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1 
 
 
O estágio supervisionado como espaço de síntese da unidade 
dialética entre teoria e pratica: o perfil do profissional em disputa 
Yolanda Guerra 
 
 
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. 
Cora Coralina 
 
INTRODUÇÃO 
Muito tem se debatido e há algum consenso em torno de que numa 
profissão de natureza interventiva o estágio supervisionado deve ocupar um 
lugar de destaque na formação profissional. Não obstante, por tratar-se de 
uma categoria heterogênea, plural, diversa e cada vez mais diferenciada, e até 
certo ponto, hierarquizada, dado o seu nível de diversificação, a capacidade 
de o estágio supervisionado possibilitar determinados conhecimentos e de 
desenvolver habilidades e valores, tem sido objeto de divergência e grandes 
polêmicas . 
Considerando que a concepção de estágio supervisionado, seus 
princípios, diretrizes e política só podem ser interpretados quando remetidos a 
um projeto de profissão e que esse conduz a um determinado perfil 
profissional, a disputa por essa concepção é mister, uma vez que ela 
demanda definições sobre: que profissional se deseja formar e para que 
sociedade? 
Com base nessa preocupação, o objetivo desse ensaio é argumentar em 
torno da hipótese de que o estágio supervisionado tem um potencial riquíssimo 
como espaço de síntese entre conhecimentos teóricos e saberes práticos já 
que permite desenvolver todas as dimensões da profissão e articulá-las em 
torno de um perfil de profissional crítico, que detenha competência técnica, 
teórica, política, aportado em valores que se confrontam com a sociabilidade 
burguesa, com aptidão para a pesquisa e para a produção de conhecimento 
crítico. Não obstante, como já disse em outro lugar, nem todo tipo de formação 
profissional tem o potencial formador. Há aquelas que deformam. Nesse 
 

 Assistente Social, Mestre e Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São 
Paulo, Professora Associada da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 
autora de livros e revistas sobre as dimensões da profissão e seus fundamentos. 
Agradeço a Claudia Monica dos Santos e Gustavo Repetti a leitura atenta e contribuições preciosas. 
http://pensador.uol.com.br/autor/cora_coralina/
2 
 
sentido, pretendo, ainda, estabelecer alguns critérios que nos ajudem a 
discernir e qualificar os diversos tipos de formação profissional evidenciando as 
condições nas quais o estágio tem que ser realizado para obter tais resultados. 
Para tanto parto das configurações do modo de ser do Serviço Social 
como uma totalidade que articula diversas dimensões (Cf. Guerra, 2000), a 
saber: 
1) Dimensão técnico-operativa: razão de ser da profissão, desenvolve a 
capacidade de dar respostas instrumentais as diferentes e divergentes 
requisições sócioprofissionais e políticas que se institucionalizam; 
2) Dimensão teórico-metodológica: trata-se da dimensão recorrentemente 
questionada e em certos aspectos negada por parte significativa de 
assistentes sociais que ou desdenham a necessidade do referencial 
teórico para responder às demandas do cotidiano ou só reconhecem a 
teoria que seja capaz de dar respostas instrumentais às requisições 
institucionais. Nessa direção há que se considerar o pragmatismo e o 
utilitarismo como tendências extremamente recorrentes no cotidiano 
profissional. Não obstante, estuda-se muito pouco suas configurações 
e formas pelas quais essas se manifestam no cotidiano profissional. 
3) Dimensão ético-politica: central posto que indica as escolhas 
profissionais, desde a perspectiva que é capaz de lhe explicar o mundo, 
quanto o método de apreensão da realidade e as estratégias a serem 
selecionadas, segundo determinados objetivos, prioridades, modos de 
fazer, dentre outros. Por ela passam as escolhas teóricas, valorativas, 
técnicas e políticas. 
4) Dimensão investigativa: como parte das competências que se colocam 
às profissões como um todo, nas profissões interventivas essa dimensão 
se confunde com o próprio fazer da profissão. No caso do Serviço 
Social, muitas das suas atribuições privativas e competências ou 
referem-se à própria pesquisa da realidade ou necessitam da atitude 
investigativa ou se identificam com ela, como é o caso de realizar visitas 
domiciliares, pericia, estudos sócio-econômicos, dentre outras. Não é 
3 
 
casual que, já o demonstramos anteriormente1 (Guerra, 2009), grande 
parte das atribuições profissionais refere-se à dimensão investigativa. 
5) Dimensão formativa: a meu ver, é a supervisão de estágio que, 
enquanto uma atribuição privativa da profissão, pela sua natureza e 
particularidades, tem sua centralidade na competência formativa. Por 
essa razão destacarei a importância dos supervisores de campo e 
acadêmicos no sentido de orientar determinado perfil de profissional. 
Partindo, pois, das competências sócio-profissionais e políticas há que 
se considerar que é o estágio supervisionado2 que tem, prioritariamente, a 
capacidade de propiciar a síntese entre o trabalho e formação profissional e, se 
essa afirmação é correta, as condições de realização da supervisão dependem 
das condições de realização do trabalho profissional, mas também das 
condições sob as quais a formação profissional se realiza. Assim, incide sobre 
a supervisão a conjugação de condições relativas ao mercado de trabalho e a 
formação profissional, ambos submetidos a alto nível de deterioração, o que, 
em algumas situações, pode vir a comprometer a realização do estágio 
supervisionado. Como pode ser, então, inferido, o estágio supervisionado não 
pode ser dimensionado fora da imposição da própria realidade e de suas 
tendências contemporâneas, de modo que não se pode fazer abstração dos 
condicionamentos impostos pelas condições nas quais o trabalho e a 
formação profissional se realizam. 
 
Estágio supervisionado como expressão do exercício e da 
formação profissionais: espaço de contradições 
 
Não há aqui nenhuma ilusão que nos leve a idealizar as condições de 
realização do estágio, ou a supor que tais condições sejam diferentes daquelas 
nas quais os assistentes sociais encontram-se inseridos no cotidiano do 
exercício profissional, ou seja, daquelas que configuram o mercado de trabalho 
profissional. E é, exatamente, por essa razão que, como pretendo argumentar, 
o estágio tem potencial didático-pedagógico, pois ele se realiza nas mesmas 
 
1
 Refiro-me ao artigo publicado no livro organizado pelas entidades da categoria (ABEPSS e CFESS) 
“Serviço Social: Direitos Sociais e Competências profissionais” 
2
 A Política Nacional de Estágio (2010, p.14) assim o caracteriza: “atividade teórico-prática, efetivada 
por meio da inserção do (a) estudante nos espaços sócio-institucionais nos quais trabalham os (as) 
assistentes sociais, capacitando-o (a) nas dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-
operativa para o exercício profissional” . 
4 
 
condições e relações que condicionam os espaços sócio-ocupacionais dos 
assistentes sociais, comportando as tendências mais recentes de tais espaços 
laborais. Não se trata, pois, de representá-lo no âmbito ideal, mas de captar, 
no âmbito real, as suas contradições, bem como as contradições postas na 
política social que mediatiza o exercício profissional e a situação da formação 
profissional que incide na constituição de um determinado perfil profissional. 
Assim é que considerar o potencial do estágio supervisionado requer 
que se leve em conta que a lógica constitutiva dos espaços sócio-ocupacionais 
é incompatível, e até se confronta, com a lógica da aprendizagem e da 
orientação profissionais, a qual, por sua vez, encontra-se subjacente às 
Diretrizes da Formação Profissional dos assistentes sociais brasileiros, fruto de 
construçãocoletiva protagonizada pelas entidades representativas da categoria 
e dos diversos segmentos desta. A mediação do assalariamento, as condições 
de trabalho do assistente social que não são distintas daquelas que submetem 
os demais trabalhadores, suas formas precarizadas e informais de contratação, 
a extensão da sua carga horária, os processos de desregulamentação, 
intensificação, informatização, simplificação do trabalho e normatização 
burocrática, a banalização das atividades complexas e específicas, a 
hierarquização entre os profissionais, são indicadores de possibilidades e 
limites do exercício e da realização das diversas competências que cabem ao 
profissional, uma vez que os espaços profissionais se constituem espaços 
plenos de contradição. 
Não obstante, não é comum que o estágio seja apreendido na sua 
dinâmica, a partir das contradições constitutivas e constituintes da própria 
realidade. Fazer isso requer determinada competência que, embora seja 
adquirida em primeira instância na academia, será desenvolvida mais 
plenamente no espaço do estágio supervisionado. Trata-se de uma perspectiva 
de apreensão da realidade dada a partir da relação que o sujeito estabelece 
com o objeto a ser conhecido, na direção do seu desvelamento3. 
 
3
 Diz Netto ao analisar o método crítico dialético de Marx: é o conhecimento do objeto – de sua estrutura 
dinâmica – tal como ele é em si mesmo, na sua existência real e efetiva, independentemente dos desejos, 
das aspirações e das representações do pesquisador. A teoria é, para Marx, a reprodução ideal do 
movimento real do objeto pelo sujeito que pesquisa: pela teoria, o sujeito reproduz em seu pensamento a 
estrutura e a dinâmica do objeto que pesquisa. E esta reprodução (que constitui propriamente o 
conhecimento teórico) será tanto mais correta e verdadeira quanto mais fiel o sujeito for ao objeto 
(NETTO, 2011, p. 20-21). 
5 
 
 
 
O estágio: lócus privilegiado do conhecimento dialético da 
realidade 
 
A experiência do estágio supervisionado é única. Embora todos os 
requisitos curriculares tenham a sua importância e adequabilidade para 
desenvolver as capacidades necessárias ao futuro profissional, entendo que o 
estágio supervisionado detém o potencial de permitir ao estudante como sujeito 
desse processo, receber o impulso da própria realidade, e, a depender do seu 
perfil e do seu nível de amadurecimento teórico-metodológico, ele vai 
apreendendo as determinações dessa realidade e aprendendo os caminhos 
para o conhecimento desse objeto (posto na e pela própria realidade). É aqui 
que vai sendo forjado um perfil de profissional, uma atitude investigativa que 
será melhor moldada na academia, pela própria natureza desse espaço, mas 
que recebe do estágio o impulso que vem da realidade institucional que nos 
convoca o tempo todo e todo o tempo para decifrá-la. Quanto mais o 
estudante for estimulado a mobilizar os conhecimentos adquiridos, no sentido 
de colocá-los à prova diante da realidade, mais o seu perfil crítico será 
fomentado. Aqui o supervisor pode se valer de um roteiro que oriente a 
observação, que não deve ser aleatória, bem como de técnicas de análise de 
conjuntura e de análise institucional, o que deve permitir que a reflexão do 
estudante transcenda da aparência dos fatos para a essência dos processos. 
Então, investigar a realidade, lidar com os fenômenos que 
empiricamente se apresentam carentes de mediação, é o primeiro e 
fundamental aprendizado permitido pelo estágio supervisionado. 
Buscar uma interpretação dos mesmos à luz de pressupostos teóricos é 
o passo seguinte. O resultado desse processo será consubstanciado em 
projetos de intervenção, relatórios, registros ou mesmo em sistematização da 
experiências, já que a realidade do estágio tem também que alimentar a 
reflexão teórica e se constituir em subsídios das teorias. 
A necessária recorrência ao método dialético, próprio do movimento da 
realidade, não é arbitrária. Trata-se de uma atitude adotada pelo pesquisador 
que é sensível à necessidade de captar a realidade em seu movimento, por 
 
 
6 
 
meio das contradições que a dinamizam numa perspectiva de totalidade, que 
não significa querer dar conta de tudo, mas de discernir entre o essencial, o 
fator predominante, e o acessório, os elementos secundários. 
O espaço institucional que é o lócus do estágio supervisionado detém o 
potencial de ser apreendido como concreto, o que significa: 1) que ele é 
resultado da realização de sínteses postas pelas múltiplas determinações 
(econômicas, culturais, políticas, sociais, subjetivas) que constituem o próprio 
estágio e que nele operam; 2) que ele deve ser analisado, refletido, teorizado 
pelo processo de abstração, operação realizada quando o pensamento se 
debruça sobre a realidade na direção de conhecê-la, o que significa captar a 
lógica que constitui os processos próprios dessa realidade e as múltiplas 
determinações que nele se operam. É importante dizer que só é possível 
captá-las porque elas operam sínteses objetivas, realizadas na própria 
realidade, mas que essas não se mostram de imediato. Trata-se de dois 
momentos de um mesmo processo que constitui nossas competências teórico-
intelectuais. 
É na instituição de estágio e no estágio supervisionado o lócus onde o 
estudante, com a contribuição dos supervisores, mobiliza os conhecimentos 
adquiridos na academia. Esse espaço completa a viagem do conhecimento, 
permitindo o caminho de volta. 
Assim, entender como a relação capital-trabalho, núcleo central da 
produção e reprodução da sociedade capitalista, gera novas e antigas 
expressões da chamada “questão social” e gera também a necessidade de 
atribuir determinado tratamento à tais expressões através de instituições 
sociais que implementem políticas e programas sociais por nós executados; de 
que maneira a Lei Geral da acumulação capitalista permite interpretar, por 
meio de inúmeras mediações, os objetos de intervenção que caracterizam o 
atendimento daquela instituição campo de estágio, é fundamental para dar 
inicio ao processo de desvelamento e problematização da realidade. Não deve 
haver duvidas de que o espaço do estágio supervisionado permite desenvolver 
a capacidade do estudante de elaborar teoricamente a realidade. 
Os conteúdos tratados em disciplinas sobre os fundamentos do Brasil 
contemporâneo e das políticas sociais gerais e setoriais são mobilizados ai, 
sem os quais não seria possível interpretar que, do ponto de vista histórico e 
7 
 
estrutural, há elementos próprios do capitalismo que se constitui no Brasil, que 
se confrontam com determinações mais gerais que põe a necessidade histórica 
daquela instituição campo de estágio e atua nas suas categorias constitutivas, 
como modos de ser, determinações de existência das mesmas. Então, na 
perspectiva histórica, no campo de estágio vamos perceber os elementos de 
continuidades e as descontinuidades do processo histórico e como deles 
emanam determinações de mudanças e de conservação do modo de ser e de 
se reproduzir da instituição. 
O espaço do estágio permite que os marcos históricos da formação 
sócio-econômica, ídeo-política e cultural brasileira, aprendidos como conteúdos 
teóricos na acadêmica, sejam percebidos como mediações que configuram os 
processos sociais na atualidade e que se expressam no cotidiano institucional. 
Refiro-me a herança colonial e as marcas deixadas pelo particular processo de 
constituição de um tipo de capitalismo periférico e dependente e do 
(tipicamente nosso) Estado nacional; a inserção dependente do Brasil no 
sistema capitalista mundial; o projeto desenvolvimentista renovado nos últimos 
governos latino-americanos;as marcas da modernização conservadora que 
se atualizam na Reforma do Estado de 1995, a herança dos períodos 
ditatoriais, da doutrina de segurança nacional e as marcas deixadas nas 
instituições sociais nas quais atuamos, nas práticas que adotamos; a 
reprodução do modelo de revolução pelo alto, de transição democrática 
negociada, a recorrente refuncionalização/modernização de praticas arcaicas 
expressas no tratamento dado as expressões da questão social (combinando 
repressão e assistencialismo) que também se manifesta na concepção de 
direito e da cidadania regulada bem como no atual modelo de política social. 
São processos que mostram os elementos de continuidade da nossa formação 
sócio-economica, política e cultura que, transmitidos na acadêmica, se 
manifestam na particularidade das instituições, lócus do estágio. 
Há que se considerar que a supervisão será sempre mediada por 
questões que particularizam as políticas sociais, sejam as diversas políticas 
sociais setoriais, como espaços sócio-ocupacionais da saúde, habitação, 
assistência social, previdência, educação, e outros espaços como o sócio-
jurídico, e segmentos populacionais: criança e adolescentes, idosos, pessoa 
8 
 
com deficiência, seja a política de educação superior, a qual forja perfis de 
profissional adaptados às necessidades do capital e do mercado de trabalho. 
Traços da nossa formação social também se expressam na política de 
educação superior e se refletem no modo como se considera o estágio e no 
perfil de profissional a ser formado4. 
Estas são mediações fundamentais para que se possa proceder a uma 
análise institucional que permita, de fato, captar os elementos essenciais da 
instituição lócus de estágio bem como do papel do Estado na 
contemporaneidade, da relação publico-privada que se estabelece no Brasil; 
do caráter das políticas sociais, que se constituem nossos espaços sócio-
ocupacionais, as possibilidades e limites do sistema brasileiro de proteção 
social, o potencial e limites das legislações e do acesso aos serviços por parte 
da classe trabalhadora, o significado da desregulamentação do trabalho e sua 
manifestação na atualidade dos campos de estágio no sentido da precarização 
das condições de vida e de trabalho dos assistentes sociais e demais 
trabalhadores. 
Ora se se capta as instituições sociais na sua constituição histórica, 
percebe-se que elas “são tão pouco eternas quanto as relações que as 
exprimem”. Elas são produto histórico e transitório” (MARX, 2009,p.126), de 
modo que a análise institucional deve ser um procedimento permanente, 
recorrente, sistemático, e que tem que ser realizado nas idas e vindas da 
reflexão teórica do estudante que visa captar a instituição no seu movimento 
dialético. 
O estágio é um importante lócus, dentre outros, como já dito, para se 
perceber como a crise atual do capital, com suas particularidades, se expressa 
no contexto sócio-político da instituição, e as alterações que a Reforma 
Gerencial do Estado operou nas estruturas e dinâmicas institucionais, para, à 
luz das teorias organizacionais e dos modelos gerenciais de organização do 
trabalho, analisar criticamente os modelos de gestão desenvolvidos pela 
instituição; a lógica operacional que tem norteado as instituições sociais, lócus 
 
4
 Não é o lugar para essa discussão, porém, penso ser importante notar que particularidades da formação 
sócio-econômica, política e cultural do Brasil demarcam nossa política educacional e essa, através de 
múltiplas mediações, se reflete nas concepções de estágio e no perfil profissional. Aqui penso, por 
exemplo, no elitismo que vigorou por muitos anos na concepção de educação superior e faz com que hoje 
haja um modelo de universidade para formar intelectuais e outro para formar a massa de trabalhadores. 
9 
 
do estágio, que se metamorfoseiam em organizações, sendo regidas por 
contratos de gestão e por programas direcionados por metas quantitativas, 
numa suposta eficácia organizacional e eficiência técnica. Essa orientação, 
sem duvida, incide sobre o perfil de profissional que está sendo formado. 
O estágio detém as possibilidades de provocar os estudantes a 
captarem o significado da política social, o antagonismo de interesses que as 
atravessam, e as lutas de classe como elemento constitutivo das políticas 
sociais. Durante o estágio é possível perceber e confrontar a ingerência política 
dos interesses dos governos municipal, estadual e federal na intervenção 
profissional. 
Tais fundamentos também permitem o conhecimento dos objetos de 
intervenção: as diversas manifestações da chamada “questão social”, sua 
configuração, seu modo de ser, suas determinações, as sínteses que 
processam e como eles se transformam em objetos que demandam a 
intervenção de diversas profissões. Uma leitura critica das demandas poderá 
permitir a sua (re) construção5 (Cf. GUERRA, 2009) 
Aos poucos, nesse processo, o estudante, com a contribuição dos 
supervisores de campo e acadêmico, vai saturando seu objeto de intervenção 
de determinações, de modo a reconstruí-lo mentalmente a ponto de (re) 
conhecer as suas determinações essenciais. 
E o estágio nos permite conhecer a população usuária como pessoas 
reais, sujeitos ativos construindo sua vida material, sua história e a historia 
social; homens e mulheres que serão interpretados como sujeitos reais e 
concretos, resultado de um conjunto de leis sociais que operam 
permanentemente em suas vidas e que incidem nas suas formas de produzir e 
reproduzir sua vida material e espiritual. 
Esses sujeitos históricos que chegam as instituições (também produto 
histórico), espaços de estágio, são resultado da estrutura de classes da 
sociedade brasileira e retratam as condições de vida, trabalho e as limitações 
de acesso aos bens e serviços sociais em razão do nosso padrão de 
concentração de riqueza e de renda. Mas, também, carregam um conjunto de 
experiências individuais que só se explicam quando interpretadas à luz de 
 
5
 Cf. “O conhecimento crítico na reconstrução das demandas profissionais contemporâneas”. In: Battini e 
Baptista, A Pratica Profissional do Assistente Social. São Paulo: Veras Editora, 2009. 
10 
 
determinações universais, que são validas para os sujeitos da sociedade 
burguesa, em geral6. É por isso que conhecê-las, sem buscar as mediações 
entre essas leis gerais e os sujeitos que atendemos, não nos permite captar as 
suas necessidade reais e concretas, muito menos percebê-los como parte da 
classe trabalhadora que forja estratégias e alternativas de sobrevivência, 
exatamente para enfrentar essa lógica geral do capital que a tudo domina. Tais 
sujeitos, a partir da sua luta cotidiana, mesmo sem o saber, fazem a história. 
Também se faz necessária especial atenção para a percepção da 
existência de formas sociais determinadas de consciência (mágica, religiosa, 
ingênua, romântica, messiânica, fatalista, possibilista)7 que correspondem às 
relações sociais de produção da população usuária e dos demais trabalhadores 
inseridos na instituição campo de estágio, formas estas que se expressam nas 
suas escolhas técnicas, táticas, estratégias pessoais e profissionais. 
É no estágio que o estudante se depara com o cotidiano8 institucional, 
com seu peculiar modo de ser, onde imperam o espontâneo, o superficial, o 
heterogêneo, o fugaz, o fluido, o imediato, e desencadeia procedimentos que 
visam responder à essas características: analogias, repetição, preconceitos. 
Este cotidiano o desafia exigindo a adoção daquela atitude critica já 
mencionada, que lhe permite fazer a sua critica ontológica. Por isso, esse é o 
espaço para se estimular o aluno a conhecer as determinações singulares do 
seu campo de estágio, tais como: histórico, estrutura,funcionamento, 
organograma, hierarquia, formas de controle, recursos, dinâmica, dentre 
outros, e a relacioná-las às determinações mais amplas. O que está sendo dito 
é que, como uma condição do método a ser utilizado nas análises, é preciso 
 
6
 A dialética materialista [...] na medida em que ela realiza e desenvolve a aproximação à realidade 
objetiva conjuntamente ao caráter processual do pensamento como meio para esta aproximação, pode 
compreender a universalidade em uma contínua tensão com a singularidade, em uma contínua conversão 
em particularidade e vice-versa (LUKÁCS, 1968, p. 104). 
7
 Trata-se de uma consciência pragmatista que responder à realidade tal como ela é apreendida na sua 
imediaticidade, sem problematizá-la, sem captar as suas mediações, que leva os sujeitos a crerem que 
“fazem o que é possível”, sem se perguntar qual é o limite do possível. Penso que essa consciência, que 
tem se apresentado muito frequentemente na categoria, esconde e justifica intervenções focais, pontuais, 
tradicionais, conservadoras, até mesmo reacionárias, sendo utilizada como uma terceira via entre o 
projeto conservador e o de ruptura. A meu ver, faz parte de um processo de “flexibilização” do nosso 
projeto ético-político profissional. Soares (2010) visualiza essa consciência no que chama de SUS 
Possível, resultante do transformismo das lideranças que lutavam pela Reforma Sanitária da Saúde no 
Brasil. Ver também GUERRA, In: Forti e Guerra, 2015. 
8
 Diz Lukács (1979): Já na vida cotidiana os fenômenos frequentemente ocultam a essência do seu 
próprio ser, ao invés de iluminá-la ( p. 25). 
 
11 
 
buscar as particularidades, como campo de mediações que fazem os 
processos sociais serem aquilo que realmente são. É dele que se pode partir 
para conhecer a rede sócio-assistencial, pois, embora não atuando diretamente 
na política de Assistência Social, o conhecimento da rede é instrumental a 
todos os campos de intervenção. 
Nele é possível o estudante perceber as atribuições e competências, 
analisá-las criticamente, na perspectiva de avaliar a adequação das mesmas 
diante da complexidade das demandas que a profissão recebe, e as respostas 
que mobiliza, de maneira clara, consciente, coerente ou não. Assim, o estágio 
possibilita uma reflexão e releitura das ações profissionais nas suas múltiplas 
dimensões e articulações. 
É exatamente ai que se localiza a riqueza do estágio supervisionado 
para a formação profissional: ele mostra a “profissionalidade” do Serviço Social 
e, embora eu não concorde com o chavão de que “na pratica a teoria é outra”, 
é inegável o poder que tem a realidade de incidir sobre a consciência do 
estagiário permitindo que ele confronte o conhecimento com a realidade e 
constate aquilo que havia captado em nível teórico. O estágio permite que o 
estudante vivencie e capture o significado da profissão na rede de relações 
sociais, o lugar que ela ocupa na divisão sócio-técnica do trabalho, sua 
funcionalidade ao padrão de sociabilidade dominante, o antagonismo dos 
interesses e demandas que se põe à profissão, sua instrumentalidade como 
condição de alcance de seus objetivos, o que realmente é e faz; a 
intencionalidade das respostas, os meios mobilizados e sua adequação as 
finalidades. 
Ao contrário, já tratamos em outro lugar9, o estágio supervisionado é 
expressão mais desenvolvida (embora não a única) da unidade entre teoria e 
prática: uma unidade dialética e interdependente que pressupõe confrontos, 
aproximações, afastamentos, diferenciações permitindo o tratamento teórico da 
realidade, sistematização de praticas, a construção de saberes pratico-
 
9
 Ver Guerra e Braga, Supervisão em Serviço Social, In: ABEPSS; CFESS (Orgs). Direitos Sociais e 
Competências Profissionais, Brasília, 2009. 
12 
 
interventivos, a aquisição de habilidades, competências10 e a reflexão sobre 
valores. 
Aqui, evidencia-se a capacidade do estágio em propiciar a vivencia 
crítico-reflexiva de situações profissionais as quais vão desafiar os estudantes 
no que se refere aos seus valores e desvalores (preconceitos) típicos da 
moralidade burguesa, constatá-los e revê-los, identificando-os ou não com os 
valores apologéticos ao capitalismo. A moralidade desenvolvida pela sociedade 
brasileira é internalizada nas concepções teóricas, nos saberes, nas 
intervenções sociais, pessoais e profissionais dos usuários, dos profissionais, 
dos técnicos, mas não apenas11. É preciso reconhecê-la internalizada nas 
políticas sociais, na apreciação sobre a pobreza e sobre o pobre, o qual além 
de classe perigosa, precisa ser merecedor do “beneficio” do governo. É 
exatamente ai que o estudante vai se deparar com os fundamentos ídeo-
políticos hegemônicos na sociedade burguesa. Então, o estágio permite que se 
desenvolva o espírito crítico que permite ao estagiário detectar as pressões 
para uma rápida adesão e adaptação à racionalidade instrumental e às 
condições de flexibilização operadas nos espaços de trabalho, nos salários, na 
legislação trabalhista e previdenciária, a lógica gerencial, as praticas de 
gestão/controle dos pobres e a utilização da tecnologia no enquadramento e 
manipulação das respostas profissionais. 
Então, menos do que apenas apreender as determinações de existência 
da instituição e da população usuária, como os múltiplos elementos 
constitutivos das mesmas, o estágio como momento impar da formação 
profissional, deve permitir ao estudante, em conjunto com seu supervisor, 
aprender a aprender numa dupla dimensão: a do conhecimento e a da ação. 
Então, conhecer e fazer exigem aprendizagens relacionadas ao ser, ao fazer, 
 
10
 É necessário se desenvolver a noção de competência como resultado de um saber acumulado, que 
envolva conhecimentos teóricos, que permita um rigoroso tratamento da realidade social, e competência 
política para enfrentar a noção de competência apenas técnico-operativa, muitas vezes priorizada no 
estágio, própria de uma visão tecnicista e instrumental. 
11 Sobre esse tema ver a tese de Paula Bonfim: “Conservadorismo moral e serviço social: a formação 
moral brasileira e sua influência no cotidiano de trabalho dos assistentes sociais” defendida em 2012 no 
Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UFRJ. 
13 
 
ao conhecer, ao conviver, ao pensar, e impõe desenvolver aptidões, 
habilidades, atitudes, posturas, compromissos12. 
Até aqui indicamos o estágio supervisionado como espaço privilegiado 
do desenvolvimento de conhecimentos, saberes, habilidades, valores, 
compromissos, competências, mas isso ainda não é suficiente. Faz-se 
necessário abordar com mais cuidado o potencial do estágio no aprendizado 
da dimensão técnico-operativa, pois ela será o divisor de águas na definição do 
perfil profissional que se está formando. 
Estou convencida de que tanto o estágio direcionado pelas diretrizes e 
pela política nacional de estágio da ABEPSS impõe um investimento orientado 
especialmente a essa dimensão quanto que a nossa força reside onde mais 
temos fragilidade13. O que estou afirmando é que a construção histórica que 
temos denominado de projeto ético-político vem aspirando um determinado 
perfil profissional: intelectual que problematiza teoricamente suas respostas, 
que tanto sabe atuar no enfrentamento de situações focalizadas, formula, 
implementa, avalia projetos e políticas sociais, pesquisa e problematiza a 
realidade quanto é capaz de mobilizar os sujeitos políticos individuais e 
coletivos e contribuir na sua organização em torno de pautas e lutas em prol 
do atendimento de suas necessidades e as da sociedade brasileira. E o faz 
sendo sustentado por uma perspectiva de classe (que é o seu mirante)14, tendo 
clareza da intencionalidade políticada sua intervenção social e profissional. 
Esse intelectual problematiza teoricamente sua intervenção focalizada, as 
necessidades e limites da mesma, de modo que a enfrenta, mas não se 
restringe a ela. 
Recuperar explicitamente o potencial do aprendizado da dimensão 
técnico-operativa e instrumental nos espaços de estágio supervisionado e pela 
intervenção dos assistentes sociais supervisores de campo é fundamental, 
 
12
 O estágio permite desenvolver, além de outras atitudes, a preocupação com a competência, o que 
significa criar uma cultura de formação contínua, em nome do compromisso com a qualidade dos 
serviços prestados à população. 
13
 Considero que a formação profissional vem deixando sérias lacunas no desenvolvimento de 
competências técnico-operativas e instrumentais, sendo essa a fragilidade que temos que enfrentar, e o 
estágio, dada a sua natureza, é o espaço privilegiado (ainda que não o único). 
14
 Remeto o leitor a Coletânea recentemente publicada pela Lumen Juris, organizada por mim e pela 
profa. Valéria Forti, “Projeto ético-politico do Serviço Social: contribuição à sua crítica”, especialmente 
ao meu ensaio “Sobre a possibilidade histórica do projeto ético-político profissional: a apreciação critica 
que se faz necessária”. 
14 
 
especialmente, por se tratar de uma profissão cuja instrumentalidade está em 
dar respostas à situações emergenciais, focais, respostas que tenham 
resolutividade, do que decorre sua legitimidade e reconhecimento profissionais. 
 
O potencial do estágio na capacitação técnico-operativa e 
instrumental 
 
Temos afirmado que a preocupação em dar respostas às demandas é 
legitimas e necessária, desde que se considere o tipo de resposta, a que e a 
quem responder, como responder e com que instrumentos e técnicas, as forças 
que tais repostas reforçam. Nossas respostas carregam pressupostos, se 
articulam a projetos de sociedade e explicitam determinado projeto profissional 
de ruptura ou de continuidade com a ordem social. Nossa intervenção sócio-
profissional e política incorpora as particularidades da instituição, da política 
social, mas deve ter uma certa autonomia diante das mesmas, o que necessita 
de sujeitos que analisem a realidade a partir de uma perspectiva critica visando 
a um fazer também crítico-reflexivo. 
O que ocorre no cotidiano em relação às formas de intervenção mais ou 
menos conservadoras, pragmáticas, imediatistas é expressão do próprio 
cotidiano e de suas demandas imediatas, focalizadas, cuja aparência é de 
serem aleatórias, casuais, mas que na realidade trata-se de problemáticas 
complexas, expressão de relações sociais também complexas, constituídas por 
um conjunto de mediações e, por isso, são em si mesmas totalidades 
complexas. Mas, uma tal representação abstrata da realidade é própria do 
sincretismo pelo qual a realidade se apresenta, é concernente à realidade 
tomada na sua epidérmica imediaticidade (Netto, 2012, p. 212 ), é tipica do 
fetichismo que recobre a realidade social. 
Essa não pode ser considerada uma questão endógena, mas é 
importante dizer que é aqui que o sincretismo “científico” (Netto, 1992) que 
marca a constituição da profissão, se mostra amplamente e se aproxima do 
ecletismo. No afã de dar respostas à realidade social (ela mesma formada por 
elementos sincréticos), o profissional lança mão de um conjunto de estratégias, 
técnicas, instrumentos, modos de fazer advindos da experiência, do senso 
comum, balizados e extraídos dos mais diversos e antagônicos fundamentos, 
15 
 
matrizes e referenciais teóricos e ídeo-políticos. Com o objetivo imediato de 
responder a essa realidade, o assistente social tende a acionar um repertório 
de técnicas e instrumentos tradicionais que sejam eficazes em intervir no nível 
da imediaticidade do real15. Mas o problema não se situa ai. Sem conexão com 
uma cultura profissional critica e sem a referencialidade a um projeto 
profissional de ruptura, a chamada por Netto (op. cit.) “pratica sincrética”, se 
identifica com uma aparente polivalência. Essa tem sido outra característica 
histórica da profissão, aprofundada na atualidade nas instituições. O 
profissional que ‘faz tudo” não é mero resultado de opções individuais ou da 
subalternidade profissional, nem de determinadas circunstancias casuais. 
Antes, é expressão do sincretismo e da pratica indiferenciada. Como afirma 
Netto, faz parte de um “padrão prático-empírico de procedimento” (idem, p. 
102). Acrescento: faz parte de um padrão de intervenção orientado por uma 
racionalidade instrumental e vem sendo reposto, agora, por orientação do 
atual modelo de política social que exige procedimentos padronizados e 
operações formal-abstratas. Vê-se que nessa questão há elementos tanto 
estruturais e conjunturais. 
Sem a capacitação técnico-operativa e instrumental o assistente social 
se torna refém das técnicas dos sistemas informacionais, das formas 
aprioristicas de registros, da padronização das respostas induzidas e emitidas 
nas e pelas políticas sociais. 
Temos problematizado o fato de que o atual modelo de política social 
vem pautando as atribuições profissionais. Incidindo sobre a intervenção 
profissional tais políticas, cujo modelo é o de gestão de riscos sociais, criam 
demandas, formatam as respostas, padronizando-as em normas operacionais, 
legislações e procedimentos prévios já elencados no interior das próprias 
políticas, oferecendo ao assistente social um repertório de técnicas e 
instrumentos voltados para o controle da população, concebida como 
vulnerável. 
No que consiste a capacitação técnico-operativa? Ela deve permitir a 
formação de um perfil de profissional que detém o domínio do instrumental 
 
15
 Nota-se que aqui a busca por uma teoria de resultados está bastante adequada a uma pratica que visa 
soluções imediatas. Se se pode falar em termos do conhecido jargão eu afirmaria que “na pratica a 
teoria não é outra” . 
16 
 
técnico e de pesquisa com vistas a desenvolver a capacidade argumentativa e 
de negociação; que também detém conhecimento e domínio das técnicas e 
diretrizes de planejamento, que saiba propor, organizar e administrar serviços 
sociais; que seja capaz de organizar e viabilizar canais de participação do 
usuário nas decisões institucionais. Essa capacitação se refere ainda ao 
domínio de técnicas e estratégias de se comunicar com clareza na direção de 
prestar informações e utilizar de maneira adequada a linguagem falada e 
escrita, com vista a estabelecer canais de comunicação, desenvolver a 
capacidade de mobilizar os sujeitos em prol do atendimento dos seus 
interesse e necessidades, identificar os pontos de unidade teórica e os nexos 
políticos entre os profissionais que atuam na instituição. Entende-se ainda que 
a capacitação técnico-operativa compreende o ensino e a pratica de elaborar 
projetos de intervenção, identificar e debater os indicadores sociais 
relacionados com as situações que envolvem o estágio e as problemáticas a 
ele relacionadas, avaliar o impacto dos programas institucionais na vida dos 
usuários dos serviços, a orientação sobre quando e como realizar visitas e 
perícias técnicas, estudos sócio-econômicos e a elaboração de laudos e 
pareceres. Compete a ela a orientação sobre como desenvolver processos de 
avaliação e monitoramento nos vários níveis de intervenção, criar formas de 
registro e documentação capazes de permitir a sistematização da intervenção 
profissional, avaliar e planejar sistematicamente as atividades. É certo que as 
diversas formas de registro que se constituem na documentação técnica, 
quando bem utilizadas, permitem superar os imperativos imediatos da 
intervenção, ultrapassar as rotinas com vistas a produção de conhecimento 
crítico e dar visibilidade e continuidadeao trabalho do assistente Social. 
Dentre os inúmeros instrumentos que são necessários e/ou exigidos no 
estágio destaco o potencial do diário de campo. Tem sido muito comum o uso 
do diário de campo como uma agenda profissional, o que torna esse rico 
instrumento de registro, avaliação e planejamento impotente diante das suas 
possibilidades de estimular a reflexão do estagiário. Segundo Lima et ali 
(2007, p. 103) a documentação pode 
 contribuir para dar visibilidade e continuidade ao trabalho do Assistente Social, delimitar as 
especificidades dessa intervenção, caracterizar e qualificar as ações profissionais, registrar a 
história do usuário na instituição, bem como a história da própria instituição, o planejamento 
estratégico no que se refere à priorização de novas ações e a avaliação dessas ações, de planos, 
programas e projetos já existentes. 
17 
 
 
Para não incorrer no tecnicismo, a dimensão interventiva deve estar 
articulada estreitamente à dimensão investigativa. Foi esse o grande avanço 
incorporado na década de 198016, especialmente no currículo de 1982 que tem 
como foco central o conhecimento da realidade a partir de fundamentos 
históricos, teóricos e metodológicos. 
Na perspectiva inaugurada com o currículo de 1982 e aprofundada com 
a revisão das atribuições/competências profissionais de 1993 e com as 
diretrizes curriculares aprovadas em 1996, a pesquisa é “elemento constitutivo 
da formação e da intervenção profissional”. 
Cabe observar que parte significativa dos instrumentos técnicos são 
instrumentos de investigação; do mesmo modo que atribuições profissionais se 
constituem em atitudes investigativas. A investigação como dimensão 
constitutiva do trabalho do assistente social e como subsídio para a produção 
do conhecimento sobre processos sociais, faculta, ainda, possibilidades de 
reconstrução dos objetos da intervenção profissional. Entende-se que a 
intrínseca relação teoria/pratica tem na dimensão investigativa uma mediação 
relevante. 
Espera-se do estágio o desenvolvimento de habilidades que 
compreendam também a sistematização dos resultados do exercício 
profissional, tais como a elaboração de artigos, relatórios, monografia, dentre 
outros. 
Não há um consenso entre os formadores sobre as possibilidades do 
estágio na constituição do perfil de profissional das diretrizes, o que, a meu ver, 
põe em questão sua relevância na formação profissional e limita as iniciativas 
de investimento em seu potencial. Ora, uma profissão fundamentalmente 
interventiva que vem construindo uma cultura profissional com elementos 
claramente questionadores do conservadorismo e da moralidade burguesa, o 
que exige uma intervenção engajada junto aos movimentos sociais 
contestatórios, precisa de uma sólida capacitação técnico-operativa. Uma 
intervenção engajada direcionada ética e politicamente não restringe os 
 
16 Registra-se a importante Convenção da ABESS de 1979 que aprova o novo currículo mínimo da 
formação dos assistentes sociais brasileiros, em Natal-RN. 
18 
 
aspectos interventivos apenas ao fazer, mas agrega a esse a compreensão 
desse fazer e a direção social do mesmo. 
 
Considerações finais: o difícil exercício da supervisão 
 
Iniciamos nossa reflexão com a epígrafe de uma celebre frase da 
poetisa goiana Cora Coralina que a meu ver traduz aquilo que deve ser a 
relação estabelecida nesse espaço privilegiado da formação profissional. 
Penso que os argumentos sobre os “porquês” de se considerar o estágio 
supervisionado como espaço privilegiado da formação profissional já foram 
desenvolvidos ao longo desse artigo. Cabe, nesse momento, apresentar 
algumas conclusões parciais, resgatar os elementos que considero primordiais 
em termos de condições de realização do estágio. Isso porque ele ocorre em 
determinadas condições e relações reais e concretas, objetivas e subjetivas 
que se colocam como determinações (e nesse caso vale a redundância) para a 
efetividade dos resultados na formação. Indicamos que não há aqui nenhuma 
ingenuidade, purismo, ilusão ou mesmo pretensão de que as condições de 
realização do estágio sejam diferentes daquelas nas quais os assistentes 
sociais encontram-se inseridos, exatamente as que configuram o mercado de 
trabalho profissional. E é por essa razão que o estágio tem potencial didático-
pedagógico, pois ele se realiza nas mesmas condições e relações que se 
conformam os espaços sócio-ocupacionais dos assistentes sociais, com tudo o 
que isso significa. Por isso, não há como fazer abstração da importância tanto 
das condições objetivas quando do protagonismo dos profissionais, condições 
essas que operam, certamente, em níveis diferenciados. 
Se, como venho afirmando, as condições objetivas são fundamentais ao 
exercício, penso que o estágio supervisionado deve manter sua qualidade no 
confronto com e nessas condições. O que quero dizer com isso é que, se na 
maioria dos campos profissionais encontramos condições de trabalho 
precarizadas, aqui já explicitadas, essa é uma realidade que temos que 
enfrentar, buscando estratégias profissionais e políticas, individuais e coletivas 
nessa direção. 
Do mesmo modo, entendo que, no que diz respeito à formação e 
capacitação dos supervisores, seja o de campo seja o acadêmico, a 
19 
 
precarização da formação, a ausência de uma capacitação adequada à 
atribuição privativa da supervisão, não pode justificar o pouco investimento dos 
supervisores na sua qualificação ou na qualificação do processo de supervisão. 
E aqui há que se buscar permanentemente a capacitação necessária ao pleno 
exercício dessa atribuição, cuja dimensão formativa deve ser reconhecida e 
relevada. 
É no estágio que a síntese entre teoria e pratica se realiza plenamente e 
o estagiário se vale disso. Tal unidade se expressa quando o estagiário vai 
analisar as situações concretas e tentar explicá-las conceitualmente. Mas é o 
estágio também o espaço em que o estudante, em primeira mão, enfrenta as 
dificuldades da própria realidade tanto para conhecê-la - tendo em vista o véu 
da ideologia que a recobre bem como a imediaticidade que é própria do 
cotidiano que tende a não permitir a concentração de sua atenção nas 
seqüelas que se apresentam como demanda aos profissionais - quanto para 
intervir em tais demandas. É o estágio o espaço de construção de novas 
respostas às demandas tradicionais e emergentes (institucionais e dos 
usuários) impondo a necessidade de buscar novas possibilidades à profissão. 
É o estágio que permite que a realidade se imponha ao pensamento, o que nos 
exige uma postura que nos afasta cada vez mais dos idealismos anti-modernos 
e pós-modernos. É no estágio que o estudante se põe a pensar a partir de 
experiências concretas, de situações imediatas (mas não necessariamente 
imediatistas) e ai também lhe é facultado aprender a buscar as mediações 
necessárias para a real interpretação da realidade. É o estágio supervisionado 
que permite diminuir a distancia entre a academia e as instituições, (muitas 
vezes identificada como “dicotomia entre teoria e pratica”). Diminuir as 
distancias entre a formação e o mercado de trabalho, sem capitular às 
exigências meramente instrumentais de ambos, requer clareza dos meios e 
ciência dos fins. O estágio mobiliza todas as competências e, por isso, 
pode vir a desenvolver todas as capacidades que molda um determinado 
perfil de profissional. 
Mas, para tanto, faz-se necessário voltarmos nossa a atenção para o 
papel preponderante dos supervisores de campo e acadêmico, os quais, 
apesar da sua importância, possuem atribuições de naturezas distintas. 
20 
 
 O supervisor de campo, profissional assalariado, que mantém vínculos 
trabalhistas com a instituição de estágio, muitas vezes em condições precárias, 
que pode não ter a real capacitação para desenvolver essaatribuição (já que a 
graduação em Serviço Social nem sempre lhe fornece) nem mesmo a 
dimensão da importância da sua intervenção como tal. Mas esse é um sujeito 
central da formação, pois ele é sempre tomado como exemplo pelo estudante. 
O supervisor de campo detém uma experiência que deverá ser socializada com 
o estagiário, que durante o desenvolvimento da atribuição da supervisão 
desenvolve potencialmente a dimensão formativa, ainda que não seja docente 
nem exerça a prática acadêmica. 
O difícil exercício da supervisão muitas vezes não permite distinguir as 
atribuições, responsabilidades, competências e compromissos dos assistentes 
sociais daquelas dos estagiários. É importante ressaltar que o estágio é um 
campo propenso às intervenções de estudantes sem o acompanhamento 
profissional, o que caracteriza o exercício ilegal da profissão, pois, um “quase 
assistente social” não existe e o estudante ainda encontra-se em processo de 
formação. Em muitos casos, o estágio vem a se constituir espaço de realização 
de atividades imediatas, em substituição do profissional, e de utilização de 
mão de obra considerada “barata”, alimentando-se de uma lógica que se 
confronta com a da aprendizagem. Penso que a responsabilidade é de todos e 
o estudante que assume o lugar e funções de profissionais, assim como estes, 
estão cometendo infração ética, técnica e política em prejuízo dos usuários e 
da profissão. No caso do supervisor, a responsabilidade ainda é maior. 
O supervisor acadêmico, inserido na Unidade de formação (UFA), tem a 
atribuição precípua de trabalhar as mediações que conectam os fundamentos 
históricos, teóricos, metodológicos, éticos e políticos com as experiências que 
se realizam no campo de estágio e, ao mesmo tempo, através de tais 
fundamentos, buscar interpretar teoricamente os processos sociais e a 
dinâmica institucional, acompanhar o processo do estagiário e o 
desenvolvimento de atitudes e posturas técnicas e éticas, viabilizando a síntese 
entre os conhecimentos e saberes (teóricos, técnico-operativos e 
instrumentais) e as experiência enfrentadas no estágio. Mas esse nem sempre 
detém as condições objetivas para isso. Em muitos casos, a supervisão de 
21 
 
estágio não é apreendida como parte das suas atividades docentes, mas um 
“algo a mais que lhe toma tempo”17. 
Observa-se, também, que supervisores acadêmico e de campo nem 
sempre estão cientes da concepção de estágio das diretrizes ou mesmo 
compartilham da política nacional de estágio e/ou aceitam/assumem suas 
competências e responsabilidades no âmbito desse espaço de formação. 
É necessário afirmar que ambas as intervenções que envolvem a 
supervisão são complementares e produzem uma unidade. Requer a 
realização de um trabalho coletivo que é expresso na construção conjunta do 
plano de estágio, o qual revela a intencionalidade da formação, os caminhos 
para construção do perfil profissional desejado e o compromisso coletivo na 
construção de determinado projeto de profissão e de sociedade. Cabe a eles a 
responsabilidade de sistematizar esta modalidade de intervenção e de criar 
metodologias capazes de permitir essa síntese entre saber teórico e aquisição 
de valores/princípios ético-políticos e habilidades técnico-operativas18. 
Diante da evidencia acerca da relevância dos supervisores como 
sujeitos do processo do estágio supervisionado é preciso ter claro: quem forma 
os supervisores? De que formação ele necessita? 
Nessa atribuição, a dimensão formativa se situa no centro da 
constituição do exercício profissional, de modo que requer um profissional 
conhecedor das diretrizes, do perfil que se pretende formar, da política de 
estágio, dos debates contemporâneos, que consegue contribuir com a reflexão 
teórico-crítica da realidade em que sua pratica e o estágio se situam e quando 
isso não lhe é possível, reconheça os limites e busque formas de enfrentá-los 
e superá-los. Se a formação continua é uma necessidade para qualificar os 
serviços que prestamos à população, é na supervisão do estagiário que essa 
necessidade se coloca de maneira mais expressiva. A formação contínua, 
entendida como capacitação sistemática e permanente, compreende a relação 
 
17
 Importante notar que o mesmo se passa com o supervisor de campo, cujas atividades se orientam por 
atender as demandas institucionais, o que nem sempre lhes permite alocar tempo para as atividades 
inerentes à supervisão de estágio. Essas passam também a se constituir como um “algo a mais”. 
18
 É de total responsabilidade de ambos supervisores, através da problematização das experiências que 
ocorrem durante o período de estágio, aproveitá-las para demonstrar que o conhecimento é sempre 
provisório, aproximativo, processual, donde a necessidade da capacitação continua, sistemática e 
permanente. 
22 
 
entre graduação e pós-graduação, compreende a necessária especialização 
na área de intervenção e uma permanente atualização. 
Dentre as possibilidades e espaços de aprimoramento profissional está a 
supervisão e aqui cabe mencionar a supervisão como atribuição profissional e 
como espaço de formação, bem como seus dois níveis: supervisão técnica e 
supervisão de estagiários, o que implica tanto em qualificar os espaços de 
estágio quanto investir, repito, no constante aprimoramento e qualificação de 
supervisores. 
É evidente que a qualidade do estágio e o preparo dos supervisores não 
estão descolados das premissas que norteiam a formação profissional dos 
assistentes sociais brasileiros e é a defesa da universidade pública, gratuita e 
de qualidade, socialmente referenciada, o horizonte pelo qual lutamos. Mais 
ainda, a formação que queremos tem que ser resultado de uma universidade 
que tenha uma autonomia diante dos constrangimentos do mercado e da sua 
lógica operacional. Isso extrapola a defesa da formação profissional em Serviço 
Social, , de uma política educacional voltada para a formação integral e critica, 
das políticas sociais publicas, e nos coloca, tenhamos consciência ou não, no 
terreno de uma luta que vai além, de uma luta que enfrente o capital, sua lógica 
e a sociabilidade daí derivada. 
Uma direção estratégica precisa de sólida sustentação da sua cultura 
profissional, a qual incorpora, dentre outros componentes: perfil profissional, 
concepção de estágio, definição de instrumentos operativos claros e 
pertinentes que devem ser consensuados, considerando tratar-se de uma 
categoria plural. 
Se é verdade, como afirma Netto19, que o futuro da direção estratégica 
do projeto ético-político profissional está hipotecado às respostas dadas as 
exigências do mercado de trabalho, o que requer uma postura que as 
contemplem criticamente, impondo uma certa autonomia diante das mesmas, 
está em disputa um perfil profissional e o estágio é central na modelagem 
desse perfil. 
 
19
 Diz ele: “segmentos da categoria profissional que melhor responderem a elas tenderão a polarizar a 
cultura profissional e a aprofundar ou reverter a direção social estratégica já formulada” (NETTO, 1996, 
p. 124). 
23 
 
O estágio supervisionado, se bem conduzido, permite não apenas 
consolidar e aprofundar a direção social estratégica que se encontra no centro 
do nosso projeto profissional, tendo nas diretrizes da formação e nos valores 
afirmados pela perspectiva de ruptura com o conservadorismo sua 
centralidade. Mais ainda, permite demonstrar, na disputa por projetos 
profissionais que se pautam em projetos de sociedade, que a recorrência à 
teoria social de Marx, é um vetor incontestável para o avanço da profissão na 
direção de enfrentar a destruição e o empobrecimentos da razão que marcam 
mais um inicio de século sob o capital. 
 
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