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2018
MulticulturalisMo
Profª. Luciane da Luz
Prof. Márcio José Cubiak
Copyright © UNIASSELVI 2018
Elaboração:
Profª. Luciane da Luz
Prof. Márcio José Cubiak
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
L979m
 Luz, Luciane da 
 Multiculturalismo. / Luciane da Luz; Márcio José Cubiak. – 
Indaial: UNIASSELVI, 2018.
 230 p.; il.
 ISBN 978-85-515-0220-4
1. Multiculturalismo. – Brasil. I. Cubiak, Márcio José. II. Centro 
Universitário Leonardo Da Vinci.
CDD 370.117
III
apresentação
Caro acadêmico! Este é seu Livro de Estudos de Multiculturalismo. 
Trata-se de um tema bastante presente e relevante para nosso mundo atual. 
Trataremos aqui de discutir o retorno da etnia ao cenário político e acadêmico 
com força total. Esse ressurgimento de tipos étnicos de engajamento individual 
e coletivo está ligado às dinâmicas das sociedades contemporâneas, “pós-
tradicionais” como classificou o sociólogo inglês Anthony Giddens (1991).
Você já deve ter percebido nos noticiários nacionais e internacionais 
esses movimentos. Por exemplo, por detrás dos deslocamentos forçados em 
massa de populações sírias, palestinas ou iraquianas, existem dezenas de 
etnias que compõem esses países. Tais formas de pertencimento acabam sendo 
invisibilizados pela categoria de refugiado. Mas, trata-se de um equívoco, um 
senso comum. 
E é aí que entra a importância da etnia, pois, como veremos, um grupo 
étnico preocupa-se em definir as suas identidades em termos de fronteiras 
em relação aos outros grupos, resultando em interações que podem levar 
a conflitos, segregações, extermínios e outras formas de violência física e 
simbólica.
Para entender as questões ligadas ao pertencimento étnico, devemos 
refletir sobre a noção de identidade. Temos, ainda, que contextualizar o 
desenvolvimento da subjetividade e da identidade ao longo dos tempos 
antigos, modernos e atuais. Fundamental, também, entender nosso período 
como aquele em que a categoria cultura tornou-se central nas lógicas sociais e 
políticas do Ocidente. Neste cenário, a globalização assume papel relevante.
Na Unidade 1, trataremos de caracterizar o desenvolvimento histórico 
da noção de identidade. Para isso, faremos uma viagem ao passado para 
entender as mudanças ocorridas. Como veremos, a mudança indica que 
passamos de uma ideia de identidade fixa para uma noção fluida e flexível. 
Daí essencial discutir as categorias de identidade, modernidade, pós-
modernidade, cultura e reconhecimento.
Na Unidade 2, adentraremos nos estudos sobre etnia propriamente 
ditos, a partir das chamadas Teorias Sociais sobre as relações étnico-raciais que 
poderão nos servir para mostrar como os problemas que ocorrem em nossas 
sociedades são decorrentes destas relações. Assim, o conceito de etnia aparece 
como uma nova categoria social importante para a análise do século XX, tanto 
quanto foi a categoria de classe social para o século XIX. Isso porque através 
deles podemos pensar o papel da diferença na produção de hierarquias e 
relações sociais, organizando o mundo cultural de seus integrantes, definindo 
os “de dentro” e os “de fora”.
IV
Na Unidade 3, vamos focar a cultura, a identidade e as diferenças 
étnicas e raciais presentes em nosso país. Não é novidade que nosso país 
é injusto e socialmente desigual. Porém, podemos perceber que o abismo 
é maior para alguns, enquanto outros se beneficiam ou monopolizam as 
oportunidades tendo como balizador aspectos sociais como cor, da “raça”, 
etnia e gênero. 
Bons estudos!
Os autores.
UNI
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para 
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades 
em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o 
material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato 
mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação 
no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir 
a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenho de Estudantes – ENADE. 
 
Bons estudos!
V
VI
VII
suMário
UNIDADE 1 - PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES ........................................................... 1
TÓPICO 1 – A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO ...... 3
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3
2 O QUE É O ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO? ........................................................................... 4
3 OS GREGOS E UM OLHAR SOBRE A IDENTIDADE ÉTNICA ............................................... 7
4 RELAÇÕES ENTRE IMPÉRIO ROMANO, IDADE MÉDIA E
 EUROPA: A IDENTIDADE NACIONAL ........................................................................................ 11
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 22
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 23
TÓPICO 2 – IDENTIDADE E MODERNIDADE .............................................................................. 25
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 25
2 O SUJEITO MODERNO: O SUJEITO RACIONAL ...................................................................... 26
2.1 RENÉ DESCARTES (1596-1650) E IMMANUEL KANT (1724-1804) ....................................... 27
2.2 FRIEDRICH NIETZSCHE E A CRÍTICA AO SUJEITO MODERNO ....................................... 30
3 O SUJEITO É SOCIAL: O SUJEITO SOCIOLÓGICO .................................................................. 32
4 A MODERNIDADE .............................................................................................................................. 34
4.1 VISÕES CONTEMPORÂNEAS SOBRE A MODERNIDADE NAS CIÊNCIAS SOCIAIS .... 38
4.1.1 Anthony Giddens.................................................................................................................... 38
4.1.2 Alain Touraine ......................................................................................................................... 40
4.1.3 Boaventura de Sousa Santos ................................................................................................. 41
4.1.4 Jürgen Habermas .................................................................................................................... 43
LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................45
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 47
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 48
TÓPICO 3 – IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE....................................................... 49
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 49
2 A PRODUÇÃO SOCIAL DAS IDENTIDADES E DAS DIFERENÇAS
 NA PÓS-MODERNIDADE................................................................................................................. 50
2.1 O QUE É A PÓS-MODERNIDADE? ............................................................................................. 55
2.1.1 A identidade na alta modernidade de Anthony Giddens ................................................ 57
2.1.2 A identidade na modernidade líquida de Zygmunt Bauman ......................................... 59
3 CRISES DE IDENTIDADES, CRISES DE PARADIGMAS ......................................................... 62
3.1 A GLOBALIZAÇÃO E A IDENTIDADE GLOBAL .................................................................... 63
3.2 IDENTIDADES E RECONHECIMENTO ..................................................................................... 69
3.3 A CENTRALIDADE DA CULTURA ............................................................................................ 73
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 77
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 81
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 82
UNIDADE 2 - TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO
E O DEBATE MULTICULTURAL......................................................................................................... 83
VIII
TÓPICO 1 – CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO 
COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS ............................................................................................................. 85
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 85
2 DISCUTINDO A HISTORICIDADE DO TERMO ETNIA E SUA
RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS ........................................................................................ 87
2.1 CONCEITUANDO ETNIA E ETNICIDADE ............................................................................. 94
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 97
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 100
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 101
TÓPICO 2 – RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS
ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS ........................................................................................................ 103
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 103
2 A IMPORTÂNCIA DO CONCEITO DE RAÇA PARA A CONSTRUÇÃO
 DA DESIGUALDADE ........................................................................................................................ 103
3 ETNIA, RAÇA E NAÇÃO: APROXIMAÇÕES E DIFERENCIAÇÕES NECESSÁRIAS .......... 108
4 IDENTIDADE ÉTNICA, ETNICIDADE, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS ..... 109
5 A CRÍTICA AO PENSAMENTO DE FREDRICK BARTH E A AMPLIAÇÃO
 DO CONCEITO DE ETNICIDADE .................................................................................................. 116
6 ETNICIDADE E MODERNIDADE................................................................................................... 120
7 DIÁSPORAS E DESLOCAMENTOS ............................................................................................... 121
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 124
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 125
TÓPICO 3 – GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE ......................................... 127
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 127
2 DO MOVIMENTO FEMINISTA AOS ESTUDOS DE GÊNERO ............................................... 127
3 MULTICULTURALISMO ........................................................................................................................ 132
3.1 MULTICULTURALISMO E SEU CONTEXTO HISTÓRICO .................................................... 132
3.2 MULTICULTURALISMO NOS EUA ............................................................................................ 135
3.2.1 A Lei dos Direitos Civis e as primeiras políticas de ações afirmativas ........................... 139
3.3 CONCEITUANDO POLÍTICAS PÚBLICAS E DE AÇÃO AFIRMATIVA .............................. 145
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 147
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 148
UNIDADE 3 - MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL ................. 149
TÓPICO 1 – AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL ... 151
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 151
2 A FRAGILIDADE DAS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA ............ 151
3 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA COLÔMBIA ...................................................................... 152
4 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO PERU .................................................................................. 154
5 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA VENEZUELA .................................................................... 156
6 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO MÉXICO ............................................................................ 156
7 O SURGIMENTO DAS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO BRASIL .................................. 157
7.1 O SISTEMA DE COTAS .................................................................................................................. 160
7.2 ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL ...................................................................................... 162
7.3 COMUNIDADES QUILOMBOLAS E TRADICIONAIS: UM CAMINHO
 PARA O RESPEITO À DIVERSIDADE ÉTNICA-CULTURAL ................................................. 163
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 165
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 166
IX
TÓPICO 2 – DESIGUALDADES E VIOLÊNCIA DE GÊNERO NO BRASIL ............................. 167
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 167
2 DENUNCIANDO AS DIFERENÇAS SOCIALMENTE CONSTRUÍDAS
 ENTREOS GÊNEROS ......................................................................................................................... 168
2.1 RELAÇÕES ENTRE GÊNERO NA SOCIEDADE BRASILEIRA ATUAL ............................... 170
2.1.1 A violência de gênero ............................................................................................................. 172
2.1.2 Desigualdades de gênero no mundo do trabalho .............................................................. 175
2.1.3 A falta de representação das mulheres na política brasileira ........................................... 178
2.1.4 Assédio moral e sexual e Violência de Gênero ................................................................... 181
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 187
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 188
TÓPICO 3 – AS DESIGUALDADES BRASILEIRAS EM TORNO DA RAÇA ........................... 189
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 189
2 A PERTINÊNCIA POLÍTICA E TEÓRICA DA CATEGORIA “RAÇA” NA ATUALIDADE 191
2.1 RACISMO CIENTÍFICO: UM EXEMPLO BRASILEIRO EM NINA
 RODRIGUES (1862-1906) ................................................................................................................ 193
2.2 GILBERTO FREYRE (1900-1987), A MISCIGENAÇÃO E A DEMOCRACIA RACIAL ........ 197
2.3 CRÍTICAS À IDEIA DE “DEMOCRACIA RACIAL” E OS ESTUDOS RACIAIS
 BRASILEIROS ................................................................................................................................... 201
3 RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NA SOCIEDADE BRASILEIRA ATUAL .............................. 203
3.1 RAÇA E POBREZA ......................................................................................................................... 204
3.2 A VIOLÊNCIA .................................................................................................................................. 205
3.3 MOVIMENTO NEGRO E RAÇA .................................................................................................. 208
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 209
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 214
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 215
REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 216
X
1
UNIDADE 1
PROBLEMATIZANDO AS 
IDENTIDADES
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade tem por objetivos:
• destacar o conceito de identidade, problematizando sua história e desen-
volvimento;
• discutir o conceito de identidade no mundo atual, suas tensões e fronteiras 
simbólicas;
• apontar a centralidade da cultura, da Teoria do Reconhecimento e das di-
nâmicas de globalização para a produção social das identidades.
Esta unidade está dividida em três tópicos. Você encontrará atividades que 
visam a compreensão dos conteúdos apresentados no final de cada tópico.
TÓPICO 1 – A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO 
IDENTITÁRIO
TÓPICO 2 – IDENTIDADE E MODERNIDADE
TÓPICO 3 – IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
2
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: 
ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
1 INTRODUÇÃO
Aquilo que o sujeito é acompanha os acontecimentos e contextos 
socialmente objetivados na forma de relações sociais e de fronteiras que se deslocam 
constantemente. E muitas das atuais questões polêmicas ligadas às mudanças nos 
padrões identitários – aos níveis individuais e coletivos – estão ancoradas em 
afirmações nebulosas localizadas nesses passados. 
A identidade não é um problema somente dos modernos. Ela se apresenta 
como uma importante referência para indivíduos e sociedades em todos os tempos. 
Fronteiras são demarcações históricas que existem desde muito tempo. Porém, há 
uma mudança qualitativa quanto ao que se define por identidade em nossa época, 
que se tornou um conceito mais polissêmico e crítico. 
Neste tópico, vamos fazer uma jornada pela história. As relações entre 
diferentes culturas em períodos da antiguidade até os dias de hoje e de que maneira 
esses encontros promoveram identidades e diferenças. Com isso, esperamos abrir 
caminhos para o aprofundamento de seus conhecimentos sobre a historicidade 
dos conceitos. Como veremos a seguir, mesmo no passado as fronteiras não eram 
percebidas apenas como geográficas.
Para realizar tal caracterização, discutimos a essencialização das identidades 
antigas, que fundamentam muitos dos atuais discursos étnicos e nacionalistas. 
Exemplificamos essa noção identitária com a análise da civilização greco-romana e 
seu “legado” para a Idade Média.
Em seguida, o tópico aborda essa herança antiga sobre o essencialismo 
identitário e a maneira como este se desdobrou na Idade Média, especialmente 
com a conformação dos Estados nacionais, que não deixou de ser uma imposição 
identitária que pretendia integrar todo o conjunto de populações num dado 
território.
Para isso, sugerimos uma desconstrução da nossa imagem tradicional da 
Idade Média como um período de servos e reis, cavaleiros, castelos, feudalismo, 
doenças etc. Esses fenômenos são materializações de intensos processos humanos 
de construção de unidade e de fronteiras.
Vamos lá? 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
4
2 O QUE É O ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO? 
A identidade é um tema bastante complexo em nossos dias. Mas nem 
sempre foi assim. As visões sobre a identidade acompanham os indivíduos e sua 
história em cada época. Ter uma identidade, mesmo que não nesse termo – que é 
um conceito recente – representava no passado “aquilo que você é”, isto é, a sua 
essência.
Tal ideia tem gerado hoje críticas e novos modelos teóricos propostos para 
entender como funcionam as identidades contemporâneas, articulando identidade 
e diferença.
Porém, como dissemos, nem sempre foi assim. Os povos antigos e da Idade 
Média tinham outra concepção identitária, autossuficiente, fechada em si mesma. 
Os outros povos não tinham uma identidade específica. Eram os diferentes: 
selvagens e bárbaros cujas palavras são invenção do passado.
Na filosofia grega, a discussão sobre a essência ou não essência foi inaugurada 
por Heráclito e Parmênides, continuada por Platão, Aristóteles e seus discípulos. 
Segundo a visão essencialista, existe uma unidade ontológica, isto é, uma essência, 
uma alma única, fixa e que unifica o ser, apesar de não serem acessíveis à nossa 
experiência cotidiana, conforme afirmava Platão. Essas essências existem em si 
mesmas. Quando pensamos num sapato, por exemplo, não enxergamos a ideia de 
sapato. Mas, quando vemos um sapato na nossa frente, estamos experimentando 
um conceito materializado de sapato, mas não sua essência. A essência do sapato 
é imutável, existindo não nas nossas mentes, mas como modelos atemporais 
presentes no mundo inteligível. Para acessar tais ideias, somente através da Razão. 
Enquanto Ser, somos a materialidade, um traço apenas da essência do “Ser”, este 
eterno, imutável, perene. Vejamos a reflexão realizada por Claude Dubar:
Etimologicamente, a identidade (do latim idem: o mesmo) é aquilo que 
permanece o mesmo ao longo do tempo. É o que Platão, a partir de 
Parmênides, chamava a essência do que existe (os seres, étants), aquilo 
que não se relaciona comsua aparência - o que se percebe pelos sentidos 
-, mas sua realidade “essencial” que é invisível e imutável. A essência, 
segundo Platão, não se conhece pelos sentidos, mas pelo espírito (o noos) 
que «vê» as Ideias e as reconhece (teoria da “reminiscência”). Podemos 
lembrar o mito da caverna: os humanos vivem em meio às sombras, 
às aparências, às miragens: se quiserem ver (em grego theorein), daí 
para conhecer o Real, eles devem sair da caverna, subir até o alto da 
montanha e contemplar o céu das ideias (DUBAR, 2010, p. 336).
Neste sentido, a filosofia socrático-platônica inaugurou um dualismo 
metafísico entre o corpo e a alma. Ele, neste sentido, formula uma metafísica 
em torno do Ser. Na sua argumentação, o corpo ligava-se aos sentimentos, 
àquilo que pode afastar o ser de uma existência ideal. Tal existência só poderia 
ser fundamentada na alma, que é a própria Razão. Como veremos, tal tradição 
filosófica foi incorporada à tradição cristã desde os primeiros anos da nova religião 
monoteísta.
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
5
FIGURA 1 – IDENTIDADE: SOMOS O QUE APARENTAMOS?
FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/-uqLbwHO4-n4/TjRSfJlO-NI/
AAAAAAAAAFs/0sZ4LILb0dM/s1600/carteirra_identidade.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Para as identidades clássicas (aqui em oposição às contemporâneas), não era tão 
claro para nós que a construção social da diferença envolve a conformação de oposições 
binárias: podem indicar exemplos de binarismos em situações como homem-mulher, 
masculino-feminino, escuridão-luz, quente-frio, bem-mal, cru-cozido, ou civilizado-
bárbaro, superior-inferior, nós-eles, negro-branco etc. (WOODWARD, 2015). 
O que é esse binarismo? Trata-se de um modo de classificação simbólico 
do mundo e da experiência individual e social a partir de dois polos opostos e 
desconectados entre si. Assim, no binarismo de gênero, por exemplo, ser homem e 
ser mulher são situações que nada têm a ver entre si. Estrutura, assim, uma divisão, 
bem como hierarquias e papéis distintos. Se o doce não é o salgado, então, o doce 
existe por si próprio. Mas a própria definição e ideia de doce só pode ser construída 
em torno de outros conceitos, como amargo, salgado etc. Por mais que os discursos 
identitários essencialistas invisibilizem este fato, está claro para todos. Para povos 
antigos e mesmo contemporâneos, estabelece-se uma visão de senso comum em 
cada um desses elementos que em oposição são independentes. A diferença era 
concebida como uma entidade independente, existindo independente de outras 
identidades (WOODWARD, 2015).
Neste sentido, o essencialismo identitário representaria uma ideia de que a 
identidade de uma pessoa indicaria “aquilo que se é”, dando pouca ou nenhuma 
ênfase ao fato de que “é na relação com o outro que me identifico como o não 
outro” (OLIVEIRA, 2006, p. 24). E é exatamente essa condição relacional que o 
essencialismo nega ou invisibiliza. 
Para compreender a dimensão de si mesmo é preciso ter um outro parâmetro, 
um outro ser humano. Então, o que podemos entender por essencialismo?
Essencialismo refere-se à necessidade de estabilizar determinados 
grupos sociais enquanto sujeitos políticos. Ou seja, o processo de 
essencialização procura garantir a legitimidade da representação 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
6
política de determinado grupo estabelecendo uma fronteira nítida que 
torne possível distinguir seus membros na sociedade como um todo. 
Esse processo engendra um grave problema: leva ao ‘congelamento’ 
e à descontextualização de identidades e diferenças como se fossem 
entidades fixas, visto que impõe a partir da esfera política uma visão 
única do que as distingue. O essencialismo dá margem, portanto, ao 
surgimento de aspirações de cunho totalitário para fins de estabilização 
política, pois tende a eliminar a partir da própria esfera pública 
qualquer outra interpretação possível do que caracteriza a diferença ou 
a identidade em questão (TOSOLD, 2010, p. 169).
Como você pode perceber, na lógica das identidades essenciais existiria um 
núcleo que seja “comum” e “fixo”. Este centro orientaria o indivíduo para e na vida 
social. E um dos fenômenos sociais corriqueiros em torno da identidade é que se 
tende a perceber estas identidades como “naturais”. É como se sempre existissem.
E quando essa situação se torna um problema? A partir da ampliação das 
relações de interdependência social entre as diversas partes do mundo, o controle 
identitário baseado em lealdades tradicionais como raça, nação, gênero torna-se 
mais frágil. Na velocidade das interações atuais, esse abalo pode desconcertar os 
sujeitos. Muitos optam por radicalizar seu discurso em torno de fundamentalistas 
religiosos, nacionais, étnicos, capitalistas etc. Numa visão radical do essencialismo 
identitário, essas identidades “não contemporâneas com o seu tempo” fariam “mal 
aos corpos dos que as carregam” (BURITY, 1997, p. 145). 
Apesar disso, como aponta Stuart Hall (2006), essas versões serviram para 
equilibrar e estabilizar o mundo social, apontando “quadros de referência que davam 
aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social” (p. 7). Conforme o autor:
[...] A lógica do discurso identitário assume um sujeito estável, isto é, temos 
assumido que há algo que nós podemos chamar de nossa identidade, o 
que, em um mundo que muda rapidamente, tem a grande vantagem 
de permanecer imóvel. Identidades são uma forma de garantia de que 
o mundo não está se desmoronando tão rapidamente quanto algumas 
vezes parece. É um tipo de ponto fixo do pensamento e do ser, uma base 
de ação, um ponto parado no mundo em transformação. Este é o tipo de 
garantia última que a identidade parece nos prover (HALL, 2016, p. 317).
Assim, ao contrário do que afirmam as identidades tradicionais, clássicas, 
a identidade não é algo que se tem, mas é o efeito precipitado (logo, instável) de 
atos de identificação social. Quer dizer, os processos de construção identitária são 
marcados pela ambiguidade fundamental dos próprios fenômenos identitários. 
Todas as identidades seriam contingentes às condições históricas, sociais, culturais, 
políticas (BURITY, 1997, p. 139-140). 
Neste sentido, essa visão essencialista estimula nos seus adeptos a ilusão de 
um conjunto de características autênticas e que são partilhadas e experimentadas 
por um grupo inteiro. É com este caráter que falamos, por exemplo, em identidade 
brasileira. Quando nos referimos a essa identidade, todas as diferenças internas 
do país são anuladas em torno de uma unidade. E nós sabemos que cada região 
brasileira possui características sociais e culturais muito distintas, que tornam 
complexo pensar uma unidade!
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
7
Como localizar na história o aparecimento de identidades essencialistas, 
como a identidade étnica ou nacional? Essa discussão sobre essencialismo na 
identidade está muito abstrata para você? Vamos exemplificar com o caso dos 
gregos antigos e da identidade na Idade Média. Estes períodos são a base de duas 
importantes identidades essencialistas: a étnica e a nacional.
3 OS GREGOS E UM OLHAR SOBRE A IDENTIDADE ÉTNICA
Como vimos, é óbvia a associação entre identidade e essência-unidade no 
pensamento grego. Vamos agora adentrar na história desse povo. Esse exercício, 
uma pessoa de hoje pensar sobre gregos que viveram há 2.400 anos, é complicado. 
Corre-se o risco de muitas simplificações. Precisamos suspender algumas noções 
básicas de viver em sociedade nos dias de hoje. Ou ser um estudioso familiarizado 
com o pensamento mítico, filosófico dos gregos e sua vinculação a um sentido 
da vida comunitária nas cidades-estados, da estreita relação entre vida pública, 
palavra falada e espaço público. 
Uma brevíssima história da Grécia antiga
 
A Gréciaantiga nunca chegou a formar um Estado unificado. Costuma-
se dividir a História grega antiga segundo alguns períodos: Pré-homérico 
(século XX-XII a.C.); Homérico (séculos XII-VIII a.C.); Arcaico (séculos VIII-
VI a.C.); Período Clássico (V-IV a.C.). O primeiro conjunto de populações 
indicadas como gregos antigos ocupou a região da Península Balcânica por 
volta de 4000 a.C. Essas populações pioneiras eram originárias do Oriente 
Próximo. Como o terreno era acidentado, pouco fértil e com verões e invernos 
rigorosos, esses grupos deslocavam-se constantemente pelo território, 
ocupando ilhas e regiões da Ásia, como Jónia (Turquia), e da Europa.
FIGURA 2 – MAPA DO IMPÉRIO DE ALEXANDRE, O GRANDE
FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/-ddiWsqMFVPQ/VQDMeqa9GzI/
AAAAAAAADYY/RIkQqqFIzpE/s1600/o%2Bimp%C3%A9rio%2Bde%2Balexandre%2Bo%2
Bgrande.JPG>. Acesso em: 13 jun. 2017.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
8
De maneira geral, o período clássico é, também, a “clássica” versão 
que conhecemos, em torno da Polis, do pensamento filosófico, da isonomia, 
da democracia ateniense (dependente da escravidão), cujo ápice deu-se no 
século IV a.C.
No século V a.C. ocorreram as Guerras Médicas, quando os gregos 
se uniram para conter as tropas persas que procuravam ocupar os territórios 
helênicos. Com o declínio das cidades-estados gregas, surge Alexandre, 
o Grande, da Macedônia, que ficou famoso por suas vastas conquistas 
territoriais, espalhando alguns traços da unidade grega para estas regiões, 
fundando cidades etc. Alexandre foi proclamado Rei da Macedônia e seus 
domínios em 336 a.C.
FONTE: Funari (2002) e Le Roux (2010)
Então, como pensar a experiência histórica dos gregos antigos em termos 
de identidade? Sugerimos observar em termos de grupo étnico. Havia condições 
de uma identificação em termos de ancestralidade, de religião, de estrutura mítica, 
de costumes, de língua, conforme sugere o historiador Ciro Flamarion Cardoso 
(2002). E quais foram essas identificações comuns?
Para Claude Mossé (2004, p. 7), a civilização grega é, “antes de mais nada, 
civilização da pólis, civilização política”. E conforme Jean-Pierre Vernant (2002), a 
pólis estimulou o desenvolvimento de novas mentalidades, especialmente entre os 
atenienses e suas colônias. Esta resultou em transformações materiais que foram 
incorporadas à vida: a predominância da palavra no debate público, a publicidade 
das suas manifestações políticas e culturais e uma ideia de interesse comum entre 
os seus habitantes.
Segundo Leister (2006), os gregos destacam-se pela laicização da concepção 
do mundo operada na pólis. O universo dos deuses vai cedendo lugar às ações 
humanas e o destino dos homens não mais é definido pelos deuses, mas sim pela 
lei. Os gregos desse período tornam os mitos em explicações sociais e filosóficas, não 
relacionadas aos deuses e aos destinos das pessoas. Neste contexto, o privilégio da 
cidadania era obtido por nascimento, e o grego obtinha a cidadania da pólis a que 
pertenciam os seus pais: para “a identidade helênica”, a cidade-estado grega era a 
única possibilidade de civilização: “fora dela, só a barbárie” (LEISTER, 2006, p. 18).
O alemão Werner Jaeger (1986), em sua obra clássica “Paideia: a formação 
do homem grego”, afirma que os gregos foram originais no sentido de localizar 
o problema do homem mítico, que seria fundamental na epopeia, na tragédia, na 
poesia, para depois se ligar a uma preocupação filosófica, desdobrando-se numa 
concepção inédita de homem. Este possui uma essência em meio ao mundo e suas 
leis gerais. Tal essência não deve ser confundida com individualidade. É, antes, 
como dono de uma Razão. 
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
9
O que ele quer dizer com “Paideia”? Ele implica a ideia de uma formação 
moral, religiosa, cívica comum reproduzida através da educação grega. E isso 
quer dizer o estudo e o conhecimento em termos da poesia, filosofia, retórica, 
matemática, música, astronomia, idioma, elementos essenciais da “alma” do 
cidadão grego do período a partir do século V a.C. Este conjunto era ensinado 
através das Academias ou por professores particulares, por filósofos nas ruas, 
pelas peças teatrais. Era uma moral do dia a dia, a fim de orientar o cidadão ao bem 
comum e aos valores gregos. Para Jaeger, havia uma unidade e um núcleo comum 
de ideias entre os gregos (JAEGER, 1986).
Temos, então, uma civilização excepcional para aquela época. Tal conjunto 
de valores era compartilhado entre os cidadãos das poleis. Escravos e estrangeiros 
não eram obrigados ou educados em termos gregos, com exceções. Tal educação 
de valores tinha início na infância, tanto para homens quanto para mulheres, 
apesar das distinções nas formas de ensinar e no objetivo destes conhecimentos. 
Vale dizer que a sociedade grega era uma sociedade de cidadãos, mas a plenitude 
cidadã era reservada somente aos homens.
FIGURA 3 – A IMPORTÂNCIA DA PÓLIS
FONTE: Disponível em: <http://www.historiadigital.org/artigos/socrates-na-construcao-da-
democracia-grega/>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Então, pensar os gregos antigos implica pensar em isolamento social? 
Eram, então, os gregos antigos uma sociedade fechada em si mesma em relação 
ao mundo? Nada mais longe da verdade. Os povos gregos (também chamados 
de helênicos) mantiveram relações com o Egito, a Síria, o Irã, regiões da Turquia, 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
10
antes mesmo dos períodos Arcaico e Clássico. Havia interação e laços comerciais e 
culturais entre os povos do Mar Mediterrâneo. Havia, sim, um sentimento de “ser 
grego” compartilhado nos modos de vida e nas instituições sociais.
A construção das identidades gregas na Antiguidade não foi um fenômeno 
estático. A percepção dos gregos sobre os outros povos foi se alterando. Seja pela 
sua ideia de Paideia comum, pela língua ou pelas guerras com povos invasores. 
Para o historiador François Hartog (2004), as Guerras Médicas foram centrais na 
formação do bárbaro (bárbaroi) em oposição ao grego (héllenes). A partir deste 
momento, a diferença entre gregos e não gregos torna-se política. O bárbaro é 
aquele que não compartilha uma pólis ou laços comuns em torno da educação, da 
língua e de costumes comuns. 
Antes dessas guerras contra persas, havia, entre os séculos VII e VI a.C., 
uma fascinação pelos povos como egípcios e localizados no Oriente Próximo 
(HALL, 2001). A identidade helênica vinha sendo construída de “forma agregativa 
por meio da percepção de similaridades com grupos de pares” (HALL, 2001, 
p. 218-219). Ao longo deste período, os bárbaros eram aqueles que não falavam 
grego. Que eram incompreensíveis, portanto. Mas a partir do século VI a.C. houve 
mudanças cruciais para a cristalização da identidade grega. 
Estes bárbaros, selvagens, “outros”, representavam demarcações simbólicas 
negativas para a definição da identidade grega. Aos poucos foi se constituindo 
uma identidade centrada no discurso da defesa da autonomia, da liberdade e da 
lei como valores gregos. Este é o período de consolidação de oposições a grupos 
externos de bárbaros, especialmente em função das Guerras Médicas contra os 
persas. Nesse jogo de alteridades, “os gregos e atenienses se tornaram plenamente 
gregos, enquanto os bárbaros permaneceram bárbaros” (HARTOG, 2004, p. 95).
E num período de decadência das cidades-estados gregas, especialmente de 
Atenas, surgiu um invasor ao norte de suas terras: a Macedônia, a partir do século 
IV a.C. Depois das conquistas territoriais de Felipe II e de seu filho e sucessor, 
Alexandre, O Grande, conformaram condições para a formação de um novo cenário 
político, econômico e cultural, dominando aquilo que era a Grécia antiga. De sua 
expansão, estabelece-se outro momento para a identidade grega. Durante o período 
do Império Helenístico, estiveramsob domínios gregos e macedônicos parte do norte 
da África e das extensões da Ásia. Em cada terra conquistada eram criadas colônias 
gregas, cujo modelo de educação era aquilo que dava sentido a uma experiência de 
ser grego. Mesmo que este “grego” more numa região distante da Ásia.
Assim, como pensar a experiência grega em termos de identidade étnica? 
O grande autor clássico dos estudos sobre etnia é Frederik Barth (1998), em sua 
obra “Grupos étnicos e suas fronteiras: a organização da cultura das diferenças 
culturais”. A partir de sua reflexão, pode-se apontar um grupo étnico como um 
modelo de organização social e de fixar uma identidade relacional em termos de 
diferença. A continuidade de um grupo étnico não está ligada à manutenção de 
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
11
uma cultura, tradição antiga. Os traços culturais podem mudar. Depende, sim, da 
delimitação de limites entre os grupos e de reforçar laços de solidariedade. 
“A etnicidade é um conceito de organização social que nos permite descrever 
as fronteiras e as relações dos grupos sociais em termos de contrastes altamente 
seletivos, que são utilizados de forma emblemática para organizar as identidades 
e as interações” (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 1998, p. 183).
 
É nessa relação que se formam os sentidos do “nós” e os “outros”, os 
de “dentro” e de “fora”. É um jogo contraditório, de confronto, diferenciação e 
contraste. Mas, também, um jogo de dominação e subordinação. A etnicidade 
depende de relações e de contrastes para delimitar fronteiras. Dependendo de 
contextos e relações de força, ele se mostra nas relações sociais. O foco então se 
torna a fronteira étnica e as maneiras de pertencer ou excluir, porque a identidade 
étnica implica uma série de restrições e prescrições que governam as situações de 
contato.
Na visão de Barth (1998), cada indivíduo participa, consciente ou não, na 
construção da etnicidade do seu grupo. Na medida em que os agentes se valem 
da identidade étnica para classificar a si próprios e os outros para propósitos de 
interação, eles formam grupos étnicos em seu sentido de organização.
É na medida em que os indivíduos usam essas categorias para 
organizarem-se a si e aos outros que eles constituem grupos étnicos. 
Nesse contexto, a cultura não desaparece da análise, mas ela só tem 
importância na medida em que os atores lhe atribuem importância, não 
valendo, portanto, enquanto dados objetivos na definição do fenômeno 
(ARRUTI, s.d., p. 205).
Neste sentido, numa tentativa de sintetizar e fechar esta discussão, John 
Hall (2001, p. 216) diz que um grupo étnico se define “não pela soma de diferenças 
objetivamente observáveis”, mas por apenas “aquelas diferenças que os membros 
do grupo, eles próprios, percebem como diferenças significantes”. Do ponto de 
vista da experiência grega, então, temos as poleis, as guerras e a noção de Paideia e 
não versões biológicas de identidade. Tratou-se de uma experiência de vida social 
e comunitária. 
4 RELAÇÕES ENTRE IMPÉRIO ROMANO, IDADE MÉDIA E 
EUROPA: A IDENTIDADE NACIONAL
Como aponta Pedro Paulo Funari (2000, p. 77), Roma designa “uma cidade 
antiga e todo um império”, um imenso conglomerado de terras que, no seu auge, 
se estendia da Grã-Bretanha ao rio Eufrates, do Mar do Norte ao Egito. Sobre qual 
Roma tratamos? Pela complexidade de sua história, aqui analisamos as identidades 
no tempo do Império Romano.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
12
Os romanos consolidaram na antiguidade um grande e vasto império ao 
longo de sua existência, subordinando aos seus domínios diversos povos, entre 
eles, os próprios gregos. E a extensão das terras romanas na Antiguidade incluía 
uma variedade de línguas, religiões e tradições distintas. O processo lento e 
complexo da produção do social da identidade romana teve seu ápice na expansão 
imperial e no culto à figura do imperador romano. Conforme o romano Cícero, 
em “Da República”, a glória de Roma relaciona-se à observância dos costumes 
ancestrais, de modelos de arte, arquitetura, religião e leis. 
Como ponto de partida, a construção de “uma identidade romana” ao 
modo que os gregos estabeleceram como padrão não foi uma preocupação do 
império. O historiador Norberto Guarinello (2010) diz que o Império Romano 
não foi o resultado de embates identitários. Nem que sua história se explica pelo 
conflito ou acomodação de identidades. 
Brevíssima história de Roma antiga
A história da Roma antiga, que inclui partes da África, Europa 
e Ásia, liga-se à fundação da pequena Roma, surgida no século VIII a.C. 
Todos lembramos da lenda de Rômulo e Remo, irmãos que num primeiro 
momento foram criados por uma loba até serem encontrados. Segundo esta 
lenda, citada por Tito Lívio, Eneias, príncipe derrotado na Guerra de Troia, 
estabeleceu-se na região do Lácio, onde casou-se com uma herdeira latina, 
Reia Sílvia. Rômulo e Remo eram seus filhos numa relação com o deus Marte 
e por isso foram atirados no rio Tibre. Foram encontrados e amamentados 
por uma loba e, depois, criados por camponeses. E, quando adultos, os dois 
irmãos voltaram a Alba Longa, depuseram Amúlio e em seguida fundaram 
Roma, em 753 a.C.
 
Conforme Paulo Funari (2000, p. 77), “Roma designa uma cidade 
antiga e todo um império, um imenso conglomerado de terras que, no 
seu auge, se estendia da Grã-Bretanha ao rio Eufrates, do Mar do Norte 
ao Egito”. Roma e suas extensões conheceram três formas de organização 
política, que influenciaram a própria estrutura social e a vida cotidiana das 
pessoas. Costuma-se dividir sua história em: Monarquia (753 a.C. - 509 a.C.), 
República (509 a.C. - 27 a.C.) e Império.
O Império Romano nasceu oficialmente em 27 a.C. e terminou – 
dependendo do ponto de vista – com a conquista de Roma pelos godos, 
chefiados por Alarico, em 410 d.C., ou em 476 d.C., data da queda do último 
imperador do Ocidente, em consequência dos repetidos assaltos dos povos 
germânicos (LE ROUX, 2010).
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
13
FIGURA 4 – MÁXIMA EXTENSÃO DO IMPÉRIO ROMANO – III a.C.
FONTE: Disponível em <https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/e3/9d/fd/
e39dfd2db2ce90db3aa264144158c10c.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
FONTE: Funari (2002) e Le Roux (2010)
Havia um sistema de valores compartilhados, que favoreceu a integração 
imperial? Na leitura de Patrick Le Roux (2010), os territórios dominados pelo 
império experimentaram formas de administração hierárquica estruturada em 
torno de funcionários e de leis da autoridade central. Elas visavam “controlar, 
verificar, equilibrar e repartir” as atividades locais. 
Além disso, existe uma visão clássica em torno de uma comunidade cultural 
mediterrânea cuja potência criativa era a civilização romana. Isso levaria a destacar 
um processo de assimilação da cultura romana pelos povos bárbaros dominados, 
chamada de “romanização”, como apresentada. Esse termo está ligado a noções de 
desenvolvimento, aculturação e à forma como os nativos adotaram e assimilaram 
a cultura “romana”. A romanização tradicionalmente observada pela História 
defende a ideia de difusão da cultura romana para regiões menos urbanas, mais 
“bárbaras”. Tratava-se, em muitos casos, de uma “missão civilizatória romana”. 
Essa crítica entende que:
A integração propiciada pelo Império não representou, assim, um 
consenso, nem a paz geral que muitas vezes se propugna, mas um 
sistema de exploração contra o qual as alternativas eram escassas, dada 
a imensa dispersão geográfica e cultural dos insatisfeitos, dada a falta 
de alternativas viáveis ao Império (GUARINELLO, 2010, p. 127).
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
14
Agora, havia uma delimitação cultural que reforçou a elitização da ordem 
romana por meio de duas fronteiras: a cultura e língua gregae a língua latina. Não 
havia, necessariamente, a imposição dos modos de vida dos romanos ou gregos 
em suas colônias. Estas eram restritas aos ‘nativos’ gregos e romanos que viviam 
nessas terras coloniais. 
FIGURA 5 – CASAL ROMANO
FONTE: Disponível em: <http://www.institutoandreluiz.org/1_casal_romano.JPG>. Acesso 
em: 13 jun. 2017.
A identidade romana, assim, ligava-se muito à própria história de Roma 
e sua elite militar e política. Pode-se dizer que entre estes indivíduos e famílias 
nobres havia uma ligação identitária mais consistente. Norberto Guarinello 
(2010) defende que a identidade romana não era uma imposição, mas sim, uma 
característica geral de comportamentos que deveriam ser compartilhados entre os 
súditos. Enquanto se é grego por ascendência e descendência, no caso romano, é 
possível se tornar um, através da Lei e do Direito. 
Tecendo comparação entre identidade grega e romana, a cidadania helênica 
era bastante restrita aos habitantes de fora, nos “confins do mundo”, ao passo que 
a romana era muito mais ampla e flexível do que a ateniense. Havia possibilidades 
de ascensão social diferentes entre gregos e romanos. Ser romano era preocupação 
para aqueles que tinham possibilidades de pertencer à elite romana. 
Isso não quer dizer que os romanos relativizavam as culturas de seus povos 
dominados ou não se sentiam superiores. Pelo contrário, queremos dizer apenas 
que a identidade romana era um assunto restrito à elite econômica, política, militar 
e “sagrada”, ou alguns poucos segmentos mais ricos da sociedade romana.
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
15
E o que temos de relação entre a identidade nacional e a história do Império 
Romano? É a partir da Idade Média e com a reconfiguração do Império Romano 
após a tradicional “Queda de Roma” para os bárbaros que esta identidade restrita 
e fundamentada em memória e direito vai dar contornos à identidade nacional. Ela 
fundamenta-se no pertencimento a um território imperial, a uma língua (latim), ao 
conjunto de leis e direitos herdados do Império Romano.
Segundo a tradição historiográfica, a Idade Média tem início com a queda do 
Império Romano tomado pelos “bárbaros”. O que foram essas invasões bárbaras? 
Uma guerra do tipo Game of Thrones pelo poder real? Um processo complexo de 
fatores interligados? Vamos investigar esta última alternativa. 
Devido a complicadores políticos, demográficos, sociais e militares, o 
poder imperial ligado a Roma foi, em 395 d.C., dividido em duas partes: o Império 
Romano do Ocidente e o Império Romano do Oriente, cuja capital era Bizâncio, 
atual Constantinopla (Turquia). Os estudos, pesquisas e discursos que apontam 
os bárbaros deram ênfase aos aspectos externos, negligenciando os aspectos e a 
desorganização interna. Essa desestruturação do poder imperial é lida a partir da 
ideia do “Declínio do Império Romano” (BARROS, 2009).
UNI
O que foi viver na Idade Média?
As pessoas que viveram essa época possuíam um imaginário social bastante fértil numa 
relação muito próxima de situações do universo sagrado e profano. Além disso, as populações 
medievais não registravam o tempo como nós fazemos hoje. Este tinha um sentido biológico 
e cíclico para a vida. É por isso que as celebrações religiosas ou não – como a celebração do 
ano-novo – ressaltavam um ciclo eterno e a repetição de eventos.
Resultado de um processo social de caracterização, a Idade Média foi interpretada na Idade 
Moderna como atraso, crises e trevas. A visão negativa sobre a Idade Média teve início a partir 
do século XV, no período do Renascimento. Para muitos, a Idade Média foi época sombria, 
“um tempo oco, caracterizado pela ausência da razão e ausência do gosto” (LE GOFF, 2005, p. 
59). Porém, as grandes mudanças nas mentalidades tiveram início na Idade Média. O próprio 
Renascimento não foi um acontecimento, mas um longo processo iniciado no século XII.
De uma maneira geral, apontamos a memória do Império Romano, o cristianismo e a conversão 
dos povos bárbaros e combate aos infiéis, e esse imaginário social repleto de relações entre 
o sagrado e o profano alimentado por uma metafísica cristã como o “ponto de partida”. Aos 
poucos, tais tradições são ressignificadas em torno da ideia de Ocidente e de Europa.
Houve uma ruptura profunda entre a Antiguidade e a Idade Média naqueles 
anos? Não como aprendemos na escola, onde Roma foi tomada por bárbaros e 
surgiu uma nova era. O que ocorre no período de transição da Antiguidade para a 
Idade Média é uma renovação, o surgimento de uma nova cultura a partir da fusão 
de valores clássicos com valores cristãos. 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
16
E quem eram esses bárbaros invasores? Pode-se indicar os godos (visigodos 
e ostrogodos), vândalos, os francos, os suevos, os burgúndios, os anglos, os saxões, 
os alamanos, dentre outros. Dentre revoltas, golpes políticos, conflitos políticos, o 
poder de Roma diminuiu. 
FIGURA 6 – BÁRBAROS “INVASORES”
FONTE: Disponível em: <https://idademedia.wordpress.com/2012/03/12/povos-barbaros-
um-dos-componentes-que-a-igreja-civilizou-na-idade-media/>. Acesso em: 13 jun. 2017.
As fronteiras não se expandem mais. Pelo contrário, fragmentam-se, por 
um momento. Depois, reunificam-se em movimentos diversos desses chamados 
povos bárbaros. Em especial, os francos, que desde o século V foram expandindo 
seus domínios. Com conversão de Clóvis ao cristianismo, poder político e poder 
religioso passam a confundir-se. 
[...] o golpe de mestre de Clóvis foi o de se converter, com seu povo, não 
ao arianismo, como os demais reis bárbaros, mas ao catolicismo. Com 
isto pôde jogar a cartada religiosa e beneficiar-se do apoio, senão do 
papado ainda fraco, ao menos do poder da hierarquia católica e do não 
menos poderoso monasticismo (LE GOFF, 2005, p. 32).
Nestes primeiros séculos de Idade Média, o Império Romano foi 
reinventado, especialmente com a coroação de Carlos Magno no século VIII. 
Segundo Hobsbawm e Ranger (1998), a importância desse imperador para a ideia 
de uma identidade europeia é central. Não só por restaurar e manipular a memória 
e instituições do Império Romano, mas, principalmente, pela sua imagem de 
“defensor” da identidade europeia-cristã contra os “infiéis” do Islã. Foi com Carlos 
Magno, coroado imperador do Império Carolíngio na noite de Natal de 800 d.C., 
que se começou o rechaço aos seguidores do Islã que ocupavam e expandiam sua 
fé para a Europa. Durante o reinado de Carlos Magno, a expansão territorial e a 
cristianização dos povos compunham dois grandes objetivos seus. 
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
17
DICAS
Sugestões de filmes sobre a Idade Média:
“O Incrível Exército de Brancaleone”, direção de Mario Monicelli (1965).
O filme acompanha a história do cavaleiro Brancaleone, que lidera um pequeno grupo de 
pobres em busca da “Terra Santa”. O filme é uma comédia que retrata a Baixa Idade Média e 
seus temas, como as cruzadas e a peste negra.
 
“Cruzada”, com direção de Ridley Scott (2005).
O filme acompanha um jovem ferreiro francês que se desloca para a Terra Santa e experimenta 
o conflito entre cristãos e muçulmanos em torno da conquista de Jerusalém, que termina 
com a retomada da cidade pelos seguidores do Islã.
Por que nos interessa ligar o aparecimento da identidade nacional ao 
Império Romano e à Idade Média? De acordo com José Glaydson Silva:
Justificador dos impérios modernos, o Império Romano ajuda a construir 
os pertencimentos, as identidades, as nacionalidades, em universo 
de empréstimos simbólicos, sentidos, construídos em interpretações 
falseadas, em muitas tentativas das nações europeias de estabelecer 
passados apropriados (SILVA, 2005, p. 43).
É com o declínio dos impérios que se abrigavam na memória da grandeza 
romana que foram surgindo pequenosreinos, que logo mais se tornaram Estados. 
Das instituições feudais surgem identificações baseadas numa definição de 
território. O que é a identidade nacional? 
Para Anthony Smith (1997), a identidade nacional é a manifestação da 
consciência de pertencimento a uma comunidade política que estrutura a vida 
nacional e individual através de instituições que medeiam os direitos e deveres 
de seus membros. Essa consciência seria uma forma de memória elementar para 
crescimento de uma identidade. E espaço geográfico também no sentido de 
territorialização. A identidade nacional demanda uma base territorial em que os 
seus membros possam identificar-se, relacionar-se, isto é, pertencer. Dela foram 
derivadas noções de cidadania, nação e pátria.
Segundo Smith (1997), possuir uma identidade e uma memória nacional 
é resultado de um processo que se opera em múltiplos espaços, do Estado ao 
universo familiar, sendo reafirmados, aprendidos e reproduzidos em eventos, 
rituais, instituições presentes no cotidiano dessas comunidades. Neste conjunto 
de relações sociais de linguagem e de poder, os membros da comunidade são 
estimulados à autoidentificação – pacífica ou não – voltada a delimitar a diferença 
e a fronteira do grupo.
Para Stuart Hall (2006), as identidades nacionais são compostas por 
símbolos e representações, indicando modos de construir sentidos que influenciam 
e organizam tanto as nossas ações quanto a concepção que nós temos de nós. Elas 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
18
contribuíram para forjar sistemas nacionais e universais de serviços e políticas, 
conformando uma “cultura homogênea”, mas permeada pela ambivalência.
[...] a noção de cultura nacional não é algo com um impulso moderno, 
ao contrário, amparado ambiguamente entre o passado, o presente e o 
futuro, retornando, sempre que for necessário, a passados inventados. 
Não importa quão diferentes sejam seus integrantes, uma cultura 
nacional sempre buscará unificá-los, integrá-los numa identidade 
cultural. Porém, esse movimento tem como efeito anulação e 
subordinação da diferença cultural interna? (HALL, 2006, p. 59).
E como articular as identidades nacionais e suas memórias, símbolos, 
bandeiras, hinos, heróis a esse momento medieval? São bastante diversificados os 
enfoques e entradas possíveis no tema. Aqui se discutem duas categorias que podem 
contribuir na busca de uma reflexão possível. A primeira de Eric Hobsbawm e sua 
noção de “invenção das tradições”. A outra é de Benedict Anderson e seu conceito 
de “comunidade política imaginada”.
O conceito de “tradição inventada” é utilizado num sentido amplo, incluindo 
“tradições” realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, 
quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado 
e determinado de tempo. Essa tradição inventada tem como “combustível” de 
seu movimento um conjunto de práticas reguladas por regras escritas ou não de 
natureza ritual ou simbólica. O objetivo desse conjunto de sentidos é inculcar 
certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, 
automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. São tradições que 
buscam apresentar continuidade artificial em relação ao passado através da 
repetição (HOBSBAWM; RANGER, 1998).
 
[...] por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, 
normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; 
tais práticas, de natureza natural ou simbólica, visam inculcar certos 
valores e normas de comportamento através da repetição, o que 
implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. 
Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um 
passado histórico apropriado (HOBSBAWM; RANGER, 1997, p. 9).
 
Elas são, em essência, conservadoras, contrárias a inovações. Por isso 
Hobsbawm e Ranger distinguem-nas dos costumes e convenções que, por sua vez, 
estão ligados a tradições. O passado está sempre presente na forma de símbolos, 
linguagens, rituais, entre outros.
 
Consideramos que a invenção de tradições é essencialmente um 
processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao 
passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição (p. 14). [...] 
toda tradição inventada, na medida do possível, utiliza a história como 
legitimadora das ações e como cimento da coesão grupal (HOBSBAWM; 
RANGER, 1997, p. 21).
 
O que queremos apontar com esta reflexão? De acordo com Hobsbawm e 
Ranger, toda tradição surgiu em algum lugar do passado, sendo possível de ser 
alterada em algum futuro. 
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
19
As nações são entidades historicamente novas fingindo terem existido 
durante muito tempo. É inevitável que a versão nacionalista de sua 
História consista de anacronismo, omissão, descontextualização e, em 
casos extremos, mentiras. Em um grau menor, isso é verdade para todas 
as formas de História de identidade, antigas ou recentes (HOBSBAWM; 
RANGER, 1998, p. 285).
Se a Idade Média é um desses passados, hoje imagens dela são manipuladas 
discursiva e politicamente. Das dinâmicas do mundo medieval foram “inventadas” 
e “imaginadas” as bases de uma identidade essencialista muito relevante nos dias 
atuais, apesar de sua crise. A identidade nacional difundiu-se junto com os domínios 
e colonialismo europeu. Nós brasileiros estamos marcados por uma identidade 
nacional que se diz fixa, cuja origem está na ocupação portuguesa em 1500.
A identidade nacional reivindica uma unidade de língua e cultura. Essas 
características demandam, para sua realização, um esforço coletivo de imaginação 
razoavelmente coordenada e reproduzida em torno de um território e seus membros. 
Benedict Anderson (1989) propôs a definição de nação como uma comunidade 
política imaginada como implicitamente limitada e soberana. É imaginada porque 
nem todos os membros desse grupo podem se conhecer e reconhecer, apesar 
de que estejam mentalmente configurados. É limitada porque implica limites e 
fronteiras. É soberana porque fundamentada no direito iluminista. E é imaginada 
porque sempre definida em termos de comunidade.
 
“O que proponho é que o nacionalismo deve ser compreendido pondo-o 
lado a lado, não com ideologias políticas abraçadas conscientemente, mas com os 
sistemas culturais amplos que o precederam, a partir dos quais – bem como contra 
os quais – passaram a existir” (ANDERSON, 1989, p. 20).
Neste sentido, a própria noção de Ocidente e de Europa é problemática. 
Segundo Peter Johann Mainka (2011, p. 60), é difícil delimitar as fronteiras 
europeias. Isto porque existem situações que tornam complexa essa definição. 
Ela surge, porém, definindo-se em relação a um outro, os povos “bárbaros” da 
Ásia. Podemos indicar a Europa como um continente cujas fronteiras são móveis, 
deslocadas em inúmeros momentos. Já no passado, a palavra “Europa” tinha um 
significado ambíguo. Ora era percebido como os povos da Grécia antiga, ora era 
vista como uma referência num sentido moderno. Assim, segundo Mainka, essa 
demarcação é “imprecisa” (2011, p. 58). Inclusive continua até os dias de hoje, 
confundida com a União Europeia.
Para Hobsbawm e Ranger, a história europeia é uma “história curiosa”, 
definida mais pelas “situações políticas do que pelas diferenças culturais, onde 
a história pode ser lida como um processo”, uma construção intelectual (1998, p. 
233-234). A explicação sobre o que é a Europa teria bases políticas. Até mesmo 
fronteiras convencionais dos livros didáticos – como os Montes Urais – resultam 
de decisões políticas e demarcações intelectuais. Segundo o autor, a definição 
conceitual e geográfica da Europa é mutável e flexível, assim como os contornos de 
sua identidade, ora grega, ora romana, ora europeia. Assim, ele utiliza a metáfora 
do “Clube Europa”, onde o acessoé controlado.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
20
Sob esse ponto de vista, categorias como asiático, leste, Oriente falam 
mais sobre a Europa do que os povos que supostamente classificam e enquadram 
(HOBSBAWM; RANGER, 1998). Na leitura de Hobsbawm e Ranger, o autor aponta 
para obras antigas e modernas escritas por viajantes e conquistadores visando 
descrever os outros povos em termos de categorias europeias, num “denominador 
comum” ao intelecto europeu. Estas estariam em oposição à identidade europeia. 
Em geral, esse antagonismo estava dirigido para o Oriente e o Islã.
Vejamos o que escreve Edward Said no seu livro “Orientalismo”. 
Novamente, entramos no terreno das construções sociais, científicas e intelectuais 
hegemonicamente europeias que “inventam” o Oriente. O esforço dos envolvidos 
nessas construções era o de “traduzir” para as mentes e costumes europeus aquilo 
que foi inventado, configurado e reproduzido como sendo o Oriente. Neste sentido, 
pouco se trata de questões geográficas, mas, antes de idealização, tornando o 
Oriente uma criação do Ocidente. Tal concepção de Oriente – que Said encontra 
em obras da literatura, trabalhos científicos, relatos de viajantes e aventureiros – 
estimula uma visão exótica, misteriosa, erótica e perigosa do Oriente. Mas, para 
o autor, ao debruçar-se sobre tal construção social amparada pela linguagem, é 
possível encontrar mais sobre a identidade Ocidental do que a Oriental (SAID, 
2007). 
Toda a complexidade das centenas de sociedades distintas entre si se 
torna um “Outro” exótico inventado, um estereótipo que estava relacionado aos 
interesses do colonizador europeu (SAID, 2007). Sobre essa invenção de povos não 
europeus:
As invenções da tradição mais abrangentes da África colonial ocorreram 
quando os europeus acreditaram estar respeitando tradições africanas 
antiquíssimas. O chamado direito consuetudinário, direitos territoriais 
consuetudinários, estrutura política consuetudinária, e daí por diante, 
havia sido, na verdade, inteiramente inventado pela codificação colonial 
(RANGER, 1984, p. 257).
 
Sobre esse jogo de oposições relacionais com a Ásia, Boaventura de Sousa 
Santos (2006) diz que o outro lado do Orientalismo foi a ideia da superioridade 
intrínseca do Ocidente.
Assim, a história da Idade Média é, em geral, a história dos povos europeus 
(ou de alguns deles) sob o seu ponto de vista. Porém, como dissemos, a implicação 
dessa hegemonia europeia no mundo tornou nós, brasileiros, produtos diretos 
desse momento. E quando falamos em identidade europeia, em Europa, precisamos 
tomar algumas precauções intelectuais. 
O Ocidente, que ganha imaginação na Idade Média, materializa-se durante 
a Idade Moderna em instituições como o Estado unitário, a visão de cultura/
civilização filosófica, científica e cristã e no fenômeno do capitalismo. Segundo o 
sociólogo português Boaventura de Souza Santos, os desdobramentos de Idade 
Média e Moderna tornaram a Europa o centro do mundo. Porém, até o século XV, 
TÓPICO 1 | A IDENTIDADE PARA OS ANTIGOS: ESSENCIALISMO IDENTITÁRIO
21
a Europa é a periferia de um sistema-mundo cujo centro está localizado na Ásia 
Central e na Índia. Só a partir de meados do milênio, com as navegações ibéricas, 
é que esse sistema-mundo é substituído por outro, capitalista e planetário, cujo 
centro é a Europa (2016). A marca desse domínio pode ser percebida na imposição 
de modelos de ação e interpretação do ser em sociedade. Numa crítica bastante 
retumbante:
 
Colonialismo, evangelização, neocolonialismo, imperialismo, 
desenvolvimento, globalização, ajuda externa, direitos humanos, 
assistência humanitária são exemplos de algumas das diretivas das 
soluções eurocêntricas para os problemas do mundo. Imersa neste 
pensamento que arroga superioridade e cria fechamento (SANTOS, 
2016, p. 27).
 
Esses desdobramentos, eventos e revoluções materiais, científicas e 
simbólicas em torno da sociedade e do sujeito serão objeto de discussão do próximo 
tópico.
22
Neste tópico, você aprendeu que:
• Aquilo que o sujeito é acompanha os acontecimentos e contextos socialmente 
objetivados na forma de relações sociais e de fronteiras que se deslocam 
constantemente. Os discursos que inauguram aquilo que se define hoje como 
identidades fundamentais para a história dos povos ocidentais podem ser 
localizados nas visões greco-romanas de pertencimento e reconhecimento de 
uma unidade comum de características essenciais e que são compartilhadas 
pelos membros do grupo.
• Que a base dessa visão identitária fundamenta-se numa filosofia e num trabalho 
social de produção de sentidos com bases metafísicas. Nela, a identidade é uma 
essência, uma unidade, aquilo que um povo é.
• Como somos resultados de processos europeus de ocupação e dominação dos 
quatro cantos do planeta, nossa base filosófica, mental, cultural, científica, 
religiosa etc. tem como origem discursos e práticas identitárias localizadas na 
Europa antiga e medieval.
• A história medieval pode ser observada como o momento da “invenção de 
tradições”, de mitos fundadores da identidade europeia, fundamentando o 
surgimento de comunidades imaginadas na forma de nações. Que, portanto, 
aquilo que seria essencialmente europeu é, na realidade, um esforço grande de 
sistematização, de manipulação, de reinterpretação de identidades antigas. Na 
passagem da Idade Média para a Moderna esses sentidos são ressignificados 
através da imagem de uma Europa cristã, racional, secularizada e científica.
• Um grupo étnico, segundo Fredrik Barth (1998), é um modelo de organização 
identitária responsável por estruturar os sentidos do “nós” e os “outros”, os de 
“dentro” e de “fora”. É permeado pelo contraditório, de confronto, diferenciação 
e contraste. Pela dominação e subordinação. A etnicidade depende de relações e 
de contrastes para delimitar limites e fronteiras. Para Barth, a continuidade de 
um grupo étnico não está ligada à manutenção de uma cultura, tradição antiga. 
Os traços culturais podem mudar. Depende, sim, do estabelecimento de limites 
entre os grupos e de reforçar laços de solidariedade.
• Para Anthony Smith (1997), a identidade nacional é a manifestação da consciência 
de pertencimento a uma comunidade política que estrutura a vida nacional e 
individual através de instituições que medeiam os direitos e deveres de seus 
membros. A identidade nacional reivindica uma unidade de língua e cultura. 
Segundo Stuart Hall (2006), elas contribuíram para forjar sistemas nacionais e 
universais de serviços e políticas, conformando uma “cultura homogênea”, mas 
permeada pela ambivalência. Vale dizer que a identidade nacional se difundiu 
junto com os domínios e colonialismo europeu.
RESUMO DO TÓPICO 1
23
1 Sintetize e diferencie as formas identitárias conformadas pelos gregos e 
romanos antigos, conforme discutido neste tópico.
2 Diferencie grupo étnico e identidade nacional.
3 Quais são os desafios e problemas relacionados às identidades essencialistas? 
Como enxergar a identidade brasileira de um ponto de vista de uma identidade 
essencial?
4 O que significa o conceito de “invenção das tradições”?
AUTOATIVIDADE
24
25
TÓPICO 2
IDENTIDADE E MODERNIDADE
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
No Tópico 1, procuramos observar o debate sobre o essencialismo 
identitário. Localizamos sua origem em povos da história antiga, especialmente, 
gregos e romanos. Foram importantes na medida em que serviram de base e de 
legitimação para versões sobre a identidade tanto na Idade Média quanto nos 
séculos seguintes.
Neste Tópico 2, investigamos os discursos e teorias sobre a identidade 
resultantes da Idade Moderna e do fenômeno da Modernidade. É quando o 
essencialismo começa a ser abalado ou tornado mais complexo. 
Para tanto, começamos com a noção de sujeito moderno, implicadonas 
discussões filosóficas de René Descartes, Immanuel Kant e Friedrich Nietzsche. 
São filósofos fundamentais para entender a passagem de um olhar metafísico 
sobre o Ser para um outro olhar, epistemológico. Tratou-se de um distanciamento 
ou novo olhar sobre a filosofia grega antiga ou da escolástica medieval.
FIGURA 7 – INTELECTUAIS E A ILUSTRAÇÃO
FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/_qL9x59CgJrw/SeOv8Tq3CgI/
AAAAAAAAAAU/mkzpcLd7Trw/S1600-R/La+lecture+des+philosophes.jpg>. Acesso em: 
13 jun. 2017.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
26
Depois, como resultado desse deslocamento do sujeito, discutimos a 
construção do indivíduo a partir da sociedade, com os trabalhos da Escola de 
Chicago e do Interacionismo Simbólico. Por fim, apresentamos as características 
específicas da Modernidade segundo autores clássicos e contemporâneos, 
observando os impactos desse fenômeno na produção social das identidades. 
Fazemos essa passagem pela modernidade a partir das Ciências Sociais.
2 O SUJEITO MODERNO: O SUJEITO RACIONAL
Boaventura de Sousa Santos (2006) escreveu que o primeiro nome dado ao 
fenômeno da identidade foi o de subjetividade na passagem da Idade Média para 
a Moderna. O que é Subjetividade e qual sua relação com a noção de sujeito? É 
uma noção antiga ou relativamente moderna? Responder a tais questões demanda 
esforço de síntese. Vale dizer que as noções e categorias teóricas levam a marca de 
seus campos e territórios científicos. Daí que a noção de subjetividade e de sujeito 
possui variações para a Sociologia, para a Antropologia, para a Psicologia etc. São, 
todavia, noções muito importantes nas Ciências Humanas.
Segundo o Dicionário de Filosofia de Nicolla Abbagnano (2007, p. 922), 
subjetividade refere-se ao “caráter de todos os fenômenos psíquicos, enquanto 
fenômenos de consciência (v.), que o sujeito relaciona consigo mesmo e chama de 
‘meu’”. Além disso, indica o caráter do que “é subjetivo no sentido de ser aparente, 
ilusório ou falível”. Da mesma forma, Abbagnano (2007, p. 929) explica que o 
termo sujeito teve dois significados fundamentais, sendo que atualmente apenas o 
segundo sentido abaixo é utilizado:
1° Aquilo de que se fala ou a que se atribuem qualidades ou 
determinações ou a que são inerentes qualidades ou determinações; 
2° o eu, o espírito ou a consciência, como princípio determinante do 
mundo do conhecimento ou da ação, ou ao menos como capacidade de 
iniciativa em tal mundo.
Segundo Japiassú e Marcondes (2001), o período medieval foi marcado 
pelas sucessivas tentativas de conciliação entre razão e fé, entre a filosofia e os 
dogmas da religião revelada, passando a filosofia a ser considerada serva da 
teologia, na medida em que fornecia as bases racionais e argumentativas para a 
construção de um sistema teológico, sem, contudo, poder questionar a própria fé. 
A Idade Moderna, por sua vez, radicaliza as mentalidades, promovendo 
uma reconfiguração e produção de novas interpretações e análises filosóficas sobre 
o Ser que se transformou no sujeito. Movimentos como o Renascimento e a Ilustração, 
eventos ocorridos entre aquilo que se diz o fim da Idade Média para o início da 
Moderna, trouxeram novos desafios intelectuais, artísticos e filosóficos nessa parte 
do mundo chamada Europa. As populações desse continente, primeiramente, 
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
27
promoveram, assistiram e reproduziram novas formas de experimentar a ciência, 
a arte, a política e a vida pessoal e singular.
Podemos citar como eventos fundamentais a Reforma Protestante, ocorrida 
em 1517 e que resultou numa cisão no interior da Igreja Católica; a invenção e difusão 
da escrita com a prensa de Johannes Gutemberg e outras inovações técnicas; a 
centralização dos Estados nacionais; uma revolução científica e filosófica, que aqui 
nos interessa pela sua relação com a subjetividade–identidade; e o desenvolvimento 
do capitalismo como modo de produção dominante. O período que vai dos séculos 
XIV-XVIII foi repleto de grandes transformações no quadro dos povos europeus – 
e, por tabela, as suas regiões de domínio colonial e econômico. 
Do ponto de vista filosófico, promoveu-se uma série de transformações. Para 
ilustrá-las, seguimos caracterizando o pensamento de René Descartes, Immanuel 
Kant e Friedrich Nietzsche. São nomes clássicos para entender a mudança do Ser 
para o Sujeito. 
2.1 RENÉ DESCARTES (1596-1650) E IMMANUEL KANT 
(1724-1804)
Claro que os filósofos que contribuíram para essa transformação 
epistemológica são vários. Hegel, por exemplo. Descartes e Kant, por sua vez, são 
pontos de referência elementares. René Descartes nasceu em Haia e é apontado 
como “pai da filosofia moderna”, além de ter seu nome marcado, também, na 
Matemática e na Física. 
O filósofo escreveu obras influentes e referenciais, como: “O Mundo 
ou Tratado da Luz” (1633), “Discurso sobre o Método” (1637) ou “Meditações 
Metafísicas” (1641). De suas análises filosóficas desdobra-se a expressão “sujeito 
cartesiano”, um modelo de sujeito tipicamente moderno e influenciado pelo olhar 
científico. 
Em “Discurso sobre o Método”, Descartes apontou seu método filosófico 
e científico, rompendo com a filosofia aristotélica. Sua preocupação era apontar 
as bases do conhecimento verdadeiro. O filósofo deve rejeitar aquilo que é falso. 
É fundamental averiguar. Essa ideia manteve-se presente na Ciência através do 
método dedutivo e da corrente “Racionalista” ou na etapa da metodologia de 
pesquisa. Quer dizer, o filósofo inaugurou uma versão de ceticismo metodológico.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
28
O ato de colocar em dúvida algo que se nomeia conhecimento fundamentou 
sua noção de sujeito pensante. Este sujeito não é – em essência – o sujeito da filosofia 
grega ou medieval-cristã. 
É clássica sua expressão latina “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo). Este é 
o único conhecimento confiável. Aqui surge um sujeito conectado com as mudanças 
sociais desse período: singular, mas capaz da dúvida e da reflexão racional. Os 
sentidos, as experiências imediatas deviam ser colocadas sob suspeição. 
[...] não há, pois, dúvida alguma de que sou, se ele [o gênio maligno] 
me engana; e, por mais que me engane, não pode fazer com que eu 
nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa. De sorte que, após 
ter pensado bastante nisto e de ter examinado todas as coisas, cumpre 
enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu existo, 
é necessariamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a 
concebo em meu espírito (DESCARTES, 1973, p. 92).
Com Descartes, ocorre um primeiro e fundamental deslocamento à posição 
do sujeito moderno. O sujeito do cogito ou o sujeito cartesiano. Este ser não se 
ocupa mais da imortalidade de sua alma, mas de suas capacidades cognitivas e de 
percepção: o pensamento. O sujeito moderno está atado a um universo científico 
de verdades baseadas em modelos físicos ou matemáticos. É um sujeito lógico.
Essa polêmica foi continuada e criticada pelo filósofo prussiano Immanuel 
Kant, autor de obras clássicas como “Crítica da Razão Pura”, “Crítica da Razão 
Prática” e “Crítica do Julgamento”, essenciais para a compreensão de sua visão 
filosófica. Para Kant, existem limites para a razão.
FIGURA 8 – RENÉ DESCARTES
FONTE: Disponível em: <http://www.filosofia.com.br/figuras/biblioteca/
Descartes.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
29
FIGURA 9 – IMMANUEL KANT
FONTE: Disponível em: <http://citacoes.in/media/authors/immanuel-kant.jpg>. 
Acesso em: 13 jun. 2017.
Kant (2001) é também conhecido por promover um deslocamento na 
filosofia: a sua “revolução copernicana”. Em sua obra “Crítica da Razão Pura”, o 
filósofo alemão desloca a questão primordial da filosofia-metafísica. A questão não 
é mais sobre o que é o SER esua essência, mas, quais as bases e possibilidades de 
alcançar o conhecimento seguro a respeito das coisas.
O resultado dessa obra estabeleceu uma potente crítica aos filósofos 
empiristas (Aristóteles, Thomas Hobbes, John Locke, David Hume) e racionalistas 
(Platão, René Descartes, Baruch Espinosa).
Kant se ocupou de pensar os limites e contornos do conhecimento, rompendo 
com a dicotomia filosófica racionalismo x empirismo sobre o papel da razão na 
conformação do ser humano. É neste sentido que promoveu uma “revolução 
copernicana” na Filosofia. Quer dizer, abalou aquilo que era “tradição” filosófica.
Quando estudamos a Filosofia, nos períodos que compreendem a Idade 
Antiga até a Idade Moderna (não confundir com modernidade), o Ser está no 
centro das reflexões. Em torno dele orbitam os outros assuntos. Kant passou a 
se preocupar com as bases e possibilidades de conhecimento, de entendimento 
do mundo e das coisas. O Ser ainda está presente, mas, já numa situação mais 
relacional. Trata-se de uma inversão na relação entre o sujeito e objeto que conhece. 
Uma “revolução copernicana” na Filosofia. Segundo Otfried Höffe (2005, p. 45): 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
30
A revolução copernicana de Kant significa que os objetos do 
conhecimento não aparecem por si mesmos, eles devem ser trazidos 
à luz pelo sujeito (transcendental). Por isso eles não podem mais ser 
considerados como coisas que existem em si, mas como fenômenos. 
Com a mudança do fundamento da objetividade, a teoria do sujeito, 
de modo que não pode mais haver uma ontologia autônoma. O mesmo 
vale para a teoria do conhecimento.
 E quão potente foi esse deslocamento conceitual e a descoberta da 
ambiguidade do Sujeito Moderno? A filosofia kantiana colocou no centro da 
reflexão o sujeito em sua relação com o mundo e não em sua “essência” primordial. 
Quer dizer, na medida em que a própria sociedade, relações políticas e 
científicas do século XVIII modificaram-se, a filosofia de Immanuel Kant encara o 
sujeito inserido nessas transformações. 
Simultaneamente, deslocou a Filosofia de uma posição metafísica para uma 
posição mundana. Ao invés da Filosofia se ocupar de questões que não podem ser 
fundamentadas em termos de conhecimento seguro, perdendo-se em explicações 
abstratas, Kant vai buscar o posicionamento da Filosofia como uma ciência capaz 
de gerar conhecimento sistemático. 
2.2 FRIEDRICH NIETZSCHE E A CRÍTICA AO SUJEITO 
MODERNO
FIGURA 10 – FRIEDRICH NIETZSCHE
FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/
thumb/1/1b/Nietzsche187a.jpg/200px-Nietzsche187a.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
31
Em suas obras, este filósofo analisa e também critica as características 
da modernidade. Ele viveu num momento de transformações sucessivas nos 
cenários político, econômico, social e cultural. A sua crítica é imprescindível de 
sua experiência pessoal e intelectual, possível apenas no quadro da Modernidade. 
Suas questões são modernas, portanto. Ainda neste espírito de crítica, a Religião, 
a Filosofia, a Ciência, o Estado ou a Democracia são duramente questionados. 
Nietzsche realizou, no conjunto de suas reflexões, um diagnóstico acerca da 
modernidade e de seus valores centrais, assim como realizou uma poderosa crítica. 
Esse período da história é chamado de Modernität pelo alemão.
O que é a Modernidade em Nietzsche? Devemos observar o sentido de 
modernidade neste autor como “civilização” ligada a heranças da moral platônico-
cristã. Isto é, da filosofia metafísica de Platão e seus discípulos e da reinterpretação 
desta pelos pensadores medievais cristãos.
O filósofo foi um grande admirador da Grécia Antiga no seu período pré-
socrático, anterior ao século V a.C. Ele vê a cultura dionisíaca desse momento 
grego como um exemplo superior para embasar suas críticas. Esta cultura e suas 
intoxicações por vinho, as paixões corporais, o prazer nas experiências culturais 
e festivas são exemplos de uma cultura vigorosa, secular, eram percebidas como 
um modelo de futuro diante do cenário filosófico moderno traçado por Nietzsche. 
Tomando a história, essa decadência tem início a partir de Sócrates, continuando 
no Cristianismo e nos valores da Modernidade. Em sua visão crítica, os valores 
modernos levam o indivíduo ao desassossego. Tais valores vinculavam-se ao 
status quo dominante do período em que viveu. Para Nietzsche (1986), todo o nosso 
mundo moderno se encontra preso na rede da cultura alexandrina e possui como 
ideal o homem teórico, equipado com as mais altas capacidades de conhecimento, 
trabalhando ao serviço da ciência. Esse homem do passado, no fundo é bibliotecário 
e revisor, tornando-se miseravelmente cego com a poeira dos livros e os erros de 
impressão.
Quer dizer, ele percebia as bases filosóficas propostas por Sócrates ou 
Platão como castradoras, limitadoras das capacidades dos indivíduos, ao passo 
que apontou modelos de domínio das paixões e desejos humanos. Essas filosofias 
refreavam o indivíduo, sendo que esta ideia foi apropriada e radicalizada pelo 
cristianismo.
E em que sentido essas reflexões e críticas de Friedrich Nietzsche nos 
auxiliam a compreender o quadro geral das mudanças identitárias? Em suas 
críticas a respeito dos valores da modernidade, o filósofo apontava que o “sujeito” 
era uma ilusão projetiva sua no exterior voltada à sua autopreservação. Esta ilusão 
era formulada em termos de essência, de unidade, de permanência e estabilidade. 
Trata-se da visão metafísica do “Ser” grego, conforme discutimos anteriormente 
no Tópico 1. A metafísica tratou de dividir o mundo em dois: o real e o sensível.
E daí, claro, esta visão está articulada com suas críticas à Ciência, ao Estado, a 
essa necessidade de controle e previsão dos fenômenos e dos sujeitos. A modernidade 
de Nietzsche era aquela que confundia conquistas culturais com progresso geral. 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
32
Estimulada pela Razão, essa modernidade fez as pessoas assimilarem esses valores 
como questões de liberdade ou felicidade. A Ciência era vista como pretensiosa 
e arrogante, cuja especialização levou à pobreza das epistemologias; na política, 
ideologias como a socialista anulavam as bases de uma hierarquia meritocrática. 
Esse contexto moderno indicado por Friedrich Nietzsche colocava o indivíduo de 
joelhos, enfraquecia suas capacidades. Esse cenário levava o indivíduo à confusão, ao 
equívoco intelectual. Em suma, ao invés de afirmar as potências humanas criativas, a 
Modernidade “secou” o sujeito, tornando-o “rebanho”.
3 O SUJEITO É SOCIAL: O SUJEITO SOCIOLÓGICO
Stuart Hall (2015) indicou três concepções principais que podem nos dizer algo 
sobre a identidade. Para Hall, a primeira concepção importante de identidade é aquela 
surgida no seio do Renascimento e Iluminismo europeu, cuja estrutura era marcada 
pela ideia de um sujeito centrado e dotado das capacidades da razão e da consciência, 
de tipo cartesiano. É aquilo que vimos no item anterior ao abordarmos a subjetividade.
Outra concepção foi chamada de “sujeito sociológico”, onde a identidade é 
formada na interação entre o eu e a sociedade, esta última cada vez mais complexa. 
Essa perspectiva reafirmou o “diálogo contínuo” entre mundos culturais exteriores 
e as identidades que esses mundos oferecem (2015, p. 11). E, por fim, o “sujeito pós-
moderno”, cuja identidade não é fixa, essencial ou permanente, sendo formada e 
transformada continuamente. Este é o sujeito descentrado e fragmentado, onde a 
identidade é algo contraditório.
FIGURA 11 – SOMOS SUJEITOS SOCIAIS
FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/-sJ8fkyduXCw/VSwp14LyNeI/
AAAAAAAACRg/dVDU8QJ7StQ/s1600/images.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
33
Vamos aprofundar a compreensão sobre o Sujeito Sociológicoapontado 
por Stuart Hall? No ambiente de revoluções constantes iniciadas na ciência, 
filosofia e outras formas modernas de vida, ganhou peso o interesse nas interações 
sociais. Este debate pode ser localizado em autores da Escola de Chicago e do 
Interacionismo Simbólico. 
Segundo Alain Coulon (1995), a Escola de Chicago foi fundamental na 
reorientação do sujeito, centrando-se na ação social do indivíduo. Procuravam 
compreender os problemas sociais decorrentes da industrialização e da urbanização 
do início do século XX nos EUA. 
Na “Escola de Chicago” foram formadas as bases do Interacionismo 
Simbólico. Tal corrente começou a se delinear entre os anos 1930 e 1940, e desenvolveu-
se no transcurso das duas décadas seguintes entre as Escolas de Chicago e de Iowa, 
ambas nos EUA. O nome dessa linha de pesquisa sociopsicológica e sociológica 
foi cunhado em 1937 por Herbert Blumer, que estabeleceu os pressupostos da 
abordagem interacionista (CARVALHO; BORGES; RÊGO, 2010).
Como definir o que é o Interacionismo Simbólico? Como se pode perceber 
pela sua designação, está orientado a refletir sobre a interação humana. Em torno da 
interação, ainda, discute os seus significados, isto é, a dimensão simbólica e social 
dessas interações entre indivíduos, entre grupos, entre diferentes identidades. 
Para dois autores elementares dessa corrente – George Mead e Herbert Blumer 
–, o significado é produto de relações e das atividades sociais desenvolvidas na 
interação entre os indivíduos.
Na perspectiva interacionista, o significado da ação humana não deve vir 
do pesquisador, que deve esforçar-se para ver o significado da ação segundo aquele 
que age. O Interacionismo visa a compreensão de como os indivíduos interpretam 
os objetos, os gestos, as pessoas nas situações em que interagem.
Após a Escola de Chicago e o Interacionismo Simbólico, argumentar, 
refletir e analisar questões ligadas às identidades passam a sair do campo da 
Filosofia e Metafísica, voltando-se para fenômenos materiais e subjetivos das 
dinâmicas sociais. Depois dessa contribuição decisiva, conceitos como “papéis 
sociais”, “trajetória”, “narrativa biográfica”, interação social se tornam recursos 
teóricos disponíveis para pensar de maneira complexa a identidade. Reforçou-se a 
ideia de que a identidade envolve processos e contextos sociais localizados, quer 
dizer, ancorados na experiência da vida de quem se pergunta sobre a identidade. 
O indivíduo moderno está “descentrado”, porém, inserido em um contexto social 
dentro de um tempo e espaço. Então, neste caminho, essa visão de identidade 
processual e não essencial contribui para uma visão menos “instintiva”, quer dizer, 
que a identidade nasce já com a gente para ser observador como fonte de conflito, 
tensão, negociação e exclusão.
Bem, mas não é só isso. Os indivíduos estão localizados em tempos e 
espaços que precisam ser observados para entender os comportamentos sociais. 
Não existe uma forma “única” ou padrão de respostas sociais. Existem tendências 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
34
sociais de respostas a determinadas formas de interação e que mudam ao longo 
da história e da própria geografia dos povos. As interações dependem da maneira 
como as sociedades se estruturam.
4 A MODERNIDADE
Como definir a Modernidade? Quais suas características e mudanças que 
estimulou? E de que maneira os efeitos da Modernidade têm impactado a produção 
social das identidades nas sociedades contemporâneas?
Segundo Feres Júnior (2010), o primeiro uso do termo latino “modernus” 
que se conhece foi utilizado na Epistolae pontificum de Gelasius, do ano 494 da era 
cristã. Mas foi apenas em 1830, com Charles Baudelaire, que o termo modernidade 
passa a ser usado no sentido de tempo presente transitório, que está destinado a 
ser superado por um futuro (FERES JÚNIOR, 2010). De maneira geral, a partir 
da leitura do verbete “Moderno”, de Hans Ulrich Gumbrecht (1978 apud FERES 
JÚNIOR, 2010, p. 31), podem ser identificados três significados básicos: 
O primeiro significado é simplesmente “presente”, em oposição 
a “anterior” ou “prévio”, e foi usado dentro de tradições 
institucionalizadas onde tendências se sucedem temporalmente. O 
segundo significado é de “novo” em oposição a “velho”: nesse caso já 
se tem o embrião de uma consciência epocal onde moderno define um 
espaço de experiência presente que se quer distinto do passado. Esse uso 
geralmente está ligado a um esquema temporal mais ou menos explícito 
de hierarquização das eras, ou seja, é fortemente valorativo. Por fim, 
temos o significado de “período transitório”, em oposição ao eterno. 
Nessa versão, moderno designa um presente que é experimentado 
como fluxo temporal contínuo e veloz que, como tal, só pode ser oposto 
ao eterno, qual inamovível.
Assim, a percepção da mudança histórica não é nova. Mas a Modernidade 
aos poucos foi radicalizando essa percepção. Essa consciência foi apontada por 
Charles Baudelaire (1996, p. 25), para quem a modernidade “é o transitório, 
o efêmero, o contingente, é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e 
o imutável”. Baudelaire, neste sentido, escreveu que o mundo de sua época se 
distinguia do antigo pelo fato de se abrir ao futuro, cujo “novo repete-se e 
perpetua-se a cada momento do presente, o qual a partir de si gera o que é novo” 
(BAUDELAIRE, 1996, p. 18).
Além disso, como apontou Octávio Paz, “a modernidade é um conceito 
exclusivamente ocidental e não aparece em nenhuma outra civilização” (1984, p. 
43). Complementando com a reflexão de Anthony Giddens (1991), essa ideia de 
um contraste com a tradição antiga é intimamente ligada à ideia de modernidade.
De uma forma geral, a Modernidade produziu efeitos dramáticos ao redor 
do globo, a partir de alguns aspectos centrais, apontados por Piotr Sztompka (1998): 
a emancipação do indivíduo; a diferenciação social, especialmente através do 
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
35
trabalho e da posse dos meios de produção; a racionalidade enquanto ampliação 
da burocracia e dos métodos racionais de acumulação de capital; o economicismo, 
em que a vida social passa a orientar o conjunto da sociedade, ao invés da religião, 
por exemplo; e, por último, a expansão, materializada na globalização. Com isso, 
acontecem modificações coletivas e individuais de base política, material e psicológica, 
correlatas com a ascensão do modo de vida urbano, a degradação ambiental e a 
massificação das experiências sociais. As bases culturais das sociedades sofreram 
impactos desestruturantes e reestruturantes: ainda em Sztompka (1998), pode-se 
indicar “a secularização das pessoas e sociedades; a democratização da educação e 
ciência e o surgimento da cultura de massas” (p. 142).
FIGURA 12 – OS TEMPOS MODERNOS E A TÉCNICA
FONTE: Disponível em: <https://estudos.gospelmais.com.br/files/2015/10/tm.jpg>. Acesso 
em: 13 jun. 2017.
Marshal Berman, na obra “Tudo o que é sólido desmancha no ar” (1986), 
divide a Modernidade em três momentos. A primeira teve início no século XVI, 
durando até o século XVIII. É quando ocorrem as descobertas da América, os 
caminhos para as Índias e a Revolução Industrial. Ainda, é o momento em que 
são conformados os estados modernos centralizados. O segundo período é o 
desdobramento da Revolução Francesa, numa ênfase política e social. Por fim, o 
terceiro momento é o da modernização, isto é, da circulação mundial da ideia e 
percepção de se viver na Modernidade. 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
36
FIGURA 13 – MAX WEBER
FONTE: Disponível em: <http://www.mundociencia.com.br/wp-content/
uploads/2016/07/maxweber.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
A Modernidade acompanha as primeiras reflexões sociológicas. Max Weber 
observou sua época e os efeitos da Modernidade, realizando uma grande análise 
de seus impactos nas instituições. O que foia Modernidade, segundo Weber? Para 
Weber, a racionalização foi a marca original do Ocidente nesse período moderno. 
Weber argumenta em torno da ideia de desencantamento e “desmagificação” do 
mundo pela ciência e as engrenagens da racionalidade como características da 
Modernidade Ocidental, quer dizer: “os valores do mundo foram racionalizados e 
sublimados em termos de suas próprias leis” (WEBER, 1982, p. 274).
Significa principalmente, portanto, que não há forças misteriosas 
incalculáveis, mas que podemos, em princípio, dominar todas as 
coisas pelo cálculo. Isto significa que o mundo foi desencantado. Já não 
precisamos recorrer aos meios mágicos para dominar ou implorar aos 
espíritos, como fazia o selvagem, para quem esses poderes misteriosos 
existiam. Os meios técnicos e os cálculos realizam o serviço (WEBER, 
1982, p. 165).
 
A Ciência ocidental moderna teve grande papel nessa desmagnificação 
do mundo. Ela tornou as explicações racionais, lógicas, possíveis de verificação 
e demonstração, dando pouco lugar para as explicações místicas, sobrenaturais, 
religiosas. Da mesma forma, para Weber, outra característica de Modernidade é o 
Estado Moderno, isto é, burocrático, racional. Weber percebeu o Estado como um 
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
37
agrupamento de dominação que apresenta caráter institucional e que procurou 
monopolizar, nos limites de domínio e que, tendo esse objetivo, reuniu nas mãos 
dos dirigentes os meios materiais de gestão (WEBER, 1982).
Karl Marx, apesar de não ser um sociólogo de formação, é tomado como 
um de seus fundadores. Quais as características da Modernidade e como as críticas 
marxistas levaram a novos olhares sobre o tema da identidade? Marx foi um 
indivíduo típico de sua época e seu pensamento englobou a Política, a Economia, 
Filosofia e História. Ele faz, portanto, a despeito de sua crítica, uma análise em 
termos filosóficos e políticos com base na modernidade. Qual a essência da análise 
feita por Karl Marx sobre a Modernidade?
FIGURA 14 – KARL MARX
FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com/wp-content/
uploads/2010/07/karl_marx.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Marx observa diversos fenômenos para sua investigação sobre a 
Modernidade. Mas, num grande exercício de síntese, esta época está interligada 
à ascensão da classe burguesa e do modo de produção capitalista a partir da 
implosão do passado. Marx é moderno no sentido de empregar o materialismo 
histórico na análise dos fenômenos sociais, inserindo as pessoas nas dinâmicas 
dos processos sociais. Com o materialismo dialético, realizou uma crítica sobre as 
mudanças macroestruturais através das contradições.
A explicação de Marx a partir do materialismo considera o capitalismo um 
modo de produção moldado na época moderna, dando origem a uma divisão de 
classes. Essa divisão, para Marx, está fundamentada na posse ou não dos meios de 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
38
produção capitalistas, quer dizer, patrão e operário. Para Marx, essas contradições 
eram características da modernidade.
Sua originalidade encontra-se nas bases materiais de sua filosofia. Como 
dissemos antes, a filosofia de base grega e medieval percebia o sujeito a partir 
de uma cisão entre ser real e ser mental. No caso dessas perspectivas, o homem 
ideal deve ser buscado nessa dimensão mental. Com Marx, as bases tornam-se 
localizadas na História, através de sua definição e análise do modo de produção. 
Essa sua visão deve-se, em termos, à importância de sua valorização da História. 
Essa noção contemporânea de fluidez, de liquidez inerentemente moderna já 
estava no pensamento de Marx. Veja o que ele escreveu – junto com Engels – no 
Manifesto do Partido Comunista: “[...] tudo o que é sólido e estável se volatiliza, 
tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente obrigados a encarar 
com sobriedade e sem ilusões sua posição na vida, suas relações recíprocas” 
(MARX; ENGELS, 2005, p. 69).
4.1 VISÕES CONTEMPORÂNEAS SOBRE A MODERNIDADE 
NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Como alguns autores atuais das Ciências Sociais pensam a modernidade? 
Vamos comparar algumas análises de Anthony Giddens, Alain Touraine, 
Boaventura de Sousa Santos e Jürgen Habermas.
4.1.1 Anthony Giddens
FIGURA 15 – ANTHONY GIDDENS
FONTE: Disponível em: <https://i.ytimg.com/vi/uT3GD0nVS3Y/hqdefault.
jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
39
Anthony Giddens é um sociólogo britânico nascido em Londres em 1938. 
Conhecido mundialmente pela sua Teoria da Estruturação, ocupa-se da ação 
social, do agente, da capacidade de agência. É renomado pelas suas análises das 
mudanças institucionais da modernidade e seus impactos no agente. Autor de 
obras importantes, como A Constituição da Sociedade (1984), As Consequências 
da Modernidade (1990), Modernidade e Identidade (1991). Sobre a modernidade, 
afirma Giddens (2002, p. 21): 
[...] o termo "modernidade" num sentido muito geral para referir-me 
às instituições e modos de comportamento estabelecidos pela primeira 
vez na Europa depois do feudalismo, mas que no século XX se tornaram 
mundiais em seu impacto. A "modernidade" pode ser entendida como 
aproximadamente equivalente ao "mundo industrializado", desde que se 
reconheça que o industrialismo não é sua única dimensão institucional.
Giddens discorre sobre as consequências da Modernidade, que estariam 
se tornando mais radicalizadas e universais como nunca antes. Os modos de vida 
estimulados pelas forças da Modernidade desvencilharam os indivíduos e grupos 
sociais de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira inédita, sem 
precedentes. Além disso, a modernidade produz certas formas sociais distintas, 
das quais “a mais importante é o estado-nação” (2002, p. 21). 
A modernidade altera radicalmente a natureza da vida social cotidiana 
e afeta os aspectos mais pessoais de nossa existência. É aquela situação: a crise 
econômica europeia de nossa época não afeta apenas a vida de um europeu. 
Em razão da conexão entre as diversas partes do globo, lugares centrais ou 
periféricos são atingidos, mesmo que em diferentes proporções. As transformações 
introduzidas pelas instituições modernas se entrelaçam de maneira direta com a 
vida individual e, portanto, com o eu.
 
[...] surgimento de novos mecanismos de autoidentidade que são 
constituídos pelas instituições da modernidade, mas que também 
as constituem. O eu não é uma entidade passiva, determinada por 
influências externas; ao forjar suas autoidentidades, independente 
de quão locais sejam os contextos específicos da ação, os indivíduos 
contribuem para (e promovem diretamente) as influências sociais 
que são globais em suas consequências e implicações. [...] o eu, como 
os contextos institucionais mais amplos em que existe, tem que ser 
construído reflexivamente (GIDDENS, 2002, p. 9-11).
Segundo Anthony Giddens (2002), a Modernidade tem produzido 
descontinuidades sociais, culturais, temporais, econômicas etc. Tais 
descontinuidades seriam a própria base da Modernidade. Nesses processos, ideias 
como “lugar” e “espaço” são gradualmente destruídas por um cada vez maior 
conceito de tempo universal. O resultado é o desencaixe do “espaço-tempo”, 
representando mecanismos que deslocam as relações sociais de seus lugares 
específicos, recombinando-as através de grandes distâncias no tempo e no espaço. 
As interações sociais são separadas das particularidades do lugar. Quer dizer, o 
local está cada vez mais subordinado às dinâmicas do global.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
40
No caminho da reflexão de Giddens, quais os impactos da Modernidade 
sobre as identidades? Nas suas obras, Giddens aponta a reflexividade da vida 
social específica da modernidade, estando essa na própria base da reprodução do 
sistema. Esta indicaria que “as práticas sociaissão constantemente examinadas e 
reformadas à luz da informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando 
assim constitutivamente seu caráter”. Num sentido mais direto, a reflexividade 
institucionaliza “o princípio da dúvida radical e insiste em que todo conhecimento 
tome a forma de hipótese” (GIDDENS, 1991, p. 10), isto é, seja verificado, 
examinado, testado. 
4.1.2 Alain Touraine
FIGURA 16 – ALAIN TOURAINE
FONTE: Disponível em: <http://www.larousse.fr/encyclopedie/data/images/1005598-
Alain_Touraine.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Alain Touraine é um sociólogo francês conhecido pela sua reflexão sobre o 
sujeito e os movimentos sociais na atualidade. Pensador influente no cenário das 
Ciências Sociais latino-americanas, é autor de obras importantes, como “Crítica da 
Modernidade”, publicada em 1992; “Iguais e Diferentes: podemos viver juntos”, 
de 1997, e “Pensar Outramente o discurso dominante”, lançado em 2007. 
Para o sociólogo francês Alain Touraine (1994), a modernidade é a difusão 
dos produtos da atividade racional, científica, tecnológica, administrativa. Por isso, 
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
41
ela implica a crescente diferenciação dos diversos setores da vida social: política, 
economia, vida familiar, religião, arte em particular, porque a racionalidade 
instrumental se exerce no interior de um tipo de atividade e exclui que qualquer 
um deles seja organizado do exterior. A modernidade era uma ideia, ela se torna 
por acréscimo uma vontade, mas sem que seja rompido o vínculo entre a ação dos 
homens e as leis da natureza e da história.
A passagem para a modernidade não é a da subjetividade para a 
objetividade, da ação centrada sobre si para a ação impessoal, técnica ou 
burocrática. Ela conduz, da adaptação ao mundo para a construção de 
mundos novos, da razão que descobre as ideias eternas para a ação que, 
racionalizando o mundo, liberta o sujeito e o recompõe (TOURAINE, 
1994, p. 243)
 
Touraine (2006) deixa claros dois princípios da Modernidade: a crença 
na razão e ação racional e o reconhecimento dos direitos individuais. Estes 
princípios dão fundamentos não sociais aos fatos sociais. O que isso quer dizer? 
Ao contrário de retirar o homem da escuridão, da crença, da ignorância, levou 
este a novos paradoxos, ofuscando e jogando-o à multidão fragmentada, de busca 
pelo lucro e consumo. Ao invés de Deus, a Ciência tornou-se novo dogma, uma 
“nova metafísica”. O Taylorismo foi um exemplo. Sobre a crise da modernidade, 
Touraine (2008, p. 106-107) diz:
[...] O mais visível é a dissociação entre a ordem da mudança e a 
ordem do ser, associados anteriormente na ideia de modernidade 
que significava ao mesmo tempo nacionalidade e individualismo. 
A distância cresce entre as mudanças incessantes da produção e do 
consumo e o reconhecimento de uma personalidade individual que é ao 
mesmo tempo sexualidade e identidade cultural coletiva.
Desta forma, Touraine é um autor bastante crítico em relação à Modernidade 
e suas promessas. Na época atual, de radicalização das mudanças no espaço e 
tempo, o próprio indivíduo é afetado, perdido no consumo e numa identidade 
frágil e esvaziada, enquanto o sujeito toma a forma coletiva, de movimentos.
4.1.3 Boaventura de Sousa Santos
Boaventura de Sousa Santos é um sociólogo português nascido em Coimbra 
em 1940. Autor de escrita portuguesa com grande penetração nas Ciências Sociais 
e no Direito na África, América Latina e Europa. Sua vasta reflexão aborda temas 
variados, como a modernidade, a globalização, os Direitos Humanos, o Direito e 
a Democracia.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
42
FIGURA 17 – BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS
FONTE: Disponível em: <http://nesp.pucminas.br/wp-content/uploads/2016/11/
boaventura-c04e-300x189.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Este sociólogo desenvolveu uma crítica da Modernidade e de seus efeitos. 
Aqui, novamente, temos o predomínio de uma Ciência e de uma racionalidade 
instrumental que diminui a complexidade dos fenômenos sociais. A razão sempre 
agiu como se fosse “neutra”, porém, ela tinha um caráter eurocêntrico. É neste 
sentido que Boaventura de Sousa Santos fala em pós-modernidade, como um 
novo e emergente paradigma em substituição ao paradigma técnico e científico da 
Modernidade.
Essa hegemonia da técnica e da ciência trouxe impactos para as pessoas 
e, consequentemente, para a produção social das identidades e da diferença. 
Conforme o sociólogo, “como é que a ciência moderna, em vez de erradicar os 
riscos, as opacidades, as violências e as ignorâncias, que dantes eram associadas 
à pré-modernidade, está de facto [sic] a recriá-los numa forma hipermoderna?” 
(SANTOS, 2005 p. 58).
Nosso modelo de Modernidade ocidental teve início, segundo Santos, entre 
os séculos XVI e XVII, herdado das Ciências Naturais. As explicações sociais, assim, 
tinham métodos que eram baseados na Física, na Química, na Matemática etc. Ao 
longo do século XIX, esse modelo estende-se para os demais cantos do planeta, 
promovendo “ambicioso e revolucionário paradigma sociocultural assente numa 
tensão dinâmica entre regulação social e emancipação social” (SANTOS, 2000, p. 15).
O que é essa “tensão dinâmica” entre regulação social e emancipação 
social? É que para Santos a nossa sociedade contemporânea, formada pelos 
princípios da Modernidade, foi fundada em torno desses dois pilares, como o 
sociólogo português os chama. Santos (2005) explica assim esta divisão. O pilar 
da regulação é aquele ligado ao Estado, ao mercado e à comunidade. O pilar da 
emancipação está dividido na racionalidade estético-expressiva presente na arte; 
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
43
na racionalidade prática-moral da ética e do direito; e na racionalidade cognitivo-
instrumental, vinculada à ciência e à técnica. É quando ascende a visão do ser 
humano como um sujeito ativo.
Para Boaventura de Sousa Santos (2005), essas duas dimensões da sociedade 
moderna demandam o equilíbrio, já que elas se relacionam entre si. Porém, a nossa 
época assiste ao “colapso da emancipação”, devido a “hipercientificização do pilar 
da emancipação” em detrimento da regulação. Isso tem um impacto direto na 
produção das nossas identidades. Um dos maiores impactos foi a consolidação do 
individualismo e de um mal-estar social, com a diminuição da cidadania. 
4.1.4 Jürgen Habermas
Jürgen Habermas nasceu em 1929. É um filósofo alemão pertencente à 
teoria crítica e à Escola de Frankfurt. Dentre sua produção teórica destaca-se a 
existência de uma esfera pública voltada ao agir comunicativo entre cidadãos, na 
sua Teoria da Ação Comunicativa. É autor de obras fundamentais, como “Técnica 
e ciência como ‘ideologia”, de 1968, e seu clássico “Teoria da Ação Comunicativa”, 
publicado em 1981; e “O Discurso Filosófico da Modernidade”, lançado em 1985.
FIGURA 18 – JÜRGEN HABERMAS
FONTE: Disponível em: <http://gfx.dagbladet.no/pub/artikkel/4/45/450/4505 
81/habermas.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
44
Em sua obra, Habermas fala da Modernidade como um projeto. E mais, 
um projeto inacabado. Para o autor, a Modernidade incorpora eventos como a 
Reforma Protestante, o Iluminismo e a Revolução Francesa. Esses eventos dão 
início à modernidade europeia.
Abrange, assim, as transformações ocorridas no “Ocidente” nas várias 
dimensões da vida em sociedade entre os séculos XVIII-XX. Com base nesses 
processos, os filósofos, intelectuais e cientistas promoveram nesse período um salto 
nas ciências, ao mesmo tempo em que estimularam uma noção de ética universal 
e não particular de uma única sociedade (mesmo que, no fim, estas reforçavam 
a visão do mundo a partir de um olhar europeu). Essa perspectiva de Aufklärung 
(Iluminismo) propunha a ciência em benefício da organização racional da vida e 
da liberdade (HABERMAS,2002).
A Modernidade de Habermas refere-se às mudanças e novas formações 
sociais específicas desses tempos modernos. É quando fica mais observável 
a existência de uma “consciência” acerca das diferenças com o passado e sua 
história, instituições e mentalidades. Mais importante, ainda, a Modernidade está 
fortemente apegada à centralidade que a Razão ocupou nesses séculos passados e 
a sua promessa de futuro glorioso para as civilizações.
É a Razão – racionalidade ocidental que representa a Modernidade. 
Além disso, os princípios da ciência moderna estavam sendo estruturados para 
servir de instrumentos conceituais voltados ao controle e domínio da natureza. 
Isso resultou na ampliação do poder das forças produtivas pela via do progresso 
técnico (HABERMAS, 1968).
Para compreender com mais propriedades a racionalização constante no 
projeto da Modernidade, Habermas utiliza-se de dois conceitos que auxiliam na 
definição e diferenciação da sociedade: “sistema” e “mundo da vida”. O sistema 
indica uma complementaridade com o mundo vivido, ligando-se às maneiras e 
formas de reprodução da vida material, isto é, ao trabalho, dinheiro, o poder etc. 
Nele, predomina a razão instrumental, técnica. Já o mundo vivido é a maneira como 
nós percebemos a realidade, a existência individual e comum. Aqui, predomina a 
razão comunicativa.
Esses dois conceitos indicariam as dinâmicas de integração nos diferentes 
contextos de ação social: pela via sistêmica e pela via social. A grande questão 
é que a Modernidade criou uma disjunção entre sistema e mundo da vida, e é 
em torno disso que Habermas constrói sua Teoria da Ação Comunicativa. Com a 
predominância da economia e do Estado, ocorreu que a “razão instrumental” se 
tornou hegemônica, balizando as relações sociais. Ele fala em desengate do sistema 
e do mundo da vida. A eficácia torna-se um fim em si próprio, desvinculado de 
qualquer contexto. Desta maneira, as forças econômicas e do Estado parecem ser 
naturais. A Razão deixa de ser instrumento de crítica para se tornar um poder e 
uma maneira de acumulação de capitais.
TÓPICO 2 | IDENTIDADE E MODERNIDADE
45
LEITURA COMPLEMENTAR
RESPOSTA À PERGUNTA: “QUE É O ILUMINISMO?” (1784)
Immanuel Kant (trecho)
 
lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio 
é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a 
orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não 
residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em 
se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te 
servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.
A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte, 
após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes) 
continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a 
outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. 
Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que 
em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta 
etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando 
posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. 
Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera 
a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de 
bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, 
primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que 
estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as 
encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar 
sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender 
muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante 
todas as tentativas ulteriores.
É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele 
se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente 
incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu 
fazer semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso 
racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma 
menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro 
sobre o mais pequeno fosso, porque não está habituado ao movimento livre. São, 
pois, muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu 
espírito arrancar-se à menoridade e encetar então um andamento seguro.
Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais 
ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade. Sempre haverá, 
de facto, alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabelecidos da grande 
massa que, após terem arrojado de si o jugo da menoridade, espalharão à sua volta 
o espírito de uma estimativa racional do próprio valor e da vocação de cada homem 
para pensar por si mesmo. Importante aqui é que o público, antes por eles sujeito 
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
46
a este jugo, os obriga doravante a permanecer sob ele quando por alguns dos seus 
tutores, pessoalmente incapazes de qualquer ilustração, é a isso incitado. Semear 
preconceitos é muito danoso, porque acabam por se vingar dos que pessoalmente, 
ou os seus predecessores, foram os seus autores. Por conseguinte, um público só 
muito lentamente consegue chegar à ilustração. Por meio de uma revolução talvez 
se possa levar a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa 
ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos 
preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa 
destituída de pensamento.
[...]
FONTE: KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: o que é o iluminismo? In: A paz perpétua e outros 
opúsculos, Lisboa, Edições 70, 1990. Disponível em: <http://www.uel.br/cch/his/arqdoc/kantPDEHIS.
pdf>. Acesso em: 20 jun. 2017.
47
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• Que a ideia de sujeito moderno está articulada e imbricada com a ideia de 
um sujeito da linguagem, de discurso, que questiona. São categorias ligadas à 
Modernidade e sua reflexão sobre o mundo de maneira distinta que os povos 
antigos. Vimos que gregos, romanos, europeus da Idade Média constroem 
suas visões de identidade a partir de fundamentações filosóficas, religiosas e 
comunitárias. Não se fala em sujeito nesses períodos, e sim, em “Ser”. O sujeito 
é uma invenção moderna.
• Descartes e Kant mudaram essa percepção. Ao passo que para Descartes o sujeito 
é aquele que pensa (Cogito ergo sum) e que suspeita das fraudes e conhecimentos 
falsos, Kant se preocupa com as bases e possibilidades de conhecimento, de 
entendimento do mundo e das coisas. 
• Por sua vez, Nietzsche analisa e também critica as características da modernidade. 
Ele viveu num momento de transformações sucessivas nos cenários político, 
econômico, social e cultural. Ainda que tenha realizado fortes críticas ao 
sentido e aos valores modernos, Nietzsche não é necessariamente um filósofo 
antimoderno. 
• Que a percepção da mudança histórica não é nova. Mas a Modernidade aos 
poucos foi radicalizando essa percepção.
• Que o sujeito passou a ser questionado pela filosofia e pelas nascentes Ciências 
Sociais, promovendo análises e críticas tendo a Modernidade como um elemento 
importante nas transformações. Disso, pode-se indicar a Escola de Chicago e o 
Interacionismo Simbólico.
• A Sociologia e a Modernidade se confundem, pois a primeira é um resultado 
direto do derretimento da ordem pós-tradicional pelo “calor” da luz da 
Modernidade.
• A Modernidade tornou-se um objeto de interesse e investigaçãomuito presente 
nas Ciências Sociais. Tratamos da modernidade segundo Alain Touraine, 
Anthony Giddens, Boaventura de Sousa Santos e Jürgen Habermas. 
48
1 O que é etnocentrismo e eurocentrismo? 
2 Qual a contribuição do Interacionismo simbólico para os estudos das relações 
sociais e das identidades sociais?
3 Quais as distinções entre as análises filosóficas de Immanuel Kant e Friedrich 
Nietzsche sobre a Modernidade?
AUTOATIVIDADE
49
TÓPICO 3
IDENTIDADES NA 
CONTEMPORANEIDADE
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
No tópico anterior, discutimos alguns eventos de caráter social que 
preenchem nosso passado e que foram relevantes num contexto de investigação 
sobre a produção de identidades sociais. 
Contribuíram para a precipitação da modernidade algumas revoluções 
nos padrões pessoais (processo civilizador), na centralização dos poderes militar, 
político e administrativo em torno do Estado e nas revoluções religiosas, científicas 
e filosóficas. Tais momentos estão ali, registrados como história do século XIV até 
o século XVIII. Foram intensos e puseram em destaque uma percepção de que 
algo novo, moderno, como distinto de um passado, estava se desenrolando. Numa 
figura de linguagem, era possível “sentir” e “enxergar” a Modernidade ocorrendo.
FIGURA 19 – IDENTIDADE E DIFERENÇA
FONTE: Disponível em: <https://sjmachado.files.wordpress.com/2013/05/21.jpg>. 
Acesso em: 13 jun. 2017.
50
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
O mundo de hoje, no qual somos tanto atores quanto espectadores, 
definitivamente é único. Neste sentido, uma marca de nossa época é a crítica de 
conceitos herdados do século XIX ou XX. Neste cenário, a identidade se torna 
uma produção social plural, conflituosa e amparada na diferença. Em seguida, 
veremos o impacto da pós-modernidade ou da radicalidade da Modernidade 
nos paradigmas clássicos das Ciências Sociais. Depois, discute-se os efeitos da 
globalização na produção das identidades. Por fim, apresentamos a Teoria do 
Reconhecimento.
Vamos lá?
2 A PRODUÇÃO SOCIAL DAS IDENTIDADES E DAS 
DIFERENÇAS NA PÓS-MODERNIDADE
Quando falamos em identidade, logo vem à mente nosso documento, 
também conhecido como RG. Este documento é aquele que você precisa ter 
nas mãos sempre que for solicitado para abrir contas bancárias, acessar direitos 
sociais, relacionar-se com seus empregadores ou fazer uma compra. De certo 
ponto de vista, aquele documento, ao ser mostrado, diz que nós somos cidadãos. 
E brasileiros. É dessa identidade que estamos tratando?
FIGURA 20 – AS DIFERENÇAS SÃO SOCIALMENTE CONSTRUÍDAS
FONTE: Disponível em: <https://antropomecanica.files.wordpress.com/2013/05/diferenca_
cultural.jpg>. Acesso em: 13 jun. 2017.
Ou será que identidade é aquilo que está “dentro” de nós, nossa essência 
individual que faz sermos o que somos? Quer dizer, a nossa individualidade 
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
51
e subjetividade? Aquela que a gente leva a um consultório de um psicólogo 
ou psiquiatra para ser “tratada” e curada? Ainda, a identidade é aquilo que 
externamente indicamos? Minha cor de pele, olhos? As roupas, objetos e marcas 
que levamos?
Como, então, perceber as identidades num contexto pós-moderno? Por 
nossos dias, as identidades são percebidas como diversas, mutáveis e relacionadas 
ao contexto social em que são vividas em relação aos sistemas simbólicos e 
classificatórios onde são encontrados sentidos para as posições sociais dos sujeitos 
(HALL, 2010). Neste sentido, a identidade pós-moderna, aquela vinculada à 
sua ideia de “sujeito pós-moderno”, não tem uma identidade fixa, essencial 
ou permanente, sendo formada e transformada continuamente. A identidade 
resultante dessa época, de um sujeito filosoficamente abalado e questionado, é a 
de um sujeito descentrado e fragmentado, onde a identidade é algo contraditório. 
Ao invés de uma identidade centrada, o atual contexto estimula as “posições-de-
identidade”, fontes para produção de identidades locais ou novas identidades, ao 
longo de uma larga gama de outras diferenças. As polarizações entre elas também se 
amplificam. Essas identidades possuem um “caráter político”, “caráter relacional” 
e “caráter posicional”. A globalização tem o efeito de tornar essas “posições-de-
identidades” mais políticas, mais plurais e diversas, menos fixas, unificadas ou 
trans-históricas (HALL, 2010).
 
Em toda parte estão emergindo identidades culturais que não são 
fixas, mas que estão suspensas, em transição, entre diferentes posições; 
que retiram seus recursos, ao mesmo tempo, de diferentes tradições 
culturais; e que são o produto desses complicados cruzamentos 
e misturas culturais que são cada vez mais comuns num mundo 
globalizado (HALL, 2006, p. 88).
 
As identidades pós-modernas não são unificadas, marcadas pelas 
contradições no seu interior diariamente negociadas nas relações e interações 
sociais. Em nossa época, “as pessoas assumem suas posições de identidade e se 
identificam com elas” (WOODWARD, 2015, p. 14-15). Nossas identidades sociais 
são construídas, assim como são artificiais as formas pelas quais nós as negociamos. 
Desta forma, um conceito possível para entender as complexidades da identidade 
é apresentado por Stuart Hall (2014) no artigo “Quem precisa de identidade?”:
Utilizo o termo identidade para significar o ponto de encontro, o ponto 
de sutura, entre, por um lado, os discursos e as práticas que tentam 
nos ‘interpelar’, nos falar ou nos convocar para que assumamos nossos 
lugares como sujeitos sociais de discursos particulares e, por outro lado, 
os processos que produzem subjetividades, que nos constroem como 
sujeitos aos quais se pode ‘falar’. As identidades são, pois, pontos de 
apego temporário às posições-de-sujeito que as práticas discursivas 
constroem para nós (HALL, 2014, p. 111).
O que queremos dizer quando argumentamos que as identidades têm 
origem em processos sociais de produção e diferenciação de sentidos? A produção 
social e a percepção de identidades estão vinculadas às condições sociais, simbólicas 
e materiais em que se inserem os indivíduos e grupos (WOODWARD, 2015).
52
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Segundo Hall (2014), a identidade envolve um trabalho discursivo em torno 
do fechamento e da marcação de fronteiras simbólicas. Ela está ligada à produção 
de ‘efeitos de fronteiras’. Para consolidar o processo, “ela requer aquilo que é 
deixado de fora – o exterior que a constitui” (p. 106). Como assim? Para apontar o 
que é ser brasileiro leva-se em conta tudo o que diz respeito ao não brasileiro, isto 
é, o outro. Ser brasileiro é não ser argentino.
As identidades adquirem sentido “por meio de linguagem e dos sistemas 
simbólicos pelos quais elas são representadas” (WOORWARD, 2015, p. 8). A 
construção da identidade é tanto simbólica quanto social. Neste sentido, os 
processos de construção identitários são relacionais, dependem de algo fora dela, 
de outra identidade para poder existir e definir-se. Nessa relação a percepção da 
diferença fornece as condições para que uma identidade possa existir.
 
[...] o processo de produção da identidade oscila entre dois movimentos: 
de um lado, estão aqueles processos que tendem a fixar e a estabilizar 
a identidade; de outro, os processos que tendem a subvertê-la e a 
desestabilizá-la. [...] tal como a linguagem, a tendência da identidade é 
para a fixação. [...] A fixação é uma tendência e, ao mesmo tempo, uma 
impossibilidade (SILVA, 2007, p. 85).
 
Um elemento importante nesse processo social de identidades é a diferença. 
A produção social da identidade é marcada pela diferença, “sustentada pela 
exclusão dos diferentes, sendo sustentada e reproduzida pela linguagem e por 
meio de símbolos” (WOODWARD, 2015, p. 9). Isso é muito importante que você 
entenda, porque, neste sentido, quando uma identidade,um grupo é marcado 
como diferente, inimigo ou tabu, o efeito dessa percepção simbólica materializa-se 
em efeitos reais no cotidiano.
O que é a diferença dentro desse jogo de produção e identificação que é a 
identidade da gente?
 
Em geral, consideramos a diferença como um produto derivado da 
identidade. Nesta perspectiva, a identidade é a referência, é o ponto 
original relativamente ao qual se define a diferença. Isso reflete a 
tendência a tomar aquilo que somos como sendo norma pela qual 
descrevemos ou avaliamos aquilo que não somos. [...]. Numa visão mais 
radical [...] considerar a diferença não simplesmente como resultado de 
um processo, mas como o processo mesmo pelo qual tanto a identidade 
quanto a diferença são produzidas. [...] como ato ou processo de 
diferenciação (SILVA, 2007, p. 76).
A diferença é reproduzida por meio de sistemas simbólicos. Mas a diferença 
não é só cultural ou étnica. A complexidade da vida moderna exige que assumamos 
diferentes identidades, que podem estar ou entrar em conflito. Assim, temos 
uma identidade profissional, familiar, política, de bairro etc. Nem todas elas são 
compatíveis entre si. Muitas vezes, as responsabilidades incorporadas na imagem 
da identidade familiar podem se opor aos sacrifícios exigidos pelos mercados 
profissionais. Quer dizer, nesse processo de identidade e diferença, algumas 
diferenças são mais toleráveis que outras. Então, como perceber a diferença no 
processo de produção social das identidades? Vejamos o que nos indica Kathryn 
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
53
Woodward (2015, p. 40): “As identidades são fabricadas por meio da marcação da 
diferença. Essa marcação da diferença ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos 
de representação quanto por meio de formas de exclusão social. A identidade, pois, 
não é o oposto da diferença: a identidade depende da diferença”.
 
Os sistemas classificatórios operam como mediadores e aplicadores dessas 
distinções na vida social, ressaltados pela linguagem e cultura. Tais sistemas 
encontram-se tanto nas dimensões simbólicas como sociais dos grupos humanos. 
No caso da identidade, esses sistemas classificatórios têm uma missão: estabelecer, 
distinguir, separar dois grupos opostos: nós-eles (WOODWARD, 2015). É nesta 
perspectiva que alguns conceitos de cultura foram duramente criticados, como 
veremos adiante. É na/pela cultura que esses sistemas de classificação se consolidam 
e reproduzem socialmente.
Identidade e diferença podem ser vistos como atos de criação linguística: 
“significa dizer que elas são criadas por meio de atos de linguagem” (SILVA, 2007, 
p. 76). Para Tadeu Tomaz Silva (2007), existe uma contradição permanente na 
linguagem. Para apontar essa sua hipótese, utiliza a obra de autores como Jacques 
Derrida e discussões de Saussure. Especialmente, a de que o signo carrega sempre 
não apenas o traço daquilo que ele substitui, mas também, o traço daquilo que ele 
não é, ou seja, precisamente da diferença. Quando imaginamos o conceito casa 
e escrevemos a palavra casa, você percebe as presenças e ausências vistas nesse 
exemplo? Elas representam sentidos que são intercambiáveis dessas presenças que 
não se concretizam plenamente. Quer dizer, entre o conceito e a palavra escrita 
“casa” ocorre um processo de significação que é fundamentalmente indeterminado, 
incerto e vacilante.
Este processo envolve, também, a representação. Segundo Kathryn 
Woodward (2015), a representação inclui as práticas de significação e os sistemas 
simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos 
como sujeitos. É por meio dos significados produzidos pelas representações que 
damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos.
 
A representação, compreendida como um processo cultural, estabelece 
identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais 
ela se baseia fornecem possíveis respostas às questões: quem sou eu? 
O que eu poderia ser? Quem eu quero ser? Os discursos e os sistemas 
de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos 
podem se posicionar e a partir dos quais podem falar (WOODWARD, 
2015, p. 18).
 
Em suma, a produção social da identidade é um processo e uma relação 
central na vida contemporânea e fundamentada na diferenciação. Muitas das 
atuais classificações relevantes do mundo social estão localizadas em questões 
identitárias. 
Para entender esse processo contraditório entre a construção de uma 
identidade e de suas diferenças, devemos considerar que o poder é um conceito 
muito elementar nessa construção.
54
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
A afirmação da identidade e a enunciação da diferença traduzem 
o desejo dos diferentes grupos sociais, assimetricamente situados, 
de garantir o acesso privilegiado aos bens sociais. A identidade e a 
diferença estão, pois, em estreita conexão com relações de poder. O 
poder de definir a identidade e de marcar a diferença não pode ser 
separado das relações mais amplas de poder. A identidade e a diferença 
não são, nunca, inocentes (SILVA, 2007, p. 81).
Se dissemos que a produção social da identidade e da diferença é, também, 
um tipo de relação de poder, é porque tal poder implica o acesso ao privilégio de 
nomear, dividir e classificar o mundo segundo seu ponto de vista. Quem tem o 
poder de classificar possui, também, o poder de hierarquizar em níveis superiores 
e inferiores.
 
Normalizar significa eleger - arbitrariamente - uma identidade 
específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades 
são avaliadas e hierarquizadas. [...] A identidade normal é ‘natural’, 
desejável, única. A força da identidade normal é tal que ela nem sequer 
é vista como uma identidade, mas simplesmente como a identidade 
(SILVA, 2007, p. 84).
 
Além disso, segundo Kathryn Woodward (2015), algumas respostas podem 
ser encontradas na arena global, por exemplo, onde existem preocupações com as 
identidades nacionais e com as identidades étnicas; em um contexto mais ‘local’, 
existem preocupações com a identidade pessoal, por exemplo, com as relações 
pessoais e com a política sexual. Segundo a autora:
[...] a identidade importa porque existe uma crise da identidade, 
globalmente, localmente, pessoalmente e politicamente. Os processos 
históricos que, aparentemente, sustentavam a fixação de certas 
identidades estão entrando em colapso e novas identidades estão 
sendo forjadas, muitas vezes por meio da luta e da contestação política 
(WOODWARD, 2015, p. 39).
Quer dizer, mais que uma crise subjetiva, só do eu, tipo uma depressão, 
a autora afirma que se trata de um fenômeno social e histórico, radicalizado em 
nosso período em que vivemos. E que, na maioria dos casos, essa crise possui uma 
dimensão conflitiva em torno do reconhecimento.
UNI
O PODER
Bobbio, Matteucci e Pasquino (1997, p. 933), numa definição clássica de visão social e política 
do poder, assim o definem:
Em seu significado mais geral, a palavra Poder designa a 
capacidade ou a possibilidade de agir, de produzir efeitos. 
Tanto pode ser referida a indivíduos e a grupos humanos como 
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
55
a objetos ou a fenômenos naturais [...]. Se o entendermos em 
sentido especificamente social, ou seja, na sua relação com a 
vida do homem em sociedade, o Poder torna-se mais preciso, e 
seu espaço conceptual pode ir desde a capacidade geral de agir, 
até a capacidade do homem em determinar o comportamento 
do homem: Poder do homem sobre o homem. O homem é 
não só o sujeito, mas também o objeto do Poder social. E Poder 
social a capacidade que um pai tem para dar ordens a seus filhos 
ou a capacidade de um Governo de dar ordens aos cidadãos. 
Por outro lado, não é Poder social a capacidade de controle que 
o homem tem sobre a natureza nem a utilização que fazdos 
recursos naturais. Naturalmente existem relações significativas 
entre o Poder sobre o homem e o Poder sobre a natureza ou 
sobre as coisas inanimadas. Muitas vezes, o primeiro é condição 
do segundo e vice-versa. 
Podemos e devemos enxergar o poder como relacional, processual, dependente de contextos 
localizados. Ele também tem a capacidade de ser poder simbólico, um tipo muito especial de 
poder, segundo Pierre Bourdieu.
O poder simbólico é um poder de construção da realidade 
que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido 
imediato do mundo (e, em particular, do mundo social) supõe 
aquilo a que Durkheim chama o conformismo lógico, quer dizer, 
uma concepção homogênea do tempo, do espaço, do número, 
da causa, que torna possível a concordância entre as inteligências 
(BOURDIEU, 2003, p. 9).
Foucault, em suas obras, sempre procurou constituir uma genealogia do poder. Dentre suas 
reflexões, podemos apontar outro tipo especial do poder, característico da pós-modernidade, 
o biopoder.
[...] essa série de fenômenos que me parece bastante importante, 
a saber, o conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo que, 
na espécie humana, constitui suas características biológicas 
fundamentais, vai poder entrar numa política, numa estratégia 
política, numa estratégia geral de poder. Em outras palavras, 
como a sociedade, as sociedades ocidentais modernas, a partir 
do século XVIII, voltaram a levar em conta o fato biológico 
fundamental de que o ser humano constitui uma espécie humana. 
É em linhas gerais o que chamo, o que chamei, para lhe dar um 
nome, de biopoder (FOUCAULT, 2008, p. 3).
A questão do poder é fundamental para a compreensão da maneira como as identidades são 
socialmente construídas e a presença da diferença nessa relação social que se estabelece.
2.1 O QUE É A PÓS-MODERNIDADE?
Anthony Giddens (1991; 2002), nas suas análises sobre as dimensões 
institucionais da modernidade, aponta para isso. Os modos de vida, as instituições 
modernas, tudo isso se desvencilhou dos tipos tradicionais de ordem social. É 
algo inédito, não encontrado em outros períodos. Quais as suas características, 
segundo o autor? Para ele, tanto faz situar nosso período como alta modernidade, 
modernidade tardia. Trata-se de uma radicalização dos princípios da modernidade. 
E é por isso mesmo que não estaríamos numa pós-modernidade.
56
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Este período é indicado como global, permeado por interconexões que 
impactam as dimensões da vida mais íntima da pessoa. Da mesma forma, essas 
relações foram radicalizadas em termos de escopo das mudanças. Velozes e 
permeadas pela insegurança. O espaço local, quer dizer, onde vivemos, chamamos 
de nossa cidade, e não se pode viver mais, como outrora, em torno de si e de seus 
vizinhos. É preciso submeter-se a poderes estatais, mas, cada vez mais, a poderes 
econômicos, culturais ou políticos de origem externa, distante. Nossas relações 
sociais dependem cada vez mais de “mecanismos de reencaixe” que independem 
de nossa vontade. O dinheiro, as dinâmicas dos mercados de trabalho, por exemplo.
FIGURA 21 – A COMPLEXIDADE DAS DINÂMICAS E INTERAÇÕES SOCIAIS
 Em outras palavras, nossas relações sociais são deslocadas em termos 
de tempo e espaço. Nossa vida cotidiana está mais dependente de “fichas 
simbólicas”, que seriam meios de intercâmbio que podem ser “circulados sem ter 
em vista as características específicas dos indivíduos e dos grupos que lidam com 
eles em qualquer conjuntura particular” (GIDDENS, 1991, p. 30). Mas, também, 
de “sistemas peritos”, isto é, sistemas de excelência técnica ou competência 
profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que 
vivemos hoje, conhecimento perito.
Zygmunt Bauman (2001) tem sua famosa definição de modernidade líquida 
para tratar do momento atual. A diferença está na intensificação do ritmo trazido 
com a modernidade e pelo fato de que na época líquida não surgem novos “sólidos” 
para que os indivíduos possam ancorar-se. Pelo contrário, a marca da época é 
a fluidez, a desconfiança das tradições, rotinas, normas e grandes narrativas, a 
individualização. Sem sólidos, o edifício corre o risco iminente de cair. 
FONTE: Disponível em: <https://arautodecristo777.files.wordpress.com/2010/10/deusnodiv2oj6.
jpg>. Acesso em: 14 jun. 2017.
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
57
O mundo construído de objetos duráveis foi substituído pelo de produtos 
disponíveis projetados para imediata obsolescência. Num mundo como 
esse, as identidades podem ser adotadas e descartadas como uma troca 
de roupa. O horror da nova situação é que todo diligente trabalho de 
construção pode mostrar-se inútil; e o fascínio da nova situação, por 
outro lado, se acha no fato de não estar comprometida por experiências 
passadas, de nunca ser irrevogavelmente anulada, sempre “mantendo 
as opções abertas” (BAUMAN, 1998, p. 112-113).
Neste sentido, a modernidade líquida impacta de crise todas as maneiras 
que anteriormente o indivíduo utilizava para viver em condição de social. Apaga 
seus mapas e referências, ou os põe em dúvidas. A economia e o capital se tornaram 
transnacionais, ampliando seu poder e influência. Como contrapartida, o poder 
dos Estados em questões como economia fica cada vez mais reduzido. Marcas e 
produtos passam a ser fatores de distinção e marcação identitária. Ao invés das 
tradições, formas como o consumo de roupas passam a ser orientadas pelos setores 
criativos das empresas. 
Da mesma forma, o trabalho e as relações de trabalho sofrem o impacto 
da destruição dos sólidos. Terceirização, leis trabalhistas frouxas são os exemplos 
encarnados dessas dinâmicas. O resultado é o enfraquecimento do poder e papel 
dos sindicatos e dos trabalhadores frente ao poder sem rosto do capitalismo global 
e líquido. Ao invés de trabalhador, você é um colaborador, um empreendedor, 
discursos que escondem a exploração radicalizada do momento líquido.
2.1.1 A identidade na alta modernidade de Anthony 
Giddens
Nossas vidas na alta modernidade de Giddens, também, dependem cada 
vez mais de discursos transitórios e distantes de nossas vidas cotidianas e que 
sugerem um “eu” reflexivo, ativo e empenhado em um estilo e projeto de vida 
diante de um ambiente de risco e incerteza ampliado (GIDDENS, 1991; 2002). 
Para o inglês, a produção de conhecimento sistemático sobre a vida social torna-se 
integrante da reprodução do sistema, deslocando a vida social da fixidez da 
tradição.
Na ordem pós-tradicional da modernidade, e contra o pano de fundo 
de novas formas de experiência mediada, a autoidentidade se torna um 
empreendimento reflexivamente organizado. O projeto reflexivo do 
eu, que consiste em manter narrativas biográficas coerentes, embora 
continuamente revisadas, tem lugar no contexto de múltipla escolha 
filtrada por sistemas abstratos. Na vida social moderna, a noção de 
estilo de vida assume um significado particular. Quanto mais a tradição 
perde seu domínio, e quanto mais a vida diária é reconstituída em 
termos do jogo dialético entre o local e o global, tanto mais os indivíduos 
são forçados a escolher um estilo de vida a partir de uma diversidade de 
opções (GIDDENS, 2002, p. 12-13, grifo nosso).
58
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Outra característica para pensar a identidade em tempos de alta 
modernidade refere-se ao conceito de “política-vida” de Giddens (1991). Trata-
se de uma política das decisões da vida (p. 198) em meio a um mundo de alta 
reflexividade e impessoalidade de relações sociais. Reflexividade, como vimos, 
refere-se à produção incessante de conhecimento sobre a vida e mundo trazido 
para o cotidiano. Segundo o sociólogo, o conceito refere-se à “política de realização 
do eu, no contexto da dialética do local e do global e do surgimento dos sistemas 
internamentereferidos da modernidade” (GIDDENS, 2002, p. 222).
E é nessa imbricação entre global, nacional e local que as identidades 
são produzidas. Mas Giddens faz uma distinção. Ao passo que os discursos 
sobre identidade assumem continuidade ao longo do tempo e do espaço: mas, 
a autoidentidade é “essa identidade interpretada reflexivamente pelo agente” 
(GIDDENS, 1991, p. 53). Você percebe? Se sou brasileiro, posso me imaginar e me 
modelar como um brasileiro distinto, de valores e interesses diferentes. Continuo 
brasileiro, mesmo pensando e agindo reflexivamente. Neste processo, posso 
superar valores, ideias ou comportamentos que estão ligados ao Brasil.
Quando Giddens diz que as identidades ficam deslocalizadas ou 
desterritorializadas é porque nossos repertórios identitários já não estão vinculados 
ao território ou à memória social. Esses fenômenos estimulam identidades a 
se desligar de sua origem para abrir-se a produtos, imagens, comportamentos, 
símbolos ou práticas distribuídas em movimentos globais. A partir desses elementos 
tradicionais (pertencimento a uma memória e um território, um lugar de origem), 
podemos pensar em nossa biografia em termos de projeto e de autorrealização 
pessoal. Em Giddens, a modernidade é uma ordem pós-tradicional em que a 
pergunta sobre como devo viver precisa ser respondida em decisões (2002). Em 
muitos casos, é uma questão que o indivíduo deve escolher:
 
No nível do eu, um componente fundamental da atividade do dia a 
dia é simplesmente o da escolha. Obviamente nenhuma cultura elimina 
inteiramente a escolha dos assuntos cotidianos, e todas as tradições 
são efetivamente escolhas entre uma gama indeterminada de padrões 
possíveis de comportamento. Mas, por definição, a tradição, ou os 
hábitos estabelecidos, ordena a vida dentro de canais relativamente 
fixos. A modernidade confronta o indivíduo com uma complexa 
variedade de escolhas e ao mesmo tempo oferece pouca ajuda sobre as 
opções que devem ser selecionadas (GIDDENS, 2002, p. 79).
A reflexividade aqui indica um monitoramento constante à luz de novas 
informações sobre a nossa biografia ou estilo de vida. O que é saudável ou não para 
comer, por exemplo, torna-se resultado de informações científicas transformadas 
em conhecimento leigo, cotidiano. Na alta modernidade do sociólogo inglês, essa 
reflexividade se estende de forma inédita ao “eu” que se torna dinâmico como 
a própria época em que vive. Temos, neste sentido, cada vez mais a consciência 
desse nosso “eu reflexivo”, rotineiramente reproduzido.
 
Ser uma "pessoa" não é apenas ser um ator reflexivo, mas ter o conceito 
de uma pessoa (enquanto aplicável ao eu e aos outros). O que se 
entende por "pessoa" certamente varia nas diferentes culturas, embora 
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
59
haja elementos dessa noção que são comuns a todas elas. A capacidade 
de usar "eu" em contextos diferentes, característica de toda cultura 
conhecida, é o traço mais fundamental das concepções reflexivas da 
pessoidade (GIDDENS, 2002, p. 54).
 
Toda essa reflexividade do eu é encarnada. Temos um corpo. Esse corpo 
também se torna de uma vigilância reflexiva. O corpo não é mais um problema de 
um Ser que se realizava apenas enquanto entidade racional. O corpo não é mais 
tão somente o lugar da nossa alma, como pensavam os gregos antigos. Hoje a 
permanente reflexividade e controle do corpo “é um emblema de uma existência 
segura” num ambiente social (GIDDENS, 2002, p. 103).
2.1.2 A identidade na modernidade líquida
de Zygmunt Bauman
E como pensar a modernidade líquida e seus impactos identitários? Para 
perceber o grau da crítica proposta por Bauman, relembramos seu “Homo eligens”, 
isto é, o homem que escolhe, como metáfora da identidade pós-moderna. Escolhe, 
pois permanentemente incompleto e indefinido. 
A crítica do sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre a Modernidade é 
bastante negativa, seguindo a tradição da Teoria Crítica iniciada com a Escola de 
Frankfurt. O polonês dividiu a Modernidade em dois períodos: a modernidade 
sólida e a famosa modernidade líquida. 
FIGURA 22 – ZYGMUNT BAUMAN
FONTE: Disponível em: <http://ep01.epimg.net/cultura/imagenes/2015/12/ 
30/babelia/1451504427_675885_1451510007_sumario_normal.jpg>. 
Acesso em: 14 jun. 2017.
60
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
A Modernidade Sólida é o período que tem início no século XV até a 
metade do século passado. É o momento de instituições centralizadas, de um 
sentimento de progresso e crença na ciência, da narrativa do sujeito racional. Foi 
um período de expansão da instrumentalidade racional pela Ciência e pelo Estado 
na redução das ambiguidades da vida social e nacional. Nesta modernidade, os 
Estados surgem como os grandes estimuladores e direcionadores das identidades. 
De acordo com o polonês, foi
[...] um período histórico que começou na Europa Ocidental no século 
XVII com uma série de transformações socioestruturais e intelectuais 
profundas e atingiu sua maturidade primeiramente como projeto 
cultural, com o avanço do Iluminismo e depois como forma de vida 
socialmente consumada, com o desenvolvimento da sociedade 
industrial (capitalista e, mais tarde, também a comunista) (BAUMAN, 
1999, p. 299-300).
Em “Modernidade Líquida” (2001) e “Modernidade e Ambivalência” 
(1999), podemos encontrar as características essenciais desse período que já era 
marcado pela necessidade de derreter seus “sólidos”. O projeto moderno era 
centrado na ideia de controle e de domínio da natureza e das imprevisibilidades 
da vida social. Neste empreendimento, Ciência e Estado foram dois motores muito 
potentes. Para Bauman, a ciência moderna:
[...] nasceu da esmagadora ambição de conquistar a Natureza e 
subordiná-la às necessidades humanas. A louvada curiosidade científica 
que teria levado os cientistas ‘aonde nenhum homem ousou ir ainda’ 
nunca foi isenta da estimulante visão de controle e administração, de 
fazer as coisas melhores do que são (isto é, mais flexíveis, obedientes, 
desejosas de servir) (BAUMAN, 1999, p. 48).
E qual a identidade vinculada à Modernidade Sólida? Para Bauman, 
aquela vinculada à Nação. Da coordenação entre Estado e Ciência, delineia-se uma 
característica moderna, sua obsessão por classificar, conhecer, controlar os fatos, 
objetos, fenômenos e pessoas. A grande utopia da modernidade sólida era: 
[...] a crença de que há um fim do caminho em que andamos, um 
télos alcançável da mudança histórica, um Estado de perfeição a ser 
atingido amanhã, no próximo ano ou no próximo milênio, algum tipo 
de sociedade boa, de sociedade justa e sem conflitos em todos ou alguns 
de seus aspectos postulados: do firme equilíbrio entre oferta e procura 
e a satisfação de todas as necessidades; da ordem perfeita, em que tudo 
é colocado no lugar certo, nada que esteja deslocado persiste e nenhum 
lugar é posto em dúvida; das coisas humanas que se tornam totalmente 
transparentes porque se sabe tudo o que deve ser sabido; do completo 
domínio sobre o futuro – tão completo que põe fim a toda contingência, 
disputa, ambivalência e consequências imprevistas das iniciativas 
humanas (BAUMAN, 2001, p. 37).
O Estado-nação e sua identidade nacional percebia as diferenças com 
desconfiança. A centralidade essencial dessa identidade está na unidade de 
conduta, modos de vida e mentalidades sob a lógica da dominação da nação 
(BAUMAN, 1999; 2001).
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
61
A incapacidade de constituir uma identidade fixa é produto do sentimento 
de insegurança presente na esfera pós-moderna. A identidade líquida é 
passageira. Disso resultam laços frouxos nas relações sociais, a substituição dos 
relacionamentos humanos pelo consumo, que transforma o “eu” e os “outros” em 
mercadorias; o desapego ao espaço e tempo; e o crescimento da individualização 
(BAUMAN, 2005). 
A “individualização”consiste em transformar a “identidade” humana de 
um “dado” em uma “tarefa” e encarregar os atores da responsabilização de 
realizar essa tarefa e das consequências (assim como dos efeitos colaterais) 
de sua realização. Em outras palavras, consiste no estabelecimento de 
uma autonomia de jure (independentemente de a autonomia de facto 
também ter sido estabelecida) (BAUMAN, 2005, p. 40).
Segundo o autor, atualmente
 
[...] a identidade navega entre as extremidades da individualidade 
descompromissada e da pertença total. A primeira é inatingível, e a 
segunda, como um buraco negro, suga e engole qualquer coisa que 
flutue nas suas proximidades. Quando é escolhida como destino, 
inevitavelmente incita movimentos vacilantes entre as duas direções 
(BAUMAN, 2007, p. 44).
Para Bauman (2001; 2005), a ausência de sólidos e os impactos da 
modernidade líquida na economia, no Estado, na comunidade, no consumo e 
nas tradições trouxeram profundos impactos para as identidades. Estimulada 
pela ausência e desconfiança das grandes narrativas, a identidade líquida é uma 
invenção, nunca uma descoberta. Identidade não é uma questão de pertencer ou 
se identificar com alguém ou algum grupo, mas uma tarefa do cotidiano. Lembra 
o “eu reflexivo” de Anthony Giddens. 
Para a grande maioria dos habitantes do líquido mundo moderno, 
atitudes como cuidar da coesão, apegar-se às regras, agir de acordo 
com precedentes e manter-se fiel à lógica da continuidade, em vez de 
flutuar na onda das oportunidades mutáveis e de curta duração, não 
constituem opções promissoras (BAUMAN, 2005, p. 60).
Nas relações com o outro importa a supervalorização da minha identidade. 
Relacionar-se é uma questão fluida, muitas vezes mediada pelo consumo e pelas 
relações virtuais, pelas “redes sociais”. 
Hoje em dia, nada nos faz falar de modo mais solene ou prazeroso do 
que as “redes” de “conexão” ou “relacionamentos”, só porque a “coisa 
concreta” — as redes firmemente entretecidas, as conexões firmes e 
seguras, os relacionamentos plenamente maduros — praticamente caiu 
por terra (BAUMAN, 2005, p. 100).
Essa experimentação da identidade líquida como hipervalorização do “eu” 
compromete, segundo Bauman (2005), a própria realização da cidadania. Segundo 
o autor, o público é colonizado pelo privado; o interesse público é reduzido 
à curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da exposição 
pública é reduzida à exposição pública (BAUMAN, 2001, p. 43).
62
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
3 CRISES DE IDENTIDADES, CRISES DE PARADIGMAS
 
Um dos problemas envolvendo a chamada crise de identidade é que as 
lealdades políticas tradicionais têm sofrido mudanças. Antes, por exemplo, os 
trabalhadores poderiam se identificar numa classe política cujo destino era a 
revolução e a superação do capitalismo. Da mesma forma, os nazistas trouxeram 
à tona pesadelos em nome de uma suposta raça que era o porto seguro de sua 
ideologia. O discurso da heterossexualidade era dominante e inquestionável. Ou, 
ainda, a luta ecológica que não tem bases fixas porque essencialmente global. São 
os sólidos que se derretem apontados por Bauman (1999).
A identidade é uma produção, não se nasce com ela (HALL, 2014). Essa 
é a grande mudança no paradigma dominante que pensava a identidade fixa, 
imutável. Existe, nesse sentido, uma crise de identidades? De todas ou algumas 
identidades? Em geral, existem formas diversas de iniciar uma resposta. Existem 
novas identidades? De certa forma. Algumas emergem de processos sociais de 
invisibilidades, como as etnias indígenas, a mulher, o negro – outras surgem em 
razão de fenômenos contemporâneos.
Stuart Hall (2014) aponta para uma crise das “velhas identidades”. Segundo 
o autor, estas identidades estabilizadoras estão em declínio, acompanhando o 
deslocamento da estrutura e dos processos das sociedades modernas. As identidades 
modernas estariam sendo descentradas, isto é, deslocadas ou fragmentadas, num 
movimento de “duplo deslocamento”, cuja força é a descentração dos indivíduos 
tanto do seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos.
 
[...] para aqueles teóricos que acreditam que as identidades modernas 
estão entrando em colapso, [...] tipo diferente de mudança estrutural 
está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso 
está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, 
etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido 
sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações 
estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia 
que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Essa perda de um 
“sentido de si” estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou 
descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento [...] constitui uma 
“crise de identidade” para o indivíduo (HALL, 2005, p. 9).
 
Tomaz Tadeu Silva também percebe uma crise de identidades. Tais crises 
se originam nas mudanças intensas promovidas pela globalização, pela migração, 
pela crise de países e ideologias nos anos 1970 e 1980, que desestabilizaram, 
deixaram um vazio na forma de pertencimento. Como resultado, o aparecimento 
de identidades plurais, de novas afirmações étnicas, religiosas e nacionais (2014).
[...] reconhecer que a luta e a contestação concentradas na construção 
cultural de identidades [...]. Enquanto nos anos 1970 e 1980, a luta 
política era descrita e teorizada em termos de ideologia em conflito, ela se 
caracteriza agora, mais provavelmente, pela competição e pelo conflito 
entre diferentes identidades, o que tende a reforçar o argumento de que 
existe uma crise de identidade no mundo contemporâneo (SILVA, 2007, 
p. 26).
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
63
Além disso, um movimento de renovação das Ciências Humanas e a forma 
de encarar o conhecimento de tipo europeu como de validade universal beneficiou-
se dos Estudos Culturais e Pós-colonialistas surgidos após a independência das 
colônias europeias localizadas na África e na Ásia. Quer dizer, essa renovação de 
teorias e metodologias não está restrita somente à História. Vejamos:
[...] o intento de descolonizar a História para projetar uma “verdadeira” 
História da África segue sendo, aparentemente, um objetivo desta 
geração de historiadores africanos. Este também era um desejo confesso 
de muitos intelectuais estrangeiros que se dedicaram ao tema a partir 
da década de 1960. Os movimentos de Independência, neste sentido, 
foram, sem dúvida, os motivadores para a ampliação e difusão dos 
estudos africanos em todo o mundo (BARBOSA, 2008, p. 54).
Em Boaventura de Sousa Santos o paradigma dominante da modernidade 
foi o modelo de racionalidade que preside a ciência moderna e constituiu-se a 
partir da revolução científica do século XVI, e foi desenvolvido nos séculos 
seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. É um processo 
permeado pela racionalidade, pelo determinismo e instrumentalismo da Ciência 
e dos conhecimentos para diminuir ambivalências sociais, econômicas, ecológicas, 
existenciais etc. Qual seria o “paradigma emergente”?
Eu falarei do paradigma de um conhecimento prudente para uma 
vida decente. Com esta designação, quero significar que a natureza da 
revolução científica que atravessamos é estruturalmente diferente da 
que ocorreu no século XVI. Sendo uma revolução científica que ocorre 
numa sociedade ela própria revolucionada pela ciência, o paradigma a 
emergir dela não pode ser apenas um paradigma científico (o paradigma 
de um conhecimento prudente), tem de ser também um paradigma 
social (o paradigma de uma vida decente) (SANTOS, 2005, p. 74).
A questão é que existem bases teóricas e metodológicas capazes de investigar 
as questões relacionadas à identidade, cultura, etnia, nação a partir de um ponto 
de vista que assegure a complexidadenecessária ao tema. Pensar a identidade de 
gênero, os deslocamentos culturais, os efeitos da globalização devem ser revistos à 
luz das críticas e análises realizadas, conforme vimos anteriormente. Agora, tratamos 
das visões sobre a globalização e seus impactos na produção de conhecimento 
no interior das Ciências Sociais. Neste sentido, num quadro de individualização 
excessiva, nossa liberdade individual é cada vez menor e mais controlada.
3.1 A GLOBALIZAÇÃO E A IDENTIDADE GLOBAL
As ideias de um mundo global não são novas, antes do termo globalização 
ganhar popularidade, a partir dos anos 1980 em diante, foram utilizadas de 
maneira pioneira nos anos 1960 por Marshall McLuhan (Guerra e Paz na Aldeia 
Global) e pelo polonês Zbigniew Brzezinski (A Revolução Tecnotrônica).
É fácil cair no equívoco de acreditar que modernidade e globalização são 
categorias e fenômenos similares. Aqui parte-se da ideia de que a globalização 
64
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
é uma dimensão, um efeito potencializado e radicalizado pela Modernidade. Os 
efeitos sob as identidades tradicionais são consideráveis. O que é a globalização e 
quais seus efeitos sobre as identidades e as culturas modernas?
FIGURA 23 – INTERDEPENDÊNCIA GLOBAL
FONTE: Disponível em: <http://www.cartamaior.com.br/arquivosCartaMaior/FOTO/179/29C 
A5A975A685 C8377DEB584659C921FC85AC005CFF02D8A4B9070060D288BC9.jpg>. 
Acesso em: 14 jun. 2017.
Enquanto fenômeno social com impacto nas identidades, a globalização 
tem sido vista como propulsora de revisões metodológicas e teóricas sobre a 
identidade. Como aponta o sociólogo brasileiro Octávio Ianni, as Ciências Sociais 
são chamadas a discutir profundamente o que é a globalização e quais seus efeitos. 
Isso porque “o paradigma clássico das ciências sociais foi constituído e continua 
a desenvolver-se com base na reflexão sobre as formas e os movimentos da 
sociedade nacional” (IANNI, 1994, p. 147). Quer dizer, a globalização representa 
o rompimento epistemológico com seus objetos clássicos, especialmente aqueles 
vinculados à unidade do Estado-nação, diante do surgimento da sociedade 
global. A sociedade nacional continua vigente, mas, contraditoriamente envolvida 
nos efeitos e dinâmicas da globalização. Veja o que o autor aponta sobre essa 
emergência:
 
[...] a sociedade global é o novo objeto das ciências sociais. Ao lado da 
sociedade nacional, vista como um todo e também em suas partes, as 
ciências sociais começam a debruçar-se sobre a sociedade global, vista 
como um todo e também em suas partes. São dois objetos presentes: um 
dos quais bastante conhecido, codificado, interpretado, ao passo que o 
outro ainda por se conhecer, se explicar. A sociedade nacional pode ser 
vista como o emblema do paradigma clássico das ciências sociais, com o 
qual elas nascem, amadurecem e continuam a se desenvolver. Enquanto 
que a sociedade global pode ser vista como o emblema de um paradigma 
emergente. Envolve um novo paradigma, tanto porque a sociedade global 
encontra-se em constituição, em seus primórdios, como porque carece de 
conceitos, categorias, interpretações (IANNI, 1994, p. 149).
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
65
Nenhum período histórico anterior teve a noção da existência de uma 
sociedade global. Trata-se de uma realidade original, ainda desconhecida, carente 
de interpretações teóricas mais gerais, o conhecimento acumulado sobre a sociedade 
nacional não é suficiente para esclarecer as configurações e os movimentos globais. 
Ianni (1994) indica algumas originalidades implicadas nas relações entre globalização 
e ciências sociais. A sociedade global se constitui desde o início como uma totalidade 
problemática, complexa e contraditória, aberta em movimento, dinamizando cenários 
de desenvolvimento desigual, combinado e contraditório em cantos do planeta. Da 
mesma forma, a constituição de uma sociedade global implicaria na possibilidade de 
se criar uma história mundial. Para o autor, o que era fantasia, metáfora ou utopia, 
cosmopolitismo, adquire novos significados e possibilidades (IANNI, 1994).
Para exemplificar a complexa relação entre a globalização e seus efeitos 
identitários, trazemos a contribuição de Boaventura de Sousa Santos (2005). Não 
podemos pensar a globalização. Devemos pensar nas muitas globalizações!
Para Santos (2005, p. 21), a globalização é o processo pelo qual “determinada 
condição ou entidade local estende a sua influência a todo o globo e, ao fazê-lo, 
desenvolve a capacidade de designar como local outra condição social ou entidade 
rival”. O português fala em globalizações, no plural, indicando que existem 
diferentes conjuntos de relações sociais que dão origem a relações globais. Estas 
relações surgem dos conflitos presentes em cada campo social.
Para Santos (2005), o global e o local são socialmente produzidos no interior 
dos processos de globalização. Nos processos acionados pelas globalizações, 
tanto as entidades ou fenômenos dominantes (globalizados), como os dominados 
(localizados) sofrem transformações internas. Porém, para Santos, os efeitos não 
são igualmente distribuídos. Nem todos eles ligam-se à fluidez e rapidez próprias 
dos discursos sobre a globalização. Porém, algumas tomam caminhos mais lentos, 
mais difusos, mais ambíguos, e as suas causas mais indefinidas.
Atualmente, existem grandes desigualdades na distribuição e na 
concentração dos poderes. Desta forma, Santos (2005, p. 26) percebe a globalização 
como “um fenômeno multifacetado com dimensões econômicas, sociais, políticas, 
culturais, religiosas e jurídicas interligadas de modo complexo”. Assim, o português 
fala em globalizações, no plural, indicando que existem diferentes conjuntos de 
relações sociais que dão origem a relações globais. Estas relações surgem dos 
conflitos presentes em cada campo social.
Santos (2005) destaca algumas globalizações, dentre as inúmeras possíveis. 
A globalização social em nossa época vem promovendo desigualdades em diversos 
níveis das relações sociais de nosso cotidiano. Aqui, podemos verificar que através 
das dinâmicas globais do capitalismo, ocorre uma concentração brutal de renda em 
poucos indivíduos, produzida pelo predomínio do neoliberalismo sobre a política 
e a economia. Ao mesmo tempo, globalizam-se relações precárias e terceirizadas 
de trabalho, o controle e a estagnação dos salários, além da visão de que pessoas 
pobres são insolventes, devendo então os investimentos concentrarem-se no topo 
das camadas sociais.
66
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Santos (2002) também fala de uma globalização política, onde os países 
mais ricos e suas instituições sociais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) 
ou o Banco Mundial, exercem forte pressão sobre os países em desenvolvimento e 
periféricos de uma maneira sem precedentes na história. Ao mesmo tempo, assiste-
se ao surgimento de blocos e acordos comerciais. A intensificação das interações 
entre os países, ainda que desigual, é recorde, bem como o fluxo de pessoas, bens, 
serviços por essas áreas. Desta maneira, o Estado-nação tem perdido sua centralidade 
enquanto uma unidade de iniciativa. E num ambiente de assimetrias internacionais, 
alguns países perdem totalmente sua autonomia, dependendo de decisões políticas 
originadas nos centros de poder. Santos chama a atenção, nesse contexto, para o 
esquecimento do Hemisfério Sul, onde localizam-se os países pobres.
Uma das mais comentadas no contexto das atuais dinâmicas mundiais 
é a globalização cultural. Cada vez mais fala-se de uma cultura global. Mas, a 
globalização cultural teria promovido essa inédita cultura? Inédita porque somente 
em nosso momento é que temos a condição de percebermos como partes de uma 
cultura global. Há uma preocupação com a homogeneização cultural que pode 
surgir desses fenômenos, já que o que culturalmentese globaliza são os valores, 
os artefatos culturais e os universos simbólicos que se globalizam são ocidentais. 
Através desses produtos, valores presentes nos países desenvolvidos tornam-se 
parte da vida de países e pessoas que vivem no Sul do mundo.
De uma maneira menos crítica que os demais, Anthony Giddens percebe 
as complexas relações entre identidade e globalização, contudo não vê isso 
apenas como “carga pesada”, mas como fontes libertadoras. Para o sociólogo, 
em razão dos processos acionados e deixados pelo caminho em seu fluxo global, 
novas identidades culturais estão emergindo, a democracia difundiu-se pelos 
quatro cantos e modelos de instituições, como as famílias, são mais abertas e 
plurais (GIDDENS, 2007). O grande problema são as desigualdades inerentes ao 
fenômeno, ao passo que somos as primeiras gerações a viver sob a globalização. O 
autor não entende que haja hegemonia de algum país ou empresas, porque cada 
vez mais a globalização está descentrada, isto é, atuando em todos os cantos do 
planeta. Segundo essa visão do autor, a “globalização está mudando o modo como 
o mundo se parece e a maneira como vemos o mundo. Ao adotar uma perspectiva 
global, tornamo-nos mais conscientes de nossas ligações com os povos de outras 
sociedades” (GIDDENS, 2005, p. 61).
Para Giddens, a globalização pode ser definida “como a intensificação das 
relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira 
que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas 
de distância e vice-versa” (1991, p. 69). O impacto disso se verifica no seu conceito 
de “globalização do risco”:
[…] a) no sentido de intensidade; b) expansão da quantidade de eventos 
contingentes que afetam todos ou ao menos grande quantidade de 
pessoas no planeta; c) derivado do meio ambiente criado/natureza 
socializada; d) riscos ambientais institucionalizados (ex.: mercado de 
investimentos); e) consciência do risco como risco (lacunas não podem 
ser convertidas em certezas); f) a consciência bem distribuída do risco 
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
67
(conhecimento da ampla maioria); g) consciência das limitações da 
perícia (nenhum sistema perito é inteiramente perito) (GIDDENS, 1991, 
p. 126-127).
O britânico vê a globalização não como um fenômeno simples. Para ele, a 
globalização é política, tecnológica e cultural, além de econômica. Acima de tudo, 
tem sido influenciada pelo progresso nos sistemas de comunicação, registrado 
a partir do final da década de 1960 (GIDDENS, 2007). E as transformações na 
autoidentidade e a globalização são os dois polos da dialética do local e do global 
nas condições da alta modernidade. Isso implica perceber que mudanças em 
aspectos íntimos da vida pessoal estão diretamente ligadas ao estabelecimento de 
conexões sociais de grande amplitude. Para Giddens (2007) diante da globalização 
e seus efeitos, o "eu" e "sociedade" estão inter-relacionados num meio global.
Desta maneira, a discussão sobre a globalização e seus efeitos nos paradigmas 
clássicos das Ciências Sociais é bastante elementar para o tema da produção 
identitária. Para Joanildo Burity (2001), essas novas perspectivas sobre categorias 
básicas das Ciências Sociais com o Estado e a Sociedade apontam, também, para 
nosso momento de revisão crítica das categorias herdadas dos séculos XIX e XX. 
Vivemos o “descentramento do Ocidente”. A globalização introduz a lógica de 
“um terceiro” nessas relações clássicas e binárias sobre o Ocidente e as Ciências 
produzidas por este. 
O que é esse terceiro? Trata-se da inclusão e reconhecimento na esfera da 
reflexão e das práticas sociais e culturais de outras possibilidades de expressão que 
foram preteridas ou derrotadas ao longo da história eurocêntrica (BURITY, 2001, 
p. 11). O terceiro é o Ocidente fragmentado, onde em meio ao nacional e ao global 
surgem o local, o regional.
E o impacto disso para as identidades? O impacto do surgimento do 
“terceiro” nessa relação entre global e local é a “resistência da identidade”. A 
identidade torna-se o “pomo da discórdia” e expressa esse terceiro da globalização. 
Elas respondem e resistem às desterritorializações promovidas pela globalização, 
afirmando-se e reagindo aos efeitos desestruturantes desta (BURITY, 2001).
Outra forma possível de perceber a identidade em termos de globalização 
liga-se à ideia de identidade híbrida.
Nestor Gargia Canclini percebe a globalização como um fenômeno de 
fracionamento articulado do mundo e de sua recomposição em partes, sendo 
movimento de homogeneização e também de diferenças e desigualdades. “A 
globalização supõe uma interação funcional de atividades econômicas e culturais 
dispersas, bens e serviços gerados por um sistema com muitos centros, no qual é 
mais importante a velocidade com que se percorre o mundo do que as posições 
geográficas a partir das quais está agindo” (CANCLINI, 2005, p. 32).
Ela conforma “espaços de possibilidades para mudanças socioculturais” 
nas várias dimensões da vida social e individual. Tais mudanças foram sintetizadas 
em cinco: a diminuição da força e autonomia política dos Estados face às empresas 
68
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
transnacionais; a reorganização dos assentamentos e das maneiras de convivência 
urbanas; a forte apropriação privada do espaço urbano; as mudanças nos padrões 
de pertencimento identitário, cada vez menos locais ou nacionais e cada vez mais 
estimulados por dinâmicas transnacionais; e a passagem do cidadão para o de 
consumidor.
Para Canclini (2005), a globalização modifica o sentido das identidades 
modernas, que eram territoriais, cujo centro era o Estado-nação que tende a ocultar 
as diferenças culturais internas. A globalização, ainda, seria responsável pela 
intensificação dos aspectos da modernidade, levando a uma pós-modernidade. 
Nesses contextos, as próprias identidades são pós-modernas que passam a ser 
influenciadas por trânsitos transterritoriais e multilinguísticos. As fronteiras do 
Estado-nação já não seriam suficientes para a produção social das identidades. Tais 
identidades pós-modernas sofrem grande influência dos mercados, da publicidade, 
muitas vezes sendo afirmadas através da distinção assegurada pelo consumo.
FIGURA 24 – IDENTIDADES HÍBRIDAS
Desta maneira, a identidade na Pós-modernidade de Canclini passa a ser 
concebida como repertórios fragmentados de minipapéis sociais e menos uma 
“hipotética interioridade contida e definida pela família, pelo bairro, pela cidade, 
pela nação ou por qualquer um desses enquadramentos em declínio” (CANCLINI, 
2005, p. 48). Essa influência em potência menor das identidades essencialistas foi 
entendida pelo autor como o processo de “dissolução das monoidentidades” (2005).
FONTE: Disponível em: <http://beta.mericaballero.com/wp-content/uploads/hybrid1.jpg>. Acesso 
em: 14 jun. 2017.
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
69
O que é uma cultura híbrida? Num olhar mais latino-americano, segundo 
Canclini (2005, p. 19), as hibridações “são processos socioculturais nos quais 
estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para 
gerar novas estruturas, objetos e práticas”. Elas são produzidas especialmente em 
três momentos: a queda do centro cultural e sua hegemonia, formando pluralidades; 
disseminação de gêneros culturais e artísticos impuros; e na desterritorialização 
do local em contato com o global (CANCLINI, 1997).
Estas transformações contemporâneas relativizam os fundamentos das 
identidades nacionais. Em consequência, surgem nacionalismos, regionalismos, 
etnicismos e fundamentalismos, que acabam por anular os espaços de interação, 
fazendo com que as identidades não sejam mais negociadas, mas “simplesmente 
afirmadas ou defendidas”. (CANCLINI, 2005, p. 197).
Stuart Hall (2006) percebe que a hibridizaçãoacontece em situações de 
diáspora, onde se fazem necessários múltiplos processos de tradução cultural 
experimentados na adaptação das matrizes culturais diferentes da sua origem. 
O hibridismo não se refere a indivíduos híbridos, que podem ser 
contrastados com os “tradicionais” e “modernos” como sujeitos 
plenamente formados. Trata-se de um processo de tradução cultural, 
agonístico, uma vez que nunca se completa, mas que permanece em sua 
indecidibilidade (HALL, 2005, p. 74).
Essa tradução cultural é indicada como um processo de negociação entre 
novas e antigas matrizes culturais, vivenciado por pessoas que migraram de sua 
terra natal. Entre a identidade que ficou para trás e a que precisa ser negociada na 
experiência dos deslocamentos, das migrações ou de refugiados.
3.2 IDENTIDADES E RECONHECIMENTO
 
O que é reconhecer e o que isso tem de ligação com o tema das identidades 
em nossa época? Tem tudo a ver. Até agora, apontamos que as identidades em 
nossos tempos procuram afirmar-se perante outras. Da mesma forma, as noções 
identitárias essencialistas invisibilizam a diferença e, portanto, as identidades 
plurais. Como dissemos antes, nenhuma identidade se constrói sozinha, 
autossuficiente. É no delimitar fronteiras entre eu e outros que elas são fabricadas.
Segundo o antropólogo brasileiro Roberto Cardoso de Oliveira (2005), 
atualmente muito se discute a respeito da identidade, mas não do aspecto do 
seu reconhecimento. Ele se pergunta: o que significa a uma pessoa ou grupo ter 
sua identidade reconhecida? A resposta deve ser procurada na linguagem, nas 
bases filosóficas e antropológicas das sociedades. Ao explorar essas dimensões da 
vida e as ideias fechadas de identidade que são formuladas cotidianamente, ao 
problematizar essas dimensões e as suas naturalizações, trazemos o conhecimento 
para o patamar do reconhecimento, para a dimensão pública.
70
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Desta maneira, reconhecer não tem somente a intenção de tornar o outro 
“igual”, numa perspectiva de igualdade. Vai além, é um tema étnico envolvido na 
produção do cotidiano e de nossas relações sociais e de poder. Por este caminho, o 
tema do reconhecimento pode ser percebido do ponto de vista teórico. O cerne da 
discussão pode ser localizado entre “uma visão redistributiva em oposição à ideia 
de reconhecimento em nome da justiça social” (OLIVEIRA, 2005, p. 23).
Apresentamos, então, a discussão em torno da corrente teórica e 
metodológica chamada “Teoria do Reconhecimento”, com boa inserção nos 
espaços acadêmicos, intelectuais, sociais e políticos no nosso país. Trata-se de uma 
corrente que transborda um campo transdisciplinar, que inclui a Antropologia, 
a Sociologia, a Filosofia, a Política, por exemplo. Esta corrente está ligada a 
alguns nomes e obras específicas. As três figuras mais importantes desse debate 
são o canadense Charles Taylor, o sociólogo e filósofo alemão Axe Honneth e a 
estadunidense Nancy Fraser.
A Teoria do Reconhecimento e seus autores lançam olhares para movimentos 
sociais de gênero, étnicos, raciais, etários etc., repensando a posição subordinada 
desses sujeitos e de suas identidades no contexto das relações econômicas e sociais. 
Claro que pensam a dimensão cultural. Porém, a crítica está justamente nisso. No 
reducionismo ao nível cultural.
Isso porque no cenário de nossa modernidade tardia, com os quadros sociais, 
econômicos, políticos e culturais anteriormente descritos, movimentos sociais se 
aproximam de questões de justiça no seio das sociedades contemporâneas. Elas 
movimentam, performatizam o cultural. Estas identidades plurais se pautam mais 
por reivindicações de reconhecimento cultural do que por reivindicações salariais 
ou redistributivas. Vemos isso no exemplo da luta dos movimentos das mulheres 
e de negros, por exemplo, em torno da igualdade salarial.
No interior da Teoria do Reconhecimento existem algumas divergências em 
relação ao processo de reconhecimento. De um lado, por exemplo, podemos incluir 
Taylor e Honneth. Do outro, Nancy Fraser, que está interessada no feminismo. 
Além disso, existem debates intensos na forma como Honneth e Fraser percebem 
os conflitos gerados pelas relações entre economia e cultura. Aqui, trataremos, por 
questão de espaço, apenas destes dois. Fica o convite a pesquisar sobre a obra de 
Charles Taylor.
Outra contribuição elementar na Teoria do Reconhecimento é do alemão 
Axel Honneth. Para este autor:
[...] a diferença entre ‘conhecer’ (erkennen) e ‘reconhecer’ (anerkennen) 
torna-se mais clara. Se por ‘conhecimento’ de uma pessoa entendemos 
exprimir sua identificação enquanto indivíduo [...], por ‘reconhecimento’ 
entendemos um ato expressivo com o qual este conhecimento está 
confirmado pelo sentido positivo de uma afirmação. Contrariamente ao 
conhecimento, que é um ato cognitivo não público, o reconhecimento 
depende de meios de comunicação que exprimem o fato de que outra 
pessoa é considerada como detentora de um ‘valor’ social (HONNETH, 
2004, p. 140 apud OLIVEIRA, 2005, p. 13).
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
71
Na discussão proposta pelo filósofo é dada condição especial à ideia de 
‘injustiça’ para dar início à possibilidade de construir um movimento, uma luta 
e uma moral de reconhecimento. Toda reação emocional negativa que vai de par 
com a experiência de um desrespeito de pretensões de reconhecimento contém 
novamente em si a possibilidade de que a injustiça infligida ao sujeito se lhe revele 
em termos cognitivos e se torne o motivo da resistência política (HONNETH, 2003).
A partir da percepção da injustiça, pode-se iniciar uma luta de um grupo 
politicamente organizado pelo reconhecimento de sua especificidade identitária. 
Desta forma, a Teoria do Reconhecimento é uma teoria das lutas moralmente 
motivadas de grupos sociais, sua tentativa de estabelecer institucional e 
culturalmente formas ampliadas de reconhecimento recíproco, “aquilo por meio 
do qual vem a se realizar a transformação normativamente gerida das sociedades”. 
(HONNETH, 2003, p. 156).
Para Honneth (2003), interessa entender a dimensão da interação e o conflito 
nas lutas por reconhecimento. Na luta contra a injustiça, os indivíduos percebem-
se como moralmente injustiçados. Para sintetizar (com riscos de simplificações), 
a ideia central de Axel Honneth sobre as lutas por reconhecimento, vistas como 
“gramática dos conflitos sociais” pode ser percebida como: desrespeito, luta por 
reconhecimento e mudança social (HONNETH, 2003, p. 268).
DICAS
Sugerimos as leituras de:
• Luta por Reconhecimento – a gramática moral dos conflitos sociais, de Axel Honneth (2003).
• Reconhecimento sem ética? Artigo de Nancy Fraser (2007) publicado na Revista Lua Nova.
Honneth, como vimos, se interessa pelas lutas de reconhecimento.
Fraser, pela questão da justiça redistributiva.
Nancy Fraser (2002) percebe o modelo da identidade atualmente 
muito discutido como profundamente problemático, produtor de reificações e 
deslocamentos. Em razão do cenário global e econômico, ocorre um fenômeno 
de “politização generalizada da política”, tendo como “centro de gravidade” 
o reconhecimento da identidade e da diferença. Ao mesmo tempo, ocorre a 
diminuição das reivindicações e lutas de classe. Assim, muitas políticas culturais 
de reconhecimento de nossos dias encorajam o separatismo, o comunitarismo, a 
intolerância, o patriarcalismo e autoritarismo.
Segundo Fraser, estas situações geram duas consequências: a) o 
alargamento da contestação da política e um novo entendimento de justiça social 
e; b) podem deslocar o foco das questões de redistribuição igualitária por políticas 
72
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
de identidade. Para romper com este dilema, Fraser propõe uma concepção 
bidimensional de justiça, levando em consideração as preocupações tradicionaisda justiça distributiva e igualmente abarcar as preocupações recentes salientadas 
pelas filosofias do reconhecimento (FRASER, 2002).
O que Nancy Fraser (2002) quer dizer com reificação de identidades? 
Seria aquela visão que se aproxima da identidade essencialista, como já vimos 
anteriormente. Essa visão procura fechar-se numa unidade, limitando o diálogo 
com outras culturas a partir de seus critérios. Mas, e as questões de justiça e de 
status? Quer dizer, de cidadania? Porque, em geral, as desvalorizações identitárias 
estariam subordinadas a relações sociais transmitidas através de padrões 
institucionalizados de valor cultural: na forma de leis, de instituições sociais, de 
hierarquia de valores.
Pensando na contribuição de Fraser, as lutas por reconhecimento nos 
dias de hoje, com as graves desigualdades sociais e econômicas, o desemprego 
e fenômenos sociais como a violência, atingem de maneiras distintas os grupos 
sociais e culturais. Ao bater constantemente na ideia da identidade e das diferenças, 
essas desigualdades acabam por ser menosprezadas, levando ao problema do 
falso reconhecimento. Neste sentido, a falta de reconhecimento estaria reduzida 
na depreciação de tal identidade pelo grupo dominante e no consequente dano 
infligido ao sentido do eu dos membros do grupo. 
FIGURA 25 – RECONHECER-SE A SI E AO OUTRO: QUESTÃO DE JUSTIÇA E REDISTRIBUIÇÃO
FONTE: Disponível em: <https://missaoposmoderna.files.wordpress.com/2013/04/mascaras-
1024x664.jpg>. Acesso em: 14 jun. 2017.
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
73
Assim, como finalizar esta discussão, articulando a Teoria do 
Reconhecimento e as lutas identitárias dentro do olhar das Ciências Sociais?
O não reconhecimento é uma herança transgeracional, particularmente, 
das classes populares e dos segmentos marginalizados moralmente. 
A invisibilidade subjetiva e social é o verdadeiro estigma humano que 
deflagra as lutas sociais. Intervir nesse vácuo pode significar uma revolução 
silenciosa com desfecho expressivo (FUHRMANN, 2013, p. 92).
E a investigação sobre as origens do não reconhecimento pode ser um 
empreendimento de pesquisadores da Antropologia, da Sociologia, da Filosofia, 
da História, da Psicologia.
3.3 A CENTRALIDADE DA CULTURA
Dissemos anteriormente que entre os séculos XVIII e XIX, a Cultura foi 
instrumento ideológico na expansão de fronteiras políticas e econômicas. Naquelas 
épocas, junto com a cultura chegava o “Progresso” na perspectiva europeia, 
em que a civilização e um tipo específico de modo de produção, o capitalismo 
ainda nascente, em que o Estado e o mercado foram os agentes considerados 
organizadores da sociedade, passaram a ocupar espaços além da Europa. 
No século XX e XXI a discussão cultural tomou outro rumo. Desde 
as contribuições dos estudos culturais e das reflexões sobre identidade, pós-
colonialismo, imigração, hibridização cultural, o papel da cultura nas sociedades 
foi alçado a central. Por isso, aqui discutimos essa centralidade da cultura em 
nossos dias. 
Para as Ciências Sociais, a cultura sempre foi um objeto presente na 
sua discussão. Vivemos hoje a expansão do cultural e sua centralidade na vida 
contemporânea em todos os aspectos da vida social. Toda ação social é “cultural”, 
que todas as práticas sociais expressam ou comunicam um significado e, neste 
sentido, são práticas de significação. Estes sistemas ou códigos de significado 
dão sentido às nossas ações humanas, que, como lembra Weber, são sempre 
significativas. Eles nos permitem interpretar significativamente as ações alheias 
(HALL, 1997).
Todavia, o autor percebe mudanças em duas dimensões da relação entre 
cultura e Ciências Sociais, uma de caráter substantivo, outro epistemológico. O 
primeiro refere-se à centralidade da cultura nos discursos políticos e sociais, nas 
buscas por desenvolvimento etc. O outro, resultado dessas utilizações culturais, é 
a revisão de antigas noções culturais de viés evolucionista, funcionalista, marxista 
ou estruturalista.
O que significa que a cultura está sendo percebida teórica e 
metodologicamente de outras maneiras? Epistemologicamente sob crítica? Bem, 
por muito tempo, cultura e civilização se confundiam. E civilização carrega o peso 
74
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
da sua época evolucionista e determinista. Se existem civilizados, também existem 
os incivilizados, selvagens, como eram conhecidos todos os grupos e organizações 
sociais e políticas não europeias entre os séculos XIX e início do XX.
FIGURA 26 – IMAGEM TÍPICA PARA INDICAR ASPECTOS DA SOCIEDADE BRASILEIRA
Ao invés de a Sociologia e Antropologia se perderem em modelos 
normativos e descritivos de cultura, tidos como científicos, existe uma abertura 
maior a descrições e interpretações. Tais novas estratégias problematizam com 
maior ênfase a identidade e a cultura dos pesquisadores e os grupos, pessoas, 
sociedades pesquisadas. A relação fica mais complexa.
Vejamos o exemplo do pós-colonialismo. Nossas bases mentais resultam 
de nosso encontro e confronto com os europeus e suas conquistas territoriais que 
iniciam em 1492 com a “Descoberta” da América, indo até o presente. Várias foram 
as colônias europeias. E no século XX iniciou um movimento em vários continentes 
em torno da independência dessas colônias. Do resultado cultural, intelectual e 
político dessa “descolonização”, surgem os Estudos Pós-coloniais. 
[...] o intento de descolonizar a História para projetar uma “verdadeira” 
História da África segue sendo, aparentemente, um objetivo desta 
geração de historiadores africanos. Este também era um desejo confesso 
de muitos intelectuais estrangeiros que se dedicaram ao tema a partir 
da década de 1960. Os movimentos de independência, neste sentido, 
foram, sem dúvida, os motivadores para a ampliação e difusão dos 
estudos africanos em todo o mundo (BARBOSA, 2008, p. 54).
FONTE: Disponível em: <http://escolakids.uol.com.br/public/images/legenda/fd16743578a981b742 
c132c4938a82e1.jpg>. Acesso em: 14 jun. 2017.
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
75
O que queremos dizer é que nossas bases mentais têm preconceitos 
tipicamente europeus. Podemos citar aqui o próprio Kant, filósofo que “inaugurou” 
a filosofia moderna:
Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento 
que se eleve acima do ridículo. O senhor Hume desafia qualquer um 
a citar um único exemplo em que um negro tenha mostrado talentos, 
e afirma: dentre os milhões de pretos que foram deportados de seus 
países, não obstante muitos deles terem sido postos em liberdade, não 
se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na 
arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre os brancos, 
constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, 
adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes. Tão 
essencial é a diferença entre essas duas raças humanas, que parece ser 
tão grande em relação às capacidades mentais quanto à diferença de 
cores (KANT, 1993, p. 75-76).
Para Muryatan Santana Barbosa, no eurocentrismo pode ser observado 
um etnocentrismo singular, entendido como uma ideologia, paradigma e/ou 
discurso ou, ainda, como um paradigma qualitativamente diferente de outras 
formas históricas (2008). Desta forma, os povos não europeus eram percebidos 
crianças a serem educadas pelas luzes da Razão, apontando para “a crença na 
excepcionalidade europeia” (p. 48). A grande problemática reside: 
Apesar do que foi até aqui dito, seria um erro supor que, por serem 
eivadas de eurocentrismo, a filosofia e a teoria social europeia dos 
séculos XVIII e XIX em nada teriam contribuído para o desvelamento 
de realidades históricas não europeias. Em verdade, pouco se escreveu 
e analisou, até o início do século XX, acerca da história de outros povos 
e civilizações. Há, entretanto, uma questãoimportante. O fato é que, ao 
se expressarem como universalistas sendo, em verdade, provincialistas, 
os europeus ajudaram a criar o instrumental teórico pelo qual os demais 
povos poderiam, tendencialmente, ressignificar a imagem que aqueles 
faziam de si (BARBOSA, 2008, p. 49)
Todavia, Barbosa (2008) indica que é muito difícil diminuir o eurocentrismo 
a zero. Devido às próprias dinâmicas de um mundo que foi construído pelos 
europeus. Para essa mudança, o autor indica a necessidade de se aliar disposição 
científica e política.
Também podemos apontar para um efeito atual que pode ser percebido e 
que exerce força para a elasticidade do termo “cultura”. O assunto é tratado por 
George Yudice na obra “A Conveniência da Cultura” (2006). A tese é que diante dos 
atuais problemas sociais, ambientais, culturais, políticos e econômicos, a cultura se 
tornou um recurso conveniente. Veja:
[...] o conteúdo da cultura foi perdendo importância com a crescente 
conveniência da diferença como garantia de legitimidade. Pode-se dizer 
que as compreensões anteriores – os cânones de excelência artística; os 
padrões simbólicos que dão coerência e conferem valor humano a um 
grupo de pessoas ou sociedade, ou a cultura como disciplina – cedem 
lugar à conveniência da cultura (YÚDICE, 2004, p. 454).
76
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
A questão é que no cenário internacional, a cultura se tornou um recurso 
econômico muito importante desde pequenos grupos a grandes conglomerados de 
multinacionais. É objeto de acordos de livre comércio, de legislação de propriedade 
intelectual. Basta pensar na imensa riqueza econômica – para não falar de outras 
questões - em torno dos filmes produzidos anualmente nos EUA. São centenas de 
bilhões de dólares.
Da mesma forma, movimentos sociais, organizações da sociedade e outras 
formas associativas têm utilizado a cultura para estimular novos padrões de 
desenvolvimento locais, para vender produtos artesanais, para embalar lutas por 
reconhecimento, e assim por diante. 
Neste sentido, a Cultura aparece como elemento constitutivo dos 
muitos processos sociais contemporâneos. Não foi à toa que na década de 1960 
cultura relacionou-se com outros fenômenos típicos da época, como a ascensão 
de reivindicações de corte identitário no impulso dos movimentos sociais de 
gênero, ecológicos, pacifistas, muitas delas referindo-se a si próprias como 
minorias culturais. Vale lembrar que os Estudos Culturais não representam um 
esforço solitário de compreender as lógicas culturais. Se antes a Cultura era uma 
dimensão habitada por autoridades políticas, intelectuais, militares e eclesiásticas 
ou, então, por artistas e seus satélites, atualmente, a situação transformou-
se significativamente, potencializada pela contemporaneidade marcada pela 
“reflexividade” e pelo “risco” (GIDDENS, 1991). 
Já as explicações culturais que se baseiam tão somente em determinismos 
biológicos ou geográficos mostram-se parciais ou superados. A cultura passou a ser, 
de maneira geral, como construção histórica apreendida socialmente, carregando 
hierarquias, significados, relações de poder, convenções, mentefatos e artefatos 
que tornam inteligível a vida em grupo, sendo mutável, plural e carregada de 
relações de poder. É construída e reconstruída socialmente, através das relações 
sociais, sendo que sua transformação corresponde a um movimento complexo 
entre interior e exterior de um grupo, território ou sociedade. 
Essas visões rompem com a postura intelectual dos primórdios da 
Modernidade, embebedada de crença no positivismo e no evolucionismo, em que 
o padrão europeu e o nascente capitalismo e urbanização representariam o topo 
da evolução civilizacional. Neste sentido, o trajeto político trilhado pela categoria 
“cultura” vai da imposição de um modelo etnocêntrico de sociedade, de caráter 
descritivo, até o presente, em que Cultura é Política, porque, acima de tudo, é 
“Práxis”. 
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
77
LEITURA COMPLEMENTAR
O AVANÇO DA EXTREMA DIREITA NA EUROPA
Marcello Musto
Jornal da UNICAMP
O sexto maior país da União Europeia em número de habitantes fez uma 
guinada à direita. Depois de ter se afirmado nas presidenciais de maio, o partido 
populista Lei e Justiça venceu as eleições polonesas, obtendo não apenas 39% dos 
votos, mas a maioria absoluta no Parlamento.
Diferentemente dos recorrentes apelos ao nacionalismo e à palavra de 
ordem “primeiro aos poloneses”, as reivindicações do Lei e Justiça no campo da 
economia se concentraram na promessa de aumentar os gastos sociais, melhorar 
os salários e reduzir a idade para a aposentadoria. Um programa de esquerda, em 
um país onde a esquerda defendeu o neoliberalismo e ocupa, atualmente, uma 
posição absolutamente marginal – situação que se repete em outros lugares do 
continente.
Nos últimos vinte anos, o poder de decisão na Europa transitou em grande 
parte da esfera política àquela econômica. A economia se tornou um âmbito 
separado e intocável, que faz escolhas decisivas, porém fora do alcance do controle 
democrático.
A uniformidade na essência das decisões tomadas pelos governos de 
muitas nações e, em geral, a crescente hostilidade de grande parte da opinião 
pública em relação à tecnocracia de Bruxelas, contribuíram para provocar uma 
grande mudança no cenário europeu.
O VENTO POPULISTA
Os bipartidarismos instituídos, como aqueles espanhol e grego, implodiram. 
O mesmo rumo parece tomar a bipolaridade dos casos italiano e francês, da qual 
havia derivado uma nítida divisão de votos entre posicionamentos de centro-
direita e de centro-esquerda.
O panorama político europeu foi modificado – sem considerar a alternativa 
ao neoliberalismo proposta por Syriza e Podemos, que merece uma reflexão à parte 
– pelo acentuado crescimento dos índices de abstenção, o surgimento de partidos 
populistas e o notável avanço das forças de extrema direita.
O primeiro fenômeno se manifestou no momento das eleições legislativas 
de quase todos os Estados europeus.
O segundo, por sua vez, nasceu com a onda antieuropeísta. Nos últimos 
anos, surgiram novos movimentos políticos declarados “pós-ideológicos”, que se 
78
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
guiaram pela denúncia genérica contra a corrupção do sistema ou o euroceticismo. 
Em 2006, com base nesses princípios, o Partido Pirata foi fundado na Suécia e na 
Alemanha; em 2009, o Movimento 5 Estrelas se tornou a primeira força política 
na Itália, com 25,5% dos votos. Em 2013, nasceu em Berlim o Alternativa para a 
Alemanha. Em 2014 foi a vez do O Rio (TP) na Grécia e do crescimento em escala 
nacional do Ciudadanos (C’s), movimento fundado na Catalunha em 2006.
No mesmo período, organizações partidárias já há tempos existentes se 
afirmaram com propostas políticas parecidas. O caso mais ilustrativo é o do Partido 
pela Independência do Reino Unido (UKIP), que com 26,6% dos votos se tornou a 
primeira força nas últimas eleições europeias, acima do Manica.
A “NOVA” FACE DA DIREITA
O terceiro fenômeno aparece quando os efeitos da crise econômica 
começaram a ser sentidos de forma mais intensa, momento em que os partidos 
xenófobos, nacionalistas e neofascistas viram crescer enormemente seus votos. 
Em alguns casos, mudaram seu discurso político, substituindo a clássica 
divisão entre a direita e a esquerda pelo conflito “entre os de cima e os de baixo”. 
Nessa nova polarização, esses partidos se candidataram como representantes da 
última parcela, o povo, contra o establishment, ou seja, as forças que se alternaram 
no governo favorecendo o superpoder do mercado.
O aparato ideológico desses movimentos políticos mudou. O componente 
racista foi, em muitos casos, colocado em segundo plano em relação às temáticas 
econômicas. A oposição às políticas imigratórias – já cegas e restritivas– aplicadas 
na União Europeia se reforçou, recorrendo antes à guerra entre os pobres que 
à discriminação baseada na cor da pele ou na fé religiosa. Em um contexto de 
desemprego de massa e de grave conflito social, a xenofobia inflou por meio da 
propaganda que apresentava os imigrantes como os principais responsáveis pelos 
problemas relativos ao emprego e aos serviços sociais.
Essa mudança de rota certamente influenciou no resultado da Frente 
Nacional na França, que alcançou 25,2% dos votos nas eleições municipais de 2015. 
Na Europa, o partido de Marine Le Pen fez alianças com outras forças políticas 
consolidadas que pedem, há tempos, a saída do euro, a revisão dos tratados sobre 
imigração e a retomada da soberania nacional. Entre elas, as mais representativas 
são a Liga Norte na Itália, cujos resultados eleitorais melhoraram, a ponto de ela se 
tornar a primeira força de centro-direita nas eleições municipais de 2015; o Partido 
da Liberdade austríaco, que conseguiu 20,5% dos votos nas eleições nacionais de 
2013 e mais de 30% nas eleições municipais de Viena em 2015; e o Partido para 
Liberdade holandês, que obteve 13,3% nas eleições europeias.
Pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, as forças de extrema 
direita alcançaram resultados expressivos em outras regiões da Europa.
Na Suíça, as eleições recentes, de outubro de 2015, foram decididas com 
29,4% dos votos para o Partido do Povo Suíço, organização da ultradireita xenófoba 
TÓPICO 3 | IDENTIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
79
e promotora do referendo, aprovado em 2009, para proibir a construção de novas 
torres de mesquitas.
Também na Escandinávia, a extrema direita representa uma realidade bem 
consolidada. Na pátria por excelência do “modelo nórdico”, o Democratas Suecos, 
fundado em 1988 pela fusão de diversos grupos neonazistas, foi o terceiro partido 
mais votado nas eleições legislativas de 2014, com 12,8% dos votos.
Na Dinamarca e na Finlândia, dois partidos criados em 1995 alcançaram 
resultados ainda mais surpreendentes, transformando-se na segunda força política 
desses países. O Partido Popular Dinamarquês foi o movimento político mais votado 
nas últimas eleições europeias, com 26,6%. Esse sucesso foi confirmado nas eleições 
legislativas de 2015, que na sequência lhe proporcionaram a maioria no governo. 
Depois das eleições de 2015, às cadeiras do governo de Helsinki ascenderam 
também os Verdadeiros Finlandeses, com 17,6% dos votos.
Por fim, na Noruega, com 16,3% dos votos, o Partido do Progresso chegou pela 
primeira vez ao governo com posicionamentos políticos igualmente reacionários.
A destacada e quase uniforme afirmação desses partidos numa região onde 
as organizações do movimento operário exercitaram uma indiscutível hegemonia 
por longos anos foi possível também porque os partidos de extrema direita se 
apropriaram de batalhas e temáticas que no passado eram caras à esquerda, tanto 
a socialdemocrata, quanto a comunista.
A ascensão da direita adveio não somente fazendo apelo às clássicas 
campanhas reacionárias, mas também àquelas contra a globalização, a chegada 
de novos refugiados ou solicitantes de refúgio e o espectro da “islamização” da 
sociedade. Na base de seu sucesso esteve, sobretudo, a reivindicação de políticas 
tradicionalmente de esquerda, a favor do Estado Social. Trata-se, entretanto, de 
um novo tipo de welfare. Não mais universal, inclusivo e solidário, como aquele 
do passado, mas fundado em um princípio diferente: o acesso a direitos e serviços 
exclusivamente aos membros da preexistente comunidade nacional.
Ao amplo apoio das zonas rurais e de província, despovoadas e com taxa de 
desemprego recorde, a extrema direita escandinava reuniu, assim, aquele da classe 
operária que, em grande parte, cedeu à chantagem da “imigração ou Estado Social”.
PERIGO NO LESTE
Até mesmo em diversos países do Leste europeu, a extrema direita 
conseguiu se reorganizar depois do fim dos regimes pró-soviéticos. A União 
Nacional Ataque na Bulgária, o Partido Eslovaco Nacional e o Partido Grande Romênia são 
algumas das forças políticas que conseguiram bons resultados eleitorais e presença 
no Parlamento.
Nessa área da Europa, o caso mais alarmante é o da Hungria. Em 
seguida à introdução de severas medidas de austeridade aplicadas pelo Partido 
80
UNIDADE 1 | PROBLEMATIZANDO AS IDENTIDADES
Socialista húngaro, em acordo com as intimações da Troika, e à grave crise 
inflacionária derivada, subiu ao poder o Partido Fidesz. Além das medidas para 
purificar a magistratura e estabelecer o controle da grande mídia, em 2012, o governo 
húngaro introduziu uma nova Constituição com viés fortemente autoritário.
Para compor essa realidade já ameaçadora, desde 2010, o Movimento por 
uma Hungria Melhor (Jobbik) se tornou o terceiro partido do país (com 20,5% dos 
votos nas eleições de 2014). Mas, diferentemente das forças presentes na Europa 
ocidental e escandinava, Jobbik representa o clássico exemplo – hoje dominante no 
Leste – de formações de extrema direita que continuam a se valer do ódio contra as 
minorias (em particular aquela cigana), o antissemitismo e o anticomunismo como 
principais instrumentos de propaganda e de ação.
Enfim, completam esse panorama as várias organizações neonazistas 
espalhadas em diversas áreas da Europa. Um exemplo é o Aurora Dourada, que 
com 9,4% nas eleições europeias de 2014 e 7% nas eleições de setembro de 2015 
afirmou-se, em ambos os casos, como a terceira força política da Grécia.
Nesses anos, portanto, os partidos de extrema direita nitidamente ampliaram 
seu apoio em quase todas as partes da Europa. Muitas vezes, conseguiram 
hegemonizar o debate político e, em alguns casos, a entrar no governo.
A crescente expansão da União Europeia deslocou à direita o centro de 
gravidade político do continente, como testemunharam as rígidas posições 
extremistas assumidas pelos governos da Europa oriental durante a recente crise 
na Grécia e diante da chegada de povos em fuga dos palcos de guerra.
Trata-se de uma epidemia muito preocupante, para a qual é impossível 
pensar em uma resposta sem combater o vírus que a gerou: o mantra neoliberal 
hoje ainda tão em voga em Bruxelas.
FONTE: Disponível em: <http://www.unicamp.br/unicamp/sites/default/files/jornal/paginas/ju_646_
paginacor_11_web.pdf>. Acesso em: 7 jul. 2017.
81
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• Que em nossa época pós-moderna ou de alta modernidade as concepções sobre 
identidade são percebidas de modo mais plural.
• Identidade e diferença passam a ser percebidas como relacionais. Elas são 
concebidas como atos de criação linguística reproduzidos por meio de sistemas 
simbólicos. As identidades adquirem sentido por meio de linguagem e dos 
sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas.
• Que em razão dessa complexidade existe uma forte crítica de cunho 
epistemológico sobre as bases que assentam identidades essenciais. Daí a 
importância dos Estudos Culturais, do impacto da globalização na análise clássica 
das Ciências Sociais, a centralidade da Cultura e a Teoria do Reconhecimento.
• A Teoria do Reconhecimento preocupa-se com as questões culturais. Porém, 
articula esse debate a questões de injustiça e de justiça redistributiva. Quer dizer, 
os fenômenos como cultura, identidade, racismo etc. têm impactos materiais.
• A globalização (ou as globalizações) tem trazido novas formas de encarar o 
indivíduo dentre o global e nacional. Novas identidades locais, regionais, 
híbridas têm sido trazidas ao debate. 
82
1 Qual a importância da Teoria do Reconhecimento para as lutas de gênero e 
étnicas?
2 Sintetize a ideia de Boaventura de Sousa Santos sobre “globalizações”.
3 Segundo Anthony Giddens e Zygmunt Bauman, quais as características das 
identidades na nossa época?
4 Na questão da produção socialda identidade, explique o papel da diferença.
5 O que é uma identidade híbrida para Nestor Garcia Canclini e para Stuart 
Hall?
AUTOATIVIDADE
83
UNIDADE 2
TEORIAS DA ETNICIDADE, 
RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE 
MULTICULTURAL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade tem por objetivos:
• possibilitar a compreensão do desenvolvimento do conceito de etnicidade 
e sua relação com as ciências sociais;
• demonstrar as diferenças e similaridade entre os conceitos de raça, nação, 
etnia, assim como os empréstimos e contribuições entre eles;
• possibilitar a compreensão do conceito de etnia por meio dos pensamento 
de Fredrich Barth, quando discute identidade, grupos e fronteiras étnicas; 
• demonstrar a importância da etnia como conceito analítico para compre-
ender as realidades sociais na modernidade;
• refletir sobre as diásporas e deslocamentos na atualidade e os impactos 
advindos da mobilidade na modernidade.
Esta unidade está dividida em três tópicos. Você encontrará atividades que 
visam à compreensão dos conteúdos apresentados no final de cada tópico.
TÓPICO 1 – CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E 
SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
TÓPICO 2 – RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS 
ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
TÓPICO 3 – GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPOR-
TANTES PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS 
ONTEM E HOJE
84
85
TÓPICO 1
CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E 
SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Caros acadêmicos, nesta unidade de estudos vamos tratar de temas acerca 
de questões pouco comuns na sua trajetória acadêmica, mas que estão muito 
presentes nas Ciências Humanas, especialmente nas Ciências Sociais. São as 
chamadas Teorias Sociais sobre as relações étnico-raciais.
Essas teorias sociais servem para mostrar como os problemas que ocorrem 
em nossas sociedades são decorrentes destas relações e como é importante e 
necessário construir uma educação multicultural e uma pedagogia antirracista e 
plural com base nessas teorias sociais.
FIGURA 27 - DIVERSIDADE NA ESCOLA
FONTE: Disponível em: <https://sites.google.com/site/geografiadiversidadecultural/conclusao>. 
Acesso em: 20 mar. 2017.
Todos nós já ouvimos falar do antissemitismo, que na Segunda Guerra 
Mundial justificou o genocídio de milhares de judeus e ciganos. Também já ouvimos 
falar sobre o regime de segregação racial (Apartheid) por tanto tempo combatido 
por Nelson Mandela na África do Sul. Já ouvimos falar sobre o racismo nos Estados 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
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Unidos, especialmente no sul do país e seus tão importantes movimentos sociais 
de resistência. Também a maioria de nós já ouviu falar sobre a xenofobia ou sobre 
o racismo emergente nos países europeus, em relação aos imigrantes africanos, 
árabes e outros. Já ouvimos falar sobre os Skinheads, um movimento de jovens de 
origem operária, muito ligado ao neonazismo, além de outras tantas situações de 
preconceito e discriminação. Tudo isso é bastante conhecido, e, apesar de serem 
atitudes condenáveis, do ponto de vista dos direitos humanos, foram e ainda são, 
em muitos países, consideradas aceitáveis. Essas atitudes são reproduzidas pela 
educação, na maioria das vezes repassadas pela escola e pelas próprias famílias, 
de geração em geração.
Vocês devem estar se perguntando: afinal de contas, onde estão as 
explicações para estes absurdos? Onde começam e por que ainda hoje continuam a 
ocorrer, mesmo contrariando os princípios de solidariedade humana? 
Evidentemente que não há soluções fáceis, nem receitas de combate que 
deem conta das desigualdades e dos preconceitos, pois tratam-se de fenômenos 
dinâmicos e complexos no tempo e no espaço.
O que se pode afirmar é que o ponto de partida para os preconceitos e 
discriminações sociais parece estar quase sempre ligado à noção de DIFERENÇA. 
E que diferenças seriam estas?
 
As diferenças entre nós e os outros, entre os membros do nosso grupo e 
os membros dos outros grupos, entre homens e mulheres, entre heterossexuais 
e homossexuais, entre brancos e negros, entre pobres e ricos, entre esta e aquela 
etnia, entre esta e aquela religião.
Tomando como exemplo as comunidades religiosas, vamos verificar que 
os membros de cada uma delas pensam que sua religião é a melhor e a única 
verdadeira. Há inúmeros exemplos, na sociedade, de conflitos que nasceram por 
conta de diferenças religiosas. A história da humanidade está repleta de guerras 
religiosas, como as cruzadas cristãs, as inquisições, as guerras santas muçulmanas, 
os conflitos entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte, conflitos entre 
muçulmanos e católicos na Nigéria, conflito entre o ortodoxo católico e muçulmano 
em alguns países do Leste Europeu, como Kosovo. A partir também de uma questão 
religiosa se pode perceber que um país como a Índia organiza sua sociedade 
de forma hierarquizada, em castas superiores e inferiores e que também geram 
problemas de discriminação e de desigualdade. 
Mesmo em sociedades indígenas ou tribos africanas se pode observar 
diferenças e discriminações étnicas permeadas por relações de hierarquia. Ao 
olharmos para todas as nações do mundo, poderemos perceber que existem nações 
que se acham superiores às outras, nascendo daí o preconceito de nacionalidade 
que pode gerar ideologias como o nacionalismo e o fascismo.
 
Caros acadêmicos, vejam vocês que cada forma de preconceito que citamos 
aqui pode levar a um tipo de discriminação. Pode ser religiosa, racial, de sexo, de 
idade, de etnia, de cultura, de nacionalidade, entre outras. Por isso dizemos que o 
preconceito e a discriminação ocorrem sempre com base na diferença.
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
87
Por este motivo, nesta unidade de estudos vamos tratar de alguns 
temas considerados essenciais para compreender a questão das diferenças, das 
desigualdades sociais com foco nas relações interétnicas. 
2 DISCUTINDO A HISTORICIDADE DO TERMO ETNIA E SUA 
RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
Tradicionalmente, as ciências sociais têm evitado discutir amplamente 
a constituição dos grupos étnicos e a natureza de suas fronteiras, isso porque, 
especialmente no pensamento antropológico, consolidou-se uma perspectiva que 
considera que os grupos humanos compartilham uma cultura comum e que a 
variação cultural só seria possível na troca entre culturas distintas e não no interior 
de uma mesma cultura. Pensava-se que cada cultura se desenvolvia isoladamente 
e que, portanto, tratava-se de simplesmente observá-la e compará-la a outras, 
sem observar as diferenças em sua própria constituição. O termo etnia, como um 
conceito analítico para a compreensão dos agrupamentos humanos e para a noção 
de pertencimento, só começa a ser utilizado na década de 1960. Essa expressão 
aparece como uma forma cada vez mais comum de pensar a diferença, a partir 
de estudos sobre imigração, racismo, violência urbana e outros, decorrentes dos 
movimentos sociais do período.
FIGURA 28 - MOVIMENTOS SOCIAIS DA DÉCADA DE 1960
FONTE: Disponível em: <http://desinteracao.tumblr.com/post/25132636707/contracultura-novos-
ideais-nova-sociedade>. Acesso em: 20 jun. 2017.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
88
Antes disso, na década de 1940, na Inglaterra, França e EUA, por exemplo, 
nas primeiras acepções, o termo etnicidade designava simplesmente a pertença 
a um outro grupo que não os anglo-americanos (grupo branco predominante), e 
era utilizado como uma variável independente entre outros, como raça e religião. 
Era compreendido como um dos elementos a contribuir para o entendimento do 
comportamento dos indivíduos em sociedade.Pode-se dizer que essa maneira de perceber a etnia foi uma postura 
etnocêntrica, na medida em que determinava o grupo étnico como o diferente em 
relação àqueles que de fato, conforme destacam Poutignat e Streiff-Fenart (2011), 
tinham o “poder de nomear”.
Lévi-Strauss, um dos mais importantes antropólogos conhecidos, na década 
de 1970 acabou admitindo que a antropologia, em suas primeiras tentativas de 
interpretar as sociedades humanas, confundiu a noção essencialmente biológica 
da raça com as características étnicas e culturais dos povos, o que ele chamou 
de “pecado original da antropologia”. Para ele, esta confusão conceitual seria 
responsável pela “legitimação involuntária de todas as tentativas de discriminação 
e exploração” (SANSONE; FURTADO, 2014).
NOTA
“Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado 
como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através de nossos valores, 
nossos modelos, nossas definições do que é a existência. No plano intelectual, pode ser 
visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos de 
estranheza, medo, hostilidade etc.” (ROCHA, 1994, p. 7).
De acordo com Poutignat e Streiff-Fenart (2011), o autor a introduzir o 
conceito de etnia foi o francês Vacher de Lapouge, ainda em meados do século 
XIX. Ele tentava diferenciar o sentido de raça – que ele identifica como a reunião 
de características morfológicas de um determinado grupo humano, como cor de 
pele, altura etc. – das características psicológicas presentes nos grupos, como a 
cultura, a língua, a intelectualidade e as relações sociais. Para ele, a composição 
das características psicológicas ocorre por fatores, inclusive opostos aos que levam 
um grupo a se organizar com base na raça. O agrupamento com base psicológica 
não leva em conta fatores raciais, mas sim acontecimentos históricos, políticos, ou 
costumes comuns. 
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
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FIGURA 29 - GEORGES VACHER DE LAPOUGE (1854-1936)
FONTE: Disponível em: <https://www.contreculture.org/AT_Vacherd 
eLapouge.html>. Acesso em: 16 abr. 2017.
Lapouge afirma ainda que não se pode confundir etnia com a ideia 
de nação, visto que a solidariedade desses grupos, muitas vezes, se mantém 
independentemente das fronteiras nacionais. Mesmo distantes, os grupos étnicos 
mantêm sua afinidade. Para dar conta da solidariedade de um grupo particular, 
diferentemente daquela produzida na ideia de nação e de raça, é que incialmente 
o termo foi inserido nas ciências sociais por Lapouge (POUTIGNAT; STREIFF-
FENART, 2011). 
A partir de 1950, alguns estudiosos norte-americanos vão romper com o 
conceito antigo de etnicidade, quando começam a observar os diferentes grupos 
sociais. Eles passam a falar de determinados grupos como ethnics, ao passo que 
outros não o seriam. Definem etnia com base no seguinte entendimento: 
Se numa dada comunidade, “n” representa o número de grupos, 
segundo a antiga definição, ao passo que “n-1” representa o número 
de grupos segundo a nova definição, um dentre eles não é étnico, ou 
seja, o grupo étnico originário da comunidade. E existem pessoas que 
são étnicas, a saber, aqueles que diferem dele e que, por isso, não são 
considerados como membros integrais da sociedade local (HUGHES, 
1952, p. 137 apud POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 23).
Dito de outra forma, em uma sociedade em que há mistura de diferentes 
culturas, seriam étnicos todos aqueles que não pertencessem originalmente ao 
território. Por outro lado, os pertencentes ao território (os nativos) seriam não 
étnicos.
Por exemplo, se pudéssemos nos transportar para o momento das primeiras 
expedições portuguesas e espanholas nas Américas, poderíamos classificar os 
espanhóis e os portugueses como étnicos e os indígenas nativos americanos como 
não étnicos (HUGHES, 1952 apud POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011).
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
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FIGURA 30 - ETNIA NOS ANOS 1950
FONTE: Disponível em: <https://blogdocastorp.blogspot.com.br/2015/06/oswald-
de-andrade-erro-de-portugues.html>. Acesso em: 16 abr. 2017.
Na década de 1950 essas pesquisas eram realizadas quase sempre com 
base na resposta dos entrevistados sobre qual o país de origem de seus ancestrais. 
Assim, pensava-se identificar por antecedência a etnia de um dado grupo social 
com base apenas em suas origens estrangeiras. Não se consideravam as relações, 
as transformações e os processos de aculturações estabelecidos no novo território. 
Muito menos as miscigenações étnicas e culturais ocorridas em seu próprio 
território de origem.
Somente mais tarde, por volta da década de 1960, surgem os primeiros 
estudos que vão quebrar com a visão comum sobre as relações étnicas. De acordo 
com Poutignat e Streiff-Fenart (2011), os pensamentos de Walerstein (1960) e 
Gordon (1964) acabam produzindo estudos nos quais o termo etnicidade começa 
a ser percebido não apenas como a designação de um pertencimento étnico, mas 
também como os sentimentos associados a este pertencimento. O sentimento de 
formar um povo, o sentimento de pertencer a um grupo com uma história comum. 
Um exemplo que pode ilustrar esse pensamento é o caso dos afro-
americanos e suas associações urbanas, na década de 1960, nos EUA. Sua maneira 
de expressar a religião, seus cantos e ritmos, o movimento pelos direitos humanos, 
suas expressões culturais, seus valores e comportamentos. Essa composição cultural 
estava estruturada sobre uma ideia de pertencimento a um grupo, mas também 
aos sentimentos de dor, medos e alegrias, forjados sobre uma mesma história, a 
história da escravidão, da opressão e do distanciamento de sua identidade africana. 
Somente após a década de 1970 é que o termo etnicidade de fato vai impor-
se nas ciências sociais, com vários trabalhos, conferências, programas de pesquisa 
e também a criação de revistas especializadas na área. 
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
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O fato de um campo de estudos, há pouco tempo tão insignificante para 
as ciências sociais, ter adquirido status e relevância acadêmica estava diretamente 
relacionado ao contexto histórico e social de lutas e conflitos, considerados então 
“étnicos”, ou com “componentes étnicos” que emergiram em vários países, em 
nações de terceiro mundo e em países considerados pluriculturais, logo após a II 
Guerra Mundial. 
Poutignat e Streiff-Fenart (2011) acreditam que a desestruturação do 
colonialismo e as mudanças nas estruturas de autoridade nas sociedades ocidentais 
provocaram um acirramento das disputas entre os grupos étnicos em vários países, 
permitindo a luta por espaços de poder, produzindo situações de conflito, de 
competição, de regionalismos, de luta por territórios, tribalismos na África e outros.
FIGURA 31 - GUERRA DE KOSOVO (1999)
FONTE: Disponível em: <http://32war.blogspot.com.br/>. Acesso em: 17 jul. 2017.
A Guerra do Kosovo começou no dia 24 de março de 1999, na 
Iugoslávia, e acabou no dia 9 de junho do mesmo ano. Foram 79 dias de 
intensos bombardeios. De um lado, a província, Kosovo, lutando pela 
independência, e de outro, as forças sérvias, sob a liderança do presidente 
iugoslavo, Slobodan Milosevic, que não aceitava perder a província. Kosovo 
era uma província que tinha uma composição étnica e religiosa diferente da 
maioria da Iugoslávia, que era sérvia. Os kosovares são de origem albanesa 
e muçulmana, enquanto os sérvios são cristãos ortodoxos. Como 90% da 
população de Kosovo é albanesa, iniciou-se um movimento gerado pelos 
kosovares que buscava a separação de sérvios e albaneses, para que estes 
últimos tivessem autonomia. Slobodan Milosevic enviou tropas para a região 
com a ordem de aniquilar por completo a rebeliãodos kosovares. Os ataques 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
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aéreos mataram um grande número de civis inocentes. Diante dos ferozes 
ataques comandados pelo presidente da Iugoslávia, a ONU enviou suas 
tropas para os Balcãs a fim de colocar um ponto final nas ações militares. 
FONTE: Disponível em: <http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2015/06/ha-16-anos-termina 
va-guerra-do-kosovo>. Acesso em: 17 abr. 2017.
Por estes motivos é que a questão da etnicidade passa a fazer parte da 
agenda de estudos dentro das universidades. Por que era necessário compreender 
aquela realidade social tão específica dos grupos étnicos, que só foi possível 
conhecer devido à emergência das lutas sociais e da mobilização desses grupos. 
Foi precisamente por esses movimentos que o elemento étnico se torna objeto 
de estudos relevante para as ciências sociais. Juntamente com o debate étnico, 
o multiculturalismo enquanto movimento e campo de estudos também se 
desenvolveu e se expandiu nesse momento, devido a demandas sociais emergentes. 
Sobre o multiculturalismo, veremos mais adiante nesta unidade.
Procurando traçar um paralelo sobre a importância dos estudos étnicos e 
multiculturais, vamos abrir um parêntese e lembrar um conceito muito importante 
para as Ciências Sociais, que também emergiu devido a uma problemática 
específica da sociedade industrial no século XVIII na Europa, que foi o de Classe 
Social. Este conceito, desenvolvido por Karl Marx, foi fundamental para interpretar 
a sociedade naquele momento. 
Marx criou o conceito de classes para explicar as desigualdades sociais e 
de que forma essas desigualdades poderiam ser enfrentadas. Para ele, havia duas 
classes sociais distintas e antagônicas, tanto do ponto de vista econômico quanto 
ideológico: os burgueses e os proletários. Os burgueses eram os donos do capital, 
das indústrias, das terras e das máquinas, enquanto os proletários eram apenas 
trabalhadores braçais das fábricas, assalariados e sem propriedades. 
Na relação que se estabelecia entre esses dois grupos sociais, os proletários 
eram considerados o elo mais fraco e com menor poder de barganha para negociar, 
sendo constantemente explorados. Por isso, Marx entendia que só seria possível 
quebrar a hegemonia dos burgueses em relação aos proletários por meio da luta 
de classes. 
Influenciados pelo pensamento marxista ou não, o fato é que os países 
industrializados e em processo de industrialização na Europa do século XVIII 
viveram diversas lutas sociais, especialmente por direitos trabalhistas, econômicos, 
sociais e políticos. 
Nesse sentido, o conceito de classe social foi e é ainda muito importante 
para compreender a produção das diferenças, das desigualdades e das hierarquias 
sociais. Para Marx, a realidade social é produzida com base nos interesses de classe 
e não como um processo natural de disputa entre iguais.
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FIGURA 32 - REPRESENTAÇÃO DE CLASSES SOCIAIS
FONTE: Disponível em: <https://pt.slideshare.net/Joao_Marcelo/classes-sociais 
-47627316>. Acesso em: 12 abr. 2017.
Da mesma forma, o conceito de etnia no século XX entra em cena como 
um elemento fundamental para compreender as transformações sociais agora em 
curso no mundo contemporâneo. Percebe-se que apenas o conceito de classe social 
não dá conta de explicar a produção das desigualdades sociais, surgindo assim o 
conceito de etnia como instrumento de análise sobre a produção das diferenças.
Nesse sentido, a consciência de pertencer a um grupo, juntamente com 
a concepção de direitos humanos que começava a se fundamentar, logo após as 
lutas libertárias da década de 1960, impulsiona esses grupos a buscarem direitos 
coletivos, a lutar por espaços, a demarcar territórios. Portanto, a categoria etnia 
torna-se uma ferramenta sociológica e antropológica para compreender as ações 
sociais em curso, especialmente nas décadas de 1960 e 1970. 
Por este motivo, o conceito de etnia aparece como uma nova categoria social 
igualmente importante para a análise do século XX, tanto quanto foi a categoria de 
classe social para o século XIX.
Atualmente, o termo etnicidade tem estado presente em várias disciplinas 
das Ciências Sociais, e tem sido discutido em vários países do mundo, incluindo os 
países em desenvolvimento, os países em fase de pós-colonização, as sociedades 
pós-industriais e outras.
De maneira geral, o termo tem sido definido de forma ampla, sendo 
considerado como uma dimensão universal das relações humanas, e não como 
características que o senso comum define como étnicas. 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
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Essas diferenças não necessariamente estariam relacionadas a características 
físicas, como a cor de pele, o formato dos olhos ou a cor do cabelo. Também 
poderiam não estar relacionadas unicamente a traços culturais semelhantes, mas 
possivelmente à reunião desses elementos, assim como a noção de pertencimento 
a um grupo, ou subgrupos de uma mesma cultura. Vejamos a seguir um pouco 
mais sobre o conceito de etnia. 
2.1 CONCEITUANDO ETNIA E ETNICIDADE 
Caros acadêmicos, já que estamos falando em etnia, consideramos 
importante resgatar a história da palavra. O que vem a ser etnia e de onde surgiu 
este termo?
Etnia tem origem na palavra grega ethos e seu significado está relacionado 
aos hábitos e costumes de um determinado povo. Também está relacionada a 
outra palavra grega, chamada etnhos, que significa raça, povo e cultura. De acordo 
com Sansone e Alves (2014), o termo servia para definir aquelas populações que 
não tinham acesso à pólis, e por isso não participavam do regime social, político e 
moral da cidade-estado. O termo etnia, em sua fase inicial, carregava, portanto, um 
sentido de exclusão social. 
Com o passar do tempo, quando o termo etnia passa a ser considerado pelas 
Ciências Sociais, especialmente pela antropologia no século XIX, ele adquire uma 
dimensão inclusiva, passando a ter a função de classificar as diferentes sociedades 
e grupos humanos, assim como o conceito de raça e nação. Vejamos a seguir como 
este verbete é definido na perspectiva sociológica do termo. 
A etnia define-se, geralmente, como uma população designada por um 
nome (etnónimo), que se reclama de uma mesma origem, que possui uma 
tradição cultural comum, especificado por uma consciência de pertença ao 
mesmo grupo cuja unidade se apoia em geral numa língua, num território 
e numa história idênticos. Contudo, cada um destes critérios deve ser 
ponderado. O etnónimo pode ter sido um reagrupamento operado pelas 
necessidades da administração colonial. O nome pelo qual um grupo 
se designa valorizando-se pode diferir daquele pelo qual os vizinhos o 
designam. Em muitas etnias, de dimensão variável, nas doze mil que se 
enumeram em todo o mundo, a unidade foi reconstruída miticamente e 
as tradições locais propagaram mitos errados envolvendo tanto as cisões 
como os reagrupamentos após conquista, migração, federação, aliança. 
Por vezes, os membros de uma etnia dominada adotaram a língua do seu 
dominador (por exemplo, no Futa-Djalon guineense). O mesmo território 
pode ser partilhado em várias etnias e a mesma etnia pode encontrar-
se em espaços afastados (Arménios, Peules). Tendo a história oral sido 
sujeita a manipulações é a identificação dos membros com uma etnia e o 
seu sentimento de pertença bilateral que especifica a etnia enquanto tal 
(UFSC, 2017, p. 186). 
Portanto, o conceito de etnia por obrigação deve ser flexível, porque não 
se pode atribuir a etnia a um espaço geográfico restrito, nem a uma nação ou 
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
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cultura particular. Os componentesétnicos podem mesmo sofrer variações ou 
interferências, dependendo dos contingentes históricos. 
Como você pode perceber, o conceito de etnia é complexo e multifacetado. 
Por este motivo, devemos recorrer a um dos mais importantes pesquisadores, 
considerado referência de base para discussão das questões étnicas na atualidade, 
o antropólogo Fredrick Barth. 
Esse antropólogo nasceu na Alemanha, na cidade de Leipzig no ano de 
1928. Em sua trajetória acadêmica atuou como professor e pesquisador em várias 
universidades na área de antropologia social. Em Boston e Atlanta, nos Estados 
Unidos, na Universidade de Oslo, na cidade de Bergen, na Noruega, onde fundou 
o Departamento de Antropologia Social, e na Universidade de Harvard.
FIGURA 33 – FREDRICK BARTH
FONTE: Disponível em: <https://alchetron.com/Fredrik-Barth-160509-W>. 
Acesso em: 20 fev. 2017.
Sua mais importante obra foi “Os grupos étnicos e suas fronteiras”, 
editada em 1969. Nesta obra o autor discorre sobre o estudo da etnia, focando 
no desenvolvimento das negociações sobre as fronteiras geográficas entre grupos 
humanos. Barth conseguiu inserir na pauta das Ciências Sociais esse conceito 
analítico para dar conta das especificidades étnicas presentes em uma mesma 
cultura, demonstrando que a etnicidade é um elemento gerador de laços muito 
mais profundo do que a simples convivência em uma sociedade com mesmos 
padrões culturais.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
96
Barth foi casado com Unni Wikan, uma norueguesa, professora de 
Antropologia Social, também da Universidade de Oslo. Até pouco tempo era 
professor de Antropologia também na Universidade de Boston, mas faleceu de 
causas naturais em 24 de janeiro de 2016, aos 87 anos de idade. Vejamos agora o 
que diz Fredrick Barth sobre a questão da etnia na atualidade.
Fredrick Barth defende que não existem diferenças objetivas que fazem 
com que os grupos se organizem com noção de pertencimento coletivo. 
Ou seja, as pessoas se reúnem e se agrupam não necessariamente em 
função da sua cor de pele ou de caraterísticas culturais comuns, mas 
por questões subjetivas na construção de suas identidades (AGUIAR, 
2007, p. 88).
 Para Barth (1976), ainda não está superada a ideia de que as culturas podem 
ser preservadas se estiverem suficientemente distantes de culturas vizinhas, se 
estiverem isoladas socialmente ou geograficamente. Para o autor, traços culturais 
ou identidade étnica podem permanecer, independentemente dos processos de 
interação cultural ou aculturações. Nas palavras de Barth (1976, p. 9, tradução 
nossa):
As distinções étnicas categóricas não dependem de uma ausência 
de mobilidade, contato ou informação; em vez disso, elas envolvem 
processos sociais de exclusão e de incorporação pelo qual categorias 
discretas são mantidas apesar de mudar a participação no curso de 
histórias individuais. Em segundo lugar, é mostrado que certas relações 
sociais estáveis, persistentes, e muitas vezes importantes permanecem 
acima desses limites [...] Em outras palavras, as distinções étnicas 
não dependem de uma ausência de interação e aceitação social; por 
outro lado, geralmente elas são a base sobre a qual são construídos 
sistemas sociais que as contenham. Em um sistema social, a interação 
não leva a sua liquidação, como resultado da mudança e aculturação; 
diferenças culturais podem persistir, apesar do contato interétnico e 
interdependente.
Sabendo que o conceito de etnia é muito amplo e bastante complexo do 
ponto de vista das abordagens científicas, e para dar conta de uma necessidade 
acadêmica de definição do termo podemos inferir que etnicidade é o conjunto de 
características comuns a um grupo de pessoas que as diferenciam de outro grupo. 
Normalmente essas características incluem a língua, a cultura e também a noção 
de uma origem comum. Etnicidade é a autoconsciência da especificidade cultural 
e social de um grupo particular. 
Luvizotto (2009) define etnicidade ainda como um conceito relacional. 
Para ele, uma entidade relacional está sempre em construção, de um modo 
predominantemente contrastivo. Significa dizer que a etnicidade é construída no 
contexto das relações e conflitos intergrupais, ou seja, do mesmo modo que os 
conceitos de classe e de gênero se constroem na relação com o outro, também o 
conceito de etnicidade somente é possível devido ao contraste com o diferente, 
com o outro, com aquele que não se assemelha a mim. Por isso, pode-se dizer que 
é na comparação com os outros que posso conhecer minha identidade e reconhecer 
os meus.
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
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LEITURA COMPLEMENTAR
Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva
O conceito de etnia vem ganhando espaço cada vez maior nas Ciências 
Sociais, a partir das crescentes críticas ao conceito de raça e, em alguns casos, 
ao conceito de tribo. Apesar disso, é ainda considerado por muitos uma noção 
pouco definida. O termo etnia surgiu no início do século XIX para designar as 
características culturais próprias de um grupo, como a língua e os costumes. Foi 
criado por Vancher de Lapouge, antropólogo que acreditava que a raça era o fator 
determinante na história. Para ele, a raça era entendida como as características 
hereditárias comuns a um grupo de indivíduos. Elaborou então o conceito de etnia 
para se referir às características não abarcadas pela raça, definindo etnia como 
um agrupamento humano baseado em laços culturais compartilhados, de modo a 
diferenciar esse conceito do de raça (que estava associado a características físicas).
 Já Max Weber, por sua vez, fez uma distinção não apenas entre raça e 
etnia, mas também entre etnia e nação. Para ele, pertencer a uma raça era ter a 
mesma origem (biológica ou cultural), ao passo que pertencer a uma etnia era 
acreditar em uma origem cultural comum. A nação também possuía tal crença, 
mas acrescentava uma reivindicação de poder político. A etnia é um objeto de 
estudo da Antropologia, e se caracterizou desde cedo como tema principal da 
Etnologia, ciência que se propõe a estudar diferentes grupos étnicos, constituindo-
se em torno da própria noção de etnia. 
Durante o século XX, essas duas disciplinas multiplicaram as conceituações 
sobre o termo. Autores como Nadel e Meyers Fontes afirmam que uma etnia é 
um grupo cuja coesão vem de seus membros acreditarem possuir um antepassado 
comum, além de compartilharem uma mesma linguagem. Para essa definição, 
baseada em Weber, uma etnia seria um conjunto de indivíduos que afirma ter 
traços culturais comuns, distinguindo-se, assim, de outros grupos culturais. Nesse 
sentido, não importa se o grupo realmente descende de uma mesma comunidade 
original: o que importa é que os indivíduos compartilhem essa crença em uma 
origem comum. Uma crença confirmada, a seu ver, pelos costumes semelhantes. 
Assim, uma etnia se sente parte de uma mesma comunidade que possui 
religião, língua, costumes - logo, uma cultura - em comum. Notemos que nesse 
conceito não importa somente o fato de as pessoas que compõem uma etnia 
compartilharem os mesmos costumes, mas sobretudo o fato de elas acreditarem 
fazer parte de um mesmo grupo. Nesse sentido, a etnia é uma construção artificial 
do grupo, e sua existência depende de seus integrantes quererem e acreditarem 
fazer parte dela. 
Toda etnia se identifica como um grupo distinto, considerando-se diferente 
de outros grupos, e baseia sua identidade em uma religião e rituais específicos. 
Assim, os judeus e muçulmanos dentro das atuais nações europeias são, cada um 
por seu lado, etnias, por se identificarem como grupos distintos e reivindicarem 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
98
identidades próprias baseadas em religiões e costumes diferentes dassociedades 
em que estão inseridos. No caso dos muçulmanos, a construção artificial desse 
conceito é mais nítida, pois quase sempre oriundos de migrações recentes para a 
Europa, seus integrantes são originários de diferentes países e culturas distintas, 
mas ao se instalarem em lugares como a França e a Inglaterra em geral se identificam 
como uma mesma etnia, independentemente do país de origem. Tal situação pode 
ser percebida, sobretudo, com relação aos descendentes dos primeiros imigrantes, 
e a construção de uma identidade comum "árabe" ou "muçulmana" vem tanto do 
fato de possuírem uma mesma religião quanto do fato de a sociedade os tratar em 
geral como um grupo homogêneo. 
Alguns sociólogos diferenciam etnia e grupo étnico, pois para eles um 
grupo precisa de uma interação entre todos os seus membros, enquanto a etnia 
abrange um número grande demais de pessoas para que haja relação direta entre 
todas elas. O grupo étnico seria, então, um conjunto de indivíduos que apresenta 
uma interação entre todos os seus membros, além das características gerais da 
etnia. Por essa distinção, os membros de uma vizinhança judaica em uma cidade do 
Ocidente, por exemplo, onde todos os indivíduos frequentam a mesma sinagoga, 
constituem um grupo étnico, ao passo que os judeus como um todo compõem uma 
etnia. 
Atualmente, os debates em torno da ideia de etnia continuam acirrados. 
Primeiro porque a Antropologia não considera mais raça um conceito determinado 
biologicamente. Hoje, raça significa a percepção das diferenças físicas pelos grupos 
sociais, e como essa percepção afeta as relações sociais, aproxima-se bastante da 
própria definição de etnia. Por outro lado, alguns antropólogos franceses, no fim 
da década de 1980, afirmaram que o conceito de etnia estava sendo pregado para 
as sociedades ditas primitivas com a intenção de apagar a historicidade delas. 
Para Amselle, por exemplo, o conceito de etnia, bem como o de tribo, era 
usado em substituição ao de nação, para as "sociedades primitivas”, passando a 
ideia de nação a pertencer exclusivamente aos "Estados civilizados”. Dessa forma, 
o conceito de etnia teria um sentido etnocêntrico bastante acentuado, mas, apesar 
dessas controvérsias, a Antropologia trabalha também com a noção de etnicidade, 
que é um sentimento de pertencer exclusivamente a um determinado grupo étnico. 
Um conceito próximo ao de identidade.
Podemos perceber, dessa forma, os intensos debates em torno do conceito 
de etnia, e o quanto esse conceito ainda precisa ser mais bem caracterizado. Não 
obstante, os estudos etnológicos têm crescido, principalmente porque, desde a 
década de 1960, muitas reivindicações políticas no mundo se apresentam como 
étnicas, baseadas em crenças em uma identidade comum, contexto esse que motiva 
os cientistas sociais a continuarem refletindo sobre o conceito. É preciso ressaltar 
que, se, por um lado, muitas comunidades se autoafirmam positivamente a partir 
de seus costumes, por outro, a identidade étnica (a etnicidade) é um elemento que 
contribui para a construção do etnocentrismo. Ao se identificarem como membros 
de uma cultura em comum, diferente dos que o cercam, um determinado grupo 
reage às culturas diferentes muitas vezes com repulsa. 
TÓPICO 1 | CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCEITO DE ETNICIDADE E SUA RELAÇÃO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS
99
O sentimento de superioridade diante de diferentes culturas é, assim, 
criado na identidade étnica. Dessa forma, os franceses se sentem superiores aos 
"árabes" (como classificam todos os que professam a fé muçulmana, sejam árabes 
ou não) por acreditarem possuir uma origem diferente e uma cultura que os outros 
não compartilham. Isso acontece com os norte-americanos diante dos hispânicos, 
e já aconteceu em outras épocas da história, como entre os alemães e os judeus 
durante a Segunda Guerra Mundial. Em suma, a discussão sobre etnia nos leva a 
repensar o próprio conceito de etnocentrismo. 
Para o professor de História, conhecer o conceito de etnia é uma exigência 
fundamental, pois os programas curriculares discutem cada vez mais as minorias 
no Brasil. Essas minorias são estudadas pela Antropologia como etnias, mas 
algumas delas ainda se identificam muitas vezes como raças. É o caso dos negros 
brasileiros. Enquanto os antropólogos discutem a validade de termos como raça e 
etnia, o que precisamos apreender de todo esse debate e discutir com os alunos é 
que, seja na raça ou na etnia, o fato de um indivíduo pertencer a um desses grupos 
é mais uma questão de sentimento, de identidade, do que de determinação física 
ou mesmo cultural. Vale lembrar ainda que tanto a concepção atual de raça quanto 
a de etnia são conceitos que buscam dar conta da multiplicidade de culturas, de 
hábitos e crenças que a humanidade apresenta, e das implicações políticas dessas 
diferenças. 
FONTE: Disponível em: <http://www.igtf.rs.gov.br/wp-content/uploads/2012/03/conceito_ETNIA.
pdf>. Acesso em: 27 abr. 2017.
100
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• O surgimento do termo etnia acontece em meados do século XIX, pelo francês Vacher 
de Lapouge, para diferenciar o sentido de raça que ele identificava como a reunião de 
características físicas dos grupos humanos, das características psicológicas presentes 
nos grupos, como a cultura, linguagem e comportamento social.
• O desenvolvimento do conceito de etnia e etnicidade cresce a partir dos anos 1960. 
Com base nos pensamentos de Walerstein (1960) e Gordon (1964), os estudos 
sobre etnicidade começam a ser percebidos não apenas como a designação de 
um pertencimento étnico, mas também como os sentimentos associados a este 
pertencimento. O sentimento de formar um povo, o sentimento de pertencer a 
um grupo com uma história comum. 
• A entrada deste campo de estudos nas Ciências Sociais ganha espaço após a 
década de 1970, é que o termo etnicidade de fato vai impor-se nas Ciências 
Sociais, com vários trabalhos, conferências, programas de pesquisa e também a 
criação de revistas especializadas na área. 
• Os motivos pelos quais este campo de estudos se torna relevante nas 
universidades, e particularmente nas Ciências Sociais. A desestruturação 
do colonialismo e as mudanças nas estruturas de autoridade nas sociedades 
ocidentais provocaram um acirramento das disputas entre os grupos étnicos, 
em vários países, permitindo a luta por espaços de poder, produzindo situações 
de conflito, de competição, de regionalismos, de luta por territórios, tribalismos 
na África e outros. Por estes motivos é que a questão da etnicidade passa a fazer 
parte da agenda de estudos dentro das universidades.
• Por este motivo também o conceito de classe social não dá conta de explicar a 
produção das desigualdades sociais, surgindo assim o conceito de etnia como 
instrumento de análise sobre a produção das diferenças.
• A importância do pensamento de Fredrick Barth, a partir da década de 1970, 
acerca do termo etnicidade. O autor traz traços culturais, ou identidades étnicas 
que podem permanecer, independentemente dos processos de interação 
cultural, ou aculturações.
• Conceito de etnicidade a partir da visão de Barth: É o conjunto de características 
comuns a um grupo de pessoas, que as diferenciam de outro grupo. Normalmente 
essas características incluem a língua, a cultura e também a noção de uma 
origem comum. Etnicidade é a autoconsciência da especificidade cultural e 
social de um grupo particular. 
• A etnicidade também é um conceito relacional, assim como os conceitos de classe 
e de gênero. Eles se constroem na relação com o outro, devido ao contraste com 
o diferente.
101
AUTOATIVIDADE
1 A partir dos estudos do francês Vacher de Lapouge, o termo etnicidade surge 
no século XIX para diferenciar as características físicas das características 
culturais dos grupos humanos. Na década de 1970, o autor FredrickBarth dá 
um novo entendimento ao sentido do termo. O que Fredrick Barth compreende 
por etnicidade? 
2 Apenas o conceito de classe social não dá conta de explicar a produção das 
desigualdades sociais nos tempos atuais, por este motivo é que surge o conceito 
de etnicidade e outros conceitos analíticos, como o de gênero, por exemplo. 
Com suas palavras, explique os motivos que possibilitam essa afirmação.
102
103
TÓPICO 2
RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, 
GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Quando fazemos o resgate do conceito de etnia, encontramos muitas 
relações com outros conceitos, como o de raça e nação. Por este motivo, a seguir 
vamos procurar demonstrar a relação entre eles, além de realizar uma discussão 
sobre identidade étnica, grupos étnicos e suas fronteiras.
Quando os autores se debruçam sobre estes conceitos, todos procuram, de 
alguma forma, compreender os princípios que definem a atração ou o afastamento 
de populações. Todos, de alguma forma, compreendem que é pelo princípio da 
diferença que estes grupos se atraem ou se repelem. 
Como se constituem as diferenças? Elas são naturais? São biológicas? Ou 
são construídas socialmente? Vejamos a seguir como os conceitos de raça, etnia e 
nação contribuíram para demarcar as fronteiras entre “nós” e os “outros”.
2 A IMPORTÂNCIA DO CONCEITO DE RAÇA PARA A 
CONSTRUÇÃO DA DESIGUALDADE
A noção de raças humanas foi bastante difundida até o início do século 
XX, sendo que o termo “raça” era utilizado para designar características físicas 
das diferentes populações mundiais, como os asiáticos, os negros, os indígenas e 
os brancos. Havia uma crença quase generalizada de que esses diferentes grupos 
humanos apresentavam particularidades genéticas, físicas, biológicas e intelectuais 
muito diferentes umas das outras. Além da diferença, era comum a ideia de que 
algumas raças seriam biologicamente superiores a outras. Este tipo de pensamento foi 
responsável pelo desenvolvimento de uma corrente de pensamento chamada Eugenia.
UNI
Eugenia – Movimento originado por Francis Galton (1822-1911), autor de Hereditary 
Genius. “O termo é correntemente definido como uma ciência voltada para o melhoramento 
das potencialidades genéticas da espécie humana. Sua história, particularmente no que diz 
respeito às relações raciais, tem sido marcada pela controvérsia” (CASHMORE, 2000, p. 203). 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
104
FIGURA 34 - CORRENTE EUGENISTA
FONTE: Disponível em: <http://09eugenesia.blogspot.com.br/2009_04_01_archive.
html>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Além das diferenças, também se acreditava na existência de uma hierarquia, 
na qual alguns grupos seriam mais desenvolvidos que outros. Essa perspectiva 
se construiu ao longo do tempo pelo senso comum, mas também foi por muito 
tempo avalizada pelo meio acadêmico, provavelmente devido a resquícios ainda 
das teorias evolucionistas dos séculos anteriores.
Como resultado deste modelo de pensamento, vários países, especialmente 
aqueles que ainda possuíam colônias ou problemas sociais decorrentes da 
escravidão, acabaram por assumir o discurso racista para justificar suas ações. 
Dois exemplos claros são: A segregação racial nos Estados Unidos e o Apartheid na 
África do Sul.
NOTA
Segregação racial e apartheid
Há dois tipos de segregação: de jure e de facto. A segregação de jure representa uma situação 
em que grupos definidos com base em diferenças raciais ou étnicas putativas são formalmente 
separados por lei. Na segunda situação (de facto), tal separação existe sem uma restrição formal 
legal.
Embora tenha havido numerosos casos de segregação legal ao longo da história, as mais 
conhecidas são as leis “Jim Crow”, da era pós-guerra de secessão nos Estados Unidos, e o 
Apartheid na África do Sul. No primeiro caso, os níveis de segregação racial entre as comunidades 
negra e branca aumentaram depois da abolição do regime escravocrata. A maioria dos analistas 
apontou tal situação como resultado do medo de uma relação igualitária entre os escravos 
libertos e os seus antigos senhores: manter a diferença era, certamente, um modo de prolongar 
o sistema de subordinação, enraizado na noção de uma hierarquia “racial” étnica. O apartheid 
sul-africano estendeu e formalizou o processo de segregação estritamente residencial de 1948 
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
105
até a década de 1990, o que foi consagrado pelo Ato de Áreas Grupais e pela política “Bantustan”.
A segregação legalmente reforçada foi, nos dois países, muito além da questão do assentamento 
residencial. Os não brancos eram impedidos de compartilhar de toda uma extensão de serviços 
com os brancos: educação, emprego e saúde; eram proibidos até mesmo de frequentar locais 
públicos, como restaurantes, cafés, cinemas, clubes, transporte público e piscinas/praias. O 
apartheid chegou ao extremo de separar as entradas de prédios públicos, estabelecer bancos e 
fontes de parques, e assim por diante (CASHMORE, 2000, p. 505). 
Como você sabe, caro acadêmico, um dos momentos mais terríveis da 
história da humanidade foi a Segunda Guerra Mundial, especialmente por sua 
ideologia racista. A Alemanha nazista produziu um dos piores massacres étnicos 
de que se tem notícia. Com o objetivo de garantir uma “raça pura” na Alemanha, 
Hitler exterminou mais de seis milhões de judeus nos campos de concentração.
DICAS
Para compreender melhor o nazismo e o holocausto, recomendamos que você 
assista aos filmes a seguir: “A lista de Schindler”, “Olga”, “O menino do pijama listrado”, “O pianista” 
e “A vida é bela”.
FONTE: Disponíveis em: <http://www.clickgratis.com.br/fotos-imagens/search/?q=filmes/>. 
Acesso em: 20 fev. 2017.
Devido às pesquisas genéticas, se sabe hoje que não existem raças humanas 
diferentes. Não há nenhuma evidência que afirme que características físicas, como 
a cor da pele, o formato do olho, a textura do cabelo, possam implicar em diferenças 
comportamentais, de valores, ou morais, como se pensava. 
Por este motivo, logo depois da Segunda Guerra Mundial, vários países se 
organizaram na luta pela retirada do termo raça da pauta das ciências em geral. O 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
106
objetivo da luta antirracista foi demonstrar a fragilidade do conceito de raça, seu 
caráter ilegítimo e não científico, sendo que os conceitos de cultura ou de grupos 
étnicos poderiam ser muito mais úteis para compreender as diferenças humanas 
do que o conceito de raça.
Um dos resultados destes movimentos foi o desmantelamento do 
segregacionismo racial nos Estados Unidos, devido às lutas pelos direitos civis na 
década de 1960. A partir daí se começou a perceber quais mecanismos sociais de 
fato contribuíam para a manutenção das desigualdades raciais. As desigualdades 
não eram produzidas por questões inerentes à raça (incapacidade física ou 
intelectual), mas sim por todo um sistema social, político e econômico que oferecia 
aos negros oportunidades desiguais, como a falta de acesso a escolas e a empregos 
de qualidade, como a exposição à pobreza (GUIMARÃES, 1995). Por este motivo, 
a ideia de discriminação racial passa a ser percebida a partir de outros conceitos 
interpretativos da realidade, como os de classe, de gênero e de status social. 
O nacionalismo negro e o movimento feminista nos anos 70 imprimiram 
uma outra dinâmica às percepções antirracistas; o primeiro, pela luta 
contra a destruição e a inferiorização do legado cultural africano, 
denunciando o estatuto subordinado do negro e da África implícito no 
antirracismo assimilacionista e universalista; o segundo, pela ênfase com 
que denunciou o caráter racializado das diferenças sexuais como parte 
de um processode naturalização e de justificação social de hierarquias 
culturais (GUIMARÃES, 1995, p. 29).
Essa mudança de percepção começa a fazer diferença principalmente para 
os grupos étnicos excluídos, para as minorias étnicas em geral e para as populações 
dos países menos desenvolvidos. 
A autoestima elevada e a exaltação das diferenças étnicas e culturais dos 
grupos étnicos começam a ser percebidas, especialmente na Europa, quando se 
amplia o processo de imigração destas populações para seus países. A Europa, que 
antes se percebia antirracista, agora tinha que lidar com povos estrangeiros que 
não assimilavam sua cultura. Ao contrário, os imigrantes agora demonstravam 
orgulhosamente seus valores, sua religião e suas diferenças. Por conta disso, os 
países europeus, aos poucos, foram desenvolvendo um novo tipo de racismo, o 
racismo sem raça (GUIMARÃES, 1995).
Vocês devem estar se perguntando: o que é racismo sem raça?
O racismo sem raça acontece quando as características étnicas ou culturais 
(religiosidade, crenças, regras sociais) de um grupo são tomadas no lugar das 
características biológicas/raça (cor de cabelo, pele, traços fisionômicos) para 
justificar relações de hierarquia e desigualdades sociais. “O racismo (sem raça) 
é a redução do cultural ao biológico, a tentativa de fazer o primeiro depender do 
segundo. O racismo existe sempre que se pretende explicar um dado status social 
por uma característica natural” (GUIMARÃES, 1995, p. 31).
 
Por isso, queridos acadêmicos, temos que ter muito cuidado com as 
naturalizações que costumamos fazer no nosso dia a dia. Naturalizar significa 
essencializar uma situação, quase sempre no sentido de manter o status quo. 
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
107
As religiões, de maneira geral, costumam construir seus discursos com base 
em argumentos essencialistas ou “naturais”. Assim também a ciência, quando evita 
transpor paradigmas científicos. A ideia de “natural” aparece sempre descolada de 
um contexto histórico, político ou cultural, que lhe dê suporte. A ideia de que algo 
é “essencialmente natural” aparece sempre destituída de interesses, quase como 
se tivesse uma origem irracional, ligada a características essenciais ou biológicas 
do humano, ou a determinações divinas. A ideia de que “foi sempre assim e, 
portanto, continuará sendo” serve quase sempre para justificar a manutenção de 
uma hierarquia.
Toda e qualquer hierarquia social faz apelo a uma ordem natural que 
a justifique, ainda que tal justificativa, e racionalização, possa se fazer 
de diferentes maneiras. A ordem econômica, por exemplo, pode ser 
justificada como sendo um produto de virtudes individuais (os pobres são 
pobres porque lhes faltam sentimentos nobres, virtudes e valores do ethos 
capitalista); do mesmo modo, se justifica usualmente a posição subordinada 
das mulheres pelas características do sexo feminino; a escravidão dos 
africanos, assim como a posição social inferior de seus descendentes, 
pelas limitações da "raça" negra etc. Em cada um desses casos, quando a 
ideia de uma ordem natural limita formações sociais, emergem sistemas 
hierárquicos rígidos e inescapáveis (GUIMARÃES, 1995, p. 31).
Percebe-se, portanto, que há muito tempo as diferentes posições sociais 
são demarcadas e justificadas com base em consensos sociais. Esses consensos 
são historicamente reproduzidos com base em naturalizações, sobre falsas ideias 
relativas aos papéis sociais que os indivíduos devem ou não reproduzir, como ser 
negro, mulher, pobre, homossexual, entre outros. 
O problema da naturalização é que ela imputa aos indivíduos um lugar 
predeterminado na hierarquia social, que quase sempre é marginal, menor e 
excluído. Mais adiante vamos verificar como na história se produziram as diferenças 
entre homens e mulheres, com base na naturalização e essencialização de um 
modelo de feminino, relacionando-o a um lugar de inferioridade e subordinação 
em relação ao masculino. Ou seja, o componente ideológico da ideia de natureza 
parece que está sempre presente nas hierarquias sociais e não se pode querer 
entender as realidades sociais sem levar essa perspectiva em consideração, ainda 
que seja sempre mascarada, uma vez que se funda sobre uma pretensa “verdade 
incontestável”. É precisamente a ideia de naturalização que constitui o cerne dos 
meios técnicos de que dispõem as relações de dominação e de força para se impor 
aos dominados e mantê-los dominados. 
“Se podemos falar de tais práticas discriminatórias designando-as por 
termos específicos, como “sexismo” ou “etnicismo”, é porque a referência à raça 
encontra-se subsumida em outras diferenças, funcionando apenas como uma 
imagem de diferença irredutível” (GUIMARÃES, 1995, p. 32). Ou seja, quando a 
questão racial está presente como elemento de diferenciação, ainda que não seja 
objetivamente nomeada, a observação de suas especificidades só pode ser realizada 
a partir da utilização de outros conceitos de análise, como classe, gênero, etnia, 
geração, nacionalidade e outros. Essa perspectiva se funda na ideia de que todo 
tipo de racismo é necessariamente a naturalização de alguma desigualdade social.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
108
3 ETNIA, RAÇA E NAÇÃO: APROXIMAÇÕES E 
DIFERENCIAÇÕES NECESSÁRIAS
Como já sabemos, inicialmente o termo etnia foi concebido para distinguir 
e classificar os povos que não podiam ser classificados com base no conceito de 
nação e de raça. Isso porque tinha-se a ideia de que o conceito de nação servia para 
definir o grupo com base em sua identidade política e sócio-histórica, e o de raça 
para definir o grupo com base em suas características biológicas. Como não havia 
um conceito capaz de explicar os agrupamentos humanos, ou identidades comuns 
que se estabeleciam com base em elementos culturais e linguísticos, muitas vezes 
sem compartilharem o mesmo espaço geográfico ou político, é que surgiu o termo 
etnia.
Muitos autores, que defendem a utilização do termo Nação no lugar de 
Etnia, argumentam que a força que inspira os indivíduos a se manterem unidos 
em uma determinada nação é justamente o distanciamento, o esquecimento 
dos elementos étnicos (culturais, linguísticos, históricos) dos diferentes grupos 
presentes na nação, em detrimento de um sentimento de pertença maior, que é a 
identidade nacional. 
A essência de uma nação reside no fato de todos os indivíduos terem 
muitas coisas em comum, e igualmente que todos tenham esquecido 
bem as coisas. A memória fundadora da unidade nacional é, ao mesmo 
tempo e necessariamente, esquecimento das condições de produção 
desta unidade: a violência e o arbitrário originais e a multiplicidade 
das origens étnicas [...] A nação, enquanto entidade política, constrói-
se, então, não a partir do grupo racial ou étnico, mas frequentemente 
contra ele: é porque não podem mais dizer que são burgondes, alains, 
taifales ou visigodos que os habitantes da França podem ser cidadãos 
franceses (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 36).
O que Poutignat e Streiff-Fenart (2011) argumentam é que o sentido de 
nação se constrói sobre o afastamento, e, portanto, sobre o esquecimento dos 
elementos culturais e étnicos que os imigrantes trouxeram de sua terra natal 
para o território em que residem hoje. Segundo esses autores, quanto antes eles 
esquecerem suas referências étnico-culturais, mais rápido será desenvolvido o 
senso de pertencimento à nação que os hospeda hoje. 
Outros autores defendem que para que uma nação se forme, é necessário 
haver um ou mais povos, um território e uma consciência comum. Quando outros 
elementos aparecem, como identidade de língua, religião e etnia, eles reforçam a 
unidade nacional.
Para produzirmos um conceito coerente de nação podemos inferir, 
portanto, que NAÇÃO refere-se aum agrupamento humano autônomo, fixado 
em um determinado território, com limites bem definidos, que possui em sua 
base uma identidade política e sócio-histórica na qual seus membros respeitam as 
instituições.
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
109
 Weber, em seus estudos sociológicos, também contribui com a discussão 
acerca dos temas em questão. Ele procura distinguir as ideias de raça, etnia e nação 
(POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011).
O que distingue a pertença racial da pertença étnica é que a primeira 
é realmente fundada na comunidade de origem, ao passo que o que 
funda o grupo étnico é a crença subjetiva na comunidade de origem. 
Quanto à nação, ela é, como o grupo étnico, baseada na crença da vida 
em comum, mas se distingue deste último pela paixão (pathos) ligada à 
reivindicação de um poderio político (POUTIGNAT; STREIFF-FENART 
2011, p. 37).
Portanto, pode-se dizer que, para os autores supracitados, as comunidades 
de origem (leia-se grupos étnicos) seriam aquelas que estão reunidas devido à 
crença subjetiva de pertencimento a uma comunidade, pouco importando se 
existem laços de sangue ou não, pois essa crença torna esses grupos unidos e lhes 
confere identidade. Mais tarde, Friedrich Barth, aprofundando o pensamento de 
Weber, vai desenvolver o que chamou de “Teoria dos Grupos Étnicos”.
NOTA
O conceito de Subjetividade surge na psicologia e de maneira geral é entendido 
como o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto 
por emoções, sentimentos e pensamentos, ou seja, representa o espaço íntimo do indivíduo, 
no qual ele elabora suas opiniões sobre o mundo (mundo interno) e por meio do qual ele 
se relaciona com o mundo social (mundo externo), resultando tanto em marcas singulares 
na formação do indivíduo quanto na construção de crenças e valores compartilhados na 
dimensão cultural que vão constituir a experiência histórica e coletiva dos grupos e populações. 
Nesse sentido, a ideia de raça, enquanto determinação biológica, não 
é importante para as Ciências Sociais. Ela só adquire importância quando é um 
dos elementos que define o comportamento dos grupos, quando é percebida 
subjetivamente como uma característica importante para a definição do grupo, 
quando funda situações de diferenciação social, como o racismo, o preconceito e 
as relações de dominação. 
4 IDENTIDADE ÉTNICA, ETNICIDADE, GRUPOS ÉTNICOS E 
SUAS FRONTEIRAS
Pelo que estudamos até aqui, podemos afirmar que a identidade étnica 
se constrói na relação com os outros grupos. A reunião entre os que se sentem 
iguais, ou seja, da mesma “espécie”, está associada à repulsa por aqueles que são 
percebidos como estrangeiros. O senso de pertencimento é tanto maior quanto for 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
110
a oposição, o contraste com o diferente. Por isso se diz que a identidade étnica se 
constrói de maneira relacional. 
Compreender que a identidade étnica se constrói pelo contraste com 
o outro significa dizer que não é o isolamento que permite a manutenção dos 
grupos étnicos e sua sensação de pertença, mas a verificação e a comunicação das 
diferenças das quais os indivíduos se apropriam para estabelecer fronteiras étnicas 
(POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011).
O conteúdo da comunidade étnica é a crença em uma honra específica: 
a honra étnica pela qual os estilos de vida particulares se encarregam de 
valores sobre os quais se fundam as pretensões à dignidade daqueles 
que os praticam, e o desprezo por aqueles que praticam costumes 
estrangeiros (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 40).
Em última análise a etnia estaria ancorada nas crenças, no sentimento, 
nas representações coletivas, e a raça estaria ligada aos elementos biológicos e de 
parentesco.
 
Uma importante descoberta das teorias da etnicidade é que a identidade 
étnica de um grupo normalmente não é definida somente por seus componentes, 
mas também, em grande medida, por grupos externos. Como já foi dito antes, a 
construção da etnia se dá por meio do jogo das relações sociais entre membros 
e não membros de um grupo étnico. É precisamente esse processo, essa relação 
dialética que empresta à etnicidade características dinâmicas, sempre sujeitas a 
redefinição e recomposição.
É muito comum encontrarmos situações em que o próprio Estado, por meio 
de suas políticas públicas, acaba incorrendo em racismo institucionalizado, pois 
muitas vezes os grupos excluídos não possuem liberdade, autonomia ou mesmo 
outra condição de existência a não ser aquela que lhes é imposta pelos mecanismos 
institucionais de proteção do Estado.
Nesse sentido, é importante destacar a diferença entre grupos étnicos e 
minorias. Os grupos étnicos se autorreconhecem e são reconhecidos pelos outros, 
enquanto as minorias são definidas pelo processo de discriminação e preconceito 
exercido pelos grupos dominantes.
O que queremos deixar claro é que a nomeação de um grupo étnico não 
é apenas uma influência endógena sofrida pelos grupos étnicos, mas também 
produtora de etnicidade. A imposição de um rótulo pelo grupo dominante 
possui o poder de definir, de fazer existir uma coletividade de indivíduos, 
independentemente do que eles mesmos possam pensar de sua pertença a um 
grupo. Vejamos o que dizem Poutignat e Streiff-Fenart (2011, p. 144) sobre a condição 
étnica dos grupos africanos aos serem trazidos e escravizados nas Américas: “Os 
negros americanos, como grupo social significativo requerendo um nome, foram 
criados como tais pelos homens brancos que para lá os levaram e colocaram nas 
mesmas condições de vida. Eles criaram o grupo e não simplesmente o nome”. Ou 
seja, no caso da escravidão, um episódio de dominação extrema, as possibilidades 
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
111
de retomar os componentes étnicos dos diferentes grupos africanos ficaram muito 
prejudicadas, mesmo assim os negros norte-americanos resgataram muito de sua 
etnicidade, compondo uma variação étnica, cultural e religiosa bastante diversa. 
Assim, outras inúmeras situações semelhantes aconteceram e ainda acontecem em 
diversas sociedades. 
FIGURA 35 - IGREJA EVANGÉLICA NOS EUA, EXPRESSANDO SUA MÚSICA GOSPEL
FONTE: Disponível em: <http://www.materialgospel.com.br/melhores-musicas-gospel-internacional/> e 
<http://itallobatera.blogspot.com.br/2010/11/historia-da-musica-gospel.html>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Outros exemplos são as políticas de assistência social desenvolvidas pelos 
Estados Unidos para as populações indígenas (os nativos americanos). Devido 
a décadas de políticas padronizadas e uniformemente implementadas, sem 
considerar ou reconhecer as especificidades étnicas e culturais de cada grupo 
indígena, os nativos acabaram por assumir uma identidade geral.
Nos dois casos em que foram coletivamente nomeados e obrigados a 
viverem situações semelhantes, foi possível verificar que houve um processo de 
solidariedade entre eles, tanto os negros entre si, quanto os grupos indígenas. 
Talvez porque, como destacam Poutignat e Streiff-Fenart (2011), foram, todos 
eles, objeto de um tratamento específico e uniforme por parte do Estado, que não 
considerou suas especificidades.
Com relação aos conhecimentos produzidos acerca da etnicidade, como 
já dissemos, Fredrik Barth é atualmente um dos autores mais influentes. Foi ele o 
responsável pela criação da teoria associada aos termos “GRUPOS ÉTNICOS” 
e “FRONTEIRAS ÉTNICAS”. Ele desenvolve essas ideias, em primeiro lugar, 
compreendendo que a etnicidade é um conceito relacional, isto é, ocorre a partir 
da relação Nós/Eles. Para ele, o pertencimento étnico só pode ser determinado 
levando em conta a demarcação entre os membros e os não membros do grupo, o 
que ele vai chamar de Fronteiras Étnicas.Segundo Poutignat e Streiff-Fenart (2011), um grupo étnico só é possível 
se os atores tiverem a consciência das fronteiras que marcam o sistema social ao 
qual acreditam pertencerem e também identificarem os outros atores de outros 
sistemas sociais como diferentes. 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
112
Significa dizer que as identidades étnicas só podem se constituir com base na 
alteridade, ou seja, no reconhecimento do outro. Só que, além de reconhecer o outro, 
a etnicidade implica também a dicotomia Nós/Eles. Dito de outra forma, ela não pode 
ser concebida senão na fronteira do “Nós”, em contato, confrontação ou contraste com 
“Eles”. Vejamos o exemplo fornecido por Poutignat e Streiff-Fenart (2011, p. 153):
O conceito de Soul só emergiu como expressão da cultura dos negros 
americanos quando estes se viram expostos à influência cada vez maior 
da cultura dominante e sentiram a necessidade de definir e manter seus 
próprios limites e negar aos outros grupos, especialmente aos brancos, 
o acesso aos valores e aos comportamentos marcados pelo estilo Soul.
Por este motivo, pode-se inferir que são as fronteiras étnicas e não 
propriamente o conteúdo cultural interno do grupo que o define enquanto grupo 
e que o mantém enquanto instituição social. Essa distinção é que permite manter 
uma fronteira entre ele e os outros.
NOTA
Soul (do inglês "alma") é um gênero musical dos Estados Unidos da América que 
nasceu do rhythm and blues e do gospel durante o final da década de 1950 e início da de 1960 
entre os negros. Durante a mesma época, o termo soul já era utilizado nos EUA como um 
adjetivo usado em referência ao afro-americano, como em "soul food" ("comida de negro"). 
Esse uso apareceu justamente numa época de vários movimentos de liberalismo social, 
tanto com a revolução dos jovens com o uso das drogas, como os movimentos antiguerra e 
antirracial. Por consequência, a "música soul" nada mais era que uma referência à música dos 
negros, independentemente de gênero. 
FONTE: Disponível em: <https://www.last.fm/pt/tag/soul/wiki>. Acesso em: 25 mar. 2017.
FIGURA 36 - MÚSICA SOUL 
FONTE: Disponível em: <http://www.koop.org/programs/the-dark-end-of-the-
street>. Acesso em: 24 mar. 2017.
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
113
Compreender a existência das fronteiras étnicas não significa dizer que são 
referências fixas, imutáveis. Elas podem se manter, reforçar, ou mesmo desaparecer, 
elas podem se tornar flexíveis ou mais rígidas, dependendo das relações que forem 
se estabelecendo e das dinâmicas internas e externas ao grupo.
FIGURA 37 - GRUPO INDÍGENA INSERIDO NO CONTEXTO EDUCACIONAL DA 
CULTURA BRANCA
FONTE: Disponível em: <http://vestibular.mundoeducacao.bol.uol.com.br/cotas/
cotas-para-indios.htm>. Acesso em: 25 mar. 2017.
Apesar do nome, as fronteiras étnicas também não representam barreiras 
intransponíveis, ao contrário, são fluidas e permeáveis. Um indivíduo de um grupo 
étnico pode muito bem adquirir elementos que o caracterizem como pertencente 
a uma etnia diferente da sua. Vejamos mais um exemplo de Poutignat e Streiff-
Fenart (2011, p. 154):
Na América Latina, a fronteira que separa os indígenas dos mestiços 
é suficientemente leve para que seja suficiente a um indígena que 
aprenda a falar corretamente o espanhol e adquirir os atributos culturais 
considerados como definidores da cultura crioula para deixar de ser 
considerado como um indígena. 
Esse exemplo demonstra a fluidez das fronteiras étnicas, mas o ponto 
fundamental a ser compreendido é que a transposição dessas fronteiras não 
implica na alteração da sua identidade e nem da sua pertença étnica. Muitas vezes, 
o cruzamento dessas fronteiras serve exatamente para reforçar os limites entre um 
grupo étnico e outro.
Poutignat e Streiff-Fenart (2011) destacam ainda que a condição étnica 
associada a uma condição de classe (especialmente as mais baixas) pode ocasionar 
uma sobreposição de fronteiras em que uma reforça a outra. Para os autores, 
este tipo de situação dificulta a transposição das fronteiras étnicas e de classe, 
porque para transpor uma delas terá que transpor a outra também. Além disso, 
nesse processo, seu senso de identidade pode sofrer alterações. Corre-se o risco 
de não sentir pertencer nem ao seu grupo de origem nem aos demais. “Na Grã-
Bretanha, onde o sucesso escolar é fortemente associado à cor, os membros dos 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
114
grupos minoritários que são bem-sucedidos são percebidos como indivíduos fora 
de categoria” (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 156).
Da mesma maneira que as fronteiras étnicas são maleáveis do ponto de 
vista da transposição de seus limites, também não dependem da permanência de 
suas culturas, pois um grupo étnico pode mudar ou substituir elementos de sua 
cultura, sem perder a identidade étnica. Um grupo pode adotar traços culturais 
de outro grupo, como a língua e a religião, e mesmo assim não se perceber e nem 
ser percebido como um igual. Para isso, podemos nos lembrar do processo de 
aculturação sofrido pelos negros e pelos índios aqui no Brasil. Ambas as etnias 
foram obrigadas a falar a língua portuguesa e afiliar-se à religião cristã, no entanto, 
assim mesmo não se sentiam iguais aos colonizadores. Primeiro, porque o lugar 
social que ocupavam na hierarquia da colônia não lhes permitia transpor a 
fronteira de classe; e segundo, porque o fato de falarem outra língua ou adorarem 
outro deus não garantiu que esquecessem sua língua e seus próprios deuses. Ao 
contrário, o contraste reforçou sua identidade, mesmo que tenha sido modificada. 
O sincretismo religioso é um exemplo claro dessa estratégia de preservação 
da identidade étnica. Os negros, ainda no período da escravidão, começaram a 
associar entidades (orixás) de suas religiões com os santos católicos, para poderem 
adorá-los sem levantar suspeitas de seus senhores. No sincretismo, o orixá Ogum 
é identificado como São Jorge, um santo católico.
FIGURA 38 – OGUM E SÃO JORGE
FONTE: Disponível em: <http://www.60segundosparadeus.com.br/2015/09/qual-
ligacao-entre-os-santos-catolicos.html>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Nesta perspectiva se observa que é precisamente a fronteira étnica e não a 
matéria cultural que ela abrange que define o grupo étnico.
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
115
Um dos traços mais importantes que se pode observar para compreender 
como se mantém as fronteiras étnicas são as regras que estabelecem e organizam 
os contatos interétnicos, ou seja, toda relação interétnica estável pressupõe uma 
estruturação da interação. Vejamos como Poutignat e Streiff-Fenart (2011, p. 196) 
descrevem esta estrutura.
Como o conjunto de prescrições dirigindo as situações de contato 
que permitem a articulação em determinados setores ou campos de 
atividade, e um conjunto de proscrições sobre as situações sociais que 
impeçam a interação interétnica em outros setores, isolando assim partes 
das culturas, protegendo-as de qualquer confronto ou modificação.
Procurando trazer um exemplo para contextualizar essa afirmação, 
podemos nos referir à relação que as comunidades judias estabelecem com a 
sociedade. Pode-se inferir que do ponto de vista das relações comerciais, os 
condicionamentos étnicos são mais flexíveis, especialmente porque ocorrem em 
uma sociedade capitalista e globalizada. No entanto, do ponto de vista da sua 
religião, das relações familiares, das tradições e das questões ditas domésticas, a 
comunidade judia preserva sua identidade étnica.
FIGURA 39 - COMUNIDADE ISRAELITA NO PORTO. SINAGOGA KADOORIE MEKOR HAIM
FONTE: Disponível em: <http://www.hoteldamusica.com/Files/Images/HotelDaMusica/
LocaisDeInteresse/Patrimonio/Sinagoga1.jpg>.Acesso em: 27 abr. 2017. 
Muitas vezes, mesmo nas relações econômicas, é possível observar em 
certas comunidades a permanência de modelos étnicos que isolam o contato com 
outras etnias. Poutignat e Streiff-Fenart (2011) afirmam que na Melanésia e na Ásia 
é possível verificar sistemas policêntricos integrados simultaneamente na esfera 
comercial de prestígio e em estruturas políticas quase feudais.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
116
 Esses sistemas nos quais é possível observar uma variedade de setores de 
articulação e de separação entre sistemas sociais, ou aspectos culturais, em uma 
determinada sociedade, podem ser chamados de Sistemas Poliétnicos. 
Na Índia também é possível perceber a influência do capitalismo nas 
relações econômicas no país, sendo que talvez apenas o sistema de parentesco e a 
vida doméstica permaneçam como um setor à parte e sejam fontes de diversidade 
cultural.
5 A CRÍTICA AO PENSAMENTO DE FREDRICK BARTH E A 
AMPLIAÇÃO DO CONCEITO DE ETNICIDADE
Com base na discussão realizada até agora é possível verificar que a 
categoria etnicidade está fortemente assentada sobre a teoria dos grupos étnicos 
de Barth, mas outros autores conseguem compreender este fenômeno, explorando 
outros elementos da etnicidade e compreendendo-os à luz de outras referências 
teóricas. Vejamos a seguir uma discussão que trata das diferentes interpretações 
sobre o tema.
Etnicidade
A noção de “comunidade imaginada” nos oferece um bom ponto de 
partida para isso. Ainda que reconheça que todo grupo social é, em alguma 
medida, imaginado, Anderson chama atenção para como o processo de 
constituição das nações opera uma espécie de generalização dos símbolos 
e sentimentos típicos das relações comunitárias, para muito além dos 
limites de qualquer comunidade real. Ao descrever as nações ou culturas 
nacionais como construções sociais operadas nos mesmos termos em que 
os grupos étnicos — grupos políticos que se autoatribuem características 
e laços primordiais, Anderson e, na sua esteira, Stuart Hall, introduzem 
a ideia de que o sistema de simbolização dos grupos étnicos — que eles 
preferem chamar “comunidades” — pode ganhar autonomia com relação 
aos processos de interação que para Barth delimitam a “fronteira étnica”. 
Assim, o adjetivo “imaginado” que acrescentam à comunidade 
(ou grupo étnico) justifica-se porque a atitude simbólica que marca a 
autopercepção e o sentimento nacionais não dependeriam de regras de 
interação entre grupos reais, mas, antes, da relação entre comunidades 
imateriais, formadas por dispositivos de compartilhamento de experiências 
como a literatura, a imprensa periódica, os ritos, datas e heróis nacionais.
Outro referencial para a ampliação do uso de etnicidade com relação a 
grupo étnico é encontrado em M. Banton (1977), em A Ideia de Raça, quando 
este define a categoria como produto de uma inversão de valores sociais com 
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
117
relação à raça. A etnicidade seria um sentimento, um discurso e uma tomada 
de posição política produzida pela positivação do estigma da raça. Dessa 
forma, um grupo até então distinto por características ditas raciais, tornar-
se-ia um grupo étnico a partir do momento em que, aceitando a distinção 
que lhe é imposta pela maioria, passa a utilizar-se politicamente dela na 
formação de agrupamentos autônomos ou com interesses e reivindicações 
comuns.
 A etnicidade seria, segundo Banton, justamente esta atitude política 
positiva, que teria um sentido de solidariedade e identificação. Este uso da 
noção de etnicidade é, portanto, inseparável da de etnogênese, no sentido 
em que também institui um grupo étnico, mas que é, em primeiro lugar, 
“imaginado”, no sentido de que ele tem por base não uma estrutura de relações, 
mas uma experiência genérica de desrespeito. Isso nos leva, finalmente, ao 
terceiro suporte para pensar de que modo a categoria de etnicidade ganha 
autonomia com relação ao grupo étnico. Tendo em conta que boa parte do 
uso contemporâneo de etnicidade está relacionada à emergência de uma 
“política de reconhecimento” de alcance global, vale recuperar o modelo 
igualmente generativo de A. Honneth (2003), em Luta por reconhecimento. 
O autor sugere que na base dos conflitos que instauram lutas 
por reconhecimento está uma “experiência moral” de desrespeito que, 
sendo inicialmente experimentada de forma individual, é convertida em 
experiência coletiva por meio da transformação das experiências privadas 
em “controvérsias” públicas. 
Compreendida desse modo, a noção de “conflito moral” é de grande 
importância para a recaptura da teoria da etnicidade, que passa a ter por 
base uma unidade social definida mais em termos morais que em termos 
estruturais. Temos, assim, a definição de comunidades políticas a partir de 
uma relação de alteridade, mas sem que seja preciso nem atribuir substância 
a tais comunidades, nem confinar tal noção de alteridade aos mecanismos 
estritamente locais de definição de “fronteiras étnicas”. É o conflito em 
torno dos limites entre o respeito e o desrespeito e a capacidade de agenciar 
positivamente na forma de uma comunidade imaginada os estigmas do 
passado, que se torna possível reimaginar a etnicidade: ela emerge em um 
contexto poliétnico que tem por sustentação uma sociedade de comunicação 
ampliada, assim como um contexto de regulação englobante. Neste caso há a 
positivação não apenas das marcas que carregam o estigma, isto é, da relação 
entre os indivíduos e as marcas étnicas, conforme chama atenção Banton 
(1977), mas também do próprio vínculo que liga os sujeitos entre si, por meio 
de tais marcas. 
Se o racismo permite falar da existência de um grupo por meio de 
atributos imputados e raramente afirmados, a etnicidade tem como maior 
atributo constituir o próprio grupo com base na resposta a tal imputação. 
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
118
Uma radicalização do caráter relacional que está na base da definição teórica 
dos grupos étnicos. 
Assim, a etnicidade passa a descrever performances identitárias 
que incluem também os amplos contextos derivados da diáspora africana, 
assim como da reorganização em contexto urbano dos grupos étnicos e 
nacionais em processo de migração rural-urbana, assim como de imigração 
entre fronteiras nacionais. Em todos estes casos, a etnicidade continua 
servindo para classificar e, com base na classificação, organizar e regular a 
interação entre indivíduos, mas agora tendo por base um arco de formas 
sociológicas que vão do grupo étnico às comunidades imaginadas de 
diversos tipos. Finalmente, há a questão de se definir se a etnicidade é um 
conceito teórico geral, destinado a descrever um fenômeno fundamental ou 
ao menos recorrente, ou se ela descreveria fenômenos novos, decorrentes 
da intensificação dos movimentos identitários, que se seguiram a dois 
momentos tão cruciais quanto a Segunda Grande Guerra e a queda do Muro 
de Berlim. 
Uma discussão certamente extensa demais para os limites deste 
verbete. Em lugar disso, seria útil reconhecer que, de uma forma ou de 
outra, o uso do conceito está submetido a variações históricas e geográficas 
importantes, determinadas pelo modo segundo o qual as diferentes tradições 
intelectuais — em especial nos contextos acadêmicos que temos por referência 
neste dicionário — se relacionam com os fenômenos que o conceito pretende 
descrever. Assim, se no Brasil encontramos a tendência de se dar à teoria da 
etnicidade o estatuto de uma teoria geral, isso não parece ocorrer da mesma 
forma nos contextos português e no de países africanos. 
No Brasil, houve uma ampla incorporação da teoria dos grupos étnicos 
e do uso da categoria de etnicidade pelas diversas antropologias:desde a 
indígena até a urbana, passando pelas relações étnico-raciais e mesmo das 
relações de gênero, entre outras. Tendo origem na abordagem de Roberto 
Cardoso de Oliveira (1978) sobre a problemática do contato entre índios e 
brancos, ela está na base da categoria de “fricção interétnica” que, realizando 
uma crítica fundamental às abordagens centradas no tema da “aculturação”, 
serviu de paradigma para boa parte dos trabalhos de etnologia indígena 
no país. Sua centralidade se manifestaria mesmo na legislação e na política 
nacional para estas populações, na medida em que foi uma interpretação 
em termos de grupos étnicos que permitiu aos antropólogos responderem 
aos questionamentos governamentais das décadas de 1970 e 80 contrários ao 
reconhecimento de grupos indígenas e da legitimidade de seu movimento 
político com base em critérios culturais objetivos (CUNHA, 1986).
Recentemente, ela ocupa lugar também na literatura sobre relações 
étnico-raciais, isto é, naquela que aborda a relação entre brancos e negros. 
Depois das críticas ao chamado “mito da democracia racial” e de uma farta 
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
119
literatura sobre as manifestações de um racismo cordial” (GUIMARÃES, 
2002), a literatura, acompanhando o próprio movimento da sociedade, tem 
abordado as diversas formas de positivação e afirmação da “negritude”, 
que passam a ser interpretadas em termos de etnicidade. O lugar ocupado 
pelo tema da etnicidade na antropologia feita hoje no Brasil é tão importante 
que, pode-se dizer, polariza o debate teórico travado no campo da etnologia 
(OLIVEIRA, 1999; VIVEIROS DE CASTRO, 1999), expandindo-se também 
sobre outros campos de estudos, que vão das relações raciais — designadas, 
a partir da década de 1980, de “étnicorraciais” —, aos fenômenos da 
urbanização, passando pelos movimentos sociais, entre outros.
Em Portugal, por sua vez, o uso da categoria étnico e seus derivados 
parece se restringir a abordagens voltadas para os grupos de imigrantes, 
aplicando-se à descrição e reflexão sobre apenas um “outro” grupo social 
interno à sociedade portuguesa, os ciganos. Neste sentido, a etnicidade 
parece descrever um fenômeno recente, não alcançando o estatuto de uma 
teoria dos modos de organizar a sociedade (MACHADO; AZEVEDO, 2009). 
Além disso, o fato de se aplicar quase exclusivamente aos imigrantes, 
isto é, a grupos que são, em sua maioria, originários das ex-colônias, 
acaba por reificar uma percepção geral substancialista da categoria etnia, 
mesmo que o seu emprego em estudos pontuais esteja sustentado em uma 
perspectiva teórica próxima a de Barth. No caso dos estudos sobre grupos 
de imigrantes europeus, a etnicidade claramente desloca sua substância do 
étnico para o nacional estrangeiro, mas mantendo o foco em grupos mais 
facilmente pensáveis a partir de características primordiais. O contexto 
africano, por outro lado, parece marcado por uma forte resistência ao uso 
da categoria etnicidade, provavelmente pelas mesmas razões — mas com 
efeitos invertidos — que no contexto português. 
Neste caso, é o risco iminente da reificação do étnico como 
fundamento de fraturas de caráter primordialista, cujas consequências 
políticas estão ainda vivas nas suas sociedades, que leva a que os cientistas 
sociais africanos evitem teorizar sobre suas sociedades tomando por base a 
etnicidade. Em lugar de focarem as “fronteiras étnicas”, a gênese dos grupos 
de identidade ou o tema da performance das diferenças e das identidades, 
as ciências sociais em África tendem a definir suas unidades de análise com 
base em critérios substantivos, mas não totalizantes, como a língua, a região 
ou o tipo de atividade social predominante. Aqui a semântica e a teoria do 
étnico parecem indissociáveis, ora de uma postura científica comprometida 
com uma tradição colonial, ora de uma posição analítica que correria o risco 
de oferecer suporte a movimentos políticos sectários.
FONTE: SANSONE, Livio; FURTADO, Alves, Cláudio (org). Dicionário crítico das ciências sociais dos 
países de fala oficial portuguesa. Salvador: EDUFBA, 2014.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
120
6 ETNICIDADE E MODERNIDADE
Como podemos perceber, a etnicidade é interpretada de diferentes maneiras, 
como a ideia de que é produto da desigualdade de desenvolvimento dos diferentes 
países e territórios, como uma estratégia de reivindicações frente aos recursos 
do welfare state, como resistência ao processo de modernização e globalização da 
cultura, como o resultado histórico da economia capitalista globalizada, ou ainda 
como a mistura de todos esses elementos. 
NOTA
Welfare state, Estado-providência, ou Estado de Bem-Estar Social: Estes termos 
são aplicados, grosso modo, aos Estados que implantaram sistemas alargados de proteção 
social e aos que praticam políticas de redução das desigualdades econômicas e sociais. O 
Estado-providência é um Estado social que em nome da segurança ou da igualdade se substitui 
parcialmente ao mercado e/ou corrige os seus resultados. A expressão "Estado-providência" 
é relativamente recente; nasceu de uma tradução aproximativa do inglês Welfare state. Esta 
noção não está isenta de ambiguidades e evoluiu à medida que se foi desenvolvendo o Estado 
social. Esquematicamente, podem distinguir-se duas principais formas de Estado-providência, 
que se sucederam na maioria dos países ocidentais: o Estado protetor e o Estado redistributivo. 
O Estado protetor, que se desenvolveu nos anos 30, visava primeiro limitar os custos sociais 
do mercado e garantir uma certa segurança face aos mais importantes riscos econômicos 
(desemprego, doença, velhice etc.). O Estado redistributivo (desenvolvido nos anos 60 e 70) 
procura estabelecer uma certa igualdade: a redução das desigualdades econômicas (e sociais) 
torna-se então uma das missões essenciais da ação pública, à qual tendem a ser ligadas ou 
subordinadas as políticas sociais no seu conjunto. Esta evolução foi travada ou estorvada em 
fins dos anos 70 (um pouco mais tarde na França) em razão da crise econômica e também da 
tomada de consciência dos "efeitos perversos" das políticas igualitárias dos anos precedentes 
(UFSC, 2017, p. 173).
O fato é que etnicidade é um conceito essencialmente contemporâneo e 
muitos autores defendem que a fluidez e a globalização das informações na 
sociedade moderna contribuem para a difusão dos sentimentos nacionalistas e 
étnicos, ou seja, diferentemente do que alguns autores acreditavam, as tecnologias 
da modernidade não trouxeram individualismo e uniformização à dinâmica 
social, mas ao desenvolvimento de nacionalismos étnicos, racismo e identidades 
particulares. Vejamos a seguir um exemplo.
O sentido da identidade bretã, realça Berger (1972), reforçou-se a partir 
da Primeira Guerra Mundial, quando os jovens bretãos começaram a 
descobrir a França e numerosos bretões, cuja consciência de pertença 
regional não ultrapassava os limites da sociedade local ou do departamento 
administrativo, descobriram, pelo rádio e depois pela televisão, que 
pertenciam a uma entidade designada como Bretanha. Segundo Connor 
(1972), o aumento considerável dos contatos intergrupais foi percebido 
por um significativo número de indivíduos como uma ameaça contra 
a sobrevivência de suas tradições culturais específicas, favorecendo 
uma ideologia de resistência à uniformização ou à dominação cultural 
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
121
e linguística. Além disso, a facilidade e a rapidez das comunicações do 
mundo moderno possibilitaram não apenas a difusão das formas de 
organização, dos slogans e das reivindicações de grupo – podendo, como 
foi o caso em relação aos negros americanos e aos palestinos, fazer o 
papel de modelos -,mas igualmente permitiram a constituição de redes 
internacionais de militantes nacionalistas e a difusão das técnicas de 
guerrilha (POUTIGNAT; STREIFF-FENART, 2011, p. 28).
Esses movimentos também aconteceram em países de Terceiro Mundo e com 
as minorias do Ocidente. No caso dos países de Terceiro Mundo, os movimentos 
surgiram devido às reivindicações baseadas nas teorias da dependência econômica. 
Tomando como exemplo os levantes dos países menos desenvolvidos, também 
alguns países da Europa tiveram movimento de independência. 
7 DIÁSPORAS E DESLOCAMENTOS 
O termo diáspora é extraído dos antigos termos gregos dia (através, por 
meio de) e speirõ (dispersão, disseminação), sendo que a palavra atualmente é 
utilizada de várias maneiras. 
Inicialmente, é necessário destacar que o termo diáspora foi associado à 
experiência traumática do povo judeu que foi exilado de sua pátria e disperso para 
vários países. 
Essa experiência acabou emprestando ao termo diáspora um sentido 
negativo, associando às dispersões territoriais a ideia de alienação, perda e 
exílio forçado. Por este motivo, outros movimentos migratórios passaram a ser 
comparados à experiência judaica e, portanto, ao termo diáspora.
Dito de outra forma, por diáspora se pode compreender toda e qualquer 
dispersão de um povo por meio de perseguições e discriminações políticas, 
religiosas ou étnicas. Atualmente, o termo é utilizado para designar praticamente 
qualquer comunidade transnacional, ou seja, todo movimento migratório de 
grandes populações que ultrapasse as fronteiras nacionais. 
O problema que se coloca quando o termo é utilizado de forma ampla, é 
que é normalmente confundido com categorias como imigrantes, trabalhadores 
temporários, minorias étnicas, viajantes ou refugiados. 
A ideia de diáspora foi construída com base em uma dimensão de dupla 
consciência. Pressupõe-se que os sujeitos da diáspora possuem uma consciência 
individual forjada sobre conexões descentralizadas e multilocalizadas, de estar 
simultaneamente “em casa” e “longe de casa” ou de estarem ao mesmo tempo 
“aqui e lá” (CASHMORE, 2000). Do ponto de vista da produção cultural é possível 
verificar a fluidez dos estilos construídos e das identidades dos povos na diáspora. 
Percebe-se o desenvolvimento e a reprodução de culturas híbridas ou alternativas.
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
122
Por outro lado, a diáspora também é percebida como um novo tipo de 
problema, especialmente por grupos nacionalistas e de direita. Estes percebem 
as comunidades transnacionais como uma ameaça à segurança dos Estados, 
como fontes potenciais de terrorismo internacional. Além disso, existe uma forte 
preocupação dos Estados receptores das comunidades transnacionais com os laços 
que estas comunidades mantêm com seus países e etnias de origem. Para eles, 
talvez a lealdade para com os seus países de origem pode ser muito mais profunda 
do que com o país que os hospedam, conforme destaca Cashmore (2000). 
Estas perspectivas se acentuam ainda mais quando ocorrem situações de 
conflito, como o ataque à sede de revista satírica Charlie Hebdo, em Paris, no início 
do ano de 2015, e o ataque ocorrido no final do ano de 2016 em Paris, que matou 
mais de 180 pessoas. Nos dois casos o Estado Islâmico se responsabilizou pelos 
atentados, sendo que, no caso do ataque a Paris, dos sete terroristas envolvidos 
quatro eram franceses.
FIGURA 40 - ATENTADO EM PARIS
FONTE: Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2015-01-07/homens-armados-
provocam-mortes-ao-atacar-sede-de-revista-satirica-em-paris.html>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Formas culturais híbridas e múltiplas identidades expressas pela juventude 
que se autoproclama “na diáspora” também são vistas pelos conservadores da 
“sociedade hospedeira” como ataques às normas tradicionais (hegemônicas e 
assimiladoras).
É claro que esta última imagem da diáspora não é compartilhada por vários 
grupos sociais, nem pela maior parte do meio acadêmico. Muitos, ao contrário, 
percebem as fortes redes transnacionais como características da globalização, 
especialmente o fortalecimento das telecomunicações e das facilidades de viajar. 
Assim como existem aqueles a quem agrada a ideia de construir novas identidades 
e formar culturas híbridas. 
Com relação aos processos de migração contemporâneos, pode-se dizer 
que cerca de 200 milhões de pessoas, ou seja, 2,8% da população mundial é 
TÓPICO 2 | RAÇA, NAÇÃO, ETNIA, IDENTIDADE ÉTNICA, GRUPOS ÉTNICOS E SUAS FRONTEIRAS
123
constituída atualmente por migrantes, conforme destaca Cogo (2007), sendo que 
todos os continentes apresentam movimentos de migração, assim como acolhem 
populações em deslocamento, especialmente em nível internacional.
O aumento do número de deslocamentos, assim como o seu caráter 
internacional, são características dos processos atuais de migração, que até 
pouco tempo atrás estavam restritos apenas a algumas nações e regiões. Em 
grande medida, a ampliação da migração e da variedade de países e territórios 
que recebem essas comunidades ocorreu devido às possibilidades de mobilidade 
disponíveis atualmente e também da emergência de novos migrantes originários de 
zonas geográficas que não faziam parte dos fluxos migratórios tradicionais, como 
a Ásia Central e Oriental e o Leste Europeu. Os estados receptores tradicionais 
costumavam ser até então o norte da América e a Austrália. Estas ainda permanecem 
sendo importantes áreas receptoras de migração internacional.
No entanto, com o crescimento acelerado dos processos migratórios, hoje 
verificam-se outras áreas receptoras desse contingente. Sobre o crescimento do 
número de imigrantes nos últimos 30 anos, Cogo (2007) relata que os 77 milhões 
registrados em 1965 sobem para 111 milhões em 1990; 140 milhões em 1997; e 
175 milhões no ano 2000. “Os indicadores apontam para a distribuição desigual 
das migrações, com a concentração de 90% dos migrantes em somente 55 países. 
Espanha, Estados Unidos e Alemanha são os países que registraram o maior 
aumento do número de imigrantes” (COGO, 2007, p. 65).
A imigração internacional clandestina é um tipo de movimento migratório 
bastante recorrente nos últimos tempos. Isso ocorre devido à dinâmica capitalista 
que aproximou países em blocos econômicos, como a União Europeia e o Mercosul, 
por exemplo. Esse contato aumenta e intensifica os deslocamentos internacionais 
em busca de melhores condições de trabalho e renda.
Esse tipo de migração normalmente não é contabilizado pelos censos e 
pesquisas oficiais realizados, uma vez que não deixa registro. De acordo com Cogo 
(2007, p. 66), “nos Estados Unidos foram recenseados 8,5 milhões de imigrantes 
sem documentos em 2000, o que permite fazer uma estimativa de 12 milhões de 
clandestinos. Na Europa, por sua vez, haveria oito milhões de imigrantes sem 
documentos”. 
Ainda podem ser verificados outros tipos de movimentos migratórios, 
como os refugiados, os asilados, as pessoas e grupos que migram voluntariamente, 
como profissionais qualificados que são contratados em outros países, como 
empregados civis internacionais, empresários independentes, cientistas, médicos 
e outros. Existem ainda os imigrantes da Terceira Idade, conforme destaca 
Cogo (2007). Esses normalmente são impulsionados por condições climáticas e 
econômicas favoráveis ao estilo de vida deste grupo social.
Um importante impacto econômico relacionado à questão da migração diz 
respeito às remessas de recursos realizadas pelos imigrantes aos seus países de 
origem, que somente no ano de 2002, como descreve Cogo (2007), somaram cerca 
de 25 bilhões de dólares enviados aos países da América Latina. 
124
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu:
• Acerca de etnicidade, identidade étnica, nação, raça, grupos étnicos e suas 
fronteiras.• A noção de raça no início do século XX, utilização do termo para designar 
características físicas das diferentes populações mundiais, como os asiáticos, os 
negros, os indígenas e os brancos. 
• A eugenia e a ideia de superioridade biológica formam uma corrente de 
pensamento a partir da qual vários países acabaram por assumir o discurso 
racista para justificar suas ações. 
• O conceito de raça foi retirado do debate acadêmico após a Segunda Guerra 
Mundial, compreendendo-o como um conceito frágil, ilegítimo e não científico. 
Devido às pesquisas genéticas, se sabe hoje que não existem raças humanas 
diferentes.
• O racismo sem raça acontece quando as características étnicas ou culturais 
(religiosidade, crenças, regras sociais) de um grupo são tomadas no lugar das 
características biológicas/raça (cor de cabelo, pele, traços fisionômicos) para 
justificar relações de hierarquia e desigualdades sociais.
• A ideia de que há muito tempo as diferentes posições sociais são demarcadas e 
justificadas com base em consensos sociais, com base em naturalizações. 
• As diferenças entres os termos raça, nação e etnia.
• A identidade étnica se constrói pelo contraste com o outro, entre membros e 
não membros de um grupo étnico.
• Um grupo étnico só é possível se os atores tiverem a consciência das fronteiras 
que marcam o sistema social ao qual acreditam pertencerem e também 
identificarem os outros atores de outros sistemas sociais como diferentes. 
• O debate sobre etnicidade e modernidade: Para muitos autores, a fluidez e a 
globalização das informações na sociedade moderna contribuem para a difusão 
dos sentimentos étnicos.
• O conceito de diáspora traz o sentido de dispersão de um povo por meio de 
perseguições e discriminações políticas, religiosas ou étnicas. Atualmente, no 
entanto, o termo é utilizado para designar praticamente qualquer comunidade 
transnacional.
125
AUTOATIVIDADE
1 Apesar de ter sido por muito tempo confundido no meio acadêmico, há 
diferenças entre os termos etnia, nação e raça. Isso porque cada um deles 
procurou explicar os motivos pelos quais os seres humanos se reúnem em 
grupos. A partir de sua interpretação, conceitue cada um deles.
2 Por muito tempo o conceito de raça, além de designar características físicas, 
também foi usado para justificar a manutenção da desigualdade social. 
Nesse sentido, o termo racismo sem raça surge para explicar até mesmo as 
desigualdades sociais promovidas por outros fatores sociais, como o gênero e a 
classe social. Explique o conceito de racismo sem raça com suas palavras.
126
127
TÓPICO 3
GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS 
IMPORTANTES PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES 
SOCIAIS ONTEM E HOJE
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Com o surgimento do conceito de etnia, surgem os conceitos de Gênero e 
Multiculturalismo, ambos atrelados a movimentos sociais de luta por direitos. No 
caso do multiculturalismo, surge a partir dos movimentos negros da década de 
1960, e o conceito de gênero surge inicialmente atrelado ao movimento feminista e 
aos estudos feministas, no espaço universitário, na década de 1980. 
Os dois movimentos possuem duas dimensões distintas, uma relativa 
aos movimentos sociais e outra relativa aos estudos e pesquisas realizados 
nas universidades. Também os dois campos de estudos são provenientes 
majoritariamente das Ciências Sociais.
Um dos resultados destes movimentos foi o desmantelamento do 
segregacionismo racial nos Estados Unidos, devido às lutas pelos direitos civis 
na década de 1960. A partir daí se começou a perceber quais mecanismos sociais 
de fato contribuíam para a manutenção das desigualdades raciais e sexuais. As 
desigualdades não eram produzidas por questões inerentes à raça ou ao sexo 
(incapacidade física ou intelectual), mas sim por todo um sistema social, político 
e econômico que oferecia aos negros e mulheres oportunidades desiguais, como a 
falta de acesso a escolas e a empregos de qualidade, como a exposição à pobreza 
(GUIMARÃES, 1995). Assim surgem outros conceitos interpretativos da realidade, 
como a etnia, o gênero, o status social, entre outros.
2 DO MOVIMENTO FEMINISTA AOS ESTUDOS DE GÊNERO
Os estudos de gênero surgiram pela necessidade de compreender certos 
aspectos das desigualdades sociais, especialmente aqueles relacionados às 
hierarquias sociais provenientes das diferenças sexuais. No entanto, para chegarmos 
a discutir especificamente a categoria de gênero, é importante compreender suas 
raízes históricas.
O surgimento dos estudos atuais sobre a condição feminina e sobre as 
assimetrias sociais, os “Estudos de Gênero”, só foram possíveis porque, ao longo 
do tempo, muitos foram os movimentos de mulheres denunciando as situações de 
128
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
opressão, preconceito e dominação que sofreram e ainda sofrem. O movimento 
feminista não pode e não deve ser reconhecido como um movimento único, 
mas sim como o conjunto de movimentos ocorridos desde o século XVIII (e 
provavelmente até mesmo antes disso) voltados a conquistas de direitos para as 
mulheres. Se hoje o gênero representa uma categoria de análise tão importante 
para as Ciências Sociais, como o conceito de classe e etnia, é porque se fez legítimo 
pelas tantas batalhas dos movimentos feministas, tornando-se fundamental para a 
compreensão das relações humanas.
Para falarmos sobre os estudos de gênero, é necessário primeiro 
contextualizar o surgimento deste conceito, não é mesmo?
O termo gênero surge nos Estados Unidos na década de 1970, quando os 
problemas das mulheres começam a entrar em cena nos espaços universitários, 
mas antes disso é preciso compreender que o conceito de gênero decorre do 
movimento feminista e de suas lutas. Por este motivo, vamos conhecer um pouco 
sobre o feminismo. 
O feminismo é um conceito múltiplo, porque possui uma dimensão política 
que se refere aos movimentos de luta por direitos, e uma dimensão acadêmica, 
que se refere aos estudos da condição feminina. A dimensão acadêmica, ou seja, 
o campo de pesquisa e de conhecimento sobre as mulheres, pode ser considerada 
multidisciplinar, porque ocorre em diferentes campos disciplinares, como: 
Antropologia, História, Educação, Sociologia, Direito e vários outros.
O principal objetivo do movimento feminista não foi alcançar a igualdade 
entre homens e mulheres, mas sim a equidade entre eles. Para assegurar a 
equidade de gênero não deve ser necessário que as mulheres assumam posturas 
“masculinas”. Elas devem preservar suas identidades. Por isso a ideia de 
“equidade” e não igualdade.
No debate de gênero e etnia, quando se fala em equidade referimo-nos 
ao entendimento de que é necessário reconhecer as diferenças para adequar as 
políticas e demais ações sociais para a realidade de cada um, permitindo que todos 
alcancem seus direitos e a justiça social ocorra. 
FIGURA 41 – CONCEPÇÃO DE IGUALDADE E EQUIDADE
FONTE: Disponível em: <https://br.linkedin.com/topic/equidade>. Acesso em: 6 fev. 2017.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES 
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
129
O Movimento Feminista surgiu no século XVIII, na Europa, especialmente 
na Inglaterra e França, mas logo repercutiu em outros países e se desenvolveu de 
diferentes formas e expressões até os dias atuais. Para dar uma ideia da dimensão 
do Feminismo, ele foi dividido em três grandes momentos, que explicam as 
diferentes concepções e lutas do movimento: As chamadas primeira, segunda 
e terceira onda feminista. De acordo com Zirbel (2016, p. 98), a “Primeira Onda 
Feminista” refere-se: 
[...] às extensas lutas a favor do direito de voto para mulheres (também 
conhecido como movimento sufragista), que se estenderam no ocidente 
desde o final do século XIX até meados doséculo XX, configuram a 
primeira onda feminista, cujo objetivo central foi o de reformar as 
instituições sócio-políticas no sentido de propiciar maior igualdade 
entre homens e mulheres, utilizando-se do voto como estratégia. No 
final da década de 1960 e em grande parte da década de 1970, após a 
percepção e avaliação de que o voto não fora suficiente para operar as 
mudanças desejadas, uma segunda onda de protestos e reivindicações 
buscou ampliar direitos.
A Segunda Onda Feminista culmina com os movimentos sociais em 
andamento nos Estados Unidos, e o país será desta vez a referência do movimento 
para o restante do mundo. A segunda onda feminista se refere a um período da 
atividade feminista que começa no início da década de 60 e dura até o fim da 
década de 80. Este momento do feminismo é considerado um dos mais importantes, 
porque é quando de fato os movimentos começam a se tornar mais organizados. 
Nesse período os Estados Unidos são um dos mais importantes polos de lutas por 
direitos das mulheres no Ocidente. Houve várias mudanças sociais objetivas, como 
a conquista do direito ao voto, o acesso ampliado à educação, ao trabalho e uma 
maior participação política das mulheres. Além disso, outras questões, como as 
conquistas sociais em torno do aborto e dos direitos reprodutivos (contracepção), 
pela proteção das mulheres vítimas de violência, entre outros.
É na Terceira Onda Feminista que surge o conceito de gênero, nos Estados 
Unidos, especialmente por meio do movimento feminista e do movimento homossexual 
que, na década de 1970, começam a questionar as relações de dominação e opressão 
no espaço privado, local em que mulheres e homossexuais eram constantemente 
obrigados a representar os papéis sociais “naturais” ao seu sexo.
130
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
FIGURA 42 - PAPEL SOCIAL DA MULHER NA DÉCADA DE 1940, NOS 
ESTADOS UNIDOS
FONTE: Disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/783908497360 
79944/>. Acesso em: 10 mar. 2017.
A partir desses movimentos, os temas mulher e sexualidade começam 
a adentrar o espaço universitário, e pesquisas passam a ser desenvolvidas no 
interior de várias disciplinas. Logo se percebe que não é mais possível falar sobre 
a mulher de maneira generalizante, ou seja, de uma única condição feminina, mas 
levar em conta outros elementos no entendimento das desigualdades e assimetrias 
que sofriam as mulheres. 
Era necessário levar em conta a posição de classe, a identidade étnica, as 
referências regionais nas quais as mulheres estariam inseridas, assim como todos 
os condicionantes que implicam esses lugares sociais que ocupavam. Porque não 
eram os mesmos problemas que viviam, por exemplo, mulheres brancas de classe 
média e mulheres negras, pobres de periferia. Por mais que as duas sofressem 
discriminações de gênero, como a imposição dos papéis sociais que pressupunham 
uma posição de submissão e obediência aos homens, por exemplo, ainda outras 
discriminações e dificuldades se sobrepõem no caso da mulher pobre e negra.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES 
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
131
FIGURA 43 - AS CONDIÇÕES FEMININAS
FONTE: Disponível em: <https://maniacosporfilme.files.wordpress.com/2013/04/the-help-3.
jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Nesse período, várias teses são desenvolvidas, no entanto, a referência 
utilizada para o reconhecimento das mulheres enquanto grupo ainda permanece 
bastante associada a uma unidade biológica, como vagina, útero, seios (GROSSI, s.d.).
Em seguida, surge o conceito de gênero para acabar de vez com a 
essencialização da condição feminina, através de pesquisadoras norte-americanas. 
Elas vão tratar as relações entre homens e mulheres de forma a negar as diferenças 
biológicas como constituidoras das identidades dos seres humanos e introduzir 
a perspectiva de que somos construídos a partir de determinados mecanismos 
sociais, que nos condicionam a cumprirmos papéis sociais, preestabelecidos. Uma 
das principais responsáveis por essa nova perspectiva é a autora Joan Scott. No 
artigo intitulado “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, ela diz que:
O gênero torna-se uma maneira de indicar ‘construções sociais’ – a criação 
inteiramente social de ideias sobre os papéis adequados aos homens 
e às mulheres. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente 
sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres. O gênero 
é, segundo esta definição, uma categoria social imposta sobre um corpo 
sexuado (SCOTT, 1995, p. 7).
Para a estudiosa Françoise Heritier (1996), o conceito de gênero é relacional, 
ou seja, se constrói na relação entre homens e mulheres, haja vista que ninguém 
vive só, pois todas as pessoas se relacionam desde que nascem, independentemente 
das regras sociais e culturais. 
Segundo Grossi (s.d.), papéis de gênero são as representações (tomadas 
como representações de uma personagem no teatro) de cada sexo, ou seja, papéis 
132
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
sexuais são as características atribuídas a cada sexo, de acordo com sua cultura. 
São modelos do que é próprio e concernente a cada sexo. 
Sabe-se, através de relatos de historiadores, que os papéis de gênero 
podem ser alterados dentro de uma mesma sociedade, dependendo das situações. 
Com relação à identidade de gênero, ela se forma, segundo Grossi (s.d.), a partir 
da socialização de valores e comportamentos que são internalizados logo nas 
primeiras fases da infância. Esses valores e comportamentos que são repassados 
são diferentes para cada sexo e também variam de uma cultura para outra. 
Nos últimos tempos os estudos de gênero passaram a se preocupar com 
várias questões relativas ao universo das relações sociais. Observar a realidade a 
partir da análise de gênero possibilitou novas interpretações sobre o comportamento 
humano e a reprodução das desigualdades de gênero. 
3 MULTICULTURALISMO 
Caro acadêmico, neste item vamos trabalhar o conceito de multiculturalismo, 
procurando apresentar o seu contexto de surgimento. Vamos focar nas políticas 
multiculturais nos Estados Unidos, compreendendo que os movimentos sociais 
naquele país foram fundamentais para a ampliação do debate sobre direitos civis 
e, portanto, fundamentais para o multiculturalismo. Por este motivo, destacamos a 
trajetória histórica dos índios norte-americanos e o processo de escravidão ocorrido 
no país. Para complementar, destacamos a importância dos movimentos negros e 
suas principais lideranças para as políticas de ação afirmativas nos Estados Unidos.
Apresentamos também, como resultado das lutas sociais da década de 1960 
nos Estados Unidos, a conquista da Lei dos Direitos Civis e as primeiras políticas 
de ações afirmativas no país. 
Por fim, realizamos uma discussão acerca do que são Políticas Públicas de 
Ação Afirmativa, objetivando nivelar os conhecimentos acerca destes temas de 
estudos, que servirão de base para a compreensão do debate multicultural.
3.1 MULTICULTURALISMO E SEU CONTEXTO HISTÓRICO
A seguir vamos trabalhar o conceito de multiculturalismo, enfatizando 
as origens do surgimento do movimento, situando-o do ponto de vista político 
(movimentos sociais multiculturais e políticas públicas) e teóricos (ciências 
multiculturalistas), visando oferecer conteúdo de base para a interpretação deste 
campo de estudos e sua importância para o debate das relações interétnicas.
Conhecer o conceito de multiculturalismo e suas origens é importante, pois, 
ao longo de sua trajetória profissional e pessoal, você certamente os utilizará para 
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES 
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
133
interpretar as diferentes realidades sociais nas quaisestiver inserido. Portanto, 
bons estudos!
Como a própria etimologia da palavra nos sugere, o termo “multi” significa 
vários; o termo “culturalismo” refere-se à cultura; e o sufixo “ismo” está associado 
às posições assumidas ou ideias aceitas sobre as possibilidades de conhecimento, 
ou seja, no caso de multiculturalismo significa uma posição assumida sobre as 
diferentes relações entre as várias culturas. 
O “multiculturalismo” é um termo polissêmico e existem, pelo menos, dois 
sentidos diferentes em que este pode ser utilizado. Um primeiro sentido é 
descritivo e reporta a um fato da vida humana e social, que é a diversidade 
cultural étnica, religiosa que se pode observar no tecido social, ou seja, um 
certo cosmopolitismo que atualmente é fácil de ver em qualquer grande 
cidade da Europa e da América do Norte. Um segundo sentido é prescritivo 
e está associado às chamadas políticas de reconhecimento da identidade 
e/ou da diferença que os poderes públicos prosseguem, ou deveriam 
prosseguir, segundo os seus defensores, em nome dos grupos minoritários 
e/ou “subalternos” (FERNANDES, 2006, p. 2). 
Dito de outra forma, MULTICULTURALISMO significa a existência de 
grupos de diversas culturas, assim como o embate político, econômico e social 
travado pelos diferentes grupos sociais na luta pelo respeito à diversidade. Por 
isso, além de estudos teóricos e empíricos, o termo implica na conquista de 
reivindicações das chamadas minorias ou grupos marginalizados, como os negros, 
índios, mulheres, homossexuais e outros tantos, que buscam assegurar seus 
direitos sociais através de políticas públicas de ação afirmativa.
O multiculturalismo é pluralista, porque as diferenças coexistem em um 
mesmo país ou região. Ali convivem diferentes culturas, valores e tradições. 
Há o diálogo e convivência pacífica entre as culturas diversas. No entanto, esta 
coexistência pacífica não significa negar as diferenças entre as culturas, nem as 
homogeneizar, mas compreendê-las a partir de uma visão dialética sobre os 
termos igualdade e diferença, na medida em que não se pode falar em igualdade 
sem levar em conta as diferenças culturais, e não se pode relacionar a diferença 
como medida de valor.
Por este motivo, entendemos que igualdade e diferença não são termos 
opostos. De fato, a IGUALDADE opõe-se à desigualdade, enquanto DIFERENÇA 
opõe-se à padronização, à homogeneização, à produção em série. 
Neste sentido, o objetivo do multiculturalismo, assim como todo o debate das 
relações interétnicas, é lutar pela igualdade e pelo reconhecimento das diferenças. 
Assim, um dos temas centrais para o multiculturalismo tem sido o DIREITO À 
DIFERENÇA e a DIMINUIÇÃO DAS DESIGUALDADES, bandeira de luta de 
vários movimentos sociais contemporâneos espalhados pelo mundo inteiro. 
O termo “multiculturalismo” é relativamente recente e sua utilização 
ocorreu pela primeira vez na Inglaterra, entre as décadas de 1960 e 1970. Na 
linguagem oficial, de acordo com Fernandes (2006), o “multiculturalismo” surgiu 
134
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
no Canadá e na Austrália, para designar as políticas públicas com o objetivo de 
valorizar e/ou promover a diversidade cultural. O autor destaca que ainda nesse 
período outros países anglo-saxônicos, como o Reino Unido, a Nova Zelândia e os 
EUA, também iniciam políticas públicas qualificadas como “multiculturais”.
NOTA
PAÍSES ANGLO-SAXÔNICOS: são países cujos descendentes são provenientes de 
povos germânicos (anglos, saxões e jutos). Esta denominação é resultado da fusão desses 
povos que se fixaram ao sul e leste da Grã-Bretanha, no século V.
O multiculturalismo possui, na sua essência, a ideia, ou ideal, de uma coexistência harmônica 
entre grupos étnica ou culturalmente diferentes em uma sociedade pluralista. Os principais 
usos do termo, contudo, alcançaram uma extensão de sentidos que o incluíram como uma 
ideologia, um discurso e um apanhado de políticas e práticas.
Ideologicamente, o multiculturalismo abrangeu temas relacionados, incorporando a aceitação 
de diferentes grupos étnicos, religiosos, práticas culturais e diversidades linguísticas numa 
sociedade pluralista. Quando aplicado à política, abrangeu uma extensão de antigas políticas 
estatais com dois propósitos principais: manter a harmonia entre grupos étnicos diversos e 
estruturar as relações entre o Estado e as minorias étnicas.
Em termos de política estatal, o Canadá é identificado como o país que mais tem promovido 
políticas de multiculturalismo: por exemplo, manifestações de um ideal político em manter 
as relações entre os grupos étnicos de modo a implicar coexistência, tolerância mútua e 
igualdade. A imagem do “mosaico” canadense, no qual os grupos que o compõem possuem 
formas distintas, mas formam juntos um todo unificado, costuma ser comparada à imagem 
do “cadinho de raças”, usada para tipificar os objetivos de assimilação das minorias étnicas nos 
Estados Unidos.
Alguns críticos do multiculturalismo argumentaram o seu efeito de dividir a sociedade e a 
sua tendência a ameaçar a unidade do Estado. Outros alegaram que ele gera guetos sociais 
e culturais, que limitam as oportunidades das minorias étnicas. Outras críticas apontaram os 
conflitos ou tensões entre a promoção do multiculturalismo e a conquista da igualdade de 
gênero.
Os debates acerca do multiculturalismo em determinadas instituições sociais e agências 
estatais (como escolas, serviços sociais e policiais) evidenciaram a posição dele em relação 
a outros enfoques. Na educação, por exemplo, o multiculturalismo direciona as escolas 
para um currículo que incorpora matérias de diferentes culturas e provê a celebração de 
festividades, religiosas ou não, como forma de alimentar a consciência das diferenças culturais 
e de promover relações positivas entre os estudantes.
Nos contextos educacionais, o multiculturalismo desenvolveu-se por meio de críticas aos 
modelos educacionais de assimilação que tentam impor uma educação monocultural a 
sociedades culturalmente diversificadas. Os críticos do multiculturalismo na educação, por sua 
vez, argumentaram a seu respeito a partir de perspectivas assimiladoras e antirracistas. Alguns 
acusaram o relativismo subliminar ao tratamento de diferentes culturas como igualmente 
merecedoras de respeito.
Outros criticaram a forma celebratória do multiculturalismo que enfatizou as artes, a cultura 
e as festividades religiosas. Uma crítica antirracista ao multiculturalismo argumenta que tal 
ênfase lida com aspectos periféricos da educação, uma vez que não reconhece o significado 
do racismo operante por meio de práticas discriminatórias dentro das escolas e na sociedade 
mais ampla. Enquanto alguns discutiram se o multiculturalismo e o antirracismo constituem 
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES 
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
135
discursos irreconciliáveis ou levam a políticas incompatíveis, outros procuraram desenvolver 
uma síntese do multiculturalismo com o racismo.
Análises do crescimento dos debates a respeito do multiculturalismo revelam mudanças 
subliminares nas relações de poder, resultantes de fatores como migração, mudanças 
demográficas ou resistência sistemática ao racismo. Nesse contexto, torna-se possível o 
surgimento de debates a respeito das práticas e princípios do multiculturalismo, assumindo 
diferentes formas em vários contextos locais, nacionais ou internacionais.
FONTE: CASHMORE, Ellis. Dicionário de Relações Étnicas e Raciais. São Paulo. Summus, 
2000, p. 371.
Para entender o motivo pelo qual estes movimentos surgiram, devemos 
resgatar o aspecto da constituição histórica dos Estados Unidos, marcada por um 
longo processo de colonização, que teve como base a eliminação e a opressão das 
diversas tribos indígenas que ali estavam. Alémdisso, devemos levar em conta o 
processo de escravidão que ocorreu no país, no qual os negros serviram como base 
para o desenvolvimento da nação.
Estas posturas dos colonizadores norte-americanos foram influenciadas 
pelos valores religiosos de igrejas protestantes, comuns à maioria dos colonos 
de origem anglo-saxã. Esta influência permeou o pensamento e as atitudes dos 
colonizadores norte-americanos em relação aos demais grupos, desencadeando, 
mais tarde, uma série de movimentos pela busca de justiça social.
Para falarmos sobre as políticas multiculturais nos Estados Unidos, 
realizamos um breve relato histórico da constituição do território, enfatizando a 
relação dos colonos norte-americanos com os nativos, assim como com os escravos 
trazidos da África. Além disso, destacaremos a importância do movimento negro 
em prol da luta pelos direitos civis. 
3.2 MULTICULTURALISMO NOS EUA
Como já mencionamos, para compreender o contexto de surgimento das 
políticas multiculturais nos Estados Unidas da América, devemos resgatar o 
processo de constituição do Estado norte-americano, especialmente os aspectos das 
populações indígenas no território, a chegada dos primeiros colonos, as diferentes 
religiões que foram trazidas e a herança anglo-saxã, que serviu como base para 
a constituição da elite econômica e política nos EUA, assim como o período da 
escravização dos negros e do apartheid.
Com relação à questão indígena, podemos dizer que antes da vinda dos 
primeiros colonos para a América do Norte, a região já era habitada por diversos 
povos nativos. Semprini (1999) estima que tenha havido um total de três a quatro 
milhões de índios no território norte-americano na época da colonização, no século 
XVII. Havia uma infinidade de povos ameríndios, entre os principais podemos 
destacar as tribos: Apaches, Navajos, Cheroqui, Moicanos, Comanches, Aruaques, 
Chibchas, Mapuche e outras.
136
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
Até o século XIX a população de ameríndios nos EUA foi praticamente 
exterminada. Segundo Semprini (1999), o número de sobreviventes deste 
genocídio, confinados em reservas, não chegava a 200 mil pessoas. “O massacre 
físico se prolongaria ao longo do século XX, por uma política sistemática de 
assimilação forçada e de enraizamento cultural: deslocamento de populações, 
mistura de tribos diferentes, proibição de práticas rituais tradicionais de culto e do 
ensino da língua indígena” (SEMPRINI, 1999, p. 13).
Entender o processo de extinção das tribos indígenas norte-americanas 
torna-se importante para compreendermos os motivos que levam os grupos 
minoritários a buscarem o mínimo de reparação para as suas inúmeras perdas, 
dentre as quais a substancial perda da sua identidade. No entanto, no decorrer do 
processo de colonização, conforme comenta Semprini (1999), o sangue indígena 
com o sangue de seus “conquistadores” misturou-se ao longo do tempo e acabou 
ficando impresso na constituição da “raça” americana. No entanto, somente há 
pouco tempo os norte-americanos passaram a considerar o elemento indígena 
como parte da constituição de sua identidade e, portanto, aceitar essa perspectiva. 
Segundo Semprini (1999, p. 14), assumir essa característica de sua identidade: 
[...] significa entender que seu país foi construído sobre um genocídio. 
Esta tomada de consciência resulta, então, na procura de uma nova 
continuidade. Durante dois séculos o elemento índio havia representado 
a alteridade absoluta, a diferença que deveria ser eliminada para a 
afirmação de sua própria identidade. Foi imposta uma descontinuidade 
absoluta, por extermínio, depois por assimilação-apagamento, e em 
seguida por segregação. 
Somente a partir dos anos 30 a política de eliminação da identidade 
indígena foi sendo aos poucos abandonada. No entanto, somente a partir dos anos 
60 é que a questão indígena passa a ser levada em conta pela classe política e pela 
opinião pública, no sentido de reconhecer a necessidade de uma compensação por 
tanta selvageria e para que seja reconhecido às nações indígenas (Indian Nations) 
um estatuto oficial e direitos próprios (SEMPRINI, 1999).
DICAS
Se você quiser saber mais sobre a história dos 
índios norte-americanos, assista ao documentário 
sobre um de seus principais líderes, “Touro Sentado”, acessando 
o site: <https://www.youtube.com/watch?v=S8EVrf3kCbA>. 
Touro Sentado foi um nativo americano que tentou evitar que 
os colonizadores americanos tomassem as terras indígenas. Ele 
é conhecido por seu papel na batalha de Little Big Horn. Nessa 
luta, ele derrotou um grupo de soldados comandados pelo 
tenente-coronel George Armstrong Custer, dos Estados Unidos. 
Touro Sentado era membro dos lacotas, ou sioux tetons. Nasceu 
por volta de 1831, perto do Rio Grand, onde fica atualmente o 
Estado de Dakota do Sul. Seu nome sioux era Tatanka Iyotake. 
Foi nomeado chefe de toda a nação sioux por volta de 1867.
FONTE: Disponível em: <http://escola.britannica.com.br/levels/
fundamental/article/Touro-Sentado/482509>. Acesso em: 15 maio 2017.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES 
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
137
A história da escravidão nos Estados Unidos começa em 1619, com a chegada 
dos primeiros escravos na Ilha de Jamestown, no Estado da Virgínia. Durante o 
período de escravidão os negros foram tratados como mercadoria. “Importados” 
da África, eram separados de seus familiares e vendidos para os plantadores de 
algodão e demais agricultores do Sul dos Estados Unidos. Foram os negros que 
serviram de mão de obra para as plantações dos agricultores sulistas. 
Pode-se discernir, sem maiores dificuldades, diversos elementos 
fomentadores da questão negra atual na história da implantação desta 
minoria. O múltiplo desenraizamento (geográfico, cultural, étnico, 
familiar) imposto aos escravos pode ser tido como a origem do problema 
identitário que atormenta a minoria negra. Privados de qualquer forma 
de enraizamento tradicional ou de afinidades, os escravos e seus 
descendentes somente puderam encontrar no isolamento e separação 
da cultura branca dominante os fragmentos de uma nova identidade a 
ser reconstruída ou a ser totalmente recriada (SEMPRINI, 1999, p. 16).
Oficialmente, a escravidão durou até o dia 1º de janeiro de 1863, quando 
o então presidente Abraham Lincoln assinou a Proclamação de Emancipação dos 
escravos (Emancipation Proclamation), que libertaria quatro milhões de escravos 
até o dia 1º de janeiro do ano seguinte. No entanto, Lincoln não tomou a posição 
em prol da abolição porque comungava dos mesmos ideais que os defensores da 
abolição, mas sim porque precisava do apoio dos democratas do Norte, entre os 
quais havia uma parcela significativa de eleitores abolicionistas e simpatizantes 
da causa negra. Desta forma, Lincoln conquistou o movimento abolicionista, 
mudando desta maneira o sentido da Guerra de Secessão, incorporando também 
o fim da escravatura, como a preservação da unidade nacional, como interesses 
principais do conflito. Os agricultores do Sul não se conformaram com a situação, 
pois acreditavam que a estrutura agrária servia de argumento para se afirmar 
a necessidade da escravidão na região, na medida em que entendiam que os 
negros eram, intrinsecamente, inferiores aos brancos, o que justificaria assim a 
discriminação racial. 
Percebe-se, portanto, que a discriminação do povo norte-americano em 
relação à comunidade negra foi profundamente enraizada na cultura estadunidense. 
De acordo com Semprini (1999, p. 17):
O silêncio da Constituição Americana sobre a escravidão e o 
enraizamento deste costume na economia e nos costumes dos Estados 
sulistas permitem compreender a presença e a continuidade no tempo, 
dentro da mesma sociedade, de uma corrente racista de tipo biológico 
ou essencialista.Durante muito tempo, por exemplo, os tribunais do 
país aplicaram a regra denominada de “gota de sangue” (one drop rule), 
segundo a qual o simples fato de ter um bisavô negro [...] bastava para 
classificar um indivíduo como pertencente à “raça” negra. Além de 
ridícula, a one drup rule expõe os defensores do racismo biológico contra 
os negros e a obsessão de pureza da qual estão imbuídos.
Esta postura racista do povo norte-americano ainda permanece na 
organização social do país de forma intrínseca. É por este traço discriminatório 
enraizado na cultura norte-americana que, de vez em quando, surgem “pesquisas” 
138
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
com base em argumentos biológicos que procuram provar a inferioridade ou 
superioridade “natural” de algumas “raças” sobre outras. 
Havia, e ainda há, uma característica fundamental na questão da 
desigualdade racial nos Estados Unidos. Ela se desenvolveu e se mantém pelo 
processo contínuo de separação racial ao longo do tempo e pela crença ontológica 
de que os negros são, naturalmente, inferiores aos brancos. Oliven (2007, p. 31) 
destaca que: 
apesar dos princípios igualitários da república, a economia norte-
americana, principalmente no Sul, apoiava-se no trabalho escravo. 
Mesmo após a abolição, negros e brancos formavam mundos à parte. 
Essa realidade de segregação passa a ter um fundamento legal a partir de 
uma decisão da Suprema Corte, em 1896, que considerava constitucional 
acomodações separadas para brancos e negros em transportes públicos, 
desde que fossem equiparáveis. A filosofia do “igual, mas separado” 
erigiu uma barreira, negando aos não brancos o livre acesso à moradia, 
restaurantes e à maior parte dos serviços públicos.
NOTA
Um aspecto bastante específico da realidade estadunidense é a forma como são 
construídas as categorias relacionadas à cor dos indivíduos. Para ser considerado negro basta 
ter tido um ancestral africano. Isso gera um preconceito racial de origem, ao passo que no 
Brasil, como nos esclarece Oracy Nogueira (1985), o preconceito racial é de marca. Para os 
estadunidenses, mais importante na classificação racial é o genótipo, enquanto que no Brasil 
o que importa é o fenótipo, a aparência física.
Ao longo do século XX, nos Estados Unidos, houve diversos episódios de 
discriminação e segregação racial em relação aos negros, como: as perseguições por 
parte de organizações racistas, como a Ku Klux Klan, as discriminações no direito 
eleitoral, no mercado de trabalho, no acesso ao ensino e à habitação. Isso tudo 
desencadeou uma série de movimentos e levantes em prol da igualdade racial. 
Esses movimentos foram marcados por várias personalidades que influenciaram 
de forma decisiva na luta pela conquista dos direitos civis. 
O pastor Martin Luther King Jr. foi um personagem que influenciou de forma 
decisiva o movimento de luta por direitos. King foi um líder que, influenciado pelo 
pensamento de Mahatma Gandhi, lutou pela integração dos negros na sociedade 
americana. O movimento pelos direitos civis, liderado por ele, pregava a não violência 
e contou com a adesão de muitos brancos que eram, também, a favor da causa.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES 
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
139
DICAS
Para saber mais sobre a vida e a luta de Martin Luther King, assista ao filme: “Selma: 
Uma Luta pela Igualdade”, que narra sua história como pastor protestante e ativista social, que 
acompanha as históricas marchas realizadas por ele e manifestantes pacifistas em 1965, entre 
a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do Estado, Montgomery, em busca de 
direitos eleitorais iguais para a comunidade afro-americana.
Contrariamente ao movimento pacífico liderado por Martin Luther King, 
que tinha como objetivo a integração racial, as lideranças que continuaram a 
defender os direitos dos negros, após seu assassinato, lutavam pela separação 
racial, exigindo do governo uma parcela de terras para viverem suas vidas, ou 
mesmo o retorno a suas terras de origem. 
De acordo com Oliven (2007), a atitude radical desse movimento se 
constituiu na antítese da filosofia de integração, que orientou o movimento pelos 
direitos civis. 
Ainda em meados da década de 1960, na Califórnia, surge o movimento Black 
Panther (Pantera Negra). Um movimento armado que exigia uma compensação 
financeira da “América Branca” pelos séculos de exploração. Além disso, exigia 
também a isenção de impostos, a permissão para o uso de armas, além de outras 
exigências. Esse movimento cometeu muitos excessos, o que comprometeu o apoio 
da opinião pública da época, motivo pelo qual o movimento se enfraqueceu. No 
entanto, com algumas alterações nas estratégias de mobilizações, o movimento 
sobreviveu até o ano de 1986.
3.2.1 A Lei dos Direitos Civis e as primeiras políticas de 
ações afirmativas
De maneira geral, os enfrentamentos e as lutas por direitos sociais nos 
Estados Unidos, no início do século XX, dividiram as opiniões. De um lado, havia 
os grupos a favor da integração racial e, de outro, os grupos segregacionistas, que 
não desejavam a mudança, pois consideravam legítimas as desigualdades. De 
certa forma, o que ocorre é que, no ano de 1964, o Congresso norte-americano 
aprovou o Civil Rights Act (Lei dos Direitos Civis), que, além de banir todo tipo 
de discriminação, concedeu ao Governo Federal poderes para implementar a 
dessegregação. 
O termo ações afirmativas foi primeiramente empregado em 1961, quando 
o presidente Kennedy organizou um grupo de trabalho para refletir e deliberar 
sobre a questão das oportunidades iguais no mercado de trabalho. Em seguida, 
140
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
em 1965, o presidente Lyndon Johnson instituiu que as empresas prestadoras de 
serviço ao governo deveriam assegurar um processo seletivo de trabalho de forma 
igualitária para todos os cidadãos. Determinou ainda que as empresas deveriam 
promover ações afirmativas que tivessem como objetivo combater a discriminação 
do passado. Com o passar do tempo, na década de 1970, essa iniciativa do governo 
passa a ser implementada nas instituições de ensino e nas empresas privadas, 
sendo punidas as instituições que desrespeitassem as exigências oficiais dos planos 
e programas de ação afirmativa.
NOTA
NOTA
Em termos demográficos, a presença da população negra na sociedade americana 
é menor do que no Brasil, atingindo pouco mais de 10%, grande parte dela concentrada em 
centros empobrecidos das grandes metrópoles.
WASP: Este termo é utilizado de forma pejorativa nos países norte-americanos. 
Teoricamente, a palavra designa um grupo relativamente homogêneo de indivíduos 
estadunidenses de religião protestante e ascendência britânica que supostamente detêm 
enorme poder econômico, político e social. Costuma ser empregada para indicar desaprovação 
ao poder excessivo de que esse grupo gozaria na sociedade norte-americana.
A partir do momento em que a comunidade negra efetivamente começa a 
colher os resultados da mobilização social, através de políticas afirmativas, outros 
grupos começam a se organizar no sentido de acessar direitos próprios às suas 
especificidades.
De acordo com Oliven (2007), a luta dos movimentos sociais do período 
pode ser em parte resumida como a tentativa de enfrentar a “supremacia WASP 
(White, Anglo-Saxan and Protestant)”. Ou seja, enfrentar uma maioria branca, anglo-
saxã e protestante, entendidos como colonos “oficiais” do território.
Do ponto de vista do desenvolvimento e ampliação das políticas afirmativas 
nos Estados Unidos, no período, surgem quatro grandes grupos que passam a ser 
atendidos sistematicamente. De acordo com Oliven (2007, p. 35), são eles:
1. African-Americans, negros nascidosnos Estados Unidos.
2. Native-Americans, descendentes de índios que pertencem a vários 
grupos, grande parte deles vivendo nos territórios indígenas 
demarcados. 
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES 
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
141
3. Asian-Americans, descendentes de asiáticos que formam um grupo 
muito heterogêneo em termos de nacionalidades, etnias, culturas e 
nível de escolaridade; são, também, oriundos de períodos migratórios 
diferentes.
4. Hispanics, mexicanos, porto-riquenhos, cubanos e demais migrantes 
de outros países da América Central e do Sul e seus descendentes, que 
podem ser brancos, indígenas ou negros. 
De acordo com essa classificação, do ponto de vista da promoção do 
acesso a direitos, muitos grupos estariam mal representados, ou mesmo sem 
representação, dada, por exemplo, a infinidade de descendentes de imigrantes 
nos Estados Unidos. Nesse sentido, as políticas de ação afirmativa tornam-se mais 
vulneráveis. Vejamos agora, sob a ótica Oliven (2007), um pequeno texto sobre o 
debate da ação afirmativa nos Estados Unidos.
O DEBATE SOBRE A AÇÃO AFIRMATIVA NOS ESTADOS UNIDOS 
Foi principalmente através da política de ação afirmativa que se 
acentuou a diversidade no ensino superior norte-americano em termos de 
presença conspícua de elementos pertencentes a minorias, nos campi de 
universidades mais seletas. Essa política não tem sido facilmente aceita e tem 
suscitado uma discussão intensa, que transcende os limites da universidade 
e, em última instância, liga-se à questão da nacionalidade.
Glazer (1975), baseando seu argumento no fato de que os EEUU são 
o primeiro país a se definir, não em termos de origem étnica, mas em termos 
de adesão a regras comuns de cidadania, considera inconstitucionais as 
políticas governamentais que justificam o que ele chama de “discriminação 
afirmativa”, ou seja, o favorecimento de minorias com o fim de alcançar 
o objetivo da igualdade. O referido autor se surpreende pelo fato de que 
políticas, que reverteram o consenso de dois séculos de história americana, 
pudessem se estabelecer de forma tão poderosa no espaço de uma década. 
Para se entender essa realidade é preciso levar em conta o fato de que a 
nação norte-americana, embora tenha em seu ideário os princípios liberais 
de liberdade e igualdade baseadas no mérito, paradoxalmente, conviveu, 
por muitos anos, com uma realidade excludente, que aceitava o extermínio 
dos índios em prol do progresso, a escravidão e discriminação dos negros e 
a própria marginalização das mulheres, consideradas seres inferiores. 
Para Takaki (1994), asiático-americano e professor da Universidade da 
Califórnia, os críticos das políticas de ação afirmativa, muitas vezes, omitem o 
fato de que através da história norte-americana houve sempre discriminação 
positiva para homens brancos, que se beneficiaram, durante muito tempo, 
de oportunidades educacionais e profissionais que lhes eram reservadas. 
Eles desfrutavam de inúmeras vantagens sociais, sem terem de enfrentar a 
concorrência de mulheres e de minorias consideradas não brancas. Na medida 
em que essas vantagens eram repassadas a seus filhos brancos, por gerações 
142
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
e gerações, elas se tornavam cumulativas. Aqueles que desejam abolir as 
políticas de ação afirmativa colocam vários argumentos, tais como: 
– a existência de cotas acaba sendo injusta e mesmo desrespeitosa para 
os membros de minorias que sejam realmente competentes, pois eles 
são invariavelmente tomados como beneficiários de uma política de 
discriminação positiva a favor de seu grupo; 
– raça não é um sinônimo de condição social, ou seja, nem todos os negros 
são pobres e nem todos os pobres são negros; 
– as políticas de ação afirmativa deram origem a uma burocracia encarregada 
de promover programas para combater a discriminação racial, e esse grupo 
de burocratas tende a se expandir desenvolvendo interesses próprios.
 Uma das formas de tornar mais aceitáveis as políticas de ação 
afirmativa é a de apresentá-las não como uma política de discriminação 
positiva, mas como uma forma de respeitar as diferenças culturais numa 
sociedade que se torna cada vez mais multicultural. 
Young (1995) chama a atenção para a necessidade de que as diferenças 
sociais, que impliquem em relações de opressão, sejam trazidas a público e 
façam parte das negociações políticas. Para a referida autora, a diferença tem 
de ser contextualizada, ela faz parte de um processo relacional. A comparação 
de grupos sociais é algo bastante complexo e envolve não apenas os grupos 
que são comparados, mas, também, os critérios e os objetivos da comparação. 
É importante, também, não esquecer que o fato de haver diferenças entre 
grupos não exclui a presença de atributos, experiências e objetivos em comum 
(WILSON, 1994). Num enfoque que privilegia a perspectiva da justiça social, 
Wilson aponta as limitações das políticas de ação afirmativa para a solução 
dos graves problemas que afetam a população negra americana no presente. 
Ele chama a atenção para o fato de que mudanças políticas e econômicas 
contribuíram para a mobilidade individual de um segmento da população 
negra, o que propiciou um processo de desracialização no setor econômico, ou 
seja, diferenças raciais perdem a importância em determinar a ascensão social 
nos Estados Unidos. Se, por um lado, o crescimento econômico deu origem 
a uma classe média negra, por outro lado, a reorientação da economia, que 
seguiu ao período de prosperidade, tem diminuído as oportunidades de 
quase toda a natureza para os outros segmentos da população negra.
 A mudança econômica, que se caracterizou pela desindustrialização 
de certos setores e maior ênfase na prestação de serviços, tem tornado 
redundantes os negros, trabalhadores industriais. 
Muitas indústrias, que não necessitam de mão de obra especializada, 
deixaram as grandes metrópoles americanas para se instalar em países com 
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES 
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
143
mão de obra mais barata. Assim, os negros, principalmente os homens, 
essenciais na força de trabalho no passado, têm se tornado, em grande parte, 
supérfluos como trabalhadores no presente (WILSON, 1994). 
O referido autor é crítico da atmosfera de verdadeiro chauvinismo 
racial que impregnou alguns representantes do que chama de “perspectiva 
negra”. Assim, as atitudes de cooperação e integração entre as raças 
acabaram por ser desqualificadas e a solidariedade dentro do grupo 
assumiu uma proporção indevida, que pregava a hostilidade em relação aos 
brancos em geral. Essa perspectiva tirou de foco a discussão de problemas 
relacionados com as mudanças estruturais da economia, que estavam 
afetando profundamente as populações negras mais carentes; uma vez que 
o problema era definido em termos raciais, as discussões de caráter mais 
econômico tornavam-se secundárias. 
Pode-se dizer que a política de ação afirmativa nas universidades 
tem muito a ver com os valores norte-americanos: elementos das minorias, 
inclusive as mulheres, passam a ter a sua chance de vencer na vida, de cada 
grupo são cooptados os melhores para participar nas esferas econômica, 
acadêmica, política e, na medida em que eles são bem-sucedidos, passam a 
servir de exemplo aos demais. Essa política é talhada para reforçar a ideia de 
tipo ideal americano como the winner, o vencedor, e não se dirige para a solução 
dos problemas que afetam um significativo segmento da população – the 
losers, os perdedores –, aqueles que são deixados à margem na reestruturação 
econômica da sociedade capitalista e que, ainda por cima, devem carregar o 
ônus da responsabilidade de sua precária condição. É importante, no entanto,salientar que as políticas de ação afirmativa favoreceram a mobilidade social 
de certos segmentos da população negra e de outros grupos discriminados. 
Elas abriram as portas da universidade para minorias até então praticamente 
excluídas. Mais do que isso, o debate sobre a Ação Afirmativa traz à 
discussão a questão da discriminação social, do ônus que isso representa para 
determinados grupos e das possíveis orientações políticas que possam vir a 
combater uma situação social inerentemente injusta.
A Universidade da Califórnia, a maior e mais importante 
universidade pública nos Estados Unidos, ainda na década de 60 foi uma 
das primeiras a estabelecer programas que aumentassem a presença de 
minorias na sua comunidade acadêmica. Em dezembro de 1994 foram 
amplamente noticiados os dados sobre o aumento do percentual de 
minorias, que passaram a representar 21% dos calouros. Galligani, assistente 
do vice-presidente encarregado da parte acadêmica dos estudantes, disse em 
entrevista: “É gratificante que o nosso comprometimento com a diversidade 
tenha alcançado bons resultados”. No ano seguinte, no entanto, os Regents, 
responsáveis pela universidade, aproveitando o recesso escolar, votaram, 
no mês de julho de 1995, a suspensão dos programas de ação afirmativa 
baseados no critério racial. 
144
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
Moehlecke (2004), ao analisar o caso da Universidade da Califórnia, 
mostra como o abandono de cotas raciais, no final da década de 1990, fez 
o percentual dos alunos negros retroceder aos níveis dos anos 60. No ano 
2001 a Universidade passou, então, a admitir automaticamente os melhores 
alunos das escolas públicas, elevando assim o número de alunos negros; 
esses, no entanto, passaram a ser aceitos em campi e cursos menos seletivos. 
A referida autora conclui: 
o que vale observar das mudanças pelas quais a Universidade 
da Califórnia passou ao longo desse processo é que, mesmo após 
os reveses e a extinção de medidas raciais, a preocupação com 
a igualdade e a diversidade de seus campi continua parte dos 
objetivos básicos da instituição. [...] O que se define hoje como uma 
universidade de excelência nos Estados Unidos, diferentemente do 
que ocorria nos anos de 1960, envolve necessariamente valores como 
a inclusão, igualdade e diversidade (MOEHLECKE, 2004, p. 772). 
Para Ibarra (2001), a maioria das pessoas, atualmente, pensa que 
as ações afirmativas vão desaparecer do cenário da educação superior 
ou, ao menos, acreditam que elas vão evoluir. No final da década de 90, 
as administrações de George Bush no Texas e de seu irmão, na Flórida, 
instituíram a admissão garantida nas universidades estaduais para os 
melhores alunos das escolas médias, com isso dificultando o acesso de 
minorias ao ensino superior. 
Essas decisões políticas representam uma mudança dramática 
para a educação superior americana. Elas ocorreram 
paralelamente a recorrentes protestos de discriminação e 
racismo institucional nos campi universitários em todo o país; 
acusações que sempre deixam um sentimento amargo e uma 
sensação de perplexidade entre a maioria dos homens que 
continuam a manter o predomínio entre o corpo docente e de 
posições administrativas (IBARRA, 2001, p. 3).
O referido autor chama a atenção para o reduzido número de pesquisas 
feitas sobre o aumento da diversidade nas universidades americanas. “A ação 
afirmativa tem se tornado, simplesmente, a coisa certa a ser feita, e ninguém 
tem se empenhado em justificar o seu valor de alguma forma mais objetiva. 
O resultado pela complacência foi a debacle dos 1990s” (IBARRA, 2001, p. 4). 
Em 2003, a Suprema Corte dos Estados Unidos reafirmou a 
constitucionalidade de levar em conta raça e etnia na seleção dos alunos para 
a universidade. Essa decisão judicial reacendeu o debate nacional e levou 
os grupos contrários às ações afirmativas a intensificarem procedimentos 
outros que não os jurídicos, mudando a sua estratégia política através da 
promoção de plebiscitos estaduais (MOSES, 2005).
FONTE: Disponível em: <revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/.../539/375>. Acesso 
em: 17 maio 2017.
TÓPICO 3 | GÊNERO E MULTICULTURALISMO - CONCEITOS IMPORTANTES 
PARA O COMBATE ÀS DESIGUALDES SOCIAIS ONTEM E HOJE
145
Não falamos aqui sobre outros movimentos sociais da década de 1960 nos 
Estados Unidos porque o movimento negro foi o que mais teve peso na conquista 
dos direitos civis, momento de abertura política para os movimentos em geral. No 
entanto, não podemos deixar de admitir que muitos outros movimentos foram 
importantes para a conquista das políticas multiculturais. Dentre eles, podemos 
destacar os movimentos: operário, feminista, homossexual, hippie, religioso e outros.
 
3.3 CONCEITUANDO POLÍTICAS PÚBLICAS E DE AÇÃO 
AFIRMATIVA
Traremos o debate sobre políticas públicas e demonstraremos as políticas 
afirmativas que, no geral, visam proteger as minorias étnicas que tenham 
sido discriminadas no passado, dando a elas condições de acesso ao trabalho, 
universidades e posições de liderança.
Para compreendermos o debate do multiculturalismo do ponto de vista das 
ações políticas, precisamos refletir primeiramente sobre o conceito de “políticas 
públicas”.
No decorrer das pesquisas para o desenvolvimento deste livro, nos 
deparamos com vários conceitos de “política pública”, porque, assim como o 
multiculturalismo, o conceito representa, ao mesmo tempo, aspectos políticos 
(ações e programas de governo) e acadêmicos (áreas de conhecimento que 
discutem teoricamente o tema). Podemos dizer, portanto, que o conceito é múltiplo, 
porque o campo de discussão é muito vasto, e pode ser entendido como uma área 
interdisciplinar de conhecimento. De acordo com pesquisas de Souza (2006, p. 24):
não existe uma única, nem melhor definição sobre o que seja política 
pública. Mead (1995) a define como um campo dentro do estudo da 
política que analisa o governo à luz de grandes questões públicas, e Lynn 
(1980), como um conjunto de ações do governo que irá produzir efeitos 
específicos. Peters (1986) segue o mesmo veio: política pública é a soma 
das atividades dos governos [...] que influenciam a vida dos cidadãos. Dye 
(1984) sintetiza: “política pública é o que o governo escolhe fazer ou não 
fazer”. A definição mais conhecida continua a ser a de Laswell: Decisões e 
análises sobre política pública implicam responder às seguintes questões: 
quem ganha o quê, por que e que diferença faz. 
 Segundo S imões Pires (2001), as políticas públicas devem ser desenvolvidas, 
na medida em que se leve em consideração as posições e interesses da sociedade, 
através de um processo democrático de participação. 
As políticas públicas devem ser - em sua formulação - a expressão pura e 
genuína do interesse geral da sociedade, o que, num processo legítimo, 
pressupõe seja a demanda social auscultada em instâncias democráticas, 
enfrentada de forma realística pela instituição formuladora e 
solucionada à luz do possível consenso dos atores sociais, sem prejuízo 
da adoção de critérios de conhecimento tecnicamente racionais para a 
146
UNIDADE 2 | TEORIAS DA ETNICIDADE, RELAÇÕES DE GÊNERO E O DEBATE MULTICULTURAL
solução de problemas sociais, a partir de eficaz fluxo de informações 
(SIMÕES PIRES, 2001, p. 192). 
Em última análise, entende-se que as “políticas públicas” devem 
representar o conjunto de ações políticas desenvolvidas e implementadas por 
todos os atores políticos, de maneira que garantam a satisfação das demandas 
sociais levantadas nas mais diversas áreas. 
No caso das políticas de ações afirmativas, o termo está relacionado 
ao contexto dos movimentos sociais da década de 1960, na América do Norte, 
especialmente a partir do movimento negro. O termo “ações afirmativas” surge 
pela primeira vez no ano de1961, durante o governo Kennedy, que se preocupava 
com a possibilidade de igualdade para negros e brancos no mercado de trabalho. 
Atualmente, o termo “políticas de ações afirmativas” pode ser entendido como: 
[...] o conjunto de políticas públicas para proteger minorias e grupos que, 
em uma determinada sociedade, tenham sido discriminados no passado. 
A ação afirmativa visa remover barreiras, formais e informais, que 
impeçam o acesso de certos grupos ao mercado de trabalho, universidades 
e posições de liderança. Em termos práticos, as ações afirmativas 
incentivam as organizações a agir positivamente, a fim de favorecer 
pessoas de segmentos sociais discriminados a terem oportunidade de 
ascender a postos de comando. Nessa perspectiva, a sub-representação 
de minorias, em instituições e posições de maior prestígio e poder na 
sociedade pode ser considerada um reflexo de discriminação. Portanto, 
visa-se, por um período provisório, a criação de incentivos aos grupos 
minoritários, que busquem o equilíbrio entre os percentuais de cada 
minoria na população em geral e os percentuais dessas mesmas minorias 
na composição dos grupos de poder nas diversas instituições que fazem 
parte da sociedade (OLIVEN, 2007, p. 30).
As políticas de ação afirmativa também são comumente chamadas de 
“políticas multiculturais”, referindo-se ao caráter das lutas políticas do movimento. 
Por outro lado, as políticas de ação afirmativa são entendidas pelos críticos do 
movimento multiculturalista como movimentos de “discriminação positiva”.
NOTA
DISCRIMINAÇÃO POSITIVA trata deliberadamente os candidatos de forma 
desigual, favorecendo pessoas de grupos que tenham sido vítimas habituais de discriminação. 
O objetivo de tratar as pessoas desta forma desigual é acelerar o processo de tornar a sociedade 
mais igualitária, acabando não apenas com desequilíbrios existentes em certas profissões, mas 
proporcionando também modelos que possam ser seguidos e respeitados pelos jovens dos 
grupos tradicionalmente menos respeitados. [...]
A discriminação positiva é apenas uma medida temporária, até que a percentagem de membros 
do grupo tradicionalmente excluído reflita mais ou menos a percentagem de membros deste 
grupo na população em geral. Em alguns países é ilegal; noutros, é obrigatória.
FONTE: Adaptado de: <cadernosociologia.blogspot.com/2011_03_01_archive.html>. Acesso 
em: 30 set. 2011.
147
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• A compreensão de que os estudos de gênero tiveram sua origem nos movimentos 
feministas, especialmente aqueles da década de 1940 e 1960, nos EUA.
• O feminismo é um conceito múltiplo, porque possui uma dimensão política, 
que se refere aos movimentos de luta por direitos, e uma dimensão acadêmica, 
que se refere aos estudos da condição feminina.
• A divisão cronológica dos diferentes momentos históricos do Movimento 
Feminista: A Primeira Onda Feminista, ocorrida durante o século XIX e fim do 
século XX; a Segunda Onda, entre as décadas de 1940 e 1970; e a Terceira Onda, 
que ocorre a partir da década de 1980 e introduz o termo “Gênero” nos espaços 
universitários. 
• O conceito de gênero: em última instancia, o gênero é uma categoria social 
imposta sobre um corpo sexuado.
• O entendimento de que o multiculturalismo é, ao mesmo tempo, um movimento 
social de luta por direitos e um campo de estudos, assim como o feminismo.
• A compreensão de que o objetivo do multiculturalismo, assim como todo o 
debate das relações interétnicas, é lutar pela igualdade e pelo reconhecimento 
das diferenças.
• Demonstrar a constituição do território norte-americano, enfocando o processo 
de extermínio dos nativos e, mais tarde, a escravidão. 
• Compreender a importância dos movimentos sociais da década de 1970, 
especialmente o movimento negro para o surgimento do multiculturalismo.
• Identificar os principais movimentos negros do período e suas principais 
lideranças.
• Compreender o que são políticas públicas de ação afirmativa e sua importância 
para o desenvolvimento e cidadania dos grupos minoritários e excluídos.
148
1 Os estudos de gênero surgiram na década de 1980, como uma continuidade 
das discussões feministas que já denunciavam as situações de poder e 
hierarquia dos homens sobre as mulheres. Com o objetivo de compreender 
esses processos, alguns estudiosos começaram a levar essa discussão para 
o ambiente acadêmico. Ali, descartaram de uma vez por todas a explicação 
corrente de que as mulheres seriam biologicamente inferiores aos homens e 
criaram uma ferramenta de análise social chamada Gênero para explicar essas 
assimetrias. Explique como o gênero esclarece a desigualdade entre homens e 
mulheres.
2 O multiculturalismo é um termo polissêmico, na medida em que apresenta 
dois sentidos: o primeiro é o sentido descritivo e o segundo é o sentido 
prescritivo. O primeiro está relacionado à diversidade cultural, étnica e 
religiosa de um grupo social. E o segundo, como pode ser interpretado? 
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Como políticas de reconhecimento da identidade e/ou da diferença 
que os poderes públicos desenvolvem em nome dos grupos minoritários e/ou 
“subalternos”.
b) ( ) Como o excesso de políticas públicas afirmativas para os movimentos 
sociais.
c) ( ) Como o processo de colonização norte-americano, fortemente 
influenciado pelos valores religiosos anglo-saxões.
d) ( ) Como a compreensão multi e interdisciplinar do contexto histórico, 
socioeconômico e cultural desses diferentes grupos sociais.
AUTOATIVIDADE
149
UNIDADE 3
MULTICULTURALISMO, GÊNERO,
RAÇA E ETNIA NO BRASIL
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
 Esta unidade tem por objetivos:
• definir e indicar o desenvolvimento do conceito de Multiculturalismo, 
elencando as maneiras como o tema é tratado em alguns países latino-a-
mericanos e no Brasil;
• caracterizar algumas definições de políticas afirmativas, contextualizando 
essa discussão ao cenário brasileiro através dos exemplos das políticas ela-
boradas para os grupos indígenas, negros e das mulheres;
• discutir algumas formas estruturais e persistentes de desigualdades pre-
sentes na sociedade brasileira, destacando a situação das mulheres e das 
populações negras;
• contextualizar as múltiplas dimensões das desigualdades centradas nas 
relações de gênero e raciais presentes no Brasil.
Esta unidade está dividida em três tópicos e no decorrer de cada um deles 
você encontrará atividades que o ajudarão a fixar os conteúdos adquiridos.
TÓPICO 1 – AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E 
NO BRASIL
TÓPICO 2 – DESIGUALDADES E VIOLÊNCIA DE GÊNERO NO BRASIL
TÓPICO 3 – AS DESIGUALDADES BRASILEIRAS EM TORNO DA RAÇA
150
151
TÓPICO 1
AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA 
LATINA E NO BRASIL
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Para iniciar esta etapa, vamos começar discutindo a categoria raça e seu 
desenvolvimento histórico. Tal conceito, como veremos adiante, tem sofrido 
críticas quanto à sua utilização nas Ciências Sociais, da mesma forma como existe 
a defesa de sua utilização. Lívio Sansone (1998, p. 409) indica, por exemplo, 
categorias alternativas, como “racialização, relações e hierarquias raciais”, ou 
mesmo, o “racismo”. Existe, claro, o peso de seu passado e a ligação com teorias e 
políticas de cunho racistas.
2 A FRAGILIDADE DAS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA 
AMÉRICA LATINA
As políticas multiculturais na América Latina têm sido insuficientes para 
dar conta de diminuir as desigualdades sociais ocasionadas pela exploração de 
vários povos, como os indígenas e os negros. Isso acontece porque, na América 
Latina, a discriminação dirigida a negros, índios e tantas outras minorias étnicas 
ocorre de forma velada, ou seja, de forma indireta e personalista, como se a questão 
fosse individual e não social. Ficando nonível pessoal, muitos governos não 
reconhecem esse problema, e, não o reconhecendo, não planejam e não executam 
políticas públicas nesta direção.
FIGURA 44 - POVOS DA BOLÍVIA E SUA CULTURA
FONTE: Disponível em: <https://turismoescolar.files.wordpress.com/2010/07/lla_llachon.
jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
152
Esse processo começa com a colonização, que em praticamente todos os 
países da América Latina foi de exploração. Europeus, principalmente portugueses 
e espanhóis, invadiram nossas terras em busca de riquezas e, para manter essas 
riquezas, as metrópoles e os demais países da Europa contaram com a exploração 
dos índios e dos negros. Inicialmente, logo que os primeiros descobridores chegaram 
às américas, iniciaram um processo de aculturação dos índios. Ocasionando muitos 
conflitos e choques culturais, e quem saiu perdendo foram os habitantes nativos da 
América Latina “recém-descoberta” pelos europeus, pois de forma violenta e sem 
condições de defesa, vários índios, dentre eles mulheres e crianças, foram mortos 
para que o projeto de exploração desse território pudesse ser levado adiante sem a 
interferência dos nativos.
O processo de colonização da América Latina, que perdurou até o início do 
século XX, em alguns países, quase provocou a eliminação da cultura indígena e 
a supremacia da cultura europeia. Portanto, a diversidade cultural aqui existente 
foi praticamente esquecida, politicamente, e apenas no final do século XX, com as 
constituições federais democráticas, é que alguns países começam a tentar corrigir 
as injustiças praticadas contra esses povos e a iniciar um processo de resgate dessas 
culturas, apesar da completa extinção de muitas tribos indígenas. Vieira e Pinto 
(2008, p. 4) nos dizem que:
As novas constituições contêm algum tipo de reconhecimento da 
diversidade cultural e linguística e, em alguns casos, estabelecem 
regimes jurídicos específicos às comunidades indígenas. Algumas 
respostas são mínimas e pouco satisfatórias, outras são amplas e de 
completa aplicação prática.
É diante desse contexto – onde todos os países da América Latina foram 
colônias de exploração e continuam sofrendo até hoje as consequências sociais e 
econômicas, especificamente as culturas minoritárias, e ainda diante do processo 
de ditadura militar que passou a maioria dos países, a partir de meados do século 
XX até a década de 1980 – que temos que analisar as políticas multiculturais nesses 
países.
3 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA COLÔMBIA
As políticas multiculturais na Colômbia passam a desenvolver-se na década 
de 1990, mais especificamente com a Constituição de 1991, definindo o país como 
multicultural e multiétnico. Vieira e Pinto (2008, p. 2) dizem que na Constituição 
da Colômbia de 1991:
[...] estão presentes os ideais de universalismo e de individualismo 
contidos nos direitos fundamentais de caráter liberal e, ao mesmo 
tempo, o reconhecimento das tradições morais particulares e do direito 
a autogoverno das minorias culturais. Tal reconhecimento foi uma 
enorme conquista para os movimentos sociais indígenas, que puderam 
se manifestar democraticamente na Assembleia Constituinte de 1991. 
No entanto, a institucionalização de um ambiente jurídico plural dentro 
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
153
de um Estado gera a questão de como compatibilizar as diferentes 
ordens, principalmente quando a ordem local viola de qualquer forma 
a ordem normativa nacional ou mesmo internacional. Os conflitos 
entre ordenamentos na Colômbia têm sido resolvidos pela Corte 
Constitucional daquele país.
A Constituição Federal Colombiana de 1991 foi um importante instrumento 
jurídico para aplicação de alguns direitos fundamentais para a população da 
Colômbia, respeitando a diversidade cultural do país e garantindo autonomia e 
direitos específicos para as minorias culturais, ou seja, as comunidades indígenas 
não são julgadas de acordo com os mesmos parâmetros jurídicos (normas e leis) 
das demais comunidades, não sofrendo as mesmas penalidades que são impostas 
aos brancos e negros quando cometem algum delito ou crime. De acordo com 
Sansone (1998, p. 3):
Na história das relações raciais na Colômbia, três fases podem ser 
identificadas: o período colonial, a independência – à qual corresponde 
a criação de uma comunidade nacional – e o desenvolvimento de novas 
perspectivas étnicas, nas últimas décadas. Em cada uma delas o status 
do índio mostrou-se bastante diferente daquele do negro.
Em 1993, o Congresso Colombiano aprovou a Lei nº 70 incorporada 
à Constituição Federal, falando das comunidades negras. Essa lei estabelece 
os direitos essenciais à sobrevivência dessas comunidades e torna ilegal a 
discriminação racial contra esse grupo, além de definir os elementos específicos da 
cultura afro-colombiana. Sansone (1998, p. 4) diz que:
Ela concede direitos fundiários às comunidades negras, mas exclui o 
controle sobre os recursos naturais, o subsolo, os parques nacionais, as 
zonas de interesse militar e as áreas urbanas. A lei prescreve que os recursos 
naturais sejam gerenciados pela comunidade, que está obrigada a fazê-lo de 
forma ecologicamente sustentável. Em segundo lugar, a lei visa melhorar 
a educação, a formação, o acesso ao crédito e, também, as condições 
materiais dessas comunidades. A aplicação desse aspecto da lei deve ser 
garantida mediante a participação de representantes das comunidades no 
Conselho Nacional de Planejamento, assim como na Divisão de Assuntos 
das Comunidades Negras que o governo deverá criar.
Vejamos que, ao mesmo tempo em que a lei estabelece algumas garantias 
fundamentais às comunidades negras colombianas, também delimita a sua 
ocupação e a forma de ocupação nesse território, colocando as comunidades 
negras em espaços específicos, longe do convívio com a comunidade urbana e 
determinando critérios específicos de não exploração dos recursos naturais, mas, 
ao mesmo tempo, eles são obrigados a cuidar e zelar pelos mesmos recursos, pois 
serão os frutos da sua sobrevivência. Um dos aspectos principais dessa lei é sobre 
o direito à educação, levando em consideração os aspectos culturais dos afro-
colombianos.
Apesar dessa lei, ainda existem na Colômbia enormes dificuldades para 
a sua implantação, principalmente os objetivos referentes à proteção da cultura 
dos afro-colombianos, mas o maior benefício que ela trouxe para a sociedade 
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
154
colombiana foi a organização das comunidades negras, que passaram a lutar por 
seus direitos e a reconhecê-los enquanto um grupo étnico específico.
FIGURA 45 - MENINAS COLOMBIANAS
FONTE: Disponível em: <http://globalizacion.org/wp-content/uploads/2016/01/indigenas_
colombia.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Mesmo com o início desse processo de organização das comunidades 
negras, ainda existem inúmeros conflitos entre índios e negros pela posse das 
terras no campo, ambos acusam de ocupação indevida o território delimitado para 
um dos grupos, que, ao invés de lutar pelos seus direitos de posse e ocupação das 
terras perante o governo, ficam brigando entre si, sem considerar a sua condição de 
grupos minoritários perante uma estrutura governamental e social que há muitos 
anos os excluíram.
4 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO PERU
País colonizado pela Espanha, o Peru ainda guarda fortes marcas do seu 
período colonial e de uma cultura homogeneizadora. Por exemplo, falar a língua 
espanhola, usar roupas ocidentais, morar na capital, são hábitos que fizeram com que 
muitos índios se tornassem mestiços para serem reconhecidos na sociedade peruana.
A diversidade cultural, através da preservação da língua e dos costumes de 
diversos povos indígenas que habitavam o Peru desde a colonização atéo final do 
século XX, tem sido esquecida pelo governo, existindo políticas públicas de afirmação 
da identidade desses povos. 
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
155
O Peru apresenta grandes diferenças geográficas e étnicas. Segundo dados 
de 1981, a população (17 milhões) está distribuída desigualmente por três 
regiões: na costa (50% em 1982), na serra (39%) e na selva (11%). Brancos 
e mestiços predominam na costa, onde também se concentra a pequena 
minoria de negros (entre 6% e 10% da população); índios e mestiços 
predominam na serra; e índios amazônicos, junto a um crescente número 
de imigrantes da serra e da costa, na selva (SANSONE, 1998, p. 5).
Para enfrentar os problemas étnicos que o país passava, pressionado 
pelos movimentos indigenistas, o governo peruano promulgou a Carta de 1933, 
que faz com que o Estado tenha o compromisso de proteger os povos e as terras 
indígenas. Mesmo com a promulgação desta Carta, os índios continuaram sendo 
discriminados pela sociedade peruana, que tem privilegiado os brancos e os 
mestiços.
A denominação “índio” tem sido substituída pelo termo “campesino” 
(camponês), porque este foi incluído em uma reforma agrária que aconteceu no 
país em 1969, com o objetivo de proteger os pequenos agricultores e os sem-terra. 
Esses pequenos agricultores e os sem-terra que habitavam a região da serra eram 
índios, mas a discriminação contra esse povo foi tão forte no Peru, por isso houve 
a mudança da denominação.
FIGURA 46 - MULHER PERUANA REPRESENTANTE DA PLURALIDADE DE SEU PAÍS
FONTE: Disponível em: <https://pbs.twimg.com/media/Bg4lJ98CAAAgzr8.jpg>. Acesso 
em: 20 jun. 2017.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
156
5 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA VENEZUELA
A população da Venezuela é composta pela maioria de pardos (mistura 
entre branco, índio e negro), cerca de 75% da população. Os demais 25% são 
brancos e negros. Este país tem sido um dos poucos países na América Latina que 
tem construído políticas de respeito à diversidade étnica e cultural, principalmente 
em relação aos negros.
Após a independência da Espanha em 1821, a Venezuela tem construído 
um discurso em que predomina a democracia racial, e a cultura negra tem sido 
respeitada.
Segundo as pesquisas de Pollak-Eltz (1977); Wright (1990) e Bermúdez 
e Suarez (1995), na Venezuela contemporânea o racismo é presente 
somente de forma sutil, sobretudo no mercado matrimonial e nos 
concursos de beleza, e não chega a bloquear a ascensão social dos 
negros, nem previne que algumas importantes festas populares negras 
tradicionais estejam se tornando autênticas festas nacionais, nas quais 
os brancos celebram a cultura negra como parte da sua própria tradição 
cultural (SANSONE, 1998, p. 3).
Isso significa dizer que a cultura negra foi incorporada à cultura venezuelana, 
mas que ainda existe discriminação entre os negros e demais etnias no país, pois 
devido à forma velada de discriminação, ou seja, quando ela é considerada no nível 
pessoal e não como um problema social, os governos tendem a fazer de conta que 
o problema não existe, e, assim, não desenvolvem políticas públicas de combate 
à discriminação. Esse tipo de pensamento é encontrado na maioria dos países da 
América Latina.
6 POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO MÉXICO
O México é o segundo país mais populoso da América Latina, ficando 
atrás somente do Brasil, com uma população de 109,6 milhões de pessoas. A 
população mexicana é constituída, em sua maioria, por euro-ameríndios, ou seja, 
pela mistura entre espanhóis e índios. Esse grupo étnico responde por cerca de 
60% dos habitantes do país. Os brancos são cerca de 9% da população e os índios 
correspondem a 30% da população.
A ocupação do território mexicano ocorre de forma irregular, devido às 
condições naturais do país, possuindo uma grande área de deserto. Determinadas 
áreas são extremamente povoadas, enquanto outras praticamente desabitadas. 
Essa concentração de pessoas em apenas uma parte do território mexicano ocasiona 
graves problemas sociais, como os bolsões de pobreza encontrados na Cidade do 
México, uma das mais populosas do mundo, com mais de oito milhões de pessoas.
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
157
Um dos problemas que o México vem enfrentando é a questão do sistema 
jurídico ainda influenciado pelos colonizadores espanhóis, não reconhecendo a 
diversidade étnica e cultural existente no país. São aproximadamente 58 etnias 
indígenas diferentes no país, encontradas desde muitos anos antes da colonização 
espanhola.
A proposta é de legitimar os mecanismos e sistemas criados pelos diferentes 
grupos indígenas, dando conta das suas especificidades étnicas e culturais, 
valorizando a sua diversidade cultural, sem correr o risco de sufocar e influenciar 
esses povos, julgando-os através dos valores da cultura ocidental.
7 O SURGIMENTO DAS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NO 
BRASIL
As políticas multiculturais no Brasil surgiram durante o Governo Lula, no 
final do século XX, e ampliaram-se no início do século XXI, através da criação de 
diversas secretarias. Alguns elementos fundamentais para a discussão das políticas 
multiculturais no país são a política de cotas nas universidades, o Estatuto da 
Igualdade Racial e a criação das comunidades quilombolas e negras com direito à 
propriedade da terra e à manutenção da sua cultura.
A seguir veremos que as políticas multiculturais existentes no Brasil são 
importantes instrumentos de ampliação e consolidação das políticas públicas 
FIGURA 47 - OAXACA, MÉXICO MULTICULTURAL
FONTE: Disponível em: <http://e-oaxaca.com/sites/default/files/oaxaca3.jpg>. Acesso em: 
20 jun. 2017.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
158
para a diminuição das desigualdades sociais, na direção de um país mais justo e 
solidário, que leva em consideração a diversidade étnica e cultural existente em 
seu território.
O primeiro mandato do Governo Lula teve início no dia 1º de janeiro de 
2003 e se estendeu até dezembro de 2006. Luiz Inácio Lula da Silva venceu as 
eleições de 2002 após três tentativas. Foi a primeira vez na história do Brasil que 
um ex-operário chegou ao cargo mais importante do país.
Nos governos anteriores a Lula os investimentos realizados foram mais 
voltados para a área econômica, pois o país passava por uma grande crise, com a 
inflação descontrolada. Somente no governo FHC é que o país conseguiu controlar 
a inflação, houve alguns investimentos em programas sociais com o objetivo de 
amenizar as desigualdades sociais existentes no país, mas em relação às políticas 
culturais e o multiculturalismo:
[...] não há registros de que o governo FHC tenha realizado um processo 
de debate público, ou seja, não houve uma abertura à participação 
popular sobre o papel da Cultura na construção de uma sociedade 
democrática, não inserindo a Cultura no desenvolvimento da cidadania 
[...] (PINTO, 2010, p. 14).
Isso significa dizer que apenas no final do século XX e início do século XXI 
é que se iniciam efetivamente alguns investimentos em políticas multiculturais no 
Brasil e a cultura passa a ser considerada um dos parâmetros para o desenvolvimento 
do país, sendo prevista desde a Constituição Federal de 1988.
O governo Lula ampliou as políticas sociais iniciadas no governo FHC. 
Criou o Programa Fome Zero, que consistia na transferência de renda direta para 
famílias com renda per capita de R$ 69,01 a R$ 137,00, com o objetivo de diminuir a 
miséria e a fome no país.
Também foram criadas diversas secretarias com o objetivo de respeitar 
a diversidade étnica e cultural existente no país e diminuir as desigualdades 
sociais históricas, ocasionadas por questões de gênero e raça. Foram criadas a 
Secretaria de Direitos Humanos, Secretaria de Políticasde Promoção da Igualdade 
Racial, Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, bem como o Ministério 
de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Vejamos a seguir quando foram 
criadas e qual o papel de duas delas, que foram importantes para o que estamos 
nos propondo debater neste livro. São elas: Secretaria de Direitos Humanos e a 
Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/
PR) é responsável pela articulação interministerial e intersetorial das políticas 
de promoção e proteção aos direitos humanos no Brasil. Criada em 1977, 
dentro do Ministério da Justiça, foi alçada ao status de ministério em 2003. 
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
159
No ano de 2010 a Secretaria ganhou o atual nome. As principais atribuições 
da SDH/PR foram:
 
• Propor políticas e diretrizes que orientem a promoção dos direitos 
humanos, criando ou apoiando projetos, programas e ações com tal 
finalidade.
• Articular parcerias com os poderes Legislativo e Judiciário, com os estados 
e municípios, com a sociedade civil e com organizações internacionais 
para trabalho de promoção e defesa dos direitos humanos.
• Coordenar a Política Nacional de Direitos Humanos segundo as diretrizes 
do Programa Nacional de Direitos Humanos.
• Receber e encaminhar informações e denúncias de violações de direitos 
da criança e do adolescente, da pessoa com deficiência, da população 
de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais e de todos os grupos sociais 
vulneráveis.
• A SDH/PR atua como Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos.
Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial: a SEPPIR 
(Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) foi criada pelo 
Governo Federal no dia 21 de março de 2003. A data é emblemática: em todo 
o mundo celebra-se o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação 
Racial. A criação da Secretaria é o reconhecimento das lutas históricas do 
Movimento Negro brasileiro. A missão da SEPPIR é estabelecer iniciativas 
contra as desigualdades raciais no país. Seus principais objetivos são:
• Promover a igualdade e a proteção dos direitos de indivíduos e grupos 
raciais e étnicos afetados pela discriminação e demais formas de 
intolerância, com ênfase na população negra.
• Acompanhar e coordenar políticas de diferentes ministérios e outros 
órgãos do governo brasileiro para a promoção da igualdade racial.
• Articular, promover e acompanhar a execução de diversos programas 
de cooperação com organismos públicos e privados, nacionais e 
internacionais.
FONTE: Direitos Humanos (2011). Disponível em: <http://www.direitoshumanos.gov.br/sobre>. 
Acesso em: 20 maio 2016.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
160
• Promover e acompanhar o cumprimento de acordos e convenções 
internacionais assinados pelo Brasil, que digam respeito à promoção da 
igualdade e combate à discriminação racial ou étnica.
• Auxiliar o Ministério das Relações Exteriores nas políticas internacionais, 
no que se refere à aproximação de nações do Continente Africano.
A SEPPIR utiliza como referência política o programa Brasil sem 
Racismo, que abrange a implementação de políticas públicas nas áreas do 
trabalho, emprego e renda; cultura e comunicação; educação; saúde, terras de 
quilombos, mulheres negras, juventude, segurança e relações internacionais. 
A criação da SEPPIR reafirma o compromisso com a construção de uma 
política de governo voltada aos interesses reais da população negra e de 
outros segmentos étnicos discriminados.
FONTE: Políticas de Promoção da Igualdade Racial (2011). Disponível em: <www.seppir.gov.br/ 
sobre>. Acesso em: 20 maio 2016.
Essas secretarias foram criadas para promover a cidadania e diminuir as 
desigualdades sociais no Brasil, além de serem o alicerce na criação de políticas 
multiculturais. Lembrando que essas secretarias permanecem até os dias atuais, 
promovendo suas ações durante os dois mandatos da presidente Dilma Rousseff.
Isso não quer dizer que a discriminação por raça, gênero, religião, etnia 
e classe social tenha acabado no país, mas são políticas públicas importantes 
desenvolvidas através desses ministérios e secretarias, instrumentos eficazes 
na construção de uma sociedade brasileira mais justa e que respeite de fato a 
diversidade existente nesse imenso país, para que a nossa nova história seja 
construída com a efetiva participação de todos.
7.1 O SISTEMA DE COTAS
O Brasil inicia sua trajetória no sistema de cotas adotando políticas 
afirmativas para dois grupos: deficientes e mulheres. Em relação aos deficientes, 
foram estabelecidas cotas para que possam ingressar no serviço público através de 
concurso, e também programas exigindo que as empresas contratem um percentual 
de pessoas com deficiências no seu quadro funcional. Esse ordenamento jurídico 
encontra seu respaldo na Constituição Federal de 1988.
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
161
FIGURA 48 - O SISTEMA DE COTAS É PRODUTO DA LUTA DOS MOVIMENTOS NEGROS
FONTE: Disponível em: <http://www.politize.com.br/wp-content/uploads/2016/10/
movimento-negro-passeata.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
Além disso, o Brasil fixou a obrigatoriedade de os partidos políticos terem 
no mínimo 20% do seu quadro eleitoral composto por mulheres.
Nas universidades, o sistema de cotas começa a entrar em vigor no ano 
2000, sendo que as primeiras universidades a adotarem esse sistema no vestibular, 
no ano de 2004, foram as universidades estaduais no Rio de Janeiro, garantindo 
que 50% das vagas fossem destinadas a estudantes de escolas públicas.
Logo em seguida, no dia 9 de novembro de 2001, a Lei nº 3.708/01 institui 
o sistema de cotas para estudantes negros ou pardos, destinando 40% das vagas 
das universidades públicas estaduais do Rio de Janeiro. Em 2002, a Universidade 
Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e a UENF passam a adotar essa política no seu 
vestibular. A Universidade de Brasília (UNB) e a Universidade do Estado da Bahia 
(UNEB) também aderem ao sistema de cotas, adotando critérios socioeconômicos 
ou a cor ou raça em seus vestibulares.
Nesta mesma perspectiva, para reforçar as políticas multiculturais em 
âmbito nacional, foi criado o Programa Diversidade na Universidade, através 
da Lei Federal nº 10.558/02, de 13 de novembro de 2002, conhecida como “Lei de 
Cotas”.
Existe muita resistência por parte de vários segmentos tradicionais da 
sociedade brasileira em aceitar a Lei de Cotas nas Universidades, pois, para estes, 
esta lei reforça o racismo já existente no país, fazendo com que negros e pardos 
ou pessoas de condições socioeconômicas desfavoráveis acessem as universidades 
não pelo mérito, mas pelo enquadramento em uma lei.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
162
No entanto, como citamos anteriormente, esse sistema existe para equiparar 
danos provocados a estas etnias e classes sociais que sempre foram marginalizadas 
no decorrer da história do país.
Além do sistema de cotas, devem acontecer em paralelo outros programas 
sociais que resolvam as deficiências estruturais da sociedade brasileira, focando 
em áreas como educação, saúde, distribuição de renda, cultura, qualificação 
profissional, habitação, entre outras.
O problema apresentado é que, gerando oportunidades para a camada 
social menos favorecida, a elite brasileira perde privilégios históricos, pois agora 
os seus filhos terão que concorrer a uma vaga no mercado de trabalho com as 
“minorias étnicas ou com os pobres”. As carreiras que antes só pertenciam a eles, 
como Medicina, Engenharia, Direito, dentre outros cursos elitizados, que entraram 
no sistema de cotas, agora tornam-se acessíveis a um maior número de brasileiros 
que, até então, não podiam sonharem construir uma profissão promissora.
O sistema de cotas geralmente possui um período determinado, ou seja, 
ele perdura até eliminar a desigualdade e a exclusão ocasionadas a determinados 
grupos sociais, como falamos anteriormente. Ele só terminará quando os grupos 
sociais, que foram incluídos no sistema de cotas, estiverem inseridos de maneira 
digna na sociedade brasileira.
7.2 ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL
Outro instrumento jurídico que reforça as políticas multiculturais no Brasil 
é o Estatuto da Igualdade Racial, criado em 20 de julho de 2010, através da Lei 
Federal nº 12.288/2010. Este estatuto visa garantir à população negra a efetivação 
da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos 
e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica 
(BRASIL, 2010).
O Estatuto da Igualdade Racial estabelece a inclusão da população negra 
nas políticas públicas de educação, cultura, esporte, lazer, saúde, respeito às suas 
crenças religiosas e liberdade de expressão, direito à terra e à moradia digna, 
políticas de inclusão da população negra no mercado de trabalho, a valorização da 
herança cultural negra, através dos meios de comunicação, combate à discriminação 
e às demais formas de intolerância étnica, levando em consideração critérios como 
gênero e classe social. Portanto, esse Estatuto significa um importante avanço 
na promoção da igualdade de oportunidades para a população negra no país, 
que desde o período de colonização sofreu as consequências de uma sociedade 
eurocêntrica baseada na exploração de negros, índios e mestiços, como forma de 
enriquecimento através de povos considerados “inferiores e subalternos”.
TÓPICO 1 | AS POLÍTICAS MULTICULTURAIS NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL
163
7.3 COMUNIDADES QUILOMBOLAS E TRADICIONAIS: UM 
CAMINHO PARA O RESPEITO À DIVERSIDADE ÉTNICA-
CULTURAL
Após grande pressão do Movimento Negro, foram criadas, em 2003, as 
comunidades quilombolas. Elas são definidas como remanescentes de Quilombo, 
com uma identidade étnica comum diferente das demais existentes no país com 
ancestralidade negra, criadas com o objetivo de fortalecer a cultura desses grupos e 
que estabelecem o direito à terra de acordo com o Decreto nº 4.887/03. Atualmente, 
existem cerca de 3.524 comunidades quilombolas no Brasil, em 24 estados da 
federação, segundo dados da Fundação Palmares.
Os movimentos sociais também foram determinantes para que na 
Constituição de 1988 aparecesse o termo “Comunidades Tradicionais”. A partir de 
2002, um conjunto de medidas governamentais possibilitou a sua implementação. 
Como definir o que são comunidades tradicionais?
O Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, Art. 30, define povos e 
comunidades como (BRASIL, 2007): 
I […] grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem 
como tais, que possuem formas próprias de organização social, que 
ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua 
reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando 
conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição.
E os seus territórios como sendo:
II […] os espaços necessários à reprodução cultural, social e econômica 
dos povos e comunidades tradicionais, sejam eles utilizados de forma 
permanente ou temporária, observado, no que diz respeito aos povos 
indígenas e quilombolas, respectivamente, o que dispõem o Artigo 
231 da Constituição de 68 do Ato das Disposições Constitucionais 
Transitórias e demais regulamentações.
FIGURA 49 - QUILOMBOS BRASILEIROS: ORGANIZANDO-SE POR DIREITOS
FONTE: Disponível em: <http://racismoambiental.net.br/wp-content/uploads/2013/07/
quilombo-da-lapinha.jpg>. Acesso em: 20 jun. 2017.
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
164
Em 2006, o Brasil começa a organizar uma política nacional dirigida 
para os Povos e Comunidades Tradicionais através do Decreto de 13 de julho de 
2006, criando a Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos 
e Comunidades Tradicionais (CNPCT). Esta comissão integra representantes de 
15 Povos e Comunidades Tradicionais e também representantes do Ministério do 
Desenvolvimento Social e Combate à Fome e do Ministério do Meio Ambiente, 
dois órgãos públicos federais aos quais esta comissão está interligada.
Logo em seguida, através do Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 
2007, foi criada a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos 
e Comunidades Tradicionais (PNPCT). O PNPCT, bem como a definição e o 
reconhecimento das Comunidades Quilombolas, é mais um importante passo 
na direção da manutenção da existência e preservação da cultura de grupos 
marginalizados e explorados no decorrer da nossa história. Mostrando também 
que só é possível construir um país desenvolvido, com dignidade, respeitando a 
diversidade étnica.
165
Neste tópico, você aprendeu que:
• As políticas multiculturais na América Latina têm sido insuficientes para dar 
conta de diminuir as desigualdades sociais ocasionadas pela exploração de 
vários povos, como os indígenas e os negros.
• Basicamente, todos os países latino-americanos têm enfrentado a questão da 
diversidade cultural. Muitos deles têm enfatizado políticas multiculturais. É o 
caso do México, da Bolívia, da Colômbia, Peru e Venezuela, por exemplo.
• Em geral, as políticas multiculturais enfatizam as características culturais 
específicas de cada país. 
• No Brasil, as políticas multiculturais são recentes. Os primeiros passos surgem 
a partir dos anos 1990, ganhando forma de leis e políticas públicas a partir de 
2001.
• As políticas multiculturais brasileiras voltam-se a povos e etnias indígenas e 
às comunidades tradicionais, como os quilombolas, os grupos sociais negros 
e pardos. O objetivo é reduzir as desigualdades de oportunidades entre os 
diversos grupos e classes sociais brasileiros.
RESUMO DO TÓPICO 1
166
1 A partir da leitura deste tópico, elabore uma definição de multiculturalismo 
latino-americano.
2 Como se deu o aparecimento das políticas culturais no Brasil?
3 O que são as comunidades tradicionais?
AUTOATIVIDADE
167
TÓPICO 2
DESIGUALDADES E VIOLÊNCIA DE 
GÊNERO NO BRASIL
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Como vimos, nossa sociedade é culturalmente plural e socialmente 
desigual. As diversas interpretações sobre a realidade nacional apontaram para 
a existência de abismos profundos entre classes e grupos sociais. Muitos deles 
são oriundos da nossa concentração de renda. Outros, são vinculados a muros 
simbólicos erguidos em torno da cor da pele ou gênero, por exemplo. De fato, 
existem múltiplas camadas de injustiças e distâncias sociais na história brasileira.
O Brasil é um Estado de tamanho considerável, de natureza exuberante, de 
terras férteis, porém, concentradas. De uma população mista, mas segregada em 
camadas de preconceitos. De uma indústria e serviços modernos, mas que convive 
com práticas patrimonialistas. A complexidade brasileira vai além.
FIGURA 50 - AS MULHERES BRASILEIRAS DO CAMPO E DA CIDADE E SUAS LUTAS ATUAIS
FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/08/Feminist_Stencil_
Graffito_S%C3%A3o_Paulo_March_2012-14.jpg> e <http://jornalggn.com.br/sites/default/files/admin/
marcha-das-margaridas.jpg>.
Somos os únicos complexos em todo o mundo? Nada existe de verdadeiro 
nessa questão. Porém, diferente de algumas nações, como algumas localizadas na 
Europa Ocidental, as sociedades brasileiras do passado e atuais são resultados do 
168
UNIDADE 3 | MULTICULTURALISMO, GÊNERO, RAÇA E ETNIA NO BRASIL
encontro de muitos povos. Estamos mais próximos da complexidade cultural da 
Índia do que da França. Todavia, as ideias dominantes que prevaleceram e ainda 
prevalecem e que buscam explicar nossa sociedade são, em sua maioria,

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