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1 O estágio supervisionado como espaço de síntese da unidade dialética entre teoria e pratica: o perfil do profissional em disputa Yolanda Guerra Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Cora Coralina INTRODUÇÃO Muito tem se debatido e há algum consenso em torno de que numa profissão de natureza interventiva o estágio supervisionado deve ocupar um lugar de destaque na formação profissional. Não obstante, por tratar-se de uma categoria heterogênea, plural, diversa e cada vez mais diferenciada, e até certo ponto, hierarquizada, dado o seu nível de diversificação, a capacidade de o estágio supervisionado possibilitar determinados conhecimentos e de desenvolver habilidades e valores, tem sido objeto de divergência e grandes polêmicas . Considerando que a concepção de estágio supervisionado, seus princípios, diretrizes e política só podem ser interpretados quando remetidos a um projeto de profissão e que esse conduz a um determinado perfil profissional, a disputa por essa concepção é mister, uma vez que ela demanda definições sobre: que profissional se deseja formar e para que sociedade? Com base nessa preocupação, o objetivo desse ensaio é argumentar em torno da hipótese de que o estágio supervisionado tem um potencial riquíssimo como espaço de síntese entre conhecimentos teóricos e saberes práticos já que permite desenvolver todas as dimensões da profissão e articulá-las em torno de um perfil de profissional crítico, que detenha competência técnica, teórica, política, aportado em valores que se confrontam com a sociabilidade burguesa, com aptidão para a pesquisa e para a produção de conhecimento crítico. Não obstante, como já disse em outro lugar, nem todo tipo de formação profissional tem o potencial formador. Há aquelas que deformam. Nesse Assistente Social, Mestre e Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Professora Associada da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autora de livros e revistas sobre as dimensões da profissão e seus fundamentos. Agradeço a Claudia Monica dos Santos e Gustavo Repetti a leitura atenta e contribuições preciosas. http://pensador.uol.com.br/autor/cora_coralina/ 2 sentido, pretendo, ainda, estabelecer alguns critérios que nos ajudem a discernir e qualificar os diversos tipos de formação profissional evidenciando as condições nas quais o estágio tem que ser realizado para obter tais resultados. Para tanto parto das configurações do modo de ser do Serviço Social como uma totalidade que articula diversas dimensões (Cf. Guerra, 2000), a saber: 1) Dimensão técnico-operativa: razão de ser da profissão, desenvolve a capacidade de dar respostas instrumentais as diferentes e divergentes requisições sócioprofissionais e políticas que se institucionalizam; 2) Dimensão teórico-metodológica: trata-se da dimensão recorrentemente questionada e em certos aspectos negada por parte significativa de assistentes sociais que ou desdenham a necessidade do referencial teórico para responder às demandas do cotidiano ou só reconhecem a teoria que seja capaz de dar respostas instrumentais às requisições institucionais. Nessa direção há que se considerar o pragmatismo e o utilitarismo como tendências extremamente recorrentes no cotidiano profissional. Não obstante, estuda-se muito pouco suas configurações e formas pelas quais essas se manifestam no cotidiano profissional. 3) Dimensão ético-politica: central posto que indica as escolhas profissionais, desde a perspectiva que é capaz de lhe explicar o mundo, quanto o método de apreensão da realidade e as estratégias a serem selecionadas, segundo determinados objetivos, prioridades, modos de fazer, dentre outros. Por ela passam as escolhas teóricas, valorativas, técnicas e políticas. 4) Dimensão investigativa: como parte das competências que se colocam às profissões como um todo, nas profissões interventivas essa dimensão se confunde com o próprio fazer da profissão. No caso do Serviço Social, muitas das suas atribuições privativas e competências ou referem-se à própria pesquisa da realidade ou necessitam da atitude investigativa ou se identificam com ela, como é o caso de realizar visitas domiciliares, pericia, estudos sócio-econômicos, dentre outras. Não é 3 casual que, já o demonstramos anteriormente1 (Guerra, 2009), grande parte das atribuições profissionais refere-se à dimensão investigativa. 5) Dimensão formativa: a meu ver, é a supervisão de estágio que, enquanto uma atribuição privativa da profissão, pela sua natureza e particularidades, tem sua centralidade na competência formativa. Por essa razão destacarei a importância dos supervisores de campo e acadêmicos no sentido de orientar determinado perfil de profissional. Partindo, pois, das competências sócio-profissionais e políticas há que se considerar que é o estágio supervisionado2 que tem, prioritariamente, a capacidade de propiciar a síntese entre o trabalho e formação profissional e, se essa afirmação é correta, as condições de realização da supervisão dependem das condições de realização do trabalho profissional, mas também das condições sob as quais a formação profissional se realiza. Assim, incide sobre a supervisão a conjugação de condições relativas ao mercado de trabalho e a formação profissional, ambos submetidos a alto nível de deterioração, o que, em algumas situações, pode vir a comprometer a realização do estágio supervisionado. Como pode ser, então, inferido, o estágio supervisionado não pode ser dimensionado fora da imposição da própria realidade e de suas tendências contemporâneas, de modo que não se pode fazer abstração dos condicionamentos impostos pelas condições nas quais o trabalho e a formação profissional se realizam. Estágio supervisionado como expressão do exercício e da formação profissionais: espaço de contradições Não há aqui nenhuma ilusão que nos leve a idealizar as condições de realização do estágio, ou a supor que tais condições sejam diferentes daquelas nas quais os assistentes sociais encontram-se inseridos no cotidiano do exercício profissional, ou seja, daquelas que configuram o mercado de trabalho profissional. E é, exatamente, por essa razão que, como pretendo argumentar, o estágio tem potencial didático-pedagógico, pois ele se realiza nas mesmas 1 Refiro-me ao artigo publicado no livro organizado pelas entidades da categoria (ABEPSS e CFESS) “Serviço Social: Direitos Sociais e Competências profissionais” 2 A Política Nacional de Estágio (2010, p.14) assim o caracteriza: “atividade teórico-prática, efetivada por meio da inserção do (a) estudante nos espaços sócio-institucionais nos quais trabalham os (as) assistentes sociais, capacitando-o (a) nas dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico- operativa para o exercício profissional” . 4 condições e relações que condicionam os espaços sócio-ocupacionais dos assistentes sociais, comportando as tendências mais recentes de tais espaços laborais. Não se trata, pois, de representá-lo no âmbito ideal, mas de captar, no âmbito real, as suas contradições, bem como as contradições postas na política social que mediatiza o exercício profissional e a situação da formação profissional que incide na constituição de um determinado perfil profissional. Assim é que considerar o potencial do estágio supervisionado requer que se leve em conta que a lógica constitutiva dos espaços sócio-ocupacionais é incompatível, e até se confronta, com a lógica da aprendizagem e da orientação profissionais, a qual, por sua vez, encontra-se subjacente às Diretrizes da Formação Profissional dos assistentes sociais brasileiros, fruto de construçãocoletiva protagonizada pelas entidades representativas da categoria e dos diversos segmentos desta. A mediação do assalariamento, as condições de trabalho do assistente social que não são distintas daquelas que submetem os demais trabalhadores, suas formas precarizadas e informais de contratação, a extensão da sua carga horária, os processos de desregulamentação, intensificação, informatização, simplificação do trabalho e normatização burocrática, a banalização das atividades complexas e específicas, a hierarquização entre os profissionais, são indicadores de possibilidades e limites do exercício e da realização das diversas competências que cabem ao profissional, uma vez que os espaços profissionais se constituem espaços plenos de contradição. Não obstante, não é comum que o estágio seja apreendido na sua dinâmica, a partir das contradições constitutivas e constituintes da própria realidade. Fazer isso requer determinada competência que, embora seja adquirida em primeira instância na academia, será desenvolvida mais plenamente no espaço do estágio supervisionado. Trata-se de uma perspectiva de apreensão da realidade dada a partir da relação que o sujeito estabelece com o objeto a ser conhecido, na direção do seu desvelamento3. 3 Diz Netto ao analisar o método crítico dialético de Marx: é o conhecimento do objeto – de sua estrutura dinâmica – tal como ele é em si mesmo, na sua existência real e efetiva, independentemente dos desejos, das aspirações e das representações do pesquisador. A teoria é, para Marx, a reprodução ideal do movimento real do objeto pelo sujeito que pesquisa: pela teoria, o sujeito reproduz em seu pensamento a estrutura e a dinâmica do objeto que pesquisa. E esta reprodução (que constitui propriamente o conhecimento teórico) será tanto mais correta e verdadeira quanto mais fiel o sujeito for ao objeto (NETTO, 2011, p. 20-21). 5 O estágio: lócus privilegiado do conhecimento dialético da realidade A experiência do estágio supervisionado é única. Embora todos os requisitos curriculares tenham a sua importância e adequabilidade para desenvolver as capacidades necessárias ao futuro profissional, entendo que o estágio supervisionado detém o potencial de permitir ao estudante como sujeito desse processo, receber o impulso da própria realidade, e, a depender do seu perfil e do seu nível de amadurecimento teórico-metodológico, ele vai apreendendo as determinações dessa realidade e aprendendo os caminhos para o conhecimento desse objeto (posto na e pela própria realidade). É aqui que vai sendo forjado um perfil de profissional, uma atitude investigativa que será melhor moldada na academia, pela própria natureza desse espaço, mas que recebe do estágio o impulso que vem da realidade institucional que nos convoca o tempo todo e todo o tempo para decifrá-la. Quanto mais o estudante for estimulado a mobilizar os conhecimentos adquiridos, no sentido de colocá-los à prova diante da realidade, mais o seu perfil crítico será fomentado. Aqui o supervisor pode se valer de um roteiro que oriente a observação, que não deve ser aleatória, bem como de técnicas de análise de conjuntura e de análise institucional, o que deve permitir que a reflexão do estudante transcenda da aparência dos fatos para a essência dos processos. Então, investigar a realidade, lidar com os fenômenos que empiricamente se apresentam carentes de mediação, é o primeiro e fundamental aprendizado permitido pelo estágio supervisionado. Buscar uma interpretação dos mesmos à luz de pressupostos teóricos é o passo seguinte. O resultado desse processo será consubstanciado em projetos de intervenção, relatórios, registros ou mesmo em sistematização da experiências, já que a realidade do estágio tem também que alimentar a reflexão teórica e se constituir em subsídios das teorias. A necessária recorrência ao método dialético, próprio do movimento da realidade, não é arbitrária. Trata-se de uma atitude adotada pelo pesquisador que é sensível à necessidade de captar a realidade em seu movimento, por 6 meio das contradições que a dinamizam numa perspectiva de totalidade, que não significa querer dar conta de tudo, mas de discernir entre o essencial, o fator predominante, e o acessório, os elementos secundários. O espaço institucional que é o lócus do estágio supervisionado detém o potencial de ser apreendido como concreto, o que significa: 1) que ele é resultado da realização de sínteses postas pelas múltiplas determinações (econômicas, culturais, políticas, sociais, subjetivas) que constituem o próprio estágio e que nele operam; 2) que ele deve ser analisado, refletido, teorizado pelo processo de abstração, operação realizada quando o pensamento se debruça sobre a realidade na direção de conhecê-la, o que significa captar a lógica que constitui os processos próprios dessa realidade e as múltiplas determinações que nele se operam. É importante dizer que só é possível captá-las porque elas operam sínteses objetivas, realizadas na própria realidade, mas que essas não se mostram de imediato. Trata-se de dois momentos de um mesmo processo que constitui nossas competências teórico- intelectuais. É na instituição de estágio e no estágio supervisionado o lócus onde o estudante, com a contribuição dos supervisores, mobiliza os conhecimentos adquiridos na academia. Esse espaço completa a viagem do conhecimento, permitindo o caminho de volta. Assim, entender como a relação capital-trabalho, núcleo central da produção e reprodução da sociedade capitalista, gera novas e antigas expressões da chamada “questão social” e gera também a necessidade de atribuir determinado tratamento à tais expressões através de instituições sociais que implementem políticas e programas sociais por nós executados; de que maneira a Lei Geral da acumulação capitalista permite interpretar, por meio de inúmeras mediações, os objetos de intervenção que caracterizam o atendimento daquela instituição campo de estágio, é fundamental para dar inicio ao processo de desvelamento e problematização da realidade. Não deve haver duvidas de que o espaço do estágio supervisionado permite desenvolver a capacidade do estudante de elaborar teoricamente a realidade. Os conteúdos tratados em disciplinas sobre os fundamentos do Brasil contemporâneo e das políticas sociais gerais e setoriais são mobilizados ai, sem os quais não seria possível interpretar que, do ponto de vista histórico e 7 estrutural, há elementos próprios do capitalismo que se constitui no Brasil, que se confrontam com determinações mais gerais que põe a necessidade histórica daquela instituição campo de estágio e atua nas suas categorias constitutivas, como modos de ser, determinações de existência das mesmas. Então, na perspectiva histórica, no campo de estágio vamos perceber os elementos de continuidades e as descontinuidades do processo histórico e como deles emanam determinações de mudanças e de conservação do modo de ser e de se reproduzir da instituição. O espaço do estágio permite que os marcos históricos da formação sócio-econômica, ídeo-política e cultural brasileira, aprendidos como conteúdos teóricos na acadêmica, sejam percebidos como mediações que configuram os processos sociais na atualidade e que se expressam no cotidiano institucional. Refiro-me a herança colonial e as marcas deixadas pelo particular processo de constituição de um tipo de capitalismo periférico e dependente e do (tipicamente nosso) Estado nacional; a inserção dependente do Brasil no sistema capitalista mundial; o projeto desenvolvimentista renovado nos últimos governos latino-americanos;as marcas da modernização conservadora que se atualizam na Reforma do Estado de 1995, a herança dos períodos ditatoriais, da doutrina de segurança nacional e as marcas deixadas nas instituições sociais nas quais atuamos, nas práticas que adotamos; a reprodução do modelo de revolução pelo alto, de transição democrática negociada, a recorrente refuncionalização/modernização de praticas arcaicas expressas no tratamento dado as expressões da questão social (combinando repressão e assistencialismo) que também se manifesta na concepção de direito e da cidadania regulada bem como no atual modelo de política social. São processos que mostram os elementos de continuidade da nossa formação sócio-economica, política e cultura que, transmitidos na acadêmica, se manifestam na particularidade das instituições, lócus do estágio. Há que se considerar que a supervisão será sempre mediada por questões que particularizam as políticas sociais, sejam as diversas políticas sociais setoriais, como espaços sócio-ocupacionais da saúde, habitação, assistência social, previdência, educação, e outros espaços como o sócio- jurídico, e segmentos populacionais: criança e adolescentes, idosos, pessoa 8 com deficiência, seja a política de educação superior, a qual forja perfis de profissional adaptados às necessidades do capital e do mercado de trabalho. Traços da nossa formação social também se expressam na política de educação superior e se refletem no modo como se considera o estágio e no perfil de profissional a ser formado4. Estas são mediações fundamentais para que se possa proceder a uma análise institucional que permita, de fato, captar os elementos essenciais da instituição lócus de estágio bem como do papel do Estado na contemporaneidade, da relação publico-privada que se estabelece no Brasil; do caráter das políticas sociais, que se constituem nossos espaços sócio- ocupacionais, as possibilidades e limites do sistema brasileiro de proteção social, o potencial e limites das legislações e do acesso aos serviços por parte da classe trabalhadora, o significado da desregulamentação do trabalho e sua manifestação na atualidade dos campos de estágio no sentido da precarização das condições de vida e de trabalho dos assistentes sociais e demais trabalhadores. Ora se se capta as instituições sociais na sua constituição histórica, percebe-se que elas “são tão pouco eternas quanto as relações que as exprimem”. Elas são produto histórico e transitório” (MARX, 2009,p.126), de modo que a análise institucional deve ser um procedimento permanente, recorrente, sistemático, e que tem que ser realizado nas idas e vindas da reflexão teórica do estudante que visa captar a instituição no seu movimento dialético. O estágio é um importante lócus, dentre outros, como já dito, para se perceber como a crise atual do capital, com suas particularidades, se expressa no contexto sócio-político da instituição, e as alterações que a Reforma Gerencial do Estado operou nas estruturas e dinâmicas institucionais, para, à luz das teorias organizacionais e dos modelos gerenciais de organização do trabalho, analisar criticamente os modelos de gestão desenvolvidos pela instituição; a lógica operacional que tem norteado as instituições sociais, lócus 4 Não é o lugar para essa discussão, porém, penso ser importante notar que particularidades da formação sócio-econômica, política e cultural do Brasil demarcam nossa política educacional e essa, através de múltiplas mediações, se reflete nas concepções de estágio e no perfil profissional. Aqui penso, por exemplo, no elitismo que vigorou por muitos anos na concepção de educação superior e faz com que hoje haja um modelo de universidade para formar intelectuais e outro para formar a massa de trabalhadores. 9 do estágio, que se metamorfoseiam em organizações, sendo regidas por contratos de gestão e por programas direcionados por metas quantitativas, numa suposta eficácia organizacional e eficiência técnica. Essa orientação, sem duvida, incide sobre o perfil de profissional que está sendo formado. O estágio detém as possibilidades de provocar os estudantes a captarem o significado da política social, o antagonismo de interesses que as atravessam, e as lutas de classe como elemento constitutivo das políticas sociais. Durante o estágio é possível perceber e confrontar a ingerência política dos interesses dos governos municipal, estadual e federal na intervenção profissional. Tais fundamentos também permitem o conhecimento dos objetos de intervenção: as diversas manifestações da chamada “questão social”, sua configuração, seu modo de ser, suas determinações, as sínteses que processam e como eles se transformam em objetos que demandam a intervenção de diversas profissões. Uma leitura critica das demandas poderá permitir a sua (re) construção5 (Cf. GUERRA, 2009) Aos poucos, nesse processo, o estudante, com a contribuição dos supervisores de campo e acadêmico, vai saturando seu objeto de intervenção de determinações, de modo a reconstruí-lo mentalmente a ponto de (re) conhecer as suas determinações essenciais. E o estágio nos permite conhecer a população usuária como pessoas reais, sujeitos ativos construindo sua vida material, sua história e a historia social; homens e mulheres que serão interpretados como sujeitos reais e concretos, resultado de um conjunto de leis sociais que operam permanentemente em suas vidas e que incidem nas suas formas de produzir e reproduzir sua vida material e espiritual. Esses sujeitos históricos que chegam as instituições (também produto histórico), espaços de estágio, são resultado da estrutura de classes da sociedade brasileira e retratam as condições de vida, trabalho e as limitações de acesso aos bens e serviços sociais em razão do nosso padrão de concentração de riqueza e de renda. Mas, também, carregam um conjunto de experiências individuais que só se explicam quando interpretadas à luz de 5 Cf. “O conhecimento crítico na reconstrução das demandas profissionais contemporâneas”. In: Battini e Baptista, A Pratica Profissional do Assistente Social. São Paulo: Veras Editora, 2009. 10 determinações universais, que são validas para os sujeitos da sociedade burguesa, em geral6. É por isso que conhecê-las, sem buscar as mediações entre essas leis gerais e os sujeitos que atendemos, não nos permite captar as suas necessidade reais e concretas, muito menos percebê-los como parte da classe trabalhadora que forja estratégias e alternativas de sobrevivência, exatamente para enfrentar essa lógica geral do capital que a tudo domina. Tais sujeitos, a partir da sua luta cotidiana, mesmo sem o saber, fazem a história. Também se faz necessária especial atenção para a percepção da existência de formas sociais determinadas de consciência (mágica, religiosa, ingênua, romântica, messiânica, fatalista, possibilista)7 que correspondem às relações sociais de produção da população usuária e dos demais trabalhadores inseridos na instituição campo de estágio, formas estas que se expressam nas suas escolhas técnicas, táticas, estratégias pessoais e profissionais. É no estágio que o estudante se depara com o cotidiano8 institucional, com seu peculiar modo de ser, onde imperam o espontâneo, o superficial, o heterogêneo, o fugaz, o fluido, o imediato, e desencadeia procedimentos que visam responder à essas características: analogias, repetição, preconceitos. Este cotidiano o desafia exigindo a adoção daquela atitude critica já mencionada, que lhe permite fazer a sua critica ontológica. Por isso, esse é o espaço para se estimular o aluno a conhecer as determinações singulares do seu campo de estágio, tais como: histórico, estrutura,funcionamento, organograma, hierarquia, formas de controle, recursos, dinâmica, dentre outros, e a relacioná-las às determinações mais amplas. O que está sendo dito é que, como uma condição do método a ser utilizado nas análises, é preciso 6 A dialética materialista [...] na medida em que ela realiza e desenvolve a aproximação à realidade objetiva conjuntamente ao caráter processual do pensamento como meio para esta aproximação, pode compreender a universalidade em uma contínua tensão com a singularidade, em uma contínua conversão em particularidade e vice-versa (LUKÁCS, 1968, p. 104). 7 Trata-se de uma consciência pragmatista que responder à realidade tal como ela é apreendida na sua imediaticidade, sem problematizá-la, sem captar as suas mediações, que leva os sujeitos a crerem que “fazem o que é possível”, sem se perguntar qual é o limite do possível. Penso que essa consciência, que tem se apresentado muito frequentemente na categoria, esconde e justifica intervenções focais, pontuais, tradicionais, conservadoras, até mesmo reacionárias, sendo utilizada como uma terceira via entre o projeto conservador e o de ruptura. A meu ver, faz parte de um processo de “flexibilização” do nosso projeto ético-político profissional. Soares (2010) visualiza essa consciência no que chama de SUS Possível, resultante do transformismo das lideranças que lutavam pela Reforma Sanitária da Saúde no Brasil. Ver também GUERRA, In: Forti e Guerra, 2015. 8 Diz Lukács (1979): Já na vida cotidiana os fenômenos frequentemente ocultam a essência do seu próprio ser, ao invés de iluminá-la ( p. 25). 11 buscar as particularidades, como campo de mediações que fazem os processos sociais serem aquilo que realmente são. É dele que se pode partir para conhecer a rede sócio-assistencial, pois, embora não atuando diretamente na política de Assistência Social, o conhecimento da rede é instrumental a todos os campos de intervenção. Nele é possível o estudante perceber as atribuições e competências, analisá-las criticamente, na perspectiva de avaliar a adequação das mesmas diante da complexidade das demandas que a profissão recebe, e as respostas que mobiliza, de maneira clara, consciente, coerente ou não. Assim, o estágio possibilita uma reflexão e releitura das ações profissionais nas suas múltiplas dimensões e articulações. É exatamente ai que se localiza a riqueza do estágio supervisionado para a formação profissional: ele mostra a “profissionalidade” do Serviço Social e, embora eu não concorde com o chavão de que “na pratica a teoria é outra”, é inegável o poder que tem a realidade de incidir sobre a consciência do estagiário permitindo que ele confronte o conhecimento com a realidade e constate aquilo que havia captado em nível teórico. O estágio permite que o estudante vivencie e capture o significado da profissão na rede de relações sociais, o lugar que ela ocupa na divisão sócio-técnica do trabalho, sua funcionalidade ao padrão de sociabilidade dominante, o antagonismo dos interesses e demandas que se põe à profissão, sua instrumentalidade como condição de alcance de seus objetivos, o que realmente é e faz; a intencionalidade das respostas, os meios mobilizados e sua adequação as finalidades. Ao contrário, já tratamos em outro lugar9, o estágio supervisionado é expressão mais desenvolvida (embora não a única) da unidade entre teoria e prática: uma unidade dialética e interdependente que pressupõe confrontos, aproximações, afastamentos, diferenciações permitindo o tratamento teórico da realidade, sistematização de praticas, a construção de saberes pratico- 9 Ver Guerra e Braga, Supervisão em Serviço Social, In: ABEPSS; CFESS (Orgs). Direitos Sociais e Competências Profissionais, Brasília, 2009. 12 interventivos, a aquisição de habilidades, competências10 e a reflexão sobre valores. Aqui, evidencia-se a capacidade do estágio em propiciar a vivencia crítico-reflexiva de situações profissionais as quais vão desafiar os estudantes no que se refere aos seus valores e desvalores (preconceitos) típicos da moralidade burguesa, constatá-los e revê-los, identificando-os ou não com os valores apologéticos ao capitalismo. A moralidade desenvolvida pela sociedade brasileira é internalizada nas concepções teóricas, nos saberes, nas intervenções sociais, pessoais e profissionais dos usuários, dos profissionais, dos técnicos, mas não apenas11. É preciso reconhecê-la internalizada nas políticas sociais, na apreciação sobre a pobreza e sobre o pobre, o qual além de classe perigosa, precisa ser merecedor do “beneficio” do governo. É exatamente ai que o estudante vai se deparar com os fundamentos ídeo- políticos hegemônicos na sociedade burguesa. Então, o estágio permite que se desenvolva o espírito crítico que permite ao estagiário detectar as pressões para uma rápida adesão e adaptação à racionalidade instrumental e às condições de flexibilização operadas nos espaços de trabalho, nos salários, na legislação trabalhista e previdenciária, a lógica gerencial, as praticas de gestão/controle dos pobres e a utilização da tecnologia no enquadramento e manipulação das respostas profissionais. Então, menos do que apenas apreender as determinações de existência da instituição e da população usuária, como os múltiplos elementos constitutivos das mesmas, o estágio como momento impar da formação profissional, deve permitir ao estudante, em conjunto com seu supervisor, aprender a aprender numa dupla dimensão: a do conhecimento e a da ação. Então, conhecer e fazer exigem aprendizagens relacionadas ao ser, ao fazer, 10 É necessário se desenvolver a noção de competência como resultado de um saber acumulado, que envolva conhecimentos teóricos, que permita um rigoroso tratamento da realidade social, e competência política para enfrentar a noção de competência apenas técnico-operativa, muitas vezes priorizada no estágio, própria de uma visão tecnicista e instrumental. 11 Sobre esse tema ver a tese de Paula Bonfim: “Conservadorismo moral e serviço social: a formação moral brasileira e sua influência no cotidiano de trabalho dos assistentes sociais” defendida em 2012 no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da UFRJ. 13 ao conhecer, ao conviver, ao pensar, e impõe desenvolver aptidões, habilidades, atitudes, posturas, compromissos12. Até aqui indicamos o estágio supervisionado como espaço privilegiado do desenvolvimento de conhecimentos, saberes, habilidades, valores, compromissos, competências, mas isso ainda não é suficiente. Faz-se necessário abordar com mais cuidado o potencial do estágio no aprendizado da dimensão técnico-operativa, pois ela será o divisor de águas na definição do perfil profissional que se está formando. Estou convencida de que tanto o estágio direcionado pelas diretrizes e pela política nacional de estágio da ABEPSS impõe um investimento orientado especialmente a essa dimensão quanto que a nossa força reside onde mais temos fragilidade13. O que estou afirmando é que a construção histórica que temos denominado de projeto ético-político vem aspirando um determinado perfil profissional: intelectual que problematiza teoricamente suas respostas, que tanto sabe atuar no enfrentamento de situações focalizadas, formula, implementa, avalia projetos e políticas sociais, pesquisa e problematiza a realidade quanto é capaz de mobilizar os sujeitos políticos individuais e coletivos e contribuir na sua organização em torno de pautas e lutas em prol do atendimento de suas necessidades e as da sociedade brasileira. E o faz sendo sustentado por uma perspectiva de classe (que é o seu mirante)14, tendo clareza da intencionalidade políticada sua intervenção social e profissional. Esse intelectual problematiza teoricamente sua intervenção focalizada, as necessidades e limites da mesma, de modo que a enfrenta, mas não se restringe a ela. Recuperar explicitamente o potencial do aprendizado da dimensão técnico-operativa e instrumental nos espaços de estágio supervisionado e pela intervenção dos assistentes sociais supervisores de campo é fundamental, 12 O estágio permite desenvolver, além de outras atitudes, a preocupação com a competência, o que significa criar uma cultura de formação contínua, em nome do compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população. 13 Considero que a formação profissional vem deixando sérias lacunas no desenvolvimento de competências técnico-operativas e instrumentais, sendo essa a fragilidade que temos que enfrentar, e o estágio, dada a sua natureza, é o espaço privilegiado (ainda que não o único). 14 Remeto o leitor a Coletânea recentemente publicada pela Lumen Juris, organizada por mim e pela profa. Valéria Forti, “Projeto ético-politico do Serviço Social: contribuição à sua crítica”, especialmente ao meu ensaio “Sobre a possibilidade histórica do projeto ético-político profissional: a apreciação critica que se faz necessária”. 14 especialmente, por se tratar de uma profissão cuja instrumentalidade está em dar respostas à situações emergenciais, focais, respostas que tenham resolutividade, do que decorre sua legitimidade e reconhecimento profissionais. O potencial do estágio na capacitação técnico-operativa e instrumental Temos afirmado que a preocupação em dar respostas às demandas é legitimas e necessária, desde que se considere o tipo de resposta, a que e a quem responder, como responder e com que instrumentos e técnicas, as forças que tais repostas reforçam. Nossas respostas carregam pressupostos, se articulam a projetos de sociedade e explicitam determinado projeto profissional de ruptura ou de continuidade com a ordem social. Nossa intervenção sócio- profissional e política incorpora as particularidades da instituição, da política social, mas deve ter uma certa autonomia diante das mesmas, o que necessita de sujeitos que analisem a realidade a partir de uma perspectiva critica visando a um fazer também crítico-reflexivo. O que ocorre no cotidiano em relação às formas de intervenção mais ou menos conservadoras, pragmáticas, imediatistas é expressão do próprio cotidiano e de suas demandas imediatas, focalizadas, cuja aparência é de serem aleatórias, casuais, mas que na realidade trata-se de problemáticas complexas, expressão de relações sociais também complexas, constituídas por um conjunto de mediações e, por isso, são em si mesmas totalidades complexas. Mas, uma tal representação abstrata da realidade é própria do sincretismo pelo qual a realidade se apresenta, é concernente à realidade tomada na sua epidérmica imediaticidade (Netto, 2012, p. 212 ), é tipica do fetichismo que recobre a realidade social. Essa não pode ser considerada uma questão endógena, mas é importante dizer que é aqui que o sincretismo “científico” (Netto, 1992) que marca a constituição da profissão, se mostra amplamente e se aproxima do ecletismo. No afã de dar respostas à realidade social (ela mesma formada por elementos sincréticos), o profissional lança mão de um conjunto de estratégias, técnicas, instrumentos, modos de fazer advindos da experiência, do senso comum, balizados e extraídos dos mais diversos e antagônicos fundamentos, 15 matrizes e referenciais teóricos e ídeo-políticos. Com o objetivo imediato de responder a essa realidade, o assistente social tende a acionar um repertório de técnicas e instrumentos tradicionais que sejam eficazes em intervir no nível da imediaticidade do real15. Mas o problema não se situa ai. Sem conexão com uma cultura profissional critica e sem a referencialidade a um projeto profissional de ruptura, a chamada por Netto (op. cit.) “pratica sincrética”, se identifica com uma aparente polivalência. Essa tem sido outra característica histórica da profissão, aprofundada na atualidade nas instituições. O profissional que ‘faz tudo” não é mero resultado de opções individuais ou da subalternidade profissional, nem de determinadas circunstancias casuais. Antes, é expressão do sincretismo e da pratica indiferenciada. Como afirma Netto, faz parte de um “padrão prático-empírico de procedimento” (idem, p. 102). Acrescento: faz parte de um padrão de intervenção orientado por uma racionalidade instrumental e vem sendo reposto, agora, por orientação do atual modelo de política social que exige procedimentos padronizados e operações formal-abstratas. Vê-se que nessa questão há elementos tanto estruturais e conjunturais. Sem a capacitação técnico-operativa e instrumental o assistente social se torna refém das técnicas dos sistemas informacionais, das formas aprioristicas de registros, da padronização das respostas induzidas e emitidas nas e pelas políticas sociais. Temos problematizado o fato de que o atual modelo de política social vem pautando as atribuições profissionais. Incidindo sobre a intervenção profissional tais políticas, cujo modelo é o de gestão de riscos sociais, criam demandas, formatam as respostas, padronizando-as em normas operacionais, legislações e procedimentos prévios já elencados no interior das próprias políticas, oferecendo ao assistente social um repertório de técnicas e instrumentos voltados para o controle da população, concebida como vulnerável. No que consiste a capacitação técnico-operativa? Ela deve permitir a formação de um perfil de profissional que detém o domínio do instrumental 15 Nota-se que aqui a busca por uma teoria de resultados está bastante adequada a uma pratica que visa soluções imediatas. Se se pode falar em termos do conhecido jargão eu afirmaria que “na pratica a teoria não é outra” . 16 técnico e de pesquisa com vistas a desenvolver a capacidade argumentativa e de negociação; que também detém conhecimento e domínio das técnicas e diretrizes de planejamento, que saiba propor, organizar e administrar serviços sociais; que seja capaz de organizar e viabilizar canais de participação do usuário nas decisões institucionais. Essa capacitação se refere ainda ao domínio de técnicas e estratégias de se comunicar com clareza na direção de prestar informações e utilizar de maneira adequada a linguagem falada e escrita, com vista a estabelecer canais de comunicação, desenvolver a capacidade de mobilizar os sujeitos em prol do atendimento dos seus interesse e necessidades, identificar os pontos de unidade teórica e os nexos políticos entre os profissionais que atuam na instituição. Entende-se ainda que a capacitação técnico-operativa compreende o ensino e a pratica de elaborar projetos de intervenção, identificar e debater os indicadores sociais relacionados com as situações que envolvem o estágio e as problemáticas a ele relacionadas, avaliar o impacto dos programas institucionais na vida dos usuários dos serviços, a orientação sobre quando e como realizar visitas e perícias técnicas, estudos sócio-econômicos e a elaboração de laudos e pareceres. Compete a ela a orientação sobre como desenvolver processos de avaliação e monitoramento nos vários níveis de intervenção, criar formas de registro e documentação capazes de permitir a sistematização da intervenção profissional, avaliar e planejar sistematicamente as atividades. É certo que as diversas formas de registro que se constituem na documentação técnica, quando bem utilizadas, permitem superar os imperativos imediatos da intervenção, ultrapassar as rotinas com vistas a produção de conhecimento crítico e dar visibilidade e continuidadeao trabalho do assistente Social. Dentre os inúmeros instrumentos que são necessários e/ou exigidos no estágio destaco o potencial do diário de campo. Tem sido muito comum o uso do diário de campo como uma agenda profissional, o que torna esse rico instrumento de registro, avaliação e planejamento impotente diante das suas possibilidades de estimular a reflexão do estagiário. Segundo Lima et ali (2007, p. 103) a documentação pode contribuir para dar visibilidade e continuidade ao trabalho do Assistente Social, delimitar as especificidades dessa intervenção, caracterizar e qualificar as ações profissionais, registrar a história do usuário na instituição, bem como a história da própria instituição, o planejamento estratégico no que se refere à priorização de novas ações e a avaliação dessas ações, de planos, programas e projetos já existentes. 17 Para não incorrer no tecnicismo, a dimensão interventiva deve estar articulada estreitamente à dimensão investigativa. Foi esse o grande avanço incorporado na década de 198016, especialmente no currículo de 1982 que tem como foco central o conhecimento da realidade a partir de fundamentos históricos, teóricos e metodológicos. Na perspectiva inaugurada com o currículo de 1982 e aprofundada com a revisão das atribuições/competências profissionais de 1993 e com as diretrizes curriculares aprovadas em 1996, a pesquisa é “elemento constitutivo da formação e da intervenção profissional”. Cabe observar que parte significativa dos instrumentos técnicos são instrumentos de investigação; do mesmo modo que atribuições profissionais se constituem em atitudes investigativas. A investigação como dimensão constitutiva do trabalho do assistente social e como subsídio para a produção do conhecimento sobre processos sociais, faculta, ainda, possibilidades de reconstrução dos objetos da intervenção profissional. Entende-se que a intrínseca relação teoria/pratica tem na dimensão investigativa uma mediação relevante. Espera-se do estágio o desenvolvimento de habilidades que compreendam também a sistematização dos resultados do exercício profissional, tais como a elaboração de artigos, relatórios, monografia, dentre outros. Não há um consenso entre os formadores sobre as possibilidades do estágio na constituição do perfil de profissional das diretrizes, o que, a meu ver, põe em questão sua relevância na formação profissional e limita as iniciativas de investimento em seu potencial. Ora, uma profissão fundamentalmente interventiva que vem construindo uma cultura profissional com elementos claramente questionadores do conservadorismo e da moralidade burguesa, o que exige uma intervenção engajada junto aos movimentos sociais contestatórios, precisa de uma sólida capacitação técnico-operativa. Uma intervenção engajada direcionada ética e politicamente não restringe os 16 Registra-se a importante Convenção da ABESS de 1979 que aprova o novo currículo mínimo da formação dos assistentes sociais brasileiros, em Natal-RN. 18 aspectos interventivos apenas ao fazer, mas agrega a esse a compreensão desse fazer e a direção social do mesmo. Considerações finais: o difícil exercício da supervisão Iniciamos nossa reflexão com a epígrafe de uma celebre frase da poetisa goiana Cora Coralina que a meu ver traduz aquilo que deve ser a relação estabelecida nesse espaço privilegiado da formação profissional. Penso que os argumentos sobre os “porquês” de se considerar o estágio supervisionado como espaço privilegiado da formação profissional já foram desenvolvidos ao longo desse artigo. Cabe, nesse momento, apresentar algumas conclusões parciais, resgatar os elementos que considero primordiais em termos de condições de realização do estágio. Isso porque ele ocorre em determinadas condições e relações reais e concretas, objetivas e subjetivas que se colocam como determinações (e nesse caso vale a redundância) para a efetividade dos resultados na formação. Indicamos que não há aqui nenhuma ingenuidade, purismo, ilusão ou mesmo pretensão de que as condições de realização do estágio sejam diferentes daquelas nas quais os assistentes sociais encontram-se inseridos, exatamente as que configuram o mercado de trabalho profissional. E é por essa razão que o estágio tem potencial didático- pedagógico, pois ele se realiza nas mesmas condições e relações que se conformam os espaços sócio-ocupacionais dos assistentes sociais, com tudo o que isso significa. Por isso, não há como fazer abstração da importância tanto das condições objetivas quando do protagonismo dos profissionais, condições essas que operam, certamente, em níveis diferenciados. Se, como venho afirmando, as condições objetivas são fundamentais ao exercício, penso que o estágio supervisionado deve manter sua qualidade no confronto com e nessas condições. O que quero dizer com isso é que, se na maioria dos campos profissionais encontramos condições de trabalho precarizadas, aqui já explicitadas, essa é uma realidade que temos que enfrentar, buscando estratégias profissionais e políticas, individuais e coletivas nessa direção. Do mesmo modo, entendo que, no que diz respeito à formação e capacitação dos supervisores, seja o de campo seja o acadêmico, a 19 precarização da formação, a ausência de uma capacitação adequada à atribuição privativa da supervisão, não pode justificar o pouco investimento dos supervisores na sua qualificação ou na qualificação do processo de supervisão. E aqui há que se buscar permanentemente a capacitação necessária ao pleno exercício dessa atribuição, cuja dimensão formativa deve ser reconhecida e relevada. É no estágio que a síntese entre teoria e pratica se realiza plenamente e o estagiário se vale disso. Tal unidade se expressa quando o estagiário vai analisar as situações concretas e tentar explicá-las conceitualmente. Mas é o estágio também o espaço em que o estudante, em primeira mão, enfrenta as dificuldades da própria realidade tanto para conhecê-la - tendo em vista o véu da ideologia que a recobre bem como a imediaticidade que é própria do cotidiano que tende a não permitir a concentração de sua atenção nas seqüelas que se apresentam como demanda aos profissionais - quanto para intervir em tais demandas. É o estágio o espaço de construção de novas respostas às demandas tradicionais e emergentes (institucionais e dos usuários) impondo a necessidade de buscar novas possibilidades à profissão. É o estágio que permite que a realidade se imponha ao pensamento, o que nos exige uma postura que nos afasta cada vez mais dos idealismos anti-modernos e pós-modernos. É no estágio que o estudante se põe a pensar a partir de experiências concretas, de situações imediatas (mas não necessariamente imediatistas) e ai também lhe é facultado aprender a buscar as mediações necessárias para a real interpretação da realidade. É o estágio supervisionado que permite diminuir a distancia entre a academia e as instituições, (muitas vezes identificada como “dicotomia entre teoria e pratica”). Diminuir as distancias entre a formação e o mercado de trabalho, sem capitular às exigências meramente instrumentais de ambos, requer clareza dos meios e ciência dos fins. O estágio mobiliza todas as competências e, por isso, pode vir a desenvolver todas as capacidades que molda um determinado perfil de profissional. Mas, para tanto, faz-se necessário voltarmos nossa a atenção para o papel preponderante dos supervisores de campo e acadêmico, os quais, apesar da sua importância, possuem atribuições de naturezas distintas. 20 O supervisor de campo, profissional assalariado, que mantém vínculos trabalhistas com a instituição de estágio, muitas vezes em condições precárias, que pode não ter a real capacitação para desenvolver essaatribuição (já que a graduação em Serviço Social nem sempre lhe fornece) nem mesmo a dimensão da importância da sua intervenção como tal. Mas esse é um sujeito central da formação, pois ele é sempre tomado como exemplo pelo estudante. O supervisor de campo detém uma experiência que deverá ser socializada com o estagiário, que durante o desenvolvimento da atribuição da supervisão desenvolve potencialmente a dimensão formativa, ainda que não seja docente nem exerça a prática acadêmica. O difícil exercício da supervisão muitas vezes não permite distinguir as atribuições, responsabilidades, competências e compromissos dos assistentes sociais daquelas dos estagiários. É importante ressaltar que o estágio é um campo propenso às intervenções de estudantes sem o acompanhamento profissional, o que caracteriza o exercício ilegal da profissão, pois, um “quase assistente social” não existe e o estudante ainda encontra-se em processo de formação. Em muitos casos, o estágio vem a se constituir espaço de realização de atividades imediatas, em substituição do profissional, e de utilização de mão de obra considerada “barata”, alimentando-se de uma lógica que se confronta com a da aprendizagem. Penso que a responsabilidade é de todos e o estudante que assume o lugar e funções de profissionais, assim como estes, estão cometendo infração ética, técnica e política em prejuízo dos usuários e da profissão. No caso do supervisor, a responsabilidade ainda é maior. O supervisor acadêmico, inserido na Unidade de formação (UFA), tem a atribuição precípua de trabalhar as mediações que conectam os fundamentos históricos, teóricos, metodológicos, éticos e políticos com as experiências que se realizam no campo de estágio e, ao mesmo tempo, através de tais fundamentos, buscar interpretar teoricamente os processos sociais e a dinâmica institucional, acompanhar o processo do estagiário e o desenvolvimento de atitudes e posturas técnicas e éticas, viabilizando a síntese entre os conhecimentos e saberes (teóricos, técnico-operativos e instrumentais) e as experiência enfrentadas no estágio. Mas esse nem sempre detém as condições objetivas para isso. Em muitos casos, a supervisão de 21 estágio não é apreendida como parte das suas atividades docentes, mas um “algo a mais que lhe toma tempo”17. Observa-se, também, que supervisores acadêmico e de campo nem sempre estão cientes da concepção de estágio das diretrizes ou mesmo compartilham da política nacional de estágio e/ou aceitam/assumem suas competências e responsabilidades no âmbito desse espaço de formação. É necessário afirmar que ambas as intervenções que envolvem a supervisão são complementares e produzem uma unidade. Requer a realização de um trabalho coletivo que é expresso na construção conjunta do plano de estágio, o qual revela a intencionalidade da formação, os caminhos para construção do perfil profissional desejado e o compromisso coletivo na construção de determinado projeto de profissão e de sociedade. Cabe a eles a responsabilidade de sistematizar esta modalidade de intervenção e de criar metodologias capazes de permitir essa síntese entre saber teórico e aquisição de valores/princípios ético-políticos e habilidades técnico-operativas18. Diante da evidencia acerca da relevância dos supervisores como sujeitos do processo do estágio supervisionado é preciso ter claro: quem forma os supervisores? De que formação ele necessita? Nessa atribuição, a dimensão formativa se situa no centro da constituição do exercício profissional, de modo que requer um profissional conhecedor das diretrizes, do perfil que se pretende formar, da política de estágio, dos debates contemporâneos, que consegue contribuir com a reflexão teórico-crítica da realidade em que sua pratica e o estágio se situam e quando isso não lhe é possível, reconheça os limites e busque formas de enfrentá-los e superá-los. Se a formação continua é uma necessidade para qualificar os serviços que prestamos à população, é na supervisão do estagiário que essa necessidade se coloca de maneira mais expressiva. A formação contínua, entendida como capacitação sistemática e permanente, compreende a relação 17 Importante notar que o mesmo se passa com o supervisor de campo, cujas atividades se orientam por atender as demandas institucionais, o que nem sempre lhes permite alocar tempo para as atividades inerentes à supervisão de estágio. Essas passam também a se constituir como um “algo a mais”. 18 É de total responsabilidade de ambos supervisores, através da problematização das experiências que ocorrem durante o período de estágio, aproveitá-las para demonstrar que o conhecimento é sempre provisório, aproximativo, processual, donde a necessidade da capacitação continua, sistemática e permanente. 22 entre graduação e pós-graduação, compreende a necessária especialização na área de intervenção e uma permanente atualização. Dentre as possibilidades e espaços de aprimoramento profissional está a supervisão e aqui cabe mencionar a supervisão como atribuição profissional e como espaço de formação, bem como seus dois níveis: supervisão técnica e supervisão de estagiários, o que implica tanto em qualificar os espaços de estágio quanto investir, repito, no constante aprimoramento e qualificação de supervisores. É evidente que a qualidade do estágio e o preparo dos supervisores não estão descolados das premissas que norteiam a formação profissional dos assistentes sociais brasileiros e é a defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade, socialmente referenciada, o horizonte pelo qual lutamos. Mais ainda, a formação que queremos tem que ser resultado de uma universidade que tenha uma autonomia diante dos constrangimentos do mercado e da sua lógica operacional. Isso extrapola a defesa da formação profissional em Serviço Social, , de uma política educacional voltada para a formação integral e critica, das políticas sociais publicas, e nos coloca, tenhamos consciência ou não, no terreno de uma luta que vai além, de uma luta que enfrente o capital, sua lógica e a sociabilidade daí derivada. Uma direção estratégica precisa de sólida sustentação da sua cultura profissional, a qual incorpora, dentre outros componentes: perfil profissional, concepção de estágio, definição de instrumentos operativos claros e pertinentes que devem ser consensuados, considerando tratar-se de uma categoria plural. Se é verdade, como afirma Netto19, que o futuro da direção estratégica do projeto ético-político profissional está hipotecado às respostas dadas as exigências do mercado de trabalho, o que requer uma postura que as contemplem criticamente, impondo uma certa autonomia diante das mesmas, está em disputa um perfil profissional e o estágio é central na modelagem desse perfil. 19 Diz ele: “segmentos da categoria profissional que melhor responderem a elas tenderão a polarizar a cultura profissional e a aprofundar ou reverter a direção social estratégica já formulada” (NETTO, 1996, p. 124). 23 O estágio supervisionado, se bem conduzido, permite não apenas consolidar e aprofundar a direção social estratégica que se encontra no centro do nosso projeto profissional, tendo nas diretrizes da formação e nos valores afirmados pela perspectiva de ruptura com o conservadorismo sua centralidade. Mais ainda, permite demonstrar, na disputa por projetos profissionais que se pautam em projetos de sociedade, que a recorrência à teoria social de Marx, é um vetor incontestável para o avanço da profissão na direção de enfrentar a destruição e o empobrecimentos da razão que marcam mais um inicio de século sob o capital. Referências Bibliográficas ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO E PESQUISA EM SERVIÇOSOCIAL (ABEPSS). Diretrizes gerais para o Curso de Serviço Social (com base no currículo mínimo aprovado em Assembléia Geral Extraordinária de 8 de nov. de 1996). http://www.abepss.org.br/files/Lei_de_Diretrizes_Curriculares_1996.pdf. Acesso 18 de dezembro de 2014. ________.Cadernos da ABESS, Edição Especial, São Paulo, n.7, p. 58, nov. 1997. _________.Política Nacional de Estágio da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social - ABEPSS. http://www.abepss.org.br/files/politica_nacional_estágio.pdf. Acesso 18 de dezembro de 2014. BONFIM, Paula. 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