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2016 - 02 - 12 Revista de Direito Privado 2015 RDPriv vol. 62 (Abril - Junho 2015) Direito Contratual 1. Da permuta no direito brasileiro Direito Contratual 1. Da permuta no direito brasileiro On barter in Brazilian law TERCIO SAMPAIO FERRAZ JUNIOR Doutor e Livre Docente pela Faculdade de Direito da USP. Doutor em Filosofia pela Johannes Gutenberg Universität zu Mainz. Professor Emérito da Faculdade de Direito da USP-Ribeirão Preto. Professor dos Cursos de Pós-graduação da Faculdade de Direito da PUC-SP. Professor Titular aposentado da Faculdade de Direito da USP. tercio@sampaioferraz.com.br Sumário: 1. Introdução 2. Natureza jurídica da permuta 3. O âmbito da compensação: a torna 4. Um caso peculiar: a permuta de quotas 5. Bibliografia Área do Direito: Civil Resumo: Permuta é um contrato típico. Mas o Código Civil brasileiro de 2002, como o de 1916, trata dela sumariamente, mandando aplicar-lhe as regras da compra e venda. Na permuta, porém, há peculiaridades que merecem mais atenção. Por exemplo, o tema res/pretium para diferenciar a compra e venda da permuta. Na permuta trocamos coisas. Mas mesmo na legislação brasileira, como no art. 221 do CCo, havia uma espécie de assimilação de ambos os contratos: "O contrato de troca ou escambo mercantil opera ao mesmo tempo duas verdadeiras vendas, servindo as coisas trocadas de preço e compensação recíproca". No mesmo sentido, como a troca visa ou admite a possibilidade de parte do pagamento em dinheiro, há quem atribua à permuta uma natureza mista, parte permuta, parte compra e venda. Na prática, porém, a aplicação do critério da dupla natureza leva a dificuldades ainda maiores pelo desmembramento do contrato em duas diferentes transações. A provisão de parte do pagamento em dinheiro, parte em bens, levanta a questão da "torna", especialmente no que se refere à permuta de ações. Abstract: Barter is a legally regulated contract. But the brazilian Civil Code of 2002, as well as that of 1916, treats it summarily applying to it the rules for the purchase and sale. With regard to barter, however, there are peculiarities that deserve more attention. For example, the theme res/pretium to differentiate purchase from barter (res/res). In barter, we exchange things. But even in Brazilian legislation, as for example in the art. 221 of the Commercial Code, there used to be a sort of assimilation of both contracts: "the contract of mercantile exchange or barter operates at the same time two true sales, serving things exchanged as price and reciprocal compensation". In the same sense, as exchange envisages or admits the possibility of a part payment in cash, some would consider that barter is a contract of a mixed nature, in part exchange, in part purchase and sale. In practice, however, the application of that criterion leads to even greater difficulties by virtue of dismemberment of the contract into two different legal transactions. The provision of the payment, partially in money partially in goods raises the question of the so-called "earnest money", with special problems in case of share exchange. Palavra Chave: Permuta - Compra e venda - Torna - Permuta de ações. Keywords: Barter - Exchange - Purchase and sale - Share exchange. 1. Introdução O tema da permuta, à qual o Código Civil manda aplicar as regras da compra e venda, tem a ver com o seu elemento distintivo, que a doutrina costuma apontar na ausência de preço nas prestações de coisa por coisa, aspecto, porém, que não esgota a análise de sua natureza jurídica, localizada, propriamente, na relação do ut des (dou para que dês). O Código Civil de 2002 em seu art. 481 permite inferir as qualificações conceituais do contrato de compra e venda, ao determinar: “Pelo contrato de compra e venda, um dos contratantes se obriga a transferir o domínio de certa coisa, e o outro, a pagar-lhe certo preço em dinheiro”. Já sobre a troca ou permuta não há disposição equivalente, limitando-se o legislador a estabelecer no art. 533: “Aplicam-se à troca as disposições referentes à compra e venda, com as seguintes modificações: I – salvo disposição em contrário, cada um dos contratantes pagará por metade as despesas com o instrumento da troca; II – é anulável a troca de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, sem consentimento dos outros descendentes e do cônjuge do alienante”. Dessa ausência de uma mesma disposição para a permuta, ao contrário do que sucede com a compra e venda, acaba-se por inferir que se trata de “um contrato tão semelhante ao de compra e venda que os códigos mandam aplicar-lhe as disposições referentes a este” (Orlando Gomes: Contratos, Rio de Janeiro: Forense, 2001, p. 268). Não se nega essa semelhança. A semelhança induz a perceber, num primeiro momento, na natureza jurídica da permuta, como na compra e venda, a possibilidade de que tudo o que se pode comprar e vender pode-se também permutar. O que abre inúmeras possibilidades: coisas heterogêneas por coisas homogêneas, coisas atuais por coisas futuras, coisas certas por coisas aleatórias quer na existência quer na quantidade, coisas próprias por coisas alheias etc. Mas, assim como na compra e venda, em que um dos contratantes se obriga a transferir o domínio de certa coisa, ou seja, é contrato que engendra exclusivamente uma obrigação de dar (rem pro pretium), mas não uma obrigação de fazer (Washington de Barros Monteiro, Curso de Direito Civil, Direito das obrigações, São Paulo: Saraiva, 1959, vol. 2, p. 91), igualmente na permuta não há troca de coisa por uma obrigação de fazer (do ut facias), mas exclusivamente uma rem pro re (BARROS MONTEIRO, op. cit., p. 129). Essa semelhança não obsta, porém, o aparecimento de conhecidos problemas doutrinários de tipificação no que se refere à troca e à compra e venda de bens futuros, quando se trate de incorporação, em que uma parte (incorporador) se obriga a entregar unidades de apartamento ao proprietário de um terreno onde o prédio será construído, em troca do terreno: de um lado, haveria permuta ou, de outro, compra e venda mediante aporte de bem imóvel? Questões como essa exigem a identificação da permuta como contrato típico. Importante assinalar, desde logo, que permuta tem, pois, por cerne intencional de conduta a compensação de um bem por outro (do ut des). Isto é, quem permuta busca um bem que lhe seja de interesse por um bem seu, de que se disponha a abrir mão e vice-versa. Daí o sentido forte de com- pensar, pensare como pesar conjuntamente (cum), uma coisa em cada prato da balança, à diferença da aquisição monetária, em que o dinheiro é meio abstrato que não é, propriamente, [com] pensado. Na permuta há, pois, uma implicação recíproca de interesses específicos. Por isso, na permuta, os sujeitos são denominados do mesmo modo: permutantes, ao contrário da compra e venda em que, contra um interesse específico há um interesse genérico representado por um meio genérico: o dinheiro; donde a denominação distinta: vendedor e comprador. Na troca, é verdade, como na compra e venda, pressupõe-se equilíbrio econômico. Mas, enquanto na compra e venda esse equilíbrio é referido imediatamente ao mercado (preço de mercado) e tem um sentido objetivo (valor das coisas), o “equilíbrio” na permuta está no recíproco interesse subjetivo (valor para cada permutante).1 Entende-se, por isso, de um lado, que, como o Código Civil, no caso de troca entre ascendente e descendente, fale de valores desiguais, há de se admitir, de princípio, que, no escambo em geral, não de se descarta a possibilidade de desigualdade de valores entre as coisas que se trocam. Por consequência, sua apuração e a possibilidade de complementação das diferenças surgem como um tema natural, fazendo da torna, enquanto valoração de interesses, partecaracterística da permuta. Por outro lado, aquilo que não há na permuta é previsão de preço. Isso implica algumas peculiaridades nas discussões com respeito à configuração contratual da permuta e de suas consequências no plano das relações civis, em face da compra e venda, tendo em vista que a torna, em geral, mas não necessariamente, constitui um complemento em dinheiro, do mesmo modo que o preço, na compra e venda, é expresso em geral em dinheiro, mas pode ser pago mediante dação de res. Por tudo isso não há como minimizar a análise das diferenças, até por suas implicações de ordem prática, inclusive tributária. A determinação da natureza da permuta exige, assim, elaboração doutrinária. 2. Natureza jurídica da permuta A elaboração doutrinária no Brasil é relativamente pequena. Em livro específico, Agostinho Alvim, em texto de 275 páginas (Da compra e venda e da troca, São Paulo, 1961), dedicava à permuta apenas 5 páginas. Por isso, nesse passo, há de recorrer- se, inevitavelmente, ao direito comparado, que, de outro ângulo, permite elucidar as questões referentes ao escambo em nossa legislação. Nas diferentes legislações de origem romanista, a permuta conhece estipulação expressa e específica, ao contrário do que encontramos em nossa legislação, que o faz só para a compra e venda. Nisso o Código brasileiro é diferente, por exemplo, do Código Civil espanhol, que estipula: “La permuta es un contrato por el cual cada uno de los contratantes se obliga a dar una cosa para recibir outra” (art. 1.538). A estipulação legal ajuda a entender o conceito. O acento, aqui, recai sobre obrigação e sobre coisa (cf. Merino Hernandez, El contrato de permuta, Madrid: Tecnos, 1978, p. 48 e ss.). A menção expressa à obrigação é relevante. Note-se, em confronto, que o Código Civil italiano (art. 1.470), no qual se fundamenta Bianca (Cesare Massimo Bianca, La vendita e la Permuta. In: vários autores. Tratatto di Diritto Civile Italiano, Torino, 1972, vol. VII, t. I, p. 1), ao contrário do espanhol, define normativamente a permuta como o contrato que tem por objeto a transmissão recíproca da propriedade das coisas, ou de outros direitos, de um contratante ao outro (art. 1.552) atribuindo à troca o efeito real de transmissão (trasferimento) da propriedade contra propriedade. Trata-se de definição que se apoia no efeito translativo do domínio, ao passo que, no Brasil, como na Espanha, a permuta, aliás, como também a compra e venda, tem efeito meramente obrigacional. Vale sublinhar, pois, que, no direito brasileiro, nem a permuta como nem a compra e venda, por si só, têm efeitos translativos. Apenas obrigacionais, cujo objeto não é propriamente a coisa, mas a prestação da coisa. Ou seja, a conjunção válida de duas vontades não basta para transmitir a propriedade ainda que essa transmissão venha a estar prevista, usualmente, nos acordos de permuta (e de compra e venda). A atribuição, no direito moderno e no direito brasileiro, desse caráter basicamente consensual à permuta, com efeitos apenas obrigacionais, faz com que ela somente gere dívida, pretensões pessoais e ações pessoais. Daí o tema da prestação em dinheiro (res/pretium) para diferenciar a compra e venda da permuta (res/res), subsumindo-se à noção de res todas as coisas, os bens corpóreos e incorpóreos, as próprias e as alheias, as coisas presentes e as futuras. A permuta não exclui, assim, a possibilidade de que um objeto certo seja permutado por uma álea (aliás, da mesma maneira que uma pura eventualidade possa ser comprada mediante um preço certo: Jean Peyron, De l’échange, Paris, 1979, p. 315). Essa diferença de tratamento nos códigos de origem romanista é importante para entender a natureza da troca em oposição à compra e venda. Ela remonta ao direito romano, no qual a permuta tinha natureza real, em que o dare significava traditio manual, conferindo à permuta (per-mutare como mudar inteiramente – per – de um para outro) um caráter real e imediato (mudar de mãos), o que se percebe, por exemplo, na mancipatio em que estava o colher o objeto com as mãos (manus capere), donde, à época, a impossibilidade de trocar coisas alheias. Só mais tarde – século II d.C –, veio à tona a ideia de um contrato consensual (recíprocas obrigações de dar), conceitualmente precedendo o acordo de transmissão: a efetiva transferência (Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado, São Paulo: Ed. RT, 1984, t. XXXIX, § 4.265 – 1). Importante também assinalar que, historicamente, a troca antecede a compra e venda que surge com o advento da moeda (ainda que precedida por sucedâneos, como sal, ouro, pecus). Note-se, entretanto, que o advento da moeda é um fato tão impressionante que na Roma antiga haveria quem já tivesse dado preferência classificatória (gênero/espécie) ao contrato de compra e venda sobre a permuta (os sabinianos). Essa ideia de que até as coisas trocadas “servissem de preço”, aproximando a permuta da compra e venda, chegou a ter alguma influência inclusive na legislação brasileira, como se podia ver no art. 221 do CCo: “O contrato de troca ou escambo mercantil opera ao mesmo tempo duas verdadeiras vendas, servindo as coisas trocadas de preço e compensação recíproca”. Embora, positivamente, a norma do Código Comercial tenha sido revogada (pelo Código Civil de 2002), mesmo na sua vigência não parecia sustentável que na permuta houvesse dois contratos (cf. PONTES DE MIRANDA, op. cit., § 4.339, 4). Afinal o escambo, sociologicamente, precedeu a compra e venda, sendo uma impropriedade técnica falar de res como se pretium fosse: na melhor das hipóteses, o contrário é que teria ocorrido: a compra e venda seria uma espécie de “permuta” de bens específicos por “bens” inespecíficos (dinheiro). É inegável que a moeda facilitou o comércio mesmo quando limitado a interesses específicos. Mas não há como identificar a essência e o fundamento da permuta com o da compra e venda. Quem vende ou compra um bem determinado pensa, sobretudo, no valor genérico de mercado, ao passo que aquele que permuta busca alguma coisa pela coisa que oferece, donde o escambo in natura, cuja motivação nada tem a ver, primariamente, com um interesse abstrato capaz de configurar aquilo que economicamente se chama de mais-valia. Por isso, na permuta, a diferença quantitativa de valor dos bens trocados é secundária. O que realmente conta são os desejos aquisitivos de coisas concretas e determinadas, cujos proprietários se põem, por essa razão, em relação. É essa comutatividade que é diferente na permuta e na compra e venda. Enquanto nesta se lida, primariamente, com equivalências quantitativas, na permuta decisivas são as equivalências qualitativas. Donde, na permuta, o mencionado caráter compensatório da comutatividade das coisas prestadas. Assim se entende que, como na troca não há preço (essa marca significativa de um interesse inespecífico: dinheiro), é irrelevante, em princípio, que as coisas permutadas tenham valores desiguais ou que sejam de espécies diferentes, até porque, pelo Código Civil, mesmo nas permutas entre coisas de valores desiguais entre ascendentes e descendentes a mera desigualdade não implica nulidade, mas questão a ser tratada na sucessão. Aliás, como não implica nulidade, a troca possível de valores desiguais pode fazer com que a desigualdade seja retomada na sucessão. Fato é que, nesses termos, a permuta, mesmo com o surgimento dos mercados monetários, nem desaparece nem se reduz a uma espécie de compra e venda: constitui um negócio autônomo, diferente, pois, da compra e venda. Quem permuta não busca um determinado preçopela coisa que oferece: o preço a ser pago por algum interessado (pretium, appretiare como estabelecer um custo unitário, donde uma obrigação de pagar e outra de entregar). Seu caráter sinalagmático está em que da troca de coisas específicas por específico interesse recíproco nascem duas obrigações principais e correlativas de entregar uma coisa pela outra e das quais, uma é a causa da outra, do que decorre seu caráter de contrato a título oneroso: obrigação de garantia a cargo de cada uma das partes (cf. Jean Peyron, op. cit., p. 313 e ss.). Sendo irrelevante a exigência de igualdade (ao contrário da compra e venda, onde é relevante o tema do justo preço), deve-se reconhecer que a permuta contém uma aspiração de comutatividade que leva a doutrina a sublinhar antes a importância da intenção das partes para a qualificação jurídica do contrato (cf. Francesco Ricci: Corso teórico-pratico di Diritto civile, Torino: Unione tipografico-editrice, 1982, vol. VIII, p. 1). Em sede doutrinária, lida-se, aqui, com a causa do negócio jurídico. “A lei exige uma justificação para a criação, por um negócio jurídico, de um vínculo digno de proteção. Esta justificação se encontra na relevância social do interesse que se quer tutelar e no fim que se pretende alcançar. É a causa” (Orlando Gomes, Introdução ao direito civil, Rio de Janeiro: Forense, 1974, p. 424). Mas, continua o autor, “declarando o que realmente não querem”, as partes “não pretendem o negócio que praticam”. Ou seja, a eleição da causa como elemento distintivo entre permuta com torna e compra e venda com dação em pagamento, mesmo com base em critérios quantitativos referentes à parte em dinheiro, não afasta o elemento volitivo. O elemento volitivo continua fundamental. A causa é justificação que se encontra na relevância social do interesse e no fim que se pretende alcançar. A eventual discrepância quantitativa, que também pode existir na compra e venda (valor a maior da dação em pagamento), tem, na permuta, uma outra relevância. O que distingue, afinal, um (permuta com torna) do outro (compra e venda com dação em pagamento) depende do que, afinal, é querido pelas partes, do que as partes quiseram realmente realizar. Nesse sentido, para efeitos de distinção entre permuta com torna e compra e venda com dação em pagamento, não é só o critério do valor a maior ou a menor (interesse econômico) que deve ser levado em consideração, mas a conformação jurídica do negócio. Conformação jurídica diz respeito não apenas à forma jurídica do negócio (permuta ou compra e venda), mas também à ação negocial jurídica, isto é, a produção dos efeitos jurídicos por ela previstos. Esse critério é ainda mais relevante quando nos deparamos, na economia moderna, com situações em que a dimensão da permuta adquire perfis mais complexos. Se, há tempos atrás, era possível limitar a permuta a uma troca de propriedades, a propriedade de uma coisa pela propriedade de outra, hoje, quando os direitos e a universalidades como coisas incorpóreas podem ser objeto de permuta da mesma forma que as coisas corpóreas, mais correto seria perceber que o que se troca, efetivamente, são titularidades (Lacruz Berdejo, Elementos de derecho civil, Barcelona:, 1990, II, p. 45-46). Nesse sentido, faz parte da permuta, quando as coisas permutadas não são do mesmo valor, constituir, contratualmente, um procedimento de apuração e equiparação de valores (que a doutrina chama de “permuta estimatória”) para visar à constituição da comutatividade das coisas, sem que ocorra ainda uma efetiva alteração nos respectivos patrimônios dos que permutam. Não se trata, necessariamente, de apuração de valor de mercado, mas de valor de conveniência (AUBRY et RAU, Cours de droit civil français, Paris, 1907, vol. V, p. 256). Nesses termos percebe-se, desde logo que proceder, contratualmente, a um investimento em dinheiro para que um determinado bem seja construído e venha a integrar o ativo de uma sociedade, para assim proceder à troca de titularidade, não descaracteriza a permuta. Afinal, para caracterizar a permuta não é necessário que os objetos a permutar existam no instante mesmo da celebração do contrato: basta que exista um deles (BIANCA, op. cit., p. 1026). O que é perfeitamente conforme com a natureza da permuta: ou seja, não se trata de obrigação de fazer (do ut facias), mas obrigação condicionada de dar (do ut des). 3. O âmbito da compensação: a torna O interesse dessa questão está em saber se, dado o caráter compensatório da permuta, a torna deva ser sempre em dinheiro ou se haveria outras formas de prestação. Tenha-se em conta, inicialmente, o conceito de torna. Nas legislações em que a troca preveja ou admita também a possibilidade de um pagamento de parte em dinheiro (torna), há quem sustente haver um contrato tipificado como de natureza mista, em parte permuta, em parte compra e venda (ver, no direito italiano, Massimo Bianca, op. cit., p. 1.019). No entanto, a aplicação desse critério leva a dificuldades práticas ainda maiores por força do desmembramento do contrato em dois diferentes negócios jurídicos, sem que o problema desapareça inteiramente quando se olha, por exemplo, para a compra e venda com dação em pagamento. Daí porque, de todo modo, prevalece o consenso doutrinário de que a torna não altera a natureza da troca, isto é, não faz dela um tipo misto. A autonomia do contrato de permuta exige que ele permaneça como um todo. O que não afasta, porém, o exame das condições em que uma quantidade em dinheiro é entregue a título complementar. O problema diz respeito à possibilidade de descaracterização da permuta em razão do uso da moeda, dúvida que persiste em face dos dispositivos do (novo) Código Civil de 2002, como se pode ler no seguinte comentário: “A eventual desigualdade dos bens pode implicar a complementação em dinheiro, o que guarda mais similitude com a compra e venda, e, como tal será havida, em sua natureza jurídica, se o complemento for maior que a coisa permutada. Alguns entendem, todavia, a reposição feita para efetivar a equivalência de valores, como mero elemento acessório do contrato de permuta, sem descaracterizá-lo” (FIUZA; SILVA (coords.). Código Civil comentado, São Paulo: Saraiva, 2008, p. 533). É inegável que esse critério aponte para um conceito valorativo, uma subjetividade presumidamente intransponível ou de difícil precisão. O critério quantitativo (relação a menor/a maior entre o complemento em dinheiro e o valor estimado da coisa permutada) não é isento de imprecisão, por seu caráter indeterminado, caindo, mais propriamente, no rol de conceitos discricionários, enquanto precisáveis de caso para caso em função das circunstâncias a eles peculiares por força do caráter correlativo dos conceitos, em que uma se define pelo outro (grande/pequeno, alto/baixo, micro/pequena/média empresa etc.). Por conta disso entende-se que sejam, na verdade, três, e não dois, os sistemas possíveis, como já observava Peyron (op. cit., p. 65 e ss.): (a) a permuta com torna apresenta sempre uma dupla natureza, (b) a permuta é sempre permuta, não importa a importância quantitativa da torna, (c) há de se distinguir, no exame da permuta, se o valor da torna é superior, inferior ou igual ao valor da coisa. Diante deles é importante sublinhar que o valor que as coisas permutadas têm para os contratantes não é estimado em dinheiro como se fosse um preço, ainda quando essa estimativa, para efetuar uma troca, tenha por referência a moeda. Como essa referência à moeda está presente tanto para estimar as coisas como para estimar uma eventual compensação em dinheiro por uma desigualdade resultante, a diferença entre receber um valor em moeda como preço ou como torna parece conduzir à necessidade de se examinar, contratualmente,o objeto do negócio. Num caso (preço), a estimativa visa ao valor das coisas; noutro (torna), à apuração da igualdade/desigualdade entre elas. Daí porque houvesse, na doutrina, quem assegurasse, desde há muito, ser mais importante do que o valor em dinheiro da torna (critério quantitativo), a averiguação da verdadeira intenção das partes (critério qualitativo) ao celebrar o contrato (Francesco Ricci, op. cit., p. 1). Nessa linha de argumentação, o que conta não é o fato de o complemento em dinheiro ser menor que a coisa permutada, mas o valor estimado subjetivamente que a torna tem para o interesse específico das partes, à margem dos preços que regem o mercado para o tipo de bens que se trocam. A questão está em precisar quando o dinheiro é usado como pagamento do preço (pagamento in natura) para aquisição de um bem e quando ele entra no negócio como instrumento de estimativa e de compensação do valor das coisas de interesse das partes. Do ângulo dos negócios jurídicos, o dinheiro, em primeiro lugar, não é nem uma coisa específica nem uma coisa genérica. Aproxima-se desse último sentido (coisa genérica) na medida em que é um bem jurídico de natureza homogênea que não se esgota nem desaparece no tráfico econômico, embora, no entanto, não se confunda com uma coisa física (a moeda cunhada ou o papel impresso). Aproxima-se do primeiro (coisa específica) quando pensamos na compra de divisas como uma contraposição típica de dinheiro (dinheiro nacional) e coisa (dinheiro estrangeiro) ou em troca de dinheiro, quando então, estaríamos numa relação de coisa a coisa. Também não é, propriamente, uma coisa fungível, posto que a possibilidade de sua substituição não vem determinada por um critério qualitativo (como ocorre com os bens fungíveis), mas tem a ver com sua função como unidade de pagamento e de conta. Nem é, adequadamente, um bem de consumo, posto que não é consumível. Não desaparece por consumação: dinheiro se gasta, mas não se desgasta (cf. Merino Hernandez, op. cit., p. 48 e ss.). Assim, o tema da distinção entre preço e torna ganha entendimento mais adequado, caso em que, conjugando-se o critério da proporção/desproporção entre o valor quantitativo dos bens com o da intenção das partes (bens que atendam seus interesses), poder-se-ia dizer que a torna em dinheiro não caracteriza preço quando compensa interesses, à exceção daqueles casos em que a quantidade entregue em dinheiro seja tão desproporcionada, por excesso, com relação à coisa trocada que ela complementa que à evidência a intenção contratual de estar fazendo uma troca se mostre desvirtuada. 4. Um caso peculiar: a permuta de quotas A permuta de quotas levanta interessantes problemas. O primeiro deles está numa (indevida) assimilação da troca de valores mobiliários, por exemplo, ações, por outra coisa a uma compra e venda pela fácil realização dos valores em numerário, o que implicaria tomar a ação como direito de crédito com liquidez equivalente à moeda. Planiol e Ripert (Traité pratique de Droit Civil français, Paris, 1956, t. X, p. 506) entendem que não haveria como considerar como compra e venda (vente), mas sim como permuta as operações consistentes na entrega de valores mobiliários em troca de uma coisa, por mais fácil que seja a transformação dos primeiros em numerário. Isso significaria que tomar as ações de uma sociedade anônima como um signo μμ_cnv0:S:J que representaria dinheiro é um equívoco. A fortiori, tratando-se, no caso, de bens permutados constituídos por quotas de sociedades pertencentes a grupos empresariais, portanto, fora do mercado, e não de ações de ações cotadas em bolsa ou com mercado ativo, com mais razão a assimilação a uma compra e venda não faz sentido algum. Com efeito, é preciso diferenciar o direito que um titular ostente sobre o bem móvel (podendo ser dado em penhor, gravado de usufruto, alienado fiduciariamente), que é um direito de natureza real (e, nesse sentido, podendo ser objeto em um negócio de permuta como qualquer coisa comerciável), do direito ou direitos que o título represente. Nesse último caso, a ação atribui a seu titular um complexo de direitos e obrigações, estabelecendo um vínculo jurídico com a sociedade, status de sócio no dizer de Ascarelli (cf. Egberto Lacerda Teixeira e José Alexandre Tavares Guerreiro, Das sociedades anônimas no direito brasileiro, São Paulo, 1979, vol. I, p. 170). Mas essa possibilidade de permuta, ações de sociedades anônimas, não esgota o tema, sendo preciso o exame de outras hipóteses de participações societárias a permutar. Mais precisamente, essa menção é importante na medida em que a questão tem uma repercussão dotada de alguma especificidade quando se trata de participações em sociedades limitadas (caso das sociedades em tela), tomadas como um conjunto de direitos e deveres que se outorgam ao sócio, desse modo objetivando-se. Essa participação é considerada também como um bem móvel, podendo ser objeto de direitos reais e, portanto, de permuta. Mas, como à sociedade limitada se acresce o fator pessoal (intuitu personae), o tema toma outra conotação. Nessa linha, é importante assinalar que as sociedades limitadas por quotas são consideradas um tipo híbrido, por ser instrumento para viabilizar tanto uma sociedade de cunho pessoal, quanto de cunho mais capitalista, podendo as partes, ao constituí-la, acentuar uma ou outra característica. Nesta última, o que importa é o capital empregado, sendo irrelevante a pessoa dos sócios, suas aptidões e características. O que determina a chamada affectio societatis é o dinheiro, de modo a acentuar o caráter objetivo despersonalizado das participações. Mas, sendo tipo híbrido, o intuitu personae estará sempre presente (cf. ASCARELLI, Problemas das sociedades anônimas e direito comparado, São Paulo: Saraiva, 1945, p. 277 e 290). Mais recentemente, esse entendimento caminhou, entre nós, para uma percepção do contrato social (aquele que constitui a sociedade) como contrato-organização, cujo objetivo é criar direitos subjetivos/obrigações recíprocas entre as partes (cf. Calixto Salomão Filho, O novo direito societário, São Paulo: Malheiros, 1998, p. 3340). Ou seja, as obrigações e direitos dos sócios definem-se em função dos elementos que caracterizam o contrato de sociedade. E desde o Dec. 3.708/1919 (que regulamentou, pela primeira vez no Brasil, a sociedade por quotas) foi plenamente solidificada a noção de que as sociedades por quotas constituem tipo societário específico. O que, sem solução de continuidade, ficou bem demarcado com o advento do novo Código Civil brasileiro. Embora o Código Civil de 2002 tenha buscado inspiração no italiano de 1942, a sociedade tipificada naquele não corresponde inteiramente à fórmula italiana. Se nesta, a chamada società semplice consiste num patrimônio de afetação destinado à exploração de empresas de menor envergadura, desprovidas de caráter comercial (cf. dentre outros, Francesco Messineo, Manuale de diritto civile e commerciale, Milão: A. Giuffrè, 1954, 4, p. 302-303), no Código Civil brasileiro a sociedade simples (dentre as quais se classifica a sociedade por quotas), além de constituir um tipo (ao lado da limitada, da em comandita simples, da em nome coletivo etc. – CC/2002, art. 983, caput), constitui também uma categoria: sociedade simples e sociedade empresária. Pelo Código Civil de 2002, é empresária a que organiza sua atividade para a produção ou circulação de bens e serviços, com investimento de significativo capital, próprio ou de terceiros, atuando como empresa, sendo simples aquela que reúne profissionais em que o exercício da profissão não constitui elemento de uma empresa (CC/2002, art. 966 e parágrafo único). Como no direito brasileiro (aplicável ao caso emtela por força de disposição contratual, Cláusula 11), ao contrário de outros, os sócios não podem contratar a constituição de uma sociedade salvo optando por uma das formas tipificadas em lei, a classificação de uma sociedade na categoria de simples ou empresária ora depende do tipo escolhido (por exemplo: uma sociedade anônima só pode ser empresária; já uma cooperativa só pode ser simples – CC/2002, art. 982, parágrafo único), ora depende, como no caso dos tipos híbridos (por exemplo, a sociedade por quotas), da atividade intelectual dos sócios quando essa tem a qualidade de elemento de empresa. Por exemplo: dois pediatras constituem uma sociedade simples para exercer sua atividade, mas uma sociedade empresária quando se unem para explorar um hospital pediátrico (cf. Fábio Ulhoa Coelho, Curso de Direito Civil, São Paulo: Saraiva, 2003, vol. 3, p. 448). Tratando-se de um tipo híbrido, estando num meio-termo entre as sociedades de pessoas e de capitais, dependendo das características do contrato social, há de reconhecer que em muitas das sociedades por quotas constituídas por capitais não deixam de existir direitos/obrigações recíprocos, que, apesar do caráter que tomam numa sociedade limitada, podem ser considerados bens e, nessa condição, cedidos, vendidos, trocados. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que nada obsta a permuta de ações/quotas entre os próprios sócios, pois isso não altera o substrato pessoal, apenas modifica a distribuição de capital. Não no sentido de que se troquem quotas por quotas, por suposto, do mesmo valor e com os mesmos direitos incorporados, mas no de que um sócio possa entregar quotas a outro em troca de outra coisa. © edição e distribuição da EDITORA REVISTA DOS TRIBUNAIS LTDA. 5. Bibliografia ALVIM, Agostinho. Da compra e venda e da troca. São Paulo, 1961. ASCARELLI, Tullio. 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CLÁUSULAS RESTRITIVAS DE DOMÍNIO., de Oscar José Bittencourt Couto - RDI 49/2000/332 NOTAS DE RODAPÉNOTAS DE RODAPÉ 1 Não deixa de ser sugestivo que, já na antiguidade, Aristóteles, ao examinar as relações de troca, observava que, na permuta, buscar-se-ia um equilíbrio entre a maior e a menor necessidade (desejo) do bem, de um pelo bem de outro, enquanto as relações mediadas pelo dinheiro seriam um “sinalagma” que envolve a mensuração por um elemento externo e que visa à obtenção de lucro (Aristóteles, Política, I, 9, 1258ª).