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2018
MulticulturalisMo
Profª. Luciane da Luz
Prof. Márcio José Cubiak
Copyright © UNIASSELVI 2018
Elaboração:
Profª. Luciane da Luz
Prof. Márcio José Cubiak
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri
UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
L979m
Luz, Luciane da
Multiculturalismo. / Luciane da Luz; Márcio José Cubiak. –
Indaial: UNIASSELVI, 2018.
230 p.; il.
ISBN 978-85-515-0220-4
1. Multiculturalismo. – Brasil. I. Cubiak, Márcio José. II. Centro
Universitário Leonardo Da Vinci.
CDD 370.117
III
apresentação
Caro acadêmico! Este é seu Livro de Estudos de Multiculturalismo.
Trata-se de um tema bastante presente e relevante para nosso mundo atual.
Trataremos aqui de discutir o retorno da etnia ao cenário político e acadêmico
com força total. Esse ressurgimento de tipos étnicos de engajamento individual
e coletivo está ligado às dinâmicas das sociedades contemporâneas, “pós-
tradicionais” como classificou o sociólogo inglês Anthony Giddens (1991).
Você já deve ter percebido nos noticiários nacionais e internacionais
esses movimentos. Por exemplo, por detrás dos deslocamentos forçados em
massa de populações sírias, palestinas ou iraquianas, existem dezenas de
etnias que compõem esses países. Tais formas de pertencimento acabam sendo
invisibilizados pela categoria de refugiado. Mas, trata-se de um equívoco, um
senso comum.
E é aí que entra a importância da etnia, pois, como veremos, um grupo
étnico preocupa-se em definir as suas identidades em termos de fronteiras
em relação aos outros grupos, resultando em interações que podem levar
a conflitos, segregações, extermínios e outras formas de violência física e
simbólica.
Para entender as questões ligadas ao pertencimento étnico, devemos
refletir sobre a noção de identidade. Temos, ainda, que contextualizar o
desenvolvimento da subjetividade e da identidade ao longo dos tempos
antigos, modernos e atuais. Fundamental, também, entender nosso período
como aquele em que a categoria cultura tornou-se central nas lógicas sociais e
políticas do Ocidente. Neste cenário, a globalização assume papel relevante.
Na Unidade 1, trataremos de caracterizar o desenvolvimento histórico
da noção de identidade. Para isso, faremos uma viagem ao passado para
entender as mudanças ocorridas. Como veremos, a mudança indica que
passamos de uma ideia de identidade fixa para uma noção fluida e flexível.
Daí essencial discutir as categorias de identidade, modernidade, pós-
modernidade, cultura e reconhecimento.
Na Unidade 2, adentraremos nos estudos sobre etnia propriamente
ditos, a partir das chamadas Teorias Sociais sobre as relações étnico-raciais que
poderão nos servir para mostrar como os problemas que ocorrem em nossas
sociedades são decorrentes destas relações. Assim, o conceito de etnia aparece
como uma nova categoria social importante para a análise do século XX, tanto
quanto foi a categoria de classe social para o século XIX. Isso porque através
deles podemos pensar o papel da diferença na produção de hierarquias e
relações sociais, organizando o mundo cultural de seus integrantes, definindo
os “de dentro” e os “de fora”.
IV
Na Unidade 3, vamos focar a cultura, a identidade e as diferenças
étnicas e raciais presentes em nosso país. Não é novidade que nosso país
é injusto e socialmente desigual. Porém, podemos perceber que o abismo
é maior para alguns, enquanto outros se beneficiam ou monopolizam as
oportunidades tendo como balizador aspectos sociais como cor, da “raça”,
etnia e gênero.
Bons estudos!
Os autores.
UNI
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades
em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o
material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato
mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação
no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir
a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de
Desempenho de Estudantes – ENADE.
Bons estudos!
V
VI
VII
suMário
UNIDADE 1 - PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES ........................................................... 1
TÓPICO 1 – A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO ...... 3
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3
2 O QUE É O ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO? ........................................................................... 4
3 OS GREGOS E UM OLHAR SOBRE A IDENTIDADE ÉTNICA ............................................... 7
4 RELAÇÕES ENTRE IMPÉRIO ROMANO, IDADE MÉDIA E
EUROPA: A IDENTIDADE NACIONAL ........................................................................................ 11
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 22
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 23
TÓPICO 2 – IDENTIDADE E MODERNIDADE .............................................................................. 25
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 25
2 O SUJEITO MODERNO: O SUJEITO RACIONAL ...................................................................... 26
2.1 RENÉ DESCARTES (1596-1650) E IMMANUEL KANT (1724-1804) ....................................... 27
2.2 FRIEDRICH NIETZSCHE E A CRÍTICA AO SUJEITO MODERNO ....................................... 30
3 O SUJEITO É SOCIAL: O SUJEITO SOCIOLÓGICO .................................................................. 32
4 A MODERNIDADE .............................................................................................................................. 34
4.1 VISÕES CONTEMPORÂNEAS SOBRE A MODERNIDADE NAS CIÊNCIAS SOCIAIS .... 38
4.1.1 Anthony Giddens.................................................................................................................... 38
4.1.2 Alain Touraine ......................................................................................................................... 40
4.1.3 Boaventura de Sousa Santos ................................................................................................. 41
4.1.4 Jürgen Habermas .................................................................................................................... 43
LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................45
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 47
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 48
TÓPICO 3 – IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE....................................................... 49
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 49
2 A PRODUÇÃO SOCIAL DAS IDENTIDADES E DAS DIFERENÇAS
NA PÓS-MODERNIDADE................................................................................................................. 50
2.1 O QUE É A PÓS-MODERNIDADE? ............................................................................................. 55
2.1.1 A identidade na alta modernidade de Anthony Giddens ................................................ 57
2.1.2 A identidade na modernidade líquida de Zygmunt Bauman ......................................... 59
3 CRISES DE IDENTIDADES, CRISES DE PARADIGMAS ......................................................... 62
3.1 A GLOBALIZAÇÃO E A IDENTIDADE GLOBAL .................................................................... 63
3.2 IDENTIDADES E RECONHECIMENTO ..................................................................................... 69
3.3 A CENTRALIDADE DA CULTURA ............................................................................................ 73
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 77
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 81
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 82
UNIDADE 2 - TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO
E O DEBATE MULTICULTURAL......................................................................................................... 83
VIII
TÓPICO 1 – CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO
COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS ............................................................................................................. 85
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 85
2 DISCUTINDO A HISTORICIDADE DO TERMO ETNIA E SUA
RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS ........................................................................................ 87
2.1 CONCEITUANDO ETNIA E ETNICIDADE ............................................................................. 94
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 97
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 100
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 101
TÓPICO 2 – RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS
ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS ........................................................................................................ 103
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 103
2 A IMPORTÂNCIA DO CONCEITO DE RAÇA PARA A CONSTRUÇÃO
DA DESIGUALDADE ........................................................................................................................ 103
3 ETNIA, RAÇA E NAÇÃO: APROXIMAÇÕES E DIFERENCIAÇÕES NECESSÁRIAS .......... 108
4 IDENTIDADE ÉTNICA, ETNICIDADE, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS ..... 109
5 A CRÍTICA AO PENSAMENTO DE FREDRICK BARTH E A AMPLIAÇÃO
DO CONCEITO DE ETNICIDADE .................................................................................................. 116
6 ETNICIDADE E MODERNIDADE................................................................................................... 120
7 DIÁSPORAS E DESLOCAMENTOS ............................................................................................... 121
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 124
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 125
TÓPICO 3 – GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE ......................................... 127
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 127
2 DO MOVIMENTO FEMINISTA AOS ESTUDOS DE GÊNERO ............................................... 127
3 MULTICULTURALISMO ........................................................................................................................ 132
3.1 MULTICULTURALISMO E SEU CONTEXTO HISTÓRICO .................................................... 132
3.2 MULTICULTURALISMO NOS EUA ............................................................................................ 135
3.2.1 A Lei dos Direitos Civis e as primeiras políticas de ações afirmativas ........................... 139
3.3 CONCEITUANDO POLÍTICAS PÚBLICAS E DE AÇÃO AFIRMATIVA .............................. 145
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 147
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 148
UNIDADE 3 - MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL ................. 149
TÓPICO 1 – AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL ... 151
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 151
2 A FRAGILIDADE DAS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA ............ 151
3 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA COLÔMBIA ...................................................................... 152
4 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO PERU .................................................................................. 154
5 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA VENEZUELA .................................................................... 156
6 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO MÉXICO ............................................................................ 156
7 O SURGIMENTO DAS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO BRASIL .................................. 157
7.1 O SISTEMA DE COTAS .................................................................................................................. 160
7.2 ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL ...................................................................................... 162
7.3 COMUNIDADES QUILOMBOLAS E TRADICIONAIS: UM CAMINHO
PARA O RESPEITO À DIVERSIDADE ÉTNICA-CULTURAL ................................................. 163
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 165
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 166
IX
TÓPICO 2 – DESIGUALDADES E VIOLÊNCIA DE GÊNERO NO BRASIL ............................. 167
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 167
2 DENUNCIANDO AS DIFERENÇAS SOCIALMENTE CONSTRUÍDAS
ENTREOS GÊNEROS ......................................................................................................................... 168
2.1 RELAÇÕES ENTRE GÊNERO NA SOCIEDADE BRASILEIRA ATUAL ............................... 170
2.1.1 A violência de gênero ............................................................................................................. 172
2.1.2 Desigualdades de gênero no mundo do trabalho .............................................................. 175
2.1.3 A falta de representação das mulheres na política brasileira ........................................... 178
2.1.4 Assédio moral e sexual e Violência de Gênero ................................................................... 181
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 187
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 188
TÓPICO 3 – AS DESIGUALDADES BRASILEIRAS EM TORNO DA RAÇA ........................... 189
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 189
2 A PERTINÊNCIA POLÍTICA E TEÓRICA DA CATEGORIA “RAÇA” NA ATUALIDADE 191
2.1 RACISMO CIENTÍFICO: UM EXEMPLO BRASILEIRO EM NINA
RODRIGUES (1862-1906) ................................................................................................................ 193
2.2 GILBERTO FREYRE (1900-1987), A MISCIGENAÇÃO E A DEMOCRACIA RACIAL ........ 197
2.3 CRÍTICAS À IDEIA DE “DEMOCRACIA RACIAL” E OS ESTUDOS RACIAIS
BRASILEIROS ................................................................................................................................... 201
3 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NA SOCIEDADE BRASILEIRA ATUAL .............................. 203
3.1 RAÇA E POBREZA ......................................................................................................................... 204
3.2 A VIOLÊNCIA .................................................................................................................................. 205
3.3 MOVIMENTO NEGRO E RAÇA .................................................................................................. 208
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 209
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 214
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 215
REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 216
X
1
UNIDADE 1
PROBLEMATIZANDO AS
IDENTIDADES
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade tem por objetivos:
• destacar o conceito de identidade, problematizando sua história e desen-
volvimento;
• discutir o conceito de identidade no mundo atual, suas tensões e fronteiras
simbólicas;
• apontar a centralidade da cultura, da Teoria do Reconhecimento e das di-
nâmicas de globalização para a produção social das identidades.
Esta unidade está dividida em três tópicos. Você encontrará atividades que
visam a compreensão dos conteúdos apresentados no final de cada tópico.
TÓPICO 1 – A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO
IDENTITÁRIO
TÓPICO 2 – IDENTIDADE E MODERNIDADE
TÓPICO 3 – IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
2
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS:
ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
1 INTRODUÇÃO
Aquilo que o sujeito é acompanha os acontecimentos e contextos
socialmente objetivados na forma de relações sociais e de fronteiras que se deslocam
constantemente. E muitas das atuais questões polêmicas ligadas às mudanças nos
padrões identitários – aos níveis individuais e coletivos – estão ancoradas em
afirmações nebulosas localizadas nesses passados.
A identidade não é um problema somente dos modernos. Ela se apresenta
como uma importante referência para indivíduos e sociedades em todos os tempos.
Fronteiras são demarcações históricas que existem desde muito tempo. Porém, há
uma mudança qualitativa quanto ao que se define por identidade em nossa época,
que se tornou um conceito mais polissêmico e crítico.
Neste tópico, vamos fazer uma jornada pela história. As relações entre
diferentes culturas em períodos da antiguidade até os dias de hoje e de que maneira
esses encontros promoveram identidades e diferenças. Com isso, esperamos abrir
caminhos para o aprofundamento de seus conhecimentos sobre a historicidade
dos conceitos. Como veremos a seguir, mesmo no passado as fronteiras não eram
percebidas apenas como geográficas.
Para realizar tal caracterização, discutimos a essencialização das identidades
antigas, que fundamentam muitos dos atuais discursos étnicos e nacionalistas.
Exemplificamos essa noção identitária com a análise da civilização greco-romana e
seu “legado” para a Idade Média.
Em seguida, o tópico aborda essa herança antiga sobre o essencialismo
identitário e a maneira como este se desdobrou na Idade Média, especialmente
com a conformação dos Estados nacionais, que não deixou de ser uma imposição
identitária que pretendia integrar todo o conjunto de populações num dado
território.
Para isso, sugerimos uma desconstrução da nossa imagem tradicional da
Idade Média como um período de servos e reis, cavaleiros, castelos, feudalismo,
doenças etc. Esses fenômenos são materializações de intensos processos humanos
de construção de unidade e de fronteiras.
Vamos lá?
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
4
2 O QUE É O ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO?
A identidade é um tema bastante complexo em nossos dias. Mas nem
sempre foi assim. As visões sobre a identidade acompanham os indivíduos e sua
história em cada época. Ter uma identidade, mesmo que não nesse termo – que é
um conceito recente – representava no passado “aquilo que você é”, isto é, a sua
essência.
Tal ideia tem gerado hoje críticas e novos modelos teóricos propostos para
entender como funcionam as identidades contemporâneas, articulando identidade
e diferença.
Porém, como dissemos, nem sempre foi assim. Os povos antigos e da Idade
Média tinham outra concepção identitária, autossuficiente, fechada em si mesma.
Os outros povos não tinham uma identidade específica. Eram os diferentes:
selvagens e bárbaros cujas palavras são invenção do passado.
Na filosofia grega, a discussão sobre a essência ou não essência foi inaugurada
por Heráclito e Parmênides, continuada por Platão, Aristóteles e seus discípulos.
Segundo a visão essencialista, existe uma unidade ontológica, isto é, uma essência,
uma alma única, fixa e que unifica o ser, apesar de não serem acessíveis à nossa
experiência cotidiana, conforme afirmava Platão. Essas essências existem em si
mesmas. Quando pensamos num sapato, por exemplo, não enxergamos a ideia de
sapato. Mas, quando vemos um sapato na nossa frente, estamos experimentando
um conceito materializado de sapato, mas não sua essência. A essência do sapato
é imutável, existindo não nas nossas mentes, mas como modelos atemporais
presentes no mundo inteligível. Para acessar tais ideias, somente através da Razão.
Enquanto Ser, somos a materialidade, um traço apenas da essência do “Ser”, este
eterno, imutável, perene. Vejamos a reflexão realizada por Claude Dubar:
Etimologicamente, a identidade (do latim idem: o mesmo) é aquilo que
permanece o mesmo ao longo do tempo. É o que Platão, a partir de
Parmênides, chamava a essência do que existe (os seres, étants), aquilo
que não se relaciona comsua aparência - o que se percebe pelos sentidos
-, mas sua realidade “essencial” que é invisível e imutável. A essência,
segundo Platão, não se conhece pelos sentidos, mas pelo espírito (o noos)
que «vê» as Ideias e as reconhece (teoria da “reminiscência”). Podemos
lembrar o mito da caverna: os humanos vivem em meio às sombras,
às aparências, às miragens: se quiserem ver (em grego theorein), daí
para conhecer o Real, eles devem sair da caverna, subir até o alto da
montanha e contemplar o céu das ideias (DUBAR, 2010, p. 336).
Neste sentido, a filosofia socrático-platônica inaugurou um dualismo
metafísico entre o corpo e a alma. Ele, neste sentido, formula uma metafísica
em torno do Ser. Na sua argumentação, o corpo ligava-se aos sentimentos,
àquilo que pode afastar o ser de uma existência ideal. Tal existência só poderia
ser fundamentada na alma, que é a própria Razão. Como veremos, tal tradição
filosófica foi incorporada à tradição cristã desde os primeiros anos da nova religião
monoteísta.
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
5
FIGURA 1 – IDENTIDADE: SOMOS O QUE APARENTAMOS?
FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/-uqLbwHO4-n4/TjRSfJlO-NI/
AAAAAAAAAFs/0sZ4LILb0dM/s1600/carteirra_identidade.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Para as identidades clássicas (aqui em oposição às contemporâneas), não era tão
claro para nós que a construção social da diferença envolve a conformação de oposições
binárias: podem indicar exemplos de binarismos em situações como homem-mulher,
masculino-feminino, escuridão-luz, quente-frio, bem-mal, cru-cozido, ou civilizado-
bárbaro, superior-inferior, nós-eles, negro-branco etc. (WOODWARD, 2015).
O que é esse binarismo? Trata-se de um modo de classificação simbólico
do mundo e da experiência individual e social a partir de dois polos opostos e
desconectados entre si. Assim, no binarismo de gênero, por exemplo, ser homem e
ser mulher são situações que nada têm a ver entre si. Estrutura, assim, uma divisão,
bem como hierarquias e papéis distintos. Se o doce não é o salgado, então, o doce
existe por si próprio. Mas a própria definição e ideia de doce só pode ser construída
em torno de outros conceitos, como amargo, salgado etc. Por mais que os discursos
identitários essencialistas invisibilizem este fato, está claro para todos. Para povos
antigos e mesmo contemporâneos, estabelece-se uma visão de senso comum em
cada um desses elementos que em oposição são independentes. A diferença era
concebida como uma entidade independente, existindo independente de outras
identidades (WOODWARD, 2015).
Neste sentido, o essencialismo identitário representaria uma ideia de que a
identidade de uma pessoa indicaria “aquilo que se é”, dando pouca ou nenhuma
ênfase ao fato de que “é na relação com o outro que me identifico como o não
outro” (OLIVEIRA, 2006, p. 24). E é exatamente essa condição relacional que o
essencialismo nega ou invisibiliza.
Para compreender a dimensão de si mesmo é preciso ter um outro parâmetro,
um outro ser humano. Então, o que podemos entender por essencialismo?
Essencialismo refere-se à necessidade de estabilizar determinados
grupos sociais enquanto sujeitos políticos. Ou seja, o processo de
essencialização procura garantir a legitimidade da representação
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
6
política de determinado grupo estabelecendo uma fronteira nítida que
torne possível distinguir seus membros na sociedade como um todo.
Esse processo engendra um grave problema: leva ao ‘congelamento’
e à descontextualização de identidades e diferenças como se fossem
entidades fixas, visto que impõe a partir da esfera política uma visão
única do que as distingue. O essencialismo dá margem, portanto, ao
surgimento de aspirações de cunho totalitário para fins de estabilização
política, pois tende a eliminar a partir da própria esfera pública
qualquer outra interpretação possível do que caracteriza a diferença ou
a identidade em questão (TOSOLD, 2010, p. 169).
Como você pode perceber, na lógica das identidades essenciais existiria um
núcleo que seja “comum” e “fixo”. Este centro orientaria o indivíduo para e na vida
social. E um dos fenômenos sociais corriqueiros em torno da identidade é que se
tende a perceber estas identidades como “naturais”. É como se sempre existissem.
E quando essa situação se torna um problema? A partir da ampliação das
relações de interdependência social entre as diversas partes do mundo, o controle
identitário baseado em lealdades tradicionais como raça, nação, gênero torna-se
mais frágil. Na velocidade das interações atuais, esse abalo pode desconcertar os
sujeitos. Muitos optam por radicalizar seu discurso em torno de fundamentalistas
religiosos, nacionais, étnicos, capitalistas etc. Numa visão radical do essencialismo
identitário, essas identidades “não contemporâneas com o seu tempo” fariam “mal
aos corpos dos que as carregam” (BURITY, 1997, p. 145).
Apesar disso, como aponta Stuart Hall (2006), essas versões serviram para
equilibrar e estabilizar o mundo social, apontando “quadros de referência que davam
aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social” (p. 7). Conforme o autor:
[...] A lógica do discurso identitário assume um sujeito estável, isto é, temos
assumido que há algo que nós podemos chamar de nossa identidade, o
que, em um mundo que muda rapidamente, tem a grande vantagem
de permanecer imóvel. Identidades são uma forma de garantia de que
o mundo não está se desmoronando tão rapidamente quanto algumas
vezes parece. É um tipo de ponto fixo do pensamento e do ser, uma base
de ação, um ponto parado no mundo em transformação. Este é o tipo de
garantia última que a identidade parece nos prover (HALL, 2016, p. 317).
Assim, ao contrário do que afirmam as identidades tradicionais, clássicas,
a identidade não é algo que se tem, mas é o efeito precipitado (logo, instável) de
atos de identificação social. Quer dizer, os processos de construção identitária são
marcados pela ambiguidade fundamental dos próprios fenômenos identitários.
Todas as identidades seriam contingentes às condições históricas, sociais, culturais,
políticas (BURITY, 1997, p. 139-140).
Neste sentido, essa visão essencialista estimula nos seus adeptos a ilusão de
um conjunto de características autênticas e que são partilhadas e experimentadas
por um grupo inteiro. É com este caráter que falamos, por exemplo, em identidade
brasileira. Quando nos referimos a essa identidade, todas as diferenças internas
do país são anuladas em torno de uma unidade. E nós sabemos que cada região
brasileira possui características sociais e culturais muito distintas, que tornam
complexo pensar uma unidade!
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
7
Como localizar na história o aparecimento de identidades essencialistas,
como a identidade étnica ou nacional? Essa discussão sobre essencialismo na
identidade está muito abstrata para você? Vamos exemplificar com o caso dos
gregos antigos e da identidade na Idade Média. Estes períodos são a base de duas
importantes identidades essencialistas: a étnica e a nacional.
3 OS GREGOS E UM OLHAR SOBRE A IDENTIDADE ÉTNICA
Como vimos, é óbvia a associação entre identidade e essência-unidade no
pensamento grego. Vamos agora adentrar na história desse povo. Esse exercício,
uma pessoa de hoje pensar sobre gregos que viveram há 2.400 anos, é complicado.
Corre-se o risco de muitas simplificações. Precisamos suspender algumas noções
básicas de viver em sociedade nos dias de hoje. Ou ser um estudioso familiarizado
com o pensamento mítico, filosófico dos gregos e sua vinculação a um sentido
da vida comunitária nas cidades-estados, da estreita relação entre vida pública,
palavra falada e espaço público.
Uma brevíssima história da Grécia antiga
A Gréciaantiga nunca chegou a formar um Estado unificado. Costuma-
se dividir a História grega antiga segundo alguns períodos: Pré-homérico
(século XX-XII a.C.); Homérico (séculos XII-VIII a.C.); Arcaico (séculos VIII-
VI a.C.); Período Clássico (V-IV a.C.). O primeiro conjunto de populações
indicadas como gregos antigos ocupou a região da Península Balcânica por
volta de 4000 a.C. Essas populações pioneiras eram originárias do Oriente
Próximo. Como o terreno era acidentado, pouco fértil e com verões e invernos
rigorosos, esses grupos deslocavam-se constantemente pelo território,
ocupando ilhas e regiões da Ásia, como Jónia (Turquia), e da Europa.
FIGURA 2 – MAPA DO IMPÉRIO DE ALEXANDRE, O GRANDE
FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/-ddiWsqMFVPQ/VQDMeqa9GzI/
AAAAAAAADYY/RIkQqqFIzpE/s1600/o%2Bimp%C3%A9rio%2Bde%2Balexandre%2Bo%2
Bgrande.JPG>. Acesso em: 13 jun. 2017.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
8
De maneira geral, o período clássico é, também, a “clássica” versão
que conhecemos, em torno da Polis, do pensamento filosófico, da isonomia,
da democracia ateniense (dependente da escravidão), cujo ápice deu-se no
século IV a.C.
No século V a.C. ocorreram as Guerras Médicas, quando os gregos
se uniram para conter as tropas persas que procuravam ocupar os territórios
helênicos. Com o declínio das cidades-estados gregas, surge Alexandre,
o Grande, da Macedônia, que ficou famoso por suas vastas conquistas
territoriais, espalhando alguns traços da unidade grega para estas regiões,
fundando cidades etc. Alexandre foi proclamado Rei da Macedônia e seus
domínios em 336 a.C.
FONTE: Funari (2002) e Le Roux (2010)
Então, como pensar a experiência histórica dos gregos antigos em termos
de identidade? Sugerimos observar em termos de grupo étnico. Havia condições
de uma identificação em termos de ancestralidade, de religião, de estrutura mítica,
de costumes, de língua, conforme sugere o historiador Ciro Flamarion Cardoso
(2002). E quais foram essas identificações comuns?
Para Claude Mossé (2004, p. 7), a civilização grega é, “antes de mais nada,
civilização da pólis, civilização política”. E conforme Jean-Pierre Vernant (2002), a
pólis estimulou o desenvolvimento de novas mentalidades, especialmente entre os
atenienses e suas colônias. Esta resultou em transformações materiais que foram
incorporadas à vida: a predominância da palavra no debate público, a publicidade
das suas manifestações políticas e culturais e uma ideia de interesse comum entre
os seus habitantes.
Segundo Leister (2006), os gregos destacam-se pela laicização da concepção
do mundo operada na pólis. O universo dos deuses vai cedendo lugar às ações
humanas e o destino dos homens não mais é definido pelos deuses, mas sim pela
lei. Os gregos desse período tornam os mitos em explicações sociais e filosóficas, não
relacionadas aos deuses e aos destinos das pessoas. Neste contexto, o privilégio da
cidadania era obtido por nascimento, e o grego obtinha a cidadania da pólis a que
pertenciam os seus pais: para “a identidade helênica”, a cidade-estado grega era a
única possibilidade de civilização: “fora dela, só a barbárie” (LEISTER, 2006, p. 18).
O alemão Werner Jaeger (1986), em sua obra clássica “Paideia: a formação
do homem grego”, afirma que os gregos foram originais no sentido de localizar
o problema do homem mítico, que seria fundamental na epopeia, na tragédia, na
poesia, para depois se ligar a uma preocupação filosófica, desdobrando-se numa
concepção inédita de homem. Este possui uma essência em meio ao mundo e suas
leis gerais. Tal essência não deve ser confundida com individualidade. É, antes,
como dono de uma Razão.
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
9
O que ele quer dizer com “Paideia”? Ele implica a ideia de uma formação
moral, religiosa, cívica comum reproduzida através da educação grega. E isso
quer dizer o estudo e o conhecimento em termos da poesia, filosofia, retórica,
matemática, música, astronomia, idioma, elementos essenciais da “alma” do
cidadão grego do período a partir do século V a.C. Este conjunto era ensinado
através das Academias ou por professores particulares, por filósofos nas ruas,
pelas peças teatrais. Era uma moral do dia a dia, a fim de orientar o cidadão ao bem
comum e aos valores gregos. Para Jaeger, havia uma unidade e um núcleo comum
de ideias entre os gregos (JAEGER, 1986).
Temos, então, uma civilização excepcional para aquela época. Tal conjunto
de valores era compartilhado entre os cidadãos das poleis. Escravos e estrangeiros
não eram obrigados ou educados em termos gregos, com exceções. Tal educação
de valores tinha início na infância, tanto para homens quanto para mulheres,
apesar das distinções nas formas de ensinar e no objetivo destes conhecimentos.
Vale dizer que a sociedade grega era uma sociedade de cidadãos, mas a plenitude
cidadã era reservada somente aos homens.
FIGURA 3 – A IMPORTÂNCIA DA PÓLIS
FONTE: Disponível em: <http://www.historiadigital.org/artigos/socrates-na-construcao-da-
democracia-grega/>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Então, pensar os gregos antigos implica pensar em isolamento social?
Eram, então, os gregos antigos uma sociedade fechada em si mesma em relação
ao mundo? Nada mais longe da verdade. Os povos gregos (também chamados
de helênicos) mantiveram relações com o Egito, a Síria, o Irã, regiões da Turquia,
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
10
antes mesmo dos períodos Arcaico e Clássico. Havia interação e laços comerciais e
culturais entre os povos do Mar Mediterrâneo. Havia, sim, um sentimento de “ser
grego” compartilhado nos modos de vida e nas instituições sociais.
A construção das identidades gregas na Antiguidade não foi um fenômeno
estático. A percepção dos gregos sobre os outros povos foi se alterando. Seja pela
sua ideia de Paideia comum, pela língua ou pelas guerras com povos invasores.
Para o historiador François Hartog (2004), as Guerras Médicas foram centrais na
formação do bárbaro (bárbaroi) em oposição ao grego (héllenes). A partir deste
momento, a diferença entre gregos e não gregos torna-se política. O bárbaro é
aquele que não compartilha uma pólis ou laços comuns em torno da educação, da
língua e de costumes comuns.
Antes dessas guerras contra persas, havia, entre os séculos VII e VI a.C.,
uma fascinação pelos povos como egípcios e localizados no Oriente Próximo
(HALL, 2001). A identidade helênica vinha sendo construída de “forma agregativa
por meio da percepção de similaridades com grupos de pares” (HALL, 2001,
p. 218-219). Ao longo deste período, os bárbaros eram aqueles que não falavam
grego. Que eram incompreensíveis, portanto. Mas a partir do século VI a.C. houve
mudanças cruciais para a cristalização da identidade grega.
Estes bárbaros, selvagens, “outros”, representavam demarcações simbólicas
negativas para a definição da identidade grega. Aos poucos foi se constituindo
uma identidade centrada no discurso da defesa da autonomia, da liberdade e da
lei como valores gregos. Este é o período de consolidação de oposições a grupos
externos de bárbaros, especialmente em função das Guerras Médicas contra os
persas. Nesse jogo de alteridades, “os gregos e atenienses se tornaram plenamente
gregos, enquanto os bárbaros permaneceram bárbaros” (HARTOG, 2004, p. 95).
E num período de decadência das cidades-estados gregas, especialmente de
Atenas, surgiu um invasor ao norte de suas terras: a Macedônia, a partir do século
IV a.C. Depois das conquistas territoriais de Felipe II e de seu filho e sucessor,
Alexandre, O Grande, conformaram condições para a formação de um novo cenário
político, econômico e cultural, dominando aquilo que era a Grécia antiga. De sua
expansão, estabelece-se outro momento para a identidade grega. Durante o período
do Império Helenístico, estiveramsob domínios gregos e macedônicos parte do norte
da África e das extensões da Ásia. Em cada terra conquistada eram criadas colônias
gregas, cujo modelo de educação era aquilo que dava sentido a uma experiência de
ser grego. Mesmo que este “grego” more numa região distante da Ásia.
Assim, como pensar a experiência grega em termos de identidade étnica?
O grande autor clássico dos estudos sobre etnia é Frederik Barth (1998), em sua
obra “Grupos étnicos e suas fronteiras: a organização da cultura das diferenças
culturais”. A partir de sua reflexão, pode-se apontar um grupo étnico como um
modelo de organização social e de fixar uma identidade relacional em termos de
diferença. A continuidade de um grupo étnico não está ligada à manutenção de
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
11
uma cultura, tradição antiga. Os traços culturais podem mudar. Depende, sim, da
delimitação de limites entre os grupos e de reforçar laços de solidariedade.
“A etnicidade é um conceito de organização social que nos permite descrever
as fronteiras e as relações dos grupos sociais em termos de contrastes altamente
seletivos, que são utilizados de forma emblemática para organizar as identidades
e as interações” (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 1998, p. 183).
É nessa relação que se formam os sentidos do “nós” e os “outros”, os
de “dentro” e de “fora”. É um jogo contraditório, de confronto, diferenciação e
contraste. Mas, também, um jogo de dominação e subordinação. A etnicidade
depende de relações e de contrastes para delimitar fronteiras. Dependendo de
contextos e relações de força, ele se mostra nas relações sociais. O foco então se
torna a fronteira étnica e as maneiras de pertencer ou excluir, porque a identidade
étnica implica uma série de restrições e prescrições que governam as situações de
contato.
Na visão de Barth (1998), cada indivíduo participa, consciente ou não, na
construção da etnicidade do seu grupo. Na medida em que os agentes se valem
da identidade étnica para classificar a si próprios e os outros para propósitos de
interação, eles formam grupos étnicos em seu sentido de organização.
É na medida em que os indivíduos usam essas categorias para
organizarem-se a si e aos outros que eles constituem grupos étnicos.
Nesse contexto, a cultura não desaparece da análise, mas ela só tem
importância na medida em que os atores lhe atribuem importância, não
valendo, portanto, enquanto dados objetivos na definição do fenômeno
(ARRUTI, s.d., p. 205).
Neste sentido, numa tentativa de sintetizar e fechar esta discussão, John
Hall (2001, p. 216) diz que um grupo étnico se define “não pela soma de diferenças
objetivamente observáveis”, mas por apenas “aquelas diferenças que os membros
do grupo, eles próprios, percebem como diferenças significantes”. Do ponto de
vista da experiência grega, então, temos as poleis, as guerras e a noção de Paideia e
não versões biológicas de identidade. Tratou-se de uma experiência de vida social
e comunitária.
4 RELAÇÕES ENTRE IMPÉRIO ROMANO, IDADE MÉDIA E
EUROPA: A IDENTIDADE NACIONAL
Como aponta Pedro Paulo Funari (2000, p. 77), Roma designa “uma cidade
antiga e todo um império”, um imenso conglomerado de terras que, no seu auge,
se estendia da Grã-Bretanha ao rio Eufrates, do Mar do Norte ao Egito. Sobre qual
Roma tratamos? Pela complexidade de sua história, aqui analisamos as identidades
no tempo do Império Romano.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
12
Os romanos consolidaram na antiguidade um grande e vasto império ao
longo de sua existência, subordinando aos seus domínios diversos povos, entre
eles, os próprios gregos. E a extensão das terras romanas na Antiguidade incluía
uma variedade de línguas, religiões e tradições distintas. O processo lento e
complexo da produção do social da identidade romana teve seu ápice na expansão
imperial e no culto à figura do imperador romano. Conforme o romano Cícero,
em “Da República”, a glória de Roma relaciona-se à observância dos costumes
ancestrais, de modelos de arte, arquitetura, religião e leis.
Como ponto de partida, a construção de “uma identidade romana” ao
modo que os gregos estabeleceram como padrão não foi uma preocupação do
império. O historiador Norberto Guarinello (2010) diz que o Império Romano
não foi o resultado de embates identitários. Nem que sua história se explica pelo
conflito ou acomodação de identidades.
Brevíssima história de Roma antiga
A história da Roma antiga, que inclui partes da África, Europa
e Ásia, liga-se à fundação da pequena Roma, surgida no século VIII a.C.
Todos lembramos da lenda de Rômulo e Remo, irmãos que num primeiro
momento foram criados por uma loba até serem encontrados. Segundo esta
lenda, citada por Tito Lívio, Eneias, príncipe derrotado na Guerra de Troia,
estabeleceu-se na região do Lácio, onde casou-se com uma herdeira latina,
Reia Sílvia. Rômulo e Remo eram seus filhos numa relação com o deus Marte
e por isso foram atirados no rio Tibre. Foram encontrados e amamentados
por uma loba e, depois, criados por camponeses. E, quando adultos, os dois
irmãos voltaram a Alba Longa, depuseram Amúlio e em seguida fundaram
Roma, em 753 a.C.
Conforme Paulo Funari (2000, p. 77), “Roma designa uma cidade
antiga e todo um império, um imenso conglomerado de terras que, no
seu auge, se estendia da Grã-Bretanha ao rio Eufrates, do Mar do Norte
ao Egito”. Roma e suas extensões conheceram três formas de organização
política, que influenciaram a própria estrutura social e a vida cotidiana das
pessoas. Costuma-se dividir sua história em: Monarquia (753 a.C. - 509 a.C.),
República (509 a.C. - 27 a.C.) e Império.
O Império Romano nasceu oficialmente em 27 a.C. e terminou –
dependendo do ponto de vista – com a conquista de Roma pelos godos,
chefiados por Alarico, em 410 d.C., ou em 476 d.C., data da queda do último
imperador do Ocidente, em consequência dos repetidos assaltos dos povos
germânicos (LE ROUX, 2010).
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
13
FIGURA 4 – MÁXIMA EXTENSÃO DO IMPÉRIO ROMANO – III a.C.
FONTE: Disponível em <https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/e3/9d/fd/
e39dfd2db2ce90db3aa264144158c10c.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
FONTE: Funari (2002) e Le Roux (2010)
Havia um sistema de valores compartilhados, que favoreceu a integração
imperial? Na leitura de Patrick Le Roux (2010), os territórios dominados pelo
império experimentaram formas de administração hierárquica estruturada em
torno de funcionários e de leis da autoridade central. Elas visavam “controlar,
verificar, equilibrar e repartir” as atividades locais.
Além disso, existe uma visão clássica em torno de uma comunidade cultural
mediterrânea cuja potência criativa era a civilização romana. Isso levaria a destacar
um processo de assimilação da cultura romana pelos povos bárbaros dominados,
chamada de “romanização”, como apresentada. Esse termo está ligado a noções de
desenvolvimento, aculturação e à forma como os nativos adotaram e assimilaram
a cultura “romana”. A romanização tradicionalmente observada pela História
defende a ideia de difusão da cultura romana para regiões menos urbanas, mais
“bárbaras”. Tratava-se, em muitos casos, de uma “missão civilizatória romana”.
Essa crítica entende que:
A integração propiciada pelo Império não representou, assim, um
consenso, nem a paz geral que muitas vezes se propugna, mas um
sistema de exploração contra o qual as alternativas eram escassas, dada
a imensa dispersão geográfica e cultural dos insatisfeitos, dada a falta
de alternativas viáveis ao Império (GUARINELLO, 2010, p. 127).
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
14
Agora, havia uma delimitação cultural que reforçou a elitização da ordem
romana por meio de duas fronteiras: a cultura e língua gregae a língua latina. Não
havia, necessariamente, a imposição dos modos de vida dos romanos ou gregos
em suas colônias. Estas eram restritas aos ‘nativos’ gregos e romanos que viviam
nessas terras coloniais.
FIGURA 5 – CASAL ROMANO
FONTE: Disponível em: <http://www.institutoandreluiz.org/1_casal_romano.JPG>. Acesso
em: 13 jun. 2017.
A identidade romana, assim, ligava-se muito à própria história de Roma
e sua elite militar e política. Pode-se dizer que entre estes indivíduos e famílias
nobres havia uma ligação identitária mais consistente. Norberto Guarinello
(2010) defende que a identidade romana não era uma imposição, mas sim, uma
característica geral de comportamentos que deveriam ser compartilhados entre os
súditos. Enquanto se é grego por ascendência e descendência, no caso romano, é
possível se tornar um, através da Lei e do Direito.
Tecendo comparação entre identidade grega e romana, a cidadania helênica
era bastante restrita aos habitantes de fora, nos “confins do mundo”, ao passo que
a romana era muito mais ampla e flexível do que a ateniense. Havia possibilidades
de ascensão social diferentes entre gregos e romanos. Ser romano era preocupação
para aqueles que tinham possibilidades de pertencer à elite romana.
Isso não quer dizer que os romanos relativizavam as culturas de seus povos
dominados ou não se sentiam superiores. Pelo contrário, queremos dizer apenas
que a identidade romana era um assunto restrito à elite econômica, política, militar
e “sagrada”, ou alguns poucos segmentos mais ricos da sociedade romana.
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
15
E o que temos de relação entre a identidade nacional e a história do Império
Romano? É a partir da Idade Média e com a reconfiguração do Império Romano
após a tradicional “Queda de Roma” para os bárbaros que esta identidade restrita
e fundamentada em memória e direito vai dar contornos à identidade nacional. Ela
fundamenta-se no pertencimento a um território imperial, a uma língua (latim), ao
conjunto de leis e direitos herdados do Império Romano.
Segundo a tradição historiográfica, a Idade Média tem início com a queda do
Império Romano tomado pelos “bárbaros”. O que foram essas invasões bárbaras?
Uma guerra do tipo Game of Thrones pelo poder real? Um processo complexo de
fatores interligados? Vamos investigar esta última alternativa.
Devido a complicadores políticos, demográficos, sociais e militares, o
poder imperial ligado a Roma foi, em 395 d.C., dividido em duas partes: o Império
Romano do Ocidente e o Império Romano do Oriente, cuja capital era Bizâncio,
atual Constantinopla (Turquia). Os estudos, pesquisas e discursos que apontam
os bárbaros deram ênfase aos aspectos externos, negligenciando os aspectos e a
desorganização interna. Essa desestruturação do poder imperial é lida a partir da
ideia do “Declínio do Império Romano” (BARROS, 2009).
UNI
O que foi viver na Idade Média?
As pessoas que viveram essa época possuíam um imaginário social bastante fértil numa
relação muito próxima de situações do universo sagrado e profano. Além disso, as populações
medievais não registravam o tempo como nós fazemos hoje. Este tinha um sentido biológico
e cíclico para a vida. É por isso que as celebrações religiosas ou não – como a celebração do
ano-novo – ressaltavam um ciclo eterno e a repetição de eventos.
Resultado de um processo social de caracterização, a Idade Média foi interpretada na Idade
Moderna como atraso, crises e trevas. A visão negativa sobre a Idade Média teve início a partir
do século XV, no período do Renascimento. Para muitos, a Idade Média foi época sombria,
“um tempo oco, caracterizado pela ausência da razão e ausência do gosto” (LE GOFF, 2005, p.
59). Porém, as grandes mudanças nas mentalidades tiveram início na Idade Média. O próprio
Renascimento não foi um acontecimento, mas um longo processo iniciado no século XII.
De uma maneira geral, apontamos a memória do Império Romano, o cristianismo e a conversão
dos povos bárbaros e combate aos infiéis, e esse imaginário social repleto de relações entre
o sagrado e o profano alimentado por uma metafísica cristã como o “ponto de partida”. Aos
poucos, tais tradições são ressignificadas em torno da ideia de Ocidente e de Europa.
Houve uma ruptura profunda entre a Antiguidade e a Idade Média naqueles
anos? Não como aprendemos na escola, onde Roma foi tomada por bárbaros e
surgiu uma nova era. O que ocorre no período de transição da Antiguidade para a
Idade Média é uma renovação, o surgimento de uma nova cultura a partir da fusão
de valores clássicos com valores cristãos.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
16
E quem eram esses bárbaros invasores? Pode-se indicar os godos (visigodos
e ostrogodos), vândalos, os francos, os suevos, os burgúndios, os anglos, os saxões,
os alamanos, dentre outros. Dentre revoltas, golpes políticos, conflitos políticos, o
poder de Roma diminuiu.
FIGURA 6 – BÁRBAROS “INVASORES”
FONTE: Disponível em: <https://idademedia.wordpress.com/2012/03/12/povos-barbaros-
um-dos-componentes-que-a-igreja-civilizou-na-idade-media/>. Acesso em: 13 jun. 2017.
As fronteiras não se expandem mais. Pelo contrário, fragmentam-se, por
um momento. Depois, reunificam-se em movimentos diversos desses chamados
povos bárbaros. Em especial, os francos, que desde o século V foram expandindo
seus domínios. Com conversão de Clóvis ao cristianismo, poder político e poder
religioso passam a confundir-se.
[...] o golpe de mestre de Clóvis foi o de se converter, com seu povo, não
ao arianismo, como os demais reis bárbaros, mas ao catolicismo. Com
isto pôde jogar a cartada religiosa e beneficiar-se do apoio, senão do
papado ainda fraco, ao menos do poder da hierarquia católica e do não
menos poderoso monasticismo (LE GOFF, 2005, p. 32).
Nestes primeiros séculos de Idade Média, o Império Romano foi
reinventado, especialmente com a coroação de Carlos Magno no século VIII.
Segundo Hobsbawm e Ranger (1998), a importância desse imperador para a ideia
de uma identidade europeia é central. Não só por restaurar e manipular a memória
e instituições do Império Romano, mas, principalmente, pela sua imagem de
“defensor” da identidade europeia-cristã contra os “infiéis” do Islã. Foi com Carlos
Magno, coroado imperador do Império Carolíngio na noite de Natal de 800 d.C.,
que se começou o rechaço aos seguidores do Islã que ocupavam e expandiam sua
fé para a Europa. Durante o reinado de Carlos Magno, a expansão territorial e a
cristianização dos povos compunham dois grandes objetivos seus.
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
17
DICAS
Sugestões de filmes sobre a Idade Média:
“O Incrível Exército de Brancaleone”, direção de Mario Monicelli (1965).
O filme acompanha a história do cavaleiro Brancaleone, que lidera um pequeno grupo de
pobres em busca da “Terra Santa”. O filme é uma comédia que retrata a Baixa Idade Média e
seus temas, como as cruzadas e a peste negra.
“Cruzada”, com direção de Ridley Scott (2005).
O filme acompanha um jovem ferreiro francês que se desloca para a Terra Santa e experimenta
o conflito entre cristãos e muçulmanos em torno da conquista de Jerusalém, que termina
com a retomada da cidade pelos seguidores do Islã.
Por que nos interessa ligar o aparecimento da identidade nacional ao
Império Romano e à Idade Média? De acordo com José Glaydson Silva:
Justificador dos impérios modernos, o Império Romano ajuda a construir
os pertencimentos, as identidades, as nacionalidades, em universo
de empréstimos simbólicos, sentidos, construídos em interpretações
falseadas, em muitas tentativas das nações europeias de estabelecer
passados apropriados (SILVA, 2005, p. 43).
É com o declínio dos impérios que se abrigavam na memória da grandeza
romana que foram surgindo pequenosreinos, que logo mais se tornaram Estados.
Das instituições feudais surgem identificações baseadas numa definição de
território. O que é a identidade nacional?
Para Anthony Smith (1997), a identidade nacional é a manifestação da
consciência de pertencimento a uma comunidade política que estrutura a vida
nacional e individual através de instituições que medeiam os direitos e deveres
de seus membros. Essa consciência seria uma forma de memória elementar para
crescimento de uma identidade. E espaço geográfico também no sentido de
territorialização. A identidade nacional demanda uma base territorial em que os
seus membros possam identificar-se, relacionar-se, isto é, pertencer. Dela foram
derivadas noções de cidadania, nação e pátria.
Segundo Smith (1997), possuir uma identidade e uma memória nacional
é resultado de um processo que se opera em múltiplos espaços, do Estado ao
universo familiar, sendo reafirmados, aprendidos e reproduzidos em eventos,
rituais, instituições presentes no cotidiano dessas comunidades. Neste conjunto
de relações sociais de linguagem e de poder, os membros da comunidade são
estimulados à autoidentificação – pacífica ou não – voltada a delimitar a diferença
e a fronteira do grupo.
Para Stuart Hall (2006), as identidades nacionais são compostas por
símbolos e representações, indicando modos de construir sentidos que influenciam
e organizam tanto as nossas ações quanto a concepção que nós temos de nós. Elas
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
18
contribuíram para forjar sistemas nacionais e universais de serviços e políticas,
conformando uma “cultura homogênea”, mas permeada pela ambivalência.
[...] a noção de cultura nacional não é algo com um impulso moderno,
ao contrário, amparado ambiguamente entre o passado, o presente e o
futuro, retornando, sempre que for necessário, a passados inventados.
Não importa quão diferentes sejam seus integrantes, uma cultura
nacional sempre buscará unificá-los, integrá-los numa identidade
cultural. Porém, esse movimento tem como efeito anulação e
subordinação da diferença cultural interna? (HALL, 2006, p. 59).
E como articular as identidades nacionais e suas memórias, símbolos,
bandeiras, hinos, heróis a esse momento medieval? São bastante diversificados os
enfoques e entradas possíveis no tema. Aqui se discutem duas categorias que podem
contribuir na busca de uma reflexão possível. A primeira de Eric Hobsbawm e sua
noção de “invenção das tradições”. A outra é de Benedict Anderson e seu conceito
de “comunidade política imaginada”.
O conceito de “tradição inventada” é utilizado num sentido amplo, incluindo
“tradições” realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas,
quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado
e determinado de tempo. Essa tradição inventada tem como “combustível” de
seu movimento um conjunto de práticas reguladas por regras escritas ou não de
natureza ritual ou simbólica. O objetivo desse conjunto de sentidos é inculcar
certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica,
automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. São tradições que
buscam apresentar continuidade artificial em relação ao passado através da
repetição (HOBSBAWM; RANGER, 1998).
[...] por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas,
normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas;
tais práticas, de natureza natural ou simbólica, visam inculcar certos
valores e normas de comportamento através da repetição, o que
implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado.
Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um
passado histórico apropriado (HOBSBAWM; RANGER, 1997, p. 9).
Elas são, em essência, conservadoras, contrárias a inovações. Por isso
Hobsbawm e Ranger distinguem-nas dos costumes e convenções que, por sua vez,
estão ligados a tradições. O passado está sempre presente na forma de símbolos,
linguagens, rituais, entre outros.
Consideramos que a invenção de tradições é essencialmente um
processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao
passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição (p. 14). [...]
toda tradição inventada, na medida do possível, utiliza a história como
legitimadora das ações e como cimento da coesão grupal (HOBSBAWM;
RANGER, 1997, p. 21).
O que queremos apontar com esta reflexão? De acordo com Hobsbawm e
Ranger, toda tradição surgiu em algum lugar do passado, sendo possível de ser
alterada em algum futuro.
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
19
As nações são entidades historicamente novas fingindo terem existido
durante muito tempo. É inevitável que a versão nacionalista de sua
História consista de anacronismo, omissão, descontextualização e, em
casos extremos, mentiras. Em um grau menor, isso é verdade para todas
as formas de História de identidade, antigas ou recentes (HOBSBAWM;
RANGER, 1998, p. 285).
Se a Idade Média é um desses passados, hoje imagens dela são manipuladas
discursiva e politicamente. Das dinâmicas do mundo medieval foram “inventadas”
e “imaginadas” as bases de uma identidade essencialista muito relevante nos dias
atuais, apesar de sua crise. A identidade nacional difundiu-se junto com os domínios
e colonialismo europeu. Nós brasileiros estamos marcados por uma identidade
nacional que se diz fixa, cuja origem está na ocupação portuguesa em 1500.
A identidade nacional reivindica uma unidade de língua e cultura. Essas
características demandam, para sua realização, um esforço coletivo de imaginação
razoavelmente coordenada e reproduzida em torno de um território e seus membros.
Benedict Anderson (1989) propôs a definição de nação como uma comunidade
política imaginada como implicitamente limitada e soberana. É imaginada porque
nem todos os membros desse grupo podem se conhecer e reconhecer, apesar
de que estejam mentalmente configurados. É limitada porque implica limites e
fronteiras. É soberana porque fundamentada no direito iluminista. E é imaginada
porque sempre definida em termos de comunidade.
“O que proponho é que o nacionalismo deve ser compreendido pondo-o
lado a lado, não com ideologias políticas abraçadas conscientemente, mas com os
sistemas culturais amplos que o precederam, a partir dos quais – bem como contra
os quais – passaram a existir” (ANDERSON, 1989, p. 20).
Neste sentido, a própria noção de Ocidente e de Europa é problemática.
Segundo Peter Johann Mainka (2011, p. 60), é difícil delimitar as fronteiras
europeias. Isto porque existem situações que tornam complexa essa definição.
Ela surge, porém, definindo-se em relação a um outro, os povos “bárbaros” da
Ásia. Podemos indicar a Europa como um continente cujas fronteiras são móveis,
deslocadas em inúmeros momentos. Já no passado, a palavra “Europa” tinha um
significado ambíguo. Ora era percebido como os povos da Grécia antiga, ora era
vista como uma referência num sentido moderno. Assim, segundo Mainka, essa
demarcação é “imprecisa” (2011, p. 58). Inclusive continua até os dias de hoje,
confundida com a União Europeia.
Para Hobsbawm e Ranger, a história europeia é uma “história curiosa”,
definida mais pelas “situações políticas do que pelas diferenças culturais, onde
a história pode ser lida como um processo”, uma construção intelectual (1998, p.
233-234). A explicação sobre o que é a Europa teria bases políticas. Até mesmo
fronteiras convencionais dos livros didáticos – como os Montes Urais – resultam
de decisões políticas e demarcações intelectuais. Segundo o autor, a definição
conceitual e geográfica da Europa é mutável e flexível, assim como os contornos de
sua identidade, ora grega, ora romana, ora europeia. Assim, ele utiliza a metáfora
do “Clube Europa”, onde o acessoé controlado.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
20
Sob esse ponto de vista, categorias como asiático, leste, Oriente falam
mais sobre a Europa do que os povos que supostamente classificam e enquadram
(HOBSBAWM; RANGER, 1998). Na leitura de Hobsbawm e Ranger, o autor aponta
para obras antigas e modernas escritas por viajantes e conquistadores visando
descrever os outros povos em termos de categorias europeias, num “denominador
comum” ao intelecto europeu. Estas estariam em oposição à identidade europeia.
Em geral, esse antagonismo estava dirigido para o Oriente e o Islã.
Vejamos o que escreve Edward Said no seu livro “Orientalismo”.
Novamente, entramos no terreno das construções sociais, científicas e intelectuais
hegemonicamente europeias que “inventam” o Oriente. O esforço dos envolvidos
nessas construções era o de “traduzir” para as mentes e costumes europeus aquilo
que foi inventado, configurado e reproduzido como sendo o Oriente. Neste sentido,
pouco se trata de questões geográficas, mas, antes de idealização, tornando o
Oriente uma criação do Ocidente. Tal concepção de Oriente – que Said encontra
em obras da literatura, trabalhos científicos, relatos de viajantes e aventureiros –
estimula uma visão exótica, misteriosa, erótica e perigosa do Oriente. Mas, para
o autor, ao debruçar-se sobre tal construção social amparada pela linguagem, é
possível encontrar mais sobre a identidade Ocidental do que a Oriental (SAID,
2007).
Toda a complexidade das centenas de sociedades distintas entre si se
torna um “Outro” exótico inventado, um estereótipo que estava relacionado aos
interesses do colonizador europeu (SAID, 2007). Sobre essa invenção de povos não
europeus:
As invenções da tradição mais abrangentes da África colonial ocorreram
quando os europeus acreditaram estar respeitando tradições africanas
antiquíssimas. O chamado direito consuetudinário, direitos territoriais
consuetudinários, estrutura política consuetudinária, e daí por diante,
havia sido, na verdade, inteiramente inventado pela codificação colonial
(RANGER, 1984, p. 257).
Sobre esse jogo de oposições relacionais com a Ásia, Boaventura de Sousa
Santos (2006) diz que o outro lado do Orientalismo foi a ideia da superioridade
intrínseca do Ocidente.
Assim, a história da Idade Média é, em geral, a história dos povos europeus
(ou de alguns deles) sob o seu ponto de vista. Porém, como dissemos, a implicação
dessa hegemonia europeia no mundo tornou nós, brasileiros, produtos diretos
desse momento. E quando falamos em identidade europeia, em Europa, precisamos
tomar algumas precauções intelectuais.
O Ocidente, que ganha imaginação na Idade Média, materializa-se durante
a Idade Moderna em instituições como o Estado unitário, a visão de cultura/
civilização filosófica, científica e cristã e no fenômeno do capitalismo. Segundo o
sociólogo português Boaventura de Souza Santos, os desdobramentos de Idade
Média e Moderna tornaram a Europa o centro do mundo. Porém, até o século XV,
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
21
a Europa é a periferia de um sistema-mundo cujo centro está localizado na Ásia
Central e na Índia. Só a partir de meados do milênio, com as navegações ibéricas,
é que esse sistema-mundo é substituído por outro, capitalista e planetário, cujo
centro é a Europa (2016). A marca desse domínio pode ser percebida na imposição
de modelos de ação e interpretação do ser em sociedade. Numa crítica bastante
retumbante:
Colonialismo, evangelização, neocolonialismo, imperialismo,
desenvolvimento, globalização, ajuda externa, direitos humanos,
assistência humanitária são exemplos de algumas das diretivas das
soluções eurocêntricas para os problemas do mundo. Imersa neste
pensamento que arroga superioridade e cria fechamento (SANTOS,
2016, p. 27).
Esses desdobramentos, eventos e revoluções materiais, científicas e
simbólicas em torno da sociedade e do sujeito serão objeto de discussão do próximo
tópico.
22
Neste tópico, você aprendeu que:
• Aquilo que o sujeito é acompanha os acontecimentos e contextos socialmente
objetivados na forma de relações sociais e de fronteiras que se deslocam
constantemente. Os discursos que inauguram aquilo que se define hoje como
identidades fundamentais para a história dos povos ocidentais podem ser
localizados nas visões greco-romanas de pertencimento e reconhecimento de
uma unidade comum de características essenciais e que são compartilhadas
pelos membros do grupo.
• Que a base dessa visão identitária fundamenta-se numa filosofia e num trabalho
social de produção de sentidos com bases metafísicas. Nela, a identidade é uma
essência, uma unidade, aquilo que um povo é.
• Como somos resultados de processos europeus de ocupação e dominação dos
quatro cantos do planeta, nossa base filosófica, mental, cultural, científica,
religiosa etc. tem como origem discursos e práticas identitárias localizadas na
Europa antiga e medieval.
• A história medieval pode ser observada como o momento da “invenção de
tradições”, de mitos fundadores da identidade europeia, fundamentando o
surgimento de comunidades imaginadas na forma de nações. Que, portanto,
aquilo que seria essencialmente europeu é, na realidade, um esforço grande de
sistematização, de manipulação, de reinterpretação de identidades antigas. Na
passagem da Idade Média para a Moderna esses sentidos são ressignificados
através da imagem de uma Europa cristã, racional, secularizada e científica.
• Um grupo étnico, segundo Fredrik Barth (1998), é um modelo de organização
identitária responsável por estruturar os sentidos do “nós” e os “outros”, os de
“dentro” e de “fora”. É permeado pelo contraditório, de confronto, diferenciação
e contraste. Pela dominação e subordinação. A etnicidade depende de relações e
de contrastes para delimitar limites e fronteiras. Para Barth, a continuidade de
um grupo étnico não está ligada à manutenção de uma cultura, tradição antiga.
Os traços culturais podem mudar. Depende, sim, do estabelecimento de limites
entre os grupos e de reforçar laços de solidariedade.
• Para Anthony Smith (1997), a identidade nacional é a manifestação da consciência
de pertencimento a uma comunidade política que estrutura a vida nacional e
individual através de instituições que medeiam os direitos e deveres de seus
membros. A identidade nacional reivindica uma unidade de língua e cultura.
Segundo Stuart Hall (2006), elas contribuíram para forjar sistemas nacionais e
universais de serviços e políticas, conformando uma “cultura homogênea”, mas
permeada pela ambivalência. Vale dizer que a identidade nacional se difundiu
junto com os domínios e colonialismo europeu.
RESUMO DO TÓPICO 1
23
1 Sintetize e diferencie as formas identitárias conformadas pelos gregos e
romanos antigos, conforme discutido neste tópico.
2 Diferencie grupo étnico e identidade nacional.
3 Quais são os desafios e problemas relacionados às identidades essencialistas?
Como enxergar a identidade brasileira de um ponto de vista de uma identidade
essencial?
4 O que significa o conceito de “invenção das tradições”?
AUTOATIVIDADE
24
25
TÓPICO 2
IDENTIDADE E MODERNIDADE
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
No Tópico 1, procuramos observar o debate sobre o essencialismo
identitário. Localizamos sua origem em povos da história antiga, especialmente,
gregos e romanos. Foram importantes na medida em que serviram de base e de
legitimação para versões sobre a identidade tanto na Idade Média quanto nos
séculos seguintes.
Neste Tópico 2, investigamos os discursos e teorias sobre a identidade
resultantes da Idade Moderna e do fenômeno da Modernidade. É quando o
essencialismo começa a ser abalado ou tornado mais complexo.
Para tanto, começamos com a noção de sujeito moderno, implicadonas
discussões filosóficas de René Descartes, Immanuel Kant e Friedrich Nietzsche.
São filósofos fundamentais para entender a passagem de um olhar metafísico
sobre o Ser para um outro olhar, epistemológico. Tratou-se de um distanciamento
ou novo olhar sobre a filosofia grega antiga ou da escolástica medieval.
FIGURA 7 – INTELECTUAIS E A ILUSTRAÇÃO
FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/_qL9x59CgJrw/SeOv8Tq3CgI/
AAAAAAAAAAU/mkzpcLd7Trw/S1600-R/La+lecture+des+philosophes.jpg>. Acesso em:
13 jun. 2017.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
26
Depois, como resultado desse deslocamento do sujeito, discutimos a
construção do indivíduo a partir da sociedade, com os trabalhos da Escola de
Chicago e do Interacionismo Simbólico. Por fim, apresentamos as características
específicas da Modernidade segundo autores clássicos e contemporâneos,
observando os impactos desse fenômeno na produção social das identidades.
Fazemos essa passagem pela modernidade a partir das Ciências Sociais.
2 O SUJEITO MODERNO: O SUJEITO RACIONAL
Boaventura de Sousa Santos (2006) escreveu que o primeiro nome dado ao
fenômeno da identidade foi o de subjetividade na passagem da Idade Média para
a Moderna. O que é Subjetividade e qual sua relação com a noção de sujeito? É
uma noção antiga ou relativamente moderna? Responder a tais questões demanda
esforço de síntese. Vale dizer que as noções e categorias teóricas levam a marca de
seus campos e territórios científicos. Daí que a noção de subjetividade e de sujeito
possui variações para a Sociologia, para a Antropologia, para a Psicologia etc. São,
todavia, noções muito importantes nas Ciências Humanas.
Segundo o Dicionário de Filosofia de Nicolla Abbagnano (2007, p. 922),
subjetividade refere-se ao “caráter de todos os fenômenos psíquicos, enquanto
fenômenos de consciência (v.), que o sujeito relaciona consigo mesmo e chama de
‘meu’”. Além disso, indica o caráter do que “é subjetivo no sentido de ser aparente,
ilusório ou falível”. Da mesma forma, Abbagnano (2007, p. 929) explica que o
termo sujeito teve dois significados fundamentais, sendo que atualmente apenas o
segundo sentido abaixo é utilizado:
1° Aquilo de que se fala ou a que se atribuem qualidades ou
determinações ou a que são inerentes qualidades ou determinações;
2° o eu, o espírito ou a consciência, como princípio determinante do
mundo do conhecimento ou da ação, ou ao menos como capacidade de
iniciativa em tal mundo.
Segundo Japiassú e Marcondes (2001), o período medieval foi marcado
pelas sucessivas tentativas de conciliação entre razão e fé, entre a filosofia e os
dogmas da religião revelada, passando a filosofia a ser considerada serva da
teologia, na medida em que fornecia as bases racionais e argumentativas para a
construção de um sistema teológico, sem, contudo, poder questionar a própria fé.
A Idade Moderna, por sua vez, radicaliza as mentalidades, promovendo
uma reconfiguração e produção de novas interpretações e análises filosóficas sobre
o Ser que se transformou no sujeito. Movimentos como o Renascimento e a Ilustração,
eventos ocorridos entre aquilo que se diz o fim da Idade Média para o início da
Moderna, trouxeram novos desafios intelectuais, artísticos e filosóficos nessa parte
do mundo chamada Europa. As populações desse continente, primeiramente,
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
27
promoveram, assistiram e reproduziram novas formas de experimentar a ciência,
a arte, a política e a vida pessoal e singular.
Podemos citar como eventos fundamentais a Reforma Protestante, ocorrida
em 1517 e que resultou numa cisão no interior da Igreja Católica; a invenção e difusão
da escrita com a prensa de Johannes Gutemberg e outras inovações técnicas; a
centralização dos Estados nacionais; uma revolução científica e filosófica, que aqui
nos interessa pela sua relação com a subjetividade–identidade; e o desenvolvimento
do capitalismo como modo de produção dominante. O período que vai dos séculos
XIV-XVIII foi repleto de grandes transformações no quadro dos povos europeus –
e, por tabela, as suas regiões de domínio colonial e econômico.
Do ponto de vista filosófico, promoveu-se uma série de transformações. Para
ilustrá-las, seguimos caracterizando o pensamento de René Descartes, Immanuel
Kant e Friedrich Nietzsche. São nomes clássicos para entender a mudança do Ser
para o Sujeito.
2.1 RENÉ DESCARTES (1596-1650) E IMMANUEL KANT
(1724-1804)
Claro que os filósofos que contribuíram para essa transformação
epistemológica são vários. Hegel, por exemplo. Descartes e Kant, por sua vez, são
pontos de referência elementares. René Descartes nasceu em Haia e é apontado
como “pai da filosofia moderna”, além de ter seu nome marcado, também, na
Matemática e na Física.
O filósofo escreveu obras influentes e referenciais, como: “O Mundo
ou Tratado da Luz” (1633), “Discurso sobre o Método” (1637) ou “Meditações
Metafísicas” (1641). De suas análises filosóficas desdobra-se a expressão “sujeito
cartesiano”, um modelo de sujeito tipicamente moderno e influenciado pelo olhar
científico.
Em “Discurso sobre o Método”, Descartes apontou seu método filosófico
e científico, rompendo com a filosofia aristotélica. Sua preocupação era apontar
as bases do conhecimento verdadeiro. O filósofo deve rejeitar aquilo que é falso.
É fundamental averiguar. Essa ideia manteve-se presente na Ciência através do
método dedutivo e da corrente “Racionalista” ou na etapa da metodologia de
pesquisa. Quer dizer, o filósofo inaugurou uma versão de ceticismo metodológico.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
28
O ato de colocar em dúvida algo que se nomeia conhecimento fundamentou
sua noção de sujeito pensante. Este sujeito não é – em essência – o sujeito da filosofia
grega ou medieval-cristã.
É clássica sua expressão latina “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo). Este é
o único conhecimento confiável. Aqui surge um sujeito conectado com as mudanças
sociais desse período: singular, mas capaz da dúvida e da reflexão racional. Os
sentidos, as experiências imediatas deviam ser colocadas sob suspeição.
[...] não há, pois, dúvida alguma de que sou, se ele [o gênio maligno]
me engana; e, por mais que me engane, não pode fazer com que eu
nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa. De sorte que, após
ter pensado bastante nisto e de ter examinado todas as coisas, cumpre
enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu existo,
é necessariamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a
concebo em meu espírito (DESCARTES, 1973, p. 92).
Com Descartes, ocorre um primeiro e fundamental deslocamento à posição
do sujeito moderno. O sujeito do cogito ou o sujeito cartesiano. Este ser não se
ocupa mais da imortalidade de sua alma, mas de suas capacidades cognitivas e de
percepção: o pensamento. O sujeito moderno está atado a um universo científico
de verdades baseadas em modelos físicos ou matemáticos. É um sujeito lógico.
Essa polêmica foi continuada e criticada pelo filósofo prussiano Immanuel
Kant, autor de obras clássicas como “Crítica da Razão Pura”, “Crítica da Razão
Prática” e “Crítica do Julgamento”, essenciais para a compreensão de sua visão
filosófica. Para Kant, existem limites para a razão.
FIGURA 8 – RENÉ DESCARTES
FONTE: Disponível em: <http://www.filosofia.com.br/figuras/biblioteca/
Descartes.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
29
FIGURA 9 – IMMANUEL KANT
FONTE: Disponível em: <http://citacoes.in/media/authors/immanuel-kant.jpg>.
Acesso em: 13 jun. 2017.
Kant (2001) é também conhecido por promover um deslocamento na
filosofia: a sua “revolução copernicana”. Em sua obra “Crítica da Razão Pura”, o
filósofo alemão desloca a questão primordial da filosofia-metafísica. A questão não
é mais sobre o que é o SER esua essência, mas, quais as bases e possibilidades de
alcançar o conhecimento seguro a respeito das coisas.
O resultado dessa obra estabeleceu uma potente crítica aos filósofos
empiristas (Aristóteles, Thomas Hobbes, John Locke, David Hume) e racionalistas
(Platão, René Descartes, Baruch Espinosa).
Kant se ocupou de pensar os limites e contornos do conhecimento, rompendo
com a dicotomia filosófica racionalismo x empirismo sobre o papel da razão na
conformação do ser humano. É neste sentido que promoveu uma “revolução
copernicana” na Filosofia. Quer dizer, abalou aquilo que era “tradição” filosófica.
Quando estudamos a Filosofia, nos períodos que compreendem a Idade
Antiga até a Idade Moderna (não confundir com modernidade), o Ser está no
centro das reflexões. Em torno dele orbitam os outros assuntos. Kant passou a
se preocupar com as bases e possibilidades de conhecimento, de entendimento
do mundo e das coisas. O Ser ainda está presente, mas, já numa situação mais
relacional. Trata-se de uma inversão na relação entre o sujeito e objeto que conhece.
Uma “revolução copernicana” na Filosofia. Segundo Otfried Höffe (2005, p. 45):
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
30
A revolução copernicana de Kant significa que os objetos do
conhecimento não aparecem por si mesmos, eles devem ser trazidos
à luz pelo sujeito (transcendental). Por isso eles não podem mais ser
considerados como coisas que existem em si, mas como fenômenos.
Com a mudança do fundamento da objetividade, a teoria do sujeito,
de modo que não pode mais haver uma ontologia autônoma. O mesmo
vale para a teoria do conhecimento.
E quão potente foi esse deslocamento conceitual e a descoberta da
ambiguidade do Sujeito Moderno? A filosofia kantiana colocou no centro da
reflexão o sujeito em sua relação com o mundo e não em sua “essência” primordial.
Quer dizer, na medida em que a própria sociedade, relações políticas e
científicas do século XVIII modificaram-se, a filosofia de Immanuel Kant encara o
sujeito inserido nessas transformações.
Simultaneamente, deslocou a Filosofia de uma posição metafísica para uma
posição mundana. Ao invés da Filosofia se ocupar de questões que não podem ser
fundamentadas em termos de conhecimento seguro, perdendo-se em explicações
abstratas, Kant vai buscar o posicionamento da Filosofia como uma ciência capaz
de gerar conhecimento sistemático.
2.2 FRIEDRICH NIETZSCHE E A CRÍTICA AO SUJEITO
MODERNO
FIGURA 10 – FRIEDRICH NIETZSCHE
FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/
thumb/1/1b/Nietzsche187a.jpg/200px-Nietzsche187a.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
31
Em suas obras, este filósofo analisa e também critica as características
da modernidade. Ele viveu num momento de transformações sucessivas nos
cenários político, econômico, social e cultural. A sua crítica é imprescindível de
sua experiência pessoal e intelectual, possível apenas no quadro da Modernidade.
Suas questões são modernas, portanto. Ainda neste espírito de crítica, a Religião,
a Filosofia, a Ciência, o Estado ou a Democracia são duramente questionados.
Nietzsche realizou, no conjunto de suas reflexões, um diagnóstico acerca da
modernidade e de seus valores centrais, assim como realizou uma poderosa crítica.
Esse período da história é chamado de Modernität pelo alemão.
O que é a Modernidade em Nietzsche? Devemos observar o sentido de
modernidade neste autor como “civilização” ligada a heranças da moral platônico-
cristã. Isto é, da filosofia metafísica de Platão e seus discípulos e da reinterpretação
desta pelos pensadores medievais cristãos.
O filósofo foi um grande admirador da Grécia Antiga no seu período pré-
socrático, anterior ao século V a.C. Ele vê a cultura dionisíaca desse momento
grego como um exemplo superior para embasar suas críticas. Esta cultura e suas
intoxicações por vinho, as paixões corporais, o prazer nas experiências culturais
e festivas são exemplos de uma cultura vigorosa, secular, eram percebidas como
um modelo de futuro diante do cenário filosófico moderno traçado por Nietzsche.
Tomando a história, essa decadência tem início a partir de Sócrates, continuando
no Cristianismo e nos valores da Modernidade. Em sua visão crítica, os valores
modernos levam o indivíduo ao desassossego. Tais valores vinculavam-se ao
status quo dominante do período em que viveu. Para Nietzsche (1986), todo o nosso
mundo moderno se encontra preso na rede da cultura alexandrina e possui como
ideal o homem teórico, equipado com as mais altas capacidades de conhecimento,
trabalhando ao serviço da ciência. Esse homem do passado, no fundo é bibliotecário
e revisor, tornando-se miseravelmente cego com a poeira dos livros e os erros de
impressão.
Quer dizer, ele percebia as bases filosóficas propostas por Sócrates ou
Platão como castradoras, limitadoras das capacidades dos indivíduos, ao passo
que apontou modelos de domínio das paixões e desejos humanos. Essas filosofias
refreavam o indivíduo, sendo que esta ideia foi apropriada e radicalizada pelo
cristianismo.
E em que sentido essas reflexões e críticas de Friedrich Nietzsche nos
auxiliam a compreender o quadro geral das mudanças identitárias? Em suas
críticas a respeito dos valores da modernidade, o filósofo apontava que o “sujeito”
era uma ilusão projetiva sua no exterior voltada à sua autopreservação. Esta ilusão
era formulada em termos de essência, de unidade, de permanência e estabilidade.
Trata-se da visão metafísica do “Ser” grego, conforme discutimos anteriormente
no Tópico 1. A metafísica tratou de dividir o mundo em dois: o real e o sensível.
E daí, claro, esta visão está articulada com suas críticas à Ciência, ao Estado, a
essa necessidade de controle e previsão dos fenômenos e dos sujeitos. A modernidade
de Nietzsche era aquela que confundia conquistas culturais com progresso geral.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
32
Estimulada pela Razão, essa modernidade fez as pessoas assimilarem esses valores
como questões de liberdade ou felicidade. A Ciência era vista como pretensiosa
e arrogante, cuja especialização levou à pobreza das epistemologias; na política,
ideologias como a socialista anulavam as bases de uma hierarquia meritocrática.
Esse contexto moderno indicado por Friedrich Nietzsche colocava o indivíduo de
joelhos, enfraquecia suas capacidades. Esse cenário levava o indivíduo à confusão, ao
equívoco intelectual. Em suma, ao invés de afirmar as potências humanas criativas, a
Modernidade “secou” o sujeito, tornando-o “rebanho”.
3 O SUJEITO É SOCIAL: O SUJEITO SOCIOLÓGICO
Stuart Hall (2015) indicou três concepções principais que podem nos dizer algo
sobre a identidade. Para Hall, a primeira concepção importante de identidade é aquela
surgida no seio do Renascimento e Iluminismo europeu, cuja estrutura era marcada
pela ideia de um sujeito centrado e dotado das capacidades da razão e da consciência,
de tipo cartesiano. É aquilo que vimos no item anterior ao abordarmos a subjetividade.
Outra concepção foi chamada de “sujeito sociológico”, onde a identidade é
formada na interação entre o eu e a sociedade, esta última cada vez mais complexa.
Essa perspectiva reafirmou o “diálogo contínuo” entre mundos culturais exteriores
e as identidades que esses mundos oferecem (2015, p. 11). E, por fim, o “sujeito pós-
moderno”, cuja identidade não é fixa, essencial ou permanente, sendo formada e
transformada continuamente. Este é o sujeito descentrado e fragmentado, onde a
identidade é algo contraditório.
FIGURA 11 – SOMOS SUJEITOS SOCIAIS
FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/-sJ8fkyduXCw/VSwp14LyNeI/
AAAAAAAACRg/dVDU8QJ7StQ/s1600/images.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
33
Vamos aprofundar a compreensão sobre o Sujeito Sociológicoapontado
por Stuart Hall? No ambiente de revoluções constantes iniciadas na ciência,
filosofia e outras formas modernas de vida, ganhou peso o interesse nas interações
sociais. Este debate pode ser localizado em autores da Escola de Chicago e do
Interacionismo Simbólico.
Segundo Alain Coulon (1995), a Escola de Chicago foi fundamental na
reorientação do sujeito, centrando-se na ação social do indivíduo. Procuravam
compreender os problemas sociais decorrentes da industrialização e da urbanização
do início do século XX nos EUA.
Na “Escola de Chicago” foram formadas as bases do Interacionismo
Simbólico. Tal corrente começou a se delinear entre os anos 1930 e 1940, e desenvolveu-
se no transcurso das duas décadas seguintes entre as Escolas de Chicago e de Iowa,
ambas nos EUA. O nome dessa linha de pesquisa sociopsicológica e sociológica
foi cunhado em 1937 por Herbert Blumer, que estabeleceu os pressupostos da
abordagem interacionista (CARVALHO; BORGES; RÊGO, 2010).
Como definir o que é o Interacionismo Simbólico? Como se pode perceber
pela sua designação, está orientado a refletir sobre a interação humana. Em torno da
interação, ainda, discute os seus significados, isto é, a dimensão simbólica e social
dessas interações entre indivíduos, entre grupos, entre diferentes identidades.
Para dois autores elementares dessa corrente – George Mead e Herbert Blumer
–, o significado é produto de relações e das atividades sociais desenvolvidas na
interação entre os indivíduos.
Na perspectiva interacionista, o significado da ação humana não deve vir
do pesquisador, que deve esforçar-se para ver o significado da ação segundo aquele
que age. O Interacionismo visa a compreensão de como os indivíduos interpretam
os objetos, os gestos, as pessoas nas situações em que interagem.
Após a Escola de Chicago e o Interacionismo Simbólico, argumentar,
refletir e analisar questões ligadas às identidades passam a sair do campo da
Filosofia e Metafísica, voltando-se para fenômenos materiais e subjetivos das
dinâmicas sociais. Depois dessa contribuição decisiva, conceitos como “papéis
sociais”, “trajetória”, “narrativa biográfica”, interação social se tornam recursos
teóricos disponíveis para pensar de maneira complexa a identidade. Reforçou-se a
ideia de que a identidade envolve processos e contextos sociais localizados, quer
dizer, ancorados na experiência da vida de quem se pergunta sobre a identidade.
O indivíduo moderno está “descentrado”, porém, inserido em um contexto social
dentro de um tempo e espaço. Então, neste caminho, essa visão de identidade
processual e não essencial contribui para uma visão menos “instintiva”, quer dizer,
que a identidade nasce já com a gente para ser observador como fonte de conflito,
tensão, negociação e exclusão.
Bem, mas não é só isso. Os indivíduos estão localizados em tempos e
espaços que precisam ser observados para entender os comportamentos sociais.
Não existe uma forma “única” ou padrão de respostas sociais. Existem tendências
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
34
sociais de respostas a determinadas formas de interação e que mudam ao longo
da história e da própria geografia dos povos. As interações dependem da maneira
como as sociedades se estruturam.
4 A MODERNIDADE
Como definir a Modernidade? Quais suas características e mudanças que
estimulou? E de que maneira os efeitos da Modernidade têm impactado a produção
social das identidades nas sociedades contemporâneas?
Segundo Feres Júnior (2010), o primeiro uso do termo latino “modernus”
que se conhece foi utilizado na Epistolae pontificum de Gelasius, do ano 494 da era
cristã. Mas foi apenas em 1830, com Charles Baudelaire, que o termo modernidade
passa a ser usado no sentido de tempo presente transitório, que está destinado a
ser superado por um futuro (FERES JÚNIOR, 2010). De maneira geral, a partir
da leitura do verbete “Moderno”, de Hans Ulrich Gumbrecht (1978 apud FERES
JÚNIOR, 2010, p. 31), podem ser identificados três significados básicos:
O primeiro significado é simplesmente “presente”, em oposição
a “anterior” ou “prévio”, e foi usado dentro de tradições
institucionalizadas onde tendências se sucedem temporalmente. O
segundo significado é de “novo” em oposição a “velho”: nesse caso já
se tem o embrião de uma consciência epocal onde moderno define um
espaço de experiência presente que se quer distinto do passado. Esse uso
geralmente está ligado a um esquema temporal mais ou menos explícito
de hierarquização das eras, ou seja, é fortemente valorativo. Por fim,
temos o significado de “período transitório”, em oposição ao eterno.
Nessa versão, moderno designa um presente que é experimentado
como fluxo temporal contínuo e veloz que, como tal, só pode ser oposto
ao eterno, qual inamovível.
Assim, a percepção da mudança histórica não é nova. Mas a Modernidade
aos poucos foi radicalizando essa percepção. Essa consciência foi apontada por
Charles Baudelaire (1996, p. 25), para quem a modernidade “é o transitório,
o efêmero, o contingente, é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e
o imutável”. Baudelaire, neste sentido, escreveu que o mundo de sua época se
distinguia do antigo pelo fato de se abrir ao futuro, cujo “novo repete-se e
perpetua-se a cada momento do presente, o qual a partir de si gera o que é novo”
(BAUDELAIRE, 1996, p. 18).
Além disso, como apontou Octávio Paz, “a modernidade é um conceito
exclusivamente ocidental e não aparece em nenhuma outra civilização” (1984, p.
43). Complementando com a reflexão de Anthony Giddens (1991), essa ideia de
um contraste com a tradição antiga é intimamente ligada à ideia de modernidade.
De uma forma geral, a Modernidade produziu efeitos dramáticos ao redor
do globo, a partir de alguns aspectos centrais, apontados por Piotr Sztompka (1998):
a emancipação do indivíduo; a diferenciação social, especialmente através do
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
35
trabalho e da posse dos meios de produção; a racionalidade enquanto ampliação
da burocracia e dos métodos racionais de acumulação de capital; o economicismo,
em que a vida social passa a orientar o conjunto da sociedade, ao invés da religião,
por exemplo; e, por último, a expansão, materializada na globalização. Com isso,
acontecem modificações coletivas e individuais de base política, material e psicológica,
correlatas com a ascensão do modo de vida urbano, a degradação ambiental e a
massificação das experiências sociais. As bases culturais das sociedades sofreram
impactos desestruturantes e reestruturantes: ainda em Sztompka (1998), pode-se
indicar “a secularização das pessoas e sociedades; a democratização da educação e
ciência e o surgimento da cultura de massas” (p. 142).
FIGURA 12 – OS TEMPOS MODERNOS E A TÉCNICA
FONTE: Disponível em: <https://estudos.gospelmais.com.br/files/2015/10/tm.jpg>. Acesso
em: 13 jun. 2017.
Marshal Berman, na obra “Tudo o que é sólido desmancha no ar” (1986),
divide a Modernidade em três momentos. A primeira teve início no século XVI,
durando até o século XVIII. É quando ocorrem as descobertas da América, os
caminhos para as Índias e a Revolução Industrial. Ainda, é o momento em que
são conformados os estados modernos centralizados. O segundo período é o
desdobramento da Revolução Francesa, numa ênfase política e social. Por fim, o
terceiro momento é o da modernização, isto é, da circulação mundial da ideia e
percepção de se viver na Modernidade.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
36
FIGURA 13 – MAX WEBER
FONTE: Disponível em: <http://www.mundociencia.com.br/wp-content/
uploads/2016/07/maxweber.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
A Modernidade acompanha as primeiras reflexões sociológicas. Max Weber
observou sua época e os efeitos da Modernidade, realizando uma grande análise
de seus impactos nas instituições. O que foia Modernidade, segundo Weber? Para
Weber, a racionalização foi a marca original do Ocidente nesse período moderno.
Weber argumenta em torno da ideia de desencantamento e “desmagificação” do
mundo pela ciência e as engrenagens da racionalidade como características da
Modernidade Ocidental, quer dizer: “os valores do mundo foram racionalizados e
sublimados em termos de suas próprias leis” (WEBER, 1982, p. 274).
Significa principalmente, portanto, que não há forças misteriosas
incalculáveis, mas que podemos, em princípio, dominar todas as
coisas pelo cálculo. Isto significa que o mundo foi desencantado. Já não
precisamos recorrer aos meios mágicos para dominar ou implorar aos
espíritos, como fazia o selvagem, para quem esses poderes misteriosos
existiam. Os meios técnicos e os cálculos realizam o serviço (WEBER,
1982, p. 165).
A Ciência ocidental moderna teve grande papel nessa desmagnificação
do mundo. Ela tornou as explicações racionais, lógicas, possíveis de verificação
e demonstração, dando pouco lugar para as explicações místicas, sobrenaturais,
religiosas. Da mesma forma, para Weber, outra característica de Modernidade é o
Estado Moderno, isto é, burocrático, racional. Weber percebeu o Estado como um
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
37
agrupamento de dominação que apresenta caráter institucional e que procurou
monopolizar, nos limites de domínio e que, tendo esse objetivo, reuniu nas mãos
dos dirigentes os meios materiais de gestão (WEBER, 1982).
Karl Marx, apesar de não ser um sociólogo de formação, é tomado como
um de seus fundadores. Quais as características da Modernidade e como as críticas
marxistas levaram a novos olhares sobre o tema da identidade? Marx foi um
indivíduo típico de sua época e seu pensamento englobou a Política, a Economia,
Filosofia e História. Ele faz, portanto, a despeito de sua crítica, uma análise em
termos filosóficos e políticos com base na modernidade. Qual a essência da análise
feita por Karl Marx sobre a Modernidade?
FIGURA 14 – KARL MARX
FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com/wp-content/
uploads/2010/07/karl_marx.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Marx observa diversos fenômenos para sua investigação sobre a
Modernidade. Mas, num grande exercício de síntese, esta época está interligada
à ascensão da classe burguesa e do modo de produção capitalista a partir da
implosão do passado. Marx é moderno no sentido de empregar o materialismo
histórico na análise dos fenômenos sociais, inserindo as pessoas nas dinâmicas
dos processos sociais. Com o materialismo dialético, realizou uma crítica sobre as
mudanças macroestruturais através das contradições.
A explicação de Marx a partir do materialismo considera o capitalismo um
modo de produção moldado na época moderna, dando origem a uma divisão de
classes. Essa divisão, para Marx, está fundamentada na posse ou não dos meios de
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
38
produção capitalistas, quer dizer, patrão e operário. Para Marx, essas contradições
eram características da modernidade.
Sua originalidade encontra-se nas bases materiais de sua filosofia. Como
dissemos antes, a filosofia de base grega e medieval percebia o sujeito a partir
de uma cisão entre ser real e ser mental. No caso dessas perspectivas, o homem
ideal deve ser buscado nessa dimensão mental. Com Marx, as bases tornam-se
localizadas na História, através de sua definição e análise do modo de produção.
Essa sua visão deve-se, em termos, à importância de sua valorização da História.
Essa noção contemporânea de fluidez, de liquidez inerentemente moderna já
estava no pensamento de Marx. Veja o que ele escreveu – junto com Engels – no
Manifesto do Partido Comunista: “[...] tudo o que é sólido e estável se volatiliza,
tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente obrigados a encarar
com sobriedade e sem ilusões sua posição na vida, suas relações recíprocas”
(MARX; ENGELS, 2005, p. 69).
4.1 VISÕES CONTEMPORÂNEAS SOBRE A MODERNIDADE
NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Como alguns autores atuais das Ciências Sociais pensam a modernidade?
Vamos comparar algumas análises de Anthony Giddens, Alain Touraine,
Boaventura de Sousa Santos e Jürgen Habermas.
4.1.1 Anthony Giddens
FIGURA 15 – ANTHONY GIDDENS
FONTE: Disponível em: <https://i.ytimg.com/vi/uT3GD0nVS3Y/hqdefault.
jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
39
Anthony Giddens é um sociólogo britânico nascido em Londres em 1938.
Conhecido mundialmente pela sua Teoria da Estruturação, ocupa-se da ação
social, do agente, da capacidade de agência. É renomado pelas suas análises das
mudanças institucionais da modernidade e seus impactos no agente. Autor de
obras importantes, como A Constituição da Sociedade (1984), As Consequências
da Modernidade (1990), Modernidade e Identidade (1991). Sobre a modernidade,
afirma Giddens (2002, p. 21):
[...] o termo "modernidade" num sentido muito geral para referir-me
às instituições e modos de comportamento estabelecidos pela primeira
vez na Europa depois do feudalismo, mas que no século XX se tornaram
mundiais em seu impacto. A "modernidade" pode ser entendida como
aproximadamente equivalente ao "mundo industrializado", desde que se
reconheça que o industrialismo não é sua única dimensão institucional.
Giddens discorre sobre as consequências da Modernidade, que estariam
se tornando mais radicalizadas e universais como nunca antes. Os modos de vida
estimulados pelas forças da Modernidade desvencilharam os indivíduos e grupos
sociais de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira inédita, sem
precedentes. Além disso, a modernidade produz certas formas sociais distintas,
das quais “a mais importante é o estado-nação” (2002, p. 21).
A modernidade altera radicalmente a natureza da vida social cotidiana
e afeta os aspectos mais pessoais de nossa existência. É aquela situação: a crise
econômica europeia de nossa época não afeta apenas a vida de um europeu.
Em razão da conexão entre as diversas partes do globo, lugares centrais ou
periféricos são atingidos, mesmo que em diferentes proporções. As transformações
introduzidas pelas instituições modernas se entrelaçam de maneira direta com a
vida individual e, portanto, com o eu.
[...] surgimento de novos mecanismos de autoidentidade que são
constituídos pelas instituições da modernidade, mas que também
as constituem. O eu não é uma entidade passiva, determinada por
influências externas; ao forjar suas autoidentidades, independente
de quão locais sejam os contextos específicos da ação, os indivíduos
contribuem para (e promovem diretamente) as influências sociais
que são globais em suas consequências e implicações. [...] o eu, como
os contextos institucionais mais amplos em que existe, tem que ser
construído reflexivamente (GIDDENS, 2002, p. 9-11).
Segundo Anthony Giddens (2002), a Modernidade tem produzido
descontinuidades sociais, culturais, temporais, econômicas etc. Tais
descontinuidades seriam a própria base da Modernidade. Nesses processos, ideias
como “lugar” e “espaço” são gradualmente destruídas por um cada vez maior
conceito de tempo universal. O resultado é o desencaixe do “espaço-tempo”,
representando mecanismos que deslocam as relações sociais de seus lugares
específicos, recombinando-as através de grandes distâncias no tempo e no espaço.
As interações sociais são separadas das particularidades do lugar. Quer dizer, o
local está cada vez mais subordinado às dinâmicas do global.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
40
No caminho da reflexão de Giddens, quais os impactos da Modernidade
sobre as identidades? Nas suas obras, Giddens aponta a reflexividade da vida
social específica da modernidade, estando essa na própria base da reprodução do
sistema. Esta indicaria que “as práticas sociaissão constantemente examinadas e
reformadas à luz da informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando
assim constitutivamente seu caráter”. Num sentido mais direto, a reflexividade
institucionaliza “o princípio da dúvida radical e insiste em que todo conhecimento
tome a forma de hipótese” (GIDDENS, 1991, p. 10), isto é, seja verificado,
examinado, testado.
4.1.2 Alain Touraine
FIGURA 16 – ALAIN TOURAINE
FONTE: Disponível em: <http://www.larousse.fr/encyclopedie/data/images/1005598-
Alain_Touraine.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Alain Touraine é um sociólogo francês conhecido pela sua reflexão sobre o
sujeito e os movimentos sociais na atualidade. Pensador influente no cenário das
Ciências Sociais latino-americanas, é autor de obras importantes, como “Crítica da
Modernidade”, publicada em 1992; “Iguais e Diferentes: podemos viver juntos”,
de 1997, e “Pensar Outramente o discurso dominante”, lançado em 2007.
Para o sociólogo francês Alain Touraine (1994), a modernidade é a difusão
dos produtos da atividade racional, científica, tecnológica, administrativa. Por isso,
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
41
ela implica a crescente diferenciação dos diversos setores da vida social: política,
economia, vida familiar, religião, arte em particular, porque a racionalidade
instrumental se exerce no interior de um tipo de atividade e exclui que qualquer
um deles seja organizado do exterior. A modernidade era uma ideia, ela se torna
por acréscimo uma vontade, mas sem que seja rompido o vínculo entre a ação dos
homens e as leis da natureza e da história.
A passagem para a modernidade não é a da subjetividade para a
objetividade, da ação centrada sobre si para a ação impessoal, técnica ou
burocrática. Ela conduz, da adaptação ao mundo para a construção de
mundos novos, da razão que descobre as ideias eternas para a ação que,
racionalizando o mundo, liberta o sujeito e o recompõe (TOURAINE,
1994, p. 243)
Touraine (2006) deixa claros dois princípios da Modernidade: a crença
na razão e ação racional e o reconhecimento dos direitos individuais. Estes
princípios dão fundamentos não sociais aos fatos sociais. O que isso quer dizer?
Ao contrário de retirar o homem da escuridão, da crença, da ignorância, levou
este a novos paradoxos, ofuscando e jogando-o à multidão fragmentada, de busca
pelo lucro e consumo. Ao invés de Deus, a Ciência tornou-se novo dogma, uma
“nova metafísica”. O Taylorismo foi um exemplo. Sobre a crise da modernidade,
Touraine (2008, p. 106-107) diz:
[...] O mais visível é a dissociação entre a ordem da mudança e a
ordem do ser, associados anteriormente na ideia de modernidade
que significava ao mesmo tempo nacionalidade e individualismo.
A distância cresce entre as mudanças incessantes da produção e do
consumo e o reconhecimento de uma personalidade individual que é ao
mesmo tempo sexualidade e identidade cultural coletiva.
Desta forma, Touraine é um autor bastante crítico em relação à Modernidade
e suas promessas. Na época atual, de radicalização das mudanças no espaço e
tempo, o próprio indivíduo é afetado, perdido no consumo e numa identidade
frágil e esvaziada, enquanto o sujeito toma a forma coletiva, de movimentos.
4.1.3 Boaventura de Sousa Santos
Boaventura de Sousa Santos é um sociólogo português nascido em Coimbra
em 1940. Autor de escrita portuguesa com grande penetração nas Ciências Sociais
e no Direito na África, América Latina e Europa. Sua vasta reflexão aborda temas
variados, como a modernidade, a globalização, os Direitos Humanos, o Direito e
a Democracia.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
42
FIGURA 17 – BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS
FONTE: Disponível em: <http://nesp.pucminas.br/wp-content/uploads/2016/11/
boaventura-c04e-300x189.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Este sociólogo desenvolveu uma crítica da Modernidade e de seus efeitos.
Aqui, novamente, temos o predomínio de uma Ciência e de uma racionalidade
instrumental que diminui a complexidade dos fenômenos sociais. A razão sempre
agiu como se fosse “neutra”, porém, ela tinha um caráter eurocêntrico. É neste
sentido que Boaventura de Sousa Santos fala em pós-modernidade, como um
novo e emergente paradigma em substituição ao paradigma técnico e científico da
Modernidade.
Essa hegemonia da técnica e da ciência trouxe impactos para as pessoas
e, consequentemente, para a produção social das identidades e da diferença.
Conforme o sociólogo, “como é que a ciência moderna, em vez de erradicar os
riscos, as opacidades, as violências e as ignorâncias, que dantes eram associadas
à pré-modernidade, está de facto [sic] a recriá-los numa forma hipermoderna?”
(SANTOS, 2005 p. 58).
Nosso modelo de Modernidade ocidental teve início, segundo Santos, entre
os séculos XVI e XVII, herdado das Ciências Naturais. As explicações sociais, assim,
tinham métodos que eram baseados na Física, na Química, na Matemática etc. Ao
longo do século XIX, esse modelo estende-se para os demais cantos do planeta,
promovendo “ambicioso e revolucionário paradigma sociocultural assente numa
tensão dinâmica entre regulação social e emancipação social” (SANTOS, 2000, p. 15).
O que é essa “tensão dinâmica” entre regulação social e emancipação
social? É que para Santos a nossa sociedade contemporânea, formada pelos
princípios da Modernidade, foi fundada em torno desses dois pilares, como o
sociólogo português os chama. Santos (2005) explica assim esta divisão. O pilar
da regulação é aquele ligado ao Estado, ao mercado e à comunidade. O pilar da
emancipação está dividido na racionalidade estético-expressiva presente na arte;
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
43
na racionalidade prática-moral da ética e do direito; e na racionalidade cognitivo-
instrumental, vinculada à ciência e à técnica. É quando ascende a visão do ser
humano como um sujeito ativo.
Para Boaventura de Sousa Santos (2005), essas duas dimensões da sociedade
moderna demandam o equilíbrio, já que elas se relacionam entre si. Porém, a nossa
época assiste ao “colapso da emancipação”, devido a “hipercientificização do pilar
da emancipação” em detrimento da regulação. Isso tem um impacto direto na
produção das nossas identidades. Um dos maiores impactos foi a consolidação do
individualismo e de um mal-estar social, com a diminuição da cidadania.
4.1.4 Jürgen Habermas
Jürgen Habermas nasceu em 1929. É um filósofo alemão pertencente à
teoria crítica e à Escola de Frankfurt. Dentre sua produção teórica destaca-se a
existência de uma esfera pública voltada ao agir comunicativo entre cidadãos, na
sua Teoria da Ação Comunicativa. É autor de obras fundamentais, como “Técnica
e ciência como ‘ideologia”, de 1968, e seu clássico “Teoria da Ação Comunicativa”,
publicado em 1981; e “O Discurso Filosófico da Modernidade”, lançado em 1985.
FIGURA 18 – JÜRGEN HABERMAS
FONTE: Disponível em: <http://gfx.dagbladet.no/pub/artikkel/4/45/450/4505
81/habermas.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
44
Em sua obra, Habermas fala da Modernidade como um projeto. E mais,
um projeto inacabado. Para o autor, a Modernidade incorpora eventos como a
Reforma Protestante, o Iluminismo e a Revolução Francesa. Esses eventos dão
início à modernidade europeia.
Abrange, assim, as transformações ocorridas no “Ocidente” nas várias
dimensões da vida em sociedade entre os séculos XVIII-XX. Com base nesses
processos, os filósofos, intelectuais e cientistas promoveram nesse período um salto
nas ciências, ao mesmo tempo em que estimularam uma noção de ética universal
e não particular de uma única sociedade (mesmo que, no fim, estas reforçavam
a visão do mundo a partir de um olhar europeu). Essa perspectiva de Aufklärung
(Iluminismo) propunha a ciência em benefício da organização racional da vida e
da liberdade (HABERMAS,2002).
A Modernidade de Habermas refere-se às mudanças e novas formações
sociais específicas desses tempos modernos. É quando fica mais observável
a existência de uma “consciência” acerca das diferenças com o passado e sua
história, instituições e mentalidades. Mais importante, ainda, a Modernidade está
fortemente apegada à centralidade que a Razão ocupou nesses séculos passados e
a sua promessa de futuro glorioso para as civilizações.
É a Razão – racionalidade ocidental que representa a Modernidade.
Além disso, os princípios da ciência moderna estavam sendo estruturados para
servir de instrumentos conceituais voltados ao controle e domínio da natureza.
Isso resultou na ampliação do poder das forças produtivas pela via do progresso
técnico (HABERMAS, 1968).
Para compreender com mais propriedades a racionalização constante no
projeto da Modernidade, Habermas utiliza-se de dois conceitos que auxiliam na
definição e diferenciação da sociedade: “sistema” e “mundo da vida”. O sistema
indica uma complementaridade com o mundo vivido, ligando-se às maneiras e
formas de reprodução da vida material, isto é, ao trabalho, dinheiro, o poder etc.
Nele, predomina a razão instrumental, técnica. Já o mundo vivido é a maneira como
nós percebemos a realidade, a existência individual e comum. Aqui, predomina a
razão comunicativa.
Esses dois conceitos indicariam as dinâmicas de integração nos diferentes
contextos de ação social: pela via sistêmica e pela via social. A grande questão
é que a Modernidade criou uma disjunção entre sistema e mundo da vida, e é
em torno disso que Habermas constrói sua Teoria da Ação Comunicativa. Com a
predominância da economia e do Estado, ocorreu que a “razão instrumental” se
tornou hegemônica, balizando as relações sociais. Ele fala em desengate do sistema
e do mundo da vida. A eficácia torna-se um fim em si próprio, desvinculado de
qualquer contexto. Desta maneira, as forças econômicas e do Estado parecem ser
naturais. A Razão deixa de ser instrumento de crítica para se tornar um poder e
uma maneira de acumulação de capitais.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
45
LEITURA COMPLEMENTAR
RESPOSTA À PERGUNTA: “QUE É O ILUMINISMO?” (1784)
Immanuel Kant (trecho)
lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio
é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a
orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não
residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em
se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te
servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.
A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte,
após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes)
continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a
outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor.
Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que
em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta
etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando
posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida.
Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera
a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de
bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem,
primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que
estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as
encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar
sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender
muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante
todas as tentativas ulteriores.
É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele
se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente
incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu
fazer semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso
racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma
menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro
sobre o mais pequeno fosso, porque não está habituado ao movimento livre. São,
pois, muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu
espírito arrancar-se à menoridade e encetar então um andamento seguro.
Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais
ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade. Sempre haverá,
de facto, alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabelecidos da grande
massa que, após terem arrojado de si o jugo da menoridade, espalharão à sua volta
o espírito de uma estimativa racional do próprio valor e da vocação de cada homem
para pensar por si mesmo. Importante aqui é que o público, antes por eles sujeito
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
46
a este jugo, os obriga doravante a permanecer sob ele quando por alguns dos seus
tutores, pessoalmente incapazes de qualquer ilustração, é a isso incitado. Semear
preconceitos é muito danoso, porque acabam por se vingar dos que pessoalmente,
ou os seus predecessores, foram os seus autores. Por conseguinte, um público só
muito lentamente consegue chegar à ilustração. Por meio de uma revolução talvez
se possa levar a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa
ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos
preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa
destituída de pensamento.
[...]
FONTE: KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: o que é o iluminismo? In: A paz perpétua e outros
opúsculos, Lisboa, Edições 70, 1990. Disponível em: <http://www.uel.br/cch/his/arqdoc/kantPDEHIS.
pdf>. Acesso em: 20 jun. 2017.
47
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• Que a ideia de sujeito moderno está articulada e imbricada com a ideia de
um sujeito da linguagem, de discurso, que questiona. São categorias ligadas à
Modernidade e sua reflexão sobre o mundo de maneira distinta que os povos
antigos. Vimos que gregos, romanos, europeus da Idade Média constroem
suas visões de identidade a partir de fundamentações filosóficas, religiosas e
comunitárias. Não se fala em sujeito nesses períodos, e sim, em “Ser”. O sujeito
é uma invenção moderna.
• Descartes e Kant mudaram essa percepção. Ao passo que para Descartes o sujeito
é aquele que pensa (Cogito ergo sum) e que suspeita das fraudes e conhecimentos
falsos, Kant se preocupa com as bases e possibilidades de conhecimento, de
entendimento do mundo e das coisas.
• Por sua vez, Nietzsche analisa e também critica as características da modernidade.
Ele viveu num momento de transformações sucessivas nos cenários político,
econômico, social e cultural. Ainda que tenha realizado fortes críticas ao
sentido e aos valores modernos, Nietzsche não é necessariamente um filósofo
antimoderno.
• Que a percepção da mudança histórica não é nova. Mas a Modernidade aos
poucos foi radicalizando essa percepção.
• Que o sujeito passou a ser questionado pela filosofia e pelas nascentes Ciências
Sociais, promovendo análises e críticas tendo a Modernidade como um elemento
importante nas transformações. Disso, pode-se indicar a Escola de Chicago e o
Interacionismo Simbólico.
• A Sociologia e a Modernidade se confundem, pois a primeira é um resultado
direto do derretimento da ordem pós-tradicional pelo “calor” da luz da
Modernidade.
• A Modernidade tornou-se um objeto de interesse e investigaçãomuito presente
nas Ciências Sociais. Tratamos da modernidade segundo Alain Touraine,
Anthony Giddens, Boaventura de Sousa Santos e Jürgen Habermas.
48
1 O que é etnocentrismo e eurocentrismo?
2 Qual a contribuição do Interacionismo simbólico para os estudos das relações
sociais e das identidades sociais?
3 Quais as distinções entre as análises filosóficas de Immanuel Kant e Friedrich
Nietzsche sobre a Modernidade?
AUTOATIVIDADE
49
TÓPICO 3
IDENTIDADES NA
CONTEMPORANEIDADE
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
No tópico anterior, discutimos alguns eventos de caráter social que
preenchem nosso passado e que foram relevantes num contexto de investigação
sobre a produção de identidades sociais.
Contribuíram para a precipitação da modernidade algumas revoluções
nos padrões pessoais (processo civilizador), na centralização dos poderes militar,
político e administrativo em torno do Estado e nas revoluções religiosas, científicas
e filosóficas. Tais momentos estão ali, registrados como história do século XIV até
o século XVIII. Foram intensos e puseram em destaque uma percepção de que
algo novo, moderno, como distinto de um passado, estava se desenrolando. Numa
figura de linguagem, era possível “sentir” e “enxergar” a Modernidade ocorrendo.
FIGURA 19 – IDENTIDADE E DIFERENÇA
FONTE: Disponível em: <https://sjmachado.files.wordpress.com/2013/05/21.jpg>.
Acesso em: 13 jun. 2017.
50
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
O mundo de hoje, no qual somos tanto atores quanto espectadores,
definitivamente é único. Neste sentido, uma marca de nossa época é a crítica de
conceitos herdados do século XIX ou XX. Neste cenário, a identidade se torna
uma produção social plural, conflituosa e amparada na diferença. Em seguida,
veremos o impacto da pós-modernidade ou da radicalidade da Modernidade
nos paradigmas clássicos das Ciências Sociais. Depois, discute-se os efeitos da
globalização na produção das identidades. Por fim, apresentamos a Teoria do
Reconhecimento.
Vamos lá?
2 A PRODUÇÃO SOCIAL DAS IDENTIDADES E DAS
DIFERENÇAS NA PÓS-MODERNIDADE
Quando falamos em identidade, logo vem à mente nosso documento,
também conhecido como RG. Este documento é aquele que você precisa ter
nas mãos sempre que for solicitado para abrir contas bancárias, acessar direitos
sociais, relacionar-se com seus empregadores ou fazer uma compra. De certo
ponto de vista, aquele documento, ao ser mostrado, diz que nós somos cidadãos.
E brasileiros. É dessa identidade que estamos tratando?
FIGURA 20 – AS DIFERENÇAS SÃO SOCIALMENTE CONSTRUÍDAS
FONTE: Disponível em: <https://antropomecanica.files.wordpress.com/2013/05/diferenca_
cultural.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Ou será que identidade é aquilo que está “dentro” de nós, nossa essência
individual que faz sermos o que somos? Quer dizer, a nossa individualidade
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
51
e subjetividade? Aquela que a gente leva a um consultório de um psicólogo
ou psiquiatra para ser “tratada” e curada? Ainda, a identidade é aquilo que
externamente indicamos? Minha cor de pele, olhos? As roupas, objetos e marcas
que levamos?
Como, então, perceber as identidades num contexto pós-moderno? Por
nossos dias, as identidades são percebidas como diversas, mutáveis e relacionadas
ao contexto social em que são vividas em relação aos sistemas simbólicos e
classificatórios onde são encontrados sentidos para as posições sociais dos sujeitos
(HALL, 2010). Neste sentido, a identidade pós-moderna, aquela vinculada à
sua ideia de “sujeito pós-moderno”, não tem uma identidade fixa, essencial
ou permanente, sendo formada e transformada continuamente. A identidade
resultante dessa época, de um sujeito filosoficamente abalado e questionado, é a
de um sujeito descentrado e fragmentado, onde a identidade é algo contraditório.
Ao invés de uma identidade centrada, o atual contexto estimula as “posições-de-
identidade”, fontes para produção de identidades locais ou novas identidades, ao
longo de uma larga gama de outras diferenças. As polarizações entre elas também se
amplificam. Essas identidades possuem um “caráter político”, “caráter relacional”
e “caráter posicional”. A globalização tem o efeito de tornar essas “posições-de-
identidades” mais políticas, mais plurais e diversas, menos fixas, unificadas ou
trans-históricas (HALL, 2010).
Em toda parte estão emergindo identidades culturais que não são
fixas, mas que estão suspensas, em transição, entre diferentes posições;
que retiram seus recursos, ao mesmo tempo, de diferentes tradições
culturais; e que são o produto desses complicados cruzamentos
e misturas culturais que são cada vez mais comuns num mundo
globalizado (HALL, 2006, p. 88).
As identidades pós-modernas não são unificadas, marcadas pelas
contradições no seu interior diariamente negociadas nas relações e interações
sociais. Em nossa época, “as pessoas assumem suas posições de identidade e se
identificam com elas” (WOODWARD, 2015, p. 14-15). Nossas identidades sociais
são construídas, assim como são artificiais as formas pelas quais nós as negociamos.
Desta forma, um conceito possível para entender as complexidades da identidade
é apresentado por Stuart Hall (2014) no artigo “Quem precisa de identidade?”:
Utilizo o termo identidade para significar o ponto de encontro, o ponto
de sutura, entre, por um lado, os discursos e as práticas que tentam
nos ‘interpelar’, nos falar ou nos convocar para que assumamos nossos
lugares como sujeitos sociais de discursos particulares e, por outro lado,
os processos que produzem subjetividades, que nos constroem como
sujeitos aos quais se pode ‘falar’. As identidades são, pois, pontos de
apego temporário às posições-de-sujeito que as práticas discursivas
constroem para nós (HALL, 2014, p. 111).
O que queremos dizer quando argumentamos que as identidades têm
origem em processos sociais de produção e diferenciação de sentidos? A produção
social e a percepção de identidades estão vinculadas às condições sociais, simbólicas
e materiais em que se inserem os indivíduos e grupos (WOODWARD, 2015).
52
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Segundo Hall (2014), a identidade envolve um trabalho discursivo em torno
do fechamento e da marcação de fronteiras simbólicas. Ela está ligada à produção
de ‘efeitos de fronteiras’. Para consolidar o processo, “ela requer aquilo que é
deixado de fora – o exterior que a constitui” (p. 106). Como assim? Para apontar o
que é ser brasileiro leva-se em conta tudo o que diz respeito ao não brasileiro, isto
é, o outro. Ser brasileiro é não ser argentino.
As identidades adquirem sentido “por meio de linguagem e dos sistemas
simbólicos pelos quais elas são representadas” (WOORWARD, 2015, p. 8). A
construção da identidade é tanto simbólica quanto social. Neste sentido, os
processos de construção identitários são relacionais, dependem de algo fora dela,
de outra identidade para poder existir e definir-se. Nessa relação a percepção da
diferença fornece as condições para que uma identidade possa existir.
[...] o processo de produção da identidade oscila entre dois movimentos:
de um lado, estão aqueles processos que tendem a fixar e a estabilizar
a identidade; de outro, os processos que tendem a subvertê-la e a
desestabilizá-la. [...] tal como a linguagem, a tendência da identidade é
para a fixação. [...] A fixação é uma tendência e, ao mesmo tempo, uma
impossibilidade (SILVA, 2007, p. 85).
Um elemento importante nesse processo social de identidades é a diferença.
A produção social da identidade é marcada pela diferença, “sustentada pela
exclusão dos diferentes, sendo sustentada e reproduzida pela linguagem e por
meio de símbolos” (WOODWARD, 2015, p. 9). Isso é muito importante que você
entenda, porque, neste sentido, quando uma identidade,um grupo é marcado
como diferente, inimigo ou tabu, o efeito dessa percepção simbólica materializa-se
em efeitos reais no cotidiano.
O que é a diferença dentro desse jogo de produção e identificação que é a
identidade da gente?
Em geral, consideramos a diferença como um produto derivado da
identidade. Nesta perspectiva, a identidade é a referência, é o ponto
original relativamente ao qual se define a diferença. Isso reflete a
tendência a tomar aquilo que somos como sendo norma pela qual
descrevemos ou avaliamos aquilo que não somos. [...]. Numa visão mais
radical [...] considerar a diferença não simplesmente como resultado de
um processo, mas como o processo mesmo pelo qual tanto a identidade
quanto a diferença são produzidas. [...] como ato ou processo de
diferenciação (SILVA, 2007, p. 76).
A diferença é reproduzida por meio de sistemas simbólicos. Mas a diferença
não é só cultural ou étnica. A complexidade da vida moderna exige que assumamos
diferentes identidades, que podem estar ou entrar em conflito. Assim, temos
uma identidade profissional, familiar, política, de bairro etc. Nem todas elas são
compatíveis entre si. Muitas vezes, as responsabilidades incorporadas na imagem
da identidade familiar podem se opor aos sacrifícios exigidos pelos mercados
profissionais. Quer dizer, nesse processo de identidade e diferença, algumas
diferenças são mais toleráveis que outras. Então, como perceber a diferença no
processo de produção social das identidades? Vejamos o que nos indica Kathryn
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
53
Woodward (2015, p. 40): “As identidades são fabricadas por meio da marcação da
diferença. Essa marcação da diferença ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos
de representação quanto por meio de formas de exclusão social. A identidade, pois,
não é o oposto da diferença: a identidade depende da diferença”.
Os sistemas classificatórios operam como mediadores e aplicadores dessas
distinções na vida social, ressaltados pela linguagem e cultura. Tais sistemas
encontram-se tanto nas dimensões simbólicas como sociais dos grupos humanos.
No caso da identidade, esses sistemas classificatórios têm uma missão: estabelecer,
distinguir, separar dois grupos opostos: nós-eles (WOODWARD, 2015). É nesta
perspectiva que alguns conceitos de cultura foram duramente criticados, como
veremos adiante. É na/pela cultura que esses sistemas de classificação se consolidam
e reproduzem socialmente.
Identidade e diferença podem ser vistos como atos de criação linguística:
“significa dizer que elas são criadas por meio de atos de linguagem” (SILVA, 2007,
p. 76). Para Tadeu Tomaz Silva (2007), existe uma contradição permanente na
linguagem. Para apontar essa sua hipótese, utiliza a obra de autores como Jacques
Derrida e discussões de Saussure. Especialmente, a de que o signo carrega sempre
não apenas o traço daquilo que ele substitui, mas também, o traço daquilo que ele
não é, ou seja, precisamente da diferença. Quando imaginamos o conceito casa
e escrevemos a palavra casa, você percebe as presenças e ausências vistas nesse
exemplo? Elas representam sentidos que são intercambiáveis dessas presenças que
não se concretizam plenamente. Quer dizer, entre o conceito e a palavra escrita
“casa” ocorre um processo de significação que é fundamentalmente indeterminado,
incerto e vacilante.
Este processo envolve, também, a representação. Segundo Kathryn
Woodward (2015), a representação inclui as práticas de significação e os sistemas
simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos
como sujeitos. É por meio dos significados produzidos pelas representações que
damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos.
A representação, compreendida como um processo cultural, estabelece
identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais
ela se baseia fornecem possíveis respostas às questões: quem sou eu?
O que eu poderia ser? Quem eu quero ser? Os discursos e os sistemas
de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos
podem se posicionar e a partir dos quais podem falar (WOODWARD,
2015, p. 18).
Em suma, a produção social da identidade é um processo e uma relação
central na vida contemporânea e fundamentada na diferenciação. Muitas das
atuais classificações relevantes do mundo social estão localizadas em questões
identitárias.
Para entender esse processo contraditório entre a construção de uma
identidade e de suas diferenças, devemos considerar que o poder é um conceito
muito elementar nessa construção.
54
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
A afirmação da identidade e a enunciação da diferença traduzem
o desejo dos diferentes grupos sociais, assimetricamente situados,
de garantir o acesso privilegiado aos bens sociais. A identidade e a
diferença estão, pois, em estreita conexão com relações de poder. O
poder de definir a identidade e de marcar a diferença não pode ser
separado das relações mais amplas de poder. A identidade e a diferença
não são, nunca, inocentes (SILVA, 2007, p. 81).
Se dissemos que a produção social da identidade e da diferença é, também,
um tipo de relação de poder, é porque tal poder implica o acesso ao privilégio de
nomear, dividir e classificar o mundo segundo seu ponto de vista. Quem tem o
poder de classificar possui, também, o poder de hierarquizar em níveis superiores
e inferiores.
Normalizar significa eleger - arbitrariamente - uma identidade
específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades
são avaliadas e hierarquizadas. [...] A identidade normal é ‘natural’,
desejável, única. A força da identidade normal é tal que ela nem sequer
é vista como uma identidade, mas simplesmente como a identidade
(SILVA, 2007, p. 84).
Além disso, segundo Kathryn Woodward (2015), algumas respostas podem
ser encontradas na arena global, por exemplo, onde existem preocupações com as
identidades nacionais e com as identidades étnicas; em um contexto mais ‘local’,
existem preocupações com a identidade pessoal, por exemplo, com as relações
pessoais e com a política sexual. Segundo a autora:
[...] a identidade importa porque existe uma crise da identidade,
globalmente, localmente, pessoalmente e politicamente. Os processos
históricos que, aparentemente, sustentavam a fixação de certas
identidades estão entrando em colapso e novas identidades estão
sendo forjadas, muitas vezes por meio da luta e da contestação política
(WOODWARD, 2015, p. 39).
Quer dizer, mais que uma crise subjetiva, só do eu, tipo uma depressão,
a autora afirma que se trata de um fenômeno social e histórico, radicalizado em
nosso período em que vivemos. E que, na maioria dos casos, essa crise possui uma
dimensão conflitiva em torno do reconhecimento.
UNI
O PODER
Bobbio, Matteucci e Pasquino (1997, p. 933), numa definição clássica de visão social e política
do poder, assim o definem:
Em seu significado mais geral, a palavra Poder designa a
capacidade ou a possibilidade de agir, de produzir efeitos.
Tanto pode ser referida a indivíduos e a grupos humanos como
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
55
a objetos ou a fenômenos naturais [...]. Se o entendermos em
sentido especificamente social, ou seja, na sua relação com a
vida do homem em sociedade, o Poder torna-se mais preciso, e
seu espaço conceptual pode ir desde a capacidade geral de agir,
até a capacidade do homem em determinar o comportamento
do homem: Poder do homem sobre o homem. O homem é
não só o sujeito, mas também o objeto do Poder social. E Poder
social a capacidade que um pai tem para dar ordens a seus filhos
ou a capacidade de um Governo de dar ordens aos cidadãos.
Por outro lado, não é Poder social a capacidade de controle que
o homem tem sobre a natureza nem a utilização que fazdos
recursos naturais. Naturalmente existem relações significativas
entre o Poder sobre o homem e o Poder sobre a natureza ou
sobre as coisas inanimadas. Muitas vezes, o primeiro é condição
do segundo e vice-versa.
Podemos e devemos enxergar o poder como relacional, processual, dependente de contextos
localizados. Ele também tem a capacidade de ser poder simbólico, um tipo muito especial de
poder, segundo Pierre Bourdieu.
O poder simbólico é um poder de construção da realidade
que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido
imediato do mundo (e, em particular, do mundo social) supõe
aquilo a que Durkheim chama o conformismo lógico, quer dizer,
uma concepção homogênea do tempo, do espaço, do número,
da causa, que torna possível a concordância entre as inteligências
(BOURDIEU, 2003, p. 9).
Foucault, em suas obras, sempre procurou constituir uma genealogia do poder. Dentre suas
reflexões, podemos apontar outro tipo especial do poder, característico da pós-modernidade,
o biopoder.
[...] essa série de fenômenos que me parece bastante importante,
a saber, o conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo que,
na espécie humana, constitui suas características biológicas
fundamentais, vai poder entrar numa política, numa estratégia
política, numa estratégia geral de poder. Em outras palavras,
como a sociedade, as sociedades ocidentais modernas, a partir
do século XVIII, voltaram a levar em conta o fato biológico
fundamental de que o ser humano constitui uma espécie humana.
É em linhas gerais o que chamo, o que chamei, para lhe dar um
nome, de biopoder (FOUCAULT, 2008, p. 3).
A questão do poder é fundamental para a compreensão da maneira como as identidades são
socialmente construídas e a presença da diferença nessa relação social que se estabelece.
2.1 O QUE É A PÓS-MODERNIDADE?
Anthony Giddens (1991; 2002), nas suas análises sobre as dimensões
institucionais da modernidade, aponta para isso. Os modos de vida, as instituições
modernas, tudo isso se desvencilhou dos tipos tradicionais de ordem social. É
algo inédito, não encontrado em outros períodos. Quais as suas características,
segundo o autor? Para ele, tanto faz situar nosso período como alta modernidade,
modernidade tardia. Trata-se de uma radicalização dos princípios da modernidade.
E é por isso mesmo que não estaríamos numa pós-modernidade.
56
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Este período é indicado como global, permeado por interconexões que
impactam as dimensões da vida mais íntima da pessoa. Da mesma forma, essas
relações foram radicalizadas em termos de escopo das mudanças. Velozes e
permeadas pela insegurança. O espaço local, quer dizer, onde vivemos, chamamos
de nossa cidade, e não se pode viver mais, como outrora, em torno de si e de seus
vizinhos. É preciso submeter-se a poderes estatais, mas, cada vez mais, a poderes
econômicos, culturais ou políticos de origem externa, distante. Nossas relações
sociais dependem cada vez mais de “mecanismos de reencaixe” que independem
de nossa vontade. O dinheiro, as dinâmicas dos mercados de trabalho, por exemplo.
FIGURA 21 – A COMPLEXIDADE DAS DINÂMICAS E INTERAÇÕES SOCIAIS
Em outras palavras, nossas relações sociais são deslocadas em termos
de tempo e espaço. Nossa vida cotidiana está mais dependente de “fichas
simbólicas”, que seriam meios de intercâmbio que podem ser “circulados sem ter
em vista as características específicas dos indivíduos e dos grupos que lidam com
eles em qualquer conjuntura particular” (GIDDENS, 1991, p. 30). Mas, também,
de “sistemas peritos”, isto é, sistemas de excelência técnica ou competência
profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que
vivemos hoje, conhecimento perito.
Zygmunt Bauman (2001) tem sua famosa definição de modernidade líquida
para tratar do momento atual. A diferença está na intensificação do ritmo trazido
com a modernidade e pelo fato de que na época líquida não surgem novos “sólidos”
para que os indivíduos possam ancorar-se. Pelo contrário, a marca da época é
a fluidez, a desconfiança das tradições, rotinas, normas e grandes narrativas, a
individualização. Sem sólidos, o edifício corre o risco iminente de cair.
FONTE: Disponível em: <https://arautodecristo777.files.wordpress.com/2010/10/deusnodiv2oj6.
jpg>. Acesso em: 14 jun. 2017.
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
57
O mundo construído de objetos duráveis foi substituído pelo de produtos
disponíveis projetados para imediata obsolescência. Num mundo como
esse, as identidades podem ser adotadas e descartadas como uma troca
de roupa. O horror da nova situação é que todo diligente trabalho de
construção pode mostrar-se inútil; e o fascínio da nova situação, por
outro lado, se acha no fato de não estar comprometida por experiências
passadas, de nunca ser irrevogavelmente anulada, sempre “mantendo
as opções abertas” (BAUMAN, 1998, p. 112-113).
Neste sentido, a modernidade líquida impacta de crise todas as maneiras
que anteriormente o indivíduo utilizava para viver em condição de social. Apaga
seus mapas e referências, ou os põe em dúvidas. A economia e o capital se tornaram
transnacionais, ampliando seu poder e influência. Como contrapartida, o poder
dos Estados em questões como economia fica cada vez mais reduzido. Marcas e
produtos passam a ser fatores de distinção e marcação identitária. Ao invés das
tradições, formas como o consumo de roupas passam a ser orientadas pelos setores
criativos das empresas.
Da mesma forma, o trabalho e as relações de trabalho sofrem o impacto
da destruição dos sólidos. Terceirização, leis trabalhistas frouxas são os exemplos
encarnados dessas dinâmicas. O resultado é o enfraquecimento do poder e papel
dos sindicatos e dos trabalhadores frente ao poder sem rosto do capitalismo global
e líquido. Ao invés de trabalhador, você é um colaborador, um empreendedor,
discursos que escondem a exploração radicalizada do momento líquido.
2.1.1 A identidade na alta modernidade de Anthony
Giddens
Nossas vidas na alta modernidade de Giddens, também, dependem cada
vez mais de discursos transitórios e distantes de nossas vidas cotidianas e que
sugerem um “eu” reflexivo, ativo e empenhado em um estilo e projeto de vida
diante de um ambiente de risco e incerteza ampliado (GIDDENS, 1991; 2002).
Para o inglês, a produção de conhecimento sistemático sobre a vida social torna-se
integrante da reprodução do sistema, deslocando a vida social da fixidez da
tradição.
Na ordem pós-tradicional da modernidade, e contra o pano de fundo
de novas formas de experiência mediada, a autoidentidade se torna um
empreendimento reflexivamente organizado. O projeto reflexivo do
eu, que consiste em manter narrativas biográficas coerentes, embora
continuamente revisadas, tem lugar no contexto de múltipla escolha
filtrada por sistemas abstratos. Na vida social moderna, a noção de
estilo de vida assume um significado particular. Quanto mais a tradição
perde seu domínio, e quanto mais a vida diária é reconstituída em
termos do jogo dialético entre o local e o global, tanto mais os indivíduos
são forçados a escolher um estilo de vida a partir de uma diversidade de
opções (GIDDENS, 2002, p. 12-13, grifo nosso).
58
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Outra característica para pensar a identidade em tempos de alta
modernidade refere-se ao conceito de “política-vida” de Giddens (1991). Trata-
se de uma política das decisões da vida (p. 198) em meio a um mundo de alta
reflexividade e impessoalidade de relações sociais. Reflexividade, como vimos,
refere-se à produção incessante de conhecimento sobre a vida e mundo trazido
para o cotidiano. Segundo o sociólogo, o conceito refere-se à “política de realização
do eu, no contexto da dialética do local e do global e do surgimento dos sistemas
internamentereferidos da modernidade” (GIDDENS, 2002, p. 222).
E é nessa imbricação entre global, nacional e local que as identidades
são produzidas. Mas Giddens faz uma distinção. Ao passo que os discursos
sobre identidade assumem continuidade ao longo do tempo e do espaço: mas,
a autoidentidade é “essa identidade interpretada reflexivamente pelo agente”
(GIDDENS, 1991, p. 53). Você percebe? Se sou brasileiro, posso me imaginar e me
modelar como um brasileiro distinto, de valores e interesses diferentes. Continuo
brasileiro, mesmo pensando e agindo reflexivamente. Neste processo, posso
superar valores, ideias ou comportamentos que estão ligados ao Brasil.
Quando Giddens diz que as identidades ficam deslocalizadas ou
desterritorializadas é porque nossos repertórios identitários já não estão vinculados
ao território ou à memória social. Esses fenômenos estimulam identidades a
se desligar de sua origem para abrir-se a produtos, imagens, comportamentos,
símbolos ou práticas distribuídas em movimentos globais. A partir desses elementos
tradicionais (pertencimento a uma memória e um território, um lugar de origem),
podemos pensar em nossa biografia em termos de projeto e de autorrealização
pessoal. Em Giddens, a modernidade é uma ordem pós-tradicional em que a
pergunta sobre como devo viver precisa ser respondida em decisões (2002). Em
muitos casos, é uma questão que o indivíduo deve escolher:
No nível do eu, um componente fundamental da atividade do dia a
dia é simplesmente o da escolha. Obviamente nenhuma cultura elimina
inteiramente a escolha dos assuntos cotidianos, e todas as tradições
são efetivamente escolhas entre uma gama indeterminada de padrões
possíveis de comportamento. Mas, por definição, a tradição, ou os
hábitos estabelecidos, ordena a vida dentro de canais relativamente
fixos. A modernidade confronta o indivíduo com uma complexa
variedade de escolhas e ao mesmo tempo oferece pouca ajuda sobre as
opções que devem ser selecionadas (GIDDENS, 2002, p. 79).
A reflexividade aqui indica um monitoramento constante à luz de novas
informações sobre a nossa biografia ou estilo de vida. O que é saudável ou não para
comer, por exemplo, torna-se resultado de informações científicas transformadas
em conhecimento leigo, cotidiano. Na alta modernidade do sociólogo inglês, essa
reflexividade se estende de forma inédita ao “eu” que se torna dinâmico como
a própria época em que vive. Temos, neste sentido, cada vez mais a consciência
desse nosso “eu reflexivo”, rotineiramente reproduzido.
Ser uma "pessoa" não é apenas ser um ator reflexivo, mas ter o conceito
de uma pessoa (enquanto aplicável ao eu e aos outros). O que se
entende por "pessoa" certamente varia nas diferentes culturas, embora
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
59
haja elementos dessa noção que são comuns a todas elas. A capacidade
de usar "eu" em contextos diferentes, característica de toda cultura
conhecida, é o traço mais fundamental das concepções reflexivas da
pessoidade (GIDDENS, 2002, p. 54).
Toda essa reflexividade do eu é encarnada. Temos um corpo. Esse corpo
também se torna de uma vigilância reflexiva. O corpo não é mais um problema de
um Ser que se realizava apenas enquanto entidade racional. O corpo não é mais
tão somente o lugar da nossa alma, como pensavam os gregos antigos. Hoje a
permanente reflexividade e controle do corpo “é um emblema de uma existência
segura” num ambiente social (GIDDENS, 2002, p. 103).
2.1.2 A identidade na modernidade líquida
de Zygmunt Bauman
E como pensar a modernidade líquida e seus impactos identitários? Para
perceber o grau da crítica proposta por Bauman, relembramos seu “Homo eligens”,
isto é, o homem que escolhe, como metáfora da identidade pós-moderna. Escolhe,
pois permanentemente incompleto e indefinido.
A crítica do sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre a Modernidade é
bastante negativa, seguindo a tradição da Teoria Crítica iniciada com a Escola de
Frankfurt. O polonês dividiu a Modernidade em dois períodos: a modernidade
sólida e a famosa modernidade líquida.
FIGURA 22 – ZYGMUNT BAUMAN
FONTE: Disponível em: <http://ep01.epimg.net/cultura/imagenes/2015/12/
30/babelia/1451504427_675885_1451510007_sumario_normal.jpg>.
Acesso em: 14 jun. 2017.
60
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
A Modernidade Sólida é o período que tem início no século XV até a
metade do século passado. É o momento de instituições centralizadas, de um
sentimento de progresso e crença na ciência, da narrativa do sujeito racional. Foi
um período de expansão da instrumentalidade racional pela Ciência e pelo Estado
na redução das ambiguidades da vida social e nacional. Nesta modernidade, os
Estados surgem como os grandes estimuladores e direcionadores das identidades.
De acordo com o polonês, foi
[...] um período histórico que começou na Europa Ocidental no século
XVII com uma série de transformações socioestruturais e intelectuais
profundas e atingiu sua maturidade primeiramente como projeto
cultural, com o avanço do Iluminismo e depois como forma de vida
socialmente consumada, com o desenvolvimento da sociedade
industrial (capitalista e, mais tarde, também a comunista) (BAUMAN,
1999, p. 299-300).
Em “Modernidade Líquida” (2001) e “Modernidade e Ambivalência”
(1999), podemos encontrar as características essenciais desse período que já era
marcado pela necessidade de derreter seus “sólidos”. O projeto moderno era
centrado na ideia de controle e de domínio da natureza e das imprevisibilidades
da vida social. Neste empreendimento, Ciência e Estado foram dois motores muito
potentes. Para Bauman, a ciência moderna:
[...] nasceu da esmagadora ambição de conquistar a Natureza e
subordiná-la às necessidades humanas. A louvada curiosidade científica
que teria levado os cientistas ‘aonde nenhum homem ousou ir ainda’
nunca foi isenta da estimulante visão de controle e administração, de
fazer as coisas melhores do que são (isto é, mais flexíveis, obedientes,
desejosas de servir) (BAUMAN, 1999, p. 48).
E qual a identidade vinculada à Modernidade Sólida? Para Bauman,
aquela vinculada à Nação. Da coordenação entre Estado e Ciência, delineia-se uma
característica moderna, sua obsessão por classificar, conhecer, controlar os fatos,
objetos, fenômenos e pessoas. A grande utopia da modernidade sólida era:
[...] a crença de que há um fim do caminho em que andamos, um
télos alcançável da mudança histórica, um Estado de perfeição a ser
atingido amanhã, no próximo ano ou no próximo milênio, algum tipo
de sociedade boa, de sociedade justa e sem conflitos em todos ou alguns
de seus aspectos postulados: do firme equilíbrio entre oferta e procura
e a satisfação de todas as necessidades; da ordem perfeita, em que tudo
é colocado no lugar certo, nada que esteja deslocado persiste e nenhum
lugar é posto em dúvida; das coisas humanas que se tornam totalmente
transparentes porque se sabe tudo o que deve ser sabido; do completo
domínio sobre o futuro – tão completo que põe fim a toda contingência,
disputa, ambivalência e consequências imprevistas das iniciativas
humanas (BAUMAN, 2001, p. 37).
O Estado-nação e sua identidade nacional percebia as diferenças com
desconfiança. A centralidade essencial dessa identidade está na unidade de
conduta, modos de vida e mentalidades sob a lógica da dominação da nação
(BAUMAN, 1999; 2001).
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
61
A incapacidade de constituir uma identidade fixa é produto do sentimento
de insegurança presente na esfera pós-moderna. A identidade líquida é
passageira. Disso resultam laços frouxos nas relações sociais, a substituição dos
relacionamentos humanos pelo consumo, que transforma o “eu” e os “outros” em
mercadorias; o desapego ao espaço e tempo; e o crescimento da individualização
(BAUMAN, 2005).
A “individualização”consiste em transformar a “identidade” humana de
um “dado” em uma “tarefa” e encarregar os atores da responsabilização de
realizar essa tarefa e das consequências (assim como dos efeitos colaterais)
de sua realização. Em outras palavras, consiste no estabelecimento de
uma autonomia de jure (independentemente de a autonomia de facto
também ter sido estabelecida) (BAUMAN, 2005, p. 40).
Segundo o autor, atualmente
[...] a identidade navega entre as extremidades da individualidade
descompromissada e da pertença total. A primeira é inatingível, e a
segunda, como um buraco negro, suga e engole qualquer coisa que
flutue nas suas proximidades. Quando é escolhida como destino,
inevitavelmente incita movimentos vacilantes entre as duas direções
(BAUMAN, 2007, p. 44).
Para Bauman (2001; 2005), a ausência de sólidos e os impactos da
modernidade líquida na economia, no Estado, na comunidade, no consumo e
nas tradições trouxeram profundos impactos para as identidades. Estimulada
pela ausência e desconfiança das grandes narrativas, a identidade líquida é uma
invenção, nunca uma descoberta. Identidade não é uma questão de pertencer ou
se identificar com alguém ou algum grupo, mas uma tarefa do cotidiano. Lembra
o “eu reflexivo” de Anthony Giddens.
Para a grande maioria dos habitantes do líquido mundo moderno,
atitudes como cuidar da coesão, apegar-se às regras, agir de acordo
com precedentes e manter-se fiel à lógica da continuidade, em vez de
flutuar na onda das oportunidades mutáveis e de curta duração, não
constituem opções promissoras (BAUMAN, 2005, p. 60).
Nas relações com o outro importa a supervalorização da minha identidade.
Relacionar-se é uma questão fluida, muitas vezes mediada pelo consumo e pelas
relações virtuais, pelas “redes sociais”.
Hoje em dia, nada nos faz falar de modo mais solene ou prazeroso do
que as “redes” de “conexão” ou “relacionamentos”, só porque a “coisa
concreta” — as redes firmemente entretecidas, as conexões firmes e
seguras, os relacionamentos plenamente maduros — praticamente caiu
por terra (BAUMAN, 2005, p. 100).
Essa experimentação da identidade líquida como hipervalorização do “eu”
compromete, segundo Bauman (2005), a própria realização da cidadania. Segundo
o autor, o público é colonizado pelo privado; o interesse público é reduzido
à curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da exposição
pública é reduzida à exposição pública (BAUMAN, 2001, p. 43).
62
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
3 CRISES DE IDENTIDADES, CRISES DE PARADIGMAS
Um dos problemas envolvendo a chamada crise de identidade é que as
lealdades políticas tradicionais têm sofrido mudanças. Antes, por exemplo, os
trabalhadores poderiam se identificar numa classe política cujo destino era a
revolução e a superação do capitalismo. Da mesma forma, os nazistas trouxeram
à tona pesadelos em nome de uma suposta raça que era o porto seguro de sua
ideologia. O discurso da heterossexualidade era dominante e inquestionável. Ou,
ainda, a luta ecológica que não tem bases fixas porque essencialmente global. São
os sólidos que se derretem apontados por Bauman (1999).
A identidade é uma produção, não se nasce com ela (HALL, 2014). Essa
é a grande mudança no paradigma dominante que pensava a identidade fixa,
imutável. Existe, nesse sentido, uma crise de identidades? De todas ou algumas
identidades? Em geral, existem formas diversas de iniciar uma resposta. Existem
novas identidades? De certa forma. Algumas emergem de processos sociais de
invisibilidades, como as etnias indígenas, a mulher, o negro – outras surgem em
razão de fenômenos contemporâneos.
Stuart Hall (2014) aponta para uma crise das “velhas identidades”. Segundo
o autor, estas identidades estabilizadoras estão em declínio, acompanhando o
deslocamento da estrutura e dos processos das sociedades modernas. As identidades
modernas estariam sendo descentradas, isto é, deslocadas ou fragmentadas, num
movimento de “duplo deslocamento”, cuja força é a descentração dos indivíduos
tanto do seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos.
[...] para aqueles teóricos que acreditam que as identidades modernas
estão entrando em colapso, [...] tipo diferente de mudança estrutural
está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso
está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade,
etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido
sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações
estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia
que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Essa perda de um
“sentido de si” estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou
descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento [...] constitui uma
“crise de identidade” para o indivíduo (HALL, 2005, p. 9).
Tomaz Tadeu Silva também percebe uma crise de identidades. Tais crises
se originam nas mudanças intensas promovidas pela globalização, pela migração,
pela crise de países e ideologias nos anos 1970 e 1980, que desestabilizaram,
deixaram um vazio na forma de pertencimento. Como resultado, o aparecimento
de identidades plurais, de novas afirmações étnicas, religiosas e nacionais (2014).
[...] reconhecer que a luta e a contestação concentradas na construção
cultural de identidades [...]. Enquanto nos anos 1970 e 1980, a luta
política era descrita e teorizada em termos de ideologia em conflito, ela se
caracteriza agora, mais provavelmente, pela competição e pelo conflito
entre diferentes identidades, o que tende a reforçar o argumento de que
existe uma crise de identidade no mundo contemporâneo (SILVA, 2007,
p. 26).
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
63
Além disso, um movimento de renovação das Ciências Humanas e a forma
de encarar o conhecimento de tipo europeu como de validade universal beneficiou-
se dos Estudos Culturais e Pós-colonialistas surgidos após a independência das
colônias europeias localizadas na África e na Ásia. Quer dizer, essa renovação de
teorias e metodologias não está restrita somente à História. Vejamos:
[...] o intento de descolonizar a História para projetar uma “verdadeira”
História da África segue sendo, aparentemente, um objetivo desta
geração de historiadores africanos. Este também era um desejo confesso
de muitos intelectuais estrangeiros que se dedicaram ao tema a partir
da década de 1960. Os movimentos de Independência, neste sentido,
foram, sem dúvida, os motivadores para a ampliação e difusão dos
estudos africanos em todo o mundo (BARBOSA, 2008, p. 54).
Em Boaventura de Sousa Santos o paradigma dominante da modernidade
foi o modelo de racionalidade que preside a ciência moderna e constituiu-se a
partir da revolução científica do século XVI, e foi desenvolvido nos séculos
seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. É um processo
permeado pela racionalidade, pelo determinismo e instrumentalismo da Ciência
e dos conhecimentos para diminuir ambivalências sociais, econômicas, ecológicas,
existenciais etc. Qual seria o “paradigma emergente”?
Eu falarei do paradigma de um conhecimento prudente para uma
vida decente. Com esta designação, quero significar que a natureza da
revolução científica que atravessamos é estruturalmente diferente da
que ocorreu no século XVI. Sendo uma revolução científica que ocorre
numa sociedade ela própria revolucionada pela ciência, o paradigma a
emergir dela não pode ser apenas um paradigma científico (o paradigma
de um conhecimento prudente), tem de ser também um paradigma
social (o paradigma de uma vida decente) (SANTOS, 2005, p. 74).
A questão é que existem bases teóricas e metodológicas capazes de investigar
as questões relacionadas à identidade, cultura, etnia, nação a partir de um ponto
de vista que assegure a complexidadenecessária ao tema. Pensar a identidade de
gênero, os deslocamentos culturais, os efeitos da globalização devem ser revistos à
luz das críticas e análises realizadas, conforme vimos anteriormente. Agora, tratamos
das visões sobre a globalização e seus impactos na produção de conhecimento
no interior das Ciências Sociais. Neste sentido, num quadro de individualização
excessiva, nossa liberdade individual é cada vez menor e mais controlada.
3.1 A GLOBALIZAÇÃO E A IDENTIDADE GLOBAL
As ideias de um mundo global não são novas, antes do termo globalização
ganhar popularidade, a partir dos anos 1980 em diante, foram utilizadas de
maneira pioneira nos anos 1960 por Marshall McLuhan (Guerra e Paz na Aldeia
Global) e pelo polonês Zbigniew Brzezinski (A Revolução Tecnotrônica).
É fácil cair no equívoco de acreditar que modernidade e globalização são
categorias e fenômenos similares. Aqui parte-se da ideia de que a globalização
64
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
é uma dimensão, um efeito potencializado e radicalizado pela Modernidade. Os
efeitos sob as identidades tradicionais são consideráveis. O que é a globalização e
quais seus efeitos sobre as identidades e as culturas modernas?
FIGURA 23 – INTERDEPENDÊNCIA GLOBAL
FONTE: Disponível em: <http://www.cartamaior.com.br/arquivosCartaMaior/FOTO/179/29C
A5A975A685 C8377DEB584659C921FC85AC005CFF02D8A4B9070060D288BC9.jpg>.
Acesso em: 14 jun. 2017.
Enquanto fenômeno social com impacto nas identidades, a globalização
tem sido vista como propulsora de revisões metodológicas e teóricas sobre a
identidade. Como aponta o sociólogo brasileiro Octávio Ianni, as Ciências Sociais
são chamadas a discutir profundamente o que é a globalização e quais seus efeitos.
Isso porque “o paradigma clássico das ciências sociais foi constituído e continua
a desenvolver-se com base na reflexão sobre as formas e os movimentos da
sociedade nacional” (IANNI, 1994, p. 147). Quer dizer, a globalização representa
o rompimento epistemológico com seus objetos clássicos, especialmente aqueles
vinculados à unidade do Estado-nação, diante do surgimento da sociedade
global. A sociedade nacional continua vigente, mas, contraditoriamente envolvida
nos efeitos e dinâmicas da globalização. Veja o que o autor aponta sobre essa
emergência:
[...] a sociedade global é o novo objeto das ciências sociais. Ao lado da
sociedade nacional, vista como um todo e também em suas partes, as
ciências sociais começam a debruçar-se sobre a sociedade global, vista
como um todo e também em suas partes. São dois objetos presentes: um
dos quais bastante conhecido, codificado, interpretado, ao passo que o
outro ainda por se conhecer, se explicar. A sociedade nacional pode ser
vista como o emblema do paradigma clássico das ciências sociais, com o
qual elas nascem, amadurecem e continuam a se desenvolver. Enquanto
que a sociedade global pode ser vista como o emblema de um paradigma
emergente. Envolve um novo paradigma, tanto porque a sociedade global
encontra-se em constituição, em seus primórdios, como porque carece de
conceitos, categorias, interpretações (IANNI, 1994, p. 149).
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
65
Nenhum período histórico anterior teve a noção da existência de uma
sociedade global. Trata-se de uma realidade original, ainda desconhecida, carente
de interpretações teóricas mais gerais, o conhecimento acumulado sobre a sociedade
nacional não é suficiente para esclarecer as configurações e os movimentos globais.
Ianni (1994) indica algumas originalidades implicadas nas relações entre globalização
e ciências sociais. A sociedade global se constitui desde o início como uma totalidade
problemática, complexa e contraditória, aberta em movimento, dinamizando cenários
de desenvolvimento desigual, combinado e contraditório em cantos do planeta. Da
mesma forma, a constituição de uma sociedade global implicaria na possibilidade de
se criar uma história mundial. Para o autor, o que era fantasia, metáfora ou utopia,
cosmopolitismo, adquire novos significados e possibilidades (IANNI, 1994).
Para exemplificar a complexa relação entre a globalização e seus efeitos
identitários, trazemos a contribuição de Boaventura de Sousa Santos (2005). Não
podemos pensar a globalização. Devemos pensar nas muitas globalizações!
Para Santos (2005, p. 21), a globalização é o processo pelo qual “determinada
condição ou entidade local estende a sua influência a todo o globo e, ao fazê-lo,
desenvolve a capacidade de designar como local outra condição social ou entidade
rival”. O português fala em globalizações, no plural, indicando que existem
diferentes conjuntos de relações sociais que dão origem a relações globais. Estas
relações surgem dos conflitos presentes em cada campo social.
Para Santos (2005), o global e o local são socialmente produzidos no interior
dos processos de globalização. Nos processos acionados pelas globalizações,
tanto as entidades ou fenômenos dominantes (globalizados), como os dominados
(localizados) sofrem transformações internas. Porém, para Santos, os efeitos não
são igualmente distribuídos. Nem todos eles ligam-se à fluidez e rapidez próprias
dos discursos sobre a globalização. Porém, algumas tomam caminhos mais lentos,
mais difusos, mais ambíguos, e as suas causas mais indefinidas.
Atualmente, existem grandes desigualdades na distribuição e na
concentração dos poderes. Desta forma, Santos (2005, p. 26) percebe a globalização
como “um fenômeno multifacetado com dimensões econômicas, sociais, políticas,
culturais, religiosas e jurídicas interligadas de modo complexo”. Assim, o português
fala em globalizações, no plural, indicando que existem diferentes conjuntos de
relações sociais que dão origem a relações globais. Estas relações surgem dos
conflitos presentes em cada campo social.
Santos (2005) destaca algumas globalizações, dentre as inúmeras possíveis.
A globalização social em nossa época vem promovendo desigualdades em diversos
níveis das relações sociais de nosso cotidiano. Aqui, podemos verificar que através
das dinâmicas globais do capitalismo, ocorre uma concentração brutal de renda em
poucos indivíduos, produzida pelo predomínio do neoliberalismo sobre a política
e a economia. Ao mesmo tempo, globalizam-se relações precárias e terceirizadas
de trabalho, o controle e a estagnação dos salários, além da visão de que pessoas
pobres são insolventes, devendo então os investimentos concentrarem-se no topo
das camadas sociais.
66
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Santos (2002) também fala de uma globalização política, onde os países
mais ricos e suas instituições sociais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI)
ou o Banco Mundial, exercem forte pressão sobre os países em desenvolvimento e
periféricos de uma maneira sem precedentes na história. Ao mesmo tempo, assiste-
se ao surgimento de blocos e acordos comerciais. A intensificação das interações
entre os países, ainda que desigual, é recorde, bem como o fluxo de pessoas, bens,
serviços por essas áreas. Desta maneira, o Estado-nação tem perdido sua centralidade
enquanto uma unidade de iniciativa. E num ambiente de assimetrias internacionais,
alguns países perdem totalmente sua autonomia, dependendo de decisões políticas
originadas nos centros de poder. Santos chama a atenção, nesse contexto, para o
esquecimento do Hemisfério Sul, onde localizam-se os países pobres.
Uma das mais comentadas no contexto das atuais dinâmicas mundiais
é a globalização cultural. Cada vez mais fala-se de uma cultura global. Mas, a
globalização cultural teria promovido essa inédita cultura? Inédita porque somente
em nosso momento é que temos a condição de percebermos como partes de uma
cultura global. Há uma preocupação com a homogeneização cultural que pode
surgir desses fenômenos, já que o que culturalmentese globaliza são os valores,
os artefatos culturais e os universos simbólicos que se globalizam são ocidentais.
Através desses produtos, valores presentes nos países desenvolvidos tornam-se
parte da vida de países e pessoas que vivem no Sul do mundo.
De uma maneira menos crítica que os demais, Anthony Giddens percebe
as complexas relações entre identidade e globalização, contudo não vê isso
apenas como “carga pesada”, mas como fontes libertadoras. Para o sociólogo,
em razão dos processos acionados e deixados pelo caminho em seu fluxo global,
novas identidades culturais estão emergindo, a democracia difundiu-se pelos
quatro cantos e modelos de instituições, como as famílias, são mais abertas e
plurais (GIDDENS, 2007). O grande problema são as desigualdades inerentes ao
fenômeno, ao passo que somos as primeiras gerações a viver sob a globalização. O
autor não entende que haja hegemonia de algum país ou empresas, porque cada
vez mais a globalização está descentrada, isto é, atuando em todos os cantos do
planeta. Segundo essa visão do autor, a “globalização está mudando o modo como
o mundo se parece e a maneira como vemos o mundo. Ao adotar uma perspectiva
global, tornamo-nos mais conscientes de nossas ligações com os povos de outras
sociedades” (GIDDENS, 2005, p. 61).
Para Giddens, a globalização pode ser definida “como a intensificação das
relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira
que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas
de distância e vice-versa” (1991, p. 69). O impacto disso se verifica no seu conceito
de “globalização do risco”:
[…] a) no sentido de intensidade; b) expansão da quantidade de eventos
contingentes que afetam todos ou ao menos grande quantidade de
pessoas no planeta; c) derivado do meio ambiente criado/natureza
socializada; d) riscos ambientais institucionalizados (ex.: mercado de
investimentos); e) consciência do risco como risco (lacunas não podem
ser convertidas em certezas); f) a consciência bem distribuída do risco
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
67
(conhecimento da ampla maioria); g) consciência das limitações da
perícia (nenhum sistema perito é inteiramente perito) (GIDDENS, 1991,
p. 126-127).
O britânico vê a globalização não como um fenômeno simples. Para ele, a
globalização é política, tecnológica e cultural, além de econômica. Acima de tudo,
tem sido influenciada pelo progresso nos sistemas de comunicação, registrado
a partir do final da década de 1960 (GIDDENS, 2007). E as transformações na
autoidentidade e a globalização são os dois polos da dialética do local e do global
nas condições da alta modernidade. Isso implica perceber que mudanças em
aspectos íntimos da vida pessoal estão diretamente ligadas ao estabelecimento de
conexões sociais de grande amplitude. Para Giddens (2007) diante da globalização
e seus efeitos, o "eu" e "sociedade" estão inter-relacionados num meio global.
Desta maneira, a discussão sobre a globalização e seus efeitos nos paradigmas
clássicos das Ciências Sociais é bastante elementar para o tema da produção
identitária. Para Joanildo Burity (2001), essas novas perspectivas sobre categorias
básicas das Ciências Sociais com o Estado e a Sociedade apontam, também, para
nosso momento de revisão crítica das categorias herdadas dos séculos XIX e XX.
Vivemos o “descentramento do Ocidente”. A globalização introduz a lógica de
“um terceiro” nessas relações clássicas e binárias sobre o Ocidente e as Ciências
produzidas por este.
O que é esse terceiro? Trata-se da inclusão e reconhecimento na esfera da
reflexão e das práticas sociais e culturais de outras possibilidades de expressão que
foram preteridas ou derrotadas ao longo da história eurocêntrica (BURITY, 2001,
p. 11). O terceiro é o Ocidente fragmentado, onde em meio ao nacional e ao global
surgem o local, o regional.
E o impacto disso para as identidades? O impacto do surgimento do
“terceiro” nessa relação entre global e local é a “resistência da identidade”. A
identidade torna-se o “pomo da discórdia” e expressa esse terceiro da globalização.
Elas respondem e resistem às desterritorializações promovidas pela globalização,
afirmando-se e reagindo aos efeitos desestruturantes desta (BURITY, 2001).
Outra forma possível de perceber a identidade em termos de globalização
liga-se à ideia de identidade híbrida.
Nestor Gargia Canclini percebe a globalização como um fenômeno de
fracionamento articulado do mundo e de sua recomposição em partes, sendo
movimento de homogeneização e também de diferenças e desigualdades. “A
globalização supõe uma interação funcional de atividades econômicas e culturais
dispersas, bens e serviços gerados por um sistema com muitos centros, no qual é
mais importante a velocidade com que se percorre o mundo do que as posições
geográficas a partir das quais está agindo” (CANCLINI, 2005, p. 32).
Ela conforma “espaços de possibilidades para mudanças socioculturais”
nas várias dimensões da vida social e individual. Tais mudanças foram sintetizadas
em cinco: a diminuição da força e autonomia política dos Estados face às empresas
68
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
transnacionais; a reorganização dos assentamentos e das maneiras de convivência
urbanas; a forte apropriação privada do espaço urbano; as mudanças nos padrões
de pertencimento identitário, cada vez menos locais ou nacionais e cada vez mais
estimulados por dinâmicas transnacionais; e a passagem do cidadão para o de
consumidor.
Para Canclini (2005), a globalização modifica o sentido das identidades
modernas, que eram territoriais, cujo centro era o Estado-nação que tende a ocultar
as diferenças culturais internas. A globalização, ainda, seria responsável pela
intensificação dos aspectos da modernidade, levando a uma pós-modernidade.
Nesses contextos, as próprias identidades são pós-modernas que passam a ser
influenciadas por trânsitos transterritoriais e multilinguísticos. As fronteiras do
Estado-nação já não seriam suficientes para a produção social das identidades. Tais
identidades pós-modernas sofrem grande influência dos mercados, da publicidade,
muitas vezes sendo afirmadas através da distinção assegurada pelo consumo.
FIGURA 24 – IDENTIDADES HÍBRIDAS
Desta maneira, a identidade na Pós-modernidade de Canclini passa a ser
concebida como repertórios fragmentados de minipapéis sociais e menos uma
“hipotética interioridade contida e definida pela família, pelo bairro, pela cidade,
pela nação ou por qualquer um desses enquadramentos em declínio” (CANCLINI,
2005, p. 48). Essa influência em potência menor das identidades essencialistas foi
entendida pelo autor como o processo de “dissolução das monoidentidades” (2005).
FONTE: Disponível em: <http://beta.mericaballero.com/wp-content/uploads/hybrid1.jpg>. Acesso
em: 14 jun. 2017.
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
69
O que é uma cultura híbrida? Num olhar mais latino-americano, segundo
Canclini (2005, p. 19), as hibridações “são processos socioculturais nos quais
estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para
gerar novas estruturas, objetos e práticas”. Elas são produzidas especialmente em
três momentos: a queda do centro cultural e sua hegemonia, formando pluralidades;
disseminação de gêneros culturais e artísticos impuros; e na desterritorialização
do local em contato com o global (CANCLINI, 1997).
Estas transformações contemporâneas relativizam os fundamentos das
identidades nacionais. Em consequência, surgem nacionalismos, regionalismos,
etnicismos e fundamentalismos, que acabam por anular os espaços de interação,
fazendo com que as identidades não sejam mais negociadas, mas “simplesmente
afirmadas ou defendidas”. (CANCLINI, 2005, p. 197).
Stuart Hall (2006) percebe que a hibridizaçãoacontece em situações de
diáspora, onde se fazem necessários múltiplos processos de tradução cultural
experimentados na adaptação das matrizes culturais diferentes da sua origem.
O hibridismo não se refere a indivíduos híbridos, que podem ser
contrastados com os “tradicionais” e “modernos” como sujeitos
plenamente formados. Trata-se de um processo de tradução cultural,
agonístico, uma vez que nunca se completa, mas que permanece em sua
indecidibilidade (HALL, 2005, p. 74).
Essa tradução cultural é indicada como um processo de negociação entre
novas e antigas matrizes culturais, vivenciado por pessoas que migraram de sua
terra natal. Entre a identidade que ficou para trás e a que precisa ser negociada na
experiência dos deslocamentos, das migrações ou de refugiados.
3.2 IDENTIDADES E RECONHECIMENTO
O que é reconhecer e o que isso tem de ligação com o tema das identidades
em nossa época? Tem tudo a ver. Até agora, apontamos que as identidades em
nossos tempos procuram afirmar-se perante outras. Da mesma forma, as noções
identitárias essencialistas invisibilizam a diferença e, portanto, as identidades
plurais. Como dissemos antes, nenhuma identidade se constrói sozinha,
autossuficiente. É no delimitar fronteiras entre eu e outros que elas são fabricadas.
Segundo o antropólogo brasileiro Roberto Cardoso de Oliveira (2005),
atualmente muito se discute a respeito da identidade, mas não do aspecto do
seu reconhecimento. Ele se pergunta: o que significa a uma pessoa ou grupo ter
sua identidade reconhecida? A resposta deve ser procurada na linguagem, nas
bases filosóficas e antropológicas das sociedades. Ao explorar essas dimensões da
vida e as ideias fechadas de identidade que são formuladas cotidianamente, ao
problematizar essas dimensões e as suas naturalizações, trazemos o conhecimento
para o patamar do reconhecimento, para a dimensão pública.
70
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Desta maneira, reconhecer não tem somente a intenção de tornar o outro
“igual”, numa perspectiva de igualdade. Vai além, é um tema étnico envolvido na
produção do cotidiano e de nossas relações sociais e de poder. Por este caminho, o
tema do reconhecimento pode ser percebido do ponto de vista teórico. O cerne da
discussão pode ser localizado entre “uma visão redistributiva em oposição à ideia
de reconhecimento em nome da justiça social” (OLIVEIRA, 2005, p. 23).
Apresentamos, então, a discussão em torno da corrente teórica e
metodológica chamada “Teoria do Reconhecimento”, com boa inserção nos
espaços acadêmicos, intelectuais, sociais e políticos no nosso país. Trata-se de uma
corrente que transborda um campo transdisciplinar, que inclui a Antropologia,
a Sociologia, a Filosofia, a Política, por exemplo. Esta corrente está ligada a
alguns nomes e obras específicas. As três figuras mais importantes desse debate
são o canadense Charles Taylor, o sociólogo e filósofo alemão Axe Honneth e a
estadunidense Nancy Fraser.
A Teoria do Reconhecimento e seus autores lançam olhares para movimentos
sociais de gênero, étnicos, raciais, etários etc., repensando a posição subordinada
desses sujeitos e de suas identidades no contexto das relações econômicas e sociais.
Claro que pensam a dimensão cultural. Porém, a crítica está justamente nisso. No
reducionismo ao nível cultural.
Isso porque no cenário de nossa modernidade tardia, com os quadros sociais,
econômicos, políticos e culturais anteriormente descritos, movimentos sociais se
aproximam de questões de justiça no seio das sociedades contemporâneas. Elas
movimentam, performatizam o cultural. Estas identidades plurais se pautam mais
por reivindicações de reconhecimento cultural do que por reivindicações salariais
ou redistributivas. Vemos isso no exemplo da luta dos movimentos das mulheres
e de negros, por exemplo, em torno da igualdade salarial.
No interior da Teoria do Reconhecimento existem algumas divergências em
relação ao processo de reconhecimento. De um lado, por exemplo, podemos incluir
Taylor e Honneth. Do outro, Nancy Fraser, que está interessada no feminismo.
Além disso, existem debates intensos na forma como Honneth e Fraser percebem
os conflitos gerados pelas relações entre economia e cultura. Aqui, trataremos, por
questão de espaço, apenas destes dois. Fica o convite a pesquisar sobre a obra de
Charles Taylor.
Outra contribuição elementar na Teoria do Reconhecimento é do alemão
Axel Honneth. Para este autor:
[...] a diferença entre ‘conhecer’ (erkennen) e ‘reconhecer’ (anerkennen)
torna-se mais clara. Se por ‘conhecimento’ de uma pessoa entendemos
exprimir sua identificação enquanto indivíduo [...], por ‘reconhecimento’
entendemos um ato expressivo com o qual este conhecimento está
confirmado pelo sentido positivo de uma afirmação. Contrariamente ao
conhecimento, que é um ato cognitivo não público, o reconhecimento
depende de meios de comunicação que exprimem o fato de que outra
pessoa é considerada como detentora de um ‘valor’ social (HONNETH,
2004, p. 140 apud OLIVEIRA, 2005, p. 13).
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
71
Na discussão proposta pelo filósofo é dada condição especial à ideia de
‘injustiça’ para dar início à possibilidade de construir um movimento, uma luta
e uma moral de reconhecimento. Toda reação emocional negativa que vai de par
com a experiência de um desrespeito de pretensões de reconhecimento contém
novamente em si a possibilidade de que a injustiça infligida ao sujeito se lhe revele
em termos cognitivos e se torne o motivo da resistência política (HONNETH, 2003).
A partir da percepção da injustiça, pode-se iniciar uma luta de um grupo
politicamente organizado pelo reconhecimento de sua especificidade identitária.
Desta forma, a Teoria do Reconhecimento é uma teoria das lutas moralmente
motivadas de grupos sociais, sua tentativa de estabelecer institucional e
culturalmente formas ampliadas de reconhecimento recíproco, “aquilo por meio
do qual vem a se realizar a transformação normativamente gerida das sociedades”.
(HONNETH, 2003, p. 156).
Para Honneth (2003), interessa entender a dimensão da interação e o conflito
nas lutas por reconhecimento. Na luta contra a injustiça, os indivíduos percebem-
se como moralmente injustiçados. Para sintetizar (com riscos de simplificações),
a ideia central de Axel Honneth sobre as lutas por reconhecimento, vistas como
“gramática dos conflitos sociais” pode ser percebida como: desrespeito, luta por
reconhecimento e mudança social (HONNETH, 2003, p. 268).
DICAS
Sugerimos as leituras de:
• Luta por Reconhecimento – a gramática moral dos conflitos sociais, de Axel Honneth (2003).
• Reconhecimento sem ética? Artigo de Nancy Fraser (2007) publicado na Revista Lua Nova.
Honneth, como vimos, se interessa pelas lutas de reconhecimento.
Fraser, pela questão da justiça redistributiva.
Nancy Fraser (2002) percebe o modelo da identidade atualmente
muito discutido como profundamente problemático, produtor de reificações e
deslocamentos. Em razão do cenário global e econômico, ocorre um fenômeno
de “politização generalizada da política”, tendo como “centro de gravidade”
o reconhecimento da identidade e da diferença. Ao mesmo tempo, ocorre a
diminuição das reivindicações e lutas de classe. Assim, muitas políticas culturais
de reconhecimento de nossos dias encorajam o separatismo, o comunitarismo, a
intolerância, o patriarcalismo e autoritarismo.
Segundo Fraser, estas situações geram duas consequências: a) o
alargamento da contestação da política e um novo entendimento de justiça social
e; b) podem deslocar o foco das questões de redistribuição igualitária por políticas
72
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
de identidade. Para romper com este dilema, Fraser propõe uma concepção
bidimensional de justiça, levando em consideração as preocupações tradicionaisda justiça distributiva e igualmente abarcar as preocupações recentes salientadas
pelas filosofias do reconhecimento (FRASER, 2002).
O que Nancy Fraser (2002) quer dizer com reificação de identidades?
Seria aquela visão que se aproxima da identidade essencialista, como já vimos
anteriormente. Essa visão procura fechar-se numa unidade, limitando o diálogo
com outras culturas a partir de seus critérios. Mas, e as questões de justiça e de
status? Quer dizer, de cidadania? Porque, em geral, as desvalorizações identitárias
estariam subordinadas a relações sociais transmitidas através de padrões
institucionalizados de valor cultural: na forma de leis, de instituições sociais, de
hierarquia de valores.
Pensando na contribuição de Fraser, as lutas por reconhecimento nos
dias de hoje, com as graves desigualdades sociais e econômicas, o desemprego
e fenômenos sociais como a violência, atingem de maneiras distintas os grupos
sociais e culturais. Ao bater constantemente na ideia da identidade e das diferenças,
essas desigualdades acabam por ser menosprezadas, levando ao problema do
falso reconhecimento. Neste sentido, a falta de reconhecimento estaria reduzida
na depreciação de tal identidade pelo grupo dominante e no consequente dano
infligido ao sentido do eu dos membros do grupo.
FIGURA 25 – RECONHECER-SE A SI E AO OUTRO: QUESTÃO DE JUSTIÇA E REDISTRIBUIÇÃO
FONTE: Disponível em: <https://missaoposmoderna.files.wordpress.com/2013/04/mascaras-
1024x664.jpg>. Acesso em: 14 jun. 2017.
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
73
Assim, como finalizar esta discussão, articulando a Teoria do
Reconhecimento e as lutas identitárias dentro do olhar das Ciências Sociais?
O não reconhecimento é uma herança transgeracional, particularmente,
das classes populares e dos segmentos marginalizados moralmente.
A invisibilidade subjetiva e social é o verdadeiro estigma humano que
deflagra as lutas sociais. Intervir nesse vácuo pode significar uma revolução
silenciosa com desfecho expressivo (FUHRMANN, 2013, p. 92).
E a investigação sobre as origens do não reconhecimento pode ser um
empreendimento de pesquisadores da Antropologia, da Sociologia, da Filosofia,
da História, da Psicologia.
3.3 A CENTRALIDADE DA CULTURA
Dissemos anteriormente que entre os séculos XVIII e XIX, a Cultura foi
instrumento ideológico na expansão de fronteiras políticas e econômicas. Naquelas
épocas, junto com a cultura chegava o “Progresso” na perspectiva europeia,
em que a civilização e um tipo específico de modo de produção, o capitalismo
ainda nascente, em que o Estado e o mercado foram os agentes considerados
organizadores da sociedade, passaram a ocupar espaços além da Europa.
No século XX e XXI a discussão cultural tomou outro rumo. Desde
as contribuições dos estudos culturais e das reflexões sobre identidade, pós-
colonialismo, imigração, hibridização cultural, o papel da cultura nas sociedades
foi alçado a central. Por isso, aqui discutimos essa centralidade da cultura em
nossos dias.
Para as Ciências Sociais, a cultura sempre foi um objeto presente na
sua discussão. Vivemos hoje a expansão do cultural e sua centralidade na vida
contemporânea em todos os aspectos da vida social. Toda ação social é “cultural”,
que todas as práticas sociais expressam ou comunicam um significado e, neste
sentido, são práticas de significação. Estes sistemas ou códigos de significado
dão sentido às nossas ações humanas, que, como lembra Weber, são sempre
significativas. Eles nos permitem interpretar significativamente as ações alheias
(HALL, 1997).
Todavia, o autor percebe mudanças em duas dimensões da relação entre
cultura e Ciências Sociais, uma de caráter substantivo, outro epistemológico. O
primeiro refere-se à centralidade da cultura nos discursos políticos e sociais, nas
buscas por desenvolvimento etc. O outro, resultado dessas utilizações culturais, é
a revisão de antigas noções culturais de viés evolucionista, funcionalista, marxista
ou estruturalista.
O que significa que a cultura está sendo percebida teórica e
metodologicamente de outras maneiras? Epistemologicamente sob crítica? Bem,
por muito tempo, cultura e civilização se confundiam. E civilização carrega o peso
74
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
da sua época evolucionista e determinista. Se existem civilizados, também existem
os incivilizados, selvagens, como eram conhecidos todos os grupos e organizações
sociais e políticas não europeias entre os séculos XIX e início do XX.
FIGURA 26 – IMAGEM TÍPICA PARA INDICAR ASPECTOS DA SOCIEDADE BRASILEIRA
Ao invés de a Sociologia e Antropologia se perderem em modelos
normativos e descritivos de cultura, tidos como científicos, existe uma abertura
maior a descrições e interpretações. Tais novas estratégias problematizam com
maior ênfase a identidade e a cultura dos pesquisadores e os grupos, pessoas,
sociedades pesquisadas. A relação fica mais complexa.
Vejamos o exemplo do pós-colonialismo. Nossas bases mentais resultam
de nosso encontro e confronto com os europeus e suas conquistas territoriais que
iniciam em 1492 com a “Descoberta” da América, indo até o presente. Várias foram
as colônias europeias. E no século XX iniciou um movimento em vários continentes
em torno da independência dessas colônias. Do resultado cultural, intelectual e
político dessa “descolonização”, surgem os Estudos Pós-coloniais.
[...] o intento de descolonizar a História para projetar uma “verdadeira”
História da África segue sendo, aparentemente, um objetivo desta
geração de historiadores africanos. Este também era um desejo confesso
de muitos intelectuais estrangeiros que se dedicaram ao tema a partir
da década de 1960. Os movimentos de independência, neste sentido,
foram, sem dúvida, os motivadores para a ampliação e difusão dos
estudos africanos em todo o mundo (BARBOSA, 2008, p. 54).
FONTE: Disponível em: <http://escolakids.uol.com.br/public/images/legenda/fd16743578a981b742
c132c4938a82e1.jpg>. Acesso em: 14 jun. 2017.
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
75
O que queremos dizer é que nossas bases mentais têm preconceitos
tipicamente europeus. Podemos citar aqui o próprio Kant, filósofo que “inaugurou”
a filosofia moderna:
Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento
que se eleve acima do ridículo. O senhor Hume desafia qualquer um
a citar um único exemplo em que um negro tenha mostrado talentos,
e afirma: dentre os milhões de pretos que foram deportados de seus
países, não obstante muitos deles terem sido postos em liberdade, não
se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na
arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre os brancos,
constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa,
adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes. Tão
essencial é a diferença entre essas duas raças humanas, que parece ser
tão grande em relação às capacidades mentais quanto à diferença de
cores (KANT, 1993, p. 75-76).
Para Muryatan Santana Barbosa, no eurocentrismo pode ser observado
um etnocentrismo singular, entendido como uma ideologia, paradigma e/ou
discurso ou, ainda, como um paradigma qualitativamente diferente de outras
formas históricas (2008). Desta forma, os povos não europeus eram percebidos
crianças a serem educadas pelas luzes da Razão, apontando para “a crença na
excepcionalidade europeia” (p. 48). A grande problemática reside:
Apesar do que foi até aqui dito, seria um erro supor que, por serem
eivadas de eurocentrismo, a filosofia e a teoria social europeia dos
séculos XVIII e XIX em nada teriam contribuído para o desvelamento
de realidades históricas não europeias. Em verdade, pouco se escreveu
e analisou, até o início do século XX, acerca da história de outros povos
e civilizações. Há, entretanto, uma questãoimportante. O fato é que, ao
se expressarem como universalistas sendo, em verdade, provincialistas,
os europeus ajudaram a criar o instrumental teórico pelo qual os demais
povos poderiam, tendencialmente, ressignificar a imagem que aqueles
faziam de si (BARBOSA, 2008, p. 49)
Todavia, Barbosa (2008) indica que é muito difícil diminuir o eurocentrismo
a zero. Devido às próprias dinâmicas de um mundo que foi construído pelos
europeus. Para essa mudança, o autor indica a necessidade de se aliar disposição
científica e política.
Também podemos apontar para um efeito atual que pode ser percebido e
que exerce força para a elasticidade do termo “cultura”. O assunto é tratado por
George Yudice na obra “A Conveniência da Cultura” (2006). A tese é que diante dos
atuais problemas sociais, ambientais, culturais, políticos e econômicos, a cultura se
tornou um recurso conveniente. Veja:
[...] o conteúdo da cultura foi perdendo importância com a crescente
conveniência da diferença como garantia de legitimidade. Pode-se dizer
que as compreensões anteriores – os cânones de excelência artística; os
padrões simbólicos que dão coerência e conferem valor humano a um
grupo de pessoas ou sociedade, ou a cultura como disciplina – cedem
lugar à conveniência da cultura (YÚDICE, 2004, p. 454).
76
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
A questão é que no cenário internacional, a cultura se tornou um recurso
econômico muito importante desde pequenos grupos a grandes conglomerados de
multinacionais. É objeto de acordos de livre comércio, de legislação de propriedade
intelectual. Basta pensar na imensa riqueza econômica – para não falar de outras
questões - em torno dos filmes produzidos anualmente nos EUA. São centenas de
bilhões de dólares.
Da mesma forma, movimentos sociais, organizações da sociedade e outras
formas associativas têm utilizado a cultura para estimular novos padrões de
desenvolvimento locais, para vender produtos artesanais, para embalar lutas por
reconhecimento, e assim por diante.
Neste sentido, a Cultura aparece como elemento constitutivo dos
muitos processos sociais contemporâneos. Não foi à toa que na década de 1960
cultura relacionou-se com outros fenômenos típicos da época, como a ascensão
de reivindicações de corte identitário no impulso dos movimentos sociais de
gênero, ecológicos, pacifistas, muitas delas referindo-se a si próprias como
minorias culturais. Vale lembrar que os Estudos Culturais não representam um
esforço solitário de compreender as lógicas culturais. Se antes a Cultura era uma
dimensão habitada por autoridades políticas, intelectuais, militares e eclesiásticas
ou, então, por artistas e seus satélites, atualmente, a situação transformou-
se significativamente, potencializada pela contemporaneidade marcada pela
“reflexividade” e pelo “risco” (GIDDENS, 1991).
Já as explicações culturais que se baseiam tão somente em determinismos
biológicos ou geográficos mostram-se parciais ou superados. A cultura passou a ser,
de maneira geral, como construção histórica apreendida socialmente, carregando
hierarquias, significados, relações de poder, convenções, mentefatos e artefatos
que tornam inteligível a vida em grupo, sendo mutável, plural e carregada de
relações de poder. É construída e reconstruída socialmente, através das relações
sociais, sendo que sua transformação corresponde a um movimento complexo
entre interior e exterior de um grupo, território ou sociedade.
Essas visões rompem com a postura intelectual dos primórdios da
Modernidade, embebedada de crença no positivismo e no evolucionismo, em que
o padrão europeu e o nascente capitalismo e urbanização representariam o topo
da evolução civilizacional. Neste sentido, o trajeto político trilhado pela categoria
“cultura” vai da imposição de um modelo etnocêntrico de sociedade, de caráter
descritivo, até o presente, em que Cultura é Política, porque, acima de tudo, é
“Práxis”.
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
77
LEITURA COMPLEMENTAR
O AVANÇO DA EXTREMA DIREITA NA EUROPA
Marcello Musto
Jornal da UNICAMP
O sexto maior país da União Europeia em número de habitantes fez uma
guinada à direita. Depois de ter se afirmado nas presidenciais de maio, o partido
populista Lei e Justiça venceu as eleições polonesas, obtendo não apenas 39% dos
votos, mas a maioria absoluta no Parlamento.
Diferentemente dos recorrentes apelos ao nacionalismo e à palavra de
ordem “primeiro aos poloneses”, as reivindicações do Lei e Justiça no campo da
economia se concentraram na promessa de aumentar os gastos sociais, melhorar
os salários e reduzir a idade para a aposentadoria. Um programa de esquerda, em
um país onde a esquerda defendeu o neoliberalismo e ocupa, atualmente, uma
posição absolutamente marginal – situação que se repete em outros lugares do
continente.
Nos últimos vinte anos, o poder de decisão na Europa transitou em grande
parte da esfera política àquela econômica. A economia se tornou um âmbito
separado e intocável, que faz escolhas decisivas, porém fora do alcance do controle
democrático.
A uniformidade na essência das decisões tomadas pelos governos de
muitas nações e, em geral, a crescente hostilidade de grande parte da opinião
pública em relação à tecnocracia de Bruxelas, contribuíram para provocar uma
grande mudança no cenário europeu.
O VENTO POPULISTA
Os bipartidarismos instituídos, como aqueles espanhol e grego, implodiram.
O mesmo rumo parece tomar a bipolaridade dos casos italiano e francês, da qual
havia derivado uma nítida divisão de votos entre posicionamentos de centro-
direita e de centro-esquerda.
O panorama político europeu foi modificado – sem considerar a alternativa
ao neoliberalismo proposta por Syriza e Podemos, que merece uma reflexão à parte
– pelo acentuado crescimento dos índices de abstenção, o surgimento de partidos
populistas e o notável avanço das forças de extrema direita.
O primeiro fenômeno se manifestou no momento das eleições legislativas
de quase todos os Estados europeus.
O segundo, por sua vez, nasceu com a onda antieuropeísta. Nos últimos
anos, surgiram novos movimentos políticos declarados “pós-ideológicos”, que se
78
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
guiaram pela denúncia genérica contra a corrupção do sistema ou o euroceticismo.
Em 2006, com base nesses princípios, o Partido Pirata foi fundado na Suécia e na
Alemanha; em 2009, o Movimento 5 Estrelas se tornou a primeira força política
na Itália, com 25,5% dos votos. Em 2013, nasceu em Berlim o Alternativa para a
Alemanha. Em 2014 foi a vez do O Rio (TP) na Grécia e do crescimento em escala
nacional do Ciudadanos (C’s), movimento fundado na Catalunha em 2006.
No mesmo período, organizações partidárias já há tempos existentes se
afirmaram com propostas políticas parecidas. O caso mais ilustrativo é o do Partido
pela Independência do Reino Unido (UKIP), que com 26,6% dos votos se tornou a
primeira força nas últimas eleições europeias, acima do Manica.
A “NOVA” FACE DA DIREITA
O terceiro fenômeno aparece quando os efeitos da crise econômica
começaram a ser sentidos de forma mais intensa, momento em que os partidos
xenófobos, nacionalistas e neofascistas viram crescer enormemente seus votos.
Em alguns casos, mudaram seu discurso político, substituindo a clássica
divisão entre a direita e a esquerda pelo conflito “entre os de cima e os de baixo”.
Nessa nova polarização, esses partidos se candidataram como representantes da
última parcela, o povo, contra o establishment, ou seja, as forças que se alternaram
no governo favorecendo o superpoder do mercado.
O aparato ideológico desses movimentos políticos mudou. O componente
racista foi, em muitos casos, colocado em segundo plano em relação às temáticas
econômicas. A oposição às políticas imigratórias – já cegas e restritivas– aplicadas
na União Europeia se reforçou, recorrendo antes à guerra entre os pobres que
à discriminação baseada na cor da pele ou na fé religiosa. Em um contexto de
desemprego de massa e de grave conflito social, a xenofobia inflou por meio da
propaganda que apresentava os imigrantes como os principais responsáveis pelos
problemas relativos ao emprego e aos serviços sociais.
Essa mudança de rota certamente influenciou no resultado da Frente
Nacional na França, que alcançou 25,2% dos votos nas eleições municipais de 2015.
Na Europa, o partido de Marine Le Pen fez alianças com outras forças políticas
consolidadas que pedem, há tempos, a saída do euro, a revisão dos tratados sobre
imigração e a retomada da soberania nacional. Entre elas, as mais representativas
são a Liga Norte na Itália, cujos resultados eleitorais melhoraram, a ponto de ela se
tornar a primeira força de centro-direita nas eleições municipais de 2015; o Partido
da Liberdade austríaco, que conseguiu 20,5% dos votos nas eleições nacionais de
2013 e mais de 30% nas eleições municipais de Viena em 2015; e o Partido para
Liberdade holandês, que obteve 13,3% nas eleições europeias.
Pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, as forças de extrema
direita alcançaram resultados expressivos em outras regiões da Europa.
Na Suíça, as eleições recentes, de outubro de 2015, foram decididas com
29,4% dos votos para o Partido do Povo Suíço, organização da ultradireita xenófoba
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
79
e promotora do referendo, aprovado em 2009, para proibir a construção de novas
torres de mesquitas.
Também na Escandinávia, a extrema direita representa uma realidade bem
consolidada. Na pátria por excelência do “modelo nórdico”, o Democratas Suecos,
fundado em 1988 pela fusão de diversos grupos neonazistas, foi o terceiro partido
mais votado nas eleições legislativas de 2014, com 12,8% dos votos.
Na Dinamarca e na Finlândia, dois partidos criados em 1995 alcançaram
resultados ainda mais surpreendentes, transformando-se na segunda força política
desses países. O Partido Popular Dinamarquês foi o movimento político mais votado
nas últimas eleições europeias, com 26,6%. Esse sucesso foi confirmado nas eleições
legislativas de 2015, que na sequência lhe proporcionaram a maioria no governo.
Depois das eleições de 2015, às cadeiras do governo de Helsinki ascenderam
também os Verdadeiros Finlandeses, com 17,6% dos votos.
Por fim, na Noruega, com 16,3% dos votos, o Partido do Progresso chegou pela
primeira vez ao governo com posicionamentos políticos igualmente reacionários.
A destacada e quase uniforme afirmação desses partidos numa região onde
as organizações do movimento operário exercitaram uma indiscutível hegemonia
por longos anos foi possível também porque os partidos de extrema direita se
apropriaram de batalhas e temáticas que no passado eram caras à esquerda, tanto
a socialdemocrata, quanto a comunista.
A ascensão da direita adveio não somente fazendo apelo às clássicas
campanhas reacionárias, mas também àquelas contra a globalização, a chegada
de novos refugiados ou solicitantes de refúgio e o espectro da “islamização” da
sociedade. Na base de seu sucesso esteve, sobretudo, a reivindicação de políticas
tradicionalmente de esquerda, a favor do Estado Social. Trata-se, entretanto, de
um novo tipo de welfare. Não mais universal, inclusivo e solidário, como aquele
do passado, mas fundado em um princípio diferente: o acesso a direitos e serviços
exclusivamente aos membros da preexistente comunidade nacional.
Ao amplo apoio das zonas rurais e de província, despovoadas e com taxa de
desemprego recorde, a extrema direita escandinava reuniu, assim, aquele da classe
operária que, em grande parte, cedeu à chantagem da “imigração ou Estado Social”.
PERIGO NO LESTE
Até mesmo em diversos países do Leste europeu, a extrema direita
conseguiu se reorganizar depois do fim dos regimes pró-soviéticos. A União
Nacional Ataque na Bulgária, o Partido Eslovaco Nacional e o Partido Grande Romênia são
algumas das forças políticas que conseguiram bons resultados eleitorais e presença
no Parlamento.
Nessa área da Europa, o caso mais alarmante é o da Hungria. Em
seguida à introdução de severas medidas de austeridade aplicadas pelo Partido
80
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Socialista húngaro, em acordo com as intimações da Troika, e à grave crise
inflacionária derivada, subiu ao poder o Partido Fidesz. Além das medidas para
purificar a magistratura e estabelecer o controle da grande mídia, em 2012, o governo
húngaro introduziu uma nova Constituição com viés fortemente autoritário.
Para compor essa realidade já ameaçadora, desde 2010, o Movimento por
uma Hungria Melhor (Jobbik) se tornou o terceiro partido do país (com 20,5% dos
votos nas eleições de 2014). Mas, diferentemente das forças presentes na Europa
ocidental e escandinava, Jobbik representa o clássico exemplo – hoje dominante no
Leste – de formações de extrema direita que continuam a se valer do ódio contra as
minorias (em particular aquela cigana), o antissemitismo e o anticomunismo como
principais instrumentos de propaganda e de ação.
Enfim, completam esse panorama as várias organizações neonazistas
espalhadas em diversas áreas da Europa. Um exemplo é o Aurora Dourada, que
com 9,4% nas eleições europeias de 2014 e 7% nas eleições de setembro de 2015
afirmou-se, em ambos os casos, como a terceira força política da Grécia.
Nesses anos, portanto, os partidos de extrema direita nitidamente ampliaram
seu apoio em quase todas as partes da Europa. Muitas vezes, conseguiram
hegemonizar o debate político e, em alguns casos, a entrar no governo.
A crescente expansão da União Europeia deslocou à direita o centro de
gravidade político do continente, como testemunharam as rígidas posições
extremistas assumidas pelos governos da Europa oriental durante a recente crise
na Grécia e diante da chegada de povos em fuga dos palcos de guerra.
Trata-se de uma epidemia muito preocupante, para a qual é impossível
pensar em uma resposta sem combater o vírus que a gerou: o mantra neoliberal
hoje ainda tão em voga em Bruxelas.
FONTE: Disponível em: <http://www.unicamp.br/unicamp/sites/default/files/jornal/paginas/ju_646_
paginacor_11_web.pdf>. Acesso em: 7 jul. 2017.
81
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• Que em nossa época pós-moderna ou de alta modernidade as concepções sobre
identidade são percebidas de modo mais plural.
• Identidade e diferença passam a ser percebidas como relacionais. Elas são
concebidas como atos de criação linguística reproduzidos por meio de sistemas
simbólicos. As identidades adquirem sentido por meio de linguagem e dos
sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas.
• Que em razão dessa complexidade existe uma forte crítica de cunho
epistemológico sobre as bases que assentam identidades essenciais. Daí a
importância dos Estudos Culturais, do impacto da globalização na análise clássica
das Ciências Sociais, a centralidade da Cultura e a Teoria do Reconhecimento.
• A Teoria do Reconhecimento preocupa-se com as questões culturais. Porém,
articula esse debate a questões de injustiça e de justiça redistributiva. Quer dizer,
os fenômenos como cultura, identidade, racismo etc. têm impactos materiais.
• A globalização (ou as globalizações) tem trazido novas formas de encarar o
indivíduo dentre o global e nacional. Novas identidades locais, regionais,
híbridas têm sido trazidas ao debate.
82
1 Qual a importância da Teoria do Reconhecimento para as lutas de gênero e
étnicas?
2 Sintetize a ideia de Boaventura de Sousa Santos sobre “globalizações”.
3 Segundo Anthony Giddens e Zygmunt Bauman, quais as características das
identidades na nossa época?
4 Na questão da produção socialda identidade, explique o papel da diferença.
5 O que é uma identidade híbrida para Nestor Garcia Canclini e para Stuart
Hall?
AUTOATIVIDADE
83
UNIDADE 2
TEORIAS DA ETNICIDADE,
RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE
MULTICULTURAL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade tem por objetivos:
• possibilitar a compreensão do desenvolvimento do conceito de etnicidade
e sua relação com as ciências sociais;
• demonstrar as diferenças e similaridade entre os conceitos de raça, nação,
etnia, assim como os empréstimos e contribuições entre eles;
• possibilitar a compreensão do conceito de etnia por meio dos pensamento
de Fredrich Barth, quando discute identidade, grupos e fronteiras étnicas;
• demonstrar a importância da etnia como conceito analítico para compre-
ender as realidades sociais na modernidade;
• refletir sobre as diásporas e deslocamentos na atualidade e os impactos
advindos da mobilidade na modernidade.
Esta unidade está dividida em três tópicos. Você encontrará atividades que
visam à compreensão dos conteúdos apresentados no final de cada tópico.
TÓPICO 1 – CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E
SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
TÓPICO 2 – RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS
ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
TÓPICO 3 – GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPOR-
TANTES PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS
ONTEM E HOJE
84
85
TÓPICO 1
CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E
SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Caros acadêmicos, nesta unidade de estudos vamos tratar de temas acerca
de questões pouco comuns na sua trajetória acadêmica, mas que estão muito
presentes nas Ciências Humanas, especialmente nas Ciências Sociais. São as
chamadas Teorias Sociais sobre as relações étnico-raciais.
Essas teorias sociais servem para mostrar como os problemas que ocorrem
em nossas sociedades são decorrentes destas relações e como é importante e
necessário construir uma educação multicultural e uma pedagogia antirracista e
plural com base nessas teorias sociais.
FIGURA 27 - DIVERSIDADE NA ESCOLA
FONTE: Disponível em: <https://sites.google.com/site/geografiadiversidadecultural/conclusao>.
Acesso em: 20 mar. 2017.
Todos nós já ouvimos falar do antissemitismo, que na Segunda Guerra
Mundial justificou o genocídio de milhares de judeus e ciganos. Também já ouvimos
falar sobre o regime de segregação racial (Apartheid) por tanto tempo combatido
por Nelson Mandela na África do Sul. Já ouvimos falar sobre o racismo nos Estados
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
86
Unidos, especialmente no sul do país e seus tão importantes movimentos sociais
de resistência. Também a maioria de nós já ouviu falar sobre a xenofobia ou sobre
o racismo emergente nos países europeus, em relação aos imigrantes africanos,
árabes e outros. Já ouvimos falar sobre os Skinheads, um movimento de jovens de
origem operária, muito ligado ao neonazismo, além de outras tantas situações de
preconceito e discriminação. Tudo isso é bastante conhecido, e, apesar de serem
atitudes condenáveis, do ponto de vista dos direitos humanos, foram e ainda são,
em muitos países, consideradas aceitáveis. Essas atitudes são reproduzidas pela
educação, na maioria das vezes repassadas pela escola e pelas próprias famílias,
de geração em geração.
Vocês devem estar se perguntando: afinal de contas, onde estão as
explicações para estes absurdos? Onde começam e por que ainda hoje continuam a
ocorrer, mesmo contrariando os princípios de solidariedade humana?
Evidentemente que não há soluções fáceis, nem receitas de combate que
deem conta das desigualdades e dos preconceitos, pois tratam-se de fenômenos
dinâmicos e complexos no tempo e no espaço.
O que se pode afirmar é que o ponto de partida para os preconceitos e
discriminações sociais parece estar quase sempre ligado à noção de DIFERENÇA.
E que diferenças seriam estas?
As diferenças entre nós e os outros, entre os membros do nosso grupo e
os membros dos outros grupos, entre homens e mulheres, entre heterossexuais
e homossexuais, entre brancos e negros, entre pobres e ricos, entre esta e aquela
etnia, entre esta e aquela religião.
Tomando como exemplo as comunidades religiosas, vamos verificar que
os membros de cada uma delas pensam que sua religião é a melhor e a única
verdadeira. Há inúmeros exemplos, na sociedade, de conflitos que nasceram por
conta de diferenças religiosas. A história da humanidade está repleta de guerras
religiosas, como as cruzadas cristãs, as inquisições, as guerras santas muçulmanas,
os conflitos entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte, conflitos entre
muçulmanos e católicos na Nigéria, conflito entre o ortodoxo católico e muçulmano
em alguns países do Leste Europeu, como Kosovo. A partir também de uma questão
religiosa se pode perceber que um país como a Índia organiza sua sociedade
de forma hierarquizada, em castas superiores e inferiores e que também geram
problemas de discriminação e de desigualdade.
Mesmo em sociedades indígenas ou tribos africanas se pode observar
diferenças e discriminações étnicas permeadas por relações de hierarquia. Ao
olharmos para todas as nações do mundo, poderemos perceber que existem nações
que se acham superiores às outras, nascendo daí o preconceito de nacionalidade
que pode gerar ideologias como o nacionalismo e o fascismo.
Caros acadêmicos, vejam vocês que cada forma de preconceito que citamos
aqui pode levar a um tipo de discriminação. Pode ser religiosa, racial, de sexo, de
idade, de etnia, de cultura, de nacionalidade, entre outras. Por isso dizemos que o
preconceito e a discriminação ocorrem sempre com base na diferença.
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
87
Por este motivo, nesta unidade de estudos vamos tratar de alguns
temas considerados essenciais para compreender a questão das diferenças, das
desigualdades sociais com foco nas relações interétnicas.
2 DISCUTINDO A HISTORICIDADE DO TERMO ETNIA E SUA
RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
Tradicionalmente, as ciências sociais têm evitado discutir amplamente
a constituição dos grupos étnicos e a natureza de suas fronteiras, isso porque,
especialmente no pensamento antropológico, consolidou-se uma perspectiva que
considera que os grupos humanos compartilham uma cultura comum e que a
variação cultural só seria possível na troca entre culturas distintas e não no interior
de uma mesma cultura. Pensava-se que cada cultura se desenvolvia isoladamente
e que, portanto, tratava-se de simplesmente observá-la e compará-la a outras,
sem observar as diferenças em sua própria constituição. O termo etnia, como um
conceito analítico para a compreensão dos agrupamentos humanos e para a noção
de pertencimento, só começa a ser utilizado na década de 1960. Essa expressão
aparece como uma forma cada vez mais comum de pensar a diferença, a partir
de estudos sobre imigração, racismo, violência urbana e outros, decorrentes dos
movimentos sociais do período.
FIGURA 28 - MOVIMENTOS SOCIAIS DA DÉCADA DE 1960
FONTE: Disponível em: <http://desinteracao.tumblr.com/post/25132636707/contracultura-novos-
ideais-nova-sociedade>. Acesso em: 20 jun. 2017.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
88
Antes disso, na década de 1940, na Inglaterra, França e EUA, por exemplo,
nas primeiras acepções, o termo etnicidade designava simplesmente a pertença
a um outro grupo que não os anglo-americanos (grupo branco predominante), e
era utilizado como uma variável independente entre outros, como raça e religião.
Era compreendido como um dos elementos a contribuir para o entendimento do
comportamento dos indivíduos em sociedade.Pode-se dizer que essa maneira de perceber a etnia foi uma postura
etnocêntrica, na medida em que determinava o grupo étnico como o diferente em
relação àqueles que de fato, conforme destacam Poutignat e Streiff-Fenart (2011),
tinham o “poder de nomear”.
Lévi-Strauss, um dos mais importantes antropólogos conhecidos, na década
de 1970 acabou admitindo que a antropologia, em suas primeiras tentativas de
interpretar as sociedades humanas, confundiu a noção essencialmente biológica
da raça com as características étnicas e culturais dos povos, o que ele chamou
de “pecado original da antropologia”. Para ele, esta confusão conceitual seria
responsável pela “legitimação involuntária de todas as tentativas de discriminação
e exploração” (SANSONE; FURTADO, 2014).
NOTA
“Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado
como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através de nossos valores,
nossos modelos, nossas definições do que é a existência. No plano intelectual, pode ser
visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos de
estranheza, medo, hostilidade etc.” (ROCHA, 1994, p. 7).
De acordo com Poutignat e Streiff-Fenart (2011), o autor a introduzir o
conceito de etnia foi o francês Vacher de Lapouge, ainda em meados do século
XIX. Ele tentava diferenciar o sentido de raça – que ele identifica como a reunião
de características morfológicas de um determinado grupo humano, como cor de
pele, altura etc. – das características psicológicas presentes nos grupos, como a
cultura, a língua, a intelectualidade e as relações sociais. Para ele, a composição
das características psicológicas ocorre por fatores, inclusive opostos aos que levam
um grupo a se organizar com base na raça. O agrupamento com base psicológica
não leva em conta fatores raciais, mas sim acontecimentos históricos, políticos, ou
costumes comuns.
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
89
FIGURA 29 - GEORGES VACHER DE LAPOUGE (1854-1936)
FONTE: Disponível em: <https://www.contreculture.org/AT_Vacherd
eLapouge.html>. Acesso em: 16 abr. 2017.
Lapouge afirma ainda que não se pode confundir etnia com a ideia
de nação, visto que a solidariedade desses grupos, muitas vezes, se mantém
independentemente das fronteiras nacionais. Mesmo distantes, os grupos étnicos
mantêm sua afinidade. Para dar conta da solidariedade de um grupo particular,
diferentemente daquela produzida na ideia de nação e de raça, é que incialmente
o termo foi inserido nas ciências sociais por Lapouge (POUTIGNAT; STREIFF-
FENART, 2011).
A partir de 1950, alguns estudiosos norte-americanos vão romper com o
conceito antigo de etnicidade, quando começam a observar os diferentes grupos
sociais. Eles passam a falar de determinados grupos como ethnics, ao passo que
outros não o seriam. Definem etnia com base no seguinte entendimento:
Se numa dada comunidade, “n” representa o número de grupos,
segundo a antiga definição, ao passo que “n-1” representa o número
de grupos segundo a nova definição, um dentre eles não é étnico, ou
seja, o grupo étnico originário da comunidade. E existem pessoas que
são étnicas, a saber, aqueles que diferem dele e que, por isso, não são
considerados como membros integrais da sociedade local (HUGHES,
1952, p. 137 apud POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 23).
Dito de outra forma, em uma sociedade em que há mistura de diferentes
culturas, seriam étnicos todos aqueles que não pertencessem originalmente ao
território. Por outro lado, os pertencentes ao território (os nativos) seriam não
étnicos.
Por exemplo, se pudéssemos nos transportar para o momento das primeiras
expedições portuguesas e espanholas nas Américas, poderíamos classificar os
espanhóis e os portugueses como étnicos e os indígenas nativos americanos como
não étnicos (HUGHES, 1952 apud POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011).
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
90
FIGURA 30 - ETNIA NOS ANOS 1950
FONTE: Disponível em: <https://blogdocastorp.blogspot.com.br/2015/06/oswald-
de-andrade-erro-de-portugues.html>. Acesso em: 16 abr. 2017.
Na década de 1950 essas pesquisas eram realizadas quase sempre com
base na resposta dos entrevistados sobre qual o país de origem de seus ancestrais.
Assim, pensava-se identificar por antecedência a etnia de um dado grupo social
com base apenas em suas origens estrangeiras. Não se consideravam as relações,
as transformações e os processos de aculturações estabelecidos no novo território.
Muito menos as miscigenações étnicas e culturais ocorridas em seu próprio
território de origem.
Somente mais tarde, por volta da década de 1960, surgem os primeiros
estudos que vão quebrar com a visão comum sobre as relações étnicas. De acordo
com Poutignat e Streiff-Fenart (2011), os pensamentos de Walerstein (1960) e
Gordon (1964) acabam produzindo estudos nos quais o termo etnicidade começa
a ser percebido não apenas como a designação de um pertencimento étnico, mas
também como os sentimentos associados a este pertencimento. O sentimento de
formar um povo, o sentimento de pertencer a um grupo com uma história comum.
Um exemplo que pode ilustrar esse pensamento é o caso dos afro-
americanos e suas associações urbanas, na década de 1960, nos EUA. Sua maneira
de expressar a religião, seus cantos e ritmos, o movimento pelos direitos humanos,
suas expressões culturais, seus valores e comportamentos. Essa composição cultural
estava estruturada sobre uma ideia de pertencimento a um grupo, mas também
aos sentimentos de dor, medos e alegrias, forjados sobre uma mesma história, a
história da escravidão, da opressão e do distanciamento de sua identidade africana.
Somente após a década de 1970 é que o termo etnicidade de fato vai impor-
se nas ciências sociais, com vários trabalhos, conferências, programas de pesquisa
e também a criação de revistas especializadas na área.
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
91
O fato de um campo de estudos, há pouco tempo tão insignificante para
as ciências sociais, ter adquirido status e relevância acadêmica estava diretamente
relacionado ao contexto histórico e social de lutas e conflitos, considerados então
“étnicos”, ou com “componentes étnicos” que emergiram em vários países, em
nações de terceiro mundo e em países considerados pluriculturais, logo após a II
Guerra Mundial.
Poutignat e Streiff-Fenart (2011) acreditam que a desestruturação do
colonialismo e as mudanças nas estruturas de autoridade nas sociedades ocidentais
provocaram um acirramento das disputas entre os grupos étnicos em vários países,
permitindo a luta por espaços de poder, produzindo situações de conflito, de
competição, de regionalismos, de luta por territórios, tribalismos na África e outros.
FIGURA 31 - GUERRA DE KOSOVO (1999)
FONTE: Disponível em: <http://32war.blogspot.com.br/>. Acesso em: 17 jul. 2017.
A Guerra do Kosovo começou no dia 24 de março de 1999, na
Iugoslávia, e acabou no dia 9 de junho do mesmo ano. Foram 79 dias de
intensos bombardeios. De um lado, a província, Kosovo, lutando pela
independência, e de outro, as forças sérvias, sob a liderança do presidente
iugoslavo, Slobodan Milosevic, que não aceitava perder a província. Kosovo
era uma província que tinha uma composição étnica e religiosa diferente da
maioria da Iugoslávia, que era sérvia. Os kosovares são de origem albanesa
e muçulmana, enquanto os sérvios são cristãos ortodoxos. Como 90% da
população de Kosovo é albanesa, iniciou-se um movimento gerado pelos
kosovares que buscava a separação de sérvios e albaneses, para que estes
últimos tivessem autonomia. Slobodan Milosevic enviou tropas para a região
com a ordem de aniquilar por completo a rebeliãodos kosovares. Os ataques
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
92
aéreos mataram um grande número de civis inocentes. Diante dos ferozes
ataques comandados pelo presidente da Iugoslávia, a ONU enviou suas
tropas para os Balcãs a fim de colocar um ponto final nas ações militares.
FONTE: Disponível em: <http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2015/06/ha-16-anos-termina
va-guerra-do-kosovo>. Acesso em: 17 abr. 2017.
Por estes motivos é que a questão da etnicidade passa a fazer parte da
agenda de estudos dentro das universidades. Por que era necessário compreender
aquela realidade social tão específica dos grupos étnicos, que só foi possível
conhecer devido à emergência das lutas sociais e da mobilização desses grupos.
Foi precisamente por esses movimentos que o elemento étnico se torna objeto
de estudos relevante para as ciências sociais. Juntamente com o debate étnico,
o multiculturalismo enquanto movimento e campo de estudos também se
desenvolveu e se expandiu nesse momento, devido a demandas sociais emergentes.
Sobre o multiculturalismo, veremos mais adiante nesta unidade.
Procurando traçar um paralelo sobre a importância dos estudos étnicos e
multiculturais, vamos abrir um parêntese e lembrar um conceito muito importante
para as Ciências Sociais, que também emergiu devido a uma problemática
específica da sociedade industrial no século XVIII na Europa, que foi o de Classe
Social. Este conceito, desenvolvido por Karl Marx, foi fundamental para interpretar
a sociedade naquele momento.
Marx criou o conceito de classes para explicar as desigualdades sociais e
de que forma essas desigualdades poderiam ser enfrentadas. Para ele, havia duas
classes sociais distintas e antagônicas, tanto do ponto de vista econômico quanto
ideológico: os burgueses e os proletários. Os burgueses eram os donos do capital,
das indústrias, das terras e das máquinas, enquanto os proletários eram apenas
trabalhadores braçais das fábricas, assalariados e sem propriedades.
Na relação que se estabelecia entre esses dois grupos sociais, os proletários
eram considerados o elo mais fraco e com menor poder de barganha para negociar,
sendo constantemente explorados. Por isso, Marx entendia que só seria possível
quebrar a hegemonia dos burgueses em relação aos proletários por meio da luta
de classes.
Influenciados pelo pensamento marxista ou não, o fato é que os países
industrializados e em processo de industrialização na Europa do século XVIII
viveram diversas lutas sociais, especialmente por direitos trabalhistas, econômicos,
sociais e políticos.
Nesse sentido, o conceito de classe social foi e é ainda muito importante
para compreender a produção das diferenças, das desigualdades e das hierarquias
sociais. Para Marx, a realidade social é produzida com base nos interesses de classe
e não como um processo natural de disputa entre iguais.
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
93
FIGURA 32 - REPRESENTAÇÃO DE CLASSES SOCIAIS
FONTE: Disponível em: <https://pt.slideshare.net/Joao_Marcelo/classes-sociais
-47627316>. Acesso em: 12 abr. 2017.
Da mesma forma, o conceito de etnia no século XX entra em cena como
um elemento fundamental para compreender as transformações sociais agora em
curso no mundo contemporâneo. Percebe-se que apenas o conceito de classe social
não dá conta de explicar a produção das desigualdades sociais, surgindo assim o
conceito de etnia como instrumento de análise sobre a produção das diferenças.
Nesse sentido, a consciência de pertencer a um grupo, juntamente com
a concepção de direitos humanos que começava a se fundamentar, logo após as
lutas libertárias da década de 1960, impulsiona esses grupos a buscarem direitos
coletivos, a lutar por espaços, a demarcar territórios. Portanto, a categoria etnia
torna-se uma ferramenta sociológica e antropológica para compreender as ações
sociais em curso, especialmente nas décadas de 1960 e 1970.
Por este motivo, o conceito de etnia aparece como uma nova categoria social
igualmente importante para a análise do século XX, tanto quanto foi a categoria de
classe social para o século XIX.
Atualmente, o termo etnicidade tem estado presente em várias disciplinas
das Ciências Sociais, e tem sido discutido em vários países do mundo, incluindo os
países em desenvolvimento, os países em fase de pós-colonização, as sociedades
pós-industriais e outras.
De maneira geral, o termo tem sido definido de forma ampla, sendo
considerado como uma dimensão universal das relações humanas, e não como
características que o senso comum define como étnicas.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
94
Essas diferenças não necessariamente estariam relacionadas a características
físicas, como a cor de pele, o formato dos olhos ou a cor do cabelo. Também
poderiam não estar relacionadas unicamente a traços culturais semelhantes, mas
possivelmente à reunião desses elementos, assim como a noção de pertencimento
a um grupo, ou subgrupos de uma mesma cultura. Vejamos a seguir um pouco
mais sobre o conceito de etnia.
2.1 CONCEITUANDO ETNIA E ETNICIDADE
Caros acadêmicos, já que estamos falando em etnia, consideramos
importante resgatar a história da palavra. O que vem a ser etnia e de onde surgiu
este termo?
Etnia tem origem na palavra grega ethos e seu significado está relacionado
aos hábitos e costumes de um determinado povo. Também está relacionada a
outra palavra grega, chamada etnhos, que significa raça, povo e cultura. De acordo
com Sansone e Alves (2014), o termo servia para definir aquelas populações que
não tinham acesso à pólis, e por isso não participavam do regime social, político e
moral da cidade-estado. O termo etnia, em sua fase inicial, carregava, portanto, um
sentido de exclusão social.
Com o passar do tempo, quando o termo etnia passa a ser considerado pelas
Ciências Sociais, especialmente pela antropologia no século XIX, ele adquire uma
dimensão inclusiva, passando a ter a função de classificar as diferentes sociedades
e grupos humanos, assim como o conceito de raça e nação. Vejamos a seguir como
este verbete é definido na perspectiva sociológica do termo.
A etnia define-se, geralmente, como uma população designada por um
nome (etnónimo), que se reclama de uma mesma origem, que possui uma
tradição cultural comum, especificado por uma consciência de pertença ao
mesmo grupo cuja unidade se apoia em geral numa língua, num território
e numa história idênticos. Contudo, cada um destes critérios deve ser
ponderado. O etnónimo pode ter sido um reagrupamento operado pelas
necessidades da administração colonial. O nome pelo qual um grupo
se designa valorizando-se pode diferir daquele pelo qual os vizinhos o
designam. Em muitas etnias, de dimensão variável, nas doze mil que se
enumeram em todo o mundo, a unidade foi reconstruída miticamente e
as tradições locais propagaram mitos errados envolvendo tanto as cisões
como os reagrupamentos após conquista, migração, federação, aliança.
Por vezes, os membros de uma etnia dominada adotaram a língua do seu
dominador (por exemplo, no Futa-Djalon guineense). O mesmo território
pode ser partilhado em várias etnias e a mesma etnia pode encontrar-
se em espaços afastados (Arménios, Peules). Tendo a história oral sido
sujeita a manipulações é a identificação dos membros com uma etnia e o
seu sentimento de pertença bilateral que especifica a etnia enquanto tal
(UFSC, 2017, p. 186).
Portanto, o conceito de etnia por obrigação deve ser flexível, porque não
se pode atribuir a etnia a um espaço geográfico restrito, nem a uma nação ou
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
95
cultura particular. Os componentesétnicos podem mesmo sofrer variações ou
interferências, dependendo dos contingentes históricos.
Como você pode perceber, o conceito de etnia é complexo e multifacetado.
Por este motivo, devemos recorrer a um dos mais importantes pesquisadores,
considerado referência de base para discussão das questões étnicas na atualidade,
o antropólogo Fredrick Barth.
Esse antropólogo nasceu na Alemanha, na cidade de Leipzig no ano de
1928. Em sua trajetória acadêmica atuou como professor e pesquisador em várias
universidades na área de antropologia social. Em Boston e Atlanta, nos Estados
Unidos, na Universidade de Oslo, na cidade de Bergen, na Noruega, onde fundou
o Departamento de Antropologia Social, e na Universidade de Harvard.
FIGURA 33 – FREDRICK BARTH
FONTE: Disponível em: <https://alchetron.com/Fredrik-Barth-160509-W>.
Acesso em: 20 fev. 2017.
Sua mais importante obra foi “Os grupos étnicos e suas fronteiras”,
editada em 1969. Nesta obra o autor discorre sobre o estudo da etnia, focando
no desenvolvimento das negociações sobre as fronteiras geográficas entre grupos
humanos. Barth conseguiu inserir na pauta das Ciências Sociais esse conceito
analítico para dar conta das especificidades étnicas presentes em uma mesma
cultura, demonstrando que a etnicidade é um elemento gerador de laços muito
mais profundo do que a simples convivência em uma sociedade com mesmos
padrões culturais.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
96
Barth foi casado com Unni Wikan, uma norueguesa, professora de
Antropologia Social, também da Universidade de Oslo. Até pouco tempo era
professor de Antropologia também na Universidade de Boston, mas faleceu de
causas naturais em 24 de janeiro de 2016, aos 87 anos de idade. Vejamos agora o
que diz Fredrick Barth sobre a questão da etnia na atualidade.
Fredrick Barth defende que não existem diferenças objetivas que fazem
com que os grupos se organizem com noção de pertencimento coletivo.
Ou seja, as pessoas se reúnem e se agrupam não necessariamente em
função da sua cor de pele ou de caraterísticas culturais comuns, mas
por questões subjetivas na construção de suas identidades (AGUIAR,
2007, p. 88).
Para Barth (1976), ainda não está superada a ideia de que as culturas podem
ser preservadas se estiverem suficientemente distantes de culturas vizinhas, se
estiverem isoladas socialmente ou geograficamente. Para o autor, traços culturais
ou identidade étnica podem permanecer, independentemente dos processos de
interação cultural ou aculturações. Nas palavras de Barth (1976, p. 9, tradução
nossa):
As distinções étnicas categóricas não dependem de uma ausência
de mobilidade, contato ou informação; em vez disso, elas envolvem
processos sociais de exclusão e de incorporação pelo qual categorias
discretas são mantidas apesar de mudar a participação no curso de
histórias individuais. Em segundo lugar, é mostrado que certas relações
sociais estáveis, persistentes, e muitas vezes importantes permanecem
acima desses limites [...] Em outras palavras, as distinções étnicas
não dependem de uma ausência de interação e aceitação social; por
outro lado, geralmente elas são a base sobre a qual são construídos
sistemas sociais que as contenham. Em um sistema social, a interação
não leva a sua liquidação, como resultado da mudança e aculturação;
diferenças culturais podem persistir, apesar do contato interétnico e
interdependente.
Sabendo que o conceito de etnia é muito amplo e bastante complexo do
ponto de vista das abordagens científicas, e para dar conta de uma necessidade
acadêmica de definição do termo podemos inferir que etnicidade é o conjunto de
características comuns a um grupo de pessoas que as diferenciam de outro grupo.
Normalmente essas características incluem a língua, a cultura e também a noção
de uma origem comum. Etnicidade é a autoconsciência da especificidade cultural
e social de um grupo particular.
Luvizotto (2009) define etnicidade ainda como um conceito relacional.
Para ele, uma entidade relacional está sempre em construção, de um modo
predominantemente contrastivo. Significa dizer que a etnicidade é construída no
contexto das relações e conflitos intergrupais, ou seja, do mesmo modo que os
conceitos de classe e de gênero se constroem na relação com o outro, também o
conceito de etnicidade somente é possível devido ao contraste com o diferente,
com o outro, com aquele que não se assemelha a mim. Por isso, pode-se dizer que
é na comparação com os outros que posso conhecer minha identidade e reconhecer
os meus.
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
97
LEITURA COMPLEMENTAR
Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva
O conceito de etnia vem ganhando espaço cada vez maior nas Ciências
Sociais, a partir das crescentes críticas ao conceito de raça e, em alguns casos,
ao conceito de tribo. Apesar disso, é ainda considerado por muitos uma noção
pouco definida. O termo etnia surgiu no início do século XIX para designar as
características culturais próprias de um grupo, como a língua e os costumes. Foi
criado por Vancher de Lapouge, antropólogo que acreditava que a raça era o fator
determinante na história. Para ele, a raça era entendida como as características
hereditárias comuns a um grupo de indivíduos. Elaborou então o conceito de etnia
para se referir às características não abarcadas pela raça, definindo etnia como
um agrupamento humano baseado em laços culturais compartilhados, de modo a
diferenciar esse conceito do de raça (que estava associado a características físicas).
Já Max Weber, por sua vez, fez uma distinção não apenas entre raça e
etnia, mas também entre etnia e nação. Para ele, pertencer a uma raça era ter a
mesma origem (biológica ou cultural), ao passo que pertencer a uma etnia era
acreditar em uma origem cultural comum. A nação também possuía tal crença,
mas acrescentava uma reivindicação de poder político. A etnia é um objeto de
estudo da Antropologia, e se caracterizou desde cedo como tema principal da
Etnologia, ciência que se propõe a estudar diferentes grupos étnicos, constituindo-
se em torno da própria noção de etnia.
Durante o século XX, essas duas disciplinas multiplicaram as conceituações
sobre o termo. Autores como Nadel e Meyers Fontes afirmam que uma etnia é
um grupo cuja coesão vem de seus membros acreditarem possuir um antepassado
comum, além de compartilharem uma mesma linguagem. Para essa definição,
baseada em Weber, uma etnia seria um conjunto de indivíduos que afirma ter
traços culturais comuns, distinguindo-se, assim, de outros grupos culturais. Nesse
sentido, não importa se o grupo realmente descende de uma mesma comunidade
original: o que importa é que os indivíduos compartilhem essa crença em uma
origem comum. Uma crença confirmada, a seu ver, pelos costumes semelhantes.
Assim, uma etnia se sente parte de uma mesma comunidade que possui
religião, língua, costumes - logo, uma cultura - em comum. Notemos que nesse
conceito não importa somente o fato de as pessoas que compõem uma etnia
compartilharem os mesmos costumes, mas sobretudo o fato de elas acreditarem
fazer parte de um mesmo grupo. Nesse sentido, a etnia é uma construção artificial
do grupo, e sua existência depende de seus integrantes quererem e acreditarem
fazer parte dela.
Toda etnia se identifica como um grupo distinto, considerando-se diferente
de outros grupos, e baseia sua identidade em uma religião e rituais específicos.
Assim, os judeus e muçulmanos dentro das atuais nações europeias são, cada um
por seu lado, etnias, por se identificarem como grupos distintos e reivindicarem
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
98
identidades próprias baseadas em religiões e costumes diferentes dassociedades
em que estão inseridos. No caso dos muçulmanos, a construção artificial desse
conceito é mais nítida, pois quase sempre oriundos de migrações recentes para a
Europa, seus integrantes são originários de diferentes países e culturas distintas,
mas ao se instalarem em lugares como a França e a Inglaterra em geral se identificam
como uma mesma etnia, independentemente do país de origem. Tal situação pode
ser percebida, sobretudo, com relação aos descendentes dos primeiros imigrantes,
e a construção de uma identidade comum "árabe" ou "muçulmana" vem tanto do
fato de possuírem uma mesma religião quanto do fato de a sociedade os tratar em
geral como um grupo homogêneo.
Alguns sociólogos diferenciam etnia e grupo étnico, pois para eles um
grupo precisa de uma interação entre todos os seus membros, enquanto a etnia
abrange um número grande demais de pessoas para que haja relação direta entre
todas elas. O grupo étnico seria, então, um conjunto de indivíduos que apresenta
uma interação entre todos os seus membros, além das características gerais da
etnia. Por essa distinção, os membros de uma vizinhança judaica em uma cidade do
Ocidente, por exemplo, onde todos os indivíduos frequentam a mesma sinagoga,
constituem um grupo étnico, ao passo que os judeus como um todo compõem uma
etnia.
Atualmente, os debates em torno da ideia de etnia continuam acirrados.
Primeiro porque a Antropologia não considera mais raça um conceito determinado
biologicamente. Hoje, raça significa a percepção das diferenças físicas pelos grupos
sociais, e como essa percepção afeta as relações sociais, aproxima-se bastante da
própria definição de etnia. Por outro lado, alguns antropólogos franceses, no fim
da década de 1980, afirmaram que o conceito de etnia estava sendo pregado para
as sociedades ditas primitivas com a intenção de apagar a historicidade delas.
Para Amselle, por exemplo, o conceito de etnia, bem como o de tribo, era
usado em substituição ao de nação, para as "sociedades primitivas”, passando a
ideia de nação a pertencer exclusivamente aos "Estados civilizados”. Dessa forma,
o conceito de etnia teria um sentido etnocêntrico bastante acentuado, mas, apesar
dessas controvérsias, a Antropologia trabalha também com a noção de etnicidade,
que é um sentimento de pertencer exclusivamente a um determinado grupo étnico.
Um conceito próximo ao de identidade.
Podemos perceber, dessa forma, os intensos debates em torno do conceito
de etnia, e o quanto esse conceito ainda precisa ser mais bem caracterizado. Não
obstante, os estudos etnológicos têm crescido, principalmente porque, desde a
década de 1960, muitas reivindicações políticas no mundo se apresentam como
étnicas, baseadas em crenças em uma identidade comum, contexto esse que motiva
os cientistas sociais a continuarem refletindo sobre o conceito. É preciso ressaltar
que, se, por um lado, muitas comunidades se autoafirmam positivamente a partir
de seus costumes, por outro, a identidade étnica (a etnicidade) é um elemento que
contribui para a construção do etnocentrismo. Ao se identificarem como membros
de uma cultura em comum, diferente dos que o cercam, um determinado grupo
reage às culturas diferentes muitas vezes com repulsa.
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
99
O sentimento de superioridade diante de diferentes culturas é, assim,
criado na identidade étnica. Dessa forma, os franceses se sentem superiores aos
"árabes" (como classificam todos os que professam a fé muçulmana, sejam árabes
ou não) por acreditarem possuir uma origem diferente e uma cultura que os outros
não compartilham. Isso acontece com os norte-americanos diante dos hispânicos,
e já aconteceu em outras épocas da história, como entre os alemães e os judeus
durante a Segunda Guerra Mundial. Em suma, a discussão sobre etnia nos leva a
repensar o próprio conceito de etnocentrismo.
Para o professor de História, conhecer o conceito de etnia é uma exigência
fundamental, pois os programas curriculares discutem cada vez mais as minorias
no Brasil. Essas minorias são estudadas pela Antropologia como etnias, mas
algumas delas ainda se identificam muitas vezes como raças. É o caso dos negros
brasileiros. Enquanto os antropólogos discutem a validade de termos como raça e
etnia, o que precisamos apreender de todo esse debate e discutir com os alunos é
que, seja na raça ou na etnia, o fato de um indivíduo pertencer a um desses grupos
é mais uma questão de sentimento, de identidade, do que de determinação física
ou mesmo cultural. Vale lembrar ainda que tanto a concepção atual de raça quanto
a de etnia são conceitos que buscam dar conta da multiplicidade de culturas, de
hábitos e crenças que a humanidade apresenta, e das implicações políticas dessas
diferenças.
FONTE: Disponível em: <http://www.igtf.rs.gov.br/wp-content/uploads/2012/03/conceito_ETNIA.
pdf>. Acesso em: 27 abr. 2017.
100
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• O surgimento do termo etnia acontece em meados do século XIX, pelo francês Vacher
de Lapouge, para diferenciar o sentido de raça que ele identificava como a reunião de
características físicas dos grupos humanos, das características psicológicas presentes
nos grupos, como a cultura, linguagem e comportamento social.
• O desenvolvimento do conceito de etnia e etnicidade cresce a partir dos anos 1960.
Com base nos pensamentos de Walerstein (1960) e Gordon (1964), os estudos
sobre etnicidade começam a ser percebidos não apenas como a designação de
um pertencimento étnico, mas também como os sentimentos associados a este
pertencimento. O sentimento de formar um povo, o sentimento de pertencer a
um grupo com uma história comum.
• A entrada deste campo de estudos nas Ciências Sociais ganha espaço após a
década de 1970, é que o termo etnicidade de fato vai impor-se nas Ciências
Sociais, com vários trabalhos, conferências, programas de pesquisa e também a
criação de revistas especializadas na área.
• Os motivos pelos quais este campo de estudos se torna relevante nas
universidades, e particularmente nas Ciências Sociais. A desestruturação
do colonialismo e as mudanças nas estruturas de autoridade nas sociedades
ocidentais provocaram um acirramento das disputas entre os grupos étnicos,
em vários países, permitindo a luta por espaços de poder, produzindo situações
de conflito, de competição, de regionalismos, de luta por territórios, tribalismos
na África e outros. Por estes motivos é que a questão da etnicidade passa a fazer
parte da agenda de estudos dentro das universidades.
• Por este motivo também o conceito de classe social não dá conta de explicar a
produção das desigualdades sociais, surgindo assim o conceito de etnia como
instrumento de análise sobre a produção das diferenças.
• A importância do pensamento de Fredrick Barth, a partir da década de 1970,
acerca do termo etnicidade. O autor traz traços culturais, ou identidades étnicas
que podem permanecer, independentemente dos processos de interação
cultural, ou aculturações.
• Conceito de etnicidade a partir da visão de Barth: É o conjunto de características
comuns a um grupo de pessoas, que as diferenciam de outro grupo. Normalmente
essas características incluem a língua, a cultura e também a noção de uma
origem comum. Etnicidade é a autoconsciência da especificidade cultural e
social de um grupo particular.
• A etnicidade também é um conceito relacional, assim como os conceitos de classe
e de gênero. Eles se constroem na relação com o outro, devido ao contraste com
o diferente.
101
AUTOATIVIDADE
1 A partir dos estudos do francês Vacher de Lapouge, o termo etnicidade surge
no século XIX para diferenciar as características físicas das características
culturais dos grupos humanos. Na década de 1970, o autor FredrickBarth dá
um novo entendimento ao sentido do termo. O que Fredrick Barth compreende
por etnicidade?
2 Apenas o conceito de classe social não dá conta de explicar a produção das
desigualdades sociais nos tempos atuais, por este motivo é que surge o conceito
de etnicidade e outros conceitos analíticos, como o de gênero, por exemplo.
Com suas palavras, explique os motivos que possibilitam essa afirmação.
102
103
TÓPICO 2
RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA,
GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Quando fazemos o resgate do conceito de etnia, encontramos muitas
relações com outros conceitos, como o de raça e nação. Por este motivo, a seguir
vamos procurar demonstrar a relação entre eles, além de realizar uma discussão
sobre identidade étnica, grupos étnicos e suas fronteiras.
Quando os autores se debruçam sobre estes conceitos, todos procuram, de
alguma forma, compreender os princípios que definem a atração ou o afastamento
de populações. Todos, de alguma forma, compreendem que é pelo princípio da
diferença que estes grupos se atraem ou se repelem.
Como se constituem as diferenças? Elas são naturais? São biológicas? Ou
são construídas socialmente? Vejamos a seguir como os conceitos de raça, etnia e
nação contribuíram para demarcar as fronteiras entre “nós” e os “outros”.
2 A IMPORTÂNCIA DO CONCEITO DE RAÇA PARA A
CONSTRUÇÃO DA DESIGUALDADE
A noção de raças humanas foi bastante difundida até o início do século
XX, sendo que o termo “raça” era utilizado para designar características físicas
das diferentes populações mundiais, como os asiáticos, os negros, os indígenas e
os brancos. Havia uma crença quase generalizada de que esses diferentes grupos
humanos apresentavam particularidades genéticas, físicas, biológicas e intelectuais
muito diferentes umas das outras. Além da diferença, era comum a ideia de que
algumas raças seriam biologicamente superiores a outras. Este tipo de pensamento foi
responsável pelo desenvolvimento de uma corrente de pensamento chamada Eugenia.
UNI
Eugenia – Movimento originado por Francis Galton (1822-1911), autor de Hereditary
Genius. “O termo é correntemente definido como uma ciência voltada para o melhoramento
das potencialidades genéticas da espécie humana. Sua história, particularmente no que diz
respeito às relações raciais, tem sido marcada pela controvérsia” (CASHMORE, 2000, p. 203).
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
104
FIGURA 34 - CORRENTE EUGENISTA
FONTE: Disponível em: <http://09eugenesia.blogspot.com.br/2009_04_01_archive.
html>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Além das diferenças, também se acreditava na existência de uma hierarquia,
na qual alguns grupos seriam mais desenvolvidos que outros. Essa perspectiva
se construiu ao longo do tempo pelo senso comum, mas também foi por muito
tempo avalizada pelo meio acadêmico, provavelmente devido a resquícios ainda
das teorias evolucionistas dos séculos anteriores.
Como resultado deste modelo de pensamento, vários países, especialmente
aqueles que ainda possuíam colônias ou problemas sociais decorrentes da
escravidão, acabaram por assumir o discurso racista para justificar suas ações.
Dois exemplos claros são: A segregação racial nos Estados Unidos e o Apartheid na
África do Sul.
NOTA
Segregação racial e apartheid
Há dois tipos de segregação: de jure e de facto. A segregação de jure representa uma situação
em que grupos definidos com base em diferenças raciais ou étnicas putativas são formalmente
separados por lei. Na segunda situação (de facto), tal separação existe sem uma restrição formal
legal.
Embora tenha havido numerosos casos de segregação legal ao longo da história, as mais
conhecidas são as leis “Jim Crow”, da era pós-guerra de secessão nos Estados Unidos, e o
Apartheid na África do Sul. No primeiro caso, os níveis de segregação racial entre as comunidades
negra e branca aumentaram depois da abolição do regime escravocrata. A maioria dos analistas
apontou tal situação como resultado do medo de uma relação igualitária entre os escravos
libertos e os seus antigos senhores: manter a diferença era, certamente, um modo de prolongar
o sistema de subordinação, enraizado na noção de uma hierarquia “racial” étnica. O apartheid
sul-africano estendeu e formalizou o processo de segregação estritamente residencial de 1948
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
105
até a década de 1990, o que foi consagrado pelo Ato de Áreas Grupais e pela política “Bantustan”.
A segregação legalmente reforçada foi, nos dois países, muito além da questão do assentamento
residencial. Os não brancos eram impedidos de compartilhar de toda uma extensão de serviços
com os brancos: educação, emprego e saúde; eram proibidos até mesmo de frequentar locais
públicos, como restaurantes, cafés, cinemas, clubes, transporte público e piscinas/praias. O
apartheid chegou ao extremo de separar as entradas de prédios públicos, estabelecer bancos e
fontes de parques, e assim por diante (CASHMORE, 2000, p. 505).
Como você sabe, caro acadêmico, um dos momentos mais terríveis da
história da humanidade foi a Segunda Guerra Mundial, especialmente por sua
ideologia racista. A Alemanha nazista produziu um dos piores massacres étnicos
de que se tem notícia. Com o objetivo de garantir uma “raça pura” na Alemanha,
Hitler exterminou mais de seis milhões de judeus nos campos de concentração.
DICAS
Para compreender melhor o nazismo e o holocausto, recomendamos que você
assista aos filmes a seguir: “A lista de Schindler”, “Olga”, “O menino do pijama listrado”, “O pianista”
e “A vida é bela”.
FONTE: Disponíveis em: <http://www.clickgratis.com.br/fotos-imagens/search/?q=filmes/>.
Acesso em: 20 fev. 2017.
Devido às pesquisas genéticas, se sabe hoje que não existem raças humanas
diferentes. Não há nenhuma evidência que afirme que características físicas, como
a cor da pele, o formato do olho, a textura do cabelo, possam implicar em diferenças
comportamentais, de valores, ou morais, como se pensava.
Por este motivo, logo depois da Segunda Guerra Mundial, vários países se
organizaram na luta pela retirada do termo raça da pauta das ciências em geral. O
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
106
objetivo da luta antirracista foi demonstrar a fragilidade do conceito de raça, seu
caráter ilegítimo e não científico, sendo que os conceitos de cultura ou de grupos
étnicos poderiam ser muito mais úteis para compreender as diferenças humanas
do que o conceito de raça.
Um dos resultados destes movimentos foi o desmantelamento do
segregacionismo racial nos Estados Unidos, devido às lutas pelos direitos civis na
década de 1960. A partir daí se começou a perceber quais mecanismos sociais de
fato contribuíam para a manutenção das desigualdades raciais. As desigualdades
não eram produzidas por questões inerentes à raça (incapacidade física ou
intelectual), mas sim por todo um sistema social, político e econômico que oferecia
aos negros oportunidades desiguais, como a falta de acesso a escolas e a empregos
de qualidade, como a exposição à pobreza (GUIMARÃES, 1995). Por este motivo,
a ideia de discriminação racial passa a ser percebida a partir de outros conceitos
interpretativos da realidade, como os de classe, de gênero e de status social.
O nacionalismo negro e o movimento feminista nos anos 70 imprimiram
uma outra dinâmica às percepções antirracistas; o primeiro, pela luta
contra a destruição e a inferiorização do legado cultural africano,
denunciando o estatuto subordinado do negro e da África implícito no
antirracismo assimilacionista e universalista; o segundo, pela ênfase com
que denunciou o caráter racializado das diferenças sexuais como parte
de um processode naturalização e de justificação social de hierarquias
culturais (GUIMARÃES, 1995, p. 29).
Essa mudança de percepção começa a fazer diferença principalmente para
os grupos étnicos excluídos, para as minorias étnicas em geral e para as populações
dos países menos desenvolvidos.
A autoestima elevada e a exaltação das diferenças étnicas e culturais dos
grupos étnicos começam a ser percebidas, especialmente na Europa, quando se
amplia o processo de imigração destas populações para seus países. A Europa, que
antes se percebia antirracista, agora tinha que lidar com povos estrangeiros que
não assimilavam sua cultura. Ao contrário, os imigrantes agora demonstravam
orgulhosamente seus valores, sua religião e suas diferenças. Por conta disso, os
países europeus, aos poucos, foram desenvolvendo um novo tipo de racismo, o
racismo sem raça (GUIMARÃES, 1995).
Vocês devem estar se perguntando: o que é racismo sem raça?
O racismo sem raça acontece quando as características étnicas ou culturais
(religiosidade, crenças, regras sociais) de um grupo são tomadas no lugar das
características biológicas/raça (cor de cabelo, pele, traços fisionômicos) para
justificar relações de hierarquia e desigualdades sociais. “O racismo (sem raça)
é a redução do cultural ao biológico, a tentativa de fazer o primeiro depender do
segundo. O racismo existe sempre que se pretende explicar um dado status social
por uma característica natural” (GUIMARÃES, 1995, p. 31).
Por isso, queridos acadêmicos, temos que ter muito cuidado com as
naturalizações que costumamos fazer no nosso dia a dia. Naturalizar significa
essencializar uma situação, quase sempre no sentido de manter o status quo.
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
107
As religiões, de maneira geral, costumam construir seus discursos com base
em argumentos essencialistas ou “naturais”. Assim também a ciência, quando evita
transpor paradigmas científicos. A ideia de “natural” aparece sempre descolada de
um contexto histórico, político ou cultural, que lhe dê suporte. A ideia de que algo
é “essencialmente natural” aparece sempre destituída de interesses, quase como
se tivesse uma origem irracional, ligada a características essenciais ou biológicas
do humano, ou a determinações divinas. A ideia de que “foi sempre assim e,
portanto, continuará sendo” serve quase sempre para justificar a manutenção de
uma hierarquia.
Toda e qualquer hierarquia social faz apelo a uma ordem natural que
a justifique, ainda que tal justificativa, e racionalização, possa se fazer
de diferentes maneiras. A ordem econômica, por exemplo, pode ser
justificada como sendo um produto de virtudes individuais (os pobres são
pobres porque lhes faltam sentimentos nobres, virtudes e valores do ethos
capitalista); do mesmo modo, se justifica usualmente a posição subordinada
das mulheres pelas características do sexo feminino; a escravidão dos
africanos, assim como a posição social inferior de seus descendentes,
pelas limitações da "raça" negra etc. Em cada um desses casos, quando a
ideia de uma ordem natural limita formações sociais, emergem sistemas
hierárquicos rígidos e inescapáveis (GUIMARÃES, 1995, p. 31).
Percebe-se, portanto, que há muito tempo as diferentes posições sociais
são demarcadas e justificadas com base em consensos sociais. Esses consensos
são historicamente reproduzidos com base em naturalizações, sobre falsas ideias
relativas aos papéis sociais que os indivíduos devem ou não reproduzir, como ser
negro, mulher, pobre, homossexual, entre outros.
O problema da naturalização é que ela imputa aos indivíduos um lugar
predeterminado na hierarquia social, que quase sempre é marginal, menor e
excluído. Mais adiante vamos verificar como na história se produziram as diferenças
entre homens e mulheres, com base na naturalização e essencialização de um
modelo de feminino, relacionando-o a um lugar de inferioridade e subordinação
em relação ao masculino. Ou seja, o componente ideológico da ideia de natureza
parece que está sempre presente nas hierarquias sociais e não se pode querer
entender as realidades sociais sem levar essa perspectiva em consideração, ainda
que seja sempre mascarada, uma vez que se funda sobre uma pretensa “verdade
incontestável”. É precisamente a ideia de naturalização que constitui o cerne dos
meios técnicos de que dispõem as relações de dominação e de força para se impor
aos dominados e mantê-los dominados.
“Se podemos falar de tais práticas discriminatórias designando-as por
termos específicos, como “sexismo” ou “etnicismo”, é porque a referência à raça
encontra-se subsumida em outras diferenças, funcionando apenas como uma
imagem de diferença irredutível” (GUIMARÃES, 1995, p. 32). Ou seja, quando a
questão racial está presente como elemento de diferenciação, ainda que não seja
objetivamente nomeada, a observação de suas especificidades só pode ser realizada
a partir da utilização de outros conceitos de análise, como classe, gênero, etnia,
geração, nacionalidade e outros. Essa perspectiva se funda na ideia de que todo
tipo de racismo é necessariamente a naturalização de alguma desigualdade social.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
108
3 ETNIA, RAÇA E NAÇÃO: APROXIMAÇÕES E
DIFERENCIAÇÕES NECESSÁRIAS
Como já sabemos, inicialmente o termo etnia foi concebido para distinguir
e classificar os povos que não podiam ser classificados com base no conceito de
nação e de raça. Isso porque tinha-se a ideia de que o conceito de nação servia para
definir o grupo com base em sua identidade política e sócio-histórica, e o de raça
para definir o grupo com base em suas características biológicas. Como não havia
um conceito capaz de explicar os agrupamentos humanos, ou identidades comuns
que se estabeleciam com base em elementos culturais e linguísticos, muitas vezes
sem compartilharem o mesmo espaço geográfico ou político, é que surgiu o termo
etnia.
Muitos autores, que defendem a utilização do termo Nação no lugar de
Etnia, argumentam que a força que inspira os indivíduos a se manterem unidos
em uma determinada nação é justamente o distanciamento, o esquecimento
dos elementos étnicos (culturais, linguísticos, históricos) dos diferentes grupos
presentes na nação, em detrimento de um sentimento de pertença maior, que é a
identidade nacional.
A essência de uma nação reside no fato de todos os indivíduos terem
muitas coisas em comum, e igualmente que todos tenham esquecido
bem as coisas. A memória fundadora da unidade nacional é, ao mesmo
tempo e necessariamente, esquecimento das condições de produção
desta unidade: a violência e o arbitrário originais e a multiplicidade
das origens étnicas [...] A nação, enquanto entidade política, constrói-
se, então, não a partir do grupo racial ou étnico, mas frequentemente
contra ele: é porque não podem mais dizer que são burgondes, alains,
taifales ou visigodos que os habitantes da França podem ser cidadãos
franceses (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 36).
O que Poutignat e Streiff-Fenart (2011) argumentam é que o sentido de
nação se constrói sobre o afastamento, e, portanto, sobre o esquecimento dos
elementos culturais e étnicos que os imigrantes trouxeram de sua terra natal
para o território em que residem hoje. Segundo esses autores, quanto antes eles
esquecerem suas referências étnico-culturais, mais rápido será desenvolvido o
senso de pertencimento à nação que os hospeda hoje.
Outros autores defendem que para que uma nação se forme, é necessário
haver um ou mais povos, um território e uma consciência comum. Quando outros
elementos aparecem, como identidade de língua, religião e etnia, eles reforçam a
unidade nacional.
Para produzirmos um conceito coerente de nação podemos inferir,
portanto, que NAÇÃO refere-se aum agrupamento humano autônomo, fixado
em um determinado território, com limites bem definidos, que possui em sua
base uma identidade política e sócio-histórica na qual seus membros respeitam as
instituições.
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
109
Weber, em seus estudos sociológicos, também contribui com a discussão
acerca dos temas em questão. Ele procura distinguir as ideias de raça, etnia e nação
(POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011).
O que distingue a pertença racial da pertença étnica é que a primeira
é realmente fundada na comunidade de origem, ao passo que o que
funda o grupo étnico é a crença subjetiva na comunidade de origem.
Quanto à nação, ela é, como o grupo étnico, baseada na crença da vida
em comum, mas se distingue deste último pela paixão (pathos) ligada à
reivindicação de um poderio político (POUTIGNAT; STREIFF-FENART
2011, p. 37).
Portanto, pode-se dizer que, para os autores supracitados, as comunidades
de origem (leia-se grupos étnicos) seriam aquelas que estão reunidas devido à
crença subjetiva de pertencimento a uma comunidade, pouco importando se
existem laços de sangue ou não, pois essa crença torna esses grupos unidos e lhes
confere identidade. Mais tarde, Friedrich Barth, aprofundando o pensamento de
Weber, vai desenvolver o que chamou de “Teoria dos Grupos Étnicos”.
NOTA
O conceito de Subjetividade surge na psicologia e de maneira geral é entendido
como o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto
por emoções, sentimentos e pensamentos, ou seja, representa o espaço íntimo do indivíduo,
no qual ele elabora suas opiniões sobre o mundo (mundo interno) e por meio do qual ele
se relaciona com o mundo social (mundo externo), resultando tanto em marcas singulares
na formação do indivíduo quanto na construção de crenças e valores compartilhados na
dimensão cultural que vão constituir a experiência histórica e coletiva dos grupos e populações.
Nesse sentido, a ideia de raça, enquanto determinação biológica, não
é importante para as Ciências Sociais. Ela só adquire importância quando é um
dos elementos que define o comportamento dos grupos, quando é percebida
subjetivamente como uma característica importante para a definição do grupo,
quando funda situações de diferenciação social, como o racismo, o preconceito e
as relações de dominação.
4 IDENTIDADE ÉTNICA, ETNICIDADE, GRUPOS ÉTNICOS E
SUAS FRONTEIRAS
Pelo que estudamos até aqui, podemos afirmar que a identidade étnica
se constrói na relação com os outros grupos. A reunião entre os que se sentem
iguais, ou seja, da mesma “espécie”, está associada à repulsa por aqueles que são
percebidos como estrangeiros. O senso de pertencimento é tanto maior quanto for
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
110
a oposição, o contraste com o diferente. Por isso se diz que a identidade étnica se
constrói de maneira relacional.
Compreender que a identidade étnica se constrói pelo contraste com
o outro significa dizer que não é o isolamento que permite a manutenção dos
grupos étnicos e sua sensação de pertença, mas a verificação e a comunicação das
diferenças das quais os indivíduos se apropriam para estabelecer fronteiras étnicas
(POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011).
O conteúdo da comunidade étnica é a crença em uma honra específica:
a honra étnica pela qual os estilos de vida particulares se encarregam de
valores sobre os quais se fundam as pretensões à dignidade daqueles
que os praticam, e o desprezo por aqueles que praticam costumes
estrangeiros (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 40).
Em última análise a etnia estaria ancorada nas crenças, no sentimento,
nas representações coletivas, e a raça estaria ligada aos elementos biológicos e de
parentesco.
Uma importante descoberta das teorias da etnicidade é que a identidade
étnica de um grupo normalmente não é definida somente por seus componentes,
mas também, em grande medida, por grupos externos. Como já foi dito antes, a
construção da etnia se dá por meio do jogo das relações sociais entre membros
e não membros de um grupo étnico. É precisamente esse processo, essa relação
dialética que empresta à etnicidade características dinâmicas, sempre sujeitas a
redefinição e recomposição.
É muito comum encontrarmos situações em que o próprio Estado, por meio
de suas políticas públicas, acaba incorrendo em racismo institucionalizado, pois
muitas vezes os grupos excluídos não possuem liberdade, autonomia ou mesmo
outra condição de existência a não ser aquela que lhes é imposta pelos mecanismos
institucionais de proteção do Estado.
Nesse sentido, é importante destacar a diferença entre grupos étnicos e
minorias. Os grupos étnicos se autorreconhecem e são reconhecidos pelos outros,
enquanto as minorias são definidas pelo processo de discriminação e preconceito
exercido pelos grupos dominantes.
O que queremos deixar claro é que a nomeação de um grupo étnico não
é apenas uma influência endógena sofrida pelos grupos étnicos, mas também
produtora de etnicidade. A imposição de um rótulo pelo grupo dominante
possui o poder de definir, de fazer existir uma coletividade de indivíduos,
independentemente do que eles mesmos possam pensar de sua pertença a um
grupo. Vejamos o que dizem Poutignat e Streiff-Fenart (2011, p. 144) sobre a condição
étnica dos grupos africanos aos serem trazidos e escravizados nas Américas: “Os
negros americanos, como grupo social significativo requerendo um nome, foram
criados como tais pelos homens brancos que para lá os levaram e colocaram nas
mesmas condições de vida. Eles criaram o grupo e não simplesmente o nome”. Ou
seja, no caso da escravidão, um episódio de dominação extrema, as possibilidades
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
111
de retomar os componentes étnicos dos diferentes grupos africanos ficaram muito
prejudicadas, mesmo assim os negros norte-americanos resgataram muito de sua
etnicidade, compondo uma variação étnica, cultural e religiosa bastante diversa.
Assim, outras inúmeras situações semelhantes aconteceram e ainda acontecem em
diversas sociedades.
FIGURA 35 - IGREJA EVANGÉLICA NOS EUA, EXPRESSANDO SUA MÚSICA GOSPEL
FONTE: Disponível em: <http://www.materialgospel.com.br/melhores-musicas-gospel-internacional/> e
<http://itallobatera.blogspot.com.br/2010/11/historia-da-musica-gospel.html>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Outros exemplos são as políticas de assistência social desenvolvidas pelos
Estados Unidos para as populações indígenas (os nativos americanos). Devido
a décadas de políticas padronizadas e uniformemente implementadas, sem
considerar ou reconhecer as especificidades étnicas e culturais de cada grupo
indígena, os nativos acabaram por assumir uma identidade geral.
Nos dois casos em que foram coletivamente nomeados e obrigados a
viverem situações semelhantes, foi possível verificar que houve um processo de
solidariedade entre eles, tanto os negros entre si, quanto os grupos indígenas.
Talvez porque, como destacam Poutignat e Streiff-Fenart (2011), foram, todos
eles, objeto de um tratamento específico e uniforme por parte do Estado, que não
considerou suas especificidades.
Com relação aos conhecimentos produzidos acerca da etnicidade, como
já dissemos, Fredrik Barth é atualmente um dos autores mais influentes. Foi ele o
responsável pela criação da teoria associada aos termos “GRUPOS ÉTNICOS”
e “FRONTEIRAS ÉTNICAS”. Ele desenvolve essas ideias, em primeiro lugar,
compreendendo que a etnicidade é um conceito relacional, isto é, ocorre a partir
da relação Nós/Eles. Para ele, o pertencimento étnico só pode ser determinado
levando em conta a demarcação entre os membros e os não membros do grupo, o
que ele vai chamar de Fronteiras Étnicas.Segundo Poutignat e Streiff-Fenart (2011), um grupo étnico só é possível
se os atores tiverem a consciência das fronteiras que marcam o sistema social ao
qual acreditam pertencerem e também identificarem os outros atores de outros
sistemas sociais como diferentes.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
112
Significa dizer que as identidades étnicas só podem se constituir com base na
alteridade, ou seja, no reconhecimento do outro. Só que, além de reconhecer o outro,
a etnicidade implica também a dicotomia Nós/Eles. Dito de outra forma, ela não pode
ser concebida senão na fronteira do “Nós”, em contato, confrontação ou contraste com
“Eles”. Vejamos o exemplo fornecido por Poutignat e Streiff-Fenart (2011, p. 153):
O conceito de Soul só emergiu como expressão da cultura dos negros
americanos quando estes se viram expostos à influência cada vez maior
da cultura dominante e sentiram a necessidade de definir e manter seus
próprios limites e negar aos outros grupos, especialmente aos brancos,
o acesso aos valores e aos comportamentos marcados pelo estilo Soul.
Por este motivo, pode-se inferir que são as fronteiras étnicas e não
propriamente o conteúdo cultural interno do grupo que o define enquanto grupo
e que o mantém enquanto instituição social. Essa distinção é que permite manter
uma fronteira entre ele e os outros.
NOTA
Soul (do inglês "alma") é um gênero musical dos Estados Unidos da América que
nasceu do rhythm and blues e do gospel durante o final da década de 1950 e início da de 1960
entre os negros. Durante a mesma época, o termo soul já era utilizado nos EUA como um
adjetivo usado em referência ao afro-americano, como em "soul food" ("comida de negro").
Esse uso apareceu justamente numa época de vários movimentos de liberalismo social,
tanto com a revolução dos jovens com o uso das drogas, como os movimentos antiguerra e
antirracial. Por consequência, a "música soul" nada mais era que uma referência à música dos
negros, independentemente de gênero.
FONTE: Disponível em: <https://www.last.fm/pt/tag/soul/wiki>. Acesso em: 25 mar. 2017.
FIGURA 36 - MÚSICA SOUL
FONTE: Disponível em: <http://www.koop.org/programs/the-dark-end-of-the-
street>. Acesso em: 24 mar. 2017.
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
113
Compreender a existência das fronteiras étnicas não significa dizer que são
referências fixas, imutáveis. Elas podem se manter, reforçar, ou mesmo desaparecer,
elas podem se tornar flexíveis ou mais rígidas, dependendo das relações que forem
se estabelecendo e das dinâmicas internas e externas ao grupo.
FIGURA 37 - GRUPO INDÍGENA INSERIDO NO CONTEXTO EDUCACIONAL DA
CULTURA BRANCA
FONTE: Disponível em: <http://vestibular.mundoeducacao.bol.uol.com.br/cotas/
cotas-para-indios.htm>. Acesso em: 25 mar. 2017.
Apesar do nome, as fronteiras étnicas também não representam barreiras
intransponíveis, ao contrário, são fluidas e permeáveis. Um indivíduo de um grupo
étnico pode muito bem adquirir elementos que o caracterizem como pertencente
a uma etnia diferente da sua. Vejamos mais um exemplo de Poutignat e Streiff-
Fenart (2011, p. 154):
Na América Latina, a fronteira que separa os indígenas dos mestiços
é suficientemente leve para que seja suficiente a um indígena que
aprenda a falar corretamente o espanhol e adquirir os atributos culturais
considerados como definidores da cultura crioula para deixar de ser
considerado como um indígena.
Esse exemplo demonstra a fluidez das fronteiras étnicas, mas o ponto
fundamental a ser compreendido é que a transposição dessas fronteiras não
implica na alteração da sua identidade e nem da sua pertença étnica. Muitas vezes,
o cruzamento dessas fronteiras serve exatamente para reforçar os limites entre um
grupo étnico e outro.
Poutignat e Streiff-Fenart (2011) destacam ainda que a condição étnica
associada a uma condição de classe (especialmente as mais baixas) pode ocasionar
uma sobreposição de fronteiras em que uma reforça a outra. Para os autores,
este tipo de situação dificulta a transposição das fronteiras étnicas e de classe,
porque para transpor uma delas terá que transpor a outra também. Além disso,
nesse processo, seu senso de identidade pode sofrer alterações. Corre-se o risco
de não sentir pertencer nem ao seu grupo de origem nem aos demais. “Na Grã-
Bretanha, onde o sucesso escolar é fortemente associado à cor, os membros dos
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
114
grupos minoritários que são bem-sucedidos são percebidos como indivíduos fora
de categoria” (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 156).
Da mesma maneira que as fronteiras étnicas são maleáveis do ponto de
vista da transposição de seus limites, também não dependem da permanência de
suas culturas, pois um grupo étnico pode mudar ou substituir elementos de sua
cultura, sem perder a identidade étnica. Um grupo pode adotar traços culturais
de outro grupo, como a língua e a religião, e mesmo assim não se perceber e nem
ser percebido como um igual. Para isso, podemos nos lembrar do processo de
aculturação sofrido pelos negros e pelos índios aqui no Brasil. Ambas as etnias
foram obrigadas a falar a língua portuguesa e afiliar-se à religião cristã, no entanto,
assim mesmo não se sentiam iguais aos colonizadores. Primeiro, porque o lugar
social que ocupavam na hierarquia da colônia não lhes permitia transpor a
fronteira de classe; e segundo, porque o fato de falarem outra língua ou adorarem
outro deus não garantiu que esquecessem sua língua e seus próprios deuses. Ao
contrário, o contraste reforçou sua identidade, mesmo que tenha sido modificada.
O sincretismo religioso é um exemplo claro dessa estratégia de preservação
da identidade étnica. Os negros, ainda no período da escravidão, começaram a
associar entidades (orixás) de suas religiões com os santos católicos, para poderem
adorá-los sem levantar suspeitas de seus senhores. No sincretismo, o orixá Ogum
é identificado como São Jorge, um santo católico.
FIGURA 38 – OGUM E SÃO JORGE
FONTE: Disponível em: <http://www.60segundosparadeus.com.br/2015/09/qual-
ligacao-entre-os-santos-catolicos.html>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Nesta perspectiva se observa que é precisamente a fronteira étnica e não a
matéria cultural que ela abrange que define o grupo étnico.
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
115
Um dos traços mais importantes que se pode observar para compreender
como se mantém as fronteiras étnicas são as regras que estabelecem e organizam
os contatos interétnicos, ou seja, toda relação interétnica estável pressupõe uma
estruturação da interação. Vejamos como Poutignat e Streiff-Fenart (2011, p. 196)
descrevem esta estrutura.
Como o conjunto de prescrições dirigindo as situações de contato
que permitem a articulação em determinados setores ou campos de
atividade, e um conjunto de proscrições sobre as situações sociais que
impeçam a interação interétnica em outros setores, isolando assim partes
das culturas, protegendo-as de qualquer confronto ou modificação.
Procurando trazer um exemplo para contextualizar essa afirmação,
podemos nos referir à relação que as comunidades judias estabelecem com a
sociedade. Pode-se inferir que do ponto de vista das relações comerciais, os
condicionamentos étnicos são mais flexíveis, especialmente porque ocorrem em
uma sociedade capitalista e globalizada. No entanto, do ponto de vista da sua
religião, das relações familiares, das tradições e das questões ditas domésticas, a
comunidade judia preserva sua identidade étnica.
FIGURA 39 - COMUNIDADE ISRAELITA NO PORTO. SINAGOGA KADOORIE MEKOR HAIM
FONTE: Disponível em: <http://www.hoteldamusica.com/Files/Images/HotelDaMusica/
LocaisDeInteresse/Patrimonio/Sinagoga1.jpg>.Acesso em: 27 abr. 2017.
Muitas vezes, mesmo nas relações econômicas, é possível observar em
certas comunidades a permanência de modelos étnicos que isolam o contato com
outras etnias. Poutignat e Streiff-Fenart (2011) afirmam que na Melanésia e na Ásia
é possível verificar sistemas policêntricos integrados simultaneamente na esfera
comercial de prestígio e em estruturas políticas quase feudais.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
116
Esses sistemas nos quais é possível observar uma variedade de setores de
articulação e de separação entre sistemas sociais, ou aspectos culturais, em uma
determinada sociedade, podem ser chamados de Sistemas Poliétnicos.
Na Índia também é possível perceber a influência do capitalismo nas
relações econômicas no país, sendo que talvez apenas o sistema de parentesco e a
vida doméstica permaneçam como um setor à parte e sejam fontes de diversidade
cultural.
5 A CRÍTICA AO PENSAMENTO DE FREDRICK BARTH E A
AMPLIAÇÃO DO CONCEITO DE ETNICIDADE
Com base na discussão realizada até agora é possível verificar que a
categoria etnicidade está fortemente assentada sobre a teoria dos grupos étnicos
de Barth, mas outros autores conseguem compreender este fenômeno, explorando
outros elementos da etnicidade e compreendendo-os à luz de outras referências
teóricas. Vejamos a seguir uma discussão que trata das diferentes interpretações
sobre o tema.
Etnicidade
A noção de “comunidade imaginada” nos oferece um bom ponto de
partida para isso. Ainda que reconheça que todo grupo social é, em alguma
medida, imaginado, Anderson chama atenção para como o processo de
constituição das nações opera uma espécie de generalização dos símbolos
e sentimentos típicos das relações comunitárias, para muito além dos
limites de qualquer comunidade real. Ao descrever as nações ou culturas
nacionais como construções sociais operadas nos mesmos termos em que
os grupos étnicos — grupos políticos que se autoatribuem características
e laços primordiais, Anderson e, na sua esteira, Stuart Hall, introduzem
a ideia de que o sistema de simbolização dos grupos étnicos — que eles
preferem chamar “comunidades” — pode ganhar autonomia com relação
aos processos de interação que para Barth delimitam a “fronteira étnica”.
Assim, o adjetivo “imaginado” que acrescentam à comunidade
(ou grupo étnico) justifica-se porque a atitude simbólica que marca a
autopercepção e o sentimento nacionais não dependeriam de regras de
interação entre grupos reais, mas, antes, da relação entre comunidades
imateriais, formadas por dispositivos de compartilhamento de experiências
como a literatura, a imprensa periódica, os ritos, datas e heróis nacionais.
Outro referencial para a ampliação do uso de etnicidade com relação a
grupo étnico é encontrado em M. Banton (1977), em A Ideia de Raça, quando
este define a categoria como produto de uma inversão de valores sociais com
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
117
relação à raça. A etnicidade seria um sentimento, um discurso e uma tomada
de posição política produzida pela positivação do estigma da raça. Dessa
forma, um grupo até então distinto por características ditas raciais, tornar-
se-ia um grupo étnico a partir do momento em que, aceitando a distinção
que lhe é imposta pela maioria, passa a utilizar-se politicamente dela na
formação de agrupamentos autônomos ou com interesses e reivindicações
comuns.
A etnicidade seria, segundo Banton, justamente esta atitude política
positiva, que teria um sentido de solidariedade e identificação. Este uso da
noção de etnicidade é, portanto, inseparável da de etnogênese, no sentido
em que também institui um grupo étnico, mas que é, em primeiro lugar,
“imaginado”, no sentido de que ele tem por base não uma estrutura de relações,
mas uma experiência genérica de desrespeito. Isso nos leva, finalmente, ao
terceiro suporte para pensar de que modo a categoria de etnicidade ganha
autonomia com relação ao grupo étnico. Tendo em conta que boa parte do
uso contemporâneo de etnicidade está relacionada à emergência de uma
“política de reconhecimento” de alcance global, vale recuperar o modelo
igualmente generativo de A. Honneth (2003), em Luta por reconhecimento.
O autor sugere que na base dos conflitos que instauram lutas
por reconhecimento está uma “experiência moral” de desrespeito que,
sendo inicialmente experimentada de forma individual, é convertida em
experiência coletiva por meio da transformação das experiências privadas
em “controvérsias” públicas.
Compreendida desse modo, a noção de “conflito moral” é de grande
importância para a recaptura da teoria da etnicidade, que passa a ter por
base uma unidade social definida mais em termos morais que em termos
estruturais. Temos, assim, a definição de comunidades políticas a partir de
uma relação de alteridade, mas sem que seja preciso nem atribuir substância
a tais comunidades, nem confinar tal noção de alteridade aos mecanismos
estritamente locais de definição de “fronteiras étnicas”. É o conflito em
torno dos limites entre o respeito e o desrespeito e a capacidade de agenciar
positivamente na forma de uma comunidade imaginada os estigmas do
passado, que se torna possível reimaginar a etnicidade: ela emerge em um
contexto poliétnico que tem por sustentação uma sociedade de comunicação
ampliada, assim como um contexto de regulação englobante. Neste caso há a
positivação não apenas das marcas que carregam o estigma, isto é, da relação
entre os indivíduos e as marcas étnicas, conforme chama atenção Banton
(1977), mas também do próprio vínculo que liga os sujeitos entre si, por meio
de tais marcas.
Se o racismo permite falar da existência de um grupo por meio de
atributos imputados e raramente afirmados, a etnicidade tem como maior
atributo constituir o próprio grupo com base na resposta a tal imputação.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
118
Uma radicalização do caráter relacional que está na base da definição teórica
dos grupos étnicos.
Assim, a etnicidade passa a descrever performances identitárias
que incluem também os amplos contextos derivados da diáspora africana,
assim como da reorganização em contexto urbano dos grupos étnicos e
nacionais em processo de migração rural-urbana, assim como de imigração
entre fronteiras nacionais. Em todos estes casos, a etnicidade continua
servindo para classificar e, com base na classificação, organizar e regular a
interação entre indivíduos, mas agora tendo por base um arco de formas
sociológicas que vão do grupo étnico às comunidades imaginadas de
diversos tipos. Finalmente, há a questão de se definir se a etnicidade é um
conceito teórico geral, destinado a descrever um fenômeno fundamental ou
ao menos recorrente, ou se ela descreveria fenômenos novos, decorrentes
da intensificação dos movimentos identitários, que se seguiram a dois
momentos tão cruciais quanto a Segunda Grande Guerra e a queda do Muro
de Berlim.
Uma discussão certamente extensa demais para os limites deste
verbete. Em lugar disso, seria útil reconhecer que, de uma forma ou de
outra, o uso do conceito está submetido a variações históricas e geográficas
importantes, determinadas pelo modo segundo o qual as diferentes tradições
intelectuais — em especial nos contextos acadêmicos que temos por referência
neste dicionário — se relacionam com os fenômenos que o conceito pretende
descrever. Assim, se no Brasil encontramos a tendência de se dar à teoria da
etnicidade o estatuto de uma teoria geral, isso não parece ocorrer da mesma
forma nos contextos português e no de países africanos.
No Brasil, houve uma ampla incorporação da teoria dos grupos étnicos
e do uso da categoria de etnicidade pelas diversas antropologias:desde a
indígena até a urbana, passando pelas relações étnico-raciais e mesmo das
relações de gênero, entre outras. Tendo origem na abordagem de Roberto
Cardoso de Oliveira (1978) sobre a problemática do contato entre índios e
brancos, ela está na base da categoria de “fricção interétnica” que, realizando
uma crítica fundamental às abordagens centradas no tema da “aculturação”,
serviu de paradigma para boa parte dos trabalhos de etnologia indígena
no país. Sua centralidade se manifestaria mesmo na legislação e na política
nacional para estas populações, na medida em que foi uma interpretação
em termos de grupos étnicos que permitiu aos antropólogos responderem
aos questionamentos governamentais das décadas de 1970 e 80 contrários ao
reconhecimento de grupos indígenas e da legitimidade de seu movimento
político com base em critérios culturais objetivos (CUNHA, 1986).
Recentemente, ela ocupa lugar também na literatura sobre relações
étnico-raciais, isto é, naquela que aborda a relação entre brancos e negros.
Depois das críticas ao chamado “mito da democracia racial” e de uma farta
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
119
literatura sobre as manifestações de um racismo cordial” (GUIMARÃES,
2002), a literatura, acompanhando o próprio movimento da sociedade, tem
abordado as diversas formas de positivação e afirmação da “negritude”,
que passam a ser interpretadas em termos de etnicidade. O lugar ocupado
pelo tema da etnicidade na antropologia feita hoje no Brasil é tão importante
que, pode-se dizer, polariza o debate teórico travado no campo da etnologia
(OLIVEIRA, 1999; VIVEIROS DE CASTRO, 1999), expandindo-se também
sobre outros campos de estudos, que vão das relações raciais — designadas,
a partir da década de 1980, de “étnicorraciais” —, aos fenômenos da
urbanização, passando pelos movimentos sociais, entre outros.
Em Portugal, por sua vez, o uso da categoria étnico e seus derivados
parece se restringir a abordagens voltadas para os grupos de imigrantes,
aplicando-se à descrição e reflexão sobre apenas um “outro” grupo social
interno à sociedade portuguesa, os ciganos. Neste sentido, a etnicidade
parece descrever um fenômeno recente, não alcançando o estatuto de uma
teoria dos modos de organizar a sociedade (MACHADO; AZEVEDO, 2009).
Além disso, o fato de se aplicar quase exclusivamente aos imigrantes,
isto é, a grupos que são, em sua maioria, originários das ex-colônias,
acaba por reificar uma percepção geral substancialista da categoria etnia,
mesmo que o seu emprego em estudos pontuais esteja sustentado em uma
perspectiva teórica próxima a de Barth. No caso dos estudos sobre grupos
de imigrantes europeus, a etnicidade claramente desloca sua substância do
étnico para o nacional estrangeiro, mas mantendo o foco em grupos mais
facilmente pensáveis a partir de características primordiais. O contexto
africano, por outro lado, parece marcado por uma forte resistência ao uso
da categoria etnicidade, provavelmente pelas mesmas razões — mas com
efeitos invertidos — que no contexto português.
Neste caso, é o risco iminente da reificação do étnico como
fundamento de fraturas de caráter primordialista, cujas consequências
políticas estão ainda vivas nas suas sociedades, que leva a que os cientistas
sociais africanos evitem teorizar sobre suas sociedades tomando por base a
etnicidade. Em lugar de focarem as “fronteiras étnicas”, a gênese dos grupos
de identidade ou o tema da performance das diferenças e das identidades,
as ciências sociais em África tendem a definir suas unidades de análise com
base em critérios substantivos, mas não totalizantes, como a língua, a região
ou o tipo de atividade social predominante. Aqui a semântica e a teoria do
étnico parecem indissociáveis, ora de uma postura científica comprometida
com uma tradição colonial, ora de uma posição analítica que correria o risco
de oferecer suporte a movimentos políticos sectários.
FONTE: SANSONE, Livio; FURTADO, Alves, Cláudio (org). Dicionário crítico das ciências sociais dos
países de fala oficial portuguesa. Salvador: EDUFBA, 2014.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
120
6 ETNICIDADE E MODERNIDADE
Como podemos perceber, a etnicidade é interpretada de diferentes maneiras,
como a ideia de que é produto da desigualdade de desenvolvimento dos diferentes
países e territórios, como uma estratégia de reivindicações frente aos recursos
do welfare state, como resistência ao processo de modernização e globalização da
cultura, como o resultado histórico da economia capitalista globalizada, ou ainda
como a mistura de todos esses elementos.
NOTA
Welfare state, Estado-providência, ou Estado de Bem-Estar Social: Estes termos
são aplicados, grosso modo, aos Estados que implantaram sistemas alargados de proteção
social e aos que praticam políticas de redução das desigualdades econômicas e sociais. O
Estado-providência é um Estado social que em nome da segurança ou da igualdade se substitui
parcialmente ao mercado e/ou corrige os seus resultados. A expressão "Estado-providência"
é relativamente recente; nasceu de uma tradução aproximativa do inglês Welfare state. Esta
noção não está isenta de ambiguidades e evoluiu à medida que se foi desenvolvendo o Estado
social. Esquematicamente, podem distinguir-se duas principais formas de Estado-providência,
que se sucederam na maioria dos países ocidentais: o Estado protetor e o Estado redistributivo.
O Estado protetor, que se desenvolveu nos anos 30, visava primeiro limitar os custos sociais
do mercado e garantir uma certa segurança face aos mais importantes riscos econômicos
(desemprego, doença, velhice etc.). O Estado redistributivo (desenvolvido nos anos 60 e 70)
procura estabelecer uma certa igualdade: a redução das desigualdades econômicas (e sociais)
torna-se então uma das missões essenciais da ação pública, à qual tendem a ser ligadas ou
subordinadas as políticas sociais no seu conjunto. Esta evolução foi travada ou estorvada em
fins dos anos 70 (um pouco mais tarde na França) em razão da crise econômica e também da
tomada de consciência dos "efeitos perversos" das políticas igualitárias dos anos precedentes
(UFSC, 2017, p. 173).
O fato é que etnicidade é um conceito essencialmente contemporâneo e
muitos autores defendem que a fluidez e a globalização das informações na
sociedade moderna contribuem para a difusão dos sentimentos nacionalistas e
étnicos, ou seja, diferentemente do que alguns autores acreditavam, as tecnologias
da modernidade não trouxeram individualismo e uniformização à dinâmica
social, mas ao desenvolvimento de nacionalismos étnicos, racismo e identidades
particulares. Vejamos a seguir um exemplo.
O sentido da identidade bretã, realça Berger (1972), reforçou-se a partir
da Primeira Guerra Mundial, quando os jovens bretãos começaram a
descobrir a França e numerosos bretões, cuja consciência de pertença
regional não ultrapassava os limites da sociedade local ou do departamento
administrativo, descobriram, pelo rádio e depois pela televisão, que
pertenciam a uma entidade designada como Bretanha. Segundo Connor
(1972), o aumento considerável dos contatos intergrupais foi percebido
por um significativo número de indivíduos como uma ameaça contra
a sobrevivência de suas tradições culturais específicas, favorecendo
uma ideologia de resistência à uniformização ou à dominação cultural
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
121
e linguística. Além disso, a facilidade e a rapidez das comunicações do
mundo moderno possibilitaram não apenas a difusão das formas de
organização, dos slogans e das reivindicações de grupo – podendo, como
foi o caso em relação aos negros americanos e aos palestinos, fazer o
papel de modelos -,mas igualmente permitiram a constituição de redes
internacionais de militantes nacionalistas e a difusão das técnicas de
guerrilha (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 28).
Esses movimentos também aconteceram em países de Terceiro Mundo e com
as minorias do Ocidente. No caso dos países de Terceiro Mundo, os movimentos
surgiram devido às reivindicações baseadas nas teorias da dependência econômica.
Tomando como exemplo os levantes dos países menos desenvolvidos, também
alguns países da Europa tiveram movimento de independência.
7 DIÁSPORAS E DESLOCAMENTOS
O termo diáspora é extraído dos antigos termos gregos dia (através, por
meio de) e speirõ (dispersão, disseminação), sendo que a palavra atualmente é
utilizada de várias maneiras.
Inicialmente, é necessário destacar que o termo diáspora foi associado à
experiência traumática do povo judeu que foi exilado de sua pátria e disperso para
vários países.
Essa experiência acabou emprestando ao termo diáspora um sentido
negativo, associando às dispersões territoriais a ideia de alienação, perda e
exílio forçado. Por este motivo, outros movimentos migratórios passaram a ser
comparados à experiência judaica e, portanto, ao termo diáspora.
Dito de outra forma, por diáspora se pode compreender toda e qualquer
dispersão de um povo por meio de perseguições e discriminações políticas,
religiosas ou étnicas. Atualmente, o termo é utilizado para designar praticamente
qualquer comunidade transnacional, ou seja, todo movimento migratório de
grandes populações que ultrapasse as fronteiras nacionais.
O problema que se coloca quando o termo é utilizado de forma ampla, é
que é normalmente confundido com categorias como imigrantes, trabalhadores
temporários, minorias étnicas, viajantes ou refugiados.
A ideia de diáspora foi construída com base em uma dimensão de dupla
consciência. Pressupõe-se que os sujeitos da diáspora possuem uma consciência
individual forjada sobre conexões descentralizadas e multilocalizadas, de estar
simultaneamente “em casa” e “longe de casa” ou de estarem ao mesmo tempo
“aqui e lá” (CASHMORE, 2000). Do ponto de vista da produção cultural é possível
verificar a fluidez dos estilos construídos e das identidades dos povos na diáspora.
Percebe-se o desenvolvimento e a reprodução de culturas híbridas ou alternativas.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
122
Por outro lado, a diáspora também é percebida como um novo tipo de
problema, especialmente por grupos nacionalistas e de direita. Estes percebem
as comunidades transnacionais como uma ameaça à segurança dos Estados,
como fontes potenciais de terrorismo internacional. Além disso, existe uma forte
preocupação dos Estados receptores das comunidades transnacionais com os laços
que estas comunidades mantêm com seus países e etnias de origem. Para eles,
talvez a lealdade para com os seus países de origem pode ser muito mais profunda
do que com o país que os hospedam, conforme destaca Cashmore (2000).
Estas perspectivas se acentuam ainda mais quando ocorrem situações de
conflito, como o ataque à sede de revista satírica Charlie Hebdo, em Paris, no início
do ano de 2015, e o ataque ocorrido no final do ano de 2016 em Paris, que matou
mais de 180 pessoas. Nos dois casos o Estado Islâmico se responsabilizou pelos
atentados, sendo que, no caso do ataque a Paris, dos sete terroristas envolvidos
quatro eram franceses.
FIGURA 40 - ATENTADO EM PARIS
FONTE: Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2015-01-07/homens-armados-
provocam-mortes-ao-atacar-sede-de-revista-satirica-em-paris.html>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Formas culturais híbridas e múltiplas identidades expressas pela juventude
que se autoproclama “na diáspora” também são vistas pelos conservadores da
“sociedade hospedeira” como ataques às normas tradicionais (hegemônicas e
assimiladoras).
É claro que esta última imagem da diáspora não é compartilhada por vários
grupos sociais, nem pela maior parte do meio acadêmico. Muitos, ao contrário,
percebem as fortes redes transnacionais como características da globalização,
especialmente o fortalecimento das telecomunicações e das facilidades de viajar.
Assim como existem aqueles a quem agrada a ideia de construir novas identidades
e formar culturas híbridas.
Com relação aos processos de migração contemporâneos, pode-se dizer
que cerca de 200 milhões de pessoas, ou seja, 2,8% da população mundial é
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
123
constituída atualmente por migrantes, conforme destaca Cogo (2007), sendo que
todos os continentes apresentam movimentos de migração, assim como acolhem
populações em deslocamento, especialmente em nível internacional.
O aumento do número de deslocamentos, assim como o seu caráter
internacional, são características dos processos atuais de migração, que até
pouco tempo atrás estavam restritos apenas a algumas nações e regiões. Em
grande medida, a ampliação da migração e da variedade de países e territórios
que recebem essas comunidades ocorreu devido às possibilidades de mobilidade
disponíveis atualmente e também da emergência de novos migrantes originários de
zonas geográficas que não faziam parte dos fluxos migratórios tradicionais, como
a Ásia Central e Oriental e o Leste Europeu. Os estados receptores tradicionais
costumavam ser até então o norte da América e a Austrália. Estas ainda permanecem
sendo importantes áreas receptoras de migração internacional.
No entanto, com o crescimento acelerado dos processos migratórios, hoje
verificam-se outras áreas receptoras desse contingente. Sobre o crescimento do
número de imigrantes nos últimos 30 anos, Cogo (2007) relata que os 77 milhões
registrados em 1965 sobem para 111 milhões em 1990; 140 milhões em 1997; e
175 milhões no ano 2000. “Os indicadores apontam para a distribuição desigual
das migrações, com a concentração de 90% dos migrantes em somente 55 países.
Espanha, Estados Unidos e Alemanha são os países que registraram o maior
aumento do número de imigrantes” (COGO, 2007, p. 65).
A imigração internacional clandestina é um tipo de movimento migratório
bastante recorrente nos últimos tempos. Isso ocorre devido à dinâmica capitalista
que aproximou países em blocos econômicos, como a União Europeia e o Mercosul,
por exemplo. Esse contato aumenta e intensifica os deslocamentos internacionais
em busca de melhores condições de trabalho e renda.
Esse tipo de migração normalmente não é contabilizado pelos censos e
pesquisas oficiais realizados, uma vez que não deixa registro. De acordo com Cogo
(2007, p. 66), “nos Estados Unidos foram recenseados 8,5 milhões de imigrantes
sem documentos em 2000, o que permite fazer uma estimativa de 12 milhões de
clandestinos. Na Europa, por sua vez, haveria oito milhões de imigrantes sem
documentos”.
Ainda podem ser verificados outros tipos de movimentos migratórios,
como os refugiados, os asilados, as pessoas e grupos que migram voluntariamente,
como profissionais qualificados que são contratados em outros países, como
empregados civis internacionais, empresários independentes, cientistas, médicos
e outros. Existem ainda os imigrantes da Terceira Idade, conforme destaca
Cogo (2007). Esses normalmente são impulsionados por condições climáticas e
econômicas favoráveis ao estilo de vida deste grupo social.
Um importante impacto econômico relacionado à questão da migração diz
respeito às remessas de recursos realizadas pelos imigrantes aos seus países de
origem, que somente no ano de 2002, como descreve Cogo (2007), somaram cerca
de 25 bilhões de dólares enviados aos países da América Latina.
124
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu:
• Acerca de etnicidade, identidade étnica, nação, raça, grupos étnicos e suas
fronteiras.• A noção de raça no início do século XX, utilização do termo para designar
características físicas das diferentes populações mundiais, como os asiáticos, os
negros, os indígenas e os brancos.
• A eugenia e a ideia de superioridade biológica formam uma corrente de
pensamento a partir da qual vários países acabaram por assumir o discurso
racista para justificar suas ações.
• O conceito de raça foi retirado do debate acadêmico após a Segunda Guerra
Mundial, compreendendo-o como um conceito frágil, ilegítimo e não científico.
Devido às pesquisas genéticas, se sabe hoje que não existem raças humanas
diferentes.
• O racismo sem raça acontece quando as características étnicas ou culturais
(religiosidade, crenças, regras sociais) de um grupo são tomadas no lugar das
características biológicas/raça (cor de cabelo, pele, traços fisionômicos) para
justificar relações de hierarquia e desigualdades sociais.
• A ideia de que há muito tempo as diferentes posições sociais são demarcadas e
justificadas com base em consensos sociais, com base em naturalizações.
• As diferenças entres os termos raça, nação e etnia.
• A identidade étnica se constrói pelo contraste com o outro, entre membros e
não membros de um grupo étnico.
• Um grupo étnico só é possível se os atores tiverem a consciência das fronteiras
que marcam o sistema social ao qual acreditam pertencerem e também
identificarem os outros atores de outros sistemas sociais como diferentes.
• O debate sobre etnicidade e modernidade: Para muitos autores, a fluidez e a
globalização das informações na sociedade moderna contribuem para a difusão
dos sentimentos étnicos.
• O conceito de diáspora traz o sentido de dispersão de um povo por meio de
perseguições e discriminações políticas, religiosas ou étnicas. Atualmente, no
entanto, o termo é utilizado para designar praticamente qualquer comunidade
transnacional.
125
AUTOATIVIDADE
1 Apesar de ter sido por muito tempo confundido no meio acadêmico, há
diferenças entre os termos etnia, nação e raça. Isso porque cada um deles
procurou explicar os motivos pelos quais os seres humanos se reúnem em
grupos. A partir de sua interpretação, conceitue cada um deles.
2 Por muito tempo o conceito de raça, além de designar características físicas,
também foi usado para justificar a manutenção da desigualdade social.
Nesse sentido, o termo racismo sem raça surge para explicar até mesmo as
desigualdades sociais promovidas por outros fatores sociais, como o gênero e a
classe social. Explique o conceito de racismo sem raça com suas palavras.
126
127
TÓPICO 3
GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS
IMPORTANTES PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES
SOCIAIS ONTEM E HOJE
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Com o surgimento do conceito de etnia, surgem os conceitos de Gênero e
Multiculturalismo, ambos atrelados a movimentos sociais de luta por direitos. No
caso do multiculturalismo, surge a partir dos movimentos negros da década de
1960, e o conceito de gênero surge inicialmente atrelado ao movimento feminista e
aos estudos feministas, no espaço universitário, na década de 1980.
Os dois movimentos possuem duas dimensões distintas, uma relativa
aos movimentos sociais e outra relativa aos estudos e pesquisas realizados
nas universidades. Também os dois campos de estudos são provenientes
majoritariamente das Ciências Sociais.
Um dos resultados destes movimentos foi o desmantelamento do
segregacionismo racial nos Estados Unidos, devido às lutas pelos direitos civis
na década de 1960. A partir daí se começou a perceber quais mecanismos sociais
de fato contribuíam para a manutenção das desigualdades raciais e sexuais. As
desigualdades não eram produzidas por questões inerentes à raça ou ao sexo
(incapacidade física ou intelectual), mas sim por todo um sistema social, político
e econômico que oferecia aos negros e mulheres oportunidades desiguais, como a
falta de acesso a escolas e a empregos de qualidade, como a exposição à pobreza
(GUIMARÃES, 1995). Assim surgem outros conceitos interpretativos da realidade,
como a etnia, o gênero, o status social, entre outros.
2 DO MOVIMENTO FEMINISTA AOS ESTUDOS DE GÊNERO
Os estudos de gênero surgiram pela necessidade de compreender certos
aspectos das desigualdades sociais, especialmente aqueles relacionados às
hierarquias sociais provenientes das diferenças sexuais. No entanto, para chegarmos
a discutir especificamente a categoria de gênero, é importante compreender suas
raízes históricas.
O surgimento dos estudos atuais sobre a condição feminina e sobre as
assimetrias sociais, os “Estudos de Gênero”, só foram possíveis porque, ao longo
do tempo, muitos foram os movimentos de mulheres denunciando as situações de
128
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
opressão, preconceito e dominação que sofreram e ainda sofrem. O movimento
feminista não pode e não deve ser reconhecido como um movimento único,
mas sim como o conjunto de movimentos ocorridos desde o século XVIII (e
provavelmente até mesmo antes disso) voltados a conquistas de direitos para as
mulheres. Se hoje o gênero representa uma categoria de análise tão importante
para as Ciências Sociais, como o conceito de classe e etnia, é porque se fez legítimo
pelas tantas batalhas dos movimentos feministas, tornando-se fundamental para a
compreensão das relações humanas.
Para falarmos sobre os estudos de gênero, é necessário primeiro
contextualizar o surgimento deste conceito, não é mesmo?
O termo gênero surge nos Estados Unidos na década de 1970, quando os
problemas das mulheres começam a entrar em cena nos espaços universitários,
mas antes disso é preciso compreender que o conceito de gênero decorre do
movimento feminista e de suas lutas. Por este motivo, vamos conhecer um pouco
sobre o feminismo.
O feminismo é um conceito múltiplo, porque possui uma dimensão política
que se refere aos movimentos de luta por direitos, e uma dimensão acadêmica,
que se refere aos estudos da condição feminina. A dimensão acadêmica, ou seja,
o campo de pesquisa e de conhecimento sobre as mulheres, pode ser considerada
multidisciplinar, porque ocorre em diferentes campos disciplinares, como:
Antropologia, História, Educação, Sociologia, Direito e vários outros.
O principal objetivo do movimento feminista não foi alcançar a igualdade
entre homens e mulheres, mas sim a equidade entre eles. Para assegurar a
equidade de gênero não deve ser necessário que as mulheres assumam posturas
“masculinas”. Elas devem preservar suas identidades. Por isso a ideia de
“equidade” e não igualdade.
No debate de gênero e etnia, quando se fala em equidade referimo-nos
ao entendimento de que é necessário reconhecer as diferenças para adequar as
políticas e demais ações sociais para a realidade de cada um, permitindo que todos
alcancem seus direitos e a justiça social ocorra.
FIGURA 41 – CONCEPÇÃO DE IGUALDADE E EQUIDADE
FONTE: Disponível em: <https://br.linkedin.com/topic/equidade>. Acesso em: 6 fev. 2017.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
129
O Movimento Feminista surgiu no século XVIII, na Europa, especialmente
na Inglaterra e França, mas logo repercutiu em outros países e se desenvolveu de
diferentes formas e expressões até os dias atuais. Para dar uma ideia da dimensão
do Feminismo, ele foi dividido em três grandes momentos, que explicam as
diferentes concepções e lutas do movimento: As chamadas primeira, segunda
e terceira onda feminista. De acordo com Zirbel (2016, p. 98), a “Primeira Onda
Feminista” refere-se:
[...] às extensas lutas a favor do direito de voto para mulheres (também
conhecido como movimento sufragista), que se estenderam no ocidente
desde o final do século XIX até meados doséculo XX, configuram a
primeira onda feminista, cujo objetivo central foi o de reformar as
instituições sócio-políticas no sentido de propiciar maior igualdade
entre homens e mulheres, utilizando-se do voto como estratégia. No
final da década de 1960 e em grande parte da década de 1970, após a
percepção e avaliação de que o voto não fora suficiente para operar as
mudanças desejadas, uma segunda onda de protestos e reivindicações
buscou ampliar direitos.
A Segunda Onda Feminista culmina com os movimentos sociais em
andamento nos Estados Unidos, e o país será desta vez a referência do movimento
para o restante do mundo. A segunda onda feminista se refere a um período da
atividade feminista que começa no início da década de 60 e dura até o fim da
década de 80. Este momento do feminismo é considerado um dos mais importantes,
porque é quando de fato os movimentos começam a se tornar mais organizados.
Nesse período os Estados Unidos são um dos mais importantes polos de lutas por
direitos das mulheres no Ocidente. Houve várias mudanças sociais objetivas, como
a conquista do direito ao voto, o acesso ampliado à educação, ao trabalho e uma
maior participação política das mulheres. Além disso, outras questões, como as
conquistas sociais em torno do aborto e dos direitos reprodutivos (contracepção),
pela proteção das mulheres vítimas de violência, entre outros.
É na Terceira Onda Feminista que surge o conceito de gênero, nos Estados
Unidos, especialmente por meio do movimento feminista e do movimento homossexual
que, na década de 1970, começam a questionar as relações de dominação e opressão
no espaço privado, local em que mulheres e homossexuais eram constantemente
obrigados a representar os papéis sociais “naturais” ao seu sexo.
130
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
FIGURA 42 - PAPEL SOCIAL DA MULHER NA DÉCADA DE 1940, NOS
ESTADOS UNIDOS
FONTE: Disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/783908497360
79944/>. Acesso em: 10 mar. 2017.
A partir desses movimentos, os temas mulher e sexualidade começam
a adentrar o espaço universitário, e pesquisas passam a ser desenvolvidas no
interior de várias disciplinas. Logo se percebe que não é mais possível falar sobre
a mulher de maneira generalizante, ou seja, de uma única condição feminina, mas
levar em conta outros elementos no entendimento das desigualdades e assimetrias
que sofriam as mulheres.
Era necessário levar em conta a posição de classe, a identidade étnica, as
referências regionais nas quais as mulheres estariam inseridas, assim como todos
os condicionantes que implicam esses lugares sociais que ocupavam. Porque não
eram os mesmos problemas que viviam, por exemplo, mulheres brancas de classe
média e mulheres negras, pobres de periferia. Por mais que as duas sofressem
discriminações de gênero, como a imposição dos papéis sociais que pressupunham
uma posição de submissão e obediência aos homens, por exemplo, ainda outras
discriminações e dificuldades se sobrepõem no caso da mulher pobre e negra.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
131
FIGURA 43 - AS CONDIÇÕES FEMININAS
FONTE: Disponível em: <https://maniacosporfilme.files.wordpress.com/2013/04/the-help-3.
jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Nesse período, várias teses são desenvolvidas, no entanto, a referência
utilizada para o reconhecimento das mulheres enquanto grupo ainda permanece
bastante associada a uma unidade biológica, como vagina, útero, seios (GROSSI, s.d.).
Em seguida, surge o conceito de gênero para acabar de vez com a
essencialização da condição feminina, através de pesquisadoras norte-americanas.
Elas vão tratar as relações entre homens e mulheres de forma a negar as diferenças
biológicas como constituidoras das identidades dos seres humanos e introduzir
a perspectiva de que somos construídos a partir de determinados mecanismos
sociais, que nos condicionam a cumprirmos papéis sociais, preestabelecidos. Uma
das principais responsáveis por essa nova perspectiva é a autora Joan Scott. No
artigo intitulado “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, ela diz que:
O gênero torna-se uma maneira de indicar ‘construções sociais’ – a criação
inteiramente social de ideias sobre os papéis adequados aos homens
e às mulheres. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente
sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres. O gênero
é, segundo esta definição, uma categoria social imposta sobre um corpo
sexuado (SCOTT, 1995, p. 7).
Para a estudiosa Françoise Heritier (1996), o conceito de gênero é relacional,
ou seja, se constrói na relação entre homens e mulheres, haja vista que ninguém
vive só, pois todas as pessoas se relacionam desde que nascem, independentemente
das regras sociais e culturais.
Segundo Grossi (s.d.), papéis de gênero são as representações (tomadas
como representações de uma personagem no teatro) de cada sexo, ou seja, papéis
132
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
sexuais são as características atribuídas a cada sexo, de acordo com sua cultura.
São modelos do que é próprio e concernente a cada sexo.
Sabe-se, através de relatos de historiadores, que os papéis de gênero
podem ser alterados dentro de uma mesma sociedade, dependendo das situações.
Com relação à identidade de gênero, ela se forma, segundo Grossi (s.d.), a partir
da socialização de valores e comportamentos que são internalizados logo nas
primeiras fases da infância. Esses valores e comportamentos que são repassados
são diferentes para cada sexo e também variam de uma cultura para outra.
Nos últimos tempos os estudos de gênero passaram a se preocupar com
várias questões relativas ao universo das relações sociais. Observar a realidade a
partir da análise de gênero possibilitou novas interpretações sobre o comportamento
humano e a reprodução das desigualdades de gênero.
3 MULTICULTURALISMO
Caro acadêmico, neste item vamos trabalhar o conceito de multiculturalismo,
procurando apresentar o seu contexto de surgimento. Vamos focar nas políticas
multiculturais nos Estados Unidos, compreendendo que os movimentos sociais
naquele país foram fundamentais para a ampliação do debate sobre direitos civis
e, portanto, fundamentais para o multiculturalismo. Por este motivo, destacamos a
trajetória histórica dos índios norte-americanos e o processo de escravidão ocorrido
no país. Para complementar, destacamos a importância dos movimentos negros e
suas principais lideranças para as políticas de ação afirmativas nos Estados Unidos.
Apresentamos também, como resultado das lutas sociais da década de 1960
nos Estados Unidos, a conquista da Lei dos Direitos Civis e as primeiras políticas
de ações afirmativas no país.
Por fim, realizamos uma discussão acerca do que são Políticas Públicas de
Ação Afirmativa, objetivando nivelar os conhecimentos acerca destes temas de
estudos, que servirão de base para a compreensão do debate multicultural.
3.1 MULTICULTURALISMO E SEU CONTEXTO HISTÓRICO
A seguir vamos trabalhar o conceito de multiculturalismo, enfatizando
as origens do surgimento do movimento, situando-o do ponto de vista político
(movimentos sociais multiculturais e políticas públicas) e teóricos (ciências
multiculturalistas), visando oferecer conteúdo de base para a interpretação deste
campo de estudos e sua importância para o debate das relações interétnicas.
Conhecer o conceito de multiculturalismo e suas origens é importante, pois,
ao longo de sua trajetória profissional e pessoal, você certamente os utilizará para
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
133
interpretar as diferentes realidades sociais nas quaisestiver inserido. Portanto,
bons estudos!
Como a própria etimologia da palavra nos sugere, o termo “multi” significa
vários; o termo “culturalismo” refere-se à cultura; e o sufixo “ismo” está associado
às posições assumidas ou ideias aceitas sobre as possibilidades de conhecimento,
ou seja, no caso de multiculturalismo significa uma posição assumida sobre as
diferentes relações entre as várias culturas.
O “multiculturalismo” é um termo polissêmico e existem, pelo menos, dois
sentidos diferentes em que este pode ser utilizado. Um primeiro sentido é
descritivo e reporta a um fato da vida humana e social, que é a diversidade
cultural étnica, religiosa que se pode observar no tecido social, ou seja, um
certo cosmopolitismo que atualmente é fácil de ver em qualquer grande
cidade da Europa e da América do Norte. Um segundo sentido é prescritivo
e está associado às chamadas políticas de reconhecimento da identidade
e/ou da diferença que os poderes públicos prosseguem, ou deveriam
prosseguir, segundo os seus defensores, em nome dos grupos minoritários
e/ou “subalternos” (FERNANDES, 2006, p. 2).
Dito de outra forma, MULTICULTURALISMO significa a existência de
grupos de diversas culturas, assim como o embate político, econômico e social
travado pelos diferentes grupos sociais na luta pelo respeito à diversidade. Por
isso, além de estudos teóricos e empíricos, o termo implica na conquista de
reivindicações das chamadas minorias ou grupos marginalizados, como os negros,
índios, mulheres, homossexuais e outros tantos, que buscam assegurar seus
direitos sociais através de políticas públicas de ação afirmativa.
O multiculturalismo é pluralista, porque as diferenças coexistem em um
mesmo país ou região. Ali convivem diferentes culturas, valores e tradições.
Há o diálogo e convivência pacífica entre as culturas diversas. No entanto, esta
coexistência pacífica não significa negar as diferenças entre as culturas, nem as
homogeneizar, mas compreendê-las a partir de uma visão dialética sobre os
termos igualdade e diferença, na medida em que não se pode falar em igualdade
sem levar em conta as diferenças culturais, e não se pode relacionar a diferença
como medida de valor.
Por este motivo, entendemos que igualdade e diferença não são termos
opostos. De fato, a IGUALDADE opõe-se à desigualdade, enquanto DIFERENÇA
opõe-se à padronização, à homogeneização, à produção em série.
Neste sentido, o objetivo do multiculturalismo, assim como todo o debate das
relações interétnicas, é lutar pela igualdade e pelo reconhecimento das diferenças.
Assim, um dos temas centrais para o multiculturalismo tem sido o DIREITO À
DIFERENÇA e a DIMINUIÇÃO DAS DESIGUALDADES, bandeira de luta de
vários movimentos sociais contemporâneos espalhados pelo mundo inteiro.
O termo “multiculturalismo” é relativamente recente e sua utilização
ocorreu pela primeira vez na Inglaterra, entre as décadas de 1960 e 1970. Na
linguagem oficial, de acordo com Fernandes (2006), o “multiculturalismo” surgiu
134
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
no Canadá e na Austrália, para designar as políticas públicas com o objetivo de
valorizar e/ou promover a diversidade cultural. O autor destaca que ainda nesse
período outros países anglo-saxônicos, como o Reino Unido, a Nova Zelândia e os
EUA, também iniciam políticas públicas qualificadas como “multiculturais”.
NOTA
PAÍSES ANGLO-SAXÔNICOS: são países cujos descendentes são provenientes de
povos germânicos (anglos, saxões e jutos). Esta denominação é resultado da fusão desses
povos que se fixaram ao sul e leste da Grã-Bretanha, no século V.
O multiculturalismo possui, na sua essência, a ideia, ou ideal, de uma coexistência harmônica
entre grupos étnica ou culturalmente diferentes em uma sociedade pluralista. Os principais
usos do termo, contudo, alcançaram uma extensão de sentidos que o incluíram como uma
ideologia, um discurso e um apanhado de políticas e práticas.
Ideologicamente, o multiculturalismo abrangeu temas relacionados, incorporando a aceitação
de diferentes grupos étnicos, religiosos, práticas culturais e diversidades linguísticas numa
sociedade pluralista. Quando aplicado à política, abrangeu uma extensão de antigas políticas
estatais com dois propósitos principais: manter a harmonia entre grupos étnicos diversos e
estruturar as relações entre o Estado e as minorias étnicas.
Em termos de política estatal, o Canadá é identificado como o país que mais tem promovido
políticas de multiculturalismo: por exemplo, manifestações de um ideal político em manter
as relações entre os grupos étnicos de modo a implicar coexistência, tolerância mútua e
igualdade. A imagem do “mosaico” canadense, no qual os grupos que o compõem possuem
formas distintas, mas formam juntos um todo unificado, costuma ser comparada à imagem
do “cadinho de raças”, usada para tipificar os objetivos de assimilação das minorias étnicas nos
Estados Unidos.
Alguns críticos do multiculturalismo argumentaram o seu efeito de dividir a sociedade e a
sua tendência a ameaçar a unidade do Estado. Outros alegaram que ele gera guetos sociais
e culturais, que limitam as oportunidades das minorias étnicas. Outras críticas apontaram os
conflitos ou tensões entre a promoção do multiculturalismo e a conquista da igualdade de
gênero.
Os debates acerca do multiculturalismo em determinadas instituições sociais e agências
estatais (como escolas, serviços sociais e policiais) evidenciaram a posição dele em relação
a outros enfoques. Na educação, por exemplo, o multiculturalismo direciona as escolas
para um currículo que incorpora matérias de diferentes culturas e provê a celebração de
festividades, religiosas ou não, como forma de alimentar a consciência das diferenças culturais
e de promover relações positivas entre os estudantes.
Nos contextos educacionais, o multiculturalismo desenvolveu-se por meio de críticas aos
modelos educacionais de assimilação que tentam impor uma educação monocultural a
sociedades culturalmente diversificadas. Os críticos do multiculturalismo na educação, por sua
vez, argumentaram a seu respeito a partir de perspectivas assimiladoras e antirracistas. Alguns
acusaram o relativismo subliminar ao tratamento de diferentes culturas como igualmente
merecedoras de respeito.
Outros criticaram a forma celebratória do multiculturalismo que enfatizou as artes, a cultura
e as festividades religiosas. Uma crítica antirracista ao multiculturalismo argumenta que tal
ênfase lida com aspectos periféricos da educação, uma vez que não reconhece o significado
do racismo operante por meio de práticas discriminatórias dentro das escolas e na sociedade
mais ampla. Enquanto alguns discutiram se o multiculturalismo e o antirracismo constituem
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
135
discursos irreconciliáveis ou levam a políticas incompatíveis, outros procuraram desenvolver
uma síntese do multiculturalismo com o racismo.
Análises do crescimento dos debates a respeito do multiculturalismo revelam mudanças
subliminares nas relações de poder, resultantes de fatores como migração, mudanças
demográficas ou resistência sistemática ao racismo. Nesse contexto, torna-se possível o
surgimento de debates a respeito das práticas e princípios do multiculturalismo, assumindo
diferentes formas em vários contextos locais, nacionais ou internacionais.
FONTE: CASHMORE, Ellis. Dicionário de Relações Étnicas e Raciais. São Paulo. Summus,
2000, p. 371.
Para entender o motivo pelo qual estes movimentos surgiram, devemos
resgatar o aspecto da constituição histórica dos Estados Unidos, marcada por um
longo processo de colonização, que teve como base a eliminação e a opressão das
diversas tribos indígenas que ali estavam. Alémdisso, devemos levar em conta o
processo de escravidão que ocorreu no país, no qual os negros serviram como base
para o desenvolvimento da nação.
Estas posturas dos colonizadores norte-americanos foram influenciadas
pelos valores religiosos de igrejas protestantes, comuns à maioria dos colonos
de origem anglo-saxã. Esta influência permeou o pensamento e as atitudes dos
colonizadores norte-americanos em relação aos demais grupos, desencadeando,
mais tarde, uma série de movimentos pela busca de justiça social.
Para falarmos sobre as políticas multiculturais nos Estados Unidos,
realizamos um breve relato histórico da constituição do território, enfatizando a
relação dos colonos norte-americanos com os nativos, assim como com os escravos
trazidos da África. Além disso, destacaremos a importância do movimento negro
em prol da luta pelos direitos civis.
3.2 MULTICULTURALISMO NOS EUA
Como já mencionamos, para compreender o contexto de surgimento das
políticas multiculturais nos Estados Unidas da América, devemos resgatar o
processo de constituição do Estado norte-americano, especialmente os aspectos das
populações indígenas no território, a chegada dos primeiros colonos, as diferentes
religiões que foram trazidas e a herança anglo-saxã, que serviu como base para
a constituição da elite econômica e política nos EUA, assim como o período da
escravização dos negros e do apartheid.
Com relação à questão indígena, podemos dizer que antes da vinda dos
primeiros colonos para a América do Norte, a região já era habitada por diversos
povos nativos. Semprini (1999) estima que tenha havido um total de três a quatro
milhões de índios no território norte-americano na época da colonização, no século
XVII. Havia uma infinidade de povos ameríndios, entre os principais podemos
destacar as tribos: Apaches, Navajos, Cheroqui, Moicanos, Comanches, Aruaques,
Chibchas, Mapuche e outras.
136
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
Até o século XIX a população de ameríndios nos EUA foi praticamente
exterminada. Segundo Semprini (1999), o número de sobreviventes deste
genocídio, confinados em reservas, não chegava a 200 mil pessoas. “O massacre
físico se prolongaria ao longo do século XX, por uma política sistemática de
assimilação forçada e de enraizamento cultural: deslocamento de populações,
mistura de tribos diferentes, proibição de práticas rituais tradicionais de culto e do
ensino da língua indígena” (SEMPRINI, 1999, p. 13).
Entender o processo de extinção das tribos indígenas norte-americanas
torna-se importante para compreendermos os motivos que levam os grupos
minoritários a buscarem o mínimo de reparação para as suas inúmeras perdas,
dentre as quais a substancial perda da sua identidade. No entanto, no decorrer do
processo de colonização, conforme comenta Semprini (1999), o sangue indígena
com o sangue de seus “conquistadores” misturou-se ao longo do tempo e acabou
ficando impresso na constituição da “raça” americana. No entanto, somente há
pouco tempo os norte-americanos passaram a considerar o elemento indígena
como parte da constituição de sua identidade e, portanto, aceitar essa perspectiva.
Segundo Semprini (1999, p. 14), assumir essa característica de sua identidade:
[...] significa entender que seu país foi construído sobre um genocídio.
Esta tomada de consciência resulta, então, na procura de uma nova
continuidade. Durante dois séculos o elemento índio havia representado
a alteridade absoluta, a diferença que deveria ser eliminada para a
afirmação de sua própria identidade. Foi imposta uma descontinuidade
absoluta, por extermínio, depois por assimilação-apagamento, e em
seguida por segregação.
Somente a partir dos anos 30 a política de eliminação da identidade
indígena foi sendo aos poucos abandonada. No entanto, somente a partir dos anos
60 é que a questão indígena passa a ser levada em conta pela classe política e pela
opinião pública, no sentido de reconhecer a necessidade de uma compensação por
tanta selvageria e para que seja reconhecido às nações indígenas (Indian Nations)
um estatuto oficial e direitos próprios (SEMPRINI, 1999).
DICAS
Se você quiser saber mais sobre a história dos
índios norte-americanos, assista ao documentário
sobre um de seus principais líderes, “Touro Sentado”, acessando
o site: <https://www.youtube.com/watch?v=S8EVrf3kCbA>.
Touro Sentado foi um nativo americano que tentou evitar que
os colonizadores americanos tomassem as terras indígenas. Ele
é conhecido por seu papel na batalha de Little Big Horn. Nessa
luta, ele derrotou um grupo de soldados comandados pelo
tenente-coronel George Armstrong Custer, dos Estados Unidos.
Touro Sentado era membro dos lacotas, ou sioux tetons. Nasceu
por volta de 1831, perto do Rio Grand, onde fica atualmente o
Estado de Dakota do Sul. Seu nome sioux era Tatanka Iyotake.
Foi nomeado chefe de toda a nação sioux por volta de 1867.
FONTE: Disponível em: <http://escola.britannica.com.br/levels/
fundamental/article/Touro-Sentado/482509>. Acesso em: 15 maio 2017.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
137
A história da escravidão nos Estados Unidos começa em 1619, com a chegada
dos primeiros escravos na Ilha de Jamestown, no Estado da Virgínia. Durante o
período de escravidão os negros foram tratados como mercadoria. “Importados”
da África, eram separados de seus familiares e vendidos para os plantadores de
algodão e demais agricultores do Sul dos Estados Unidos. Foram os negros que
serviram de mão de obra para as plantações dos agricultores sulistas.
Pode-se discernir, sem maiores dificuldades, diversos elementos
fomentadores da questão negra atual na história da implantação desta
minoria. O múltiplo desenraizamento (geográfico, cultural, étnico,
familiar) imposto aos escravos pode ser tido como a origem do problema
identitário que atormenta a minoria negra. Privados de qualquer forma
de enraizamento tradicional ou de afinidades, os escravos e seus
descendentes somente puderam encontrar no isolamento e separação
da cultura branca dominante os fragmentos de uma nova identidade a
ser reconstruída ou a ser totalmente recriada (SEMPRINI, 1999, p. 16).
Oficialmente, a escravidão durou até o dia 1º de janeiro de 1863, quando
o então presidente Abraham Lincoln assinou a Proclamação de Emancipação dos
escravos (Emancipation Proclamation), que libertaria quatro milhões de escravos
até o dia 1º de janeiro do ano seguinte. No entanto, Lincoln não tomou a posição
em prol da abolição porque comungava dos mesmos ideais que os defensores da
abolição, mas sim porque precisava do apoio dos democratas do Norte, entre os
quais havia uma parcela significativa de eleitores abolicionistas e simpatizantes
da causa negra. Desta forma, Lincoln conquistou o movimento abolicionista,
mudando desta maneira o sentido da Guerra de Secessão, incorporando também
o fim da escravatura, como a preservação da unidade nacional, como interesses
principais do conflito. Os agricultores do Sul não se conformaram com a situação,
pois acreditavam que a estrutura agrária servia de argumento para se afirmar
a necessidade da escravidão na região, na medida em que entendiam que os
negros eram, intrinsecamente, inferiores aos brancos, o que justificaria assim a
discriminação racial.
Percebe-se, portanto, que a discriminação do povo norte-americano em
relação à comunidade negra foi profundamente enraizada na cultura estadunidense.
De acordo com Semprini (1999, p. 17):
O silêncio da Constituição Americana sobre a escravidão e o
enraizamento deste costume na economia e nos costumes dos Estados
sulistas permitem compreender a presença e a continuidade no tempo,
dentro da mesma sociedade, de uma corrente racista de tipo biológico
ou essencialista.Durante muito tempo, por exemplo, os tribunais do
país aplicaram a regra denominada de “gota de sangue” (one drop rule),
segundo a qual o simples fato de ter um bisavô negro [...] bastava para
classificar um indivíduo como pertencente à “raça” negra. Além de
ridícula, a one drup rule expõe os defensores do racismo biológico contra
os negros e a obsessão de pureza da qual estão imbuídos.
Esta postura racista do povo norte-americano ainda permanece na
organização social do país de forma intrínseca. É por este traço discriminatório
enraizado na cultura norte-americana que, de vez em quando, surgem “pesquisas”
138
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
com base em argumentos biológicos que procuram provar a inferioridade ou
superioridade “natural” de algumas “raças” sobre outras.
Havia, e ainda há, uma característica fundamental na questão da
desigualdade racial nos Estados Unidos. Ela se desenvolveu e se mantém pelo
processo contínuo de separação racial ao longo do tempo e pela crença ontológica
de que os negros são, naturalmente, inferiores aos brancos. Oliven (2007, p. 31)
destaca que:
apesar dos princípios igualitários da república, a economia norte-
americana, principalmente no Sul, apoiava-se no trabalho escravo.
Mesmo após a abolição, negros e brancos formavam mundos à parte.
Essa realidade de segregação passa a ter um fundamento legal a partir de
uma decisão da Suprema Corte, em 1896, que considerava constitucional
acomodações separadas para brancos e negros em transportes públicos,
desde que fossem equiparáveis. A filosofia do “igual, mas separado”
erigiu uma barreira, negando aos não brancos o livre acesso à moradia,
restaurantes e à maior parte dos serviços públicos.
NOTA
Um aspecto bastante específico da realidade estadunidense é a forma como são
construídas as categorias relacionadas à cor dos indivíduos. Para ser considerado negro basta
ter tido um ancestral africano. Isso gera um preconceito racial de origem, ao passo que no
Brasil, como nos esclarece Oracy Nogueira (1985), o preconceito racial é de marca. Para os
estadunidenses, mais importante na classificação racial é o genótipo, enquanto que no Brasil
o que importa é o fenótipo, a aparência física.
Ao longo do século XX, nos Estados Unidos, houve diversos episódios de
discriminação e segregação racial em relação aos negros, como: as perseguições por
parte de organizações racistas, como a Ku Klux Klan, as discriminações no direito
eleitoral, no mercado de trabalho, no acesso ao ensino e à habitação. Isso tudo
desencadeou uma série de movimentos e levantes em prol da igualdade racial.
Esses movimentos foram marcados por várias personalidades que influenciaram
de forma decisiva na luta pela conquista dos direitos civis.
O pastor Martin Luther King Jr. foi um personagem que influenciou de forma
decisiva o movimento de luta por direitos. King foi um líder que, influenciado pelo
pensamento de Mahatma Gandhi, lutou pela integração dos negros na sociedade
americana. O movimento pelos direitos civis, liderado por ele, pregava a não violência
e contou com a adesão de muitos brancos que eram, também, a favor da causa.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
139
DICAS
Para saber mais sobre a vida e a luta de Martin Luther King, assista ao filme: “Selma:
Uma Luta pela Igualdade”, que narra sua história como pastor protestante e ativista social, que
acompanha as históricas marchas realizadas por ele e manifestantes pacifistas em 1965, entre
a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do Estado, Montgomery, em busca de
direitos eleitorais iguais para a comunidade afro-americana.
Contrariamente ao movimento pacífico liderado por Martin Luther King,
que tinha como objetivo a integração racial, as lideranças que continuaram a
defender os direitos dos negros, após seu assassinato, lutavam pela separação
racial, exigindo do governo uma parcela de terras para viverem suas vidas, ou
mesmo o retorno a suas terras de origem.
De acordo com Oliven (2007), a atitude radical desse movimento se
constituiu na antítese da filosofia de integração, que orientou o movimento pelos
direitos civis.
Ainda em meados da década de 1960, na Califórnia, surge o movimento Black
Panther (Pantera Negra). Um movimento armado que exigia uma compensação
financeira da “América Branca” pelos séculos de exploração. Além disso, exigia
também a isenção de impostos, a permissão para o uso de armas, além de outras
exigências. Esse movimento cometeu muitos excessos, o que comprometeu o apoio
da opinião pública da época, motivo pelo qual o movimento se enfraqueceu. No
entanto, com algumas alterações nas estratégias de mobilizações, o movimento
sobreviveu até o ano de 1986.
3.2.1 A Lei dos Direitos Civis e as primeiras políticas de
ações afirmativas
De maneira geral, os enfrentamentos e as lutas por direitos sociais nos
Estados Unidos, no início do século XX, dividiram as opiniões. De um lado, havia
os grupos a favor da integração racial e, de outro, os grupos segregacionistas, que
não desejavam a mudança, pois consideravam legítimas as desigualdades. De
certa forma, o que ocorre é que, no ano de 1964, o Congresso norte-americano
aprovou o Civil Rights Act (Lei dos Direitos Civis), que, além de banir todo tipo
de discriminação, concedeu ao Governo Federal poderes para implementar a
dessegregação.
O termo ações afirmativas foi primeiramente empregado em 1961, quando
o presidente Kennedy organizou um grupo de trabalho para refletir e deliberar
sobre a questão das oportunidades iguais no mercado de trabalho. Em seguida,
140
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
em 1965, o presidente Lyndon Johnson instituiu que as empresas prestadoras de
serviço ao governo deveriam assegurar um processo seletivo de trabalho de forma
igualitária para todos os cidadãos. Determinou ainda que as empresas deveriam
promover ações afirmativas que tivessem como objetivo combater a discriminação
do passado. Com o passar do tempo, na década de 1970, essa iniciativa do governo
passa a ser implementada nas instituições de ensino e nas empresas privadas,
sendo punidas as instituições que desrespeitassem as exigências oficiais dos planos
e programas de ação afirmativa.
NOTA
NOTA
Em termos demográficos, a presença da população negra na sociedade americana
é menor do que no Brasil, atingindo pouco mais de 10%, grande parte dela concentrada em
centros empobrecidos das grandes metrópoles.
WASP: Este termo é utilizado de forma pejorativa nos países norte-americanos.
Teoricamente, a palavra designa um grupo relativamente homogêneo de indivíduos
estadunidenses de religião protestante e ascendência britânica que supostamente detêm
enorme poder econômico, político e social. Costuma ser empregada para indicar desaprovação
ao poder excessivo de que esse grupo gozaria na sociedade norte-americana.
A partir do momento em que a comunidade negra efetivamente começa a
colher os resultados da mobilização social, através de políticas afirmativas, outros
grupos começam a se organizar no sentido de acessar direitos próprios às suas
especificidades.
De acordo com Oliven (2007), a luta dos movimentos sociais do período
pode ser em parte resumida como a tentativa de enfrentar a “supremacia WASP
(White, Anglo-Saxan and Protestant)”. Ou seja, enfrentar uma maioria branca, anglo-
saxã e protestante, entendidos como colonos “oficiais” do território.
Do ponto de vista do desenvolvimento e ampliação das políticas afirmativas
nos Estados Unidos, no período, surgem quatro grandes grupos que passam a ser
atendidos sistematicamente. De acordo com Oliven (2007, p. 35), são eles:
1. African-Americans, negros nascidosnos Estados Unidos.
2. Native-Americans, descendentes de índios que pertencem a vários
grupos, grande parte deles vivendo nos territórios indígenas
demarcados.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
141
3. Asian-Americans, descendentes de asiáticos que formam um grupo
muito heterogêneo em termos de nacionalidades, etnias, culturas e
nível de escolaridade; são, também, oriundos de períodos migratórios
diferentes.
4. Hispanics, mexicanos, porto-riquenhos, cubanos e demais migrantes
de outros países da América Central e do Sul e seus descendentes, que
podem ser brancos, indígenas ou negros.
De acordo com essa classificação, do ponto de vista da promoção do
acesso a direitos, muitos grupos estariam mal representados, ou mesmo sem
representação, dada, por exemplo, a infinidade de descendentes de imigrantes
nos Estados Unidos. Nesse sentido, as políticas de ação afirmativa tornam-se mais
vulneráveis. Vejamos agora, sob a ótica Oliven (2007), um pequeno texto sobre o
debate da ação afirmativa nos Estados Unidos.
O DEBATE SOBRE A AÇÃO AFIRMATIVA NOS ESTADOS UNIDOS
Foi principalmente através da política de ação afirmativa que se
acentuou a diversidade no ensino superior norte-americano em termos de
presença conspícua de elementos pertencentes a minorias, nos campi de
universidades mais seletas. Essa política não tem sido facilmente aceita e tem
suscitado uma discussão intensa, que transcende os limites da universidade
e, em última instância, liga-se à questão da nacionalidade.
Glazer (1975), baseando seu argumento no fato de que os EEUU são
o primeiro país a se definir, não em termos de origem étnica, mas em termos
de adesão a regras comuns de cidadania, considera inconstitucionais as
políticas governamentais que justificam o que ele chama de “discriminação
afirmativa”, ou seja, o favorecimento de minorias com o fim de alcançar
o objetivo da igualdade. O referido autor se surpreende pelo fato de que
políticas, que reverteram o consenso de dois séculos de história americana,
pudessem se estabelecer de forma tão poderosa no espaço de uma década.
Para se entender essa realidade é preciso levar em conta o fato de que a
nação norte-americana, embora tenha em seu ideário os princípios liberais
de liberdade e igualdade baseadas no mérito, paradoxalmente, conviveu,
por muitos anos, com uma realidade excludente, que aceitava o extermínio
dos índios em prol do progresso, a escravidão e discriminação dos negros e
a própria marginalização das mulheres, consideradas seres inferiores.
Para Takaki (1994), asiático-americano e professor da Universidade da
Califórnia, os críticos das políticas de ação afirmativa, muitas vezes, omitem o
fato de que através da história norte-americana houve sempre discriminação
positiva para homens brancos, que se beneficiaram, durante muito tempo,
de oportunidades educacionais e profissionais que lhes eram reservadas.
Eles desfrutavam de inúmeras vantagens sociais, sem terem de enfrentar a
concorrência de mulheres e de minorias consideradas não brancas. Na medida
em que essas vantagens eram repassadas a seus filhos brancos, por gerações
142
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
e gerações, elas se tornavam cumulativas. Aqueles que desejam abolir as
políticas de ação afirmativa colocam vários argumentos, tais como:
– a existência de cotas acaba sendo injusta e mesmo desrespeitosa para
os membros de minorias que sejam realmente competentes, pois eles
são invariavelmente tomados como beneficiários de uma política de
discriminação positiva a favor de seu grupo;
– raça não é um sinônimo de condição social, ou seja, nem todos os negros
são pobres e nem todos os pobres são negros;
– as políticas de ação afirmativa deram origem a uma burocracia encarregada
de promover programas para combater a discriminação racial, e esse grupo
de burocratas tende a se expandir desenvolvendo interesses próprios.
Uma das formas de tornar mais aceitáveis as políticas de ação
afirmativa é a de apresentá-las não como uma política de discriminação
positiva, mas como uma forma de respeitar as diferenças culturais numa
sociedade que se torna cada vez mais multicultural.
Young (1995) chama a atenção para a necessidade de que as diferenças
sociais, que impliquem em relações de opressão, sejam trazidas a público e
façam parte das negociações políticas. Para a referida autora, a diferença tem
de ser contextualizada, ela faz parte de um processo relacional. A comparação
de grupos sociais é algo bastante complexo e envolve não apenas os grupos
que são comparados, mas, também, os critérios e os objetivos da comparação.
É importante, também, não esquecer que o fato de haver diferenças entre
grupos não exclui a presença de atributos, experiências e objetivos em comum
(WILSON, 1994). Num enfoque que privilegia a perspectiva da justiça social,
Wilson aponta as limitações das políticas de ação afirmativa para a solução
dos graves problemas que afetam a população negra americana no presente.
Ele chama a atenção para o fato de que mudanças políticas e econômicas
contribuíram para a mobilidade individual de um segmento da população
negra, o que propiciou um processo de desracialização no setor econômico, ou
seja, diferenças raciais perdem a importância em determinar a ascensão social
nos Estados Unidos. Se, por um lado, o crescimento econômico deu origem
a uma classe média negra, por outro lado, a reorientação da economia, que
seguiu ao período de prosperidade, tem diminuído as oportunidades de
quase toda a natureza para os outros segmentos da população negra.
A mudança econômica, que se caracterizou pela desindustrialização
de certos setores e maior ênfase na prestação de serviços, tem tornado
redundantes os negros, trabalhadores industriais.
Muitas indústrias, que não necessitam de mão de obra especializada,
deixaram as grandes metrópoles americanas para se instalar em países com
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
143
mão de obra mais barata. Assim, os negros, principalmente os homens,
essenciais na força de trabalho no passado, têm se tornado, em grande parte,
supérfluos como trabalhadores no presente (WILSON, 1994).
O referido autor é crítico da atmosfera de verdadeiro chauvinismo
racial que impregnou alguns representantes do que chama de “perspectiva
negra”. Assim, as atitudes de cooperação e integração entre as raças
acabaram por ser desqualificadas e a solidariedade dentro do grupo
assumiu uma proporção indevida, que pregava a hostilidade em relação aos
brancos em geral. Essa perspectiva tirou de foco a discussão de problemas
relacionados com as mudanças estruturais da economia, que estavam
afetando profundamente as populações negras mais carentes; uma vez que
o problema era definido em termos raciais, as discussões de caráter mais
econômico tornavam-se secundárias.
Pode-se dizer que a política de ação afirmativa nas universidades
tem muito a ver com os valores norte-americanos: elementos das minorias,
inclusive as mulheres, passam a ter a sua chance de vencer na vida, de cada
grupo são cooptados os melhores para participar nas esferas econômica,
acadêmica, política e, na medida em que eles são bem-sucedidos, passam a
servir de exemplo aos demais. Essa política é talhada para reforçar a ideia de
tipo ideal americano como the winner, o vencedor, e não se dirige para a solução
dos problemas que afetam um significativo segmento da população – the
losers, os perdedores –, aqueles que são deixados à margem na reestruturação
econômica da sociedade capitalista e que, ainda por cima, devem carregar o
ônus da responsabilidade de sua precária condição. É importante, no entanto,salientar que as políticas de ação afirmativa favoreceram a mobilidade social
de certos segmentos da população negra e de outros grupos discriminados.
Elas abriram as portas da universidade para minorias até então praticamente
excluídas. Mais do que isso, o debate sobre a Ação Afirmativa traz à
discussão a questão da discriminação social, do ônus que isso representa para
determinados grupos e das possíveis orientações políticas que possam vir a
combater uma situação social inerentemente injusta.
A Universidade da Califórnia, a maior e mais importante
universidade pública nos Estados Unidos, ainda na década de 60 foi uma
das primeiras a estabelecer programas que aumentassem a presença de
minorias na sua comunidade acadêmica. Em dezembro de 1994 foram
amplamente noticiados os dados sobre o aumento do percentual de
minorias, que passaram a representar 21% dos calouros. Galligani, assistente
do vice-presidente encarregado da parte acadêmica dos estudantes, disse em
entrevista: “É gratificante que o nosso comprometimento com a diversidade
tenha alcançado bons resultados”. No ano seguinte, no entanto, os Regents,
responsáveis pela universidade, aproveitando o recesso escolar, votaram,
no mês de julho de 1995, a suspensão dos programas de ação afirmativa
baseados no critério racial.
144
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
Moehlecke (2004), ao analisar o caso da Universidade da Califórnia,
mostra como o abandono de cotas raciais, no final da década de 1990, fez
o percentual dos alunos negros retroceder aos níveis dos anos 60. No ano
2001 a Universidade passou, então, a admitir automaticamente os melhores
alunos das escolas públicas, elevando assim o número de alunos negros;
esses, no entanto, passaram a ser aceitos em campi e cursos menos seletivos.
A referida autora conclui:
o que vale observar das mudanças pelas quais a Universidade
da Califórnia passou ao longo desse processo é que, mesmo após
os reveses e a extinção de medidas raciais, a preocupação com
a igualdade e a diversidade de seus campi continua parte dos
objetivos básicos da instituição. [...] O que se define hoje como uma
universidade de excelência nos Estados Unidos, diferentemente do
que ocorria nos anos de 1960, envolve necessariamente valores como
a inclusão, igualdade e diversidade (MOEHLECKE, 2004, p. 772).
Para Ibarra (2001), a maioria das pessoas, atualmente, pensa que
as ações afirmativas vão desaparecer do cenário da educação superior
ou, ao menos, acreditam que elas vão evoluir. No final da década de 90,
as administrações de George Bush no Texas e de seu irmão, na Flórida,
instituíram a admissão garantida nas universidades estaduais para os
melhores alunos das escolas médias, com isso dificultando o acesso de
minorias ao ensino superior.
Essas decisões políticas representam uma mudança dramática
para a educação superior americana. Elas ocorreram
paralelamente a recorrentes protestos de discriminação e
racismo institucional nos campi universitários em todo o país;
acusações que sempre deixam um sentimento amargo e uma
sensação de perplexidade entre a maioria dos homens que
continuam a manter o predomínio entre o corpo docente e de
posições administrativas (IBARRA, 2001, p. 3).
O referido autor chama a atenção para o reduzido número de pesquisas
feitas sobre o aumento da diversidade nas universidades americanas. “A ação
afirmativa tem se tornado, simplesmente, a coisa certa a ser feita, e ninguém
tem se empenhado em justificar o seu valor de alguma forma mais objetiva.
O resultado pela complacência foi a debacle dos 1990s” (IBARRA, 2001, p. 4).
Em 2003, a Suprema Corte dos Estados Unidos reafirmou a
constitucionalidade de levar em conta raça e etnia na seleção dos alunos para
a universidade. Essa decisão judicial reacendeu o debate nacional e levou
os grupos contrários às ações afirmativas a intensificarem procedimentos
outros que não os jurídicos, mudando a sua estratégia política através da
promoção de plebiscitos estaduais (MOSES, 2005).
FONTE: Disponível em: <revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/.../539/375>. Acesso
em: 17 maio 2017.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
145
Não falamos aqui sobre outros movimentos sociais da década de 1960 nos
Estados Unidos porque o movimento negro foi o que mais teve peso na conquista
dos direitos civis, momento de abertura política para os movimentos em geral. No
entanto, não podemos deixar de admitir que muitos outros movimentos foram
importantes para a conquista das políticas multiculturais. Dentre eles, podemos
destacar os movimentos: operário, feminista, homossexual, hippie, religioso e outros.
3.3 CONCEITUANDO POLÍTICAS PÚBLICAS E DE AÇÃO
AFIRMATIVA
Traremos o debate sobre políticas públicas e demonstraremos as políticas
afirmativas que, no geral, visam proteger as minorias étnicas que tenham
sido discriminadas no passado, dando a elas condições de acesso ao trabalho,
universidades e posições de liderança.
Para compreendermos o debate do multiculturalismo do ponto de vista das
ações políticas, precisamos refletir primeiramente sobre o conceito de “políticas
públicas”.
No decorrer das pesquisas para o desenvolvimento deste livro, nos
deparamos com vários conceitos de “política pública”, porque, assim como o
multiculturalismo, o conceito representa, ao mesmo tempo, aspectos políticos
(ações e programas de governo) e acadêmicos (áreas de conhecimento que
discutem teoricamente o tema). Podemos dizer, portanto, que o conceito é múltiplo,
porque o campo de discussão é muito vasto, e pode ser entendido como uma área
interdisciplinar de conhecimento. De acordo com pesquisas de Souza (2006, p. 24):
não existe uma única, nem melhor definição sobre o que seja política
pública. Mead (1995) a define como um campo dentro do estudo da
política que analisa o governo à luz de grandes questões públicas, e Lynn
(1980), como um conjunto de ações do governo que irá produzir efeitos
específicos. Peters (1986) segue o mesmo veio: política pública é a soma
das atividades dos governos [...] que influenciam a vida dos cidadãos. Dye
(1984) sintetiza: “política pública é o que o governo escolhe fazer ou não
fazer”. A definição mais conhecida continua a ser a de Laswell: Decisões e
análises sobre política pública implicam responder às seguintes questões:
quem ganha o quê, por que e que diferença faz.
Segundo S imões Pires (2001), as políticas públicas devem ser desenvolvidas,
na medida em que se leve em consideração as posições e interesses da sociedade,
através de um processo democrático de participação.
As políticas públicas devem ser - em sua formulação - a expressão pura e
genuína do interesse geral da sociedade, o que, num processo legítimo,
pressupõe seja a demanda social auscultada em instâncias democráticas,
enfrentada de forma realística pela instituição formuladora e
solucionada à luz do possível consenso dos atores sociais, sem prejuízo
da adoção de critérios de conhecimento tecnicamente racionais para a
146
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
solução de problemas sociais, a partir de eficaz fluxo de informações
(SIMÕES PIRES, 2001, p. 192).
Em última análise, entende-se que as “políticas públicas” devem
representar o conjunto de ações políticas desenvolvidas e implementadas por
todos os atores políticos, de maneira que garantam a satisfação das demandas
sociais levantadas nas mais diversas áreas.
No caso das políticas de ações afirmativas, o termo está relacionado
ao contexto dos movimentos sociais da década de 1960, na América do Norte,
especialmente a partir do movimento negro. O termo “ações afirmativas” surge
pela primeira vez no ano de1961, durante o governo Kennedy, que se preocupava
com a possibilidade de igualdade para negros e brancos no mercado de trabalho.
Atualmente, o termo “políticas de ações afirmativas” pode ser entendido como:
[...] o conjunto de políticas públicas para proteger minorias e grupos que,
em uma determinada sociedade, tenham sido discriminados no passado.
A ação afirmativa visa remover barreiras, formais e informais, que
impeçam o acesso de certos grupos ao mercado de trabalho, universidades
e posições de liderança. Em termos práticos, as ações afirmativas
incentivam as organizações a agir positivamente, a fim de favorecer
pessoas de segmentos sociais discriminados a terem oportunidade de
ascender a postos de comando. Nessa perspectiva, a sub-representação
de minorias, em instituições e posições de maior prestígio e poder na
sociedade pode ser considerada um reflexo de discriminação. Portanto,
visa-se, por um período provisório, a criação de incentivos aos grupos
minoritários, que busquem o equilíbrio entre os percentuais de cada
minoria na população em geral e os percentuais dessas mesmas minorias
na composição dos grupos de poder nas diversas instituições que fazem
parte da sociedade (OLIVEN, 2007, p. 30).
As políticas de ação afirmativa também são comumente chamadas de
“políticas multiculturais”, referindo-se ao caráter das lutas políticas do movimento.
Por outro lado, as políticas de ação afirmativa são entendidas pelos críticos do
movimento multiculturalista como movimentos de “discriminação positiva”.
NOTA
DISCRIMINAÇÃO POSITIVA trata deliberadamente os candidatos de forma
desigual, favorecendo pessoas de grupos que tenham sido vítimas habituais de discriminação.
O objetivo de tratar as pessoas desta forma desigual é acelerar o processo de tornar a sociedade
mais igualitária, acabando não apenas com desequilíbrios existentes em certas profissões, mas
proporcionando também modelos que possam ser seguidos e respeitados pelos jovens dos
grupos tradicionalmente menos respeitados. [...]
A discriminação positiva é apenas uma medida temporária, até que a percentagem de membros
do grupo tradicionalmente excluído reflita mais ou menos a percentagem de membros deste
grupo na população em geral. Em alguns países é ilegal; noutros, é obrigatória.
FONTE: Adaptado de: <cadernosociologia.blogspot.com/2011_03_01_archive.html>. Acesso
em: 30 set. 2011.
147
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• A compreensão de que os estudos de gênero tiveram sua origem nos movimentos
feministas, especialmente aqueles da década de 1940 e 1960, nos EUA.
• O feminismo é um conceito múltiplo, porque possui uma dimensão política,
que se refere aos movimentos de luta por direitos, e uma dimensão acadêmica,
que se refere aos estudos da condição feminina.
• A divisão cronológica dos diferentes momentos históricos do Movimento
Feminista: A Primeira Onda Feminista, ocorrida durante o século XIX e fim do
século XX; a Segunda Onda, entre as décadas de 1940 e 1970; e a Terceira Onda,
que ocorre a partir da década de 1980 e introduz o termo “Gênero” nos espaços
universitários.
• O conceito de gênero: em última instancia, o gênero é uma categoria social
imposta sobre um corpo sexuado.
• O entendimento de que o multiculturalismo é, ao mesmo tempo, um movimento
social de luta por direitos e um campo de estudos, assim como o feminismo.
• A compreensão de que o objetivo do multiculturalismo, assim como todo o
debate das relações interétnicas, é lutar pela igualdade e pelo reconhecimento
das diferenças.
• Demonstrar a constituição do território norte-americano, enfocando o processo
de extermínio dos nativos e, mais tarde, a escravidão.
• Compreender a importância dos movimentos sociais da década de 1970,
especialmente o movimento negro para o surgimento do multiculturalismo.
• Identificar os principais movimentos negros do período e suas principais
lideranças.
• Compreender o que são políticas públicas de ação afirmativa e sua importância
para o desenvolvimento e cidadania dos grupos minoritários e excluídos.
148
1 Os estudos de gênero surgiram na década de 1980, como uma continuidade
das discussões feministas que já denunciavam as situações de poder e
hierarquia dos homens sobre as mulheres. Com o objetivo de compreender
esses processos, alguns estudiosos começaram a levar essa discussão para
o ambiente acadêmico. Ali, descartaram de uma vez por todas a explicação
corrente de que as mulheres seriam biologicamente inferiores aos homens e
criaram uma ferramenta de análise social chamada Gênero para explicar essas
assimetrias. Explique como o gênero esclarece a desigualdade entre homens e
mulheres.
2 O multiculturalismo é um termo polissêmico, na medida em que apresenta
dois sentidos: o primeiro é o sentido descritivo e o segundo é o sentido
prescritivo. O primeiro está relacionado à diversidade cultural, étnica e
religiosa de um grupo social. E o segundo, como pode ser interpretado?
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Como políticas de reconhecimento da identidade e/ou da diferença
que os poderes públicos desenvolvem em nome dos grupos minoritários e/ou
“subalternos”.
b) ( ) Como o excesso de políticas públicas afirmativas para os movimentos
sociais.
c) ( ) Como o processo de colonização norte-americano, fortemente
influenciado pelos valores religiosos anglo-saxões.
d) ( ) Como a compreensão multi e interdisciplinar do contexto histórico,
socioeconômico e cultural desses diferentes grupos sociais.
AUTOATIVIDADE
149
UNIDADE 3
MULTICULTURALISMO, GÊNERO,
RAÇA E ETNIA NO BRASIL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade tem por objetivos:
• definir e indicar o desenvolvimento do conceito de Multiculturalismo,
elencando as maneiras como o tema é tratado em alguns países latino-a-
mericanos e no Brasil;
• caracterizar algumas definições de políticas afirmativas, contextualizando
essa discussão ao cenário brasileiro através dos exemplos das políticas ela-
boradas para os grupos indígenas, negros e das mulheres;
• discutir algumas formas estruturais e persistentes de desigualdades pre-
sentes na sociedade brasileira, destacando a situação das mulheres e das
populações negras;
• contextualizar as múltiplas dimensões das desigualdades centradas nas
relações de gênero e raciais presentes no Brasil.
Esta unidade está dividida em três tópicos e no decorrer de cada um deles
você encontrará atividades que o ajudarão a fixar os conteúdos adquiridos.
TÓPICO 1 – AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E
NO BRASIL
TÓPICO 2 – DESIGUALDADES E VIOLÊNCIA DE GÊNERO NO BRASIL
TÓPICO 3 – AS DESIGUALDADES BRASILEIRAS EM TORNO DA RAÇA
150
151
TÓPICO 1
AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA
LATINA E NO BRASIL
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Para iniciar esta etapa, vamos começar discutindo a categoria raça e seu
desenvolvimento histórico. Tal conceito, como veremos adiante, tem sofrido
críticas quanto à sua utilização nas Ciências Sociais, da mesma forma como existe
a defesa de sua utilização. Lívio Sansone (1998, p. 409) indica, por exemplo,
categorias alternativas, como “racialização, relações e hierarquias raciais”, ou
mesmo, o “racismo”. Existe, claro, o peso de seu passado e a ligação com teorias e
políticas de cunho racistas.
2 A FRAGILIDADE DAS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA
AMÉRICA LATINA
As políticas multiculturais na América Latina têm sido insuficientes para
dar conta de diminuir as desigualdades sociais ocasionadas pela exploração de
vários povos, como os indígenas e os negros. Isso acontece porque, na América
Latina, a discriminação dirigida a negros, índios e tantas outras minorias étnicas
ocorre de forma velada, ou seja, de forma indireta e personalista, como se a questão
fosse individual e não social. Ficando nonível pessoal, muitos governos não
reconhecem esse problema, e, não o reconhecendo, não planejam e não executam
políticas públicas nesta direção.
FIGURA 44 - POVOS DA BOLÍVIA E SUA CULTURA
FONTE: Disponível em: <https://turismoescolar.files.wordpress.com/2010/07/lla_llachon.
jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
152
Esse processo começa com a colonização, que em praticamente todos os
países da América Latina foi de exploração. Europeus, principalmente portugueses
e espanhóis, invadiram nossas terras em busca de riquezas e, para manter essas
riquezas, as metrópoles e os demais países da Europa contaram com a exploração
dos índios e dos negros. Inicialmente, logo que os primeiros descobridores chegaram
às américas, iniciaram um processo de aculturação dos índios. Ocasionando muitos
conflitos e choques culturais, e quem saiu perdendo foram os habitantes nativos da
América Latina “recém-descoberta” pelos europeus, pois de forma violenta e sem
condições de defesa, vários índios, dentre eles mulheres e crianças, foram mortos
para que o projeto de exploração desse território pudesse ser levado adiante sem a
interferência dos nativos.
O processo de colonização da América Latina, que perdurou até o início do
século XX, em alguns países, quase provocou a eliminação da cultura indígena e
a supremacia da cultura europeia. Portanto, a diversidade cultural aqui existente
foi praticamente esquecida, politicamente, e apenas no final do século XX, com as
constituições federais democráticas, é que alguns países começam a tentar corrigir
as injustiças praticadas contra esses povos e a iniciar um processo de resgate dessas
culturas, apesar da completa extinção de muitas tribos indígenas. Vieira e Pinto
(2008, p. 4) nos dizem que:
As novas constituições contêm algum tipo de reconhecimento da
diversidade cultural e linguística e, em alguns casos, estabelecem
regimes jurídicos específicos às comunidades indígenas. Algumas
respostas são mínimas e pouco satisfatórias, outras são amplas e de
completa aplicação prática.
É diante desse contexto – onde todos os países da América Latina foram
colônias de exploração e continuam sofrendo até hoje as consequências sociais e
econômicas, especificamente as culturas minoritárias, e ainda diante do processo
de ditadura militar que passou a maioria dos países, a partir de meados do século
XX até a década de 1980 – que temos que analisar as políticas multiculturais nesses
países.
3 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA COLÔMBIA
As políticas multiculturais na Colômbia passam a desenvolver-se na década
de 1990, mais especificamente com a Constituição de 1991, definindo o país como
multicultural e multiétnico. Vieira e Pinto (2008, p. 2) dizem que na Constituição
da Colômbia de 1991:
[...] estão presentes os ideais de universalismo e de individualismo
contidos nos direitos fundamentais de caráter liberal e, ao mesmo
tempo, o reconhecimento das tradições morais particulares e do direito
a autogoverno das minorias culturais. Tal reconhecimento foi uma
enorme conquista para os movimentos sociais indígenas, que puderam
se manifestar democraticamente na Assembleia Constituinte de 1991.
No entanto, a institucionalização de um ambiente jurídico plural dentro
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
153
de um Estado gera a questão de como compatibilizar as diferentes
ordens, principalmente quando a ordem local viola de qualquer forma
a ordem normativa nacional ou mesmo internacional. Os conflitos
entre ordenamentos na Colômbia têm sido resolvidos pela Corte
Constitucional daquele país.
A Constituição Federal Colombiana de 1991 foi um importante instrumento
jurídico para aplicação de alguns direitos fundamentais para a população da
Colômbia, respeitando a diversidade cultural do país e garantindo autonomia e
direitos específicos para as minorias culturais, ou seja, as comunidades indígenas
não são julgadas de acordo com os mesmos parâmetros jurídicos (normas e leis)
das demais comunidades, não sofrendo as mesmas penalidades que são impostas
aos brancos e negros quando cometem algum delito ou crime. De acordo com
Sansone (1998, p. 3):
Na história das relações raciais na Colômbia, três fases podem ser
identificadas: o período colonial, a independência – à qual corresponde
a criação de uma comunidade nacional – e o desenvolvimento de novas
perspectivas étnicas, nas últimas décadas. Em cada uma delas o status
do índio mostrou-se bastante diferente daquele do negro.
Em 1993, o Congresso Colombiano aprovou a Lei nº 70 incorporada
à Constituição Federal, falando das comunidades negras. Essa lei estabelece
os direitos essenciais à sobrevivência dessas comunidades e torna ilegal a
discriminação racial contra esse grupo, além de definir os elementos específicos da
cultura afro-colombiana. Sansone (1998, p. 4) diz que:
Ela concede direitos fundiários às comunidades negras, mas exclui o
controle sobre os recursos naturais, o subsolo, os parques nacionais, as
zonas de interesse militar e as áreas urbanas. A lei prescreve que os recursos
naturais sejam gerenciados pela comunidade, que está obrigada a fazê-lo de
forma ecologicamente sustentável. Em segundo lugar, a lei visa melhorar
a educação, a formação, o acesso ao crédito e, também, as condições
materiais dessas comunidades. A aplicação desse aspecto da lei deve ser
garantida mediante a participação de representantes das comunidades no
Conselho Nacional de Planejamento, assim como na Divisão de Assuntos
das Comunidades Negras que o governo deverá criar.
Vejamos que, ao mesmo tempo em que a lei estabelece algumas garantias
fundamentais às comunidades negras colombianas, também delimita a sua
ocupação e a forma de ocupação nesse território, colocando as comunidades
negras em espaços específicos, longe do convívio com a comunidade urbana e
determinando critérios específicos de não exploração dos recursos naturais, mas,
ao mesmo tempo, eles são obrigados a cuidar e zelar pelos mesmos recursos, pois
serão os frutos da sua sobrevivência. Um dos aspectos principais dessa lei é sobre
o direito à educação, levando em consideração os aspectos culturais dos afro-
colombianos.
Apesar dessa lei, ainda existem na Colômbia enormes dificuldades para
a sua implantação, principalmente os objetivos referentes à proteção da cultura
dos afro-colombianos, mas o maior benefício que ela trouxe para a sociedade
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
154
colombiana foi a organização das comunidades negras, que passaram a lutar por
seus direitos e a reconhecê-los enquanto um grupo étnico específico.
FIGURA 45 - MENINAS COLOMBIANAS
FONTE: Disponível em: <http://globalizacion.org/wp-content/uploads/2016/01/indigenas_
colombia.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Mesmo com o início desse processo de organização das comunidades
negras, ainda existem inúmeros conflitos entre índios e negros pela posse das
terras no campo, ambos acusam de ocupação indevida o território delimitado para
um dos grupos, que, ao invés de lutar pelos seus direitos de posse e ocupação das
terras perante o governo, ficam brigando entre si, sem considerar a sua condição de
grupos minoritários perante uma estrutura governamental e social que há muitos
anos os excluíram.
4 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO PERU
País colonizado pela Espanha, o Peru ainda guarda fortes marcas do seu
período colonial e de uma cultura homogeneizadora. Por exemplo, falar a língua
espanhola, usar roupas ocidentais, morar na capital, são hábitos que fizeram com que
muitos índios se tornassem mestiços para serem reconhecidos na sociedade peruana.
A diversidade cultural, através da preservação da língua e dos costumes de
diversos povos indígenas que habitavam o Peru desde a colonização atéo final do
século XX, tem sido esquecida pelo governo, existindo políticas públicas de afirmação
da identidade desses povos.
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
155
O Peru apresenta grandes diferenças geográficas e étnicas. Segundo dados
de 1981, a população (17 milhões) está distribuída desigualmente por três
regiões: na costa (50% em 1982), na serra (39%) e na selva (11%). Brancos
e mestiços predominam na costa, onde também se concentra a pequena
minoria de negros (entre 6% e 10% da população); índios e mestiços
predominam na serra; e índios amazônicos, junto a um crescente número
de imigrantes da serra e da costa, na selva (SANSONE, 1998, p. 5).
Para enfrentar os problemas étnicos que o país passava, pressionado
pelos movimentos indigenistas, o governo peruano promulgou a Carta de 1933,
que faz com que o Estado tenha o compromisso de proteger os povos e as terras
indígenas. Mesmo com a promulgação desta Carta, os índios continuaram sendo
discriminados pela sociedade peruana, que tem privilegiado os brancos e os
mestiços.
A denominação “índio” tem sido substituída pelo termo “campesino”
(camponês), porque este foi incluído em uma reforma agrária que aconteceu no
país em 1969, com o objetivo de proteger os pequenos agricultores e os sem-terra.
Esses pequenos agricultores e os sem-terra que habitavam a região da serra eram
índios, mas a discriminação contra esse povo foi tão forte no Peru, por isso houve
a mudança da denominação.
FIGURA 46 - MULHER PERUANA REPRESENTANTE DA PLURALIDADE DE SEU PAÍS
FONTE: Disponível em: <https://pbs.twimg.com/media/Bg4lJ98CAAAgzr8.jpg>. Acesso
em: 20 jun. 2017.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
156
5 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA VENEZUELA
A população da Venezuela é composta pela maioria de pardos (mistura
entre branco, índio e negro), cerca de 75% da população. Os demais 25% são
brancos e negros. Este país tem sido um dos poucos países na América Latina que
tem construído políticas de respeito à diversidade étnica e cultural, principalmente
em relação aos negros.
Após a independência da Espanha em 1821, a Venezuela tem construído
um discurso em que predomina a democracia racial, e a cultura negra tem sido
respeitada.
Segundo as pesquisas de Pollak-Eltz (1977); Wright (1990) e Bermúdez
e Suarez (1995), na Venezuela contemporânea o racismo é presente
somente de forma sutil, sobretudo no mercado matrimonial e nos
concursos de beleza, e não chega a bloquear a ascensão social dos
negros, nem previne que algumas importantes festas populares negras
tradicionais estejam se tornando autênticas festas nacionais, nas quais
os brancos celebram a cultura negra como parte da sua própria tradição
cultural (SANSONE, 1998, p. 3).
Isso significa dizer que a cultura negra foi incorporada à cultura venezuelana,
mas que ainda existe discriminação entre os negros e demais etnias no país, pois
devido à forma velada de discriminação, ou seja, quando ela é considerada no nível
pessoal e não como um problema social, os governos tendem a fazer de conta que
o problema não existe, e, assim, não desenvolvem políticas públicas de combate
à discriminação. Esse tipo de pensamento é encontrado na maioria dos países da
América Latina.
6 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO MÉXICO
O México é o segundo país mais populoso da América Latina, ficando
atrás somente do Brasil, com uma população de 109,6 milhões de pessoas. A
população mexicana é constituída, em sua maioria, por euro-ameríndios, ou seja,
pela mistura entre espanhóis e índios. Esse grupo étnico responde por cerca de
60% dos habitantes do país. Os brancos são cerca de 9% da população e os índios
correspondem a 30% da população.
A ocupação do território mexicano ocorre de forma irregular, devido às
condições naturais do país, possuindo uma grande área de deserto. Determinadas
áreas são extremamente povoadas, enquanto outras praticamente desabitadas.
Essa concentração de pessoas em apenas uma parte do território mexicano ocasiona
graves problemas sociais, como os bolsões de pobreza encontrados na Cidade do
México, uma das mais populosas do mundo, com mais de oito milhões de pessoas.
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
157
Um dos problemas que o México vem enfrentando é a questão do sistema
jurídico ainda influenciado pelos colonizadores espanhóis, não reconhecendo a
diversidade étnica e cultural existente no país. São aproximadamente 58 etnias
indígenas diferentes no país, encontradas desde muitos anos antes da colonização
espanhola.
A proposta é de legitimar os mecanismos e sistemas criados pelos diferentes
grupos indígenas, dando conta das suas especificidades étnicas e culturais,
valorizando a sua diversidade cultural, sem correr o risco de sufocar e influenciar
esses povos, julgando-os através dos valores da cultura ocidental.
7 O SURGIMENTO DAS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO
BRASIL
As políticas multiculturais no Brasil surgiram durante o Governo Lula, no
final do século XX, e ampliaram-se no início do século XXI, através da criação de
diversas secretarias. Alguns elementos fundamentais para a discussão das políticas
multiculturais no país são a política de cotas nas universidades, o Estatuto da
Igualdade Racial e a criação das comunidades quilombolas e negras com direito à
propriedade da terra e à manutenção da sua cultura.
A seguir veremos que as políticas multiculturais existentes no Brasil são
importantes instrumentos de ampliação e consolidação das políticas públicas
FIGURA 47 - OAXACA, MÉXICO MULTICULTURAL
FONTE: Disponível em: <http://e-oaxaca.com/sites/default/files/oaxaca3.jpg>. Acesso em:
20 jun. 2017.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
158
para a diminuição das desigualdades sociais, na direção de um país mais justo e
solidário, que leva em consideração a diversidade étnica e cultural existente em
seu território.
O primeiro mandato do Governo Lula teve início no dia 1º de janeiro de
2003 e se estendeu até dezembro de 2006. Luiz Inácio Lula da Silva venceu as
eleições de 2002 após três tentativas. Foi a primeira vez na história do Brasil que
um ex-operário chegou ao cargo mais importante do país.
Nos governos anteriores a Lula os investimentos realizados foram mais
voltados para a área econômica, pois o país passava por uma grande crise, com a
inflação descontrolada. Somente no governo FHC é que o país conseguiu controlar
a inflação, houve alguns investimentos em programas sociais com o objetivo de
amenizar as desigualdades sociais existentes no país, mas em relação às políticas
culturais e o multiculturalismo:
[...] não há registros de que o governo FHC tenha realizado um processo
de debate público, ou seja, não houve uma abertura à participação
popular sobre o papel da Cultura na construção de uma sociedade
democrática, não inserindo a Cultura no desenvolvimento da cidadania
[...] (PINTO, 2010, p. 14).
Isso significa dizer que apenas no final do século XX e início do século XXI
é que se iniciam efetivamente alguns investimentos em políticas multiculturais no
Brasil e a cultura passa a ser considerada um dos parâmetros para o desenvolvimento
do país, sendo prevista desde a Constituição Federal de 1988.
O governo Lula ampliou as políticas sociais iniciadas no governo FHC.
Criou o Programa Fome Zero, que consistia na transferência de renda direta para
famílias com renda per capita de R$ 69,01 a R$ 137,00, com o objetivo de diminuir a
miséria e a fome no país.
Também foram criadas diversas secretarias com o objetivo de respeitar
a diversidade étnica e cultural existente no país e diminuir as desigualdades
sociais históricas, ocasionadas por questões de gênero e raça. Foram criadas a
Secretaria de Direitos Humanos, Secretaria de Políticasde Promoção da Igualdade
Racial, Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, bem como o Ministério
de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Vejamos a seguir quando foram
criadas e qual o papel de duas delas, que foram importantes para o que estamos
nos propondo debater neste livro. São elas: Secretaria de Direitos Humanos e a
Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/
PR) é responsável pela articulação interministerial e intersetorial das políticas
de promoção e proteção aos direitos humanos no Brasil. Criada em 1977,
dentro do Ministério da Justiça, foi alçada ao status de ministério em 2003.
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
159
No ano de 2010 a Secretaria ganhou o atual nome. As principais atribuições
da SDH/PR foram:
• Propor políticas e diretrizes que orientem a promoção dos direitos
humanos, criando ou apoiando projetos, programas e ações com tal
finalidade.
• Articular parcerias com os poderes Legislativo e Judiciário, com os estados
e municípios, com a sociedade civil e com organizações internacionais
para trabalho de promoção e defesa dos direitos humanos.
• Coordenar a Política Nacional de Direitos Humanos segundo as diretrizes
do Programa Nacional de Direitos Humanos.
• Receber e encaminhar informações e denúncias de violações de direitos
da criança e do adolescente, da pessoa com deficiência, da população
de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais e de todos os grupos sociais
vulneráveis.
• A SDH/PR atua como Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos.
Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial: a SEPPIR
(Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) foi criada pelo
Governo Federal no dia 21 de março de 2003. A data é emblemática: em todo
o mundo celebra-se o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação
Racial. A criação da Secretaria é o reconhecimento das lutas históricas do
Movimento Negro brasileiro. A missão da SEPPIR é estabelecer iniciativas
contra as desigualdades raciais no país. Seus principais objetivos são:
• Promover a igualdade e a proteção dos direitos de indivíduos e grupos
raciais e étnicos afetados pela discriminação e demais formas de
intolerância, com ênfase na população negra.
• Acompanhar e coordenar políticas de diferentes ministérios e outros
órgãos do governo brasileiro para a promoção da igualdade racial.
• Articular, promover e acompanhar a execução de diversos programas
de cooperação com organismos públicos e privados, nacionais e
internacionais.
FONTE: Direitos Humanos (2011). Disponível em: <http://www.direitoshumanos.gov.br/sobre>.
Acesso em: 20 maio 2016.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
160
• Promover e acompanhar o cumprimento de acordos e convenções
internacionais assinados pelo Brasil, que digam respeito à promoção da
igualdade e combate à discriminação racial ou étnica.
• Auxiliar o Ministério das Relações Exteriores nas políticas internacionais,
no que se refere à aproximação de nações do Continente Africano.
A SEPPIR utiliza como referência política o programa Brasil sem
Racismo, que abrange a implementação de políticas públicas nas áreas do
trabalho, emprego e renda; cultura e comunicação; educação; saúde, terras de
quilombos, mulheres negras, juventude, segurança e relações internacionais.
A criação da SEPPIR reafirma o compromisso com a construção de uma
política de governo voltada aos interesses reais da população negra e de
outros segmentos étnicos discriminados.
FONTE: Políticas de Promoção da Igualdade Racial (2011). Disponível em: <www.seppir.gov.br/
sobre>. Acesso em: 20 maio 2016.
Essas secretarias foram criadas para promover a cidadania e diminuir as
desigualdades sociais no Brasil, além de serem o alicerce na criação de políticas
multiculturais. Lembrando que essas secretarias permanecem até os dias atuais,
promovendo suas ações durante os dois mandatos da presidente Dilma Rousseff.
Isso não quer dizer que a discriminação por raça, gênero, religião, etnia
e classe social tenha acabado no país, mas são políticas públicas importantes
desenvolvidas através desses ministérios e secretarias, instrumentos eficazes
na construção de uma sociedade brasileira mais justa e que respeite de fato a
diversidade existente nesse imenso país, para que a nossa nova história seja
construída com a efetiva participação de todos.
7.1 O SISTEMA DE COTAS
O Brasil inicia sua trajetória no sistema de cotas adotando políticas
afirmativas para dois grupos: deficientes e mulheres. Em relação aos deficientes,
foram estabelecidas cotas para que possam ingressar no serviço público através de
concurso, e também programas exigindo que as empresas contratem um percentual
de pessoas com deficiências no seu quadro funcional. Esse ordenamento jurídico
encontra seu respaldo na Constituição Federal de 1988.
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
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FIGURA 48 - O SISTEMA DE COTAS É PRODUTO DA LUTA DOS MOVIMENTOS NEGROS
FONTE: Disponível em: <http://www.politize.com.br/wp-content/uploads/2016/10/
movimento-negro-passeata.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Além disso, o Brasil fixou a obrigatoriedade de os partidos políticos terem
no mínimo 20% do seu quadro eleitoral composto por mulheres.
Nas universidades, o sistema de cotas começa a entrar em vigor no ano
2000, sendo que as primeiras universidades a adotarem esse sistema no vestibular,
no ano de 2004, foram as universidades estaduais no Rio de Janeiro, garantindo
que 50% das vagas fossem destinadas a estudantes de escolas públicas.
Logo em seguida, no dia 9 de novembro de 2001, a Lei nº 3.708/01 institui
o sistema de cotas para estudantes negros ou pardos, destinando 40% das vagas
das universidades públicas estaduais do Rio de Janeiro. Em 2002, a Universidade
Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e a UENF passam a adotar essa política no seu
vestibular. A Universidade de Brasília (UNB) e a Universidade do Estado da Bahia
(UNEB) também aderem ao sistema de cotas, adotando critérios socioeconômicos
ou a cor ou raça em seus vestibulares.
Nesta mesma perspectiva, para reforçar as políticas multiculturais em
âmbito nacional, foi criado o Programa Diversidade na Universidade, através
da Lei Federal nº 10.558/02, de 13 de novembro de 2002, conhecida como “Lei de
Cotas”.
Existe muita resistência por parte de vários segmentos tradicionais da
sociedade brasileira em aceitar a Lei de Cotas nas Universidades, pois, para estes,
esta lei reforça o racismo já existente no país, fazendo com que negros e pardos
ou pessoas de condições socioeconômicas desfavoráveis acessem as universidades
não pelo mérito, mas pelo enquadramento em uma lei.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
162
No entanto, como citamos anteriormente, esse sistema existe para equiparar
danos provocados a estas etnias e classes sociais que sempre foram marginalizadas
no decorrer da história do país.
Além do sistema de cotas, devem acontecer em paralelo outros programas
sociais que resolvam as deficiências estruturais da sociedade brasileira, focando
em áreas como educação, saúde, distribuição de renda, cultura, qualificação
profissional, habitação, entre outras.
O problema apresentado é que, gerando oportunidades para a camada
social menos favorecida, a elite brasileira perde privilégios históricos, pois agora
os seus filhos terão que concorrer a uma vaga no mercado de trabalho com as
“minorias étnicas ou com os pobres”. As carreiras que antes só pertenciam a eles,
como Medicina, Engenharia, Direito, dentre outros cursos elitizados, que entraram
no sistema de cotas, agora tornam-se acessíveis a um maior número de brasileiros
que, até então, não podiam sonharem construir uma profissão promissora.
O sistema de cotas geralmente possui um período determinado, ou seja,
ele perdura até eliminar a desigualdade e a exclusão ocasionadas a determinados
grupos sociais, como falamos anteriormente. Ele só terminará quando os grupos
sociais, que foram incluídos no sistema de cotas, estiverem inseridos de maneira
digna na sociedade brasileira.
7.2 ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL
Outro instrumento jurídico que reforça as políticas multiculturais no Brasil
é o Estatuto da Igualdade Racial, criado em 20 de julho de 2010, através da Lei
Federal nº 12.288/2010. Este estatuto visa garantir à população negra a efetivação
da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos
e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica
(BRASIL, 2010).
O Estatuto da Igualdade Racial estabelece a inclusão da população negra
nas políticas públicas de educação, cultura, esporte, lazer, saúde, respeito às suas
crenças religiosas e liberdade de expressão, direito à terra e à moradia digna,
políticas de inclusão da população negra no mercado de trabalho, a valorização da
herança cultural negra, através dos meios de comunicação, combate à discriminação
e às demais formas de intolerância étnica, levando em consideração critérios como
gênero e classe social. Portanto, esse Estatuto significa um importante avanço
na promoção da igualdade de oportunidades para a população negra no país,
que desde o período de colonização sofreu as consequências de uma sociedade
eurocêntrica baseada na exploração de negros, índios e mestiços, como forma de
enriquecimento através de povos considerados “inferiores e subalternos”.
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
163
7.3 COMUNIDADES QUILOMBOLAS E TRADICIONAIS: UM
CAMINHO PARA O RESPEITO À DIVERSIDADE ÉTNICA-
CULTURAL
Após grande pressão do Movimento Negro, foram criadas, em 2003, as
comunidades quilombolas. Elas são definidas como remanescentes de Quilombo,
com uma identidade étnica comum diferente das demais existentes no país com
ancestralidade negra, criadas com o objetivo de fortalecer a cultura desses grupos e
que estabelecem o direito à terra de acordo com o Decreto nº 4.887/03. Atualmente,
existem cerca de 3.524 comunidades quilombolas no Brasil, em 24 estados da
federação, segundo dados da Fundação Palmares.
Os movimentos sociais também foram determinantes para que na
Constituição de 1988 aparecesse o termo “Comunidades Tradicionais”. A partir de
2002, um conjunto de medidas governamentais possibilitou a sua implementação.
Como definir o que são comunidades tradicionais?
O Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, Art. 30, define povos e
comunidades como (BRASIL, 2007):
I […] grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem
como tais, que possuem formas próprias de organização social, que
ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua
reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando
conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição.
E os seus territórios como sendo:
II […] os espaços necessários à reprodução cultural, social e econômica
dos povos e comunidades tradicionais, sejam eles utilizados de forma
permanente ou temporária, observado, no que diz respeito aos povos
indígenas e quilombolas, respectivamente, o que dispõem o Artigo
231 da Constituição de 68 do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias e demais regulamentações.
FIGURA 49 - QUILOMBOS BRASILEIROS: ORGANIZANDO-SE POR DIREITOS
FONTE: Disponível em: <http://racismoambiental.net.br/wp-content/uploads/2013/07/
quilombo-da-lapinha.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
164
Em 2006, o Brasil começa a organizar uma política nacional dirigida
para os Povos e Comunidades Tradicionais através do Decreto de 13 de julho de
2006, criando a Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos
e Comunidades Tradicionais (CNPCT). Esta comissão integra representantes de
15 Povos e Comunidades Tradicionais e também representantes do Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome e do Ministério do Meio Ambiente,
dois órgãos públicos federais aos quais esta comissão está interligada.
Logo em seguida, através do Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de
2007, foi criada a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos
e Comunidades Tradicionais (PNPCT). O PNPCT, bem como a definição e o
reconhecimento das Comunidades Quilombolas, é mais um importante passo
na direção da manutenção da existência e preservação da cultura de grupos
marginalizados e explorados no decorrer da nossa história. Mostrando também
que só é possível construir um país desenvolvido, com dignidade, respeitando a
diversidade étnica.
165
Neste tópico, você aprendeu que:
• As políticas multiculturais na América Latina têm sido insuficientes para dar
conta de diminuir as desigualdades sociais ocasionadas pela exploração de
vários povos, como os indígenas e os negros.
• Basicamente, todos os países latino-americanos têm enfrentado a questão da
diversidade cultural. Muitos deles têm enfatizado políticas multiculturais. É o
caso do México, da Bolívia, da Colômbia, Peru e Venezuela, por exemplo.
• Em geral, as políticas multiculturais enfatizam as características culturais
específicas de cada país.
• No Brasil, as políticas multiculturais são recentes. Os primeiros passos surgem
a partir dos anos 1990, ganhando forma de leis e políticas públicas a partir de
2001.
• As políticas multiculturais brasileiras voltam-se a povos e etnias indígenas e
às comunidades tradicionais, como os quilombolas, os grupos sociais negros
e pardos. O objetivo é reduzir as desigualdades de oportunidades entre os
diversos grupos e classes sociais brasileiros.
RESUMO DO TÓPICO 1
166
1 A partir da leitura deste tópico, elabore uma definição de multiculturalismo
latino-americano.
2 Como se deu o aparecimento das políticas culturais no Brasil?
3 O que são as comunidades tradicionais?
AUTOATIVIDADE
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TÓPICO 2
DESIGUALDADES E VIOLÊNCIA DE
GÊNERO NO BRASIL
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Como vimos, nossa sociedade é culturalmente plural e socialmente
desigual. As diversas interpretações sobre a realidade nacional apontaram para
a existência de abismos profundos entre classes e grupos sociais. Muitos deles
são oriundos da nossa concentração de renda. Outros, são vinculados a muros
simbólicos erguidos em torno da cor da pele ou gênero, por exemplo. De fato,
existem múltiplas camadas de injustiças e distâncias sociais na história brasileira.
O Brasil é um Estado de tamanho considerável, de natureza exuberante, de
terras férteis, porém, concentradas. De uma população mista, mas segregada em
camadas de preconceitos. De uma indústria e serviços modernos, mas que convive
com práticas patrimonialistas. A complexidade brasileira vai além.
FIGURA 50 - AS MULHERES BRASILEIRAS DO CAMPO E DA CIDADE E SUAS LUTAS ATUAIS
FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/08/Feminist_Stencil_
Graffito_S%C3%A3o_Paulo_March_2012-14.jpg> e <http://jornalggn.com.br/sites/default/files/admin/
marcha-das-margaridas.jpg>.
Somos os únicos complexos em todo o mundo? Nada existe de verdadeiro
nessa questão. Porém, diferente de algumas nações, como algumas localizadas na
Europa Ocidental, as sociedades brasileiras do passado e atuais são resultados do
168
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
encontro de muitos povos. Estamos mais próximos da complexidade cultural da
Índia do que da França. Todavia, as ideias dominantes que prevaleceram e ainda
prevalecem e que buscam explicar nossa sociedade são, em sua maioria,