Prévia do material em texto
O DIREITO DOS POVOS SEM ESCRITA Embora algumas vezes as pessoas confundam Direito e Lei escrita, se partirmos do pressuposto de que um conjunto de regras ou normas que regulamentam uma sociedade pode ser chamado (ainda que humildemente) de direito, todas as comunidades humanas que existem ou existiram no mundo – indiferentemente de quaisquer características que tenham – produziram ou produzem seu “Direito”. Só podemos estudar História e, portanto, História do Direito a partir do advento da escrita (que varia no tempo de povo para povo), antes disso chamamos de Pré-história. A Pré-história do direito é um longo caminho de evolução jurídica que povos percorreram e, apesar de podermos supor que foi uma estrada bastante rica, temos a dificuldade, pela falta da escrita, de ter acesso a ela. Essa riqueza pode ser comprovada pelo fato de as sociedades, ao se utilizarem pela primeira vez da escrita (e do direito escrito), já terem instituições que dependem muito de conceitos jurídicos, como casamento, poder paternal ou maternal, propriedade, contratos (ainda que verbais), hierarquia no poder público etc. As origens do Direito situam-se na formação das sociedades e isso remonta a épocas muito anteriores à escrita, e o que se mostra mais interessante neste estudo especificamente é que, dependendo do povo de que tratamos, essa “época” ainda é hoje. Povos sem escrita ou ágrafos (a= negação + grafos= escrita) não têm um tempo determinado. Podem ser os homens da caverna de 3.000 a.C. ou os índios brasileiros até a chegada de Cabral, ou até mesmo as tribos da floresta Amazônica que ainda hoje não entraram em contato com o homem branco. Diante dessa multiplicidade de povos e tempos podemos somente comentar algumas características gerais desses grupos. Em geral, não têm grande desenvolvimento tecnológico, e somente uma minoria tem agricultura. São, em sua maior parte, caçadores-coletores e como tais seminômades ou nômades. Os povos ágrafos que possuem agricultura são sedentários e todos eles, sem exceção, baseiam seu dia a dia em uma religiosidade profunda. Pela quantidade desses direitos e a sua diversidade buscamos então, como introdução ao estudo de História do Direito, apontar características e fontes do direito comuns que auxiliam na compreensão de um todo tão distinto. 1. Características Gerais dos Direitos dos Povos Ágrafos √ São Abstratos: como são direitos não escritos, a possibilidade de abstração fica limitada. As regras devem ser decoradas e passadas de pessoa para pessoa da forma mais clara possível. √ São Numerosos: cada comunidade tem seu próprio costume e vive isolada no espaço e, muitas vezes, no tempo. Os raros contatos entre grupos vizinhos (que porventura vivem no mesmo tempo e dividem o mesmo espaço) têm como objetivo a guerra. √ São Relativamente Diversificados: essa distância (no tempo e no espaço) faz com que cada comunidade produza mais dissemelhanças do que semelhanças em seus direitos. √ São Impregnados de Religiosidade: como a maior parte dos fenômenos são explicados, por esses povos, através da religião, a regra jurídica não foge a esse contexto. Na maior parte das vezes, a distinção entre regra religiosa e regra jurídica torna-se impossível. √ São Direitos em Nascimento: a diferença entre o que é jurídico e o que não é muito difícil. Essa distinção só se torna possível quando o direito passa do comportamento inconsciente (derivado de puro reflexo) ao comportamento consciente, fruto de reflexão. 2. Fontes dos Direitos dos Povos Ágrafos Entendemos como “fontes de direito” tudo aquilo que é utilizado como base ou “inspiração” para a feitura de regras ou códigos. Os povos ágrafos basicamente utilizam os Costumes como fonte de suas normas, ou seja, o que é tradicional no viver e conviver de sua comunidade torna-se regra a ser seguida. Entretanto, o costume não é a única fonte do direito desses povos. Nos grupos sociais onde se pode distinguir pessoas que detêm algum tipo de poder, estes impõem regras de comportamento, dando ordens que acabam tendo caráter geral e permanente. O precedente também é utilizado como fonte. As pessoas que julgam (chefes ou anciãos) tendem a, voluntária ou involuntariamente, aplicar soluções já utilizadas anteriormente. 3. Transmissão das Regras Muitos grupos utilizam o procedimento de, em intervalos regulares de tempo, terem suas regras enunciadas a todos pelo chefe (ou chefes) ou anciãos. Outras formas são os Provérbios e Adágios que desempenham papel decisivo na tarefa de fazer conhecer as normas da comunidade.