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A dignidade humana como fundamento jurídico das "ordens de não-ressuscitação" • g Pontíftcia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Dadeus Grings Reitor: Norberto Francisco Rauch Vice-Reitor: Joaquim Clorer Conselho Editorial: Anroninho Muza Naime Anronio Mario Pascual Bianchi Délcia Enricone Helena Noronha Cury Jayme Paviani J ussara Maria Rosa Mendes Luiz Antonio de Assis Brasil e Silva Marília Gerhardt de Oliveira Mfrian O liveira Urbano Z illes (presidente) Diretor da EDIPUCRS: Antoninho Muza Naime Lívia Haygert Pithan A dignidade humana como fundamento jurídico das "ordens de não-ressuscitação" BDIPUCRS Porto Alegre 2004 ' · P683d © EDIPUCRS, Iª edição 2004 Capa: AGEXPP-PUCRS Preparaçáo dos originais: Eurico Saldanha de Lemos Revisáo: Aurora Editoraçáo e composiçáo: Suliani Editografla Lrda. lmpressáo e acabamento: Gráfica EPECf. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Pithan, Lívia Haygert A dignidade humana como fundamento jurídico das "or- dens de não-ressusciração" I Lívia Haygert Pithan. - Porto Ale- gre: EDIPUCRS, 2004. 137p. ISBN: 85-7430-4 16-6 1. Bioética. 2. Eutanásia. 3. Medicina - Aspectos Morais. 4. Ética Médica. I. Título. CDD 174.2 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Processamento Técnico da BC-PUCRS Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Editora. EDIPUCRS Av. !piranga, 6681- Prédio 33 Caixa Postal1429 90619-900- Porto Alegre- RS Brasil Fone/fax: (51) 3320.3523 www.pucrs. br. edipucrs E-mail: edipucrs@pucrs. br Dedico essa obra à minha fomília, em especial à memória do meu avô Elmo Haygert. Agradeço imensamente aos profissores Délio Kipper, Flávia Mddche, Joaquim Clotet, Luiza Moll, Maria Cláudia Crespo Brauner e Patrícia Picon por todo o apoio, incentivo, carinho e amizade. As questões de quem define e decide sobre a vida e a morte, e de que maneira, levam todos forçosamente à angústia de ter de tomar uma decisão e se tornam grandes questões que a todos atingem. Esta nova simbiose da fi losofia e da vida cotidiana aparece notavelmente nas questões sobre as quais as pessoas são forçadas a decidir, envolvendo a medicina avançada e a engenharia genética. Esses desenvolvimentos são equivalentes a uma democratização de Deus. Ulrich Beck Sumário ----------·---------- Introdução................................... ... .... ... ........ ........ .. . 15 1 Delimitação temática: aspectos da conduta médica diante dos pacientes irreversíveis .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 21 1.1 Considerações preliminares sobre bioética e direito: desafios teórico-jurídicos .. .. .... .. .. .... .. .. .... .. .. .. .. . 23 1.2 As "ordens de não-ressuscitação": estratégia de conduta médica frente aos pacientes irreversíveis....................... 34 1.3 A eutanásia como questão conexa à limitação médico-terapêutica: alguns aspectos jurídico-penais........................ 44 2 A dignidade da pessoa humana como fundamento ético-jurídico das "ordens de não-ressuscitação" ......... ................... 57 2.1 O princípio da dignidade da pessoa humana: em busca da aplicação eticamente correta do direito ......................... ............................... 58 2.2 Respeito e proteção da dignidade humana do paciente em final de vida: autonomia e assistência médica adequada........ 68 2.3 Direito à vida com dignidade como fundamento de um direito à morte digna.................................................. 78 3 Respostas atuais sobre limites éticos e jurídicos da intervenção médico-terapêutica em pacientes irreversíveis.......................................... 87 3.1 Casuística judicial internacional sobre conduta médica adequada frente aos pacientes irreversíveis....................... 89 3.2 Deveres morais do médico frente aos pacientes irreversíveis: deontologia médica nacional, internacional e a posição da Igreja Católica........................... 98 3.3 Normas estatais e política legislativa atual sobre o tema.................................................... 109 Conclusão................................................................. 119 Referências................................................................ 125 Prefácio ----------·---------- Bioética e final da vida Tema que preocupa a humanidade desde seus primórdios é a atitude perante a doença e a morte. O ser humano demonstra sua grande inconformidade com a finitude da vida inventando os mais criativos instrumentos para enganar a morte e prolongar a vida. Uma contradição é demonstrada quando, inobstinadamente médicos refutam a aceitação do final da vida do paciente, recor- rendo a diversos meios para romper o ciclo natural de vida e mor- te, mesmo quando a morte parece ser o caminho mais digno para a pessoa que não pode ser curada. A medicina é uma arte de incer- tezas e de probabilidades. Esquecemo-nos de que todos somos terminais ... O progresso da medicina dos últimos anos tem possibilitado o prolongamento da vida, pelo menos nos países mais ricos e de- senvolvidos, de forma que nos leva a interrogar quais são os limi- tes toleráveis para o prolongamento da vida, frente à doença grave e terminal, ouo envelhecimento natural dos seres humanos. Trata-se de saber até que ponto as ciências da vida e, espe- cificamente as novas tecnologias, legados dos avanços do conhe- cimento, podem moldar a própria natureza da vida humana sem afrontar a dignidade da pessoa em final de vida. Noções e categorias clássicas como o de pessoa humana, de dignidade humana, de autonomia do ser humano, de direito à vida, são evocadas nas discussões acerca das descobertas cientÍfi- cas e realizações tecnológicas no campo do tratamento dos doen- tes terminais. A possibilidade de uma ordem normativa acerca dos limites éticos na utilização dos modernos recursos científicos requer a busca de consensos éticos em sociedades democráticas e pluralistas. A revolução da biologia, denominada de "era genô- mica" abriu novos campos de reflexão filosófica, que tem no movimento Bioético o seu mais recente ramo de saber. O direito dos pacientes se insere nas questões de mais ex- pressiva relevância nas sociedades contemporâneas. Questionar os limites médico-terapêuticos frente a situações patológicas irreversíveis, requer a humanização da medicina, oferecendo cuidado e conforto ao paciente quando não é mais possível res- tabelecer a sua saúde e qualidade de vida. Os tratamentos palia- tivos privilegiam a qualidade do tempo que resta a viver e não a sua duração. A pergunta que permanece é de saber quem pode decidir pela interrupção ou não - recurso a um tratamento - o paciente, o médico ou a família do doente? Como definir quan- do um recurso terapêutico é proporcional ou desproporcional? Em um contexto internacional marcado pelo debate sobre a eutanásia e sua normatização em alguns países centra a discussão sobre a bioética e os limites da ciência, bem como a necessidade de contextualização histórica, cultural e socioeconômico em cada sociedade, quanto se trata de perguntar quem pode decidir sobre a morte. Vamos devolver a palavra aos moribundos? De que vale sobreviver na inconsciência, em vida vegetativa? Qual o papel dos médicos e dos fami liares na decisão de não adotar um trata- mento para prolongar a vida? Como o Direito deve prever tais condutas, evitando abusos e crimes? O enfrentamento dessas questões requer a compreensão de que a denominada "ordem de não-ressuscitação", que · consiste em documento que prevê a manifestação expressa e prévia do doenteque desautoriza o emprego de técnicas de ressuscitação, como a expressão da autonomia individual da pessoa. Tal possi- bilidade pode servir a dar um verdadeiro sentido e valor aos momentos que precedem a morte, não significando abreviar a vida, mas quem sabe aceitar a vontade manifesta e o momento do paciente que está preparado a aceitá-la. O presente trabalho, fruto de uma dissertação de Mestrado aprovada na UNISINOS, a que tive grande prazer em orientar, demonstra o enfrentamento do desafio de uma jovem pesquisa- dora em apresentar a análise e o debate de como o mundo das normas bioéticas poderá ou não influir na solução de casos con- cretos e, especificamente, na formulação do sistema jurídico atinente aos limites do tratamento médico-terapêutico . A contribuição, importante e extremamente atual, do livro da prof!! Lívia Haygert Pithan, está, assim, em recuperar para a reflexão ética e para a teoria do Direito um espaço privilegiado, por meio da valorização da dignidade da vida humana na relação entre médico e paciente. O tema, objeto deste estudo, ilustra-se bem na poesia de Vinícius e Toquinho, na música Aquarela: E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar. Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar. Sem pedir licença, muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar. Nossa estrada não nos cabe Conhecer, ou ver o que virá. O fim dela ninguém sabe bem ao cerro onde vai dar. Vamos rodos numa linda passarela de uma aquarela que, um dia, enfim, descolorirá. PROFª DRª MARIA CLAUDIA CRESPO BRAUNER Dourora em Direiro Privado pela Universidade de Rennes, na França. Professora do Programa de Pós-Graduação em Oireiro da UNISINOS. Introdução ----------·---------- Â possibilidades surgidas da ciência e tecnologia aplicadas à saúde humana atualmente têm trazido inúmeros problemas de ordem ética e jurídica. Uma situação específica que tem sido discutida tanto na Bioética quanto no Direito é a limitação da intervenção médico-terapêutica em pacientes que estão em pro- cesso de morte irreversível. O objetivo desse livro é justificar a limitação médico- terapêutica a partir da compreensão transdisciplinar do princí- pio jurídico-constitucional da dignidade da pessoa humana, dialogando com aspectos técnicos da medicina, com a Bioética, a deontologia médica, a casuística internacional e a moral cató- lica. Nesse sentido, a partir da técnica de estudo de caso, inves- tiga-se o respaldo jurídico da ortotanásia ou seja, os atos ou omissões médicas que, embora permitam a morte do doente terminal ou irreversível, são considerados ética e tecnicamente adequados. A proble'mática se situa na dúvida se existe respaldo no ordenamento jurídico brasileiro para não proceder a ressuscita- ção cardiopulmonar em pacientes irreversíveis. Devido à extrema complexidade dos conflitos bioéticos, seleciona-se um caso com variáveis limitadas para possibilitar restringir a temática com a qual se trabalha. Busca-se no coti- A dignidade humana como fundamento juríd ico... 15 diano hospitalar uma situação prob lemática do ponto de vista jurídico, qual seja, a conduta médica que aceita os limites tera- pêuticos do procedimento da ressuscitação cardiopulmonar de pacientes considerados irrecuperáveis, permitindo sua morte. As "ordens de não-ressuscitação" configuram-se numa es- tratégia de conduta corriqueira em nosso meio hospitalar, embo- ra tal prática ocorra de forma velada. Permanecem, no meio médico, dúvidas quando à legalidade dessa prática devido à au- sência de lei específica abordando o tema. Essas dúvidas se forta- lecem pela inexistência de políticas hospitalares nacionais que institucionalizem ou justifiquem a opção por não reanimar os pacientes para os quais não existe indicação técnica da ressuscita- ção cardiopulmonar. Porém, o que o Direito brasileiro diz dessa situação? Deve- se concluir pela proibição legal das "ordens de não-reanimação" apenas devido à inexistência de normas específicas que as regu- lamentem? O que diria um enfoque constitucional da problemá- tica, priorizando o respeito pela dignidade humana na visão éti- co-comunitária? No que consiste a dignidade humana, entendi- do esse princípio jurídico em diálogo com demais aspectos da realidade social? Pressupõe-se um caso onde a "ordem de não-ressuscitação" é dada a partir do consentimento do paciente e/ ou seus familia- res (em caso de incapacidade), não havendo conflito entre médi- co e paciente. Sem pretender abordar juridicamente as formas de manifestação da vontade do paciente e a possibilidade de diretri- zes antecipadas em nosso meio - o que por si só mereceria um estudo à parte - se prioriza a argumentação que defende, lato sensu, a possibilidade de limitar os recursos terapêuticos inúteis. A abordagem metodológica transdisciplinar auxilia o pre- sente estudo na medida em que a dignidade humana, nas deci- sões tomadas em contextos bioéticos, é interpretada numa rela- ção dialógica entre paciente, familiares e profissionais da área da saúde. As soluções para os problemas bioéticos, que se pautam por esse compromisso conjunto entre os envolvidos, se situam 16 Lívia Haygert Pithan além de qualquer quadro de referência disciplinar específica, pois consideram igualmente importantes todos os aspectos relevantes no conflito. Assim, os critérios médicos, éticos e jurídicos devem estar harmonizados, havendo uma influência recíproca de uma dimensão à outra. Publicações médicas e bioéticas atuais têm se utilizado da linguagem dos direitos, encontrando-se referências sobre um possível "direito à morte"- na defesa da possibilidade do pacien- te recusar a obstinação terapêutica e não propriamente em defesa da eutanásia. Do mesmo modo, obras jurídicas recentes se reme- tem aos princípios bioéticos e a critérios médicos para funda- mentar a interpretação das leis, havendo quem defenda a exis- tência de um novo campo de estudos jurídicos destinado a essa abertura transdisciplinar: o Biodireito. A Bioética atravessa naturalmente os âmbitos de diversas disciplinas, utilizando uma variada e complexa gama de infor- mações para chegar a uma solução que supere qualquer âmbito específico do conhecimento. Voltada para a preocupação de bem decidir, a bioética tem aproximado a ciência (considerada a par- tir de uma associação de idéias de diferentes âmbitos, como mé- dico, jurídico, filosófico, etc.) do senso comum, na intenção de defender uma aplicação científica mais prudente e ao mesmo tempo promover um esclarecimento do saber popular. O presente livro se divide em três capítulos. No primeiro (1.1) procura-se situar o tema na atualidade das discussões da bioética, descrevendo sua abordagem metodológica e teórica e delimitando as relações que esse novo campo de estudos tem estabelecido com o âmbito jurídico. (1.2) O caso prático retira- do do âmbito médico, sobre a não-oferta do procedimento da ressuscitação cardiopulmonar, é descrito e justificado a partir de critérios técnicos gerais da medicina e a partir da deontologia médica. (1.3) Também procura-se abordar as confusões termi- nológicas em torno do tema, analisando alguns aspectos jurídi- co-penais através do entendimento de autores que defendem a licitude da ortotanásia ou limitação terapêutica. A dignidade humana como fundamento jurídico... 1 7 No segundo capítulo, a questão da dignidade da pessoa humana se torna o principal foco de discussão. (2.1) Aborda-se a reaproximação do direito com a ética, através da valorização dos princípios jurídicos e a importância da noção de dignidade hu- mana no direito contemporâneo. (2.2) Pergunta-se: como esse princípio jurídico tem sido entendido no constitucionalismo brasileiro? Se o princípio da dignidade humana é visto a partir de uma dupla dimensão,autonômica e assistencial, como ambos os aspectos podem estar contemplados na estratégia médica de limitação terapêutica? (2.3) Há violação do direito à vida nas condutas médicas que limitam os recursos terapêuticos extraor- dinários? Por fim, no terceiro capítulo são descritos os tipos de res- postas que têm surgido para situações análogas às "ordens de não-ressuscitação". Um tipo de resposta jurídica aos avanços da medicina é o (3.1) reconhecimento judicial das novas situações, através da criação jurisprudencial. Entretanto, não se tem notícia de jurisprudência nacional sobre situações de não-oferta ou reti- rada de medidas terapêuticas em paciente no final da vida. Daí a razão em se recorrer à casuística internacional a fim de ilustrar a discussão, a exemplo de casos paradigmáticos ocorridos nos EUA. Por outro lado, observa-se a existência de (3.2) normas mo- rais destinadas aos médicos, específicas sobre tratamento de do- entes que estão morrendo. A deontologia médica nacional e in- ternacional, bem como alguns manifestos da Igreja Católica ser- vem como guias hermenêuticas do próprio princípio constitu- cional da dignidade da pessoa humana. Já as respostas prove- nientes do Estado (3.3) podem ser encontradas na leitura dos dispositivos constitucionais juntamente com a coleta de disposi- tivos normativos esparsos - inclusive em nível administrativo. Duas resoluções administrativas, uma do Conselho Nacional de Saúde e outra do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, auxiliam ao tratar sobre consentimento infor- mado e morte digna, respectivamente. 18 Lívia Haygert Pithan No Brasil, o avanço de postura demonstrada por uma lei paulista em defesa dos direitos dos usuários dos serviços de saúde daquele estado contraria os aparentes equívocos - inclusive ter- minológicos - das discussões sobre o atual projeto de novo Có- digo Penal. Percebe-se que toda a política legislativa carece de ampla discussão pública e pesquisa rigorosa ao tratar de temas técnicos de áreas específicas, o que infelizmente não parece estar sendo feito em nosso meio. C iente dos riscos em tratar um tema jurídico a partir de uma visão que supera as fronteiras disciplinares, busca-se fun- damentar o entendimento da dignidade da pessoa humana não só nos teóricos do Direito brasileiro. Acredita-se que a aproxi- mação entre diferentes áreas do conhecimento enriquece o estu- do jurídico na medida que impõe uma postura epistemológica aberta e contrária à tradicional idéia de auto-suficiência do saber jurídico. Assim como a Bioética tem estimulado as ciências da vida numa tomada de consciência das responsabilidades éticas e so- ciais da aplicação de seus conhecimentos, o Direito deve seguir exemplo. As pontes construídas entre as diferentes áreas do saber não podem deixar o âmbito jurídico de fora - sob pena de se negar legitimidade' à instância decisória promovida pelo diálogo bioético. No tema privilegiado nesta obra, pode-se perceber a impor- tância da criação de pontes entre diferentes ramos do conheci- mento. Deste modo, parece oportuno iniciar descrevendo a te- mática a partir de um enfoque transdisciplinar. Inicia-se com um panorama geral das interfaces entre Bioética e Direito, mos- trando de que forma o conhecimento jurídico tem sido afetado e repensado a partir das discussões dos conflitos bioéticos. Fala-se em legitimidade no sentido de justificação ét ica do poder, distinguindo-a da pura legalidade no sentido do positivismo jurídico. Neste sentido, ver Bobbio, 1987, p. 86. A dignidade humana como fundamento jurídico... 19 1 Delimitação temática: aspectos da conduta médica diante dos pacientes irreversíveis ---------·--------- Novos laços sociais podem ser descobertos quando procuramos pontes entre as diferentes áreas do conhecimento e entre diferentes pessoas, pois o espaço exterior e o espaço interior são duas facetas de um único e mesmo mundo. A transdisciplinaridade pode ser compreendida como sendo a ciência e a arte do descobrimento dessas pontes. (Nicolescu, 2000a, p. 139-152). Neste primeiro capítulo se pretende descrever o tema privile- giado, qual seja, os aspectos jurídicos da estratégia de conduta médica que limita o uso abusivo de recursos terapêuticos desne- cessários, e afastar o tema do âmbito jurídico-penal. Na escassa bibliografia jurídica nacional sobre o tema, ge- ralmente se encontram imprecisões conceituais de disciplinas alheias ao Direito - como aquelas provenientes das ciências da saúde e da Bioética. Essas confusões terminológicas acabam induzindo a interpretações errôneas e distorcidas da realidade encontrável no cotidiano hospitalar. Entretanto, antes de passar para a descrição das situações médicas que ilustram a discussão e as terminologias envolvidas, A dignidade humana como fundamento juridico... 21 é necessário descrever as relações entre Bioética e Direito, a fim de expor a linha teórica privilegiada bem como o perfil meto- dológico que delineia o trabalho. Primeiramente, apresenta-se em linhas gerais a Bioética e seu principal modelo teórico - o principialismo - demonstran- do de que forma esses novos conhecimentos têm se comunica- do com o saber jurídico. As questões a respeito da relação entre Bioética e Direito ainda estão em aberto, sendo respondidas provisoriamente. Dessa forma, faz-se opções teóricas a respeito da forma como o âmbito jurídico pode auxiliar em responder aos questionamentos bioéticos, já que as leis não acompanham a velocidade do avanço científico. Após delimitada a área temática, bem como a opção me- todológica do trabalho, cabe descrever o problema prático do âmbito médico-hospitalar do qual se parte. Analisa-se a ade- quação técnica e ética da ressuscitação cardiopulmonar, um específico procedimento médico-terapêutico usual nas unida- des de terapia intensiva hospitalares. No que consiste tal proce- dimento e quais as situações indicadas ou contra-indicadas para sua aplicação? Qual o papel do consentimento do paciente (ou de seus fami liares) nas "ordens de não-ressuscitação" - decisão médica de não realizar o procedimento de ressuscitação car- diorrespiratória em pacientes irreversíveis? Qual a distinção das "ordens de não-reanimação" para outras formas de morrer em unidades de terapia intensiva - UTis? Por fim, procede-se às distinções terminológicas entre eu- tanásia e condutas médicas que adequadamente limitam a ofer- ta de recursos terapêuticos desproporcionados, afastando a questão do âmbito jurídico-penal. Essas considerações introdu- tórias procuram especificar uma situação-limite de alta comple- xidade que, por isso mesmo, requer um enfoque teórico trans- disciplinar, que atravesse distintos aspectos e disciplinas envol- vidas. 22 Lívia Haygert Pithan 1.1 Considerações preliminares sobre Bioética e Direito: desafios teórico-jurídicos O constante progresso das ciências biomédicas tem ofere- cido inúmeras oportunidades de melhoria no atendimento à saúde, aumentando a quantidade e qualidade de vida da popu- lação. Porém, paralelo aos benefícios gerados pelos novos co- nhecimentos médicos, surgem riscos de abuso e arbítrio em sua aplicação, impondo a necessidade de discussão sobre limites éticos e jurídicos. Os limites éticos têm sido discutidos através da Bioética, novo campo de estudos transdisciplinar vinculado às ciências da vida (Clotet e Kipper, 1998, p. 37-51). Já os limites jurídi- cos, frente à ausência de leis e insuficiência dos aportes teóricos tradicionais, têm sido buscados a partir dos direitos fundamen- tais e princípios jurídicos - prioritariamente no princípio cons- titucional da dignidade da pessoa humana. O termo bioética, neologismo derivado das palavras gregas bios (vida) e ethiké (ética), foi cunhado no ano de1970 pelo oncologista norte-americano Van Rensselaer Potter, em um artigo denominado "Bioethics: the science o f survival", e no ano seguinte no seu livro "Bioethics: bridge to the future", onde se referia à importância das ciências biológicas na melho- ria da qualidade de vida planetária (Clotet, 1993a, p. 13-19). Embora o sentido atual do termo bioética já não seja o mesmo originalmente utilizado, permanece na atual conotação da pala- vra a idéia central de interligar diferentes áreas do conhecimen- to, como preconizou Potter. Independente do conceito especificamente adotado ao termo, é usual haver referências ao caráter inter, multi ou trans- disciplinar da bioética. A conotação vigente do termo bioética, por exemplo, encontrada na Enclyclopedia of Bioethics, obra coletiva a qual Warren T. Reich editou, refere-se a sua inter- disciplinaridade. Reich afirma poder definir bioética como A dignidade humana como fundamento jurídico... 23 "o estudo sistemático das dimensões morais - incluindo visão moral, decisões, condutas e normas mo rais - das ciências da vida e do cuidado da saúde, utilizando uma variedade de meto- dologias éticas num contexto interdisciplinar" (Reich, 1995, p. XXI; grifo nosso). Já nas produções teóricas nacionais sobre Bioética, encon- tra-se nas autorizadas idéias do bioeticista Joaquim Clotet uma menção à transdisciplinaridade (abordagem que supera a di- mensão multi ou interdisciplinar) desse novo campo de estu- dos. Segundo Clotet (1997b, p. 8-9), a Bioética "busca solu- cionar conflitos éticos na área da saúde para os quais não exis- tem soluções predeterminadas" configurando-se como uma "reflexão de caráter transdisciplinar, focalizada prioritariamente no fenômeno vida humana" (Clotet e Kipper, 1998). Percebendo a importância da alusão feita por Clotet e Kipper sobre a transdisciplinaridade da bioética, impõe o escla- recimento dos termos multidisciplinaridade, interdisciplinari- dade e transdisciplinaridade - que nos últimos anos têm ga- nhado importância e divulgação,' sendo geralmente utilizados indiscriminadamente como sinônimos, para se referir à ultra- passagem das fronteiras disciplinares do conhecimento. A pluri ou mu/tidisciplinaridade busca acrescentar aspec- tos de outras disciplinas em uma determinada disciplina cen- Conforme explica Renato dos Santos, a UNESCO, em parceria com o Centro Internacional de Pesquisas e Estudos Transdisciplinares - CIRET, tem enfatizado a importância da abordagem transdisciplinar para a educação do século XXI. Em abril de 1992 foi fundado o "Grupo de Reflexões sobre a Transdisciplinaridade" junto à UNESCO, sob coordenação do fís ico Basarab Nicolescu. Em novembro de 1994 o "Centro Internacional de Pesquisa e Estudos Transdisciplinares" - CIRET - coordenado por Nicolescu, promoveu, com apoio da direção-geral da UNES- CO, o primeiro "Congresso Mundial sobre a Transdisciplinaridade" em Portugal, contando com a participação do pensador francês Edgar Morin, defensor da com- plexidade do conhecimento. Nesse congresso foi elaborado um documento, de- nominado "Carta da Transdisciplinaridade", de autoria de Edgar Morin, Basarab Nicolescu e Lima de Freitas - o qual tem servido de di retriz para projetos educa- cionais voltado ao ensino transdisciplinar. Vide: Santos, 1995, p. 7-9. 24 Lívia Haygert Pithan trai, onde os aspectos alheios à disciplina-chave têm apenas caráter complementar, auxiliar ou ilustrativo. Já a interdiscipli- naridade se diferencia da multidisciplinaridade por transferir métodos de uma disciplina à outra.' Embora a mu!tidisciplina- ridade e a interdisciplinaridade extrapolem fronteiras discipli- nares, ambas têm em comum o fato de permanecerem dentro de um quadro de referência disciplinar específico. Conforme Morin (1998, p. 135), a interdisciplinaridade controla tanto as disciplinas como a ONU controla as nações. Cada disciplina pretende primeiro fazer reco- nhecer sua soberania territorial, e, à custa de algumas magras trocas, as fronteiras confirmam-se em vez de desmoronar. Já a transdisciplinaridade consiste numa abordagem meto- dológica que pressupõe a unidade e complexidade do conheci- mento e diz respeito ao que está entre e além das disciplinas. A abordagem transdisciplinar trabalha com mais de um nível de realidade, evitando reduzir o conhecimento a apenas uma pers- pectiva. A transdisciplinaridade não é antagônica, mas comple- mentar à pesquisa disciplinar, multidisciplinar e interdisciplinar - embora delas se diferencie por buscar compreender o mundo presente através de sua complexidade e não estando a serviço de determinado quadro de referência teórica (Nicolescu, 2000b). Sendo uma reflexão transdisciplinar, a Bioética não tem a pretensão de oferecer respostas prontas pois, segundo explicações de Clotet (1993a), não existem normas únicas para resolver os dilemas bioéticos. Assim, na tentativa de conciliar as melhores soluções, a Bioética busca Conforme Nicolescu, a inrerdisciplinaridade possui três diversos graus : um grau de aplicação, um grau epistemológico e um grau de geração de novas disciplinas. Po- de-se explicar através de exemplos: (I) grau de apl icação: quando os métodos da fí- sica nuclear foram transferidos para a medicina, surgiram novos tratamentos para o câncer. (2) grau epistemológico: transferindo métodos da lógica formal para a teo- ria geral do direito, originou um enfoque especifico de epistemologia jurídica. (3) grau de geração de novas disciplinas: quando métodos computacionais foram transferidos para a arte, gerou-se a arte computacional. Ver: Nicolescu, 2000a, p. 13-29. A dignidade humana como fundamento jurídico... 2 5 fornecer os meios para fazer uma opção racional de caráter moral re- ferente à vida, saúde ou morte, em situações especiais, reconhecen- do que esta determinação terá que ser dialogada, compartilhada e decidida entre pessoas com valores morais diferentes (p. 16). Entre os meios oferecidos pela Bioética para resolver os pro- blemas morais na área da saúde está o principialismo ou bioética de princípios, sendo este "o método mais divulgado e aceito para o estudo e solução dos problemas éticos de caráter biomédico" (Clotet e Kipper, 1998, p. 45). O principialismo bioético nasce nos Estados Unidos, no final da década de 70, através de duas importantes publicações. Em 1978 é publicado o Relatório Belmont (Belmont Report), fruto da elaboração de 11 profissionais de diversas disci- plinas que faziam parte, na época, da Comissão Nacional para a Proteção dos Sujeitos Humanos da Pesquisa Biomédica dos EUA (id., ibid.). Esta comissão, que buscava respostas aos problemas éticos decorrentes dos avanços biomédicos, elaborou três grandes princípios que deveriam guiar as investigações com seres humanos e as ciências do comportamento e da biomedicina: (1) princípio do respeito às pessoas; (2) princípio da beneficência; (3) princípio da justiça (Gafo Fernández, 2000, p. 21). Entretanto, a maior expressão dos princípios bioéticos apare- ce um ano depois, em 1979, no livro Principies ofbiomedical ethics de Tom L. Beauchamp (1994)- que havia sido membro da refe- rida comissão - e James F. Childress. Nesta obra, os autores se referem a quatro princípios prima focid (1) princípio do respeito à autonomia; (2) princípio da não-maleficência; (3) princípio da beneficência e (4) princípio da justiça (id., ibid.). 3 Conforme Clotet e Kipper (op. cir.), o entendimento do caráter prima focie dos princípios bioéticos mostra a influência teórica da obra do filósofo William David Ross através de sua teoria dos deveres prima focie ou deveres num primeiro momento (conforme sua obra The right and the good. Oxford: Clarendon Press, 1930). Importa dizer que "o dever num primeiro momento ou numa primeira consideração não é um dever absoluto, mas simcondicional. Trata-se de um dever evidente e incontestá- vel. Entretanto, pode alguém, de repente, encontrar-se diante dois deveres num pri- meiro momento ou numa primeira consideração ao mesmo tempo. Diante do dile- ma, terá que decidir-se por um dos dois" (Clotet e Kipper, 1998, p. 45) . 26 Lívia Haygert Pithan O princípio da beneficência consiste na obrigação de pro- curar o bem do paciente. Como afirma Clotet (1997a), "o signi- ficado amplo e genérico de beneficência como obrigação de aju- dar os outros ou de procurar o seu bem é de grande atualidade". Tal princípio busca, primeiramente, "a promoção da saúde e a prevenção da doença e, em segundo lugar, pesa os bens e os ma- les buscando a prevalência dos primeiros" (Clotet e Kipper, 1998, p. 47). O princípio da não-maleficência se refere à obrigação dos médicos não causarem mal ou danos ao seu paciente. A origem de tal princípio está no Corpus Hippocraticum,' que fala do de- ver médico de não lesar ou danificar as pessoas, podendo-se dizer que "não causar prejuízo ou dano foi a primeira grande norma da conduta eticamente correta dos profissionais de me- dicina e do cuidado da saúde" (Clotet e Kipper, 1998, p. 47). Não prejudicar é diferente de não prodt,tzir benefícios, pois sempre estamos obrigados a não prejudicar os outros, mas nem sempre estamos obrigados a os beneficiar (Buisan Espeleta, 1996, p. 1 09-122). Entretanto, o princípio da não-maleficên- cia deve ser analisado juntamente com o princípio da benefi- cência (Clotet e Kipper, 1998, p. 48). O princípio da autonomia, que preconiza o respeito pelos atos e decisões de cada indivíduo, implica a responsabilidade das pessoas de decidirem por si mesmas, representando um direito do indivíduo enfermo e um dever de respeito pelo mé- dico - sendo o consentimento informado à expressão máxima desse princípio. A aplicação do princípio da autonomia no âm- bito do atendimento à saúde tende a horizontalizar a relação entre médico e paciente, pois o protege de tudo aquilo que possa limitar ou reduzir sua autonomia através de possíveis Conforme alertam Clotet e Kipper, o Corpus Hippocraticum é a denominação dada ao conjunto dos escritOs de tradição hipocrática, não sendo de auroria exclusiva de Hipócrates, como se lhe atribui . A dignidade humana como fundamento jurídico... 27 abusos de poder (Buisan Espeleta, 1996). 5 O princípio bioético da autonomia se vincula ao princípio da dignidade humana, aceitando que o ser humano é um fim em si mesmo, não somente um meio de satisfação de terceiros, comerciais, industriais, ou dos próprios profissionais e serviços de saúde. Respeitar a pessoa autô- noma pressupõe a aceitação do pluralismo ético-social, característico do nosso tempo (Fortes e Mufíoz, 1998, p. 57). O princípio bioético da justiça se relaciona com a justa dis- tribuição dos recursos destinados à saúde e depende da política sanitária adotada (Buisan Espeleta, 1996). Tal princípio diz res- peito à própria crise do Estado Liberal e ao advento dos direitos sociais, onde o direito à saúde adquire forte expressão como de- ver estatal. A saúde como dever do Estado e direito de todos, como consta na Constituição Federal de 1988 no seu artigo 196, dependerá de políticas públicas e de ações positivas. Assim, a dignidade humana passa a ser vista não mais apenas na sua di- mensão individualista, autonomista, mas também comunitária - onde surge o dever de proteção e assistência social.6 É preciso lembrar que tais princípios, por possuírem cará- ter de deveres prima facie, não são absolutos- e por isso devem ser interpretados e aplicados a partir de uma ponderação em relação aos demais. Daí dizer Vicente Barreto (1999), a partir de um enfoque jurídico da Bioética, que é necessário procurar uma integração dos princípios referidos, fazendo com que "a autonomia seja preservada, a solidariedade garantida e a justiça promovida". Nesse mesmo sentido, Franklin Leopoldo e Silva (1997, p. 9) afi rma que "de alguma maneira o limite da beneficência é a autonomia. Isto quer dizer que sempre que a beneficência ultrapassar os limites da consideração do paciente como sujeito individual se poderá falar em exorbitância ou extrapolação". Sobre os aspectos do direito à saúde no Brasil, a parti r de um prisma da justiça como eqüidade, ver artigo de Dodge, 1997. 28 Lívia Haygert Pithan Os princípios bioéticos aludidos, para Barreto, são os prin- cípios fundadores de um Biodireito na sociedade pluralista e democrática. Esses princípios, diz o jurista, "serviriam como inspiração na implementação de uma nova categoria de direitos humanos, que procura, precisamente, suprir essa lacuna ou vazio existente entre a esfera ética e as normas constitutivas do biodi- reito" (id., ibid.). A característica de indeterminação de respostas aos dilemas bioéticos se relaciona com o pluralismo moraF típico das socie- dades democráticas contemporâneas e apresenta desafios à inves- tigação do Direito, sendo necessária uma estratégia metodológica diferente das tradicionais (Sauwen e Hryniewicz, 1997, p. 28). A inadequação das fo rmulações jurídicas para lidar com os novos problemas trazidos pela Medicina avançada se justifica pelo legalismo8 manifesto pela predominante matriz teórico- jurídica, a qual Rocha denomina analítica," tendo como princi- pal referência a obra do fi lósofo do direito Hans Kelsen (1998). Esse enfoque busca o rigor teórico e lingüístico como critérios de cientificidade, pressupondo a possibilidade de um saber neutro e Usa-se o termo pluralismo com a conoração que a jurista Gisele C irradi no chama de "liberal", ou seja, para descrever a d iversidade de concepções individuais acerca do bem e da vida d igna que existe nas sociedades atuais. Vide Ci rrad ino, 1999, P· I. Conforme Judith Marrins-Costa, idenri fica-se como legalismo a concepção juríd i- ca derivada do cienri ficismo do século XVIII, vigoranre nos úl rimos 200 anos, e que "indica a pretensão de reduzir o fenômeno jurídico a uma de suas manifesta- ções - a lei de origem parlamenrar - fazendo crer à sociedade que, a cada novo problema, seria necessária a inrervenção auro ritária do legislador para fazer com que a nova realidade, saindo do obscuro campo do 'não-Direiro' fosse, assim, ju- risdicizada". Vide Marrins-Costa, 2000, p. 15 8. Ao analisar diferenres teorias jurídicas conremporâneas de acordo com seus crité- rios de cienrificidade dominanres, Rocha observa três grandes matrizes jurídico- epistemológicas para o direiro, quais sejam, a matriz analítica, a hermenêutica e a pragmático-sistêmica. Em sua obra, é enfatizada a aptidão da verrenre sistêmica em lidar com as complexidades do mundo conremporâneo, a exemplo do trabalho do sociólogo alemão Niklas Luhmann (Vide Rocha, 1999). Não se privilegia aqui o enfoque propriamenre sistêmico, na visão luhmanniana. Para uma incursão pela bioética a parrir das idéias de Luhmann, ver a obra Bioetica neLla prospettiva deL/a filosofia de! diritto, do italiano filósofo do d ireiro Francesco d 'Agosrino (1998) . A dignidade humana como fundamento jurídico... 29 puro- isento de "interferências" advindas do senso comum (Ro- cha, 1997, p. 19). Conforme os esclarecimentos de Warat (1995, p. 290), Kelsen pretende constituir um conhecimento específico e puro para a ciência do Direito, sem interferências éticas, ideológicas e políti- cas, e sem influências distorcidas das ciências da natureza, o que não deixa de ser uma ilusão epistemológica. Entretanto, é fundamental contextualizar o pensamento des- se filósofo, que elaborou sua obra na tentativa de fundamentar o direito como ciência, mas tomou como padrão o ideal científico positivista.'0 O ideal positivista da ciência origina o que o sociólo- go português Boaventura de Souza Santos (1989, p. 34) chama de "paradigma daciência moderna", que se constitui contra o senso comum e recusa orientações para a vida prática. Trata-se de um paradigma que se orienta pelos princípios da racionalidade fo rmal, isentando a ciência da responsabilidade ética e social pela aplica- ção do conhecimento que produz. O paradigma da ciência moderna, segundo Santos (op. cit., p. 34), "pressupõe uma única forma de conhecimento válido, o conhecimento científico, cuja validade reside na objetividade de que decorre a separação entre teoria e prática, entre ciência e ética". A distinção entre natureza e sociedade, ocorrida no paradigma da ciência moderna, procura criar um conhecimento capaz de ins- trumentalizar e controlar a natureza, exercendo sobre ela um poder arbitrário, ética e politicamente neutro (id., ibid., p. 66). Boaventu- ra Santos defende uma evolução desse modelo científico, mostran- do a importância em estabelecer uma nova relação entre ciência e 1 ° Conforme Alan Chalmers, a concepção científica positivista busca uma caracteri- zação geral, universal e a-histórica da ciência, d istinguindo-a do discu rso metafísico e religioso. Essa concepção científica teve seu ponto alto no movimento do positi- vismo lógico, que floresceu em Viena, na Ausrria, nas décadas de 1920 e 1930. En- tretanto, encontram-se nas obras de Francis Bacon, René Descartes e Immanuel Kant precursores dos esforços para elaborar uma explicação geral da ciência e seus métodos. É de notar, com Chalmers, que "os detalhes da concepção de ciência ofe- recidos pelos positivistas foram rejei tados ou radicalmente alterados nas últimas décadas" . Vide Chalmers, 1994, p. 14. 30 Lívia Haygert Pithan senso comum. Segundo ele, estamos nos encaminhando para "uma nova configuração do saber que se aproxima da phronesis aristotéli- ca, ou seja, um saber prático que dá sentido e orientação à existên- cia e cria o hábito de decidir bem" (id. ibid., p. 41). A Bioética dá exemplo de um novo tipo de racionalidade que vem sendo aplicado na medicina, não mais pautado apenas por critérios tecnicistas. Ainda sobre a recepção teórico-jurídica da bioética, cabe co- mentar a existência de algumas publicações recentes defendendo o surgimento de uma nova disciplina (o Biodireito), destinada a abordar juridicamente a temática da Bioética. " O Biodireito seria "o estudo jurídico que, tomando por fontes imediatas a bioética e a biogenética, teria a vida como objeto principal" (Diniz, M. H., 2001, p. 8). É importante desde já alertar para que esse novo cam- po temático jurídico não repita os postulados epistemológicos posi- tivistas, sendo oportuno enfatizar, conforme Reinaldo Pereira e Silva (2000, p. 255), que "a originalidade do Biodireito está no re- conhecimento de que a dimensão operacional do Direito não deve se nortear, pura e simplesmente, pelo critério de validade formal" . Entretanto, entre as obras pioneiras de nosso país sob a de- nominação de Biodireito12 ainda não se encontram explícitos os pressupostos epistemológicos deste novo campo de estudos - os quais ainda estão em plena fase de formação e de amplos questio- namentos. Uma dificuldade na configuração de um Biodireito na atualidade se expressa nas palavras de Maria Cláudia Crespo Brauner (1999), ao afirmar que "as novas leis que organizam os diversos temas da biomedicina ainda não fazem parte de um con- JUnto coeso e coerente, mesmo que se possa admitir que certas legislações tenham avançado neste sentido". 11 Quais os temas da bioética? Ao traçar exemplificativamente o campo temático de assuntos bioéticos, Clotet (1993a, p. 14) afi rma que "a bioética ocupa-se princi- palmente, dos problemas éticos referentes ao início e fim da vida humana, dos no- vos métodos de fecundação, da seleção de sexo, da engenharia genética, da mater- nidade substitutiva, das pesquisas em seres humanos, do transplante de órgãos, dos pacientes terminais, das formas de eutanásia, entre outros temas atuais". 12 SÁ, Elida, 1999; SÁ, Maria de Fátima Freire de, 2000; DINIZ, Maria Helena, 200 I; Sauwen e Hryniewicz, 1997. A dignidade humana como fundamento juridico. .. 31 Entretanto, independentemente da ausência de leis e estudos mais rigorosos sobre a configuração de novas metodologias para investigar juridicamente os temas bioéticos, é inegável a influência de características próprias da Bioética no surgimento de novos direitos. Juristas brasileiros como José Alcebíades de Oliveira J r. (2000, p. 166) e Vicente Barreto (1994) fazem alusão a concep- ção das dimensões ou gerações de direito para se referir aos novos direitos provenientes dos avanços científicos. Conforme Norberto Bobbio (1992, p. 6), após os direitos políticos e civis, que seriam direitos de primeira geração, dos direi- tos sociais ou de segunda geração e dos direitos ecológicos, cha- mados de terceira geração, aparece um novo conjunto de direitos - aqueles decorrentes das demandas por limitação do poder do homem sobre o homem, poder este surgido do progresso técnico das ciências biomédicas. Porém, observa-se atualmente uma fase de adaptação do meio jurídico às discussões transdisciplinares, antes mesmo do surgimento dos tais novos direitos. O jurista norte-americano Alexander Morgan Capron fala que a Bioética tem influenciado o Direito, seu desenvolvimento e métodos de análise dos casos. Segundo Capron (1995), pode-se dizer que os dilemas éticos envolvendo dramas humanos relacio- nados com as ciências da vida têm auxiliado a humanizar as dis- cussões jurídicas além de mostrar as limitações dos tradicionais institutos jurídicos para solucionar casos bioéticos. A idéia de que as decisões envolvendo temas da Bioética de- vam ser tomadas a partir de uma visão transdisciplinar do conhe- cimento tem sido manifestada por alguns juristas, ao constatarem a inadequação de manifestações unilaterais sobre assunto de ta- manha complexidade. Consoante Sueli Dallari, Antonio Carlos Mendes e Jefferson Silva (1999), seria adequada uma incorpora- ção dos princípios da bioética como princípios de Direito, pois a crescente presença de questões relacionadas à bioética em nossos fóruns e tribunais evidencia a necessidade de interatividade entre os operadores do direito, da saúde e representantes da sociedade civil, da qual certamente surgirão as melhores soluções para problemas tão complexos (p. 225). 32 Lívia Haygert Pithan A autoridade dos princípios bioéticos no meio jurídico brasi- leiro já pode ser encontrada através de manifestação legislativa, na Lei de Biossegurança, nº 8.954/95, que veio regulamentar as normas para o uso de técnicas de engenharia genética e liberação no meio ambiente de organismos geneticamente modificados e autorizar a criação da CTNBio- Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tec- nologia. Essa lei, em seu artigo 8º, menciona a importância em respeitar os seguintes princípios éticos: o princípio da autonomia e princípio da beneficência (inciso III), princípio da responsabilida- de e princípio da prudência (inciso V). A referida Lei de Biossegurança, sem entrar no mérito de seu conteúdo, consiste em um marco no surgimento e desenvolvi- mento de um biodireito ao fazer referência aos princípios bioéti- cos, como os da autonomia e beneficência. Os princípios éticos da prudência e da responsabilidade, igualmente incluídos na lei, ino- vam as possibilidades de interpretação jurídica, ao mostrar a im- portância da noção de limites na aplicação do conhecimento das ciências da vida. Portanto, pode-se dizer que o Direito brasileiro já tem afirmado que nem tudo aquilo que a ciência tem possibili- dade de executar é considerado juridicamente permitido. '3 Uma questão que surge nessa linha de raciocínio é saber se na assistência médico-hospitalar de pacientes em final de vida é possívelproceder à interpretação análoga: será juridicamente exi- gível aos médicos a oferta indiscriminada de todos os recursos terapêuticos que a tecnologia disponha, independente dos benefí- cios gerados ao paciente? Pode-se afirmar que o Direito, priori- zando os princípios da prudência e da autonomia, permite que o paciente recuse receber tratamento médico extraordinário ou fútil no final de sua vida? Conforme nos manifestamos em outra ocasião, "ainda é muito discutível do ponto de vista ético e legal se o médico deve fazer uso de toda a tecnologia de que disponha, mesmo que de 13 A exemplo da vedação expressa da manipulação de células germinativas e clonagem humana, através instrução normativa da CTNBio, nº 08/97, artigo 2º. A dignidade humana como fundamento jurídico... 33 modo desproporcional aos resultados esperados" (Pithan, 1999). Entretanto, diversos estudiosos têm se manifestado sobre o assun- to, considerando não ser moral ou legalmente obrigatório14 uma intervenção médica excessiva e desnecessária. Exemplo prático da prudência médica em aplicar os recursos terapêuticos são as "or- dens de não-reanimação", como veremos de agora em adiante. 1.2 As "ordens de não-ressuscitação": estratégia de conduta médica frente aos pacientes irreversíveiS15 Sabe-se que, atualmente, aproximadamente 80% dos cida- dãos norte-americanos morrem em hospitais. 16 O avanço da tec- nologia aplicada à medicina intensiva propicia prolongamento do processo de morrer dos doentes, independente da qualidade de vida dos mesmos. Os próprios médicos têm entendido que fazem uso abusivo dos recursos terapêuticos de que dispõem, sem que haja benefício para os pacientes (Kipper et al. , 2000). 14 Sobre as semelhanças e diferenças entre obrigação moral e obrigação legal, ver o trabalho de Marco Azevedo (2000, p. 277), onde afirma que "se deixarmos de lado a suposição [ ... ) questionável dos positivistas de que moral e D ireito correspondem a domínios de argumentação completamente independentes, então fa lar em obri- gações é algo que diz respeito tanto à moralidade polltica como ao D ireito. Nesse âmbito, a referência marcante dos principialistas a princípios morais prima focie obrigatórios fa ria sentido não apenas no contexto de considerações morais como também no contexto de considerações de importância jurídica". 15 O termo "irreversível'' é aqui utilizado para se referir tanto aos pacientes terminais quanto aos pacientes em estado vegetativo permanente, devido a ambos terem em comum o caráter de irreversibilidade. Paciente terminal é aquele que irá morrer, independente de ser ou não tratado, num período relativamente curto de tempo (de três a seis meses). O estado vegetativo permanente é um prognóstico de doen- tes em estado de inconsciência irreversível. Neste sentido, ver Kipper et al., 1999. 16 President's Commission for the Study of Ethical Problems in Medicine and Bio- medical Research. Deciding to forego life-sustaining treatment. Wash ington: Gov- ernment Printing Office, 1983, p. 17. Apud Clotet, 1993b. 34 Lívia Haygert Pi than Nesse cenário começam a aparecer condutas médicas que vi- sam inverter essa situação de obstinação terapêutica - onde a tecno- logia é quem dá os limites do tratamento e não o bom senso ou a prudência. Cabe expor, inicialmente, no que consistem as "ordens de não-ressuscitação" (ONR) a partir de sua descrição conjunta com outras situações análogas que precedem diferentes tipos de mortes em pacientes de unidades de terapia intensiva dos hospitais. Formas de morrer em UTis 1. Morte encefálica A morte encefálica na verdade não é um modo de morrer, mas um diagnóstico, que é sinônimo de morte." 2. Suporte e ressuscitação A morte ocorre apesar de ter sido oferecidos todos completa os recursos terapêuticos disponíveis, incluindo a ressuscitação cardiopulmonar (RCP). 3. Não-oferta de ressuscitação São oferecidos todos os recursos terapêuticos cardiopulmonar (RCP) após disponíveis, mas se ocorrer uma parada uma ordem de não-reanimação cardiorrespiratória espontânea, o paciente (ONR) não é reanimado. 4. Não-oferta de suporte vital É tomada a decisão de não instituir uma terapia medicamente apropriada e potencialmente benéfica, com entendimento que o paciente provavelmente irá morrer sem a terapia em questão. 5. Retirada de suporte vital É tomada a decisão de cessar ou retirar uma terapia médica já iniciada com a intenção explícita de não substituí-la por uma terapia alternativa equivalente. Sabe-se de antemão que o paciente irá morrer em virtude dessa decisão. Dados de autoria de Délio Kipper et ai., 1998, p. 262. 17 Em 1968 um comitê ad hoc da Faculdade de Medicina da Universidade de Har- vard, nos EUA, recomendou como definição de morte a cessação de todas as fun- ções cerebrais. Os estados norte-americanos, pouco a pouco aceitaram a morte ce- rebral como definição legal de morte, reforçados pela influência de Comissão Pre- sidencial que formulou a Uniform Determination of Death Act em 1981. Hoje os 50 estados americanos mais o Distrito de Columbia aceitam a morte encefálica como critério de morte. Nesse sentido, ver Angell, 1994. No Brasil, a Resolução nº 1.480/97 do Conselho Federal de Medicina, assim como a Lei nº 9.434/97, es- tabelece a morte encefálica como critério de morte em nosso país. A dignidade humana como fundamento jurídico.. . 35 Médicos intensivistas, preocupados com a aplicação etica- mente correta de seus conhecimentos, têm assumido uma postu- ra que promove e prioriza o conforto do paciente que vai mor- rer, buscando diminuir seu sofrimento (id., ibid.). Esta postura está de acordo com as novas metas da medicina atual, que assu- me o dever de cuidado quando o doente não pode mais ser curado. 18 Nesses casos de irreversibilidade, não deixa de haver assistência médica, ocorrendo apenas um exercício de prudência na escolha dos meios terapêuticos apropriados. Em um projeto internacional de iniciativa do Hastings Center, coordenado por Daniel Callahan, envolvendo 14 países diferentes e tendo como auxiliares oficiais da OMS (Organiza- ção Mundial de Saúde) foram estabelecidos novos objetivos da medicina contemporânea, quais sejam: (1) prevenção da doença e do dano; promoção e manutenção da saúde; (2) alívio da dor e do sofrimento causado pelas doenças; (3) cura e cuidado dos doentes, e cuidados para aqueles que não podem ser curados; (4) evitar a morte prematura e procurar a morte tranqüila (id., 'b'd) 19 1 1 .. Neste sentido, é oportuna a referência ao trabalho de Léo Pessini, que fala de paradigmas na assistência médica: o da cura e o do cuidado. O paradigma da cura vê a morte como um inimi- go a ser vencido, usando o poder da tecnologia médica para pro- longar uma vida artificial independente de sua qualidade. Se- gundo Pessini (1996), este enfoque não percebe que a responsa- bilidade de curar termina quando os tratamentos se esgotam. Já sob o paradigma do cuidado, percebe-se que quando a terapia médica não consegue mais atingir os objetivos de preser- var a saúde ou aliviar o sofrimento, novos tratamentos tornam-se 18 Neste sentido, vide Hastings Center. 1996. 19 Morte tranqüila consiste naquela "em que a dor e o sofrimento são minimizados por paliação adequados, na qual os pacientes não são abandonados ou negligencia- dos, e na qual os cuidados com aqueles que não vão sobreviver são avaliados tão importantes como aqueles dispensados a quem vai sobreviver". As traduções aqui utilizadas são da autoria de Carlos Fernando Francisconi (200 I). 36 Lívia Haygert Pithan uma futilidade ou peso: surge então a obrigação moral de parar o que é medicamente inútil e intensificar os esforços no sentido de amenizar o desconforto do morrer (id., ibid.). Sob o ponto de vista médico, Jefferson Piva afirmaque existe um momento na evolução de uma doença que, mesmo que se utilizem todos os recursos terapêuticos disponíveis, o pa- ciente não é mais "salvável". A partir deste momento, em que é detectada a impossibilidade de cura ou de inversão de expectati- vas, sendo a morte inevitável, os tratamentos mais agressivos - como a ressuscitação cardiopulmonar, por exemplo - apenas prolongam o lento processo de morrer (Piva, 1993). Estabeleci- do o prognóstico do paciente, a escolha entre os recursos tera- pêuticos disponíveis irá depender da finalidade que se reveste a assistência médica em cada caso, se é curar ou cuidar. Neste contexto é que se costuma fazer referências à adequa- ção dos recursos terapêuticos, chamando-os de ordinários ou extraordinários, proporcionais ou desproporcionados, úteis ou fúteis (Kipper et al., 2000). Esta classificação julga os tratamen- tos médicos a partir de critérios não só técnicos, mas também éticos, avaliando o benefício que podem causar ao paciente.10 Um dos recursos terapêuticos que, em alguns casos, tem si- do julgado desproporcional aos benefícios causados, é a ressusci- tação cardiopulmonar.1 ' Este procedimento, quando utilizado como socorro avançado, se dá através do uso de equipamento especializado, buscando-se evitar uma morte prematura e inespe- rada através da tentativa de reverter uma parada cardiorrespirató- ria (id., ibid.). 20 Os adjetivos extraordinário, desproporcional ou fútil são aqui usados como sinô- nimos para descrever tratamentos médicos ou recursos médico-terapêuticos que não beneficiam o paciente (Vide Mora, 1999). Mostrando a importância nos valo- res do paciente para avaliar o que é um tratamento fútil, ver Yougner, 1988. 11 Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (op. cit.), podem ser usados como sinônimos, de forma correta: ressuscitação cardiopulmonar, ressuscitação cardior- respiratória, reanimação cardiorrespi rarória cerebral. A dignidade humana como fundamento jurídico... 37 Por ser considerada medida de urgênci.:t, a ressuscitação cardiopulmonar é iniciada sem a ordem de um médico12 e tem o consentimento presumido do paciente, mas esta presunção deve ser questionada nos casos em que há possibilidade de discussão com paciente e familiares (Hastings Center, 1987, p. 49). Como outros recursos terapêuticos da medicina, a ressuscita- ção tem indicações e também contra-indicações específicas, não sendo aconselhável quando não há previsão de que o procedimen- to vá proporcionar benefícios ao paciente (Abdalla, op. cit.). Con- forme diretriz político-científica da Sociedade Brasileira de Car- diologia, não estão indicadas as manobras de ressuscitação nas seguintes situações: Nas condições de doenças irreversíveis, quando bem estabelecida a doença do indivíduo e o médico assistente encontra-se apto a afir- mar ser uma doença terminal. [ ... ] Na condição em que existam evidentes sinais de deterioração dos órgãos, caracterizando morte biológica (Sociedade ... 1996, p. 402; grifo nosso). Pacientes irreversíveis e pacientes terminais são conceitos que podem abarcar diversas e distintas situações clínicas, cabendo aos médicos delimitar- conforme a conduta standard no meio cientí- fico. Importa dizer, conforme Kipper, que se houver dúvidas quanto ao diagnóstico e o prognóstico do paciente, nenhuma decisão de não oferecer todos os recursos terapêuticos disponíveis deve ser tomada, mesmo a pedido do paciente ou seu represen- tante.23 A ressuscitação cardiopulmonar, mesmo quando tecnica- mente inadequada, só deve ser recusada por ordem expressa do médico e em respeito à vontade do doente e/ou familiares (Socie- dade ... , op. cit.). Note-se que, mesmo quando comprovada a ine- ficiência técnica do procedimento, os aspectos éticos da assistência médica contemporânea impõem haver consenso para não se ofe- recer recurso terapêutico. 22 Neste sentido, vide Abdalla, 200 1. 23 Conforme Kipper et al., o prognóstico é elaborado através de dados estatísticos com os quais se faz uma estimativa da probabilidade de desfecho futuro do paciente. 38 Lívia Haygert Pithan A autonomia do paciente, que pode ser manifestada dire- tamente ou através de seus representantes, deve ser respeitada na decisão de não ser submetido à reanimação fútil no caso de pa- rada cardiorrespiratória eventual. Recomenda-se a discussão dos médicos com o paciente ou seus familiares para que seja possível proceder a uma "ordem de não-reanimação". A referida diretriz aconselha que seja discutida com os familiares e, eventualmente, até com o pacien- te, a obtenção e a ordem expressa de não ressuscitar. Obtida a ordem por expresso, o eventual socorrista, seja no ambiente hospitalar ou não, estará autorizado a não proceder a uma ressuscitação ou, até mesmo, interrompê-la (Sociedade ... , 1996). As "ordens de não-reanimação" consistem em uma forma de manifestação prévia do doente, onde este tem oportunidade de expressar antecipadamente sua vontade sobre o modo como deseja ser tratado em situações de enfermidades irreversíveis. O objetivo das decisões antecipadas, conforme Clotet (1993b), é permitir ao paciente "antecipar o exercício da autonomia indivi- dual àquelas situações nas quais essa não poderia ser diretamente exercitada". Luis Antonio Abdalla (op. cit.) adverte a forma de proceder nesses casos, afirmando que a ordem de não ressuscitar deve vir escrita no prontuário do paciente, pois caso contrário a ordem verbal pode ser mal interpretada e inclusive comprometer legal- mente os médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Essas ordens expressas são usuais no ambiente hospitalar norte- americano. A Arnerican Heart Association afirma que "tanto ética como legalmente, é permissível não iniciar ou interromper a RCP nessas circunstâncias", ou seja, onde houver ordens ex- pressas de não-reanimação. '4 24 Alguns tribunais norte-americanos chegam a considerar essas diretrizes da Ameri- can Heart Association como padrão nacional de cuidados nos EUA, pois a definição de ações consideradas como má prática médica freqüentemente dependem de de- terminação do padrão de cuidados de referência. Vide Chalmeides e Hazinski , 1997, p. 6. A dignidade humana como fundamento jurídico... 39 Esta associação médica aconselha a adoção, pelos hospitais, de planos de ação formais e diretrizes para as ordens de não res- suscitar. É de ressaltar a necessidade de que estas ordens sejam escritas no prontuário médico, acompanhadas por explicações quanto às razões da decisão e pela identificação dos participantes no processo de tomada de decisão. 25 É importante notar que as ordens de não-reanimação não implicam abandono aos cuidados básicos necessários aos doen- tes. O que ocorre é que, na medida em que o paciente é conside- rado incurável, os recursos terapêuticos ordinários (destinados ao "cuidado") se sobrepõem aos extraordinários (destinados à " ") 26 A . cura . ss1m, a ordem de não ressuscitar significa apenas que a ressuscitação cardio- pulmonar não deverá ser iniciada, mas isso não implica que outros cuidados médicos e de enfermagem apropriados não devam ser reali- zados. Para muitos pacientes, certas intervenções para o diagnóstico e o tratamento são apropriadas mesmo após ter sido escrita a ordem de não ressuscitar. [ ... ] Cuidados básicos de enfermagem, higiene oral, cuidados com a pele, posição do paciente, e medidas para aliviar a dor e outros sintomas devem ser mantidos (Abdalla, 200 1). 25 "A American Medicai Association declarou que os médicos não têm obrigação de proporcionar rratamento inút il. Ass im, as ordens de não ressuscitar são freqüe nte- mente apropriadas para pacientes irreversivelmente doentes, quando a ressusci ração meram ente prolongaria o processo de morte. O reconhecimento de que os médicos não têm obrigaçãoética ou legal de proporcionar rratamento fúti l, levou à conside- rável controvérsia a respeito do signi ficado do te rmo 'fútil ' e suas implicações, em tomadas de decisão unilaterais feitas pelos médicos. As d iretrizes atuais [ ... ] acaute- lam contra as decisões unilaterais dos médicos, quando juízos de valor significati- vos são feitos sobre importantes objetivos da terapêutica, do ponto de vista do pa- ciente." Vide C halmeides e H azinski, 1997, p. 7. 16 Conforme entendimento de Piva, ao falar que o princípio da não-maleficência se sobrepõe ao princípio da beneficência em pacientes com morte inevitável e sem perspectiva de inversão de expectativas de diagnóstico e prognóstico. Portanto, a obrigação de não fazer o mal é mais importante, nessas situações, do que promover o bem (que já não é mais possível). Daí d izer-se que a eutanásia é eticamente ina- dequada (pois se estaria violando o princípio da não-maleficência) enquanto "dei- xar morrer" não. O ato de não rean imar paciente irreversível não viola nenh um princípio b ioético, havendo mera priorização da autonomia e da não-maleficência. Vide Piva, 1993. 40 Lívia Haygert Pithan No meio médico brasileiro não existem políticas institucio- nais hospitalares de não-ressuscitação e raramente se encontram "ordens de não ressuscitar" formalmente registradas nos prontu- ários (Piva, 1993). Porém, é sabido que a não-reanimação é prá- tica corrente em nossos hospitais, embora de forma velada. 17 Segundo pesquisa realizada no Instituto da Criança, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), foi constatado que "ordens de não- reanimação" são realizadas sem haver registro nos prontuários dos pacientes, por receio das conseqüências legais (Torreão et al., 2000). A conseqüência acaba sendo paradoxal: os médicos come- tem um ato ilícito (falsidade ideológica) por medo de serem pro- cessados por um ato que teria respaldo jurídico (a não- reanimação), desde que tomado de acordo com a vontade do paciente ou seus representantes. 28 Porém, é justamente a omissão de registro nos prontuários que não permite saber se esta vonta- de foi ou não respeitada. Terá havido consentimento da "ordem de não ressuscitar"? Terá havido verdadeira recusa da ressuscita- ção?29 27 Ver resultados da pesquisa de Lara Torreão (2000). No mesmo sentido, mas falan- do da realidade argent ina, Florência Luna afirma que as ordens de não-rean imação são uma prática escondida e arb itrária a respeito dos lim ites terapêuticos nas uni- dades de terap ia intensiva na Argentina: co nsistem em uma realidade de fato , em- bora não existam por escrito, sendo uma prática habitual que decorre de um aco r- do verbal. A autora lamenta este "doble estándar o doble moral: una posición muy restrictiva ellos proyectos de ley y una práctica que se gula por el sentido común y, en ocasiones, la arb itrariedad." Vide Luna et al., 1998, p. 239. 28 Esta é a tese que aqui se defende: a limitação dos recursos terapêuticos excessivos é justificável a partir do ordenamento jurídico constitucional brasileiro, desde que seja respeitada a autonomia do paciente através de manifestação de sua vontade ou de seus representantes. Porém, não se justificam decisões arbitrárias tomadas pelos médicos, desconsiderando os interesses e valores do paciente. 19 Vearch considera problemático o termo "ordens de não-ressuscitação,. Ele ques- tiona: deve haver consentimento para "não ressuscitar" ou deve haver recusa da ressuscitação? Ele prefere se referir a decisões em que os pacientes ou seus represen- tantes consentem ou recusam o procedimento médico da ressuscitação (Vearch, 1991, p. 248). A dignidade humana como fundamento jurídico. .. 41 Conforme o tradicional modelo de assistência à saúde, basea- do na ética hipocrática, o médico era quem determinava, unilate- ralmente, no que consistia o bem do paciente. Já na atualidade, está surgindo e tomando força a percepção da relação médico- paciente como uma instância de parceria (Veatch, 1991, p. 65). O Juramento de Hipócrates, que espelha a moral médica do período clássico da cultura grega na Antiguidade e tem como re- gra básica o princípio da beneficência (Fortes e Mufioz, 1998), consiste no primeiro testemunho da consciência da medicina quanto às implicações éticas da profissão (Gafo Fernández, 2000, p. 11) . Este juramento "faz parte do chamado Corpus Hippocrati- cum ou conjunto de escritos atribuídos àquele que é classificado, com razão, como o pai da medicina" (id., ibid.). A principal crítica que se costuma fazer ao modelo hipocráti- co diz respeito ao seu caráter paternalista: a posição hierarquica- mente superior do médico supunha a sua decisão como a mais adequada ao doente. A relação entre médico e paciente era vertica- lizada "como a que um pai poderoso e bondoso estabelece com um filho menor de idade" (id., ibid.). É recente a superação do modelo hipocrático de atendimen- to médico. Na década de 70 o movimento pelos direitos dos pa- cientes nos EUA manifesta reivindicações por uma relação mais igualitária na área da saúde. No ano de 1973 a Associação Ameri- cana dos Hospitais aprova um documento denominado a A Pati- ent's Bill of Rights, que origina outros documentos semelhantes, em favor dos direitos dos pacientes, em diversos países.30 Um dos fundamentos das cartas de direitos dos pacientes é o conceito de consentimento esclarecido, atualmente mais divulga- do sob a denominação de consentimento informado.31 Conforme Clotet, a noção do consentimento informado na assistência médi- 3 ° Fortes e Muiíoz, 1998. Nesse mesmo sentido, ver também Macklin, 1995, p. 2310-2316. 31 Conforme Clotet (2000b, p. 11), usa-se os termos "consentimento pós-informa- ção", "consentimento consciente", "consentimento esclarecido", "consentimento livre e esclarecido" e "consentimento informado", não havendo uniformidade en- tre autores de língua portuguesa na tradução do termo inglês "informed consent". 42 Lívia Haygert Pithan ca consiste em uma condição indispensável da relação médico- paciente e da pesquisa em seres humanos, tratando-se de uma decisão voluntária, verbal ou escrita, protagonizada por uma pessoa autônoma e capaz, tomada após um processo informativo, para a aceitação de um tratamento específico ou experimentação, consciente de seus riscos, benefícios e possíveis conseqüências (Cio- tet, 2000b). No caso de pessoa incapaz, quando impossibilitada de mani- festar sua vontade, o consentimento informado deve ser dado por um familiar em linha direta ou por um responsável legal (Clotet, 2000b, p. 16). É inegável a importância dada aos direitos dos pacientes através da institucionalização desse instrumento, legiti- mador do ato médico e da experimentação humana.3' Na medida em que o consentimento informado encontra seus fundamentos na Declaração Universal dos Direitos Huma- nos da ONU, de 1948 (id., ibid.), pode-se dizer que ele tem plena força legal no ordenamento jurídico brasileiro, pois a Constituição Federal de 1988 positivou todos os direitos elencados pela referida carta (Cittadino, 1999, p. 12). Significa dizer que Todo paciente tem o direito à inviolabilidade de sua pessoa, poden- do escolher o tipo de tratamento, dentre as alternativas oferecidas. A interferência neste direito pode ser considerada uma invasão corpo- ral ou agressão não autorizada. O consentimento informado justifi- ca-se pelo direito da autonomia (Ciotet, 2000b, p. 21). A partir dessa valorização e importância jurídica do consen- timento informado é que os entendimentos atuais sobre opção terapêutica não repousam mais apenas em aspectos de eficácia técnica. Os valores do doente devem ser considerados e respeita- dos nas decisões médicas. Assim, Robert Veatch (1991, p. 65) afirma que a melhor forma do médicobeneficiar o seu paciente é fazer aquilo que ele- paciente- acredita ser seu melhor interesse. Todavia, o consentimento informado encontra limites jurídicos, os quais serão tratados em outro momento. 31 "O consentimento informado obtido de forma correta legitima e fundamenta o ato médico ou de pesquisa como jusro e correto" (Clorer, 2000b, p. 27). A dignidade humana como fundamento jurídico.. . 43 A ressuscitação de um paciente pode ser comparada a qual- quer outro procedimento médico, e por isso requer consenti- mento do paciente ou de seu representante (id., ibid., p. 48). Entretanto, a despeito das considerações feitas até agora sobre a adequação técnica e ética da não-oferta terapêutica em final de vida, permanecem dúvidas terminológicas que devem ser diri- midas. Consiste em eutanásia a não-reanimação de paciente irre- versível? Pode-se distinguir eticamente o ato de aplicar uma inje- ção letal em um paciente terminal para apressar sua morte de uma não-reanimação? O que os juristas dedicados nessa temática têm entendido sobre a diferença entre "matar" e "deixar mor- rer"? Pode-se afastar o rechaço à obstinação terapêutica do âmbi- to jurídico-penal? 1.3 A eutanásia como questão conexa à limitação médico-terapêutica: alguns aspectos jurídico-penais Para delimitar o tema da presente investigação, há que se distinguir as situações que caracterizam limitação médico-tera- pêutica33 daquilo que se considera por eutanásia. Aqui se preten- de brevemente expor as distinções terminológicas que rodeiam o assunto, justificadas pelas concepções éticas privilegiadas, a fim de tratar porque a não-oferta de recursos terapêuticos extraordi- nários- como as "ordens de não-reanimação"- não diz respeito ao âmbito jurídico-penal. 33 Fala-se aqui em "limitação médico-terapêutica, para se referir às estratégias médi- cas de não oferecer ou retirar recursos terapêuticos considerados fúteis , despropor- cionais ou extraordinários. Em outras palavras, trata-se da limitação do uso de re- cursos médicos que apenas prolongam o processo de morrer, quando o paciente não pode mais ser salvo ou curado. 44 Lívia Haygert Pithan O renovado interesse pela abordagem teórica do tema da eutanásia reflete novos contornos para um velho tema jurídico que constantemente vêm à tona. Recentemente a questão ga- nhou espaço na imprensa a partir da aprovação de um projeto de lei pelo senado holandês, legalizando sua prática.34 A legalização da eutanásia na Holanda, em abril do ano de 2001, estimulou as discussões sobre eventual descriminalização e regulamentação dessa forma de morte em outros países do mundo (Misseroni Raddatz, 2000). Porém, uma situação delicada na atual idade não consiste na eutanásia propriamente dita, mas justamente nas decisões que aceitam limites nos tratamentos médicos que apenas pro- longam o processo lento e sofrido de morrer (Pessini, 1996). Entretanto, é preciso abordar as imprecisões conceituais que envolvem o termo eutanásia. Há um freqüente mal-entendido em torno das conotações da palavra eutanásia, o que desvirtua o enfoque da discussão. Muitas vezes se defende a eutanásia com o objetivo de rejeitar a idéia de obstinação ou excesso terapêutico.35 A palavra eutanásia atualmente é entendida a partir do contexto médico, como toda ação ou omissão de um cuidado devido, necessário e efi- caz, tendente a produzir deliberadamente a morte do doente terminal, com o fim de eliminar o sofrimento (Misseroni Rad- datz, 2000). 34 Devido às sutilezas envolvendo as diferentes situações conexas à eutanásia, algumas publicações da imprensa não distinguem essa prática do rechaço à obstinação tera- pêutica. Ass im, utilizam-se equivocadamente argumentos em defesa da eutanásia no intuito de legitimar a aceitação de limites terapêuticos. Vide Burgierman, 200 I , e Zaidan, 2001. 35 Montero, 200 I. Conforme Pessini (1996, p. 32), "A expressão 'obstinação tera- pêutica' (l'acharnement thérapeutique) foi introduzida na linguagem médica france- sa por Jean-Roberr Debray, no início dos anos 50, e foi definida como sendo 'o comportamento médico que consiste em utilizar processos terapêuticos cujo efeito é mais nocivo do que os efeitos do mal a curar, ou inútil, porque a cura é impossí- vel e o benefício esperado, é menor que os inconvenientes previsíveis'." A dignidade humana como fundamento juridico... 45 O termo eutandsia passiva, que se refere à morte de paciente decorrente de uma omissão ou retirada de recurso terapêutico, muitas vezes é utilizado indiscriminadamente sem se avaliar a adequação do tratamento. Porém, há que se observar que em algumas situações os recursos terapêuticos são necessários, po- dendo trazer benefícios ao doente; já em outras situações, esses mesmos tratamentos não beneficiam o paciente, tornando-se desnecessários, desproporcionais ou fúteis. Portanto, em sentido rigoroso do termo, a eutanásia passiva consiste em situação em que o paciente morre em decorrência da omissão de um socorro necessário e devido (Ollero, 2001). Nes- se sentido explica Misseroni Raddatz (2000, p. 252): Respecto a la llamada eutanasia pasiva, es menester hacer una preci- sión: una cosa es provocar la muerte mediante la omisión deliberada de un cuidado debido, necesario y con sentido, y otra cosa es la omisión responsable de un cuidado extraordinario, no debido, no necesario y sin sentido. Assim, uma ordem de não-reanimação de um paciente po- de ou não ser considerada eutanásia passiva, dependendo da adequação do procedimento médico da ressuscitação cardiopul- monar ao caso em questão. 36 Essa adequação terapêutica não depende apenas de critérios técnicos, mas também de opções valorativas. Percebe-se que o tema trata de situações extrema- mente delicadas e complexas, onde existem múltiplas variáveis envolvendo a decisão.37 36 Exemplificando: a não-reanimação de um paciente terminal durante uma cirurgia onde a parada cardíaca é inesperada se configura eutanásia passiva, pois a ressusci- tação cardiopulmonar, nesse caso, é procedimento necessário e devido. Já a não- reanimação de um paciente em estado vegetativo permanente se configura prática adequada da medicina, pois a ressuscitação cardiopulmonar nessa situação é um recurso terapêutico ineficaz. 37 Devido à complexidade das situações possíveis, optamos restringir a investigação teórica a uma situação sem muitas variáveis, onde hipoteticamente não haja confli- to entre médico e paciente (ou familiares), supondo-se a decisão baseada no diálo- go e consentimento verdadeiramente informado. As formas de manifestação da vontade antecipada ou possíveis confl itos entre a vontade dos famil iares e a vonta- de dos médicos não serão questões privilegiadas, na tentativa de limitar o tema. 46 Lívia Haygert Pithan Uma nova terminologia tem sido adotada, a fim de evitar as ambigüidades que o uso do termo eutanásia proporciona: fala-se hoje em ortotanásia e distanásia. Eutanásia é o termo tradicional- mente conhecido, originado do grego significando boa (eu) morte (thdnatos). Já as duas outras palavras são neologismos recentes, também retirados do grego: a ortotanásia significa morte apropri- ada, correta, no tempo certo, sem cortes bruscos nem prolonga- mentos desproporcionais do processo de morrer. A distanásia, por sua vez, significa morte prolongada, de- formada, lenta e sofrida, onde a morte é dificultada em decor- rência de um excesso terapêutico, causando sofrimento ao pa- ciente.38 Consiste no oposto da eutanásia. Nesta última, abre- via-se a vida no sentido de evitar sofrimento, privilegiando-se a qualidade de vida. Na distanásia, prolonga-se a morte devido a uma postura vitalista, que supervaloriza o aspecto biológico da vida e privilegia a quantidade do tempo vivido - em detrimen- to da qualidade. Conforme LeonardM. Martin (1998, p. 180), a ortotanásia permite ao doente que já entrou na fase final de sua doença, e àqueles que o cercam, enfrentar seu destino com certa tranqüilidade porque, nesta perspectiva, a morte não é uma doença a curar, mas sim algo que faz parte da vida. Uma vez aceito este fato que a cultura ocidental moderna tende a esconder e a negar, abre-se a possibilidade de trabalhar com as pessoas a distinção entre curar e cuidar, em manter a vida- quando isso for o procedimento correto -e permitir que a pessoa morra- quando sua hora chegou. Defendendo as distinções morais entre eutanásia, distanásia e ortotanásia, Alastair Campbell critica autores que, para justificar a 38 Gafo Fernández, 2000, p. 91. No mesmo sentido, ver também Pessini (1996) e Marrin (1998). Optou-se utilizar as expressões limitação médico-terapêutica (que equivale à "orrotanásia") e obstinação terapêutica (que tem o mesmo significado de "distanásia"). Preferiu-se falar em limites/limitação ou em abuso/excesso/obsti- nação terapêutica para que a distinção entre esses tipos de morre e a "eutanás ia" fi- casse mais nítida, através de expressões auto-explicativas. Nessa linha de raciocínio, usando termos que se referem diretamente ao tipo de relação do médico com a tecnologia, pode-se afirmar que a "eutanásia passiva" consiste em negligência tera- pêutica- pois o uso dos tratamentos fica aquém do devido. A dignidade humana como fundamento jurídico.. . 4 7 eutanásia, buscam acabar com os limites éticos entre o homicídio e a não-oferta de tratamentos a partir de argumentos conseqüen- cialistas.39 Conforme Campbell (1999, p. 51), não podemos aceitar a suposição conseqüencialista de que somente os resultados por si só têm significado moral. Esta é uma moralida- de minimalista, do tipo que ignora tanto as intenções dos agentes relevantes como o contexto social das escolhas que estão sendo feitas no curso do tratamento médico de uma pessoa. Conforme Délio Kipper, é dever dos médicos aplicar seus conhecimentos para ajudar os pacientes a identificar e usar os melhores benefícios que as ciências da saúde lhe colocam à dispo- sição. Por outro lado, ressalta Kipper (1998)que esses benefícios não são avaliados apenas a partir da possibilidade de cura, mas também incluem, em alguns casos, a não-oferta ou a retirada de medidas de suporte vital. Interessante notar o pensamento vanguardeiro de estudos bioéticos de médicos como Délio Kipper, de acordo com os valo- res atuais da medicina - preocupada em aplicar seus conhecimen- tos com a devida prudência. A morte, para esse autor, não é vista como inimigo· a ser sempre vencido - o que corresponderia ao racionalismo técnico baseado no ideal de dominação da natureza. Numa visão de ciência eticamente responsável, a morte passa a ser vista como desfecho natural e inevitável, sendo muitas vezes inclu- sive bem-vinda. 40 39 O filósofo australiano Peter Singer é um destacado teórico defensor das idéias as quais Campbell critica. Singer considera que não existe nenhuma diferença moral intrínseca entre matar e de ixar morrer, pois em ambos os casos o resul tado será o mesmo: a morte do indivíduo. Vide Singer, 1994, p. 219. Também Trisrram Engelhardt (1996. p. 440), que argumenta no sentido de limitar a autoridade mo- ral dos Estados Democráticos em favor da autonomia dos indivíduos, considera que a distinção entre eutanásia ativa e passiva não tem nenhum significado moral. 4 ° Curioso notar, porém, que o fato da morte estar sendo mais bem aceita no meio médico não implica que o ato de abreviar a vida, pela eutanásia, seja tolerável. T ai prática é considerada inaceitável pela deontologia médica nacional e internacional, como veremos mais adiante. Assim, "matar" (eutanásia) é eticamente incorreto, ao passo que "deixar morrer" (ortotanásia) em alguns casos é considerado a decisão mais prudente. 48 Livia Haygert Pithan Entretanto, encarar a morte como um evento bem-vindo não parece idéia bem aceita dentro de um enfoque mais antigo do direito penal brasileiro. Nelson Hungria, um dos juristas responsáveis pela redação de nosso Código Penal, datado de 1940, escreveu um artigo no ano de 1954 condenando veemen- temente a ortotanásia. Este texto foi reproduzido em 1998 pela mesma revista jurídica em alusão histórica ao tema que ainda hoje provoca inúmeras controvérsias (Hungria, 1998). A opinião de Hungria, contudo, deve ser contextualizada sem esquecer que, ao longo dos 44 anos que se passaram entre a publicação original e a atual de tal artigo, muita coisa mudou no âmbito médico e no entendimento ético da aplicação dos conhecimentos científicos. O procedimento avançado da res- suscitação cardiopulmonar, por exemplo, só na década de 60 começou a ser empregado como rotina hospitalar (Marsh e Staver, 1991). Conforme Hungria (1998) a função da medicina seria prolongar a vida até os "últimos limites possíveis", com os re- cursos medicamentosos ou cirúrgicos de que se poderia lançar mão. Os limites possíveis de que falava o jurista não parecem consistir em limites éticos e sim técnicos. Nesse entendimento, enquanto a ciência tivesse recursos disponíveis para prolongar a vida, não restaria indagar a adequação ética de sua aplicação. Porém, os próprios valores da medicina mudaram desde o advento do nosso Código Penal. A visão científica atual tem sido permeada por preocupações com uma aplicação eticamen- te correta dos conhecimentos. A conseqüência é a atual busca de limites, não só éticos, mas também jurídicos. Diversos criminalistas começam a interpretar que não existe dever legal do médico em aplicar todos os recursos tera- pêuticos disponíveis, desde que considerados excessivos ou des- proporcionados ao estágio final de evolução da doença. Este entendimento demonstra a clara noção de limites, além de um maior respeito pela autonomia individual do paciente. A dignidade humana como fundamento jurídico... 49 O penalista espanhol Carlos Maria Romeo Casabona en- tende que o dever de assistência médica acaba a partir da consta- tação da impossibilidade de cura ou ao menos alguma recupera- ção do doente terminal ou irreversível. Na verdade, segundo Casabona (1994. p. 484), o dever que resta aos médicos nesses casos é o de oferecer medidas paliativas, que diminuam sofri- mento e ofereçam conforto ao paciente que está morrendo. Em âmbito nacional, Maria Celeste Cordeiro Leite (1999, p. 277) afirma que "a ortotanásia, entendida como auxílio médico ao morrer, pode ser considerada como causa excludente de ilicitu- de". Assim, acredita tratar de exclusão de ilicitude uma omissão de tratamento médico desnecessário, ou seja, desproporcional à situ- ação do doente irreversível pois o artigo 23 do Código Penal fala que não há crime quando o agente pratica o fato no exercício regular de direito - no que consiste a prática médica de acordo com os padrões cientificamente aceitos e eticamente corretos. Na exposição de motivos da nova parte geral do Código Pe- nal brasileiro consta que o destinatário da norma penal é todo aquele que realiza a ação proibida ou omite a ação determinada, desde que, em face das circunstâncias, lhe incumba o dever de participar o ato ou abster-se de fazê-lo (Brasil, 1996, p. 7). Assim, cabe questionar as circunstâncias envolvendo o caso para saber se o ato médico de não oferecer ou retirar recurso terapêutico consis- te ou não em crime. O dever legal de assistência médica deve ser juridicamente interpretado de acordo com os novos valores da medicina con- temporânea, pautada na prudência em escolher os meios terapêu- ticos adequados ao caso concreto. Assim, o jurista se torna etica- mente responsável pelo seu ofício, ao atribuir um sentido atual e constitucionalmente adequado da lei penal." 41 Nesse sentido, são muito apropriadasas idéias de Lênio Streck ao alertar que o direito não pode mais ser visto apenas através de uma racionalidade instrumenral. A interpretação das normas carece de uma "filtragem constitucional", devendo ha- ver uma "constitucionalização do direito infraconstitucional". Daí dizer o autor, na esteira de Gadamer, que "no processo interpretativo o jurista produz senrido e não reproduz um senrido primordiallfundanre da norma" . Vide Streck, 1999, p. 28. 50 Lívia Haygert Pithan O alcance do dever legal do médico pode também ser en- contrado no âmbito jurídico-cível, quando Miguel Kfouri Neto (1998, p. 58) analisa o contrato de assistência médica dizendo que "o médico assume a obrigação de meio e não de resultado. [ ... ] O médico deve apenas esforçar-se para obter a cura, mesmo que não consiga". Importa dizer que esse esforço médico para obter a cura não implica a exigência do emprego de medidas heróicas, em busca de milagres. Assim entendido, quando cons- tatado que a cura é impossível, o médico deve assumir as limita- ções do estado atual da ciência médica e permitir que o paciente morra com dignidade.4' Segundo Lara Torreão, uma das razões que explicam a au- sência de registro formal nos prontuários dos pacientes das "ordens de não-ressuscitação" é o usual medo do meio médico profissional por eventual processo judicial por omissão de so- corro (Torreão, 2000, p. 231) que, conforme o artigo 135 do Código Penal, é crime "deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, [ ... ] à pessoa inválida ou feri- da, ao desamparo ou em grave e iminente perigo". Assim, alguns juristas e muitos médicos entendem que não efetuar mano- bras de RCP, em qualquer circunstância, constituiria omissão de so- corro. Partindo da premissa de que o paciente terminal está em pro- cesso inexorável de morte, não há como "salvá-lo" para a vida. Não há como reverter esse processo; portanto, a nosso ver, o artigo 135 não se aplica a todos os pacientes terminais. É compreensível o receio dos médicos em relação ao enten- dimento da lei, pois não há dúvidas que nossos códigos estão defasados em relação ao progresso da ciência e a interpretação jurídica nem sempre se encarrega de renovar o sentido das nor- mas. Assim, de pouco adianta a medicina e demais ciências da 42 Fala-se em "dignidade, não para valorar a qualidade da vida de quem está próximo ao fim - pois roda a vida possui dignidade como valor inrrfnseco ao ser humano. Refere-se aqui à dignidade manifestada pelo respeiro à autonomia do pacienre, que deseja "morrer em paz" . A dignidade humana como fundamento jurídico... 51 vida buscarem prudência em suas aplicações se o direito também não o fizer e continuar interpretando as leis de maneira desco- nectada da realidade social. A criminalista Maria Celeste Cordeiro Leite afirma que o médico não é obrigado a prolongar a vida do paciente além do seu período natural, afirmando que será lícito deixar morrer se não houver encurtamento do período natural de vida. 43 Nestes casos não existe uma omissão de socorro em sentido penal, pois o enfermo não se acha em situação de abandono e não necessi- ta de socorro e, por outro lado, tratando-se de incuráveis, uma assis- tência extremada seria ineficaz para impedir a morte que se acerca. Nestes casos se fez tudo o que era possível fazer; resta resignar-se ao destino ou Providência (id., ibid., p. 223). A limitação jurídica do dever de assistência médica, nesse en- tendimento, está em prestar uma assistência proporcional à situa- ção. Isso não consiste em deixar de assistir os doentes incuráveis, mas apenas em evitar o uso de terapias excessivas e inúteis, as quais seriam adequadamente utilizadas apenas em pacientes rever- síveis. Em suma, não deixa de haver assistência, mas apenas há uma adequação dos meios terapêuticos em relação à finalidade do atendimento médico, que naqueles casos será o cuidado de quem está morrendo. Ao proteger a liberdade individual, o Código Penal brasilei- ro, no seu Artigo 146, considera crime constranger uma pessoa com reduzida capacidade de resistência a fazer algo que a lei não obriga. Entretanto, no parágrafo 3º, inciso I, diz que não consiste em crime de constrangimento ilegal "a intervenção médica ou cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu represen- tante legal, se justificada por iminente perigo de vida". Analisando tal dispositivo na atualidade, pode-se discutir sua constitucionali- dade, o que mereceria um estudo mais detido e que neste mo- mento não cabe realizar. Também cabe questionar no que consis- te "iminente perigo de vida". 43 SANTOS, Maria Celesre Cordeiro dos, 1998, p. 11 O. 52 Lívia Haygert Pithan No procedimento de ressuscitação cardiopulmonar em pa- ciente em estado vegetativo permanente ou paciente terminal, por exemplo, ambas situações de irreversibilidade, os doentes não são mais curáveis e a morte não é mais considerada um "pe- rigo iminente", sendo inclusive esperada. A possibilidade de prolongar artificialmente uma vida, sem expectativa de melhora ou reversibilidade, trata-se de uma situação nova na medicina.44 Percebe-se a inadequação atual da lei infraconstitucional e justi- fica-se, nesses casos, a necessidade de interpretar o sistema jurí- dico a partir da Constituição Federal - considerando o respeito à liberdade e à dignidade da pessoa humana. Conforme afirma Maria Celina Bodin de Moraes (1991, p. 69), a leitura da legislação infraconstitucional deve ser feita sob a ótica dos valores constitucionais. Assim, mesmo em presença de aparente per- feita subsunção a uma norma de um caso concreto, é necessário pro- curar a justificativa constitucional daquele resultado hermenêutica. Claus Roxin (2000), falando da realidade alemã, afirma que em seu país não é permitido tratar um paciente contra sua própria vontade. A omissão ou suspensão de medidas prolonga- claras da vida por desejo do paciente é considerada questão jurí- dica pacífica na Alemanha. Assim afirma: Se um canceroso se recusa a deixar-se operar [ ... ] a operação não poderá ser feita. É freqüente que a pessoa idosa, doente ou próxima da morte recuse o tratamento em uma unidade intensiva, que só iria adiar um pouco a morte. Isso deve ser respeitado. A vontade do paciente é decisi- va, mesmo nos casos em que um juízo objetivo a considere errônea, ou que seja irresponsável aos olhos de muitos observadores (p. 19). Porém, para esse autor, a princípio há um dever de prolon- gar a vida do paciente. Assim, quando o tratamento é interrom- pido ou omitido apesar do paciente o desejar, há homicídio por omissão. Portanto, "se o paciente o desejar, ele deverá ser levado 44 O procedimento da ressuscitação cardiopulmonar avançada, como é realizado hoje nos hospitais, só foi ser desenvolvido na década de 60- pelo menos 20 anos após a redação do (ainda vigenre) Código Penal brasileiro. A dignidade humana como fundamento jurídico... 53 à unidade de tratamento intensivo, ainda que não seja possível obter uma cura, mas somente um prolongamento de sua vida" (id., ibid.). Todavia, Roxin afirma haver um limite do dever médico de tratamento, pois "procrastinar de modo indefinido o inevitável processo da morte através de modernos aparelhos não corresponde à nossa concepção de uma morte condizente com a dignidade humana."45 Para o penalista espanhol Carlos Maria Romeo Casabona (1994, p. 431) é fundamental delimitar os diversos atos e omis- sões que podem ser englobados dentro do conceito de eutanásia passiva punível e quais os comportamentos que entram na práti- ca médica adequada, e por isso são jurídico-penalmente irrele- vantes. Segundo ele, não existe o dever de tratamento que pro- longa sem sentido a vida, pois la iniciación, continuación o ampliación de un tratamiento es exigible únicamentecuando exista la posibilidad por parte dei médico (o más exactamente: de acuerdo con ei estado de la ciencia médica y de los medios disponibles) de cumplir su función curativa. Si eilo no es po- sible, a la vista de la situación dei paciente concreto y determinado de acuerdo con criterios de la !ex artis dei momento, no existe ei deber de tratar (salvo medidas paliativas, contra ei dolor y ei sufrimiento), se- rían fases terminales o de irreversibilidad para las que se carece, según ei estándar médico, de un tratamiento eficaz (id., ibid.). Casabona (op. cit., p. 446) também fala em limites do de- ver de assistência, não havendo obrigação jurídica dos médicos atuarem em casos em que não haja reais condições de recupera- ção ou melhora na situação do paciente. Exemplos são os paci- entes em estado vegetativo permanente e outros diagnósticos inequívocos de irreversibilidade. Identificada a situação, a qual deve ficar provada por diagnóstico de certeza e critérios objetivos cientificamente respaldados, 45 Note-se que a referência à "dignidade humana" é recorrente nos autores que tra- tam do tema. Daí a importância em analisar tal conceito sob o ponto de vista jurí- dico, estabelecendo alcance do entendimento do termo. 54 Lívia Haygert Pithan es irrelevante para el Derecho Penal que la decisión comporte la inte- rrupción de cualquier tratamiento medicamentoso, la no realización de una intervención quirúrgica o la supresión de la asistencia de funciones vitales mediante a aparatos artificiales o de reanimación. No habría, por tanto, una omisión punible por ausencia de tipici- dad de la misma (id., ibid, p. 447; grifas nossos). Conforme Ramón Martín Mateo (1986, p. 26), as decisões médicas baseadas em padrões científicos corretos e eticamente ade- quadas não podem ser combatidas com êxito nos tribunais, pois la opción de desconectar los aparatos que mantienen artificialmente con vida a un paciente terminal, una vez asumida por e! responsable médico sería difícilmente revisable si está de acuerdo e! interesado o sus familiares, si aquél se encuentra inconsciente. Outro autor que auxilia a delimitação de condutas médicas que devem ser excluídas do âmbito jurídico-penal é o chileno Adélio Misseroni Raddatz. Ao proceder a uma cuidadosa inves- tigação teórica sobre as confusões conceituais em torno da ex- pressão eutanásia, Raddatz (2000, p. 255) afirma que se excluye de toda consideración punitiva la no aplicación de trata- miemos desproporcionados y excepcionales, cuando es cierta la in- minencia de la muerte, como, asimismo, la supresión de éstos [ ... ]la calidad de media proporcionado/desproporcionado deberá deter- minarse teniendo en cuenta la situación concreta dei enfermo y su 'esperabilidad' de vida. Así [ ... ] proceder ai retiro de medias artifi- ciales de reanimación será, atendiendo a las circunstancias particula- res dei caso, perfectamente lícito y ajustado a derecho. A intervenção do direito penal, conforme Casabona, em diversas situações será apenas acessória ou inexistente, em espe- cial se outros setores do ordenamento jurídico puderem satisfa- zer plenamente as necessidades de promoção de bens ou interes- ses ou de limitação de atividades não desejáveis. Assim, la mayor parte de los bienes jurídicos de titularidad individual que pueden verse afectados por las actuaciones en e! contexto de las Ciencias Biomédicas han encontrado un reconocimiento expreso por parte de las constituciones modernas y de las declaraciones y convenios internacionales relativos a los derechos humanos (p. 20). A dignidade humana como fundamento jurídico... 55 Falando a partir da realidade argentina, Ricardo Lorenzetti mostra os fundamentos da suspensão ou não-oferta terapêutica a partir do direito privado - embora afirme que tais casos devem ser analisados a partir dos direitos fundamentais e não sob pre- ceitos da teoria dos contratos. O limite do dever de assistência médica reside na vontade do paciente e nos limites da medicina. Diz ele, O fim da pessoa foi deixado à decisão de Deus ou à natureza, se- gundo as crenças. O direito respeitou essa afirmação cultural proi- bindo o homem que decida sua própria morte [ ... ]. Não obstante, assistimos a um problema novo: há casos em que nem Deus, nem a natureza podem decidir a morte, porque a vida é mantida mediante medidas físicas artificiais. É lícito que o doente recuse tratamentos médicos? A tendência ostensível é a admissão ·deste tipo de decisões (1998, p. 47 1). Diante das considerações até aqui expostas, acredita-se que o âmbito jurídico penal pode restar afastado como questão co- nexa da investigação, que não pretende versar sobre a eutanásia. Desse modo, é possível afirmar que el "empeno terapéutico" no viene exigido por una razón moral nin jurídica. Al contrario, la deontologia médica, la moral y el derecho obligan únicamente ai médico a combatir el dolor y a admin istrar un tratamiento útil y proporcional ai mal padecido (Montero, 2001, p. 28). Entretanto, é necessário refletir a partir do direito público sobre outros aspectos que envolvem a decisão médica de não oferecer ou retirar recurso terapêutico. Qual o entendimento de dignidade da pessoa humana em nosso ordenamento jurídico? Quais os limites ético-constitucionais da autonomia individual dos pacientes irrecuperáveis? Em que medida a limitação mé- dico-terapêutica respeita o princípio jurídico da dignidade hu- mana? 56 Lívia Haygert Pithan 2 A dignidade da pessoa humana como fundamento ético-jurídico das "ordens de não-ressuscitação" ----------·---------- Se os homens não conseguirem referir-se a um valor comum, reconhecidos por todos em cada um deles, então o homem se torna incompreensível para o próprio homem. (Camus, 1997, p . 39). Através do entendimento jurídico-constitucional do princ1p10 da dignidade da pessoa humana, à luz dos princípios bioéticos e dos novos valores da Medicina, se acredita possível justificar a aceitação de condutas médicas caracterizadas por limitar recursos terapêuticos em pacientes irrecuperáveis, como ocorre nas "or- dens de não-ressuscitação". Inicialmente, é preciso discorrer sobre a tendência con- temporânea do Direito em se reaproximar da dimensão valora- tiva do fenômeno jurídico. Neste cenário, os princípios jurídi- cos têm desempenhado um papel fundamental, mormente através do entendimento da dignidade humana como norma constitucional central de todo o ordenamento jurídico. A dig- nidade humana vista como princípio ético-jurídico tem contri- buído sobremaneira para o tratamento jurídico dos problemas bioéticos. A dignidade humana como fundamento juridico... 57 Entretanto, a mera alusão à dignidade humana sem parti- cularizar seu entendimento de acordo com o caso concreto ma- nifesta um vazio significativo. Desse modo, se faz necessário demonstrar o entendimen~o predominante dessa categoria jurí- dico-axiológica no pensamento constitucional brasileiro, tendo em mente o caso em estudo. Pretende-se argumentar de que forma o atendimento médico de pacientes em final de vida con- templa tanto o aspecto da autonomia individual quanto da pro- teção necessária àquele que está morrendo. Por fim, parece importante indagar por que a conduta médica que limita os recursos terapêuticos não viola o direito à vida, constitucionalmente assegurado. O processo de morrer faz parte da vida humana, que como tal deve ser vivida com dignidade. Se a morte é parte da vida e o direito à vida implica uma garantia de uma vida com dignidade, parece possível ar- gumentar pela existência de um direito à morte digna- não no sentido da eutanásia ou do suicídio assistido, mas no de garan- tir o direito dos pacientes recusarem o abuso ou excesso tera- pêutico. 2.1 O princípio da dignidade da pessoa humana:em busca da aplicação eticamente correta do direito A preocupação em estabelecer limites éticos na aplicação do conhecimento científico tem sido recorrente nos estudos sobre Bioética.' Essa tendência atual em valorizar a racionalida- de prática, pautando a ciência pela prudência, tem afetado não apenas as ciências naturais - como a Biologia e Medicina - mas também o Direito. 1 Nesse sentido, ver Clotet, 2000a. 58 Lívia Haygert Pithan Na idéia de recuperação do aspecto valorativo do conheci- mento científico, encontra-se no constitucionalismo contempo- râneo de vertente pós-positivista' um apoio teórico para auxiliar o enfoque jurídico dos conflitos bioéticos. Os princípios jurídi- cos, encarados como normas, podem servir como limites ético- normativos ao Direito, incluindo sua interpretação. Assim, ad- verte Paulo Bonavides que "as novas constituições promulgadas acentuam a hegemonia axiológica dos princípios, convertidos em pedestal normativo sobre o qual se assenta todo o edifício jurídi- co dos novos sistemas constitucionais". 3 O esgotamento do modelo moderno de ciência jurídica tem levado renomados filósofos e teóricos do direito a mostrar a importância do âmbito axiológico do fenômeno jurídico, servindo de crítica às teorias juspositivistas que divorciaram o Direito da Moral (Prieto Sanchis, 1992, p. 13). A ênfase dada atualmente para a principiologia jurídica tem suma importân- cia na medida que aponta para uma aplicação eticamente corre- ta do conhecimento jurídico, pois a postura de auto-suficiência epistemológica do direito o tornou uma ciência valorativamen- te omissa e alheia aos fatos sociais. 4 Prieto Sanchis (1992, p. 19) diz que as diversas construções sobre princípios, embora com diferentes conotações, servem para uma mesma função, que é contribuir para interpretação das normas e, sobretudo, suprir lacunas do ordenamento jurídico: Conforme enfoque pós-positivista do direiro, a norma é elevada à categoria de gênero, do qual as espécies são os princípios e as regras. A "principiologia jurídica" ou "concepção principiológica do direito" na dourrina consrirucional brasileira rem rido influência das obras do jurista alemão Roberr Alexy e do filósofo do direi- to narre-americano Ronald Dworkin. Vide suas obras ( 1997). 3 Bonavides, 1998, p. 237. Após a Segunda Guerra Mundial, as consriruições de diversos países tornaram os direiros humanos - conridos na Declaração da ONU de 1948 - como direitos legais, consritucionalizados, influenciando os juristas a repensarem a estrurura do Direito a parrir de pauras valorativas. Conforme o já clássico: Reale, 1994. No mesmo senrido, ver também Souto, 1992. A dignidade humana como fundamento jurídico.. . 59 Es decir, siempre que en lenguaje de los juristas aparecen los 'prin- cipias' se encuentra latente e! problema de la plenitud dei sistema o la necesidad de elegir entre distintos significados de una disposición normativa dudosa; sin perjuicio de que se persiga también algún otro objetivo, como, por ejemplo, alcanzar soluciones moralmente plausibles cuando una determinada norma o regia conduce a un re- sultado que se juzga inaceptable, vigilando 'desde arriba' la correc- ción dei Derecho en su conjunto y, de modo especial, en su fase aplicativa. Entretanto, a mera alusão aos princípios jurídicos como so- lução aos conflitos bioéticos, sem uma devida reflexão sobre sua interpretação e aplicação, continua por traduzir o fenômeno jurídico a partir dos traços característicos da modernidade que, como ensina Luis Fernando Barzotto (2000, p. 162), trata o di- reito "como um fenômeno social 'neutro', um sistema de nor- mas, princípios e procedimentos a ser descrito por uma asséptica 'Teoria do Direito'." Judith Martins-Costa (2000), falando das relações entre Bioética e Direito, em busca da configuração de um Biodireito, ressalta a noção de prudência no âmbito jurídico, ao dizer que "hoje o Direito não é visto tão só como ciência, mas, fundamen- talmente, como prudência, como arte prudencial que está inter- relacionada [ ... ] com as demais instâncias componentes do todo social, notadamente a Ética". Entretanto, não são poucas as dificuldades em incorporar a noção de prudência às configurações teóricas atuais do Direito, baseado em uma racionalidade técnica e não-prática. A diferença entre a moral prudencial clássica e a moral normativista moder- na é exposta por Luis Fernando Barzotto (200 1, p. 234) da se- guinte forma: A concepção normativista da moral que impera na modernidade es- tá ligada à concepção normativista do direito como um conjunto de regras. A concepção clássica da moral, fundada na prudência, está ligada a uma concepção do direito onde a regra não ocupa o papel central. 60 Lívia Haygert Pithan As regras, em sentido estrito, têm perdido o papel sobera- no no âmbito do Direito, dando força normativa aos princí- pios5 - que atualmente se vinculam com a noção de direitos humanos. Alguns autores entendem que os direitos humanos são as normas ético-jurídicas que devem orientar os limites da intervenção da ciência e tecnologia na vida humana e no meio ambiente. 6 Conforme Joaquim Clotet (2000a, p. 26), os limites de caráter ético que devem orientar o uso adequado ou correto (bom uso) da ciência e, particularmente, das ciências bio- médicas e da genética molecular estão diretamente relacionados com os direitos humanos. Os direitos humanos, por sua vez, têm um denominador comum: a dignidade humana. A dignidade hu- mana é um elemento nuclear da ética e do Direito. De fato, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1 O de dezembro de 1948, representa a manifestação de uma prova de que um sistema de valores pode ser humanamente fundado e reconhecido: sua validade é baseada no consenso (Bobbio, 1992, p. 26). Conforme Norberto Bobbio (id., ibid., p. 28), pela pri- melfa vez um sistema de princípios fundamentais da conduta humana foi livre . e expressamente aceito, através de seus respectivos governos, pela maioria dos homens que vivem na Terra. Com essa declaração, um sistema de valores é [ ... ] universal, não em princípio, mas de fato, na medida em que o consenso sobre sua validade e sua capacidade para reger os destinos da comunidade futura de todos os homens foi ex- plicitamente declarado. Entretanto, os princípios jurídicos na atualidade são vistos como normas e por isso estão igualmente a serviço da "plenitude do sistema jurídico", ou seja, ainda na conformação de uma idéia moderna de ciência. Mas a valorização dos princípios jurídicos na atualidade não deixa de conferir abertura ao sistema jurídico, que de certa forma parece um avanço no hermetismo característico das concepções positi- vistas da Ciência Jurídica. Nesse sentido, ver Casado, 1998. A dignidade humana como fundamento jurídico. .. 61 A afirmação dos direitos humanos através da declaração da ONU se tornou um ponto de partida para a positivação dos mesmos nas constituições federais de diversos países (id., ibid., p. 29). No Brasil, através da Constituição de 1988, os direitos fundamentais passaram a consistir no núcleo básico do orde- namento constitucional pátrio: Pela primeira vez na história brasileira uma Constituição definiu os objetivos fundamentais do Estado e, ao fazê-lo, orientou a compre- ensão e a interpretação do ordenamento constitucional pelo critério do sistema de direitos fundamentais. [ ... ] A dignidade humana, tra- duzida no sistema de direitos constitucionais, é vista como o valor essencial que dá unidade e sentido à Constituição Federal (Cittadi- no, 1999, p. 13). O processo constituinte do qual decorreu a Constituição de 1988 teve grande influência dos movimentos políticos em defesa dos direitos humanos, especialmenterelativos à vida e à integridade física - sob influência das lutas contra o regime autoritário que havia no país (id., ibid., p. 11). A Constituição Federal de 1988 converteu todos os direitos da Declaração da ONU de 1948 em direitos legais no Brasil (id., ibid., p. 12). O princípio da dignidade da pessoa humana, considerado no Artigo 1 º, inciso III da Constituição Federal como funda- mento do Estado Democrático de Direito, constitui uma "nor- ma jurídico-positivada dotada, em sua plenitude, de status constitucional formal e material e, como tal, inequivocamente carregado de eficácia" (Sarlet, 2001, p. 72). Não há dúvidas, portanto, que os direitos humanos positivados nas Constitui- ções dão ao ordenamento jurídico uma noção de "mínimo éti- co irrenunciável". Assim se manifesta María Casado (1998, p. 58) quando afirma que: "los derechos humanos constituyen las bases jurídicas y, a la vez, el mínimo ético irrenunciable, sobre las que deben asentarse las sociedades occidentales". 62 Lívia Haygert Pithan Por se tratar de um mm1mo enco em comum, o caráter aberto dos princípios jurídicos - entre eles o da dignidade hu- mana- afasta uma possível expectativa ingênua de que, através deles, seria possível encontrar soluções prontas e acabadas para os dilemas bioéticos. Assim é que, a nosso ver, se equivoca Sérgio Ferraz em sua abordagem dos princípios jurídicos para pautar questões referentes às manipulações biológicas. Diz o autor que, diante das perplexidades que a temática provoca, os princípios constitucionais seriam o "exclusivo farol capaz de solvê-las uni- vocamente", ganhando em "segurança e certeza, pois somente princípios constitucionais podem ostentar a marca da irredutibi- lidade" (Ferraz, 1991, p. 16). Já Carmem Lúcia Rocha (1994, p. 39), conforme os di- tames de uma atualizada visão da hermenêutica jurídica, afirma que "a polimorfia principiológica na Constituição é que possi- bilita a multiplicidade de sentidos que se acrescem e se suce- dem, a fim de que o sistema tenha permanência, presença e eficácia social e jurídica". Nesse mesmo entendimento, Cláudio Rothenburg (1999, p. 40) considera que o sentido dos princí- pios, "longe de possuir univocidade, só será determinado con- siderando os princípios contrapostos e as possibilidades fáticas, I • )) casUisncas . Não há dúvidas, po is, da atualidade em investigar o papel que os princípios desempenham nos ordenamentos jurídicos, devendo-se afirmar, com Gisele Cittadino (1999, p. 13), que "os princípios éticos constitucionalizados se tornam fundamen- to de toda a ordem jurídica e critério de interpretação do pró- prio texto constitucional". Reconhecer a natureza normativa dos princípios implica afastar as tentativas de os caracterizar como meras diretivas ou sugestões axiológicas através de uma retórica idealista que não oferece nenhuma eficácia jurídica aos valores supremos da Constituição. Assim, quando nossos constitucionalistas falam em dignidade humana, A dignidade humana como fundamento juridico. .. 63 não querem se referir a nenhuma concepção dogmática da natureza humana, nem tampouco se referem a uma pura idealidade ou abs- tração. Ao contrário, os direi tos fundamentais positivados constitu- cionalmente recebem uma espécie de validação comuni tária, pois fazem parte da consciência ético-jurídica de uma determinada co- munidade histórica (id., ibid.). Deste modo, a dignidade humana não representa um valor abstrato, mas é encarada como "autonomia ética dos homens con- cretos".7 A validação comunitária referida por Cittadino pode ser expressa através da noção de abertura constitucional. A partir des- sa abertura, verifica-se uma democratização do processo interpre- tativo, permitindo que cidadãos, partidos políticos, associações e instituições não-estatais sejam considerados legítimos intérpretes da constituição." Conforme adverte Leonel Severo Rocha (2000), é urgente a rediscussão do Direito assim como a reproblematização do senti- do político dos direitos humanos, mostrando a necessidade atual de uma efetiva participação da sociedade na produção e interpre- tação do Direito "em busca de uma autonomia e de uma plurali- dade político-ideológica, baseada na lógica da enunciação perma- nente de novos direitos" (p. 149). É preciso também dizer que a inexistência de conceitos fe- chados na transdisciplinaridade' implica a busca do sentido da Andrade, 1987, p. 162. Essa obra, segundo C irradino, é um marco no constitu- cionalismo comunitário português. Peter Haberle propõe a seguinte tese: "no processo de interpretação constitucional estão potencialmente vinculados rodos os órgãos estatais, rodas as potências públi- cas, rodos os cidadãos e grupos, não sendo possível estabelecer-se um elenco cerra- do ou fixado com numerus clausus de intérpretes da Constituição" (I 997, p. 13). Prossegue o jurista alemão dizendo que "o desti natário da norma é participante a- tivo, muito mais ativo do que se pode supor tradicionalmente, do processo herme- nêutica. Como não são apenas os intérpretes jurídicos da Constituição que vivem a norma, não detêm eles o monopólio da interpretação" (I 997, p. 15). Conforme Izabel Petraglia (1995, p. 74), pedagoga estudiosa da obra de Edgar Morin na área da educação, "na transdisciplinaridade há a superação e o desmoro- namento de toda e qualquer fronteira que inibe ou reprime, reduzindo e fragmen- tando o saber e isolando o conhecimento em terri tórios delimitados. Nessa prática transdisciplinar [ ... ] não há espaços para conceitos fechados e pensamentos estanques, 64 Lívia Haygert Pithan norma jurídica entre e além das disciplinas que dizem respeito aos fenômenos analisados. '" Assim, a noção de dignidade humana, a qual é central à interpretação de todo o ordenamento jurídico e ao próprio Estado Democrático de Direito - visto que elevada à ca- tegoria de princípio - deve ser estabelecida a partir das diversas dimensões envolvidas nos contextos analisados. Se para tratar juridicamente de temas como o da biotecno- logia há que se tomar como ponto de partida a noção de digni- dade humana, como afirma José Antônio Peres Gediel (2000, p. 162), não se pode esquecer que o conteúdo de princípios como o da dignidade humana só se concretiza, na atualidade, diante das descobertas e inventos tecnológicos, pois os ideais universais, embora se apresentem sob formas conceituais e abstratas, admitem leituras particularizadas, com base na realidade das sociedades contemporâneas. Considerando que a Bioética "pretende tirar de si mesma a legitimidade de suas decisões, a partir do consenso obtido por via democrática" (Blázquez, 1996, p. 123), uma das tarefas que cabe ao âmbito jurídico é contribuir de maneira a investigar, casuisticamente, o entendimento do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana- visto que os princípios que compõem um sistema jurídico-democrático [ ... ] têm que ser postos conjuntamente, em relação dialética com a reali- dade, num debate de compromisso, em busca da solução mais ade- quada, evitando-se construções unilaterais ou unidimensionais (Bonavides, 1998, p. 112). enclausurados em gavetas disciplinares, mas há obrigatoriamente a busca de todas as relações que possam existir entre todo conhecimento" (Grifo nosso). 10 Daí a importância em se aproximar da compreensão de diversos aspectos extrajurí- dicos como: os princípios bioéticos, critérios de eficácia técnica médica, da deonto- logia médica, etc., para ser possível uma adequada concretização do princípio jurí- dico da dignidade da pessoa humana nos casos biojurídicos. A necessária busca de conhecimentos não só extradogmáticos, mas também extrajurídicos para os novos profissionais do Direito foi alertada por Faria já em 1987, ao tratar do ensino jurí- dico. Ver Faria, 1987, p. 34.A dignidade humana como fundamento jurídico... 65 Diante das atuais frustrações frente à principal expectativa moderna do Direito, qual seja, segurança jurídica, percebe-se que a aplicação do princípio constitucional da dignidade da pes- soa humana tem apresentado especial relevância no tratamento jurídico de casos da Bioética. Nesse sentido se manifesta J udith Martins-Costa (2000, p. 161), ao afirmar que as tormentosas questões relativas à relação entre médico e paciente, seja na ponderação entre o princípio (bioético e jurídico) da auto- nomia, de um lado, e o dever médico de beneficência, de outro, po- dem ser melhor equacionadas pela concreção do princípio da digni- dade da pessoa. Entretanto, a inexistência de uma noção do bem ou do jus- to comum a todos - característica do pluralismo moral vigente - impossibilita uma transferência de expectativas de segurança (que antes se destinava às regras) para os princípios, o que su- planta a idéia de haver um significado jurídico da dignidade da pessoa humana estabelecido de antemão, do qual se poderia de- duzir soluções acabadas. Como diz Ingo Sarlet (2001, p. 40), a dignidade humana, por tratar-se [ ... ] de categoria axiológica aberta, não poderá ser con- ceituada de maneira fixista, ainda mais quando se verifica que uma definição desta natureza não harmoniza com o pluralismo e a diver- sidade de valores que se manifestam nas sociedades democráticas contemporâneas. Porém, não se pode esquecer que "os direitos fundamentais pressupõem uma determinada filosofia jurídico-política que se reflete em sua interpretação" (Peres Lufio, 1995, p. 296), sendo importante constatar o caráter predominantemente comunitário do constitucionalismo brasileiro." Assim, a abertura hermenêuti- ca das normas constitucionais não implica endosso à liberdade 11 Essa constatação é da jurista Gisele Cittadino ao afirmar que nosso constituciona- lismo busca uma fundamentação ética à nova ordem constitucional brasileira, comprometendo-se predominantemente com o ideal político-comunitário. Vide Cittadino, 1999, p. 4. 66 Lívia Haygert Pithan individual total e ilimitada, onde cada cidadão estabeleceria sua própria noção particular de vida digna. Por outro lado, os limites públicos protetivos impostos à liberdade individual não podem ser tais que impossibilitem a autonomia privada. Nesse sentido, cabem as palavras de Leonel Severo Rocha (2000) , ao afirmar que não se pode aceitar nem o princípio marxista totalitário da negação da liberdade, nem o princípio liberal puramente defensor da liber- dade de iniciativa individual. Pois se é suficiente a negação dos di- reitos humanos para se caracterizar uma forma de sociedade como total itária, materializada pela negação de qualquer divisão social, apenas a defesa dos direitos humanos [ ... ] não basta para caracterizar uma forma de sociedade como democrática. Assim, nessa mesma linha teórica se encontra Maria Celina Bodin de Moraes, ao afirmar que a dignidade humana consiste em um princípio ético-jurídico que contempla espaços de liber- dade no respeito à solidariedade social. Para a autora, a medida de aplicação do princípio da dignidade da pessoa humana con- siste na ponderação, a ser feita em cada caso, entre liberdade e solidariedade, termos que, stricto sensu, são considerados contrapostos: a imposi- ção de solidariedade, se excessiva, anula a liberdade; a liberdade desmedida é incompatível com a solidariedade. Todavia, quando ponderados, seus conteúdos tornam-se complementares: regulamen- ta-se a liberdade em prol da solidariedade social, isto é, da relação de cada um com o interesse social (2000, p. 140). Levando-se em conta uma situação concreta e limite, como o são as "ordens de não-ressuscitação" no ambiente hospitalar, propõe-se uma leitura particularizada do princípio da dignidade humana. Se a dignidade humana consiste em uma norma limite e tarefa para o Estado e para a comunidade em geral," cabe ana- 12 Essa a idéia forremenre enfatizada pelo cuidadoso trabalho de Sarlet (200 1 ): a dupla dimensão da dignidade humana, que significa dizer que ranro o aspecto da autonomia quanro da proteção dos indivíduos deve estar presente para ser respei- tada sua dignidade. A dignidade humana como fundamento jurídico... 67 lisar de que maneira ou em que medida ambos os aspectos dessa norma podem estar contemplados nas decisões médicas de não reanimar doentes em estado de irreversibilidade. Respeitar a autonomia dos indivíduos e protegê-los ao mesmo tempo: eis o desafio da dupla dimensão da dignidade humana. 2.2 Respeito e proteção da dignidade humana do paciente em final de vida: autonomia e assistência médica adequada É necessário argumentar de que maneira a conduta médica que limita o uso de medidas terapêuticas desnecessárias está de acordo tanto com a face autonômica como assistencial do prin- cípio jurídico da dignidade humana. Mas primeiramente é preci- so esclarecer que no atual período histórico, que para alguns convém chamar de "pós-modernidade", 13 conceitos de moralida- de provenientes do iluminismo ainda servem de alicerces de uma nova sociedade, mais fragmentada e sem noção compartilhada sobre o que seja o bem comum. Um exemplo dessa permanência de um mínimo ético irrenunciável, proveniente da modernidade, é a noção kantiana de dignidade da pessoa humana. O alcance significativo de dignidade humana que hoje se sustenta no meio jurídico se fundamenta no pensamento do filósofo prussiano lmmanuel Kant (Sarlet, 2001, p. 29). Uma das expressões do compromisso de nossa doutrina constitucional com as idéias de Kant se traduz nas palavras do constitucionalis- ta José Afonso da Silva (1998, p. 92), quando afirma que "a dig- nidade é atributo intrínseco, da essência, da pessoa humana, único ser que compreende um valor interno, superior a qualquer preço, que não admite substituição equivalente". 13 Nesse senrido, ver Souza Sanros, 1989. 68 Lívia Haygert Pithan Cármem Lúcia Antunes Rocha também se remete a Kant, porém lembra que a ambigüidade e porosidade do conceito jurí- dico de dignidade da pessoa humana fazem o conteúdo deste princípio constitucional estar em permanente construção (Rocha, 2000). Todavia, embora haja espaço para abertura interpretativa, não se questiona ainda hoje o imperativo prático que Kant (1986, p. 69) elaborou, ao dizer: "age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simples- . " mente como meiO . Os escritos de Kant, situados na Europa no final do século XVIII, se caracterizam por firmar incondicional compromisso com a liberdade humana, com a dignidade do homem e com a concepção de que a obrigação moral deriva da razão (O'Neill , 1995). Kant fala da dignidade como um valor incondicional dos seres humanos e considera a autonomia da vontade como o fun- damento da dignidade da natureza humana e de toda a natureza racional (1986, p. 79). Entretanto, embora o pensamento kantiano seja priorizado como fundamento filosófico da concepção jurídica brasileira de dignidade humana, o elogio à liberdade como característica hu- mana merecedora de especial consideração não foi originalmente tratada pelo prussiano iluminista. A filosofia medieval foi decisi- va na concepção de que a humanidade merece especial valor e consideração e, mais adiante, o Renascimento trouxe contribui- ções inaugurais. Um pensador de extrema influência na concepção contem- porânea de dignidade humana foi Giovanni Pico della Mirando- la, o renascentista italiano que muito jovem se tornou um dos maiores expoentes do humanismo cristão. Pode-se dizer que Pico apresenta os fundamentos antropológicos do que hoje chamamos direitos humanoS. 14 14 Neste senrido, ver texrointrodutório da tradução brasileira: Pico Della Mirandola, 1988. A dignidade humana como fundamento juridico... 69 Conforme explicações de Luiz Feracine1 sobre a obra de Pico, a dignidade humana não é algo dado ou acabado e meca- nicamente fixo. A dignidade humana é conquistada devido à natureza humana perfectível, condicionada pela liberdade. Nes- te sentido é que "o homem se faz. E como esta perfectibilidade está condicionada pela liberdade, é na dinâmica do processo de conquista de si e de autodignificação crescente que o homem precisa da Filosofia". 16 Portanto, o próprio objetivo da obra de Pico é propor a Filosofia como um meio de atingir um fim existencial da dignidade humana. A prerrogativa humana de se autocriar livremente é o que há no homem de único, pois "ele é o único ser que livremente pode ser mais do que já é por natureza" .17 Interessante notar que, para Pico, não há nenhuma incompatibilidade entre a liberdade humana e o fato da humanidade ser fruto da criação divina. Assim, nesta linha de pensamento, cabe dizer que Deus coloca o homem no centro do universo sem lhe conferir ou reservar um lugar definido, sem lhe dar um aspecto peculiar, nem lhe atribuir algum ofício privativo. Infunde, porém, nele, as poten- cialidades mais diversas possíveis para que, pelo exercício da própria determinação, opte pelo feitio de personalidade que lhe apraz pos- suir e assuma o desempenho da missão existencial que melhor se adapte às suas virtuosidades. É assim que o homem se torna artífice de seu ser e se faz protagonista da própria história. Terá o porte físi- co, moral, intelectual, profissional de acordo com a escolha deter- minada pelo poder de sua vontade livre e soberana. Ai está a razão última de sua grandeza (Id., ibid., p. XXV). 15 Tradutor da versão brasileira da obra de Pico, aqui intitulado "A dignidade do homem". Originalmente, a obra concebida aos 24 anos de idade do autor, em 1486, em forma de discurso, conhecida como "Oratio Elegantfssima". Posterior- mente foi intitulada como "De Dignitate Hominis", tendo sido publicada dois a- nos após a morte de Pico. Ver Pico Della Mirandola, 1988. 16 Introdução do tradutor. In: Pico Della Mirandola, 1988, p. XX. 17 Idem, ibidem, p. XXIV. 70 Lívia Haygert Pithan Conforme o pensamento de Pico, a liberdade é a potencia- lidade humana cuja essência está na autodeterminação. Em suas palavras, somos "nascidos com essa possibilidade de ser o que desejarmos" (Pico Della Mirandola, 1988, p. 9). Assim, o homem terá que se valer da liberdade para, ao longo de sua existência, ir afirmando sua própria dignidade. Interessante notar que, neste sentido, "a liberdade especifica-se mais pelo 'poder' de opção do que pela opção mesma. A opção representa um efeito, um resul- d d 1 < d > d h 1 » IH ta o, sen o que a causa esta no po er e se c egar a e a . Se trouxermos as idéias de Pico para o âmbito da Bioética, cabe refletir sobre a importância que sejam apresentadas diversas opções de condutas terapêuticas relativas à saúde da pessoa. Se a liberdade é qualidade que permite ao homem dignificar sua exis- tência, pode-se afirmar que a negação de informações e esclare- cimentos sobre a saúde do paciente lhe retira a possibilidade de optar. Conforme o renascentista, ao homem é dada a oportunidade para realizar seu projeto existen- cial. O perfil de sua personalidade ética quem o traça e esculpe é o próprio indivíduo. Neste sentido, o homem é o que decide ser. Tudo vai depender das opções assumidas pelo livre arbítrio de cada um. 19 Tem-se, como conseqüência de negar opções ao paciente, um tratamento médico paternalista, ou seja, autoritário, onde a decisão sobre o bem do paciente é tomada exclusivamente pela equipe de saúde, sem oferecer possibilidades para uma decisão autônoma. É indissociável, portanto, a vinculação da liberdade ou au- tonomia individual ao conceito de dignidade humana. Nesse sentido, diversas constituições federais de índole democráticas, promulgadas após a Segunda Guerra Mundial, reconhecem o ser humano como centro e fim da ordem jurídica. 18 Introdução do tradutor. In: Pico Della Mirandola, 1988, p. XXVIII. 19 Pico Della Mirandola, 1988, p. 8. A dignidade humana como fundamento juridico... 71 A dignidade humana está presente nas constituições federais da Alemanha, no artigo 1 º; da Espanha, artigo 1 Oº, nº 1; da Itália, artigo 3º; de Portugal, artigo 1 º; da Irlanda, no preâmbulo; da Grécia, no artigo 2º; da Venezuela, no preâmbulo; do Peru, no preâmbulo; da China, no artigo 38; da Bulgária, no preâmbulo; da Namíbia, no preâmbulo e artigo 8º; de Cabo Verde, artigo 1 º; da Colômbia, artigo 1 º;e do Brasil, artigo 1 º, inciso III. '" Sabe-se que os direitos de liberdade, através da proteção jurí- dica da autonomia individual, constituem-se numa das principais exigências da dignidade da pessoa humana (Sarlet, 2001, p. 45). Entretanto, os direitos sociais - onde reside o dever estatal e co- munitário de proteção e assistência aos indivíduos - também fa- zem parte dos direitos fundamentais e, desse modo, afirma-se que a dignidade da pessoa humana é simultaneamente limite e tarefa dos poderes estatais e [ ... ] da comunidade em geral, de rodos e de cada um, condição dúplice esta que também aponta para uma simultânea dimensão defensiva e prestacional da dignidade. 21 Esse reconhecimento da comunidade como agente respon- sável por respeitar e promover a dignidade humana juntamente com o Estado, implica dizer que os direitos fundamentais tam- bém devem valer entre os indivíduos, a exemplo da relação en- volvendo médico e paciente, onde se trata de "uma situação real de poder" ." Nesse sentido, o constitucionalista lusitano José Carlos Vieira de Andrade (1987, p. 85) afirma que "a autonomia dos direitos fundamentais como instituto jurídico-constitucional é [ ... ] o reflexo da autonomia ética do homem, enquanto ser simultaneamente livre e responsável". 2 ° Conforme Miranda (1998, p. 166) e Lopes (1998). 21 Idem, ibidem, p. 46. Grifo nosso . Sobre a dupla dimensão dos direitos fundamen- rais, ver rambém Andrade, 1987, p. 144 e segs. 22 José Carlos Vieira de Andrade (1987, p. 278) fala que "os direitos fu ndamenrais devem valer rambém [ .. . ] peranre indivíduos que disponham, na relação com ou- rros , de uma siruação real de poder que possa equiparar-se, nesse pomo concreto, à supremacia do Esrado. Enrre cidadãos 'comuns', os preceitos co nsrirucionais relari- vos aos direitos fundamenra is rambém se aplicariam direramenre". 72 Lívia Haygert Pithan A partir da afirmação da responsabilidade comunitária dos indivíduos uns com os outros, cabe afirmar que os médicos estão legitimados a agir - mesmo na ausência de leis que determinem o alcance de seu ofício- de maneira que assegurem aos pacientes sua dignidade. Assim, afirma Ramón Martín Mateo (1986, p. 162) que ante la inexistencia e inviabilidad de un cuerpo normativo, ciertas conductas biomédicas dependerán [ ... ] exclusivamente de los juicios morales de! profesional responsable, pero no por ello se desengan- chan de! ordenamiento vigente. Desta forma o atendimento médico em conformidade com a dignidade humana dos doentes deverá respeitar a autonomia decisória dos mesmos e, simultaneamente, prestar assistência e proteção à sua vulnerabilidade - provocada tanto pela enfermi- dade quanto pelo desnível de poder existente na relação médi- co/ paciente." O desafio que se impõe na assistência médica é equilibrar, tanto quanto possível, o dever protetivo e o dever de respeito pelas opções individuais do doente. Entretanto, a Bioética mos- tra que em inúmeras situações poderá haver discordância entre médico e paciente ou seus familiares sobre qual é a melhor deci- são terapêutica a ser tomada.24 Nesses casos, quando houverde- sacordo a respeito do melhor interesse do paciente, presencia-se um embate entre a dimensão autonômica e a assistencial da dig- nidade humana. "' Frankl in Leopoldo e Silva (1997) afirma que a ass imetria da relação médico- pacienre deriva de d uas principa is razões: (I) devido à natu ral fragilidade e vulne- rabilidade do paciente, que se coloca sob o cuidado do outro e (2) devido à autori- dade do médico proveniente do saber, o qual o doenre desconhece. 24 Os casos mais divulgados são de crianças hospitalizadas as q uais se submetem a procedimento cirúrgico e que seus pais, por serem "Testemunhas de Jeová" , impe- dem aos médicos de realizarem necessária transfusão sangüínea por razões de fé. O entendimento do Poder Judiciário de diversos países, como o Brasil, Itália e EUA, é de autorizar os médicos à real ização da transfusão sangüínea mesmo contrariando a vontade dos pais da cr iança - com vistas ao melhor interesse dessa úl tima. Vide Kipper, 1997, p . 67. A dignidade humana como fundamento juridico... 73 Nem sempre o livre consentimento do doente basta para tornar lícita a realização de certos atos. Assim, não é possível endossar em nosso meio jurídico o entendimento do bioeticista Hugo Tristram Engelhardt (1996, p. 164) quando afirma que o Estado não tem autoridade moral sempre que haja permissão dos indivíduos. Diz ele que "no contexto da moralidade secular ge- ral, o princípio do consentimento sempre supera o da beneficên- cia. [ ... ] O princípio do consentimento pode ser aplicado sem um recurso ao princípio da beneficência". A correspondência político-filosófica do pensamento de Engelhardt se encontra no filósofo do direito norte-americano Ronald Dworkin (1994, p. 313), para quem uma verdadeira con- cepção da dignidade indica uma liberdade individual isenta de coerção externa, a favor de um regime jurídico que garanta, in- clusive, a possibilidade de escolha pessoal sobre a própria morte. Segundo Dworkin, as opiniões emitidas sobre aborto ou eutanásia se referem a uma defesa individual de decidir por si mesmo e qualquer constituição federal baseada em princípios deveria garantir esse direito para seus cidadãos. É inaceitável, para este jusfilósofo, a idéia de imposição de valores morais de uma maioria que negue a possibilidade de manifestação indivi- dual da liberdade de decisão. Um Estado verdadeiramente de- mocrático, nesse enfoque, não pode impor noções de moralidade pública aos seus cidadãos, devendo se abster sobre decisões pes- soais acerca de temas como o início e final da vida (id., ibid.). O conceito de dignidade humana é fundamental para esta- belecer os limites entre a eutanásia e a recusa válida de uma tera- pia inútil. A perda do sentido ontológico do conceito - de ori- gem kantiana, que considera a dignidade valor intrínseco e irre- nunciável de todas as pessoas - permite concebê-la a partir de uma noção vaga, eminentemente subjetiva e relativa. Dessa for- ma, cada um seria o juiz de sua própria dignidade e os doentes em estágio terminal e com enfermidades irreversíveis seriam pes- soas sem valor, supondo-se possível "perder a dignidade" (Mon- tero, 2001). 7 4 Lívia Haygert Pithan Essa concepção autonomista, que considera a vida e o cor- po como propriedade privada, tem expressão quando se afirma ser preciso "devolver a dignidade perdida" dos pacientes termi- nais, respeitando sua vontade individual, seja ela qual for. 2' As- Slm, los partidarios de la eutanasia [ ... ] consideran que ciertas vidas han perdido su valor o que, en algunas circunstancias, el hombre deja de ser hombre. En rales casos, el acto eutanásico [ ... ] se perfila como una ayuda prestada para quien la vida ha perdido toda dignidad (Montero, 2001). Essa postura, baseada em individualismo possessivo, es- quece que a eutanásia afeta diretamente o âmbito social - a começar porque envolve a comunidade médica, formada para atuar em benefício do paciente. 26 Esse pensamento toma a au- tonomia individual como algo absoluto, ilimitado. Nega a exis- tência de uma moralidade pública geral que fundamente a pro- teção do Estado aos indivíduos, inclusive contra si próprios. Porém, não é esse o entendimento prioritário do constitu- cionalismo brasileiro pois, pela noção jurídico-constitucional da dignidade humana em nosso meio, o respeito à autonomia do doente tem tanta importância quanto o dever médico de beneficência - que seria traduzido, em termos jurídicos, pela responsabilidade comunitária. E a atividade médica, nesse sen- tido, não pode ser analisada apenas a partir de critérios técni- cos, havendo-se que falar da conveniência e necessidade de "alargar os horizontes da prática médica e vê-la também como prática social" (Franklin Silva, 1997, p. 9). " Neste sentido, ver Débora Diniz, 200 I. 26 Conforme Montero (2001), a proibição da eutanásia é vista a fim de proteger interesses públicos legítimos e concretamente para (1) proteger rodos os doentes da sociedade; (2) proteger a integridade da profissão médica; (3) proteger as pessoas vulneráveis aos abusos, negligências, erros e evitar formas de eutanásia não solicita- das. A dignidade humana como fundamento juridico.. . 75 As implicações resultantes das ciências biomédicas não dizem respeito apenas à relação privada entre médico e paciente, pois não estão em jogo apenas os interesses do indivíduo doente, mas também o valor do ser humano como espécie e como membro de um corpo social (Casabona, 1994, p. 2). Mas não se pode olvidar que no constitucionalismo brasileiro também há um compromis- so com a sociedade democrática liberal e o respeito aos direitos fundamentais - entre eles a autonomia dos indivíduos. Porém, a autonomia pessoal não é absoluta, devendo estar subordinada a um consenso ético fundado em valores compartilhados e histori- camente situados (Cittadino, 1999). A legitimidade do contexto bioético da tomada de decisões, que considera diversas dimensões envolvidas no caso, não implica negligência dos aspectos Jurídicos. O que tem ocorrido é uma interpretação e aplicação direta de princípios ético-jurídicos - como a dignidade da pessoa humana - pelo meio médico profis- sional.'7 A justificativa é a urgência em tomar decisões frente à lentidão de uma possível intervenção estatal - seja através de posi- tivação ou de reconhecimento judicial de novas situações. Assim se manifesta Martín Mateo (id., ibid., p. 182): las lagunas legales que se aprecian en torno de las cuestiones que plan- tea la moderna bioética, deben cubrirse a veces mediante autorregula- ciones, de hecho ai menos, de los propios cientificos y profesionales, lo que viene a sustituir la intervención reclamada por e! gran público. Ramón Martín Mateo ressalta a importância em constatar a legitimação de condutas médicas baseadas em padrões científicos e eticamente aceitos na medida em que essas novas situações esca- pam aos esquemas formais com os quais tradicionalmente os ope- radores do direito sabem lidar (id., ibid.). Isto é o que ocorre com as "ordens de não-ressuscitação": uma decisão tomada entre mé- 27 Ramón Martín Mateo (1986, p. 178) fala em uma aplicação "quase-judicial" do direito pelos profissionais da área da saúde. Segundo o jurista, talvez a característi- ca mais interessante do biodireito seja sua aplicação pelos próprios profissionais do meio biomédico, a partir de condutas que se configuram na prática da medicina juridicamente adequada, ou seja, em respeito aos preceitos ético-constitucionai s. 76 Lívia Haygert Pithan clico e paciente que, quando a cura não é mais possível-levando- se em conta a dignidade da pessoa humana do doente- limita-se a assistência médica aos cuidados. Isso implica que os meios (re- cursos terapêuticos) serão decididos a partir dos fins (maleáveis a partir da análise do caso concreto).Essa maleabilidade entre fins e meios decorre de uma atitude de prudência médica, onde os critérios utilitaristas baseados na racionalidade técnica- que priorizam a eficiência- dão lugar a um enfoque eticamente comprometido com a aplicação da ciência. O médico, dessa forma, não pauta sua ação em uma atitude tecnicista onde a atividade científica é vista como ato de dominação da natu- reza e conseqüentemente a morte é vista como inimiga. Cientes de um mínimo ético irrenunciável, onde a dignidade humana se apresenta como valor intrínseco às pessoas, os médicos ponderam sua ação a partir da adequação entre meios terapêuticos oferecidos e a capacidade dos tratamentos trazerem ou não benefí- cios ao doente. A assistência médica visa, portanto, fazer o bem; e quando não é mais possível beneficiar o paciente através da cura, prioriza-se o dever de o beneficiar com conforto e cuidados nos momentos que antecedem sua morte. Dessa forma, a morte é encarada como desfecho natural da vida o qual, em algumas situa- ções, é inclusive esperada. A limitação médico-terapêutica respeita o princípio constitu- cional da dignidade humana na medida em que não deixa de ha- ver prestação da assistência médica no final da vida, através da manutenção do dever de cuidado e oferta de terapias proporcio- nais, e respeito à autonomia do paciente, expressa pelo consenti- mento informado. Porém, pode-se ainda suscitar a dúvida da suposta violação do direito à vida a partir dessa estratégia de conduta. Pois bem, se a vida é bem jurídico indisponível, cabe questionar no que consis- te "dispor" da vida nas situações limite em que se encontram os doentes em unidades de terapia intensiva. Está se "dispondo" ou "violando" a vida humana ao decidir aplicar prudentemente os recursos que a ciência oferece? Não se poderia falar em um direito à morte digna, decorrente do direito à vida com dignidade? A dignidade humana como fundamento jurid ico... 77 2.3 Direito à vida com dignidade como fundamento de um direito à morte digna Em virtude do atual poder decorrente de avanços terapêuti- cos e tecnológicos da Medicina na assistência de pacientes em final de vida e diante da constatação de que o uso excessivo des- ses recursos muitas vezes geram mais sofrimento do que benefí- cios, tem sido utilizada a linguagem dos direitos para reivindicar um direito à morte digna. Seguindo o que preconizou o jurista italiano Norberto Bobbio (1992, p. 6) sobre o surgimento de uma quarta geração de direitos destinados a limitar os poderes tecnológicos do ho- mem sobre o homem, como aqueles decorrentes dos avanços das ciências biomédicas, se poderia falar de um novo direito de mor- rer com dignidade? Tereza Rodrigues Vieira (1998) afirma com sabedoria que "em verdade, quando discutimos o direito de morrer, questio- namos o direito do doente terminal em ser ouvido, fazendo com que sua dignidade como pessoa humana seja respeitada". Assim, a dimensão autonômica da dignidade humana deve estar presen- te nos momentos finais da vida, o que significa dizer que o pa- ciente deve ser respeitado em suas opções terapêuticas conforme sua concepção do que é o melhor para si. Neste sentido, afirma Roxana Borges (2001) que o direito a morrer dignamente é a reivindicação por vários direitos, como a dignidade da pessoa, a liberdade, a autonomia, a consciên- cia, refere-se ao direito de ter uma morte humana, sem o prolonga- mento da agonia por parte de um tratamento inútil. [ ... ] Não se tra- ta de defender qualquer procedimento que antecipe ou cause a mor- te do paciente, mas de reconhecer sua liberdade e sua autodetermi- nação (p. 284) . O filósofo Hans Jonas (1993, p. 42) é exemplo de quem defende um direito à morte quando diz que não é apenas lícito, mas obrigatório ao médico suspender procedimentos extraordi- nários e interromper a conservação artificial de uma vida irrever- 78 Lívia Haygert Pithan sível - com fundamentos no direito ao paciente morrer. Con- forme o autor, esse direito a morrer deriva do próprio direito à vida. Já Leon R. Kass (1993) afirma que não há fundamento le- gal e nem filosófico a um direito à morte e recorrer à linguagem dos direitos para defender que o Estado proteja uma possibilida- de de autodestruição apenas confunde a discussão sobre o recha- ço de tratamentos médicos. Kass considera distintas as situações de deliberadamente matar ou de permitir a morte de paciente que recusa tratamento em final de vida - mas afirma que defen- der um direito à morte distorceo tema e reduz todas as compli- cadas questões sobre o que é correto e bom a questões de direito individual. No mesmo sentido, Etienne Montero (2001) fala que o di- reito a morrer com dignidade tem sido um dos principais argu- mentos daqueles que defendem a legalização da eutanásia. Para esse autor, debaixo do legítimo pretexto de rechaçar o empenho ou obstinação terapêutica, as expressões "direito a morte digna" ou "direito a morrer" têm sido estigmatizadas para defender a possibilidade de abreviar a vida de um doente terminal ou irre- versível. Assim, estabelecer o entendimento de dignidade huma- na é fundamental para definir limites entre a eutanásia e a recusa válida de uma terapia inútil. A questão central, para Montero, é estabelecer se o conceito de dignidade humana com o qual se trabalha é aquele baseado na ética kantiana e o qual inspirou tanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU de 1948 quanto nossa Consti- tuição Federal ou se é relativista, baseado no subjetivismo dos envolvidos - onde a autonomia individual é vista de forma abso- luta. A inviolabilidade do direito à vida, como consta no caput do artigo 5º da Constituição Federal brasileira de 1988, retrata a proteção da vida como bem jurídico indisponível. Se a dignida- de humana é a norma-valor que inspira a interpretação de todo o ordenamento jurídico, cabe analisar o direito à vida juntamen- A dignidade humana como fundamento jurídico... 79 te com a noção de dignidade - podendo-se falar do direito à vida digna. Não se poderia dizer, então, que do próprio direito à vida digna deriva um direito a morrer com dignidade? De fato, na Constituição brasileira ficou expresso pelo artigo 5º, § 2º a existência de direitos não-escritos decorrentes do regime democrático e dos princípios constitucionais. Os novos problemas suscitados pela bioética necessitam ser tratados a partir desse cará- ter aberto das constituições, que permite um ajuste à relativização histórica dos códigos éticos e às novas convicções sociais (Martín Mateo, 1986. p. 165). Assim, cabe afirmar com lngo Sarlet (2001, p. 97) que "a dignidade da pessoa humana assume posição de des- taque, servindo como diretriz material para a identificação de direitos implícitos". A idéia de que as "ordens de não-ressuscitação" consentidas consistem em prática médica legalmente adequada, por estarem em conformidade com a dignidade da pessoa humana, tem res- paldo no entendimento de Dalmo de Abreu Dallari (1998) onde, referindo-se aos casos de doentes em estado de inconsciência irre- versível, afirma que há hipóteses em que só resta uma aparência de vida e, neste caso, tomadas todas as cautelas para a eliminação de dúvidas quanto ao verdadeiro estado do paciente e obtida a autorização livre e cons- ciente de quem pode decidir pela pessoa- que, na realidade, já dei- "xou de viver- aí sim é possível deixar de prolongar a vida aparente e optar pela ortotanásia, em nome da dignidade humana. Isso é com- patível com os direitos humanos. [ ... ) a vida humana é mais do que a simples sobrevivência ftsica, é a vida com dignidade, sendo esse o al- cance da exigência ética de respeito à vida (p. 239). Assim, a vida com dignidade extrapola o simples aspecto biológico da existência humana. Quando Dallari fala que odo- ente em estado de inconsciência irreversível em realidade "já deixou de viver", percebe-se a presença de uma preocupação em estabelecer conceitos que abarquem a complexidade significativa dos fenômenos sociais. De fato, inexistem as dimensões social e psíquica da vida de um doente em estado vegetativo permanen- 80 Livia Haygert Pithan te. Casos limítrofes como este demonstram a inadequação em atribuir sentidos unidimensionais, seja biológico, médico ou jurídico. Nesta linha de raciocínio se manifesta Leonard Martin (1998, p. 189), ao dizer que não há dúvidas que é mais fácil tratar a morte como um fenômeno puramente biológico. A dificuldade é que a morte de seres humanos recusa simplificações desta natureza. Aspectos jurídicos, sociais, psi- cológicos, culturais, religiosos insistem em se 'intrometer' e 'compli- car' a situação. Conforme denuncia Warat, na epistemologia jurídica tradi- cional geralmente se reduz a complexidade social mediante limites significativos dos conceitos, podendo-se afirmar que "a linguagem da ciência traduz a complexidade significativa a uma complexida- de conceitual, logicamente ordenada, porém significativamente empobrecida" (1995, p. 306). Por outro lado, a "conceitualização ampla e aberta do sentido das palavras" (id., ibid., p. 308), parece estar presente tanto nos comentários anteriormente citados de Dalmo Dallari como nos de José Afonso da Silva sobre o direito à vida, quando afirma que (1999, p. 200): Vida, no texto constitucional (art. 5º, caput), não será considerada apenas no seu sentido biológico de incessante auto-atividade fun- cional, peculiar à matéria orgânica, mas na sua acepção biográfica mais compreensiva. [ ... ) É mais um processo (processo vital), que se instaura com a concepção [ ... ], transforma-se, progride, mantendo sua identidade, até que muda de qualidade, deixando, então, de ser vida para ser morte. Tudo que interfere em prejuízo deste fluir es- pontâneo e incessante contraria a vida (Grifas no original) . Assim, parece que o procedimento médico-terapêutico da reanimação cardiopulmonar, quando usado de maneira excessiva e desnecessária estaria violando o "fluir espontâneo" do processo vital, que termina com a morte. Nesse sentido, o bem jurídico vida estaria sendo violado e disponibilizado justamente com a intervenção médica extraordinária ou fútil e não com a limitação terapêutica. A abertura para dimensões extrajurídicas, atribuindo sentido à vida a partir de abordagem transdisciplinar, também aparece presente quando se diz que A dignidade humana como fundamento jurídico. .. 81 a vida humana, que é o objeto assegurado no art. 52, caput, integra- se de elementos materiais (físicos e psíquicos) e imateriais (espiri- tuais). [ ... ] No conteúdo de seu conceito se envolvem o direito à dignidade da pessoa humana [ ... ], o direito à privacidade [ ... ], o di- reito à integridade físico-corporal, o direito à integridade moral e, especialmente, o direito à existência (id., ibid.). O direito à vida com dignidade, portanto, inclui a exigên- cia de respeito à integridade física e psíquica do doente no mo- mento da morte, pois "a vida humana não é apenas um conjun- to de elementos materiais. Integram-na, outrossim, valores ima- teriais, como os morais" Qosé Afonso da Silva, 2001, p. 204). Isso implica que o recurso médico-terapêutico fútil, ou seja, inapto a produzir benefícios, não pode ser utilizado sem o consentimento do doente ou seus familiares. A prática da obstinação terapêutica não-consentida se caracteriza como violação à integridade física e moral do indivíduo, onde se disponibiliza do bem jurídico vida ao impedir que o processo vital transcorra dentro dos limites da natureza humana. Assim, agredir o corpo humano é um modo de agredir à vida, pois esta se realiza naquele. A integridade físico-corporal constitui, por isso, um bem vital e revela um direito fundamental do indivíduo. [ ... ] A Constituição [ ... ] além de garantir o respeito à integridade física e moral, declara que ninguém será submetido a tortura ou tratamento desumano ou degradante (art. 52, III) (id., ibid.). José Afonso da Silva afirma que a eutanásia consiste em "uma forma não espontânea de interrupção do processo vital, pelo que implicitamente está vedada pelo direito à vida consa- grado na Constituição" (idem, p. 205) . Entretanto, não proce- der a ressuscitação cardiopulmonar de paciente terminal ou irre- versível consiste em permitir que ocorra a interrupção espontânea do processo vital, detectados os limites éticos e jurídicos- digni- dade humana - da aplicação dos recursos terapêuticos. Assim é que o mesmo autor afirma que "não parece caracterizar eutanásia a consumação da morte pelo desligamento de aparelhos que, artificialmente, mantenham vivo o paciente" (idem, p. 206) . 82 Lívia Haygert Pithan Portanto, para agir em conformidade com o ordenamento constitucional brasileiro, através do princípio ético-jurídico da dignidade humana, os médicos devem se abster de impor deci- sões unilaterais sobre opções terapêuticas aos pacientes, assim como não deixar de prestar a assistência devida. Tal assistência implica a sensibilidade e prudência em não se deixar levar por uma racionalidade tecnicista, mas sim em adequar os meios te- rapêuticos disponíveis de acordo com o diagnóstico e prognósti- co do paciente. Leonard M. Martin (1998, p. 188), usando a linguagem dos direitos para descrever no que consiste o respeito pela au- tonomia do paciente terminal e irreversível, afirma que esse doente tem "o direito de não ser tratado como mero objeto cuja vida pode ser encurtada ou prolongada segundo as conve- niências da família ou da equipe médica". Se o respeito pela dignidade da pessoa humana implica em não tratar a humani- dade como meio, parece necessário questionar os objetivos de um tratamento médico excessivo e sem sentido no final da vida dos indivíduos doentes. O princípio da dignidade humana inclui a exigência de respeito pela dignidade no momento da morte (cf. Casabona, 1994, p. 484) e dessa forma, o direito à vida, assegurado pela Constituição Federal, não impõe um dever dos indivíduos con- tinuarem vivendo sob quaisquer circunstâncias. Nesse sentido, afirma Hans Küng que "el derecho a prolongar la vida no es de cumplimiento obligado; el derecho a la vida no es imposición de la vida". 28 No meio jurídico nacional, Roxana Borges (2001) afirma o mesmo, que a Constituição assegura direito à vida no caput do Artigo 5º, mas não estabelece um dever de viver. Des- sa forma 28 Nessa afirmação, Küng se refere indiretamente às idéias de ESER, A. Freiheit zum sterben- klein recht auftotung. Jur istenzeitung, 41 (1986), p. 786-795. Vide Küng, 1997, p. 46. A dignidade humana como fundamento jurid ico... 83 é assegurado o direito (não o dever) à vida, mas não se admite que o paciente seja obrigado a se submeter a tratamento. O direito do pa- ciente a não se submeter ao tratamento ou de interrompê-lo é con- seqüência da garantia constitucional de sua liberdade, de sua liber- dade de consciência [ ... ], da inviolabilidade de sua intimidade e honra e, além disso, da dignidade da pessoa, erigida a fundamento da República Federativa do Brasil, no art. I º da Constituição Fe- deral. [ ... ] A intervenção terapêutica contra a vontade do paciente é um atentado contra sua dignidade. Nos casos de intervenção médica fútil ou desnecessária pa- rece não haver dúvidas que consiste em violação da dignidade humana e conseqüentemente do direito à vida digna fazê-lo sem consentimento do paciente e/ou seus familiares. Todavia, numa visão mais flexibilizada sobre a autonomia individual conforme enfoque da obra de lngo Sartet, nem sempre o tra- tamento médico compulsório será um atentado contra a digni- dade do doente.Entretanto, nos casos em que o processo de morte irreversí- vel do paciente está instalado, e quando os recursos terapêuticos mais agressivos se tornam inócuos, não parece haver violação ao direito à vida deixar de oferecer todos os artefatos tecnológicos disponíveis e desproporcionais ao estágio da doença do indiví- duo. O direito à vida digna inclui o direito a não ser tratado como objeto, além do direito em ter suas opções e vontades a- tendidas - entre elas a escolha pelo limite da intervenção médica sem perspectivas de benefícios. Não se deve esquecer, portanto, que a natureza dos seres racionais "os distingue já como fins em si mesmos, quer dizer, como algo que não pode ser empregado como simples meio" (Kant, 1986, p. 68). Se considerarmos a afirmação de Boaventura Santos (1989, p. 28) de que "as conseqüências sociais da aplicação científica fornecem os limites de sua justificação", deve-se questionar quais as conseqüências da obstinação terapêutica indesejada pelo pa- ciente e/ou seus familiares. A princípio, parece que um excesso terapêutico que contrarie os desejos do doente incurável e seus 84 Lívia Haygert Pithan familiares não está apto a produzir benefícios, pois a mera quan- tidade de vida não é o desejado. Sofrimentos de toda a ordem e mera prolongação do processo de morrer: eis as conseqüências de uma intervenção médica excessiva e compulsória, que não proporciona cura e nem cuidados ao enfermo. A razão de se considerar relevante a vontade do paciente se sustenta em que, para determinados indivíduos pode parecer mais benéfico (mesmo que do ponto de vista emocional ou reli- gioso) manter uma vida em quaisquer condições, mesmo per- meada de sofrimentos físicos e sem perspectivas de melhora ou cura. Porém, se há um direito de se submeter voluntariamente a terapias inúteis, em respeito à consciência e noção pessoal do bem, não pode se dizer que haja um dever jurídico de sofrer inutilmente em proteção ao "direito à vida". Se a vida não é bem disponível ao seu titular, não o é também aos médicos ou ao Estado. Assim, é a imposição do prolongamento do processo de morte sofrida que parece estar "dispondo da vida", usando-a como meio de um tecnicismo social e eticamente irresponsável. A autonomia diz respeito, justamente, à possibilidade de escolher entre mais de uma opção moral igualmente válida. Tan- to a liberdade total como sua total restrição acabam por rejeitar a autonomia individual pois, conforme Alvaro Valls (1996, p. 56), "tanto o libertarismo absoluto quanto o determinismo absoluto são tipos de negação da liberdade". O tipo de negação da liberdade em perigo no meio jurídico brasileiro, quanto ao caso em análise, é haver uma imposição estatal para que o médico ou (1) submeta o paciente à obstina- ção terapêutica contra sua vontade ou (2) limite os recursos te- rapêuticos sem consultar o doente, desconsiderando seus valores e de seus familiares. Entretanto, a garantia constitucional da autonomia ética estaria sendo violada, "pois a ética se refere às ações humanas, e se elas são totalmente determinadas de fora para dentro, não há espaço para a liberdade, como autodetermi- nação" (id., ibid.). A dignidade humana como fundamento juridico... 85 O dever médico de respeito pelo direito à vida com digni- dade, portanto, inclui os momentos que antecedem a morte do indivíduo. Este direito se traduz pela garantia da autonomia decisória do doente e pela consideração de seus valores, que determinarão se o "bem" consiste ou não na utilização de todos os recursos terapêuticos disponíveis, independente do potencial de cura ou melhora da enfermidade. Ainda que se defenda a existência de uma questionável obrigação jurídica de assistir medicamente e proteger os doen- tes mesmo contra sua própria vontade, os limites da assistência médica prestada devem ser pautados pelos benefícios a serem oferecidos e não pela ciência vista como um fim em si mesmo. Diante do exposto até aqui, foi privilegiado como funda- mento jurídico dos limites médico-terapêuticos no tratamento de pacientes irreversíveis o princípio constitucional da dignida- de da pessoa humana. Entretanto, é preciso ainda analisar ou- tras estratégias de respostas - sejam elas judiciais, morais, reli- giosas, administrativas ou legislativas - que têm surgido na atualidade sobre o tema da tecnologia médica aplicada no pro- longamento da vida de doentes que estão morrendo. Ciente da impossibilidade de esgotar um tema de tamanha riqueza e complexidade, pretende-se no capítulo que se segue apresentar algumas importantes manifestações sociais no surgimento de limites éticos e jurídicos da intervenção médica de pacientes irreversíveis. 86 Lívia Haygert Pithan 3 Respostas atuais sobre limites éticos e jurídicos da intervenção médico-terapêutica • • I • em pacientes trreverstvets ---------·--------- Los temas que preocupan a la colectividad y a los científicos se extienden más aliá de las preferencias individuales: las preguntas sobre política social y legislativa exigen respuestas conjuntas, multidisciplinares: teóricos de la Ética, juristas, profesionales de la Medicina, políticos y cada uno de los ciudadanos son los que en un sistema democrático tienen que tomar las decisiones. (Casado, 1998, p . 69). Nesse capítulo, pretende-se expor quais as principais respostas que tanto o Direito como a sociedade de um modo geral têm for- necido às situações de limitação médico-terapêutica. As leis sobre o tema ainda são incipientes, havendo casos paradigmáticos de deci- sões judiciais internacionais - principalmente norte-americanas - que têm servido de referência para reflexão bioética. Por outro lado, frente à insuficiência dos ordenamentos jurídicos e diante a impossibilidade de espera por intervenção estatal judicial para toda e qualquer decisão médica, presencia-se uma espécie de auto- regulamentação do meio médico profissional através de condutas de acordo com padrões científicos eticamente aceitos. A dignidade humana como fundamento jurídico... 87 Por não se ter notícia no âmbito nacional de jurisprudência existente sobre demandas de não-oferta ou retirada de recursos terapêuticos, recorre-se ao entendimento internacional sobre o assunto. Assim, inicialmente cabe a análise de alguns casos judi- ciais e leis norte-americanas que têm sido considerados marcos na conquista da autonomia dos pacientes e na garantia de seu direito em recusar tratamento médico. A escolha da nacionalida- de dos casos reside no alto nível de sistematização que a Bioética se encontra nos EUA, além do fator de ter sido esse país o berço dessa nova área transdisciplinar. Num segundo momento, procede-se à exposição de algu- mas pautas deontológicas que têm guiado a ação dos médicos do mundo inteiro - como o manifesto da Igreja Católica sobre a eutanásia, que admite a recusa da obstinação terapêutica e as declarações da Associação Médica Mundial, no sentido de admi- tir os limites dos tratamentos à saúde e também a visão do tema a partir dos princípios bioéticos. É importante ressaltar o valor de obrigação moral que tais documentos possuem, influenciando a prática médica e também servindo de subsídio ético para polí- ticas legislativas que futuramente possam ser desenvolvidas em nosso país a respeito do assunto. Por fim, descreve-se alguns documentos normativos na- cionais que, de uma forma ou outra, podem auxiliar a esclare- cer o estado atual da questão no âmbito jurídico brasileiro. Além de dispositivos da Constituição Federal, uma lei paulista estabelece o direito dos usuários dos serviços de saúde do Esta- do de São Paulo recusar tratamento médico extraordinário. Há também contribuições trazidas por resoluções administrativas do Conselho Nacional de Saúde e do Conselho Nacionaldos Direitos da Criança e do Adolescente. Ainda sobre o estado atual do tema da ortotanásia no direito brasileiro, convém tecer comentários sobre o atual Anteprojeto de Reforma do Código Penal brasileiro - que inclui a exclusão de ilicitude da eutanásia pass1va. 88 Lívia Haygert Pithan 3.1 Casuística judicial internacional sobre conduta médica adequada frente aos pacientes irreversíveis Na literatura de Bioética sobre final da vida se encontram mencionados casos onde as decisões envolvendo não-oferta ou retirada de suporte vital de pacientes criticamente doentes acaba- ram sendo recorridas ao Judiciário, por conflito de interesses entre familiares do paciente e os médicos responsáveis. No Brasil, ainda não existe notícia de situações análogas, daí recorrermos à descri- ção de três casos judiciais norte-americanos e um canadense para ilustrar a pesquisa. Interessante notar que, a partir desses casos, começa a haver discussão a respeito das fronteiras morais e jurídi- cas envolvendo eutanásia, suicídio assistido e não-oferta ou retirada terapêutica de pacientes terminais e irreversíveis. É preciso afirmar, todavia, que essas fronteiras ainda estão sendo construídas. 1 Um importante e conhecido caso judicial norte-americano diz respeito a jovem Karen Ann Quinlan, ocorrido no ano de 1975 em um hospital de Nova Jersey- EUA. Karen entrou em estado de inconsciência irreversível e seus pais, após perdidas todas as esperanças de recuperação, pediram aos médicos que a desco- nectassem do respirador artificial, para que pudesse morrer. O hospital negou o pedido, que foi acabar no Judiciário, arrastando- se em um longo processo judicial. Por fim, a Suprema Corte de Nova Jersey nomeou o pai de Karen seu tutor, deixando que este decidisse pela filha em exercício do juízo substitutivo (substituted judgement). Karen foi desconectada do respirador, após decisão de seu pai, e permaneceu viva por mais dez anos - morrendo em casa. Conforme Kipper (1997, p. 68), Ao rratar da diferença entre "killing" e "lerring die" do pomo de vista jurídico, Lawrence O . Gostin (1993) afirma que um grande número de decisões judiciais e pu- blicações acadêmicas recenres tem mosrrado os poucos riscos de responsabilização cri- minal dos médicos por retirada ou não-oferta terapêutica. Enquanto que "deixar mor- rer", de acordo com a vontade do paciente, expressa o melhor inreresse ou age con- forme a noção de bem do indivíduo, o médico não pode ativamenre matar o doenre. Entretanto, conforme Lawrence, as cortes judiciais ainda estão desenvolvendo os exa- tos parâmetros do direito a ter tratamento médico suspenso ou não oferecido. A dignidade humana como fundamento jurídico... 89 a sentença final do caso Quinlan constitui um dos marcos da histó- ria da bioética, porque foi a primeira tentativa de aplicar o critério de juízo substitutivo na tomada de decisões sobre a retirada de me- didas de suporte vital em pacientes incapazes. Sob influência do caso Karen Quinlan, um ano após o es- tado da Califórnia aprovou a Natural Death Act, lei que entrou em vigor em 1 º de janeiro de 1977 (Gafo Fernández, 2000, p. 113). A Lei da Morte Natural californiana afirma que as pessoas adultas têm o direito fundamental de controlar as deci- sões relacionadas com os cuidados médicos que lhes possam ser prestados, inclusive o de dispor sobre a utilização ou interrupção de procedimentos clínicos tendentes a prolongar-lhes a vida em caso de situação terminal. Desse modo, é reconhecido o direito de estabele- cer certas diretrizes por escrito, dando instruções a seu médico sobre a não-aplicação ou a suspensão de procedimentos que possam man- tê-la viva no caso de uma si tuação terminal (id., ibid.). Mas foi apenas através do caso Cruzan que a Suprema Cor- te dos Estados Unidos reconheceu o direito aos pacientes recusa- rem tratamento médico que os mantêm com vida, incluindo hidratação e alimentação artificial (Clotet, 1993b). Após acidente de automóvel, Nancy Cruzan foi hospitalizada entrando em estado vegetativo persistente. Passados três anos, quando seu estado já era considerado irreversível, seus pais solicitaram aos médicos que retirassem o tubo de alimentação artificial para que a deixassem morrer. Negado o pedido pelos médicos, recorreram ao Judiciário realizando o mesmo pedido a uma corte judicial de Missouri, que designou um tutor especial para argumentar con- tra o solicitado. Após uma audiência, o tribunal emitiu a autori- zação para o pedido, dizendo que consistia no interesse de Nancy Cruzan a permissão para que morresse com certa digni- dade ao invés de deixá-la vivendo em estado de inconsciência irreversível. 2 2 A descrição do caso Cruzan que se segue rem como fonte Dworkin, 1998. 90 Lívía Haygert Pí than Imediatamente, o tutor especial apelou da ordem judicial para a Suprema Corte de Missouri, que revogou a decisão de primeira instância afirmando que os pais não tinham faculdade de ordenar que interrompessem a alimentação artificial de Nancy sem prova "clara e convincente" de que ela mesma, quando competente, teria decidido pelo mesmo nessa circuns- tância. Os pais da moça apelaram a Suprema Corte Norte- Americana, argumentando que a decisão violava o direito de não ser submetida a um tratamento não desejado. Assim, em junho de 1990, a decisão da Suprema Corte dos EUA afirmou que o Estado de Missouri não infringiu tal direito, mas apenas insistiu que os indivíduos devem o exercê-lo por si mesmos, fazendo-'1 de maneira formal e inequívoca - por exemplo, através de um "testamento vital".3 O pedido da família Cruzan foi negado, mas ficou estabele- cido até que ponto os estados devem respeitar o direito das pes- soas a não ser submetidas a tratamento médico não desejado. A medida encontrada foi assegurar que a vontade individual fosse efetivamente realizada, criando-se instrumentos e procedi- mentos para tanto. Cabe dizer que os pais de Nancy peticiona- ram novamente ante o tribunal de primeira instância do Missou- ri em agosto de 1990, apresentando três amigos da filha que testemunharam que a moça haveria dito que não desejaria "viver como um vegetal". Em 14 de dezembro tal tribunal concedeu o pedido e foi interrompida a alimentação e hidratação de Nancy Cruzan, que recebeu medicamentos para que não tivesse dores e morreu em 26 de dezembro. A decisão da Suprema Corte dos EUA no caso Cruzan atri- bui o direito constitucional das pessoas negarem tratamento médico não desejado, priorizando a autonomia individual frente ao interesse estatal de proteger uma vida "sem dignidade" (do ponto de vista pessoal). Entretanto, mesmo deixando margem para uma opção privada sobre qual o padrão de dignidade esco- 3 Sobre este tema, ver trabalho de Clotet, 1993b. A dignidade humana como fundamento jurid ico... 91 lhido para o final da vida das pessoas, foi afirmado que a vida tem um valor incondicional e intrínseco.4 Essa proteção estatal da vida como bem que tem importância por si mesmo, busca proteger os mais fracos, que podem ser usados como instrumen- to e interesse de terceiros. Daí haver uma presunção de que toda a vida deve ser mantida, independente das condições - e por isso o Estado do Missouri estava certo em requerer provas que ates- tassem que o pedido dos pais de Cruzan realmente correspondia aos desejos de Nancy. Ronald Dworkin, analisando os argumentos utilizados pe- los juízes no julgamento do caso Cruzan, critica a presunção estatal em manter com vida pacientes em estado de inconsciên- cia irreversível, afirmando que é possível duvidar de que uma vida nessas condições tenha algum valor. Nesse sentido, afirma ser perigosa a incompreensão da "irresistível idéia de que a vida humana tem uma significação moral intrínseca". Esse argumen- to, para ele, serve para o desperdício dos recursosfinanceiros públicos destinados à saúde ao manter uma vida meramente técnica e "sem sentido" (Dworkin, 1998). Sob o ponto de vista de um constitucionalismo liberal,' contrariamente ao entendimento dos constitucionalistas brasilei- ros, para Dworkin a dignidade humana é um valor que diz res- peito exclusivamente ao julgamento privado dos indivíduos e que se expressa através de uma autonomia individual livre de qualquer tipo de interferência do Estado. Dessa forma conclui que o Estado que não permite aos indivíduos total liberdade em suas escolhas privadas é um estado totalitário (Dworkin, 1994, p. 313). A despeito da vida humana possuir um valor inrrínseco e incondicional, as pessoas não podem ser usadas como meio ou instrumenro da ciência ou de terceiros. Daí a importância em assegurar a autonomia individual, dando oportunidade para que as pessoas se manifestem previamenre sobre o tipo de tratamento que desejariam em casos terminais- sem que isso implique a defesa da eutanásia. Especificamente sobre o pensamento de Dworkin na classificação do constitucio- nalismo liberal, vide: Cittadino, 1999, p. 152-159 e 186-194. 92 Lívia Haygert Pithan Sem analisar os aspectos procedimentais distintivos entre o sistema da common law e o brasileiro, de origem romano- germânica,6 parece interessante ressaltar um aspecto argumenta- do na decisão do caso Cruzan que tem repercussão teórica no entendimento constitucional brasileiro. Para o juiz Rehnquist - presidente da Suprema Corte Norte-Americana - não pareceu contraditório defender a inviolabilidade da vida humana e con- ceder, simultaneamente, o direito aos indivíduos a não se sub- meterem a tratamentos contra sua vontade. Nesse sentido, mes- mo negado o pedido dos pais de Nancy, ficou assegurado aos pacientes capazes decidirem antecipadamente a maneira de ser tratados no final da vida. O direito das pessoas decidirem sobre seus futuros trata- mentos médicos se enquadra hoje na categoria do que é conhe- cido como diretrizes antecipadas (advanced directives) (Macldin, 1995). Tais diretrizes foram implementadas através de uma lei aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos e vigente a partir de 1 ºde dezembro de 1991 (um ano após o caso Nancy Cruzan ser julgado pela Suprema Corte), a The Patient SelfDetermina- tion Act, que consiste em "um elo em uma série ou seqüência inacabada de leis e declarações com traços marcantes, de caráter científico, ético e social" (Clotet, 1993b, p. 158). Esta lei apresenta três formas de executar as diretrizes anteci- padas, conforme explica Joaquim Clotet, que podem ser por: (1) manifestação expressa de própria vontade (living wilb; (2) autori- zação de um representante legal ou curador para o cuidado da saúde, que decidirá no caso de incapacidade do paciente (durable power of attorney for health care); ou (3) decisão ou ordem anteci- pada para o cuidado médico (advance care medica! directive) (id., ibid.) . Conforme Kipper (1997, p. 68), surge então um marco ético para as decisões substitutivas, cujas normas de atuação cor- respondem nesta seqüência: Nesse sentido, ver distinção entre os principais sistemas de direito contemporâneo em David, 1998. Sobre a indissociabilidade da moral e do direito, a partir de um enfoque da common Law norte-americana, ver em especial Dworkin, 1999. A dignidade humana como fundamento jurídico... 93 critério subjetivo- o paciente decide, quando capaz e através de dire- trizes prévias diretas (testamentos vitais) ou indiretas (poderes de representação) como devem tratá-lo quando incapaz de fazê-lo e ou- tros tenham que fazê-lo em seu lugar; critério de juízo substitutivo - um substituto escolhe o que o paciente elegeria se fosse competente e estivesse a par tanto das opções médicas como de sua situação clí- nica real, incluindo o fato de ser incompetente (obviamente o subs- tituto deve ter conhecido o paciente quando capaz e saber suas pre- ferências seus valores, etc.); critério de maior beneficio ou de melhor interesse- um substituto elege o que, a seu critério, promove melhor os interesses do paciente e aquilo que lhe proporciona o maior bem. Atualmente, em todos os estados norte-americanos é reco- nhecido o direito dos pacientes em recusar tratamento médico através das formas descritas anteriormente (cf. Macklin, 1995). A análise da forma como é tratada a autonomia do paciente nos EUA faz pensarmos em possíveis políticas legislativas análogas no Brasil, com as devidas adaptações culturais. Se as "ordens de não-ressuscitação" (que é uma espécie de diretriz antecipada) ocor- rem na prática hospitalar brasileira, de maneira velada e com riscos de arbitrariedade, parece oportuno em nosso país se promover um amplo debate público no sentido de tornar claro e documentado o processo decisório que precede as estratégias de conduta médica que caracterizam a ortotanásia ou limitação terapêutica. O respeito à dignidade humana, conforme foi visto, de- penderá tanto da livre manifestação da autonomia do paciente quanto da prestação de assistência médica devida e proporcio- nal. Para que se assegure se está ou não havendo esse devido respeito, é necessário haver registro no prontuário do paciente que ateste de que forma as decisões foram tomadas - como documento de segurança tanto do paciente (evitando decisões unilaterais dos médicos) quanto do médico (para se proteger de eventuais processos judiciais).7 Lembrando o alerta de Clotet (1993b), as diretrizes antecipadas, quando "usadas prudente- 7 O prontuário médico pode servir como instrumento de defesa legal, conforme consta na Resolução n2 1.331/89 do CFM- Conselho Federal de Medicina. Neste sentido, ver Fabbro, 1998, p. 8-9. 94 Lívia Haygert Pithan mente podem contribuir sobremaneira para o aprimoramento da responsabilidade individual e coletiva no que diz respeito à saúde". Cabe frisar que a permissão dada aos indivíduos em negar terapias médicas ineficazes não equivale permitir a eutanásia ou o suicídio assistido. O fato da vida humana ter valor intrínseco e incondicional, que justifica proibir as duas últimas práticas, não outorga ao Estado o direito de impor uma obrigação indi- vidual de se manter vivo sob quaisquer condições - entre elas, em um estado de inconsciência irreversível. A diferença jurídica entre suicídio assistido e as situações de limitação terapêutica, envolvendo não-oferta ou retirada de recurso excessivo, foi estabelecida em 1997, por uma decisão judicial também proferida pela Suprema Corte dos EUA, no caso Diane-Quill. O médico Timothy Quill auxiliou sua paci- ente Diane, com leucemia aguda, a se suicidar - oferecendo os barbitúricos que a paciente utilizou, após preparar o momento da morte e despedir-se dos fami liares . Dr. Quill atestou o óbito da paciente como se ela houvesse morrido da enfermidade ( Goldim, 2001). Em junho de 1997, refutando os argumentos de defesa de Quill, a Suprema Corte Norte-Americana considerou haver diferenças morais e legais entre (I) não implantar ou retirar uma medida terapêutica e (2) auxiliar um paciente a cometer suicídio, afirmando que "existe uma importante diferença entre o suicídio assistido e não iniciar ou retirar um tratamento de suporte vital, uma distinção reconhecida tanto por profissionais da Medicina como do Direito" (id., ibid.). Na decisão do caso Diane-Quill, portanto, a Suprema Cor- te afirmou ser importante a distinção entre fazer (making) o pa- ciente morrer e deixá-lo (letting) morrer, sendo essa distinção lógica, racional e bem estabelecida. Segundo entendimento da corte, a causa da morte é um elemento decisivo a ser analisado: quando um paciente morre por se recusar a receber tratamento A dignidade humana como fundamento jurídico... 95 médico, a principal causa da morte é a doença. Entretanto, se o doenterecebe uma injeção letal prescrita por um médico, a mor- te deriva desse ato e, portanto, o principal causador é o médico." Situação distinta foi um caso ocorrido no Canadá, julgado pela Corte de Apelação de Manitoba, em novembro de 1997, em que foi concedida judicialmente uma autorização para pro- ceder à "ordem de não-reanimação" de uma criança de 1 ano de idade que se encontrava em estado vegetativo. Trata-se de situação distinta dos casos Karen Quinlan ou Nancy Cruzan porque, aqui no caso canadense, quem peticionou no sentido de limitar o tratamento foram os próprios médicos e não os familiares do paciente. O hospital entrou com uma demanda judicial pedindo autorização para não proceder a ressuscitação cardiopulmonar, mesmo contra a vontade dos pais, pois esse procedimento não traria benefícios à criança. O juiz atendeu ao pedido do hospital, alegando que os pais da criança não esta- vam decidindo em seu melhor interesse ao insistirem na inter- venção terapêutica desnecessária e entendeu que: "lt is in no one's interest to artificially maintain the life of a patient who is in an irreversible vegetative state" (Weijer, 1998, p. 492). Conforme essa decisão judicial, a manutenção de uma vi- da artificial de paciente em estado vegetativo irreversível não seria justificada e o juiz entendeu que o melhor interesse do paciente era deixá-lo morrer - mesmo contrariando o pensa- mento de seus pais. É de se notar que existem autores que defendem que as ordens de não-ressuscitação poderiam ser dadas independente da vontade do paciente ou seus familiares, com base em crité- rios de futilidade." Conforme a Associação Médica Canadense, é possível uma decisão médica unilateral de não-oferta ou reti- rada terapêutica baseada em critérios de futilidade (foint State- Nesse sentido, expondo as diferentes noções de "causa" e como essa questão tem sido entendida nas cortes americanas e canadenses, vide Culver e Cupples, 1999. Entre esses autores, encontram-se: Marsh e Sraver (1991) e Murphy (1993). 96 Lívia Haygert Pithan ment on Resuscitative Interventions, 1995). Este documento, que expressa um guia de princípios do agir médico, afirma a ausên- cia de obrigação em oferecer aos pacientes tratamentos fúteis ou que não lhes tragam benefícios (there is no obligation to offir a person fotile o r nonbeneficial treatment) (Weijer, 1998). Entretanto, Charles Weijer sustenta que esta diretriz da Associação Médica Canadense é arbitrária porque impõe de- terminado conceito de futilidade e menospreza os valores da família do paciente, havendo uma imposição valorativa do mé- dico. Diz o autor "the joint statement fails because it does not allow physicians to respect choices for life-preserving therapy that are rooted in religious belief" (id., ibid., p. 493). Assim, as decisões médicas unilaterais que desconsideram os padrões éti- cos dos envolvidos - paciente e familiares - são autoritárias e devem ser evitadas. Um dos problemas na interpretação unilateral por parte dos médicos dos critérios de futilidade terapêutica está no peri- go em não serem oferecidos todos os recursos necessários em determinados casos em função de limitações financeiras dos pacientes. As razões pelas quais os médicos não oferecem ou retiram recursos terapêuticos dos doentes não pode ser, em hipótese alguma, avaliadas pelo poder aquisitivo do doente. Portanto, mesmo na ce;neza da irreversibilidade do diag- nóstico e prognóstico do paciente, parece-nos que a futilidade de um recurso terapêutico deve ser estabelecida levando-se em consideração os valores e desejos do doente e/ou de seus fami- liares. Essa exigência de participação da família no processo decisório da intervenção terapêutica em final de vida não visa apenas proteger os pacientes, mas os próprios médicos de even- tuais acusações por arbitrariedade. A dignidade humana como fundamento jurídico... 97 3.2 Deveres morais do médico frente aos pacientes irreversíveis: deontologia médica nacional, internacional e a posição da Igreja Católica A Bioética não se confunde com a chamada ética médica, ou seja, a ética deontológica dos profissionais da medicina - pautada em códigos de conduta. Os dilemas éticos surgidos no âmbito das ciências da saúde extrapolam as normas éticas codifi- cadas, podendo-se afirmar, com Clotet e Kipper (1998, p. 39), que "a reflexão sobre um conflito moral no exercício da profis- são, realizada apenas sob o referencial do código deontológico, será, provavelmente, uma visão míope e muito restrita da pro- blemática ética nele contida". No mesmo sentido se entende que a problemática jurídica que se restringir à análise do ordenamento jurídico, sem conside- rar outras esferas do conhecimento será igualmente míope e li- mitada. Daí a necessidade de analisar tanto o código deontológi- co dos profissionais médicos, além de algumas diretrizes interna- cionais da Associação Médica Mundial, para auxiliar na compre- ensão jurídica sobre o tema. Além disso, parece oportuno aqui citar a interessante visão da Igreja Católica sobre a eutanásia e a obstinação terapêutica, por ter igualmente caráter ético-deonto- lógico.'0 Conforme os antigos ensinamentos do jurista romano Marco Túlio Cícero, "os deveres serão determinados quando se procurar o que é conveniente e adequado às personagens, às cir- cunstâncias, às idades" (1999, p. 61). Na obra De officiis, que dedica ao seu filho, Cícero trata da ética prática, aconselhando 10 Através da concepção deontológica da ética se supõe a aceitação de algumas regras que põem limites tanto na busca do próprio interesse como na busca do bem co- mum. Neste sentido, entende-se que "existen ciertos tipos de actos que son maios en sí mismos, y por lo tanto medios moralmente inaceptables para la búsqueda de cualquier fin, incluso de fines moralmente admirables, o moralmente obligatorios." Vide Davis, 1995, p. 309. 98 Lívia Haygert Pithan com base em regras morais e versando sobre os deveres dos membros das classes governantes para com seus pares na vida privada e para seus concidadãos na vida pública. " Agir de maneira conveniente, para Cícero, está inserido no que em latim se denomina decorum, que tem significado muito similar ao de honestidade. Atos decorosos, conforme o jurista, são atos moralmente convenientes. É importante lembrar que Cícero foi intérprete romano da filosofia grega e sua obra tem muita pro- ximidade das idéias aristotélicas e platônicas. Assim, quando fala de decoro, Cícero aproxima-se da noção de virtude aristotélica, chegando a afirmar que reconhecemos algo de decoroso em toda virtude, algo que podemos isolar desta antes pelo pensamento que pela realidade. ( ... ] assim o de- coro a que nos referimos acha-se todo confundido com a virtude, em- bora possamos distingui-lo com o pensamento e o raciocínio (p. 48). Conforme Cícero, o decoro está relacionado às virtudes rela- tivas ao que é apropriado e à maneira como nos apresentamos aos olhos dos outros. 12 Relaciona-se com convenções sociais, costu- mes, boas maneiras no trato com os demais. A noção de decoro, portanto, significa conveniência, a qual ordena que escolhamos uma forma de vida apropriada aos nossos talentos individuais e à nossa posição material e social. [ ... ] A ênfase no sucesso vai de par com a observância de normas sociais que não devem ser afrontadas. 13 Entre as normas sociais que não devem ser violadas, encon- tram-se aquelas expressas pelos chamados "Códigos de Ética" ou códigos deontológicos de determinadas categorias profissionais. Se a deontologia diz respeito às concepções compartilhadas acerca de obrigações, expressas por meio de normas e princípios (Azevedo, 2000), percebe-se que, assim como as leis (normas jurí- dicas), as pautas deontológicas da classe médica (normas morais) tambémobrigam, até porque 11 Introdução do tradutor. In: Cícero, op. cit., p. XXIX. 12 Ver nota de rodapé explicativa do tradutor, n. 93, em Cícero, 1999, p. 48. 13 Introdução do tradutor. In: Cícero, op. cit., p. XXVIII. A dignidade humana como fundamento juridico... 99 toda deontologia profissional é de caráter legislativo, ainda que sua abrangência possa ser apenas interna à conduta dos membros da profissão. Todavia, numa sociedade moderna, nenhum código de- ontológico é válido exceto se for admitido como legítimo pela legis- lação de um país. O que [ ... ] torna toda obrigação, em sociedades pós-tradicionais, deontologicamente derivada ou ao menos depen- dente ou subordinada à autoridade do Direito (id., ibid., p. 278). Como afirma Martín Mateo, existem decisões médicas que, frente à ausência de leis que imponham obrigações e criem direi- tos, dificilmente chegarão a ser tomadas em sede judicial. Assim é que "la ley [ ... ] autoriza a veces a determinados especialistas para que aprecien si concurren determinadas circunstancias ne- cesarias para la producción de ciertos efectos jurídicos" (1986, p. 180). Assim ocorre com as decisões urgentes que os médicos precisam tomar nas unidades de terapia intensiva, sem poder esperar a intervenção estatal - seja através de leis que lhes pro- porcionem "segurança" ou através de autorizações judiciais para agir. O Código de Ética Médica nacional, do ano de 1988, pos- sui diversos dispositivos que auxiliam na compreensão da obri- gação profissional do médico no tratamento do doente em final de vida. Cabe analisá-los com auxílio de alguns estudiosos que priorizam o enfoque bioético, possibilitando uma v1sao mais abrangente do que uma interpretação "legalista" do código deontológico. Deve o médico oferecer todos os recursos terapêuticos dis- poníveis, independentemente do benefício que proporcione ao paciente? Pode ser considerado "iminente perigo de vida" o esta- do de um doente incurável em irreversível processo de morte? Quem define se os tratamentos médicos estão ou não sendo uti- lizados "em favor do paciente"? O que são atos médicos "desne- cessários"? Estas são questões que devem ser esclarecidas de a- cordo com o caso concreto e com a evolução das possibilidades técnicas e da complexidade ética envolvendo as situações limites. 1 00 Lívia Haygert Pi than A repercussão médico-deontológica do prinCipiO bioético da beneficência se expressa pelo Código de Ética Médica brasi- leiro no seu artigo 2º , quando afirma que "o alvo de toda a aten- ção do médico é a saúde do ser humano, em beneficio do qual deverá agir com o máximo zelo e o melhor de sua capacidade profissional" (Brasil, CFM, 2000a; grifo nosso). Leonard M. Mar- tin (1998) afirma que o atual código demonstra uma certa mu- dança de postura frente aos pacientes em final de vida, pois pa- rece perceber que "o objetivo da medicina não é apenas prolon- gar o máximo o tempo de vida da pessoa. O alvo da atenção do médico é a saúde da pessoa e o critério para avaliar seus proce- dimentos é se eles vão beneficiá-lo ou não (artigo 2º)". Quando o código expõe princípios fundamentais no capí- tulo I, artigo 6º , fica implícita a proibição da eutanásia ou auxí- lio médico ao suicídio. Deste mesmo dispositivo, porém, pode- se deduzir a vedação ao tratamento médico sem sentido, que provoque sofrimento de qualquer ordem. Afirma-se no artigo 6º que o médico deve guardar absoluto respeito pela vida humana, atuando sempre em benefício do paciente. Jamais utilizará seus conhecimen- tos para gerar sofrimento físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar tentativa contra sua dignidade e integridade (Brasil, CFM, 2000a, p. 14). Deste dispositivo se pode compreender porque os médicos consideram eticamente correto, em algumas situações, "deixar morrer" o paciente irrecuperável - embora não aceitem, em hi- pótese alguma, a prática da eutanásia. Aliás, o artigo 66 trata do tema de forma mais contundente, ao afirmar ser vedado ao mé- dico "utilizar, em qualquer caso, meios destinados a abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de seu represen- tante legal" (id., ibid., p. 24). A eutanásia equivale em "extermínio do ser humano", co- mo diz o artigo 6º . Porém, se o profissional da saúde deve atuar e utilizar seus conhecimentos sempre em benefício do paciente, não há razão para a intervenção terapêutica que, além de não A dignidade humana como fundamento jurídico... 1 01 beneficiar o doente que está morrendo, também provoca sofri- mentos físicos e emocionais. Neste sentido se afirma que "a promoção do bem-estar físico do doente terminal [ ... ] não consiste na sua cura, mas nos cuidados necessários para assegurar seu conforto e o controle de sua dor" (Martin, 1998). No capítulo III do referido código, que trata sobre a res- ponsabilidade profissional do médico, o artigo 42 diz ser vedado "praticar ou indicar atos médicos desnecessários [ ... ]" (Brasil, CFM, 2000a). O que são atos médicos desnecessários? Este jul- gamento deverá ser baseado na prudência médica em adequar os meios de acordo com os fins que a medicina possui no caso con- creto. Quando o paciente for considerado incurável, conforme vimos anteriormente, a medicina deve visar o cuidado e não mais a cura. Neste caso, muitos recursos terapêuticos tornam-se desnecessários, excessivos, extraordinários ou fúteis - entre eles a reanimação cardiorrespiratória. Parece ser possível compreender o artigo 42, frente às "ordens de não-ressuscitação", como gerador da obrigação moral do médico em aplicar prudentemente os meios terapêuticos. Vale lembrar que a noção de prudência aqui utilizada remonta ao pensamento aristotélico. A phronesis (prudência ou discerni- mento, dependendo da tradução) é a virtude da razão prática, sendo definida como a capacidade de deliberar bem, isto é, de calcular exatamente os meios necessários para alcançar um fim bom (Silveira, 2001, p. 50). Aristóteles, em sua obra Ética a Nicômacos, afirmava que definida a finalidade, as pessoas procuram saber como e por que meios tal finalidade deve ser alcançada; se lhes parece que ela é re- sultante de vários meios, as pessoas procuram saber por que meio podem alcançá-la mais facilmente e realizá-la melhor. 14 Já no capítulo IV do Código de Ética Médica, quando são tratados os direitos humanos, diz o artigo 46 ser vedado ao mé- dico "efetuar qualquer procedimento médico sem o esclareci- 14 Livro III, 1113 a, p. 55 . 1 02 Lívia Haygert Pithan mento e o consentimento prévios do paciente ou de seu respon- sável legal, salvo em iminente perigo de vida" (Brasil, CFM, 2000a). O problema desse dispositivo é o mesmo do artigo 146, inciso I do Código Penal, que justifica o tratamento médico compulsório diante de "iminente perigo de vida". O que se en- tende por esta expressão? Considera-se em "perigo iminente" o doente que está irre- versivelmente no processo de morte? Acredita-se que o adequado sentido do termo não abarca situações de irreversibilidade, mas sim visa prioritariamente proteger os indivíduos da morte ines- perada. Esta compreensão permite aceitar a morte como desfe- cho natural de vida. Se as situações de doenças irreversíveis e terminais forem excluídas do entendimento do que se denomina por "iminente perigo de vida", presente tanto o Código de Ética Médica quan- to o Código Penal, percebe-se que o consentimento prévio e esclarecido do paciente se torna fundamental em quaisquer cir- cunstâncias que antecedam a intervenção médico-terapêutica. Essa interpretação traduz uma evolução na visão da assistência médica no final da vida, em respeito à dignidade humana daque- le que vai morrer, pois "o exercício do consentimento informado envolve [ ... ] uma relação dialogante, o que eliminauma atitude arbitrária ou prepotente por parte do profissional" (Clotet, 2000b, p. 14). O artigo 56 consiste na mesma problemática do 46, con- forme comentado: trata-se de uma questão de interpretação, carente de enfoque atualizado com as possibilidades tecnológicas no atendimento médico no final da vida. Diz este dispositivo, em sentido análogo ao anterior, que é vedado ao médico "des- respeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre a exe- cução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo iminente perigo de vida" (Brasil, CFM, 2000a, p. 22). O artigo 57 consiste em outro dispositivo proibitivo, vedan- do aos médicos "deixar de utilizar todos os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento a seu alcance em favor do paciente" A dignidade humana como fundamento jurídico... 1 03 (id., ibid.). A questão que aparece é a necessidade de definir qual recurso terapêutico será utilizado realmente em favor do paciente. Pode-se dizer que uma ressuscitação cardiopulmonar (RCP) des- necessária, aplicada para evitar uma morte esperada, é procedimen- to "em favor do doente"? Não é o que pensa a médica intensivista Lara Torreão (2000), ao comentar o artigo 57. Diz a autora: Muitos médicos interpretam literalmente o artigo, entendendo ser seu dever utilizar sempre todos os meios disponíveis para o trata- mento, o que no caso significa realizar sempre RCP. Parece [ ... ] de- sumano instituir medidas ditas "heróicas" em uma pessoa em que a morte é a evolução natural de um processo de doença; certamente isso não significa atuar "em favor do paciente" (p. 432). Uma questão interessante vem expressa no artigo 59, que fala do dever do médico informar devidamente o paciente. O artigo afirma ser vedado ao médico "deixar de informar ao pa- ciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e objetivos do tra- tamento [ ... ]" (Brasil, CFM, 2000a, p. 22). Qual o objetivo de proceder a uma ressuscitação cardiopulmonar contrariando a vontade dos familiares de um paciente em estado vegetativo permanente? Qual a razão de uma intervenção terapêutica des- necessária? A morte não é algo que possa ser curado e medidas terapêuticas fúteis não geram benefícios, mas apenas sofrimentos físicos e emocionais ao paciente e seus familiares. Não se estaria diante da prática defensiva da medicina, onde o médico age prioritariamente visando evitar processos judiciais? Nesse sentido, Francesco D'Agostino realiza a mesma per- gunta: qual a intenção ou os objetivos de uma obstinação terapêu- tica na medida em que a cura não é mais possível? Se as medidas terapêuticas empregadas são consideradas extraordinárias, se atra- vés delas não se irá obter a cura do paciente e nem se está configu- rando cuidados ao mesmo (e nem respeitando a sua integridade física), qual a razão do tratamento? D'Agostino (1998, p. 231) levanta a hipótese de se estar utilizando o paciente como meio de experimentação ou como fins lucrativos pelos serviços médicos prestados. 1 04 Lívia Haygert Pithan Segundo o autor italiano, a renúncia à obstinação terapêu- tica- que ele considera uma "particolare forma di eutanasia pas- siva che e armai comunemente descritta come 'sospensione dell'accanimento terapeutico'" - é um problema que foge à competência do jurista, não havendo dificuldades, em linha teó- rica, de reconhecer a licitude desta forma de conduta médica. 15 Por fim, outro artigo do Código de Ética Médica que me- rece comentários é o de nº 61, que proíbe ao médico abandonar paciente que está sob seus cuidados. No § 2º deste artigo se fala especificamente dos doentes que estão em processo de morte, afirmando-se que "o médico não pode abandonar o paciente por ser este portador de moléstia crônica ou incurável, mas deve continuar a assisti-lo ainda que apenas para mitigar o sofrimento físico ou psíquico" (Brasil, CFM, 2000a, p. 23). De certa forma, no artigo 61 fica assumido o dever de pru- dência por parte dos médicos na escolha terapêutica, pois não deixa de haver assistência médica quando a finalidade da medi- cina é apenas cuidar do paciente incurável. Quando se afirma que o médico deve continuar a assistir o doente que está mor- rendo, mesmo que apenas para aliviar o sofrimento, percebe-se uma aceitação da morte como parte inevitável do processo vital. Este dispositivo auxilia a própria interpretação jurídica do dever de assistência médica, limitado pela própria condição humana e mortal dos indivíduos. A obrigação médica, de ordem legal e moral, é agir em benefício dos pacientes e, em algumas situações, este benefício pode consistir em não intervir - deixando os do- entes morrer em paz e com dignidade.' 6 15 Idem, ibidem. Note que D'Agostino usa o termo eutanásia para se referir aos casos de não-oferta ou retirada de recursos terapêuticos desnecessários - terminologia que recusamos nesse estudo justamente para evitar as confusões no âmbito jurídi- co-penal. 16 A dignidade da morte que aqui se fala consiste no respeito médico pela autonomia do doente que está morrendo, que deve ter o direito de decidir se deseja ou não ser submetido a determinada intervenção terapêutica, somado ao dever de promover a devida assistência médica- ou seja, direito de não ser abandonado e de receber os recursos terapêuticos proporcionais aos cuidados, pois a cura já não é mais possível . A dignidade humana como fundamento jurídico... 1 05 Em nível internacional, as obrigações deontológicas dos pro- fissionais da área médica aparecem no mesmo sentido que os co- mentários anteriores. A Associação Médica Mundial, no ano de 1983, ofereceu importantes diretrizes éticas para o tratamento médico de doentes terminais. Na "Declaração de Veneza sobre Doença Terminal" se afirma que o médico tem o dever de tratar e, quando possível, aliviar o sofrimento e atuar na proteção do melhor interesse dos seus pacientes. Permite-se a limitação tera- pêutica quando o paciente ou seus familiares o desejarem, dizendo a declaração que o médico deve abster-se de utilizar medidas extraordinárias que não tragam benefícios para o paciente [ ... ] a não-implantação de um tra- tamento não libera o médico de sua obrigação de assistir à pessoa que está morrendo e fornecer-lhe os medicamentos necessários para suavi- zar a fase terminal de sua doença (Associação ... , 200la; grifos nossos). Observa-se que este documento impõe um dever moral aos médicos em não fazer uso de recursos terapêuticos abusivos, con- siderados desproporcionais à situação dos pacientes e que não lhes tragam benefícios. Porém, assim como o referido §2º do artigo 61 do Código de Ética Médica brasileiro, afirma-se que a devida as- sistência médica aos pacientes terminais consiste em lhes fornecer os meios terapêuticos suficientes para evitar o sofrimento do pro- cesso da morte. Novamente se deve chamar atenção para o fato de que não há violação do dever de assistência médica a ponderação dos meios técnicos de acordo com a situação do doente. Em 1987, a mesma associação publica um documento de- nominado "Declaração sobre eutanásia", por ocasião da 39ª As- sembléia Mundial de Medicina, ocorrida em Madrid, na Espanha. Consta no documento a seguinte manifestação: Eutanásia, que é o ato de deliberadamente terminar com a vida de um paciente, mesmo com a solicitação do próprio paciente ou de seus familiares próximos, é eticamente inadequada. Isso não impede o médico de respeitar o desejo do paciente em permitir o curso natural do processo de morte na fase terminal de uma doença (Associação ... , 2001 b; grifos nossos). 1 06 Lívia Haygert Pithan A Associação Médica Mundial, portanto, considera moral- mente distintas as situações de "matar" ou "deixar morrer" um paciente incurável. O respeito do médico à autonomia individual do paciente somado à assistência médica proporcional aoscuida- dos devidos consiste em garantir a dignidade do doente que está morrendo. Ainda no âmbito internacional, cabe ressaltar a clareza com que o Código de Ética Médica da Espanha trata o tema da pre- sente investigação. Na deontologia médica espanhola, a eutanásia fica bem distinta da limitação médico-terapêutica nos artigos 28.1 e 28.2. No primeiro dispositivo, afirma-se que El médico nunca provocará intencionadamente la muerte de un pa- ciente ni por propia decisi6n, ni cuando el enfermo o sus allegados lo soliciten, ni por ninguna otra exigencia. La eutanasia u "homici- dio por compasi6n" es contraria a la ética médica (Herranz Rodrí- guez, 1992, p. 128). Conforme Gonzalo Herranz, autorizado professor de Bioéti- ca da Faculdade de Medicina da Universidade de Navarra, não aplicar ou suspender cuidados médicos pode ou não ser conside- rado eutanásia. Segundo o autor (1992, p. 130), no aplicar o suspender cuidados médicos puede ser, unas veces, una forma de conducta eutanasica (de matar o dejar morir deliberadamen- te a un paciente), mientras que otras veces es el modo correcto de cumplir el mandato ético, que impone el artículo 28.2, de no someter al paciente incurable y terminal a tratamientos inútiles y probadamen- te ineficaces. [ ... ] Puede, por consiguiente, el paciente rechazar los tra- tamientos que no ofrezcan una esperanza razonable de beneficio. De fato, o artigo 28.2 do Código de Ética Médica Espanhol trata como um dever a limitação médico-terapêutica em pacientes irreversíveis. Diz o referido artigo (p. 132) que En caso de enfermedad incurable y terminal, el médico debe limi- tarse a aliviar los dolores físicos y morales dei paciente, mantenien- do en todo lo posible la calidad de una vida que se agota y evitando emprender o continuar acciones terapéuticas sin esperanza, inútiles o obstinadas. Asistirá ai enfermo hasta el final, con el respeto que merece la dignidad de hombre. A dignidade humana como fundamento jurídico.. . 1 07 Os médicos espanhóis têm codificado, portanto, o dever moral de não submeter seus pacientes à obstinação terapêutica. Este dever de limitação médico-terapêutica, contudo, é acompa- nhado pelo dever de continuar assistindo de forma proporcional o doente que está morrendo, respeitando sua dignidade humana. Assim, percebe-se que nestes casos não há que se falar em omis- são do dever - moral ou jurídico - de assistência médica. No mesmo sentido, pode-se encontrar o posicionamento da Igreja Católica que, contrariando as usuais acusações de con- servadorismo, tem tido a sensibilidade de se adaptar às sutilezas morais decorrente do progresso da medicina. Já em 1957 o Papa Pio XII admitiu a possibilidade da administração de narcóticos para aliviar a dor de doentes irrecuperáveis que, de maneira indi- reta e como efeito secundário, causam a morte: a chamada euta- násia de duplo efeito ou indireta (Cf. Gafo Fernández, 2000). Mais recentemente, em um documento elaborado pela Sa- grada Congregação para a Doutrina da Fé, em 1980, denomina- do "Declaração sobre a eutanásia", a Igreja Católica condena sua prática, mas a distingue de situações de rechaço à obstinação terapêutica. Este manifesto da Igreja define eutanásia como uma ação ou omissão que, por sua natureza e nas intenções, provoca a morte com o objetivo de eliminar o sofrimento. Distinta da eutanásia é a decisão de renunciar ao chamado 'excesso terapêutico', ou seja, a certas intervenções médicas já inadequadas à situação real do doente, porque não proporcionadas aos resultados que se poderiam esperar ou ainda porque demasiado gravosas para ele e para sua família. [ ... ] A renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados não equivale ao suicídio ou à eutanásia; exprime, antes, a aceitação da condição humana defronte a morte (Evange- lium Vitae, 1995, p. 130). De acordo com o que foi exposto, observa-se que tanto as obrigações deontológicas dos médicos em nível nacional, interna- cional e também a moral católica - de marcada influência na cul- tura ocidental- consideram eticamente adequado não oferecer ou suspender recursos terapêuticos avaliados como desnecessários ou 1 08 Lívia Haygert Pithan excesstvos. Se a finalidade da medicina é beneficiar os doentes, não existe sentido em oferecer tratamentos médicos e recursos terapêuticos que não produzam benefícios e, muitas vezes, geram sofrimento para o paciente e/ou para seus familiares. 3.3 Normas estatais e política legislativa atual sobre o tema Em âmbito legislativo nacional, inexiste lei federal que trate especificamente dos direitos dos pacientes a recusar tratamento médico. Porém, encontra-se na produção teórica de juristas co- nectados à temática bioética a afirmação desse direito a partir da interpretação da própria Constituição Federal. Também há uma lei estadual paulista e algumas resoluções administrativas que auxi- liam o entendimento da temática sobre assistência médica em pacientes no final de vida. Além disso, cabe por fim comentar as atuais discussões em termos de política legislativa, a partir da aná- lise de um dispositivo específico do anteprojeto do novo Código Penal, que considera exclusão de ilicitude deixar de manter a vida de um paciente com morte "iminente e inevitável". A prática do consentimento informado na assistência médica tem respaldo jurídico não apenas no princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, no inciso III do artigo 1 º, mas tam- bém através da cláusula geral da liberdade, expressa no inciso II do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, onde se afirma que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei". Essa norma constitucional afirma que se a lei não proíbe ou não impõe um dado comportamento, as pessoas têm autodeter- minação para adotá-lo ou não. Portanto, "a liberdade consiste em ninguém ter de submeter-se a qualquer vontade senão a da lei, e, mesmo assim, desde que ela seja formal e materialmente constitu- cional" (Barroso, 2000). Desse modo se pode afirmar que A dignidade humana como fundamento jurídico... 1 09 uma vez que a Constituição Federal garante que ninguém será obri- gado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei, está-se diante da necessidade do consentimento informado e escla- recido do paciente para qualquer tipo de tratamento, não havendo disposição legal específica (Borges, 200 1). Além da referida cláusula geral da liberdade, no inciso 11 do artigo 5º da Constituição Federal, também se encontram outros incisos do mesmo artigo que podem justificar o direito do doente recusar tratamento médico excessivo, como por exemplo: III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desuma- no ou degradante; IV- é livre a manifestação do pensamento [ ... ]; VI- é inviolável a liberdade de consciência e de crença[ ... ]; X- são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas [ ... ]; § 2º -os direitos e garantias expressos nesta Constitui- ção não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. Embora não haja lei federal sobre o assunto privilegiado , tem-se referência de uma lei estadual paulista que possibilita aos doentes recusar tratamento médico. A Lei nº 10.245/99 trata dos direitos dos usuários do sistema de saúde no estado de São Paulo e, no inciso XXIII do artigo 2º afirma que é direito do paciente "recusar tratamentos dolorosos ou extraordinários para tentar prolongar a vida" (Estado de São Paulo, 1999). Con- forme Lara Torreão (2000), essa lei representa mais um amparo legal para justificar as "ordens de não-ressuscitação", que con- sistem em prática consagrada e aceita do ponto de vista médico e social em diversospaíses. Um ano após a promulgação da referida lei paulista sobre os direitos dos usuários dos serviços de saúde de São Paulo, o então governador Mário Covas recusou tratamento médico em final de vida. Sofrendo de câncer terminal, Covas decidiu não 11 O Lívia Haygert Pithan se submeter a tratamento médico em unidade de terapia inten- siva de hospital, preferindo morrer em casa. '7 Outro documento normativo que auxilia na interpretação da dignidade da pessoa humana no momento da morte é a Resolução nº 41/95 do CONANDA, Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, órgão vinculado ao Mi- nistério da Justiça. Esta resolução aprovou na íntegra um texto elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, relativo aos direitos da criança e do adolescente hospitalizados. Enquanto a Lei nº 8.069/90- o Estatuto da Criança e do Adolescente - diz em seu artigo 15 que a criança e o adolescen- te têm direito à dignidade, a Resolução nº 41/95 do CO- NANDA assegura ao paciente jovem ou infante, no artigo 20, o "direito a ter uma morte digna, junto a seus familiares, quan- do esgotados todos os recursos terapêuticos disponíveis" (Brasil, 1995). Significa dizer que quando os recursos terapêuticos dispo- níveis tiverem esgotado as possibilidades de beneficiar a criança ou o jovem hospitalizado, ou seja, quando o processo de morte for irreversível, o direito à morte digna equivale a não intervir medicamente de forma abusiva ou desnecessária. Assim, a cri- ança ou jovem que estejam morrendo têm o direito de morrer em casa, sem serem submetidos à obstinação terapêutica. O excesso terapêutico contra a vontade do paciente con- siste em intervenção médica abusiva, violando a exigência ética e legal do consentimento informado e, conseqüentemente, vio- lando a dignidade da pessoa humana - através do desrespeito pela autonomia, integridade física e moral dos indivíduos. Impõe esclarecer o sentido jurídico de resolução, que é uma forma de exteriorização de um ato administrativo. Ato administrativo, por sua vez, é toda prescrição, juízo ou conhe- 17 Conforme William Saad Hossne, esta mesma decisão do governador Mário Covas há cerca de 20 anos atrás traria enormes dificuldades. Vide Hossne, 200 I. A dignidade humana como fundamento jurídico.. . 111 cimento predisposto à produção de efeitos jurídicos, expedida pelo Estado ou por quem lhe faça as vezes, no exercício de suas prerrogativas estabelecida na conform idade da lei, sob o fun- damento de cumprir finalidades assinaladas no sistema norma- tivo (Gasparini, 1995, p. 62). Assim, o direito à morte digna, de que fala a resolução nº 41/95 do CONANDA, é uma prescrição administrativa predis- posta a cumprir efeitos jurídicos através da declaração de direi- tos. Se esta resolução está de acordo com a Constituição Fe- deral, '8 pode-se interpretar que tal direito atribuído às crianças vale igualmente para os demais indivíduos, independente da faixa etária - pois diz respeito à dignidade da pessoa humana. Portanto, o direito à morte digna é direito não só das crianças e jovens hospitalizados, mas de todos os cidadãos brasileiros. A Resolução nº 196/96 do CNS, Conselho Nacional de Saúde, órgão vinculado ao M inistério da Saúde, possui normas relativas à pesquisa científica envolvendo seres humanos que podem auxiliar na interpretação dos direitos dos pacientes e de- veres dos médicos no âmbito da assistência à saúde. Esse documento é fruto do trabalho de uma comissão en- volvendo representantes da comunidade científica, setores liga- dos à bioética, da sociedade através de representan tes dos usuá- rios do sistema de saúde, do movimento de mulheres e institui- ções religiosas, da área jurídica e de movimentos de direitos hu- manos, da indústria e órgãos responsáveis do Ministério da Saú- de. Assim, acredita-se que estas normas são resul tado do que pensa a sociedade brasileira, construídas a partir dos requisitos do Ministério da Saú- de/Governo, da comunidade científica, dos sujeitos da pesquisa e da sociedade, constituindo efetivo instrumento de concretização da ci- dadania e de defesa dos direitos humanos (Hossne, 1996, p. 54). 18 A presunção de legitimidade dos atos administrativos faz crer que as resoluções citadas, do CONANDA e do CNS, estão de acordo com o sistema jurídico vigente do país . 112 Lívia Haygert Pithan Um aspecto da Resolução nº 196/96 do CNS especialmen- te relevante para a compreensão da assistência médica em paci- entes que estão morrendo é a importância do consentimento livre e esclarecido. Diz a resolução, na diretriz IV, que o respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se pro- cesse após consentimento livre e esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que por si e/ou por seus representantes legais manifestem a sua anuência à participação na pesquisa (Brasil, 1996, p. 59). Embora a norma se refira aos seres humanos envolvidos em investigação científica, deve-se lembrar que o consentimento informado ou esclarecido é uma exigência ética e legal que se refere não apenas à prática da pesquisa, mas também na assistên- cia à saúde, embora se saiba que "na área assistencial o Consen- timento informado é menos utilizado que na pesquisa em seres humanos" (Clotet, 2000b). Na medida em que a própria noção juridicamente aceita de dignidade da pessoa humana se vincula à autonomia individual, percebe-se o respaldo constitucional do consentimento informa- do como condição da assistência médica. Desse modo, a recusa de receber tratamento médico desnecessário parece lícita. Nesse sentido, afirma Roxana Borges (200 1, p. 294) que mesmo em situações de doenças graves ou incuráveis, em que o do- ente tem capacidade para manifestar sua vontade, a figura do con- sentimento é importante para a execução (início ou prosseguimen- to) do tratamento. Em qualquer fase da terapia o paciente tem o di- reito de se recusar a continuar com o tratamento. Os diversos dispositivos da Constituição Federal descritos somados à presunção de legalidade das resoluções do Conselho Nacional de Saúde (nº 196/96) e do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (nº 41 /95), e da constitu- cionalidade da lei paulista referente aos usuários dos serviços de saúde do Estado de São Paulo (Lei nº 10.245/99) fazem crer que o direito a recusar tratamento médico ineficaz existe indepen- dentemente de haver lei federal específica sobre o tema. A dignidade humana como fundamento jurídico. .. 113 Num sentido completamente oposto da lei paulista se situa a discussão em torno do atual anteprojeto de reforma da parte especial do Código Penal do Brasil. Este anteprojeto procura excluir a suposta ilicitude daquilo que alguns juristas têm deno- minado "ortotanásia" ou "eutanásia passiva", não distinguindo ambos os termos,' 9 pressupondo que atualmente seja crime a não-oferta ou retirada de recursos médico-terapêuticos extraor- dinários. A ausência de debate público sobre o anteprojeto demons- tra a arbitrariedade em tratar de tema tão importante, e de inte- resse geral, sem discussão ética prévia envolvendo toda a popula- ção. Esse fechamento ao diálogo se faz sentir pelo próprio teor do dispositivo, totalmente em descompasso às próprias informa- ções contidas na literatura médica e bioética (sintoma claro da ausência de multi, inter ou quiçá transdisciplinaridade). O anteprojeto inclui a eutanásia como crime, sujeito à pena de reclusão de três a seis anos e insere a eutanásia passiva - que os juristas consideram o mesmo que ortotanásia- como causa de exclusão de ilicitude. Conforme o parágrafo 4º do artigo 121 do anteprojeto, não constitui crime deixar de manter a vida de alguém por meio ar- tificial, se previamente atestada por dois médicos, a morte como iminente e inevitável, e desdeque haja consentimento do paciente, ou na sua impossibilidade, de ascendente, descendente, cônjuge, companheiro ou irmão. 20 Muitas questões polêmicas giram em torno de tal projeto, até mesmo pelas confusões terminológicas que os próprios juris- tas estão cometendo. No que consiste morte iminente? A come- çar por esse conceito de iminência, a suposta aprovação desse parágrafo no novo Código Penal em nada auxiliaria os médicos a decidirem pela não-oferta ou retirada terapêutica em um pacien- 19 Um dos autores que não faz distinção entre ortotanásia e eutanásia passiva é Luis Flávio Borges D'Urso, conforme seu artigo "Eutanásia" 1999, p. 113-114. lO Conforme exposto por Maria Celeste Cordeiro Leite Santos (1999). 114 Lívia Haygert Pithan te em estado vegetativo permanente, que pode ser mantido arti- ficialmente de forma inconsciente durante muitos anos. A co- meçar por aí, a inovação pregada pelo projeto não avança muito. Outra questão que vale alertar, e que o anteprojeto não au- xilia a esclarecer com seu parágrafo 4º do artigo 121, é a inevita- bilidade da morte. O que os juristas que elaboraram o projeto consideram por morte inevitável? O dever de manter a vida, qualquer que seja sua qualidade, implica, necessariamente, o dever de evitar a morte. Já a possibilidade de "deixar de manter a vida", como consta no dispositivo, significa justamente não evi- tar a morte, ou seja, permitir que a morte - tecnicamente evitá- vel - ocorra. Portanto, parece contraditório impor o requisito de inevitabilidade da morte para que seja possível deixar de manter a vida. O que parece merecer políticas legislativas em nível federal é a discussão dos limites jurídicos do dever de assistência médica, concedendo direitos aos pacientes recusarem tratamento médico, a exemplo da citada lei paulista. Os médicos não têm o dever de evitar a morte em todas as situações, pois ela é esperada como desfecho natural do processo de morrer. Não é juridicamente obrigatório aos médicos fazer tudo o que tecnologia permite, sem haver um juízo de ponderação entre os meios terapêuticos disponíveis e o benefício que po- dem causar ao paciente. Por outro lado, o tratamento médico compulsório parece violar o próprio direito à liberdade, assegu- rado na Constituição Federal juntamente com o direito à vida, no caput do artigo 5º. Atualmente tanto médicos quanto demais profissionais da área da saúde negam a idéia de pautar seus atos e condutas ex- clusivamente a partir de critérios de eficiência. Também o res- peito pela autonomia do paciente, exigido pelos profissionais da áre·a da saúde, parece estar em desacordo com a imposição de quaisquer tratamentos ou meios terapêuticos. A dignidade humana como fundamento jurídico.. . 115 É interessante notar que aceitar limites na aplicação da tec- nologia nos pacientes irreversíveis e terminais em unidades de terapia intensiva passa, necessariamente, por um novo tipo de enfoque do papel da pessoa humana diante da natureza. A acei- tação da mortalidade como condição natural à humanidade, implica visualizar os homens e as mulheres como indivíduos sujeitos à ordem natural. Ocorre que todo o desenvolvimento da ciência moderna se deu contra a natureza/' através de um ideal de dominação da mesma. A morte vista sob esse enfoque cienti- ficista, portanto, é sempre um fato a ser evitado. Embora atualmente ainda se trabalhe com conceitos e valo- res advindos do racionalismo e de uma visão antropocêntrica do mundo - o próprio conceito de dignidade humana de Kant con- sidera o homem mais valioso que outros seres vivos - nota-se um movimento intelectual hodierno no sentido de aproximar a no- ção de pessoa humana do meio ambiente. Assim, a despeito de a pessoa humana se encontrar, ao menos de forma programática, alçada ao topo da pirâmide dos valores éticos e jurídi- cos [ ... ] urge repensar, rediscutir, refletir com enorme dose de pru- dência [ ... ] sobre a pessoa humana como valor inter-relacionado com o meio ambiente (Fagundes Jr., 2001 , p. 271). A questão que parece necessitar de política legislativa fede- ral, portanto, diz respeito à possibilidade de o paciente se recusar a ser tratado contra sua vontade - mesmo que sua morte seja evitável e não iminente. Evitável porque os recursos tecnológicos dispõem hoje um poder enorme capaz de ser utilizado como fim em si mesmo e não para o bem do paciente. Aliás, o abuso de tal poder é tão grande que é capaz de fazer o mal, provocando so- frimentos e violando a integridade física dos indivíduos sem finalidade que o justifique. Daí se poder afirmar que 21 Conforme Boaventura Souza Santos (1989, p. 66), a finalidade prática da constru- ção da ciência moderna foi construir um conhecimento que pudesse insrrumentali- zar e controlar a natureza. Assim, "a desumanização da natureza e a conseqüente desnatural ização do homem criam condições para que este possa exercer sobre a natureza um poder arbirrário, ética e politicamente neurro". 11 6 Lívia Haygert Pithan há situações que os tratamentos médicos se tornam um fim em si mesmos e o ser humano é simplesmente ignorado. A atenção tem seu foco no procedimento, na tecnologia, não na pessoa que padece. Nessas situações o paciente sempre está em risco de sofrer medidas desproporcionais, pois os interesses da tecnologia deixam de estar subordinados aos interesses do ser humano (Roxana Borges, 2001, p. 284). Portanto, a alusão de que o anteprojeto do Código Penal faz à morte "iminente e inevitável" demonstra uma frágil fun- damentação médico-científica e mesmo em termos bioéticos sobre o tema. É de alertar que toda a política legislativa deve vir pautada por uma sólida e farta pesquisa nas áreas específicas so- bre as quais se vai legislar. Nesse sentido, ao tratar da política legislativa, Karl Larenz (1997, p. 268) afirma que muitas vezes o Direito deve deixar a palavra a outras ciências; a saber, de acordo com a matéria de que se trate: à investigação social empírica, à medicina, à biologi- a, à psicologia ou a determinadas técnicas, pois que somente estas ciências poderão afirmar com suficiente segurança como operará a regulação proposta nos diversos domínios da realidade social, que alternativas na realidade existem objetivamente, quais os meios dis- poníveis, quais as vantagens e desvantagens que é legítimo esperar (Grifas nossos). Não se pode esquecer que "o jurista que queira trabalhar em termos de política do Direito terá que obter os dados neces- sários e o material de experiência das ciências que em cada caso sejam competentes". 22 Nesse sentido, também é importante no- tar que toda a argumentação em sede de política legislativa deve vir balizada pela orientação dos princípios fundamentais do or- denamento jurídico, onde a dignidade da pessoa humana merece destaque. 22 Idem, ibidem, p. 269 . A dignidade humana como fundamento juridico.. . 117 Conclusão ----------·---------- A estratégias de conduta médica que limitam a intervenção terapêutica em pacientes em processo de morte irreversível têm sido encaradas como eticamente aceitáveis em boa parte da lite- ratura sobre bioética. Em alguns casos, deixar de utilizar todos os recursos técnicos disponíveis na medicina intensiva passa a ser visto como uma atitude prudente, ainda que a morte do doente sobrevenha. A busca da superação do tecnicismo nas ciências da saúde tem sido responsável por uma melhor aceitação da morte como desfecho inevitável do processo vital. No âmbito jurídico, a maior discussão de casos bioéticos sobre final de vida se dá no embate entre a autonomia individual e o dever estatal - e médico,· através da beneficência - de prote- ger os doentes inclusive contra si próprios. O direito a recusar tratamento médico, pautado pelo consentimento informado, recém começaa ser tratado por teóricos do direito no meio na- cional. As publicações sobre o tema ainda são incipientes, verifi- cando-se um baixo nível de sistematização dos conhecimentos jurídicos sobre temas da bioética. A complexidade do tema impede que seja possível, a partir da análise teórica de uma situação específica, generalizar respos- tas jurídicas sobre o direito de recusar tratamento médico lato sensu. O direito a rechaçar terapias necessárias, ordinárias ou proporcwna1s, é um aspecto que merece discussões mais apro- A dignidade humana como fundamento jurídico... 119 fundadas - incluindo alternativas e propostas em termos de polí- tica legislativa. Nos casos de eutanásia passiva - ou seja, não oferta ou retirada terapêutica necessária- é preciso discutir qual o âmbito da dignidade humana que deve prevalecer: o autonô- mico ou o assistencial. Essa ponderação de valores, em nível constitucional é fundamental para a criação de novas normas infraconstitucionais sobre a temática. Porém, se a recusa de receber tratamento médico necessário pode ser questionada a partir da exigência do dever legal de assis- tência adequada, o mesmo não pode ser dito dos tratamentos inúteis ou extraordinários. Não há sentido exigir dos médicos a intervenção terapêutica excessiva que, sabidamente, não irá trazer benefícios ao paciente. O direito à vida não implica dever de viver sob quaisquer condições. Deste modo, em nome do direito à vida não se pode exigir que o médico submeta seu paciente a sofrimen- tos inúteis devido a terapias agressivas que não irão lhe trazer be- nefícios. As "ordens de não-ressuscitação" parecem um exemplo de estratégias de conduta médica que busca aplicar de forma pruden- te os recursos terapêuticos disponíveis. Todavia, quando tais estra- tégias ocorrem de forma velada, sem registro nos prontuários mé- dicos e sem a participação da família ou do doente, a dignidade humana não está sendo integralmente respeitada. A autonomia individual carece proteção na assistência à saúde através do con- sentimento informado. Embora seja compreensível o receio dos médicos por processos judiciais e acusação por omissão de socor- ro. as "ordens de não-ressuscitação" não expressas geram descon- fiança e não auxiliam em tornar pública a discussão - mantendo- se assim um padrão de assistência médica paternalista e arbitrário. O entendimento do princípio ético-jurídico da dignidade da pessoa humana, embora tenha firmado suas bases teóricas no pensamento kantiano, atualmente deixa margens para uma in- terpretação aberta em diálogo com diversas disciplinas e aspectos envolvidos. Essa busca de atribuição de um sentido atual da nor- ma mostra a necessidade de uma postura jurídico-epistemológica 120 Lívia Haygert Pithan inovadora para a construção de um biodireito. Os valores con- temporâneos da medicina somados aos princípios bioéticos, a deontologia médica internacional e nacional, assim como mani- festações religiosas consistem substrato axiológico e cultural o qual o direito não pode ficar alheio. O âmbito assistencial do princípio da dignidade da pessoa humana parece resguardado quando houver uma atualizada inter- pretação do dever de assistência médica. Não deixa de haver a devida assistência médica quando os recursos terapêuticos são ponderados de acordo com a situação do doente. No caso de pa- ciente ainda salvável ou com possibilidade de reversibilidade, as medidas terapêuticas devem ser destinadas à cura. Já no caso do processo de morte do paciente ser irreversível, as medidas terapêu- ticas devem ser destinadas ao cuidados e portanto menos agressi- vas. Ciente de que inúmeras questões tenham sido negligencia- das nessa investigação, a partir do que foi exposto até aqui parece possível afirmar que existe respaldo no ordenamento jurídico brasileiro da limitação médico-terapêutica em pacientes em final de vida. A concretização casuística do princípio da dignidade da pessoa humana, em diálogo com a realidade atual, parece ofere- cer o embasamento jurídico necessário na defesa de uma morte digna, ou seja, na defesa do direito a recusar tratamento médico extraordinário ou fútil. De acordo com a principal vertente teórica do constituciona- lismo brasileiro, a autonomia individual está subordinada a noção ética comunitária. Assim, parece inaceitável defender em nosso sistema jurídico a eutanásia propriamente dita. Por outro lado, a ortotanásia ou limitação médico-terapêutica contém fundamentos éticos comunitários, como expostos ao longo do trabalho. Parece necessário ampliar os espaços de discussão pública e mesmo acadêmica da temática da eutanásia e situações conexas, a fim de evitar reducionismos de ordem ética e jurídica. Os de- bates que desconsideram as múltiplas variáveis das situações hospitalares em pacientes irreversíveis e terminais não auxiliam A dignidade humana como fundamento jurídico... 121 na busca de soluções compartilhadas. As posições diametralmen- te opostas do "a favor" ou "contra" geralmente se fixam em cri- térios de ordem estritamente ideológica, sem perceber a comple- xidade das novas situações criadas pela evolução científica apli- cada à medicina intensiva. A pesquisa jurídica deve estar atenta para aquilo que o so- ciólogo português Boaventura de Souza Santos chamou de "apli- cação edificante do conhecimento" (Souza Santos, 1989, p. 160). O mundo contemporâneo carece de investigadores capazes de se comprometerem ética e socialmente pelos resultados de seus conhecimentos, buscando aplicá-los com prudência. Recor- rer aos princípios jurídicos através de uma abordagem transdis- ciplinar, própria dos casos bioéticos, parece uma tentativa de aplicar o direito de forma eticamente correta. A aplicação edificante dos conhecimentos científicos, pro- posta por Santos, se aproxima daquilo que a bioética preconiza, a saber: a busca da aplicação eticamente correta das ciências biomédicas através do diálogo entre cientista (médico) e destina- tários da aplicação do conhecimento (paciente/doente); a reava- liação dos fins da medicina (cura ou cuidado?) e meios (quais os recursos terapêuticos adequados?), dependendo da situação con- creta. A relação médico/paciente como uma instância de parce- ria, onde ambos são sujeitos autônomos na busca da melhor decisão terapêutica, pressupõe capacidade comunicativa - onde o senso comum do paciente se torna esclarecido e onde o conhe- cimento do médico se aproxima do saber popular. A distância existente entre os níveis de realidade dos quais partem o médico (ciência) e paciente (senso comum) deve ser diminuída por uma atitude transdisciplinar. Assim, se a bioética pressupõe transdisciplinaridade, seus conflitos devem ser solu- cionados a partir de uma argumentação que atravesse diferentes níveis de realidade e os supere, buscando soluções pacíficas e consensuais. Condutas médicas consideradas técnica e eticamente ade- quadas, como a não-oferta da ressuscitação cardiopulmonar em 122 Lívia Haygert Pithan determinados pacientes, não podem ser consideradas ilícitas desde que respeitem a dignidade da pessoa humana. De fato, a compre- ensão dessa norma jurídica deve ser argumentada de acordo com valores sociais historicamente situados e com as novas situações trazidas pela evolução da ciência. Portanto, a despeito da inexistência de leis específicas, dou- trina ou jurisprudência sobre o tema da morte digna, é possível argumentar neste sentido a partir da concretização do princípio constitucional da dignidade humana. O médico tem o dever de respeitar o direito à vida com dignidade, incluindo os momentos que antecedem a morte do indivíduo. Embora seja questionável a existência de um dever legal do médico proteger o paciente contra sua própria vontade, parece juridicamente pacífica a recusa do doente aterapias inúteis e abu- sivas. Desta forma, o médico que limita a oferta de recursos tera- pêuticos somente àqueles destinados aos cuidados do paciente em processo de morte irreversível, não está violando o ordenamento jurídico brasileiro. Pelo contrário, o médico que escolhe os recursos terapêuticos adequados ao paciente em respeito ao consentimento informado e não deixa de prestar a devida assistência até o moment.o da morte está agindo de acordo com a Constituição Federal brasileira de 1988, que no inciso III do artigo 1 º afirma ser a dignidade da pes- soa humana princípio fundamental do Estado Democrático de Direito. A aproximação do meio jurídico das reflexões bioéticas pare- ce oportuna, no sentido de evitar a prática da medicina defensiva - onde os médicos agem prioritariamente para evitar processos judiciais. Parece absurdo o Estado punir a classe médica por bus- car os melhores benefícios a seus pacientes. Entretanto, para que seja possível aceitar a atitude médica de permitir a morte de um doente incurável como um benefício, é preciso uma transforma- ção cultural que não veja mais na ciência a instância máxima de cura para todos os males da humanidade - inclusive sua própria mortalidade. 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