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2016	-	02	-	12
Revista	de	Direito	Privado
2015
RDPriv	vol.	62	(Abril	-	Junho	2015)
Direito	Contratual
1.	Da	permuta	no	direito	brasileiro
Direito	Contratual
1.	Da	permuta	no	direito	brasileiro
On	barter	in	Brazilian	law
TERCIO	SAMPAIO	FERRAZ	JUNIOR
Doutor	e	Livre	Docente	pela	Faculdade	de	Direito	da	USP.	Doutor	em	Filosofia	pela	Johannes	Gutenberg	Universität	zu	Mainz.
Professor	Emérito	da	Faculdade	de	Direito	da	USP-Ribeirão	Preto.	Professor	dos	Cursos	de	Pós-graduação	da	Faculdade	de	Direito
da	PUC-SP.	Professor	Titular	aposentado	da	Faculdade	de	Direito	da	USP.	tercio@sampaioferraz.com.br
Sumário:
1.	Introdução
2.	Natureza	jurídica	da	permuta
3.	O	âmbito	da	compensação:	a	torna
4.	Um	caso	peculiar:	a	permuta	de	quotas
5.	Bibliografia
Área	do	Direito:	Civil
Resumo:
Permuta	é	um	contrato	típico.	Mas	o	Código	Civil	brasileiro	de	2002,	como	o	de	1916,	trata	dela	sumariamente,	mandando
aplicar-lhe	as	regras	da	compra	e	venda.	Na	permuta,	porém,	há	peculiaridades	que	merecem	mais	atenção.	Por	exemplo,	o
tema	res/pretium	para	diferenciar	a	 compra	e	venda	da	permuta.	Na	permuta	 trocamos	coisas.	Mas	mesmo	na	 legislação
brasileira,	 como	 no	 art.	 221	 do	 CCo,	 havia	 uma	 espécie	 de	 assimilação	 de	 ambos	 os	 contratos:	 "O	 contrato	 de	 troca	 ou
escambo	mercantil	opera	ao	mesmo	tempo	duas	verdadeiras	vendas,	servindo	as	coisas	 trocadas	de	preço	e	compensação
recíproca".	No	mesmo	sentido,	como	a	 troca	visa	ou	admite	a	possibilidade	de	parte	do	pagamento	em	dinheiro,	há	quem
atribua	à	permuta	uma	natureza	mista,	parte	permuta,	parte	compra	e	venda.	Na	prática,	porém,	a	aplicação	do	critério	da
dupla	 natureza	 leva	 a	 dificuldades	 ainda	 maiores	 pelo	 desmembramento	 do	 contrato	 em	 duas	 diferentes	 transações.	 A
provisão	de	parte	do	pagamento	em	dinheiro,	parte	em	bens,	levanta	a	questão	da	"torna",	especialmente	no	que	se	refere	à
permuta	de	ações.
Abstract:
Barter	is	a	legally	regulated	contract.	But	the	brazilian	Civil	Code	of	2002,	as	well	as	that	of	1916,	treats	it	summarily	applying
to	it	the	rules	for	the	purchase	and	sale.	With	regard	to	barter,	however,	there	are	peculiarities	that	deserve	more	attention.
For	example,	the	theme	res/pretium	to	differentiate	purchase	from	barter	(res/res).	In	barter,	we	exchange	things.	But	even
in	Brazilian	legislation,	as	for	example	in	the	art.	221	of	the	Commercial	Code,	there	used	to	be	a	sort	of	assimilation	of	both
contracts:	"the	contract	of	mercantile	exchange	or	barter	operates	at	the	same	time	two	true	sales,	serving	things	exchanged
as	price	and	reciprocal	compensation".	In	the	same	sense,	as	exchange	envisages	or	admits	the	possibility	of	a	part	payment
in	cash,	 some	would	consider	 that	barter	 is	a	 contract	of	a	mixed	nature,	 in	part	exchange,	 in	part	purchase	and	sale.	 In
practice,	 however,	 the	 application	 of	 that	 criterion	 leads	 to	 even	 greater	 difficulties	 by	 virtue	 of	 dismemberment	 of	 the
contract	into	two	different	legal	transactions.	The	provision	of	the	payment,	partially	in	money	partially	in	goods	raises	the
question	of	the	so-called	"earnest	money",	with	special	problems	in	case	of	share	exchange.
Palavra	Chave:	Permuta	-	Compra	e	venda	-	Torna	-	Permuta	de	ações.
Keywords:	Barter	-	Exchange	-	Purchase	and	sale	-	Share	exchange.
1.	Introdução
O	 tema	 da	 permuta,	 à	 qual	 o	 Código	 Civil	 manda	 aplicar	 as	 regras	 da	 compra	 e	 venda,	 tem	 a	 ver	 com	 o	 seu	 elemento
distintivo,	que	a	doutrina	costuma	apontar	na	ausência	de	preço	nas	prestações	de	coisa	por	coisa,	aspecto,	porém,	que	não
esgota	a	análise	de	sua	natureza	jurídica,	localizada,	propriamente,	na	relação	do	ut	des	(dou	para	que	dês).
O	 Código	 Civil	 de	 2002	 em	 seu	 art.	 481	 permite	 inferir	 as	 qualificações	 conceituais	 do	 contrato	 de	 compra	 e	 venda,	 ao
determinar:	“Pelo	contrato	de	compra	e	venda,	um	dos	contratantes	se	obriga	a	transferir	o	domínio	de	certa	coisa,	e	o	outro,
a	pagar-lhe	certo	preço	em	dinheiro”.
Já	sobre	a	troca	ou	permuta	não	há	disposição	equivalente,	limitando-se	o	legislador	a	estabelecer	no	art.	533:	“Aplicam-se	à
troca	as	disposições	referentes	à	compra	e	venda,	com	as	seguintes	modificações:	I	–	salvo	disposição	em	contrário,	cada	um
dos	contratantes	pagará	por	metade	as	despesas	 com	o	 instrumento	da	 troca;	 II	–	 é	 anulável	a	 troca	de	valores	desiguais
entre	ascendentes	e	descendentes,	sem	consentimento	dos	outros	descendentes	e	do	cônjuge	do	alienante”.
Dessa	ausência	de	uma	mesma	disposição	para	a	permuta,	ao	contrário	do	que	sucede	com	a	compra	e	venda,	acaba-se	por
inferir	que	se	trata	de	“um	contrato	tão	semelhante	ao	de	compra	e	venda	que	os	códigos	mandam	aplicar-lhe	as	disposições
referentes	a	este”	(Orlando	Gomes:	Contratos,	Rio	de	Janeiro:	Forense,	2001,	p.	268).
Não	se	nega	essa	semelhança.
A	 semelhança	 induz	 a	 perceber,	 num	 primeiro	momento,	 na	 natureza	 jurídica	 da	 permuta,	 como	 na	 compra	 e	 venda,	 a
possibilidade	de	que	tudo	o	que	se	pode	comprar	e	vender	pode-se	também	permutar.	O	que	abre	inúmeras	possibilidades:
coisas	 heterogêneas	 por	 coisas	 homogêneas,	 coisas	 atuais	 por	 coisas	 futuras,	 coisas	 certas	 por	 coisas	 aleatórias	 quer	 na
existência	quer	na	quantidade,	coisas	próprias	por	coisas	alheias	etc.	Mas,	assim	como	na	compra	e	venda,	em	que	um	dos
contratantes	se	obriga	a	transferir	o	domínio	de	certa	coisa,	ou	seja,	é	contrato	que	engendra	exclusivamente	uma	obrigação
de	dar	(rem	pro	pretium),	mas	não	uma	obrigação	de	fazer	(Washington	de	Barros	Monteiro,	Curso	de	Direito	Civil,	Direito	das
obrigações,	São	Paulo:	Saraiva,	1959,	vol.	2,	p.	91),	igualmente	na	permuta	não	há	troca	de	coisa	por	uma	obrigação	de	fazer
(do	ut	facias),	mas	exclusivamente	uma	rem	pro	re	(BARROS	MONTEIRO,	op.	cit.,	p.	129).	Essa	semelhança	não	obsta,	porém,	o
aparecimento	 de	 conhecidos	 problemas	 doutrinários	 de	 tipificação	no	 que	 se	 refere	 à	 troca	 e	 à	 compra	 e	 venda	de	 bens
futuros,	quando	se	trate	de	incorporação,	em	que	uma	parte	(incorporador)	se	obriga	a	entregar	unidades	de	apartamento	ao
proprietário	de	um	terreno	onde	o	prédio	será	construído,	em	troca	do	terreno:	de	um	lado,	haveria	permuta	ou,	de	outro,
compra	e	venda	mediante	aporte	de	bem	imóvel?
Questões	como	essa	exigem	a	identificação	da	permuta	como	contrato	típico.	Importante	assinalar,	desde	logo,	que	permuta
tem,	pois,	por	cerne	intencional	de	conduta	a	compensação	de	um	bem	por	outro	(do	ut	des).	Isto	é,	quem	permuta	busca	um
bem	que	 lhe	 seja	de	 interesse	por	um	bem	seu,	de	que	 se	disponha	a	abrir	mão	e	vice-versa.	Daí	o	 sentido	 forte	de	 com-
pensar,	pensare	como	pesar	conjuntamente	(cum),	uma	coisa	em	cada	prato	da	balança,	à	diferença	da	aquisição	monetária,
em	que	o	dinheiro	é	meio	abstrato	que	não	é,	propriamente,	[com]	pensado.	Na	permuta	há,	pois,	uma	implicação	recíproca
de	interesses	específicos.	Por	isso,	na	permuta,	os	sujeitos	são	denominados	do	mesmo	modo:	permutantes,	ao	contrário	da
compra	e	venda	em	que,	 contra	um	 interesse	 específico	há	um	 interesse	 genérico	 representado	por	um	meio	 genérico:	 o
dinheiro;	donde	a	denominação	distinta:	vendedor	e	comprador.	Na	troca,	é	verdade,	como	na	compra	e	venda,	pressupõe-se
equilíbrio	 econômico.	Mas,	 enquanto	na	 compra	 e	 venda	 esse	 equilíbrio	 é	 referido	 imediatamente	 ao	mercado	 (preço	de
mercado)	e	tem	um	sentido	objetivo	(valor	das	coisas),	o	“equilíbrio”	na	permuta	está	no	recíproco	interesse	subjetivo	(valor
para	cada	permutante).1
Entende-se,	por	isso,	de	um	lado,	que,	como	o	Código	Civil,	no	caso	de	troca	entre	ascendente	e	descendente,	fale	de	valores
desiguais,	há	de	se	admitir,	de	princípio,	que,	no	escambo	em	geral,	não	de	se	descarta	a	possibilidade	de	desigualdade	de
valores	entre	as	coisas	que	se	trocam.	Por	consequência,	sua	apuração	e	a	possibilidade	de	complementação	das	diferenças
surgem	como	um	tema	natural,	fazendo	da	torna,	enquanto	valoração	de	interesses,	partecaracterística	da	permuta.
Por	outro	lado,	aquilo	que	não	há	na	permuta	é	previsão	de	preço.	Isso	implica	algumas	peculiaridades	nas	discussões	com
respeito	à	 configuração	 contratual	da	permuta	e	de	 suas	 consequências	no	plano	das	 relações	 civis,	 em	 face	da	 compra	e
venda,	tendo	em	vista	que	a	torna,	em	geral,	mas	não	necessariamente,	constitui	um	complemento	em	dinheiro,	do	mesmo
modo	que	o	preço,	na	compra	e	venda,	é	expresso	em	geral	em	dinheiro,	mas	pode	ser	pago	mediante	dação	de	res.
Por	 tudo	 isso	 não	 há	 como	 minimizar	 a	 análise	 das	 diferenças,	 até	 por	 suas	 implicações	 de	 ordem	 prática,	 inclusive
tributária.	A	determinação	da	natureza	da	permuta	exige,	assim,	elaboração	doutrinária.
2.	Natureza	jurídica	da	permuta
A	elaboração	doutrinária	no	Brasil	é	relativamente	pequena.	Em	livro	específico,	Agostinho	Alvim,	em	texto	de	275	páginas
(Da	compra	e	venda	e	da	troca,	São	Paulo,	1961),	dedicava	à	permuta	apenas	5	páginas.	Por	isso,	nesse	passo,	há	de	recorrer-
se,	 inevitavelmente,	 ao	 direito	 comparado,	 que,	 de	 outro	 ângulo,	 permite	 elucidar	 as	 questões	 referentes	 ao	 escambo	 em
nossa	legislação.
Nas	diferentes	 legislações	de	origem	romanista,	a	permuta	conhece	estipulação	expressa	e	específica,	ao	contrário	do	que
encontramos	em	nossa	legislação,	que	o	faz	só	para	a	compra	e	venda.	Nisso	o	Código	brasileiro	é	diferente,	por	exemplo,	do
Código	Civil	espanhol,	que	estipula:	“La	permuta	es	un	contrato	por	el	cual	cada	uno	de	los	contratantes	se	obliga	a	dar	una
cosa	para	recibir	outra”	(art.	1.538).	A	estipulação	legal	ajuda	a	entender	o	conceito.
O	acento,	aqui,	recai	sobre	obrigação	e	sobre	coisa	(cf.	Merino	Hernandez,	El	contrato	de	permuta,	Madrid:	Tecnos,	1978,	p.	48
e	ss.).
A	 menção	 expressa	 à	 obrigação	 é	 relevante.	 Note-se,	 em	 confronto,	 que	 o	 Código	 Civil	 italiano	 (art.	 1.470),	 no	 qual	 se
fundamenta	Bianca	(Cesare	Massimo	Bianca,	La	vendita	e	 la	Permuta.	 In:	vários	autores.	Tratatto	di	Diritto	Civile	 Italiano,
Torino,	1972,	vol.	VII,	 t.	 I,	p.	1),	ao	contrário	do	espanhol,	define	normativamente	a	permuta	como	o	contrato	que	tem	por
objeto	 a	 transmissão	 recíproca	 da	 propriedade	 das	 coisas,	 ou	 de	 outros	 direitos,	 de	 um	 contratante	 ao	 outro	 (art.	 1.552)
atribuindo	à	troca	o	efeito	real	de	transmissão	(trasferimento)	da	propriedade	contra	propriedade.	Trata-se	de	definição	que
se	 apoia	 no	 efeito	 translativo	do	 domínio,	 ao	 passo	 que,	 no	 Brasil,	 como	 na	 Espanha,	 a	 permuta,	 aliás,	 como	 também	 a
compra	e	venda,	tem	efeito	meramente	obrigacional.
Vale	 sublinhar,	 pois,	 que,	 no	 direito	 brasileiro,	 nem	 a	 permuta	 como	 nem	 a	 compra	 e	 venda,	 por	 si	 só,	 têm	 efeitos
translativos.	Apenas	obrigacionais,	cujo	objeto	não	é	propriamente	a	coisa,	mas	a	prestação	da	coisa.	Ou	seja,	a	conjunção
válida	 de	 duas	 vontades	 não	 basta	 para	 transmitir	 a	 propriedade	 ainda	 que	 essa	 transmissão	 venha	 a	 estar	 prevista,
usualmente,	nos	acordos	de	permuta	(e	de	compra	e	venda).
A	atribuição,	no	direito	moderno	e	no	direito	brasileiro,	desse	caráter	basicamente	consensual	à	permuta,	com	efeitos	apenas
obrigacionais,	 faz	 com	 que	 ela	 somente	 gere	 dívida,	 pretensões	 pessoais	 e	 ações	 pessoais.	 Daí	 o	 tema	 da	 prestação	 em
dinheiro	(res/pretium)	para	diferenciar	a	compra	e	venda	da	permuta	(res/res),	subsumindo-se	à	noção	de	res	todas	as	coisas,
os	 bens	 corpóreos	 e	 incorpóreos,	 as	 próprias	 e	 as	 alheias,	 as	 coisas	 presentes	 e	 as	 futuras.	 A	 permuta	 não	 exclui,	 assim,	 a
possibilidade	de	que	um	objeto	certo	seja	permutado	por	uma	álea	(aliás,	da	mesma	maneira	que	uma	pura	eventualidade
possa	ser	comprada	mediante	um	preço	certo:	Jean	Peyron,	De	l’échange,	Paris,	1979,	p.	315).
Essa	diferença	de	tratamento	nos	códigos	de	origem	romanista	é	importante	para	entender	a	natureza	da	troca	em	oposição
à	compra	e	venda.	Ela	remonta	ao	direito	romano,	no	qual	a	permuta	tinha	natureza	real,	em	que	o	dare	significava	traditio
manual,	conferindo	à	permuta	(per-mutare	como	mudar	inteiramente	–	per	–	de	um	para	outro)	um	caráter	real	e	 imediato
(mudar	de	mãos),	o	que	se	percebe,	por	exemplo,	na	mancipatio	em	que	estava	o	colher	o	objeto	com	as	mãos	(manus	capere),
donde,	à	época,	a	impossibilidade	de	trocar	coisas	alheias.	Só	mais	tarde	–	século	II	d.C	–,	veio	à	tona	a	ideia	de	um	contrato
consensual	 (recíprocas	 obrigações	de	 dar),	 conceitualmente	 precedendo	 o	 acordo	 de	 transmissão:	 a	 efetiva	 transferência
(Francisco	Cavalcanti	Pontes	de	Miranda,	Tratado	de	Direito	Privado,	São	Paulo:	Ed.	RT,	1984,	t.	XXXIX,	§	4.265	–	1).
Importante	também	assinalar	que,	historicamente,	a	troca	antecede	a	compra	e	venda	que	surge	com	o	advento	da	moeda
(ainda	que	precedida	por	 sucedâneos,	 como	sal,	 ouro,	pecus).	Note-se,	 entretanto,	 que	 o	 advento	da	moeda	 é	um	 fato	 tão
impressionante	que	na	Roma	antiga	haveria	quem	já	tivesse	dado	preferência	classificatória	(gênero/espécie)	ao	contrato	de
compra	e	venda	sobre	a	permuta	(os	sabinianos).	Essa	ideia	de	que	até	as	coisas	trocadas	“servissem	de	preço”,	aproximando
a	permuta	da	compra	e	venda,	chegou	a	ter	alguma	influência	inclusive	na	legislação	brasileira,	como	se	podia	ver	no	art.
221	do	CCo:	“O	contrato	de	troca	ou	escambo	mercantil	opera	ao	mesmo	tempo	duas	verdadeiras	vendas,	servindo	as	coisas
trocadas	de	preço	e	compensação	recíproca”.
Embora,	 positivamente,	 a	 norma	 do	 Código	 Comercial	 tenha	 sido	 revogada	 (pelo	 Código	 Civil	 de	 2002),	 mesmo	 na	 sua
vigência	 não	 parecia	 sustentável	 que	 na	 permuta	 houvesse	 dois	 contratos	 (cf.	 PONTES	DE	MIRANDA,	 op.	 cit.,	 §	 4.339,	 4).
Afinal	 o	 escambo,	 sociologicamente,	 precedeu	a	 compra	 e	 venda,	 sendo	uma	 impropriedade	 técnica	 falar	de	 res	 como	 se
pretium	fosse:	na	melhor	das	hipóteses,	o	contrário	é	que	teria	ocorrido:	a	compra	e	venda	seria	uma	espécie	de	“permuta”	de
bens	específicos	por	“bens”	inespecíficos	(dinheiro).
É	inegável	que	a	moeda	facilitou	o	comércio	mesmo	quando	limitado	a	interesses	específicos.	Mas	não	há	como	identificar	a
essência	 e	 o	 fundamento	 da	 permuta	 com	 o	 da	 compra	 e	 venda.	 Quem	 vende	 ou	 compra	 um	 bem	 determinado	 pensa,
sobretudo,	 no	 valor	 genérico	 de	mercado,	 ao	 passo	 que	 aquele	 que	 permuta	 busca	 alguma	 coisa	 pela	 coisa	 que	 oferece,
donde	o	escambo	in	natura,	cuja	motivação	nada	tem	a	ver,	primariamente,	com	um	interesse	abstrato	capaz	de	configurar
aquilo	 que	 economicamente	 se	 chama	 de	 mais-valia.	 Por	 isso,	 na	 permuta,	 a	 diferença	 quantitativa	 de	 valor	 dos	 bens
trocados	 é	 secundária.	 O	 que	 realmente	 conta	 são	 os	 desejos	 aquisitivos	 de	 coisas	 concretas	 e	 determinadas,	 cujos
proprietários	se	põem,	por	essa	razão,	em	relação.	É	essa	comutatividade	que	é	diferente	na	permuta	e	na	compra	e	venda.
Enquanto	 nesta	 se	 lida,	 primariamente,	 com	 equivalências	 quantitativas,	 na	 permuta	 decisivas	 são	 as	 equivalências
qualitativas.	Donde,	na	permuta,	o	mencionado	caráter	compensatório	da	comutatividade	das	coisas	prestadas.
Assim	 se	 entende	 que,	 como	 na	 troca	 não	 há	 preço	 (essa	 marca	 significativa	 de	 um	 interesse	 inespecífico:	 dinheiro),	 é
irrelevante,	 em	 princípio,	 que	 as	 coisas	 permutadas	 tenham	 valores	 desiguais	 ou	 que	 sejam	 de	 espécies	 diferentes,	 até
porque,	pelo	Código	Civil,	mesmo	nas	permutas	entre	coisas	 de	 valores	desiguais	 entre	ascendentes	 e	descendentes	a	mera
desigualdade	não	implica	nulidade,	mas	questão	a	ser	tratada	na	sucessão.	Aliás,	como	não	implica	nulidade,	a	troca	possível
de	valores	desiguais	pode	fazer	com	que	a	desigualdade	seja	retomada	na	sucessão.
Fato	é	que,	nesses	termos,	a	permuta,	mesmo	com	o	surgimento	dos	mercados	monetários,	nem	desaparece	nem	se	reduz	a
uma	espécie	de	compra	e	venda:	constitui	um	negócio	autônomo,	diferente,	pois,	da	compra	e	venda.	Quem	permuta	não
busca	um	determinado	preçopela	coisa	que	oferece:	o	preço	a	ser	pago	por	algum	interessado	 (pretium,	 appretiare	 como
estabelecer	um	custo	unitário,	donde	uma	obrigação	de	pagar	e	outra	de	entregar).	Seu	caráter	sinalagmático	está	em	que	da
troca	de	coisas	específicas	por	específico	 interesse	recíproco	nascem	duas	obrigações	principais	e	correlativas	de	entregar
uma	coisa	pela	outra	e	das	quais,	uma	é	a	causa	da	outra,	do	que	decorre	seu	caráter	de	contrato	a	título	oneroso:	obrigação
de	garantia	a	cargo	de	cada	uma	das	partes	(cf.	Jean	Peyron,	op.	cit.,	p.	313	e	ss.).
Sendo	irrelevante	a	exigência	de	igualdade	(ao	contrário	da	compra	e	venda,	onde	é	relevante	o	tema	do	justo	preço),	deve-se
reconhecer	que	a	permuta	contém	uma	aspiração	de	comutatividade	que	leva	a	doutrina	a	sublinhar	antes	a	importância	da
intenção	das	partes	para	a	qualificação	jurídica	do	contrato	(cf.	Francesco	Ricci:	Corso	teórico-pratico	di	Diritto	civile,	Torino:
Unione	tipografico-editrice,	1982,	vol.	VIII,	p.	1).	Em	sede	doutrinária,	lida-se,	aqui,	com	a	causa	do	negócio	jurídico.
“A	lei	exige	uma	justificação	para	a	criação,	por	um	negócio	 jurídico,	de	um	vínculo	digno	de	proteção.	Esta	 justificação	se
encontra	na	relevância	social	do	interesse	que	se	quer	tutelar	e	no	fim	que	se	pretende	alcançar.	É	a	causa”	(Orlando	Gomes,
Introdução	ao	direito	civil,	Rio	de	Janeiro:	Forense,	1974,	p.	424).
Mas,	continua	o	autor,	“declarando	o	que	realmente	não	querem”,	as	partes	“não	pretendem	o	negócio	que	praticam”.
Ou	seja,	a	eleição	da	causa	como	elemento	distintivo	entre	permuta	com	torna	e	compra	e	venda	com	dação	em	pagamento,
mesmo	 com	 base	 em	 critérios	 quantitativos	 referentes	 à	 parte	 em	 dinheiro,	 não	 afasta	 o	 elemento	 volitivo.	O	 elemento
volitivo	 continua	 fundamental.	 A	 causa	 é	 justificação	 que	 se	 encontra	 na	 relevância	 social	 do	 interesse	 e	 no	 fim	 que	 se
pretende	 alcançar.	 A	 eventual	 discrepância	 quantitativa,	 que	 também	pode	 existir	 na	 compra	 e	 venda	 (valor	 a	maior	 da
dação	em	pagamento),	 tem,	na	permuta,	uma	outra	relevância.	O	que	distingue,	afinal,	um	 (permuta	com	 torna)	do	outro
(compra	 e	 venda	 com	 dação	 em	 pagamento)	 depende	 do	 que,	 afinal,	 é	 querido	pelas	 partes,	 do	 que	 as	 partes	 quiseram
realmente	realizar.
Nesse	sentido,	para	efeitos	de	distinção	entre	permuta	com	torna	e	compra	e	venda	com	dação	em	pagamento,	não	é	só	o
critério	do	valor	a	maior	ou	a	menor	(interesse	econômico)	que	deve	ser	levado	em	consideração,	mas	a	conformação	jurídica
do	negócio.	Conformação	 jurídica	diz	respeito	não	apenas	à	 forma	 jurídica	do	negócio	 (permuta	ou	compra	e	venda),	mas
também	à	ação	negocial	jurídica,	isto	é,	a	produção	dos	efeitos	jurídicos	por	ela	previstos.
Esse	critério	é	ainda	mais	relevante	quando	nos	deparamos,	na	economia	moderna,	com	situações	em	que	a	dimensão	da
permuta	adquire	perfis	mais	complexos.	Se,	há	tempos	atrás,	era	possível	limitar	a	permuta	a	uma	troca	de	propriedades,	a
propriedade	de	uma	coisa	pela	propriedade	de	outra,	hoje,	quando	os	direitos	e	a	universalidades	como	coisas	incorpóreas
podem	 ser	 objeto	 de	 permuta	 da	mesma	 forma	 que	 as	 coisas	 corpóreas,	 mais	 correto	 seria	 perceber	 que	 o	 que	 se	 troca,
efetivamente,	são	titularidades	(Lacruz	Berdejo,	Elementos	de	derecho	civil,	Barcelona:,	1990,	II,	p.	45-46).
Nesse	sentido,	faz	parte	da	permuta,	quando	as	coisas	permutadas	não	são	do	mesmo	valor,	constituir,	contratualmente,	um
procedimento	 de	 apuração	 e	 equiparação	 de	 valores	 (que	 a	 doutrina	 chama	 de	 “permuta	 estimatória”)	 para	 visar	 à
constituição	da	comutatividade	das	coisas,	sem	que	ocorra	ainda	uma	efetiva	alteração	nos	respectivos	patrimônios	dos	que
permutam.	Não	se	trata,	necessariamente,	de	apuração	de	valor	de	mercado,	mas	de	valor	de	conveniência	 (AUBRY	et	RAU,
Cours	de	droit	civil	français,	Paris,	1907,	vol.	V,	p.	256).
Nesses	termos	percebe-se,	desde	logo	que	proceder,	contratualmente,	a	um	investimento	em	dinheiro	para	que	um	determinado
bem	 seja	 construído	 e	 venha	 a	 integrar	 o	 ativo	 de	 uma	 sociedade,	 para	 assim	 proceder	 à	 troca	 de	 titularidade,	 não
descaracteriza	 a	 permuta.	 Afinal,	 para	 caracterizar	 a	 permuta	 não	 é	 necessário	 que	 os	 objetos	 a	 permutar	 existam	 no
instante	mesmo	 da	 celebração	 do	 contrato:	 basta	 que	 exista	 um	 deles	 (BIANCA,	 op.	 cit.,	 p.	 1026).	 O	 que	 é	 perfeitamente
conforme	com	a	natureza	da	permuta:	ou	seja,	não	se	trata	de	obrigação	de	fazer	(do	ut	facias),	mas	obrigação	condicionada
de	dar	(do	ut	des).
3.	O	âmbito	da	compensação:	a	torna
O	interesse	dessa	questão	está	em	saber	se,	dado	o	caráter	compensatório	da	permuta,	a	torna	deva	ser	sempre	em	dinheiro
ou	se	haveria	outras	formas	de	prestação.
Tenha-se	em	conta,	inicialmente,	o	conceito	de	torna.
Nas	legislações	em	que	a	troca	preveja	ou	admita	também	a	possibilidade	de	um	pagamento	de	parte	em	dinheiro	(torna),	há
quem	sustente	haver	um	contrato	tipificado	como	de	natureza	mista,	em	parte	permuta,	em	parte	 compra	e	venda	 (ver,	 no
direito	italiano,	Massimo	Bianca,	op.	cit.,	p.	1.019).	No	entanto,	a	aplicação	desse	critério	leva	a	dificuldades	práticas	ainda
maiores	por	força	do	desmembramento	do	contrato	em	dois	diferentes	negócios	jurídicos,	sem	que	o	problema	desapareça
inteiramente	quando	se	olha,	por	exemplo,	para	a	compra	e	venda	com	dação	em	pagamento.
Daí	porque,	de	todo	modo,	prevalece	o	consenso	doutrinário	de	que	a	torna	não	altera	a	natureza	da	troca,	 isto	é,	não	 faz
dela	um	tipo	misto.	A	autonomia	do	contrato	de	permuta	exige	que	ele	permaneça	como	um	todo.	O	que	não	afasta,	porém,	o
exame	das	condições	em	que	uma	quantidade	em	dinheiro	é	entregue	a	título	complementar.
O	problema	diz	respeito	à	possibilidade	de	descaracterização	da	permuta	em	razão	do	uso	da	moeda,	dúvida	que	persiste	em
face	dos	dispositivos	do	(novo)	Código	Civil	de	2002,	como	se	pode	ler	no	seguinte	comentário:	“A	eventual	desigualdade	dos
bens	pode	implicar	a	complementação	em	dinheiro,	o	que	guarda	mais	similitude	com	a	compra	e	venda,	e,	como	tal	será
havida,	em	sua	natureza	jurídica,	se	o	complemento	for	maior	que	a	coisa	permutada.	Alguns	entendem,	todavia,	a	reposição
feita	para	efetivar	a	equivalência	de	valores,	como	mero	elemento	acessório	do	contrato	de	permuta,	sem	descaracterizá-lo”
(FIUZA;	SILVA	(coords.).	Código	Civil	comentado,	São	Paulo:	Saraiva,	2008,	p.	533).
É	 inegável	que	esse	critério	aponte	para	um	conceito	valorativo,	uma	 subjetividade	presumidamente	 intransponível	 ou	 de
difícil	precisão.	O	critério	quantitativo	 (relação	a	menor/a	maior	entre	o	complemento	em	dinheiro	e	o	valor	estimado	da
coisa	permutada)	não	é	isento	de	imprecisão,	por	seu	caráter	indeterminado,	caindo,	mais	propriamente,	no	rol	de	conceitos
discricionários,	enquanto	precisáveis	de	caso	para	caso	em	função	das	circunstâncias	a	eles	peculiares	por	força	do	caráter
correlativo	dos	conceitos,	em	que	uma	se	define	pelo	outro	(grande/pequeno,	alto/baixo,	micro/pequena/média	empresa	etc.).
Por	conta	disso	entende-se	que	sejam,	na	verdade,	três,	e	não	dois,	os	sistemas	possíveis,	como	já	observava	Peyron	(op.	cit.,
p.	65	e	ss.):	(a)	a	permuta	com	torna	apresenta	sempre	uma	dupla	natureza,	(b)	a	permuta	é	sempre	permuta,	não	importa	a
importância	quantitativa	da	torna,	(c)	há	de	se	distinguir,	no	exame	da	permuta,	se	o	valor	da	torna	é	superior,	inferior	ou
igual	ao	valor	da	coisa.
Diante	 deles	 é	 importante	 sublinhar	 que	 o	 valor	que	 as	 coisas	 permutadas	 têm	 para	 os	 contratantes	 não	 é	 estimado	 em
dinheiro	como	se	fosse	um	preço,	ainda	quando	essa	estimativa,	para	efetuar	uma	troca,	tenha	por	referência	a	moeda.	Como
essa	 referência	 à	 moeda	 está	 presente	 tanto	 para	 estimar	 as	 coisas	 como	 para	 estimar	 uma	 eventual	 compensação	 em
dinheiro	por	uma	desigualdade	resultante,	a	diferença	entre	receber	um	valor	em	moeda	como	preço	ou	como	torna	parece
conduzir	à	necessidade	de	se	examinar,	contratualmente,o	objeto	do	negócio.	Num	caso	(preço),	a	estimativa	visa	ao	valor
das	 coisas;	 noutro	 (torna),	 à	 apuração	 da	 igualdade/desigualdade	 entre	 elas.	 Daí	 porque	 houvesse,	 na	 doutrina,	 quem
assegurasse,	desde	há	muito,	ser	mais	importante	do	que	o	valor	em	dinheiro	da	torna	(critério	quantitativo),	a	averiguação
da	verdadeira	intenção	das	partes	(critério	qualitativo)	ao	celebrar	o	contrato	(Francesco	Ricci,	op.	cit.,	p.	1).	Nessa	linha	de
argumentação,	 o	 que	 conta	 não	 é	 o	 fato	 de	 o	 complemento	 em	 dinheiro	 ser	menor	 que	 a	 coisa	 permutada,	mas	 o	 valor
estimado	subjetivamente	que	a	torna	tem	para	o	interesse	específico	das	partes,	à	margem	dos	preços	que	regem	o	mercado
para	o	tipo	de	bens	que	se	trocam.
A	questão	está	em	precisar	quando	o	dinheiro	é	usado	como	pagamento	do	preço	(pagamento	in	natura)	para	aquisição	de
um	bem	e	quando	ele	entra	no	negócio	como	instrumento	de	estimativa	e	de	compensação	do	valor	das	coisas	de	interesse
das	partes.
Do	ângulo	dos	negócios	jurídicos,	o	dinheiro,	em	primeiro	lugar,	não	é	nem	uma	coisa	específica	nem	uma	 coisa	genérica.
Aproxima-se	desse	último	sentido	(coisa	genérica)	na	medida	em	que	é	um	bem	jurídico	de	natureza	homogênea	que	não	se
esgota	nem	desaparece	no	tráfico	econômico,	embora,	no	entanto,	não	se	confunda	com	uma	coisa	física	(a	moeda	cunhada
ou	 o	 papel	 impresso).	 Aproxima-se	 do	 primeiro	 (coisa	 específica)	 quando	 pensamos	 na	 compra	 de	 divisas	 como	 uma
contraposição	típica	de	dinheiro	(dinheiro	nacional)	e	coisa	(dinheiro	estrangeiro)	ou	em	 troca	de	dinheiro,	 quando	 então,
estaríamos	numa	relação	de	coisa	a	coisa.	Também	não	é,	propriamente,	uma	coisa	fungível,	posto	que	a	possibilidade	de	sua
substituição	não	vem	determinada	por	um	critério	qualitativo	(como	ocorre	com	os	bens	fungíveis),	mas	tem	a	ver	com	sua
função	como	unidade	de	pagamento	e	de	conta.	Nem	é,	adequadamente,	um	bem	de	consumo,	posto	que	não	é	consumível.
Não	desaparece	por	consumação:	dinheiro	se	gasta,	mas	não	se	desgasta	(cf.	Merino	Hernandez,	op.	cit.,	p.	48	e	ss.).
Assim,	o	tema	da	distinção	entre	preço	e	torna	ganha	entendimento	mais	adequado,	caso	em	que,	conjugando-se	o	critério	da
proporção/desproporção	 entre	 o	 valor	 quantitativo	 dos	 bens	 com	 o	 da	 intenção	 das	 partes	 (bens	 que	 atendam	 seus
interesses),	poder-se-ia	dizer	que	a	torna	em	dinheiro	não	caracteriza	preço	quando	compensa	interesses,	à	exceção	daqueles
casos	em	que	a	quantidade	entregue	em	dinheiro	seja	tão	desproporcionada,	por	excesso,	com	relação	à	coisa	trocada	que
ela	complementa	que	à	evidência	a	intenção	contratual	de	estar	fazendo	uma	troca	se	mostre	desvirtuada.
4.	Um	caso	peculiar:	a	permuta	de	quotas
A	permuta	de	quotas	levanta	interessantes	problemas.	O	primeiro	deles	está	numa	(indevida)	assimilação	da	troca	de	valores
mobiliários,	por	exemplo,	ações,	por	outra	coisa	a	uma	compra	e	venda	pela	fácil	realização	dos	valores	em	numerário,	o	que
implicaria	tomar	a	ação	como	direito	de	crédito	com	liquidez	equivalente	à	moeda.	Planiol	e	Ripert	(Traité	pratique	de	Droit
Civil	français,	Paris,	1956,	 t.	X,	p.	506)	entendem	que	não	haveria	como	considerar	como	compra	e	venda	(vente),	mas	sim
como	permuta	as	operações	consistentes	na	entrega	de	valores	mobiliários	em	troca	de	uma	coisa,	por	mais	fácil	que	seja	a
transformação	dos	primeiros	em	numerário.	Isso	significaria	que	tomar	as	ações	de	uma	sociedade	anônima	como	um	signo
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que	representaria	dinheiro	é	um	equívoco.	A	fortiori,	 tratando-se,	no	caso,	de	bens	permutados	constituídos	por	quotas	de
sociedades	pertencentes	a	grupos	empresariais,	portanto,	fora	do	mercado,	e	não	de	ações	de	ações	cotadas	em	bolsa	ou	com
mercado	ativo,	com	mais	razão	a	assimilação	a	uma	compra	e	venda	não	faz	sentido	algum.
Com	efeito,	é	preciso	diferenciar	o	direito	que	um	titular	ostente	sobre	o	bem	móvel	(podendo	ser	dado	em	penhor,	gravado
de	 usufruto,	 alienado	 fiduciariamente),	 que	 é	 um	 direito	 de	 natureza	 real	 (e,	 nesse	 sentido,	 podendo	 ser	 objeto	 em	 um
negócio	de	permuta	como	qualquer	coisa	comerciável),	do	direito	ou	direitos	que	o	 título	represente.	Nesse	último	caso,	a
ação	atribui	a	seu	titular	um	complexo	de	direitos	e	obrigações,	estabelecendo	um	vínculo	jurídico	com	a	sociedade,	status	de
sócio	no	dizer	de	Ascarelli	 (cf.	Egberto	Lacerda	Teixeira	e	 José	Alexandre	Tavares	Guerreiro,	Das	 sociedades	anônimas	no
direito	brasileiro,	São	Paulo,	1979,	vol.	I,	p.	170).
Mas	 essa	 possibilidade	 de	 permuta,	 ações	 de	 sociedades	 anônimas,	 não	 esgota	 o	 tema,	 sendo	 preciso	 o	 exame	 de	 outras
hipóteses	de	participações	societárias	a	permutar.
Mais	 precisamente,	 essa	 menção	 é	 importante	 na	 medida	 em	 que	 a	 questão	 tem	 uma	 repercussão	 dotada	 de	 alguma
especificidade	quando	se	 trata	de	participações	em	sociedades	 limitadas	 (caso	das	sociedades	em	tela),	 tomadas	como	um
conjunto	 de	 direitos	 e	 deveres	 que	 se	 outorgam	 ao	 sócio,	 desse	 modo	 objetivando-se.	 Essa	 participação	 é	 considerada
também	como	um	bem	móvel,	podendo	ser	objeto	de	direitos	reais	e,	portanto,	de	permuta.	Mas,	como	à	sociedade	limitada
se	acresce	o	fator	pessoal	(intuitu	personae),	o	tema	toma	outra	conotação.
Nessa	 linha,	 é	 importante	 assinalar	 que	 as	 sociedades	 limitadas	 por	 quotas	 são	 consideradas	 um	 tipo	 híbrido,	 por	 ser
instrumento	para	viabilizar	tanto	uma	sociedade	de	cunho	pessoal,	quanto	de	cunho	mais	capitalista,	podendo	as	partes,	ao
constituí-la,	acentuar	uma	ou	outra	característica.	Nesta	última,	o	que	 importa	é	o	capital	empregado,	sendo	irrelevante	a
pessoa	dos	 sócios,	 suas	 aptidões	 e	 características.	O	que	determina	a	 chamada	 affectio	 societatis	é	 o	 dinheiro,	 de	modo	 a
acentuar	o	caráter	objetivo	despersonalizado	das	participações.	Mas,	 sendo	 tipo	híbrido,	o	 intuitu	personae	estará	sempre
presente	 (cf.	ASCARELLI,	 Problemas	das	 sociedades	anônimas	 e	direito	 comparado,	 São	Paulo:	 Saraiva,	 1945,	p.	 277	e	290).
Mais	recentemente,	esse	entendimento	caminhou,	entre	nós,	para	uma	percepção	do	contrato	social	(aquele	que	constitui	a
sociedade)	 como	 contrato-organização,	 cujo	 objetivo	 é	 criar	 direitos	 subjetivos/obrigações	 recíprocas	 entre	 as	 partes	 (cf.
Calixto	Salomão	Filho,	O	novo	direito	societário,	São	Paulo:	Malheiros,	1998,	p.	3340).
Ou	seja,	as	obrigações	e	direitos	dos	sócios	definem-se	em	função	dos	elementos	que	caracterizam	o	contrato	de	sociedade.	E
desde	o	Dec.	3.708/1919	(que	regulamentou,	pela	primeira	vez	no	Brasil,	a	sociedade	por	quotas)	foi	plenamente	solidificada
a	noção	de	que	as	sociedades	por	quotas	constituem	tipo	societário	específico.	O	que,	sem	solução	de	continuidade,	ficou	bem
demarcado	com	o	advento	do	novo	Código	Civil	brasileiro.
Embora	o	Código	Civil	de	2002	tenha	buscado	inspiração	no	italiano	de	1942,	a	sociedade	tipificada	naquele	não	corresponde
inteiramente	 à	 fórmula	 italiana.	 Se	 nesta,	 a	 chamada	 società	 semplice	 consiste	 num	 patrimônio	 de	 afetação	 destinado	 à
exploração	de	empresas	de	menor	envergadura,	desprovidas	de	caráter	comercial	 (cf.	dentre	outros,	Francesco	Messineo,
Manuale	de	diritto	civile	e	commerciale,	Milão:	A.	Giuffrè,	1954,	4,	p.	302-303),	no	Código	Civil	brasileiro	a	sociedade	simples
(dentre	 as	 quais	 se	 classifica	 a	 sociedade	 por	 quotas),	 além	 de	 constituir	 um	 tipo	 (ao	 lado	 da	 limitada,	 da	 em	 comandita
simples,	da	em	nome	coletivo	etc.	–	CC/2002,	art.	983,	caput),	constitui	também	uma	categoria:	sociedade	simples	e	sociedade
empresária.	Pelo	Código	Civil	de	2002,	é	empresária	a	que	organiza	sua	atividade	para	a	produção	ou	circulação	de	bens	e
serviços,	com	investimento	de	significativo	capital,	próprio	ou	de	terceiros,	atuando	como	empresa,	sendo	simples	aquela	que
reúne	profissionais	em	que	o	exercício	da	profissão	não	constitui	elemento	de	uma	empresa	(CC/2002,	art.	966	e	parágrafo
único).
Como	no	direito	brasileiro	(aplicável	ao	caso	emtela	por	força	de	disposição	contratual,	Cláusula	11),	ao	contrário	de	outros,
os	 sócios	 não	 podem	 contratar	 a	 constituição	 de	 uma	 sociedade	 salvo	 optando	 por	 uma	 das	 formas	 tipificadas	 em	 lei,	 a
classificação	de	uma	 sociedade	na	 categoria	de	 simples	 ou	 empresária	 ora	depende	do	 tipo	 escolhido	 (por	 exemplo:	uma
sociedade	anônima	só	pode	ser	empresária;	já	uma	cooperativa	só	pode	ser	simples	–	CC/2002,	art.	982,	parágrafo	único),	ora
depende,	como	no	caso	dos	tipos	híbridos	(por	exemplo,	a	sociedade	por	quotas),	da	atividade	intelectual	dos	sócios	quando
essa	tem	a	qualidade	de	elemento	de	empresa.	Por	exemplo:	dois	pediatras	constituem	uma	sociedade	simples	para	exercer
sua	atividade,	mas	uma	sociedade	empresária	quando	se	unem	para	explorar	um	hospital	pediátrico	(cf.	Fábio	Ulhoa	Coelho,
Curso	de	Direito	Civil,	São	Paulo:	Saraiva,	2003,	vol.	3,	p.	448).
Tratando-se	 de	 um	 tipo	 híbrido,	 estando	 num	meio-termo	 entre	 as	 sociedades	 de	 pessoas	 e	 de	 capitais,	 dependendo	 das
características	do	contrato	social,	há	de	reconhecer	que	em	muitas	das	sociedades	por	quotas	constituídas	por	capitais	não
deixam	de	 existir	 direitos/obrigações	 recíprocos,	 que,	 apesar	do	 caráter	que	 tomam	numa	 sociedade	 limitada,	 podem	 ser
considerados	bens	e,	nessa	condição,	cedidos,	vendidos,	trocados.
Nesse	sentido,	poder-se-ia	dizer	que	nada	obsta	a	permuta	de	ações/quotas	entre	os	próprios	sócios,	pois	 isso	não	altera	o
substrato	 pessoal,	 apenas	 modifica	 a	 distribuição	 de	 capital.	 Não	 no	 sentido	 de	 que	 se	 troquem	 quotas	 por	 quotas,	 por
suposto,	do	mesmo	valor	e	com	os	mesmos	direitos	incorporados,	mas	no	de	que	um	sócio	possa	entregar	quotas	a	outro	em
troca	de	outra	coisa.
©	edição	e	distribuição	da	EDITORA	REVISTA	DOS	TRIBUNAIS	LTDA.
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Pesquisas	do	Editorial
PERMUTA	DE	AÇÕES,	de	José	Manoel	de	Arruda	Alvim	Netto	-	Soluções	Práticas	-	Arruda	Alvim	3/989
PERMUTA.	CLÁUSULAS	RESTRITIVAS	DE	DOMÍNIO.,	de	Oscar	José	Bittencourt	Couto	-	RDI	49/2000/332
NOTAS	DE	RODAPÉNOTAS	DE	RODAPÉ
1
Não	deixa	de	ser	sugestivo	que,	 já	na	antiguidade,	Aristóteles,	ao	examinar	as	relações	de	 troca,	observava	que,	na	permuta,	buscar-se-ia	um	equilíbrio	entre	a
maior	 e	 a	menor	necessidade	 (desejo)	 do	 bem,	 de	um	pelo	 bem	de	 outro,	 enquanto	 as	 relações	mediadas	 pelo	 dinheiro	 seriam	um	 “sinalagma”	 que	 envolve	 a
mensuração	por	um	elemento	externo	e	que	visa	à	obtenção	de	lucro	(Aristóteles,	Política,	I,	9,	1258ª).

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