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AULA 5 ESTUDOS LINGUÍSTICOS Profª Cleuza Cecato 02 CONVERSA INICIAL Até este ponto de nossa conversa, já caminhamos por vários momentos em que a linguística experimentou o status de ciência e pôde contribuir para a análise de fatos de língua e linguagem, bem como estreitou seus laços com as necessidades apresentadas pelo ensino de línguas nas salas de aulas dos diversos níveis de ensino. Por isso, neste momento, é importante traçarmos uma possibilidade que é um intermédio entre o que a linguística já produziu e como descrevemos os fatos por ela analisados ao lado daquilo que ainda podemos esperar dos recortes teóricos para analisar novos fatos de linguagem. Por exemplo: como analisar as tecnologias de informação e comunicação, que são parte dos estudos da linguagem no século XXI? Que teorias empregar para descrever as relações que passamos a ter com os hipertextos, principalmente com o advento da popularização da internet e das maneiras de ler que ela nos proporciona? Para ilustrar o começo dessa conversa, vamos utilizar como epígrafe um raciocínio interessante e explicativo empregado por Darcy Ribeiro, ao referir-se aos trabalhos de quem faz ciência. Acho mesmo é que os cientistas trabalham com o óbvio. O negócio deles – nosso negócio – é lidar com o óbvio. Aparentemente, Deus é muito treteiro, faz as coisas de forma tão recôndita e disfarçada que se precisa dessa categoria de gente – os cientistas – para ir tirando os véus, desvendando, a fim de revelar a obviedade do óbvio. (Ribeiro, 1979) Nas palavras desse intelectual, ao fazer ciência, estamos descortinando o óbvio, trazendo a público aquilo que sempre existiu, mas estava escondido. Mais ainda: nas palavras dele, fé e ciência estão em relação complementar, não adversária. CONTEXTUALIZANDO É lugar comum dizer que a ciência só pode progredir quando há novos fatos de seu objeto teórico a serem explicados. Isso ocorre também com a ciência que se dedica ao estudo da língua: a linguística. Vamos considerar, por exemplo, duas expressões, sejam elas: gêneros textuais e tecnologias de informação e comunicação. A concepção e o estudo dos gêneros textuais passaram a ser realizados por linguistas ao longo da segunda metade do século XX. Ganharam, aqui no 03 Brasil, maior expressividade a partir da década de 1990, o que torna esse recorte teórico um jeito muito jovem de fazer ciência. Isso é evidente, principalmente, quando consultamos materiais didáticos de língua portuguesa e também de língua estrangeira de décadas passadas e verificamos que as estratégias empregadas para aprendizagem estavam relacionadas até a limitação da sentença (frase), sem considerar o texto como suporte de uma contextualização ou situação maior. Em relação às tecnologias de informação e comunicação, trata-se, de fato, de um elemento bastante novo, considerando que sua origem está relacionada ao surgimento e à disseminação das produções de conteúdo via internet. Trata-se não só de estabelecer novas combinações de linguagem, mas de reconhecer um novo meio de circulação para o conteúdo produzido. Essa realidade torna-se tão importante e produtiva que passa a ser cobrada em provas oficiais, como o Enem. Outras perspectivas no âmbito da linguística podem e devem ser estimuladas, a fim de que possamos, pelo uso funcional de ferramentas para escrita e leitura, trabalhar com novos fatos de nosso objeto: a língua. Afinal de contas, as relações que a linguagem permite expressar têm se desdobrado e modificado com o passar do tempo e com o uso das novas tecnologias e suportes. TEMA 1 – PORTUGUÊS FALADO NO BRASIL – UM NOVO OLHAR A ideia de estudar língua falada não é nova, mas as maneiras de fazê-lo vêm se alterando com o passar do tempo e com as diferentes percepções sobre o que se pode entender em relação às realizações de fala – em nosso caso específico, em se tratando de língua materna, no português do Brasil. É importante, no entanto, deixar claro que os recursos empregados nesse tipo de pesquisa cabem também, e muito bem, ao estudo de outras línguas, como o inglês. Para melhor compreender essa proposta de um “novo olhar”, vamos buscar um referencial temporal no Renascimento europeu dos séculos XV e XVI. É nesse período que se apresenta o que ficou conhecido como “questão da língua”: a referência ao reconhecimento da existência de novas línguas que passaram a substituir o latim gradativamente e depois foram levadas às novas colônias. Nesse sentido, a distância geográfica e temporal entre as línguas dos colonizadores e aquela que se falava nas colônias fez surgir uma nova “questão da língua”, como a que podemos perceber entre português de Portugal e português Brasileiro. Ao ser transplantada para nosso continente, a língua portuguesa passa a 04 experimentar novas misturas com idiomas bastante distintos, o que possibilita a manutenção da sintaxe, mas gera a transformação vocabular de nosso idioma nacional. Essa nova “questão da língua” é fruto do reconhecimento de um continuum de variedades faladas no Brasil e permite o aparecimento de novas descrições teórico-metodológicas para abordar os fatos de língua, considerando o que e como se fala nas mais diversas situações, mas em português brasileiro. É essa percepção e aceitação do continuum da língua falada que permite análises como: Tendência à perda de “r” final em verbos no infinitivo (chover/chovê). Redução de ditongos (deixa/dexa). Redução de “consoantes molhadas” (mulher/muié; filho/fio). Esses pontos podem não parecer uma novidade quando se trata de estudar português falado, considerando que já houve descrições assim acerca do português em outros momentos, mas o ponto de abordagem pode ser deslocado. Assim, quando se trata de pensar as primeiras descrições de línguas faladas, é preciso considerar que não havia, por exemplo, a imprensa falada ou mesmo a difusão tão evidente de vários contextos em que a língua falada se realizava. Como estamos tratando de língua falada, também é muito importante salientar não apenas esse novo olhar sobre o português falado, mas sobre línguas como o inglês, que, a seu tempo, tornam-se os idiomas da globalização. Para ilustrar melhor essa sistematização, vamos analisar uma questão da avaliação do Enade 2017, reproduzida a seguir. Figura 1 – Cartum extraído de uma questão do Enade 2017 Disponível em: <http://www.coxandforkum.com>. (Adaptado). O comando da questão vinha em seguida: Este cartum foi apresentado como texto-base para a questão. 05 “Considerando esse cartum e seus conhecimentos sobre diversidade linguística e cultural, elabore um texto sobre o fenômeno linguístico a que o cartum se refere e cite três características desse fenômeno.” (Inep, 2017). Quem lê o cartum, independentemente do conhecimento que tenha em língua inglesa, terá sua atenção voltada a alguns pontos cruciais. Por exemplo: perceberá que os dois personagens estão falando em inglês, mas, ao mesmo tempo, a reação do segundo personagem (vamos ajudar com a tradução) causará algum conflito, alguma contradição: “Eu não entendo, eu falo só inglês” ou “eu só falo inglês”. Considerando que o primeiro personagem também está falando inglês, era de se esperar que os dois se entendessem, não é mesmo? Vamos à possível resposta esperada e, em seguida, procederemos à comparação entre aspectos relacionados ao continuum do inglês falado e do português falado. Reproduzimos a seguir o padrão de resposta publicado pelo Inep. Em seu texto, o estudante deve explicar, em português ou em inglês, que o fenômeno evidenciado no cartum é a variação linguística e que o autor mostra duas variedades linguísticas diferentes. Espera-se que o estudante identifique que os indivíduos apresentados no cartum são falantes (nativos ou não nativos) de variedades da mesma língua e que relacione oconflito retratado à variação social e cultural, reconhecendo, assim, a relação entre língua e cultura. Espera-se, também, que o estudante use a situação apresentada no cartum para demonstrar que conhece o conceito de variação e diversidade linguística e sua relação com o inglês global. O estudante pode indicar três dentre as seguintes características da variação linguística: geográfica (local); variação de idade; variação de classe social; diferenças de nível de escolarização, de gênero, de situação de uso (registro). (Inep, 2017) Vamos ao nosso comparativo motivado por questões como: em português isso também ocorre, ou seja, o fenômeno retratado no cartum (duas pessoas falando em português sem que uma entenda a outra)? Sim, e mais do que imaginamos. Por mais que a primeira resposta que possa vir à cabeça seja que essa diferença existe entre o português brasileiro e o de Portugal, é preciso considerar que mesmo quando estamos falando entre nós, falantes nativos de português do Brasil, é bem possível que, dependendo da região, da faixa etária, ou ainda do grupo social, não consigamos nos entender. Logo, a que constatações podemos chegar quando se trata de desenvolver um novo olhar sobre os nossos falares? A primeira que desejamos apontar está relacionada ao movimento constante em que a língua está envolvida. Outro aspecto importante é que não há fenômenos linguísticos tão diversos ou únicos que não possam encontrar alguma analogia em outros idiomas. 06 TEMA 2 – A TERCEIRA ONDA DA SOCIOLINGUÍSTICA O olhar sobre as transformações pelas quais os idiomas passam precisa estar sempre muito atento para não se contaminar pelos fenômenos que circundam a língua, mas sim se valer deles como enriquecimento para a pesquisa científica. Por que afirmar isso? Vamos a um exemplo de análise. Quando tratamos de uma renovação ou de uma nova onda da sociolinguística, costumamos creditar essas ações de pesquisa à professora e pesquisadora norte-americana Penelope Eckert, que trabalhou com grupos de estudantes colegiais em várias etapas e associou à sua pesquisa características etnográficas bastante próprias da antropologia, como a descrição das relações entre linguagem empregada e meio social. Talvez a frase a seguir possa sintetizar a tendência apontada pelos resultados obtidos por Eckert: “O estilo se define pelo que o falante faz com a língua levando em conta o universo social que o permeia”. Essa frase pode resumir como foi possível, para a pesquisadora, dividir os grupos de estudantes em jocks e burnouts. Vamos ler um trecho da explanação feita por Eckert para perceber a relação que ela estabelece entre os grupos, o meio e a linguagem. Em meu trabalho mais recente sobre variação e grupos sociais de adolescentes de um colégio no subúrbio de Detroit, concentrei-me em dois grupos opostos, os jocks, uma cultura de classe média baseada em associações institucionais, e os burnouts, uma cultura local de classe operária. Com práticas e ideologias fortemente contrárias, os jocks e os burnouts revelam suas diferenças através de um elaborado complexo estilístico envolvendo a vestimenta, a maquiagem, o estilo de cabelo, as bijuterias dentre outros adornos, o uso e exibição de seus pertences, a demarcação do território, a conduta, a hexis corporal, e assim por diante – e, claro, a linguagem. A diferenciação sistemática de variáveis vocálicas em todos os níveis resulta em modos de falar assaz distintos que incorporam tanto o gênero quanto categorias baseadas em classe social. Estas variáveis, por sua vez, combinam qualidades vocálicas muito diferentes, padrões de entonação, léxico, dentre outras, de modo que é esta combinação que constitui uma evidente distinção entre os estilos jock e burnout. Os burnouts, uma cultura de classe operária com tendências urbanas, apropriam-se de símbolos urbanos de todos os tipos em seu estilo de vestir, e orientam seus companheiros da mesma idade no uso de variáveis linguísticas urbanas. Os jocks, com uma cultura escolar orientada institucionalmente, ficam atrás no uso de variantes urbanas, mas encabeçam o uso do que chamo variáveis suburbanas, as quais possuem o efeito reverso das variáveis urbanas. Enquanto os jocks tendem a ser razoavelmente homogêneos em seu uso linguístico, os burnouts, em particular as meninas burnout, apresentam um espectro considerável de uso de variáveis. (Eckert, 2001, p. 124) 07 Além da descrição feita por Eckert, vamos relembrar alguns momentos e pesquisadores marcantes nos estudos da linguagem, no âmbito da sociolinguística, a fim de fazer as associações que concebermos como mais adequadas também em nosso trabalho de sala de aula. Para isso, vamos tomar como referência uma questão prática apresentada no Enade 2017, reproduzida e referenciada a seguir. Leitura complementar A partir dos textos apresentados, avalie as afirmações a seguir. I. A substituição atual e gradativa do pronome de primeira pessoa do plural “nós” pela expressão “a gente” exemplifica o que Jakobson denomina fato sincrônico e dinâmico. II. A perspectiva saussureana filia-se a um trabalho linguístico de ordem diacrônica, ou seja, descreve a língua por meio da observação de aspectos históricos de variação e mudança. 08 III. Um exemplo de fato diacrônico e estático é a existência permanente de três conjugações no português. É correto o que se afirma em: a. I. b. II. c. I e II. d. II e III. e. I, II e III. Fonte: Inep, 2017. Vamos à análise do que é dado como gabarito e à leitura dos indícios do texto que confirmam essa resposta: A afirmação I está correta porque a sincronia está relacionada ao recorte momentâneo da língua, ou seja, a aspectos que estão em curso neste momento, sem considerar a passagem do tempo que age sobre eles. Isso está nitidamente atrelado ao conceito de dinamismo. A afirmação II está correta considerando o texto I: embora Saussure seja quem dá início a uma tradição sincrônica em análise linguística, suas bases de trabalho estão vinculadas à tradição anterior, que estudava o objeto com base na diacronia. A afirmação III está incorreta porque a existência de três conjugações verbais em português não está relacionada a processos de variação e mudança, mas à constituição da língua, do idioma. Além disso, o que está em questão quando se trata de verbos, em relação à sincronia ou à diacronia, é a realização das formas de conjugação, e não da existência de três modelos de conjugação. O que isso tem a ver, por exemplo, com a pesquisa de Eckert? A substituição gradativa de “nós” por “a gente” é um fenômeno que se pode atrelar à ampliação de fronteiras para determinados modos de falar, que não só superam o ambiente ou o grupo social a que estão relacionados originalmente, como passam da informalidade para a formalidade do discurso. Além disso, por que chamar de “onda” esse processo? Porque a descrição é feita considerando as mudanças em forma de ondas, que saem do centro para as bordas, por exemplo: dos centros urbanos para os locais mais afastados ou de um centro de comunicação para os arredores. 09 TEMA 3 – O LUGAR DO ENUNCIADOR Para nos situarmos sobre em que lugar o enunciador de uma mensagem se coloca, vamos propor um exercício. Primeiro, dê atenção a o que você está pensando de quem escreveu esse texto para se comunicar com você. Em seguida, pense em como você, com suas palavras, reproduziria as mensagens aqui veiculadas. Por último, pense em como as pessoas que leem o texto produzido por você reagiriam. Fazendo um exercício de reflexão mais ou menos assim, como descrito no parágrafo anterior, temos uma experiência de como funciona o processo de obtenção ou formulação do espaço de um enunciador, ou seja, de como podemos empregar a nossa “voz” – e aqui colocamos aspas porque não se trata apenas de texto falado –no caso da experiência a que estamos nos referindo, é justamente o texto escrito que carrega essa voz. É muito comum que os manuais que tratam do lugar social ocupado por quem emite uma mensagem utilizem algumas descrições clássicas para a situação vivida. São elas: A imagem que o sujeito que emite uma mensagem faz do lugar que ocupa (Tem direito de emitir essa mensagem? Será lido ou ouvido com atenção e respeito? Que qualidades existentes em seu discurso são capazes de transmitir o que deseja?). A imagem que o sujeito que emite uma mensagem tem de quem vai lê-lo ou ouvi-lo (Quem é essa pessoa? O que ela busca em seu texto – corrigir ou aprender? Está em uma função inferior ou superior socialmente?). A imagem que o sujeito que emite uma mensagem tem do próprio discurso (Qual é a qualidade de suas palavras? Elas têm a força e a expressividade esperadas para a ocasião? Existe plasticidade?). Em contrapartida, o enunciador também faz outro exercício quando se trata de avaliar o alcance de seu discurso: Em um processo de alteridade ou empatia, o emissor da mensagem se coloca no lugar do leitor e tenta imaginar o que esse leitor pensará do sujeito que escreveu, do discurso elaborado e de si mesmo em relação à condição, por exemplo, de avaliador dessa produção. Esse processo é um exercício intenso e gradativo, já que é necessário que os envolvidos (locutor e interlocutor) 010 compartilhem minimamente propósitos discursivos e conhecimento de mundo para que o processo comunicativo se realize adequadamente. TEMA 4 – HIPERTEXTO E OS NOVOS ELEMENTOS DE ANÁLISE Assim como as TICs, a noção e o uso de hipertexto em comunicação escrita são muito recentes. Tratar de hipertexto, cibercultura e literatura na era da tecnologia digital ainda é fazer afirmações sobre um campo muito arriscado, considerando que, de um lado, essas definições e seus usos ainda são bastante instáveis; de outro, muito disseminadas e não podem passar ao largo dos recortes teóricos da linguística contemporânea. Nesse sentido, é preciso ter ciência de que as teorias relacionadas a esses elementos podem promover análises sobre o distanciamento e a complementariedade entre a literatura de papel e a literatura digital, ou os modos de ler no papel e os modos de leitura digital. Com o advento do hipertexto e da cibercultura, passou-se a trabalhar muito com a noção de ciberespaço como um ambiente virtual em que tudo acontece, a exemplo de como as práticas socioculturais também se dão no mundo real. No entanto, nesse espaço, há o que podemos chamar de novos modos de o indivíduo se relacionar com a linguagem. De acordo com Chartier, “Do rolo antigo ao códex medieval, do livro impresso ao texto eletrônico, várias rupturas maiores dividem a longa história das maneiras de ler. Elas colocam em jogo a relação entre o corpo e o livro, os possíveis usos da escrita e as categorias intelectuais que asseguram a compreensão” (1999, p.77). Com essas afirmações simples, Chartier dá vida a uma análise otimista sobre os processos de comunicação e os suportes possíveis para a linguagem. Assim, em lugar de predizer o fim do livro ou a derrocada da comunicação por causa dos suportes eletrônicos, esse pensador prefere ver os novos suportes como mediadores das transformações de maneiras de ler. Para ilustrar bem os novos modos de leitura que a utilização de hipertextos permite, as figuras a seguir, retiradas de um artigo acadêmico que trata essencialmente desse tema, podem ser bastante produtivas. 011 Figuras 2 e 3 – Linearidade do texto Fonte: Fachinetto, 2005. Daí que a produção de novos caminhos para métodos de ler, denominada hipertexto, nada mais é do que um processo de escrita/leitura não linear e não hierarquizada que permite o acesso ilimitado a outros textos de forma instantânea. Uma pergunta bastante frequente em relação a confecção e leitura de hipertextos é se eles podem ser impressos. Com base nisso, cabe uma reflexão: um exemplo de como o hipertexto pode ser produzido e disseminado em meio impresso é o livro ou material didático. Os boxes laterais, coloridos e com outras fontes, que circundam as informações principais de cada página não são novidade, mas passaram, certamente, a ser mais explorados. Além disso, a quantidade e a diversidade de pesquisas acadêmicas voltadas à análise de hipertextos são um bom índice para medirmos quanto esse elemento está em evidência em nossas práticas cotidianas. É importante considerar que “ler na tela” é uma maneira de utilizar novos suportes com o 012 amparo de “velhas tecnologias”, o que possibilita ao leitor reconfigurar seus conhecimentos sobre a noção de texto e realizar novos gestos de leitura. A questão a seguir, reproduzida da prova de linguagens do Enem 2009, ajuda a entender melhor a leitura que podemos fazer em relação aos hipertextos como uma das realizações de linguagem na contemporaneidade. Leitura complementar Diferentemente do texto escrito, que em geral compele os leitores a lerem numa onda linear – da esquerda para a direita e de cima para baixo, na página impressa – hipertextos encorajam os leitores a moverem- se de um bloco de texto a outro, rapidamente e não sequencialmente. Considerando que o hipertexto oferece uma multiplicidade de caminhos a seguir, podendo ainda o leitor incorporar seus caminhos e suas decisões como novos caminhos, inserindo informações novas, o leitor- navegador passa a ter um papel mais ativo e uma oportunidade diferente da de um leitor de texto impresso. Dificilmente dois leitores de hipertextos farão os mesmos caminhos e tomarão as mesmas decisões. (MARCUSCHI, L. A. Cognição, linguagem e práticas interacionais. Rio: Lucerna, 2007.) No que diz respeito à relação entre o hipertexto e o conhecimento por ele produzido, o texto apresentado deixa claro que o hipertexto muda a noção tradicional de autoria, porque a. é o leitor que constrói a versão final do texto. b. o autor detém o controle absoluto do que escreve. c. aclara os limites entre o leitor e o autor. d. propicia um evento textual-interativo em que apenas o autor é ativo. e. só o autor conhece o que eletronicamente se dispõe para o leitor. Por que as alternativas incorretas nos ensinam muito sobre o que é o hipertexto? Vejamos: b. O autor já não detém o controle absoluto sobre o resultado do texto, já que a construção de sentido é feita de maneira interativa com o leitor. c. Os limites entre leitor e autor passam a ser reinterpretados e não são mais fronteiras tão visíveis e determinadas. d. O lugar do autor como produtor do texto já não é mais tão demarcado, pois o processo de autoria é compartilhado por quem escreve e quem lê. e. Essa concepção vai contra a definição de hipertexto. O autor que posta um texto na web não tem mais domínio completo sobre aquilo que o leitor poderá ligar e relacionar a partir do conteúdo inicial. 013 TEMA 5 – O QUE VAMOS FAZER COM A LINGUÍSTICA AINDA? UM POUCO DE NEUROLINGUÍSTICA Não apenas diante das reflexões e informações apresentadas aqui, mas também considerando tudo o que você já estudou a respeito de línguas e linguagem, é possível depreender que a abordagem sistemática de fatos de língua não se esgotou. Isso quer dizer que o campo de exploração da linguística é muito produtivo e significativo para o desenvolvimento da ciência e para o entendimento de fatos relacionados à comunicação humana. Uma das grandes ferramentas ou dos grandes recortes da linguística a respeito do qual ainda temos muito o que explorar é a neurolinguística. Na realidade, há muitos modelos para dar conta da descrição teórica para a forma como os indivíduos constroem a experiência de conhecimento de mundo, seja ela compartilhada, modificada, organizada, regulada, representada, justificada ou reconhecida. Alguns dos elementos mais citadospara dar conta dessa experiência são contexto, prática, sistemas de referência, enquadre, esquema, conhecimento prévio, situação social, script e moldura comunicativa. Para começar, é importante perceber que a formação da palavra neurolinguística é um hibridismo transparente: é a junção entre neurociência (que estuda o cérebro, a mente e suas relações com o comportamento humano) e linguística, que, como já sabemos, tem a linguagem como objeto de interesse. Por esse motivo, costumamos associar mais facilmente os estudos de distúrbios da linguagem à neurolinguística, pois ela descreve problemas como a afasia e se interessa por eles. Um quadro de afasia geralmente provém de lesões cerebrais provocadas por acidentes vasculares cerebrais (AVC), popularmente chamados de derrames cerebrais. De maneira abrupta, a pessoa pode passar a não reconhecer as outras ao seu redor e a não compreender ou formular frases. Também é importante salientar que nem todos os problemas de articulação da linguagem provêm de afasia: para ser considerada afásica, a pessoa precisa ter um distúrbio no sistema nervoso central, mais especificamente no que se denomina “centro cortical da palavra falada”. Os quadros de afasia são bastante diversos: há casos em que as pessoas não conseguem compreender frases, outros em que as pessoas não conseguem captar ou produzir determinada classe gramatical, outros são capazes apenas de emitir mensagens telegráficas, já que perderam a capacidade de estabelecer conexões sintáticas e outros traços gramaticais. Além disso, é muito comum 014 termos a curiosidade de saber se a afasia pode, também, afetar a escrita de quem a desenvolve. A resposta é positiva. Por isso, nem sempre a estratégia dos familiares de solicitar que os pacientes que sofreram AVC escrevam funciona. Há vários relatos, nesse sentido, que indicam a aplicação de outras estratégias para conseguir comunicação, já que o comando cerebral para a produção de escrita foi perdido. Podemos nos perguntar, também, se a neurolinguística serve apenas para identificar ou trabalhar aspectos relacionados a patologias. Somente pelos nomes de elementos empregados para nutrir nossa relação com o conhecimento, já podemos perceber que não: esse recorte da linguística nos ajuda a descrever, de várias maneiras, nossa relação com o conhecimento e como ela se dá. Por isso é tão comum encontrarmos hoje cursos que tentam associar elementos da neurolinguística a aspectos de nossa leitura e concentração para o aprendizado. Atualmente, os contextos de aplicação e pesquisa da neurolinguística têm obedecido à segmentação estabelecida por Morato (2012): i. do processamento normal e patológico da linguagem, oral e escrita; ii. dos mecanismos cognitivos que constituem as habilidades linguísticas; iii. da repercussão dos estados patológicos no funcionamento da linguagem; iv. da semiologia das afasias, da doença de alzheimer e de outros contextos neuropsicolinguísticos; v. das condições neurolinguísticas da surdez e do bilinguismo; vi. do envelhecimento normal e patológico com base em perspectivas (neuro)linguísticas e sociocognitivas; vii. da relação linguagem-cognição em contextos não necessariamente patológicos; viii. de questões metodológicas que envolvem a constituição do corpus, o sistema de notação e o tratamento dos dados; ix. de aspectos éticos e jurídicos relacionados ao contexto da pesquisa neurolinguística. Essas segmentações de recortes teóricos foram possíveis graças ao início da abordagem cérebro-linguagem, do começo do século XX. Vamos tomar apenas a noção de frame para demonstrar como é possível buscar muitos elementos para descrever o mesmo fato sob a tutela da neurolinguística. Frame pode ser definido em português como os esquemas de conhecimento ou padrões prototípicos e estereotípicos, ou ainda hipóteses feitas pelos indivíduos a respeito do mundo ou dos estados de coisa no mundo. Trata- se de uma definição bastante ampla, sob a qual se pode nortear uma série de experiências relacionadas ao conhecimento. Nesse ponto, podemos nos perguntar como e por que esse recorte teórico poderia nos ajudar em nossa prática cotidiana em sala de aula. Vamos apenas a 015 alguns exemplos: já foram percebidas e descritas, ao longo do tempo, as diferentes maneiras de aprender que os indivíduos têm. Também já estão amplamente descritas as maneiras pelas quais um indivíduo pode não conseguir encontrar e manter foco de concentração. A neurolinguística, quando aplicada de maneira séria e segura, pode ajudar a desenvolver técnicas que vão desde o desenvolvimento de maiores habilidades em leitura e apreensão de sentido até a desinibição para falar em público, minimizando ou suprimindo cacoetes ou bordões que esconderiam a timidez do sujeito. Assim, um dos teóricos mais referenciados (Goffman), para dar conta da noção de frame, estabelece em sua obra Frame analysis (1974) que os frames são enquadres, ou seja, uma metáfora para se compreender melhor o que no campo da sociologia é também denominado “contexto”, “conhecimento prévio”, “situação social”. Enquadres, assim, são compreendidos como estruturas sociais relacionadas intimamente com a linguagem, reconhecidas e modificadas pelos indivíduos em contextos e práticas discursivas situadas previamente. Isso implica, por exemplo, a percepção de que aquilo que chamamos de intertextualidade em linguagem só é possível se os indivíduos envolvidos em um processo de leitura compartilharem os mesmos frames a respeito do tema. Por exemplo, quando se faz a análise de uma charge que é calcada em uma pintura clássica: se um dos leitores não conhecer a pintura, a intertextualidade pode não ser identificada. Retomando as questões mente-linguagem, no âmbito da neurolinguística, o estudo das afasias foi campo de pesquisa tratado pela primeira vez por Roman Jakobson, que, interessado em construir uma teoria geral da linguagem, voltada à aquisição, ao funcionamento, à estrutura, às alterações etc, utilizaria as diferentes manifestações de afasia para dar maior solidez empírica à sua teoria. Em linhas gerais, quais foram as contribuições a partir das constatações de Jakobson? Ele ampliou algumas ideias já reveladas por Saussure, como as dicotomias, uma vez que Jakobson trabalhou especialmente com duas formas de organização da linguagem: sintagmático/metonímico; e duas de escolha de unidades lexicais: paradigmático/metafórico. Para exemplificar ao menos uma situação referida e estudada por Jakobson, vamos considerar a dicotomia sintagma/paradigma, ou seja, as escolhas lexicais empregadas para preencher uma estrutura frasal predefinida e reconhecida como gramatical em uma língua. O exemplo mais comum de uma situação de afasia que confirma essa dicotomia pode ser relatado como o uso e 016 reconhecimento de palavras-chave, mas a impossibilidade de escolher e reconhecer conjunções, preposições ou outros elementos de ligação. Poderíamos sintetizar isso com algo como enquanto houver hipóteses, haverá ciência; ou enquanto o objeto de estudo da ciência estiver em movimento, haverá muitas coisas a se dizer sobre ele e para descrevê-lo. Uma das indicações é prestarmos bastante atenção no que tem se desenvolvido relacionado à linguagem da inteligência artificial, além de considerar que a língua continua sendo nosso objeto de pesquisa primordial e nosso instrumento de comunicação. FINALIZANDO Neste encontro, nossa conversa tratou de temas relacionados aos novos desdobramentos que os estudos linguísticos permitem. Depois desse trabalho, esperamos que você possa refletir sobre a sistematização de comparativos entre novos olhares sobre a língua portuguesa e outras línguas, sobre o que já conseguimos afirmar a respeito da nova onda da sociolinguística, sobre as reflexões feitas pelo enunciador de um texto e a integraçãodas TICs – tecnologias de informação e comunicação – ao estudo das linguagens, além das questões relacionadas à neurolinguística. 017 REFERÊNCIAS CHARTIER, R. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Unesp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999. ECKERT, P. 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