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A história dos homens
memória de Antonio Puente
Auf die Geschichte der Menschen werden wir indes
einzugehen haben, da fast die ganze Ideologie sich entweder auf
eine verdrehte Auffassung dieser Geschichte oder auf eine
gänzliche Abstraktion von ihr reduziert. Die Ideologie' selbst
ist nur eine der Seiten dieser Geschichte.
KAÈL MARX Y FRIEDRICH ENGELS,
Die deutsche Ideologie, MEW, 3, Berlin,
Dietz Verlag, 1973, p. 18, nota
(Im Manuskript gestrichen)
Teremos que insistir na história dos homens, porque
quase toda a ideologia se reduz ou a uma falsa concepção
da história, ou a uma abstração da mesma. A própria ideologia
não é mais do que uma das partes da história:
KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS,
A ideologia alemã, 1,1
(nota 10, texto suprimido no'manuscrito}
SUMÁRIO
11 INTRODUÇÃO-
CAPÍTULO 1
21 As origens: a historiografia da antigüidade clássica
CAPÍTULO 2
57 A ruptura da tradição clássica
CAPÍTULO 3
83 Renascimento e renovação da história
CAPITULO 4 -
107 A Ilustração
CAPITULO 5 .
143 A invenção do progresso
CAPÍTULO 6
171 Revolução e restauração
CAPÍTULO 7
199 Marx e o "materialismo histórico"
CAPITULO 8
221 Historicismo e nacionalismo
CAPITULO 9
243 O esgotamento do modelo acadêmico (1918-1939)
CAPÍTULO 1 0 ^
261 A história econômica e social
CAPITULO 11
309 Os marxismos
CAPÍTULO 12
343 As guerras da história
CAPÍTULO 13
381 A reviravolta cultural
CAPÍTULO 1 4
413 A crise de 1989
CAPÍTULO 15
439 Pôr uma história de todos
CAPÍTULO 16
471 . Em busca de novos caminhos
'i
491 ÍNDICE ONOMÁSTICO
INTRODUÇÃO
A história de um grupo humano é sua memória coletiva, e a seu res-
peito, cumpre a mesma função que a memória pessoal em relação a um in-
divíduo: dar-lhe um sentido de identidade que o faz ser ele mesmo e não
outro. Entretanto, compreendemos mal a natureza de n(>ssa memória pes-
soal. Geralmente a consideramos como um simples depósito de imagens
da realidade passada quando, ao contrário, os cientistas estabeleceram que
não se trata de uma faculdade unitária, mas de "uma variedade de proces-
sos psicológicos diversos'" e que a produção de uma lembrança é um pro-
cesso muito complexo.
Isso explica, talvez, que a mesma incompreensão se estenda a nossa
consideração da história. Desde o início, inclusive nas manifestações mais
elementares, a história teve, como memória coletiva, certas funções sociais,
das quais a mais importante foi axde legitimar a ordem política e social vi-
gente, mas cumpriu, também, a de preservar as esperanças coletivas dos
oprimidos pela ordem estabelecida. Convém rejeitar a idéia de que houve
tempos em que a narrativa histórica estava mais próxima da ficção, en-
quanto que, no presente, a veracidade e a objetividade definem o què se
pode considerar "histórico". Os estilos mudaram, como o fizeram os mi-
tos, mas a história continua associada às concepções sociais e aos precon-
1 KAGAN, Jerome. Three seductive ideas. Cambridge, MA: Harvard University Press,
1998. p. 63.
ceitos dos historiadores e do seu público, ainda que uns e outros tendam a
acreditar, pomo o faziam os homens do passado, que seus mitos e precon-
ceitos são verdades indiscutíveis.
O corpo de tradições orais das sociedades que não conhecem a es-
crita foi elaborado para justificar e transmitir o que se considerava im-
portante para elas. Todos os elementos dessa tradição - genealogias, poe-
mas, fórmulas rituais, provérbios... - tinham uma finalidade determina-
da e, reciprocamente, "cada instituição e cada grupo social possuem uma
identidade própria que é acompanhada de um passado inscrito nas repre-
sentações coletivas de uma tradição que os explica e justifica". Nada pare-
ce mais objetivo do que uma genealogia, porém certas regras de descen-
dência flexíveis foram usadas, geralmente para legitimar os que tomaram
o poder, de modo que se pode dizer que as genealogias "constituem o fun-
damento da ideologia dominante". Isto fica evidente, inclusive, nos textos
mais antigos do gênero, como as relações dos reis do Egito e da Mesopo-
tâmia que foram manipuladas para legitimar o soberano reinante. O que
não é tão diferente da invenção das "genealogias nacionais", das velhas
tradições que faziam, por exemplo, os franceses descendentes dós troia-
nos, até as mais elaboradas dos historiadores modernos que, a partir do
romantismo, reconstroem a história das coletividades humanas de acor-
do com a conveniência dos estados-nações atuais que, desta maneira, se
projetam no passado.2
Nas origehs, a história teve, em muitos casos, a função de servir de
testemunho da aliança entre um povo e seus deuses, com a mediação dos
seus reis e sacerdotes. Laicizou-se entre os gregos e os romanos, mas tor-
nou a ser interpretada numa ótica religiosa com o advento do cristianis-
2 VANSINA, J. La tradition orale et sa méthodologie. In: Histoire générale de l'Afri-
que. Paris: UNESCO, Í980.1, Méthodologie et préhistoire africaine, p. 167-190; cita-
ção textual da p. 173 e "Towards a history of lost corners in the world", em Econo-
mic history review, XXXV, p. 165-178,1982. Sobre o uso da genealogia em socieda-
des pastoris para justificar direitos sobre a terra, HUMPHREY, Caroline. The uses
of genealogy: A historical study of the nomadic and sedentarised Buryat. In: Pasto-
ral production and society. Cambridge: Cambridge University Press, 1979. p. 235-
260. Sobre o sentido das genealogias medievais e as mudanças que experimenta-
mo. A era feudal, em que a história se transformou em crônicas dos prín-
cipes e, principalmente, o renascimento, deram-lhe uma nova entidade ci-
vil. A ilustração, por sua vez, lhe forneceu uma dimensão crítica, ao mes-
mo tempo que se produzia um acontecimento novo e transcendente que
determinaria sua importância futura: os historiadores escreveriam, a par-
tir daí, para um público amplo, não somente para príncipes, letrados e clé-
rigos, contribuindo para configurar o fenômeno moderno que é o surgi-
mento da "opinião pública".3
Os novos estados nacionais, interessados em usar o ensino e a difu-
são da história como veículo de criação da consciência coletiva e como ali-
mento do patriotismo, promoveram o trabalho dos intelectuais que, em
seu projeto para construir uma história da sociedade civil que substituísse
a velha, dos soberanos edos senhores feudais, logo descobriram que os "fa-
tos históricos", longe de serem realidades definidas que o historiador "des-
cobria",4 eram polivalentes e podiam encaixar-se numa pluralidade de in-
terpretações diferenciadas. Ninguém disse isso com mais clarividência do
que François Guizot, num texto que não recebeu a merecida atenção:
"Os fatos abordados pela história não ganham nem perdem, atra-
vessando as idades; tudo o que se tem visto, tudo o que se poderá ver, ne-
les estava contido desde o dia em que ocorreram; porém, eles nunca se. dei-
xam capturar plenamente, nem se penetrar em toda sua extensão; pos-
suem, por assim dizer, inumeráveis segredos que deles são extraídos ape-
ram, GENICOT, L. Lês généalogies. Turnhout: Brepol, 1975. p. 35-44 (Typologie des
sources du moyen âge occidental, fasc. 15). Sobre as genealogias nacionais há uma
ampla bibliografia, que vai de estudos interessantes como o de BEAUNE, Collete.
Naissance de la nation France. Paris: Gallimard, 1985, ou da obra coletiva organiza-
da por Eric J. Hobsbawm e Terence Ranger sobre "a invenção da tradição" até pro-
dutos fundamentalistas como as "Reflexiones sobre el ser de Espana"da Academia de
história, ou inconsistentes, como os de Juaristi.
3 BÀDINTER, Elisabeth. Les passions intellectuelles. Paris: Fayard, 1999.1. Désirs de
gloire (1735-1751). ZARET, David. Origins of democratic culture. Printing, petitions,
and the public sphere in early-modern England. Princeton: Princeton University
Press, 2000.
4 Sobre a "invenção" do "fato histórico", ver SHAPIRO, Barbara ).A culture of fact.
England, 1550-1720. Ithaca: Cornell University Press,2000. p. 34-62.
nas lentamente e quando o homem se encontra em situação de reconhe-
cê-los. E, como tudo muda no homem e no seu ambiente: como o ponto
de vista do qual analisa os fatos e o ânimo com que realiza sua pesquisa va-
riam incessantemente, dir-se-ia que o passado muda com o presente; ele-
mentos não percebidos se revelam nos fatos antigos; outras idéias, outros
sentimentos são estimulados pelos mesmos nomes, pelos mesmos relatos;
e o homem percebe que, no espaço infinito aberto ao conhecimento, tudo
permanece constantemente inesgotável e novo para a inteligência, sempre
ativa e sempre limitada."5 (
Esse foi o primeiro passo para o descobrimento da teoria da "cons-
trução social" da história que Marx e Engels formulariam de modo mais
claro. Ao analisá-la em termos de lutas de classes, a levaram além da visão
burguesa das primeiras histórias nacionais, integrando nela o conjunto da
sociedade, como convinha a seu projeto revolucionário. Dariam início en-
tão a uma nova história que começou reivindicando os de baixo, muito em
especial os trabalhadores, esforçando-se para libertar-se do "estúpido acú-
mulo de mentiras, disfarces hipócritas e falsas deduções que se denomina
história burguesa".6
Esse modo de ver, que teria sua.continuação na "história econô-
mica e social" do século XX, nãó era ajnda uma história que p.udesse ser
considerada legitimamente de todos. Falava-se também dos trabalhado-
res, além de se ocupar de reis, governantes e burgueses, mostrava, ao
contrário, pouco interesse a respeito dos camponeses, menos ainda dos
5 GUIZOT, François. Histoire des origines du gouvernement representatif. Paris: Di-
dier, 1856.1, p. 2 (textos de seus cursos de 1820-1822). Um século mais tarde, Col-
lingwood expressaria a mesma idéia, derivando-a em parte de Croce, com menos
sutileza que Guizot: "Cada presente tem um passado próprio e toda reconstrução
imaginária do passado aspira reconstruir o passado deste presente, do presente em
que se está produzindo este ato de imaginar, tal como é percebido aqui e agora".
(COLLINGWOOD, R. G. The idea of history. Oxford: Oxford University Press,
1993. p. 247).
6 "The dull gulf of lies, hypocrital concealments, and false deductions, which is called
bourgeois history" MORRIS, William. Why we celebrate the Commune of Paris.
Commonweal, 3, n. 62, p. 89-90,19 Mar. 1887, reproduzido em Political writings. Ed.
Nicholas Salmon. Bristol: Thoemmes Press, 1994. p. 232-235.
grupos marginais e quase nada das mulheres.7 E, além disso, era vítiiha
de outra limitação. Filha de seu tempo, estava estreitamente condiciona-
da pelas perspectivas da cultura européia, o que a levava a apresentar o
curso da evolução das sociedades humanas numa visão linear, na qual o
desenvolvimento econômico e a tecnologia eram considerados motores
essenciais de um tipo de progresso universal que conduzia necessaria-
mente a um só e único ponto de chegada: a civilização moderna dos eu-
ropeus e seus descendentes. Essa visão viu-se reforçada por uma con-
cepção determinista da ciência e pela transposição desta ao terreno hu-
mano, que levou à procura de "leis" aplicáveis à sociedade, que só teriam
sentido se fossem válidas para o conjunto da humanidade. O objetivo da
ciência histórica haveria de ser, precisamente, o de chegar a um conhe-
cimento perfeito dó mundo social, como defendia o anarquista francês
Charles Malato, que queria uma história capaz de "deduzir com preci-
são matemática as causas dos movimentos profundos que agitam as
moléculas humanas".8
Isso não condicionava somente a interpretação do passado, mas
criava a ilusão de que, uma vez conhecidas as "leis históricas", poderíamos
prever o futuro: um futuro que, de acordo com a experiência do progres-
so, nos permitiria esperar que o crescimento econômico se generalizaria ao
mundo subdesenvolvido e que as sociedades desenvolvidas eliminariam a
pobreza de seu seio.
O término da Segunda Guerra Mundial, com a derrota do fascismo
e as perspectivas de crescimento econômico indefinido que pareciam se
abrir, reforçou essas esperanças. Esta atitude reflete-se era três livros que
muito influenciaram minha geração: Apologia por la historia (1949), de
Mare Bloch (1886-1944) uma voz de esperança que nos chegava da pró-
7 Como tentarei explicar no final no livro, isto não significa apenas que não se ocu-
pava destes grupos mas, sobretudo, que não refletia sua visão de mundo: sua pró-
pria consciência da história.
8 HACKING, Ian. The taming of chance. Cambridge: Cambridge University Press,
1990; MALATO, Carlos. Revolución Cristiana yrevolución social. Barcelona: Atlante,
ca. 1905. p. VIII, nota.
pria noite do fascismo, Que sucedió en la historia (1942) de Gõrdon Chil-
de (1892-1957), que explicava a genealogia do progresso, e Qué es la his-
tória? (1961), de Edward Halett Carr (1892-1982) que renovava a visão do
progresso a partir de uma ótica avançada, levando o autor a proclamar:
"Declaro minha fé no futuro da sociedade e no futuro da história".9
Nesses anos otimistas do crescimento de pós-guerra, a historiografia
estava dominada por correntes que, apesar de se enfrentarem ideologicamen-
te, compartilhavam a crença básica na existência de um curso único e pro-
gressivo que marcava a ascensão do homem no transcurso do tempo. A par-
tir de meados dos anos setenta, ao contrário, pode-se ver que as profecias nâo
se realizavam e que, em vez de experimentar o crescimento universal previs-
to, apareciam novas manifestações cíclicas de crises nos países desenvolvidos
e aumentava cada vez mais a distância que separava os países ricos dos po-
bres. Assim, descobrimos que as velhas ilusões nãò tinham fundamento.
A causa essencial do descrédito da história consiste no fato de que
as profecias que se baseavam nessa concepção linear do progresso falha-
ram. "Um dos maiores perigos de tirar lições da história - afirmou-se - é
que estas lições resultam ilusórias, ou inteiramente equivocadas, quando
aplicadas a novas e diferentes circunstâncias." Esta opinião adquire espe-
cial valor porque procede de um homem que fala, não a partir da teoriza-
ção livresca dos professores universitários e sim, a partir da experiência de
uma instituição tão dedicada a tentar modificar o curso da história como
é a CIA.10 Eugênio Montale o disse melhor: "Que o futuro há de ser, indis-
cutivelmente, melhor que o passado e o presente é uma opinião que atra-
vessou incólume a ilustração, o positivismo, o historicismo idealista e o
marxismo (...). A história não o demonstra"."
Os historiadores acadêmicos reagiram mal ante o desencanto. Em
lugar de analisar criticamente seu modo de operar para descobrir onde ha-
9 De Bloch e de Childe, será falado em detalhes mais adiante. Sobre Carr, HASLAM,
Jonatham. The vices of integrity. E. H. Carr, 1892-1982. London: Verso, 1999.
10 J. Kenneth McDonald, "chief historian" da CIA, em CULLATHER, Nick. Secret his-
tory. The CIA's classified account of its operation in Guatemala, 1952-1954. Stanford:
Standford University Press, 1999. p. 6.
11 MONTALE, Eugénio. Trentadue variazioni. Milano: Libri Schetwiller, 1987. p. 49.
' viam falhado, limitaram-se a encurralar as interpretações que tinham ser-
vido para construir essa prospectiva, as declararam falsas e decidiram, em
conseqüência, que o conhecimento do passado era socialmente inútil (an-"
tes de dar um passo a mais e declará-lo impossível). Posteriormente, refu-
giaram-se no círculo fechado das próprias tribos, dedicando-se a jogos en-
genhosos irrelevantes ou a remoer velhos problemas epistemológicos inso-
lúveis, isolando-se definitivamente da vida real em que a história conti-
nuava transcorrendo cada dia, apesar das ilusões daqueles que quiseram
detê-la, enquanto o passado, melhor ou pior conhecido, marcava as ações
cotidianas dos homens e das mulheres, conformava suas expectativas e
lhes servia de pretexto para justificar atos de tanta transcendência como o
voto ou a guerra.12
Isso ocorria aomesmo tempo em que aqueles a quem definíramos
como "subdesenvolvidos" descobriam a armadilha que havia na denomi-
nação, denunciavam o esquema histórico eurocêntrico em que se baseava
o equívoco e propunham inaugurar um novo tipo de história que fosse vá-
lida para todos os povos da terra e que, ao mesmo tempo, realizasse o pro-
jeto frustrado de fazer que o fosse também para todos os grupos da socie-
dade: para todos os homens e todas as mulheres. . n
O abandono, por parte dos historiadores acadêmicos, de suas fun-
ções como orientadores, da opinião pública ocorreu no" momento em
que, paradoxalmente, as próprias ciências naturais descobriram a impor-
tância da dimensão histórica: "O passado é a chave do presente, disse-nos
um biólogo. Depreende-se disto que os organismos não podem antever
12 Um historiador de Haiti analisou o processo pelo qual os historiadores profissio-
nais dos países desenvolvidos abandonaram gradualmente a preocupação de co-
municar-se com o público e foram construindo o passado como um mundo dife-
rente e estranho, que só eles podiam habitar. E nos alertou, ao mesmo tempo, a res-
peito dos limites deste jogo: "Na medida em que as diferentes crises de nosso tem-
po removem identidades, que acreditávamos firmemente estabelecidas ou que per-
maneciam silenciosas, nos aproximamos de um tempo em que os historiadores-
profissionais terão de comprometer-se mais claramente com o presente, se não qui-
serem que os políticos, os magnatas ou os líderes étnicos escrevam a história em Seu
lugar" TROUILLOT, Michell-Rolph. Silencing the past. Power and the prodi,tction .of <
history. Boston: Beacon Press, 1995. p. 152.
a pauta da mudança evolutiva: somente podem responder às contingên-
cias do'presente. E, como todos os organismos vivos estão simultânea e
continuamente respondendo a essas contingências e, ao fazê-lo, mudam
o meio em que vivem, para eles e para os demais, a mudança evolutiva
não pode fazer outra coisa além de seguir um objetivo em contínua
transformação e inerentemente imprevisível (...). Nada na biologia faz
sentido, exceto à luz da história". Disso, deduzem-se conseqüências im-
portantes: "Assim, para os humanos, como para todos os outros organis-
mos viventes, o futuro é radicalmente imprevisível. Isto significa que te-
mos a capacidade de construir nosso próprio futuro, mas em circunstân-
cias que não podemos escolher.13
Virar a costas para a história nesse momento é uma atitude suicida.
Queiramos ou não, a história está presente em nosso contexto e é uma das
fontes mais eficazes de convicção, de formação de opinião em matérias re-
lativas à sociedade. As legitimações históricas estão por trás de grande par-
te dos conflitos políticos atuais, e não somente dos conflitos entre países,
povos e etnias, mas daqueles que se produzem no próprio interior das so-
ciedades de cada país (o racismo, por exemplo, tem muito mais a ver com
a história do que com a biologia).
Não podemos nos despreocupar da função social da história, por^
que o que está em jogo é demasiado transcendental. E, se é verdade que os
velhos métodos falharam e que a confusão eclética que os substituiu pou-
co nos serve, nossa resposta não pode ser a de abandonar o campo, e, sim,
a de nos esforçarmos para recuperar fundamentos teóricos è metodológi-
cos sólidos que possibilitem ao nosso trabalho nos recolocar em contato
com os problemas reais1 dos homens e mulheres do nosso mundo. E que
nos levarão, conseqüentemente, a reiniciar o projeto, até hoje não realiza-
do, de construir uma história de todos, capaz de combater com as armas
da razão os preconceitos e a irracionalidade que dominam nossa socieda-
de. Uma história que nos devolva a vontade de planejar e construir ó futu-
f, ..
13 ROSE, Steven. Lifelines. Biology beyond determinism. New York: Oxford University
Press, 1998. p. 309. Palavras que evocam o que, quase cento e cinqüenta anos antes,
Marx tinha afirmado a partir do campo da história.
ro, agora que sabemos que é necessário participar ativamente na tarefa que
não está determinada e depende de nós.
François Jacob afirmou: "Somos uma terrível mescla de ácidos nu-
cléicos e de recordações, de desejos e proteínas. O século que termina ocu-
pou-se muito de ácidos nucléicos, proteínas. O que chega centrar-se-á nas
lembranças e nos desejos. Saberá resolver estas questões?".14 Que o consiga
ou não, dependerá em grande parte dos historiadores. Eles são os únicos
que podem se ocupar da ciência das recordações, desde que consigam es-
tar à altura da tarefa, deixando de lado as estéreis liturgias acadêmicas e
pondo-se a criar as novas ferramentas teóricas, necessárias para analisar os
problemas de uma realidade que não se encaixa nos velhos esquemas em
que foram educados e que não têm nada a ver com òs sortilégios verbais
com que se tem pretendido substituí-los.
Algumas palavras finais a respeito deste livro. Na sua Origem está
História: análise do passado e projeto social, escrito há quase vinte anos. Faz
muito tempo que queria melhorá-lo e corrigi-lo, não somente porque nes-
ses anos aprendi o suficiente para enriquecer sua base erudita, mas porque,
nesse ínterim, o mundo mudou e, também, nossas perspectivas. Ao tentar
essa revisão, descobri que tinha de fazer um livro inteiramente novo, que
conservaria muito pouco do velho. A intenção deste é semelhante à do an-
terior, porém o conteúdo é diferente e as propostas tentam apresentar os
problemas novamente, numa perspectiva que corresponda ao presente in-
certo erri que vivemos.
Convém compreender, no entanto, que não escrevi este livro, que
vai contra a corrente das modas deste tempo, para manter vivas as idéias
do passado, mas para ajudar a construir as do futuro. O título, A história
dos homens, expressa o ponto de partida; sua aspiração é ajudar na cons-
trução do que um dia haverá de se chamar, mais apropriadamente, A his-_
tória de todos.
Josep Fontana
14 JACOB, François. El ratóti, la mosca y el Itombre. Barcelona: Crítica, 1998. p. 195.
Capítulo 1
A s ORIGENS: A HISTORIOGRAFIA DA
ANTIGÜIDADE CLÁSSICA
Todas as comunidades humanas que permanecem ao longo do tem-
po constroem uma história que rememora os acontecimentos e as vitórias
dos antepassados, desempenhando a função de uma genealogia coletiva.
Os mitos históricos nascem justamente das incertezas e inseguranças dos
primeiros estágios desta história. Nos povos que não conhecem a escrita,
ou que a utilizam de forma limitada, a transmissão do passado comparti-
lhado realiza-se, principalmente, através de uma épica oral: os poemas
africanos dão notícias dos velhos impérios e de seus heróis; os dos vikings,
dos reis e suas grandes navegações.1
As primeiras representações com intenção histórica que conserva-
mos são as que figuravam nos templos e monumentos das civilizações do
mundo antigo. As inscrições reais do Oriente Próximo e do Egito faraôni-
to não estavam destinadas apenas a perpetuar a memória dos soberanos
mas, também, a deserppenhar uma função de doutrinamento coletivo: a
de recordar os fundamentos religiosos e profanos do sistema social vigen-
te, identificado com a própria ordem do cosmos (o mito do dilúvio, suge-
' 1 JOHNSON, J. W.; HALE, T. A.; BELCHER, S. Oral epics from Africa. Blooming-
ton: Indiana University Press, 1997; PAGE, R. I. Chronicles of the Vikings. Lon-
don: British Museum Press, 1995; Carol Meyers em COOGAN, Michael D. (Ed.).
The Oxford history of the biblical world. New York: Oxford University Press, 1998.
p. 269.
rido ou não por inundações históricas, é encontrado normalmente em so-
ciedades que compartilhavam o fato de ter a economia baseada na regula-
ção social do aproveitamento dos rios), e o papel do monarca como defen-
sor das vidas dos súditos, como mostram as cenas de triunfos militares
contra inimigos estrangeiros, onde nunca falta a representação dos venci-
dos, normálmente de tamanho menor que os vencedores, para reforçar o
sentido de sua inferioridade (diz-se queo grego Mikon foi Castigado por
haver representado os persas do mesmo tamanho que os gregos numa pin-
tura da batalha de Maratona). A Vitória dos gregos sobre os persas, por
exemplo, foi comemorada muito mais através da construção de monu-
mentos do que através de textos escritos, o que era lógico numa sociedade
muito limitada na capacidade de ler, e as inscrições eram reservadas sobre-
tudo para a preservação das leis. Em outro sentido, a colocação no foro ro-
mano de uma seqüência de estátuas de grandes homens, organizadas tem-
poralmente, pretendia mostrar a continuidade natural da história de
Roma desde Enéas até o império, idéia que haveria de ser reforçada pelo
Index rerum gestarum de Augusto, tábuas de bronze com a relação de suas
conquistas que, expostas em seu mausoléu, eram, também, uma espécie de
mapa do império.2 As representações figurativas dos maias, que "explica-
vam a história tal qual os reis e nobres desejavam que seus súbitos a enten-
dessem",3 desempenhavam a mesma função.
2 SOLLBERGER, Edmond. The Babylonian legend of the Flood. London: British Mu-
seum, 1971/3; MORRIS, Sarah P. Daidalos and the origins of Greek art. Princeton:
Princeton University Press, 1995. p. 368, 288-295. Se examinarmos as inscrições
gregas, veremos que, em contraste com as poucas que relatam acontecimentos his-
tóricos, como o mármore de Paras e á "crônica de Lindos", predominam os textos
legais (BERTRAND, Jean-Marie. Inscriptions historiques grecques. Paris: Les Belles
Lettres, 1992). MASCHIN, N. A. El principado de Augusto. Madrid: Akal, 1978. p.
310-315; sobre as,"Res gestae" de Augusto, NICOLET, Claude. L'invention du mon-
de. Géographie et politique aux origines de L'Empire romain. Paris: Hachette, 1996. p.
28-39. Também a coluna de Trajano, erigida para comemorar as guerras dácias, foi
qualificada como um "documento político" (ROSSI, Lino. Trajan's Column and the
Dacian Wars. London: Thames and Hudson, 1971).
3 SCHELE, Linda; FREIDEL, David. A forest of kings. The untold story of the Ancient
Maya. New York: William Morrow, 1990 (citação da p. 55); BROTHERSON, Gor-
don. La América indígena en su literatura: los livros del cuarto mundo. México:
Os inícios da história escrita vinculam-se à justificação do estado
monárquico, pelo duplo caminho de destacar a origem sagrada e identifi-
cá-lo com o passado da comunidade. Os textos históricos mais antigos que
se conhecem são as relações e as crônicas dos reis, como as guardadas pe-
los sacerdotes sumérios nos templos, que explicavam como a realeza des-
ceu dos céus numa primeira etapa de reis divinos, seguida, depois do dilú-
vio, por uma segunda etapa de soberanos sobre-humanos - como Gilga-
mesh, quinto rer de Uruk, "dois terços deus e um terço homem", de quem
os poetas cantariam proezas sobrenaturais - até chegar aos soberanos con-
temporâneos. Estes textos, dos quais o mais importante é a "Crônica da
monarquia una" (também chamada "Relação suméria dos réis"), apresen-
tavam uma sucessão contínua de soberanos únicos para uma época em
que, na realidade, existiam diversas cidades-estado independentes, cada
uma com a própria dinastia. Conseguiram isto, misturando diversas séries
de monarquias locais com a finalidade de fazer remontar a um passado re-
moto a existência de um reino unificado que registrara, simplesmente, a
passagem da capital de uma cidade a outra, até chegar, sem solução de
continuidade, aos governantes que teriam mandado elaborar a relação.
Com esta construção histórica, podia-se alcançar "a justificativa mítica do
mundo nas formas atuais".4
Em todas as civilizações de que conservamos testemunhos escritos,
encontramos textos históricos. No mundo mesopotâmio, existe uma série
Fondo de Cultura Económica, 1997. p. 173-203. Pôde-se, assim, chegar à elabora-
ção de uma crônica dos reis maias com suas histórias individuais (MARTIN, Si-
mon; GRUBE, Nikolai. Chronicle of the Maya kings and queens. London: Thames
and Hudson, 2000).
4 GLASSNER, Jean-Jacques, Chroniques mesopotamiennes. Paris: Les Belles Lettres,
1993 (sobre a "Crônica da monarquia una", p. 69-87); BOTTÉRO, Jean. L'épopée de
Gilgamès. Paris: Gallimard, 1992; Poema de Gilgamesh. Ed. de F. Lara. Madrid: Tec-
nos, 1997/3; VAN SETERS, John. In search of history. Historiography in the ancient
world and the origins of biblical history. New Haven: Yale University Press, 1983; LI-
VERANI, Mario. El antiguo oriente. Historia, sociedad y economia. Barcelona: Críti-,
ca, 1995. p. 118-122,159-161 (citação da p. 160). Sobre o contexto histórico e os
problemas de interpretação desta documentação, KUHRT, Amélie. The ancient
Near East, c. 3000-330 BC. London: Routledge, 1997.2 v.
P
deles, como ás denominadas Crônicas de Babilônia, supostamente deriva-
das dos diários sacerdotais, nos quais eram anotados os acontecimentos
astronômicos e meteorológicos mais importantes, assim como notícias a
respeito dos preços do mercado, do nível das águas dos rios e de diversas
questões de interesse. Também, existem alguns anais assírios, a História
sincrônica que relaciona os acontecimentos ocorridos na Assíria e na Babi-
lônia durante os longos séculos em que viveram separadamente e que tem
sido comparada com o Livro dos reis da Bíblia. Esta tradição manteve-se,
ao menos até a época helenística, com os escribas incorporando os reis cal-
deus, persas e gregos nas velhas relações unificadas. A esta mesma tradição
historiográfica, pertencem as inscrições reais - a idéia de que "o rei neces-
sitava de uma inscrição que fizesse constar ao menos seu noíne e seus tí-
tulos" data do século XXVII antes de Cristo e continua sem interrupção até
o período helenístico - como as da Pérsia aquemênida, redigidas freqüen-
temente em mais de uma língua, como reflexo da estrutura plural dp im-
pério. A mais importante delas é, certamente, a de Dario I em Bísotun ou
Behistán, escrita em persa antigo, babilônio e elamita„ que nos fornece os
títulos e a genealogia de Dario I, descreve os povos por ele submetidos e
narra suas campanhas vitoriosas como vencedor de, onze revoltas. A histo-
riografia hitita era do mesmo estilo e limitava-se a textos narrativos "ofi-
ciais": anais encomendados por diversos reis para lembrar suas conquistas
e alguns textos biográficos; nada, entretanto, que se assemelhe à historio-
grafia do mundo clássico greco-romano.5
5 VERBRÜGGHE, G. P.; WICKERSHAM, J. M. Berossos cmdManetho introduced and
translated. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1996. Sobre a inscrição de Bi-
sotun ou'Behistan, LECOQ, Pierre. Les inscriptions de la Perse achémenide. Paris:
Gallimard, 1997. p. 83-96, com a tradução completa em p. 187-217. A citação que
diz respeito à continuidade das inscrições é de VAN DE MIEROOP, Mare. Cuni-
form texts and writing of history. London: Routledge, 1999. p. 40. BUTTERFIELD,
Herbert. The origins of histçry. London: Eyre Methuen, 1981. p. 23-79; HALLO,
William W. Ortgins. The ancient Near Eastern background of some modern Western
institutions^Leiden: Brill, 1996. p. 139-143; GRAYSON, A. K. Histories and histo-
rians of the Ancient Near East: Assyria and Babylonia. Orientalia, 49, p. 140-194,
1980. Sobre a historiografia hitita concordo com a opinião de BRYCE, Trevor. The
kingdom of the hittites. Oxford: Clarendon Press, 1998. p. 424-425, contra a valori-
A história e o mito também estão indissoluvelmente unidos no an-
tigo Egito, num processo que iria da analística* da pedra de Palermo (ca.
2350 a.C.) até as relações dos reis posteriores, como a do papiro de Turim,
que introduz, nos tempos pré-dinásticos, um conjunto de deuses e sobera-
nos míticos. Produziu-se, assim, uma "mitologização" da história, destina-
da a legitimar o soberano como mediador entre os deuses e os homçns.
Um objetivo ainda mais imediatamente político é o das inscrições acom-
panhadas de representações gráficas, que tornavam o conteúdo acessível a
um público que não sabia ler, como os denominados Anais de Tutmosis III
(1490-1436 a.C.),que glorificam o faraó como defensor perante os inva-
sores estrangeiros, ou as inscrições de Ramsés II no templo de Karnak e no
Ramesseum, que apresentam uma grande vitória sobre os hititas o que, na
realidade, foi uma paz firmada em pé de igualdade.
Também possuem uma finalidade política, dirigida a um público
mais restrito - o que é capaz de ler - , algumas das obras literárias egíp-
cias mais conhecidas, como a famosa história de Sinuhé, as Advertências
de um sábio egípcio e, especialmente, as Profecias de Nefertite, que denun-
ciam os malefícios da subversão social em contraste com a paz que um
soberano forte garante. Estas supostas profecias, feitas a Esnofru - um
faraó da quarta dinastia que viveu seis ou sete séculos antes da época em
que, na realidade, se escreveu, o texto - antecipavam uma época de cala-
midades em que os pobres enriqueceriam e os ricos terjam que mendi-
gar, em que "os rios do Egito estariam secos" e o sol apenas brilharia, até
que chegasse um rei do sul, de nome Anieni, que reuniria as duas coroas.
zação hiperbólica de KAMMENHUBER, Annelise. Die hethitische Geschichtsch-
reibung. Saeculum IX, p. 136-155, 1958. Uma análise dos textos históricos hititas
com fragmentos traduzidos em BERNABÉ, Alberto; ÁLVAREZ-PEDOSA, luan An-
tonio. Historia y leyes de los hititas. Textos Del Império atitiguo. El código. Madrid:
Akal, 2000. Não cabe examinar aqui o valor destas fontes historiográficas nem as
dificuldades que temos para conhecer, com elas, a "história dos de baixo". Sobre
isto, Van de Mieroop, p. 86-105 (History from below) e 138-160 (Gender and Me-
sopotamian history) ou POLLOCK, Susan. Ancient Mesopotamia. Cambridge:
Cambridge University Press, 1999. p. 218-219.
* Referente a anais. (N.T.)
Então "a gente do reino se alegrará e o homem bem nascido repetirá seu
nome para sempre". Que a profecia fosse fabricada a posteriori para legi-
timar um usurpador como Amenemeres I, fundador da' XII dinastia,
pode-se considerar anedótico. O importante é que todos estes textos cor-
respondem a uma idéia legitimadora da monarquia: a suposição de que,
nos momentos em que falta uma autoridade central vigorosa, a desor-
dem se difunde pela sociedade e chega inclusive à própria natureza. A
esta formulação corresponde a visão histórica que Heródoto escutou dos
sacerdotes egípcios e que afirmava que, antes de existir uma monarquia
centralizada, o Egito era um "terrenp pantanoso". Hoje sabemos que isto
era falso: não houve este passado diluvial-pantanoso pré-monárquico;
na verdade o sistema de canais de irrigação deve-sé mais à iniciativa lo-
cal dos camponeses do que à gestão estatal, preocupada principalmente
com construções, como as pirâmides, cujo objeto parece haver sido, so-
bretudo, a mobilização da força de trabalho com a finalidade de criar
uma disciplina coletiva.6
Estas tradições historiográficas do Oriente Próximo, às quais é ne-
cessário acrescentar a de Israel, desenrolaram-se num mundo de elemen-
tos culturais compartilhados, que conforma também o substrato da cul-
tura da Grécia clássica.7 Existem, no entanto, outras tradições indepen-
6 KEMP, Barry J. El antiguo Egipto. Anatomia de una civilización. Barcelona: Crítica,
1992. p. 29-43; MENDELSSOHN, Kurt. The riddle of the pyramids. London: Tha-
mes and Hudson, 1986/2. p. 152-153, 196-200; BAINES, John. Ahcient Egyptian
concepts and uses of the past: 3rd to 2end millenium BC evidence. In: LAYTON,
R. (Ed.). Who needs the past? indigenous values and archaeology. London: Routléd-
ge, 1994. p. 131-149; VERBRUGGHE, G. P.; WICKERHAM, J. M. Berossos and
• Manetho introduced and translated. Ann Arbor: University of Michigan Press,
1996. p. 95-120; MANETÓN: Historia de Egipto. Madrid: Alianza, 1993; MORAN,
W. L. The Amarna Letters. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1992. Os
textos literários em Textes sacrês et textes profanes de Vancienne Egypte. Edição de
Claire Lalouette. Paris: Gallimard/Unesco, 1984-1987. 2 v. e PARKINSON, R. B.
(Ed.). The tale of Sinuhe and other ancient Egyptian poems, 1940-1640 B. C. Ox-
ford: Clarendon Press, 1997. . -
7 THOMPSON, Thomas L. The Bible in history. How writers create a past. London:
Jonathan Cape, 1999, afirma que não se deve confundir os livros do Antigo tes-
tamento com um relato histórico. No mesmo sentido, na medida em que se re-
dentes como a da China, em que a história tinha um caráter didático e
moralizador, cujo maior representante foi Sima Qian (145-85 a.C.), um
funcionário da corte (responsável por fazer cálculos astronômicos para a
regulação do calendário e, ao mesmo tempo, registrar os acontecimentos
do estado), condenado à castração por ter defendido um general em des-
graça. Continuando um trabalho iniciado pelo pai, Sima Qian escreveu o
que se considera a maior obra da historiografia chinesa: Shiji ou Memó-
rias históricas, uma espécie de história universal que começa nas origens
míticas e se encerra aproximadamente no ano 100 a.C., estando dividida
em cinco seções: os "anais básicos", as "tábuas cronológicas", os "tratados",
as "casas dinásticas" e as "biografias". O livro, que unificava num relato or-
ganizado um conjunto inteiro de fontes relativas a diversos estados inde-
pendentes com cronologias próprias, converter-se-ia em modelo perma-
nente para o país - onde a maioria das histórias posteriores seriam obras
oficiais que respeitavam o "princípio de ocultação apropriada" - embora
sem exercer influência fora dele.8
Nossa ignorância das tradições historiográficas orientais deriva, em
boa medida, da atitude dos colonizadores europeus, interessados ern negar
fere concretamente ao livro de Êxodo, Redmount (em COOGAN, Michael D.
(Ed.). The Oxford history of the biblical world. New York: Oxford University
Press, 1998. p. 119). Não parece que seja tão simples, pelo menos para períodos
' posteriores como se vê no livro de Van Setters citado anteriormente ou nos tra-
balhos de Momigliano sobre as influências recebidas pela historiografia de Is-
rael, como os textos reunidos em MOMIGLIANO, Arnaldo. Páginas hebraicas.
Madrid: Mondadori, 1990.
8 BEASLEY, W. G.; PULLEYBLANK, E. G. (Ed.). Historians of China and Japan.
London: Oxford University Press, 1961. Pulleyblank afirma que a da China é, jun-
to à européia de origem greco-romana e à islâmica, uma das três grandes tradições
históricas, "única pelo volume da produção e pela continuidade". Cito um traba-
lho incluído neste volume (Lien Sheng Yang, "The organization of Chinese official
historiography", p. 44-59). QIAN, Sima. La fundació de I'imperi xinès. Edição de
Dolors Folch. Barcelona: Empúries, 1991. JJma tentativa de análise comparativa
no "Themes issue 35" de History and theory, 35, n. 3,1996: SCHNEIDER, A.; WEI-
GELIN-SCHWIEDRZIK, S. (Ed.). Chinese historiography in comparative perspecti-
ve. HARDY, Grant. Worlds of bronze and bamboo. Sima Qian's conquest of history.
New York: Columbia University Press, 1999, celebra o Shiji como uma obra dife-
rente, e de alguma maneira superior à historiografia clássica européia.
a existência de uma história própria destes povos, para justificar melhor
sua dominação, que era a que os conduziria à corrente do progresso e, por-
tanto, à história propriamente dita. James Mill escreveu em 1818 que não
havia obras históricas na literatura dos indianos "porque não tinham al-
cançado o ponto da maturidade intelectual que permite começar a enten-
der o valor de registrar o passado como guia para o futuro" (negava-se
aceitar que a sociedade hindu tivesse escolhido sua própria maneira de re-
gistrar o passado em genealogias, biografias de reis, crônicas de dinastias e
de famílias dirigentes, etc.). Hegel acrescentaria que uma civilização de três
mil anos, como a da Índia, "que não foi capaz de escrever a própria histó-
ria é incapaz de evoluir culturalmente". Era evidente que os indianos pre-
cisavam tutela para sair da estagnação.9
No caso da historiografia grega, que a cultura européia considera
como uminíciô absoluto e universal, é preciso levar em conta de que ela
surgiu num contexto político muito diferente do das monarquias do
Oriente, o das pequenas cidades-estado oligárquicas e mercantis, nascidas
das derrotas das antigas monarquias locais e forjadas, posteriormente, na
luta contra o império persa. Era lógico, portanto, que suas crônicas se
preocupassem menos com as genealogias dos reis e mais com os aconteci-
mentos concernentes aos cidadãos.
Esta nova visão encontra raízes na mudança da consciência política
que se produziu em algumas cidades-estado com a difusão de uma econo-
mia monetária, desde o século VII, e com a ruptura do equilíbrio social
9 A citaçao de Hegel é da A razão na história (que utilizo na tradução francesa pu-
blicada em Paris pela Union Générale d'Editions, 1965. p. 25). THAPAR, Romila.
Time as a metaphor ofhistory:t early India. Delhi: Oxford University Press, 1996, e
"La quête d'une tradition historique. L'Inde ancienne", em Annales, 53, n. 2, p.
347T359, mars/avril 1998. Os ingleses escreveram a história da Índia como uma
parte da própria história britânica. Este tèma, ao qual voltaremos mais adiante, foi
esplendidamente analisado por Ranajit Guha em Dominance without hegemony
and its historiography. In: Subaltern studies, VI. Delhi: Oxford University Press,
1989. p. 210-309 - de onde retirei a citação de James Mill, p. 286. Uma boa análi-
se das formas de história indiana pré-colonial encontra-se em ALI, Daud (Ed.).
Invoking the past: the uses of history in South Asia. New Delhi: Oxford University
Press, 1999, especialmente na terceira parte do volume.
existente, em detrimento da velha aristocracia da terra e a favor dos seto-
res mais ligados às atividades marítimas e ao comércio (os tratados comer-
ciais e a política democrática desenvolviam-se de forma conjunta no Ágo-
ra). Assim, as monarquias deram lugar às tiranias - numa época que assis-
tiria o surgimento das primeiras teorias científicas e das convenções da
arte arcaica - e, finalmente, às revoluções, que permitiram o estabeleci-
mento de regimes democráticos, como aconteceu em Atenas cerca de 600
a.C. (democráticos, no sentido limitado em que os gregos compreendiam
o termo: na Atenas do século IV a.C., tinham direitos políticos uns 30.000
homens, numa população de 150.000 habitantes, com no mínimo 30.000
escravos, tratados com sistemática brutalidade), j
Mas os historiadores e dramaturgos gregos que, depois das guerras
contra a Pérsia, elaboraram a imagem do bárbaro e a contraposição entre
a liberdade grèga e o despotismo asiático, simplificaram demasiadamente
a realidade. A história da Grécia era muito mais complexa e contraditória
do que pensavam: estava mais ligada ao âmbito do Oriente Próximo do
que queriam admitir, não registrando uma ascensão contínua ao apogeu
clássico, mas sim um conjunto de etapas variadas e distintas, com carac-
terísticas próprias. A evolução da cultura grega e da pólis havia iniciado
mil anos antes do esplendor da Atenas de Péricles. Enquanto isso, o que
costumamos chamar de "o mundo grego", corresponde a menos de dois
séculos e os acontecimentos centrais que nos relatam Heródoto, Tucídi-
des e Xenofonte - isto é, "a história grega" por excelência - abarcam pou-
co mais de 130 anos. A historiografia, da mesma forma que outras mani-
festações do "gênio grego", deve ser contemplada a partir das "estratégias
deliberadas dos atenienses, destinadas a se distinguirem do resto dos es-
tados gregos e do poderoso Oriente" (a aceitação desta sua visão por par-
te da Europa moderna é, em grande medida, conseqüência de seu próprio
"espírito colonizador", ao qual convinha esta identificação com uma Gré-
cia inventada contra os bárbaros).10
10 OSBORNE, Robin. Laformación de Grécia, 1200-479 a.C. Barcelona: Crítica, 1998;
POURSAT, Jean Claude. La Grèce préclassique. Paris: Seuil, 1995 (citação das p. 7 e
149-151); MORRIS, Ian. An archaeology of equalities? The Greek city-states. In:
NICHOLS, Débora L.; CHARLTON, Thomas H. (Ed.). The archaeology of city-sta-
O que dá um caráter novo e original ao tipo de história que come-
çará a.ser elaborada na Grécia no século V a.C. é que não se trata mera-
mente de uma crônica de acontecimentos do passado, mas de uma pesqui-
sa "histórica" de fatos que tem a ver com o presente. Esta história nasceu
na encruzilhada das influências de três tradições diferentes. Por um lado,
a da poesia épica, concretamente a dos grandes poemas-históricos de Ho-
mero. O método expositivo dos historiadores gregos, com uma narração
de acontecimentos em que os discursos diretos dos protagonistas são em-
pregados para criar "um sentido de vivo imediatismo", são os mesmos que
os utilizados nos poemas homéricos: a história é entendida como uma for-
ma de recriação literária e não documental (os documentos escritos, além
do mais, teriam sido insuficientes). A publicação, em 1992, de fragmentos
do poema que Simônides dedicou à batalha de Platéia, e que parecem ha-
tes. Cross-cultural approaches. Washington: Smithsoniam Institution Press, 1997.
p. 91-105; OBER, Josiah. The Athenian revolution. Essays on ancient greek demo-
cracy and political theory. Princeton: Princeton University Press, 1996; REDEN,
Sitta von. Exchange in Ancient Greece. London: Duckword, 1995; MORRIS, Sarah
P. Daidalos and the origins of Greek «ri (uma citação da p. 386); WEST, M. L. Early
Greek philosophy and the Orient. Oxford: Clarendon Press, 1971; MOMIGLIANO,
Arnaldo. Eastern elements in post-exilic Jewish, and Greek, historiography. In:
. Essays in ancient and modern historiography. Oxford: Basil Blackwell,
1977. p. 25-35; WEST, M. L. The East face of Helicon. West asiatic elements in Greek
poetry and myth. Oxford: Clarendon Press, 1997; HALL, Edith. Inventing the bar-
barian. Oxford: Clarendon Press, 1989; MEIER, Christian. The political art of greek
tragedy. Cambridge: Polity Press, 1993; PELLING, Christopher (Ed.). Greek tra-
gedy and the historian. Oxford: Claredon Press, 1997; BERNAL, M. Atenea negra.
Barcelona: Crítica, 1993,1: La invention de la antigua Grecia, 1785-1985; II: The
archeological and documentary evidence. London: Free Association, 1991 (as crí-
ticas a Bernal, especialmente por parte de Mary Lefkowitz, suscitaram um debate
complexo); POTTS, D. T. Mesopotamian civilization. The material foundations.
London: Athlone Press, 1997. p. 276-301; DOVER, K. J. (Ed.). Perceptions of the an-
cient greeks. Oxford: Blackwell, 1992; AMPOLO, Carmine. Stone greche. Laforma-
zione delia moderna storiografia sugli antichi Greci. Torino: Einaudi, 1997; CAN- '
FORA,'Luciano. L'inizio delia storia secondo i greci. In: La storiografia
greca. Milano: Bruno Mondadori, 1999. p. 26-43. Recentemente Peter Hunt, em
Slaves, warfare and ideology in the greek historians. Cambridge: Cambridge Univer-
sity Press, 1998, mostrou o espírito elitista de certos historiadores gregos que fal-
sificaram a realidade do escravismo.
ver influenciado Heródoto, mostra a relação existente entre a poesia e al-
guns textos históricos em prosa, dos quais se faziam leituras públicas frag-
mentadas, de modo que estavam mais destinados a serem escutados do
que lidos. A segunda influência, da qual surge o próprio nome do gênero,
é a dos primeiros filósofos jônios. A palavra "história" deriva de um verbo
que significa "explorar, descobrir" e se refere a uma prática de investigação
sistemática aplicada pelos pensadores jônios, um século antes de Heródo-
to e de Tucídides, ao estudo da natureza (de onde procede a idéia de uma
"história natural", como a "historia animalium" de Aristóteles). A terceira,
finalmente, é a tradição dos "logógrafos" da Ásia Menor, que recolheram a
informação dos cadernos em que os marinheiros anotavam não somente
os portos, mas também os povos das costas mediterrâneas, registrando ob-
servações a respeito dos costumes e da história local. O mais destacado de-
les foi Hecateo de Mileto (ca. 560-480 a.C.), que fez uma descrição dater-
ra e uma genealogia ou mitografia, das quais se conservam apenas frag-
mentos citados por outros escritores. Sabemos que se propôs a analisar ra-
cionalmente os mitos do passado "porque as tradições dos gregos são di-
versas e, na minha opinião, ridículas", mas o féz de maneira elementar e
primária (estava convencido, por outro lado, que sua família descendia de
um deus). Seria só a partir do século V a.C. que se produziria o floresci-
mento, quase simultâneo, de Heródoto e de Tucídides, com os quais a his-
toriografia grega, paradoxalmente, nascerá e, ao mesmo tempo, alcançará
seu ponto culminante."
11 Boas introduções ao estudo da historiografia grega: GRANT, Michael. Greek and
Roman historians. Information and misinformation. London: Routledge, 1995;
LUCE, T. J. The Greek historians. London: Routledge: 1997 (citação das p. 2-7);
MOMIGLIANO, Arnaldo. La historiografia griega. Barcelona: Crítica, 1984;
HORNBLOWER, Simon (Ed.). Greek historiography. Oxford: Clarendon Press,
1994; MAZZARINO, Santo. Ilpensiero storico clássico. Roma: Laterza, 1983.3 v.;
BRUNET, Philippe. La naissance de la littérature dans Grèce ancienne. Paris: Li-
vrairie Générale Française, 1997; PRESS, Gerald A. The development of the idea
of history in antiquity. Kingston: McGill-Queen's University Press, 1982; MEIS-
TER, Klaus. La storiografia greca. Roma: Laterza, 2000. Ao livro de Canfora, La
storiografia greca, citado antes, uma compilação de trabalhos monográficos, é
preciso acrescentar as interessantes precisões de Prima lezione di storia greca
Herpdoto de Halicarnaso (ca. 485 - ca. 424 a.C.) nasceu numa ci-
dade da Ásia Menor que estava então sob o domínio dos persas. Sua His-
tória, uma denominação que aparece pela primeira vez como título de
uma obra, começa com esta declaração de propósitos: "esta é a exposição
dos resultados das investigações de Heródoto de Halicarnaso para evitar
que com o tempo os atos humanos caiam no esquecimento". Era a obra
mais extensa que até então se escrevera - devia preencher cerca de trin-
ta rolos de papiro com uma longitude total de quase cem metros - e es-
tava concebida sobretudo para ser lida em público e em voz alta. O pro-
pósito central era relatar os enfrentamentos entre os gregos e a Pérsia, da
revolta Jônia à expedição de Xerxes (entre 500 e 480 a.C.), quando os
gregos conseguiram derrotar o exército e a frota persas superiores: acon-
tecimentos que Heródoto conservava de muita memória, posto que sua
cidade natal viu-se envolvida na luta, e que relata com precisão - se dei-
xarmos de lado o exagero nos números de combatentes e de navios per-
sas - , baseando-se geralmente em testemunhos orais. No entanto, antes
de chegar à descrição do conflito, è é isso o que o aproxima dos logógra-
fos, a História nos oferece uma descrição do mundo conhecido pelos gre-
gos, baseada nos conhecimentos adquiridos nas viagens que Heródoto
fizera ao Egito, à Fenícia e ao Mar Negro, e no diálogo com viajantes que
tinham inclusive ido mais longe: As descrições de países e costumes são
vivas e inteligentes. Quando explica o que lhe contaram, o faz com pru-
dência, oferecendo as diferentes versões existentes, no caso de haver mais
de uma, com a finalidade de escolher a mais razoável, e racionaliza fre-
(Roma: Laterza, 2000), do mesmo autor. Tomo algumas idéias essenciais de
BAURAIN, Claude. Les grecs et la Méditerranée orientale. Paris: PUF, 1997. p.
537-544. Sobre a mitografia, teogonia, genealogia e história, GRAF, Fritz. Greek
mithology. An introduction. Baltimore: The Johns Hopkins University Press,
1993. p. 121-141 e GANTZ, Timothy. Early Greek myth. A guide to literary and
artistic sources. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1993. Há uma
interessante compilação dos prefácios e textos "teóricos" dos historiadores gre-
gos e romanos em versão bilíngüe, em HARTOG, François; CASEVITZ, Michel.
L'histoire d'Homère à Augustin. Préfaces des historiens et textes sur l'histoire. Paris:
Seuil, 1999.
qüentemente os acontecimentos fantasiosos. A investigação arqueológi-
ca das últimas décadas teni reivindicado o valor de muitas das informa-
ções que nos fornece, contra as acusações de credulidade. Embora mani-
feste que não quer falar a respeito de "questões divinas", não faltam na
obra referências à providência e uma especial atenção às profecias dos
oráculos, ao lado de descrições detalhadas e respeitosas das crenças e ri-
tuais de outros povos. A contraposição despotismo oriental versus demo-
cracia grega, que aparece como base do sentido de coletividade e que for-
nece aos cidadãos a vontade de resistir aos agressores externos, deve ser
compreendida em relação à estabilidade das instituições conhecidas e
aceitas - o que é contrário à arbitrariedade do déspota - mais que em re-
lação à liberdade individual como hoje a entendemos, e vale tanto para a
Atenas democrática quanto para o regime despótico, mas submetido a
leis, de Esparta. Hoje valorizamos em Heródoto a amplitude da concep-
ção que inclui na história a totalidade da atividade humana, a preocupa-
ção antropológica e o interesse pela cultura de outros povos, que levou
Creuzer a comparar, em 1798, Heródoto, "historiador da humanidade" a
Tucídides, um localista, o que explica que Murray nos diga hoje que He-
ródoto "é mais moderno que nenhum outro historiador antigo na apro-
ximação ao ideal de uma história total". No entanto, de certo modo, esta
valorização torna-se anacrônica, já que Heródoto está a meio caminho,
entre Hecateo, cuja obra cita em diversas ocasiões, e o tipo de história
mais política que se fará a partir de Tucídides, de uma natureza muito di-
ferente, e gostemos ou não, mais "moderna".12
12 Os principais textos de Heródoto aqui utilizados são I, proêmio (definição da
obra), 140 (conhecimento dos persas), II, 3-4 (conversações com os sacerdotes
egípcios), 65 (sobre as questões divinas), III, 9, 85-87,169 e ss. IV, 5-15, VI, 51-
55, etc. (seleção da versão mais lógica entre as diversas que foram recebidas), IV,
59-82 (descrição dos escitas), V, 78 i 92, VIII, 143, etc. (elogio da democracia e de-
negação da tirania), VI, 111-117 (descrição objetiva da batalha de Maratona) VI,
137 (uma citação de Hecateo) e IX, 62 (inferioridade do armamento persa). Re-
corri a HOW, W. W.; WELLS, ]. A Commentary ott Herodotus. Oxford: Clarendon
Press, 1967 (a edição original é de 1912), 2 v. (I, p. 24-27, 32-33,46, 325, sobre as
possíveis viagens de Heródoto às regiões pônticas, 411-414 sobre as viagens ào
Egito, etc); CREUZER, Friedrich. Erodoto e Tucidide. Palermo: Sèllerio, 1994 (ed.
Capítub 1
O ateniense Tucídides (ca. 460 - ca. 400 a.C.), era uns vinte e cinco
anos mais novo do que Heródoto e pertencia a uma rica família aristocrá-
tica de origem trácia. Em 431, ao iniciar a guerra entre Atenas e Espàrta,
que duraria até 404, começou a escrever sua história, que deixaria, inaca-
bada, no livro oitavo, em que narra os acontecimentos do verão de 411. Foi
eleito general em 424 e as biografias tradicionais dizem que fracassou no
intuito de evitar a queda de Amfipolis, pelo que foi condenado a viver no
exílio durante vinte anos; pôde assim viajar e contrastar as circunstâncias
Original 1798); FORNARA, Charles W. Herodotus. As interpretative essay. Oxford:
Claredon Press, 1971; HART, John. Herodotus and Greek history. London: Croom
Helm, 1982 (com um bom esquema biográfico em p. 158-180); PAYEN, Pascal.
Les îles nomades.-Conquérir et résister dans l'Enquête d'Herodote. Paris: EHESS,
1997 (que faz uma original valorização da estrutura e do sentido da obra "que
tem incomodado à tribo dos historiadores", antigos e modernos); WATERS, K. H.
Heródoto el historiador. México: Fondo de Cultura Económica, 1996 (p. 138-150
sobre seus erros e lacunas); EVANS, J. A. S. Herodotus explorer of the past. Three
essays. Princeton: Princeton University Press, 1991 (sobre a utilização de fontes
orais, p. 89-146), e, sobretudo, LATEINER, Donald. The historical method ofHe-
rodotus. Toronto: University of Toronto Press, 1989 (sobre seu método crítico, p.
59-108; sobre as idéias de política, o "debate constitucional" e a isonomia, p. 163-
186; as citações de Hecateo por Heródoto, p. 104, ètc.). Sobre as idéias religiosas,
GOULD, John. Herodotus on religion. In: Greek historiography. Editey by Simon
Hornblower. Oxford: Clarendon Press; New York: Oxford UP, 1994! p. 91-106.
Sobre a confiabilidade das descrições dos monumentos egípcios, LLOYD, A. B,
Herodotus on Egyptian buildings. A test case. In: POWELL, A. (Ed.). The greek
world. London: Routledge, 1995. p. 273-300. Em relação aos povos asiáticos, AS-
CHERSON, Neal. Black Sea. London: Jonathan Cape,, 1995, passim. Essenciais
para sua revalorização tem sido HARTOG, François. La miroir d'Hérodote. Essai
sur la representatio de l'autre. Paris: Gallimard, 1980 e MOMIGLIANO, A. D. El
lugar de Heródoto en la historia de la historiografia. In: CANFORA, Luciano. La
storiografia greca. Milano: Bruno Mondadori, 1999. p. 134-150. Paulo Butti de
Lima, em L'inchiesta e la prova. Immagine storiografica, pratica giudizaria e retóri-
ca nella Grécia classica. Torino: Einaudi, 1996, relaciona as formas em que Heró-
doto e Tucídides manifestam a veracidade do que escrevem com a prática dos juí-
zos em Atenas, em que não se efetuava uma investigação e acusação públicas - os
membros do júri eram chamados a decidir sobre a credibilidade dos testemunhos
apresentados. Heródoto adotaria esta prática com a exposição de versõds diversas
em que escolhe a mais verossímil; Tucídides limitou-se a fazê-lo na parte progra-
mática com que inicia sua obra.
da guerra vista da ótica do outro lado. Lúciano Canfora, no entanto, suge-
riu uma interpretação diferente da vida de Tucídides, na qual é apresenta-
do como implicado num fracassado golpe de estado oligárquico efetuado
em Atenas em 411. Não sabemos quando morreu exatamente, nem se isto
aconteceu em Atenas ou na Trácia, onde se encontravam as minas de que
provinha sua fortuna. Sua História da guerra do Peloponeso (título atribuí-
do posteriormente) é um livro muito diferente do de Heródoto, pois se
concentra no presente e nos assuntos internos dos gregos (mostrando, por
outro lado, muito menos entusiasmo pelas instituições da democracia de
Atenas). O primeiro livro contém uma explicação do método empregado
e uma "arqueologia" ou resenha da história da Grécia até as guerras médi-
cas (destinada a demonstrar que todas as guerras anteriores, como a de
Tróia, foram muito menos importantes que a que se propõe relatàr, pois os
recursos disponíveis para realizá-las eram muito menos abundantes no
passado), concluindo com o estudo das causas do conflito entre Atenas e
Esparta. Do segundo livro ao quinto, narra a história da guerra ano-a ano
até a paz de Nícias e, do quinto ao último, os tempos de uma paz instável
e a expedição à Sicília, até o retorno às hostilidades em 411. Entre as limi-
tações, cabe salientar uma estreita visão localista frente ao universalismo
de Heródoto e o fato de que se restringe a tempos mais imediatos. Entre as
virtudes, a pretensão de exatidão - que o leva a afirmar que: "no que diz
respeito aos acontecimentos que tiveram lugar na guerra, não me parece
oportuno descrevê-los a partir das informações de qualquer um, riem se-
quer guiando-me pela minha opinião, mas, relatei as coisas em que estive
presente ou sobre as quais interroguei a outros com todo o rigor possí-
vel"-, o caráter laico das explicações, das quais se eliminaram qualquer
atribuição à providência e, sobretudo, o "realismo" político, que o leva a
expor, pela fala dos protagonistas, a convicção de que o êxito da guerra de-
pende dos recúrsos econômicos acumulados (em afirmações que atribui a
Péricles) ou a lógica do imperialismo, expressa cruamente pelos atenien-
ses na Conferência de Meios, onde afirmam que "a questão da justiça se es-
tabelece entre duas forças iguais; caso contrário, os mais poderosos fazem
o que. suas forças lhe permitem e os mais débeis cedem". Este realisnlo che-
ga ao extremo nos livros sexto e sétimo (o sétimo seria, segundo Macau-
lay, "o non plus ultra das artes humanas"), onde relata a trágica expedição
dos atenienses à Sicília e denuncia as incompetências e as traições que le-
varam ao desastre final, narrado com inegável grandeza.
As virtudes e defeitos de Tucídides, do ponto de vista da concepção
atual da história, devem ser compreendidos de outra perspectiva, ou seja,
a de seu tempo, que considerava a história como instrumento de análise da
realidade vivida. O tempo recente era, por um lado, o único em que o his-
toriadòr poderia utilizar sua condição de testemunha presente - "autóp-
sia" - como critério de veracidade, mas, também, aquele em que eram
apresentados os problemas que interessavam realmente aos leitores. A his-
toriografia greco-latina é fundamentalmente "história contemporânea",
embora isto nos tenha sido ocultado pela perda da parte mais "moderna"
dos textos, como acontece com ás obras de Políbio, Tito Lívio ou Tácito.
Esta é, talvez, uma das razões que explicam porque foi Tucídides, e
não Heródoto, o historiador que os gregos tomaram como modelo á se-
guir, "e as opções que adotou foram aceitas como leis". São outras, no en-
tanto, as razões de seu êxito "moderno": no século XIX, Tucídides torna-
va-se a leitura ideal para as sociedades imperialistas, oferecendo-lhes a le-
gitimação do uso da força sobre os mais fracos em nome das leis da natu-
reza humana, que podiam mascarar-se, se isto lhes convinha, com as su-
postas necessidades da civilização.13
13 HORNBLOWER, Simon. Thucydides. London: Duckworth, 1987; Narratology and
narrative techniques in Thucydides. In: Greek historiography. Edited by Simon
Hornblower. Oxford; Clarendon Press; New York: Oxford UP, 1994. p. 131-166, e
A commentary on Thucydides. Oxford: Clarendon Press, 1991,1: Books I-III; II:
Books IV-V.24, 1996. CANFORA, Luciano. Tucidides, I'oligarca imperfetto. Roma:
Riuniti, 1988 (citação da p. 115) e CRANE, Gregory. The blinded eye. Thucydides
and the new written Word. Lanham: Rowman and Littlefield, 1996; PROCTOR,
Dennis. The experience of Thucydides. Warminster: Aris 8c Phillips, ca. 1980. Sobre
suas idéias politicas, ROBERTS, Jennifer Tolbert. Athens on trial. The antidemocra-
tic tradition in western thought. Princeton: Princeton University Press, 1994. p. 54-
58, passim. As citações da Historia de la guerra del Peloponeso correspondem a 11-
9 ("arqueologia" das guerras), I 20-22 (sobre o método, com considerações a res-
peito dos discursos que Hornblower - A comentary I. p. 59 - considera excepcio-
nais pelo realismo), I 76 (imperialismo), I 141 (a guerra, segundo Péricles), V 84-
114 (a conferência de Meios) e VII 72-86 (o desastre de Sicília). Sobre a falsifica-
O mais conhecido dos muitos discípulos de Tucídidçs é Xenofon-
te (ca. 430 - ca. 356 a.C.), que escreveu a respeito das mais diferentes jtna-.
térias, mas tem um interesse limitado como historiador. Nascido em Ate-
nas, de família distinta, foi discípulo de Sócrates e participou dos últimos
momentos da guerra do Peloponeso, lutando na cavalaria. De idéias po-
líticas conservadoras e como não se sentia à vontade numa Atenas que
retornara à democracia, abandonou a Grécia em 401 a.C., para unir-se
com um grupo de soldados desocupados ao exército mercenário que lu-
taria a favor de Ciro, o Jovem, quando este disputava o trono da Pérsia
com seu irmão maior, Artaxerxes II. Õ pretendente morreu logo e a Aná-
bãsis, o relato que Xenofonte fez da longa e difícil retirada dos dez mil
mercenários que regressaram ao país depois de üm ano e três meses, con-
verteu-se ha sua obra mais famosa e uma das mais lidas da antiguidade.
Trata-se de uma narração vivenciada, de uma aventura em que o autor
tem a virtude, segundo afirmou Italo Calvino, de não nos ocultar que
está "à frente de uma horda de saqueadores em terra estrangeira e que a
razão não está de seu lado e, sim, dosbárbaros invadidos". Continuou lu-
tando como mercenário em outras campanhas a serviço dos espartanos,
enquanto os atenienses o desterravam e confiscavam seus bens; somente
ao final da vida, revogado o exílio, pôde voltar à cidade natal. Na biogra-
fia que Diógenes Laércio lhe dedica, Xenofonte é apresentado como um
homem excelente, ficcionado aos cavalos e à caça - dois temas aos quais
dediçou vastos tratados - , hábil na tática, "piedoso, amigo dos sacrifícios
e especialista em interpretar os presságios das vítimas, que fez de Sócra-
tes o modelo exato". Conserva-se dele extensa obra - o que explica por
que seus livrçjs foram utilizados, desde a época romanà, para a aprendi-
ção dos fatos por parte de Tucídides, Santo Mezzarino, Ilpensiero storico clássico I,
p. 247 e 253-257. A evolução do destino de Tucídides como mestre de historiado-
res em Momigliano, "Historiography on written tradition and historiography on
oral tradition", em Studies in Historiography, p. 211-220. Sobre a história como
"história contemporânea", MARINCOLA, John. Authority and tradition in ancient
historiography. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, capítulo II, "The
historian's inquiry". A reinterpretação biográfica citada em CANFORAÍ Luciano.
II mistero Tucidide. Milano: Adelphi, 1999.
zagem da língua grega - que teve uma influência desproporcional em re-
lação ao mérito. A Ciropedia, que alguns qualificaram como a "primeira
novela histórica", interessou muito aos governantes europeus da época
do absolutismo pelás reflexões a respeito da natureza do poder e sobre
sua técnica, pois Xenofonte argumenta que "governar os homens não fi-
gura entre as coisas impossíveis nem difíceis, quando se sabe.fazer". O
Econômico é uma rara fonte sobre a vida econômica e social de Atenas,
em especial sobre a gestão doméstica, sobre a família e o matrimônio
(aspecto què influenciou Luís Vives).
Entretanto, sua obra propriamente histórica, as Helénicas, em que
pretende continuar Tucídides - o livro começa dizendo simplesmente
"Alguns dias depois daquilo...", com o propósito de retomar desta manei-
ra o final da obra do predecessor - e relatar os acontecimentos ocorridos
entre 411-362 a.C., é pouco considerada e tem sido comparada desfavo-
ravelmente com os escassos fragmentos que se conservam de outro con-
tinuador de Tucídides, a do chamado historiador de Oxirrinco (devido ao
lugar do Egito em que foi descoberto o primeiro fragmento da obra). En-
quanto a primeira parte das Helénicas dedica-se aos anos finais da guerra
do Peloponeso, o resto nos fala de uma época turbulenta que viu a ascen-
são e a queda de Esparta, culminando na Batalha de Mantinéia e com
uma afirmação de relevante significado: "No entanto, houve ainda mais
confusão e desordem na Grécia depois da batalha do que antes".14
14 Os estudos básicos que foram utilizados são: DILLERY, John. Xenophon and the
history of his times. London: Routledge, 1995; POMEROY, Sara B. Xenophon Oeco-
nomicus. A social and historical commentary. Oxford: Clarendon, 1995; TATÜM,
James. Xenophon's imperial fiction. On "The education of Cyrus". Princeton: Prin-
ceton University Press, 1989, e Santo Mazzarino, II pensiero historico classicti, p.
343-390 (sobre as Helénicas, I, p. 343-364; sobre o historiador de Oxyrrinco, p.
_ 346-349). A citação é de Ciropedia, I, e 1,3; Diógenes Laércio, Vidas de filósofos, II,
56 e Helénicas, Vil, 5, 27. A frase de Italo Calvino procede de sua introdução da
edição bilíngüe àa Anábasis. Milano: Rizzoli, 1989/5. p. 9. Sobre a identificação do
historiador de Oxyrrinco com Teopompo, Momigliano, La historiografia griega, p.
168-194. Segundo Canfora (II mistério Tucidide, p. 84) os livros I e II das Heléni-
cas, que se dedicam aos anos 410-404, seriam em realidade uma cópia dos rascu-
nhos deixados por Tucídides (também Canfora, L'esordio dette Elleniche em La sto-
riografia greca, p. 165-184).
Eram tempos de crise que conduziriam muitos setores da sociedade
grega ao desprezo das formas democráticas e a um conjunto de reflexões
sobre as diversas "constituições" gregas,15 das quais nasceria a ciência poli
tica, junto às grandes tentativas de generalização que representam obras
como A política de Aristóteles (384-322 a.C.) e A república é As leis de Pla-
tão (427-347 a.C.) - onde é elaborada a tipologia das formas de governo
que Políbio posteriormente desenvolverá - e, numa segunda etapa, com a
obra dos sofistas, que introduzirão uma visão mais objetiva da realidade
social - condenada por Platão com o argumento de que "não ensinam
mais do que os mesmos princípios que o vulgo expressa em suas reuniões" - ,
como Trasímaco (ca. 460-400 a.C.), que sustentava que a justiça não é ou-
tra coisa que o interesse dós mais fortes codificado em leis: "o que é justo
é igual em todas partes: a conveniência do mais forte". Homens cuja obra
não pode reduzir-se ao uso da retórica, mas que "foram, sem pretendê-lo,
os filósofos da história de sua época".16
A historiografia grega dos dois séculos que vão de Xenofonte a Po-
líbio, pode-se dizer que nos é desconhecida, já que os textos se perderam e
somente restou "um campo de ruínas", constituído de fragmentos citados
por autores posteriores (os publicados por Jacoby pertencem a 856 histo-
riadores diferentes). Destes historiadores perdidos, conhecemos pouco
mais do que as opiniões que os autores do passado nos deixaram sobre a
qualidade de alguns deles, como os dois grandes discípulos do retórico
Isócrates, Éforo (ca. 405-330 a.C.), que escreveu uma obra de trinta livros
considerada por Políbio como a primeira visão universal da história, e
Teopompo de Quíos (nascido em ca. 380) que escreveu Hellenica, conti-
nuando o relato de Tucídides, e Philippica, onde narrava os episódios de
Felipe II da Macedónia (359-336), um livro permeado de digressões, insó-
litas porque critica duramente os costumes e a conduta do pai de Alexan-
15 Como a "Constituição de Atenas" do "velho oligarca", um texto antidemocrático er-
roneamente atribuído a Xenofonte, a "Constituição de Atenas" atribuída a Aristó-
teles (mas é obra possivelmente de um discípulo) e a "Constituição dos espartanos"
de Xenofonte.
16 As citações1 sobre os sofistas são de Platão, Republica, 493 a) e 339 a) e de UN-
TERSTEINER, Mario. I sofisti. Milano: Bruno Mondadori, 1996. p. 574.
dre Magno, considerado por muitos como o que deveria ser a mais inte-
ressante das obras perdidas do período. De estilQ diferente era o siciliano
Timeo (ca. 350 - 260 a.C.), o mais importante dos historiadores gregos dó
ocidente, que se caracterizaya pejo afã de erudição - Políbio desprezava-o
como rato de biblioteca, obcecado pelo detalhe e incapaz de olhar o mun-
do e ocupar-se dos grandes problemas - e que estabeleceu o cômputo cro-
nológico por olimpíadas. Para completar o quadro, devemos acrescentar o
conjunto dos cronistas de Alexandre (Calístenes, Anaxímenes, Aristóbulo,
Ptolomeu, etc.) e as obras da chamada "história trágica" que acentuava os
efeitos dramáticos da narração e recorria às fabulas e aos elementos fanta-
siosos para conquistar um público leitor mais extenso.17
O primeiro nome que aparece depois deste período é o de Políbio
(ca. 208 - ca. 118 a.C.), que escreveu sobre Roma e para os romanos, em-
bora o fizesse em língua grega. Nascido em Megalópolis, e membro de fa-
mília abastada, lutou como hiparca ou chefe de cavalaria com a Liga
Acaiana em 170, até que, depois da derrota de Perseu no Pydna, quando
caiu o poder macedónio, foi um dos mil reféns deportados para Roma. Es-
tabeleceu amizade com o jovem Cipião Emiliano, converteu-se em seu
conselheiro e o acompanhou na Espanha, Gália e África, de modo que se
encontrava junto a ele no momento da destruição de Cartago. Sua familia-
ridade com os dirigentes e com a política de Roma proporcionou-lhe uma
17 A respeito dos historiadores deste período - dos quais temos pouco mais que os
fragmentos publicados por F. Jacoby em Die Fragmente der griechischenHistori-
ker (Berlin 1923-1958) - Klaus Meister, La storiografia greca que dedica maior
parte de seu livro a "La historiografia griega em la edad helenística (ca. 330-30
a.C.)"; FLOWER, Michael Attyah. Theopompus of Chios. History and rethoric in
the fourth century B. C. Oxford: Clarendon University Press, 1997; Santo Mazza-
rino, II pensiero storico clássico, I, p. 331-472, Luce, Greek historians, p. 105-122;
Canfora, "Tra Cratippo e Teopompo", em La storiografia greca, p. 223-262 (e
"Phatos e storiografia "drammatica", id. p. 44-60). A respeito dos historiadores de
Alexandre, BOSWORTH, A. B. Conquest and empire. The reign of Alexander the
great. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. p. 295-300. Sobre a retóri-
ca, KENNEDY, G. A. Anew history of classical rethoric. Princeton: Princeton Uni-
versity Press, 1994. p. 81-102. CABANES, Pierre. Le monde hellenistique, de la
mort d'Alexandre à la paix d'Apamée. Paris: Seuil, 1995. p. 176-180.
experiência que completou viajando, com a finalidade de visitar campos
de batalha e entrevistar os sobreviventes dos fatos que queria relatar, ao
mesmo tempo que consultava documentos epigráficòs ou arquivos.
A obra fundamental de Políbio é sua História, de cujos quarenta li-
vros conservam-se os cinco primeiros completos, longos extratos do VI ao
XVIII e fragmentos dos outros. Seu propósito era escrever uma espécie de
história universal que explicasse "o como, quando e o porquê da sujeição
de todas as partes conhecidas do mundo ao domínio dos romanos". Isto o
levaria, em primeiro lugar, a considerar o problema da causalidade. Se es-
tabelecer as causas de acontecimentos concretos e delimitadbs, como uma
guerra determinada, era uma tarefa que estivera habitualmente ao alcance
dos historiadores - e ele próprio nos propõe um método para investigar as
causas das guerras - , a ambição de "esclarecer de maneira universal e sin-
tética a marcha dos acontecimentos", como queria fazer na sua. obra, o
obrigava a considerar globalmente o problema das formas de governo - ou
seja, das "constituições"-, em relação ao êxito de Roma. Isto o levaria a um
estudo destas formas que transportava à história os esquemas das análises
políticas de Platão e de Aristóteles, os quais identificaram três formas que
correspondiam à monarquia (governo de um), à aristocracia (governo de
alguns), e à democracia (governo de todos), com suas correspondentes de-
generescências de tirania, oligarquia e oclocracia. Políbio situaria estes ele-
mentos num esquema de evolução histórica cíclica 3 anaciclose*, que ex-
plicaria a passagem de umas a outras por causas sociais racionais, às quais
seria necessário acrescentar, ainda, um elemento do acaso que poderia al-
terar a regularidade evolutiva.
Políbio tem, para o leitor moderno, o interesse que lhe dá sua cons-
ciência da natureza da tarefa de historiador, definida num programa de
história "pragmática" que compreende três componentes, que são também
três etapas do trabalho: 1) estudo dos documentos, com a finalidade de es-
tabelecer os fatos com veracidade, 2) investigação sóbre o terreno ("autóp-
sia"), para estudar o cenário onde sucedeu aquilo que se relata (uma con-
dição essencial para explicar as batalhas) e 3) conhecimento direto da?
* Termo de origem grega: voltar em sentido inverso. (N.T.)
práticas políticas, sem o qual tornam-se pouco inteligíveis os aconteci-
mentos. A finalidade deste método é ir além da simples narração dos fatos,
em direção ao estabelecimento das causas, que é o que torna útil a histó-
ria, "porque quando consideramos as analogias com nossas circunstâncias
obtemos os meios e as bases para calcular o futuro e para aprender do pas-
sado o que necessitamos quando temos que atuar no presente com maior
precaução ou com mais audácia".18
Depois de Políbio, entramos já no tempo da dominação romana,
numa cultura onde se mescla o compromisso entre Roma e a nostalgia
desligada do presente e destinada a expressar," em uma linguagem de estu-
dada e arcaica pureza, os grandes acontecimentos de um passado gloriô-
18 Estes parágrafos foram redigidos a partir de uma leitura detida de Políbio, desen-
volvida mais amplamente em "Lectura de Polibio por y para un profano", em Ho-
menaje a Marcelo Vigil Pascual, Salamanca, Universidad, 1989, p. 291-301. As ci-
tações textuais são de III, 1,2; 1,4,2; XII, 25e, I; e I; e XII, 25b, 2-3. Utilizei prin-
cipalmente WALBANK, F. W. A Historical Commentary on Polybius. New York:
Oxford University Press, 1999. 3 v. (especialmente a introdução, I, p. 1-37) e PE-
DECH, Paul. La méthode historique de Polybe. Paris: Les Belles Lettres, 1964.
Complementarmente, MUSTI, Domênico. Polibio e l'imperialismo romano. Na-
poli: Ligouri, 1978; CASAUBON, Isaac. Polibio. Palermo: Sellerio, 1991; MOMI-
GLIANO, Arnaldo. The Historian's skin e Polybius Reappearance in Western Eu-
rope. In: . Essays in Ancient and Modern Historiography. Oxford: Basil
Blackwell, 1977. p. 67-77 e'79-98, e Polybius and Posidonius, em WISDOM, Alien.
The Limits ofHellenization. Cambridge: Cambridge UniversityPress, 1975. p. 22-
49; DEROW, Peter. Historical explanation: Polybius and his predecessors. In:
Greek historiography. Edited by Simon Hornblower. Oxford: Claredon Press;
New York: Oxford UP, 1994. p. 73-90; GENTILI, Bruno; CERRI, Giovanni. La teo-
ria del discorso storico nel pensiero greco e la storiografia romana arcaica. Roma:
Edizioni dell'Ateneo, 1975. p. 44. Sobre a exatidão das informações, LANCEL,
Serge. Aníbal. Barcelona: Crítica, 1997. p. 38-40. Sobre a anaciclose, TROMPF, G.
W. The idéia of historical recurrence in western thought. Berkeley: University of
California Press, 1979. p. 4-115, matizando-o com Walbank, I, 16-26 (sobre o
conceito de "tyche"*) e com Pedech, p. 308-317. Ignorado na idade média, Polí-
bio foi redescoberto na Florença do Renascimento e exerceu uma grande influên-
cia em Leonardo Bruni e em Maquiavel.
Tyche, do grego Tuklé, divindade do destino, da sorte, da fortuna, popular no sécu-
lo V a.C na Grécia. (N.T.)
so, que era tudo o que os romanos tinham deixado aos gregos como pró-
prio. É a cultura de Diodoro de Sicília, que viveu no século I a.C., autor
de uma Biblioteca histórica que relatava os acontecimentos "universais" -
começava com üm primeiro livro dedicado ao Egito e um segundo, à Ásia
- dos tempos mitológicos ao ano 60 a.C., e que nos interessa, principal-
mente pelos textos perdidos que cita. O de Dionísio de Halicarnaso, tam-
bém do século I a.C., autor de uma História antiga de Roma da qual so-
brevivem os onze primeiros livros e alguns fragmentos dos nove restan-
tes, que tinha como um dos objetivos fundamentais o de propor uma ori-
gem grega para Roma (ao mesmo tempo que afirmava que a grandeza
desta era única, acima de todos os impérios conhecidos, o que a colocava
fora do alcance das regras da anaciclose, que a condenariam a uma futu-
ra decadência). Dionísio apresenta seu livro como uma mistura dos diver-
sos gêneros de história existentes "a fim de satisfazer tanto aos que se de-
dicam aos debates políticos, quanto aos que se interessam pela especula-
ção filosófica e, inclusive, a todos aqueles que procuram um passatempo
tranqüilo em suas leituras de história".19
Em tempos posteriores encontramos um conjunto de autores que
escreveram em grego, mas que pertencem plenamente ao mundo romano
(tanto Arriano como Plutarco, por exemplo, tiveram cargos políticos no
império). Alguns deles nos interessam porque se ocupam de temas pou-
cos conhecidos, como Arriano (ca. 86-160), autor de uma Anábasis de
Alexandre, que tem um interesse especial pelo livro final sobre a índia,
onde utiliza fontes perdidas, especialmente o relato da viagem de circuna-
19 Sobre Diodoro, TUERO, Jesús Lens (Ed.). Estúdios sobre Diodoro de Sicilia. Gra-
nada: Universidad de Granada, 1994; SACHS, Kenneth S. Diodorus and his
sources; conformity and creativity. In: Greek historiography. Edited by Simon
Hornblower. Oxford: Clarendon Press; NewYork: Oxford UP, 1994. p. 213-232;
Meister, La storiografia greca, p. 205-218; a introdução de Jesús Lens na edição
em curso da Biblioteca histórica. Madrid: Ediciones clásiças, 1995 e Canfora, "II
fine delia storiografia secondo Diodoro", na La storiografia greca, p. 263-276; so-
bre Dionisio, a tradução de Historia antigua de Roma. Madrid: Grçdos, 1984-
1988.2 v., (citá de 1,3 e 1,8,3), com uma introdução de Domingo Plácido, e, so-
bretudo, GABBA, Emilio .Dionysius and the History of archaic Rome. Berkeley:
University of California Press, 1991.
vegação de Nearco do sul da Índia ao Tigre, ou como o judeu Flávio Jo-
sefo (37 - ca. 95), sacerdote e colaborador dos romanos, autor da Guerra
dos Judeus, escrita primeiro em aramaico, e depois traduzida para o gre-
go pelo mesmo autor, e de uma ambiciosa síntese, Antiguidades judias (ou
Arqueologia judia), na qual se explica a história do povo judeu desde a
criação (obedecendo, na primeira parte, ao relato da Bíblia) ao início da
revolta do ano 66. Uma obra um tanto paradoxal, já que a escreve, em ho-
menagem ao povo judeu, um homém considerado traidor pela conduta
covarde que havia mostrado por ocasião da guerra contra os romanos.20
Uma obra de grande influência posterior sobre a cultura européia
foi a de Plutarco (ca. 46-120) que, além de uma série die tratados sobre as
mais diversas questões, compilados nos volumes chamados habitualmen-
te Moralia, nós deixou uma ambiciosa série de vidas comparadas de esta-
distas e militares gregos e romanos, Vidas paralelas, das quais se conser-
vam 50 biografias (23 "duplas" - por exemplo, das vidas de Alexandre e
César ou Demóstenes e Cícero - e quatro avulsas). A obra de Plutarco, que
retrata os personagens à margem do contexto, parece-nos hoje de escasso
interesse histórico, exceto como fonte de informações pontuais proceden-
tes de inúmeras leituras (menciona uns 250 escritores gregos, 80 dos quais
só conhecemos pelas suas citações) ou colhidas pessoalmente, porém re-
20 Sobre Arriano utilizei os estudos introdutórios às edições da Anábasis de Anto-
nio Bravo Garcia (Madrid: Gredos, 1982. 2 v.) e de P. A. Brunt, London: Loeb,
1976.2 v. e seus apêndices. Sobre JOSEFO, Flávio; THACKERAY, Henry St. John.
Flavius Josèphe. L'homme et l'historien. Paris: Cerf, 2000 (atualizado por Etienne
Nolet, que tem um interesse especial pelo seu apêndice sobre a versão em anti-
go eslavo da Guerra dos Judeus), HADAS-LEBEL, Mireille. Flavius Josephus. Lon-
don: Maemillan, 1993. AKENSON, Donald H. Saint Saul. New York: Oxford
University Press, 2000. p. 79 e 267-269. Uns dos motivos de interesse por Flávio
Josefo foi o fato de que menciona os cristãos na Guerra dos Judeus (o que origi-
nou longas discussões em torno do texto, diferente, que conserva a versão em
antigo eslavo) e que inclusive fala da morte e ressurreição de Jesus (Antigiieda-
des judias, XVIII, 63-64) mas hoje admite-se que neste fragmento há alguma in-
terpolação cristã posterior. É interessante o relato que faz no livro XIX da mor-
te de Calígula, baseando-se em fontes hoje perdidas (JOSEPHUS, Flavius. Death
of an emperor. Tradução e comentários de T. P. Wiseman. Exeter, UK: University
, of Exeter Press, 1991).
produzidas com pouco sentido crítico. Plutarco foi um autor muito lido, o
que explica que tenhamos conservado tantas de suas obras. As traduções
feitas duíante o Renascimento o converteram numa das fontes essenciais
de conhecimento da antiguidade, amplamente utilizado por Montaigne,
Shakespeare o Rousseau.21
Ao lado destes, no entantó, coexistia uma série de historiadores re-
tóricos que se limitavam a realizar cópias dos velhos modelos, criticados
de maneira sangrenta por Luciano (120-180) em Da maneira de escrever a
história, onde zombava daqueles que reproduziam literalmente as expres-
sões de Tucídides, mesmo que fora de contexto, como o cirurgião que
acreditava estar apto para escrever história pelo fato de que "Esculápio era
filho de Apolo e Apolo era o chefe das musas" ou o especialista da "ecfra-
sis" que dedicava um livro inteiro a descrever as inscrições do escudo do
imperador nos mínimos detalhes do que estava nele representado. Sob a
ironia, nos adverte Canfora, há em Luciano a defesa da objetividade con-
tra a historiografia servil do tempo e uma clara atitude anti-romana.22
A história em língua grega não desapareceria então e mesmo, res-
surgiria nos séculos III e IV sob a influência do que se denominou "a se-
gunda sofística", com autores como Herodiano (s. III), "o historiador da
crise", ou Eunápio de Sardes (ca. 345-420), que desprezava a cronologia
dizendo: Que contribuição podem dar as datas à sabedoria de Sócrates oü
à sagacidade de Temístocles?. Eram estes homens extraordinários somen-
te no verão?" Mais importante é Dión Cássio (ca. 160 - p. 229), que teve
uma carreira política "respeitável porém, não reconhecida" até os últimos
anos de vida, quando alcançou cargos importantes, talvez por influência
21 Depois de ter sido menosprezado como um autor menor no século XIX, o interes-
se por Plutarco renovou-se no século XX. Uma reivindicação de seu valor como
historiador em MOSSMAN, Judith (Ed.). Plutarch and his intellectual world. Lon-
7 don: Duckworth, 1997.
22 Luciano, De la manera de escribir la historia, citações: 15-19. Lembre-se ainda súa
Historia verdadera, uma sátira de determinadas formas de narração romanceada
que influenciaram também esta literatura histórica degradada^ LUCIANO, Canfo-
ra. Come si scrive la storia. In: . La storiografia greca. Milano: Bruno
Mondadori, 1999. p. 290-326.
do senado. Sua História Romana em oitenta livros, que ia da chegada de
Enéias à Itália ao ano 229 (embora descreva superficialmente os aconte-
cimentos dos anos 222-229 "pelo fato de ter permanecido pouco tempo
em Roma") a escreveu antes de sua ascensão, enquanto residia em Roma
e podia contemplar com segurança as oscilações da política do império.
Ele mesmo explica que passou dez anos coletando material e lendo tudo
o que se havia escrito. Infelizmente Dión cai nos vícios da retórica, que o
levam a deixar de lado os detalhes concretos para oferecer-nos descrições
tópicas. Da obra nos chegou intacta aproximadamente uma terça parte -
os livros 36 a 60, que se referem ao período que vai do ano 69 a.C. a 46 de
nossa Era - , com um conjunto de fragmentos dos primeiros 35 livros e re-
sumos dos últimos vinte.23
A historiografia em língua latina nasceu aproximadamente no sé-
culo II a.C. Mesmo que os sacerdotes se encarregassem de manter um re-
gistro dos acontecimentos do ano nas denominadas "crônicas pontifícias",
reunidas posteriormente nos annales maximi, que davam uma seqüência
de referências cronológicas, de nomeações de cônsules e de outros funcio-
nários, de celebrações e acontecimentos notáveis, a história escrita come-
çou de maneira diferente, com à intenção de não se assemelhar à analíti-
ca sacerdotal, como podemos observar em escassos fragmentos que se
conservaram de Fábio Pictor (o primeiro que teria escrito um relato em
prosa da história de Roma, mas que o fez em língua grega) Ou das Ori-
gens, de Catão, o Velho (234-149 a.C.), que seria o primeiro a escrever his-
23 Sobre a história da "segunda sofística", ANDERSON, Graham. The second so-
phistic. London: Routledge, 1993. p. 105-114 (citação de Eunápio na p. 109). So-
bre Herodiano, CANFORA, Luciano. Érodiano storico delia crisi. In:. . La
storiografia greca. Milano: Bruno Mondadori, 1999. p. 327-341. Para Dión Cássio
utilizei a edição de CARY, E. Dio's Roman history. Cambridge, MA: Harvard Uni-
versity Press (Loeb Classical Library), 1970-1989. 9 v., o excelente estudo introdu-
tório de M. L. Freybürger e J. M. Roddaz de sua tradução de Historie romaine. Li-
vres 50 et 51. Paris: Les Belles Lettres (G. Budé), 1991 e, sobretudo, Fergus Millar,
que ánalisa minuciosamente a obra, e nos diz que Dión não era um Políbio. Escre-
via sem um enfoque histórico preciso, com a única pretensão de narrar, e nãofoi
capaz de ver os "processos históricos fundamentais de seu tempo", o que o leva a
concluir que "o resultado é decepcionante" (p. 171).
tória em latim. Mas, ainda que da maior parte das obras dos primeiros sé-
culos da historiografia latina se conserve pouco mais que o nome e a lem-
brança, sabemos que careciam do fôlego e da profundidade dos velhos
modelos gregos e não satisfaziam às necessidades da sociedade romana.
Em Do orador, Cícero (106-43 a.C.) queixa-se da pouca densidade desta
historiografia e estabelece um balanço das deficiências e um programa de
renovação: "a natureza das coisas exige a ordem dos tempos, a descrição
das regiões; e ainda quer que (. . .) nos fatos acontecidos declare-se não
tão somente o que foi dito e feito, e sim de que forma, e ao mencionar os
resultados, que se expliquem todas as causas, e se eles são o produto do
acaso, do talento, ou da temeridade; e, nó que se refere aos personagens
não apenas as ações, mas também a vida e o modo de ser de todos os que
se destaquem pela fama e bõm nome".24
Pouco depois de escritas estas palavras, e num período de cento e
cinqüenta anos, desenvolveram sua obra os maiores nomes da historio-
grafia romana: Salústio, Tito Lívio e Tácito. Três nomes aos quais se po-
deriam acrescentar, por razões literárias, o de Júlio César, mesmo que
sua obra seja de um intçresse histórico muito menor, e o de Curcio, au-
tor da História de Alexandre Magno. Os Comentários de Júlio César
(100-44 a.C.) sobre a "guerra das Gálias" e sobre a "guerra civil" contra
Pompeu, são textos literariamente valiosos que interessam ao historia-
dor como fonte de informação sobre a maneira de empreender uma
campanha militar - deixando de lado as distorções e mentiras que sabe-
24 Uma excelente síntese da historiografia romana é a de MELLOR, Ronald. The Ro-
man historians. London: Routledge, 1999; sobre as origens, p. 6-29. Ainda, WISE-
MAN; T. P. The origins of Roman historiography. In: . Historiography and
imagination. Eight essays on Roman culture. Exeter: Exeter University Press, 1994.
p. 1-22; Cicero Del Orador, II, 15,63 (Embora, segundo Wiseman, Cícero não fa-
zia justiça aos primeiros historiadores romanos). FRIER, Bruce W. Libri annates
Pontificum Maximorum: The origins of the annalistic tradition. Ann Arbor: The
University of Michigan Press, 1999/2, diminui consideravelmente a importância
das fontes analíticas e afirma que o que se conheceria como "Annates Maximi" é
o resultado de uma edição feita nos tempos de Augusto.
mos estar neles contidas, e o fato de que dissimulam a brutalidade das
campanhas - , porém não são importantes do ponto de vista do desen-
volvimento da historiografia da época.25
O contrário sucede com Salústio (86 - ca. 35 a.C.), de quem se
pode dizer que é o autêntico fundador da nova história romana: de um
gênero escrito, como o faziam os grandes historiadores gregos, para de-
fender pontos de vista políticos e sociais, no caso os do enfrentamento à
supremacia política da aristocracia senatorial, para favorecer a passagem
da república ao império. Salústio era partidário e aliado de César, que in-
clusive o nomeou governador de uma província da África do Norte, mas
retirou-se da política aos quarenta e um anos, acusado de corrupção e
com uma grande fortuna. Sua primeira obra, e a mais famosa, tratava de
um assunto contemporâneo, a saber, A conjuração de Catilina. Nela, Sa-
lústio afirmava que a corrupção da república - com políticos que "luta-
vam todos pelo poder enquanto aparentavam buscar o bem público" - era
a causa da crise social, dando a entender que Catilina havia encontrado
cúmplices "numa cidade tão grande e corrupta". A explicação não deveria
ser tão simples, pois teve que reconhecer mais adiantó que "a plebe apoia-
va totalmente" os conspiradores e que, apesar das incitações do senado,
não houve ninguém que "revelasse algo sobre a conspiração nem que de-
sertasse do campo de Catilina: tal era a virulência do mal que, como uma
infecção, contagiara o ânimo de muitos cidadãos". O que Salústio preten-
dia com a obra era denunciar o perigo que representava a crise social da
república, preparando o caminho para a solução pacificadora que ofere-
ceria aos romanos, em troca da liberdade, o império, graças ao qual, como
25 A bibliografia sobre César é imensa. Convém destacar a biografia de CANFORA,
' Luciano. Giulio Cesare, II dittatore democrático. Roma: Laterza, 1999, especialmen-
te pela análise de César escritor (p. 389-399) onde se estudam suas obras, aponta-
se a existência de um diário de Estado Maior que lhe serviu de fonte e explica-se
a' gênese do "A corpus cesariano". Sobre a enigmática pessoa de Quinto Curcio
Rufo, um historiador dp século primeiro que não se pôde identificar, e sobre sua
História, que é a única vida de Alexandre escrita em latim. BAYNHAM, Elizabeth.
Alexander the Great. The unique history of Quintus Curtius. Ann Arbor: University
of Michigam Press, 1998.
diria mais adiante Horácio, "não é preciso temer nem as comoções públi-
cas nem a morte violenta".
A segunda obra de Salústio, A guerra de Jugurta, referia-se a aconte-
cimentos anteriores, mas tinha também, como objetivo principal, atacar a
aristocracia senatorial que, corrompida neste caso pelo ouro de Jugurta -
que "estava firmemente convencido de que em Roma tudo se vendia" - ,
traiu os interesses do povo romano, sem outra oposição que a do tribuno
da plebe, lembrando com esta ação que, desde a morte dos Graco, a aris-
tocracia tinha mutilado os direitos dos cidadãos. Pouco sabemos, no en-
tanto, da grande obra que iniciou posteriormente e que não foi concluída:
umas Histórias que explicavam a evolução de Roma de 78 a 67 a.C., das
quais só conservamos uma série de fragmentos.26
Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C.) seria o primeiro dos historiadores do
Império. Nascido em Pádua, foi a Roma para escrever sua grande História
de Roma desde a fundação, ("Ab urbe condita"), que relatava os aconteci-
mentos romanos desde as origens míticas ao presente. Escreveu 142 livros
desta obra - Marcial dizia que não tinha lugar na sua biblioteca para guar-
dá-los todos - , dos quais se conservam trinta e cinco completos (do 1 ao
10 e do 21 ao 45, abrangendo desde o ano 753 ao 243 e do ano 210 ao 167
respectivamente), com fragmentos de outros e resumos da maioria dos
perdidos (coisa explicável pelo fato de que a grande extensão da obra deu
lúgar a que se fizessem muitos resumos para facilitar a leitura).
Os dez primeiros livros dedicam-se às origens da cidade e do esta-
do, partindo de materiais que ele mesmo reconhecia que tinham mais a ver
"com as fábulas poéticas do que com uma rigorosa documentação históri-
26 LA PENNA, Antoni. Sallustio e la rivoluzione romana. Milano: Feltrinelli, 1973/3 e
Aspetti delpensiero storico latino. Torino: Einaudi, 1978 (especialmente p. 43-104);
MELLOR, Ronald. Roman historiam. London: Routledge, 1999. p. 30-47; YAN-
GUAS, Narciso Santos. La concepáón de la historia en Salustio. Oviedo: Universi-
dad, 1997 (que contém a tradução das obras menores: os fragmèntos das Histórias,
as Cartas a César e as Invectivas), além da introdução de Lídia Storoni à edição bi-
língüe de La conjuración de Catalina. Milano: Rizzoli, 1980. Faço citações desta
obra que correspondem a XIV, XXVII e XXVIII, e de La Guerra de Yugurta, XXVI-
II. O discurso do tribuno da plebe em XXXI.
ca", mas racionalizando, na medida do possível, os mitos e explicando os
acontecimentos com economia de meios e com uma constante intenção
moralizadora e patriótica. A "terceira década", que compreende os livros
do 21 ao 30, relata a segunda guerra púnica; a quarta, inicia-se no livro 31
com os antecedentes da segunda guerra macedônica (em 201 a.C.), e, em
grande parte, é uma tradução adaptada de Políbio; o texto conservado ter-
mina no livro 45 com a vitória de Pydna e com os acontecimentos imedia-
tamente posteriores (ano 167 a.C.).
O que se conservou é, apesar das suas consideráveis dimensões-
ocupa 14 volumes na edição Loeb - , menos da quarta parte da obra ori-
ginal. A história de Lívio, uma exaltação à gloria de Roma, seria protegi-
da por Augusto, pois integrava-se perfeitamente em seu programa políti-
co e cultural, que implicava a elaboração de uma interpretação histórica
que explicasse a realidade política e social vigente como resultado natural
da evolução de séculos. O texto de Lívio coincidia com a política de cria-
ção de uma consciência histórica que utilizava uma grande variedade de
meios, da restauração de monumentos ao apoio dado à elaboração de um
mito nacional com a Eneida de Virgílio. Lívio podia não ser um partidá-
rio de Augusto - foi acusado de mostrar-se favorável a Pompeu, o que tal-
vez explique não ter publicado os últimos 22 livros de sua história até de-
pois da morte do imperador - porém suas atitudes religiosas e patrióticas
sintonizavam perfeitamente com "o clima reinante nos primeiros anos do
principado de Augusto".
A grande extensão da parte conservada da obra de Lívio e seu atra-
tivo literário, especialmente pelo que se refere à primeira década, em que
se narram as origens de Roma - que serviria a Maquiavel como pretexto
para estudar os fundamentos da construção de um estadq podem ex-
plicar què se tenha convertido em obra básica da reflexão humanística e
se tenha podido afirmar que Lívio é "o historiador mais conhecido de to-
dos os tempos", o que não impede que seu crédito ná atualidade seja bem
inferior se comparado com Políbio ou Tácito. Lívio era um homem que
não apresentava as condições que Políbio exigia para üm historiador:
com uma educação provinciana, escasso conhecimento do mundo e ne-
nhum da política ou da dimensão militar, escreveu baseando-se em fon-
tes livrescas que nem sempre compreendeu, de maneira que cometeu fre-
qüentes erros. Mesmo assim, a qualidade literária na descrição dos acon-
tecimentos dramáticos e heróicos - como, por exemplo, a passagem de
Aníbal através dos Alpes, com uma narrativa tão emocionante quanto
imprecisa em detalhes geográficos - e a coerência com que expressa a
ideolbgia do império o tornam uma referência iniludível. Sem esquecer
que, apesar das deficiências, continua sendo, segundo afirma üma obra
recente," de longe, a mais importante das fontes que se conservam sobre
as origens de Roma".27
Mais valorizado do que Tito Lívio na atualidade e considerado
como "o maior historiador de Roma", é Tácito (ca. 55 - ca. 117), de cuja
vida sabemos pouco, embora conste que pertencia a uma família aristo-
crática, e que ocupou cargos importantes na administração, até chegar a
procônsul da Ásia, mas que teve que viver nos tempos de opressão de
Domiciano, experiência que deve ter causado o ódio que manifesta fre-
qüentemente pela tirania (Mellor sugere que se teria dedicado à história
como uma maneira de "fugir dos terríveis anos finais de Domiciano). Na
sua obra, destacam-se uma biografia do sogro, Agrícola, uni livro insóli-
to no mundo romano como é a Germânia, a única monografia etnográ-
fica latina conhecida, mas, sobretudo, as duas grandes obras históricas. A
27 Uma citação de Ab urbe condita, prefácio, 6 (o episódio da passagem de Aníbal
pelós Alpes em XXI, 31-38). Sobre a política historicista como propaganda,
EVANS, Jane De Rose. The art of persuasion. Political propaganda from Aeneas to
Brutus. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1992; LA PENNA, Antonio. Po-
tere politico ed egemonia culturale in Ròma antica daU'età delle guerre puniche
all'età degli Antonini. In: . Aspetti del piensiero storico latino. Torino:
Einaudi, 1978. p. 5-41, e sobre literatura e política, SYME, Ronald. History in
Ovid. Oxford: Clarendon Press, 1997. Sobre Lívio concretamente, DOREY, T. A.
(Ed.). Livy. London: Routledge and Kagan Paul, 1971; WALSH, P. G. Livy. His his-
torical aims and methods. London: Bristol Classical Press, 1996, e os estudos pre-
liminares de Ronald Syme e de Cláudio Moreschini ao primeiro volume da edi-
ção bilíngüe da prinleira década, Storia di Roma. Milano: Rizzoli, 1982. MEL-
LOR, Ronald. Roman historians. London: Routledge, 1999. p. 48-75, explica que a
arqueologia e a epigrafia têm reivindicado a veracidade de Lívio. A citação final é
de CORNELL, T. J. The beginnings of Rome. London: Routledge, 1995. p. 2.
primeira são as Histórias, em doze ou quatorze livros, dos quais, sobre-
vivem tão somente os quatro primeiros e parte do quinto. Nela, dedica-
se à história recente, do ano 69 ao 96, conservando-se apenas a parte que
se refere aos anos 69 e 70, preservada num só manuscrito medieval. Mais
ambiciosa era sua segunda obra histórica, os Annales, que deveriam nos
falar "objetivamente" ("sine ira et studio") da etapa imediatamente ante-
rior, da morte de Augusto à de Nero, entre os anos 14 e 68 (ou seja dos
reinados de Tibério, Calígula, Cláudio e Nero). Foram, possivelmente, 18
livros - embora não se tenha certeza de que escreveu todos divididos
em três grupos de seis, dos quais conservaram-se tão somente dois blo-
cos de texto, um que compreende os seis primeiros livros (embora falte
quase todo o livro quinto e parte do sexto), e outro que vai do décimo
primeiro ao décimo sexto.28
Tácito não se limita a narrar acontecimentos como Tito Lívio.
Quer fazer uma obra de reflexão, ao estilo de Salústio, destinada à leitura
e não à recitação. Escreve com upa léxico conciso, por vezes arcaico, e em
um estilo conceitualista que o torna elegante, mas difícil (para alguns, pe-
sado). Toda ã obra está impregnada da nostalgia dos velhos tempos da re-
pública e "dos costumes íntegros do passado", apesar de estar consciente
de que não se pode voltar atrás. Escreve história, diz-nos, em tempos em
que isto não se faz com eloqüência ou liberdade, como durante a repúbli-
ca, mas com ódio e servilismo. O que se deve explicar, além do mais, não
são fatos heróicos, mas sim acontecimentos aparentemente insignifican-
tes, "dos quais surgem, continuamente, mudanças de grande importân-
cia", conjugando "ordens terríveis, acusações contínuas, amizades engano-
sas e mortes de inocentes".
28 A valorização citada inicialmente é a que faz no artigo correspondente do Diction-
naire des auteurs grecs et latins de l'antiquité et du moyen âge. [Turnhout, Belgium] :
Brepols, 1991. Sobre Tácito e sua obra veja-se principalmente SYME, Ronald. Taci-
tus. Oxford: Oxford University Press, 1997 (ed. original 1958). 2 v. Complementar-
mente, MELLOR, Ronald. Tacitus. London: Routledge, 1993; MARTIN, Ronald.
Tacitus. London: Batsford, 1981; MICHEL, Alain. Tácito e il destino dell'imperio. To-
rino: Einaudi, 1973. A citação de MELLOR, Ronald. The Roman historians. London:
Routledge, 1999. p. 78.
Realiza um retrato pouco favorável da sociedade romana, com um
profundo desprezo pela plebe, - "acostumada ao circo e ao teatro" - , que
aclamava o imperador "não por temor nem por amor, mas, sim, por puro
servilismo" ou que contemplava os combates nas ruas de Roma como se
fossem um espetáculo de gladiadores, ao mesmo tempo que se aproveita-
va dos despojos. Porém, não julga melhor a nobreza servil e corrupta que
"não se resolvia a fazer a guerra". Sentia falta dos tempos em que a Itália
não tão somente abastecia a si mesma, como também enviava alimentos às
províncias, ao contrário do que acontecia no seu tempo em que "produzi-
mos, sobretudo na África e no Egito, e a vida do povo romano depende
principalmente dos barcos e do acaso".
Os dois grandes personagens que dominam o relato são Tibério, de
quem realiza um retrato negativo porém matizado, mostrando suas con-
tradições e progressiva degradação, e Nero, cuja corrupção descreve-nos
num marco em que se produz o incêndio de Roma e em um tempo que
"manchado por tantos crimes, também os deuses o marcaram com catás-
trofes naturais e doenças".29
Um reflexo em menor escala de Tácito temos em Suetônio (ca. 70 -
ca.150). Sua obra situa-se formalmente dentro do gênero das biografias
que Cornélio Nepote (Ca. 99 - ca. 24 a.C.) tinhaintroduzido com as super-
ficiais Vidas de homens ilustres, uma coleção de vinte e cinco biografias
anedóticas de grandes personagens, redigidas com notas extraídas apressa-
damente de fontes de segunda mão. As Vidas dos doze césares de Suetônio
constituem, no entanto, um livro muito diferente, mais próximo ao tipo
de biografia grega que tinha como objetivo fundamental fazer um juízo de
valor moral das pessoas.
Suetônio era um advogado medíocre que obteve a designação de bi-
bliotecário" é, mais tarde, responsável geral da chancelaria do imperador
Adriano, o que lhe facilitou o acesso aos arquivos imperiais e lhe propor-
29 Estes parágrafos estão montados sobre um teçido de citações de Tácito que com-
preendem, por ordem: Anales, 1,4; III, 26-27; Historias, 1,1; Anales, TV, 32-33; His-
torias, 1,4; I, 32; I, 90; Anales, I, 77; Historias, III, 83; Anales, III, 65; Historiou l, 88;
Anales, XII, 43; II, 87; VI, 51; XV, 37-43 e XVI, 13.
cionou documentação muito valiosa, utilizada nas primeiras e mais exten-
sas de suas biografias, as de Augusto e Tibério. Interveio, posteriormente,
nas intrigas da corte e isto lhe custou o cargo, momento em que começou
a escrever. As biografias dos imperadores, de Júlio César a Domiciano7pre-
tendem proporcionar "retratos morais" e costumam combinar, sem muito
acerto, a atividade oficial do imperador com a escandalosa descrição de
sua vida privada, ilustrada com anedotas e abundância de "frases célebres".
Embora não se possa afirmar que a obra de Suetônio seja história, tornou-
se importante pelo fato de estabelecer cânones do gênero biográfico que
seriam aplicados, primeiramente, à enigmática História augusta - uma co-
leção de biografiá de imperadores, de data, autor e valor discutíveis - e,
mais tarde, à vida dos santos cristãos.30
Continuando a tradição historiográfica clássica, Amiano Marceli-
no (ca. 330 - ca. 395), "o último dos grandes historiadores do império
romano", escreveu Histórias que continuavam as de Tácito a partir do
ponto em que este as tinha abandonado (por esta razão escreve em latim,
embora fosse de língua grega). Parece que tinha sido educado como cris-
tão, tendo retornado ao paganismo na época de Juliano. Sua obra cons-
tava de 31 livros dos quais nos chegaram os que vão do XIV ao XXXI,
que vão do ano 353 ao 378 e descrevem o período de comoções que se
produziu depois da morte de Constantino, o Grande, o reinado de Julia-
no, as guerras contra os povos germânicos e contra os persas (nas quais
participou pessoalmente), as lutas internas do império e a invasão dos
visigodos. Tem-se elogiado a exatidão das informações, "a amplitude de
seu interesse e o conhecimento pessoal do que escreve", bem como criti-
cado o estilo literário, correspondente aos gostos da época. Amiano esta-
30 WALLACE-HADRILL, Andrew. Suetonius. London: Duckworth, 1995/2. BO-
WERSOCK, G. W. Fiction as history. Nero to Julian. Berkeley: University for Cali-
fornia Press, 1994. p. 156-160, mostra as influências da novelística na história
destes tempos (pòr exemplo, a de Heliodoro na História augusta). Consultar tam-
bém a introdução da tradução da História augusta de Vicente Picón e Antonio
Cascón, Madrid, Akal, 1989, uma obra à que se tem dedicado uma ampla biblio-
grafia, mais devido aos problemas de erudição que formula do que pelo valor his-
tórico ou literário. _
va consciente da decadência do império, mas guardava esperanças em
sua sobrevivência: "os que ignoram a história antiga dizem que jamais a
república estivera rodeada de tanta treva de males, mas enganam-se, es-
tupefatos pelo horror dos males recentes. Se olharmos para épocas mais
antigas ou inclusive mais próximas, veremos que também se produziram
acontecimentos tão tristes como estes".31 Se recordamos que o Império
do Oriente haveria de durar mais de mil anos, temos que reconhecer que
tinha ao menos uma parte de razão.
31 Amiano Marcelino, Historiai, XXXI, 5,11. BLOCKLEY, R. C. Ammianus Marcelli-
nus. A study of his historiography and political thought. Brussels: Latomos, 1975;
MATTHEWS, John. The Roman empire of Ammianus. London: Duckworth, 1989;
o estudo preliminar de Antônio Selem à edição bilíngüe de Historias. Torino:
UTET, 1994. 2 v. Contrariamente à valorização que se faz de seu trabalho, que é
fonte básica do conhecimento do século IV, Thimoty D. Barnes (Ammianus Mar-
cellinus and the representation of historical reality. Ithacá: Cornell Univérsity Press,
1998) o considera tendencioso e novelesco, indigno de confiança. Uma avaliação
que contradiz claramente a de Mellor em The Roman historians, p. 110-131.
Capítulo 2
A RUPTURA DA TRADIÇÃO CLÁSSICA
O sentido de continuidade teleológica, que os estudos de história do
pensamento e da ciência costumam ter, implica a idéia de uma evolução
em ascensão progressiva do passado ao presente. Também no caso da his-
toriografia, teríamos que supor a existência de um vínculo que articula o
mundo clássico a uma idade média inventada, a fim de encaixar, no esque-
ma evolutivo - visto, como de costume, numa perspectiva estritamente eu-
ropéia - , os mil anos que vão do fim do mundo antigo ao "Renascimento".
Esta hipótese, no entanto, dificilmente se sustenta: entre a historiografia ê
a cultura em geral da antiga idade clássica e a do cristianismo medieval, há
uma ruptura da qual se salva, apenas, a língua - latim no ocidente, grego
no oriente - , cada vez mais distante dos velhos modelos da época clássica.1
A corrente mais rica e inovadora da historiografia medieval - me-
dieval só nâ nossa apropriação "ocidental e cristã" do tempo histórico -
não nasceu da herança clássica, mas desenvolveu-se nos países muçulma-
nos, sem qualquer influência inicial e muito pouca, posteriormente, dos
modelos greco-romanos. A historiografia dos povos islâmicos não tinha
mais antecedentes autóctones do que a poesia, as genealogias e os relatos
de batalhas, conservados, por escrito ou oralmente, pelas tribos árabes. O
1 HEËRS, Jacques. La invención de la edad media. Barcelona: Crítica, 1995; AMALVI,
Christian. Le goût du Moyen Âge. Paris: Pion, 1996 (sobre os diversos usos e mode-
los de idade média).
Corão, por outro lado, transmitia a imagem de um passado de confronto
entre reis e profetas, visto como uma espécie de tempo eterno.
A busca histórica propriamente dita começaria como conseqüên-
cia/da necessidade de reunir as palavras e os feitos de Maomé e de seus
primeiros discípulos para alimentar ás coleções de hadiths - as palavras
e opiniões de Maomé que começaram a ser compiladas por escrito
desde cedo, estando já codificadas no segundo século da era islâmica.
Esta tarefa começou como uma simples compilação mas, muito rapida-
mente sentiu-se a necessidade de estabelecer a Veracidade dos hadiths,
classificados em função da maior ou menor confiabilidade que mereces-
sem, o que obrigava a um exercício crítico para avaliar o isnad de cada
um, pu seja a credibilidade da corrente de autoridades que o tinha
transmitido.2
O primeiro dos grandes historiadores muçulmanos, al-Tabari (Abu
Jafar Muhammad ibn Jarir al-Tabari, ca. 839-923), era precisamente um
especialista no estudo dos hadiths, que, junto ao Comentário sobre o Co-
rão, escreveu uma História de profetas e de reis, óu seja, uma história uni-
versal da criação do mundo ao ano 915 de nossa era (período avaliado em
14.000 anos), ordenada cronologicamente e realizada com a ambição de
2 A fonte essencial destes parágrafos foi KHALIDI, Tarif. Arabic historical thought
in the classical period. Cambridge: Cambridge University Press, 1994 (citações li-
terais da p. 136). Complementarmente DURI, A. A. The rise of historical writing
among the Arabs. Princeton: Princeton University Press, 1983, que se refere sobre-
tudo às origens; NICHOLSON, R. A. A literary history of the drabs. Richmond:
Curzon Press, 1995 (ed. original, 1930); CHEDDADI, Abdesselam. Ibn Jaldun,
anthropologue ou historien. In: JALDUN, Ibn. Peuples et nations du monde. Ar-
ies:Sindbad/Actes Sud, 1995.1, p. 15-56; ATIYEH, George N. The book in the is-
lamic world. The written Word and communication in the Middle East. New York:
State^University of New York Press/The library of congress, 1995 (sobretudo, Wa-
dad al-Qadi, "Biographical dictionaries: inner structure and cultural significan-
ce", p. 93-122); MADELUNG, Wilfred. The succession to Muhammad. A study of
the early Caliphate. Cambridge: Cambridge University Press, 1997 e Nawawy, les
jardins de lapiété. Lyon: Alif, 1991, no que se refere aos hadiths. Entre as obras
gregas traduzidas pelos árabes, não há nenhuma de história (GUTAS, Dknitir.
Greek thought, arabic culture. The graeco-arabic translation movement in Baghdad
and early abbasid society. London: Roudedge, 1998. p. Í93-196).
reunir escrupulosamente os testemunhos, sem introduzir interpretações
próprias, nem inferências. Tabari reproduzia o que as fontes escritas mu-
çulmanas diziam, enriquecendo-as com um rico tesouro de tradições
transmitidas oralmente. O texto contém a amenidade dos narradores que
explicam os contos em público, não vacilando em ilustrar os acontecimen-
tos memoráveis com "histórias agradáveis é instrutivas", das quais lições de
religião e moral podem ser deduzidas. No texto, podemos perceber o cará-
ter complexo do Islã: quando nos explica "a aventura de Salomão e dos ca-
valos", por exemplo, observa que os cavalos e as armas são os preferidos
dos profetas, "porque com eles poderão vencer os inimigos de Deus"; mas
quando escreve a história de Hormudz, rei da Pérsia, aproveita para desta-
car sua resposta de tolerância para com os judeus e os cristãos: "Não há
maneira dé evitar a diversidade num país e convém que, num grande im-
pério, haja homens de diferentes condições".3
O segundo dos grandes nomes da historiografia muçulmana, al-
Masudi (Abu al-Hasan Ali ibn al-Husayn al-Masudi, ca. 896 - ca. 956), era
um xiita nascido em Bagdad que recebeu uma boa educação, viajou mui-
to e foi comparado a Heródoto pela amplitude dos interesses científicos e
pelo fato de combinar geografia, etnologia e história. Escreveu, entre ou-
tras obras, Aríales históricos, que se perderam, mas o livro a que deve sua
fama é Los prados de oro, um compêndio onde a história do mundo, desde
a criação, é relacionada e enriquecida com descrições da geografia, da vida
e dos costumes dos.diversos povos que havia conhecido nas suas viagens -
o homem que permanece em sua terra natal, diz-nos, confiando nas infor-
mações que lhe dão, não pode ter a mesma autoridade daquele que viajou
e viu as coisas com os próprios olhos. Reproduz, freqüentemente, o que os
escritores locais haviam-lhe dito (dá-nos, por exemplo, uma relação dos
reis francos, tirada de uma lista redigida em latim por um bispo na Anda-
3 Há duas traduções recentes da História de al-Tabari, a francesa de Herman Zot-
tenberg, publicada em seis volumes em Paris por Sindbad, que é de fácil e. agradá-
vel leitura (as citações que faço procedem desta e correspondem ao segundo volu-
me, "De Salomón a la caída de los Sasánidas", p. 32 e 307) e a inglesa de Moshe
Perlmann, publicada por State University of New York Press, mais filológica, mas
menos legível.
luzia, cuja cópia foi encontrada no Egito) ou o que lhe fora explicado pes-
soalmente pelos comerciantes de diversas terras. O livro é como uma espé-
cie de enciclopédia que considera a história como fundamento de todas as
ciências pelo fato de recolher o pensamento dos homens de épocas ante-
riores. Afirmou-se que al-Masudi foi "o primeiro historiador muçulmano
árabe que aplicou os princípios do método científico e do raciocínio filo-
sófico ao estudo da história".4
Naquele tempo começava-se a produzir a assimilação do pensa-
mento grego, coín al-Farábi, que culminaria mais tarde com o cordobês
Ibn Rushd ou Averróis (1126-1198) - no qual encontramos uma teoria dá
evolução das cidades e dos sistemas políticos que lembra Políbio - e com
um dos maiores cientistas muçulmanos de todos os tempos, al-Biruni
(973-1048), nascido de pais de fala persa no atual Usbequistão que escre-
veu Cronologia das nações antigas, em que tratava de sistematizar e unifi-
car as cronologias das diversas tradições históricas.5
O ápice da historiografia muçulmana é alcançado com Ibn Jaldün
(Abd al-Rahman ibn Jaldun al-Hadrami, 1332-1406), nascido em Túnis,
de uma família de origem andaluza. Serviu nas diversas cortes do ociden-
te muçulmano, inclusive na de Granada - de onde foi enviado como em-
baixador ao rei Pedro I de Castela, que lhe ofereceu um lugar na corte e lhe
prometexl a recuperação dos bens dos antepassados - , desempenhou altos
cargos políticos, passando os últimos anos da vida como juiz no Egito,
anos em que peregrinou a Meca e a Jerusalém e viajou a Damasco, onde
conheceu Tamerlão. Foi precisamente no Egito oiide redigiu o Kitab al-
4 MASUDI, Abu al-Hasan Ali ibn al-Husayn ai. The meadows of gold. The Abbasids.
Translated and edited by Paul Lunde and Caroline Stone. London: Kegan Paul In-
ternational, 1989.
5 Neste texto, como em geral em todo o livro, refiro-me somente às grandes figuras
que deram contribuições fundamentais. Existem, naturalmente, muitos outros cro-
nistas e historiadores locais. Um exemplo desta historiografia temos em Ibn al-Ja-
tib (1313-1375), cronista dos soberanos nazaris* de Granada: Ibn al-Jatib. Historia
de los reyes de la Alhambra. Tradução de J. M. Gasciaro e estudo preliminar de Emí-
lio Molina. Granada: Universidad, 1998.
* Nazaris - Descendentes de Yusuf ben Názar, fundador de uma dinastia muçulma-
na que reinou em Granada entre os séculos XIII e XV. (N.T)
ibar ou Livro dos acontecimentos que servem de exemplo, do qual a Muqqa-
dima ou Discurso sobre a história universal era o primeiro volume introdu-
tório. A idéia inicial parece ter sido a de fazer a história do mundo islâmi-
co do norte da África, que conhecia diretamente, mas acabou fazendo-a
preceder de uma parte que tratava da história universal.
, Percebe-se a novidade e grandeza da reflexão da Muqqadima des-
de as primeiras linhas do prefácio: "A história tem como objeto o estudo
da sociedade humana, ou seja, da civilização universal. Versa sobre tudo
o que se refere à natureza desta civilização, isto é: a vida selvagem e a vida
social, as particularidades devidas ao espírito de clã e as modalidades pe-
las quais um grupo humano domina outro. Este último ponto conduz ao
exame do nascimento do poder, das dinastias e das classes sociais. Na se-
qüência a história se interessa, também, pelas profissões lucrativas e pe-
las maneiras de se ganhar a vida, que formam parte das atividades e dos
esforços do homem, assim como pela ciência e pelas artes. Enfim, tem
por objeto tudo o que caracteriza a civilização". De acordo com este pro-
grama, a Muqqadima se estrutura em seis grandes capítulos que estudam
respectivamente: a civilização humana em geral, as nações selvagens (a
civilização beduína), a monarquia e a função pública, a civilização se-
dentária (vilas e cidades), a economia e, finalmente, as ciências e o saber.
Esta visão de conjunto leva Ibn Jaldun a vincular os fatos da história po-
lítica a um conjunto de fatores globais - a sociedade, o clima, a religião,
a cultura - e a analisar detidamente as causas complexas dos aconteci-
mentos. Mas, enquanto o Discurso sobre a história universal foi lido e ad-
mirado no Ocidente - e utilizado, também, para uma leitura colonialis-
ta que justificava a dominação européia do Magreb como um fato histó-
rico inevitável - , costuma-se ignorar que a obra histórica propriamente
dita, a que servia de introdução, nunca foi traduzida integralmente para
outras línguas, impedindo que possamos avaliar adequadamente Ibn Jal-
dun como historiador, ou verificar quais foram os resultados alcançados
com seu método.6
6 Sobre Ibn Jaldun utilizei os elementos biográficos contidos em Le Voyage d'occici-
dent et d'orient. Paris: Sindbad, 1980; o capítulo que Abederrahmane Lakhassi lhe
dedicaem NASR, Seyyed Hossein; LEAMAN, Oliver (Ed.). History of Islamic phi-
Ibn Jaldun representa, ao mesmo tempo, o ponto mais alto e o mo-
mento final da evolução do pensamento historiográfico muçulmano. Sua
linha de interpretação da sociedade e da história não teria continuidade.
Dos historiadores muçulmanos da índia medieval, por exemplo, foi dito
que se limitavam a narrar os feitos dos soberanos e dos ministros e que "ja-
mais lhes ocorrera ir comer na cozinha como supõe-se que o historiador
econômico e social o faça". A historiografia islâmica, isolada das novas cor-
rentes do mundo, permaneceria sem mais avanços até o século XIX, quan-
do começou a receber o impacto da ocidental.7
Lamentavelmente, sabemos ainda muito pouco da historiografia
de outras civilizações nestes séculos, como a dos povos da índia, que a
história colonialista pretendeu reduzir a "fontes que deviam ser avalia-,
losophy. London: Routledge, 1996.1, p. 350-364; AL-AZMEH, Aziz; KHALDUN,
Ibn. An essay in reinterpretation. London: Frank Cass, 1982; ABDESSALEM, Ah-
med. Ibn Jaldun y sus lectores. México: Fondo de Cultura Económica, 1987; NAS-
SAR, Nassif. El pensamiento realista de Ibn Jaldun. México: Fondo de Cultura
Económica, 1980 e HERNANDEZ, Miguel Cruz. Historia dei pensamiento en el
mundo islâmico. Madrid: Alianza, 1996. III, p. 665-701. A edição de Al-Muqqadi-
ma utilizada é KHALDÛN, Ibn. Discours sur l'histoire universelle. Trad. De Vincent
Monteil. Paris: Sindbad, 1978. 3 v. (citação literal de I, p. 69), com preferência à
quase ilegível versão castelhana de Juan Feres, que daria uma má idéia de seu va-
lor real. Também Peuples et nations du monde, na edição citada antes, que é uma
primeira aproximação, ainda que fragmentada, a seus outros livros. Sobre a ava-
liação ocidental: Toynbee, por exemplo, diria que era a maior obra de filosofia da
história de todos os tempos. Sobre o uso colonialista, HIMMICH, Salem. O pen-
samento inovador de Ibn Jaldún: sua recepção no ocidente. In: LARRAMENDI,
M. Hernando de; PARRILLA, Gonzalo Fernández (Ed.). Pensamiento y circulación
de las ideas en el Mediterrâneo: él papel de la traducción. Cuenca: Universidade de
Castilla-La Mancha, 1997. p. 209-222.
7 Sobre os historiadores muçulmanos hindus, HARDY, Peter. Historiam of medieval
índia. Studies inIndo-mi4slim historical writing. New Delhi: Munshiram Manohar-
lal, 1997/2; citação da p. 111. Em sua já citada Historia dei pensamiento en el mun-
do islâmico, III, p. 663-665, Miguel Cruz Hernández feda do esgotamento do "cur-
riculum" intelectual islâmico, facilitado pela idéia de, que tudo que estava feito, e
bem feito, por Deus no Corão, o que limitava o ensinámento superior às ciências
de base religiosa. Ibn Jaldun seria citado como úm "historiador a mais" pelos com-
piladores que se limitavam a acumular informações históricas.
das em relação com os cânones modernos do Ocidente" e, ainda menos,
das crônicas redigidas em persa, em turco e em usbeque pelos povos da
Ásia central, entre os quais figura o extraordinário Livro de usbeque, es-
crito pela princesa Gul-Badan Baygam (ca. 1523-1603), que apresenta a
visão de uma mulher sobre os acontecimentos, perita nos assuntos do
estado, mas com uma sensibilidade diferente da dos cronistas da corte.
Ignoramos também a historiografia dos armênios, com figuras como
Sebeos, um historiador do século VII que usa os documentos como fon-
te de informação, analisando acuradamente as causas políticas dos
acontecimentos.8
A maior continuidade com o mundo clássico helenístico acontece-
ria teoricamente em Bizâncio, isto é no Império romano do Oriente, que
prosseguia utilizando literariamente a língua grega segundo os modelos
antigos. Isso conduziria a uma situação de diglossia* em que a literatura
era escrita em um idioma não compreendido pelas pessoas comuns (até
que o empobrecimento da educação e a desconfiança dos cristãos pelos
autores pagãos a foi aproximando da língua falada). Os bizantinos tinham
ao alcance uma ampla literatura grega que, em boa medida, se perdeu, mas
ignoravam quase totalmente a latina: em Biblioteca, a obra em que o pa-
triarca de Constantinopla Fócio (ca. 810 - depois de 866) resenha os livros
que havia lido, há um conjunto de obras de historiadores gregos, mas não
se menciona nenhum em latim.9
8 SARKAR, Sumit. The many worlds of Indian history. In: . Writing social his-
tory. Delhi: Oxford University Press, 1998. p. 1-49 (citação da p. 6); LAW, B. C. On
the chronicles of Ceylon. Delhi: Sri Satguru Publications, 1987/2; BAYGAM, Gul-Ba-
dan. Le Livre de Humâyún. Edição de J. L. Bacqué-Grammont. Paris: Gallimard,
1996; THOMSON R. W.; HOWARD-JOHNSTON, James (Ed,). The Armenian his-
tory attributed to Sebeos. Liverpool: Liverpool University Press, 1992. 2 v.
* Numa sociedade, a existência de dois ou mais códigos [ v. código (12) ] distintos,
cada um com funções claramente diversas, determinadas pela estratificação social,
mas em que apenas um deles goza de prestígio. (N.T.)
9 Sobre as origens da historiografia bizantina (do Chronikon Pascale, que se detém
em 628, à Historia Syntomos de 780 e à Chronographia de Theofanes no início do
século IX), WHITTOW, Mark. The making of orthodox Byzantium, 600-1025. Lon-
don: Macmillan, 1996. Utilizo Fócio na versão italiana: Fozio, Biblioteca. A cura di1
Por mais que invocassem constantemente Heródoto ou Tucídides,
muito menos lidos na realidade do que Plutarco, os historiadores bizan-
tinos limitavam-se a narrar os acontecimentos da época em forma de crô-
nica, ou de biografia, geralmente apologética, de acordo com certas coor-
denadas de providencialismo cristão que excluíam qualquer tentativa de
análise social.
Entre os mais interessantes, é preciso mencionar Procópio de Cesa-
réia (nascido por volta de 500), autor de obras da história oficial de Justi-
niano, como as Guerras, que narram os combates de Justino I e de Justi-
niano contra os persas, os vândalos e os ostrogodos, e os Edifícios, que fa-
lam das construções públicas feitas pelo imperador. As Guerras têm um in-
teresse evidente como fonte de informação sobre certos povos dos quais se
conservarei poucas informações, mas também pela qualidade literária, en-
riquecida por elementos narrativos e por interessantes retratos pessoais,
Com lampejos de uma estranha lucidez, como o que o leva a concluir o re-
lato da guerra com os vândalos com a narração das matanças feitas pelo
exército imperial e a dizer: "E assim foi como aqueles líbios que permane-
ceram com vida - que eram poucos e demasiadamente pobres - conhece-
ram, tarde e com penúria, uma certa paz".
O que torna o caso de Procópio mais notável, no entanto, é que,
junto às obras oficiais* escreveu outra em que se propôs a explicar o que
não havia dito nas anteriores: "Dos muitos fatos referidos nos livros pre-
cedentes - dizia - fui obrigado a calar as causas", já que viviam ainda os
protagonistas e falar deles o teria exposto "a uma morte atroz". Anekdota,
mais conhecida como História secreta, é um relato feroz da vida de Justi-
niano e de Teodora - apresentada como um monstro de luxúria, capaz de
acolher na canla cerca de quarenta amantes em uma só noite, "trabalhan-
do com três orifícios" sem ficar saciada - de Belisário e de sua esposa.10
Nigel Wilson. Milano: Adelphi, 1992. Para o contexto geral, TREADGOLD, Warren.
A history of the Byzantine state and society. Stanford: Stanford University Press,
1997.
10 PROCÓPIO. La guerre contre lês vandales. Paris: Les Belles Lettrês, 1990 (citação da
p. 218); PROCÓPIO. Storie segrete. Ed. bilíngüe. Milano: Rizzoli, 1996, citações de
I, 2 e IX, 15-18. CAMERON, Averil. History as text: coping with Procopius. In:
O outro grande nome da historiografia bizantina, Miguel Psellos
(1018 - ca. 1078), político e homem de letras de grandes conhecimentos,
deixou-nos Cronografia, obra que narra os acontecimentos dos anos 976 a
1078, num relato ordenado por reinos e baseado em sua própria experiên-
cia ejondeos acontecimentos são explicados em termos de interesses e pai-
xões humanas. Psellos é um narrador consciente de sua arte, que funda-
menta a vontade de escrever, limitando-se "aos fatos mais importantes", a
meio caminho entre as pretensões das grandes histórias do império e o es-
quematismo das crônicas contemporâneas."
De menor interesse são a Alexiada de Ana Comneno (1083 - depois
de 1148)12 ou as obras de Nicetas Choniates (ca.1150-1213), testemunho
das destruições dos cruzados (que Villehardouin relataria a partir da pers-
pectiva do outro lado). Os últimos cronistas do império, no século XV, di-
vidir-se-iam entre homens que, como Jorge Sfrantzes (1401-1477), reali-
zam um relato melancólico dos últimos dias de Bizâncio e os que se ha-
viam integrado na nova situação, como Critóbulos de Imbros (ca.1410 de-
pois de 1468), que adota o estilo de Tucídides para elogiar o sultão Meh-
med II, o novo imperador a que servia.
O legado que os historiadores bizantinos deixariam ao despertar da
nova historiografia do Renascimento seria principalmente o aporte de in-
formações e de manuscritos que enriqueceriam o escasso conhecimento
direto que se tinha, no ocidente medieval, da literatura grega.13 Suas pró-
HOLDSWORTH, Christopher; WISEMAN, T. P. (Ed.). The inheritance of historio-
graphy, 350-900. Exeter: Exeter University, 1986.0 contraste entre a Historia Secre-
ta e as obras de apologia de Justiniano fez pensar que não era obra de Procópio.
Talvez seja exagero, entretanto, reduzi-la a "um panfleto sujo", como o fazem os au-
tores do Dictionnaire des auteurs grecs et latins de l'antiquité et du moyen âge, Bre-
pols, 1991.
11 PSELLUS, Michael. Fourteen byzantine rulers (The Chronographia). Ed. E. R. A.
Sewter. Harmondsworth: Penguin, [1966?], citação da p. 191.
12 Há uma tradução castelhana de Emilio Diaz: COMNENO, Ana. La Alexiada. Sevil-
la: Universidade, 1989.
13 GEANAKOPLOS, Deno J. Italian humanism and the Byzantine émigré scholars. In:
RABIL JR., Albert (Ed.). 381. Renaissance humanism. Foundations, forms, and legacy.
Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1998.1, p. 350-381.
prias obras, no entanto, continuariam sendo completamente desconheci-
das durante muito tempo, somente se recuperando nos tempos modernos,
como objeto de erudição.14
No Ocidente produziu-se uma ruptura com a cultura clássica. O la-
tim continuaria sendo Cultivado, geralmente na forma de um sermo humi-
lis compreensível para um público amplo, até que, mais tarde, após o "re-
nascimento carolíngio", se voltaria a uma língua artificial, copiada dos ve-
lhos modelos clássicos e só entendida pelos letrados. O corte produzido
entre as duas culturas não é temporal, mas de índole estritamente cultural:
no século IV, as ùltimas'amostras de uma historiografia "pagã" convivem
com as primeiras cristãs (a História augusta, de que falamos anteriormen-
te, é posterior à História eclesiástica de Eusébio), mas as referências cultu-
rais de uma e outra são muito diferentes. Na cultura cristã, os historiado-
res clássicos seriam esquecidos. Somente Salústió era lido, na medida em
que sua retórica moralizante se acomodava aos objetivos que ós escritores
cristãos buscavam (Suetônió seria utilizado simplesmente como modelo
estilístico de biografias reais pelos escritores cortesãos). Tito Lívio séria ad-
mirado de longe - não voltaria a ser lido antes do século XIII - e Tácito,
cuja obra foi salva quase milagrosamente, continuaria sendo menospreza-
do até que os humanistas o descobrissem, convertendo-se num dos clássi-
cos mais lidos durante os séculos XVI e XVII. A história antiga servia prin-
cipalmente como fonte de anedotas, utilizadas como exemplos morais, o
que explica o êxito de compilações como o Livro dos ditos efeitos memorá-
veis de Valério Máximo, um conjunto de anedotas escrito nos tempos de
Tibério, que seria a obra clássica mais lida na Idade Média - conservam-se
mais de quatrocentos manuscritos dela - servindo de modelo para as nu-
merosas compilações de exemplos e milagres cristãos.15
- 7 —
14 Pode-se perceber, por exemplo, que nos materiais do colóquio internacional L'his-
toriographie médiévale en Europe (Ed. por J. P. Genet. Paris: C. N. R. S„ 1991) ne-
nhum dos 26 trabalhos publicados se refere à historiografia bizantina. Como se Bi-
zâncio não fosse Europa.
15 Sobre a historiografia da época, MOMIGLIANO, Arnaldo. L'époque dé la transi-
tion de l'historiographie antique à l'historiographie médiévale (320-350 après J.
C.) e L'historiographie paienne et chrétienne au IV siècle après J. C. In: Problèmes
Entre a nova história cristã e a velha do mundo clássico existe
uma profunda ruptura de conceitos, mais do que de conteúdos. Como
os escritores da história cristã não acreditavam que se encontravam
numa nova época, pretendiam, apenas, absorver e assimilar a velha:
cristianizar o conjunto da história humana, inserindo-a linearmente na
tradição bíblica e eclesiástica; "converter a história universal em história
da salvação".16
Isto exigia, em primeiro lugar, o estabelecimento de uma crono-
logia única com um tempo universal, tarefa iniciada por Eusébio (ca.
260-339), um grego da Palestina que foi bispo de Cesaréia, homem mui-
to próximo do imperador Constantino e autor de História eclesiástica,
primeira história da igreja, desde Jesus Cristo a Constantino, mas, so-
bretudo, de Crônica, conhecida pela versão latina de São Jerônimo - o
original grego perdeu-se. Esforçou-se em relacio|iar o relato bíblico
com' a história dos povos do Oriente próximo e com a greco-romana,
construindo tábuas sincrônicas que estabelecem correspondências entre
os acontecimentos relatados na Bíblia, as relações dos soberanos assírios
ou egípcios, a periodização grega por olimpíadas ou a série dos magis-
trados romanos. A obra de Eusébio seria prosseguida por outros cronis-
d'historiographie, ancienne et moderne. Paris: Gallimard, 1983; STERNS, Indrikis.
. The greater medieval historians: An interpretation and a bibliography. Washington:
University Press of America, 1981 e o volume, editado por J. P. Genet, L'historio-
graphie médiévale en Europe, citado mais acima. Sobre o sermo humilis e a prosa
latina no começo da Idade Média, AUERBACH, Erich. Literary Language and its
public in late latin antiquity and in the middle ages. Princeton: Princeton Univer-
sity Press, 1993. Sobre a herança clássica, BOLGAR, R. R. The classical heritage and
its beneficiaries. Cambridge: Cambridge University Press, 1977; REYNOLDS, L. D.;
WILSON, N. G. Scribes and scholars. A guide to the transmission of Greek and latin
literature. Oxford: Clarendon Press, 1978. Sobre os autores lidos nas escolas, CUR-
TIUS, Ernst Robert .Lçtteratura europea e medio evo latino. Firenze: La Nuova Ita-
lia, 1992. p. 58-64.
16 "No século XII, uma história universal se situa na perspectiva religiosa: explica, ?
história da salvação", por esta razão não fala dos povos distantes, e pagãos, que
"Deus nãp se propunha salvar" (Bernard Güenée em Genet, L'historiographie mé-
diévale, p. 15; também BROST, Arno. The ordering of time. Cambridge: Polity
Press, 1993).
tas bárbaros e sua cronologia dominaria a historiografia cristã até os
tempos modernos, de maneira que se pode afirmar que nenhuma outra
obra "exerceu influência comparável sobre o mundo ocidental". Nem
mais nefasta, acrescentaremos, já que a convicção de que a história in-
teira da humanidade não passava de cinco ou seis mil anos - como ain-
da defendem alguns dos partidários de uma interpretação literal da Bí-
blia, nos Estados Unidos - impediu um estudo sério das épocas antigas
(sem esquecer que os autores cristãos se encontravam ante o problema
adicional de que a versão da Bíblia "dos setenta" e a Vulgata ofereciam
cronologias discrepantes).17
O que, principalmente, distingue os novos esquemas da historiogra-
fia cristã dos da clássica é o fato de qüe não busca a explicação dos fenô-
menos históricos no interior da própria sociedade, nas causasnaturais ou
como conseqüência dos atos dos indivíduos, mas supõe que existe um de-
sígnio divino que determina por completo o curso da história. A nova con-
cepção global do homem e do mundo em que se baseava esta visão da his-
tória foi desenvolvida sobretudo por Santo Agostinho (354-430) em A ci-
dade de Deus e em Confissões, nas quais contrasta a eternidade de Deus
com o mistério do tempo, especulando sobra a dificuldade de conhecer o
passado. Â aplicação direta das idéias agostinianas à história seria feita por
17 Sobre Eusébio, STERNS, Indrikis. The greater medieval historiam: An interpreta -
tion and a bibliography. Washington: University Press of America, 1981. p. 6-12;
SHOTWELL, James T. Historia de la historia en el mundo antiguo. México: Fondo
de cultura económica, 1982 (a edição original é de 1939). p. 367-381 (citação dá
p. 373); WTLCOX, Donald J. The measure of times past. Chicago: University of Chi-
cago Press, 1987. p. 105-107; GÂLÂN, Pedro Juan. El género historiográfico de la
chronica. Las crónicas hispanas de época visigoda Cáceres. [S.l.]: Universidade de
Estremadura, 1994. p. 41-52. A versão latina de la Crónica em J. P. Migne, Patrolo-
giae cursus completus, series latina, t. XXVII (San Jerónimo, t. VIII), Paris, 1866.
Uma visão global das crônicas universais cristãs em KRÜGER, Karl Heinrich. Die
Universalchroniken. Tunrhout: Brepols, 1976. Sobre as discrepâncias da cronologia
bíblica, Wilcox, p. 119-152; mas o que na Idade Média poderia parecer normal, se-
ria angustiante mais tarde. No século XVIII, lemos: "A diversidade notável que
existe entre a Bíblia dos LXX e a Vulgata no que se refere à cronologia, causa uma
confusão de que não é fácil desfazer-se". CHEVIGNI, C. de. Ciência para las perso- ,
nas de corte, espada y toga. Valencia: Balle, 1736. III, p. 9.
seu discípulo galego Orósio que, em Histórias contra os pagãos, insistia que
a história mostrava a ação da vontade de Deus na terra: a forma pela qual
este premiava a virtude e castigava o vício no trânsito ao destino último do
juízo final. O estudo da história serviria ao cristão como lição de moral e
para confirmar a fé na seqüência dos milagres e das profecias.18
Estabelecer a veracidade dos acontecimentos, tal como a entende-
mos hoje, era de um interesse secundário para o historiador cristão. Se o
relato era "correto" do ponto de vista do discurso religioso, pouco impor-
tava se os fatos com que fora elaborado houvessem ocorrido ou não. Não
se podia esperar que homens que aceitavam uma representação geográfi-
ca onde o real se misturava com o simbólico e o mundo era um espaço
quadrado, identificado geralmente com o corpo de Cristo, tivessem pro-
blemas com a redução da evolução humana à história da salvação. Os
acontecimentos prodigiosos eram "naturalmente" abundantes na historio-
grafia cristã, que não vacilava em chegar à falsificação. Das "vidas de san-
tos", escritas nos monastérios em louvor dos patronos celestiais, pode-se
dizer que eram "criações puramente literárias" (em certa ocasião o santo
foi inventado a posteriori para identificar e dignificar com uma biografia
adequada algumas relíquias milagrosas). Um exemplo deste tipo de mani-
pulações encontramos em Ademar de Chabannes (989-1034), que contri-
buiu para transformar São Marçal, um missionário do século III, em pri-
mo de São Pedro e companheiro de Jesus: um décimo terceiro apóstolo.19
18 AGUSTIN, San. Confesiones, XI. BROWN, Peter. Augustine of Hippo. Berkeley:
University of California Press, 1969. Sobre Orósio, MAZZARINO, Santo. El fin
del mundo antiguo. México: Uteha, 1961. p. 51-56; STERNS, I. The greater me-
dieval historians: An interpretation and a bibliography. Washington: University
Press of America, 1981. p. 27-30 e SHOTWELL, James T. Historia de la Historia
en el mundo antiguo. México: Fondo de Cultura Económica, 1982. p. 390-394.
Las Historiae adversus paganos, em Migne, Patrologia, série latina, XXXI, Paris,
1846,663-1.174.
19 O conceito de espaço em MARTIN, Hervé. Mentalités médiévales, XI-XVe siècles.
Paris: PUF, 1996. p. 123-153. Sobre as falsificações históricas, GRAFTON, An-
thony. Forgers and critics. Creativity and duplicity in western scholarship. Prince-
ton: Princeton University Press, 1990. A história de Ademar e de suas falsificações
está minuciosamente estudada em LANDES, Richard. Relics, apocalypse and the
A história não servia para entender o mundo mas, sim, para inda-
gar o futuro: podia ser usada para interpretar as profecias e preparar para
o final dos tempos. Havia três grandes modelos proféticos. O primeiro de-
rivava dfe Daniel, que havia visfo sair do mar quatro grandes bestas; a quar-
ta tinha dez cornos, dentre os quais despontava um décimo primeiro, que
tinha olhos e boca. A interpretação desta visão via as bestas como impé-
rios e os cornos como dez reis: o décimo primeiro era o Anticristo.
O segundo modelo é o da Apocalipse de São João, que lembra em
alguns aspectos a visão de Daniel - há, também, uma besta com sete cabe-
ças e dez cornos, por exemplo - más acrescenta um elemento novo e enig-
mático, que teria um papel muito importante na história profética medie-
vál: haveria um período de mil anos em que, encerrada no abismo "aque-
la serpente antiga que é o diabo", se realizaria uma primeira ressurreição,
a dos eleitos, que reinariam com Cristo em um mundo de paz. Depois des-
te milênio feliz, o dragão infernal voltaria a atuar e, então, teria lugar a se-
gunda ressurreição - a de todos os mortos - e o juízo final. Toda uma sé-
rie de "apocalipses" apócrifos, como o atribuído a São Pedro ou o de São
Paulo (considerado como um livro sagrado em muitos mosteiros do
Oriente), criariam um clima de expectativas sobre o milênio, o Anticristo
e a "parüsia", o segundo advento de Cristo.
O terceiro modelo profético, que procede da literatura patrística, é
o da chamada "semana cósmica". À semelhança dos seis dias da criação,
com o sétimo de descanso, a história do mundo se dividia em seis épocas,
que correspondiam também às seis idades do homem da infância à velhi-
ce. A sétima idade da história seria a do fim deste mundo. Acreditava-se,
baseando-se nos textos bíblicos, que os dias da semana cósmica eram de
mil anos, de maneira que, uma vez transcorridos seis mil anos desde a cria-
ção, começaria a última fase dos tempos, çhegando-se ao fim da história.20
deceits of history. Ademar ofChabannes, 989-1034. Cambridge, MA: Harvard Uni-
versity Press, 1995 (onde se explica, também, o caso de um são Justiniano, inven-
tado para personalizar certas relíquias, p. 72-74).
20 O texto de Daniel, em 7: l-12,odoApocalipseem20:1-15. Sobre os modelos pro-
féticos, Trompf, The Idea of recurrence in western thought, p. 207-221 e 335-337;
GOUGUENHEIM, Sylvain. La Sibylle du Rhin: Hildegarde de Bingen. Paris: Publi-
A preocupação com a cronologia tinha também outras finalida-
des, relacionadas com a prática litúrgica, especialmente a que se referia à
fixação da data da Páscoa, que condicionava a de outras festividades re-
ligiosas e exigia um grande esforço para relacionar diferentes sistemas de
calendário: no ano de 525, o abade Dionísio, o Exíguo, chamado assim
pela reduzida estatura, calculou certas tabelas da Páscoa, ficando a ori-
gem da era cristã no ano de 754 da fundação de Roma. Com isso, estabe-
lecia os pilares do sistema de datação por anos da encarnação ou do nas-
cimento de Cristo, que mantemos até hoje (sofrendo as conseqüências
dos erros de Dionísio).
Foi justamente nos espaços em branco que as tabelas pascais dos
mosteiros apresentavam que os monges começaram a anotar os aconteci-
mentos mais notáveis do ano - fenômenos astronômicos, tempestades,
mortes de grandes personagens iniciando uma forma de analística que
não tardaria a se emancipar de um marco tão estreito. Também foram os
monges os que começaram a se preocupar com a determinação mais exa-
ta das horas do dia, para poder cumprir as normas que São Bento fixava,
o que levou, primeiramente,ao aparecimento de sinos que marcariam os
momentos da liturgia e, mais tarde, a impulsionar a construção dos pri-
meiros relógios mecânicos.21
Além dos cômputos cronológicos e das anotações analíticas, os sé-
culos VI ao IX assistiram ao surgimento dos primeiros historiadores dos
cations de la Sorbonne, 1996. p. 102-109; EMMERSON Richard K.; McGINN,
Bernard (Ed.). Apocalypse in the middle ages. Ithaca: Cornell University Press,
1992; Apocalissi apocrife. Edição de Alfonso M. Dinola. Parma: Ugo Guanda,
1986/2; Cito mais adiante algumas referências dos muitos estudop dedicados às vi-
sões proféticas.
21 Sobre os anais monásticos, McCORMICK, Michael. Les annales du haut moyen âge.
Turnhout: Brepols, 1975. Uma visão global da forma em que, desta literatura, sur-
gem as crônicas locais (as primeiras seriam as crônicas de monastérios de Jura em
começos do século VI) em VAN HOUTS, Elisabeth M. C. Local and regional chro-
nicles. Turnhout: Brepols, 1995. Há uma ampla literatura sobre o sentido e a medi-
da do tempo na Idade Média: LANDES, David S. Revolution in time, Clocks and the
making of the modern world. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1983;
WHITROW, G.J .El tiempo en la historia. Barcelona: Crítica, 1990. p. 99-118, além
dos já citados de Wilcox e de Arno Brost.
povos germânicos que, até aquele momento, haviam tido uma literatura
predominantemente oral: os vikings, por exemplo, embora usassem a es-
critura rúnica para as inscrições, conservavam a lembrança dos feitos dos
antigos heróis em poemas, transmitidos oralmente.22 Os novos historiado-
res são os que Goffart denominou "os narradores da história bárbara" en-
tre os quais se destacam quatro grandes nomes: Jordanes, Gregório de
Tours, Beda e Paulo o Diácono (Paulus Diaconus), cabendo ainda acres-
centar Isidoro de Sevilha.23
Cassiodoro (ca. 485-578) foi o primeiro a escrever uma História dos
godos. A obra, porém, perdeu-se, ainda que pareça ter sido resumida e
adaptada em De origine actibusque Getarum, conhecida habitualmente
como Getica, obra de Jordanes (morto ca. 554), homem de origem goda e
de religião católica, autor também de uma síntese de história geral, Roma-
na, de muito menor interesse. Getica reúne testemunhos escritos e orais
para construir a história do povo godo: "Tu, que me lês, saiba que, de acor-
do com os escritos dos antigos, tomei algumas flores de teus prados imen-
sos e teci uma coroa, à medida de meu talento, para aquele que procura se
instruir". Apesar de ter sido escrito em Bizâncio, com elogios a Justiniano
e Belisário, vencedores dos bárbaros, o livro de Jordanes não deixa de ser
uma homenagem aos godos.24 <
22 PAGE, R. I. Chronicles of the Vikings. London: British Museum Press, 1995; BAGGE,
Sverre. Propaganda, ideology and political power in Old Norse and European his-
toriography: a comparative view. In: GENET, J. P. (Ed.). L'historiographie médiéva-
le en Europe. Paris: CNRS, 1991. p. 199-208.
23 Para o contexto geral da história dos povos bárbaros, utilizo o livro de WOLFRAM,
Herwig. The roman empire and its germanic peoples. Berkeley: University of Califor-
nia Press, 1997. Para a historiografia, o livro fundamental de GOFFART, Walter.
The narrators of barbarian history (AD. 550-800), Princeton: Princeton University
Press, 1988 e INNES, Matthew; McKITTERICK, Rosamond. The writing of history.
In: McKITTERICK, Rosamond (Ed.). Carolingian culture: emulation and innova-
tion. Cambridge: Cambridge University Press, 1994. p. 193-220. Não posso tocar,
numa exposição sintética como esta, senão nos problemas da historiografia "públi-
ca" dos anais ou crônicas, deixando de lado outras formas de registrar a memória,
como as que analisa VAN HOUST, Elisabeth: Memory and gender in medieval Eu-
rope, 900-1200, London: Macmillan, 1999.
-24 Além de Goffart, segui o estudo de Olivier Devillers e a sua tradução de Jordanes,
Histoire des goths. Paris: Les Belles Lettres, 1995 (citação de LVIII, 315).
Gregório de Tours (ca. 538-594), bispo e membro de uma velha fa-
mília senatorial, escreveu História dos francos (Historia francor um), na qual
se propunha a "descrever as lutas dos reis contra as nações contrárias, a dos
mártires contra os pagãos, a das igrejas contra os hereges". Dedicava os
quatro primeiros livros ao relato da história do mundo e da dos francos,
da criação ao ano de 575, enquanto que, nos seis últimos, a maior parte da
obra, relatava os acontecimentos de apenas dezesseis anos, de 575 a 591.
Embora tenha afirmado que lhe repugnava "recordar as vicissitudes
das guerras civis que exaurem a nação e o reino dos francos", a história de
Gregório explica um emaranhado de guerras, devastações, assassinatos,
envenenamentos e maldades de todo tipo, em meio a uma natureza em
que abundam desastres, anunciados quase sempre por sinais celestiais ou
por presságios ("em meio à lua, viu-se uma estrela resplandecente"). Em
algumas poucas linhas do quinto livro, por exemplo, fala-nos de um lobo
que entrou na cidade de Poitiers, da enchente do rio Loire, de um vento sul
quê "abateu bosques, demoliu casas e derrubou cercas, levantando no ar
alguns homens até matá-los", de que os galos cantavam no início da noite,
a luâ escurecia, aparecia um cometa e se iniciava uma grande epidemia. No
livro nono, explica-nos como, no outono de 587, os recipientes de algumas
casas apareceram marcados com sinais estranhos que não podiam ser apa-
gados, que, nos parreirais já amadurecidos, surgiram novos cachos defor-
mados, que alguns homens afirmavam terem visto cair serpentes das nu-
vens, havendo muitos sinais que "costumam anunciar a morte de um rei
ou uma catástrofe que cairá sobre uma região".
Gregório, este "Heródoto da barbárie", escreveu num latim precário
as coisas que viu, ouviu ou viveu, falando-nos de tempos cheios de crimes
dos magnatas ou dos clérigos - "Cometeram-se muitas más ações nesta
época" - , em que "bolas de fogo percorriam o céu durante a noite" e as
chuvas, as pestes, os incêndios e as aparições dos falsos profetas (como o
falso Cristo de Berry, que percorria as vilas fazendo milagres) eram um
anúncio evidente de que chegara a época do "início das dores" e que o fim
do mundo anunciado pelas profecias estava perto (Gregório contava 5.792
anos desde a criação do mundo até seus dias, o que implicava que o ano
6000, o do final das seis semanas milenares, estava próximo; o problema é
que a soma estava equivocada e que os tempos parciais que utilizava soma-
vam realmente 6.063, ou seja, o mundo já deveria ter acabado).25
Na Inglaterra, a história começou com Gildas, um monge do sécu-
lo V, de cuja pessoa e vida nada sabemos. Escreveu De excidio Britanniae,
(A destruição de "Bretana") aproximadamente em 479/485, mostrando as
desgraças que a ilha havia padecido depois da saída dos romanos e da
conquista pelos saxões. Atribuiu-as a um castigo divino, exortando, as-
sim, os dirigentes à reforma moral. A mais importante das figuras da his-
toriografia medieval britânica seria Beda (673-735), um monge dp mos-
teiro -de Jarrow que escreveu tratados sobre cronologia e sobre a data da
Páscoa, comentários bíblicos e, principalmente, História eclesiástica do
povo da Inglaterra, (Historia ecclesiastica gentis Anglorum), na qual, dife-
rentemente de outras obras da época, não realizou uma crônica do mun-
do, mas falou apenas da Inglaterra, da invasão de Júlio César no ano 731
- que, para Beda, num período em que a contagem pelos anos da encar-
nação de Cristo ainda não se difundira, definia-se çomo o ano "em que
morreu o arcebispo Bertwàld; o mesmo ano em que Tatwin foi consagra-
do nono arcebispo da igreja de Canterbury, no décimo quinto ano do rei-
nado de Ethelbald, rei de Mércia" - , preocupando-se principalmente com
os reinos saxões e celtas e com a expansão do cristianismo na ilha. O re-
lato, apesar dos esforços para justificar a veracidade do que sabia "ou pe-
los escritos dos antigos ou péla tradição dos mais velhos, ou por meu pró-prio conhecimento", está cheio de presságios e, especialmente, de milagres
realizados por santos locais, o que não devia surpreender o público que
compartilhava a mesma visão de mundo. Eram, por outro lado, coerentes
pois integravam uma obra que, como toda a historiografia cristã, tinha
uma finalidade essencialmente religiosa.26 Depois de Beda,' a hisforiogra-
25 O texto de Gregório de Tours foi usado na tradução de LATOUCHE, Robert. His-
toire des francs. Paris: Les Belles Lettres, 1996. As citações feitas correspondem, a I,
prefácio; V, prefácio; V, 41; IX, 5; V, 49; VI, 32; VIII, 32 e X, 25. Sobre a equivocada
soma da idade do mundo, WILCOX, Donald J..Measure of time past. Chicago:
University of Chicago Press, 1987. p. 138-139.
26 Sobre Gildas, HIGHAM, N. J. The English conquest. Gildas and Britain in the fifth
century. Manchester: Manchester University Press, 1994. Sobre a historiografia
fia britânica, reduzida a pouco mais que crônicas monásticas e anais, vi-
veria uma decadência até ser recuperada como elemento de propaganda
política ao final do século XIII.
Um caso especial é o da Hispania visigoda, que teve um antece-
dente de "crônica goda" com Juan de Bíclaro (ca. 540 - ca. 621) que se-
guia a tradição dos discípulos de Eusébio. O expoente mais relevante é
Isidoro de Sevilha (ca. 560-636), autor de Etimologias, uma compilação
enciclopédica da parte do -saber clássico considerada compatível com o
cristianismo, qUe se destinava a facilitar o acesso às obras dos aritigos a
um público com dificuldades de compreender os termos e os conceitos
nelas expressos. A obra teve grande difusão (calcula-se que foram feitas
cerca de cinco mil cópias manuscritas de uma das diversas versões do
texto). A parte dedicada a história encontra-se no quinto livro, "Sobre as
leis e os tempos": inicia com uma consideração sobre o termo "crônica",
segue com a divisão dos tempos em momentos, horas, dias (e noites), se-
manas, meses, anos, etc., e conclui com uma cronologia que se limita a
fixar os marcos das seis idades em que se divide o curso completo da his-
tória ao longo dos 5857 anos transcorridos desde a criação. De muito
menor transcendência, seria a produção propriamente histórica de Isi-
doro, integrada por História goda (De origene Gothorum), seguida de
Histórias dos vândalos e dos suevos, que estavam destinadas a desempe-
nhar uma função legitimadora semelhante à dos outros historiadores
inglesa medieval, GRANDSEN, Antónia. Historical writing in England. London:
Routledge and Kegan Paul, 1974-1982. 2 v. (Sobre Beda, I, p. 13-28); HODGES,
Richard. The Anglo-Saxon achievement. London: Duckworth, 1989. p. 102-115.
Sobre Beda, ainda, STERN, I. The greater medieval historians: An interpretation
and a bibliography. Washington: University Press of America, 1981. p. 83-92; a
obra cronológica é analisada em BROST, Arno. The ordering of time. Cambridge:
Polity Press, 1993. p. 36-41. Sobre as crônicas posteriores GALBRAITH, V. H.
Historical research in medieval England, In: . Kings and chroniclers. Lon-
don: Hàmbledon Press, 1982; CLANCHY, M. T.From memory to written record.
England 1066-1307. Oxford: Blackwell, 1993. p. 100-101. As obras históricas de
Beda foram utilizadas na edição Bede, Historical:works. Cambridge, MA: Harvard
University Press, 1979. 2 v. (as citações são da cronologia e da vida de Beda, no
capítulo XXIV do quinto livro).
bárbaros. Esta primeira historiografia gótica não teria continuidade; o
estado visigodo foi destruído pela invasão muçulmana e a historiografia
cristã posterior teve que refazer a tarefa para acomodar a legitimação da
monarquia asturiana, falseando uma continuidade do reino visigodo
com o de Astúrias e inventando genealogias fantásticas dos novos diri-
gentes para fazer crer que eram descendentes de príncipes godos refugia-
dos nas montanhas.27
O último dos grandes nomes da história bárbara é Paulo, o Diáco-
no, ou Paulus Diaconus (ca. 720-799), filho de uma nobre família lom-
barda, educado na corte de Pávia. Ao cair o reino dos lombardos perante
os exércitos de Carlos Magno, refugiou-se no mosteiro de Montecassino
e escreveu História romana, completando-a, mais tarde, depois de visitar
a corte dé Carlos Magno, com sua obra mais famosa, História dos Lom-
bardos (Historia longobardorum), uma justificativa póstuma do "estado
bárbaro desaparecido", apresentado como o "herdeiro legítimo da civili-
zação romana". O livro nos explica a história dos lombardos desde as pri-
meiras migrações, baseando-se geralmente em tradições orais. Focaliza,
especialmente, a instalação dos mesmos na Itália, mostrando' os persona-
27 Uso o texto das Etimologias na edição bilíngüe de J. Oroz e M. A. Marcos (Madrid,
B. À C., 1993-1995, 2 v.), com um extenso estudo preliminar de Manuel C. Diaz y
Diaz. A obra propriamente histórica em Las historias de los godos, vândalos y suevos
de Isidoro de Sevilla. Edição e tradução de Cristóbal Rodriguez Alonso. Leon: C. E.
I. San Isidoro, 1975. Sobre Juan de Bíclaro, ou Bíclara, que seria o bispo de Gerona,
e sobre a obra histórica de Isidoro, Kenneth Baxter Wolf, estudo preliminar de Con-
querors and chronicles ofearly medieval Spain. 2nd ed. Liverpool: Liverpool Univer-
sity Press, 1999. GALÂN, Pedro Juan. El género historiográfido de la chronica. Las
crónicas hispanas de época visigo da cárceres. [S.l.]: Universidade de Extremadura,
1994. p. 81-172 (sobre el Biclarense) e 175-208 (sobre a crônica de Isidoro). Sobre
a historiografia asturiana posterior, BARBERO, A*; VIGIL, M. La formation dei feu-
dalismo en la Península ibérica. Barcelona: Crítica, 1978. p. 236-247 e 263-278, e so-
bre o contexto político da historiogafia medieval hispânica, BARRAQUÉ, Jean-
Pierre; LEROY, Béatrice. Des écrits pour les rois. Limoges: Pulim, 1999. Uma visão
de conjunto com traduções fragmentárias que vão da Crónica albeldense (883) ao
Chronicon Pelagii ovetensis (c. 1150) em CASARIEGO, Jesús E. Crónicas de los reinos
de Astúrias y León. Madrid: Everest, 1985.
gens dramáticos de sua história, como Albuíno, e o complexo processo da
cristianização, que começara no arianismo.28
Paulo foi, como dissemos, na corte de Carlos Magno, um centro de
renascimento cultural em que, com a pretendida recuperação do Império,
despertaria o interesse pela cultura clássica. Einhard, ou Eginardo, (ca.
770-840), homem de confiança,do imperador, escreveu uma Vida de Car-
los Magno, tomando como modelo as de Suetônio, especialmente a que
este dedicara a Augusto. Obra apologética, a recuperação da cultura clássi-
ca que nela se tenta levar a cabo limita-se aos aspectos formais e literários,
já que Eginardo não tinha nenhum interesse em transcrever fielmente os
documentos e os textos em que se inspirava, como os diversos Anales ca-
rolíngios, cometendo erros freqüentes. A recuperação real da historiografia
clássica - a do sentido, e não a do estilo - ainda tardaria séculos.29
-28 DIÁCONO, Paolo. Storia déi longobardi. Edição bilíngüe de Antônio Zanella. Mi-
lano: Rizzoli, 1993. Sobre o autor, além de Goffart (p. 329-431), BULLOGH, Do-
nald. Ethnic history and the carolingians: an alternative reading Of Paul the Dea-
cons Historia Langobardorum. In: HOLDSWORTH, Christopher; WISEMAN, T.
P. (Ed.). The inheritance of historiography, 350-900. Exeter: Exeter Universiy, 1986.
p. 85-105. A representatividade dos autores que citamos nos é mostrada pela fre-
qüência com que os encontramos nas bibliotecas medievais: na do mosteiro de
Reichenau, por exemplo, os historiadores se reduziam a pouco mais que Eusébio
de Cesaréia, Orósio, Flávio Josefo (numa versão latina), Isidoro de Sevilha, Beda,
Gregório de Tours e Eginardo (HERRIN, Judith. The formation of Christendom.
Oxford: Blackwell, 1987. p. 482-483).
29 EGINHARD. Vie de Charlemagne. Edição e tradução de Louis Halphen. Paris:
Les Belles Lettres, 1994 e a tradução de Lewis Thorpe a Einhard and Notker the
Stammerer (Notkerus Balbulus), Two lives of Charlemagne. Harmondswoth:, Penguin, 1969. Sobre a obra de Notker e a existência de uma tradição cultural
laica, em boa medida oral, INNES, Mattew. Memory, orality and literacy in an
early medieval society. Past and Present, n. 158, p. 3-36, 1998; STERN, I. The
Greater medieval historians: An interpretation and a bibliography. Washington:
University Press of America, 1981. p. 97 et seq. Anales del império mrolingio
(anos 800-843). Edição de Javier Del Hoyo e Bienvenido Gazapo. Madrid: Akal,
1997. O volume de HEN, Yitzhak; INNES, Matthew (Ed.). The uses of the past in
the early middle ages. Cambridge: Cambridge University Press, 2000, e o texto de
McKITLERICK, Rosamond. History and its audiences. Cambridge: Cambridge-
University Press, 2000, mè foram enviados demasiadamenfe tarde para poder ti-
rar proveito deles.
A esta série de "narradores da história bárbara", poder-se-ia acres-
centar, mesmo que corresponda a uma época mais tardia, o islandês.
Snorri Sturluson (1179-1241), autor de História dos reis da Noruega
(Heimskringla) na qual ele mesmo afirma ter se baseado, em parte, "nas
relações genealógicas em que os reis e outros grandes fixaram sua ascen-
dência paterna e, em parte, nos velhos cantos e poemas épicos cuja reci-
tação constituía uma espécie de diversão".30
No auge dó feudalismo, surgiria, na Europa ocidental, uma nova
historiografia "cavalheiresca" posta a serviço das monarquias e da aristo-
cracia feudàl: uma historiografia não escrita exclusivamente nos mostei-
ros, dirigida a um público mais amplo e que adota, para isso, as línguas
vulgares. É o momento, por um lado, das canções de gesta, como o Parsi-
fal ou canção de Roland (onde a derrota do exército carolíngio em Rón-
cesvales - vítima da "perfídia basca" dissera Eginardo - , converte-se numa
vitória sobre mais de cem mil sarracenos) e, por outro lado, da nova his-
toriografia que tem reis e cavaleiros çomo protagonistas.3'
O resultado serão as histórias das cruzadas, como a crônica de Guil-
laume de Tyr (ca. 1130-1186), escrita em latim, ou como A conquista de
Constantinopla, de Geofiroi de Villehardouin (ca. 1150 - ca. 1213), que ha-
via sido um dos chefes da quarta cruzada: uma das primeiras crônicas es-
critas em francês, que trata de justificar a atuação dos cruzados sem deixar
de explicar os saques e as regras de partilha dos despojos, o que levaria à
30 E acrescenta: "E ainda que ignoremos até que ponto estas obras são dignas de fé,
sabemos que, na época antiga, os eruditos consideravam-nas como tais". STURLU-
SON, Snorri. Histoire des rois de Norvège. Primeira parte, tradução, estudo prelimi-
nar e notas de F. X. Dillmann. Paris: Gallimard, 2000 (citação da p. 519).
31 Eginhard, 9 ("wasconicam perfidiam"): na Chanson, âfirma-se que os sarracenos
reuniram, em Zaragoza, 400.000 homens (LXVTII) e, em RoncesVãlles, tantos que
Oliver estima que mais nuls hom en tere nen vit plus e que cil devant sunt C. mïlie ad
escuz (LXXXII). Sobre as novas crônicas em língua vulgar, SPIEGEL, Gabrielle M.
Social change and literary language. The textualízation of the past in thirteenth-
century old French historiography. In: . The past as text. The theory and
practice of medieval historiography. Baltimore: The Johns Hopkins University Press,
1999. p. 178-194.
forca alguns cavalheiros, que tinham tentado roubar por conta própria.
Ou, como a de Jean de Joinville (1225-1317), que transformou as recorda-
ções pessoais da cruzada do Egito e do cativeiro ao lado do rei numa glo-
rificação de Luís IX; a História de São Luís.32
É também o momento das Grandes chroniques de France, uma
compilação de obras históricas elaborada entre o século XIII e o XV na
abadia de Saint-Denis (da qual se conservam mais de cem manuscritos),
da História dos reis da Inglaterra, (Historia regum Britanniae), de Geof-
frey de Monmouth (morto em 1155), um dos livros mais populares da
época, que mistura história e ficção (inicia o relato com a chegada dos
troianos ji Inglaterra, temperando-o, depois* com a história das conquis-
tas de Artur e das profecias de Merlin), da General Estória de Afonso X
de Castela (para quem a elaboração histórica estava ligada a suas preten-
sões imperiais), das quatro grandes crônicas catalãs (das quais, a de
Muntaner e a do rei Pere, o Cerimonioso, são, sobretudo, relatos de fatos
vividos, escritos com um forte jcunho pessoal), das Crônicas de Pedro Lo-
pez de Ayala (1332 - ca. 1407), testemunho parcial e distorcido de um
tempo de guerras civis em Castela, ou da grande celebração do mundo
da nobreza cavalheiresca que são as Crônicas da França, Inglaterra e dos
países vizinhos de Jean Froissart (ca. 1337 - ca. 1410), que nos explica, a
partir de informações orais e de recordações pessoais, a glória da aristo-
cracia nos tempos da guerra dos cem anos - "as grandes maravilhas e os
lindos feitos de armas qúe ocorreram por ocasião das grandes guerras da
França, da Inglaterra e dos países vizinhos" -,.de uma maneira pitoresca
e superficial, o que torna compreensível seu êxito (conservam-se mais de
cem manuscritos). Entretanto, o testemunho do homem que Allmand
qualificou como "o mais importante dos correspondentes de guerra da
baixa idade média", não nos serve para nada, quando o que queremos é
32 VTLLEHARDOUIN, Geofifroi. La conquête de Constantinople, LVI. Uma compila-
ção de outros textos de crônicas das cruzadas em RÉGNIER-BOHLER, Danielle
(Ed.). Croisades et pèlerinages. Récits, chroniques et voyages en Terre Sainte, XII'-XVl*
siècle. Paris: Robert Laffont, 1997.
nos informar, não das proezas dos cavaleiros, mas, sim dos sofrimentos
da gente comum em um século de peste e miséria.33
A igreja e a nobreza estabeleceram a teoria das três ordens ou es-
tados - os cavaleiros, os clérigos e os que trabalham - para justificar, com
a pretensão de "divisão social" das responsabilidades coletivas, uma si-
tuação de privilégio. A visão de mundo, elaborada conjuntamente, tinha
fundamento na interpretação da história escrita nos ritosteiros e nas cor-
tes. Contra ela, os dissidentes e os excluídos construiriam uma versão al-
ternativa, expressa no terreno religioso pela heresia popular igualitária -
que tinha sua própria literatura, perdida em boa parte em conseqüência
da repressão - ou por visões milenaristas, assentadas em modelos profé-
ticos como o de Joaquim da Fiore (ca. 1132-1202), que, no Livro das fi-
guras, apresentava uma complexa articulação de etapas cósmicas e trini-
tárias que serviam para anunciar que, depois da idade do Pai (o Antigo
Testamento) e da do filho (a do Evangelho), vinha uma terceira idade, a
do Espírito Santo, que já se iniciara, mas culminaria - uma vez vencido
o Anticristo e renovada a Igreja - em tempos de paz e de felicidade cole-
tiva. O programa joaquimita incitaria muitos a pensar que era necessá-
rio acelerar a plenitude dos novos tempos com uma participação ativa na
reforma da Igreja e na transformação da sociedade. No terreno civil, por
outro lado, uma cultura popular de sátira e degradação, expressa na lite-
ratura e na festa, colocava em dúvida a validade do ideal cavalheiresco,34
33 GUENÉE, Bernard. Les Grandes Chroniques de France. In: NORA, Pierre (Ed.).
Les Lieux de méinoire. Paris: Gallimard, 1997.1, p. 739-758; GRANDSEN, Antónia.
Historical writing in England. II: c. 1307 to the early sixteenth century. London:
Roudedge and Kegan Paul, 1982; BUMKE, Joachim. Courtly culture. Literature and
. society in the high middle ages. Berkeley: University of California Press, 1991;
RICO, Francisco. AlfonSo el Sabio y La General Estoria. Barcelona: Ariel, 1975; VO-
NES, Ludwig. Historiographie et politique: l'historiographie castillane aux abords
de XIV' siècle. In: GENET, ). P. (Ed. J. L'historiographie médiévale, p. 177-188; RU-
BIÓ, Jordi. História i historiografia. Montserrat: Abadia, 1987; ALLMAND, Chris-
topher. La guerra de los Cien afios. Barcelona: Crítica, 1990.
34 Existe uma amplíssima literatura sobre estas questões, da qual me limitarei a
lembrarMcGINN, Bernard. Visiôns of the end. Apocalyptic traditions in the mid-
dle ages. New York: Columbia University Press, 1970. p. 126-141; REEVES, Mar-
de maneira que os camponeses ingleses do século XIV, ou os alemães do
princípio do século XVI, deixaram de crer que a estrutura trinitária da
sociedade estamental fosse "um reflexo divino da divisão funcional do
trabalho na sociedade".35
Reflexão política e mudança nos modelos de explicação histórica
haveriam de estar forçosamente associados. Foi, entretanto, na Itália, país
em que coexistiam as monarquias e as cidades-estado republicanas, que
surgiria uma visão de mundo que se expressaria em inovações culturais
como o primeiro humanismo de Pádua, o pensamento político de Dante
- que "queria superar o presente com os olhos fixos no passado" - ou a
arte realista de Giotto - que "captou a autoconfiança e o caráter prático
dos que viviam do comércio, eStavam à frente da comune, e estendiam um
controle agressivo sobre o campo". Quando a crise do século XIV eviden-
ciou as limitações deste mundo, os humanistas florentinos potencializa-
jorie; HIRSCH-REICH, Beatrice. The figurae ofJoachim of Fiore. Oxford: Claren-
don Press, 1972; LAMBERT, Malcolm. Medieval heresy, Popular movements from
Bogumil to Hus. London: Edward Arnold, 1977. p. 101-102 e 186-197; WIL-
LIAMS, Ann (Ed.). Prophecy and millenarianism. Essays in honour of Marjorie
Reeves. London: Longman, 1980; GUADALAJARA, José. Las profecias del Anti-
cristo en la edad media. Madrid: Gredos, 1996; POU Y MARTÍ, P. J. Visionários,
beguinos y fraticelos catalanes (siglos XII-XV). Alicante: Instituto de Cultura Juan
Gil Albert, 1996, etc. Sobre a cultura popular alternativa, ver Bakhtin, Gurevich,
Spierenburg, etc.
35 Sobre a literatura dos dissidentes reliogiosos, BILLER, Peter; HUDSON, Anne
(Ed.). Heresy and literacy, 1000-1530. Cambridge: Cambridge University Press,
1994; FICHTENAU, Heinrich. Heretics and scholas in the high middle ages, 1000-
1200. University Park: Pennsylvania State University Press, 1998. Sobre 6 bogo-
milismo concretamente, IVANOV, Jordan. Livres et légendes bogomiles. Paris:
Maisonneuve et'Larose, 1976; a heresia dos cátaros é, hoje, objeto de divulgação.
Sobre as idéias dos camponeses ingleses dp século XIV: HILTON, Rodney. Bond
men made free. Medieval peasant movements and the English rising of 1381. Lon-
don: Temple Smith, 1973 e JUSTICE, Steven Writing and rebellion. England in
1381. Berkeley: University of California Press, 1996. A citação final é de BUL-
KING, Jurgen. The peasant War in the Habsburg Lands as a Social Systems-Con-
flict. In: SCRIBKfER, Bob; BENECKE, Gerhard (Ed.). The German peasant war of
1525. New viewpoints. London: Allen and Unwin, 1979. p. 160-173; citação lite-
ral da p. 163.
ram a reflexão crítica e reencontraram-se em sintonia com o tipo de vi-
são civil e política dos velhos historiadores da antiguidade clássica: o que
estava começando era, mais do que o rènascimento da cultura clássica, o
nascimento de uma nova sociedade.36
36 A caracterização da arte de Giotto é de MARTINES, Lauro. Power and imagination.
City-states in Renaissance Italy. New York: Knopf, 1979. p. 249-250. A avaliação do
pensamento político de Dante, de GRAMSCI, Antonio. Il Risorgimento. Torino: Ei-
naudi, 1949. p. 7.
Capítulo 3
RENASCIMENTO E
RENOVAÇÃO DA HISTÓRIA
Falar dé humanismo e de renascimento - ou de humanismo renas-
centista, como se faz freqüentemente, ligando e, de algum modo, identifi-
cando os dois conceitos - significa entrar num terreno confuso. Isto acon-
tece, já de início, pela necessidade de definir o que entendemos por estas
palavras, especialmente quando pretendemos aplicá-las tanto à filosofia,
como à arte, à ciência, à literatura etc.1 Em sentido mais amplo, pode-se
buscar a origem do renascimento tão distante quanto se queira - é comum
falar de "Renascimento carolíngio" - e ver o humanismo como contrapon-
to ao escolasticismo (como o enfrentamento entre retórica e dialética) ou
como um componente que já está presente no próprio escolasticismo, fa-
lando-se, então, de humanismo escolástico.2 Com conceitos vagos e sufi-
1 Não é este o lugar para fazer uma-história das interpretações sobre o humanismo e
o renascimento, que nos diria muito mais sobre os conceitos historiográficos dos
séculos XIX e XX do que sobre os dos séculos XV e XVI. Seria necessário começar, •
no século XVIII, com Herder, passar ao XIX com Michelét - que, segundo Lucien
Febvre, teria "criado o Renascimento" (FEBVRE, Lucien. Michelet et la Renaissance.
Paris: Flammarion, 1992. p. 36) - , seguir com Burckhardt, Dilthey, Cassirer, Paul
Oskar Kristeller, Chabod (Escritos sobre el Renacimiento. México: Fondo de Cultu-
ra Económica, 1990), Eugênio Garin (especialmente La revolución cultural dei Re-
nacimiento. Barcelona: Crítica, 1981), etc. O que está claro é que o conceito de Re-
nascimento nasceu paralelamente ao de idade média, e destinada a servir de inter-
valo que separa duas épocas.
2 < A primeira postura é, por exemplo, a de RUMMEL, Erika. The humanist-scholastic
debate in the Renaissance and Reformation. Cambridge, MA: Harvard University
cientemente amplos, é possível argumentar o que Se queira. Alguns vêem
o humanismo como um componente essencial das grandes mudanças po-
líticas e ideológicas do final da Idade Média e do começo da modernida-
de; outros, hostis à utopia republicana florentina - como de resto, a qual-
quer utopia - , pretendem ignorar qualquer conteúdo político e reduzi-lo
à retórica. O humanismo é ambas coisas; nele, retórica e política coexistem
inseparavelmente, ainda que seja em proporções diversas, de acordo com
o caso. No que se refere à história, concretamente, é necessário que dele
nos aproximemos pelos dois caminhos paralelos da filologia e da política.3
Na origem, aparece principalmente a filologia. O caso mais famoso
é o de Lorenzo Valia (1407-1457), humanista que se esforçou em recupe-
rar a elegância do latim da antiguidade (De elegantiis linguae latinae), que
comparava òs manuscritos gregos e latinos do Novo Testamento a fim de
depurar o texto da Vulgata (em Aânotationes in Novum testamentum, pu-
blicada por Erasmo), que realizou boas traduções de Heródoto e de Tucí-
dides para o latim e que escreveu uma história de Fernando I de Aragão
(Historiarum Ferdinandi Régis Aragoniaé), imitando os modelos antigos.
Deve sua fama, entretanto, ao fato de ter aplicado um método de investi-
gação histórico-filológica à análise de A falsa doação de Constantino (De
Press, 1995, embora aim muitos matizes; a segunda, a de SOUTHERN, R. W. Scho-
lastic humanism and the unification of Europe, I. Foundations (o único dos três vo-
lumes previstos que foi publicado até agora). Oxford: Blackwell, 1995, que consi-
dera o escolasticismo do século XII o precursor de um "humanismo científico", não
precisamente literário, que reapareceria "nos desdobramentos científicos dos sécu-
los dezenove e vinte" (p. 21), ou a do desafortunado livro de COLISH, Márcia L.
Medieval foundations of the Western intellectual tradition. New Haven: Yale Univer-
sity Press» 1997. Uma ampla coleção de estudos poderá ser encontrada em RABIL
• JR., Albert (Ed.). Renaissance Humanism. Foundations, forms and legacy. Philadel-
phia: University of Pennsylvania Press, 1988. 3 v. Sobre sua influência, GOOD-
- MAN, Anthony; MACKAY, Angus (Ed.). The impact of humanism on western Euro-
pe. London: Longman, 1990.
3 Uma boa introdução ao debate é encontrada no livro de GARIN, Eugénio. Umanis-
ti artisti scienzati. Roma: Riuniti, 1989. O medo "post-1989" da utopia leva Alber-
to Savinio a apresentar uma edição de La città del sole de Campanella (Milano:
' Adelphi, 1995) com estas palavras: "Como modelo de república a imitar'A cidade
do sol' é um modelo a não imitar" (p. 22).
falso credita etementita Constantini donatione,1440). Graças a ele, pôde de-
nunciar a falsidade da doação imaginária, com que o imperador Constan-
tinotransferira o poder temporal sobre a Itália e todas as províncias oci-
dentais do império ao papa Silvestre I. Valia, que estava a serviço de Afon-
so, o Magnânimo, então em luta contra Roma, fez uma crítica demolido-
ra da falsificação, utilizada pelos papas para fomentar pretensões de supe-
rioridade sobre os governantes civis do Ocidente. Em brilhante demons-
tração, escrita como uma acusação judicial, provou que o documento era
inaceitável do ponto de vista histórico, utilizou argumentos arqueológicos
e historiográficõs para evidenciar que ninguém havia se referido ao mes-
mo durante séculos e assinalou os anacronismos e as incoerências do tex-
to (fala de sátrapas reunidos com os senadores de Roma ou de Constanti-
nopla quando ainda não havia sido fundada), ao lado de inexplicáveis er-
ros de linguagem ("princeps sacerdotibus", ao invés de "princeps sacerdo-
tum"), etc. O texto de Valia não era propriamente de crítica histórica, mas
tinhá intenção política e religiosa, manifestada no argumento final, quan-
do afirma que, mesmo que a doação tivesse sido autêntica, se teria extin-
guido por direito, em razão dos crimes que desencadeara. Concluindo, ex-
pressava a esperança de que chegaria o dia em que o papa, ao invés de in-
citar os cristãos à guerra, levaria a paz ao mundo.4
Mais tarde, a crítica filológica foi aplicada principalmente na edição
de textos - quando, com a difusão da imprensa, se fez necessário compa-
rar os diversos manuscritos dos clássicos para estabelecer versões confiá-
veis - e nem sempre foi realizada com a competência de Valia ou dé Ânge-
4 DI NAPOLI, Giovanni; VALLA, Lorenzo. Fibsofia e religione nell'umanesimo italia-
no. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 1971; GARIN, Eugénio. Lorenzo Valla e
l'umanesimo. In: . Umanisti artisti scienzati. Roma: Riuniti, 1989. p. 75-89.
Os textos foram usados nas edições de VALLA, L. Scrittifilosofici e religiosi. Firenze:
Sansoni, 1953, a bilíngüe' da La falsa donazione di Costantino. Organizada por Olga
Pugliese. Milano: Rizzoli, 1994 (faço citações de III, 10; XII, 38-39; XIV, 43-44 e
XXIX, 94 e 99) e a Historiarum Ferdinandi, fac-símile, de Valença, Anubar, 1970,
com prólogo de Pedro López Elum. Foi "o descobrimento acidental das notas de
Lorenzo Valia sobre o Novo Testamento" que estimulou Erasmo a realizar sua qbra
filológica (LEVINE, Joseph M. The autonomy of history. Truth and method from
Erasmus to Gibbon. Chicago: University of Chicago Press, 1999. p. 27).
lo Poliziano (1454-1494). A maioria dos humanistas não tinha uma boa
preparação filológica, intervindo nos textos com interpretações pouco
fundamentadas.5 No que se refere à história — deixando de lado exceções
como a de Flávio Biondo (1392-1463) que, ao escrever um conjunto de
obras sobre a antiguidade romana (Roma instaurata, Roma trium-
phans,etc.), esclareceu os textos antigos com elementos extraídos de docu-
mentos, da topografia ou de achados arqueológicos - os métodos críticos
tardaram bastante a serem aplicados. Nela, dominava a retórica, encon-
trando-se casos tão espetaculares como o de Giovanni Nanni, conhecido
como Annio de Viterbo (1432-1502), que fingiu ter descoberto um con-
junto de obras históricas antigas perdidas, para fabricar uma narração
cheia de detalhes inventados da história dos povos europeus na antiguida-
de. As fabulações de Nanni constituem o primeiro capítulo de umá famí-
lia de obras do mesmo estilo, entre as quais é necessário incluir as fanta-
sias dos "Cronicones " espanhóis do século XVII, tomo Población eclesiásti-
ca de Espana de frei Gregório de Argaiz que, entre outras maravilhas,
transcrevia as cartas em que os judeus de Jerusalém consultavam os de To-
ledo sobre o que deviam fazer com Jesus Cristo, uma vez preso. Esta mes-
ma falta de sentido crítico explica a aceitação da cronologia estabelecida
pela patrística — um livro de texto universitário espanhol de meados de sé-
culo XIX defendia, ainda, que, da criação do mundo até então, haviam
transcorrido menos de seis mil anos - , a continuação do uso das pautas
proféticas da história cristã como instrumento para conhecer o futuro: na
Inglaterra do século XVII, os partidários da "quinta monarquia" continua-
vam analisando a visão de Daniel, enquanto Newton estudava as profecias
sobre o fim do mundo, escrevendo um tratado sobre La cronologia de los
5 WILAMOWITZ-MOELLENDORFF, U. von. Storia della filologia classica. Torino:
Einaudi, 1967; PFEIFFER, Rudolf. History of classical scholarship, 1300-1850. Ox-
ford: Clarendon Press, 1976; WEISS, R. The Renaissnace discovery of classical anti-
quity. Oxford: Bladcwell, 1973; EISENSTEIN, Elizabeth L. The printing press as an
agent of change. Cambridge: Cambridge University Press, 1980; DIONISOTTI, Car-
lo. Aldo Manuzio umanista e editore. Milano: II Polifilo, 1995; KENNEY, Edward
John. Testo e metodo. Roma: GEI, 1995. etc.
antiguos reinos corregida, no qual se podem encontrar racionalizações da
mitologia tão singulares como a que afirma que, no ano 1030 a. C., "Ceres,
uma mulher da Sicília, procurando a filha raptada, chega à Ática, onde en-
sina os gregos a semear trigo".6
Os avanços mais interessantes no campo da Jiistória não viriam
da vertente retórica do humanismo que buscava escrever relatos literá-
rios adequados estilisticamente aos modelos clássicos - um tratadista
tardio, como Luís Cabrera de Córdoba (1559-1623), mostrava-se preo-
cupado, sobretudo, com temas como "o bom som da oração" ou "a an-
tonomásia e epíteto" - , temperados com cenas de batalhas convencio-
nais e com discursos imaginários. "A exatidão dos fatos - disse Frances
A.Yates - , o uso das fontes documentais e a análise das conexões causais
entre os acontecimentos eram aspectos subsidiários ao objetivo central
de uma história verdadeira: explicar a ética por meio de exemplos." So-
mente em alguns casos isolados, como no de Paolo Giovio (1483-1552)
que se dedicava a temas contemporâneos e dava à história "um trata-
6 Sobre os cronicones espanhóis, ALCÂNTARA, José Godòy. Historia crítica delosfal-
sos cronicones. Madrid: Alatar, 1981 (a edição original é de 1868) e BAROJA, Julio
Caro. Las falsificaciones de la historia (en relación con la de Espana). Barcelona: Seix
Barral, 1992. Os textos comentados são de Frei Gregório de Argaiz, Población eclesiás-
tica de Espana. Madrid, 1667-1669.1, parte2. p. 91-95 e de Joaquim Federico de Rive-
ra (catedrático "proprietário" da história na Universidade de Valladolid), Curso Ele-
mental de historia. Valladolid: Aparício, 1849.1, p. XIII. A persistência da fé nas falsi-
ficações pode ser vista numa obra anônima, Lá crisis Ferrérica, Zaragoza, s.i., 1720,
que inicia com uma frase de Mabillon, mas defende a veracidade de todas as fábulas
tradicionais. Sobré Biondo, COCHRANE, Eric. Historiam and Historiography in the
Italian renaissance. Chicago: University of Chicago Press, 1981. p. 35-40. Sobre cro-
nologia, WILCOX, D. J. The measure of time past. Chicago: University of Chicago
Press, 1987; HALL, A. Rupert Isaac Newton adventurer in thought. Oxford: Blackwell,
1992. p. 339-348,372-374 (sobre sua estranha visão dé uma nova Jerusalém onde os
ressuscitados viveriam junto aos vivos), etc.; WHITE, Michael. Isaac Newton. The last
sorcerer. London: Fourth estate, 1997; NEWTON, Isaac. The chronology of ancient
Kingdoms amended. London: [s.n.], 1728 (edição fac-símile de Londres, Histories &
Misteries of Man, 1988), citação da p. 15, Ecrits sur la réligion. Paris: Gallimard, 1996.
p. 225-247 ("Fragments d'un traité sur l'Apocalypse") e 249-262 ("Du jour du juge-
ment et du monde à venir"); MIEGGE, Mario. Il sogno del re di Babilônia. Profezia.e
storia da Thomas Muntzer a Isaac Newton. Milano: Feltrinelli, 1995.
mento jornalístico", o conteúdo informativo seria mais importante do
que a retórica moralizante.7
Embora os modelos clássicos proporcionassem interpretações for-
muladas em termos humanos, não seria a influência literária a causa prin-
cipal que levou algunshistoriadores a evoluir em direção a uma história
de inspiração secular, mas as exigências da reflexão e das práticas políti-
cas. O renascimento dos estudos literários esteve associado às necessida-
des derivadas do incremento da autonomia das cidades, que exigia a for-
mação de representantes diplomáticos, juízes e funcionários, ao mesmo
tempo que buscava fundamento histórico nos velhos modelos da pólis
grega e da república romana. "Assim, a civilização humanística apresenta-
se como uma mediação entre a situação histórica atual e as formas polí-
tico-culturais da antigüidade."8
Seria principalmente em Florença, cidade rica e progressista, com
uma sociedade diversificada que ia da opulência dos banqueiros à inse-
gura condição dos proletários, que as novas idéias se desenvolverám,
num meio de advogados e de notários que uniam a dupla condição de le-
trados e de participantes ativos na vida pública. Esta vinculação à políti-
7 YATES, Frances A. The history. In: . Renaissance and reform: the Italian
contribution (Collected essays, II). London: Routledge and Kegän Paul, 1983. p. 89-
93 (citação da p. 89), a citação de Cabrera de Córdoba é da De historia, para enten-
deria y escribirla. Madrid: Instituto de Estudos Políticos, J948. p. 11 (o texto é de
1611). Sobre a historiografia humanística em geral, KELLEY, Donald R. Humanism
and history. In: RABIL JUNIOR, Albert. Renaissance humanism. Foundations,
forms, and legacy. Philadelphia: III, p. 236-270, etc. Um exemplo de história huma-
nística convencional, é o dás obras "hispânicas" de Lúcio Marineo Siculo, como De
Aragoniae regibus et eorum rebus (1509, tradução castelhana, Crónica de Aragón, em
1524). Sobre Giovio, COCHRANE, Eric. Historians and Historiography in the
Italian renaissance. Chicago: University of Chicago Press, 1981. p. 366-375 e FUE-
TER, Eduard. Storia delia storiografia moderna. Milano: Ricciardi, 1970. p. 65-71,
que é quem o qualifica de "jornalista".
8 FERRARIS, Maurizio. Storia dell'ermeneutica. Milano: Bompiani, 1988. p. 31;
GRANDSEN, Antonia. Historical writing in England, II. London: Routledge and
Kegan Paul, 1982. p. 469; HALE, John. La civilización del Renacimiento en Europa,
1450-1620. Barcelona: Crítica, 1993. p. 195; REYNOLDS, Beatrice. Shifting Cur-
rents in Historical Criticism. In: KRISTELLER, P. O.; WIENER, P. P. (Ed.). Renais-
sance Essays. New York: Harper and Row, 1968. p. 115-136.-
ca de homens como Bruni, Maquiavel ou Guicciardini os levou a focali-
zar o estudo da história à luz da própria experiência, "unindo a paixão
do presente à visão de um passado" que se esforçavam em, compreender
na sua realidade.9
Florença sofreria uma série de crises políticas entre 1402 e 1527, no
contexto geral dó "choque entre as liberdades das cidades-estado sobrevi-
ventes e a expansão do despotismo das grandes monarquias". Em 1434, os
Médici tinham conseguido controlar o governo, dirigindo-o durante ses-
senta anos sem abolir de fato as instituições republicanas, numa longa eta-
pa de prosperidade que facilitava a paz social. O regime desapareceu em
1494, ante a invasão francesa, estabelecendo-se, então, uma nova constitui-
ção republicana que outorgou maior participação política às camadas mé-
dias e populares. Os anos desta etapa, que duraria até 1512, foram tempos
dè comoções, que assistiram a pregação de Savonarola - que afirmava que
"era necessário instituir que a autoridade de distribuir ós cargos e as hon-
rarias residia em todo o povo", fazendo construir, para isso, a "sala dos qui-
nhentos" para o Grande Conselho do povo - e sua morte em praça públi-
ca, em meio a tensões sociais, agravadas pela crise econômica. De 1512 a
1526, houve um novo período de governo dos Médici e uma segunda fase
republicana entre 1527 e 1530.10,
Nesse cenário tão complexo e neste momento confuso, deu-se o sur-
gimento de uma consciência política que se expressaria em novas formas
9 HAY, Denis. Profilo storico dei Rinascimento italiano. Firenze: Sansoni, 1970; MAR-
TINES, Lauro. The social world of the Florenfine humanists, 1390-1460. Princeton:
Princeton University Press, 1963, e Power and imagination. City-states in renaissan-
ce Italy. New York: A. A. Knopf, 1979; GARIN, Eugênio. Los cancillerés humanistas
de la república florentina. In: . La revolución cultural del Renacimiento.
Barcelona: Crítica, 1981. p. 73-105.
10 GILBERT, Felix. Machiavelli e Guicciardini. Pensiero politico e storiografia a Firenze
nel Cinquecênto. Torino: Einaudi, 1970; KENTE, Dale. The rise of the Medici. Fac-
tion in Florence, 1426-1434. Oxford: Oxford University Press, 1978; HALE, J. R. Flo-
rence and the Medici. The Pattern of Control. London: Thames and Hudson, 1977;
COCHRANE, Eric. Florence in the Forgotten Centuries, 1527-1800. Chicago: Chica-
go University Press, 1973; TREXLER, Richard C. Public life in renaissance Florence.
Ithaca: Cornell University Press, 1991.
de escrever a história, já anunciadas por Leonardo Bruni (ca. 1370-1444)
que, em Laudatio Florentinae urbis, uniu ao panegírico habitual do meio
físico e da cultura o do regime político que fazia da cidade "uma suprema
e concordada república" e que, na Historia dei pueblo florentino, criou o
modelo, seguido mais tarde por Maquiavel, de uma identificação entre
Florença e a Roma republicana, como um método para elaborar um tipo
de história que pudesse servir dè base a uma reflexão geral sobre a socie-
dade, de acordo com o propósito de relacionar a filosofia e a política."
Nicolau Maquiavel (1469-1527) era filho de humanista e recebeu
uma excelente educação (entre os livros do pai, sabemos que figuravam as
Décadas de Tito Lívio). Os primeiros anos de atividade parece terem sido
dedicados ao mundo dos negócios; entrou, em 1498, no serviço político de
Florença e apesar de sua posição social - pertencia ao ramo empobrecido
de uma boa família - , não lhe permitir optar por cargos como o de embai-
xádor ou governador, aos quais pôde aceder o amigo Guicciardini, teve
responsabilidades importantes e realizou um trabalho diplomático de pri-
meira ordem. No terreno da política interna, apoiou a república contra a
aristocracia, de maneira que os Médici o destituíram do cargo que exercia
na chancelaria em 1512, o encarceraram e torturaram — ficariam disso, nos
dirá, "seis marcas de corda nas costas" - por ter sido denunciado falsamen-
te como participante de uma conspiração e o enviaram ao exílio. Foram os
anos de ócio político no campo - jogando cartas na taberna com "um
açougueiro, íim moleiro e dois padeiros" e lendo os clássicos à noite - que
11 BARON, Hans. The crisis of the early Italian renaissance. Civic humanism and repu-
blican liberty in an age of classicism and tyranny. 2nd ed. rev. Princeton: Princeton
University Press, 1966; In search of florentine civic humanism. Essays on the transi-
tion from medieval to modern thought. Princeton: Princeton University Press, 1988.
2 v. (Citações de I, p. 46 e p. 92). Uma avaliação atual da obra de Baron pode-se en-
contrar no "fórum" que lhe dedicou American historical review, p. 107-144, Feb.
1996 e uma de Baron e de Bruni ao mesmo tempo, em GARIN, Eugénio. Leonar-
do Bruni: política e cultura. In; . Umanisti artisti scienzati. Roma: Riuniti,
1989. p. 35-47. A Laudatio foi usada na tradução italiana, Panegírico delia città di
Firenze. Firenze: La Nuova Italia, 1974 (uma citação da p. 83). KOHL, Benjamin G.;
WITT, Ronald G. The earthly republic. Italian humanist on government and society.
Manchester: Manchester University Press, 1978; BRUCKER, Gene. The civic world
of early renaissance Florence. Princeton: Princeton University Press, 1977.
lhe permitiram levar a cabo a obra de literato e de teórico da política. Re-
cuperou, mais tarde, o beneplácito dos Médici e o cardeal Júlio o protegeu
e o chamou a Roma em 1524, quando se tornou papa sob o nome de Cle-
mente VII. A restauração da república em Florença, em maio de 1527, des-
pertou nele a esperança de que voltassem a chamá-lopara o antigo posto
na chancelaria - nunca abdicou das idéias republicanas - mas, em Floren-
ça, não confiavam nele, de maneira que um Maquiavel amargurado e
doente morreria pouco depois, magoado pela desconsideração. Suas obras
seriam logo após condenadas pela Igreja, incluindo as Istorie fioréntine,
que haviam sido escritas por solicitação do papa Clemente VII e publica-
das com autorização do pontífice (depois de algumas tentativas de subme-
tê-las a correções, a Inquisição decidiu que era o próprio autor quem de-
veria ser condenado).12
Maquiavel é famoso, e difamado, por sua reflexão política em O
príncipe, pequeno texto escrito em 1513: um tratado destinado aos Médi-
ci, na expectativa de obter deles algum trabalho para sair da pobreza, apre-
sentado como uma demonstração de que "os quinze anos que dediquei ao
estudo da arte não os passei nem dormindo nem brincando". Publicado
em 1532, cinco anos depois de sua morte - o único texto político de Ma-
12 A bibliografia sobre Maquiavel é imensá e aumenta a cada dia. No que se refere à bio-
grafia, foi usado sobretudo a de RIDOLFI, Roberto. Vila de Niccold Machiavelli. 7. ed.
amp. Firenze: Sansoni, 1978. Utilizou-se, ainda, CHABOD, Federico. Scritti su Ma-
chiavelli. Torino: Einaudi, 1964; O livro tradicional, já citado, de Felix Gilbert, Ma-
chiavelli e Guicciardini. MACEK, Josef. Machiavelli e il machiavellismo. Firenze: La
- Nuova Italia, 1980; DIONISIOTTI, Carlo. Machiavellerie. Torino: Einaudi, 1980;
SASSO, Genaro. Niccold Machiavelli. Bologna: II Mulino, 1980; GRAZIA, Sebastian
di. Machiavelli in hell. Princeton: Princeton University Press, 1989; YATES, Frances A.
Not a machiavellian. In: . Renaissance and reform: the italian contribution.
London: Routledge and Kegan Paul, 1983. p. 94-100; STEPHENS, J. N.; BUTTERS,
H. C. New light on Machiavelli. English Historical Review, XCVII, n. 382, p. 54-69,
1982, etc. O verso sobre as marcas de corda nas costas é do poema "A Giuliano di Ló-_
renzo de Medici", em II teatro e tutti gli scritti letterari. Ed. De Franco Gaeta. Milano:
Feltrinelli, 1965. p. 362. Cito também a famosa carta de Maquiavel a Fancesco Vetto-
ride 10 de dezembro de 1513 em que desCreve a vida que leva em seu retiro, enquan-
to escreve O príncipe (em Cartas privadas de Nicolàs Maquiavel. Tradução e notas de '
L. A. Arocena. Buenos Aires: Eudeba, 1979. p. 114-120).
quiavel impresso em vida seria a Arte de la guerra - , foi condenado pelo ín-
dice de livros proibidos a partir de 1557. O Príncipe é uma mostra de rea-
lismo político - "sendo minha intenção escrever alguma coisa útil a quem
a lesse, pareceu-me conveniente ir à verdade efetiva da coisa, em vez de à
sua imaginação" - que se nutre da experiência política e se apresenta como
um tratado de conduta política para um "príncipe novo" nas condições pe-
culiares da Itália daquele momento. Todos os estados, diz inicialmente, são
ou repúblicas, ou principados. Neste livro, trata somente dos principados
- que é o que podia interessar aos Medici de volta ao poder - , porque, das
repúblicas, havia tratado em outro lugar - nos Discorsi, aos quais faremos
referência logo a seguir. O texto é de um pragmatismo surpreendente, que
transforma em princípios gerais a soma das observações vividas e das lei-
turas dos clássicos. Os princípios destinam-se a explicar o funcionamento
interno dos estados: em toda cidade, diz, existem os grandes e o povo, "o
povo deseja não ser mandado nem oprimido pelos grandes, enquanto os
grandes desejam mandar e oprimir o povo, e dos dois desejos diversos nas-
ce, na ciclade, um de três efeitos: ou principado, ou liberdade ou permissi-
vidade". A forma como o príncipe se conduz para se manter no poder é
analisada com realismo, destacando, por exemplo, que um príncipe não
pode ser sempre bom "em meio a tantos que não são bons", sendo conve-
niente que seja temido, sem que isso signifique que deva ser necessaria-
mente odiado.13
Mais importante que O príncipe, mas muito menos conhecido, é o
outro tratado político de Maquiavel: òs Discursos sobre a primeira década
de Tito Lívio (Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio), onde se dedica às
repúblicas e à "dolcezza dei vivere libero"*. Uma obra, publicada também
depois da morte, que não é um mero exercício de interpretação de Tito Lí-
vio mas que, como todas as outras, mistura "o conhecimento das coisas
antigas e das modernas"— as leituras dos velhos autores com as observa-
ções - a fim de interpretar e explicar o mundo real numa época de crise
* "Doçura de viver livre"
13 Ütílizei II Príncipe na edição de Giorgio Inglese (Torino: Einaudi, 1995). Os textos
citados procedem respectivamente dos capítulos 15,1,9 e 17.
em que o que se estava propondo aos cidadãos era a opção entre o gover-
no democrático e o absolutismo monárquico, naquele momento em as-
censão na Europa. Os Discorsi, que tornaram Maquiavel o mais importan-
te teórico renascentista do republicanismo, influenciaram o pensamento
democrático europeu dos séculos seguintes, dos revolucionários ingleses
do século XVII a Montesquieu.14
Nos Discorsi, a lição dos fatos da antiguidade grega ou romana (a
história entendida como fonte de conhecimento através da acumulação
das experiências do passado) articula-se aos comentários sobre a política
italiana ou francesa da época para extrair conseqüências gerais, de alcance
universal. Quando escreve "é simples entender de onde nasce nos povos
este desejo de viver livre: porque se vê por experiência que as cidades não
aumentaram nunca de domínio nem de riqueza, senão enquanto perma-
neceram em liberdade (...), porque não é o bem particular, mas o comum
que torna as cidades grandes e, sem dúvida alguma, o bem comum não
pode ser melhor observado do que nas repúblicas", fica evidente que está
pensando no presente. Maquiavel associa história e política, não ao estilo
dos humanistas retóricos, mas de maneira pragmática, utilizando a histó-
ria para explicar o presente e renunciando deliberadamente adornar seus
escritos com "cláusulas longas ou palavras empoladas".15
A reflexão política encontra-se também associada à obra propria-
mente histórica, as Istorie fiorentitte, que explicam a evolução da cidade até
1492. No início do livro, afirma não querer seguir o modelo dos anteces-
sores, que tinham se dedicado principalmente às guerras dos florentinos
14 Os Discorsi utilizados são da excelente edição de Corrado Vivanti, com um bom es-
tudo preliminar è extensas notas. (MACHIAVELLI, N. Discorsi sopra la prima deca
, de Tito Livio. Torino: Einaudi, 1980). Sobre o republicanismo de Maquiavel, BOCK,
Gisela; SKINNER, Quentin; VIROLI, Maurizio (Ed.). MacHiavelli and republica-
nism. Cambridge: Cambridge University Press, Í990; BARON, Hans. Machiavelli
the republican citizen and author of "The Prince". In: . In Search of Floren-
tine civic humanism. Princéton: Princeton University Press, 1988. II, p. 101-151;
POCOCK, J. G. A. The machiavellian moment. Florentine political thought and the
' atlantic republican tradition. Princeton: Princeton University Press, 1975, etc.
15 O texto citado é de Discorsi, II, 2. Há também citações de O príncipe, dedicatória, e
das Istorie fiorentine, II, 34.
contra príncipes e povos estrangeiros, sem falar nada sobre as discórdias
internas da cidade e de suas conseqüências, porque "se alguma lição é útil
aos cidadãos que governam as repúblicas é a que mostra a causa dos ódios
e das divisões da cidade". O segundo livro explica o confronto entre a aris-
tocracia e o povo (dividido por sua vez em três classes: poderoso, medío-
cre e baixo) que levou a nobreza à ruína e o terceiro, a luta que se realizou
entre o povo e a plebe. O realismo o leva a afirmar que as leis não são fei-
tas para a utilidade pública, mas para a privada "não segundo o viver livre,
mas segundo a ambição daquela parte que triunfou", donde conçlui que as
divisões políticas se perpetuam. A lucidez com que entende a formação da
consciência socialdos grupos e os motivos das atuações coletivas chega a
um momento culminante no discurso em que faz que um dos plebeus re-
beldes - "um dos mais valentes e de maior experiência" - explique sua vi-
são da sociedade, na qual "somente a pobreza e a riqueza nos fazem desi-
guais" e que a riqueza é obtida com violência ou falsidade: "Deus e a natu-
reza puseram todas as riquezas ao alcance dos homens, as quais são obti-
_das mais com a rapina do que com o trabalho, mais com as más do que
com as boas artes: por isso os homens se comem uns aos outros e sempre
cabe a pior parte a quem menos pode".16
Francisco Guicciardini (1483-1540), de boa família e amigo pessoal
de Maquiavel, era um advogado de sucesso antes de se incorporar à políti-
ca em 1511 e de ser designado embaixador na corte de Fernando, o Cató-
lico, em 1522. Encontrava-se na Espanha quando os Médici voltaram ao
poder, decidindo apoiar o novo regime, mais próximo das suas convicções
do que o republicano, o que lhe permitiu prosseguir a brilhante carreira
em tempos confusos, quando a Itália era cenário de lutas entre espanhóis
16 Utilizou-se a edição de Istorie fiorentine de Franco Gaeta. Milano: Feltrinelli, 1962
(citações de proêmio; II, 42; III, 5 e 13). Sobre o livro, veja-se BOCK, Gisela.Civil
discord in Machiavelli's Istorie Fiorentine. In: BOCK, Gisela; SKINNER, Quentin;
VIROU, Maurizio (Ed.). Machiavelli and republicanism. Cambridge: Cambridge
University Press, 1990. p. 181 -201 e a cuidadosa análise dos materiais com que Ma-
quiavel compôs o segundo livro e da forma com que os selecionou e combinou,
realizada por Anna Maria Cabrini em Per uma valutazione delle "Istorie fiorentine"
dei Machiavelli. Note sullefonti dei Secando libro. Firenze: La Nuova Italia, 1985.
e franceses e quando era necessário levar a cabo uma complicada gestão de
alianças com uns e outros, para conservar a independência: "Todos vaga-
mos nas trevas e com as mãos atadas às costas para não poder aparar os
golpes" escreve Guicciardini a Maquiavel em agosto de 1525. Ao restabele-
cer-se a república em Florença, em 1527, ericontrou-se em situação difícil,
já que devia defender-se da acusação de ser "ladrão do dinheiro público,
saqueador de nossa terra, homem de vida privada odiosa, desejoso do re-
torito dos Médici, amante da tirania (...), inimigo da liberdade comum".
Foram os momentos de exílio, posteriores a essa situação que o levaram a
escrever história como uma forma de explicação da complexa política que
lhe coubera viver.17 "
Guicciardini e Maquiavel eram amigos íntimos, como se pode ob-
servar na correspondênqia pessoal, cheia de humor e cordialidade. Tinham
diferenças políticas, pois Guicciardini era contrário a qualquer forma de
democracia republicana - as alusões ao "povo" na História da Itália estão
sempre cheias de desconfiança - , mas era natural que as diferenças perma-
necessem minimizadas numa época em que a Itália estava "oprimida pelâs
armas dos ultramontanos que, combatendo entre eles (...) desafogavam
sobre seu corpo os apetites desmedidos". A diversidade das formulações e
dos talentos apareceria na escritura da história. E não o digo tanto pelas
Considerações sobre os Discursos de Maquiavel, em que as críticas de Guic-
ciardini são de pouca importância, mas pela forma como estruturou sua
obra mais ambiciosa, a História da Itália, em que explicava os aconteci-
mentos do ano de 1492 a 1534 (continuava; de alguma maneira, as inaca-
badas Storie fiorentine, escritas por ele mesmo em 1509).
Guicciardini dedicou-se, no livro, ao conjunto da Itália, situando-a,
inclusive, no contexto europeu, já que necessitava explicar as atuações dos
soberanos de outras potências que nela interviram. Realizou uma crônica
exata dos acontecimentos políticos e militares, analisando os atos e as mo-
tivações dos dirigentes com um realismo extraordinário, mostrando que o
medo e a cobiça eram motivações dominantes de seus atos, ou acrescen-
17 GILBERT, Felix. Machiavelli e Guicciardini. Pensiero politico e storiografia a Firenze
nel Cinquecento. Torino: Einaudi, 1970. Os textos de Guicciardini são da edição das
Opere. Milano: Ricciardi, 1953 (uma citação de "Accúsatoria", p. 61-62).
tando observações tão sensatas como: "Os homens não são todos sábios,
realmente são muito poucos os sábios e aquele que quiser fazer prognósti-
cos sobre as deliberações dos outros deve, se não quiser enganar-se, levar
em conta não tanto o que faria verdadeiramente um sábio e, sim, como são
o cérebro e a natureza daquele que há de deliberar". O realismo crítico de
Guicciardini manteve-se até o final da obra: a última informação referida,
a eleição do papa Paulo III, é acompanhada do seguinte comentário: "E de-
cidiram oS cardeais elegê-lo mais pelo fato de que, estando já com sessen-
ta e sete anos de idade e com fama de compleição'débil e de pouca saúde
(oipinião estimulada por ele com alguma sutileza), esperavam que o pon-
tificado seria breve".
Diferentemente de Maquiavel, porém, não abordava as causas das
convulsões sociais (o "povo" era um fator .de incerteza em sua análise),
nem queria deduzir princípios gerais da política, já que a experiência lhe
haviá ensinado até que ponto o acaso e o destino podiam decidir os acon-
tecimentos - "considere cada um dos numerosos pequenos acidentes de
que dependem as coisas de grande importâncià nas guerras"-, denuncian-
do que se tendia a "atribuir sempre à opinião o que geralmente era obra do
destino". Chabod nos diz que, em Guicciardini, "não há nunca rastros de
literatura ou de abstrações doutrinárias", mas que ele se baseia na expe-
riência, fugindo do recurso aos exemplos antigos, o que o situa em plena
modernidade, e fora do humanismo:18
A História da Itália era um livro ambicioso, uma crônica política de
amplitude sem precedentes, que logo se converteria num modelo imitado
18 A História de Itália utilizada é a da edição de Milano: Garzanti, 1988 (os textos ci-
tados diretamente procedem de VII, 10; XIV, 5; XIV, 9 e XX, 7, com uma modifica-
ção neste último caso); mas também utilizou-se uma velha edição de Veneza, Pasi-
' ni, 1623, que, apesar de ter o inconveniente de não apresentar a divisão em capítu-
los, contém as notas à margem que faltam na moderna. O texto citado sobre a si-
tuação da Itália é da "Vida" que figura na introdução da edição veneziana, p. 6.
CHABOD, F. Francesco Guicciardini. In: Escritos sobre el renacimiento. México:
Fondo de Cultura Económica, 1990. p. 193-304; PHILIPS, Mark. Francesco Guic-
ciardini: The historian's Craft. Manchester: Manchester University Press, 1977. As
opiniões de Guicciardini hostis à democracia republicana podem ser vistas em "Ri-
cordi" 65,109 e 140 (na edição das Opere citada, p. 111,119 e 126).
pelos historiadores "nacionais" das monarquias do ocidente europeu. No
velho debate humanístico sobre a importância relativa do "destino" e da
"virtude" que, em Maquiavel, seria resolvido, claro, a favor da "virtude",
Guicciardini o resolveria a favor do "destino". Não se tratava, entretanto, de
uma opção filosófica, mas de uma conseqüência direta de sua experiência
de governante, que o levava a dar atenção, talvez excessiva, ao detalhe e à
contingência, mas, ao mesmo tempo, lhe dava uma grande perspicácia
para interpretar as ações concretas dos homens.
O livro provocou entusiasmo na época. De 1568 a 1599, foi traduzi-
do, para francês, alemão, inglês, espanhol e holandês. Montaigne elogiava
a veracidade e a exatidão, embora criticasse a tendência em buscar causas
mesquinhas ou interessadas em todas as ações, enquanto Bodin o admira-
va. A avaliação mudou com Ranke que, por desprezar a visão realista do
mundo, o desacreditou injustamente, mas voltou a se modificar no século
XX, quando a confiança em suas fontes e em seu método foi restabelecida.
Gilbert considera a História da Itália como "a primeira grande obra da his-
toriografia moderna" e Fueter elogia a "aversão às regras teóricas", compa-
ra-a favoravelmentecom Maquiavel, considerando a obra um modelo do
ofício de historiador.19
A velha história humanística de vocação jetórica foi fossilizando-se e
se convertendo num conjunto de fórmulas: os tratadistas italianos da "ars
histórica" acabaram, em fins do século XVI, numa mera preocupação esti-
lística. A tentativa de aplicar os métodos a uma narração histórica "sagrada"
conduziu a uma situação contraditória: Paulo Sarpi (1562-1623), um servi-
ta veneziano de cultura humanística e de profunda religiosidade - homem
que mantinha correspondência com Galileu, que, por sua vez, afirmava não
haver ninguém na Europa com mais conhecimento de matemática que Sar-
pi e que queria São Carlos Borromeo como diretor espiritual - , enfrentan-
do politicamente Roma, como veneziano que era (uma tentativa de apunha-
19 COCHRANE, Eric. Historians and historiography in the Italian renaissance. Chicago:
University of Chicago Press, 1981. p. 295-305; Montaigne, Essais, II, 10; GILBERT, Fe-
lix. Machiavelli e Guicciardini. Pensiero politico e storiografia a Firenze riel Cinque-
cento. Torino: Einaudi, 1970. p. 255; FUETER, Eduard. Storia della storiografia mo-
derna. Milano: Ricciardi, 1970. D. 98.
lá-lo na rua, em 1607, seria atribuída a esta causa), escreveu uma grande his-
tória do Concílio de Trento. O livro, considerado de uma ambição e impor-
tância comparáveis à História da Itália de Guicciardini, inspirou-se em ati-
tudes reformistas moderadas, tendo sido publicado em 1619, em Londres,
como obra de Pietro Soave Polano, talvez sem seu consentimento, com o
provocante título de História do Concílio tridentino na qual se revelam todos
os artifícios da corte de Roma para impedir que (...) se tratasse da reforma do
papado e da Igreja, com uma introdução de Antônio de Dominis, arcebispo
de Spalato, que se convertera aò anglicanismo. Sarpi eliminaria o prólogo
numa nova edição "revisada e corrigida", publicada em Genebra, em 1629,
porém, isso não impediu que o livro fosse condenado no índice.20
Enquanto isso, a influência de Guicciardini era registrada nas histo-
riografias nacionais dos países absolutistas. Na França, influenciaria a es-
cola denominada "história perfeita", Com Pasquier e La Popelinière. Etien-
ne Pasquier (1529-1615) escreveu as (Recherches de la France) Pesquisas da
França, uma grande obra em dez volumes, publicada entre 1560 e 1621,
que pretendia ser uma "biografia" da nação francesa que dizia ter nascido
com os gauleses, esquecendo a velha fábula das origens troianas. Escreveu
em francês para falar da França, distinguindo-se abertamente dos huma-
nistas que se dedicavam sempre à Grécia e à Roma, sendo consideravel-
mente inovador no uso dos textos e dos documentos, citados literalmente.
Quanto a La Popelinière (1541-1608), autor de História da França, onde
analisava as guerras de religião, o próprio trabalho o havia convencido da
inutilidade dos livros de história que consultava. Isto o levou a afirmar que
"saber a história não Consiste em recordar os fatos e os acontecimentos hu-
manos", sendo necessário, principalmente, "conhecer os motivos e os ver-
dacjeiros momentos destes fatos e acidentes". Anos depois, desenvolveria
estas idéias em A história das histórias, com a idéia da história realizada
20 COTRONEO, Girolamo. ítrattatisti dell"'Ars histórica". Nápoles: Giannini, 1971.
Sobre Sarpi e o livro, YATES, Florence A. Paolo Sarpi's History of the Council of
Trent e A new edition of Paolo Sarpi. In: YATES, Frances A. Renaissance and reform:
the Italian contribution. London: Routledge and Kegan Paul, 1983. p. 189-222. So-
bre o contexto político, CHABOD, Federico. A política de Paolo Sarpi. In: Escritos
sobre el renacimiento. México: Fondo de Cultura Económica, 1990. p. 409-519.
(1599), onde, ao mesmo tempo, criticava Bodin por haver desejado fazer,
da história, uma arte geral de conhecimento.21
O mais influente dos teóricos franceses da história na época seria Jean
Bodin (1530-1596), que escreveu uma ambiciosa reflexão teórica sobre a in-
terpretação da história, Methodus ad facilem historiarurrf cognitionem
(1566), que não é propriamente uma "ars histórica", já que não se interessa
pela forma de escrevê-la, mas essencialmente pela utilização dela como fer-
ramenta de uma visão global da política - não para o conhecimento dó pas-
sado, mas para a compreensão do presente - que o conduziria à obra funda-
mental, Os seis livros da República (1576), onde propõe uma arte da política
baseada na filosofia da história. Bodin dividia o que chamava de história em
três campos: a "natural", que estuda as causas que operam na natureza; "a sa-
grada", que se ocupa das manifestações'divinas e, finalmente, "a história hu-
mana", que "expõe as gestas do homem através das sociedades". No campo
da história humana, a contribuição mais original de Bodin é seguramente a
"teoria dos climas", que o leva a usar o conhecimento geográfico científico -
baseado no sistema de medidas astronômicas de Ptolomeu - como critério
de aferição do discurso dos historiadores, já que, se a localização determina
a "natureza dos povos", poderemos extrair deste conhecimento a regra para
julgar se o que os historiadores disseram corresponde ou não à "natureza"
do povo de que falam. Para entender Bodin, é necessário levar em conta, en-
tretanto, a complexa fusão, em seu pensamento, de elementos de astrologia
e numerologia, a obsessão por demônios e bruxas - o Démonomanie des sor-
ciers (1580), um livro infame que deu motivos a novas perseguições, teve
quinze edições em vinte e cinco anos, traduzido para latim, o alemão e o ita-
liano - sem esquecer tampouco o "mistério" que suscitou a idéia de uma
possível conversão oculta ao judaísmo.22
21 HUPPERT, George. L'idée de l'histoire parfaite. Paris: Flammarion, 1973; BOU-
TEILLER, P. Un historien du XVI siècle: Etienne Pasquier. Bibliothèque d'Humanis-
me et Renaissance, VI, p. 357-392, 1945; VIVANTI, Corado. Les Recherches de la
France d'Etienne Pasquier. L'invention des Gaulois. In: NORA, Pierre. Les lieux de
mémoire. Paris: Gallimard, 1997.1, p. 759-786.
22 COUZINET, Marie Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance.Une lecture de
la Methodus de Jean Bodin. Paris: Vrin, 1996; COTRONEO, Girolamo. Jean Bodin
A promissora corrente da "história perfeita", que havia nascido, tan-
to na França como na Itália, da necessidade de enfrentar uma época de
conflito e descrença, não sobreviveu ao fechamento ideológico do século
XVII. Seus continuadores foram comparados aos "libertinos" dando-se
apoio oficial ao irracionalismo teológico, que culminaria no Discurso sobre
la historia universal (1681) de Bossuet, em que tudo depende da vontade
divina, não havendo lugar nem para a causalidade humana, nem para o
acaso. Com isso, toda a possibilidade de história permanecia negada (ou
relegada a formas de narração romanceadas, como as que proporcionaram
grande sucesso a César de Saint-Réal).
,Na Castela dos séculos XVI e XVII, encontramos uma série de
cronistas "oficiais" como Ocampo (ca. 1495-1558), Morales (1513-"
1591), Sandoval (1553-1020), Garibay (1533-1599) ou Herrera (1549-
1625), maisjcitados que lidos na época. Por sua vez, nos reinos da coroa
de Aragão, a recordação da própria história tem uma função de defesa
foral, como no caso de Jerônimo de Zurita (1512-1580), uma das figu-
ras mais importantes da historiografia hispânica do tempo, ou reflete a
preocupação em conservar a personalidade própria no interior de uma
monarquia absorvente, como no caso de Jeroni Pujades (1568-1635),
autor de Crónica universal dei Principado de Cataluna. O surgimento da
Historia de Espana (em latim, em 1592 e em castelhano, em 1601) do je-
suíta Juan de Mariana (ca. 1535-1624) mudaria o panorama: o livro, de
ínfimo valor científico, estava destinado a ser obra de referência para os
leitores espanhóis durante muito tempo (seria reeditado até meados do
século XIX), o que serve para mostrar a escassa importância da histo-
riografia castelhanados séculos XVI e XVII, dominada pelos cronicones
e por trabalhos literários pretenciosos como a Corona gótica de Saave-
dra Fajardo (1584-1648) qüe, apesar das inúmeras e longas citações de
teórica Mia storia. Napoli: Edizione Scientifiche Italiane, 1966; YATES, Florence A.
The mistery of Jean Bodin. In: . Ideas and ideals in the north European renais-
sance. London: Routledge and Kegan Paul, 1984. p. 139-152; CROMBIË, A. C. Styles
of scientific thinking in the European tradition. London: Duckworth, 1994. Ill, p.
1566-1572. Sobre sua responsabilidade na caça às bruxas, BECHTEL, Guy. La sor-
cière et l'occident. Paris: PIon, 1997. p. 330-340.
fontes latinas, não passa de um texto de imaginação, com pérolas como
o relato da batalha de Guadalete, incluindo os discursos prévios de Ro-
drigo e de "Tarif" que, montado "em um cavalo berberesco, (...) levan-
tando o braço nu, empunhando a espada, brandiu-a de um a outro
lado" enquanto incitava os soldados.23 -
23 O estudo de conjunto mais documentado da historiografia castelhana da época de
ADÁN, losé Cepeda. A historiografia barroca. In: PIDAL, Menéndez R. (Ed.). His-
toria de Espana, XXVI, "O século de Quixote (1580.1680)", I, p. 525-643, muito su-
perior ao velho livro de ALONSO, B. Sánchez. Historia de la historiografia espano-
la. Madrid: C. S. I. C., 1947-1950. 3 v.; KAGAN, R. L. Clio and the crown: writing
history in Habsburg Spain. In: KAGAN, Richard L.; PARKER, Geofirey (Ed.).
Spain, Europe and the Atlantic world. Essays in honour ofjohn H. Elliott. Cambrid-
ge: C.U.P., 1995. p. 73-99; MARCOS, Fernando Sánchez. A historiografia sobre a
idade moderna. In: GALLEGO, José Andrés (Ed.). Historia de la historiografia espa-
riola. Madrid: Edições Encontro, 1999. p. 117-182. Os "cronistas" citados foram ob-
jeto de poucas edições na época, coisa que contrasta com as muitas que teve um li-
vro, geralmente ignorado pelos especialistas, como Historia pontifical y cathólica de
Gonzalo de Illescas, continuada, posteriormente, pór Luis de Bavia, Fr. Marcos de
Guadalajára e Juan Banos (seis volumes, entre 1565 e 1678), uma autêntica histó-
ria universal que, em algum de seus volumes, chegou a mais , de dez edições. Para
uma avaliação "nacional-franquista" de Mariana, Manuel Ballesteros-Gaibrois, es-
tudo preliminar em Juan de Mariana, cantor de Espana. Barcelona: Fe, 1941. Utili-
zo Corona gótica de Saavedra Fajardo na edição de Madri, Andrés Gatáa da Igreja,
1670 (o relato da batalha citado está em p. 466-471), onde se indica que o segundo
volume é obra de Alonso Núnes de Castro, "composta de alguns originais legados
por D. Diego de Saavedra Faxardo". Entretanto, havia produtos literários mais sim-
ples e mais simpáticos, como El rey don Pedro defendido, de Juan Antonio de Vera e
Figueroa (Madrid: Francisco Garcia, 1648), em que um relato sobre possíveis en-
cantamentos são resolvidos com um "mas nenhum dos que conta crê e eu, menos
ainda" (f- 15v). O centenário de Felipe II deu lugar a reedições das obras históricas
de Luis Cabrera de Córdoba: Relación de las cosas sucedidas en la corte de Espana
desde 1599 hasta 1614, estudo preliminar de R. Garcia Cárcel, Valladolid, junta de
Castilla e León, 1997, e Historia de Felipe II, rey de Espana, ed. De J. Martinez Mil-
lán.e C. J. de Carlos Morales, Valladolid, junta de Castilla,e Leon, 1998, 3 v. Pára
uma visão de conjunto da historiografia da coroa de Aragón, ALCOBERRO, Agus-
ti. A historiografia da Coroa de Aragón no reinado de Felipe II. In: Las sociedades
ibéricas y el mar a finales dei siglo XVI. Madrid: Comissária Geral da Espanha na
Expo dè Lisboa '98, 1998. III, p. 7-28; sobre os cronistas Aragoneses, VINAZA,
Conde da. Los cronistas dg Aragón. Zaragoza: Cortes de Aragón, 1986 (reprodução
da edição de 1904) e PEIRÓ, Antonio. Ignacio de Asso y La Historia de la economia
política de Aragón. Zaragoza: Instituição Fernando,o Católico, 1998. p. 13-23.
Todavia, ao lado das histórias gerais, com todos os defeitos retóricos
da corrente humanística, e de uma historiografia de acontecimentos par-
ticulares (sobre a guerra das Comunidades, a expulsão dos mouros, etc.),
ocorreu, em Castela, a eclosão da historiografia indiana, que transmitia, a
um mundo comovido pelos "descobrimentos", os feitos dos conquistado-
res e as maravilhas das novas terras. Às Décadas de Orbe novo, de Pedro
Mártir de Anglería (1459-1526), obra de primeira hora, feita a partir dos
relatos dos protagonistas, logo se acrescentou Historia general y natural de
las índias, de Gonzalo Fernández de Oviedo (1479-1557), que valorizava a
observação pessoal - "tudo isto deponho e afirmo como testemunha ocu-
lar" - acima da tradição escrita; a Historia general de los hechos de los Cas-
tellanos en las islãs y tierra firme dei mar océano, de Antônio de Herrera
(1549-1625), nomeado cronista oficial das índias, etc. Muito mais interes-
santes seriam, ainda, os testemunhos pessoais do descobrimento e da con-
quista, começando pelas Cartas de relación de Hernán Cortês e continuan-
do com as narrações de Bernal Diaz, Cabeza de Vaca, Cieza de León, etc.
Sem esquecer a novidade que representava a contribuição dos próprios in-
dígenas, como Felipe Guamán Poma de Ayala ou Hernando de Alvarado
Tezôzomoc. Os livros falavam de uma forma viva e direta de terras desco-
nhecidas, onde havia animais e plantas ignorados pelos antigos e onde vi-
viam pessoas com línguas, costumes e culturas diferentes. Em certos luga-
res, foram encontradas grandes civilizações, com cidades mais povoadas
que Roma ou Constantinopla, com pessoas que tinham memória da pró-
pria história. O interesse pela evangelização levou a um estudo da própria
cultura que se queria destruir, o que transformou os missionários em pre-
cursores da antropologia moderna. Tudo isso abriu um mundo novo de
conhecimento e de debate, para o qual os antecedentes greco-romanos não
serviam, obrigando à proposição de reflexões inovadoras em diversos ter-
renos. Assim, se o padre Las Casas (ca.1474-1566) denunciava a destruição
das índias, frei Tomás de Mercado (ca. 1530-1576) fazia o mesmo com os
horrores da escravidão negra, ao mesmo tempo que o estudo dos "tratos e
contratos" e da "revolução dos preços", provocada pela afluência do ouro
americano, o levava a refletir sobre o dinheiro, como faria também o pa-
dre Azpilcueta (1493-1586) em estudo sobre as trocas. No entanto, tam-
pouco as novas correntes do estudo da história sobreviveram ao século
XVII, deixando rastro somente na reflexão política dos arbitristas.24
O que se salvou, principalmente, da herança do Renascimento, foi o
conjunto dos métodos de crítica filológica e o trabalho arqueológico. Numa
época de disputas religiosas, a erudição crítica dos reformistas obrigou a
Igreja católica a depurar seus textos da carga de mitos que tinha sido agre-
gada aos mesmos, sendo que isso estimulou uma atividade como a dos bo-
landistas, os jesuítas que estabeleceram as atas dos santos, a fim de reivindi-
car o núcleo de veracidade histórica que havia sob o conjunto de fabulações
- e os beneditinos maurinos, em especial Jean Mabillon (1632-1707), que
elaborou um conjunto de métodos e regras para o estudo dos documentos
em De re diplomático. (1681, mesmo ano da publicação do Discurso de
Bossuet), obra que contou com o auxílio de outros eruditos beneditinos,
como Baluze ou Du Cange. Não podemos, no entanto, qualificar o livro,
como alguns o fizeram, de "obra mestra da história científica", nem apresen-
tar a linha que se inicia a partir desta erudição documental e arqueológica
como a origem da historiografia moderna. Uma coisa são as ferramentas
com que o historiador atua sobre seus materiais e outra, muito diferente, é
a teoria que inspira o plano de investigação. No primeiro terreno, a erudição
dos bolandistas e dos maurinos, assim como, na Espanha, a dos grandes eru-
ditos monásticos do século XVIII, foi de uma importância transcendental;
no segundo, que corresponde mais propriamente à história,não contribuí-
ram com grande coisa: Mabillon e Bossuet são perfeitamente compatíveis.25
24 BARBA, Francisco Esteve. Historiografia indiana. Madrid: Gredos, 1922/2; MARA-
VALL, José Antonio. Naturaleza e historia en el humanismo espanol. In: Estúdios de his-
toria dei pensamiento espaftol. Madrid: Cultura Hispânica, 1984. II, p. 195-216. MER-
CADO, Tomás de. Suma de tratos y contratos. Edição de Nicolás Sánchez Albornoz. Ma-
drid: Instituto de Estudos Fiscais, 1977.1, p. 229-239, sobre a escravidão negra. Boa par-
te das crônicas de autores indígenas pode ser encontrada em excelentes edições na co-
leção "Crónicas de América", publicada por ocasião do "quinto centenário".
25 A supervalorização das técnicas eruditas, insinuada já em Fueter, chega ao máximo,
quase delirante, na obra de BARRET-KRIEGEL, Blandine. Les historiens et la mo-
narchie: Paris: PUF, 1988.1: Jean Mabillon. Il: La défaite de l'érudition. 111: Lès Aca-
démies de l'histoire. IV: La République incertaine. Mais acima, nos referimos ao caso
de uma obra espanhola de 1720 que inicia citando Mábillon para dar apoio a todas
as fábulas dos cronicones.
Os métodos eruditos utilizados por esta escola de religiosos estavam
sendo desenvolvidos, também, numa versão laica, por aqueles que se dedi-
cavam à defesa dos direitos dos príncipes. Em 1680, Leibniz, nomeado bi-
bliotecário e conselheiro do duque de Hannover, começou a escrevèr a his-
tória da casa de Braunschweig-Lüneburg a fim de "estabelecer objetiva-
mente pela genealogia" seus direitos ao poder, enquanto descendente da
família Este. Percorreu os arquivos da Alemanha, Áustria e Itália à procu-
ra de documentos, estudando-os de acordo com os princípios da erudição.
O objetivo foi se tornando gradualmente mais ambicioso, até o ponto em
que concebeu a idéia de escrever uma história universal que começaria
com os acontecimentos geológicos, apesar de nunca tê-la concluído.26
O caso de Leibniz, a quem a investigação histórica levou a colocar o
problema da evolução geológica, nos ajuda a entender que as mudanças na
forma de conceber a história se produziam num contexto muito amplo e
complexo. Foi por obra "daqueles pedantíssimos investigadores de antigas
histórias" que a visão do mundo natural começou a se modificar. A con-
quista do sentido do antigo como história - que permitia analisar as idéias
do passado como produtos de um contexto cultural - e a revelação propi-
ciada pela descoberta de que, no mundo, existiam muitas realidades - ter-
ras, plantas, animais, homens e culturas - desconhecidos pelos homens do
passado, aqueles pensadores da antiguidade em que até então o conheci-
mento havia se baseado, favoreceu uma atitude crítica que acabaria levan-
do à revolução científica.27
Os cientistas do Renascimento começaram a demolição da cosmo-
logia aristotélico-tomista que explicava o mundo natural e que se comple-
tava com uma visão teológica do mundo humano, avançando em duas di-
reções diferentes, mas nem sempre antagônicas: a da magia natural e a da
filosofia mecânica. As inovações dos "filósofos da natureza" propunham
certos elementos que se integrariam, a longo prazo, em sistemas alternati-
26 AITON, E. J. Leibniz. Una biografia. Madrid: Alianza, 1992, pas,sim; COHEN, Clau-
dine. Le destin du mammouth. Paris: Seuil, 1994. p. 66-86.
27 GARIN, Eugénio. L'umanesimo italiano. Filosofia e vita civile nel Rinascimento. Bari:
Laterza, 1970/4 (citação da p. 16).
vos que explicavam conjuntamente o macrocosmo físico e o microcosmo
humano, o que supunha uma gravíssima ameaça para a ordem estabeleci-
da. Um homem como Giordano Bruno (1548-1600), que morreria nas fo-
gueiras da Inquisição, associava elementos de magia natural com a defesa
da cosmologia de Copérnico e com a proposta de uma religião natural sem
dogmatismo nem intolerância. Campanella, impregnado de milenarismo
joaquimita, expressava a percepção de um vínculo entre a recuperação da
antiguidade, os descobrimentos geográficos e os avanços da ciência com
um programa de transformação da sociedade, quando escrevia a Galileu
em 1632: "As novidades de verdades antigas, de novos mundos, novas es-
trelas, novas nações, etc. são o prenúncio de um século nóvo". Tudo isso
nos permite compreender porque decidiu que o descobridor da Cidade do
sol fosse um piloto de Colombo.
Que as novidades fossem "perigosas", os dèfensores da ordem esta-
belecida o compreenderam desde o primeiro momento, começando pela
Igreja, como demonstra sua atuação no caso de Galileu. À margem das di-
versas especulações que foram feitas sobre as razões de sua condenação,
podemos ver que Descartes, uma vez compreendendo que a Igreja conde-
nava a afirmação do movimento da Terra, abandonou a redação de uma
grande obra sobre O mundo, já que "se este ponto de vista é falso, então
também são falsos og fundamentos da minha filosofia". Contentou-se em
publicar, em 1637, o Discurso do método com os tratados sobre "A dióptri-
ca", "Os meteoros" e "A geometria", "que são ensaios deste método", renun-
ciando às grandes especulações cosmológicas.28
28 INGEGNO, Alfonso. Filosofia e religione nel cinquecento italiano. Firenze: Sansoni,
1977; YATES, Frances. Giordano Bruno e la traduzione ermetica. Bari: Laterza,1969,
e The Rosicrucian Enlightenment. London: Roufledge and Kegan Paul, 1972; BUR-
KE, J. G. Hermetism as a Renaissance world view. In: KINSMAN, Robert S. (Ed.).
The darker vision of the Renaissance. Berkeley: University of California Press, 1974.
p. 95-117; GARIN, Eugénio. Da Campanella a Vico. In: . Dal Rinascimento
all'Illuminismo, Studi e ricerche. Pisa: Nistri-Lischi, 1970. p. 79-117 (a carta de Cam-
panella a Galileu na p. 83); BADALONI, N. Tommaso Campanella. Milano: Feltri-
nelli, 1965; HEADLEY, John M. Tommaso Campanella and the transformation of the
world. Princeton: Princeton University Press, 1997; CILIBERTO, Michele. Giorda-
no Bruno. Roma: Laterza, 1990; GAUKROGER, Stephen. Descartes. An intellectual
Os càminhos que encaminharam ao futuro a carga mais positiva
da renovação renascentista no terreno da história não têm nada a ver
com Bossuet e muito pouco com Mabillon, mas são extremamente com-
plexos e circulam geralmente de forma subterrânea. As pontes que vão
de Maquiavel a Montesquieu passam pela teoria política da revolução in-
glesa, pelos libertinos franceses (como Gassendi, Molière ou Cyrano, que
deve ter conhecido Campanella em Paris e que escandalizou os contem-
porâneos, comparando os súditos dos monarcas a escravos ou definindo
a morte como "este grande nada"), por Galileu quando descobriu novos
mundos celestiais em Sidereus nuncius, pelos participantes na disputa
"entre antigos e modernos" (que levou Fontenelle à primeira formulação
de uma teoria do progresso) ou por Spinoza, quando recuperou a ciên-
cia do "vivçre libero" para proclamar que a única finalidade lícita da po-
lítica era á liberdade.
history. Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 290-292; RODIS-LEWIS, Geneviève.
Descartes. Biographie. Paris: Calmann- Lévy, 1995, p. 141-184; utilizo os textos de
Descartes na edição do 350° aniversário, Paris, Fayard, 1987; sobre o contexto em
que a filosofia dè Descartes começou a ser considerada perigosa e perseguida na
Holanda, ver NADLER, Stéven. Spinoza. A tífe. Cambridge: Cambridge University
Press, 1999. p. 196-202 è passim; SCHLOBACH, Jochen. Anciens et modernes, que-
relle. In: DELON, Michel (Ed.). Dicctionaire européen des Lumières. Paris: PUF,
1997. p. 75-79.
Capítulo 4
A ILUSTRAÇÃO
O primeiro problema que encontramos no estudo da "Ilustração" é
o de definir do que estamos falando. O sentido dado, hoje, às palavras "as
luzes" e "Ilustração", nasce do termo alemão Aufklärung. A palavra inglesa
enlightenment não aparece no sentido figurado até meados do século XIX
e, na França, país por excelência das lumières, o conceito globai parece que
surge também de forma muito tardia, na obra de Taine.
É certo que a expressão "as luzes" era utilizada para falar dos conhe-cimentos adquiridos pela humanidade e que seus partidários eram defini-
dos como éclairés (esclarecidos). Mas a palavra não adquiriu úma dimen-
são ativa, não chegou a ter um valor de conquista histórica, de acumula-
ção progressiva. Na Encyclopédie, há um artigo "lumière" dedicado princi-
palmente à física, sem implicações filosóficas e Diderot parece não ter ido
além da associação dos dois conceitos de filosofia e luz, em que o segundo
termo é complementar: "a filosofia avança a passo de gigante e a luz a
acompanha e a segue".
Os homens do siècle des lumières - que não sabiam que o século se-
ria assim conhecido - , chamavam a tudo isso de philosophie, sendo que os
ilustrados eram philosophes. Um philosophe para Voltaire, era "o amante da
sabedoria e da verdade" que tinha os fanáticos por inimigos, já que "o sé-
culo da filosofia é também o século do fanatismo".
O conceito de Ilustração nasceu na Alemanha de meados do século
XVIII com um sentido mais ativo do que costumamos lhe dar, pois desig-
Jlpítulo 4
na o ato de "iluminar" e não a iluminação resultante (um Aufklãrer não é
um "ilustrado"; é um "ilustrador"). Já veremos, no entanto, que nem todo
mundo estava de acordo sobre o alcance da palavra.
A diversidade de interpretações e a confusão dominam desde o iní-
cio os estudos sobre a Ilustração, sendo que cada um diz o que lhe convém,
com interpretações que vão desde a que via os "filósofos" franceses como
conspiradores clandestinos contra a monarquia e a Igreja, até a que se li-
mita em definir as idéias da Ilustração como "as que compartilham ós ho-
mens e as mulheres que participam no movimento", elaborando listas dos
membros da communauté des lumières, definida circularmente. Entre estes
dois extremos, cabe quase qualquer coisa, incluindo uma "ilustração cris-
tã", denominação que parece contraditória, já que o cristianismo se baseia
na revelação e na tradição e, não, na razão (a igreja francesa condenou
Montesquieu, Voltaire, BufFon, a Encyclopèdie, etc. e, em 1770, explicita-
mente, a "liberdade de pensar").1
1 Utilizo aqui, além do artigo da Encyclopédie, MIRANDA, Pedro Álvarez de. Palabras
. e ideas. El léxico dela ilustración temprana en Espana (1680-1760). Madrid: Real Aca-
demia Espanola, 1992 e diversos trabalhos de Jacques Roger. Carl Beckef falava de
uma "religião da ilustração" dizendo que o homem é capaz, apenas com a luz da ra-
zão, de melhorar a vida na terra, liberando as mentes dos homens das correntes da
superstição e da ignorância e os corpos, da opressão arbitrária da ordem social esta-
belecida. Paul Hazard, em La crise de la conscience européene au XVlIIe siècle, 1680-
1715, (uso a edição de Paris: Fayard, 1981) e sobretudo em La pensée européenne au
XVIIle siècle: de Montesquieu a Lessing. Paris: Fayard, 1990; a edição original é de
1963), identificou o pensamento europeu com ó cristianismo e analisou allustração
como um processo de Deus e uma luta contra a religião revelada. Peter Gay em The
Enhligktenment An interprétation (1966 e 1999,2 v.) divide a análise em duas par-
tes: "A ascensão do moderno paganismo" e "A ciência da liberdade", isto é, a eman-
cipação da tutela religiosa e ò que os ilustrados constroem para transformar o mun-
do. O silesiano (naturalizado sueco e exilado nos Estados Unidos na época nazista)
Ernst Cassirer, publicou, em 1932, a Filosofia de la Ilustración, um livro abstrato e
simplificador - deve-se levar em conta que Cassirer havia desenvolvido, como filó-
sofo neokantiano, uma teoria que sustenta que o homem interpreta o mundo atra-
vés de um conjunto de representações simbólicas - que tem o mérito, no entanto,
de ter-se liberado do mito que sustentava que o século XVIII é ahistórico e o denun-
ciava como "uma definição cunhada pelo Romantismo para lutar contra a filosofia
das luzes" (Filosofia dela ilustración. México: Fondo de Cultura Económica, 1972. p.
222; a edição original é de 1951). WADÈ, Ira O. The intellectual origins ofthe French
Uma das associações mais freqüentes e mais equivocadas é a estabe-
lecida entre a ilustração e o absolutismo no chamado "despotismo ilustra-
do", conceito inventado pelos prussianos no século XIX. Voltaire teve que
fugir de Frederico da Prússia, o pretenso "rei filósofo", em cujo país, afirma-
va, "existe um número prodigioso de baionetas e muito poucos livros", en-
quanto que Diderot denunciou o mesmo soberano, em 1771, com palavras
que vão além do estritamente pessoal: "O autor da crítica é um grande se-
nhor, ou ao menos defende a causa de seus antepassados como se os tives-
se. Seja como for, continuaremos acreditando que existe menos inconve-
nientes na ilustração que sobe, que na ilustração que desce; e não aceitarei
em absoluto que um títere com título me insulte por ser o último de sua
raça, a mim que talvez seja o primeiro da minha. Vejo tantos ociosos ilus-
tres desonrar os louros dos antepassados, que faço mais caso do burguês ou
do homem comum que não se engrandece com os méritos alheios".2
Em meados do século XX, por outro lado, surge uma crítica à Ilus-
tração que a acusa de haver construído uma visão abstrata e universalista
enlightenment e The structure and forni ofthe French enlightenment. Princeton: Prin-
ceton University Press, 1971 e 1977 respectivamente, busca suas origens desde o Re-
nascimento e divide a evolução em duas etapas: a do "esprit philosophique" e a do
"esprit révolutionnaire". A visão "circular" a que me refiro é de ROCHE, Daniel. Les
républicains des lettres. Paris: Fayard, 1988 e Le siècle des Lumières en province. Paris:
•EHESS, 1978. 2 v. As referências poderiam se multiplicar indefinidamente. Existe,
inclusive, uma visão da "Ilustração secreta" que supervaloriza a transcendência dos
núcleos que cultivavam a pornografia e que mantinham estranhos grupos políticos-
sexuais como o clube de Leiden, a que pertenciam o inglês Wilkes (que teve que fu-
gir do país como autor de uma obra obscena) e o barão de Holbach (ROUSSEAU,
G. S. Perilousenlightenment. Pre- and post-modem discourses, sexual, historical. Man-,
chester: Manchester University Press, 1991). Entre as contribuições mais recentes as-
sinale-se a tentativa de estudar a Ilustração em uma dimensão nacional (PORTER,
R.; TEICH, M. (Ed.). The Enlightenment in national coritext. Cambridge: Cambrid-
ge University Press, 1981) e, sobretudo, uma visão social inovadora como é a de
MUNCK, Thomas. The Enlightenment. A comparative social history 1721-1794. Lon-
don: Arnold, 2000.
2 Carta de Voltaire a D'Alembert de 9 de setçmbro de 1752; DIDEROT, Denis. Pages
inédites contre un tyran. Paris: GLM, 1937 (título que lhe deu Franco Venturi ao pu-
blicá-lo, nos anos do exílio antifascista); Para uma condenação explicita do governo'
"de um déspota justo e ilustrado" por parte de Diderot, veja-se mais adiante.
do homem, sustentando que o racionalismo e a busca de explicações to-
tais, coerentes com a nova ciência, levaram os ilustrados a uma concepção
mecanicista do homem e da sociedade. Teriam defendido que todo o uni-
verso está determinado e que a única coisa necessária para conhecer um
acontecimento é ter todos os dados sobre os antecedentes. Deste reducio-
nismo e do fato de haver imaginado que os homens estão todos moldados
pelo mesmo padrão, sendo possível pensar numa sociedade ideal de acor-
do com regras deduzidas racionalmente, nasceu a acusação que considera
a Ilustração responsável por todas as aberrações cometidas em nome de
projetos globais e, mais concretamente, de todas as ditaduras do século
XX. Hòrkheimer e Adorno escreveram: "A abstração, a ferramenta da Ilus-
tração, trata seus objetos como o fazia o destino cuja noção repele: os li-
quida. Sob o domínio nivelador da abstração (que diz que tudo que é na-
tural se repete), e da indústria (para a qual a abstração ordena a repetição),
a própria liberdade acabou formando este "rebanho" qúe Hegel declarou
ser o resultado da Ilustração". E esclarecem ainda: "A horda que aparece tão
claramentena Juventude Hitlerista não é um retorno à barbárie, mas o
triunfo da igualdade repressiva". Daí porque um "liberal" comò Isaiah Ber-
lin reivindique, contra a Ilustração, que seria a mãe do marxismo, uma tra-
dição anti-ilustrada e equívoca, põis dela derivam tanto o "liberalismo"
como o fascismo.3
A única forma de libertar-nos desta confusão é manter alguns ele-
mentos essenciais de definição, sem cair na tentação de interpretar, como
um todo único, um feixe de correntes que, tendo elementos eift comum,
podem ser contraditórias em outros aspectos.4 A Ilustração seria essencial-
mente pensamento crítico, desconfiança em relação ao saber estabelecido
ao consentimento universal: a defesa da razão contra a convicção, do saber
transformador contra a tradição. , '
3 HÒRKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W. Dialectic of enlightenment. London:
Allen Lane, 1973. p. 13: BERLIN, Isaiah. The magus of the north. Hamman and the
origins of modern irrationalism. London: John Murray, 1993.
4 Não se pode esquecer, por exemplo, que Diderot escreveu Réfutation suivie de l'ou-
vrage d'Hèlvétius intitulé "L'homme" ou que Voltaire chegasse a sentir um conside-
rável menosprezo por Rousseau.
A maior das limitações existentes sobre a forma habitual de enten-
der a Ilustração é a que se limita a considerar uma série de autores, a estu-
dar as relações entre eles, e a analisar as influências que seus livros exerce-
ram sobre os leitores. Recentemente, no entanto, está tomando corpo uma
nova forma de compreender as suas origens que dá atenção especial ao
surgimento da "opinião pública" a partir de meados do século XVII. Um
fenômeno ligado ao nascimento de uma autêntica "indústria da informa-
ção" que multiplicou a impressão de cartas, folhetos, jornais, e, em geral,
de textos curtos e acessíveis a um público amplo, que se dedicaram à críti-
ca política ou reproduziam todo tipo de notícias do momento.
Hoje, sabemos qual foi a importância que a revolução da informação
teve na Itália e na França, levando os próprios historiadores a dizer que vi-
viam num tempo "cheio de notícias" e obrigando os governos a recrutar
historiadores para combater os efeitos da crítica (Luís XIV, da França, tinha
uma relação nominal de 19 historiadores, incluindo Jean Racine).5 Na In-
glaterra, onde Robert Burton já afirmava, em 1622, que vivia num mundo
onde se multiplicava todo tipo de notícias públicas e privadas, a guerra ci-
vil é a revolução aceleraram o processo ao ponto de se poder identificar
nele um dos fundamentos do nascimento de uma cultura democrática.6
Isto acontecia em sociedades abaladas pelos debates políticos que
confrontaram as monarquias absolutas com as demandas de representati-
vidade política, frente ao recuo dos poderes estabelecidos que temiam não
só a oposição política direta, mas também as conseqüências que, a longo
prazo, a evolução que ocorria na ciência e na religião podiam acarretar. Ao
minar a velha ordem aristotélico-escolástica, a mudança debilitava os fun-
5 DOOLEY, JSrendan. The social history of skepticism. Experience and doubt in early
modern, culture. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1999 (sobre os "histo-
riadores alugados", por exemplo p.91-101).
6 ZARET, David. Origins Of democratic culture. Printing, petitions, and the public sphe-
re in early-modem England. Princeton: Princeton University Press, 2000. Causas se-
melhantes teriam dado lugar ao surgimento, rja Catalunha em meados do século
XVII, de um tipo de literatura politica destinada a um público amplo (ver os dois
, volumes de Escrits politics del segle XVII. Editados por Xavier Torres e Eva Serra.
Barcelona: I. U. d'História Jaume Vicens Vives, 1995).
damentos da autoridade e estimulava o surgimento de especulações sobfe
uma possível melhor ordem da sociedade (não é por acaso que esta é uma
época de utopias subversivas: Thomas More, Campanella, Bacon, Hartlib,
Harrington, Cyrano...).7
Campanella, que defendia uma aproximação empírica ao conheci-
mento científico, permaneceu na prisão de 1568 a 1626, Giordano Bruno
foi queimado em 1600 e Lúcio Vanini, em 1619. Galileu começou a ter pro-
blemas com a Inquisição em 1616, sendo processado em 1623. Em 1624, o
Parlamento de Paris condenava à morte os ataques a Aristóteles e, em
1628, Descartes retirava-se para a Holanda, onde permaneceu durante
vinte anos. Nesta terra de refugio, desenvolveu a visão mecanicista do
mundo, inspirando a investigação científica de homens como Christiaan
Huygens (1629-1695) no terreno da matemática e da astronomia, assim
como também na construção de relógios de precisão.
Na Holanda reunirám-se os judeus sefarditas fugidos da Espanha e
de Portugal, entre os quais nasceria uma linha de deístas comò Uriel da
Costa, e outra, de possíveis ateus como Juan de Prado (que não acreditava
no além e pensava que o mundo não fora criado, mas que existia e conti-
nuará existindo para sempre, sob a mesma forma) e, principalmente, o
personagem extraordinário que é Baruch Spinoza (1632-1677) qué, expul-
so da comunidade judia, expôs suas concepções filosóficas no Tractatus
theologico-politicus (1670), publicado anonimamente em Amsterdan e
logo proibido, no qual nos pede que não submetamos a razão a uma letra
morta que pode estar corrompida pela malícia humana, como as escritu-
ras - que os teólogos usam para delas extrair "as próprias idéias inventa-
das arbitrariamente" - , mas, sim, que nos guiemos pela razão; onde defen-
7 Existe uma abundante literatura geral sobre as utopias -VERSINS, Pierre. Encylo-
pédie de l'Utopie, des voyages extraordinaires et de la science fiction. Lausánne: L'âge
d'homme, 1972; TROUSSON, Raymond. Historia de la literatura utópica. Barcelo-
na: Península, 1995, etc.- de escassa utilidade, precisamente por seu caráter geral.
De qualquer modo, o livro'de Versins contém uma tabela cronológica (p. 171-174)
que permite ver que o gênero nasce, de fato, no século XVI com Thomas More, flo-
rescendo no século XVII, com 16 títulos. É preciso ter cuidado, no entanto, ao in-
terpretar personagens complexos como Campanella, de quem falamos antes.
de que a finalidade própria do estado é a liberdade (o que fez com que An-
tônio Negri afirmasse que "é a obra que funda teoricamente o pensamen-
to político-democrático moderno na Europa") e que, "numa comunidade
livre, cada homem pode pensar o que quiser e dizer o que pensa". Do pon-
to de vista da história, Spinoza, crítico da validade histórica da Bíblia, re-
presenta um impulso muito importante em direção à secularização.
Esta revisão crítica não aparecerá somente entre os judeus, mas,
também, erjtre os protestantes descontentes com a acomodação das igrejas
reformadas à ordem estabelecida: os collegianten holandeses, por exemplo,
partiam das correntes radicais do reformismo religioso e "fizeram uma
tempestuosa travessia da fé à razão". No início, dedicavam-se a ler a Bíblia
e a cantar hinos, mas, depois, quiseram escutar pessoas como Comenius
(bispo da irmandade morávia, obrigado a abandonar a terra checa), como
Spinoza (foi um livreiro da comunidade que publicou o Tractatus) ou
como os socinianos que haviam fugido da Polônia e cujas idéias foram
proibidas em 1653, inclusive na Holanda, porque negavam a trindade, a
divindade de Cristo oü a providência.8
Alguns dos componentes essenciais da Ilustração, procediam das
formas de livre pensamento e crítica do século XVII francês. Por um lado,
o libertinismo, em que se incluem nomes tão diversos como os de Gassen-
di, Molière ou Cyrano (o escritor radical que foi caricaturado pela lenda).9
Por outro, o pirronismo histórico, que defendia uma atitude de ceticismo
8 Para o contexto geral, ISRAEL, Jonathan I. The Dutch republic. Its rise, greatness,
and fall, 1477-1806. Oxford: Clarendon Press, 1995 (em especial o capítulo 34, "In-
tellectual life, 1650-1700"). Sobre os sefaradis, ALBIAC, Gabriel. La sinagoga vacía.
Madrid: Hiperión, 1987 e MÉCHOULAN, Henry. Etre juif a Amsterdam au tempsde Spinoza. Paris: Albin Michel, 1991. Sobre Spinoza, NADLER, Steven. Spinoza. A
life. Cambridge: University Press, 1999; YOVEL, Yirmiyahu. Spinoza and other he-
retics. Princeton: Princeton University Press, 1989.2 v. (a citação de Antônio Negri
é de Spinoza sowersivo. Roma: Pellicani, 1992). Sobre os "Collegianten" FIX, An-
drew C. Prophecy and reason. Princeton: Princeton University Press, 1991. Uso o
Tractatus de Spinoza na tradução inglesa de Samuel Shirley (Leiden: Bröl, 1989).
9 SPINK, J. S. La libre pensée française. De Gassendi à Voltaire. Paris: Editions Socia-
les, 1966. Parece que Molière e Cyrano haviam estudado filosofia com Gassendi
(MOLAND, Louis. Vie de J.-B. P. Molière. Histoire de son théâtre et de sa troupe. Pa-
ris: Garnier, 1892. p. 26-27).
ante os relatos históricos, ao estender aos conteúdos a atitude crítica que
Mabillon limitara à validade das fontes. François de La Mothe Le Vayer
(1588-1672), preceptor de Luís XIV, realizou uma espécie de enlace entre
as novas correntes e as velhas tradições céticas que ensinavam a "substituir
a verdade pela verossimilhança", dirigidas agora contra as pretensões do
racionalismo cartesiano, mas, também, especificamente contra os abusos
dos historiadores - faria uma crítica demolidora da História do imperador
Carlos V de Sandoval - e, contra a credulidade na história (Discurso sobre
a pouca certeza que existe na história, 1668). Richard Simon (1638-1712)
escandalizou Bossuet com a História crítica do velho testamento (1678), na
qual tentou aplicar critérios científicos ao estudo do conteúdo da Bíblia: o
autor foi expulso da ordem religiosa a que pertencia e Bossuet conseguiu
que o livro fosse incluído no índice (e, ao mesmo tempo, condenou o es-
tudo da história-eomo vã curiosidade erudita, que devia reduzir-se ao re-
conhecimento da ação da providência). Pierre-Daniel Huet, bispo de
Avranches (1630-1721), generalizou os princípios do pirronismo no Trai-
té philosophique de la foiblesse de l'esprit humain, publicado depois de sua
morte, ao afirmar que "a verdade não pode ser conhecida pelo entendi-
mento humano mediante a ra2ão, com uma perfeita e total certeza"", "que
é necessário duvidar e que este é o único meio de evitar os erros". Membro
tardio, mas representativo, do pirronismo histórico foi Bernard Le Bovier
de Fontenelle (1657-1757), autor de uma Histoire des oracles, que era na
realidade a adaptação "amena" - escrita em "um estilo coloquial" - de uma
obra do médico holandês Van Dale. Nela, dá uma explicação "naturalista"
do fenômeno; nega que ele tenha origem no demônio e afirma que "gran-
des seitas de filósofos pagãos não acreditavam que houvesse nada sobrena-
tural nos oráculos", sendo a decadência e desaparecimento dos mesmos
um fato perfeitamente explicável em termos históricos.10
10 BORGHERO, Carlo. La certezza e la storia. Cartesianismo, pirronismo e conoscenza
storica. Milano: Franco Angeli, 1983 (sobre La Mothe Le Vayer, p. 57-83). Faz-se uma
citação de LE VAYER, La Mothe. De l'ignorance louable. In: . Dialogues faits à
l'imitation des anciens. Paris: Fayard, 1988. p. 216, e uma de HUET, Pierre-Daniel.
Traité philosophique de la foiblesse de l'esprit humain. London: Nourse, 1741. p. 169;
B. Fontenelle, Histoire des oracles, citação do prefacio e do capítulo VII. Sobre Fonte-
Entretanto, o fruto »mais importante desta corrente, e que teria uma
influência maior no desenvolvimento da Ilustração, seria a obra de Bayle.
Pierre Bayle (1647-1706) nasceu no sul da França, filho de um pastor pro-
testante e de família pobre (três inconvenientes para fazer uma carreira li-
terária). Em 1669, aos vinte e dois anos, foi a Toulouse estudar no Colégio
dos jesuítas e converteu-se ao catolicismo, ao qual renunciaria em 1670,
para voltar ao protestantismo, movido pelas pressões da família (e não sem
perigo, já que os relapsos eram condenados ao exílio perpétuo do reino).
Mudou-se para Genebra com a intenção de estudar e teve que trabalhar de
preceptor para sobreviver. Em 1675, obteve a cátedra de filosòfia da acade-
mia protestante de Sedan, onde permaneceu seis anos dedicado ao ensino.
Admirava cada vez mais os céticos e os libertinos, a ciência do concreto, a
história e a erudição. Fechada pelo governo a academia onde trabalhava,
teve que se mudar para Rotterdam em 1681, onde ensinou filosofia e his-
tória numa escola. Permaneceria na cidade vinte e cinco anos, sem chegar,
no entanto, a aprender holandês. Começaria, então, a publicar suas gran-
des obras, iniciando por Pensées diverses sur la comete, na qual, sob o pre-
texto de atacar as superstições sobre os cometas (escreveu o livro por causa
da passagem do Halley em 1680) e de afirmar que os astros não têm nada
a ver com as livres ações dos homens, foi muito mais longe: criticou os mi-
lagres, o argumento de autoridade e a tradição com opiniões tão arrisca-
das como: "o ateísmo não conduz necessariamente à corrupção dos costu-
. mes", afirmação que despertou a indignação dos ortodoxos de um e de ou-
tro lado ("passamos quase por hereges, inclusive entre os protestantes,
quando falamos com força em favor da tolerância", dirá).
Em 1697, apareceu em Rotterdam o Dictionnaire historique et criti-
que. O livro fora concebido, inicialmente, como uma réplica crítica ao
Grand dictionnaire historique de Louis Moreri (1643-1680), uma coleção
de informações eruditas que chegaria a ter vinte e uma edições, corrigidas
e muito ampliadas por seus discípulos {enquanto a segunda edição, prepa-
rada ainda por Moreri, tinha dois volumes, a vigésima primeira, de 1759,
nelle, sobrinho de Corneille,"bel-esprit" e cientista frustrado, BADINTER, Elisabeth;
Les passions intellectuelles. Paris: Fayard, 1999. p. 31-36.1. Désirs de gloire (1735-1751).
tinha dez): O plano inicial de Bayle, entretanto, mudou e o resultado foi
outro tipo de "dicionário histórico", com um forte componente crítico, es-
pecialmente a respeito de temas de história eclesiástica - falando das frei-
ras endemoniadas de Loudun, por exemplo, explica racionalmente fatos de
aparência sobrenatural e comenta: "sabemos que ô segredo de fazer apare-
cer os mortos e de provocar visões da Santa Virgem é conhecido e pratica-
do nos mosteiros" - e com uma defesa constante da tolerância, ou talvez
melhor, como disse Elisabeth Labrousse, da liberdade de consciência: no
artigo dedicado a Maomé, disse que, enquanto os muçulmanos, obrigados
pela lei a exercer a violência em matéria de religião, se tinham mostrado
bastante tolerantes, os cristãos, que têm o mandamento de pregar, "exter-
minam a ferro e fogo os que não são de sua religião" Crítico no que se re-
fere a temas eclesiásticos, não aborda nunca questões teológicas, pois con-
siderava que o cristianismo está acima da razão.
Um artigo concreto pode dar idéia do método de Bayle: Jean Fran-
çois Bagni, um eclesiástico francês nomeado cardeal em 1629, tem, no Dic-
tionnaire, um artigo de oito linhas onde se faz pouco mais que apontar as
deficiências do que lhe havia dedicado Moreri. As notas destas linhas, no
entanto, ocupam quatro colunas de letra miúda - Grafton disse que o livro
de Bayle "consiste sobretudo de notas è inclusive de notas às notas" - , nas
quais, entre outras coisas, destroça o autor que havia assegurado que, à vis-
ta dos 37 volumes de uma edição dos concílios, Bagni havia dito que se ad-
mirava que pudesse haver ainda hereges na França. Bayle observa que difi-
cilmente Bagni podià ter falado de uma obra editada em 1644, pois morre-
ra três anos antes, mas que, se houvesse dito o que se lhe atribui, se teria
equivocado porque não havia muitos protestantes capazes de ler latim, lín-
gua em que está escrita a obra e os que o conhecem não têm nem o gosto
nem a paciência de ler 37 volumes. Por outro lado, "sem a graça de Deus e
a força da educação, as leituras dos concílios fariam cem vezes mais incré-
dulos do que cristãos", porque "não existe história que abunde mais em
causas de escândalo, nem umcenário mais chocante de paixões, intrigas,
facções, cabalas e astúcias".
O Dictionnaire de Bayle alcançaria grande sucesso no século XVIII
(Catarina da Rússia, por exemplo, dedicou 4ois anos à leitura integral). A
inteligência com que exercia a crítica, apoiada numa imensa erudição e
numa capacidade lógica privilegiada, faz que nos pareça um cético liberti-
no, quando no fundo tem uma intenção claramente religiosa; um homem
que defende a razão, embora sáiba que "os preconceitos do coração são
mais capazes de obrigar a tomar partido do que as luzes da razão". '
Com sua força crítica, entretanto, o Dictionnaire ensinou os ilustra-
dos a raciocinar, estando na origem de muitas crises de consciência que ul-
trapassaram o autor ("não se podia acusá-lo de impiedade, mas produziu
ímpios" com sua crítica). Para Voltaire - que assistiu, em 1754, jesuítas
queimarem em público sete exemplares do Dictionnaire, em Colmar -
Bayle é um "apóstolo da razão", "o maior escritor dialético de todos os tem-
pos", e o Dictionnaire, o primeiro livro "no qual se pode aprender a pen-
sar". Do ponto de vista da história, Bayle ainda fundamentou, com o de-
senvolvimento da arte: das notas como ferramenta crítica, um modelo de
trabalho erudito que será universalmente aceito e que chegou até nós sem
muitas mudanças. ,
Todavia nem tudo o que se apresenta nestes anos como novo no ter-
reno da reflexão filosófica sobre a história se insere na linha do pensamen-
to ilustrado. A obra de Giambattista Vico (1668-1744), os Princípios da
Ciência Nova (1725-1744), representava antes de tudo uma reação contra
as correntes do racionalismo cartesiano que se difundiam em princípios
do século XVIII. Vico, de origem muito humilde, viveu uma vida de priva-
ções e de miséria, e teve de conviver com o fato de que sua obra foi igno-
rada e menosprezada pelos seus contemporâneos."
11 O livro fundamental sobre Bayle é o de LABROUSSE, Elisabeth. Pierre Bayle. Den
Haag: M. Nijhoff, 1963-1964.2 v., sobretudo a segunda edição ampliada, da qual
usei Pierre Bayle. Hétérodoxie et rigorisme. Paris: Albin Michel, 1996, onde se en-
contra uma bibliografia atualizada que compreende centenas de títulos. Sobre o
Dictionnaire, RÉTAT, Pierre. Le Dictionnaire de Bayle et la lutte philosophique au
XVIII siècle. Paris: Les Belles Lettres, 1971; SOLÉ, J. Bayle polémiste. Paris: R. Laf-
font, 1972; sobre as notas na obra de Bayle, GRAFTON, Anthony. The footnôte. A
curious history. London: Faber and Faber, 1997. p. 191-201. Utilizo as Pensées di-
verses sur la comète na edição Prat, atualizada por Pierre Rétat. Paris: Nizet, 1984,
2 v. E o Dictionnaire, na quinta edição de Amsterdan (na realidade Trévoux) de
1734, em cinco volumes, corrigida e ampliada, com uma extensa vida de Bayle
por Maizçaux e uma série de complementos (confrontando-a às vezes com a pri-
As correntes da historiografia da Ilustração passaram, em Nápoles,
pelas figuras de Ludovico Muratori (1672-1750), que aplicaria os métodos
críticos da historiografia eclesiástica de Mãbillon a temas seculares, nos
Annali d'Italia e, principalmente, de Pietro Giannone (1676-1748), que
publicou História civil do reino de Nápoles (1723) com o objetivo de falar
"da ordem política deste nobre reino, de suas leis e costumes". As críticas
às reivindicações políticas da Igreja frente ao poder civil o obrigaram a fu-
gir para Viena, enquanto o livro era condenado por Roma. Em 1736, foi
seqüestrado por agentes do governo da Sardenha, passando os últimos
doze anos da vida na prisão. Gjannone que, na autobiografia nãõ chega'
nem sequer a mencionar Vico, será, no século XVIII, um escritor de fama
européia (foíam feitas traduções de suas obras para o francês, inglês e ale-
mão), considerado úm dos fundadores da história do direito. Vico, ao con-
trário^ ignorado no séculó XVIII - já que serão da linha de Giannone e
Muratori os grandes nómes da Ilustração italiana da segunda metade do
século, como Genovesi ou Beccaria - , seria uma descoberta dos românti-
cos, e exerceria a influência sobre personagens tão diversos como Miche-
let, Comte ou Marx.12
Vico quis criar uma ciência nova e global da história, mais exata, se
assim pode ser dito, que as da natureza, mas, principalmente, distinta des-
tas, evitando a aproximação que outros realizavam, na época* entre ciên-
cias sociais e ciências naturais: "Este mundo civil foi criado certamente pe-
los homens, o que quer dizer que seus princípios devem e podem ser en-
contrados dentro das modificações da própria mente humana. De manei-
meira, Rotterdam, Reinier Leers, 1697). Os principais artigos citados são "Bagni"
(I, p. 609-610); "Louduft" (III, p. 761-763), "Mahomet" (IV, p. 25-47, citações li-
terais da p. 37), "Phyrron" (IV, p. 669-674). As citações de Voltaire são de uma
carta ao conde de Argentai de 24 de fevereiro de 1754 e de "Letres" a S. A. M. G.
R. OPrincede..., 1767.
12 GIANNONE, Pietro. Storia civile dei regno di Napoli. In: Opere. Milano: Ricciardi,
1971 (citação da introdução); Vitta scritta da lui medesimo. Milano: Feltrinelli,
1961. A continuidade na linha da Ilustração italiana está expressa no próprio títu-
lo do livro de VENTURI, Franco. Settecento riformatore; Da Muratori a Beccaria.
Torino: Éinaudi, 1969 (sobre Vico e Genovesi, por exemplo, p. 527). CONSOLI, D.
DalVArcadia ãirilluminismo. Bolonha: Capelli, 1972. p. 73-97.
ra que, qualquer um que reflita sobre isto, se surpreenderá com o fato de
que todos os filósofos tenham-se ocupado seriamente em alcançar a ciên-
cia do mundo natural, do qual, ao ser criado por Deus, só Ele possui a
ciência, enquanto que se esqueceram de meditar sobre o mundo das na-
ções, ou seja, o mundo civil, criado pelos homens, cuja ciência podiam al-
cançar". A resposta é fomulada em termos estritamente filosóficos e de
maneira muita obscura, mas o método que propõe sè diferencia tanto da
erudição histórica como da "história filosófica": "A filosofia contempla a
razão, de onde procede a ciência do que é verdadeiro; a filologia observa a
autoridade do arbítrio humano, de onde vem a consciência do que é certo
(...). Fracassaram, na mesma medida, tanto os filósofos que não se preocu-
param em verificar suas razões com a autoridade dos filólogos, como os fi-
lólogos que não se preocuparam em verificar suas autoridades com a ra-
zão dos filósofos".13
A proposta de Vico, com tudo o que tinha de intuição, de uma an-
tropologia histórica que tornasse possível chegar ao conhecimento da men-
talidade dos homens do passado, permaneceria, no entanto, inerte na épo-
ca. O próprio fato de aceitar a cronologia bíblica, que limitava o curso da
história a uns cinco mil anos - como necessidade de defender as verdades
da história sagrada do ataque de ateus e libertinos - o desacreditaria ante
os homens de fins do século, já conhecedores dos avanços da geologia.
Os herdeiros diretos do estilo crítico de Bayle foram os "ilustrados"
franceses do século XVIII, que levaram seus propósitos adiante, na busca
13 BADALONI, Nicola. Introduzione a G. B. Vico. Milano: Feltrinelli, 1961. Utilizo as
obras de Vico na edição das Opere Filosofiche. Firenze: Sansoni, 1971, citações das
p. 447 e 438, respectivamente. BERRY, Thomas. The historical theory of Giambat-
tista Vico. Washington: Catholic University of America, 1949; CROMBIE, A. C.
Styles of scientific thinking in the European tradition. London: Duckworth, 1994.
Ill, p. 1588-1594; MOMIGLIANO, A. Vico's Scienza Nuova: Roman Bestioni and
Roman Eroi. In: . Essays in Ancient and Modern Historiography. Oxford:
Blackwell, 1977. p. 253-276; HUTTON, Patrick H. History as an art of memory.
Hanover: University of Vermont, 1993. p. 32-51; FERRARIS, Maurizio. Storia
dell'ermeneutica. Milano: Bompiani, 1989. p. 64-71. Uma visão revalorizadora en-
contra-se em DOOLEY, Bredan. The social history of skepticism... Baltimore: Johns
Hopkins University Press, 1999.
de um tipo de história que desempenhasse as funções de ciência da socie-
dade.Estes homens repeliam, desde logo, o tipo de crítica da história eru-
dita "monástica", considerando-a insegura - a veracidade não tem nada a
ver com a mera acumulação de informações - e de visão limitada: um im-
pedimento, para chegar à concepção global a que aspiram. Montesquieu e
Voltaire menosprezavam explicitamente esta erudição, Condillac a con-
frontou com a razão e não faltou quem propusesse queimar os volumes
deste tipo de estudos históricos.14
Nestas páginas, falaremos principalmente dos autores que propuse-
ram novas formas de entender a história e escreveram livros que se con-
verteram em modelo duradouro. Mas, é necessário deixar claro que os au-
tores franceses - como os britânicos, de que falaremos mais adiante, ou os
italianos ou alemães da épõca - , atuaram num meio cultural distinto, no
qual o surgimento da "opinião pública", restrita inicialmente ao círculo dos
salões e aos leitores de jornais, mas ampliada progressivamente no trans-
curso do século, proporcionou uma força e uma extensão insuspeitada a
suas idéias, até incorporá-las às novas concepções coletivas de mundo e da
sociedade que inspiraram a Revolução francesa.15
Charles-Louis de Secondat (1689-1755), barão de La Brède, que le-
vava o nome de Montesquieu, herdado de um tio juntamente com uma
magistratura, é o menos revolucionário dos homens que revolucionaram
o mundo. Aristocrata, dono de boa fortuna, pfopríetário de vinhedos em
Bordéus foi, provavelmente, um dos maiores divulgadores das novas idéias
através de um livro que teve um grande êxito popular, as Cartas persas
(1721). Nele, a sociedade européia da época era apresentada através dos
olhos de viajantes orientais. A mais importante de suas obras dedicou-se a
investigar os fundamentos das formas de governo e das leis que correspon-
14 GOULEMOT, Jean Marie. Lê règne de l'histoire. Discours historiques et révoltions
XVIIe XVIlie siècle. Paris: Albin Michel, 1996. p. 158.
15 Esta visão "social" da Ilustração pode ser observada principalmente no livro já ci-
tado de MUNCK, Thomas. The Enlightenment. A comparative social history, 1721-
1794. London: Arnold, 2000. Sobre o surgimento da opinião pública, também E.
Badin ter, Les passion intellectuelles. I. Désirs de gloire, com uma citação quase lite-
ral da p. 14.
dem a cada uma delas. Esta obra máxima é O espírito das leis (1748), que
apresenta assim o objeto: "Comecei examinando os homens e acreditei
que, nesta infinita diversidade de leis e de costumes, não era somente a
fantasia que os guiava. Estabeleci os princípios e verifiquei que os casos
particulares se adaptavam a eles naturalmente, que as histórias de todas as
nações são só conseqüência deles e que cada lei particular está ligada a ou-
tra lei ou depende de outra mais geral". A frase inicial do primeiro livro ex-
pressa o princípio geral que o guia: "as leis (...) são as relações necessárias
que derivam da natureza das coisas".
Mas, que "coisas"? Os "livros" da terceira parte, que examinam a re-
lação das leis com o clima e com o terreno, impressionaram a muitos lei-
tores pela novidade "materialista"; mas, esta mesma parte acaba estenden-
do a análise "às relações que têm com os princípios que conformam o es-
pírito geral, os costumes e as maneiras de uma nação" e afipna que "di-
versas coisas governam os homens: o clima, a religião, as leis, as máximas
do governo, os exemplos das coisas passadas, os costumes, as maneiras; de
onde se forma um espírito geral. À medida que, em cada nação, uma des-
tas causas atua com mais força, as outras cedem outro tanto". O primeiro
exemplo esclarece o lugar reservado aos fatores "materiais": "a natureza e
o clima dominam praticamente sozinhos os selvagens". É verdade, no en-
tanto, que, em outros momentos, cai em simplicidades "climáticas", como
no contraste tópico entre os povos europeus do sul e do norte, ao consi-
derar a geografia da Ásia como causa da existência de grandes impérios
em contraposição ao espírito de liberdade que a fragmentação do territó-
rio gera na Europa, ou ao justificar a escravidão dos negros pela preguiça
que produz o clima quente (mas também, mais pragmaticamente, porque
"o açúcar seria demasiado caro, se a planta que o produz não fosse culti-
vada por escravos").
Montesquieu, que contribuiu com a "física social" do Espírito das
leis para dar uma base científica ao estudo da sociedade e da política, não
menosprezou, no entanto, a análise histórica concreta. Se, no estudo dás
leis feudais dos francos, propõe "iluminar a história com as leis e as leis
com a história", nas Considerações sobre as çausas da grandeza dos romanos
e de sua decadência (1734), que apresentam uma ampla e cuidadosa ano-
tação das fontes utilizadas, realizou a distinção entre as "causas gerais" que
explicam as grandes mudanças históricas e as causas particulares e aciden-
tais, como a vitória de uma batalha que aparece como determinante à pri-
meira vista, na obra, numa tentativa, bastante feliz, de procurar as explica-
ções da história do império, de sua ascensão e decadência na própria so-
ciedade romana e não nos desígnios da providência.
Ele, que não pretendia de modo algum mudar a sociedade em que
vivia - embora tivesse intuições como a que lhe fez ver que "as grandes
empresas de comércio não são para armonarquias, mas para os governos
de mais de um", ou seja "republicanos", porque neles, sendo a propriedade
mais segura, há mais estímulos para o investimento - , contribuiu para a
crise da mesma, ao estimular os homens a analisar racionalmente a socie-
dade em que viviam. Como disse Ehrard: "Na história das idéias, o lugar
de Montesquieu seria mais modesto se as verdades que defendeu não esti-
vessem impregnadas de verdades contrárias".16
François-Marie Arouet, conhecido como Voltaire (1694-1778), era
somente um jovem poeta quando, espancado pelos criados do cavaleiro
de Rohan por não haver lhe mostrado o respeito que este acreditava que
lhe era devido (e havendo permanecido na prisão da Bastilha como con-
seqüência deste incidente), decidiu ir para a Inglaterra, onde recebeu
uma grande influência da ciência da época (em 1738, publicou Elemen-
tos da filosofia de Newton) e preparou a História de Carlos XII, iniciando
a carreira que o converteria num escritor da moda na França e num pen-
sador de reputação européia, convidado por Frederico de Prússia para
sua corte. Voltaire acreditava no poder transformador do conhecimento
- "uma vez que chega ó momento de pensar não se pode roubar dos es-
píritos a força que adquiriram" - e na tolerância. Demonstrou um valor
16 STAROBINSKI, Jean. Montesquieu. México: Fondo de Cultura Económica, 1989.
Utilizo as obras de Montesquieu na edição de Oeuvres complètes de Daniel Oster.
Paris: Seuil, 1974 e o Esprit des bis, na de Laurent Versini. Paris: Gallimard, 1995.
As citações do Esprit des lois correspondem, respectivamente, ao livro I, capitulo 1;
XIX, 4; XXI, 3; XVII, 7; XV, 5-8; XXXI, 2 e XX, 4. Das Consideraciones sobre la gran-
deza de los romanos..., capítulo XVIII. As palavras de Jean Ehrard estão em L'idée de
nature en France à l'aube des lumière. Paris: Flammarion, 1970. p. 384.
extraordinário na defesa de casos como o de Calas (um comerciante de
tecidos de Toulouse, protestante, que foi torturado e executado por um
crime que não havia cometido) ou o do cavaleiro de Barre (condenado
por não ajoelhar-se ao passar por uma procissão e queimado com o Di-
cionário filosófico de Voltaire na fogueira), mantendo-se firme com suas
idéias, mesmo que tódos seus livros tenham sido proibidos em um mo-
mento ou outro, inscritos no índice pela Igreja e queimados pela" autori-
dade civil (vivia perto da fronteira para poder escapar facilmente, como
o fez por precaução em diversas ocasiões). Nãò ia, porém, tão longe na
crítica à sociedade existente como Rousseau. Não aceitava as objeções
deste sobre a propriedade, nem a idéia de que ós homens eram* iguais,
que a civilização os tivesse pervertido e queeram feitos para viver natu-
ralmente, "isolados como bestas selvagens".17
O interesse de Voltaire pela história é bem conhecido. Foi ele quem
escreveu o artigo "História" para a Encyclopédie, onde começa dizendo que
"é o relato dos fatos considerados verdadeiros, ao contrário da fábula, que
é o relato dos considerados falsos", uma trivialidade de origem ciceronia-
17 A obra essencial é Voltaire et soti temps, dirigida por René Pomeau, com diversos co-
laboradores, em cinco volumes -D'Arouet a Voltaire, 1694-1734, Avec Madame Du
Châtelet, 1734-1749, De la cour au jardin, 1750-1759, "Ecraser l'Infâme", 1759-1770
e On a volu l'enterrer, 1770-1791- Oxford: Voltaire Foundation, 1985-1994. Com-
plementarmente, utilizou-se, entre outros títulos, BRUMFITT, J. H. Voltaire histo-
rian. Oxford: Oxford University Press, 1970; ALDRIDGE, A. Owen. Voltaire and the
century of light. Princeton: Princeton University Press, 1975 (baseado essencial-
mente nos 107 volumés da correspondência de Voltaire, editados por Besterman);
LEPAPE, Pierre. Voltaire le conquérant, Paris: Seuil, 1994; JACOBS, M. C. The radi-
cal enlightenment. London: Allen and Unwin, 1981, etc. Os textos foram extraídos
dos diversos volumes da inacabada edição das "obras completas", numa velha edi-
ção de Oeuvres complètes. Paris: Furne, 1835-1838 e, no que se refere às obras his-
tóricas, na edição preparada por POMEAU, René. Oeuvres historiques. Paris: Galli-
mard/La Pléiade, 1957. Para efeitos práticos, empreguei as compilações Dictionnai-
re de la pensée de Voltaire par lui-même, preparado por André Versaille (Bruxelles:
Complexe, 1994) e Inventaire Voltaire, dirigido por Jean Goulemot, André Magnan
e Didier Masseau (Paris: Gallimard, 1995) e, para a correspondência, as seleções de
Naves, Lettres choisies. Paris: Garnier, 1963 e HELLEGOUARC'H, Jacqueline. Cor-
respondance choisie. Paris: Librarie Générale Française, 1997/2. A citação que se faz
neste parágrafo é de "Reflexions sur les sots", em Oeuvres, VlII, p. 593.
" y •'/•_-
123
na, que enriqueceu mais adiante ao acrescentar que a única certeza possí-
vel na história é a de "uma extrema probabilidade", devido à falta de docu-
mentos para os tempos antigos e medievais.18 Como a maior parte dos
ilustrados, Voltaire distingue entre a veracidade e a acumulação de dados
concretos próprios da erudição - "os fatos principais podem ser autênti-
cos e os detalhes, muito falsos" - , menosprezando a história èm minúscu-
las - "a história ordinária, que não é mais que um amontoamento de fatos
produzidos pelos homens e, em conseqüência de crimes, não tem muita
utilidade (...). Somente satisfaz a curiosidade". A sua é uma concepção "fi-
losófica" da história, uma visão de altos vôos, cujo objetivo Pomeau des-
creveu com as seguintes palavras: "Refazer o desenvolvimento da civiliza-
ção — nós diríamos das civilizações - , acompanhar os esforços dos ho-
mens, vivendo em sociedade, para sair do estágio primitivo da bruto - do
primata, cuja existência não suspeitava - para cumprir a vocação do ho-
mem, apesar de todas as quedas e todos os fracassos".19
A primeira obra histórica importante foi História de Carlos XII, rei
da Suécia (1731), publicada çom dados autorais falsos, por temor à censu-
ra - um destino quase constante na obra de Voltaire. É um relato que al-
cança, em alguns momentos, o dramatismo da tragédia e, em outros, o
imediatismô do jornalismo, mas em que falta, ainda, a amplitude dos
grandes livros posteriores (Pomeau dirá que é uma novela "apaixonante e
quase verdadeira").20
18 Utilizo o artigo na edição de VOLTAIRE. Oeuvres alphabétiques. Oxford: Voltaire
Foundation, 1987.1, p. 164-186. O artigo deixa claro que a incerteza depende da
falta de documentos; nos cadernos de notas, disse que somente podemos ter certe-
za a partir da época das gazetas e dos jornais, que se contradizem e se criticam
(VOLTAIRE. Notebooks. Genebra: Institut et Musée Voltaire, 1968/2. II, p. 464-465).
Sobre a aplicação de critérios de probabilidade à história, veja-se DASTON, Lorrai-
ne. Classical probability in the Enlightenment. Princeton: Princeton University Press,
1995. p. 313-316 e 333-334.
19 Citação de "Le pyrrhònisme de l'histoire" em Oeuvres, V, p. 70 e de Notebooks, I, p.
230. A de Pomeau é de On a volu Tenterrer, p. 375.
20 Utilizo a edição crítica de Gunnar von Proschwitz, VOLTAIRE. Histoire de Charles
XII. Oxford: Voltaire Foundation, 1996, que contém uni amplo estudo preliminar.
POMEAU, René. D'Arouet à Voltaire, p. 267-275.
Seu programa histórico mostrar-se-ia com tóda a clareza em Le
siècle áe Louis XIV (1751), um livro que não se dedica a Luís XIV, mas
"ao espírito dos homens no século mais ilustrado que já tenha existido",
com ambição autêntica de história universal (contrastando com Bos-
suet, que chamara "história universal" a de quatro ou cinco povos "e
principalmente a da pequena nação judia, ignorada ou justamente me-
nosprezada pelo resto da terra"). A história do mundo dividia-se, se-
gundo Voltaire, em quatro "séculos" ou épocas: o de Alexandre, o de Cé-
sar e Augusto, o dos Médici, que é tanto como dizer Renascimento, e o
"século de Luís XIV", a época moderna da história da humanidade, que
analisa nos primeiros capítulos a partir das políticas exterior e interior,
ao mesmo tempo que prepara o terreno "para esta culminação que são
os quatro capítulos sobre as ciências e as belas artes e para o que cons-
titui o fundo sombrio do quadro, os cinco capítulos de questões ecle-
siásticas". Apesar de criticado por não ter conseguido unificar os diver-
sos elementos num relato global, o livro, a que Voltaire dedicou muito
esforço e que corrigiria em sucessivas versões, era uma obra nova, de
uma ambição e de uma amplitude até então desconhecidas. E assim o
reconheceram os contemporâneos que, mesmo que a obra estivesse
proibida na França, fizeram que dela se realizassem mais de cinqüenta
edições, ainda em vida do autor.21
O "século" mostrava as idéias do escritor, a quem não interessavam
os reis nem as batalhas. Propunha uma história universal que falasse da ín-
dia ou da China como da Europa e que se dedicasse aos grandes proble-
mas coletivos: queria "saber da história dos homens em vez de saber de
uma pequena parte da história dos reis e das cortes". O menosprezo pelo
passado mais remoto não se baseava somente na atitude cética ante òs tes-
temunhos da antiguidade, mas também no fato de que considerava que a
história "se torna realmente interessante para nós, a partir do final dó sé-
21 POMEAU René et al. De la cour du jardin, p. 62-67. A opinião sobre Bossuet em "Le
pyrrhonisme de l'histoire", p. 70. A citação de "Le siècle de Louis XIV" d'Oeuvres,
IV, p. 63.
culo XV", quando o impacto da imprensa, o Renascimento, os descobri-
mentos e a Reforma contribuíram para unificar o mundo.22
O ponto máximo de seu trabalho de historiador chegaria com Es-
saix sur les moeurs et l'esprit des nations, a Obra mais importante, que co-
meçou a escrever em 1741, publicou pela primeira vèz em 1756 e conti-
nuou refazendo e ampliando até a morte. Na edição de 1769, Voltaire in-
cluiu, como introdução, uma obra que havia publicado em 1765, utilizan-
do o nome de um certo abade Bazin já falecido, La philosophie de l'histoi-
re, na qual examinava a história humana das origens à queda do império
romano, numa tentativa de análise comparada que estava destinada a re-
lativizar o Antigo Testamento e a importância do povo judeu.23 No que diz
respeito às origens, no entanto, Voltaire mostrou-se incapaz de assimilar os
avanços no terreno da geologia que já haviam sido divulgados por George
Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), que começara sua grande
História natural em 1749 com uma "História e teoria da Terra", escreven-
do um capítulo sobre os fósseis marinhos "que se encontram no interior
da terra", como prova das grandes mudanças ocorridas no planeta.24
Em Essai sur les moeurs, Voltaire repete que o objetivo não é expli-
car tudo,mas somente aquilo que merece ser conhecido, "o espírito, os
costumes, os usos das nações principais, com os fatps que não é permiti-
do ignorar", e acrescenta: "A finalidade do trabalho não é a de saber em
que ano um príncipe indigno de ser conhecido sucedeu a um príncipe
bárbaro numa nação grosseira. Se ocorresse a desgraça de se meter na ca-
beça a relação cronológica de todas as dinastias, não se saberia mais do
que palavras".
22 Citações de uma carta a Jacob Vernet, Oeuvres, XI, p. 448-449 e de "Fragments sur
l'histoire", Y, p- 243. Em um sentido similar: "Todos os fatos da história têm de ser
aplicados à moral e ao estudo do mundo; sem isto a leitura é inútil", Notebooks,
II, p. 509. :
23 VOLTAIRE. La philosophie de l'histoire. Edição de J. H. Brumfitt. Genebra: Institut
et Musée Voltaire, 1969/2 (Oeuvres completes, 59).
24 BUFFON, Georges Louis Leclerc. Histoire naturelle géneràle et particulière. Paris:
Pancoucke, 1769.1 (a edição original apareceu em 1749) "Sur les coquilles et les au-
tres produits de la mer qu'on trouve dans l'interieur de la terre", p. 331-384.
„A obra começa com capítulos dedicados à China, à índia, à Pérsia e -
à Arábia, a Maomé, às origens do cristianismo, às causas da queda do im-
pério romano e ao início de um período de superstição e envilecimento
que duraria na Europa até o século XVI. Continua, depois, com a história
da Europa medieval, incluindo os normandos e Bizâncio - com capítulos
de sínteses\jue analisam o estado geral, os costumes, a cultura ou a religião
da Europa. Depois dos capítulos dedicados às cruzadas, focaliza os mon-
î óip e Gengis Khan, a cruzada contra os languedocianos (uma guerra in-
justa que gerou o nascimento da infâmia da Inquisição) e o cisma do Oci-
dente. Dedica nove capítulos analíticos aos privilégios das cidades e das
cortes, aos impostos e às moedas, antes de passar a falar do triunfo dos tur-
cos sobre Bizâncio e de Tamerlão, dedicando uma longa série de capítulos
às instituições feudais (a cavalaria, a nobreza, os torneios, os duelos), e ou-
tros dois que nos falam dos judeus e dos ciganos. Finalmente, apresenta
todo o desdobramento do renascimento, da reforma e dos descobrimen-
tos, ligado a um relato da história das guerras entre Espanha e Françar da
revolução inglesa, da Rússia, etc. O quadro universal introduz agora o Ja-
pão e se dedica ao norte da África.
O capítulo 197, e último, recapitula as lições de toda esta história.
Uma delas é a necessidade de lutar contra as fábulas e os mitos: "Em to-
das as nações, a história permanece desfigurada pela fábula, até o mo-
mento em que a filosofia vem iluminar as trevas; e quando finalmente a
filosofia penetra as trevas, encontra os espíritos tão cegos por séculos de
erros, que mal pode esclarecê-los: encontra cerimônias, fatos, monumen-
tos estabelecidos para constatar mentiras". A barbárie medieval, e em es-
pecial "o furor dogmático religioso", converteram a história da Europa
medieval "em um monte de crimes, de loucuras e de desgraças". Que, no
meio desta situação, houvesse tantos homens que cultivaram as artes úteis
e agradáveis, significa que "nossa parte da Europa tem um caráter nos
costumes e no gênio" não encontrado nos turcos nem na Ásia em geral.
Voltaire critica as explicações "geográficas" das diferenças, propostas por
Montesquieu. Sua natureza é, para ele, de caráter cultural: de "religião, re-
gulamento, governo, costumes, alimentos, vestuários, maneira de escre-
ver, de se expressar e pensar". Ao fim, chega à conclusão "que tudo ó que
depende intimamente da natureza humana se assemelha, de um extremo
do universo a outro; que tudo o que pode depender do costume é diferen-
te (...). O império do costume é mais abrangente do que 0 da natureza". A
natureza^garante a unidade dos homens, os costumes, a variedade. Obser-
vando a evolução da Europa de Carlos Magno ao presente, fica evidente
que, agora, ela está muito mais povoada e mais rica, que a agricultura e o
comércio progrediram. E que teria progredido ainda mais se não tivessem
ocorrido as muitas guerras que sofreu, A própria guerra, no entanto, hu-
manizou-se ao converter-se em coisa de exércitos profissionais e ao não
envolver a população. "Quando uma nação conhece as artes, quando não
se vê subjugada ou deportada por estrangeiros, ressurge facilmente das
ruínas e sempre se recupera."25
No final da vida, o próprio Voltaire estava consciente da limitação do
que produzira, tendo escrito a Diderot, em 14 de agosto de 1776, uma car-
ta que é, de alguma maneira, seu testamento como ilustrado: "A sã filosofia
ganha terreno de Arkangelsk a Cádiz, mas (...) tudo o que pudemos fazer se
limitou a conseguir que as pessoas honradas de toda a Europa digam que
temos razão e, talvez, que os costumes sejam um pòuco mais suaves e mais
honestos. Mas, o sangue do cavaleiro da Barre ainda fumega (..,). Q mais
terrível é que os filósofos não estão unidos e que os perseguidores o estarão ~
sempre (...). Viva bastante, senhor, e esperemos que possa acertar golpes
mortais no monstro do qual eu pude morder apenas as orelhas".26
Dos dois, irmãos Bonnot, o segundo, Etienne, conhecido como aba-
de de Condillac (1714-1780), é famoso sobretudo çomo filósofo, pòr tra-
balhos como A lógica e A língua dos cálculos, ignorando-se por completo
sua obra de historiador, ao qual voltaremos em seguida. Mais sorte teve,
nos últimos anos, a obra do irmão mais velho, Gabriel, conhecido como
abade de Mably (1709-1785), que escreveu muito sobre história e foi am-
25 POMEAU, René ét al .De lá cour au jardin. Oxford: Voltaire Foundation, 1985-1994.
p. 298-301. Faço a análise sobre o texto da edição Furne, Oeuvres, III, p. 1-610. As
citações literais são de "avant-propos" (p. 71-72) e do capítulo 197 (p. 605-610).
26 Carta de 14 dé agosto de 1776, em Oeuvres, XIII, p. 371. Encerrava dizendo, "Se
algum dia voltares à Rússia, visite meu túmulo". Restavam-lhe menos de dois
anos de vida.
piamente lido pelos revolucionários, como teórico do republicanismo.
Mably defendeu uma história que servisse para entender os mecanismos
sociais. A missão de historiador não é, em absoluto, a de "costurar certos
fatos a outros e contá-los com amenidade", e, sim, a de "descobrir as cau-
sas dos acontecimentos e a corrente que os enlaça". Uma história que "fale
à razão", que mostre os costumes e o governo da república" para explicar
as ações dos homens.
Mably enfrentou os fisiocratas. Não aceitava as bases sociais de suas
análises, começando pela suposição de que a propriedade privada da ter-
ra fora um fato natural e eternô, repelindo, também, a idealização do des-
potismo como forma de governo. Que necessidade existe de tomar como
modelo os impérios asiáticos? "Na Europa, há diversas monarquias mo-
deradas, este é o modelo que temos de propor e não o ridículo despotis-
mo dos chineses."27
A extensa obra histórica do irmão, Condülac - especialmente cj cur-
so de história universal para a instrução do príncipe de Parma, que ocupa
12 volumes dos 23 que compreende a edição original de suas obras com-
pletas - não recebeu a atenção que merecia. O "curso", destinado a "traçar
ante nossos olhos a seqüência das revoluções, mostrar õs governos no iní-
cio, no progresso e na decadência acostümando-nos a ver os efeitos nas
causas", contém observações interessantes sobre temas como o uso que se
fãrá das conjecturas quando faltam os testemunhos e uma visão da causa-
27 Todos os textos citados são da edição de Oeuvres. Paris: Bossimge et Besson, 1796-
1797.12 v. e da Collection complète des oeuvres de l'abbé de Mably, Oeuvres posthu-
mes. Paris: Desbrière, 1794-1795. v. XIII a XV (obras póstumas, com uma nume-
ração nos volumes que continua da edição anterior). As citações realizadas proce-
dem de "De l'étude de l'histoire" (Oeuvres, XII, citação da p. 5), "De la manière
d'écrire l'histoire" (XII, citações das p. 258,273-274 e 311-312). "Doutes proposés
aux philosophes économistes sur l'ordre naturelet essentiel des sociétés politi-
ques" (XI, p. 1-174 citação da p. 123). É interessante também "Du commerce des
grains" (XIII, obras póstumas, p. 242-298). Mably não foi somente um teórico; de
suis Observações sobre a história da França, o abade Brizard disse, em "Elogio his-
tórico de Mably" (Oeuvres, I, p. 16), que a obra é a primeira história "nacional" da
França. Sobre as idéias políticas, WRIGHT, Johnson Kent. A classical republican in
eighteenth-century France. The political thought of Mably. Stanford: Stanford Uni-
versity Press, 1997.
lidade dos acontecimentos, distinguindo, nesta, três níveis: as causas pri-
meiras, que derivam da natureza humana e que são iguais em todos; as
causas segundas, que procedem das diferenças existentes nas diversas co-
munidades humanas por causa do clima, da natureza do governo e do pro-
gresso dos conhecimentos e, finalmente, as causas terceiras, não previsí-
veis, que pertencem ao domínio do acaso. A seqüência causal procede ori-
ginalmente da maneira de pensar, passa aos costumes e daí, ao governo,
reagindo, depois, em sentido contrário, do governo à maneira de pensar.
Tudo isto ao lado de uma visão da história do pensamento científico mo-
derno, de observações interessantès sobre o desenvolvimento econômico,
ou de formulações que ultrapassam os tópicos ilustrados, como esta: "As
superstições são ensinadas pelo clero, os chefes de governo as usam no in-
teresse próprio, os legisladores fazem falar aos deuses, e os filósofos conci-
liam suas opiniões com preconceitos que não se atrevem a combater, que
não sabem destruir e que, às vezes, compartilham. Assim, a superstição, a
legislação e a filosofia não são mais do que um corpo de doutrina, em que
os erros em grande número, misturados a üm pequeno número de verda-
des, envolvem as nações em trevas".28
De importância fundamental no panorama da Ilustração porque
abre novos caminhos, mas também porque, de certo modo, anuncia a rea-
ção contra esta,xé Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Especialmente, as
visões críticas das teorias tradicionais do "contrato social", em Discours sur
les sciences et les arts (1750), em Discours sur l'origine et les fondeménts de
l'inégalité parmi les hommes (1752) e em DM contrat social (1762), signifi-
caram um estímulo para pensar novamente os fundamentos da ordem po-
lítica desde os tempos da Revolução francesa até datas bem recentes - Fi-
del Castro disse que combateu Batista "com o Contrato social no bolso - ,
porém, a qualidade das propostas históricas, encontradas em análises de-
masiadamente abstratas, é ínfima - o menosprezo, não pela erudição, mas
28 CONDILLAC, Étienne Bonnot. Oeuvres. Paris: Houel, 1798. 23 v. As citações de
"Cours d'études pour l'instruction du prince de Parme" são de X, p. 21 e p. 3-4; o
estudo das "revoluções nas letras e nas ciências" em XX, p. 271-541; observações so-
bre o mercado interno em XVIII, p. 411; a citação final de X, p. 32.
pelos fatos reais, faz que não saibamos se o "estado de natureza" de que nos
fala é um momento histórico ou uma suposição dirigida a facilitar o racio-
cínio - , representando um passo atrás em relação a outros teóricos da épo-
ca. Não compreendeu a natureza das mudanças que ò desenvolvimento do
comércio introduzira na sociedade e parece ter tido, como ideal, uma co-
munidade agrícola primitiva, integrada por pequenas entidades de vida
simples. Rousseau exerceu uma forte influencia sobre a sensibilidade pos-
terior - é urti dos pais do Romantismo - , ajudou a situar a análise das for-
mas políticas num novo terreno e foi, também, muito influente na reno-
vação da pedagogia. No campo das idéias ilustradas sobre a história, no
entanto, seu legado é extremamente ambíguo.29
Na historiografia alemã da Ilustração, influiu um fato sobre o qual
Fueter nos dá uma explicação social: enquanto, na França, a literatura de-
pendia dos salões aristocráticos, na Alemanha, era obra da pequena bur-
guesia e dos acadêmicos. Além disso, nos pequenos estados alemães, os as-
pectos negativos do despotismo ilustrado eram mais evidentes e a burgue-
sia sentia sua desigualdade em maior medida que na França ou Inglaterra.
"Isto explica principalmente - diz Fueter - porque Rouçseau não encon-
trou, entre os historiadores franceses, um só discípulo importante, enquan-
to fez escola, entre os alemães", com discípulos que usavam a história còmo
arma de agitação, narrando a luta pela liberdade ou os vícios de um regime
corrompido. Ou mais exatamente, propunham uma "história pragmática"
que permitisse estudar as causas dos acontecimentos importantes.30
O primeiro a aplicar os métodos "rousseaunianos" foi Friedrich
Schiller (1759-1805), talvez mais importante pela influência que exérce-
29 O melhor estudo biográfico é CRANSTON, Maurice. Jean-Jacques (1712-1754),
The noble savage, 1754-1762 e The solitary self. Chicago: University of Chicago
Press, 1982-1997. Secundariamente, TRQUSSON, Raymond. Jean-Jacques Rous-
seau. Paris: Tallandier, 1988-1989. 2 v. Utilizo a edição das Oeuvres complètes de
Rousseau de Paris: Seuili 1967-1971. 3 v. Para os "discursos" sòbre as ciências e as
artes e sobre a origem da desigualdade, também a de Jacques Roger, Paris: Flamma-
rion, 1971. , .
30 FUETER, Eduard. Storia delia storiografia moderna. Milano: Ricciardi, 1970. p. 509-
512. Sobre a "história pragmática", REILL, Peter Hans. The German enlightenment
and the rise ofhistoricism. Berkeley: University of California Press, 1975. p. 41-45.
ram os dramas históricos do que pelas superficiais obras de história e pe-
los escritos teóricos de pouca substância - como " O que significa e com
que finalidade se estuda a história universal?" (1789) que acabará con-
denando, em 1793, a Revolução francesa, culpando-a por "um século in-
teiro de retrocesso à barbárie e à servidão".31 O segundo seria Herder.
Parece claro, entretanto, que, à margem das peculiaridades que dis-
tinguem a Aufklärung, existe entre os próprios membros diferenças consi-
deráveis que virão à tona em 1783, quando um jornal de Berlim, o Berli-
nische Monastschrift, em virtude de uma discussão em torno do casamen-
to civil e do casamento religioso, expôs o problema dos limites que deve-
ria ter a vontade de, reforma e alguns começaram a se perguntar, por este
motivo, Was ist Aufklärung? - O que é a Ilustração?" - , isto é: esclareçamos
o que é que nos propomos mudar no mundo em que vivemos e a que pon-
to queremos chegar.
Foram enviadas muitas respostas à pergunta, mas as mais interessan-
tes foram as do filósofo judeu Moses Mendelssohn e a de Kant, que, sendo
a mais contundente, suscitou uma série de réplicas hostis. Convém consi-
derar que nos encontramos num momento em que ainda não havia ocor-
rido a Revolução francesa e, conseqüentemente, não havia motivos para te-
mer que o processo das reformas pudesse conduzir a uma ruptura social.
Mendelssohn escreveu que as palavras "luzes", "civilização" e "cultu-
ra" eram ainda recentes; que pertenciam à língua dos livros e que as pes-
soas comuns não as compreendiam. A cultura, disse, decompõe-se em ci-
vilização e luzes. A civilização refére-se ao terreno do prático, aos avanços
materiais e de costumes; as luzes, ao terreno teórico, ao conhecimento ra-
cional. Para Mendelssohn, o processo total tem um sentido histórico que
se expressa em termos de progresso.
A resposta de Kant, que é talvez o texto mais citado do pensamento
ilustrado, diz: "As luzes são a saída do homem do estado de tutela pelo qual
ele próprio é o responsável. O estado de tutela é a incapacidade de servir-
se do próprio discernimento sem a direção do outro. Cada um é responsá-
31 SCHILLER, F. Escritos de filosofia de la historia. Murcia: Universidade, 1991. A cita-
ção é da "carta ao príncipe" de 13 de julho de 1793, p. 101.
j . - . •
yel pelo estado de subordinação quando a causa deriva não de uma insu-
ficiência de discernimento, mas da insuficiência de resolução e de valor
para dele se servir sem a direção dooutro. Sapere a udel Tenha o valor de
servir-se de seu próprio discernimento. Eis aqui o lema das luzes".
O processo, acrescentou Kant, talvez seja difícil de realizar-se em cada
homem isoladamente, mas não o é para uma coletividade onde sempre ha-
vèrá certos homens que pensem por si mesmos e propaguem estes valores
em seu meio. Kant repeliu, por outro lado, a idéia de que uma revolução
possa produzir o mesmo efeito: "Mediante uma revolução, pode-se obter a
queda de um despotismo pessoal ou o fim de uma opressão que repouse na
ísede de dinheiro ou de domínio, mas nunca uma verdadeira reforma da ma-
neira de pensar; pelo contrário, novos preconceitos servirão, como o fizeram
ós velhos, para manter à margem o grande número de homens desprovidos
de pensamento". Conseqüentemente, "para as luzes, não é necessário outra
coisa senão a liberdade e a mais inofensiva em tudo o que se chama liberda-
de, que é a de fazer uso público, em tudo, da própria razão".32-
Frente ao pensamento de Kant, encontramos, entretanto, os termos
fortes mas ambíguos de Herder e os essencialmente opostos de ama série
de pensadores defendidos, hoje, pelos inimigos da Ilustração, como Ha-
mann (um dos que protestaram contra o artigo de Kant), que pertence ao
mesmo mundo intelectual de Mesmer ou do sueco Swedenborg, que fala-
va com os anjos e tinha estranhas visões (existem ainda igrejas suedenbor-
gianas nos Estados Unidos, na Nigéria e na índia).33
32 Os textos fundamentais do debate alemão podem ser encontrados em RAULET,
Gerard (Ed.). Aufklãrutig. Les Lumières allemandes. Paris: Flammarion, 1995 e em
SCHMIDT, James (Ed.). What is enlightenment? Eighteenth-century answers and
twentieth-century questions. Berkeley: University of California Press, 1996 (aqui,
ainda, com textos interpretativos do século XX). Também VENTURI, Franco. Sa-
pere aude! In: .. Europe des lumières. Recherches sur le XVIIIe siècle. Paris:
Mouton, 1971. p. 35-47. ,
33 Sobre Herder, BERLIN, Isaiah. Vico and Herder. London: Hogarht Press, 1992;
MERKER, N. L'illuminismo tedesco. Bari: Laterza, 1958. p. 450-464. (Berlin é tam-
bém-autor de um estudo, já citado, sobre The magus of the north. J. G. Hamann and
the origins of modem irrationalism. London: Murray, 1993); sobre o debate com
Kant, GREEN, Garrett. Modern culture comes of age: Hamann versus Kant on the
Interpretar Johann Gottfried Herder (1744-1803) não é fácil. Por
um lado, está claro que Ainda uma filosofia da história (Auch eme Philoso-
phiéáer Geschichte, 1774) é um ataque frontal ao racionalismo da Ilustra-
ção, onde condenações a Montesquieu, Voltaire, Hume ou Robertson, não
sãõ economizadas, recriminando-se as caracterizações globalizantes -
"Pinta-se um povo inteiro, um período inteiro, uma região inteira - o que
se pintou? Unificam-se povos e períodos que se sucedem uns aos outros,
alternando-se eternamente como as ondas do mar - o que se pintou?" Isso
não é feito para propor um estudo individualizado, nem um retorno ao
providenCialismo, mas, sim, para invocar uma transcendência - a história
é a "epopéia de Deus através dos milênios, dos continentes e das gerações
humanas" - que põe sua compreensão fora do alcance do homem.34
O mais "ilustrado" dos filósofos alemães foi, indubitavelmente,
Emanuel Kant (1724-1804) que, em Idéias para uma história universal de
um ponto de yista cosmopolita (1784), expõe uma concepção do progres-
so baseada na suposição teleológica de que "se pode considerar a histó-
i
ria da espécie humana, no coiyunto, como a execução de um plano ocul-
to da natureza para realizar uma constituição interior e exteriormente
perfeita, como o único estado no qual pode desenvolver plenamente to-
das suas disposições na humanidade", acrescentando ainda que "uma
tentativa filosófica de tratar a história universal em função do plano da
natureza, que tende a uma unificação política total da espécie humana,
considera-se como possível é inclusive como vantajosa para o desígnio
da natureza". De acordo com estas idéias, escreveu, mais tarde (1798), so-
bre a possibilidade de uma história do futuro - uma história profética da
root metaphor of Enlightenment. In: SCHMIDT, James (Ed.). What,is enlighten-
ment?... Berkeley: University of California Press, 1996. p. 291-305.
34 Utilizo Encara una filosofia de la história. Tradução de Joan Leita. Barcelona: Laia,
1983, citações das p. 61 e 127, eos comentários da luta entre Herder e Kant de Ge-
rard Raulet em Aufklarung. Paradoxalmente, Fueter, que elogia Herder por haver
"influído tão fortemente sobre a especulação histórico-fiíosófica e sobre a historio-
grafia do romantismo", admite que as bases de suas teorias "são pouco claras e con-
traditórias" e acaba reconhecendo que não se pode dizer "que realizou progressos
positivos na historiografia " (Storia delia stóriografia), p. 522-526. '
humanidade - que permitisse assentar o progresso do conjunto dos ho-
mens reunidos na sociedade.35
A meio caminho entre a Ilustração e as novas correntes de que fa-
laremos mais tarde,, está Hegel (1170-1831) que, hoje sabemos, graças
aos arquivos da polícia, sempre manteve simpatias pelo liberalismo, o
que, em termos de governo prussiano, queria dizer tanto quanto pela re-
volução. Hegel começou a ministrar, no curso de 1822-1823, lições sobre
filosofia da história, chegadas até nós através dos apontamentos dos es-
tudantes. A visão é essencialmente filosófica e conserva elementos tipica-
mente ilustrados, como o universalismo, a concepção filosófica da lei e
uma visão de progresso; nega, porém, a realidade de um "estado natural"
em que os homens teriam vivido livres e considera que os povos entram
na história somente quando chegam a formar um estado - "a história
universal só pode ocupar-se dos povos que se organizaram em estado" - ,
o. que não o impedia de lembrar que, "igual a nós, o historiador pertence
à sua época, a suas necessidades e a seus interesses: honra o que ela vene-
ra". Tais elementos poderiam ser usados num sentido conservador numa
sociedade como a francesa que aceitava ao menos uma parte da herança
da revolução. Porém, a ambigüidade hegeliana, condicionada em boa
medida pela repressão das idéias, não era aceitável numa Alemanha que
queria estabelecer uma doutrina conservadora sem oferecer, em contra-
partida, senão o mínimo de reformas possíveis.36
35 Os textos sobre a história encontram-se nas compilações: Kant. Ideas para una his-
toria universal en clave cosmopolita y otros escritos sobre filosofia de la historia. Ma-
drid: Tecnos, 1994/2; La paz perpetua. Madrid: Tecnos, 1989/2; La philosophie de
l'histoire. Genebra: Gonthier, 1965, e na de Gerard Raulet, repetidamente citada. Do
mesmo autor, utilizou-se Kant, Histoire et citoyenneté. Paris: PUF, 1996.
36 REILL, Peter Hans. The German enlightenmentand the rise ofhistoricism. Berkeley:
University of Califórnia Press, 1975. Desisto de entrar na imensa bibliografia sobre
Hegel; foram de especial utlilidade, entre os livros recentes, D'HONDT, Jacques.
Hegel. Paris: Calmann Lévy, 1998 e ALTHAUS, Horst. Hegel. Naissance d'une philo-
spphie. Paris: Seuil, 1999; em menor medida, MACGREGOR, David. Hegel and
Marx after the fali of communism. Cardiff: University of Wales Press, 1998. Suas
idéias sobre a história podem ser acompanhadas através dos Princípios de la filoso-
fia dei dèrecho e de La razón en la historia, compostos a partir de notas de cursos,
extraídas de seus manuscritos e dos apontamentos dos estudantes. Faço duas cita-
O futuro imediato da historiografia alemã avançaria, devido a isso,
mais na linha de Herder do que na de Kant e o desenvolvimento das idéias
históricas da Ilustração seria produzido sobretudo na França. Em outros
países, como na Espanha, as contribuições realmente inovadoras, deixan-
do de lado o florescimento da erudição, seriam obra de figuras isoladas
como Antônio de Capmajiy ou Ignácio de Asso,37 cujas obras exerceram
pouca influência em seu meio. Devemos, portanto, voltarà França e refe-
rir os homens que-avançaram mais na direção do futuro. '
Denis Diderot (1713-1784) não é somente a figura-chave da Ilustra-
ção francesa mas, o que é mais importante, a que anuncia o que virá de-
pois. Sua obra tem uma força crítica e uma dimensão literária extraordi-
nárias. Em um primeiro momento, nos Pensamentos filosóficos, parte do
ceticismo - "O que nunca foi posto em dúvida, nunca foi provado. O que
não foi examinado sem prevenção, nunca foi bem examinado. O ceticismo
é o primeiro passo em direção à verdade" - e de uma confiança plena na
ciência moderna: "Vês este ovo? Com ele, derruba-se todas as escolas de
teologia e todos os templos da terra".38
ções do último texto através da tradução francesa de Kostas Papaioanoou {La rai-
son dans l'Histoire. Paris: Union Générale d'Editions, 1965. p. 138 e 31).
37 Antoni de Capmany e de Montpalau (1742-1813) publicou Memorias históricas so-
bre la marina, comercio y artes de la antigua ciudad de Barcelona (1779-1792), uma
história econômica concebida de maneira nova e original, acompanhada de um
grande conjunto de documentos, com uma primeira parte dedicada à marinha,
uma segunda ao comércio - queria ser "como uma introdução à história mercan-
til das nações modernas" - e uma terceira, ainda mais original, às atividades indus-
triais. Também Ignacio de Asso publicou Historia de la economia política de Aragón
(1798). Capmany foi objeto de estudos diversos de Pierre Vilar, Fernando Sánchez
Marœ e Miquel Pérez Latre, Emili Giralt, Francisco José Fernández de la Cigöna e
Estanislao Cantero (estes dois últimos dedicaram-lhe um livro não muito elogiá-
vel) e Ramon Grau. No entanto, falta, sobre ele, ainda um estudo comparável ao de
PEIRÓ, Antonio. Ignacio de Asso y la "Historia de la economia política de Aragdn".
Zaragoza: Instituição Fernando, o Católico, 1998 (para o contexto da obra, SAR-
RIÓN, Guillermo Pérez. Aragón en el Setecientos. Lleida: Milênio, 1999. p. 375-456).
38 WILSON, Artur M. Diderot, sa vie et son oeuvre. Paris: Robert Laffont, 1985; PO-
MEAU, René. Diderot. Paris: PUF, 1967; FURBANK, P. N. Diderot. A criticai bio-
graphy. New York: Knopf, 1992; PROUST, Jacques. Diderot et l'Encyclopédie. Paris:
Albin Michel, 1995; BENOT, Yves (Ed.). -Diderot, Textes politiques. Paris: Ed. *
^ A fé na função da ciência, na eficácia transformadora das "luzes", o
levará a empreender essa imensa obra renovadora que é a Encyclopédie.
Quando iniciou sua tarefa era um homem de pouco mais de trinta anos
que escrevera uma novela erótica, Les bijoux indiscrets e uma Carta sobre os
cegos que lhe custou um encarceramento e o distanciamento de Rousseau:"
indivíduo que extraiu dele, provavelmente, algumas de suas melhores
idéias, embora pretenda havê-las recebido numa,súbita iluminação.
O propósito inicial dos organizadores da Enciclopédie limitava-se a
traduzir um livro inglês, a Cyclopaedia or an Universal Dictionary of Arts
and Sciences de Chambers, que alcançara grande êxito. Mas, em mãos de
Diderot, o projeto transformou-se e, em 1750, foi publicado um prospec-
to em que se afirma querer empreender "um quadro geral dos esforços da
mente humana em todos os gêneros e todos os séculos". Em 1751, sai o
primeiro volume da Encyclopédie ou Dicionário racional das ciências, das
artes e dos ofícios. Estamos nos anos cruçiais e mais fecundos da Ilustra-
ção francesa: em 1748, Montesquieu publicara O espírito das leis, em
1749, Buffon iniciara a edição da História natural (15 volumes que irão
aparecendo até 1767), agora, em 1751, sai o primeiro volume da Encyclo-
pédie e, em anos imediatamente posteriores, enquanto prossegue sua pu-
blicação, apareceram as duas grandes histórias de Voltaire (Le siècle de
Louis XTV, em 1751, e Essai sur les moeurs, em 1756) e seu Dicionário filo-
sófico (1764), além de Discours sur l'origine et les fondements de l'inégalité
(1755), de Rousseau.
Atacada pelos jesuítas e pelos jansenistas, condenada pelo Parla- .
mento de Paris, suprimida pelo Conselho do rei (quando já havia sido
distribuída aos subscritores), a Encyclopédie foi salva, pela primeira vez,
em 1752, pela influência do "diretor geral da livraria", Malesherbes. Em
1759, no entanto, a licença foi revogada, ao mesmo tempo que foi conde-
sociales, 1960. Uso as obras na edição Assezat-Tourneur, Oeuvres complètes de Di-
derot. Paris, 1875-1877, 20 v. (a citação deste parágrafo de "Pensées philosophi-
ques" 31,1, p. 140) e nas Oeuvres, preparadas por Laurent Versini (Paris: Robert
Laffont, 1994-1997. 5 v.); a Encyclopédie, na reprodução fac-símile de New York:
Reader Microprint Corporation, 1969.
nada pelo índice, com o papa excomungando os leitores, obrigados a en-
tregarem os volumes a um padre para que os queime. Somente foi auto-
rizado indenizar os subscritores com os primeiros volumes de lâminas
"técnicas" (o que explica a importância das mesmas na obra), até que, em
1765, apareceram, ao mesmo tempo, os últimos dez volumes de texto,
VIII a XVII, com dados de autoria falsos de Neuchatel e, em 1772, os úl-
timos de lâminas. Diderot acabou, depois de 25 anos de trabalho, amar-
gurado pelas defecções: a princípio, contara com uma ampla relação de
colaboradores ilustres; depois, estes se acovardaram e o abandonaram, de
modo que contou, nos dez últimos volumes, com poúco mais que o auxí-
lio de De Jaucourt, autor de uma quarta parte do texto e com alguns ar-
tigos de Holbach. ,
O êxito da obra, no entanto, foi extraordinário. Entre 1751 e 1782,
venderam-se 25.000 exemplares, distribuídos de modo quase igual entre a
França (11.500) e o resto da Europa (12.500). No total, representam cerca
de 900.000 volumes, o que a converte na obra de edição mais gigantesca
desde a invenção da imprensa e num dos maiores best-sellers jamais co-
nhecidos (e demonstra que a Ilustração avançada não era coisa de peque-
nas minorias, mas tinha uma enorme expansão na Europa).39
Diderot apreendeu muitas coisas com esta experiência. Sobretudo,
que não bastava o conhecimento da ciência e da técnica para mudar o
mundo e, sim, que era necessário aprofundar-se no terreno das ciências
sociais e, principalmente, no da história. É neste momento que começou a
colaborar com o abade Raynal na História filosófica e política do estabeleci-
mento e comércio dos europeus nas duas índias (primeira edição, 1770),
obra de denúncia do despotismo e do colonialismo que o parlamento de
Paris proibiu em 1781. Nela Diderot anunciou os novos tempos, dizendo
que, depois da erudição, da poesia, da metafísica, da geometria, da física,
das ciências naturais e da química, chegara o momento do estudo das
39 DARNTON, Robçrt. The bussiness of enlightenment. "A publishing history of the
"Encyclopédie" 1775-1800. Cambridge, MA: Belknap Press/Harvard University,
1979 (complementarmente, suas obras sobre a edição de livros proibidos na Fran-
ça, publicados em 1995); VENTURI, Franco. Los orígenes de la Enciclopédia. Barce-
lona: Crítica, 1980.
?T
^ncias sociais: "Estamos totalmente dedicados às questões de governo, de
fcàslação, de moral, de política e de comércio. Se me fosse permitido ar-
riscar uma profecia, anunciaria que os espíritos inclinar-se-ão decisiva-
mente para o lado da história, um imenso caminho em que a filosofia ain-
âa não pôs o pé". Tinha consciência que as mudanças que estavam aconte-
çendo na sociedade exigiriam uma nova maneira de focalizar o estudo da
história, pois, "nestas sociedades mercantis, o descobrimento de uma ilha,
i importação de uma nova mercadoria, a invenção de uma máquina, o es-
tabelecimento de uma oficina, a invasão de um ramo de comércio, a cons-
trução de um porto, converter-se-ão nas transações mais importantes e os
mais dos povos serão escritos por comerciantes filósofos".40
Diderot concebia a história como uma ferramenta de conscientiza-
rão política: "Se, desde o início, a história tivesse apanhado e arrastado pe-
los cabelos os tiranos civis e os tiranos religiosos, não creio que houvessemmelhorado, mas teriam sido mais detestados e os desventurados súditos
teriam sido menos pacientes". Mas, também como ferramenta de análise,
mte a realidade de que "a história do homem civilizado não é outra coisa
p e a história de sua miséria: todas as páginas estão tingidas 4 e sangue:
imas de sangue dos opressores e outras de sangue dos oprimidos", era
40 Sobre a "história" de Raynal, LÜSEBRINK, H. J.; TIETZ, M. (Ed.). Lectures de Ray-,
tial. L'Histoire des deuxs Indes en Europe et en Amérique au XVIIIe siècle. Actes du
Colloque de Wolfenbüttel. Oxford: Voltaire Foundation, 1991. Sobre a participação
de Diderot nas diversas edições da obra de Raynal, BENOT, Yves. Diderot de
l'athéisme à l'anticolonialisme. Paris: Maspero, 1970; WÖLPE, Hans. Raynal et sa
machine de guerre, l'Histoire des deux Indes et sés perfectionnements. Paris: Géiiin,
1956, e DUGHET, Michèle. Diderot et l'Histoire des deux Indes ou l'écriture frag-
mentaire. Paris: Nizet, 1978. Uma citação da edição das Oeuvres de Diderot de Ver-
sini, III, p. 753; A final, de RAYNAL. Histoire philosophique des établissements et du
commerce des européens dans les deux Indes. Genebra: J. L. Peillet, 1781. III, p. 291-
292. Uma mostra de que o texto de Raynal-Diderot foi entendido como uma obra
política temos na antologia De los puebhs y gobiernos.Colección de pensamientos
extraídos de la historia filosófica de las dos índias, por el abade G. J. Raynal. Tradu-
zido para o castelhano por dom S. D. V... London: Daviso, 1823, onde o autor ex-
traiu "os pensamentos que se referem às instituições políticas" e os organizou te-
maticamente. Na seleção, como era previsível, aparece a maior parte dos textos po-
líticos escritos por Diderot. ;
obrigatórip pedir reformas radicais que garantissem "a liberdade política",
ou seja, "a liberdade do povo" que só pode assentar-se numa constituição,
na existência de um corpo representativo da nação "depositário das leis" e
encarregado do seu cumprimento.
A rejeição do despotismo é constante e explícita - "uma das maiores
desgraças que pode acontecer a uma náção livre é dois ou três reinados con-
secutivos de um despotismo justo e ilustrado" - , como o é a invocação da
liberdade, da responsabilidade dos intelectuais - "Saber como deveriam ser
as coisas é próprio de um homem de bom entendimento; como as coisas
são, é próprio de um homem experiente e como mudá-las pará melhorá-
las, de um homem gênio" - e do próprio compromisso pessoal: "Aconteça
o que acontecer, nunca trairei a honorável causá da liberdade".41
Diderot, que morreria em 1784 sem chegar a ver as mudanças que
haveriam de sacudir a velha sociedade, sabia, no entanto, que o futuro lhe
daria a razão. Dois textos resumirão esta consciência e seus matizes: "Se o
filósofo fala em vão para este momento, escreve e pensa exclusivamente
para o futuro".42 E o desta carta â Grimm: "entendo as coisas bem, as julgo
bem, e o tempo sempre acaba dando-me razão. Não rias: sou eu quem an-
tecipa o futuro e quem sabe seu pensamento"
Anne Robert Jacques Turgot (1727-1781), controlador geral das fi-
nanças de Luís XVI entre 1774 e 1776, quando foi destituído pelo mal-es-
tar suscitado por suas medidas liberais, era um economista próximo aos fi-
siocratas, com quem compartia a vontade de transformar a economia sem
risco de mudanças sociais. Tinha, porém, um sistema de pensamento pró-
prio, mais rico que o daqueles, aproximando-se em muitos aspectos ao dos
\ escoceses contemporâneos e tendo, na base, uma concepção da história
41 A primeira citação procede da "Carta Apologética sobre o abade Raynal", dirigida a
Grimm, e a tomo de Diderot, Oeuvres philosophiques. Paris: Ed. P. Vernière, 1961. p.
, 640. As citações seguintes são dós textos de Diderot para a História de Raynal e dos
Mélanges philosophiques, historiques, etc., pour Catherine II. Para simplificar as cita-
ções, todas as referências são do volume II "Politique" das Oeuvres na edição de Ver- !
sini. Os textos usados nos dois parágrafos procedem respectivamente das p. 714,
738,636-641,276,282,275,271 e 759.
42 Dos "Mélanges" para Catarina II (Oeuvres, III, p. 348).
como "a longa marcha do progresso", que passa pelas etapas sucessivas do
homem caçador, pastor e agricultor (segundo a visão predominante em
1751, à qual se acrescentará mais tarde o comerciante).43
As idéias de Turgot, de escassa influência ém comparação com a
que exerceriam as dos escoceses que estavam desenvolvendo paralela-
mente um esquema interpretativo semelhante, deixaram marcas no dis-
cípulo Jean Antoine Nicolas Caritat, marquês de Condorcet (1743-1794).
Matemático, colaborador da Encyclopédie, republicano, mas condenado à
morte pela Revolução, escreveria, na prisão em que morreu, o que pode
ser considerado como o testamento intelectual da Ilustração francesa: o
Equisse d'un tableau historique desprògrès de l'esprit humain, mostrando-
nos os desdobramentos da evolução progressiva da humanidade, dividi-
da em dez épocas, mais complexas que os "estágios" de Turgot porque se
referem à história da civilização (a nona, por exemplo, vai "De Descartes
à formação da República francesa") e que terminam com uma décima
época, apontada em direção ao futuro: "Se o homem pode prever com
segurança quase completa os fenômenos dos quais conhece as leis; se, in-
clusive quando estas lhe são desconhecidas, pode, partindo da experiên-
cia do passado, prever com uma grande probabilidade os acontecimen-
tos do futuro; por que haveria dé se considerar uma empresa quimérica
a de traçar com alguma verossimilhança o quadro dos destinos futuros
da espécie humana segundo os resultados da história?" E concretiza as
"esperanças sobre o futuro estágio da espécie humana" em três pontos:
"a destruição da desigualdade entre as nações;- os progressos da igualda-
43 Utilizo os textos fundamentais de Turgot na compilação TURGOT, Anne-
Robert-Jacques) Formation et distribution des richeses, textes choisis et établis par
Joêl-Thomas Ravix et Paul-Marie Romani. Paris: Fl^mmarion, 1997 (em espe-
cial "Plano de um primeiro discurso sobre a história universal"), de cerca de
1751, e "Reflexões sobre a formação e a distribuição das riquezas", de 1766).
Complementarmente FINZJ, Roberto. Turgot, le ricchezze, il progresso e la storia
universale. Torino: Einaudi, 1978. Sobre Turgot e a teoria dos "quatro estágios"
da qual se falará no capítulo seguinte, MEEK, R. L. Turgot on progress, sociology
and economics. Cambridge: Cambridge University Press, 1973, e Smith, Turgot
and the "Four Stages" theory. In: SMITH, Ronald M. Marx and after. London:
Chapman and Hall, 1977. p. 18-32.
obrigatórip pedir reformas radicais que garantissem "a liberdade política",
ou seja, "a liberdade do povo", que só pode assentar-se numa constituição,
na existência de um corpo representativo da nação "depositário das leis" e
encarregado do seu cumprimento.
A rejeição do despotismo é constante e explícita - "uma das maiores
desgraças que pode acontecer a uma náção livre é dois ou três reinados con-
secutivos de um despotismo justo e ilustrado" - , como o é a invocação da
liberdade, da responsabilidade dos intelectuais - "Saber como deveriam ser
as coisas é próprio de um homem de bom entendimento; como as coisas
são, é próprio de um homem experiente e como mudá-las pará melhorá-
las, de um homem gênio" - e do próprio compromisso pessoal: "Aconteça
o que acontecer, nunca trairei a honorável causa da liberdade".41
Diderot, que morreria em 1784 sem chegar a ver as mudanças que
haveriam de sacudir a velha sociedade, sabia, no entanto, que o futuro lhe
daria a razão. Dois textos resumirão esta consciência e seus matizes: "Se o
filósofo fala em vão para este momento, escreve e pensa exclusivamente
para o futuro".42 E o desta carta a Grimm: "entendo as coisas bem, as julgo
bem, e o tempo sempre acaba dando-me razão. Não rias: sou eu quem an-
tecipa o futuro e quem sabe seu pensamento".
Anne Robert Jacques Turgot (1727-1781),controlador geral das fi-
nanças de Luís XVI entre 1774 e 1776, quando foi destituído pelo mal-es-
tar suscitado por suas medidas liberais, era um economista próximo aos fi-
siocratas, com quem compartia a vontade de transformar a economia sem
risco de mudanças sociais. Tinha, porém, um sistema de pensamento pró-
prio, mais rico que o daqueles, aproximando-se em muitos aspectos ao dos
escoceses contemporâneos e tendo, na base, uma concepção da história
41 A primeira citação procede da "Carta Apologética sobre o abade Raynal", dirigida a
Grimm, e a tomo de Diderot, Oeuvres phibsophiques. Paris: Ed. P. Vernière, 1961. p.
640. As citações seguintes são dós textos de Diderot para a História de Raynal e dos
Mélanges phibsophiques, historiques, etc., pour Catherine II. Para simplificar as cita-
ções, todas as referências são do volume II "Politique" das Oeuvres na edição de Ver- !
sini. Os textos usados nos dois parágrafos procedem respectivamente das p. 714,
738,636-641,276,282,275,271 e 759. , '
42 Dos "Mélanges" para Catarina II (Oeuvres, III, p. 348).
„ como "a longa marcha do progresso", que passa pelas etapas sucessivas do
"homem caçador, pastor e agricultor (segundo a visão predominante em
1751, à qual se acrescentará mais tarde o comerciante).43
As idéias de Turgot, de escassa influência em comparação com a
que exerceriam as dos escoceses que estavam desenvolvendo paralela-
mente um esquema interpretativo semelhante, deixaram marcas no dis-
cípulo Jean Antoine Nicolas Caritat, marquês de Condorcet (1743-1794).
Matemático, colaborador da Encyclopédie, republicano, mas condenado à
morte pela Revolução, escreveria, na prisão em que morreu, o que pode
ser considerado como o testamento intelectual da. Ilustração francesa: o
Equisse d'un tableau historique desprògrès de l'esprit humain, mostrando-
nos os desdobramentos da evolução progressiva da humanidade, dividi-
da em dez épocas, mais complexas que os "estágios" de Turgot porque se
referem à história da civilização (a nona, por exemplo, vai "De Descartes
à formação da República francesa") e que terminam com uma décima
época, apontada em direção ao futuro: "Se o homem pode prever com
segqrança quase completa os fenômenos dos quais conhece as leis; se, in-
clusive quando estas lhe são desconhecidas, pode, partindo da experiên-
cia do passado, prever com uma grande probabilidade os acontecimen-
tos do futuro; por que haveria dé se considerar uma empresa quimérica
a de traçar com alguma verossimilhança o quadro dos destinos futuros
da espécie humana segundo os resultados da história?" E concretiza as
"esperanças sobre o futuro estágio da espécie humana" em três pontos:
"a destruição da desigualdade entre as nações,- os progressos da igualda-
43 Utilizo os textos fundamentais de Turgot na compilação TURGOT, Anne-
Robert-Jacquesï Formation et distribution des richeses, textes choisis et établis par
Joël-Thomas Ravix et Paul-Marie Romani. Paris: Flammarion, 1997 (em espe-
cial "Plano de um primeiro discurso sobre a história universal"), de cerca de
1751, e "Reflexões sobre a formação e a distribuição das riquezas", de 1766).
Complementarmente FINZI, Roberto. Turgot, le ricchezze, il progresso e la storia
universale. Torino: Einaudi, 1978. Sobre Turgot e a teoria dos "quatro estágios",
da qual se falará no capítulo seguinte, MEEK, R. L. Turgot on progress, sociology
and economics. Cambridge: Cambridge University Press, 1973, e Smith, Turgot
and the "Four Stages" theory. In: SMITH, Ronald M. Marx and after. London:
Chapman and Hall, 1977. p. 18-32.
de no interior de um mesmo povo; finalmente, o aperfeiçoamento real
do homem". Idéias que, através dps "ideólogos", e fecundadas pelas dos
escoceses, reapareceriam nos historiadores franceses da restauração.44
44 BADINTER, Elisabeth; BADINTER, Robert. Condorcet. Paris: Fayard, 1988 (sobre
o Esquisse, p. 589-595); CONDORCET, Esquisse d'um tableau historique des progrès
de l'esprit humain. Edição Prior e Belaval. Paris: Vrin, 1970, citação da "décima épo-
ca" (p. 203-204 desta edição).
Capítulo 5
A INVENÇÃO DO PROGRESSO
Paralelamente à eyolução do pensamento ilustrado sobre a história
e com este mantendo contatos, mas com suficiente especificidade e coe-
rência para exigir um tratamento separado, está a formação, na Grã-Bre-
tanha, de uma visão da história orientada por uma concepção global do
progresso. As tendências que levaram a amadurecê-la datam do século
XVII. Procedem, por um lado, da própria historiografia britânica, que ti-
nha sido de pouca relevância antes de Walter Raleigh (1554-1618) - aven-
tureiro, amante real, fundador da colônia de Virgínia, homem de ciência,
historiador e poeta, que morreu executado a pedido do embaixador espa-
nhol - e sua História do mundo, "produto de uma década de encarcera-
mento na Torre de Londres", um relato que começava com a criação do
mundo e acabava no ano 130 antes de Cristo." Era, em muitos sentidos,
uma obra tradicional, que seguia a Bíblia e apresentava a divina providên-
cia como a primeira causa dos acontecimentos. Porém, Raleigh - que ti-
nha uma grande afeição pela ciência e realizava experiências químicas na
prisão - estava consciente da necessidade de dar uma base racional à his-
tória. Contribuiu para isso, completando o contexto global do providen-
dalismo com uma atenção especial às "causas segundas", estritamente hu-
manas, que explicariam os acontecimentos concretos. A História do mun-
io foi um livro influente, como prova o fato de que teve uma dúzia de edi-
ções durante o século XVII (um número muito maior do que as obras de
Shakespeare). Em uma linha semelhante, encontramos William Camden
(1551-1623), autor de um estudo de topografia antigá, Britannia, e dos
Annales rerum Anglicarum regnante Elizabetha, crônica do reinado de Isa-
bel I que se afastava dos usos retóricos do humanismo e apresentava uma
narração pontual e documentada. Camden foi, além disso, quem patroci-
nou a primeira cátedra de história de Oxford.1
Mais importante seria o estímulo proporcionado por Francis Bacon
(1561-1626), "teórico e escritor de história". Numa concepção global do
campo dá ciência entendida como um instrumento para o progresso hu-
mano, insistiu na importância de desenvolver o estudo da história, com-
pletando os três campos tradicionais da história natural, civil e eclesiásti-
ca com um quarto, dedicado a descrever "o estado geral do saber" - uma
história das ciências e das artes - , ao mesmo tempo que pedia, e nisso se
observa a importância política que lhe- outorgava, que se escrevesse uma
"história moderna" que fizesse que a ilha da Grã-Bretanha, "unida agora
nüma monarquia para o futuro, estivesse também unida numa história no
que se refere ao tempo passado" (isto é, uma "história britânica" que favo-
recesse a assimilação da Escócia, recentemente agregada à Inglaterra). Nos
últimos anos de sua vida, distante das lides políticas, escreveu História do
reinado do rei Henrique VII, uma narrativa em forma de anais das realiza-
ções do rei, objetiva em seus julgamentos e baseada sobretudo em fontes
de segunda mão, em que utilizava a caracterização psicológica do sobera-
no para estabelecer os motivos de suas ações e que foi qualificada como
"uma biografia política, ao mesmo tempo que uma história pragmática,
um estudo não somente das ações, mas da política e da arte de governar".2
1 LEVINE, Joseph M. Humanistri and history. Origins of modem English historio-
graphy. Ithaca: Cornell University Press, 1987; WOOLF, D. R. The Idea of history in
1 early Stuart England. Erudition, and the light of truth from the accession of James I to
the civil war. Toronto: University of Toronto Press, 1990 (citação da p. 45; sobre
Camden, p. 115-125); e, principalmente, Ralegh: science, history, and politics. In:
HILL, Christopher. Intellectual origins of the English revolution revisited. Oxford:
Clarendon Press, 1997. p. 118-200.
2 BACON, Francis. The advancement of learning. London: Dent,1978. p. 69-82 (cita-
ções das p. 69 e 75-76) e The history of the reign of King Henry VII. Edição de Brian
. Vickers. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. ZAGORIN, Pérez. Francis
Bacon. Princeton: Princeton University Press, 1998, especialmente "History: The
O movimento renovador fortemente influenciado pela leitura de
Tácito, que era admirado pelo seu realismo político, tornou possível a li-
bertação da história do jugo do providencialismo sem necessidade de
romper com a religião - o que obstaculizaria o avanço do conhecimento
histórico - , ao estabelecer uma diferença entre as causas primeiras gerais,
determinantes das grandes linhas do destino humano e que podiam ser
deixadas à ação da providência, e as segundas, de caráter terreno, que bas-
tariam para a explicação dos acontecimentos "ordinários". Por outro lado,
levaria a associar a história, considerada como ciência para a investigação
da "sociedade civil", às ciências da natureza.
Mas o impulso transformador mais importante surgiu, sem dúvida
alguma, das comoções sociais vividas na Inglaterra na "guerra civil e na re-
volução". No transcurso de cinqüenta anos, todos os princípios da ordem
social foram postos em cheque, ao mesmo tempo que a fundamentação re-
ligiosa e os posicionamentos mais radicais apareceram pela primeira vez à
luz pública. Os puritanos radicais liam, na Bíblia, mensagens revolucioná-
rias e, nas páginas de Isaías e de Ezequiel, encontravam estímulos para des-
truir um mundo corrompido. Os levellers ou "niveladores" queriam uma
nação de pequenos proprietários livres. Os diggers pediam a repartição da
terra, já que defendiam através de Gerrard Winstanley (1609 - depois de
1660), que os proprietários de terra tinham se apropriado da mesma pela
violência e usurpação: "o poder de cercar a terra e possuí-la como proprie-
dade foi criado por vossos antepassados mediante a espada" (coerentes com
estas idéias, estabeleceram uma colônia agrícola comunitária). Os ranters
não apenas negavam a propriedade privada mas também Lawrence Clark-
son (1615 - depois de 1667) sustentava que a alma era mortal, que o céu es-
tava na terra, que o juízo final ocorre na consciência dos, homens e que o
pecado é uma invenção, das classes dominantes; uma doutrina parecida à de
Idea of progress, Ars histórica, Bacon the historian", p. 203-220; HILL, Christopher.
Francis Bacon and the parlamentariam. In: . Intellectual origins of the
English revolution revisited. Oxford: Clarendon Press, 1997. p. 77-117; TINCKLER,
J. F. Bacon and history. In: PELTONEN, Markku (Ed.). The Cambridge companion
to Bacon. Cambridge: Cambridge University Press, 1996. p. 232-259; CROMBIE, A.
C. Styles of scientific thinking in the european tradition. London: Duckworth, 1994.
Ill, p. 1572-1586.
Lodowick Muggleton e seus discípulos, que a conservaram oculta durante
mais délrezentos anos (o último muggletoniano conhecido, morreu em-
1979), Não somente as camadas populares participaram nos movimentos
, (Winstanley era um comerciante de tecidos arruinado e Clarkson, um al-
faiate). Intelectuais da categoria de Locke, Newton e Milton compartilha-
ram as idéias religiosas antitrinitárias radicais e o último deles, concreta-
mente, defendeu publicamente a ,legitimidade do regicídio e aceitou a pos-
sibilidade de que as mudanças sociais levassem a "um mundo transtorna-
do", antes dele terminar, uma. vez vencida a revolução, "cego em Gaza, no
moinho com os escravos, acorrentado sob o jugo filisteu".3
Derrotada a revolução, não foi fácil recompor a situação e restabe-
lecer alguma forma de consenso social. Não se pôde voltar à monarquia
absoluta, mas o novo regime, baseado no compromisso da revolução de
1688, permitiu alcançar, sem aparência de subversão nem recurso à mobi-
lização das massas, objetivos semelhantes aos que almejara conseguir ini-
cialmente, em 1641: um sistema político representativo - que Hume des-
creveu como: "um príncipe hereditário, uma nobreza sem vassalos e um
povo que vota através de representantes" - , controlado pela aliança entre a
aristocracia agrária capitalista que eliminara os obstáculos do "feudalismo
3 Sobre os grupos radicais nos anos da revolúção, é necessário 1er as obras de Chris-
topher Hill, começando por The world turned upside down. Radical ideas during the
English revolution, London: Temple Smith, 1972, continuando com The English Bi-
ble and the seventeenth-century revolution. London: Aliens Lane, 1993, Milton and
the English revolution (1977), The experience of defeat. Milton and some contempo-
raries. London: Bookmarks, 1994, etc. A citação de Winstanley é de The law of free-
dom and other writings. Ed. de C. Hill. Harmonds Worth: Penguin, 1973. p. 99. (So-
bre Winstanley, o livro clássico de David W. Petegrosky, Leftwing democracy in the
English civil war, reeditado em 1999 por Sandpiper books). Os textos de Milton em
Prose writings. London: Dent, 1974 e em Political writings. Ed. de Martin Dzelzainis.
Cambridge: Cambridge University Press, 1991; uma citação dé Samson agonistes,
versos 42 e 43. Sobre Muggleton e seus discípulos, THOMPSON, E. P. Witness
agairtst the Beast. New York: The New Press, 1993. p. 65-105 e LAMONT, William.
Puritanism and historical controversy. London-'University College, 1996. p. 27-40,
etc. Seria necessário, naturalmente, falar também dos "quakers", mas sua evolução
é muito mais complexa. SMITH, Nigel. Literature and revolution in England 1640-
1660. New Haven: Yale University Press 1994. p. 336-355, sçbre o estudo da histó-
ria no século XVII como meio para entender as complexidades do presente.
bastardo"e a classe,de empresários mercantis, voltada para os grandes ne-
gócios do comércio exterior, a expansão colonial e o financiaménto da
-guerra. A aliança garantia o controle do governo real, limitando os recur-
sos ao que era votado anualmente no parlamento e criando uma adminis-
tração burocrática que gerenciava de fato a maior parte do dinheiro. Sobre
estas bases, assentar-se-ia o duplo processo da chamada "revolução finan-
ceira" e da expansão comercial, elementos essenciais do crescimento eco-
nômico britânico.4
A nova ordem social e a nova estrutura do estado necessitavam de
uma nova legitimação, que já não podia ser a das monarquias absolutas as-
sentadas no direito divino - entre outras razões porque tinha que respon-
der às demandas de uma sociedade onde a abundante difusão de informa-
ções sobre os acontecimentos da guerra civil havia criado uma opinião pú-
blica e hábitos de discussão política que exigiam argumentos racionais - ,
mas que estaria baseada na idéia de que a sociedade civil teria sido funda-
da por meio de um contrato estabelecido entre os membros e o poder so-
berano. Em torno desta teoria, seria articulada uma nova visão do mundo:
uma tarefa em que ciência e história atuaram intimamente associadas.5
A ciência cumpriria, em primeiro lugar, a função de explicar um
cosmo de criação divina, dominado, porém, pela atuação de "segundas
causas": um mundo físico ordenado e regulado por leis que tinha paralelo
4 No parágrafo observo exatamente as conclusões do grande livro de BRENNER, Ro- -
bert. Merchants and revolution. Commercial change, political conflict, and London's
overseas trade. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. No referente à rela-
ção entre o novo sistema político e o desenvolvimento dos mercados, ROOT, Hil-
ton L. The fountain of privilege. Political foundations of markets in old regime Fran-
ce and England. Berkeley: University of California Press, 1994, e ÒARRUTHERS,
Bruce G. City of capital. Politics and markets in the English financial revolution. Prin-
ceton: Princeton University Press, 1999.
5 Os princípios da monarquia de direito divino, defendidos por Robert Filmer. Pa-
triarch and other writings. Cambridge: Capibridge University Press, 1991, seriam
justamente o objeto contra o qual Locke se dirigiria no primeiro de seus dois tra-
tados sobre o governo. Sobre a formação de umaopinião pública e o nascimento
de uma cultura democrática, ZARET, Davis. Origins of democratic culture. Printing,
petitions, and the public sphere in early-modern England. Princeton: Princeton Uni-
versity Press, 2000.
na sociedade civil. Newton construiu um modelo racional do universo re-
gido por um Deus-relojoeiro e controlado por leis, no qual "o mundo na-
tural inteiro, que consiste nos céus e na terra, significa o mundo político
inteiro, que consiste nos tronos e no povo".6
Os filósofos sociais, por sua vez, fundamentariam esta imagem glo-
bal e ordenada da sociedade. Thomas Hobbes (1588-1679), que traduzira
Tucídides para o inglês, recorreu a uma interpretação da origem histórica
das sociedades humanas para dar uma versão dos fundamentos do contra-
to social em De eive (1642) e Leviatã (1651), e sustentar que, antes da so-
ciedade civil, havia "uma guerra de todos os homens contra todos os ho-
mens" e que, a fim de preservar as vidas, eles tiveram que aceitar a realiza-
ção de pactos, cedendo o governo ã um poder supremo que era, no que diz
respeito ao conjunto da "cidade", o mesmo que a cabeça é em relação ao
corpo. A fria racionalidade "geométrica" de Hobbes faria que o senso co-
mum se escandalizasse frente a uma teoria que afirmava que a sociedade
estava dominada pelo egoísmo e que quase todas as regras eram conven-
cionais. Enquanto isso, alguns dos herdeiros radicais da revolução inter-
pretaram a obra deste homem, que falava da própria morte como de "um
grande salto na escuridão", em termos de uma proposta libertadora (um
estudioso contemporâneo qualificou Leviatã como "a maior das utopias
revolucionárias inglesas").7
6 JACOB, ,M.C. The newtonians and theEnglish revolution, 1689-1720. Hassocks:
Harvester Press, 1976. p. 14; HILL, C. Sir Isaac Newton and his society. In: .
Change and eontinuity in seventeenth-century Englànd. Ed. rev. New Haven: Yale
University Press, 1991. p. 251-277.
7 Sobíè a idéia de contrato social, ATGER, Frédéric. Essai sur Fhistoire des doctrines
du contraí social. Paris: Alcan, 1906. T. Hobbes, Leviathan, cap. 13 (uso a edição de
Hardmonsworth: Penguin, 1968, com estudo preliminar de C. B. Macpherson); De
civè, 1,12 e VI, 19 (uso HOBBES, T. Man and citizen. Edição de Bernard Gert. In-
dianapòlis: Hàckett, 1991). O personagem, um homem que viveu marcado pelo
medo - entre outros, o de ser julgado por ateísmo - é descrito muito bem em
MARTINICH. A. P. Hobbes. A biography. Cambridge: Cambridge University Press,
1999 (com uma breve mas excelente síntese bibliográfica nas p. 359-361).
STRAUSS, Leo. The politicai philosophy of Hobbes. Chicago: University of Chicago
Press, 1963 (ed. Original, 1936); LAMONT, William. Puritanism and historical con-
troversy. London: University College, 1996. p. 96-101.
A nova sociedade necessitava de um modelo explicativo que, por um
lado, se expressasse em termos de governo representativo nascido da revo-
lução de 1)688 e, por outro, que associasse o interesse com a consciência,
tornando possível estabelecer a base de "confiança" - de "trust" - , sem a
qual seria impossível o funcionamento do mundo dos negócios. Quem ela-
borou a fundamentação histórica do contrato social de acordo com estes
termos foi John Locke (1632-1704), possuidor de um saber amplo e diver-
sificado, que se interessava pela ciência experimental (colaboraria com Ro-
bert Boyle na Royai Society), e escreveu sobre a teoria do conhecimento (à
qual dedicaria o Ensaio sobre o entendimento humano), sobre temas econô-
micos, sobre religião (Cartas sobre a tolerância), sobre educação (propunha
que se ensinasse um tipo de história que ajudasse a entender as origens da
sociedade civil, em vez da tradicional que explicava os feitos dos conquista-
dores, "que, na maior parte, são os grandes carniceiros da humanidade") e
sobre política, em conseqüência dos laços com os "whigs", o que b obrigou
a se exilar na Holanda de 1683 a 1689, fugindo da perseguição de Carlos IL
O mais importante, do ponto de vista do historiador, são justamente os es-
critos políticos: os Dois tratados sobre o governo (1690), em especial, o se-
gundo, em que sustenta que os homens viviam em paz no estado de natu-
reza, mas aceitaram submeter as liberdades a um poder superior a fim de
\
proteger as propriedades - justificadas como fruto do trabalho - , e afirma
que a finalidade máxima dos homens ao reunir-se em estados e süjeitar-se
a um governo - que não é, em Locke, um poder àbsoluto, mas controlado
pelos representantes do. povo - é "a de salvaguardar os bens".8
8 LOCKE, John. Two treatises of government. Editados por Peter Laslett. Cambridge:
Cambridge University Press, 1970; The educational writings of John Locke. Edição de
James L. Axtell. Cambridge: Cambridge University Press, 1968; Ensayo sobre el en-
tendimento humano. Ed. de S. Rábade. Madrid: Editora Nacional, 1980; Lettre sur la
tolerance. Ed. bilíngüe da primeira "carta". Paris: PUP, 1965; MACPHERSON, C. B.
The politicai theory of possessive individualism: Hobbes to Locke. Oxford: Oxford Uni-
versity Press, 1962; APPLEBY, Joyce Oldham. Economic thought and ideology in se-
venteenth-century England. Princeton: Princeton University Press, 1980. p. 220-241
(sobre a intervenção em questões monetárias), etc. Sobre a ética dos comerciantes,
GRASSBY, Richard. The business community of seventeenth-century England. Cam-
bridge: Cambridge University Press, 1995. p. 297-301 ("Interest and conscience").
Ao estabelecer os princípios de uma veracidade social, a nova ciên-
cia experimental também contribuiu para assentar a confiança na manu-
tenção dos compromissos, ao mesmo tempo que transmitia credibilidade
à história, induzindo-a a usar critérios de verificação e uma lógica próxi-
ma à utilizada pelos pesquisadores. "Que história e história natural com-
partilhem o nome, é mais do que um acidente lingüístico. No século XVII,
'história' significava uma relação verdadeira de fatos: qualquer tipo de fa-
tos, físicos, biológicos, sociais ou 'históricos'." A associação entre ciência e
histeria não se estabeleceu apenas em termos da adoção comum de méto-
dos "de observação de fatos e de fenômenos que se associavam à verdade e
à certeza moral", mas, também, porque os cultores de ambos os campos do
saber tinham clareza de sua responsabilidade no estabelecimento de um
novo consenso social.9
Entretanto, a história custou muito a encontrar um Newton. As pri-
meiras formulações históricas escritas do ponto de vista dos "whigs", ven-
cedores da revolução de 1688, não respondiam às expectativas que Locke
expressara ao falar de uma disciplina que ajudasse a entender a sociedade
civil, pois se limitavam, como o caso de Paul Rapin-Thoyras - um hugue-
note francês exilado, autor de uma história da Inglaterra muito lida na pri-
meira metade do século XVIII - , a uma propaganda política "partidária ele-
mentar, baseada no mito da existência de uma antiga constituição anterior
ao"domínio normando", que teria sido recuperada pelos "whigs". Em con1
traste, temos a História da rebelião e guerras civis da Inglaterra, do conde de
"9 Este é um tema complexo qjie requereria uma exposição muito mais matizada. A
aqui apresentada deriva, em grande medida, de SHAPIN, Steven. A social history of
truth. Civility and science in seventeenth-century England. Chicago: Chicago Univer-
sity Press, 1996; de EAMON, William. Science and the secrets of nature. Princeton:
Princeton University Press, 1994. p. 341-350 (em que se fala da "história dos ofí-
cios" organizada pela Royal Society) e de SHAPIRO, Barbara J. Probability and cer-
tainty in seventeenth-century England. A study òf the relationship between natural
science, religion, history, law, and literature. Princeton: Princeton University Press,
1983 (citações das p. 120 e 161). Não se pode esquecer, não obstante, a persistência
de aspectos relacionados com a alquimia, a astrologia, etc., encontrados em New-
ton, mas também em Boyle, segundo PRÍNCIP, LawrenceM. The aspiring adept.
Robert Boyle and his alchemichal quest. Princeton: Princeton University Press, 199.8.
Claçendon, uma versão "tory" dos acontecimentos, escrita com "elegância
clássica, publicada nos inícios do século XVIII, trinta anos depois da mor-
te do autor. Em meados do século XVIII, "os ingleses - diz Philip Hicks -
há mais de dois séculos queixavam-se da pouca qualidade de seus livros de
história".10
O autêntico fundador do tipo de história que-respondia às necessi-
dades da nova sociedade seria David Hume (1711-1776). Boa parte dos
que a aperfeiçoaram eram escoceses como ele, que fizeram da visão do
progresso "uma historiografia de concilação com a Grã-Bretanha", que ser-
via para identificar a situação presente como uma fase superior de desen-
volvimento político, se comparada com a de um passado local de atraso, o
que acabaria, no caso de Hume, levando-o a dedicar-se somente da histó-
ria da Inglaterra e, não, da Grã-Bretanha."
Nascido numa família escocesa da pequena nobreza, de escassa for-
tuna, David Hume estudou primeiro na Universidade de Edimburgo.
Como não queria seguir a carreira de Direito que a família lhe destinara, se
pôs a estudar por conta própria, vivendo com modéstia e muita sobrieda-
de. Mudaria depois para Bristol, indo trabalhar com comerciantes, mas "em
poucos meses a.chei aquela ocupação totalmente inadequada para mim".
Foi, então, para França para prosseguir os estudos; ali residiu de 1734 a
1737, e escreveu o Tratado da natureza humana, publicado em 1738 quan-
do retornou a Londres. O livro e outros dois posteriores, Investigação sobre
o conhecimento humano (1749) e Investigação sobre os princípios da moral
(1751), deram-lhe fama de ateu e de materialista. Por outro lado, os Discur-
sos, cuja primeira parte apareceu em 1742 e uma segunda, Discursos pqlíti-
10 HICKS, Philip. Neoclassical history and English culture. From Clarendon to Hume,
London: Macmillan, 1996.
11 Sobre esta visão, que não somente favorecia a conciliação com a Grã-Bretanha, mas
reordenava o passado em função de um futuro comum, PITTOCK, Murry G. H.
Inventing and resisting Britain. Cultural identities in Britain and Ireland, 1685-1789.
London: Macmillan, 1997. p. 140-145, nuança as formulações de Linda Colley em
Britons. Forging the nation, (1707-1837). HILL, C. The Norman Yoke. In: .
Puritanism and revolution. London: Mercury Books, 1962. p. 50-122 (o ,comple-
mento, com o mesmo título, em HILL, C. Intellectual origins of the English revolu-
tion revisited. Oxford: Clarendon Press, 1997. p. 361-365).
cos, em 1751, foram bem recebidos pelo público. Passou dois anos acompa-
nhando o general Saint Clair nas cortes de Viena e de Turim, tendo, depois,
fracassado na tentativa de obter uma cátedra universitária de filosofia mo-
ral em Edimburgo, em conseqüência da reprovação de suas obras (em
1755, a igreja escocesa o quis excomungar, mas os moderados conseguiram
evitá-lo; Hume escreveria numa carta: "A última assembléia dedicou-se ao
meu caso. Não propuseram me queimar porque não podem, mas queriam
me entregar a Satanás e acredito que isto, sim, podem fazê-lo"). Conseguiu,
então, que o nomeassem diretor da biblioteca dos advogados de Edimbur-
go que, com 30.000 volumes, era considerada como uma das melhores da
Europa, o que lhe proporcionou os materiais e a tranqüilidade que lhe per-
mitiriam escrever a obra mais ambiciosa, a História da Inglaterra, que teve
mais de sete edições em vida do autor, convertendo-se na visão do passado
inglês mais lida durante um século (com mais de cento e setenta e cinco
edições), até a publicação da de Macaulay. Ele próprio dirá que o dinheiro
que os livreiros lhe pagavam, excedendo tudo ô que vira até então, o fez
"não somente independente, mas opulento".
Deixou o cargo de bibliotecário em 1757, mudou-se de novo para a
França, como secretário do lord Hertford na embaixada britânica, ficando
ali de 1763 a 1767, já famoso pelos escritos e em contato com os ilustra-
dos. Em 1769, voltou para Edimburgo "muito rico (recebia mil libras ao
ano), sadio, apesar de afetado pelos anos, com a perspectiva de desfrutar
largamente de bem-estar e de contemplar o crescimento de minha reputa-
ção". A autobiografia explica a mudança súbita que se produziu então: "Na
primavera de 1775, tive um problema no ventre, que a princípio não me
alarmou mas qúe se converteu desde então, como fiquei sabendo, em mor-
tal e incurável. Espero que agora terei um fim rápido. Sofri pouca dor pelo
mal e, o que é mais raro, não tive, apesar da grande indisposição física, mo-
mento algum de abatimento de espírito. A tal ponto que, se tivesse que es-
colher um momento da vida que desejasse voltar a viver, me sentiria ten-
tádo a escolher este último. Sinto o mesmo entusiasmo que sempre tive
pelo estudo e a mesma alegria de estar em companhia de outros. Conside-
ro, além disso, que um homem de sessenta e cinco anos, ao morrer, não faz
mais do que economizar uns anos a mais de doenças (...). É difícil estar
menos preocupado pela vida do que eu me sinto no momento". Em 1776,
jsôde assistir à publicação da obra máxima do discípulo e amigo Adam
Smith e leu o primeiro volume do Decline and fali de Gibbon, a quem vi-
sitou em Londres, depois de lhe haver escrito uma carta de elogio pelo li-
vro o que, segundo Gibbon, "pagava-me por dez anos de trabalho". Mor-
reu como "morre um santo laico" em 25 de agosto de 1776. Muitos escan-
- dalizaram-se por este desenlace, pois supunha-se que os incrédulos de-
viam morrer em meio a tormentos. A publicação do texto Minha vida,
acompanhado por uma carta de Adam Smith, provocou indignação. John-
son acreditava que a serenidade de Hume era fingida e Boswell, que duvi-
dava dela, acabou encontrando uma solução oito anos mais tarde: sonha-
ra que tinha descoberto um diário secreto no qual Hume dizia que, embo-
ra a vaidade o levara a publicar livros céticos e infiéis, no fundo, era um
homem cristão e muito piedoso.12 ,
Na obra histórica, Hume tomaria Tácito como modelo de estilo e
Maquiavel e Sarpi, como de método. Mas uma de suas contribuições mais
fecundas procedia de um autor radical e de uma obra escrita na perspec-
tiva dos anos da revolução: em Océana (1656) James Harrington (1611-
1677) apresentara o modelo de um governo republicano (que influenciou
posteriormente os primeiro textos constitucionais norte-americanos), ao
mesmo tempo que propunha uma visão determinista da história que con-
12 MOSSNER, Ernest Campbell. The life of David Hume. 2nd ed. Oxford: Clarendon
Press, 1980; NORTON, Davis Fate. The Cambridge companion to Hume. Cambrid-
ge: Cambridge University Press, 1993; ROSS, Ian Simpson. The life of Adam Smith,
Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 289-304 ("Dialogue with a dying man"). A auto-
biografia -"My own life"- e a carta de Smith a Strahan que a acompanha podem
ser vistas na edição de The history of England que é citada a seguir, I, p. XXVII-XL.
Empregaram-se as seguintes edições de outras obra»: Tratado de la ttaturaleza hu-
mana. Ed. de Félix Duque. Madrid: Editora Nacional, 1977. 2 v. (contém também
a "Autobiografia"); Investigado sobre I'enlenimenl humà. Barcelona: Laia, 1982; The
natural history of religion, Dialogues concerning natural religion. Ed. D. A. Wayne
Colver e J. Valdimir Price. Oxford: Clarendon Press, 1976 (sobre a complicada his-
tória da publicação deste texto póstumo, veja-se ATTANASIO, Alessandra. La reli-
gione come corruzione delia moralità e delia società. MicroMega, 3/96, p. 215-238).
Prescinde-se da abundante bibliografia sobre Hume visto fragmentariamente
(como filósofo, economista, etc.).
CapíiuloS
siderava que a natureza do governo dependia "da balança do domínio ou
da propriedade" - um conceito que incluía não somente a terra, mas "o di-
nheiro e outros objetos parecidos" - entre os diversos grupos sociais; uma
divisão eqüitativa da terra, por exemplo, corresponderia a uma republica.
Hume enriqueceu e desenvolveu a visão em alguns textosde Discursos,
onde, pela primeira vez, o modelo da sucessão de fases da história hunía-
na, ligada ao desenvolvimento econômico que seria o motor do progresso,
foi formulado. A primeira fase da história foi a da selvageria, na qual os ho-
mens se dedicavam somente à caça e à pesca. Daí, passou-se a outra, em
que cresceram desigualmente a agricultura e as manufaturas: uma econo-
mia de base agrária, semelhante à que dominava na maior parte da Euro-
pa do século XVIII. Nesta sociedade, o desenvolvimento econômico basea-
va-se na divisão do trabalho e na articulação do mercado. Numa primeira
etapa, a articulação era interna, limitada ao intercâmbio entre os exceden-
tes carftponeses e os produtos dás manufaturas locais. Logo, entretanto, o
comércio exterior e o gosto pelo luxo desenvolveriam a produção indus-
trial. A atração por produtos novos, trazidos de outros países pelo comér-
cio de longa distância estimulou os poderosos a consumi-los; os grandes
lucros proporcionados por este tráfico fizeram que outros comerciantes
entrassem na concorrência e, finalmente, porque havia uma grande de-
manda, a indústria local imitou estes produtos importados. Este padrão
serve a Hume para explicar o progresso humano e permite, por exemplo,
que ele critique os que acreditavam que a terra estivera mais densamente
povoada na antiguidade do que no presente, argumentando que, já que as
manufaturas e o comércio não eram tão florescentes no passado, disso se
deveria deduzir que também a agricultura, necessária para a subsistência
humana e condicionante do tamanho da população, estivesse mais atrasa-
da. O raciocínio terminara com um ato de fé na capacidade de progresso
que o novo mundo do comércio oferecia:
"Todas as coisas que nos últimos' tempos foram descobertas ou
aperfeiçoadas, por acaso não contribuíram para facilitar a subsistência dos -
homens e, com isso, a sua propagação e crescimento? Nossa habilidade nas
artes mecânicas, o descobrimento dé novos mundos que tanto aumentou
o comércio, o estabelecimento dos correios e o uso das letras de câmbio:
tudo isso parece extremamente útil para o estímulo das artes, indústria e
população. Se fossem suprimidas de repente, quantos males não acontece-
riam a todo tipo de negócios e trabalhos! Que multidão de famílias pere-
ceria imediatamente de necessidade e de fome! Não parece provável que
nenhuma outra instituição possa preencher o vazio das novas invenções."
Nessas formulações encontra-se o essencial da visão que vê no de-
senvolvimento dó mercado o motor principal do crescimento econômico
(Smith o enriqueceria, introduzindo, como explicação, as conseqüências
progressivas da divisão social do trabalho que a extensão do trabalho tor-
nava possível) e os primeiros rudimentos da teoria dos quatro estágios,
que Adam Smith também completaria sem esquecer de reconhecer a dívi-
da que tinha com o mestre.13
A fama dé historiador de Hume, no entanto, baseava-se num livro
hoje esquecido: a História da Inglaterra. Começou, em 1754, publicando a
pkrte que se referia aos dois primeiros Stuart; dois anos mais tarde, lançou
a que abrangia da morte de Carlos I à revolução de 1688; em 1759, a que
se dedicava à dinastia dos Tudor e, em 1762, finalmente, completou a obra
com o princípio, que ia da invasão de Júlio César a 1485 (se bem que con-
tinuou revisando-a até a morte). O objetivo fundamental era explicar o
período que ia da ascensão ao trono de Henrique VIII a 1689. Ao finai da
obra, ao falar do triunfo da glorious revolution e do advento da nova dinas-
tia, Hume expôs as razões políticas que tivera para escrever o livro de uma
maneira mais objetiva do que até então haviam feito os propagandistas da
causa "whig", que desqualificavam os inimigos "tories". A busca de um con-
senso exigia uma visão mais equilibrada, que também levasse èm conta as
razões pelas quais os perdedores haviam atuado: "os extremos devem ser
evitados em todas as coisas e, mesmo que ninguém possa satisfazer duas
13 As idéias de Hume encontram-se nos dois ensaios "Of commerce" e "Of the popu- ,
lousness of ancient nations", em HUME, Davis. Essays, moral, political and literary.
London: Longmans, 1912.1, p. 287-299 e 381-443 (citação das p. 412-413). WOOT-
TON, Davis. David Hume "the historian". In: NORTON, Davis Fate. The Cambrid-
ge companion to Hume. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. p. 281-312.
Tive que usar Oceana em uma versão fancesa (Paris: Belin, 1995) -citação das p.
232-233-, que contém também o extenso estudo que J. G. A. Pocok escreyeu para;
The political works of Harrington (Cambridge, 1977).
CapitubS
facções opostas com opiniões moderadas, é nelas, provavelmente, que se
encontra a verdade".
Apesar da abundância de citações de fontes nas notas de rodapé (não
as tinha colocado nos primeiros volumes, maS acrescentou ao revisá-los),
está claro que, em Hume, predomina o filósofo social sobre o erudito: a sua
história, como a de Smith, é aquilo que Dugald Stewart chamará "história
teórica ou conjectural".14 Introduz apêndices analíticos sobre as leis, as ins-
tituições, os costumes ou a economia de uma época; explica o estabeleci-
mento do feudalismo pelo fato de que "a autoridade é naturalmente com-
panheira da propriedade" e critica duramente a ignorância dos tempos me-
dievais, quando "em todas as escolas predominava a loucura, não menos
que em todas as igrejas". Discute longamente a Carta Magna no capítulo XI,
onde afirma que "a distribuição igualitária da justiça e o livre uso da pro-
priedade (...) são os dois grandes objetos pelos quais os homens instituíram
a sociedade política". Não mostra, logicamente, simpatia alguma pelos re-
beldes igualitários de 1381: "Seriam tão grandes os inconvenientes advin-
dos da abolição das classes e privilégios, que não tardariam em se aperce-
ber, voltando as coisas muito rápido a tomar o curso ordinário".
A parte politicamente mais importante é a dedicada ao século XVII,
especialmente a que se refere aos 46 anos que vão do início da "guerra ci-
vil" à revolução de 1688 e que ocupa, em extensão, uma quarta parte do to-
tal da obra. Hume, apesar de se opor à condenação sistemática dos Stuarts
e pedir aos vencedores que tenham respeito "pelos adeptos da antiga cons-
tituição", não considera inconveniente reconhecer os benefícios obtidos
com a nova constituição, produto da revolução, concluindo: "Assim é que
podemos afirmar, sem exagero algum, que nós, nesta ilha, temos desfruta-
do desde então, se não do melhor sistema de governo, ao menos do sistema
de liberdade mais amplo que a humanidade jamais conheceu".15
14 Sobre ^significado real da denominação "história conjectural", POOVEY, Mary. Â
history of the modem fact. Problems of Knowledge in the sciences of wealth and society.
Chicago: The University of Chicago Press, 1998. p. 214-263. 1
15 HUME, David. The history of England from the invasion of]ulius Cesar to the revolu-
tion in 1688. Indianapolis: Liberty Classics, 1983. 6 v. (reproduz a edição de 1778
com as últimas correções de Hume). São feitas citações diretas ou indiretas de VI, p.
As concepções da escola escocesa, qüe encontram em Hume e Adam
Smith as elaborações mais completas, surgem de um meio mais amplo,
onde outros autores fizeram contribuições e, principalmente, colaboraram
para sua difusão. É o caso de Adam Ferguson (1723-1816), sucessor de
Hume como responsável pela biblioteca dos advogados, que foi nomeado
professor de filosofia moral na Universidade de Edimburgo em 1759. Em
1767, publicou o Ensaio sobre a história da sociedade civil, onde a transição
da barbárie à civilização é condicionada pelo processo de divisão do traba-
lho e a propriedade privada e as instituições do governo aparecem relacio-
nadas com os estágios de crescimento econômico: era um livro que tocava
em temas de interesse do momento de forma simples e compreensível, al-
cançando, por isso, um êxito de público considerável (o que não acontece-
ria, em 1783, com a Históriada ascensão e queda da república romana).16
William Robertson (1721-1793) publicou, em 1769, a História do impera-
dor Carlos V, que começava com uma extensa introdução - "Visão do pro-
gresso da sociedade na Europa" - que mostrava a semelhança da "situação
política" das tribos indígenas da América do Norte com a dos antigos po- ^
vos germânicos e afirmava que "a mente humana, quando se encontra na
mesma situação, nas idades mais distantes e nos países mais longínquos,
assumirá a mesma forma e se destacará pelos mesmos costumes". Com o
texto, e com a inacabada História da América, Robertson foi o exportador
533-534,1, p. 203, p. 333-334; II, p. 293, p. 518-525; IV, p. 354-355 e VI, p. 531. Uma
excelente análise desta história, em O'BRIEN, Karen. Narratives of Enlightenment.
Cosmopolitan history from Voltaire to Gibbon. Cambridge: Cambridge JJniversity
Press, 1997. p. 56-92, também HICKS, Philip. Neo-classical history and English cultu-
re. .. London: Macmillan, 1996. p. 170-209 e POCOCK, J. G. A. Barbarism and reli-
gion. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. II. Narratives of civil govern-
ment, p. 199-257. Extraído do texto de Dugald Stewart de BROADIE, Alexander. The
Scottish Enlightenment. An anthology. Edinburgh: Canongate, 1997. p. 670-674.
16 FERGUSON, A. Essay on the history of civil society. Ed. Duncan Forbes. Edinburgh:
Edinburgh University Press, 1966. Utilizei também The correspondence of Adam
Ferguson, publicada por Vincenzo Merolle (London: Pickering, 1995. 2 v.), com
uma excelente e extensa introdução biográfica de Jane B. Fagg. Pocock (Barbarism
and religion, II, p. 330-365) opina que Ferguson compartilha a teoria dos quatro es-
tágios com Smith ou Millar, mas que não extraíra deles, sendo próprio e original o
uso que fazia dela.
da teoria dos quatro estágios. Teve um êxito considerável na Europa, em-
boa não se possa dizer que enriqueceu o que Hume e Smith escreveram.17
Adam Smith (1723-1790) é o continuador mais direto de Hume.
Nascido na Escócia, de família distinta mas não rica, estudou em Glasgow
e em Oxford, tendo iniciado muito cedo uma vida dedicada à educação na
universidade de Glasgow, onde entraria em contato com os grupos burgue-
ses ligados ao comércio e à industrialização nascente - parte dos avanços na
máquina de vapor de Watt foram realizados justamente enquanto trabalha-
va nesta universidade com pessoas relacionadas com Smith. A publicação,
em 1759, de A teoria dos sentimentos morais lhe deu renome e justifica o fato
de ter sido escolhido para acompanhar um jovem nobre numa viagem de
formação ao estrangeiro, ao longo da qual conheceu Voltaire, Turgot e
Quesnay. De volta à Inglaterra, retirou-se à terra natal de Kirkcaldy e traba-
lhou de 1767 a 1776 na redação de A riqueza das nações, cumprindo, assim,
uma parte do programa que havia exposto ao fim de A téoria dos sentimen-
tos morais, quando escreveu que "em outro estudo procurarei explicar os
princípios gerais do direito e do estado, as grandes mudanças que ocorre-
ram nos diversos períodos e etapas da sociedade, não somente no que diz
respeito à justiça, mas no que se refere à administração, às finanças públi-
cas, à defesa e tudo o mais que se insere no âmbito legislativo".18
Em A riqueza das nações, Smith sintetizou a concepção "whig" de so-
ciedade, em que a defesa da propriedade aparece como fundamento da or-
dem civil, cóm as idéias históricas de Hume e a física social de Montesquieu.
Propôs, como centro da construção, uma concepção do progresso de caráter
17 Os textos pragmáticos de Robertson em The progress of society in Europe. A histori-
cal outline from the subversion of the Reman empire to the beginning of the sixteenth
century. Ed. Felix Gilbert. Chicago: Chicago University Press, 1972. p. 154. Campo-
manes ofereceu a Robertson o ingresso na Academia de História espanhola. Que
Robertson foi pouco mais que um plagiário o sustenta Ronald Meek em SMITH,
Ronald M. Marx uruf after. Ten essays in the development of economic thought. Lon-
don: Chapman and Hall, 1977. p. 28. Opinião mais favorável em O'BRIEN, Karen.
Narratives of Enlightenment. Cambridge: Cambridge University Press, 1997. p. 93-
166 e em POCOCK, J. G. A. Barbarism and religion. Cambridge: Cambridge
University Press, 1999. II, p: 258-329.
18 La teoria de los sentimientós morales, parte VI, seção 4. Utilizo obra na tradução cas-
telhana de Carlos Rodriguez Braun. Madrid: Aliança, 1997 (a citação na p. 595).
^econômico já apontada em Hume, mas que ele acaba por concretizar na cha-
mada teoria dos quatro èstágios que mostra quatro etapas sócio-econômicas
sucessivas da evolução humana, cada uma das quais baseando-se em um
"modo de subsistência" particular: caça, pecuária, agricultura e comércio. Aos
diversos estágios, correspondem diferentes formas de organização social e di-
ferentes instituições sobre a propriedade e o governo, sendo que cada um de-
les peçmite fazer afirmações gerais sobre o estado dos costumes e da moral, o
excedente social, o sistema legal, a divisão do trabalho, etc.19
Partindo de uma concepção que vê o curso da história como a as-
censão da barbárie ao capitalismo, estabelece um programa para o pleno
desenvolvimento deste - no contexto do liberalismo econômico, com um
sistema político que garantisse o respeito pela propriedade privada - com
a promessa explícita de um futuro de prosperidade para todos. Tais ele-
mentos formam um complexo de idéias que foram dominantes como nú-
cleo central do pensamento sócio-econômico de nossò mundo, ainda se
'mantendo, embora corrompido e pervertido, no neoliberalisiho atual.
19 A biografia preferencialmente considerada é a de ROSS, Ian Simpson. The life of
Adam Smith. Oxford: Clarendon Press, 1995; Complementarmente CAMPBELL,
R. H.; SKINNER, A. S. Adam Smith. London: Croom Helm, 1982; HONT, Istvan;
IGNATIEFF, Michael (Ed.). Wealth and virtue. The shaping of political economy in
the Scottish enlightenment. Cambridge: Cambridge University Press, 1983; JONES,
Peter; SKINNER, A. S. Adam Smith reviewed. Edinburgh: Edinburgh University
Press, 1992; WILSON, Thomas; SKINNER, Andrew S. (Ed.). The market and the
state. Essays in honour of Adam Smith. Oxford: Clarendon Press, 1976. Sobre a ela-
boração da teoria dos quatro estágios, considerou-se fundamentalmente Ronald
Meek: Smith, Marx and after, "Turgot and thá"Four Stages" Theory", em History of
. Political Economy, III, 1971, n. 1, p. 9-27 e, principalmente, Social science and the ig-
noble savage. Cambridge: Cambridge University Press, 1976. Os "apontamentos" de
estudantes que permitiram aprofiíndar nosso conhecimento do pensamento histó-
rico de Smith podem ser lidos em SMITH, Adam. Lecciones de jurisprudência. Ed.
dé Alfonso Ruiz Miguel. Madrid: Centro de Estudos Constitucionais, 1996. Schum-
peter diria que "A riqueza das nações não contém uma só idéia analítica, princípio
ou método que fosse inteiramente novo em 1776" (History of Economic Analysis.
London: Allen and Unwin, 1963. p. 184) e a mesma acusação de falta de originali-
dade aparece mais recentemente em RASHID, Salim. The myth of Adam Smith.
Cheltenham: Edward Elgar, 1998, o que revela uma escassa compreensão do cará-
ter coletivo da obra da ilustração escocesa, por um lado e, do fato que o livro de
Smith não é somente, nem principalmente, um tratado de análise econômica.
Um traço fundamental dessa visão da evolução social, sendo prova-
velmente o que assegurou seu êxito, é o de haver eliminado toda a referên-
cia às transformações, políticas que aparecem, então, corpo simples conse-
qüências do processo de desenvolvimento econômico: nas palavras de
Ross, a natureza revolucionária do livro consistia em mostrar que "a con-
corrência e o mecanismo de mercado tendem, em determinadas condições
históricas, a melhórar a sorte da humanidade, sem elaborar refinamentos
abstratos numa constituição política".20 Ao reduzir o motor da mudança
social à economia, A riqueza das nações proclamava "ofim da história", ne-
gava legitimidade ao enfrentamento social e à luta política, condenando
por antecipação os caminhos que a revolução francesa seguiria. A teoria
dos quatro estágios teria, nos tempos confusos que se aproximavam, uma
função profundamente contra-revolucionária. A obra de Smith seria ado-
tada pelos representantes dos velhos regimes em crise, os quais se propu-
seram a usá-la como receituário para as mínimas adaptações políticas que
necessitavam para que, em essência, tudo continuasse como antes. (Nas
cortes de Cádiz, por exemplo, um deputado reacionário catalão, Dou, ad-
vertia ao inquisidor de Barcelona, eleito deputado para uma próxima le-
gislatura, que o que devia fazer para atuar nas cortes com eficácia era
aprender bem o castelhano e estudar Adam Smith, a quem Toreno chama-
va "o papa da economia política".21
A análise de Smith, desde o primeiro momento, tem uma dimensão
histórica, com a proposta: da relação que existe entre a divisão do trabalho
e a extensão do mercado. O esquema evolutivo aparece com toda a força
no terceiro livro, "Sobre o diferente progresso da opulência em diferentes
nações" e no extenso primeiro capítulo do quinto livro, onde a análise dos
gastos do governo em defesa, justiça, obras públicas e educação lhe permi-
te examinar de que maneira o desenvolvimento do estado se relaciona com
20 ROSS, Jan Simpson. The life of Adam Smith. Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 364.
21 PALYI, Melchior. The introduction of Adam Smith on the continent. In: CLARK,
John Maurice et al. Adam Smith, 1778-1926. New York: Augustus M. Kelley, 1966
(reimpressão de uma obra publicada por The Adam Smith Library em 1928). p..
180-233. (A carta de Dou ao inquisidor Llóser se encontra no Arquivo do Caste-
lo de Papiol).
cada uma das etapas de crescimento econômico e mostrar - recuperando
Harrington através de Hume - que as instituições políticas estão, em últi-
ma instância, ligadas à divisão da propriedade.
O modelo evolutivo de Smith, completa o de Hume nas etapas fi-
nais. No início, os homens eram caçadores-coletores, como as tribos nati-
vas norte-americanas, e viviam igualitariamente. Ao transformarem-se em
pastores, como os tártaros ou os árabes, começou a desigualdade das ri-
quezas ("para cada homem muito rico deve haver ao menss quinhentos
pobres") e a autoridade e a subordinação foram introduzidas: os ricos ne-
cessitavam que houvesse governo para preservar seus bens e os menos ri-
cos se associavam a eles para serem ajudados a defender os seus. Desta fase
pecuária, passou-se à agrícola, em meio à qual apareceu a diferença entre
agriculturá-manufatura, criando-se um mercado que seria incrementado
pelo comércio internacional. Na Europa, o desejo de luxo por parte dos se-
nhores levoú ao sacrifício dos meios que utilizavam para defender a auto-
ridade, dando lugar a uma revolução "silenciosa e insensível" que acabou
liquidando o feudalismo. Estabelece-se, então, o sistema mercantil, que há
de garantir a riqueza a todas as camadas da sociedade e há de ampliar a
"universal opulência" da Europa para todo o mundo. Smith introduz, nes-
te ponto, as idéias sobre a importância do mercado, esclarecendo que a
prosperidade nascida do comércio somente permanecerá assegurada se
uma parte dos capitais forem investidos ná terra e na ampliação da capa-
cidade produtiva, pois, de outro modo, quando as coisas forem mal, os ca-
pitais comerciais tenderão a fugir, como aconteceu nas cidades da Hansa
(Smith não estava ainda consciente das mudanças que seriam introduzi-
das na estrutura do mercado pela revolução industrial, quando esta fez que
o investimento em equipamentos tivesse um papel semelhante ao que ele,
em sua análise, destinara ao desenvolvimento agrícola).22
— Í
22 An inquiry in to the nature and causes ofthe wealth of natioris foi usado na quarta
edição (London: Strachan, 1786.3 v.), da qual são feitas as citações, e na tradução
castelhana da edição de Glasgow, preparada por Campbell e Skinner (Vilassar: Oi-
kos-Tau, 1988. 2 v.). O modelo histórico forma um esqueleto dã obra, de modo
que, em muitas partes, a análise se organiza em função da teoria dos quadro está-
gios. O citado nestes parágrafos provém principalmente dos capítulos 1 e 3 do pri-
Depois da publicação de A riqueza das nações, Smith pretendia de ?
dicar-se seriamente à história e escrever duas grandes obras: uma "teoria e
história da lei e do governo" (que era o que faltava para completar o pro-
grama de trabalho que anunciara em A teoria dos sentimentos morais) e
uma "história filosófica dos diferentes ramos daliteratura, da filosofia, da
poesia e da eloqüência". Foi nomeado, entretanto, encarregado das adua-
nas da Escócia, o que determinou que, nos últimos anos de vida, fizesse
pouca coisa no terreno intelectual, introduzindo apenas, ínelhorias nas se-
gunda e terceira edições de A riqueza das nações.23
Neste mesmo "annus mirabilis" de 1776 - o ano da morte de Hume
e da publicação de A riqueza das nações, da declaração de independência
dos Estados Unidos da América (onde era feita a afirmação solene de "que
todos os homens foram criados iguais") e da queda de Turgot na França,
significándo uma nova etapa no caminho em direção à Revolução apa-
receu o primeiro volume da grande obra em que Gibbon estudou a Deca-
dência e queda do império romano.
Edward Gibbon (1737-1794) era de família abastada, o que lhe per-
mitiu dedicar-se ao estudo sem demasiadas preocupações. Perdeu a mãe
aos dez anos e viveu, desde ientão, dedicado em grande parte à leitura, até
que, aos quatorze anos, o pai decidiu enviá-lo a estudar em Oxford. Ali, os
:
meiro livro (na edição citadá, I, p. 6-19 e 26-33), do conjunto do terceiro livro - e
em especial do capítulo 4 (II, p. 117-137), onde se descreve "a silepciosa e insensí-
vel atuação do comércio exterior e das manufaturas" (p. 125) do livro IV, capí-
tulo 7, 3a parte (II, p. 400-485), onde afirma que os descobrimentos da América e
da rota da índia pelo Cabo de Boa Esperança elevaram o sistema mercantil a um
grau de espleivdor e dé glória jamais alcançado, e do primeiro capítulo do livro V
(III, p. 44-241) onde se analisam as formas que o estado toma nas diversas fases
do desenvolvimento econômico, através dos gastos com defesa, justiça, obras pú-
blicas e educação.
23 ROSS, Ian Simpson. The life ofAdam Smith. Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 305,
360-361 e 405. Do que pensava fazer no terreno da história legal, temos os aponta-
mentos de classe dos estudantes, publicados com o título de Lecciones sobre juris-
prudência (existe uma versão castelhana, citada anteriormente, e uma parcial, pu-
blicada em Granada: Cornares, 1995). Smith expusera suas idéias sobre a história e
os historiadores em Lessons on rethoric and belles kttres, de janeiro de 1763.
ínrros que encontrava nas biblioteca^ o influenciaram mais do que as au-
as que assistiu por poucò tempo, pois o fato de que se convertera ao cato-
içismo fez que o pai o enviasse a Lausanne para ser educado por um pas-
tor calvinista, o que lhe possibilitou receber uma preparação sólida e am-
jjla que incluía a leitiira dos clássicos latinos e gregos, a da literatura histó-
rica da época e a de teóricos como Locke, Montesquieu, Hume ou Voltai-
re (regressou, porém, logo ao anglicanismo, mantendo, desde então, uma
ititude cética a respeito da religião e das igrejas). De 1763 a 1765, fez a via-
jem pela Europa que era parte da educação dos jovens ingleses de classe
ilta. Foi no transcurso da viagem, aos vinte e sete anos de idade, que teve
i idéia de sua grande obra. Na autobiografia nos diz: "Foi em Roma, em 15
ie outubro de 1764, meditando entre as ruínas do Capitólio, enquanto os
rades descalços cantavam as vésperas no templo de Júpiter, que me veio,
?ela primeira vez, à imaginação a idéia de escrever a decadência e queda
Ia cidade".
A morte do pai, em 1770, o tornou independente financeiramente
:mbora não rico. A situação melhorou ainda mais ao sereleito membro do
?arlamento em 1774 e obter alguns recursos adicionais de funções públi-
:as. Começou a escrever èm 1774, sendo que o primeiro volume de Deca-
lência e queda do império romano apareceu em 1776, com uma tiragem de
nil exemplares (o dobro de A riqueza das nações, publicada ao mesmo
empo e pelo mesmo editor). O êxito foi imediato a ponto de, em pouco
empo, se esgotarem três edições. "Meu livro - disse Gibbon - estava em
odas as mesas e em quase todas as cômodas". Os outros cinco volumes da
>bra sairiam até 1788, continuando o relato até a queda do Império do
Driente. Gibbon, que Se convertera num homem rico e famoso, pôde vol-
ar à Suíça, onde viveu até pouco antes da morte. O êxito do livro se deve,
:m boa parte, a sua qualidade como escritor. Porém, o qúe o fez perdurar
: o fato de ter sido o primeiro que conseguiu reunir as concepções teóri-
;as dos filósofos sociais do século XVIII, como Montesquieu ou Humé,
:om o tipo de trabalho científico que os eruditos do século XVII deferi-
liam, como se pode ver na abundância e na riqueza das notas .de rodapé.
Jm historiador da antiguidade como Moses Finley disse que o livro é "a
primeira história moderna de qualquer período da antiguidade (e possi-
velmente a primeira história tout court);24
A recuperação do trabalho erudito era menosprezado por Hume e pe-
los enciclopedistas franceses. Ao falar das primeiras fases da história humana,
Rousseau disse: "comecemos por descartar todos os fatos" - era consciente
em Gibbon e vinha seguramente do conhecimento das fontes históricas an-
tigas e do fato de que a erudição deveria lhe servir de base para exercer o tipo
de crítica que queria fazer. Admirava Hume, mas considerava que a História
da Inglaterra era "superficial". Não podia tampouco aderir à simplicidade
com que Montesquieu havia abordado o tema da decadência dos romanos,
embora compartilhasse com ele a idéia de separar as "causas gerais" que ope-
ram nos domínios dos costumes, da religião e de tudo o que diz respeito ao
domínio da opinião, das "causas particulares" dos acontecimentos.25
24 Está sendo publicado na atualidade um estudo muito ambicioso sóbre Gibbon e sua
obra, situando-a na linha de desenvolvimento da história dos escoceses - J. A. Po-
cock, Barbarism and religion. Até o momento de escrever esta nota, apareceram os
volumes I (The enlightenments of Edward Gibbon, 1737-1764) e II (Narrative of ci-
vil government), ambos publicados por Cambridge University Press em 1999; na
medida em que a obra está ainda inacabada - o volume II chega até o momento da
redação inicial de Decline and fall - , não foi possível extrair dela todo o proveito.
Uma résenha dos volumes, FURBANK, P. N. Epic making. New York Review of
Books, p. 57-59,30 Nov. 2000. Empregou-sé também PORTER, Roy. Gibbon. Making
history. London: Phoenix, 1995; BARIDON, Michel. Edward Gibbon et le mythe de
Rome. Histoire et idéologie au siècle des lumières. Lill̂ : Université de Lille III, 1975. 2
v.; GIBBON, E. Autobiography. London: Everyman's Library, 1932; McKITTERICK
R.; QUINAULJ, Roland (Ed.). Edward Gibbon and empire. Cambridge: Cambridge
University Press, 1997; FINLEY, M. I. Ancient slavery and modern ideology. London:
Çhatto and Windus, 1980. p. 21-22; TÜRNBULL, Paul. The supposed infidelity of
, Edward Gibbon. Historical Journal, 25, p. 23-41,1982; POCOCK, J. A. Was he one of
them? London Review of Books, 23, p. 20-21, Fev. 1995; e Gibbon's "Decline and fall"
and the world view of the late Enlightenment. In: Virtue, commerce and history.
Cambridge; Cambridge University Press, 1985. p. 143-156.
25 GHOSH, Peter. The conception of Gibbon's History. In: McKITTERICK, R.; QUI-
NAÚLT, Roland (Ed.). Edward Gibbon and empire. Cambridge: Cambridge
University Press, 1997. p. 271-316, mostra-nos que Gibbon expôs a idéia numa pri-
meira obra Essai sur l'étude de la littérature, escrita em 1758-1761 (sobre isto, PO-
COCK, J. G. A: Barbarism and religion. Cambridge: Cambridge University Press,
1999.1, p. 208-239). Está claro que, embora a idéia geral proceda de Montesquieu,
Gibbon a desenvolveu e a levou à prática. O trabalho de Ghosh é uma das melho-
res análises de conjunto da obra de Gibbon.
Os segundo e terceiro volumes, que levariam o relato até o fim do
império do Ocidente, apareceram em 1781. Depois, passariam sete anos
até que, em 1788, saíssem, de uma só vez, os três volumes finais, dedicados
à etapa que ia de 476 ao século XV. Escritos com um ritmo mais rápido e
com um enfoque mais "universal", neles, prestava atenção tanto às heresias
como aos povos não cristãos que deveriam interferir na história da Euro-
pa. A obra se transformara de uma história do império romano no início,
em "uma história do mundo escrita numa escala euro-asiática", que anali-
sava o novo mundo medieval dominado pelos bárbaros e pela igreja.26
Os primeiros conflitos surgiram com o primeiro volume. Nos capí-
tulos 15 e 16, ao ocupar-se da cristianização do império, anunciou que ob-
jetivava fazê-lo com imparcialidade: "O teólogo pode permitir-se a agra-
dável tarefa de descrever a religião tal e como desceu do céu, adornada com
a pureza nativa. Uma tarefa muito mais melancólica impõe-se ao historia-
dor. Deve descobrir $ inevitável mistura de erros e corrupção que ela con-
trai numa longa residência na terra, em meio a uma raça degenerada de se-
res" (os ataques de que seria objeto pela formulação o obrigaram a publi-
car, em 1789, uma Reivindicação de algumas passagens nos capítulos quinze
e dezesseis da "história da decadência e queda do império romano").
O livro contém, de vez em quando, separatas sobre instituições, gover-
no ou economia que recordam os "apêndices analíticos" da História da Ingla-
terra de Hume. Mostra a influência da escola escocesa em muitas ocasiões,
como quando, ao falar dos hunos, os compara com os tártaros da época e faz
um estudo dos condicionamentos da vida pastoril (dieta, habitação, ativida-
des), o que o leva a concluir que "a influência da alimentação ou do clima,
que em um estágio mais avançado da sociedade se interrompe ou se ameni-
za em virtude de muitas causas morais, contribui poderosamente para for-
mar e para manter o caráter nacional dos bárbaros". O erro de Gibbon, ao
atribuir aos bárbaros do ocidente um gênero de vida pastoril, procede justa-
mente por ter sido demasiadamente fiel ao esquema dos quatrò estágios.27
26 POCOCK, J. G. A. Barbarism and religion. Cambridge: Cambridge University Press,
1999. II, p. 397-402.
27 BROWN, T. S. Gibbon, Hodgkin and the invaders of Italy. In: McKITTERICK, R.;
QUINAULT, Roland (Ed.). Gibbon and empire. Cambridge: Cambridge University
Press, [1997]. p. 137-161 (sobre isto p. i38).
Uma das características mais notáveis da obra é o modo com que,
ao final do terceiro volume, depois de haver explicado a queda do império
romano do ocidente, Gibbon consegue encaixar a visão tradicional da de-
cadência no contexto geral da história do progresso: as "observações ge-
rais" que seguem o capítulo 38 sustentam que, apesar das ascensões e de-
cadências dos impérios, os homens foram progredindo do selvagem pri-
mitivo "privado de leis, artes, idéias e quase de linguagem" até "mandar so-
bre os animais, fertilizar a terra, atravessar o oceano e medir os céus" (são,
como se vê, os quatro estágios). O progresso foi irregular e diverso e, em
muitos momentos, foram vistos retrocessos que parecem pô-lo em perigo.
Mas a experiência global da história mostra que "nenhum povo, a menos
que a face da natureza se modifique, voltará a cair na barbárie original".
Porque há avanços devidos a indivíduos geniais - como os poetas ou os fi-
lósofos - , outros, que são obra dos grupos ilustrados da sociedade - como
os da lei e da política, das artes, das ciências e do comércio - , e outros, fi-
nalmente, mais elementares, porém mais decisivos para a vida dos ho-
mens, que se difundem no conjunto da coletividade e são conservados ná
prática social.
"Cada povo, cadafamília, cada indivíduo há de possuir sempre a ha-
bilidade é a inclinação para perpetuar o uso do fogo e dos metais; a pro-
pagação e o serviço dos animais domésticos; os métodos de caça e de pes-
ca? os rudimentos da navegação; o cultivo imperfeito do trigo e outros
grãos nutritivos, e a simples prática dos ofícios mecânicos."
O gênio individual ou os avanços dos grupos mais ilustrados podem
desaparecei, como aconteceu com as leis e os palácios de Roma; "mas há
plantas qüe sobrevivem à tempestade e lançam uma raiz perene no solo
mais desfavorável" O uso dá foice para ceifar a colheita manteve-se e der
sapareceram.os costumes bárbaros das tribos itálicas primitivas. São estas
artes básicas, ligadas à subsistência do homem, que formam o autêntico
motor do progresso humano. Difundidas pelo comércio, pela guerra ou a
pregação religiosa, estenderam-se pôr toda a terra "e jamais poderão ser
perdidas". "Podemos chegar à agradável conclusão de que cada idade do
mundo aumentou, e ainda continua aumentando, a riqueza real, a felici-
dade, o saber e talvez a virtude da espécie humana."
A segunda parte da obra muda, como dissemos, o enfoque, que já
não está centrado na cidade de Roma, mas dedica amplo espaço aos povos
muçulmanos e aos mongóis, tendo seus momentos culminantes no estu-
do dàs cruzadas, que lhe permite outra elaboração em termos de uma his-
tória do progresso. Gibbon não aceita a visão simplista de Robertson que
via nas próprias cruzadas uma das causas do avanço da Europa ocidental.
O único aspecto em que elas lhe parecem benéficas é o de haver contribuí-
do para arruinar as grandes famílias feudais, ajudando a liquidar o sistema
de submissão dos camponeses, "sustentado pelas manhas do clero e pelas
espadas dos barões". A ruína obrigou-os a fazer concessões e, assim, "a con-
flagração que destruiu as árvores altas e estéreis do bosque arejou e deu es-
paço à vegetação das plantas menores e nutritivas do solo". No que se refe-
re aos efeitos diretos, Gibbon aduzia um argumento "à moda de Hume",
que mostra o fundo eurocêntrico da doutrina: oS europeus ocidentais (os
"latinos") eram, naquele momento, inferiores aos gregos de Bizâncio e aosx
árabes, possuindo, porém "uma energia peculiar de caráter, um espírito
ativo e de imitação, desconhecidos dos rivais mais refinados que, por sua
vez, se encontravam num estado estacionário ou retrógrado". A relação
com os povos dó Oriente abriu os olhos dos europeus e os fez progredir no
comércio e nas manufaturas, o que, junto à destruição da sujeição feudal,
os levaria a "avanços sucessivos e à atual superioridade". Não custa muito
situar a análise no modelo histórico smithiano.28
O fato do livro acabar de uma forma um tanto abrupta, com uma
visão da cidade de Roma no século XV - um retorno às mesmas ruínas do
Capitólio em que afirmara haver tido a idéia de escrever uma obra a que
se dedicara cerca de vinte anos da vida - e com considerações sobre as cau-
sas da destruição física da cidade sem uma autêntica conclusão, pode ex-
28 Utilizei The history of the decline and fall of the Roman empire na excelente edição
de Davis Womersley. London: Penguin, 1995. 3 v. A citação sobre o cristianismo é
de I, cap. 15 (nesta edição, I, p. 446); sobre a barbárie pastoril, II, cap. 26 (I, p. 1025);
as "observações gerais" sobre o fim do Império do Ocidente estão em III, cap. 38
(II, p. 508-516, os textos citados em p. 515-516); sobre os muçulmanos, V, caps. 51
e 52; sobre os mongóis, VI, caps. 64 e 65; sobre as cruzadas, VI, cap. 61 (as citações
em III, p. 725-728).
plicar os ataques de que foi objeto por parte dos detratores, que não en-
tenderam qual era sua intenção real. Uma análise recente de Decadência e
queda do império romano, realizado por um grupo de especialistas no es-
tudo de diversas épocas - ninguém seria capaz hoje de cobrir com compe-
tência o amplo campo histórico de que se ocupou Gibbon - revela-nos os
vieses de visão e as insuficiências específicas, mas indica, também, a enor-
me influência que teve. Influência, por um lado, no desenvolvimento da
historiografia posterior - Guizot, que traduziu Gibbon ao francês, ensinou
a Fustel de Coulanges, o qual por sua vez foi mestre de Ferdinando Lot, etc.
- e também na formação do projeto imperial britânico: Winston Chur-
chill, lendo Gibbon aos vinte anos, no quartel de Bangalore, haveria de
sentir-se duplamente identificado, como político e como historiador, com
o homem que, muito antes da Rèvolução, discutindo em Paris com Mably,
condenava "a loucura sobre os direitos e a igualdade natural do homem",
como também o fez mais adiante, sobre uma revolução que, com o confis-
co dos bens do clero, "ataca a raiz de toda propriedade".29
Em 1776, entretanto, foi publicado outro livro que não é menciona-
do nos-estudos sobre a historiografia, mas que teria uma grande transcen-
dência na história real da época: Senso comum (Common sense) de Tom
Paine (1737-1809).
Nascido no mesmo ano que Gibbon, mas de uma família pobre de
Thetford, Paine edücou-se na medida das possibilidades.* Como o desco-
nhecimento do latim e de outras línguas impedia-lhe o acesso ao mundo
literário, teve que começar trabalhando como aprendiz de confecção de es-
partilhos. Aos dezenove anos, embarcou com um corsário, trabalhando,
mais tarde, como arrecadador de impostos. Perdendo o posto de trabalho
por ter escritò um documento em favor dos funcionários, imigrou para a
América em 1774, com uma carta de recomendação de Benjamin Fran-
klin. Ali, começou a envolver-se em política e, em 1776, publicou Common
29 Anthony Bryer, "Gibbon and the later byzantine empires" (citação da p. 107, mo-
dificada, porque Guizot não somente editou, mas também traduziu Gibbon) e
QUINAULT, Roland. Winston Churchill and Gibbon. In: MçKITTERICK, R.; QUI-
NAULT, Roland (Ed.). Edward Gibbon and empire. Cambridge: Cambridge
University Press, 1997: p. 317-332.
J Sense, obra que teve uma recepção entusiasta na América - é possível que
a leitura do manuscrito haja contribuído para tornar Franklin indepen-
dentista e que o texto impresso tenha feito Washington decidir-se - e pas-
mou rapidamente à Europa, onde foi lida e traduzida amplamente. Paine
r dizia as coisas que era necessário dizer naquele momento, com eloqüência
e clareza. Atacava a monarquia como um regime despótico e irracional:
"Mais vale, para a sociedade, um homem honrado que todos os rufiões co-
roados que tenham vivido" (frase que Fidel Castro citou ao ser julgado
pelo assalto ao quartel de Moncada). Observava, e foi o primeiro a fazê-lo,
uma clara distinção entre "sociedade civil" e "estado", até então considera-
dos sinônimos. O agrupamento legítimo era a "sociedade civil", enquanto
o governo Ou o estado não eram mais que delegações de poder feitas por
ela. Em conseqüência, Paine propunha que as colônias americanas se unis-
sem nüma sociedade civil em escala continental e que esta se outorgasse
um governo representativo. Era o princípio da autodeterminação, formu-
lado pela primeira vez como um direito da sociedade civil.
Em 1787, Paine foi à França e, em 1790, voltaria à Inglaterra onde,
para responder aos ataques de Burke contra a revolução francesa, publi-
cou, em 1791, a primeira parte de Os direitos do homem, que teria uma se-
gunda parte, escrita em 1792. Se, na primeira, defendia a Revolução, ná se-
gunda tratava dos princípios gerais da política, retomando os raciocínios
e a linguagem do velho radicalismo inglês do século XVII pára denunciar
o engano do governo formal, sustentar que "quanto mais perfeita seja a ci-
vilização, menos necessidade tem de governo" e reinterpretar a história das
origens do estado, não como a de um contrato social, mas como a da ação
violenta de bandos de depredadores qüe tinham se imposto às coletivida-
des pela força.30 ' "
O futuro imediato, no entanto, não ia nâ linha das idéias de Paine.
Os historiadores escoceses haviam triunfado plenamente e conseguiriam
impor, ao conjuntodo mundo civilizado, uma visão evolutiva da história
organizada em função de um motor econômico, que apresentaria o desen-
30 KEANE, John. Tom Paine. A political life. London: Bloomsbury, 1996. As citações
são de Cominem sense e de Rights of man, II, caps. 1 e 2.
volvimento do capitalismo "liberal" como o ponto máximo alcançado pela
humanidade e, em conseqüência, situaria todos os povos e todas as civiliza-
ções dentro de um esquema único de progresso, justificando, com isso, o
domínio imperialista dos europeus e de seus descendentes transaüânticos
sobre o resto da espécie humana e apresentando a exploração colonial
como uma missão humanitária de educação: "o fardo do homem branco".
As conseqüências do consenso não somente gerariam conseqüên-
cias nefastas para a parte da humanidade que, a partir de então, seria con-
siderada "subdesenvolvida", mas, também, para o próprio mundo "avança-
do".31 Ao definir como progressivo tudo o que conduz ao capitalismo e à
industrialização fabril, esta visão da história desqualificava qualquer for-
ma alternativa de organização como retrógrada ou inviável (utópica). Ao
eliminar, por outro lado, a política como elemento ativo de transformação,
apresentando-a como uma simples conseqüência da evolução social deter-
minada pelo grau de desenvolvimento econômico - ou, no máximo, como
um condicionamento da evolução social - e alicerçar a esperança em uma
espécie de mecanismo de progresso invencível que acabaria melhorando a
condição humana, fossem quais fossem as circunstâncias pontuais produ-
zidas, envenenou as fontes do radicalismo revolucionário. O próprio so-
cialismo acabou acreditando que o objetivo era chegar a uma etapa supe-
rior de industrialização, traindo as esperanças de transformação social que
o fizeram nascer. Ainda hoje, quando já se passaram mais de duzentos anos
da data crucial de 1776, não nos libertamos da carga destes erros e conti-
nuamos pagando as conseqüências.
31 Para uma visão crítica dos efeitos do modelo smithiano, destaca-se PERELMAN,
Michael. The invention of capitalism. Classical political economy and the secret his-
tory of primitive accumulation. Durkham: Duke University Press, 2000.
Capítulo 6
REVOLUÇÃO E RESTAURAÇÃO
Um dos problemas que se apresentaram aos homens que viveram a
grande comoção revolucionária iniciada na França em 1789 foi o de inter-
pretar a experiência com as explicações globais do desenvolvimento social
que alguns ilustrados, de quem se sentiam discípulos, haviam elaborado.
Como os teóricos escoceses, admitiam que, aos distintos graus de desen-
volvimento econômico, correspondiam determinadas formas de organiza-
ção da sociedade. Porém, puderam perceber, pelo ocorrido na França, que
as mudanças não se produzem sempre espontaneamente, pois as forças so-
ciais dominantes da velha etapa de organização resistem em ceder o poder.
Desta maneira, pode-se chegar a um momento em que as mudanças ne-
cessárias para manter aberta a via do progresso exijam o uso da força: que
o caminho da evolução social deva ser desbloqueado mediante uma ação
política violenta.
O mais inovador dos pensadores que iniciaram esta linha de análi-
se foi Antoine Barnave (1761-1793), filho de um advogado de Grenòble e
deputado na Assembléia constituinte, què foi condénado à morte pelo tri-
bunal revolucionário de Paris, acusado de conspirar com os aliados do rei
a fim de moderar a marcha da revolução. Barnave, que havia crescido no
meio da atividade industrial e da prosperidade do Delfinado, escreveu em
1792, um ano antes de morrer na guilhotina, algumas anotações que não
seriam publicadas até 1843. Nelas acrescentou uma nova dimensão políti-
ca à teoria dos quatro estágios. Pensando que, como os escoceses, ao grau
de desenvolvimento da economia correspondem formas de propriedade e
um contexto institucional adequados, acrescenta, porém, que isso traz
como conseqüência, que a classe social que controla o velho setor domi-
nante da economia e exerce a hegemonia política, se esforce em frear as
mudanças que a prejudicariam, dificultando o processo evolutivo e obri-
gando os setores em ascensão a deslocá-la do poder ou derrotá-la.
"Do momento - diz - em que as artes e o comércio conseguem pe-
netrar no povo e criam um novo meio de riqueza em proveito da classe la-
boriosa, prepara-se uma revolução nas leis políticas; uma nova distribui-
ção da riqueza prepara uma nova distribuição do poder. Assim como a
posse das terras elevou a aristocracia, a propriedade industrial eleva o po-
der do povo; adquire a liberdade, propaga-se e começa a influenciar na
coisa pública." Convém esclarecer, no entanto, que, para Barnave, "revolu-
ção" significa uma mudança política não necessariamente violenta, mas
que pode realizar-se através de uma progressão pacífica (de alguma ma-
neira, ele mesmo estava envolvido num projeto deste tipo, que lhe acaba-
ria custando a vida).
P. L. Roederer (1754-1835) expunha idéias semelhantes em O espí-
rito da revolução de 1789, livro escrito em 1815 mas só publicado em 1831,
no qual afirma que o enriquecimento gradual da burguesia na etapa final
do Antigo regime foi o que a tornou classe social dominante. Do momen-
to em que se percebeu mais riça e mais culta que a aristocracia, reivindi-
cou o lugar que lhe correspondia na ordem política mediante a revolução:
"não são escravos subjugados pela conquista, nem servos fugidos das cor-
rentes do feudalismo os que começaram a revolução. São (.. .) homens li-
vres e proprietários, são os burgueses das vilas e cidades, fartos dos vexa-
mes dos nobres e dos senhores, mas não carregados de correntes".1
Barnave e Roederer estavam começando a construir o mito históri-
co da "revolução burguesa" que culminaria com Guizot. Üm mito que
1 BARNAVE, Antoine. Introduction à la Révolution française. Edição de Fernand Rudé. .
Paris: Armand Colin, 1971. Ralph Miliband "Barnave: um caso de consciência da
classe burguesa", no volume editado por MÉSZÂROS, Istvan. Aspectos de la historia
y la conciencia de clase. México: Unam, 1973. p. 33-66. Sobre Roederer, MORAVIA,
Sergio. II pensiero degli idéologues. Firenze: La Nuova Italia, 1974. p. 717-723.
apresentava o processo revolucionário como a grande obra de progresso,
realizada por iniciativa da burguesia com a finalidade de conseguir a liber-
dade de todos. A teorização ocultava que, na realidade, foram os combates
internos produzidos no seio dos revolucionários que, ao forçarem a bur-
guesia a ir além do que queria, explicavam grande parte das conquistas so-
ciais alcançadas. A visão destinava-se também, por outro lado, a combater
a outra tradição revolucionária, a dos que pretendiam discutir também a
legitimidade da propriedade burguesa, convencidos de que podia-se con-
solidar uma ordem social mais justa, voltando-se a um passado idílico em
que a terra era dividida eqüitativamente entre os homens, como parecia
depreender-se de alguns textos de Montesquieu, de Mably ou de'Rousseau.
Morelly (1700-1755) defendera, em A Basiliada ou As ilhas flutuan-
tes, poema heróico publicado em 175,3, que os males sociais tinham ori-
gem na "dura e insensível propriedade" e que não haveria reforma possí-
vel, se esse problema não fosse atacado com um Código da natureza (1755)
que determinasse que nada pertence como propriedade a nihguém, exce-
tuando os objetos de uso pessoal; que todo cidadão deve ser mantido e
empregado às custas do público e que todos têm a obrigação de contribuir
à utilidade pública segundo suas forças e capacidades.2
A linha de pensamento radical encontraria eco em alguns setores da
revolução, como os "enragés", com integrantes como o padre Jacques Roux
(1752-1794), que escreveu que "os produtos da terra, como os elementos,
pertencem a todos os homens" e denunciou como "ladrões, anarquistas e
assassinos" os especuladores que roubavam o pão do trabalhador que dele
necessitava para sustentar-se. Ou como François-Noël, chamado depois
Gracchus Babeuf (1760-1797),