-se um instrumento valioso e pos- sibilita um maior aproveitamento dos recursos com que conta cada grupo. A aplicação hábil de conhecimento ou técnicas de dinâmicas de grupo pode criar condições favoráveis ao descongelamento de ideias antigas e a adoção de novas. Toda atividade que se desenvolve em grupo (reuniões, workshops, grupos de trabalho, grupos de crescimento ou treinamento, plenário/grandes eventos etc.) que objetiva integrar, desinibir, “quebrar o gelo”, divertir, refletir, apren- der, apresentar, promover o conhecimento, incitar à aprendizagem, competir e aquecer pode ser denominada Dinâmica de Grupo. Mesmo o simples encon- tro de pessoas para buscar qualquer objetivo grupal é uma dinâmica de grupo (MILITÃO; MILITÃO, 2000). O aplicador deve sempre: planejar, pesquisar, estabelecer normas, providen- ciar recursos materiais, facilitar a participação do grupo. A conclusão (finalização) do processo de dinâmica de grupo é indispensável. Cada grupo vai se constituindo no aqui e agora através das histórias de vida e visões de futuro de cada um dos seus participantes, inclusive a do [facilita- dor]. Mas o grupo vai além das pessoas que o compõem. É algo mais que a soma de seus membros. Tem um rosto próprio e uma personalidade única, o que permite descrevê-lo como se fosse uma pessoa, um indivíduo. É im- portante que o [facilitador] vá compreendendo as motivações individuais, porém sua ação deve estar sintonizada com a motivação grupal, que ele pode perceber a partir do vínculo que estabelece com o grupo. Fonte: Serrão e Booleiro (1999). Dinâmica de Grupo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 111 Toda aplicação de dinâmica de grupo deve ter início, desenvolvimento e fechamento. A avaliação contribui para que o grupo se situe em relação ao que foi visto. Para ser bem-sucedido, o aplicador deve constantemente cultivar certas qualidades indispensáveis em seu trabalho, entre elas: interesse pelo comporta- mento humano; bom senso; capacidade de discernimento; controle emocional; flexibilidade; compreensão e dedicação; percepção bem desenvolvida; fluência verbal, capacidade de comunicação; capacidade de análise e síntese; simpatia; discrição; naturalidade; bons conhecimentos gerais; responsabilidade; profundo respeito pelo ser humano. Se bem utilizada, a dinâmica de grupo presta-seprincipalmente ao desen- volvimento da percepção do indivíduo em relação a si mesmo e aos outros; promoção e formação de atitudes adequadas ao grupo; melhoria no relaciona- mento interpessoal (socialização); aumento da coesão grupal e, em decorrência, da produtividade; aumento da participação e motivação do grupo; conceituação, análise e solução de problemas; facilitação da criatividade; aquisição dinâmica de conteúdos cognitivos, por meio de experiências compartilhadas; avaliação de situações de desempenhos; treinamento de profissionais. ©shutterstock OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E112 RELATÓRIO SOCIAL Este documento é elaborado somente por um (a) assistente social e como qual- quer outro deve seguir os princípios éticos do Serviço Social no que se refere ao sigilo profissional, deve-se ter os devidos cuidados para quem e para onde irá este documento, com maior ou menor detalhamento. Trata-se de um relato descritivo/ interpretativo da situação vivenciada pelo usuário em atendimento expressando a questão social. Por ele informamos e somos informados da realidade e tem por objetivo relatar atividades desenvolvidas como visitas domiciliares, providências tomadas, subsidiar decisões judiciais, esclarecer, e encaminhar. O relatório social deve explicar as razões das ações e seu conteúdo deve ir além do burocrático. Via de regra esse documento deve apresentar o objeto de estudo, os sujeitos envolvidos e finalidade a qual se destina, os procedimentos utilizados, um breve histórico, desenvolvimento e análise da situação. (CFESS, 2007, p. 45). Relatório Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 113 Acompanhe a seguir o modelo simplificado de relatório social: RELATORIO SOCIAL Sr. Mário Príncipe, data de nascimento 21/01/1969, filho de João Príncipe e Maria Príncipe está sendo atendido por esta instituição desde o ano de 2005, onde faz uso do benefício de alimentação, pernoitava algumas noites e retornava para a casa de sua mãe em Mandaguaçu, cidade em que reside também suas irmãs Elza Príncipe e Aline Príncipe. A partir do ano de 2009, Sr. Mário passou a permanecer com mais frequên- cia na Instituição, às vezes visitava seus familiares e logo retornava, uma vez que eles não dispunham de condições financeiras e sociais para acolhê-lo. No início do mês de fevereiro de 2012, foi encaminhado para consulta com Psiquiatra e também ao Instituto de Identificação e CPF, de posse de seus docu- mentos pessoais e laudo médico foi agendado entrevista no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), onde foi deferido o pedido de benefício de presta- ção continuada – BPC para pessoa com deficiência. Sr. Mário Príncipe foi encaminhado dia 17 de junho de 2012, para o Hospital Municipal, em seguida foi transferido para o hospital Psiquiátrico com previsão de alta hospitalar no dia 14/08/2012. No dia 24/07/2012, foi solicitado permissão no Hospital Psiquiátrico para que ele fosse até a Agência Bancária do XXXX, onde foi aberta sua conta ban- cária agência 0999, conta nº 04444-5 – 000 código de segurança do seu cartão. A Equipe técnica desta Instituição, no dia 09/08/2012, realizou visita domi- ciliar a Elza Príncipe irmã do Sr. Mário, na qual ficou acordado que após alta hospitalar ele poderá retornar à casa de sua mãe Maria Príncipe em Mandaguaçu. No dia 17/08/2012, assistente social juntamente com Marcelo (funcionário da instituição) foram até Mandaguaçu onde entregaram para Elza: ■ Termo de responsabilidade com firma reconhecida e todos os documen- tos pessoais do Sr. Mário Príncipe; ■ Cartão poupança do Banco XXXX e comprovante de depósito no valor de R$ 1.264,00, depositado em conta. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E114 Nessa mesma data, o funcionário Joaquim acompanhou Sr. Mário Príncipe até a Rua Joaquim Ferline nº 189 – Centro, endereço de sua mãe, em Mandaguaçu, levando sua bicicleta e demais pertences pessoais. Conforme informações do médico e equipe técnica do Hospital Psiquiátrico, Sr. Mário Príncipe está fazendo uso de medicação com injeção intramuscular mensalmente, que após alta médica deverá dar continuidade ao tratamento. Sem mais para o momento, colocamo-nos a disposição para mais esclarecimentos. Maringá, 19 de Agosto de 2012. _________________________________ Maria Joaquina Silva Santos Assistente Social CRESS XXXXXª Região Observação: todos os nomes usados, bem como o caso exposto, são fictícios. Fonte: elaborado pelo autor. ©shutterstock Estudo de Diagnóstico Pós-Acolhimento Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 115 ESTUDO DE DIAGNÓSTICO PÓS-ACOLHIMENTO Conforme as Orientações Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes (BRASIL, 2009)6, ao acolher o público referido a equipe técnica de refe- rencia (Assistente Social e Psicólogo) deve elaborar o estudo quando a criança e o ado- lescente é acolhido de forma emergencial e/ou de urgência, sem o estudo de diag- nóstico prévio (elaborado pelo Conselho Tutelar em conjunto com a Vara da Infância e da Juventude). Quando o acolhimento for LEI 8.662/93 - CAPÍTULO V Do Sigilo Profissional Art. 15 - Constitui direito do assistente social manter o sigilo profissional. Art. 16 - O sigilo protegerá o usuário em tudo aquilo de que o assistente social tome conhecimento, como decorrência do exercício da atividade pro- fissional. Parágrafo único - Em trabalho multidisciplinar só poderão ser pres- tadas informações dentro dos limites do estritamente necessário. Art. 17 - É vedado ao assistente social revelar sigilo profissional. Art. 18 - A quebra do sigilo só é admissível quando se tratarem de situações cuja gravidade possa, envolvendo ou não fato delituoso, trazer prejuízo aos interesses do usuário, de terceiros e da coletividade. Parágrafo único - A revelação será feita dentro do estritamente necessário, quer em relação ao assunto revelado, quer ao grau e número de pessoas que dele devam tomar conhecimento. Para saber mais, acesse o código de ética do (a) Assistente Social no link correspondente nas referências. Fonte: CFESS (2012, p. 35-36, on-line)5. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E116 emergencial sem a determinação da autoridade competente, esse deve ser comuni- cado até 24 horas ao Juiz da Infância e da Juventude, sob pena de responsabilidade, conforme o Art. 93 do ECA: Art. 93. As entidades que mantenham programa de acolhimento insti- tucional poderão, em caráter excepcional e de urgência, acolher crian- ças e adolescentes sem prévia determinação da autoridade competente, fazendo comunicação do fato em até 24 (vinte e quatro) horas ao Juiz da Infância e da Juventude, sob pena de responsabilidade. Parágrafo único. Recebida a comunicação, a autoridade judiciária, ou- vido o Ministério Público e se necessário com o apoio do Conselho Tutelar local, tomará as medidas necessárias para promover a imediata reintegração familiar da criança ou do adolescente ou, se por qualquer razão não for isso possível ou recomendável, para seu encaminhamen- to aprograma de acolhimento familiar, institucional ou a família subs- tituta, observado o disposto no §2º do art. 101 desta Lei. (ECA, 2010 p. 58-59) Recomenda-se que o estudo de diagnóstico pós-acolhimento elaborado pela equipe técnica da instituição de acolhimento (assistente social e psicóloga), seja entregue ao Poder Judiciário/Ministério Público com até 20 dias após o acolhi- mento, para que se verifique a real necessidade da medida ou a possibilidade do retorno da criança e/ou adolescente ao convívio familiar imediatamente. A situação de todas aquelas crianças e adolescentes já acolhidos deve também ser revista, de modo a garantir que todos estejam em acom- panhamento. Para estas situações deve -se também, na elaboração do Plano de Atendimento considerar os motivos do afastamento e as intervenções realizadas até o momento, a partir dos quais devem ser delineadas outras intervenções n necessárias tendo em vista o alcance de soluções de caráter mais definitivo para a criança e o adolescente. (BRASIL, 2009, p. 32).6 ©shutterstock Plano Individual de Atendimento (Pia) Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 117 PLANO INDIVIDUAL DE ATENDIMENTO (PIA) O Plano tem como objetivo nortear as ações de intervenção/estratégias de atuação durante o período de acolhimento, elaborado pela equipe técnica (Assistente Social e Psicólogo) baseado nas circunstâncias coligadas no estudo de diagnóstico inicial em conjunto com Conselho Tutelar e a rede socioassis- tencial e poderá contar com a equipe de supervisão dos serviços de acolhimento do Município (órgão Gestor da Assistência Social) e com a equipe interprofissional da Justiça da Infância e da Juventude, sempre que possível. Na elaboração devem-se envolver todos os interessados, familiares e pessoas do convívio da criança e do adolescente, ter uma escuta qualificada, tendo o acolhi- do(a) uma participação atuante nesse processo. Faz-se necessário um levantamento das potencialidades e necessidades para a superação dos motivos de acolhimento. O Estudo Diagnóstico Prévio tem como objetivo subsidiar a decisão acerca do afastamento da criança ou adolescente do convívio familiar. Salvo em situações de caráter emergencial e/ou de urgência. Esta medida deve ser aplicada por autoridade competente (Conselho Tutelar ou Justiça da Infân- cia e da Juventude), com base em uma recomendação técnica, a partir de um estudo diagnóstico, caso a caso, realizado por equipe interprofissional do órgão aplicador da medida ou por equipe formalmente designada para este fim. Em todos os casos, a realização desse estudo diagnóstico deve ser realizada sob supervisão e estreita articulação com Conselho Tutelar, Justiça da Infância e da Juventude e equipe de referência do órgão gestor da Assis- tência Social. Sempre que necessário, o órgão aplicador da medida poderá requisitar, ainda, avaliação da situação por parte de outros serviços da rede como, por exemplo, da Delegacia de Proteção da Criança e do Adolescente e de serviços de saúde. Fonte: BRASIL (2009, p. 29, on-line)6. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E118 Não existe um modelo pronto. O plano é uma construção de cada institui- ção de acolhimento, conforme acordos com a Vara da Infância e da Juventude e equipe de supervisão de acolhimento do Município, mas existem algumas estra- tégias a serem seguidas, conforme as Orientações Técnicas: O Plano de Atendimento Individual e Familiar deve orientar as inter- venções a serem desenvolvidas para o acompanhamento de cada caso, devendo contemplar, dentre outras, estratégias para: · desenvolvimento saudável da criança e do adolescente durante o pe- ríodo de acolhimento: encaminhamentos necessários para serviços da rede (saúde, educação, assistência social, esporte, cultura e outros); atividades para o desenvolvimento da autonomia; acompanhamento da situação escolar; preservação e fortalecimento da convivência co- munitária e das redes sociais de apoio; construção de projetos de vida; relacionamentos e interação no serviço de acolhimento – educadores/ cuidadores, demais profissionais e colegas; preparação para ingresso no mundo do trabalho, etc.; · investimento nas possibilidades de reintegração familiar: fortaleci- mento dos vínculos familiares e das redes sociais de apoio; acompa- nhamento da família, em parceria com a rede, visando à superação dos motivos que levaram ao acolhimento; potencialização de sua capaci- dade para o desempenho do papel de cuidado e proteção; gradativa participação nas atividades que envolvam a criança e o adolescente; etc. Nos casos de crianças e adolescentes em processo de saída da rua deve-se, ainda, buscar a identificação dos familiares, dos motivos que conduziram à situação de rua e se há motivação e possibilidades para a retomada da convivência familiar; · acesso da família, da criança ou adolescente a serviços, programas e ações das diversas políticas públicas e do terceiro setor que contribuam para o alcance de condições favoráveis ao retorno ao convívio familiar; · investimento nos vínculos afetivos com a família extensa e de pessoas significativas da comunidade: fortalecimento das vinculações afetivas e do papel na vida da criança e do adolescente; apoio aos cuidados com a criança ou adolescente no caso de reintegração familiar ou até mesmo responsabilização por seu acolhimento; ©shutterstock Estudo Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 119 . encaminhamento para adoção quando esgotadas as possibilidades de retorno ao convívio familiar: articulação com o Poder Judiciário e o Ministério Público para viabilizar, nestes casos, o cadastramento para adoção. Desde que haja supervisão do Poder Judiciário, uma estratégia que pode ser empreendida também pelos serviços de acolhimento, em parceria com Grupos de Apoio à Adoção ou similares, diz respeito à busca ativa de famílias para a adoção de crianças e adolescentes com perfil de difícil colocação familiar. (BRASIL, MDS/2009 p. 33-34). ESTUDO SOCIAL Este instrumento é privativo do Serviço Social conforme apresentado na Lei Nº 8.662 de 7 de junho de 1993. O estudo social é determinado ou solicitado aos assistentes sociais nomeados como peritos, aos profissionais servidores do Poder Judiciário ou a profissionais que atuam em instituições que de alguma forma está ligado à instituição judiciária. O estudo social respalda perícias, pareceres e laudos técnicos ao Poder Judiciários, Penitenciário e Previdência Social. Para Fávero (2009, p. 11): Assim, ao desenvolver um estudo social e registrá-lo em documento pertinente, informações como as descritas dão suporte à sua funda- mentação. É essa fundamentação que pode fornecer elementos para que o magistrado forme seu juízo, de maneira a poder tomar uma de- cisão justa. Se questionado por meio de recurso (os envolvidos podem recorrer à instância superior para revisão da decisão, se a decisão for considerada injusta.), o magistrado pode recorrer ao estudo social para ratificar a sua decisão. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E120 O estudo social não tem um modelo definido, mas algumas informações são de grande importância como número do processo, ação, requerente, requerido,histórico do processo, instrumentos utilizados e procedimentos, estudo e desen- volvimento do caso e por último parecer, conclusão e sugestões. Importante não esquecer do local, data, rubricar todas as vias e na última assinar com número do registro do CRESS. Processo metodológico de especificidade do assistente social, ‘...que tem por finalidade conhecer com profundidade, e de forma crítica, uma determinada situação ou expressão da questão social, objeto da intervenção profissional’ (CFESS, 2007, p. 42). O perito é o sujeito “sábio”, “hábil”, “especialista em determinado assunto”. A pe- rícia é traduzida como “vistoria ou exame de caráter técnico e especializado”. (Conselho Federal de Serviço Social). Atribuições Privativas ao assistente social no art. 5 ° da Lei de Regulamenta- ção da Profissão - Lei n. 8.662, de 7 de Junho de 1993. IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pare- ceres sobre a matéria de Serviço Social; Fonte: Brasil (1993, on-line)7. Perícia Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 121 PERÍCIA SOCIAL Esse instrumento é realizado com base no estudo social finalizando com a ela- boração de um laudo e/ou parecer conclusivo ou indicativo, fundamentado em estudo rigoroso da situação social analisada. A perícia, quando solicitada a um profissional de Serviço social, é cha- mada de perícia social, recebendo esta denominação por se tratar de estudo e parecer cuja finalidade é subsidiar uma decisão, via de regra, judicial. Ela é realizada por meio do estudo social e implica na elabora- ção de um laudo e emissão de um parecer para sua construção o pro- fissional faz uso dos instrumentos e técnicas pertinentes ao exercício da profissão, sendo facultado a ele a realização de tantas entrevistas, contatos, visitas, pesquisa documental e bibliografia que considerar necessárias para análise e a interpretação da situação em questão e a elaboração de parecer. Assim, a perícia é o estudo social, realizado com base nos fundamentos teórico-metodológicos, ético-político e técnico operativo, próprios do serviço social, e com finalidade relacionada a avaliações e julgamento. (CFESS,2007, p. 43-44) A perícia social contribui com o Magistrado para a tomada de decisão. Sempre que uma determinada situação necessitar de uma avaliação, exame ou visto- ria será solicitado um parecer técnico de sua área do conhecimento. A perícia é elaborada por um laudo e depois a emissão de um parecer, usando de instru- mentos do serviço social. Assistente Social na qualidade de Perito Judicial: uma vez nomeado peri- to judicial, este profissional do ponto de vista técnico e ético possui inteira autonomia e liberdade para conduzir sua atividade profissional, pois se as- sim não for, não responderá com plenitude por sua conduta ética, estando vinculado hierarquicamente somente na via administrativa, diferente da relação dos Oficiais de Justiça que tem como atribuição a execução de man- dados judiciais e são estes quem executam de forma efetiva e material as determinações ou ordens emanadas pelos Magistrados. Fonte: Conselho Regional de Serviço Social – PR (2013, on-line)8 OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E122 LAUDO SOCIAL Este instrumento é utilizado no meio judiciário a fim de dar suporte às decisões judiciais como elemento de prova. Na sua elaboração não é necessário o deta- lhamento do estudo realizado, exceto quando solicitado para melhor avaliação. Esse deve ser elaborado dentro dos princípios éticos do Serviço Social. A termi- nologia laudo é usada por outras categorias, porém, laudo social é utilizado tão somente pelo assistente social contratado como perito social. Ele possui uma estrutura que geralmente se constitui por uma introdução que indica a demanda judicial e objetivos, uma identificação breve dos su- jeitos envolvidos, a metodologia para construí-lo (deixando claro a especi- ficidade da profissão e os objetivos do estudo), um relato analítico da cons- trução histórica da questão estudada e do estado social atual da mesma, e uma conclusão ou parecer social, que deve sintetizar a situação, conter uma breve análise crítica e apontar conclusões ou indicativos de alternativas, do ponto de vista do Serviço Social, isto é, que expresse o posicionamento profissional frente à questão em estudo (CFESS, 2007, p. 46) O laudo social é resultante da perícia social, nele contém a análise realizada e o registro das informações mais significativas do estudo, sempre de acordo com as diretrizes e princípios éticos do Serviço Social, pois contribui para formação de um juízo por parte do magistrado, envolvendo direitos fundamentais e sociais. Em suma, o “Laudo Social” é um documento escrito que contém parecer ou opinião técnica conclusiva do que foi estudado e observado sobre de- terminado assunto com a finalidade de dar suporte à decisão judicial. Ou seja, contribui para a formação de um juízo por parte do Magistrado, dá-lhe elementos para o exercício da faculdade de julgar: avaliar, escolher, decidir, a partir da área de conhecimento do Serviço Social. Desse modo, oferece elementos de base social para a formação de um juízo e tomada de decisão: análise dos aspectos socioculturais e econômicos, relacionando-os ao seg- mento de classe e às medições sociais que as permeiam. Fonte: Conselho Regional de Serviço Social – PR (2013, on-line)8. Parecer Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 123 PARECER SOCIAL O parecer social é elaborado com base no estudo social e deve conter a opinião funda- mentada do assistente social referente esse estudo, por meio de conhecimento técnico e teórico do Serviço Social. O profissional deve evitar dar opiniões próprias que pos- sam ser interpretadas pela autoridade competente como amparo por um e objeção por outro, o que pode comprometer o andamento do caso, mas deve propor um acordo para solução do problema, propiciando no momento da perícia o diálogo entre as partes. No âmbito do Sistema Judiciário, o parecer pode ser emitido enquanto parte final ou conclusão de um laudo, bem como enquanto resposta a consulta ou a determinação da autoridade judiciária a respeito de alguma questão cons- tante em processo já acompanhado pelo profissional. (CFESS, 2007, p. 47). O estudo social também é utilizado na Previdência Social definido como a opi- nião profissional do assistente social, por meio da observação e estudo de uma conjuntura, fornecendo elementos para concessão de benefícios e viabilizando direitos. Principais situações de emissão de parecer social na política previden- ciária são: Dependência econômica, União estável e Intercorrências sociais que interferem na origem, evolução e agravamento de patologias. Do ponto de visa legal/institucional, a prática profissional do Serviço Social no Instituto de Seguro Social (INSS), instituição responsável pela operacionalização da política previdenciária pública brasileira, é definida através da Lei nº 8.213, de 24/7/91, onde no seu artigo 88 dis- põe: ‘Compete ao Serviço Social esclarecer junto aos beneficiários seus direitos e os meios de exercê-los e estabelecer conjuntamente com eles o processo de solução dos problemas que emergirem da sua relação com a previdência social, tanto no âmbito interno da instituição como na dinâmica da sociedade’ (CFESS, 2007, p. 54). Ao elaborar o parecersocial, um instrumento técnico-operativo do processo de trabalho do assistente social, o profissional deve agir com responsabilidade, ser rigoroso e ético, voltando aos interesses do usuário, estudando a situação e opinar de forma a contribuir nas decisões que os envolve, evidenciando fatos e subsídios que irão embasar decisões judiciárias mais justas possíveis. Não existe um modelo pronto de emissão de um parecer social, existe um compromisso ético entre o assistente social, os sujeitos envolvidos e a autoridade competente que o solicitou. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E124 No quadro 1, Freitas (2005) exemplifica cada instrumental de acordo com a compreensão dos autores indicados. RE FE RÊ N CI A M IO TO (2 00 1) FÁ V ER O (2 00 3) FR EI TA S (2 00 3) M A G A LH Ã ES (2 00 4) ES TU D O SO CI A L In st ru m en to p ar a co nh ec er e an al is ar a s itu aç ão v iv id a po r de te rm in ad os s uj ei to s ou gr up os d e su je ito s s oc ia is so - br e o qu al fo m os c ha m ad os a op in ar [. ..] c on si st e nu m a ut ili za çã o ar tic ul ad a de vá rio s ou tr os in st ru m en to s [.. .] en tr ev is ta s in di ví du os o u co nj ug ad as , a o bs er va çã o, a vi si ta d om ic ili ar e a ná lis e de do cu m en to s. Pr oc es so m et od ol óg ic o es pe cí fic o do S er vi ço S oc ia l a fi na lid ad e de co nh ec er c om p ro fu nd id ad e, e d e fo rm a cr íti ca , u m a de te rm in ad a si tu aç ão o u ex pr es sã o da q ue st ão so ci al , o bj et o de in te rv en çã o pr ofi ss io na l [ ... ] d e su a fu nd am en - ta çã o rig or os a, te ór ic a, té cn ic a e ét ic a ba se ad a no p ro je to d a pr ofi ss ão . Co ns is te e m c ol et ar da do s, a pa rt ir de in st ru m en ta l d efi ni do pe lo a ss is te nt e so ci al e in te rp re ta r e ss es da do s a pa rt ir do re fe re nc ia l t eó ric o, el ab or an do o pi ni ão pr ofi ss io na l s ob re a si tu aç ão . D em an da le itu ra s e co nh ec im en to es pe cí fic o, e xi ge u so de in st ru m en to s ap ro pr ia do s, de le itu ra s, an ál is es , d e te m po p ar a av al ia - çã o e el ab or aç ão d e te xt o. PE RÍ CI A SO CI A L Pr oc es so e m q ue u m e sp e- ci al is ta re al iz a ex am e de s itu - aç õe s so ci ai s co m fi na lid ad e de e m iti r u m p ar ec er s ob re . Pe ríc ia – la tim p er iti a, q ue si gn ifi ca c on he ci m en to ad qu iri do p el a ex pe riê n- ci a qu e re su lta e m s ab er , ta le nt o e pe ríc ia . S ão p ar te s es se nc ia is ; o e st ud o so ci al , o pa re ce r s oc ia l e a e la bo ra çã o de la ud o so ci al . Av al ia çã o, e xa m e ou v is to ria so lic ita do s e/ ou d et er m in ad os se m pr e qu e a si tu aç ão e xi gi r u m pa re ce r t éc ni co o u ci en tífi co [. ..] é o es tu do s oc ia l, re al iz ad o co m ba se n os fu nd am en to s te ór ic o- -m et od ol óg ic os , é tic o- po lit ic o, e té cn ic o op er at iv os p ró pr io s do Se rv iç o So ci al , e c om fi na lid ad es re la ci on ad as à a va lia çã o e ju lg a- m en to s. É o pr oc es so p el o qu al um e sp ec ia lis ta a ss is - te nt e so ci al re al iz a um ex am e de s itu aç õe s so ci ai s [.. .] co m a fin al id ad e de e m iti r um p ar ec er , b us ca nd o a so lu çã o do c as o pe ric ia do . É u m m ei o pr ob at ór io c om o qu al s e in te nt a ob te r, pa ra o p ro ce ss o, u m a m an ife st aç ão fu nd ad a em c on he ci m en to s ci en tífi co s, té cn ic os . M ei o de p ro va c on - si st en te n o pa re ce r té cn ic o de p es so a ha bi lit ad a. S ão es pé ci es d e pe ríc ia : o ex am e. A v is to ria e av al ia çã o. Q ua dr o 1 - A co m pe tê nc ia d o A ss ist en te S oc ia l p ar a r ea liz aç ão d o es tu do so ci al e pe ríc ia so ci al Parecer Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 125 Fo nt e: Fr ei ta s ( 20 05 ). PA RE CE R SO CI A L Re fe re -s e à op in iã o fu nd am en ta da q ue o as si st en te s oc ia l e m ite so br e a si tu aç ão e st ud a- da [. ..] e sc la re ci m en to s e an ál is es , c om b as e em co nh ec im en to e sp ec ífi - co d o Se rv iç o So ci al . Es cl ar ec im en to e a ná lis e, co m b as e em c on he ci m en to s es pe cí fic os d o Se rv iç o So ci al , re la ci on ad os a d ec is õe s a se re m to m ad as [. ..] p od e se r em iti do e nq ua nt o pa rt e fin al ou c on cl us ão d e um la ud o, be m c om o re sp os ta à c on su l- ta o u de te rm in aç ão a re sp ei to de a lg um a qu es tã o co ns ta nt e em p ro ce ss o de a co m pa nh a- do p el o as si st en te s ocia l. Et ap a em q ue d ev er á co nt er s ug es tã o pa ra so lu çã o do c on fli to d o po nt o de v is ta s oc ia l, é o am ál ga m a en tr e o co nh ec im en to té c- ni co e sp ec ia liz ad o do pe rit o co m a re al id ad e ap re se nt ad a no e st ud o so ci al re al iz ad o pe lo as si st en te s oc ia l. É op in iã o fu nd am en ta da , o es tu do d os a sp ec to s de u m a le i o u de u m c as o ju ríd ic o [.. .] a op in iã o do té cn ic o ou pe rit o so br e o as su nt o de s ua es pe ci al id ad e. R es ul ta ta nt o do re la tó rio q ua nt o do la ud o. LA U D O SO CI A L É um d oc um en to re su lta nt e do p ro ce ss o de p er íc ia s oc ia l. N el e es tã o re gi st ra do s os as pe ct os m ai s im po r- ta nt es d o es tu do e d o pa re ce r s oc ia l. U til iz ad o co m o el em en to d e pr ov a - c om a fi na lid ad e de da r s up or te à d ec is ão a p ar tir da á re a de c on he ci m en to d o Se rv iç o So ci al . [ ... ] o fe re ce el em en to s de b as e so ci al p ar a fo rm aç ão d e ju íz o e to m ad a de d ec is ão . D oc um en to re su lta nt e do p ro ce ss o de p er íc ia so ci al [. ..] c on si de ra do re tr at o de u m a si tu a- çã o es pe cí fic a, n um d e- te rm in ad o m om en to . É o do cu m en to e sc rit o co nt en do p ar ec er o u op in iã o co nc lu si va d o qu e fo i e st u- da do e o bs er va çã o so br e de te rm in ad o as su nt o. RE LA TÓ RI O SO CI A L Re al iz aç ão d e fo rm a de sc rit iv a an ál is e e in te rp re ta çã o, in co r- po ra nd o re fe re nc ia is te ór ic os . Tr ad uz -s e na a pr es en ta çã o de sc rit iv a e in te rp re ta tiv a de um a si tu aç ão e xp re ss a na qu es tã o so ci al [. ..] c om a fi na - lid ad e de in fo rm ar , e sc la re ce r, su bs id ia r, do cu m en ta r u m a to pr oc es su al [. ..] o u en qu an to pa rt e de re gi st ro a s er em ut ili za do s pa ra e la bo ra çã o de um la ud o ou p ar ec er . É a de sc riç ão o u re la to d o qu e fo i p os sí ve l c on he ce r p or m ei o do e st ud o, o u se ja , u m pa re ce r o u ex po si çã o do s fu nd am en to s de u m v ot o ou de u m a ap re ci aç ão , o u ai nd a, qu al qu er e xp os iç ão p or m e- no riz ad a de c irc un st an ci as ou o bj et os . C ris ta liz aç ão pr ofi ss io na l e fe tiv ad a. OS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E126 CONSIDERAÇÕES FINAIS No decorrer desta unidade de estudo foi possível refletir sobre os principais ins- trumentos utilizados para o trabalho do assistente social, mostrando que um, muitas vezes complementa o outro na intervenção profissional. Como profis- sionais temos que ter claro que a instrumentalidade vem antes do instrumento e que a análise conjuntural é essencial para o conhecimento da realidade social para um bom atendimento e encaminhamentos. O trabalho do(a) assistente social em intervir no cotidiano dos usuários é de extrema responsabilidade, por isso, devemos estar pautados nos Princípios Fundamentais, Código de Ética do(a) assistente social, Lei 8.662/93 e demais resoluções da profissão, procurando sempre se profissionalizar, internalizando esses conhecimentos, pois viabilizamos o acesso do cidadão aos direitos sociais. Espero que o conteúdo desta unidade tenha colaborado para que você conheça e entenda cada instrumental. Obviamente, esse tema não se resume ao que foi apresentado. Entretanto, o nosso objetivo é que você pesquise mais sobre cada instrumental e se capacite para atuação profissional. É importante que se tenha claro que os instrumentais apresentados nesta unidade, bem como na unidade que veremos a seguir, não são manuais a serem seguidos à risca, são possibilidades e meios que o(a) assistente possui para ope- racionalizar e dar vida ao seu exercício profissional. Dessa maneira, todos os elementos apontados aqui contribuem para uma prática qualificada. Sempre que possível e necessário, busque saber mais sobre cada um deles, não só nas referências trazidas por autores do Serviço Social, mas de outras áreas também. Você poderá buscar informações sobre entrevista, visita, diálogo em livros, informes, teses, textos, artigos das áreas de psicologia, administração, recursos humanos, ciências sociais, sociologia e outras áreas afins. Ao observar as referências bibliográficas deste livro, você já estará com uma boa lista de sugestões de leitura, sendo assim, aproveite! 127 1. Qual instrumental é de suma importância para o(a) acadêmico(a) de Serviço So- cial? 2. Antes de elaborarmos qualquer relatório e/ou estudos, o profissional de Serviço Social deve fazer um retrato dinâmico da situação, do todo. Exemplifique o que é análise conjuntural. 3. A perícia social é solicitada pelo judiciário. Nesse caso, qual é a função do perito? 4. Quando a criança e ou adolescente são encaminhados em medida emergencial para acolhimento, o profissional elabora um estudo de diagnóstico pós-acolhi- mento. Quando estas são acolhidas com encaminhamento, quem faz o estudo de Diagnóstico prévio e por quê? 5. Ao elaborar um parecer social, o(a) Assistente Social baseia-se em outro instru- mental, também sendo esse privativo da profissão. Descreva esse instrumental relacionando algumas informações de grande importância. 128 ALGUMAS CATEGORIAS PARA A ANÁLISE DA CONJUNTURA a - Acontecimentos Devemos distinguir fato de acontecimento. Na vida real milhares de fatos todos os dias em todas as partes, mas somente alguns desses fatos são “considerados” como aconteci- mento: aqueles que adquirem um sentido especial para um país, uma classe social, um grupo social ou uma pessoa. Alguém pode cair de um cavalo e isso se constituir somente um fato banal, mas se esta é a queda de um presidente, provavelmente será um acontecimento para o país, o nasci- mento do filho de um operário é um acontecimento para a família. O beijo podeser um fato comum, mas o beijo de Judas foi um acontecimento. Existem ocorrências que se constituem em “acontecimentos” tais como greves gerais, eleições presidenciais (principalmente se são diretas…), golpes militares, catástrofes, descobertas científicas de grande alcance. Estas ocorrências por sua dimensão e seus efeitos afetam o destino e a vida de milhões de pessoas, da sociedade em seu conjunto. Na análise de conjuntura o importante é analisar os acontecimentos, sabendo distin- guir primeiro fatos de acontecimentos e depois distinguir os acontecimentos segundo sua importância. Essa importância e peso são sempre relativos e dependem da ótica de quem analisa a conjuntura, porque uma conjuntura pode ser boa para alguém e péssima para outros: um ladrão que chega num lugar policiado vai verificar que a conjuntura está ruim para ele naquele dia, a mãe que chega à praça com seu filho vai pensar o contrário. A importância da análise a partir dos acontecimentos é que eles indicam sempre certos “sentidos” e revelam também a percepção que uma sociedade ou grupo social, ou classe tem da realidade e de si mesmos. Identificar os principais acontecimentos em um determinado momento, ou período de tempo, é um passo fundamental para se caracterizar e analisar uma conjuntura. b - Cenários As ações da trama social e política se desenvolvem em determinados espaços que po- dem ser considerados como cenários. Ouvimos sempre falar nos cenários de guerra, cenários de luta. O cenário de um conflito pode se deslocar de acordo com o desen- volvimento da luta: passar das ruas e praças para o parlamento, daí para os gabinetes ministeriais e daí para os bastidores… Cada cenário apresenta particularidades que in- fluenciam o desenvolvimento da luta e muitas vezes o simples fato de mudar de cenário já é uma indicação importante de uma mudança no processo. A capacidade de definir os cenários aonde as lutas vão se dar é um fator de vantagem importante. Quando o governo consegue deslocar a luta das praças para os gabinetes já está de alguma forma deslocando as forças em conflito para um campo onde seu poder é maior. Daí a impor- tância de identificar os cenários onde as lutas se desenvolvem e as particularidades dos diferentes cenários. 129 Numa ditadura militar os cenários do poder e da luta contra esse poder serão necessa- riamente diferentes dos cenários de uma sociedade democrática. Numa, talvez o quar- tel; noutra, o parlamento, as ruas e as praças. c - Atores Outra categoria que podemos usar na análise da conjuntura é a de atores. O ator é al- guém que representa e que encarna um papel dentro de um enredo, de uma trama de relações. Um determinado indivíduo é um ator social quando ele representa algo para a sociedade (para o grupo, a classe, o país), encarna uma ideia, uma reivindicação, um projeto, uma promessa, uma denúncia. Uma classe social, uma categoria social, um grupo podem ser atores sociais. Mas a ideia de “ator” não se limita somente a pessoas ou grupos sociais. Instituições também podem ser atores sociais: um sindicato, partidos políticos, jornais, rádios, emissoras de televisão, igrejas. d - Relação de forças As classes sociais, os grupos, os diferentes atores sociais estão em relação uns com os outros. Essas relações podem ser de confronto, de coexistência, de cooperação e estarão sempre revelando uma relação de força, de domínio, igualdade ou de subordinação. Encontrar formas de verificar a relação de forças, ter uma ideia mais clara dessa relação é decisivo se se quer tirar consequências práticas da análise da conjuntura. Algumas vezes essa relação de forças se revela através de indicadores até quantitativos, como é o caso de uma eleição: o número de votos indicará a relação de forças entre partidos, grupos e classe sociais. Outras vezes devemos buscar formas de verificação menos “visíveis”: qual é a força de um movimento social ou político emergente? Como medir o novo, aquilo que não tem registros quantitativos? Outra ideia importante é a de que a relação de forças não é um dado imutável, colocado de uma vez por todas: a relação de forças sofre mudanças permanentemente e é por isso que a política é tão cheia de surpresas: um candidato, um empresário, um partido políti- co podem achar que mantém uma relação de superioridade e quando são chamados a demonstrar sua “força” percebem que a relação mudou e que a derrota ou vitória devem ser explicadas depois… 130 e - Análise de fatos, eventos tendo como pano de fundo as ¨estruturas¨, ou articulação entre estrutura e conjuntura A questão aqui é que os acontecimentos, a ação desenvolvida pelos atores sociais, ge- rando uma situação, definindo uma conjuntura, não se dão no vazio: eles têm relação com a história, com o passado, com relações sociais, econômicas e políticas estabeleci- das ao longo de um processo mais longo. Uma greve geral que marca uma conjuntura é um acontecimento novo que pode provocar mudanças mais profundas, mas ela não cai do céu, ela é o resultado de um processo mais longo e está situada numa determina- da estrutura industrial que define suas características básicas, seu alcance e limites. Um quadro de seca no Nordeste pode marcar uma conjuntura social grave, mas ela deve ser relacionada à estrutura fundiária que, de alguma maneira, interfere na forma como a seca atinge as populações, a quem atinge e como. Fonte: Souza (1984, p. 9 -18). Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR O Estudo Social em Perícias, Laudos e Pareceres Técnicos: contribuição ao debate no judiciário, no penitenciário e na previdência social Conselho Federal de Serviço Social (org.) Editora: Cortez Ano: 2007 Sinopse: O aperfeiçoamento do Estudo Social que fundamenta Perícias, Pareceres e Laudos Técnicos tem sido preocupação frequente dos (as) assistentes sociais que trabalham no Poder Judiciário, na Previdência Social e no Sistema Penitenciário. Sensível a essa demanda e cumprindo um de seus compromissos com a categoria, que é o de estimular as refl exões e debates sobre a qualidade da intervenção profi ssional na direção da garantia de direitos, o Conselho Federal de Serviço Social, em parceria com a Cortez Editora, traz ao público a contribuição de experientes profi ssionais dessas áreas de atuação. Preciosa - Uma história de Esperança (2009) Direção: Lee Daniels Sinopse: Claireece “Preciosa” Jones (Gabourey Sidibe) é uma adolescente de 16 anos que sofre uma série de privações durante sua juventude. Violentada pelo pai e abusada pela mãe, ela cresce irritada e sem qualquer tipo de amor. O fato de ser pobre e gorda também não a ajuda nem um pouco. Além disso, Preciosa teve com seu pai uma fi lha apelidada de “Mongo”, por ser portadora de síndrome de Down, que está sob os cuidados da avó. Quando engravida de seu pai pela segunda vez, Preciosa é suspensa da escola. A Sra. Lichtenstein (Diretora da escola) consegue para ela uma escola alternativa, que possa ajudá-la a melhor lidar com sua vida. Lá Preciosa encontra um meio de fugir de sua existência traumática, se refugiando em sua imaginação. O fi lme conta também com Mariah Carey que faz o papel de uma assistente social, a Srta. Weiss. Paula Patton interpreta a professora de Precious a Sra. Rain, e Lenny Kravitz como John, um enfermeiro. Ao assistir este fi lme faça uma refl exão crítica do atendimento do Serviço Social, a profi ssional usou todo seu referencial teórico/ prático? Houve ou não negligência por parte do profi ssional? REFERÊNCIAS ANTUNES, R. Adeus ao Trabalho? Ensaio sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2000. 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Pesquisas sobre situação socioeconômica, familiar, fatos sociais, acolhimentos anteriores, entre outros, enfim um diagnóstico da situação estrutural do usuário. 3. A perícia, quando solicitada a um profissional de Serviço Social, é chamada de perícia social, recebendo esta denominação por se tratar de estudo e parecer cuja finalidade é subsidiar uma decisão, via de regra, judicial. 4. O Estudo Diagnóstico Prévio é elaborado pelo Conselho Tutelar, Justiça da Infân- cia e da Juventude e equipe de referência do órgão gestor da Assistência Social, tem como objetivo subsidiar a decisão acerca do afastamento da criança ou ado- lescente do convívio familiar. 5. Estudo social - número do processo, ação, requerente, requerido, histórico do processo, instrumentos utilizados e procedimentos, estudo e desenvolvimento do caso e por último parecer, conclusão e sugestões, não esquecer do local, data, rubricar todas as vias e na última assinar com número do registro do CRESS. U N ID A D E IV Professora Esp. Fernanda Carvalho Basilio Hernandez A RELEVÂNCIA DOS REGISTROS NA DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL Objetivos de Aprendizagem ■ Verificar os diferentes tipos de documentos pertinentes ao exercício profissional, suas diferentes abordagens e registros, bem como sua relevância no exercício profissional. ■ Compreender a importância de se registrar o cotidiano profissional para uso presente e futuro. ■ Discutir como a documentação do assistente social pode se tornar parte de um processo jurídico e analisar suas consequências. ■ Compreender o porquê toda documentação deve ser mantida em sigilo, bem como as legislações que garantem tal medida. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Considerações acerca da documentação e registro da ação profissional ■ Informação, registro e documentação como instrumento de trabalho do assistente social ■ A documentação do cotidiano profissional no espaço sóciojurídico ■ O sigilo profissional acerca do atendimento e da documentação INTRODUÇÃO Prezado(a) aluno(a), Nesta unidade, discutiremos sobre a importância de se registrar e documen- tar o cotidiano profissional, bem como aimportância de se manter sigilo sobre todo atendimento prestado e toda documentação gerada pelo (a) assistente social. Você compreenderá que o sigilo profissional além de dever é um direito do assis- tente social, e para que possa garanti-lo ao usuário, o assistente social deve ter asseguradas, pela instituição em que trabalha, condições e autonomia para exer- cer suas atividades. Sob o ponto de vista de que o sigilo profissional é um dever, para que o assistente social garanta ao usuário que sua privacidade não seja vio- lada; é necessário que o profissional mantenha o sigilo durante todo o processo da ação, desde a escuta nos atendimentos até a elaboração de uma documentação. Discorreremos também sobre a importância dessa documentação para que se possam discutir estratégias, bem como planejar a intervenção. Essa documen- tação se faz importante também para se produzir conhecimento, pois a análise desses registros oportuniza compreender todo o contexto da época de determi- nado acontecimento/atendimento. Você constatará que produzir registros e documentação vai muito além de mera burocracia da profissão, pois a documentação está sempre em movimento e seu uso está ligado aos objetivos do assistente social. O registro e a documen- tação delimitam as particularidades da intervenção, caracterizam e qualificam a atuação profissional, gravam a história do usuário, assim como a da institui- ção, bem como possibilitam o planejamento de ações inovadoras e a avaliação dessas ações, de planos e projetos já existentes. Ressaltaremos também a importância dessa documentação para o sistema sóciojurídico, pois os registros produzidos pelo assistente social, por meio de entrevistas, visitas, laudos e outros são utilizados como prova e constituem um processo. Espero que você aproveite ao máximo esta unidade; que ela te traga o conhe- cimento necessário para que possa exercer sua profissão! Boa leitura! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 139 ©shutterstock A RELEVÂNCIA DOS REGISTROS NA DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E140 CONSIDERAÇÕES ACERCA DA DOCUMENTAÇÃO E REGISTRO DA AÇÃO PROFISSIONAL Caro (a) aluno (a), esta unidade chama a atenção para a relevância de se docu- mentar e registrar o cotidiano da ação profissional. Isso porque esse processo é imprescindível para se obter e analisar dados e informações colhidas para que se possa sistematizar a intervenção do profissional, tanto na perspectiva inves- tigativa da realidade social quanto na perspectiva orientadora para a sua ação. Porém, mesmo sendo tão importante, pois é um instrumento que proporciona ações de qualidade, ele é pouco explorado pelos profissionais, o que é um erro, principalmente, quando se trata do diário de campo, que seu uso tem ficado redu- zido a descrições, apontamentos e agendamento, registro de funções cotidianas. Há de se ter claro que as análises e diagnósticos feitos sobre a realidade social e suas demandas são extremamente importantes, que é preciso apresentar maneiras de planejar e executar as intervenções do assistente social, percebendo os limi- tes e possibilidades existentes no processo de atendimento. Devemos nos atentar para o fato de a documentação ser componente constitutivo do exercício profis- sional, pois a profissão tem a dimensão técnico-operativa como a definidora da sua identidade. Lembrando, mais uma vez, que a documentação é relevante no processo de sistematização e conhecimento, planejamento, qualificação do exer- cício profissional e também base para produzir conhecimento. ©shutterstock Informação, Registro e Documentação Como Instrumento de Trabalho do Assistente Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 141 Diante das reflexões realizadas, observa-se a necessidade de integrar essa ação no cotidiano do assistente social, nos mais diversos momentos da inter- venção profissional. INFORMAÇÃO, REGISTRO E DOCUMENTAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL Como já vimos anteriormente, o registro e a documentação do exercício profis- sional é extremamente importante, visto que o Serviço Social é uma profissão de caráter interventivo, e é sistematizando essa intervenção que são desenvolvidos os procedimentos investigativos acerca da realidade, os atores e a atuação profissio- nal bem como padrões que orientam a atuação do profissional que se articulam em diversas maneiras de intervenção, para isso, mais uma vez é válido ressaltar a importância da análise e diagnóstico sobre a realidade da população atendida. Para Lewgoy e Arruda (2004, p. 123-124), ao registrar a ação em um diá- rio pode-se realizar uma “reflexão da ação profissional cotidiana, revendo seus limites e desafios”, ou seja, consiste em “uma fonte inesgotável de construção, desconstrução e reconstrução do conhecimento profissional e do agir através de registros quantitativos e qualitativos”. Partindo desse pressuposto, podemos afirmar que o registro diário das ações des- creve e caracteriza as demandas, detalha fenômenos sociais ou pode ser analítico-refle- xivo, quer dizer que por meio da observação dos fatos indagações são geradas e o pro- cesso de reflexão é realizado, buscando a compreensão dos significados dos fenôme- nos sociais e a reflexão é crucial, pois colabora A RELEVÂNCIA DOS REGISTROS NA DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E142 no enriquecimento da intervenção, por meio de tomada de decisão, na teoria que pode ser renovada com novas informações sobre a realidade. Apesar da já sabida importância que o registro diário tem no processo de docu- mentação da intervenção, alguns profissionais não o fazem, às vezes, por falta de tempo, devido às numerosas atividades realizadas/a realizar no dia a dia e o desejo de manter-se mais próximo do usuário e acabam por fazer esse registro posteriormente, correndo o risco de perder detalhes importantes que podem não ser lembrados. Sobre essa realidade as autoras Lima, Mioto e Prá (2007, p. 11) se posicio- nam contra, afirmando que: [...] o diário de campo, os relatórios, prontuários, protocolos de serviço e de atendimento, enfim, toda a forma de documentação só adquire sentido se são úteis tanto para os profissionais quanto para a instituição porque, mais do que apenas guardar ou arquivar informações, deve in- cidir positivamente nos processos de planejamento e avaliação no sen- tido de facilitar a sua realização. Portanto, o registro e a documentação tem papel dinâmico e flexível quando suas finalidades são consideradas, como base para a investigação e orientação da intervenção do assistente social. A documentação passa longe de ser um processo burocrático da profissão, pois está sempre em movimento e seu uso está ligado aos objetivos do assistente social, podendo ser o conhecimento da realidade ou a intervenção, também está ligada aos requisitos da ação profissional como o atendimento direto em certas particularidades, planejamento e gestão, no suporte a movimentos e organizações. Atrelado a tudo isso está a realidade de a documentação das ações se con- vertem em um sistema de informação, se tornando instrumento de avaliação e instrumento de planejamento de intervenção. Isso significa que mesmo que toda documentação seja subjetiva (que se aplica a certa situação) ela pode passar do nível profissionale se transformar em subsidio para avaliação e planejamento de políticas sociais em níveis amplos. O profissional precisa entender que a documentação é dinâmica e pode ser modificada, principalmente quando é referente aos cadastros e relatórios de entre- vistas, reuniões, atendimentos realizados e outros, pois não raro os profissionais realizam dois registros, sendo um para a instituição em que trabalha e segue o modelo já instituído por ela e outro pessoal, e neste aprofunda as informações. Informação, Registro e Documentação Como Instrumento de Trabalho do Assistente Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 143 Lembrando que tais registros nas documentações devem conter as análises que foram realizadas, tanto nos registros da instituição quanto no do profissional (aquele que mencionamos acima como sendo pessoal), e não apenas relatos que transcrevem os antecedentes do usuário, detalhes do atendimento e objetivos da intervenção, devendo ser registradas a descrição da intervenção, procedimentos feitos, redes de proteção que foram acionadas bem como os encaminhamentos que foram dados. Esse registro não deve ser feito somente quando solicitado, mas sim diariamente, encurtando a dinâmica processual tanto da análise e da demanda atendida, de planejamento de ações junto à realidade apresentada, quanto à reflexão desenvol- vida em relação à realidade social e sua ligação com o trabalho, sempre tomando o cuidado de não permitir que as observações feitas deem lugar às descrições mecanizadas. As anotações feitas quando se registra o atendimento podem ser descritivas ou analítico-descritivas. As anotações descritivas são aquelas que são realizadas no diário de campo e tem como objetivo relatar exatamente os fenômenos sociais, necessário na pesquisa qualitativa e na intervenção empenhada não somente em ações imediatas, mas sim com o planejamento delas. Por sua vez, as anota- ções analítico-reflexivas são aquelas feitas por meio da observação dos fatos e processos, que mostram quais aspectos devem ser aprofundados, avançando na busca de explicação dos fenômenos e na pesquisa. Por exemplo, em atendimen- tos cotidianos do assistente social. No dicionário Aurélio documentação “é o conjunto de documentos desti- nados a esclarecer ou provar determinado assunto ou fato.” De acordo com o texto, essa conceituação nos remete ao significado de memória, como o conjunto de documentos que servem para lembrar... Esclarecer... Ilustrar... Provar, determinado assunto, tempo, existência. Fonte: SESO em foco (2011, on-line).1 A RELEVÂNCIA DOS REGISTROS NA DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E144 Quando voltamos nossa atenção para o processo de documentação da ação pro- fissional, precisamos ir além de apenas descrever, precisamos detalhar como foi realizado o atendimento (qual demanda atendida, procedimentos e encami- nhamentos realizados, recursos que foram acionados, relação estabelecida com o usuário etc.). O profissional deve ficar atento para os contatos institucionais, como a rede de apoio, pois podem potencializar as ações do assistente social, uma vez que possibilita qual recurso pode dispor os acionar. É importante ressaltar que a aná- lise realizada engloba tanto a descrição quanto a interpretação prévia, que por sua vez estão relacionadas por meio das construções teórico-metodológicas e também pelo comprometimento ético da profissão. Sendo assim, são constata- das demandas postas ao serviço quando se registra o atendimento, cabendo ao assistente social caracterizar tal demanda problematizando o contexto que deli- mita os limites da intervenção, precisando, também, estar atento para as possíveis situações que de imediato não se manifestaram. Esse detalhamento das informações no registro da documentação permite a observação e análise crítica de como planejar e executar a intervenção do pro- fissional, e ainda possibilita que o profissional perceba as dificuldades e limites frente ao serviço, como também frente às demandas postas. Quando se registra os encaminhamentos, é possível rever os dados, contribuindo assim para aumentar/ modificar as ações com o propósito de se aproximar da resolução das demandas. Partindo desse pressuposto, o diário de campo, relatórios, protocolos, prontu- ários e toda e qualquer forma de documentar são extremamente úteis tanto para o profissional quanto para a instituição, que devem não apenas arquivar tais registros, mas sim utilizá-los nos planejamentos e análises, facilitando assim sua realização. O assistente social deve registrar todo seu cotidiano profissional, pois tal re- gistro serve de subsídios para tomadas de decisões, bem como produz co- nhecimento sobre a demanda e/ou usuário e também se torna um histórico. Informação, Registro e Documentação Como Instrumento de Trabalho do Assistente Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 145 Para finalizar, vamos ressaltar que os profissionais devem reconhecer a impor- tância da documentação como instrumento de trabalho, que permite qualificar as ações e deve ser colocada em seu cotidiano profissional, considerando que a documentação é flexível, pode ser adequada à atuação cotidiana, pois quando não negligenciada, toda documentação contribui dando destaque e continui- dade ao trabalho do assistente social. O registro e a documentação delimitam as particularidades da intervenção, caracterizam e qualificam a atuação profissional, gravam a história do usuário assim como a da instituição, bem como possibilitam o planejamento de ações inovadoras e a avaliação dessas ações, de planos e projetos já existentes. Como já estudado na unidade anterior, existem diversas maneiras de se re- gistrar o cotidiano profissional, como por exemplo: Atas de reunião: é o registro de todo o processo de uma reunião, das dis- cussões realizadas, das opiniões emitidas, e, sobretudo, da decisão tomada – e da forma como o grupo chegou a ela (por votação, por consenso, ou outra forma). Geralmente o relator de uma ata de reunião é designado para tal. Pode ser um membro do grupo ou um funcionário da instituição. Co- mumente, as atas de reuniões são lidas ao final da mesma, e, após sua apro- vação, todos os participantes assinam – com garantia de que a discussão realizada assim como a decisão tomada é de ciência de todos. Livros de Registro: o Livro de Registro é um instrumento bastante utiliza- do, sobretudo em locais em que circula um grande número de profissionais. Trata-se de um livro em que são anotadas as atividades realizadas, telefo- nemas recebidos, questões pendentes, atendimentos realizados, dentre ou- tras questões, de modo que toda a equipe tenha acesso ao que está sendo desenvolvido. Fonte: Sousa, (2008, p. 12) ©shutterstock A RELEVÂNCIA DOS REGISTROS NA DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E146 A DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL NO ESPAÇO SOCIOJURÍDICO A atuação do assistente social no âmbito jurídico é de certa forma recente, pois foi em 1940 que a primeira profissional conseguiu atuar no campo de intervenção direta, no Judiciário paulista. Entretanto, há pouco tempo que as especificida- des da atuação profissional nessa esfera se tornaram públicas como objeto de investigação. Tal feito se deu por diversas razões, mas podemos ressaltar: Ampliação significativade demanda de atendimento e de profissionais para a área, sobretudo após a promulgação do ECA; Valorização da pesquisa dos componentes dessa realidade de trabalho; Maior conhecimento crítico e valorização, no meio da profissão, de um campo de intervenção historicamente visto como espaço tão somente para ações disciplinadoras e de controle social; Compromisso de parcela significativa da categoria com ações na dire- ção da ampliação e garantia de direitos, e na provocação de alterações nas práticas sociais; Crescimento do debate público a respeito dos interiores do sistema pe- nitenciário, do sistema judiciário e do complexo de organizações que têm suas ações voltadas para o atendimento de situações permeadas pela violência social e interpessoal, cada vez mais presentes no cotidia- no de trabalho do assistente social. (ROCHA, s/d, p. 5-8)2. Sendo assim, iremos evidenciar de forma breve, mas clara, a importância da docu- mentação do cotidiano profissional nos processos judiciais, processos cujas sen- tenças mudam a vida das pessoas. O conhecimento e/ou informação do (a) assistente social quando registrados em um parecer, laudo ou relatório se carac- terizam como provas documentais, são partes que constituem o processo. A Documentação do Cotidiano Profissional no Espaço Sociojurídico Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 147 Nessa perspectiva, Ferreira (1986 apud FÁVERO, 2009, p. 610) diz que essa ação é “a transmissão de conhecimentos, informação ou explicação que se dá com vistas em uma finalidade”. Vale ressaltar aqui que as esferas que mais recorrem ao conhecimento dos fatos obtidos pelo serviço social são a Infância e Juventude, a Família e a Criminal. Frente a tudo isso deve se ter muito claro a finalidade do conhecimento que se busca, o porquê e o para que ele se faz necessário, devendo ser observado pela perspectiva do (a) assistente social, que deve estar compromissado com o pro- jeto ético-político da profissão. Quando o Judiciário solicita a realização de um estudo sobre os envolvidos em determinada situação ao assistente social, ele tem por objetivo obter ele- mentos que forneçam o conhecimento sobre o caso e assim possa tomar uma decisão justa. É essa fundamentação que pode fornecer elementos para que o ma- gistrado forme seu juízo, de maneira a poder tomar uma decisão justa. Se questionado por meio de recurso [...] o magistrado pode recorrer ao estudo social para ratificar a sua decisão. (FÁVERO, 2009, p. 617). Cabe ressaltar aqui que é extremamente importante que o profissional tenha conhecimento e compreensão sobre o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), a LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social), a PNAS (Política Nacional de Assistência Social) bem como o Código Civil, principalmente os artigos que são relacionados à família entre outros. A RELEVÂNCIA DOS REGISTROS NA DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E148 O conhecimento da área do Serviço Social sobre uma determinada circunstân- cia processual normalmente é repassado ao sistema jurídico por meio do Estudo Social, caso este tenha o propósito de disponibilizar elementos para a decisão do magistrado pode ser nomeado Perícia Social, quer dizer, o juiz solicita e elege um perito, que nesse caso é um profissional com conhecimentos específicos da área, ou seja, um assistente social, para que ele realize a perícia social, dando suporte à decisão a ser tomada pelo magistrado. Nesse caso, o assistente social deverá registrar as informações sobre quais teve conhecimento utilizando alguns documentos, como relatórios, pareceres, laudos, entre outros. A realidade socioeconômica e cultural dos sujeitos que se tornam persona- gens – ou “partes” das ações processuais – é a base sobre a qual a instrução social se apresenta. Assim, desvelar a realidade social em suas conexões e determinações mais amplas e em suas expressões particularizadas no dia a dia de crianças, adolescentes, adultos, mães, pais, famílias envolvidos nessas ações, interpretá-la com o apoio de conhecimentos científicos pertinentes à área e tomar uma posição do ponto vista do Serviço Social – portanto, de um ponto de vista fundamentado teórica e eticamente – apresenta-se como conteúdo central da instrução. Isso significa considerar que a instru- ção social se dá com base na construção do conhecimento da situação que se apresenta como objeto de uma ação judicial, articulada ao conhecimento acumulado pela ciência, que vai balizar e referendar uma ação e uma análise competente do ponto de vista profissional. Nesse processo de trabalho, o estudo social e/ou sua tradução, em alguns espaços do campo sócio jurídi- co, como perícia social tornam-se procedimento essencial. Fonte: Fávero (2008, p. 1). ©shutterstock O Sigilo Profissional Acerca do Atendimento e da Documentação Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 149 O SIGILO PROFISSIONAL ACERCA DO ATENDIMENTO E DA DOCUMENTAÇÃO O conceito e a prática da ética profissional são indispensáveis na atuação do assistente social, não só no âmbito jurídico, projetando assim uma direção compromissada com a liberdade, doutrina democrática, execução dos direitos humanos e sociais e emancipação do ser humano. Os valores conferidos por outra pes- soa partindo da sua realidade requer um exercício ético pertinente ao empenho e ao compromisso de se isolar de todo e qual- quer preconceito, da trivialização da vida, do risco que se corre de ficar totalmente preso nas atividades, de condições postas no dia a dia sem considerar o distanciamento que é preciso para refletir sobre a teoria, ética, para consumação da competência técnica, ética e política. Espaços de Atuação Profissional que compõe o campo: Justiça Estadual e Federal. Ministérios Públicos. Defensorias Públicas. Universidades (Escritórios Modelo). Execução de medidas socioeducativas. Execução de penas alternativas. Sistemas penitenciários. Organizações não governamentais. Fonte: Rocha (s/d, on-line)2. A RELEVÂNCIA DOS REGISTROS NA DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E150 Quando um assistente social realiza um estudo social, ele consolida uma ligação com sujeitos históricos, que vivenciam experiências reais. Sendo assim, o Serviço Social se constituem pelas três dimensões, já estudadas anteriormente, dimensões essas que se relacionam enquanto mediação da atuação profissio- nal em diversos ambientes (MARTINELLI, 2005 apud FÁVERO, 2009, p. 624). Dessa forma, o profissional deve se apropriar de dados referentes à situação a ser trabalhada para que possa manter o diálogo seguindo o código de ética. O assistente social deve se apresentar a pessoa a ser entrevistada e também comu- nicar o objetivo da entrevista. Ética é um fator importante nesse processo de documentação, uma vez que as entrevistas, laudos, pareceres e demais documentos contém relatos, histó- rias reais vividas por pessoas reais, ou seja, isso é confidencial. Observe o que a Constituição Federal de 1988 diz a respeito dos registros e da documentação dos profissionais no Título II, dos Direitos e Garantias Fundamentais, que afirma, em seu artigo 5º, incisos XIII e XIV que: Art. 5º [...] XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, aten- didas as qualificações profissionaisque a lei estabelecer; XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional. [...] (BRASIL, 1988, on-line)3. Ou seja, entende-se que é direito garantido por lei que as informações obtidas pelo profissional, e isso se aplica a qualquer categoria, sejam privativas. Nesse contexto, vamos conferir o que o artigo 154 do Código Penal Brasileiro prevê como crime de violação de segredo profissional: “Revelar a alguém, sem justa causa, segredo, de quem tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem”. Agora vejamos o que diz o Código de Ética do Assistente Social, regula- mentado pela Resolução CFESS 273/2003, atualizada pela Resolução CFESS n.594/2011(on-line, grifo nosso)4: O Sigilo Profissional Acerca do Atendimento e da Documentação Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 151 Art. 15 - Constitui direito do/a assistente social manter o sigilo profis- sional. Art. 16 - O sigilo protegerá o/a usuário/a em tudo aquilo de que o/a assistente social tome conhecimento, como decorrência do exercício da atividade profissional. Parágrafo Único: Em trabalho multidisciplinar só poderão ser presta- das informações dentro dos limites do estritamente necessário. Art. 17 - É vedado ao/à assistente social revelar sigilo profissional. Art. 18 - A quebra do sigilo só é admissível quando se tratarem de situações cuja gravidade possa, envolvendo ou não fato delituoso, trazer prejuízo aos interesses do/a usuário/a, de terceiros/as e cole- tividade. Ainda sobre o sigilo profissional, a Resolução n.493/2006(on-line)5 do CFESS rege, entre outras determinações, que: Art. 3º - O atendimento efetuado pelo assistente social deve ser feito com portas fechadas, de forma a garantir o sigilo. Art. 4º - O material técnico utilizado e produzido no atendimento é de caráter reservado, sendo seu uso e acesso restrito aos assistentes sociais. Art. 5º - O arquivo do material técnico, utilizado pelo assistente social, poderá estar em outro espaço físico, desde que respeitadas as condições estabelecidas pelo artigo 4º da presente Resolução. Vejamos agora um trecho de outra Resolução, a n.556/2009(on-line)6 sobre a documentação: Art. 1º - A lacração do material técnico, bem como o de caráter sigiloso do Serviço Social será efetivada por meio das normas e procedimentos estabelecidos pela presente Resolução. Art. 2º – Entende-se por material técnico sigiloso toda documentação produzida, que pela natureza de seu conteúdo, deva ser de conheci- mento restrito e, portanto, requeiram medidas especiais de salvaguarda para sua custódia e divulgação. Parágrafo Único - O material técnico sigiloso caracteriza-se por con- ter informações sigilosas, cuja divulgação comprometa a imagem, a dignidade, a segurança, a proteção de interesses econômicos, sociais, de saúde, de trabalho, de intimidade e outros, das pessoas envolvidas, cujas informações respectivas estejam contidas em relatórios de aten- dimentos, entrevistas, estudos sociais e pareceres que possam, também, A RELEVÂNCIA DOS REGISTROS NA DOCUMENTAÇÃO DO COTIDIANO PROFISSIONAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E152 colocar os usuários em situação de risco ou provocar outros danos. Art. 3º – O assistente social garantirá o caráter confidencial das in- formações que vier a receber em razão de seu trabalho, indicando nos documentos sigilosos respectivos a menção: “sigiloso”. Art. 4º – Entende-se por material técnico o conjunto de instrumentos produzidos para o exercício profissional nos espaços sócio-ocupacio- nais, de caráter não sigiloso, que viabiliza a continuidade do Serviço Social e a defesa dos interesses dos usuários, como: relatórios de gestão, relatórios técnicos, pesquisas, projetos, planos, programas sociais, fi- chas cadastrais, roteiros de entrevistas, estudos sociais e outros proce- dimentos operativos. Parágrafo Único – Em caso de demissão ou exoneração, o assistente social deverá repassar todo o material técnico, sigiloso ou não, ao assis- tente social que vier a substituí-lo. Art. 5º – Na impossibilidade de fazê-lo, o material deverá ser lacrado na presença de um representante ou fiscal do CRESS, para somente vir a ser utilizado pelo assistente social substituto, quando será rompido o lacre, também na presença de um representante do CRESS. Diante do exposto, podemos afirmar que o sigilo profissional diz respeito ao cumprimento do Código de Etíca do Assistente Social garantindo a qualidade do atendimento e principalemente resguardado o privacidade do usuário. Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 153 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao final de mais uma unidade, espero que este conteúdo tenha auxi- liado você a compreender a importância do registro, da documentação e do sigilo profissional, referentes à prática da profissão. Como vimos no decorrer da unidade, essa documentação se faz necessária por diversos motivos, desde se registrar o cotidiano do profissional, em detalhes, para que nenhuma informação importante, nenhum pormenor passe desperce- bido, e o mais breve possível, para que não se esqueça de nada, e, assim, servir como base para produção de conhecimento. Isso porque como já dito no decor- rer da unidade, todos esses registros servem de norte para consultas posteriores ou como auxílio para se escolher determinado instrumento ou estratégia, com- por processos judiciais, servindo de provas, bem como construir e reconstruir estratégias e planejamento para a intervenção, para a atuação profissional pro- priamente dita. É a partir das informações e dados obtidos com os diversos instrumentos que a profissão utiliza e o registro disso tudo, que o assistente social efetiva sua ação. Vimos também como é importante manter o sigilo de tudo que se toma conhecimento nos atendimentos realizados, sigilo esse que é dever e direito do profissional e direito garantido ao usuário por lei. Vale lembrar que esse sigilo se faz necessário desde a entrevista até o momento da elaboração de documen- tos, pois se trata de histórias reais, de pessoas reais, situações reais. A documentação produzida pelo assistente social além de cumprir a função burocrática, como estatísticas, obtenção de dados, conhecimento da realidade, também é, como já vimos anteriormente, utilizada como provas em processos judi- ciais. E não se pode permitir que pessoas alheias tenham acesso a esses registros. Creio que o conteúdo desta unidade será de grande serventia no seu dia a dia profissional, na sua prática profissional. Espero sinceramente que você tenha gostado. Abraço, Professora Fernanda. 154 1. De acordo com o conteúdo trabalhado nesta unidade, como o registro realizado pelo assistente social pode auxiliar na tomada de decisões? 2. Vimos que o registro é um instrumento importante no dia a dia profissional, mas percebemos também que muitas vezes os profissionais não o fazem. Por quê? 3. Com base no conteúdo estudado, há a necessidade de se realizar dois registros diários? Um pessoal e outro para a instituição em que se trabalha? 4. De que maneira a documentação produzida pelo assistente social pode auxiliar em um processo judicial? E como essa documentação é elaborada? 5. Por que o sigilo, que é tido como dever e direito do assistente social, sobre a documentação é garantido por lei?155 RESOLUÇÃO CFESS nº 493/2006 de 21 de agosto de 2006 EMENTA: Dispõe sobre as condições éticas e técnicas do exercício profissional do assistente social. O CONSELHO FEDERAL DO SERVIÇO SOCIAL - CFESS, por sua Presidente no uso de suas atribuições legais e regimentais, Considerando o que dispõe o artigo 8º da Lei n° 8.662, de 07 de junho de 1993, que re- gulamenta o exercício profissional do assistente social e dá outras providências; Considerando que na qualidade de órgão normativo de grau superior, compete ao Con- selho Federal de Serviço Social orientar, disciplinar fiscalizar e defender o exercício da profissão do assistente social, em conjunto com os CRESS; Considerando a necessidade de instituir condições e parâmetros normativos, claros e objetivos, garantindo que o exercício profissional do assistente social possa ser executa- do de forma qualificada ética e tecnicamente; Considerando que a ausência de norma que estabeleça parâmetros, principalmente das condições técnicas e físicas do exercício profissional do assistente social, tem suscitado diversas dúvidas, inclusive, para a compreensão do assistente social na execução de seu fazer profissional. Considerando a necessidade do cumprimento rigoroso dos preceitos contidos no Có- digo de Ética do Assistente Social, em especial nos artigos 2º, inciso “d”, 7 inciso “a” e 15; Considerando o Parecer Jurídico 15/03, prolatado pela assessoria do CFESS, “que consi- dera ser competência a regulamentação da matéria pelo CFESS de forma a possibilitar uma melhor intervenção dos CRESS nas condições de atendimento ao usuário do Ser- viço Social”; Considerando a aprovação da presente Resolução em Reunião Ordinária do Conselho Pleno do CFESS, realizada em 20 de agosto de 2006; RESOLVE: Art. 1º - É condição essencial, portanto obrigatória, para a realização e execução de qual- quer atendimento ao usuário do Serviço Social a existência de espaço físico, nas condi- ções que esta Resolução estabelecer. Art. 2º - O local de atendimento destinado ao assistente social deve ser dotado de espa- ço suficiente, para abordagens individuais ou coletivas, conforme as características dos serviços prestados, e deve possuir e garantir as seguintes características físicas: a- ilumi- nação adequada ao trabalho diurno e noturno, conforme a organização institucional; b- recursos que garantam a privacidade do usuário naquilo que for revelado durante o processo de intervenção profissional; c- ventilação adequada a atendimentos breves ou demorados e com portas fechadas d- espaço adequado para colocação de arquivos para a adequada guarda de material técnico de caráter reservado. 156 Art. 3º - O atendimento efetuado pelo assistente social deve ser feito com portas fecha- das, de forma a garantir o sigilo. Art. 4º - O material técnico utilizado e produzido no atendimento é de caráter reservado, sendo seu uso e acesso restrito aos assistentes sociais. Art. 5º - O arquivo do material técnico, utilizado pelo assistente social, poderá estar em outro espaço físico, desde que respeitadas as condições estabelecidas pelo artigo 4º da presente Resolução. Art. 6º- É de atribuição dos Conselhos Regionais de Serviço Social, através de seus Con- selheiros e/ou agentes fiscais, orientar e fiscalizar as condições éticas e técnicas estabe- lecidas nesta Resolução, bem como em outros instrumentos normativos expedidos pelo CFESS, em relação aos assistentes sociais e pessoas jurídicas que prestam serviços sociais. Art. 7º - O assistente social deve informar por escrito à entidade, instituição ou órgão que trabalha ou presta serviços, sob qualquer modalidade, acerca das inadequações cons- tatadas por este, quanto às condições éticas, físicas e técnicas do exercício profissional, sugerindo alternativas para melhoria dos serviços prestados. Parágrafo Primeiro - Esgo- tados os recursos especificados no “caput” do presente artigo e deixando a entidade, instituição ou órgão de tomar qualquer providência ou as medidas necessárias para sanar as inadequações, o assistente social deverá informar ao CRESS do âmbito de sua jurisdição, por escrito, para intervir na situação. Parágrafo Segundo - Caso o assistente social não cumpra as exigências previstas pelo “caput” e/ou pelo parágrafo primeiro do presente artigo, se omitindo ou sendo conivente com as inadequações existentes no âmbito da pessoa jurídica, será notificado a tomar as medidas cabíveis, sob pena de apuração de sua responsabilidade tica. Art. 8º - Realizada visita de fiscalização pelo CRESS competente, através de agente fiscal ou Conselheiro, e verificado o descumprimento do disposto na presente Resolução a Comissão de Orientação e Fiscalização do Conselho Regional, a vista das informações contidas no Termo de Fiscalização ou no documento encaminhado pelo próprio assis- tente social, notificará o representante legal ou responsável pela pessoa jurídica, para que em prazo determinado regularize a situação. Parágrafo único - O assistente social ou responsável pela pessoa jurídica deverá encaminhar ao CRESS, no prazo assinalado na notificação, documento escrito informando as providências que foram adotadas para adequação da situação notificada. Art. 9º- Persistindo a situação inadequada, constatada através de visita de fiscalização, será registrada no instrumento próprio a situação verificada. Art. 10 - O relato da fiscalização, lavrado em termo próprio, conforme art. 9º, constatan- do inadequação ou irregularidade, será submetido ao Conselho Pleno do CRESS, que decidirá sobre a adoção de medidas cabíveis administrativas ou judiciais, objetivando a adequação das condições éticas, técnicas e físicas, para que o exercício da profissão do assistente social se realize de forma qualificada, em respeito aos usuários e aos princí- pios éticos que norteiam a profissão. 157 Art. 11- Os casos omissos e aqueles concernentes à interpretação abstrata geral da nor- ma serão resolvidos e dirimidos pelo Conselho Pleno do CFESS. Art. 12- O CFESS e os CRESS deverão se incumbir de dar plena e total publicidade a presente norma, por todos os meios disponíveis, de forma que ela seja conhecida pelos assistentes sociais bem como pelas instituições, órgãos ou entidades que prestam ser- viços sociais. Art. 13- A presente Resolução entra em vigor, passando a surtir seus regulares efeitos de direito após a sua publicação no Diário Oficial da União. Brasília, 21 de agosto de 2006. Elisabete Borgianni Presidente do CFESS Fonte: Conselho federal de Serviço Social (2006, on-line)5. MATERIAL COMPLEMENTAR Neste link, você encontrará um material do CFESS sobre a importância da documentação do assistente social no âmbito jurídico. O título é Atuação de assistentes sociais no Sociojurídico - subsídios para reflexão Conteúdo rico em informações, vale a pena à leitura. Disponível: <http://www.cfess.org.br/arquivos/CFESSsubsidios_sociojuridico2014.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2016. REFERÊNCIAS FÁVERO, E. T. Instruções sociais de processos, sentenças e decisões. Brasília: Con- selho federal de Assistência Social, 2009. LEWGOY, A. M. B.; ARRUDA, M. P. Novas tecnologias na prática profissional do profes- sor universitário: a experiência do diário digital. Revista Textos e Contextos: cole- tâneas em Serviço Social, Porto Alegre, EDIPUCRS, n. 2, 2004. LIMA, T.; MIOTO R.; DAL PRÁ, K. R. A documentação no cotidiano da intervenção dos assistentes sociais: algumas considerações acerca do diário de campo. Textos & Contextos, Porto Alegre, v. 6, n. 1, 2007. SOUSA, C. T. A prática do assistente social: conhecimento, instrumentalidade e inter- venção profissional. Emancipação, Ponta Grossa, v. 8, n. 1, 2008. Referências on-line: 1 - Em: <http://sesoemfoco.blogspot.com.br/2011/12/importancia-do-registro-da- -pratica.html>. Acesso em: 17 jun.2016. 2 - Em: <http://www.depen.pr.gov.br/arquivos/File/ O_trabalho_do_assiste nte_so- cial_no_ amb ito_sociojuridico.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2016. 3 - Em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em 08/02/2016. Acesso em: 17 jun. 2016. ⁴ - Em: <http://www.cfess.org.br/arquivos/CEP_CFESS-SITE.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2016. ⁵ - Em: <http://www.cfess.org.br/arquivos/Resolucao_493-06.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2016. ⁶ - Em:<http://www.cfess.org.br/arquivos/Resolucao_CFESS_556-2009.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2016. 159 GABARITO 1. Quando se registra todo o seu cotidiano, o profissional está construindo história, tanto sobre o usuário/demanda, quanto sobre como a intervenção foi planeja- da. A documentação auxilia na tomada de decisões, pois com base nos registros o profissional consegue planejar ações, escolher instrumentos a serem utilizados e efetivar sua atuação. 2. Muitas vezes os profissionais na correria do dia a dia acabam se esquecendo de registrar seu cotidiano, e quando o fazem não registram com a riqueza de deta- lhes que tal ação pede. Ou também por não terem o costume de registrar, quan- do o fazem deixam passar detalhes que são importantes, pois o registro e a do- cumentação, como já vimos, serve de base para tomada de decisões, como base para se produzir conhecimento e também como provas em processos judiciais. 3. Não, aliás isso é um erro. Pois quando se realiza dois registros, um pessoal e um profissional, corre-se o risco de, mesmo que sem perceber, o pessoal contenha mais detalhes que o profissional, o que não deve acontecer, pois toda e qualquer informação que seja relevante deve ficar arquivada na instituição para utilização futura, do profissional que acompanhou o caso ou de outro que venha acom- panhar. 4. A documentação produzida pelo assistente social pode servir de prova em pro- cessos judiciais. Essa documentação é obtida por meio de visitas domiciliares, acompanhamento do atendimento, registro de encaminhamentos realizados. Laudos, estudos e pareceres são documentos que servem como prova em um processo judicial. 5. O sigilo profissional, além de dever, é um direito do assistente social, uma vez que para que possa garanti-lo ao usuário, o profissional deve ter assegurado pela instituição em que trabalha condições desde estrutura física do ambiente bem como autonomia para exercer suas atividades. Sob o ponto de vista que o sigilo profissional é um dever, para que o assistente social garanta ao usuário que sua privacidade não será violada, é necessário que o profissional mantenha o sigilo durante todo o processo da ação. U N ID A D E V Professora Esp. Júlia Fernanda Mariotto Casini O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: A PRÁXIS NO PROCESSO DE INTERVENÇÃO Objetivos de Aprendizagem ■ Possibilitar a compreensão acerca do conhecimento no Serviço Social e a sua relação com o instrumental técnico e operativo. ■ Compreender a práxis social na perspectiva do processo de intervenção. ■ Estabelecer a relação teoria e prática no Serviço Social. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Conceitos do conhecimento e a sua importância para o Serviço Social ■ Concepção de práxis no Serviço Social ■ A relação teoria e prática no Serviço Social INTRODUÇÃO Olá, caro (a) estudante! Você chegou à última unidade do livro da disciplina. Até aqui, você estudou os princípios que fundamentam a prática profissional e se aproximou aos instrumentos utilizados pelo Serviço Social. Agora, a proposta para esta unidade é de enfatizar o conhecimento em Serviço Social, elucidando a sua importância para a práxis da profissão. Você deve estar se perguntando: qual é a relação entre o conhecimento, os instrumentos técnicos operativos e a práxis profissional? Nesta unidade, quero, portanto, te ajudar a pensar nessa relação. É importante considerar que o conhe- cimento possibilita que os profissionais se alimentem teoricamente, na medida em que conhecem a realidade social e as suas facetas. Assim, é possível afirmar que o (a) assistente social é um intelectual que realiza intervenção na realidade social. Porém, só é possível intervir se o profissional conhece a realidade. O (a) assistente social, por sua vez, conforme você já estudou nas unidades anteriores, para intervir na realidade se utiliza de instrumentos e técnicas. Está ficando claro, então, que é necessário estabelecer uma relação entre o conheci- mento, a práxis e os instrumentos técnicos operativos. Relembrando: assistente social é chamado a intervir na realidade social e para tanto faz uso de um instru- mental. Para utilizar o instrumental e intervir na realidade é preciso conhecimento, tanto para desvendar a realidade e as facetas da questão social, bem como para a escolha dos instrumentos e técnicas mais apropriados. Diante de tais apontamentos, esta unidade discute o conhecimento em Serviço Social; a práxis, enquanto categoria que articula teoria e prática; e a importância dessa articulação para a intervenção profissional, na qual o (a) assistente social faz uso do instrumental técnico-operativo. Convido, ainda, você, estudante de Serviço Social, que logo mais estará nos campos de estágio, a refletir sobre a rela- ção teoria e prática no cotidiano profissional, na perspectiva de demonstrar que essas duas dimensões não se dissociam. Bom estudo! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 163 ©shutterstock O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E164 CONCEITOS DO CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL Em seu exercício profissional, o assistente social atua em uma realidade social que está em constante movimento e que é contraditória. Marcada pela questão social1, a sociedade não é estática e, portanto, a realidade é apresentada aos assis- tentes sociais, muitas vezes, de forma inusitada. Iamamoto (2009) afirma que os processos existentes na sociedade, em seus aspectos econômicos, políticos e sociais, incidem em metamorfoses nos espaços de trabalho do assistente social. A autora quer dizer que a sociedade em cons- tante movimento impacta diretamente o exercício profissional do assistente social. Para a autora, “é esse solo histórico movente que atribui novos contornos ao mer- cado profissional de trabalho, diversificando os espaços ocupacionais e fazendo emergir inéditas requisições e demandas a esse profissional, novas habilidades, competências e atribuições” (IAMAMOTO, 2009, p. 3). 1 Compreende-se por “questão social” o conjunto de expressões das desigualdades da sociedade capitalista, que tem sua gênese na apropriação privada daquilo que é socialmente produzido (IAMAMOTO, 2009). A “questão social” constitui o objeto de estudo e intervenção do Serviço Social. Conceitos do Conhecimento e a sua Importância para o Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 165 Portanto, os assistentes sociais são chamados para oferecer respostas às demandas que emergem do movimento do real e que, muitas vezes, os surpre- endem. Desse modo, para compreender a realidade, ir até ela e nela intervir, é necessário conhecimento. Guerra (2009a, p. 4), a esse respeito, aponta que “a necessidade de atuarmos sobre a realidade é o que nos conduz ao conhecimento. Não obstante, para intervir, épreciso conhecer, para o que há que se ter proce- dimentos adequados.” Lara (2008), assim como a autora supracitada, reconhece a dimensão interven- tiva do assistente social e enfatiza que ao passo que as relações sociais acontecem na sociedade os assistentes sociais vão adquirindo diferentes preocupações de estudo. A partir disso, o autor aponta o que é, para o Serviço Social, o conheci- mento: “o conhecimento para o Serviço Social não é apenas uma forma de saber, mas, principalmente, uma maneira de compreender em primeiro momento e, posteriormente, apresentar caminhos seguros para transformar a realidade social” (LARA, 2008, p. 40). Portanto, o conhecimento está vinculado, no âmbito da profissão, à dimen- são teórico-metodológica, dimensão na qual o Serviço Social encontra bases na teoria de Marx enquanto método de compreensão da sociedade; também à dimensão técnico-operativa, por meio da qual o assistente social demonstra o “agir” da profissão, por meio de instrumentos e técnicas de intervenção na rea- lidade; e à dimensão ético-política, por meio da qual o assistente social deve se posicionar perante a classe trabalhadora e observar os princípios éticos. Desse modo, é possível identificar que o conhecimento perpassa toda a profissão. Guerra (2009) compreende o conhecimento como o processo que esclarece a realidade. Nesse processo, a autora observa que não se deve desconsiderar a historicidade dos processos sociais, a particularidade do conhecimento sobre o ser social e o método que possibilita esse conhecimento. A partir disso, a autora afirma que existem níveis e graus de abrangência do conhecimento: O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E166 ■ Conhecimento oriundo da intuição: é o conhecimento que se adquire no senso comum. É um nível limitado e preliminar do conhecimento que se baseia na ideia de que “só se aprende a fazer fazendo”; ■ Conhecimento proveniente do intelecto (formal-abstrato): é o conhecimento que possibilita que aceitemos as informações que nos chegam no cotidiano. É o conhecimento chamado de entendimento, no qual nós acionamos o intelecto para distinguir, comparar, classificar as coisas a partir da imagem do real. Este conhecimento é restrito a tornar o existente como algo conhecido. É o conhecimento no qual nós enxer- gamos a realidade através de como ela se apresenta imediatamente, ou seja, superficialmente, sem aprofundamentos; ■ Conhecimento oriundo da razão dialética: é o conhecimento que supera a visão aparente e imediata, indo além. Compreende o objeto em sua total dimensão e em sua capacidade de transformação. É o nível mais alto do conhecimento (GUERRA, 2009 a, p. 53). São esses os três níveis de conhecimento existentes. A autora nos traz, ainda, que cada um desses níveis de conhecimento permite uma forma de apropria- ção do mundo, ou seja, quando a busca por compreender a realidade ocorre apenas a partir do espírito prático é muito diferente de quando se busca com- preender por meio de um conhecimento teórico. O conhecimento teórico, para Guerra (2009a), é o conhecimento mais completo, o qual, por sua vez, exige rigor teórico-metodológico. O que é preciso compreender é que a intervenção profissional exige este conhecimento mais aprofundado e com rigor científico. Apenas a partir desse nível de conhecimento é que o assistente social possui suporte para compreender com profundidade os processos sociais e as demandas que emergem da questão social e, então, produzir intervenções e oferecer respostas aos usuários, na dire- ção da garantia do direito e do acesso aos bens e serviços públicos. Assim, a importância do conhecimento e de sua busca para o Serviço Social reside no fato de que, é por meio do conhecimento que o profissional ultrapassa o entendimento imediato de uma dada realidade. Mas é a partir dele, que se Conceitos do Conhecimento e a sua Importância para o Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 167 aprofundará nessa realidade, vai aproximar-se dela e desvendá-la. Esse conhe- cimento, portanto, deve estar comprometido com as demandas que se colocam para a profissão e para o seu enfrentamento. Guerra (2009a, p. 5) observa: Ao assistente social, no âmbito da sua inserção na divisão social e técni- ca do trabalho, cabe captar como as diversas expressões da questão so- cial se particularizam em cada espaço sócio-ocupacional e chegam como demandas que dependem de sua intervenção profissional. Assim, enten- demos que a clareza acerca de como concebemos a “questão social”, ou seja, a partir de que pressupostos teóricos; a percepção que temos de suas expressões, tais como: desemprego, fome, doenças, violência, falta de aces- so aos bens e serviços sociais (moradia, creches, escolas, hospitais, etc.), bem como dos valores que orientam tais concepções, são mediações que incidem sobre os meios e modos de responder às demandas profissionais. Assim, é possível afirmar que, no cotidiano profissional, não basta o atendimento com benefícios ou provisões. Não se trata apenas da distribuição de cestas bási- cas, por exemplo, pelo motivo de que determinada família está passando fome; não se trata apenas do encaminhamento de um idoso para uma instituição de longa permanência porque está vivenciando situações de violência familiar; não se trata apenas do encaminhamento e orientações para benefícios previdenci- ários ou assistenciais porque o usuário sofreu um acidente de trabalho ou está passando por complicadores no processo de saúde-doença; não se trata apenas do encaminhamento de usuários ou mesmo seu acompanhamento em projetos de habitação; não se trata apenas de intervenções para combater a evasão esco- lar ou o baixo rendimento no contexto escolar, entre outras situações as quais a realidade profissional coloca ao assistente social. É preciso refletir o “por que” de tais situações e condições. Assim, é preciso ir além daquilo que é aparente e que nos chega pela realidade imediata. É preciso sempre refletir: o que existe por trás de tais demandas? Qual o pano de fundo de tais situações? E, conforme visto anteriormente, isso só é possível por meio do conhecimento oriundo da razão dialética. Isso porque a realidade é con- traditória e nos exige a negação de tal contradição: a contradição capital x trabalho. O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E168 A partir dessas incipientes considerações, você consegue visualizar a impor- tância do conhecimento para o exercício profissional? E, ainda, você consegue identificar qual a importância que o conhecimento possui na sua relação com os instrumentos técnicos operativos? Enquanto assistente social, ao se deparar com algumas das questões dispostas na citação anterior, o conhecimento oriundo será importante para analisar com profundidade a situação do usuário atendido, fazendo relação do geral para a particularidade, mas também para a escolha de qual instrumento se torna mais apropriado para ser utilizado no processo de inter- venção, ou até mesmo uma combinação de instrumentos e técnicas, estratégias. Quando falamos de “demandas”, falamos também em expressão de interes- ses contraditórios. Elas chegam até o assistente social mediatizadas pelas instituições que contratam o profissional e, portanto, são demandas da ins- tituição que também se tornam demandas da profissão. Deste modo, pode- mos afirmar que o assistente social, nas políticas públicas, está inserido em um espaço de mediaçãode classes. Fonte: Guerra (2009b). O contexto acadêmico é o local onde se enfrenta o desafio de articular a produção de conhecimento e a prática profissional (Bourguignon). Conceitos do Conhecimento e a sua Importância para o Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 169 A citação a seguir ilustra claramente a importância da postura investigativa do assistente social e a relação com os instrumentos técnicos operativos: [...] a investigação é inerente à natureza de grande parte das compe- tências profissionais: compreender o significado social da profissão e de seu desenvolvimento sócio-histórico, identificar as demandas pre- sentes na sociedade, realizar pesquisas que subsidiem a formulação de políticas e ações profissionais, realizar visitas, perícias técnicas, laudos, informações e pareceres sobre matéria de Serviço Social, identificar recursos. Essas competências referem-se diretamente ao ato de inves- tigar, de modo que, de postura a ser construída pela via da formação e capacitação profissional permanente (cuja importância é inquestioná- vel), a investigação para o Serviço Social ganha o estatuto de elemento constitutivo da própria intervenção profissional (GUERRA, 2009, p. 13, grifo nosso). É notório, então, que não há possibilidades de pensar em intervir na realidade sem um conhecimento prévio da realidade, um conhecimento durante todo o processo de intervenção nessa realidade e, ainda, um conhecimento posterior, de modo que o assistente social realize uma reflexão sobre a sua intervenção e sobre a própria profissão. É por isso que não há como tratar de intervenção sem tratar de conhecimento teórico. E é por esse motivo que é possível falar em práxis. Logo você irá entender o porquê. Quero, agora, trabalhar com você, estudante, a questão da práxis profissional no Serviço Social. Vamos lá? Espero que apro- veite mais esta etapa do nosso estudo. ©shutterstock O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E170 CONCEPÇÃO DE PRÁXIS NO SERVIÇO SOCIAL Para Guerra (2009a), práxis pode ser compreendida enquanto campo onde a teoria e a prática se articulam e se movimentam, em que a instrumentalidade se coloca como uma via. Costa e Madeira (2013) afirmam que podemos entender por práxis: atividades, práticas e ações dos sujeitos. Ainda, em outro momento, Guerra (2007), diz que a práxis é uma ação transformadora, cujo modelo privi- legiado é o trabalho e que: Detém a capacidade de manipulação, de conversão dos objetos em ins- trumentos que atendam as necessidades dos homens e de transforma- ção da natureza em produtos úteis (e em decorrência, a transformação da sociedade). Mas a práxis necessita de muitas outras capacidades/ propriedades além da própria instrumentalidade (GUERRA, 2007, p. 3). Para este momento da disciplina de Instrumentos Técnicos e Operativos é impor- tante que você entenda que o exercício profissional do assistente social constitui-se enquanto práxis por ser ação transformadora. Concepção de Práxis no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 171 A práxis, necessariamente, exige a articulação entre teoria e prática. A prática desarticulada da teoria é a “prática pela prática”, impensada, sem fundamento. Se os assistentes sociais prezam pela qualidade de seu serviço prestado aos usuários nos mais diversos espaços sócio-ocupacionais, não é admissível que a prática seja impensada. É preciso considerar que a instrumentalidade, nessa perspectiva, não diz respeito ape- nas ao uso dos instrumentos os quais você conheceu nos capítulos anteriores, mas, ela diz respeito a uma capacidade e/ou propriedade da profissão (GUERRA, 2007). A práxis, para a autora, é ação que transforma, também, o cotidiano profissional: Ao alterarem o cotidiano profissional e o cotidiano das classes sociais que demandam a sua intervenção, modificando as condições, os meios e os instrumentos existentes, e os convertendo em condições, meios e instrumentos para o alcance dos objetivos profissionais, os assistentes sociais estão dando instrumentalidade às suas ações (GUERRA, 2007, p. 2). Guerra, desse modo, quer dizer que os assistentes sociais podem dar, às suas ações, instrumentalidade. Ou seja, o assistente social pode instrumentalizar as ações. A instrumentalidade, portanto, vai além da utilização de instrumentos. Nesse caso, pressupõe uma qualidade da ação. A autora situa, ainda, a instrumentali- dade enquanto constituinte e também enquanto uma necessidade do trabalho: Na medida em que os profissionais utilizam, criam, adequam às condi- ções existentes, transformando-as em meios/instrumentos para a obje- tivação das intencionalidades, suas ações são portadoras de instrumen- talidade. Deste modo, a instrumentalidade é tanto condição necessária de todo trabalho social quanto categoria constitutiva, um modo de ser, de todo trabalho. Por que dizer que a instrumentalidade é condição de reconhecimento social da profissão? Todo trabalho social (e seus ramos de especialização — por ex. o Serviço Social) possui instrumentalida- de, a qual é construída e reconstruída na trajetória das profissões pelos seus agentes. Esta condição inerente ao trabalho é dada pelos homens no processo de atendimento às necessidades materiais (comer, beber, dormir, procriar) e espirituais (relativas à mente, ao intelecto, ao espí- rito, à fantasia) suas e de outros homens. Pelo processo de trabalho os homens transformam a realidade, transformam-se a si mesmo e aos outros homens. Assim, os homens reproduzem material e socialmente a própria sociedade. A ação transformadora que é práxis (ver Lessa, 1999 e Barroco, 1999), cujo modelo privilegiado é o trabalho, tem uma instrumentalidade (GUERRA, 2007, p. 2-3). O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E172 Desse modo, é por meio do processo de trabalho que nós, assistentes sociais, podemos realizar a intervenção e a transformação da realidade. Mas, como o processo de trabalho é compreendido? Guerra (2009b, p. 3) afirma que “neste âmbito, o processo de trabalho é compreendido como um conjunto de ativida- des prático-reflexivas voltadas para o alcance de finalidades, as quais dependem da existência, da adequação e da criação dos meios e das condições objetivas e subjetivas”. E é por esse motivo que falamos em práxis, por ser um conjunto de ativida- des prático-reflexivas que possuem finalidades. E, para as quais serem alcançadas, é necessário que haja uma prévia ideação, ou seja, é preciso ter em mente o que se espera, o que se construirá. O que é chamado de teleologia. E é necessário, portanto, a escolha de meios e instrumentos pelo quais estas finalidades pode- rão ser alcançadas. Na práxis do Serviço Social, como isso se dá? Nós não transformamos a natureza, mas possuímos necessidades, diante das quais existem finalidades a serem buscadas. A partir de então, realizamos uma prévia ideação (imaginamos e construímos em nossa consciência o produto esperado) e, a partir daquilo que se apresenta a nós e daquilo que buscamos, iremos materializar a ação a partir das escolhas de instrumentos, meios e técnicas que se apresentem mais adequa- dos para a transformação da realidade. O exemplo a seguir auxiliará você a visualizar essa questão: Imaginemos que alguém tenha necessidadede quebrar um coco. Para tanto, há várias alternativas possíveis: pode jogar o coco ao chão, pode construir um machado, pode abrir o coco com os dentes, pode queimar a casca do coco e assim por diante. Para escolher entre as alternativas deve-se imaginar o resultado de cada uma - ou, em outras palavras, antecipar na consciência o resultado provável das alternativas. Esta antecipação na consciência do resultado provável de cada alternativa possibilita às pessoas escolherem aquela que avaliam como a melhor. Escolha feita, o indivíduo leva-a a prática - ou seja, objetiva a alternati- va escolhida. Vamos imaginar que a alternativa escolhida para quebrar o coco seja a de construir um machado. Ao construir o machado, o indivíduo transformou a natureza: o machado era algo que não existia antes. Vejamos o que de fato ocorreu: 1) há uma necessidade: quebrar Concepção de Práxis no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 173 o coco; 2) há diversas alternativas possíveis para atender a esta neces- sidade (jogar o coco ao chão, construir o machado etc.); 3) o indivíduo projeta, em sua consciência, o resultado de cada uma das alternativas, as avalia e escolhe aquela que julga mais conveniente para atender à necessidade; 4) escolhida a alternativa, o indivíduo age objetivamente, isto é, transforma a natureza e constrói algo novo. Este movimento de transformar a natureza a partir de uma prévia ideação é denominado por Lukács, depois de Marx, por trabalho (LESSA, 2006, p. 1-2). Esse exemplo é bastante ilustrativo, na medida em que demonstra que, no pro- cesso em que emanam necessidades e possíveis estratégias, está sempre presente o processo reflexivo. É importante esclarecer, contudo, que o Serviço Social não é caracterizado enquanto trabalho, pois não realiza a transformação da natureza. Essa é uma ampla discussão no âmbito da profissão. Entretanto, por não ser o foco da disciplina, esta unidade também não abordará a temática. É importante, por hora, que você saiba que o Serviço Social não se caracteriza como traba- lho, nos termos que Marx trata, pois não realiza a transformação da natureza. Entretanto, é necessário pensar na relação existente entre a dimensão prá- tica e reflexiva na práxis do Serviço Social: diante das demandas apresentadas ao assistente social, há a necessidade de oferecer respostas. Tais respostas são, via de regra, para realizar uma transformação social (pois somos profissionais inte- lectuais que realizam uma intervenção na realidade social). Sendo assim, para realizar a transformação, necessariamente, precisamos escolher meios, instru- mentos ou técnicas que sejam mais apropriadas para cada situação. Desse modo, você consegue identificar a práxis? Para a necessidade de quebrar o coco, o homem projetou em sua consci- ência as possíveis alternativas e avaliou como melhor alternativa construir um machado e, para tanto, o construiu efetivamente, conforme no exemplo anterior. E então, te convido a refletir: ao depender da demanda apresentada ao Serviço Social, podemos utilizar esse ou aquele instrumento para realizar a intervenção. Após idealizarmos as alternativas, fazemos opção por determinados instrumen- tos e meios. Desse modo, como realizar a escolha de determinados instrumentos ou técnicas sem o exercício da reflexão? O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E174 O Serviço Social é uma das profissões que possuem maior proximidade e relação com o usuário dos seus serviços. Os assistentes sociais chegam tão próxi- mos da vida de pessoas, muitas vezes como nenhum outro profissional chegou ou chega. Diante disso, possuímos tamanha responsabilidade no processo de aten- dimento tanto de absorção das demandas trazidas pelos usuários (realizar uma escuta qualificada, atenta e sensível é imprescindível para analisar criticamente uma situação); tanto de reflexão sobre aquilo que nos é requisitado (reflexão sobre a demanda em si, propriamente dita, a busca de um respaldo e suporte teórico e legal); e, ainda, muito maior, no processo de intervenção. É nesse processo de intervenção que o Serviço Social, por meio da dimensão técnico-operativa, na qual utilizamos o instrumental e também possuímos ins- trumentalidade enquanto qualidade de nossa ação é capaz de intervir e impactar a vida dos usuários. É preciso considerar essa importância e, desse modo, com- preender a necessidade do processo de reflexão. Uma prática irrefletida é uma prática pela prática, desprovida de construções teóricas e, certamente, uma prá- tica que pode impactar negativamente a vida dos usuários. É neste sentido que, inserido na divisão sócio-técnica do trabalho, o Serviço Social utiliza de um instrumental técnico que, segundo Guerra (2009a), não é inteiramente específico ao Serviço Social e é, portanto, comum a outras profis- sões. Pois, sabe-se que outras profissões fazem uso de um instrumental, exceto aqueles que são de uso privativo, que o assistente social também faz. O diferen- cial está na intencionalidade do profissional ao usar o instrumental de forma condizente com os resultados que se espera da sua ação. A instrumentalidade possui um significado sócio-histórico na profissão, enquanto condição de possibilidade do exercício profissional (GUERRA, 2007). É por isso que, como visto anteriormente, a instrumentalidade se configura enquanto via para a práxis. Contudo, é importante que você compreenda que não se pode reduzir a intervenção à dimensão instrumental e também que é um erro pensar que se pode abrir mão de referenciais teóricos e ético-políticos (GUERRA, 2007). O trecho a seguir é importante para reafirmar a relação da práxis e o exercício profissional: Concepção de Práxis no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 175 Se as demandas com as quais trabalhamos são totalidades saturadas de de- terminações (econômicas, políticas, culturais, ideológicas) então elas exi- gem mais do que ações imediatas, instrumentais, manipulatórias. Elas im- plicam intervenções que emanem de escolhas, que passem pelos condutos da razão crítica e da vontade dos sujeitos, que se inscrevam no campo dos valores universais (éticos, morais e políticos). Mais ainda, ações que este- jam conectadas a projetos profissionais aos quais subjazem referenciais te- órico-metodológicos e princípios ético-políticos (GUERRA, 2007, p. 11). Portanto, desconsiderar os aspectos teóricos, metodológicos, éticos e políticos no processo de intervenção seria banalizar a atuação do Serviço Social enquanto profissão. Ou seja, uma prática impensada, irrefletida, desconexa e, assim, uma prática não instrumentalizada, perpassa a ideia de que o assistente social pos- sui “uma simples tarefa”. Contudo, você, estudante de Serviço Social, já deve ter identificado o quão árduo é o exercício de aproximação da realidade, de descons- trução de valores ideológicos, de interpretação de processos sociais e, verá, quando se inserir nos campos de estágio o quão desafiador é o processo de intervenção. A sociedade, por não ser estática, exige um constante exercício de leitura e estudos. Por esse motivo, a dimensão interventiva – que não é a única dimensão da nossa profissão, mas possui uma relevância inquestionável – deve, necessariamente, estar articulada com referenciais teórico-metodológicos. Na medida em que a prá- tica está ancorada em bases teóricas, a prática se torna práxis e, portanto,torna-se um caminho para a transformação da realidade. Deixa de ser “prática pela prática”. Acredito que, ao longo desta unidade, você foi identificando que, definitiva- mente, não há possibilidades de pensar a intervenção enquanto dimensão que impactará positivamente a vida dos sujeitos atendidos pelo Serviço Social sem que realizar a articulação entre teoria e prática. A depender da demanda apresentada ao Serviço Social, podemos utilizar esse ou aquele instrumento. Como realizar a escolha de determinados instrumentos ou técnicas sem o exercício da reflexão? Imagine que você é assistente social em uma Unidade Básica de Saúde. A equipe recebe a demanda de um usuário, diabético, de 55 anos. Em decorrência de sua condição de saúde, adquiriu pé diabético e evoluiu para uma amputação do membro inferior. A equipe da Saúde da Família irá realizar intervenções sis- temáticas, inclusive para administrar a verificação do processo de cicatrização, medicamentos, entre outras necessidades. Você, enquanto assistente social iden- tifica, imediatamente, que existem demandas ao Serviço Social nessa situação? O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E176 Pois bem, em um primeiro momento, podemos não identificar o que há, em situação como essa, para o Serviço Social. Você pode sim imaginar que existam demandas, até mesmo porque a vida é perpassada pelos determinantes sociais e, na saúde, isso não é diferente. Desse modo, identificando a realidade vivenciada por esse usuário, passando pelos processos de prévia ideação, você precisará realizar uma maior aproximação ao usuário e ao seu contexto de vida. Assim, precisará escolher alternativas para tanto; precisará analisar e refletir sobre quais os ins- trumentos se configurarão na melhor alternativa para o processo de intervenção. O que você faria? Elaboraria um ofício aos demais profissionais da equipe, soli- citando maiores informações? Solicitaria que a família viesse, pessoalmente, até a unidade de saúde para atendimento? Escolheria utilizar o instrumento de visita domiciliar para aproximação ao contexto de vida do usuário, a fim de realizar aproxi- mações e identificações de demandas? Qual escolha você considera mais apropriada? Certamente, levando em conta o que você estudou até aqui, a utilização do instru- mento de visita domiciliar se demonstraria mais apropriado para esta demanda. Após decidir pela escolha da visita domiciliar – e aí reside o aspecto da inten- cionalidade da ação, como você estudou em Guerra (2007), você precisa refletir sobre como se dará a utilização deste instrumento – O que você realizaria após a escolha do instrumento e como conduziria a intervenção? Pois bem, pensando que um processo de saúde-doença implica alterações no cotidiano familiar, tal- vez fosse interessante conversar com a equipe de enfermagem para identificar os horários de realização de procedimentos domiciliares e até mesmo horários em que a família esteja auxiliando o usuário com atividades rotineiras, como banho, por exemplo. Por quê? Imagine que você esteja muito atarefado em sua casa e receba uma visita, você conseguiria realizar as atividades que precisa e, conco- mitantemente, oferecer a atenção necessária? Muito provavelmente que não. Portanto, neste caso, agendar um horário com a família, a partir das infor- mações previamente prestadas por outros profissionais da equipe, se demonstra como uma atitude profissional atenta e sensibilizada. Após ter feito isso, seria importante que você realizasse alguma leitura, especificamente, sobre o problema de saúde vivenciado por este usuário. Talvez buscasse algum artigo científico sobre as representações sociais do pé diabético ou outros materiais que fossem importantes. Concepção de Práxis no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 177 Precisará também elencar um instrumento de coleta de dados para utilizar durante a realização da visita, para que algumas informações não se percam. Talvez um instrumento em formato de questionário, com espaço para as suas observações? Para tanto, você deve refletir sobre quais aspectos seriam relevan- tes para absorção durante a visita domiciliar. Quando da realização da visita domiciliar, após todo esse processo, você se sentirá mais instrumentalizado para conduzir o atendimento, certamente. Você pode ter identificado que a residência da família precisará de adaptações, visto que neste momento o usuário está fazendo uso de cadeira de rodas; pode ter identificado que sua esposa trabalhava de modo informal e teve que deixar o trabalho para cuidar do marido; o filho do casal está desempregado; o usuá- rio necessita de uma alimentação específica durante o processo de cicatrização, mas infelizmente, a família encontra-se sem condições financeiras para adqui- rir. O usuário estava desempregado desde que começou a ter complicações, mas como não também não estava inserido de modo formal no mercado de traba- lho, encontra-se desprovido de benefícios previdenciários. Além disso, a esposa relata estar cansada e desanimada com a situação, queixando de toda a dificul- dade enfrentada nesse processo. Diante da utilização desse instrumento, reflita: quais outras demandas você também pode ter identificado? E, ainda, após utilizar o instrumento da visita domiciliar, quais outras interven- ções podem ser realizadas junto a esta família? Talvez uma orientação sobre direitos trabalhistas, formas de buscar acesso aos direitos; encaminhamento da demanda ao Centro de Referência de Assistência Social para verificar a possibilidade da inserção da família no Cadastro Único, para acesso a programas, benefícios, entre outros; uma conversa com a equipe de saúde sobre o apoio a ser realizado neste momento, sobre- tudo com relação ao cuidador (esposa). Enfim, são tantas as possibilidades que surgem diante de uma dada situação. Foram apenas exemplos que não esgotam neste capítulo. Poderíamos abordar muitas outras questões. Porém, o importante é que você compreenda e visualize a importância de estar ancorado em processo de reflexões teóricas. Posteriormente, você com certeza irá elaborar um relatório de visita domiciliar, pois você também já estudou anteriormente, a importância da documentação para a sistematização do nosso agir. Sem registro, não consegui- mos dar materialidade a práxis. Quais referências teóricas seriam importantes O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E178 você buscar no processo de elaboração deste relatório? Talvez reflexões sobre determinantes sociais em saúde? Saúde do trabalhador? Relação entre o mundo do trabalho e o processo de adoecimento? Fundamentação legal sobre direitos a benefícios quando do processo de adoecimento? Enfim, uma gama de exigên- cias se abre ao profissional no momento em que ele faz uma opção por utilizar um determinado instrumento. Portanto, não existe possibilidade de a práxis se efetivar concretamente se não houver, conforme muito já sinalizado, uma inter- locução com uma base sustentável de reflexão. Portanto, para Guerra (2007), a instrumentalidade é, ainda, compreendida como mediação, visto que é o cotidiano o espaço para realização das ações ins- trumentais, permitindo que as ações meramente instrumentais passem para um exercício profissional crítico e competente. Assim, Como mediação, a instrumentalidade permite também o movimento con- trário: que as referências teóricas, explicativas da lógica e da dinâmica da sociedade, possamser remetidas à compreensão das particularidades do exercício profissional e das singularidades do cotidiano. Aqui, a instru- mentalidade sendo uma particularidade e como tal, campo de mediação, é o espaço no qual a cultura profissional se movimenta. Da cultura profis- sional os assistentes sociais recolhem e na instrumentalidade constroem os indicativos teórico-práticos de intervenção imediata, o chamado instru- mental técnico ou as ditas metodologias de ação (GUERRA, 2007, p. 12). Portanto, a instrumentalidade possibilita a relação do referencial teórico com as demandas postas ao profissional. Portanto, como falar que a prática e a teoria não se combinam? Ou, então, que “na prática a teoria é outra?” Com certeza, você já deve ter ouvido ou até mesmo falado isso. A ideia de que a teoria é bonita, mas na prática a história é outra é muito presente no imaginário tanto dos estudan- tes quanto dos profissionais do Serviço Social. Desse modo, é importante pensar nessa relação, e no esforço de compreender que, de acordo com Guerra e Forti (2009) a ideia de que há um distanciamento entre o conhecimento teórico e sua capacidade de aplicação é um dos maiores dilemas da profissão. A naturalização dessa afirmação é, contudo, para as autoras, uma afirmação do senso comum. Portanto, eu quero te ajudar, com base nessas autoras, a pensar nessa questão e tentar demonstrar que, de fato, nós, assistentes sociais e estudantes de Serviço Social, precisamos romper com essa afirmativa e, não apenas, precisamos compreender que ela não é verdadeira. ©shutterstock A Relação Teoria e Prática no Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 179 A RELAÇÃO TEORIA E PRÁTICA NO SERVIÇO SOCIAL Você já viu que a relação entre o conhecimento e o instrumental, no âmbito do Serviço Social, é estreita e necessária. A partir disso, confirma-se o que chama- mos de práxis social. Diante do que estudamos até o momento reforço que essas dimensões não são dissociáveis, e este argumento não se sustenta e portanto devemos romper com este jargão se, de fato, a nossa intensão é a de superar o senso comum. Ao realizar essa análise, Guerra e Forti (2009, p.3) sinalizam que essa visão se sustenta “na concepção de que a teoria tem a possibilidade de ser implemen- tada na realidade social e/ou tem a capacidade de dar respostas imediatas para suas questões”. Desse modo, tal concepção se baseia na ideia de que a teoria deve ser possivelmente aplicável na prática. É como se esperássemos modelos, for- matos e respostas prontas. Para as autoras, essa é uma visão capitalista de uma percepção dimensão instrumental da razão e que desconsidera as possibilidades de emancipação da razão moderna. Essa é uma visão que supervaloriza resul- tados voltados ao êxito individual, em contraposição, ao processo de apre- ensão da realidade e identificação de respostas coletivas para as necessida- des sociais. Nessa visão, portanto, as teorias que não apresentem respostas imediatas são desvalorizadas. Para Guerra e Forti (2009, p. 2) essa é uma visão que, no Serviço Social, precisa seriamente ser com- batida, pois: Você já ouviu algum profissional ou estudante de Serviço Social dizer que “na prática a teoria é outra” Se sim, por quais motivos você acredita que isso foi afirmado? O CONHECIMENTO E A SUA IMPORTÂNCIA PARA O SERVIÇO SOCIAL: Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. VU N I D A D E180 [...] a prática como atividade efetiva que permita transformação na re- alidade natural ou social não é uma atividade qualquer, mas atividade que possibilita ao sujeito reflexão sobre sua ação e revelações sobre a realidade — que possibilita decifração das categorias e captação da le- galidade dos fenômenos. É uma ação capaz de proporcionar conheci- mentos, transformando e qualificando nossas ideias sobre as coisas, e de nos fornecer meios, caso tenhamos intenção de modificá-las. Desse modo, é possível compreender que a teoria não deve apenas fazer sentido para os assistentes sociais, na medida de sua aplicabilidade. A teoria deve nos servir para iluminar a prática. Assim, a teoria é uma maneira de se apropriar da realidade. Portanto, com tudo o que foi visto, você consegue compreender o motivo pelo qual é impossível falar que na prática a teoria é outra? A práxis é, em si só, a relação teoria e prática na medida em que não é mera instrumentalidade. Essa discussão possui relação com o instrumental técnico-operativo do assistente social, visto que é por meio de sua utilização e também da instrumen- talidade enquanto qualidade da ação, enquanto constituinte da profissão, que o Serviço Social realiza intervenção na realidade social. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade, estudamos a importância do conhecimento para o Serviço Social e a sua relação com os instrumentos técnicos e operativos. Ressaltamos a impor- tância do conhecimento oriundo da razão dialética enquanto o nível mais elevado e o de maior importância para nós. Não devemos desconsiderar os outros níveis de conhecimento. Ao contrário, o conhecimento pode sim ser originado no senso comum, mas precisa ser elevado ao nível máximo. Você aprendeu que o conhecimento é importante na medida em que possibi- lita o assistente social a compreender a realidade de forma consistente, e que, uma vez que a profissão possui caráter interventivo, para responder às demandas que se apresentam no cotidiano, é imprescindível o conhecimento crítico da realidade. Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 181 Um referencial teórico é o que oferece suporte ao processo de busca pelo conhecimento e, desse modo, você aprendeu que então falamos em práxis social. Aprendeu, também, o que é práxis e que a articulação entre teoria e prática está muito relacionada ao instrumental técnico e operativo e, portanto, à dimensão interventiva da profissão. Porém, a profissão não se restringe a essa dimensão. Assim, a instrumentalidade se coloca enquanto uma capacidade e enquanto qualidade da ação e, portanto ela é uma via para a práxis, ou seja, possibilita a articulação entre teoria e prática. Por fim, você aprendeu que o jargão “na prática a teoria é outra” precisa ser superado pelo Serviço Social, pois a teoria nos serve para iluminar a prá- tica. Desse modo, a teoria não pode ser compreendida nos limites da sociedade burguesa, enquanto mera dimensão instrumental visando oferecer respostas imediatas. Espero que você tenha aproveitado ao máximo esta unidade e que possa, de fato, ter compreendido a relação entre o conhecimento, a práxis e a relação entre teoria e prática no Serviço Social. Consulte as referências ao final da unidade e tente ler os materiais referenciados na íntegra. Isso vai te ajudar a apreender melhor o conteúdo. Portanto, caro (a) aluno(a), aproveite ao máximo esse momento da graduação, que é o locus privilegiado, e tente reforçar essa arti- culação quando estiver no campo de estágio. 182 1. Para Guerra (2009a), o conhecimento é o processo que leva ao esclareci- mento da realidade. Levando em conta os níveis e graus de abrangência do conhecimento postos pela autora, relacione a segunda coluna de acordo com a primeira: ( 1 ) Conhecimento oriundo da intuição ( 2 ) Conhecimento proveniente do intelecto (formal-abstrato) ( 3 ) Conhecimento oriundo da razão dialética ( ) É o conhecimento que supera a visão aparente e imediata, indo além. Com- preende o objeto em sua total dimensãoe em sua capacidade de transformação. É o nível mais alto do conhecimento. ( ) É o conhecimento que se adquire no senso comum. É um nível limitado e preliminar do conhecimento que se baseia na ideia de que “só se aprende a fazer fazendo”. ( ) É o conhecimento que possibilita que aceitemos as informações que nos chegam no cotidiano. É o conhecimento chamado de entendimento, no qual nós acionamos o intelecto para distinguir, comparar, classificar as coisas a partir da imagem do real. Este conhecimento é restrito a tornar o existente como algo conhecido. É o conhecimento no qual nós enxergamos a realidade através de como ela se apresenta imediatamente, ou seja, superficialmente, sem aprofun- damentos. 2. De acordo com o que você leu a respeito da práxis, assinale a alternativa correta: a. A práxis não possui o poder de transformação social. b. A práxis pressupõe a articulação teoria e prática. c. A instrumentalidade não é uma via para práxis. d. A práxis não estabelece relação, no âmbito do Serviço Social, com o instru- mental técnico e operativo. 3. De acordo com Guerra e Forti (2009), em que se sustenta a visão de que na prática a teoria é outra? 4. Qual a importância do conhecimento e de sua busca para o Serviço Social? 5. De acordo com a autora Lara (2008), o que é o conhecimento para o Serviço Social? 183 Neste artigo, de modo breve e didático, Alves (2012) aborda a questão do conhecimento para a prática profissional. Vai te ajudar, de certa forma, a sintetizar o conteúdo trabalha- do nesta unidade: O cotidiano é um espaço desafiador visto que nele prevalece a rotina, a reprodução da prática por ela mesma. Essa reprodução ocorre naturalmente e, ousamos dizer, que possibilita ao profissional uma sensação de segurança, uma vez que esse profissional pode se ‘acostumar’ a exercer sua prática naquele espaço sócio ocupacional dessa ou daquela forma. O desafio está no risco de que essa rotina nos ‘engula’ de tal forma que nos leva a um engessamento do pensamento e do processo de reflexão. Podemos ficar reféns de nos- sa rotina. Berger e Luckmann (1976, p. 40) falam que “a realidade da vida cotidiana” se apresenta “como um mundo intersubjetivo” onde participamos em conjunto com outras pessoas. Esclarecem que “esta intersubjetividade diferencia a vida cotidiana de outras realidades” que temos consciência. Os autores alertam ainda, sobre o fato de admitirmos a reali- dade da vida cotidiana como “a realidade”, sem questionamentos ou verificações, onde é natural a atitude da consciência do senso comum, pois este “é o conhecimento que” partilhamos “com os outros nas rotinas normais, evidentes da vida cotidiana” (BERGER; LUCKMANN, 1976, p. 40). Assim, a vida cotidiana pode a ser afirmada como real por meio do pensamento e da ação profissional. Isso gera uma zona de conforto ao profissional, entretanto apresenta grandes possibilidades de conduzir a uma visão fatalista da sociedade, como se a reali- dade estivesse dada de modo definitivo, como nos atenta Iamamoto (2007). O cotidiano precisa ser suspendido de forma crítica, ou seja, realizar momentos de sus- pensão, ainda que temporariamente, para assim, refletir e analisar criticamente a si- tuação com a finalidade de mudar a rota, a direção da ação, não se trata apenas, por exemplo, de distribuir uma cesta básica todo mês para determinada família porque a mesma passa fome, mas refletir o “por que” desta situação, não se limitando a demanda imediata, mas extrapolando-a, buscando detectar a demanda real e nela intervir (GUER- RA, 2002). A partir do momento em que se ultrapassa a ação imediata para uma ação mais apro- fundada e qualificada, nos deparamos como um campo de “mediações” que permite a passagem das ações instrumentais para o exercício profissional crítico e competente, possibilitando, desta forma, que a profissão dê respostas mais enriquecidas e eficazes. Em outras palavras, é imprescindível que o profissional busque a essência dos fenôme- nos, ultrapassando os limites da aparência e da pseudoconcreticidade que para Kosík, (1976, p. 11) a ela pertencem: - o mundo dos fenômenos externos, que se desenvolvem a superfície dos processos realmente essenciais; 184 - o mundo do tráfico e da manipulação, isto é, da práxis fetichizada dos homens (a qual não coincide com a práxis crítica revolucionária da humanidade); - o mundo das representações comuns, [...]; - o mundo dos objetos fixados, que dão a impressão de ser condições naturais e não são imediatamente reconhecíveis como resultado da atividade social dos homens. O mundo da pseudoconcreticidade é um claro-escuro de verdade e engano. Para superar a peseudoconcreticidade é preciso ultrapassar o imediato, a aparência do fenômeno para se aproximar da essência. Isto é, fazer a mediação entre a pseudoconcre- ticidade e o concreto pensado. Kosík (1976) discute que o fenômeno se dá no imediato de forma explicita, por exemplo: o envelhecimento populacional. Porém, ele ao mesmo tempo indica e esconde a essên- cia, daí a importância do profissional enquanto sujeito pensante em desvelar o que está oculto pelo fenômeno (a essência), mas que é em contrapartida, mediado por ele. O autor afirma ainda que “a destruição da pseudoconcreticidade é o processo de criação da realidade concreta e a cisão da realidade, da sua concreticidade” (KOSÍK, 1976, p. 19). O processo de abstração só é possível por meio do conhecimento que não é algo pronto e acabado, mas que faz parte de um movimento de construção e reconstrução. Desse modo, a prática cotidiana pode nos engessar conforme afirmamos anteriormente. Porém, essa mesma prática cotidiana pode nos iluminar ao passo que é nessa realidade que se apresentam os fenômenos que por meio de abstrações, do pensamento e, sobre- tudo do conhecimento, podemos captar a essência. 2.2 O CONHECIMENTO E A INVESTIGAÇÃO NO SERVIÇO SOCIAL O serviço social é uma profissão que possui um caráter interventivo, isto é, produz uma ação em uma determinada situação visando modificar aspectos da mesma, ou a realida- de em si. Entretanto, essa ação deve ser pautada por um conhecimento e pelo posicio- namento do profissional. Nesse sentido, Ao assistente social, no âmbito da sua inserção na divisão social e técnica do tra- balho, cabe captar como as diversas expressões da questão social se particulari- zam em cada espaço sócio-ocupacional e chegam como demandas que depen- dem de sua intervenção profissional. Assim, entendemos que a clareza acerca de como concebemos a “questão social”, ou seja, a partir de que pressupostos teó- ricos, a percepção que temos de suas expressões, tais como: desemprego, fome, doenças, violência, falta de acesso aos bens e serviços sociais (moradia, creches, escolas, hospitais, etc.), bem como dos valores que orientam tais concepções, são mediações que incidem sobre os meios e modos de responder às demandas profissionais. (GUERRA, 2009, p. 704). 185 Não há duvidas de que o conhecimento é imprescindível ao exercício profissional, uma vez que ele pode dar direção a nossa ação profissional. Guerra (2009, p. 706) esclarece que o conhecimento se dá em vários graus e níveis como: o conhecimento oriundo da intuição (relacionado ao senso comum, “à máxima de que só se aprende a fazer fazendo”); o conhecimento gerado pelo entendimento, isto é, “proveniente do intelecto (formal – abstrato)” que possibilita a distinção das coisas, sua determinação, classificação a partir de sua aparência, ou seja, expressa “a realidade tal como ela aparece empiricamente”; e por fim o maior nível, o conhecimento originado da razão dialética a qual capta a constituição e o movimento do objeto, que “vai além da apreensão imediata”. Embora o conhecimento se apresente diferentes níveis é interessante destacar a sua complementaridade, pois ele pode partir simdo senso comum, mas não se limitar a ele, precisa ir além da aparência, da imediaticidade, até mesmo do entendimento de uma realidade, uma vez que esta está sempre em movimento. Portanto, para a criação de novas respostas às demandas apresentadas, o profissional deve pautar sua ação inspirada pela razão dialética que não se prende no singular, mas que se abre para o universal, sempre se questionando o “porquê”, analisando as contra- dições, as negações existentes naquela realidade. A ‘humanidade social’ carece de respostas ao conjunto dos ‘problemas econô- micos, políticos, sociais e culturais’ que a assolam, pois são inúmeros, alguns de séculos, como a pobreza e outros contemporâneos, como a sexualidade, a ética e tantas outras expressões da ‘questão social’, que o Serviço Social, auxiliado pe- las ciências sociais, objetiva investigar. (LARA, 2007, p. 75) Fonte: Alves (2012, p. 101-110). MATERIAL COMPLEMENTAR Serviço Social e temas sociojurídicos: debates e experiências. Valéria Forti e Yolanda Guerra (organizadoras) Editora: Lumen Juris Sinopse: A perspectiva crítica que fundamenta esta coletânea de textos é tensionada pela denúncia de violação de direitos, posição que impulsiona a construção coletiva de possibilidades e de efetivação de direitos. Adotando a problematização historicizada, expõe a tendência criminalizadora, moralizadora e punitiva da sociedade brasileira, exigindo muito mais que as aparentes inovações legislativas e “aperfeiçoamento” institucional. Propiciando a visibilidade dos sujeitos cujas condições expressam particularidades da violência, potencializa a crítica propositiva nesses espaços de afi rmação e negação de direitos. Ao enfrentar dialeticamente as violações provocadas pela lógica do capitalismo contemporâneo, o conjunto de refl exões adota a defesa da liberdade, posição que entendemos dar direção para a busca de superação dessa realidade. COMENTÁRIO: Este livro possui contribuições de Yolanda Guerra acerca da relação teoria e prática. Além disso, a editora tem tido publicações interessantes no Serviço Social. Vale a pena conferir livros em editoras diferenciadas, pois embora a Lumen Juris não seja especifi camente da área do Serviço Social e sim do Direito, há importantes produções teóricas. A particularidade histórica da pesquisa no Serviço Social O objetivo deste estudo é trazer uma refl exão sobre a particularidade histórica da pesquisa no Serviço Social, bem como sobre os desafi os decorrentes desse conjunto especial de circunstâncias que se apresentam no contexto contemporâneo. O estudo percorre e se apoia em três pilares, os quais são trabalhados a partir da particularidade da pesquisa para o Serviço Social; da centralidade ocupada pelos sujeitos que participam das referidas pesquisas e do retorno e do alcance social procedentes desses estudos, para transformações materiais nas condições de existência dos envolvidos, nas ações dos profi ssionais e nas organizações sociais. O estudo conclui na reafi rmação de que a pesquisa é constitutiva e constituinte da prática profi ssional do Serviço Social, sendo determinada pela sua natureza interventiva e pela sua inserção histórica na divisão sócio-técnica do trabalho. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rk/v10nspe/a0510spe.pdf>. Acesso em: 17 jun. 2016. A perspectiva crítica que fundamenta esta coletânea de textos é tensionada pela denúncia de violação de direitos, posição que impulsiona a construção coletiva de possibilidades e de efetivação de direitos. Adotando a problematização historicizada, expõe a tendência criminalizadora, moralizadora e punitiva da sociedade brasileira, exigindo muito mais que as aparentes inovações legislativas e “aperfeiçoamento” institucional. Propiciando a visibilidade dos sujeitos cujas condições expressam particularidades da violência, potencializa a crítica propositiva nesses espaços de afi rmação e negação de direitos. Ao enfrentar dialeticamente as violações provocadas pela lógica do capitalismo contemporâneo, o conjunto de refl exões adota a defesa da liberdade, posição que entendemos dar direção para a busca REFERÊNCIAS 187 ALVES, A. P. S. G. A importância do conhecimento para a prática profissional. Saber Acadêmico, São Paulo, v. 14, 2012, p. 101-110. BOURGUIGNON, J. A. A particularidade histórica da pesquisa no Serviço Social. Re- vista Katálysis, Florianópolis, v. 10, p. 46-54, 2007. COSTA, R. G. da; MADEIRA, Maria Zelma de Araújo. Trabalho, práxis e serviço social. Revista Katálysis, Florianópolis, v.16, n.1, p. 101-110, jan-jun. 2013. GUERRA, Y. A dimensão investigativa no exercício profissional. In: CONSELHO FE- DERAL DE SERVIÇO SOCIAL (org.) Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009a. ______, Y. O conhecimento crítico na reconstrução das demandas profissionais con- temporâneas. In: BAPTISTA, M.; BATTINI, O. A prática profissional do assistente social: teoria, ação, construção de conhecimento. São Paulo: Veras Editora, v. 1, p. 79-106, 2009b. ______. A instrumentalidade no trabalho do assistente social. Anais do Simpósio Mineiro de Assistentes Sociais, Belo Horizonte, maio 2007, p. 1-35. GUERRA, Y.; FORTI, V. Na prática a teoria é outra?. In: GUERRA, Y.; FORTI, V. Temas, Textos e Contextos. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. de. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: Esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 22. ed. São Paulo: Cortez, 2008. IAMAMOTO, M. V. Os espaços sócio-ocupacionais do assistente social. In: CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. (org.) Serviço Social: Direitos Sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS, 2009. LARA, R. A produção do conhecimento em serviço social: o mundo do trabalho em debate. 2008. 261 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) - Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho: Franca, 2008. LESSA, S. O processo de produção/reprodução social: trabalho e sociabilidade. Programa de capacitação continuada para assistentes sociais, Módulo II: Reprodu- ção Social, Trabalho e Serviço Social. Brasília: CFESS/ABEPSS-UNB/CEAD, 1999. REFERÊNCIAS GABARITO 1. Sequência correta: 3, 1, 2 2. Resposta correta: alternativa B 3. Resposta esperada: para as autoras, essa visão de sustenta na concepção de que a teoria tem a possibilidade de ser implementada na realidade social e/ou tem a capacidade de dar respostas imediatas para suas questões. É uma ideia que considera que uma teoria deve ser possivelmente aplicável na prática. 4. Resposta esperada: a importância é que é por meio do conhecimento que o pro- fissional ultrapassa o entendimento imediato de uma dada realidade. Mas é a partir dele que se aprofundará nessa realidade, vai aproximar-se dela e desven- dá-la. Este conhecimento, portanto, deve estar comprometido com as deman- das que se colocam para a profissão e para o seu enfrentamento. 5. Resposta esperada: o conhecimento para o Serviço Social não é apenas uma for- ma de saber, mas, principalmente, uma maneira de compreender em primeiro momento e, posteriormente, apresentar caminhos seguros para transformar a realidade social. CONCLUSÃO 189 Encerramos o livro da disciplina de Oficina de Instrumentos Técnicos e Operativos. Nele, você estudou sobre o instrumental técnico-operativo do assistente social. Aprendeu que, para além do uso de instrumentos, meios e técnicas, a instrumen- talidade constitui uma capacidade do assistente social, ou seja, uma propriedade constitutiva da profissão. Também, aprendeu os conceitos de instrumentalidade e a diferença entre instru- mento e instrumentalidade. Estudamos também a relação entre a dimensão técni- co-operativa com as dimensões ético-política e teórico-metodológica. Você conhe- ceu os principais instrumentos e técnicas de intervençãodo Serviço Social. Por meio dessa discussão, foi possível perceber que os instrumentos não servem apenas para que o assistente social realize intervenções, mas também para conhecer a realidade. A partir do estudo dos principais instrumentos, você percebeu que há especificida- des com relação a alguns espaços sócio-ocupacionais. Após conhecer os principais instrumentos, você estudou sobre o registro e a documentação, descobrindo a sua importância para a sistematização da prática e para a materialidade da ação. Estudou a relação do conhecimento com a práxis, na perspectiva de articulação en- tre teoria e prática no Serviço Social. Nessa discussão, estudou os níveis e graus de abrangência do conhecimento. Por fim, você estudou a questão do dilema teoria e prática no Serviço Social, verificando que é preciso romper com a ideia de que na prática a teoria é outra. Em suma, é importante que você possa ter compreendido, com esta disciplina, que mais importante que qualquer instrumento é a sua capacidade de ser instrumen- talizado e o compromisso em conhecer a realidade. Sendo assim, você conseguirá identificar os instrumentos mais apropriados. Esperamos ter contribuído e desejamos muito sucesso profissional e em todos os caminhos que percorrer na profissão! Ficamos à disposição! CONCLUSÃO