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Fundamentos de Marketing Fundamentos de Marketing Valesca Reichelt Obra organizada pela Universidade Luterana do Brasil. Informamos que é de inteira responsabilidade dos autores a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora da ULBRA. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código Penal. Valesca Reichelt é Mestre e Doutora em Administração com ênfase em Marketing pela EAESP/FGV e Stockholm School of Economics (Suécia). Bacharel em Administração com ênfase em Marketing pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, é coordenadora do curso de Administração da ULBRA – Universidade Luterana do Brasil, campus Canoas. Professora visitante dos cursos de pós-graduação do SENAC e IBGEN – Instituto Brasileiro de Gestão e Negócios. Além disso, ministra cursos in company para empresas como Unibanco Seguros, Correios, Jacto Máquinas Agrícolas e Le Postiche. Presta serviços de revisão técnica e de conteúdo em livros da área de Negócios para a Editora Saraiva. Conselho Editorial EAD Dóris Cristina Gedrat (coordenadora) Mara Lúcia Machado José Édil de Lima Alves Astomiro Romais Andrea Eick ISBN Dados técnicos do livro Fontes: Antique Olive, Book Antiqua Papel: offset 90g (miolo) e supremo 240g (capa) Medidas: 15x22cm Impressão: Gráfica da ULBRA Fevereiro/2010 Setor de Processamento Técnico da Biblioteca Martinho Lutero - ULBRA/Canoas Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) R349f Reichelt, Valesca. Fundamentos de marketing. / Valesca Reichelt. – Canoas: Ed. ULBRA, 2010. 152p. 1. Marketing. I. Título. CDU: 658.8 Sumário Apresentação .....................................................................................7 1 Marketing e conceitos fundamentais ...........................................11 2 Comportamento do consumidor ..................................................27 3 Processo de Marketing ..................................................................43 4 Os 4 P’s de Marketing ....................................................................59 5 Segmentação e posicionamento de mercado ..............................77 6 Marketing de Relacionamento e fidelização de clientes ...........95 7 Conceitos e características dos serviços ....................................111 8 Classificação e a administração da qualidade em serviços...........................................................................................125 9 Marketing de Relacionamento e Endomarketing em empresas de serviços ...................................................................139 Apresentação 9 A p re se n ta çã o Prezados alunos, é uma satisfação levar a vocês este material que preparei com carinho para apresentar-lhes a disciplina de Marketing e Serviços, tão essencial no mundo corporativo atualmente. Para os gestores públicos é de extrema relevância conhecer estes conceitos, afinal as instituições públicas, assim como as privadas, também devem preocupar- se com sua imagem perante o público, e concentrar-se no oferecimento de bons serviços aos cidadãos. Pensando nisso, estruturei este livro de forma a apresentar uma visão detalhada, não exaustiva mas abrangente sobre os temas Marketing e Serviços, apresentando também os aspectos nos quais eles se relacionam. Inicialmente, apresento o conceito de Marketing e os principais termos que são necessários conhecer para definir uma terminologia coerente nesta matéria. Assim, o primeiro capítulo aborda os conceitos de troca, produtos, necessidades e desejos, entre outros. A seguir, no segundo capítulo, passamos a tentar compreender melhor o consumidor, ao descrever os fatores que influenciam seu comportamento. A partir desta análise, é possível passar para o processo de planejamento estratégico de Marketing, tema que é discutido nos capítulos 3, 4 e 5. No capítulo 6, um importante assunto desta área é abordado: o Marketing de Relacionamento. Trata-se de um novo paradigma, visando a fidelização de clientes. A partir do capítulo 7, é dada maior ênfase aos serviços. Primeiro, são trabalhados os conceitos de serviços, bem como as características que diferenciam os serviços dos bens tangíveis. Em seguida, no oitavo capítulo, são apresentadas classificações de serviços, considerando-se que os serviços não são todos iguais, e precisam ser administrados de formas diferentes. O mesmo capítulo inclui ainda um modelo de administração da qualidade em serviços: o modelo das cinco lacunas. Por fim, o último 10 A p re se n ta çã o capítulo demonstra a aplicação das ações de Marketing de Relacionamento e Endomarketing em empresas de serviços. Desejo a vocês uma boa leitura, e que este curso contribua efetivamente para o aprendizado e sucesso profissional de cada um de vocês! Marketing e conceitos fundamentais 1 M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 13 Este capítulo tem como objetivo explicitar ao aluno qual o conceito de Marketing, bem como familiarizá-lo com os principais termos e conceitos considerados importantes na disciplina de Marketing. Entre estes conceitos considerados fundamentais estão a troca, satisfação, produtos, valor, necessidades e desejos, entre outros. 1.1 O conceito de Marketing Experimente fazer uma pesquisa, na Internet ou em outras fontes, para saber o que é Marketing. Seguramente você encontrará uma variedade muito grande de respostas. Isso ocorre porque o termo Marketing está sendo amplamente utilizado, podemos dizer que é um termo que está na moda. Alguns confundem Marketing com propaganda, mas o termo Marketing significa mais do que isso, apesar da propaganda ser uma das ferramentas de Marketing. Outros ainda confundem Marketing com tentar enganar o cliente, tentar vender algo que o cliente não quer ou não precisa, usando promessas falsas, por exemplo. Pelo contrário, o objetivo do marketing é atender as necessidades e desejos do consumidor, de forma lucrativa para a empresa. Para que isso seja possível, o principal desafio é compreender estas necessidades, por isso podemos dizer que uma das funções do Marketing é “entender para atender”. Isso significa que pesquisar o consumidor, seus hábitos, crenças e preferências, assim como entender o seu cotidiano e as necessidades que esta vida atribulada traz, é uma tarefa indispensável para a tomada de decisões em Marketing. De uma maneira bem simplificada e resumida, é possível dizer que marketing são todas as ações realizadas por uma organização, que tenham a finalidade de “atrair e reter clientes”. O marketing se ocupa com produtos, distribuição, promoção e preços. Ele busca desenvolver e gerenciar produtos que satisfaçam às necessidades dos clientes. Sua principal responsabilidade é fazer com que o produto esteja disponível no lugar certo, no tempo certo e a um preço aceitável pelo comprador. Além disso, é de sua inteira responsabilidade o sistema de comunicação para o cliente, ou seja, dar as informações necessárias para M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 14 que o cliente possa determinar se os produtos ou serviços satisfarão às suas necessidades. Todas essas atividades devem ser planejadas, organizadas, implementadas e controladas tendo em vista sempre atender às necessidades dos clientes dentro do seu nicho de mercado. Os profissionais de marketing se referem a essas atividades de produção,distribuição, promoção e apreçamento – como o mix de marketing, porque elas decidem que tipo de cada elemento será usado e em que volumes. Assim sendo, podemos definir que marketing “é um processo social pelo qual indivíduos e grupos obtêm o que necessitam e desejam por meio da criação, da oferta e da livre troca de produtos e serviços de valor com outros” (KOTLER; KELLER , 2006, p. 4) Este conceito de marketing nos diz que as organizações devem oferecer produtos e serviços que satisfaçam às necessidades, aos desejos e valores de seus clientes, e o façam por meio de um conjunto de atividades integradas (processo) que permitam que elas alcancem suas metas. Este conceito é uma filosofia gerencial que guia todas as atividades da organização. Ou seja, não basta a empresa ter um departamento de Marketing isolado, tentando trabalhar sozinho. É preciso que todos os departamentos da organização tenham visão de Marketing, o que significa que todos estão centrados no cliente e entendem a importância de mantê-lo satisfeito e fiel. Esta filosofia com foco na satisfação do cliente é o que irá garantir a sobrevivência da empresa no longo prazo, destacando-se perante seus concorrentes diretos e indiretos. O organograma abaixo representa o que chamamos de Marketing Integrado. Esta representação significa que o Marketing tem o papel de intermediador entre o consumidor ou cliente e os demais departamentos da organização (aqui estão representados apenas três departamentos, mas poderiam ser mais, conforme a organização em análise). Ou seja, o marketing tem a responsabilidade de levar e trazer informações entre o consumidor e o restante da empresa. A partir da visão de Marketing Integrado, o cliente se coloca no centro da organização e de todas as suas decisões, tornando-se a peça chave para o sucesso empresarial. M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 15 Fig. 1 – Marketing Integrado Do ponto de vista organizacional, o Marketing assume função de destaque, no sentido de que é uma função ou departamento totalmente focado na atração de recursos para a organização. É o Marketing que se ocupa da criação e desenvolvimento de novos produtos, bem como da comunicação que faz os clientes conhecer estes produtos, e ainda as estratégias de vendas adotadas. Sabemos que as vendas são a principal fonte de recursos para uma empresa, e estas só são possíveis se houver clientes. Portanto, a preocupação do Marketing com estes clientes é legítima e consiste em uma das atividades mais promissoras que uma organização possa realizar. A seguir apresentaremos alguns conceitos essenciais para a compreensão de Marketing, que são: mercado, troca, satisfação, valor, necessidades e desejos. 1.2 Mercado Tradicionalmente, relacionamos o termo mercado com um local onde são feitas transações de compra e venda. Como exemplo, citamos as feiras de hortifrutigranjeiros que temos perto de casa, elas são verdadeiros mercados a céu aberto, onde diversas mercadorias são transacionadas. M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 16 Do ponto de vista do marketing, entretanto, chamamos de mercado um determinado grupo de compradores. Ao grupo de vendedores, por sua vez, denomina-se setor ou indústria. A questão geográfica, ou seja, o local onde está este mercado, perdeu relativamente a importância à medida em que as transações virtuais, possibilitadas principalmente pela internet, ganharam força. Ferrell e Hartline (2005) conceituam mercado como um grupo de indivíduos ou instituições com necessidades similares que podem ser satisfeitas por um determinado produto ou categoria de produtos. Para Kotler e Keller (2006), os principais mercados de clientes são os seguintes: - Mercado consumidor: formado por pessoas que compram para uso próprio, sem interesse em revender ou utilizar o produto ou serviço com alguma finalidade comercial. As empresas que buscam este mercado geralmente investem em desenvolvimento de marcas fortes, como no caso dos refrigerantes e cosméticos. - Mercado organizacional: formado por organizações, que necessitam comprar insumos e outros produtos ou serviços que permitam o seu funcionamento. As compras são realizadas por profissionais bem treinados e informados, capazes de analisar as propostas de diversos concorrentes através de técnicas específicas. - Mercado global: constituído fora do Brasil, por consumidores ou organizações estrangeiras. As empresas que atuam no mercado global precisam tomar decisões como escolher em que países ingressar, de que forma, como adaptar as características de seus produtos e serviços a cada um deles, como determinar preços para seus produtos em países diferentes e como adaptar suas comunicações em diferentes culturas. - Mercado sem fins lucrativos: constituído por organizações do terceiro setor ou governamentais, como igrejas, universidades, instituições de caridade ou órgãos públicos, entre outras. M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 17 1.3 Troca Para autores como Cobra (2006) e Kotler e Keller (2006), o processo de troca está na essência do marketing. “A troca, que é o conceito central do Marketing, envolve a obtenção de um produto desejado de alguém oferecendo algo em troca” (Kotler; Keller, 2006, p. 5). Geralmente associamos a troca ao dinheiro, e realmente este elemento está presente em muitas trocas. Entretanto, uma troca não é condicionada à existência de dinheiro. Por exemplo, quando um adolescente troca seu videogame por uma bicicleta com um colega de aula, não há dinheiro envolvido. Portanto, basta que as pessoas dêem algo para receber algo que elas preferem. Para que qualquer tipo de troca ocorra, existem cinco condições que devem ser satisfeitas: - Deve haver pelo menos duas partes envolvidas; - Cada parte deve possuir algo que interesse à outra; - Cada parte deve ser capaz de se comunicar com a outra e entregar as mercadorias ou serviços pedidos; - Cada parte deve ser livre para aceitar ou rejeitar a oferta da outra; - Cada parte deve acreditar ser adequado participar da negociação. A ideia principal inerente ao conceito de troca é que as partes ficarão em melhor situação após a troca, ou seja, este é um processo de criação de valor. Além disso, existem outros elementos que estão sendo trocados de forma secundária entre as organizações e seus clientes, como informação, confiança, status etc. Outro conceito muito relevante para o estudo e prática do Marketing é a satisfação, que está descrita no tópico seguinte. 1.4 Satisfação A satisfação consiste no sentimento do consumidor após ter as suas expectativas atendidas, ou seja, um cliente satisfeito é aquele que recebeu M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 18 da empresa ou organização exatamente o que esperava receber. As expectativas do consumidor são provenientes de três diferentes fontes: - Comunicação da empresa: os folders, sites, propagandas e material de divulgação em geral criam expectativas nos consumidores em relação ao que pode ser esperado do produto. Por exemplo, um folheto de um hotel com fotos de uma vista linda fará com que o consumidor crie a expectativa de encontrar esta vista do seu quarto, quando se hospedar no referido hotel. - Propaganda boca-a-boca: são as comunicações entre clientes, aquilo que as pessoas falam umas para as outras sobre as marcas ou empresas. Quando um amigo seu lhe recomenda um restaurante ou um filme que está passando no cinema, istopode ser considerado propaganda boca-a-boca. A tendência é que um produto ou serviço muito elogiado cria altas expectativas no consumidor. - Necessidades individuais: muitas vezes a expectativa é gerada pelas próprias necessidades do consumidor, ou o que ele está precisando resolver em determinado momento. Quando sentimos alguma dor, vamos ao médico e nossa expectativa é que ele consiga fazer esta dor passar, pois isso é o que necessitamos naquele momento. Quando um produto ou serviço atende às expectativas do consumidor, dizemos que o consumidor ficou satisfeito. Se as expectativas do consumidor forem maiores do que o que a empresa entregou em termos de produto ou serviço, então teremos um consumidor insatisfeito. A empresa deve sempre evitar a insatisfação do consumidor, pois pesquisas demonstram que um consumidor insatisfeito fala mal da empresa (contra- indica) para, em média, quatorze pessoas. Por outro lado, chamamos de encantamento do consumidor o processo decorrente de a empresa entregar ao consumidor mais do que ele esperava, ou seja, o resultado supera as expectativas. O encantamento do cliente é extremamente positivo, pois além de captar sua lealdade, também faz com que o cliente indique a empresa para seus amigos e parentes, fazendo propaganda boca-a-boca positiva sobre a empresa. Sendo assim, quanto maiores as expectativas do consumidor, mais a empresa deverá dedicar-se para supri-las; por isso é importante tomar M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 19 cuidado e administrar corretamente as expectativas dos clientes. Prometer mais do que poderá cumprir é um erro organizacional grave do ponto de vista da satisfação de consumidores, impedindo a sobrevivência da empresa no longo prazo. Em muitos momentos falamos de produtos, mas afinal, o que são exatamente produtos? Veja a explicação no tópico seguinte. 1.5 Produtos Uma boa definição é: produto é qualquer coisa que uma empresa pode oferecer aos seus consumidores, para atender suas necessidades. Desta definição, concluímos que não existem produtos que não atendam a alguma necessidade do consumidor, esta é uma condição para o sucesso do lançamento de um produto. Outra conclusão importante é que, se produto é “qualquer coisa” oferecida no mercado, ele não precisa necessariamente ser um bem tangível. Na realidade, existem quatro tipos de produtos diferentes: os bens tangíveis, os serviços, as ideias e as experiências. Os bens tangíveis são o que tradicionalmente costumamos chamar de produto, aqueles que podemos tocar, enxergar, levar para nossa casa. São exemplos de bens tangíveis os móveis, cadernos, carros, alimentos e muitos outros. Os serviços acontecem como contratamos alguém para fazer algo por nós, como um cabeleireiro, médico, o banco onde temos nossa conta corrente, ou mesmo um instituição de ensino. Já as ideias estão intrínsecas a alguns produtos que desejam transmitir algo específico, como um livro, uma palestra ou os serviços prestados por uma Organização Não Governamental - ONG. As experiências, por sua vez, aparecem nos casos em que o consumidor adquire o direito de passar por determinada sensação ou emoção, como andar de montanha russa ou fazer uma viagem turística. Atualmente acredita-se que os produtos são, em geral, uma combinação destes diversos elementos, não precisando necessariamente se enquadrar em apenas uma das categorias. Pelo contrário, quanto mais ele atender a diversas destas categorias, maior a probabilidade de encantar o consumidor. Por exemplo: uma jaqueta do Greenpeace é um bem tangível, M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 20 com a função de nos aquecer. Simultaneamente ela também tem uma ideia implícita, que está relacionada com a proteção ambiental. Por fim, podemos dizer que ao comprar a jaqueta e encaminhar o dinheiro para o Greenpeace, estamos contratando os serviços desta instituição, ou seja, esperamos que o dinheiro seja utilizado para ações voltadas ao meio ambiente. No capítulo 4 voltaremos a falar mais detalhadamente sobre produtos, pois este é um dos 4 P´s de Marketing. Também detalharemos melhor os serviços e sua gestão, nos capítulos 7, 8 e 9. 1.6 Valor Em Marketing, o termo valor não é um sinônimo de preço, apesar de possuir uma relação muito próxima a este conceito. O valor em Marketing representa o quanto determinado consumidor valoriza um produto ou serviço, comparando seus bônus (o que o consumidor recebe) e ônus (o que o consumidor entrega para receber o serviço). Além disso, o valor é percebido, ou seja, cada consumidor atribuirá valores diferenciados aos produtos e serviços, conforme suas próprias percepções. As percepções são formas específicas de decodificar as mensagens que um consumidor recebe do mundo, como se fosse um filtro ou uma lente. Essas mensagens são recebidas através dos cinco sentidos: olfato, visão, audição, paladar e tato. Só que cada indivíduo as interpreta de maneira muito peculiar e única, o que explica porquê: - uma comida adorada por determinada pessoa pode ser considerada ruim por outra; - um banho com temperatura ideal para alguém pode ser muito quente para outra pessoa; - uma música agradável para os jovens pode ser considerada barulhenta e incômoda para alguém mais velho. Estes são apenas alguns exemplos de como a percepção atua no nosso dia a dia e nas nossas escolhas. Um ditado popular diz: O que seria do vermelho se todos gostassem do amarelo? O processo perceptivo explica M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 21 estas escolhas. Por isso dizemos que o valor é percebido, pois ele também varia de um consumidor para outro. A fórmula do valor percebido (VP) é a seguinte: VP = Benefícios (reais e percebidos) Custos Os benefícios são o que os produtos trazem para o consumidor, sua utilidade e funcionalidade. Eles podem ser reais, o que significa algo tangível, inquestionável e que não varia de um consumidor para outro – por exemplo, o benefício real de um carro é o transporte. Ou podem ser percebidos, que são benefícios que variam conforme a percepção de determinado consumidor – no carro, o status poderia ser um benefício percebido. Em termos de custos, é importante ressaltar que o custo monetário (preço e demais custos de obtenção, manuseio e uso do produto) não é o único custo envolvido na aquisição de um bem. Existem outros custos relevantes, como: - Tempo: o tempo que o consumidor precisa despender para adquirir um produto, como quando as empresas entregam as encomendas rapidamente, ou uma farmácia fica aberta 24 horas. Estes são exemplos de como é possível reduzir o custo de tempo. - Energia: a energia envolvida na aquisição, como, por exemplo, para ir a um show de rock é preciso envolver muita energia, ficar no meio da multidão, passar muitas horas de pé e ter de enfrentar filas nos banheiros. Comprar um DVD do show, neste caso, estaria reduzindo o custo de energia (mas logicamente alguns consumidores consideram importante a emoção envolvida em estar presente no momento do show, o que seria um benefício percebido e, para alguns, compensaria os custos de energia). - Psicológicos: são custos mais emocionais, como o medo, a insegurança e a vergonha. Alguns consumidores não admitem fazer compras através da internet, pelo comércio eletrônico, pois se apavoram com a possibilidade de ter seu cartão clonado. Para eles, este é um custo psicológico muito alto para ser assumido. M ar ke ti n g ec o n ce it o s fu n d am en ta is 22 Portanto, podemos dizer que o valor percebido envolve a conhecida relação custo-benefício. 1.7 Necessidades e desejos Quando falamos de produtos, salientamos que este deve atender às necessidades do consumidor. As necessidades são carências humanas, físicas ou psicológicas, que se tornam latentes em determinados momentos, o que pode impulsionar a aquisição de produtos ou serviços. Maslow categoriza as necessidades humanas em cinco níveis: Portanto, as necessidades humanas podem ser tanto fisiológicas, como de segurança ou autoestima. E diferentes produtos atendem a estas diferentes necessidades, havendo casos em que um mesmo produto atende a necessidades diversas. Por exemplo, um celular atende a necessidade de comunicação, que está diretamente relacionada com as necessidades sociais da pirâmide do Maslow. Por outro lado, quando um consumidor compra um celular que poderá fazer com que ele se destaque no seu M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 23 grupo e seja mais admirado por outras pessoas, este pode estar atendendo também a uma necessidade de autoestima ou status. Os desejos, por sua vez, são formas específicas de atender a uma necessidade. Uma pessoa que está com sede pode suprir esta necessidade de diversas formas: tomando um suco, água, chá, cerveja ou qualquer outro líquido. Porém, quando este consumidor opta por tomar uma Coca-cola, esta representa o seu desejo. Ou seja, a sede é a necessidade, e a Coca-cola é o desejo. É importante salientar que o Marketing não é capaz de criar necessidades, pois estas são intrínsecas do ser humano e não podem ser criadas. O que o Marketing pode fazer é estudar e procurar conhecer mais as necessidades humanas, criando assim produtos e serviços que atendam de forma conveniente e interessante para o consumidor estas necessidades. Desta forma, estes produtos e serviços poderão se tornar desejos e serem consumidos por muitos consumidores. Infograma Marketing e seus conceitos fundamentais M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 24 Atividade Baseado na equação de valor percebido estudada nas nossas aulas, descreva duas ações que poderiam aumentar o valor percebido pelos clientes no cabeleireiro que você costuma frequentar. Você deve descrever as ações propostas e qual o seu efeito na equação de valor percebido. Referência comentada COBRA, Marcos. Administração de Marketing no Brasil. São Paulo: Cobra Editora, 2006. O Marcos Cobra é um dos principais autores brasileiros na área de Marketing e Vendas, com mais de 20 livros publicados nesta área. Neste livro o destaque é para o enfoque brasileiro, com exemplos práticos de ações de marketing aplicadas em empresas brasileiras. Referências KOTLER, Philip; KELLER, Kevin. Administração de Marketing. 12. ed. São Paulo: Pearson, 2006. KOTLER, Philip. Princípios de marketing. 9. ed. Rio de Janeiro : Prentice Hall, 2005. HOOLEY, Graham J. Estratégia de marketing e posicionamento competitivo. 3. ed. São Paulo : Pearson, 2006. RICHERS, Raimar. O que é marketing. São Paulo: Brasiliense, 2006. FERREL, O. C.; HARTLINE, Michael D. Estratégia de Marketing. São Paulo: Thomson, 2005. M ar ke ti n g e c o n ce it o s fu n d am en ta is 25 Autoavaliação 1. O processo de comprar um computador pela primeira vez é muito complicado e perturbador para muita gente. O mesmo ocorre em compras através de comércio eletrônico, onde é preciso dar informações como o número do cartão de crédito. Estas características ilustram um tipo de custo para o consumidor, chamado: a) preço b) custo de tempo c) custo de energia d) custos psicológicos e) custo monetário 2. Assinale a alternativa que NÃO representa uma das condições essenciais de troca, dentro do conceito de marketing: a) Que existam pelo menos duas partes b) Que uma das partes tenha vantagem sobre a(s) outra(s) c) Que todas as partes possuam algo que possa ter valor para as outras partes d) Que todas as partes acreditem ser adequado participar da negociação e) Todas as alternativas anteriores Respostas: 1 – d; 2 – b Comportamento do consumidor 2 Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 29 Neste capítulo falaremos sobre como o consumidor se comporta. Devemos ter consciência de que um consumidor é um ser humano, portanto quando falamos de comportamento do consumidor, estamos- nos referindo ao comportamento humano, que é cheio de detalhes e implicações psicológicas e inconscientes, além de sofrer influências das mais variadas. O objetivo deste capítulo é procurar entender de forma estruturada este comportamento, bem como as influências sofridas pelo consumidor para a tomada de decisões quanto a que produtos ou marcas a consumir. Além disso, serão abordados também os papéis de compra e o processo de tomada de decisão de compra. 2.1 Por que estudar o comportamento do consumidor? Atualmente tornou-se um grande desafio para as empresas compreender o comportamento do consumidor. Isso porque temos cada vez mais empresas concorrentes no mercado, todas tentando de diversificadas maneiras de agradar e atender às necessidades de seus consumidores. Aquelas que conseguirem decifrar o comportamento destes consumidores terão mais sucesso no mercado, pois compreenderão porquê as pessoas tomam determinadas decisões de consumo, em detrimento de outras. Existem exemplos fascinantes sobre empresas que conseguiram entender como os consumidores pensam e o que existe no seu subconsciente. Vejamos o caso da Dove: Dove – Campanha pela Real Beleza Um estudo global foi encarregado por Dove, uma das maiores marcas de beleza da Unilever, para um entendimento global sobre as mulheres, beleza, bem-estar e a relação entre os mesmos. A gênese deste trabalho se encontra na crescente preocupação de que as figuras da beleza feminina na cultura popular pepetuam a ideia de que esta mesma beleza não é autêntica e nem alcançável. Dove preocupou-se com o fato de que este retrato limitado da Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 30 beleza estava privando mulheres de um reconhecimento e usufruto de suas próprias belezas. A empresa também estava consciente que em um mundo onde a beleza feminina é altamente valorizada, esta situação pode afetar seriamente o bem-estar, a felicidade e a autoestima destas mulheres. A missão de Dove nesta missão global foi a de explorar empiricamente o significado da beleza para as mulheres de hoje e o porquê do mesmo. Além disto, Dove tratou de avaliar se era possível falar e pensar sobre a beleza feminina de maneira mais autêntica e satisfatória. As descobertas detalhadas neste estudo são baseadas em dados quantitativos, colhidos em uma pesquisa envolvendo 3.200 mulheres com idade entre 18 e 64 anos. A Strategy One, uma empresa de pesquisa de Nova York, gerenciou este estudo em parceria com a Dra. Nancy Etcoff, o hospital geral de Massachusetts, a Universidade de Harvard e a especialista da escola economista de Londres, Dra. Susie Orbach. As entrevistas foram conduzidas em dez países: USA, Canadá, Inglaterra, Itália, França, Portugal, Países Baixos, Brasil, Argentina e Japão, com uma margem de erro de 1,7% entre o total de amostras. Por muito tempo a beleza foi definida por estereótipos limitados e sufocantes. Mas as mulheres perceberam que é tempo de mudar isto. Dove concorda e acredita que a Real Beleza vem em diversas formas, tamanhos e idades.Por isso, Dove lançou a campanha global Dove pela Real Beleza, com o objetivo de questionar o padrão atual e oferecer uma visão mais saudável e democrática da beleza. Uma visão de beleza que todas as mulheres podem ter e aproveitar todos os dias. Para atingir este importante objetivo, a campanha incluiu as seguintes iniciativas: • Criação de um fórum para que as mulheres participem de diálogos e debates sobre a definição e padrões da beleza na sociedade. • Lançamento de uma pesquisa global e acadêmica que explora o relacionamento de mulheres com a beleza e sua ligação com felicidade e bem estar. • Propaganda que inspira mulheres e sociedade a repensar as definições e padrões de beleza atuais. • Estabelecimento do programa para estética e bem estar na Universidade de Harvard, através de uma doação de Dove, que vai continuar a Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 31 examinar a maneira que pensamos e falamos sobre beleza na cultura popular, além de seus efeitos no bem-estar das mulheres. • Criação de um tour fotográfico global da Beyond Compare e Mulheres Fotógrafas na Beleza, mostrando diversas imagens da beleza feminina, de 67 fotógrafas, e mostrando que a beleza é muito mais do que estereótipos vendidos diariamente. Fonte: Adaptado de www.campanhapelarealbeleza.com.br Acesso em 24/03/2008. Compreender aspectos tão implícitos do comportamento das pessoas é realmente uma arte, e exige que as empresas se preocupem em compreender como as pessoas vivem, como é seu cotidiano, o que pensam sobre diversos assuntos, e mesmo o que não ousam pensar, mas sentem. E a única maneira de conseguir compreender estes aspectos e decifrá-los é através das mais diversas técnicas de pesquisa de mercado. A obtenção de informações do consumidor realmente ajuda as empresas a entenderem melhor seu comportamento, e assim minimizam as chances de um fracasso no mercado, seja no lançamento de produtos ou mesmo de uma campanha de comunicação. Falaremos mais sobre pesquisa e suas técnicas no capítulo 6. Portanto, as principais razões que justificam o estudo do comportamento do consumidor são: - a compreensão das necessidades e desejos do consumidor; - o auxílio na tomada de decisões gerencial, e mais especificamente de Marketing; - desenvolvimento de novos produtos, que atendam às necessidades dos consumidores; - melhoramentos em produtos existentes; - geração de teorias que auxiliem na compreensão do comportamento humano frente ao consumo. Agora focaremos nossa atenção nos diversos aspectos que influenciam o comportamento do consumidor. Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 32 2.2 Os aspectos que influenciam o comportamento do consumidor Podemos dizer que o comportamento do consumidor envolve o estudo das unidades compradoras (indivíduos, empresas ou grupos) e dos processos de troca envolvidos na aquisição, no consumo e na disposição de mercadorias, serviços, experiências e ideias. Muitos e diferentes aspectos influenciam o comportamento do consumidor, explicando porquê determinadas compras são realizadas ou não. Estes aspectos envolvem principalmente os fatores culturais, sociais, pessoais e psicológicos, que estão organizados na figura a seguir, conforme sua ordem de influência. Fig. 1 - Principais fatores de influência do consumidor Pela figura 1, podemos perceber que os fatores que mais influenciam o consumidor são os fatores culturais. Em segundo lugar em termos de influência, temos os fatores sociais, seguidos dos pessoais e posteriormente dos psicológicos. Falaremos a seguir de cada um destes fatores. Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 33 2.2.1 Aspectos culturais Os aspectos culturais são considerados os que mais influenciam o comportamento do consumidor. Quando falamos em aspectos culturais, estes envolvem a cultura, a subcultura e a classe social. A cultura é o conjunto de padrões de comportamento socialmente adquiridos que são transmitidos simbolicamente aos membros de uma determinada sociedade por meio da linguagem e de outros meios. Em outras palavras, é o universo de valores, percepções e preferências apreendidos durante uma vida. Alguns componentes de uma cultura são: - Normas decretadas ou implícitas: envolve os costumes (ações corriqueiras, cerimônias,papéis), tradições (costumes que enfatizam os aspectos morais) e convenções (maneiras de agir no cotidiano); - mitos: podem ser reais (como o Che Guevara) ou folclóricos (como o Boi Bumbá ou o Negrinho do Pastoreio); - símbolos: como, por exemplo, a águia americana ou o tucano brasileiro; - rituais: como os de troca, de posse, de embelezamento e de despojamento. Algumas características da cultura brasileira são o pluralismo racial e cultural, a ênfase nos relacionamentos pessoais, a alegria e o otimismo, entre outros. As subculturas por sua vez são grupos ou subdivisões da cultura nacional com base em alguma característica unificadora. São grupos que compartilham sistemas de valores baseados em sistemas e situações de vida em comum. Como exemplo, podemos citar as subculturas dos coreanos ou japoneses e seus descendentes que vivem no Brasil, os publicitários, os esportistas e outros. As características que podem identificar uma subcultura são: nacionalidade, etnia, região, idade, religião, gênero etc. Outro fator cultural importante são as classes sociais, conceituadas como divisões relativamente permanentes e homogêneas de uma sociedade, cujos membros compartilham valores, interesses e comportamentos similares. Segundo o Critério de Classificação Econômica Brasil, padrão Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 34 de classificação social desenvolvido pela ABEP – Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa e adotado pelos principais institutos de pesquisa do país, são consideradas oito (8) classes sociais existentes no país. Tabela 1 – Classes sociais brasileiras Classes sociais Distribuição da classes – total das regiões metropolitanas Renda familiar média (R$) A1 1% 9.733,47 A2 4% 6.563,73 B1 9% 3.479,36 B2 15% 2.012,67 C1 21% 1.194,53 C2 22% 726,26 D 25% 484,97 E 3% 276,70 Fonte: Adaptado de <www.abep.org> Acesso em 24/03/08. 2.2.2 Aspectos sociais Os aspectos sociais de influência do consumidor envolvem os grupos, a família e os papéis sociais. Considera-se um grupo um conjunto de indivíduos que interagem uns com os outros durante algum tempo e compartilham alguma necessidade ou objetivo comum. Sabe-se que os grupos afetam as compras dos consumidores individuais, além de tomarem decisões conjuntas em alguns casos. Alguns tipos de grupos de referência que influenciam o consumidor são: - Grupo de aspiração: grupo ao qual o consumidor gostaria de pertencer; por exemplo, as adolescentes que gostariam de ser modelos e passam a agir como tal; - grupo de dissociação: é o contrário do grupo de aspiração, ou seja, são grupos dos quais os consumidores não gostariam de pertencer; - grupo primário: o grupo mais próximo ao consumidor e que exerce mais influência sobre ele; Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 35 - grupo formal: os funcionários de uma empresa e os integrantes de um curso formalmente formam um grupo; - grupo informal: grupos que se formam sem a existência de formalidades, como um grupo de amigos que se reune para jogar futebol no fim-de-semana. Os papéis sociais são as atividades que as outras pessoas esperam que um indivíduo exerça, de acordo com a posiçãoque ocupa em diferentes grupos sociais. Por exemplo, uma mesma pessoa é diretor de uma empresa, em outro momento é pai, e em outro é frequentador de determinada comunidade religiosa. Em cada um destes momentos, esta mesma pessoa assume papéis e posições sociais diferenciadas. As famílias e lares também são um fator que influencia o consumidor. Lares são compostos de todas aquelas pessoas que ocupam uma unidade de moradia. Sabe-se que os pais influenciam os seus filhos em suas compras, e vice-versa. Esta influência também pode ocorrer entre irmãos e em outros níveis de parentesco. 2.2.3 Aspectos pessoais Os principais aspectos pessoais de influência do consumidor são: - A idade e ciclo de vida - as pessoas possuem diferentes necessidades conforme sua idade, e suas necessidades também variam de acordo com o ciclo de vida. Duas pessoas da mesma idade podem estar em fases diferentes do ciclo de vida. Algumas fases do ciclo de vida são: adulto morando sozinho, casal sem filhos, casal com filhos pequenos, casal com filhos adolescentes, casal novamente sem filhos (pois já saíram de casa), etc. - Ocupação: o que a pessoa faz na maior parte de seu tempo. Exemplos: dona-de-casa, estudante, médico e outros. A ocupação afeta os produtos e serviços adquiridos. - Condições econômicas: estão ligadas às condições financeiras do indivíduo. Diferem da classe social, que está vinculada à família. - Estilo de vida: padrão de vida expresso em atitudes delineia um padrão de ação e de integração com o mundo. Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 36 - Personalidade: é descrita em termos de traços como: sociabilidade, autoconfiança, respeito, realização, ordem, criatividade etc. - Autoconceito: como a própria pessoa se vê. 2.2.4 Aspectos psicológicos Os principais aspectos psicológicos que influenciam o consumidor são a motivação, a percepção, o aprendizado, as crenças e atitudes. No primeiro capítulo, falamos sobre as necessidades do consumidor. Uma necessidade se torna um motivo quando aumenta de intensidade, tornando-se suficientemente importante para levar a pessoa a agir. Como vimos, uma necessidade pode ser satisfeita de diversas formas e pode estar em nível racional ou emocional. Portanto, a motivação de compra pode-se dar tanto em nível consciente, quanto inconsciente. A percepção, por sua vez, é o processo através do qual as pessoas selecionam, organizam e interpretam informações para formar uma imagem significativa do mundo. A percepção é feita através dos nossos cinco sentidos: visão, audição, olfato, tato e paladar. Alguns processos perceptivos que afetam o consumidor são a atenção seletiva (decisão involuntária sobre a quais estímulos dar maior atenção), retenção seletiva (decisão involuntária sobre quais estímulos serão armazenados na memória – as pessoas tendem a reter as informações que sustentam as suas crenças e valores) e distorção seletiva (a interpretação da propaganda e das informações de venda através de significados pessoais e pré- julgamentos). O aprendizado é outro fator psicológico de influência do consumidor. A aprendizagem está ligada à percepção, são as mudanças comportamentais que resultam de nossas experiências. Abaixo temos um exemplo de como ocorre o processo de aprendizado: 1 – Estímulos externos – propaganda 2 – Impulso instintivo – fome/sede 3 – Resposta –determinada reação 4 – Reforço – como a satisfação foi alcançada pela resposta 5 – Retenção – grau de lembrança do que foi aprendido. Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 37 Temos também as crenças e atitudes. Crença é um pensamento descritivo que uma pessoa tem sobre algo. Inclui juízo de valor e pode ser alimentada por conhecimento, opinião ou simplesmente fé. A atitude descreve as avaliações cognitivas e emocionais de uma pessoa para um objeto ou ideia, gerando sentimentos e tendências de ação duradoura. As atitudes são difíceis de mudar; as empresas deveriam tentar ajustar-se às atitudes existentes e não tentar mudá-las. 2.3 Papéis de compra Existem cinco diferentes papéis de compra que podem ser exercidos pelos consumidores ao longo de um processo de decisão de compra. São eles: - Iniciador: a pessoa que sugere ou tem a ideia de comprar um produto ou serviço; - Influenciador: pessoa cujo ponto de vista ou conselho tem influência sobre a decisão a tomar; - Decisor: a pessoa que decide o que deve ser comprado, onde, quanto, como será feita a atividade de compra. - Comprador: a pessoa que realiza o ato da compra. - Usuário: a pessoa que consome ou usa o produto. É importante para uma empresa conhecer estes papéis de compra, pois muitas vezes os esforços de marketing devem ser direcionados para o influenciador ou decisor, por exemplo, e não apenas para o comprador. 2.4 O processo de decisão de compra Este é um processo de cinco estágios pelos quais os consumidores passam ao realizar suas compras. O primeiro passo é o reconhecimento da necessidade, que é o momento em que o consumidor percebe uma diferença entre seu estado real e o desejado. Este reconhecimento pode Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 38 ocorrer tanto por estímulos internos quanto externos, como, por exemplo, a recomendação de alguém. O segundo passo é a busca de informações, que se dá quando o consumidor começa a procurar saber mais sobre o produto que pretende comprar. A busca de informações pode ocorrer através da atenção elevada, quando o consumidor está atento a informações sobre o produto, porém não as procura ativamente, ou da busca ativa de informações. O passo seguinte é a avaliação de alternativas. No passo anterior o consumidor já selecionou algumas opções de produtos, e neste passo cabe a ele optar por algum deles. Os produtos são vistos como agrupamentos de atributos com capacidade variada de determinar satisfação e cada consumidor possui um conjunto de crenças sobre as marcas destes produtos (imagem de marca) e sobre seus atributos, que também possuem diferentes graus de importância, conforme as preferências pessoais do consumidor. Algumas dimensões ou atributos utilizados como parâmetros na avaliação das alternativas são: preço, marca, país de origem, design, entre outros. Em seguida vem o quarto passo, que consiste na decisão de compra. Esta decisão é influenciada pela atitude dos outros (que pode ser positiva ou negativa em relação à escolha realizada), fatores situacionais imprevistos (eventos que podem acontecer inadvertidamente, como a falta do produto escolhido ou uma mudança de preço) e risco percebido. Por fim, o quinto e último passo do processo de decisão de compra é o pós-compra. Após adquirir e utilizar o produto ou serviço, o consumidor determinará se ficou ou não satisfeito coma compra realizada. Ou seja, ele compara o desempenho do produto ou serviço com as suas expectativas anteriores à compra, e então decide sobre a sua satisfação. Outro processo que pode acontecer no pós-compra é a dissonância cognitiva, que se revela através de dúvidas após a decisão quanto a ter escolhido ou não a alternativa correta. A dissonância cognitiva ocorre geralmente em compras grandes, que envolvem altas quantias monetárias e são difíceis de selecionar e de desfazer. Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 39 Infograma Atividade Selecione um anúncio de revista de alguma empresa, e responda: a) Que fatores sociais e pessoais relacionados ao comportamento do consumidor foram incorporados neste anúncio? Cite e explique.b) Quais etapas do processo de decisão de compra o anúncio está abordando mais diretamente? Por quê? c) O anúncio é direcionado a qual(is) papel(is) de compra? Por quê? Referência comentada ENGEL, J.F., BLACKWELL, R. e MINIARD, P.W. Comportamento do Consumidor. Rio de Janeiro: LTC, 2000. Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 40 Este livro é considerado o mais completo sobre Comportamento do Consumidor, abordando os mais diversos aspectos que influenciam as compras das pessoas de forma detalhada. Referências ENGEL, J.F., BLACKWELL, R. e MINIARD, P.W. Comportamento do Consumidor. Rio de Janeiro: LTC, 2000. KARSAKLIAN, Eliane. Comportamento do consumidor. São Paulo: Atlas, 1999. MOWEN, John C. Comportamento do Consumidor. São Paulo: Prentice Hall, 2003. GIGLIO, Ernesto M. O comportamento do Consumidor. São Paulo: Pioneira, 2002. Autoavaliação 1. Um fabricante acaba de desenvolver um produto inteiramente novo: um gel que, passado diariamente sobre os dentes antes de o usuário dormir, protege-o de cáries por um período três vezes maior que a simples escovação diária. O fabricante sabe que deverá esperar um processo decisório complexo por parte do público-alvo, em função de fatores como a falta de informação dos consumidores sobre o produto, a existência de produtos pseudo-similares e o preço do gel. No complexo processo decisório do consumidor, haverá cinco etapas, nas quais o fabricante poderá deparar-se com inúmeros problemas. Dentre as opções a seguir, qual é a única em que o problema descrito corresponde à etapa apresentada? a) Reconhecimento do problema: o consumidor não percebe a necessidade do produto b) Busca de informação: o consumidor não valoriza novas marcas Co m p o rt am en to d o c o n su m id o r 41 c) Seleção de alternativas: o consumidor não dá importância às recomendações dos balconistas da farmácia d) Compra: O consumidor não sabe como usar o produto e) Pós-compra: há insuficiente propaganda persuasiva. 2. Analise as afirmações abaixo, indicando se elas são verdadeiras ou falsas: a) A motivação é um fator psicológico de influência do consumidor, através do qual ele interpreta as mensagens recebidas através dos cinco sentidos. b) Os grupos não tendem a influenciar as decisões de compra para produtos adquiridos exclusivamente para uso pessoal. c) Uma subcultura é um segmento no interior de uma cultura que compartilha valores e padrões de comportamento distintos que diferem da cultura como um todo. Respostas: 1 – a; 2 – a) F; b) F; c) V. Processo de Marketing 3 Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 45 O objetivo deste capítulo é discorrer sobre o processo estratégico de Marketing adotado nas empresas. Este processo é contínuo e deve estar sempre sendo reavaliado, sendo formado principalmente por quatro passos: a análise dos mercados, o planejamento estratégico, a implementação da estratégia e as ações de controle do processo. 3.1 O processo estratégico de Marketing Como vimos, o marketing tem uma função social muita importante, mas não deixa de ser também um processo gerencial que precisa ser constantemente monitorado pelas organizações. Sendo assim, é importante que a gestão de Marketing se utilize de métodos e processos, que contribuam para que os resultados sejam obtidos da melhor forma possível. As etapas do que costumamos chamar de processo de Marketing são: Fig. 1 – Processo de Marketing Como podemos ver na figura 1, o processo de Marketing é contínuo, ou seja, ele nunca termina, está sempre se retroalimentando e iniciando novamente. Isso ocorre porque os mercados estão sempre em constante mutação, são dinâmicos e isso exige que a organização reavalie constantemente os seus procedimentos estratégicos. Abordaremos na sequência cada um destes passos do processo de Marketing. Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 46 3.2 Primeiro passo: análise Veja o seguinte exemplo: “Na indústria de vinhos, por exemplo, o marketing inclui compreensão detalhada de como o gosto do consumidor varia, em bases nacionais ou regionais; inclui também domínio da legislação e de questões de engarrafamento, rotulagem e exportação; conhecimento das redes de distribuição disponíveis, conhecimento de como o conjunto de fatores externos interage com a arte e a ciência do crescimento; e até mesmo as propriedades do cultivo das uvas que se transformarão em uma larga variedade de vinhos” (MAGALHÃES; SAMPAIO, 2007, p. 1). Sendo assim, não é possível definir as estratégias de Marketing sem antes fazer uma análise detalhada do que chamamos de ambiente de Marketing. O ambiente de Marketing inclui diversos fatores do cenário onde a organização está inserida, que se dividem em aspectos do macroambiente de Marketing ou do Microambiente de Marketing. A principal diferença entre os aspectos do macroembiente e os do microambiente é que no macroambiente estão fatores e situações às quais a empresa deve conhecer, estudar e se adaptar a eles, pois não exerce nenhuma influência sobre eles, não podendo portanto alterá-los. Por outro lado, os aspectos do microambiente estão mais próximos à organização, no sentido de que ela poderá exercer influência sobre estes aspectos. Isso não significa, entretanto, que ela poderá controlá-los, mas sim realizar ações que permitam que o ambiente se torne mais favorável aos objetivos da organização. A seguir detalharemos os aspectos envolvidos tanto no macro quanto no microambiente de Marketing. 3.2.1 Macroambiente de Marketing Como foi dito antes, o macroambiente envolve aspectos que a empresa não poderá influenciar. Portanto, o objetivo de analisar os aspectos do macroambiente de Marketing é prever tendências e se adaptar a tempo Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 47 de transformar estas tendências em oportunidades de mercado, ou de se proteger das ameaças, criando planos de contingência. As principais forças do macroambiente de Marketing são: - Ambiente demográfico: envolve aspectos como a densidade demográficas, taxas de crescimento populacional, pirâmide etária, grau de instrução, e outros voltados ao estudo da população; - Ambiente Econômico: inflação, taxas de juros, variação cambial, cotações em bolsa, períodos de crescimento ou recessão etc.; - Ambiente tecnológico: novas tecnologias desenvolvidas, às quais a empresa precisará adaptar-se; - Ambiente natural: as forças da natureza, como o clima, temperatura, chuvas, desastres naturais (terremotos, furacões, tsunamis), escassez de matérias-primas, preservação ambiental etc.; - Ambiente político legal: clima político e legislação, incluindo normas e restrições legais; - Ambiente sociocultural: crenças, valores e normas que definem os gostos e preferências dos consumidores, conforme discutimos no capítulo 2, quando falamos sobre a Cultura. 3.2.2 Microambiente de Marketing O microambiente de marketing, por sua vez, envolve aspectos do ambiente que estão mais próximos da empresa, no sentido de que ela pode exercer alguma influência sobre eles (embora não possa controlá- los). Os principais fatores do microambiente de marketing em uma empresa são: - intermediários de marketing: inclui os atacadistas, varejistas, representantes, distribuidores e outros envolvidos no processo de distribuição dos produtos e serviços da empresa; - públicos: clientes, sindicatos, mídia e comunidade em geral; - fornecedores: organizações que fornecem produtos e serviços para a empresa; - concorrentes: podem ser diretos (comercializamexatamente o mesmo produto ou serviços da empresa) ou indiretos (vendem produtos ou serviços que substituem os da empresa). Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 48 3.3 Segundo passo: planejamento Conforme Magalhães e Sampaio (2007), podemos dizer que marketing é conhecer, decidir e agir. Sob este ponto de vista, a etapa de análise que vimos anteriormente equivale a conhecer, e a etapa de planejamento, a de decidir1. Veja o que dizem os autores: “Se marketing é conhecer, decidir e agir, o leitor-planejador deve levar em conta que, tão importante quanto compreender o mercado – nele incluindo consumidores, prospects e concorrentes diretos e indiretos –, é saber decidir de modo inteligente a respeito do que deve ser feito e de como fazer, de modo a chegar à etapa da ação, ciente de estar fazendo exatamente o que deve ser feito e da maneira mais adequada”. (MAGALHÃES; SAMPAIO, 2007, p. 125). Para a etapa de planejamento de marketing, portanto, são importantes os seguintes itens: - Elaboração das declarações de visão, missão e princípios; - Definição do posicionamento estratégico a ser adotado pela empresa; - Definição de um plano de ação. 3.3.1 Definição de visão, missão e valores Esses aspectos são importantes para que a organização construa uma identidade do seu negócio, estabelecendo o clima organizacional, os padrões de conduta que devem ser seguidos, o que está realmente sendo perseguido nesta nova empresa. A missão é importante como referência e determinação de foco. Em geral, deve-se determinar na missão uma espécie de objetivo de longo prazo, onde a empresa quer chegar, qual a razão de sua existência. Por isso mesmo, ele deve ser mantida por um longo período de tempo, não devendo ser modificada constantemente, em curtos intervalos, para evitar a perda de foco e de referência da organização. Isso não quer dizer, de 1 O que os autores Magalhães e Sampaio chamam de agir equivale aos passos Imple- mentação e Controle do Processo de Marketing, ou seja, o terceiro e quarto passos. Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 49 forma alguma, que ela é estática e que jamais poderá ser alterada, mas as alterações devem ocorrer apenas em intervalos longos, na forma de ajustes de direção. Dentro deste contexto, algumas características de uma boa declaração de missão são a objetividade, clareza e capacidade de vislumbrar o negócio da empresa sem ser míope2. Ela é uma frase que descreve quem é o público-alvo da empresa, o que a empresa vende, em que negócio ela está inserida e como ela se posiciona no seu mercado. Uma boa missão deve ser facilmente compreensível e de fácil memorização pelos funcionários da empresa. Um exemplo clássico que ilustra estas qualidades é a missão da Walt Disney: “Fazer as pessoas felizes”. Basta que os colaboradores da Walt Disney lembrem-se destas quatro simples palavras para saberem exatamente o que a empresa persegue, e como devem atuar. Uma boa definição de missão funciona como um farol, indicando a direção certa a ser seguida. A visão é também chamada por especialistas de intenção estratégica, pois ela deverá responder à questão implícita: onde queremos chegar como organização? Ela sintetiza qual é a visão de futuro da empresa, e como ela quer ser vista e reconhecida. Trata-se da definição do espaço e lugar onde a empresa deseja estar no futuro, sendo muitas vezes determinado inclusive quando isso deverá acontecer. Portanto, muitas declarações de visão incluem inclusive o ano em que o que se pretende deverá ocorrer. O objetivo de uma declaração de visão bem definida é garantir a concentração de esforços na busca das oportunidades futuras da organização, que estão projetadas ali. Determinar e divulgar os princípios que regem a atuação de uma organização e os valores prezados por ela tem muitos benefícios, entre eles a atração de funcionários talentosos e de clientes que valorizam uma empresa correta. Deixar com que os stakeholders3 conheçam estes princípios é fundamental, porém é importante que eles sejam realmente seguidos e colocados em prática no dia-a-dia da organização. 2 Miopia em Marketing é um termo criado por Theodore Levitt na década de 70, mas atual até hoje. Representa as empresas com foco no seu produto, e não no negócio, além de visão de curto prazo, ao invés de focar no longo prazo. 3 Todos os players que interagem com a empresa, entre eles clientes, funcionários, comu- nidade em geral, mídia, fornecedores, concorrentes etc. Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 50 Certamente não é fácil fazer com que os colaboradores compreendam e pratiquem os princípios e valores que regem a organização, porém os benefícios deste esforço são muito grandes comparados aos casos onde os funcionários não sabem exatamente o que a empresa espera deles em termos de comportamento. Busca-se, portanto, homogeneizar a cultura predominante na empresa, chamada cultura organizacional. As declarações de visão, missão e princípios do HSBC são um exemplo de como formular estes conceitos. Missão, Visão & Valores – Banco HSBC O HSBC sabe que para alcançar excelência em sua categoria é preciso estar sempre cuidando de sua conduta e seu desempenho. Para isso, estipulamos missões, metas e valores que acreditamos serem fundamentais para a instituição, clientes e colaboradores. Missão Garantir a excelência na entrega de produtos e serviços financeiros, maximizando valor para clientes e acionistas. Visão Ser o melhor grupo financeiro do Brasil em geração de valor para clientes, acionistas e colaboradores. Valores Nossa conduta deve refletir os mais altos padrões de ética. Nossa comunicação deve ser clara e precisa. Nosso gerenciamento deve ser em equipe, consistente e focado. Nosso relacionamento com clientes e colaboradores deve ser transparente e baseado na responsabilidade e confiança entre as partes. Fonte: Disponível em <http://www.hsbc.com.br/ sobre-hsbc/hsbc-brasil/missao-visao-valores.shtml > Acesso em 05/04/2008. 3.3.2 Definição do posicionamento estratégico da empresa Estamos vivendo uma era de grande competitividade entre as organizações. Em praticamente todos os setores da economia, a Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 51 competição está presente de forma avassaladora, sendo impossível ignorá-la. Diante deste cenário, é imprescindível que as novas empresas, e mesmo as empresas que já atuam a muitos anos no mercado, tenham um posicionamento estratégico bem definido, para fazer frente à concorrência local e até global. Para Porter (1999), o posicionamento estratégico se caracteriza pela criação de uma abordagem vantajosa sobre a competição em determinado setor. “Todas as empresas devem melhorar de forma contínua a eficácia operacional de suas atividades, mas as diferenças de desempenhos sustentáveis quase sempre dependem de uma posição estratégica distinta”. Porter, 1999, p. 10. Em geral, as empresas devem definir a estratégia a ser adotada no nível setorial, ou seja, diante de seus concorrentes que atuam no mesmo setor. Essa é a chamada estratégia competitiva. Entretanto, temos também a chamada estratégia corporativa, aquela que é adotada por uma empresa que atua em vários setores diferentes. Em nível setorial, estas empresas devem optar pelos setores estrategicamente mais interessantes. Focaremos aqui especialmente na estratégia competitiva. Entretanto, lembramos que estes dois níveis estratégicos devem estar intimamente relacionados e atuando em sintonia, para garantir a vantagem competitiva da empresa. Após ter feito a análise do ambiente de marketing proposta no item3.2, o profissional de marketing terá condições de identificar os pontos fortes e fracos da empresa, que também devem ser considerados para a melhor escolha estratégica para a empresa. Estratégias competitivas e genéricas A palavra estratégia origina-se do grego “strategos”, que significa literalmente “a arte do general”, e está relacionada com os conflitos militares na época napoleônica. O termo designava o conjunto de ações voltadas a dirigir forças militares durante uma guerra ou batalha. Foi incorporado ao palavreado dos negócios por volta da década de 60. A estratégia no contexto organizacional pode ser definida como a busca deliberada de um plano de ação para desenvolver e ajustar a vantagem competitiva de uma empresa. Trata-se de escolhas que definem o rumo da Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 52 organização, sempre condicionadas à situação ambiental (macro e micro ambiente) e organizacional (recursos, know-how etc). Além disso, devem ser levadas em consideração também a visão e missão da empresa, o tempo disponível, os riscos envolvidos, entre outros elementos importantes. Para uma boa definição estratégica, propomos o mesmo conselho: saiba aonde quer chegar e então escolha o melhor caminho para isso. Deve-se visualizar um diferencial significativo para a empresa, para que ela possa fazer frente à concorrência. Porter propõe três estratégias genéricas que podem ser adotadas por uma empresa, não necessariamente de forma excludente. São elas: diferenciação, custos e enfoque. a) Diferenciação Essa estratégia caracteriza-se pela criação de algo de valor, que seja reconhecido como exclusivo pelo mercado. Assim a oferta da empresa será diferenciada da oferta dos concorrentes. Alguns itens que podem ser utilizados para gerar diferenciação são o estilo, o design, a performance do produto ou serviço, o atendimento, a imagem etc. A maior vantagem da utilização da diferenciação é que, se as diferenças utilizadas forem realmente valorizadas pelos clientes, a empresa poderá praticar preços e margens mais elevadas. Um exemplo são as marcas de luxo: um produto da marca Channel, por exemplo, é vendido por valores elevados, mas considerados justos por consumidores que valorizam esta marca. b) Custos A estratégia conhecida como liderança em custos consiste em obter uma estrutura de custos inferior à da concorrência, com o objetivo de obter retornos maiores. Para isso, as empresas que adotam esta estratégia utilizam técnicas que viabilizem a sua redução de custos, tais como: economias de escala, controle rígido de gastos administrativos e outros, enxugamento de pessoal, serviços limitados aos clientes, integração para trás etc. Em geral, as empresas que optam pela estratégia de liderança em custos necessitam de grande participação de mercado para se tornar rentáveis. Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 53 Ela é mais amplamente adotada no mercado de commodities, onde os produtos não apresentam diferenciação entre si. Por exemplo: produtos agrícolas, minérios, combustíveis, entre outros. Para os outros setores, a estratégia de liderança em custos apresenta a desvantagem de não criar uma razão pela qual o cliente deva comprar da empresa. c) Enfoque As duas estratégias apresentadas acima mostram como competir. A estratégia de enfoque, por sua vez, mostra ONDE competir. A empresa deverá concentrar seus esforços em um segmento específico, grupo de consumidores, região geográfica, estilo ou outra forma de segmentação de consumidores, e atender este segmento mais eficaz e eficientemente do que seus concorrentes. Utilizando o enfoque, a empresa poderá obter as lideranças em custos ou diferenciação mencionadas acima, mas para um grupo específico de clientes. Por exemplo: uma loja pode especializar-se em atender as necessidades de pessoas que praticam esportes radicais. Assim, a loja conseguirá diferenciar-se das outras lojas esportivas ou voltadas para o público jovem, tornando-se uma referência para o nicho escolhido. Veja que, para um mesmo negócio, é possível adotar qualquer uma das três estratégias; basta direcionar a estrutura da empresa e suas ações para isso. Por exemplo, uma fábrica de calçados poderá utilizar a estratégia de liderança em custos, oferecendo calçados muito baratos. Ou a estratégia de liderança em diferenciação, diferenciando seus calçados pela qualidade, pelo material utilizado ou até pela marca desenvolvida. Por fim, a mesma fábrica poderá utilizar a estratégia de enfoque, concentrando-se no segmento de jovens senhoras que buscam calçados confortáveis para o trabalho, por exemplo. 3.3.3 Definindo um plano de ação O próximo passo do seu plano de negócios é definir um plano de ação, condizente com a estratégia genérica escolhida, que deverá incluir: Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 54 O posicionamento da empresa A definição do posicionamento da empresa é relevante, de forma a se defender da melhor maneira possível diante da concorrência. Esta abordagem deve considerar tanto as forças competitivas existentes no setor, quanto os pontos fortes e fracos da própria empresa. Neste caso, a empresa poderá optar por construir defesas que a protejam das forças competitivas, ou localizar nichos onde algumas das forças sejam mais fracas. Por exemplo: se a empresa for um produtor de baixo custo, poderá optar pelo confronto com compradores poderosos. Ainda assim, deverá tomar cuidado com os produtos vulneráveis à concorrência dos substitutos. Influência no equilíbrio Consiste em definir manobras estratégicas que possam influenciar no equilíbrio das forças competitivas, melhorando a posição da empresa. Neste caso, a empresa assumiria uma postura mais ativa, optando pela ofensiva e combatendo a ação das próprias forças competitivas. Por exemplo: ao criar preferência de marca junto aos consumidores, a empresa ganha maior poder de mercado também junto aos concorrentes e substitutos. Antecipação de mudanças no cenário Analisando o cenário onde as forças competitivas estão inseridas, a empresa pode prever ações estratégicas, tornando-se capaz de antecipar- se às possíveis ações da concorrência. Por exemplo:à medida que as inovações avançam no ciclo de vida dos produtos, a diferenciação entre eles declina, e as empresas tendem a adotar a integração vertical. Isso faz com que pequenos concorrentes acabem por ser eliminados do setor. Este referencial de antecipação de cenário também poderá ser utilizado para prever a rentabilidade final do setor. Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 55 “O potencial do setor dependerá, sobretudo, da configuração das futuras barreiras de entrada, da melhoria da posição do setor em relação aos substitutos, da intensidade final da competição e do poder conquistado pelos compradores e fornecedores” (Porter, 1999, p. 43) Portanto, a opção competitiva escolhida não deve de forma alguma ser estática. A análise das forças competitivas e a reformulação da estratégia devem ser constantes, especialmente diante do cenário altamente mutante que temos, com mercados dinâmicos e transformações tecnológicas constantes. Os rivais são capazes de copiar com rapidez qualquer posição de mercado. A vantagem competitiva é temporária, por isso deve ser sempre perseguida. A estratégia de Marketing de uma organização deve contemplar quatro elementos principais, conhecidos como composto de marketing, mix de marketing ou 4 P’s de Marketing. São eles: produto, preço, praça e promoção. Estes quatro elementos serão apresentados e discutidos mais detalhadamenteno capítulo 4. 3.4 Terceiro passo: implementação Após as definições descritas no item 3.3, que estão no nível de decisões estratégicas da organização, passamos para a etapa de implantação, no nível tático e operacional. Isso equivale a dizer que na etapa de planejamento as decisões estão sendo acertadas e registradas, ou “colocadas no papel”. No terceiro passo, elas são então implementadas, ou seja, é a hora de arregaçar as mangas e colocar as ideias em prática. Sabemos que nem sempre o que estava planejado se reflete fielmente na prática, mas uma das artes do planejamento é conseguir chegar o mais próximo possível da realidade com a qual a organização irá se deparar na etapa de implantação. Como dizem Kotler e Keller (2006, p. 56) “A melhor estratégia de marketing pode ser arruinada por uma implementação ineficiente”. Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 56 3.5 Quarto passo: controle O último passo do processo de marketing é o controle ou feedback, que envolve a avaliação dos resultados obtidos durante todo o processo. Esta avaliação é feita através da mensuração dos resultados que significa verificar, conforme os objetivos estabelecidos, qual foi o resultado alcançado, em termos mensuráveis. Por exemplo, se o objetivo era aumentar as vendas, a empresa deve verificar qual foi o índice de vendas obtido. A seguir, deve ser feito um diagnóstico deste resultado, ou seja, verificar se as metas pretendidas foram atingidas, se se obteve o resultado esperado com a adoção de determinada estratégia. É como um exame médico, primeiramente o médico fará avaliações, como a verificação dos nossos batimentos cardíacos. Em seguida, dará o seu diagnóstico: paciente saudável, arritmia, ou outro, conforme o caso. Após o diagnóstico dos resultados a organização pode adotar ações corretivas, caso o resultado encontrado não tenha atendido às expectativas dos gestores, ou então pode seguir com o mesmo direcionamento estratégico, caso os resultados tenham sido satisfatórios. Infograma Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 57 Atividade Discuta as duas afirmações a seguir: você concorda com elas? Por quê? Explique os conceitos envolvidos e justifique a sua opinião. a) O marketing cria necessidades e desejos; b) O marketing é uma forma de fazer as pessoas comprarem produtos dos quais não precisam. Referência comentada KOTLER, Philip; KELLER, Kevin. Administração de Marketing. 12. ed. São Paulo: Pearson, 2006. Kotler é o autor maior reconhecido internacionalmente na área de Marketing – seus livros são adotados no mundo inteiro! Nesta edição, Keller junta-se a ele, contribuindo especialmente na parte que trata sobre a gestão das marcas. Referências MAGALHÃES, Marcos Felipe; SAMPAIO, Rafael. Planejamento de Marketing – conhecer, decidir e agir, do estratégico ao operacional. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. NEVES, Marcos Fava. Planejamento e Gestão Estratégica de Marketing. São Paulo: Atlas, 2005. STEVENS, Robert et al. Planejamento de marketing: guia dos processos e aplicações práticas. São Paulo: Makron Books, 2001. PORTER, Michael E. Competição – On Competition: Estratégias Competitivas Essenciais. Rio de Janeiro: Campus, 1999. Pr o ce ss o d e M ar ke ti n g 58 Autoavaliação 1. Analise as afirmações abaixo, indicando se elas são verdadeiras ou falsas: I - Do ponto de vista de um profissional de marketing, o ambiente natural envolve os recursos naturais disponíveis à organização ou afetados por ela. II – O aumento do número de mulheres no mercado de trabalho é uma variável referente ao ambiente político-legal. III – As mudanças no ambiente tecnológico podem-se tornar tanto oportunidades, quanto ameaças para a empresa. As afirmações acima são, respectivamente: a) Verdadeira, verdadeira, verdadeira b) Falsa, falsa, falsa c) Falsa, verdadeira, verdadeira d) Falsa, verdadeira, falsa e) Verdadeira, falsa, verdadeira 2. Suponha que o atual presidente do país decida incentivar as exportações, através de novas taxas alfandegárias e outros incentivos. Ao mesmo tempo, percebe-se um aumento significativo na renda per capita de alguns países parceiros do Brasil. As informações acima demonstram mudanças nos seguintes ambientes de marketing, respectivamente: a) econômico e tecnológico b) político-legal e sociocultural c) demográfico e natural d) político-legal e demográfico e) econômico e demográfico Respostas: 1 – e; 2 – d. Os 4 P’s de Marketing 4 O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 61 O objetivo deste capítulo é apresentar aos alunos o composto de Marketing, também conhecido como 4 P’s de Marketing. Estes são os elementos de uma estratégia mercadológica que devem ser utilizados por qualquer empresa ao definir seu plano de Marketing. São eles: Produto, Preço, Praça e Promoção. 4.1 Composto de Marketing: os 4 P’s No capítulo anterior, quando aprendemos sobre o Processo de Marketing, comentamos que uma estratégia de Marketing deve contemplar quatro elementos básicos e indispensáveis: o chamado composto de Marketing, ou Marketing Mix, ou ainda 4 P’s de Marketing. Os 4 P’s foram criados por McCarthy nos Estados Unidos e tornaram-se uma unanimidade em toda a literatura de Marketing. Alguns outros autores até aumentaram o número de P’s, apresentando compostos de Marketing formados por 6 P’s ou até mesmo 8 P’s. Porém aqui preferimos ficar com o mais famoso e aceito conceito dos 4 P’s, que são: produto, preço, praça e promoção. Veremos que eles acontecem exatamente nesta ordem. O P de Produto refere-se ao produto ou serviço que é ofertado ao mercado, para satisfazer as necessidades do público-alvo, bem como sua marca e a embalagem que faz parte da oferta total da empresa. Ele é a primeira decisão do composto de Marketing, pois de nada adianta a empresa decidir os outros P’s se não tiver algo (produto ou serviço) para oferecer aos clientes. No momento que a empresa passa a ter algo a oferecer, ela precisa precificar este produto, e é aí que entra o segundo P de Marketing, que é o Preço. Este componente do Marketing Mix envolve a definição estratégica do preço, bem como formas de pagamento e financiamento a serem oferecidas para o mercado. O fenômeno das Casas Bahia no Brasil, por exemplo, deve-se a sua excelente capacidade de trabalhar com o P de Preço, pois possibilitou através de parcelamentos de longo prazo que as pessoas adquirissem uma diversa gama de eletrodomésticos e móveis, com prestações mensais mínimas. O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 62 O terceiro P é chamado de Praça, termo que remete à nomenclatura tradicional dos vendedores, quando se referem à sua área de atuação. Originalmente o termo vem de Place, que significa lugar em inglês. Portanto este P de Marketing está ligado à estratégia de distribuição do produto, designando todo o caminho que o produto percorre desde o fabricante até chegar às mãos do consumidor final. Por fim, temos o P de Promoção, que se refere às atividades de divulgação do produto. Depois que a organização desenvolveu uma oferta para o mercado, estabeleceu o preço e distribuiu o produto, ela finalmente pode divulgá-lo, utilizando diversas ferramentas de comunicação com o público-alvo. Promoção aqui é utilizada, portanto, no sentido de promover o produto. Os 4 P’s de Marketing devem agir de forma integrada, em uma relação de interdependência entre si, afinal eles devem estar voltados aos mesmos objetivos organizacionais. A seguir, veremos uma descrição mais detalhada de cada umdos 4 P’s. 4.2 Produto Produto é uma mistura de tangível e intangível comprado para resolver problemas. Ou, como já vimos, é um conjunto de atributos tangíveis e intangíveis e benefícios reais ou percebidos, com a finalidade de satisfazer as necessidades ou desejos do consumidor. Dizemos que existem cinco níveis de produto, conforme os atributos e benefícios oferecidos ao consumidor. Os níveis de produto são o núcleo, o básico, o esperado, o ampliado e o potencial. Estes níveis estão representados na figura a seguir: O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 63 Cinco níveis de produto Fig. 1 - Níveis de produto O produto núcleo é o único nível de produto formado exclusivamente por benefício, ou seja, ele é o que o cliente efetivamente procura ao comprar este produto, sua funcionalidade ou utilidade. Por exemplo, o benefício de um carro é o transporte, e este é também o seu núcleo, em termos de níveis de produto. O segundo nível é o produto básico, que seria o mínimo de atributos em um produto, mas que já constitui uma oferta ao mercado. Por exemplo, um carro com rodas, direção e freios atenderia ao produto núcleo, ou seja, ofereceria transporte ao consumidor. Porém, sabemos que os consumidores esperam um pouco mais de um carro. O que as pessoas esperam de um produto constitui o nível chamado produto esperado. A expectativa de um produto é formada a partir de experiências anteriores, comunicação boca a boca ou até pelas propagandas realizadas pelas empresas. Assim, como já andamos de carro, já ouvimos falar e vimos propagandas, esperamos que um carro tenha alguns itens,como retrovisor, limpador de pára-brisas, porta-luvas etc. Se um destes itens não for oferecido, o produto será considerado estranho e sua compra pode ser descartada pelo consumidor. Para diferenciar-se dos concorrentes, as empresas procuram aumentar o nível de seus produtos, gerando o nível ampliado. Aqui são atribuídos ao produto itens diferenciados, capazes de fazer com que o produto tenha destaque em relação às ofertas da concorrência. No caso do carro, seriam O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 64 itens como sensor de estacionamento, direção hidráulica, freios ABS, air bag, etc. Vejam que, à medida que uma empresa cria itens de diferenciação para o seu produto e o posiciona no nível ampliado, as demais tendem a copiar esta diferenciação, e em seguida ela se tornará algo esperado pelo consumidor. Foi o que aconteceu, por exemplo, com os celulares: algumas empresas passaram a oferecer celulares que tiravam fotos (um item diferenciado) e atualmente todas as marcas oferecem modelos de celular com câmera fotográfica. Isso faz com que o produto acabe perdendo seu diferencial, e a empresa precisa estar sempre pronta a realizar outras inovações de produto. O nível potencial existe exatamente para isso. Neste nível estão as inovações de produto ainda não lançadas no mercado, que estão em fase de testes, sejam protótipos ou simplesmente projetos. No momento em que um produto potencial é lançado no mercado, ele se torna um produto ampliado, e assim por diante. Por exemplo, quando o “carro anfíbio” for disponibilizado no mercado consumidor, ele se tornará um produto ampliado. Atualmente, ele é um produto potencial. Experimente fazer esta mesma análise de níveis de produto com algum serviço que você conhece, como, por exemplo, hotelaria. Você verá que também para os serviços é possível estabelecer os cinco níveis de produto (lembre-se que um serviço nada mais é do que um produto intangível). Portanto, não importa se a organização em análise administra produtos ou serviços (ou até mesmo ambos), ela deve preocupar-se em manter seus produtos sempre no nível ampliado, para que eles possam diferenciar-se dos concorrentes e, assim, obter a preferência dos consumidores. Porém, é preciso lembrar que a vantagem competitiva obtida no nível de produto ampliado é momentânea, pois os diferenciais geralmente são copiados pela concorrência após algum tempo. Por isso, a empresa deve estar sempre pronta para inovar e acrescentar novos atributos e benefícios aos seus produtos. O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 65 4.3 Preço Tradicionalmente, a formação de preço pelos empresários era realizada sempre pela fórmula P = C + L Onde P é o preço de venda do produto, C é o custo do produto (considerando-se custos fixos e variáveis) e L é a margem de lucro desejada pela empresa. Este método de formação de preço é chamado de Mark up, sendo que este termo designa o percentual de lucro acrescido sobre o produto. Este método de formação de preço tem sido considerado míope atualmente, pois ele só considera itens que estão dentro da empresa, não se preocupando com o mercado, especialmente clientes e concorrentes. Atualmente, para a formação de preços é preciso levar em consideração os 3 C’s, ou seja: custos,clientes e concorrentes. Os custos são o piso do preço, ou seja, é o mínimo que a empresa pode cobrar pelo produto para não incorrer em prejuízo. O cliente determina o teto, ou seja, o preço máximo que um produto pode custar, de acordo com a percepção de valor dos clientes. E os concorrentes determinam vários níveis de preço intermediários. Sendo assim, podemos dizer que o preço atualmente é uma função de concorrência e de posicionamento desejado, e não mais de custos. Isso não quer dizer que os custos não sejam importantes, mas eles são apenas mais um elemento na formação do preço, e não o principal deles. A empresa deve adaptar seus custos para manter-se competitiva no mercado. Em um mercado sadio e maduro, podemos ter vários níveis diferentes de preços convivendo harmonicamente, cada um deles atendendo a um nicho diferente de clientes. O nível de preço adotado por uma organização depende do posicionamento desejado e da qualidade do produto. Veja no quadro a seguir os níveis de preço, no exemplo do produto chocolate. O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 66 Nível de Preço Marca de Chocolate Máximo Godiva Alto Padrão Kopenhagen Luxo Lindt Necessidades Especiais Diatt (chocolate dietético) Médio Nestlé Facilidade / conveniência Sonho de Valsa (da Kraft Foods) Imitações mais baratas Dori Unicamente Preço Pan Quadro 1 – Níveis de preço de chocolate O mesmo tipo de análise em termos de níveis de preço poderia ser aplicado a diversos outros produtos, como cerveja, vinhos, roupas, carros, etc. Para a marca, o importante é ter uma estratégia de preço bem definida e percebida pelo consumidor. Para uma boa determinação de preços, a empresa precisa seguir alguns passos: 1- selecionar o objetivo da determinação de preços; 2- determinar o comportamento da demanda; 3- estimar de forma precisa os custos do produto; 4- realizar análise de custos, preços e ofertas dos concorrentes; 5- selecionar um método de determinação de preços, que pode ser focado na concorrência, no valor percebido pelos clientes, no retorno sobre o investimento ou outros; 6- selecionar um preço final. 4.4 Praça O P de Praça é responsável por oferecer conveniência ao cliente, estabelecendo um ponto de contato entre o cliente e o seu mercado. Gerenciar praça significa estabelecer canais de marketing, que são vias O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 67 através das quais um produtor (ou intermediário) facilita o acesso aos bens. Seria uma rede de empresas que torna possível a determinado produto ser fabricado e entregue ao seu consumidor final. Resumidamente, podemos dizer que é o caminho utilizado pelo fornecedor para chegar aoconsumidor e para continuar relacionando-se com ele. Alguns parceiros envolvidos na distribuição dos produtos e serviços de uma empresa são a equipe interna e externa de vendas, distribuidores, varejistas, atacadistas, agentes, representantes, franqueados, concessionários, entre outros. Estes intermediários de marketing são de grande relevância para que se atenda às chamadas utilidades de marketing: tempo, lugar e posse. Em outras palavras, eles permitem que o consumidor adquira o produto no lugar certo e na hora certa. Como dissemos, os varejistas são um destes importantes intermediários de marketing, e vem desempenhando o seu papel de trazer cada vez mais conveniência aos clientes, como podemos ver no texto do quadro a seguir. O que o cliente quer O varejo brasileiro já descobriu a importância da prestação de serviços -- mas ainda precisa aprender muito a respeito A loja da Casas Bahia. localizada na praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo, é uma espécie de laboratório para a maior rede de móveis e eletroeletrônicos do país. Lá são testados conceitos que depois são expandidos -- ou não -- às outras 546 lojas do grupo espalhadas por todo o Brasil. Há dois anos, a Casas Bahia vem utilizando essa unidade para testar com mais força uma preferência crescente dos clientes: a prestação de serviços. Quem passeia na loja da praça Ramos, onde por décadas funcionou a antiga loja de departamentos Mappin, vê pontos-de-venda de produtos como pães de queijo, chocolates, sorvetes, joias, passagens aéreas, livros e até óculos -- todos em parceria com empresas especializadas nesses mercados. “Ao facilitarmos a vida do cliente, ele fica mais tempo dentro da loja e às vezes até compra alguma coisa por impulso”, diz Michael Klein, diretor-geral da Casas Bahia. A iniciativa de Klein é o maior exemplo do esforço do varejo brasileiro para seguir uma tendência mundial: aliar a oferta de serviços à venda tradicional de produtos. Com essa estratégia, cadeias do mundo todo estão conquistando O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 68 maior fidelidade do consumidor, elevando as receitas e, muitas vezes, alcançando a liderança em segmentos que nada têm a ver com seu negócio principal. No Brasil, salvo honrosas exceções, o quadro é bem diferente. Uma pesquisa inédita da consultoria Gouvêa de Souza & MD revela que as redes brasileiras estão atrasadas -- e basicamente por uma razão. Elas desconhecem aquilo que o público de fato quer consumir. “Existem lacunas que as empresas ainda não identificaram e que, em pouco tempo, poderão significar a diferença entre ser ou não bem-sucedido no segmento de varejo”, diz Marcos Gouvêa de Souza, responsável pelo estudo e sócio da consultoria. Nos últimos anos, os brasileiros têm empenhado uma parcela cada vez maior de sua renda no consumo de serviços. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumidor gastava, em 1995, 31% de seus ganhos com serviços diversos. Atualmente, essa parcela fica em torno de 55% da renda. Em sua pesquisa, a Gouvêa de Souza ouviu 2 017 consumidores com idade entre 16 e 69 anos em todo o país e mapeou o que eles mais consumiriam nas lojas. Em linhas gerais, o pesquisador percebeu um desencontro entre aquilo que as lojas oferecem e o que o consumidor realmente deseja. De acordo com o levantamento, entre os serviços mais esperados estão processamento digital de imagens, compra de ingressos, assistência técnica de produtos com defeito e corte de cabelo. Os serviços mais comuns nos varejistas, como seguros e linhas de crédito, não apresentam uma demanda tão expressiva. Segundo a pesquisa, menos da metade dos entrevistados demonstra interesse por eles. “As operações financeiras são importantes, mas já não são vistas pela clientela como um serviço diferenciado. As pessoas querem transformar essa experiência em algo muito parecido a um passeio no shopping”, afirma Gouvêa de Souza. A dificuldade está em fazer isso de maneira rentável para a empresa e, ao mesmo tempo, atrativa para o cliente. Poucas redes têm sido tão bem- sucedidas em encontrar esse ponto de equilíbrio quanto o Pão de Açúcar. Diferentemente da Casas Bahia, o Pão de Açúcar decidiu assumir a gestão dos serviços oferecidos ao público em vez de terceirizá-los. Nas lojas da rede, os clientes podem pagar contas, revelar fotos e ainda encomendar um jantar completo para comemorações especiais. Algumas unidades também mantêm pet shops e farmácias operadas pelo próprio grupo -- que se diferenciam das O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 69 drogarias tradicionais por terem foco em produtos fitoterápicos, homeopáticos e cosméticos importados. Dá muito trabalho ampliar o leque de ofertas ao consumidor, ainda mais mantendo essas operações sob administração própria. Mas, segundo os executivos do Pão de Açúcar, a estratégia vem dando certo. O número de clientes que consomem serviços nas lojas do grupo cresceu 22% em apenas um ano. Além disso, o cliente que utiliza serviços gasta em média 20% mais do que os outros. “Estamos sempre estudando novidades que possam atrair um maior número de consumidores para nossas lojas”, diz Cláudia Pagnano, diretora executiva do Pão de Açúcar. AS EXCEÇÕES APENAS confirmam a percepção de que os varejistas brasileiros aproveitam pouco as oportunidades no setor de serviços. Na Casas Bahia, os serviços -- incluindo os financeiros -- respondem por cerca de 10% do lucro da empresa. Na rede de supermercados inglesa Tesco, apenas os serviços como linhas de crédito e seguros já correspondem a mais de 22% dos ganhos. Sua mais nova aposta na área são os serviços de telefonia celular. Criada em 2003, a divisão Tesco Telecom opera em parceria com a operadora O2. Juntas, vendem planos pré-pagos de celular. A operadora cuida da parte técnica e a Tesco fica responsável por áreas como venda, cobrança e marketing. A associação está prestes a tornar-se a segunda maior vendedora de planos pré-pagos de celular da Inglaterra. “Na Tesco e em outras grandes varejistas do mundo, os serviços são tão importantes que deixaram de ser uma renda extra ou chamariz de consumidores para tornar-se um negócio”, diz Gouvêa de Souza. Ao agregar um novo tipo de serviço, as cadeias de varejo têm a chance de multiplicar as receitas de uma maneira drástica -- especialmente se o serviço tiver clara sinergia com o que já é feito por essas empresas. Nesse cenário, a americana Best Buy, especializada na venda de eletroeletrônicos, deu um notável exemplo de como aproveitar essa oportunidade. Há quatro anos, a Best Buy ocupava a segunda colocação no ranking de companhias especializadas no varejo de eletrônicos nos Estados Unidos. Para mudar esse cenário, seus acionistas resolveram comprar a Geek Squad, companhia de suporte técnico para reparo e manutenção de computadores dos clientes. A ideia era vender os produtos e, ao mesmo tempo, proporcionar à clientela a segurança de que a compra teria assistência técnica mesmo depois do fim da O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 70 garantia. Desde então, foram mais de 5 milhões de atendimentos e a conquista da liderança por larga margem -- hoje, a Best Buy é quase três vezes maior que sua principal concorrente. Existem alguns fatores que favorecem a expansão das redes de varejo rumo à oferta de serviços. Um dos principais é que essas empresas desfrutam de um alto grau de confiança da clientela. Em tese, isso dá a essas redes a possibilidade de oferecer serviços escoradas na confiabilidade de suas marcas. Nos Estados Unidos, o Wal-Mart aproveitou-se dessa formidável condição para lucrar com uma atividade incomum (para uma rede de varejo, claro):atendimento médico para casos de pequena complexidade. Por preços que variam de 20 a 65 dólares, o cliente/paciente faz exames clínicos, toma vacinas e trata de problemas como gripes ou pequenos acidentes domésticos -- e, se for o caso, compra o remédio na farmácia ao lado. Tudo dentro do ambiente das lojas. Hoje existem 76 clínicas nas unidades do Wal-Mart, e a novidade deu tão certo que a meta é abrir 400 novos postos nos próximos três anos. Os exemplos do Wal-Mart, da Tesco e da Best Buy provam que o varejo brasileiro ainda pode evoluir muito na oferta de serviços, mas antes precisa aprender mais sobre as necessidades e as vontades de seus clientes. Quadro 2 – O que o cliente quer Fonte: Revista Exame, 14/06/2007 4.5 Promoção A Promoção refere-se a todas as formas de comunicação da empresa com o mercado. Ela é o último dos 4 P’s, pois só depois que a empresa desenvolve suas estratégias de preço, produto e distribuição é que poderá comunicá-las ao mercado. E isto dá-se por meio do processo de comunicação, conforme a figura a seguir. O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 71 Profa. Valesca Reichelt Fig. 2 – Processo de comunicação Fonte: KOTLER, Philip O processo de comunicação é utilizado em qualquer tipo de comunicação que possa acontecer, inclusive na comunicação entre uma organização e seus clientes. Este processo inicia sempre através de um emissor, que é quem tem algo a comunicar. No caso da comunicação empresarial, este emissor é a empresa ou organização que deseja transmitir uma mensagem ao mercado. O emissor, através de um processo de codificação, desenvolve uma mensagem. A codificação consiste no uso de símbolos e linguagem compreensível ao receptor, que é o público-alvo da mensagem. Por exemplo, se utilizarmos no Brasil a mão com o polegar levantado, o receptor saberá que se trata do sinal de positivo. O mesmo, entretanto, não acontece em algumas outras culturas. A mensagem codificada precisa ser transmitida através de algum meio ou mídia, que no caso da comunicação empresarial pode ser a TV, rádio, jornal, telefone ou outra. A mídia também deve ser selecionada de acordo com as características do receptor da mensagem. Por exemplo, se a empresa pretende comunicar determinada mensagem para o público O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 72 adolescente, de nada adiantará veicular uma propaganda no jornal Gazeta Mercantil, que em geral não é lido por este público. O receptor receberá a mensagem transmitida através da mídia e passará por um processo de decodificação dessa mensagem, ou seja, pela interpretação do seu significado. Possíveis erros que possam ocorrer no processo de decodificação são chamados de ruídos, ou seja, o que o receptor entendeu não era o que o emissor queria dizer. Um exemplo de ruído seria uma mensagem que o emissor pretendia que fosse sensual, acaba sendo interpretada pelo receptor como vulgar ou indecente. Assim, é preciso ter claro que a comunicação efetiva é aquilo que o receptor entendeu, e não o que o emissor pretendeu dizer. Por fim, ocorre uma resposta do receptor, que caracteriza o seu feedback à mensagem recebida. Na comunicação organizacional, esta resposta pode ocorrer pela compra do produto, pela lembrança ou imagem de marca, entre outras ações e reações dos consumidores. As principais ferramentas de comunicação disponíveis para que as empresas comuniquem-se com os seus clientes ou potenciais clientes são: propaganda, marketing direto, promoção de vendas, relações públicas (e publicidade), venda pessoal e merchandising. A propaganda é uma comunicação não pessoal, paga, veiculada através de várias mídias. É uma técnica de comunicação de massa, com a finalidade de oferecer informações a um público determinado, provocando atitudes e reações positivas ao produto. A propaganda pode utilizar diversos tipos de abordagem: informação, testemunhal, comparação, humor, emocional, sensual etc. Algumas das mídias que podem ser utilizadas para a veiculação de propagandas são a televisão (aberta ou por assinatura), o rádio, jornais, revistas, internet e a chamada mídia extensiva ou exterior4, que inclui outdoors, busdoors (ônibus com a propaganda de determinado produto), e diversos tipos de paineis, placas e outras formas de divulgação nas ruas. Vejam a seguir um exemplo de utilização de busdoor, para veiculação de uma propaganda do canal de televisão por assinatura National Geographics, nos Estados Unidos: 4 Atualmente este tipo de mídia não é permitida na cidade de São Paulo. O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 73 Fig. 3 – Exemplo de busdoor A venda pessoal é realizada de pessoa a pessoa, e envolve influências interpessoais. Uma das suas vantagens como ferramenta de comunicação é a alta capacidade de interatividade e adaptação da mensagem, conforme as características do receptor. A promoção de vendas consiste em incentivos a curto prazo para incentivar a experimentação ou compra do produto ou serviço. Alguns tipos de promoção de vendas são: - concursos, sorteios, loterias, cupons; - brindes, amostra grátis; - eventos, feiras, exposições; - descontos, financiamentos; - selos, adesivos. O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 74 Os profissionais de relações públicas atuam através da publicidade, que é o ato de comunicação não pago, com patrocinador não identificado. Quando a revista Quatro Rodas faz avaliações dos automóveis disponíveis no mercado, por exemplo, ela está realizando publicidade. O texto do Quadro 1, apresentado anteriormente neste capítulo, também constitui-se como publicidade, pois trata-se de uma matéria da revista Exame onde são mencionadas empresas como a Casas Bahia, o Pão de Açúcar e o Wal- Mart. Uma das características da publicidade é a sua alta credibilidade. Outras ações de um profissional de relações públicas são as comunicações corporativas, internas e externas, para promover o entendimento da empresa. Utilizam ainda o lobbying que é o trabalho junto a legisladores e órgãos do governo. Merchandising, por sua vez, pode ser de mídia ou de ponto de venda (PDV). O merchandising de PDV é um conjunto de técnicas mercadológicas com o objetivo de planejar e operacionalizar as atividades que se realizam nos estabelecimentos comerciais. Ou seja, são ações da empresa visando promover o produto no ponto de venda. Já o merchandising de mídia é uma forma indireta de veiculação de uma mensagem comercial. No filme Náufrago, com Tom Hanks, por exemplo, ficam evidentes os merchandisings das marcas Wilson e Fedex. As novelas da Rede Globo, bem como o programa Big Brother, também costumam apresentar ações de merchandising de diversas empresas. O marketing direto é uma ferramenta de comunicação que envolve a utilização de técnicas que atingem diretamente o mercado-alvo, obtendo respostas diretas e mensuráveis. Algumas ferramentas de marketing direto são o telemarketing, malas diretas e e-mail marketing. O uso das ferramentas descritas acima deve ser feito de maneira integrada, visando à criação de uma imagem corporativa e adoção de um posicionamento estratégico, mantendo-se o comprometimento com os objetivos organizacionais. O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 75 Infograma Atividade Escolha uma empresa que você conhece e tem acesso às informações. Descreva sucintamente os quatro elementos do composto de Marketing (também chamado de Mix de Marketing), explicando como cada um deles é adotado pela empresa. Referência comentada ZENONE, Luís Claudio; BUAIRIDE, Ana Maria Ramos. Marketing da Promoção e Merchandising. São Paulo: PioneiraThomson Learning, 2005. Este é um livrinho pequeno, mas que apresenta de forma abrangente o P de Promoção, apresentando aos leitores de forma simplificada as possíveis ferramentas de comunicação. O s 4 P’ s d e M ar ke ti n g 76 Referências COBRA, Marcos. Administração de Marketing no Brasil. São Paulo: Cobra Editora & Marketing, 2005. KOTLER, Philip; KELLER, Kevin. Administração de Marketing. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006. Autoavaliação 1. Revistas, colas do tipo Superbonder e certas guloseimas são encontradas, muitas vezes, próximas aos caixas de supermercados, padarias e demais estabelecimentos. Supondo que estes fabricantes decidiram e esforçaram-se para obter esta localização nos pontos de venda, podemos dizer que eles estão colocando em prática a seguinte ferramenta de promoção: a) promoção de vendas b) propaganda c) publicidade d) praça e) merchandising 2. Qual dos seguintes elementos NÃO faz parte do composto tradicional de marketing, também chamado de mix de Marketing ou Marketing Mix? a) pessoas b) distribuição c) produto d) preço e) promoção Respostas: 1 – e; 2 – a Segmentação e posicionamento de mercado 5 Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 79 O objetivo deste capítulo é apresentar importantes decisões estratégicas de Marketing, que são a segmentação e o posicionamento de mercado. A segmentação é de extrema importância para a definição do público-alvo (target) da empresa, sendo essa a primeira decisão que qualquer empresa deve tomar para iniciar o processo de planejamento de Marketing. O posicionamento, por sua vez, está ligado à forma como a empresa se comunica com o mercado, e o espaço que ela pretende ocupar na mente dos consumidores. 5.1 Segmentação de consumidores Iniciaremos pela segmentação de mercado, que é simplesmente dividir o mercado em fatias, como se fosse uma grande torta. Essas fatias devem ter características homogêneas entre si, e heterogêneas em relação às demais fatias. Isso equivale dizer que um consumidor categorizado em determinado segmento deve diferir substancialmente dos consumidores de outros segmentos de mercado. Assim, podemos definir a segmentação como o processo de dividir o total do mercado em grupos homogêneos e relevantes. Este processo proporciona à organização a oportunidade de: a) identificar um grupo de clientes alvo; b) apontar suas mensagens e estratégias de marketing para este grupo de consumidores específico; c) alcançar uma posição distinta na percepção deste grupo. Para realizar a segmentação de mercado, a empresa deve identificar os fatores que afetam as decisões de compra dos consumidores, ajustando o composto de marketing (ou seja, os 4 P´s) para as necessidades de cada segmento. É possível utilizar quatro bases diferentes de segmentação, que estão descritas a seguir. Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 80 5.1.1 Segmentação geográfica A segmentação geográfica é baseada na região geográfica onde o público-alvo está localizado. Portanto, pode ser descrita em países, regiões, cidades, bairros etc. Isso significa dizer que uma empresa pode destinar suas ações de marketing para determinada cidade especificamente, por exemplo. Os critérios utilizados para a seleção das cidades ou países também constituem a segmentação geográfica. Por exemplo, uma empresa pode decidir investir seus esforços de marketing somente em cidades acima de 200.000 habitantes, ou somente em países com PIB superior a determinado valor. Similarmente, a empresa pode decidir atuar em cidades num raio de 500 quilômetros da empresa, por questões logísticas e de distribuição. Com base na segmentação geográfica, a empresa pode decidir utilizar estratégias diferentes para mercados distintos. As sandálias Havaianas, por exemplo, adotam preços mais elevados e um posicionamento de produto exótico e elitizado nos Estados Unidos e países da Europa, uma estratégia bem diferente da utilizada no mercado brasileiro. Os lançamentos de produtos também podem seguir a segmentação geográfica, como algumas marcas de eletroeletrônicos que lançam seus produtos no hemisfério norte antes de lançá-los nos países da América Latina. A propaganda do serviço Sedex Hoje, oferecido pelos Correios, é um exemplo de segmentação geográfica, pois é oferecido apenas em algumas capitais brasileiras. Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 81 Fig. 1 – Serviço Sedex Hoje, dos Correios A segmentação geográfica é uma das mais simples e comuns que podem ser realizadas. Em geral, recomenda-se que ela esteja aliada a uma outra base de segmentação, que pode ser a demográfica, a psicográfica ou a comportamental. Veremos a seguir como é possível realizar uma segmentação demográfica. 5.1.2 Segmentação demográfica A segmentação demográfica é baseada em algumas características da população, como idade, renda, gênero, escolaridade, estado civil, entre outras. A seguir são comentados alguns critérios de segmentação demográfica: - Gênero: parte do pressuposto que homens e mulheres possuem comportamentos de compra diferentes, para determinados tipos de produtos e serviços. A rede de supermercados Pão de Açúcar realizou pesquisa com seus consumidores em bairros elitizados de São Paulo e descobriu que as mulheres costumam fazer suas compras durante a tarde, compram mais cosméticos, pães e bolos. Os homens, por sua vez, compram no começo da noite e investem mais em carnes, Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 82 temperos e bebidas alcoólicas. Além disso, são mais suscetíveis aos pedidos das crianças. Em termos de gênero, outro segmento que apresentou grande crescimento foi o GLS. - Idade: à medida que as pessoas vão envelhecendo, elas necessitam de ofertas diferentes de produtos e serviços. Seus hábitos, costumes e preferências também se modificam. Logicamente, um adolescente deverá ser abordado de maneira diferente do que uma pessoa da terceira idade. - Ciclo de vida familiar: o CV – ciclo da vida diferencia as pessoas que podem ter a mesma idade, porém estão em fases diferentes da vida. As principais etapas do ciclo da vida são: jovens solteiros, casais jovens sem filhos, casais com filhos pequenos, casais com filhos adolescentes, casais com filhos adultos, casais novamente sem filhos (pois os filhos já deixaram a residência familiar). Porém, paralelamente a essas etapas, existe a tendência de novos processos de formação e dissolução familiar, com o aumento dos índices de divórcio, por exemplo. - A quantidade de pessoas que reside em um mesmo domicílio também pode ser utilizada como critério de segmentação demográfica. Muitos eletrodomésticos, como televisores e refrigeradores, são oferecidos em tamanhos diversos, conforme a quantidade de pessoas na casa. O mesmo acontece com os imóveis residenciais, que podem ser comprados com diferente quantidade de quartos e outras opções que consideram a quantidade de pessoas no domicílio, a existência de crianças ou não, entre outros aspectos demográficos. - Renda ou padrões de gastos: este é um dos critérios mais utilizados para a segmentação demográfica. Considera-se que pessoas pertencentes à mesma classe social tenham comportamentos de compra e consumo semelhantes. Conforme comentamos no capítulo de Comportamento do Consumidor, recentemente no Brasil a ANEP– Associação Nacional das Empresas de Pesquisa considerou adequado dividir a classe C em duas (C1 e C2), devido ao grande contingente de brasileiros que se inserem nessa classe social. Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 83 Existem diversos outros critérios de segmentação demográfica, como raça, tipo físico, escolaridade, estado civil e outros. A revista Exame de 23/04/08 apontou cinco tendências demográficas: - aumento das mulheres no mercado de trabalho; - crescimento do número de pessoas morando sozinhas; - advento da terceira idade como mercado consumidor; - consumidores de meia idade com poder aquisitivo acima da média, e forte tendência para o empreendedorismo; - maior número de casais jovens sem filhos, que adiam a maternidade. Conhecer estas e outras tendências demográficas é fundamental para que a organização consiga antecipar as necessidades e desejos dos segmentos que se propõe a atender. 5.1.3 Segmentação psicográfica A segmentação psicográfica, como o próprio nome sugere, está relacionada a características mais psicológicas das pessoas. Refere- se ao estilo de vida dos consumidores, incluindo sua relação com a família, modo de vida, trabalho, vida social e atividades de consumo. Relaciona-se também com a personalidade dos consumidores, pois sabe- se que consumidores mais tímidos tem comportamentos diferentes de consumidores mais expansivos, por exemplo. Uma empresa de telefonia celular brasileira realizou um esforço, através de pesquisa de mercado e análise dos dados arquivados em seus bancos de dados, para realizar uma segmentação psicográfica dos seus consumidores. Acabou encontrando três grupos distintos de consumidores: os que valorizam a família e, portanto, querem sempre estar conectados, para poder contatar e ser localizado por seus familiares; os que utilizam o celular para trabalho, como profissionais liberais e representantes, e valorizam a melhor relação custo benefício; e os consumidores jovens e interessados em novas tecnologias, como a possibilidade de baixar e ouvir música no celular, acesso à internet, entre outros. Com estas informações, a operadora foi capaz de desenvolver campanhas de propaganda e oferecer Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 84 planos de utilização diferenciados, conforme as características de cada um destes segmentos. 5.1.4 Segmentação comportamental A segmentação comportamental é baseada na relação estabelecida entre o consumidor e o produto específico, considerando como critérios de segmentação o grau de uso do produto, a fidelidade a determinadas marcas, os benefícios buscados na compra do produto, entre outros aspectos. Kotler e Keller (2006) propõem os seguintes critérios de segmentação comportamental: Ocasiões Ocasião comum, ocasião especial. Benefícios Qualidade, serviço, economia, rapidez. Status do usuário Não-usuário, ex-usuário, usuário potencial, usuário iniciante, usuário regular. Índice de utilização Light-user (usa muito pouco), medium-user (quantidade de utilização mediana), e heavy user (utilização intensiva do produto). Status de fidelidade Nenhuma, média, forte ,absoluta. Estágio de prontidão Desconhece, consciente, informado, interessado, desejoso, pretende comprar. Atitude em relação ao produto Entusiasta, positiva, indiferente, negativa, hostil. Quadro 1 – Critérios de segmentação comportamental Fonte: adaptado de Kotler e Keller, 2006, p. 245. Lembramos que é possível e interessante utilizar mais de uma base de segmentação, e até todas as bases, se for possível. As consequências são que o segmento ficará menor e mais focado, e seus integrantes serão ainda mais homogêneos. Entretanto, deve-se tomar cuidado para não tornar o segmento pequeno demais, e consequentemente sem relevância econômica para a empresa. Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 85 No quadro a seguir, apresentamos o case da “AlphaVille Gramado”, sobre a implantação de um condomínio de alto padrão na serra gaúcha. AlphaVille Gramado: Marketing para vencer resistências O PROBLEMA: Consolidada em âmbito nacional enquanto modelo, a AlphaVille encontrou terreno fértil para sua expansão. O planejamento traçado em 2003 previa mais 14 lançamentos, até 2005. Entre todos os projetos, o AlphaVille Gramado trazia obstáculos inéditos à implantação. Além do obstáculo geográfico, a execução de uma obra na serra, havia a questão cultural — o sul-rio-grandense é mais afeito às coisas de sua terra do que qualquer outro no país — e conceitual — até então, os AlphaVille eram destinados à primeira moradia, enquanto Gramado serviria como a segunda ou terceira residência da família. O DIAGNÓSTICO: O posicionamento do projeto como residência para os finais de semana ou férias criou uma dificuldade sem precedentes. Essa poderia, por exemplo, ser apenas a terceira residência já que, invariavelmente, a segunda é escolhida no litoral. Aliado a isso, havia o desconhecimento do conceito e da marca AlphaVille. Em Gramado, AlphaVille faria sua primeira incursão no Rio Grande do Sul. As estratégias de marketing precisariam ser cuidadosamente pensadas e conduzidas, pois não haveria segunda chance de conquistar esse público — notadamente crítico e refratário. O PLANO: A principal estratégia foi transformar AlphaVille Gramado, com seu clima propício a quem busca tranqüilidade e maior contato com a natureza, no cenário para um outro modelo de empreendimento, sem descaracterizar o padrão e o conceito AlphaVille. O projeto se diferenciaria dos demais, explorando o charme da localidade e assumindo sua vocação turística, oferecendo, assim, o conforto de uma residência com a comodidade de um resort. Essa customização deveria ser devidamente repercutida e capitalizada por meio de ferramentas adequadas de marketing, garantindo, inclusive, um relacionamento pós-venda irretocável. O empreendimento é composto de 185 lotes, além de 66 apartamentos em 4 edifícios, heliponto, clube com infra- estrutura completa de lazer e uma série de serviços pay-per-use. Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 86 A EXECUÇÃO: A CIA -Corretoras Integradas AlphaVille começou a trabalhar no projeto, em fevereiro de 2004, quatro meses antes do lançamento. Todos os corretores passaram por um minucioso treinamento e, além dos estandes, em Porto Alegre e em Gramado, e do showroom de Gramado, durante três semanas foi realizado um tour off road, em parceria com a Land Rover, que levava os interessados conhecer a região. Quem desejava conhecer mais detalhes cadastrava-se num hotsite. Para a valorização da marca AlphaVille, foi incluído um Merchandising do lançamento do AlphaVille Gramado na novela Celebridades, entre os dias 31 de maio e 4 de junho. No lançamento, em 17 de junho, os mestres de cerimônia foram os atores Fábio Assunção e Juliana Paes, do elenco da novela, e seguiu-se um show de Ivan Lins. Paralelamente foi realizada uma campanha publicitária em jornais, revistas e outdoors, além de sampling turístico distribuído no portal da cidade. Na assinatura de contrato, cada cliente ganhou um welcome kit e passou a receber um newsletter eletrônico, pelo qual acompanhou o andamento das obras. Por fim, foi implantado um Serviço de Atendimento ao Cliente local para que os atendentes conhecessem melhor o empreendimento, os usos e costumes da região disponíveis para receber visitas dos clientes no escritório. RESULTADOS: A expectativa era que duas semanasapós o lançamento, ou seja, no início de julho, 80 lotes tivessem sido vendidos. As vendas superaram as expectativas e na data de lançamento 50% das unidades, 93 lotes, já estavam vendidas, num total de R$ 20 milhões. O empreendimento concorrente mais próximo do conceito AlphaVille levou nove meses para atingir essa marca. Em relação aos apartamentos, a expectativa era de que 50% do total fosse vendido em 60 dias. Esse número foi superado nos primeiros 30 dias, totalizando R$ 4,4 milhões. A valorização da marca AlphaVille refletiu-se na demanda que surgiu por um AlphaVille na Grande Porto Alegre. Quadro 2 – Case “AlphaVille Gramado” Fonte: CD Rom Marketing Best 2004 Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 87 No case do AlphaVille Gramado, foram utilizados critérios das quatro bases de segmentação para realizar uma estratégia de Marketing acertada. A segmentação geográfica reflete-se na escolha da cidade de Gramado, no RS, que tem suas peculiaridades turísticas. O alto valor das residências oferecidas no condomínio e a ampla gama de serviços oferecidos visa atender ao segmento de pessoas com elevado poder aquisitivo, caracterizando-se como uma segmentação demográfica. São consumidores que valorizam a família e cujo estilo de vida inclui a vivência próxima à natureza, critérios de segmentação psicográfica. Por fim, a característica de o empreendimento ser a segunda residência, ou mesmo a terceira, caracteriza-se como um aspecto de segmentação comportamental. É importante salientar ainda que é possível segmentar também os mercados empresariais, o que é especialmente útil para as organizações que atuam no mercado business to business. Na propaganda a seguir, por exemplo, a Dell está focando especificamente as pequenas e médias empresas, como pode ser percebido no canto superior esquerdo do anúncio. Fig. 2 – Dell Computers Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 88 5.2 Posicionamento de mercado Podemos definir posicionamento como o ato de desenvolver a oferta e a imagem da empresa para ocupar um lugar destacado na mente dos clientes alvo. O primeiro autor a falar sobre a importância da utilização de estratégias de posicionamento foi Al Ries, e ele salienta a importância de utilizar a comunicação de maneira eficiente, através da definição de um posicionamento estratégico bem definido. Desta forma, a marca ou o produto conseguirá entrar na mente dos clientes, posicionando-se. Vejamos o exemplo da indústria automobilística. As duas maiores montadoras de automóveis no Brasil, em termos de volume de vendas, são a Volkswagen e a Fiat. Vejamos como as duas se posicionam no mercado. - Volkswagen: a empresa adota o slogan “Perfeito para a sua vida”. Este slogan remete à capacidade dos automóveis da marca de se adequarem ao dia-a-dia dos clientes, ao seu cotidiano. A marca utiliza referências que a associam com tradição de mercado, combinada ao fato de oferecer automóveis robustos, com acabamento menos arrojado, típicos da cultura alemã, de onde a marca se origina. - Fiat: o slogan utilizado é “Movidos pela paixão”. A proposta é um convite a sonhar, a se apaixonar, a realizar coisas que estão fora do cotidiano dos consumidores. Um convite a viver o novo, o inusitado, a se permitir descobrir novos padrões de vida e de consumo. As referências utilizadas são voltadas para a inovação, o que se reflete nos automóveis da marca, com acabamento mais cuidadoso, típico do design italiano, país de origem da empresa. Percebemos assim que as duas empresas utilizam estratégias de posicionamento opostas, apesar de atuarem nos mesmos segmentos de mercado e disputarem, portanto, os mesmos consumidores. Conforme as características psicográficas destes consumidores, suas formas de se relacionarem com o produto automóvel e mesmo as suas crenças pessoais, cada um escolherá uma destas duas propostas de valor, oferecidas pelas empresas. Em posicionamento estratégico, é importante que a empresa sempre ofereça uma proposta de valor, que seria um argumento Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 89 convincente para o mercado-alvo comprar o produto. Certamente esta proposta de valor deve estar diretamente associada ao produto ou serviço oferecido, pois de nada adianta oferecer uma razão de compra que não é sustentada pela oferta da empresa. Por exemplo, durante muitos anos a proposta de valor do Omo foi: “Omo lava mais branco, o branco que a sua família merece”. Este argumento só pode ser utilizado como posicionamento da marca se o produto realmente tiver um desempenho superior, comparado aos outros produtos disponíveis no mercado. Existem casos onde a empresa precisa promover dois benefícios do produto para conseguir um posicionamento de mercado. Um exemplo seria o produto Dermodex Prevent, concorrente do Hipoglós. A empresa destaca na sua comunicação que o produto “protege contra assaduras e é mais fácil de espalhar”. Como o benefício da proteção contra assaduras não é exatamente um diferencial, pois a marca concorrente também faz isso, a empresa optou por propor uma outra característica, esta sim, com uma proposta de valor diferenciada – ser mais fácil de espalhar. Em geral, é muito difícil mudar um posicionamento, ou seja, uma vez que a marca ocupou sua posição na mente do consumidor, dificilmente será possível mudar esta posição, principalmente para as empresas concorrentes. Neste caso, existem três estratégias possíveis: - reforçar a atual posição; - conquistar uma posição não ocupada; - destituir ou reposicionar a concorrência. Chamamos de Reposicionamento este esforço de mudar o posicionamento de uma marca. No Brasil, um caso extremamente bem- sucedido de reposicionamento de marca foi o das sandálias Havaianas. Esta marca era direcionada para a baixa renda, com uma linha limitada de produtos, e campanhas de propaganda voltadas apenas para seus atributos: não desbota, não solta as tiras etc. Após um processo cuidadoso, que envolveu os quatro P’s de Marketing, a empresa conseguiu se reposicionar na mente dos consumidores. Foram desenvolvidos novos produtos, com cores e formatos diversos, o preço foi reformulado, de forma a atender a nova proposta da marca, a distribuição foi diversificada, abrangendo lojas de calçados mais requintadas, localizadas em pontos estratégicos Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 90 como shopping centers. Por fim, a comunicação também sofreu mudanças, passando para o slogan: “Havaianas, todo mundo usa”, e utilizando sempre personalidades famosas e um tom leve e bem humorado. 5.2.1 Diferenciação Cada vez mais os produtos e serviços sofrem com o processo chamado de “comoditização”, que significa uma aproximação com as chamadas commodities, que são produtos sem diferenciação. Os aparelhos de celular, por exemplo, ficam cada vez mais parecidos entre si, e quando uma empresa lança alguma inovação, como os celulares com câmeras que tiram fotos, rapidamente as empresas concorrentes copiam a oferta. Para evitar esta armadilha, as empresas devem preocupar-se constantemente com a diferenciação, que é o ato de desenvolver um conjunto de diferenças significativas para distinguir a oferta da empresa da oferta dos concorrentes. A diferenciação pode estar baseada em diferentes aspectos da oferta da empresa. Pode ser baseada em aspectos do produto, como desempenho, design, estilo e outras características (como no exemplo doscelulares que comentamos acima). Também pode estar focada em serviços, como instalação, entrega, manutenção e treinamento. A diferenciação por pessoal se concentra nos colaboradores da empresa, que podem ser mais competentes, ou oferecer maior cortesia e credibilidade. O canal de distribuição também pode diferenciar a oferta, com uma melhor cobertura ou desempenho. Porém, a principal estratégia de diferenciação, que garante um diferencial sustentável para a empresa no longo prazo é a diferenciação baseada na imagem da marca. 5.2.2 Estratégias de posicionamento Algumas das estratégias de posicionamento que podem ser adotadas pelas organizações para suas marcas e produtos estão destacadas no quadro abaixo, acompanhadas de exemplos. Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 91 Estratégia Exemplo Por atributo A maior, a pioneira. Por benefício Lava mais branco Por utilização Melhor tênis para futsal Por usuário Melhor hotel para executivos Por concorrente A concorrência nunca viu nada igual Por categoria de produto Melhor carro off-road; melhor refrigerante light. Por qualidade ou preço Muito mais por muito menos Quadro 3 – Estratégias de posicionamento 5.2.3 Erros de posicionamento Quando a organização adota determinado posicionamento estratégico, porém a imagem que os consumidores têm a seu respeito é diferente do posicionamento pretendido, dizemos que ocorreu um erro de posicionamento. Existem pelo menos quatro tipos de erros de posicionamento: - Subposicionamento – os consumidores têm vaga ideia da marca, não conseguem identificar qual a proposta de valor ou qual a razão que deveria fazê-los escolher determinada marca em detrimento de outras. - Superposicionamento – os consumidores têm imagem estreita da marca, associando-a a apenas um tipo de produto ou oferta específica, como no caso da marca Bic: a empresa está superposicionada como fabricante de canetas e isqueiros; por isso, ao tentar lançar uma linha de meias-calças femininas, a empresa foi mal-sucedida. - Posicionamento confuso – este erro de posicionamento resulta das mudanças constantes de posicionamento, deixando o consumidor confuso em relação ao que a marca pretende oferecer como diferencial. - Posicionamento duvidoso: ocorre quando é difícil acreditar no que a marca alega. Um exemplo são suplementos que propõe Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 92 emagrecimento rápido ou organizações que realizam promoções de preço constantemente. Infograma Atividade Explique as seguintes bases de segmentação, apontando as diferenças entre elas e citando exemplos de empresas que as utilizam: segmentação demográfica, psicográfica e comportamental. Referência comentada HOOLEY, Graham J. Estratégia de marketing e posicionamento competitivo. 3. ed. São Paulo : Pearson, 2006. Este livro apresenta uma abordagem bastante completa e integrada do posicionamento como ferramenta estratégica de Marketing. Referências KOTLER, Philip; KELLER, Kevin. Administração de Marketing. 12. ed. São Paulo: Pearson, 2006. FERREL, O. C.; HARTLINE, Michael D. Estratégia de Marketing. São Paulo: Thomson, 2005. KELLER, Kevin Lane; MACHADO, Marcos. Gestão Estratégica de Marcas. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006. Se g m en ta çã o e p o si ci o n am en to d e m er ca d o 93 Autoavaliação Analise as afirmações abaixo, indicando se elas são verdadeiras ou falsas: a) Segmentação de mercado é o processo de dividir o mercado em grupos de compradores potenciais que possuem necessidades e desejos, percepções de valor ou comportamentos de compra similares. b) Lisa segmentou seu mercado. Ela irá atender mulheres entre as idades de 18 e 35 anos com pelos menos um filho e com instrução universitária. Lisa está utilizando a segmentação demográfica. c) Os profissionais de marketing raramente utilizam mais de uma base de segmentação, justamente para facilitar o trabalho. Respostas: a) V; b) V; c) F Marketing de Relacionamento e fidelização de clientes 6 M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 97 O objetivo deste capítulo é apresentar o novo paradigma de marketing conhecido como marketing de relacionamento, que parte do pressuposto de que uma estratégia de Marketing deve ser construída a partir de diversas interações entre empresa e cliente, e não apenas de transações isoladas onde o cliente se mantém anônimo. As ações de Marketing de Relacionamento visam a obtenção da fidelidade do consumidor, tema que também será abordado neste capítulo,assim como os programas de fidelização. 6.1 Conceito O Marketing de Relacionamento diz respeito à atração, desenvolvimento e retenção dos relacionamentos com os clientes. Levitt compara o relacionamento entre empresa e cliente com um casamento. Segundo ele, a venda em si apenas confirma o namoro. O autor alerta, entretanto, para os cuidados com a manutenção dos relacionamentos, dizendo que “a tendência natural dos relacionamentos, seja em casamento, seja em empresa, é a entropia – erosão ou deterioração da sensibilidade e da atenção” (LEVITT, 1995, p. 121). É preciso tomar cuidado para não substituir interações autênticas por formalidades burocráticas. Existem outras denominações para o Marketing de Relacionamento, como Marketing 1to1, ou one-to-one marketing, gerência de relações com clientes (Customer Relationship Management - CRM), gerência de relacionamento corporativo (Enterprise Relationship Management - ERM), marketing em tempo real e gerência de relacionamento contínuo. No entanto, a ideia central é desenvolver e gerenciar relações individuais com clientes individuais. O CRM, sigla de Customer Relationship Management, que em português significa gestão do relacionamento com os clientes, é considerado um dos três processos de negócios que geram valor para o cliente. Os outros dois seriam a gerência de desenvolvimento de produtos e a gerência da cadeia de suprimentos. O CRM é responsável por todo processo de identificação do consumidor, criação de conhecimento sobre o consumidor, construção M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 98 de relacionamento com ele e adequação da percepção do consumidor sobre a empresa e seus produtos. Os subprocessos da atividade de CRM: - identificação de novos consumidores potenciais; - determinação das necessidades dos consumidores atuais e potenciais; - aprendizagem sobre uso e aplicação do produto; - desenvolvimento e execução de programas de propaganda; - desenvolvimento e execução de programas de promoção; - desenvolvimento e execução de programas de serviços; - desenvolvimento e execução de programas de vendas; - desenvolvimento e alavancagem de tecnologia de informação e sistemas para o contato com o consumidor; - realçar a confiança e fidelidade do consumidor. Logo, utiliza-se a sigla CRM para descrever o processo de implantação e administração do Marketing de Relacionamento, que por sua vez consiste em uma ideia ou filosofia que a empresa adota no que tange ao tratamento dado aos seus clientes. O Marketing de Relacionamento defende a ideia de que a empresa deve desejar e estar preparada para mudar seu comportamento conforme as características individuais de seus consumidores, com base no que o consumidor relatou para a empresa e em tudo mais queesta pesquisou sobre ele. Através do conhecimento destes dados individuais, a empresa pode passar a tratar diferenciadamente seus consumidores, e estabelecer um relacionamento de aprendizagem com eles. Além disso, a empresa pode quantificar o valor de cada consumidor, sendo esta uma característica diferenciadora de seus clientes. O valor do consumidor é calculado tendo como base a quantidade do produto/ serviço comprado (na empresa e/ou na concorrência), a frequência de compra e o número de anos que este consumidor ainda tem pela frente como potencial consumidor do produto/serviço comercializado pela empresa. O conceito de participação no cliente (ao invés de no mercado) está relacionado com o Marketing de Relacionamento. As empresas M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 99 vislumbram a possibilidade de vender mais produtos aos mesmos clientes fiéis, ao invés de vender o mesmo produto para uma gama maior de clientes, que não necessariamente estarão interessados em repetir esta experiência de compra. Isto é, a preocupação será vender a um único cliente o maior número de produtos possível, de diferentes linhas, durante um longo período de tempo. O que está em jogo não é somente a qualidade do produto, mas principalmente a qualidade do relacionamento. Pode-se dizer que os conceitos de valor vitalício e de participação no cliente (ao invés de no mercado), juntamente com a formação de bancos de dados com informações individuais dos clientes, formam as bases do Marketing de Relacionamento. Através deste conceito e do uso da tecnologia, é possível estimular os consumidores a preferir o produto ou serviço da empresa aos da concorrência de três formas: 1- Estabelecer um programa de recompensas contínuo (como os das companhias aéreas); 2- Dar tratamento preferencial aos melhores compradores; 3- Fornecer ofertas ou benefícios especialmente elaborados para segmentos especiais. A tecnologia de bases de dados permite que uma empresa acompanhe seus clientes de forma individual. Assim, em vez de trabalhar com amostras do mercado de clientes potenciais para determinar as necessidades do “cliente médio”, a preocupação é com um cliente de cada vez, utilizando três tipos de tecnologia: base de dados, interatividade e personalização em massa. A cada interação e nova personalização - a cada vez que a empresa e o cliente investem em sua relação - a companhia é capaz de adequar seus produtos e serviços um pouco melhor às necessidades daquele cliente. Podemos chamar este tipo de relacionamento de “Relação de Aprendizado”. O aprendizado gerado a partir das várias interações com o consumidor é o que garante a vantagem competitiva da empresa em relação aos seus concorrentes. Mesmo que um concorrente ofereça o mesmo nível de customização e interação, ele não poderá oferecer ao consumidor a mesma conveniência sem antes passar por um processo de aprendizado que demanda certo tempo. Assim, estão ganhando espaço as M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 100 relações do tipo ganha-ganha, onde as duas partes envolvidas na transação saem ganhando e o relacionamento se solidifica. O marketing de relacionamento envolve o acompanhamento das transações e interações de clientes individuais ao longo do tempo, em todas as linhas de produtos e serviços, o que exige uma grande integração de dados e processos. Isso desafia a infra-estrutura existente nos canais de distribuição tanto que a gerência de uma iniciativa de marketing de relacionamento séria pode significar repensar a estrutura organizacional, os sistemas de informação, os orçamentos e a forma de remunerar os vendedores. Quer a empresa venda a consumidores ou a outras empresas, um relacionamento permanente com clientes orientado por um banco de dados pode maximizar as vendas e lucros globais em alguma das sete importantes maneiras relacionadas a seguir: 1. Repetir Venda: Maximiza vendas repetidas. 2. Venda Adicional: Maximiza a receita por venda e por cliente. 3. Manter Venda: Maximiza fidelidade do consumidor. 4. Venda Cruzada: Maximiza promoção cruzada. 5. Acrescentar Venda: Maximiza ampliação de linha. 6. Nova Venda: Maximiza sucesso de novo empreendimento. 7. Venda a Amigo: Maximiza defesa e indicações. Portanto, podemos afirmar que o uso do Marketing de Relacionamento como uma ferramenta de marketing visa intensificar o relacionamento com o cliente, buscando a fidelidade dele. 6.2 Níveis do Marketing de Relacionamento Existem três níveis de Marketing de Relacionamento que uma empresa pode praticar, dependendo do tipo e do número de elos que ela utilize para promover a lealdade de seus clientes. Nível 1: Geralmente chamado de marketing de frequência ou de retenção. São usados incentivos de preço para estimular os clientes a M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 101 trazer mais negócios para a empresa. Como o preço é o elemento mais facilmente imitado do mix de marketing e, em si, não oferece uma vantagem competitiva sustentável, podemos dizer que os resultados a longo prazo do programa, em termos de fidelização, tendem a ser decepcionantes. Ex.: os programas de milhagem. Nível 2: A empresa procura formar elos sociais acima dos elos financeiros que possam existir. Enfatiza a prestação de serviço personalizado e a transformação de consumidores em clientes. Nível 3: Os relacionamentos são consolidados com elos estruturais, além dos sociais e financeiros. Os elos estruturais geralmente são serviços com base na tecnologia, que nem sempre estão prontamente disponíveis através de outras fontes. Além dos níveis, existem também os modelos de Marketing de Relacionamento, apontando quatro caminhos mais freqüentemente seguidos para estabelecer um vínculo com o cliente em um relacionamento que vai além da simples venda de um produto ou serviço. Os modelos são baseados na utilização de um banco de dados de clientes e na interação direta com estes clientes. 1. Modelo de Recompensas: consiste em um programa de continuidade que recompensa comportamento desejado. O que o torna um instrumento de marketing poderoso hoje em dia é o recurso de acompanhar a controlar o comportamento de um cliente identificado, cada vez que uma venda é realizada e utilizar a informação registrada no banco de dados para personalizar o acompanhamento promocional. Os programas de recompensas variam amplamente, desde os programas de passageiros frequentes das companhias aéreas estabelecidas há muito tempo, que cedem viagens gratuitamente, até o sucesso de varejistas em conceder pontos conversíveis em dinheiro ou recompensa em mercadorias, vinculados à frequência de compra. 2. O modelo contratual: A característica isolada mais importante deste modelo de relacionamento contínuo é que o total ou parte do custo do programa é inteiramente ou parcialmente coberto por uma assinatura realizada ou uma matrícula paga. O cliente financia o programa. 3. O modelo de valor agregado: Os benefícios oferecidos por empresas que adotam o modelo de valor agregado podem atuar isoladamente M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 102 ou podem ser combinados com os benefícios “consistentes” (descontos e concessão de prêmios) do Modelo de Recompensas. 4. modelo informacional: No modelo informacional, a empresafornece aos prospects (clientes potenciais) ou clientes incluídos no banco de dados informações úteis, periodicamente. 6.3 A importância da tecnologia no Marketing de Relacionamento O uso da tecnologia aplicada ao Marketing de Relacionamento gera eficácia e facilidade, tanto para a empresa quanto para o consumidor. Ela possibilita que as interações sejam construtivas, reduzindo o stress por parte do consumidor, uma vez que a empresa o reconhece, sabe quem ele é, e quais são suas necessidades. A rapidez e agilidade no processamento das informações são imprescindíveis para otimizar a reação da empresa à necessidade que está sendo exposta pelo cliente. Além disso, a tecnologia permite que a empresa armazene maiores informações sobre um consumidor específico a cada contato deste, seja este contato uma compra, uma reclamação ou uma simples sugestão. A integração das diversas alternativas de comunicação disponíveis facilita este aumento de informações individualizadas, pois a interação poderá estar ocorrendo tanto por telefone quanto por e-mail ou qualquer outra forma de comunicação. Desde o início dos tempos, proprietários de estabelecimentos comerciais como armazéns, por exemplo, praticavam, a seu modo, Marketing de Relacionamento com seus clientes. Estes comerciantes buscavam conhecer as necessidades e desejos de seus clientes, e faziam ofertas personalizadas. Atualmente, entretanto, é impossível conhecer todos os clientes de uma grande organização sem o uso da tecnologia da informação. O banco de dados é o que garante uma memória precisa das necessidades individualmente diferenciadas dos clientes. Os cuidados com a atualização dos dados são fundamentais e garantem a função utilidade da tecnologia. M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 103 Outro fato importante é que a velocidade da tecnologia da informação não faz apenas com que a informação seja imediatamente acessível a qualquer momento, mas também torna as pessoas mais acessíveis à informação. Todos estão na maioria do tempo conectados, levando os próprios telefones ou palm tops, conectando-se seguidamente à internet, viabilizando que sejam facilmente encontrados. Nas companhias aéreas, por exemplo, a identificação dos consumidores se dá na própria compra da passagem, visto que esta é nominal. Os bancos de dados permitem que seja feito um controle de frequência de viagens, o que facilita a categorização dos clientes. Esta categorização implica em tratamentos diferenciados para os diferentes níveis de valor dos clientes. Os programas de fidelização são a forma como estas empresas operacionalizam seu relacionamento com os consumidores. Segundo o valor do cliente, determinado pela sua frequência de viagens, a empresa oferece diferentes níveis de serviço. Os clientes de maior valor (aqueles que viajam mais) são agraciados com tratamento diferenciado e premiados com trechos gratuitos. 6.4 Fidelidade de clientes Sabemos que a criação de um relacionamento duradouro com o cliente pode levar à fidelidade do consumidor. A fidelidade pode ser definida como um profundo e consistente comprometimento em termos de re-compra futura de um produto ou serviço preferido, gerando portanto compras repetidas de uma mesma marca, apesar das influências situacionais e dos esforços de marketing para provocar um comportamento de mudança ou busca de outra marca. Cabe lembrar que existem situações em que o consumidor não tem a oportunidade ou necessidade de recomprar, mas ainda assim se mantém fiel ao produto ou empresa. A fidelidade total resultaria num comportamento de compra da marca preferida independente dos custos, e não aceitando nenhuma outra marca em lugar da preferida. Porém não são todas as empresas que podem atingir este estágio avançado de fidelidade. Isto requer no mínimo superioridade do produto ou serviço, além de consumidores que podem se tornar M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 104 defensores determinados da marca e um ambiente social favorável. Se estes requisitos não forem atingidos ou forem inatingíveis, a fidelidade se torna mais precária. A satisfação é comumente associada a fidelidade. Podemos definir satisfação como uma sensação prazerosa de preenchimento das necessidades, desejos e objetivos. Esta sensação é avaliada perante um padrão estabelecido de prazer versus desprazer. Para que a satisfação afete a lealdade, é necessária satisfação freqüente ou acumulativa, de forma que episódios isolados se somem. Entretanto, assim como a satisfação é fundamental para a construção da fidelidade, especialmente no estágio de fidelidade afetiva descrito a seguir, a insatisfação é o tendão de Aquiles da fidelidade – dificilmente um cliente insatisfeito se torna fiel! Existem casos onde a satisfação aparece sem a lealdade, como uma refeição satisfatória que nunca mais é experimentada; ou a lealdade existe sem a satisfação, como o amor incondicional ao país de origem. Mas a satisfação é como se fosse uma semente de lealdade, que precisa de cuidados especiais para crescer e frutificar. Estes cuidados seriam uma analogia para a propensão a fidelidade, suporte social e esforços mercadológicos da empresa. Sem estes fatores, a satisfação existe mas não se transforma em lealdade, como uma semente que não germinou. O risco percebido também pode ser considerado como uma das razões da fidelidade de consumidores: as pessoas com alta percepção de risco são também as que apresentam maior fidelidade, pois esta é uma das maneiras de reduzir, controlar ou evitar o risco percebido. O tipo de risco percebido também faz diferença: quanto mais sério o risco, maior a fidelidade. Ex.: fidelidade a remédios é maior do que a comida. As organizações devem desenvolver uma relação personalizada com os clientes de maior valor e maior potencial para a empresa, de forma que seja cada vez mais conveniente que o cliente siga fazendo negócio com elas e que seja cada vez mais inconveniente mudar para um concorrente. Em outras palavras, devem garantir que a fidelidade traga conveniência para ele, o cliente. Como já dissemos, a satisfação não traz fidelidade, necessariamente. Clientes satisfeitos mudam desde que não haja custo nessa mudança. Portanto, outro aspecto que garante fidelidade é a inconveniência de mudar. Por isso, clientes insatisfeitos M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 105 não necessariamente mudam de fornecedor, pois pensam no custo da mudança e na inconveniência que isso traz. A lealdade só pode ser considerada verdadeira se aparecer nas três fases do processo de decisão. Ou seja, (1) os atributos da marca devem ser preferidos aos oferecidos pela concorrência, (2) as informações devem coincidir com uma preferência afetiva (atitude) em relação à marca, (3) o consumidor deve ter uma forte intenção de comprar a marca, comparada com as outras alternativas. 6.5 Fases da fidelização Existem quatro fases de fidelidade do consumidor. Primeiro os consumidores se tornam fiéis de uma forma cognitiva, depois afetiva, depois em termos de intenção de compra (conativa) e finalmente se tornam fiéis em termos comportamentais, o que pode ser descrito como “ação inercial”. Fidelidade Cognitiva: É a primeira fase da fidelidade, e está baseada apenas nas crenças em relação à marca. As informações sobre os atributos da marca disponíveis ao consumidor indicam se amarca é a preferida, comparada com as outras alternativas. O que é levado em conta são os índices de performance da marca, os custos e benefícios, e não a marca em si. Este é o tipo mais fraco de fidelidade e, portanto, mais fácil de ser quebrado. Fidelidade Afetiva: na segunda fase do desenvolvimento da fidelidade, uma atitude favorável em relação à marca é desenvolvida, com base no acúmulo de ocasiões satisfatórias de uso. Esta fase reflete a dimensão de prazer presente na definição de satisfação (sensação prazerosa de preenchimento, como descrito anteriormente). A fidelidade está diretamente associada ao grau de afeto (gostar) para com a marca. Fidelidade Conativa: este é o estágio de intenção de comportamento, influenciado por repetidos episódios de afeto em relação à marca. Conotação implica em um compromisso de re-compra, direcionado a uma marca específica. A fidelidade conativa, portanto, é o estágio da fidelidade onde aparece o profundo e consistente comprometimento de M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 106 comprar, presente na definição de fidelidade. Entretanto, o consumidor tem a intenção de re-compra, mas este desejo pode se tornar uma ação não realizada. Fidelidade Comportamental: Neste estágio, a intenção do estágio anterior se transforma em prontidão a agir, muitas vezes unida ao desejo de superar obstáculos que poderiam impedir a ação. Este estágio é também chamado de inercial, por estar relacionado ao hábito. Este é o tipo mais sólido de fidelidade e, portanto, o mais difícil de ser quebrado. O aumento da competição global e regional, competição de preço e fragmentação de mercado seriam razões racionais para o consumidor prestigiar o produto ou serviço com o preço preferido (menor) e características melhores ou mais customizadas. A ausência destas razões racionais na escolha denota que o consumidor preferiu ser fiel. Isso equivale a dizer que, ao decidir ser fiel a determinada marca, o consumidor em geral está agindo movido por motivações emocionais de compra. Um obstáculo que pode surgir à lealdade são as idiossincrasias do consumidor, como, por exemplo, o comportamento de busca pela variedade. Este tipo de comportamento não permite que a fidelidade se desenvolva até que não haja mais variedade para experimentar, principalmente nos estágios cognitivo e conotativo. Até que o consumidor atinja o estágio inercial, o desejo por novas experiências poderá ser muito forte para ser ignorado. Outros obstáculos à fidelização são a fidelidade a mais de uma marca, desistência do consumo do produto (ex.: parar de fumar) e mudanças de necessidade. As mudanças de necessidade podem ocorrer de duas formas. Na primeira, o consumidor amadurece, e novas necessidades suplementam as antigas, como a criança que se transforma em adolescente. A segunda forma de mudança de necessidade é a racionalidade, ou quando uma inovação competitiva preenche mais eficientemente as necessidades do consumidor. M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 107 6.6 Benefícios da fidelização de clientes para a empresa À medida que a satisfação e a lealdade do cliente estão crescendo, faz sentido pensar nele como um ativo da empresa. Um ativo cujo valor aumenta com o passar do tempo. Por isso, é importante para as organizações a criação de clientes verdadeiros, fidelizados que dificilmente deixarão a empresa pela concorrência. Empresas que possuem clientes fidelizados não precisam gastar grandes somas na retenção dos clientes, pois estes são motivados por recompra inercial. A não ser por deterioração da performance (o que é um potencial indutor do comportamento de mudança em qualquer um dos estágios de fidelização), só a não disponibilidade poderia levar o consumidor a experimentar outra marca. Além disso, as empresas que possuem um grande número de clientes verdadeiros tendem a ter custos mais baixos do que as que possuem uma maior rotatividade de clientes. A rotatividade resulta em custos devido a necessidade de - persuadir os clientes potenciais que não conhecem bem o serviço de uma empresa e seus benefícios a tornarem-se clientes; - providenciar serviços iniciais a novos clientes. 6.7 Programas de fidelização A finalidade dos programas é se concentrar nos clientes individuais, fazer com que eles se identifiquem e recompensá-los pela sua fidelidade e frequência de uso do serviço. A intenção dos programas de fidelização é criar um senso de participação no consumidor, e recompensá-lo com produtos ou serviços extras (ex.: voos) ou bens e serviços suplementares. Estes programas são comuns atualmente e oferecidos por companhias de cartão de crédito, varejistas e até fabricantes de automóveis (ex.: General Motors). M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 108 É necessário fazer uma diferenciação entre programas de fidelização e promoções. Apesar de os programas de fidelização utilizarem ferramentas promocionais, percebem-se as seguintes diferenças entre estas duas ferramentas: Tabela 1 - Diferenças entre programas de fidelização e promoções Programas de fidelização Promoções Objetivam criar um relacionamento permanente entre cliente e empresa. Objetivam apenas compras e recompras, em oportunidades momentâneas. Recompensam os consumidores mais frequentes, de maior gasto, mais fiéis. Recompensam os que participam da promoção, mesmo que seja a primeira compra. Ação contínua. Ação com prazo determinado. Os diversos pré-requisitos necessários para a criação de um programa de fidelização podem ser classificados em pré-requisitos estratégicos, táticos e operacionais. A saber: – Pré-requisitos estratégicos: importância e forma como o programa de fidelização se insere no planejamento estratégico da empresa; – Pré-requisitos táticos: concentram as questões e decisões táticas que envolvem o programa de fidelização; – Pré-requisitos operacionais: cuidados relativos à administração diária do programa. Infograma M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 109 Atividade Explique, mencionando exemplos: Como foi possível viabilizar o Marketing de Relacionamento em massa, ou seja, para um grande número de consumidores? Referência comentada SILVA, Fábio Gomes da; ZAMBON, Marcelo Socorro (orgs.). Gestão do Relacionamento com o cliente. São Paulo: Thomson Learning, 2006. Este livro é uma coletânea onde diversos autores participam dando sua contribuição para o tema, apresentando desta forma uma visão ampla e completa sobre a gestão do Marketing de Relacionamento. Referências LEVITT, Theodore. A imaginação de Marketing. São Paulo: Atlas, 1995. ALBRECHT, Karl. A única coisa que importa – trazendo o poder do cliente para dentro da sua empresa. São Paulo: Pioneira, 1999. GALE, Bradley T. Gerenciando o valor dos clientes. São Paulo: Pioneira, 1996. Autoavaliação 1. Assinale a alternativa correta em relação ao nível 2 de Marketing de Relacionamento: a) utiliza benefícios de preço M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e f id el iz aç ão d e cl ie n te s 110 b) baseado em tecnologia c) programas de marketing de frequência d) prestação de serviços personalizados e) todas as alternativas anteriores 2. O banco de dados de clientes (DatabaseMarketing) possibilita que as empresas utilizem uma estratégia de Marketing Customizado, como uma alternativa ao tradicional marketing de massa. Uma característica que NÃO representa o Marketing Customizado é: a) Mensagem personalizada b) Oferta customizada ao mercado c) Produto- padrão d) Mensagens de ida e volta e) Alternativas “c” e “d” Respostas: 1 – d; 2 – c. Conceitos e características dos serviços 7 Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 113 Este capítulo objetiva dar uma visão geral sobre a importância do setor de serviços na economia atual. Além disso, apresenta as principais características dos serviços, como oferta intangível, em comparação aos produtos (ofertas tangíveis). São apresentados também os serviços suplementares. 7.1 O setor de serviços COBRA (2001) afirma que a participação do setor de serviços na economia tende a crescer, e, em conseqüência, o investimento em tecnologia de serviços e de marketing deve aumentar como fator de diferenciação de estratégias. LEVITT (1995) alerta para a existência de “um grande setor oculto de serviços.” (LEVITT, 1995, p. 66). Segundo ele, há uma proporção significativa de indústrias consideradas manufatureiras, cujas receitas constituem-se principalmente de serviços como instalação, manutenção, treinamento, pós-venda, etc. LOVELOCK e WRIGHT (2006) também citam este fenômeno, chamando a atenção para os chamados serviços internos: recrutamento, publicações, serviços legais, transporte, entre outros. Segundo HOFFMAN e BATESON (2003), a maioria dos serviços sempre esteve presente em algum nível, mas a complexidade e diversidade de serviços vêm crescendo significativamente. No Brasil, quase 60% do Produto Interno Bruto é constituído por serviços, conforme apontam Lovelock e Wright (2006). Este é um número significante, mas ainda pequeno comparado aos Estados Unidos, onde o mercado de serviços representa 71% do PIB. Portanto, o mercado de serviços têm sido precursor e as tendências apontam para um crescimento ainda maior deste mercado. O estudo de empresas de serviço tornou-se importante frente a este crescimento. Os mesmos autores apontam como principal característica do setor de serviços a diversidade. As organizações de serviços vão desde imensas corporações internacionais, como bancos, companhias aéreas, redes de hotéis etc., até uma gama de pequenas empresas operando localmente, como restaurantes, lavanderias e inúmeros serviços business-to-business. Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 114 A grande importância dos serviços reside no fato de que os consumidores não distinguem claramente o produto/serviço da empresa propriamente dita. Portanto, os serviços são lembrados e comentados, sejam eles bons ou ruins, e as imagens positivas de confiança, familiaridade e bons serviços ainda determinam a preferência do consumidor. Estas e outras características fazem com que o marketing assuma papel de destaque nas empresas prestadoras de serviços. 7.2 Definição de serviços LOVELOCK e WRIGHT (2006) definem um serviço como um ato ou performance que cria valor e benefícios a consumidores, em tempo e espaço específicos, através de uma mudança desejada no recebedor do serviço, ou a seu favor. Entretanto, HOFFMAN e BATESON (2003) alertam que é extremamente difícil definir um produto ou serviço puro. Um produto puro implicaria que o consumidor obtém benefícios somente do produto, sem nenhum valor adicionado proveniente de serviços; e um serviço puro implica na ausência de elementos produto no serviço recebido pelo consumidor. Na realidade, a maioria dos serviços contém elementos de produto. Para TÉBOUL (1999), a distinção entre indústria e serviços é pouco pertinente. Evidentemente estes dois setores evoluem em simbiose: os serviços não podem prosperar na ausência de um setor industrial poderoso, e a indústria depende dos serviços. Os produtos podem ser considerados como a materialização dos serviços fornecidos: os carros permitem um transporte cômodo, as televisões oferecem diversão. Ainda segundo TÉBOUL (1999), à medida que os bens produzidos se parecem cada vez mais com os dos concorrentes, o único meio de obter uma vantagem consiste em desenvolver a dimensão serviço na oferta ou em associar novos serviços à oferta. Cada vez mais, é perigoso deixar nas mãos de um intermediário o cuidado de gerar a integralidade de seu relacionamento com o consumidor final de seu produto ou serviço. Desta forma, como os produtores se aproximam dos serviços, os produtores de serviços tentam “industrializar” suas atividades. Existem, Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 115 evidentemente, limites à extrapolação desta tendência, tendo em vista a falta de flexibilidade e de personalização que uma tal industrialização acarreta. Considerando-se serviços como uma série de atividades que ocorrem nas interações entre cliente e empresa, podemos introduzir o conceito de proscênio. A interação com o cliente acontece no proscênio do prestador de serviço, o que se pode igualmente chamar de interface ou front office. Em função do tipo de serviço, o nível de contato pode ser bastante elevado ou denso, como no caso de um restaurante gastronômico. Em outros casos, pode ser breve e esporádico, ou até não existir, como para as prestações de serviço padronizadas próprias para certas transações bancárias ou operações de manutenção e de conserto. Um conceito importante em Marketing de Serviços são as chamadas horas da verdade. As horas da verdade são qualquer episódio no qual o cliente entra em contato com qualquer aspecto da organização e obtém uma impressão da qualidade do seu serviço. Ou seja, são pontos individualizados de contato que permeiam a relação entre o fornecedor e o comprador do serviço. As horas da verdade ocorrem nos momentos de interação, mas não somente neles, como também em outras ocasiões em que o cliente pode criar alguma impressão sobre a empresa. Nota-se que nem todas as horas da verdade envolvem interação direta dos funcionários com os clientes. Para ser uma hora da verdade, basta que cause uma impressão a respeito da qualidade dos serviços. Portanto, quando um cliente vê uma peça de publicidade da empresa, por exemplo, esta é uma hora da verdade, pois gera uma impressão. A somatória de todas as horas da verdade possíveis experimentadas por clientes da empresa, humanas ou não, transforma-se na imagem em termos de serviço que o cliente possuirá daquela empresa. Há também o conceito de bastidores, que é onde ocorre o processamento das matérias primas em produtos acabados, ou das informações em informações processadas, segundo definição de TÉBOUL (1999). TÉBOUL (1999) afirma ainda que produto ou serviço puros são casos extremos, teóricos. O que se encontra normalmente são combinações de produtos e serviços, com maior ou menor concentração na produção de um produto ou na prestação de um serviço. Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 116 7.3 Serviços suplementares Segundo HOFFMAN e BATESON (2003), o serviço núcleo ou principal é tipicamente acompanhado de uma variedade de elementos suplementares. Exemplos de serviço núcleo ou principal são: uma cama em um hotel, o concerto de um computador, ou uma conta no banco. Os elementos suplementares, além de adicionarem valor ao serviço principal, também atuam como diferenciadores. Existe uma infinidadede serviços suplementares, mas eles podem ser agrupados em oito categorias, formando a “flor de serviços”. Na prática, a natureza do serviço principal, as exigências dos consumidores e as práticas competitivas determinam os serviços suplementares que devem ser oferecidos. Fig. 1 - Flor de serviços Fonte: Hoffman e Bateson, 2003. • Informação: para obter o valor total que um serviço oferece, o consumidor necessita de informação relevante sobre ele, como: cronogramas, instruções de operação, alertas ao usuário, preço, condições de pagamento, etc. Consumidores novos e prospects Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 117 são especialmente carentes de informação e podem necessitar de treinamento para o uso do serviço; • Consultas e Conselhos: envolve um diálogo para absorver as necessidades específicas do consumidor e desenvolver uma solução personalizada; • Pedido: quando o consumidor estiver pronto para comprar, é necessário facilitar a realização de um pedido ou reserva, através de telecomunicações ou outros canais, na hora e local mais conveniente para o consumidor; • Hospitalidade: tomar cuidado com o atendimento ao consumidor, tratando-o como um hóspede quando ele visitar a empresa; • Segurança: abrange desde o estacionamento até a embalagem e entrega de novas compras; • Exceções: eventos que fogem à rotina da entrega de serviços normal. Inclui solicitações especiais, resolução de problemas, atendimento de reclamações e sugestões, reembolsos, etc. • Conta: os consumidores necessitam de contas claras e detalhadas, que expliquem como os valores são computados. • Pagamentos: facilidade e conveniência para o pagamento, incluindo crédito. 7.4 Características dos serviços As principais características dos serviços são: 7.4.1 Intangibilidade Segundo COBRA (2001), todos os serviços oferecidos ao mercado combinam aspectos tangíveis e intangíveis. Os tangíveis são aqueles identificados e valorizados pelos consumidores, enquanto os intangíveis são os que as pessoas não vêem, mas que procuram agregar valor aos serviços. O mesmo autor compara estas duas dimensões dos serviços com um iceberg: a parte visível do iceberg representa os aspectos tangíveis, e a parte submersa os intangíveis. O que está acima do nível do mar é o Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 118 consciente das pessoas, e o que está abaixo é o inconsciente e subconsciente. Mesmo combinando os dois aspectos, um serviço é mais intangível do que tangível. O mesmo autor oferece um exemplo relacionado ao mercado de aviação. Os aspectos tangíveis poderiam estar representados pelo atendimento atencioso e cordial a bordo ou em terra. Já os aspectos intangíveis poderiam estar relacionados com a sensação de segurança ao voar em uma companhia confiável. Segundo LOVELOCK e WRIGHT (2006), a maioria dos serviços apresenta múltiplas dimensões. Em muitos casos, consumidores de empresas caracterizadas como de serviços obtém e consomem elementos físicos: uma refeição, peças de reposição instaladas em um carro, etc. Na prática, poucos serviços não possuem elementos tangíveis e poucos produtos não incluem componentes de serviços. Para TÉBOUL (1999), se o marketing dos produtos de grande consumo pode promover o objeto através de associações abstratas e de imagens, os serviços, sendo imateriais, têm necessidade de recorrer a elementos concretos para este fim. 7.4.2 Inseparabilidade Muitos serviços não podem ser produzidos sem a presença e cooperação do cliente, uma vez que não é possível armazená-los e a produção se dá ao mesmo tempo que o consumo. Segundo TÉBOUL (1999), os clientes fazem parte integrante da prestação e, portanto, têm um papel maior a desempenhar. Este pode ser de pura rotina ou exigir um esforço particular, tal como o fornecimento de informações para auxiliar no diagnóstico, a participação na procura de uma solução. Os clientes conduzem e controlam o prestador e podem intervir antes ou depois do contato. Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 119 7.4.3 Perecibilidade Os serviços são perecíveis; em outras palavras, não é possível armazená-los para consumir depois. Os automóveis de uma empresa de aluguéis de veículos que não sejam alugados hoje, por exemplo, perderão um faturamento que não pode ser recuperado (COBRA, 2001). A mesma situação ocorre em tantos outros serviços: médicos, financeiros, aéreos. Isto porque não é possível armazenar os serviços e eles devem ser consumidos no momento da produção. TÉBOUL (1999) afirma que, sendo o serviço uma prestação, não podemos apropriar-nos dele nem estocá-lo. Ele não existe fora de sua prestação. Os serviços não podem então constar no inventário ou ser guardados num cofre. É evidentemente impossível deter uma representação de teatro ou um vôo Paris-Roma da semana passada. Os serviços não consumidos estão definitivamente perdidos. Se a demanda exceder a oferta, o cliente estará “estocado” numa fila de espera, ou perdido. Caso contrário, uma parte da capacidade permanece inutilizada. Trata-se então essencialmente de ajustar a oferta à demanda e maximizar a utilização da capacidade. 7.4.4 Variabilidade COBRA (2001) acredita que o serviço depende do desempenho, especialmente dos empregados que são a parte essencial do mesmo. A variação que pode existir na execução de um mesmo serviço implica na grande importância da administração da qualidade em serviços. Segundo TÉBOUL (1999), uma vez que o serviço é uma prestação única na presença do cliente, tem que ter êxito logo na primeira vez, no próprio momento da interação. Ao contrário do que ocorre na fábrica, uma vez que o serviço foi produzido, é tarde demais para melhorá-lo ou corrigi- lo. A prestação não pode ser medida, controlada ou corrigida durante a entrega sem que o cliente esteja consciente disso. Saber o que sente o cliente quando da interação é igualmente problemático. Sua percepção é imediata, subjetiva e qualitativa. Se alguma coisa der errado durante a Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 120 prestação, o cliente deve ser “reparado”. Assim, o objetivo dos bastidores é zero defeito, e o do proscênio é zero deserção. No entanto, os clientes têm uma percepção global do serviço. Cada vez que uma coisa funciona, eles creditam na “conta satisfação”. Ao contrário, cada vez que suas expectativas não são atendidas, eles debitam essa conta e, infelizmente, para compensar um débito são necessários vários créditos. Se o saldo permanecer positivo, os clientes continuarão fiéis e expressarão uma opinião globalmente favorável, tal como: “Eu gosto de fazer as minhas compras nesta loja”. Apesar de estas características serem as mais citadas, LOVELOCK e WRIGHT (2006) as consideram generalizações, afirmando que elas não são universalmente aplicáveis a serviços. Eles sugerem as seguintes oito diferenças genéricas entre produtos e serviços: • Natureza do produto: enquanto um produto pode ser caracterizado como “alguma coisa (física)”, o serviço pode ser uma performance ou um esforço. Daí vem a conclusão de que a comercialização de uma performance difere significantemente da de um objeto em si. Apesar de os serviços incluírem aspectos tangíveis, a performance de serviços é basicamente intangível. • Envolvimento do consumidor no processo de produção: muitas vezes os consumidores estão envolvidos na criação do serviço, como quandose servem em um restaurante self service ou quando colaboram com o cabeleireiro no salão de beleza. • Pessoas como parte do produto: os funcionários que entregam os serviços na verdade fazem parte do mesmo. O contato entre estes funcionários e os consumidores é uma das horas da verdade em serviços. • Problemas de controle da qualidade: os padrões de qualidade de produtos podem ser checados muito antes de eles chegarem aos consumidores. No caso dos serviços, entretanto, isso não é possível porque a produção e o consumo ocorrem simultaneamente. • Dificuldade de avaliação pelo consumidor: alguns serviços só podem ser avaliados durante ou depois do consumo, como refeições em restaurantes e cortes de cabelo. Outros serviços são difíceis de serem Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 121 avaliados pelo consumidor mesmo depois do consumo, como cirurgias e reparo em computadores. • Impossibilidade de estocar: é possível estocar facilidades ou equipamentos que viabilizam ou facilitam a realização do serviço, mas não o serviço em si. Isto exige cálculos cuidadosos de demanda. • Importância do fator tempo: porque o consumidor deve estar presente fisicamente para receber boa parte dos serviços, e há limites de quanto tempo ele tolera esperar. • Diferentes canais de distribuição: ao invés do canal de distribuição físico que leva produtos da fábrica até o consumidor, os fornecedores de serviços utilizam canais eletrônicos de distribuição ou combinam a fábrica, loja e ponto de consumo em um lugar só. Mais do que características, estes autores apontam principalmente para as dificuldades de se administrar a prestação de serviços, o que pressupõe os diversos cuidados especiais que uma empresa prestadora de serviços precisa ter, para garantir a qualidade de seus serviços, oferecer funções de tempo e lugar, e alcançar a satisfação e fidelidade do consumidor. Atividade São poucos os casos onde temos um serviço puro, ou um produto puro. Ou seja, nem todo serviço é composto apenas de serviço e nem todo produto é composto apenas de produto. Justifique esta afirmação, dando exemplos. Referência comentada LOVELOCK, Christopher; WRIGHT, Lauren. Serviços, Marketing e Gestão. São Paulo: Saraiva, 2006. Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 122 Eu mesma fui contratada pela Editora Saraiva para fazer a atualização deste livro em 2006, portanto posso garantir que o livro é um dos melhores que tratam sobre o Marketing de Serviços Referências TÉBOUL, James. A era dos serviços – uma nova abordagem de gerenciamento. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999. HOFFMAN, K. Douglas; BATESON, John E. G. Princípios de Marketing de Serviços – conceitos, estratégias e casos. São Paulo: Pioneira, 2003. COBRA, Marcos. Estratégias de Marketing de Serviços. São Paulo: Cobra Editora e Marketing, 2001. LEVITT, Theodore. A imaginação de Marketing. São Paulo: Atlas, 1995. Autoavaliação 1. Uma vez que os serviços são intangíveis e individualizados, pode ser difícil desenvolver padrões para medir _________. a) seus lucros, baseados nos custos do serviço b) suas perdas, baseadas nas despesas do serviço c) sua qualidade, baseada na prestação do serviço d) seu ativo, baseado na estruturação operacional do serviço e) seu passivo, baseado na administração financeira do serviço 2. O fato de que os serviços raramente podem ser muito padronizados significa que: a) as organizações precisam moldar seus serviços a cada cliente b) nenhum cliente potencial deve ser recusado c) os serviços devem ser os mesmos em todos as regiões atendidas pela empresa Co n ce it o s e ca ra ct er ís ti ca s d o s se rv iç o s 123 d) os fornecedores de serviços jamais devem recomendar um produto concorrente e) tanto B como C Infograma PRESTAÇÃO DO SERVIÇO Interação direta com funcionários PROCESSO & TECNOLOGIA CLIENTE COM UM PROBLEMA OU UMA NECESSIDADE CLIENTE COM UMA SOLUÇÃO (Fonte: Téboul, 1999, p. 20) Classificação e a administração da qualidade em serviços 8 Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 127 O objetivo deste capítulo é apresentar as diferentes classificações de serviços, considerando-se que os serviços não são todos iguais. As diferentes características dos serviços pressupõem também diferentes formas de administrá-los. A preocupação com a qualidade dos serviços também é contemplada neste capítulo, com a apresentação do modelo das cinco lacunas em qualidade dos serviços. 8.1 Classificação dos serviços A literatura sobre o tema apresenta diferentes tipos de classificação de serviços. LEVITT (1995) sugere uma classificação de acordo com a maneira pela qual o serviço foi industrializado. Segundo ele, “os serviços podem ser industrializados de três maneiras: via tecnologias duras, tecnologias moles e tecnologias híbridas” (LEVITT, 1995, p. 71). • Tecnologia Dura: máquinas, ferramentas ou outros artefatos tangíveis substituem as pessoas no desempenho do serviço. Exemplos: caixas eletrônicos de bancos, lavagem automática de automóveis. • Tecnologia Mole: substituição de serviços individuais por sistemas organizados e previamente preparados, com rotinas especificamente concebidas para produzir os resultados desejados. Exemplos: estabelecimentos de auto-serviço, pacotes turísticos. • Tecnologia Híbrida: combinam aspectos das tecnologias mole e dura, com o objetivo de levar ordem, eficiência e rapidez ao processo de serviço. Exemplos: oficinas de serviços rápidos, limitados e de baixo preço. LOVELOCK e WRIGHT (2006), utilizaram duas variáveis para criar uma classificação de quatro categorias. A primeira variável é: para quem (ou o quê?) o serviço é direcionado; a segunda variável é se o serviço é tangível ou intangível. Veja o resultado no quadro a seguir: Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 128 O que ou quem é o receptor direto do serviço? Qual a natureza do serviço? Pessoas Objetos Tangível Serviços direcionados ao corpo das pessoas: - transporte - saúde - salões de beleza Serviços direcionados a objetos físicos: - manutenção - lavanderia - estocagem Intangível Serviços direcionados à mente das pessoas: - propaganda - entretenimento - educação Serviços direcionados a patrimônio intangível: - bancos - seguros - pesquisa Quadro 1 - Classificação dos serviços Fonte: adaptado de LOVELOCK e WRIGHT, 2006. Nos serviços direcionados ao corpo das pessoas (processamento de pessoas), o consumidor precisa estar fisicamente presente no momento da execução dos serviços, para poder receber os benefícios desejados. Nos serviços direcionados a objetos físicos (processamento de objetos), o objeto que requer processamento deve estar presente, mas o consumidor não necessariamente precisa estar presente. Nos serviços direcionados à mente das pessoas (processamento de estímulos mentais), os consumidores precisam estar mentalmente presentes, mas podem estar localizados tanto em um local de prestação de serviços específico quanto em um local remoto. Para os serviços direcionados a patrimônio intangível (processamento de informações), não há necessidade de envolvimento direto com o consumidor, uma vez que a solicitação do serviço já tenha sido iniciada (pelo menos na teoria). Ainda segundo LOVELOCKe WRIGHT (2006), o esquema de classificação de serviços apresentado acima representa a abordagem de classificação de serviços mais fundamental. Entretanto, existem outras maneiras de categorizar serviços, se forem levadas em consideração as questões a seguir: - Como o serviço é entregue? - Qual a natureza da demanda pelo serviço? Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 129 - Quais os atributos da experiência de serviços? - Que tipo de relacionamento a organização de serviços tem com seus consumidores? - Qual a possibilidade de customização do serviço? A análise e cruzamento destas questões resulta em diferentes categorias de serviços. Por exemplo, um serviço customizado pode ser combinado com um relacionamento intenso, médio ou fraco com os consumidores da empresa. O mesmo ocorre com um serviço não customizado. Cada uma destas combinações resultaria em categorias diferentes de serviços, assim como a combinação e desdobramento das demais questões levantadas. As diversas características e classificações de serviços levam à preocupação em administrar melhor a qualidade dos serviços, principalmente frente à grande variabilidade dos mesmos. 8.2 Administração da qualidade em serviços: o modelo das cinco lacunas É difícil entregar constantemente serviços de qualidade, mas é certo que esta prática é rentável para as organizações de serviços. Como os serviços consistem em performances e não em objetos, especificações precisas de manufatura para uniformizar a qualidade raramente podem ser utilizadas. A maioria dos serviços não pode ser contado, mensurado, estocado, testado e verificado antes da venda, para garantir a qualidade. Além disso, a maioria dos serviços ocorre exatamente durante a entrega, geralmente em uma interação entre o consumidor e os funcionários da empresa de serviços. Isso faz com que a qualidade de serviços seja altamente dependente da performance dos funcionários, um recurso que não pode ser controlado ao nível que poderiam ser controlados componentes de produtos tangíveis. Por isso foi criado o modelo das cinco lacunas, buscando compreender por que é tão difícil e como facilitar a obtenção de qualidade em serviços. O modelo consiste em uma série de fatores que, agrupados em 5 diferentes Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 130 lacunas, formaram o modelo de qualidade de serviços. A maioria dos fatores envolve: - processos de comunicação e controle implementados em organizações de serviços para administrar empregados; e - consequências destes processos. Fig. 1 - Modelo das lacunas em qualidade de serviços 8.2.1 Primeira lacuna – Diferença entre as expectativas do consumidor e as percepções da administração sobre as expectativas do consumidor Os consumidores geram expectativas em relação aos serviços, baseadas em comunicações boca a boca, necessidades pessoais e experiências passadas. Quando as expectativas dos consumidores não são corretamente percebidas pela administração das empresas de serviços, surge a primeira lacuna. Segundo COBRA (2001), essa lacuna tende a ocorrer quando a pesquisa de mercado é realizada de maneira incorreta ou os dados fornecidos são insuficientes. Esta lacuna pode aumentar se a comunicação entre os Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 131 colaboradores da empresa que estão em contato direto com o cliente e a própria empresa for inadequada. Ela reflete a falta de interação entre empresa e cliente, muitas vezes causada por excesso de burocracia ou vários níveis hierárquicos. O tamanho da primeira lacuna pode variar em função de: - orientação para pesquisa de mercado: a pesquisa de mercado é uma fonte importante de compreensão das expectativas e percepções do consumidor. Também é relevante analisar o grau com que as informações obtidas através de pesquisa são utilizadas na empresa, bem como o quanto a pesquisa foca em qualidade de serviços. - comunicação entre administração e funcionários: a comunicação, tanto formal quanto informal, entre os funcionários que estão em contato direto com os clientes e a administração da empresa influi no tamanho da primeira lacuna, especialmente porque estes funcionários geralmente possuem uma visão mais precisa das expectativas e necessidades dos clientes. - níveis de administração: quanto maior o número de níveis hierárquicos entre os funcionários em contato com os clientes e a administração, maior tende a ser a primeira lacuna. Isso ocorre porque o maior número de níveis dificulta a comunicação, e por conseqüência, reduz a compreensão da administração quanto às percepções e necessidades dos clientes. 8.2.2 Segunda lacuna – Diferença entre a percepção das expectativas do consumidor e as especificações de qualidade do serviço Segundo COBRA (2001), quando a administração de uma empresa de serviços não está bem sintonizada com seus clientes, pode ter uma percepção distorcida de suas expectativas. A empresa pode não estar percebendo que é impossível atender às expectativas do cliente, e corre o risco de estar prometendo algo que não pode cumprir. A ausência de um processo formal de fixação de metas e da integração de funções pode colaborar para o aumento da lacuna. Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 132 Podemos apontar uma série de fatores, como falta de recursos, orientação para lucros a curto prazo, condições de mercado e indiferença da administração, para a discrepância existente entre a percepção da administração sobre as expectativas do consumidor e as especificações de qualidade do serviço. O tamanho da segunda lacuna varia de acordo com: - comprometimento da administração com a qualidade de serviços: quando a ênfase da empresa está mais focada em redução de custos ou obtenção de resultados a curto prazo, por exemplo, a lacuna dois tende a aumentar, pois a qualidade dos serviços fica em segundo plano. - estabelecimento de metas: as empresas bem sucedidas na entrega de serviços de qualidade, como o McDonald’s e a American Express, por exemplo, estabelecem metas formais em relação à qualidade dos serviços. Essas metas geralmente são estabelecidas ou mensuradas em relação à performance humana ou de máquinas. - padronização de tarefas: quanto mais as tarefas envolvidas na prestação de serviços forem padronizadas, menor tende a ser a Segunda lacuna. Mesmo os serviços mais customizados podem sofrer algum grau de padronização, e desta maneira se evita a variabilidade dos serviços e se busca a qualidade dos mesmos. - percepção de viabilidade: a percepção da administração de que as expectativas do consumidor não são facilmente alcançadas e sofrem uma variabilidade substancial também afetam o tamanho da lacuna 2. 8.2.3 Terceira lacuna – Diferença entre as especificações de qualidade do serviço e o serviço realmente entregue A terceira lacuna está ligada ao grau em que os provedores do serviço não apresentam uma performance no nível esperado pela administração. COBRA (2001) aponta para as seguintes possíveis causas desta lacuna: - erros nos serviços prestados pelos funcionários da empresa; - falhas tecnológicas; Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ços 133 - sistema de reconhecimento inadequado; - padronização inadequada; - disfunções de trabalho em equipe. O tamanho da terceira lacuna varia de acordo com: - trabalho em equipe: se os funcionários entre si, bem como os funcionários e a administração trabalham juntos na obtenção dos mesmos objetivos, a terceira lacuna tende a diminuir. - adaptação do funcionário ao serviço: turnover alto e falta de treinamento são alguns dos fatores que levam a uma baixa qualidade dos serviços, visto que os funcionários da empresa que entram em contato direto com o cliente são geralmente os menos qualificados (como telefonistas, técnicos, etc.). - adaptação da tecnologia ao serviço: para uma prestação de serviços de qualidade, as ferramentas e equipamentos utilizados pelos funcionários para a realização de seu trabalho deve ser adequada e confiável. Quanto maior a adequação e confiabilidade dos equipamentos, menor tende a ser a lacuna 3. - controle percebido: quanto mais os funcionários envolvidos na prestação de serviços se sentirem com o controle das situações que eles enfrentam em seus trabalho, menor será seu nível de stress. Baixos níveis de stress levam a uma melhor performance na prestação de serviços. - sistemas de controle e supervisão: para obter qualidade dos serviços, não deve ser mensurada apenas a performance quantitativa do funcionário, como por exemplo quantos clientes foram atendidos por hora. Ao invés disso, deve ser observado como o funcionário trabalha e se comporta, bem como a satisfação do cliente após o atendimento. - Conflitos: quando as expectativas da administração em relação ao funcionário são incompatíveis ou muito exigentes, este pode experimentar uma situação de conflito, ou a sensação de que não pode atender às demandas exigidas dele. A redução destes conflitos tende a reduzir a terceira lacuna. Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 134 - Ambigüidade: a ambigüidade pode ocorrer quando o funcionário não tem certeza do que a administração e a supervisão esperam dele, ou como satisfazer estas expectativas. A ambigüidade pode ser reduzida principalmente através de treinamento. 8.2.4 Quarta lacuna – Diferença entre o serviço realmente entregue e o que é comunicado sobre o serviço para os consumidores Esta lacuna surge quando a comunicação ou publicidade do serviço não correspondem ao serviço oferecido. Como a propaganda ou outros tipos de comunicação ajudam a formar a expectativa dos consumidores, discrepâncias como promessas exageradas ou ausências de informações podem afetar a percepção dos consumidores em relação aos serviços. Os fatores que influem no tamanho da quarta lacuna são: - comunicação horizontal: são as comunicações dentro e entre departamentos em uma empresa, com o objetivo de coordenar pessoas e departamentos no sentido de atingir as metas da organização. A comunicação horizontal é necessária para que o cliente perceba a alta qualidade dos serviços. - propensão a prometer mais do que se pode entregar: a competição crescente no setor de serviços e outros fatores que pressionam as empresas a buscar novos clientes pode fazer com que elas prometam mais do que efetivamente estão preparadas para cumprir, aumentando a quarta lacuna. 8.2.5 Quinta lacuna – Diferença entre as expectativas e as percepções do consumidor Esta lacuna depende do tamanho e direção das quatro lacunas anteriores, refletindo as diferenças entre as expectativas do cliente em relação ao serviço adquirido e suas percepções do desempenho do produto. Ao serem eliminadas as quatro lacunas anteriores, a quinta naturalmente desaparece. Veja a representação na figura a seguir. Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 135 Fig. 2 – Modelo das cinco lacunas em qualidade de serviços 8.3 Função da Qualidade Disponível Segundo COBRA (2001), a Função da Qualidade Disponível (FQD), ou Quality Function Deployment (QFD), é um excelente instrumento para a minimização das lacunas anteriormente apresentadas. Os benefícios deste programa são: Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 136 - centralização das atividades nas necessidades do cliente; - Possibilita que todos enfrentem os desafios e busquem juntos as respostas; - Possibilita que as pessoas interajam e trabalhem em equipe; - Permite analisar os problemas a partir de diferentes pontos de vista. Infograma Atividade O que são os gaps ou lacunas em qualidade dos serviços? Descreva seu significado e explique o modelo que utiliza estas lacunas. Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 137 Referência comentada LAS CASAS, Alexandre Luzzi. Marketing de Serviços. São Paulo: Atlas, 2006. O Las Casas é outro importante autor de Marketing brasileiro, e neste livro ele aponta de forma objetiva e clara os principais aspectos que formam o Marketing de Serviços, utilizando exemplos e casos brasileiros para ilustrar os conceitos apresentados. Referências COBRA, Marcos. Estratégias de Marketing de Serviços. São Paulo: Cobra Editora e Marketing, 2001. COSTA, Roberto Figueiredo. Administração de Serviços Gerais – utilizando a infra-estrutura para o sucesso empresarial. São Paulo: Edicta, 1999. LEVITT, Theodore. A imaginação de Marketing. São Paulo: Atlas, 1995. LOVELOCK, Christopher; WRIGHT, Lauren. Serviços, Marketing e Gestão. São Paulo: Saraiva, 2006. Autoavaliação 1. Considerando-se a teoria dos cinco gaps (lacunas), indique qual descrição está incorreta: a) 1a. lacuna – entre a prestação dos serviços e a percepção gerencial das expectativas dos consumidores b) 2a. lacuna – entre a percepção gerencial das expectativas dos consumidores e sua tradução em especificações de serviços Cl as si fi ca çã o e a a d m in is tr aç ão d a q u al id ad e em s er vi ço s 138 c) 3a. lacuna – entre as especificações dos serviços e a prestação dos serviços d) 4a. lacuna – entre a prestação dos serviços e a comunicação externa com o consumidor e) 5a. lacuna – representa em suma a satisfação do cliente 2. A qualidade de serviços baseados em pessoas, como aqueles que implicam em maior contato com os funcionários, depende de uma série de fatores. Qual dos seguintes NÃO é um desses fatores? a) habilidade do fornecedor ou prestador do serviço b) procedimentos de treinamento para os funcionários c) manutenção especializada interna e terceirizada d) habilidade dos fornecedores de serviços para manter relações com os clientes e) nível de motivação dos funcionários Respostas: 1 – a; 2 – c. Marketing de Relacionamento e Endomarketing em empresas de serviços 9 M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 141 Este capítulo tem como objetivo discutir o processo de implantação de dois importantes elementos de marketing em empresas de serviços: o Marketing de Relacionamento e o Endomarketing. No marketing de relacionamento, são apresentados quatro passos que permeiam o processo de implantação, além de aspectos como a tecnologia e a comunicação com os clientes. No Endomarketing, salienta-se a importância doenvolvimento dos colaboradores para o sucesso das atividades de Marketing em uma empresa de serviços. 9.1 Implementação do Marketing de Relacionamento em empresas de serviços A implementação é um momento bastante crítico no processo de adoção de um programa de Marketing de Relacionamento. É preciso estar atento para o perigo de a empresa não entender completamente o conceito e acabar usando-o apenas como uma desculpa para a utilização do Marketing Direto e do Telemarketing. A conscientização e a absorção completa do conceito e de suas implicações deve gerar o envolvimento de todos os funcionários com a nova causa da empresa, o que é imprescindível para o sucesso de um programa de Marketing de Relacionamento. Duas coisas devem ser levadas em consideração quando se decide implementar uma teoria na vida real. Em primeiro lugar, a experiência prática dos profissionais e segundo, o fato de que cada caso de implementação é uma combinação única de características gerais e específicas. Existem quatro passos indispensáveis para implementar um programa de Marketing de Relacionamento na empresa, a saber: identificação dos consumidores, diferenciação entre eles, interação com eles e customização do produto ou serviço de maneira a atender às necessidades individuais de cada consumidor. Estes passos são de complexidade crescente, mas também levam a um nível crescente de benefícios para a empresa. A seguir, são detalhados cada um destes passos. M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 142 9.1.1 Identificação de clientes É impossível estabelecer uma relação com alguém que não conseguimos identificar. Assim, é absolutamente crítico conhecer os clientes individualmente, com o maior número de detalhes possível e ser capaz de reconhecê-los em todos os pontos de contato, todas as formas de mensagem, ao longo de todas as linhas de produtos, em todos os locais e em todas as divisões. Na fase de identificação dos consumidores, está implícita a ideia de que a empresa deve estar apta a localizar e contatar diretamente pelo menos uma porção razoável de seus consumidores mais valiosos. É importante que a empresa conheça seus consumidores mais valiosos individualmente: não só seus nomes, endereços e números de telefone, mas também, os seus hábitos, preferências, atitudes e outras características relevantes. Uma empresa não deveria basear suas ações de Marketing somente em dados ou informações disponíveis (secundários), por três motivos: geralmente provém de inferências estatísticas e não de conhecimentos individuais reais (ex: renda média); parcialidade e viés dos dados, causados por fatores como índice de recusa, influências externas, entre outros; o que as pessoas dizem fazer e o que fazem nem sempre são fatos coincidentes. Identificar o cliente significa conhecer sua identidade, forma de contato preferida, todas as transações e interações realizadas com a empresa. Todos esses dados devem estar disponíveis em todos os pontos de contato com o cliente. O cliente tem que ser identificado independentemente do canal escolhido para entrar em contato com a empresa. É necessário incentivar o cliente a identificar-se. Isso é feito através de “Programas de fidelização”, que na realidade deveriam se chamar “Programas de Frequência”. Esses programas servem para, através de algum tipo de atrativo, fazer com que o cliente se identifique cada vez que realiza uma transação com a empresa, não servindo para fidelizar o cliente, mas apenas para identificá- lo. A quase totalidade desses programas está baseada em algum tipo de pontuação, que premia o cliente que compra com frequência. Ressaltam a importância de identificar os clientes obtendo, para cada um deles dados como: história e transações, receita e lucratividade, reclamações, M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 143 canal de comunicação preferido, momento de vida, valor (real, potencial e estratégico), potencial de crescimento e risco. 9.1.2 Diferenciação de clientes A diferenciação de consumidores implica em que estes são diferentes em dois sentidos amplos: diferente valor para a empresa (alguns têm valor muito alto, outros, nem tanto) e diferentes necessidades de produtos e serviços da empresa. A diferenciação possibilita que a empresa foque seus esforços de maneira a adquirir maior vantagem com os consumidores mais valiosos. É preciso saber quais são os consumidores que jamais comprarão o produto da empresa, e parar de investir recursos e esforços tentando, em vão, convencê-los. Isto implica em estabelecer algum tipo de critério de estratificação, modelo de lucratividade ou medida de valor dos clientes. O objetivo da diferenciação de clientes é encontrar os clientes de maior valor (CMV) e os clientes de maior potencial (CMP), considerando como valor o valor vitalício, ou Lifetime Value (LTV), que é o valor que o cliente tem em toda a sua história transacional com a empresa, as referências que ele fez e que se transformaram em vendas, etc. Sempre pensando em LTV, o valor do cliente pode ser medido em termos reais, ou seja, toda a lucratividade do cliente ao longo de sua relação com a empresa, e em termos potenciais, ou seja, a lucratividade dos negócios futuros que o cliente pode realizar com a empresa. O valor real dividido pelo valor potencial equivale à participação do cliente. Recomenda-se portanto a implementação de iniciativas distintas para os diferentes extratos de clientes. Para os CMVs, implementar programas de retenção. Os CMPs necessitam de tratamento distinto, sendo necessário desenvolver esses clientes através de incentivos, como concessão prematura de privilégios. Em relação aos BZs (below zeros), os que dão prejuízo, deve ser cobrado o valor real dos serviços prestados e também suprimir seus nomes das listas de mala direta e outras iniciativas de contatos, sem entretanto eliminar seus nomes da base de dados da empresa. Estes têm seu valor real e estratégico abaixo do custo de atendimento, ou seja, não há expectativa de lucratividade. M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 144 9.1.3 Interação com os clientes A eficiência de custos e a eficácia na interação com os consumidores são muito importantes para o sucesso de um programa de Marketing de Relacionamento. A eficiência de custos pode ser obtida através das interações pelos canais mais automatizados e menos custosos para a empresa. A eficácia, por sua vez, depende de que cada interação com o consumidor aconteça no contexto das interações anteriores, gerando informações relevantes sobre as necessidades e valores do consumidor. É necessário melhorar a eficiência e eficácia das interações com os clientes, ou seja, não somente buscar a forma mais barata e automatizada de interação, mas também a mais útil em termos de produção de informação que possa ajudar a fortalecer as relações com os clientes. Além disso, toda interação com o cliente deve estabelecer-se dentro do contexto de todas as outras interações com aquele cliente. Uma vez descobertos os clientes de maior valor (CMV) e clientes de maior potencial (CMP), deve ter-se em relação a eles o objetivo final de desenvolver uma relação de aprendizado, onde cada vez mais personalizamos serviços e produtospara que eles vejam conveniência em continuar com a empresa. Quando a interação é iniciada pela empresa, ela deve obedecer a duas regras básicas: deve utilizar o canal de comunicação preferido do cliente e deve ter a permissão do cliente para utilizar este canal, devendo as mensagens ter algo de valor para o cliente. Seguem algumas sugestões importantes para a interação: • Ter objetivos claros; • Não pedir as informações que a empresa já tem; • Usar a forma de contato preferida do cliente; • Ser sensível ao tempo do cliente; • Assegurar-se que o cliente veja valor no diálogo; • Incentivar o diálogo através de números 0800, páginas na Web, caixas de sugestão etc.; • Proteger a privacidade do cliente. M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 145 9.1.4 Customização Customizar (personalizar) alguns aspectos do comportamento da empresa melhora o atendimento aos clientes. Para incentivar os clientes a manter uma relação de aprendizado, a empresa precisa adaptar-se às necessidades individuais expressas pelo cliente. Isso pode significar a personalização em massa de um produto ou a personalização das opções oferecidas ao redor do produto. O que o Marketing de Relacionamento realmente significa é simplesmente tratar clientes diferentes de forma diferente, de forma que isso seja significativo para os clientes de forma individual. Esse tipo de personalização torna-se viável apenas através de uma metodologia de “personalização em massa” - o que permite criar uma variedade de produtos altamente específicos a partir de componentes distintos ou módulos. Por exemplo: doze módulos “A”, quando combinados com 25 módulos “B”, 16 “C” e 13 “D”, são suficientes para gerar mais de 60.000 produtos possíveis. A partir do conhecimento das necessidades dos clientes, a empresa deve personalizar os serviços e produtos para fazer com que a experiência de fazer negócios com a empresa seja única. Quanto mais personalizarmos, mais valor entregamos ao cliente, que vê conveniência em repetir a compra na empresa. Para tanto, é necessário flexibilidade da empresa e treinamento adequado das pessoas que têm contato com o cliente. LEVITT (1995) usa o termo miopia para caracterizar a falta de flexibilidade ou inventividade de uma empresa. Segundo ele, as empresas precisam esquecer o produto ou serviço em si e passar a pensar nas necessidades do consumidor, buscando atendê-las da melhor forma possível. Não reconhecer isto tende a levar uma empresa ao fracasso quando adota o Marketing de Relacionamento, pois a capacidade de atendimento de necessidades específicas de consumidores exige uma visão ampliada do negócio da empresa, bem como flexibilidade. Portanto, a customização deve se dar não simplesmente no sentido de adaptar as características do produto, mas principalmente de atender às necessidades individuais dos consumidores de diferentes maneiras. A sobrevivência das empresas depende de sua capacidade de adaptação. A filosofia do Marketing de Relacionamento pressupõe que M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 146 a empresa como um todo seja uma organização flexível, voltada para atender às necessidades de cada consumidor de maneira individualizada e específica. Esta flexibilidade deve se refletir nos mais diversos aspectos da empresa, como a tomada de decisões, as operações em geral, os processos produtivos, a logística e distribuição. A flexibilidade se torna imprescindível uma vez que se assume que as necessidades do consumidor estão em processo contínuo de mudança. 9.2 Comunicação com os clientes Para a adoção do Marketing de Relacionamento em uma empresa de serviços, é preciso comunicar-se constantemente com os clientes, de maneira individualizada. A mídia individualizada difere da mídia de massa de três formas: 1- permite enviar uma mensagem única, separada, a cada indivíduo específico; 2- é bilateral, e não unilateral. Isso permite que a direção das mensagens não seja só da empresa para o cliente mas sim em ambas as direções; 3- é econômica, pois atinge apenas o foco. As mídias consideradas mais individualizadas são a Internet, telemarketing, correspondência segmentada e personalizada (malas diretas), TV por assinatura, revistas especializadas e regionalizadas. O banco de dados de consumidores é o mercado exclusivo de hoje em dia onde a empresa pode realizar vendas adicionais, fazer promoções cruzadas, explorar novos canais de distribuição, testar novos produtos, iniciar novos empreendimentos e – o mais importante - desenvolver um relacionamento personalizado constante com os melhores clientes a fim de solidificar sua fidelidade. M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 147 9.3 Reclamações e sugestões A filosofia do Marketing de Relacionamento defende o incentivo das reclamações e as encara como uma oportunidade para a solução de problemas ou para a melhoria de um aspecto qualquer: características do produto, distribuição, comunicação, etc. Indo além, as reclamações se transformam em um instrumento de cooperação, onde tanto a empresa quanto o cliente colaboram em prol de um objetivo comum. LEVITT (1995) afirma que a ausência de queixas por parte dos clientes é sinal de um relacionamento ruim ou em declínio, afinal, “pessoa alguma jamais está assim tão satisfeita, especialmente durante longo período de tempo” (LEVITT, 1995, p. 121). Infelizmente, muitas vezes nos entristece a negligência com a qual os serviços pós-venda são tratados pelas empresas. As empresas sempre se preocuparam com os serviços que antecedem a venda de um produto ou serviço, ou com a venda propriamente dita, deixando os serviços de pós- venda – onde está incluído o tratamento das reclamações – de lado. Os serviços pós-venda visam, entre outras coisas, fidelizar clientes, através das seguintes atividades de marketing: • identificação da base de clientes; • pesquisa para conhecimento de suas necessidades e expectativas; • mensuração repetida da extensão da satisfação dos clientes pelos serviços ou produtos atuais; • fornecimento de canais de comunicação amplos; • demonstração ativa de sentimentos de reconhecimento a eles. Há programas formais de pós-venda, que objetivam realçar as relações com os clientes e podem ter caráter reativo ou ativo. Nos programas de caráter ativo, a empresa se antecipa ao cliente, buscando saber seu nível de satisfação com o produto ou serviço adquirido. Nos de caráter reativo, entretanto, a empresa aguarda o contato do cliente, correndo o risco de cometer mais erros ou de gerar a insatisfação do cliente. Apontamos alguns erros geralmente cometidos por empresas no atendimento às reclamações e sugestões: M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 148 • apatia: pouco caso ou falta de interesse por parte do funcionário que recebe a reclamação; • dispensa: desprezo em relação ao problema ou necessidade apresentado pelo cliente, dispensando o cliente; • frieza: hostilidade e impaciência com o cliente que apresenta a reclamação; • condescendência: tratar o cliente com atitude paternalista; • automatismo: atendimento informatizadoe funcionário mecanizado; • livro de regras: as normas da organização são seguidas a risca, e o funcionário não possui flexibilidade ou autonomia para resolver o problema do cliente. 9.4 Envolvimento dos funcionários e Endomarketing Para uma estratégia de serviços ser bem-sucedida, ela precisa estar inserida na cultura da organização. Por isso, o treinamento contínuo dos funcionários é importante: ele proporciona a cultura e as habilidades necessárias para que todos os esforços da organização estejam focalizados nos clientes. O treinamento deve ocorrer em todos os níveis e para todas as funções da empresa. Por esta razão, há a necessidade de treinamento constante dos funcionários da empresa, para que eles se tornem mais sensíveis aos diversos momentos de interação com os clientes. Sobre isso, LEVITT (1995) afirma que “nada deteriora tão facilmente quanto as práticas e rotinas comportamentais que são e precisam ser institucionalizadas” (LEVITT, 1995, p. 125). A função de marketing é ampla e atinge todas as pessoas da organização. Os profissionais que trabalham nas áreas de marketing e vendas são “full-time marketers”, ou seja, profissionais de marketing em tempo integral. Os demais profissionais trabalhando na empresa são “part-time marketers”, ou seja, profissionais de marketing em tempo parcial. Fazem parte deste grupo o presidente da empresa, projetistas, M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 149 programadores, pessoal de finanças e recursos humanos, telefonistas e recepcionistas, entre outros. Muitas vezes, especialmente quando se trata de serviços, os “part-time marketers” são os que estão mais próximos dos clientes, e acabam influenciando os relacionamentos com os consumidores em parte de seu tempo. As atividades de treinamento e envolvimento dos funcionários, também chamadas de marketing interno ou Endomarketing, apresentam sete pontos essenciais, conforme apresentado na figura abaixo. Fig. 1 - Sete pontos essenciais na prática do Marketing interno Fonte: ABREU, Claudia B. Serviço pós-venda: a dimensão esquecida do Marketing. Re- vista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 36, no. 3, pp. 24-31.p. 30. Os sete pontos essenciais na prática do marketing interno, portanto, são: • Concorrer pelo talento – contratação do melhor quadro de funcionários possível; • Oferecer uma ideia – filosofia ou cultura fornecida pela empresa, pela qual os funcionários sintam que vale a pena lutar; M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 150 • Preparar as pessoas – oferecer treinamento adequado, no momento certo; • Estimular o fator liberdade – evitar políticas e manuais de instruções muito densos, que limitam a autonomia e a criatividade dos funcionários; • Avaliação e recompensa – a recompensa pelo trabalho de qualidade consiste em incentivo e motivação para os funcionários; • Conheça seu cliente – pesquisar as necessidades e desejos dos clientes internos, buscando satisfazê-los; • Resumo e lista de verificação de atividades – o desempenho do serviço se confunde com o desempenho do pessoal, especialmente no caso dos serviços. Este fator exige investimento constante na qualidade do pessoal. Infograma Atividade – Faça uma avaliação de dois serviços de call center quaisquer, comparando-os. Para isso, simule um problema e avalie: M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 151 o O tempo dispendido para o atendimento o A qualidade do atendimento o A prontidão na solução do problema o Outros aspectos considerados importantes. – Na sua opinião, as empresas pesquisadas são orientadas para um relacionamento pós-venda? Justifique sua resposta. Referência comentada BEKIN, Saul Faingaus. Endomarketing – Como praticá-lo com sucesso. São Paulo: Prentice Hall, 2004. Saul Bekin é sem dúvida a melhor pessoa para falar e escrever sobre Endomarketing, visto que ele foi o criador deste termo no Brasil e atua como consultor de negócios, implantando o Endomarketing em diversas empresas. Referências LEVITT, Theodore. A imaginação de Marketing. São Paulo: Atlas, 1995. LUPETTI, Marcélia. Gestão Estratégica da Comunicação Mercadológica. São Paulo: Thomson Learning, 2007. LOVELOCK, Christopher; WIRTZ, Jochen. Marketing de Serviços – Pessoas, tecnologia e resultados. São Paulo: Prentice Hall Brasil, 2006. M ar ke ti n g d e Re la ci o n am en to e E n d o m ar ke ti n g e m e m p re sa s d e se rv iç o s 152 Autoavaliação 1. Como o Marketing de Relacionamento encara as reclamações e sugestões: a) Instrumento de cooperação b) São incentivadas e encaradas como oportunidade c) Oferecem possibilidade de solução de problemas ou melhorias d) São utilizadas como fonte de pesquisa e) Todas as alternativas anteriores 2. O Marketing Interno pressupõe que: a) todos os funcionários tem a mesma importância b) somente alguns profissionais devem estar envolvidos com o Marketing c) todos os funcionários da organização devem estar comprometidos com a satisfação do consumidor d) “a” e “c” estão corretas e) n. d. a. Respostas: 1 – e; 2 – d.